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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:13:15 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Viagens na Minha Terra + (Completo) + +Author: João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett + +Release Date: January 22, 2008 [EBook #24401] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos + existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à + versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com + o original. No final do primeiro e segundo volumes deste livro + encontrará listas de erros corrigidos. + + Rita Farinha (Jan. 2008) + + + + +OBRAS + +DE + +J. B. DE A. GARRETT. + +VIII. + +(PRIMEIRO DAS VIAGENS) + + + + +VIAGENS NA MINHA TERRA + + +POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT. + + +I + + +LISBOA +NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS. +1846. + + + + +Os editores d'esta obra, vendo a popularidade extraordinaria que ella +tinha publicada em fragmentos na _Revista_, intenderam fazer um serviço +ás lettras e á gloria do seu paiz, imprimindo-a agora reunida em um +livro, para melhor se podêr avaliar a variedade, a riqueza e a +originalidade de seu stylo inimitavel, da philosophia profunda que +incerra, e sôbre tudo o grande e transcendente pensamento moral a que +sempre tende, ja quando folga e ri com as mais graves coisas da vida, ja +quando seriamente discute por suas leviandades e pequenezas. + +As _Viagens na minha terra_, são um d'aquelles livros raros que so +podiam ser escriptos por quem, como o auctor de _Camões_ e de _Catão_, +de _D. Branca_ e do _Portugal na Balança da Europa_, do _Auto de +Gil-Vicente_ e do _Tractado de Educação_, do _Alfageme_ e de _Fr. Luiz +de Souza_, do _Arco de Sanct'Anna_ e da _Historia Litteraria de +Portugal_, de _Adozinda_ e das _Leituras Historicas_ e de tantas +producções de tam variado genero, possue todos os stylos e, dominando +uma lingua de immenso podêr, a costumou a servir-lhe e +obedecer-lhe;--por quem com a mesma facilidade sobe a orar na tribuna, +entra no gabinete nas graves discussões e demonstrações da sciencia--voa +ás mais altas regiões da lyrica, da epopeia e da tragedia, lida com as +fortes paixões do drama, e baixa ás não menos difficeis trivialidades da +comedia;--por quem ao mesmo tempo, e como que mudando de natureza, póde +dar-se todo ás mais aridas e materiaes ponderações da administração e da +politica, e redigir com admiravel precisão, com uma exacção ideologica +que talvez ninguem mais tenha entre nós, uma lei administrativa ou de +instrucção pública, uma constituição politica, ou um tractado de +commercio. + +Orador e poeta, historiador e philosopho, crítico e artista, +jurisconsulto e administrador, erudito e homem d'Estado, religioso +cultor da sua lingua e falando correctamente as extranhas--educado na +pureza classica da antiguidade, e versado depois em todas as outras +litteraturas--da meia-edade, da renascença e contemporanea--o auctor das +Viagens Na Minha Terra é egualmente familiar com Homero e com o Dante, +com Platão e com Rousseau, com Thucidides e com Thiers, com Guizot e com +Xenophonte, com Horacio e com Lamartine, com Machiavel e com +Chateaubriand, com Shakspeare e Euripedes, com Camões e Calderon, com +Goethe e Virgilio, Schiller e Sá-de-Miranda, Sterne e Cervantes, Fenelon +e Vieira, Rabelais e Gil-Vicente, Addison e Bayle, Kant e Voltaire, +Herder e Smith, Bentham e Cormenin, com os Encyclopedistas e com os +Sanctos-Padres, com a Biblia e com as tradicções sanscritas, com tudo o +que a arte e a sciencia antiga, com tudo o que a arte emfim e a sciencia +moderna teem produzido. Ve-se isto dos seus escriptos, e especialmente +se ve d'este que agora publicâmos apezar de composto bem claramente ao +correr da penna. + +Mas ainda assim, e com isto somente, elle não faria o que faz se não +junctasse a tudo isso o profundo conhecimento dos homens e das coisas, +do coração humano e da razão humana; se não fosse, além de tudo o mais, +um verdadeiro homem do mundo, que tem vivido nas côrtes com os +principes, no campo com os homens de guerra, no gabinete com os +diplomaticos e homens d'Estado, no parlamento, nos tribunaes, nas +academias, com todas as notabilidades de muitos paizes--e nos salões +emfim com as mulheres e com os frivolos do mundo, com as elegancias e +com as falsidades do seculo. + +De tantas obras de tam variado genero com que, em sua vida ainda tam +curta, este fecundo escriptor tem inriquecido a nossa lingua, é ésta +talvez, tornâmos a dizer, a que elle mais descuidadamente escreveu: mas +é tambem a que, em nossa opinião, mais mostra os seus immensos podêres +intellectuaes, a sua erudição vastíssima, a sua flexibilidade de stylo +espantosa, uma philosophia transcendente, e por fim de tudo, o natural +indulgente e bom de um coração recto, puro, amigo da justiça, adorador +da verdade, e inimigo declarado de todo o sophisma. + +Tem sido accusado de sceptico: é a accusação mais absurda e que so +denuncia, em quem a faz, ou grande ignorancia ou grande má fe. Quando o +nosso auctor lança mão da cortante e destruidora arma do sarcasmo, que +elle maneja com tanta fôrça e dexteridade, e que talvez por isso mesmo, +conscio de seu podêr, elle rara vez toma nas mãos--veja-se que é sempre +contra a hypocrisia, contra os sophismas, e contra os hypocritas e +shopistas de _todas as côres_, que elle o faz. Crenças, opiniões, +sentimentos, respeita-os sempre. As mesmas suas ironias que tanto ferem, +não as dirige nunca sôbre individuos; ve-se que despreza a facil +vingança que, com tam poderosas armas, podia tomar de inimigos que o não +poupam, de invejosos que o calumniam, e a quem, por cada dicterio +insulso e ephemero com que o teem pretendido injuriar, elle podia +condemnar ao eterno oppróbrio de um pelourinho immortal como as suas +obras. Ainda bem que o não faz! mais immortaes são as suas obras, e +quanto a nós, mais punidas ficam os seus emulos com esse desprêzo do +homem superior que se não appercebe de sua malignidade insulsa e +insignificante. + +Voltando á accusação de septicismo, ainda dizemos que não póde ser +septico o espirito que concebeu, e em si achou côres com que pintar tam +vivos, characteres de crenças tam fortes como o de Catão, de Camões, de +Fr. Luiz de Sousa,--e aqui n'esta nossa obra, os de Fr. Diniz, de +Joanninha, da Irman Francisca. + +Não analysâmos agora as Viagens Na Minha Terra: a obra não está ainda +completa e não podia completar-se portanto o juizo; dizemos somente o +que todos dizem e o que todos podem julgar ja. + +A nosso rôgo, e por fazer mais digna da sua reputação ésta segunda +publicação da obra, o auctor prestou-se a dirigi-la elle mesmo, +corrigiu-a, additou-a, alterou-a em muitas partes, e a illustrou com as +notas mais indispensaveis para a geral intelligencia do texto: de modo +que sahirá muito melhorada agora do que primeiro se imprimiu. + + + + +VIAGENS NA MINHA TERRA. + + + Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraitre + tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main, + comme une cométe inattendue étincelle dans l'espace! + + X. DE MAISTRE. + + + + +CAPITULO I. + + + De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar na sua + terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu + immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem. + Chega ao Terreiro-do-Paço, imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que + ahi lhe succede. A Deducção-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord + Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os Ilhavos e os + Bordas-d'agua: os da calça larga levam a melhor. + + +Que viage á roda do seu quarto quem está á beira dos Alpes, de hynverno, +em Turim, que é quasi tam frio como San'Petersburgo--intende-se. Mas com +este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na +horta, e o mato é de murta, o proprio _Xavier de Maistre_, que aqui +escrevesse, ao menos ia até o quintal. + +Eu muitas vezes, n'estas suffocadas noites d'estio, viajo até á minha +janella para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me +inganar com uns verdes de árvores que alli vegetam sua laboriosa +infancia nos intulhos do Caes-do-Sodré. E nunca escrevi éstas minhas +viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre +ambiciosa a minha penna: pobre e suberba, quer assumpto mais largo. Pois +hei de dar-lh'o. Vou nada menos que a Santarem: e protesto que de quanto +vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se hade fazer chronica. + +Era uma idea vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha ha muito de ir +conhecer as riccas varzeas d'esse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a +mais historica e monumental das nossas villas. Aballam-me as instancias +de um amigo, decidem-se as tonterias de um jornal, que por mexeriquice +quiz incabeçar em designio politico determinado a minha visita. + +Pois por isso mesmo vou:--_pronunciei-me_. + +São 17 d'este mez de julho, anno de graça de 1843, uma segunda-feira, +dia sem nota e de boa estrea. Seis horas da manham a dar em San'Paulo, e +eu a caminhar para o Terreiro-do-Paço. Chego muito a horas, invergonhei +os meus madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se +prezam de mais matutinos homens que eu. Ja vou quasi no fim da praça, +quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça _d'ancien +règime_: é o nosso chefe e commandante, o capitão da impreza, o Sr. C. +da T. que chega em estado. + +Tambem são chegados os outros companheiros: o sino dá o último rebate. +Partimos. + +N'uma _regata_ de vapores o nosso barco não ganhava decerto o premio. E +se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns isthmicos ou +olympicos para este genero de carreiras--e se para ellas houver algum +Pindaro ancioso de correr, em strophes e antistrophes, atraz do vencedor +que vai coroar de seus hymnos immortaes--não cabe nem um triste minguado +epodo a este cançado corredor de Villa-nova. É um barco serio e sizudo +que se não mette n'essas andanças. + +Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e +pittoresco amphitheatro de Lisboa oriental, que é, vista de fóra, a mais +bella e grandiosa parte da cidade, a mais characteristica, e onde, aqui +e alli, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se +adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das chronicas. Da Fundição para +baixo tudo é prosaico e burguez, chato, vulgar e semsabor como um +periodo da _Deducção Chronologica_, aqui e alli assoprado n'uma +tentativa ao grandioso do mau gôsto, como alguma oitava menos rasteira +do _Oriente_. + +Assim o povo, que tem sempre melhor gôsto e mais puro do que essa escuma +descórada que anda ao decima das populações, e que se chama a si mesma +por excellencia a _Sociedade_, os seus passeios favoritos são a +Madre-de-Deus e o Beato e Xabregas e Marvilla e as hortas de Chellas. A +um lado a immensa majestade do Tejo em sua maior extensão e podêr, que +alli mais parece um pequeno mar mediterraneo; do outro a frescura das +hortas e a sombra das árvores, palacios, mosteiros, sitios consagrados +todos a recordações grandes ou queridas. Que outra sahida tem Lisboa que +se compare em belleza com ésta? Tirado Bellem, nenhuma. E ainda assim, +Bellem é mais arido. + +Já saudámos Alhandra, a toireira; Villa-franca, a que foi de Xira, e +depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal +restauração cahiu, como a todas as restaurações sempre succede e hade +succeder, em odio e execração tal que nem uma pobre villa a quiz para +sobrenome. + +--'A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar +a gente de um govérno de patuscos, que é o mais odioso e ingulhoso dos +governos possiveis.' + +É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viajem accudiu ao +princípio de ponderação que eu ia involuntariamente fazendo a respeito +de Villa-franca. + +Mas eu não tenho odio nenhum a Villa-franca, nem a esse famoso cirio que +lá foi fazer à velha monarchia. Era uma coisa que estava na ordem das +coisas, e que por fôrça havia de succeder. Este necessario e inevitavel +reviramento por que vai passando o mundo, hade levar muito tempo, hade +ser contrastado por muita reacção antes de completar-se... + +No entretanto vamos accender os nossos charutos, e deixemos os precintos +aristocraticos da ré: á proa, que é paiz de cigarro livre! + +Não me lembra que lord Byron celebrasse nunca o prazer de fummar a +bórdo. È notavel esquecimento no poeta mais imbarcadiço, mais marujo que +ainda houve, e que até cantou o injôo, a mais prosaica e nauseante das +miserias da vida! Pois n'um dia d'estes, sentir na face e nos cabellos a +brisa refrigerante que passou por cima da agua, em quanto se aspiram +mollemente as narcoticas exhalações de um bom cigarro da Havana, é uma +das poucas coisas sinceramente boas que ha n'este mundo. + +Fummemos! + +Aqui está um campino fummando gravemente o seu cigarro de papel, que me +vai imprestar lume. + +'Dou-lh'o eu, senhor...' accode cortezmente outra figura mui diversa, +cujas feições, trajo e modos singularmente contrastam com os do +_musarabe_ ribatejano. + +Accenderam-se os charutos, e attentámos mais de vagar na companhia em +que estavamos. + +Era com effeito notavel e interessante o grupo a que nos tinhamos +chegado, e destacava pittorescamente do resto dos passageiros, mistura +hybrida de trajos e feições descharacterizadas e vulgares--que abunda +nos arredores de uma grande cidade maritima e commercial.--Não assim +este grupo mais separado com que fomos topar. Constava elle de uns dôze +homens; cinco eram d'esses famosos athletas da Alhandra que vão todos os +domingos colher o _pulverem olympicum_ da praça de Sanct'Anna, e que, á +voz soberana e irresistivel de: _á unha, á unha, á cernelha!_.... correm +a arcar com mais generosos, não mais possantes, animaes que elles, ao +som das immensas palmas, e a trôco dos raros pintos por que se manifesta +o sempre clamoroso e sempre vazio enthusiasmo das multidões. Voltavam á +sua terra os meus cinco luctadores ainda em trajo de praça, ainda +esmurrados e cheios de glória da contenda da vespera. Mas aopé d'estes +cinco e de altercação com elles--ja direi porquê--estavam seis ou sette +homens que em tudo pareciam os seus antipodas. + +Emvez do calção amarello e da jaqueta de ramagem que caracterizam o +homem do forcado, estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos, e o +tabardo arrequifado siciliano de panno de varas. O campino, assim como o +saloio, tem o cunho da raça africana; estes são da familia pelasga: +feições regulares e moveis, a fórma agil. + +Ora os homens do norte estavam disputando com os homens do sul: a +questão fôra interrompida com a nossa chegada á proa do barco. Mas um +dos Ilhavos--bella e poetica figura de homem--voltando-se para nós, +disse n'aquelle seu tom accentuado:--'Ora aqui está quem hade decidir: +vejam-n'os senhores. Elles, por agarrar um toiro, cuidam que são mais +que ninguem, que não ha quem lhes chegue. E os senhores, a serem ca de +Lisboa, hãode dizer que sim. Mas nós...' + +--Nenhum de nós é de Lisboa: so este senhor que aqui vem agora. + +Era o C. da T. que chegava. + +--'Este conheço eu; este é dos nossos (bradou um homem de forcado, assim +que o viu). Isto é um fidalgo como se quer. Nunca o vi n'uma ferra, isso +é verdade; mas aqui de Vallada a Almeirim ninguem corre mais do que elle +por sol e por chuva, e hade saber o que é um boi de lei, e o que é lidar +com gado.' + +--'Pois oiçamos lá a questão.' + +--'Não é questão'--tornou o Ilhavo: 'mas se este senhor fidalgo anda por +Almeirim, para Almeirim vamos nós, que era uma charneca o outro dia, e +hoje é um jardim, benza-o Deus!--mas não foram os campinos que o +fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que é, e +fez terra das areas da charneca.' + +--'Lá isso é verdade'. + +--'Não, não é! Que está forte habilidade fazer dar trigo aqui aos +nateiros do Tejo, que é como quem semeia em manteiga. É uma lavoira que +a faz Deus por sua mão, regar e adubar e tudo: e o que Deus não faz, não +fazem elles, que nem sabem ter mão n'esses monchões c'o plantio das +arvores: so lá por cima é que algumas teem mettido, e é bem pouco para o +rio que é, e as riccas terras que lhes levam as inchentes.--Mas nós, pe +no barco pe na terra, tam depressa estamos a sachar o milho na charneca, +como vimos por ahi abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar +n'area por não haver agua... mas sempre labutando pela vida'. + +--'A fôrça é que se falla'--tornou o campino para estabelecer a questão +em terreno que lhe convinha.--'A fôrça é que se falla: um homem do campo +que se deita alli á cernelha de um toiro que uma companha inteira de +varinos lhe não pegava, com perdão dos senhores pelo rabo!..' + +E reforçou o argumento com uma gargalhada triumphante, que achou echo +nos interessados circumstantes que ja se tinham apinhado a ouvir os +debates. + +Os Ilhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciencia da sua +superioridade, mas acanhados pela algazarra. + +Parecia a esquerda de um parlamento quando ve sumir-se, no borburinho +acintoso das turbas ministeriaes, as melhores phrases e as mais fortes +razões dos seus oradores. + +Mas o orador ilhavo não era homem de se dar assim por derrotado. Olhou +para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto +expressivo, e voltando-se a nós, com a direita estendida aos seus +antagonistas: + +--'Então agora como é de fôrça, quero eu saber, e estes senhores que +digam, qual é que tem mais fôrça, se é um toiro ou se é o mar'. + +--'Essa agora!..' + +--'Queriamos saber'. + +--'É o mar'. + +--'Pois nós que brigâmos com o mar, oito e dez dias a fio n'uma +tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro, +qual é que tem mais fôrça?' + +Os campinos ficaram cabisbaixos; o publico imparcial applaudiu por ésta +vez a opposição, e o Vouga triumphou do Tejo. + + + + +CAPITULO II. + + + Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens. Faz o A. + modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e + mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha D. + Quixote, e por seu escudeiro Sancho Pança.--Chegada a + Villa-Nova-da-Rainha, Supplicio de Tantalo.--A virtude galardão de + si mesma; e sophisma de Jeremias Bentham.--Azambuja. + + +Éstas minhas interessantes viagens hãode ser uma obra prima, erudita, +brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do seculo. Preciso de o +dizer ao leitor, paraque elle esteja previnido; não cuide que são +quaesquer d'essas rabiscaduras da moda que, com o titulo de _Impressões +de Viagem_, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum +proveito da sciencia e do adiantamento da especie. + +Primeiro que tudo, a minha obra é um symbolo... é um mytho, palavra +grega, e de moda germanica, que se mette hoje em tudo e com que se +explica tudo... quanto se não sabe explicar. + +É um mytho porque--porque... Ja agora rasgo o veo, e declaro abertamente +ao benevolo leitor a profunda idea que está occulta debaixo d'esta +ligeira apparencia de uma viagemzita que parece feita a brincar, e no +fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada com um livro novo da +feira de Leipsick, não das taes brochurinhas dos _boulevards_ de Paris. + +Houve aqui ha annos um profundo e cavo philosopho d'alêm Rheno, que +escreveu uma obra sôbre a marcha da civilização, do intellecto--o que +diriamos, para nos intenderem todos melhor, _o Progresso_. Descobriu +elle que ha dois principios no mundo: o _espiritualista_, que marcha sem +attender á parte material e terrena d'esta vida, com os olhos fittos em +suas grandes e abstractas theorias, hirto, sêcco, duro, inflexivel, e +que póde bem personalizar-se, symbolizar-se pelo famoso mytho do +cavalleiro da Mancha, D. Quixote;--o _materialista_, que, sem fazer caso +nem cabedal d'essas theorias, em que não crè, e cujas impossiveis +applicações declara todas utopias, póde bem representar-se pela rotunda +e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança. + +Mas, como na historia do malicioso Cervantes, estes dois principios tam +avessos, tam desincontrados, andam comtudo junctos sempre; ora um mais +atraz, ora outro mais adiante, impecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se +poucas, mas _progredindo_ sempre. + +E aqui está o que é possivel ao progresso humano. + +E eisaqui a chronica do passado, a historia do presente, o programma do +futuro. + +Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina elrei Sancho. + +Depois hade vir D. Quixote. + +O senso commum virá para o millenio: reinado dos filhos de Deus! Está +promettido nas divinas promessas... como elrei de Prussia prometteu uma +constituição; e não faltou ainda, porque--porque o contracto não tem +dia; prometteu mas não disse para quando. + +Ora n'esta minha viagem Tejo-a-riba está symbolizada a marcha do nosso +progresso social: espero que o leitor intendesse agora. Tomarei cuidado +de lh'o lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça. + +Somos chegados ao triste desimbarcadoiro de Villa-Nova-da-Rainha, que é +o mais feio pedaço de terra alluvial em que ainda poisei os meus pés. O +sol arde como ainda não ardeu este anno. + +Um immenso arraial de caleças, de machinhos, de burros e arrieiros, nos +espera n'aquelle descampado africano. É forçoso optar entre os dois +martyrios da caleça ou do macho. Do mal o menos... seja este. + +E acolá--oh supplício de Tantalo!--vejo duas possantes e nedeas mulas +castelhanas jungidas a um vehiculo que, n'estas paragens e ao pé +d'aquell'outros, me parece mais esplendido do que um landaw de +Hyde-Park, mais elegante que um caleche de Long-champs, mais commodo e +elastico do que o mais acrio briska da princeza Hellena. E com tudo--oh +magico podêr das situações!--elle não é senão, uma substancial e bem +apessoada traquitana de cortinas. + +Togados manes dos antigos desimbargadores, venerandas cabelleiras de +anneis e castanhola, que direis, ó respeitadas sombras, se d'esse limbo +onde estais esperando pela resurreição do Pêgas... e do livro +quinto--vêdes este degenerado e espurio successor vosso, em calças +largas, frak verde, chapeu branco, gravata de côr, chicotinho de +caoutchouc na mão, prompto a cavalgar em mulinha de Palito-Metrico como +um garraio estudantinho do segundo anno, e deitando olhos invejosos para +esse natural, proprio e adscripticio modo de conducção desimbargatoria? +Oh que direis vós! Com que justo desprêzo não olhareis para tanta +degradação e derogação! + +Eu commungava silenciosamente commigo n'estas graves meditações, e +revolvia incertamente no ânimo a ponderosa dúvida:--se o administrar +justiça direita aos povos valia a pena de andar um desimbargador a +pé!... Luctava no meu ser o Sancho Pança da carne com o D. Quixote do +espirito--quando a Providencia, que nos maiores apertos e tentações nos +não abandona nunca, me trouxe a generosa offerta de um amigo e +companheiro do vapor, o Sr. L. S.: era sua a invejada carroça, e n'ella +me deu logar até á Azambuja. + +A virtude é o galardão de si mesma, disse um philosopho antigo; e eu não +creio no famoso ditto de Bentham, que sabedoria antiga seja um sophisma. +O mais moderno é o mais velho, não ha dúvida; mas o antigo que dura +ainda, é porque tem achado na experiencia a confirmação que o moderno +não tem. Jeremias Bentham tambem fazia o seu sophisma como qualquer +outro. + +Vamos percorrendo lentamente aquelle mal-composto marachão que poucos +palmos se eleva do nivel baixo e salgadiço do solo: de hynverno não se +passará sem perigo; ainda agora se não anda sem incómmodo e receio. +Estamos em Villa-Nova e ás portas do nojento caravanseray, unico asylo +do viajante n'esta, hoje, a mais frequentada das estradas do reino. + +Parece-me estar mais deserto e sujo, mais abandonado e em ruinas este +asqueroso logarejo, desde que alli aopé tem a estação dos vapôres, que +são a commodidade, a vida, a alma do Ribatéjo. Imagino que uma aldeia de +Alarves nas faldas do Atlas deve ser mais limpa e commoda. + +Oh! Sancho, Sancho, nem siquer tu reinarás entre nós! Cahiu o carunchoso +throno de teu predecessor, antagonista e ás vezes amo; açoitaram-te +essas nadegas para desincantar a formosa _del Toboso_, proclamaram-te +depois rei em _Barataria_, e n'esta tua provincia lusitana nem o +paternal govêrno de teu estupido materialismo póde estabelecer-se para +commodo e salvação do corpo; ja que a alma... oh! a alma... + +Fallemos n'outra coisa. + +Fujamos depressa d'este monturo.--É monótona, arida e sem frescura de +árvores a estrada: apenas alguma rara oliveira mal-medrada, a longos e +desiguaes espaços, mostra o seu tronco rachitico e braços contorcidos, +ornados de ramusculos doentes, em que o natural verde-alvo das folhas é +mais alvacento e desbotado que o costume. O solo porêm, com raras +excepções, é optimo, e a trôco de pouco trabalho e insignificante +despeza, daria uma estrada tam boa como as melhores da Europa. + +Dizia um secretario d'Estado meu amigo que para se repartir com +egualdade o melhoramento das ruas por toda Lisboa, deviam ser obrigados +os ministros a mudar de rua e bairro todos os tres mezes. Quando se +fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as kalendas gregas, eu +heide propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino +de Portugal ao menos uma vez cada anno, como a desobriga. + +Ahi está a Azambuja, pequena mas não triste povoação, com visiveis +signaes de vida, aceadas e com ar de confôrto as suas casas. É a +primeira povoação que dá indicio de estarmos nas ferteis margens do Nilo +portuguez. + +Corrémos a apear-nos no elegante estabelecimento que ao mesmo tempo +cumulla as tres distinctas funcções, de _hotel, de restaurant e de café_ +da terra. + +Sancto Deus! que bruxa que está á porta! que antro lá dentro!... Cai-me +a penna da mão. + + + + +CAPITULO III. + + + Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade do A. + d'estas viagens. O que devia ser uma estalagem nas nossas eras de + litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questão + para tractar, em prosa e verso, um mui difficil ponto de + economia-politica e de moral social.--Quantas almas é preciso dar + ao diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para + fazer um ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a + sciencia d'este seculo era uma grandessissima tola.--Rei de facto, + e rei de direito.--Belleza e mentira não cabem n'um sacco.--Põe-se + o A. a caminho para o pinhal da Azambuja. + + +Vou _desappontar_ decerto o leitor benevolo; vou perder, pela minha +fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois +primeiros capitulos d'esta interessante viagem. + +Pois que esperava elle de mim agora, de mim que ousei declarar-me +escriptor n'estas eras de romantismo, seculo das fortes sensações, das +descripções a traços largos e _incisivos_ que se intalham n'alma e +entram com sangue no coração? + +No fim do capitulo precedente parámos á porta de uma estalagem: que +estalagem deve ser ésta, hoje no anno de 1843, ás barbas de Victor Hugo, +com o Doutor Fausto a trotar na cabeça da gente, com os _Mysterios de +Paris_ nas mãos de todo o mundo? + +Ha paladar que supporte hoje a classica _posada_ do Cervantes com o seu +_mesonero_ gordo e grave, as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de +algum pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o invisivel rei do seculo, +aquelle _por quem hoje os reis reinam e os fazedores de leis decretam e +afferem o justo!_ Sancho manteado por vis muleteiros! Não é da epocha. + + Eu coroarei de trevo a minha espada, + De cenoiras, luzerna e betarrava, + Para cantar Harmódios e Aristógilons, + Que do tyranno jugo vos livraram + Da sciencia velha, inutil carunchosa, + Que elevava da terra, erguia, alçava + O que no homem ha de Ser divino, + E para os grandes feitos e virtudes + Lhe despegava o espirito da carne... + +Não: plantae batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamisae +estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Icaro, para +andar a qual mais depressa, éstas horas contadas de uma vida toda +material, massuda e grossa como tendes feito ésta que Deus nos deu tam +differente do que a hoje vivemos. Andae, ganha-pães, andae; reduzi tudo +a cifras, todas as considerações d'este mundo a equações de interêsse +corporal, comprae, vendei, agiotae.--No fim de tudo isto, o que lucrou a +especie humana? Que ha mais umas poucas de duzias de homens riccos. E eu +pergunto aos economistas-politicos, aos moralistas, se ja calcularam o +número de individuos que é forçoso condemnar á miseria, ao trabalho +desproporcionado, á desmoralização, á infamia, á ignorancia crapulosa, á +desgraça invencivel, á penuria absoluta, para produzir um ricco?--Que +lh'o digam no Parlamento inglez, onde, depois de tantas commissões de +inquérito, ja deve de andar orçado o número de almas que é preciso +vender ao diabo, o número de corpos que se tem de intregar antes do +tempo ao cemiterio para fazer um tecelão ricco e fidalgo como Sir Robert +Peel, um mineiro, um banqueiro, um grangeeiro--seja o que for: cada +homem ricco, abastado, custa centos de infelizes, de miseraveis. + +Logo a nação mais feliz não é a mais ricca. Logo o princípio utilitario +é a _mamona_ da injustiça e da reprovação. Logo... + + There are more things in heaven and earth, Horatio, + Than are dreamt of in your philosophy. + +A sciencia d'este seculo é uma grandessissima tola. + +E como tal, presumpçosa e cheia do orgulho dos nescios. + +........................................................................... +........................................................................... +........................................................................... + +Vamos á descripção da estalagem. Não póde ser classica; assoviam-me +todos esses rapazes de pera, bigode e charuto, que fazem litteratura +cava e funda desde a porta do Marrare até ao café de Moscow... + +Mas aqui é que me apparece uma incoherencia inexplicavel. A sociedade é +materialista; e a litteratura, que é a expressão da sociedade, é toda +excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista! +Sancho rei de facto, Quixote rei de direito! + +Pois é assim; e explica-se.--É a litteratura que é uma hypocrita: tem +religião nos versos, charidade nos romances, fé nos artigos de +jornal--como os que dão esmolas para pôr no _Diario_, que amparam +orphans na _Gazeta_, e sustentam viuvas nos cartazes dos theatros. + +E fallam no Evangelho! Deve ser por escarneo. Se o leem, hãode ver lá +que nem a esquerda deve saber o que faz a direita... + +Vamos á descripção da estalagem; e acabemos com tanta digressão. + +Não póde ser classica, está visto, a tal descripção.--Seja +romantica.--Tambem não póde ser. Porque não? É pôr-lhe lá um +_Chourineur_ a amolar um facão de palmo e meio para espatifar rez e +homem, quanto incontrar,--uma _Fleur-de-Marie_ para dizer e fazer +pieguices com uma rozeirinha pequenina, bonitinha, que morreu, +coitadinha!--e um principe allemão incoberto, forte no sôcco britannico, +immenso em libras sterlinas, profundo em gyria de cegos e ladrões... e +ahi fica a Azambuja com uma estalagem que não tem que invejar á mais +pintada e da moda n'este seculo elegante, delicado, verdadeiro, natural! + +É como eu devia fazer a descripção: bem o sei. Mas ha um impedimento +fatal, invencivel--egual ao d'aquella famosa salva que se não deu... é +que nada d'isso lá havia. + +E eu não quero calumniar a boa gente da Azambuja. Que me não leam os +taes, porque eu heide viver e morrer na fé de Boileau: + + Rien n'est beau que le vrai. + +Ja se diz ha muito anno que honra e proveito não cabem n'um sacco; eu +digo que belleza e mentira tambem lá não cabem: e é a mais portugueza +traducção que creio que se possa fazer d'aquelle ímmortal e evangelico +hemystichio. A maior parte das bellezas da litteratura actual fazem-me +lembrar aquellas formosuras que tentavam os sanctos eremitas na +Thebaida. O pobre de Sancto Antão ou de S. Pacomio (Pacomio é melhor +aqui) ficavam imbasbacados ao princípio; mas dava-lhe o coração uma +pancada, olhavam-lhe para os pés...--Cruzes maldicto! Os pés não podia +elle incobrir. E ao primeiro _abrenuntio_ do sancto, dissipava-se a +belleza em muito fummo de inxofre, e ficava o diabo negro feio e cabrum +como quem é, e sempre foi o pae da mentira. + +Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem da Azambuja o que havia +era uma pobre velha a quem eu chamei bruxa, porque emfim que havia de eu +chamar á velha suja e maltrapida que estava á porta d'aquella asquerosa +casa? + +Havia lá ésta velha, com a sua môça mais môça mas não menos nojenta de +ver que ella, e um velho meio paralytico meio demente que alli estava +para um canto com todo o geito e traça de quem vem folgar agora na +taberna porque ja bebeu o que havia de beber n'ella. + +Matava-nos a sêde; mas a agua alli é beber quartans. O vinho era atroz. +Limonada? Não ha limões nem assucar.--Mandou-se um proprio á tenda no +fim da villa. Vieram tres limões que me pareceram de uns que pendiam, +quando eu vinha a férias, á porta do famoso botequim de Leiria. + +O assucar podia servir na última scena de M. de Pourceaugnac muito +melhor que n'uma limonada. Mas misturou-se tudo com a agua das sezões, +bebémos, pozemo-nos em marcha, e até agora não nos fez mal, com ser a +mais abominavel, antipathica e suja beberagem que se póde imaginar. + +Caminhámos na mesma ordem até chegar ao famoso pinhal da Azambuja. + + + + +CAPITULO IV. + + + De como o A. foi pensando e divagando, e em que pensava e divagava + elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do mesmo + nome.--Do poeta grego e philosopho Démades, e do poeta e philosopho + inglez Addison, da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de + outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar a sua + profunda erudição.--Discute-se a materia gravissima se é necessario + que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis + reflexões de zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re + amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo + este capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e + passe ao seguinte. + + +Eu darei sempre o primeiro logar á modestia entre todas as bellas +qualidades.--Ainda sôbre a innocencia?--Ainda sim. A innocencia basta +uma falta para a perder, da modestia so culpas graves, so crimes +verdadeiros podem privar. Um accidente, um acaso podem destruir aquella, +a ésta so uma acção propria, determinada e voluntaria. + +Bem me lembram ainda os dois versos do poeta Démades que são forte +argumento de auctoridade contra a minha theoria; cuidei que tinha mais +infeliz memoria. Heide pô-los aqui para que não falte a ésta grande obra +das minhas viagens o merito da erudição, e lhe não chamem livrinho da +moda: estou resolvido a fazer a minha reputação com este livro. + + Aid ôs te kalle ka aretês polis, + Prôtoê sgathis hamartia deuteron de ais chunê. + + Da belleza e virtude é a cidadella + A innocencia primeiro--e depois ella. + +Mas a auctoridade responde-se com auctoridade, e a texto com texto. E eu +trago aqui na algibeira o meu Addison--um dos poucos livros que não +largo nunca--e atiro com o philosopho inglez ao philosopho grego e fico +triumphante: porque Addison não põe nada acima da modestia; e Addison, +apezar da sua casaca de penneiros, é muito maior philosopho do que foi +Démades com a sua tunica e o seu palio atheniense. + +O erudito e amavel leitor escapará d'ésta vez a mais citações: compre um +_Spectator_, que é livro sem que se não póde estar, e veja _passim_. + +Eu gósto, bem se ve, de ir ao incôntro das objecções que me podem fazer; +lembro-as eu mesmo paraque depois me não digam:--'Ah, ah! vinha a ver se +pegava!'--Não senhor, não é o meu genero esse. + +Francamente pois... eis-ahi o que poderão dizer:--'Addison foi +secretario d'Estado, e então...'--Então o quê? Não concebem um +secretario d'Estado philosopho, um ministro poeta, escriptor elegante, +cheio de graça e de talento? Não, bem vejo que não: teem a idea fixa de +que um ministro d'Estado hade ser por fôrça algum semsaborão, malcriado +e petulante. Mas isto é nos paizes adiantados em que ja é indifferente +para a coisa-pública, em que povo nem principe lhes não importa ja, em +que mãos se intregam, a que cabeças se confiam. Em Inglaterra não é +assim, nem era assim no tempo de Addison. Fossem lá á rainha Anna que +deixasse entrar no seu gabinete quatro calças de coiro sem criação nem +instrucção, e não mais senão so porque este sabía jogar nos fundos, +aquelle tinha boas tretas para o _canvassing_ de umas eleições, o outro +era figura importante no _Freemasson's-hall_! + +Ja se ve que em nada d'isto ha a minima allusão ao feliz systema que nos +rege: estou fallando de modestia, e nós vivemos em Portugal. + +A modestia comtudo quando é excessiva e se aproxima do acanhamento, do +que no mundo se chama _falta de uso_--póde ser n'um homem quasi defeito +inteiro. Na mulher é sempre virtude, realce de belleza ás formosas, +disfarce de fealdade ás que o não são. + +Por mim, não conheço objecto mais lindo em toda a natureza, mais +feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espirito e inflammar o coração do +que é uma joven donzella quando a modestia lhe faz subir o rubor ás +faces, e o pejo lhe carrega brandamente nas palpebras... Pouco lume que +tenha nos olhos, pouco regular que seja o semblante, menos airosa que +seja a figura, parecer-vos-ha n'esse momento um anjo. E anjo é a virgem +modesta, que traz no rosto debuxado sempre um ceo de virtudes...--De +alguma belleza sei eu cujos olhos _côr da noite_ ou de _saphyra_ +(_dialec. poet. vet._), cujas faces de _leite e rosas_, dentes de +_pérolas_, collo de _marfim_, transas de _ebano_ (a allusão é surtida, +ha onde escolher) davam larga materia a boas grozas de sonetos--no +antigo regimen dos sonetos, e hoje inspirariam myriadas de canções +descabelladas e vaporosas, choradas na harpa ou gemidas no alahude. +Comtanto que não seja lyra, que é classico, todo o instrumento, +inclusivamente a bandurra, é egual deante da lei romantica. + +Ora pois, mas a tal belleza, por certo ar ala-moda, certo não-sei-quê de +atrevido nos olhos, de deslavado na cara, e de descomposto nos ademanes, +perde toda a graça e quasi a propria formosura de que a dotára a +natureza... + +Vêde-me aquelles labios de carmim. Ha maio florido que tam lindo botão +de rosa apresente ao alvorecer da madrugada?... Mas olhae agora como o +riso da malicia lh'o desfolha tam feiamente n'uma desconcertada +risada... + +Desvaneceu-se o prestigio. + +Não havia moço nem velho, homem do mundo ou sabio de gabinete que não +désse metade dos seus prazeres, dos seus livros, da sua vida por um so +beijo d'aquella bôcca... Agora talvez nem repetidos _avances_ lhe façam +obter um namorante de profissão e officio... E hade pagá-lo adeantado, e +porque preço!... + +........................................................................... +........................................................................... + +Mas o que terá tudo isto com a jornada da Azambuja ao Cartaxo? A mais +íntima e verdadeira relação que é possivel. É que a pensar ou a sonhar +n'estas coisas fui eu todo o caminho, até me achar no meio do pinhal da +Azambuja. + +Ahi parámos, e acordei eu. + +Sou sujeito a éstas distracções, a este sonhar acordado. Que lhe heide +eu fazer? Andando, escrevendo, sonho e ando, sonho e fallo, sonho e +escrevo. Francamente me confesso de somnambulo, de somniloquo, de... +Não, fica melhor com seu ar de grego (tenho hoje a bossa hellenica n'um +estado de tumescencia pasmosa!); digamos somnilogo, somnigrapho... + +A minha opinião sincera e _conscienciosa_ é que o leitor deve saltar +éstas folhas, e passar ao capitulo seguinte, que é outra casta de +capitulo. + + + + +CAPITULO V. + + + Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se por + explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo + romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco + trabalho.--Transição classica: Orpheu e o bosque do Ménalo.--Desce + o A. d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades + materiaes da vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem + de cavalgar na triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do + animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito. + + +Este é que é o pinhal da Azambuja? + +Não póde ser. + +Ésta, aquella antiga selva, temida quasi religiosamente como um bosque +druidico! E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar historia de Pedro de +Mallas-artes, que logo, em imaginação, lhe não pozesse a scena aqui +perto!... Eu que esperava topar a cada passo com a cova do capitão +Roldão e da dama Leonarda!... Oh! que ainda me faltava perder mais ésta +illusão... + +Por quantas maldicções e infernos adornam o stylo d'um verdadeiro +escriptor romantico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos +fechados, os sitios medonhos d'esta espessura. Pois isto é possivel, +pois o pinhal da Azambuja é isto?... Eu que os trazia _promptos e +recortados_ para os collocar aqui todos os amaveis salteadores de +Schiller, e os elegantes facinorosos do _Auberge-des-Adrets_, eu heide +perder os meus chefes-d'obra! Que é perdê-los isto--não ter onde os +pôr!.. + +Sim, leitor benevolo, e por ésta occasião te vou explicar como nós hoje +em dia fazemos a nossa litteratura. Ja me não importa guardar segredo, +depois d'esta desgraça não me importa ja nada. Saberás pois, ó leitor, +como nós outros fazemos o que te fazemos ler. + +Tracta-se de um romance, de um drama--cuidas que vamos estudar a +historia, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os +edificios, as memorias da epocha? Não seja pateta, senhor leitor, nem +cuide que nós o somos. Desenhar characteres e situações do _vivo_ da +natureza, collori-los das côres verdadeiras da historia... isso é +trabalho difficil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e +sôbretudo um tacto!... Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente. +Eu lhe explico. + +Todo o drama e todo o romance precisa de: + +Uma ou duas damas, + +Um pae, + +Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos, + +Um criado velho, + +Um monstro, incarregado de fazer as maldades, + +Varios tractantes, e algumas pessoas capazes para intermedios. + +Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de Dumas, de Eug. Sue, de +Victor-Hugo, e _recorta_ a gente, de cadaum d'elles, as figuras que +precisa, gruda-as sôbre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo, +azul--como fazem as raparigas inglezas aos seus albums e scrapbooks; +fórma com ellas os grupos e situações que lhe parece; não importa que +sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se ás chronicas, tiram-se +uns poucos de nomes e de palavrões velhos; com os nomes chrismam-se os +figurões, com os palavrões _illuminam-se_... (stylo de pintor +pinta-monos).--E aqui está como nós fazemos a nossa litteratura +original. + +E aqui está o precioso trabalho que eu agora perdi! + +Isto não póde ser! Uns poucos de pinheiros raros e infezados atravez dos +quaes se estão quasi vendo as vinhas e olivedos circumstantes!.. É o +desapontamento mais chapado e solemne que nunca tive na minha vida--uma +verdadeira logração em boa e antiga phrase portugueza. + +E comtudo aqui é que devia ser, aqui é que é, geographica e +topographicamente fallando, o bem conhecido e confrontado sitio do +pinhal da Azambuja... + +Passaria por aqui algum Orpheu que, pelos magicos podêres da sua lyra, +levasse atraz de si as árvores d'este antigo e classico Menalo dos +salteadores lusitanos? + +Eu não sou muito difficil em admittir prodigios quando não sei explicar +os phenomenos por outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se. Qual, de +entre tantos Orpheus que a gente por ahi ve e ouve, foi o que obrou a +maravilha, isso é mais difficil de dizer. Elles são tantos, e cantam +todos tão bem! Quem sabe? Juntar-se-hiam, fariam uma companhia por +acções, e negociariam um emprestimo harmonico com que facilmente se +obraria então o milagre. É como hoje se faz tudo; é como se passou o +thesoiro para o banco, o banco para as companhias de confiança... porque +se não faria o mesmo com o pinhal da Azambuja? + +Mas aonde está elle então? faz favor de me dizer... + +Sim senhor, digo: _está consolidado_. E se não sabe o que isto quer +dizer, leia os orçamentos, veja a lista dos tributos, passe pelos olhos +os votos de confiança; e se depois d'isto, não souber aonde e como _se +consolidou_ o pinhal d'Azambuja, abandone a geographia que visivelmente +não é a sua especialidade, e deite-se a finança, que tem +_bossa_;--fazemo-lo eleger ahi por Arcozello ou pela cidade eterna--é o +mesmo--vai para a commissão de fazenda--depois lord do thesoiro, +ministro: é _escalla_, não offendia nem a rabujenta constituição de 38, +quanto mais a carta........................................................ +........................................................................... + +O peior é que no meio d'estes campos onde Troia fôra, no meio d'estas +areias onde se acoitavam d'antes os pallidos medos do pinhal da +Azambuja, a minha querida e bemfazeja traquitana abandonou-me; fiquei +como o bom _Xavier de Maistre_ quando, a meia jornada do seu quarto, lhe +perdeu a cadeira o equilibrio, e elle cahiu--ou ia caindo, ja me não +lembro bem--estatellado no chão. + +Ao chão estive eu para me atirar, como criança amuada, quando vi voltar +para a Azambuja o nosso commodo vehiculo, e deante de mim a infezada +mulinha asneira que--ai triste!--tinha de ser o meu transporte d'alli +até Santarem. + +Emfim o que hade ser, hade ser, e tem muita fôrça. Consolado com este +tam verdadeiro quanto _elegante_ proverbio, levantei o ânimo á altura da +situação e resolvi fazer próva de homem forte e supportador de +trabalhos. Bifurquei-me resignadamente sôbre o cilicio do esfarrapado +albardão, tomei na esquerda as impermeaveis redeas de coiro cru, e +lancei o animalejo ao seu mais largo trote, que era um confortavel e +amenissimo choito, digno de fazer as delicias do meu respeitavel e +excentrico amigo, o marquez do F. + +Tinha a bossa, a paixão, a mania, a furia de choitar aquelle notavel +fidalgo--o último fidalgo homem de lettras que deu ésta terra. Mas +adorava o choito o nobre marquez. Conheci-o em París nos ultimos tempos +da sua vida, ja octogenario ou perto d'isso: deixava a sua carruagem +ingleza toda mollas e confortos para ir passear n'um certo cabriolet de +praça que elle tinha marcado pelo sêcco e duro movimento vertical com +que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimenta-lo: era admiravel. +Communicava-se da velha horsa normanda aos varaes, e dos varaes á concha +do carro, tam inteiro e tam sem diminuição, o choito do execravel +Babiéca! Nunca vi coisa assim. O marquez achava-lhe propriedades +toni-purgativos, eu classifiquei-o de violentissimo drastico. + +Foi um dos homens mais extraordinarios e o portuguez mais notavel que +tenho conhecido, aquelle fidalgo. + +Era feio como o peccado, elegante como um bugio, e as mulheres +adoravam-n'o. Filho segundo, vivia de seus ordenados nas missões por que +sempre andou, tractava-se grandiosamente, e legou valores consideraveis +por sua morte. Imprimia uma obra sua, mandava tirar um unico exemplar, +guardava-o e desmanchava as fòrmas....--Não acabo se coméço a contar +historias do marquez do F. + +Piquemos para o Cartaxo, que são horas. + + + + +CAPITULO VI. + + + Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão misturar + o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.--Da-se razão, e + tira-se depois, ao padre José Agostinho.--No meio d'estas + disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para + tudo é preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque, + quanto ao outro ja era sabido.--Os Lusíadas, Fausto e a + Divina-Comedia.--Desgraça do Camões em ter nascido antes do + romantismo.--Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre são melhores + sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o A. em procura do + marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do poeta + Alceu.--Partida de Whist entre os illustres finados.--Compaixão do + marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta + d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a + este mundo e ao Cartaxo. + + +O mais notavel, e não sei se diga, se continuarei aomenos a dizer, o +mais indesculpavel defeito que até aqui esgravataram criticos e zoilos +na Iliada dos povos modernos, os immortaes _Lusiadas_, é sem-dúvida a +heterogenea e heterodoxa mistura da theologia com a mythologia, do +maravilhoso allegorico do paganismo, com os graves symbolos do +christianismo. A fallar a verdade, e por mais figas que a gente queira +fazer ao padre José Agustinho--ainda assim! ver o padre Baccho revestido +_in pontificalibus_ deante de um retabulo, não me lembra de que sancto, +dizendo o seu _dominus vobiscum_ provavelmente a algum acholyto +bacchante ou corybante, que lhe responde o _et cum spiritu tuo!_.. não +se póde; é uma que realmente... E então aquelle famoso conceito com que +elle acaba, digno da Phenix-Renascida: + + O falso deus adora o verdadeiro! + +Desde que me intendo, que leio, que admiro os Lusiadas; interneço-me, +chóro, insuberbeço-me com a maior obra de ingenho que ainda appareceu no +mundo, desde a _Divina-Comedia_ até ao _Fausto_... + +O italiano tinha fé em Deus, o allemão no scepticismo, o portuguez na +sua patria. É preciso crer em alguma coisa para ser grande--não so +poeta--grande seja no que for. Uma Brizida velha que eu tive, quando era +pequeno, era famosa chronista de historias da carochinha, porque +sinceramente cria em bruxas. Napoleão cria na sua estrella, Lafayette +creu na republica-rei de Luiz-Philippe; e, para que ousemos tambem +_celebrare domestica facta_, todos os nossos grandes homens ainda hoje +creem, um na juncta do crédito, outro nas classes inactivas, outro no +mestre Adonirão, outro finalmente na belleza e realidade do systema +constitucional que felizmente nos rege. + +Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com ellas. A um +pobre homem o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos, ainda +creio no nosso Camões: sempre cri. + +E comtudo, desde a edade da innocencia em que tanto me divertiam +aquellas batalhas, aquellas aventuras, aquellas historias d'amores, +aquellas scenas todas, tam naturaes, tam bem pintadas--até ésta fatal +edade da experiencia, edade prosaica em que as mais bellas creações do +espirito parecem macaquices deante das realidades do mundo, e os nobres +movimentos do coração chymeras de enthusiastas--até ésta edade de +saudades do passado e esperanças no futuro, mas sem gosos no +presente--em que o amor da patria (tambem isto será phantasmagoria?), e +o sentimento intimo do _bello_ me dão na leitura dos Lusiadas outro +deleite diverso, mas não inferior ao que n'outro tempo me deram--eu +senti sempre aquelle grande defeito do nosso grande poema: e nunca pude, +por mais que buscasse, achar-lhe, justificação não digo--nem siquer +desculpa. + +Mas até morrer aprender, diz o adagio: e assim é. E tambem é aphorismo +de moral, applicavel outrosim a coisas litterarias: que para a gente +achar a desculpa aos defeitos alheios, é considerar--é pôr-se uma pessoa +nas mesmas circumstancias, ver-se involvido nas mesmas difficuldades. + +Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao pobre Camões, com vontade +de o justificar, e prompto (assim são as charidades d'este mundo) a +sahir a campo de lança em reste e a quebrá-la com todo o antagonista que +por aquelle fraco o atacar.--E porque será isto? Porque chegou a minha +hora; e--_si parva licet componnere magnis_ (a bossa proeminente hoje é +a latina), aqui me acho eu com este meu capitulo nas mesmas +difficuldades em que o nosso bardo se viu com o seu poema. + +Ja preveni as observações com o texto acima: bem sei quem era Camões, e +quem sou eu; mas tracta-se da _intalação_, que é a mesma apezar da +differença dos intalados. O auctor dos Lusiadas viu-se intalado entre a +crença do seu paiz e as brilhantes tradições da poesia classica que +tinha por mestra e modêlo. + +Não havia ainda então romanticos nem romantismo, o seculo estava muito +atrazado. As odes de Victor-Hugo não tinham ainda desbancado as de +Horacio; achavam-se mais lyricos e mais poeticos os esconjurios de +Canidia, do que os pesadelos de um inforcado no oratorio; chorava-se com +os _Tristes_ de Ovidio, porque se não lagrimejava com as meditações de +Lamartine. Andromacha despedindo-se de Heitor ás portas de Troia, Priamo +supplicante aos pés do matador do seu filho, Helena luctando entre o +remorso do seu crime e o amor de Páris, não tinham ainda sido eclipsados +pelas declamações da mãe Eva ás grades do paraizo terreal. O combate de +Achilles e Heitor, das hostes argivas com as troianas, não tinha sido +mettido n'um chinello pelas batalhas campaes dos anjos bons e dos anjos +maus á metralhada por essas nuvens. Dido chorando por Eneas não tinha +sido reduzida a donzella choramigas d'Alfama carpindo pelo seu _Manel_ +que vae para a India... + +Realmente o seculo estava muito atrazado: Milton não se tinha ainda +sentado no logar de Homero, Shakspeare no de Euripedes, e lord Byron +acima de todos: emfim não estava ainda anglizado o mundo, portanto _a +marcha do intellecto_ no mesmo terreno, é tudo uma miseria. + +Ora pois, o nosso Camões, creador da epopea, e--depois do Dante--da +poesia moderna, viu-se atrapalhado; misturou a sua crença religiosa com +o seu credo poetico e fez, _tranchons le mot_, uma semsaboria. + +E aqui direi eu com o vate Elmano: + + Camões, grande Camões, quam similhante + Acho teu fado ao meu quando os cotejo! + +Vou fazer outra semsaboria eu, n'este bello capitulo da minha +obra-prima. Que remedio! Preciso fallar com um illustre finado, preciso +de evocar a sombra de um grande genio que hoje habita com os mortos. E +onde irei eu? Ao inferno? Espero que a divina justiça se apiedasse +d'elle na hora dos ultimos arrependimentos. Ao purgatorio, ao empyreo? +Apezar do exemplo da _Divina Comedia_, não me atrevo a fazer comedias +com taes logares de scena,--e não sei, não gósto de brincar com essas +coisas. + +Não lhe vejo remedio senão recorrer ao bem parado dos Elysios, da Styge, +do Cocyto e seu termo: são terrenos neutros em que se póde parlamentar +com os mortos sem compromettimento serio, e.... + +Eis-me ahi no êrro de Camões--e nas unhas dos criticos; e as zagunchadas +a ferver em cima de mim, que fiz, que aconteci.... + +Mas, senhores, ponderem, venham ca: o que hade um homem fazer? O Dante +não sei que gyria teve que baptisou Publio Virgilio Marão para lhe +servir de cicerone nas regiões do inferno, do paraizo e do purgatorio +christão, e teve tam boa fortuna que nem o queimou a Inquisição nem o +descompoz a Crusca, nem siquer o mutilaram os censores, nem o +perseguiram delegados por abuso de liberdade de imprensa, nem o mandaram +para os dignos pares... Não se tinham ainda descoberto as mangações +liberaes que se usam hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade +ganha e sustentada á ponta da espada, com muito coração e poucas +palavras, muito patriotismo, poucas leis... e menos relatorios. Não +havia em Florença nem gazeta para louvar as tolices dos ministros, nem +ministros para pagar as tolices da gazeta. + +O Dante foi proscripto e exilado, mas não se ficou a escrever, deu +catanada que se regallou nos inimigos da liberdade da sua patria. + +Quem dera ca um batalhão de poetas como aquelle! + +Que fosse porêm um triste vate de hoje escrever no seculo das luzes o +que escrevia o Dante no seculo das trevas! Os proprios philosophos +gritavam: Que escandalo! Atheus professos clamavam contra a +irreverencia; gentes que não teem religião, nem a de Mafoma, bradavam +pela religião: entravam a pôr carapuças nas cabeças uns dos outros, +cahiam depois todos sôbre o poeta, e--se o não podessem inforcar, pelo +menos declaravam-n'o republicano, que dizem elles que é uma injúria +muito grande. + +Nada! viva o nosso Camões e o seu maravilhoso mistiforio; é a mais +commoda invenção d'este mundo: vou-me com ella, e ralhe a crítica quanto +quizer. + +Quero procurar no reino das sombras não menor pessoa que o marquez de +Pombal: tenho que lhe fazer uma pergunta séria antes de chegar ao +Cartaxo. E nós ja vamos por entre as riccas vinhas que o circundam com +uma zona de verdura e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra ao +pensamento as portas fataes--depressa a unctuosa sopetarra com que heide +atirar ás tres gargantas do canzarrão. Vamos... + +Mas em que districto d'aquellas regiões acharei eu o primeiro ministro +d'elrei D. José? Por onde está Ixion e Tantalo, por onde demora Sysipho +e outros maganões que taes? Não; esse é um bairro muito triste, e +arrisca-se a ter por administrador algum escandecido que me atice as +orelhas. + +Nos Elysios com o pae Anchises e outros barbaças classicos do mesmo +jaez? Eu sei? tambem isso não. Hade ser n'aquellas ilhas bemaventuradas +de que falla o poeta Alceu e onde elle poz a passear, por eternas +verduras, as almas tyrannicidas de Harmódio e Aristógiton... + +Oh! ésta agora!... Sebastião José de Carvalho e Mello, conde de Oeiras, +marquez de Pombal, de companhia com os seus inimigos politicos!... Ahi é +que se ingánam; não ha amigos nem inimigos politicos em se largando o +mando e as pretenções a elle. Ora, passados os umbraes da eternidade, é +de fé que se não pensa mais n'isso. C. J. X., que morreu a assignar uma +portaria, ja tinha largado a penna quando chegou alli pelos _Prazeres_; +quanto mais!... + +O homem hade estar nas ilhas _beatas_. Vamos lá... + +E ei-lo alli: lá está o bom do marquez a jogar o whist com o barão de +Bidefeld, com o imperador Leopoldo e com o poeta Diniz. A partida deve +de ser interessante, talvez aposta essa gente toda--esses manes todos +que estão á roda. Que cara que fez o marquez a um finadinho que lhe foi +metter o nariz nas cartas! Quem havia de ser! O intromettido de M. de +Talleyrand. Estava-lhe cahindo. Mas não viu nada: o nobre marquez sempre +soube esconder o seu jôgo. + +A mim é que elle ja me viu. 'Que diz? Ah!.. Sim senhor, sou portuguez; e +venho fazer uma pergunta a V. Exa., esclarecer-me sôbre um ponto +importante.' + +Deitou-me a tremenda luneta. + +--'Para que mandou V. Exa. arrancar as vinhas do Ribatejo?' + +Apertou a luneta no sobrôlho e sorriu-se. + +--'Ellas ahi estão centuplicadas, que até ja invadiram o pinhal de +Azambuja. Fez V. Exa. um despotismo inutil; e agora...' + +'Agora quem bebe por lá todo esse vinho?' + +Não sabía o que lhe havia de responder. Elle sacudiu a cabelleira de +anneis, virou-me as costas, deu o braço a Colbert, passou por-pé de +Ricardo Smith e de J. Baptista Say, que estavam a disputar, incolheu os +hombros em ar de compaixão, e foi-se por uma alameda muito viçosa que ia +por aquelles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se da nossa vista. + +Eu surdi ca n'este mundo, e achei-me emcima da azemola, aopé do grande +café do Cartaxo. + + + + +CAPITULO VII. + + + Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as carruagens de + mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.--Dos cafés em geral, e de + como são o characteristico da civilização de um paiz.--O + Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do + Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran'-Bretanha deveu sempre toda a + sua fôrça e toda a sua glória a Portugal.--Shakspeare e Laffitte, + Milton e Chateaumargot, Nelson e o principe de Joinville.--Próva-se + evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo. + + +Voltar á meia-noite do _Bois-de-Boulogne_--o bosque por excellencia, +descer, entre nuvens de poeira, o longo stadio dos Campos-Elysios, +entrever, na rapida carreira, o obelisco de Luxor, as árvores das +Tulherias, a columna da praça Vandomma, a magnificencia heteroclyta da +'Magdalena', e emfim sentir parar, de uma soffreada magistral, os dois +possantes inglezes que nos trouxeram quasi de um folego até ao +'boulevard de Gand'; ahi entreabrir mollemente os olhos, levantando meio +corpo dos regallados cochins de seda, e dizer: 'Ah! estamos em +Tortoni... que delicia um sorvete com este calor!'--é seguramente, é dos +prazeres maiores d'este mundo, sente-se a gente viver; é meia hora de +existencia que vale dez annos de ser rei em qualquer outra parte do +mundo. + +Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma coisa dos sabores e +dissabores d'este mundo, fie-se na minha palavra, que é de homem +experimentado: o prazer de chegar por aquelle modo a Tortoni, o apear da +elegante caleche balançada nas mais suaves mollas que fabricasse arte +ingleza do puro aço de Suecia, não alcança, não se compara ao prazer e +consolação de alma e corpo que eu senti ao apear-me de minha choiteira +mula á porta do grande café do Cartaxo. + +Fazem idea do que é o café do Cartaxo? Não fazem. Se não viajam, se não +sahem, se não vêem mundo ésta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre +o Chiado, a rua do Oiro e o theatro de San'Carlos, como hãode alargar a +esphera de seus conhecimentos, desinvolver o espirito, chegar á altura +do seculo? + +Coroae-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer sonetos á dama +nova, ide, que não prestais para mais nada, meus queridos Lisboetas; ou +discuti os deslavados horrores de algum mellodrama velho que fugiu +assoviado da 'Porte-Saint Martin' e veio esconder-se na Rua-dos-Condes. +Tambem podeis ir aos Toiros--estão imbolados, não ha perigo... + +Viajar?.. qual viajar! até á Cova-da-Piedade, quando muito, em dia que +lá haja cavallinhos. Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que +todas as praças d'este mundo são como a do Terreiro-do-Paço, todas as +ruas como a rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare. + +Pois não são, não: e o do Cartaxo menos que nenhum. + +O café é uma das feições mais characteristicas de uma terra. O viajante +experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no café, observa-o, +examina-o, estuda-o, e tem conhecido o paiz em que está, o seu govêrno, +as suas leis, os seus costumes, a sua religião. + +Levem-me de olhos tapados onde quizerem, não me desvendem senão no café; +e protesto-lhe que em menos de dez minutos lhe digo a terra em que estou +se for paiz sublunar. + +Nós entrámos no café do Cartaxo, o grande café do Cartaxo; e nunca se +incruzou turco em divan de seda do mais splendido harem de +Constantinopla com tanto gôso de alma e satisfacção de corpo, como nós +nos sentámos nas duras e asperas tábuas das esguias banquetas mal +sarapintadas que ornam o magnífico estabelecimento bordalengo. + +Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade classica: será um +parallelogrammo pouco maior que a minha alcova; á esquerda duas mezas de +pinho, á direita o mostrador invidraçado onde campeam as garrafas +obrigadas de liquor de amendoa, de canella, de cravo. Pendem do tecto, +laboriosamente arrendados por não vulgar tesoira, os pingentes de papel, +convidando a lascivo repouso a inquieta raça das moscas. Reina uma +frescura admiravel n'aquelle recinto. + +Sentámo-nos, respirámos largo, e entrámos em conversa com o dono da +casa, homem de trinta a quarenta annos, de physionomia experta e +sympathica, e sem nada do repugnante villão-ruim que é tam usual de +incontrar por similhantes logares da nossa terra. + +--'Então que novidades ha por ca pelo Cartaxo, patrão?' + +--'Novidades! Por aqui não temos senão o que vem de Lisboa.--Ahi está a +'Revolução' de hontem...' + +--'Jornaes, meu caro amigo! Vimos fartos d'isso. Diga-nos alguma coisa +da terra. Que faz por ca o...' + +--'O mestre J. P., o 'Alfageme?'' + +--'Como assim o Alfageme?' + +--'Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J. P.: pois então! Uns senhores de +Lisboa que ahi estiveram em casa do Sr. D. poseram-lhe esse nome, que a +gente bem sabe o que é; e ficou-lhe, que agora ja ninguem lhe chama +senão o Alfageme. Mas quanto a mim, ou elle não é Alfageme, ou não o +hade ser muito tempo. Não é aquelle, não. Eu bem me intendo.' + +A conversação tornava-se interessante, especialmente para mim: quizemos +profundar o caso. + +--'Muito me conta, Sr. patrão! Com que isto de ser Alfageme, parece-lhe +que é coisa de?.. + +--'Parece-me o que é, e o que hade parecer a todo o mundo. E alguma +coisa sabemos, ca no Cartaxo, do que vai por elle. O verdadeiro Alfageme +diz que era um espadeiro ou armeiro, cutileiro ou coisa que o valha, na +Ribeira de Santarem; e que foi um homem capaz, e que tinha pelo povo, e +que não queria saber de partidos, e que dizia elle: 'Rei que nos +inforque, e papa que nos excommungue, nunca hade faltar. Assim, deixar +os outros brigar, trabalhemos nós e ganhemos a nossa vida.' Mas que +extrangeiros que não queria, que ésta terra que era nossa e co'a nossa +gente se devia de governar. E mais coisas assim: e que porfim o deram +por traidor e lhe tiraram quanto tinha.--Mas que lhe valeu o Condestavel +e o não deixou arrazar, por que era homem de bem e fidalgo ás direitas. +Pois não é assim que foi?' + +--'É, sim, meu amigo. Mas então d'ahi?' + +--'Então d'ahi o que se tira, é que quando havia fidalgos como o sancto +Condestavel tambem havia Alfagemes como o de Santarem. E mais nada.' + +--'Perfeitamente. Mas porque chamaram ao mestre P. o Alfageme do +Cartaxo?' + +--'Eu lhe digo aos senhores: o homem nem era assim nem era assado. +Fallava bem, tinha sua labia com o povo. D'ahi fez-se juiz, pôs por ahi +suas coisas a direito--Deus sabe as que elle intortou tambem!.. ganhou +nome no povo, e agora faz d'elle o que quer. Se lhe der sempre para bem, +bom será.--Os senhores não tomam nada?' + +O bom do homem visivelmente não queria fallar mais: e não deviamos +importuná-lo. Fizemos o sacrificio de bom número de limões que +expremémos em profundas taças--vulgo, copos de canada--e com agua e +assucar, offerecemos as devidas libações ao genio do logar. + +Infelizmente o sacrificio não foi detodo incruento. Muitas hecatombes de +myrmidões cahiram no holocausto, e lhe deram um cheiro e sabor que não +sei se agradou á divindade, mas que injoou terrivelmente aos sacerdotes. + +Sahimos a visitar o nosso bom amigo, o velho D., a honra e a alegria do +Ribatejo. Ja elle sabía da nossa chegada, e vinha no caminho para nos +abraçar. + +Fomos dar, junctos, uma volta pela terra. + +É das povoações mais bonitas de Portugal, o Cartaxo, aceada, alegre; +parece o bairro suburbano de uma cidade. + +Não ha aqui monumentos, não ha historia antiga: a terra é nova, e a sua +prosperidade e crescimento datam de trinta ou quarenta annos, desde que +o seu vinho começou a ter fama. Ja descahida do que foi, pela estagnação +d'aquelle commercio, ainda é comtudo a melhor coisa da Borda-d'agua. + +Não tem historia antiga, disse; mas tem-n'a moderna e importantissima. + +Que memorias aqui não ficaram da guerra peninsular! Que espantosas +borracheiras aqui não tomaram os mais famosos generaes, os mais +distinctos militares da nossa _antiga e fiel_ alliada, que ainda então, +ao menos, nos bebia o vinho! + +Hoje nem isso!.. hoje bebe a jacobina zurrapa de Bordeos, e as acerbas +limonadas de Borgonha. Quem tal diria da conservativa Albion! Como póde +uma leal goella britannica, rascada pelos acidos anarchicos d'aquellas +vinagretas francezas, intoar devidamente o God-save-the-King em um +_toast_ nacional! Como, sem Porto ou Madeira, sem Lisboa, sem Cartaxo, +ousa um subdito britannico erguer a voz, n'aquella harmoniosa +desafinação insular que lhe é propria e que faz parte de seu respeitavel +character nacional--faz; não se riam: o inglez não canta senão quando +bebe... alias quando está BEBIDO. _Nisi potus ad arma ruisse._ Inverta: +_Nisi potus in cantum prorumpisse_... E pois, como hade elle assim +_bebido_ erguer a voz n'aquelle sublime e tremendo hymno popular +Rulle-Britannia! + +Bebei, bebei bem zurrapa franceza, meus amigos inglezes; bebei, bebei a +pêso de oiro, essas limonadas dos burgraves e margraves de Allemanha; +chamae-lhe, para vos illudir, chamae-lhe _hoc_, chamae-lhe _hic_, +chamae-lhe o _hic haec hoc_ todo, se vos dá gôsto... que em poucos annos +veremos o estado de _acetato_ a que hade ficar reduzido o vosso +character nacional. + +Oh gente cega a quem Deus quer perder! pois não vêdes que não sois nada +sem nós, que sem o nosso alchool, d'onde vos vinha espirito, sciencia, +valor, ides cahir infallivelmente na antiga e priguiçosa rudeza saxonia! + +D'essas traidoras praias da França donde vos vai hoje o veneno corrosivo +da vossa indole e da vossa fôrça, não tardará que tambem vos chegue +outro Guilherme bastardo que vos conquiste e vos castigue, que vos faça +arrepender, mas tarde, do criminoso êrro que hoje commetteis, ó +insulares sem fe, em abandonar a nossa alliança. A nossa alliança sim, a +nossa poderosa alliança, sem a qual não sois nada. + +O que é um inglez sem Porto ou Madeira... sem Carcavellos ou Cartaxo? + +Que se inspirasse Shakspeare com Lafitte, Milton com Chateaumargot--o +chanceller Bacon que se dilluisse no melhor Borgonha... e veriamos os +acidulos versinhos, os destemperados raciocininhos que faziam. + +Com todas as suas dietas, Newton nunca se lembrou de beber Johannisberg; +Byron antes beberia _gin_, antes agua do Thamisa, ou do Pamiso, do que +essas escorreduras das areias de Bordeos. + +Tirae-lhe o Porto aos vossos almirantes, e ninguem mais teme que torneis +a ter outro Nelson. Entra nos planos do principe de Joinville fazer-vos +beber da sua zurrapa: são tantos pontos de partido que lhe dais no seu +jôgo. + +É M. Guizot quem perde a Inglaterra com a sua alliança; e tambem perde o +Cartaxo. Por isso eu ja não quero nada com os doutrinarios. + +........................................................................... + +Ha dôze annos tornou o Cartaxo a figurar conspicuamente na historia de +Portugal. Aqui, nas longas e terriveis luctas da última guerra de +_successão_, esteve muito tempo o quartel-general do marquez de +Saldanha. + +Alguns dythirambos se fizeram; alguns echos das antigas canções +bacchicas do tempo da guerra peninsular ainda acordaram ao som dos +hymnos constitucionaes. + +Mas o systema liberal, tirada a epocha das eleições, não é grande coisa +para a indústria vinhateira, dizem. Eu não o creio porém; e tenho minhas +boas razões, que ficam para outra vez. + + + + +CAPITULO VIII. + + + Sahida do Cartaxo--A charneca. Perigo imminente em que o A. se acha + de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do imperador D. + Pedro ao exército liberal.--Batalha de + Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que não é + philosopho e chega á ponte da Asseca. + + +Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava; montámos a cavallo, e +cortámos por entre os viçosos pampanos que são a glória e a e tomado +ânimo; breve, nos achámos em plena charneca. + +Bella e vasta planicie! Desafogada dos raios do sol, como ella se +desenha ahi no horisonte tam suavemente! que delicioso aroma selvagem +que exhalam éstas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que +resistem verdes e viçosas a um sol portugez de julho! + +A doçura que mette n'alma a vista refrigerante de uma joven seara do +Ribatejo nos primeiros dias de abril, ondulando lascivamente com a brisa +temperada da primavera,--a amenidade bucolica de um campo minhoto de +milho, á hora da rega, por meados de agosto, a ver-se-lhe pullar os +caules com a agua que lhe anda por pé, e á roda as carvalheiras +classicamente desposadas com a vide cuberta de racimos pretos--são ambos +esses quadros de uma poesia tam graciosa e cheia de mimo, que nunca a +dei por bem traduzida nos melhores versos de Theocrito ou de Virgilio, +nas melhores prosas de Gesner ou de Rodrigues-Lobo. + +A majestade sombria o solemne de um bosque antigo e copado, o silencio e +escuridão de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitario de suas +clareiras, tudo é grandioso, sublime, inspirador de elevados +pensamentos. Medita-se alli por fôrça; isola-se a alma dos sentidos pelo +suave adormecimento em que elles cahem... e Deus, a eternidade--as +primitivas e innatas ideas do homem--ficam unicas no seu pensamento... + +É assim. Mas um rochedo em que me eu sente ao pôr do sol na gandra erma +e selvagem, vestida apenas de pastio bravo, baixo, e tosqueado rente da +bôcca do gado--diz-me coisas da terra e do ceo que nenhum outro +espectaculo me diz na natureza. Ha um vago, um indeciso, um vaporoso +n'aquelle quadro que não tem nenhum outro. + +Não é o sublime da montanha, nem o augusto do bosque, nem o ameno do +valle. Não ha ahi nada que se determine bem, que se possa definir +positivamente. Ha a solidão que é uma idea negativa... + +Eu amo a charneca. + +E não sou romanesco. Romantico, Deus me livre de o ser--ao menos, o que +na algaravia de hoje se intende por essa palavra. + +Ora a charneca d'entre Cartaxo e Santarem, áquella hora que a passámos, +começava a ter esse tom, e a achar-lhe eu esse incanto indefinivel. + +Sentia-me disposto a fazer versos... a quê? Não sei. + +Felizmente que não estava so; e escapei de mais essa caturrice. + +Mas foi como se os fizesse, os versos, como se os estivesse fazendo, +porque me deixei cahir n'um verdadeiro estado poetico de distracção, de +mudez--cessou-me a vida toda de _relação_, e não me sentia existir senão +por dentro. + +Derepente acordou-me do lethargo uma voz que bradou:--'Foi aqui!... aqui +é que foi, não ha dúvida'. + +--'Foi aqui o quê?' + +--'A última revista do imperador'. + +--'A última revista! Como assim a última revista! Quando? Pois?...' + +Então cahi completamente em mim, e recordei-me, com amargura e +desconsolação, dos tremendos sacrificios a que foi condemnada ésta +geração, Deus sabe para quê--Deus sabe se para expiar as faltas de +nossos passados, se para comprar a felicidade de nossos vindouros... + +O certo é que alli comeffeito passára o imperador D. Pedro a sua última +revista ao exército liberal. Foi depois da batalha d'Almoster, uma das +mais lidadas e das mais insanguentadas d'aquella triste guerra. + +Toda a guerra civil é triste. + +E é difficil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o +vencido. + +Ponham de parte questões individuaes, e examinem de boa fé: verão que, +na totalidade de cada facção em que a nação se dividiu, os ganhos, se os +houve para quem venceu, não balançam os padecimentos, os sacrificios do +passado, e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro... + +Eu não sou philosopho. Aos olhos do philosopho, a guerra civil e a +guerra extrangeira, tudo são guerras que elle condemna--e não mais uma +do que a outra... a não ser Hobbes o ditto philosopho, o que é coisa +muito differente. + +Mas não sou philosopho, eu: estive no campo de Waterloo, sentei-me aopé +do Leão de bronze sôbre aquelle monte de terra amassado com o sangue de +tantos mil, vi--e eram passados vinte annos--vi luzir ainda pela campina +os ossos brancos das victimas que alli se immolaram a não sei quê... Os +povos disseram que á liberdade, os reis que á realeza... Nenhuma d'ellas +ganhou muito, nem para muito tempo com a tal victoria... + +Mas deixemos isso. Estive alli, e senti bater-me o coração com essas +recordações, com essas memorias dos grandes feitos e gentilezas que alli +se obraram. + +Porque será que aqui não sinto senão tristeza? + +Porque luctas fratricidas não podem inspirar outro sentimento e +porque... + +Eu moía comigo so éstas amargas reflexões, e toda a belleza da charneca +desappareceu deante de mim. + +N'esta desagradavel disposição de ânimo chegámos á ponte d'Asseca. + + + + +CAPITULO IX. + + + Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam, + apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do + capitulo antecedente.--Livros que não deviam ter titulo, e titulos + que não deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo. Bonaparte, + Rotchild e Silvio-Péllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexões e á + ponte da Asseca.--Traducção portugueza de um grande poeta.--Origem + de um dictado.--Junot na ponte da Asseca.--De como o A. d'este + livro foi jacobino desde pequeno.--Inguiço que lhe deram.--A + duqueza de Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem. + + +Vivia aqui ha coisa de cinquenta para sessenta annos, n'esta boa terra +de Portugal, um figurão exquisitissimo que tinha inquestionavelmente o +instincto de descobrir assumptos dramaticos nacionaes--ainda, ás vezes, +a arte de desenhar bem o seu quadro, de lhe grupar, não sem mérito, as +figuras: mas ao pô-las em acção, ao collori-las, ao fazê-las fallar... +boas noites! era semsaboria irremediavel. + +Deixou uma collecção immensa de peças de theatro que ninguem conhece, ou +quasi ninguem, e que nenhuma soffreria, talvez, representação; mas rara +é a que não poderia ser arranjada e appropriada á scena. + +Que mina tam ricca e fertil para qualquer mediano talento dramatico! Que +bellas e portuguezas coisas se não podem extrahir dos treze volumes--são +treze volumes e grandes!--do theatro de Ennio-Manuel de Figueiredo! +Algumas d'essas peças, com bem pouco trabalho, com um dialogo mais vivo, +um stylo mais animado, fariam comedias excelentes. + +Estão-me a lembrar éstas: + +'O Casamento da Cadea'--ou talvez se chame outra coisa, mas o assumpto é +este; comedia cujos characteres são habilmente esboçados, funda-se +n'aquella nossa antiga lei que fazia casar da prisão os que assim se +suppunha podêrem reparar certos damnos de reputação feminina. + +'O fidalgo de sua casa', satyra mui graciosa de um tam commum ridiculo +nosso. + +'As duas educações', bello quadro de costumes: são dois rapazes, ambos +extrangeiramente educados, um francez, outro inglez, nenhum portuguez. É +eminentemente comico, frisante, ou, segundo agora se diz á moda, +'palpitante de actualidade.' + +'O cioso', comedia ja remoçada da antiga comedia de Ferreira e que em si +tem os germens todos da mais ricca e original composição. + +'O avaro dissipador', cujo so titulo mostra o ingenho e invenção de quem +tal assumpto concebeu: assumpto ainda não tractado por nenhum de tantos +escriptores dramaticos de nação alguma, e que é todavia um vulgar +ridiculo, todos os dias incontrado no mundo. + +São muitas mais, não fica n'estas, as composições do fertilissimo +escriptor que, passadas pelo crivo de melhor gôsto, e animadas sôbretudo +no stylo, fariam um razoavel repertorio para acudir á mingua dos nossos +theatros. + +Uma das mais semsabores porêm, a que vulgarmente se haverá talvez pela +mais semsabor, mas que a mim mais me diverte pela ingenuidade familiar e +sympathica de seu tom magoado e melancholicamento chocho, é a que tem +por titulo 'Poeta em annos de prosa'. + +E foi por ésta, foi por amor d'esta que me eu deixei descahir na +digressão dramatico-litteraria do princípio d'este capitulo; pegou-se-me +á penna porque se me tinha pregado na cabeça; e ou o capitulo não sabia, +ou ella havia de sahir primeiro. + +Poeta em annos de prosa! Oh Figueiredo, Figueiredo, que grande homem não +foste tu, pois imaginaste este titulo que so elle em si é um volume! Ha +livros, e conheço muitos, que não deviam ter titulo, nem o titulo é nada +n'elles. + +Faz favor de me dizer o de que serve, o que significa o 'Judeu errante' +pôsto no frontispicio d'esse interminavel e mercatorio romance que ahi +anda pelo mundo, mais errante, mais sem fim, mais immorredoiro que o seu +prototypo? + +E ha titulos tambem que não deviam ter livro, porque nenhum livro é +possivel escrever que os desimpenhe como elles merecem. + +'Poeta em annos de prosa' é um d'esses. + +Eu não leio nenhuma das raras coisas que hoje se escrevem +verdadeiramente bellas, isto é, simples, verdadeiras, e por consequencia +sublimes, que não exclame com sincero pesadume ca de dentro: 'Poeta em +annos de prosa!' + +Pois este é seculo para poetas? ou temos nós poetas para este seculo?.. + +Temos sim, eu conheço tres: Bonaparte, Silvio-Péllico e o barão de +Rotchild. + +O primeiro fez a sua Iliada com a espada, o segundo com a paciencia, o +último com o dinheiro. + +São os tres agentes, as tres entidades, as tres divindades da epocha. + +Ou cortar com Bonaparte, ou comprar com Rotchild, ou soffrer e ter +paciencia com Silvio-Péllico. + +Todo o que fizer d'outra poesia--e d'outra prosa tambem--é tolo... + +Vieram-me éstas mui judiciosas reflexões a proposito do capitulo +antecedente d'esta minha obra prima; e lancei-as aqui para instrucção e +edificação do leitor benevolo. + +Acabei com ellas quando chegámos á ponte da Asseca. + +Esquecia-me dizer que d'aquelles tres grandes poetas so um está +traduzido em portuguez--o Rotchild: não é litteral a traducção, +agallegou-se e ficou muito suja de erros de imprensa mas como não ha +outra... + +Ora d'onde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver +sitio, logar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e d'ahi talvez o +admiravel rifão portuguez que ainda não foi bem examinado como devia +ser, e que decerto incerra algum grande dictame de moral primitiva: +'andou por Secca (Asseca?) e Meca e olivaes de Santarem.'--Os taes +olivaes ficam logo adiante. É uma ethymologia como qualquer outra. + +A ponte da Asseca corta uma varzea immensa que hade ser um vasto pahul +de hynverno: ainda agora está a desangrar-se em agua por toda a parte. + +É notavel na historia moderna este sítio. Aqui n'um recontro com os +nossos, foi Junot gravemente ferido, ferido na cara. _'Il ne sera plus +beau garçon'_ disse o parlamentario francez que veio, depois da acção, +tractar, creio eu, de troca de prisioneiros ou de coisa similhante. Mas +inganou-se o parlamentario; Junot ainda ficou muito guapo e gentil homem +depois d'isso. + +Tenho pena de nunca ter visto o Junot nem o Maneta,[1] as duas primeiras +notabilidades que ouvi aclamar como taes e cujos nomes conhecí... +Ingano-me: conheci primeiro o nome de Bonaparte. E lembra-me muito bem +que nunca me persuadi que elle fossa o monstro disforme e horroroso que +nos pintavam frades e velhas n'aquelle tempo. Imaginei sempre que, para +excitar tantos odios e malquerenças, era necessario que fosse um bem +grande homem. + +Desde pequeno que fui jacobino; ja se ve: e de pequeno me custou caro. +Levei bons puchões de orelhas de meu pae por comprar na feira de +San'Lazaro, no Porto, em vez das gaitinhas ou dos registos de sanctos, +ou das outras bogigangas que os mais rapazes compravam... não imaginam o +quê... um retrato de Bonaparte. + +Foi 'inguiço'--diria uma senhora do meu conhecimento que accredita +n'elles: foi inguiço que aínda se não desfez e que toda a vida me tem +perseguido. + +Quem me diria quando, por esse primeiro peccado politico da minha +infancia, por esse primeiro tractamento duro, e--perdoe-me a respeitada +memoria de meu sancto pae!--injustissimo, que me trouxe o mero instincto +das ideas liberaes, quem me diria que eu havia de ser perseguido por +ellas toda a vida! que apenas sahido da puberdade havia de ir a essa +mesma França, á patria d'esses homens e d'essas ideas com quem a minha +natureza sympathysava sem saber porquê, buscar asylo e guarida? + +Não vi ja quasi nenhum d'aquelles que tanto desejára conhecer; as ruinas +do grande imperio estavam dispersas; os seus generaes mortos, +desterrados, ou trajavam interesseiros e covardes as librés do +vencedor... + +De todas as grandes figuras d'essa epocha, a que melhor conheci e +tractei foi uma senhora, typo de graça, de amabilidade e de talento. +Pouco foi o nosso tracto, mas quanto bastou para me incantar, para me +formar no espirito um modêllo de valor e merecimento feminino que me +veio a fazer muito mal. + +Custa depois a encher aquella altura que se marcou... + +Eis aqui como eu fiz esse conhecimento. + +Inda o estou vendo, coitado! o pobre C. do S., nobre, espirituoso, +cavalheiro, fazendo-se perdoar todos os seus prejuizos de casta, que +tinha como ninguem, por aquella polidez superior e affabilidade elegante +que distingue o verdadeiro fidalgo (stylo antigo); inda o estou vendo, +ja sexagenario, ja mais que 'ci-devant jeun'homme', o pescoço intallado +na inflexivel gravata, os pés pegando-se-lhe, como os de Ovidio, ao +limiar da porta--não que lh'os prendessem saudades, senão que lh'os +paralysava a cakexia incipiente--mas o espirito joven a reagir e a +teimar. + +--'Vamos!' disse elle 'hoje estou bom, sinto-me outro: quero +apresentá-lo a madame de Abrantes. Está tam velha! Isto de mulheres não +são como nós, passam muito depressa.' + +E o desgraçado tremiam-lhe as pernas, e suffocava-o a tosse. + +Tomámos uma 'citadine', e fomos comeffeito á nova e elegante rua chamada +não impropriamente a rua de Londres, onde achámos rodeada de todo o +esplendor do seu occaso aquella formosa estrella do imperio. + +Não quero dizer que era uma belleza; longe d'isso. Nem bella nem môça, +nem airosa de faser impressão era a duqueza d'Abrantes. Mas em meia hora +de conversação, de tracto, descubriam-se-lhe tantas graças, tanto +natural, tanta amabilidade, um complexo tam verdadeiro e perfeito da +mulher franceza, a mulher mais seductora do mundo, que involuntariamente +se dizia a gente no seu coração: 'Como se está bem aqui!' + +Fallámos de Portugal, de Lisboa, do imperio--da restauração, da +revolução de julho (isto era em 1831), de M. de Lafayette, de +Luiz-Philippe, de Chateaubriand--o seu grande amigo d'ella--do +_Sacré-Coeur_ e das suas elegantes devotas--fallámos artes, poesia, +politica... e eu não tinha ânimo para acabar de conversar... + +Benevolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é consciencia, +um resto de consciencia: acabemos com éstas digressões e perennaes +divagações minhas. Bem vejo que te deixei parado á minha espera no meio +da ponte d'Asseca. Perdoa-me por quem es, dêmos d'espora ás mulinhas, e +vamos que são horas. + +Ca estâmos n'um dos mais lindos e deliciosos sitios da terra: o valle de +Santarem, patria dos rouxinoes e das madresilvas, cincta de faias bellas +e de loureiros viçosos. D'isto é que não tem París, nem França nem terra +alguma do occidente senão a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas +coisas que nos faltam. + + + + +CAPITULO X. + + + Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por entre + umas árvores.--Conjecturas várias a respeito da ditta + janella.--Similhança do poeta com a mulher namorada, e + inquestionavel inferioridade do homem que não é poeta.--Os + rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro e das suas + saudades.--De como o A. tinha quasi completo o seu romance, menos + um vestido branco e uns olhos pretos.--Sahem verdes os olhos com + grande admiração e pasmo seu.--Verificam-se as conjecturas sôbre a + mysteriosa janella.--A menina dos rouxinoes.--Censura das damas + muito para temer, crítica dos elegantes muito para rir.--Começa o + primeiro episodio d'esta Odyssea. + + +O valle de Santarem é um d'estes logares privilegiados pela natureza, +sitios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo +está n'uma harmonia suavissima e perfeita: não ha alli nada grandioso +nem sublime, mas ha uma como symetria de côres, de sons, de disposição +em tudo quanto se ve e se sente, que não parece senão que a paz, a +saude, o socêgo do espirito e o repouso do coração devem viver alli, +reinar alli um reinado de amor e benevolencia. As paixões más, os +pensamentos mesquinhos, os pezares e as villezas da vida não podem senão +fugir para longe. Imagina-se por aqui o Eden que o primeiro homem +habitou com a sua innocencia e com a virgindade do seu coração. + +Á esquerda do valle, e abrigado do norte pela montanha que alli se corta +quasi a pique, está um masisso de verdura do mais bello viço e +variedade. A faia, o freixo, o alamo enterlaçam os ramos amigos; a +madresilva, a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas e festões; +a congossa, os fettos, a malva-rosa do vallado vestem e alcatifam o +chão. + +Para mais realçar a belleza do quadro, ve-se por entre um claro das +árvores a janella meia aberta de uma habitação antiga mas não +dilapidada--com certo ar de confôrto grosseiro, e carregada na côr pelo +tempo e pelos vendavais do sul a que está exposta. A janella é larga e +baixa; parece mais ornada e tambem mais antiga que o resto do edificio +que todavia mal se ve... + +Interessou-me aquella janella. + +Quem terá o bom gôsto e a fortuna de morar alli? + +Parei e puz-me a namorar a janella. + +Incantava-me, tinha-me alli como n'um feitiço. + +Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por de traz... +Imaginarão decerto! Se o vulto fosse feminino!.. era completo o romance. + +Como hade ser bello ver pôr o sol d'aquella janella!.. + +E ouvir cantar os rouxinoes!.. + +E ver raiar uma alvorada de maio!.. + +Se haverá alli quem a aproveite, a deliciosa janella?.. quem apprecie e +saiba gosar todo o prazer tranquillo, todos os sanctos gosos de alma que +parece que lhe andam esvoaçando em tôrno? + +Se fôr homem é poeta; se é mulher está namorada. + +São os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher +namorada: vêem, sentem, pensam, fallam como a outra gente não ve, não +sente, não pensa nem falla. + +Na maior paixão, no mais acrysolado affecto do homem que não é poeta, +entra sempre o seu tanto da vil prosa humana: é liga sem que se não +lavra o mais fino de seu oiro. A mulher não; a mulher apaixonada devéras +sublima-se, idealiza-se logo, toda ella é poesia; e não ha dor physica, +interêsse material, nem deleites sensuaes que a façam descer ao positivo +da existencia prosaica. + +Estava eu n'estas meditações, começou um rouxinol a mais linda e +desgarrada cantiga que ha muito tempo me lembra de ouvir. + +Era aope da ditta janella! + +E respondeu-lhe logo outro do lado opposto; e travou-se entre ambos um +desafio tam regular, em strophes alternadas tam bem medidas, tam +accentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro do meu romance, +esqueci-me de tudo o mais. + +Lembrou-me o rouxinol de Bernardim-Ribeiro, o que se deixou cahir n'agua +de cançado. + +O arvoredo, a janella, os rouxinoes... áquella hora, o fim da tarde... +que faltava para completar o romance? + +Um vulto feminino que viesse sentar-se áquele balcão--vestido de +branco--oh! branco por fôrça... a frente descahida sôbre a mão esquerda, +o braço direito pendente, os olhos alçados ao ceo... De que côr os +olhos? Não sei, que importa! é amiudar muito demais a pintura, que deve +ser a grandes e largos traços para ser romantica, vaporosa, desenhar-se +no vago da idealidade poetica... + +--'Os olhos, os olhos...' disse eu pensando ja alto, e todo no meu +extasi, 'os olhos... pretos.' + +--'Pois eram verdes!' + +--'Verdes os olhos... d'ella, do vulto da janella?' + +--'Verdes como duas esmeraldas orientaes, transparentes, brilhantes, sem +preço.' + +--'Quê! pois realmente?.. É gracejo isso, ou realmente ha alli uma +mulher, bonita, e?..' + +--'Alli não ha ninguem--ninguem que se nomeie hoje, mas houve... oh! +houve um anjo, um anjo, que deve de estar no ceo.' + +<tb> + +--'Bem dizia eu que aquella janella...' + +--'É a janella dos rouxinoes.' + +--'Que lá estão a cantar.' + +--'Estão, esses lá estão ainda como ha dez annos--os mesmos ou outros, +mas a _menina dos rouxinoes_ foi-se e não voltou.' + +--'A menina dos rouxinoes! que historia é essa? Pois devéras tem uma +historia aquella janella?' + +--'É um romance todo inteiro, _todo feito_ como dizem os francezes e +conta-se em duas palavras.' + +--'Vamos a elle. A menina dos rouxinoes, menina com olhos verdes! Deve +ser interessantissimo. Vamos á historia ja.' + +--'Pois vamos. Apeemo'-nos e descancemos um bocado.' + +Ja se ve que este dialogo passava entre mim e outro dos nossos +companheiros de viagem. + +Apeámo'-nos comeffeito; sentamo'-nos; e eisaqui a historia da _menina +dos rouxinoes_ como ella se contou. + +É o primeiro episodio da minha Odyssea: estou com medo de entrar n'elle +porque dizem as damas e os elegantes da nossa terra que o portuguez não +é bom para isto, que em francez que ha outro não-sei-quê... + +Eu creio que as damas que estão mal informadas, e sei que os elegantes +que são uns tolos; mas sempre tenho meu receio, porque emfim, enfim, +d'elles me rio eu, mas poesia ou romance, musica ou drama de que as +mulheres não gostem, é porque não presta. + +Ainda assim, bellas e amaveis leitoras, intendamo'nos: o que eu vou +contar não é um romance, não tem aventuras inredadas, peripecias, +situações e incidentes raros; é uma historia simples e singella, +sinceramente contada e sem pretenção. + +Acabemos aqui o capitulo em fórma de prologo, e a materia do meu conto +para o seguinte. + + + + +CAPITULO XI. + + + Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos + quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas + sim.--Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.--O A., tendo declarado + no capitulo nono d'esta obra que não era philosopho, agora + confessa, quasi solemnemente, que é poeta, e pretende manter-se, + como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha + menos juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella + o A. o seu admiravel systema de physiologia e pathologia + transcendente do coração. Por uma deducção appertada e cerrada da + mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi + concedido aos poetas o direito indefinido de andarem sempre + namorados.--Applicam-se todas éstas grandes theorias á posição + actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no + capitulo antecedente.--Modestia e reserva delicada o obrigam a + duvidar da sua qualificação para o desimpenho: pede votos ás + amaveis leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e + porquê.--Dido e a mana Annica.--Entra-se emfim na prometida + historia.--De como a velha estava á porta a dobar, e + imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por Joaninha, sua neta. + + +Este é o unico privilegio dos poetas: que até morrer podem estar +namorados. Tambem não lhes conheço outro. A mais gente tem as suas +epochas na vida, fóra das quaes lhes não é permittido apaixonarem-se. +Pretenderam accolher-se ao mesmo beneficio os philosophos, mas não lhes +foi consentido pela rainha Opinião, que é soberana absoluta e juiz +supremo de que se não appella nem aggrava ninguem. + +Anacreonte cantou, de cabellos brancos, os seus amores, e não se +extranhou. Aristoteles mal teria a barba russa quando foi d'aquelle seu +último namôro porque ainda hoje lhe apouquentam a fama. + +Ora eu philosopho, seguramente não sou, ja o disse; de poeta tenho o meu +pouco, padeci, a fallar a verdade, meus ataques assás agudos d'essa +molestia, e bem podéra desculpar-me com elles de certas fragilidades de +coração... Mas não senhor, não quero desculpar-me como quem tem culpa +senão defender-me como quem tem razão e justiça por si. + +Estou, com o meu amigo Yorick, o ajuizadissimo bobo d'elrei de +Dinamarca, o que alguns annos depois ressuscitou em Sterne com tam +elegante penna, estou sim. 'Toda a minha vida' diz elle 'tenho andado +apaixonado ja por esta ja por aquella princeza, e assim heide ir, +espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma +acção baixa, mesquinha, nunca hade ser senão no intervallo de uma paixão +á outra: n'esses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o +sentimento, não acho dez reis que dar a um pobre... por isso fujo ás +carreiras de similhante estado; e mal me sinto acceso de novo, sou todo +generosidade e benevolencia outra vez.' + +Yorick tem rasão, tinha muito mais razão e juizo que seu augusto amo, +elrei de Dinamarca. Por pouco mais que se generalize o principio, fica +indisputavel, inexcepcionavel para sempre e para tudo. O coração humano +é como o estomago humano, não pode estar vazio, preciza de alimento +sempre: são e generoso so as affeições lh'o podem dar; o odio, a inveja +e toda a outra paixão má é estímulo que so irrita mas não sustenta. Se a +razão e a moral nos mandam abster d'estas paixões, se as chymeras +philosophicas, ou outras, nos vedarem aquellas, que alimento dareis ao +coração, que hade elle fazer? Gastar-se sôbre si mesmo, consummir-se... +Altera-se a vida, appressa-se a dissolução moral da existencia, a saude +d'alma é impossivel. + +O que póde viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada. + +Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua +mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal, +e Deus me livre d'elle. + +Sôbretudo que não escreva: hade ser um massador terrivel. Talvez seja +este o motivo da indefinida permissão que é dada aos poetas de andarem +namorados sempre. + +O romancista gosa do mesmo fôro e tem as mesmas obrigações. É como o +privilegio de desimbargador que tiravam d'antes os fidalgos, quando ser +desimbargador valia alguma coisa... e tanta coisa! + +Como heide eu então, eu que n'esta grave Odyssea das minhas viagens +tenho de inserir o mais interessante e mysterioso episodio d'amor que +ainda foi contado ou cantado, como heide eu fazê-lo, eu que ja não tenho +que amar n'este mundo senão uma saudade e uma esperança--um filho no +berço e uma mulher na cova?.. + +Será isto bastante? Dizei-o vós, ó benevolas leitoras, póde com isto so +alimentar-se a vida do coração? + +--Póde sim. + +--Não póde, não. + +--Estão divididos os suffragios: peço votação. + +--Nominal? + +--Não, não. + +--Porquê? + +--Porque ha muita coisa que a gente pensa, e crê e diz assim a +conversar, mas que não ousa confessar publicamente, professar aberta e +nomeadamente no mundo... + +Ah! sim... elle é isso? Bem as intendo, minhas senhoras: reservemos +sempre uma sahida para os casos difficeis, para as circumstancias +extraordinarias. Não é assim? + +Pois o mesmo farei eu. + +E pôsto que hoje, faz hoje um mez, em tal dia como hoje, dia para sempre +assignalado na minha vida, me apparecesse uma visão, uma visão celeste +que me surpreendeu a alma por um modo novo e extranho, e do qual não +podia dizer decerto como a rainha Dido á mana Annica: + + Reconheço o queimar da chamma antiga, + Agnosco veteris vestigia flammae; + +pôsto que a visão passou e desappareceu... mas deixou gravada n'alma a +certeza de que... Pôsto que seja assim tudo isto, a confidencia não +passará d'aqui, minhas senhoras: tanto basta para se saber que estou +sufficientemente habilitado para chronista da minha historia, e a minha +historia é ésta. + +Era no anno de 1832, uma tarde de verão como hoje calmosa, sêcca, mas o +ceo puro e desabafado. Á porta d'essa casa entre o arvoredo, estaca +sentada uma velhinha bem passante dos settenta, mas que o não mostrava. +Vestia uma especie de tunica rosa que apertava na cintura com um largo +cinto de coiro preto, e que fazia resahir a alvura da cara e das mãos +longas, descarnadas, mas não ossudas como usam de ser mãos de velhas; +toucava-se com um lenço da mais escrupulosa brancura, e pôsto de um +geito particular a modo de toalha de freira; um mandil da mesma +brancura, que tinha no peito e que affectava, não menos, a fórma de um +escapulario de monja, completava o extranho vestuario da velha. Estava +sentada n'uma cadeira baixa do mais classico feitio: textualmente +parecia a que serviu de modêllo a Raphael para o seu bello quadro da +_Madonna della Sedia_. + +Como nota historica e illustração artistica, seja-me permittido juntar +aqui em parenthesis que, não ha muito, vi em casa de um sapateiro +remendão, em Lisboa, no Bairro-alto, um cadeira tal e qual; torneados +pyramidaes, simples, sem nobreza, mas elegantes. + +Tornemos á velhinha. + +Estava ella alli sentada na ditta cadeira, e deante de si tinha uma +dobadoira, que se movia regularmente com o tirar do fio que lhe vinha +ter ás mãos a inrollar-se no ja crescido novello. + +Era o unico signal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso, +velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma graciosa sculptura de +Antonio Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros do morgado de +Setubal. + +O movimento bem visivel da dobadoira era regular, e respondía ao +movimento quasi imperceptivel das mãos da velha. Era regular o +movimento, mas durava um minuto e parava, depois ia seguido outros dous, +tres minutos, tornava a parar: e n'esta regularidade de intermitencias +se ia alternando como o pulso de um que treme sesões. + +Mas o velha não tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o parar +do seu lavor era porque o trabalho interior do espirito dobrava, de vez +em quando, de intensidade, e lhe suspendia todo o movimento externo. Mas +a suspensão era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira +tornava a andar. + +Os olhos da velha é que tinham uma expressão singular: voltada para o +poente, não os tirou d'essa direcção nem os inclinava de modo algum para +a dobadoira que lhe ficava um pouco mais á esquerda. Não pestanejavam, e +o azul de suas pupillas, que devia de ter sido brilhante como o das +saphyras, parecia desbotado e sem lume. + +O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou +tranquillamente as mãos e o novello no regaço, e chamou para dentro da +casa: + +--'Joanninha?' + +Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas vozes que se ouvem rara vez, +que retinem dentro d'alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de +dentro: + +--'Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.' + +--'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando +podéres. É a meada que se me imbaraçou.' + +A velha era cega, cega de gotta-serena, e paciente, resignada como a +providencia misericordiosa de Deus permitte quasi sempre que sejam os +que n'este mundo destinou á dura provança de tam desconsolado martyrio. + + + + +CAPITULO XII. + + + De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais que + aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha.--Dá o A. insigne + próva de ingenuidade e boa fe confessando um grave senão do seu + Ideal. Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece + uma mulher desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas + monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos + peralvilhos.--Os olhos verdes de Joanninha.--Religião dos olhos + pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha á + vista de uns olhos verdes.--De como estando a avó e a neta a + conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a + conversação.--Quem era Frei Diniz. + + +--'Aqui estou, minha avó: é a sua meada?.. eu lh'a indireito:'--disse +Joanninha sahindo de dentro, e com os braços abertos para a velha. +Apertou-a n'elles com innefavel ternura, beijou-a muitas vezes, e +tomando-lhe o novello das mãos n'um instante desimbaraçou o fio e lh'o +tornou a intregar. + +A velha surria com aquelle surriso satisfeito que exprime os tranquillos +gosos de alma, e que parecia dizer: 'Como eu sou feliz ainda, apezar de +velha e de cega! Bemdito sejais, meu Deus.' + +Ésta última phrase, ésta bençam de um coração agradecido, que spira +suavemente para o ceo como sobe do altar o fummo do incenso consagrado, +ésta última phrase trasbordou-lhe e sahiu articulada dos labios: + +--'Bemditto seja Deus' minha filha, minha Joanninha, minha querida neta! +E Elle te abençoe tambem, filha!' + +--'Sabe que mais, minha avó? Basta de trabalhar hoje, são horas de +merendar'. + +--'Pois merendemos'. + +Joannninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cubriu-a +com uma toalha alvissima, pôs em cima fructa, pão, queijo, vinho, +chegou-a para aopé da velha, tirou-lhe o novello da mão, e arredou a +dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe +escolheu e pôs nas mãos, bebeu um trago de vinho, e ficou callada e +quieta, mas ja sem a mesma expressão de felicidade e contentamento +socegado que ainda agora lhe luzia no rosto. + +As animadas feições de Joanninha reflectiam sympathicamente a mesma +alteração. + +Joanninha não era bella, talvez nem galante siquer no sentido popular e +expressivo que a palavra tem em portuguez, mas era o typo da gentileza, +o ideal da spiritualidade. N'aquelle rosto, n'aquelle corpo de dezeseis +annos, havia por dom natural e por uma admiravel symetria de proporções +toda a elegancia nobre, todo o desimbaraço modesto, toda a flexibilidade +graciosa que a arte, o uso e a conversação da côrte e da mais escolhida +companhia vêem a dar a algumas raras e privilegiadas creaturas no mundo. + +Mas n'esta foi a natureza que fez tudo, ou quasi tudo, e a educação nada +ou quasi nada. + +Poucas mulheres são muito mais baixas, e ella parecia alta: tam +delicada, tam _elancée_ era a fórma airosa de seu corpo. + +E não era o garbo teso e aprumado da perpendicular _miss_ ingleza que +parece fundida de uma so peça; não, mas flexivel e ondulante como a +hástea joven da árvore que é direita mas dobradiça, forte da vida de +toda a seiva com que nasceu, e tenra que a estalla qualquer vento forte. + +Era branca, mas não d'esse branco importuno das loiras, nem do branco +terso, duro, marmoreo das ruivas--sim d'aquella modesta alvura da cera +que se illumina de um pallido reflexo de rosa de Bengalla. + +E d'outras rosas, d'estas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de +um sangue que passa livre pelo coração e corre á sua vontade por +artérias em que os nervos não dominam, d'essas não as havia n'aquelle +rosto: rosto sereno como é sereno o mar em dia de calma, porque dorme o +vento... Alli dormiam as paixões. + +Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para +increspar a superficie espelhada do mar. + +Sussurre o mais ingenuo e suave movimento d'alma no primeiro acordar das +paixões, e verão como se sobresaltam os musculos agora tam quietos +d'aquella face tranquilla. + +O nariz ligeiramente aquilino: a bôcca pequena e delgada não cortejava +nem desdenhava o surriso, mas a sua expressão natural e habitual era uma +gravidade singela que não tinha a menor aspereza nem doutorice. + +Ha umas certas boquinhas gravesinhas e espremidinhas pela doutorice que +são a mais abhorrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permitte +fazer ás suas creaturas femeas. + +Em perfeita harmonia de côr, de fórma e de tom com a fina gentileza +d'estas feições, os cabellos de um castanho tam escuro que tocava em +preto, cahiam de um lado e outro da face, em tres longos, deseguaes e +mal inrolados canudos, cuja ondada spiral se ia relaxando e diminuindo +para a extremidade, até lhe tocarem no collo quasi lisos. + +Em stylo de arte--no stylo da primeira e da mais bella das bellas artes, +a _toilete_--este é um defeito; bem sei. + +Que votos, que novenas se não fazem a San'Barometro nas vésperas de um +baile para lhe pedir uma atmosphera sêcca e benigna que deixe conservar, +até á quarta contradança ao menos, a preciosa obra de carrapito e ferro +quente, de macassar e mandolina que tanto trabalho e tanto tempo, tantos +sustos e cuidados custou! + +Bem sei pois que é defeito, é, será... mas que adoravel defeito! Que +deliciosas imagens que excita de abandôno--passe o gallicismo--de +confiança, de absoluta e generosa renúncia a todo o caprixo, de perfeita +e completa abdicação de toda a vontade propria! + +Em geral, as mulheres parecem ter no cabello a mesma fé que tinha +Sansão: o que n'elle se ia em lh'os cortando, cuidam ellas que se lhes +vai em lh'os desannellando? Talvez; e eu não estou longe de o crer: +canudo inflexivel, mulher inflexivel. + +Os peralvilhos negam a existencia do tal canudo _in rerum natura_, dizem +que é como a ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego. Eu +não digo tal, porque tenho visto descuidar-se a natureza em pasmosas +monstruosidades. + +Emfim suspendâmos, sem o terminar, o exame d'esta profunda e +interessante questão. Fica addiada para um capitulo _ad hoc_, e voltemos +á minha Joanninha. + +Cahiam d'um lado e de outro da sua face gentil aquelles graciosos +anneis; e o resto do cabello, que era muito, ia intrançar-se, e +inrolar-se com singela elegancia abaixo da coroa de uma cabeça pequena, +estreita e do mais perfeito modêlo. + +As sobrancelhas, quasi pretas tambem, desenhavam-se n'uma curva de +extrema pureza; a as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura +da face. + +Os olhos porêm--singular capricho da naturesa, que no meio de toda esta +harmonia quiz lançar uma nota de admiravel discordancia! Como poderoso e +ousado _maestro_ que, no meio das pbrases mais classicas e deduzidas da +sua composição, atira derepente com um som agudo e stridulo que ninguem +espera e que parece lançar a anarchia no meio do rythmo musical... os +dillettantes arripiam-se, os professores benzem-se; mas aquelles cujos +ouvidos lhes levam ao coração a musica, e não á cabeça, esses estremecem +de admiração e enthusiasmo... Os olhos de Joanninha eram verdes... não +d'aquelle verde descorado e traidor da raça felina, não d'aquelle verde +mau e destingido que não é senão azul imperfeito, não; eram +verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido +quilate. + +São os mais raros e os mais fascinantes olhos que ha. + +Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que n'ella nasci e n'ella +espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a +heretica pravidade do ôlho azul, soffri o que é muito bem feito que +soffra todo o renegado... eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca, +nos meus principios, sinceramente persuadido que fóra d'elles não ha +salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma unica vez que vi dos taes +olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu +catholicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha +fé vacillante na contemplação das eternas verdades, que so e unicamente +se incontram aonde está toda a fé e toda a crença... n'uns olhos sincera +e lealmente pretos. + +Joanninha porêm tinha os olhos verdes; e o effeito d'esta rara feição +n'aquella physionomia á primeira vista tam discordante--era em verdade +pasmosa. Primeiro fascinava, halucinava, depois fazia uma sensação +inexplicavel e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo: porfim +pouco o pouco, estabelecia-se a corrente magnetica tam poderosa, tam +carregada, tam incapaz de solução-de-continuidade, que toda a lembrança +de outra coisa desapparecia, e toda a intelligencia e toda a vontade +eram absorvidas. + +Resta so accrescentar--e fica o retrato completo, um simples vestido +azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas +traçadas em cothurno. O pé breve e estreito; o que se adivinhava da +perna admiravel. + +Tal era a ideal e espiritualissima figura que em pé, incostada á banca +onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle rosto +macerado e apagado, a indicivel expressão de tristeza que elle pouco a +pouco ía tomando e que toda se reflectia, como disse, no semblante da +contempladora. + +A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esfôrço para se +distrahir de pensamentos que a affligiam, buscou incertamente com as +mãos o novêllo da sua meada: + +--'O meu novêllo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.' + +--'Conversemos, avó.' + +--'Pois conversemos; mas dá-me o meu novêllo. Não sei o que é, mas +quando não trabalho eu, trabalha não sei o que em mim que me cansa ainda +mais. Bem dizem que a ociosidade é o peior lavor.' + +Joanninha deu-lhe o novêllo e pôs-lhe a dobadoira a geito. + +A velha sentiu o que quer que fosse na mão, levou-a á bôcca e pareceu +beija-la, depois disse: + +--'Bem vi, Joanninha!' + +--'O quê, minha avó? que viu?' + +--'Vi, filha, vi.., sem ser com os olhos que Deus me cerrou para +sempre--louvado seja Elle por tudo!--vi, sentindo, ésta lagryma tua que +me cahiu na mão, e que ja ca está no peito por que a bebi, Joanna. Oh +filha, ja! é muito cedo para começar, deixa isso para mim que estou +costumada: mas tu, tu com deseseis annos e nenhum desgôsto!' + +--'Nenhum, avó! E estamos sosinhas nós duas n'este mundo, minha avó +n'esse estado, eu n'esta edade, e...' + +--'E Deus no ceu para tomar conta em nós... Mas que é? olha, Joanna: eu +sinto passos na estrada vê o que é.' + +--'Não vejo ninguem.' + +--'Mas oiço eu... Espera... é Fr. Diniz; conheço-lhe os passos.' + +Mal a velha acabava de pronunciar este nome, surdiu, de traz de umas +oliveiras que ficam na volta da estrada, da banda de Santarem, a figura +sêcca, alta e um tanto curvada de um religioso franciscano que abordoado +em seu pau tosco, arrastando as suas sandalias amarellas e tremendo-lhe +na cabeça o seu chapeo alvadio, vinha em direcção para ellas. + +Era Fr. Diniz comeffeito, o austero guardião de San'Francisco de +Santarem. + + + + +CAPITULO XIII. + + + Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado, socialmente e + artisticamente.--Próva-se que é muito mais poetico o frade do que o + barão.--Outra vez D. Quixote e Sancho-Pansa.--Do que seja o barão, + sua classificação e descripção linneana.--Historia do castello do + Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os + jesuitas não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu + errante'--De como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso + seculo ao frade.--De como o barão ficou em logar do frade, e do + muito que n'isso perdémos.--Unica voz que se ouve no actual deserto + da sociedade: os barões a gritar contos de reis.--Como se contam e + como se pagam os taes contos.--Predilecção artistica do A. pelo + frade: confessa-se e explica-se ésta predilecção. + + +Frades... frades... Eu não gósto de frades. Como nós os vimos ainda os +d'este seculo, como nós os intendêmos hoje, não gósto d'elles, não os +quero para nada, moral e socialmente fallando. + +No ponto de vista artistico porêm o frade faz muita falta. + +Nas cidades, aquellas figuras graves e sérias com os seus habitos +tallares, quasi todos picturescos e alguns elegantes, atravessando as +multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de +alcatruz que distinguem a peralvilha raça europea--cortavam a monotonia +do ridiculo e davam physionomia á população. + +Nos campos o effeito era ainda muito maior: elles characterizavam a +payzagem, poetisavam a situação mais prosaica de monte ou de valle; e +tam necessarias tam obrigadas figuras eram em muitos d'esses quadros, +que sem ellas o painel não é ja o mesmo. + +Alêm d'isso o convento no povoado e o mosteiro no êrmo animavam, +amenizavam, davam alma e grandeza a tudo: elles protegiam as árvores, +sanctificavam as fontes, enchiam a terra de poesia e de solemnidade. + +O que não sabem nem podem fazer os agiotas barões que os substituiram. + +É muito mais poetico o frade que o barão. + +O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha. + +O barão é, em quasi todos os pontos, o Sancho-Pansa da sociedade nova. + +Menos na graça... + +Porque o barão é o mais desgracioso e estupido animal da creação. + +Sem exceptuar a familia asinina que se illustra com individualidades tam +distinctas como o Ruço do nosso amigo Sancho, o asno da Poncella de +Orleans e outros. + +O barão (_onagros-baronius_ de Linn., _l'ânne-baron_ de Buf.) é uma +variedade monstruosa ingendrada na burra de Balaham, pela parte +essencialmente judaica e usuraria de sua natureza, em coito damnado com +o urso Martinho do Jardim das Plantas[2], pela parte franchinotica e +sordidamente revolucionaria de seu character. + +O barão é pois usurariamente revolucionario, e revolucionariamente +usurario. + +Por isso é _zebrado_ de riscas monarchico-democraticas por todo o pêllo. + +Este é o barão verdadeiro e puro-sangue: o que não tem estes characteres +é especie differente, de que aqui se não tracta. + +Ora, sem sahir dos barões e tornando aos frades, eu digo: que nem elles +comprehenderam o nosso seculo nem nós os comprehendémos a elles.. + +Por isso brigámos muito tempo, a final vencêmos nós, e mandámos os +barões a expulsá-los da terra. No que fizemos uma sandice como nunca se +fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o... e escouceou-nos a nós +depois. + +Com que havemos nós agora de matar o barão? + +Porque este mundo e a sua historia é a historia do 'castello do +Chucherumello'. Aqui está o cão que mordeu no gato, que matou o rato, +que roeu a corda etc. etc.: vai sempre assim seguindo. + +Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu, e nós não +comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de +morrer. + +São a molestia d'este seculo; são elles, não os jesuitas, a +cholera-morbus da sociedade actual, os barões. O nosso amigo Eugenio Sue +errou de meio a meio no 'Judeu errante' que precisa refeito. + +Ora o frade foi quem errou primeiro em nos não comprehender, a nós, ao +nosso seculo, ás nossas inspirações e aspirações: com o que falsificou a +sua posição, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade, +uma coisa infallivel e sem remedio. Assustou-se com a liberdade que era +sua amiga, mas que o havia de reformar, e uniu-se ao despotismo que o +não amava senão relaxado e vicioso, porque de outro modo lhe não servia +nem o servia. + +Nós tambem errámos em não intender o desculpavel êrro do frade, em lhe +não dar outra direcção social; e evitar assim os barões, que é muito +mais damninho bicho e mais roedor. + +Porque, desinganem-se, o mundo sempre assim foi e hade ser. Por mais +bellas theorias que se façam, por mais perfeitas constituições com que +se comece, o _status in statu_ forma-se logo: ou com frades ou com +barões ou com pedreiros livres se vai pouco a pouco organizando uma +influencia distincta, quando não contraria, ás influencias manifestas e +apparentes do grande corpo social. Esta é a opposição natural do +Progresso, o qual tem a sua opposição como todas as coisas sublunares e +superlunares; ésta corrige saudavelmente, ás vezes, e modera sua +velocidade, outras, a impece com demazia e abuso: mas emfim é uma +necessidade. + +Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a opposição dos +frades que a dos barões. O caso estava em a saber conter e approveitar. + +O Progresso e a liberdade perdeu, não ganhou. + +Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruinas, os +egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos +frades--não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser. + +E sei que me não inganam poesias; que eu reajo fortemente com uma logica +inflexivel contra as illusões poeticas em se tractando de coisas graves. + +E sei que me não namóro de paradoxos, nem sou d'estes espiritos de +contradicção desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão +contentes com o que é. + +Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal na Irlanda, na Polonia, +no Brazil, podia e devia sê-lo entre nós; e nós ficavamos muito melhor +do que estamos com meia duzia de clerigos de requiem para nos dizer +missa; e com duas grozas de barões, não para a tal opposição salutar, +mas para exercer toda a influencia moral e intellectual da +sociedade--porque não ha de outra ca. + +E se não digam-me: onde estão as universidades, e o que faz essa que ha +senão dar o seu grausito de bacharel em leis e em medicina? O que +escreve ella, o que discute, que príncipios tem, que doutrinas professa, +quem sabe ou ouve d'ella senão algum echo timido e acanhado do que +n'outra parte se faz ou diz? + +Onde estão as academias? + +Que palavra poderosa retine nos pulpitos? + +Onde está a fôrça da tribuna? + +Que poeta canta tam alto que o oiçam as pedras brutas e os robres duros +d'esta selva materialista a que os utilitarios nos reduziram? + +Se exceptuarmos o debil clamor da imprensa liberal ja meio-esganada da +policia, não se ouve no vasto silencio d'este ermo senão a voz dos +barões gritando contos de réis. + +Dez contos de réis por um eleitor! + +Mais duzentos contos pelo tabaco! + +Três mil contos para a conversão de um amphigouri! + +Cinco mil contos para as estradas dos areonautas! + +Seis mil contos para isto, dez mil contos para aquillo! + +Não tardam o contar por centenas de milhares. + +Contar a elles não lhes custa nada. + +A quem custa é a quem paga para todos esses balões de papel--a terra e a +indústria.................................................................. +........................................................................... +........................................................................... + +Este capítulo deve ser considerado como introducção ao capítulo +seguinte, em que entra em scena Fr. Diniz, o guardião do San' Francisco +de Santarem. + +Ja me disseram que eu tinha o genio frade, que não podia fazer conto, +drama, romance sem lhe metter o meu fradinho. + +O 'Camões' tem um frade, Frei José Indio; + +A 'Dona Branca' tres, Frei Soeiro, Frei Lopo e San'-Frei Gil--faz +quatro; + +A 'Adozinda' tem um ermitão, especie de frade--cinco; + +'Gil-Vicente' tem outro--isto é, verdadeiramente não tem senão meio +frade, que é André de Rezende, demais a mais, pessoa muda--cinco e meio; + +O 'Alfageme' tres quartos do frade, Froilão-Dias, chibato da ordem de +Malta--seis frades e um quarto; + +Em 'Frei Luiz de Sousa' tudo são frades: vale bem n'esta computação, os +seus tres, quatro, meia duzia de frades--são já dôze e quarto: + +Alguns, não eu, querem metter n'esta conta o 'Arco-de-Sanct'Anna', em +que ha bem dous frades e um leigo: + +E aqui tenho eu ás costas nada menos de quinze frades e quarto. + +Com este Frei Diniz é um convento inteiro. + +Pois, senhores, não sei que lhes faça: a culpa não é minha. Desde mil +cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos trinta e tantos +que uns dizem que elle se restaurou, outros que o levou a breca, não sei +que se passasse ou podesse passar n'esta terra coisa alguma pública ou +particular, em que frade não entrasse. + +Para evitar isto não ha senão usar da receita que vem formulada no +capitulo V[3] d'esta obra. + +Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem sei. + + + + +CAPITULO XIV. + + + Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue o A. + direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a + manga a beijar á avó e á neta, e do mais que entre elles se + passou.--Ralha o frade com a velha, e começa a descobrir-se onde a + historia vai ter. + + +Este capitulo não tem divagações, nem reflexões, nem considerações de +nenhuma especie, vai direito e sem se distrahir, pela sua historia +adeante. + +Fr. Diniz chegava aopé das duas mulheres e disse: + +--'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!' + +Joanna adeantou-se alguns passos a beijar-lhe a manga. Elle +accrescentou: + +--'A benção de Deus te cubra, filha, e a de nosso padre San'Francisco!' + +--'Benedicite, padre guardião:' disse a velha inclinando-se meia +levantada da cadeira. + +--'Em nome do Senhor! amen'.--respondeu o frade aproximando-se, e +chegando o braço a alcance de lh'o ella beijar: + +--'Ora aqui estou, minha irman; que me quer? E como vai isto por cá? +Vamo-nos confortando, tendo paciencia, e soffrendo com os olhos no +Senhor?' + +--'Ja os não tenho senão para elle, padre.' + +--'Ah, ah! irman Francisca, sempre esse pensamento, sempre essa queixa! +Tenho-a reprehendido tanta vez e não se emenda.' + +--'Eu não me queixei, meu padre. Deus sabe que me não queixo... ao menos +por mim.' + +--'Pois por quem?' + +--'Oh padre!' + +--'Irman Francisca, tenho medo de a intender. Eu não conheço as +affeições da carne nem lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou +frade, minha irman, sou um que ja não é do número dos vivos, que vestiu +ésta mortalha para não ser d'elles, que a vestiu n'um tempo em que a +mofa e o desprêzo são o unico patrimonio do frade, em que o escarneo, a +derisão, o insulto--o peior e o mais cruel de todos os martyrios--são a +nossa unica esperança. Eu quiz ser frade, fiz-me frade, sabendo e vendo +tudo isto, fiz-me frade no meio de tudo isto, já velho e experimentado +no mundo, farto de o conhecer, e certo do que me espera--a mim e á +profissão que abraçei. Que quer de um homem que assim se resolveu a +cortar por quanto prende a humanidade a ésta miseravel vida da terra, +para não viver senão das esperanças da outra? Eu vesti este hábito para +isso. O seu, irman, o seu para que o vestiu? É um divertimento, é um +capricho, é uma comedia com Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas +do mundo, não apperte com a paciencia divina, trajando por fóra o sacco +da penitencia e trazendo o coração pordentro desappertado de todo o +cilicio e mortificação.' + +A velha com as mãos postas, a face alevantada e os apagados olhos para o +ceo, offerecia a Deus todo o amargor d'aquella austeridade que não +cuidava merecer nem lhe parecia intender. Joanninha, que insensivelmente +se fôra approximando da avó, e a tinha como amparada portraz com um de +seus braços, firmava a outra mão nas costas da cadeira e cravava fita no +frade a vista penetrante e cheia de luz. A expressão do seu rosto era +indefinivel: irisava-lh'o, distincta mas promiscuamente, um mixto +inextricavel de enthusiasmo e desanimação, de fé e de incredulidade, de +sympathia e de aversão. + +Disseras que n'aquelles olhos verdes e n'aquelle rosto mal córado estava +o typo e o symbolo das vascillações do seculo. + +--'Padre!' tornou a velha com sincera humildade na voz e no gesto:--'se +o mereci, castigae-me. Deus, que me vê e me ouve, bem sabe que o digo em +toda a verdade do meu coração, e hade perdoar-me porque eu sou fraca e +mulher.' + +--'Pois aos fracos não é que Elle disse: _Toma a tua cruz e segue-me_. +Quem a obrigou a fazer os votos que fez?' + +--'É verdade, padre, é verdade: bem sei o que prometti, que me votei a +Deus d'alma e corpo, que me não pertenço, que nem das minhas affeições +posso dispor, mas...' + +--'Mas o quê? Irman Francisca, a Deus não se ingana. Os seus votos não +foram feitos n'um mosteiro, nem proferidos n'um altar no meio das +solemnidades da egreja. Mas ja lh'o tenho ditto, no fôro da consciencia, +na presença de Deus, ligam-n'a tanto ou mais do que se o fossem. +Abjure-os se quizer; nenhuma lei, nenhuma fôrça humana a constrange. +Diga-m'o por uma vez, desingane-me, e eu não torno aqui.' + +--'Oh, por compaixão, padre! pelas chagas de Christo! Mas uma pergunta +so, uma so, e eu prometto não pensar, não fallar mais em... Onde está +elle?' + +--'Joanna, retire-se.' + +Joanninha appertou a avó com ambos os braços; e sem dizer uma palavra, +sem fazer um so gesto, lentamente e silenciosamente se retirou para +dentro de casa. + +--'E ésta, padre?' disse a velha sem esperar a resposta á primeira +pergunta que com tanta ancia fizera--'e ésta, tambem d'ella me heide +separar, tambem heide renunciar a ella?' + +--'Esta é uma innocente, e emquanto o for'... + +--'Em quanto o for! A minha Joanna é um anjo.' + +--'Blasphemia, blasphemia! E o Senhor a não castigue por ella. Joanna é +boa e temente a Deus: esperemos que Elle a conserve da sua mão. O +outro...' + +--'Que é feito d'elle padre? Oh! diga-m'o, e eu prometto...' + +--'Não prometta senão o que póde cumprir. Seu neto está com esses +desgraçados que vieram das ilhas, é dos que desimbarcaram no Porto...' + +--'Oh filho da minha alma! que não tórno a abraçar-te...' + +--'Não decerto; vencedores ou vencidos, toda a communhão, toda a +possibilidade de união acabou entre nós e estes homens. Nós temos +obrigação de os destruir, elles o seu unico desejo é exterminar-nos.' + +--'Meu Deus meu Deus! pois a isto somos chegados! Pois ja não ha +misericordia no ceo nem na terra!' + +--'A misericordia de Deus cansou-se; a da terra não sei onde está nem +onde esteve nunca. Os fracos dão sacrilegamente esse nome á sua +relaxação.' + +--'Pois é relaxação desejar a paz, querer a união, supplicar a +indulgencia? Não nos manda Deus perdoar as nossas dividas, amar os +nossos inimigos?' + +--'Os nossos sim, os d'Elle não.' + +--'Tende compaixão de mim, Senhor!' + +--'Se as suas afflicções são as da carne e do sangue, se são pensamentos +da terra como desgraçadamente vejo que são, mulher fraca e de pouco +ânimo, console-se, que para mim é claro e seguro que estes homens hãode +vencer.' + +--'Quaes homens?' + +--'Esses inimigos do altar e da verdade, esses homens desvairados pelas +speciosas doutrinas do seculo. Esperam muito, promettem muito, estão em +todo o vigor das suas illusões. E nós, nós carregâmos com o desingano de +muitos seculos, com os peccados de trinta gerações que passaram, e com a +inaudita corrupção da presente... nós havemos de succumbir. Os templos +hãode ser destruidos, os seus ministros proscriptos, o nome de Deus +blasphemado á vontade n'esta terra malditta.' + +--'Pois tam perdidos, tam abandonados da mão de Deus são elles todos... +todos?' + +--'Todos. E que cuida, irman? que são melhores os nossos, esses que se +dizem nossos? que ha mais fé na sua crença, mais verdade em sua +religião? Oh sancto Deus!' + +--'Faz-me tremer, padre!' + +--'E para tremer é. A impiedade e a cubiça entraram em todos os +corações. _Duvidar_ é o unico princípio, _inriquecer_ o unico objecto de +toda essa gente. Liberaes e realistas, nenhum tem fé: os liberaes ainda +teem esperança; não lhe hade durar muito. Deixem-n'os vencer e verão.' + +--'E hãode vencer elles?' + +--'Decerto.' + +--'Ninguem mais diz isso.' + +--'Digo-o eu.' + +--'Tantos mil soldados que o govêrno tem por si!' + +--'E tantos milhões de peccados contra. Não póde ser, não póde ser: a +misericordia divina está exhausta, e o dia desejado dos impios vem a +chegar. A sua missão é facil e prompta; não sabem, não podem senão +destruir. Edificar não é para elles, não teem com quê, não creem em +nada. O symbolo christão não é so uma verdade religiosa é um princípio +eterno e universal. _Fe, esperança e charidade_. Sem crer, sem +esperar...' + +--'E sem amar!' + +--'Mulher, mulher! o amor é a última virtude...' + +--'Mas por ella, por ella se chega ás outras.' + +--'Não, mulher fraca, não. E de uma vez para sempre, irman Francisca, +desinganemo'-nos. Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, não ha +transacção com os seus inimigos. Indulgencia n'esse ponto não sei o que +é. Vejo a sorte que me espera n'este mundo, e não tremo deante d'ella. +Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.' + +--'Padre eu não temo nem receio por mim. Sou fraca e mulher, e em toda a +tribulação e desgraça heide glorificar o meu Deus e dar testimunho da +minha fé. Mas... mas o meu neto é o meu sangue, a minha vida, é o filho +querido da minha unica e tam amada filha, elle não conheceu outra mãe +senão a mim, quero-lhe por elle e por ella. Abandoná-lo não posso, tirar +d'elle o pensamento não sei. A vontade de Deus...' + +--'A vontade de Deus é que o justo se aparte do impio, é que os +cordeiros da benção vão para um lado, e os cabritos da maldicção para +outro. Esse rapaz... oh! minha irman, eu não sou de pedra, não, não sou, +e tambem o coração se me parte de o dizer... mas esse rapaz é malditto, +e entre nós e elle está o abysmo todo do inferno.' + +--'Misericordia, meu Deus!' + +Pallido, infiado, mais descorado e mais amarello do que era sempre +aquelle rosto, Fr. Diniz pronunciou, tremendo mas com fôrça, as suas +últimas e terriveis palavras. Os olhos, habitualmente sumidos e cavos, +recuaram-lhe ainda mais para dentro das orbitas descarnadas; o bordão +tremia-lhe na esquerda; e a direita suspensa no ar parecia intimar ao +culpado a terrivel imprecação que lhe sahia dos labios. + +--'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o frade, 'filho ingrato, +coração derrancado e perverso!' + +--'Meu Deus, não o escuteis!' bradou a velha cahindo de joelhos no chão +e prostrando-se na terra dura 'Meu Deus, não confirmeis aquellas +palavras tremendas. Não o ouçais, Senhor, e valha o sangue precioso de +vosso filho, as dores bemdittas de sua mãe, oh meu Deus! para arredar da +cabeça do meu pobre filho as crueis palavras d'este homem sem piedade, +sem amor!..' + +A velha queria dizer mais; as angústias que se tinham estado juntando +n'aquella alma, que porfim não podia mais e transbordava, queriam sahir +todas, queriam derramar-se alli em lagrymas e soluços na presença do seu +Deus que ella via sempre no throno das misericordias, que não podia +acabar comsigo que o visse o inflexivel, o terrivel Deus das vinganças +que lhe annunciava o frade. Mas a carne não pôde com o espirito, as +fôrças do corpo cederam: tomou-a um mortal deliquio, immudeceu, e... +suspendeu-se-lhe a vida. + +Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse estado e pareceu +commover-se; mas aquelles nervos eram fios de ferro temperado que não +vibravam a nenhuma suave percussão: deu dous passos para a porta da +casa, bateu com o bordão e disse com voz firme e segura: + +--'Joanna, acuda a sua avó que não está boa.' + +D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabeça, caminhou +ápressado; breve se escondeu para lá das oliveiras da estrada. + + + + +CAPITULO XV. + + + Retratto de um frade franciscano que não foi para o depósito da + Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das + Bellas-artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada + com a de Condillac.--Suas opiniões sôbre o liberalismo e os + liberaes.--Que o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.--Que os + liberaes não intendem o que é liberdade e egualdade; e o para que + eram os frades, se fossem.--Próva-se, pelo texto, que o homem não + vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz. + + +Quem era Frei Diniz? + +Disse-o elle:--um homem que se fizera frade, ja velho e cançado do +mundo, que vestíra o hábito n'um tempo em que a mofa, o escarneo e o +desprêzo seguiam aquella profissão; que o sabía, que o conhecia e que +por isso mesmo o affrontára. + +D'estes raros e fortes characteres apparecem sempre na agonia das +grandes instituições para que nenhuma pereça sem protesto, paraque de +nenhum pensamento duravel e consagrado pelo tempo se possa dizer que lhe +faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoção nobre, +gloriosa e digna do alto espirito do homem:--que o homem é uma grande e +sublime creatura por mais que digam philosophos. + +Tal era Fr. Diniz, homem de principios austeros, de crenças rigidas, e +de uma logica inflexivel e teimosa: logica porêm que regeitava toda a +anályse, e que forte nas grandes verdades intellectuaes e moraes em que +fixára o seu espirito, descia d'ellas com o tremendo pêso de uma +synthese asperrima e oppressora que esmagava todo o argumento, destruía +todo o raciocinio que se lhe punha de deante. + +Condillac chamou á synthese methodo de trevas: Fr. Diniz ria-se de +Condillac... e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo. + +O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o abhorrecer; +mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas, +regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento +justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado, +para a sociedade em qualquer fórma não havia mais leis que as do +decalogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia +elle. Reforçá-las é superfluo, melhorá-las impossivel, desviar d'ellas +monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangelica, que é o estado +monastico, ha regras para todos alli; e não falta senão observá-las. + +Não sei se ésta doutrina não tem o quer que seja de um certo sabor +independente e livre, se não cheira o seu tanto á confiança heretica dos +reformistas evangelicos. O que sei é que Fr. Diniz a professava de +boafé, que era catholico sincero, e frade no coração. + +Segundo os seus principios, podêr de homem sôbre homem, era usurpação +sempre e de qualquer modo que fosse constituido. Todo o podêr estava em +Deus--que o delegava ao pae sôbre o filho, d'ahi ao chefe da familia +sôbre a familia, d'ahi a um d'esses sôbre todo o Estado; mas para o +reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana dos +primitivos principios christãos. + +Assim fôra ungido Saul, e n'elle todos os reis da terra--sem o quê, não +eram reis. + +Tudo o mais, anarchia, usurpação, tyrannia, peccado--absurdo +insustentavel e impossivel. + +E sôbre isto tambem não disputava, que não concebia como: era dogma. + +Nas applicações sim questionava, ou antes, arguía, com sua logica de +ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos homens, não os +poupava mais do que aos novos. A tyrannia dos reis, a cubiça e a suberba +dos grandes, a corrupção e a ignorancia dos sacerdotes, nunca houve +tribuno popular que as açoitasse mais sem dó nem caridade. + +O princípio porêm da monarchia antiga, defendia-o, ja se ve, por +verdadeiro, embora fossem mentirosos e hypocritas os que o invocavam. + +Quanto ás doutrinas constitucionaes, não as intendia, e protestava que +os seus mais zelosos apostolos as não intendiam tam pouco: não tinham +senso-commum, eram abstracções d'eschola. + +Agora, do frade é que me eu queria rir... mas não sei como. + +O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se' dizia 'a duas +cousas, _duvidar e destruir_ por principio, _adquirir e inriquecer_ por +fim: é uma seita toda material em que a carne domina e o espirito serve; +tem muita fôrça para o mal; bem verdadeiro, real e perduravel, não o +póde fazer. Curar com uma revolução liberal um paiz estragado, como são +todos os da Europa, é sangrar um tysico: a falta de sangue diminue as +ancias do pulmão por algum tempo, mas as fôrças vão-se, e a morte é mais +certa.' + +Dos grandes e eternos principios da Egualdade e da Liberdade dizia: 'Em +elles os practicando devéras, os liberaes, faço-me eu liberal tambem. +Mas não ha perigo: se os não intendem! Para intender a liberdade é +preciso crer em Deus, para acreditar na egualdade é preciso ter o +Evangelho no coração.' + +As instituições monasticas eram, no seu intender e no seu systema, +condicção essencial de existencia para a sociedade civil--para uma +sociedade normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cubria os +defeitos dos monges, accusava mais severamente que ninguem a sua +relaxação; mas sustentava que, removido aquelle typo da perfeição +evangelica, toda a vida christan ficava sem norma, toda a harmonia se +destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio, +precipitar-se no golpham do materialismo estupido e brutal em que todos +os vinculos sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e mais se isolava +e estreitava o individualismo egoista--última phase da civilização +exaggerada que vai tocar no outro extrêmo da vida selvagem. + +Taes eram os principios d'este homem extraordinario que junctava a uma +erudição immensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que +tinha vivido até a edade de cinquenta annos. + +Como e porque deixára elle o mundo? Como e porquê, um espirito tam +activo e superior se occupava apenas do obscuro incargo de guardião do +seu convento--cargo que acceitára por obediencia--e quasi que limitava +as suas relações fóra do claustro áquella casa do valle onde não havia +senão aquella velha e aquella criança? + +Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse espirito por alguma coisa a +este mundo? Aquelle coração macerado do cilicio dos pensamentos austeros +e terriveis do eterno futuro, consummido na abstinencia de todo o gôso, +detodo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma +fibra que vibrasse com recordações, com saudades, com remorsos do +passado? + +No seu convento elle não tinha senão uma cella nua com um cruxifixo por +todo adôrno, um breviario por unico livro. N'aquella so familia que +conversava, havia, ja o disse, a velha cega e decrepita, Joanninha com +quem apenas fallava, e um ausente, um rapaz de quem ha dous annos quasi +que se não sabia. Em intrigas politicas, em negocios ecclesiasticos, em +coisa mais nenhuma d'este mundo não tinha parte. De que vivia pois este +homem--homem que certo não era d'aquelles que vivem so de pão? + +E este era dos poucos textos latinos que elle repettia, este o thema +predilecto dos raros sermões que prégava: _Non in solo pane vivit homo_, +Nem so de pão vive o homem. + +Vivia então de alguma outra coisa este homem; e a meditação e a oração +não lhe bastavam, porque elle sahia do seu convento e não ia prégar nem +rezar... todas as sextas feiras era certo na casa do valle á mesma hora, +do mesmo modo... + +Alli estava pois alguma parto da vida do frade que de todo se não +desprendêra da terra, e que, por mais que elle diga, lhe faltava +_castrar_ ainda por amor do ceo. + +É que meio seculo de viver no mundo deixa muita raiz que não morre +assim. E talvez é uma so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva, +que as folhas morrem, os ramos seccam, o tronco apodrece, e ella teima a +viver. + +Saibamos alguma coisa d'essa vida. + + + + +CAPITULO XVI. + + + Saibâmos da vida do frade.--Era franciscano porquê?--Dos antigos e + dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e + depois de ser frade.--Emigração.--Explicação incompleta.--De como a + velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.--Sexta feira dia + aziago. + + +Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua vida no seculo, porque a +do claustro era nua e nulla, monotona e singela como a temos visto. + +Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide, e seguira a carreira das +armas primeiro, depois a das lettras. Com distincção, e quasi com +paixão, tomára parte na campanha da Peninsula e a fizera quasi toda; mas +desgostoso do serviço ou despreoccupado da glória militar, entrou na +magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do logar de +corregedor do Ribatejo, em que ja fôra reconduzido, devia passar á casa +do Porto. + +Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mão a elrei, e d'ahi tomou +um dia o caminho de Santarem, chegou áquella villa, deixou criados e +cavallos na estalagem, e foi tocar á campa da portaria de San'Francisco. + +Os criados esperaram em vão muitos dias: elle não voltou. + +Desappareceu do mundo Diniz de Atahide, e d'alli a dous annos appareceu +Fr. Diniz da Cruz, o frade mais austero e o prégador mais eloquente +d'aquelle tempo. Raro prégava, e so de doutrina; mas era uma torrente de +vehemencia, uma uncção, uma fôrça!.. + +Dos institutos monasticos, ja então bem decahidos todos de esplendor e +reputação, a ordem de San'Francisco era talvez a que mais descêra no +conceito público. Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota +qualquer relaxação nos que a professam: a dos franciscanos tinha-se +feito proverbial e popular. Elles eram tantos por toda a parte, e tam +conversantes com todas as classes; familiarizára-se por tal modo o povo +com o aspecto d'aquellas mortalhas negras--aspecto ja não severo, e +apenas deixou de o ser... ridículo--e ellas appareciam em taes logares, +a taes horas, por tal modo... que todo o respeito, toda a estima, toda a +consideração se lhe perdera. Escriptores, ja os não tinham, prégadores +poucos e sem reputação, era em todo o sentido a religião mais humilhada +na geral decadencia das ordens. + +Fr. Diniz procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade +desprezado e apupado do seculo dezenove. + +Em certos animos é preciso muito mais valor e enthusiasmo para affrontar +este martyrio, do que fôra nos antigos tempos para ir ao incôntro das +nobres perseguições do sangue e do fogo. + +Luctava-se com honra então, cahia-se com glória, vencia-se muitas vezos +morrendo... + +Agora é soffrer so. + +O mundo applaudia aquelles grandes sacrificios, e assistia com +interêsse, com admiração, com espanto áquelles combates gigantescos. E o +tyranno tremia diante da sua victima... quando lhe não cahia aos pés +vencido, convertido e penitente... + +Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Egreja +não sabe que tem martyres. + +'Pois tem-n'os' dizia Fr. Diniz 'e precisa mais d'elles para se +regenerar, do que ja precisou para fundar-se.' + +Eis aqui porque Diniz d'Atahide não quiz ser bento, nem jeronymo, nem +cartucho, e se foi metter frade franciscano. + +De todos os seus bens, que eram consideraveis, tirou apenas a modica +somma de dinheiro que era necessaria para pagar o dote e piso de sua +entrada no convento. Do resto fez doação inteira a D. Francisca +Joanna--a velha hoje cega e decrepita que no princípio d'esta historia +incontrámos dobando á sua porta na casa do valle. + +A velha não tinha mais familia que um neto e uma neta. + +A neta era Joanninha, filha unica de seu unico filho varão, e ja orphan +de pae e de mãe. + +O neto, orpham tambem, nascêra posthumo, e custára a vida a sua mãe, +filha querida e predilecta da velha. + +Antes da splendida doação de Fr. Diniz, a familia, que era de boa e +honrada descendencia, podia dizer-se pobre; depois viviam +remediadamente. Mas a velha não quiz nunca sahir do modesto estado em +que atélli vivêra. Tinham fartura de pão, azeite e vinho de suas lavras; +corria-lhe com ellas um criado velho de confiança; trajavam e +tractavam-se como gente mean, mas independente. + +Em tempos mais antigos e em vida dos dous filhos de D. Francisca, Fr. +Diniz, então Diniz d'Atahide e corregedor da commarca, frequentára +bastante aquella casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos +pereceram desastradamente n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro em +occasião de grande cheia, elle nunca mais lá tornára. + +Até que se metteu frade, e que passaram annos e que o fizeram guardião +do seu convento. + +Ja a nora e a filha da velha tinham morrido tambem. + +E foi notavel que na mesma hora em que Fr. Diniz professava em +San'Francisco de Santarem, vestia D. Francisca aquella tunica roxa que +nunca mais largou. + +Mas um dia, chegou Fr. Diniz á porta da casa do valle e disse: + +--'Deus seja n'esta casa!' + +A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sahir as crianças que +brincavam aopé d'ella, fechou-se com o frade, e fallaram baixo um dia +inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu; mas o que disseram e +conversaram nunca se soube. + +O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e +chorou toda a noite. + +Isto fôra n'uma sexta-feira; d'ahi por deante em todas as sexta-feiras +de cada semana, Fr. Diniz vinha passar algumas horas com a velha. + +Não era seu confessor, mas dirigia-a como se o fosse, em tudo e por +tudo, menos no que respeitava a Joanninha. + +Havia no frade uma affectação visivel, um systema premeditado e +inalteravel de se abster completamente de tudo o que podesse intervir, +por mais remotamente que fosse, com aquella interessante criança. + +Joanninha não lhe tinha medo, mas o respeito que lhe elle inspirava era +misturado de uma aversão instinctiva, que, por contradicção inaudita e +inexplicavel, a deixava sympathizar com tudo quanto elle dizia e +professava: doutrinas, opiniões, sentimentos, tudo lhe agradava no +frade, menos a pessoa. + +Não assim Carlos, o primo, o companheiro, o unico amigo da nossa +Joanninha, o outro neto da velha por sua filha. Andava elle ja no último +anno de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Fr. Diniz da Cruz começou +de novo a frequentar a casa que Diniz de Atahide tinha abandonado. + +Sôbre esse a inspecção do frade era minuciosa, vigilante, inquieta. Os +livros que elle lia, os amigos com quem vivia, as ideas que abraçava, as +inclinações para que pendia--de tudo se occupava Fr. Diniz, tudo lhe +dava cuidado. A elle directamente pouco lhe dizia, mas com a avó tinha +longas conferencias a esse respeito. + +Ultimamente parecia satisfazer-se com o geito que o mancebo indicava +tomar. + +--'É temente a Deus, não tem o ânimo cubiçoso nem servil, não é +hypocrita, o mania do liberalismo não o mordeu ainda... hade ser um +homem de prestimo:' dizia o frade a D. Francisca com verdadeira +satisfacção e interêsse. + +Passára porêm de seu meio o memoraval anno de 1830, e Carlos, que se +formára no princípio d'aquelle verão, tinha ficado por Coimbra e por +Lisboa, e so por fins d'agosto voltára para a sua familia. E veio +triste, melancholico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fôra, +porque era de genio alegre e naturalmente amigo de folgar, o mancebo. + +O dia em que elle chegou era uma sexta-feira, dia de Fr. Diniz vir ao +valle. + +Passaram as primeiras saudações e abraços, ficaram sos os dous, e: + +--'Não gósto de te ver:' disse o frade. + +--'Pois quê? que tenho eu?' + +--'Tens que vens outro do que foste, Carlos.' + +--'Outro venho, é verdade; mas não se infadem de me ver, que o infado +hade durar pouco.' + +--'Que queres tu dizer?' + +--'Que estou resolvido a emigrar.' + +--'A emigrar, tu!... Porquê, paraquê? Que loucura é essa?' + +--'Nunca estive tanto em meu juizo.' + +--'Carlos, Carlos! nem mais uma palavra a similhante respeito. Em que +más companhias andaste tu, que maus livros lêste, tu que eras um +rapaz?.. Carlos, prohibo-te de pensar n'esses desvarios.' + +--'Prohibe-me... a mim... de pensar!... Ora, senhor...' + +--'Prohibo de pensar, sim. Le no teu Horacio se estás cançado das +pandectas. Vai para a eira com o teu Virgilio... ou passeia, caça, monta +a cavallo, faze o que quizeres, mas não penses. Ca estou eu para pensar +por ti.' + +--'Porquê? eu heide ser sempre criança? a minha vida hade ser ésta? +Horacio! tenho bom ânimo para ler Horacio agora... e a bella occupação +para um homem de vinteeum annos, scandar jambos e trocheus.' + +--'Pois le na tua biblia, que é poesia medida n'alma e que repasce o +espirito e o coração.' + +--'Eu não quero ser frade: sabe?' + +--'Nem te eu quero para frade.' + +--'Graças a Deus! Cuidei que... Mas em fim no seculo em que estamos...' + +--'O seculo em que estamos é o da presumpção e o da immoralidade: e eu +quero-te livrar de uma e de outra, Carlos. Tua avó sabe as minhas +tenções a teu respeito, approva-as...' + +--'Minha avó... approva muita coisa que eu reprovo.' + +--'Como assim, Carlos! que queres tu dizer?' + +--'Isto mesmo, senhor;--e que ámanhan que vou para Lisboa, imbarcar para +Inglaterra.' + +--'Carlos!' + +--'É uma resolução meditada e inalteravel. Não quero nada com ésta terra +nem com ésta...' + +--'Com ésta o quê, Carlos?..' + +--'Pois quer ouvi-lo, digo-lh'o: com ésta casa.' + +O frade suffocava, e balbuciou entre cholerico e aterrado: + +--'Dir-me-has porquê?..' + +--'Porque me abhorrece e me humilha este mando de um extranho aqui... +porque sempre desconfiei, porque sei emfim...' + +--'Sabes o quê?' + +--'Sei, padre Fr. Diniz, mas não me pergunte o que eu sei.' + +Amarello, roxo, pallido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais os +olhos e faiscavam lá de dentro como duas brazas; fez um esfôrço sôbre si +mesmo para fallar, e disse com uma voz cava e cavernosa como de +sepulchro: + +--'Pois pergunto, sim; e permitta Deus!..' + +--'Padre, não jure nem pragueje' interrompeu Carlos com firmeza e +serenidade 'as suas intenções serão boas talvez... creio que são boas, +filhas de um remorso salutar...' + +--'Que dizes tu, Carlos... que disseste?.. Oh, meu Deus!' + +As scenas tinham mudado: Fr. Diniz parecia o pupillo, a sua voz tinha o +som da súpplica, ja não tremia de íra mas de anciedade; Carlos, pelo +contrario, fallava no tom austero e grave de um homem que está forte na +sua razão e que é generoso com a sua offensa. As palavras do mancebo +eram agras, via-se que elle o sentia e que procurava adoçá-las na +inflexão, que lhes dava. + +--'O que eu digo, padre Fr. Diniz, o que eu sou obrigado a dizer-lhe é +isto. Minha avó consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu não posso +nem devo consentir. O que ha n'ésta casa não é... não é meu; o pão que +aqui se come... é comprado por um preço... Padre! ja ve que não podêmos +fallar mais n'este assumpto. Eu parto ámanhan para Lisboa.--Minha avó!' +acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro 'minha avó!' + +A velha acudiu, elle disse-lhe a sua tenção, motivou-a em opiniões +politicas, declamou contra D. Miguel, mostrou-se enthusiasta da causa +liberal, e protestou que, n'aquelle anno, de tal modo se tinha +pronunciado em Coimbra e ainda em Lisboa, que só uma prompta fuga o +podia salvar...' + +A velha chorou, pediu, rogou... inutilmente, em vão. + +Fr. Diniz assistiu a tudo isto sem dizer palavra. + +E aquella tarde voltou mais cedo para o convento. + +No outro dia de manhan muito cedo, abraçado com a avó e com a priminha +que se desfaziam em lagrymas, Carlos dizia o último adeus áquella +querida casa, áquelle amado valle em que fôra criado... N'essa noite +estava em Lisboa, d'ahi a poucos dias em Inglaterra, e d'ahi a alguns +meses na ilha Terceira. + +Na sexta-feira depois da partida de Carlos, Fr. Diniz veio ao valle e +teve larga conferencia com a avó. + +Os tres dias seguintes a velha levou fechada no seu quarto a chorar... +no fim do terceiro dia estava cega. + +Joanninha era uma criança a esse tempo, parecia não intender nada do que +se passava. Mas quem a observasse com attenção, veria que ella dobrou de +carinho e de amor para com a avó, e que se não tornou a rir para o +frade... + +Elle, o frade, invelheceu de dez annos n'aquelle dia. Os olhos sumidos, +que era a feição dominante n'aquelle rosto ascetico, sumiram-se mais e +mais; a estatura alta e erecta curvou-se-lhe; o tremor nervoso, que o +tomava por accessos, tornou-se-lhe habitual; os tendões enrijaram-lhe, +os musculos da cara descarnaram-se, e a pelle ja sulcada de fundos +cuidados, arrugou-se e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas como +que se lh'a torrassem n'uma grelha. + +Nunca mais houve um dia de alegria no valle. A sexta-feira porêm era o +dia fatal e aziago. Fr. Diniz ja não vinha senão no fim da tarde e +demorava-se pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por aquella hora e +tremia-se d'ella. As notícias que consolavam, e os terrores que matavam, +o frade é que os trazia. O resto da semana levava-se a chorar e a +esperar. + +E assim se tinham passado dous annos até á sexta-feira em que primeiro +vimos junctas á porta da casa aquellas tres criaturas; assim se passou +até d'ahi a oito dias que a nossa historia volta a incontrá-los. + + + + +CAPITULO XVII. + + + De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a neta á + espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da banda + de Lisboa.--Porque razão muitas vezes a mais animada conversação é + a que mais facilmente pára e quebra derepente.--Nova demonstração + de dous grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito + não faz o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as + verdades.--No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do + veo que cobre os mysterios da nossa historia. + + +Passaram-se aquelles oito dias no valle, não ja como se tinham passado +tantas outras semanas em vagas tristezas, em desconsolação e +desconfôrto, mas em positiva anciedade e aguda afflicção pela certeza +que trouxera o frade de se achar Carlos no Porto fazendo parte do +pequeno exército do D. Pedro. + +Incertos rumores, d'aquelles que percorrem um paiz em tempos similhantes +e que augmentam e exaggeram, confundem todos os successos tinham chegado +até ás pacificas solidões do valle com as notícias de combates +sanguinarios, de commoções violentas, de desacatos sacrilegos, de +vinganças e reprezalias atrozes tomadas pelos aggressores, retribuídas +pelos que se defendiam. + +Chegou a sexta-feira; e as horas d'esse dia, sempre desejado e sempre +temido, foram contadas minuto a minuto--a qual mais longo, a qual mais +pezado e lento de volver, quanto mais se approximava o derradeiro. + +O sol declinava ja... e Fr. Diniz sem apparecer! + +No seu poiso ordinario aopé da porta da casa, Joanninha com os olhos +extendidos, a velha com os ouvidos álerta, devoravam o espaço na +direcção de nascente, esperando a cada momento, temendo a cada instante +ver apparecer o conhecido vulto, ouvir o som familiar dos passos do +frade. + +E tam intentas, tam absortas estavam ainda n'este cuidado, que não deram +fe d'um religioso que pelo lado opposto, isto é, da banda de Lisboa, +para alli se incaminhava a passos arrastados mas presurosos. + +Chegou rente d'ellas sem o sentirem; e uma voz conhecida, porêm mais +cava e funda do que nunca a ouviram, pronunciou a fórmula de saudação +costumada: + +--'Deus seja n'esta casa!' + +--'Amen!' responderam ambas machinalmente, com um estremeção +involuntario; e voltando derepente a cara para o lado d'onde vinha a +voz. + +--'Jesus!' disse depois a velha tornando a si, 'Padre Fr. Diniz, de +d'onde vem tam tarde?' + +--'Chego de Lisboa.' + +--'De Lisboa? Deus lh'o pague!... Foi saber?..' + +--'Fui, fui saber novas d'esta horrivel guerra, d'esta tremenda +visitação do Senhor á condemnada terra de Portugal...' + +--'E então, diga'... + +--'Boas novas, boas novas trago!' + +--'Sente-se, padre, sente-se. Joanninha, chega uma cadeira: descanse.' + +--'Não é tempo de descansar este, mas de vigiar e de orar.' + +--'Pois que succedeu, padre? Não me tenha n'esta horrivel suspensão. +Diga: onde está elle? Alguma desgraça grande lhe aconteceu, oh meu +Deus!.. + +--'E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais um +de tantos perdidos? Encherá a sua medida, irá após dos outros... caminha +nas trevas com elles, e como elles, so hade parar no abysmo.' + +A éstas derradeiras palavras do frade asperamente pronunciadas e em tom +de indifferença e desprêzo, seguiu-se aquelle silencio comprimido, +aquella pausa de toda a conversação grave e íntima em que os pensamentos +são tantos que se atropellam e não acham sahida na voz. + +Fr. Diniz mentia... na dureza d'aquellas expressões mentia ao seu +coração--não mentia ao seu espirito. Como o caustico se applica á +epiderme para deslocar a inflammação interior, elle roçava o peito com +as asperidões de sua doutrina e de seus principios rigidos para +amortecer dentro a viva dor d'alma que o consummia. + +O frade estava por fóra, o homem por dentro. + +O observador vulgar não via senão o burel e a corda que amortalhavam e +cadaver. O que attentasse bem n'aquelles olhos, o que reparasse bem nas +inflexões d'aquella voz, diria: 'Frade, tu mentes; mentes sem saberes +que mentes: es sincero na tua fe, na tua austeridade, na tua abnegação; +mas o teu sacrificio é como o de Abraham na montanha, e Deus sabe que tu +não tens fôrça para o cumprir.' + +Não o percebeu assim a pobre velha aquem os rigores de Fr. Diniz faziam +tremer, e que para toda a affeição, para todo o sentimento humano +julgava morto o coração do cenobita. + +Ella que no silencio de suas noites sempre veladas, na perpétua +escuridão de seus dias sempre tristes luctava ha tanto tempo, luctava +debalde para desprender das affeições do mundo, aquelle seu pobre +coração que queria immollar ao Senhor, ella via com sancta inveja e +admiração as sobrehumanas fôrças que imaginava no frade; e desanimada de +o podêr seguir n'essas alturas da perfeição evangelica, recahia, mais +desalentada e mais miseravel que nunca, em toda a sua fraqueza de mulher +e de mãe. + +Oh! não sabe o que é tormento, o que é inferno n'este mundo, o que não +soffreu destas angústias! + +Mas permitte Deus que as padeça quem não tem grandes culpas, grandes e +irreparaveis erros que expiar n'este mundo? + +Eu creio firmemente que não. + +........................................................................... +........................................................................... + +Cansada e exhausta ja de tam porfiada lucta, a velha perdeu de todo a +razão com as derradeiras palavras do frade, e n'um paroxismo de chôro +exclamou: + +--'Diniz!.. Fr. Diniz, por aquelle pinhor sagrado que eu tenho em meu +podêr, por aquella preciosa cruz sôbre a qual se derramaram as últimas +lagrymas da minha desgraçada filha, Diniz!...' + +--'Silencio!' bradou o frade, arrancando um brado de dentro do peito que +fez gemer os echos todos do valle: 'Silencio, mulher! não conjure o +demonio que eu trago incarcerado n'este seio, que á fôrça de penitencias +mal pude domar ainda... que so a morte poderá talvez expellir. Mulher, +mulher! este cadaver que ja morreu que ja apodreceu em tudo o mais, que +ja o comem, sem o elle sentir, os bichos todos da destruição... este +cadaver tem um unico ponto vivo no coração... e o dedo do teu egoismo +ahi foi tocar, oh mulher!.. Peccado que estás sempre contra mim! Justiça +eterna de Deus quando serás satisfeita?' + +Rompêra na maior violencia a voz do frade, mas descahiu n'um tom baixo e +medonho ao fazer ésta última imprecação mysteriosa. As derradeiras +syllabas quasi que lhe morreram nos beiços convulsos, e ao balbuciá-las +deixou-se cahir, exhausto e como quem mais não podia, na cadeira que +Joanninha lhe chegára. + +A velha aterrada e confusa tremia do que fizera, como deante do espirito +immundo que seus maleficios evocaram, treme a maga assustada de seu +proprio podêr. + +Passaram alguns segundos que nenhumas palavras podem descrever. + +O frade levantou o rosto, olhou para ella, olhou para Joanninha... e, +como quem emerge, por grande esfôrço, de um pêso enorme d'aguas que o +submergiam, sacudiu a cabeça, sorveu um longo trago de ar, e disse na +sua voz ordinario, so mais debil: + +--'Carlos, senhora... minha irman, Carlos está vivo; e exaqui, vinda +pelo consul de França, uma carta d'elle.' + +Tirou uma carta da manga e a intregou a Joanninha. + + + + +CAPITULO XVIII. + + + Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre o frade e a + velha.--Piedosa fraude de Joanninha.--Lucta entre o hábito e o + monge. + + +O frade intregou a carta a Joanninha, que, lançando os olhos ao +sobrescripto, ficou indecisa e inquieta como quem receia e deseja e teme +de saber alguma coisa. Elle com voz trémula e sobresaltada accrescentou: + +--'Adeus, que são horas!.. Leiam, e sexta-feira que vem... me dirão...' + +--'Poisquê' disse timidamente a velha 'não quer ouvir o que elle nos +escreve?' + +--'Sexta-feira que vem' continuou Fr. Diniz, sem ouvir ou sem attender a +pergunta 'sexta-feira que vem eu tomarei conta da resposta, e lh'a farei +chegar pela mesma via... So uma coisa! nem palavra a meu respeito: eu +para Carlos... morri.' + +--'Diniz!' exclamou a velha fóra de si 'Diniz!..' + +O frade tornou derepente ao seu tom austero, e respondeu gravemente: 'O +quê, minha irman?' + +--'Era' disse ella timida e submissa outra vez 'era se, era que... Pois +não hade ouvir ler a carta d'elle?' + +Fr. Diniz não respondeu, mas ficou sentado: descahiu-lhe a cabeça sôbre +o peito, e abraçando-se com o bordão, não deu mais signal de si. + +A velha escutou em silencio alguns segundos, e com aquelle ouvido +agudissimo--penetrante vista dos cegos--percebeu sem dúvida o que se +passava, e com mais confôrto e serenidade na voz disse: + +--'Abre, Joanna, lê, minha filha.' + +Joanninha abriu a carta, e percorreu com avidez as poucas linhas que +ella incerrava. + +--'Não les?' acudiu a avó com impaciencia: 'Lê, lê alto, Joanna.' + +--'É para mim so a carta' disse ella friamente. + +--'Para ti so, como?' tornou a outra. + +--'É para mim so ésta carta... não diz nada que...' + +--'Não diz nada!' replicou a avó 'Pois!... Lê, lê alto; seja como for, +lê, e oiçamos.' + +Joanninha parecia hesitar ainda; lançou os olhos ao frade, achou-o na +mesma attitude impassivel; voltou-se para a avó, viu-a anciada e +anxiosa... leu. + +A carta era com effeito para ella so, e carta bem singela, não continha +senão as ingenuas expressões de um amor fraterno nunca esquecido, longas +saudades do passado, poucas esperanças no futuro, quasi nenhumas de se +tornarem a ver tam cedo. Tudo isto porém era com a prima: para a +desconsolada avó, para ninguem mais... nem uma palavra. + +Joanninha ia lendo, lendo... e a voz a descahir-lhe: no fim ajunctou uns +abraços, umas saudosas lembranças, e não sei que phrase incompleta e mal +articulada em que se pedia a bençam da avó. + +A velha abanou a cabeça tristemente e disse: 'Ora pois... bemditto seja +Deus!' + +Joanninha córou até o branco dos olhos... Inda bem que a não podia ver a +avó! Mas viu-a Fr. Diniz, e com a mão trémula e os olhos arrazados +d'agua lhe fez um mudo e expressivo signal de approvação e +agradecimento. Joanninha córou outra vez, e logo se fez pallida como a +morte: era a primeira vez que mentia... e Fr. Diniz, o austéro Fr. Diniz +apprová-la! + +O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarem. + +Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluços suffocados... Seriam d'elle? + +A avó e a neta abraçaram-se e choraram. + +Nenhuma d'ellas disse palavra sôbre a carta: a velha tinha percebido a +piedosa fraude de Joanninha... + +Oh! que existencias que eram aquellas quatro! Esse frade, essa velha e +essas duas crianças! E a maior parte da gente que é _gente_, vive +assim... E querem, querem-n'a assim mesmo, a vida, teem-lhe appêgo! Oh +que enigma é o homem! + +Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no praso costumado, +e levou a resposta da carta--resposta que Joanninha so escreveu e so +viu--e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicára. + +Soube-se que fôra intregue; mas semanas e semanas decorreram, os meses +passaram de anno... e outra carta não veio. + +No entretanto a guerra civil progredia; e depois de suas tremendas +peripecias, o grande drama da Restauração chegava rapidamente ao fim. +Eram meiados do anno de 33, a operação do Algarve succedêra +milagrosamente aos constitucionaes, a esquadra de D. Miguel fôra tomada, +Lisboa estava em podêr d'elles. Os tardios e inuteis esforços dos +realistas para retomar a capital tinham occupado o resto do verão. Ja +outubro se descoroava de seus ultimos fructos, e as folhas começavam a +impallidecer e a cahir, quando uma sexta-feira, ao pôr do sol, Fr. Diniz +apparecia no valle mais curvado e mais trémulo que nunca. Vinha do +exército realista que então cercava Lisboa. + +Joanninha não era alli, a velha estava so. + +--'Que nos traz, padre?' clamou ella mal que o sentiu: 'Soube d'elle? +Tem escapado a éstas desgraças, a esses combates mortaes?' + +--'Não sei nada, minha irman: ha tres dias que de Lisboa se não póde +obter a menor informação. As linhas estão fechadas e guarnecidas como +nunca: tudo indíca havermos de ter cedo algum combate decisivo.' + +--'Deus seja com!..' + +--'Com quem, minha irman?' + +--'Com quem tiver justiça.' + +--'Nenhum a tem. De um lado e de outro está a ambição e a cubiça, de um +lado e de outro a immoralidade, a perdição e o desprêzo da palavra de +Deus. Por isso, vença quem vencer, nenhum hade triumphar.' + +--'Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!' + +--'Isso, irman Francisca, isso! Peça a Deus que dê a victoria a seu +neto, e á impiedade por que elle combate. Peça a Deus que vençam os +inimigos declarados do seu nome, os destruidores de seus altares, os +profanadores de seus templos... Oh! que dia bello e grande não hade ser +esse, quando Carlos... o seu Carlos, vier expulsar, ás baionetadas, do +pobre convento de San'Francisco, o velho guardião--que lhe não hade +fugir, minha irman!.. d'elle menos que de nenhum outro... que ajoelhado +deante do altar inclinará a cabeça como os antigos martyres para cahir +na presença do seu Deus ás mãos do seu...' + +--'Diniz!.. Padre!.. Padre Frei Diniz, que horrorosas palavras sahem da +sua bôcca!.. Meu neto, o meu Carlos não é capaz... oh meu Deus!..' + +--'Seu neto detesta-me... e tem... tem razão.' + +--'Não sabe a verdade elle... Carlos está inganado, cuida... não sabe +senão meia verdade: e eu, eu heide--custe o que me custar--eu heide...' + +--'Hade o quê?' + +--'Heide desinganá-lo, heide-lhe dizer a verdade toda. Heide prostrar-me +na sua presença, heide humilhar-me deante do filho de minha filha, heide +arrastar na poeira de seus pés éstas cans e éstas rugas... morrerei de +vergonha e de remorsos deante do meu filho, mas elle hade saber a +verdade.' + +Sahiam com tal impeto e com tam desacostumada energia éstas mysteriosas +e tremendas palavras da bôcca da velha, que Fr. Diniz não ousou +contê-la; ouviu até ao fim, deixou quebrar o impeto da torrente, e +erguendo então a sua voz austera mas pousada, disse n'aquelle tom +friamente decisivo que tanto impõe aos animos apaixonados: + +--'Se tal fizesse, mulher, a minha maldicção, a maldicção eterna de Deus +sôbre a sua cabeça para sempre!... Oh mulher, pois não lhe basta que +elle me abhorreça--não lhe basta que seu neto lhe perdesse o amor... +quer... quer tambem que nos despreze?' + +A velha gemeu profundamente, e, por um geito de antiga reminiscencia, +levou as mãos aos olhos como se os tapasse para não ver. Então disse com +desconsoladas lagrymas na voz: + +--'A vontade de Deus seja feita!' + + + + +CAPITULO XIX. + + + Guerra de postos avançados. Joanninha no bivac--De como os + rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a + retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram + este nome.--A sentinella perdida e achada. + + +A velha disse aquellas últimas palavras com uma expressão de dor tam +resignada, mas tam desconsolada, que o frade olhou para ella commovido, +e sentiu as lagrymas escurecerem-lhe a vista. + +N'este momento Joanninha, que passeiava a alguma distancia da casa na +direcção de Lisboa, acudiu sobresaltada bradando: + +--'Avó, avó!.. tanta gente que ahi vem! soldados e povo... homens e +mulheres... tanta gente!' + +Era a retirada de 11 de outubro. + +--'Deus tenha compaixão de nós!' disse a velha: 'O que será padre?' + +--'O que hade ser!' respondeu Fr. Diniz: 'o meu presentimento que se +verifica; o combate foi decisivo, os constitucionaes vencem.' + +Comeffeito foram apparecendo as tropas que se retiravam, as gentes que +fugiam, e todo aquelle confuso e doloroso espectaculo de uma retirada em +guerra civil... + +Alguns feridos, que não podiam mais, ficaram na casa do valle intregues +á piedosa guarda e cuidado de Joanninha; dos outros tomou conta Fr. +Diniz e os acompanhou a Santarem. + +As tropas constitucionaes vinham em seguimento dos realistas, e d'alli a +poucos dias tinham o seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel +fortificava-se em Santarem, e a casa da velha era o último posto militar +occupado pelo seu exército. + +Não tardou muito que a fôrça toda, todo o interêsse da guerra se não +concentrasse n'aquelle, ja tam pacífico e ameno, agora tam desolado e +turbulento valle. + +Eram os derradeiros dias do outomno, a natureza parecia tomar dó pelo +homem--dar triste e lugubre decoração de scena ao sanguento drama de +destruição e de miseria que alli se ía concluir. As últimas folhas das +árvores cahiam, o ceo nublado e negro vertia sôbre a terra apaulada +torrentes grossas d'agua, a cheia alagava os baixos, e as terras altas +cobriam-se de hervas maninhas, os trabalhos da lavoira cessavam, o gado +e os pastores fugiam, e os soldados de um e de outro campo cortavam as +oliveiras seculares... + +Tudo estava feio e torpe, tudo era ruina, desolação e morte emtôrno da +casa do valle, agora transformada em quartel e redutto militar. + +E que era feito, no meio d'ésta desordem, que era feito da nossa pobre +velha, da nossa interessante Joanninha? + +Apenas se estabeleceu a posição dos dous exercitos, Fr. Diniz queria +levá-las para Santarem; mas não foi possivel. Instancias, rogos, ordem +positiva, tudo foi em vão. Pela primeira vez na sua vida, aquella mulher +tímida, fraca e irresoluta, soube ter vontade firme e propria. + +--'Aqui nasci,' dizia ella, 'aqui vivi, aqui heide morrer. Que importa +como?.. Aqui as curtas alegrias, aqui as longas dores da minha vida teem +passado: onde heide eu ir que possa viver ou morrer senão aqui? Ésta +casa sei-a de cór, éstas árvores conhecem-me, estes sitios são os +ultimos que vi, os unicos de que me lembra: como heide eu, velha e cega, +ir fazer conhecimento com outros para viver n'elles?..' + +--'E Joanninha n'essa edade... no meio d'essa soldadesca!' suggeria o +frade. + +--'Joanninha' tornava ella 'Joanninha é uma criança, e tem mais juizo, +mais energia d'alma, mais saude e mais fôrça do que--mulheres não +fallemos--do que a maior parte dos homens. Ficaremos aqui, padre, +ficaremos aqui melhor do que em Santarem podêmos estar. Deus nos +defenderá...' + +Fr. Diniz cedeu: a mesma vaga e indeterminada esperança que animava a +velha, e que a prendia tam fortemente alli, não era extranha ao coração +do frade. Ella não ousava nem alludir de longe a essa esperança, mas +sentia-se que lá a tinha anninhada e escondida a um canto d'alma... +Aquelle neto, aquelle filho da filha querida havia de vir ter á casa em +que nascêra... por alli havia de passar, e mais dia menos dia... A +velha, repitto, nem alludia a tal esperança, mas sentia-se que a tinha: +percebeu-lh'a Fr. Diniz, e ou a partilhasse tambem ou não se atrevesse a +contrariar razões que lhe não davam, cedeu e callou-se. + +O seu principal temor era a licenciosa soltura dos costumes militares; +mas estava Joanninha menos exposta por se accolher a uma praça de guerra +como Santarem era agora? + +Brevemente se viu que a avó tinha accertado. A franca e ingenua +dignidade de Joanninha, o ar grave, a melancholia serena e bondosa da +velha impozeram tal respeito aos soldados, que--graças tambem á +cooperação efficaz do commandante do pôsto, um bom e honrado cavalheiro +transmontano--ellas viviam tam seguras e quietas na pequena porção da +casa que para si reservaram, quanto em taes circumstancias era possivel +viver. Fr. Diniz vinha regularmente ao valle todas as sexta-feiras, e +nenhum outro hábito de suas vidas se interrompeu. + +E pouco a pouco, os combates, as escaramuças, o som e a vista do fogo, o +aspecto do sangue, os ais dos feridos, o semblante desfigurado dos +mortos--a guerra emfim em todas as suas fórmas, com todo o seu +palpitante interêsse, com todos os terrores, com todas as esperanças que +a accompanham, se lhes tornou uma coisa familiar, ordinaria... + +A tudo se habitua o homem, a todo o estado se affaz; e não ha vida, por +mais extranha, que o tempo e a repettição dos actos lhe não faça +natural. + +Todavia de Carlos nem mais uma linha... Pobre velha! + +Assim passaram meses, assim correu o hynverno quasi todo, e ja as +amendoeiras se toucavam de suas alvissimas flores de esperança, ja uma +depois de outra, íam renascendo as plantas, íam abrolhando as árvores; +logo vieram as aves trinando seus amores pelos ramos... insensivelmente +era chegado o meio d'Abril, estavamos em plena e bella primavera. + +A guerra parecia cançada, o furor dos combatentes quebrado; rumores de +intentadas transacções gyravam por toda a parte. + +No nosso valle as sentinellas dos dous campos oppostos, costumadas ja a +ver-se todos os dias, começavam a ver-se sem odio: principiaram por se +dizer dos pesados gracejos de guerra, acabaram por conversar quasi +amigavelmente. Muíta vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer +sôbre as altas questões d'Estado que dividiam o reino e o traziam +revôlto ha tantos annos. Se as tractavam melhor os do conselho em seus +gabinetes! + +Joanninha que, pouco a pouco, se habituára áquelle viver de perigos e +incertezas, de dia para dia lhe ia crescendo o ânimo, aguerrindo-se. +Tudo se affazia áquelle estado: até os rouxinoes tinham voltado aos +loureiros d'aopé da casa, e como que disciplinados obedeciam aos toques +d'alvorada e de retreta, accompanhando-os de seu cantar animado e +vibrante. + +A essas horas Joanninha era certa em sua janella--n'aquella antiga e +elegante janella _renascença_ de que primeiro nos namorámos, leitor +amigo, ainda antes de a conhecer a ella. Alli a viam as vedetas de ambos +os exercitos, alli se acostumaram a vê-la com o nascer e o pôr do sol: +alli, muda e quêda horas esquecidas, escutava ella o vago cantar dos +seus rouxinoes, talvez absorta em mais vagos pensamentos ainda... + +E d'alli lhe pozeram o nome da 'menina dos rouxinoes', pelo qual era +conhecida em ambos os campos: significante e poetico appellido com que a +saudavam os soldados de ambas as bandeiras! + +E uns e outros respeitavam e adoravam a menina dos rouxinoes. Entre uns +e outros por tacita convenção parecia stipulado que aquella suave e +angelica figura podesse andar livremente no meio das armas inimigas, +como a pomba doméstica e valida a que nenhum caçador se lembra de mirar. + +Os costumes de guerra são menos soltos do que se cuida; no ânimo do +soldado ha mais sentimentos delicados, nas suas fórmas ha menos rudeza +do que se pensa. A farda é sim vaidosa e presumida, crê muito nos seus +podêres de seducção, mas não é brutal senão no primeiro impeto. + +Joanninha pençava os feridos, velava os infermos, tinha palavras de +consolação para todos, e em tudo quanto dizia e fazia era tam senhora, +tinha tam grave gentileza, um donaire tam nobre, que a amavam todos +muito, mas respeitavam-n'a ainda mais. + +Fiada ja n'este respeito e estima geral, Joanninha fôra extendendo, de +dia a dia, as suas excursões pelo valle. Ultimamente costumava ir, pelo +fim da tarde, até um pequeno grupo de alamos e oliveiras que ficava mais +para o sul e perto do logar donde, á noite, se collocavam as derradeiras +vedetas dos constitucionaes. + +Um dia, ja quasi pôsto o sol, a tarde quente e serena,--ou fosse que +adormeceu ou que suas meditações a distrahiram--o certo é que os +rouxinoes gorjeavam ha muito nos loureiros da janella, e Joanninha não +voltava. + +Estabeleceram-se as vedetas de um lado e outro, deram-se todas as +disposições costumadas para a noite. + +O official dos constitucionaes que andava collocando as suas +sentinellas, tinha vindo essa mesma tarde de Lisboa com um refôrço de +tropa. Pôs-se elle em marcha com a sua gente, foi-a dispondo nos logares +convenientes, e chegava emfim aopé d'aquelle grupo de árvores: + +--'Silencio!' disse elle 'Alto! alli está um vulto.' + +--'Não é ninguem,' respondeu um soldado que era dos antigos no pôsto: +'ninguem que importe; é a menina dos rouxinões. Estou vendo que +adormeceu no seu poiso costumado.' + +--'A menina dos rouxinões! Que cantiga é essa que me cantas tu lá?' + +O soldado deu a explicação popular do seu ditto, mostrou a casa do +valle, e continuava incarecendo sôbre os meritos e virtudes de +Joanninha... + +O official não o deixou acabar: + +--'Para a rettaguarda, e silencio!' + +Foi rapidamente postar, a alguma distancia d'alli, as duas sentinellas +que lhe faltavam; e elle entrou so no pequeno grupo d'árvores. + +Era Joanninha que estava alli, Joanninha que effectivamente dormia a +somno sôlto. + + + + +CAPITULO XX. + + + Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do + Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes acompanhavam sempre a menina + do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto + esquissado á pressa para satisfazer ás amaveis + leitoras.--Pondera-se o triste e pessimo gôsto dos nossos + governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais + nacional uniforme do exército portuguez.--Em que se parece o auctor + da presente obra com um pintor da edade-média.--De como os abraços, + por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis + que pareçam, sempre teem de acabar porfim. + + +Sôbre uma especie de banco rustico de verdura, tapeçado de grammas e de +macella brava, Joanninha, meio recostada, meio deitada, dormia +profundamente. + +A luz baça do crepusculo, coada ainda pelos ramos das árvores, +illuminava tibiamente as expressivas feições da donzella; e as fórmas +graciosas de seu corpo se desenhavam molle e voluptuosamente no fundo +vaporoso e vago das exhalações da terra, com uma incerteza e indecisão +de contornos que redobrava o incanto do quadro, e permittia á imaginação +exaltada percorrer toda a escalla d'harmonia das graças femininas. + +Era um ideal do demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo, +lh'o preparára a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado da brisa +recendente dos prados. + +Como n'essas poeticas e populares legendas de um dos mais poeticos +livros que se tem escripto, o Flos-sanctorum, em que a ave querida e +fadada accompanha sempre a amavel sancta de sua affeição--Joanninha não +estava alli sem o seu mavioso companheiro. Do mais espêsso da ramagem, +que fazia sobreceo áquelle leito de verdura, sahia uma torrente de +melodias, vagas e ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, e +admiraveis de irregularidade e invenção, como as barbaras endeixas de um +poeta selvagem das montanhas... Era um rouxinol, um dos queridos +rouxinoes do valle que alli ficára de vela e companhia á sua protectora, +á menina do seu nome. + +Com o approximar dos soldados, e o cochichar do curto dialogo que no fim +do último capitulo se referiu, cessára por alguns momentos o delicioso +canto da avezinha; mas quando o official, postadas as sentinellas a +distancia, voltou pé ante pé e entrou cautellosamente para debaixo das +árvores, ja o rouxinol tinha tornado ao seu canto, e não o suspendeu +outra vez agora, antes redobrou de trillos e gorgeios, e do mais alto de +sua voz agudissima veio descahindo depois em uns suspiros tam magoados, +tam sentidos, que não disseras senão que preludiava á mais terna e +maviosa scena d'amor que esse valle tivesse visto. + +O official...--Mas certo que as amaveis leitoras querem saber com quem +trattam, e exigem, pelo menos, uma esquissa rapida e a largos traços do +novo actor que lhes vou appresentar em scena. + +Teem razão as amaveis leitoras, é um dever de romancista a que se não +póde faltar. + +O official era môço, talvez não tinha trinta annos; pôsto que o tratto +das armas, o rigor das estações, e o sêllo visivel dos cuidados que +trazia estampado no rosto, accentuassem ja mais fortemente, em feições +de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude. + +A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte +como precisa um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e +decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e +largo sobretudo militar--especie de great-coat inglez que a imitação das +modas britannicas tinha tornado familiar nos nossos bivacs. Trazia-o +desabotoado e descahido para traz, porque a noite não era fria; e viu-se +por baixo elegantemente cingida ao corpo a fardeta parda dos caçadores, +realçada de seus characteristicos alamares pretos e avivada de +incarnado... + +Uniforme tam militar, tam nacional, tam caro a nossas recordações--que +essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado +n'esta terra, proscreveram do exército... por muito portuguez demais +talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfandega, reformaram-n'o +em uniforme da bicha! + +Não pude resistir a esta reflexão: as amaveis leitoras me perdoem por +interromper com ella o meu retratto. + +Mas quando pinto, quando vou riscando e collorindo as minhas figuras, +sou como aquelles pintores da edade-média que interlaçavam, nos seus +paineis, distichos de sentenças; fittas lavradas de moralidades e +conceitos... talvez porque não sabiam dar aos gestos e attitudes +expressão bastante para dizer por elles o que assim escreviam, e servia +a penna de supplemento e illustração ao pincel... Talvez: e talvez pelo +mesmo motivo caio eu no mesmo defeito... + +Será; mas em mim é irremediavel, não sei pintar de outro modo. + +Voltemos ao nosso retratto. + +Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza ímmensa, +denunciavam o talento, a mobilidade do espirito--talvez a irreflexão... +mas tambem a nobre singeleza de um character franco, leal e generoso, +facil na íra, facil no perdão, incapaz de se offender de leve, mas +impossivel de esquecer uma injúria verdadeira. + +A bôcca, pequena e desdenhosa, não indicava comtudo suberba, e muito +menos vaidade, mas surria na consciencia de uma superioridade +inquestionavel e não disputada. + +O rosto, mais pallido que trigueiro, parecia comprido pela barba preta e +longa que trazia ao uso do tempo. Tambem o cabello era preto; a testa +alta e desaffogada. + +Quando callado e serio, aquella physionomia podia-se dizer dura; a mais +piquena animação, o mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira, +porque a mobilidade e a gravidade eram os dous pollos d'esse character +pouco vulgar e difficilmente bem intendido. + +D'aquelle busto classico e verdadeiramente moldado pelos typos da arte +antiga, podia o statuario fazer um philosopho, um poeta, um homem +d'estado ou um homem do mundo, segundo as leves inflexões d'expressão +que lhe désse. + +N'este momento agora, e ao entrar na pequena espessura d'aquellas +árvores, animava-o uma viva e inquieta expressão de interêsse--quebrado +comtudo, sustido, e, para assim dizer, _soffreado_ de um temor occulto, +de um pensamento reservado e doloroso que lhe ia e vinha resumbrando na +face, como a antiga e desbotada côr de um estôfo que se tingiu de +novo--que é outro agora mas que não deixou de ser inteiramente o que +era... + +Alegra-se assim um triste dia de novembro com o raio de sol transiente e +inesperado que lhe rompeu a cerração n'um canto do ceo... + +Tal era, e tal estava deante de Joanninha adormecida, o que não direi +mancebo porque o não parecia--o homem singular a quem o nome, a historia +e as circumstancias da donzella pareciam ter feito tamanha impressão. + +--'Joanninha!' murmurou elle apenas a viu á luz ainda bastante do +crepusculo. 'Joanninha!' disse outra vez, contendo a violencia da +exclamação: 'É ella sem dúvida. Mas que differente!... quem tal diria! +Que graça, que gentileza! Será possível que a criança que ha dois +annos?..' + +Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario lhe tomou a mão +adormecida e a levou aos labios. + +Joanninha estremeceu e acordou. + +--'Carlos, Carlos!'--balbuciou ella com os olhos ainda meio-fechados, +Carlos, meu primo... meu irmão! era falso, dize: era falso? Foi um +sonho, não foi, meu Carlos?..' + +E progressivamente abria os olhos mais e mais até se lhe espantarem e os +cravar n'elle arregalados de pasmo e de alegria. + +--'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um sonho mau que eu tive. Tu +não morreste... Falla á tua irman, á tua Joanna; dize-lhe que estás +vivo, que não es a sombra d'elle... Não es, não, que eu sinto a tua mão +quente na minha que queima, sinto-a estremecer como a minha... Carlos, +meu Carlos! dize, falla-me: tu estás vivo e são? E es... es o meu +Carlos? Tu proprio, não é ja o sonho, es tu?...' + +--'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas commigo?' + +--'Sonhava como sonho sempre que durmo... e o mais do tempo que estou +acordada... sonhava com aquillo em que so penso... em ti.' + +--'Joanna!... prima... minha irman!' + +E cahiu nos braços d'ella; e abraçaram-se n'um longo, longo abraço--com +um longo, interminavel beijo..! longo, longo e interminavel como um +primeiro beijo d'amantes... + +O abraço desfez-se; e o beijo terminou em fim, porque os reflexos do ceo +na terra são limitados e imperfeitos como as incompletas existencias que +a habitam. + +Senão... invejariam os anjos a vida da terra. + +Joanninha, tornada a si d'aquelle quasi paroximo, abria e fechava os +olhos para se affirmar se estava bem acordada, tocava com as mãos o +rosto, o peito, os braços do primo, palpava-se depois a si mesma como +quem duvidava de sua propria existencia, e dizia em palavras cortadas e +sem nexo: + +--'É Carlos... Carlos: foi falso. É meu primo... Minha avó tambem sonhou +o mesmo sonho, mas foi falso. Fr. Diniz não é o que disse, nem ninguem: +eu e a avó é que o sonhámos. Mas elle aqui está, vivo... vivo! e nosso, +nosso todo outra vez!... Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como estava eu +aqui comtigo?... E sos, sosinhos aqui a ésta hora! Não deve ser isto... +Valha-me Deus! E que dirão? E Jesus!--Lá isso não me importa; deixá-los +dizer: mas não deve ser. Vamos, Carlos, vamos ter com ella, vamos para a +avó!... Que n'isto não ha mal nenhum... Meu primo!.. um primo com quem +eu fui criada!.. Mas quem não souber, póde dizer... Vamos, Carlos.--Oh! +minha avó morre de alegria, coitada!.. É verdade: vou adeante +preveni-la, prepará-la... heide-lhe ir assim dizendo pouco a pouco... +Segue-me tu, Carlos, e vamos.--Mas, oh meu Deus! não é preciso: paraquê? +Ella é cega, coitadinha, não sabes?' + +--'Cega, que dizes? minha avó está cega?' + +--'Pois não sabías? Ai! é verdade, não sabías. Tantas coisas que tu não +sabes, meu Carlos! Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou quando... +Mas não fallemos agora n'essas tristezas que ja la vão. Em ella te +sentindo aopé de si, é o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-m'o ella +ditto muitas vezes, e eu bem sei que é assim. Mas ouve: um dia havemos +de fallar--nós dois sos--á vontade: tenho tanto que te dizer... nem tu +sabes... Agora vamos, Carlos.' + +E fallando assim, tomou-o pela mão e sahiu para o valle aberto, +froixamente acclarado ja de myríadas de estrellas scintillantes no ceo +azul. + + + + +CAPITULO XXI. + + + Quem vem lá?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa o + terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situação _ordeira_, + a mais perigosa e falsa das situações. + + +As estrellas luziam no ceo azul e diaphano, a brisa temperada da +primavera suspirava brandamente; na larga solidão e no vasto silencio do +valle distinctamente se ouvia o doce murmúrio da voz de Joanninha, +claramente se via o vulto da sua figura e da do companheiro que ella +levava pelo mão e que machinalmente a seguia como sem vontade propria, +obedecendo ao podêr de um magnetismo superior e irresistivel. + +Passavam, sem as ver e sem reflectir onde estavam, por entre as vedetas +de ambos os campos... e ao mesmo tempo de umas e outras lhes bradou o +voz breve e stridente das sentinellas: 'Quem vem lá?' + +Estremeceram involuntariamente ambos com o som repentino de guerra e de +allarma que os chamava á esquecida realidade do sítio, da hora, das +circumstancias em que se achavam... D'aquelle sonho incantado que os +transportára ao Éden querido de sua infancia, accordaram +sobresaltados... viram-se na terra erma e bruta, viram a espada +flammejante da guerra civil que os perseguia, que os desunia, que os +expulsava para sempre do paraizo de delicias em que tinham nascido... + +Oh! que imagem eram esses dous, no meio d'aquelle valle nu e aberto, á +luz das estrellas scintillantes, entre duas linhas de vultos negros, +aqui alli dispersos e luzindo acaso do tranziente reflexo que fazia +brilhar uma baioneta, um fuzil... que imagem não eram dos verdadeiros e +mais sanctos sentimentos da natureza expostos e sacrificados sempre no +meio das luctas barbaras e estupidas, no conflicto de falsos principios +em que se estorce continuamente o que os homens chamaram _sociedade_! + +Joanninha abraçou-se com o primo; elle parou derepente e foi com a mão +ao punho da espada. + +--'Quem vem lá?' tornaram a bradar as sentinellas. + +--'Ouves, Joanna?' disse Carlos em voz baixa e sentida: 'Ouves estes +brados?' É o grito da guerra que nos manda separar; é o clamor cioso e +vigilante dos partidos que não tolera a nossa intimidade, que separa o +irmão da irman, o pae do filho!..' + +--'Quem vem lá?' bradaram ainda mais forte as sentinellas; e ouviu-se +aquelle stridor baço e breve que tam froixo é e tam forte impressão faz +nos mais bravos animos... era o som dos gatilhos que se armavam nas +espingardas. + +O momento era supremo, o perigo imminente e ja inevitavel... alli podiam +ficar ambos, traspassados das ballas oppostas dos dous campos +contendores. + +Como esses que, fiados em sua innocencia e abnegação, cuidam podêr +passar por entre as discordias civis sem tomar parte n'ellas, e que são, +por isso mesmo, objecto de todas as desconfianças, alvo de todos os +tiros--assim estavam alli os dous primos na mais arriscada e falsa +posição que têem as revoluções. + +Joanninha conheceu o perigo que os ameaçava; e com aquella rapidez de +resolução que a mulher tem mais prompta e segura nas grandes occasiões, +disse para Carlos: + +--'Falla aos teus, faze-te conhecer e põe-te a salvo. Ámanhan nos +tornaremos a ver: eu te avisarei. Adeus!' + +--'E tu, tu?.. E as sentinellas dos realistas?..' + +--'Não tenhas cuidado em mim. D'esta banda todos me conhecem'. + +Deu alguns passos para o lado da sua casa e levantou a voz: + +--'Joanninha! Sou eu, camaradas, sou eu!' + +Immediatamente se ouviu o som retinido das coronhas no chão, e o riso +contente dos soldados que reconheciam a bemquista e bem vinda voz de +Joanninha... da 'menina dos rouxinoes.' + +--'Ves, Carlos?.. Adeus! até ámanhan.' disse ella baixo. + +--'Até amanhan se...' + +--'Se!.. Pois tu?..' + +--'Ouve: não digas a tua avó que me viste, que estou aqui: é forçoso, é +indispensavel, exijo-o de ti...' + +--'E ámanhan me dirás?..' + +--'Sim.' + +--'Prometto: não direi nada... Mas, oh! Carlos...' + +--'Adeus!' + +Carlos deu dous passos para a banda das suas vedetas, Joanna correu para +o lado opposto. Mas elle parou e não tirou os olhos d'aquella fórma +gentil que deslizava como uma sombra pelo horisonte do valle, até que +desappareceu de todo. + +E elle immovel ainda! + +Faíscaram derepente como relampagos um, dous, tres... e as detonações +que os seguiram, e o assovio das ballas que vinham depós ellas... Eram +as sentinellas constitucionaes que faziam fogo sôbre o seu commandante +que não conheciam, cujo silencio e immobilidade o fazia suspeito. + +Uma das ballas ainda o feriu levemente no braço esquerdo. + +--'Bem, camaradas!' bradou Carlos caminhando rapidamente para elles, e +erguendo a voz forte e cheia que tam conhecida era nas fileiras: 'Bem! +Fizeram a sua obrigação. Um de vocês que me aperte aqui o braço com este +lenço.' + +--'Carlos!' gritou ao longe uma voz fina, aguda, vibrante de terror pelo +espaço 'Carlos! falla-me, responde: não te succedeu nada?' + +--'Nada, nada! Socega.' + +E tornou a cahir tudo no silencio. Carlos retirou-se ao seu quartel +n'uma choupana proxima. Os soldados olharam-se entre si e surriram. + +Um mais doutor disse para os outros: + +--'O nosso capitão não se descuida: ainda hoje chegou, e já nós lá +vamos, hem?' + +--'O nosso capitão é d'aqui: não sabes?' + +--'Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura? O home' é capaz!' + +--'Silencio! Eu te direi logo a historia toda: é uma prima.' + +--'Ah! prima. Então não ha nada que dizer.' + +--'É a que elles chamam aqui...' + +--'A menina dos rouxinoes? Essa é maluca.' + +--'Gosta d'ellas assim, que elle tambem o é.' + +--'Pois a freira de San Gonsallo, na Terceira?' + +--'Maluca.' + +--'E a Lady ingleza que?..' + +--'Maluquissima essa! Não me hade admirar se a vir cahir do ar um dia +por ahi como bomba. E não hade dar mau estallo!' + +--'Podéra! E incontrando-se com a prima então!..' + +--'Mas elle é prima ou é irman?' + +--'É uma tal parentella inrevezada a d'essa gente da casa do valle!.. +dizem coisas por ahi, que se eu as intendo!.. E ha um frade no caso, ja +se sabe...' + +--'Oh! elle ha frade no caso?' + +--'Ha, e que frade! Um apostolico ás direitas! Tam feio, tão magro! +apparece por ahi ás vezes. Eu já o lombriguei um dia: e que famoso tiro +que era! Quasi que me arrependo de não ter...' + +--'Isso! hoje iamos matando o nosso capitão por instantes. Olha agora se +lhe matas o tio, ou pae, ou o que quer que é...' + +--'Um frade!' + +--'Um frade não é gente?' + +--'Não senhor.' + +--'Está bom: basta de conversar por hoje. O que me eu parece é que nós +temos cedo muita pancada rija.' + +--'Venha ella, que isto ja abhorrece.' + +Accenderam os cigarros e fumaram. + +Com o mesmo socêgo d'espirito... sancto Deus! accendem os homens a +guerra civil, que altera e confunde por este modo todas as ideas, todos +os sentimentos da natureza. + + + + +CAPITULO XXII. + + + Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da + velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus + botões.--A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que + achou.--Obrigações d'amor, triste palavra.--A mulher que elle + amava, e se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos + leitores. Declara que com os hypocritas não falla.--Quem hade + levantar a primeira pedra?--Dous modos differentes de accudir uma + coisa ao pensamento. + + +No dia seguinte, mal rompia a manhan, um paizano que dizia trazer +communicações importantes para o commandante do pôsto avançado, foi +conduzido á presença de Carlos e lhe intregou uma carta: era de +Joanninha. + +Fiel á sua promessa, ella não tinha ditto nada do incôntro da véspera: +dizia a carta. E que a avó estava doente e afflicta; que para a animar e +consolar, lhe dera notícias do primo, como vindas por pessoa que o víra +e estivera com elle. Que ficava mais contente e socegada: mas que +aquelle estado de anciedade não podia prolongar-se. Que a saude da pobre +velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era matá-la não +lhe dizer a verdade... Joanninha concluia com mil affectos e saudades; e +aprazava por fim o mesmo sítio da véspera para se tornarem a ver, e para +concertarem o que havia de fazer. Todas as precauções estavam tomadas, e +o consentimento dado pelo commandante do pôsto contrário para haver toda +a segurança n'aquella entrevista. + +Carlos tinha velado toda a noite; uma excitação extraordinaria lhe +amotinára o sangue, lhe desaffinára os nervos. Bem tinha desejado vir +para aquelle pôsto, bem contava, bem esperava elle, estando alli, saber +de mais perto da sua familia, vê-los talvez, mais dia menos dia, +incontrar-se com alguns d'elles... e de todos elles, a innocente e +graciosa criança com quem vivêra como irmão desde os seus primeiros +annos, era quem elle mais esperava, mais desejava ver decerto. + +Mas uma criança era a que elle tinha deixado, uma criança a brincar, a +colhêr as boninas, a correr atraz das borboletas do valle... uma criança +que sim o amava ternamente, cuja suave imagem o não tinha deixado nunca +em sua longa peregrinação, cuja saudade o accompanhára sempre, de quem +se não esquecêra um momento, nem nos mais alegres nem nos mais +occupados, nem nos mais difficeis nem nos mais perigosos da sua vida... + +Mas era uma criança!.. era a imagem d'uma criança. + +É certo, sim: e nas batalhas, em presença da morte... no longo cêrco do +Porto entre os flagellos da cholera e da fome, nas horas de mais viva +esperança, no descoroçoamento dos mais tristes dias, a doce imagem de +Joanninha, d'aquella Joanninha com quem elle andava ao colo, que +levantava em seus hombros para ella chegar aos ninhos dos passaros no +verão, aos medronhos maduros no outomno, que elle suspendia nos braços +para passar no hynverno os alagadiços do valle,--essa querida imagem não +o abandonára nunca. + +Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem quando as suas glórias--mais +esquecidiças ainda!--pareciam absorver-lhe todos os sentidos, e todo o +sentimento de seu coração. + +A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente impressa no mais puro e no +mais sancto de sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que +lh'a obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lh'a +allumiasse. + +Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha na mão do anjo que ajoelha +em innocencia e piedade deante do throno do Eterno! + +Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle, quasi na mesma hora, cheio +d'aquella luz, mais viva e animada agora pela proximidade do foco d'onde +sahia... n'essa mesma hora, ir incontrar alli, n'aquella solidão, entre +aquellas árvores, á tibia e seductora claridade do crepusculo... a quem, +sancto Deus! Não ja a mesma Joanninha de ha tres annos, não a mesma +imagem que elle trazia, como a levára, no coração; mas uma gentil e +airosa donzella, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdêra, +comtudo, da graça, do incanto, do suave e delicioso perfume da +innocencia infantil em que a deixára! + +Não esperava, não estava preparado para a impressão que recebeu, foi uma +surpreza, um choque, um reviramento confuso de todas as suas ideas e +sentimentos. + +Qual fosse porêm a precisa e verdadeira impressão que recebeu, nem elle +a si proprio o podéra explicar: era de um genero novo, unico na historia +de suas sensações: não a conhecia, extranhava-a, e quasi que tinha medo +de a analysar. + +Sería annúncio d'amor? + +Mas elle tinha amado, amado muito e devéras... e cuidava amar ainda, e +devia amar; por quanto ha sagrado e sancto nos deveres do coração, era +obrigado a amar ainda. + +Oh obrigações d'amor, obrigações d'amor! se vós não sois, se vós ja não +sois senão obrigações!.. + +Não o pensava Carlos, não o cria elle assim: leal e sincero tinha +intregue o seu coração á mulher que o amava, que tantas próvas lhe dera +d'amor e devoção; que descançava em sua fé, que não existia senão para +elle: mulher môça, bella, cheia de prendas e de incantos, mulher de um +espirito, de uma educação superior, que atravessára, desprezando-as, +turbas de adoradores nobres, riccos, poderosos, para descer até elle, +para se intregar ao foragido, pobre, extrangeiro, desprezado. + +Quem era essa mulher? + +Aonde, como obtivera elle a posse d'essa joia, d'esse talisman com o +qual se tinha por tam seguro para não ver na graciosa prima senão?.. + +Senão o quê? + +A innocente criança que alli deixára? + +Mas não é verdade isso: outra era a impressão que Joanninha lhe fizera, +fosse ella qual fosse. + +O que era então? + +E sôbre tudo, quem era ess'outra mulher que elle amava? + +E amava-a elle ainda? + +Amava. + +E Joanninha? + +Joanninha era... nem eu sei o que lhe era Joanninha... o que lhe estava +sendo n'aquelle momento. + +O que lhe ella fôra, assas t'o tenho explicado, leitor amigo e benevolo: +o que lhe ella será... Pódes tu, leitor candido e sincero,--aos +hypocritas não fallo eu--pódes tu dizer-me o que hade ser ámanhan no teu +coração a mulher que hoje somente achas bella, ou gentil, ou +interessante? + +Pódes responder-me da parte que tomará ámanhan na tua existencia a +imagem da donzella que hoje contemplas apenas com olhos de artista, e +lhe estás notando, como em quadro gracioso, os finos contornos; a pureza +das linhas, a expressão verdadeira e animada? + +E quando vier, se vier, esse fatal dia de ámanhan, responder-me-has +tambem da parte que ficará tendo em tua alma ess'outra imagem que lá +estava d'antes e que, ao reflexo d'esta agora, d'aqui observo que vai +impallidecendo, descórando... ja lhe não vejo senão os lineamentos +vagos... ja é uma sombra do que foi... Ai! o que será ella ámanhan? + +Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente, não accuses, não +julgues á pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra que o +Filho da Deus mandou levantar á primeira mão que se achasse innocente... +A adultera foi-se em paz, e ninguem a apedrejou. + +Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher +a quem promettêra, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher +era bella, nobre, ricca, admirada, occupava uma alta posição no mundo... +e tudo lhe sacrificára a elle exilado, desconhecido. + +E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ella; que +os longos e ondados anneis de loiro cendrado, que os languidos olhos de +gazella, que o ar majestoso e altivo, que a tez d'uma alvura celeste, +que o espirito, o talento, a delicadeza de Georgina... Chamava-se +Georgina; e é tudo quanto por agora póde dizer-vos, ó curiosas leitoras, +o discreto historiador d'este mui veridico successo: não lhe pergunteis +mais, por quem sois. Carlos estava seguro, dizia eu, que todas essas +perfeições, que o seu amor sem limites, que a sua confiança sem reserva, +não podiam ter rival, nem a haviam de ter. + +Mas aquelle beijo, aquelle abraço de Joanninha... oh! que lhe tinha elle +feito? Como o sentíra elle? Como lhe guardára o seu talisman o coração e +a alma?.. + +Não, Carlos estava certo de si, certo do seu antigo amor, lembrado de +quanto lhe devia: e n'isso reflectiu toda aquella noite que se fôra em +claro. + +A imagem de Joanninha lá apparecia, de vez em quando, como um raio de +luz transiente e magica, no meio d'ess'outras visões do passado que a +reflexão lhe acordava. Ai! essas era a reflexão que as acordava... +aquella vinha espontanea; era repellida, e tornava, e tornava... + +Ha sua notavel differença n'estes dois modos de accudir ao pensamento. + +A manhan veio em fim; Carlos respirou o ar puro e vivo da madrugada, +sentiu-se outro. + +Quando chegou a carta de Joanninha, leu-a e reflectiu n'ella sem +sobresalto. Certo e seguro de si, resolveu ir ao prazo dado para a +tarde. + + + + +CAPITULO XXIII. + + + Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de + Carlos.--Dança de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau da + familia.--Veremos, é a grande resolução nas grandes + difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes.--Desafio a + todos os poetas moyen-ages do nosso tempo. + + +Não ha nada como tomar uma resolução. + +Mas hade tomar-se e executar-se: aliás, se o caso é difficil e +complicado, pouco a pouco as dúvidas solvidas começam a inliar-se outra +vez, a inredar-se... a surgir outras novas, a appresentarem-se faces +ainda não vistas da questão... em fim, se o intervallo é largo, quando a +resolução tomada chega a executar-se, a maior parte das vezes ja não é +por fôrça de razão e convicção que se faz, mas por capricho, ponto +d'honra, teima. + +Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no fim do dia. Mas o dia era +longo, custou-lhe a passar. Todas as ponderações da noite lhe recorreram +ao pensamento, todas as imagens que lhe tinham fluctuado no espirito se +avivaram, se animaram, e lhe começaram a dançar n'alma aquella dança de +fadas e duendes que faz a delicia e os tormentos d'estes sonhadores +acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chama +_nervosos_; em stylo de romance _sensiveis_, na phrase popular +_malucos_. + +Carlos era tudo isso: para que o heide eu negar? + +Entre aquellas imagens que assim lhe bailavam no pensamento, vinha uma +agora... talvez a que elle via mais distincta entre todas, a da avó que +tanto amára, em cujo maternal coração elle bem sabía que tinha a +primeira, a maior parte... da avó que tam carinhosa mãe lhe tinha sido! +Pobre velhinha, hoje decrepita e cega... Cega, coitada! Como e porque +cegaria ella? + +Havia ahi mysterio que Joanninha indicára, mas que não explicou. + +Atraz da paciente e humilhada figura d'aquella mulher de dores e +desgraças, se erguia um vulto austero e duro, um homem armado da cabeça +aos pés de ascetica insensibilidade, um homem que parecia o fado-mau +d'aquella velha, de toda a sua familia... o cumplice e o verdugo de um +grande crime... um ser de mysterio e de terror. + +Era Fr. Diniz aquelle homem; homem que elle desejava, que elle cuidava +detestar, mas por quem, no fundo d'alma, lhe clamava uma voz mystica e +íntima, uma voz que lhe dizia: 'Assim será tudo, mas tu não pódes +abhorrecer esse homem.' + +Sim, mas sôbre Fr. Diniz pesava uma accusação tremenda, que o fizera, a +elle Carlos, abandonar a casa de seus paes! Accusação horrivel que +tambem comprehendia a pobre velha, aquella avó que o adorava, e que +elle, ainda criminosa como a suppunha, não podia deixar de amar... + +E d'estes medonhos segredos sabía Joanninha alguma coisa? + +Esperava em Deus que não. + +Desconfiaria alguma coisa?... O quê? + +E iria elle polluir o pensamento, desflorar os ouvidos, corromper os +labios da innocente criança com o esclarecimento de taes horrores? + +Havia de lhe fallar na infamia dos seus? Havia de lhe explicar o motivo +porque fugira da casa paterna? + +Havia de?.. + +Não.--Se Joanninha tivesse suspeitas, havia de destrui-las antes; se +ella soubesse alguma coisa, negar-lh'a. + +Mentiria, juraria falso se fosse preciso. + +E não havia de ir ver a avó, não havia de entrar na casa dos seus a +consolar a infeliz que só vivia d'uma esperança, a de ver o filho de sua +filha? + +Não, nunca... O limiar d'aquella porta, que elle julgava contaminado, +infame, manchado de sangue e cuspido de opprobrios e deshonras, tinha-o +passado sacudindo o po de seus sapatos, promettendo a Deus e á sua honra +de o não tornar a cruzar mais. + +Mas que diria então elle a Joanninha? Como havia de explicar-lhe um +proceder tam extranho, e apparentemente tam cruel, tam ingrato? + +Por emquanto as impossibilidades materiaes da guerra serviriam de +desculpa, depois o tempo daria conselho. + +_Veremos_!--é a grande resolução que se toma nas grandes difficuldades +da vida, sempre que é possivel espaçá-las. + +Carlos disse: '_Veremos!_' + +Tomou todas as disposições para podêr estar seguro e socegado no sítio +onde ia incontrar a prima: e o resto do dia, ancioso mas contente, +occupou-se de seus deveres militares, fatigou o corpo para descançar o +espirito, e em parte e por bastantes horas o conseguiu. + +Mas um dia de abril é immenso, interminavel. E as últimas horas pareciam +as mais compridas. Nunca houve horas tammanhas! Carlos ja não tinha que +inventar para fazer: pôz-se a pensar. + +Que remedio! + +Pensou n'isto, pensou n'aquillo... uma idea lhe vinha, outra se lhe ia. +A imaginação, tanto tempo comprimida, tomava o freio nos dentes e corria +á redea sôlta pelo espaço... + +Anneis dourados, transas de ebano, faces de leite e rosas como de +cherubins, outras pallidas, transparentes, diaphanas como de princezas +incantadas, olhos pretos, azues, verdes... os de Joanninha em fim... +todas éstas feições, confusas e indistinctas mas de estremada belleza +todas, lhe passavam deante da vista, e todas o infeitiçavam. O +desgraçado...--Porque não heide eu dizer a verdade?--o desgraçado era +poeta. + +Inda assim! não me esconjurem ja o rapaz... Poeta, intendamo'-nos; não é +que fizesse versos: n'essa não cahiu elle nunca, mas tinha aquelle fino +sentimento d'arte, aquelle sexto sentido do _bello_, do _ideal_ que so +teem certas organizações privilegiadas de que se fazem os poetas e os +artistas. + +Eis aqui um fragmento de suas aspirações poeticas. Vejam as amaveis +leitoras que não teem metro, nem rhyma--nem razão... Mas emfim versos +não são. + + +'Olhos verdes!.. + +'Joanninha tem os olhos verdes... + +'Não se reflecte n'elles a pura luz do ceo, como nos olhos azues. + +'Nem o fogo--e o fummo das paixões, como nos pretos. + +'Mas o viço do prado, a frescura e animação do bosque, a fluctuação e a +transparencia do mar... + +'Tudo está n'aquelles olhos verdes. + +'Joanninha, porque tens tu os olhos verdes? + +'Nos olhos azues de Georgina arde, em sereno e modesto brilho, a luz +tranquilla de um amor provado, seguro, que deu quanto havia de dar, +quanto tinha que dar. + +'Os olhos azues de Georgina não dizem senão uma so phrase d'amor, sempre +a mesma e sempre bella: _Amo-te, sou tua!_ + +'Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca li mais que éstas +palavras: _Ama-me, que es meu!_ + +'Os olhos de Joanninha são um livro immenso, escripto em characteres +moveis, cujas combinações infinitas excedem a minha comprehensão. + +'Que querem dizer os teus olhos, Joanninha? + +'Que lingua fallam eles? + +'Oh! paraque tens tu os olhos verdes, Joanninha? + +'A assucena e o jasmim são brancos, a rosa vermelha, o alecrim azul... + +'Roxa é a violeta, e o junquilho côr de ouro. + +'Mas todas as côres da natureza vêem de uma so, o verde. + +'No verde está a origem e o primeiro typo de toda a belleza. + +'As outras côres são parte d'ella; no verde está o todo, a unidade da +formosura creada. + +'Os olhos do primeiro homem deviam de ser verdes. + +'O ceo é azul... + +'A noite é negra... + +'A terra e o mar são verdes... + +'A noite é negra mas bella: e os teus olhos, Soledade, eram negros e +bellos como a noite. + +'Nas trevas da noite luzem as estrellas que são tam lindas... mas no fim +de uma longa noite quem não suspira pelo dia? + +'E que se vão... oh! que se vão emfim as estrellas!.. + +'Vem o dia... o ceo é azul e formoso: mas a vista fatiga-se de olhar +para elle. + +'Oh! o ceo é azul como os teus olhos, Georgina... + +'Mas a terra é verde: e a vista repousa-se n'ella, e não se cança na +variedade infinita de seus matizes tam suaves. + +'O mar é verde e fluctuante... Mas oh! esse é triste como a terra é +alegre. + +'A vida compõe-se de alegrias e tristezas... + +'O verde é triste e alegre como as felicidades da vida. + +'Joanninha, Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?..' + + +Ja se vê que o nosso doutor de bivac, o soldado que lhe chamou _maluco_ +ao pensador de taes extravagancias, tinha razão e sabía o que dizia. + +Infelizmente não se formulavam em palavras estes pensamentos poeticos +tam sublimes. Por um processo milagroso de photographia mental, apenas +se pôde obter o fragmento que deixo transcripto. + +Que honra e glória para a eschola romantica se podessemos ter a +collecção completa! + +Fazia-se-lhe um prefacio incisivo, palpitante, _britante_.... + +Punha-se-lhe um titulo vaporoso, phosphorescente... por exemplo:--Echos +surdos do coração--ou--Reflexos d'alma--ou--Hymnos +invisiveis--ou--Pesadellos poeticos--ou qualquer outro d'este genero, +que se não soubesse bem o que era nem tivesse senso commum. + +E que viesse ca algum menestrel de frak e chapeu redondo, algum trovador +renascença de collete á Joinville, luctar com o meu Carlos em pontos de +romantismo vago, descabellado, vaporoso, e nebuloso! + +Se algum d'elles era capaz de escrever com menos logica,--(com menos +grammatica, sim) e com mais triumphante desprêzo das absurdas e +escravizantes regras d'essa paleta d'essa eschola classica que não +produziu nunca senão Homero e Virgilio, Sophocles e Horacio, Camões e o +Tasso, Corneille e Racine, Pope e Moliere, e mais algumas duzias de +outros nomes tam obscuros como estes? + + + + +CAPITULO XXIV. + + + Novo Génesis.--O Adam social muito differente do Adam + natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro + por suas más reflexões.--De como Joanninha recebeu o primo com os + braços abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor, + meia prazer. + + +Formou Deus o homem, e o pôs n'um paraizo de delicias; tornou a formá-lo +a sociedade, e o pôs n'um inferno de tolices. + +O homem--não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem +contrafeito, appertando e forçando em seus moldes de ferro aquella pasta +de limo que no paraizo terreal se affeiçoára a imagem da divindade--o +homem, assim aleijado como nós o conhecêmos, é o animal mais absurdo, o +mais disparatado e incongruente que habita na terra. + +Rei nascido de todo o creado, perdeu a realeza; principe desherdado e +proscripto, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados; altivo +ainda e suberbo com as recordações do passado, baixo vil e miseravel +pela desgraça do presente. + +D'estas duas tam oppostas actuações constantes, que ja per si sos o +tornariam ridiculo, formou a sociedade, em sua van sabedoria, um systema +chymerico, desarrazoado e impossivel, complicado de regras a qual mais +desvairada, incontrado de repugnancias a qual mais opposta. E vazado +este perfeito modêlo de sua arte pretenciosa, metteu dentro d'elle o +homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal ente absurdo e +disparatado, doente, fraco, rachitico; collocou-o no meio do Eden +phantastico de sua creação,--verdadeiro inferno de tolices--e disse-lhe, +invertendo com blasphêmo arremêdo as palavras de Deus Creador: + +'De nenhuma árvore da horta comendo comerás; + +'Porêm da árvore da sciencia do bem e do mal, d'ella so comerás se +quizeres viver.' + +Indigestão de sciencia que não commutou seu mau estomago, presumpção e +vaidade que d'ella se originaram--tal foi o resultado d'aquele preceito +a que o homem não desobedeceu como ao outro: tal é o seu estado +habitual. + +E quando as memorias da primeira existencia lhe fazem nascer o desejo de +sahir d'esta outra, lhe influem alguma aspiração de voltar á natureza e +a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sôbre elle, e o +prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o apperta no equuleo +doloroso de suas fôrmas. + +Ou hade morrer ou ficar monstruoso e aleijão. + +........................................................................... +........................................................................... + +Poucos filhos do Adam social tinham tantas reminiscencias da outra +patria mais antiga, e tendiam tanto a aproximar-se do primitivo typo que +sahíra das mãos do Eterno, forcejavam tanto por sacudir de si o pesado +appêrto das constricções sociaes, e regenerar-se na sancta liberdade da +natureza, como era o nosso Carlos. + +Mas o melhor e o mais generoso dos homens segundo a sociedade, é ainda +fraco, falso e acanhado. + +Demais, cada tentativa nobre, cada aspiração elevada de sua alma lhe +tinha custado duros castigos, severas e injustas condemnações d'esse +grande juiz hypocrita, mentiroso e venal... o mundo. + +Carlos estava quasi como os mais homens... ainda era bom e verdadeiro no +primeiro impulso de sua natureza excepcional; mas a reflexão descia-o á +vulgaridade da fraqueza, da hypocrisia, da mentira commum. + +Dos melhores era, mas era homem. + +Os seus pensamentos, as suas considerações em toda aquella noite, em +todo o dia que a seguíra, na hora mesma em que ia incontrar-se com o +objecto que mais lhe prendia agora o espírito, senão é que tambem o +coração, todas participavam d'aquella fluctuação inquieta e doentia de +seu ser d'homem social, em quem o tibio reflexo do homem natural apenas +relampejava por acaso. + +Dúvida, incerteza, vaidade, mentira deslocavam e annullavam a bella +organização d'aquella alma. + +Assim chegou aopé de Joanninha que o esperava de braços abertos, que o +appertou n'elles, que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa +modestia, e com o riso da alegria no coração e na bôcca lhe disse: + +--'Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui bem junctos aopé um do outro e +conversemos, que temos muito que fallar. Dá ca a tua mão. Aqui na +minha... Está fria a tua mão hoje! E hontem tam quente estava!.. Oh! +agora vai aquecendo... tanto tanto... é demais! Terás tu febre?' + +--'Não tenho.' + +--'Não tens, não: a cara é de saude. E como tu estás forte, grande, um +homem como eu sempre imaginei que um homem devia ser, como sempre te via +nos meus sonhos!.. Que é extranho isto, Carlos: quando sonhava comtigo, +não te via como tu d'aqui foste, magro, triste e doente; via-te como +vens agora, forte, são, alegre. Mas tu não estás alegre hoje, como +hontem; não estás... Que tens tu?' + +--'Nada, querida Joanninha, não tenho nada. Pensava...' + +--'Em que pensas tu? dize-me.' + +--'Pensava na differença dos nossos sonhos: que eu tambem sonhava +comtigo.' + +--'Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu? como me vias nos teus sonhos?' + +--'Tudo pelo contrario do que tu. Via-te aquella Joanninha piquena, +desinquieta, travêssa, correndo por essas terras, saltando essas vallas, +trepando a essas árvores... aquella Joanninha com quem eu andava ao +collo, que trazia ás cavalleiras, que me fazia ser tam doido e tam +criança como ella, apezar de eu ter quinze annos mais. Via-te alegre, +cantando...' + +--'Sonhos de homem! Creiam n'elles! Eu que nunca mais ri nem brinquei +desde o dia que tu partiste... E oh que dia, Carlos!.. E os que vieram +depois! Não houve nunca mais um so dia de alegria n'ésta casa. Oh!.. +deixa-me te dizer: Fr. Diniz... Sabes que não gósto d'elle?' + +--'Não gostas?' + +--'Nada: tenho-lhe aversão. E Deus me perdoe! parece-me que é injusta a +minha antipathia.' + +--'Porquê?' + +--'Porque elle é teu amigo devéras. Um pae, Carlos, um pae não tem maior +ternura e desvellos por seu filho, do que elle tem por ti.' + +--'Deus lhe perdoe!' + +--'Deus lhe perdoe a quem...e que lhe hade perdoar? O amor que te tem?' + +--'Não, mas...' + +--'Bem sei o que queres dizer: e tens razão.' + +--'Tenho razão!' + +--'Tens: o que elle bem precisa que Deus lhe perdoe é um grande +peccado.' + +--'Que dizes tu, Joanna! E como sabes?' + +--'Sei, sei tudo.' + +--'Tu!' + +--'Eu. Sei que foi elle quem fez cegar minha avó... a nossa boa, a nossa +sancta avó, Carlos!.. quem a cegou á fôrça de lagrymas que lhe fez +chorar áquelles pobres olhos que, de puro cançados, se apagaram para +sempre... Minha ricca avó!--E porquê, meus Deus, porquê!' + +--'Porquê?' + +--'Por amor de ti, por escrupulos que lhe metteu na cabeça de tu seres +mau christão, inimigo de Deus, que te não podias salvar... tu meu +Carlos! Vê que cegueira a do triste frade.' + +--'Bem triste!' + +--'Mas olha que o diz de boa-fé e pelo muito amor que te tem... que é um +amor que eu não intendo: e o mesmo é com minha avó, que treme deante +d'elle. E mais elle estima-a, estou certa que dava a vida por ella... e +por nós todos... por mim não tanto, mas por ti e por ella, dava decerto. +Mas o seu amor é dos que rallam, que, apoquentam... quasi que estou em +dizer que matam.' + +--'Matam, matam!' + +--'Nossa avó é elle que a mata decerto. Sempre a metter-lhe medos, +sempre escrupulos! O seu Deus d'elle é um Deus de terrores, de +vinganças, de castigos, e sem nenhuma misericordia. Oh! que homem! para +elle tudo é peccado, maldade... Não o posso ver.' + +Carlos respirava como desopprimido de um grande pêso, ouvindo as +explicações da prima que bem claro lhe mostravam a sua perfeita +ignorancia dos fataes segredos da familia. + +--'E comtigo' disse elle ja n'outra voz mais desaffogada 'comtigo, +Joanninha, como se avêm elle, como te tracta?' + +--'Commigo não se mette, e rara vez me falla. Mas oh, se elle soubesse +que eu estava aqui comtigo, sancto Deus! o que ouviria a pobre da minha +avó! Inda bem que hoje não é sexta-feira, senão não vinha eu ca.' + +--'Porquê? Ainda vem todas as sexta-feiras?' + +--'Sempre o mesmo. Ámanhan ca o temos por peccado, que é sexta-feira.' + +--'Não te vejo então ámanhan aqui?' + +--'Não decerto, aqui. Mas vamos, que a isso é que eu venho ca hoje, para +te fallar n'isso... e para te ver, para fallar comtigo, para estar com o +meu Carlos... e ao mesmo tempo tambem para ajustarmos como isto hade +ser. Quando has-de tu ir ver a avó?.. a nossa mãe; que ella é nossa mãe, +Carlos, não conhecémos nunca outra, nem eu nem tu. Quando lhe heide eu +dizer que estás aqui? A pobre velhinha está tam doente! Ha quinze dias +que se não levanta da cama.' + +--'Coitada da minha pobre mãe!.. Oh! se não fosse!.. Deixa estar, +Joanninha; um dia será. Por agora, não póde ser: bem vês. Como heide eu +atravessar as sentinellas dos realistas, ir a um pôsto inimigo?--A minha +vida... isso pouco importa, mas a minha honra ficava em perigo: por +todos os modos a perdia, e talvez...' + +--'Não senhor, Sr. Carlos, essa desculpa não basta. Vai n'um anno que +aqui temos a guerra á porta de casa, e ja sabemos como isso é e como as +coisas se fazem. O commandante do nosso pôsto é um homem de bem, um +cavalheiro perfeito. Em lhe eu dizendo quem tu es e a que ca vens... +elle sabe o estado da minha avó, e tem-lhe muita amizade, da-nos decerto +licença para tu vires em toda a segurança. Pensas que elle não sabe que +estou comtigo aqui? Pois disse-lh'o eu; só lhe não expliquei quem tu +eras; disse-lhe que eras um parente nosso que nos trazia notícias de +outros, e que precisava fallar-te. Não pôs dificuldade alguma: é uma +pessoa excellente, bom, bom devéras.' + +--'É môço o teu commandante?' + +--'Môço elle? coitado! Tem bons cinquenta annos, e creio que outros +tantos filhos. Mas por que perguntas tu isso? E arqueaste as +sobrancelhas com aquelle teu ar de antes quando te zangavas! Porque foi +isso, Carlos?' + +--'Nada, criança, foi uma pergunta á toa.' + +--'Pois será; mas não me franzas nunca mais a testa assim, que te +pareces todo... é que nunca vi tal parecença...' + +--'Com quem?' + +--'Com Fr. Diniz.' + +--'Eu com elle!' + +--'Tal e qual quando fazes essa cara. Olha: ahi estás tu na mesma. +Vamos! ria-se e esteja contente se se quer parecer commigo, que todos +dizem que nos parecemos tanto.' + +--'Querida innocente!' + +E beijou-lhe a mão que tinha appertada na sua, beijou-lh'a uma e muitas +vezes com um sentimento de ternura misturado de não sei que vaga +compaixão, vindo de lá de dentro d'alma com não sei que dor, meia dor +meia prazer, que entre ambos se communicou e a ambos humedeceu os olhos. + + + + +CAPITULO XXV. + + + O excesso da felicidade que aterra e confunde tambem.--Pasmosa + contradicção da nossa natureza.--De como os olhos verdes de + Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o coração da + mulher que ama, sempre adivinha certo. + + +Carlos tinha a mão de Joanninha appertada na sua; e os olhos humidos de +lagrymas cravados nos olhos d'ella, de cujo verde transparente e +diaphano sahiam raios de ineffavel ternura. + +Dizer tudo o que elle sentia é impossivel: tam incontrados lhe andavam +os pensamentos, em tam confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os +sentidos. + +Por muito tempo não proferiram palavra, nem um nem outro; mas fallaram +assim longos discursos. + +Emfim, Joanninha voltou á sua primeira insistencia e disse para o primo: + +--'Olha, Carlos, ámanhan é sexta-feira, ja te disse, vem Fr. Diniz: +quando haja a menor difficuldade do commandante, a elle não lhe recusa +nada...' + +--'Por quanto ha no ceo, Joanninha, pela tua vida, pela de nossa avó, +nem uma palavra ao frade da minha estada aqui! A elle, oh! a elle jurei +eu não tornar a ver. E se minha avó...' + +--'Basta: não lhe direi nada. Mas á nossa avó quando lh'o heide dizer, e +quando hasde tu ir ve-la?' + +--'Porora não: preciso licença de Lisboa, ou do quartel-general quando +menos, para fazer uma coisa que todas as leis da guerra prohibem, que +nas actuaes circumstancias e em similhante guerra ainda é mais defesa. E +sem isso--tu bem sabes que as minhas resoluções não se mudam--sem isso +não o faço. Em todo o caso, que Fr. Diniz nem sonhe!..' + +--'E quanto tempo, quantos dias se hãode passar?' + +--'Eu sei? oito, quinze dias talvez, talvez mais.' + +--'E a minha pobre avó, coitadinha! a morrer de saudades...' + +--'Consola-a tu, Joanninha: dize-lhe que tiveste novas minhas, que estou +bom, que me não falta nada, que tenho esperanças de vos ver muito cedo.' + +--'E eu... eu posso, eu heide ver-te todos os dias: não, Carlos?' + +--'Ámanhan é sexta-feira...' + +--'Ámanhan é o dia negro... nem eu queria: ámanhan não póde ser, bem +sei. Mas, tirado ámanhan, meu Carlos, oh! todos os dias!' + +--'Sim, querido anjo, sim.' + +--'Promettes?' + +--'Juro-t'o.' + +--'Succeda o que succeder?' + +--'Succeda o que... So ha uma coisa que... Mas essa não... não é +possivel.' + +--'O que é, Carlos? que póde haver, que póde succeder que te impeça +de?..' + +Carlos estremeceu... hesitou, corou, fez-se pallido... quiz dizer-lhe a +verdade e não ousou... + +Porquê?.. E que verdade era essa? Não a direi eu, ja que elle a não +disse: fiel e discreto historiador, imitarei a discrição do meu heroe. + +Pois era discrição a d'elle? + +Não... em verdade, era outra coisa. + +Era um pensamento reservado? + +Não. + +Era tenção má, ingano premeditado, era?.. + +Não, tambem não. + +O que era pois? + +Era a dúvida, era a fraqueza, era a vaidade, a mentira congenial e +obrigada, a necessaria falsidade do homem social. + +Carlos mentiu e disse: + +--'Só se m'o prohibirem expressamente... os meus chefes.' + +Mas não era isso o que elle receiava; não era esse aquelle motivo unico +e superior que elle temia podesse vir um dia derepente cortar as doces +relações de convivencia a que tam prestes se habituára, que ja lhe +pareciam parte necessaria, indispensavel da sua vida. Não era, não; e +Carlos tinha mentido... + +Joanninha olhou para elle fixa... Carlos corou de novo. Ella fez-se +pallida... d'ahi corou tambem. + +--'Carlos, tu não es capaz de mentir...' + +--'Joanninha!' + +--'Tu es o meu Carlos... tu queres-me como me querias d'antes...' + +--'Sou... oh! sou. E amo-te...' + +--'Como d'antes?' + +--'Mais.' + +--'Pois olha, Carlos: eu nunca amei, nunca heide amar a nenhum homem +senão a ti.' + +--'Joanna!' + +--'Carlos!' + +Iam a cahir nos braços um do outro... A singela confissão da innocencia +ia ser acceita por quem e como, sancto Deus! Aquella palavra de oiro, +aquella doce palavra que tanto custa a pronunciar á mulher menos +arteira; que adivinhada, sabida, ouvida ha muito pelo coração, ditta mil +vezes com os olhos, nenhum homem descança nem se tem por feliz, por +certo de sua felicidade, em quanto a não ouve proferir pelos +labios--essa palavra celeste que explica o passado, que responde do +futuro, que é a última e irrevocavel sentença de um longo pleito de +anciedades, de incertezas e de sustos--essa final e fatal palavra +_amo-te_, Joanninha a pronunciára tam naturalmente, tam sincera, tam sem +difficuldades nem hesitações, como se aquelle fosse--e era decerto--como +se aquelle tivesse sido sempre o pensamento unico, a idea constante e +habitual de sua vida. + +O excesso da felicidade aterra e confunde tambem. Um momento antes, +Carlos dera a sua vida por ouvir aquella palavra... um momento +depois--oh pasmosa contradicção de nossa dupplice natureza! um momento +depois dera a vida pela não ter ouvido. No primeiro instante ia +lançar-se nos braços da innocente que lh'os abria n'um sancto extasi do +mais apaixonado amor; no segundo, tremeu e teve horror da sua +felicidade. + +--'Joanna' exclamou elle 'Joanna, querida, sabes tu se eu mereço... +sabes tu se deves?..' + +--'Sei. Desde que me intendo, não pensei n'outra coisa; desde que d'aqui +foste, comecei a intender o que pensava... disse-o a minha avó, e +ella...' + +--'E ella?..' + +--'Ella abençoou-me, chamou-me a sua querida filha, abraçou-me, +beijou-me, e disse-me que aquella era a primeira hora de felicidade e de +alegria que ha muitos annos tinha tido.' + +Carlos não respondeu nada e olhou para Joanninha com uma indicivel +expressão de affecto e de tristeza. Os raios de alegria que +resplandeciam n'aquelle semblante--agora bello de toda a belleza com que +um verdadeiro amor illumina as mais desgraciosas feições--os raios +d'essa alegria começaram a amortecer, a apagar-se. A lucida +transparencia d'aquelles olhos verdes turvou-se: nem a clara luz da +agua-marinha, nem o brilho fundo da esmeralda resplandecia ja n'elles; +tinham o lustro baço e morto, o polido mate e silicioso de uma d'essas +pedras sem agua nem brilho que a arte antiga ingastava nos collares de +suas estátuas. + +--'Adeus Joanna!' disse Carlos perturbado e confuso. + +--'Adeus, Carlos!' respondeu ella machinalmente. + +--'Até depois de ámanhan, Joanna.' + +--'Pois sim.' + +--'Depois de ámanhan te direi...' + +--'Não digas.' + +--'Porquê?' + +--'Porque é excusado: ja sei tudo.' + +--'Sabes!' + +--'Sei.' + +--'O quê?' + +--'O que tu não tens ânimo para me dizer, Carlos; mas que o meu coração +adivinhou. Tu não me amas, Carlos.' + +--'Não te amo! eu!.. Sancto Deus! eu não a amo...' + +--'Não. Tu amas outra mulher.' + +--'Eu! Joanna, oh! se tu soubesses...' + +--'Sei tudo.' + +--'Não sabes.' + +--'Sei: amas outra mulher, outra mulher que te ama, que tu não pódes, +que tu não deves abandonar, e que eu...' + +--'Tu?' + +--'Eu sei que é bella, prendada, cheia de graças e de incantos, +porque... porque tu, meu Carlos, porque o teu amor não era para se dar +por menos.' + +--'Joanna, Joanninha!' + +--'Não digas nada, não me digas nada hoje... hoje sobretudo, não me +digas nada. Ámanhan...' + +--'Ámanhan é sexta-feira.' + +--'Inda bem! terei mais tempo para reflectir, para considerar antes de +tornar a ver-te. Adeus Carlos!' + +--'Uma palavra so, Joanna. Cuidas que sou capaz de te inganar?' + +--'Não; estou certa que não.' + +--'Até ámanhan... até depois de ámanhan.' + +--'Adeus!' + +Abraçaram-se, e d'esta vez froixamente; beijaram-se de um osculo timido +e recatado... os beiços de ambos estavam frios, as mãos trémulas; e o +coração comprimido batia, batia-lhes forte que se ouvia. + +Retirou-se cadaum por seu lado. A noite estava pura e serena como na +vespera, as estrellas luziam no ceo azul com o mesmo brilho; o silencio, +a majestade, a belleza toda da natureza era a mesma... so elles eram +outros... outros, tam outros e differentes do que foram! + +Tinham-se dado cuidadosamente as providencias; ambos chegaram, sem +nenhum accidente, ao seu destino. + + + + +NOTAS + + + + +NOTAS + +AO LIVRO PRIMEIRO. + + +*Nota A.* + + + Que viage á roda do seu quarto, quem está a beira dos Alpes + + pag. 1. + + +É visivel allusão ao popular e inimitavel opusculo de Xavier de Maistre, +_Voyage autour de ma chambre_, que decerto foi principiado a escrever em +Turim, e que muitos suppoem que fôsse concluido em San'Petersburgo. + + +*Nota B.* + + + Designio politico determinado a minha visita (a Santarem) + + pag. 2. + + +É puramente historico isto; e tambem é verdade que em grande parte +d'aqui se originou a persiguição brutal que soffreu o A. d'ahi a poucos +meses. + + +*Nota C.* + + + N'uma _regata_ de vapores + + pag. 3. + + +_Regata_ chamavam, e não sei se chamam ainda, em Veneza ás carreiras de +barcos appostados ao desafio. A palavra e a coisa introduziu-se em +Inglaterra, onde é moda e popularissima. + + +*Nota D.* + + + Eu coroarei de trevo a minha espada + + pag. 24. + + +Estes versos são uma especie de parodia dos famosos fragmentos de Alceu +de que so existe memoria nos scholios que nos conservou Eustathio. Nas +_Flores sem fructo_, pag. 56 a traducção d'aquelle bello fragmento. + + +*Nota E.* + + + Depois de tantas commissões de inquerito, deve de andar orçado o + número de almas + + pag. 25. + + +Os protocollos das commissões de inquerito de ha oito para dez annos a +ésta parte, sôbre o estado das classes trabalhadoras e indigentes em +Inglaterra, é a próva real dos grandes calculos da economia politica, +sciencia que eu espero em Deus se hade desacreditar muito cedo. + + +*Nota F.* + + + There are more things etc. + + pag. 26. + + +A traducção chegada d'estes memoraveis versos de Shakspeare é: + + Ha mais coisas no ceo, ha mais na terra + Do que sonha a tua van philosophia. + + +*Nota G.* + + + Um _Chourineur_... uma _Fleur-de-Marie_ + + pag. 28. + + +Personagens, bem conhecidos geralmente, do romance tam popular de Eug. +Sue, _Os Mysterios de París_. + + +*Nota H.* + + + Fossem lá á rainha Anna + + pag. 34. + + +Addison, o poeta, foi ministro da rainha Anna de Inglaterra, e membro do +célebre gabinete chamado de _All-wits_. + + +*Nota J.* + + + Quando chegou alli pelos Prazeres + + pag. 56. + + +Um dos dois cemiterios de Lisboa--seja ditto para intelligencia do +leitor provinciano--chama-se _Dos Prazeres_, por uma ermida de N. S.^a +que alli existia com ésta invocação desde antes do terreno ter o +presente destino. É notavel a coincidencia do nome. + + +*Nota K.* + + + O verdadeiro alfageme... tinha pelo povo e não queria saber de + partidos + + pag. 64. + + +É facil de ver que o interlocutor d'este dialogo conhecia esse curioso +personagem da historia do Condestavel, não pelas chronicas mas pelo +drama que tem o seu nome. + + +*Nota L.* + + + Do _Sacré-Coeur_ e das suas elegantes devotas + + pag. 89. + + +O convento que tem este nome em París, é casa de educação de meninas +nobres, e recolhimento de senhoras tambem. + + +*Nota M.* + + + Graciosa sculptura de Antonio Ferreira + + pag. 106. + + +Antonio Ferreira, que viveu no fim do seculo passado, princípio d'este, +modelava em barro com a mesma graça e naturalidade flamenga, com que +pintava o morgado de Setubal: as suas piquenas figurinhas são tam +estimadas pelos intendedores como os melhores biscoitos de Sevres e de +Saxonia antiga. + + +*Nota N.* + + + Ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego + + pag. 115. + + +A fábula daquella ave immortal teve origem nas edades obscuras da Europa +quando o grego era ignorado. O que os antigos diziam da _phenix_, +palmeira em grego, tomaram nossos barbaros avós por ditto de uma +passarolla com que os outros nunca sonharam. + + + + +INDICE. + + +Prologo dos editores. pag. v + +Capitulo I.--De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar +na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu +immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem. +Chega ao Terreiro do Paço; imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi +lhe succede. A Deducção-Chronologica e a baixa de Lisboa. Lord Byron e +um bom charuto. Travam-se de razões os ilhavos e os bordas-d'agua, e os +da calça larga levam a melhor. 1 + +Capitulo II.--Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens. +Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e +mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha, D. Quixote e +por seu escudeiro, Sancho Pança.--Chegada a Villa-Nova-da-Rainha. +Supplicio de Tantalo.--A virtude galardão de si mesma; e sophisma de +Jeremias-Bentham.--Azambuja. 13 + +Capitulo III.--Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade +do A. d'estas viagens.--O que devia ser uma estalagem n'estas nossas +eras de litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questão +para tractar, em prosa e verso, um muito difficil ponto de +economia-politica e de moral social.--Quantas almas é preciso dar ao +diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um +ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a sciencia d'este +seculo era uma grandecissima tola.--Rei de facto, e rei de +direito.--Belleza e mentira não cabem n'um sacco.--Põe-se o A. a caminho +para o pinhal da Azambuja. 23 + +Capitulo IV.--De como o A. foi pensando e divagando; e em que pensava e +divagava elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do +mesmo nome.--Do poeta grego e philosopho Démades e do poeta e philosopho +ingles Addison: da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de +outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar sua profunda +erudição.--Discute-se a materia gravissima se é necessario que um +ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis reflexões de +zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re +amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este +capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao +seguinte. 31 + +Capitulo V.--Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se +por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo +romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco +trabalho.--Transição classica;--Orpheu e o bosque do Ménalo. Desce o A. +d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades materiaes da +vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na +triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do animal. Memorias do +marquez do F. que adorava o choito. 39 + +Capitulo VI.--Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão +misturar o maravilhoso da mylhologia com o do christianismo.--Da-se +razão, e tira-se depois ao padre José Agostinho.--No meio d'estas +disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo é +preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque, quanto ao +outro ja era sabido.--Os Lusiadas, Fausto e a Divina-Comedia.--Desgraça +de Camões em ter nascido antes do romantismo.--Mostra-se como a Styge e +o Cocyto sempre são melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o +A. em procura do marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do +poeta Alceu.--Partida de Wist entre os illustres finados.--Compaixão do +marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta +d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a este +mundo e ao Cartaxo. 47 + +Capitulo VII.--Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as +carruagens de mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.--Dos cafés em geral, +e de como são o characteristico da civilização de um paiz.--O +Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do +Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran' Bretanha deveu sempre toda a sua +fôrça e toda a sua glória a Portugal.--Shakspeare e Laffitte, Milton e +Chateaumargot.--Nelson e o principe de Joinville.--Próva-se +evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo. 59 + +Capitulo VIII.--Sahida do Cartaxo.--A charneca.--Perigo imminente em que +o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do +imperador D. Pedro ao exército liberal. Batalha de +Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que não é philosopho e +chega á ponte de Asseca. 71 + +Capitulo IX.--Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente +levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do +capitulo antecedente.--Livros que não deviam ter titulo, e titulos que +não deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo: Bonaparte, Rotchild e +Silvio-Péllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexões e á Ponte da +Assecca.--Traducção portugueza de um grande poeta.--Origem de um +dictado.--Junot na ponte da Assecca.--De como o A. d'este livro foi +jacobino desde piqueno.--Inguiço que lhe deram.--A duqueza de +Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem. 79 + +Capitulo X.--Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por +entre umas árvores.--Conjecturas várias a respeito da ditta +janella.--Similhança do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel +inferioridade do homem que não é poeta.--Os rouxinoes. Reminiscencia de +Bernardim Ribeiro e das suas saudades.--De como o A. tinha quasi +completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos +pretos.--Sahem verdes os olhos com grande admiração e pasmo +seu.--Verificam-se as conjecturas sôbre a mysteriosa janella.--A menina +dos rouxinoes.--Censura das damas muito para temer, crítica dos +elegantes muito para rir.--Começa o primeiro episodio d'esta Odyssea. 91 + +Capitulo XI.--Tracta-se do unico privilegio dos poeetas que tambem os +philosophos quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas +sim.--Applicação d'estes principios a Aristoteles e Anacreonte.--O A., +tendo declarado no capítulo nono d'esta obra que não era philosopho, +agora confessa, quasi solemnemente. que é poeta, e pretende manter-se +como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos +juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seo +admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do coração. +Por uma deducção appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a +dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas esse direito indefinido +de andarem sempre namorados.--Applicam-se todas éstas grandes theorias á +posição actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no +capítulo antecedente.--Uma modestia e reserva delicada o obrigam a +duvidar da sua qualificação para o desimpenhar: pede votos ás amaveis +leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e porquê.--Dido e a +mana Annica.--Entra-se emfim na promettida historia.--De como a velha +estava á porta a dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por +Joanninha, sua neta. 99 + +Capitulo XII.--De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais +que aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha. Dá o A. insigne +prôva de ingenuidade e boa fé confessando um grave senão do seu Ideal. +Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece uma mulher +desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas monstruosidades da +natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.--Os olhos verdes +de Joanninha.--Religião dos olhos pretos strenuamente professada pelo A. +Perigo em que ella se acha á vista de uns olhos verdes.--De como estando +a avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se +interrompe a conversação.--Quem era Frei Diniz. 109 + +Capitulo XIII.--Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado, +socialmente e artisticamente.--Próva-se que é muito mais poetico o frade +do que o barão.--Outra vez D. Quixote e Sancho Pansa.--Do que seja o +barão, sua clasificação e descripção linneana.--Historia do castello do +Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas +não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu errante'--De +como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao +frade.--De como o barão ficou em logar do frade, e do muito que n'isso +perdémos.--Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os +barões a gritar contos de réis.--Como se contam e como se pagam os taes +contos.--Predilecção artistica do A. pelo frade: confessa-se e +explica-se ésta predilecção. 121 + +Capitulo XIV.--Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue +o A. direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a +manga a beijar a avó e á neta, e do mais que entre elles se +passou.--Ralha o frade com a velha, e começa a descubrir-se onde a +historia vai ter. 133 + +Capitulo XV.--Retrato de um frade franciscano que não foi para o +depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das +Bellas-Artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a +de Condillac.--Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.--Que o +podêr vem de Deus, mas como e paraquê.--Que os liberaes não intendem o +que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se +fossem.--Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e +pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz. 147 + +Capitulo XVI.--Saibamos da vida do frade.--Era franciscano porquê?--Dos +antigos e dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e +depois de ser frade.--Emigração.--Explicação incompleta.--De como a +velha tinha perdido a vista, e Joanninha o riso.--Sexta feira dia +aziago. 155 + +Capitulo XVII.--De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a +neta á espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da +banda de Lisboa.--Por que razão muitas vezes a mais animada conversação +é a que mais facilmente pára e quebra de repente.--Nova demonstração de +dois grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz o +monge; e que ralhando as comadres se descobrem as verdades.--No ralhar +da velha com o frade, levanta-se uma ponta do véo que cobre os mysterios +da nossa historia. 171 + +Capitulo XVIII.--Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre +o frade e a velha--Piedosa fraude de Joanninha.---Lucta entre o hábito e +o monge. 181 + +Capitulo XIX.--Guerra de postos avançados, Joanninha no bivac.--De como +os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a +retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este +nome.--A sentinella perdida e achada. 191 + +Capitulo XX.--Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do +Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes accompanhavam sempre a menina do +seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto esquissado +á pressa para satisfazer ás amaveis leitoras.--Pondera-se o triste e +pessimo gôsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao +mais elegante e mais nacional uniforme do exército portuguez.--Em que se +parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-média.--De como +os abraços, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais +interminaveis que pareçam, sempre teem de acabar por fim. 203 + +Capitulo XXI.--Quem vem lá?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa +o terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situação _ordeira_, a +mais perigosa e falsa das situações. 215 + +Capitulo XXII.--Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da +velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus +botões.--A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que +achou.--Obrigações d'amor, triste palavra.--A mulher que elle amava, e +se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos leitores. +Declara que com os hypocritas não falla.--Quem hade levantar a primeira +pedra?--Dous modos differentes de acudir uma coisa ao pensamento. 225. + +Capitulo XXIII.--Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao +pensamento de Carlos.--Dança de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau +da familia.--Veremos, é a grande resolução nas grandes +difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes--Desafio a todos +os poetas moyen-ages do nosso tempo. 235. + +Capitulo XXIV.--Novo Génesis.--O Adam social muito differente do Adam +natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por +suas más reflexões.--De como Joanninha recebeu o primo com os braços +abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor, meia +prazer. 247. + +Capitulo XXV.--O excesso da felicidade que aterra e confunde +tambem.--Pasmosa contradicção da nossa natureza.--De como os olhos +verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o +coração da mulher que ama, sempre advinha certo. 261. + +Notas. 275. + + + + +Notas: + +[1] Chamavam assim por escarneo, em Portugal, ao general Loison a quem +faltava um braço. + +[2] Célebre urso do Jardim das Plantas em París. + +[3] Pag. 40, 41, 42. + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+--------------------+--------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+--------------------+--------------------+ + |#pág. 3| venceder | vencedor* | + |#pág. 15| Cervantos | Cervantes | + |#pág. 18| morachão | marachão* | + |#pág. 40| esperavava | esperava | + |#pág. 41| maldadades | maldades | + |#pág. 62| café | harem* | + |#pág. 89| tinha-ânimo | tinha ânimo | + |#pág. 95| esquerlo | esquerda | + |#pág. 97| um historia | uma historia | + |#pág. 106| toda o movimento | todo o movimento | + |#pág. 118| trababalho | trabalho | + |#pág. 126| conte | conter* | + |#pág. 129| aeronantas | aeronautas* | + |#pág. 134| paasos | passos | + |#pág. 163| memoraval | memoravel | + |#pág. 203| demij-our | demi-jour* | + |#pág. 223| didireitas | direitas | + |#pág. 228| as alagadiços | os alagadiços | + |#pág. 240| infeitavam | infeitiçavam* | + |#pág. 276| viagem | visita | + |#pág. 286| em em logar frade | em logar do frade | + |#pág. 288| d'ad'mor | d'amor | + +----------+--------------------+--------------------+ + + +* correcções feitas com base na errata do próprio livro. + +Shakespeare e Rotschild surgem neste livro como Shakspeare e Rotchild +respectivamente. Dada a repetitividade constante, decidi manter de +acordo com o original. + +Foram adicionados travessões onde a sua falta foi notada. + +As indicações dos números de páginas que se mencionaram na secção de +"Notas do Primeiro Livro" e "Índice", foram corrigidas para corresponder +ao local correcto. + + + + +OBRAS + +DE + +J. B. DE A. GARRETT. + +IX. + +(_SEGUNDO DAS VIAGENS._) + + + + +VIAGENS NA MINHA TERRA + + +POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT. + + +II. + + +LISBOA +NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS. +1846. + + + + +VIAGENS NA MINHA TERRA. + + + + +CAPITULO XXVI. + + + Modo de ler os auctores antigos, e os modernos tambem.--Horacio na + sacra-via.--Duarte Nunes iconoclasta da nossa historia.--A policia + e os barcos de vapor.--Os vandalos do feliz systema que nos + rege.--Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo de + _old-sack_ sôbre a banca.--Sir John Falstaff se foi maior homem que + Sancho-Pansa?--Grande e importante descuberta archeologica sôbre + San'Thiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.--Próva-se a vinda d'este + último a Portugal.--O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e + Abeillard no Pere-la-Chaise.--Bentham e Camões.--Chega o _auctor_ á + sua janella, e pasmosa miragem poetica produzida por umas oitavas + dos Lusiadas.--De como emfim proseguem éstas viagens para Santarem, + e que feito será de Joanninha. + + +Se eu for algum dia a Roma, heide entrar na cidade eterna com o meu +Tito-Livio e o meu Tacito nas algibeiras do meu paletó de viagem. Alli, +sentado n'aquellas ruinas immortaes, sei que heide intender melhor a sua +história, que o texto dos grandes escriptores se me hade illustrar com +os monumentos d'arte que os viram escrever, e que uns recordam, outros +presenciaram os feitos memoraveis, o progresso e a decadencia d'aquella +civilização pasmosa. + +E Juvenal e Horacio? o meu Horacio, o meu velho e fiel amigo Horacio!.. +Deve ser um prazer regio ir lendo pela sacra-via fóra aquella deliciosa +satyra, creio que a nona do L. I., + + Ibam forte sacra via, sicut meus est mos, + Nescio quid meditans nugarum... + +Deve ser maior prazer ainda, muito maior do que beijar o pé ao papa. +Parece-me a mim; mas como eu nunca fui a Roma... + +E não é preciso. Pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, a +que Duarte Nunes menos estragou... + +O Duarte Nunes foi um reformador iconoclasta das nossas chronicas +antigas, truncou todas as imagens, raspou toda a poesia d'aquellas +venerandas e deliciosas _sagas_ portuguezas... Em ponto historico pouco +mais eram do que _sagas_, verdade seja, mas como taes, lindas. E o +Duarte Nunes, que era um pobre grammaticão sem gôsto nem graça, foi-se +ás filagranas e arrendados de finissimo lavor gothico d'aquelles +monumentos, quebrou-lh'os; ficaram so os traços historicos que eram +muito pouca e muito incerta coisa; e cuidou que tinha arranjado uma +história, tendo apenas destruido um poema. Ficámos sem Nibelungen, +podendo-o ter, e não obtivemos história porque se não podia obter assim. + +Pois digo: pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, obedeça +á lei concorrendo com o seu cruzado-novo para o augmento e glória da +benemerita companhia que tem o exclusivo d'esses caranguejos de vapor +que andam e desandam no rio, entre n'um dos referidos caranguejos, em +que, além da porcaria e mau-cheiro, não ha perigo nenhum senão o de +rebentar toda aquella camara-optica que anda por arames, e que em +qualquer paiz civilizado onde a policia fizesse alguma coisa mais do que +imaginar conspirações, ha muito estaria condemnada a ir alli caranguejar +para as Lamas á sua vontade. Mas emfim ca não ha d'outros nem haverá tam +cedo, graças ao muito que agora, diz que, se cuida nos interêsses +materiaes do paiz: e portanto tome o seu logar, passe o mesmo que eu +passei; chegue-me a Santarem, descanse e ponha-se-me a ler a chronica: +verá se não é outra coisa, vera se deante d'aquellas preciosas +reliquias, ainda mutiladas, deformadas como ellas estão por tantos e tam +successivos barbaros, estragadas emfim pelos peiores e mais vandalos de +todos os vandalos, as auctoridades administrativas e municipaes do feliz +systema que nos rege, ainda assim mesmo não ve erguer-se deante de seus +olhos os homens, as scenas dos tempos que foram; se não ouve fallar as +pedras, bradar as inscripções, levantar-se as estátuas dos tumulos; e +reviver-lhe a pintura toda, reverdecer-lhe toda a poesia d'aquellas +edades maravilhosas! + +Tenho-o experimentado muitas vezes: é infallivel. Nunca tinha intendido +Shakspeare em quanto o não li em Warwick, aope do Avon, debaixo de um +carvalho secular, á luz d'aquelle sol baço e branco do nublado ceo +d'Albion... ou á noite com os pés no _fender_, a chaleira a ferver no +fogão, e sôbre a banca o crystal antigo de um bom copo lapidado a +luzir-me alambreado com os doces e perfumados resplendores do _old +sack_; em quanto o fogão e os ponderosos castiçaes de cobre brunido +projectam no antigo tecto almofadado, nos pardos compartimentos de +carvalho que forram o apposento, aquellas fortes sombras vacillantes de +que as velhas fazem visões e almas-do-outro-mundo, de que os +poetas--poetas como Shakspeare--fazem sombras de _Banco_, bruxas de +_Mackbeth_, e até a rotunda pansa e o arrastante espadagão do meu +particular amigo Sir John Falstaff, o inventor das legítimas +consequencias, o fundador da grande eschola dos restauradores caturras, +dos poltrões pugnazes que salvam a patria de parolla e que ninguem os +atura em tendo as costas quentes. + +Oh Falstaff, Falstaff! eu não sei se tu es maior homem que Sancho Pança. +Creio que não. Mas maior pansa tens, mais capacidade na pansa tens. +Quando nossos avós renegaram de San' Thiago por castelhano perro, e +invocaram a San' Jorge, tu vieste, ó Falstaff, em sua comitiva de +Inglaterra e aqui tomaste assento, aqui ficaste, e foste o patriarcha +d'essa immensa progenie de Falstaffs que por ahi anda. + +Este importante ponto da nossa história, da demissão de San'Thiago e da +vinda de San'Jorge de Inglaterra com Sir John Falstaff por seu +_homem-de-ferro_--ésta grande descoberta archeologica que tanta coisa +moderna explica, como a fiz eu? Indo aos sitios mesmos, estudando alli +os antigos exemplares: que é a minha doutrina. + +Em tudo, para tudo é assim. Chegou um dia um inglez a Paris: um inglez +legítimo e _cru_, virgem de toda a corrupção continental; calça de +ganga, sapato grosso, cabello de cenoira, chapeo fillado na +cova-do-ladrão. Era enthusiasta de Heloisa e Abeillard, foi-se ao +Pére-la-Chaise, chegou ao tumulo dos dois amantes, tirou um livrinho da +algibeira, pôs-se a ler aquellas cartas do Paracleto que tem indoidecido +muito menos excentricas cabeças que a do meu inglez puro-sangue. Não é +nada; excitou-se a tal ponto que entrou a correr como um perdido, +bradando por um conego da sé que lhe acudisse, que se queria identificar +com o seu modêlo, purificar a sua paixão, ser emfim um completo--ou um +incompleto Abeillard. + +Eu não sou susceptivel de tammanho enthusiasmo, sôbretudo desde que dei +a minha demissão de poeta e cahi na prosa. Mas aqui tem o que me +succedeu o outro dia. Tinha estado ás voltas com o meu Bentham, que é um +grande homem por fim de contas o tal quaker, e são grandes livros os que +elle escreveu: cançou-me a cabeça, peguei no Camões e fui para a +janella. As minhas janellas agora são as primeiras janellas de Lisboa, +dão em cheio por todo esse Tejo. Era uma d'estas brilhantes manhans +d'hynverno, como as não ha senão em Lisboa. Abri os Lusiadas á ventura, +deparei com o canto IV e puz-me a ler aquellas bellissimas estancias + + E ja no porto da inclita Ulyssea... + +Pouco a pouco amotinou-se-me o sangue, senti baterem-me as arterias da +fronte... as lettras fugiam-me do livro, levantei os olhos, dei com +elles na pobre nau Vasco-da-Gama que ahi está em monumento-caricatura da +nossa glória naval... E eu não vi nada d'isso, vi o Tejo, vi a bandeira +portugueza fluctuando com a brisa da manhan, a tôrre de Belem ao +longe... e sonhei, sonhei que era portuguez, que Portugal era outra vez +Portugal. + +Tal fôrça deu o prestigio da scena ás imagens que aquelles versos +evocavam! + +Senão quando, a nau que salva a uns escaleres que chegam... Era o +ministro da marinha que ia a bórdo. + +Fechei o livro, accendi o meu charuto, e fui tractar das minhas +camelias. + +Andei tres dias com odio á lettra-redonda. + +Mas de tudo isto o que se tira, a que vem tudo isto para as minhas +viagens ou para o episodio do valle de Santarem em que ha tantos +capitulos nos temos demorado? + +Vem e vem muito: vem para mostrar que a história, lida ou contada nos +proprios sitios em que se passou, tem outra graça e outra fôrça; vem +para te eu dar o motivo porque n'estas minhas viagens, leitor amigo, me +fiquei parado n'aquelle valle a ouvir do meu companheiro de jornada, e a +escrever para teu aproveitamento, a interessante história da menina dos +rouxinoes, da menina dos olhos verdes, da nossa boa Joanninha. + +Sim, aqui tenho estado extendido no chão, as mulinhas pastando na relva, +os arrieiros fummando tranquillamente sentados, e as últimas horas de +uma longa e calmosa tarde de julho a cahir e a refrescar com a aragem +percursora da noite. + +Mas basta de valle, que é tarde. Oh lá! venham as mulinhas e montemos. +Picar para Santarem, que no inclyto alcaçar d'elrei D. Affonso-Henriques +nos espera um bom jantar d'amigo--e não é so a _vacca e riso_ de Fr. +Bartholomeu dos Martyres, mas um verdadeiro jantar d'amigo, muito menos +austero e muito mais risonho. + +--'Porquê? ja se acabou a historia de Carlos e de Joanninha?' diz talvez +a amavel leitora. + +--'Não, minha senhora,' responde o auctor mui lisongeado da pergunta: +'não, minha senhora, a historia não acabou, quasi se póde dizer que +ainda ella agora começa; mas houve mutação de scena. Vamos a Santarem, +que lá se passa o segundo acto.' + + + + +CAPITULO XXVII. + + + Chegada a Santarem.--Olivaes de Santarem.--Fóra-de-Villa.--Symetria + que não é para os olhos.--Modo de medir os versos da + biblia.--Architectura pedante do seculo XVII.--Entrada na Alcáçova. + + +Eram as últimas horas do dia quando chegámos ao princípio da calçada que +leva ao alto de Santarem. A pouca frequencia de povo, as hortas e +pomares mal cultivados, as casas de campo arruinadas, tudo indicava as +vizinhanças de uma grande povoação descahida e desamparada. O mais bello +comtudo de seus ornatos e glórias suburbanas, ainda o possue a nobre +villa, não lh'o destruiram de todo; são os seus olivaes. Os olivaes de +Santarem cuja riqueza e formosura proverbial é uma das nossas crenças +populares mais geraes e mais queridas!.. os olivaes de Santarem lá estão +ainda. Reconheceu-os o meu coração e alegrou-se de os ver; saudei +n'elles o symbolo patriarchal de nossa antiga existencia. N'aquelles +troncos velhos e coroados de verdura, figurou-se-me ver, como nas selvas +incantadas do Tasso, as venerandas imagens de nossos passados; e no +murmurio das folhas que o vento agitava a espaços, ouvir o triste +suspirar de seus lamentos pela vergonhosa degeneração dos netos... + +Estragado como os outros, profanado como todos, o olival de Santarem é +ainda um monumento. + +Os povos do meio-dia, infelizmente, não professam com o mesmo respeito e +austeridade aquella religião dos bosques, tam sagrada para as nações do +norte. Os olivaes de Santarem são excepção: ha muito pouco entre nós o +culto das árvores. + +Subimos, a bom trotar das mulinhas, a impinada ladeira--eu alvoraçado e +impaciente por me achar face a face com aquella profusão de monumentos e +de ruinas que a imaginação me tinha figurado e que ora temia, ora +desejava comparar com a realidade. + +Chegámos emfim ao alto; a majestosa entrada da grande villa está deante +de mim. Não me inganou a imaginação... grandiosa e magnífica scena! + +_Fóra-de-villa_ é um vasto largo, irregular e caprichoso como um poema +romantico; ao primeiro aspecto, áquella hora tardía e de pouca luz, é de +um effeito admiravel e sublime. Palacios, conventos, egrejas occupam +gravemente e tristemente os seus antigos logares, infileirados sem ordem +aos lados d'aquella immensa praça, em que a vista dos olhos não acha +symetria alguma; mas sente-se n'alma. É como o rhytmo e medição dos +grandes versos biblicos que se não cadenceiam por pés nem por sylabas, +mas cahem certos no espirito e na _audição interior_ com uma +regularidade admiravel. + +E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto! Cuida-se entrar na grande +metropole de um povo extincto, de uma nação que foi poderosa e celebrada +mas que desappareceu da face da terra e so deixou o monumento de suas +construcções gigantescas. + +Á esquerda o immenso convento do Sítio ou de Jesus, logo o das Donas, +depois o de San'Domingos, célebre pelo jazigo do nosso Fausto +portuguez--seja ditto sem irreverencia á memoria de San'Frei Gil que, é +verdade, veio a ser grande sancto, mas que primeiro foi grande +bruxo.--Defronte o antiquissimo mosteiro das Claras, e aopé as baixas +arcadas gothicas de San'Francisco... de cujo último guardião, o austero +Frei Diniz, tanta coisa te contei, amigo leitor, e tantas mais tenho +ainda para te contar! Á direita o grandioso edificio philippino, +perfeito exemplar da massissa e pedante architectura reaccionaria do +seculo dezesette, o Collegio, typo largo e bello no seu genero, e quanto +o seu genero póde ser, das construcções jesuiticas... + +Não ha alma, não ha genio, não ha espirito n'aquellas massas pesadas, +sem elegancia nem simplicidade; mas ha uma certa grandeza que impõe, uma +solidez travada, uma symetria de calculo, umas proporções frias, mas bem +assentadas e esquadriadas com methodo, que revelam o pensamento do +seculo e do instituto que tanto o characterizou. + +Não são as fortes crenças da meia-edade que se elevam no arco agudo da +ogiva; não é a relaxação florída do seculo quinze e desesseis que ja +vacilla entre o byzantino e o classico, entre o mystico ideal do +christianismo que arrefece e os symbolos materiaes do paganismo que +acorda; não, aqui a _renascença_ triumphou, e depois de triumphar, +degenerou. É a inquisição, são os Jesuitas, são os Philippes, é a +reacção catholica edificando templos _para que_ se creia e se ore, não +_porque_ se crê e se ora. + +Até aqui o mosteiro e a cathedral, a ermida e o convento eram a +expressão da idea popular, agora são a fórmula do pensamento +governativo. + +Alli estão--olhae para elles--defronte uns dos outros, os monumentos das +duas religiões, a qual mais expressivo e loquaz, dizendo mais claro que +os livros, que os escriptos, que as tradições, o pensamento das edades +que os ergueram, e que alli os deixaram gravados sem saber que o faziam. + +Mais embaixo, e no fundo d'esse declive, aquella massa negra é o resto +ainda suberbo do ja immenso palacio dos condes de Unhão. + +Rodeámos o largo e fomos entrar em Marvilla pelo lado do norte. Estamos +dentro dos muros da antiga Santarem. Tam magnífica é a entrada, tam +mesquinho é agora tudo ca dentro, a maior parte d'estas casas velhas sem +serem antigas, d'estas ruas moirescas sem nada de arabe, sem o menor +vestigio de sua origem mais que a estreiteza e pouco aceio. + +As egrejas quasi todas porêm, as muralhas e os bastiões, algumas das +portas, e poucas habitações particulares, conservam bastante da +physionomia antiga e fazem esquecer a vulgaridade do resto. + +Seguimos a triste e pobre rua Direita, centro do debil commercio que +ainda aqui ha: poucas e mal providas logeas, quasi nenhum movimento. Ca +está a curiosa tôrre das Cabaças, a velha egreja de San'João do Alporão. +Ámanhan iremos ver tudo isso de nosso vagar. Agora vamos á Alcaçova! + +Entrámos a porta da antiga cidadella.--Que espantosa e desgraciosa +confusão de intulhos, de pedras, de montes de terra e calissa! Não ha +ruas, não ha caminhos, é um labyrinto de ruinas feias e torpes. O nosso +destino, a casa do nosso amigo é aopé mesmo da famosa e historica egreja +de Sancta Maria da Alcaçova.--Hade custar a achar em tanta confusão. + + + + +CAPITULO XXVIII. + + + Depois de muito procurar acha emfim o auctor a egreja de + Sancta-Maria d'Alcaçova.--Stylo da architectura nacional + perdido.--O terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do + Passeio-publico de Lisboa.--O chefe do partido progressista + portuguez no alcassar de D. Affonso Henriques.--Deliciosa vista dos + arredores de Santarem observada de uma janella da Alcaçova, de + manhan.--É tomado o auctor de ideas vagas, poeticas, phantasticas + como um sonho.--Introducção do Fausto.--Difficuldade de traduzir os + versos germanicos nos nossos dialectos romanos. + + +Depois de muito procurar entre pardeiros e intulhos, achámo-la emfim a +egreja de Sancta Maria d'Alcaçova. Achámos, não é exacto: ao menos eu, +por mim, nunca a achava, nem queria accreditar que fôsse ella quando m'a +mostraram. A real collegiada de Affonso Henriques, a quasi-cathedral da +primeira villa do reino, um dos principaes, dos mais antigos, dos mais +historicos templos de Portugal, isto?.. esse egrejorio insignificante de +capuchos? mesquinha e ridicula massa d'alvenaria, sem nenhuma +architectura, sem nenhum gôsto! risco, execução e trabalho de um mestre +pedreiro d'aldeia e do seu apprendiz! É impossivel. + +Mas era, era essa. A antiga capella-real, a veneranda egreja da Alcaçova +foi passando por successivos reparos e transformações, até que chegou a +ésta miseria. + +Perverteu-se por tal arte o gôsto entre nós desde o meio do seculo +passado especialmente, os estragos do terremoto grande quebraram por tal +modo o fio de todas as tradições da architectura nacional, que na +Europa, no mundo todo talvez se não ache um paiz onde, a par de tam +bellos monumentos antigos como os nossos, se incontrem tam villans, tam +ridiculas e absurdas construcções públicas como essas quasi todas que ha +um seculo se fazem em Portugal. + +Nos reparos e reconstrucções dos templos antigos é que este pessimo +stylo, ésta ausencia de todo stylo, de toda a arte mais offende e +escandaliza. + +Olhem aquella impena classica posta de remate ao frontispicio todo +renascença da Conceição-velha em Lisboa. Vejam a implastagem de geço com +que estão mascarados os elegantes feixes de columnas gothicas da nossa +sé. + +Não se póde cahir mais baixo em architectura do que nós cahimos quando, +depois que o marquez de Pombal nos _traduziu_, em vulgar e arrastada +prosa, os _rococós_ de Luiz XV, que no original, pelo menos, eram +florídos, recortados, caprichosos e galantes como um madrigal, esse +stylo bastardo, hybrido, degenerando progressivamente e tomando +presumpções de classico, chegou nos nossos dias até ao chafariz do +passeio-público! + +Mas deixar tudo isso, e deixar a egreja da Alcaçova tambem; entremos nos +palacios de D. Affonso Henriques. + +Aqui, pegado com o pardeiro rebocado da capella hãode ser. Por onde se +entra? + +Por ésta portinha estreita e baixa, rasgada, bem se ve que ha poucos +annos, no que parece muro de um quintal ou de um páteo. + +É comeffeito aqui; apeemo'-nos. + +Recebeu-nos com os braços abertos o nosso bom e sincero amigo, actual +possuidor e habitante do regio alcassar, o Sr. M. P. + +Notavel combinação do acaso! Que o illustre e venerado chefe do partido +progressista em Portugal, que o homem de mais sinceras convicções +democraticas, e que mais sinceramente as combina com o respeito e +adhesão ás fórmas monarchicas, esse homem, vindo do Minho, do berço da +dynastia e da nação, viesse fixar aqui a sua residencia no alcassar do +nosso primeiro rei, conquistado pela sua espada n'um dos feitos mais +insignes d'aquella era de prodigios! + +Entrámos na pequena horta em fórma de claustro que une a antiga casa dos +reis com a sua capella. Assim foi sem dùvida n'outro tempo: a parede +oriental da egreja é o muro do quintal de um lado, mas as communicações +foram vedadas provavelmente quando a coroa alienou o palacio e o separou +assim perpetuamente do templo. + +Plantado de larangeiras antigas, os muros forrados de limoeiros e +parreiras, aquella pequena cêrca, apezar dos muitos canteiros e +alegretes de alvenaria com que está moirescamente intulhada, é amena e +graciosa á vista. + +Appresentou-nos o nosso amigo a sua mulher, senhora de porte gentil e +grave; beijámos seus lindos filhos, e fomos fazer as abluções +indispensaveis depois de tal jornada para nos podermos sentar á mesa. + +O palacio de Affonso Henriques está como a sua capella: nem o mais leve, +nem o mais apagado vestigio da antiga origem. Sabe-se que é alli pela +bem confrontada e inquestionavel topographia dos logares, por mais +nada... + +E que me importam a mim agora as antiguidades, as ruinas e as +demolições, quando eu sinto demolir-me ca por dentro por uma fome +exasperada e destruidora, uma fome vandalica insaciavel! + +Vamos a jantar. + +Comêmos, conversámos, tomámos chá, tornámos a conversar e tornámos a +comer. Vieram visitas, fallou-se politica, fallou-se litteratura, +fallou-se de Santarem sôbretudo, das suas ruinas, da sua grandeza +antiga, da sua desgraça presente. Emfim, fomo'-nos deitar. + +Nunca dormi tam regalado somno em minha vida. Acordei no outro dia ao +repicar incessante e appresurado dos sinos da Alcaçova. Saltei da cama, +fui á janella, e dei com o mais bello, o mais grandioso, e ao mesmo +tempo, mais ameno quadro em que ainda puz os meus olhos. + +No fundo de um largo valle aprazivel e sereno, está o socegado leito do +Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre d'agua juncto ás +margens, d'onde se debruçam verdes e frescos ainda os salgueiros que as +ornam e defendem. D'alêm do rio, com os pés no pinque nateiro d'aquellas +terras alluviaes, os riccos olivedos d'Alpiarça e Almeirim; depois a +villa de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. D'aquem a immensa +planicie ditta do Rocio, semeada de casas, de aldeias, de hortas, de +grupos de árvores sylvestres, de pomares. Mais para a raiz do monte em +cujo cimo estou, o picturesco bairro da Ribeira com as suas casas e as +suas egrejas, tam graciosas vistas d'aqui, a sua cruz de Sancta Iria e +as memorias romanescas do seu alfageme. + +Com os olhos vagando por este quadro immenso e formosissimo, a +imaginação tomava-me azas e fugia pelo vago infinito das regiões ideaes. +Recordações de todos os tempos, pensamentos de todo o genero me affluiam +ao espirito, e me tinham como n'um sonho em que as imagens mais +discordantes e disparatadas se succedem umas ás outras. + +Mas eram todas melancholicas, todas de saudade, nenhuma de esperança!.. + +Lembraram-me aquelles versos de Goethe, aquelles sublimes e inimitaveis +versos da introducção do Fausto: + + Resurgis outra vez, vagas figuras, + Vacillantes imagens que á turbada + Vista accudieis d'antes. E heide agora + Retter-vos firme? Sinto eu ainda + O coração propenso a illusões d'essas? + E appertais tanto!... Pois embora! seja: + Dominae, ja que em nevoa e vapor leve + Emtôrno a mim surgis. Sinto o meu seio + Juvenilmente trépido agitar-se + Co'a maga exhalação que vos circunda. + Trazeis-me a imagem de ditosos dias, + E d'ahi se ergue muita sombra amada: + Como um velho cantar meio-esquecido, + Véem os primeiros simplices amores + E a amizade com elles. Reverdece + A mágoa, lamentando o errado curso + Dos labyrintos da perdida vida; + E me está nomeando os que trahidos + Em horas bellas por fallaz ventura + Antes de mim na estrada se sumiram. + .................................. + .................................. + +Não me atrevo a pôr aqui o resto da minha infeliz traducção: fiel é +ella, mas não tem outro merito. Quem póde traduzir taes versos, quem de +uma lingua tam vasta e livre hade passá-los para os nossos appertados e +severos dialectos romanos?[1] + + + + +CAPITULO XXIX. + + + Doçuras da vida.--Imaginação e sentimento.--Poetas que morreram + moços e poetas que morreram velhos.--Como são escriptas éstas + viagens.--Livro de pedra. Criança que brinca com elle.--Ruinas e + reparações.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e + litterarias.--Sancta Iria ou Irene, e Santarem.--Romance de Sancta + Iria.--Quantas sanctas ha em Portugal d'este nome? + + +Este sonhar acordado, este scismar poetico deante dos sublimes +spectaculos da natureza, é dos prazeres grandes que Deus concedeu ás +almas de certa têmpera. Doce é gosar assim... mas em que doçuras da vida +não predomina sempre o acido poderoso que stimula! Tirae-lh'o, fica a +insipidez; deixae-lh'o, ulcéra porfim os orgams: o gôso é mais vivo +porque a acção do stímulo é mais sentida... mas a ulceração cresce, o +coração está em carne-viva... agora o prazer é martyrio. + +Infeliz do que chegou a esse estado! + +Bemaventurado o que póde graduar, como Goethe, a dóze d'amphião que quer +tomar, que poupa as sensações e a vida, e economiza as potencias de sua +alma! N'esses porêm é a imaginação que domina, não o sentimento. Byron, +Schiller, Camões, o Tasso morreram moços; matou-os o coração. Homero e +Goethe, Sophocles e Voltaire acabaram de velhos: sustinha-os a +imaginação, que não despende vida porque não gasta sensibilidade. + +Imaginar é sonhar, dorme e repousa a vida no entretanto; sentir é viver +activamente, cansa-a e consomme-a. + +Isto é o que eu pensava--porque não pensava em nada, divagava--em quanto +aquelles versos do Fausto me estavam na memoria, e aquella saudosa vista +do Tejo e das suas margens deante dos olhos. + +Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma, isto vai no papel: que +d'outro modo não sei escrever. + +Muito me pêza, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas +Viagens, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver n'esse +titulo, mas que eu não fiz decerto. Querias talvez que te contasse, +marco a marco, as leguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e +larguras dos edificios? algarismo por algarismo, as datas de sua +fundação? que te resummisse a historia de cada pedra, de cada ruina?.. + +Vai-te ao padre Vasconcellos; e quanto ha de Santarem, peta e verdade, +ahi o acharás em amplo folio e gorda lettra: eu não sei compor d'esses +livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer. + +So tenho pena de uma coisa, é de ser tam desestrado com o lapis na mão; +porque em dois traços d'elle te dizia muito mais e melhor do que em +tanta palavra que porfim tam pouco diz e tam mal pinta. + +Santarem é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poetica +parte das nossas chronicas está escripta. Ricco de illuminuras, de +recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados +primorosos, o livro era o mais bello e o mais precioso de Portugal. +Inquadernado em esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras, +fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas gothicas, o +magnífico livro devia durar sempre em quanto a mão do Creador se não +extendesse para apagar as memorias da creatura. + +Mas ésta Ninive não foi destruida, ésta Pompeia não foi submergida por +nenhuma catastrophe grandiosa. O povo de cuja história ella é o livro, +ainda existe; mas esse povo cahiu em infancia, deram-lhe o livro para +brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez +papagaios e bonecas, fez carapuços com ellas. + +Não se descreve por outro modo o que ésta gente chamada govêrno, chamada +administração, está fazendo e deixando fazer ha mais de seculo em +Santarem. + +As ruínas do tempo são tristes mas bellas, as que as revoluções trazem, +ficam marcadas com o cunho solemne da historia. Mas as brutas +degradações e as mais brutas reparações da ignorancia, os mesquinhos +concertos da arte parasyta, esses profanam, tiram todo o prestigio. + +Tal é a geral impressão que me faz ésta terra. Almocemos, que ja oiço +chamar para isso, e iremos ver depois se me inganei. + +Ao almôço a conversação veio naturalmente a cahir no seu objecto mais +óbvio, Santarem. D. Affonso Henriques e os seus bravos, San'Frei Gil e o +Sancto-milagre, o Alfageme e o Condestavel, el-rei D. Fernando e a +rainha D. Leonor, Camões desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui +nascido, Pedralvares Cabral, os Docems, quasi todas as grandes figuras +da nossa historia passaram em revista. Porfim veio Sancta Iria tambem, a +madrinha e padroeira d'esta terra, cujo nome aqui fez esquecer o de +romanos e celtas. + +Quem tem uma idea fixa, em tudo a mette. A minha idea fixa em coisas de +arte e litterarias da nossa peninsula são as xacaras e romances +populares. Ha um de Sancta Iria. + +Porque é a Sancta Iria da trova popular tam differente da Sancta Iria +das legendas monasticas? + +A trova é ésta, segundo agora a rectifiquei e appurei pela collação de +muitas e várias versões provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que +em geral é a que mais se deve seguir.[2] + + Stando eu á janella co'a minha almofada, + Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata; + + Passa um cavalleiro, pedia pousada; + Meu pae lh'a negou: quanto me custava! + + --'Ja vem vindo a noite, é tam so a estrada... + Senhor pae, não digam tal da nossa casa, + + Que a um cavalleiro que pede pousada + Se fecha ésta porta á noite cerrada.' + + Roguei e pedi--muito lhe pezava! + Mas eu tanto fiz que porfim deixava. + + Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava; + Ao lar o levei, logo se assentava. + + Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava; + Puz-lhe uma toalha, n'ella me limpava. + + Poucas as pallavras, que mal me fallava, + Mas eu bem sentia que elle me mirava. + + Fui a erguer os olhos, mal os levantava, + Os seus lindos olhos na terra os pregava. + + Fui-lhe pôr a cea, muito bem ceava; + A cama lhe fiz, n'ella se deitava. + + Dei-lhe as boas noites, não me replicava: + Tam má cortezia nunca a vi usada! + + Lá por meia noite que me eu suffocava, + Sinto que me levam co'a bôcca tapada... + + Levam-me a cavallo, levam-me abraçada, + Correndo, correndo sempre á desfilada. + + Sem abrir os olhos, vi quem me roubava; + Callei-me e chorei--elle não fallava. + + D'alli muito longe que me perguntava + Eu na minha terra como me chamava. + + --'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga; + Por aqui agora Iria, a cansada.'[3] + + Andando, andando, toda a noite andava; + Lá por madrugada que me attentava... + + Horas esquecidas commigo luctava; + Nem fôrça nem rogos, tudo lhe mancava. + + Tirou do alfange... alli me matava, + Abriu uma cova onde me interrava. + + + No fim de sette annos passa o cavalleiro, + Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro. + + --'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro, + Se me perdoares, serei teu romeiro.' + + --'Perdoar não te heide, ladrão carniceiro, + Que me degollaste que nem um cordeiro.' + + +Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de aventurosa vida e que ambas +deixassem longa e profunda memoria de sua belleza e martyrio--o de que +não tenho a menor idea--ou nos escriptos dos frades ha muita fábula de +sua unica invenção d'elles que o povo não quiz acreditar: alias é +inexplicavel a singeleza d'esta tradição oral. + +Tam simples, tam natural é a narração poetica do romance popular, quanto +é complicada e cheia de maravilhas a que se auctoriza nas recordações +ecclesiasticas. + +O caso é grave, fique para novo capitulo. + + + + +CAPITULO XXX. + + + Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o romance + popular. + + +A milagrosa Sancta Iria--Sancta Irene--que deu o seu nome a Santarem, +donzella nobre, natural da antiga Nabancia[4], e freira no convento +dupplex[5] benedictino que pastoreava o sancto abbade Celio, floreceu +pelos meados do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente o joven +Britaldo, filho do conde ou consul Castinaldo que governava aquellas +terras, e não podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu infêrmo de +molestia que nenhum physico acertava a conhecer, quanto mais a curar. + +É sabido que a mais sancta lhe não pêza de que estejam a morrer por +ella; e, mais ou menos, sempre sympathisa com as victimas que faz. + +Sancta Iria resolveu consolar o pobre Britaldo; e ja que mais não podia +por sua muita virtude, quiz ver se lhe tirava aquella louca paixão e o +convertia. Sahiu, uma bonita manhan, do seu convento--que não guardavam +ainda as freiras tam absoluta e estreita clausura--e foi-se a casa do +namorado Britaldo. + +Consolou como mulher e ralhou como sancta, e porfim, impondo-lhe na +cabeça as lindas e bemdittas mãos, n'um instante o sarou de todo achaque +do corpo; e se lhe não curou o d'alma tambem, pelo menos lh'o +adormentou, que parecia acabado. + +Mas como o demo, em chegando a entrar n'um corpo humano, parece que não +sai d'elle senão para se ir metter n'outro; tam depressa o inimigo +deixou ao pobre Britaldo, como logo se foi incaixar em não menor +personagem do que o monge Remigio, que era o mestre e director da bella +Iria. + +Arde o frade em concupiscencia, e não obtendo nada com rogos e lamentos, +jurou vingar-se. Disfarçou porêm, fingiu-se emendado, e deu-lhe, quando +ella menos cuidava, uma bebida de sua diabolica preparação, que apenas a +sancta a havia tomado, lhe appareceram logo e continuaram a crescer +todos os signaes da mais apparente maternidade. + +Corre a fama do supposto estado da donzella, chovem as injúrias e os +insultos dos que mais a tinham respeitado até então. E Britaldo, que se +julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella mulher artificiosa, em vez +de a esquecer com desprêzo--sente reviver-lhe, senão tam pura, muito +mais ardente, toda a antiga paixão. + +Tam mysterioso é o coração do homem!--tam vil! dirão os asceticos--tam +inexplicavel! direi eu com os mais tolerantes. + +Novas tentativas, promessas, ameaças do furioso amante... A sancta +resiste a tudo, forte na sua virtude. + +Costumava a devota donzella ir todas as noites a uma occulta lapa que +jazia no fim da cêrca e juncto ao rio Nabão, para alli estar mais so com +Deus, e desabafar com Elle á sua vontade. Soube-o Britaldo, espreitou a +occasião e alli a fez apunhalar por um seu criado cujo nome a legenda +nos conservou para maior testimunho de verdade: chamava-se Banam. + +Banam! é um verdadeiro nome de mellodrama. + +Morta a innocente, Banam despiu-lhe o hábito e lançou o corpo ao rio, +que depressa a levou ás arrebatadas correntes do Zezere em que desagua; +e logo este ao Tejo--que defronte da antiga Scalabicastro lhe deu +sepultura em suas louras areas, para maior glória da sancta e perpétua +honra da nobillissima villa que hoje tem o seu nome. + +Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta, teve Celio, o abbade do +convento, uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres do +caso; e communicando-a logo aos monges e ao povo de Nabancia, sahiu com +todos de cruz alçada, e foi por esses campos da Golegan fóra, até chegar +á Ribeira de Santarem. Ahi benzendo as aguas do rio, éstas se retiraram +cortezes e deixaram ver o sepulchro que era de fino alabastro, obrado á +maravilha pelas mãos dos anjos. + +Chegaram aopé do tumulo, abriram-n'o, viram e tocaram o corpo da sancta, +mas não o poderam tirar, por mais diligencias que fizeram. Conheceu-se +que era milagre; e contentando-se de levar reliquias dos cabellos e da +tunica, voltaram todos para a sua terra. + +As aguas tornaram a junctar-se e a correr como d'antes, e nunca mais se +abriram senão d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha sancta +Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas orações fez aopé do rio +pedindo á sancta que lhe apparecesse, que o rio tornou a abrir-se como o +mar Vermelho á voz de Moises, dizem os devotos chronistas, e patenteou o +benditto sepulchro. + +Entrou a rainha a pé inchuto pelo rio dentro, seguida de seu real espôso +e de toda a sua côrte; mas por mais que rezasse ella, e que trabalhassem +os outros com todas as fôrças humanas, não poderam abrir o tumulo; +quebraram todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado el-rei de +que um podêr sobrehumano não permittia que elle se abrisse, mandou a +toda a pressa levantar um padrão muito alto sôbre o mesmo tumulo, e tam +alto que o rio na maior inchente o não podesse cubrir. + +O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros acabassem, e quando +viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos, +tornaram a junctar-se as aguas e o padrão ficou sobresahindo por cima +d'ellas. + +Passaram mais tres seculos e meio; e no anno de 1644 a camara de +Santarem mandou refazer de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal +que não era senão de alvenaria, e pôr-lhe em cima a imagem da sancta. + +Ainda lá está, assás mal cuidado com tudo; lá o vi com estes olhos +peccadores no corrente mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem +orações, o rio tinha-se retirado, havia muito, para um cantinho do seu +leito, e o padrão estava perfeitamente em sêcco, e em sêcco está todo o +anno até começarem as cheias. + +Tal é, em fidelissimo resummo, a historia da Sancta Iria dos livros. + +A das cantigas é, como ja disse, muito outra e muito mais simples, +conta-se em duas palavras. A sancta está em casa de seus paes; um +cavalleiro desconhecido, a quem dão pousada uma noite, levanta-se por +horas mortas, rouba a descuidada e innocente donzella, foge a todo o +correr de seu cavallo, e chegado a um descampado d'alli muito longe, +pretende fazer-lhe violencia... A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a +annos passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma linda ermida levantada +no proprio sítio onde commetteu o crime, pergunta de que sancta é, +dizem-lhe que é de Sancta Iria. Elle cai de joelhos a pedir perdão á +sancta, que lhe lança em rosto o seu peccado e o amaldiçoa. + +E acabou a historia. + +Sería o povo que se esqueceu nas suas tradições, ou os frades que +augmentaram nas suas escripturas? Pois a legenda monastica é realmente +bella e cheia de poesia e romance, coisas que o povo não costuma +desprezar. + +É difficil de explicar-se este phenomeno, interessantissimo para +qualquer observador não vulgar, que n'estas crenças do commum, n'estas +antigualhas, desprezadas pela suberba philosophia dos nescios, quer +estudar os homens e as nações e as edades onde elles mais sinceramente +se mostram e se deixam conhecer. + +A extrema simplicidade do romance ou xacara de Sancta Iria, o ser elle, +d'entre todos os que andam na memoria do nosso povo, o mais geralmente +sabido e mais uniformente repettido em todos os districtos do reino, e +com poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto, me faz crer que +ésta seja das mais antigas composições não so da nossa lingua, mas de +toda a peninsula. A phrase tem pouco sabor antigo: este é um d'aquelles +poemas quasi aborigines que a tradição tem vindo intregando, e ao mesmo +tempo traduzindo, de paes a filhos insensivelmente; e tambem não é +porcerto dos que desceram do palacio ás choupanas e fugiram da cidade +para as aldeas, como em muitos outros se conhece: este visivelmente +nasceu nos arraiaes, nos oragos dos campos, e por lá tem vivido até +agora. + +A fórma metrica da composição é a que a phrase didatica das Hispanhas +chamou _romance em endechas_. Eu, adoptando para elle, mais que para a +fórma ordinaria do metro octosyllabo, a theoria do ingenhoso philologo +allemão, Deeping, tam benemerito da nossa litteratura peninsular, creio +que estes são verdadeiros versos de dôze syllabas, e que as coplas não +constam senão de dous versos cada uma, segundo a óbvia significação da +palavra. O povo cantando não separa os hemistychios d'estes versos como +fazem os que os escrevem: e ao contrário nos romances da medida mais +commum, o canto popular reparte distinctamente cada membro de oito +syllabas sôbre si. + +Não sei se me ingano, mas desconfio que as quatro coplas últimas, em que +muda completamente a rhyma, sejam additamento posterior feito á cantiga +original. Todavia estes oito versos apparecem, com ligeiras variantes, +em toda a parte. + + + + +CAPITULO XXXI. + + + Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em verso e + Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de + architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As + salgadeiras de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de + Santarem.--Voltemos á historia de Fr. Diniz e da menina dos olhos + verdes. + + +Eram mais de dez horas da manhan quando sahimos a começar a longa +viasacra de reliquias, templos e monumentos que são hoje toda Santarem. + +A vida palpitante e actual acabou aqui inteiramente: hoje é um livro que +so recorda o que foi. Entre a historia maravilhosa do passado que todas +éstas pedras memoram, e as prophecias tremendas do futuro que parecem +gravadas n'ellas em characteres mysteriosos, não ha mais nada: o +presente não é, ou é como se não fosse: tam pequeno, tam mesquinho, tam +insignificante, tam desproporcionado parece a tudo isto. + +Dá vontade de intoar com o poeta inspirado de Jerusalem: 'Quommodo sedet +sola civitas!' Portugal é, foi sempre uma nação de milagre, de poesia. +Desfizeram o prestigio; veremos como elle vive em _prosa_. Morrer, não +morre a terra, nem a familia, nem as raças: mas as nações deixam de +existir.--Pois embora, ja que assim o querem. A mim não me fica +escrupulo. + +Passámos a egreja da Alcaçova, que achámos ja fechada; e tomando sempre +sôbre a esquerda, fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de entre +quintas, mas que visivelmente foi n'outras eras a rua mais _fashionavel_ +d'esta villa cortezan. Aqui estão quasi aopé da egreja umas portas e +janellas do mais fino lavor e gôsto mosarabe que me lembra de ter visto. + +E a proposito, porque se não hade adoptar na nossa peninsula ésta +designação de _mosarabe_ para characterizar e classificar o genero +architectonico especial nosso, em que o severo pensamento christão da +architectura da meia edade se sente relaxar pelo contacto e exemplo dos +habitos sensuaes moirescos, e de sua luxuosa e redundante elegancia? + +De que palacio incantado foram éstas portas tam primorosamente lavradas? +Que bellezas se debruçaram d'essas arrendadas janellas para ver passar o +cavalleiro escolhido do seu coração? São tam lindas, tam elegantes ainda +éstas pedras desconjunctadas, e mal sustidas de um muro insosso e +grosseiro que as facea, que naturalmente despertam a mais adormecida +imaginação a quanto sonho de fadas e trovadores a poesia fez nascer dos +mysterios da edade-média. + +Pouco mais adeante está, em um mau nicho escalavrado e feio, um +pretendido busto de D. Affonso Henriques, a que attribuem grande +antiguidade. Não me fez esse effeito a mim. + +Chegámos á porta do _Sol_; sentamo'-nos alli a gosar da majestosa vista. +É majestosa mas triste. A ribanceira que d'alli corta abaixo, até ao +rio, é arida e quasi calva: cobrem-n'a apenas, como a mal povoada nuca +de um velho, alguns tufos de verdura cinzenta e grisalha de um arbusto +rasteiro, meio _frutex_ meio herbaceo que aqui chamam 'Salgadeira' e que +a tradicção diz ter vindo de Affrica para segurar a terra n'estes +taludes e precipicios. O aspecto e hábito da planta é realmente +affricano e oriental, não tem nada de europeu. Mas ésta derradeira e +occidental parte da nossa Hespanha é, geologicamente fallando, ja tam +affrica, tam pouco europa, que não sería necessaria a transplantação +talvez; e porventura ficou ésta memoria entre o povo do uso que os +moiros faziam da planta para esse fim. + +Ésta porta do sol dizem que é onde se faziam as execuções em tempos +antigos. Foi bem escolhido o sítio; não o ha mais triste e melancholico. +Aopé está um torreão quadrado da muralha que ahi fórma canto para seguir +depois na direcção de sul a norte. D'este lado as fortificações e lanços +de muro estão todas pouco estragadas; e do mirante a que subimos, +póde-se formar perfeita idea do que era uma antiga cidade murada. + +Sería aqui, dizia eu commigo, que o nosso Fr. Diniz de quem ja tenho +saudades--o velho guardião de San'Francisco veio chorar o seu ultimo +threno sôbre as ruinas da antiga monarchia? Sería aqui n'este logar de +desolação e melancholia que correram as suas derradeiras lagrymas! Elle +que ja não chorava, acharia aqui quem desse aos seus olhos as fontes de +agua que o coração lhe pedia para se desaffogar dos pezares que o +rallavam na aridez e seccura de sua desconsolada velhice? + +Passavam-me éstas ideas pelo pensamento quando o historiador que tantos +capitulos nos retteve no vale, contando-nos os successos de Joanninha e +da sua familia, nos disse: + +'Sentemo-nos aqui na sombra que faz ésta muralha e acabemos a historia +da menina dos rouxinoes. De tarde vamos á Ribeira saudar a memoria do +Alfageme. Ámanhan de manhan está detalhado que iremos ver a Graça, o +Sancto milagre, San' Domingos e San' Francisco. Concluamos hoje ésta +historia.' + +'Seja' respondemos nós. + +Entraremos portanto em novo capitulo, leitor amigo; e agora não tenhas +medo das minhas digressões fataes, nem das interrupções a que sou +sujeito. Irá direita e corrente a historia da nossa Joanninha até que a +terminemos... em bem ou em mal? D'antes um romance, um drama em que não +morria ninguem era havido por semsabor; hoje ha um certo horror ao +tragico, ao funesto que perfeitamente quadra ao seculo das commodidades +materiaes em que vivemos. + +Pois, amigo e benevolo leitor, eu nem em principios nem em fins tenho +eschola a que esteja sujeito, e heide contar o caso como elle foi. + +Escuta. + + + + +CAPITULO XXXII. + + + Tornámos á historia de Joanninha.--Preparativos de guerra.--A + morte.--Carlos ferido e prisioneiro.--O hospital.--O + infermeiro.--Georgina. + + +'Escuta!' disse eu ao leitor benevolo no fim do último capítulo. Mas não +basta que escute, é preciso que tenha a bondade de se recordar do que +ouviu no capitulo XXV e da situação em que ahi deixámos os dous primos, +Carlos e Joanninha. + +N'este despropositado e inclassificavel livro das minhas Viagens, não é +que se quebre, mas inreda-se o fio das historias e das observações por +tal modo, que, bem o vejo e o sinto, so com muita paciencia se póde +deslindar e seguir em tam imbaraçada meada. + +Vamos pois com paciencia, caro leitor; farei por ser breve e ir direito +quanto eu podér. + +Lembra-te como n'uma noite pura, serena e estrellada, aquelles dous se +despediram um do outro no meio do valle, como se despediram tristes, +duvidosos, infelizes, e ja outros, tam outros do que d'antes foram. + +N'essa mesma noite, a ordenada confusão de um grande movimento de guerra +reinava nos postos dos constitucionaes. Á longa apathia de tantos mezes +succedia uma inesperada actividade. Preparavam-se os sanguinolentos +combates de Pernes e de Almoster, que não foram decisivos logo, mas que +tanto appressaram o termo da contenda. + +Carlos achou ordem de se appresentar no quartel-general, partiu +immediatamente. O pensamento absorvido por ideas tam differentes, tam +confuso, tam alheado de si mesmo, seguiu machinalmente o corpo. Foi, +chegou, recebeu as instrucções que lhe deram, e voltou mais satisfeito, +mais tranquillo. + +Tractava-se de morrer. Não sabe o que é verdadeira angústia d'alma o que +ainda não abençoou a morte que viu deante de si, o que a não invocou +ainda como unico remedio de seu mal, ou, o que é mais desesperado, como +unica sahida de suas fataes perplexidades. + +Estes momentos são raros na vida, é certo; mas quando occorrem, não ha +exaggeração nenhuma em dizer que antes, muito antes a morte do que +elles. + +Oh! e se a morte que se contempla é de honra e glória, se o enthusiasmo, +tirando fortemente a corda dos nervos, os faz vibrar n'aquelles tons +secretos e mysteriosos que arrebatam, e elevam o coração do homem á +sublime abnegação de si, e de tudo o que é piqueno, baixo e vil na sua +natureza--oh então a morte parece um triumpho, uma bemaventurança +porcerto! + +Carlos esqueceu-se de tudo, menos da sua espada que affiou com +escrupuloso cuidado, e das suas boas e seguras pistolas inglezas que +limpou minuciosamente, carregou e escorvou com um verdadeiro amor de +artista que se compraz no último acabamento de um trabalho predilecto. + +O pouco da noite que lhe restava passou-se n'isto, a marcha começou +antes do dia. E os primeiros raios do sol foram saudados pelo fuzilar +das espingardas, e pelo trovejar dos canhões. + +Combateu-se larga e incarniçadamente--como entre irmãos que se odeiam de +todo o odio que ja foi amor--o mais cruel odio que tem a natureza! + +O dia declinava ja quando n'um hospital em Santarem entravam muitas +maccas de feridos, e entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto de +sangue que, assim pelos restos do uniforme como por certo ar bem +conhecido--e charecteristica então, se via claramente ser do exército +constitucional. + +Eram muitas e perigosas as feridas d'esse homem; estenderam-n'o n'uma +especie de tarimba sôbre que havia alguma palha, e quando lhe chegou a +sua vez foi examinado e pençado como os outros. Não dava signal de +padecer, tinha os olhos fechados, o pulso forte mas não agitado de +febre; não proferia uma syllaba, não soltava um ai, e prestava-se a tudo +o que lhe diziam e faziam, menos a soltar da mão esquerda que apertava +contra o peito o que quer que fosse que alli tinha seguro e que lhe +pendia ao pescosso de uma estreita fitta preta. + +Assim o deixaram largo tempo: elle adormeceu. Não sería largo, mas foi +profundo o seu dormir. Quando acordou ja se não viu no vasto +caravanseray d'aquelle confuso hospital, mas n'um pequeno quarto +arejado, limpo, e quasi confortavel que em tudo parecia cella de +convento, menos na boa cama em que jazia o doente, e na extremada +elegancia do infermeiro que o velava. + +O quarto era comeffeito uma cella do convento de San'Francisco em +Santarem, o doente o nosso Carlos; e o infermeiro que o velava, uma +bella mulher de estatura não acima de ordinaria mas nem uma linha menos, +involvida nas amplissimas pregas de um longo roupão de seda d'aquella +acertada côr que, em dialecto da rua Vivienne, se diz _scabieuse_; a +cabeça toucada de finissima Bruxellas, com uns laços de preto e côr de +granada que realçavam a transparencia das rendas, a infinita graça dos +longos e ondados aneis louros do cabello, e a pureza symetrica de um +rosto oval, classico, perfeito, sem grande mobilidade de expressão mas +bello, bello, quanto póde ser bello um rosto em que pouco d'alma se +reflecte, e em que a serena languidez de uns olhos azues entibía e +modera a energia do sentimento que não é menos profundo talvez, mas +certamente se expande menos. + +De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a mão direita d'elle nas suas, +os olhos seccos mas fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella +mulher estava alli como a estátua da dor e da anxiedade. A uma porta +interior e que abria para uma especie de alcova obscura, em pé, os +braços cruzados e mettidos nas mangas, o capuz na cabeça, estava um +frade velho, alto mas curvado do pêso dos annos ou dos soffrimentos. + +O frade contemplava o infêrmo e a infermeira, mas visivelmente não +queria ser visto n'essa occupação, porque ao menor estremecimento do +doente recuava apressado e como assustado para o interior da sua alcova. + +Uma so vela de cera allumiava este quadro, accidentando-o de fortes +sombras, e dando-lhe um tom de solemnidade verdadeiramente magico e +sublime. + +Carlos segurava ainda na esquerda com o mesmo affêrro o relicario ou +talisman, o que quer que era que não queria desprender de seu coração. A +bella infermeira beijava de vez em quando aquella mão tenaz que +estremecia a cada beijo, por mais suave e mimoso que fosse o leve +contacto d'esses labios delicados. + +A outra mão estava nas mãos d'ella, mas era insensivel a tudo, essa. + +O silencio era o do sepulchro: so se ouvia o respirar incerto e +descompassado do infêrmo. + +Derepente Carlos entreabriu as palpebras e exclamou em inglez: '_Oh +Georgina, Georgina, I love you still._'--(Georgina, Georgina, eu ainda +te amo). + +Duas lagrymas--duas perolas, d'estas que se criam com tanta dor no +coração e que ás vezes sahem com tanto prazer dos olhos--romperam do +celeste azul dos olhos da dama e suavemente correram por aquellas faces +de uma alvura pallida e mortal. + +Carlos accordou de todo, abriu os olhos e cravou-os fixamente no rosto +angelico d'essa mulher. + +Esteve assim minutos: ella não dizia nada nem de voz nem de gesto: +fallavam-lhe so as lagrymas que corriam quietas, quietas, como corre uma +fonte perenne e nativa d'agua que mana sem esfôrço nem impeto, por um +declive natural e facil. + +--'Onde estou eu, Georgina?' + +--'Nos meus braços.' + +--'Que me succedeu?' + +--'Que não podes ser feliz senão n'elles: bem sabes.' + +--'Sei... devia saber.' + +--'Hasde sabe-lo agora. O passado...' + +--'O passado! qual?' + +--'O passado deixou de existir.' + +--'E o futuro?' + +--'Eu não creio no futuro.' + +--'Porquê?' + +--'Porque tu me disseste que não cresse.' + +--'Eu!.. Eu sou um...' + +--'Um homem.' + +--'Oh!' + +--'Basta e descança. Amanhan fallaremos.' + +--'Estou ferido, muito; e doe-me agora... não me doía.' + +--'Estás, mas sem perigo: e estou eu aqui. Dorme.' + +--'Não posso. Que casa é ésta?' + +--'San'Francisco de Santarem.' + +--'Deus de misericordia!' + +--'Es prisioneiro: sára, e eu te livrarei.' + +--'Tu!--E tu aqui, como?' + +--'Vim buscar-te, e achei-te assim.' + +--'Georgina!' + +--'Que tens tu ahi tam seguro na mão esquerda?' + +--'Vê: a medalha com o teu cabello.' + +--'Então amas-me tu ainda?' + +--'Se te amo! Como no primeiro...' + +--'Não mintas, Carlos... E dorme.' + +--'Oh meu Deus, meu Deus! Georgina aqui, eu n'este estado e... E a minha +gente?' + +--'A tua gente está salva.' + +--'Aonde?' + +--'Aqui mesmo, em Santarem.' + +--'Quero... não quero... Oh sim, quero mas é morrer. Tende misericordia +de mim, meu Deus!' + +--'Socega, Carlos.' + +Mas Carlos não socegava: immudeceu porque a torrente de seus +pensamentos, o incontrado d'elles, e o inesperado d'aquella situação lhe +imbargavam a voz, e o quebramento das fôrças lhe tolhia os movimentos do +corpo; mas o espirito inquieto e alvoraçado revolvia-se dentro com um +phrenesi louco. Era pasmar o que elle soffria. + +Á fôrça de bebidas calmantes o accesso diminuiu, a noite passou mais +tranquilla; e pela manhan o doente não dava cuidado ao facultativo que o +veio ver. + +Prohibiram-lhe fallar; e Georgina tinha a coragem de lhe resistir, de +lhe não responder todas as vezes que elle tentava quebrar o preceito de +que dependia a sua vida... e a d'ella, porque a infeliz amava-o... oh! +amava-o como se não ama senão uma vez n'este mundo. + +Passaram dias, semanas, Carlos estava melhor, estava salvo; Georgina +pôde dizer-lhe um dia: + +--'Carlos, meu Carlos, tu estás livre de perigo, vou restituir-te aos +teus.' + +--'Os meus!' + +--'Os teus. Tua avó, tua prima...' + +--'Joaninha! oh! Joanninha...' + +--'Tua avó que tambem tem estado a morrer mas que emfim está escapa, +ignora que tu estejas aqui. Occultámo-lo egualmente a tua prima.' + +--'Ah!' + +--'Sim, assentámos de lh'o não dizer a uma nem a outra até que +tivessemos certeza da tua melhora. Hoje porêm vais ve-las. E eu...' + +--'Tu!' + +--'Eu não tenho aqui mais nada que fazer.' + +--'Georgina!' + +--'Carlos!' + +--'Tu ja me não amas?' + +--'Não.' + +Seguiu-se um silencio torvo e abafado como o da calma que precede as +grandes tempestades. O rosto de Georgina estava impassivel, Carlos +estorcia-se debaixo de uma compressão horrivel e incapaz de se +descrever. + + + + +CAPITULO XXXIII. + + + Carlos e Georgina. Explicação.--Ja te não amo! palavra + terrivel.--Que o amor verdadeiro não é cego.--Frade no caso outra + vez. _Ecce iterum Crispinus_; ca está o nosso Fr. Diniz comnosco. + + +--'Tu ja me não amas, Georgina, tu!' exclamou Carlos depois de uma longa +e penosa lucta comsigo mesmo: 'Ja me não amas tu, Georgina? Ja não sou +nada para ti n'este mundo? Aquelle amor cego, louco, infinito, que +derramavas em torrentes sôbre a minha alma, em que trasbordava o teu +coração; aquelle amor que eu cheguei a persuadir-me que era o maior, o +mais sincero, talvez o unico verdadeiro amor de mulher que ainda houve +no mundo, esse amor acabou, Georgina? Seccou-se no teu peito a fonte +celeste d'onde manava? Nem as recordações de nossa passada felicidade, +nem as memorias dos crueis lances que nos custou, dos sacrificios +tremendos que por mim fizeste, nada, nada póde acordar na tua alma um +echo, um echo sumido que fosse, da antiga harmonia de nossas vidas--da +nossa vida, Georgina, porque nós chegámos a confundir n'um só os dois +seres da nossa existencia--Oh! porque vivi eu até este dia? E tu, tu que +refinada crueldade te inspirou o salvar uma vida que tinhas condemnado, +que tinhas sacrificado quando a separaste da tua?' + +--'Carlos,' respondeu Georgina com a fria mas compassiva piedade que +mais o desesperava:--'Carlos, não abuses da pouca saude que ainda tens. +O esfôrço d'alma que estás fazendo póde-te ser prejudicial. Socega. Tu +illudes-te, e sem querer, procuras illudir-me tambem a mim. Entra em ti, +Carlos, e discorramos pausadamente sôbre a nossa situação, que não é +agradavel porcerto nem para um nem para outro, mas que póde supportar-se +se tivermos juizo para a incarar toda e sem medo, e para nos +convencermos com lealdade e franqueza do que ella realmente é. Ouve-me, +Carlos: tu amaste-me muito...' + +--'Oh como, oh quanto! Nenhum homem...' + +--'Poucos homens, é certo, amaram ainda como tu... quem sabe! talvez +nenhum.--Não quero perder ésta última illusão... ja não tenho outra... +Talvez nenhum amou como tu me amaste ou... ou cuidaste amar-me. Eu... +oh! eu quiz-te... pelo eterno Deus que me ouve! eu quiz-te com uma +cegueira d'alma, n'uma singeleza de coração, com um abandôno tam +completo, uma abnegação tam inteira de mim mesma, que realmente creio, +este é o amor que so a Deus se deve, que so ao Creador a creatura póde +consagrar licitamente. + +Bem castigada estou: mereci-o.' + +--'Georgina, Georgina!' + +--'Deixa-me, quero desabafar eu tambem agora. Ouve-me, tens obrigação de +me ouvir.--Se te dei provas d'este amor, tu o sabes; se desde que te +amei, uma palavra, um gesto, um pensamento unico, um so e o mais leve +relampejar da imaginação desmentiu em mim d'esta absoluta e exclusiva +dedicação de todo o meu ser... dize-o tu.' + +--'Não, minha alma, não, minha vida, não; tu és um anjo, tu es...' + +--'Sou uma mulher que te amava como creio que ordinariamente se não +ama.' + +--'Não, certo, não.' + +--'Fomos felizes, é verdade; e creio que poucos amantes ainda foram tam +felizes como nós nos breves dias que isto durou.--Tu partiste para a tua +ilha; era forçoso partir, conheci-o e resignei-me. Consolavam-me as tuas +cartas, as tuas cartas de fogo, escriptas, oh se o eram escriptas com o +mais puro sangue do teu coração. Nunca duvidei do que me ellas diziam: +não se mente assim, tu não mentias então. É falso que o amor seja cego: +o amor vulgar póde sê-lo, amor como o meu, o amor verdadeiro tem olhos +de lynce: eu bem via que era amada. Nunca me escreveste a protestar +fidelidade, e eu sabía, eu via que tu me eras fiel.--Assim passaram +meses, annos. Na ilha e no Porto foste o mesmo. Eu padecia muito, mas +confortava-me, vivia de esperanças... triste viver mas doce! Emfim +vieste para Lisboa, para aqui... e as tuas cartas que não eram menos +ternas nem menos apaixonadas...' + +--'Se eu nunca deixei, nem um momento...' + +Com um gesto expressivo, e de suave mas resoluta denegação, Georgina pôs +a mão na bôcca do pobre Carlos, como para o impedir de dizer uma +blasphemia. Elle segurou-a com as suas ambas e lh'a beijou mil vezes com +um arrebatamento, uma _furia_, n'um paroxismo de lagrymas e de soluços, +que partiriam o coração ao mais indifferente. Commoveu-se, vacillou a +inalteravel rigidez do bello rosto da dama, abaixaram-se as longas +palpebras de seus olhos; mas se chegou até elles alguma lagryma mais +rebelde, prompta refluiu para o coração, porque ao levantá-los outra vez +e ao fixá-los tranquillamente nos do seu amante, aquelles olhos puros, +celestes e austeros como os de um anjo offendido, estavam seccos. + +Ella continuou: + +--'As tuas cartas, que não eram menos ternas nem menos apaixonadas, +começaram todavia a ser menos naturaes, mais incarecidas... eram menos +verdadeiras por fôrça. Senti-o, vi-o, e cuidei morrer. Uma familia da +minha amizade vinha então para Portugal, accompanhei-a. Apenas cheguei, +procurei e obtive os meios seguros de tranzitar pelos dous campos +contendores: presagiava-me o coração que me havia de ser preciso. E foi; +cheguei ao valle no dia em que tu o deixavas para aquella fatal acção +que te ia custando a vida. Vim-te incontrar prisioneiro e meio morto no +hospital dos feridos. Aopé de ti estava um frade...' + +--'Um frade! Meu Deus, se seria elle?' + +--'Era elle.' + +--'Pois tu sabes?..' + +--'Sei: eu disse-lhe quem era e o que tu me eras...' + +--'Tu a elle... disseste?..' + +--'Disse. Não sei se fiz mal ou bem, sei que me não importava o que +fazia. Vi depois que me não inganára na confiança que posera n'elle. +Trouxemos-te para este convento, trattámos de ti, conseguimos salvar-te +a vida... E em quanto esse cuidado me livrava de outros, fui... fui +feliz. A tua gente... a tua familia do valle tambem veio para +Santarem... tua avó e tua prima, Carlos...' + +--'Joanninha! Joanninha está aqui?' + +--'Está; socega; ja t'o disse, logo a verás.' + +--'Eu! Eu para quê? Eu não quero...' + +--'Quero eu: hasde ve-la. Ja sabes que sei tudo.' + +--'Tudo o quê, Georgina?' + +--'Queres que t'o repitta? Repettirei. Que tu amas tua prima, que ella +que te adora. E por Deus, Carlos eu ja lhe quero como se fôra minha +irman. Intendes bem agora que te não amo? Comprehendes agora que tudo +acabou entre nós, e que não vejo, não posso ver em ti ja senão o espôso, +o marido da innocente criança que tomei debaixo da minha protecção, e a +quem juro que hasde pertencer tu?' + +--'Juras falso.' + +--'Como assim! Pois queres mais victimas? Não estás satisfeito com a +minha ruina? Eu aomenos não sou do teu sangue. E essa velha decrepita +que é tua avó, que duas vezes foi em verdade tua mãe porque te +criou,--essa innocente que te ama na singelleza do seu coração... e esse +pobre frade velho...' + +--'Oh! aqui anda elle, bem o vejo, aqui anda o genio mau da minha +familia. Malditto sejas tu, frade!' + +O desgraçado não acabára bem de pronunciar éstas palavras, quando a +porta da alcova se abriu de par em par, e a rigida, ascetica figura de +Fr. Diniz estava deante d'elle. + + + + +CAPITULO XXXIV. + + + Carlos, Georgina e Fr. Diniz.--A peripecia do drama.-- + + +Carlos estava meio sentado meio deitado n'uma longa cadeira de recôsto; +Georgina em pé, com os braços cruzados e na attitude de reflexiva +tranquillidade. Um sol brilhante e ardente, um sol de maio, feria os +estreitos vidros da pequena janella que so dava luz áquelle quarto: a +excessiva claridade era velada por uma longa e ampla cortina. + +Carlos lançou derepente a mão a essa cortina e a affastou para avivar a +luz do aposento. Um raio agudissimo de sol foi bater direito no macerado +rosto do frade, e reflectiu de seus olhos incovados, um como relampago +de íra celeste que fez estremecer os dous amantes. + +Não foi porêm senão relampago; sumiu-se, apagou-se logo. Aquelles olhos +ficaram mortaes, mudos, fixos, invidraçados como os de um homem que +acabou de expirar e a quem não cerraram ainda as palpebras. + +E assim mesmo aquelles olhos tinham o podêr magnetico de fixar os +outros, de os não deixar nem pestanejar. + +Curvo, incostado a um bordão grosseiro, o seu chapeo alvadio debaixo do +braço, o frade deu alguns passos tremulos para onde estavam os dous, +arrastando a custo as sôltas alpercatas que davam um som baço e batido, +e faziam--não sei por quê nem como--estremecer a quem as sentia. + +Parou a pouca distancia, e tirando a voz fraca e tenue, mas vibrante e +solemne, do íntimo do peito, disse para Carlos: + +--'Tu mal disseste-me, filho, e eu venho perdoar-te. Tu detestas-me, +Carlos, de todos os podêres da tua alma, com toda a energia de teu +coração; e eu venho-te dizer que te amo, que tomára dar a minha vida por +ti, que do fundo das intranhas se ergue este immenso amor que não tem +outro egual, a pedir-te misericordia, a clamar-te em nome de Deus e da +natureza, a pedir-te, por quanto ha sancto no ceo e de respeito na +terra, que levantes essa maldicção, filho, de cima da cabeça de um +moribundo.' + +Eram dittas em tal som estas vozes, vinham pronunciadas lá de dentro +d'alma com tal vehemencia, que lh'as não articulavam os labios, +rompiam-n'os ellas e sahiam. + +O soldado parecia desaccordado, confuso e sem intelligencia do que +ouvia. Georgina impassivel até alli, rigida e inabalavel com o seu +amante, sentia commover-se agora d'aquella angústia do velho. É que +partia pedras a dor que vinha n'aquellas fallas sepulchraes, que +trassudava d'aquelle rosto cadaverico. + +Ao mesmo tempo, um som confuso, um tumulto vago e abafado de mil sons +que pareciam arredar-se, incontrando-se, tornando, indo e vindo, e +dispersando-se para se tornar a unir, e tornando a dispersar-se emfim, +reboava ao longe pela villa, extendia-se nas praças, concentrava-se nas +ruas, e mandava áquella solitaria e remota cella do convento uns echos +surdos, como os do mar ao longe quando se retira da praia no murmurar +melancholico que precede um temporal d'equinoxio. + +--'Ouves esse borburinho confuso, Carlos? É a tua causa que triumpha, é +a d'estes loucos que succumbe, é a de Deus que a si mesmo se desamparou. +A hora está chegada, escreveram-se as lettras de Balthasar; a confusão e +a morte reinam sos e senhoras na face da terra. Eu quero ir morrer onde +haja Deus... Perdoae-me, Senhor, a blasphemia!.. onde o seu nome não +seja profanado e malditto... + +Ao canto de uma pedra, debaixo de uma árvore hade ser, n'algum logar +escuso d'essas charnecas, onde me não rasguem aomenos ésta mortalha, e +m'a não insultem nos ultimos instantes, porque eu sou frade, frade, +frade... o malditto frade! Mas frade quero morrer, e heide morrer. Oh! +assim tivera eu vivido!' + +--'Mas que foi; que succedeu?' + +--'O resto do exército realista evacua n'este momento Santarem; vão em +fuga para o Alemtejo. Os constitucionaes venceram na Asseiceira, e tudo +está ditto para nós. Para mim, Carlos, falta uma palavra so: quererás tu +dizê-la?' + +--'Eu?' + +--'Sim tu, Carlos. Revoca as palavras terriveis que proferiste, e em +nome de Deus, filho, perdoa a teu...' + +A Carlos revolvia-se-lhe no peito uma grande lucta. O horror, a +compaixão, o odio, a piedade iam e vinham-lhe alternadamente do coração +ás faces, e tornavam do rosto para o peito. Uma exclamação involuntaria +lhe rebentou dos labios em meio d'este combate: + +--'Padre, padre! e quem assacinou meu pae, quem cegou minha avó, e quem +cubriu de infamia a minha... a toda a minha familia?' + +--'Tens razão, Carlos, fui eu; eu fiz tudo isso: mata-me. Mas oh! +mata-me, mata-me por tuas mãos, e não me maldigas. Mata-me, mata-me. É +decreto da divina justiça que seja assim. Oh! assim meu Deus! ás mãos +d'elle, Senhor! Seja, e a vossa vontade se faça...' + +O frade cahiu de bruços no chão, e com as mãos postas e extendidas para +o mancebo, clamava: + +--'Mata-me, mata-me! aqui ha pouca vida ja: basta que me ponhas o pé +sobre o pescoço; esmaga assim o reptil venenoso que mordeu na tua +familia e que fez a sua desgraça e a de quantos o amaram. Sim, Carlos, +sê tu o executor das íras divinas. Mata-me. Tantos annos de penitencia e +de remorsos nada fizeram; mata-me, livra-me de mim e da íra de Deus que +me persegue.' + + + + +CAPITULO XXXV. + + + Reunião de toda a familia.--Explicação dos mysterios.--O coração da + mulher.--Parricidio.--Carlos beija emfim a mão a Fr. Diniz e abraça + a pobre da avó. + + +Georgina disse para Carlos: + +--'Dá a mão a esse homem, levanta-o e dize-lhe as palavras de perdão que +te pede.' + +Carlos fez um gesto expressivo de horror e de repugnancia. Georgina +ajoelhou aopé do frade, tomou as mãos d'elle nas suas, e lh'as affagou +com piedade; depois levantou-lhe o rosto, incostou-o a si e gradualmente +o foi accalmando. O velho parecia uma criança mimada e sentida que se +vai accalantando nos braços da mãe: agora so murmurava de vez em quando +alguns soluços, a mais e a mais raros. + +Estavam de joelhos ambos, o frade e a dama; elle mal se tinha, ella +amparava em seus braços e contra seu peito o amortecido corpo do velho. +E Georgina disse com aquelle som de voz irresistivel que as filhas de +Eva herdaram de sua primeira mãe, e que a ella ou lh'o tinham antes +insinado os anjos, ou o apprendeu depois da serpente,--um som de voz que +é a última e a mais decisiva da seducções femininas--disse: + +--'Este homem vai morrer, Carlos: e tu hasde-o deixar morrer assim, _meu +Carlos_?' + +Todo o odio, todas as offensas se callaram, desappareceram deante +d'aquellas palavras do anjo supplicante. _Meu Carlos_ ditto assim, não o +ouvíra elle ha muito tempo, não lhe pôde resistir: extendeu os braços +para o frade, cahiu de joelhos aopé d'elle, e um so abraço uniu a todos +tres. + +Como no eterno grupo de Lacoonte, o velho e os dous mancebos sentiam +estreitar-se das cobras da mesma dor, e affogavam junctos da mesma +angústia. + +Assim estiveram longamente; e não se ouvía entre elles senão algum +gemido sôlto, e aquelle sussurrar sumido das lagrymas que mais se ouve +com o coração do que com os ouvidos. + +O frade disse emfim com uma voz apenas perceptivel de timida e de fraca: + +--'Carlos, meu Carlos, perdoa tambem... oh perdoa á memoria de tua +desgraçada mãe!' + +O mancebo saltou convulsamente como o cadaver na pilha galvanica. Em pé, +hirto, horrivel, tremendo, exclamou com um brado de trovão: + +--'Demonio! demonio incarnado em figura de homem, que vieste +recordar-me? Dizias bem indagora, monstro: so ás minhas mãos deves +morrer. E hasde.' + +Lançou-se a um enorme velador de pau-sancto que lhe jazia aopé, massa +terrivel d'Hercules, e bastante a fender craneos de ferro, quanto mais a +descarnada caveira do frade! D'ambas as mãos a levava no ar; e o velho +extendeu para elle a cabeça como na ancia de morrer... Georgina fechou +involuntariamente os olhos, e um grande e medonho crime ia +consummar-se... + +Dous gritos agudissimos, dous gritos de desespêro e de terror, +d'aquelles que so sahem da bôcca do homem quando suspenso entre a morte +e a vida--soaram repentinamente no apposento; uma velha decrepita e meia +morta, arrastada por uma criança de pouco mais de dezeseis annos, estava +deante de Carlos, e ambas cubriam com seus debeis corpos a fragil e +extenuada figura da sua victima. + +--'Filho, meu filho!' arrancou a velha com stertor do peito: 'é teu pae +meu filho. Este homem é teu pae, Carlos.' + +O ponderoso velador cahiu inerte das mãos do mancebo, e rolou pesado e +baço pelo pavimento. Carlos cahiu por terra sem sentidos. De um pulo +Georgina estava aopé d'elle, e o fez incostar na longa cadeira de +braços. Estava lavado em sangue; era uma ferida do pescôço que o excesso +da commoção lhe fizera rebentar. Os dous velhos vieram ajoelhar-se aopé +d'elle. As duas mulheres moças lidavam pelo restaurar e lhe estancar o +sangue. A cambraia dos lenços, as rendas do collo e das cabeças, tudo se +fez em ataduras e compressas: o sangue parou emfim. + +Admiravel belleza do coração feminino, generosa qualidade que todos seus +infinitos defeitos faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam +esse homem. Esse homem não merecia tal amor: não, por Deus! o monstro +amava-as a ambas: está tudo ditto. E ellas que o sabiam, ellas que o +sentiam, e que o julgavam digno de mil mortes, ellas rivalizavam de +cuidados e de ancia para o salvarem. + +De tanto não somos capazes nós. + +E por isso admirâmos tanto. + +E perdoâmos tanto. + +E esquecêmos tanto. + +Mas amar tanto, não sabemos: verdade, verdade... + +Amâmos _melhor_; sim, isso sim: _tanto_ não. + +O mancebo permanecia em deliquio. Fr. Diniz e a velha rezavam. Georgina +e Joanninha--ja vereis que era Joanninha--olharam uma para a outra, +coraram e ficaram suspensas. A ingleza extendeu a mão á amavel criança, +estremeceu involuntariamente, mas disse-lhe com firmeza: + +--'O ditto ditto, Joanninha! Eu ja o não amo; prometto.' + +--'Eu amo-o cada vez mais, Georgina: elle é tam infeliz!' + +--'Juras-me tu de o não deixar, de velar por elle sempre, de o defender +de si mesmo que é o peior inimigo que tem?' + +--'Se juro!' + +--'Então adeus, Joanninha! Eu estou de mais aqui. Ja tenho ouvido o que +não devia ouvir. Os segredos da tua familia não me pertencem. O coração +d'esse homem não é meu, nem o quero. É um nobre e grande coração, +Joanninha; mas... Não te deixes dominar por elle se o queres segurar. +Adeus!--Santarem está desamparada pelos realistas; eu vou para Lisboa. +Consola tua boa avó, e esse pobre velho. Elle não é tam criminoso, estou +certa...' + +--'Oh não! Carlos cuida-o assassino de seu pae; e é falso. Minha avó ja +me disse tudo.' + +--'Falso!' murmurou Carlos sem abrir os olhos: 'é falso? Pois não foi +elle que matou meu pae?' + +--'Não, filho, clamou a velha: 'não, meu filho; teu pae é este infeliz.' + +--'E minha mãe?' + +--'Tua mãe... e eu somos duas desgraçadas. Que mais queres saber? Tua +mãe amou esse homem...' + +--'Ah!' disse Carlos: 'ah!' e abriu os olhos pasmados para a avó e para +o frade que cravaram os seus no chão, e ficaram como dous réos na +presença do seu inflexivel juiz. + +--'Mas esse homem que é... que por fôrça querem que seja meu... meu +pae... Sancto Deus! elle matou o outro.' + +--'Defendi-me, foi defendendo ésta vida miseravel... Oh nunca eu o +fizera! E paraquê? Paraque quiz eu viver? Para isto!' + +--'E meu tio, o pae de Joanninha? Tambem esse era preciso que morresse?' + +--'Ambos se junctaram para me assassinar, e me accommetteram +atraiçoadamente na charneca. Não os conheci; foi de noite escura e +cerrada. Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgraça de salvar a +minha vida á custa da d'elles. Filho, filho, não queiras nunca sentir o +que eu senti, quando pegando, um a um, n'esses cadaveres para os lançar +no rio, conheci as minhas victimas... Era hynverno, a cheia ia de valle +a monte: quando abateu e se acharam os corpos ja meios desfeitos, +ninguem conheceu a morte de que morreram; passaram por se ter affogado. +Ninguem mais soube a verdade senão eu--e tua infeliz mãe a quem o disse +para meu castigo, a quem vi morrer de pezar e de remorsos, que expirou +nos meus braços chorando por elle, e maldizendo-me a mim. Não sería +bastante castigo, meu filho?--Não foi, não. Este burel que ha tantos +annos me roça no corpo, estes cilicios que m'o desfazem, os jejuns, as +vigilias, as orações nada obtiveram ainda de Deus. A sua íra não me +deixa, a sua cholera vai até a sepultura sôbre mim... Se me perseguirá +além d'ella!..' + +Fez-se aqui um silencio horroroso: ninguem respirava; o frade proseguiu: + +--'Não me dei por bastante castigado com a agonia de tua mãe, a mais +horrorosa e desesperada agonia que ainda presenciei, oh meu Deus!.. Tive +o cruel ânimo de explicar a tua avó as negras circumstancias d'aquella +morte, e de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do meu crime. +Rasguei-lhe o coração, e vi-lhe sahir sangue e agua pelos olhos, até que +lhe cegaram. Que mais queres? Cuidei que podia morrer sem passar por +ésta derradeira expiação. Deus não o quiz. Aqui estou penitente a teus +pés, filho. Aqui está o assassino de tua mãe, de seu marido, de teu +tio... o algoz e a deshonra de tua familia toda.--Faze de mim como fôr +tua vontade. Sou teu pae...' + +--'Meu pae!.. Misericordia meu Deus!' + +--'Misericordia, filho, e perdão para teu pae!' + +Carlos levantou-se deliberadamente, veio ao velho, tomou-o a pêso nos +braços, foi sentá-lo na cadeira que acabava de deixar, e pondo-se de +joelhos, beijou-lhe a mão em silencio. Depois foi abraçar-se com a avó, +que o apalpava soffregamente com as mãos trémulas, e murmurava baixo: + +--'Agora sim, ja posso morrer, ja posso morrer porque o abracei, porque +o senti juncto a mim, o meu filho, o filho da minha filha querida...' + +Carlos é que não proferiu mais palavra; tinha-se-lhe rompido corda no +coração, que ou lhe quebrára o sentimento ou lh'o não deixava expressar. +Sahiu da cella fazendo signal que vinha logo: mas esperaram-n'o em +vão... não tornou. + +D'ahi a tres dias, veio uma carta d'elle, de juncto d'Evora onde estava +com o exército constitucional. + + + + +CAPITULO XXXVI. + + + Que não se acabou a historia de Joanninha.--Processo ao coração de + Carlos.--Immoralidade.--Defeito de organização não é + immoralidade.--Horror, horror, maldicção!--Um barão que não + pertence á familia lineana dos barões propriamente dittos--Porta de + Atamarma.--Senatus consulto santareno.--Nossa Senhora da Victoria + _afforada_.--Threnos sôbre Santarem. + + +--Pois ja se acabou a historia de Joanninha? + +--Não, de todo ainda não. + +--Falta muito? + +--Tambem não é muito. + +--Seja o que for, acabemos, que está a gente impaciente por saber como +se concluiu tudo isso, o que fez o frade, o que foi feito da ingleza, +Joanninha e a avó que caminho levaram, e o pobre Carlos se... + +--Pois interessam-se por Carlos, um homem immoral, sem principios, sem +coração, que fazia a côrte--fazer a côrte ainda não é nada--que amava +duas mulheres ao mesmo tempo? Horror, horror! como dizem os dramaticos +romanticos: horror e maldicção! + +--Horror seja, horror será... e horror é, sem dúvida. E maldicção que +deitaram ao pobre homem. Mas immoralidade! Immoralidade é inganar, é +mentir, é atraiçoar: e elle não o fez. Desgraça grande ter um coração +assim; mas não me digam que é próva de o não ter. Eu digo que elle tinha +coração de mais: o que é um defeito e grande, é um estado pathologico e +anormal. Physicamente produz a morte; e moralmente póde matar tambem o +sentimento. Bem o creio: mas é molestia commum, e com que vai vivendo +muita gente, até que um dia... + +--Um dia, o orgam, que progressivamente se foi dilatando, não póde +funccionar mais, cessa a circulação e a vida. Deve ser horrivel morte! + +--Fallam physicamente? + +--Physicamente. Mas no moral anda pelo mesmo. E se esse é o defeito de +Carlos... + +--Sentir muito? + +--Não; ter sentido muito: que o coração, como orgam moral, não se dilata +a esse ponto senão pelo demaziado excesso e violencia de sensações que o +gastaram e relaxaram. Se esse é o defeito, a molestia de Carlos, digo +que ja sei o fim da sua historia sem a ouvir. + +--Então qual foi? + +--Que um bello dia cahiu no indifferentismo absoluto, que se fez o que +chamam sceptico, que lhe morreu o coração para todo o affecto generoso, +e que deu em homem politico ou em agiota. + +--Póde ser. + +--Mas qual das duas foi, deputado ou barão? queremos saber. + +--Saberão. + +--Queremos ja. + +--E se fossem ambas? + +--Oh horror, horror, maldicção, inferno! Ferros em braza, demonios +pretos, vermelhos, azues, de todas as côres! Aqui sim que toda a +artelharia grossa do romantismo deve cahir em massa sôbre esse monstro, +esse... + +--Esse quê? Pois em se acabando o coração á gente... + +--Eu não creio n'isso. Acaba-se lá o coração a ninguem!.. + +Houve gargalhada geral á custa do pobre incredulo, e levantamo'-nos para +ir ver o Sancto-milagre, que era a hora apprazada, e estava o prior á +nossa espera. + +Ámanhan o fim da historia da menina dos olhos verdes. + +No caminho incontrámos o nosso antigo amigo, o barão de P.--barão de +outro genero, e que não pertence á familia lineana que n'esta obra +procurámos classificar para illustração do seculo--cavalheiro generoso, +e typo bem raro ja hoje da antiga nobreza das nossas provincias, com +todos os seus brios e com toda a sua cortezia d'outro tempo, que em +tanto relêvo destaca da grosseria villan d'essas notabilidades +improvisadas... + +Vinha em nossa procura para nos guiar. Seguimo-lo. + +Fomos de passagem observando algumas das mais interessantes coisas +d'aquella interessantissima terra em que se não póde dar um passo sem +que a reflexão ou a imaginação incontre objecto para se entreter. +Inclinando um pouco á direita, démos na celebrada porta de Atamarma. + +Por aqui entrou D. Affonso Henriques, por aqui foi aquella destemida +surpreza que lhe intregou Santarem, e acabou para sempre com o dominio +arabe n'esta terra. + +Os illustrados municipaes Santarenos têem tido por vezes o nobre e +generoso pensamento de demolir ésta porta! o arco de triumpho de Affonso +Henriques, o mais nobre monumento de Portugal! + +A idea é digna da epocha. + +Felizmente parece que tem faltado o dinheiro para a demolição; e o +senatus consulto dos dignos padres conscriptos não pôde ainda +executar-se. + +Não que eu creia este arco o genuino arco moiresco por onde entraram os +bravos de D. Affonso; mas creio que essa porta da antiga villa se foi +reparando, concertando e conservando em suas successivas alterações, até +chegar ao que hoje está: e ainda assim como está, é um monumento de +respeito que so barbaros pensariam desacatar e destruir. + +Porcima d'ella está uma capellinha de N. S. da Victoria: quer a +tradicção que primeiro erguida e consagrada á Virgem pelo heroico +fundador da monarchia e da independencia portugueza. Este é um dos +muitos pontos em que a religião das tradições deve ser respeitada e +crida sem grandes exames, porque nada ganha a crítica em pôr dúvidas, e +o espirito nacional perde muito em as acceitar. + +Deixá-la estar a Virgem da Victoria sôbre o arco de Affonso Henriques. +Prostremo'-nos e adoremos, como bons portuguezes, o symbolo da fé +christan e da fé patriotica levantado pelas mãos insanguentadas do +triumphador! + +Mas sería elle ou não que levantou essa capellinha? os documentos +faltam, os escriptores contemporaneos guardam silencio; a historia deve +ser rigorosa e verdadeira... + +Deve: e os grandes factos importantes que fazem epocha e são balizas da +historia de uma nação, tambem eu os regeitarei sem dó quando lhes +faltarem essas authênticas indispensaveis. Agora as circumstancias, para +assim dizer, episodicas de um grande feito sabido e provado, quem as +conservará senão forem os poetas, as tradições, e o grande poeta de +todos, o grande guardador de tradições, o povo? + +Eu creio na Senhora da Victoria de Santarem, e em muitos outros sanctos +e sanctas, que a religião do povo tem por esses nichos e por essas +capellas e por esses cruzeiros de Portugal, a recordar memorias de que +se não lavrou outro auto, não se escreveu outra escriptura, de que não +ha outro documento, e que os frades chroniqueiros não julgaram dever +escrever no livro de terça ou de noa, em nenhum livro preto nem +incarnado, porque o tinham por melhor escripto e mais bem guardado nos +livros de pedra em que estava. + +Coitados! não contaram com os apperfeiçoadores, reparadores e +demolidores das futuras civilizações que, para pôr as coisas em ordem, +tiram primeiro tudo do seu logar. + +A camara de Santarem, não podendo demolir o arco, tomou um meio termo +que appósto que ninguem é capaz de adivinhar. Afforou a capella por cima +d'elle, com altar, com sanctos e tudo: e assim esteve afforada alguns +annos, não sei paraquê nem porquê; o caso é que esteve. + +O anno passado porêm (1842) começou a manifestar-se ésta reacção +religiosa que os especuladores quizeram logo converter em ganancia +pessoal, descontando-a no mercado das agiotagens facciosas; mas perdem o +seu tempo, inda bem! Veio, digo, ésta reacção nas ideas das gentes; e a +capella da Senhora da Victoria sôbre o arco, não sei tambem como nem +porquê, foi _desafforada_, e restituida ao culto popular. + +Subimos a ver a capella por dentro: é um rifacimento ridiculo e +miseravel, sem nenhuma da solemnidade do antigo, nem elegancia moderna +alguma. + +Desappontou-me tristemente. Vamos ao Sancto-milagre depressa, que me +quero reconciliar com Santarem: e ja começa a ser difficil. + +Mas é injustiça minha. Que culpa tem ella, coitada? + +Ai Santarem, Santarem, abandonaram-te, mataram-te, e agora cospem-te no +cadaver. + +Santarem, Santarem, levanta a tua cabeça coroada de tôrres e de +mosteiros, de palacios e de templos! + +Mira-te no Tejo, princeza das nossas villas: e verás como eras bella e +grande, ricca e poderosa entre todas as terras portuguezas. + +Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grandeza, e mira-te no Tejo: verás +como ainda são grandes e fortes esses ossos desconjuntados que te +restam. + +Ergue-te, esqueleto de morte, levanta a tua foice, sacode os vermes que +te poluem, esmaga os reptis que te corroem, as osgas torpes que te +babam, as lagartixas peçonhentas que se passeiam atrevidas por teu +sepulchro deshonrado. + +Ergue-te Santarem, e dize ao ingrato Portugal que te deixe em paz ao +menos nas tuas ruinas, myrrhar tranquillamente os teus ossos gloriosos; +que te deixe em seus cofres de marmore, sagrados pelos annos e pela +veneração antiga, as cinzas dos teus capitães, dos teus lettrados e +grandes homens. + +Dize-lhe que te não vendam as pedras de teus templos, que não façam +palheiros e estrebarias de tuas egrejas; que não mandem os soldados +jogar a pella com as caveiras dos teus reis, e a bilharda com as +cannellas dos teus sanctos. + +Tiraram-te os teus magistrados, os teus mestres, os teus seminarios... +tudo, menos o intulho e a caliça, as immundices e os monturos que +deixaram accumular em tuas ruas, que espalharam por tuas praças. + +Santarem, nobre Santarem, a Liberdade não é inimiga da religião do ceo +nem da religião da terra. Sem ambas não vive, degenera, corrompe-se, e +em seus proprios desvarios se suicida. + +A religião do Christo é a mãe da Liberdade, a religião do Patriotismo a +sua companheira. O que não respeita os templos, os monumentos de uma e +outra, é mau amigo da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em desamparo, +intrega-a á irrisão e ao odio do povo...................................... +........................................................................... + +Vamos ao Sancto-milagre. + + + + +CAPITULO XXXVII. + + + A Graça e sua bella fachada gothica.--Sepultura de Pedr'alvares + Cabral.--Outro barão que não é dos assignalados.--Egreja do + Sancto-milagre.--Bellos medalhões mosarabes.--De como, chegando o + prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que + solemnidades.--Monumento da muito alta e poderosa princeza a + infanta D. Maria da Assumpção.--Casa onde succedeu o milagre, + convertida em capella de stylo philipino.--O homem das botas, e o + que tem elle que haver com o Sancto-milagre de Santarem.--Admiravel + e graciosa esperteza da regencia do Rocio.--Aaroun-el-Arraschid: e + theoria dos governos folgasões; os melhores governos + possiveis.--Volta o paladio scalabitano de Lisboa para Santarem. + + +Inclinámos o nosso caminho para a esquerda, e fomos passar deante do +arrendado e elegante frontispicio gothico da Graça. A ausencia de não +sei que regedor, ou insignificante personagem de egual importancia que +tem as chaves da egreja e convento, nos fez perder toda a esperança de +visitar a sepultura de Pedr'alvares Cabral que alli jaz, assim como +outras bellas e interessantes antiguidades de não menor preço. + +Fomos seguindo até casa do barão d'A., outro illegitimo, porque não +pertence aos barões assignalados + + Que, sem passar além da Taprobana, + No velho Portugal edificaram + Novo reino que tanto sublimaram. + +Incontrámo-lo prompto a accompanhar-nos, e a presidir, como juiz da +irmandade que é, á grande cerimonia da exposição e ostensão do +Sancto-milagre. + +Junctos descémos á egreja, que é perto. + +A egreja pequena e do peior gôsto moderno por dentro e por fóra. Notavel +não tem nada se não uns quatro medalhões de pedra lavrada com bustos de +homens e mulheres em relêvo que visivelmente pertenceram a edificação +antiga, e que actualmente estão incrustados na tosca alvenaria do +cruzeiro. + +Os bustos são de puro e finissimo lavor gothico, altos de relêvo e +desenhados com uma franqueza que se não incontra em esculpturas muito +posteriores. + +São talvez reliquias da primitiva egreja do Sancto-milagre que nas +successivas reedificações se teem ido conservando. Abençoado seja o +escrupuloso que as salvou d'este último _melhoramento_ que houve no +desgraçado e desgraçioso templo: o que não foi ha muitos annos por +certo. + +Chamo gothico ao lavor d'aquellas cabeças por que é a phrase vulgar e +impropria usada de toda a gente: segundo ja observei n'outra parte, com +mais exacção se devêra dizer mosarabe. + +Chegou o prior, o Sr. juiz deu as suas ordens, vieram uns poucos de +irmãos com tochas, distribuiram-nos a cada um de nós a sua, e +processionalmente nos dirigimos á porta lateral do altar-mor, da qual se +sobe, por uma escada assás larga e commoda, á especie de camarim que +está parallelo com o mais alto do throno em que perpetuamente se +conserva o grande paladio santareno. + +Subimos, accompanhados do prior em sobrepeliz e estola; chegados ao +alto, ajoelhámos em roda d'elle que subiu a uns degrausinhos, abriu, com +a chave dourada que trazia pendente ao pescosso, uma como porta de +sacrario, depois ajoelhou, incensou, tornou a ajoelhar, disse alguns +versetos a que respondeu o sacristão, e finalmente tirou de seu +repositorio uma especie de ambula de ouro de fábrica antiga, mas não +mais antiga que o decimo sexto, ou decimo quinto seculo, quando muito. + +Depois de nos inclinarmos e receber a bençam que o padre nos deitou com +a reliquia, foi-nos permittido erguer-nos, e chegar perto para ver e +observar. + +Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados se descobre comeffeito o +pequeno vulto amarellado-escuro que piedosamente se crê ser o resto da +particula consagrada que a judia roubára para seus feitiços. + +Escuso contar a historia do Sancto-milagre de Santarem que toda a gente +sabe. O bom do prior, ex-frade trino gordo e bem conservado, não nos +perdoou o menor ponto d'ella, que tivemos de ouvir com a maior +compuncção. + +Incerrada outra vez a ambula com as mesmas solemnidades, entrámos em +conversação com o prior. + +N'aquelle mesmo camarim juncto á devota reliquia se conservaram, por +espaço de cinco ou seis annos, se bem me recordo do que o bom do parocho +nos contou, os restos mortaes da senhora infanta D. Maria da Assumpção, +que fallecêra em Santarem nos ultimos mezes da occupação d'aquella villa +pelas fôrças realistas. O cadaver, mal imbalsemado e com más drogas, foi +mettido n'um caixão de folha de Flandres. Em pouco tempo a corrupção +estragou e rompeu a folha, e uma infecção terrivel apestava a egreja. +Soffreu-se isto annos, representou-se ao govêrno por vezes, mas nenhuma +resolução se pôde obter. Até que afinal, declarando o prior que, se não +mandavam tomar conta d'aquelles tristes restos da pobre princeza, elle +se via obrigado a mettê-los na terra, foi-lhe respondido que fizesse +como intendesse; e elle intendeu que os devia sepultar no cruzeiro da +egreja, como fez, do lado da epistola, isto é, á direita. + +E ahi jaz em sepultura raza, sem mais distincção nem epitaphio, a muito +alta e poderosa princeza D. Maria, filha do muito alto e poderoso +principe D. João o VI, rei de Portugal, imperador do Brazil, e da +conquista e navegação etc. + +Assim é o mundo, as suas grandezas e as suas glórias! + +A visita ao Sancto-milagre não é completa sem se ir ver a casa onde elle +se operou. Conservou-se ella por alguns seculos em grande veneração, e +em mil seiscentos e tantos se converteu porfim em capella. Hoje está +abandonada, chove em toda ella, e apenas tem uma má porta que a defende +das incursões dos animaes. Pena e desleixo grande, porque é elegante e +graciosa a capellinha, lavrada de bons marmores, no melhor gôsto do +decimo-sexto seculo, de renascença ja muito adiantada no classico: é um +verdadeiro typo do stylo philippino, que tanto predomina n'essa epocha +em toda a peninsula. + +A historia do Sancto-milagre de Santarem muitas vezes tem andado ligada +com a historia do reino; e ja n'este seculo, no tempo da guerra da +independencia, veio prender com um dos factos mais importantes, e tambem +com a mais curiosa e comica aventura de que em Lisboa ha memoria. + +Alludo nada menos que ao 'homem das botas.' E perdoem-me as senhoras +beatas a irreverencia apparente, que bem sabem não ser eu de motejar com +as coisas sérias e sanctas. Mas o facto é que a historia do +Sancto-milagre está ligada com a célebre historia do 'homem das botas.' + +Saiba pois o leitor contemporaneo, e saiba a posteridade, para cuja +instrucção principalmente escrevo este douto livro, que pela invasão de +Massena, o grande paladio scalabitano foi mandado recolher a Lisboa, e +ahi se conservou alguns annos até muito depois da completa retirada dos +francezes. + +Passado todo o perigo de que o exército invasor roubasse--ou +profanasse--que era o mais provavel--a sancta reliquia, começou a +reclamá-la o senado e povo santareno, e a mostrar muito pouca vontade de +lh'a restituir o senado e povo ulyssiponense. Era uma questão d'entre +Alba e Roma que dava serio cuidado aos reflectidos Numas da regencia do +Rocio. + +Em poucas preplexidades tam graves se viu aquelle pobre govêrno que +tantas teve, e de quasi todas se sahiu tam mal. + +Não assim d'esta, que a evitou com o mais inesperado e admiravel +stratagema, digno de ornar os maravilhosos fastos do grande Aaroun +el-Raschid, ou de qualquer outro principe de bom humor, d'esses poucos +felizes que em felizes tempos reinaram a brincar, e zombaram com o seu +povo, mas fazendo-o rir. + +Pois, senhores, apertada se via a regencia d'estes reinos com a +restituição do Sancto-milagre que era de justiça fazer-se a Santarem, +mas que Lisboa recusava, e ameaçava impedir. Temia-se alborôto no povo. + +Não sei de quem foi o alvitre, mas foi de maganão de bom gôsto; e bom +gôsto teve tambem o govêrno em o acceitar e approveitar. Para o dia em +que o Sancto-milagre devia sahir de Lisboa Tejo acima, e que se esperava +fosse com grande solemnidade e pompa ecclesiastica,--fez-se annunciar +por cartazes que um fulano de tal passaria o rio, de Lisboa a Almada, em +umas botas de cortiça nas quaes se teria direito e inchuto, navegando a +pé sem mais embarcação, vela nem remo. + +A logração era gorda e grande; melhor e mais depressa foi ingullida. No +dia apprazado despovoou-se a capital, e uns em barcos outros por navios, +outros por essas praias abaixo, tudo se encheu de gente de todas as +classes, e todos passaram o melhor do dia á espera do homem das botas. + +No emtanto, muito surrateiramente imbarcava o Sancto-milagre no seu +barco de agua-arriba, e navegava com vento e maré para as ditosas +ribeiras de Santarem. + +Ninguem o viu sahir, nem soube novas d'elle em Lisboa senão quando +constou da sua chegada a Santarem, e das grandes festas que lhe fizeram +aquelles saudosos e devotos povos ribatejanos. + +Os Aarouns-el-Raschids do Rocio riram de soccapa: e nunca tam +innocentemente se riu govêrno algum de ter inganado o povo. + +Nós celebrámos a historia como ella merecia, e fomos jantar á Alcaçova, +para irmos de tarde ver a Ribeira, e procurar os vestigios do seu +inclyto alfageme. + + + + +CAPITULO XXXVIII. + + + Jantar nos reaes paços de Affonso Henriques.--Sautés e + salmis.--Desce o A. á Ribeira de Santarem em busca da tenda do + Alfageme.--A espada do Condestavel.--Desappontamento.--O salão + elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis.--Tudo + melhor quando visto de longe.--O baile público.--Soirée de piano + obrigado.--Theatro. Desafinações da prima-dona. Syphlis incuravel + das traducções. Destempêro dos originaes.--A xácara de rigor, o + subterraneo e o cemiterio.--Sublime gallimathias do ridiculo.--A + bella e necessaria palavra 'gallimathias.'--Se as saudades + matam.--Perigo de applicar o scalpello ou a lente ao mais perfeito + das coisas humanas.--De como a logica é a mais perniciosa de todas + as incoherencias. + + +Esperava-nos comeffeito em casa do nosso bom hóspede, nos regios paços +de Affonso Henriques, um esplendido jantar a que assistiram quasi todos +os cavalheiros da terra.--Não quero dizer as notabilidades, por ser +palavra peralvilha a que tenho invencivel zanga.--As iguarias de +legítima eschola portugueza, não menos saborosas e delicadas por +apparecerem estremes de _sautés e salmis_ extrangeirados. Brilharam +sôbre tudo os productos das duas grandes vendimas rivaes, do Ribatejo e +Ribadouro. Foi largo e alegre o jantar. + +Acabámos tarde, montámos logo a cavallo, e pela porta de Atamarma +descémos á Ribeira; era quasi sol pôsto quando la chegámos. + +É o suburbio democratico da nobre villa, hoje o ricco e o forte d'ella. +Faz lembrar aquellas aldeas que se criaram á sombra dos castellos +feudaes e que, libertas, depois, da oppressora protecção, cresceram e +ingrossaram em substancia e fôrça: o castello, esse está vazio e em +ruinas. + +Por aqui se faz quasi todo o commercio da Extremadura e Beira com o +Alemtejo. Os habitantes laboriosos e activos conservam os antigos brios +e independencia do character primitivo: é a unica parte viva de +Santarem. + +Cruzámos a povoação em todos os sentidos, procurando rastrear algum +vestigio, confrontar algum sítio onde podessemos collocar, pela mais +atrevida supposição que fosse, a tenda do nosso alfageme com as suas +espadas bem 'corregidas', as suas armaduras luzentes e bem postas--e o +joven Nun'alvares passeando alli por pé, ao longo do rio--como diz a +chronica--namorado d'aquella perfeição de trabalho, e dando a 'correger' +a bella espada velha de seu pae ao rustico propheta que tantos +vaticinios de grandeza lhe fez, que o saudou condestavel, conde d'Ourem +e salvador da sua patria. + +Nada podémos descubrir com que a imaginação se illudisse siquer, que nos +désse, com mais ou menos anachronismo, uma leve base tamsomente para +reconstruirmos a gothica morada do célebre cutileiro-propheta que a +historia herdou das chronicas romanescas, e hoje o romance outra vez +reclama da historia. + +Em Santarem ha poucas casas particulares que se possam dizer +verdadeiramente antigas; na Ribeira, nenhuma. As implastagens e +replastagens successivas teem anachronizado tudo. É uma feliz expressão +do Sr. Conde de Raczinski bem applicada por elle ao estado de quasi +todos os nossos monumentos, ésta de anachronismo. + +Mas alli, na villa alta ou Marvilla, no Santarem propriamente ditto, ha +os templos, os conventos, a cêrca das muralhas que todavia conservam a +physionomia historica da terra; aqui nem isso ha. + +Voltei completamente desappontado da Ribeira, isto é, da sua pedra e +cal: gósto immenso da sua gente. + +Outra surpreza de mui differente genero nos esperava á noite em +Marvilla, no elegante salão da B. d'A. com quem fomos tomar cha. + +Em meio das ruinas e desconfôrto d'aquelles desertos e mortos pardeiros +circumstantes, ir incontrar uma casa em plena florescencia de +civilização e de vida; ver a amabilidade e a elegancia fazendo +graciosamente as honras d'ella--por mais que se devesse esperar--sempre +espanta á primeira vista: parecia golpe de varinha de condão. + +Em tam agradavel e joven companhia todas as ideas archeologicas se +desvaneceram, apezar de dous ou tres fosseis que alli appareciam para se +não perder detodo a côr local talvez. + +Largamente se conversou, de Lisboa principalmente, dos nossos mutuos +amigos, das festas do último hynverno, das probabilidades que se deviam +esperar do futuro. + +Ralhámos muito da sociedade portugueza; exaltámos París e Londres e não +sei se Pekim e Nankim tambem, e concluimos que antes Timbokotuo do que a +seccante capital do nosso pobre reino. E comtudo estavamos com saudades +d'ella; e concessão d'aqui, concessão d'alli, viemos a que não era tam +má terra como isso. + +Admiravel condicção da natureza humana, que tudo nos parece melhor e +menos feio quando visto de longe! + +O baile público mais semsabor, detestavel de barulho e confusão, em que, +para repousar os olhos n'um rosto conhecido e agradavel, foi preciso +furar por entre centenas de cotovellos barbaros que se não sabe d'onde +vieram, levar desalmadas pisadellas do dançante noviço, do deputado +recemchegado, e das botas novas do novo director da Galocha--e, mais +horrivel que tudo! ver as absurdas toiletes, os penteados fabulosos, as +caras incriveis e as antidiluvianas figuras de tanta mulher feia e +desastrada... pois esse mesmo baile, quando ja não é senão reminiscencia +que acorda no meio do infado ronceiro de uma terra de provincia, parece +outro. As luzes, as flores, a musica, toda aquella animação lembra com +prazer, o mais esquece, e involuntariamente se descai um pobre homem a +suspirar por elle. + +A soirée mais massante, de piano obrigado, com dueto das manas, polka +das primas e casino das tias velhas--recordada em eguaes circumstancias, +tambem ja não accode á memoria senão como uma reunião escolhida e +íntima, de facil e doce tracto... oh! o verdadeiro prazer da sociedade. + +Pois o theatro... Que se lembre alguem, na provincia, dos martyrios que +soffreu o ouvido com os berros da prima-dona, as desafinações do tenor, +ou com o infadonho resonar d'aquella adormecida orchestra de San'Carlos! + +A injoativa traducção de uma comedia da Rua-dos-condes, roída de +incuravel syphilis, figura-se avelludada de todas as graças do stylo de +Scribe. + +E o destempêro original de um drama plusquam romantico, laureado das +imarcessiveis palmas do Conservatorio para eterno abrimento das nossas +bôccas! Lá de longe applaude-o a gente com furor, e esquece-se que +fummou todo o primeiro acto ca fóra, que dormiu no segundo, e conversou +nos outros, até á infallivel scena da xacara, do subterraneo, do +cemiterio, ou quejanda, em que a dama, soltos os cabellos e em penteador +branco, indoudece de rigor,--o gallan, passando a mão pela testa, tira +do profundo thorax os tres _ahs!_ do stylo, e promette matar seu proprio +pae que lhe appareça--o centro perde o centro de gravidade, o barbas +arrepella as barbas... e maldicção, maldicção, inferno!... 'Ah mulher +indigna, tu não sabes que n'este peito ha um coração, que d'este coração +sahem umas arterias, d'estas arterias umas veias--e que n'estas veias +corre sangue... sangue, sangue! Eu quero sangue, porque eu tenho sêde, e +é de sangue... Ah! pois tu cuidavas? Ajoelha, mulher, que te quero +matar... esquartejar, chacinar!'--E a mulher ajoelha, e não ha remedio +senão applaudir... + +E applaude-se sempre. + +E não é de mim que fallo, que eu gósto d'isto: os outros é que se +infastiam e cansam de tanta barafusta, sempre a mesma... + +Mas emfim o que digo é que na provincia não ha tal fastio, que esquece a +canceira, e que nem o sublime gallimathias do ridiculo d'alli se +percebe. + +Peço aos illustres puritanos que, á fôrça de sublimado quinhentista, tem +conseguido levar a lingua á decrepitude para a curar de suas +infermidades francezas, peço-lhes que me perdoem o _gallimathias_, +porque elle é muito mais portuguez que outra coisa. A célebre oração +_pro gallo Mathiae_ deu origem a ésta bella e expressiva palavra, que +sim foi procreada em francez, mas hoje precisâmos ca muito mais d'ella +que em parte nenhuma. + +Volto ja da digressão philologica: tornemos á optica e á catoptrica. + +Grande coisa é a distancia! + +E dizem que saudades que matam! Saudades dão vida; são a salvação de +muita coisa que, em seu pleno gôso e posse pacífica, pereceria de +inanição ou morreria da oppressora molestia da saciedade. + +Por isso eu não gósto de metter o scalpello no mais perfeito da +construcção humana, nem de applicar a lente ao mais fino e delicado do +seu funccionar... + +Vamos usando d'estas palavras que herdámos, sem metter louvados na +herança; não succeda descobrirmos que estamos mais pobres do que se +cuidava... vamos repetindo éstas phrases que nos formularam nossos +antepassados sem as analysar com muito rigor; não succeda vermos claro +demais que temos passado a vida a mentir... + +Detesto a philosophia, detesto a razão; e sinceramente creio que n'um +mundo tam desconchavado como este, n'uma sociedade tam falsa, n'uma vida +tam absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituições, +as conveniencias d'ella, affectar nas palavras a exactidão, a logica, a +rectidão que não ha nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as +incoherencias. + +Não fallemos mais n'isto, que faz mal, e acabemos aqui este capítulo. + + + + +CAPITULO XXXIX. + + + Processo de scepticismo em que está o auctor.--Moralistas de + _requiem_.--O maior sonho d'esta vida, a logica.--Differença do + poeta ao philosopho.--O coração de Horacio.--O collegio de + Santarem.--Jesuitas e templarios.--O alliado natural dos + reis.--'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que + 'Ficar no tinteiro.'--San'Frei Gil e o Doutor Fausto.--De como o A. + foi ao tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.--Quem o roubaria? + + +O final do capítulo antecedente é, bem o sei, um terrivel documento para +este processo de scepticismo em que me mandaram metter certos moralistas +de _requiem_ de quem tenho a audacia de me rir, d'elles e da sua +querella e do seu processo, protestando não me aggravar nem appellar, +nem por nenhum modo recorrer da mirifica sentença que suas +excellentissimas hypocrisias se dignarem proferir contra mim. + +Feita ésta declaração solemne, procedamos. + +E quanto a ti, leitor benevolo, a quem so desejo dar satisfação, a ti, +se ainda te cansas com essas chymeras, dou-te de conselho que voltes a +pagina obnoxia, porque essas reflexões do último capítulo são tam +deslocadas no meu livro como tudo o mais n'este mundo. Dorme pois, e não +despertes do bello-ideal da tua logica. + +É uma descuberta minha de que estou vaidoso e presumido, ésta de ser a +logica e a exacção nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais +ideal do que o mais phantastico sonho e o mais requintado ideal da +poesia. + +É que os philosophos são muito mais loucos do que os poetas; e de mais a +mais, tontos: o que est'outros não são. + +Voltemos, voltemos a pagina comeffeito, que é melhor. + +Amanheceu hoje um bello dia, puro e sublime. Dorme nas cavernas do padre +Eolo aquelle vento sêcco e duro, flagello dos estios portuguezes. +Suspira no ar uma viração branda e suave que regenera e dá vida. Mal +impregado dia para o passar a ver ruinas! No seio da sempre joven +natureza, sob a remoçada espessura das árvores, sôbre a alcatifa sempre +renovada das grammas verdes e variegadas boninas, queria eu que me +corresse este dia em ocio bemaventurado de corpo e d'alma, sentindo +pulsar lento e compassado o coração livre e sôlto de todo impenho, o +verdadeiro coração de Horacio, + + Solutus omni foenore! + +Tomára-me eu no valle outra vez, com a irman Francisca a dobar á porta, +a nossa Joanninha a deslindar-lhe a meada; e embora venha o terrivel +spectro de Fr. Diniz projectar sua funesta e tragica sombra no idilio +d'este quadro suave, que não póde destruir-lhe toda a amenidade +bucolica, por mais que faça. + +Lá voltaremos ao nosso valle, amigo leitor, e lá concluiremos, como é de +razão, a historia da menina dos rouxinoes. Por agora almocemos, que é +tarde, e terminemos os nossos estudos archeologicos em Marvilla de +Santarem. + +Cá estamos no Collegio, edíficio grandioso, vasto, magnífico, propria +habitação da companhia--rei que o mandou construir para educar os +infantes seus filhos. + +Creio que ésta e a de Coimbra eram as duas principaes casas que para +isto tinham os Jesuitas em Portugal. + +Foram os templarios dos seculos modernos, os Jesuitas. A potencia +formidavel e quasi régia que aquelles levantaram com a espada, tinham +estes fundado com a doutrina. Riquezas, podêr, influencia, uns e outros +as tiveram com applauso e acquiescencia geral; uns e outros as perderam +do mesmo modo. + +Extinctas e perseguidas, ambas as ordens renasceram no mysterio, e se +converteram em associações secretas para conspirarem; ambas tomaram +diversos nomes e variadas máscaras para o fazerem mais seguramente. + +Ambas em vão! + +O predominio, crescente ha seculos, do elemento democratico annulla +todas essas conspirações. Sos e sem elle, os reis tinham succumbido... É +a alliada natural dos reis a democracia. + +O edificio do Collegio é todo philippino, ja o disse: a egreja dos mais +bellos specimens d'esse stylo, que em geral sêcco, duro e sem poesia, +não deixa comtudo de ser grandioso. + +Aqui esteve depois muitos annos o seminario patriarchal, cujas aulas +frequentava a mocidade do districto. Hoje leem-se alli outras palestras +da cathedra administrativa. É a séde do govêrno civil chamado: corrumper +a moral do povo, sophismar o systema representativo é o thema das +licções. + +Todo outro insino se tirou de Santarem. Falla-se n'um liceu e não sei em +que mais 'que ficou na gazetta:' phrase portugueza moderna que deve +supprir a antiga e antiquada de--'ficou no tinteiro'--por muitas razões, +até porque hoje não fica nada no tinteiro senão o senso commum, tudo o +mais de lá sai, tudo. E muitas graças a Deus quando não passa ás ballas +do impressor para dar a volta do mundo. + +Santarem é das terras de Portugal a melhor situada e qualificada para um +grande estabelecimento de instrucção e de educação pública. Porque não +hade estar aqui o Collegio-militar ou a Casa-pia, ou outra grande +eschola, seja qual for? Porque hade ser ésta centralização d'insino em +Lisboa? Em que se funda um privilegio dado á capital em prejuizo e á +custa das provincias? + +Sahimos do Collegio, fomos direitos a San'Domingos, um dos mais antigos +estabelecimentos monasticos do reino e que eu tanto desejava visitar. +Não sei descrever o que senti quando a inferrujada chave deu a volta na +porta da egreja e o velho templo se patenteiou aos nossos olhos. Acabára +de servir, não imaginam de quê... de palheiro! + +A derradeira camada de palha que apodrecêra, adheria ainda ao lagedo +humido, e exhalava um forte vapor mephitico que nos suffocava. Mal +podémos ver os tumulos dos Docems e tantos outros interessantes +monumentos que abundam na parte superior do templo. A inferior, ou corpo +da egreja como dizem, é de um miseravel e moderno anachronismo. + +Respirando a custo aquelle ar infecto, todo o tempo que lhe pudesse +resistir, quiz approveitá-lo em examinar a principal e mais interessante +reliquia da profanada egreja--a capella e jazigo do grande bruxo e +grande santo, San'Frei-Gil. + +Algures lhe chamei ja o nosso Doutor Fausto: e é comeffeito. Não lhe +falta senão o seu Goethe. + + Vixere fortes ante Agamemnona multi. + +Houve fortes homens antes de Agamemnão, e fortes bruxos antes e depois +do Doutor Fausto. Mas sem Homero ou Goethe é que se não chega á +reputação e fama que alcansaram aquelles senhores. Nós precisâmos de +quem nos cante as admiraveis luctas--ora comicas, ora tremendas--do +nosso Frei Gil de Santarem com o diabo. O que eu fiz na 'Dona Branca' é +pouco e mal esboçado á pressa. O grande mago lusitano não apparece alli +senão episodicamente; e é necessario que appareça como protagonista de +uma grande acção, pintado em corpo inteiro, na primeira luz, em toda a +luz do quadro. + +Então o seu ardente e anciado desejo de saber, os seus vastos estudos, +os reconditos mysterios da natureza que descobriu até penetrar no mundo +invisivel--a sêde de oiro, de prazer e de podêr que o perseguia e o fez +cahir nas garras do espirito maligno--o fastio e saciedade que o +desincantaram depois--o seu arrependimento emfim, e a regeneração de sua +alma pela penitencia, pela oração e pelo desprêzo da van sciencia +humana--então essas variadas phases de uma existencia tam +extraordinaria, tam poetica, devem mostrar-se como ainda não foram +vistas, porque ainda não olhou para ellas ninguem com os olhos de grande +moralista e de grande poeta que são precisos para as observar e +intender. + +Lembra-me que sempre entrevi isto desde pequeno, quando me faziam ler a +historia de San'Domingos, tam rabujenta e semsabor ás vezes, apezar do +incantado stylo do nosso melhor prosador; e que eu deixava os outros +capitulos para ler e reler somente as aventuras do sancto feiticeiro que +tanto me interessavam. + +Com todas éstas reminiscencias que me reviviam n'alma, com os admiraveis +versos do Fausto a acudir-me á memoria, e com uma infinidade de +associações que essas ideas me traziam, caminhei direito á capella do +sancto, cheio de alvorôço, e como tocado, para assim dizer, de sua +magica vara de condão. + +A capella--oh desappontamento! a cappella de San'Frei Gil é um mesquinho +rifacimento moderno, do lado esquerdo da egreja, sem nenhum vestigio de +antiguidade, nenhum ornato characteristico, pesada, grosseira--velha sem +ser antiga--um verdadeiro non-descriptum de mau gôsto e semsaboria. Quem +tal dissera? + +O tumulo do sancto está elevado do altar n'uma especie de mau throno. +Subi acima da degradada e profanada credencia para o examinar deperto. + +É de pedra o jazigo; mas ultimamente ve-se que tinham pintado a pedra; +não tem lavor algum.--E estava vazio, a loisa levantada e quebrada!.. + +Quem me roubou o meu sancto? + +Quem foi o anathema que se atreveu a tal sacrilegio?.. + + + + +CAPITULO XL. + + + As Claras.--Aventura nocturna.--Se as freiras mettem medo aos + liberaes?--O Psalmo.--Tres frades.--Práctica do franciscano.--O + corpo de San' Fr. Gil.--Que se hade fazer das freiras?--Mal do + govêrno que deixar comer mais aos barões. + + +Èra de noite, reinava a confusão, a desordem, o susto e a anciedade nos +muros de Santarem, tres homens chegavam, por horas mortas, ao antigo +mosteiro das Claras, davam á portaria um signal surdo e mysterioso; +respondiam-lhe de dentro com outro egual; e d'ahi a pouco, sem rumor e +com as mais escrupulosas precauções se abria quietamente a porta da +clausura. + +Os tres homens entraram, a porta fechou-se sôbre elles do mesmo modo +precatado. + +Que será? + +Os homens levavam uma especie de cofre que parecia conter preciosidades +de grande valor: tal era o desvello com que o resguardavam. + +Ha um mysterio que se figura criminoso n'esta aventura. Mas os tempos +são para tudo. + +Era no anno de 1834. + +Entremos n'esse convento das pobres Claras, tam afflictas e +desconsoladas agora que as ameaçam de dissolução como aos frades. + +Não será assim: aquellas instituições não mettem medo aos verdadeiros +liberaes, e os outros lá teem o espolio dos frades para devorar; estão +entretidos: as freiras salvam-se porora. + +Taes eram as esperanças dos tres homens que entravam a essas deshoras +nos vedados precinctos do mosteiro. Sigamo-los porêm, que é tempo. + +Chegavam elles a uma pequena capella do claustro das freiras, foram +depor sôbre o altar o cofre que traziam, e ajoelharam devotamente deante +d'elle. Logo se ouviu ao longe o psalmear baixo e sumido de vozes +femininas; e d'ahi a pouco, toda a communidade das Claras, de tochas na +mão, em duas alas, e a abbadessa com o seu baculo atraz, entravam +processionalmente no claustro e se dirigiam á mesma capella. + +O psalmo que cantavam era este: + +[6] 'Meu Deus, vieram os barbaros ás tuas herdades, polluiram o teu +sancto templo, pozeram Jerusalem como um grannel de fructos. + +'Pozeram os cadaveres de teus filhos de cevo ás aves do ceo; as carnes +dos teus sanctos ás alimarias da terra. + +'O sangue d'elles derramaram-n'o como agua nos valles de Jerusalem; ja +não havia quem sepultasse. + +'Estamos feitos o oppróbrio dos nossos vizinhos; o escarneo e a zombaria +dos que vivem por nossos arredores. + +'Até aonde, ó Senhor, te hasde irar emfim; e se hade accender o teu zêlo +como fogo? + +'Vérte a tua íra sôbre as gentes que te não conheceram, contra os reinos +que não invocaram o teu nome; + +'Que devoraram a Jacob; e desolaram suas terras. + +'Não te lembres de nossas iniquidades passadas, e depressa nos alcancem +as tuas misericordias; ja que tam pobres de mais estamos. + +'Ajuda-nos Deus, salvador nosso; e pela gloria do teu nome livra-nos, +Senhor, amercea-te de nossos peccados por causa do teu nome.' + +Cantavam assim as pobres das freiras, cantavam em latim que ellas mal +intendiam; mas dizia-lhes o instincto do coração, dizia-lhes a tam +excitavel imaginação feminina, que era chegada a hora de se cumprir a +seus olhos, e sôbre ellas mesmas tambem, a tremenda prophecia do psalmo +que intoavam. + +Havia pois lagrymas n'aquellas vozes que assim cantavam, sahiam d'alma +aquelles sons e n'alma vibravam tambem com profunda e solemne +melancholia. + +Chegadas juncto á capella aonde estava o cofre, as freiras pararam +conservando as mesmas duas alas da procissão e continuando no accentuado +mormúrio de seu psalmo. + +Os tres vultos de homem permaneceram de joelhos e curvados deante do +altar. + +Findou o psalmo e seguiu-se breve intervallo de silencio. Depois, os +tres homens levantaram-se, e cahindo-lhes para os lados as longas capas +em que vinham involtos, viu-se que o do meio era um frade velho, magro, +curvado e sêcco, trajando ainda, apezar da lei, o burel preto dos +franciscanos e cingido com sua corda. Os outros dous eram dominicos e +vestiam de preto e branco segundo as côres de seu tambem proscripto +instituto. + +O velho franciscano subiu com passo trémulo os degraus do altar, beijou +o cofre que estava sôbre elle, e voltando-se para a communidade que o +contemplava em religioso silencio, disse com uma voz cava que parecia +vir do sepulchro mas accentuada e forte: + +'Irmans, vimos intregar-vos este depósito precioso. Deus não quer que os +cadaveres dos seus sanctos fiquem expostos ás aves do ceo e ás alimarias +da terra. Este é o sancto corpo de um dos maiores sanctos que produziu +ésta terra de Portugal quando era abençoada. Hoje é malditta e não devia +conservar as suas reliquias. Os filhos de San'Domingos foram expulsos de +sua casa, assim como nós fomos, nós os filhos de Francisco, +incontrámo'nos sem tecto nem abrigo uns e outros, e junctámos as nossas +miserias para as chorarmos como irmãos que somos, como filhos de paes +que tanto se amaram e ajudaram. Perigrinaremos junctos por essas +solidões da terra, e junctos iremos bater por essas portas que cerrou a +impiedade e a indifferença, a pedir o pão de cada dia porque temos fome. + +'Que importa! não professâmos nós, não nos honrâmos nós de ser mendigos? +De que vivêmos nós sempre senão de esmolla? + +'Não choreis irmans, não choreis sôbre nós. Deus que o permittiu bem +sabe o que fez. Louvado seja elle sempre! Nós tinhamos peccados para +mais! Ainda foi misericordioso comnosco o Senhor da justiça e do +castigo. + +'A nós tiraram-nos tudo, tudo! Até éstas mortalhas que tinhamos +escolhido em vida e que nem a morte ousava roubar-nos. + +'A furto e como quem se esconde para um acto criminoso, nós as vestimos +ésta noite para commetter o que elles chamarão um furto, e que era uma +obrigação sagrada nossa. + +'Fomos á antiga casa de nossos irmãos e roubámos o corpo do +bemaventurado San'Frei Gil. + +'Aqui vo-lo intregâmos; guardae-o. Emquanto estes muros estiverem em pe, +que o abriguem dos desacatos d'essa gente sem Deus nem lei. A vós não +ousarão expulsar-vos d'aqui: talvez vos matem á fome... Não póde ser: +Deus não hade permitti-lo. + +'Mas qualquer que seja a sua vontade, resignae-vos a ella, minhas +irmans. So elle sabe como nos ama e como nos castiga. Louvemo'-lo por +tudo.' + +Aqui foi um chorar e um supplicar fervente como so se ouve na hora da +angústia. + +As afflictas monjas, estavam prostradas nas lages humidas do claustro, +sôbre as sepulturas de suas irmans, sôbre seus proprios jazigos que +haviam de ser. O frade com os braços extendidos pronunciou as solemnes +palavras de benção, descrevendo com a direita o augusto symbolo da +redempção: + +'Bemdiga-vos Deus omnipotente, Pae, Filho e Espirito-sancto!' 'Amen!' +respondeu o côro; e os tres proscriptos se retiraram, deixando a salvo o +seu thesoiro. + +Assim desappareceu do tumulo o corpo de San'Frei Gil de Santarem. + +Ninguem sabía d'elle: soube eu e guardei o segredo religiosamente. + +Os tempos são outros hoje: os liberaes ja conhecem que devem ser +tolerantes, e que precisam de ser religiosos. Não ha perigo em dizer-lhe +onde elle está. + +Quando houver em Portugal um govêrno que saiba ser govêrno, hade regular +e consolidar a existencia das freiras, hade approveitá-la para as +piedosas instituições do insino da mocidade, da cura dos infermos, e do +amparo dos invalidos. + +Os barões andam-lhe com o cheiro nos poucos bens que lhes restam ás +pobres das freiras. Mal do govêrno que deixar comer mais aos barões! + + + + +CAPITULO XLI. + + + O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta perspicacia do + leitor benevolo.--Grande lacuna na nossa historia.--Porque se não + preenche?--Página preta na historia de Tristam Shandy.--Novellas e + romances, livros insignificantes.--O adro de San'Francisco e as + suas acacias.--Que será feito de Joanninha?--O peito da mulher do + norte.--Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas ruinas.--A + corneta do soldado e a trombeta do juizo final.--Eheu, Portugal, + eheu! + + +Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho que vai de noite roubar os +ossos do sancto ao seu tumulo, e os vem esconder na clausura das +freiras, porcerto, digo, reconheceu ja a tua natural perspicacia ao +nosso Frei Diniz, o frade por excellencia--frade por teima e acinte. + +Pois esse era, não ha dúvida. + +Assim se passou aquella scena e assim m'a contaram. Do que mediára entre +ella e o acontecido com o frade, Carlos, Joanninha, a avó e a ingleza, +d'isso é que nada pude saber. + +É uma grande lacuna na nossa historia; mas antes fique assim do que +enchê-la de imaginação. + +Oh! eu detesto a imaginação. + +Onde a chronica se calla e a tradição não falla, antes quero uma pagina +inteira de pontinhos, ou toda branca--ou toda preta, como na veneravel +historia do nosso particular e respeitavel amigo Tristão Shandy, do que +uma so linha da invenção do chroniqueiro. + +Isso é bom para novellas e romances, livros insignificantes que todos +leem todavia, ainda os mesmos que o negam. + +Eu tambem me parece que os leio, mas vou sempre dizendo que não... + +Emfim, tornemos ao frade, e tornemos ás minhas viagens. + +Cheio d'elle e da sua memoria, palpitando com a recordação das tremendas +scenas que, havia tam poucos annos, se tinham passado em seu antigo +mosteiro, eu me approximei emfim do real convento de San'Francisco de +Santarem. + +Dei pouca attenção ao bello adro e á solemne vista que d'elle se +descobre--e menos ainda ás doentias acacias que ahi vejetam infezadas e +rachiticas, como plantadas de má mão e em má hora--porque môças são +ellas, é visivel: poseram-n'as ahi depois de extincto o convento. São +triste mas verdadeiro symbolo da apagada e facticia vida que se quiz dar +ao que era morto. + +Vamos dentro, e vejamos pelas baixas e aguçadas arcadas do claustro, +pelas altas naves do templo se descubrimos algum vestigio do último +guardião d'esta casa, e d'essa fadada familia cujo destino em hora +aziaga tam estreitamente se ligou com o d'elle. + +Ja me interessa isto mais, confesso, ai! muito mais, do que todos esses +tumulos e inscripções que por ahi estão, e que tanto characterizam este +um dos mais antigos e mais historicos edificios do reino. + +Mas em vão interrogo pedra a pedra, lage a lage: o echo morto da solidão +responde tristemente ás minhas perguntas, responde que nada sabe, que +esqueceu tudo, que aqui reina a desolação e o abandôno, e que se +apagaram todas as lembranças de outro estado... + +Que foi feito de ti, Joanninha, e dos teus amores? Que será feito d'esse +homem que ousou amar-te amando a outra? E essa outra onde está? +Resignou-se ella devéras? Sepultou comeffeito, sob o gêlo apparente que +veste de triplice mas falsa armadura o peito da mulher do norte, todo +aquelle fogo intenso e íntimo que solapadamente lhe devora o coração? + +Não tenho esperanças de saber nada d'isso aqui. + +So pude descubrir que, no dia immediato á scena nocturna das Claras, Fr. +Diniz sahiu de Santarem, não se sabe em que direcção--que n'esse mesmo +dia Georgina sahíra tambem pela estrada de Lisboa, levando em sua +carruagem a avó e a neta, ambas meias mortas e ambas meias loucas--que +não houvera mais novas de Carlos--e que a sua última carta, aquella que +escrevêra de juncto d'Evora, Joanninha a levava apertada nas mãos +convulsas quando partíra. + +Pois tambem eu me quero partir, me quero ir embora. Ja me infada +Santarem, ja me cansam éstas perpétuas ruinas, estes pardeiros +interminaveis, o aspecto desgracioso d'estes intulhos, a tristeza +d'estas ruas desertas. Vou-me embora. + +E comtudo San'Francisco é uma bella ruina, que merecia examinada de +vagar, com outra paciencia que eu ja não tenho. + +Se tudo me impacienta aqui! + +Da bella egreja gothica, fizeram uma arrecadação milítar; andou a mão +destruidora do soldado quebrando e abolando esses monumentos preciosos, +riscando com a baioneta pelo verniz mais pulido e mais respeitado +d'esses jazigos antiquissimos: os lavores mais delicados esmoucou-os, +degradou-os. Levantaram as lages dos sepulchros; e ao som da corneta +militar acordaram os mortos de seculos, cuidando ouvir a trombeta +final... + +Decididamente vou-me embora, não posso estar aqui, não quero ver isto. +Não é horror que me faz, é náusea, é asco, é zanga. + +Maldittas sejam as mãos que te profanaram, Santarem... que te +deshonraram, Portugal... que te invilleceram e degradaram, nação que +tudo perdeste, até os padrões da tua historia!.. + +Eheu, eheu, Portugal! + + + + +CAPITULO XLII. + + + Protesto do auctor.--Desaffinação dos nervos.--O que é preciso para + que as ruinas sejam solemnes e sublimes.--Que Deus está no Colliseu + assím como em San'Pedro.--Quer-se o auctor ir embora de + Santarem.--Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?--Em que + estado se acha este.--Exemplar de stylo byzantino.--Coroa real + sôbre a caveira.--O rei d'espadas e o symbolo do imperio.--Quem + nunca viu o rei cuida que é de oiro.--Brutalidades da soldadesca + n'um tumulo real.--O que se acha nas sepulturas dos reis.--A + phrenologia.--Vindicta publica, tardia mas ultrajante.--Camões e + Duarte Pacheco.--A sombra falsa da religião.--Regimen dos barões e + da materia.--A prosa e a poesia do povo.--Synthese e analyse.--O + senso íntimo.--Se o auctor é demagogo ou Jesuita?--Jesu Christo e + os barões. + + +Não chamem exaggerado ao que vai escripto no fim do último capitulo; +senti o que escrevi, senti muito mais do que escrevi. O que poderá haver +é desacêrto nas palavras, porque em verdade não sei explicar a impressão +que me faz uma ruina n'este estado. Desaffinam-me os nervos, vibram-me +n'uma discordancia e dissonancia insupportavel. Queria ver antes estes +altares expostos ás chuvas e aos ventos do ceo,--que o sol os queimasse +de dia,--que á noite, á luz branca da lua, ou ao tibio reflexo das +estrellas, piasse o mocho e sussurrasse a coruja sôbre seus arcos +meio-cahidos. + +Não me parecia profanado o templo assim, nem descahido de majestade o +monumento. Podia ajoelhar-me no meio das pedras sôltas, entre as hervas +humidas, e levantar o meu pensamento a Deus, o meu coração á glória, á +grandeza, o meu espirito ás sublimes aspirações da idealidade. O +material, o grosseiro, o pesado da vida não me vinham affligir ahi. + +Deus, a idea grande do mundo--Deus, a Razão Eterna--Deus, o amor--Deus, +a glória--Deus, a fôrça, a poesia e a nobreza d'alma--Deus está nas +ruinas escalavradas do Colliseu, como nos zimborios de bronze e marmore +de San'Pedro. + +Mas aqui!.. nos pardeiros de um convento velho, concertado pelas +Obras-públicas para servir de quartel de soldados--aqui não habita +espirito nenhum. + +Quero-me ir embora d'aqui! + +E como? sem ver o tumulo d'elrei Fernando? Não póde ser, é verdade. + +Onde está elle? + +No côro alto. + +Subamos ao côro alto. + + Oh! que não sei de nôjo como o conte! + +O bello jasigo do rei formoso e frivolo, tam dado ás delicias do prazer +como foi seu pae ás austeridades da justiça, em que estado elle está! + +Oh nação de barbaros! Oh malditto povo de iconoclastas que é este! + +O tumulo do segundo marido de D. Leonor Telles é um sarcophago de pedra +branca, fina e friavel, elegante e simplesmente cortada, com mais +sobriedade de ornatos do que tem de ordinario os monumentos do seculo +XIV, mas de uma acabada sculptura, casta e continente, como o não foi a +vida do rei que ahi incerraram depois de morto. + +Percebem-se ainda vestigios das vivas côres em que foram induzidos os +relevos da pedra branca:--stylo byzantino de que não sei outro exemplar +em Portugal. Este é--ou antes, era--precioso. + +Era; porque a brutalidade da soldadesca o deturpou a um ponto incrivel. +Imaginou a estupida cubiça d'estes Allanos modernos que devia de estar +alli dentro algum grande haver de riquezas incantadas,--talvez cuidaram +achar sôbre a caveira do rei a coroa real marchetada de perolas e rubis +com que fosse interrado,--talvez pensaram incontrar appertado ainda +entre as sêccas phalanges dos dedos myrhados, aquelle globo de oiro +macisso que lhes figura o rei d'espadas do sujo baralho de sua tarimba, +e que elles teem pela indisputavel e infallivel insignia do supremo +imperio;--talvez supposeram que mesmo depois de morto, um rei devia de +ser de oiro... Emfim quem sabe o que elles cuidaram e pensaram? O que se +sabe, porque se ve, é que quizeram abrir e arrombar o tumulo. Tentaram, +primeiro, levantar a campa; não poderam: tam solidamente está soldada a +pedra decíma ao corpo ou caixão do jazigo, que o todo parece macisso e +inconsutil. Mas n'este impenho quebraram e estallaram os lavores finos +dos cantos, os caireis delicados das orlas; e a campa não cedeu: parece +chumbada pelo anjo dos últimos julgamentos com o sêllo tremendo que so +se hade quebrar no dia derradeiro do mundo. + +A cubiça estolida dos soldados não se aterrou com a religião do +sepulchro, nem lhe causou attrição, ao menos, ésta resistencia quasi +sobrenatural das pedras do moimento. Ve-se que trabalhou alli, de +alavanca e de ariete, algum possante e ponderoso pé-de-cabra; mas que +trabalhou em vão muito tempo. + +Desinganaram-se emfim com a tampa; e resolveram atacar, mais brutalmente +mas com mais vantagem, as paredes do sarcophago, que justamente +suspeitaram de menos espessos. Assim era; e conseguiram na parede da +frente abrir um rombo grosseiro por onde entra facil um braço todo e +póde explorar o interior do tumulo á vontade. + +Assim o fiz eu, que metti o meu braço por essa abertura barbara, e achei +terra, pó, alguns ossos de vertebras, e duas caveiras, uma de homem, +outra de criança. + +Não me lembra que haja memoria alguma de infante que ahi fosse sepultado +tambem, segundo faziam os antigos muitas vezes que punham os cadaveres +das crianças nos jazigos dos paes, dos parentes, até de meros amigos de +suas familias. + +Tive, confésso, uma especie de prazer maligno em imaginar a estupida +compridez de cara com que deviam de ficar os brutaes profanadores, +quando achassem no tumulo do rei o que so teem os tumulos--de reis ou de +mendigos--ossos, terra, cinza, nada! + +Por mim, estive tentado a furtar a caveira d'elrei D. Fernando. Se +acreditasse na phrenologia, parece-me que não tinha resistido. Não creio +na sciencia, felizmente--n'este caso--para a minha consciencia. Tambem +não sei o que faria se a caveira fosse de outro homem. Mas o 'fraco rei' +que fez 'fraca a forte gente' não são reliquias as suas que se guardem. + +Oh! e quem sabe? Ésta profanação, este abandôno, este desacato do tumulo +de um rei, alli na sua terra predilecta--D. Fernando era santareno de +affeição--não será elle o juizo severo da posteridade, a vindicta +pública dos seculos, que tardia mas ultrajante, cai emfim sôbre a +memoria reprovada do mau principe, e lhe deshonra as cinzas como ja lhe +deshonrára o nome? + +Quero acreditar que tal não podia succceder aos tumulos de D. Diniz, de +D. Pedro I, dos dois Joannes I e II, de... + +Sim: e aonde está o de Camões? O de Duarte Pacheco aonde _esteve_? que +ainda é mais vergonhosa pergunta ésta última. + +Em Portugal não ha religião de nenhuma especie. Até a sua falsa sombra, +que é a hypocrisia, desappareceu. Ficou o materialismo estupido, alvar, +ignorante, devasso e desfaçado, a fazer gala de sua hedionda nudez +cynica no meio das ruinas profanadas de tudo o que elevava o espirito... + +Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar por melhor tempo, +apezar d'esta paralysia que lhe pasma a vida d'alma na mais nobre parte +de seu corpo. Mas uma nação piquena, é impossivel; hade morrer. + +Mais dez annos de barões e de regimen da materia, e infallivelmente nos +foge d'este corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do +espirito. + +Creio isto firmemente. + +Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo povo, está são: +os corruptos somos nós os que cuidâmos saber e ignorâmos tudo. + +Nós, que somos a prosa vil da nação, nós não intendemos a poesia do +povo; nós, que so comprehendemos o tangivel dos sentidos, nós somos +extranhos ás aspirações sublimes do senso-íntimo que despreza as nossas +theorias presumpçosas, porque todas veem de uma acanhada anályse que +procede curta e mesquinha dos dados materiaes, insignificantes e +imperfeitos;--em quanto elle, aquelle senso-íntimo do povo, vem da Razão +divina, e procede da synthese transcendente, superior, e inspirada pelas +grandes e eternas verdades que se não demonstram porque se sentem. + +E eu que escrevo isto serei eu demagogo? Não sou. + +Serei fanatico, jesuita, hypocrita? Não sou. + +Que sou eu então? + +Quem não intender o que eu sou, não vale a pena que lh'o diga... + +Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim d'este capítulo ja +tam seccante, e prometto não reflectir nunca mais. + +Jesu Christo, que foi o modêlo da paciencia, da tolerancia, o verdadeiro +e unico fundador da liberdade e da egualdade entre os homens, Jesu +Christo soffreu com resignação e humildade quantas injustiças, quantos +insultos lhe fizeram a elle e á sua missão divina; perdoou ao matador, á +adúltera, ao blasphêmo, ao impio. Mas quando viu os barões a agiotar +dentro do templo, não se pôde conter, pegou n'um azorrague e zurziu-os +sem dor. + + + + +CAPITULO XLIII. + + + Partida de Santarem.--Pinacotheca.--Impaciencia e + saudades.--Sexta-feira.--Martyrio obscuro.--A figura do + peccado.--Estamos no valle outra vez.--Evocação de incanto.--A + irman Francisca e Fr. Diniz.--A teia de Penelope.--E + Joanninha?--Joanninha está no ceo.--A mulher morta a dobar + esperando que a interrem.--A esperança, virtude do + christianismo.--Uma carta. + + +Estou devéras fatigado de Santarem; vou-me embora. + +Despedimo'-nos saudosos d'aquella boa e leal familia que nos hospedára +com tanto carinho, com toda a velha cordialidade portugueza; partimos. + +Apenas comecei a respirar o ar fresco da manhan nos olivaes, senti +desaffogar-se-me alma d'aquella constricção cansada que se experimenta +na longa visita a um museu de antiguidades, a uma galeria de pinturas. + +Perdoem-me que não diga 'pinacotheca': bem sei que é moda, e que a +palavra é adoptavel segundo as mais strictas regras de Horacio, pois +'cai da fonte grega' direitamente e sem mistura: mas soa-me tam mal em +portuguez que não posso com ella. + +Santarem fatigou-me o espirito, como todas as coisas que fazem pensar +muito. Deixo-a porêm com saudade, e não me heide esquecer nunca dos dias +que aqui passei. + +De quê e como sou eu feito, que não posso estar muito tempo n'um logar, +e não posso sahir d'elle sem pena? + +Ja me está custando ter deixado Santarem. Porque não haviamos de partir +ámanhan, e ter ficado ainda hoje alli? + +E hoje que é sexta-feira?... Mau dia para começar viagem! + +Sexta-feira! Era o dia aziago do nosso valle, da pobre velha cega que +ahi vivia sua triste vida de dores, de remorsos e desconfôrto, esperando +porêm em Deus, conformada com seu martyrio: martyrio obscuro, mas tam +insanguentado d'aquelle sangue que mana gotta a gotta e dolorosamente do +coração rasgado, devorado em silencio pelo abutre invisivel de uma dor +que se não revela, que não tem prantos nem ais. + +Era na sexta-feira que o terrivel frade, o demonio vivo d'aquella mulher +de angústias, lhe apparecia tremendo e espantoso deante de seus olhos +cegos, elevado pela imaginação ás proporções descommunaes e gigantescas +de um vingador sobrenatural. + +Era a figura tangivel, e visivel á vista de sua alma, do enorme peccado +que contra ella estava sempre. + +Creio que escuso dizer que não tenho eu ésta superstição dos dias +aziagos que tinha a desgraçada velha, que a sua Joanninha partilhava. +Mas confesso que, recordando as fatalidades d'aquella familia e +d'aquelle dia, não gostei de voltar n'elle ao valle de Santarem. + +Estavamos porêm no valle; e ja eu via de longe aquellas árvores e +aquella janella que tanto me impressionaram, quando éstas reflexões me +acudiam ao espirito e m'o contristavam. + +Affrouxei insensivelmente o passo, deixei tomar larga dianteira aos meus +companheiros de viagem; e quando chegava perto da casa, tinha-os perdido +de vista. + +Involuntariamente parei defronte da janella; mordia-me um interêsse, uma +curiosidade irresistivel... Nem viva alma por aquelles arredores; +apeei-me e fui direito para a casa. + +Apenas passei as árvores, um spectaculo inesperado, uma evocação como de +incanto me veio ferir os olhos. + +No mesmo sítio, do mesmo modo, com os mesmos trajos e na mesma attitude +em que a descrevi nos primeiros capitulos d'esta historia, estava a +nossa velha irman Francisca... + +Ella era, e não podia ser outra; sentada na sua antiga cadeira, dobando, +como Penelope tecia, a sua interminavel meada. Não havia outra +differença agora senão que a dobadoira não parava, e que o fio seguia, +seguia, inrollando-se, inrollando-se contínuo e compassado no novêllo; e +que os braços da velha lidavam lentamente mas sem cessar no seu +movimento de authomato que fazia mal ver. + +Defronte d'ella, sentado n'uma pedra, a cabeça baixa, e os olhos fixos +n'um grosso livro velho, que sustinha nos joelhos, estava um homem sêcco +e magro, descarnado como um esqueleto, livido como um cadaver, immovel +como uma estátua. Trajava um non-descriptum negro, que podia ser sotana +de clerigo ou tunica de frade, mas descingida, sôlta, e pendente em +grossas e largas pregas do extenuado pescosso do homem. + +Tambem não podia ser senão Frei Diniz. + +Cheguei juncto d'elles; não me sentiu nenhum dos dois; nem me viu elle, +o que so via dos dois. + +Sem mais reflexão, e continuando alto na serie de pensamentos que me +vinha correndo pelo espirito, exclamei: + +--'E Joanninha?' + +--'Joanninha está no ceo':--respondeu sem sobresalto, sem erguer os +olhos do seu livro, a sombra do frade--que outra coisa não parecia. + +--'Joanninha, pobre Joanninha! Pois como foi, como acabou a infeliz?' + +--'Joanninha não é infeliz: foi ser anjo na presença de Deus.' + +--'E... e Carlos?' balbuciei eu hesitando, porque temia a +susceptibilidade do frade. + +--'Carlos!' respondeu elle erguendo emfim os olhos e cravando-os em +mim... + +E oh! que nunca vi olhos como aquelles, nem os heide ver! + +--'Carlos!... E quem é que m'o pergunta? quem é que tanto sabe de mim e +dos meus?.. Dos meus! Eu não tenho meus: sou so.' + +--'So! Não está aqui, que eu vejo?..' + +--'Ve essa mulher morta que ahi ficou, que a matei eu, e que aqui está á +espera que dê a hora de a eu interrar, mais nada. Eu estou so e quero +estar so. Morreu tudo. Que mais quer saber?' + +--'Venho de Santarem...' + +--'Santarem tambem morreu; e morreu Portugal. Aqui não, vive senão o meu +peccado, que Deus não perdoou ainda, nem espero...' + +--'A nossa religião fez uma virtude da esperança.' + +--'Fez.' + +--'E n'isso se distingue das outras todas.' + +--'Pois ainda ha quem o saiba n'esta terra?' + +--'Ha mais do que não houve nunca--pelo menos ha mais quem o saiba +melhor.' + +--'Póde ser: os juizos de Deus são incomprehensiveis.' + +--'E infinita a sua misericordia.' + +--'Mas a sua cholera implacavel, a sua justiça tremenda.' + +--'A misericordia é maior.' + +--'Quem lhe insinou tudo isso?' + +--'O evangelho, o coração, e minha mãe que m'os explicou ambos.' + +--'Sente-se aqui... aopé de mim.' + +Sentei-me. O frade pegou-me na mão com as suas ambas, e pôs-me os olhos +com uma expressão que nenhuma lingua póde dizer, nem nenhum pincel +pintar. + +Esteve assim algum tempo, como quem me observava. Vi-lhe apontar +claramente uma lagryma, vi-lh'a retroceder, e ficarem-lhe inchutos os +olhos. Senti-lhe estrangular um suspiro que lhe vinha á garganta; +percebi distinctamente o estremeção que lhe correu o corpo; mas observei +que todo se serenou depois. + +Disse-me então com voz magoada mas placida e sem aspereza ja nenhuma: + +--'Sabe a historia do valle?' + +--'Sei tudo até á partida de Carlos para Evora.' + +--'Aqui tem a carta que elle escreveu.' + +Tirou do breviario um papel dobrado, amarello do tempo, e manchado, bem +se via, de muitas lagrymas, algumas recentes ainda. + +--'Leia.' + +Li. + +Ésta era a carta de Carlos. + + + + +CAPITULO XLIV. + + + Carta de Carlos a Joanninha. + + + + + Evora-monte... + de maio de 1834. + + +É a ti que escrevo, Joanna, minha irman, minha prima, a ti so. + +Com nenhum outro dos meus não posso nem ouso fallar. + +Nem eu ja sei quem são os meus: confunde-se, perde-se-me ésta cabeça nos +desvarios do coração. Errei com elle, perdeu-me elle... Oh! bem sei que +estou perdido. + +Perdido para todos, e para ti tambem. Não me digas que não; tens +generosidade para o dizer, mas não o digas. Tens generosidade para o +pensar, mas não pódes evitar de o sentir. + +Eu estou perdido. + +E sem remedio, Joanna, porque a minha natureza é incorrigivel. Tenho +energia de mais, tenho podêres de mais no coração. Estes excessos d'elle +me mataram... e me matam! + +Tu não comprehendes isto, Joanninha, não me intendes decerto; e é +difficil. + +Es mulher, e as mulheres não intendem os homens. Sempre o entrevi, hoje +sei-o perfeitamente. A mulher não póde nem deve comprehender o homem. +Triste da que chega a sabê-lo!.. + +E d'ahi... quando se tem de morrer, antes saber a morte de que se morre, +do que expirar na ignorancia do mal que nos matou. + +Tu es joven e inexperiente, a tua alma está cheia de illusões doces; vou +dissipar-t'as em quanto se não condensam, que te offusquem a razão e te +deixem para sempre escrava cega do maior inimigo que temos, o coração. + +Quero contar-te a minha historia: verás n'ella o que vale um homem. + +Sabe que os não ha melhores que eu; e tam bons, poucos. Olha o que será +o resto! + +Tu não ignoras ja hoje o porque fugi da casa materna: sabía-a manchada +de um grande peccado, e imaginei-a polluida de um enorme crime. + +Esse homem que é meu pae, não o podia ver; hoje que sei o que me elle +é... Deus me perdoe, que ainda o posso ver menos! + +Minha avó, julguei-a cumplice no crime; ella so o era no peccado. +Perdoe-lhe Deus; e bem póde e bem deve, ja que a fez tam fraca. Minha +pobre mãe succumbiu por sua culpa, por sua irremissivel complacencia... + +Deus póde e deve, repitto... mas eu, como lhe heide perdoar eu este +rubor que sinto nas faces ao nomear minha mãe? + +Tem padecido e soffrido muito... coitada! A sua penitencia é um +martyrio, a sua velhice uma longa paixão, e esse homem que a perdeu um +verdugo sem piedade. Mas tudo isso é com Deus, não é commigo. + +Eu sou filho; minha mãe morreu sem perdoar--não posso perdoar eu. + +E quem me hade perdoar a mim? Ninguem, nem quero. + +Não serás tu, minha irman; não, que não deves. Porque eu amei-te com um +coração que ja não era meu; acceitei o teu amor sem o merecer, sem o +podêr possuir, trahi quando te amava, menti quando t'o disse, menti-te a +ti, menti-me a mim, e não guardei verdade a ninguem. + +Mas espera, ouve; deixa-me ver se posso atar o fio d'esta minha incrivel +historia--incrivel para ti, bem simples para quem conheça o coração do +homem. + +Sahi de Portugal, e posso dizer que não tinha amado ainda. Inclinações +de criança, galanteios de sociedade, ligações que nasceram da vaidade, +ou que so os sentidos alimentam, não merecem o nome de amor. + +Eu não tinha amado. + +Ha tres especies de mulheres n'este mundo: a mulher que se admira, a +mulher que se deseja, e a mulher que se ama. + +A belleza, o espirito, a graça, os dotes d'alma e do corpo geram a +admiração. + +Certas fórmas, certo ar voluptuoso criam o desejo. + +O que produz o amor não se sabe; é tudo isto ás vezes, é mais do que +isto, não é nada d'isto. + +Não sei o que é; mas sei que se póde admirar uma mulher sem a desejar, +que se póde desejar sem a amar. + +O amor não está definido, nem o póde ser nunca. O amor verdadeiro; que +as outras coisas não são isso. + +Eu vivi poucos mezes em Inglaterra; mas foram os primeiros que posso +dizer que vivi. Levou-me o acaso, o destino--a minha estrella, porque eu +ainda creio nas estrellas, e em pouco mais d'este mundo creio +ja--levou-me ao interior de uma familia elegante, ricca de tudo o que +póde dar distincção n'este mundo. + +Extranhei aquelles habitos de alta civilização, que me agradavam +comtudo; moldei-me facilmente por elles, affiz-me a vejetar docemente na +branda atmosphera artificial d'aquella estufa sem perder a minha +natureza de planta extrangeira. Agradei: e não o merecia. No fundo +d'alma e de character eu não era aquillo por que me tomavam. Menti: o +homem não faz outra coisa. Eu detesto a mentira, voluntariamente nunca o +fiz, e todavia tenho levado a vida a mentir. + +Menti pois, e agradei porque mentia. Sancto Deus! para que sahiria a +verdade da tua bôcca, e para que a mandaste ao mundo, Senhor? + +Havia tres meninas n'aquella familia. Dizer que eram as tres graças é +uma vulgaridade cansada, e tam bannal que não dá idea de coisa alguma. +Tres anjos seriam; tres anjos posso dizer com mais propriedade. E quando +em nossos longos passeios solitarios, por aquelles campos sempre verdes, +por aquellas collinas coroadas de arvoredo, tapessadas de relva macia, +os seus vestidos brancos, singelos, simples, trajados sem arte, +fluctuavam com a brisa da tarde... e os longos anneis de seus +cabellos--os de uma eram loiros, os de outra castanhos, não ha nome para +a indefinida côr dos da terceira--quando esses longos anneis descahiam +de sua ondada spiral com o orvalho humido do crepusculo--e que a essa +luz vaga e mysteriosa eu as contemplava todas tres com adoração e +recolhimento devoto d'alma--sinceramente exclamava: 'São tres anjos +celestes que é forçoso adorar!..' + +E assim é que os adorava os tres anjos, todos tres, e não podia adorar +um sem os outros. + +Que me queriam ellas, é certo; que insensivelmente se habituaram á minha +companhia e ja não podiam viver sem ella... ai! era preciso ser um +monstro para o não confessar com lagrymas de gratidão e de remorso. + +Os mais difficeis e delicados apices da perfeição de sua tam caprichosa +e tam expressiva lingua, as bellezas mais sentidas de seus auctores +queridos, o espirito e tom difficil de sua sociedade tam desdenhosa e +fastienta, mas tam completa e tam calculada para sublimar a vida e a +desmaterializar--isso tudo, e um indefinivel sentimento do _gentil_, que +so com natural tacto se adquire, é verdade, mas que se não alcansa com +elle so--isso tudo o apprendi alli das suaves licções que +insensivelmente recebia a cada instante. + +Se valho alguma coisa, tudo valho por ellas; se tenho merecido alguma +consideração no mundo, toda lh'a devo. + +Ves que confesso a dívida, verás como a paguei. + +O tom perfeito da sociedade ingleza inventou uma palavra que não ha nem +póde haver n'outras linguas emquanto a civilização as não aparar. _To +flirt_ é um verbo innocente que se conjuga alli entre os dois sexos, e +não significa _namorar_--palavra grossa e absurda que eu detesto--não +significa 'fazer a côrte'; é mais do que estar amavel, é menos do que +galantear, não obriga a nada, não tem consequencias, começa-se, +acaba-se, interrompe-se, addia-se, continúa-se ou descontinúa-se á +vontade e sem compromettimento. + +Eu _flartava_, nós _flartavamos_ ellas _flartavam_... + +E não ha mais doce nem mais suave intertenimento d'espirito do que o +_flartar_ com uma elegante e graciosa menina ingleza; com duas é prazer +angelico, e com tres é divino. + +Para quem nasceu n'aquillo, não é perigoso; para mim degenerou, breve, +aquella placida sensação em mais profundo sentimento. + +Veio a admiração primeiro. + +E como as eu admirava todas tres as minhas gentis fascinadoras! + +E ellas conheciam-n'o, riam, folgavam e estavam incantadas de me +incantar. + +Fizeram nascer os desejos! + +Julguei-me perdido, e quiz fugir. + +Não me deixaram e zombaram de mim, da ardencia do meu sangue hespanhol, +da vehemencia das minhas sensações... + +Em breve eu amava perdidamente uma d'ellas--queria muito ás outras duas; +mas amar, amar devéras, d'alma cuidava eu, de coração ia jurá-lo, era a +segunda--Laura, a mais gentil, mais nobre, mais elegante e radiosa +figura de mulher que creio que Deus moldasse n'uma hora de verdadeiro +amor de artista que se dignou tomar por esse pouco de greda que tinha +nas mãos ao formá-la. + + + + +CAPITULO XLV. + + + Carta de Carlos a Joanninha: continúa. + + +Laura não era alta nem baixa, era forte sem ser gorda, e delicada sem +magreza. Os olhos de um côr-de-avelan diaphano, puro, avelludado, +grandes, vivos, cheios de tal majestade quando se iravam, de tal doçura +quando se abrandavam, que é difficil dizer quando eram mais bellos. O +cabello quasi da mesma côr tinha, demais, um reflexo dourado, +vacillante, que ao sol resplandecia, ou antes, relampejava,--mas a +espaços, não era sempre, nem em todas as posições da cabeça:--cabeça +pequena, modelada no mais classico da statuaria antiga, poisada sôbre um +collo de immensa nobreza, que harmonizava com a perfeição das linhas dos +hombros. + +A cintura breve e estreita, mas sem exaggeração, via-se que o era assim +por natureza e sem a menor contrafeição d'arte. O pé não tinha as +exiguidades fabulosas da nossa peninsula, era proporcionado como o da +Venus de Medicis. + +Tenho visto muita mulher mais bella, algumas mais adoraveis, nenhuma tam +fascinante. + +Fascinante é a palavra para ella. + +O rosto oval e perfeitamente symetrico, pallido; so os beiços eram +vermelhos como a rosa de côr mais viva. + +A expressão de toda ésta figura é que se não descreve. A bôcca breve e +fina surria pouco; mas quando surria, oh!.. + +Ve-la n'um baile, vestida e calçada de branco, cingida com um cinto de +vidrilhos pretos--toilete inalteravel para ella desde certa epocha--sem +mais ornato, sem mais flores, apenas um farto fio de perolas +derramando-se-lhe pelo collo--era ver alguma coisa de superior, de mais +sublime que uma simples mulher. + +Tal era Laura, Laura que eu amei quanto podia e sabía amar. Era pouco, +sei-o agora; entao parecia-me infinito. + +Disse-lh'o a ella, disse-lh'o um dia que passeavamos sós, e depois de +andarmos horas e horas esquecidas, sem trocar uma phrase. Pensavamos, eu +n'ella, ella não sei em quê. + +Sería em mim? + +Sería mas não m'o confessou. + +E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar para mim uma so vez, sem fugir +com a mão que lhe eu appertava, que lhe beijava, e que sentia fria e +humida nas minhas que escaldavam. + +Era tarde, dirigimo'-nos para casa. Á porta disse-me: 'Não entre'; e +vi-a banhada em lagrymas. Quiz segui-la, fez-me um gesto imperioso que +me confundiu. Pela primeira vez, depois de tanto tempo, fui so, triste e +melancholico para a minha pobre habitação, onde passei a noite. + +Quando era madrugada quiz-me deitar. Não dormi. + +No dia seguinte recebi uma carta de Julia: assim se chamava a mais +velha, a mais sensivel e a mais carinhosa das tres irmans. + +O bilhete parecia indifferente; não continha senão palavras usuaes, +pedia-me que fosse almoçar com ella... não fallava nas irmans. + +Senti que era chegada a minha hora, pareceu-me que ia ser expulso +d'aquelle Eden de innocencia em que tinha vivido. A lettra de Julia, uma +lettra linda, perfeita, natural, figurava-se-me um aggregado de signaes +caballisticos terriveis que incerravam o mysterio da minha condemnação. + +Vesti-me, fui, achei-me so com Julia no _parlour_ elegante de seu +exclusivo uso. + +Era um pequeno gabinete de estudo, ornado somente de umas _etagères_ com +livros e musicas, uma harpa e um cavallete. + +Sôbre o cavallete estava o meu retratto esboçado, na estante da harpa +uma romança franceza a que eu tinha feito lettras portuguezas... + +A urna asoviava sôbre a mesa, Julia fazia o cha e não parecia attender a +mais nada. + +É preciso que eu te descreva a piquena Julia--Julietta como nós lhe +chamavamos--nós, as duas irmans e eu que rivalizavamos a qual lhe havia +de querer mais... + +Oh! que saudade e que remorso para toda a minha vida n'estas recordações +de fraternal intimidade! + +Julia era piquena, delicadissima, propriamente infantina no rosto, na +figura, na expressão e no hábito de toda a sua incantadora e diminutiva +pessoa. + +Nenhuma ingleza, desde o tempo da rainha Bess, teve pé e _ancle_ mais +delicado. Nenhuma, desde o rei Alfredo, se occupou tam elegantemente dos +elegantes cuidados de um interior britannico--gentil quadro 'de genero' +como não ha outro. + +Lady Julia R. era a mais piquena e a mais bonita subdita britannica que +eu creio que tenha existido. + +Vista á lua, no meio do seu parque, volteiando por entre os raros +exoticos que no curto verão inglez se expoem ao ar livre, facilmente se +tomava pela bella soberana das fadas realizando aquella preciosa visão +de Shakspeare, o 'Midsumer night's dream.' + +Seus olhos de azul celeste, sempre humidos e sempre doces, os cabellos +de um claro e assedado castanho todos soltos em anneis á roda da cabeça +e cahindo pelos hombros, espalhando-se pelo rosto, que era uma lida +contínua para os tirar dos olhos, um corpo airoso, uma bôcca de beijar, +os dentes miudos, alvissimos e apertados, a mão piquena estreita, e de +cera--tudo isto fazia de Julia um typo ideal de bondade, de candura, de +innocencia angelica. + +E era um anjo... oh se era! + +Contemplei-a muito tempo em silencio: ella surria-me tristemente de vez +em quando, mas não fallava. Emfim almoçámos, levaram o trem. + +Ella disse á sua aia: + +--'Phebe, eu estou so com Carlos; e quero estar so. Em casa para +ninguem.' + +--'Sim, minha senhora.' Resposta obrigada do criado inglez a tudo. + +E ficámos sos completamente. + + + + +CAPITULO XLVI. + + + Carta de Carlos a Joanninha: continúa. + + +Julia levantou finalmente para mim os seus olhos humidos, assombrados +das mais longas e assedadas pestanas que ainda vi em olhos de mulher, e +disse-me: + +--'Carlos, eu estou triste. Devia consolar-me; diga-me alguma coisa que +me console. Falle-me.' + +--'Que heide eu dizer?..' + +--'É um cavalheiro, Carlos: diga-me que o é, e desassombre-me d'este +terror em que estou.' + +--'Pois duvída, Julia?..' + +--'Não duvido. Queremos-lhe todos muito aqui... muito demais... receio: +como havemos de duvidar?' + +--'Oh Julia, perdoe-me!' exclamei eu lançando-me a seus pés, tomando-lhe +as mãos ambas nas minhas, e beijando-lh'as mil vezes n'um paroxysmo de +verdadeira contricção. 'Perdoe-me, Julia: bem sei que fiz mal, e +prometto...' + +--'Não prometta nada, senão que hade ser cavalheiro. Isso sei eu e sinto +que o póde cumprir.' + +--'Juro por... por ella.' + +--'Ella!.. Ella ama-o, Carlos. É melhor dizer a verdade de uma vez, e +incarar todas as consequencias de uma posição difficil, do que +illudir-se a gente sem as evitar. Laura ama-o, mas não deve nem póde +amá-lo. Se fosse livre, não sei o que diria--não sei o que faria eu... +Mas não se tratta de mim'--proseguiu com volubilidade febril--'não se +tratta de mim, Carlos, tratta-se d'ella. Laura não o póde amar, está +compromettida. Hade partir em tres mezes para a India.' + +--'Para a India!' + +--'Sim: é verdade: velo-ha. O seu noivo é capitão ao serviço da +companhia, e parte em casando.' + +Eu sentia-me morrer o coração dentro do peito: foi a primeira dor +verdadeira d'alma que soffri... Aquelle era o primeiro amor sincero da +minha vida, e aquella foi tambem a primeira excruciante pena d'amor por +que passei. + +Eu que de taes penas zombára sempre, que as desterrava da realidade para +os romances, eu!.. Ai! que poeta ou que novellista soube nunca pintar um +padecer como eu experimentei n'aquella hora? + +Não sei o que fiz nem o que disse; não me recordo senão que senti as +lagrymas de Julia cahirem-me sôbre a face e misturarem-se com as minhas +que corriam em abundancia. Levantei os olhos para ella, e a expressão +que vi nos seus... oh! como a heide esquecer nunca? + +Quanto ha de piedade e compaixão no thesouro infinito de um coração +feminino se derramava d'aquelles olhos celestes para me consolar. Lá não +ficava senão uma tristeza profunda, desanimada e mortal... + +Não sei que vago pensamento, que idea louca... ou antes, que +presentimento indeterminado e confuso me atravessou pelo espirito--ou +sería pelo coração?--n'aquelle momento... + +Se Julia?.. + +Mas não póde ser. + +--'Julia, Julia' bradei eu 'quero vê-la: heide vê-la uma vez ao menos. +Não me negue este último favor. Sei que devo, que preciso, que é forçoso +fugir d'ella. Mas antes heide dizer-lhe...' + +--'O quê?..' + +--'Que a amo como nunca amei, como nunca mais heide amar...' + +--'Ai Carlos!' + +--'Que para sempre, sempre...' + +Julia levantou-se sem dizer palavra, e lançando sôbre mim um olhar de +ineffavel compaixão, sahiu rapidamente do quarto. + +Achei-me so, não sei o que pensei nem se pensei. Sentia-me aturdido da +cabeça, exhausto do coração--n'uma depressão d'espirito que tocava na +estupidez. Se me apontassem uma pistola aos peitos, não levantava o +braço para a arredar... Ja não sentia pena nem desejo. Parecia-me que +começava a morrer; e não achava que morrer custasse muito. + +N'este estado fiquei não sei que tempo; muito não foi. Percebi que se +abria a porta, não tive fôrça para levantar os olhos. Até que senti uma +doce e querida mão na minha... era Julia... e era Laura tambem... sancto +Deus! que estavam aopé de mim ambas. + +Julia tinha a minha mão na sua; e Laura incostada ao hombro da irman, +deixava cahir sôbre mim aquelles olhos em que a severidade habitual se +tinha relaxado n'uma indulgencia tam doce, n'uma compaixão tam celeste +que, juro por Deus, n'aquella hora acreditei firmemente que tinha deante +de mim dous anjos seus, baixados nas azas da piedade divina para me +trazer todo o perdão, toda a misericordia do ceo á minha alma. + +Como te direi eu, Joanna, querida Joanninha, como te direi a ti que me +amas, a ti que eu amo--porque te amo, e Deus me castigue que deve! +porque te amo, cegamente te amo com este infame e abominavel coração que +Elle me deu--como te heide eu dizer a ti, e para quê, as palavras que +alli dissemos, os protestos que alli fiz, os juramentos que alli se +deram, as promessas que alli foram trocadas? + +Julia foi para a janella--indulgente chaperão que nos não via e fingia +não nos ouvir. O dia passou-se assim, um longo dia de junho que tam +curto e rapido nos pareceu. Era noite quando fomos jantar. + +Á mesa Laura appareceu em trajos de viagem; partia n'aquella noite para +o paiz de Galles onde tinha uma amiga, com quem ia estar até o dia +terrivel, e preparar-se para elle, me disse, longe de mim, no seio da +amizade. + +Imagine-se aquelle jantar. Nem comer fingiamos. Ao sahir da mesa achámos +á porta da casa a caleche posta, o cocheiro na almofada, e o criado á +portinhola. Montámos, as tres irmans e eu. + +Eram duas milhas d'alli á estalagem onde tocava a malla-posta e onde +Laura devia incontrá-la. Fizemo-las sem proferir palavra nenhum dos +quatro. + +A lua ia grande e bella com sua luz triste e fria por um ceo sem nuvens. +Era uma d'aquellas noites raras, mas admiraveis do breve estio +britannico. + +A areia que rangia com o attrito das rodas da carruagem nas lisas ruas +do parque, os ramos descahidos das árvores por que roçavamos levemente +ao passar, os veados mansos que se levantavam para nos ver--os phaesães +que erguiam seu rasteiro voo de moita para moita ao sentir o estalido do +chicote, com que o cocheiro mais moderava do que excitava os seus +cavallos, tudo para mim eram impressões de nunca sentida e inexplicavel +tristeza. Ficava-me a alma apoz tudo aquillo, sentia fugir-me a +felicidade para sempre, e que era eu que a affugentava, e que me ia +incontrar so, desamparado e proscripto no deserto da vida. + +Não me sentia fôrça para blasphemar, para maldizer de Deus, senão +tinha-o feito. + +Tinha: e outras ancias mais angustiadas e mortaes me teem afflicto na +vida; em nenhuma me senti tam capaz de renegar de Deus e descrer d'elle +como n'esta. + +Sería effeito de sua inexhaurivel piedade que talvez quiz acudir á minha +alma antes que se perdesse, sería por certo--pois n'esse mesmo instante +distinctamente me appareceu deante dos olhos d'alma a unica imagem que +podia chamá-lo do abysmo: era a tua, Joanna! Era a minha Joanninha +piquena, innocente, aquelle anginho de criança, tam viva, tam alegre, +tam graciosa que eu tinha deixado a brincar no nosso valle: o nosso +valle rustico, tam grosseiro e tam inculto! oh como as saudades d'elle +me foram alcançar no meio d'aquellas allinhadas e perfeitas bellezas da +cultura britannica! Os raios verdes de teus olhos, faiscantes como +esmeraldas, atravessaram o espaço, e foram luzir no meio d'aquell'outros +lumes que me cegavam. A esteva brava, o tojo aspero da nossa charneca +mandavam-me ao longe as exhalações de seu perfume agreste, e matavam o +suave cheiro do feno macio d'essas relvas sempre verdes que me rodeavam. +As folhas crespas, sêccas, alvacentas das nossas oliveiras como que me +luziam por entre a espessura cerrada da luxuriante vegetação do norte, +promettendo-me paz ao coração, annunciando-me o fim de uma peleja em que +m'o dilaceravam as paixões. + +E tu, Joanna, tu, pobre innocente, e desvallida criancinha, tu +apparecias-me no meio de tudo isso, extendendo para mim os teus +bracinhos amantes como no dia que me despedira de ti n'esse fatal, +n'esse querido, n'esse doce e amargo valle das minhas lagrymas e dos +meus risos, onde so me tinham de correr os poucos minutos de felicidade +verdadeira da minha vida, onde as verdadeiras dores da minha alma tinham +de m'a cortar e destruir para sempre... + +Oh! de quê e como é feito o homem, para quê e porque vive elle? Que vim +eu, que vimos nós todos fazer a este mundo? + +Eu sentado alli nas almofadas de seda d'aquella splendida e macia +carruagem, rodeado de tres mulheres divinas que me queriam todas, que eu +confundia n'uma adoração mysteriosa e mystica--cego, louco d'amores por +uma d'ellas, no momento de lhe dizer adeus para sempre... eu tinha o +pensamento fixo n'uma criança que ainda andava ao collo!--Revendo-me nos +olhos pardos de Laura que eu adorava, eram os teus olhos verdes que eu +tinha n'alma! Os sentidos todos embriagados d'aquelle perfume de luxo e +civilização que me cercava,--era o nosso valle rustico e selvagem o que +eu tinha no coração... + +Oh! eu sou um monstro, um aleijão moral devéras, ou não sei o que sou. + +Se todos os homens serão assim? + +Talvez, e que o não digam. + +Joanna, minha Joanna, minha Joanninha querida, anjo adorado da minha +alma, tem compaixão de mim, não me maldigas. Não quero que me perdoes, +nem tu nem ninguem, que o não mereço: mas que tenhas dó e lástima de +mim. + +Ai! que isso mereço eu, oh sim. + +Deixa-me parar aqui. Falta-me o ânimo para me estar vendo a este +terrivel espelho moral em que jurei mirar-me para meu castigo, d'onde +estou copiando o horroroso retratto de minha alma que te desenho n'este +papel. + +Sabía que era monstro, não tinha examinado por partes toda a hediondez +das feições que me reconheço agora. + +Tenho espanto e horror de mim mesmo. + + + + +CAPITULO XLVII. + + + Carta de Carlos a Joanninha: continúa. + + +Chegámos ao Inn (estalagem), triste casa solitaria no meio dos campos á +borda da estrada. A malla chegava ao mesmo tempo quasi. + +Eu dei a mão a Laura para sahir da caleche e entrar no coche; e apenas +tivemos tempo para um convulsivo shake-hands e para nos dizer adeus! +adeus! com a affectada seccura que exige a lei das conveniencias +britannicas. + +A malla partiu ao grande trote... E dir-te-hei a verdade ou queres que +minta? Não, heide dizer-te a verdade. Pois senti como um alívio +desesperado, uma consolação cruel em a ver partir. Senti o que imagino +que deve sentir um infêrmo depois da operação dolorosa em que lhe +amputaram parte do corpo com que já não podia viver, e que era forçoso +perder ou perder a vida. + +Tambem deve de ser assim a morte: um descanço apathico e nullo depois de +inexplicavel padecer. + +Era como morto que eu estava; não soffria pois. + +E ja não pensava em ti, ja te não via na minha alma: eu não existia, +estava alli. + +Voltámos ao parque; apeei silenciosamente as minhas duas gentis +companheiras, e eu fui so, apé, com passo firme e resoluto para a minha +habitação. Nenhuma d'ellas me procurou retter, nem me disse nada, nem +tentou consolar-me. Paraquê? + +L. William R. chegava, na manhan seguinte, de uma de suas habituaes +excursões a Londres. Veio ver-me assim que chegou, e trazer-me cartas de +Portugal que eu esperava ha muito.--Disse-me que partia no outro dia +para Swansea, a terra de Galles para onde Laura fôra; e que me +incarregava de fazer companhia ás duas filhas que ficavam sos. + +A mim!.. + +Estive tres dias sem as ver: em todos tres não fiz mais do que escrever +a Laura. + +No quarto dia fui ao parque. Julia deu um grito de alegria quando me +viu: raro exemplo de excepção ás formuladas regras que tyrannizam a vida +ingleza, que prescrevem até a cara com que se hade morrer, e teem +graduado o tom em que se deve exhalar o último suspiro. + +Mas a natureza chega a triumphar ás vezes até da propria etiqueta +britannica. + +Julia cuidava que eu não queria voltar áquella casa, tinha-se resignado +a não tornar a ver-me; não pôde reprimir a alegria que lhe causou a +minha inexperada apparição. + +Passámos todo o dia junctos e sos: quasi todo se nos foi passeando no +parque, ou sentados á sombra de seus espessos arvoredos, ou mirando-nos +nas crystallinas aguas de uma vasta represa povoada de aves aquaticas e +rodeada d'aquelles immensos mantos de velludo verde de que perpetuamente +se infeita a terra ingleza e que so desapparecem quando vem o hynverno +extender-lhe porcima seus alvos lençoes de neve. + +Quiz ver o que eu escrevia á irman; dei-lhe a carta, leu-a, meditou-a, +restituiu-m'a sem dizer palavra. + +Que horas passámos n'este silencio, n'esta eloquente mudez que não vem +senão do muito de mais que a alma sente, do muito de mais que diria se +fallasse! + +Á despedida, essa noite, deu-me uma bolsa de rede que Laura tinha estado +fazendo para mim e que lhe deixára para me intregar. Senti que tinha +dentro o que quer que fosse a bolsa, não quiz examinar. Achei, quando +voltei a casa, que era o _fadado cinto_ de vidrilhos pretos que eu tanto +tinha admirado em certo baile onde foramos junctos, e que Laura não +deixára de pôr nunca mais em se vestindo de branco e que fizesse alguma +toilette. + +Ainda o conservo aquelle cinto precioso, Joanna; ainda a tenho, no meu +thesoiro mais guardado, aquella joia, aquella reliquia. E amo-te, e +amo-te a ti so como realmente nunca amei nem poderei tornar a amar. Mas +aquelle cinto é uma sorte, um talisman, um amuleto em que está o meu +destino. + +Amei... isto é, amei... pois sim, amei, ja que não ha outra palavra +n'estas estupidas linguas que fallam os homens; pois amei outras +mulheres, e nos dias de maior enthusiasmo por ellas, não deixei nunca de +beijar devotamente aquelle cinto, de o appertar sôbre o meu coração, de +me incommendar a elle--como o salteador napolitano se incommenda ao +escapulario da madona que traz ao peito, com as mãos insanguentadas de +matar, ou carregado do roubo que acaba de fazer. + +Ai, Joanna, não te digo eu que estou perdido, sem remedio, e que para +mim não ha, não póde haver salvação nunca? + +Vivi assim dois mezes. Laura não me escrevia: recebia as minhas cartas e +respondia a Julia: por este modo nos correspondiamos. Julia era parte de +nós, era uma porção do nosso amor, viviamos n'ella a nossa vida. E ja as +confundia ambas por tal modo no meu coração que me surpreendia a não +saber a qual queria mais. Julia parecia feliz d'este estado; eu era-o. +Insensivelmente me habituei a elle, ja não tinha saudades do passado. E +quando se approximou o casamento de Laura, que ella tinha de voltar de +Galles, e que eu, fiel ao que promettêra, devia pretextar negócio +urgentissimo em Londres que me obrigasse a ausentar-me até á sua partida +para a India, eu tive uma pena, uma difficuldade em cumprir o que +promettêra que me invergonhava. + +Parti porêm; e alli me demorei um mez. Julia escrevia-me todos os dias e +eu a ella. Na véspera do dia fatal em que Laura ia ser de outro homem, +Julia escreveu-me éstas palavras sos:--'O nosso romance acabou; começa +uma historia séria. Laura manda-lhe o seu último adeus.' + +E nunca mais se escreveu nem se pronunciou o nome de Laura entre nós +dous. + +O galeão que me levava para o Oriente as ruinas de toda a minha +esperança ha muito que navegava; entrava outubro e o hynverno inglez com +suas mais asperas, e n'este anno tam precoces, severidades. Eu sentia-me +morrer de tristeza e de isolamento no meio da populosa e turbulenta +Londres, Julia percebeu-o, e mandou-me voltar a ----shire. Voltei. + + + + +CAPITULO XLVIII. + + + Carta de Carlos a Joanninha: continúa. + + +O que eu senti quando, apezar de tam desfigurados pelos tres-altos de +neve que os cubriam, comecei a reconhecer aquelles sitios da vizinhança +do parque, e a confrontar as árvores, os pastios, os casaes d'aquelles +arredores! + +Era outra a expressão de physionomia da paizagem, mas as queridas +feições eram as mesmas, e uma a uma lh'as ia estremando. + +Emfim o meu _stage_ parou á entrada do parque, e eu tomei apé pela longa +avenida. Eram nove horas da manhan, e a manhan brumosa, fria, mas o +tempo macio, não estava _cru_, segundo a expressiva phrase do paiz. + +Por entre a nevoa que me incubria a antiga mansão e involvia as árvores +circumstantes n'um sudario cinzento e melancholico, fui caminhando, +quasi pelo tacto, até meia alameda talvez. + +Parei a reflectir na minha posição e no que eu ia ser n'aquella casa que +de novo me abria suas portas hospitaleiras, quando, atravez da neblina +brancacenta e onde ella era mais rara, descubri um vulto que vinha a mim +de entre as árvores do parque. + +O vulto era de mulher e parecia uma sombra, uma apparição phantastica em +meio d'aquella scena mysteriosa, so, triste. + +Na distancia figurava-se-me alto em demazia: Julia não era nem podia +ser; Julia a mais diminutiva e delicada de quantas fadas bonitas e +graciosas teem trazido varinha de condão. Laura... ai! Laura tam longe +estava d'alli... Quem sería pois? So se fosse!.. Quem? + +Aquella elegancia, aquelle cabello sôlto e annellado, aquelle ar gentil +não podia ser senão d'ella... + +D'ella, quem? + +Ainda te não fallei, quasi, da última das tres bellas irmans que me +incantavam, não t'a descrevi, não t'a nomeei pelo seu nome. Repugnava-me +fazê-lo. Mas é preciso: custa-me, não ha remedio. + +Era Georgina... + +Georgina que tu conheces, Georgina que... era Georgina a que vinha a mim +n'aquella--fatal ou feliz?--manhan; Georgina que de todas tres era a que +menos me fallava, que eu verdadeiramente menos conhecia. + +Este meu coração, á fôrça de ferido e de mal curado que tem sido, +pressente e adivinha as mudanças de tempo com uma dor chronica que me +dá. Pressenti não sei quê ao ver approximar-se Georgina... + +--'Como foi bom em vir! Estou realmente feliz de o ver. E Julia, a pobre +Julia, que alegria que vai ter, hade curá-la de todo.' + +--'Pois quê! Julia está doente?' + +--'Não o sabía!... Ai! não, bem sei que não: ella não lh'o quiz dizer. +Julia está doente; mas não é de cuidado. Eu sempre quiz advirti-lo antes +que a visse, por isso calculei as horas do coche e vim para aqui +esperá-lo.' + +Éstas palavras eram simples, não tinham nada que me devesse impressionar +extraordinariamente, e todavia eu sentia-me agitado como nunca me +sentira. Olhava para Georgina como se a visse a primeira vez, e pasmava +de a ver tam bella, tam interessante. + +É uma situação d'alma ésta que não sei que a descrevessem ainda poetas +nem romancistas: desprezam-n'a talvez, ou não a conhecem. Está recebido +que as subitas impressões causadas por um primeiro incôntro sejam as +mais interessantes, as mais poeticas. + +Eu não nego o effeito theatral d'essas primeiras e repentinas sensações; +mas sustento que interessa mais ess'outra inesperada e extranha +impressão que nos faz um objecto ja conhecido, que víramos com +indifferença atéalli, e que derrepente se nos mostra tam outro do que +sempre o tinhamos considerado... + +Mas ésta mulher é bella realmente! E eu que nunca o vi! Mas aquelles +olhos são divinos! Onde tinha eu os meus atégora? Mas este ar, mas ésta +graça onde os tinha ella escondidos? etc. etc. + +Vão-se gradualmente, vão-se pouco a pouco descobrindo perfeições, +incantos; e o sentimento que resulta é mil vezes mais profundo, mais +fundado, sôbretudo, que o das taes primeiras impressões tam cantadas e +decantadas. + +Que mais te direi depois d'isto? Entrámos em casa, vi Julia, fallámos de +Laura muito e muito. Mas eu ja o não fiz com o enthusiasmo, com a +admiração exclusiva com que d'antes o fazia... + +Julia recobrou, breve, a saude, e com ella o equilibrio do espirito. +Renovou-se toda a alegria, todo o incanto das nossas conversações +íntimas, dos nossos longos passeios. Laura lembrava com saudade; mas +suavizava-se, imbrandecia gradualmente aquella saudade. + +Georgina, que atéalli parecia impenhar-se em se deixar eclipsar pela +irman, agora, ausente ella, brilhava de toda a sua luz, em graça, em +espirito, por um natural singelo e franco, por uma exquisita doçura de +maneiras, de voz, de expressão, de tudo. + +Julia revia-se n'ella, e eu acabei pela adorar. Vergonha eterna sôbre +mim! mas é a verdade: quiz-lhe mais do que a Laura, ou pareceu-me +querer-lhe mais... que tanto vale. + +Eu sei?.. Não, não lhe queria tanto. Mas amei-a. + +Amei, sim, e fui amado! + +Tres mezes durou a minha felicidade. É o mais longo periodo de ventura +que posso contar na vida. Falsa ventura, mas era. + +A imperiosa lei da honra exigiu que nos separassemos, que partisse para +os Açores. Fui. Ninguem sacrificou mais, ninguem deu tanto como eu para +aquella expedição. A historia fallará de muitos serviços, de muitas +dedicações. Quem saberá nunca d'esta? + +A historia é uma tola. + +Eu não posso abrir um livro de historia que me não ria. Sôbretudo as +ponderações e adivinhações dos historiadores acho-as de um comico +irresistivel. O que sabem elles das causas, dos motivos, do valor e +importancia de quasi todos os factos que recontam? + +Ainda não sei como parti, como cheguei, como vivi os primeiros tempos da +minha estada n'aquelle escôlho no meio do mar, chamado a ilha Terceira, +onde se tinham refugiado as pobres reliquias do partido constitucional. + +Habituei-me porfim. A que se não affaz o homem? + +Levaram-me uma tarde á grade de um convento de freiras que ahi havia. O +meu ar triste, distrahido, indifferente excitou a piedade das boas +monjas. Uma d'ellas, joven, ardente, apaixonada, quiz tomar a empresa de +me consolar. Não o conseguiu, coitada! O meu coração estava em ----shire +em Inglaterra, estava na India, estava no valle de Santarem, + + Pelo mundo em pedaços repartido; + +estava em toda a parte, menos alli, que nada d'elle estava nem podia +estar. + +Era Soledade que se chamava a freirinha, e com o seu nome ficou. +Disseram o que quizeram os falladores que nunca faltam, mas mentiram +como mentem quasi sempre, inganaram-se como se inganam sempre. + +Eu não amei a Soledade. + +E comtudo lembro-me d'ella com pena, com sympathia... Se eu sou feito +assim, meu Deus, e assim heide morrer! + +Viemos para Portugal; e o resto agora da minha historia sabes tu. + +Cheguei porfim ao nosso valle, todo o passado me esqueceu assim que te +vi. Amei-te... não, não é verdade assim. Conheci, mal que te vi entre +aquellas árvores, á luz das estrellas, conheci que era a ti so que eu +tinha amado sempre, que para ti nascêra, que teu so devia ser, se eu +ainda tivera coração que te dar, se a minha alma fosse capaz, fosse +digna de junctar-se com essa alma d'anjo que em ti habita. + +Não é, Joanna; bem o ves, bem o sentes, como eu o sinto e o vejo. + +Eu sim tinha nascido para gosar as doçuras da paz e da felicidade +doméstica; fui creado, estou certo, para a glória tranquilla, para as +delicias modestas de um bom pae de familias. + +Mas não o quiz a minha estrella. Embriagou-se de poesia a minha +imaginação e perdeu-se: não me recobro mais. A mulher que me amar hade +ser infeliz por fôrça, a que me intregar o seu destino, hade vê-lo +perdido. + +Não quero, não posso, não devo amar a ninguem mais. + +A desolação e o oppróbrio entraram no seio da nossa familia. Eu renuncio +para sempre ao lar doméstico, a tudo quanto quiz, a tudo quanto posso +querer. Deus que me castigue, se ousa fazer uma injustiça, porque eu não +me fiz o que sou, não me talhei a minha sorte, e a fatalidade que me +persegue não é obra minha. + +Adeus Joanna, adeus prima querida, adeus irman da minha alma! Tu +accompanha nossa avó, tu consola esse infeliz que é o auctor da sua e +das nossas desgraças. Tu, sim, que podes; e esquece-me. + +Eu, que nem morrer ja posso, que vejo terminar desgraçadamente ésta +guerra no unico momento em que a podia abençoar, em que ella podia +felicitar-me com uma balla que me mandasse aqui bem direita ao coração, +eu que farei? + +Creio que me vou fazer homem politico, fallar muito na patria com que me +não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus +serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?.. talvez darei porfim +em agiota, que é a unica vida de emoções para quem ja não póde ter +outras. + +Adeus minha Joanna, minha adorada Joanna, pela última vez, adeus! + + + + +CAPITULO XLIX. + + + De como Carlos se fez barão.--Fim da historia de + Joanninha.--Georgina abbadessa.--Juizo de Fr. Diniz sôbre a questão + dos frades e dos barões.--Que não póde tornar a ser o que foi, mas + muito menos póde ser o que é. O que hade ser, Deus o sabe e + proverá.--Vai o A. dormir ao Cartaxo.--Sonho que ahi tem.--Volta a + Lisboa.--Caminhos de ferro e de papel.--Conclusão da viagem e + d'este livro. + + +Acabei de ler a carta de Carlos, intreguei-a a Fr. Diniz em silencio. +Elle tornou-me: + +--'Leu?' + +--'Li.' + +--'Que mais quer saber? Sinto que lhe posso dizer tudo: não o conheço, +mas...' + +--'Mas deve conhecer-me por um homem que se interessa vivamente...' + +--'Em quê? nas eleições, na agiotagem, nos bens nacionaes?' + +--'Não senhor. Fui camarada de Carlos, não o vejo ha muitos annos e...' + +--'Nem o conhecia se o visse agora: ingordou, inriqueceu, e é barão...' + +--'Barão!' + +--'É barão, e vai ser deputado qualquer dia.' + +--'Que transformação! Como se fez isso, sancto Deus! E Joanninha e +Georgina?' + +--'Joanninha inlouqueceu e morreu. Georgina é abbadessa de um convento +em Inglaterra.' + +--'Abbadessa?' + +--'Sim. Converteu-se á communhão catholica; era ricca, fundou um +convento em ----shire e lá está servindo a Deus.' + +--'E ésta pobre senhora, a avó de Joanninha?' + +--'Ahi está como a ve, morta de alma para tudo. Não ve, não ouve, não +falla, e não conhece ninguem. Joanninha veio morrer aqui n'esta fatal +casa do valle, eu estava ausente, expirou nos braços d'ella e de +Georgina. Desde esse instante a avó cahiu n'aquelle estado. Está morta, +e não espero aqui senão a dissolução do corpo para o interrar, se eu não +for primeiro, e Deus queira que não! quem hade tomar conta d'ella, ter +charidade com a pobre da demente? Mas depois... oh! depois... espero no +Senhor que se compadeça emfim de tanto soffrer e me leve para si.' + +--'Mas Carlos?' + +--'Carlos é barão: não lh'o disse ja?' + +--'Mas por ser barão?..' + +--'Não sabe o que é ser barão?' + +--'Oh se sei! Tam poucos temos nós?' + +--'Pois barão é o succedaneo dos...' + +--'Dos frades... Ruim substituição!' + +--'Vi um dos taes papeis liberaes em que isso vinha: e é a unica coisa +que leio d'essas ha muitos annos. Mas fizeram-m'o ler.' + +--'E que lhe pareceu?' + +--'Bem escripto e com verdade. Tivemos culpa nós, é certo; mas os +liberaes não tiveram menos.' + +--'Errámos ambos.' + +--'Errámos e sem remedio. A sociedade ja não é o que foi, não póde +tornar a ser o que era;--mas muito menos ainda póde ser o que é. O que +hade ser, não sei. Deus proverá.' + +Ditto isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviario e poz-se a rezar. +A velha dobava sempre, sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos +alguns segundos. Nenhum me deu mais attenção nem pareceu conscio da +minha estada alli. + +Sentia-me como na presença da morte e atterrei-me. + +Fiz um esfôrço sôbre mim, fui deliberadamente ao meu cavallo, montei, +piquei desesperado d'esporas, e não parei senão no Cartaxo. + +Incontrei alli os meus companheiros; era tarde, fomos ficar fóra da +villa á hospedeira casa do Sr. L. S. + +Rimos e folgámos até alta noite: o resto dormimos a somno sôlto. + +Mas eu sonhei com o frade, com a velha--e com uma enorme constellação de +barões que luzia n'um ceu de papel, d'onde choviam, como farrapos de +neve, n'uma noite pollar, notas azues, verdes, brancas, amarellas, de +todas as côres e matizes possiveis. Eram milhões e milhões e milhões... + +Nunca vi tanto milhão, nem ouvi fallar de tanta riqueza senão nas mil e +uma noites. + +Acordei no outro dia e não vi nada... so uns pobres que pediam esmola á +porta. + +Metti a mão na algibeira, e não achei senão notas... papeis! + +Parti para Lisboa cheio de agoiros, de inguiços e de tristes +presentimentos. + +O vapor vinha quasi vazio, mas nem por isso andou mais depressa. + +Eram boas cinco horas da tarde quando desimbarcámos no Terreiro-do-Paço. + +Assim terminou a nossa viagem a Santarem: e assim termina este livro. + +Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De +todas quantas viagens porêm fiz, as que mais me interessaram sempre +foram as viagens na minha terra. + +Se assim o pensares, leitor benevolo, quem sabe? póde ser que eu tome +outra vez o bordão de romeiro, e va perigrinando por esse Portugal fóra, +em busca de historias para te contar. + +Nos caminhos de ferro dos barões é que eu juro não andar. + +Escusada é a jura porêm. + +Se as estradas fossem de papel, fa-las-iam, não digo que não. + +Mas de metal! + +Que tenha o govêrno juizo, que as faça de pedra, que póde, e viajaremos +com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra. + + + + +NOTAS + + + + +NOTAS + +AO LIVRO SEGUNDO. + + + +*Nota A.* + + + Ficámos sem Nibelungen + + pag. 3. + + + +Collecção de antigas rhapsodias germanicas contendo o maravilhoso e +poetico de suas origens historicas e que é para os povos theutonicos o +que era a Ilíada para os hellenos. So se não sabe o nome do Homero +allemão que as redigiu e uniformizou como hoje se acham. + + +*Nota B.* + + + Caranguejar para as Lamas + + pag. 3. + + + +Fundo baixo do Tejo, ao longo da praia de Sanctos, que tem este nome e é +onde vão apodrecer as carcassas dos navios velhos e ja inuteis. + + +*Nota C.* + + + Os pés no _fender_ + + pag. 4. + + + +Fender se chama em inglez a pequena e baixa tea de metal que defende o +fogão nas salas, paraque não caiam brazas nos sobrados. Descançam n'elle +os pés naturalmente quando a gente se está confortavelmente aquecendo em +liberdade. + + +*Nota D.* + + + Perfumados resplendores do _Old sack_ + + pag. 5. + + + +Tem-se disputado muito sôbre qual seja a bebida espirituosa celebrada +por Shakspeare tantas vezes com este nome. A opinião mais acceita é que +fosse boa e velha aguardente de França. + + +*Nota E.* + + + Renegaram de San'Tiago por castelhano + + pag. 5. + + + +O grito de guerra commum a todas as nações christans hespanholas era: +San'Tiago! Quando na accessão da casa de Avis nos alliámos intimamente +com a Inglaterra contra Castella, começámos a invocar San'Jorge. + + +*Nota F.* + + + Vacca e riso de Fr. Bartholomeu dos Martyres + + pag. 9. + + + +Singela e original expressão do sancto arcebispo n'uma carta de convite +a um seu amigo. Fez-se, como devia ser, proverbial ésta phrase. + + +*Nota G.* + + + Feliz expressão do Sr. Conde de Raczinski + + pag. 124. + + + +Na sua obra intitulada 'Les arts en Portugal', Paris 1845. + + +*Nota H.* + + + O centro perde o centro de gravidade, o barbas arrepella as barbas + + pag. 127. + + + +Centro e barbas são qualificações e nomes de impregos theatraes. + + + + +INDICE. + + +Capitulo XXVI--Modo de ler os auctores antigos, e os modernos +tambem.--Horacio na sacra-via.--Duarte Nunes iconoclasta da nossa +historia.--A policia e os barcos de vapor.--Os vandalos do feliz systema +que nos rege.--Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo +de _old-sack_ sôbre a banca.--Sir John Falstaff se foi maior homem que +Sancho-Pansa?--Grande e importante descuberta archeologica sôbre +San'Tiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.--Próva-se a vinda d'este +último a Portugal.--O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e +Abeillard no Père-la-Chaise.--Bentham e Camões.--Chega o auctor á sua +janella, e pasmosa _miragem_ poetica produzida por umas oitavas dos +Lusiadas.--De como em fim proseguem éstas viagens para Santarem, e que +feito será de Joanninha. 1 + +Capitulo XXVII--Chegada a Santarem.--Olivaes de +Santarem.--Fóra-de-Villa.--Symetria que não é para os olhos.--Modo de +medir os versos da biblia.--Architectura pedante do seculo +XVII.--Entrada na Alcáçova. 11 + +Capitulo XXVIII--Depois de muito procurar acha em fim o auctor a egreja +de Sancta-Maria d'Alcáçova.--Stylo da architectura nacional perdido.--O +terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do Passeio-público +de Lisboa.--O chefe do partido progressista portuguez no alcassar de D. +Affonso Henriques.--Deliciosa vista dos arredores de Santarem observada +de uma janella da Alcáçova, de manhan.--É tomado o auctor de ideas +vagas, poeticas, phantasticas como um sonho.--Introducção do +Fausto.--Difficuldade de traduzir os versos germanicos nos nossos +dialectos romanos. 19 + +Capitulo XXIX--Doçuras da vida.--Imaginação e sentimento.--Poetas que +morreram moços e poetas que morreram velhos.--Como são escriptas éstas +viagens.--Livro de pedra. Criança que brinca com elle.--Ruinas e +reparações.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.--Sancta +Iria ou Irene, e Sanctarem.--Romance de Sancta Iria.--Quantas sanctas ha +em Portugal d'este nome? 29 + +Capitulo XXX--Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o +romance popular. 39 + +Capitulo XXXI--Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em +verso e Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de +architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As salgadeiras +de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de Santarem.--Voltemos á historia +de Fr. Diniz e da menina dos olhos verdes. 49 + +Capitulo XXXII--Tornâmos á historia do Joanninha.--Preparativos de +guerra.--A morte.--Carlos ferido e prisioneiro.--O hospital.--O +infermeiro.--Georgina. 55 + +Capitulo XXXIII--Carlos e Georgina. Explicação.--Ja te não amo! palavra +terrivel.--Que o amor verdadeiro não é cego.--Frade no caso outra vez. +_Ecce iterum Crispinus_; ca está o nosso Fr. Diniz comnosco. 69 + +Capitulo XXXIV--Carlos, Georgina e Fr. Diniz.--A peripecia do drama. 79 + +Capitulo XXXV--Reunião de toda a familia.--Explicação dos mysterios.--O +coração da mulher.--Parricidio.--Carlos beija emfim a mão a Fr. Diniz e +abraça a pobre da avó. 87 + +Capitulo XXXVI--Que não se acabou a historia de Joanninha.--Processo ao +coração de Carlos.--Immoralidade.--Defeito de organização não é +immoralidade.--Horror, horror, maldicção!--Um barão que não pertence á +familia lineana dos barões propriamente dittos.--Porta de +Atamarma.--Senatus consulto santareno.--Nossa Senhora da Victoria +_afforada_.--Threnos sôbre Santarem. 99 + +Capitulo XXXVII--A Graça e sua bella fachada gothica.--Sepultura de +Pedr'alvares Cabral.--Outro barão que não é dos assignalados.--Egreja do +Sancto-milagre.--Bellos medalhões mosarabes.--De como, chegando o prior +e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que +solemnidades.--Monumento da muito alta e poderosa princeza a infanta D. +Maria da Assumpção.--Casa onde succedeu o milagre convertida em capella +de stylo philippino.--O homem das botas, e o que tem elle que haver com +o Sancto-milagre de Santarem.--Admiravel e graciosa esperteza da +regencia do Rocio.--Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos +folgasões, os melhores governos possiveis.--Volta o paladio scalabitano +de Lisboa para Santarem. 111 + +Capitulo XXXVIII--Jantar nos reaes paços de Affonso Henriques.--Sautés e +salmis.--Desce o A. á Ribeira de Santarem em busca da tenda do +Alfageme.--A espada do Condestavel.--Desappontamento.--O salão elegante. +Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis. Tudo melhor quando visto +de longe.--O baile público.--Soirée de piano obrigado.--Theatro. +Desaffinações da prima-dona.--Syphlis incuravel das traducções. +Destempêro dos originaes.--A xácara de rigor, o subterraneo e o +cemiterio.--Sublime gallimathias do ridiculo.--A bella e necessaria +palavra 'gallimathias.'--Se as saudades matam.--Perigo de applicar o +scalpello ou a lente ao mais perfeito das coisas humanas.--De como a +logica é a mais perniciosa de todas as incoherencias. 121 + +Capitulo XXXIX--Processo de scepticismo em que está o +auctor.--Moralistas de _requiem_.--O maior sonho d'esta vida, a +logica.--Differença do poeta ao philosopho.--O coração de Horacio.--O +collegio de Santarem.--Jesuitas e templarios.--O alliado natural dos +reis:--'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que 'Ficar no +tinteiro'.--San'Frei Gil e o Doutor Fausto.--De como o A. foi ao tumulo +do sancto bruxo e o achou vazio.--Quem o roubaria? 131 + +Capitulo XL--As Claras.--Aventura nocturna.--Se as freiras mettem medo +aos liberaes? O Psalmo.--Tres frades.--Práctica do franciscano.--O corpo +de San' Fr. Gil.--Que se hade fazer das freiras?--Mal do govêrno que +deixar comer mais aos barões. 141 + +Capitulo XLI--O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta +prespicacia do leitor benevolo.--Grande lacuna na nossa +historia.--Porque se não preenche?--Página preta na historia de Tristam +Shandy.--Novellas e romances, livros insignificantes.--O adro de +San'Francisco e as suas acacias.--Que será feito de Joanninha?--O peito +da mulher do norte.--Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas +ruinas.--A corneta do soldado e a trombeta do juizo final.--Eheu, +Portugal, eheu! 151 + +Capitulo XLII--Protesto do auctor.--Desaffinação dos nervos.--O que é +preciso para que as ruinas sejam solemnes e sublimes.--Que Deus está no +Colliseu assim como em San'Pedro.--Quer-se o auctor ir embora de +Santarem.--Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?--Em que estado se +acha este.--Exemplar de stylo byzantino.--Coroa real sôbre a caveira.--O +rei d'espadas e o symbolo do imperio.--Quem nunca viu o rei cuida que é +de oiro.--Brutalidades da soldadesca n'um tumulo real.--O que se acha +nas sepulturas dos reis.--A phrenologia.--Vindicta pública, tardia mas +ultrajante.--Camões e Duarte Pacheco.--A sombra falsa da +religião.--Regimen dos barões e da materia.--A prosa e a poesia do +povo.--Synthese e anályse.--O senso íntimo.--Se o auctor é demagogo ou +Jesuita?--Jesu Christo e os barões. 157 + +Capitulo XLIII--Partida de Santarem.--Pinacotheca.--Impaciencia e +saudades.--Sexta-feira.--Martyrio obscuro.--A figura do +peccado.--Estamos no valle outra vez.--Evocação de incanto.--A irman +Francisca e Fr. Diniz.--A teia de Penelope.--E Joanninha?--Joanninha +está no ceo.--A mulher morta a dobar esperando que a interrem.--A +esperança, virtude do christianismo.--Uma carta. 167 + +Capitulo XLIV--Carta de Carlos a Joanninha. 177 + +Capitulo XLV--Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 187 + +Capitulo XLVI--Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 195 + +Capitulo XLVII--Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 207 + +Capitulo XLVIII--Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 215 + +Capitulo XLIX--De como Carlos se fez barão.--Fim da historia da +Joanninha.--Georgina abbadessa.--Juiso de Fr. Diniz sôbre a questão dos +frades e dos barões.--Que não póde tornar a ser o que foi, mas muito +menos póde ser o que é? O que hade ser, Deus o sabe e proverá.--Vai o A. +dormir ao Cartaxo.--Sonho que ahi tem.--Volta a Lisboa.--Caminhos de +ferro e de papel.--Conclusão da viagem e d'este livro. 227 + +Notas 237 + + + + +Notas: + +[1] Transcrevemos aqui o original allemão, para se avaliar o que fica +ditto no texto. + + Ihr naht euch wieder, schwankende Gestalten, + Die früh sich einst dem trüben Blick gezeigt. + Versuch ich wohl euch diesmal fest zu halten? + Fühl' ich mein Herz noch jenem Wahn geneigt? + Ihr drängt euch zu! nun gut, so mögt ihr walten + Wie ihr aus Dunst und Nebel um mich steigt; + Mein Busen fühlt sich jugendlich erschüttert + Vom Zauberhauch, der euren Zug umwittert. + Ihr bringt mit euch die Bilder froher Tage, + Und manche liebe Schatten steigen auf; + Gleich einer halbverklungen Sage + Commt erste Lieb' und Freundschaft mit herauf; + Der Schmerz wird neu, es wiederholt die klage + Des lebens labyrintisch irren Lauf, + Und nennt die Guten, die, um schöne Stunden + Vom Glück getäuscht, vor mir hinweggeschwunden + +[2] Nas notas a Adozinda, vol. I do 'Romanceiro,' nota N, citei +differentemente ésta copla pela imperfeita licção de um Ms. do Minho, +unico que tinha á mão. + +[3] Outra licção, e talvez melhor diz _a coitada_. + +[4] Thomar. + +[5] De frades e de freiras. + +[6] Deus, venerunt gentes in hereditatem tuam. Ps. 78. + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+----------------------+----------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+----------------------+----------------------+ + |#pág. 2| et mos | est mos* | + |#pág. 5| Faltaffs | Falstaffs | + |#pág. 17| San'João-de-Alpiarça | San'João do Alporão* | + |#pág. 17| egrea | egreja* | + |#pág. 43| retiraam | retiraram | + |#pág. 50| recordam | memoram* | + |#pág. 62| stil | still* | + |#pág. 81| da intranhas | das intranhas | + |#pág. 99| Horor | Horror | + |#pág. 118| quelle | aquelle | + |#pág. 118| digno do ornar | digno de ornar | + |#pág. 119| LisboaTejo | Lisboa Tejo | + |#pág. 123| confrontar- algum | confrontar algum | + |#pág. 138| extistencia | existencia | + |#pág. 213| com com | com | + |#pág. 217| desdescrevi | descrevi | + |#pág. 218| ma curado | mal curado | + |#pág. 241| modernas | modernos | + |#pág. 241| Flastaff | Falstaff | + +----------+----------------------+----------------------+ + + +* correcções feitas com base na errata do próprio livro. + +Shakespeare, San' Thiago e Joanninha surgem neste livro como Shakspeare, +San'Tiago e Joaninha respectivamente. Dada a repetitividade constante, +decidi manter de acordo com o original. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra, by +João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA *** + +***** This file should be named 24401-8.txt or 24401-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/4/0/24401/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. 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Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/24401-8.zip b/24401-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b2f836f --- /dev/null +++ b/24401-8.zip diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..39f9baf --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #24401 (https://www.gutenberg.org/ebooks/24401) |
