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+The Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra, by
+João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Viagens na Minha Terra
+ (Completo)
+
+Author: João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett
+
+Release Date: January 22, 2008 [EBook #24401]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+ *Nota de editor:* Devido à quantidade de erros tipográficos
+ existentes neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à
+ versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com
+ o original. No final do primeiro e segundo volumes deste livro
+ encontrará listas de erros corrigidos.
+
+ Rita Farinha (Jan. 2008)
+
+
+
+
+OBRAS
+
+DE
+
+J. B. DE A. GARRETT.
+
+VIII.
+
+(PRIMEIRO DAS VIAGENS)
+
+
+
+
+VIAGENS NA MINHA TERRA
+
+
+POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.
+
+
+I
+
+
+LISBOA
+NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.
+1846.
+
+
+
+
+Os editores d'esta obra, vendo a popularidade extraordinaria que ella
+tinha publicada em fragmentos na _Revista_, intenderam fazer um serviço
+ás lettras e á gloria do seu paiz, imprimindo-a agora reunida em um
+livro, para melhor se podêr avaliar a variedade, a riqueza e a
+originalidade de seu stylo inimitavel, da philosophia profunda que
+incerra, e sôbre tudo o grande e transcendente pensamento moral a que
+sempre tende, ja quando folga e ri com as mais graves coisas da vida, ja
+quando seriamente discute por suas leviandades e pequenezas.
+
+As _Viagens na minha terra_, são um d'aquelles livros raros que so
+podiam ser escriptos por quem, como o auctor de _Camões_ e de _Catão_,
+de _D. Branca_ e do _Portugal na Balança da Europa_, do _Auto de
+Gil-Vicente_ e do _Tractado de Educação_, do _Alfageme_ e de _Fr. Luiz
+de Souza_, do _Arco de Sanct'Anna_ e da _Historia Litteraria de
+Portugal_, de _Adozinda_ e das _Leituras Historicas_ e de tantas
+producções de tam variado genero, possue todos os stylos e, dominando
+uma lingua de immenso podêr, a costumou a servir-lhe e
+obedecer-lhe;--por quem com a mesma facilidade sobe a orar na tribuna,
+entra no gabinete nas graves discussões e demonstrações da sciencia--voa
+ás mais altas regiões da lyrica, da epopeia e da tragedia, lida com as
+fortes paixões do drama, e baixa ás não menos difficeis trivialidades da
+comedia;--por quem ao mesmo tempo, e como que mudando de natureza, póde
+dar-se todo ás mais aridas e materiaes ponderações da administração e da
+politica, e redigir com admiravel precisão, com uma exacção ideologica
+que talvez ninguem mais tenha entre nós, uma lei administrativa ou de
+instrucção pública, uma constituição politica, ou um tractado de
+commercio.
+
+Orador e poeta, historiador e philosopho, crítico e artista,
+jurisconsulto e administrador, erudito e homem d'Estado, religioso
+cultor da sua lingua e falando correctamente as extranhas--educado na
+pureza classica da antiguidade, e versado depois em todas as outras
+litteraturas--da meia-edade, da renascença e contemporanea--o auctor das
+Viagens Na Minha Terra é egualmente familiar com Homero e com o Dante,
+com Platão e com Rousseau, com Thucidides e com Thiers, com Guizot e com
+Xenophonte, com Horacio e com Lamartine, com Machiavel e com
+Chateaubriand, com Shakspeare e Euripedes, com Camões e Calderon, com
+Goethe e Virgilio, Schiller e Sá-de-Miranda, Sterne e Cervantes, Fenelon
+e Vieira, Rabelais e Gil-Vicente, Addison e Bayle, Kant e Voltaire,
+Herder e Smith, Bentham e Cormenin, com os Encyclopedistas e com os
+Sanctos-Padres, com a Biblia e com as tradicções sanscritas, com tudo o
+que a arte e a sciencia antiga, com tudo o que a arte emfim e a sciencia
+moderna teem produzido. Ve-se isto dos seus escriptos, e especialmente
+se ve d'este que agora publicâmos apezar de composto bem claramente ao
+correr da penna.
+
+Mas ainda assim, e com isto somente, elle não faria o que faz se não
+junctasse a tudo isso o profundo conhecimento dos homens e das coisas,
+do coração humano e da razão humana; se não fosse, além de tudo o mais,
+um verdadeiro homem do mundo, que tem vivido nas côrtes com os
+principes, no campo com os homens de guerra, no gabinete com os
+diplomaticos e homens d'Estado, no parlamento, nos tribunaes, nas
+academias, com todas as notabilidades de muitos paizes--e nos salões
+emfim com as mulheres e com os frivolos do mundo, com as elegancias e
+com as falsidades do seculo.
+
+De tantas obras de tam variado genero com que, em sua vida ainda tam
+curta, este fecundo escriptor tem inriquecido a nossa lingua, é ésta
+talvez, tornâmos a dizer, a que elle mais descuidadamente escreveu: mas
+é tambem a que, em nossa opinião, mais mostra os seus immensos podêres
+intellectuaes, a sua erudição vastíssima, a sua flexibilidade de stylo
+espantosa, uma philosophia transcendente, e por fim de tudo, o natural
+indulgente e bom de um coração recto, puro, amigo da justiça, adorador
+da verdade, e inimigo declarado de todo o sophisma.
+
+Tem sido accusado de sceptico: é a accusação mais absurda e que so
+denuncia, em quem a faz, ou grande ignorancia ou grande má fe. Quando o
+nosso auctor lança mão da cortante e destruidora arma do sarcasmo, que
+elle maneja com tanta fôrça e dexteridade, e que talvez por isso mesmo,
+conscio de seu podêr, elle rara vez toma nas mãos--veja-se que é sempre
+contra a hypocrisia, contra os sophismas, e contra os hypocritas e
+shopistas de _todas as côres_, que elle o faz. Crenças, opiniões,
+sentimentos, respeita-os sempre. As mesmas suas ironias que tanto ferem,
+não as dirige nunca sôbre individuos; ve-se que despreza a facil
+vingança que, com tam poderosas armas, podia tomar de inimigos que o não
+poupam, de invejosos que o calumniam, e a quem, por cada dicterio
+insulso e ephemero com que o teem pretendido injuriar, elle podia
+condemnar ao eterno oppróbrio de um pelourinho immortal como as suas
+obras. Ainda bem que o não faz! mais immortaes são as suas obras, e
+quanto a nós, mais punidas ficam os seus emulos com esse desprêzo do
+homem superior que se não appercebe de sua malignidade insulsa e
+insignificante.
+
+Voltando á accusação de septicismo, ainda dizemos que não póde ser
+septico o espirito que concebeu, e em si achou côres com que pintar tam
+vivos, characteres de crenças tam fortes como o de Catão, de Camões, de
+Fr. Luiz de Sousa,--e aqui n'esta nossa obra, os de Fr. Diniz, de
+Joanninha, da Irman Francisca.
+
+Não analysâmos agora as Viagens Na Minha Terra: a obra não está ainda
+completa e não podia completar-se portanto o juizo; dizemos somente o
+que todos dizem e o que todos podem julgar ja.
+
+A nosso rôgo, e por fazer mais digna da sua reputação ésta segunda
+publicação da obra, o auctor prestou-se a dirigi-la elle mesmo,
+corrigiu-a, additou-a, alterou-a em muitas partes, e a illustrou com as
+notas mais indispensaveis para a geral intelligencia do texto: de modo
+que sahirá muito melhorada agora do que primeiro se imprimiu.
+
+
+
+
+VIAGENS NA MINHA TERRA.
+
+
+ Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraitre
+ tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main,
+ comme une cométe inattendue étincelle dans l'espace!
+
+ X. DE MAISTRE.
+
+
+
+
+CAPITULO I.
+
+
+ De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar na sua
+ terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu
+ immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem.
+ Chega ao Terreiro-do-Paço, imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que
+ ahi lhe succede. A Deducção-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord
+ Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os Ilhavos e os
+ Bordas-d'agua: os da calça larga levam a melhor.
+
+
+Que viage á roda do seu quarto quem está á beira dos Alpes, de hynverno,
+em Turim, que é quasi tam frio como San'Petersburgo--intende-se. Mas com
+este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na
+horta, e o mato é de murta, o proprio _Xavier de Maistre_, que aqui
+escrevesse, ao menos ia até o quintal.
+
+Eu muitas vezes, n'estas suffocadas noites d'estio, viajo até á minha
+janella para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me
+inganar com uns verdes de árvores que alli vegetam sua laboriosa
+infancia nos intulhos do Caes-do-Sodré. E nunca escrevi éstas minhas
+viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre
+ambiciosa a minha penna: pobre e suberba, quer assumpto mais largo. Pois
+hei de dar-lh'o. Vou nada menos que a Santarem: e protesto que de quanto
+vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se hade fazer chronica.
+
+Era uma idea vaga, mais desejo que tenção, que eu tinha ha muito de ir
+conhecer as riccas varzeas d'esse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a
+mais historica e monumental das nossas villas. Aballam-me as instancias
+de um amigo, decidem-se as tonterias de um jornal, que por mexeriquice
+quiz incabeçar em designio politico determinado a minha visita.
+
+Pois por isso mesmo vou:--_pronunciei-me_.
+
+São 17 d'este mez de julho, anno de graça de 1843, uma segunda-feira,
+dia sem nota e de boa estrea. Seis horas da manham a dar em San'Paulo, e
+eu a caminhar para o Terreiro-do-Paço. Chego muito a horas, invergonhei
+os meus madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se
+prezam de mais matutinos homens que eu. Ja vou quasi no fim da praça,
+quando oiço o rodar grave mas pressuroso de uma carroça _d'ancien
+règime_: é o nosso chefe e commandante, o capitão da impreza, o Sr. C.
+da T. que chega em estado.
+
+Tambem são chegados os outros companheiros: o sino dá o último rebate.
+Partimos.
+
+N'uma _regata_ de vapores o nosso barco não ganhava decerto o premio. E
+se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns isthmicos ou
+olympicos para este genero de carreiras--e se para ellas houver algum
+Pindaro ancioso de correr, em strophes e antistrophes, atraz do vencedor
+que vai coroar de seus hymnos immortaes--não cabe nem um triste minguado
+epodo a este cançado corredor de Villa-nova. É um barco serio e sizudo
+que se não mette n'essas andanças.
+
+Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e
+pittoresco amphitheatro de Lisboa oriental, que é, vista de fóra, a mais
+bella e grandiosa parte da cidade, a mais characteristica, e onde, aqui
+e alli, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se
+adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das chronicas. Da Fundição para
+baixo tudo é prosaico e burguez, chato, vulgar e semsabor como um
+periodo da _Deducção Chronologica_, aqui e alli assoprado n'uma
+tentativa ao grandioso do mau gôsto, como alguma oitava menos rasteira
+do _Oriente_.
+
+Assim o povo, que tem sempre melhor gôsto e mais puro do que essa escuma
+descórada que anda ao decima das populações, e que se chama a si mesma
+por excellencia a _Sociedade_, os seus passeios favoritos são a
+Madre-de-Deus e o Beato e Xabregas e Marvilla e as hortas de Chellas. A
+um lado a immensa majestade do Tejo em sua maior extensão e podêr, que
+alli mais parece um pequeno mar mediterraneo; do outro a frescura das
+hortas e a sombra das árvores, palacios, mosteiros, sitios consagrados
+todos a recordações grandes ou queridas. Que outra sahida tem Lisboa que
+se compare em belleza com ésta? Tirado Bellem, nenhuma. E ainda assim,
+Bellem é mais arido.
+
+Já saudámos Alhandra, a toireira; Villa-franca, a que foi de Xira, e
+depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal
+restauração cahiu, como a todas as restaurações sempre succede e hade
+succeder, em odio e execração tal que nem uma pobre villa a quiz para
+sobrenome.
+
+--'A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar
+a gente de um govérno de patuscos, que é o mais odioso e ingulhoso dos
+governos possiveis.'
+
+É a reflexão com que um dos nossos companheiros de viajem accudiu ao
+princípio de ponderação que eu ia involuntariamente fazendo a respeito
+de Villa-franca.
+
+Mas eu não tenho odio nenhum a Villa-franca, nem a esse famoso cirio que
+lá foi fazer à velha monarchia. Era uma coisa que estava na ordem das
+coisas, e que por fôrça havia de succeder. Este necessario e inevitavel
+reviramento por que vai passando o mundo, hade levar muito tempo, hade
+ser contrastado por muita reacção antes de completar-se...
+
+No entretanto vamos accender os nossos charutos, e deixemos os precintos
+aristocraticos da ré: á proa, que é paiz de cigarro livre!
+
+Não me lembra que lord Byron celebrasse nunca o prazer de fummar a
+bórdo. È notavel esquecimento no poeta mais imbarcadiço, mais marujo que
+ainda houve, e que até cantou o injôo, a mais prosaica e nauseante das
+miserias da vida! Pois n'um dia d'estes, sentir na face e nos cabellos a
+brisa refrigerante que passou por cima da agua, em quanto se aspiram
+mollemente as narcoticas exhalações de um bom cigarro da Havana, é uma
+das poucas coisas sinceramente boas que ha n'este mundo.
+
+Fummemos!
+
+Aqui está um campino fummando gravemente o seu cigarro de papel, que me
+vai imprestar lume.
+
+'Dou-lh'o eu, senhor...' accode cortezmente outra figura mui diversa,
+cujas feições, trajo e modos singularmente contrastam com os do
+_musarabe_ ribatejano.
+
+Accenderam-se os charutos, e attentámos mais de vagar na companhia em
+que estavamos.
+
+Era com effeito notavel e interessante o grupo a que nos tinhamos
+chegado, e destacava pittorescamente do resto dos passageiros, mistura
+hybrida de trajos e feições descharacterizadas e vulgares--que abunda
+nos arredores de uma grande cidade maritima e commercial.--Não assim
+este grupo mais separado com que fomos topar. Constava elle de uns dôze
+homens; cinco eram d'esses famosos athletas da Alhandra que vão todos os
+domingos colher o _pulverem olympicum_ da praça de Sanct'Anna, e que, á
+voz soberana e irresistivel de: _á unha, á unha, á cernelha!_.... correm
+a arcar com mais generosos, não mais possantes, animaes que elles, ao
+som das immensas palmas, e a trôco dos raros pintos por que se manifesta
+o sempre clamoroso e sempre vazio enthusiasmo das multidões. Voltavam á
+sua terra os meus cinco luctadores ainda em trajo de praça, ainda
+esmurrados e cheios de glória da contenda da vespera. Mas aopé d'estes
+cinco e de altercação com elles--ja direi porquê--estavam seis ou sette
+homens que em tudo pareciam os seus antipodas.
+
+Emvez do calção amarello e da jaqueta de ramagem que caracterizam o
+homem do forcado, estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos, e o
+tabardo arrequifado siciliano de panno de varas. O campino, assim como o
+saloio, tem o cunho da raça africana; estes são da familia pelasga:
+feições regulares e moveis, a fórma agil.
+
+Ora os homens do norte estavam disputando com os homens do sul: a
+questão fôra interrompida com a nossa chegada á proa do barco. Mas um
+dos Ilhavos--bella e poetica figura de homem--voltando-se para nós,
+disse n'aquelle seu tom accentuado:--'Ora aqui está quem hade decidir:
+vejam-n'os senhores. Elles, por agarrar um toiro, cuidam que são mais
+que ninguem, que não ha quem lhes chegue. E os senhores, a serem ca de
+Lisboa, hãode dizer que sim. Mas nós...'
+
+--Nenhum de nós é de Lisboa: so este senhor que aqui vem agora.
+
+Era o C. da T. que chegava.
+
+--'Este conheço eu; este é dos nossos (bradou um homem de forcado, assim
+que o viu). Isto é um fidalgo como se quer. Nunca o vi n'uma ferra, isso
+é verdade; mas aqui de Vallada a Almeirim ninguem corre mais do que elle
+por sol e por chuva, e hade saber o que é um boi de lei, e o que é lidar
+com gado.'
+
+--'Pois oiçamos lá a questão.'
+
+--'Não é questão'--tornou o Ilhavo: 'mas se este senhor fidalgo anda por
+Almeirim, para Almeirim vamos nós, que era uma charneca o outro dia, e
+hoje é um jardim, benza-o Deus!--mas não foram os campinos que o
+fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que é, e
+fez terra das areas da charneca.'
+
+--'Lá isso é verdade'.
+
+--'Não, não é! Que está forte habilidade fazer dar trigo aqui aos
+nateiros do Tejo, que é como quem semeia em manteiga. É uma lavoira que
+a faz Deus por sua mão, regar e adubar e tudo: e o que Deus não faz, não
+fazem elles, que nem sabem ter mão n'esses monchões c'o plantio das
+arvores: so lá por cima é que algumas teem mettido, e é bem pouco para o
+rio que é, e as riccas terras que lhes levam as inchentes.--Mas nós, pe
+no barco pe na terra, tam depressa estamos a sachar o milho na charneca,
+como vimos por ahi abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar
+n'area por não haver agua... mas sempre labutando pela vida'.
+
+--'A fôrça é que se falla'--tornou o campino para estabelecer a questão
+em terreno que lhe convinha.--'A fôrça é que se falla: um homem do campo
+que se deita alli á cernelha de um toiro que uma companha inteira de
+varinos lhe não pegava, com perdão dos senhores pelo rabo!..'
+
+E reforçou o argumento com uma gargalhada triumphante, que achou echo
+nos interessados circumstantes que ja se tinham apinhado a ouvir os
+debates.
+
+Os Ilhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciencia da sua
+superioridade, mas acanhados pela algazarra.
+
+Parecia a esquerda de um parlamento quando ve sumir-se, no borburinho
+acintoso das turbas ministeriaes, as melhores phrases e as mais fortes
+razões dos seus oradores.
+
+Mas o orador ilhavo não era homem de se dar assim por derrotado. Olhou
+para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto
+expressivo, e voltando-se a nós, com a direita estendida aos seus
+antagonistas:
+
+--'Então agora como é de fôrça, quero eu saber, e estes senhores que
+digam, qual é que tem mais fôrça, se é um toiro ou se é o mar'.
+
+--'Essa agora!..'
+
+--'Queriamos saber'.
+
+--'É o mar'.
+
+--'Pois nós que brigâmos com o mar, oito e dez dias a fio n'uma
+tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro,
+qual é que tem mais fôrça?'
+
+Os campinos ficaram cabisbaixos; o publico imparcial applaudiu por ésta
+vez a opposição, e o Vouga triumphou do Tejo.
+
+
+
+
+CAPITULO II.
+
+
+ Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens. Faz o A.
+ modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e
+ mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha D.
+ Quixote, e por seu escudeiro Sancho Pança.--Chegada a
+ Villa-Nova-da-Rainha, Supplicio de Tantalo.--A virtude galardão de
+ si mesma; e sophisma de Jeremias Bentham.--Azambuja.
+
+
+Éstas minhas interessantes viagens hãode ser uma obra prima, erudita,
+brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do seculo. Preciso de o
+dizer ao leitor, paraque elle esteja previnido; não cuide que são
+quaesquer d'essas rabiscaduras da moda que, com o titulo de _Impressões
+de Viagem_, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum
+proveito da sciencia e do adiantamento da especie.
+
+Primeiro que tudo, a minha obra é um symbolo... é um mytho, palavra
+grega, e de moda germanica, que se mette hoje em tudo e com que se
+explica tudo... quanto se não sabe explicar.
+
+É um mytho porque--porque... Ja agora rasgo o veo, e declaro abertamente
+ao benevolo leitor a profunda idea que está occulta debaixo d'esta
+ligeira apparencia de uma viagemzita que parece feita a brincar, e no
+fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada com um livro novo da
+feira de Leipsick, não das taes brochurinhas dos _boulevards_ de Paris.
+
+Houve aqui ha annos um profundo e cavo philosopho d'alêm Rheno, que
+escreveu uma obra sôbre a marcha da civilização, do intellecto--o que
+diriamos, para nos intenderem todos melhor, _o Progresso_. Descobriu
+elle que ha dois principios no mundo: o _espiritualista_, que marcha sem
+attender á parte material e terrena d'esta vida, com os olhos fittos em
+suas grandes e abstractas theorias, hirto, sêcco, duro, inflexivel, e
+que póde bem personalizar-se, symbolizar-se pelo famoso mytho do
+cavalleiro da Mancha, D. Quixote;--o _materialista_, que, sem fazer caso
+nem cabedal d'essas theorias, em que não crè, e cujas impossiveis
+applicações declara todas utopias, póde bem representar-se pela rotunda
+e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança.
+
+Mas, como na historia do malicioso Cervantes, estes dois principios tam
+avessos, tam desincontrados, andam comtudo junctos sempre; ora um mais
+atraz, ora outro mais adiante, impecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se
+poucas, mas _progredindo_ sempre.
+
+E aqui está o que é possivel ao progresso humano.
+
+E eisaqui a chronica do passado, a historia do presente, o programma do
+futuro.
+
+Hoje o mundo é uma vasta Barataria, em que domina elrei Sancho.
+
+Depois hade vir D. Quixote.
+
+O senso commum virá para o millenio: reinado dos filhos de Deus! Está
+promettido nas divinas promessas... como elrei de Prussia prometteu uma
+constituição; e não faltou ainda, porque--porque o contracto não tem
+dia; prometteu mas não disse para quando.
+
+Ora n'esta minha viagem Tejo-a-riba está symbolizada a marcha do nosso
+progresso social: espero que o leitor intendesse agora. Tomarei cuidado
+de lh'o lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça.
+
+Somos chegados ao triste desimbarcadoiro de Villa-Nova-da-Rainha, que é
+o mais feio pedaço de terra alluvial em que ainda poisei os meus pés. O
+sol arde como ainda não ardeu este anno.
+
+Um immenso arraial de caleças, de machinhos, de burros e arrieiros, nos
+espera n'aquelle descampado africano. É forçoso optar entre os dois
+martyrios da caleça ou do macho. Do mal o menos... seja este.
+
+E acolá--oh supplício de Tantalo!--vejo duas possantes e nedeas mulas
+castelhanas jungidas a um vehiculo que, n'estas paragens e ao pé
+d'aquell'outros, me parece mais esplendido do que um landaw de
+Hyde-Park, mais elegante que um caleche de Long-champs, mais commodo e
+elastico do que o mais acrio briska da princeza Hellena. E com tudo--oh
+magico podêr das situações!--elle não é senão, uma substancial e bem
+apessoada traquitana de cortinas.
+
+Togados manes dos antigos desimbargadores, venerandas cabelleiras de
+anneis e castanhola, que direis, ó respeitadas sombras, se d'esse limbo
+onde estais esperando pela resurreição do Pêgas... e do livro
+quinto--vêdes este degenerado e espurio successor vosso, em calças
+largas, frak verde, chapeu branco, gravata de côr, chicotinho de
+caoutchouc na mão, prompto a cavalgar em mulinha de Palito-Metrico como
+um garraio estudantinho do segundo anno, e deitando olhos invejosos para
+esse natural, proprio e adscripticio modo de conducção desimbargatoria?
+Oh que direis vós! Com que justo desprêzo não olhareis para tanta
+degradação e derogação!
+
+Eu commungava silenciosamente commigo n'estas graves meditações, e
+revolvia incertamente no ânimo a ponderosa dúvida:--se o administrar
+justiça direita aos povos valia a pena de andar um desimbargador a
+pé!... Luctava no meu ser o Sancho Pança da carne com o D. Quixote do
+espirito--quando a Providencia, que nos maiores apertos e tentações nos
+não abandona nunca, me trouxe a generosa offerta de um amigo e
+companheiro do vapor, o Sr. L. S.: era sua a invejada carroça, e n'ella
+me deu logar até á Azambuja.
+
+A virtude é o galardão de si mesma, disse um philosopho antigo; e eu não
+creio no famoso ditto de Bentham, que sabedoria antiga seja um sophisma.
+O mais moderno é o mais velho, não ha dúvida; mas o antigo que dura
+ainda, é porque tem achado na experiencia a confirmação que o moderno
+não tem. Jeremias Bentham tambem fazia o seu sophisma como qualquer
+outro.
+
+Vamos percorrendo lentamente aquelle mal-composto marachão que poucos
+palmos se eleva do nivel baixo e salgadiço do solo: de hynverno não se
+passará sem perigo; ainda agora se não anda sem incómmodo e receio.
+Estamos em Villa-Nova e ás portas do nojento caravanseray, unico asylo
+do viajante n'esta, hoje, a mais frequentada das estradas do reino.
+
+Parece-me estar mais deserto e sujo, mais abandonado e em ruinas este
+asqueroso logarejo, desde que alli aopé tem a estação dos vapôres, que
+são a commodidade, a vida, a alma do Ribatéjo. Imagino que uma aldeia de
+Alarves nas faldas do Atlas deve ser mais limpa e commoda.
+
+Oh! Sancho, Sancho, nem siquer tu reinarás entre nós! Cahiu o carunchoso
+throno de teu predecessor, antagonista e ás vezes amo; açoitaram-te
+essas nadegas para desincantar a formosa _del Toboso_, proclamaram-te
+depois rei em _Barataria_, e n'esta tua provincia lusitana nem o
+paternal govêrno de teu estupido materialismo póde estabelecer-se para
+commodo e salvação do corpo; ja que a alma... oh! a alma...
+
+Fallemos n'outra coisa.
+
+Fujamos depressa d'este monturo.--É monótona, arida e sem frescura de
+árvores a estrada: apenas alguma rara oliveira mal-medrada, a longos e
+desiguaes espaços, mostra o seu tronco rachitico e braços contorcidos,
+ornados de ramusculos doentes, em que o natural verde-alvo das folhas é
+mais alvacento e desbotado que o costume. O solo porêm, com raras
+excepções, é optimo, e a trôco de pouco trabalho e insignificante
+despeza, daria uma estrada tam boa como as melhores da Europa.
+
+Dizia um secretario d'Estado meu amigo que para se repartir com
+egualdade o melhoramento das ruas por toda Lisboa, deviam ser obrigados
+os ministros a mudar de rua e bairro todos os tres mezes. Quando se
+fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as kalendas gregas, eu
+heide propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino
+de Portugal ao menos uma vez cada anno, como a desobriga.
+
+Ahi está a Azambuja, pequena mas não triste povoação, com visiveis
+signaes de vida, aceadas e com ar de confôrto as suas casas. É a
+primeira povoação que dá indicio de estarmos nas ferteis margens do Nilo
+portuguez.
+
+Corrémos a apear-nos no elegante estabelecimento que ao mesmo tempo
+cumulla as tres distinctas funcções, de _hotel, de restaurant e de café_
+da terra.
+
+Sancto Deus! que bruxa que está á porta! que antro lá dentro!... Cai-me
+a penna da mão.
+
+
+
+
+CAPITULO III.
+
+
+ Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade do A.
+ d'estas viagens. O que devia ser uma estalagem nas nossas eras de
+ litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questão
+ para tractar, em prosa e verso, um mui difficil ponto de
+ economia-politica e de moral social.--Quantas almas é preciso dar
+ ao diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para
+ fazer um ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a
+ sciencia d'este seculo era uma grandessissima tola.--Rei de facto,
+ e rei de direito.--Belleza e mentira não cabem n'um sacco.--Põe-se
+ o A. a caminho para o pinhal da Azambuja.
+
+
+Vou _desappontar_ decerto o leitor benevolo; vou perder, pela minha
+fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois
+primeiros capitulos d'esta interessante viagem.
+
+Pois que esperava elle de mim agora, de mim que ousei declarar-me
+escriptor n'estas eras de romantismo, seculo das fortes sensações, das
+descripções a traços largos e _incisivos_ que se intalham n'alma e
+entram com sangue no coração?
+
+No fim do capitulo precedente parámos á porta de uma estalagem: que
+estalagem deve ser ésta, hoje no anno de 1843, ás barbas de Victor Hugo,
+com o Doutor Fausto a trotar na cabeça da gente, com os _Mysterios de
+Paris_ nas mãos de todo o mundo?
+
+Ha paladar que supporte hoje a classica _posada_ do Cervantes com o seu
+_mesonero_ gordo e grave, as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de
+algum pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o invisivel rei do seculo,
+aquelle _por quem hoje os reis reinam e os fazedores de leis decretam e
+afferem o justo!_ Sancho manteado por vis muleteiros! Não é da epocha.
+
+ Eu coroarei de trevo a minha espada,
+ De cenoiras, luzerna e betarrava,
+ Para cantar Harmódios e Aristógilons,
+ Que do tyranno jugo vos livraram
+ Da sciencia velha, inutil carunchosa,
+ Que elevava da terra, erguia, alçava
+ O que no homem ha de Ser divino,
+ E para os grandes feitos e virtudes
+ Lhe despegava o espirito da carne...
+
+Não: plantae batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamisae
+estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Icaro, para
+andar a qual mais depressa, éstas horas contadas de uma vida toda
+material, massuda e grossa como tendes feito ésta que Deus nos deu tam
+differente do que a hoje vivemos. Andae, ganha-pães, andae; reduzi tudo
+a cifras, todas as considerações d'este mundo a equações de interêsse
+corporal, comprae, vendei, agiotae.--No fim de tudo isto, o que lucrou a
+especie humana? Que ha mais umas poucas de duzias de homens riccos. E eu
+pergunto aos economistas-politicos, aos moralistas, se ja calcularam o
+número de individuos que é forçoso condemnar á miseria, ao trabalho
+desproporcionado, á desmoralização, á infamia, á ignorancia crapulosa, á
+desgraça invencivel, á penuria absoluta, para produzir um ricco?--Que
+lh'o digam no Parlamento inglez, onde, depois de tantas commissões de
+inquérito, ja deve de andar orçado o número de almas que é preciso
+vender ao diabo, o número de corpos que se tem de intregar antes do
+tempo ao cemiterio para fazer um tecelão ricco e fidalgo como Sir Robert
+Peel, um mineiro, um banqueiro, um grangeeiro--seja o que for: cada
+homem ricco, abastado, custa centos de infelizes, de miseraveis.
+
+Logo a nação mais feliz não é a mais ricca. Logo o princípio utilitario
+é a _mamona_ da injustiça e da reprovação. Logo...
+
+ There are more things in heaven and earth, Horatio,
+ Than are dreamt of in your philosophy.
+
+A sciencia d'este seculo é uma grandessissima tola.
+
+E como tal, presumpçosa e cheia do orgulho dos nescios.
+
+...........................................................................
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Vamos á descripção da estalagem. Não póde ser classica; assoviam-me
+todos esses rapazes de pera, bigode e charuto, que fazem litteratura
+cava e funda desde a porta do Marrare até ao café de Moscow...
+
+Mas aqui é que me apparece uma incoherencia inexplicavel. A sociedade é
+materialista; e a litteratura, que é a expressão da sociedade, é toda
+excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista!
+Sancho rei de facto, Quixote rei de direito!
+
+Pois é assim; e explica-se.--É a litteratura que é uma hypocrita: tem
+religião nos versos, charidade nos romances, fé nos artigos de
+jornal--como os que dão esmolas para pôr no _Diario_, que amparam
+orphans na _Gazeta_, e sustentam viuvas nos cartazes dos theatros.
+
+E fallam no Evangelho! Deve ser por escarneo. Se o leem, hãode ver lá
+que nem a esquerda deve saber o que faz a direita...
+
+Vamos á descripção da estalagem; e acabemos com tanta digressão.
+
+Não póde ser classica, está visto, a tal descripção.--Seja
+romantica.--Tambem não póde ser. Porque não? É pôr-lhe lá um
+_Chourineur_ a amolar um facão de palmo e meio para espatifar rez e
+homem, quanto incontrar,--uma _Fleur-de-Marie_ para dizer e fazer
+pieguices com uma rozeirinha pequenina, bonitinha, que morreu,
+coitadinha!--e um principe allemão incoberto, forte no sôcco britannico,
+immenso em libras sterlinas, profundo em gyria de cegos e ladrões... e
+ahi fica a Azambuja com uma estalagem que não tem que invejar á mais
+pintada e da moda n'este seculo elegante, delicado, verdadeiro, natural!
+
+É como eu devia fazer a descripção: bem o sei. Mas ha um impedimento
+fatal, invencivel--egual ao d'aquella famosa salva que se não deu... é
+que nada d'isso lá havia.
+
+E eu não quero calumniar a boa gente da Azambuja. Que me não leam os
+taes, porque eu heide viver e morrer na fé de Boileau:
+
+ Rien n'est beau que le vrai.
+
+Ja se diz ha muito anno que honra e proveito não cabem n'um sacco; eu
+digo que belleza e mentira tambem lá não cabem: e é a mais portugueza
+traducção que creio que se possa fazer d'aquelle ímmortal e evangelico
+hemystichio. A maior parte das bellezas da litteratura actual fazem-me
+lembrar aquellas formosuras que tentavam os sanctos eremitas na
+Thebaida. O pobre de Sancto Antão ou de S. Pacomio (Pacomio é melhor
+aqui) ficavam imbasbacados ao princípio; mas dava-lhe o coração uma
+pancada, olhavam-lhe para os pés...--Cruzes maldicto! Os pés não podia
+elle incobrir. E ao primeiro _abrenuntio_ do sancto, dissipava-se a
+belleza em muito fummo de inxofre, e ficava o diabo negro feio e cabrum
+como quem é, e sempre foi o pae da mentira.
+
+Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem da Azambuja o que havia
+era uma pobre velha a quem eu chamei bruxa, porque emfim que havia de eu
+chamar á velha suja e maltrapida que estava á porta d'aquella asquerosa
+casa?
+
+Havia lá ésta velha, com a sua môça mais môça mas não menos nojenta de
+ver que ella, e um velho meio paralytico meio demente que alli estava
+para um canto com todo o geito e traça de quem vem folgar agora na
+taberna porque ja bebeu o que havia de beber n'ella.
+
+Matava-nos a sêde; mas a agua alli é beber quartans. O vinho era atroz.
+Limonada? Não ha limões nem assucar.--Mandou-se um proprio á tenda no
+fim da villa. Vieram tres limões que me pareceram de uns que pendiam,
+quando eu vinha a férias, á porta do famoso botequim de Leiria.
+
+O assucar podia servir na última scena de M. de Pourceaugnac muito
+melhor que n'uma limonada. Mas misturou-se tudo com a agua das sezões,
+bebémos, pozemo-nos em marcha, e até agora não nos fez mal, com ser a
+mais abominavel, antipathica e suja beberagem que se póde imaginar.
+
+Caminhámos na mesma ordem até chegar ao famoso pinhal da Azambuja.
+
+
+
+
+CAPITULO IV.
+
+
+ De como o A. foi pensando e divagando, e em que pensava e divagava
+ elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do mesmo
+ nome.--Do poeta grego e philosopho Démades, e do poeta e philosopho
+ inglez Addison, da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de
+ outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar a sua
+ profunda erudição.--Discute-se a materia gravissima se é necessario
+ que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis
+ reflexões de zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re
+ amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo
+ este capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e
+ passe ao seguinte.
+
+
+Eu darei sempre o primeiro logar á modestia entre todas as bellas
+qualidades.--Ainda sôbre a innocencia?--Ainda sim. A innocencia basta
+uma falta para a perder, da modestia so culpas graves, so crimes
+verdadeiros podem privar. Um accidente, um acaso podem destruir aquella,
+a ésta so uma acção propria, determinada e voluntaria.
+
+Bem me lembram ainda os dois versos do poeta Démades que são forte
+argumento de auctoridade contra a minha theoria; cuidei que tinha mais
+infeliz memoria. Heide pô-los aqui para que não falte a ésta grande obra
+das minhas viagens o merito da erudição, e lhe não chamem livrinho da
+moda: estou resolvido a fazer a minha reputação com este livro.
+
+ Aid ôs te kalle ka aretês polis,
+ Prôtoê sgathis hamartia deuteron de ais chunê.
+
+ Da belleza e virtude é a cidadella
+ A innocencia primeiro--e depois ella.
+
+Mas a auctoridade responde-se com auctoridade, e a texto com texto. E eu
+trago aqui na algibeira o meu Addison--um dos poucos livros que não
+largo nunca--e atiro com o philosopho inglez ao philosopho grego e fico
+triumphante: porque Addison não põe nada acima da modestia; e Addison,
+apezar da sua casaca de penneiros, é muito maior philosopho do que foi
+Démades com a sua tunica e o seu palio atheniense.
+
+O erudito e amavel leitor escapará d'ésta vez a mais citações: compre um
+_Spectator_, que é livro sem que se não póde estar, e veja _passim_.
+
+Eu gósto, bem se ve, de ir ao incôntro das objecções que me podem fazer;
+lembro-as eu mesmo paraque depois me não digam:--'Ah, ah! vinha a ver se
+pegava!'--Não senhor, não é o meu genero esse.
+
+Francamente pois... eis-ahi o que poderão dizer:--'Addison foi
+secretario d'Estado, e então...'--Então o quê? Não concebem um
+secretario d'Estado philosopho, um ministro poeta, escriptor elegante,
+cheio de graça e de talento? Não, bem vejo que não: teem a idea fixa de
+que um ministro d'Estado hade ser por fôrça algum semsaborão, malcriado
+e petulante. Mas isto é nos paizes adiantados em que ja é indifferente
+para a coisa-pública, em que povo nem principe lhes não importa ja, em
+que mãos se intregam, a que cabeças se confiam. Em Inglaterra não é
+assim, nem era assim no tempo de Addison. Fossem lá á rainha Anna que
+deixasse entrar no seu gabinete quatro calças de coiro sem criação nem
+instrucção, e não mais senão so porque este sabía jogar nos fundos,
+aquelle tinha boas tretas para o _canvassing_ de umas eleições, o outro
+era figura importante no _Freemasson's-hall_!
+
+Ja se ve que em nada d'isto ha a minima allusão ao feliz systema que nos
+rege: estou fallando de modestia, e nós vivemos em Portugal.
+
+A modestia comtudo quando é excessiva e se aproxima do acanhamento, do
+que no mundo se chama _falta de uso_--póde ser n'um homem quasi defeito
+inteiro. Na mulher é sempre virtude, realce de belleza ás formosas,
+disfarce de fealdade ás que o não são.
+
+Por mim, não conheço objecto mais lindo em toda a natureza, mais
+feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espirito e inflammar o coração do
+que é uma joven donzella quando a modestia lhe faz subir o rubor ás
+faces, e o pejo lhe carrega brandamente nas palpebras... Pouco lume que
+tenha nos olhos, pouco regular que seja o semblante, menos airosa que
+seja a figura, parecer-vos-ha n'esse momento um anjo. E anjo é a virgem
+modesta, que traz no rosto debuxado sempre um ceo de virtudes...--De
+alguma belleza sei eu cujos olhos _côr da noite_ ou de _saphyra_
+(_dialec. poet. vet._), cujas faces de _leite e rosas_, dentes de
+_pérolas_, collo de _marfim_, transas de _ebano_ (a allusão é surtida,
+ha onde escolher) davam larga materia a boas grozas de sonetos--no
+antigo regimen dos sonetos, e hoje inspirariam myriadas de canções
+descabelladas e vaporosas, choradas na harpa ou gemidas no alahude.
+Comtanto que não seja lyra, que é classico, todo o instrumento,
+inclusivamente a bandurra, é egual deante da lei romantica.
+
+Ora pois, mas a tal belleza, por certo ar ala-moda, certo não-sei-quê de
+atrevido nos olhos, de deslavado na cara, e de descomposto nos ademanes,
+perde toda a graça e quasi a propria formosura de que a dotára a
+natureza...
+
+Vêde-me aquelles labios de carmim. Ha maio florido que tam lindo botão
+de rosa apresente ao alvorecer da madrugada?... Mas olhae agora como o
+riso da malicia lh'o desfolha tam feiamente n'uma desconcertada
+risada...
+
+Desvaneceu-se o prestigio.
+
+Não havia moço nem velho, homem do mundo ou sabio de gabinete que não
+désse metade dos seus prazeres, dos seus livros, da sua vida por um so
+beijo d'aquella bôcca... Agora talvez nem repetidos _avances_ lhe façam
+obter um namorante de profissão e officio... E hade pagá-lo adeantado, e
+porque preço!...
+
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Mas o que terá tudo isto com a jornada da Azambuja ao Cartaxo? A mais
+íntima e verdadeira relação que é possivel. É que a pensar ou a sonhar
+n'estas coisas fui eu todo o caminho, até me achar no meio do pinhal da
+Azambuja.
+
+Ahi parámos, e acordei eu.
+
+Sou sujeito a éstas distracções, a este sonhar acordado. Que lhe heide
+eu fazer? Andando, escrevendo, sonho e ando, sonho e fallo, sonho e
+escrevo. Francamente me confesso de somnambulo, de somniloquo, de...
+Não, fica melhor com seu ar de grego (tenho hoje a bossa hellenica n'um
+estado de tumescencia pasmosa!); digamos somnilogo, somnigrapho...
+
+A minha opinião sincera e _conscienciosa_ é que o leitor deve saltar
+éstas folhas, e passar ao capitulo seguinte, que é outra casta de
+capitulo.
+
+
+
+
+CAPITULO V.
+
+
+ Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se por
+ explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo
+ romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco
+ trabalho.--Transição classica: Orpheu e o bosque do Ménalo.--Desce
+ o A. d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades
+ materiaes da vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem
+ de cavalgar na triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do
+ animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito.
+
+
+Este é que é o pinhal da Azambuja?
+
+Não póde ser.
+
+Ésta, aquella antiga selva, temida quasi religiosamente como um bosque
+druidico! E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar historia de Pedro de
+Mallas-artes, que logo, em imaginação, lhe não pozesse a scena aqui
+perto!... Eu que esperava topar a cada passo com a cova do capitão
+Roldão e da dama Leonarda!... Oh! que ainda me faltava perder mais ésta
+illusão...
+
+Por quantas maldicções e infernos adornam o stylo d'um verdadeiro
+escriptor romantico, digam-me, digam-me: onde estão os arvoredos
+fechados, os sitios medonhos d'esta espessura. Pois isto é possivel,
+pois o pinhal da Azambuja é isto?... Eu que os trazia _promptos e
+recortados_ para os collocar aqui todos os amaveis salteadores de
+Schiller, e os elegantes facinorosos do _Auberge-des-Adrets_, eu heide
+perder os meus chefes-d'obra! Que é perdê-los isto--não ter onde os
+pôr!..
+
+Sim, leitor benevolo, e por ésta occasião te vou explicar como nós hoje
+em dia fazemos a nossa litteratura. Ja me não importa guardar segredo,
+depois d'esta desgraça não me importa ja nada. Saberás pois, ó leitor,
+como nós outros fazemos o que te fazemos ler.
+
+Tracta-se de um romance, de um drama--cuidas que vamos estudar a
+historia, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os
+edificios, as memorias da epocha? Não seja pateta, senhor leitor, nem
+cuide que nós o somos. Desenhar characteres e situações do _vivo_ da
+natureza, collori-los das côres verdadeiras da historia... isso é
+trabalho difficil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e
+sôbretudo um tacto!... Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente.
+Eu lhe explico.
+
+Todo o drama e todo o romance precisa de:
+
+Uma ou duas damas,
+
+Um pae,
+
+Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos,
+
+Um criado velho,
+
+Um monstro, incarregado de fazer as maldades,
+
+Varios tractantes, e algumas pessoas capazes para intermedios.
+
+Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de Dumas, de Eug. Sue, de
+Victor-Hugo, e _recorta_ a gente, de cadaum d'elles, as figuras que
+precisa, gruda-as sôbre uma folha de papel da côr da moda, verde, pardo,
+azul--como fazem as raparigas inglezas aos seus albums e scrapbooks;
+fórma com ellas os grupos e situações que lhe parece; não importa que
+sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se ás chronicas, tiram-se
+uns poucos de nomes e de palavrões velhos; com os nomes chrismam-se os
+figurões, com os palavrões _illuminam-se_... (stylo de pintor
+pinta-monos).--E aqui está como nós fazemos a nossa litteratura
+original.
+
+E aqui está o precioso trabalho que eu agora perdi!
+
+Isto não póde ser! Uns poucos de pinheiros raros e infezados atravez dos
+quaes se estão quasi vendo as vinhas e olivedos circumstantes!.. É o
+desapontamento mais chapado e solemne que nunca tive na minha vida--uma
+verdadeira logração em boa e antiga phrase portugueza.
+
+E comtudo aqui é que devia ser, aqui é que é, geographica e
+topographicamente fallando, o bem conhecido e confrontado sitio do
+pinhal da Azambuja...
+
+Passaria por aqui algum Orpheu que, pelos magicos podêres da sua lyra,
+levasse atraz de si as árvores d'este antigo e classico Menalo dos
+salteadores lusitanos?
+
+Eu não sou muito difficil em admittir prodigios quando não sei explicar
+os phenomenos por outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se. Qual, de
+entre tantos Orpheus que a gente por ahi ve e ouve, foi o que obrou a
+maravilha, isso é mais difficil de dizer. Elles são tantos, e cantam
+todos tão bem! Quem sabe? Juntar-se-hiam, fariam uma companhia por
+acções, e negociariam um emprestimo harmonico com que facilmente se
+obraria então o milagre. É como hoje se faz tudo; é como se passou o
+thesoiro para o banco, o banco para as companhias de confiança... porque
+se não faria o mesmo com o pinhal da Azambuja?
+
+Mas aonde está elle então? faz favor de me dizer...
+
+Sim senhor, digo: _está consolidado_. E se não sabe o que isto quer
+dizer, leia os orçamentos, veja a lista dos tributos, passe pelos olhos
+os votos de confiança; e se depois d'isto, não souber aonde e como _se
+consolidou_ o pinhal d'Azambuja, abandone a geographia que visivelmente
+não é a sua especialidade, e deite-se a finança, que tem
+_bossa_;--fazemo-lo eleger ahi por Arcozello ou pela cidade eterna--é o
+mesmo--vai para a commissão de fazenda--depois lord do thesoiro,
+ministro: é _escalla_, não offendia nem a rabujenta constituição de 38,
+quanto mais a carta........................................................
+...........................................................................
+
+O peior é que no meio d'estes campos onde Troia fôra, no meio d'estas
+areias onde se acoitavam d'antes os pallidos medos do pinhal da
+Azambuja, a minha querida e bemfazeja traquitana abandonou-me; fiquei
+como o bom _Xavier de Maistre_ quando, a meia jornada do seu quarto, lhe
+perdeu a cadeira o equilibrio, e elle cahiu--ou ia caindo, ja me não
+lembro bem--estatellado no chão.
+
+Ao chão estive eu para me atirar, como criança amuada, quando vi voltar
+para a Azambuja o nosso commodo vehiculo, e deante de mim a infezada
+mulinha asneira que--ai triste!--tinha de ser o meu transporte d'alli
+até Santarem.
+
+Emfim o que hade ser, hade ser, e tem muita fôrça. Consolado com este
+tam verdadeiro quanto _elegante_ proverbio, levantei o ânimo á altura da
+situação e resolvi fazer próva de homem forte e supportador de
+trabalhos. Bifurquei-me resignadamente sôbre o cilicio do esfarrapado
+albardão, tomei na esquerda as impermeaveis redeas de coiro cru, e
+lancei o animalejo ao seu mais largo trote, que era um confortavel e
+amenissimo choito, digno de fazer as delicias do meu respeitavel e
+excentrico amigo, o marquez do F.
+
+Tinha a bossa, a paixão, a mania, a furia de choitar aquelle notavel
+fidalgo--o último fidalgo homem de lettras que deu ésta terra. Mas
+adorava o choito o nobre marquez. Conheci-o em París nos ultimos tempos
+da sua vida, ja octogenario ou perto d'isso: deixava a sua carruagem
+ingleza toda mollas e confortos para ir passear n'um certo cabriolet de
+praça que elle tinha marcado pelo sêcco e duro movimento vertical com
+que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimenta-lo: era admiravel.
+Communicava-se da velha horsa normanda aos varaes, e dos varaes á concha
+do carro, tam inteiro e tam sem diminuição, o choito do execravel
+Babiéca! Nunca vi coisa assim. O marquez achava-lhe propriedades
+toni-purgativos, eu classifiquei-o de violentissimo drastico.
+
+Foi um dos homens mais extraordinarios e o portuguez mais notavel que
+tenho conhecido, aquelle fidalgo.
+
+Era feio como o peccado, elegante como um bugio, e as mulheres
+adoravam-n'o. Filho segundo, vivia de seus ordenados nas missões por que
+sempre andou, tractava-se grandiosamente, e legou valores consideraveis
+por sua morte. Imprimia uma obra sua, mandava tirar um unico exemplar,
+guardava-o e desmanchava as fòrmas....--Não acabo se coméço a contar
+historias do marquez do F.
+
+Piquemos para o Cartaxo, que são horas.
+
+
+
+
+CAPITULO VI.
+
+
+ Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão misturar
+ o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.--Da-se razão, e
+ tira-se depois, ao padre José Agostinho.--No meio d'estas
+ disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para
+ tudo é preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque,
+ quanto ao outro ja era sabido.--Os Lusíadas, Fausto e a
+ Divina-Comedia.--Desgraça do Camões em ter nascido antes do
+ romantismo.--Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre são melhores
+ sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o A. em procura do
+ marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do poeta
+ Alceu.--Partida de Whist entre os illustres finados.--Compaixão do
+ marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta
+ d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a
+ este mundo e ao Cartaxo.
+
+
+O mais notavel, e não sei se diga, se continuarei aomenos a dizer, o
+mais indesculpavel defeito que até aqui esgravataram criticos e zoilos
+na Iliada dos povos modernos, os immortaes _Lusiadas_, é sem-dúvida a
+heterogenea e heterodoxa mistura da theologia com a mythologia, do
+maravilhoso allegorico do paganismo, com os graves symbolos do
+christianismo. A fallar a verdade, e por mais figas que a gente queira
+fazer ao padre José Agustinho--ainda assim! ver o padre Baccho revestido
+_in pontificalibus_ deante de um retabulo, não me lembra de que sancto,
+dizendo o seu _dominus vobiscum_ provavelmente a algum acholyto
+bacchante ou corybante, que lhe responde o _et cum spiritu tuo!_.. não
+se póde; é uma que realmente... E então aquelle famoso conceito com que
+elle acaba, digno da Phenix-Renascida:
+
+ O falso deus adora o verdadeiro!
+
+Desde que me intendo, que leio, que admiro os Lusiadas; interneço-me,
+chóro, insuberbeço-me com a maior obra de ingenho que ainda appareceu no
+mundo, desde a _Divina-Comedia_ até ao _Fausto_...
+
+O italiano tinha fé em Deus, o allemão no scepticismo, o portuguez na
+sua patria. É preciso crer em alguma coisa para ser grande--não so
+poeta--grande seja no que for. Uma Brizida velha que eu tive, quando era
+pequeno, era famosa chronista de historias da carochinha, porque
+sinceramente cria em bruxas. Napoleão cria na sua estrella, Lafayette
+creu na republica-rei de Luiz-Philippe; e, para que ousemos tambem
+_celebrare domestica facta_, todos os nossos grandes homens ainda hoje
+creem, um na juncta do crédito, outro nas classes inactivas, outro no
+mestre Adonirão, outro finalmente na belleza e realidade do systema
+constitucional que felizmente nos rege.
+
+Mas essas crenças são para os que se fizeram grandes com ellas. A um
+pobre homem o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos, ainda
+creio no nosso Camões: sempre cri.
+
+E comtudo, desde a edade da innocencia em que tanto me divertiam
+aquellas batalhas, aquellas aventuras, aquellas historias d'amores,
+aquellas scenas todas, tam naturaes, tam bem pintadas--até ésta fatal
+edade da experiencia, edade prosaica em que as mais bellas creações do
+espirito parecem macaquices deante das realidades do mundo, e os nobres
+movimentos do coração chymeras de enthusiastas--até ésta edade de
+saudades do passado e esperanças no futuro, mas sem gosos no
+presente--em que o amor da patria (tambem isto será phantasmagoria?), e
+o sentimento intimo do _bello_ me dão na leitura dos Lusiadas outro
+deleite diverso, mas não inferior ao que n'outro tempo me deram--eu
+senti sempre aquelle grande defeito do nosso grande poema: e nunca pude,
+por mais que buscasse, achar-lhe, justificação não digo--nem siquer
+desculpa.
+
+Mas até morrer aprender, diz o adagio: e assim é. E tambem é aphorismo
+de moral, applicavel outrosim a coisas litterarias: que para a gente
+achar a desculpa aos defeitos alheios, é considerar--é pôr-se uma pessoa
+nas mesmas circumstancias, ver-se involvido nas mesmas difficuldades.
+
+Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao pobre Camões, com vontade
+de o justificar, e prompto (assim são as charidades d'este mundo) a
+sahir a campo de lança em reste e a quebrá-la com todo o antagonista que
+por aquelle fraco o atacar.--E porque será isto? Porque chegou a minha
+hora; e--_si parva licet componnere magnis_ (a bossa proeminente hoje é
+a latina), aqui me acho eu com este meu capitulo nas mesmas
+difficuldades em que o nosso bardo se viu com o seu poema.
+
+Ja preveni as observações com o texto acima: bem sei quem era Camões, e
+quem sou eu; mas tracta-se da _intalação_, que é a mesma apezar da
+differença dos intalados. O auctor dos Lusiadas viu-se intalado entre a
+crença do seu paiz e as brilhantes tradições da poesia classica que
+tinha por mestra e modêlo.
+
+Não havia ainda então romanticos nem romantismo, o seculo estava muito
+atrazado. As odes de Victor-Hugo não tinham ainda desbancado as de
+Horacio; achavam-se mais lyricos e mais poeticos os esconjurios de
+Canidia, do que os pesadelos de um inforcado no oratorio; chorava-se com
+os _Tristes_ de Ovidio, porque se não lagrimejava com as meditações de
+Lamartine. Andromacha despedindo-se de Heitor ás portas de Troia, Priamo
+supplicante aos pés do matador do seu filho, Helena luctando entre o
+remorso do seu crime e o amor de Páris, não tinham ainda sido eclipsados
+pelas declamações da mãe Eva ás grades do paraizo terreal. O combate de
+Achilles e Heitor, das hostes argivas com as troianas, não tinha sido
+mettido n'um chinello pelas batalhas campaes dos anjos bons e dos anjos
+maus á metralhada por essas nuvens. Dido chorando por Eneas não tinha
+sido reduzida a donzella choramigas d'Alfama carpindo pelo seu _Manel_
+que vae para a India...
+
+Realmente o seculo estava muito atrazado: Milton não se tinha ainda
+sentado no logar de Homero, Shakspeare no de Euripedes, e lord Byron
+acima de todos: emfim não estava ainda anglizado o mundo, portanto _a
+marcha do intellecto_ no mesmo terreno, é tudo uma miseria.
+
+Ora pois, o nosso Camões, creador da epopea, e--depois do Dante--da
+poesia moderna, viu-se atrapalhado; misturou a sua crença religiosa com
+o seu credo poetico e fez, _tranchons le mot_, uma semsaboria.
+
+E aqui direi eu com o vate Elmano:
+
+ Camões, grande Camões, quam similhante
+ Acho teu fado ao meu quando os cotejo!
+
+Vou fazer outra semsaboria eu, n'este bello capitulo da minha
+obra-prima. Que remedio! Preciso fallar com um illustre finado, preciso
+de evocar a sombra de um grande genio que hoje habita com os mortos. E
+onde irei eu? Ao inferno? Espero que a divina justiça se apiedasse
+d'elle na hora dos ultimos arrependimentos. Ao purgatorio, ao empyreo?
+Apezar do exemplo da _Divina Comedia_, não me atrevo a fazer comedias
+com taes logares de scena,--e não sei, não gósto de brincar com essas
+coisas.
+
+Não lhe vejo remedio senão recorrer ao bem parado dos Elysios, da Styge,
+do Cocyto e seu termo: são terrenos neutros em que se póde parlamentar
+com os mortos sem compromettimento serio, e....
+
+Eis-me ahi no êrro de Camões--e nas unhas dos criticos; e as zagunchadas
+a ferver em cima de mim, que fiz, que aconteci....
+
+Mas, senhores, ponderem, venham ca: o que hade um homem fazer? O Dante
+não sei que gyria teve que baptisou Publio Virgilio Marão para lhe
+servir de cicerone nas regiões do inferno, do paraizo e do purgatorio
+christão, e teve tam boa fortuna que nem o queimou a Inquisição nem o
+descompoz a Crusca, nem siquer o mutilaram os censores, nem o
+perseguiram delegados por abuso de liberdade de imprensa, nem o mandaram
+para os dignos pares... Não se tinham ainda descoberto as mangações
+liberaes que se usam hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade
+ganha e sustentada á ponta da espada, com muito coração e poucas
+palavras, muito patriotismo, poucas leis... e menos relatorios. Não
+havia em Florença nem gazeta para louvar as tolices dos ministros, nem
+ministros para pagar as tolices da gazeta.
+
+O Dante foi proscripto e exilado, mas não se ficou a escrever, deu
+catanada que se regallou nos inimigos da liberdade da sua patria.
+
+Quem dera ca um batalhão de poetas como aquelle!
+
+Que fosse porêm um triste vate de hoje escrever no seculo das luzes o
+que escrevia o Dante no seculo das trevas! Os proprios philosophos
+gritavam: Que escandalo! Atheus professos clamavam contra a
+irreverencia; gentes que não teem religião, nem a de Mafoma, bradavam
+pela religião: entravam a pôr carapuças nas cabeças uns dos outros,
+cahiam depois todos sôbre o poeta, e--se o não podessem inforcar, pelo
+menos declaravam-n'o republicano, que dizem elles que é uma injúria
+muito grande.
+
+Nada! viva o nosso Camões e o seu maravilhoso mistiforio; é a mais
+commoda invenção d'este mundo: vou-me com ella, e ralhe a crítica quanto
+quizer.
+
+Quero procurar no reino das sombras não menor pessoa que o marquez de
+Pombal: tenho que lhe fazer uma pergunta séria antes de chegar ao
+Cartaxo. E nós ja vamos por entre as riccas vinhas que o circundam com
+uma zona de verdura e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra ao
+pensamento as portas fataes--depressa a unctuosa sopetarra com que heide
+atirar ás tres gargantas do canzarrão. Vamos...
+
+Mas em que districto d'aquellas regiões acharei eu o primeiro ministro
+d'elrei D. José? Por onde está Ixion e Tantalo, por onde demora Sysipho
+e outros maganões que taes? Não; esse é um bairro muito triste, e
+arrisca-se a ter por administrador algum escandecido que me atice as
+orelhas.
+
+Nos Elysios com o pae Anchises e outros barbaças classicos do mesmo
+jaez? Eu sei? tambem isso não. Hade ser n'aquellas ilhas bemaventuradas
+de que falla o poeta Alceu e onde elle poz a passear, por eternas
+verduras, as almas tyrannicidas de Harmódio e Aristógiton...
+
+Oh! ésta agora!... Sebastião José de Carvalho e Mello, conde de Oeiras,
+marquez de Pombal, de companhia com os seus inimigos politicos!... Ahi é
+que se ingánam; não ha amigos nem inimigos politicos em se largando o
+mando e as pretenções a elle. Ora, passados os umbraes da eternidade, é
+de fé que se não pensa mais n'isso. C. J. X., que morreu a assignar uma
+portaria, ja tinha largado a penna quando chegou alli pelos _Prazeres_;
+quanto mais!...
+
+O homem hade estar nas ilhas _beatas_. Vamos lá...
+
+E ei-lo alli: lá está o bom do marquez a jogar o whist com o barão de
+Bidefeld, com o imperador Leopoldo e com o poeta Diniz. A partida deve
+de ser interessante, talvez aposta essa gente toda--esses manes todos
+que estão á roda. Que cara que fez o marquez a um finadinho que lhe foi
+metter o nariz nas cartas! Quem havia de ser! O intromettido de M. de
+Talleyrand. Estava-lhe cahindo. Mas não viu nada: o nobre marquez sempre
+soube esconder o seu jôgo.
+
+A mim é que elle ja me viu. 'Que diz? Ah!.. Sim senhor, sou portuguez; e
+venho fazer uma pergunta a V. Exa., esclarecer-me sôbre um ponto
+importante.'
+
+Deitou-me a tremenda luneta.
+
+--'Para que mandou V. Exa. arrancar as vinhas do Ribatejo?'
+
+Apertou a luneta no sobrôlho e sorriu-se.
+
+--'Ellas ahi estão centuplicadas, que até ja invadiram o pinhal de
+Azambuja. Fez V. Exa. um despotismo inutil; e agora...'
+
+'Agora quem bebe por lá todo esse vinho?'
+
+Não sabía o que lhe havia de responder. Elle sacudiu a cabelleira de
+anneis, virou-me as costas, deu o braço a Colbert, passou por-pé de
+Ricardo Smith e de J. Baptista Say, que estavam a disputar, incolheu os
+hombros em ar de compaixão, e foi-se por uma alameda muito viçosa que ia
+por aquelles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se da nossa vista.
+
+Eu surdi ca n'este mundo, e achei-me emcima da azemola, aopé do grande
+café do Cartaxo.
+
+
+
+
+CAPITULO VII.
+
+
+ Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as carruagens de
+ mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.--Dos cafés em geral, e de
+ como são o characteristico da civilização de um paiz.--O
+ Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do
+ Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran'-Bretanha deveu sempre toda a
+ sua fôrça e toda a sua glória a Portugal.--Shakspeare e Laffitte,
+ Milton e Chateaumargot, Nelson e o principe de Joinville.--Próva-se
+ evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo.
+
+
+Voltar á meia-noite do _Bois-de-Boulogne_--o bosque por excellencia,
+descer, entre nuvens de poeira, o longo stadio dos Campos-Elysios,
+entrever, na rapida carreira, o obelisco de Luxor, as árvores das
+Tulherias, a columna da praça Vandomma, a magnificencia heteroclyta da
+'Magdalena', e emfim sentir parar, de uma soffreada magistral, os dois
+possantes inglezes que nos trouxeram quasi de um folego até ao
+'boulevard de Gand'; ahi entreabrir mollemente os olhos, levantando meio
+corpo dos regallados cochins de seda, e dizer: 'Ah! estamos em
+Tortoni... que delicia um sorvete com este calor!'--é seguramente, é dos
+prazeres maiores d'este mundo, sente-se a gente viver; é meia hora de
+existencia que vale dez annos de ser rei em qualquer outra parte do
+mundo.
+
+Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma coisa dos sabores e
+dissabores d'este mundo, fie-se na minha palavra, que é de homem
+experimentado: o prazer de chegar por aquelle modo a Tortoni, o apear da
+elegante caleche balançada nas mais suaves mollas que fabricasse arte
+ingleza do puro aço de Suecia, não alcança, não se compara ao prazer e
+consolação de alma e corpo que eu senti ao apear-me de minha choiteira
+mula á porta do grande café do Cartaxo.
+
+Fazem idea do que é o café do Cartaxo? Não fazem. Se não viajam, se não
+sahem, se não vêem mundo ésta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre
+o Chiado, a rua do Oiro e o theatro de San'Carlos, como hãode alargar a
+esphera de seus conhecimentos, desinvolver o espirito, chegar á altura
+do seculo?
+
+Coroae-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer sonetos á dama
+nova, ide, que não prestais para mais nada, meus queridos Lisboetas; ou
+discuti os deslavados horrores de algum mellodrama velho que fugiu
+assoviado da 'Porte-Saint Martin' e veio esconder-se na Rua-dos-Condes.
+Tambem podeis ir aos Toiros--estão imbolados, não ha perigo...
+
+Viajar?.. qual viajar! até á Cova-da-Piedade, quando muito, em dia que
+lá haja cavallinhos. Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que
+todas as praças d'este mundo são como a do Terreiro-do-Paço, todas as
+ruas como a rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare.
+
+Pois não são, não: e o do Cartaxo menos que nenhum.
+
+O café é uma das feições mais characteristicas de uma terra. O viajante
+experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no café, observa-o,
+examina-o, estuda-o, e tem conhecido o paiz em que está, o seu govêrno,
+as suas leis, os seus costumes, a sua religião.
+
+Levem-me de olhos tapados onde quizerem, não me desvendem senão no café;
+e protesto-lhe que em menos de dez minutos lhe digo a terra em que estou
+se for paiz sublunar.
+
+Nós entrámos no café do Cartaxo, o grande café do Cartaxo; e nunca se
+incruzou turco em divan de seda do mais splendido harem de
+Constantinopla com tanto gôso de alma e satisfacção de corpo, como nós
+nos sentámos nas duras e asperas tábuas das esguias banquetas mal
+sarapintadas que ornam o magnífico estabelecimento bordalengo.
+
+Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade classica: será um
+parallelogrammo pouco maior que a minha alcova; á esquerda duas mezas de
+pinho, á direita o mostrador invidraçado onde campeam as garrafas
+obrigadas de liquor de amendoa, de canella, de cravo. Pendem do tecto,
+laboriosamente arrendados por não vulgar tesoira, os pingentes de papel,
+convidando a lascivo repouso a inquieta raça das moscas. Reina uma
+frescura admiravel n'aquelle recinto.
+
+Sentámo-nos, respirámos largo, e entrámos em conversa com o dono da
+casa, homem de trinta a quarenta annos, de physionomia experta e
+sympathica, e sem nada do repugnante villão-ruim que é tam usual de
+incontrar por similhantes logares da nossa terra.
+
+--'Então que novidades ha por ca pelo Cartaxo, patrão?'
+
+--'Novidades! Por aqui não temos senão o que vem de Lisboa.--Ahi está a
+'Revolução' de hontem...'
+
+--'Jornaes, meu caro amigo! Vimos fartos d'isso. Diga-nos alguma coisa
+da terra. Que faz por ca o...'
+
+--'O mestre J. P., o 'Alfageme?''
+
+--'Como assim o Alfageme?'
+
+--'Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J. P.: pois então! Uns senhores de
+Lisboa que ahi estiveram em casa do Sr. D. poseram-lhe esse nome, que a
+gente bem sabe o que é; e ficou-lhe, que agora ja ninguem lhe chama
+senão o Alfageme. Mas quanto a mim, ou elle não é Alfageme, ou não o
+hade ser muito tempo. Não é aquelle, não. Eu bem me intendo.'
+
+A conversação tornava-se interessante, especialmente para mim: quizemos
+profundar o caso.
+
+--'Muito me conta, Sr. patrão! Com que isto de ser Alfageme, parece-lhe
+que é coisa de?..
+
+--'Parece-me o que é, e o que hade parecer a todo o mundo. E alguma
+coisa sabemos, ca no Cartaxo, do que vai por elle. O verdadeiro Alfageme
+diz que era um espadeiro ou armeiro, cutileiro ou coisa que o valha, na
+Ribeira de Santarem; e que foi um homem capaz, e que tinha pelo povo, e
+que não queria saber de partidos, e que dizia elle: 'Rei que nos
+inforque, e papa que nos excommungue, nunca hade faltar. Assim, deixar
+os outros brigar, trabalhemos nós e ganhemos a nossa vida.' Mas que
+extrangeiros que não queria, que ésta terra que era nossa e co'a nossa
+gente se devia de governar. E mais coisas assim: e que porfim o deram
+por traidor e lhe tiraram quanto tinha.--Mas que lhe valeu o Condestavel
+e o não deixou arrazar, por que era homem de bem e fidalgo ás direitas.
+Pois não é assim que foi?'
+
+--'É, sim, meu amigo. Mas então d'ahi?'
+
+--'Então d'ahi o que se tira, é que quando havia fidalgos como o sancto
+Condestavel tambem havia Alfagemes como o de Santarem. E mais nada.'
+
+--'Perfeitamente. Mas porque chamaram ao mestre P. o Alfageme do
+Cartaxo?'
+
+--'Eu lhe digo aos senhores: o homem nem era assim nem era assado.
+Fallava bem, tinha sua labia com o povo. D'ahi fez-se juiz, pôs por ahi
+suas coisas a direito--Deus sabe as que elle intortou tambem!.. ganhou
+nome no povo, e agora faz d'elle o que quer. Se lhe der sempre para bem,
+bom será.--Os senhores não tomam nada?'
+
+O bom do homem visivelmente não queria fallar mais: e não deviamos
+importuná-lo. Fizemos o sacrificio de bom número de limões que
+expremémos em profundas taças--vulgo, copos de canada--e com agua e
+assucar, offerecemos as devidas libações ao genio do logar.
+
+Infelizmente o sacrificio não foi detodo incruento. Muitas hecatombes de
+myrmidões cahiram no holocausto, e lhe deram um cheiro e sabor que não
+sei se agradou á divindade, mas que injoou terrivelmente aos sacerdotes.
+
+Sahimos a visitar o nosso bom amigo, o velho D., a honra e a alegria do
+Ribatejo. Ja elle sabía da nossa chegada, e vinha no caminho para nos
+abraçar.
+
+Fomos dar, junctos, uma volta pela terra.
+
+É das povoações mais bonitas de Portugal, o Cartaxo, aceada, alegre;
+parece o bairro suburbano de uma cidade.
+
+Não ha aqui monumentos, não ha historia antiga: a terra é nova, e a sua
+prosperidade e crescimento datam de trinta ou quarenta annos, desde que
+o seu vinho começou a ter fama. Ja descahida do que foi, pela estagnação
+d'aquelle commercio, ainda é comtudo a melhor coisa da Borda-d'agua.
+
+Não tem historia antiga, disse; mas tem-n'a moderna e importantissima.
+
+Que memorias aqui não ficaram da guerra peninsular! Que espantosas
+borracheiras aqui não tomaram os mais famosos generaes, os mais
+distinctos militares da nossa _antiga e fiel_ alliada, que ainda então,
+ao menos, nos bebia o vinho!
+
+Hoje nem isso!.. hoje bebe a jacobina zurrapa de Bordeos, e as acerbas
+limonadas de Borgonha. Quem tal diria da conservativa Albion! Como póde
+uma leal goella britannica, rascada pelos acidos anarchicos d'aquellas
+vinagretas francezas, intoar devidamente o God-save-the-King em um
+_toast_ nacional! Como, sem Porto ou Madeira, sem Lisboa, sem Cartaxo,
+ousa um subdito britannico erguer a voz, n'aquella harmoniosa
+desafinação insular que lhe é propria e que faz parte de seu respeitavel
+character nacional--faz; não se riam: o inglez não canta senão quando
+bebe... alias quando está BEBIDO. _Nisi potus ad arma ruisse._ Inverta:
+_Nisi potus in cantum prorumpisse_... E pois, como hade elle assim
+_bebido_ erguer a voz n'aquelle sublime e tremendo hymno popular
+Rulle-Britannia!
+
+Bebei, bebei bem zurrapa franceza, meus amigos inglezes; bebei, bebei a
+pêso de oiro, essas limonadas dos burgraves e margraves de Allemanha;
+chamae-lhe, para vos illudir, chamae-lhe _hoc_, chamae-lhe _hic_,
+chamae-lhe o _hic haec hoc_ todo, se vos dá gôsto... que em poucos annos
+veremos o estado de _acetato_ a que hade ficar reduzido o vosso
+character nacional.
+
+Oh gente cega a quem Deus quer perder! pois não vêdes que não sois nada
+sem nós, que sem o nosso alchool, d'onde vos vinha espirito, sciencia,
+valor, ides cahir infallivelmente na antiga e priguiçosa rudeza saxonia!
+
+D'essas traidoras praias da França donde vos vai hoje o veneno corrosivo
+da vossa indole e da vossa fôrça, não tardará que tambem vos chegue
+outro Guilherme bastardo que vos conquiste e vos castigue, que vos faça
+arrepender, mas tarde, do criminoso êrro que hoje commetteis, ó
+insulares sem fe, em abandonar a nossa alliança. A nossa alliança sim, a
+nossa poderosa alliança, sem a qual não sois nada.
+
+O que é um inglez sem Porto ou Madeira... sem Carcavellos ou Cartaxo?
+
+Que se inspirasse Shakspeare com Lafitte, Milton com Chateaumargot--o
+chanceller Bacon que se dilluisse no melhor Borgonha... e veriamos os
+acidulos versinhos, os destemperados raciocininhos que faziam.
+
+Com todas as suas dietas, Newton nunca se lembrou de beber Johannisberg;
+Byron antes beberia _gin_, antes agua do Thamisa, ou do Pamiso, do que
+essas escorreduras das areias de Bordeos.
+
+Tirae-lhe o Porto aos vossos almirantes, e ninguem mais teme que torneis
+a ter outro Nelson. Entra nos planos do principe de Joinville fazer-vos
+beber da sua zurrapa: são tantos pontos de partido que lhe dais no seu
+jôgo.
+
+É M. Guizot quem perde a Inglaterra com a sua alliança; e tambem perde o
+Cartaxo. Por isso eu ja não quero nada com os doutrinarios.
+
+...........................................................................
+
+Ha dôze annos tornou o Cartaxo a figurar conspicuamente na historia de
+Portugal. Aqui, nas longas e terriveis luctas da última guerra de
+_successão_, esteve muito tempo o quartel-general do marquez de
+Saldanha.
+
+Alguns dythirambos se fizeram; alguns echos das antigas canções
+bacchicas do tempo da guerra peninsular ainda acordaram ao som dos
+hymnos constitucionaes.
+
+Mas o systema liberal, tirada a epocha das eleições, não é grande coisa
+para a indústria vinhateira, dizem. Eu não o creio porém; e tenho minhas
+boas razões, que ficam para outra vez.
+
+
+
+
+CAPITULO VIII.
+
+
+ Sahida do Cartaxo--A charneca. Perigo imminente em que o A. se acha
+ de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do imperador D.
+ Pedro ao exército liberal.--Batalha de
+ Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que não é
+ philosopho e chega á ponte da Asseca.
+
+
+Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava; montámos a cavallo, e
+cortámos por entre os viçosos pampanos que são a glória e a e tomado
+ânimo; breve, nos achámos em plena charneca.
+
+Bella e vasta planicie! Desafogada dos raios do sol, como ella se
+desenha ahi no horisonte tam suavemente! que delicioso aroma selvagem
+que exhalam éstas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que
+resistem verdes e viçosas a um sol portugez de julho!
+
+A doçura que mette n'alma a vista refrigerante de uma joven seara do
+Ribatejo nos primeiros dias de abril, ondulando lascivamente com a brisa
+temperada da primavera,--a amenidade bucolica de um campo minhoto de
+milho, á hora da rega, por meados de agosto, a ver-se-lhe pullar os
+caules com a agua que lhe anda por pé, e á roda as carvalheiras
+classicamente desposadas com a vide cuberta de racimos pretos--são ambos
+esses quadros de uma poesia tam graciosa e cheia de mimo, que nunca a
+dei por bem traduzida nos melhores versos de Theocrito ou de Virgilio,
+nas melhores prosas de Gesner ou de Rodrigues-Lobo.
+
+A majestade sombria o solemne de um bosque antigo e copado, o silencio e
+escuridão de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitario de suas
+clareiras, tudo é grandioso, sublime, inspirador de elevados
+pensamentos. Medita-se alli por fôrça; isola-se a alma dos sentidos pelo
+suave adormecimento em que elles cahem... e Deus, a eternidade--as
+primitivas e innatas ideas do homem--ficam unicas no seu pensamento...
+
+É assim. Mas um rochedo em que me eu sente ao pôr do sol na gandra erma
+e selvagem, vestida apenas de pastio bravo, baixo, e tosqueado rente da
+bôcca do gado--diz-me coisas da terra e do ceo que nenhum outro
+espectaculo me diz na natureza. Ha um vago, um indeciso, um vaporoso
+n'aquelle quadro que não tem nenhum outro.
+
+Não é o sublime da montanha, nem o augusto do bosque, nem o ameno do
+valle. Não ha ahi nada que se determine bem, que se possa definir
+positivamente. Ha a solidão que é uma idea negativa...
+
+Eu amo a charneca.
+
+E não sou romanesco. Romantico, Deus me livre de o ser--ao menos, o que
+na algaravia de hoje se intende por essa palavra.
+
+Ora a charneca d'entre Cartaxo e Santarem, áquella hora que a passámos,
+começava a ter esse tom, e a achar-lhe eu esse incanto indefinivel.
+
+Sentia-me disposto a fazer versos... a quê? Não sei.
+
+Felizmente que não estava so; e escapei de mais essa caturrice.
+
+Mas foi como se os fizesse, os versos, como se os estivesse fazendo,
+porque me deixei cahir n'um verdadeiro estado poetico de distracção, de
+mudez--cessou-me a vida toda de _relação_, e não me sentia existir senão
+por dentro.
+
+Derepente acordou-me do lethargo uma voz que bradou:--'Foi aqui!... aqui
+é que foi, não ha dúvida'.
+
+--'Foi aqui o quê?'
+
+--'A última revista do imperador'.
+
+--'A última revista! Como assim a última revista! Quando? Pois?...'
+
+Então cahi completamente em mim, e recordei-me, com amargura e
+desconsolação, dos tremendos sacrificios a que foi condemnada ésta
+geração, Deus sabe para quê--Deus sabe se para expiar as faltas de
+nossos passados, se para comprar a felicidade de nossos vindouros...
+
+O certo é que alli comeffeito passára o imperador D. Pedro a sua última
+revista ao exército liberal. Foi depois da batalha d'Almoster, uma das
+mais lidadas e das mais insanguentadas d'aquella triste guerra.
+
+Toda a guerra civil é triste.
+
+E é difficil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o
+vencido.
+
+Ponham de parte questões individuaes, e examinem de boa fé: verão que,
+na totalidade de cada facção em que a nação se dividiu, os ganhos, se os
+houve para quem venceu, não balançam os padecimentos, os sacrificios do
+passado, e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro...
+
+Eu não sou philosopho. Aos olhos do philosopho, a guerra civil e a
+guerra extrangeira, tudo são guerras que elle condemna--e não mais uma
+do que a outra... a não ser Hobbes o ditto philosopho, o que é coisa
+muito differente.
+
+Mas não sou philosopho, eu: estive no campo de Waterloo, sentei-me aopé
+do Leão de bronze sôbre aquelle monte de terra amassado com o sangue de
+tantos mil, vi--e eram passados vinte annos--vi luzir ainda pela campina
+os ossos brancos das victimas que alli se immolaram a não sei quê... Os
+povos disseram que á liberdade, os reis que á realeza... Nenhuma d'ellas
+ganhou muito, nem para muito tempo com a tal victoria...
+
+Mas deixemos isso. Estive alli, e senti bater-me o coração com essas
+recordações, com essas memorias dos grandes feitos e gentilezas que alli
+se obraram.
+
+Porque será que aqui não sinto senão tristeza?
+
+Porque luctas fratricidas não podem inspirar outro sentimento e
+porque...
+
+Eu moía comigo so éstas amargas reflexões, e toda a belleza da charneca
+desappareceu deante de mim.
+
+N'esta desagradavel disposição de ânimo chegámos á ponte d'Asseca.
+
+
+
+
+CAPITULO IX.
+
+
+ Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam,
+ apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do
+ capitulo antecedente.--Livros que não deviam ter titulo, e titulos
+ que não deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo. Bonaparte,
+ Rotchild e Silvio-Péllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexões e á
+ ponte da Asseca.--Traducção portugueza de um grande poeta.--Origem
+ de um dictado.--Junot na ponte da Asseca.--De como o A. d'este
+ livro foi jacobino desde pequeno.--Inguiço que lhe deram.--A
+ duqueza de Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem.
+
+
+Vivia aqui ha coisa de cinquenta para sessenta annos, n'esta boa terra
+de Portugal, um figurão exquisitissimo que tinha inquestionavelmente o
+instincto de descobrir assumptos dramaticos nacionaes--ainda, ás vezes,
+a arte de desenhar bem o seu quadro, de lhe grupar, não sem mérito, as
+figuras: mas ao pô-las em acção, ao collori-las, ao fazê-las fallar...
+boas noites! era semsaboria irremediavel.
+
+Deixou uma collecção immensa de peças de theatro que ninguem conhece, ou
+quasi ninguem, e que nenhuma soffreria, talvez, representação; mas rara
+é a que não poderia ser arranjada e appropriada á scena.
+
+Que mina tam ricca e fertil para qualquer mediano talento dramatico! Que
+bellas e portuguezas coisas se não podem extrahir dos treze volumes--são
+treze volumes e grandes!--do theatro de Ennio-Manuel de Figueiredo!
+Algumas d'essas peças, com bem pouco trabalho, com um dialogo mais vivo,
+um stylo mais animado, fariam comedias excelentes.
+
+Estão-me a lembrar éstas:
+
+'O Casamento da Cadea'--ou talvez se chame outra coisa, mas o assumpto é
+este; comedia cujos characteres são habilmente esboçados, funda-se
+n'aquella nossa antiga lei que fazia casar da prisão os que assim se
+suppunha podêrem reparar certos damnos de reputação feminina.
+
+'O fidalgo de sua casa', satyra mui graciosa de um tam commum ridiculo
+nosso.
+
+'As duas educações', bello quadro de costumes: são dois rapazes, ambos
+extrangeiramente educados, um francez, outro inglez, nenhum portuguez. É
+eminentemente comico, frisante, ou, segundo agora se diz á moda,
+'palpitante de actualidade.'
+
+'O cioso', comedia ja remoçada da antiga comedia de Ferreira e que em si
+tem os germens todos da mais ricca e original composição.
+
+'O avaro dissipador', cujo so titulo mostra o ingenho e invenção de quem
+tal assumpto concebeu: assumpto ainda não tractado por nenhum de tantos
+escriptores dramaticos de nação alguma, e que é todavia um vulgar
+ridiculo, todos os dias incontrado no mundo.
+
+São muitas mais, não fica n'estas, as composições do fertilissimo
+escriptor que, passadas pelo crivo de melhor gôsto, e animadas sôbretudo
+no stylo, fariam um razoavel repertorio para acudir á mingua dos nossos
+theatros.
+
+Uma das mais semsabores porêm, a que vulgarmente se haverá talvez pela
+mais semsabor, mas que a mim mais me diverte pela ingenuidade familiar e
+sympathica de seu tom magoado e melancholicamento chocho, é a que tem
+por titulo 'Poeta em annos de prosa'.
+
+E foi por ésta, foi por amor d'esta que me eu deixei descahir na
+digressão dramatico-litteraria do princípio d'este capitulo; pegou-se-me
+á penna porque se me tinha pregado na cabeça; e ou o capitulo não sabia,
+ou ella havia de sahir primeiro.
+
+Poeta em annos de prosa! Oh Figueiredo, Figueiredo, que grande homem não
+foste tu, pois imaginaste este titulo que so elle em si é um volume! Ha
+livros, e conheço muitos, que não deviam ter titulo, nem o titulo é nada
+n'elles.
+
+Faz favor de me dizer o de que serve, o que significa o 'Judeu errante'
+pôsto no frontispicio d'esse interminavel e mercatorio romance que ahi
+anda pelo mundo, mais errante, mais sem fim, mais immorredoiro que o seu
+prototypo?
+
+E ha titulos tambem que não deviam ter livro, porque nenhum livro é
+possivel escrever que os desimpenhe como elles merecem.
+
+'Poeta em annos de prosa' é um d'esses.
+
+Eu não leio nenhuma das raras coisas que hoje se escrevem
+verdadeiramente bellas, isto é, simples, verdadeiras, e por consequencia
+sublimes, que não exclame com sincero pesadume ca de dentro: 'Poeta em
+annos de prosa!'
+
+Pois este é seculo para poetas? ou temos nós poetas para este seculo?..
+
+Temos sim, eu conheço tres: Bonaparte, Silvio-Péllico e o barão de
+Rotchild.
+
+O primeiro fez a sua Iliada com a espada, o segundo com a paciencia, o
+último com o dinheiro.
+
+São os tres agentes, as tres entidades, as tres divindades da epocha.
+
+Ou cortar com Bonaparte, ou comprar com Rotchild, ou soffrer e ter
+paciencia com Silvio-Péllico.
+
+Todo o que fizer d'outra poesia--e d'outra prosa tambem--é tolo...
+
+Vieram-me éstas mui judiciosas reflexões a proposito do capitulo
+antecedente d'esta minha obra prima; e lancei-as aqui para instrucção e
+edificação do leitor benevolo.
+
+Acabei com ellas quando chegámos á ponte da Asseca.
+
+Esquecia-me dizer que d'aquelles tres grandes poetas so um está
+traduzido em portuguez--o Rotchild: não é litteral a traducção,
+agallegou-se e ficou muito suja de erros de imprensa mas como não ha
+outra...
+
+Ora d'onde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver
+sitio, logar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e d'ahi talvez o
+admiravel rifão portuguez que ainda não foi bem examinado como devia
+ser, e que decerto incerra algum grande dictame de moral primitiva:
+'andou por Secca (Asseca?) e Meca e olivaes de Santarem.'--Os taes
+olivaes ficam logo adiante. É uma ethymologia como qualquer outra.
+
+A ponte da Asseca corta uma varzea immensa que hade ser um vasto pahul
+de hynverno: ainda agora está a desangrar-se em agua por toda a parte.
+
+É notavel na historia moderna este sítio. Aqui n'um recontro com os
+nossos, foi Junot gravemente ferido, ferido na cara. _'Il ne sera plus
+beau garçon'_ disse o parlamentario francez que veio, depois da acção,
+tractar, creio eu, de troca de prisioneiros ou de coisa similhante. Mas
+inganou-se o parlamentario; Junot ainda ficou muito guapo e gentil homem
+depois d'isso.
+
+Tenho pena de nunca ter visto o Junot nem o Maneta,[1] as duas primeiras
+notabilidades que ouvi aclamar como taes e cujos nomes conhecí...
+Ingano-me: conheci primeiro o nome de Bonaparte. E lembra-me muito bem
+que nunca me persuadi que elle fossa o monstro disforme e horroroso que
+nos pintavam frades e velhas n'aquelle tempo. Imaginei sempre que, para
+excitar tantos odios e malquerenças, era necessario que fosse um bem
+grande homem.
+
+Desde pequeno que fui jacobino; ja se ve: e de pequeno me custou caro.
+Levei bons puchões de orelhas de meu pae por comprar na feira de
+San'Lazaro, no Porto, em vez das gaitinhas ou dos registos de sanctos,
+ou das outras bogigangas que os mais rapazes compravam... não imaginam o
+quê... um retrato de Bonaparte.
+
+Foi 'inguiço'--diria uma senhora do meu conhecimento que accredita
+n'elles: foi inguiço que aínda se não desfez e que toda a vida me tem
+perseguido.
+
+Quem me diria quando, por esse primeiro peccado politico da minha
+infancia, por esse primeiro tractamento duro, e--perdoe-me a respeitada
+memoria de meu sancto pae!--injustissimo, que me trouxe o mero instincto
+das ideas liberaes, quem me diria que eu havia de ser perseguido por
+ellas toda a vida! que apenas sahido da puberdade havia de ir a essa
+mesma França, á patria d'esses homens e d'essas ideas com quem a minha
+natureza sympathysava sem saber porquê, buscar asylo e guarida?
+
+Não vi ja quasi nenhum d'aquelles que tanto desejára conhecer; as ruinas
+do grande imperio estavam dispersas; os seus generaes mortos,
+desterrados, ou trajavam interesseiros e covardes as librés do
+vencedor...
+
+De todas as grandes figuras d'essa epocha, a que melhor conheci e
+tractei foi uma senhora, typo de graça, de amabilidade e de talento.
+Pouco foi o nosso tracto, mas quanto bastou para me incantar, para me
+formar no espirito um modêllo de valor e merecimento feminino que me
+veio a fazer muito mal.
+
+Custa depois a encher aquella altura que se marcou...
+
+Eis aqui como eu fiz esse conhecimento.
+
+Inda o estou vendo, coitado! o pobre C. do S., nobre, espirituoso,
+cavalheiro, fazendo-se perdoar todos os seus prejuizos de casta, que
+tinha como ninguem, por aquella polidez superior e affabilidade elegante
+que distingue o verdadeiro fidalgo (stylo antigo); inda o estou vendo,
+ja sexagenario, ja mais que 'ci-devant jeun'homme', o pescoço intallado
+na inflexivel gravata, os pés pegando-se-lhe, como os de Ovidio, ao
+limiar da porta--não que lh'os prendessem saudades, senão que lh'os
+paralysava a cakexia incipiente--mas o espirito joven a reagir e a
+teimar.
+
+--'Vamos!' disse elle 'hoje estou bom, sinto-me outro: quero
+apresentá-lo a madame de Abrantes. Está tam velha! Isto de mulheres não
+são como nós, passam muito depressa.'
+
+E o desgraçado tremiam-lhe as pernas, e suffocava-o a tosse.
+
+Tomámos uma 'citadine', e fomos comeffeito á nova e elegante rua chamada
+não impropriamente a rua de Londres, onde achámos rodeada de todo o
+esplendor do seu occaso aquella formosa estrella do imperio.
+
+Não quero dizer que era uma belleza; longe d'isso. Nem bella nem môça,
+nem airosa de faser impressão era a duqueza d'Abrantes. Mas em meia hora
+de conversação, de tracto, descubriam-se-lhe tantas graças, tanto
+natural, tanta amabilidade, um complexo tam verdadeiro e perfeito da
+mulher franceza, a mulher mais seductora do mundo, que involuntariamente
+se dizia a gente no seu coração: 'Como se está bem aqui!'
+
+Fallámos de Portugal, de Lisboa, do imperio--da restauração, da
+revolução de julho (isto era em 1831), de M. de Lafayette, de
+Luiz-Philippe, de Chateaubriand--o seu grande amigo d'ella--do
+_Sacré-Coeur_ e das suas elegantes devotas--fallámos artes, poesia,
+politica... e eu não tinha ânimo para acabar de conversar...
+
+Benevolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é consciencia,
+um resto de consciencia: acabemos com éstas digressões e perennaes
+divagações minhas. Bem vejo que te deixei parado á minha espera no meio
+da ponte d'Asseca. Perdoa-me por quem es, dêmos d'espora ás mulinhas, e
+vamos que são horas.
+
+Ca estâmos n'um dos mais lindos e deliciosos sitios da terra: o valle de
+Santarem, patria dos rouxinoes e das madresilvas, cincta de faias bellas
+e de loureiros viçosos. D'isto é que não tem París, nem França nem terra
+alguma do occidente senão a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas
+coisas que nos faltam.
+
+
+
+
+CAPITULO X.
+
+
+ Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por entre
+ umas árvores.--Conjecturas várias a respeito da ditta
+ janella.--Similhança do poeta com a mulher namorada, e
+ inquestionavel inferioridade do homem que não é poeta.--Os
+ rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro e das suas
+ saudades.--De como o A. tinha quasi completo o seu romance, menos
+ um vestido branco e uns olhos pretos.--Sahem verdes os olhos com
+ grande admiração e pasmo seu.--Verificam-se as conjecturas sôbre a
+ mysteriosa janella.--A menina dos rouxinoes.--Censura das damas
+ muito para temer, crítica dos elegantes muito para rir.--Começa o
+ primeiro episodio d'esta Odyssea.
+
+
+O valle de Santarem é um d'estes logares privilegiados pela natureza,
+sitios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo
+está n'uma harmonia suavissima e perfeita: não ha alli nada grandioso
+nem sublime, mas ha uma como symetria de côres, de sons, de disposição
+em tudo quanto se ve e se sente, que não parece senão que a paz, a
+saude, o socêgo do espirito e o repouso do coração devem viver alli,
+reinar alli um reinado de amor e benevolencia. As paixões más, os
+pensamentos mesquinhos, os pezares e as villezas da vida não podem senão
+fugir para longe. Imagina-se por aqui o Eden que o primeiro homem
+habitou com a sua innocencia e com a virgindade do seu coração.
+
+Á esquerda do valle, e abrigado do norte pela montanha que alli se corta
+quasi a pique, está um masisso de verdura do mais bello viço e
+variedade. A faia, o freixo, o alamo enterlaçam os ramos amigos; a
+madresilva, a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas e festões;
+a congossa, os fettos, a malva-rosa do vallado vestem e alcatifam o
+chão.
+
+Para mais realçar a belleza do quadro, ve-se por entre um claro das
+árvores a janella meia aberta de uma habitação antiga mas não
+dilapidada--com certo ar de confôrto grosseiro, e carregada na côr pelo
+tempo e pelos vendavais do sul a que está exposta. A janella é larga e
+baixa; parece mais ornada e tambem mais antiga que o resto do edificio
+que todavia mal se ve...
+
+Interessou-me aquella janella.
+
+Quem terá o bom gôsto e a fortuna de morar alli?
+
+Parei e puz-me a namorar a janella.
+
+Incantava-me, tinha-me alli como n'um feitiço.
+
+Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por de traz...
+Imaginarão decerto! Se o vulto fosse feminino!.. era completo o romance.
+
+Como hade ser bello ver pôr o sol d'aquella janella!..
+
+E ouvir cantar os rouxinoes!..
+
+E ver raiar uma alvorada de maio!..
+
+Se haverá alli quem a aproveite, a deliciosa janella?.. quem apprecie e
+saiba gosar todo o prazer tranquillo, todos os sanctos gosos de alma que
+parece que lhe andam esvoaçando em tôrno?
+
+Se fôr homem é poeta; se é mulher está namorada.
+
+São os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher
+namorada: vêem, sentem, pensam, fallam como a outra gente não ve, não
+sente, não pensa nem falla.
+
+Na maior paixão, no mais acrysolado affecto do homem que não é poeta,
+entra sempre o seu tanto da vil prosa humana: é liga sem que se não
+lavra o mais fino de seu oiro. A mulher não; a mulher apaixonada devéras
+sublima-se, idealiza-se logo, toda ella é poesia; e não ha dor physica,
+interêsse material, nem deleites sensuaes que a façam descer ao positivo
+da existencia prosaica.
+
+Estava eu n'estas meditações, começou um rouxinol a mais linda e
+desgarrada cantiga que ha muito tempo me lembra de ouvir.
+
+Era aope da ditta janella!
+
+E respondeu-lhe logo outro do lado opposto; e travou-se entre ambos um
+desafio tam regular, em strophes alternadas tam bem medidas, tam
+accentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro do meu romance,
+esqueci-me de tudo o mais.
+
+Lembrou-me o rouxinol de Bernardim-Ribeiro, o que se deixou cahir n'agua
+de cançado.
+
+O arvoredo, a janella, os rouxinoes... áquella hora, o fim da tarde...
+que faltava para completar o romance?
+
+Um vulto feminino que viesse sentar-se áquele balcão--vestido de
+branco--oh! branco por fôrça... a frente descahida sôbre a mão esquerda,
+o braço direito pendente, os olhos alçados ao ceo... De que côr os
+olhos? Não sei, que importa! é amiudar muito demais a pintura, que deve
+ser a grandes e largos traços para ser romantica, vaporosa, desenhar-se
+no vago da idealidade poetica...
+
+--'Os olhos, os olhos...' disse eu pensando ja alto, e todo no meu
+extasi, 'os olhos... pretos.'
+
+--'Pois eram verdes!'
+
+--'Verdes os olhos... d'ella, do vulto da janella?'
+
+--'Verdes como duas esmeraldas orientaes, transparentes, brilhantes, sem
+preço.'
+
+--'Quê! pois realmente?.. É gracejo isso, ou realmente ha alli uma
+mulher, bonita, e?..'
+
+--'Alli não ha ninguem--ninguem que se nomeie hoje, mas houve... oh!
+houve um anjo, um anjo, que deve de estar no ceo.'
+
+<tb>
+
+--'Bem dizia eu que aquella janella...'
+
+--'É a janella dos rouxinoes.'
+
+--'Que lá estão a cantar.'
+
+--'Estão, esses lá estão ainda como ha dez annos--os mesmos ou outros,
+mas a _menina dos rouxinoes_ foi-se e não voltou.'
+
+--'A menina dos rouxinoes! que historia é essa? Pois devéras tem uma
+historia aquella janella?'
+
+--'É um romance todo inteiro, _todo feito_ como dizem os francezes e
+conta-se em duas palavras.'
+
+--'Vamos a elle. A menina dos rouxinoes, menina com olhos verdes! Deve
+ser interessantissimo. Vamos á historia ja.'
+
+--'Pois vamos. Apeemo'-nos e descancemos um bocado.'
+
+Ja se ve que este dialogo passava entre mim e outro dos nossos
+companheiros de viagem.
+
+Apeámo'-nos comeffeito; sentamo'-nos; e eisaqui a historia da _menina
+dos rouxinoes_ como ella se contou.
+
+É o primeiro episodio da minha Odyssea: estou com medo de entrar n'elle
+porque dizem as damas e os elegantes da nossa terra que o portuguez não
+é bom para isto, que em francez que ha outro não-sei-quê...
+
+Eu creio que as damas que estão mal informadas, e sei que os elegantes
+que são uns tolos; mas sempre tenho meu receio, porque emfim, enfim,
+d'elles me rio eu, mas poesia ou romance, musica ou drama de que as
+mulheres não gostem, é porque não presta.
+
+Ainda assim, bellas e amaveis leitoras, intendamo'nos: o que eu vou
+contar não é um romance, não tem aventuras inredadas, peripecias,
+situações e incidentes raros; é uma historia simples e singella,
+sinceramente contada e sem pretenção.
+
+Acabemos aqui o capitulo em fórma de prologo, e a materia do meu conto
+para o seguinte.
+
+
+
+
+CAPITULO XI.
+
+
+ Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos
+ quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas
+ sim.--Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.--O A., tendo declarado
+ no capitulo nono d'esta obra que não era philosopho, agora
+ confessa, quasi solemnemente, que é poeta, e pretende manter-se,
+ como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha
+ menos juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella
+ o A. o seu admiravel systema de physiologia e pathologia
+ transcendente do coração. Por uma deducção appertada e cerrada da
+ mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi
+ concedido aos poetas o direito indefinido de andarem sempre
+ namorados.--Applicam-se todas éstas grandes theorias á posição
+ actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no
+ capitulo antecedente.--Modestia e reserva delicada o obrigam a
+ duvidar da sua qualificação para o desimpenho: pede votos ás
+ amaveis leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e
+ porquê.--Dido e a mana Annica.--Entra-se emfim na prometida
+ historia.--De como a velha estava á porta a dobar, e
+ imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por Joaninha, sua neta.
+
+
+Este é o unico privilegio dos poetas: que até morrer podem estar
+namorados. Tambem não lhes conheço outro. A mais gente tem as suas
+epochas na vida, fóra das quaes lhes não é permittido apaixonarem-se.
+Pretenderam accolher-se ao mesmo beneficio os philosophos, mas não lhes
+foi consentido pela rainha Opinião, que é soberana absoluta e juiz
+supremo de que se não appella nem aggrava ninguem.
+
+Anacreonte cantou, de cabellos brancos, os seus amores, e não se
+extranhou. Aristoteles mal teria a barba russa quando foi d'aquelle seu
+último namôro porque ainda hoje lhe apouquentam a fama.
+
+Ora eu philosopho, seguramente não sou, ja o disse; de poeta tenho o meu
+pouco, padeci, a fallar a verdade, meus ataques assás agudos d'essa
+molestia, e bem podéra desculpar-me com elles de certas fragilidades de
+coração... Mas não senhor, não quero desculpar-me como quem tem culpa
+senão defender-me como quem tem razão e justiça por si.
+
+Estou, com o meu amigo Yorick, o ajuizadissimo bobo d'elrei de
+Dinamarca, o que alguns annos depois ressuscitou em Sterne com tam
+elegante penna, estou sim. 'Toda a minha vida' diz elle 'tenho andado
+apaixonado ja por esta ja por aquella princeza, e assim heide ir,
+espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma
+acção baixa, mesquinha, nunca hade ser senão no intervallo de uma paixão
+á outra: n'esses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o
+sentimento, não acho dez reis que dar a um pobre... por isso fujo ás
+carreiras de similhante estado; e mal me sinto acceso de novo, sou todo
+generosidade e benevolencia outra vez.'
+
+Yorick tem rasão, tinha muito mais razão e juizo que seu augusto amo,
+elrei de Dinamarca. Por pouco mais que se generalize o principio, fica
+indisputavel, inexcepcionavel para sempre e para tudo. O coração humano
+é como o estomago humano, não pode estar vazio, preciza de alimento
+sempre: são e generoso so as affeições lh'o podem dar; o odio, a inveja
+e toda a outra paixão má é estímulo que so irrita mas não sustenta. Se a
+razão e a moral nos mandam abster d'estas paixões, se as chymeras
+philosophicas, ou outras, nos vedarem aquellas, que alimento dareis ao
+coração, que hade elle fazer? Gastar-se sôbre si mesmo, consummir-se...
+Altera-se a vida, appressa-se a dissolução moral da existencia, a saude
+d'alma é impossivel.
+
+O que póde viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada.
+
+Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua
+mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal,
+e Deus me livre d'elle.
+
+Sôbretudo que não escreva: hade ser um massador terrivel. Talvez seja
+este o motivo da indefinida permissão que é dada aos poetas de andarem
+namorados sempre.
+
+O romancista gosa do mesmo fôro e tem as mesmas obrigações. É como o
+privilegio de desimbargador que tiravam d'antes os fidalgos, quando ser
+desimbargador valia alguma coisa... e tanta coisa!
+
+Como heide eu então, eu que n'esta grave Odyssea das minhas viagens
+tenho de inserir o mais interessante e mysterioso episodio d'amor que
+ainda foi contado ou cantado, como heide eu fazê-lo, eu que ja não tenho
+que amar n'este mundo senão uma saudade e uma esperança--um filho no
+berço e uma mulher na cova?..
+
+Será isto bastante? Dizei-o vós, ó benevolas leitoras, póde com isto so
+alimentar-se a vida do coração?
+
+--Póde sim.
+
+--Não póde, não.
+
+--Estão divididos os suffragios: peço votação.
+
+--Nominal?
+
+--Não, não.
+
+--Porquê?
+
+--Porque ha muita coisa que a gente pensa, e crê e diz assim a
+conversar, mas que não ousa confessar publicamente, professar aberta e
+nomeadamente no mundo...
+
+Ah! sim... elle é isso? Bem as intendo, minhas senhoras: reservemos
+sempre uma sahida para os casos difficeis, para as circumstancias
+extraordinarias. Não é assim?
+
+Pois o mesmo farei eu.
+
+E pôsto que hoje, faz hoje um mez, em tal dia como hoje, dia para sempre
+assignalado na minha vida, me apparecesse uma visão, uma visão celeste
+que me surpreendeu a alma por um modo novo e extranho, e do qual não
+podia dizer decerto como a rainha Dido á mana Annica:
+
+ Reconheço o queimar da chamma antiga,
+ Agnosco veteris vestigia flammae;
+
+pôsto que a visão passou e desappareceu... mas deixou gravada n'alma a
+certeza de que... Pôsto que seja assim tudo isto, a confidencia não
+passará d'aqui, minhas senhoras: tanto basta para se saber que estou
+sufficientemente habilitado para chronista da minha historia, e a minha
+historia é ésta.
+
+Era no anno de 1832, uma tarde de verão como hoje calmosa, sêcca, mas o
+ceo puro e desabafado. Á porta d'essa casa entre o arvoredo, estaca
+sentada uma velhinha bem passante dos settenta, mas que o não mostrava.
+Vestia uma especie de tunica rosa que apertava na cintura com um largo
+cinto de coiro preto, e que fazia resahir a alvura da cara e das mãos
+longas, descarnadas, mas não ossudas como usam de ser mãos de velhas;
+toucava-se com um lenço da mais escrupulosa brancura, e pôsto de um
+geito particular a modo de toalha de freira; um mandil da mesma
+brancura, que tinha no peito e que affectava, não menos, a fórma de um
+escapulario de monja, completava o extranho vestuario da velha. Estava
+sentada n'uma cadeira baixa do mais classico feitio: textualmente
+parecia a que serviu de modêllo a Raphael para o seu bello quadro da
+_Madonna della Sedia_.
+
+Como nota historica e illustração artistica, seja-me permittido juntar
+aqui em parenthesis que, não ha muito, vi em casa de um sapateiro
+remendão, em Lisboa, no Bairro-alto, um cadeira tal e qual; torneados
+pyramidaes, simples, sem nobreza, mas elegantes.
+
+Tornemos á velhinha.
+
+Estava ella alli sentada na ditta cadeira, e deante de si tinha uma
+dobadoira, que se movia regularmente com o tirar do fio que lhe vinha
+ter ás mãos a inrollar-se no ja crescido novello.
+
+Era o unico signal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso,
+velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma graciosa sculptura de
+Antonio Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros do morgado de
+Setubal.
+
+O movimento bem visivel da dobadoira era regular, e respondía ao
+movimento quasi imperceptivel das mãos da velha. Era regular o
+movimento, mas durava um minuto e parava, depois ia seguido outros dous,
+tres minutos, tornava a parar: e n'esta regularidade de intermitencias
+se ia alternando como o pulso de um que treme sesões.
+
+Mas o velha não tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o parar
+do seu lavor era porque o trabalho interior do espirito dobrava, de vez
+em quando, de intensidade, e lhe suspendia todo o movimento externo. Mas
+a suspensão era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira
+tornava a andar.
+
+Os olhos da velha é que tinham uma expressão singular: voltada para o
+poente, não os tirou d'essa direcção nem os inclinava de modo algum para
+a dobadoira que lhe ficava um pouco mais á esquerda. Não pestanejavam, e
+o azul de suas pupillas, que devia de ter sido brilhante como o das
+saphyras, parecia desbotado e sem lume.
+
+O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou
+tranquillamente as mãos e o novello no regaço, e chamou para dentro da
+casa:
+
+--'Joanninha?'
+
+Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas vozes que se ouvem rara vez,
+que retinem dentro d'alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de
+dentro:
+
+--'Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.'
+
+--'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando
+podéres. É a meada que se me imbaraçou.'
+
+A velha era cega, cega de gotta-serena, e paciente, resignada como a
+providencia misericordiosa de Deus permitte quasi sempre que sejam os
+que n'este mundo destinou á dura provança de tam desconsolado martyrio.
+
+
+
+
+CAPITULO XII.
+
+
+ De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais que
+ aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha.--Dá o A. insigne
+ próva de ingenuidade e boa fe confessando um grave senão do seu
+ Ideal. Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece
+ uma mulher desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas
+ monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos
+ peralvilhos.--Os olhos verdes de Joanninha.--Religião dos olhos
+ pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha á
+ vista de uns olhos verdes.--De como estando a avó e a neta a
+ conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a
+ conversação.--Quem era Frei Diniz.
+
+
+--'Aqui estou, minha avó: é a sua meada?.. eu lh'a indireito:'--disse
+Joanninha sahindo de dentro, e com os braços abertos para a velha.
+Apertou-a n'elles com innefavel ternura, beijou-a muitas vezes, e
+tomando-lhe o novello das mãos n'um instante desimbaraçou o fio e lh'o
+tornou a intregar.
+
+A velha surria com aquelle surriso satisfeito que exprime os tranquillos
+gosos de alma, e que parecia dizer: 'Como eu sou feliz ainda, apezar de
+velha e de cega! Bemdito sejais, meu Deus.'
+
+Ésta última phrase, ésta bençam de um coração agradecido, que spira
+suavemente para o ceo como sobe do altar o fummo do incenso consagrado,
+ésta última phrase trasbordou-lhe e sahiu articulada dos labios:
+
+--'Bemditto seja Deus' minha filha, minha Joanninha, minha querida neta!
+E Elle te abençoe tambem, filha!'
+
+--'Sabe que mais, minha avó? Basta de trabalhar hoje, são horas de
+merendar'.
+
+--'Pois merendemos'.
+
+Joannninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cubriu-a
+com uma toalha alvissima, pôs em cima fructa, pão, queijo, vinho,
+chegou-a para aopé da velha, tirou-lhe o novello da mão, e arredou a
+dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe
+escolheu e pôs nas mãos, bebeu um trago de vinho, e ficou callada e
+quieta, mas ja sem a mesma expressão de felicidade e contentamento
+socegado que ainda agora lhe luzia no rosto.
+
+As animadas feições de Joanninha reflectiam sympathicamente a mesma
+alteração.
+
+Joanninha não era bella, talvez nem galante siquer no sentido popular e
+expressivo que a palavra tem em portuguez, mas era o typo da gentileza,
+o ideal da spiritualidade. N'aquelle rosto, n'aquelle corpo de dezeseis
+annos, havia por dom natural e por uma admiravel symetria de proporções
+toda a elegancia nobre, todo o desimbaraço modesto, toda a flexibilidade
+graciosa que a arte, o uso e a conversação da côrte e da mais escolhida
+companhia vêem a dar a algumas raras e privilegiadas creaturas no mundo.
+
+Mas n'esta foi a natureza que fez tudo, ou quasi tudo, e a educação nada
+ou quasi nada.
+
+Poucas mulheres são muito mais baixas, e ella parecia alta: tam
+delicada, tam _elancée_ era a fórma airosa de seu corpo.
+
+E não era o garbo teso e aprumado da perpendicular _miss_ ingleza que
+parece fundida de uma so peça; não, mas flexivel e ondulante como a
+hástea joven da árvore que é direita mas dobradiça, forte da vida de
+toda a seiva com que nasceu, e tenra que a estalla qualquer vento forte.
+
+Era branca, mas não d'esse branco importuno das loiras, nem do branco
+terso, duro, marmoreo das ruivas--sim d'aquella modesta alvura da cera
+que se illumina de um pallido reflexo de rosa de Bengalla.
+
+E d'outras rosas, d'estas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de
+um sangue que passa livre pelo coração e corre á sua vontade por
+artérias em que os nervos não dominam, d'essas não as havia n'aquelle
+rosto: rosto sereno como é sereno o mar em dia de calma, porque dorme o
+vento... Alli dormiam as paixões.
+
+Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para
+increspar a superficie espelhada do mar.
+
+Sussurre o mais ingenuo e suave movimento d'alma no primeiro acordar das
+paixões, e verão como se sobresaltam os musculos agora tam quietos
+d'aquella face tranquilla.
+
+O nariz ligeiramente aquilino: a bôcca pequena e delgada não cortejava
+nem desdenhava o surriso, mas a sua expressão natural e habitual era uma
+gravidade singela que não tinha a menor aspereza nem doutorice.
+
+Ha umas certas boquinhas gravesinhas e espremidinhas pela doutorice que
+são a mais abhorrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permitte
+fazer ás suas creaturas femeas.
+
+Em perfeita harmonia de côr, de fórma e de tom com a fina gentileza
+d'estas feições, os cabellos de um castanho tam escuro que tocava em
+preto, cahiam de um lado e outro da face, em tres longos, deseguaes e
+mal inrolados canudos, cuja ondada spiral se ia relaxando e diminuindo
+para a extremidade, até lhe tocarem no collo quasi lisos.
+
+Em stylo de arte--no stylo da primeira e da mais bella das bellas artes,
+a _toilete_--este é um defeito; bem sei.
+
+Que votos, que novenas se não fazem a San'Barometro nas vésperas de um
+baile para lhe pedir uma atmosphera sêcca e benigna que deixe conservar,
+até á quarta contradança ao menos, a preciosa obra de carrapito e ferro
+quente, de macassar e mandolina que tanto trabalho e tanto tempo, tantos
+sustos e cuidados custou!
+
+Bem sei pois que é defeito, é, será... mas que adoravel defeito! Que
+deliciosas imagens que excita de abandôno--passe o gallicismo--de
+confiança, de absoluta e generosa renúncia a todo o caprixo, de perfeita
+e completa abdicação de toda a vontade propria!
+
+Em geral, as mulheres parecem ter no cabello a mesma fé que tinha
+Sansão: o que n'elle se ia em lh'os cortando, cuidam ellas que se lhes
+vai em lh'os desannellando? Talvez; e eu não estou longe de o crer:
+canudo inflexivel, mulher inflexivel.
+
+Os peralvilhos negam a existencia do tal canudo _in rerum natura_, dizem
+que é como a ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego. Eu
+não digo tal, porque tenho visto descuidar-se a natureza em pasmosas
+monstruosidades.
+
+Emfim suspendâmos, sem o terminar, o exame d'esta profunda e
+interessante questão. Fica addiada para um capitulo _ad hoc_, e voltemos
+á minha Joanninha.
+
+Cahiam d'um lado e de outro da sua face gentil aquelles graciosos
+anneis; e o resto do cabello, que era muito, ia intrançar-se, e
+inrolar-se com singela elegancia abaixo da coroa de uma cabeça pequena,
+estreita e do mais perfeito modêlo.
+
+As sobrancelhas, quasi pretas tambem, desenhavam-se n'uma curva de
+extrema pureza; a as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura
+da face.
+
+Os olhos porêm--singular capricho da naturesa, que no meio de toda esta
+harmonia quiz lançar uma nota de admiravel discordancia! Como poderoso e
+ousado _maestro_ que, no meio das pbrases mais classicas e deduzidas da
+sua composição, atira derepente com um som agudo e stridulo que ninguem
+espera e que parece lançar a anarchia no meio do rythmo musical... os
+dillettantes arripiam-se, os professores benzem-se; mas aquelles cujos
+ouvidos lhes levam ao coração a musica, e não á cabeça, esses estremecem
+de admiração e enthusiasmo... Os olhos de Joanninha eram verdes... não
+d'aquelle verde descorado e traidor da raça felina, não d'aquelle verde
+mau e destingido que não é senão azul imperfeito, não; eram
+verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido
+quilate.
+
+São os mais raros e os mais fascinantes olhos que ha.
+
+Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que n'ella nasci e n'ella
+espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a
+heretica pravidade do ôlho azul, soffri o que é muito bem feito que
+soffra todo o renegado... eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca,
+nos meus principios, sinceramente persuadido que fóra d'elles não ha
+salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma unica vez que vi dos taes
+olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu
+catholicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha
+fé vacillante na contemplação das eternas verdades, que so e unicamente
+se incontram aonde está toda a fé e toda a crença... n'uns olhos sincera
+e lealmente pretos.
+
+Joanninha porêm tinha os olhos verdes; e o effeito d'esta rara feição
+n'aquella physionomia á primeira vista tam discordante--era em verdade
+pasmosa. Primeiro fascinava, halucinava, depois fazia uma sensação
+inexplicavel e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo: porfim
+pouco o pouco, estabelecia-se a corrente magnetica tam poderosa, tam
+carregada, tam incapaz de solução-de-continuidade, que toda a lembrança
+de outra coisa desapparecia, e toda a intelligencia e toda a vontade
+eram absorvidas.
+
+Resta so accrescentar--e fica o retrato completo, um simples vestido
+azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas
+traçadas em cothurno. O pé breve e estreito; o que se adivinhava da
+perna admiravel.
+
+Tal era a ideal e espiritualissima figura que em pé, incostada á banca
+onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle rosto
+macerado e apagado, a indicivel expressão de tristeza que elle pouco a
+pouco ía tomando e que toda se reflectia, como disse, no semblante da
+contempladora.
+
+A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esfôrço para se
+distrahir de pensamentos que a affligiam, buscou incertamente com as
+mãos o novêllo da sua meada:
+
+--'O meu novêllo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.'
+
+--'Conversemos, avó.'
+
+--'Pois conversemos; mas dá-me o meu novêllo. Não sei o que é, mas
+quando não trabalho eu, trabalha não sei o que em mim que me cansa ainda
+mais. Bem dizem que a ociosidade é o peior lavor.'
+
+Joanninha deu-lhe o novêllo e pôs-lhe a dobadoira a geito.
+
+A velha sentiu o que quer que fosse na mão, levou-a á bôcca e pareceu
+beija-la, depois disse:
+
+--'Bem vi, Joanninha!'
+
+--'O quê, minha avó? que viu?'
+
+--'Vi, filha, vi.., sem ser com os olhos que Deus me cerrou para
+sempre--louvado seja Elle por tudo!--vi, sentindo, ésta lagryma tua que
+me cahiu na mão, e que ja ca está no peito por que a bebi, Joanna. Oh
+filha, ja! é muito cedo para começar, deixa isso para mim que estou
+costumada: mas tu, tu com deseseis annos e nenhum desgôsto!'
+
+--'Nenhum, avó! E estamos sosinhas nós duas n'este mundo, minha avó
+n'esse estado, eu n'esta edade, e...'
+
+--'E Deus no ceu para tomar conta em nós... Mas que é? olha, Joanna: eu
+sinto passos na estrada vê o que é.'
+
+--'Não vejo ninguem.'
+
+--'Mas oiço eu... Espera... é Fr. Diniz; conheço-lhe os passos.'
+
+Mal a velha acabava de pronunciar este nome, surdiu, de traz de umas
+oliveiras que ficam na volta da estrada, da banda de Santarem, a figura
+sêcca, alta e um tanto curvada de um religioso franciscano que abordoado
+em seu pau tosco, arrastando as suas sandalias amarellas e tremendo-lhe
+na cabeça o seu chapeo alvadio, vinha em direcção para ellas.
+
+Era Fr. Diniz comeffeito, o austero guardião de San'Francisco de
+Santarem.
+
+
+
+
+CAPITULO XIII.
+
+
+ Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado, socialmente e
+ artisticamente.--Próva-se que é muito mais poetico o frade do que o
+ barão.--Outra vez D. Quixote e Sancho-Pansa.--Do que seja o barão,
+ sua classificação e descripção linneana.--Historia do castello do
+ Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os
+ jesuitas não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu
+ errante'--De como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso
+ seculo ao frade.--De como o barão ficou em logar do frade, e do
+ muito que n'isso perdémos.--Unica voz que se ouve no actual deserto
+ da sociedade: os barões a gritar contos de reis.--Como se contam e
+ como se pagam os taes contos.--Predilecção artistica do A. pelo
+ frade: confessa-se e explica-se ésta predilecção.
+
+
+Frades... frades... Eu não gósto de frades. Como nós os vimos ainda os
+d'este seculo, como nós os intendêmos hoje, não gósto d'elles, não os
+quero para nada, moral e socialmente fallando.
+
+No ponto de vista artistico porêm o frade faz muita falta.
+
+Nas cidades, aquellas figuras graves e sérias com os seus habitos
+tallares, quasi todos picturescos e alguns elegantes, atravessando as
+multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de
+alcatruz que distinguem a peralvilha raça europea--cortavam a monotonia
+do ridiculo e davam physionomia á população.
+
+Nos campos o effeito era ainda muito maior: elles characterizavam a
+payzagem, poetisavam a situação mais prosaica de monte ou de valle; e
+tam necessarias tam obrigadas figuras eram em muitos d'esses quadros,
+que sem ellas o painel não é ja o mesmo.
+
+Alêm d'isso o convento no povoado e o mosteiro no êrmo animavam,
+amenizavam, davam alma e grandeza a tudo: elles protegiam as árvores,
+sanctificavam as fontes, enchiam a terra de poesia e de solemnidade.
+
+O que não sabem nem podem fazer os agiotas barões que os substituiram.
+
+É muito mais poetico o frade que o barão.
+
+O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha.
+
+O barão é, em quasi todos os pontos, o Sancho-Pansa da sociedade nova.
+
+Menos na graça...
+
+Porque o barão é o mais desgracioso e estupido animal da creação.
+
+Sem exceptuar a familia asinina que se illustra com individualidades tam
+distinctas como o Ruço do nosso amigo Sancho, o asno da Poncella de
+Orleans e outros.
+
+O barão (_onagros-baronius_ de Linn., _l'ânne-baron_ de Buf.) é uma
+variedade monstruosa ingendrada na burra de Balaham, pela parte
+essencialmente judaica e usuraria de sua natureza, em coito damnado com
+o urso Martinho do Jardim das Plantas[2], pela parte franchinotica e
+sordidamente revolucionaria de seu character.
+
+O barão é pois usurariamente revolucionario, e revolucionariamente
+usurario.
+
+Por isso é _zebrado_ de riscas monarchico-democraticas por todo o pêllo.
+
+Este é o barão verdadeiro e puro-sangue: o que não tem estes characteres
+é especie differente, de que aqui se não tracta.
+
+Ora, sem sahir dos barões e tornando aos frades, eu digo: que nem elles
+comprehenderam o nosso seculo nem nós os comprehendémos a elles..
+
+Por isso brigámos muito tempo, a final vencêmos nós, e mandámos os
+barões a expulsá-los da terra. No que fizemos uma sandice como nunca se
+fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o... e escouceou-nos a nós
+depois.
+
+Com que havemos nós agora de matar o barão?
+
+Porque este mundo e a sua historia é a historia do 'castello do
+Chucherumello'. Aqui está o cão que mordeu no gato, que matou o rato,
+que roeu a corda etc. etc.: vai sempre assim seguindo.
+
+Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu, e nós não
+comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de
+morrer.
+
+São a molestia d'este seculo; são elles, não os jesuitas, a
+cholera-morbus da sociedade actual, os barões. O nosso amigo Eugenio Sue
+errou de meio a meio no 'Judeu errante' que precisa refeito.
+
+Ora o frade foi quem errou primeiro em nos não comprehender, a nós, ao
+nosso seculo, ás nossas inspirações e aspirações: com o que falsificou a
+sua posição, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade,
+uma coisa infallivel e sem remedio. Assustou-se com a liberdade que era
+sua amiga, mas que o havia de reformar, e uniu-se ao despotismo que o
+não amava senão relaxado e vicioso, porque de outro modo lhe não servia
+nem o servia.
+
+Nós tambem errámos em não intender o desculpavel êrro do frade, em lhe
+não dar outra direcção social; e evitar assim os barões, que é muito
+mais damninho bicho e mais roedor.
+
+Porque, desinganem-se, o mundo sempre assim foi e hade ser. Por mais
+bellas theorias que se façam, por mais perfeitas constituições com que
+se comece, o _status in statu_ forma-se logo: ou com frades ou com
+barões ou com pedreiros livres se vai pouco a pouco organizando uma
+influencia distincta, quando não contraria, ás influencias manifestas e
+apparentes do grande corpo social. Esta é a opposição natural do
+Progresso, o qual tem a sua opposição como todas as coisas sublunares e
+superlunares; ésta corrige saudavelmente, ás vezes, e modera sua
+velocidade, outras, a impece com demazia e abuso: mas emfim é uma
+necessidade.
+
+Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a opposição dos
+frades que a dos barões. O caso estava em a saber conter e approveitar.
+
+O Progresso e a liberdade perdeu, não ganhou.
+
+Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruinas, os
+egressos a pedir esmola e os barões de berlinda, tenho saudades dos
+frades--não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser.
+
+E sei que me não inganam poesias; que eu reajo fortemente com uma logica
+inflexivel contra as illusões poeticas em se tractando de coisas graves.
+
+E sei que me não namóro de paradoxos, nem sou d'estes espiritos de
+contradicção desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão
+contentes com o que é.
+
+Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal na Irlanda, na Polonia,
+no Brazil, podia e devia sê-lo entre nós; e nós ficavamos muito melhor
+do que estamos com meia duzia de clerigos de requiem para nos dizer
+missa; e com duas grozas de barões, não para a tal opposição salutar,
+mas para exercer toda a influencia moral e intellectual da
+sociedade--porque não ha de outra ca.
+
+E se não digam-me: onde estão as universidades, e o que faz essa que ha
+senão dar o seu grausito de bacharel em leis e em medicina? O que
+escreve ella, o que discute, que príncipios tem, que doutrinas professa,
+quem sabe ou ouve d'ella senão algum echo timido e acanhado do que
+n'outra parte se faz ou diz?
+
+Onde estão as academias?
+
+Que palavra poderosa retine nos pulpitos?
+
+Onde está a fôrça da tribuna?
+
+Que poeta canta tam alto que o oiçam as pedras brutas e os robres duros
+d'esta selva materialista a que os utilitarios nos reduziram?
+
+Se exceptuarmos o debil clamor da imprensa liberal ja meio-esganada da
+policia, não se ouve no vasto silencio d'este ermo senão a voz dos
+barões gritando contos de réis.
+
+Dez contos de réis por um eleitor!
+
+Mais duzentos contos pelo tabaco!
+
+Três mil contos para a conversão de um amphigouri!
+
+Cinco mil contos para as estradas dos areonautas!
+
+Seis mil contos para isto, dez mil contos para aquillo!
+
+Não tardam o contar por centenas de milhares.
+
+Contar a elles não lhes custa nada.
+
+A quem custa é a quem paga para todos esses balões de papel--a terra e a
+indústria..................................................................
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Este capítulo deve ser considerado como introducção ao capítulo
+seguinte, em que entra em scena Fr. Diniz, o guardião do San' Francisco
+de Santarem.
+
+Ja me disseram que eu tinha o genio frade, que não podia fazer conto,
+drama, romance sem lhe metter o meu fradinho.
+
+O 'Camões' tem um frade, Frei José Indio;
+
+A 'Dona Branca' tres, Frei Soeiro, Frei Lopo e San'-Frei Gil--faz
+quatro;
+
+A 'Adozinda' tem um ermitão, especie de frade--cinco;
+
+'Gil-Vicente' tem outro--isto é, verdadeiramente não tem senão meio
+frade, que é André de Rezende, demais a mais, pessoa muda--cinco e meio;
+
+O 'Alfageme' tres quartos do frade, Froilão-Dias, chibato da ordem de
+Malta--seis frades e um quarto;
+
+Em 'Frei Luiz de Sousa' tudo são frades: vale bem n'esta computação, os
+seus tres, quatro, meia duzia de frades--são já dôze e quarto:
+
+Alguns, não eu, querem metter n'esta conta o 'Arco-de-Sanct'Anna', em
+que ha bem dous frades e um leigo:
+
+E aqui tenho eu ás costas nada menos de quinze frades e quarto.
+
+Com este Frei Diniz é um convento inteiro.
+
+Pois, senhores, não sei que lhes faça: a culpa não é minha. Desde mil
+cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos trinta e tantos
+que uns dizem que elle se restaurou, outros que o levou a breca, não sei
+que se passasse ou podesse passar n'esta terra coisa alguma pública ou
+particular, em que frade não entrasse.
+
+Para evitar isto não ha senão usar da receita que vem formulada no
+capitulo V[3] d'esta obra.
+
+Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem sei.
+
+
+
+
+CAPITULO XIV.
+
+
+ Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue o A.
+ direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a
+ manga a beijar á avó e á neta, e do mais que entre elles se
+ passou.--Ralha o frade com a velha, e começa a descobrir-se onde a
+ historia vai ter.
+
+
+Este capitulo não tem divagações, nem reflexões, nem considerações de
+nenhuma especie, vai direito e sem se distrahir, pela sua historia
+adeante.
+
+Fr. Diniz chegava aopé das duas mulheres e disse:
+
+--'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!'
+
+Joanna adeantou-se alguns passos a beijar-lhe a manga. Elle
+accrescentou:
+
+--'A benção de Deus te cubra, filha, e a de nosso padre San'Francisco!'
+
+--'Benedicite, padre guardião:' disse a velha inclinando-se meia
+levantada da cadeira.
+
+--'Em nome do Senhor! amen'.--respondeu o frade aproximando-se, e
+chegando o braço a alcance de lh'o ella beijar:
+
+--'Ora aqui estou, minha irman; que me quer? E como vai isto por cá?
+Vamo-nos confortando, tendo paciencia, e soffrendo com os olhos no
+Senhor?'
+
+--'Ja os não tenho senão para elle, padre.'
+
+--'Ah, ah! irman Francisca, sempre esse pensamento, sempre essa queixa!
+Tenho-a reprehendido tanta vez e não se emenda.'
+
+--'Eu não me queixei, meu padre. Deus sabe que me não queixo... ao menos
+por mim.'
+
+--'Pois por quem?'
+
+--'Oh padre!'
+
+--'Irman Francisca, tenho medo de a intender. Eu não conheço as
+affeições da carne nem lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou
+frade, minha irman, sou um que ja não é do número dos vivos, que vestiu
+ésta mortalha para não ser d'elles, que a vestiu n'um tempo em que a
+mofa e o desprêzo são o unico patrimonio do frade, em que o escarneo, a
+derisão, o insulto--o peior e o mais cruel de todos os martyrios--são a
+nossa unica esperança. Eu quiz ser frade, fiz-me frade, sabendo e vendo
+tudo isto, fiz-me frade no meio de tudo isto, já velho e experimentado
+no mundo, farto de o conhecer, e certo do que me espera--a mim e á
+profissão que abraçei. Que quer de um homem que assim se resolveu a
+cortar por quanto prende a humanidade a ésta miseravel vida da terra,
+para não viver senão das esperanças da outra? Eu vesti este hábito para
+isso. O seu, irman, o seu para que o vestiu? É um divertimento, é um
+capricho, é uma comedia com Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas
+do mundo, não apperte com a paciencia divina, trajando por fóra o sacco
+da penitencia e trazendo o coração pordentro desappertado de todo o
+cilicio e mortificação.'
+
+A velha com as mãos postas, a face alevantada e os apagados olhos para o
+ceo, offerecia a Deus todo o amargor d'aquella austeridade que não
+cuidava merecer nem lhe parecia intender. Joanninha, que insensivelmente
+se fôra approximando da avó, e a tinha como amparada portraz com um de
+seus braços, firmava a outra mão nas costas da cadeira e cravava fita no
+frade a vista penetrante e cheia de luz. A expressão do seu rosto era
+indefinivel: irisava-lh'o, distincta mas promiscuamente, um mixto
+inextricavel de enthusiasmo e desanimação, de fé e de incredulidade, de
+sympathia e de aversão.
+
+Disseras que n'aquelles olhos verdes e n'aquelle rosto mal córado estava
+o typo e o symbolo das vascillações do seculo.
+
+--'Padre!' tornou a velha com sincera humildade na voz e no gesto:--'se
+o mereci, castigae-me. Deus, que me vê e me ouve, bem sabe que o digo em
+toda a verdade do meu coração, e hade perdoar-me porque eu sou fraca e
+mulher.'
+
+--'Pois aos fracos não é que Elle disse: _Toma a tua cruz e segue-me_.
+Quem a obrigou a fazer os votos que fez?'
+
+--'É verdade, padre, é verdade: bem sei o que prometti, que me votei a
+Deus d'alma e corpo, que me não pertenço, que nem das minhas affeições
+posso dispor, mas...'
+
+--'Mas o quê? Irman Francisca, a Deus não se ingana. Os seus votos não
+foram feitos n'um mosteiro, nem proferidos n'um altar no meio das
+solemnidades da egreja. Mas ja lh'o tenho ditto, no fôro da consciencia,
+na presença de Deus, ligam-n'a tanto ou mais do que se o fossem.
+Abjure-os se quizer; nenhuma lei, nenhuma fôrça humana a constrange.
+Diga-m'o por uma vez, desingane-me, e eu não torno aqui.'
+
+--'Oh, por compaixão, padre! pelas chagas de Christo! Mas uma pergunta
+so, uma so, e eu prometto não pensar, não fallar mais em... Onde está
+elle?'
+
+--'Joanna, retire-se.'
+
+Joanninha appertou a avó com ambos os braços; e sem dizer uma palavra,
+sem fazer um so gesto, lentamente e silenciosamente se retirou para
+dentro de casa.
+
+--'E ésta, padre?' disse a velha sem esperar a resposta á primeira
+pergunta que com tanta ancia fizera--'e ésta, tambem d'ella me heide
+separar, tambem heide renunciar a ella?'
+
+--'Esta é uma innocente, e emquanto o for'...
+
+--'Em quanto o for! A minha Joanna é um anjo.'
+
+--'Blasphemia, blasphemia! E o Senhor a não castigue por ella. Joanna é
+boa e temente a Deus: esperemos que Elle a conserve da sua mão. O
+outro...'
+
+--'Que é feito d'elle padre? Oh! diga-m'o, e eu prometto...'
+
+--'Não prometta senão o que póde cumprir. Seu neto está com esses
+desgraçados que vieram das ilhas, é dos que desimbarcaram no Porto...'
+
+--'Oh filho da minha alma! que não tórno a abraçar-te...'
+
+--'Não decerto; vencedores ou vencidos, toda a communhão, toda a
+possibilidade de união acabou entre nós e estes homens. Nós temos
+obrigação de os destruir, elles o seu unico desejo é exterminar-nos.'
+
+--'Meu Deus meu Deus! pois a isto somos chegados! Pois ja não ha
+misericordia no ceo nem na terra!'
+
+--'A misericordia de Deus cansou-se; a da terra não sei onde está nem
+onde esteve nunca. Os fracos dão sacrilegamente esse nome á sua
+relaxação.'
+
+--'Pois é relaxação desejar a paz, querer a união, supplicar a
+indulgencia? Não nos manda Deus perdoar as nossas dividas, amar os
+nossos inimigos?'
+
+--'Os nossos sim, os d'Elle não.'
+
+--'Tende compaixão de mim, Senhor!'
+
+--'Se as suas afflicções são as da carne e do sangue, se são pensamentos
+da terra como desgraçadamente vejo que são, mulher fraca e de pouco
+ânimo, console-se, que para mim é claro e seguro que estes homens hãode
+vencer.'
+
+--'Quaes homens?'
+
+--'Esses inimigos do altar e da verdade, esses homens desvairados pelas
+speciosas doutrinas do seculo. Esperam muito, promettem muito, estão em
+todo o vigor das suas illusões. E nós, nós carregâmos com o desingano de
+muitos seculos, com os peccados de trinta gerações que passaram, e com a
+inaudita corrupção da presente... nós havemos de succumbir. Os templos
+hãode ser destruidos, os seus ministros proscriptos, o nome de Deus
+blasphemado á vontade n'esta terra malditta.'
+
+--'Pois tam perdidos, tam abandonados da mão de Deus são elles todos...
+todos?'
+
+--'Todos. E que cuida, irman? que são melhores os nossos, esses que se
+dizem nossos? que ha mais fé na sua crença, mais verdade em sua
+religião? Oh sancto Deus!'
+
+--'Faz-me tremer, padre!'
+
+--'E para tremer é. A impiedade e a cubiça entraram em todos os
+corações. _Duvidar_ é o unico princípio, _inriquecer_ o unico objecto de
+toda essa gente. Liberaes e realistas, nenhum tem fé: os liberaes ainda
+teem esperança; não lhe hade durar muito. Deixem-n'os vencer e verão.'
+
+--'E hãode vencer elles?'
+
+--'Decerto.'
+
+--'Ninguem mais diz isso.'
+
+--'Digo-o eu.'
+
+--'Tantos mil soldados que o govêrno tem por si!'
+
+--'E tantos milhões de peccados contra. Não póde ser, não póde ser: a
+misericordia divina está exhausta, e o dia desejado dos impios vem a
+chegar. A sua missão é facil e prompta; não sabem, não podem senão
+destruir. Edificar não é para elles, não teem com quê, não creem em
+nada. O symbolo christão não é so uma verdade religiosa é um princípio
+eterno e universal. _Fe, esperança e charidade_. Sem crer, sem
+esperar...'
+
+--'E sem amar!'
+
+--'Mulher, mulher! o amor é a última virtude...'
+
+--'Mas por ella, por ella se chega ás outras.'
+
+--'Não, mulher fraca, não. E de uma vez para sempre, irman Francisca,
+desinganemo'-nos. Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, não ha
+transacção com os seus inimigos. Indulgencia n'esse ponto não sei o que
+é. Vejo a sorte que me espera n'este mundo, e não tremo deante d'ella.
+Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.'
+
+--'Padre eu não temo nem receio por mim. Sou fraca e mulher, e em toda a
+tribulação e desgraça heide glorificar o meu Deus e dar testimunho da
+minha fé. Mas... mas o meu neto é o meu sangue, a minha vida, é o filho
+querido da minha unica e tam amada filha, elle não conheceu outra mãe
+senão a mim, quero-lhe por elle e por ella. Abandoná-lo não posso, tirar
+d'elle o pensamento não sei. A vontade de Deus...'
+
+--'A vontade de Deus é que o justo se aparte do impio, é que os
+cordeiros da benção vão para um lado, e os cabritos da maldicção para
+outro. Esse rapaz... oh! minha irman, eu não sou de pedra, não, não sou,
+e tambem o coração se me parte de o dizer... mas esse rapaz é malditto,
+e entre nós e elle está o abysmo todo do inferno.'
+
+--'Misericordia, meu Deus!'
+
+Pallido, infiado, mais descorado e mais amarello do que era sempre
+aquelle rosto, Fr. Diniz pronunciou, tremendo mas com fôrça, as suas
+últimas e terriveis palavras. Os olhos, habitualmente sumidos e cavos,
+recuaram-lhe ainda mais para dentro das orbitas descarnadas; o bordão
+tremia-lhe na esquerda; e a direita suspensa no ar parecia intimar ao
+culpado a terrivel imprecação que lhe sahia dos labios.
+
+--'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o frade, 'filho ingrato,
+coração derrancado e perverso!'
+
+--'Meu Deus, não o escuteis!' bradou a velha cahindo de joelhos no chão
+e prostrando-se na terra dura 'Meu Deus, não confirmeis aquellas
+palavras tremendas. Não o ouçais, Senhor, e valha o sangue precioso de
+vosso filho, as dores bemdittas de sua mãe, oh meu Deus! para arredar da
+cabeça do meu pobre filho as crueis palavras d'este homem sem piedade,
+sem amor!..'
+
+A velha queria dizer mais; as angústias que se tinham estado juntando
+n'aquella alma, que porfim não podia mais e transbordava, queriam sahir
+todas, queriam derramar-se alli em lagrymas e soluços na presença do seu
+Deus que ella via sempre no throno das misericordias, que não podia
+acabar comsigo que o visse o inflexivel, o terrivel Deus das vinganças
+que lhe annunciava o frade. Mas a carne não pôde com o espirito, as
+fôrças do corpo cederam: tomou-a um mortal deliquio, immudeceu, e...
+suspendeu-se-lhe a vida.
+
+Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse estado e pareceu
+commover-se; mas aquelles nervos eram fios de ferro temperado que não
+vibravam a nenhuma suave percussão: deu dous passos para a porta da
+casa, bateu com o bordão e disse com voz firme e segura:
+
+--'Joanna, acuda a sua avó que não está boa.'
+
+D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabeça, caminhou
+ápressado; breve se escondeu para lá das oliveiras da estrada.
+
+
+
+
+CAPITULO XV.
+
+
+ Retratto de um frade franciscano que não foi para o depósito da
+ Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das
+ Bellas-artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada
+ com a de Condillac.--Suas opiniões sôbre o liberalismo e os
+ liberaes.--Que o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.--Que os
+ liberaes não intendem o que é liberdade e egualdade; e o para que
+ eram os frades, se fossem.--Próva-se, pelo texto, que o homem não
+ vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz.
+
+
+Quem era Frei Diniz?
+
+Disse-o elle:--um homem que se fizera frade, ja velho e cançado do
+mundo, que vestíra o hábito n'um tempo em que a mofa, o escarneo e o
+desprêzo seguiam aquella profissão; que o sabía, que o conhecia e que
+por isso mesmo o affrontára.
+
+D'estes raros e fortes characteres apparecem sempre na agonia das
+grandes instituições para que nenhuma pereça sem protesto, paraque de
+nenhum pensamento duravel e consagrado pelo tempo se possa dizer que lhe
+faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoção nobre,
+gloriosa e digna do alto espirito do homem:--que o homem é uma grande e
+sublime creatura por mais que digam philosophos.
+
+Tal era Fr. Diniz, homem de principios austeros, de crenças rigidas, e
+de uma logica inflexivel e teimosa: logica porêm que regeitava toda a
+anályse, e que forte nas grandes verdades intellectuaes e moraes em que
+fixára o seu espirito, descia d'ellas com o tremendo pêso de uma
+synthese asperrima e oppressora que esmagava todo o argumento, destruía
+todo o raciocinio que se lhe punha de deante.
+
+Condillac chamou á synthese methodo de trevas: Fr. Diniz ria-se de
+Condillac... e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo.
+
+O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o abhorrecer;
+mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas,
+regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento
+justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado,
+para a sociedade em qualquer fórma não havia mais leis que as do
+decalogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia
+elle. Reforçá-las é superfluo, melhorá-las impossivel, desviar d'ellas
+monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangelica, que é o estado
+monastico, ha regras para todos alli; e não falta senão observá-las.
+
+Não sei se ésta doutrina não tem o quer que seja de um certo sabor
+independente e livre, se não cheira o seu tanto á confiança heretica dos
+reformistas evangelicos. O que sei é que Fr. Diniz a professava de
+boafé, que era catholico sincero, e frade no coração.
+
+Segundo os seus principios, podêr de homem sôbre homem, era usurpação
+sempre e de qualquer modo que fosse constituido. Todo o podêr estava em
+Deus--que o delegava ao pae sôbre o filho, d'ahi ao chefe da familia
+sôbre a familia, d'ahi a um d'esses sôbre todo o Estado; mas para o
+reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana dos
+primitivos principios christãos.
+
+Assim fôra ungido Saul, e n'elle todos os reis da terra--sem o quê, não
+eram reis.
+
+Tudo o mais, anarchia, usurpação, tyrannia, peccado--absurdo
+insustentavel e impossivel.
+
+E sôbre isto tambem não disputava, que não concebia como: era dogma.
+
+Nas applicações sim questionava, ou antes, arguía, com sua logica de
+ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos homens, não os
+poupava mais do que aos novos. A tyrannia dos reis, a cubiça e a suberba
+dos grandes, a corrupção e a ignorancia dos sacerdotes, nunca houve
+tribuno popular que as açoitasse mais sem dó nem caridade.
+
+O princípio porêm da monarchia antiga, defendia-o, ja se ve, por
+verdadeiro, embora fossem mentirosos e hypocritas os que o invocavam.
+
+Quanto ás doutrinas constitucionaes, não as intendia, e protestava que
+os seus mais zelosos apostolos as não intendiam tam pouco: não tinham
+senso-commum, eram abstracções d'eschola.
+
+Agora, do frade é que me eu queria rir... mas não sei como.
+
+O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se' dizia 'a duas
+cousas, _duvidar e destruir_ por principio, _adquirir e inriquecer_ por
+fim: é uma seita toda material em que a carne domina e o espirito serve;
+tem muita fôrça para o mal; bem verdadeiro, real e perduravel, não o
+póde fazer. Curar com uma revolução liberal um paiz estragado, como são
+todos os da Europa, é sangrar um tysico: a falta de sangue diminue as
+ancias do pulmão por algum tempo, mas as fôrças vão-se, e a morte é mais
+certa.'
+
+Dos grandes e eternos principios da Egualdade e da Liberdade dizia: 'Em
+elles os practicando devéras, os liberaes, faço-me eu liberal tambem.
+Mas não ha perigo: se os não intendem! Para intender a liberdade é
+preciso crer em Deus, para acreditar na egualdade é preciso ter o
+Evangelho no coração.'
+
+As instituições monasticas eram, no seu intender e no seu systema,
+condicção essencial de existencia para a sociedade civil--para uma
+sociedade normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cubria os
+defeitos dos monges, accusava mais severamente que ninguem a sua
+relaxação; mas sustentava que, removido aquelle typo da perfeição
+evangelica, toda a vida christan ficava sem norma, toda a harmonia se
+destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio,
+precipitar-se no golpham do materialismo estupido e brutal em que todos
+os vinculos sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e mais se isolava
+e estreitava o individualismo egoista--última phase da civilização
+exaggerada que vai tocar no outro extrêmo da vida selvagem.
+
+Taes eram os principios d'este homem extraordinario que junctava a uma
+erudição immensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que
+tinha vivido até a edade de cinquenta annos.
+
+Como e porque deixára elle o mundo? Como e porquê, um espirito tam
+activo e superior se occupava apenas do obscuro incargo de guardião do
+seu convento--cargo que acceitára por obediencia--e quasi que limitava
+as suas relações fóra do claustro áquella casa do valle onde não havia
+senão aquella velha e aquella criança?
+
+Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse espirito por alguma coisa a
+este mundo? Aquelle coração macerado do cilicio dos pensamentos austeros
+e terriveis do eterno futuro, consummido na abstinencia de todo o gôso,
+detodo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma
+fibra que vibrasse com recordações, com saudades, com remorsos do
+passado?
+
+No seu convento elle não tinha senão uma cella nua com um cruxifixo por
+todo adôrno, um breviario por unico livro. N'aquella so familia que
+conversava, havia, ja o disse, a velha cega e decrepita, Joanninha com
+quem apenas fallava, e um ausente, um rapaz de quem ha dous annos quasi
+que se não sabia. Em intrigas politicas, em negocios ecclesiasticos, em
+coisa mais nenhuma d'este mundo não tinha parte. De que vivia pois este
+homem--homem que certo não era d'aquelles que vivem so de pão?
+
+E este era dos poucos textos latinos que elle repettia, este o thema
+predilecto dos raros sermões que prégava: _Non in solo pane vivit homo_,
+Nem so de pão vive o homem.
+
+Vivia então de alguma outra coisa este homem; e a meditação e a oração
+não lhe bastavam, porque elle sahia do seu convento e não ia prégar nem
+rezar... todas as sextas feiras era certo na casa do valle á mesma hora,
+do mesmo modo...
+
+Alli estava pois alguma parto da vida do frade que de todo se não
+desprendêra da terra, e que, por mais que elle diga, lhe faltava
+_castrar_ ainda por amor do ceo.
+
+É que meio seculo de viver no mundo deixa muita raiz que não morre
+assim. E talvez é uma so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva,
+que as folhas morrem, os ramos seccam, o tronco apodrece, e ella teima a
+viver.
+
+Saibamos alguma coisa d'essa vida.
+
+
+
+
+CAPITULO XVI.
+
+
+ Saibâmos da vida do frade.--Era franciscano porquê?--Dos antigos e
+ dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e
+ depois de ser frade.--Emigração.--Explicação incompleta.--De como a
+ velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.--Sexta feira dia
+ aziago.
+
+
+Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua vida no seculo, porque a
+do claustro era nua e nulla, monotona e singela como a temos visto.
+
+Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide, e seguira a carreira das
+armas primeiro, depois a das lettras. Com distincção, e quasi com
+paixão, tomára parte na campanha da Peninsula e a fizera quasi toda; mas
+desgostoso do serviço ou despreoccupado da glória militar, entrou na
+magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do logar de
+corregedor do Ribatejo, em que ja fôra reconduzido, devia passar á casa
+do Porto.
+
+Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mão a elrei, e d'ahi tomou
+um dia o caminho de Santarem, chegou áquella villa, deixou criados e
+cavallos na estalagem, e foi tocar á campa da portaria de San'Francisco.
+
+Os criados esperaram em vão muitos dias: elle não voltou.
+
+Desappareceu do mundo Diniz de Atahide, e d'alli a dous annos appareceu
+Fr. Diniz da Cruz, o frade mais austero e o prégador mais eloquente
+d'aquelle tempo. Raro prégava, e so de doutrina; mas era uma torrente de
+vehemencia, uma uncção, uma fôrça!..
+
+Dos institutos monasticos, ja então bem decahidos todos de esplendor e
+reputação, a ordem de San'Francisco era talvez a que mais descêra no
+conceito público. Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota
+qualquer relaxação nos que a professam: a dos franciscanos tinha-se
+feito proverbial e popular. Elles eram tantos por toda a parte, e tam
+conversantes com todas as classes; familiarizára-se por tal modo o povo
+com o aspecto d'aquellas mortalhas negras--aspecto ja não severo, e
+apenas deixou de o ser... ridículo--e ellas appareciam em taes logares,
+a taes horas, por tal modo... que todo o respeito, toda a estima, toda a
+consideração se lhe perdera. Escriptores, ja os não tinham, prégadores
+poucos e sem reputação, era em todo o sentido a religião mais humilhada
+na geral decadencia das ordens.
+
+Fr. Diniz procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade
+desprezado e apupado do seculo dezenove.
+
+Em certos animos é preciso muito mais valor e enthusiasmo para affrontar
+este martyrio, do que fôra nos antigos tempos para ir ao incôntro das
+nobres perseguições do sangue e do fogo.
+
+Luctava-se com honra então, cahia-se com glória, vencia-se muitas vezos
+morrendo...
+
+Agora é soffrer so.
+
+O mundo applaudia aquelles grandes sacrificios, e assistia com
+interêsse, com admiração, com espanto áquelles combates gigantescos. E o
+tyranno tremia diante da sua victima... quando lhe não cahia aos pés
+vencido, convertido e penitente...
+
+Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Egreja
+não sabe que tem martyres.
+
+'Pois tem-n'os' dizia Fr. Diniz 'e precisa mais d'elles para se
+regenerar, do que ja precisou para fundar-se.'
+
+Eis aqui porque Diniz d'Atahide não quiz ser bento, nem jeronymo, nem
+cartucho, e se foi metter frade franciscano.
+
+De todos os seus bens, que eram consideraveis, tirou apenas a modica
+somma de dinheiro que era necessaria para pagar o dote e piso de sua
+entrada no convento. Do resto fez doação inteira a D. Francisca
+Joanna--a velha hoje cega e decrepita que no princípio d'esta historia
+incontrámos dobando á sua porta na casa do valle.
+
+A velha não tinha mais familia que um neto e uma neta.
+
+A neta era Joanninha, filha unica de seu unico filho varão, e ja orphan
+de pae e de mãe.
+
+O neto, orpham tambem, nascêra posthumo, e custára a vida a sua mãe,
+filha querida e predilecta da velha.
+
+Antes da splendida doação de Fr. Diniz, a familia, que era de boa e
+honrada descendencia, podia dizer-se pobre; depois viviam
+remediadamente. Mas a velha não quiz nunca sahir do modesto estado em
+que atélli vivêra. Tinham fartura de pão, azeite e vinho de suas lavras;
+corria-lhe com ellas um criado velho de confiança; trajavam e
+tractavam-se como gente mean, mas independente.
+
+Em tempos mais antigos e em vida dos dous filhos de D. Francisca, Fr.
+Diniz, então Diniz d'Atahide e corregedor da commarca, frequentára
+bastante aquella casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos
+pereceram desastradamente n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro em
+occasião de grande cheia, elle nunca mais lá tornára.
+
+Até que se metteu frade, e que passaram annos e que o fizeram guardião
+do seu convento.
+
+Ja a nora e a filha da velha tinham morrido tambem.
+
+E foi notavel que na mesma hora em que Fr. Diniz professava em
+San'Francisco de Santarem, vestia D. Francisca aquella tunica roxa que
+nunca mais largou.
+
+Mas um dia, chegou Fr. Diniz á porta da casa do valle e disse:
+
+--'Deus seja n'esta casa!'
+
+A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sahir as crianças que
+brincavam aopé d'ella, fechou-se com o frade, e fallaram baixo um dia
+inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu; mas o que disseram e
+conversaram nunca se soube.
+
+O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e
+chorou toda a noite.
+
+Isto fôra n'uma sexta-feira; d'ahi por deante em todas as sexta-feiras
+de cada semana, Fr. Diniz vinha passar algumas horas com a velha.
+
+Não era seu confessor, mas dirigia-a como se o fosse, em tudo e por
+tudo, menos no que respeitava a Joanninha.
+
+Havia no frade uma affectação visivel, um systema premeditado e
+inalteravel de se abster completamente de tudo o que podesse intervir,
+por mais remotamente que fosse, com aquella interessante criança.
+
+Joanninha não lhe tinha medo, mas o respeito que lhe elle inspirava era
+misturado de uma aversão instinctiva, que, por contradicção inaudita e
+inexplicavel, a deixava sympathizar com tudo quanto elle dizia e
+professava: doutrinas, opiniões, sentimentos, tudo lhe agradava no
+frade, menos a pessoa.
+
+Não assim Carlos, o primo, o companheiro, o unico amigo da nossa
+Joanninha, o outro neto da velha por sua filha. Andava elle ja no último
+anno de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Fr. Diniz da Cruz começou
+de novo a frequentar a casa que Diniz de Atahide tinha abandonado.
+
+Sôbre esse a inspecção do frade era minuciosa, vigilante, inquieta. Os
+livros que elle lia, os amigos com quem vivia, as ideas que abraçava, as
+inclinações para que pendia--de tudo se occupava Fr. Diniz, tudo lhe
+dava cuidado. A elle directamente pouco lhe dizia, mas com a avó tinha
+longas conferencias a esse respeito.
+
+Ultimamente parecia satisfazer-se com o geito que o mancebo indicava
+tomar.
+
+--'É temente a Deus, não tem o ânimo cubiçoso nem servil, não é
+hypocrita, o mania do liberalismo não o mordeu ainda... hade ser um
+homem de prestimo:' dizia o frade a D. Francisca com verdadeira
+satisfacção e interêsse.
+
+Passára porêm de seu meio o memoraval anno de 1830, e Carlos, que se
+formára no princípio d'aquelle verão, tinha ficado por Coimbra e por
+Lisboa, e so por fins d'agosto voltára para a sua familia. E veio
+triste, melancholico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fôra,
+porque era de genio alegre e naturalmente amigo de folgar, o mancebo.
+
+O dia em que elle chegou era uma sexta-feira, dia de Fr. Diniz vir ao
+valle.
+
+Passaram as primeiras saudações e abraços, ficaram sos os dous, e:
+
+--'Não gósto de te ver:' disse o frade.
+
+--'Pois quê? que tenho eu?'
+
+--'Tens que vens outro do que foste, Carlos.'
+
+--'Outro venho, é verdade; mas não se infadem de me ver, que o infado
+hade durar pouco.'
+
+--'Que queres tu dizer?'
+
+--'Que estou resolvido a emigrar.'
+
+--'A emigrar, tu!... Porquê, paraquê? Que loucura é essa?'
+
+--'Nunca estive tanto em meu juizo.'
+
+--'Carlos, Carlos! nem mais uma palavra a similhante respeito. Em que
+más companhias andaste tu, que maus livros lêste, tu que eras um
+rapaz?.. Carlos, prohibo-te de pensar n'esses desvarios.'
+
+--'Prohibe-me... a mim... de pensar!... Ora, senhor...'
+
+--'Prohibo de pensar, sim. Le no teu Horacio se estás cançado das
+pandectas. Vai para a eira com o teu Virgilio... ou passeia, caça, monta
+a cavallo, faze o que quizeres, mas não penses. Ca estou eu para pensar
+por ti.'
+
+--'Porquê? eu heide ser sempre criança? a minha vida hade ser ésta?
+Horacio! tenho bom ânimo para ler Horacio agora... e a bella occupação
+para um homem de vinteeum annos, scandar jambos e trocheus.'
+
+--'Pois le na tua biblia, que é poesia medida n'alma e que repasce o
+espirito e o coração.'
+
+--'Eu não quero ser frade: sabe?'
+
+--'Nem te eu quero para frade.'
+
+--'Graças a Deus! Cuidei que... Mas em fim no seculo em que estamos...'
+
+--'O seculo em que estamos é o da presumpção e o da immoralidade: e eu
+quero-te livrar de uma e de outra, Carlos. Tua avó sabe as minhas
+tenções a teu respeito, approva-as...'
+
+--'Minha avó... approva muita coisa que eu reprovo.'
+
+--'Como assim, Carlos! que queres tu dizer?'
+
+--'Isto mesmo, senhor;--e que ámanhan que vou para Lisboa, imbarcar para
+Inglaterra.'
+
+--'Carlos!'
+
+--'É uma resolução meditada e inalteravel. Não quero nada com ésta terra
+nem com ésta...'
+
+--'Com ésta o quê, Carlos?..'
+
+--'Pois quer ouvi-lo, digo-lh'o: com ésta casa.'
+
+O frade suffocava, e balbuciou entre cholerico e aterrado:
+
+--'Dir-me-has porquê?..'
+
+--'Porque me abhorrece e me humilha este mando de um extranho aqui...
+porque sempre desconfiei, porque sei emfim...'
+
+--'Sabes o quê?'
+
+--'Sei, padre Fr. Diniz, mas não me pergunte o que eu sei.'
+
+Amarello, roxo, pallido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais os
+olhos e faiscavam lá de dentro como duas brazas; fez um esfôrço sôbre si
+mesmo para fallar, e disse com uma voz cava e cavernosa como de
+sepulchro:
+
+--'Pois pergunto, sim; e permitta Deus!..'
+
+--'Padre, não jure nem pragueje' interrompeu Carlos com firmeza e
+serenidade 'as suas intenções serão boas talvez... creio que são boas,
+filhas de um remorso salutar...'
+
+--'Que dizes tu, Carlos... que disseste?.. Oh, meu Deus!'
+
+As scenas tinham mudado: Fr. Diniz parecia o pupillo, a sua voz tinha o
+som da súpplica, ja não tremia de íra mas de anciedade; Carlos, pelo
+contrario, fallava no tom austero e grave de um homem que está forte na
+sua razão e que é generoso com a sua offensa. As palavras do mancebo
+eram agras, via-se que elle o sentia e que procurava adoçá-las na
+inflexão, que lhes dava.
+
+--'O que eu digo, padre Fr. Diniz, o que eu sou obrigado a dizer-lhe é
+isto. Minha avó consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu não posso
+nem devo consentir. O que ha n'ésta casa não é... não é meu; o pão que
+aqui se come... é comprado por um preço... Padre! ja ve que não podêmos
+fallar mais n'este assumpto. Eu parto ámanhan para Lisboa.--Minha avó!'
+acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro 'minha avó!'
+
+A velha acudiu, elle disse-lhe a sua tenção, motivou-a em opiniões
+politicas, declamou contra D. Miguel, mostrou-se enthusiasta da causa
+liberal, e protestou que, n'aquelle anno, de tal modo se tinha
+pronunciado em Coimbra e ainda em Lisboa, que só uma prompta fuga o
+podia salvar...'
+
+A velha chorou, pediu, rogou... inutilmente, em vão.
+
+Fr. Diniz assistiu a tudo isto sem dizer palavra.
+
+E aquella tarde voltou mais cedo para o convento.
+
+No outro dia de manhan muito cedo, abraçado com a avó e com a priminha
+que se desfaziam em lagrymas, Carlos dizia o último adeus áquella
+querida casa, áquelle amado valle em que fôra criado... N'essa noite
+estava em Lisboa, d'ahi a poucos dias em Inglaterra, e d'ahi a alguns
+meses na ilha Terceira.
+
+Na sexta-feira depois da partida de Carlos, Fr. Diniz veio ao valle e
+teve larga conferencia com a avó.
+
+Os tres dias seguintes a velha levou fechada no seu quarto a chorar...
+no fim do terceiro dia estava cega.
+
+Joanninha era uma criança a esse tempo, parecia não intender nada do que
+se passava. Mas quem a observasse com attenção, veria que ella dobrou de
+carinho e de amor para com a avó, e que se não tornou a rir para o
+frade...
+
+Elle, o frade, invelheceu de dez annos n'aquelle dia. Os olhos sumidos,
+que era a feição dominante n'aquelle rosto ascetico, sumiram-se mais e
+mais; a estatura alta e erecta curvou-se-lhe; o tremor nervoso, que o
+tomava por accessos, tornou-se-lhe habitual; os tendões enrijaram-lhe,
+os musculos da cara descarnaram-se, e a pelle ja sulcada de fundos
+cuidados, arrugou-se e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas como
+que se lh'a torrassem n'uma grelha.
+
+Nunca mais houve um dia de alegria no valle. A sexta-feira porêm era o
+dia fatal e aziago. Fr. Diniz ja não vinha senão no fim da tarde e
+demorava-se pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por aquella hora e
+tremia-se d'ella. As notícias que consolavam, e os terrores que matavam,
+o frade é que os trazia. O resto da semana levava-se a chorar e a
+esperar.
+
+E assim se tinham passado dous annos até á sexta-feira em que primeiro
+vimos junctas á porta da casa aquellas tres criaturas; assim se passou
+até d'ahi a oito dias que a nossa historia volta a incontrá-los.
+
+
+
+
+CAPITULO XVII.
+
+
+ De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a neta á
+ espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da banda
+ de Lisboa.--Porque razão muitas vezes a mais animada conversação é
+ a que mais facilmente pára e quebra derepente.--Nova demonstração
+ de dous grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito
+ não faz o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as
+ verdades.--No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do
+ veo que cobre os mysterios da nossa historia.
+
+
+Passaram-se aquelles oito dias no valle, não ja como se tinham passado
+tantas outras semanas em vagas tristezas, em desconsolação e
+desconfôrto, mas em positiva anciedade e aguda afflicção pela certeza
+que trouxera o frade de se achar Carlos no Porto fazendo parte do
+pequeno exército do D. Pedro.
+
+Incertos rumores, d'aquelles que percorrem um paiz em tempos similhantes
+e que augmentam e exaggeram, confundem todos os successos tinham chegado
+até ás pacificas solidões do valle com as notícias de combates
+sanguinarios, de commoções violentas, de desacatos sacrilegos, de
+vinganças e reprezalias atrozes tomadas pelos aggressores, retribuídas
+pelos que se defendiam.
+
+Chegou a sexta-feira; e as horas d'esse dia, sempre desejado e sempre
+temido, foram contadas minuto a minuto--a qual mais longo, a qual mais
+pezado e lento de volver, quanto mais se approximava o derradeiro.
+
+O sol declinava ja... e Fr. Diniz sem apparecer!
+
+No seu poiso ordinario aopé da porta da casa, Joanninha com os olhos
+extendidos, a velha com os ouvidos álerta, devoravam o espaço na
+direcção de nascente, esperando a cada momento, temendo a cada instante
+ver apparecer o conhecido vulto, ouvir o som familiar dos passos do
+frade.
+
+E tam intentas, tam absortas estavam ainda n'este cuidado, que não deram
+fe d'um religioso que pelo lado opposto, isto é, da banda de Lisboa,
+para alli se incaminhava a passos arrastados mas presurosos.
+
+Chegou rente d'ellas sem o sentirem; e uma voz conhecida, porêm mais
+cava e funda do que nunca a ouviram, pronunciou a fórmula de saudação
+costumada:
+
+--'Deus seja n'esta casa!'
+
+--'Amen!' responderam ambas machinalmente, com um estremeção
+involuntario; e voltando derepente a cara para o lado d'onde vinha a
+voz.
+
+--'Jesus!' disse depois a velha tornando a si, 'Padre Fr. Diniz, de
+d'onde vem tam tarde?'
+
+--'Chego de Lisboa.'
+
+--'De Lisboa? Deus lh'o pague!... Foi saber?..'
+
+--'Fui, fui saber novas d'esta horrivel guerra, d'esta tremenda
+visitação do Senhor á condemnada terra de Portugal...'
+
+--'E então, diga'...
+
+--'Boas novas, boas novas trago!'
+
+--'Sente-se, padre, sente-se. Joanninha, chega uma cadeira: descanse.'
+
+--'Não é tempo de descansar este, mas de vigiar e de orar.'
+
+--'Pois que succedeu, padre? Não me tenha n'esta horrivel suspensão.
+Diga: onde está elle? Alguma desgraça grande lhe aconteceu, oh meu
+Deus!..
+
+--'E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais um
+de tantos perdidos? Encherá a sua medida, irá após dos outros... caminha
+nas trevas com elles, e como elles, so hade parar no abysmo.'
+
+A éstas derradeiras palavras do frade asperamente pronunciadas e em tom
+de indifferença e desprêzo, seguiu-se aquelle silencio comprimido,
+aquella pausa de toda a conversação grave e íntima em que os pensamentos
+são tantos que se atropellam e não acham sahida na voz.
+
+Fr. Diniz mentia... na dureza d'aquellas expressões mentia ao seu
+coração--não mentia ao seu espirito. Como o caustico se applica á
+epiderme para deslocar a inflammação interior, elle roçava o peito com
+as asperidões de sua doutrina e de seus principios rigidos para
+amortecer dentro a viva dor d'alma que o consummia.
+
+O frade estava por fóra, o homem por dentro.
+
+O observador vulgar não via senão o burel e a corda que amortalhavam e
+cadaver. O que attentasse bem n'aquelles olhos, o que reparasse bem nas
+inflexões d'aquella voz, diria: 'Frade, tu mentes; mentes sem saberes
+que mentes: es sincero na tua fe, na tua austeridade, na tua abnegação;
+mas o teu sacrificio é como o de Abraham na montanha, e Deus sabe que tu
+não tens fôrça para o cumprir.'
+
+Não o percebeu assim a pobre velha aquem os rigores de Fr. Diniz faziam
+tremer, e que para toda a affeição, para todo o sentimento humano
+julgava morto o coração do cenobita.
+
+Ella que no silencio de suas noites sempre veladas, na perpétua
+escuridão de seus dias sempre tristes luctava ha tanto tempo, luctava
+debalde para desprender das affeições do mundo, aquelle seu pobre
+coração que queria immollar ao Senhor, ella via com sancta inveja e
+admiração as sobrehumanas fôrças que imaginava no frade; e desanimada de
+o podêr seguir n'essas alturas da perfeição evangelica, recahia, mais
+desalentada e mais miseravel que nunca, em toda a sua fraqueza de mulher
+e de mãe.
+
+Oh! não sabe o que é tormento, o que é inferno n'este mundo, o que não
+soffreu destas angústias!
+
+Mas permitte Deus que as padeça quem não tem grandes culpas, grandes e
+irreparaveis erros que expiar n'este mundo?
+
+Eu creio firmemente que não.
+
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Cansada e exhausta ja de tam porfiada lucta, a velha perdeu de todo a
+razão com as derradeiras palavras do frade, e n'um paroxismo de chôro
+exclamou:
+
+--'Diniz!.. Fr. Diniz, por aquelle pinhor sagrado que eu tenho em meu
+podêr, por aquella preciosa cruz sôbre a qual se derramaram as últimas
+lagrymas da minha desgraçada filha, Diniz!...'
+
+--'Silencio!' bradou o frade, arrancando um brado de dentro do peito que
+fez gemer os echos todos do valle: 'Silencio, mulher! não conjure o
+demonio que eu trago incarcerado n'este seio, que á fôrça de penitencias
+mal pude domar ainda... que so a morte poderá talvez expellir. Mulher,
+mulher! este cadaver que ja morreu que ja apodreceu em tudo o mais, que
+ja o comem, sem o elle sentir, os bichos todos da destruição... este
+cadaver tem um unico ponto vivo no coração... e o dedo do teu egoismo
+ahi foi tocar, oh mulher!.. Peccado que estás sempre contra mim! Justiça
+eterna de Deus quando serás satisfeita?'
+
+Rompêra na maior violencia a voz do frade, mas descahiu n'um tom baixo e
+medonho ao fazer ésta última imprecação mysteriosa. As derradeiras
+syllabas quasi que lhe morreram nos beiços convulsos, e ao balbuciá-las
+deixou-se cahir, exhausto e como quem mais não podia, na cadeira que
+Joanninha lhe chegára.
+
+A velha aterrada e confusa tremia do que fizera, como deante do espirito
+immundo que seus maleficios evocaram, treme a maga assustada de seu
+proprio podêr.
+
+Passaram alguns segundos que nenhumas palavras podem descrever.
+
+O frade levantou o rosto, olhou para ella, olhou para Joanninha... e,
+como quem emerge, por grande esfôrço, de um pêso enorme d'aguas que o
+submergiam, sacudiu a cabeça, sorveu um longo trago de ar, e disse na
+sua voz ordinario, so mais debil:
+
+--'Carlos, senhora... minha irman, Carlos está vivo; e exaqui, vinda
+pelo consul de França, uma carta d'elle.'
+
+Tirou uma carta da manga e a intregou a Joanninha.
+
+
+
+
+CAPITULO XVIII.
+
+
+ Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre o frade e a
+ velha.--Piedosa fraude de Joanninha.--Lucta entre o hábito e o
+ monge.
+
+
+O frade intregou a carta a Joanninha, que, lançando os olhos ao
+sobrescripto, ficou indecisa e inquieta como quem receia e deseja e teme
+de saber alguma coisa. Elle com voz trémula e sobresaltada accrescentou:
+
+--'Adeus, que são horas!.. Leiam, e sexta-feira que vem... me dirão...'
+
+--'Poisquê' disse timidamente a velha 'não quer ouvir o que elle nos
+escreve?'
+
+--'Sexta-feira que vem' continuou Fr. Diniz, sem ouvir ou sem attender a
+pergunta 'sexta-feira que vem eu tomarei conta da resposta, e lh'a farei
+chegar pela mesma via... So uma coisa! nem palavra a meu respeito: eu
+para Carlos... morri.'
+
+--'Diniz!' exclamou a velha fóra de si 'Diniz!..'
+
+O frade tornou derepente ao seu tom austero, e respondeu gravemente: 'O
+quê, minha irman?'
+
+--'Era' disse ella timida e submissa outra vez 'era se, era que... Pois
+não hade ouvir ler a carta d'elle?'
+
+Fr. Diniz não respondeu, mas ficou sentado: descahiu-lhe a cabeça sôbre
+o peito, e abraçando-se com o bordão, não deu mais signal de si.
+
+A velha escutou em silencio alguns segundos, e com aquelle ouvido
+agudissimo--penetrante vista dos cegos--percebeu sem dúvida o que se
+passava, e com mais confôrto e serenidade na voz disse:
+
+--'Abre, Joanna, lê, minha filha.'
+
+Joanninha abriu a carta, e percorreu com avidez as poucas linhas que
+ella incerrava.
+
+--'Não les?' acudiu a avó com impaciencia: 'Lê, lê alto, Joanna.'
+
+--'É para mim so a carta' disse ella friamente.
+
+--'Para ti so, como?' tornou a outra.
+
+--'É para mim so ésta carta... não diz nada que...'
+
+--'Não diz nada!' replicou a avó 'Pois!... Lê, lê alto; seja como for,
+lê, e oiçamos.'
+
+Joanninha parecia hesitar ainda; lançou os olhos ao frade, achou-o na
+mesma attitude impassivel; voltou-se para a avó, viu-a anciada e
+anxiosa... leu.
+
+A carta era com effeito para ella so, e carta bem singela, não continha
+senão as ingenuas expressões de um amor fraterno nunca esquecido, longas
+saudades do passado, poucas esperanças no futuro, quasi nenhumas de se
+tornarem a ver tam cedo. Tudo isto porém era com a prima: para a
+desconsolada avó, para ninguem mais... nem uma palavra.
+
+Joanninha ia lendo, lendo... e a voz a descahir-lhe: no fim ajunctou uns
+abraços, umas saudosas lembranças, e não sei que phrase incompleta e mal
+articulada em que se pedia a bençam da avó.
+
+A velha abanou a cabeça tristemente e disse: 'Ora pois... bemditto seja
+Deus!'
+
+Joanninha córou até o branco dos olhos... Inda bem que a não podia ver a
+avó! Mas viu-a Fr. Diniz, e com a mão trémula e os olhos arrazados
+d'agua lhe fez um mudo e expressivo signal de approvação e
+agradecimento. Joanninha córou outra vez, e logo se fez pallida como a
+morte: era a primeira vez que mentia... e Fr. Diniz, o austéro Fr. Diniz
+apprová-la!
+
+O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarem.
+
+Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluços suffocados... Seriam d'elle?
+
+A avó e a neta abraçaram-se e choraram.
+
+Nenhuma d'ellas disse palavra sôbre a carta: a velha tinha percebido a
+piedosa fraude de Joanninha...
+
+Oh! que existencias que eram aquellas quatro! Esse frade, essa velha e
+essas duas crianças! E a maior parte da gente que é _gente_, vive
+assim... E querem, querem-n'a assim mesmo, a vida, teem-lhe appêgo! Oh
+que enigma é o homem!
+
+Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no praso costumado,
+e levou a resposta da carta--resposta que Joanninha so escreveu e so
+viu--e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicára.
+
+Soube-se que fôra intregue; mas semanas e semanas decorreram, os meses
+passaram de anno... e outra carta não veio.
+
+No entretanto a guerra civil progredia; e depois de suas tremendas
+peripecias, o grande drama da Restauração chegava rapidamente ao fim.
+Eram meiados do anno de 33, a operação do Algarve succedêra
+milagrosamente aos constitucionaes, a esquadra de D. Miguel fôra tomada,
+Lisboa estava em podêr d'elles. Os tardios e inuteis esforços dos
+realistas para retomar a capital tinham occupado o resto do verão. Ja
+outubro se descoroava de seus ultimos fructos, e as folhas começavam a
+impallidecer e a cahir, quando uma sexta-feira, ao pôr do sol, Fr. Diniz
+apparecia no valle mais curvado e mais trémulo que nunca. Vinha do
+exército realista que então cercava Lisboa.
+
+Joanninha não era alli, a velha estava so.
+
+--'Que nos traz, padre?' clamou ella mal que o sentiu: 'Soube d'elle?
+Tem escapado a éstas desgraças, a esses combates mortaes?'
+
+--'Não sei nada, minha irman: ha tres dias que de Lisboa se não póde
+obter a menor informação. As linhas estão fechadas e guarnecidas como
+nunca: tudo indíca havermos de ter cedo algum combate decisivo.'
+
+--'Deus seja com!..'
+
+--'Com quem, minha irman?'
+
+--'Com quem tiver justiça.'
+
+--'Nenhum a tem. De um lado e de outro está a ambição e a cubiça, de um
+lado e de outro a immoralidade, a perdição e o desprêzo da palavra de
+Deus. Por isso, vença quem vencer, nenhum hade triumphar.'
+
+--'Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!'
+
+--'Isso, irman Francisca, isso! Peça a Deus que dê a victoria a seu
+neto, e á impiedade por que elle combate. Peça a Deus que vençam os
+inimigos declarados do seu nome, os destruidores de seus altares, os
+profanadores de seus templos... Oh! que dia bello e grande não hade ser
+esse, quando Carlos... o seu Carlos, vier expulsar, ás baionetadas, do
+pobre convento de San'Francisco, o velho guardião--que lhe não hade
+fugir, minha irman!.. d'elle menos que de nenhum outro... que ajoelhado
+deante do altar inclinará a cabeça como os antigos martyres para cahir
+na presença do seu Deus ás mãos do seu...'
+
+--'Diniz!.. Padre!.. Padre Frei Diniz, que horrorosas palavras sahem da
+sua bôcca!.. Meu neto, o meu Carlos não é capaz... oh meu Deus!..'
+
+--'Seu neto detesta-me... e tem... tem razão.'
+
+--'Não sabe a verdade elle... Carlos está inganado, cuida... não sabe
+senão meia verdade: e eu, eu heide--custe o que me custar--eu heide...'
+
+--'Hade o quê?'
+
+--'Heide desinganá-lo, heide-lhe dizer a verdade toda. Heide prostrar-me
+na sua presença, heide humilhar-me deante do filho de minha filha, heide
+arrastar na poeira de seus pés éstas cans e éstas rugas... morrerei de
+vergonha e de remorsos deante do meu filho, mas elle hade saber a
+verdade.'
+
+Sahiam com tal impeto e com tam desacostumada energia éstas mysteriosas
+e tremendas palavras da bôcca da velha, que Fr. Diniz não ousou
+contê-la; ouviu até ao fim, deixou quebrar o impeto da torrente, e
+erguendo então a sua voz austera mas pousada, disse n'aquelle tom
+friamente decisivo que tanto impõe aos animos apaixonados:
+
+--'Se tal fizesse, mulher, a minha maldicção, a maldicção eterna de Deus
+sôbre a sua cabeça para sempre!... Oh mulher, pois não lhe basta que
+elle me abhorreça--não lhe basta que seu neto lhe perdesse o amor...
+quer... quer tambem que nos despreze?'
+
+A velha gemeu profundamente, e, por um geito de antiga reminiscencia,
+levou as mãos aos olhos como se os tapasse para não ver. Então disse com
+desconsoladas lagrymas na voz:
+
+--'A vontade de Deus seja feita!'
+
+
+
+
+CAPITULO XIX.
+
+
+ Guerra de postos avançados. Joanninha no bivac--De como os
+ rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a
+ retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram
+ este nome.--A sentinella perdida e achada.
+
+
+A velha disse aquellas últimas palavras com uma expressão de dor tam
+resignada, mas tam desconsolada, que o frade olhou para ella commovido,
+e sentiu as lagrymas escurecerem-lhe a vista.
+
+N'este momento Joanninha, que passeiava a alguma distancia da casa na
+direcção de Lisboa, acudiu sobresaltada bradando:
+
+--'Avó, avó!.. tanta gente que ahi vem! soldados e povo... homens e
+mulheres... tanta gente!'
+
+Era a retirada de 11 de outubro.
+
+--'Deus tenha compaixão de nós!' disse a velha: 'O que será padre?'
+
+--'O que hade ser!' respondeu Fr. Diniz: 'o meu presentimento que se
+verifica; o combate foi decisivo, os constitucionaes vencem.'
+
+Comeffeito foram apparecendo as tropas que se retiravam, as gentes que
+fugiam, e todo aquelle confuso e doloroso espectaculo de uma retirada em
+guerra civil...
+
+Alguns feridos, que não podiam mais, ficaram na casa do valle intregues
+á piedosa guarda e cuidado de Joanninha; dos outros tomou conta Fr.
+Diniz e os acompanhou a Santarem.
+
+As tropas constitucionaes vinham em seguimento dos realistas, e d'alli a
+poucos dias tinham o seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel
+fortificava-se em Santarem, e a casa da velha era o último posto militar
+occupado pelo seu exército.
+
+Não tardou muito que a fôrça toda, todo o interêsse da guerra se não
+concentrasse n'aquelle, ja tam pacífico e ameno, agora tam desolado e
+turbulento valle.
+
+Eram os derradeiros dias do outomno, a natureza parecia tomar dó pelo
+homem--dar triste e lugubre decoração de scena ao sanguento drama de
+destruição e de miseria que alli se ía concluir. As últimas folhas das
+árvores cahiam, o ceo nublado e negro vertia sôbre a terra apaulada
+torrentes grossas d'agua, a cheia alagava os baixos, e as terras altas
+cobriam-se de hervas maninhas, os trabalhos da lavoira cessavam, o gado
+e os pastores fugiam, e os soldados de um e de outro campo cortavam as
+oliveiras seculares...
+
+Tudo estava feio e torpe, tudo era ruina, desolação e morte emtôrno da
+casa do valle, agora transformada em quartel e redutto militar.
+
+E que era feito, no meio d'ésta desordem, que era feito da nossa pobre
+velha, da nossa interessante Joanninha?
+
+Apenas se estabeleceu a posição dos dous exercitos, Fr. Diniz queria
+levá-las para Santarem; mas não foi possivel. Instancias, rogos, ordem
+positiva, tudo foi em vão. Pela primeira vez na sua vida, aquella mulher
+tímida, fraca e irresoluta, soube ter vontade firme e propria.
+
+--'Aqui nasci,' dizia ella, 'aqui vivi, aqui heide morrer. Que importa
+como?.. Aqui as curtas alegrias, aqui as longas dores da minha vida teem
+passado: onde heide eu ir que possa viver ou morrer senão aqui? Ésta
+casa sei-a de cór, éstas árvores conhecem-me, estes sitios são os
+ultimos que vi, os unicos de que me lembra: como heide eu, velha e cega,
+ir fazer conhecimento com outros para viver n'elles?..'
+
+--'E Joanninha n'essa edade... no meio d'essa soldadesca!' suggeria o
+frade.
+
+--'Joanninha' tornava ella 'Joanninha é uma criança, e tem mais juizo,
+mais energia d'alma, mais saude e mais fôrça do que--mulheres não
+fallemos--do que a maior parte dos homens. Ficaremos aqui, padre,
+ficaremos aqui melhor do que em Santarem podêmos estar. Deus nos
+defenderá...'
+
+Fr. Diniz cedeu: a mesma vaga e indeterminada esperança que animava a
+velha, e que a prendia tam fortemente alli, não era extranha ao coração
+do frade. Ella não ousava nem alludir de longe a essa esperança, mas
+sentia-se que lá a tinha anninhada e escondida a um canto d'alma...
+Aquelle neto, aquelle filho da filha querida havia de vir ter á casa em
+que nascêra... por alli havia de passar, e mais dia menos dia... A
+velha, repitto, nem alludia a tal esperança, mas sentia-se que a tinha:
+percebeu-lh'a Fr. Diniz, e ou a partilhasse tambem ou não se atrevesse a
+contrariar razões que lhe não davam, cedeu e callou-se.
+
+O seu principal temor era a licenciosa soltura dos costumes militares;
+mas estava Joanninha menos exposta por se accolher a uma praça de guerra
+como Santarem era agora?
+
+Brevemente se viu que a avó tinha accertado. A franca e ingenua
+dignidade de Joanninha, o ar grave, a melancholia serena e bondosa da
+velha impozeram tal respeito aos soldados, que--graças tambem á
+cooperação efficaz do commandante do pôsto, um bom e honrado cavalheiro
+transmontano--ellas viviam tam seguras e quietas na pequena porção da
+casa que para si reservaram, quanto em taes circumstancias era possivel
+viver. Fr. Diniz vinha regularmente ao valle todas as sexta-feiras, e
+nenhum outro hábito de suas vidas se interrompeu.
+
+E pouco a pouco, os combates, as escaramuças, o som e a vista do fogo, o
+aspecto do sangue, os ais dos feridos, o semblante desfigurado dos
+mortos--a guerra emfim em todas as suas fórmas, com todo o seu
+palpitante interêsse, com todos os terrores, com todas as esperanças que
+a accompanham, se lhes tornou uma coisa familiar, ordinaria...
+
+A tudo se habitua o homem, a todo o estado se affaz; e não ha vida, por
+mais extranha, que o tempo e a repettição dos actos lhe não faça
+natural.
+
+Todavia de Carlos nem mais uma linha... Pobre velha!
+
+Assim passaram meses, assim correu o hynverno quasi todo, e ja as
+amendoeiras se toucavam de suas alvissimas flores de esperança, ja uma
+depois de outra, íam renascendo as plantas, íam abrolhando as árvores;
+logo vieram as aves trinando seus amores pelos ramos... insensivelmente
+era chegado o meio d'Abril, estavamos em plena e bella primavera.
+
+A guerra parecia cançada, o furor dos combatentes quebrado; rumores de
+intentadas transacções gyravam por toda a parte.
+
+No nosso valle as sentinellas dos dous campos oppostos, costumadas ja a
+ver-se todos os dias, começavam a ver-se sem odio: principiaram por se
+dizer dos pesados gracejos de guerra, acabaram por conversar quasi
+amigavelmente. Muíta vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer
+sôbre as altas questões d'Estado que dividiam o reino e o traziam
+revôlto ha tantos annos. Se as tractavam melhor os do conselho em seus
+gabinetes!
+
+Joanninha que, pouco a pouco, se habituára áquelle viver de perigos e
+incertezas, de dia para dia lhe ia crescendo o ânimo, aguerrindo-se.
+Tudo se affazia áquelle estado: até os rouxinoes tinham voltado aos
+loureiros d'aopé da casa, e como que disciplinados obedeciam aos toques
+d'alvorada e de retreta, accompanhando-os de seu cantar animado e
+vibrante.
+
+A essas horas Joanninha era certa em sua janella--n'aquella antiga e
+elegante janella _renascença_ de que primeiro nos namorámos, leitor
+amigo, ainda antes de a conhecer a ella. Alli a viam as vedetas de ambos
+os exercitos, alli se acostumaram a vê-la com o nascer e o pôr do sol:
+alli, muda e quêda horas esquecidas, escutava ella o vago cantar dos
+seus rouxinoes, talvez absorta em mais vagos pensamentos ainda...
+
+E d'alli lhe pozeram o nome da 'menina dos rouxinoes', pelo qual era
+conhecida em ambos os campos: significante e poetico appellido com que a
+saudavam os soldados de ambas as bandeiras!
+
+E uns e outros respeitavam e adoravam a menina dos rouxinoes. Entre uns
+e outros por tacita convenção parecia stipulado que aquella suave e
+angelica figura podesse andar livremente no meio das armas inimigas,
+como a pomba doméstica e valida a que nenhum caçador se lembra de mirar.
+
+Os costumes de guerra são menos soltos do que se cuida; no ânimo do
+soldado ha mais sentimentos delicados, nas suas fórmas ha menos rudeza
+do que se pensa. A farda é sim vaidosa e presumida, crê muito nos seus
+podêres de seducção, mas não é brutal senão no primeiro impeto.
+
+Joanninha pençava os feridos, velava os infermos, tinha palavras de
+consolação para todos, e em tudo quanto dizia e fazia era tam senhora,
+tinha tam grave gentileza, um donaire tam nobre, que a amavam todos
+muito, mas respeitavam-n'a ainda mais.
+
+Fiada ja n'este respeito e estima geral, Joanninha fôra extendendo, de
+dia a dia, as suas excursões pelo valle. Ultimamente costumava ir, pelo
+fim da tarde, até um pequeno grupo de alamos e oliveiras que ficava mais
+para o sul e perto do logar donde, á noite, se collocavam as derradeiras
+vedetas dos constitucionaes.
+
+Um dia, ja quasi pôsto o sol, a tarde quente e serena,--ou fosse que
+adormeceu ou que suas meditações a distrahiram--o certo é que os
+rouxinoes gorjeavam ha muito nos loureiros da janella, e Joanninha não
+voltava.
+
+Estabeleceram-se as vedetas de um lado e outro, deram-se todas as
+disposições costumadas para a noite.
+
+O official dos constitucionaes que andava collocando as suas
+sentinellas, tinha vindo essa mesma tarde de Lisboa com um refôrço de
+tropa. Pôs-se elle em marcha com a sua gente, foi-a dispondo nos logares
+convenientes, e chegava emfim aopé d'aquelle grupo de árvores:
+
+--'Silencio!' disse elle 'Alto! alli está um vulto.'
+
+--'Não é ninguem,' respondeu um soldado que era dos antigos no pôsto:
+'ninguem que importe; é a menina dos rouxinões. Estou vendo que
+adormeceu no seu poiso costumado.'
+
+--'A menina dos rouxinões! Que cantiga é essa que me cantas tu lá?'
+
+O soldado deu a explicação popular do seu ditto, mostrou a casa do
+valle, e continuava incarecendo sôbre os meritos e virtudes de
+Joanninha...
+
+O official não o deixou acabar:
+
+--'Para a rettaguarda, e silencio!'
+
+Foi rapidamente postar, a alguma distancia d'alli, as duas sentinellas
+que lhe faltavam; e elle entrou so no pequeno grupo d'árvores.
+
+Era Joanninha que estava alli, Joanninha que effectivamente dormia a
+somno sôlto.
+
+
+
+
+CAPITULO XX.
+
+
+ Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do
+ Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes acompanhavam sempre a menina
+ do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto
+ esquissado á pressa para satisfazer ás amaveis
+ leitoras.--Pondera-se o triste e pessimo gôsto dos nossos
+ governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais
+ nacional uniforme do exército portuguez.--Em que se parece o auctor
+ da presente obra com um pintor da edade-média.--De como os abraços,
+ por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis
+ que pareçam, sempre teem de acabar porfim.
+
+
+Sôbre uma especie de banco rustico de verdura, tapeçado de grammas e de
+macella brava, Joanninha, meio recostada, meio deitada, dormia
+profundamente.
+
+A luz baça do crepusculo, coada ainda pelos ramos das árvores,
+illuminava tibiamente as expressivas feições da donzella; e as fórmas
+graciosas de seu corpo se desenhavam molle e voluptuosamente no fundo
+vaporoso e vago das exhalações da terra, com uma incerteza e indecisão
+de contornos que redobrava o incanto do quadro, e permittia á imaginação
+exaltada percorrer toda a escalla d'harmonia das graças femininas.
+
+Era um ideal do demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo,
+lh'o preparára a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado da brisa
+recendente dos prados.
+
+Como n'essas poeticas e populares legendas de um dos mais poeticos
+livros que se tem escripto, o Flos-sanctorum, em que a ave querida e
+fadada accompanha sempre a amavel sancta de sua affeição--Joanninha não
+estava alli sem o seu mavioso companheiro. Do mais espêsso da ramagem,
+que fazia sobreceo áquelle leito de verdura, sahia uma torrente de
+melodias, vagas e ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, e
+admiraveis de irregularidade e invenção, como as barbaras endeixas de um
+poeta selvagem das montanhas... Era um rouxinol, um dos queridos
+rouxinoes do valle que alli ficára de vela e companhia á sua protectora,
+á menina do seu nome.
+
+Com o approximar dos soldados, e o cochichar do curto dialogo que no fim
+do último capitulo se referiu, cessára por alguns momentos o delicioso
+canto da avezinha; mas quando o official, postadas as sentinellas a
+distancia, voltou pé ante pé e entrou cautellosamente para debaixo das
+árvores, ja o rouxinol tinha tornado ao seu canto, e não o suspendeu
+outra vez agora, antes redobrou de trillos e gorgeios, e do mais alto de
+sua voz agudissima veio descahindo depois em uns suspiros tam magoados,
+tam sentidos, que não disseras senão que preludiava á mais terna e
+maviosa scena d'amor que esse valle tivesse visto.
+
+O official...--Mas certo que as amaveis leitoras querem saber com quem
+trattam, e exigem, pelo menos, uma esquissa rapida e a largos traços do
+novo actor que lhes vou appresentar em scena.
+
+Teem razão as amaveis leitoras, é um dever de romancista a que se não
+póde faltar.
+
+O official era môço, talvez não tinha trinta annos; pôsto que o tratto
+das armas, o rigor das estações, e o sêllo visivel dos cuidados que
+trazia estampado no rosto, accentuassem ja mais fortemente, em feições
+de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.
+
+A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte
+como precisa um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e
+decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e
+largo sobretudo militar--especie de great-coat inglez que a imitação das
+modas britannicas tinha tornado familiar nos nossos bivacs. Trazia-o
+desabotoado e descahido para traz, porque a noite não era fria; e viu-se
+por baixo elegantemente cingida ao corpo a fardeta parda dos caçadores,
+realçada de seus characteristicos alamares pretos e avivada de
+incarnado...
+
+Uniforme tam militar, tam nacional, tam caro a nossas recordações--que
+essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado
+n'esta terra, proscreveram do exército... por muito portuguez demais
+talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfandega, reformaram-n'o
+em uniforme da bicha!
+
+Não pude resistir a esta reflexão: as amaveis leitoras me perdoem por
+interromper com ella o meu retratto.
+
+Mas quando pinto, quando vou riscando e collorindo as minhas figuras,
+sou como aquelles pintores da edade-média que interlaçavam, nos seus
+paineis, distichos de sentenças; fittas lavradas de moralidades e
+conceitos... talvez porque não sabiam dar aos gestos e attitudes
+expressão bastante para dizer por elles o que assim escreviam, e servia
+a penna de supplemento e illustração ao pincel... Talvez: e talvez pelo
+mesmo motivo caio eu no mesmo defeito...
+
+Será; mas em mim é irremediavel, não sei pintar de outro modo.
+
+Voltemos ao nosso retratto.
+
+Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza ímmensa,
+denunciavam o talento, a mobilidade do espirito--talvez a irreflexão...
+mas tambem a nobre singeleza de um character franco, leal e generoso,
+facil na íra, facil no perdão, incapaz de se offender de leve, mas
+impossivel de esquecer uma injúria verdadeira.
+
+A bôcca, pequena e desdenhosa, não indicava comtudo suberba, e muito
+menos vaidade, mas surria na consciencia de uma superioridade
+inquestionavel e não disputada.
+
+O rosto, mais pallido que trigueiro, parecia comprido pela barba preta e
+longa que trazia ao uso do tempo. Tambem o cabello era preto; a testa
+alta e desaffogada.
+
+Quando callado e serio, aquella physionomia podia-se dizer dura; a mais
+piquena animação, o mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira,
+porque a mobilidade e a gravidade eram os dous pollos d'esse character
+pouco vulgar e difficilmente bem intendido.
+
+D'aquelle busto classico e verdadeiramente moldado pelos typos da arte
+antiga, podia o statuario fazer um philosopho, um poeta, um homem
+d'estado ou um homem do mundo, segundo as leves inflexões d'expressão
+que lhe désse.
+
+N'este momento agora, e ao entrar na pequena espessura d'aquellas
+árvores, animava-o uma viva e inquieta expressão de interêsse--quebrado
+comtudo, sustido, e, para assim dizer, _soffreado_ de um temor occulto,
+de um pensamento reservado e doloroso que lhe ia e vinha resumbrando na
+face, como a antiga e desbotada côr de um estôfo que se tingiu de
+novo--que é outro agora mas que não deixou de ser inteiramente o que
+era...
+
+Alegra-se assim um triste dia de novembro com o raio de sol transiente e
+inesperado que lhe rompeu a cerração n'um canto do ceo...
+
+Tal era, e tal estava deante de Joanninha adormecida, o que não direi
+mancebo porque o não parecia--o homem singular a quem o nome, a historia
+e as circumstancias da donzella pareciam ter feito tamanha impressão.
+
+--'Joanninha!' murmurou elle apenas a viu á luz ainda bastante do
+crepusculo. 'Joanninha!' disse outra vez, contendo a violencia da
+exclamação: 'É ella sem dúvida. Mas que differente!... quem tal diria!
+Que graça, que gentileza! Será possível que a criança que ha dois
+annos?..'
+
+Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario lhe tomou a mão
+adormecida e a levou aos labios.
+
+Joanninha estremeceu e acordou.
+
+--'Carlos, Carlos!'--balbuciou ella com os olhos ainda meio-fechados,
+Carlos, meu primo... meu irmão! era falso, dize: era falso? Foi um
+sonho, não foi, meu Carlos?..'
+
+E progressivamente abria os olhos mais e mais até se lhe espantarem e os
+cravar n'elle arregalados de pasmo e de alegria.
+
+--'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um sonho mau que eu tive. Tu
+não morreste... Falla á tua irman, á tua Joanna; dize-lhe que estás
+vivo, que não es a sombra d'elle... Não es, não, que eu sinto a tua mão
+quente na minha que queima, sinto-a estremecer como a minha... Carlos,
+meu Carlos! dize, falla-me: tu estás vivo e são? E es... es o meu
+Carlos? Tu proprio, não é ja o sonho, es tu?...'
+
+--'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas commigo?'
+
+--'Sonhava como sonho sempre que durmo... e o mais do tempo que estou
+acordada... sonhava com aquillo em que so penso... em ti.'
+
+--'Joanna!... prima... minha irman!'
+
+E cahiu nos braços d'ella; e abraçaram-se n'um longo, longo abraço--com
+um longo, interminavel beijo..! longo, longo e interminavel como um
+primeiro beijo d'amantes...
+
+O abraço desfez-se; e o beijo terminou em fim, porque os reflexos do ceo
+na terra são limitados e imperfeitos como as incompletas existencias que
+a habitam.
+
+Senão... invejariam os anjos a vida da terra.
+
+Joanninha, tornada a si d'aquelle quasi paroximo, abria e fechava os
+olhos para se affirmar se estava bem acordada, tocava com as mãos o
+rosto, o peito, os braços do primo, palpava-se depois a si mesma como
+quem duvidava de sua propria existencia, e dizia em palavras cortadas e
+sem nexo:
+
+--'É Carlos... Carlos: foi falso. É meu primo... Minha avó tambem sonhou
+o mesmo sonho, mas foi falso. Fr. Diniz não é o que disse, nem ninguem:
+eu e a avó é que o sonhámos. Mas elle aqui está, vivo... vivo! e nosso,
+nosso todo outra vez!... Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como estava eu
+aqui comtigo?... E sos, sosinhos aqui a ésta hora! Não deve ser isto...
+Valha-me Deus! E que dirão? E Jesus!--Lá isso não me importa; deixá-los
+dizer: mas não deve ser. Vamos, Carlos, vamos ter com ella, vamos para a
+avó!... Que n'isto não ha mal nenhum... Meu primo!.. um primo com quem
+eu fui criada!.. Mas quem não souber, póde dizer... Vamos, Carlos.--Oh!
+minha avó morre de alegria, coitada!.. É verdade: vou adeante
+preveni-la, prepará-la... heide-lhe ir assim dizendo pouco a pouco...
+Segue-me tu, Carlos, e vamos.--Mas, oh meu Deus! não é preciso: paraquê?
+Ella é cega, coitadinha, não sabes?'
+
+--'Cega, que dizes? minha avó está cega?'
+
+--'Pois não sabías? Ai! é verdade, não sabías. Tantas coisas que tu não
+sabes, meu Carlos! Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou quando...
+Mas não fallemos agora n'essas tristezas que ja la vão. Em ella te
+sentindo aopé de si, é o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-m'o ella
+ditto muitas vezes, e eu bem sei que é assim. Mas ouve: um dia havemos
+de fallar--nós dois sos--á vontade: tenho tanto que te dizer... nem tu
+sabes... Agora vamos, Carlos.'
+
+E fallando assim, tomou-o pela mão e sahiu para o valle aberto,
+froixamente acclarado ja de myríadas de estrellas scintillantes no ceo
+azul.
+
+
+
+
+CAPITULO XXI.
+
+
+ Quem vem lá?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa o
+ terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situação _ordeira_,
+ a mais perigosa e falsa das situações.
+
+
+As estrellas luziam no ceo azul e diaphano, a brisa temperada da
+primavera suspirava brandamente; na larga solidão e no vasto silencio do
+valle distinctamente se ouvia o doce murmúrio da voz de Joanninha,
+claramente se via o vulto da sua figura e da do companheiro que ella
+levava pelo mão e que machinalmente a seguia como sem vontade propria,
+obedecendo ao podêr de um magnetismo superior e irresistivel.
+
+Passavam, sem as ver e sem reflectir onde estavam, por entre as vedetas
+de ambos os campos... e ao mesmo tempo de umas e outras lhes bradou o
+voz breve e stridente das sentinellas: 'Quem vem lá?'
+
+Estremeceram involuntariamente ambos com o som repentino de guerra e de
+allarma que os chamava á esquecida realidade do sítio, da hora, das
+circumstancias em que se achavam... D'aquelle sonho incantado que os
+transportára ao Éden querido de sua infancia, accordaram
+sobresaltados... viram-se na terra erma e bruta, viram a espada
+flammejante da guerra civil que os perseguia, que os desunia, que os
+expulsava para sempre do paraizo de delicias em que tinham nascido...
+
+Oh! que imagem eram esses dous, no meio d'aquelle valle nu e aberto, á
+luz das estrellas scintillantes, entre duas linhas de vultos negros,
+aqui alli dispersos e luzindo acaso do tranziente reflexo que fazia
+brilhar uma baioneta, um fuzil... que imagem não eram dos verdadeiros e
+mais sanctos sentimentos da natureza expostos e sacrificados sempre no
+meio das luctas barbaras e estupidas, no conflicto de falsos principios
+em que se estorce continuamente o que os homens chamaram _sociedade_!
+
+Joanninha abraçou-se com o primo; elle parou derepente e foi com a mão
+ao punho da espada.
+
+--'Quem vem lá?' tornaram a bradar as sentinellas.
+
+--'Ouves, Joanna?' disse Carlos em voz baixa e sentida: 'Ouves estes
+brados?' É o grito da guerra que nos manda separar; é o clamor cioso e
+vigilante dos partidos que não tolera a nossa intimidade, que separa o
+irmão da irman, o pae do filho!..'
+
+--'Quem vem lá?' bradaram ainda mais forte as sentinellas; e ouviu-se
+aquelle stridor baço e breve que tam froixo é e tam forte impressão faz
+nos mais bravos animos... era o som dos gatilhos que se armavam nas
+espingardas.
+
+O momento era supremo, o perigo imminente e ja inevitavel... alli podiam
+ficar ambos, traspassados das ballas oppostas dos dous campos
+contendores.
+
+Como esses que, fiados em sua innocencia e abnegação, cuidam podêr
+passar por entre as discordias civis sem tomar parte n'ellas, e que são,
+por isso mesmo, objecto de todas as desconfianças, alvo de todos os
+tiros--assim estavam alli os dous primos na mais arriscada e falsa
+posição que têem as revoluções.
+
+Joanninha conheceu o perigo que os ameaçava; e com aquella rapidez de
+resolução que a mulher tem mais prompta e segura nas grandes occasiões,
+disse para Carlos:
+
+--'Falla aos teus, faze-te conhecer e põe-te a salvo. Ámanhan nos
+tornaremos a ver: eu te avisarei. Adeus!'
+
+--'E tu, tu?.. E as sentinellas dos realistas?..'
+
+--'Não tenhas cuidado em mim. D'esta banda todos me conhecem'.
+
+Deu alguns passos para o lado da sua casa e levantou a voz:
+
+--'Joanninha! Sou eu, camaradas, sou eu!'
+
+Immediatamente se ouviu o som retinido das coronhas no chão, e o riso
+contente dos soldados que reconheciam a bemquista e bem vinda voz de
+Joanninha... da 'menina dos rouxinoes.'
+
+--'Ves, Carlos?.. Adeus! até ámanhan.' disse ella baixo.
+
+--'Até amanhan se...'
+
+--'Se!.. Pois tu?..'
+
+--'Ouve: não digas a tua avó que me viste, que estou aqui: é forçoso, é
+indispensavel, exijo-o de ti...'
+
+--'E ámanhan me dirás?..'
+
+--'Sim.'
+
+--'Prometto: não direi nada... Mas, oh! Carlos...'
+
+--'Adeus!'
+
+Carlos deu dous passos para a banda das suas vedetas, Joanna correu para
+o lado opposto. Mas elle parou e não tirou os olhos d'aquella fórma
+gentil que deslizava como uma sombra pelo horisonte do valle, até que
+desappareceu de todo.
+
+E elle immovel ainda!
+
+Faíscaram derepente como relampagos um, dous, tres... e as detonações
+que os seguiram, e o assovio das ballas que vinham depós ellas... Eram
+as sentinellas constitucionaes que faziam fogo sôbre o seu commandante
+que não conheciam, cujo silencio e immobilidade o fazia suspeito.
+
+Uma das ballas ainda o feriu levemente no braço esquerdo.
+
+--'Bem, camaradas!' bradou Carlos caminhando rapidamente para elles, e
+erguendo a voz forte e cheia que tam conhecida era nas fileiras: 'Bem!
+Fizeram a sua obrigação. Um de vocês que me aperte aqui o braço com este
+lenço.'
+
+--'Carlos!' gritou ao longe uma voz fina, aguda, vibrante de terror pelo
+espaço 'Carlos! falla-me, responde: não te succedeu nada?'
+
+--'Nada, nada! Socega.'
+
+E tornou a cahir tudo no silencio. Carlos retirou-se ao seu quartel
+n'uma choupana proxima. Os soldados olharam-se entre si e surriram.
+
+Um mais doutor disse para os outros:
+
+--'O nosso capitão não se descuida: ainda hoje chegou, e já nós lá
+vamos, hem?'
+
+--'O nosso capitão é d'aqui: não sabes?'
+
+--'Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura? O home' é capaz!'
+
+--'Silencio! Eu te direi logo a historia toda: é uma prima.'
+
+--'Ah! prima. Então não ha nada que dizer.'
+
+--'É a que elles chamam aqui...'
+
+--'A menina dos rouxinoes? Essa é maluca.'
+
+--'Gosta d'ellas assim, que elle tambem o é.'
+
+--'Pois a freira de San Gonsallo, na Terceira?'
+
+--'Maluca.'
+
+--'E a Lady ingleza que?..'
+
+--'Maluquissima essa! Não me hade admirar se a vir cahir do ar um dia
+por ahi como bomba. E não hade dar mau estallo!'
+
+--'Podéra! E incontrando-se com a prima então!..'
+
+--'Mas elle é prima ou é irman?'
+
+--'É uma tal parentella inrevezada a d'essa gente da casa do valle!..
+dizem coisas por ahi, que se eu as intendo!.. E ha um frade no caso, ja
+se sabe...'
+
+--'Oh! elle ha frade no caso?'
+
+--'Ha, e que frade! Um apostolico ás direitas! Tam feio, tão magro!
+apparece por ahi ás vezes. Eu já o lombriguei um dia: e que famoso tiro
+que era! Quasi que me arrependo de não ter...'
+
+--'Isso! hoje iamos matando o nosso capitão por instantes. Olha agora se
+lhe matas o tio, ou pae, ou o que quer que é...'
+
+--'Um frade!'
+
+--'Um frade não é gente?'
+
+--'Não senhor.'
+
+--'Está bom: basta de conversar por hoje. O que me eu parece é que nós
+temos cedo muita pancada rija.'
+
+--'Venha ella, que isto ja abhorrece.'
+
+Accenderam os cigarros e fumaram.
+
+Com o mesmo socêgo d'espirito... sancto Deus! accendem os homens a
+guerra civil, que altera e confunde por este modo todas as ideas, todos
+os sentimentos da natureza.
+
+
+
+
+CAPITULO XXII.
+
+
+ Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da
+ velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus
+ botões.--A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que
+ achou.--Obrigações d'amor, triste palavra.--A mulher que elle
+ amava, e se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos
+ leitores. Declara que com os hypocritas não falla.--Quem hade
+ levantar a primeira pedra?--Dous modos differentes de accudir uma
+ coisa ao pensamento.
+
+
+No dia seguinte, mal rompia a manhan, um paizano que dizia trazer
+communicações importantes para o commandante do pôsto avançado, foi
+conduzido á presença de Carlos e lhe intregou uma carta: era de
+Joanninha.
+
+Fiel á sua promessa, ella não tinha ditto nada do incôntro da véspera:
+dizia a carta. E que a avó estava doente e afflicta; que para a animar e
+consolar, lhe dera notícias do primo, como vindas por pessoa que o víra
+e estivera com elle. Que ficava mais contente e socegada: mas que
+aquelle estado de anciedade não podia prolongar-se. Que a saude da pobre
+velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era matá-la não
+lhe dizer a verdade... Joanninha concluia com mil affectos e saudades; e
+aprazava por fim o mesmo sítio da véspera para se tornarem a ver, e para
+concertarem o que havia de fazer. Todas as precauções estavam tomadas, e
+o consentimento dado pelo commandante do pôsto contrário para haver toda
+a segurança n'aquella entrevista.
+
+Carlos tinha velado toda a noite; uma excitação extraordinaria lhe
+amotinára o sangue, lhe desaffinára os nervos. Bem tinha desejado vir
+para aquelle pôsto, bem contava, bem esperava elle, estando alli, saber
+de mais perto da sua familia, vê-los talvez, mais dia menos dia,
+incontrar-se com alguns d'elles... e de todos elles, a innocente e
+graciosa criança com quem vivêra como irmão desde os seus primeiros
+annos, era quem elle mais esperava, mais desejava ver decerto.
+
+Mas uma criança era a que elle tinha deixado, uma criança a brincar, a
+colhêr as boninas, a correr atraz das borboletas do valle... uma criança
+que sim o amava ternamente, cuja suave imagem o não tinha deixado nunca
+em sua longa peregrinação, cuja saudade o accompanhára sempre, de quem
+se não esquecêra um momento, nem nos mais alegres nem nos mais
+occupados, nem nos mais difficeis nem nos mais perigosos da sua vida...
+
+Mas era uma criança!.. era a imagem d'uma criança.
+
+É certo, sim: e nas batalhas, em presença da morte... no longo cêrco do
+Porto entre os flagellos da cholera e da fome, nas horas de mais viva
+esperança, no descoroçoamento dos mais tristes dias, a doce imagem de
+Joanninha, d'aquella Joanninha com quem elle andava ao colo, que
+levantava em seus hombros para ella chegar aos ninhos dos passaros no
+verão, aos medronhos maduros no outomno, que elle suspendia nos braços
+para passar no hynverno os alagadiços do valle,--essa querida imagem não
+o abandonára nunca.
+
+Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem quando as suas glórias--mais
+esquecidiças ainda!--pareciam absorver-lhe todos os sentidos, e todo o
+sentimento de seu coração.
+
+A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente impressa no mais puro e no
+mais sancto de sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que
+lh'a obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lh'a
+allumiasse.
+
+Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha na mão do anjo que ajoelha
+em innocencia e piedade deante do throno do Eterno!
+
+Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle, quasi na mesma hora, cheio
+d'aquella luz, mais viva e animada agora pela proximidade do foco d'onde
+sahia... n'essa mesma hora, ir incontrar alli, n'aquella solidão, entre
+aquellas árvores, á tibia e seductora claridade do crepusculo... a quem,
+sancto Deus! Não ja a mesma Joanninha de ha tres annos, não a mesma
+imagem que elle trazia, como a levára, no coração; mas uma gentil e
+airosa donzella, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdêra,
+comtudo, da graça, do incanto, do suave e delicioso perfume da
+innocencia infantil em que a deixára!
+
+Não esperava, não estava preparado para a impressão que recebeu, foi uma
+surpreza, um choque, um reviramento confuso de todas as suas ideas e
+sentimentos.
+
+Qual fosse porêm a precisa e verdadeira impressão que recebeu, nem elle
+a si proprio o podéra explicar: era de um genero novo, unico na historia
+de suas sensações: não a conhecia, extranhava-a, e quasi que tinha medo
+de a analysar.
+
+Sería annúncio d'amor?
+
+Mas elle tinha amado, amado muito e devéras... e cuidava amar ainda, e
+devia amar; por quanto ha sagrado e sancto nos deveres do coração, era
+obrigado a amar ainda.
+
+Oh obrigações d'amor, obrigações d'amor! se vós não sois, se vós ja não
+sois senão obrigações!..
+
+Não o pensava Carlos, não o cria elle assim: leal e sincero tinha
+intregue o seu coração á mulher que o amava, que tantas próvas lhe dera
+d'amor e devoção; que descançava em sua fé, que não existia senão para
+elle: mulher môça, bella, cheia de prendas e de incantos, mulher de um
+espirito, de uma educação superior, que atravessára, desprezando-as,
+turbas de adoradores nobres, riccos, poderosos, para descer até elle,
+para se intregar ao foragido, pobre, extrangeiro, desprezado.
+
+Quem era essa mulher?
+
+Aonde, como obtivera elle a posse d'essa joia, d'esse talisman com o
+qual se tinha por tam seguro para não ver na graciosa prima senão?..
+
+Senão o quê?
+
+A innocente criança que alli deixára?
+
+Mas não é verdade isso: outra era a impressão que Joanninha lhe fizera,
+fosse ella qual fosse.
+
+O que era então?
+
+E sôbre tudo, quem era ess'outra mulher que elle amava?
+
+E amava-a elle ainda?
+
+Amava.
+
+E Joanninha?
+
+Joanninha era... nem eu sei o que lhe era Joanninha... o que lhe estava
+sendo n'aquelle momento.
+
+O que lhe ella fôra, assas t'o tenho explicado, leitor amigo e benevolo:
+o que lhe ella será... Pódes tu, leitor candido e sincero,--aos
+hypocritas não fallo eu--pódes tu dizer-me o que hade ser ámanhan no teu
+coração a mulher que hoje somente achas bella, ou gentil, ou
+interessante?
+
+Pódes responder-me da parte que tomará ámanhan na tua existencia a
+imagem da donzella que hoje contemplas apenas com olhos de artista, e
+lhe estás notando, como em quadro gracioso, os finos contornos; a pureza
+das linhas, a expressão verdadeira e animada?
+
+E quando vier, se vier, esse fatal dia de ámanhan, responder-me-has
+tambem da parte que ficará tendo em tua alma ess'outra imagem que lá
+estava d'antes e que, ao reflexo d'esta agora, d'aqui observo que vai
+impallidecendo, descórando... ja lhe não vejo senão os lineamentos
+vagos... ja é uma sombra do que foi... Ai! o que será ella ámanhan?
+
+Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente, não accuses, não
+julgues á pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra que o
+Filho da Deus mandou levantar á primeira mão que se achasse innocente...
+A adultera foi-se em paz, e ninguem a apedrejou.
+
+Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher
+a quem promettêra, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher
+era bella, nobre, ricca, admirada, occupava uma alta posição no mundo...
+e tudo lhe sacrificára a elle exilado, desconhecido.
+
+E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ella; que
+os longos e ondados anneis de loiro cendrado, que os languidos olhos de
+gazella, que o ar majestoso e altivo, que a tez d'uma alvura celeste,
+que o espirito, o talento, a delicadeza de Georgina... Chamava-se
+Georgina; e é tudo quanto por agora póde dizer-vos, ó curiosas leitoras,
+o discreto historiador d'este mui veridico successo: não lhe pergunteis
+mais, por quem sois. Carlos estava seguro, dizia eu, que todas essas
+perfeições, que o seu amor sem limites, que a sua confiança sem reserva,
+não podiam ter rival, nem a haviam de ter.
+
+Mas aquelle beijo, aquelle abraço de Joanninha... oh! que lhe tinha elle
+feito? Como o sentíra elle? Como lhe guardára o seu talisman o coração e
+a alma?..
+
+Não, Carlos estava certo de si, certo do seu antigo amor, lembrado de
+quanto lhe devia: e n'isso reflectiu toda aquella noite que se fôra em
+claro.
+
+A imagem de Joanninha lá apparecia, de vez em quando, como um raio de
+luz transiente e magica, no meio d'ess'outras visões do passado que a
+reflexão lhe acordava. Ai! essas era a reflexão que as acordava...
+aquella vinha espontanea; era repellida, e tornava, e tornava...
+
+Ha sua notavel differença n'estes dois modos de accudir ao pensamento.
+
+A manhan veio em fim; Carlos respirou o ar puro e vivo da madrugada,
+sentiu-se outro.
+
+Quando chegou a carta de Joanninha, leu-a e reflectiu n'ella sem
+sobresalto. Certo e seguro de si, resolveu ir ao prazo dado para a
+tarde.
+
+
+
+
+CAPITULO XXIII.
+
+
+ Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de
+ Carlos.--Dança de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau da
+ familia.--Veremos, é a grande resolução nas grandes
+ difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes.--Desafio a
+ todos os poetas moyen-ages do nosso tempo.
+
+
+Não ha nada como tomar uma resolução.
+
+Mas hade tomar-se e executar-se: aliás, se o caso é difficil e
+complicado, pouco a pouco as dúvidas solvidas começam a inliar-se outra
+vez, a inredar-se... a surgir outras novas, a appresentarem-se faces
+ainda não vistas da questão... em fim, se o intervallo é largo, quando a
+resolução tomada chega a executar-se, a maior parte das vezes ja não é
+por fôrça de razão e convicção que se faz, mas por capricho, ponto
+d'honra, teima.
+
+Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no fim do dia. Mas o dia era
+longo, custou-lhe a passar. Todas as ponderações da noite lhe recorreram
+ao pensamento, todas as imagens que lhe tinham fluctuado no espirito se
+avivaram, se animaram, e lhe começaram a dançar n'alma aquella dança de
+fadas e duendes que faz a delicia e os tormentos d'estes sonhadores
+acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chama
+_nervosos_; em stylo de romance _sensiveis_, na phrase popular
+_malucos_.
+
+Carlos era tudo isso: para que o heide eu negar?
+
+Entre aquellas imagens que assim lhe bailavam no pensamento, vinha uma
+agora... talvez a que elle via mais distincta entre todas, a da avó que
+tanto amára, em cujo maternal coração elle bem sabía que tinha a
+primeira, a maior parte... da avó que tam carinhosa mãe lhe tinha sido!
+Pobre velhinha, hoje decrepita e cega... Cega, coitada! Como e porque
+cegaria ella?
+
+Havia ahi mysterio que Joanninha indicára, mas que não explicou.
+
+Atraz da paciente e humilhada figura d'aquella mulher de dores e
+desgraças, se erguia um vulto austero e duro, um homem armado da cabeça
+aos pés de ascetica insensibilidade, um homem que parecia o fado-mau
+d'aquella velha, de toda a sua familia... o cumplice e o verdugo de um
+grande crime... um ser de mysterio e de terror.
+
+Era Fr. Diniz aquelle homem; homem que elle desejava, que elle cuidava
+detestar, mas por quem, no fundo d'alma, lhe clamava uma voz mystica e
+íntima, uma voz que lhe dizia: 'Assim será tudo, mas tu não pódes
+abhorrecer esse homem.'
+
+Sim, mas sôbre Fr. Diniz pesava uma accusação tremenda, que o fizera, a
+elle Carlos, abandonar a casa de seus paes! Accusação horrivel que
+tambem comprehendia a pobre velha, aquella avó que o adorava, e que
+elle, ainda criminosa como a suppunha, não podia deixar de amar...
+
+E d'estes medonhos segredos sabía Joanninha alguma coisa?
+
+Esperava em Deus que não.
+
+Desconfiaria alguma coisa?... O quê?
+
+E iria elle polluir o pensamento, desflorar os ouvidos, corromper os
+labios da innocente criança com o esclarecimento de taes horrores?
+
+Havia de lhe fallar na infamia dos seus? Havia de lhe explicar o motivo
+porque fugira da casa paterna?
+
+Havia de?..
+
+Não.--Se Joanninha tivesse suspeitas, havia de destrui-las antes; se
+ella soubesse alguma coisa, negar-lh'a.
+
+Mentiria, juraria falso se fosse preciso.
+
+E não havia de ir ver a avó, não havia de entrar na casa dos seus a
+consolar a infeliz que só vivia d'uma esperança, a de ver o filho de sua
+filha?
+
+Não, nunca... O limiar d'aquella porta, que elle julgava contaminado,
+infame, manchado de sangue e cuspido de opprobrios e deshonras, tinha-o
+passado sacudindo o po de seus sapatos, promettendo a Deus e á sua honra
+de o não tornar a cruzar mais.
+
+Mas que diria então elle a Joanninha? Como havia de explicar-lhe um
+proceder tam extranho, e apparentemente tam cruel, tam ingrato?
+
+Por emquanto as impossibilidades materiaes da guerra serviriam de
+desculpa, depois o tempo daria conselho.
+
+_Veremos_!--é a grande resolução que se toma nas grandes difficuldades
+da vida, sempre que é possivel espaçá-las.
+
+Carlos disse: '_Veremos!_'
+
+Tomou todas as disposições para podêr estar seguro e socegado no sítio
+onde ia incontrar a prima: e o resto do dia, ancioso mas contente,
+occupou-se de seus deveres militares, fatigou o corpo para descançar o
+espirito, e em parte e por bastantes horas o conseguiu.
+
+Mas um dia de abril é immenso, interminavel. E as últimas horas pareciam
+as mais compridas. Nunca houve horas tammanhas! Carlos ja não tinha que
+inventar para fazer: pôz-se a pensar.
+
+Que remedio!
+
+Pensou n'isto, pensou n'aquillo... uma idea lhe vinha, outra se lhe ia.
+A imaginação, tanto tempo comprimida, tomava o freio nos dentes e corria
+á redea sôlta pelo espaço...
+
+Anneis dourados, transas de ebano, faces de leite e rosas como de
+cherubins, outras pallidas, transparentes, diaphanas como de princezas
+incantadas, olhos pretos, azues, verdes... os de Joanninha em fim...
+todas éstas feições, confusas e indistinctas mas de estremada belleza
+todas, lhe passavam deante da vista, e todas o infeitiçavam. O
+desgraçado...--Porque não heide eu dizer a verdade?--o desgraçado era
+poeta.
+
+Inda assim! não me esconjurem ja o rapaz... Poeta, intendamo'-nos; não é
+que fizesse versos: n'essa não cahiu elle nunca, mas tinha aquelle fino
+sentimento d'arte, aquelle sexto sentido do _bello_, do _ideal_ que so
+teem certas organizações privilegiadas de que se fazem os poetas e os
+artistas.
+
+Eis aqui um fragmento de suas aspirações poeticas. Vejam as amaveis
+leitoras que não teem metro, nem rhyma--nem razão... Mas emfim versos
+não são.
+
+
+'Olhos verdes!..
+
+'Joanninha tem os olhos verdes...
+
+'Não se reflecte n'elles a pura luz do ceo, como nos olhos azues.
+
+'Nem o fogo--e o fummo das paixões, como nos pretos.
+
+'Mas o viço do prado, a frescura e animação do bosque, a fluctuação e a
+transparencia do mar...
+
+'Tudo está n'aquelles olhos verdes.
+
+'Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?
+
+'Nos olhos azues de Georgina arde, em sereno e modesto brilho, a luz
+tranquilla de um amor provado, seguro, que deu quanto havia de dar,
+quanto tinha que dar.
+
+'Os olhos azues de Georgina não dizem senão uma so phrase d'amor, sempre
+a mesma e sempre bella: _Amo-te, sou tua!_
+
+'Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca li mais que éstas
+palavras: _Ama-me, que es meu!_
+
+'Os olhos de Joanninha são um livro immenso, escripto em characteres
+moveis, cujas combinações infinitas excedem a minha comprehensão.
+
+'Que querem dizer os teus olhos, Joanninha?
+
+'Que lingua fallam eles?
+
+'Oh! paraque tens tu os olhos verdes, Joanninha?
+
+'A assucena e o jasmim são brancos, a rosa vermelha, o alecrim azul...
+
+'Roxa é a violeta, e o junquilho côr de ouro.
+
+'Mas todas as côres da natureza vêem de uma so, o verde.
+
+'No verde está a origem e o primeiro typo de toda a belleza.
+
+'As outras côres são parte d'ella; no verde está o todo, a unidade da
+formosura creada.
+
+'Os olhos do primeiro homem deviam de ser verdes.
+
+'O ceo é azul...
+
+'A noite é negra...
+
+'A terra e o mar são verdes...
+
+'A noite é negra mas bella: e os teus olhos, Soledade, eram negros e
+bellos como a noite.
+
+'Nas trevas da noite luzem as estrellas que são tam lindas... mas no fim
+de uma longa noite quem não suspira pelo dia?
+
+'E que se vão... oh! que se vão emfim as estrellas!..
+
+'Vem o dia... o ceo é azul e formoso: mas a vista fatiga-se de olhar
+para elle.
+
+'Oh! o ceo é azul como os teus olhos, Georgina...
+
+'Mas a terra é verde: e a vista repousa-se n'ella, e não se cança na
+variedade infinita de seus matizes tam suaves.
+
+'O mar é verde e fluctuante... Mas oh! esse é triste como a terra é
+alegre.
+
+'A vida compõe-se de alegrias e tristezas...
+
+'O verde é triste e alegre como as felicidades da vida.
+
+'Joanninha, Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?..'
+
+
+Ja se vê que o nosso doutor de bivac, o soldado que lhe chamou _maluco_
+ao pensador de taes extravagancias, tinha razão e sabía o que dizia.
+
+Infelizmente não se formulavam em palavras estes pensamentos poeticos
+tam sublimes. Por um processo milagroso de photographia mental, apenas
+se pôde obter o fragmento que deixo transcripto.
+
+Que honra e glória para a eschola romantica se podessemos ter a
+collecção completa!
+
+Fazia-se-lhe um prefacio incisivo, palpitante, _britante_....
+
+Punha-se-lhe um titulo vaporoso, phosphorescente... por exemplo:--Echos
+surdos do coração--ou--Reflexos d'alma--ou--Hymnos
+invisiveis--ou--Pesadellos poeticos--ou qualquer outro d'este genero,
+que se não soubesse bem o que era nem tivesse senso commum.
+
+E que viesse ca algum menestrel de frak e chapeu redondo, algum trovador
+renascença de collete á Joinville, luctar com o meu Carlos em pontos de
+romantismo vago, descabellado, vaporoso, e nebuloso!
+
+Se algum d'elles era capaz de escrever com menos logica,--(com menos
+grammatica, sim) e com mais triumphante desprêzo das absurdas e
+escravizantes regras d'essa paleta d'essa eschola classica que não
+produziu nunca senão Homero e Virgilio, Sophocles e Horacio, Camões e o
+Tasso, Corneille e Racine, Pope e Moliere, e mais algumas duzias de
+outros nomes tam obscuros como estes?
+
+
+
+
+CAPITULO XXIV.
+
+
+ Novo Génesis.--O Adam social muito differente do Adam
+ natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro
+ por suas más reflexões.--De como Joanninha recebeu o primo com os
+ braços abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor,
+ meia prazer.
+
+
+Formou Deus o homem, e o pôs n'um paraizo de delicias; tornou a formá-lo
+a sociedade, e o pôs n'um inferno de tolices.
+
+O homem--não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem
+contrafeito, appertando e forçando em seus moldes de ferro aquella pasta
+de limo que no paraizo terreal se affeiçoára a imagem da divindade--o
+homem, assim aleijado como nós o conhecêmos, é o animal mais absurdo, o
+mais disparatado e incongruente que habita na terra.
+
+Rei nascido de todo o creado, perdeu a realeza; principe desherdado e
+proscripto, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados; altivo
+ainda e suberbo com as recordações do passado, baixo vil e miseravel
+pela desgraça do presente.
+
+D'estas duas tam oppostas actuações constantes, que ja per si sos o
+tornariam ridiculo, formou a sociedade, em sua van sabedoria, um systema
+chymerico, desarrazoado e impossivel, complicado de regras a qual mais
+desvairada, incontrado de repugnancias a qual mais opposta. E vazado
+este perfeito modêlo de sua arte pretenciosa, metteu dentro d'elle o
+homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal ente absurdo e
+disparatado, doente, fraco, rachitico; collocou-o no meio do Eden
+phantastico de sua creação,--verdadeiro inferno de tolices--e disse-lhe,
+invertendo com blasphêmo arremêdo as palavras de Deus Creador:
+
+'De nenhuma árvore da horta comendo comerás;
+
+'Porêm da árvore da sciencia do bem e do mal, d'ella so comerás se
+quizeres viver.'
+
+Indigestão de sciencia que não commutou seu mau estomago, presumpção e
+vaidade que d'ella se originaram--tal foi o resultado d'aquele preceito
+a que o homem não desobedeceu como ao outro: tal é o seu estado
+habitual.
+
+E quando as memorias da primeira existencia lhe fazem nascer o desejo de
+sahir d'esta outra, lhe influem alguma aspiração de voltar á natureza e
+a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sôbre elle, e o
+prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o apperta no equuleo
+doloroso de suas fôrmas.
+
+Ou hade morrer ou ficar monstruoso e aleijão.
+
+...........................................................................
+...........................................................................
+
+Poucos filhos do Adam social tinham tantas reminiscencias da outra
+patria mais antiga, e tendiam tanto a aproximar-se do primitivo typo que
+sahíra das mãos do Eterno, forcejavam tanto por sacudir de si o pesado
+appêrto das constricções sociaes, e regenerar-se na sancta liberdade da
+natureza, como era o nosso Carlos.
+
+Mas o melhor e o mais generoso dos homens segundo a sociedade, é ainda
+fraco, falso e acanhado.
+
+Demais, cada tentativa nobre, cada aspiração elevada de sua alma lhe
+tinha custado duros castigos, severas e injustas condemnações d'esse
+grande juiz hypocrita, mentiroso e venal... o mundo.
+
+Carlos estava quasi como os mais homens... ainda era bom e verdadeiro no
+primeiro impulso de sua natureza excepcional; mas a reflexão descia-o á
+vulgaridade da fraqueza, da hypocrisia, da mentira commum.
+
+Dos melhores era, mas era homem.
+
+Os seus pensamentos, as suas considerações em toda aquella noite, em
+todo o dia que a seguíra, na hora mesma em que ia incontrar-se com o
+objecto que mais lhe prendia agora o espírito, senão é que tambem o
+coração, todas participavam d'aquella fluctuação inquieta e doentia de
+seu ser d'homem social, em quem o tibio reflexo do homem natural apenas
+relampejava por acaso.
+
+Dúvida, incerteza, vaidade, mentira deslocavam e annullavam a bella
+organização d'aquella alma.
+
+Assim chegou aopé de Joanninha que o esperava de braços abertos, que o
+appertou n'elles, que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa
+modestia, e com o riso da alegria no coração e na bôcca lhe disse:
+
+--'Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui bem junctos aopé um do outro e
+conversemos, que temos muito que fallar. Dá ca a tua mão. Aqui na
+minha... Está fria a tua mão hoje! E hontem tam quente estava!.. Oh!
+agora vai aquecendo... tanto tanto... é demais! Terás tu febre?'
+
+--'Não tenho.'
+
+--'Não tens, não: a cara é de saude. E como tu estás forte, grande, um
+homem como eu sempre imaginei que um homem devia ser, como sempre te via
+nos meus sonhos!.. Que é extranho isto, Carlos: quando sonhava comtigo,
+não te via como tu d'aqui foste, magro, triste e doente; via-te como
+vens agora, forte, são, alegre. Mas tu não estás alegre hoje, como
+hontem; não estás... Que tens tu?'
+
+--'Nada, querida Joanninha, não tenho nada. Pensava...'
+
+--'Em que pensas tu? dize-me.'
+
+--'Pensava na differença dos nossos sonhos: que eu tambem sonhava
+comtigo.'
+
+--'Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu? como me vias nos teus sonhos?'
+
+--'Tudo pelo contrario do que tu. Via-te aquella Joanninha piquena,
+desinquieta, travêssa, correndo por essas terras, saltando essas vallas,
+trepando a essas árvores... aquella Joanninha com quem eu andava ao
+collo, que trazia ás cavalleiras, que me fazia ser tam doido e tam
+criança como ella, apezar de eu ter quinze annos mais. Via-te alegre,
+cantando...'
+
+--'Sonhos de homem! Creiam n'elles! Eu que nunca mais ri nem brinquei
+desde o dia que tu partiste... E oh que dia, Carlos!.. E os que vieram
+depois! Não houve nunca mais um so dia de alegria n'ésta casa. Oh!..
+deixa-me te dizer: Fr. Diniz... Sabes que não gósto d'elle?'
+
+--'Não gostas?'
+
+--'Nada: tenho-lhe aversão. E Deus me perdoe! parece-me que é injusta a
+minha antipathia.'
+
+--'Porquê?'
+
+--'Porque elle é teu amigo devéras. Um pae, Carlos, um pae não tem maior
+ternura e desvellos por seu filho, do que elle tem por ti.'
+
+--'Deus lhe perdoe!'
+
+--'Deus lhe perdoe a quem...e que lhe hade perdoar? O amor que te tem?'
+
+--'Não, mas...'
+
+--'Bem sei o que queres dizer: e tens razão.'
+
+--'Tenho razão!'
+
+--'Tens: o que elle bem precisa que Deus lhe perdoe é um grande
+peccado.'
+
+--'Que dizes tu, Joanna! E como sabes?'
+
+--'Sei, sei tudo.'
+
+--'Tu!'
+
+--'Eu. Sei que foi elle quem fez cegar minha avó... a nossa boa, a nossa
+sancta avó, Carlos!.. quem a cegou á fôrça de lagrymas que lhe fez
+chorar áquelles pobres olhos que, de puro cançados, se apagaram para
+sempre... Minha ricca avó!--E porquê, meus Deus, porquê!'
+
+--'Porquê?'
+
+--'Por amor de ti, por escrupulos que lhe metteu na cabeça de tu seres
+mau christão, inimigo de Deus, que te não podias salvar... tu meu
+Carlos! Vê que cegueira a do triste frade.'
+
+--'Bem triste!'
+
+--'Mas olha que o diz de boa-fé e pelo muito amor que te tem... que é um
+amor que eu não intendo: e o mesmo é com minha avó, que treme deante
+d'elle. E mais elle estima-a, estou certa que dava a vida por ella... e
+por nós todos... por mim não tanto, mas por ti e por ella, dava decerto.
+Mas o seu amor é dos que rallam, que, apoquentam... quasi que estou em
+dizer que matam.'
+
+--'Matam, matam!'
+
+--'Nossa avó é elle que a mata decerto. Sempre a metter-lhe medos,
+sempre escrupulos! O seu Deus d'elle é um Deus de terrores, de
+vinganças, de castigos, e sem nenhuma misericordia. Oh! que homem! para
+elle tudo é peccado, maldade... Não o posso ver.'
+
+Carlos respirava como desopprimido de um grande pêso, ouvindo as
+explicações da prima que bem claro lhe mostravam a sua perfeita
+ignorancia dos fataes segredos da familia.
+
+--'E comtigo' disse elle ja n'outra voz mais desaffogada 'comtigo,
+Joanninha, como se avêm elle, como te tracta?'
+
+--'Commigo não se mette, e rara vez me falla. Mas oh, se elle soubesse
+que eu estava aqui comtigo, sancto Deus! o que ouviria a pobre da minha
+avó! Inda bem que hoje não é sexta-feira, senão não vinha eu ca.'
+
+--'Porquê? Ainda vem todas as sexta-feiras?'
+
+--'Sempre o mesmo. Ámanhan ca o temos por peccado, que é sexta-feira.'
+
+--'Não te vejo então ámanhan aqui?'
+
+--'Não decerto, aqui. Mas vamos, que a isso é que eu venho ca hoje, para
+te fallar n'isso... e para te ver, para fallar comtigo, para estar com o
+meu Carlos... e ao mesmo tempo tambem para ajustarmos como isto hade
+ser. Quando has-de tu ir ver a avó?.. a nossa mãe; que ella é nossa mãe,
+Carlos, não conhecémos nunca outra, nem eu nem tu. Quando lhe heide eu
+dizer que estás aqui? A pobre velhinha está tam doente! Ha quinze dias
+que se não levanta da cama.'
+
+--'Coitada da minha pobre mãe!.. Oh! se não fosse!.. Deixa estar,
+Joanninha; um dia será. Por agora, não póde ser: bem vês. Como heide eu
+atravessar as sentinellas dos realistas, ir a um pôsto inimigo?--A minha
+vida... isso pouco importa, mas a minha honra ficava em perigo: por
+todos os modos a perdia, e talvez...'
+
+--'Não senhor, Sr. Carlos, essa desculpa não basta. Vai n'um anno que
+aqui temos a guerra á porta de casa, e ja sabemos como isso é e como as
+coisas se fazem. O commandante do nosso pôsto é um homem de bem, um
+cavalheiro perfeito. Em lhe eu dizendo quem tu es e a que ca vens...
+elle sabe o estado da minha avó, e tem-lhe muita amizade, da-nos decerto
+licença para tu vires em toda a segurança. Pensas que elle não sabe que
+estou comtigo aqui? Pois disse-lh'o eu; só lhe não expliquei quem tu
+eras; disse-lhe que eras um parente nosso que nos trazia notícias de
+outros, e que precisava fallar-te. Não pôs dificuldade alguma: é uma
+pessoa excellente, bom, bom devéras.'
+
+--'É môço o teu commandante?'
+
+--'Môço elle? coitado! Tem bons cinquenta annos, e creio que outros
+tantos filhos. Mas por que perguntas tu isso? E arqueaste as
+sobrancelhas com aquelle teu ar de antes quando te zangavas! Porque foi
+isso, Carlos?'
+
+--'Nada, criança, foi uma pergunta á toa.'
+
+--'Pois será; mas não me franzas nunca mais a testa assim, que te
+pareces todo... é que nunca vi tal parecença...'
+
+--'Com quem?'
+
+--'Com Fr. Diniz.'
+
+--'Eu com elle!'
+
+--'Tal e qual quando fazes essa cara. Olha: ahi estás tu na mesma.
+Vamos! ria-se e esteja contente se se quer parecer commigo, que todos
+dizem que nos parecemos tanto.'
+
+--'Querida innocente!'
+
+E beijou-lhe a mão que tinha appertada na sua, beijou-lh'a uma e muitas
+vezes com um sentimento de ternura misturado de não sei que vaga
+compaixão, vindo de lá de dentro d'alma com não sei que dor, meia dor
+meia prazer, que entre ambos se communicou e a ambos humedeceu os olhos.
+
+
+
+
+CAPITULO XXV.
+
+
+ O excesso da felicidade que aterra e confunde tambem.--Pasmosa
+ contradicção da nossa natureza.--De como os olhos verdes de
+ Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o coração da
+ mulher que ama, sempre adivinha certo.
+
+
+Carlos tinha a mão de Joanninha appertada na sua; e os olhos humidos de
+lagrymas cravados nos olhos d'ella, de cujo verde transparente e
+diaphano sahiam raios de ineffavel ternura.
+
+Dizer tudo o que elle sentia é impossivel: tam incontrados lhe andavam
+os pensamentos, em tam confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os
+sentidos.
+
+Por muito tempo não proferiram palavra, nem um nem outro; mas fallaram
+assim longos discursos.
+
+Emfim, Joanninha voltou á sua primeira insistencia e disse para o primo:
+
+--'Olha, Carlos, ámanhan é sexta-feira, ja te disse, vem Fr. Diniz:
+quando haja a menor difficuldade do commandante, a elle não lhe recusa
+nada...'
+
+--'Por quanto ha no ceo, Joanninha, pela tua vida, pela de nossa avó,
+nem uma palavra ao frade da minha estada aqui! A elle, oh! a elle jurei
+eu não tornar a ver. E se minha avó...'
+
+--'Basta: não lhe direi nada. Mas á nossa avó quando lh'o heide dizer, e
+quando hasde tu ir ve-la?'
+
+--'Porora não: preciso licença de Lisboa, ou do quartel-general quando
+menos, para fazer uma coisa que todas as leis da guerra prohibem, que
+nas actuaes circumstancias e em similhante guerra ainda é mais defesa. E
+sem isso--tu bem sabes que as minhas resoluções não se mudam--sem isso
+não o faço. Em todo o caso, que Fr. Diniz nem sonhe!..'
+
+--'E quanto tempo, quantos dias se hãode passar?'
+
+--'Eu sei? oito, quinze dias talvez, talvez mais.'
+
+--'E a minha pobre avó, coitadinha! a morrer de saudades...'
+
+--'Consola-a tu, Joanninha: dize-lhe que tiveste novas minhas, que estou
+bom, que me não falta nada, que tenho esperanças de vos ver muito cedo.'
+
+--'E eu... eu posso, eu heide ver-te todos os dias: não, Carlos?'
+
+--'Ámanhan é sexta-feira...'
+
+--'Ámanhan é o dia negro... nem eu queria: ámanhan não póde ser, bem
+sei. Mas, tirado ámanhan, meu Carlos, oh! todos os dias!'
+
+--'Sim, querido anjo, sim.'
+
+--'Promettes?'
+
+--'Juro-t'o.'
+
+--'Succeda o que succeder?'
+
+--'Succeda o que... So ha uma coisa que... Mas essa não... não é
+possivel.'
+
+--'O que é, Carlos? que póde haver, que póde succeder que te impeça
+de?..'
+
+Carlos estremeceu... hesitou, corou, fez-se pallido... quiz dizer-lhe a
+verdade e não ousou...
+
+Porquê?.. E que verdade era essa? Não a direi eu, ja que elle a não
+disse: fiel e discreto historiador, imitarei a discrição do meu heroe.
+
+Pois era discrição a d'elle?
+
+Não... em verdade, era outra coisa.
+
+Era um pensamento reservado?
+
+Não.
+
+Era tenção má, ingano premeditado, era?..
+
+Não, tambem não.
+
+O que era pois?
+
+Era a dúvida, era a fraqueza, era a vaidade, a mentira congenial e
+obrigada, a necessaria falsidade do homem social.
+
+Carlos mentiu e disse:
+
+--'Só se m'o prohibirem expressamente... os meus chefes.'
+
+Mas não era isso o que elle receiava; não era esse aquelle motivo unico
+e superior que elle temia podesse vir um dia derepente cortar as doces
+relações de convivencia a que tam prestes se habituára, que ja lhe
+pareciam parte necessaria, indispensavel da sua vida. Não era, não; e
+Carlos tinha mentido...
+
+Joanninha olhou para elle fixa... Carlos corou de novo. Ella fez-se
+pallida... d'ahi corou tambem.
+
+--'Carlos, tu não es capaz de mentir...'
+
+--'Joanninha!'
+
+--'Tu es o meu Carlos... tu queres-me como me querias d'antes...'
+
+--'Sou... oh! sou. E amo-te...'
+
+--'Como d'antes?'
+
+--'Mais.'
+
+--'Pois olha, Carlos: eu nunca amei, nunca heide amar a nenhum homem
+senão a ti.'
+
+--'Joanna!'
+
+--'Carlos!'
+
+Iam a cahir nos braços um do outro... A singela confissão da innocencia
+ia ser acceita por quem e como, sancto Deus! Aquella palavra de oiro,
+aquella doce palavra que tanto custa a pronunciar á mulher menos
+arteira; que adivinhada, sabida, ouvida ha muito pelo coração, ditta mil
+vezes com os olhos, nenhum homem descança nem se tem por feliz, por
+certo de sua felicidade, em quanto a não ouve proferir pelos
+labios--essa palavra celeste que explica o passado, que responde do
+futuro, que é a última e irrevocavel sentença de um longo pleito de
+anciedades, de incertezas e de sustos--essa final e fatal palavra
+_amo-te_, Joanninha a pronunciára tam naturalmente, tam sincera, tam sem
+difficuldades nem hesitações, como se aquelle fosse--e era decerto--como
+se aquelle tivesse sido sempre o pensamento unico, a idea constante e
+habitual de sua vida.
+
+O excesso da felicidade aterra e confunde tambem. Um momento antes,
+Carlos dera a sua vida por ouvir aquella palavra... um momento
+depois--oh pasmosa contradicção de nossa dupplice natureza! um momento
+depois dera a vida pela não ter ouvido. No primeiro instante ia
+lançar-se nos braços da innocente que lh'os abria n'um sancto extasi do
+mais apaixonado amor; no segundo, tremeu e teve horror da sua
+felicidade.
+
+--'Joanna' exclamou elle 'Joanna, querida, sabes tu se eu mereço...
+sabes tu se deves?..'
+
+--'Sei. Desde que me intendo, não pensei n'outra coisa; desde que d'aqui
+foste, comecei a intender o que pensava... disse-o a minha avó, e
+ella...'
+
+--'E ella?..'
+
+--'Ella abençoou-me, chamou-me a sua querida filha, abraçou-me,
+beijou-me, e disse-me que aquella era a primeira hora de felicidade e de
+alegria que ha muitos annos tinha tido.'
+
+Carlos não respondeu nada e olhou para Joanninha com uma indicivel
+expressão de affecto e de tristeza. Os raios de alegria que
+resplandeciam n'aquelle semblante--agora bello de toda a belleza com que
+um verdadeiro amor illumina as mais desgraciosas feições--os raios
+d'essa alegria começaram a amortecer, a apagar-se. A lucida
+transparencia d'aquelles olhos verdes turvou-se: nem a clara luz da
+agua-marinha, nem o brilho fundo da esmeralda resplandecia ja n'elles;
+tinham o lustro baço e morto, o polido mate e silicioso de uma d'essas
+pedras sem agua nem brilho que a arte antiga ingastava nos collares de
+suas estátuas.
+
+--'Adeus Joanna!' disse Carlos perturbado e confuso.
+
+--'Adeus, Carlos!' respondeu ella machinalmente.
+
+--'Até depois de ámanhan, Joanna.'
+
+--'Pois sim.'
+
+--'Depois de ámanhan te direi...'
+
+--'Não digas.'
+
+--'Porquê?'
+
+--'Porque é excusado: ja sei tudo.'
+
+--'Sabes!'
+
+--'Sei.'
+
+--'O quê?'
+
+--'O que tu não tens ânimo para me dizer, Carlos; mas que o meu coração
+adivinhou. Tu não me amas, Carlos.'
+
+--'Não te amo! eu!.. Sancto Deus! eu não a amo...'
+
+--'Não. Tu amas outra mulher.'
+
+--'Eu! Joanna, oh! se tu soubesses...'
+
+--'Sei tudo.'
+
+--'Não sabes.'
+
+--'Sei: amas outra mulher, outra mulher que te ama, que tu não pódes,
+que tu não deves abandonar, e que eu...'
+
+--'Tu?'
+
+--'Eu sei que é bella, prendada, cheia de graças e de incantos,
+porque... porque tu, meu Carlos, porque o teu amor não era para se dar
+por menos.'
+
+--'Joanna, Joanninha!'
+
+--'Não digas nada, não me digas nada hoje... hoje sobretudo, não me
+digas nada. Ámanhan...'
+
+--'Ámanhan é sexta-feira.'
+
+--'Inda bem! terei mais tempo para reflectir, para considerar antes de
+tornar a ver-te. Adeus Carlos!'
+
+--'Uma palavra so, Joanna. Cuidas que sou capaz de te inganar?'
+
+--'Não; estou certa que não.'
+
+--'Até ámanhan... até depois de ámanhan.'
+
+--'Adeus!'
+
+Abraçaram-se, e d'esta vez froixamente; beijaram-se de um osculo timido
+e recatado... os beiços de ambos estavam frios, as mãos trémulas; e o
+coração comprimido batia, batia-lhes forte que se ouvia.
+
+Retirou-se cadaum por seu lado. A noite estava pura e serena como na
+vespera, as estrellas luziam no ceo azul com o mesmo brilho; o silencio,
+a majestade, a belleza toda da natureza era a mesma... so elles eram
+outros... outros, tam outros e differentes do que foram!
+
+Tinham-se dado cuidadosamente as providencias; ambos chegaram, sem
+nenhum accidente, ao seu destino.
+
+
+
+
+NOTAS
+
+
+
+
+NOTAS
+
+AO LIVRO PRIMEIRO.
+
+
+*Nota A.*
+
+
+ Que viage á roda do seu quarto, quem está a beira dos Alpes
+
+ pag. 1.
+
+
+É visivel allusão ao popular e inimitavel opusculo de Xavier de Maistre,
+_Voyage autour de ma chambre_, que decerto foi principiado a escrever em
+Turim, e que muitos suppoem que fôsse concluido em San'Petersburgo.
+
+
+*Nota B.*
+
+
+ Designio politico determinado a minha visita (a Santarem)
+
+ pag. 2.
+
+
+É puramente historico isto; e tambem é verdade que em grande parte
+d'aqui se originou a persiguição brutal que soffreu o A. d'ahi a poucos
+meses.
+
+
+*Nota C.*
+
+
+ N'uma _regata_ de vapores
+
+ pag. 3.
+
+
+_Regata_ chamavam, e não sei se chamam ainda, em Veneza ás carreiras de
+barcos appostados ao desafio. A palavra e a coisa introduziu-se em
+Inglaterra, onde é moda e popularissima.
+
+
+*Nota D.*
+
+
+ Eu coroarei de trevo a minha espada
+
+ pag. 24.
+
+
+Estes versos são uma especie de parodia dos famosos fragmentos de Alceu
+de que so existe memoria nos scholios que nos conservou Eustathio. Nas
+_Flores sem fructo_, pag. 56 a traducção d'aquelle bello fragmento.
+
+
+*Nota E.*
+
+
+ Depois de tantas commissões de inquerito, deve de andar orçado o
+ número de almas
+
+ pag. 25.
+
+
+Os protocollos das commissões de inquerito de ha oito para dez annos a
+ésta parte, sôbre o estado das classes trabalhadoras e indigentes em
+Inglaterra, é a próva real dos grandes calculos da economia politica,
+sciencia que eu espero em Deus se hade desacreditar muito cedo.
+
+
+*Nota F.*
+
+
+ There are more things etc.
+
+ pag. 26.
+
+
+A traducção chegada d'estes memoraveis versos de Shakspeare é:
+
+ Ha mais coisas no ceo, ha mais na terra
+ Do que sonha a tua van philosophia.
+
+
+*Nota G.*
+
+
+ Um _Chourineur_... uma _Fleur-de-Marie_
+
+ pag. 28.
+
+
+Personagens, bem conhecidos geralmente, do romance tam popular de Eug.
+Sue, _Os Mysterios de París_.
+
+
+*Nota H.*
+
+
+ Fossem lá á rainha Anna
+
+ pag. 34.
+
+
+Addison, o poeta, foi ministro da rainha Anna de Inglaterra, e membro do
+célebre gabinete chamado de _All-wits_.
+
+
+*Nota J.*
+
+
+ Quando chegou alli pelos Prazeres
+
+ pag. 56.
+
+
+Um dos dois cemiterios de Lisboa--seja ditto para intelligencia do
+leitor provinciano--chama-se _Dos Prazeres_, por uma ermida de N. S.^a
+que alli existia com ésta invocação desde antes do terreno ter o
+presente destino. É notavel a coincidencia do nome.
+
+
+*Nota K.*
+
+
+ O verdadeiro alfageme... tinha pelo povo e não queria saber de
+ partidos
+
+ pag. 64.
+
+
+É facil de ver que o interlocutor d'este dialogo conhecia esse curioso
+personagem da historia do Condestavel, não pelas chronicas mas pelo
+drama que tem o seu nome.
+
+
+*Nota L.*
+
+
+ Do _Sacré-Coeur_ e das suas elegantes devotas
+
+ pag. 89.
+
+
+O convento que tem este nome em París, é casa de educação de meninas
+nobres, e recolhimento de senhoras tambem.
+
+
+*Nota M.*
+
+
+ Graciosa sculptura de Antonio Ferreira
+
+ pag. 106.
+
+
+Antonio Ferreira, que viveu no fim do seculo passado, princípio d'este,
+modelava em barro com a mesma graça e naturalidade flamenga, com que
+pintava o morgado de Setubal: as suas piquenas figurinhas são tam
+estimadas pelos intendedores como os melhores biscoitos de Sevres e de
+Saxonia antiga.
+
+
+*Nota N.*
+
+
+ Ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego
+
+ pag. 115.
+
+
+A fábula daquella ave immortal teve origem nas edades obscuras da Europa
+quando o grego era ignorado. O que os antigos diziam da _phenix_,
+palmeira em grego, tomaram nossos barbaros avós por ditto de uma
+passarolla com que os outros nunca sonharam.
+
+
+
+
+INDICE.
+
+
+Prologo dos editores. pag. v
+
+Capitulo I.--De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar
+na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu
+immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem.
+Chega ao Terreiro do Paço; imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi
+lhe succede. A Deducção-Chronologica e a baixa de Lisboa. Lord Byron e
+um bom charuto. Travam-se de razões os ilhavos e os bordas-d'agua, e os
+da calça larga levam a melhor. 1
+
+Capitulo II.--Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens.
+Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e
+mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha, D. Quixote e
+por seu escudeiro, Sancho Pança.--Chegada a Villa-Nova-da-Rainha.
+Supplicio de Tantalo.--A virtude galardão de si mesma; e sophisma de
+Jeremias-Bentham.--Azambuja. 13
+
+Capitulo III.--Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade
+do A. d'estas viagens.--O que devia ser uma estalagem n'estas nossas
+eras de litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questão
+para tractar, em prosa e verso, um muito difficil ponto de
+economia-politica e de moral social.--Quantas almas é preciso dar ao
+diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um
+ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a sciencia d'este
+seculo era uma grandecissima tola.--Rei de facto, e rei de
+direito.--Belleza e mentira não cabem n'um sacco.--Põe-se o A. a caminho
+para o pinhal da Azambuja. 23
+
+Capitulo IV.--De como o A. foi pensando e divagando; e em que pensava e
+divagava elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do
+mesmo nome.--Do poeta grego e philosopho Démades e do poeta e philosopho
+ingles Addison: da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de
+outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar sua profunda
+erudição.--Discute-se a materia gravissima se é necessario que um
+ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis reflexões de
+zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re
+amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este
+capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao
+seguinte. 31
+
+Capitulo V.--Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se
+por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo
+romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco
+trabalho.--Transição classica;--Orpheu e o bosque do Ménalo. Desce o A.
+d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades materiaes da
+vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na
+triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do animal. Memorias do
+marquez do F. que adorava o choito. 39
+
+Capitulo VI.--Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão
+misturar o maravilhoso da mylhologia com o do christianismo.--Da-se
+razão, e tira-se depois ao padre José Agostinho.--No meio d'estas
+disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo é
+preciso ter fé n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque, quanto ao
+outro ja era sabido.--Os Lusiadas, Fausto e a Divina-Comedia.--Desgraça
+de Camões em ter nascido antes do romantismo.--Mostra-se como a Styge e
+o Cocyto sempre são melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o
+A. em procura do marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do
+poeta Alceu.--Partida de Wist entre os illustres finados.--Compaixão do
+marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta
+d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.--Chegada a este
+mundo e ao Cartaxo. 47
+
+Capitulo VII.--Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as
+carruagens de mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.--Dos cafés em geral,
+e de como são o characteristico da civilização de um paiz.--O
+Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do
+Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran' Bretanha deveu sempre toda a sua
+fôrça e toda a sua glória a Portugal.--Shakspeare e Laffitte, Milton e
+Chateaumargot.--Nelson e o principe de Joinville.--Próva-se
+evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo. 59
+
+Capitulo VIII.--Sahida do Cartaxo.--A charneca.--Perigo imminente em que
+o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do
+imperador D. Pedro ao exército liberal. Batalha de
+Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que não é philosopho e
+chega á ponte de Asseca. 71
+
+Capitulo IX.--Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente
+levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do
+capitulo antecedente.--Livros que não deviam ter titulo, e titulos que
+não deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo: Bonaparte, Rotchild e
+Silvio-Péllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexões e á Ponte da
+Assecca.--Traducção portugueza de um grande poeta.--Origem de um
+dictado.--Junot na ponte da Assecca.--De como o A. d'este livro foi
+jacobino desde piqueno.--Inguiço que lhe deram.--A duqueza de
+Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem. 79
+
+Capitulo X.--Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por
+entre umas árvores.--Conjecturas várias a respeito da ditta
+janella.--Similhança do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel
+inferioridade do homem que não é poeta.--Os rouxinoes. Reminiscencia de
+Bernardim Ribeiro e das suas saudades.--De como o A. tinha quasi
+completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos
+pretos.--Sahem verdes os olhos com grande admiração e pasmo
+seu.--Verificam-se as conjecturas sôbre a mysteriosa janella.--A menina
+dos rouxinoes.--Censura das damas muito para temer, crítica dos
+elegantes muito para rir.--Começa o primeiro episodio d'esta Odyssea. 91
+
+Capitulo XI.--Tracta-se do unico privilegio dos poeetas que tambem os
+philosophos quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas
+sim.--Applicação d'estes principios a Aristoteles e Anacreonte.--O A.,
+tendo declarado no capítulo nono d'esta obra que não era philosopho,
+agora confessa, quasi solemnemente. que é poeta, e pretende manter-se
+como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos
+juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seo
+admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do coração.
+Por uma deducção appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a
+dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas esse direito indefinido
+de andarem sempre namorados.--Applicam-se todas éstas grandes theorias á
+posição actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no
+capítulo antecedente.--Uma modestia e reserva delicada o obrigam a
+duvidar da sua qualificação para o desimpenhar: pede votos ás amaveis
+leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e porquê.--Dido e a
+mana Annica.--Entra-se emfim na promettida historia.--De como a velha
+estava á porta a dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por
+Joanninha, sua neta. 99
+
+Capitulo XII.--De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais
+que aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha. Dá o A. insigne
+prôva de ingenuidade e boa fé confessando um grave senão do seu Ideal.
+Insiste porém que é um adoravel deffeito.--Em que se parece uma mulher
+desannellada com um Sansão tosquiado.--Pasmosas monstruosidades da
+natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.--Os olhos verdes
+de Joanninha.--Religião dos olhos pretos strenuamente professada pelo A.
+Perigo em que ella se acha á vista de uns olhos verdes.--De como estando
+a avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se
+interrompe a conversação.--Quem era Frei Diniz. 109
+
+Capitulo XIII.--Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado,
+socialmente e artisticamente.--Próva-se que é muito mais poetico o frade
+do que o barão.--Outra vez D. Quixote e Sancho Pansa.--Do que seja o
+barão, sua clasificação e descripção linneana.--Historia do castello do
+Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas
+não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu errante'--De
+como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao
+frade.--De como o barão ficou em logar do frade, e do muito que n'isso
+perdémos.--Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os
+barões a gritar contos de réis.--Como se contam e como se pagam os taes
+contos.--Predilecção artistica do A. pelo frade: confessa-se e
+explica-se ésta predilecção. 121
+
+Capitulo XIV.--Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue
+o A. direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a
+manga a beijar a avó e á neta, e do mais que entre elles se
+passou.--Ralha o frade com a velha, e começa a descubrir-se onde a
+historia vai ter. 133
+
+Capitulo XV.--Retrato de um frade franciscano que não foi para o
+depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das
+Bellas-Artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a
+de Condillac.--Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.--Que o
+podêr vem de Deus, mas como e paraquê.--Que os liberaes não intendem o
+que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se
+fossem.--Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e
+pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz. 147
+
+Capitulo XVI.--Saibamos da vida do frade.--Era franciscano porquê?--Dos
+antigos e dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e
+depois de ser frade.--Emigração.--Explicação incompleta.--De como a
+velha tinha perdido a vista, e Joanninha o riso.--Sexta feira dia
+aziago. 155
+
+Capitulo XVII.--De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a
+neta á espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da
+banda de Lisboa.--Por que razão muitas vezes a mais animada conversação
+é a que mais facilmente pára e quebra de repente.--Nova demonstração de
+dois grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz o
+monge; e que ralhando as comadres se descobrem as verdades.--No ralhar
+da velha com o frade, levanta-se uma ponta do véo que cobre os mysterios
+da nossa historia. 171
+
+Capitulo XVIII.--Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre
+o frade e a velha--Piedosa fraude de Joanninha.---Lucta entre o hábito e
+o monge. 181
+
+Capitulo XIX.--Guerra de postos avançados, Joanninha no bivac.--De como
+os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a
+retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este
+nome.--A sentinella perdida e achada. 191
+
+Capitulo XX.--Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do
+Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes accompanhavam sempre a menina do
+seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto esquissado
+á pressa para satisfazer ás amaveis leitoras.--Pondera-se o triste e
+pessimo gôsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao
+mais elegante e mais nacional uniforme do exército portuguez.--Em que se
+parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-média.--De como
+os abraços, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais
+interminaveis que pareçam, sempre teem de acabar por fim. 203
+
+Capitulo XXI.--Quem vem lá?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa
+o terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situação _ordeira_, a
+mais perigosa e falsa das situações. 215
+
+Capitulo XXII.--Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da
+velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus
+botões.--A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que
+achou.--Obrigações d'amor, triste palavra.--A mulher que elle amava, e
+se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos leitores.
+Declara que com os hypocritas não falla.--Quem hade levantar a primeira
+pedra?--Dous modos differentes de acudir uma coisa ao pensamento. 225.
+
+Capitulo XXIII.--Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao
+pensamento de Carlos.--Dança de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau
+da familia.--Veremos, é a grande resolução nas grandes
+difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes--Desafio a todos
+os poetas moyen-ages do nosso tempo. 235.
+
+Capitulo XXIV.--Novo Génesis.--O Adam social muito differente do Adam
+natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por
+suas más reflexões.--De como Joanninha recebeu o primo com os braços
+abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor, meia
+prazer. 247.
+
+Capitulo XXV.--O excesso da felicidade que aterra e confunde
+tambem.--Pasmosa contradicção da nossa natureza.--De como os olhos
+verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o
+coração da mulher que ama, sempre advinha certo. 261.
+
+Notas. 275.
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] Chamavam assim por escarneo, em Portugal, ao general Loison a quem
+faltava um braço.
+
+[2] Célebre urso do Jardim das Plantas em París.
+
+[3] Pag. 40, 41, 42.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+--------------------+--------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+--------------------+--------------------+
+ |#pág. 3| venceder | vencedor* |
+ |#pág. 15| Cervantos | Cervantes |
+ |#pág. 18| morachão | marachão* |
+ |#pág. 40| esperavava | esperava |
+ |#pág. 41| maldadades | maldades |
+ |#pág. 62| café | harem* |
+ |#pág. 89| tinha-ânimo | tinha ânimo |
+ |#pág. 95| esquerlo | esquerda |
+ |#pág. 97| um historia | uma historia |
+ |#pág. 106| toda o movimento | todo o movimento |
+ |#pág. 118| trababalho | trabalho |
+ |#pág. 126| conte | conter* |
+ |#pág. 129| aeronantas | aeronautas* |
+ |#pág. 134| paasos | passos |
+ |#pág. 163| memoraval | memoravel |
+ |#pág. 203| demij-our | demi-jour* |
+ |#pág. 223| didireitas | direitas |
+ |#pág. 228| as alagadiços | os alagadiços |
+ |#pág. 240| infeitavam | infeitiçavam* |
+ |#pág. 276| viagem | visita |
+ |#pág. 286| em em logar frade | em logar do frade |
+ |#pág. 288| d'ad'mor | d'amor |
+ +----------+--------------------+--------------------+
+
+
+* correcções feitas com base na errata do próprio livro.
+
+Shakespeare e Rotschild surgem neste livro como Shakspeare e Rotchild
+respectivamente. Dada a repetitividade constante, decidi manter de
+acordo com o original.
+
+Foram adicionados travessões onde a sua falta foi notada.
+
+As indicações dos números de páginas que se mencionaram na secção de
+"Notas do Primeiro Livro" e "Índice", foram corrigidas para corresponder
+ao local correcto.
+
+
+
+
+OBRAS
+
+DE
+
+J. B. DE A. GARRETT.
+
+IX.
+
+(_SEGUNDO DAS VIAGENS._)
+
+
+
+
+VIAGENS NA MINHA TERRA
+
+
+POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.
+
+
+II.
+
+
+LISBOA
+NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.
+1846.
+
+
+
+
+VIAGENS NA MINHA TERRA.
+
+
+
+
+CAPITULO XXVI.
+
+
+ Modo de ler os auctores antigos, e os modernos tambem.--Horacio na
+ sacra-via.--Duarte Nunes iconoclasta da nossa historia.--A policia
+ e os barcos de vapor.--Os vandalos do feliz systema que nos
+ rege.--Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo de
+ _old-sack_ sôbre a banca.--Sir John Falstaff se foi maior homem que
+ Sancho-Pansa?--Grande e importante descuberta archeologica sôbre
+ San'Thiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.--Próva-se a vinda d'este
+ último a Portugal.--O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e
+ Abeillard no Pere-la-Chaise.--Bentham e Camões.--Chega o _auctor_ á
+ sua janella, e pasmosa miragem poetica produzida por umas oitavas
+ dos Lusiadas.--De como emfim proseguem éstas viagens para Santarem,
+ e que feito será de Joanninha.
+
+
+Se eu for algum dia a Roma, heide entrar na cidade eterna com o meu
+Tito-Livio e o meu Tacito nas algibeiras do meu paletó de viagem. Alli,
+sentado n'aquellas ruinas immortaes, sei que heide intender melhor a sua
+história, que o texto dos grandes escriptores se me hade illustrar com
+os monumentos d'arte que os viram escrever, e que uns recordam, outros
+presenciaram os feitos memoraveis, o progresso e a decadencia d'aquella
+civilização pasmosa.
+
+E Juvenal e Horacio? o meu Horacio, o meu velho e fiel amigo Horacio!..
+Deve ser um prazer regio ir lendo pela sacra-via fóra aquella deliciosa
+satyra, creio que a nona do L. I.,
+
+ Ibam forte sacra via, sicut meus est mos,
+ Nescio quid meditans nugarum...
+
+Deve ser maior prazer ainda, muito maior do que beijar o pé ao papa.
+Parece-me a mim; mas como eu nunca fui a Roma...
+
+E não é preciso. Pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, a
+que Duarte Nunes menos estragou...
+
+O Duarte Nunes foi um reformador iconoclasta das nossas chronicas
+antigas, truncou todas as imagens, raspou toda a poesia d'aquellas
+venerandas e deliciosas _sagas_ portuguezas... Em ponto historico pouco
+mais eram do que _sagas_, verdade seja, mas como taes, lindas. E o
+Duarte Nunes, que era um pobre grammaticão sem gôsto nem graça, foi-se
+ás filagranas e arrendados de finissimo lavor gothico d'aquelles
+monumentos, quebrou-lh'os; ficaram so os traços historicos que eram
+muito pouca e muito incerta coisa; e cuidou que tinha arranjado uma
+história, tendo apenas destruido um poema. Ficámos sem Nibelungen,
+podendo-o ter, e não obtivemos história porque se não podia obter assim.
+
+Pois digo: pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, obedeça
+á lei concorrendo com o seu cruzado-novo para o augmento e glória da
+benemerita companhia que tem o exclusivo d'esses caranguejos de vapor
+que andam e desandam no rio, entre n'um dos referidos caranguejos, em
+que, além da porcaria e mau-cheiro, não ha perigo nenhum senão o de
+rebentar toda aquella camara-optica que anda por arames, e que em
+qualquer paiz civilizado onde a policia fizesse alguma coisa mais do que
+imaginar conspirações, ha muito estaria condemnada a ir alli caranguejar
+para as Lamas á sua vontade. Mas emfim ca não ha d'outros nem haverá tam
+cedo, graças ao muito que agora, diz que, se cuida nos interêsses
+materiaes do paiz: e portanto tome o seu logar, passe o mesmo que eu
+passei; chegue-me a Santarem, descanse e ponha-se-me a ler a chronica:
+verá se não é outra coisa, vera se deante d'aquellas preciosas
+reliquias, ainda mutiladas, deformadas como ellas estão por tantos e tam
+successivos barbaros, estragadas emfim pelos peiores e mais vandalos de
+todos os vandalos, as auctoridades administrativas e municipaes do feliz
+systema que nos rege, ainda assim mesmo não ve erguer-se deante de seus
+olhos os homens, as scenas dos tempos que foram; se não ouve fallar as
+pedras, bradar as inscripções, levantar-se as estátuas dos tumulos; e
+reviver-lhe a pintura toda, reverdecer-lhe toda a poesia d'aquellas
+edades maravilhosas!
+
+Tenho-o experimentado muitas vezes: é infallivel. Nunca tinha intendido
+Shakspeare em quanto o não li em Warwick, aope do Avon, debaixo de um
+carvalho secular, á luz d'aquelle sol baço e branco do nublado ceo
+d'Albion... ou á noite com os pés no _fender_, a chaleira a ferver no
+fogão, e sôbre a banca o crystal antigo de um bom copo lapidado a
+luzir-me alambreado com os doces e perfumados resplendores do _old
+sack_; em quanto o fogão e os ponderosos castiçaes de cobre brunido
+projectam no antigo tecto almofadado, nos pardos compartimentos de
+carvalho que forram o apposento, aquellas fortes sombras vacillantes de
+que as velhas fazem visões e almas-do-outro-mundo, de que os
+poetas--poetas como Shakspeare--fazem sombras de _Banco_, bruxas de
+_Mackbeth_, e até a rotunda pansa e o arrastante espadagão do meu
+particular amigo Sir John Falstaff, o inventor das legítimas
+consequencias, o fundador da grande eschola dos restauradores caturras,
+dos poltrões pugnazes que salvam a patria de parolla e que ninguem os
+atura em tendo as costas quentes.
+
+Oh Falstaff, Falstaff! eu não sei se tu es maior homem que Sancho Pança.
+Creio que não. Mas maior pansa tens, mais capacidade na pansa tens.
+Quando nossos avós renegaram de San' Thiago por castelhano perro, e
+invocaram a San' Jorge, tu vieste, ó Falstaff, em sua comitiva de
+Inglaterra e aqui tomaste assento, aqui ficaste, e foste o patriarcha
+d'essa immensa progenie de Falstaffs que por ahi anda.
+
+Este importante ponto da nossa história, da demissão de San'Thiago e da
+vinda de San'Jorge de Inglaterra com Sir John Falstaff por seu
+_homem-de-ferro_--ésta grande descoberta archeologica que tanta coisa
+moderna explica, como a fiz eu? Indo aos sitios mesmos, estudando alli
+os antigos exemplares: que é a minha doutrina.
+
+Em tudo, para tudo é assim. Chegou um dia um inglez a Paris: um inglez
+legítimo e _cru_, virgem de toda a corrupção continental; calça de
+ganga, sapato grosso, cabello de cenoira, chapeo fillado na
+cova-do-ladrão. Era enthusiasta de Heloisa e Abeillard, foi-se ao
+Pére-la-Chaise, chegou ao tumulo dos dois amantes, tirou um livrinho da
+algibeira, pôs-se a ler aquellas cartas do Paracleto que tem indoidecido
+muito menos excentricas cabeças que a do meu inglez puro-sangue. Não é
+nada; excitou-se a tal ponto que entrou a correr como um perdido,
+bradando por um conego da sé que lhe acudisse, que se queria identificar
+com o seu modêlo, purificar a sua paixão, ser emfim um completo--ou um
+incompleto Abeillard.
+
+Eu não sou susceptivel de tammanho enthusiasmo, sôbretudo desde que dei
+a minha demissão de poeta e cahi na prosa. Mas aqui tem o que me
+succedeu o outro dia. Tinha estado ás voltas com o meu Bentham, que é um
+grande homem por fim de contas o tal quaker, e são grandes livros os que
+elle escreveu: cançou-me a cabeça, peguei no Camões e fui para a
+janella. As minhas janellas agora são as primeiras janellas de Lisboa,
+dão em cheio por todo esse Tejo. Era uma d'estas brilhantes manhans
+d'hynverno, como as não ha senão em Lisboa. Abri os Lusiadas á ventura,
+deparei com o canto IV e puz-me a ler aquellas bellissimas estancias
+
+ E ja no porto da inclita Ulyssea...
+
+Pouco a pouco amotinou-se-me o sangue, senti baterem-me as arterias da
+fronte... as lettras fugiam-me do livro, levantei os olhos, dei com
+elles na pobre nau Vasco-da-Gama que ahi está em monumento-caricatura da
+nossa glória naval... E eu não vi nada d'isso, vi o Tejo, vi a bandeira
+portugueza fluctuando com a brisa da manhan, a tôrre de Belem ao
+longe... e sonhei, sonhei que era portuguez, que Portugal era outra vez
+Portugal.
+
+Tal fôrça deu o prestigio da scena ás imagens que aquelles versos
+evocavam!
+
+Senão quando, a nau que salva a uns escaleres que chegam... Era o
+ministro da marinha que ia a bórdo.
+
+Fechei o livro, accendi o meu charuto, e fui tractar das minhas
+camelias.
+
+Andei tres dias com odio á lettra-redonda.
+
+Mas de tudo isto o que se tira, a que vem tudo isto para as minhas
+viagens ou para o episodio do valle de Santarem em que ha tantos
+capitulos nos temos demorado?
+
+Vem e vem muito: vem para mostrar que a história, lida ou contada nos
+proprios sitios em que se passou, tem outra graça e outra fôrça; vem
+para te eu dar o motivo porque n'estas minhas viagens, leitor amigo, me
+fiquei parado n'aquelle valle a ouvir do meu companheiro de jornada, e a
+escrever para teu aproveitamento, a interessante história da menina dos
+rouxinoes, da menina dos olhos verdes, da nossa boa Joanninha.
+
+Sim, aqui tenho estado extendido no chão, as mulinhas pastando na relva,
+os arrieiros fummando tranquillamente sentados, e as últimas horas de
+uma longa e calmosa tarde de julho a cahir e a refrescar com a aragem
+percursora da noite.
+
+Mas basta de valle, que é tarde. Oh lá! venham as mulinhas e montemos.
+Picar para Santarem, que no inclyto alcaçar d'elrei D. Affonso-Henriques
+nos espera um bom jantar d'amigo--e não é so a _vacca e riso_ de Fr.
+Bartholomeu dos Martyres, mas um verdadeiro jantar d'amigo, muito menos
+austero e muito mais risonho.
+
+--'Porquê? ja se acabou a historia de Carlos e de Joanninha?' diz talvez
+a amavel leitora.
+
+--'Não, minha senhora,' responde o auctor mui lisongeado da pergunta:
+'não, minha senhora, a historia não acabou, quasi se póde dizer que
+ainda ella agora começa; mas houve mutação de scena. Vamos a Santarem,
+que lá se passa o segundo acto.'
+
+
+
+
+CAPITULO XXVII.
+
+
+ Chegada a Santarem.--Olivaes de Santarem.--Fóra-de-Villa.--Symetria
+ que não é para os olhos.--Modo de medir os versos da
+ biblia.--Architectura pedante do seculo XVII.--Entrada na Alcáçova.
+
+
+Eram as últimas horas do dia quando chegámos ao princípio da calçada que
+leva ao alto de Santarem. A pouca frequencia de povo, as hortas e
+pomares mal cultivados, as casas de campo arruinadas, tudo indicava as
+vizinhanças de uma grande povoação descahida e desamparada. O mais bello
+comtudo de seus ornatos e glórias suburbanas, ainda o possue a nobre
+villa, não lh'o destruiram de todo; são os seus olivaes. Os olivaes de
+Santarem cuja riqueza e formosura proverbial é uma das nossas crenças
+populares mais geraes e mais queridas!.. os olivaes de Santarem lá estão
+ainda. Reconheceu-os o meu coração e alegrou-se de os ver; saudei
+n'elles o symbolo patriarchal de nossa antiga existencia. N'aquelles
+troncos velhos e coroados de verdura, figurou-se-me ver, como nas selvas
+incantadas do Tasso, as venerandas imagens de nossos passados; e no
+murmurio das folhas que o vento agitava a espaços, ouvir o triste
+suspirar de seus lamentos pela vergonhosa degeneração dos netos...
+
+Estragado como os outros, profanado como todos, o olival de Santarem é
+ainda um monumento.
+
+Os povos do meio-dia, infelizmente, não professam com o mesmo respeito e
+austeridade aquella religião dos bosques, tam sagrada para as nações do
+norte. Os olivaes de Santarem são excepção: ha muito pouco entre nós o
+culto das árvores.
+
+Subimos, a bom trotar das mulinhas, a impinada ladeira--eu alvoraçado e
+impaciente por me achar face a face com aquella profusão de monumentos e
+de ruinas que a imaginação me tinha figurado e que ora temia, ora
+desejava comparar com a realidade.
+
+Chegámos emfim ao alto; a majestosa entrada da grande villa está deante
+de mim. Não me inganou a imaginação... grandiosa e magnífica scena!
+
+_Fóra-de-villa_ é um vasto largo, irregular e caprichoso como um poema
+romantico; ao primeiro aspecto, áquella hora tardía e de pouca luz, é de
+um effeito admiravel e sublime. Palacios, conventos, egrejas occupam
+gravemente e tristemente os seus antigos logares, infileirados sem ordem
+aos lados d'aquella immensa praça, em que a vista dos olhos não acha
+symetria alguma; mas sente-se n'alma. É como o rhytmo e medição dos
+grandes versos biblicos que se não cadenceiam por pés nem por sylabas,
+mas cahem certos no espirito e na _audição interior_ com uma
+regularidade admiravel.
+
+E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto! Cuida-se entrar na grande
+metropole de um povo extincto, de uma nação que foi poderosa e celebrada
+mas que desappareceu da face da terra e so deixou o monumento de suas
+construcções gigantescas.
+
+Á esquerda o immenso convento do Sítio ou de Jesus, logo o das Donas,
+depois o de San'Domingos, célebre pelo jazigo do nosso Fausto
+portuguez--seja ditto sem irreverencia á memoria de San'Frei Gil que, é
+verdade, veio a ser grande sancto, mas que primeiro foi grande
+bruxo.--Defronte o antiquissimo mosteiro das Claras, e aopé as baixas
+arcadas gothicas de San'Francisco... de cujo último guardião, o austero
+Frei Diniz, tanta coisa te contei, amigo leitor, e tantas mais tenho
+ainda para te contar! Á direita o grandioso edificio philippino,
+perfeito exemplar da massissa e pedante architectura reaccionaria do
+seculo dezesette, o Collegio, typo largo e bello no seu genero, e quanto
+o seu genero póde ser, das construcções jesuiticas...
+
+Não ha alma, não ha genio, não ha espirito n'aquellas massas pesadas,
+sem elegancia nem simplicidade; mas ha uma certa grandeza que impõe, uma
+solidez travada, uma symetria de calculo, umas proporções frias, mas bem
+assentadas e esquadriadas com methodo, que revelam o pensamento do
+seculo e do instituto que tanto o characterizou.
+
+Não são as fortes crenças da meia-edade que se elevam no arco agudo da
+ogiva; não é a relaxação florída do seculo quinze e desesseis que ja
+vacilla entre o byzantino e o classico, entre o mystico ideal do
+christianismo que arrefece e os symbolos materiaes do paganismo que
+acorda; não, aqui a _renascença_ triumphou, e depois de triumphar,
+degenerou. É a inquisição, são os Jesuitas, são os Philippes, é a
+reacção catholica edificando templos _para que_ se creia e se ore, não
+_porque_ se crê e se ora.
+
+Até aqui o mosteiro e a cathedral, a ermida e o convento eram a
+expressão da idea popular, agora são a fórmula do pensamento
+governativo.
+
+Alli estão--olhae para elles--defronte uns dos outros, os monumentos das
+duas religiões, a qual mais expressivo e loquaz, dizendo mais claro que
+os livros, que os escriptos, que as tradições, o pensamento das edades
+que os ergueram, e que alli os deixaram gravados sem saber que o faziam.
+
+Mais embaixo, e no fundo d'esse declive, aquella massa negra é o resto
+ainda suberbo do ja immenso palacio dos condes de Unhão.
+
+Rodeámos o largo e fomos entrar em Marvilla pelo lado do norte. Estamos
+dentro dos muros da antiga Santarem. Tam magnífica é a entrada, tam
+mesquinho é agora tudo ca dentro, a maior parte d'estas casas velhas sem
+serem antigas, d'estas ruas moirescas sem nada de arabe, sem o menor
+vestigio de sua origem mais que a estreiteza e pouco aceio.
+
+As egrejas quasi todas porêm, as muralhas e os bastiões, algumas das
+portas, e poucas habitações particulares, conservam bastante da
+physionomia antiga e fazem esquecer a vulgaridade do resto.
+
+Seguimos a triste e pobre rua Direita, centro do debil commercio que
+ainda aqui ha: poucas e mal providas logeas, quasi nenhum movimento. Ca
+está a curiosa tôrre das Cabaças, a velha egreja de San'João do Alporão.
+Ámanhan iremos ver tudo isso de nosso vagar. Agora vamos á Alcaçova!
+
+Entrámos a porta da antiga cidadella.--Que espantosa e desgraciosa
+confusão de intulhos, de pedras, de montes de terra e calissa! Não ha
+ruas, não ha caminhos, é um labyrinto de ruinas feias e torpes. O nosso
+destino, a casa do nosso amigo é aopé mesmo da famosa e historica egreja
+de Sancta Maria da Alcaçova.--Hade custar a achar em tanta confusão.
+
+
+
+
+CAPITULO XXVIII.
+
+
+ Depois de muito procurar acha emfim o auctor a egreja de
+ Sancta-Maria d'Alcaçova.--Stylo da architectura nacional
+ perdido.--O terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do
+ Passeio-publico de Lisboa.--O chefe do partido progressista
+ portuguez no alcassar de D. Affonso Henriques.--Deliciosa vista dos
+ arredores de Santarem observada de uma janella da Alcaçova, de
+ manhan.--É tomado o auctor de ideas vagas, poeticas, phantasticas
+ como um sonho.--Introducção do Fausto.--Difficuldade de traduzir os
+ versos germanicos nos nossos dialectos romanos.
+
+
+Depois de muito procurar entre pardeiros e intulhos, achámo-la emfim a
+egreja de Sancta Maria d'Alcaçova. Achámos, não é exacto: ao menos eu,
+por mim, nunca a achava, nem queria accreditar que fôsse ella quando m'a
+mostraram. A real collegiada de Affonso Henriques, a quasi-cathedral da
+primeira villa do reino, um dos principaes, dos mais antigos, dos mais
+historicos templos de Portugal, isto?.. esse egrejorio insignificante de
+capuchos? mesquinha e ridicula massa d'alvenaria, sem nenhuma
+architectura, sem nenhum gôsto! risco, execução e trabalho de um mestre
+pedreiro d'aldeia e do seu apprendiz! É impossivel.
+
+Mas era, era essa. A antiga capella-real, a veneranda egreja da Alcaçova
+foi passando por successivos reparos e transformações, até que chegou a
+ésta miseria.
+
+Perverteu-se por tal arte o gôsto entre nós desde o meio do seculo
+passado especialmente, os estragos do terremoto grande quebraram por tal
+modo o fio de todas as tradições da architectura nacional, que na
+Europa, no mundo todo talvez se não ache um paiz onde, a par de tam
+bellos monumentos antigos como os nossos, se incontrem tam villans, tam
+ridiculas e absurdas construcções públicas como essas quasi todas que ha
+um seculo se fazem em Portugal.
+
+Nos reparos e reconstrucções dos templos antigos é que este pessimo
+stylo, ésta ausencia de todo stylo, de toda a arte mais offende e
+escandaliza.
+
+Olhem aquella impena classica posta de remate ao frontispicio todo
+renascença da Conceição-velha em Lisboa. Vejam a implastagem de geço com
+que estão mascarados os elegantes feixes de columnas gothicas da nossa
+sé.
+
+Não se póde cahir mais baixo em architectura do que nós cahimos quando,
+depois que o marquez de Pombal nos _traduziu_, em vulgar e arrastada
+prosa, os _rococós_ de Luiz XV, que no original, pelo menos, eram
+florídos, recortados, caprichosos e galantes como um madrigal, esse
+stylo bastardo, hybrido, degenerando progressivamente e tomando
+presumpções de classico, chegou nos nossos dias até ao chafariz do
+passeio-público!
+
+Mas deixar tudo isso, e deixar a egreja da Alcaçova tambem; entremos nos
+palacios de D. Affonso Henriques.
+
+Aqui, pegado com o pardeiro rebocado da capella hãode ser. Por onde se
+entra?
+
+Por ésta portinha estreita e baixa, rasgada, bem se ve que ha poucos
+annos, no que parece muro de um quintal ou de um páteo.
+
+É comeffeito aqui; apeemo'-nos.
+
+Recebeu-nos com os braços abertos o nosso bom e sincero amigo, actual
+possuidor e habitante do regio alcassar, o Sr. M. P.
+
+Notavel combinação do acaso! Que o illustre e venerado chefe do partido
+progressista em Portugal, que o homem de mais sinceras convicções
+democraticas, e que mais sinceramente as combina com o respeito e
+adhesão ás fórmas monarchicas, esse homem, vindo do Minho, do berço da
+dynastia e da nação, viesse fixar aqui a sua residencia no alcassar do
+nosso primeiro rei, conquistado pela sua espada n'um dos feitos mais
+insignes d'aquella era de prodigios!
+
+Entrámos na pequena horta em fórma de claustro que une a antiga casa dos
+reis com a sua capella. Assim foi sem dùvida n'outro tempo: a parede
+oriental da egreja é o muro do quintal de um lado, mas as communicações
+foram vedadas provavelmente quando a coroa alienou o palacio e o separou
+assim perpetuamente do templo.
+
+Plantado de larangeiras antigas, os muros forrados de limoeiros e
+parreiras, aquella pequena cêrca, apezar dos muitos canteiros e
+alegretes de alvenaria com que está moirescamente intulhada, é amena e
+graciosa á vista.
+
+Appresentou-nos o nosso amigo a sua mulher, senhora de porte gentil e
+grave; beijámos seus lindos filhos, e fomos fazer as abluções
+indispensaveis depois de tal jornada para nos podermos sentar á mesa.
+
+O palacio de Affonso Henriques está como a sua capella: nem o mais leve,
+nem o mais apagado vestigio da antiga origem. Sabe-se que é alli pela
+bem confrontada e inquestionavel topographia dos logares, por mais
+nada...
+
+E que me importam a mim agora as antiguidades, as ruinas e as
+demolições, quando eu sinto demolir-me ca por dentro por uma fome
+exasperada e destruidora, uma fome vandalica insaciavel!
+
+Vamos a jantar.
+
+Comêmos, conversámos, tomámos chá, tornámos a conversar e tornámos a
+comer. Vieram visitas, fallou-se politica, fallou-se litteratura,
+fallou-se de Santarem sôbretudo, das suas ruinas, da sua grandeza
+antiga, da sua desgraça presente. Emfim, fomo'-nos deitar.
+
+Nunca dormi tam regalado somno em minha vida. Acordei no outro dia ao
+repicar incessante e appresurado dos sinos da Alcaçova. Saltei da cama,
+fui á janella, e dei com o mais bello, o mais grandioso, e ao mesmo
+tempo, mais ameno quadro em que ainda puz os meus olhos.
+
+No fundo de um largo valle aprazivel e sereno, está o socegado leito do
+Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre d'agua juncto ás
+margens, d'onde se debruçam verdes e frescos ainda os salgueiros que as
+ornam e defendem. D'alêm do rio, com os pés no pinque nateiro d'aquellas
+terras alluviaes, os riccos olivedos d'Alpiarça e Almeirim; depois a
+villa de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. D'aquem a immensa
+planicie ditta do Rocio, semeada de casas, de aldeias, de hortas, de
+grupos de árvores sylvestres, de pomares. Mais para a raiz do monte em
+cujo cimo estou, o picturesco bairro da Ribeira com as suas casas e as
+suas egrejas, tam graciosas vistas d'aqui, a sua cruz de Sancta Iria e
+as memorias romanescas do seu alfageme.
+
+Com os olhos vagando por este quadro immenso e formosissimo, a
+imaginação tomava-me azas e fugia pelo vago infinito das regiões ideaes.
+Recordações de todos os tempos, pensamentos de todo o genero me affluiam
+ao espirito, e me tinham como n'um sonho em que as imagens mais
+discordantes e disparatadas se succedem umas ás outras.
+
+Mas eram todas melancholicas, todas de saudade, nenhuma de esperança!..
+
+Lembraram-me aquelles versos de Goethe, aquelles sublimes e inimitaveis
+versos da introducção do Fausto:
+
+ Resurgis outra vez, vagas figuras,
+ Vacillantes imagens que á turbada
+ Vista accudieis d'antes. E heide agora
+ Retter-vos firme? Sinto eu ainda
+ O coração propenso a illusões d'essas?
+ E appertais tanto!... Pois embora! seja:
+ Dominae, ja que em nevoa e vapor leve
+ Emtôrno a mim surgis. Sinto o meu seio
+ Juvenilmente trépido agitar-se
+ Co'a maga exhalação que vos circunda.
+ Trazeis-me a imagem de ditosos dias,
+ E d'ahi se ergue muita sombra amada:
+ Como um velho cantar meio-esquecido,
+ Véem os primeiros simplices amores
+ E a amizade com elles. Reverdece
+ A mágoa, lamentando o errado curso
+ Dos labyrintos da perdida vida;
+ E me está nomeando os que trahidos
+ Em horas bellas por fallaz ventura
+ Antes de mim na estrada se sumiram.
+ ..................................
+ ..................................
+
+Não me atrevo a pôr aqui o resto da minha infeliz traducção: fiel é
+ella, mas não tem outro merito. Quem póde traduzir taes versos, quem de
+uma lingua tam vasta e livre hade passá-los para os nossos appertados e
+severos dialectos romanos?[1]
+
+
+
+
+CAPITULO XXIX.
+
+
+ Doçuras da vida.--Imaginação e sentimento.--Poetas que morreram
+ moços e poetas que morreram velhos.--Como são escriptas éstas
+ viagens.--Livro de pedra. Criança que brinca com elle.--Ruinas e
+ reparações.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e
+ litterarias.--Sancta Iria ou Irene, e Santarem.--Romance de Sancta
+ Iria.--Quantas sanctas ha em Portugal d'este nome?
+
+
+Este sonhar acordado, este scismar poetico deante dos sublimes
+spectaculos da natureza, é dos prazeres grandes que Deus concedeu ás
+almas de certa têmpera. Doce é gosar assim... mas em que doçuras da vida
+não predomina sempre o acido poderoso que stimula! Tirae-lh'o, fica a
+insipidez; deixae-lh'o, ulcéra porfim os orgams: o gôso é mais vivo
+porque a acção do stímulo é mais sentida... mas a ulceração cresce, o
+coração está em carne-viva... agora o prazer é martyrio.
+
+Infeliz do que chegou a esse estado!
+
+Bemaventurado o que póde graduar, como Goethe, a dóze d'amphião que quer
+tomar, que poupa as sensações e a vida, e economiza as potencias de sua
+alma! N'esses porêm é a imaginação que domina, não o sentimento. Byron,
+Schiller, Camões, o Tasso morreram moços; matou-os o coração. Homero e
+Goethe, Sophocles e Voltaire acabaram de velhos: sustinha-os a
+imaginação, que não despende vida porque não gasta sensibilidade.
+
+Imaginar é sonhar, dorme e repousa a vida no entretanto; sentir é viver
+activamente, cansa-a e consomme-a.
+
+Isto é o que eu pensava--porque não pensava em nada, divagava--em quanto
+aquelles versos do Fausto me estavam na memoria, e aquella saudosa vista
+do Tejo e das suas margens deante dos olhos.
+
+Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma, isto vai no papel: que
+d'outro modo não sei escrever.
+
+Muito me pêza, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas
+Viagens, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver n'esse
+titulo, mas que eu não fiz decerto. Querias talvez que te contasse,
+marco a marco, as leguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e
+larguras dos edificios? algarismo por algarismo, as datas de sua
+fundação? que te resummisse a historia de cada pedra, de cada ruina?..
+
+Vai-te ao padre Vasconcellos; e quanto ha de Santarem, peta e verdade,
+ahi o acharás em amplo folio e gorda lettra: eu não sei compor d'esses
+livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer.
+
+So tenho pena de uma coisa, é de ser tam desestrado com o lapis na mão;
+porque em dois traços d'elle te dizia muito mais e melhor do que em
+tanta palavra que porfim tam pouco diz e tam mal pinta.
+
+Santarem é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poetica
+parte das nossas chronicas está escripta. Ricco de illuminuras, de
+recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados
+primorosos, o livro era o mais bello e o mais precioso de Portugal.
+Inquadernado em esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras,
+fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas gothicas, o
+magnífico livro devia durar sempre em quanto a mão do Creador se não
+extendesse para apagar as memorias da creatura.
+
+Mas ésta Ninive não foi destruida, ésta Pompeia não foi submergida por
+nenhuma catastrophe grandiosa. O povo de cuja história ella é o livro,
+ainda existe; mas esse povo cahiu em infancia, deram-lhe o livro para
+brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez
+papagaios e bonecas, fez carapuços com ellas.
+
+Não se descreve por outro modo o que ésta gente chamada govêrno, chamada
+administração, está fazendo e deixando fazer ha mais de seculo em
+Santarem.
+
+As ruínas do tempo são tristes mas bellas, as que as revoluções trazem,
+ficam marcadas com o cunho solemne da historia. Mas as brutas
+degradações e as mais brutas reparações da ignorancia, os mesquinhos
+concertos da arte parasyta, esses profanam, tiram todo o prestigio.
+
+Tal é a geral impressão que me faz ésta terra. Almocemos, que ja oiço
+chamar para isso, e iremos ver depois se me inganei.
+
+Ao almôço a conversação veio naturalmente a cahir no seu objecto mais
+óbvio, Santarem. D. Affonso Henriques e os seus bravos, San'Frei Gil e o
+Sancto-milagre, o Alfageme e o Condestavel, el-rei D. Fernando e a
+rainha D. Leonor, Camões desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui
+nascido, Pedralvares Cabral, os Docems, quasi todas as grandes figuras
+da nossa historia passaram em revista. Porfim veio Sancta Iria tambem, a
+madrinha e padroeira d'esta terra, cujo nome aqui fez esquecer o de
+romanos e celtas.
+
+Quem tem uma idea fixa, em tudo a mette. A minha idea fixa em coisas de
+arte e litterarias da nossa peninsula são as xacaras e romances
+populares. Ha um de Sancta Iria.
+
+Porque é a Sancta Iria da trova popular tam differente da Sancta Iria
+das legendas monasticas?
+
+A trova é ésta, segundo agora a rectifiquei e appurei pela collação de
+muitas e várias versões provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que
+em geral é a que mais se deve seguir.[2]
+
+ Stando eu á janella co'a minha almofada,
+ Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata;
+
+ Passa um cavalleiro, pedia pousada;
+ Meu pae lh'a negou: quanto me custava!
+
+ --'Ja vem vindo a noite, é tam so a estrada...
+ Senhor pae, não digam tal da nossa casa,
+
+ Que a um cavalleiro que pede pousada
+ Se fecha ésta porta á noite cerrada.'
+
+ Roguei e pedi--muito lhe pezava!
+ Mas eu tanto fiz que porfim deixava.
+
+ Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
+ Ao lar o levei, logo se assentava.
+
+ Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava;
+ Puz-lhe uma toalha, n'ella me limpava.
+
+ Poucas as pallavras, que mal me fallava,
+ Mas eu bem sentia que elle me mirava.
+
+ Fui a erguer os olhos, mal os levantava,
+ Os seus lindos olhos na terra os pregava.
+
+ Fui-lhe pôr a cea, muito bem ceava;
+ A cama lhe fiz, n'ella se deitava.
+
+ Dei-lhe as boas noites, não me replicava:
+ Tam má cortezia nunca a vi usada!
+
+ Lá por meia noite que me eu suffocava,
+ Sinto que me levam co'a bôcca tapada...
+
+ Levam-me a cavallo, levam-me abraçada,
+ Correndo, correndo sempre á desfilada.
+
+ Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;
+ Callei-me e chorei--elle não fallava.
+
+ D'alli muito longe que me perguntava
+ Eu na minha terra como me chamava.
+
+ --'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
+ Por aqui agora Iria, a cansada.'[3]
+
+ Andando, andando, toda a noite andava;
+ Lá por madrugada que me attentava...
+
+ Horas esquecidas commigo luctava;
+ Nem fôrça nem rogos, tudo lhe mancava.
+
+ Tirou do alfange... alli me matava,
+ Abriu uma cova onde me interrava.
+
+
+ No fim de sette annos passa o cavalleiro,
+ Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro.
+
+ --'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro,
+ Se me perdoares, serei teu romeiro.'
+
+ --'Perdoar não te heide, ladrão carniceiro,
+ Que me degollaste que nem um cordeiro.'
+
+
+Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de aventurosa vida e que ambas
+deixassem longa e profunda memoria de sua belleza e martyrio--o de que
+não tenho a menor idea--ou nos escriptos dos frades ha muita fábula de
+sua unica invenção d'elles que o povo não quiz acreditar: alias é
+inexplicavel a singeleza d'esta tradição oral.
+
+Tam simples, tam natural é a narração poetica do romance popular, quanto
+é complicada e cheia de maravilhas a que se auctoriza nas recordações
+ecclesiasticas.
+
+O caso é grave, fique para novo capitulo.
+
+
+
+
+CAPITULO XXX.
+
+
+ Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o romance
+ popular.
+
+
+A milagrosa Sancta Iria--Sancta Irene--que deu o seu nome a Santarem,
+donzella nobre, natural da antiga Nabancia[4], e freira no convento
+dupplex[5] benedictino que pastoreava o sancto abbade Celio, floreceu
+pelos meados do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente o joven
+Britaldo, filho do conde ou consul Castinaldo que governava aquellas
+terras, e não podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu infêrmo de
+molestia que nenhum physico acertava a conhecer, quanto mais a curar.
+
+É sabido que a mais sancta lhe não pêza de que estejam a morrer por
+ella; e, mais ou menos, sempre sympathisa com as victimas que faz.
+
+Sancta Iria resolveu consolar o pobre Britaldo; e ja que mais não podia
+por sua muita virtude, quiz ver se lhe tirava aquella louca paixão e o
+convertia. Sahiu, uma bonita manhan, do seu convento--que não guardavam
+ainda as freiras tam absoluta e estreita clausura--e foi-se a casa do
+namorado Britaldo.
+
+Consolou como mulher e ralhou como sancta, e porfim, impondo-lhe na
+cabeça as lindas e bemdittas mãos, n'um instante o sarou de todo achaque
+do corpo; e se lhe não curou o d'alma tambem, pelo menos lh'o
+adormentou, que parecia acabado.
+
+Mas como o demo, em chegando a entrar n'um corpo humano, parece que não
+sai d'elle senão para se ir metter n'outro; tam depressa o inimigo
+deixou ao pobre Britaldo, como logo se foi incaixar em não menor
+personagem do que o monge Remigio, que era o mestre e director da bella
+Iria.
+
+Arde o frade em concupiscencia, e não obtendo nada com rogos e lamentos,
+jurou vingar-se. Disfarçou porêm, fingiu-se emendado, e deu-lhe, quando
+ella menos cuidava, uma bebida de sua diabolica preparação, que apenas a
+sancta a havia tomado, lhe appareceram logo e continuaram a crescer
+todos os signaes da mais apparente maternidade.
+
+Corre a fama do supposto estado da donzella, chovem as injúrias e os
+insultos dos que mais a tinham respeitado até então. E Britaldo, que se
+julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella mulher artificiosa, em vez
+de a esquecer com desprêzo--sente reviver-lhe, senão tam pura, muito
+mais ardente, toda a antiga paixão.
+
+Tam mysterioso é o coração do homem!--tam vil! dirão os asceticos--tam
+inexplicavel! direi eu com os mais tolerantes.
+
+Novas tentativas, promessas, ameaças do furioso amante... A sancta
+resiste a tudo, forte na sua virtude.
+
+Costumava a devota donzella ir todas as noites a uma occulta lapa que
+jazia no fim da cêrca e juncto ao rio Nabão, para alli estar mais so com
+Deus, e desabafar com Elle á sua vontade. Soube-o Britaldo, espreitou a
+occasião e alli a fez apunhalar por um seu criado cujo nome a legenda
+nos conservou para maior testimunho de verdade: chamava-se Banam.
+
+Banam! é um verdadeiro nome de mellodrama.
+
+Morta a innocente, Banam despiu-lhe o hábito e lançou o corpo ao rio,
+que depressa a levou ás arrebatadas correntes do Zezere em que desagua;
+e logo este ao Tejo--que defronte da antiga Scalabicastro lhe deu
+sepultura em suas louras areas, para maior glória da sancta e perpétua
+honra da nobillissima villa que hoje tem o seu nome.
+
+Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta, teve Celio, o abbade do
+convento, uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres do
+caso; e communicando-a logo aos monges e ao povo de Nabancia, sahiu com
+todos de cruz alçada, e foi por esses campos da Golegan fóra, até chegar
+á Ribeira de Santarem. Ahi benzendo as aguas do rio, éstas se retiraram
+cortezes e deixaram ver o sepulchro que era de fino alabastro, obrado á
+maravilha pelas mãos dos anjos.
+
+Chegaram aopé do tumulo, abriram-n'o, viram e tocaram o corpo da sancta,
+mas não o poderam tirar, por mais diligencias que fizeram. Conheceu-se
+que era milagre; e contentando-se de levar reliquias dos cabellos e da
+tunica, voltaram todos para a sua terra.
+
+As aguas tornaram a junctar-se e a correr como d'antes, e nunca mais se
+abriram senão d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha sancta
+Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas orações fez aopé do rio
+pedindo á sancta que lhe apparecesse, que o rio tornou a abrir-se como o
+mar Vermelho á voz de Moises, dizem os devotos chronistas, e patenteou o
+benditto sepulchro.
+
+Entrou a rainha a pé inchuto pelo rio dentro, seguida de seu real espôso
+e de toda a sua côrte; mas por mais que rezasse ella, e que trabalhassem
+os outros com todas as fôrças humanas, não poderam abrir o tumulo;
+quebraram todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado el-rei de
+que um podêr sobrehumano não permittia que elle se abrisse, mandou a
+toda a pressa levantar um padrão muito alto sôbre o mesmo tumulo, e tam
+alto que o rio na maior inchente o não podesse cubrir.
+
+O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros acabassem, e quando
+viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos,
+tornaram a junctar-se as aguas e o padrão ficou sobresahindo por cima
+d'ellas.
+
+Passaram mais tres seculos e meio; e no anno de 1644 a camara de
+Santarem mandou refazer de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal
+que não era senão de alvenaria, e pôr-lhe em cima a imagem da sancta.
+
+Ainda lá está, assás mal cuidado com tudo; lá o vi com estes olhos
+peccadores no corrente mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem
+orações, o rio tinha-se retirado, havia muito, para um cantinho do seu
+leito, e o padrão estava perfeitamente em sêcco, e em sêcco está todo o
+anno até começarem as cheias.
+
+Tal é, em fidelissimo resummo, a historia da Sancta Iria dos livros.
+
+A das cantigas é, como ja disse, muito outra e muito mais simples,
+conta-se em duas palavras. A sancta está em casa de seus paes; um
+cavalleiro desconhecido, a quem dão pousada uma noite, levanta-se por
+horas mortas, rouba a descuidada e innocente donzella, foge a todo o
+correr de seu cavallo, e chegado a um descampado d'alli muito longe,
+pretende fazer-lhe violencia... A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a
+annos passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma linda ermida levantada
+no proprio sítio onde commetteu o crime, pergunta de que sancta é,
+dizem-lhe que é de Sancta Iria. Elle cai de joelhos a pedir perdão á
+sancta, que lhe lança em rosto o seu peccado e o amaldiçoa.
+
+E acabou a historia.
+
+Sería o povo que se esqueceu nas suas tradições, ou os frades que
+augmentaram nas suas escripturas? Pois a legenda monastica é realmente
+bella e cheia de poesia e romance, coisas que o povo não costuma
+desprezar.
+
+É difficil de explicar-se este phenomeno, interessantissimo para
+qualquer observador não vulgar, que n'estas crenças do commum, n'estas
+antigualhas, desprezadas pela suberba philosophia dos nescios, quer
+estudar os homens e as nações e as edades onde elles mais sinceramente
+se mostram e se deixam conhecer.
+
+A extrema simplicidade do romance ou xacara de Sancta Iria, o ser elle,
+d'entre todos os que andam na memoria do nosso povo, o mais geralmente
+sabido e mais uniformente repettido em todos os districtos do reino, e
+com poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto, me faz crer que
+ésta seja das mais antigas composições não so da nossa lingua, mas de
+toda a peninsula. A phrase tem pouco sabor antigo: este é um d'aquelles
+poemas quasi aborigines que a tradição tem vindo intregando, e ao mesmo
+tempo traduzindo, de paes a filhos insensivelmente; e tambem não é
+porcerto dos que desceram do palacio ás choupanas e fugiram da cidade
+para as aldeas, como em muitos outros se conhece: este visivelmente
+nasceu nos arraiaes, nos oragos dos campos, e por lá tem vivido até
+agora.
+
+A fórma metrica da composição é a que a phrase didatica das Hispanhas
+chamou _romance em endechas_. Eu, adoptando para elle, mais que para a
+fórma ordinaria do metro octosyllabo, a theoria do ingenhoso philologo
+allemão, Deeping, tam benemerito da nossa litteratura peninsular, creio
+que estes são verdadeiros versos de dôze syllabas, e que as coplas não
+constam senão de dous versos cada uma, segundo a óbvia significação da
+palavra. O povo cantando não separa os hemistychios d'estes versos como
+fazem os que os escrevem: e ao contrário nos romances da medida mais
+commum, o canto popular reparte distinctamente cada membro de oito
+syllabas sôbre si.
+
+Não sei se me ingano, mas desconfio que as quatro coplas últimas, em que
+muda completamente a rhyma, sejam additamento posterior feito á cantiga
+original. Todavia estes oito versos apparecem, com ligeiras variantes,
+em toda a parte.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXI.
+
+
+ Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em verso e
+ Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de
+ architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As
+ salgadeiras de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de
+ Santarem.--Voltemos á historia de Fr. Diniz e da menina dos olhos
+ verdes.
+
+
+Eram mais de dez horas da manhan quando sahimos a começar a longa
+viasacra de reliquias, templos e monumentos que são hoje toda Santarem.
+
+A vida palpitante e actual acabou aqui inteiramente: hoje é um livro que
+so recorda o que foi. Entre a historia maravilhosa do passado que todas
+éstas pedras memoram, e as prophecias tremendas do futuro que parecem
+gravadas n'ellas em characteres mysteriosos, não ha mais nada: o
+presente não é, ou é como se não fosse: tam pequeno, tam mesquinho, tam
+insignificante, tam desproporcionado parece a tudo isto.
+
+Dá vontade de intoar com o poeta inspirado de Jerusalem: 'Quommodo sedet
+sola civitas!' Portugal é, foi sempre uma nação de milagre, de poesia.
+Desfizeram o prestigio; veremos como elle vive em _prosa_. Morrer, não
+morre a terra, nem a familia, nem as raças: mas as nações deixam de
+existir.--Pois embora, ja que assim o querem. A mim não me fica
+escrupulo.
+
+Passámos a egreja da Alcaçova, que achámos ja fechada; e tomando sempre
+sôbre a esquerda, fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de entre
+quintas, mas que visivelmente foi n'outras eras a rua mais _fashionavel_
+d'esta villa cortezan. Aqui estão quasi aopé da egreja umas portas e
+janellas do mais fino lavor e gôsto mosarabe que me lembra de ter visto.
+
+E a proposito, porque se não hade adoptar na nossa peninsula ésta
+designação de _mosarabe_ para characterizar e classificar o genero
+architectonico especial nosso, em que o severo pensamento christão da
+architectura da meia edade se sente relaxar pelo contacto e exemplo dos
+habitos sensuaes moirescos, e de sua luxuosa e redundante elegancia?
+
+De que palacio incantado foram éstas portas tam primorosamente lavradas?
+Que bellezas se debruçaram d'essas arrendadas janellas para ver passar o
+cavalleiro escolhido do seu coração? São tam lindas, tam elegantes ainda
+éstas pedras desconjunctadas, e mal sustidas de um muro insosso e
+grosseiro que as facea, que naturalmente despertam a mais adormecida
+imaginação a quanto sonho de fadas e trovadores a poesia fez nascer dos
+mysterios da edade-média.
+
+Pouco mais adeante está, em um mau nicho escalavrado e feio, um
+pretendido busto de D. Affonso Henriques, a que attribuem grande
+antiguidade. Não me fez esse effeito a mim.
+
+Chegámos á porta do _Sol_; sentamo'-nos alli a gosar da majestosa vista.
+É majestosa mas triste. A ribanceira que d'alli corta abaixo, até ao
+rio, é arida e quasi calva: cobrem-n'a apenas, como a mal povoada nuca
+de um velho, alguns tufos de verdura cinzenta e grisalha de um arbusto
+rasteiro, meio _frutex_ meio herbaceo que aqui chamam 'Salgadeira' e que
+a tradicção diz ter vindo de Affrica para segurar a terra n'estes
+taludes e precipicios. O aspecto e hábito da planta é realmente
+affricano e oriental, não tem nada de europeu. Mas ésta derradeira e
+occidental parte da nossa Hespanha é, geologicamente fallando, ja tam
+affrica, tam pouco europa, que não sería necessaria a transplantação
+talvez; e porventura ficou ésta memoria entre o povo do uso que os
+moiros faziam da planta para esse fim.
+
+Ésta porta do sol dizem que é onde se faziam as execuções em tempos
+antigos. Foi bem escolhido o sítio; não o ha mais triste e melancholico.
+Aopé está um torreão quadrado da muralha que ahi fórma canto para seguir
+depois na direcção de sul a norte. D'este lado as fortificações e lanços
+de muro estão todas pouco estragadas; e do mirante a que subimos,
+póde-se formar perfeita idea do que era uma antiga cidade murada.
+
+Sería aqui, dizia eu commigo, que o nosso Fr. Diniz de quem ja tenho
+saudades--o velho guardião de San'Francisco veio chorar o seu ultimo
+threno sôbre as ruinas da antiga monarchia? Sería aqui n'este logar de
+desolação e melancholia que correram as suas derradeiras lagrymas! Elle
+que ja não chorava, acharia aqui quem desse aos seus olhos as fontes de
+agua que o coração lhe pedia para se desaffogar dos pezares que o
+rallavam na aridez e seccura de sua desconsolada velhice?
+
+Passavam-me éstas ideas pelo pensamento quando o historiador que tantos
+capitulos nos retteve no vale, contando-nos os successos de Joanninha e
+da sua familia, nos disse:
+
+'Sentemo-nos aqui na sombra que faz ésta muralha e acabemos a historia
+da menina dos rouxinoes. De tarde vamos á Ribeira saudar a memoria do
+Alfageme. Ámanhan de manhan está detalhado que iremos ver a Graça, o
+Sancto milagre, San' Domingos e San' Francisco. Concluamos hoje ésta
+historia.'
+
+'Seja' respondemos nós.
+
+Entraremos portanto em novo capitulo, leitor amigo; e agora não tenhas
+medo das minhas digressões fataes, nem das interrupções a que sou
+sujeito. Irá direita e corrente a historia da nossa Joanninha até que a
+terminemos... em bem ou em mal? D'antes um romance, um drama em que não
+morria ninguem era havido por semsabor; hoje ha um certo horror ao
+tragico, ao funesto que perfeitamente quadra ao seculo das commodidades
+materiaes em que vivemos.
+
+Pois, amigo e benevolo leitor, eu nem em principios nem em fins tenho
+eschola a que esteja sujeito, e heide contar o caso como elle foi.
+
+Escuta.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXII.
+
+
+ Tornámos á historia de Joanninha.--Preparativos de guerra.--A
+ morte.--Carlos ferido e prisioneiro.--O hospital.--O
+ infermeiro.--Georgina.
+
+
+'Escuta!' disse eu ao leitor benevolo no fim do último capítulo. Mas não
+basta que escute, é preciso que tenha a bondade de se recordar do que
+ouviu no capitulo XXV e da situação em que ahi deixámos os dous primos,
+Carlos e Joanninha.
+
+N'este despropositado e inclassificavel livro das minhas Viagens, não é
+que se quebre, mas inreda-se o fio das historias e das observações por
+tal modo, que, bem o vejo e o sinto, so com muita paciencia se póde
+deslindar e seguir em tam imbaraçada meada.
+
+Vamos pois com paciencia, caro leitor; farei por ser breve e ir direito
+quanto eu podér.
+
+Lembra-te como n'uma noite pura, serena e estrellada, aquelles dous se
+despediram um do outro no meio do valle, como se despediram tristes,
+duvidosos, infelizes, e ja outros, tam outros do que d'antes foram.
+
+N'essa mesma noite, a ordenada confusão de um grande movimento de guerra
+reinava nos postos dos constitucionaes. Á longa apathia de tantos mezes
+succedia uma inesperada actividade. Preparavam-se os sanguinolentos
+combates de Pernes e de Almoster, que não foram decisivos logo, mas que
+tanto appressaram o termo da contenda.
+
+Carlos achou ordem de se appresentar no quartel-general, partiu
+immediatamente. O pensamento absorvido por ideas tam differentes, tam
+confuso, tam alheado de si mesmo, seguiu machinalmente o corpo. Foi,
+chegou, recebeu as instrucções que lhe deram, e voltou mais satisfeito,
+mais tranquillo.
+
+Tractava-se de morrer. Não sabe o que é verdadeira angústia d'alma o que
+ainda não abençoou a morte que viu deante de si, o que a não invocou
+ainda como unico remedio de seu mal, ou, o que é mais desesperado, como
+unica sahida de suas fataes perplexidades.
+
+Estes momentos são raros na vida, é certo; mas quando occorrem, não ha
+exaggeração nenhuma em dizer que antes, muito antes a morte do que
+elles.
+
+Oh! e se a morte que se contempla é de honra e glória, se o enthusiasmo,
+tirando fortemente a corda dos nervos, os faz vibrar n'aquelles tons
+secretos e mysteriosos que arrebatam, e elevam o coração do homem á
+sublime abnegação de si, e de tudo o que é piqueno, baixo e vil na sua
+natureza--oh então a morte parece um triumpho, uma bemaventurança
+porcerto!
+
+Carlos esqueceu-se de tudo, menos da sua espada que affiou com
+escrupuloso cuidado, e das suas boas e seguras pistolas inglezas que
+limpou minuciosamente, carregou e escorvou com um verdadeiro amor de
+artista que se compraz no último acabamento de um trabalho predilecto.
+
+O pouco da noite que lhe restava passou-se n'isto, a marcha começou
+antes do dia. E os primeiros raios do sol foram saudados pelo fuzilar
+das espingardas, e pelo trovejar dos canhões.
+
+Combateu-se larga e incarniçadamente--como entre irmãos que se odeiam de
+todo o odio que ja foi amor--o mais cruel odio que tem a natureza!
+
+O dia declinava ja quando n'um hospital em Santarem entravam muitas
+maccas de feridos, e entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto de
+sangue que, assim pelos restos do uniforme como por certo ar bem
+conhecido--e charecteristica então, se via claramente ser do exército
+constitucional.
+
+Eram muitas e perigosas as feridas d'esse homem; estenderam-n'o n'uma
+especie de tarimba sôbre que havia alguma palha, e quando lhe chegou a
+sua vez foi examinado e pençado como os outros. Não dava signal de
+padecer, tinha os olhos fechados, o pulso forte mas não agitado de
+febre; não proferia uma syllaba, não soltava um ai, e prestava-se a tudo
+o que lhe diziam e faziam, menos a soltar da mão esquerda que apertava
+contra o peito o que quer que fosse que alli tinha seguro e que lhe
+pendia ao pescosso de uma estreita fitta preta.
+
+Assim o deixaram largo tempo: elle adormeceu. Não sería largo, mas foi
+profundo o seu dormir. Quando acordou ja se não viu no vasto
+caravanseray d'aquelle confuso hospital, mas n'um pequeno quarto
+arejado, limpo, e quasi confortavel que em tudo parecia cella de
+convento, menos na boa cama em que jazia o doente, e na extremada
+elegancia do infermeiro que o velava.
+
+O quarto era comeffeito uma cella do convento de San'Francisco em
+Santarem, o doente o nosso Carlos; e o infermeiro que o velava, uma
+bella mulher de estatura não acima de ordinaria mas nem uma linha menos,
+involvida nas amplissimas pregas de um longo roupão de seda d'aquella
+acertada côr que, em dialecto da rua Vivienne, se diz _scabieuse_; a
+cabeça toucada de finissima Bruxellas, com uns laços de preto e côr de
+granada que realçavam a transparencia das rendas, a infinita graça dos
+longos e ondados aneis louros do cabello, e a pureza symetrica de um
+rosto oval, classico, perfeito, sem grande mobilidade de expressão mas
+bello, bello, quanto póde ser bello um rosto em que pouco d'alma se
+reflecte, e em que a serena languidez de uns olhos azues entibía e
+modera a energia do sentimento que não é menos profundo talvez, mas
+certamente se expande menos.
+
+De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a mão direita d'elle nas suas,
+os olhos seccos mas fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella
+mulher estava alli como a estátua da dor e da anxiedade. A uma porta
+interior e que abria para uma especie de alcova obscura, em pé, os
+braços cruzados e mettidos nas mangas, o capuz na cabeça, estava um
+frade velho, alto mas curvado do pêso dos annos ou dos soffrimentos.
+
+O frade contemplava o infêrmo e a infermeira, mas visivelmente não
+queria ser visto n'essa occupação, porque ao menor estremecimento do
+doente recuava apressado e como assustado para o interior da sua alcova.
+
+Uma so vela de cera allumiava este quadro, accidentando-o de fortes
+sombras, e dando-lhe um tom de solemnidade verdadeiramente magico e
+sublime.
+
+Carlos segurava ainda na esquerda com o mesmo affêrro o relicario ou
+talisman, o que quer que era que não queria desprender de seu coração. A
+bella infermeira beijava de vez em quando aquella mão tenaz que
+estremecia a cada beijo, por mais suave e mimoso que fosse o leve
+contacto d'esses labios delicados.
+
+A outra mão estava nas mãos d'ella, mas era insensivel a tudo, essa.
+
+O silencio era o do sepulchro: so se ouvia o respirar incerto e
+descompassado do infêrmo.
+
+Derepente Carlos entreabriu as palpebras e exclamou em inglez: '_Oh
+Georgina, Georgina, I love you still._'--(Georgina, Georgina, eu ainda
+te amo).
+
+Duas lagrymas--duas perolas, d'estas que se criam com tanta dor no
+coração e que ás vezes sahem com tanto prazer dos olhos--romperam do
+celeste azul dos olhos da dama e suavemente correram por aquellas faces
+de uma alvura pallida e mortal.
+
+Carlos accordou de todo, abriu os olhos e cravou-os fixamente no rosto
+angelico d'essa mulher.
+
+Esteve assim minutos: ella não dizia nada nem de voz nem de gesto:
+fallavam-lhe so as lagrymas que corriam quietas, quietas, como corre uma
+fonte perenne e nativa d'agua que mana sem esfôrço nem impeto, por um
+declive natural e facil.
+
+--'Onde estou eu, Georgina?'
+
+--'Nos meus braços.'
+
+--'Que me succedeu?'
+
+--'Que não podes ser feliz senão n'elles: bem sabes.'
+
+--'Sei... devia saber.'
+
+--'Hasde sabe-lo agora. O passado...'
+
+--'O passado! qual?'
+
+--'O passado deixou de existir.'
+
+--'E o futuro?'
+
+--'Eu não creio no futuro.'
+
+--'Porquê?'
+
+--'Porque tu me disseste que não cresse.'
+
+--'Eu!.. Eu sou um...'
+
+--'Um homem.'
+
+--'Oh!'
+
+--'Basta e descança. Amanhan fallaremos.'
+
+--'Estou ferido, muito; e doe-me agora... não me doía.'
+
+--'Estás, mas sem perigo: e estou eu aqui. Dorme.'
+
+--'Não posso. Que casa é ésta?'
+
+--'San'Francisco de Santarem.'
+
+--'Deus de misericordia!'
+
+--'Es prisioneiro: sára, e eu te livrarei.'
+
+--'Tu!--E tu aqui, como?'
+
+--'Vim buscar-te, e achei-te assim.'
+
+--'Georgina!'
+
+--'Que tens tu ahi tam seguro na mão esquerda?'
+
+--'Vê: a medalha com o teu cabello.'
+
+--'Então amas-me tu ainda?'
+
+--'Se te amo! Como no primeiro...'
+
+--'Não mintas, Carlos... E dorme.'
+
+--'Oh meu Deus, meu Deus! Georgina aqui, eu n'este estado e... E a minha
+gente?'
+
+--'A tua gente está salva.'
+
+--'Aonde?'
+
+--'Aqui mesmo, em Santarem.'
+
+--'Quero... não quero... Oh sim, quero mas é morrer. Tende misericordia
+de mim, meu Deus!'
+
+--'Socega, Carlos.'
+
+Mas Carlos não socegava: immudeceu porque a torrente de seus
+pensamentos, o incontrado d'elles, e o inesperado d'aquella situação lhe
+imbargavam a voz, e o quebramento das fôrças lhe tolhia os movimentos do
+corpo; mas o espirito inquieto e alvoraçado revolvia-se dentro com um
+phrenesi louco. Era pasmar o que elle soffria.
+
+Á fôrça de bebidas calmantes o accesso diminuiu, a noite passou mais
+tranquilla; e pela manhan o doente não dava cuidado ao facultativo que o
+veio ver.
+
+Prohibiram-lhe fallar; e Georgina tinha a coragem de lhe resistir, de
+lhe não responder todas as vezes que elle tentava quebrar o preceito de
+que dependia a sua vida... e a d'ella, porque a infeliz amava-o... oh!
+amava-o como se não ama senão uma vez n'este mundo.
+
+Passaram dias, semanas, Carlos estava melhor, estava salvo; Georgina
+pôde dizer-lhe um dia:
+
+--'Carlos, meu Carlos, tu estás livre de perigo, vou restituir-te aos
+teus.'
+
+--'Os meus!'
+
+--'Os teus. Tua avó, tua prima...'
+
+--'Joaninha! oh! Joanninha...'
+
+--'Tua avó que tambem tem estado a morrer mas que emfim está escapa,
+ignora que tu estejas aqui. Occultámo-lo egualmente a tua prima.'
+
+--'Ah!'
+
+--'Sim, assentámos de lh'o não dizer a uma nem a outra até que
+tivessemos certeza da tua melhora. Hoje porêm vais ve-las. E eu...'
+
+--'Tu!'
+
+--'Eu não tenho aqui mais nada que fazer.'
+
+--'Georgina!'
+
+--'Carlos!'
+
+--'Tu ja me não amas?'
+
+--'Não.'
+
+Seguiu-se um silencio torvo e abafado como o da calma que precede as
+grandes tempestades. O rosto de Georgina estava impassivel, Carlos
+estorcia-se debaixo de uma compressão horrivel e incapaz de se
+descrever.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXIII.
+
+
+ Carlos e Georgina. Explicação.--Ja te não amo! palavra
+ terrivel.--Que o amor verdadeiro não é cego.--Frade no caso outra
+ vez. _Ecce iterum Crispinus_; ca está o nosso Fr. Diniz comnosco.
+
+
+--'Tu ja me não amas, Georgina, tu!' exclamou Carlos depois de uma longa
+e penosa lucta comsigo mesmo: 'Ja me não amas tu, Georgina? Ja não sou
+nada para ti n'este mundo? Aquelle amor cego, louco, infinito, que
+derramavas em torrentes sôbre a minha alma, em que trasbordava o teu
+coração; aquelle amor que eu cheguei a persuadir-me que era o maior, o
+mais sincero, talvez o unico verdadeiro amor de mulher que ainda houve
+no mundo, esse amor acabou, Georgina? Seccou-se no teu peito a fonte
+celeste d'onde manava? Nem as recordações de nossa passada felicidade,
+nem as memorias dos crueis lances que nos custou, dos sacrificios
+tremendos que por mim fizeste, nada, nada póde acordar na tua alma um
+echo, um echo sumido que fosse, da antiga harmonia de nossas vidas--da
+nossa vida, Georgina, porque nós chegámos a confundir n'um só os dois
+seres da nossa existencia--Oh! porque vivi eu até este dia? E tu, tu que
+refinada crueldade te inspirou o salvar uma vida que tinhas condemnado,
+que tinhas sacrificado quando a separaste da tua?'
+
+--'Carlos,' respondeu Georgina com a fria mas compassiva piedade que
+mais o desesperava:--'Carlos, não abuses da pouca saude que ainda tens.
+O esfôrço d'alma que estás fazendo póde-te ser prejudicial. Socega. Tu
+illudes-te, e sem querer, procuras illudir-me tambem a mim. Entra em ti,
+Carlos, e discorramos pausadamente sôbre a nossa situação, que não é
+agradavel porcerto nem para um nem para outro, mas que póde supportar-se
+se tivermos juizo para a incarar toda e sem medo, e para nos
+convencermos com lealdade e franqueza do que ella realmente é. Ouve-me,
+Carlos: tu amaste-me muito...'
+
+--'Oh como, oh quanto! Nenhum homem...'
+
+--'Poucos homens, é certo, amaram ainda como tu... quem sabe! talvez
+nenhum.--Não quero perder ésta última illusão... ja não tenho outra...
+Talvez nenhum amou como tu me amaste ou... ou cuidaste amar-me. Eu...
+oh! eu quiz-te... pelo eterno Deus que me ouve! eu quiz-te com uma
+cegueira d'alma, n'uma singeleza de coração, com um abandôno tam
+completo, uma abnegação tam inteira de mim mesma, que realmente creio,
+este é o amor que so a Deus se deve, que so ao Creador a creatura póde
+consagrar licitamente.
+
+Bem castigada estou: mereci-o.'
+
+--'Georgina, Georgina!'
+
+--'Deixa-me, quero desabafar eu tambem agora. Ouve-me, tens obrigação de
+me ouvir.--Se te dei provas d'este amor, tu o sabes; se desde que te
+amei, uma palavra, um gesto, um pensamento unico, um so e o mais leve
+relampejar da imaginação desmentiu em mim d'esta absoluta e exclusiva
+dedicação de todo o meu ser... dize-o tu.'
+
+--'Não, minha alma, não, minha vida, não; tu és um anjo, tu es...'
+
+--'Sou uma mulher que te amava como creio que ordinariamente se não
+ama.'
+
+--'Não, certo, não.'
+
+--'Fomos felizes, é verdade; e creio que poucos amantes ainda foram tam
+felizes como nós nos breves dias que isto durou.--Tu partiste para a tua
+ilha; era forçoso partir, conheci-o e resignei-me. Consolavam-me as tuas
+cartas, as tuas cartas de fogo, escriptas, oh se o eram escriptas com o
+mais puro sangue do teu coração. Nunca duvidei do que me ellas diziam:
+não se mente assim, tu não mentias então. É falso que o amor seja cego:
+o amor vulgar póde sê-lo, amor como o meu, o amor verdadeiro tem olhos
+de lynce: eu bem via que era amada. Nunca me escreveste a protestar
+fidelidade, e eu sabía, eu via que tu me eras fiel.--Assim passaram
+meses, annos. Na ilha e no Porto foste o mesmo. Eu padecia muito, mas
+confortava-me, vivia de esperanças... triste viver mas doce! Emfim
+vieste para Lisboa, para aqui... e as tuas cartas que não eram menos
+ternas nem menos apaixonadas...'
+
+--'Se eu nunca deixei, nem um momento...'
+
+Com um gesto expressivo, e de suave mas resoluta denegação, Georgina pôs
+a mão na bôcca do pobre Carlos, como para o impedir de dizer uma
+blasphemia. Elle segurou-a com as suas ambas e lh'a beijou mil vezes com
+um arrebatamento, uma _furia_, n'um paroxismo de lagrymas e de soluços,
+que partiriam o coração ao mais indifferente. Commoveu-se, vacillou a
+inalteravel rigidez do bello rosto da dama, abaixaram-se as longas
+palpebras de seus olhos; mas se chegou até elles alguma lagryma mais
+rebelde, prompta refluiu para o coração, porque ao levantá-los outra vez
+e ao fixá-los tranquillamente nos do seu amante, aquelles olhos puros,
+celestes e austeros como os de um anjo offendido, estavam seccos.
+
+Ella continuou:
+
+--'As tuas cartas, que não eram menos ternas nem menos apaixonadas,
+começaram todavia a ser menos naturaes, mais incarecidas... eram menos
+verdadeiras por fôrça. Senti-o, vi-o, e cuidei morrer. Uma familia da
+minha amizade vinha então para Portugal, accompanhei-a. Apenas cheguei,
+procurei e obtive os meios seguros de tranzitar pelos dous campos
+contendores: presagiava-me o coração que me havia de ser preciso. E foi;
+cheguei ao valle no dia em que tu o deixavas para aquella fatal acção
+que te ia custando a vida. Vim-te incontrar prisioneiro e meio morto no
+hospital dos feridos. Aopé de ti estava um frade...'
+
+--'Um frade! Meu Deus, se seria elle?'
+
+--'Era elle.'
+
+--'Pois tu sabes?..'
+
+--'Sei: eu disse-lhe quem era e o que tu me eras...'
+
+--'Tu a elle... disseste?..'
+
+--'Disse. Não sei se fiz mal ou bem, sei que me não importava o que
+fazia. Vi depois que me não inganára na confiança que posera n'elle.
+Trouxemos-te para este convento, trattámos de ti, conseguimos salvar-te
+a vida... E em quanto esse cuidado me livrava de outros, fui... fui
+feliz. A tua gente... a tua familia do valle tambem veio para
+Santarem... tua avó e tua prima, Carlos...'
+
+--'Joanninha! Joanninha está aqui?'
+
+--'Está; socega; ja t'o disse, logo a verás.'
+
+--'Eu! Eu para quê? Eu não quero...'
+
+--'Quero eu: hasde ve-la. Ja sabes que sei tudo.'
+
+--'Tudo o quê, Georgina?'
+
+--'Queres que t'o repitta? Repettirei. Que tu amas tua prima, que ella
+que te adora. E por Deus, Carlos eu ja lhe quero como se fôra minha
+irman. Intendes bem agora que te não amo? Comprehendes agora que tudo
+acabou entre nós, e que não vejo, não posso ver em ti ja senão o espôso,
+o marido da innocente criança que tomei debaixo da minha protecção, e a
+quem juro que hasde pertencer tu?'
+
+--'Juras falso.'
+
+--'Como assim! Pois queres mais victimas? Não estás satisfeito com a
+minha ruina? Eu aomenos não sou do teu sangue. E essa velha decrepita
+que é tua avó, que duas vezes foi em verdade tua mãe porque te
+criou,--essa innocente que te ama na singelleza do seu coração... e esse
+pobre frade velho...'
+
+--'Oh! aqui anda elle, bem o vejo, aqui anda o genio mau da minha
+familia. Malditto sejas tu, frade!'
+
+O desgraçado não acabára bem de pronunciar éstas palavras, quando a
+porta da alcova se abriu de par em par, e a rigida, ascetica figura de
+Fr. Diniz estava deante d'elle.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXIV.
+
+
+ Carlos, Georgina e Fr. Diniz.--A peripecia do drama.--
+
+
+Carlos estava meio sentado meio deitado n'uma longa cadeira de recôsto;
+Georgina em pé, com os braços cruzados e na attitude de reflexiva
+tranquillidade. Um sol brilhante e ardente, um sol de maio, feria os
+estreitos vidros da pequena janella que so dava luz áquelle quarto: a
+excessiva claridade era velada por uma longa e ampla cortina.
+
+Carlos lançou derepente a mão a essa cortina e a affastou para avivar a
+luz do aposento. Um raio agudissimo de sol foi bater direito no macerado
+rosto do frade, e reflectiu de seus olhos incovados, um como relampago
+de íra celeste que fez estremecer os dous amantes.
+
+Não foi porêm senão relampago; sumiu-se, apagou-se logo. Aquelles olhos
+ficaram mortaes, mudos, fixos, invidraçados como os de um homem que
+acabou de expirar e a quem não cerraram ainda as palpebras.
+
+E assim mesmo aquelles olhos tinham o podêr magnetico de fixar os
+outros, de os não deixar nem pestanejar.
+
+Curvo, incostado a um bordão grosseiro, o seu chapeo alvadio debaixo do
+braço, o frade deu alguns passos tremulos para onde estavam os dous,
+arrastando a custo as sôltas alpercatas que davam um som baço e batido,
+e faziam--não sei por quê nem como--estremecer a quem as sentia.
+
+Parou a pouca distancia, e tirando a voz fraca e tenue, mas vibrante e
+solemne, do íntimo do peito, disse para Carlos:
+
+--'Tu mal disseste-me, filho, e eu venho perdoar-te. Tu detestas-me,
+Carlos, de todos os podêres da tua alma, com toda a energia de teu
+coração; e eu venho-te dizer que te amo, que tomára dar a minha vida por
+ti, que do fundo das intranhas se ergue este immenso amor que não tem
+outro egual, a pedir-te misericordia, a clamar-te em nome de Deus e da
+natureza, a pedir-te, por quanto ha sancto no ceo e de respeito na
+terra, que levantes essa maldicção, filho, de cima da cabeça de um
+moribundo.'
+
+Eram dittas em tal som estas vozes, vinham pronunciadas lá de dentro
+d'alma com tal vehemencia, que lh'as não articulavam os labios,
+rompiam-n'os ellas e sahiam.
+
+O soldado parecia desaccordado, confuso e sem intelligencia do que
+ouvia. Georgina impassivel até alli, rigida e inabalavel com o seu
+amante, sentia commover-se agora d'aquella angústia do velho. É que
+partia pedras a dor que vinha n'aquellas fallas sepulchraes, que
+trassudava d'aquelle rosto cadaverico.
+
+Ao mesmo tempo, um som confuso, um tumulto vago e abafado de mil sons
+que pareciam arredar-se, incontrando-se, tornando, indo e vindo, e
+dispersando-se para se tornar a unir, e tornando a dispersar-se emfim,
+reboava ao longe pela villa, extendia-se nas praças, concentrava-se nas
+ruas, e mandava áquella solitaria e remota cella do convento uns echos
+surdos, como os do mar ao longe quando se retira da praia no murmurar
+melancholico que precede um temporal d'equinoxio.
+
+--'Ouves esse borburinho confuso, Carlos? É a tua causa que triumpha, é
+a d'estes loucos que succumbe, é a de Deus que a si mesmo se desamparou.
+A hora está chegada, escreveram-se as lettras de Balthasar; a confusão e
+a morte reinam sos e senhoras na face da terra. Eu quero ir morrer onde
+haja Deus... Perdoae-me, Senhor, a blasphemia!.. onde o seu nome não
+seja profanado e malditto...
+
+Ao canto de uma pedra, debaixo de uma árvore hade ser, n'algum logar
+escuso d'essas charnecas, onde me não rasguem aomenos ésta mortalha, e
+m'a não insultem nos ultimos instantes, porque eu sou frade, frade,
+frade... o malditto frade! Mas frade quero morrer, e heide morrer. Oh!
+assim tivera eu vivido!'
+
+--'Mas que foi; que succedeu?'
+
+--'O resto do exército realista evacua n'este momento Santarem; vão em
+fuga para o Alemtejo. Os constitucionaes venceram na Asseiceira, e tudo
+está ditto para nós. Para mim, Carlos, falta uma palavra so: quererás tu
+dizê-la?'
+
+--'Eu?'
+
+--'Sim tu, Carlos. Revoca as palavras terriveis que proferiste, e em
+nome de Deus, filho, perdoa a teu...'
+
+A Carlos revolvia-se-lhe no peito uma grande lucta. O horror, a
+compaixão, o odio, a piedade iam e vinham-lhe alternadamente do coração
+ás faces, e tornavam do rosto para o peito. Uma exclamação involuntaria
+lhe rebentou dos labios em meio d'este combate:
+
+--'Padre, padre! e quem assacinou meu pae, quem cegou minha avó, e quem
+cubriu de infamia a minha... a toda a minha familia?'
+
+--'Tens razão, Carlos, fui eu; eu fiz tudo isso: mata-me. Mas oh!
+mata-me, mata-me por tuas mãos, e não me maldigas. Mata-me, mata-me. É
+decreto da divina justiça que seja assim. Oh! assim meu Deus! ás mãos
+d'elle, Senhor! Seja, e a vossa vontade se faça...'
+
+O frade cahiu de bruços no chão, e com as mãos postas e extendidas para
+o mancebo, clamava:
+
+--'Mata-me, mata-me! aqui ha pouca vida ja: basta que me ponhas o pé
+sobre o pescoço; esmaga assim o reptil venenoso que mordeu na tua
+familia e que fez a sua desgraça e a de quantos o amaram. Sim, Carlos,
+sê tu o executor das íras divinas. Mata-me. Tantos annos de penitencia e
+de remorsos nada fizeram; mata-me, livra-me de mim e da íra de Deus que
+me persegue.'
+
+
+
+
+CAPITULO XXXV.
+
+
+ Reunião de toda a familia.--Explicação dos mysterios.--O coração da
+ mulher.--Parricidio.--Carlos beija emfim a mão a Fr. Diniz e abraça
+ a pobre da avó.
+
+
+Georgina disse para Carlos:
+
+--'Dá a mão a esse homem, levanta-o e dize-lhe as palavras de perdão que
+te pede.'
+
+Carlos fez um gesto expressivo de horror e de repugnancia. Georgina
+ajoelhou aopé do frade, tomou as mãos d'elle nas suas, e lh'as affagou
+com piedade; depois levantou-lhe o rosto, incostou-o a si e gradualmente
+o foi accalmando. O velho parecia uma criança mimada e sentida que se
+vai accalantando nos braços da mãe: agora so murmurava de vez em quando
+alguns soluços, a mais e a mais raros.
+
+Estavam de joelhos ambos, o frade e a dama; elle mal se tinha, ella
+amparava em seus braços e contra seu peito o amortecido corpo do velho.
+E Georgina disse com aquelle som de voz irresistivel que as filhas de
+Eva herdaram de sua primeira mãe, e que a ella ou lh'o tinham antes
+insinado os anjos, ou o apprendeu depois da serpente,--um som de voz que
+é a última e a mais decisiva da seducções femininas--disse:
+
+--'Este homem vai morrer, Carlos: e tu hasde-o deixar morrer assim, _meu
+Carlos_?'
+
+Todo o odio, todas as offensas se callaram, desappareceram deante
+d'aquellas palavras do anjo supplicante. _Meu Carlos_ ditto assim, não o
+ouvíra elle ha muito tempo, não lhe pôde resistir: extendeu os braços
+para o frade, cahiu de joelhos aopé d'elle, e um so abraço uniu a todos
+tres.
+
+Como no eterno grupo de Lacoonte, o velho e os dous mancebos sentiam
+estreitar-se das cobras da mesma dor, e affogavam junctos da mesma
+angústia.
+
+Assim estiveram longamente; e não se ouvía entre elles senão algum
+gemido sôlto, e aquelle sussurrar sumido das lagrymas que mais se ouve
+com o coração do que com os ouvidos.
+
+O frade disse emfim com uma voz apenas perceptivel de timida e de fraca:
+
+--'Carlos, meu Carlos, perdoa tambem... oh perdoa á memoria de tua
+desgraçada mãe!'
+
+O mancebo saltou convulsamente como o cadaver na pilha galvanica. Em pé,
+hirto, horrivel, tremendo, exclamou com um brado de trovão:
+
+--'Demonio! demonio incarnado em figura de homem, que vieste
+recordar-me? Dizias bem indagora, monstro: so ás minhas mãos deves
+morrer. E hasde.'
+
+Lançou-se a um enorme velador de pau-sancto que lhe jazia aopé, massa
+terrivel d'Hercules, e bastante a fender craneos de ferro, quanto mais a
+descarnada caveira do frade! D'ambas as mãos a levava no ar; e o velho
+extendeu para elle a cabeça como na ancia de morrer... Georgina fechou
+involuntariamente os olhos, e um grande e medonho crime ia
+consummar-se...
+
+Dous gritos agudissimos, dous gritos de desespêro e de terror,
+d'aquelles que so sahem da bôcca do homem quando suspenso entre a morte
+e a vida--soaram repentinamente no apposento; uma velha decrepita e meia
+morta, arrastada por uma criança de pouco mais de dezeseis annos, estava
+deante de Carlos, e ambas cubriam com seus debeis corpos a fragil e
+extenuada figura da sua victima.
+
+--'Filho, meu filho!' arrancou a velha com stertor do peito: 'é teu pae
+meu filho. Este homem é teu pae, Carlos.'
+
+O ponderoso velador cahiu inerte das mãos do mancebo, e rolou pesado e
+baço pelo pavimento. Carlos cahiu por terra sem sentidos. De um pulo
+Georgina estava aopé d'elle, e o fez incostar na longa cadeira de
+braços. Estava lavado em sangue; era uma ferida do pescôço que o excesso
+da commoção lhe fizera rebentar. Os dous velhos vieram ajoelhar-se aopé
+d'elle. As duas mulheres moças lidavam pelo restaurar e lhe estancar o
+sangue. A cambraia dos lenços, as rendas do collo e das cabeças, tudo se
+fez em ataduras e compressas: o sangue parou emfim.
+
+Admiravel belleza do coração feminino, generosa qualidade que todos seus
+infinitos defeitos faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam
+esse homem. Esse homem não merecia tal amor: não, por Deus! o monstro
+amava-as a ambas: está tudo ditto. E ellas que o sabiam, ellas que o
+sentiam, e que o julgavam digno de mil mortes, ellas rivalizavam de
+cuidados e de ancia para o salvarem.
+
+De tanto não somos capazes nós.
+
+E por isso admirâmos tanto.
+
+E perdoâmos tanto.
+
+E esquecêmos tanto.
+
+Mas amar tanto, não sabemos: verdade, verdade...
+
+Amâmos _melhor_; sim, isso sim: _tanto_ não.
+
+O mancebo permanecia em deliquio. Fr. Diniz e a velha rezavam. Georgina
+e Joanninha--ja vereis que era Joanninha--olharam uma para a outra,
+coraram e ficaram suspensas. A ingleza extendeu a mão á amavel criança,
+estremeceu involuntariamente, mas disse-lhe com firmeza:
+
+--'O ditto ditto, Joanninha! Eu ja o não amo; prometto.'
+
+--'Eu amo-o cada vez mais, Georgina: elle é tam infeliz!'
+
+--'Juras-me tu de o não deixar, de velar por elle sempre, de o defender
+de si mesmo que é o peior inimigo que tem?'
+
+--'Se juro!'
+
+--'Então adeus, Joanninha! Eu estou de mais aqui. Ja tenho ouvido o que
+não devia ouvir. Os segredos da tua familia não me pertencem. O coração
+d'esse homem não é meu, nem o quero. É um nobre e grande coração,
+Joanninha; mas... Não te deixes dominar por elle se o queres segurar.
+Adeus!--Santarem está desamparada pelos realistas; eu vou para Lisboa.
+Consola tua boa avó, e esse pobre velho. Elle não é tam criminoso, estou
+certa...'
+
+--'Oh não! Carlos cuida-o assassino de seu pae; e é falso. Minha avó ja
+me disse tudo.'
+
+--'Falso!' murmurou Carlos sem abrir os olhos: 'é falso? Pois não foi
+elle que matou meu pae?'
+
+--'Não, filho, clamou a velha: 'não, meu filho; teu pae é este infeliz.'
+
+--'E minha mãe?'
+
+--'Tua mãe... e eu somos duas desgraçadas. Que mais queres saber? Tua
+mãe amou esse homem...'
+
+--'Ah!' disse Carlos: 'ah!' e abriu os olhos pasmados para a avó e para
+o frade que cravaram os seus no chão, e ficaram como dous réos na
+presença do seu inflexivel juiz.
+
+--'Mas esse homem que é... que por fôrça querem que seja meu... meu
+pae... Sancto Deus! elle matou o outro.'
+
+--'Defendi-me, foi defendendo ésta vida miseravel... Oh nunca eu o
+fizera! E paraquê? Paraque quiz eu viver? Para isto!'
+
+--'E meu tio, o pae de Joanninha? Tambem esse era preciso que morresse?'
+
+--'Ambos se junctaram para me assassinar, e me accommetteram
+atraiçoadamente na charneca. Não os conheci; foi de noite escura e
+cerrada. Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgraça de salvar a
+minha vida á custa da d'elles. Filho, filho, não queiras nunca sentir o
+que eu senti, quando pegando, um a um, n'esses cadaveres para os lançar
+no rio, conheci as minhas victimas... Era hynverno, a cheia ia de valle
+a monte: quando abateu e se acharam os corpos ja meios desfeitos,
+ninguem conheceu a morte de que morreram; passaram por se ter affogado.
+Ninguem mais soube a verdade senão eu--e tua infeliz mãe a quem o disse
+para meu castigo, a quem vi morrer de pezar e de remorsos, que expirou
+nos meus braços chorando por elle, e maldizendo-me a mim. Não sería
+bastante castigo, meu filho?--Não foi, não. Este burel que ha tantos
+annos me roça no corpo, estes cilicios que m'o desfazem, os jejuns, as
+vigilias, as orações nada obtiveram ainda de Deus. A sua íra não me
+deixa, a sua cholera vai até a sepultura sôbre mim... Se me perseguirá
+além d'ella!..'
+
+Fez-se aqui um silencio horroroso: ninguem respirava; o frade proseguiu:
+
+--'Não me dei por bastante castigado com a agonia de tua mãe, a mais
+horrorosa e desesperada agonia que ainda presenciei, oh meu Deus!.. Tive
+o cruel ânimo de explicar a tua avó as negras circumstancias d'aquella
+morte, e de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do meu crime.
+Rasguei-lhe o coração, e vi-lhe sahir sangue e agua pelos olhos, até que
+lhe cegaram. Que mais queres? Cuidei que podia morrer sem passar por
+ésta derradeira expiação. Deus não o quiz. Aqui estou penitente a teus
+pés, filho. Aqui está o assassino de tua mãe, de seu marido, de teu
+tio... o algoz e a deshonra de tua familia toda.--Faze de mim como fôr
+tua vontade. Sou teu pae...'
+
+--'Meu pae!.. Misericordia meu Deus!'
+
+--'Misericordia, filho, e perdão para teu pae!'
+
+Carlos levantou-se deliberadamente, veio ao velho, tomou-o a pêso nos
+braços, foi sentá-lo na cadeira que acabava de deixar, e pondo-se de
+joelhos, beijou-lhe a mão em silencio. Depois foi abraçar-se com a avó,
+que o apalpava soffregamente com as mãos trémulas, e murmurava baixo:
+
+--'Agora sim, ja posso morrer, ja posso morrer porque o abracei, porque
+o senti juncto a mim, o meu filho, o filho da minha filha querida...'
+
+Carlos é que não proferiu mais palavra; tinha-se-lhe rompido corda no
+coração, que ou lhe quebrára o sentimento ou lh'o não deixava expressar.
+Sahiu da cella fazendo signal que vinha logo: mas esperaram-n'o em
+vão... não tornou.
+
+D'ahi a tres dias, veio uma carta d'elle, de juncto d'Evora onde estava
+com o exército constitucional.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXVI.
+
+
+ Que não se acabou a historia de Joanninha.--Processo ao coração de
+ Carlos.--Immoralidade.--Defeito de organização não é
+ immoralidade.--Horror, horror, maldicção!--Um barão que não
+ pertence á familia lineana dos barões propriamente dittos--Porta de
+ Atamarma.--Senatus consulto santareno.--Nossa Senhora da Victoria
+ _afforada_.--Threnos sôbre Santarem.
+
+
+--Pois ja se acabou a historia de Joanninha?
+
+--Não, de todo ainda não.
+
+--Falta muito?
+
+--Tambem não é muito.
+
+--Seja o que for, acabemos, que está a gente impaciente por saber como
+se concluiu tudo isso, o que fez o frade, o que foi feito da ingleza,
+Joanninha e a avó que caminho levaram, e o pobre Carlos se...
+
+--Pois interessam-se por Carlos, um homem immoral, sem principios, sem
+coração, que fazia a côrte--fazer a côrte ainda não é nada--que amava
+duas mulheres ao mesmo tempo? Horror, horror! como dizem os dramaticos
+romanticos: horror e maldicção!
+
+--Horror seja, horror será... e horror é, sem dúvida. E maldicção que
+deitaram ao pobre homem. Mas immoralidade! Immoralidade é inganar, é
+mentir, é atraiçoar: e elle não o fez. Desgraça grande ter um coração
+assim; mas não me digam que é próva de o não ter. Eu digo que elle tinha
+coração de mais: o que é um defeito e grande, é um estado pathologico e
+anormal. Physicamente produz a morte; e moralmente póde matar tambem o
+sentimento. Bem o creio: mas é molestia commum, e com que vai vivendo
+muita gente, até que um dia...
+
+--Um dia, o orgam, que progressivamente se foi dilatando, não póde
+funccionar mais, cessa a circulação e a vida. Deve ser horrivel morte!
+
+--Fallam physicamente?
+
+--Physicamente. Mas no moral anda pelo mesmo. E se esse é o defeito de
+Carlos...
+
+--Sentir muito?
+
+--Não; ter sentido muito: que o coração, como orgam moral, não se dilata
+a esse ponto senão pelo demaziado excesso e violencia de sensações que o
+gastaram e relaxaram. Se esse é o defeito, a molestia de Carlos, digo
+que ja sei o fim da sua historia sem a ouvir.
+
+--Então qual foi?
+
+--Que um bello dia cahiu no indifferentismo absoluto, que se fez o que
+chamam sceptico, que lhe morreu o coração para todo o affecto generoso,
+e que deu em homem politico ou em agiota.
+
+--Póde ser.
+
+--Mas qual das duas foi, deputado ou barão? queremos saber.
+
+--Saberão.
+
+--Queremos ja.
+
+--E se fossem ambas?
+
+--Oh horror, horror, maldicção, inferno! Ferros em braza, demonios
+pretos, vermelhos, azues, de todas as côres! Aqui sim que toda a
+artelharia grossa do romantismo deve cahir em massa sôbre esse monstro,
+esse...
+
+--Esse quê? Pois em se acabando o coração á gente...
+
+--Eu não creio n'isso. Acaba-se lá o coração a ninguem!..
+
+Houve gargalhada geral á custa do pobre incredulo, e levantamo'-nos para
+ir ver o Sancto-milagre, que era a hora apprazada, e estava o prior á
+nossa espera.
+
+Ámanhan o fim da historia da menina dos olhos verdes.
+
+No caminho incontrámos o nosso antigo amigo, o barão de P.--barão de
+outro genero, e que não pertence á familia lineana que n'esta obra
+procurámos classificar para illustração do seculo--cavalheiro generoso,
+e typo bem raro ja hoje da antiga nobreza das nossas provincias, com
+todos os seus brios e com toda a sua cortezia d'outro tempo, que em
+tanto relêvo destaca da grosseria villan d'essas notabilidades
+improvisadas...
+
+Vinha em nossa procura para nos guiar. Seguimo-lo.
+
+Fomos de passagem observando algumas das mais interessantes coisas
+d'aquella interessantissima terra em que se não póde dar um passo sem
+que a reflexão ou a imaginação incontre objecto para se entreter.
+Inclinando um pouco á direita, démos na celebrada porta de Atamarma.
+
+Por aqui entrou D. Affonso Henriques, por aqui foi aquella destemida
+surpreza que lhe intregou Santarem, e acabou para sempre com o dominio
+arabe n'esta terra.
+
+Os illustrados municipaes Santarenos têem tido por vezes o nobre e
+generoso pensamento de demolir ésta porta! o arco de triumpho de Affonso
+Henriques, o mais nobre monumento de Portugal!
+
+A idea é digna da epocha.
+
+Felizmente parece que tem faltado o dinheiro para a demolição; e o
+senatus consulto dos dignos padres conscriptos não pôde ainda
+executar-se.
+
+Não que eu creia este arco o genuino arco moiresco por onde entraram os
+bravos de D. Affonso; mas creio que essa porta da antiga villa se foi
+reparando, concertando e conservando em suas successivas alterações, até
+chegar ao que hoje está: e ainda assim como está, é um monumento de
+respeito que so barbaros pensariam desacatar e destruir.
+
+Porcima d'ella está uma capellinha de N. S. da Victoria: quer a
+tradicção que primeiro erguida e consagrada á Virgem pelo heroico
+fundador da monarchia e da independencia portugueza. Este é um dos
+muitos pontos em que a religião das tradições deve ser respeitada e
+crida sem grandes exames, porque nada ganha a crítica em pôr dúvidas, e
+o espirito nacional perde muito em as acceitar.
+
+Deixá-la estar a Virgem da Victoria sôbre o arco de Affonso Henriques.
+Prostremo'-nos e adoremos, como bons portuguezes, o symbolo da fé
+christan e da fé patriotica levantado pelas mãos insanguentadas do
+triumphador!
+
+Mas sería elle ou não que levantou essa capellinha? os documentos
+faltam, os escriptores contemporaneos guardam silencio; a historia deve
+ser rigorosa e verdadeira...
+
+Deve: e os grandes factos importantes que fazem epocha e são balizas da
+historia de uma nação, tambem eu os regeitarei sem dó quando lhes
+faltarem essas authênticas indispensaveis. Agora as circumstancias, para
+assim dizer, episodicas de um grande feito sabido e provado, quem as
+conservará senão forem os poetas, as tradições, e o grande poeta de
+todos, o grande guardador de tradições, o povo?
+
+Eu creio na Senhora da Victoria de Santarem, e em muitos outros sanctos
+e sanctas, que a religião do povo tem por esses nichos e por essas
+capellas e por esses cruzeiros de Portugal, a recordar memorias de que
+se não lavrou outro auto, não se escreveu outra escriptura, de que não
+ha outro documento, e que os frades chroniqueiros não julgaram dever
+escrever no livro de terça ou de noa, em nenhum livro preto nem
+incarnado, porque o tinham por melhor escripto e mais bem guardado nos
+livros de pedra em que estava.
+
+Coitados! não contaram com os apperfeiçoadores, reparadores e
+demolidores das futuras civilizações que, para pôr as coisas em ordem,
+tiram primeiro tudo do seu logar.
+
+A camara de Santarem, não podendo demolir o arco, tomou um meio termo
+que appósto que ninguem é capaz de adivinhar. Afforou a capella por cima
+d'elle, com altar, com sanctos e tudo: e assim esteve afforada alguns
+annos, não sei paraquê nem porquê; o caso é que esteve.
+
+O anno passado porêm (1842) começou a manifestar-se ésta reacção
+religiosa que os especuladores quizeram logo converter em ganancia
+pessoal, descontando-a no mercado das agiotagens facciosas; mas perdem o
+seu tempo, inda bem! Veio, digo, ésta reacção nas ideas das gentes; e a
+capella da Senhora da Victoria sôbre o arco, não sei tambem como nem
+porquê, foi _desafforada_, e restituida ao culto popular.
+
+Subimos a ver a capella por dentro: é um rifacimento ridiculo e
+miseravel, sem nenhuma da solemnidade do antigo, nem elegancia moderna
+alguma.
+
+Desappontou-me tristemente. Vamos ao Sancto-milagre depressa, que me
+quero reconciliar com Santarem: e ja começa a ser difficil.
+
+Mas é injustiça minha. Que culpa tem ella, coitada?
+
+Ai Santarem, Santarem, abandonaram-te, mataram-te, e agora cospem-te no
+cadaver.
+
+Santarem, Santarem, levanta a tua cabeça coroada de tôrres e de
+mosteiros, de palacios e de templos!
+
+Mira-te no Tejo, princeza das nossas villas: e verás como eras bella e
+grande, ricca e poderosa entre todas as terras portuguezas.
+
+Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grandeza, e mira-te no Tejo: verás
+como ainda são grandes e fortes esses ossos desconjuntados que te
+restam.
+
+Ergue-te, esqueleto de morte, levanta a tua foice, sacode os vermes que
+te poluem, esmaga os reptis que te corroem, as osgas torpes que te
+babam, as lagartixas peçonhentas que se passeiam atrevidas por teu
+sepulchro deshonrado.
+
+Ergue-te Santarem, e dize ao ingrato Portugal que te deixe em paz ao
+menos nas tuas ruinas, myrrhar tranquillamente os teus ossos gloriosos;
+que te deixe em seus cofres de marmore, sagrados pelos annos e pela
+veneração antiga, as cinzas dos teus capitães, dos teus lettrados e
+grandes homens.
+
+Dize-lhe que te não vendam as pedras de teus templos, que não façam
+palheiros e estrebarias de tuas egrejas; que não mandem os soldados
+jogar a pella com as caveiras dos teus reis, e a bilharda com as
+cannellas dos teus sanctos.
+
+Tiraram-te os teus magistrados, os teus mestres, os teus seminarios...
+tudo, menos o intulho e a caliça, as immundices e os monturos que
+deixaram accumular em tuas ruas, que espalharam por tuas praças.
+
+Santarem, nobre Santarem, a Liberdade não é inimiga da religião do ceo
+nem da religião da terra. Sem ambas não vive, degenera, corrompe-se, e
+em seus proprios desvarios se suicida.
+
+A religião do Christo é a mãe da Liberdade, a religião do Patriotismo a
+sua companheira. O que não respeita os templos, os monumentos de uma e
+outra, é mau amigo da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em desamparo,
+intrega-a á irrisão e ao odio do povo......................................
+...........................................................................
+
+Vamos ao Sancto-milagre.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXVII.
+
+
+ A Graça e sua bella fachada gothica.--Sepultura de Pedr'alvares
+ Cabral.--Outro barão que não é dos assignalados.--Egreja do
+ Sancto-milagre.--Bellos medalhões mosarabes.--De como, chegando o
+ prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que
+ solemnidades.--Monumento da muito alta e poderosa princeza a
+ infanta D. Maria da Assumpção.--Casa onde succedeu o milagre,
+ convertida em capella de stylo philipino.--O homem das botas, e o
+ que tem elle que haver com o Sancto-milagre de Santarem.--Admiravel
+ e graciosa esperteza da regencia do Rocio.--Aaroun-el-Arraschid: e
+ theoria dos governos folgasões; os melhores governos
+ possiveis.--Volta o paladio scalabitano de Lisboa para Santarem.
+
+
+Inclinámos o nosso caminho para a esquerda, e fomos passar deante do
+arrendado e elegante frontispicio gothico da Graça. A ausencia de não
+sei que regedor, ou insignificante personagem de egual importancia que
+tem as chaves da egreja e convento, nos fez perder toda a esperança de
+visitar a sepultura de Pedr'alvares Cabral que alli jaz, assim como
+outras bellas e interessantes antiguidades de não menor preço.
+
+Fomos seguindo até casa do barão d'A., outro illegitimo, porque não
+pertence aos barões assignalados
+
+ Que, sem passar além da Taprobana,
+ No velho Portugal edificaram
+ Novo reino que tanto sublimaram.
+
+Incontrámo-lo prompto a accompanhar-nos, e a presidir, como juiz da
+irmandade que é, á grande cerimonia da exposição e ostensão do
+Sancto-milagre.
+
+Junctos descémos á egreja, que é perto.
+
+A egreja pequena e do peior gôsto moderno por dentro e por fóra. Notavel
+não tem nada se não uns quatro medalhões de pedra lavrada com bustos de
+homens e mulheres em relêvo que visivelmente pertenceram a edificação
+antiga, e que actualmente estão incrustados na tosca alvenaria do
+cruzeiro.
+
+Os bustos são de puro e finissimo lavor gothico, altos de relêvo e
+desenhados com uma franqueza que se não incontra em esculpturas muito
+posteriores.
+
+São talvez reliquias da primitiva egreja do Sancto-milagre que nas
+successivas reedificações se teem ido conservando. Abençoado seja o
+escrupuloso que as salvou d'este último _melhoramento_ que houve no
+desgraçado e desgraçioso templo: o que não foi ha muitos annos por
+certo.
+
+Chamo gothico ao lavor d'aquellas cabeças por que é a phrase vulgar e
+impropria usada de toda a gente: segundo ja observei n'outra parte, com
+mais exacção se devêra dizer mosarabe.
+
+Chegou o prior, o Sr. juiz deu as suas ordens, vieram uns poucos de
+irmãos com tochas, distribuiram-nos a cada um de nós a sua, e
+processionalmente nos dirigimos á porta lateral do altar-mor, da qual se
+sobe, por uma escada assás larga e commoda, á especie de camarim que
+está parallelo com o mais alto do throno em que perpetuamente se
+conserva o grande paladio santareno.
+
+Subimos, accompanhados do prior em sobrepeliz e estola; chegados ao
+alto, ajoelhámos em roda d'elle que subiu a uns degrausinhos, abriu, com
+a chave dourada que trazia pendente ao pescosso, uma como porta de
+sacrario, depois ajoelhou, incensou, tornou a ajoelhar, disse alguns
+versetos a que respondeu o sacristão, e finalmente tirou de seu
+repositorio uma especie de ambula de ouro de fábrica antiga, mas não
+mais antiga que o decimo sexto, ou decimo quinto seculo, quando muito.
+
+Depois de nos inclinarmos e receber a bençam que o padre nos deitou com
+a reliquia, foi-nos permittido erguer-nos, e chegar perto para ver e
+observar.
+
+Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados se descobre comeffeito o
+pequeno vulto amarellado-escuro que piedosamente se crê ser o resto da
+particula consagrada que a judia roubára para seus feitiços.
+
+Escuso contar a historia do Sancto-milagre de Santarem que toda a gente
+sabe. O bom do prior, ex-frade trino gordo e bem conservado, não nos
+perdoou o menor ponto d'ella, que tivemos de ouvir com a maior
+compuncção.
+
+Incerrada outra vez a ambula com as mesmas solemnidades, entrámos em
+conversação com o prior.
+
+N'aquelle mesmo camarim juncto á devota reliquia se conservaram, por
+espaço de cinco ou seis annos, se bem me recordo do que o bom do parocho
+nos contou, os restos mortaes da senhora infanta D. Maria da Assumpção,
+que fallecêra em Santarem nos ultimos mezes da occupação d'aquella villa
+pelas fôrças realistas. O cadaver, mal imbalsemado e com más drogas, foi
+mettido n'um caixão de folha de Flandres. Em pouco tempo a corrupção
+estragou e rompeu a folha, e uma infecção terrivel apestava a egreja.
+Soffreu-se isto annos, representou-se ao govêrno por vezes, mas nenhuma
+resolução se pôde obter. Até que afinal, declarando o prior que, se não
+mandavam tomar conta d'aquelles tristes restos da pobre princeza, elle
+se via obrigado a mettê-los na terra, foi-lhe respondido que fizesse
+como intendesse; e elle intendeu que os devia sepultar no cruzeiro da
+egreja, como fez, do lado da epistola, isto é, á direita.
+
+E ahi jaz em sepultura raza, sem mais distincção nem epitaphio, a muito
+alta e poderosa princeza D. Maria, filha do muito alto e poderoso
+principe D. João o VI, rei de Portugal, imperador do Brazil, e da
+conquista e navegação etc.
+
+Assim é o mundo, as suas grandezas e as suas glórias!
+
+A visita ao Sancto-milagre não é completa sem se ir ver a casa onde elle
+se operou. Conservou-se ella por alguns seculos em grande veneração, e
+em mil seiscentos e tantos se converteu porfim em capella. Hoje está
+abandonada, chove em toda ella, e apenas tem uma má porta que a defende
+das incursões dos animaes. Pena e desleixo grande, porque é elegante e
+graciosa a capellinha, lavrada de bons marmores, no melhor gôsto do
+decimo-sexto seculo, de renascença ja muito adiantada no classico: é um
+verdadeiro typo do stylo philippino, que tanto predomina n'essa epocha
+em toda a peninsula.
+
+A historia do Sancto-milagre de Santarem muitas vezes tem andado ligada
+com a historia do reino; e ja n'este seculo, no tempo da guerra da
+independencia, veio prender com um dos factos mais importantes, e tambem
+com a mais curiosa e comica aventura de que em Lisboa ha memoria.
+
+Alludo nada menos que ao 'homem das botas.' E perdoem-me as senhoras
+beatas a irreverencia apparente, que bem sabem não ser eu de motejar com
+as coisas sérias e sanctas. Mas o facto é que a historia do
+Sancto-milagre está ligada com a célebre historia do 'homem das botas.'
+
+Saiba pois o leitor contemporaneo, e saiba a posteridade, para cuja
+instrucção principalmente escrevo este douto livro, que pela invasão de
+Massena, o grande paladio scalabitano foi mandado recolher a Lisboa, e
+ahi se conservou alguns annos até muito depois da completa retirada dos
+francezes.
+
+Passado todo o perigo de que o exército invasor roubasse--ou
+profanasse--que era o mais provavel--a sancta reliquia, começou a
+reclamá-la o senado e povo santareno, e a mostrar muito pouca vontade de
+lh'a restituir o senado e povo ulyssiponense. Era uma questão d'entre
+Alba e Roma que dava serio cuidado aos reflectidos Numas da regencia do
+Rocio.
+
+Em poucas preplexidades tam graves se viu aquelle pobre govêrno que
+tantas teve, e de quasi todas se sahiu tam mal.
+
+Não assim d'esta, que a evitou com o mais inesperado e admiravel
+stratagema, digno de ornar os maravilhosos fastos do grande Aaroun
+el-Raschid, ou de qualquer outro principe de bom humor, d'esses poucos
+felizes que em felizes tempos reinaram a brincar, e zombaram com o seu
+povo, mas fazendo-o rir.
+
+Pois, senhores, apertada se via a regencia d'estes reinos com a
+restituição do Sancto-milagre que era de justiça fazer-se a Santarem,
+mas que Lisboa recusava, e ameaçava impedir. Temia-se alborôto no povo.
+
+Não sei de quem foi o alvitre, mas foi de maganão de bom gôsto; e bom
+gôsto teve tambem o govêrno em o acceitar e approveitar. Para o dia em
+que o Sancto-milagre devia sahir de Lisboa Tejo acima, e que se esperava
+fosse com grande solemnidade e pompa ecclesiastica,--fez-se annunciar
+por cartazes que um fulano de tal passaria o rio, de Lisboa a Almada, em
+umas botas de cortiça nas quaes se teria direito e inchuto, navegando a
+pé sem mais embarcação, vela nem remo.
+
+A logração era gorda e grande; melhor e mais depressa foi ingullida. No
+dia apprazado despovoou-se a capital, e uns em barcos outros por navios,
+outros por essas praias abaixo, tudo se encheu de gente de todas as
+classes, e todos passaram o melhor do dia á espera do homem das botas.
+
+No emtanto, muito surrateiramente imbarcava o Sancto-milagre no seu
+barco de agua-arriba, e navegava com vento e maré para as ditosas
+ribeiras de Santarem.
+
+Ninguem o viu sahir, nem soube novas d'elle em Lisboa senão quando
+constou da sua chegada a Santarem, e das grandes festas que lhe fizeram
+aquelles saudosos e devotos povos ribatejanos.
+
+Os Aarouns-el-Raschids do Rocio riram de soccapa: e nunca tam
+innocentemente se riu govêrno algum de ter inganado o povo.
+
+Nós celebrámos a historia como ella merecia, e fomos jantar á Alcaçova,
+para irmos de tarde ver a Ribeira, e procurar os vestigios do seu
+inclyto alfageme.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXVIII.
+
+
+ Jantar nos reaes paços de Affonso Henriques.--Sautés e
+ salmis.--Desce o A. á Ribeira de Santarem em busca da tenda do
+ Alfageme.--A espada do Condestavel.--Desappontamento.--O salão
+ elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis.--Tudo
+ melhor quando visto de longe.--O baile público.--Soirée de piano
+ obrigado.--Theatro. Desafinações da prima-dona. Syphlis incuravel
+ das traducções. Destempêro dos originaes.--A xácara de rigor, o
+ subterraneo e o cemiterio.--Sublime gallimathias do ridiculo.--A
+ bella e necessaria palavra 'gallimathias.'--Se as saudades
+ matam.--Perigo de applicar o scalpello ou a lente ao mais perfeito
+ das coisas humanas.--De como a logica é a mais perniciosa de todas
+ as incoherencias.
+
+
+Esperava-nos comeffeito em casa do nosso bom hóspede, nos regios paços
+de Affonso Henriques, um esplendido jantar a que assistiram quasi todos
+os cavalheiros da terra.--Não quero dizer as notabilidades, por ser
+palavra peralvilha a que tenho invencivel zanga.--As iguarias de
+legítima eschola portugueza, não menos saborosas e delicadas por
+apparecerem estremes de _sautés e salmis_ extrangeirados. Brilharam
+sôbre tudo os productos das duas grandes vendimas rivaes, do Ribatejo e
+Ribadouro. Foi largo e alegre o jantar.
+
+Acabámos tarde, montámos logo a cavallo, e pela porta de Atamarma
+descémos á Ribeira; era quasi sol pôsto quando la chegámos.
+
+É o suburbio democratico da nobre villa, hoje o ricco e o forte d'ella.
+Faz lembrar aquellas aldeas que se criaram á sombra dos castellos
+feudaes e que, libertas, depois, da oppressora protecção, cresceram e
+ingrossaram em substancia e fôrça: o castello, esse está vazio e em
+ruinas.
+
+Por aqui se faz quasi todo o commercio da Extremadura e Beira com o
+Alemtejo. Os habitantes laboriosos e activos conservam os antigos brios
+e independencia do character primitivo: é a unica parte viva de
+Santarem.
+
+Cruzámos a povoação em todos os sentidos, procurando rastrear algum
+vestigio, confrontar algum sítio onde podessemos collocar, pela mais
+atrevida supposição que fosse, a tenda do nosso alfageme com as suas
+espadas bem 'corregidas', as suas armaduras luzentes e bem postas--e o
+joven Nun'alvares passeando alli por pé, ao longo do rio--como diz a
+chronica--namorado d'aquella perfeição de trabalho, e dando a 'correger'
+a bella espada velha de seu pae ao rustico propheta que tantos
+vaticinios de grandeza lhe fez, que o saudou condestavel, conde d'Ourem
+e salvador da sua patria.
+
+Nada podémos descubrir com que a imaginação se illudisse siquer, que nos
+désse, com mais ou menos anachronismo, uma leve base tamsomente para
+reconstruirmos a gothica morada do célebre cutileiro-propheta que a
+historia herdou das chronicas romanescas, e hoje o romance outra vez
+reclama da historia.
+
+Em Santarem ha poucas casas particulares que se possam dizer
+verdadeiramente antigas; na Ribeira, nenhuma. As implastagens e
+replastagens successivas teem anachronizado tudo. É uma feliz expressão
+do Sr. Conde de Raczinski bem applicada por elle ao estado de quasi
+todos os nossos monumentos, ésta de anachronismo.
+
+Mas alli, na villa alta ou Marvilla, no Santarem propriamente ditto, ha
+os templos, os conventos, a cêrca das muralhas que todavia conservam a
+physionomia historica da terra; aqui nem isso ha.
+
+Voltei completamente desappontado da Ribeira, isto é, da sua pedra e
+cal: gósto immenso da sua gente.
+
+Outra surpreza de mui differente genero nos esperava á noite em
+Marvilla, no elegante salão da B. d'A. com quem fomos tomar cha.
+
+Em meio das ruinas e desconfôrto d'aquelles desertos e mortos pardeiros
+circumstantes, ir incontrar uma casa em plena florescencia de
+civilização e de vida; ver a amabilidade e a elegancia fazendo
+graciosamente as honras d'ella--por mais que se devesse esperar--sempre
+espanta á primeira vista: parecia golpe de varinha de condão.
+
+Em tam agradavel e joven companhia todas as ideas archeologicas se
+desvaneceram, apezar de dous ou tres fosseis que alli appareciam para se
+não perder detodo a côr local talvez.
+
+Largamente se conversou, de Lisboa principalmente, dos nossos mutuos
+amigos, das festas do último hynverno, das probabilidades que se deviam
+esperar do futuro.
+
+Ralhámos muito da sociedade portugueza; exaltámos París e Londres e não
+sei se Pekim e Nankim tambem, e concluimos que antes Timbokotuo do que a
+seccante capital do nosso pobre reino. E comtudo estavamos com saudades
+d'ella; e concessão d'aqui, concessão d'alli, viemos a que não era tam
+má terra como isso.
+
+Admiravel condicção da natureza humana, que tudo nos parece melhor e
+menos feio quando visto de longe!
+
+O baile público mais semsabor, detestavel de barulho e confusão, em que,
+para repousar os olhos n'um rosto conhecido e agradavel, foi preciso
+furar por entre centenas de cotovellos barbaros que se não sabe d'onde
+vieram, levar desalmadas pisadellas do dançante noviço, do deputado
+recemchegado, e das botas novas do novo director da Galocha--e, mais
+horrivel que tudo! ver as absurdas toiletes, os penteados fabulosos, as
+caras incriveis e as antidiluvianas figuras de tanta mulher feia e
+desastrada... pois esse mesmo baile, quando ja não é senão reminiscencia
+que acorda no meio do infado ronceiro de uma terra de provincia, parece
+outro. As luzes, as flores, a musica, toda aquella animação lembra com
+prazer, o mais esquece, e involuntariamente se descai um pobre homem a
+suspirar por elle.
+
+A soirée mais massante, de piano obrigado, com dueto das manas, polka
+das primas e casino das tias velhas--recordada em eguaes circumstancias,
+tambem ja não accode á memoria senão como uma reunião escolhida e
+íntima, de facil e doce tracto... oh! o verdadeiro prazer da sociedade.
+
+Pois o theatro... Que se lembre alguem, na provincia, dos martyrios que
+soffreu o ouvido com os berros da prima-dona, as desafinações do tenor,
+ou com o infadonho resonar d'aquella adormecida orchestra de San'Carlos!
+
+A injoativa traducção de uma comedia da Rua-dos-condes, roída de
+incuravel syphilis, figura-se avelludada de todas as graças do stylo de
+Scribe.
+
+E o destempêro original de um drama plusquam romantico, laureado das
+imarcessiveis palmas do Conservatorio para eterno abrimento das nossas
+bôccas! Lá de longe applaude-o a gente com furor, e esquece-se que
+fummou todo o primeiro acto ca fóra, que dormiu no segundo, e conversou
+nos outros, até á infallivel scena da xacara, do subterraneo, do
+cemiterio, ou quejanda, em que a dama, soltos os cabellos e em penteador
+branco, indoudece de rigor,--o gallan, passando a mão pela testa, tira
+do profundo thorax os tres _ahs!_ do stylo, e promette matar seu proprio
+pae que lhe appareça--o centro perde o centro de gravidade, o barbas
+arrepella as barbas... e maldicção, maldicção, inferno!... 'Ah mulher
+indigna, tu não sabes que n'este peito ha um coração, que d'este coração
+sahem umas arterias, d'estas arterias umas veias--e que n'estas veias
+corre sangue... sangue, sangue! Eu quero sangue, porque eu tenho sêde, e
+é de sangue... Ah! pois tu cuidavas? Ajoelha, mulher, que te quero
+matar... esquartejar, chacinar!'--E a mulher ajoelha, e não ha remedio
+senão applaudir...
+
+E applaude-se sempre.
+
+E não é de mim que fallo, que eu gósto d'isto: os outros é que se
+infastiam e cansam de tanta barafusta, sempre a mesma...
+
+Mas emfim o que digo é que na provincia não ha tal fastio, que esquece a
+canceira, e que nem o sublime gallimathias do ridiculo d'alli se
+percebe.
+
+Peço aos illustres puritanos que, á fôrça de sublimado quinhentista, tem
+conseguido levar a lingua á decrepitude para a curar de suas
+infermidades francezas, peço-lhes que me perdoem o _gallimathias_,
+porque elle é muito mais portuguez que outra coisa. A célebre oração
+_pro gallo Mathiae_ deu origem a ésta bella e expressiva palavra, que
+sim foi procreada em francez, mas hoje precisâmos ca muito mais d'ella
+que em parte nenhuma.
+
+Volto ja da digressão philologica: tornemos á optica e á catoptrica.
+
+Grande coisa é a distancia!
+
+E dizem que saudades que matam! Saudades dão vida; são a salvação de
+muita coisa que, em seu pleno gôso e posse pacífica, pereceria de
+inanição ou morreria da oppressora molestia da saciedade.
+
+Por isso eu não gósto de metter o scalpello no mais perfeito da
+construcção humana, nem de applicar a lente ao mais fino e delicado do
+seu funccionar...
+
+Vamos usando d'estas palavras que herdámos, sem metter louvados na
+herança; não succeda descobrirmos que estamos mais pobres do que se
+cuidava... vamos repetindo éstas phrases que nos formularam nossos
+antepassados sem as analysar com muito rigor; não succeda vermos claro
+demais que temos passado a vida a mentir...
+
+Detesto a philosophia, detesto a razão; e sinceramente creio que n'um
+mundo tam desconchavado como este, n'uma sociedade tam falsa, n'uma vida
+tam absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituições,
+as conveniencias d'ella, affectar nas palavras a exactidão, a logica, a
+rectidão que não ha nas coisas, é a maior e mais perniciosa de todas as
+incoherencias.
+
+Não fallemos mais n'isto, que faz mal, e acabemos aqui este capítulo.
+
+
+
+
+CAPITULO XXXIX.
+
+
+ Processo de scepticismo em que está o auctor.--Moralistas de
+ _requiem_.--O maior sonho d'esta vida, a logica.--Differença do
+ poeta ao philosopho.--O coração de Horacio.--O collegio de
+ Santarem.--Jesuitas e templarios.--O alliado natural dos
+ reis.--'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que
+ 'Ficar no tinteiro.'--San'Frei Gil e o Doutor Fausto.--De como o A.
+ foi ao tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.--Quem o roubaria?
+
+
+O final do capítulo antecedente é, bem o sei, um terrivel documento para
+este processo de scepticismo em que me mandaram metter certos moralistas
+de _requiem_ de quem tenho a audacia de me rir, d'elles e da sua
+querella e do seu processo, protestando não me aggravar nem appellar,
+nem por nenhum modo recorrer da mirifica sentença que suas
+excellentissimas hypocrisias se dignarem proferir contra mim.
+
+Feita ésta declaração solemne, procedamos.
+
+E quanto a ti, leitor benevolo, a quem so desejo dar satisfação, a ti,
+se ainda te cansas com essas chymeras, dou-te de conselho que voltes a
+pagina obnoxia, porque essas reflexões do último capítulo são tam
+deslocadas no meu livro como tudo o mais n'este mundo. Dorme pois, e não
+despertes do bello-ideal da tua logica.
+
+É uma descuberta minha de que estou vaidoso e presumido, ésta de ser a
+logica e a exacção nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais
+ideal do que o mais phantastico sonho e o mais requintado ideal da
+poesia.
+
+É que os philosophos são muito mais loucos do que os poetas; e de mais a
+mais, tontos: o que est'outros não são.
+
+Voltemos, voltemos a pagina comeffeito, que é melhor.
+
+Amanheceu hoje um bello dia, puro e sublime. Dorme nas cavernas do padre
+Eolo aquelle vento sêcco e duro, flagello dos estios portuguezes.
+Suspira no ar uma viração branda e suave que regenera e dá vida. Mal
+impregado dia para o passar a ver ruinas! No seio da sempre joven
+natureza, sob a remoçada espessura das árvores, sôbre a alcatifa sempre
+renovada das grammas verdes e variegadas boninas, queria eu que me
+corresse este dia em ocio bemaventurado de corpo e d'alma, sentindo
+pulsar lento e compassado o coração livre e sôlto de todo impenho, o
+verdadeiro coração de Horacio,
+
+ Solutus omni foenore!
+
+Tomára-me eu no valle outra vez, com a irman Francisca a dobar á porta,
+a nossa Joanninha a deslindar-lhe a meada; e embora venha o terrivel
+spectro de Fr. Diniz projectar sua funesta e tragica sombra no idilio
+d'este quadro suave, que não póde destruir-lhe toda a amenidade
+bucolica, por mais que faça.
+
+Lá voltaremos ao nosso valle, amigo leitor, e lá concluiremos, como é de
+razão, a historia da menina dos rouxinoes. Por agora almocemos, que é
+tarde, e terminemos os nossos estudos archeologicos em Marvilla de
+Santarem.
+
+Cá estamos no Collegio, edíficio grandioso, vasto, magnífico, propria
+habitação da companhia--rei que o mandou construir para educar os
+infantes seus filhos.
+
+Creio que ésta e a de Coimbra eram as duas principaes casas que para
+isto tinham os Jesuitas em Portugal.
+
+Foram os templarios dos seculos modernos, os Jesuitas. A potencia
+formidavel e quasi régia que aquelles levantaram com a espada, tinham
+estes fundado com a doutrina. Riquezas, podêr, influencia, uns e outros
+as tiveram com applauso e acquiescencia geral; uns e outros as perderam
+do mesmo modo.
+
+Extinctas e perseguidas, ambas as ordens renasceram no mysterio, e se
+converteram em associações secretas para conspirarem; ambas tomaram
+diversos nomes e variadas máscaras para o fazerem mais seguramente.
+
+Ambas em vão!
+
+O predominio, crescente ha seculos, do elemento democratico annulla
+todas essas conspirações. Sos e sem elle, os reis tinham succumbido... É
+a alliada natural dos reis a democracia.
+
+O edificio do Collegio é todo philippino, ja o disse: a egreja dos mais
+bellos specimens d'esse stylo, que em geral sêcco, duro e sem poesia,
+não deixa comtudo de ser grandioso.
+
+Aqui esteve depois muitos annos o seminario patriarchal, cujas aulas
+frequentava a mocidade do districto. Hoje leem-se alli outras palestras
+da cathedra administrativa. É a séde do govêrno civil chamado: corrumper
+a moral do povo, sophismar o systema representativo é o thema das
+licções.
+
+Todo outro insino se tirou de Santarem. Falla-se n'um liceu e não sei em
+que mais 'que ficou na gazetta:' phrase portugueza moderna que deve
+supprir a antiga e antiquada de--'ficou no tinteiro'--por muitas razões,
+até porque hoje não fica nada no tinteiro senão o senso commum, tudo o
+mais de lá sai, tudo. E muitas graças a Deus quando não passa ás ballas
+do impressor para dar a volta do mundo.
+
+Santarem é das terras de Portugal a melhor situada e qualificada para um
+grande estabelecimento de instrucção e de educação pública. Porque não
+hade estar aqui o Collegio-militar ou a Casa-pia, ou outra grande
+eschola, seja qual for? Porque hade ser ésta centralização d'insino em
+Lisboa? Em que se funda um privilegio dado á capital em prejuizo e á
+custa das provincias?
+
+Sahimos do Collegio, fomos direitos a San'Domingos, um dos mais antigos
+estabelecimentos monasticos do reino e que eu tanto desejava visitar.
+Não sei descrever o que senti quando a inferrujada chave deu a volta na
+porta da egreja e o velho templo se patenteiou aos nossos olhos. Acabára
+de servir, não imaginam de quê... de palheiro!
+
+A derradeira camada de palha que apodrecêra, adheria ainda ao lagedo
+humido, e exhalava um forte vapor mephitico que nos suffocava. Mal
+podémos ver os tumulos dos Docems e tantos outros interessantes
+monumentos que abundam na parte superior do templo. A inferior, ou corpo
+da egreja como dizem, é de um miseravel e moderno anachronismo.
+
+Respirando a custo aquelle ar infecto, todo o tempo que lhe pudesse
+resistir, quiz approveitá-lo em examinar a principal e mais interessante
+reliquia da profanada egreja--a capella e jazigo do grande bruxo e
+grande santo, San'Frei-Gil.
+
+Algures lhe chamei ja o nosso Doutor Fausto: e é comeffeito. Não lhe
+falta senão o seu Goethe.
+
+ Vixere fortes ante Agamemnona multi.
+
+Houve fortes homens antes de Agamemnão, e fortes bruxos antes e depois
+do Doutor Fausto. Mas sem Homero ou Goethe é que se não chega á
+reputação e fama que alcansaram aquelles senhores. Nós precisâmos de
+quem nos cante as admiraveis luctas--ora comicas, ora tremendas--do
+nosso Frei Gil de Santarem com o diabo. O que eu fiz na 'Dona Branca' é
+pouco e mal esboçado á pressa. O grande mago lusitano não apparece alli
+senão episodicamente; e é necessario que appareça como protagonista de
+uma grande acção, pintado em corpo inteiro, na primeira luz, em toda a
+luz do quadro.
+
+Então o seu ardente e anciado desejo de saber, os seus vastos estudos,
+os reconditos mysterios da natureza que descobriu até penetrar no mundo
+invisivel--a sêde de oiro, de prazer e de podêr que o perseguia e o fez
+cahir nas garras do espirito maligno--o fastio e saciedade que o
+desincantaram depois--o seu arrependimento emfim, e a regeneração de sua
+alma pela penitencia, pela oração e pelo desprêzo da van sciencia
+humana--então essas variadas phases de uma existencia tam
+extraordinaria, tam poetica, devem mostrar-se como ainda não foram
+vistas, porque ainda não olhou para ellas ninguem com os olhos de grande
+moralista e de grande poeta que são precisos para as observar e
+intender.
+
+Lembra-me que sempre entrevi isto desde pequeno, quando me faziam ler a
+historia de San'Domingos, tam rabujenta e semsabor ás vezes, apezar do
+incantado stylo do nosso melhor prosador; e que eu deixava os outros
+capitulos para ler e reler somente as aventuras do sancto feiticeiro que
+tanto me interessavam.
+
+Com todas éstas reminiscencias que me reviviam n'alma, com os admiraveis
+versos do Fausto a acudir-me á memoria, e com uma infinidade de
+associações que essas ideas me traziam, caminhei direito á capella do
+sancto, cheio de alvorôço, e como tocado, para assim dizer, de sua
+magica vara de condão.
+
+A capella--oh desappontamento! a cappella de San'Frei Gil é um mesquinho
+rifacimento moderno, do lado esquerdo da egreja, sem nenhum vestigio de
+antiguidade, nenhum ornato characteristico, pesada, grosseira--velha sem
+ser antiga--um verdadeiro non-descriptum de mau gôsto e semsaboria. Quem
+tal dissera?
+
+O tumulo do sancto está elevado do altar n'uma especie de mau throno.
+Subi acima da degradada e profanada credencia para o examinar deperto.
+
+É de pedra o jazigo; mas ultimamente ve-se que tinham pintado a pedra;
+não tem lavor algum.--E estava vazio, a loisa levantada e quebrada!..
+
+Quem me roubou o meu sancto?
+
+Quem foi o anathema que se atreveu a tal sacrilegio?..
+
+
+
+
+CAPITULO XL.
+
+
+ As Claras.--Aventura nocturna.--Se as freiras mettem medo aos
+ liberaes?--O Psalmo.--Tres frades.--Práctica do franciscano.--O
+ corpo de San' Fr. Gil.--Que se hade fazer das freiras?--Mal do
+ govêrno que deixar comer mais aos barões.
+
+
+Èra de noite, reinava a confusão, a desordem, o susto e a anciedade nos
+muros de Santarem, tres homens chegavam, por horas mortas, ao antigo
+mosteiro das Claras, davam á portaria um signal surdo e mysterioso;
+respondiam-lhe de dentro com outro egual; e d'ahi a pouco, sem rumor e
+com as mais escrupulosas precauções se abria quietamente a porta da
+clausura.
+
+Os tres homens entraram, a porta fechou-se sôbre elles do mesmo modo
+precatado.
+
+Que será?
+
+Os homens levavam uma especie de cofre que parecia conter preciosidades
+de grande valor: tal era o desvello com que o resguardavam.
+
+Ha um mysterio que se figura criminoso n'esta aventura. Mas os tempos
+são para tudo.
+
+Era no anno de 1834.
+
+Entremos n'esse convento das pobres Claras, tam afflictas e
+desconsoladas agora que as ameaçam de dissolução como aos frades.
+
+Não será assim: aquellas instituições não mettem medo aos verdadeiros
+liberaes, e os outros lá teem o espolio dos frades para devorar; estão
+entretidos: as freiras salvam-se porora.
+
+Taes eram as esperanças dos tres homens que entravam a essas deshoras
+nos vedados precinctos do mosteiro. Sigamo-los porêm, que é tempo.
+
+Chegavam elles a uma pequena capella do claustro das freiras, foram
+depor sôbre o altar o cofre que traziam, e ajoelharam devotamente deante
+d'elle. Logo se ouviu ao longe o psalmear baixo e sumido de vozes
+femininas; e d'ahi a pouco, toda a communidade das Claras, de tochas na
+mão, em duas alas, e a abbadessa com o seu baculo atraz, entravam
+processionalmente no claustro e se dirigiam á mesma capella.
+
+O psalmo que cantavam era este:
+
+[6] 'Meu Deus, vieram os barbaros ás tuas herdades, polluiram o teu
+sancto templo, pozeram Jerusalem como um grannel de fructos.
+
+'Pozeram os cadaveres de teus filhos de cevo ás aves do ceo; as carnes
+dos teus sanctos ás alimarias da terra.
+
+'O sangue d'elles derramaram-n'o como agua nos valles de Jerusalem; ja
+não havia quem sepultasse.
+
+'Estamos feitos o oppróbrio dos nossos vizinhos; o escarneo e a zombaria
+dos que vivem por nossos arredores.
+
+'Até aonde, ó Senhor, te hasde irar emfim; e se hade accender o teu zêlo
+como fogo?
+
+'Vérte a tua íra sôbre as gentes que te não conheceram, contra os reinos
+que não invocaram o teu nome;
+
+'Que devoraram a Jacob; e desolaram suas terras.
+
+'Não te lembres de nossas iniquidades passadas, e depressa nos alcancem
+as tuas misericordias; ja que tam pobres de mais estamos.
+
+'Ajuda-nos Deus, salvador nosso; e pela gloria do teu nome livra-nos,
+Senhor, amercea-te de nossos peccados por causa do teu nome.'
+
+Cantavam assim as pobres das freiras, cantavam em latim que ellas mal
+intendiam; mas dizia-lhes o instincto do coração, dizia-lhes a tam
+excitavel imaginação feminina, que era chegada a hora de se cumprir a
+seus olhos, e sôbre ellas mesmas tambem, a tremenda prophecia do psalmo
+que intoavam.
+
+Havia pois lagrymas n'aquellas vozes que assim cantavam, sahiam d'alma
+aquelles sons e n'alma vibravam tambem com profunda e solemne
+melancholia.
+
+Chegadas juncto á capella aonde estava o cofre, as freiras pararam
+conservando as mesmas duas alas da procissão e continuando no accentuado
+mormúrio de seu psalmo.
+
+Os tres vultos de homem permaneceram de joelhos e curvados deante do
+altar.
+
+Findou o psalmo e seguiu-se breve intervallo de silencio. Depois, os
+tres homens levantaram-se, e cahindo-lhes para os lados as longas capas
+em que vinham involtos, viu-se que o do meio era um frade velho, magro,
+curvado e sêcco, trajando ainda, apezar da lei, o burel preto dos
+franciscanos e cingido com sua corda. Os outros dous eram dominicos e
+vestiam de preto e branco segundo as côres de seu tambem proscripto
+instituto.
+
+O velho franciscano subiu com passo trémulo os degraus do altar, beijou
+o cofre que estava sôbre elle, e voltando-se para a communidade que o
+contemplava em religioso silencio, disse com uma voz cava que parecia
+vir do sepulchro mas accentuada e forte:
+
+'Irmans, vimos intregar-vos este depósito precioso. Deus não quer que os
+cadaveres dos seus sanctos fiquem expostos ás aves do ceo e ás alimarias
+da terra. Este é o sancto corpo de um dos maiores sanctos que produziu
+ésta terra de Portugal quando era abençoada. Hoje é malditta e não devia
+conservar as suas reliquias. Os filhos de San'Domingos foram expulsos de
+sua casa, assim como nós fomos, nós os filhos de Francisco,
+incontrámo'nos sem tecto nem abrigo uns e outros, e junctámos as nossas
+miserias para as chorarmos como irmãos que somos, como filhos de paes
+que tanto se amaram e ajudaram. Perigrinaremos junctos por essas
+solidões da terra, e junctos iremos bater por essas portas que cerrou a
+impiedade e a indifferença, a pedir o pão de cada dia porque temos fome.
+
+'Que importa! não professâmos nós, não nos honrâmos nós de ser mendigos?
+De que vivêmos nós sempre senão de esmolla?
+
+'Não choreis irmans, não choreis sôbre nós. Deus que o permittiu bem
+sabe o que fez. Louvado seja elle sempre! Nós tinhamos peccados para
+mais! Ainda foi misericordioso comnosco o Senhor da justiça e do
+castigo.
+
+'A nós tiraram-nos tudo, tudo! Até éstas mortalhas que tinhamos
+escolhido em vida e que nem a morte ousava roubar-nos.
+
+'A furto e como quem se esconde para um acto criminoso, nós as vestimos
+ésta noite para commetter o que elles chamarão um furto, e que era uma
+obrigação sagrada nossa.
+
+'Fomos á antiga casa de nossos irmãos e roubámos o corpo do
+bemaventurado San'Frei Gil.
+
+'Aqui vo-lo intregâmos; guardae-o. Emquanto estes muros estiverem em pe,
+que o abriguem dos desacatos d'essa gente sem Deus nem lei. A vós não
+ousarão expulsar-vos d'aqui: talvez vos matem á fome... Não póde ser:
+Deus não hade permitti-lo.
+
+'Mas qualquer que seja a sua vontade, resignae-vos a ella, minhas
+irmans. So elle sabe como nos ama e como nos castiga. Louvemo'-lo por
+tudo.'
+
+Aqui foi um chorar e um supplicar fervente como so se ouve na hora da
+angústia.
+
+As afflictas monjas, estavam prostradas nas lages humidas do claustro,
+sôbre as sepulturas de suas irmans, sôbre seus proprios jazigos que
+haviam de ser. O frade com os braços extendidos pronunciou as solemnes
+palavras de benção, descrevendo com a direita o augusto symbolo da
+redempção:
+
+'Bemdiga-vos Deus omnipotente, Pae, Filho e Espirito-sancto!' 'Amen!'
+respondeu o côro; e os tres proscriptos se retiraram, deixando a salvo o
+seu thesoiro.
+
+Assim desappareceu do tumulo o corpo de San'Frei Gil de Santarem.
+
+Ninguem sabía d'elle: soube eu e guardei o segredo religiosamente.
+
+Os tempos são outros hoje: os liberaes ja conhecem que devem ser
+tolerantes, e que precisam de ser religiosos. Não ha perigo em dizer-lhe
+onde elle está.
+
+Quando houver em Portugal um govêrno que saiba ser govêrno, hade regular
+e consolidar a existencia das freiras, hade approveitá-la para as
+piedosas instituições do insino da mocidade, da cura dos infermos, e do
+amparo dos invalidos.
+
+Os barões andam-lhe com o cheiro nos poucos bens que lhes restam ás
+pobres das freiras. Mal do govêrno que deixar comer mais aos barões!
+
+
+
+
+CAPITULO XLI.
+
+
+ O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta perspicacia do
+ leitor benevolo.--Grande lacuna na nossa historia.--Porque se não
+ preenche?--Página preta na historia de Tristam Shandy.--Novellas e
+ romances, livros insignificantes.--O adro de San'Francisco e as
+ suas acacias.--Que será feito de Joanninha?--O peito da mulher do
+ norte.--Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas ruinas.--A
+ corneta do soldado e a trombeta do juizo final.--Eheu, Portugal,
+ eheu!
+
+
+Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho que vai de noite roubar os
+ossos do sancto ao seu tumulo, e os vem esconder na clausura das
+freiras, porcerto, digo, reconheceu ja a tua natural perspicacia ao
+nosso Frei Diniz, o frade por excellencia--frade por teima e acinte.
+
+Pois esse era, não ha dúvida.
+
+Assim se passou aquella scena e assim m'a contaram. Do que mediára entre
+ella e o acontecido com o frade, Carlos, Joanninha, a avó e a ingleza,
+d'isso é que nada pude saber.
+
+É uma grande lacuna na nossa historia; mas antes fique assim do que
+enchê-la de imaginação.
+
+Oh! eu detesto a imaginação.
+
+Onde a chronica se calla e a tradição não falla, antes quero uma pagina
+inteira de pontinhos, ou toda branca--ou toda preta, como na veneravel
+historia do nosso particular e respeitavel amigo Tristão Shandy, do que
+uma so linha da invenção do chroniqueiro.
+
+Isso é bom para novellas e romances, livros insignificantes que todos
+leem todavia, ainda os mesmos que o negam.
+
+Eu tambem me parece que os leio, mas vou sempre dizendo que não...
+
+Emfim, tornemos ao frade, e tornemos ás minhas viagens.
+
+Cheio d'elle e da sua memoria, palpitando com a recordação das tremendas
+scenas que, havia tam poucos annos, se tinham passado em seu antigo
+mosteiro, eu me approximei emfim do real convento de San'Francisco de
+Santarem.
+
+Dei pouca attenção ao bello adro e á solemne vista que d'elle se
+descobre--e menos ainda ás doentias acacias que ahi vejetam infezadas e
+rachiticas, como plantadas de má mão e em má hora--porque môças são
+ellas, é visivel: poseram-n'as ahi depois de extincto o convento. São
+triste mas verdadeiro symbolo da apagada e facticia vida que se quiz dar
+ao que era morto.
+
+Vamos dentro, e vejamos pelas baixas e aguçadas arcadas do claustro,
+pelas altas naves do templo se descubrimos algum vestigio do último
+guardião d'esta casa, e d'essa fadada familia cujo destino em hora
+aziaga tam estreitamente se ligou com o d'elle.
+
+Ja me interessa isto mais, confesso, ai! muito mais, do que todos esses
+tumulos e inscripções que por ahi estão, e que tanto characterizam este
+um dos mais antigos e mais historicos edificios do reino.
+
+Mas em vão interrogo pedra a pedra, lage a lage: o echo morto da solidão
+responde tristemente ás minhas perguntas, responde que nada sabe, que
+esqueceu tudo, que aqui reina a desolação e o abandôno, e que se
+apagaram todas as lembranças de outro estado...
+
+Que foi feito de ti, Joanninha, e dos teus amores? Que será feito d'esse
+homem que ousou amar-te amando a outra? E essa outra onde está?
+Resignou-se ella devéras? Sepultou comeffeito, sob o gêlo apparente que
+veste de triplice mas falsa armadura o peito da mulher do norte, todo
+aquelle fogo intenso e íntimo que solapadamente lhe devora o coração?
+
+Não tenho esperanças de saber nada d'isso aqui.
+
+So pude descubrir que, no dia immediato á scena nocturna das Claras, Fr.
+Diniz sahiu de Santarem, não se sabe em que direcção--que n'esse mesmo
+dia Georgina sahíra tambem pela estrada de Lisboa, levando em sua
+carruagem a avó e a neta, ambas meias mortas e ambas meias loucas--que
+não houvera mais novas de Carlos--e que a sua última carta, aquella que
+escrevêra de juncto d'Evora, Joanninha a levava apertada nas mãos
+convulsas quando partíra.
+
+Pois tambem eu me quero partir, me quero ir embora. Ja me infada
+Santarem, ja me cansam éstas perpétuas ruinas, estes pardeiros
+interminaveis, o aspecto desgracioso d'estes intulhos, a tristeza
+d'estas ruas desertas. Vou-me embora.
+
+E comtudo San'Francisco é uma bella ruina, que merecia examinada de
+vagar, com outra paciencia que eu ja não tenho.
+
+Se tudo me impacienta aqui!
+
+Da bella egreja gothica, fizeram uma arrecadação milítar; andou a mão
+destruidora do soldado quebrando e abolando esses monumentos preciosos,
+riscando com a baioneta pelo verniz mais pulido e mais respeitado
+d'esses jazigos antiquissimos: os lavores mais delicados esmoucou-os,
+degradou-os. Levantaram as lages dos sepulchros; e ao som da corneta
+militar acordaram os mortos de seculos, cuidando ouvir a trombeta
+final...
+
+Decididamente vou-me embora, não posso estar aqui, não quero ver isto.
+Não é horror que me faz, é náusea, é asco, é zanga.
+
+Maldittas sejam as mãos que te profanaram, Santarem... que te
+deshonraram, Portugal... que te invilleceram e degradaram, nação que
+tudo perdeste, até os padrões da tua historia!..
+
+Eheu, eheu, Portugal!
+
+
+
+
+CAPITULO XLII.
+
+
+ Protesto do auctor.--Desaffinação dos nervos.--O que é preciso para
+ que as ruinas sejam solemnes e sublimes.--Que Deus está no Colliseu
+ assím como em San'Pedro.--Quer-se o auctor ir embora de
+ Santarem.--Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?--Em que
+ estado se acha este.--Exemplar de stylo byzantino.--Coroa real
+ sôbre a caveira.--O rei d'espadas e o symbolo do imperio.--Quem
+ nunca viu o rei cuida que é de oiro.--Brutalidades da soldadesca
+ n'um tumulo real.--O que se acha nas sepulturas dos reis.--A
+ phrenologia.--Vindicta publica, tardia mas ultrajante.--Camões e
+ Duarte Pacheco.--A sombra falsa da religião.--Regimen dos barões e
+ da materia.--A prosa e a poesia do povo.--Synthese e analyse.--O
+ senso íntimo.--Se o auctor é demagogo ou Jesuita?--Jesu Christo e
+ os barões.
+
+
+Não chamem exaggerado ao que vai escripto no fim do último capitulo;
+senti o que escrevi, senti muito mais do que escrevi. O que poderá haver
+é desacêrto nas palavras, porque em verdade não sei explicar a impressão
+que me faz uma ruina n'este estado. Desaffinam-me os nervos, vibram-me
+n'uma discordancia e dissonancia insupportavel. Queria ver antes estes
+altares expostos ás chuvas e aos ventos do ceo,--que o sol os queimasse
+de dia,--que á noite, á luz branca da lua, ou ao tibio reflexo das
+estrellas, piasse o mocho e sussurrasse a coruja sôbre seus arcos
+meio-cahidos.
+
+Não me parecia profanado o templo assim, nem descahido de majestade o
+monumento. Podia ajoelhar-me no meio das pedras sôltas, entre as hervas
+humidas, e levantar o meu pensamento a Deus, o meu coração á glória, á
+grandeza, o meu espirito ás sublimes aspirações da idealidade. O
+material, o grosseiro, o pesado da vida não me vinham affligir ahi.
+
+Deus, a idea grande do mundo--Deus, a Razão Eterna--Deus, o amor--Deus,
+a glória--Deus, a fôrça, a poesia e a nobreza d'alma--Deus está nas
+ruinas escalavradas do Colliseu, como nos zimborios de bronze e marmore
+de San'Pedro.
+
+Mas aqui!.. nos pardeiros de um convento velho, concertado pelas
+Obras-públicas para servir de quartel de soldados--aqui não habita
+espirito nenhum.
+
+Quero-me ir embora d'aqui!
+
+E como? sem ver o tumulo d'elrei Fernando? Não póde ser, é verdade.
+
+Onde está elle?
+
+No côro alto.
+
+Subamos ao côro alto.
+
+ Oh! que não sei de nôjo como o conte!
+
+O bello jasigo do rei formoso e frivolo, tam dado ás delicias do prazer
+como foi seu pae ás austeridades da justiça, em que estado elle está!
+
+Oh nação de barbaros! Oh malditto povo de iconoclastas que é este!
+
+O tumulo do segundo marido de D. Leonor Telles é um sarcophago de pedra
+branca, fina e friavel, elegante e simplesmente cortada, com mais
+sobriedade de ornatos do que tem de ordinario os monumentos do seculo
+XIV, mas de uma acabada sculptura, casta e continente, como o não foi a
+vida do rei que ahi incerraram depois de morto.
+
+Percebem-se ainda vestigios das vivas côres em que foram induzidos os
+relevos da pedra branca:--stylo byzantino de que não sei outro exemplar
+em Portugal. Este é--ou antes, era--precioso.
+
+Era; porque a brutalidade da soldadesca o deturpou a um ponto incrivel.
+Imaginou a estupida cubiça d'estes Allanos modernos que devia de estar
+alli dentro algum grande haver de riquezas incantadas,--talvez cuidaram
+achar sôbre a caveira do rei a coroa real marchetada de perolas e rubis
+com que fosse interrado,--talvez pensaram incontrar appertado ainda
+entre as sêccas phalanges dos dedos myrhados, aquelle globo de oiro
+macisso que lhes figura o rei d'espadas do sujo baralho de sua tarimba,
+e que elles teem pela indisputavel e infallivel insignia do supremo
+imperio;--talvez supposeram que mesmo depois de morto, um rei devia de
+ser de oiro... Emfim quem sabe o que elles cuidaram e pensaram? O que se
+sabe, porque se ve, é que quizeram abrir e arrombar o tumulo. Tentaram,
+primeiro, levantar a campa; não poderam: tam solidamente está soldada a
+pedra decíma ao corpo ou caixão do jazigo, que o todo parece macisso e
+inconsutil. Mas n'este impenho quebraram e estallaram os lavores finos
+dos cantos, os caireis delicados das orlas; e a campa não cedeu: parece
+chumbada pelo anjo dos últimos julgamentos com o sêllo tremendo que so
+se hade quebrar no dia derradeiro do mundo.
+
+A cubiça estolida dos soldados não se aterrou com a religião do
+sepulchro, nem lhe causou attrição, ao menos, ésta resistencia quasi
+sobrenatural das pedras do moimento. Ve-se que trabalhou alli, de
+alavanca e de ariete, algum possante e ponderoso pé-de-cabra; mas que
+trabalhou em vão muito tempo.
+
+Desinganaram-se emfim com a tampa; e resolveram atacar, mais brutalmente
+mas com mais vantagem, as paredes do sarcophago, que justamente
+suspeitaram de menos espessos. Assim era; e conseguiram na parede da
+frente abrir um rombo grosseiro por onde entra facil um braço todo e
+póde explorar o interior do tumulo á vontade.
+
+Assim o fiz eu, que metti o meu braço por essa abertura barbara, e achei
+terra, pó, alguns ossos de vertebras, e duas caveiras, uma de homem,
+outra de criança.
+
+Não me lembra que haja memoria alguma de infante que ahi fosse sepultado
+tambem, segundo faziam os antigos muitas vezes que punham os cadaveres
+das crianças nos jazigos dos paes, dos parentes, até de meros amigos de
+suas familias.
+
+Tive, confésso, uma especie de prazer maligno em imaginar a estupida
+compridez de cara com que deviam de ficar os brutaes profanadores,
+quando achassem no tumulo do rei o que so teem os tumulos--de reis ou de
+mendigos--ossos, terra, cinza, nada!
+
+Por mim, estive tentado a furtar a caveira d'elrei D. Fernando. Se
+acreditasse na phrenologia, parece-me que não tinha resistido. Não creio
+na sciencia, felizmente--n'este caso--para a minha consciencia. Tambem
+não sei o que faria se a caveira fosse de outro homem. Mas o 'fraco rei'
+que fez 'fraca a forte gente' não são reliquias as suas que se guardem.
+
+Oh! e quem sabe? Ésta profanação, este abandôno, este desacato do tumulo
+de um rei, alli na sua terra predilecta--D. Fernando era santareno de
+affeição--não será elle o juizo severo da posteridade, a vindicta
+pública dos seculos, que tardia mas ultrajante, cai emfim sôbre a
+memoria reprovada do mau principe, e lhe deshonra as cinzas como ja lhe
+deshonrára o nome?
+
+Quero acreditar que tal não podia succceder aos tumulos de D. Diniz, de
+D. Pedro I, dos dois Joannes I e II, de...
+
+Sim: e aonde está o de Camões? O de Duarte Pacheco aonde _esteve_? que
+ainda é mais vergonhosa pergunta ésta última.
+
+Em Portugal não ha religião de nenhuma especie. Até a sua falsa sombra,
+que é a hypocrisia, desappareceu. Ficou o materialismo estupido, alvar,
+ignorante, devasso e desfaçado, a fazer gala de sua hedionda nudez
+cynica no meio das ruinas profanadas de tudo o que elevava o espirito...
+
+Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar por melhor tempo,
+apezar d'esta paralysia que lhe pasma a vida d'alma na mais nobre parte
+de seu corpo. Mas uma nação piquena, é impossivel; hade morrer.
+
+Mais dez annos de barões e de regimen da materia, e infallivelmente nos
+foge d'este corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do
+espirito.
+
+Creio isto firmemente.
+
+Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo povo, está são:
+os corruptos somos nós os que cuidâmos saber e ignorâmos tudo.
+
+Nós, que somos a prosa vil da nação, nós não intendemos a poesia do
+povo; nós, que so comprehendemos o tangivel dos sentidos, nós somos
+extranhos ás aspirações sublimes do senso-íntimo que despreza as nossas
+theorias presumpçosas, porque todas veem de uma acanhada anályse que
+procede curta e mesquinha dos dados materiaes, insignificantes e
+imperfeitos;--em quanto elle, aquelle senso-íntimo do povo, vem da Razão
+divina, e procede da synthese transcendente, superior, e inspirada pelas
+grandes e eternas verdades que se não demonstram porque se sentem.
+
+E eu que escrevo isto serei eu demagogo? Não sou.
+
+Serei fanatico, jesuita, hypocrita? Não sou.
+
+Que sou eu então?
+
+Quem não intender o que eu sou, não vale a pena que lh'o diga...
+
+Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim d'este capítulo ja
+tam seccante, e prometto não reflectir nunca mais.
+
+Jesu Christo, que foi o modêlo da paciencia, da tolerancia, o verdadeiro
+e unico fundador da liberdade e da egualdade entre os homens, Jesu
+Christo soffreu com resignação e humildade quantas injustiças, quantos
+insultos lhe fizeram a elle e á sua missão divina; perdoou ao matador, á
+adúltera, ao blasphêmo, ao impio. Mas quando viu os barões a agiotar
+dentro do templo, não se pôde conter, pegou n'um azorrague e zurziu-os
+sem dor.
+
+
+
+
+CAPITULO XLIII.
+
+
+ Partida de Santarem.--Pinacotheca.--Impaciencia e
+ saudades.--Sexta-feira.--Martyrio obscuro.--A figura do
+ peccado.--Estamos no valle outra vez.--Evocação de incanto.--A
+ irman Francisca e Fr. Diniz.--A teia de Penelope.--E
+ Joanninha?--Joanninha está no ceo.--A mulher morta a dobar
+ esperando que a interrem.--A esperança, virtude do
+ christianismo.--Uma carta.
+
+
+Estou devéras fatigado de Santarem; vou-me embora.
+
+Despedimo'-nos saudosos d'aquella boa e leal familia que nos hospedára
+com tanto carinho, com toda a velha cordialidade portugueza; partimos.
+
+Apenas comecei a respirar o ar fresco da manhan nos olivaes, senti
+desaffogar-se-me alma d'aquella constricção cansada que se experimenta
+na longa visita a um museu de antiguidades, a uma galeria de pinturas.
+
+Perdoem-me que não diga 'pinacotheca': bem sei que é moda, e que a
+palavra é adoptavel segundo as mais strictas regras de Horacio, pois
+'cai da fonte grega' direitamente e sem mistura: mas soa-me tam mal em
+portuguez que não posso com ella.
+
+Santarem fatigou-me o espirito, como todas as coisas que fazem pensar
+muito. Deixo-a porêm com saudade, e não me heide esquecer nunca dos dias
+que aqui passei.
+
+De quê e como sou eu feito, que não posso estar muito tempo n'um logar,
+e não posso sahir d'elle sem pena?
+
+Ja me está custando ter deixado Santarem. Porque não haviamos de partir
+ámanhan, e ter ficado ainda hoje alli?
+
+E hoje que é sexta-feira?... Mau dia para começar viagem!
+
+Sexta-feira! Era o dia aziago do nosso valle, da pobre velha cega que
+ahi vivia sua triste vida de dores, de remorsos e desconfôrto, esperando
+porêm em Deus, conformada com seu martyrio: martyrio obscuro, mas tam
+insanguentado d'aquelle sangue que mana gotta a gotta e dolorosamente do
+coração rasgado, devorado em silencio pelo abutre invisivel de uma dor
+que se não revela, que não tem prantos nem ais.
+
+Era na sexta-feira que o terrivel frade, o demonio vivo d'aquella mulher
+de angústias, lhe apparecia tremendo e espantoso deante de seus olhos
+cegos, elevado pela imaginação ás proporções descommunaes e gigantescas
+de um vingador sobrenatural.
+
+Era a figura tangivel, e visivel á vista de sua alma, do enorme peccado
+que contra ella estava sempre.
+
+Creio que escuso dizer que não tenho eu ésta superstição dos dias
+aziagos que tinha a desgraçada velha, que a sua Joanninha partilhava.
+Mas confesso que, recordando as fatalidades d'aquella familia e
+d'aquelle dia, não gostei de voltar n'elle ao valle de Santarem.
+
+Estavamos porêm no valle; e ja eu via de longe aquellas árvores e
+aquella janella que tanto me impressionaram, quando éstas reflexões me
+acudiam ao espirito e m'o contristavam.
+
+Affrouxei insensivelmente o passo, deixei tomar larga dianteira aos meus
+companheiros de viagem; e quando chegava perto da casa, tinha-os perdido
+de vista.
+
+Involuntariamente parei defronte da janella; mordia-me um interêsse, uma
+curiosidade irresistivel... Nem viva alma por aquelles arredores;
+apeei-me e fui direito para a casa.
+
+Apenas passei as árvores, um spectaculo inesperado, uma evocação como de
+incanto me veio ferir os olhos.
+
+No mesmo sítio, do mesmo modo, com os mesmos trajos e na mesma attitude
+em que a descrevi nos primeiros capitulos d'esta historia, estava a
+nossa velha irman Francisca...
+
+Ella era, e não podia ser outra; sentada na sua antiga cadeira, dobando,
+como Penelope tecia, a sua interminavel meada. Não havia outra
+differença agora senão que a dobadoira não parava, e que o fio seguia,
+seguia, inrollando-se, inrollando-se contínuo e compassado no novêllo; e
+que os braços da velha lidavam lentamente mas sem cessar no seu
+movimento de authomato que fazia mal ver.
+
+Defronte d'ella, sentado n'uma pedra, a cabeça baixa, e os olhos fixos
+n'um grosso livro velho, que sustinha nos joelhos, estava um homem sêcco
+e magro, descarnado como um esqueleto, livido como um cadaver, immovel
+como uma estátua. Trajava um non-descriptum negro, que podia ser sotana
+de clerigo ou tunica de frade, mas descingida, sôlta, e pendente em
+grossas e largas pregas do extenuado pescosso do homem.
+
+Tambem não podia ser senão Frei Diniz.
+
+Cheguei juncto d'elles; não me sentiu nenhum dos dois; nem me viu elle,
+o que so via dos dois.
+
+Sem mais reflexão, e continuando alto na serie de pensamentos que me
+vinha correndo pelo espirito, exclamei:
+
+--'E Joanninha?'
+
+--'Joanninha está no ceo':--respondeu sem sobresalto, sem erguer os
+olhos do seu livro, a sombra do frade--que outra coisa não parecia.
+
+--'Joanninha, pobre Joanninha! Pois como foi, como acabou a infeliz?'
+
+--'Joanninha não é infeliz: foi ser anjo na presença de Deus.'
+
+--'E... e Carlos?' balbuciei eu hesitando, porque temia a
+susceptibilidade do frade.
+
+--'Carlos!' respondeu elle erguendo emfim os olhos e cravando-os em
+mim...
+
+E oh! que nunca vi olhos como aquelles, nem os heide ver!
+
+--'Carlos!... E quem é que m'o pergunta? quem é que tanto sabe de mim e
+dos meus?.. Dos meus! Eu não tenho meus: sou so.'
+
+--'So! Não está aqui, que eu vejo?..'
+
+--'Ve essa mulher morta que ahi ficou, que a matei eu, e que aqui está á
+espera que dê a hora de a eu interrar, mais nada. Eu estou so e quero
+estar so. Morreu tudo. Que mais quer saber?'
+
+--'Venho de Santarem...'
+
+--'Santarem tambem morreu; e morreu Portugal. Aqui não, vive senão o meu
+peccado, que Deus não perdoou ainda, nem espero...'
+
+--'A nossa religião fez uma virtude da esperança.'
+
+--'Fez.'
+
+--'E n'isso se distingue das outras todas.'
+
+--'Pois ainda ha quem o saiba n'esta terra?'
+
+--'Ha mais do que não houve nunca--pelo menos ha mais quem o saiba
+melhor.'
+
+--'Póde ser: os juizos de Deus são incomprehensiveis.'
+
+--'E infinita a sua misericordia.'
+
+--'Mas a sua cholera implacavel, a sua justiça tremenda.'
+
+--'A misericordia é maior.'
+
+--'Quem lhe insinou tudo isso?'
+
+--'O evangelho, o coração, e minha mãe que m'os explicou ambos.'
+
+--'Sente-se aqui... aopé de mim.'
+
+Sentei-me. O frade pegou-me na mão com as suas ambas, e pôs-me os olhos
+com uma expressão que nenhuma lingua póde dizer, nem nenhum pincel
+pintar.
+
+Esteve assim algum tempo, como quem me observava. Vi-lhe apontar
+claramente uma lagryma, vi-lh'a retroceder, e ficarem-lhe inchutos os
+olhos. Senti-lhe estrangular um suspiro que lhe vinha á garganta;
+percebi distinctamente o estremeção que lhe correu o corpo; mas observei
+que todo se serenou depois.
+
+Disse-me então com voz magoada mas placida e sem aspereza ja nenhuma:
+
+--'Sabe a historia do valle?'
+
+--'Sei tudo até á partida de Carlos para Evora.'
+
+--'Aqui tem a carta que elle escreveu.'
+
+Tirou do breviario um papel dobrado, amarello do tempo, e manchado, bem
+se via, de muitas lagrymas, algumas recentes ainda.
+
+--'Leia.'
+
+Li.
+
+Ésta era a carta de Carlos.
+
+
+
+
+CAPITULO XLIV.
+
+
+ Carta de Carlos a Joanninha.
+
+
+
+
+ Evora-monte...
+ de maio de 1834.
+
+
+É a ti que escrevo, Joanna, minha irman, minha prima, a ti so.
+
+Com nenhum outro dos meus não posso nem ouso fallar.
+
+Nem eu ja sei quem são os meus: confunde-se, perde-se-me ésta cabeça nos
+desvarios do coração. Errei com elle, perdeu-me elle... Oh! bem sei que
+estou perdido.
+
+Perdido para todos, e para ti tambem. Não me digas que não; tens
+generosidade para o dizer, mas não o digas. Tens generosidade para o
+pensar, mas não pódes evitar de o sentir.
+
+Eu estou perdido.
+
+E sem remedio, Joanna, porque a minha natureza é incorrigivel. Tenho
+energia de mais, tenho podêres de mais no coração. Estes excessos d'elle
+me mataram... e me matam!
+
+Tu não comprehendes isto, Joanninha, não me intendes decerto; e é
+difficil.
+
+Es mulher, e as mulheres não intendem os homens. Sempre o entrevi, hoje
+sei-o perfeitamente. A mulher não póde nem deve comprehender o homem.
+Triste da que chega a sabê-lo!..
+
+E d'ahi... quando se tem de morrer, antes saber a morte de que se morre,
+do que expirar na ignorancia do mal que nos matou.
+
+Tu es joven e inexperiente, a tua alma está cheia de illusões doces; vou
+dissipar-t'as em quanto se não condensam, que te offusquem a razão e te
+deixem para sempre escrava cega do maior inimigo que temos, o coração.
+
+Quero contar-te a minha historia: verás n'ella o que vale um homem.
+
+Sabe que os não ha melhores que eu; e tam bons, poucos. Olha o que será
+o resto!
+
+Tu não ignoras ja hoje o porque fugi da casa materna: sabía-a manchada
+de um grande peccado, e imaginei-a polluida de um enorme crime.
+
+Esse homem que é meu pae, não o podia ver; hoje que sei o que me elle
+é... Deus me perdoe, que ainda o posso ver menos!
+
+Minha avó, julguei-a cumplice no crime; ella so o era no peccado.
+Perdoe-lhe Deus; e bem póde e bem deve, ja que a fez tam fraca. Minha
+pobre mãe succumbiu por sua culpa, por sua irremissivel complacencia...
+
+Deus póde e deve, repitto... mas eu, como lhe heide perdoar eu este
+rubor que sinto nas faces ao nomear minha mãe?
+
+Tem padecido e soffrido muito... coitada! A sua penitencia é um
+martyrio, a sua velhice uma longa paixão, e esse homem que a perdeu um
+verdugo sem piedade. Mas tudo isso é com Deus, não é commigo.
+
+Eu sou filho; minha mãe morreu sem perdoar--não posso perdoar eu.
+
+E quem me hade perdoar a mim? Ninguem, nem quero.
+
+Não serás tu, minha irman; não, que não deves. Porque eu amei-te com um
+coração que ja não era meu; acceitei o teu amor sem o merecer, sem o
+podêr possuir, trahi quando te amava, menti quando t'o disse, menti-te a
+ti, menti-me a mim, e não guardei verdade a ninguem.
+
+Mas espera, ouve; deixa-me ver se posso atar o fio d'esta minha incrivel
+historia--incrivel para ti, bem simples para quem conheça o coração do
+homem.
+
+Sahi de Portugal, e posso dizer que não tinha amado ainda. Inclinações
+de criança, galanteios de sociedade, ligações que nasceram da vaidade,
+ou que so os sentidos alimentam, não merecem o nome de amor.
+
+Eu não tinha amado.
+
+Ha tres especies de mulheres n'este mundo: a mulher que se admira, a
+mulher que se deseja, e a mulher que se ama.
+
+A belleza, o espirito, a graça, os dotes d'alma e do corpo geram a
+admiração.
+
+Certas fórmas, certo ar voluptuoso criam o desejo.
+
+O que produz o amor não se sabe; é tudo isto ás vezes, é mais do que
+isto, não é nada d'isto.
+
+Não sei o que é; mas sei que se póde admirar uma mulher sem a desejar,
+que se póde desejar sem a amar.
+
+O amor não está definido, nem o póde ser nunca. O amor verdadeiro; que
+as outras coisas não são isso.
+
+Eu vivi poucos mezes em Inglaterra; mas foram os primeiros que posso
+dizer que vivi. Levou-me o acaso, o destino--a minha estrella, porque eu
+ainda creio nas estrellas, e em pouco mais d'este mundo creio
+ja--levou-me ao interior de uma familia elegante, ricca de tudo o que
+póde dar distincção n'este mundo.
+
+Extranhei aquelles habitos de alta civilização, que me agradavam
+comtudo; moldei-me facilmente por elles, affiz-me a vejetar docemente na
+branda atmosphera artificial d'aquella estufa sem perder a minha
+natureza de planta extrangeira. Agradei: e não o merecia. No fundo
+d'alma e de character eu não era aquillo por que me tomavam. Menti: o
+homem não faz outra coisa. Eu detesto a mentira, voluntariamente nunca o
+fiz, e todavia tenho levado a vida a mentir.
+
+Menti pois, e agradei porque mentia. Sancto Deus! para que sahiria a
+verdade da tua bôcca, e para que a mandaste ao mundo, Senhor?
+
+Havia tres meninas n'aquella familia. Dizer que eram as tres graças é
+uma vulgaridade cansada, e tam bannal que não dá idea de coisa alguma.
+Tres anjos seriam; tres anjos posso dizer com mais propriedade. E quando
+em nossos longos passeios solitarios, por aquelles campos sempre verdes,
+por aquellas collinas coroadas de arvoredo, tapessadas de relva macia,
+os seus vestidos brancos, singelos, simples, trajados sem arte,
+fluctuavam com a brisa da tarde... e os longos anneis de seus
+cabellos--os de uma eram loiros, os de outra castanhos, não ha nome para
+a indefinida côr dos da terceira--quando esses longos anneis descahiam
+de sua ondada spiral com o orvalho humido do crepusculo--e que a essa
+luz vaga e mysteriosa eu as contemplava todas tres com adoração e
+recolhimento devoto d'alma--sinceramente exclamava: 'São tres anjos
+celestes que é forçoso adorar!..'
+
+E assim é que os adorava os tres anjos, todos tres, e não podia adorar
+um sem os outros.
+
+Que me queriam ellas, é certo; que insensivelmente se habituaram á minha
+companhia e ja não podiam viver sem ella... ai! era preciso ser um
+monstro para o não confessar com lagrymas de gratidão e de remorso.
+
+Os mais difficeis e delicados apices da perfeição de sua tam caprichosa
+e tam expressiva lingua, as bellezas mais sentidas de seus auctores
+queridos, o espirito e tom difficil de sua sociedade tam desdenhosa e
+fastienta, mas tam completa e tam calculada para sublimar a vida e a
+desmaterializar--isso tudo, e um indefinivel sentimento do _gentil_, que
+so com natural tacto se adquire, é verdade, mas que se não alcansa com
+elle so--isso tudo o apprendi alli das suaves licções que
+insensivelmente recebia a cada instante.
+
+Se valho alguma coisa, tudo valho por ellas; se tenho merecido alguma
+consideração no mundo, toda lh'a devo.
+
+Ves que confesso a dívida, verás como a paguei.
+
+O tom perfeito da sociedade ingleza inventou uma palavra que não ha nem
+póde haver n'outras linguas emquanto a civilização as não aparar. _To
+flirt_ é um verbo innocente que se conjuga alli entre os dois sexos, e
+não significa _namorar_--palavra grossa e absurda que eu detesto--não
+significa 'fazer a côrte'; é mais do que estar amavel, é menos do que
+galantear, não obriga a nada, não tem consequencias, começa-se,
+acaba-se, interrompe-se, addia-se, continúa-se ou descontinúa-se á
+vontade e sem compromettimento.
+
+Eu _flartava_, nós _flartavamos_ ellas _flartavam_...
+
+E não ha mais doce nem mais suave intertenimento d'espirito do que o
+_flartar_ com uma elegante e graciosa menina ingleza; com duas é prazer
+angelico, e com tres é divino.
+
+Para quem nasceu n'aquillo, não é perigoso; para mim degenerou, breve,
+aquella placida sensação em mais profundo sentimento.
+
+Veio a admiração primeiro.
+
+E como as eu admirava todas tres as minhas gentis fascinadoras!
+
+E ellas conheciam-n'o, riam, folgavam e estavam incantadas de me
+incantar.
+
+Fizeram nascer os desejos!
+
+Julguei-me perdido, e quiz fugir.
+
+Não me deixaram e zombaram de mim, da ardencia do meu sangue hespanhol,
+da vehemencia das minhas sensações...
+
+Em breve eu amava perdidamente uma d'ellas--queria muito ás outras duas;
+mas amar, amar devéras, d'alma cuidava eu, de coração ia jurá-lo, era a
+segunda--Laura, a mais gentil, mais nobre, mais elegante e radiosa
+figura de mulher que creio que Deus moldasse n'uma hora de verdadeiro
+amor de artista que se dignou tomar por esse pouco de greda que tinha
+nas mãos ao formá-la.
+
+
+
+
+CAPITULO XLV.
+
+
+ Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
+
+
+Laura não era alta nem baixa, era forte sem ser gorda, e delicada sem
+magreza. Os olhos de um côr-de-avelan diaphano, puro, avelludado,
+grandes, vivos, cheios de tal majestade quando se iravam, de tal doçura
+quando se abrandavam, que é difficil dizer quando eram mais bellos. O
+cabello quasi da mesma côr tinha, demais, um reflexo dourado,
+vacillante, que ao sol resplandecia, ou antes, relampejava,--mas a
+espaços, não era sempre, nem em todas as posições da cabeça:--cabeça
+pequena, modelada no mais classico da statuaria antiga, poisada sôbre um
+collo de immensa nobreza, que harmonizava com a perfeição das linhas dos
+hombros.
+
+A cintura breve e estreita, mas sem exaggeração, via-se que o era assim
+por natureza e sem a menor contrafeição d'arte. O pé não tinha as
+exiguidades fabulosas da nossa peninsula, era proporcionado como o da
+Venus de Medicis.
+
+Tenho visto muita mulher mais bella, algumas mais adoraveis, nenhuma tam
+fascinante.
+
+Fascinante é a palavra para ella.
+
+O rosto oval e perfeitamente symetrico, pallido; so os beiços eram
+vermelhos como a rosa de côr mais viva.
+
+A expressão de toda ésta figura é que se não descreve. A bôcca breve e
+fina surria pouco; mas quando surria, oh!..
+
+Ve-la n'um baile, vestida e calçada de branco, cingida com um cinto de
+vidrilhos pretos--toilete inalteravel para ella desde certa epocha--sem
+mais ornato, sem mais flores, apenas um farto fio de perolas
+derramando-se-lhe pelo collo--era ver alguma coisa de superior, de mais
+sublime que uma simples mulher.
+
+Tal era Laura, Laura que eu amei quanto podia e sabía amar. Era pouco,
+sei-o agora; entao parecia-me infinito.
+
+Disse-lh'o a ella, disse-lh'o um dia que passeavamos sós, e depois de
+andarmos horas e horas esquecidas, sem trocar uma phrase. Pensavamos, eu
+n'ella, ella não sei em quê.
+
+Sería em mim?
+
+Sería mas não m'o confessou.
+
+E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar para mim uma so vez, sem fugir
+com a mão que lhe eu appertava, que lhe beijava, e que sentia fria e
+humida nas minhas que escaldavam.
+
+Era tarde, dirigimo'-nos para casa. Á porta disse-me: 'Não entre'; e
+vi-a banhada em lagrymas. Quiz segui-la, fez-me um gesto imperioso que
+me confundiu. Pela primeira vez, depois de tanto tempo, fui so, triste e
+melancholico para a minha pobre habitação, onde passei a noite.
+
+Quando era madrugada quiz-me deitar. Não dormi.
+
+No dia seguinte recebi uma carta de Julia: assim se chamava a mais
+velha, a mais sensivel e a mais carinhosa das tres irmans.
+
+O bilhete parecia indifferente; não continha senão palavras usuaes,
+pedia-me que fosse almoçar com ella... não fallava nas irmans.
+
+Senti que era chegada a minha hora, pareceu-me que ia ser expulso
+d'aquelle Eden de innocencia em que tinha vivido. A lettra de Julia, uma
+lettra linda, perfeita, natural, figurava-se-me um aggregado de signaes
+caballisticos terriveis que incerravam o mysterio da minha condemnação.
+
+Vesti-me, fui, achei-me so com Julia no _parlour_ elegante de seu
+exclusivo uso.
+
+Era um pequeno gabinete de estudo, ornado somente de umas _etagères_ com
+livros e musicas, uma harpa e um cavallete.
+
+Sôbre o cavallete estava o meu retratto esboçado, na estante da harpa
+uma romança franceza a que eu tinha feito lettras portuguezas...
+
+A urna asoviava sôbre a mesa, Julia fazia o cha e não parecia attender a
+mais nada.
+
+É preciso que eu te descreva a piquena Julia--Julietta como nós lhe
+chamavamos--nós, as duas irmans e eu que rivalizavamos a qual lhe havia
+de querer mais...
+
+Oh! que saudade e que remorso para toda a minha vida n'estas recordações
+de fraternal intimidade!
+
+Julia era piquena, delicadissima, propriamente infantina no rosto, na
+figura, na expressão e no hábito de toda a sua incantadora e diminutiva
+pessoa.
+
+Nenhuma ingleza, desde o tempo da rainha Bess, teve pé e _ancle_ mais
+delicado. Nenhuma, desde o rei Alfredo, se occupou tam elegantemente dos
+elegantes cuidados de um interior britannico--gentil quadro 'de genero'
+como não ha outro.
+
+Lady Julia R. era a mais piquena e a mais bonita subdita britannica que
+eu creio que tenha existido.
+
+Vista á lua, no meio do seu parque, volteiando por entre os raros
+exoticos que no curto verão inglez se expoem ao ar livre, facilmente se
+tomava pela bella soberana das fadas realizando aquella preciosa visão
+de Shakspeare, o 'Midsumer night's dream.'
+
+Seus olhos de azul celeste, sempre humidos e sempre doces, os cabellos
+de um claro e assedado castanho todos soltos em anneis á roda da cabeça
+e cahindo pelos hombros, espalhando-se pelo rosto, que era uma lida
+contínua para os tirar dos olhos, um corpo airoso, uma bôcca de beijar,
+os dentes miudos, alvissimos e apertados, a mão piquena estreita, e de
+cera--tudo isto fazia de Julia um typo ideal de bondade, de candura, de
+innocencia angelica.
+
+E era um anjo... oh se era!
+
+Contemplei-a muito tempo em silencio: ella surria-me tristemente de vez
+em quando, mas não fallava. Emfim almoçámos, levaram o trem.
+
+Ella disse á sua aia:
+
+--'Phebe, eu estou so com Carlos; e quero estar so. Em casa para
+ninguem.'
+
+--'Sim, minha senhora.' Resposta obrigada do criado inglez a tudo.
+
+E ficámos sos completamente.
+
+
+
+
+CAPITULO XLVI.
+
+
+ Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
+
+
+Julia levantou finalmente para mim os seus olhos humidos, assombrados
+das mais longas e assedadas pestanas que ainda vi em olhos de mulher, e
+disse-me:
+
+--'Carlos, eu estou triste. Devia consolar-me; diga-me alguma coisa que
+me console. Falle-me.'
+
+--'Que heide eu dizer?..'
+
+--'É um cavalheiro, Carlos: diga-me que o é, e desassombre-me d'este
+terror em que estou.'
+
+--'Pois duvída, Julia?..'
+
+--'Não duvido. Queremos-lhe todos muito aqui... muito demais... receio:
+como havemos de duvidar?'
+
+--'Oh Julia, perdoe-me!' exclamei eu lançando-me a seus pés, tomando-lhe
+as mãos ambas nas minhas, e beijando-lh'as mil vezes n'um paroxysmo de
+verdadeira contricção. 'Perdoe-me, Julia: bem sei que fiz mal, e
+prometto...'
+
+--'Não prometta nada, senão que hade ser cavalheiro. Isso sei eu e sinto
+que o póde cumprir.'
+
+--'Juro por... por ella.'
+
+--'Ella!.. Ella ama-o, Carlos. É melhor dizer a verdade de uma vez, e
+incarar todas as consequencias de uma posição difficil, do que
+illudir-se a gente sem as evitar. Laura ama-o, mas não deve nem póde
+amá-lo. Se fosse livre, não sei o que diria--não sei o que faria eu...
+Mas não se tratta de mim'--proseguiu com volubilidade febril--'não se
+tratta de mim, Carlos, tratta-se d'ella. Laura não o póde amar, está
+compromettida. Hade partir em tres mezes para a India.'
+
+--'Para a India!'
+
+--'Sim: é verdade: velo-ha. O seu noivo é capitão ao serviço da
+companhia, e parte em casando.'
+
+Eu sentia-me morrer o coração dentro do peito: foi a primeira dor
+verdadeira d'alma que soffri... Aquelle era o primeiro amor sincero da
+minha vida, e aquella foi tambem a primeira excruciante pena d'amor por
+que passei.
+
+Eu que de taes penas zombára sempre, que as desterrava da realidade para
+os romances, eu!.. Ai! que poeta ou que novellista soube nunca pintar um
+padecer como eu experimentei n'aquella hora?
+
+Não sei o que fiz nem o que disse; não me recordo senão que senti as
+lagrymas de Julia cahirem-me sôbre a face e misturarem-se com as minhas
+que corriam em abundancia. Levantei os olhos para ella, e a expressão
+que vi nos seus... oh! como a heide esquecer nunca?
+
+Quanto ha de piedade e compaixão no thesouro infinito de um coração
+feminino se derramava d'aquelles olhos celestes para me consolar. Lá não
+ficava senão uma tristeza profunda, desanimada e mortal...
+
+Não sei que vago pensamento, que idea louca... ou antes, que
+presentimento indeterminado e confuso me atravessou pelo espirito--ou
+sería pelo coração?--n'aquelle momento...
+
+Se Julia?..
+
+Mas não póde ser.
+
+--'Julia, Julia' bradei eu 'quero vê-la: heide vê-la uma vez ao menos.
+Não me negue este último favor. Sei que devo, que preciso, que é forçoso
+fugir d'ella. Mas antes heide dizer-lhe...'
+
+--'O quê?..'
+
+--'Que a amo como nunca amei, como nunca mais heide amar...'
+
+--'Ai Carlos!'
+
+--'Que para sempre, sempre...'
+
+Julia levantou-se sem dizer palavra, e lançando sôbre mim um olhar de
+ineffavel compaixão, sahiu rapidamente do quarto.
+
+Achei-me so, não sei o que pensei nem se pensei. Sentia-me aturdido da
+cabeça, exhausto do coração--n'uma depressão d'espirito que tocava na
+estupidez. Se me apontassem uma pistola aos peitos, não levantava o
+braço para a arredar... Ja não sentia pena nem desejo. Parecia-me que
+começava a morrer; e não achava que morrer custasse muito.
+
+N'este estado fiquei não sei que tempo; muito não foi. Percebi que se
+abria a porta, não tive fôrça para levantar os olhos. Até que senti uma
+doce e querida mão na minha... era Julia... e era Laura tambem... sancto
+Deus! que estavam aopé de mim ambas.
+
+Julia tinha a minha mão na sua; e Laura incostada ao hombro da irman,
+deixava cahir sôbre mim aquelles olhos em que a severidade habitual se
+tinha relaxado n'uma indulgencia tam doce, n'uma compaixão tam celeste
+que, juro por Deus, n'aquella hora acreditei firmemente que tinha deante
+de mim dous anjos seus, baixados nas azas da piedade divina para me
+trazer todo o perdão, toda a misericordia do ceo á minha alma.
+
+Como te direi eu, Joanna, querida Joanninha, como te direi a ti que me
+amas, a ti que eu amo--porque te amo, e Deus me castigue que deve!
+porque te amo, cegamente te amo com este infame e abominavel coração que
+Elle me deu--como te heide eu dizer a ti, e para quê, as palavras que
+alli dissemos, os protestos que alli fiz, os juramentos que alli se
+deram, as promessas que alli foram trocadas?
+
+Julia foi para a janella--indulgente chaperão que nos não via e fingia
+não nos ouvir. O dia passou-se assim, um longo dia de junho que tam
+curto e rapido nos pareceu. Era noite quando fomos jantar.
+
+Á mesa Laura appareceu em trajos de viagem; partia n'aquella noite para
+o paiz de Galles onde tinha uma amiga, com quem ia estar até o dia
+terrivel, e preparar-se para elle, me disse, longe de mim, no seio da
+amizade.
+
+Imagine-se aquelle jantar. Nem comer fingiamos. Ao sahir da mesa achámos
+á porta da casa a caleche posta, o cocheiro na almofada, e o criado á
+portinhola. Montámos, as tres irmans e eu.
+
+Eram duas milhas d'alli á estalagem onde tocava a malla-posta e onde
+Laura devia incontrá-la. Fizemo-las sem proferir palavra nenhum dos
+quatro.
+
+A lua ia grande e bella com sua luz triste e fria por um ceo sem nuvens.
+Era uma d'aquellas noites raras, mas admiraveis do breve estio
+britannico.
+
+A areia que rangia com o attrito das rodas da carruagem nas lisas ruas
+do parque, os ramos descahidos das árvores por que roçavamos levemente
+ao passar, os veados mansos que se levantavam para nos ver--os phaesães
+que erguiam seu rasteiro voo de moita para moita ao sentir o estalido do
+chicote, com que o cocheiro mais moderava do que excitava os seus
+cavallos, tudo para mim eram impressões de nunca sentida e inexplicavel
+tristeza. Ficava-me a alma apoz tudo aquillo, sentia fugir-me a
+felicidade para sempre, e que era eu que a affugentava, e que me ia
+incontrar so, desamparado e proscripto no deserto da vida.
+
+Não me sentia fôrça para blasphemar, para maldizer de Deus, senão
+tinha-o feito.
+
+Tinha: e outras ancias mais angustiadas e mortaes me teem afflicto na
+vida; em nenhuma me senti tam capaz de renegar de Deus e descrer d'elle
+como n'esta.
+
+Sería effeito de sua inexhaurivel piedade que talvez quiz acudir á minha
+alma antes que se perdesse, sería por certo--pois n'esse mesmo instante
+distinctamente me appareceu deante dos olhos d'alma a unica imagem que
+podia chamá-lo do abysmo: era a tua, Joanna! Era a minha Joanninha
+piquena, innocente, aquelle anginho de criança, tam viva, tam alegre,
+tam graciosa que eu tinha deixado a brincar no nosso valle: o nosso
+valle rustico, tam grosseiro e tam inculto! oh como as saudades d'elle
+me foram alcançar no meio d'aquellas allinhadas e perfeitas bellezas da
+cultura britannica! Os raios verdes de teus olhos, faiscantes como
+esmeraldas, atravessaram o espaço, e foram luzir no meio d'aquell'outros
+lumes que me cegavam. A esteva brava, o tojo aspero da nossa charneca
+mandavam-me ao longe as exhalações de seu perfume agreste, e matavam o
+suave cheiro do feno macio d'essas relvas sempre verdes que me rodeavam.
+As folhas crespas, sêccas, alvacentas das nossas oliveiras como que me
+luziam por entre a espessura cerrada da luxuriante vegetação do norte,
+promettendo-me paz ao coração, annunciando-me o fim de uma peleja em que
+m'o dilaceravam as paixões.
+
+E tu, Joanna, tu, pobre innocente, e desvallida criancinha, tu
+apparecias-me no meio de tudo isso, extendendo para mim os teus
+bracinhos amantes como no dia que me despedira de ti n'esse fatal,
+n'esse querido, n'esse doce e amargo valle das minhas lagrymas e dos
+meus risos, onde so me tinham de correr os poucos minutos de felicidade
+verdadeira da minha vida, onde as verdadeiras dores da minha alma tinham
+de m'a cortar e destruir para sempre...
+
+Oh! de quê e como é feito o homem, para quê e porque vive elle? Que vim
+eu, que vimos nós todos fazer a este mundo?
+
+Eu sentado alli nas almofadas de seda d'aquella splendida e macia
+carruagem, rodeado de tres mulheres divinas que me queriam todas, que eu
+confundia n'uma adoração mysteriosa e mystica--cego, louco d'amores por
+uma d'ellas, no momento de lhe dizer adeus para sempre... eu tinha o
+pensamento fixo n'uma criança que ainda andava ao collo!--Revendo-me nos
+olhos pardos de Laura que eu adorava, eram os teus olhos verdes que eu
+tinha n'alma! Os sentidos todos embriagados d'aquelle perfume de luxo e
+civilização que me cercava,--era o nosso valle rustico e selvagem o que
+eu tinha no coração...
+
+Oh! eu sou um monstro, um aleijão moral devéras, ou não sei o que sou.
+
+Se todos os homens serão assim?
+
+Talvez, e que o não digam.
+
+Joanna, minha Joanna, minha Joanninha querida, anjo adorado da minha
+alma, tem compaixão de mim, não me maldigas. Não quero que me perdoes,
+nem tu nem ninguem, que o não mereço: mas que tenhas dó e lástima de
+mim.
+
+Ai! que isso mereço eu, oh sim.
+
+Deixa-me parar aqui. Falta-me o ânimo para me estar vendo a este
+terrivel espelho moral em que jurei mirar-me para meu castigo, d'onde
+estou copiando o horroroso retratto de minha alma que te desenho n'este
+papel.
+
+Sabía que era monstro, não tinha examinado por partes toda a hediondez
+das feições que me reconheço agora.
+
+Tenho espanto e horror de mim mesmo.
+
+
+
+
+CAPITULO XLVII.
+
+
+ Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
+
+
+Chegámos ao Inn (estalagem), triste casa solitaria no meio dos campos á
+borda da estrada. A malla chegava ao mesmo tempo quasi.
+
+Eu dei a mão a Laura para sahir da caleche e entrar no coche; e apenas
+tivemos tempo para um convulsivo shake-hands e para nos dizer adeus!
+adeus! com a affectada seccura que exige a lei das conveniencias
+britannicas.
+
+A malla partiu ao grande trote... E dir-te-hei a verdade ou queres que
+minta? Não, heide dizer-te a verdade. Pois senti como um alívio
+desesperado, uma consolação cruel em a ver partir. Senti o que imagino
+que deve sentir um infêrmo depois da operação dolorosa em que lhe
+amputaram parte do corpo com que já não podia viver, e que era forçoso
+perder ou perder a vida.
+
+Tambem deve de ser assim a morte: um descanço apathico e nullo depois de
+inexplicavel padecer.
+
+Era como morto que eu estava; não soffria pois.
+
+E ja não pensava em ti, ja te não via na minha alma: eu não existia,
+estava alli.
+
+Voltámos ao parque; apeei silenciosamente as minhas duas gentis
+companheiras, e eu fui so, apé, com passo firme e resoluto para a minha
+habitação. Nenhuma d'ellas me procurou retter, nem me disse nada, nem
+tentou consolar-me. Paraquê?
+
+L. William R. chegava, na manhan seguinte, de uma de suas habituaes
+excursões a Londres. Veio ver-me assim que chegou, e trazer-me cartas de
+Portugal que eu esperava ha muito.--Disse-me que partia no outro dia
+para Swansea, a terra de Galles para onde Laura fôra; e que me
+incarregava de fazer companhia ás duas filhas que ficavam sos.
+
+A mim!..
+
+Estive tres dias sem as ver: em todos tres não fiz mais do que escrever
+a Laura.
+
+No quarto dia fui ao parque. Julia deu um grito de alegria quando me
+viu: raro exemplo de excepção ás formuladas regras que tyrannizam a vida
+ingleza, que prescrevem até a cara com que se hade morrer, e teem
+graduado o tom em que se deve exhalar o último suspiro.
+
+Mas a natureza chega a triumphar ás vezes até da propria etiqueta
+britannica.
+
+Julia cuidava que eu não queria voltar áquella casa, tinha-se resignado
+a não tornar a ver-me; não pôde reprimir a alegria que lhe causou a
+minha inexperada apparição.
+
+Passámos todo o dia junctos e sos: quasi todo se nos foi passeando no
+parque, ou sentados á sombra de seus espessos arvoredos, ou mirando-nos
+nas crystallinas aguas de uma vasta represa povoada de aves aquaticas e
+rodeada d'aquelles immensos mantos de velludo verde de que perpetuamente
+se infeita a terra ingleza e que so desapparecem quando vem o hynverno
+extender-lhe porcima seus alvos lençoes de neve.
+
+Quiz ver o que eu escrevia á irman; dei-lhe a carta, leu-a, meditou-a,
+restituiu-m'a sem dizer palavra.
+
+Que horas passámos n'este silencio, n'esta eloquente mudez que não vem
+senão do muito de mais que a alma sente, do muito de mais que diria se
+fallasse!
+
+Á despedida, essa noite, deu-me uma bolsa de rede que Laura tinha estado
+fazendo para mim e que lhe deixára para me intregar. Senti que tinha
+dentro o que quer que fosse a bolsa, não quiz examinar. Achei, quando
+voltei a casa, que era o _fadado cinto_ de vidrilhos pretos que eu tanto
+tinha admirado em certo baile onde foramos junctos, e que Laura não
+deixára de pôr nunca mais em se vestindo de branco e que fizesse alguma
+toilette.
+
+Ainda o conservo aquelle cinto precioso, Joanna; ainda a tenho, no meu
+thesoiro mais guardado, aquella joia, aquella reliquia. E amo-te, e
+amo-te a ti so como realmente nunca amei nem poderei tornar a amar. Mas
+aquelle cinto é uma sorte, um talisman, um amuleto em que está o meu
+destino.
+
+Amei... isto é, amei... pois sim, amei, ja que não ha outra palavra
+n'estas estupidas linguas que fallam os homens; pois amei outras
+mulheres, e nos dias de maior enthusiasmo por ellas, não deixei nunca de
+beijar devotamente aquelle cinto, de o appertar sôbre o meu coração, de
+me incommendar a elle--como o salteador napolitano se incommenda ao
+escapulario da madona que traz ao peito, com as mãos insanguentadas de
+matar, ou carregado do roubo que acaba de fazer.
+
+Ai, Joanna, não te digo eu que estou perdido, sem remedio, e que para
+mim não ha, não póde haver salvação nunca?
+
+Vivi assim dois mezes. Laura não me escrevia: recebia as minhas cartas e
+respondia a Julia: por este modo nos correspondiamos. Julia era parte de
+nós, era uma porção do nosso amor, viviamos n'ella a nossa vida. E ja as
+confundia ambas por tal modo no meu coração que me surpreendia a não
+saber a qual queria mais. Julia parecia feliz d'este estado; eu era-o.
+Insensivelmente me habituei a elle, ja não tinha saudades do passado. E
+quando se approximou o casamento de Laura, que ella tinha de voltar de
+Galles, e que eu, fiel ao que promettêra, devia pretextar negócio
+urgentissimo em Londres que me obrigasse a ausentar-me até á sua partida
+para a India, eu tive uma pena, uma difficuldade em cumprir o que
+promettêra que me invergonhava.
+
+Parti porêm; e alli me demorei um mez. Julia escrevia-me todos os dias e
+eu a ella. Na véspera do dia fatal em que Laura ia ser de outro homem,
+Julia escreveu-me éstas palavras sos:--'O nosso romance acabou; começa
+uma historia séria. Laura manda-lhe o seu último adeus.'
+
+E nunca mais se escreveu nem se pronunciou o nome de Laura entre nós
+dous.
+
+O galeão que me levava para o Oriente as ruinas de toda a minha
+esperança ha muito que navegava; entrava outubro e o hynverno inglez com
+suas mais asperas, e n'este anno tam precoces, severidades. Eu sentia-me
+morrer de tristeza e de isolamento no meio da populosa e turbulenta
+Londres, Julia percebeu-o, e mandou-me voltar a ----shire. Voltei.
+
+
+
+
+CAPITULO XLVIII.
+
+
+ Carta de Carlos a Joanninha: continúa.
+
+
+O que eu senti quando, apezar de tam desfigurados pelos tres-altos de
+neve que os cubriam, comecei a reconhecer aquelles sitios da vizinhança
+do parque, e a confrontar as árvores, os pastios, os casaes d'aquelles
+arredores!
+
+Era outra a expressão de physionomia da paizagem, mas as queridas
+feições eram as mesmas, e uma a uma lh'as ia estremando.
+
+Emfim o meu _stage_ parou á entrada do parque, e eu tomei apé pela longa
+avenida. Eram nove horas da manhan, e a manhan brumosa, fria, mas o
+tempo macio, não estava _cru_, segundo a expressiva phrase do paiz.
+
+Por entre a nevoa que me incubria a antiga mansão e involvia as árvores
+circumstantes n'um sudario cinzento e melancholico, fui caminhando,
+quasi pelo tacto, até meia alameda talvez.
+
+Parei a reflectir na minha posição e no que eu ia ser n'aquella casa que
+de novo me abria suas portas hospitaleiras, quando, atravez da neblina
+brancacenta e onde ella era mais rara, descubri um vulto que vinha a mim
+de entre as árvores do parque.
+
+O vulto era de mulher e parecia uma sombra, uma apparição phantastica em
+meio d'aquella scena mysteriosa, so, triste.
+
+Na distancia figurava-se-me alto em demazia: Julia não era nem podia
+ser; Julia a mais diminutiva e delicada de quantas fadas bonitas e
+graciosas teem trazido varinha de condão. Laura... ai! Laura tam longe
+estava d'alli... Quem sería pois? So se fosse!.. Quem?
+
+Aquella elegancia, aquelle cabello sôlto e annellado, aquelle ar gentil
+não podia ser senão d'ella...
+
+D'ella, quem?
+
+Ainda te não fallei, quasi, da última das tres bellas irmans que me
+incantavam, não t'a descrevi, não t'a nomeei pelo seu nome. Repugnava-me
+fazê-lo. Mas é preciso: custa-me, não ha remedio.
+
+Era Georgina...
+
+Georgina que tu conheces, Georgina que... era Georgina a que vinha a mim
+n'aquella--fatal ou feliz?--manhan; Georgina que de todas tres era a que
+menos me fallava, que eu verdadeiramente menos conhecia.
+
+Este meu coração, á fôrça de ferido e de mal curado que tem sido,
+pressente e adivinha as mudanças de tempo com uma dor chronica que me
+dá. Pressenti não sei quê ao ver approximar-se Georgina...
+
+--'Como foi bom em vir! Estou realmente feliz de o ver. E Julia, a pobre
+Julia, que alegria que vai ter, hade curá-la de todo.'
+
+--'Pois quê! Julia está doente?'
+
+--'Não o sabía!... Ai! não, bem sei que não: ella não lh'o quiz dizer.
+Julia está doente; mas não é de cuidado. Eu sempre quiz advirti-lo antes
+que a visse, por isso calculei as horas do coche e vim para aqui
+esperá-lo.'
+
+Éstas palavras eram simples, não tinham nada que me devesse impressionar
+extraordinariamente, e todavia eu sentia-me agitado como nunca me
+sentira. Olhava para Georgina como se a visse a primeira vez, e pasmava
+de a ver tam bella, tam interessante.
+
+É uma situação d'alma ésta que não sei que a descrevessem ainda poetas
+nem romancistas: desprezam-n'a talvez, ou não a conhecem. Está recebido
+que as subitas impressões causadas por um primeiro incôntro sejam as
+mais interessantes, as mais poeticas.
+
+Eu não nego o effeito theatral d'essas primeiras e repentinas sensações;
+mas sustento que interessa mais ess'outra inesperada e extranha
+impressão que nos faz um objecto ja conhecido, que víramos com
+indifferença atéalli, e que derrepente se nos mostra tam outro do que
+sempre o tinhamos considerado...
+
+Mas ésta mulher é bella realmente! E eu que nunca o vi! Mas aquelles
+olhos são divinos! Onde tinha eu os meus atégora? Mas este ar, mas ésta
+graça onde os tinha ella escondidos? etc. etc.
+
+Vão-se gradualmente, vão-se pouco a pouco descobrindo perfeições,
+incantos; e o sentimento que resulta é mil vezes mais profundo, mais
+fundado, sôbretudo, que o das taes primeiras impressões tam cantadas e
+decantadas.
+
+Que mais te direi depois d'isto? Entrámos em casa, vi Julia, fallámos de
+Laura muito e muito. Mas eu ja o não fiz com o enthusiasmo, com a
+admiração exclusiva com que d'antes o fazia...
+
+Julia recobrou, breve, a saude, e com ella o equilibrio do espirito.
+Renovou-se toda a alegria, todo o incanto das nossas conversações
+íntimas, dos nossos longos passeios. Laura lembrava com saudade; mas
+suavizava-se, imbrandecia gradualmente aquella saudade.
+
+Georgina, que atéalli parecia impenhar-se em se deixar eclipsar pela
+irman, agora, ausente ella, brilhava de toda a sua luz, em graça, em
+espirito, por um natural singelo e franco, por uma exquisita doçura de
+maneiras, de voz, de expressão, de tudo.
+
+Julia revia-se n'ella, e eu acabei pela adorar. Vergonha eterna sôbre
+mim! mas é a verdade: quiz-lhe mais do que a Laura, ou pareceu-me
+querer-lhe mais... que tanto vale.
+
+Eu sei?.. Não, não lhe queria tanto. Mas amei-a.
+
+Amei, sim, e fui amado!
+
+Tres mezes durou a minha felicidade. É o mais longo periodo de ventura
+que posso contar na vida. Falsa ventura, mas era.
+
+A imperiosa lei da honra exigiu que nos separassemos, que partisse para
+os Açores. Fui. Ninguem sacrificou mais, ninguem deu tanto como eu para
+aquella expedição. A historia fallará de muitos serviços, de muitas
+dedicações. Quem saberá nunca d'esta?
+
+A historia é uma tola.
+
+Eu não posso abrir um livro de historia que me não ria. Sôbretudo as
+ponderações e adivinhações dos historiadores acho-as de um comico
+irresistivel. O que sabem elles das causas, dos motivos, do valor e
+importancia de quasi todos os factos que recontam?
+
+Ainda não sei como parti, como cheguei, como vivi os primeiros tempos da
+minha estada n'aquelle escôlho no meio do mar, chamado a ilha Terceira,
+onde se tinham refugiado as pobres reliquias do partido constitucional.
+
+Habituei-me porfim. A que se não affaz o homem?
+
+Levaram-me uma tarde á grade de um convento de freiras que ahi havia. O
+meu ar triste, distrahido, indifferente excitou a piedade das boas
+monjas. Uma d'ellas, joven, ardente, apaixonada, quiz tomar a empresa de
+me consolar. Não o conseguiu, coitada! O meu coração estava em ----shire
+em Inglaterra, estava na India, estava no valle de Santarem,
+
+ Pelo mundo em pedaços repartido;
+
+estava em toda a parte, menos alli, que nada d'elle estava nem podia
+estar.
+
+Era Soledade que se chamava a freirinha, e com o seu nome ficou.
+Disseram o que quizeram os falladores que nunca faltam, mas mentiram
+como mentem quasi sempre, inganaram-se como se inganam sempre.
+
+Eu não amei a Soledade.
+
+E comtudo lembro-me d'ella com pena, com sympathia... Se eu sou feito
+assim, meu Deus, e assim heide morrer!
+
+Viemos para Portugal; e o resto agora da minha historia sabes tu.
+
+Cheguei porfim ao nosso valle, todo o passado me esqueceu assim que te
+vi. Amei-te... não, não é verdade assim. Conheci, mal que te vi entre
+aquellas árvores, á luz das estrellas, conheci que era a ti so que eu
+tinha amado sempre, que para ti nascêra, que teu so devia ser, se eu
+ainda tivera coração que te dar, se a minha alma fosse capaz, fosse
+digna de junctar-se com essa alma d'anjo que em ti habita.
+
+Não é, Joanna; bem o ves, bem o sentes, como eu o sinto e o vejo.
+
+Eu sim tinha nascido para gosar as doçuras da paz e da felicidade
+doméstica; fui creado, estou certo, para a glória tranquilla, para as
+delicias modestas de um bom pae de familias.
+
+Mas não o quiz a minha estrella. Embriagou-se de poesia a minha
+imaginação e perdeu-se: não me recobro mais. A mulher que me amar hade
+ser infeliz por fôrça, a que me intregar o seu destino, hade vê-lo
+perdido.
+
+Não quero, não posso, não devo amar a ninguem mais.
+
+A desolação e o oppróbrio entraram no seio da nossa familia. Eu renuncio
+para sempre ao lar doméstico, a tudo quanto quiz, a tudo quanto posso
+querer. Deus que me castigue, se ousa fazer uma injustiça, porque eu não
+me fiz o que sou, não me talhei a minha sorte, e a fatalidade que me
+persegue não é obra minha.
+
+Adeus Joanna, adeus prima querida, adeus irman da minha alma! Tu
+accompanha nossa avó, tu consola esse infeliz que é o auctor da sua e
+das nossas desgraças. Tu, sim, que podes; e esquece-me.
+
+Eu, que nem morrer ja posso, que vejo terminar desgraçadamente ésta
+guerra no unico momento em que a podia abençoar, em que ella podia
+felicitar-me com uma balla que me mandasse aqui bem direita ao coração,
+eu que farei?
+
+Creio que me vou fazer homem politico, fallar muito na patria com que me
+não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar dos meus
+serviços que nunca fiz por vontade; e quem sabe?.. talvez darei porfim
+em agiota, que é a unica vida de emoções para quem ja não póde ter
+outras.
+
+Adeus minha Joanna, minha adorada Joanna, pela última vez, adeus!
+
+
+
+
+CAPITULO XLIX.
+
+
+ De como Carlos se fez barão.--Fim da historia de
+ Joanninha.--Georgina abbadessa.--Juizo de Fr. Diniz sôbre a questão
+ dos frades e dos barões.--Que não póde tornar a ser o que foi, mas
+ muito menos póde ser o que é. O que hade ser, Deus o sabe e
+ proverá.--Vai o A. dormir ao Cartaxo.--Sonho que ahi tem.--Volta a
+ Lisboa.--Caminhos de ferro e de papel.--Conclusão da viagem e
+ d'este livro.
+
+
+Acabei de ler a carta de Carlos, intreguei-a a Fr. Diniz em silencio.
+Elle tornou-me:
+
+--'Leu?'
+
+--'Li.'
+
+--'Que mais quer saber? Sinto que lhe posso dizer tudo: não o conheço,
+mas...'
+
+--'Mas deve conhecer-me por um homem que se interessa vivamente...'
+
+--'Em quê? nas eleições, na agiotagem, nos bens nacionaes?'
+
+--'Não senhor. Fui camarada de Carlos, não o vejo ha muitos annos e...'
+
+--'Nem o conhecia se o visse agora: ingordou, inriqueceu, e é barão...'
+
+--'Barão!'
+
+--'É barão, e vai ser deputado qualquer dia.'
+
+--'Que transformação! Como se fez isso, sancto Deus! E Joanninha e
+Georgina?'
+
+--'Joanninha inlouqueceu e morreu. Georgina é abbadessa de um convento
+em Inglaterra.'
+
+--'Abbadessa?'
+
+--'Sim. Converteu-se á communhão catholica; era ricca, fundou um
+convento em ----shire e lá está servindo a Deus.'
+
+--'E ésta pobre senhora, a avó de Joanninha?'
+
+--'Ahi está como a ve, morta de alma para tudo. Não ve, não ouve, não
+falla, e não conhece ninguem. Joanninha veio morrer aqui n'esta fatal
+casa do valle, eu estava ausente, expirou nos braços d'ella e de
+Georgina. Desde esse instante a avó cahiu n'aquelle estado. Está morta,
+e não espero aqui senão a dissolução do corpo para o interrar, se eu não
+for primeiro, e Deus queira que não! quem hade tomar conta d'ella, ter
+charidade com a pobre da demente? Mas depois... oh! depois... espero no
+Senhor que se compadeça emfim de tanto soffrer e me leve para si.'
+
+--'Mas Carlos?'
+
+--'Carlos é barão: não lh'o disse ja?'
+
+--'Mas por ser barão?..'
+
+--'Não sabe o que é ser barão?'
+
+--'Oh se sei! Tam poucos temos nós?'
+
+--'Pois barão é o succedaneo dos...'
+
+--'Dos frades... Ruim substituição!'
+
+--'Vi um dos taes papeis liberaes em que isso vinha: e é a unica coisa
+que leio d'essas ha muitos annos. Mas fizeram-m'o ler.'
+
+--'E que lhe pareceu?'
+
+--'Bem escripto e com verdade. Tivemos culpa nós, é certo; mas os
+liberaes não tiveram menos.'
+
+--'Errámos ambos.'
+
+--'Errámos e sem remedio. A sociedade ja não é o que foi, não póde
+tornar a ser o que era;--mas muito menos ainda póde ser o que é. O que
+hade ser, não sei. Deus proverá.'
+
+Ditto isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviario e poz-se a rezar.
+A velha dobava sempre, sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos
+alguns segundos. Nenhum me deu mais attenção nem pareceu conscio da
+minha estada alli.
+
+Sentia-me como na presença da morte e atterrei-me.
+
+Fiz um esfôrço sôbre mim, fui deliberadamente ao meu cavallo, montei,
+piquei desesperado d'esporas, e não parei senão no Cartaxo.
+
+Incontrei alli os meus companheiros; era tarde, fomos ficar fóra da
+villa á hospedeira casa do Sr. L. S.
+
+Rimos e folgámos até alta noite: o resto dormimos a somno sôlto.
+
+Mas eu sonhei com o frade, com a velha--e com uma enorme constellação de
+barões que luzia n'um ceu de papel, d'onde choviam, como farrapos de
+neve, n'uma noite pollar, notas azues, verdes, brancas, amarellas, de
+todas as côres e matizes possiveis. Eram milhões e milhões e milhões...
+
+Nunca vi tanto milhão, nem ouvi fallar de tanta riqueza senão nas mil e
+uma noites.
+
+Acordei no outro dia e não vi nada... so uns pobres que pediam esmola á
+porta.
+
+Metti a mão na algibeira, e não achei senão notas... papeis!
+
+Parti para Lisboa cheio de agoiros, de inguiços e de tristes
+presentimentos.
+
+O vapor vinha quasi vazio, mas nem por isso andou mais depressa.
+
+Eram boas cinco horas da tarde quando desimbarcámos no Terreiro-do-Paço.
+
+Assim terminou a nossa viagem a Santarem: e assim termina este livro.
+
+Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De
+todas quantas viagens porêm fiz, as que mais me interessaram sempre
+foram as viagens na minha terra.
+
+Se assim o pensares, leitor benevolo, quem sabe? póde ser que eu tome
+outra vez o bordão de romeiro, e va perigrinando por esse Portugal fóra,
+em busca de historias para te contar.
+
+Nos caminhos de ferro dos barões é que eu juro não andar.
+
+Escusada é a jura porêm.
+
+Se as estradas fossem de papel, fa-las-iam, não digo que não.
+
+Mas de metal!
+
+Que tenha o govêrno juizo, que as faça de pedra, que póde, e viajaremos
+com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra.
+
+
+
+
+NOTAS
+
+
+
+
+NOTAS
+
+AO LIVRO SEGUNDO.
+
+
+
+*Nota A.*
+
+
+ Ficámos sem Nibelungen
+
+ pag. 3.
+
+
+
+Collecção de antigas rhapsodias germanicas contendo o maravilhoso e
+poetico de suas origens historicas e que é para os povos theutonicos o
+que era a Ilíada para os hellenos. So se não sabe o nome do Homero
+allemão que as redigiu e uniformizou como hoje se acham.
+
+
+*Nota B.*
+
+
+ Caranguejar para as Lamas
+
+ pag. 3.
+
+
+
+Fundo baixo do Tejo, ao longo da praia de Sanctos, que tem este nome e é
+onde vão apodrecer as carcassas dos navios velhos e ja inuteis.
+
+
+*Nota C.*
+
+
+ Os pés no _fender_
+
+ pag. 4.
+
+
+
+Fender se chama em inglez a pequena e baixa tea de metal que defende o
+fogão nas salas, paraque não caiam brazas nos sobrados. Descançam n'elle
+os pés naturalmente quando a gente se está confortavelmente aquecendo em
+liberdade.
+
+
+*Nota D.*
+
+
+ Perfumados resplendores do _Old sack_
+
+ pag. 5.
+
+
+
+Tem-se disputado muito sôbre qual seja a bebida espirituosa celebrada
+por Shakspeare tantas vezes com este nome. A opinião mais acceita é que
+fosse boa e velha aguardente de França.
+
+
+*Nota E.*
+
+
+ Renegaram de San'Tiago por castelhano
+
+ pag. 5.
+
+
+
+O grito de guerra commum a todas as nações christans hespanholas era:
+San'Tiago! Quando na accessão da casa de Avis nos alliámos intimamente
+com a Inglaterra contra Castella, começámos a invocar San'Jorge.
+
+
+*Nota F.*
+
+
+ Vacca e riso de Fr. Bartholomeu dos Martyres
+
+ pag. 9.
+
+
+
+Singela e original expressão do sancto arcebispo n'uma carta de convite
+a um seu amigo. Fez-se, como devia ser, proverbial ésta phrase.
+
+
+*Nota G.*
+
+
+ Feliz expressão do Sr. Conde de Raczinski
+
+ pag. 124.
+
+
+
+Na sua obra intitulada 'Les arts en Portugal', Paris 1845.
+
+
+*Nota H.*
+
+
+ O centro perde o centro de gravidade, o barbas arrepella as barbas
+
+ pag. 127.
+
+
+
+Centro e barbas são qualificações e nomes de impregos theatraes.
+
+
+
+
+INDICE.
+
+
+Capitulo XXVI--Modo de ler os auctores antigos, e os modernos
+tambem.--Horacio na sacra-via.--Duarte Nunes iconoclasta da nossa
+historia.--A policia e os barcos de vapor.--Os vandalos do feliz systema
+que nos rege.--Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo
+de _old-sack_ sôbre a banca.--Sir John Falstaff se foi maior homem que
+Sancho-Pansa?--Grande e importante descuberta archeologica sôbre
+San'Tiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.--Próva-se a vinda d'este
+último a Portugal.--O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e
+Abeillard no Père-la-Chaise.--Bentham e Camões.--Chega o auctor á sua
+janella, e pasmosa _miragem_ poetica produzida por umas oitavas dos
+Lusiadas.--De como em fim proseguem éstas viagens para Santarem, e que
+feito será de Joanninha. 1
+
+Capitulo XXVII--Chegada a Santarem.--Olivaes de
+Santarem.--Fóra-de-Villa.--Symetria que não é para os olhos.--Modo de
+medir os versos da biblia.--Architectura pedante do seculo
+XVII.--Entrada na Alcáçova. 11
+
+Capitulo XXVIII--Depois de muito procurar acha em fim o auctor a egreja
+de Sancta-Maria d'Alcáçova.--Stylo da architectura nacional perdido.--O
+terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do Passeio-público
+de Lisboa.--O chefe do partido progressista portuguez no alcassar de D.
+Affonso Henriques.--Deliciosa vista dos arredores de Santarem observada
+de uma janella da Alcáçova, de manhan.--É tomado o auctor de ideas
+vagas, poeticas, phantasticas como um sonho.--Introducção do
+Fausto.--Difficuldade de traduzir os versos germanicos nos nossos
+dialectos romanos. 19
+
+Capitulo XXIX--Doçuras da vida.--Imaginação e sentimento.--Poetas que
+morreram moços e poetas que morreram velhos.--Como são escriptas éstas
+viagens.--Livro de pedra. Criança que brinca com elle.--Ruinas e
+reparações.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.--Sancta
+Iria ou Irene, e Sanctarem.--Romance de Sancta Iria.--Quantas sanctas ha
+em Portugal d'este nome? 29
+
+Capitulo XXX--Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o
+romance popular. 39
+
+Capitulo XXXI--Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em
+verso e Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de
+architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As salgadeiras
+de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de Santarem.--Voltemos á historia
+de Fr. Diniz e da menina dos olhos verdes. 49
+
+Capitulo XXXII--Tornâmos á historia do Joanninha.--Preparativos de
+guerra.--A morte.--Carlos ferido e prisioneiro.--O hospital.--O
+infermeiro.--Georgina. 55
+
+Capitulo XXXIII--Carlos e Georgina. Explicação.--Ja te não amo! palavra
+terrivel.--Que o amor verdadeiro não é cego.--Frade no caso outra vez.
+_Ecce iterum Crispinus_; ca está o nosso Fr. Diniz comnosco. 69
+
+Capitulo XXXIV--Carlos, Georgina e Fr. Diniz.--A peripecia do drama. 79
+
+Capitulo XXXV--Reunião de toda a familia.--Explicação dos mysterios.--O
+coração da mulher.--Parricidio.--Carlos beija emfim a mão a Fr. Diniz e
+abraça a pobre da avó. 87
+
+Capitulo XXXVI--Que não se acabou a historia de Joanninha.--Processo ao
+coração de Carlos.--Immoralidade.--Defeito de organização não é
+immoralidade.--Horror, horror, maldicção!--Um barão que não pertence á
+familia lineana dos barões propriamente dittos.--Porta de
+Atamarma.--Senatus consulto santareno.--Nossa Senhora da Victoria
+_afforada_.--Threnos sôbre Santarem. 99
+
+Capitulo XXXVII--A Graça e sua bella fachada gothica.--Sepultura de
+Pedr'alvares Cabral.--Outro barão que não é dos assignalados.--Egreja do
+Sancto-milagre.--Bellos medalhões mosarabes.--De como, chegando o prior
+e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que
+solemnidades.--Monumento da muito alta e poderosa princeza a infanta D.
+Maria da Assumpção.--Casa onde succedeu o milagre convertida em capella
+de stylo philippino.--O homem das botas, e o que tem elle que haver com
+o Sancto-milagre de Santarem.--Admiravel e graciosa esperteza da
+regencia do Rocio.--Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos
+folgasões, os melhores governos possiveis.--Volta o paladio scalabitano
+de Lisboa para Santarem. 111
+
+Capitulo XXXVIII--Jantar nos reaes paços de Affonso Henriques.--Sautés e
+salmis.--Desce o A. á Ribeira de Santarem em busca da tenda do
+Alfageme.--A espada do Condestavel.--Desappontamento.--O salão elegante.
+Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis. Tudo melhor quando visto
+de longe.--O baile público.--Soirée de piano obrigado.--Theatro.
+Desaffinações da prima-dona.--Syphlis incuravel das traducções.
+Destempêro dos originaes.--A xácara de rigor, o subterraneo e o
+cemiterio.--Sublime gallimathias do ridiculo.--A bella e necessaria
+palavra 'gallimathias.'--Se as saudades matam.--Perigo de applicar o
+scalpello ou a lente ao mais perfeito das coisas humanas.--De como a
+logica é a mais perniciosa de todas as incoherencias. 121
+
+Capitulo XXXIX--Processo de scepticismo em que está o
+auctor.--Moralistas de _requiem_.--O maior sonho d'esta vida, a
+logica.--Differença do poeta ao philosopho.--O coração de Horacio.--O
+collegio de Santarem.--Jesuitas e templarios.--O alliado natural dos
+reis:--'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que 'Ficar no
+tinteiro'.--San'Frei Gil e o Doutor Fausto.--De como o A. foi ao tumulo
+do sancto bruxo e o achou vazio.--Quem o roubaria? 131
+
+Capitulo XL--As Claras.--Aventura nocturna.--Se as freiras mettem medo
+aos liberaes? O Psalmo.--Tres frades.--Práctica do franciscano.--O corpo
+de San' Fr. Gil.--Que se hade fazer das freiras?--Mal do govêrno que
+deixar comer mais aos barões. 141
+
+Capitulo XLI--O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta
+prespicacia do leitor benevolo.--Grande lacuna na nossa
+historia.--Porque se não preenche?--Página preta na historia de Tristam
+Shandy.--Novellas e romances, livros insignificantes.--O adro de
+San'Francisco e as suas acacias.--Que será feito de Joanninha?--O peito
+da mulher do norte.--Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas
+ruinas.--A corneta do soldado e a trombeta do juizo final.--Eheu,
+Portugal, eheu! 151
+
+Capitulo XLII--Protesto do auctor.--Desaffinação dos nervos.--O que é
+preciso para que as ruinas sejam solemnes e sublimes.--Que Deus está no
+Colliseu assim como em San'Pedro.--Quer-se o auctor ir embora de
+Santarem.--Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?--Em que estado se
+acha este.--Exemplar de stylo byzantino.--Coroa real sôbre a caveira.--O
+rei d'espadas e o symbolo do imperio.--Quem nunca viu o rei cuida que é
+de oiro.--Brutalidades da soldadesca n'um tumulo real.--O que se acha
+nas sepulturas dos reis.--A phrenologia.--Vindicta pública, tardia mas
+ultrajante.--Camões e Duarte Pacheco.--A sombra falsa da
+religião.--Regimen dos barões e da materia.--A prosa e a poesia do
+povo.--Synthese e anályse.--O senso íntimo.--Se o auctor é demagogo ou
+Jesuita?--Jesu Christo e os barões. 157
+
+Capitulo XLIII--Partida de Santarem.--Pinacotheca.--Impaciencia e
+saudades.--Sexta-feira.--Martyrio obscuro.--A figura do
+peccado.--Estamos no valle outra vez.--Evocação de incanto.--A irman
+Francisca e Fr. Diniz.--A teia de Penelope.--E Joanninha?--Joanninha
+está no ceo.--A mulher morta a dobar esperando que a interrem.--A
+esperança, virtude do christianismo.--Uma carta. 167
+
+Capitulo XLIV--Carta de Carlos a Joanninha. 177
+
+Capitulo XLV--Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 187
+
+Capitulo XLVI--Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 195
+
+Capitulo XLVII--Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 207
+
+Capitulo XLVIII--Carta de Carlos a Joanninha: continúa. 215
+
+Capitulo XLIX--De como Carlos se fez barão.--Fim da historia da
+Joanninha.--Georgina abbadessa.--Juiso de Fr. Diniz sôbre a questão dos
+frades e dos barões.--Que não póde tornar a ser o que foi, mas muito
+menos póde ser o que é? O que hade ser, Deus o sabe e proverá.--Vai o A.
+dormir ao Cartaxo.--Sonho que ahi tem.--Volta a Lisboa.--Caminhos de
+ferro e de papel.--Conclusão da viagem e d'este livro. 227
+
+Notas 237
+
+
+
+
+Notas:
+
+[1] Transcrevemos aqui o original allemão, para se avaliar o que fica
+ditto no texto.
+
+ Ihr naht euch wieder, schwankende Gestalten,
+ Die früh sich einst dem trüben Blick gezeigt.
+ Versuch ich wohl euch diesmal fest zu halten?
+ Fühl' ich mein Herz noch jenem Wahn geneigt?
+ Ihr drängt euch zu! nun gut, so mögt ihr walten
+ Wie ihr aus Dunst und Nebel um mich steigt;
+ Mein Busen fühlt sich jugendlich erschüttert
+ Vom Zauberhauch, der euren Zug umwittert.
+ Ihr bringt mit euch die Bilder froher Tage,
+ Und manche liebe Schatten steigen auf;
+ Gleich einer halbverklungen Sage
+ Commt erste Lieb' und Freundschaft mit herauf;
+ Der Schmerz wird neu, es wiederholt die klage
+ Des lebens labyrintisch irren Lauf,
+ Und nennt die Guten, die, um schöne Stunden
+ Vom Glück getäuscht, vor mir hinweggeschwunden
+
+[2] Nas notas a Adozinda, vol. I do 'Romanceiro,' nota N, citei
+differentemente ésta copla pela imperfeita licção de um Ms. do Minho,
+unico que tinha á mão.
+
+[3] Outra licção, e talvez melhor diz _a coitada_.
+
+[4] Thomar.
+
+[5] De frades e de freiras.
+
+[6] Deus, venerunt gentes in hereditatem tuam. Ps. 78.
+
+
+
+
+Lista de erros corrigidos
+
+
+Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+
+
+ +----------+----------------------+----------------------+
+ | | Original | Correcção |
+ +----------+----------------------+----------------------+
+ |#pág. 2| et mos | est mos* |
+ |#pág. 5| Faltaffs | Falstaffs |
+ |#pág. 17| San'João-de-Alpiarça | San'João do Alporão* |
+ |#pág. 17| egrea | egreja* |
+ |#pág. 43| retiraam | retiraram |
+ |#pág. 50| recordam | memoram* |
+ |#pág. 62| stil | still* |
+ |#pág. 81| da intranhas | das intranhas |
+ |#pág. 99| Horor | Horror |
+ |#pág. 118| quelle | aquelle |
+ |#pág. 118| digno do ornar | digno de ornar |
+ |#pág. 119| LisboaTejo | Lisboa Tejo |
+ |#pág. 123| confrontar- algum | confrontar algum |
+ |#pág. 138| extistencia | existencia |
+ |#pág. 213| com com | com |
+ |#pág. 217| desdescrevi | descrevi |
+ |#pág. 218| ma curado | mal curado |
+ |#pág. 241| modernas | modernos |
+ |#pág. 241| Flastaff | Falstaff |
+ +----------+----------------------+----------------------+
+
+
+* correcções feitas com base na errata do próprio livro.
+
+Shakespeare, San' Thiago e Joanninha surgem neste livro como Shakspeare,
+San'Tiago e Joaninha respectivamente. Dada a repetitividade constante,
+decidi manter de acordo com o original.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra, by
+João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VIAGENS NA MINHA TERRA ***
+
+***** This file should be named 24401-8.txt or 24401-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/4/4/0/24401/
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+
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+that
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+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+1.F.
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+works, and the medium on which they may be stored, may contain
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
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+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
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+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
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+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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