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França Amado, editor. + Novellas + A Carne de Jesus, Lisbôa, Gomes de Carvalho, editor, 1910. + O Diamante Verde, Lisbôa, Guimarães & C.ª, editores, 1910. + Sonhos de meduza, em preparo. + Romances + Raio de sol, Bahia, em folhetins, 1903. + Crises, Lisbôa, Guimarães & C.ª, editores, 1906. + Pavões, Bahia, Fonseca Magalhães, editor, 1908 (Exgottado). + Amen!, Bahia, em folhetins, 1909-1910. + Duvidas e remorso, em preparo. + Theatro + A Escarpa, Porto, Lello & Irmão, editores. + Tropheus em cinzas. + Sazão de luz (em preparo). + Critica + O passado, o presente e o futuro do heleno-latinismo em + lucta com o germanismo, Bahia, 1903 (Exgottado). + Zoilos e Esthetas, Porto, Lello & Irmão, editores, 1908. + Sociologia e critica, Porto, Magalhães & Moniz, editores. + Da Esthetica na Literatura Comparada, Rio, H. Garnier, editor. + A questão das raças na literatura universal, em preparo. + Symbolismo + Eterno Incesto, Bahia, 1902 (Exgottado). + Sê bemdita!, Bahia, 1905 (Exgottado). + Lingua portuguesa + A reforma ortografica, Bahia, 1907 (Exgottado). + O evolucionismo morphologico da lingua portuguesa, Lisbôa, + Santos & Vieira, editores. + Scientificos + Genesis hereditária do direito, Bahia, 1903 (Exgottado). + Ensaios philosophicos sobre o mechanismo do direito, + Bahia, 1906. + A sciencia do direito e as producções espirituaes do + homem, Bahia, 1907 (Exgottado). + Questões actuaes de philosophia e direito, Rio, H. + Garnier, editor, 1909. + A objectividade do phenomeno juridico no direito + brazileiro, em pub. + As formações naturaes na philosophia biologica, em preparo. + + + + + +ALMACHIO DINIZ + +MUNDANISMOS + +(CONTOS) + + + + Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira. + + ANATOLE FRANCE. + +COIMBRA + +F. FRANÇA AMADO, EDITOR + +1911 + + + + +A + +GUERRA JUNQUEIRO + + + + + L'art veut imiter la nature. Nous faire éprouver les sensations et + les sentiments que la vie nous impose ou pourrait nous imposer, tel + est son premier souci. Le romancier et le dramaturge comme le + peintre, le sculpteur comme le musicien s'essayent à faire dans la + fiction, comme la vie dans la réalité. Au fond de chaque oeuvre + d'art il y a toujours en somme--que ce soit par imitation étroite ou + libre évocation--une réalité reproduite de la vie. + + CHARLES ALBERT. + + + O conto, assim desatavíado, exprimido, é apenas succo e, se não + agrada à _visão_, interessa o sentir. Falta-lhe horizonte, mas o + espaço, por isso mesmo, é mais vasto, sem empeços: segue-se + livremente a acção que a descriptiva, por vezes, compromette. + + COELHO NETTO. + + + + MUNDANISMOS + + + Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira. + + ANATOLE FRANCE. + + + + +NEDDA + + +NEDDA + + Manhansinha. + + A sala, de azuladas paredes seminúas, estava pobremente mobiliada: + era no saguão da casa, e as duas mulheres entraram às tontas, até se + abrirem de par em par as gelosias. + + SAUL, de NEDDA esposo, ficàra a dormir na alcova. + + E NEDDA, abysmada com a indifferença delle que apenas lhe não + dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que + DONA LOURA, a sua mãe, era uma interprete das indisposições do genro... + + Num canapé, as duas mulheres, DONA LOURA, archaica nas suas vestias + de capote e turbante, e NEDDA, deliciosamente matutina num roupão + branco que descansava, _sans-dessous_, sobre a finissima camizêta + de cambraias,--sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida + do cansado movel... + +......................................................................... + +--Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me +entre dentes e indisposto como um burguês dispeptico, silencioso como +uma esphynge e entristecido como um beato sem almoço, adivinho logo que +vens por ahi como a mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem à +tarde... + +--Exactamente. + +--Previ tudo isto. Ha cinco dias que nós não falamos, e, pensando-o na +rua, hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella +cadeira, lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me +e não contive um gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os +meus passos. Ha quatro annos que somos casados e nunca passamos dois +mezes sem uma rusga. É sempre elle quem as promove com um resaibo de +malentendido ciume. Aceito sempre o seu rompimento e nunca lhe dei a +honra de capitular nas hostilidades. Quando ellas são de nonada, aqui +mesmo se resolvem; mas, quando avultam como agora, elle te vai buscar +como intercessora. Jà sei que vamos ter, como sempre, uma crise de +amorosidades que me enfastiam. Lastimo é não conceber um filho desse +homem para o embeiçar pela nova criatura e sentir-me menos jungida às +suas intemperanças de... mal educado! Ás vezes, chego a ter nojo do +senhor meu marido... + +--Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que +me pasma... + +--Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter +o assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um +tal matrimonio não se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em +caza, por torna-viagem, a mentira de que Saul é um tuberculoso. Tanto +mais eu o aborrecia, quanto a senhora e o papá intervinham, patrocinando +a causa do moço platonico. Dá-me, na verdade, um insistente desejo de +rir muito quando lembro os idealismos delle, seguindo a minha sombra, +porque nunca lhe deixei o direito de enfrentar-se commigo em parte +alguma... Expúz-lhe sempre que sonhos não me satisfaziam, nem eram para +o meu temperamento homens vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe +intensa guerra, apaixonando-me por Frederico Stöltze. Está! Com este +provavelmente eu teria sido bem cazada. O pobre «allemãosinho» levou o +caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o abandonei, com uma +defeituosa... Foi um despique, não ha a menor duvida, mas quem sahiu +perdendo foi elle. Saul é um temperamento de phoca... + +--Respeita o teu marido, minha filha! + +--Pois não é, maman? + +--Essas couzas não se devem dizer... + +--Não tratarei de occultar o sol com a mão. Já disse e é mesmo: um +temperamento de phoca. Só quer hybernar sobre os livros, deante dos +quaes se abespinha como o animal sobre o gêlo. Eu, porem, quero muito +sol, muita luz, muito calor, muita actividade... Maman, o que vocês +velhos veem no cazamento é o interesse de collocar as filhas, porque +ficando velhos receiam que nos tornemos muito sós no mundo. Por isso +acontecem destas, cazamo-nos com a vontade dos papás encarnada na figura +de um homem que não é a correspondencia de nosso instincto. Olha! Não +intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada qual commetta a sua +doidice como quizer, e, se escolher um lorpa como Saul, arrependa-se +de si mesmo e não me culpe a mim. + +--Tu vês no homem uma excitação, Nedda, quando devias ver uma satisfacção. + +--Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje +dessas trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu +toda a minha repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, não sabe +aproveitar-se de minha tolerancia e quer subserviencia, servidão, ou +coisa similhante... Está enganado! Devias ter sanccionado a minha +repulsa logo de principio. Lembras-te do convescóte dado aos chilenos, +nas Salinas? Tu não foste, e Saul, que era apenas meu pretendente sem a +menor esperança, moveu contra mim uma intriga terrorosa, porque viu, no +campo, o primeiro tenente Santander amarrar os cordeis de minha botina +que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te de como +energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do +contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia, +todos suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de +mulheres feias. Afinal, maman, que te disse elle desta vez? + +--Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o +comprehendes como um devaneio. Isto é proprio para as meninas. Tu te +esqueces, e nisto eu lhe dou razão, que és uma senhora escrava da moral +esponsalicia. Contou-me o teu marido um facto em que elle te +surprehendeu. Realmente, se as cousas se passaram como podem ser +suppostas, e elle não quer crer, tu andaste mal. + +--Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como +tudo se deu... + +--E dispensavel Nedda. O passado está passado. O que é preciso é que não +dês lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem +calleja. Os amuos fazem pequenos callos, mas tempo virá em que, +callejada a alma, o amuo será definitivo. + +--Que teria isso? + +--Um escandalo, minha filha! + +--Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu não me +pouparei a um grande escandalo. + +--Toma juizo, doidinha. É preciso acabares com estas zangas e receberes +o teu marido como o teu senhor... + +--Hein?... Não me zangarás, maman, pódes ridicularizar-me como +entenderes... Não me darei por achada. + +--Não promovo senão o teu bem. Resolve a crise e sê... mulher de teu +marido. + +--Jà estás julgando o feito? + +--Tu tens toda a razão, elle tem igualmente toda a razão. Harmonisem-se +e sejam felizes. + +--Pareces-me uma juiza a Salomão, com a differença de que o rei hebreu +ouvia ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma +só... + +--Interpretas muito mal o meu genio. + +--Não te interessa conheceres a injustiça de que sou accusada pelo sr. +meu marido? + +--Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a +accusação, eu nunca seria contra ti. + +--Obrigada, maman! Quero, entretanto, justiça, e que, como Saul, não +julgues pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu +o que se passou... + +--Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes... + +--Pois bem! Na terça-feira, maman, de combinação com Saul, resolvi +passar uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle +que me falou pelo telephono, fui à Barra correr uma cazinha vaga e +que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao +depois de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a +gentileza de offerecer-se-me para o serviço de abrir e fechar portas. +Aceitei e foi elle quem tomou as chaves na taverna da esquina... Vê +tu!... Não fôsse elle e teria eu de entrar numa taverna, sósinha, +arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao depois, o dr. Eduardo foi +quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de camurça para fazer +essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas... Corremos o +primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil +cavalheiro se lembrou de, por segurança, fechar por dentro a porta da +rua... Subimos. Mal chegavamos em cima, começaram de bater numa porta. +Poderia eu suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse, +porque elle não teria opportunidade de acompanhar-me, logo depois +resolvesse o contrario, e estivesse a bater na porta da rua? E foi por +um acaso que nós o vimos. Chegamos inesperadamente a uma janella do +sotam e percebemos que era elle quem batia. O dr. Eduardo, +desculpando-se por jà ter eu cavalheiro, despediu-se de mim, desceu as +escadas, e, quando abria a porta, foi insolentemente aggredido por +Saul, que lhe negou a mão para o cumprimento do estylo... Só tu vendo, +maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra mim! Felizmente, +desafiado pela minha calma, elle não teve animo para iterar o +qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle +quiz, fechou sósinho a caza e veiu só... + +--Devias ter evitado tudo isto, Nedda. + +--Evitado, como? + +--Não acquiescendo à companhia de um homem de mà fama, como é o dr. +Eduardo. + +--Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em +que eu fui... Hora de trabalhos na cidade... + +--Recusasses os favores offerecidos. + +--Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual é a mulher que se anima à +grosseria de recusar gentilezas de um moço de distincto trato?... + +--Conforme o renome desse moço. + +--Tem mà fama o dr. Eduardo? + +--Não sei, não. Dizem. + +--Se tem mà fama, tem maus costumes. E como é que Saul, tão zeloso de +sua honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepções, um homem mal +visto? Penso que os frequentadores de nossos salões, os _habitués_ de +nossa intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um ponto +qualquer, e, se não fôsse assim, a primeira privação delles, seria a do +nosso convivio... + +--Neste ponto és razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul +referiu-me que estavas sem chapeu... + +--De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha +van do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr. +meu marido alli estava para auxiliar a reposição, tirei o chapeu e +asseiei-o prestamente... + +--Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua +chegada, ao ponto de não saberes repôr o chapeu... + +--Saul é um mentiroso. + +--Não te zangues, Nedda. + +--Injuriou-me. + +--Não dês importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente... + +--E elle o quer? + +--Porque perguntas? + +--Porque tão honrado elle não deveria aceitar mais a cohabitação da +esposa deshonesta. + +--Não deves dizer assim, minha filha! + +--Aceita-me elle? + +--Que tolice, Nedda! + +--Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e não a faço +em attenção aos teus bons officios... + +--Fazes muito bem. + +--Là vem elle descendo... + +--Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que não tem esposo... + +--Desculpa-me, maman: só agora reparo que estou muito à vontade para nos +encontrarmos os tres... + +......................................................................... + + Arrepanhando, então, o bello roupão desabotoado, por cujas rendas e + decotes se viam as carnes luciferas de NEDDA, a mulher de Saul se + escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de + esculptura grega... + + + + +VOLUPTUOSAS + + +VOLUPTUOSAS + + No rêz-do-chão de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendados + _stores_ pallidos, HELENA fazia somno à hora da sesta, quando MARIA + ANGELICA a surprehendeu adormecida. + + A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma + voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabeça desmaiada de + HELENA... + + Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com + um fremito de prazer... + +......................................................................... + +--De onde vens tu, Angelica? + +--De encommendar flores... + +--Flores?! + +--Não te recordas de que Sophia se cazará amanhan, à noitinha? + +--Sou uma esquecida. + +--E ella é credora de nossas gentilezas... + +--Das minhas, especialmente. + +--Encommendei orchidéas e chrysanthemos. + +--Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias. + +--Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das +orchidéas. Uma catyleia é um pedaço de labios excitados por dois beijos. + +--Não lhes acho graça. + +--Ó exigente! + +--Flores do matto. E jà notaste que quasi todas ellas são lilazes e +roxas? ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas côres +melancolicas? + +--Descobres coisas... + +--Mas, não é? + +--Realmente. + +--E como vais presentear uma noiva com flores lilazes? + +--É a moda, é o chic, é o _dernier-cri_... + +--Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas, +chrysanthemos, rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me? + +--Se não! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os +olhos muito brilhantes... + +--De verdade? + +--Sim. Sonhavas? + +--Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu estás intensamente corada... + +--Apanhei muito sol. + +--Os teus olhos estão pisados e languidos... + +--É da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor +que abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados... + +--Jà tinha reparado: os teus cabellos estão desmanchando-se... + +--E eu os concertei no espelho de Esther. + +--Andaste là, hein? Jà havia desconfiado... Quando te vejo amollentada, +assim, tenho razões para me enciumar... É muito descuidada a Esther. +Cuida mal das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Está +mal posto, a fita está retorcida... + +--Nem reparei... + +--Disto não és culpada, por certo... Eu não te deixaria sahir daqui tão +mal-amanhada. É de causar vergonha. + +--Foi a pressa, Helena. + +--E no teu hombro a sêda está nodoada... + +--Nodoada?!... + +--Sim! Vêem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei +mesmo que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!... + +--Quem o poderia fazer? + +--Esther. + +--És ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as +flores. Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Estás +satisfeita? + +--Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas não convencida... + +--Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar +humido?... Terá sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo é +arrastada como a de quem se fatigou num excesso de venturas... + +--Que venturas posso ter? + +--Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real... +Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha +vezes em que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras +occasiões, quando volto a mim sem provocação, sou prompta a espantar-me +porque me accordei e não morri no meio do prazer sonhado... + +--Ha sonhos, effectivamente, que se não deveriam acabar... E não sentes +calor, Maria Angelica? + +--Algum. + +--Neste caso... + +--Que fazes? + +--Dispo-me. Não me imitas? + +--Póde ser. Passarei a tarde comtigo... + +--Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta góla +assoberbante... Não tens geito?... Chega, que te libertarei... + +--Tira os alfinetes. + +--Usas um bom pó de arroz, Angelica. + +--Ui! Helena! + +--Que foi assim, ardilosa? + +--Espetaste-me as carnes... + +--Tambem é uma ruma de alfinetões... + +--É para segurar bem. + +--Tens uma pellugem de arminho... + +--Ai!... Assim não... não... + +--Que tens, rapariga? + +--Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... Só me déste +vontade de... + +--Ui!... ui!... ui!... Fazes-me um _frisson_ de arrepiar-me os pellos... + +--É para vingar o teu beijo... + +--Porque me olhas assim, Angelica? + +--És de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um +perfume originalissimo que me entontece... + +--Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se +cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o faço para attrahir as +amigas como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que +se confundiam os aromas do nardo de Tharsos e do metôpyon do Aigypte. +Nas axillas attritava mentho e sobre as pestanas e nas palpebras +marjolana de kôs. Ao depois, a escrava defumava-lhe os cabellos +desennastrados com espiraes de incenso, que combinava admiravelmente não +só com a essencia de rozas de Phasêlis que lhe embalsamava a nuca e as +faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava sobre os rins. E, por +fim, entre os seios, corria o celebre oinanthê das montanhas de +Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica... + +--Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras... + +--Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do +irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodões embebidos na +essencia de rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para +contrastar com as evolações das essencias de jasmins que perfumam as +minhas vestias... + +--E na posse de tudo isto praticas uma mà acção, Helena! + +--Qual? + +--Essa de referires tantos perfumes e não me dares nenhum a provar... És +avarenta, como ninguem, e eu cubiçosa de gozar... + +--Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres... + +--Teria graça! + +--Porque assim? + +--Gósto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres. +Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas +carnes... + +--Tens desejos masculinos, minha queridinha! + +--E é o que me faz lamentar-me: junto de uma graça não ser um Adonis, +junto de uma Helena não ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os +teus perfumes e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais +feliz do que Syrinx, louca de paixão, Byblis, unica na insaciabilidade, +ou Mnasidika, macia como um velludo... Helena, tu és uma perfeição... + +--Mofadora! + +--Mofar eu de ti?!... + +--Não te abraza o calor?... + +--Sim... Intoleravelmente... + +--Safa o collête... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seducções +na tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os +homens, sabios no sensualismo pagão, que o nú de veus é mais provocante +do que o nú sem disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na +mulher encoberta pela semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te não +conhecesse os segredos todos de tuas lindas curvas, te rasgaria agora, +impiedosamente, o veu de tua nudez... + +--Jà sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do +arrôcho de um collête dictatorial? + +--Quantas vezes?! + +--Tu brincas, mulher divertida... + +--Provo-te com a citação: despirei o meu collête e não me sentirei mais +provocada do que contemplando as tuas fórmas semi-núas... + +--Es barbara, Helena! Como encarceras um tão lindo quadril dentro dos +oppressivos liames de um collête... Ah! Como eu daria a vida por ser +morena! O ventre alvo é uma desillusão, mas o trigueiro, como o teu, é +um incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o instincto +mais calmo... + +--Não te agrada a minha nueza? + +--Inteiramente. Agora, vê là se te não impressiona mal a brancura do meu +ventre... + +--Ao contrario, Maria Angelica: é uma grande corolla de petalas alvas +desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... É maravilhoso o teu +contorno... Dignas fórmas para a perpetuidade de uma téla ou de um +retrato... + +--Deixarias tu que fôsse apanhada a tua nudez? + +--E porque não?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me? + +--Que egoismo leviano! + +--Acha-o? + +--Sim... Photographemo-nos... + +--Adoravel!... Como não irradiará no _cliché_ o contraste de nossas +pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa +de um pólo... + +......................................................................... + + Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma + solução de perolas e opalas. + + Os seus labios permutaram cariciosos beijos. + + E, horas depois, MARIA ANGELICA e HELENA, retratadas por uma aia, + desvendavam as suas abrazadoras nuezas à inveja de ESTHER... + + + + +O POETA MORIBUNDO + + +O POETA MORIBUNDO + + Luxuoso salão de recepções: por entre cavallêtes com quadros de fina + pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de + Parreira e a vocação de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio + das tapeçarias, dos _fauteils_ e das luzes, um magestoso piano Ritter. + + HELOISA acabou de executar, com todo o applauso do maestro + CHRISTOVAM DETMER, a linda fantasia--_Le poète mourant_--de Gotschalk. + + As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de + admiração e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos + que obedeciam á grande inspiração de HELOISA. + + Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente + combalida pela dor de uma alma irman... + +......................................................................... + +--Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas +bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas +e os teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do +passional poema lyrico, me concentrei e te affirmo que a visão não +despresou a audição, pois vi e ouvi toda a scena, desenvolvida entre +personagens vivas, que se moviam, se soccorriam e testimunhavam o +desfallecimento do artista moribundo. Durante minutos que serão +inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao teu lado, +frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e não denunciei, +pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a +existencia. Vim do gabinete privado de tua mãe, que se transformou +pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se +lhe dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a +longa historia de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes, fui +minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a +alma de artista e não o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim +inspirar-me para o sacrificio no teu talento. E saio de tua presença +illuminado como o prescripto que recebeu o balsamo do conselho christão +para subir em seguida ao patibulo. Dá-me, pois, o conforto de tua +confidencia ultima: amaste-me alguma vez? + +--Que pergunta, Christovam. + +--Indiscreta? + +--Não; ao contrario. Amesquinhante... + +--Extranho-te. + +--Não ha razão. Porventura pensarás que te amei e não te amo agora? +Acaso a minha mão de mulher para te ser dada dependerá de alguma coisa +irreductivel deante de minha vontade altiva? + +--Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor +dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeças bellas +de todas as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz +com que se enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um +homem que sabe musica simplesmente, que é apenas um artista, é pequenino +de mais para ter uma pretenção de amor. Eu me pareço com esta figura +lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das +fantasias de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em +sonhos egoistas, cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava +rozas, derrocando castellos, para me conter na illusão em que me +deleitava sómente com a audiencia da negativa inclemente de tua mãe. +Confessou-me que maldava de todo o nosso amor, desde principio. E +porque, se assim era, protegia a ampliação de um sentimento que deveria +ser, como os filhos defeituosos das ciganas que são atirados ás +piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse, +falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era +porque, doidivana como toda creança, jogavas a péla na orla do +precipicio, esperando o aviso amigo para te retirares gloriosamente... +Negarás, Heloisa, que tinhas consciencia de minha pretenção? +Sophismarás, em favor da excommunhão que me lançou a tua mãe, e contra a +clareza da ordem que me deste afim de se officialisarem as relações do +affecto, que nos encaminhava de um illusorio paraiso? Responde com o +talento immensuravel com que sempre me amaste... + +--Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias +possuir o maior tino dos homens. + +--Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem +pesada se antepõe á sua esphera... + +--Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e não te hei de amar fóra do +regosijo delles... + +--Dos teus paes? + +--Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em +tuas mãos estariam vegetaes só ao sôpro de um fakir indiano. Porque +admittirias que a minha vontade fosse forte bastante para romper a +marcha das intenções dos meus paes sobre a minha razão de ser mulher? +Por ventura sem o sopro do fakir as sementes germinariam e attingiriam +as fórmas de seres definitivos? Não supporás que, sem aquelle sôpro, +algo se realisasse. Como suppôres que sem a vontade dos meus maiores a +nossa união se perpetraria ao teu sabôr? + +--Desconheço-te já... + +--Mas, porque... + +--O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto á quesilia dos +outros... + +--Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a +existencia de mulher? + +--Nem sei de mim mesmo que te responda... + +--Não poderias esperar. Se eu fôsse livre, se a lagarta para ser papilio +não carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar +a sancção que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razões para +tal fazer. Aborrece-te o trovão? amedronta-te o curisco? Queres ver-te +livre delles? Crê num Deus e pede-lhe a extinção... Infelizmente, +Christovam, nem o trovão se extinguiria, nem o teu querer triumpharia... +De um lado, Deus seria impotente para te dar o que pedisses porque não +terias o direito de pedir... Só pede quem póde pedir; se se pede é +porque de quem dá depende o pedido; e se o pedido não é dado, procura a +causa na insufficiencia e na sem-razão de quem pediu... + +--Mas... + +--Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se +conservares a razão, que tenho o bom senso desejavel ás creaturas +perfeitas. Queres responder-me? + +--Nada significará o que te responda. + +--É preciso que sejas categorico. + +--Pois sim: responder-te-ei. + +--Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade? + +--Por certo que não. + +--De minha parte a questão é outra: teria eu o direito de responder por +mim num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer? + +--Se quizesses, sim. + +--Não é assim, não. Porque não me tomarias por mulher sem o meu +assentimento? Por impoderoso deante de minha definição adversa. Porque +não me daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por +impoderosa deante da pronuncia delles. Se tu pudesses alcançar de mim o +amor sem vontade, desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse +de meu corpo sem a intervenção dos que m'o formaram do nada em materia e +em alma, nem cogitaria de enviar-te a elles... + +--É um dilemma sophistico. + +--Por que principio, não sei. + +--Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sêde do teu amor, +Heloisa, como correspondeste a esse lapso do meu instincto? + +--Do modo mais franco. + +--Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu +quizesse, matar a sêde que allegava... + +--Dependia de mim. Dei-te. + +--De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixão. +Negaste-m'o? + +--Não poderia negar. + +--Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na +grandeza das iteradas pulsações cordiaes, affirmaste que eu reconheceria +a intensidade do teu sentimento... + +--Dependia de mim. Pratiquei. + +--Por fim, quando te acenei com o plano de nossa união... + +--Como te respondi, Christovam? + +--Com a primeira negaça. + +--Adulteras a minha intenção: cumpri o meu dever, enviando-te á maman, +como o caminho propicio para vencer o papá. + +--Realmente, Heloisa. Sou um vencido. + +--Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei... + +--Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a +consummar uma grande obra musical sem a inspiração para a realidade do +dever... + +--Desistes, então, do teu amor? + +--Razões me sobejam... + +--Que te disse, afinal, a maman? + +--Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e +lembrou-me que um musicista não compõe sem ter inspiração... + +--Nada de mais, Christovam! + +--Talvez não queiras comprehendel-a... Mas é tudo que se póde allegar +contra um homem... + +......................................................................... + + E, louco pela musica, inconsciente quasi, CHRISTOVAM DETMER + assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita + criação de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se + despediu de HELOISA... + + + + +O VELHO MEDICO + + + +O VELHO MEDICO + + O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa. + + ESTEPHANIO e JUDITH--esta desprendendo-se de si no devotamento ao + esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais annos, como + se lhe tivesse o corpo de cór, curvas e linhas, luzes e + perfumes--gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige + os defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo... + + MARCO ANTONIO--o medico afamado--cofiando as ennevoadas barbas em + que se escondiam as illusões do seu poder curador, arrancou os + olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, de + suas attenções... + +......................................................................... + +--Bem póde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgôr da +mocidade... + +--É exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel +salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, não posso +affectar-me com os seus effeitos: a sua medicina é a criadora das +humanas torturas. Parece-me que jà se disse: «Tirem os medicos e as +enfermidades desapparecerão»... Mas, eu digo: fugi delles e estou +curado. Deem-me milhões de medicos e estarão formados trilhões de doenças. + +--E quem te curou, meu caro? + +--A natureza... + +--O novo deus pagão... + +--Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes +curadores. Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria? + +--Lembro-me, sim. + +--Foram tantos os diagnosticos que jà perdi o direito de dar-lhes autorias. + +--O sr. era verdadeiramente um doente. + +--E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e +invariaveis. + +--Realmente. + +--Pois confesso-lhe: não fiz uso de um só. Tambem o doutor não foi o +ultimo medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na +inspecção. Nada faltou à sua perspicacia, senão comprehender que, no meu +estado, as suas perguntas eram outras tantas suggestões e novos +symptomas para a aggravação de meu mal. Eu vivia desvairado na vontade +de accusar males crescentes, e os meus assistentes porfiavam em +illustrar-me em torturas ineditas. + +--Afinal... quem te curou? + +--Dir-lhe-ei tudo, de começo. Hygia, a deusa da saude, não é de todo mà... + +--A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos: +salvaram-se pela acção do dedo de Deus, como teriam morrido pela +intervenção do doutor... + +--Creio que o sr. adianta um mau conceito. Não me tenho na conta dos +casos communs. + +--Desculpe-me. + +--Pois não! Mas, a minha doença foi uma criação dos meus medicos, e a +minha cura proveiu de minha inabalavel resolução de abandonal-os. Eu +estava em ultimo grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei +assim às mãos de um allopatha. Homeopathas e feiticeiros nada +fizeram de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci, +aos vinte e tres annos, foi numa convalescença de enfermidade +effectivamente assassina: o amor. Eu tinha conseguido, pela vez +primeira, objectivar uma paixão. E, não só isto: tivera, com todo o +delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra a minha +vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu +sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram +sessenta dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil +e quatrocentos minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes +as paradas assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao +maximo possivel. O prazo desse amor fôra, entretanto, fatal. Exgottou-se +e a mulher fugiu-se-me dos braços como a espiral do fumo que procura as +alturas. Ao depois disto, separado do entretenimento carnal, que me +combalia as fibras, como a agua que vai abalar as galerias subterraneas +para derribar as minas, tive a sensação do remorso de um grande crime... + +--De um crime delicioso... + +--Talvez, doutor. + +--E então? + +--Encegueirado pelo amor, o mundo ficou às escuras sem a luz do olhar +della. Quiz correr nas suas pégadas, e senti-me tolhido como a voz na +garganta do atormentado por um pezadêlo. Vi em todos os convivas de +minha existencia, terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre +num choro convulso, durante o qual me punha a tremer com tanta violencia +quanta fazia extremecer todo o assoalho de minha alcova e soar fóra de +tempo a campainha do relogio sobre a meza... Senti-me muitas vezes +balançado como a espherasinha de madeira que anima o trillo dos apitos... + +--É curioso, de véras, o seu caso. + +--Foi, doutor. + +--Sim! Foi! E hoje sinto não lhe ter visto nesse tempo originalissimo. + +--Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico. + +--Paranoico? + +--Exactamente, doutor, e và vendo. Aconselhou que eu me tratasse com +banhos de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro +medico, os meus paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente +banhado, a contragosto, com luzes de todas as côres. Era inocuo o +tratamento para me fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males +Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguçados por alta +dose, mas não toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico--jà a esta +hora e ha muito tempo--victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e +disse, carrancudamente, deante de uma das minhas crises de saudade +carnal: «são delirios epileptiformes»... E o tratamento passou a ser +feito com altas doses de bromurêto. A minha ennervação deprimiu-se, e +tornei-me um atoleimado, tanto que nem pranteei a morte de minha mãe, +desgostosa com a minha tragica existencia... Novo medico; vim a ser um +simples neurasthenico, com atonias nervosas. Reconstituintes, passeios, +boas alimentações, prazeres, etc.: nada, porem, matava as saudades do +meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora por excesso de +alimentação, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de insomnias, +tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos +medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodêtos +e tive hemoptises. Um Esculapio chamado às pressas, levando em conta a +minha magrêsa, o sangue exvasado dos meus pulmões e o historico dos meus +soffrimentos, num rapido prognóstico, annunciou a minha morte breve, +por força de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me +interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria +sómente: suggeriam-me cousas que só dalli por deante eu começava de +sentir. E veiu um curador homeopatha: os seus remedios ingeri com +facilidade, pela falta de sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um +visinho, que se enforcou dias depois porque se sentiu arruinado nas suas +forças commerciaes, lembrou que os maus espiritos encostados aos corpos +de pessôas novas, faziam artes do demo... E não só apresentou a +conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma velhinha, +encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruços na +cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira... + +--E nem rezado, sr. Estephanio? + +--Para o doutor ver! Nem rezado! + +--É unica a sua historia. + +--Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau +funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado. + +--Assim acaeceu. + +--E inda pensa o doutor que eu tivesse affecção nos rins? + +--Se me não falha a memoria, effectivamente. + +--Pois escute: logo depois de sua intervenção, repudiando eu os +medicamentos que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram +trazidos em conferencia. + +--Que disseram elles? + +--Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles +mesmos. Do doutor discordaram reputando sãos os meus rins. + +--Sãos, ou curados? + +--Curados, não. Inattingidos até àquella data. E firmaram o diagnostico +de uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgão e o outro +hypertrophia. + +--Mas, afinal, acertaram? + +--Suppõem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a +saude. + +--É espantoso, meu caro senhor. + +--Não é, não, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha +reapparecido a mulher que eu amára. Visitou-me. Inflammamo-nos, e... +estamos casados, não foi assim, Judith? + +--Parece-me! + +......................................................................... + + Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando + o enfeitiçamento de um lindo _manteau_ exposto no mostruario de + modas e confecções... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente + a espaçosa fronte... + + + + +OS DOIS ESPELHOS + + +OS DOIS ESPELHOS + + Depois de mandar retirar-se a criada, VIOLANTE foi, pé ante pé, + fechar a porta do salão de jantar que deitava para a copa, e veiu + sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mãos + profundamente geladas. + + SIMEÃO, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo no canto + dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as + feições com um clarão colerico. + + Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a + cadeirinha de balanços, VIOLANTE provocou-o... + +......................................................................... + +--Faze a tua scena. + +--E não é sem tempo. + +--Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se não é sem tempo? + +--Facilidades. + +--Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o +homem cazado não tem direito a facilidades. + +--Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que +Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma +existencia inteira para passar escravisado aos laços de uma união +infeliz!... Maldita hora! + +--Ah!... ah!... ah!... ah!... + +--Sorris... + +--E então? Hei de chorar para te sentires bem na oppressão que me fazes? + +--A minha vida depois que me senti enganado... + +--Não tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci +o teu adulterio... + +--Insultas-me ainda em cima, Violante? + +--Não te insulto. Repillo as tuas aggressões, termo por termo. O que eu +digo é que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado +e perfumoso para agradar às amantes, tem a mulher de... + +--Não dize, Violante, a indignidade! + +--Porque não dizer as cousas como ellas devem ser? Só depois que senti a +tua ausencia do lar... + +--E confessas o delicto?!... + +--... só depois que conheci a tua amante... + +--Mentes, mulher! + +--... só depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui +sais... + +--É horrivel, Violante! + +--... só depois de ver-te partir de là e a tua concubina despedir-se de +ti com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravidão... + +--Tu viste? + +--Sim... só depois de ter a certeza de possuires uma amante... + +--Poupa, Violante, essa phrase... + +--... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a +côrte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no +lar pelo marido libertino... + +--É demais! + +--Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num +isolamento de aborrecer. Entretanto, fôra diverso o teu proceder nos +primeiros tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava +na rua, mal eu começava a sentir a tua ausencia, estavas de volta. +Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te +retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te +perguntei, a hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz +saber. E, até hoje, nunca te pedi a menor palavra sobre o teu +procedimento... + +--E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informações. + +--Pois bem! Para evitar essa negação, nunca t'as pedi, sciente e +consciente de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, não te +devo satisfacções... São ellas por ellas... + +--Abusas... + +--Corrige-me se puderes... Não és o meu marido?... Toma conta dos meus +actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze +o que entenderes, certo de que atraz de mim haverá quem vingue as tuas +incontinencias e perversidades... + +--E sabes quem é a minha amante? + +--Se sei, Simeão?!... + +--Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: não +conheces ninguem... + +--Só com o rizo!... Ah!... ah!... ah!... + +--Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha +paciencia se exgottarà afinal... + +--Ainda em cima me ameaças? + +--Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me +confesses tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante? + +--Ninguem! + +--Ninguem, como? + +--Desconfiei e fui ao teu encalço... + +--Não falas a verdade, Violante. + +--A certeza das coisas é adquirida quando nos abeiramos dellas. +Molestias mortaes, por miasmas exhalados dos paúes, só as contrai quem +lhes vai à beira. Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio... +Olhas-me agora atravessado? Nega então que te falo a verdade como ella +é?!... Por favor, desmente-me, se és capaz... + +--Juro-te que não sei do que se trata. + +--Perjuro!... Então, toda a manhan não vais daqui à caza de Idalia... +Não me interrompas, não... toda a manhan, não passas là horas +esquecidas, quando sais não fica ella por traz da gelosia a acenar-te e +tu a corresponderes-lhe os acenos de apaixonada despedida? + +--Ousada! Alem do mais, injurias à mulher de um amigo da nossa +familia... + +--E que é a tua amante... + +--Pois se é, está tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre +vontade... Constou-te jà que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As +minhas obrigações maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e +começam, quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a +dentro, estou eu cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem +jurei culto eterno, alias, em tempos melhores... Casei por uma +supposição de momento: a solidão de solteiro era um suicidio de todos os +dias. E só não me enganei em suppôr que o matrimonio me facilitaria +relações difficeis antes de ter as qualidades de senhor duma mulher... O +mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a tua companhia, +e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado é um pequenino +jardim, o maior céu é a entrada de uma furna... A companheira é um +tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo +homem respeitador... + +--Outro tanto te allego eu... Mentirá aquelle que disser me ter visto, +sorrateira ou clandestinamente, embuçada ou mascarada, penetrar em +lugares escusos, ou ao lado de algum homem que não fôsses tu... +Casei-me por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixão +momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto +o meu marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me +eu... Adquiriu uma amante... + +--Retem-te, Violante!... + +--Não! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem póde viver longe +do pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu +marido!... + +--Intoleravel! + +--Tambem tu o és! + +--Adultera! + +--Deixemo-nos, Simeão, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os +devolver todos, um por um... + +--Saber-me trahido... + +--Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando +nada, não terás de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher +digna do marido que lhe deram... + +--Sinto faltar-me a luz da vista... + +--Impressões, Simeão. + +--Pois é justo que me consinta enganado? + +--Não nos deshonramos... + +--É um consôlo ridiculo. + +--E que dirias tu se trahida eu não te trahisse igualmente? + +--Diversa é a situação do homem, Violante. + +--O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente +nos submettemos a esse regimen de igualdade... + +--Doloroso! + +--Assim exclamei, Simeão! Agora, porem, me sinto melhor: não me +enganaste, e isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos... + +--E o teu amante? + +--Dispensa sabel-o... + +--Ah!... Repillo a lembrança que me occorre... Não, não é possivel!... O +massagista... + +--Rende justiça à tua mulher, Simeão! Pois não vês que eu me não +vingaria de ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te +fizesse córar perante a sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de +ti? + +--Então... Desabafa-me!... Sê completa! + +--Insistes em conhecer tudo? + +--Não duvides que o quero de coração. + +--É Lourival... + +--O marido de Idalia?... + +--De certo. + +--Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem +conjugadamente... + +--Mas eu estou vingada... + +......................................................................... + + Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fóra do salão, + perguntava aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar... + + E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz... + + + + +O PRIMEIRO FILHO + + +O PRIMEIRO FILHO + + Na secretaria fôra extranhada a falta primeira de ORLANDO, assiduo + até não se ter ausentado do serviço no attrahente dia do matrimonio. + + O DIRECTOR do esposo de OLIVIA era reconhecido à assiduidade do + moço, e, por duas vezes, determinàra o seu accesso por merecimento. + + Ao penetrar na Repartição depois da primeira falta, todos os olhares + recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se + entregou ao trabalho sem explicações. + + Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado, ORLANDO e o + DIRECTOR entravam em confidencia... + +......................................................................... + +--Ah! Sr. Director! + +--Estiveste doente? + +--Não, não foi doença minha. Antes o fôsse... + +--Trocaste o dia? + +--Como assim? + +--Levaste à conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos? + +--Tambem não! + +--Viajaste a negocio? + +--Qual, Sr. Director! Os meus negociou são sómente os de meu dever aqui +dentro... + +--Não sei explicar a tua falta. + +--E eu careço de coragem para dizer... + +--Tão futil não ha de ter sido o motivo. + +--Eu conto. Foi o meu primeiro filho... + +--Felicito-o desde jà. + +--Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade. +Conhecendo bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a só quando +se manifestaram os primeiros incommodos do parto. E confiando em que o +acontecimento cedo me daria liberdade para saltar à repartição, fui-me +deixando ficar, ora mais embebido nos cuidados que a parturiente exigia, +ora menos descontente com o que se ia passando, até que, só na madrugada +de hoje, após vinte e duas horas de labutações, se concluiram os +trabalhos... + +--Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia. + +--Não menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi +em mim e vi que faltàra hontem improficuamente, porque... + +--Ora, Sr. Orlando! Uma falta não inflúe, tanto mais quanto fui o +primeiro a não mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber +corresponder ao valor dos meus funccionarios. + +--Fico embaraçado... Nem sei como lhe agradeça... Ao depois das torturas +porque passei, era natural que Deus me désse o allivio de uma honra como +a que o Sr. Director acaba de conceder-me. + +--E a senhora ficou sem novidade? + +--Pouco mais ou menos, Sr. + +--Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia... + +--Qual nada!... Faltar hoje?... + +--Não digo isto. + +--Então... + +--Obter uma dispensa de serviço... + +--Nem pensar é bom, Sr. Director. Se me déssem licença eu hoje emendaria +o dia com a noite para descontar o atrazo de hontem... + +--São excessos, Sr. Orlando. É justo que um chefe de familia precise +dessas lacunas no serviço para gozar mais largamente as venturas de seu +lar. + +--Estas, francamente, eu só poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz +no acontecido. + +--E não o foi? + +--Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigação. + +--Qual foi o medico? + +--Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo. + +--Bons medicos, sem duvida. + +--E que hão de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como +um horror... + +--Mandarei dar-te uma gratificação para cubrires com ella os +extraordinarios desse acontecimento inquietador. + +--Não aceitarei, Sr. Director. + +--Porque assim? + +--Não é soberbia, não. Desculpe-me, mas eu não posso aceitar. + +--Quereria ter as razões dessa sua desattenção... + +--Não é desattenção, Sr. Supponha que eu aceito. Desfaço-me das minhas +difficuldades graças ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo +filho, nas mesmas condições difficeis do primeiro. O Sr. descuida-se e +eu não obtenho nova gratificação. Naturalmente me enciumarei com o seu +procedimento e o que não quero hoje, não devo esperar amanhan... Pois +não é? + +--Eu daria do melhor grado. + +--Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao +depois, se a parturiente inspira cuidados... + +--Não se ficou bem ella? + +--Acho que não. Ao depois do parto, começou de ter desmaios consecutivos... + +--E o que recommendaram os medicos? + +--Repouso. Ó Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher é +uma inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que +Olivia padeceu. + +--Pois penso que devias retirar-te. + +--Não devo, Sr. Director. O lar é uma preoccupação para fóra das horas +da secretaria. + +--Até o serviço poderia lucrar com a tua ausencia... + +--Perdão, senhor, mas... + +--Admiras-te? Não queria falar-te com tanta franqueza para não te +consumires ainda mais... + +--Por acaso commetti alguma outra falta? + +--Gravissima... Sabes porque te chamei? + +--Lealmente ignoro. + +--Porque te desconheci. Estás um desconchavado e erras todo o serviço. +Pelos teus grandes creditos, és aqui dentro um rico de odios e de +invejas. Conheço-os todos... + +--Agradecido, Sr. Director. + +--Cada companheiro teu é um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem +com os teus lapsos o teu valor. Não o admitto eu. + +--Mas, que fiz assim? + +--Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua +informação. + +--Oh!... Esta cabeça... + +--A conta de Silva & C.ª... + +--Sei!... sei!... Então... errei-a? + +--Inconvenientemente. + +--E sei porque perpetrei o engano... + +--É o que tu pensas... + +--Por ventura outro me corrigiu? + +--Absolutamente não. Serás tu mesmo quem fará este trabalho ao depois... + +--Porque não hoje? + +--Estás dispensado, incondicionalmente, do serviço por tres dias... + +--Não me conformo, Sr. Director. + +--Sou irrevogavel. + +--No maximo me satisfarei com o dia de hoje. + +--Serão tres dias irreductiveis, e pódes ir para a companhia de tua +esposa descansar a tua cabeça. Vejo-te perturbado enormemente com o +pensamento do que possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda! + +--Dá licença? + +--Pois não. + +--Ás ordens do Sr. Director. + +--Ah!... Sr. Orlando? + +--Sou todo ouvidos. + +--Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? é homem? + +--Perdão, Sr. Director... Mas... não lhe sei responder... Com a +atrapalhação da hora não me lembrei... Ah!... sim... + +--Que respondes? + +--Desculpe-me, Sr. É justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem +verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou... + +......................................................................... + + Sorrira o DIRECTOR e dispensàra de vez ORLANDO, com a inveja + crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos + factos... + + + + +Á VISTA DA DENUNCIA + + +Á VISTA DA DENUNCIA + + O interior da envidraçada varanda, exornado com ipoméas e glycinias, + em cacos, orchidéas e arums nos recantos, não tinha senão a luz + pallida, muito pallida, de um luar de inverno, coado preguiçosamente + pelos vãos das grinaldas verdes. + + Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma commettia a + indiscreção de transportar para alem, ao conhecimento da criadagem + bisbilhoteira, os amuos graves de CLOVIS e AMARYLLIA. + + A denuncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de + ferro, destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos + grosseiros perpetrados pelas mãos violentas de CLOVIS, que, + distrahindo-se um pouco com as fumaradas de um havana, ouvia, + sem intervenções, as queixas de AMARYLLIA... + +......................................................................... + +--Como eu, tão ladina para outras, comprehendendo tão bem o mal alheio, +deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amavel hoje, tinha sido +um presente valioso hontem, era uma lembrança expressiva amanhan... E o +meu filhinho servindo de _passe_ para os maiores engodos!... Toda hora o +telephone pedia Arthurzinho. Là se ia o innocente, coitadinho! E +raramente voltava. Prendiam-n'o dias seguidos com a ama. Poderia eu +desconfiar do embuste? Ha genios capazes de todas as villezas. O filho +era o motivo da entrada do pae, os presentes eram as cinzas nos meus +olhos, e os convites eram a perfidia da traiçoeira. Mas, agora, ou eu +succumbirei, ou estará tudo acabado. Ouve-me bem, Clovis: nesta caza, +emquanto eu viva fôr, Carlota jamais tornará, e se tu desceres à +indignidade de voltar à caza dessa mulher, ouve bem! Serei eu quem irà +buscar o tolo do esposo para te surprehendermos na sordidez. Sempre são +os interessados nas causas os que por ultimo se sentem logrados. _Il +n'y a qu'un mot pour dire les choses._ Essa palavra não devo, porem, +proferir sem macular os meus labios, sem regosijar o meu enganoso +marido, e sem elevar a perdida que me furta a tranquillidade, que me +logra no dom legal da fidelidade esponsalicia. Um dia desconfiei. A ama +de Arthurzinho levava um pacote às escondidas, quando, para castigo, +elle rolou ao chão, na hora da partida, quasi aos meus pés... Perguntei +à cumplice que significava aquelle _embrulho_... Foi o sr. Clovis quem +tomou a palavra: «é um romance que mando, a pedido, para D. Carlota +ler...» Ingenuamente me convenci. Pois seria possivel que o meu marido +trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraiçoava? que expuzesse +o meu filho à infamação de ser posto junto à perfida, em lugar de seu +pai gozado?... Ó meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me +e vejo-me só. Roubada naquillo porque mais zelos e mais ciumes alimento, +eu que me tenho submettido machinalmente à concepção de treze filhos, +exgottando a minha juventude para parecer velha aos trinta e dois annos, +assassinando a minha belleza, relaxando os meus tecidos, criando uma +ruga nova em cada manhan em que me olho ao espelho!... para ser +recompensada duramente com uma traição, uma tripla traição, em que se +envolveram as minhas lealdades de esposa, de mãe e... de amiga. Sim, +porque, desgraçadamente o digo, tolerei a concubina de Clovis na +intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por força dessa leviandade +commum a todas as mulheres, terei dado causa de rizo à maldita que me +engazupava. Contava-lhe os meus esforços para trazer sempre o meu marido +na obrigação pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o +recebia com intimas indisposições, para que regeitado uma feita elle se +não atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a duvida de sua +saciedade noutra fonte... Não sei onde estava escondido o sol de minha +comprehensão que agora recenna a minha intelligencia. E uma miseria +moral essa em que se prostitúe, com o conjuge das outras, uma velha, +desrespeitadora das cans do esposo e da innocencia de suas filhas. Havia +de ser là, naquella alcôva cheia de seducções, que o meu companheiro se +convertia em assassino da paz de minha alma. Aos olhos daquellas tres +criancinhas--mulheres faceis, por herança, que desabrocham nos comoros +lamacentos da podridão materna--elles dois se encaminhavam do leito, +quantas vezes Clovis ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o +ardentemente com o nome de pae! Bemdito o poeta que jà disse estar ao +lado de cada homem uma féra monstruosa: o instincto. E esse poeta foi o +meu proprio esposo, accusando toda a humanidade com o seu proprio mal. +Foi preciso que uma generosidade extranha me avisasse para que eu +conhecesse essa nova Mylitta babylonica, torpe, pantano no qual até a +trahida companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram +poderes lascivos. Ó injustiça divina! Porque não me despertaste, a mais +tempo, do somno em que sonhei com a lealdade de um templo christão e me +achava desgarrada na nave de um templo de Buddha?!... Foi hoje o +assignalado dia de minha victoria. A carta chegou-me às mãos com as +resteas violetas do sol posto. Li-a de um folego. O meu primeiro impeto, +naturalmente, foi de indignação contra o denunciante. Mas, alli estavam +os factos verificaveis, possiveis, e terrorosos. A noite veiu mais +depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo. A verdadeira noite é +essa em que tambem a alma se recolhe na escuridão de uma dôr +apunhalante. O meu marido jantaria fóra, num banquete intimo, mas +numa sociedade festiva. Resolvi chamal-o prontamente às explicações de +suas infidelidades. E fil-o sem tardada, não o nego. Á criada de +Arthurzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha affectos meus por +dar o seu leite à formação organica de meu filho, trouxe logo às contas. +Não lhe disse a denuncia, não lhe proporcionei ensejo de contestar a sua +acção, porque a interpellei segura do facto, inteiramente consciente do +que fazia. E ella me confessou que levava e trazia romances immoraes, +que levava e trazia cartas e recados... O instante unico! Ao depois, +calma e friamente, sabendo que aguçava a minha dôr, revolveu-me nalma o +punhal de seu descaro, revelando-me a indignidade de ser o meu filho +abraçado e beijado ardentemente, durante a ausencia do pae, com o nome +deste entre os labios da corruptora... Nega, Clovis, que não és o amante +dessa barregan de padres, dessa immunda mulher que maculou o meu lar com +a sua abjecta convivencia... + +--Nego, sim! + +--Fórte coragem! Jura que hontem não beijaste, quasi aos olhos do +publico, no salão de visitas, os labios rôxos pelo cansaço da idade de +Carlota. + +--Juro-te. + +--Leviano! Mente como quizeres. Mas, ouve: emquanto o meu corpo sentir +as commoções do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquella +devassa, emquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquella carta +nas tuas vestias, que é o perfume de uso na alcôva de tua hervoeira, +terei a coragem de repellir-te e de cerrar os meus labios às menores +palavras para as nossas relações. E se, porventura, desconfiar eu que +foste buscar, como uma abelha sem sorte, o nectar que se esconde na +corolla daquella flor murcha e fanada, dentro desta caza, escuta bem +Clovis, haverá a incompatibilidade de nós dois... É tu entrares e eu +sahir, ou só ficarei se tu te fôres para sempre. Sabes quanto sou +caprichosa, o bastante para não me arrepender das resoluções tomadas. +Negas, ainda, o teu erro? Serei facil de perdoar-te com a verdade, tão +facil quanto não te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade! + +--Nego, sim! + +--Quero convencer-me. A pé firme? + +--Com toda lealdade. + +--Pois bem! É escusado irmos adiante: sabes o que está contido naquelle +pacote? + +--Ignóro. + +--São os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero +devolvel-os. + +--Mas, como? + +--Não os guardarei mais commigo. + +--Vais romper, então, com a familia do Aurelio? + +--Forçosamente. + +--É de mau alvitre. + +--Incommoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar +com uma amizade que me aborrece, e se te excusares a esse acabamento, +confessas o interesse que terás em manter a verminação desse convivio +immundo... + +--Se encaras por este lado, rompe Amaryllia, devolve tudo do modo mais +grosseiro. + +--Devolverei, sim, não ha que ver. + +--Estàs no teu direito. + +--E espero a tua sancção. + +--Jà a tens. + +--Não. Não a tenho ainda. A devolução não poderá ser feita sem uma carta. + +--Pois escreve-a! + +--Não! Tambem não! Serás tu... + +--Eu?!... + +--Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?... + +--Amaryllia, pensa bem! Nós, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos +nessas rusgas de mulheres. + +--Comprehendo-te: romperei eu, e tu, às occultas quiçá, com menores +apparencias, te dedicarás à continuação de teu adulterio. Has de ser +quem escreverá a carta hoje mesmo, agora... + +--Convencer-te-às de minha innocencia? + +--De todo, não. Encaminhar-me-ei de convencer-me. + +--Não haja duvida. Dà-me papel e tinta. Escreverei num momento... + +--E pensas que escreverás como quizeres? + +--Não: como fôr conveniente. + +--Não te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado. + +--Quê? + +--Nos termos que me espoucarem arrevezadamente aos labios... + +--Mas... + +--Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga... + +--Amaryllia?!... + +--Virulenta e grosseira... + +--Faça-se a tua vontade. + +--Escreves? + +--Como quizeres. + +--E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquelle modo escripta? + +--A Carlota! + +--Não, Clovis. Quero que se escreva ao marido della, com o seu nome em +todas as letras... + +--É demais! + +--Não retrocedas! + +--Abusas de minha bondade... + +--Enganas-te. Clovis, ou tu escreves como eu te determino, ou... + +--Absolutamente, não! + +--... ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A caza de meu pae +terá sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortavel. + +--Tua alma, tua... + +--Sei bem! Queres o escandalo da separação para o renome do +conquistador? Não te darei essa vantagem... Debaixo deste tecto, +tragarás, Clovis, o amargo da tortura mais incondescendente, soffreràs a +queimadura do inferno mais verdadeiro... + +......................................................................... + + Ao longe, um relogio temerario, arriscou o aviso tetrico da + meia-noite, ao fim do qual, resolutamente, AMARYLLIA se retirou para + o seu leito... + + + + +IRADO ATÉ À CURA... + + +IRADO ATÉ À CURA... + + Ampla alcôva: no _armoire-à-glace_ reflectida como outro vasto + commodo... + + Rico mobiliario de pau-setim com incrustações de jacarandà reluzente... + + Um leito de cazados, e sobre elle, cadaverico, pelles e ossos, + despojado de carnes, ventrudo, olhar ancioso, o louro ORMINDO, + luctando com a morte... + + É um erro de diagnostico, rebelde a enfermidade à medicação + despropositada. + + Junto do leito, uma banca, e sobre esta, alem de um thermometro e de + um chronometro, desenvolta frascaria... + + Aos pés da cama, fatigada, somnolenta, às vezes, DOCA é heroina na + vigilia: o seu semblante merencoreo só consegue alguma graça + quando ELOY visita o enfermo. + +......................................................................... + +--A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaços sorrateiramente... +Doca, tu bem vês como eu morro todos os segundos, como eu minguo sem +cessar... + +--Tem fé em Deus, Ormindo. + +--Morrerei com ella, sim. A fé! Ella é o facho illuminador da estrada +eterna... Como deve ser doloroso não crer em nada, Doca!... Sentir a +alma cahir no vacuo... Ah! não me conformo, porem... Morrer quando tanto +preciso é viver... Vou deixar-te na penuria... a braços, por certo, com +os creditos da medicina e da pharmacia... + +--Tu pensas demais. + +--Como não hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilharás a codea endurecida +e atrazada. É com horror que prevejo as tuas infelicidades... És nova. +Mas de que servirà a tua mocidade sem pão, os teus verdes annos sem um +amparo? És bella. Mas de que prestarà a tua lindeza se não tiveres um +manto para o frio e um abanico para o calor? Nova e bella... na +viuvez! Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei? + +--A pobreza é um estimulo, Ormindo: saberei trabalhar afim de haver com +honra um pedaço de pão e alguns covados de fazendas... + +--Não te peço nada, e peço-te muito: não macúla o nome de teu marido. A +herva reverdesce a fronde dos vegetaes, augmenta-lhes a copa, +ennobrece-lhes o aspecto: crava-lhes, porem, até ao durano, as raizes +assassinas e rouba-lhes a seiva até à morte. A arvore cessa de existir +com a trepadeira phytocida que lhe rendilha os contornos. A mulher deve +pensar que o bem-estar não é a honra, e que ha tranquillidades mais +homicidas do que a herva do passarinho... A deshonra não provem da +pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A deshonra é fructo das +transigencias de alma, e a mulher viuva é a que póde peiormente +transigir... Que dores!... Ui!... + +--Estàs vendo: peioras quando falas! + +--Doca, no meu caso extremo, a morte é assim qualquer coisa como uma +sorte grande... + +--Num bilhete branco para mim que fico sem ti... Não sabes aproveitar o +silencio como um meio de cura, não sabes tirar partido, poupando +forças para momentos mais graves... + +--Durarei muito pouco. + +--Não pódes saber mais do que os medicos. + +--Ah! mulher! Só eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se +avisinha o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam. É +verdade, pois tenho neste momento a visão mais lucida dos meus +primordios. Que é isto senão que se vai fechar a circumferencia de minha +traslação em torno do vacuo universal? O aneurisma cresce, avoluma-se, +rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a fórma de uma esphera, é um +globo pequenino de vivos, na lucta pela existencia. Vai arrebentar, +latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que nunca +me illudi com a esperança da cura? Illudi-me, mas antes de todos... + +--Quem està vivo, Ormindo, ainda não està morto, e toda a cura é plausivel. + +--A tua dedicação é cega. Desde que adoeci, desde que sobre o coração +senti a formação mortifera do mal circulatorio, certifiquei-me estar +mais longe do mundo do que do nada. E deste momento para cà, que fiz +para denunciar que creio na cura? Ao contrario, a minha vida tem sido a +chamma de uma véla a luctar com o sôpro das auras. Não ha um +instante em que não me morra uma alegria, em que não nasça uma saudade. +Em torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa +teimosa em torno de uma lampada. + +--Aggravas-te, Ormindo! Cala a bocca por piedade! As tuas palavras são +outros tantos punhaes que me sangram o coração. + +--Que horas serão? + +--Jà é noite. + +--E os medicos que não vieram? + +--Vieram, sim. Tu estavas dormindo. + +--Os medicos não vieram, não... Até a minha esposa conspira contra a +minha existencia... + +--Não pesas as tuas palavras, Ormindo. + +--Jà sei de tudo. Perderam a esperança, abandonaram-me. Não passarei de +hoje. Estou condemnado a horas. + +--Descansa um pouco. + +--Descansar, agora, só de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e +parece-me que foi hontem à tarde que nos vimos pela primeira vez. Um +sonho às vezes tem existencia mais real, porque nos acompanha do momento +da concepção em criança ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me +o ar... + +--Assim queres! Falas tanto... + +--Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: não ha rio que não chegue ao mar. +Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas +consegue... Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez não te +lembres mais do meu enfeitiçamento; não me esqueço eu do sorriso unico +com que festejaste o nosso encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh! +que lindo luar te prateou as pupilas, te diademou os cabellos e te +banhou luciferamente as espaduas! Mezes depois, o cazamento... A noite +de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso amor insatisfeito sempre +para accordar novas caricias, para fomentar alegrias... A esperança de +um filho... O recúo da esperança... E tudo isto acabar quando mesmo +principiava?!... + +--Não temas a morte: um cerebro que pensa como o teu dà confiança na +renascença da vida. + +--A alma não morre, Doca! É ella quem esta vivendo agora. Os pulmões +fraqueiam, o coração tem espasmos, a visão escurece-se, a voz +arrasta-se, mas o cerebro pensa... Crês tu que, porque não falam, todos +os moribundos não pensam? Illudes-te! É a hora de maior pensamento. Só +recompôr todo o passado afim de o ligar ao presente e encerrar o +circulo das sensações mundanas, é pensar robustamente. Um moribundo que +eu vi, não tinha a fala. Os membros eram paralyticos, os olhos +envidrados e photographavam a luz do dia para a eternidade... Pois bem! +esse homem assim amortecido, repelliu com o gesto brusco de uma perna o +supplicio de uma injecção nos ultimos instantes... Acaso, não pensaria +mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros ha que conhecem até o +segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser tocante o +adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um +agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecerà mais +no extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro +mundo... Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que não falo certo? + +--Não me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperança +illuminar-me o rosto... + +--Como és amante?!... Quererias de coração e de alma, com todos os +affectos e vontades, a minha cura? + +--Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado à saúde. + +--É bem pouco um desejo! + +--Duvidas que todas as minhas forças funccionam só na intenção de +possuir-te novamente são? + +--Não duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a +prolongação de minha tortura... + +--Aborrecer-me eu!... + +--E então?!... + +--Tens coragem! Só me representa que gravaràs na alma uma eterna +desconfiança da amizade de tua esposa... + +--Isto não! + +--Pois parece, Ormindo! + +--Neste caso, escutas-me com agrado? + +--Sim. + +--Posso falar? + +--Não. + +--Ah! jà sei... É a mesma quesilia de que falar é um desperdicio de +forças organicas... + +--Diz o doutor... + +--Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro +conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar +num terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido às intenções +animaes dos homens, a equação da mulher é perigosamente diversa. +Virgem, ella tem a expressão de um sonho; esposa, representa uma +realidade; e viuva, ella é uma alma em que se derramam os mananciaes +copiosos da luxuria humana... Virgem, fôste uma criadora; esposa, uma +inspiradora; viuva, seràs, em nome da honra de teu marido, uma +redemptora... Ai!... Dóem-me os pulmões... Morrerei, porem, com todas as +sensações... + +--Não morreràs, Ormindo! + +--São os teus votos? + +--Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda +no instante derradeiro? + +--Não duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz. + +--Pois então?!... + +--Dà-me a tua mão... + +--Estàs frio! + +--É a gelidez da morte... Não tardarà... Fazes-me um favor?... + +--Se o faço... + +--É para depois de minha morte... + +--Juro-te. + +--Mas, responde franca e precisamente, para que eu não succumba com uma +duvida... + +--Pede o que quizeres... Pede... não!... ordena! + +--Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se não me derrubou de vez, +vai invadindo-me com o gêlo de seu halito das extremidades para o +coração. Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez é um +despenhadeiro. Peço-te em nome de minha tranquillidade, que te cases, +immediatamente, afim de que não paire uma só nuvem sobre a limpidez do +teu e do meu nome... Casarás logo... Peço-te... É o ultimo sacrificio em +prol do teu defuncto... + +--Intranquillisas-me, Ormindo. + +--Não ha razão para isso. + +--Se tu mandas... + +--Mando, não; peço... Agradar-te-à Eloy? + +--Queres, Ormindo, a verdade antes da morte? + +--É isso... + +--Pois bem! O que tu propões jà estava assentado entre nós outros... + +......................................................................... + + A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um + grande esforço e se salva com o despedaçamento brusco do myoma + desconhecido, do assassino erro de diagnóstico... + + + + +A HUNGARA + + +A HUNGARA + + Commodo de hotel. Um fóco electrico esverdinhava o azul papel das + paredes. + + Revolvido, o leito denunciava em duas cóvas a pressão de dois corpos + que nelle se afundaram. + + SARAH, a hungara, recebia GUANABARINO, o chronista theatral, com um + estridente signal de contentamento... + +......................................................................... + +--Aqui estou. Nem sei como acertei. + +--Estás apaixonado? + +--Crês, Sarah, que paixão desponte como um sorriso? + +--Quem te disse o meu nome? + +--Li-o nos programmas. + +--Ah! sim. Gostaste do meu canto? + +--Não te ouvi. + +--Como te agradei? + +--Pertencendo a outro. A mulher sem dono custarà a topar com um amante. +Rolarà uma eternidade como a pedra que não cria limo... Tenha um amante +e dezenas surgirão... + +--Como elle é experiente! + +--Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por +Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo braço delle, no teu longo +_manteau_ de sêdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo +dezenas de mulheres no Café-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o +canariar de suas vozes; francesas, que arrebatam com o _savoir-dire_ as +malicias mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus +sapateados; americanas, que lembram bugios nos saltos do _cake-walk_... +Todas são-me indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com +cocottes para todo o mundo... De começo estive tentado a emprehender uma +_ménage-à-trois_ com uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo +prohibido e vivia aferrolhado à concupiscencia de seu proprio pae. +Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente +encontrei-me comtigo... + +--Ladrãosinho! Como elle sabe contar! + +--Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu +amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de +amigos attrahiu-me e a attracção de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um +cumprimento com a cabeça. Não me teres sido apresentada, significou que +o teu galan zelava de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho +de seu progresso na sabedoria dos olhares que as pessôas cultas pódem +trocar. Viste como te comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho +para o _buffet_? Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo +de junto de ti e como tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro? +Na sombra dos pés da meza, os nossos corpos se trocavam desejos nos +encontros, animavam-se tambem com os promettimentos mais claros, e as +nossas carnes se queimavam por detraz dos tecidos de nossas vestias. +Tudo isto, porem, ainda não é paixão. É um grito do instincto animal. Só +nos não apaixonaremos se não quizermos... + +--Como sabes a vida! + +--Precisas prender Gustavo. A epoca é das melhores. O dinheiro passa-lhe +pelas mãos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque, +alem do mais, é um amante que, por força de ter mulher e filhos e morar +longe, te darà muito tempo aos amores furtados. + +--Não os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo não +se tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e só o +trahi uma só vez: com o pae de meu filho. Gósto de um amor só, de ter um +dono e de ser cubiçada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso, +o Gustavo não me agrada... Prefiro-te a elle, serás o meu amante... + +--Erraràs se assim preferires, Sarah. Não tenho posses para te manter, +ao passo que o Gustavo... + +--Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho +para o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero... + +--Neste caso ficaràs com elle... + +--Porque então? + +--Conheceste-o primeiro. + +--Não importa isso. A elle conheci na manhan, a ti à noite, ambos no +mesmo dia. Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra. Encaminhou-me +do hotel, e... má recommendação tem dado com os multifarios obsequios, +com os gastos e as gentilezas, sómente com essas coisas... Ora, uma +mulher como eu, ou quer o homem, ou não o quer... De minha parte +dispenso as galanterias... + +--Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispôres de sua +bolsa... + +--E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor... + +--Là com isto combino eu. + +--Assim, và que seja e comecemos... + +--Que tenho eu para tanto me olhares?... + +--Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes +são dois vulcões. Como te chamas? + +--Guanabarino, um nome difficil. + +--Como? + +--Gua-na-ba-ri-no! + +--Gua-na... + +--... barino. + +--Ah! sei. Guanabarino. É a primeira vez que ouço esse nome. És brazileiro? + +--De corpo e alma. E tu? + +--Filha do sul da Hungria. Vim creança para a tua terra. Fui noiva, +aprendi a cantar com um meu amante e vivo disto... + +--Tens percorrido meio-mundo, hein? + +--Não: conheço a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia... + +--Dize outra vez esse termo... + +--Reminiscencia. + +--Que lindo! Parece-me, Sarah, que estás a dar uma serie de beijos... + +--Como elle é ardente! + +--De verdade? + +--A tua alma està fugindo-te pelos olhos... + +--Junto de um espirito como o teu, como ella não querer a transfusão +carnal? Jà notaste o frio que regela as mãos do homem emocionado junto +da mulher que o escalda?... + +--Ih!... Que gêlo! + +--Sabes explicar? + +--Não. É difficil? + +--Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao coração. As +extremidades resfriaram-se. Tudo isto jà é começo de paixão... Falaste +nos meus olhos! E os teus? São capazes de comprar o mundo com um só +relance. + +--Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento? + +--Que graça! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas +gentilezas. + +--Tens gozado tanto? + +--Inda perguntas?! Não sabes que o amor se fez para os temperamentos +tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um +desejo para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda +hora: sinto que todo o teu sexo não seja uma só mulher para esta ser a +minha amante... + +--Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino! + +--Não. + +--Desmentes o que asseguras. + +--Jà tiveste o teu quinhão. + +--Como assim? + +--Jà te possuiu o Gustavo... + +--Juro-te que não. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja +revelada, ainda não desejou... + +--De facto? + +--Juro-te eu. + +--Ao depois delle... nunca! + +--Mas, porque? Mettes-me medo... + +--Por nada! O Gustavo é um homem para se temer... + +--E porque me inflúes para ser a sua amante? + +--Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu +concubinato bem pódes usufruir grandes proventos. E, jà agora te direi: +pouco mais fará elle do que hoje... Entretanto, como homem de +recursos, talvez ainda não te désse a menor prova do que seja... + +--Fez-me hoje a oblata de um collar de libras... + +--Um collar? + +--Sim. + +--De libras esterlinas? + +--Conheces? + +--Acho que não. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos... + +--Foram presente. + +--Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros +meios que não esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe +aqui... + +--Não amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de +_chanteuse_. Ás vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a +primeira a não regeitar o que me dão. Um deputado deu-me este annel... + +--Adoravel! + +--Um advogado, ao depois de uma perseguição de mezes, para eu o receber, +offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho +aquinhoou-me apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio, +outras... + +--Muito em cheio, Sarah! + +--Tu falas? Um mineiro, hoje desesperançado de conseguir a minha +retribuição, deu-me estes correntões para atilios... + +--Que lindas fórmas! + +--Mostro-te apenas os atilios e não as pernas... + +--E eu vejo tudo! É admiravel como o _fraise_ das meias se destaca no +gêsso das tuas pelles... + +--Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me +cubrissem de oiro tenho tido às carradas... mas, um só que me dissesse +coisas tão lindas, nunca tive... A palavra inescutada é tambem uma joia +preciosa. E para retribuir tantas distincções ineditas só um beijo de +muita paixão, só um beijo... + +--Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e déste mais de mil... + +--Longe disto, tu não me recompensaste com um só... Reparei bem... + +--Desculpa. Mas, quando sou beijado, não beijo. Esta caricia deve ser +sempre espontanea e impagavel. E eu não commetto a grosseira +sensualidade de pagar uma caricia... + +--Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan... + +--Com todo o fervor... + +--Não te enciumas? + +--Não. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de +ouro que elle te der. + +--Queres ver o collar de hoje? + +--Verei. + +--Elle me prometteu para amanhan um relogio e um correntão. + +--Aproveita, Sarah! Gustavo desperdiça dinheiros de herança... + +--Vês tu o bello collar? + +--É lindo!... Elle t'o deu? + +--Sim. + +--Esta joia? + +--Que significa o teu espanto? + +--É que este collar é... + +--Falso? + +--Não! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo... + +--Agora é minha! + +--Estàs no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos... + +--E só a ti amarei, Guanabarino!... + +......................................................................... + + Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de + GUSTAVO evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando o + silencio somnolento do casarão do hotel, a figura caprina de um mal + conhecido visinho de quarto... + + + + +DEPOIS DO COMETA + + +DEPOIS DO COMETA + + De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, ALEXANDRINA + ergueu-se da _steeple-chaise_, e beijou a mão da velha senhora D. + CAROLINA, que acompanhava MIMI, naquella matutina visita de nupcias. + + Ao depois, como duas flores de uma só haste separadas para sempre + que se reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braços + a figura da amiga e beijaram-se fartamente. + + De outro lado, ARTHUR, o novel esposo, enfardado no seu dolman de + brins brancos, cumprimentàra, ceremoniosamente, a DONA CAROLINA e + com um sorrizo prazenteiro applaudiu as bregeirices de MIMI. + + Esta e ALEXANDRINA, ao depois de affaveis cumprimentos geraes, + confidenciavam numa janella, por detraz de arrendadas cortinas, + onde se foram acastellar para a permuta de segredos... + +......................................................................... + +--A que horas despertaste? + +--Nem sei mesmo... + +--Não é possivel. + +--Palavra! + +--Então ferraste no somno, e... + +--Ao contrario: não durmimos. + +--É exquisito. + +--Como te enganas! Não calculas o que seja a estafa de um dia de noivado. + +--O dia mais bello da mulher... + +--Parece-te? + +--Esta é bôa, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: não te +sentiste extraordinariamente feliz? + +--Ah! sim... Casei-me por meu gosto... + +--Olha que já me pareces outra com tanta sisudez e seccura... + +--Não é, Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. É +preciso que não me tenham na conta de alguma leviana: jà hoje em dia, +minha amiga, tenho segredos que te não posso falar... + +--Prohibiram-te de dizer-m'os.. + +--Não! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alteração na vida de uma mulher +que se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida +conjugal, que nem sei como me reconheceste hoje... Jà viste, no +craveiro, o botãosinho verde; o casúlo de folhas, como, na manhan +seguinte, está um perfumoso cravo, uma flor distincta? Se te dessem as +duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o facto como inveridico... + +--Mas eu te vejo a mesma boniteza... + +--Sim! É questão de alma. Suppõe que adormeceste no começo de uma viagem +e que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo +seria o mesmo, a tua lindeza não seria transformada, mas o teu coração +palpitaria diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As +tuas amigas ficariam noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso +que regressasses ou que ellas viajassem para onde fôras. Assim no +cazamento: viajei para muito longe de ti. Para nos irmanarmos como +dantes, ou voltarei à minha immaculabilidade de hontem, o que seria +impossivel, ou tu ascenderás ao matrimonio para o que faço votos. + +--Tens razão! + +--Não te parece? + +--Falas e procedes tão judiciosamente que não me atrevo a duvidar das +alterações por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o +cazamento para não me esquecer tão depressa das intimidades com as +minhas amigas... + +--Não me esqueci. És injusta! Não te darei novas confidencias: as +velhas, entretanto, ficarão acariciadas como um sonho de felicidades na +vida de uma mulher inditosa. + +--Pois pensei que me dirias tudo... + +--Tudo... quê? + +--Ora! + +--Denuncias que pensas em algumas coisas que não são veridicas, ou, pelo +menos, não o foram para mim. + +--Foste differente das outras! + +--Offendes-me. + +--Não te offendo, não. Desconheço-te. + +--Que quererias tu que eu te falasse? + +--Não sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses. + +--Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha +com um olhar seriamente investigador e tua mãe franze o sobrolho para +mim... Um ha de suppôr-me indiscreta para te communicar tolices... +e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras... + +--Não! Deixa... + +--És má! Tens talento e não queres comprehender a minha situação, +especialmente no dia de hoje. + +--Jà te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres... + +--Amúas sem razão. + +--Com que direito a planta exige viço da flor que já foi colhida? +Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre nós duas existe a alma do +sr. Arthur... + +--Não exaggeres... + +--Pódes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirás delle tambem. Os +meus serão contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo, +porque não deve haver um conhecimento novo que não pertença a ambos: os +delle... morrerão comtigo, porque não deves trahir à tua fé conjugal... + +--És incondescendente! + +--Sim, sou incondescendente na verdade das cousas. + +--Em parte, minha amiga. + +--Não. Em tudo. + +--Veremos. + +--Pois experimenta! + +--E se eu te provar? + +--Pago-te com um beijo... + +--Oh! Pois então a mulher que se cazou póde beijar outra pessôa que não +seja o seu esposo? + +--Deste modo, Mimi, não chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha +conversas... O que te conversei até hontem, não conversarei jamais com o +meu esposo. O que te converso agora, não conversarei jamais com a tua +maman. Beijos!... Os que te dou são da ordem dos que sempre te dei... + +--Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias. + +--Não sei se sómente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei +quantas tem... + +--Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes +ou não ao teu marido? + +--Conforme. + +--Não é caso de dubiedades. Dizes ou não? + +--Se fôr só do teu interesse, não. + +--Faço-te justiça, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao +falseamento agora, sómente agora, do teu dever. Contarás tudo o que te +disserem, ou serás uma perjura na fé conjugal. Eu mesma duvidaria +de tuas intenções, se occultasses do teu marido o menor acontecimento +que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de +descobrir sempre esse interesse que não é exclusivo da pessôa que te +fallou, para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de +parte, e affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres... + +--Dou-te razão, minha amiga. O mundo é esse mesmo e não serei eu quem o +modificará. + +--Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva! + +--Achaste? + +--Encantadoramente bella! + +--E tu me viste? + +--Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem à porta da +igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja. + +--Era a ultima nota do meu pudor de virgem! + +--A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro +assentou-te a grinalda como uma corôa de rainha. Agradou-me a tua +elegancia. E, porque não te censurar? só não gostei de trazeres os +olhos humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar esplendido. + +--Lisonjeira! + +--Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multidões que se +dominavam com a curiosidade de ver-me... + +--Tens razão. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem +saber que... mais tarde... + +--Dize... dize... + +--Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais +algozes... + +--De véras? + +--Sim, minha amiga! Não calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh! +Digo-te de mais! Perdôa se te offendo... + +--Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que, +ainda ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu? + +--Guardei-o já para offerenda a uma Santa. + +--Quem t'o tirou? + +--A maman... Arthur conversava no salão com o papà e dois amigos +retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem jà era alta hora da +madrugada. Duas ou tres, não sei. + +--E o teu vestido? Era primoroso... + +--Está no _armoire-à-glace_... + +--Muito amarrotado? + +--Não. Quando o despi... chorei! Como é que uma mulher só se veste tão +bem uma vez na vida?!... + +--Choraste, Alexandrina? + +--Sim. + +--É de mau agoiro. Dizem que morrerá primeiro aquelle que chora... + +--Não sabia. + +--Nem que morrerá antes do outro o que se deitou por primeiro? + +--Tambem não! E por isso tambem serei eu quem morrerá antes... + +--Ah! já estavas deitada quando elle appareceu na alcôva? + +--Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mãos, tratou do +successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada, +desde as asperezas do juiz cazamenteiro, até às melifluidades de voz do +sacerdote, quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal. +Recompuzemos a sociedade que aqui esteve. As dansas, o serviço de +_buffet_, a ceremonia do chá... Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa, +eu lembrava outra. Sorriamo-nos, commentavamos, com seriedade, as +incorrecções dos outros... + +--E o tempo se passava... + +--É exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. Não sabes, porem, +como foi opportuna a nossa conversação. Quando extremecemos, ouviu-se o +tiro das cinco horas... + +--E então? + +--Arthur lembrou-se do cometa... Já o viste? + +--Ainda não! + +--Pois é bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada +do meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi... + +......................................................................... + + Interrompidas por DONA CAROLINA, MIMI e ALEXANDRINA, dando-se as + mãos, nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na + conversação commum... + + + + +AMORES NO CLAUSTRO + + +AMORES NO CLAUSTRO + + Um ar tépido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos, + instigador do sensualismo mais humano e menos animal, era o + excellente conforto da cella de FREY PATRICIO. + + Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de + dedos enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro + e o seu affectuoso irmão de ordem, FREY THOMASIO, palravam + gostosamente de coisas alegres... + +......................................................................... + +--Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resolução +improvisada... + +--Pois eu, não! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e não +venci: fui derrotado. + +--Não posso crer facilmente. + +--É a verdade, irmão Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no +sepulchro. Para aqui trouxe o meu corpo, e, là fóra, borboleteando, sem +parar, a minha alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella +animava. Emquanto moço, nas minhas preces só o nome de uma mulher viçava +triumphante... + +--Tambem a mulher... + +--Sim. Preconceitos, preconceitos! A baronía estulta de uma familia +asphyxiou sem dó a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje, +tremo de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre +hymnos e bemdições, tel-a-ia levado, não à cova, sublevando-se contra os +pais, sim ao hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem +cuidados naquillo que outros apreçavam--a feeria dos titulos +nobiliarchicos--vivemos apenas pelas suggestões do sentimento que nos +venceu... + +--Os teus labios tremem, irmão Patricio, as tuas pupilas se inflammam e +olham por sobre nós para tempos bem distanciados... + +--Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingança que exerci +contra mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia +ainda, mas respirando balões de oxygenio. Artificios da sciencia! E +tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo, naquella +tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do +esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A +vista annuviou-se-me e, balouçadas pela briza, as rendas do esquife me +disseram um adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenços muito +brancos, molhados de lagrimas... Succumbi deante da falsa visão e +esmaeci... debruçado sobre aquelle leito, onde chorei incansavelmente +irado--Deus me perdôe!--como o mais pecador dos homens... + +--Tanto poude o amor! + +--A mola do mundo, Frei Thomasio, é a mulher. Não ha um burel aqui +dentro que não seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem +corriqueira e profanamente os francêses, _chercher la femme_... Por +ventura não professaste como os outros? + +--Sem tirar nem pôr na cauza. + +--Sempre assim. + +--Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu +entre os outros homens e te elegeu o seu preferido. + +--Ah! por certo. + +--Quem me déra! + +--E que te faltou, Frei Thomasio? + +--Justamente o amor. + +--Intrigas-me de véras. + +--Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei +mocinho? + +--Se me lembro!... + +--Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era +menino, e se me dissessem que o heliantho foi obra da pretenção e do +desabuso de Hephaestos querendo, como um Deus, criar sóes e mais sóes, +todo o credito eu daria, porque não tinha discernimento para me salvar +das tentações humanas... + +--Que são as verdadeiras tentações da serpente no Paraiso... + +--Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o +carreiro que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas +e ramos para sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambições +de saber... Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as +primeiras cousas de amor... + +--E não lias o _Cantico dos Canticos_! + +--Ah! não! Fui sabendo que, como Eva fôra criada para acompanhar o +primeiro homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os +arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com +olhos de escaldo... + +--Que maganão! + +--E não peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas +amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o +cortejo dos mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras não tinham +as calenturas de um amor, ella abrasava na abundancia das pretenções +exaltadas: todos à porfia lhe disputavam a preferencia... Tolamente eu +era conduzido entre os fascinados pelo olhar da moçoila cortejada. + +--Estou vendo que eras o preferido... + +--Não sei, porque não tive capacidade para aquilatar, bem como porque--e +daqui se originou a minha principal historia--troquei logo essa +espectativa de amor bem aventurado por uma effectividade de amor bem +triste... Mas sei que os olhares dos meus velhinhos cahiam sobre nós +dois como punhados de olorosos jasmins, quando elles nos viam, quaes +dois noivos conscientes, em falações na varanda arborisada de nossa +caza, amorosamente illuminados pela lua... + +--Bem feliz que ias para a vida entrando, irmão Thomasio? + +--Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a +minha desdita foi ella a que mais lagrimas chorou... Ora, se a intuição +de amar crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais +fulgentes e chispantes, me sensualisaram todo e a carne arvorou-se em +maior do que o sentimento... + +--O pecado! + +--Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, às vezes +ainda peiando cigarras e apedrejando, com rudes instinctos, os +inoffensivos gaturamos, fui prendendo-me às ardencias das esbrazeadas +pupilas de uma mulher facil... A principio, quando o seu olhar incidia +sobre mim, eu cerrava os olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer, +pensava nas ternuras da outra. Nada mais. Os dias repetiam-se e as +scenas mudavam-se, crescendo as investidas e diminuindo a resistencia. +Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da aggressora, eu sentia +uma purpuridão nas faces, mas incolume proseguia o meu caminho... Mais +tempo, e duas, tres, quatro vezes, voltava-me para trocar sorrisos... Em +caza, a presença da outra, começou de aborrecer-me. Á noite, por sobre +as paginas abertas dos meus livros, dansavam cabrioladamente as imagens +das duas mulheres. E eu me decidia fragorosamente pela menos +conhecida. Um dia, notei que os labios da extranha se moviam. Nada +percebi, no entanto. Que ella falava, eu estava certo. Nas passagens +seguintes, com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo exquisito. Duas +syllabas apenas, e, se não te offendo nem abuso de tua condescendencia, +irmão Patricio, dir-t'o-ei jà... + +--Faço mesmo questão de sabel-o... + +--Jà que queres ouvir-me, continuarei... + +--Continúa... + +--A deslumbrante mulher dizia-me apenas: «Tico»... + +--Olá!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocabulo... + +--Nada sei explicar-te, Frey Patricio, senão que corri os diccionarios +dos meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo +convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo +investigador, depois de algumas pesquisas fóra da convivencia dos +collegas, soprou-me segredadamente: «_Tico é um convite... E quando +ouvires, responde taco..._» Corei deante da revelação e maldei de tudo. +O meu primeiro impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me +furtar às seducções de Almira... + +--Que bello nome, e lendario! + +--Tive, porem, de ceder à contingencia dos factos. Não era possivel +andar por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti +da ideia e affrontei a tentação. Com o tempo fui cedendo. E, um bello +dia, como se diz là fóra, escorreguei... «Tico!», disse-me ella, e eu +lhe oppuz murmuradamente quasi: «Taco!» Em resposta, ouvi: «Amanhan!» +Que noite, Frey Patricio! Se ha caldeiras para queimar almas, nós as +experimentamos quando fazemos a espera de alguma coisa. Não durmi, +confesso. E, para encurtar as razões, só acordei, effectivamente, +quando, advertido por ella de que là iria chegar o seu homem, me vi +escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse +esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que +cresceram e motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que +creatura perversa! Foi às bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho +animal me arrancou de debaixo das pilhas de saccos, às bastonadas, Frey +Patricio... + +--Ah!... ah!... ah!... ah! + +--Não rias, Irmão! + +--Não te zangues, Frei Thomasio. Não me posso conter... A tua historia é +alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!... + +--Nem sei como de maus tratos não me acabaram naquella hora furiosa... E +quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais! + +--Pudéra!... Ah! ah! ah! ah!... + +--Aliás, não foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido jà, e +voltando aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia: +«Taco?»... e eu a repellia instinctivamente... «Nem tico, nem taco... +nem là dentro do teu sacco...» + +--É bôa, é bôa!... Ah!... ah!... ah!... ah!... + +--Em seguida... + +--Sim... + +--... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos +conhecidos me estygmatisava com o escandalo, e soffri, abrazadoramente. +Ninita, escandalisada com a minha quéda, definiu-se por outro, que a +recebeu como esposa perante Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim +mesmo... O mundo era um tedio... Então pensei no vicio... + +--Mizericordia! + +--Mas, não era?... Para abafar uma mizeria moral, só outra maior... ou o +passo que dei... + +......................................................................... + + A bronzea sineta da confraria, não se retendo na missão avisadora, + chamava a Ordem para a humilde refeição da noite. + + E quando FREY PATRICIO chegou ao salão, na companhia de FREY + THOMASIO, jà se liam, emphaticamente, as consoantes orações da + hora. + + + + +A CONSULÊZA + + +A CONSULÊZA + + De _maillot_, apenas, arrebicando as faces diante de um espelho, + NINA, a bailadeira, tinha um milhão de pensamentos banaes no cerebro + ardente. + + Os traços da sepia e os rebordos do nanquim, já lhe accentuavam a + grande vivacidade do olhar, e o pó de arroz attenuava e embellecia + as côres roseas do rosto criadas pelo carmin vencedor. + + Uma vez por outra, deixava de conformar-se, para attender aos + appellos da porta, de onde, sem deixar ninguem penetrar, voltava + enfastiada com as iterações de extranhos. + + Esperava OCTAVIO: era o _aimant du coeur_, porque o CONSUL, o + velho francês, pelas suas funcções representativas, evitava + aquelles encontros mais notorios... + +......................................................................... + +--Nina? + +--Quem bate? Octavio? + +--Elle, sim! + +--Entra, meu rico amor! + +--Fiz-me esperar, hein? + +--Nem tanto, mas eu tenho a regalia de poder cheirar-te as vestimentas +para saber se tiveste o contacto do corpo de outra mulher, de +vistoriar-lhe o casaco, para descobrir ahi os fios perdidos dos cabellos +da que me logrou... + +--Descansa o teu coração. Vivo inteiramente para ti. E emquanto estou +longe do teu olhar, sou como o barro que espera, ardorosamente, a toda a +hora, a plasmagem do artista. Por elle, passam e voltam, vão e tornam, +todos os profanos: mas elle não é menos monopolisador de sua +plasticidade do que uma flor do gnomo que só abra a horas certas... + +--Não sabes? O Consul pediu-me a noite... + +--E deste-lh'a? + +--Nem sei... + +--Já me toma os dias inteiros... Entra agora pelas noites... Que horas +serão as minhas? + +--Todas até. Aturo-o porque tu consentes. + +--Exactamente. Mas elle vem a prejudicar-me se continúas a não se +satisfazer com o que lhe dás. Ás vezes, lá para as tantas do dia, penso +em ti. O brazido abre em chammas ao menor sopro. O incendio alastra. +Quero remediar-me e soffrer a caricia dos teus beijos anti-incendiarios. +Vem logo a certeza de que o Consul te frequenta o dia inteiro. Esmoreço. +Abomino-me e espero confiante o prazer da noite. Tenho sido certo e +insubstituido. De agora por diante, nem mesmo nas noites poderei +confiar. Ao amante nunca lhe dês demais. Se te pede uma hora, dá-lhe +meia, se te pede um dia, dá-lhe horas, se te pede uma noite, dá-lhe um +dia, e reduze sempre as suas pretenções. Ao contrario, todo o tempo será +absorvido. E, quanto ao mais, espera-te hoje a ventura. Vais dormir com +o Consul... Estou libertado... + +--Oh! não! Que succede Octavio? + +--Nada. Não estorvo os teus anhelos. Leva comtigo o Consul. Dá-lhe o meu +lugar, mas dize-lhe, ao menos, que não me occultaste a entrada +delle no leito que deixo vasio... + +--Espera um pouco que te falarei melhor. É só acabar de toucar-me... + +--Careces de mim? + +--Não me aborrece, Octavio! + +--Pensei sempre que valhesse mais do que todos os outros teus amantes. +Vejo, entretanto, agora, que um existe mais poderoso ainda do que todos +nós reunidos... + +--Vale a pena a descuberta. + +--Desmente-me, pois. Não tens um amante que preferes ao Consul, um +amante deante do qual te esqueces mesmo de mim? + +--Dizes-me coisas extraordinarias... + +--Contesta a existencia desse outro amante omnipoderoso, que motiva +teres-me deixado no exilio deste divan, na semi-obscuridão de teu +camarim... + +--Não és amavel. + +--De mais em mais se confirma o que te digo: nem tens animo, por causa +delle mesmo, para contestares o que te affirmo de um modo tão +categorico... Digo-te centos de coisas e nada te abstrai desse amante +unico... + +--Agora, sim! Dei um ultimo retoque nos meus preparativos de scena... +Que te pareço de _maillot_? + +--Não trato disto. Refiro-me ao teu poderoso amante. + +--O Consul? + +--Não sabia que este seja poderoso. Mas não é a elle. Ao outro, deante +do qual te esqueces de mim, do Consul e de alguns menos e mais cotados +do que nós outros... + +--Amante? + +--De certo. Negas que não te absorve elle mais do que qualquer de nós? + +--Nego. + +--Contestas que exista esse amante? + +--Juro-te mesmo. + +--Vê lá que não me enganas... + +--Quem será, Octavio? + +--O teu espelho... + +--Aceito a graça. Em troca, porem, vais dizer-me o que julgas de meus +trajos em _maillot_?... + +--Julgo mal, porque te acho parecida com uma lebre a quem cortaram cerce +todos os pellos... Assim muito delambida, muito escorrida, muito +masculina... + +--Tens espirito. + +--E fui franco do modo que tu me pediste. Veste as rendas, sobrepõe as +sedas, ou tira o _maillot_. Se vamos ao mundo, todos os atavios, todos +os _soutaches_, applicações e _manteaux_ serão poucos; se ficamos +aqui, o menor fragmento de tecido mais fino, será demais... Ou o extremo +enroupamento, ou a extrema nudez... + +--Figuremos duas hypotheses. Se me visses enroupada, com um luxuoso +vestido, de muitas rendas, muitas fitas, muito decóte, muita joia, e +lindo chapeu de plumas, que farias de mim? + +--É essa a primeira hypothese? + +--Sim! + +--Pois bem: levar-te-ia, logo, à tua caza para que, antecipando a hora +de tua sahida, o Consul, nem de longe, pelo meu braço, te visse hoje... + +--És digno de um acto destes. + +--Bravura do amor. Agora, a segunda hypothese? + +--Sim: se me visses núa, tão núa que nem uma _écharpe_ me velasse as +pomas, que farias de mim? + +--Ah!... Ahi está uma pergunta de difficil resposta, uma hypothese de +operosa solução... + +--Porque? + +--Porque uma nueza dessas exigiria um leito e sem este tu serias apenas +uma gravura... + +--Venceste-me. Despacharei o Consul. + +--Não sou eu quem determina. Passarias uma noite igual às de Bhodis na +companhia de Chrysis... Porque escancellas tanto os teus deformados +olhos? Não calculas, assim, a desproporção do teu semblante, lindo como +um camapheu... + +--Procurei ouvir o que se faz em scena, afim de verificar quanto falta +para a minha vez... + +--Queres, saio a ver... + +--Não. Chamarei o contraregra. Nem precisa: canta a Solidonia... + +--A pernóstica! + +--Deixa-a, coitada! Ainda tenho todo um intervallo e dois numeros da +outra parte. Agora... dà-me um beijo, paixãosinha! + +--Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulêza... + +--Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu +lhe tenha promettido uma noite, quando não lh'a darei por preço nenhum? + +--Ciumes?!... Não os sinto dos outros homens, porque nenhum delles +logrará de ti as venturas e as concessões que eu tenho gozado... Nem +mesmo do Consul... Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve +dizer sempre que antes delle provei-o eu. Tenho ciumes, Nina, do +que tu vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que +fitas... Se eu pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus +vestidos. Invejo delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem +confidentes dos teus nervos e das tuas pulsações. Tenho ciúmes das +flores que exornam os teus cabellos, porque sómente ellas passam o +deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor. Tenho ciúmes do +fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado entre os +teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te +inebria, porque sómente elle atravessa as tuas fórmas e vai arrebatar-te +na essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque +sómente ella vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo +isto, eu quereria ser o somno que te fecha as palpebras, porque +participaria das felicidades todas dos teus sonhos; a agua que te banha +as fórmas, porque desvendaria os immensos segredos e mysterios de tua +belleza unica, e o riso que te doura o semblante, porque teria o dominio +do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do instante magico em que pela +primeira vez nos pertencemos mutuamente? São de véras muito irmans as +almas que tocam à meta de uma ventura no mesmo instante... e as +nossas duas... + +--De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o +poder de duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a +inclemencia de Nausithêa deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao +amante, no fervor do gôzo, entre os teus braços, naquella noite, +Octavio, naquella primeira noite... + +--Desgraçadamente, jà eu, então, poderia ter sentido por toda a parte de +teu corpo, o halito bafiento do outro amante. + +--O outro amante?!... Tenho-o, e é como se elle não existisse. Tenho-o +porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor, +protestam os meus seios, bem diversos na tua presença do que são na +delle. Deante de ti, as minhas pomas parecem florescer como os +jasmineiros em deliciosas noites de luar, como as laranjeiras em +uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem perdem na seccura e +esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas dos +rochedos... És a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos +labios. Elle é o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os +seus desejos... + +--Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher não se cede a um homem +sem a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer... + +--Acertaste. Não sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente +procuram por toda a parte o homem e que só ao depois de muitos descobre +o procurado? Quando topei comtigo, jà o tinha no convivio de suas +esquisitices. + +--Tu és formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam +divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias! +Quero enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos +amores... + +--Bem sei que os homens todos são uns animaes. Uns, porem, são menos do +que outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que +os cãis, nesse mistér, são os equivalentes de certos homens? E que elles +são os seres que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um cão... +Os seus labios, como os de Pan, seriam capazes de devorar as +virgindades, se as virgens recebessem os seus beijos... + +--Quero crer. + +--É um libertino. + +--Nada mais? + +--É um extrangeiro... + +--Que importa? + +--É um devasso... + +--E sómente isto? + +--Ama como um cão, Octavio. + +--E que é que faz? + +--Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me +arrastar à concessão do prazer que só vige nos seus labios? Não te +bastará a expressão do pouco que te digo? + +--Repugnante!... + +--Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante és tu!... Toda esta noite serei tua +como nas demais... + +......................................................................... + + Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus + cabellos de oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de + todas as volupias da terra, como os córnos de Almatheia foram de + todas as riquezas do mundo... + + + + +DE COMO O AVARENTO MORREU... + + +DE COMO O AVARENTO MORREU... + + Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:--uma + enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, MANUEL CARLOS proferia + blasphemias. + + Ao seu lado, a NEGRA, que era uma amante retinta, carnuda e + fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos + cautelosos a agitação do moribundo angustiado. + + Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal + percebido, a principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima + reacção da vida contra a morte. + + Nesta hora, da doença, por entre as chocantes palavras de MANUEL + CARLOS, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim dos seus dentes que + rangiam como uma lima activa sobre um pedaço de ferro... + +......................................................................... + +--E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito +dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida é um +pedaço de ouro comprado com um milhão de moedas... A morte é uma ladra +que nos furta, para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a +reunir... Sou rico! Digo-o com um cordial prazer. Tambem trabalhei como +uma alma possessa. Não houve domingo nem dia santo, que me déssem +descanso, à chuva e ao sol, alta madrugada e avançada noite... Rim... +rim... rim... rim... + +--Como elle range os dentes?!... + +--Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as +cavallariças despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como +massas de feno, nos recantos das mangedouras. Ás vezes, chovia como um +diluvio. E eu, com o corpo quente da cama, cortava o pateo, mettido no +meu capote de lan, e, menos feliz do que os meus assalariados que +ainda dormiam, tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem, +dava-me calor e forças. Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da +Beira, de onde sahi, num dia de inverno, ha mais de trinta annos. Nesse +dia, a avósinha e a mãi-Geralda levaram-me até à caza do moço que me +trouxe para aqui. Ah! Deus lhe dê o reino dos céus, jà que na terra eu +nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim... Bella pessôa, generoso +ao desperdicio... Que barulho é esse que ouço de instante a instante? + +--São os trabalhadores no terreiro. + +--Sahiram hoje os vehiculos? + +--Sahiram todos. + +--Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza. + +--Talvez os cãis... + +--Não me veiu ver hoje o _Tupy_. Tem sido esse canzarrão o meu maior +amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mãos. +Por onde andará elle que hoje se esqueceu de mim? + +--Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e... + +--Nem pense nisso: o pobre animal se ladra não morde. Vigia-me a caza e +desconhece os extranhos. + +--Ladra e assusta. + +--Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as +suas lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos. +E sempre tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de +longe mesmo, o tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em +meio de caminho. Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em +fidelidade e presteza. Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim... +rim... Nem sei como se têm feito por ahi afóra os meus serviços... E +hoje é o ultimo do mês. Se não se procurar, a terrivel corja não paga. +Nem tenho uma pessôa a quem confie esse serviço. Neste mundo só se +encontram gatunos e ladrões. Um honesto, como eu, é uma realidade rara! +Em tudo fui roubado, até na saúde. Dos poucos, das moedas de cobre, os +simples trocos e differenças nas compras, tu te assenhoreavas, porque me +dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dôce, uma +fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo +de ter deixado nas tuas mãos as economias que deviam ter voltado ao meu +capital, porque delle se despediam para sempre... Rim... rim... +rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!... +Ouço novos ruidos... Só me parece que os de agora são dentro de caza... + +--Pois quem seria? + +--Sei lá... Ouço coisas que só me parecem na sala da frente. Vai ver se +é alguem... + +--Nem precisa. A porteira está fechada, e abrindo-se ella a campainha dá +signal. Ao depois, o velho Thomé trata na estribaria dos animaes em que +montas... + +--Vai tudo muito bem, mas não me posso conformar é com esta vida de +cama. Seis dias de doença, e estou derreado como uma velha mangueira... +Inda assim, considero-me bastante feliz. Não devo nada a ninguem. E, a +mim, todos me devem. Depois de amanhan, vence-se uma letra de um +devedor: ha de querer pagar-me os juros de quinze por cento por novo +semestre... Mas elle estará enganado. Se quizer reformar, os juros +crescerão. Agora só darei dinheiros a dezoito ao mês... Serviu? Façamos +o negocio. Não serviu, passe muito bem... Rim... rim... rim... rim... +Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera de +seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres +annos. Ao depois de vencido o seu compromisso, levou engabelando-me +por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa +amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu não +mettesse advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o +conselho de que «poupa e os santos te ajudarão»... Não ganhei nunca +quatro vintens de que não guardasse tres... Não te estou dizendo? Esse +barulho é dentro de caza... + +--Desta vez não ouvi nada. + +--Então, estás surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente +andava. Rim... rim... rim... rim... + +--Não sei que especie de gente... + +--Realmente posso enganar-me. + +--Jà te convences? A esta hora, nem os trabalhadores estão aqui... Ah! +Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros não foram hoje à pedreira... + +--Miseraveis! Preguiçosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados +deixam de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, é um +prejuisão... Rim... rim... rim... rim... + +--Fiz ver tudo isto a elles. + +--E porque não trabalharam? + +--Porque morreu a moça do mestre, e este não veiu... + +--Não digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois là +na minha terra, é que se sabe trabalhar... Là trabalhariam até à hora do +enterro. Aqui encontram a razão para muitos dias de ocio. Se eu +estivesse bom, a esta hora teria tocado todos elles para a rua. Rim... +rim... rim... rim... Não gosto de vadios. Fui homem que, numa vida +inteira, não teve uma hora de vadiação. Sempre comi de chapeu na cabeça +e esporas nas botinas. Por isso guardei meia-duzia de contos. Digo assim +meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas meias-duzias guardei... +Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora? + +--Sim. + +--E então? + +--Não sabes o que foi? + +--Não sei... + +--O _Tupy_ que esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e +aos outros mandei pôr as correntes... + +--Vai soltar o _Tupy_. É inoffensivo, tanta quanto é leal e cuidadoso. +Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o! + +--Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avança +sobre elle... + +--É uma prova de lealdade. + +--Que incommoda aos extranhos. Porque não bebes o leite? Queres? + +--Leite?!... Hontem te preveni que leite é luxo e que não posso com +essas despesas... Ainda o compraste hoje? + +--O doutor mandou... + +--Rim... rim... rim... rim... + +--Ao depois, em caso de doença não ha desperdicio... + +--Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. É o leite, é a botica, +é o doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das +pernas sou senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem +recostar-me! Tenho kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se +a coisa continua assim... Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um +homem conservado e indisposto para divertimentos. Não sei como a minha +saúde estragou-se... Vai soltar o cachorro! Os seus movimentos +inquietam-me. Jà atirou outra coisa ao chão... + +--Deixa o cachorro preso. + +--Póde arrebentar mais alguma coisa, e serão novas despesas para mim... +Que afflição sinto agora! + +--Bebe o leite! + +--Dà-me. + +--Jà se devem trinta medidas... + +--Como? + +--Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e +duas à tarde... + +--Que desperdicio! Não digo! Se levar aqui um mês, o leite, o medico e a +botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me terão reduzido à +mizeria... Sabes que mais? Não quero mais leite... Supprima-se desde +hoje... + +--E com que te alimentas? + +--Com agua... É intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo +em oito dias de cama! Não é possivel. Não sou rico, não! Toca a poupar... + +--Sem o leite não poderás passar... + +--Passo, sim! Quem foi que disse que não poderei? + +--O medico. + +--Pois passo, sim. Sem dinheiro é que nada é possivel. Parece-me que se +combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um +pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim... +rim... Está muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem +sei se tomei porção igual em todo o resto da vida! É ter ganho uma +fortuna em mais de trinta annos para acabal-a bebendo leite, +pagando medico e sustentando boticas... Não quero mais leite! Rim... +rim... rim... rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella é má fé e +plano de roubo... Ah!... Lá se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em +cima: o cão preso, por um capricho, para quebrar os moveis e as +louças... Mas, esse ruido que agora ouvi muito bem... + +--Foi a mesma coisa... + +--... não foi là dentro... + +--Foi, sim! + +--Pareceu-me na sala da frente... + +--Não cuidarás de outra coisa? + +--E que seria o que cahiu? + +--Uma bacia de folhas... + +--Não!... não!... não!... + +--Que queres fazer? + +--Levanta-me aqui... + +--Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu és peior do +que um menino... + +--Aquelle barulho... Levanta-me aqui... + +--Para que? não me dirás? + +--Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como +se pegasses num pedaço de pau... + +--Assim? + +--Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro... + +--Queres muita coisa tambem... + +--Não me fazes favor... Não preciso de ninguem contra a vontade... Tenho +dinheiro para ser bem servido, e gósto que me tenham obediencia... + +--Estás muito impaciente... + +--Tira o travesseiro... + +--Prompto. Queres mais alguma coisa? + +--As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... Não estão aqui... Bem +sei agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba... + +......................................................................... + + E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer, + minutos depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu + esconderijo, como verdadeiras inutilidades... + + + + + +AO DESPIR UM PIERROT + + +AO DESPIR UM PIERROT + + A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em + que, sem acceder ao somno, CHRISTINA se divertia, mostrando ao astro + lubrico os tons roseos de sua carnação perfeita como se talhada em + marmore rozado e humido. + + Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas visões; mas + soffrendo o conflicto das ideias de uma traição de NARCISO e da + lealdade perquiridora de STELLA, a desaccordada mulher caprichou de + não durmir emquanto a espiona não tornasse do baile à fantasia. + +......................................................................... + +--Reconheceu-te, Stella? + +--Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile? + +--Não o viste? + +--Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no +baile, e, escrava dessa supposição, criaste todo um systema de +desconfianças, que começaram de traduzir-se, muito naturalmente, +naquella tua phrase. + +--Viste-o? + +--Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? Não esperavas esta noticia? + +--Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com +uma pontinha de esperança em contrario, suppuz sempre que não puzesses +os olhos sobre elle. Embora trahida, eu quereria não ser sabedora do mal... + +--Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te não +obstines em aggravar o acaecido. Não remediarás o mal, não é assim? +Pois, coração à larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as acções. +Acompanhei-o por toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que uma +_pierrot_ o acompanhasse. Se tu lhe falas, teràs de dizer-lhe quem foi +espionar-lhe os passos de homem livre... + +--É o que te parece: livre?... + +--Pois não é livre Narciso? + +--Digo-te que não! + +--O teu noivo não tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo +estado? + +--Repito-te que não. + +--Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das +vistas da mulher amada, ficam sendo o que são: homens solteiros... + +--Narciso differe dos outros... + +--Uffa!... Christina!... Vou tirando o _pierrot_ que me acalora as +carnes... + +--O noivado é um começo de intimidades, que se distendem, mais ou menos, +conforme as razões de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado +semi-escuro, onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos +assegurados na nossa posição, com a possivel presença immediata de todos +os de caza, as nossas intimidades seguem uma derrota que me dá o direito +de exigir de Narciso maiores fidelidades do que tu pensas... + +--Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o +collête... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda +ordinaria, esta! + +--Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias +das almas passaram às do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais +cedo... Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua, +os seus labios roçaram sobre os meus olhos, e os seus bigodes +produziram-me um _frisson_ nas carnes, com o qual eu me teria entregue +ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus +dedos que elle segurava entre os seus, sorriu--um sorriso mais lindo do +que um raio de sol!--e, sem o querermos, talvez, por certo +instinctivamente, os nossos labios se encontraram... + +--Vê, Christina, como ficaram as minhas calças... + +--Desbotou nellas o setim? + +--Alguma coisa. A côr amarella é mais fixa do que a vermelha... Mas, +estão para ser exprimidas... Que sudorifico! + +--Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos são de +um homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo... +Avia-te, afim de que me contes o que viste... + +--Dir-te-ei centos de coisas novas... + +--Appeteço o conhecimento do que sabes. É uma infelicidade ter-se um +pae, como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse +que eu fôra a um baile publico espionar os desvarios de meu noivo... +Ah!... Como eu seria venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte +que cubiço... + +--Nem tu calculas pallidamente o que por là se vive... + +--Apressa-te, Stella! + +--Acaba, primeiramente, o que contavas... Não quero perder a bôa hora de +confidencias que inauguraste... + +--Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os +contactos... Em seguida, as mutuas confianças, mais um arregaçamento +hoje, mais uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe +resistisse, desejou ver-me o começo das pernas... Intimidades, Stella, +intimidades, proprias, communs e infalliveis entre todos os noivos... +Eram ellas que me garantiam, até hoje, a constancia de Narciso, e, +quando vejo, como agora, que o que lhe faço jà se torna pouco para o +prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco mais, sem comtudo +deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as concessões, na +medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores... Conta, agora, +o que tu viste... + +--Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o +corpo quer distender-se nervosamente num leito macio... + +--E onde ficou Alberto? + +--O meu primo? + +--Sim. + +--Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos dois _pierrots_ +da maior sensação! Nem calculas como é deliciosa a companhia do meu +primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado +geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos. +Soube corresponder à minha excitação, não commettendo maiores pecados do +que me beijar nas passagens mais sombrias das ruas... + +--Invejo-te, Stella! + +--Bem poderias ter ido... + +--Qual nada! + +--Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois não foi? + +--Isto é fácil para ti... + +--Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?... + +--Não! + +--Ahi está! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que +vissemos... Là estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do +baile. Custei a topar com elle. Só em meio da festa deparei com elle +numa das banquinhas do _buffet_. Mais de vinte homens e mulheres... + +--Mulheres, tambem? + +--E então? Tu pensas que haverá quem resista à solidão naquelle cahos de +sensações extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho, +casado com a Lucinda, là estavam, cada qual com a sua mascarada... + +--Narciso tambem? + +--Não te espantes senão se eu te disser que elle era o unico que não +tinha uma mulher fantasiada ao seu flanco... + +--Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei +logo na traição. Aquelle semblante enfarruscado não era sincero... + +--Ao seu lado estava uma _écuyère_ italiana: deves gabar-te do gosto de +teu noivo. Não se acompanha de mulher feia. É serio... + +--Era bonita a que o seguia? + +--Linda, Christina: _mignon_, alva, loura, e, com um arrebatador decóte, +exhibindo um collo mais branco do que um pedaço de neve, do meio da +qual, como uma abelha sobre uma petala de gardénia, um negro signal era +tido como mascotte... + +--Jà agora me penso feliz por não ter ido là. + +--Que teria se tu tivesses ido? + +--Não me conteria. + +--Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu +noivo sabe gozar uma mulher. Não dirias nem uma palavra, mas lhe +acompanharias a pessôa como a sua sombra. Quando não te agradasse +fecharias os olhos. Vi-o, por exemplo, encher a bocca de champagne... + +--Nada mais natural. + +--É o teu erro. Quem não sabe é como quem não vê. Pensas, então, que +elle tomou a bebida de dentro da taça? + +--Sim. + +--Pois não! A _divette_ foi quem lhe passou o champagne collando os seus +nos labios delle... Garanto-te que não sabias deste modo de acariciar... + +--Confesso-te que não. + +--Ahi está. Verias a _droiture_ com que o teu noivo se curvou, encostou +nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e +sugou-lhe a entontecedora bebida... + +--Como deve ser bom esse carinho! + +--Ao depois, beijaram-se... + +--Aos olhos do publico? + +--Sim. + +--Ah!... Se eu estivesse là... + +--Não farias senão nada. Eu, pelo menos, nessas occasiões de grande +excesso, alli mesmo me voltava, e, se não fossem as nossas +mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos... +Não conheço, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um +conto de Caliban é menos excitante, e um par dansando é bem um conto +luxurioso escripto com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto +final de um beijo. Os corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se +entrançavam, as mãos, servindo de oppressores, estreitavam os troncos e +cada par, assim enlaçado, cabeça descahida sobre cabeça, parecia um +corpo só com a monstruosidade de quatro pernas... Exquisito, sem +igual... Homens e mulheres não se distinguiam na furia dos sentidos... + +--E Narciso dansou? + +--Não. Nem todos dansam. Á parte, pelo jardim e nas mezas do _buffet_, +os que não estavam fantasiados, se divertiam à grande, mas um pouco +retrahidos das vistas do grosso publico, porque só no salão elles +escandalisariam... + +--Todavia, vingar-me-ei... + +--Poupa-o, Stella... O pecado é divino... Vinga-te em mim... + +......................................................................... + + As duas mulheres, num longo beijo, abraçaram-se e confundiram-se, + cada qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente... + + A lua, devassamente, illuminou-lhes, até quando quiz, os seus bellos + corpos de uma semi-nudez pagan... + + + + +A TAVERNA DE MME BERTHON + + +A TAVERNA DE MME BERTHON + + No terraço do «Café Leontina», agasalhados em seus lanzudos + _pardessus_, ODORICO e WENCESLAU, dois typos mundanos, + essencialmente mundanos, conversavam surdamente... + + Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha + de sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares + cupidos por todas as bancas. + + ODORICO enlanguesceu-se, e, como uma reacção, assignalou, assim, a + passagem da exquisita-mulher com uma rememoração cruel... + +......................................................................... + +--Sempre é curioso este «Café» em materia de mulheres. Não vejo esta +«Menina Leontina», como a chamam, que não me recorde logo da +infeliz Madame Berthon. + +--E tu, meu caro Wenceslau, és bem a chronica viva de toda a feminidade +desta terra. Não ha uma mulher de quem não tenhas informações, +anedoctas, segredos, sobre quem não lances um episodio de curioso entrecho. + +--Não conheceste tambem a Madame Berthon? + +--Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo +ignorado... + +--Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a +inspiração do artista mais rude para produzir uma obra-prima. + +--Alguma divindade incognita... + +--Não, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem +a visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e +na temperança dos seus costumes, não diria jamais que era a senhora +absoluta de um corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais +inspirado... Não se julgue a felicidade dos fins pelas venturas que +povoam a estrada por que trilhamos. Muitas vezes, um momento de +tranquillidade agora é a sementeira de um incommensuravel estado de +attribulações mais tarde. Madame Berthon despejava invejas a todas as +mulheres do seu conhecimento. Desta caza tirava ella os meios de sua +subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o taciturno aspecto de +seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais ruidosa alegria, +aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum excesso dê o +rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma algoz +cambiante de tristeza. Tinha a côrte de poderosos pretendentes, mas +decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de +alguem, era, ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E, +se a ninguem promettia, a nenhum negava, e a todos faltava... +Curiosissima mulher! Os seus habitos eram os de uma leviana, mas a sua +alma contrastava com a sua existencia costumeira. Exquisita mulher, +Odorico, muito exquisita, senhora de muitos corações se tivesse querido, +entretanto escrava de um só que a levou, finalmente, à sepultura. +Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia. Um assassinio e um +suicidio... + +--Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas, +em algumas, ha a sementeira de muitos casos fataes. + +--Espera, Odorico, espera. Não condemnes a desventurada pelos primeiros +tons de sua historia. Juiz mais severo do que eu, não conhecerás, por +certo, para o julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que +veste escandalos, e que escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a +mulher é o algoz, parecendo a extrema fraqueza. Neste caso, porem, +Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se crime ella teve, foi o de amar +o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... conjugalmente, porque +nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. Ás deshoras, lá para as +tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares +cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e +recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de +enciumar-se até de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea +tão geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de +compensações: o feio é conjugado com o bonito, e reciprocamente, o +bonito com o feio... Dahi a naturalidade daquella união de Gaspar com a +Madame Berthon. Mais de noventa noites durou aquelle consorcio +espontaneo. Aqui vinha eu, e naturalmente, cortejava à mulher +gentil, espionando sempre o amante. Os homens todos, Odorico, +saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril, como os armentios saudariam, +com ardente fé, a vinda do outomno, porque é a estação das colheitas. Na +manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois amantes, là para as aguas +furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento ouccubo. Visinhos, +espicaçados pela anormalidade, attenderam ao que se passava na moradia +de Madame Berthon. Depois de acalorada discussão, durante a qual o +assassino descera as vidraças, cautelosamente, para não ser ouvido pelos +extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento +no interior daquella caza. Momentos após, Gaspar, conduzindo uma bolsa +de mão, descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia, +meticuloso e tranquillo, trancando às suas costas a entrada no sobrado +em que commettera o assassinato de Madame Berthon. E, como um homem +feliz, là se fôra rua abaixo. Quem o visse, não lhe diria o autor de um +crime, muito menos quando, no desempenho de um habito, asseiava os +botins, e olhava serenamente o movimento das ruas... + +--Revolto-me jà contra esse perverso. + +--Pois bem! O movel do crime fôra o roubo e todas as poupanças daquella +operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava +zelosamente. Em torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos +dois tiros, populares encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito, +arrastando-se como lemures ámerios em trilhas brancas de areiaes +desertos. Vozes surdas contavam as supposições de um crime; a suspeita +avolumou-se... O rochedo nú da desconfiança vestiu-se fartamente com os +ouropeis das espumas brancas dos commentarios. Pelas janellas descidas, +olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios vivos do barbaro +crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse as botas e +penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares +tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presença proxima de um +delegado. Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina +autoridade do seu aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina... +Tudo o mais foi rapido. Num instante abriu-se com violencia a entrada. +Um obstaculo appareceu: a porta estava presa, como que escorada por +dentro. Que seria que obstava o seu movimento? Uma cabeça affoita +enfiou-se por uma nesga, e voltou transfigurada, annunciando sómente: +«Está morta». Outros typos mais curiosos vieram, ageitaram-se e +penetraram com a autoridade. Estatelada sobre o chão, Madame Berthon, +numa nueza arrebatadora ainda não tinha a gelidez dos cadaveres, mas já +era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue escarlate. E sobre +as suas fórmas nuas, nada, senão as meias presas com atilios de fitas +rubras, e as pequenas sapatinhas... + +--Que miseria! + +--Já conheceste a victima. Dahi por diante a acção foi sobre o agente. A +perseguição popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros +perseguidores foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas +proprias temporas, Gaspar era um suicida... Não calculas a impressão que +esse crime deixou no meu espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e +senti que o assassino não tivesse ficado vivo para pagar com a reclusão +da vida a barbaridade do assassinio de uma mulher, cujo corpo +esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer austeros +Areopagos... se desvendado fôsse tal como eu o vi... E nota, Odorico, +que um corpo morto, por mais bello que seja, é menos do que o vivo, +porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que é o fluido mais +sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, só +naturezas muito fortes não cederão à necrophilia... Então ella que +possuia um nevo sobre o quadril direito... + +--Sensualizas tudo, Wenceslau! + +--E que é que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte, +como tu deves saber, é um pedaço de sensualismo microbiano... Quantas +fecundações damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, senão pela +força dos sexos, baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre à +instancia do amor que toparàs com a absolvição da mulher, e carregarás a +mão na dosagem da condemnação do homem algoz. + +--Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido +condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no +senhorio dos homens. + +--E como influiria tudo isto para que Gaspar não victimasse Madame Berthon? + +--Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o começo +do mundo, e é coisa que não se sabe é a data da primeira traição da +mulher, de tão distantes tempos vem ella. + +--Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa +traição do homem, e formada de uma traição, porque foi necessario que +Adão adormecesse para que Jehovah, trahindo à perfectibilidade da sua +obra, lhe tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella não +poderia ser contraria à sua origem... + +--És rigoroso demais... + +--Não sou, não, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os +dias e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo +e escreveu precisamente: «As mulheres têm sido tratadas até aqui, pelos +homens, como passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam +no meio delles: como qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil, +de selvagem, de doce, de arrebatador--mas, igualmente, alguma coisa que +é necessario engaiolar para que se não và embora num vôo»... Que é isto +senão o reconhecimento do espirito traiçoeiro de nossas Evas?... Ao +demais... estamos muito fóra dos eixos... Que bebemos agora?... + +......................................................................... + + Fóra do terraço do «Café Leontina», solemnemente encapotados, dois + policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta + noite... + + + + +INDICE + + Dedicatoria VII + Epigraphes IX + Nedda 3 + Voluptuosas 17 + O poeta moribundo 29 + O velho medico 41 + Os dois espelhos 53 + O primeiro filho 65 + Á vista da denuncia 75 + Irado até à cura... 89 + A hungara 101 + Depois do cometa 115 + Amores no claustro 127 + A Consulêza 139 + De como o avarento morreu... 153 + Ao despir um pierrot 167 + A taverna de Madame Berthon 179 + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Mundanismos, by Almáquio Dinís + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30413 *** diff --git a/30413-h/30413-h.htm b/30413-h/30413-h.htm new file mode 100644 index 0000000..a83aa34 --- /dev/null +++ b/30413-h/30413-h.htm @@ -0,0 +1,4300 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Mundanismos, por Almáquio Dinis</title> + <meta name="Author" content="Almachio Diniz"> + <meta name="Publisher" content="França Amado"> + <meta name="Date" content="1911"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=UTF-8"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + font-family: sans-serif; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em; margin-top: 0.2em; margin-bottom: 0.2em;} + h1, h2 {text-align: center; margin-top: 8em; margin-bottom: 8em;} + h3, h4 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.centrado {text-align: center; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + blockquote {font-size: small; margin-left: 40%;} + blockquote p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + li {list-style: none;} + </style> +</head> + +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30413 ***</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: double 4px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em;">ALMACHIO DINIZ</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">MUNDANISMOS</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">(CONTOS)</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">F. França Amado, editor</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">Coimbra. 1911.</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">Composto e impresso na Typographia França Amado,<br> +rua Ferreira Borges, 115—Coimbra.</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"> +<p style="font-size: 1.5em;">MUNDANISMOS</p> + +<p>(CONTOS)</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">Obras completas de ALMACHIO DINIZ</p> + +<p> </p> +<ul style="font-size: 0.8em;"> + <li><strong>Contos</strong> + <ul> + <li><strong>Um artista da moda</strong>, Lisbôa, José Bastos & C.ª, + editores.</li> + <li><strong>Sombras de pudor</strong>.</li> + <li><strong>Mundanismos</strong>, Coimbra, F. França Amado, editor.</li> + </ul> + </li> + <li><strong>Novellas</strong> + <ul> + <li><strong>A Carne de Jesus</strong>, Lisbôa, Gomes de Carvalho, editor, + 1910.</li> + <li><strong>O Diamante Verde</strong>, Lisbôa, Guimarães & C.ª, + editores, 1910.</li> + <li><strong>Sonhos de meduza</strong>, em preparo.</li> + </ul> + </li> + <li><strong>Romances</strong> + <ul> + <li><strong>Raio de sol</strong>, Bahia, em folhetins, 1903.</li> + <li><strong>Crises</strong>, Lisbôa, Guimarães & C.ª, editores, 1906. + </li> + <li><strong>Pavões</strong>, Bahia, Fonseca Magalhães, editor, 1908 + (Exgottado).</li> + <li><strong>Amen!</strong>, Bahia, em folhetins, 1909-1910.</li> + <li><strong>Duvidas e remorso</strong>, em preparo.</li> + </ul> + </li> + <li>Theatro + <ul> + <li><strong>A Escarpa</strong>, Porto, Lello & Irmão, editores.</li> + <li><strong>Tropheus em cinzas</strong>.</li> + <li><strong>Sazão de luz</strong> (em preparo).</li> + </ul> + </li> + <li>Critica + <ul> + <li><strong>O passado, o presente e o futuro do heleno-latinismo em lucta + com o germanismo</strong>, Bahia, 1903 (Exgottado).</li> + <li><strong>Zoilos e Esthetas</strong>, Porto, Lello & Irmão, + editores, 1908.</li> + <li><strong>Sociologia e critica</strong>, Porto, Magalhães & Moniz, + editores.</li> + <li><strong>Da Esthetica na Literatura Comparada</strong>, Rio, H. + Garnier, editor.</li> + <li><strong>A questão das raças na literatura universal</strong>, em + preparo.</li> + </ul> + </li> + <li>Symbolismo + <ul> + <li><strong>Eterno Incesto</strong>, Bahia, 1902 (Exgottado).</li> + <li><strong>Sê bemdita!</strong>, Bahia, 1905 (Exgottado).</li> + </ul> + </li> + <li>Lingua portuguesa + <ul> + <li><strong>A reforma ortografica</strong>, Bahia, 1907 (Exgottado).</li> + <li><strong>O evolucionismo morphologico da lingua portuguesa</strong>, + Lisbôa, Santos & Vieira, editores.</li> + </ul> + </li> + <li>Scientificos + <ul> + <li><strong>Genesis hereditária do direito</strong>, Bahia, 1903 + (Exgottado).</li> + <li><strong>Ensaios philosophicos sobre o mechanismo do direito</strong>, + Bahia, 1906.</li> + <li><strong>A sciencia do direito e as producções espirituaes do + homem</strong>, Bahia, 1907 (Exgottado).</li> + <li><strong>Questões actuaes de philosophia e direito</strong>, Rio, H. + Garnier, editor, 1909.</li> + <li><strong>A objectividade do phenomeno juridico no direito + brazileiro</strong>, em pub.</li> + <li><strong>As formações naturaes na philosophia biologica</strong>, em + preparo.</li> + </ul> + </li> +</ul> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"> +<p style="font-size: 1.2em;">ALMACHIO DINIZ</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">MUNDANISMOS</p> + +<p>(CONTOS)</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.</p> + + <p style="text-align:right;">A<small>NATOLE</small> F<small>RANCE.</small></p> +</blockquote> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">COIMBRA</p> + +<p>F. FRANÇA AMADO, EDITOR</p> + +<p>1911</p> +</div> + +<p><a name="dedicatoria"> </a></p> + +<p style="text-align:center;">A</p> + +<p style="text-align:center;">GUERRA JUNQUEIRO</p> + +<p> </p> + +<p><a name="epigrafes"> </a></p> + +<blockquote> + <p>L'art veut imiter la nature. Nous faire éprouver les sensations et les + sentiments que la vie nous impose ou pourrait nous imposer, tel est son + premier souci. Le romancier et le dramaturge comme le peintre, le sculpteur + comme le musicien s'essayent à faire dans la fiction, comme la vie dans la + réalité. Au fond de chaque œuvre d'art il y a toujours en somme—que ce soit + par imitation étroite ou libre évocation—une réalité reproduite de la + vie.</p> + + <p style="text-align:right;">C<small>HARLES</small> A<small>LBERT.</small></p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>O conto, assim desatavíado, exprimido, é apenas succo e, se não agrada à + <em>visão</em>, interessa o sentir. Falta-lhe horizonte, mas o espaço, por + isso mesmo, é mais vasto, sem empeços: segue-se livremente a acção que a + descriptiva, por vezes, compromette.</p> + + <p style="text-align:right;">C<small>OELHO</small> N<small>ETTO.</small></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1><a name="SECTION00100000">MUNDANISMOS</a> </h1> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.</p> + + <p style="text-align:right;">A<small>NATOLE</small> F<small>RANCE.</small></p> +</blockquote> +<span class="pn">{1}</span> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00200000">NEDDA</a> </h2> + +<p><span class="pn">{2}<br> +{3}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00210000">NEDDA</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Manhansinha.</p> + + <p>A sala, de azuladas paredes seminúas, estava pobremente mobiliada: era no + saguão da casa, e as duas mulheres entraram às tontas, até se abrirem de par + em par as gelosias.</p> + + <p>S<small>AUL</small>, de N<small>EDDA</small> esposo, ficàra a dormir na + alcova.</p> + + <p>E N<small>EDDA</small>, abysmada com a indifferença delle que apenas lhe + não dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que + D<small>ONA</small> L<small>OURA</small>, a sua mãe, era uma interprete das + indisposições do genro...</p> + + <p>Num canapé, as duas mulheres, D<small>ONA</small> L<small>OURA</small>, + archaica nas suas vestias de capote e turbante, e N<small>EDDA</small>, + deliciosamente matutina num roupão branco que descansava,<span + class="pn">{4}</span> <em>sans-dessous</em>, sobre a finissima camizêta de + cambraias,—sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida do cansado + movel...</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me entre +dentes e indisposto como um burguês dispeptico, silencioso como uma esphynge e +entristecido como um beato sem almoço, adivinho logo que vens por ahi como a +mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem à tarde...</p> + +<p>—Exactamente.</p> + +<p>—Previ tudo isto. Ha cinco dias que nós não falamos, e, pensando-o na rua, +hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella cadeira, +lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me e não contive um +gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os meus passos. Ha quatro +annos que somos casados e nunca passamos dois mezes sem uma rusga. É sempre +elle quem as promove com um resaibo de malentendido ciume. Aceito sempre o seu +rompimento e nunca lhe dei a honra de capitular<span class="pn">{5}</span> nas +hostilidades. Quando ellas são de nonada, aqui mesmo se resolvem; mas, quando +avultam como agora, elle te vai buscar como intercessora. Jà sei que vamos ter, +como sempre, uma crise de amorosidades que me enfastiam. Lastimo é não conceber +um filho desse homem para o embeiçar pela nova criatura e sentir-me menos +jungida às suas intemperanças de... mal educado! Ás vezes, chego a ter nojo do +senhor meu marido...</p> + +<p>—Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que me +pasma...</p> + +<p>—Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter o +assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um tal +matrimonio não se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em caza, por +torna-viagem, a mentira de que Saul é um tuberculoso. Tanto mais eu o +aborrecia, quanto a senhora e o papá intervinham, patrocinando a causa do moço +platonico. Dá-me, na verdade, um insistente desejo de rir muito quando lembro +os idealismos delle, seguindo a minha sombra, porque nunca lhe deixei o direito +de enfrentar-se commigo em parte alguma... Expúz-lhe sempre que sonhos não me +satisfaziam, nem eram para o meu<span class="pn">{6}</span> temperamento homens +vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe intensa guerra, apaixonando-me por +Frederico Stöltze. Está! Com este provavelmente eu teria sido bem cazada. O +pobre «allemãosinho» levou o caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o +abandonei, com uma defeituosa... Foi um despique, não ha a menor duvida, mas +quem sahiu perdendo foi elle. Saul é um temperamento de phoca...</p> + +<p>—Respeita o teu marido, minha filha!</p> + +<p>—Pois não é, maman?</p> + +<p>—Essas couzas não se devem dizer...</p> + +<p>—Não tratarei de occultar o sol com a mão. Já disse e é mesmo: um +temperamento de phoca. Só quer hybernar sobre os livros, deante dos quaes se +abespinha como o animal sobre o gêlo. Eu, porem, quero muito sol, muita luz, +muito calor, muita actividade... Maman, o que vocês velhos veem no cazamento é +o interesse de collocar as filhas, porque ficando velhos receiam que nos +tornemos muito sós no mundo. Por isso acontecem destas, cazamo-nos com a +vontade dos papás encarnada na figura de um homem que não é a correspondencia +de nosso instincto. Olha! Não intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada +qual commetta a sua doidice<span class="pn">{7}</span> como quizer, e, se +escolher um lorpa como Saul, arrependa-se de si mesmo e não me culpe a mim.</p> + +<p>—Tu vês no homem uma excitação, Nedda, quando devias ver uma satisfacção. +</p> + +<p>—Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje dessas +trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu toda a minha +repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, não sabe aproveitar-se de +minha tolerancia e quer subserviencia, servidão, ou coisa similhante... Está +enganado! Devias ter sanccionado a minha repulsa logo de principio. Lembras-te +do convescóte dado aos chilenos, nas Salinas? Tu não foste, e Saul, que era +apenas meu pretendente sem a menor esperança, moveu contra mim uma intriga +terrorosa, porque viu, no campo, o primeiro tenente Santander amarrar os +cordeis de minha botina que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te +de como energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do +contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia, todos +suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de mulheres feias. +Afinal, maman, que te disse elle desta vez?<span class="pn">{8}</span></p> + +<p>—Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o +comprehendes como um devaneio. Isto é proprio para as meninas. Tu te esqueces, +e nisto eu lhe dou razão, que és uma senhora escrava da moral esponsalicia. +Contou-me o teu marido um facto em que elle te surprehendeu. Realmente, se as +cousas se passaram como podem ser suppostas, e elle não quer crer, tu andaste +mal.</p> + +<p>—Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como tudo +se deu...</p> + +<p>—E dispensavel Nedda. O passado está passado. O que é preciso é que não dês +lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem calleja. Os +amuos fazem pequenos callos, mas tempo virá em que, callejada a alma, o amuo +será definitivo.</p> + +<p>—Que teria isso?</p> + +<p>—Um escandalo, minha filha!</p> + +<p>—Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu não me +pouparei a um grande escandalo.</p> + +<p>—Toma juizo, doidinha. É preciso acabares com estas zangas e receberes o +teu marido como o teu senhor...<span class="pn">{9}</span></p> + +<p>—Hein?... Não me zangarás, maman, pódes ridicularizar-me como entenderes... +Não me darei por achada.</p> + +<p>—Não promovo senão o teu bem. Resolve a crise e sê... mulher de teu marido. +</p> + +<p>—Jà estás julgando o feito?</p> + +<p>—Tu tens toda a razão, elle tem igualmente toda a razão. Harmonisem-se e +sejam felizes.</p> + +<p>—Pareces-me uma juiza a Salomão, com a differença de que o rei hebreu ouvia +ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma só...</p> + +<p>—Interpretas muito mal o meu genio.</p> + +<p>—Não te interessa conheceres a injustiça de que sou accusada pelo sr. meu +marido?</p> + +<p>—Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a accusação, +eu nunca seria contra ti.</p> + +<p>—Obrigada, maman! Quero, entretanto, justiça, e que, como Saul, não julgues +pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu o que se +passou...</p> + +<p>—Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes...</p> + +<p>—Pois bem! Na terça-feira, maman, de combinação com Saul, resolvi passar +uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle que me falou +pelo telephono,<span class="pn">{10}</span> fui à Barra correr uma cazinha vaga +e que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao depois +de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a gentileza de +offerecer-se-me para o serviço de abrir e fechar portas. Aceitei e foi elle +quem tomou as chaves na taverna da esquina... Vê tu!... Não fôsse elle e teria +eu de entrar numa taverna, sósinha, arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao +depois, o dr. Eduardo foi quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de +camurça para fazer essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas... +Corremos o primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil +cavalheiro se lembrou de, por segurança, fechar por dentro a porta da rua... +Subimos. Mal chegavamos em cima, começaram de bater numa porta. Poderia eu +suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse, porque elle não teria +opportunidade de acompanhar-me, logo depois resolvesse o contrario, e estivesse +a bater na porta da rua? E foi por um acaso que nós o vimos. Chegamos +inesperadamente a uma janella do sotam e percebemos que era elle quem batia. O +dr. Eduardo, desculpando-se por jà ter eu cavalheiro, despediu-se de mim, +desceu as escadas,<span class="pn">{11}</span> e, quando abria a porta, foi +insolentemente aggredido por Saul, que lhe negou a mão para o cumprimento do +estylo... Só tu vendo, maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra +mim! Felizmente, desafiado pela minha calma, elle não teve animo para iterar o +qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle quiz, +fechou sósinho a caza e veiu só...</p> + +<p>—Devias ter evitado tudo isto, Nedda.</p> + +<p>—Evitado, como?</p> + +<p>—Não acquiescendo à companhia de um homem de mà fama, como é o dr. Eduardo. +</p> + +<p>—Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em que +eu fui... Hora de trabalhos na cidade...</p> + +<p>—Recusasses os favores offerecidos.</p> + +<p>—Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual é a mulher que se anima à grosseria +de recusar gentilezas de um moço de distincto trato?...</p> + +<p>—Conforme o renome desse moço.</p> + +<p>—Tem mà fama o dr. Eduardo?</p> + +<p>—Não sei, não. Dizem.</p> + +<p>—Se tem mà fama, tem maus costumes. E como é que Saul, tão zeloso de sua +honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepções, um homem mal visto? Penso +que os frequentadores de nossos salões, os <em>habitués</em> de nossa<span +class="pn">{12}</span> intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um +ponto qualquer, e, se não fôsse assim, a primeira privação delles, seria a do +nosso convivio...</p> + +<p>—Neste ponto és razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul +referiu-me que estavas sem chapeu...</p> + +<p>—De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha van +do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr. meu marido +alli estava para auxiliar a reposição, tirei o chapeu e asseiei-o +prestamente...</p> + +<p>—Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua +chegada, ao ponto de não saberes repôr o chapeu...</p> + +<p>—Saul é um mentiroso.</p> + +<p>—Não te zangues, Nedda.</p> + +<p>—Injuriou-me.</p> + +<p>—Não dês importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente...</p> + +<p>—E elle o quer?</p> + +<p>—Porque perguntas?</p> + +<p>—Porque tão honrado elle não deveria aceitar mais a cohabitação da esposa +deshonesta.</p> + +<p>—Não deves dizer assim, minha filha!</p> + +<p>—Aceita-me elle?<span class="pn">{13}</span></p> + +<p>—Que tolice, Nedda!</p> + +<p>—Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e não a faço em +attenção aos teus bons officios...</p> + +<p>—Fazes muito bem.</p> + +<p>—Là vem elle descendo...</p> + +<p>—Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que não tem esposo...</p> + +<p>—Desculpa-me, maman: só agora reparo que estou muito à vontade para nos +encontrarmos os tres...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Arrepanhando, então, o bello roupão desabotoado, por cujas rendas e + decotes se viam as carnes luciferas de N<small>EDDA</small>, a mulher de Saul + se escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de esculptura + grega...<span class="pn">{14}<br> + {15}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00300000">VOLUPTUOSAS</a> </h2> + +<p><span class="pn">{16}<br> +{17}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00310000">VOLUPTUOSAS</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>No rêz-do-chão de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendados + <em>stores</em> pallidos, H<small>ELENA</small> fazia somno à hora da sesta, + quando M<small>ARIA</small> A<small>NGELICA</small> a surprehendeu + adormecida.</p> + + <p>A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma + voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabeça desmaiada de + H<small>ELENA</small>...</p> + + <p>Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com um + fremito de prazer...</p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—De onde vens tu, Angelica?</p> + +<p>—De encommendar flores...<span class="pn">{18}</span></p> + +<p>—Flores?!</p> + +<p>—Não te recordas de que Sophia se cazará amanhan, à noitinha?</p> + +<p>—Sou uma esquecida.</p> + +<p>—E ella é credora de nossas gentilezas...</p> + +<p>—Das minhas, especialmente.</p> + +<p>—Encommendei orchidéas e chrysanthemos.</p> + +<p>—Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias.</p> + +<p>—Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das +orchidéas. Uma catyleia é um pedaço de labios excitados por dois beijos.</p> + +<p>—Não lhes acho graça.</p> + +<p>—Ó exigente!</p> + +<p>—Flores do matto. E jà notaste que quasi todas ellas são lilazes e roxas? +ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas côres melancolicas?</p> + +<p>—Descobres coisas...</p> + +<p>—Mas, não é?</p> + +<p>—Realmente.</p> + +<p>—E como vais presentear uma noiva com flores lilazes?</p> + +<p>—É a moda, é o chic, é o <em>dernier-cri</em>...</p> + +<p>—Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas, chrysanthemos, +rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me?<span class="pn">{19}</span></p> + +<p>—Se não! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os olhos +muito brilhantes...</p> + +<p>—De verdade?</p> + +<p>—Sim. Sonhavas?</p> + +<p>—Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu estás intensamente corada...</p> + +<p>—Apanhei muito sol.</p> + +<p>—Os teus olhos estão pisados e languidos...</p> + +<p>—É da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor que +abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados...</p> + +<p>—Jà tinha reparado: os teus cabellos estão desmanchando-se...</p> + +<p>—E eu os concertei no espelho de Esther.</p> + +<p>—Andaste là, hein? Jà havia desconfiado... Quando te vejo amollentada, +assim, tenho razões para me enciumar... É muito descuidada a Esther. Cuida mal +das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Está mal posto, a +fita está retorcida...</p> + +<p>—Nem reparei...</p> + +<p>—Disto não és culpada, por certo... Eu não te deixaria sahir daqui tão +mal-amanhada. É de causar vergonha.</p> + +<p>—Foi a pressa, Helena.</p> + +<p>—E no teu hombro a sêda está nodoada...<span class="pn">{20}</span></p> + +<p>—Nodoada?!...</p> + +<p>—Sim! Vêem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei mesmo +que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!...</p> + +<p>—Quem o poderia fazer?</p> + +<p>—Esther.</p> + +<p>—És ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as flores. +Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Estás satisfeita?</p> + +<p>—Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas não convencida...</p> + +<p>—Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar +humido?... Terá sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo é arrastada como +a de quem se fatigou num excesso de venturas...</p> + +<p>—Que venturas posso ter?</p> + +<p>—Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real... +Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha vezes em +que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras occasiões, quando +volto a mim sem provocação, sou prompta a espantar-me porque me accordei e não +morri no meio do prazer sonhado...<span class="pn">{21}</span></p> + +<p>—Ha sonhos, effectivamente, que se não deveriam acabar... E não sentes +calor, Maria Angelica?</p> + +<p>—Algum.</p> + +<p>—Neste caso...</p> + +<p>—Que fazes?</p> + +<p>—Dispo-me. Não me imitas?</p> + +<p>—Póde ser. Passarei a tarde comtigo...</p> + +<p>—Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta góla +assoberbante... Não tens geito?... Chega, que te libertarei...</p> + +<p>—Tira os alfinetes.</p> + +<p>—Usas um bom pó de arroz, Angelica.</p> + +<p>—Ui! Helena!</p> + +<p>—Que foi assim, ardilosa?</p> + +<p>—Espetaste-me as carnes...</p> + +<p>—Tambem é uma ruma de alfinetões...</p> + +<p>—É para segurar bem.</p> + +<p>—Tens uma pellugem de arminho...</p> + +<p>—Ai!... Assim não... não...</p> + +<p>—Que tens, rapariga?</p> + +<p>—Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... Só me déste vontade +de...</p> + +<p>—Ui!... ui!... ui!... Fazes-me um <em>frisson</em> de arrepiar-me os +pellos...</p> + +<p>—É para vingar o teu beijo...</p> + +<p>—Porque me olhas assim, Angelica?<span class="pn">{22}</span></p> + +<p>—És de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um +perfume originalissimo que me entontece...</p> + +<p>—Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se +cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o faço para attrahir as amigas +como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que se confundiam +os aromas do nardo de Tharsos e do metôpyon do Aigypte. Nas axillas attritava +mentho e sobre as pestanas e nas palpebras marjolana de kôs. Ao depois, a +escrava defumava-lhe os cabellos desennastrados com espiraes de incenso, que +combinava admiravelmente não só com a essencia de rozas de Phasêlis que lhe +embalsamava a nuca e as faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava +sobre os rins. E, por fim, entre os seios, corria o celebre oinanthê das +montanhas de Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica...</p> + +<p>—Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras...</p> + +<p>—Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do +irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodões embebidos na essencia de +rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para contrastar<span +class="pn">{23}</span> com as evolações das essencias de jasmins que perfumam +as minhas vestias...</p> + +<p>—E na posse de tudo isto praticas uma mà acção, Helena!</p> + +<p>—Qual?</p> + +<p>—Essa de referires tantos perfumes e não me dares nenhum a provar... És +avarenta, como ninguem, e eu cubiçosa de gozar...</p> + +<p>—Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres...</p> + +<p>—Teria graça!</p> + +<p>—Porque assim?</p> + +<p>—Gósto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres. +Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas +carnes...</p> + +<p>—Tens desejos masculinos, minha queridinha!</p> + +<p>—E é o que me faz lamentar-me: junto de uma graça não ser um Adonis, junto +de uma Helena não ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os teus perfumes +e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais feliz do que Syrinx, +louca de paixão, Byblis, unica na insaciabilidade, ou Mnasidika, macia como um +velludo... Helena, tu és uma perfeição...</p> + +<p>—Mofadora!<span class="pn">{24}</span></p> + +<p>—Mofar eu de ti?!...</p> + +<p>—Não te abraza o calor?...</p> + +<p>—Sim... Intoleravelmente...</p> + +<p>—Safa o collête... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seducções na +tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os homens, +sabios no sensualismo pagão, que o nú de veus é mais provocante do que o nú sem +disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na mulher encoberta pela +semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te não conhecesse os segredos todos de +tuas lindas curvas, te rasgaria agora, impiedosamente, o veu de tua nudez... +</p> + +<p>—Jà sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do +arrôcho de um collête dictatorial?</p> + +<p>—Quantas vezes?!</p> + +<p>—Tu brincas, mulher divertida...</p> + +<p>—Provo-te com a citação: despirei o meu collête e não me sentirei mais +provocada do que contemplando as tuas fórmas semi-núas...</p> + +<p>—Es barbara, Helena! Como encarceras um tão lindo quadril dentro dos +oppressivos liames de um collête... Ah! Como eu daria a vida por ser morena! O +ventre alvo é uma desillusão, mas o trigueiro, como o teu, é um<span +class="pn">{25}</span> incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o +instincto mais calmo...</p> + +<p>—Não te agrada a minha nueza?</p> + +<p>—Inteiramente. Agora, vê là se te não impressiona mal a brancura do meu +ventre...</p> + +<p>—Ao contrario, Maria Angelica: é uma grande corolla de petalas alvas +desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... É maravilhoso o teu contorno... +Dignas fórmas para a perpetuidade de uma téla ou de um retrato...</p> + +<p>—Deixarias tu que fôsse apanhada a tua nudez?</p> + +<p>—E porque não?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me?</p> + +<p>—Que egoismo leviano!</p> + +<p>—Acha-o?</p> + +<p>—Sim... Photographemo-nos...</p> + +<p>—Adoravel!... Como não irradiará no <em>cliché</em> o contraste de nossas +pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa de um +pólo...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma solução + de perolas e opalas.<span class="pn">{26}</span></p> + + <p><span class="pn"></span>Os seus labios permutaram cariciosos beijos.</p> + + <p>E, horas depois, M<small>ARIA</small> A<small>NGELICA</small> e + H<small>ELENA</small>, retratadas por uma aia, desvendavam as suas + abrazadoras nuezas à inveja de E<small>STHER</small>...<span + class="pn">{27}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00400000">O POETA MORIBUNDO</a> </h2> + +<p><span class="pn">{28}<br> +{29}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00410000">O POETA MORIBUNDO</a></h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Luxuoso salão de recepções: por entre cavallêtes com quadros de fina + pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de Parreira e a + vocação de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio das tapeçarias, dos + <em>fauteils</em> e das luzes, um magestoso piano Ritter.</p> + + <p>H<small>ELOISA</small> acabou de executar, com todo o applauso do maestro + C<small>HRISTOVAM</small> D<small>ETMER</small>, a linda fantasia—<em>Le + poète mourant</em>—de Gotschalk.</p> + + <p>As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de admiração + e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos que obedeciam á + grande inspiração de H<small>ELOISA</small>.</p> + + <p>Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente combalida<span + class="pn">{30}</span> pela dor de uma alma irman...</p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas +bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas e os +teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do passional poema +lyrico, me concentrei e te affirmo que a visão não despresou a audição, pois vi +e ouvi toda a scena, desenvolvida entre personagens vivas, que se moviam, se +soccorriam e testimunhavam o desfallecimento do artista moribundo. Durante +minutos que serão inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao +teu lado, frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e não denunciei, +pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a +existencia. Vim do gabinete privado de tua mãe, que se transformou +pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se lhe +dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a longa historia +de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes,<span class="pn">{31}</span> fui +minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a alma de +artista e não o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim inspirar-me para o +sacrificio no teu talento. E saio de tua presença illuminado como o prescripto +que recebeu o balsamo do conselho christão para subir em seguida ao patibulo. +Dá-me, pois, o conforto de tua confidencia ultima: amaste-me alguma vez?</p> + +<p>—Que pergunta, Christovam.</p> + +<p>—Indiscreta?</p> + +<p>—Não; ao contrario. Amesquinhante...</p> + +<p>—Extranho-te.</p> + +<p>—Não ha razão. Porventura pensarás que te amei e não te amo agora? Acaso a +minha mão de mulher para te ser dada dependerá de alguma coisa irreductivel +deante de minha vontade altiva?</p> + +<p>—Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor +dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeças bellas de todas +as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz com que se +enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um homem que sabe musica +simplesmente, que é apenas um artista, é pequenino de mais para ter uma +pretenção de<span class="pn">{32}</span> amor. Eu me pareço com esta figura +lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das fantasias +de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em sonhos egoistas, +cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava rozas, derrocando +castellos, para me conter na illusão em que me deleitava sómente com a +audiencia da negativa inclemente de tua mãe. Confessou-me que maldava de todo o +nosso amor, desde principio. E porque, se assim era, protegia a ampliação de um +sentimento que deveria ser, como os filhos defeituosos das ciganas que são +atirados ás piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse, +falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era porque, +doidivana como toda creança, jogavas a péla na orla do precipicio, esperando o +aviso amigo para te retirares gloriosamente... Negarás, Heloisa, que tinhas +consciencia de minha pretenção? Sophismarás, em favor da excommunhão que me +lançou a tua mãe, e contra a clareza da ordem que me deste afim de se +officialisarem as relações do affecto, que nos encaminhava de um illusorio +paraiso? Responde com o talento immensuravel com que sempre me amaste...<span +class="pn">{33}</span></p> + +<p>—Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias +possuir o maior tino dos homens.</p> + +<p>—Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem pesada +se antepõe á sua esphera...</p> + +<p>—Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e não te hei de amar fóra do +regosijo delles...</p> + +<p>—Dos teus paes?</p> + +<p>—Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em tuas +mãos estariam vegetaes só ao sôpro de um fakir indiano. Porque admittirias que +a minha vontade fosse forte bastante para romper a marcha das intenções dos +meus paes sobre a minha razão de ser mulher? Por ventura sem o sopro do fakir +as sementes germinariam e attingiriam as fórmas de seres definitivos? Não +supporás que, sem aquelle sôpro, algo se realisasse. Como suppôres que sem a +vontade dos meus maiores a nossa união se perpetraria ao teu sabôr?</p> + +<p>—Desconheço-te já...</p> + +<p>—Mas, porque...</p> + +<p>—O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto á quesilia dos +outros...</p> + +<p>—Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a existencia de +mulher?<span class="pn">{34}</span></p> + +<p>—Nem sei de mim mesmo que te responda...</p> + +<p>—Não poderias esperar. Se eu fôsse livre, se a lagarta para ser papilio não +carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar a sancção +que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razões para tal fazer. +Aborrece-te o trovão? amedronta-te o curisco? Queres ver-te livre delles? Crê +num Deus e pede-lhe a extinção... Infelizmente, Christovam, nem o trovão se +extinguiria, nem o teu querer triumpharia... De um lado, Deus seria impotente +para te dar o que pedisses porque não terias o direito de pedir... Só pede quem +póde pedir; se se pede é porque de quem dá depende o pedido; e se o pedido não +é dado, procura a causa na insufficiencia e na sem-razão de quem pediu...</p> + +<p>—Mas...</p> + +<p>—Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se +conservares a razão, que tenho o bom senso desejavel ás creaturas perfeitas. +Queres responder-me?</p> + +<p>—Nada significará o que te responda.</p> + +<p>—É preciso que sejas categorico.</p> + +<p>—Pois sim: responder-te-ei.</p> + +<p>—Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?</p> + +<p>—Por certo que não.<span class="pn">{35}</span></p> + +<p>—De minha parte a questão é outra: teria eu o direito de responder por mim +num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer?</p> + +<p>—Se quizesses, sim.</p> + +<p>—Não é assim, não. Porque não me tomarias por mulher sem o meu +assentimento? Por impoderoso deante de minha definição adversa. Porque não me +daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por impoderosa deante da +pronuncia delles. Se tu pudesses alcançar de mim o amor sem vontade, +desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse de meu corpo sem a +intervenção dos que m'o formaram do nada em materia e em alma, nem cogitaria de +enviar-te a elles...</p> + +<p>—É um dilemma sophistico.</p> + +<p>—Por que principio, não sei.</p> + +<p>—Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sêde do teu amor, Heloisa, +como correspondeste a esse lapso do meu instincto?</p> + +<p>—Do modo mais franco.</p> + +<p>—Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu +quizesse, matar a sêde que allegava...</p> + +<p>—Dependia de mim. Dei-te.</p> + +<p>—De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixão. +Negaste-m'o?<span class="pn">{36}</span></p> + +<p>—Não poderia negar.</p> + +<p>—Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na +grandeza das iteradas pulsações cordiaes, affirmaste que eu reconheceria a +intensidade do teu sentimento...</p> + +<p>—Dependia de mim. Pratiquei.</p> + +<p>—Por fim, quando te acenei com o plano de nossa união...</p> + +<p>—Como te respondi, Christovam?</p> + +<p>—Com a primeira negaça.</p> + +<p>—Adulteras a minha intenção: cumpri o meu dever, enviando-te á maman, como +o caminho propicio para vencer o papá.</p> + +<p>—Realmente, Heloisa. Sou um vencido.</p> + +<p>—Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...</p> + +<p>—Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a +consummar uma grande obra musical sem a inspiração para a realidade do dever... +</p> + +<p>—Desistes, então, do teu amor?</p> + +<p>—Razões me sobejam...</p> + +<p>—Que te disse, afinal, a maman?</p> + +<p>—Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e lembrou-me +que um musicista não compõe sem ter inspiração...</p> + +<p>—Nada de mais, Christovam!<span class="pn">{37}</span></p> + +<p>—Talvez não queiras comprehendel-a... Mas é tudo que se póde allegar contra +um homem...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>E, louco pela musica, inconsciente quasi, C<small>HRISTOVAM</small> + D<small>ETMER</small> assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a + esquisita criação de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se + despediu de H<small>ELOISA</small>...<span class="pn">{38}<br> + {39}</span></p> +</blockquote> + +<h2><a name="SECTION00500000">O VELHO MEDICO</a> </h2> + +<p><span class="pn">{40}<br> +{41}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00510000">O VELHO MEDICO</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.</p> + + <p>E<small>STEPHANIO</small> e J<small>UDITH</small>—esta desprendendo-se de + si no devotamento ao esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais + annos, como se lhe tivesse o corpo de cór, curvas e linhas, luzes e + perfumes—gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige os + defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...</p> + + <p>M<small>ARCO</small> A<small>NTONIO</small>—o medico afamado—cofiando as + ennevoadas barbas em que se escondiam as illusões do seu poder curador, + arrancou os olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, + de suas attenções...<span class="pn">{42}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Bem póde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgôr da +mocidade...</p> + +<p>—É exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel +salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, não posso affectar-me com +os seus effeitos: a sua medicina é a criadora das humanas torturas. Parece-me +que jà se disse: «Tirem os medicos e as enfermidades desapparecerão»... Mas, eu +digo: fugi delles e estou curado. Deem-me milhões de medicos e estarão formados +trilhões de doenças.</p> + +<p>—E quem te curou, meu caro?</p> + +<p>—A natureza...</p> + +<p>—O novo deus pagão...</p> + +<p>—Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes curadores. +Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria?</p> + +<p>—Lembro-me, sim.</p> + +<p>—Foram tantos os diagnosticos que jà perdi o direito de dar-lhes autorias. +</p> + +<p>—O sr. era verdadeiramente um doente.</p> + +<p>—E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e +invariaveis.<span class="pn">{43}</span></p> + +<p>—Realmente.</p> + +<p>—Pois confesso-lhe: não fiz uso de um só. Tambem o doutor não foi o ultimo +medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na inspecção. Nada +faltou à sua perspicacia, senão comprehender que, no meu estado, as suas +perguntas eram outras tantas suggestões e novos symptomas para a aggravação de +meu mal. Eu vivia desvairado na vontade de accusar males crescentes, e os meus +assistentes porfiavam em illustrar-me em torturas ineditas.</p> + +<p>—Afinal... quem te curou?</p> + +<p>—Dir-lhe-ei tudo, de começo. Hygia, a deusa da saude, não é de todo mà... +</p> + +<p>—A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos: salvaram-se +pela acção do dedo de Deus, como teriam morrido pela intervenção do doutor... +</p> + +<p>—Creio que o sr. adianta um mau conceito. Não me tenho na conta dos casos +communs.</p> + +<p>—Desculpe-me.</p> + +<p>—Pois não! Mas, a minha doença foi uma criação dos meus medicos, e a minha +cura proveiu de minha inabalavel resolução de abandonal-os. Eu estava em ultimo +grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei assim às mãos de um +allopatha. Homeopathas<span class="pn">{44}</span> e feiticeiros nada fizeram +de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci, aos vinte e tres +annos, foi numa convalescença de enfermidade effectivamente assassina: o amor. +Eu tinha conseguido, pela vez primeira, objectivar uma paixão. E, não só isto: +tivera, com todo o delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra +a minha vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu +sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram sessenta +dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil e quatrocentos +minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes as paradas +assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao maximo possivel. O +prazo desse amor fôra, entretanto, fatal. Exgottou-se e a mulher fugiu-se-me +dos braços como a espiral do fumo que procura as alturas. Ao depois disto, +separado do entretenimento carnal, que me combalia as fibras, como a agua que +vai abalar as galerias subterraneas para derribar as minas, tive a sensação do +remorso de um grande crime...</p> + +<p>—De um crime delicioso...</p> + +<p>—Talvez, doutor.</p> + +<p>—E então?<span class="pn">{45}</span></p> + +<p>—Encegueirado pelo amor, o mundo ficou às escuras sem a luz do olhar della. +Quiz correr nas suas pégadas, e senti-me tolhido como a voz na garganta do +atormentado por um pezadêlo. Vi em todos os convivas de minha existencia, +terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre num choro convulso, +durante o qual me punha a tremer com tanta violencia quanta fazia extremecer +todo o assoalho de minha alcova e soar fóra de tempo a campainha do relogio +sobre a meza... Senti-me muitas vezes balançado como a espherasinha de madeira +que anima o trillo dos apitos...</p> + +<p>—É curioso, de véras, o seu caso.</p> + +<p>—Foi, doutor.</p> + +<p>—Sim! Foi! E hoje sinto não lhe ter visto nesse tempo originalissimo.</p> + +<p>—Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico.</p> + +<p>—Paranoico?</p> + +<p>—Exactamente, doutor, e và vendo. Aconselhou que eu me tratasse com banhos +de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro medico, os meus +paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente banhado, a contragosto, com +luzes de todas as côres. Era inocuo o tratamento para me<span +class="pn">{46}</span> fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males +Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguçados por alta dose, mas +não toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico—jà a esta hora e ha muito +tempo—victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e disse, carrancudamente, +deante de uma das minhas crises de saudade carnal: «são delirios +epileptiformes»... E o tratamento passou a ser feito com altas doses de +bromurêto. A minha ennervação deprimiu-se, e tornei-me um atoleimado, tanto que +nem pranteei a morte de minha mãe, desgostosa com a minha tragica existencia... +Novo medico; vim a ser um simples neurasthenico, com atonias nervosas. +Reconstituintes, passeios, boas alimentações, prazeres, etc.: nada, porem, +matava as saudades do meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora +por excesso de alimentação, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de +insomnias, tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos +medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodêtos e tive +hemoptises. Um Esculapio chamado às pressas, levando em conta a minha magrêsa, +o sangue exvasado dos meus pulmões e o historico dos meus soffrimentos,<span +class="pn">{47}</span> num rapido prognóstico, annunciou a minha morte breve, +por força de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me +interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria sómente: +suggeriam-me cousas que só dalli por deante eu começava de sentir. E veiu um +curador homeopatha: os seus remedios ingeri com facilidade, pela falta de +sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um visinho, que se enforcou dias depois +porque se sentiu arruinado nas suas forças commerciaes, lembrou que os maus +espiritos encostados aos corpos de pessôas novas, faziam artes do demo... E não +só apresentou a conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma +velhinha, encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruços +na cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira...</p> + +<p>—E nem rezado, sr. Estephanio?</p> + +<p>—Para o doutor ver! Nem rezado!</p> + +<p>—É unica a sua historia.</p> + +<p>—Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau +funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado.</p> + +<p>—Assim acaeceu.</p> + +<p>—E inda pensa o doutor que eu tivesse affecção nos rins?<span +class="pn">{48}</span></p> + +<p>—Se me não falha a memoria, effectivamente.</p> + +<p>—Pois escute: logo depois de sua intervenção, repudiando eu os medicamentos +que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram trazidos em +conferencia.</p> + +<p>—Que disseram elles?</p> + +<p>—Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles mesmos. +Do doutor discordaram reputando sãos os meus rins.</p> + +<p>—Sãos, ou curados?</p> + +<p>—Curados, não. Inattingidos até àquella data. E firmaram o diagnostico de +uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgão e o outro hypertrophia. +</p> + +<p>—Mas, afinal, acertaram?</p> + +<p>—Suppõem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a saude. +</p> + +<p>—É espantoso, meu caro senhor.</p> + +<p>—Não é, não, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha reapparecido +a mulher que eu amára. Visitou-me. Inflammamo-nos, e... estamos casados, não +foi assim, Judith?</p> + +<p>—Parece-me!<span class="pn">{49}</span></p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando o + enfeitiçamento de um lindo <em>manteau</em> exposto no mostruario de modas e + confecções... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente a espaçosa + fronte...<span class="pn">{50}<br> + {51}</span> </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00600000">OS DOIS ESPELHOS</a> </h2> + +<p><span class="pn">{52}<br> +{53}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00610000">OS DOIS ESPELHOS</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Depois de mandar retirar-se a criada, V<small>IOLANTE</small> foi, pé ante + pé, fechar a porta do salão de jantar que deitava para a copa, e veiu + sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mãos profundamente + geladas.</p> + + <p>S<small>IMEÃO</small>, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo + no canto dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as + feições com um clarão colerico.</p> + + <p>Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a cadeirinha + de balanços, V<small>IOLANTE</small> provocou-o...</p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Faze a tua scena.</p> + +<p>—E não é sem tempo.<span class="pn">{54}</span></p> + +<p>—Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se não é sem tempo?</p> + +<p>—Facilidades.</p> + +<p>—Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o homem +cazado não tem direito a facilidades.</p> + +<p>—Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que +Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma existencia +inteira para passar escravisado aos laços de uma união infeliz!... Maldita +hora!</p> + +<p>—Ah!... ah!... ah!... ah!...</p> + +<p>—Sorris...</p> + +<p>—E então? Hei de chorar para te sentires bem na oppressão que me fazes?</p> + +<p>—A minha vida depois que me senti enganado...</p> + +<p>—Não tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci o +teu adulterio...</p> + +<p>—Insultas-me ainda em cima, Violante?</p> + +<p>—Não te insulto. Repillo as tuas aggressões, termo por termo. O que eu digo +é que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado e perfumoso +para agradar às amantes, tem a mulher de...</p> + +<p>—Não dize, Violante, a indignidade!<span class="pn">{55}</span></p> + +<p>—Porque não dizer as cousas como ellas devem ser? Só depois que senti a tua +ausencia do lar...</p> + +<p>—E confessas o delicto?!...</p> + +<p>—... só depois que conheci a tua amante...</p> + +<p>—Mentes, mulher!</p> + +<p>—... só depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui +sais...</p> + +<p>—É horrivel, Violante!</p> + +<p>—... só depois de ver-te partir de là e a tua concubina despedir-se de ti +com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravidão...</p> + +<p>—Tu viste?</p> + +<p>—Sim... só depois de ter a certeza de possuires uma amante...</p> + +<p>—Poupa, Violante, essa phrase...</p> + +<p>—... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a +côrte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no lar pelo +marido libertino...</p> + +<p>—É demais!</p> + +<p>—Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num +isolamento de aborrecer. Entretanto, fôra diverso o teu proceder nos primeiros +tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava na<span +class="pn">{56}</span> rua, mal eu começava a sentir a tua ausencia, estavas de +volta. Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te +retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te perguntei, a +hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz saber. E, até hoje, +nunca te pedi a menor palavra sobre o teu procedimento...</p> + +<p>—E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informações.</p> + +<p>—Pois bem! Para evitar essa negação, nunca t'as pedi, sciente e consciente +de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, não te devo +satisfacções... São ellas por ellas...</p> + +<p>—Abusas...</p> + +<p>—Corrige-me se puderes... Não és o meu marido?... Toma conta dos meus +actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze o que +entenderes, certo de que atraz de mim haverá quem vingue as tuas incontinencias +e perversidades...</p> + +<p>—E sabes quem é a minha amante?</p> + +<p>—Se sei, Simeão?!...</p> + +<p>—Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: não +conheces ninguem...</p> + +<p>—Só com o rizo!... Ah!... ah!... ah!...<span class="pn">{57}</span></p> + +<p>—Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha paciencia se +exgottarà afinal...</p> + +<p>—Ainda em cima me ameaças?</p> + +<p>—Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me confesses +tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante?</p> + +<p>—Ninguem!</p> + +<p>—Ninguem, como?</p> + +<p>—Desconfiei e fui ao teu encalço...</p> + +<p>—Não falas a verdade, Violante.</p> + +<p>—A certeza das coisas é adquirida quando nos abeiramos dellas. Molestias +mortaes, por miasmas exhalados dos paúes, só as contrai quem lhes vai à beira. +Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio... Olhas-me agora atravessado? +Nega então que te falo a verdade como ella é?!... Por favor, desmente-me, se és +capaz...</p> + +<p>—Juro-te que não sei do que se trata.</p> + +<p>—Perjuro!... Então, toda a manhan não vais daqui à caza de Idalia... Não me +interrompas, não... toda a manhan, não passas là horas esquecidas, quando sais +não fica ella por traz da gelosia a acenar-te e tu a corresponderes-lhe os +acenos de apaixonada despedida?</p> + +<p>—Ousada! Alem do mais, injurias à mulher de um amigo da nossa +familia...<span class="pn">{58}</span></p> + +<p>—E que é a tua amante...</p> + +<p>—Pois se é, está tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre +vontade... Constou-te jà que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As minhas +obrigações maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e começam, +quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a dentro, estou eu +cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem jurei culto eterno, alias, +em tempos melhores... Casei por uma supposição de momento: a solidão de +solteiro era um suicidio de todos os dias. E só não me enganei em suppôr que o +matrimonio me facilitaria relações difficeis antes de ter as qualidades de +senhor duma mulher... O mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a +tua companhia, e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado é um +pequenino jardim, o maior céu é a entrada de uma furna... A companheira é um +tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo homem +respeitador...</p> + +<p>—Outro tanto te allego eu... Mentirá aquelle que disser me ter visto, +sorrateira ou clandestinamente, embuçada ou mascarada, penetrar em lugares +escusos, ou ao lado de algum homem que não fôsses tu... Casei-me<span +class="pn">{59}</span> por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixão +momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto o meu +marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me eu... Adquiriu +uma amante...</p> + +<p>—Retem-te, Violante!...</p> + +<p>—Não! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem póde viver longe do +pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu marido!... +</p> + +<p>—Intoleravel!</p> + +<p>—Tambem tu o és!</p> + +<p>—Adultera!</p> + +<p>—Deixemo-nos, Simeão, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os +devolver todos, um por um...</p> + +<p>—Saber-me trahido...</p> + +<p>—Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando nada, +não terás de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher digna do +marido que lhe deram...</p> + +<p>—Sinto faltar-me a luz da vista...</p> + +<p>—Impressões, Simeão.</p> + +<p>—Pois é justo que me consinta enganado?</p> + +<p>—Não nos deshonramos...</p> + +<p>—É um consôlo ridiculo.<span class="pn">{60}</span></p> + +<p>—E que dirias tu se trahida eu não te trahisse igualmente?</p> + +<p>—Diversa é a situação do homem, Violante.</p> + +<p>—O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente nos +submettemos a esse regimen de igualdade...</p> + +<p>—Doloroso!</p> + +<p>—Assim exclamei, Simeão! Agora, porem, me sinto melhor: não me enganaste, e +isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos...</p> + +<p>—E o teu amante?</p> + +<p>—Dispensa sabel-o...</p> + +<p>—Ah!... Repillo a lembrança que me occorre... Não, não é possivel!... O +massagista...</p> + +<p>—Rende justiça à tua mulher, Simeão! Pois não vês que eu me não vingaria de +ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te fizesse córar perante a +sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de ti?</p> + +<p>—Então... Desabafa-me!... Sê completa!</p> + +<p>—Insistes em conhecer tudo?</p> + +<p>—Não duvides que o quero de coração.</p> + +<p>—É Lourival...</p> + +<p>—O marido de Idalia?...</p> + +<p>—De certo.<span class="pn">{61}</span></p> + +<p>—Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem +conjugadamente...</p> + +<p>—Mas eu estou vingada...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fóra do salão, perguntava + aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar...</p> + + <p>E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz...<span + class="pn">{62}<br> + {63}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00700000">O PRIMEIRO FILHO</a> </h2> + +<p><span class="pn">{64}<br> +{65}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00710000">O PRIMEIRO FILHO</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Na secretaria fôra extranhada a falta primeira de O<small>RLANDO</small>, + assiduo até não se ter ausentado do serviço no attrahente dia do matrimonio. + </p> + + <p>O D<small>IRECTOR</small> do esposo de O<small>LIVIA</small> era + reconhecido à assiduidade do moço, e, por duas vezes, determinàra o seu + accesso por merecimento.</p> + + <p>Ao penetrar na Repartição depois da primeira falta, todos os olhares + recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se entregou ao + trabalho sem explicações.</p> + + <p>Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado, + O<small>RLANDO</small> e o D<small>IRECTOR</small> entravam em confidencia... + </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Ah! Sr. Director!<span class="pn">{66}</span></p> + +<p>—Estiveste doente?</p> + +<p>—Não, não foi doença minha. Antes o fôsse...</p> + +<p>—Trocaste o dia?</p> + +<p>—Como assim?</p> + +<p>—Levaste à conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos?</p> + +<p>—Tambem não!</p> + +<p>—Viajaste a negocio?</p> + +<p>—Qual, Sr. Director! Os meus negociou são sómente os de meu dever aqui +dentro...</p> + +<p>—Não sei explicar a tua falta.</p> + +<p>—E eu careço de coragem para dizer...</p> + +<p>—Tão futil não ha de ter sido o motivo.</p> + +<p>—Eu conto. Foi o meu primeiro filho...</p> + +<p>—Felicito-o desde jà.</p> + +<p>—Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade. Conhecendo +bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a só quando se manifestaram os +primeiros incommodos do parto. E confiando em que o acontecimento cedo me daria +liberdade para saltar à repartição, fui-me deixando ficar, ora mais embebido +nos cuidados que a parturiente exigia, ora menos descontente com o que se ia +passando, até que, só na madrugada de hoje, após vinte e duas horas de +labutações, se concluiram os trabalhos...<span class="pn">{67}</span></p> + +<p>—Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia.</p> + +<p>—Não menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi em +mim e vi que faltàra hontem improficuamente, porque...</p> + +<p>—Ora, Sr. Orlando! Uma falta não inflúe, tanto mais quanto fui o primeiro a +não mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber corresponder ao +valor dos meus funccionarios.</p> + +<p>—Fico embaraçado... Nem sei como lhe agradeça... Ao depois das torturas +porque passei, era natural que Deus me désse o allivio de uma honra como a que +o Sr. Director acaba de conceder-me.</p> + +<p>—E a senhora ficou sem novidade?</p> + +<p>—Pouco mais ou menos, Sr.</p> + +<p>—Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia...</p> + +<p>—Qual nada!... Faltar hoje?...</p> + +<p>—Não digo isto.</p> + +<p>—Então...</p> + +<p>—Obter uma dispensa de serviço...</p> + +<p>—Nem pensar é bom, Sr. Director. Se me déssem licença eu hoje emendaria o +dia com a noite para descontar o atrazo de hontem...<span +class="pn">{68}</span></p> + +<p>—São excessos, Sr. Orlando. É justo que um chefe de familia precise dessas +lacunas no serviço para gozar mais largamente as venturas de seu lar.</p> + +<p>—Estas, francamente, eu só poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz no +acontecido.</p> + +<p>—E não o foi?</p> + +<p>—Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigação.</p> + +<p>—Qual foi o medico?</p> + +<p>—Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo.</p> + +<p>—Bons medicos, sem duvida.</p> + +<p>—E que hão de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como um +horror...</p> + +<p>—Mandarei dar-te uma gratificação para cubrires com ella os extraordinarios +desse acontecimento inquietador.</p> + +<p>—Não aceitarei, Sr. Director.</p> + +<p>—Porque assim?</p> + +<p>—Não é soberbia, não. Desculpe-me, mas eu não posso aceitar.</p> + +<p>—Quereria ter as razões dessa sua desattenção...</p> + +<p>—Não é desattenção, Sr. Supponha que eu aceito. Desfaço-me das minhas +difficuldades graças ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo filho, +nas mesmas condições<span class="pn">{69}</span> difficeis do primeiro. O Sr. +descuida-se e eu não obtenho nova gratificação. Naturalmente me enciumarei com +o seu procedimento e o que não quero hoje, não devo esperar amanhan... Pois não +é?</p> + +<p>—Eu daria do melhor grado.</p> + +<p>—Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao +depois, se a parturiente inspira cuidados...</p> + +<p>—Não se ficou bem ella?</p> + +<p>—Acho que não. Ao depois do parto, começou de ter desmaios consecutivos... +</p> + +<p>—E o que recommendaram os medicos?</p> + +<p>—Repouso. Ó Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher é uma +inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que Olivia +padeceu.</p> + +<p>—Pois penso que devias retirar-te.</p> + +<p>—Não devo, Sr. Director. O lar é uma preoccupação para fóra das horas da +secretaria.</p> + +<p>—Até o serviço poderia lucrar com a tua ausencia...</p> + +<p>—Perdão, senhor, mas...</p> + +<p>—Admiras-te? Não queria falar-te com tanta franqueza para não te consumires +ainda mais...</p> + +<p>—Por acaso commetti alguma outra falta?</p> + +<p>—Gravissima... Sabes porque te chamei?<span class="pn">{70}</span></p> + +<p>—Lealmente ignoro.</p> + +<p>—Porque te desconheci. Estás um desconchavado e erras todo o serviço. Pelos +teus grandes creditos, és aqui dentro um rico de odios e de invejas. Conheço-os +todos...</p> + +<p>—Agradecido, Sr. Director.</p> + +<p>—Cada companheiro teu é um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem com +os teus lapsos o teu valor. Não o admitto eu.</p> + +<p>—Mas, que fiz assim?</p> + +<p>—Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua informação. +</p> + +<p>—Oh!... Esta cabeça...</p> + +<p>—A conta de Silva & C.ª...</p> + +<p>—Sei!... sei!... Então... errei-a?</p> + +<p>—Inconvenientemente.</p> + +<p>—E sei porque perpetrei o engano...</p> + +<p>—É o que tu pensas...</p> + +<p>—Por ventura outro me corrigiu?</p> + +<p>—Absolutamente não. Serás tu mesmo quem fará este trabalho ao depois...</p> + +<p>—Porque não hoje?</p> + +<p>—Estás dispensado, incondicionalmente, do serviço por tres dias...</p> + +<p>—Não me conformo, Sr. Director.</p> + +<p>—Sou irrevogavel.</p> + +<p>—No maximo me satisfarei com o dia de hoje.<span class="pn">{71}</span></p> + +<p>—Serão tres dias irreductiveis, e pódes ir para a companhia de tua esposa +descansar a tua cabeça. Vejo-te perturbado enormemente com o pensamento do que +possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda!</p> + +<p>—Dá licença?</p> + +<p>—Pois não.</p> + +<p>—Ás ordens do Sr. Director.</p> + +<p>—Ah!... Sr. Orlando?</p> + +<p>—Sou todo ouvidos.</p> + +<p>—Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? é homem?</p> + +<p>—Perdão, Sr. Director... Mas... não lhe sei responder... Com a atrapalhação +da hora não me lembrei... Ah!... sim...</p> + +<p>—Que respondes?</p> + +<p>—Desculpe-me, Sr. É justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem +verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Sorrira o D<small>IRECTOR</small> e dispensàra de vez O<small>RLANDO</small>, com a + inveja crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos + factos...<span class="pn">{72}<br> + {73}</span> </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00800000">Á VISTA DA DENUNCIA</a> </h2> + +<p><span class="pn">{74}<br> +{75}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00810000">Á VISTA DA DENUNCIA</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>O interior da envidraçada varanda, exornado com ipoméas e glycinias, em + cacos, orchidéas e arums nos recantos, não tinha senão a luz pallida, muito + pallida, de um luar de inverno, coado preguiçosamente pelos vãos das + grinaldas verdes.</p> + + <p>Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma commettia a + indiscreção de transportar para alem, ao conhecimento da criadagem + bisbilhoteira, os amuos graves de C<small>LOVIS</small> e + A<small>MARYLLIA</small>.</p> + + <p>A denuncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de ferro, + destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos grosseiros + perpetrados pelas mãos violentas de C<small>LOVIS</small>, que, + distrahindo-se um pouco com as<span class="pn">{76}</span> fumaradas de um + havana, ouvia, sem intervenções, as queixas de A<small>MARYLLIA</small>... + </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Como eu, tão ladina para outras, comprehendendo tão bem o mal alheio, +deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amavel hoje, tinha sido um +presente valioso hontem, era uma lembrança expressiva amanhan... E o meu +filhinho servindo de <em>passe</em> para os maiores engodos!... Toda hora o +telephone pedia Arthurzinho. Là se ia o innocente, coitadinho! E raramente +voltava. Prendiam-n'o dias seguidos com a ama. Poderia eu desconfiar do +embuste? Ha genios capazes de todas as villezas. O filho era o motivo da +entrada do pae, os presentes eram as cinzas nos meus olhos, e os convites eram +a perfidia da traiçoeira. Mas, agora, ou eu succumbirei, ou estará tudo +acabado. Ouve-me bem, Clovis: nesta caza, emquanto eu viva fôr, Carlota jamais +tornará, e se tu desceres à indignidade de voltar à caza dessa mulher, ouve +bem! Serei eu quem irà buscar o tolo do esposo para te surprehendermos na +sordidez. Sempre são os interessados nas<span class="pn">{77}</span> causas os +que por ultimo se sentem logrados. <em>Il n'y a qu'un mot pour dire les +choses.</em> Essa palavra não devo, porem, proferir sem macular os meus labios, +sem regosijar o meu enganoso marido, e sem elevar a perdida que me furta a +tranquillidade, que me logra no dom legal da fidelidade esponsalicia. Um dia +desconfiei. A ama de Arthurzinho levava um pacote às escondidas, quando, para +castigo, elle rolou ao chão, na hora da partida, quasi aos meus pés... +Perguntei à cumplice que significava aquelle <em>embrulho</em>... Foi o sr. +Clovis quem tomou a palavra: «é um romance que mando, a pedido, para D. Carlota +ler...» Ingenuamente me convenci. Pois seria possivel que o meu marido +trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraiçoava? que expuzesse o meu +filho à infamação de ser posto junto à perfida, em lugar de seu pai gozado?... +Ó meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me e vejo-me só. Roubada +naquillo porque mais zelos e mais ciumes alimento, eu que me tenho submettido +machinalmente à concepção de treze filhos, exgottando a minha juventude para +parecer velha aos trinta e dois annos, assassinando a minha belleza, relaxando +os meus tecidos, criando uma ruga nova em cada manhan em que me<span +class="pn">{78}</span> olho ao espelho!... para ser recompensada duramente com +uma traição, uma tripla traição, em que se envolveram as minhas lealdades de +esposa, de mãe e... de amiga. Sim, porque, desgraçadamente o digo, tolerei a +concubina de Clovis na intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por força +dessa leviandade commum a todas as mulheres, terei dado causa de rizo à maldita +que me engazupava. Contava-lhe os meus esforços para trazer sempre o meu marido +na obrigação pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o +recebia com intimas indisposições, para que regeitado uma feita elle se não +atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a duvida de sua saciedade +noutra fonte... Não sei onde estava escondido o sol de minha comprehensão que +agora recenna a minha intelligencia. E uma miseria moral essa em que se +prostitúe, com o conjuge das outras, uma velha, desrespeitadora das cans do +esposo e da innocencia de suas filhas. Havia de ser là, naquella alcôva cheia +de seducções, que o meu companheiro se convertia em assassino da paz de minha +alma. Aos olhos daquellas tres criancinhas—mulheres faceis, por herança, que +desabrocham nos comoros lamacentos da podridão materna—elles<span +class="pn">{79}</span> dois se encaminhavam do leito, quantas vezes Clovis +ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o ardentemente com o nome de pae! +Bemdito o poeta que jà disse estar ao lado de cada homem uma féra monstruosa: o +instincto. E esse poeta foi o meu proprio esposo, accusando toda a humanidade +com o seu proprio mal. Foi preciso que uma generosidade extranha me avisasse +para que eu conhecesse essa nova Mylitta babylonica, torpe, pantano no qual até +a trahida companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram +poderes lascivos. Ó injustiça divina! Porque não me despertaste, a mais tempo, +do somno em que sonhei com a lealdade de um templo christão e me achava +desgarrada na nave de um templo de Buddha?!... Foi hoje o assignalado dia de +minha victoria. A carta chegou-me às mãos com as resteas violetas do sol posto. +Li-a de um folego. O meu primeiro impeto, naturalmente, foi de indignação +contra o denunciante. Mas, alli estavam os factos verificaveis, possiveis, e +terrorosos. A noite veiu mais depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo. +A verdadeira noite é essa em que tambem a alma se recolhe na escuridão de uma +dôr apunhalante. O meu marido jantaria fóra,<span class="pn">{80}</span> num +banquete intimo, mas numa sociedade festiva. Resolvi chamal-o prontamente às +explicações de suas infidelidades. E fil-o sem tardada, não o nego. Á criada de +Arthurzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha affectos meus por dar o +seu leite à formação organica de meu filho, trouxe logo às contas. Não lhe +disse a denuncia, não lhe proporcionei ensejo de contestar a sua acção, porque +a interpellei segura do facto, inteiramente consciente do que fazia. E ella me +confessou que levava e trazia romances immoraes, que levava e trazia cartas e +recados... O instante unico! Ao depois, calma e friamente, sabendo que aguçava +a minha dôr, revolveu-me nalma o punhal de seu descaro, revelando-me a +indignidade de ser o meu filho abraçado e beijado ardentemente, durante a +ausencia do pae, com o nome deste entre os labios da corruptora... Nega, +Clovis, que não és o amante dessa barregan de padres, dessa immunda mulher que +maculou o meu lar com a sua abjecta convivencia...</p> + +<p>—Nego, sim!</p> + +<p>—Fórte coragem! Jura que hontem não beijaste, quasi aos olhos do publico, +no salão de visitas, os labios rôxos pelo cansaço da idade de Carlota.<span +class="pn">{81}</span></p> + +<p>—Juro-te.</p> + +<p>—Leviano! Mente como quizeres. Mas, ouve: emquanto o meu corpo sentir as +commoções do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquella devassa, +emquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquella carta nas tuas vestias, +que é o perfume de uso na alcôva de tua hervoeira, terei a coragem de +repellir-te e de cerrar os meus labios às menores palavras para as nossas +relações. E se, porventura, desconfiar eu que foste buscar, como uma abelha sem +sorte, o nectar que se esconde na corolla daquella flor murcha e fanada, dentro +desta caza, escuta bem Clovis, haverá a incompatibilidade de nós dois... É tu +entrares e eu sahir, ou só ficarei se tu te fôres para sempre. Sabes quanto sou +caprichosa, o bastante para não me arrepender das resoluções tomadas. Negas, +ainda, o teu erro? Serei facil de perdoar-te com a verdade, tão facil quanto +não te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade!</p> + +<p>—Nego, sim!</p> + +<p>—Quero convencer-me. A pé firme?</p> + +<p>—Com toda lealdade.</p> + +<p>—Pois bem! É escusado irmos adiante: sabes o que está contido naquelle +pacote?<span class="pn">{82}</span></p> + +<p>—Ignóro.</p> + +<p>—São os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero +devolvel-os.</p> + +<p>—Mas, como?</p> + +<p>—Não os guardarei mais commigo.</p> + +<p>—Vais romper, então, com a familia do Aurelio?</p> + +<p>—Forçosamente.</p> + +<p>—É de mau alvitre.</p> + +<p>—Incommoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar com +uma amizade que me aborrece, e se te excusares a esse acabamento, confessas o +interesse que terás em manter a verminação desse convivio immundo...</p> + +<p>—Se encaras por este lado, rompe Amaryllia, devolve tudo do modo mais +grosseiro.</p> + +<p>—Devolverei, sim, não ha que ver.</p> + +<p>—Estàs no teu direito.</p> + +<p>—E espero a tua sancção.</p> + +<p>—Jà a tens.</p> + +<p>—Não. Não a tenho ainda. A devolução não poderá ser feita sem uma carta. +</p> + +<p>—Pois escreve-a!</p> + +<p>—Não! Tambem não! Serás tu...</p> + +<p>—Eu?!...</p> + +<p>—Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?...<span class="pn">{83}</span> +</p> + +<p>—Amaryllia, pensa bem! Nós, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos +nessas rusgas de mulheres.</p> + +<p>—Comprehendo-te: romperei eu, e tu, às occultas quiçá, com menores +apparencias, te dedicarás à continuação de teu adulterio. Has de ser quem +escreverá a carta hoje mesmo, agora...</p> + +<p>—Convencer-te-às de minha innocencia?</p> + +<p>—De todo, não. Encaminhar-me-ei de convencer-me.</p> + +<p>—Não haja duvida. Dà-me papel e tinta. Escreverei num momento...</p> + +<p>—E pensas que escreverás como quizeres?</p> + +<p>—Não: como fôr conveniente.</p> + +<p>—Não te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado.</p> + +<p>—Quê?</p> + +<p>—Nos termos que me espoucarem arrevezadamente aos labios...</p> + +<p>—Mas...</p> + +<p>—Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga...</p> + +<p>—Amaryllia?!...</p> + +<p>—Virulenta e grosseira...</p> + +<p>—Faça-se a tua vontade.</p> + +<p>—Escreves?</p> + +<p>—Como quizeres.<span class="pn">{84}</span></p> + +<p>—E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquelle modo escripta?</p> + +<p>—A Carlota!</p> + +<p>—Não, Clovis. Quero que se escreva ao marido della, com o seu nome em todas +as letras...</p> + +<p>—É demais!</p> + +<p>—Não retrocedas!</p> + +<p>—Abusas de minha bondade...</p> + +<p>—Enganas-te. Clovis, ou tu escreves como eu te determino, ou...</p> + +<p>—Absolutamente, não!</p> + +<p>—... ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A caza de meu pae terá +sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortavel.</p> + +<p>—Tua alma, tua...</p> + +<p>—Sei bem! Queres o escandalo da separação para o renome do conquistador? +Não te darei essa vantagem... Debaixo deste tecto, tragarás, Clovis, o amargo +da tortura mais incondescendente, soffreràs a queimadura do inferno mais +verdadeiro...<span class="pn">{85}</span></p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Ao longe, um relogio temerario, arriscou o aviso tetrico da meia-noite, ao + fim do qual, resolutamente, A<small>MARYLLIA</small> se retirou para o seu + leito...<span class="pn">{86}<br> + {87}</span> </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00900000">IRADO ATÉ À CURA...</a> </h2> + +<p><span class="pn">{88}<br> +{89}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00910000">IRADO ATÉ À CURA...</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Ampla alcôva: no <em>armoire-à-glace</em> reflectida como outro vasto + commodo...</p> + + <p>Rico mobiliario de pau-setim com incrustações de jacarandà reluzente... + </p> + + <p>Um leito de cazados, e sobre elle, cadaverico, pelles e ossos, despojado + de carnes, ventrudo, olhar ancioso, o louro O<small>RMINDO</small>, luctando + com a morte...</p> + + <p>É um erro de diagnostico, rebelde a enfermidade à medicação + despropositada. </p> + + <p>Junto do leito, uma banca, e sobre esta, alem de um thermometro e de um + chronometro, desenvolta frascaria...</p> + + <p>Aos pés da cama, fatigada, somnolenta, às vezes, D<small>OCA</small> é + heroina na vigilia: o seu semblante merencoreo<span class="pn">{90}</span> só + consegue alguma graça quando E<small>LOY</small> visita o enfermo. </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaços sorrateiramente... Doca, tu +bem vês como eu morro todos os segundos, como eu minguo sem cessar...</p> + +<p>—Tem fé em Deus, Ormindo.</p> + +<p>—Morrerei com ella, sim. A fé! Ella é o facho illuminador da estrada +eterna... Como deve ser doloroso não crer em nada, Doca!... Sentir a alma cahir +no vacuo... Ah! não me conformo, porem... Morrer quando tanto preciso é +viver... Vou deixar-te na penuria... a braços, por certo, com os creditos da +medicina e da pharmacia...</p> + +<p>—Tu pensas demais.</p> + +<p>—Como não hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilharás a codea endurecida e +atrazada. É com horror que prevejo as tuas infelicidades... És nova. Mas de que +servirà a tua mocidade sem pão, os teus verdes annos sem um amparo? És bella. +Mas de que prestarà a tua lindeza se não tiveres um manto para o frio e um +abanico para o calor? Nova e<span class="pn">{91}</span> bella... na viuvez! +Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei?</p> + +<p>—A pobreza é um estimulo, Ormindo: saberei trabalhar afim de haver com +honra um pedaço de pão e alguns covados de fazendas...</p> + +<p>—Não te peço nada, e peço-te muito: não macúla o nome de teu marido. A +herva reverdesce a fronde dos vegetaes, augmenta-lhes a copa, ennobrece-lhes o +aspecto: crava-lhes, porem, até ao durano, as raizes assassinas e rouba-lhes a +seiva até à morte. A arvore cessa de existir com a trepadeira phytocida que lhe +rendilha os contornos. A mulher deve pensar que o bem-estar não é a honra, e +que ha tranquillidades mais homicidas do que a herva do passarinho... A +deshonra não provem da pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A deshonra é fructo +das transigencias de alma, e a mulher viuva é a que póde peiormente +transigir... Que dores!... Ui!...</p> + +<p>—Estàs vendo: peioras quando falas!</p> + +<p>—Doca, no meu caso extremo, a morte é assim qualquer coisa como uma sorte +grande...</p> + +<p>—Num bilhete branco para mim que fico sem ti... Não sabes aproveitar o +silencio como um meio de cura, não sabes tirar partido,<span +class="pn">{92}</span> poupando forças para momentos mais graves...</p> + +<p>—Durarei muito pouco.</p> + +<p>—Não pódes saber mais do que os medicos.</p> + +<p>—Ah! mulher! Só eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se avisinha +o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam. É verdade, pois tenho +neste momento a visão mais lucida dos meus primordios. Que é isto senão que se +vai fechar a circumferencia de minha traslação em torno do vacuo universal? O +aneurisma cresce, avoluma-se, rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a fórma +de uma esphera, é um globo pequenino de vivos, na lucta pela existencia. Vai +arrebentar, latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que +nunca me illudi com a esperança da cura? Illudi-me, mas antes de todos...</p> + +<p>—Quem està vivo, Ormindo, ainda não està morto, e toda a cura é plausivel. +</p> + +<p>—A tua dedicação é cega. Desde que adoeci, desde que sobre o coração senti +a formação mortifera do mal circulatorio, certifiquei-me estar mais longe do +mundo do que do nada. E deste momento para cà, que fiz para denunciar que creio +na cura? Ao contrario, a minha vida tem sido a chamma de<span +class="pn">{93}</span> uma véla a luctar com o sôpro das auras. Não ha um +instante em que não me morra uma alegria, em que não nasça uma saudade. Em +torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa teimosa em +torno de uma lampada.</p> + +<p>—Aggravas-te, Ormindo! Cala a bocca por piedade! As tuas palavras são +outros tantos punhaes que me sangram o coração.</p> + +<p>—Que horas serão?</p> + +<p>—Jà é noite.</p> + +<p>—E os medicos que não vieram?</p> + +<p>—Vieram, sim. Tu estavas dormindo.</p> + +<p>—Os medicos não vieram, não... Até a minha esposa conspira contra a minha +existencia...</p> + +<p>—Não pesas as tuas palavras, Ormindo.</p> + +<p>—Jà sei de tudo. Perderam a esperança, abandonaram-me. Não passarei de +hoje. Estou condemnado a horas.</p> + +<p>—Descansa um pouco.</p> + +<p>—Descansar, agora, só de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e parece-me +que foi hontem à tarde que nos vimos pela primeira vez. Um sonho às vezes tem +existencia mais real, porque nos acompanha do momento da concepção em criança +ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me o ar...<span +class="pn">{94}</span></p> + +<p>—Assim queres! Falas tanto...</p> + +<p>—Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: não ha rio que não chegue ao mar. +Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas consegue... +Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez não te lembres mais do meu +enfeitiçamento; não me esqueço eu do sorriso unico com que festejaste o nosso +encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh! que lindo luar te prateou as +pupilas, te diademou os cabellos e te banhou luciferamente as espaduas! Mezes +depois, o cazamento... A noite de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso +amor insatisfeito sempre para accordar novas caricias, para fomentar +alegrias... A esperança de um filho... O recúo da esperança... E tudo isto +acabar quando mesmo principiava?!...</p> + +<p>—Não temas a morte: um cerebro que pensa como o teu dà confiança na +renascença da vida.</p> + +<p>—A alma não morre, Doca! É ella quem esta vivendo agora. Os pulmões +fraqueiam, o coração tem espasmos, a visão escurece-se, a voz arrasta-se, mas o +cerebro pensa... Crês tu que, porque não falam, todos os moribundos não pensam? +Illudes-te! É a hora de maior pensamento. Só recompôr todo o passado<span +class="pn">{95}</span> afim de o ligar ao presente e encerrar o circulo das +sensações mundanas, é pensar robustamente. Um moribundo que eu vi, não tinha a +fala. Os membros eram paralyticos, os olhos envidrados e photographavam a luz +do dia para a eternidade... Pois bem! esse homem assim amortecido, repelliu com +o gesto brusco de uma perna o supplicio de uma injecção nos ultimos +instantes... Acaso, não pensaria mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros +ha que conhecem até o segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser +tocante o adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um +agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecerà mais no +extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro mundo... +Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que não falo certo?</p> + +<p>—Não me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperança +illuminar-me o rosto...</p> + +<p>—Como és amante?!... Quererias de coração e de alma, com todos os affectos +e vontades, a minha cura?</p> + +<p>—Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado à saúde.<span +class="pn">{96}</span></p> + +<p>—É bem pouco um desejo!</p> + +<p>—Duvidas que todas as minhas forças funccionam só na intenção de possuir-te +novamente são?</p> + +<p>—Não duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a prolongação +de minha tortura...</p> + +<p>—Aborrecer-me eu!...</p> + +<p>—E então?!...</p> + +<p>—Tens coragem! Só me representa que gravaràs na alma uma eterna +desconfiança da amizade de tua esposa...</p> + +<p>—Isto não!</p> + +<p>—Pois parece, Ormindo!</p> + +<p>—Neste caso, escutas-me com agrado?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Posso falar?</p> + +<p>—Não.</p> + +<p>—Ah! jà sei... É a mesma quesilia de que falar é um desperdicio de forças +organicas...</p> + +<p>—Diz o doutor...</p> + +<p>—Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro +conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar num +terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido às intenções animaes dos +homens, a equação da mulher é<span class="pn">{97}</span> perigosamente +diversa. Virgem, ella tem a expressão de um sonho; esposa, representa uma +realidade; e viuva, ella é uma alma em que se derramam os mananciaes copiosos +da luxuria humana... Virgem, fôste uma criadora; esposa, uma inspiradora; +viuva, seràs, em nome da honra de teu marido, uma redemptora... Ai!... Dóem-me +os pulmões... Morrerei, porem, com todas as sensações...</p> + +<p>—Não morreràs, Ormindo!</p> + +<p>—São os teus votos?</p> + +<p>—Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda no +instante derradeiro?</p> + +<p>—Não duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz.</p> + +<p>—Pois então?!...</p> + +<p>—Dà-me a tua mão...</p> + +<p>—Estàs frio!</p> + +<p>—É a gelidez da morte... Não tardarà... Fazes-me um favor?...</p> + +<p>—Se o faço...</p> + +<p>—É para depois de minha morte...</p> + +<p>—Juro-te.</p> + +<p>—Mas, responde franca e precisamente, para que eu não succumba com uma +duvida...</p> + +<p>—Pede o que quizeres... Pede... não!... ordena!<span class="pn">{98}</span> +</p> + +<p>—Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se não me derrubou de vez, vai +invadindo-me com o gêlo de seu halito das extremidades para o coração. +Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez é um despenhadeiro. Peço-te em +nome de minha tranquillidade, que te cases, immediatamente, afim de que não +paire uma só nuvem sobre a limpidez do teu e do meu nome... Casarás logo... +Peço-te... É o ultimo sacrificio em prol do teu defuncto...</p> + +<p>—Intranquillisas-me, Ormindo.</p> + +<p>—Não ha razão para isso.</p> + +<p>—Se tu mandas...</p> + +<p>—Mando, não; peço... Agradar-te-à Eloy?</p> + +<p>—Queres, Ormindo, a verdade antes da morte?</p> + +<p>—É isso...</p> + +<p>—Pois bem! O que tu propões jà estava assentado entre nós outros...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um grande + esforço e se salva com o despedaçamento brusco do myoma desconhecido, do + assassino erro de diagnóstico...<span class="pn">{99}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001000000">A HUNGARA</a> </h2> + +<p><span class="pn">{100}<br> +{101}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001010000">A HUNGARA</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Commodo de hotel. Um fóco electrico esverdinhava o azul papel das paredes. + </p> + + <p>Revolvido, o leito denunciava em duas cóvas a pressão de dois corpos que + nelle se afundaram.</p> + + <p>S<small>ARAH</small>, a hungara, recebia G<small>UANABARINO</small>, o + chronista theatral, com um estridente signal de contentamento...</p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Aqui estou. Nem sei como acertei.</p> + +<p>—Estás apaixonado?</p> + +<p>—Crês, Sarah, que paixão desponte como um sorriso?<span +class="pn">{102}</span></p> + +<p>—Quem te disse o meu nome?</p> + +<p>—Li-o nos programmas.</p> + +<p>—Ah! sim. Gostaste do meu canto?</p> + +<p>—Não te ouvi.</p> + +<p>—Como te agradei?</p> + +<p>—Pertencendo a outro. A mulher sem dono custarà a topar com um amante. +Rolarà uma eternidade como a pedra que não cria limo... Tenha um amante e +dezenas surgirão...</p> + +<p>—Como elle é experiente!</p> + +<p>—Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por +Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo braço delle, no teu longo +<em>manteau</em> de sêdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo +dezenas de mulheres no Café-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o canariar +de suas vozes; francesas, que arrebatam com o <em>savoir-dire</em> as malicias +mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus sapateados; +americanas, que lembram bugios nos saltos do <em>cake-walk</em>... Todas são-me +indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com cocottes para todo o +mundo... De começo estive tentado a emprehender uma <em>ménage-à-trois</em> com +uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo prohibido e vivia +aferrolhado<span class="pn">{103}</span> à concupiscencia de seu proprio pae. +Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente encontrei-me +comtigo...</p> + +<p>—Ladrãosinho! Como elle sabe contar!</p> + +<p>—Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu +amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de amigos +attrahiu-me e a attracção de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um cumprimento +com a cabeça. Não me teres sido apresentada, significou que o teu galan zelava +de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho de seu progresso na +sabedoria dos olhares que as pessôas cultas pódem trocar. Viste como te +comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho para o <em>buffet</em>? +Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo de junto de ti e como +tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro? Na sombra dos pés da meza, os +nossos corpos se trocavam desejos nos encontros, animavam-se tambem com os +promettimentos mais claros, e as nossas carnes se queimavam por detraz dos +tecidos de nossas vestias. Tudo isto, porem, ainda não é paixão. É um grito do +instincto animal. Só nos não apaixonaremos se não quizermos...</p> + +<p>—Como sabes a vida!<span class="pn">{104}</span></p> + +<p>—Precisas prender Gustavo. A epoca é das melhores. O dinheiro passa-lhe +pelas mãos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque, alem do +mais, é um amante que, por força de ter mulher e filhos e morar longe, te darà +muito tempo aos amores furtados.</p> + +<p>—Não os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo não se +tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e só o trahi uma +só vez: com o pae de meu filho. Gósto de um amor só, de ter um dono e de ser +cubiçada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso, o Gustavo não me +agrada... Prefiro-te a elle, serás o meu amante...</p> + +<p>—Erraràs se assim preferires, Sarah. Não tenho posses para te manter, ao +passo que o Gustavo...</p> + +<p>—Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho para +o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero...</p> + +<p>—Neste caso ficaràs com elle...</p> + +<p>—Porque então?</p> + +<p>—Conheceste-o primeiro.</p> + +<p>—Não importa isso. A elle conheci na manhan, a ti à noite, ambos no mesmo +dia.<span class="pn">{105}</span> Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra. +Encaminhou-me do hotel, e... má recommendação tem dado com os multifarios +obsequios, com os gastos e as gentilezas, sómente com essas coisas... Ora, uma +mulher como eu, ou quer o homem, ou não o quer... De minha parte dispenso as +galanterias...</p> + +<p>—Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispôres de sua +bolsa...</p> + +<p>—E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor... +</p> + +<p>—Là com isto combino eu.</p> + +<p>—Assim, và que seja e comecemos...</p> + +<p>—Que tenho eu para tanto me olhares?...</p> + +<p>—Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes são +dois vulcões. Como te chamas?</p> + +<p>—Guanabarino, um nome difficil.</p> + +<p>—Como?</p> + +<p>—Gua-na-ba-ri-no!</p> + +<p>—Gua-na...</p> + +<p>—... barino.</p> + +<p>—Ah! sei. Guanabarino. É a primeira vez que ouço esse nome. És brazileiro? +</p> + +<p>—De corpo e alma. E tu?</p> + +<p>—Filha do sul da Hungria. Vim creança para a tua terra. Fui noiva, aprendi +a cantar com um meu amante e vivo disto...<span class="pn">{106}</span></p> + +<p>—Tens percorrido meio-mundo, hein?</p> + +<p>—Não: conheço a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia...</p> + +<p>—Dize outra vez esse termo...</p> + +<p>—Reminiscencia.</p> + +<p>—Que lindo! Parece-me, Sarah, que estás a dar uma serie de beijos...</p> + +<p>—Como elle é ardente!</p> + +<p>—De verdade?</p> + +<p>—A tua alma està fugindo-te pelos olhos...</p> + +<p>—Junto de um espirito como o teu, como ella não querer a transfusão carnal? +Jà notaste o frio que regela as mãos do homem emocionado junto da mulher que o +escalda?...</p> + +<p>—Ih!... Que gêlo!</p> + +<p>—Sabes explicar?</p> + +<p>—Não. É difficil?</p> + +<p>—Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao coração. As +extremidades resfriaram-se. Tudo isto jà é começo de paixão... Falaste nos meus +olhos! E os teus? São capazes de comprar o mundo com um só relance.</p> + +<p>—Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento?</p> + +<p>—Que graça! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas gentilezas. +</p> + +<p>—Tens gozado tanto?<span class="pn">{107}</span></p> + +<p>—Inda perguntas?! Não sabes que o amor se fez para os temperamentos +tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um desejo +para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda hora: sinto que +todo o teu sexo não seja uma só mulher para esta ser a minha amante...</p> + +<p>—Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino!</p> + +<p>—Não.</p> + +<p>—Desmentes o que asseguras.</p> + +<p>—Jà tiveste o teu quinhão.</p> + +<p>—Como assim?</p> + +<p>—Jà te possuiu o Gustavo...</p> + +<p>—Juro-te que não. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja revelada, +ainda não desejou...</p> + +<p>—De facto?</p> + +<p>—Juro-te eu.</p> + +<p>—Ao depois delle... nunca!</p> + +<p>—Mas, porque? Mettes-me medo...</p> + +<p>—Por nada! O Gustavo é um homem para se temer...</p> + +<p>—E porque me inflúes para ser a sua amante?</p> + +<p>—Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu +concubinato bem pódes usufruir grandes proventos. E, jà agora te direi: pouco +mais fará elle do que<span class="pn">{108}</span> hoje... Entretanto, como +homem de recursos, talvez ainda não te désse a menor prova do que seja...</p> + +<p>—Fez-me hoje a oblata de um collar de libras...</p> + +<p>—Um collar?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—De libras esterlinas?</p> + +<p>—Conheces?</p> + +<p>—Acho que não. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos...</p> + +<p>—Foram presente.</p> + +<p>—Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros +meios que não esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe +aqui...</p> + +<p>—Não amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de +<em>chanteuse</em>. Ás vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a +primeira a não regeitar o que me dão. Um deputado deu-me este annel...</p> + +<p>—Adoravel!</p> + +<p>—Um advogado, ao depois de uma perseguição de mezes, para eu o receber, +offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho aquinhoou-me +apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio, outras...</p> + +<p>—Muito em cheio, Sarah!<span class="pn">{109}</span></p> + +<p>—Tu falas? Um mineiro, hoje desesperançado de conseguir a minha +retribuição, deu-me estes correntões para atilios...</p> + +<p>—Que lindas fórmas!</p> + +<p>—Mostro-te apenas os atilios e não as pernas...</p> + +<p>—E eu vejo tudo! É admiravel como o <em>fraise</em> das meias se destaca no +gêsso das tuas pelles...</p> + +<p>—Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me cubrissem +de oiro tenho tido às carradas... mas, um só que me dissesse coisas tão lindas, +nunca tive... A palavra inescutada é tambem uma joia preciosa. E para retribuir +tantas distincções ineditas só um beijo de muita paixão, só um beijo...</p> + +<p>—Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e déste mais de mil...</p> + +<p>—Longe disto, tu não me recompensaste com um só... Reparei bem...</p> + +<p>—Desculpa. Mas, quando sou beijado, não beijo. Esta caricia deve ser sempre +espontanea e impagavel. E eu não commetto a grosseira sensualidade de pagar uma +caricia...</p> + +<p>—Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan...</p> + +<p>—Com todo o fervor...<span class="pn">{110}</span></p> + +<p>—Não te enciumas?</p> + +<p>—Não. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de ouro +que elle te der.</p> + +<p>—Queres ver o collar de hoje?</p> + +<p>—Verei.</p> + +<p>—Elle me prometteu para amanhan um relogio e um correntão.</p> + +<p>—Aproveita, Sarah! Gustavo desperdiça dinheiros de herança...</p> + +<p>—Vês tu o bello collar?</p> + +<p>—É lindo!... Elle t'o deu?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Esta joia?</p> + +<p>—Que significa o teu espanto?</p> + +<p>—É que este collar é...</p> + +<p>—Falso?</p> + +<p>—Não! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo...</p> + +<p>—Agora é minha!</p> + +<p>—Estàs no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos...</p> + +<p>—E só a ti amarei, Guanabarino!...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de G<small>USTAVO</small><span + class="pn">{111}</span> evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando + o silencio somnolento do casarão do hotel, a figura caprina de um mal + conhecido visinho de quarto...<span class="pn">{112}<br> + {113}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001100000">DEPOIS DO COMETA</a> </h2> + +<p><span class="pn">{114}<br> +{115}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001110000">DEPOIS DO COMETA</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, + A<small>LEXANDRINA</small> ergueu-se da <em>steeple-chaise</em>, e beijou a + mão da velha senhora D. C<small>AROLINA</small>, que acompanhava + M<small>IMI</small>, naquella matutina visita de nupcias.</p> + + <p>Ao depois, como duas flores de uma só haste separadas para sempre que se + reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braços a figura da + amiga e beijaram-se fartamente.</p> + + <p>De outro lado, A<small>RTHUR</small>, o novel esposo, enfardado no seu + dolman de brins brancos, cumprimentàra, ceremoniosamente, a + D<small>ONA</small> C<small>AROLINA</small> e com um sorrizo prazenteiro + applaudiu as bregeirices de M<small>IMI</small>.</p> + + <p>Esta e A<small>LEXANDRINA</small>, ao depois de affaveis cumprimentos + geraes, confidenciavam numa janella, por<span class="pn">{116}</span> detraz + de arrendadas cortinas, onde se foram acastellar para a permuta de + segredos... </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—A que horas despertaste?</p> + +<p>—Nem sei mesmo...</p> + +<p>—Não é possivel.</p> + +<p>—Palavra!</p> + +<p>—Então ferraste no somno, e...</p> + +<p>—Ao contrario: não durmimos.</p> + +<p>—É exquisito.</p> + +<p>—Como te enganas! Não calculas o que seja a estafa de um dia de noivado. +</p> + +<p>—O dia mais bello da mulher...</p> + +<p>—Parece-te?</p> + +<p>—Esta é bôa, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: não te sentiste +extraordinariamente feliz?</p> + +<p>—Ah! sim... Casei-me por meu gosto...</p> + +<p>—Olha que já me pareces outra com tanta sisudez e seccura...</p> + +<p>—Não é, Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. É preciso +que não me tenham na conta de alguma leviana: jà hoje em dia, minha amiga, +tenho segredos que te não posso falar...<span class="pn">{117}</span></p> + +<p>—Prohibiram-te de dizer-m'os..</p> + +<p>—Não! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alteração na vida de uma mulher que +se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida conjugal, que +nem sei como me reconheceste hoje... Jà viste, no craveiro, o botãosinho verde; +o casúlo de folhas, como, na manhan seguinte, está um perfumoso cravo, uma flor +distincta? Se te dessem as duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o +facto como inveridico...</p> + +<p>—Mas eu te vejo a mesma boniteza...</p> + +<p>—Sim! É questão de alma. Suppõe que adormeceste no começo de uma viagem e +que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo seria o +mesmo, a tua lindeza não seria transformada, mas o teu coração palpitaria +diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As tuas amigas ficariam +noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso que regressasses ou que ellas +viajassem para onde fôras. Assim no cazamento: viajei para muito longe de ti. +Para nos irmanarmos como dantes, ou voltarei à minha immaculabilidade de +hontem, o que seria impossivel, ou tu ascenderás ao matrimonio para o que faço +votos.</p> + +<p>—Tens razão!<span class="pn">{118}</span></p> + +<p>—Não te parece?</p> + +<p>—Falas e procedes tão judiciosamente que não me atrevo a duvidar das +alterações por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o cazamento +para não me esquecer tão depressa das intimidades com as minhas amigas...</p> + +<p>—Não me esqueci. És injusta! Não te darei novas confidencias: as velhas, +entretanto, ficarão acariciadas como um sonho de felicidades na vida de uma +mulher inditosa.</p> + +<p>—Pois pensei que me dirias tudo...</p> + +<p>—Tudo... quê?</p> + +<p>—Ora!</p> + +<p>—Denuncias que pensas em algumas coisas que não são veridicas, ou, pelo +menos, não o foram para mim.</p> + +<p>—Foste differente das outras!</p> + +<p>—Offendes-me.</p> + +<p>—Não te offendo, não. Desconheço-te.</p> + +<p>—Que quererias tu que eu te falasse?</p> + +<p>—Não sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses.</p> + +<p>—Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha com +um olhar seriamente investigador e tua mãe franze o sobrolho para mim... Um ha +de<span class="pn">{119}</span> suppôr-me indiscreta para te communicar +tolices... e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras...</p> + +<p>—Não! Deixa...</p> + +<p>—És má! Tens talento e não queres comprehender a minha situação, +especialmente no dia de hoje.</p> + +<p>—Jà te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres...</p> + +<p>—Amúas sem razão.</p> + +<p>—Com que direito a planta exige viço da flor que já foi colhida? +Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre nós duas existe a alma do sr. +Arthur...</p> + +<p>—Não exaggeres...</p> + +<p>—Pódes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirás delle tambem. Os meus +serão contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo, porque não +deve haver um conhecimento novo que não pertença a ambos: os delle... morrerão +comtigo, porque não deves trahir à tua fé conjugal...</p> + +<p>—És incondescendente!</p> + +<p>—Sim, sou incondescendente na verdade das cousas.</p> + +<p>—Em parte, minha amiga.</p> + +<p>—Não. Em tudo.</p> + +<p>—Veremos.<span class="pn">{120}</span></p> + +<p>—Pois experimenta!</p> + +<p>—E se eu te provar?</p> + +<p>—Pago-te com um beijo...</p> + +<p>—Oh! Pois então a mulher que se cazou póde beijar outra pessôa que não seja +o seu esposo?</p> + +<p>—Deste modo, Mimi, não chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha +conversas... O que te conversei até hontem, não conversarei jamais com o meu +esposo. O que te converso agora, não conversarei jamais com a tua maman. +Beijos!... Os que te dou são da ordem dos que sempre te dei...</p> + +<p>—Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias.</p> + +<p>—Não sei se sómente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei +quantas tem...</p> + +<p>—Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes ou +não ao teu marido?</p> + +<p>—Conforme.</p> + +<p>—Não é caso de dubiedades. Dizes ou não?</p> + +<p>—Se fôr só do teu interesse, não.</p> + +<p>—Faço-te justiça, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao +falseamento agora, sómente agora, do teu dever. Contarás tudo o que te +disserem, ou serás uma perjura na fé<span class="pn">{121}</span> conjugal. Eu +mesma duvidaria de tuas intenções, se occultasses do teu marido o menor +acontecimento que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de +descobrir sempre esse interesse que não é exclusivo da pessôa que te fallou, +para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de parte, e +affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres...</p> + +<p>—Dou-te razão, minha amiga. O mundo é esse mesmo e não serei eu quem o +modificará.</p> + +<p>—Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva!</p> + +<p>—Achaste?</p> + +<p>—Encantadoramente bella!</p> + +<p>—E tu me viste?</p> + +<p>—Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem à porta da +igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja.</p> + +<p>—Era a ultima nota do meu pudor de virgem!</p> + +<p>—A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro +assentou-te a grinalda como uma corôa de rainha. Agradou-me a tua elegancia. E, +porque não te censurar? só não gostei de trazeres os olhos<span +class="pn">{122}</span> humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar +esplendido.</p> + +<p>—Lisonjeira!</p> + +<p>—Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multidões que se +dominavam com a curiosidade de ver-me...</p> + +<p>—Tens razão. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem saber +que... mais tarde...</p> + +<p>—Dize... dize...</p> + +<p>—Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais +algozes...</p> + +<p>—De véras?</p> + +<p>—Sim, minha amiga! Não calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh! +Digo-te de mais! Perdôa se te offendo...</p> + +<p>—Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que, ainda +ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu?</p> + +<p>—Guardei-o já para offerenda a uma Santa.</p> + +<p>—Quem t'o tirou?</p> + +<p>—A maman... Arthur conversava no salão com o papà e dois amigos +retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem jà era alta hora da madrugada. +Duas ou tres, não sei.</p> + +<p>—E o teu vestido? Era primoroso...</p> + +<p>—Está no <em>armoire-à-glace</em>...<span class="pn">{123}</span></p> + +<p>—Muito amarrotado?</p> + +<p>—Não. Quando o despi... chorei! Como é que uma mulher só se veste tão bem +uma vez na vida?!...</p> + +<p>—Choraste, Alexandrina?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—É de mau agoiro. Dizem que morrerá primeiro aquelle que chora...</p> + +<p>—Não sabia.</p> + +<p>—Nem que morrerá antes do outro o que se deitou por primeiro?</p> + +<p>—Tambem não! E por isso tambem serei eu quem morrerá antes...</p> + +<p>—Ah! já estavas deitada quando elle appareceu na alcôva?</p> + +<p>—Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mãos, tratou do +successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada, desde as +asperezas do juiz cazamenteiro, até às melifluidades de voz do sacerdote, +quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal. Recompuzemos a sociedade que +aqui esteve. As dansas, o serviço de <em>buffet</em>, a ceremonia do chá... +Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa, eu lembrava outra. Sorriamo-nos, +commentavamos, com seriedade, as incorrecções dos outros...</p> + +<p>—E o tempo se passava...<span class="pn">{124}</span></p> + +<p>—É exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. Não sabes, porem, como +foi opportuna a nossa conversação. Quando extremecemos, ouviu-se o tiro das +cinco horas...</p> + +<p>—E então?</p> + +<p>—Arthur lembrou-se do cometa... Já o viste?</p> + +<p>—Ainda não!</p> + +<p>—Pois é bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada do +meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Interrompidas por D<small>ONA</small> C<small>AROLINA</small>, + M<small>IMI</small> e A<small>LEXANDRINA</small>, dando-se as mãos, + nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na conversação + commum...<span class="pn">{125}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001200000">AMORES NO CLAUSTRO</a> </h2> + +<p><span class="pn">{126}<br> +{127}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001210000">AMORES NO CLAUSTRO</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Um ar tépido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos, instigador + do sensualismo mais humano e menos animal, era o excellente conforto da cella + de F<small>REY</small> P<small>ATRICIO</small>.</p> + + <p>Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de dedos + enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro e o seu + affectuoso irmão de ordem, F<small>REY</small> T<small>HOMASIO</small>, + palravam gostosamente de coisas alegres...</p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resolução +improvisada...</p> + +<p>—Pois eu, não! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e não venci: +fui derrotado.<span class="pn">{128}</span></p> + +<p>—Não posso crer facilmente.</p> + +<p>—É a verdade, irmão Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no sepulchro. +Para aqui trouxe o meu corpo, e, là fóra, borboleteando, sem parar, a minha +alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella animava. Emquanto moço, +nas minhas preces só o nome de uma mulher viçava triumphante...</p> + +<p>—Tambem a mulher...</p> + +<p>—Sim. Preconceitos, preconceitos! A baronía estulta de uma familia +asphyxiou sem dó a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje, tremo +de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre hymnos e +bemdições, tel-a-ia levado, não à cova, sublevando-se contra os pais, sim ao +hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem cuidados naquillo que +outros apreçavam—a feeria dos titulos nobiliarchicos—vivemos apenas pelas +suggestões do sentimento que nos venceu...</p> + +<p>—Os teus labios tremem, irmão Patricio, as tuas pupilas se inflammam e +olham por sobre nós para tempos bem distanciados...</p> + +<p>—Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingança que exerci contra +mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia ainda, mas +respirando<span class="pn">{129}</span> balões de oxygenio. Artificios da +sciencia! E tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo, +naquella tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do +esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A vista +annuviou-se-me e, balouçadas pela briza, as rendas do esquife me disseram um +adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenços muito brancos, molhados de +lagrimas... Succumbi deante da falsa visão e esmaeci... debruçado sobre aquelle +leito, onde chorei incansavelmente irado—Deus me perdôe!—como o mais pecador +dos homens...</p> + +<p>—Tanto poude o amor!</p> + +<p>—A mola do mundo, Frei Thomasio, é a mulher. Não ha um burel aqui dentro +que não seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem corriqueira e +profanamente os francêses, <em>chercher la femme</em>... Por ventura não +professaste como os outros?</p> + +<p>—Sem tirar nem pôr na cauza.</p> + +<p>—Sempre assim.</p> + +<p>—Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu +entre os outros homens e te elegeu o seu preferido.</p> + +<p>—Ah! por certo.</p> + +<p>—Quem me déra!<span class="pn">{130}</span></p> + +<p>—E que te faltou, Frei Thomasio?</p> + +<p>—Justamente o amor.</p> + +<p>—Intrigas-me de véras.</p> + +<p>—Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei +mocinho?</p> + +<p>—Se me lembro!...</p> + +<p>—Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era menino, +e se me dissessem que o heliantho foi obra da pretenção e do desabuso de +Hephaestos querendo, como um Deus, criar sóes e mais sóes, todo o credito eu +daria, porque não tinha discernimento para me salvar das tentações humanas... +</p> + +<p>—Que são as verdadeiras tentações da serpente no Paraiso...</p> + +<p>—Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o carreiro +que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas e ramos para +sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambições de saber... +Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as primeiras cousas de +amor...</p> + +<p>—E não lias o <em>Cantico dos Canticos</em>!</p> + +<p>—Ah! não! Fui sabendo que, como Eva fôra criada para acompanhar o primeiro +homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os<span class="pn">{131}</span> +arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com olhos de +escaldo...</p> + +<p>—Que maganão!</p> + +<p>—E não peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas +amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o cortejo dos +mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras não tinham as calenturas de um +amor, ella abrasava na abundancia das pretenções exaltadas: todos à porfia lhe +disputavam a preferencia... Tolamente eu era conduzido entre os fascinados pelo +olhar da moçoila cortejada.</p> + +<p>—Estou vendo que eras o preferido...</p> + +<p>—Não sei, porque não tive capacidade para aquilatar, bem como porque—e +daqui se originou a minha principal historia—troquei logo essa espectativa de +amor bem aventurado por uma effectividade de amor bem triste... Mas sei que os +olhares dos meus velhinhos cahiam sobre nós dois como punhados de olorosos +jasmins, quando elles nos viam, quaes dois noivos conscientes, em falações na +varanda arborisada de nossa caza, amorosamente illuminados pela lua...</p> + +<p>—Bem feliz que ias para a vida entrando, irmão Thomasio?<span +class="pn">{132}</span></p> + +<p>—Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a minha +desdita foi ella a que mais lagrimas chorou... Ora, se a intuição de amar +crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais fulgentes e chispantes, +me sensualisaram todo e a carne arvorou-se em maior do que o sentimento...</p> + +<p>—O pecado!</p> + +<p>—Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, às vezes +ainda peiando cigarras e apedrejando, com rudes instinctos, os inoffensivos +gaturamos, fui prendendo-me às ardencias das esbrazeadas pupilas de uma mulher +facil... A principio, quando o seu olhar incidia sobre mim, eu cerrava os +olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer, pensava nas ternuras da outra. Nada +mais. Os dias repetiam-se e as scenas mudavam-se, crescendo as investidas e +diminuindo a resistencia. Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da +aggressora, eu sentia uma purpuridão nas faces, mas incolume proseguia o meu +caminho... Mais tempo, e duas, tres, quatro vezes, voltava-me para trocar +sorrisos... Em caza, a presença da outra, começou de aborrecer-me. Á noite, por +sobre as paginas abertas dos meus livros, dansavam cabrioladamente as imagens +das duas mulheres. E eu<span class="pn">{133}</span> me decidia fragorosamente +pela menos conhecida. Um dia, notei que os labios da extranha se moviam. Nada +percebi, no entanto. Que ella falava, eu estava certo. Nas passagens seguintes, +com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo exquisito. Duas syllabas apenas, e, +se não te offendo nem abuso de tua condescendencia, irmão Patricio, dir-t'o-ei +jà...</p> + +<p>—Faço mesmo questão de sabel-o...</p> + +<p>—Jà que queres ouvir-me, continuarei...</p> + +<p>—Continúa...</p> + +<p>—A deslumbrante mulher dizia-me apenas: «Tico»...</p> + +<p>—Olá!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocabulo...</p> + +<p>—Nada sei explicar-te, Frey Patricio, senão que corri os diccionarios dos +meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo +convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo +investigador, depois de algumas pesquisas fóra da convivencia dos collegas, +soprou-me segredadamente: «<em>Tico é um convite... E quando ouvires, responde +taco...</em>» Corei deante da revelação e maldei de tudo. O meu primeiro +impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me furtar às seducções de +Almira...</p> + +<p>—Que bello nome, e lendario!<span class="pn">{134}</span></p> + +<p>—Tive, porem, de ceder à contingencia dos factos. Não era possivel andar +por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti da ideia e +affrontei a tentação. Com o tempo fui cedendo. E, um bello dia, como se diz là +fóra, escorreguei... «Tico!», disse-me ella, e eu lhe oppuz murmuradamente +quasi: «Taco!» Em resposta, ouvi: «Amanhan!» Que noite, Frey Patricio! Se ha +caldeiras para queimar almas, nós as experimentamos quando fazemos a espera de +alguma coisa. Não durmi, confesso. E, para encurtar as razões, só acordei, +effectivamente, quando, advertido por ella de que là iria chegar o seu homem, +me vi escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse +esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que cresceram e +motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que creatura perversa! Foi às +bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho animal me arrancou de debaixo das +pilhas de saccos, às bastonadas, Frey Patricio...</p> + +<p>—Ah!... ah!... ah!... ah!</p> + +<p>—Não rias, Irmão!</p> + +<p>—Não te zangues, Frei Thomasio. Não me posso conter... A tua historia é +alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!...<span class="pn">{135}</span></p> + +<p>—Nem sei como de maus tratos não me acabaram naquella hora furiosa... E +quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais!</p> + +<p>—Pudéra!... Ah! ah! ah! ah!...</p> + +<p>—Aliás, não foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido jà, e voltando +aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia: «Taco?»... e eu a +repellia instinctivamente... «Nem tico, nem taco... nem là dentro do teu +sacco...»</p> + +<p>—É bôa, é bôa!... Ah!... ah!... ah!... ah!...</p> + +<p>—Em seguida...</p> + +<p>—Sim...</p> + +<p>—... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos conhecidos me +estygmatisava com o escandalo, e soffri, abrazadoramente. Ninita, escandalisada +com a minha quéda, definiu-se por outro, que a recebeu como esposa perante +Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim mesmo... O mundo era um tedio... Então +pensei no vicio...</p> + +<p>—Mizericordia!</p> + +<p>—Mas, não era?... Para abafar uma mizeria moral, só outra maior... ou o +passo que dei...<span class="pn">{136}</span></p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>A bronzea sineta da confraria, não se retendo na missão avisadora, chamava + a Ordem para a humilde refeição da noite.</p> + + <p>E quando F<small>REY</small> P<small>ATRICIO</small> chegou ao salão, na + companhia de F<small>REY </small>T<small>HOMASIO</small>, jà se liam, + emphaticamente, as consoantes orações da hora.<span class="pn">{137}</span> + </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001300000">A CONSULÊZA</a> </h2> + +<p><span class="pn">{138}<br> +{139}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001310000">A CONSULÊZA</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>De <em>maillot</em>, apenas, arrebicando as faces diante de um espelho, + N<small>INA</small>, a bailadeira, tinha um milhão de pensamentos banaes no + cerebro ardente.</p> + + <p>Os traços da sepia e os rebordos do nanquim, já lhe accentuavam a grande + vivacidade do olhar, e o pó de arroz attenuava e embellecia as côres roseas + do rosto criadas pelo carmin vencedor.</p> + + <p>Uma vez por outra, deixava de conformar-se, para attender aos appellos da + porta, de onde, sem deixar ninguem penetrar, voltava enfastiada com as + iterações de extranhos.</p> + + <p>Esperava O<small>CTAVIO</small>: era o <em>aimant du coeur</em>, porque o + C<small>ONSUL</small>, o velho<span class="pn">{140}</span> francês, pelas + suas funcções representativas, evitava aquelles encontros mais notorios... + </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Nina?</p> + +<p>—Quem bate? Octavio?</p> + +<p>—Elle, sim!</p> + +<p>—Entra, meu rico amor!</p> + +<p>—Fiz-me esperar, hein?</p> + +<p>—Nem tanto, mas eu tenho a regalia de poder cheirar-te as vestimentas para +saber se tiveste o contacto do corpo de outra mulher, de vistoriar-lhe o +casaco, para descobrir ahi os fios perdidos dos cabellos da que me logrou... +</p> + +<p>—Descansa o teu coração. Vivo inteiramente para ti. E emquanto estou longe +do teu olhar, sou como o barro que espera, ardorosamente, a toda a hora, a +plasmagem do artista. Por elle, passam e voltam, vão e tornam, todos os +profanos: mas elle não é menos monopolisador de sua plasticidade do que uma +flor do gnomo que só abra a horas certas...</p> + +<p>—Não sabes? O Consul pediu-me a noite...</p> + +<p>—E deste-lh'a?<span class="pn">{141}</span></p> + +<p>—Nem sei...</p> + +<p>—Já me toma os dias inteiros... Entra agora pelas noites... Que horas serão +as minhas?</p> + +<p>—Todas até. Aturo-o porque tu consentes.</p> + +<p>—Exactamente. Mas elle vem a prejudicar-me se continúas a não se satisfazer +com o que lhe dás. Ás vezes, lá para as tantas do dia, penso em ti. O brazido +abre em chammas ao menor sopro. O incendio alastra. Quero remediar-me e soffrer +a caricia dos teus beijos anti-incendiarios. Vem logo a certeza de que o Consul +te frequenta o dia inteiro. Esmoreço. Abomino-me e espero confiante o prazer da +noite. Tenho sido certo e insubstituido. De agora por diante, nem mesmo nas +noites poderei confiar. Ao amante nunca lhe dês demais. Se te pede uma hora, +dá-lhe meia, se te pede um dia, dá-lhe horas, se te pede uma noite, dá-lhe um +dia, e reduze sempre as suas pretenções. Ao contrario, todo o tempo será +absorvido. E, quanto ao mais, espera-te hoje a ventura. Vais dormir com o +Consul... Estou libertado...</p> + +<p>—Oh! não! Que succede Octavio?</p> + +<p>—Nada. Não estorvo os teus anhelos. Leva comtigo o Consul. Dá-lhe o meu +lugar,<span class="pn">{142}</span> mas dize-lhe, ao menos, que não me +occultaste a entrada delle no leito que deixo vasio...</p> + +<p>—Espera um pouco que te falarei melhor. É só acabar de toucar-me...</p> + +<p>—Careces de mim?</p> + +<p>—Não me aborrece, Octavio!</p> + +<p>—Pensei sempre que valhesse mais do que todos os outros teus amantes. Vejo, +entretanto, agora, que um existe mais poderoso ainda do que todos nós +reunidos...</p> + +<p>—Vale a pena a descuberta.</p> + +<p>—Desmente-me, pois. Não tens um amante que preferes ao Consul, um amante +deante do qual te esqueces mesmo de mim?</p> + +<p>—Dizes-me coisas extraordinarias...</p> + +<p>—Contesta a existencia desse outro amante omnipoderoso, que motiva teres-me +deixado no exilio deste divan, na semi-obscuridão de teu camarim...</p> + +<p>—Não és amavel.</p> + +<p>—De mais em mais se confirma o que te digo: nem tens animo, por causa delle +mesmo, para contestares o que te affirmo de um modo tão categorico... Digo-te +centos de coisas e nada te abstrai desse amante unico...</p> + +<p>—Agora, sim! Dei um ultimo retoque nos meus preparativos de scena... Que te +pareço de <em>maillot</em>?<span class="pn">{143}</span></p> + +<p>—Não trato disto. Refiro-me ao teu poderoso amante.</p> + +<p>—O Consul?</p> + +<p>—Não sabia que este seja poderoso. Mas não é a elle. Ao outro, deante do +qual te esqueces de mim, do Consul e de alguns menos e mais cotados do que nós +outros...</p> + +<p>—Amante?</p> + +<p>—De certo. Negas que não te absorve elle mais do que qualquer de nós?</p> + +<p>—Nego.</p> + +<p>—Contestas que exista esse amante?</p> + +<p>—Juro-te mesmo.</p> + +<p>—Vê lá que não me enganas...</p> + +<p>—Quem será, Octavio?</p> + +<p>—O teu espelho...</p> + +<p>—Aceito a graça. Em troca, porem, vais dizer-me o que julgas de meus trajos +em <em>maillot</em>?...</p> + +<p>—Julgo mal, porque te acho parecida com uma lebre a quem cortaram cerce +todos os pellos... Assim muito delambida, muito escorrida, muito masculina... +</p> + +<p>—Tens espirito.</p> + +<p>—E fui franco do modo que tu me pediste. Veste as rendas, sobrepõe as +sedas, ou tira o <em>maillot</em>. Se vamos ao mundo, todos os atavios, todos +os <em>soutaches</em>, applicações e <em>manteaux</em><span +class="pn">{144}</span> serão poucos; se ficamos aqui, o menor fragmento de +tecido mais fino, será demais... Ou o extremo enroupamento, ou a extrema +nudez...</p> + +<p>—Figuremos duas hypotheses. Se me visses enroupada, com um luxuoso vestido, +de muitas rendas, muitas fitas, muito decóte, muita joia, e lindo chapeu de +plumas, que farias de mim?</p> + +<p>—É essa a primeira hypothese?</p> + +<p>—Sim!</p> + +<p>—Pois bem: levar-te-ia, logo, à tua caza para que, antecipando a hora de +tua sahida, o Consul, nem de longe, pelo meu braço, te visse hoje...</p> + +<p>—És digno de um acto destes.</p> + +<p>—Bravura do amor. Agora, a segunda hypothese?</p> + +<p>—Sim: se me visses núa, tão núa que nem uma <em>écharpe</em> me velasse as +pomas, que farias de mim?</p> + +<p>—Ah!... Ahi está uma pergunta de difficil resposta, uma hypothese de +operosa solução...</p> + +<p>—Porque?</p> + +<p>—Porque uma nueza dessas exigiria um leito e sem este tu serias apenas uma +gravura...</p> + +<p>—Venceste-me. Despacharei o Consul.<span class="pn">{145}</span></p> + +<p>—Não sou eu quem determina. Passarias uma noite igual às de Bhodis na +companhia de Chrysis... Porque escancellas tanto os teus deformados olhos? Não +calculas, assim, a desproporção do teu semblante, lindo como um camapheu...</p> + +<p>—Procurei ouvir o que se faz em scena, afim de verificar quanto falta para +a minha vez...</p> + +<p>—Queres, saio a ver...</p> + +<p>—Não. Chamarei o contraregra. Nem precisa: canta a Solidonia...</p> + +<p>—A pernóstica!</p> + +<p>—Deixa-a, coitada! Ainda tenho todo um intervallo e dois numeros da outra +parte. Agora... dà-me um beijo, paixãosinha!</p> + +<p>—Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulêza...</p> + +<p>—Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu lhe +tenha promettido uma noite, quando não lh'a darei por preço nenhum?</p> + +<p>—Ciumes?!... Não os sinto dos outros homens, porque nenhum delles logrará +de ti as venturas e as concessões que eu tenho gozado... Nem mesmo do Consul... +Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve dizer sempre que antes +delle provei-o eu.<span class="pn">{146}</span> Tenho ciumes, Nina, do que tu +vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que fitas... Se eu +pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus vestidos. Invejo +delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem confidentes dos teus nervos e das +tuas pulsações. Tenho ciúmes das flores que exornam os teus cabellos, porque +sómente ellas passam o deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor. +Tenho ciúmes do fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado +entre os teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te +inebria, porque sómente elle atravessa as tuas fórmas e vai arrebatar-te na +essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque sómente ella +vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo isto, eu quereria +ser o somno que te fecha as palpebras, porque participaria das felicidades +todas dos teus sonhos; a agua que te banha as fórmas, porque desvendaria os +immensos segredos e mysterios de tua belleza unica, e o riso que te doura o +semblante, porque teria o dominio do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do +instante magico em que pela primeira vez nos pertencemos mutuamente? São de +véras muito irmans as almas que tocam à<span class="pn">{147}</span> meta de +uma ventura no mesmo instante... e as nossas duas...</p> + +<p>—De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o poder de +duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a inclemencia de +Nausithêa deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao amante, no fervor do +gôzo, entre os teus braços, naquella noite, Octavio, naquella primeira noite... +</p> + +<p>—Desgraçadamente, jà eu, então, poderia ter sentido por toda a parte de teu +corpo, o halito bafiento do outro amante.</p> + +<p>—O outro amante?!... Tenho-o, e é como se elle não existisse. Tenho-o +porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor, protestam +os meus seios, bem diversos na tua presença do que são na delle. Deante de ti, +as minhas pomas parecem florescer como os jasmineiros em deliciosas noites de +luar, como as laranjeiras em uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem +perdem na seccura e esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas +dos rochedos... És a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos labios. +Elle é o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os seus +desejos...<span class="pn">{148}</span></p> + +<p>—Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher não se cede a um homem sem +a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer...</p> + +<p>—Acertaste. Não sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente procuram +por toda a parte o homem e que só ao depois de muitos descobre o procurado? +Quando topei comtigo, jà o tinha no convivio de suas esquisitices.</p> + +<p>—Tu és formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam +divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias! Quero +enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos amores...</p> + +<p>—Bem sei que os homens todos são uns animaes. Uns, porem, são menos do que +outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que os cãis, +nesse mistér, são os equivalentes de certos homens? E que elles são os seres +que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um cão... Os seus labios, como +os de Pan, seriam capazes de devorar as virgindades, se as virgens recebessem +os seus beijos...</p> + +<p>—Quero crer.</p> + +<p>—É um libertino.<span class="pn">{149}</span></p> + +<p>—Nada mais?</p> + +<p>—É um extrangeiro...</p> + +<p>—Que importa?</p> + +<p>—É um devasso...</p> + +<p>—E sómente isto?</p> + +<p>—Ama como um cão, Octavio.</p> + +<p>—E que é que faz?</p> + +<p>—Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me arrastar +à concessão do prazer que só vige nos seus labios? Não te bastará a expressão +do pouco que te digo?</p> + +<p>—Repugnante!...</p> + +<p>—Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante és tu!... Toda esta noite serei tua +como nas demais...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus cabellos de + oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de todas as volupias da + terra, como os córnos de Almatheia foram de todas as riquezas do + mundo...<span class="pn">{150}<br> + {151}</span> </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001400000">DE COMO O AVARENTO MORREU...</a> </h2> + +<p><span class="pn">{152}<br> +{153}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001410000">DE COMO O AVARENTO MORREU...</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:—uma + enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, M<small>ANUEL</small> + C<small>ARLOS</small> proferia blasphemias.</p> + + <p>Ao seu lado, a N<small>EGRA</small>, que era uma amante retinta, carnuda e + fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos cautelosos a + agitação do moribundo angustiado.</p> + + <p>Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal percebido, a + principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima reacção da vida contra a + morte.</p> + + <p>Nesta hora, da doença, por entre as chocantes palavras de M<small>ANUEL + </small>C<small>ARLOS</small>, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim<span + class="pn">{154}</span> dos seus dentes que rangiam como uma lima activa + sobre um pedaço de ferro...</p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito +dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida é um pedaço de +ouro comprado com um milhão de moedas... A morte é uma ladra que nos furta, +para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a reunir... Sou rico! Digo-o +com um cordial prazer. Tambem trabalhei como uma alma possessa. Não houve +domingo nem dia santo, que me déssem descanso, à chuva e ao sol, alta madrugada +e avançada noite... Rim... rim... rim... rim...</p> + +<p>—Como elle range os dentes?!...</p> + +<p>—Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as cavallariças +despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como massas de feno, nos +recantos das mangedouras. Ás vezes, chovia como um diluvio. E eu, com o corpo +quente da cama, cortava o pateo, mettido no meu capote de lan, e, menos feliz +do que os meus assalariados<span class="pn">{155}</span> que ainda dormiam, +tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem, dava-me calor e forças. +Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da Beira, de onde sahi, num dia de +inverno, ha mais de trinta annos. Nesse dia, a avósinha e a mãi-Geralda +levaram-me até à caza do moço que me trouxe para aqui. Ah! Deus lhe dê o reino +dos céus, jà que na terra eu nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim... +Bella pessôa, generoso ao desperdicio... Que barulho é esse que ouço de +instante a instante?</p> + +<p>—São os trabalhadores no terreiro.</p> + +<p>—Sahiram hoje os vehiculos?</p> + +<p>—Sahiram todos.</p> + +<p>—Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza.</p> + +<p>—Talvez os cãis...</p> + +<p>—Não me veiu ver hoje o <em>Tupy</em>. Tem sido esse canzarrão o meu maior +amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mãos. Por onde +andará elle que hoje se esqueceu de mim?</p> + +<p>—Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e...</p> + +<p>—Nem pense nisso: o pobre animal se ladra não morde. Vigia-me a caza e +desconhece os extranhos.<span class="pn">{156}</span></p> + +<p>—Ladra e assusta.</p> + +<p>—Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as suas +lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos. E sempre +tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de longe mesmo, o +tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em meio de caminho. +Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em fidelidade e presteza. +Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim... rim... Nem sei como se têm +feito por ahi afóra os meus serviços... E hoje é o ultimo do mês. Se não se +procurar, a terrivel corja não paga. Nem tenho uma pessôa a quem confie esse +serviço. Neste mundo só se encontram gatunos e ladrões. Um honesto, como eu, é +uma realidade rara! Em tudo fui roubado, até na saúde. Dos poucos, das moedas +de cobre, os simples trocos e differenças nas compras, tu te assenhoreavas, +porque me dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dôce, uma +fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo de ter +deixado nas tuas mãos as economias que deviam ter voltado ao meu capital, +porque delle se despediam para sempre... Rim...<span class="pn">{157}</span> +rim... rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!... +Ouço novos ruidos... Só me parece que os de agora são dentro de caza...</p> + +<p>—Pois quem seria?</p> + +<p>—Sei lá... Ouço coisas que só me parecem na sala da frente. Vai ver se é +alguem...</p> + +<p>—Nem precisa. A porteira está fechada, e abrindo-se ella a campainha dá +signal. Ao depois, o velho Thomé trata na estribaria dos animaes em que +montas...</p> + +<p>—Vai tudo muito bem, mas não me posso conformar é com esta vida de cama. +Seis dias de doença, e estou derreado como uma velha mangueira... Inda assim, +considero-me bastante feliz. Não devo nada a ninguem. E, a mim, todos me devem. +Depois de amanhan, vence-se uma letra de um devedor: ha de querer pagar-me os +juros de quinze por cento por novo semestre... Mas elle estará enganado. Se +quizer reformar, os juros crescerão. Agora só darei dinheiros a dezoito ao +mês... Serviu? Façamos o negocio. Não serviu, passe muito bem... Rim... rim... +rim... rim... Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera +de seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres annos. Ao +depois<span class="pn">{158}</span> de vencido o seu compromisso, levou +engabelando-me por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa +amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu não mettesse +advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o conselho de que +«poupa e os santos te ajudarão»... Não ganhei nunca quatro vintens de que não +guardasse tres... Não te estou dizendo? Esse barulho é dentro de caza...</p> + +<p>—Desta vez não ouvi nada.</p> + +<p>—Então, estás surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente andava. +Rim... rim... rim... rim...</p> + +<p>—Não sei que especie de gente...</p> + +<p>—Realmente posso enganar-me.</p> + +<p>—Jà te convences? A esta hora, nem os trabalhadores estão aqui... Ah! +Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros não foram hoje à pedreira...</p> + +<p>—Miseraveis! Preguiçosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados deixam +de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, é um prejuisão... Rim... +rim... rim... rim...</p> + +<p>—Fiz ver tudo isto a elles.</p> + +<p>—E porque não trabalharam?</p> + +<p>—Porque morreu a moça do mestre, e este não veiu...<span +class="pn">{159}</span></p> + +<p>—Não digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois là na +minha terra, é que se sabe trabalhar... Là trabalhariam até à hora do enterro. +Aqui encontram a razão para muitos dias de ocio. Se eu estivesse bom, a esta +hora teria tocado todos elles para a rua. Rim... rim... rim... rim... Não gosto +de vadios. Fui homem que, numa vida inteira, não teve uma hora de vadiação. +Sempre comi de chapeu na cabeça e esporas nas botinas. Por isso guardei +meia-duzia de contos. Digo assim meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas +meias-duzias guardei... Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—E então?</p> + +<p>—Não sabes o que foi?</p> + +<p>—Não sei...</p> + +<p>—O <em>Tupy</em> que esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e +aos outros mandei pôr as correntes...</p> + +<p>—Vai soltar o <em>Tupy</em>. É inoffensivo, tanta quanto é leal e +cuidadoso. Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o!</p> + +<p>—Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avança +sobre elle...</p> + +<p>—É uma prova de lealdade.<span class="pn">{160}</span></p> + +<p>—Que incommoda aos extranhos. Porque não bebes o leite? Queres?</p> + +<p>—Leite?!... Hontem te preveni que leite é luxo e que não posso com essas +despesas... Ainda o compraste hoje?</p> + +<p>—O doutor mandou...</p> + +<p>—Rim... rim... rim... rim...</p> + +<p>—Ao depois, em caso de doença não ha desperdicio...</p> + +<p>—Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. É o leite, é a botica, é o +doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das pernas sou +senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem recostar-me! Tenho +kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se a coisa continua assim... +Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um homem conservado e indisposto para +divertimentos. Não sei como a minha saúde estragou-se... Vai soltar o cachorro! +Os seus movimentos inquietam-me. Jà atirou outra coisa ao chão...</p> + +<p>—Deixa o cachorro preso.</p> + +<p>—Póde arrebentar mais alguma coisa, e serão novas despesas para mim... Que +afflição sinto agora!</p> + +<p>—Bebe o leite!</p> + +<p>—Dà-me.<span class="pn">{161}</span></p> + +<p>—Jà se devem trinta medidas...</p> + +<p>—Como?</p> + +<p>—Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e duas +à tarde...</p> + +<p>—Que desperdicio! Não digo! Se levar aqui um mês, o leite, o medico e a +botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me terão reduzido à mizeria... +Sabes que mais? Não quero mais leite... Supprima-se desde hoje...</p> + +<p>—E com que te alimentas?</p> + +<p>—Com agua... É intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo em +oito dias de cama! Não é possivel. Não sou rico, não! Toca a poupar...</p> + +<p>—Sem o leite não poderás passar...</p> + +<p>—Passo, sim! Quem foi que disse que não poderei?</p> + +<p>—O medico.</p> + +<p>—Pois passo, sim. Sem dinheiro é que nada é possivel. Parece-me que se +combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um +pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim... rim... +Está muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem sei se tomei +porção igual em todo o resto da vida! É ter ganho uma fortuna em mais de +trinta<span class="pn">{162}</span> annos para acabal-a bebendo leite, pagando +medico e sustentando boticas... Não quero mais leite! Rim... rim... rim... +rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella é má fé e plano de roubo... Ah!... +Lá se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em cima: o cão preso, por um +capricho, para quebrar os moveis e as louças... Mas, esse ruido que agora ouvi +muito bem...</p> + +<p>—Foi a mesma coisa...</p> + +<p>—... não foi là dentro...</p> + +<p>—Foi, sim!</p> + +<p>—Pareceu-me na sala da frente...</p> + +<p>—Não cuidarás de outra coisa?</p> + +<p>—E que seria o que cahiu?</p> + +<p>—Uma bacia de folhas...</p> + +<p>—Não!... não!... não!...</p> + +<p>—Que queres fazer?</p> + +<p>—Levanta-me aqui...</p> + +<p>—Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu és peior do que +um menino...</p> + +<p>—Aquelle barulho... Levanta-me aqui...</p> + +<p>—Para que? não me dirás?</p> + +<p>—Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como se +pegasses num pedaço de pau...</p> + +<p>—Assim?<span class="pn">{163}</span></p> + +<p>—Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro...</p> + +<p>—Queres muita coisa tambem...</p> + +<p>—Não me fazes favor... Não preciso de ninguem contra a vontade... Tenho +dinheiro para ser bem servido, e gósto que me tenham obediencia...</p> + +<p>—Estás muito impaciente...</p> + +<p>—Tira o travesseiro...</p> + +<p>—Prompto. Queres mais alguma coisa?</p> + +<p>—As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... Não estão aqui... Bem sei +agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer, minutos + depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu esconderijo, como + verdadeiras inutilidades...<span class="pn">{164}<br> + {165}</span> </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001500000">AO DESPIR UM PIERROT</a> </h2> + +<p><span class="pn">{166}<br> +{167}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001510000">AO DESPIR UM PIERROT</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em que, + sem acceder ao somno, C<small>HRISTINA</small> se divertia, mostrando ao + astro lubrico os tons roseos de sua carnação perfeita como se talhada em + marmore rozado e humido.</p> + + <p>Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas visões; mas + soffrendo o conflicto das ideias de uma traição de N<small>ARCISO</small> e + da lealdade perquiridora de S<small>TELLA</small>, a desaccordada mulher + caprichou de não durmir emquanto a espiona não tornasse do baile à fantasia. + </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Reconheceu-te, Stella?</p> + +<p>—Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile?</p> + +<p>—Não o viste?<span class="pn">{168}</span></p> + +<p>—Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no +baile, e, escrava dessa supposição, criaste todo um systema de desconfianças, +que começaram de traduzir-se, muito naturalmente, naquella tua phrase.</p> + +<p>—Viste-o?</p> + +<p>—Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? Não esperavas esta noticia? +</p> + +<p>—Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com uma +pontinha de esperança em contrario, suppuz sempre que não puzesses os olhos +sobre elle. Embora trahida, eu quereria não ser sabedora do mal...</p> + +<p>—Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te não +obstines em aggravar o acaecido. Não remediarás o mal, não é assim? Pois, +coração à larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as acções. Acompanhei-o por +toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que uma <em>pierrot</em> o +acompanhasse. Se tu lhe falas, teràs de dizer-lhe quem foi espionar-lhe os +passos de homem livre...</p> + +<p>—É o que te parece: livre?...</p> + +<p>—Pois não é livre Narciso?</p> + +<p>—Digo-te que não!</p> + +<p>—O teu noivo não tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo +estado?<span class="pn">{169}</span></p> + +<p>—Repito-te que não.</p> + +<p>—Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das vistas da +mulher amada, ficam sendo o que são: homens solteiros...</p> + +<p>—Narciso differe dos outros...</p> + +<p>—Uffa!... Christina!... Vou tirando o <em>pierrot</em> que me acalora as +carnes...</p> + +<p>—O noivado é um começo de intimidades, que se distendem, mais ou menos, +conforme as razões de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado semi-escuro, +onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos assegurados na nossa +posição, com a possivel presença immediata de todos os de caza, as nossas +intimidades seguem uma derrota que me dá o direito de exigir de Narciso maiores +fidelidades do que tu pensas...</p> + +<p>—Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o +collête... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda ordinaria, +esta!</p> + +<p>—Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias das +almas passaram às do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais cedo... +Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua, os seus labios +roçaram sobre os meus<span class="pn">{170}</span> olhos, e os seus bigodes +produziram-me um <em>frisson</em> nas carnes, com o qual eu me teria entregue +ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus dedos +que elle segurava entre os seus, sorriu—um sorriso mais lindo do que um raio +de sol!—e, sem o querermos, talvez, por certo instinctivamente, os nossos +labios se encontraram...</p> + +<p>—Vê, Christina, como ficaram as minhas calças...</p> + +<p>—Desbotou nellas o setim?</p> + +<p>—Alguma coisa. A côr amarella é mais fixa do que a vermelha... Mas, estão +para ser exprimidas... Que sudorifico!</p> + +<p>—Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos são de um +homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo... Avia-te, +afim de que me contes o que viste...</p> + +<p>—Dir-te-ei centos de coisas novas...</p> + +<p>—Appeteço o conhecimento do que sabes. É uma infelicidade ter-se um pae, +como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse que eu fôra a +um baile publico espionar os desvarios de meu noivo... Ah!... Como eu seria +venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte que cubiço...<span +class="pn">{171}</span></p> + +<p>—Nem tu calculas pallidamente o que por là se vive...</p> + +<p>—Apressa-te, Stella!</p> + +<p>—Acaba, primeiramente, o que contavas... Não quero perder a bôa hora de +confidencias que inauguraste...</p> + +<p>—Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os +contactos... Em seguida, as mutuas confianças, mais um arregaçamento hoje, mais +uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe resistisse, desejou +ver-me o começo das pernas... Intimidades, Stella, intimidades, proprias, +communs e infalliveis entre todos os noivos... Eram ellas que me garantiam, até +hoje, a constancia de Narciso, e, quando vejo, como agora, que o que lhe faço +jà se torna pouco para o prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco +mais, sem comtudo deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as +concessões, na medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores... +Conta, agora, o que tu viste...</p> + +<p>—Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o +corpo quer distender-se nervosamente num leito macio...</p> + +<p>—E onde ficou Alberto?</p> + +<p>—O meu primo?<span class="pn">{172}</span></p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos dois +<em>pierrots</em> da maior sensação! Nem calculas como é deliciosa a companhia +do meu primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado +geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos. Soube +corresponder à minha excitação, não commettendo maiores pecados do que me +beijar nas passagens mais sombrias das ruas...</p> + +<p>—Invejo-te, Stella!</p> + +<p>—Bem poderias ter ido...</p> + +<p>—Qual nada!</p> + +<p>—Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois não foi?</p> + +<p>—Isto é fácil para ti...</p> + +<p>—Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?...</p> + +<p>—Não!</p> + +<p>—Ahi está! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que vissemos... +Là estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do baile. Custei a topar +com elle. Só em meio da festa deparei com elle numa das banquinhas do +<em>buffet</em>. Mais de vinte homens e mulheres...</p> + +<p>—Mulheres, tambem?<span class="pn">{173}</span></p> + +<p>—E então? Tu pensas que haverá quem resista à solidão naquelle cahos de +sensações extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho, casado +com a Lucinda, là estavam, cada qual com a sua mascarada...</p> + +<p>—Narciso tambem?</p> + +<p>—Não te espantes senão se eu te disser que elle era o unico que não tinha +uma mulher fantasiada ao seu flanco...</p> + +<p>—Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei logo +na traição. Aquelle semblante enfarruscado não era sincero...</p> + +<p>—Ao seu lado estava uma <em>écuyère</em> italiana: deves gabar-te do gosto +de teu noivo. Não se acompanha de mulher feia. É serio...</p> + +<p>—Era bonita a que o seguia?</p> + +<p>—Linda, Christina: <em>mignon</em>, alva, loura, e, com um arrebatador +decóte, exhibindo um collo mais branco do que um pedaço de neve, do meio da +qual, como uma abelha sobre uma petala de gardénia, um negro signal era tido +como mascotte...</p> + +<p>—Jà agora me penso feliz por não ter ido là.</p> + +<p>—Que teria se tu tivesses ido?</p> + +<p>—Não me conteria.<span class="pn">{174}</span></p> + +<p>—Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu +noivo sabe gozar uma mulher. Não dirias nem uma palavra, mas lhe acompanharias +a pessôa como a sua sombra. Quando não te agradasse fecharias os olhos. Vi-o, +por exemplo, encher a bocca de champagne...</p> + +<p>—Nada mais natural.</p> + +<p>—É o teu erro. Quem não sabe é como quem não vê. Pensas, então, que elle +tomou a bebida de dentro da taça?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Pois não! A <em>divette</em> foi quem lhe passou o champagne collando os +seus nos labios delle... Garanto-te que não sabias deste modo de acariciar... +</p> + +<p>—Confesso-te que não.</p> + +<p>—Ahi está. Verias a <em>droiture</em> com que o teu noivo se curvou, +encostou nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e +sugou-lhe a entontecedora bebida...</p> + +<p>—Como deve ser bom esse carinho!</p> + +<p>—Ao depois, beijaram-se...</p> + +<p>—Aos olhos do publico?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Ah!... Se eu estivesse là...</p> + +<p>—Não farias senão nada. Eu, pelo menos, nessas occasiões de grande excesso, +alli mesmo<span class="pn">{175}</span> me voltava, e, se não fossem as nossas +mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos... Não +conheço, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um conto de +Caliban é menos excitante, e um par dansando é bem um conto luxurioso escripto +com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto final de um beijo. Os +corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se entrançavam, as mãos, servindo +de oppressores, estreitavam os troncos e cada par, assim enlaçado, cabeça +descahida sobre cabeça, parecia um corpo só com a monstruosidade de quatro +pernas... Exquisito, sem igual... Homens e mulheres não se distinguiam na furia +dos sentidos...</p> + +<p>—E Narciso dansou?</p> + +<p>—Não. Nem todos dansam. Á parte, pelo jardim e nas mezas do +<em>buffet</em>, os que não estavam fantasiados, se divertiam à grande, mas um +pouco retrahidos das vistas do grosso publico, porque só no salão elles +escandalisariam...</p> + +<p>—Todavia, vingar-me-ei...</p> + +<p>—Poupa-o, Stella... O pecado é divino... Vinga-te em mim...<span +class="pn">{176}</span></p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>As duas mulheres, num longo beijo, abraçaram-se e confundiram-se, cada + qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente...</p> + + <p>A lua, devassamente, illuminou-lhes, até quando quiz, os seus bellos + corpos de uma semi-nudez pagan...<span class="pn">{177}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001600000">A TAVERNA DE M<sup>ME</sup> BERTHON</a> </h2> + +<p><span class="pn">{178}<br> +{179}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001610000">A TAVERNA DE M<sup>ME</sup> BERTHON</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>No terraço do «Café Leontina», agasalhados em seus lanzudos + <em>pardessus</em>, O<small>DORICO</small> e W<small>ENCESLAU</small>, dois + typos mundanos, essencialmente mundanos, conversavam surdamente... </p> + + <p>Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha de + sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares cupidos por + todas as bancas.</p> + + <p>O<small>DORICO</small> enlanguesceu-se, e, como uma reacção, assignalou, + assim, a passagem da exquisita-mulher com uma rememoração cruel... </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Sempre é curioso este «Café» em materia de mulheres. Não vejo esta +«Menina<span class="pn">{180}</span> Leontina», como a chamam, que não me +recorde logo da infeliz Madame Berthon.</p> + +<p>—E tu, meu caro Wenceslau, és bem a chronica viva de toda a feminidade +desta terra. Não ha uma mulher de quem não tenhas informações, anedoctas, +segredos, sobre quem não lances um episodio de curioso entrecho.</p> + +<p>—Não conheceste tambem a Madame Berthon?</p> + +<p>—Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo +ignorado...</p> + +<p>—Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a +inspiração do artista mais rude para produzir uma obra-prima.</p> + +<p>—Alguma divindade incognita...</p> + +<p>—Não, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem a +visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e na +temperança dos seus costumes, não diria jamais que era a senhora absoluta de um +corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais inspirado... Não se julgue +a felicidade dos fins pelas venturas que povoam a estrada por que trilhamos. +Muitas vezes, um momento de tranquillidade<span class="pn">{181}</span> agora é +a sementeira de um incommensuravel estado de attribulações mais tarde. Madame +Berthon despejava invejas a todas as mulheres do seu conhecimento. Desta caza +tirava ella os meios de sua subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o +taciturno aspecto de seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais +ruidosa alegria, aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum +excesso dê o rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma +algoz cambiante de tristeza. Tinha a côrte de poderosos pretendentes, mas +decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de alguem, era, +ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E, se a ninguem +promettia, a nenhum negava, e a todos faltava... Curiosissima mulher! Os seus +habitos eram os de uma leviana, mas a sua alma contrastava com a sua existencia +costumeira. Exquisita mulher, Odorico, muito exquisita, senhora de muitos +corações se tivesse querido, entretanto escrava de um só que a levou, +finalmente, à sepultura. Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia. +Um assassinio e um suicidio...</p> + +<p>—Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas, +em<span class="pn">{182}</span> algumas, ha a sementeira de muitos casos +fataes.</p> + +<p>—Espera, Odorico, espera. Não condemnes a desventurada pelos primeiros tons +de sua historia. Juiz mais severo do que eu, não conhecerás, por certo, para o +julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que veste escandalos, e que +escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a mulher é o algoz, parecendo a +extrema fraqueza. Neste caso, porem, Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se +crime ella teve, foi o de amar o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... +conjugalmente, porque nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. Ás deshoras, lá +para as tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares +cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e +recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de +enciumar-se até de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea tão +geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de compensações: o +feio é conjugado com o bonito, e reciprocamente, o bonito com o feio... Dahi a +naturalidade daquella união de Gaspar com a Madame Berthon. Mais de noventa +noites durou aquelle consorcio espontaneo.<span class="pn">{183}</span> Aqui +vinha eu, e naturalmente, cortejava à mulher gentil, espionando sempre o +amante. Os homens todos, Odorico, saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril, +como os armentios saudariam, com ardente fé, a vinda do outomno, porque é a +estação das colheitas. Na manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois +amantes, là para as aguas furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento +ouccubo. Visinhos, espicaçados pela anormalidade, attenderam ao que se passava +na moradia de Madame Berthon. Depois de acalorada discussão, durante a qual o +assassino descera as vidraças, cautelosamente, para não ser ouvido pelos +extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento no +interior daquella caza. Momentos após, Gaspar, conduzindo uma bolsa de mão, +descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia, meticuloso e +tranquillo, trancando às suas costas a entrada no sobrado em que commettera o +assassinato de Madame Berthon. E, como um homem feliz, là se fôra rua abaixo. +Quem o visse, não lhe diria o autor de um crime, muito menos quando, no +desempenho de um habito, asseiava os botins, e olhava serenamente o movimento +das ruas...<span class="pn">{184}</span></p> + +<p>—Revolto-me jà contra esse perverso.</p> + +<p>—Pois bem! O movel do crime fôra o roubo e todas as poupanças daquella +operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava zelosamente. Em +torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos dois tiros, populares +encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito, arrastando-se como lemures +ámerios em trilhas brancas de areiaes desertos. Vozes surdas contavam as +supposições de um crime; a suspeita avolumou-se... O rochedo nú da desconfiança +vestiu-se fartamente com os ouropeis das espumas brancas dos commentarios. +Pelas janellas descidas, olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios +vivos do barbaro crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse +as botas e penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares +tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presença proxima de um delegado. +Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina autoridade do seu +aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina... Tudo o mais foi rapido. +Num instante abriu-se com violencia a entrada. Um obstaculo appareceu: a porta +estava presa, como que escorada por dentro. Que seria que obstava o seu +movimento?<span class="pn">{185}</span> Uma cabeça affoita enfiou-se por uma +nesga, e voltou transfigurada, annunciando sómente: «Está morta». Outros typos +mais curiosos vieram, ageitaram-se e penetraram com a autoridade. Estatelada +sobre o chão, Madame Berthon, numa nueza arrebatadora ainda não tinha a gelidez +dos cadaveres, mas já era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue +escarlate. E sobre as suas fórmas nuas, nada, senão as meias presas com atilios +de fitas rubras, e as pequenas sapatinhas...</p> + +<p>—Que miseria!</p> + +<p>—Já conheceste a victima. Dahi por diante a acção foi sobre o agente. A +perseguição popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros perseguidores +foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas proprias temporas, Gaspar +era um suicida... Não calculas a impressão que esse crime deixou no meu +espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e senti que o assassino não tivesse +ficado vivo para pagar com a reclusão da vida a barbaridade do assassinio de +uma mulher, cujo corpo esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer +austeros Areopagos... se desvendado fôsse tal como eu o vi... E nota, Odorico, +que um corpo<span class="pn">{186}</span> morto, por mais bello que seja, é +menos do que o vivo, porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que é +o fluido mais sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, só +naturezas muito fortes não cederão à necrophilia... Então ella que possuia um +nevo sobre o quadril direito...</p> + +<p>—Sensualizas tudo, Wenceslau!</p> + +<p>—E que é que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte, como tu +deves saber, é um pedaço de sensualismo microbiano... Quantas fecundações +damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, senão pela força dos sexos, +baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre à instancia do amor que toparàs +com a absolvição da mulher, e carregarás a mão na dosagem da condemnação do +homem algoz.</p> + +<p>—Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido +condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no senhorio +dos homens.</p> + +<p>—E como influiria tudo isto para que Gaspar não victimasse Madame Berthon? +</p> + +<p>—Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o começo do +mundo, e é coisa que não se sabe é a data da primeira<span +class="pn">{187}</span> traição da mulher, de tão distantes tempos vem ella. +</p> + +<p>—Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa +traição do homem, e formada de uma traição, porque foi necessario que Adão +adormecesse para que Jehovah, trahindo à perfectibilidade da sua obra, lhe +tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella não poderia ser +contraria à sua origem...</p> + +<p>—És rigoroso demais...</p> + +<p>—Não sou, não, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os dias +e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo e escreveu +precisamente: «As mulheres têm sido tratadas até aqui, pelos homens, como +passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam no meio delles: como +qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil, de selvagem, de doce, de +arrebatador—mas, igualmente, alguma coisa que é necessario engaiolar para que +se não và embora num vôo»... Que é isto senão o reconhecimento do espirito +traiçoeiro de nossas Evas?... Ao demais... estamos muito fóra dos eixos... Que +bebemos agora?...<span class="pn">{188}</span></p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Fóra do terraço do «Café Leontina», solemnemente encapotados, dois + policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta noite...</p> +</blockquote> +<br> +</div> + +<h3><a name="SECTION001700000">INDICE</a> </h3> +<ul class="TofC"> + <li><a name="dedicatoria_l" href="#dedicatoria">Dedicatoria</a></li> + <li><a name="epigrafes_l" href="#epigrafes">Epigraphes</a></li> + <li><a name="tex2html35" href="#SECTION00200000">Nedda</a></li> + <li><a name="tex2html37" href="#SECTION00300000">Voluptuosas</a></li> + <li><a name="tex2html39" href="#SECTION00400000">O poeta moribundo</a></li> + <li><a name="tex2html41" href="#SECTION00500000">O velho medico</a></li> + <li><a name="tex2html43" href="#SECTION00600000">Os dois espelhos</a></li> + <li><a name="tex2html45" href="#SECTION00700000">O primeiro filho</a></li> + <li><a name="tex2html47" href="#SECTION00800000">Á vista da denuncia</a></li> + <li><a name="tex2html49" href="#SECTION00900000">Irado até à cura...</a></li> + <li><a name="tex2html51" href="#SECTION001000000">A hungara</a></li> + <li><a name="tex2html53" href="#SECTION001100000">Depois do cometa</a></li> + <li><a name="tex2html55" href="#SECTION001200000">Amores no claustro</a></li> + <li><a name="tex2html57" href="#SECTION001300000">A Consulêza</a></li> + <li><a name="tex2html59" href="#SECTION001400000">De como o avarento + morreu...</a></li> + <li><a name="tex2html61" href="#SECTION001500000">Ao despir um + pierrot</a></li> + <li><a name="tex2html63" href="#SECTION001600000">A taverna de Madame Berthon</a></li> +</ul> + +<p> </p> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30413 ***</div> +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Mundanismos + +Author: Almquio Dins + +Release Date: November 7, 2009 [EBook #30413] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MUNDANISMOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + ALMACHIO DINIZ + + MUNDANISMOS + + (CONTOS) + + + + + F. Frana Amado, editor + + Coimbra. 1911. + + + + + +Composto e impresso na Typographia Frana Amado, +rua Ferreira Borges, 115--Coimbra. + + + + + +MUNDANISMOS + +(CONTOS) + + + + + Obras completas de ALMACHIO DINIZ + + Contos + Um artista da moda, Lisba, Jos Bastos & C., editores. + Sombras de pudor. + Mundanismos, Coimbra, F. Frana Amado, editor. + Novellas + A Carne de Jesus, Lisba, Gomes de Carvalho, editor, 1910. + O Diamante Verde, Lisba, Guimares & C., editores, 1910. + Sonhos de meduza, em preparo. + Romances + Raio de sol, Bahia, em folhetins, 1903. + Crises, Lisba, Guimares & C., editores, 1906. + Paves, Bahia, Fonseca Magalhes, editor, 1908 (Exgottado). + Amen!, Bahia, em folhetins, 1909-1910. + Duvidas e remorso, em preparo. + Theatro + A Escarpa, Porto, Lello & Irmo, editores. + Tropheus em cinzas. + Sazo de luz (em preparo). + Critica + O passado, o presente e o futuro do heleno-latinismo em + lucta com o germanismo, Bahia, 1903 (Exgottado). + Zoilos e Esthetas, Porto, Lello & Irmo, editores, 1908. + Sociologia e critica, Porto, Magalhes & Moniz, editores. + Da Esthetica na Literatura Comparada, Rio, H. Garnier, editor. + A questo das raas na literatura universal, em preparo. + Symbolismo + Eterno Incesto, Bahia, 1902 (Exgottado). + S bemdita!, Bahia, 1905 (Exgottado). + Lingua portuguesa + A reforma ortografica, Bahia, 1907 (Exgottado). + O evolucionismo morphologico da lingua portuguesa, Lisba, + Santos & Vieira, editores. + Scientificos + Genesis hereditria do direito, Bahia, 1903 (Exgottado). + Ensaios philosophicos sobre o mechanismo do direito, + Bahia, 1906. + A sciencia do direito e as produces espirituaes do + homem, Bahia, 1907 (Exgottado). + Questes actuaes de philosophia e direito, Rio, H. + Garnier, editor, 1909. + A objectividade do phenomeno juridico no direito + brazileiro, em pub. + As formaes naturaes na philosophia biologica, em preparo. + + + + + +ALMACHIO DINIZ + +MUNDANISMOS + +(CONTOS) + + + + Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira. + + ANATOLE FRANCE. + +COIMBRA + +F. FRANA AMADO, EDITOR + +1911 + + + + +A + +GUERRA JUNQUEIRO + + + + + L'art veut imiter la nature. Nous faire prouver les sensations et + les sentiments que la vie nous impose ou pourrait nous imposer, tel + est son premier souci. Le romancier et le dramaturge comme le + peintre, le sculpteur comme le musicien s'essayent faire dans la + fiction, comme la vie dans la ralit. Au fond de chaque oeuvre + d'art il y a toujours en somme--que ce soit par imitation troite ou + libre vocation--une ralit reproduite de la vie. + + CHARLES ALBERT. + + + O conto, assim desatavado, exprimido, apenas succo e, se no + agrada _viso_, interessa o sentir. Falta-lhe horizonte, mas o + espao, por isso mesmo, mais vasto, sem empeos: segue-se + livremente a aco que a descriptiva, por vezes, compromette. + + COELHO NETTO. + + + + MUNDANISMOS + + + Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira. + + ANATOLE FRANCE. + + + + +NEDDA + + +NEDDA + + Manhansinha. + + A sala, de azuladas paredes seminas, estava pobremente mobiliada: + era no saguo da casa, e as duas mulheres entraram s tontas, at se + abrirem de par em par as gelosias. + + SAUL, de NEDDA esposo, ficra a dormir na alcova. + + E NEDDA, abysmada com a indifferena delle que apenas lhe no + dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que + DONA LOURA, a sua me, era uma interprete das indisposies do genro... + + Num canap, as duas mulheres, DONA LOURA, archaica nas suas vestias + de capote e turbante, e NEDDA, deliciosamente matutina num roupo + branco que descansava, _sans-dessous_, sobre a finissima camizta + de cambraias,--sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida + do cansado movel... + +......................................................................... + +--Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me +entre dentes e indisposto como um burgus dispeptico, silencioso como +uma esphynge e entristecido como um beato sem almoo, adivinho logo que +vens por ahi como a mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem +tarde... + +--Exactamente. + +--Previ tudo isto. Ha cinco dias que ns no falamos, e, pensando-o na +rua, hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella +cadeira, lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me +e no contive um gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os +meus passos. Ha quatro annos que somos casados e nunca passamos dois +mezes sem uma rusga. sempre elle quem as promove com um resaibo de +malentendido ciume. Aceito sempre o seu rompimento e nunca lhe dei a +honra de capitular nas hostilidades. Quando ellas so de nonada, aqui +mesmo se resolvem; mas, quando avultam como agora, elle te vai buscar +como intercessora. J sei que vamos ter, como sempre, uma crise de +amorosidades que me enfastiam. Lastimo no conceber um filho desse +homem para o embeiar pela nova criatura e sentir-me menos jungida s +suas intemperanas de... mal educado! s vezes, chego a ter nojo do +senhor meu marido... + +--Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que +me pasma... + +--Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter +o assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um +tal matrimonio no se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em +caza, por torna-viagem, a mentira de que Saul um tuberculoso. Tanto +mais eu o aborrecia, quanto a senhora e o pap intervinham, patrocinando +a causa do moo platonico. D-me, na verdade, um insistente desejo de +rir muito quando lembro os idealismos delle, seguindo a minha sombra, +porque nunca lhe deixei o direito de enfrentar-se commigo em parte +alguma... Expz-lhe sempre que sonhos no me satisfaziam, nem eram para +o meu temperamento homens vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe +intensa guerra, apaixonando-me por Frederico Stltze. Est! Com este +provavelmente eu teria sido bem cazada. O pobre allemosinho levou o +caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o abandonei, com uma +defeituosa... Foi um despique, no ha a menor duvida, mas quem sahiu +perdendo foi elle. Saul um temperamento de phoca... + +--Respeita o teu marido, minha filha! + +--Pois no , maman? + +--Essas couzas no se devem dizer... + +--No tratarei de occultar o sol com a mo. J disse e mesmo: um +temperamento de phoca. S quer hybernar sobre os livros, deante dos +quaes se abespinha como o animal sobre o glo. Eu, porem, quero muito +sol, muita luz, muito calor, muita actividade... Maman, o que vocs +velhos veem no cazamento o interesse de collocar as filhas, porque +ficando velhos receiam que nos tornemos muito ss no mundo. Por isso +acontecem destas, cazamo-nos com a vontade dos paps encarnada na figura +de um homem que no a correspondencia de nosso instincto. Olha! No +intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada qual commetta a sua +doidice como quizer, e, se escolher um lorpa como Saul, arrependa-se +de si mesmo e no me culpe a mim. + +--Tu vs no homem uma excitao, Nedda, quando devias ver uma satisfaco. + +--Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje +dessas trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu +toda a minha repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, no sabe +aproveitar-se de minha tolerancia e quer subserviencia, servido, ou +coisa similhante... Est enganado! Devias ter sanccionado a minha +repulsa logo de principio. Lembras-te do convescte dado aos chilenos, +nas Salinas? Tu no foste, e Saul, que era apenas meu pretendente sem a +menor esperana, moveu contra mim uma intriga terrorosa, porque viu, no +campo, o primeiro tenente Santander amarrar os cordeis de minha botina +que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te de como +energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do +contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia, +todos suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de +mulheres feias. Afinal, maman, que te disse elle desta vez? + +--Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o +comprehendes como um devaneio. Isto proprio para as meninas. Tu te +esqueces, e nisto eu lhe dou razo, que s uma senhora escrava da moral +esponsalicia. Contou-me o teu marido um facto em que elle te +surprehendeu. Realmente, se as cousas se passaram como podem ser +suppostas, e elle no quer crer, tu andaste mal. + +--Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como +tudo se deu... + +--E dispensavel Nedda. O passado est passado. O que preciso que no +ds lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem +calleja. Os amuos fazem pequenos callos, mas tempo vir em que, +callejada a alma, o amuo ser definitivo. + +--Que teria isso? + +--Um escandalo, minha filha! + +--Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu no me +pouparei a um grande escandalo. + +--Toma juizo, doidinha. preciso acabares com estas zangas e receberes +o teu marido como o teu senhor... + +--Hein?... No me zangars, maman, pdes ridicularizar-me como +entenderes... No me darei por achada. + +--No promovo seno o teu bem. Resolve a crise e s... mulher de teu +marido. + +--J ests julgando o feito? + +--Tu tens toda a razo, elle tem igualmente toda a razo. Harmonisem-se +e sejam felizes. + +--Pareces-me uma juiza a Salomo, com a differena de que o rei hebreu +ouvia ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma +s... + +--Interpretas muito mal o meu genio. + +--No te interessa conheceres a injustia de que sou accusada pelo sr. +meu marido? + +--Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a +accusao, eu nunca seria contra ti. + +--Obrigada, maman! Quero, entretanto, justia, e que, como Saul, no +julgues pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu +o que se passou... + +--Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes... + +--Pois bem! Na tera-feira, maman, de combinao com Saul, resolvi +passar uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle +que me falou pelo telephono, fui Barra correr uma cazinha vaga e +que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao +depois de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a +gentileza de offerecer-se-me para o servio de abrir e fechar portas. +Aceitei e foi elle quem tomou as chaves na taverna da esquina... V +tu!... No fsse elle e teria eu de entrar numa taverna, ssinha, +arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao depois, o dr. Eduardo foi +quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de camura para fazer +essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas... Corremos o +primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil +cavalheiro se lembrou de, por segurana, fechar por dentro a porta da +rua... Subimos. Mal chegavamos em cima, comearam de bater numa porta. +Poderia eu suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse, +porque elle no teria opportunidade de acompanhar-me, logo depois +resolvesse o contrario, e estivesse a bater na porta da rua? E foi por +um acaso que ns o vimos. Chegamos inesperadamente a uma janella do +sotam e percebemos que era elle quem batia. O dr. Eduardo, +desculpando-se por j ter eu cavalheiro, despediu-se de mim, desceu as +escadas, e, quando abria a porta, foi insolentemente aggredido por +Saul, que lhe negou a mo para o cumprimento do estylo... S tu vendo, +maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra mim! Felizmente, +desafiado pela minha calma, elle no teve animo para iterar o +qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle +quiz, fechou ssinho a caza e veiu s... + +--Devias ter evitado tudo isto, Nedda. + +--Evitado, como? + +--No acquiescendo companhia de um homem de m fama, como o dr. +Eduardo. + +--Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em +que eu fui... Hora de trabalhos na cidade... + +--Recusasses os favores offerecidos. + +--Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual a mulher que se anima +grosseria de recusar gentilezas de um moo de distincto trato?... + +--Conforme o renome desse moo. + +--Tem m fama o dr. Eduardo? + +--No sei, no. Dizem. + +--Se tem m fama, tem maus costumes. E como que Saul, to zeloso de +sua honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepes, um homem mal +visto? Penso que os frequentadores de nossos sales, os _habitus_ de +nossa intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um ponto +qualquer, e, se no fsse assim, a primeira privao delles, seria a do +nosso convivio... + +--Neste ponto s razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul +referiu-me que estavas sem chapeu... + +--De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha +van do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr. +meu marido alli estava para auxiliar a reposio, tirei o chapeu e +asseiei-o prestamente... + +--Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua +chegada, ao ponto de no saberes repr o chapeu... + +--Saul um mentiroso. + +--No te zangues, Nedda. + +--Injuriou-me. + +--No ds importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente... + +--E elle o quer? + +--Porque perguntas? + +--Porque to honrado elle no deveria aceitar mais a cohabitao da +esposa deshonesta. + +--No deves dizer assim, minha filha! + +--Aceita-me elle? + +--Que tolice, Nedda! + +--Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e no a fao +em atteno aos teus bons officios... + +--Fazes muito bem. + +--L vem elle descendo... + +--Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que no tem esposo... + +--Desculpa-me, maman: s agora reparo que estou muito vontade para nos +encontrarmos os tres... + +......................................................................... + + Arrepanhando, ento, o bello roupo desabotoado, por cujas rendas e + decotes se viam as carnes luciferas de NEDDA, a mulher de Saul se + escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de + esculptura grega... + + + + +VOLUPTUOSAS + + +VOLUPTUOSAS + + No rz-do-cho de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendados + _stores_ pallidos, HELENA fazia somno hora da sesta, quando MARIA + ANGELICA a surprehendeu adormecida. + + A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma + voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabea desmaiada de + HELENA... + + Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com + um fremito de prazer... + +......................................................................... + +--De onde vens tu, Angelica? + +--De encommendar flores... + +--Flores?! + +--No te recordas de que Sophia se cazar amanhan, noitinha? + +--Sou uma esquecida. + +--E ella credora de nossas gentilezas... + +--Das minhas, especialmente. + +--Encommendei orchidas e chrysanthemos. + +--Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias. + +--Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das +orchidas. Uma catyleia um pedao de labios excitados por dois beijos. + +--No lhes acho graa. + +-- exigente! + +--Flores do matto. E j notaste que quasi todas ellas so lilazes e +roxas? ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas cres +melancolicas? + +--Descobres coisas... + +--Mas, no ? + +--Realmente. + +--E como vais presentear uma noiva com flores lilazes? + +-- a moda, o chic, o _dernier-cri_... + +--Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas, +chrysanthemos, rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me? + +--Se no! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os +olhos muito brilhantes... + +--De verdade? + +--Sim. Sonhavas? + +--Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu ests intensamente corada... + +--Apanhei muito sol. + +--Os teus olhos esto pisados e languidos... + +-- da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor +que abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados... + +--J tinha reparado: os teus cabellos esto desmanchando-se... + +--E eu os concertei no espelho de Esther. + +--Andaste l, hein? J havia desconfiado... Quando te vejo amollentada, +assim, tenho razes para me enciumar... muito descuidada a Esther. +Cuida mal das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Est +mal posto, a fita est retorcida... + +--Nem reparei... + +--Disto no s culpada, por certo... Eu no te deixaria sahir daqui to +mal-amanhada. de causar vergonha. + +--Foi a pressa, Helena. + +--E no teu hombro a sda est nodoada... + +--Nodoada?!... + +--Sim! Vem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei +mesmo que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!... + +--Quem o poderia fazer? + +--Esther. + +--s ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as +flores. Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Ests +satisfeita? + +--Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas no convencida... + +--Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar +humido?... Ter sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo +arrastada como a de quem se fatigou num excesso de venturas... + +--Que venturas posso ter? + +--Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real... +Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha +vezes em que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras +occasies, quando volto a mim sem provocao, sou prompta a espantar-me +porque me accordei e no morri no meio do prazer sonhado... + +--Ha sonhos, effectivamente, que se no deveriam acabar... E no sentes +calor, Maria Angelica? + +--Algum. + +--Neste caso... + +--Que fazes? + +--Dispo-me. No me imitas? + +--Pde ser. Passarei a tarde comtigo... + +--Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta gla +assoberbante... No tens geito?... Chega, que te libertarei... + +--Tira os alfinetes. + +--Usas um bom p de arroz, Angelica. + +--Ui! Helena! + +--Que foi assim, ardilosa? + +--Espetaste-me as carnes... + +--Tambem uma ruma de alfinetes... + +-- para segurar bem. + +--Tens uma pellugem de arminho... + +--Ai!... Assim no... no... + +--Que tens, rapariga? + +--Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... S me dste +vontade de... + +--Ui!... ui!... ui!... Fazes-me um _frisson_ de arrepiar-me os pellos... + +-- para vingar o teu beijo... + +--Porque me olhas assim, Angelica? + +--s de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um +perfume originalissimo que me entontece... + +--Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se +cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o fao para attrahir as +amigas como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que +se confundiam os aromas do nardo de Tharsos e do metpyon do Aigypte. +Nas axillas attritava mentho e sobre as pestanas e nas palpebras +marjolana de ks. Ao depois, a escrava defumava-lhe os cabellos +desennastrados com espiraes de incenso, que combinava admiravelmente no +s com a essencia de rozas de Phaslis que lhe embalsamava a nuca e as +faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava sobre os rins. E, por +fim, entre os seios, corria o celebre oinanth das montanhas de +Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica... + +--Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras... + +--Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do +irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodes embebidos na +essencia de rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para +contrastar com as evolaes das essencias de jasmins que perfumam as +minhas vestias... + +--E na posse de tudo isto praticas uma m aco, Helena! + +--Qual? + +--Essa de referires tantos perfumes e no me dares nenhum a provar... s +avarenta, como ninguem, e eu cubiosa de gozar... + +--Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres... + +--Teria graa! + +--Porque assim? + +--Gsto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres. +Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas +carnes... + +--Tens desejos masculinos, minha queridinha! + +--E o que me faz lamentar-me: junto de uma graa no ser um Adonis, +junto de uma Helena no ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os +teus perfumes e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais +feliz do que Syrinx, louca de paixo, Byblis, unica na insaciabilidade, +ou Mnasidika, macia como um velludo... Helena, tu s uma perfeio... + +--Mofadora! + +--Mofar eu de ti?!... + +--No te abraza o calor?... + +--Sim... Intoleravelmente... + +--Safa o collte... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seduces +na tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os +homens, sabios no sensualismo pago, que o n de veus mais provocante +do que o n sem disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na +mulher encoberta pela semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te no +conhecesse os segredos todos de tuas lindas curvas, te rasgaria agora, +impiedosamente, o veu de tua nudez... + +--J sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do +arrcho de um collte dictatorial? + +--Quantas vezes?! + +--Tu brincas, mulher divertida... + +--Provo-te com a citao: despirei o meu collte e no me sentirei mais +provocada do que contemplando as tuas frmas semi-nas... + +--Es barbara, Helena! Como encarceras um to lindo quadril dentro dos +oppressivos liames de um collte... Ah! Como eu daria a vida por ser +morena! O ventre alvo uma desilluso, mas o trigueiro, como o teu, +um incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o instincto +mais calmo... + +--No te agrada a minha nueza? + +--Inteiramente. Agora, v l se te no impressiona mal a brancura do meu +ventre... + +--Ao contrario, Maria Angelica: uma grande corolla de petalas alvas +desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... maravilhoso o teu +contorno... Dignas frmas para a perpetuidade de uma tla ou de um +retrato... + +--Deixarias tu que fsse apanhada a tua nudez? + +--E porque no?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me? + +--Que egoismo leviano! + +--Acha-o? + +--Sim... Photographemo-nos... + +--Adoravel!... Como no irradiar no _clich_ o contraste de nossas +pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa +de um plo... + +......................................................................... + + Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma + soluo de perolas e opalas. + + Os seus labios permutaram cariciosos beijos. + + E, horas depois, MARIA ANGELICA e HELENA, retratadas por uma aia, + desvendavam as suas abrazadoras nuezas inveja de ESTHER... + + + + +O POETA MORIBUNDO + + +O POETA MORIBUNDO + + Luxuoso salo de recepes: por entre cavalltes com quadros de fina + pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de + Parreira e a vocao de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio + das tapearias, dos _fauteils_ e das luzes, um magestoso piano Ritter. + + HELOISA acabou de executar, com todo o applauso do maestro + CHRISTOVAM DETMER, a linda fantasia--_Le pote mourant_--de Gotschalk. + + As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de + admirao e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos + que obedeciam grande inspirao de HELOISA. + + Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente + combalida pela dor de uma alma irman... + +......................................................................... + +--Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas +bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas +e os teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do +passional poema lyrico, me concentrei e te affirmo que a viso no +despresou a audio, pois vi e ouvi toda a scena, desenvolvida entre +personagens vivas, que se moviam, se soccorriam e testimunhavam o +desfallecimento do artista moribundo. Durante minutos que sero +inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao teu lado, +frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e no denunciei, +pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a +existencia. Vim do gabinete privado de tua me, que se transformou +pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se +lhe dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a +longa historia de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes, fui +minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a +alma de artista e no o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim +inspirar-me para o sacrificio no teu talento. E saio de tua presena +illuminado como o prescripto que recebeu o balsamo do conselho christo +para subir em seguida ao patibulo. D-me, pois, o conforto de tua +confidencia ultima: amaste-me alguma vez? + +--Que pergunta, Christovam. + +--Indiscreta? + +--No; ao contrario. Amesquinhante... + +--Extranho-te. + +--No ha razo. Porventura pensars que te amei e no te amo agora? +Acaso a minha mo de mulher para te ser dada depender de alguma coisa +irreductivel deante de minha vontade altiva? + +--Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor +dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeas bellas +de todas as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz +com que se enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um +homem que sabe musica simplesmente, que apenas um artista, pequenino +de mais para ter uma preteno de amor. Eu me pareo com esta figura +lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das +fantasias de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em +sonhos egoistas, cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava +rozas, derrocando castellos, para me conter na illuso em que me +deleitava smente com a audiencia da negativa inclemente de tua me. +Confessou-me que maldava de todo o nosso amor, desde principio. E +porque, se assim era, protegia a ampliao de um sentimento que deveria +ser, como os filhos defeituosos das ciganas que so atirados s +piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse, +falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era +porque, doidivana como toda creana, jogavas a pla na orla do +precipicio, esperando o aviso amigo para te retirares gloriosamente... +Negars, Heloisa, que tinhas consciencia de minha preteno? +Sophismars, em favor da excommunho que me lanou a tua me, e contra a +clareza da ordem que me deste afim de se officialisarem as relaes do +affecto, que nos encaminhava de um illusorio paraiso? Responde com o +talento immensuravel com que sempre me amaste... + +--Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias +possuir o maior tino dos homens. + +--Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem +pesada se antepe sua esphera... + +--Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e no te hei de amar fra do +regosijo delles... + +--Dos teus paes? + +--Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em +tuas mos estariam vegetaes s ao spro de um fakir indiano. Porque +admittirias que a minha vontade fosse forte bastante para romper a +marcha das intenes dos meus paes sobre a minha razo de ser mulher? +Por ventura sem o sopro do fakir as sementes germinariam e attingiriam +as frmas de seres definitivos? No suppors que, sem aquelle spro, +algo se realisasse. Como suppres que sem a vontade dos meus maiores a +nossa unio se perpetraria ao teu sabr? + +--Desconheo-te j... + +--Mas, porque... + +--O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto quesilia dos +outros... + +--Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a +existencia de mulher? + +--Nem sei de mim mesmo que te responda... + +--No poderias esperar. Se eu fsse livre, se a lagarta para ser papilio +no carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar +a sanco que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razes para +tal fazer. Aborrece-te o trovo? amedronta-te o curisco? Queres ver-te +livre delles? Cr num Deus e pede-lhe a extino... Infelizmente, +Christovam, nem o trovo se extinguiria, nem o teu querer triumpharia... +De um lado, Deus seria impotente para te dar o que pedisses porque no +terias o direito de pedir... S pede quem pde pedir; se se pede +porque de quem d depende o pedido; e se o pedido no dado, procura a +causa na insufficiencia e na sem-razo de quem pediu... + +--Mas... + +--Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se +conservares a razo, que tenho o bom senso desejavel s creaturas +perfeitas. Queres responder-me? + +--Nada significar o que te responda. + +-- preciso que sejas categorico. + +--Pois sim: responder-te-ei. + +--Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade? + +--Por certo que no. + +--De minha parte a questo outra: teria eu o direito de responder por +mim num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer? + +--Se quizesses, sim. + +--No assim, no. Porque no me tomarias por mulher sem o meu +assentimento? Por impoderoso deante de minha definio adversa. Porque +no me daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por +impoderosa deante da pronuncia delles. Se tu pudesses alcanar de mim o +amor sem vontade, desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse +de meu corpo sem a interveno dos que m'o formaram do nada em materia e +em alma, nem cogitaria de enviar-te a elles... + +-- um dilemma sophistico. + +--Por que principio, no sei. + +--Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sde do teu amor, +Heloisa, como correspondeste a esse lapso do meu instincto? + +--Do modo mais franco. + +--Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu +quizesse, matar a sde que allegava... + +--Dependia de mim. Dei-te. + +--De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixo. +Negaste-m'o? + +--No poderia negar. + +--Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na +grandeza das iteradas pulsaes cordiaes, affirmaste que eu reconheceria +a intensidade do teu sentimento... + +--Dependia de mim. Pratiquei. + +--Por fim, quando te acenei com o plano de nossa unio... + +--Como te respondi, Christovam? + +--Com a primeira negaa. + +--Adulteras a minha inteno: cumpri o meu dever, enviando-te maman, +como o caminho propicio para vencer o pap. + +--Realmente, Heloisa. Sou um vencido. + +--Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei... + +--Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a +consummar uma grande obra musical sem a inspirao para a realidade do +dever... + +--Desistes, ento, do teu amor? + +--Razes me sobejam... + +--Que te disse, afinal, a maman? + +--Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e +lembrou-me que um musicista no compe sem ter inspirao... + +--Nada de mais, Christovam! + +--Talvez no queiras comprehendel-a... Mas tudo que se pde allegar +contra um homem... + +......................................................................... + + E, louco pela musica, inconsciente quasi, CHRISTOVAM DETMER + assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita + criao de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se + despediu de HELOISA... + + + + +O VELHO MEDICO + + + +O VELHO MEDICO + + O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa. + + ESTEPHANIO e JUDITH--esta desprendendo-se de si no devotamento ao + esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais annos, como + se lhe tivesse o corpo de cr, curvas e linhas, luzes e + perfumes--gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige + os defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo... + + MARCO ANTONIO--o medico afamado--cofiando as ennevoadas barbas em + que se escondiam as illuses do seu poder curador, arrancou os + olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, de + suas attenes... + +......................................................................... + +--Bem pde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgr da +mocidade... + +-- exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel +salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, no posso +affectar-me com os seus effeitos: a sua medicina a criadora das +humanas torturas. Parece-me que j se disse: Tirem os medicos e as +enfermidades desapparecero... Mas, eu digo: fugi delles e estou +curado. Deem-me milhes de medicos e estaro formados trilhes de doenas. + +--E quem te curou, meu caro? + +--A natureza... + +--O novo deus pago... + +--Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes +curadores. Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria? + +--Lembro-me, sim. + +--Foram tantos os diagnosticos que j perdi o direito de dar-lhes autorias. + +--O sr. era verdadeiramente um doente. + +--E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e +invariaveis. + +--Realmente. + +--Pois confesso-lhe: no fiz uso de um s. Tambem o doutor no foi o +ultimo medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na +inspeco. Nada faltou sua perspicacia, seno comprehender que, no meu +estado, as suas perguntas eram outras tantas suggestes e novos +symptomas para a aggravao de meu mal. Eu vivia desvairado na vontade +de accusar males crescentes, e os meus assistentes porfiavam em +illustrar-me em torturas ineditas. + +--Afinal... quem te curou? + +--Dir-lhe-ei tudo, de comeo. Hygia, a deusa da saude, no de todo m... + +--A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos: +salvaram-se pela aco do dedo de Deus, como teriam morrido pela +interveno do doutor... + +--Creio que o sr. adianta um mau conceito. No me tenho na conta dos +casos communs. + +--Desculpe-me. + +--Pois no! Mas, a minha doena foi uma criao dos meus medicos, e a +minha cura proveiu de minha inabalavel resoluo de abandonal-os. Eu +estava em ultimo grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei +assim s mos de um allopatha. Homeopathas e feiticeiros nada +fizeram de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci, +aos vinte e tres annos, foi numa convalescena de enfermidade +effectivamente assassina: o amor. Eu tinha conseguido, pela vez +primeira, objectivar uma paixo. E, no s isto: tivera, com todo o +delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra a minha +vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu +sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram +sessenta dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil +e quatrocentos minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes +as paradas assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao +maximo possivel. O prazo desse amor fra, entretanto, fatal. Exgottou-se +e a mulher fugiu-se-me dos braos como a espiral do fumo que procura as +alturas. Ao depois disto, separado do entretenimento carnal, que me +combalia as fibras, como a agua que vai abalar as galerias subterraneas +para derribar as minas, tive a sensao do remorso de um grande crime... + +--De um crime delicioso... + +--Talvez, doutor. + +--E ento? + +--Encegueirado pelo amor, o mundo ficou s escuras sem a luz do olhar +della. Quiz correr nas suas pgadas, e senti-me tolhido como a voz na +garganta do atormentado por um pezadlo. Vi em todos os convivas de +minha existencia, terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre +num choro convulso, durante o qual me punha a tremer com tanta violencia +quanta fazia extremecer todo o assoalho de minha alcova e soar fra de +tempo a campainha do relogio sobre a meza... Senti-me muitas vezes +balanado como a espherasinha de madeira que anima o trillo dos apitos... + +-- curioso, de vras, o seu caso. + +--Foi, doutor. + +--Sim! Foi! E hoje sinto no lhe ter visto nesse tempo originalissimo. + +--Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico. + +--Paranoico? + +--Exactamente, doutor, e v vendo. Aconselhou que eu me tratasse com +banhos de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro +medico, os meus paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente +banhado, a contragosto, com luzes de todas as cres. Era inocuo o +tratamento para me fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males +Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguados por alta +dose, mas no toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico--j a esta +hora e ha muito tempo--victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e +disse, carrancudamente, deante de uma das minhas crises de saudade +carnal: so delirios epileptiformes... E o tratamento passou a ser +feito com altas doses de bromurto. A minha ennervao deprimiu-se, e +tornei-me um atoleimado, tanto que nem pranteei a morte de minha me, +desgostosa com a minha tragica existencia... Novo medico; vim a ser um +simples neurasthenico, com atonias nervosas. Reconstituintes, passeios, +boas alimentaes, prazeres, etc.: nada, porem, matava as saudades do +meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora por excesso de +alimentao, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de insomnias, +tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos +medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodtos +e tive hemoptises. Um Esculapio chamado s pressas, levando em conta a +minha magrsa, o sangue exvasado dos meus pulmes e o historico dos meus +soffrimentos, num rapido prognstico, annunciou a minha morte breve, +por fora de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me +interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria +smente: suggeriam-me cousas que s dalli por deante eu comeava de +sentir. E veiu um curador homeopatha: os seus remedios ingeri com +facilidade, pela falta de sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um +visinho, que se enforcou dias depois porque se sentiu arruinado nas suas +foras commerciaes, lembrou que os maus espiritos encostados aos corpos +de pessas novas, faziam artes do demo... E no s apresentou a +conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma velhinha, +encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruos na +cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira... + +--E nem rezado, sr. Estephanio? + +--Para o doutor ver! Nem rezado! + +-- unica a sua historia. + +--Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau +funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado. + +--Assim acaeceu. + +--E inda pensa o doutor que eu tivesse affeco nos rins? + +--Se me no falha a memoria, effectivamente. + +--Pois escute: logo depois de sua interveno, repudiando eu os +medicamentos que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram +trazidos em conferencia. + +--Que disseram elles? + +--Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles +mesmos. Do doutor discordaram reputando sos os meus rins. + +--Sos, ou curados? + +--Curados, no. Inattingidos at quella data. E firmaram o diagnostico +de uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgo e o outro +hypertrophia. + +--Mas, afinal, acertaram? + +--Suppem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a +saude. + +-- espantoso, meu caro senhor. + +--No , no, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha +reapparecido a mulher que eu amra. Visitou-me. Inflammamo-nos, e... +estamos casados, no foi assim, Judith? + +--Parece-me! + +......................................................................... + + Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando + o enfeitiamento de um lindo _manteau_ exposto no mostruario de + modas e confeces... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente + a espaosa fronte... + + + + +OS DOIS ESPELHOS + + +OS DOIS ESPELHOS + + Depois de mandar retirar-se a criada, VIOLANTE foi, p ante p, + fechar a porta do salo de jantar que deitava para a copa, e veiu + sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mos + profundamente geladas. + + SIMEO, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo no canto + dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as + feies com um claro colerico. + + Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a + cadeirinha de balanos, VIOLANTE provocou-o... + +......................................................................... + +--Faze a tua scena. + +--E no sem tempo. + +--Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se no sem tempo? + +--Facilidades. + +--Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o +homem cazado no tem direito a facilidades. + +--Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que +Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma +existencia inteira para passar escravisado aos laos de uma unio +infeliz!... Maldita hora! + +--Ah!... ah!... ah!... ah!... + +--Sorris... + +--E ento? Hei de chorar para te sentires bem na oppresso que me fazes? + +--A minha vida depois que me senti enganado... + +--No tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci +o teu adulterio... + +--Insultas-me ainda em cima, Violante? + +--No te insulto. Repillo as tuas aggresses, termo por termo. O que eu +digo que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado +e perfumoso para agradar s amantes, tem a mulher de... + +--No dize, Violante, a indignidade! + +--Porque no dizer as cousas como ellas devem ser? S depois que senti a +tua ausencia do lar... + +--E confessas o delicto?!... + +--... s depois que conheci a tua amante... + +--Mentes, mulher! + +--... s depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui +sais... + +-- horrivel, Violante! + +--... s depois de ver-te partir de l e a tua concubina despedir-se de +ti com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravido... + +--Tu viste? + +--Sim... s depois de ter a certeza de possuires uma amante... + +--Poupa, Violante, essa phrase... + +--... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a +crte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no +lar pelo marido libertino... + +-- demais! + +--Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num +isolamento de aborrecer. Entretanto, fra diverso o teu proceder nos +primeiros tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava +na rua, mal eu comeava a sentir a tua ausencia, estavas de volta. +Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te +retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te +perguntei, a hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz +saber. E, at hoje, nunca te pedi a menor palavra sobre o teu +procedimento... + +--E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informaes. + +--Pois bem! Para evitar essa negao, nunca t'as pedi, sciente e +consciente de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, no te +devo satisfaces... So ellas por ellas... + +--Abusas... + +--Corrige-me se puderes... No s o meu marido?... Toma conta dos meus +actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze +o que entenderes, certo de que atraz de mim haver quem vingue as tuas +incontinencias e perversidades... + +--E sabes quem a minha amante? + +--Se sei, Simeo?!... + +--Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: no +conheces ninguem... + +--S com o rizo!... Ah!... ah!... ah!... + +--Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha +paciencia se exgottar afinal... + +--Ainda em cima me ameaas? + +--Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me +confesses tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante? + +--Ninguem! + +--Ninguem, como? + +--Desconfiei e fui ao teu encalo... + +--No falas a verdade, Violante. + +--A certeza das coisas adquirida quando nos abeiramos dellas. +Molestias mortaes, por miasmas exhalados dos paes, s as contrai quem +lhes vai beira. Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio... +Olhas-me agora atravessado? Nega ento que te falo a verdade como ella +?!... Por favor, desmente-me, se s capaz... + +--Juro-te que no sei do que se trata. + +--Perjuro!... Ento, toda a manhan no vais daqui caza de Idalia... +No me interrompas, no... toda a manhan, no passas l horas +esquecidas, quando sais no fica ella por traz da gelosia a acenar-te e +tu a corresponderes-lhe os acenos de apaixonada despedida? + +--Ousada! Alem do mais, injurias mulher de um amigo da nossa +familia... + +--E que a tua amante... + +--Pois se , est tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre +vontade... Constou-te j que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As +minhas obrigaes maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e +comeam, quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a +dentro, estou eu cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem +jurei culto eterno, alias, em tempos melhores... Casei por uma +supposio de momento: a solido de solteiro era um suicidio de todos os +dias. E s no me enganei em suppr que o matrimonio me facilitaria +relaes difficeis antes de ter as qualidades de senhor duma mulher... O +mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a tua companhia, +e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado um pequenino +jardim, o maior cu a entrada de uma furna... A companheira um +tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo +homem respeitador... + +--Outro tanto te allego eu... Mentir aquelle que disser me ter visto, +sorrateira ou clandestinamente, embuada ou mascarada, penetrar em +lugares escusos, ou ao lado de algum homem que no fsses tu... +Casei-me por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixo +momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto +o meu marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me +eu... Adquiriu uma amante... + +--Retem-te, Violante!... + +--No! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem pde viver longe +do pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu +marido!... + +--Intoleravel! + +--Tambem tu o s! + +--Adultera! + +--Deixemo-nos, Simeo, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os +devolver todos, um por um... + +--Saber-me trahido... + +--Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando +nada, no ters de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher +digna do marido que lhe deram... + +--Sinto faltar-me a luz da vista... + +--Impresses, Simeo. + +--Pois justo que me consinta enganado? + +--No nos deshonramos... + +-- um conslo ridiculo. + +--E que dirias tu se trahida eu no te trahisse igualmente? + +--Diversa a situao do homem, Violante. + +--O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente +nos submettemos a esse regimen de igualdade... + +--Doloroso! + +--Assim exclamei, Simeo! Agora, porem, me sinto melhor: no me +enganaste, e isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos... + +--E o teu amante? + +--Dispensa sabel-o... + +--Ah!... Repillo a lembrana que me occorre... No, no possivel!... O +massagista... + +--Rende justia tua mulher, Simeo! Pois no vs que eu me no +vingaria de ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te +fizesse crar perante a sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de +ti? + +--Ento... Desabafa-me!... S completa! + +--Insistes em conhecer tudo? + +--No duvides que o quero de corao. + +-- Lourival... + +--O marido de Idalia?... + +--De certo. + +--Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem +conjugadamente... + +--Mas eu estou vingada... + +......................................................................... + + Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fra do salo, + perguntava aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar... + + E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz... + + + + +O PRIMEIRO FILHO + + +O PRIMEIRO FILHO + + Na secretaria fra extranhada a falta primeira de ORLANDO, assiduo + at no se ter ausentado do servio no attrahente dia do matrimonio. + + O DIRECTOR do esposo de OLIVIA era reconhecido assiduidade do + moo, e, por duas vezes, determinra o seu accesso por merecimento. + + Ao penetrar na Repartio depois da primeira falta, todos os olhares + recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se + entregou ao trabalho sem explicaes. + + Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado, ORLANDO e o + DIRECTOR entravam em confidencia... + +......................................................................... + +--Ah! Sr. Director! + +--Estiveste doente? + +--No, no foi doena minha. Antes o fsse... + +--Trocaste o dia? + +--Como assim? + +--Levaste conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos? + +--Tambem no! + +--Viajaste a negocio? + +--Qual, Sr. Director! Os meus negociou so smente os de meu dever aqui +dentro... + +--No sei explicar a tua falta. + +--E eu careo de coragem para dizer... + +--To futil no ha de ter sido o motivo. + +--Eu conto. Foi o meu primeiro filho... + +--Felicito-o desde j. + +--Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade. +Conhecendo bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a s quando +se manifestaram os primeiros incommodos do parto. E confiando em que o +acontecimento cedo me daria liberdade para saltar repartio, fui-me +deixando ficar, ora mais embebido nos cuidados que a parturiente exigia, +ora menos descontente com o que se ia passando, at que, s na madrugada +de hoje, aps vinte e duas horas de labutaes, se concluiram os +trabalhos... + +--Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia. + +--No menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi +em mim e vi que faltra hontem improficuamente, porque... + +--Ora, Sr. Orlando! Uma falta no infle, tanto mais quanto fui o +primeiro a no mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber +corresponder ao valor dos meus funccionarios. + +--Fico embaraado... Nem sei como lhe agradea... Ao depois das torturas +porque passei, era natural que Deus me dsse o allivio de uma honra como +a que o Sr. Director acaba de conceder-me. + +--E a senhora ficou sem novidade? + +--Pouco mais ou menos, Sr. + +--Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia... + +--Qual nada!... Faltar hoje?... + +--No digo isto. + +--Ento... + +--Obter uma dispensa de servio... + +--Nem pensar bom, Sr. Director. Se me dssem licena eu hoje emendaria +o dia com a noite para descontar o atrazo de hontem... + +--So excessos, Sr. Orlando. justo que um chefe de familia precise +dessas lacunas no servio para gozar mais largamente as venturas de seu +lar. + +--Estas, francamente, eu s poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz +no acontecido. + +--E no o foi? + +--Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigao. + +--Qual foi o medico? + +--Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo. + +--Bons medicos, sem duvida. + +--E que ho de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como +um horror... + +--Mandarei dar-te uma gratificao para cubrires com ella os +extraordinarios desse acontecimento inquietador. + +--No aceitarei, Sr. Director. + +--Porque assim? + +--No soberbia, no. Desculpe-me, mas eu no posso aceitar. + +--Quereria ter as razes dessa sua desatteno... + +--No desatteno, Sr. Supponha que eu aceito. Desfao-me das minhas +difficuldades graas ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo +filho, nas mesmas condies difficeis do primeiro. O Sr. descuida-se e +eu no obtenho nova gratificao. Naturalmente me enciumarei com o seu +procedimento e o que no quero hoje, no devo esperar amanhan... Pois +no ? + +--Eu daria do melhor grado. + +--Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao +depois, se a parturiente inspira cuidados... + +--No se ficou bem ella? + +--Acho que no. Ao depois do parto, comeou de ter desmaios consecutivos... + +--E o que recommendaram os medicos? + +--Repouso. Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher +uma inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que +Olivia padeceu. + +--Pois penso que devias retirar-te. + +--No devo, Sr. Director. O lar uma preoccupao para fra das horas +da secretaria. + +--At o servio poderia lucrar com a tua ausencia... + +--Perdo, senhor, mas... + +--Admiras-te? No queria falar-te com tanta franqueza para no te +consumires ainda mais... + +--Por acaso commetti alguma outra falta? + +--Gravissima... Sabes porque te chamei? + +--Lealmente ignoro. + +--Porque te desconheci. Ests um desconchavado e erras todo o servio. +Pelos teus grandes creditos, s aqui dentro um rico de odios e de +invejas. Conheo-os todos... + +--Agradecido, Sr. Director. + +--Cada companheiro teu um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem +com os teus lapsos o teu valor. No o admitto eu. + +--Mas, que fiz assim? + +--Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua +informao. + +--Oh!... Esta cabea... + +--A conta de Silva & C.... + +--Sei!... sei!... Ento... errei-a? + +--Inconvenientemente. + +--E sei porque perpetrei o engano... + +-- o que tu pensas... + +--Por ventura outro me corrigiu? + +--Absolutamente no. Sers tu mesmo quem far este trabalho ao depois... + +--Porque no hoje? + +--Ests dispensado, incondicionalmente, do servio por tres dias... + +--No me conformo, Sr. Director. + +--Sou irrevogavel. + +--No maximo me satisfarei com o dia de hoje. + +--Sero tres dias irreductiveis, e pdes ir para a companhia de tua +esposa descansar a tua cabea. Vejo-te perturbado enormemente com o +pensamento do que possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda! + +--D licena? + +--Pois no. + +--s ordens do Sr. Director. + +--Ah!... Sr. Orlando? + +--Sou todo ouvidos. + +--Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? homem? + +--Perdo, Sr. Director... Mas... no lhe sei responder... Com a +atrapalhao da hora no me lembrei... Ah!... sim... + +--Que respondes? + +--Desculpe-me, Sr. justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem +verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou... + +......................................................................... + + Sorrira o DIRECTOR e dispensra de vez ORLANDO, com a inveja + crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos + factos... + + + + + VISTA DA DENUNCIA + + + VISTA DA DENUNCIA + + O interior da envidraada varanda, exornado com ipomas e glycinias, + em cacos, orchidas e arums nos recantos, no tinha seno a luz + pallida, muito pallida, de um luar de inverno, coado preguiosamente + pelos vos das grinaldas verdes. + + Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma commettia a + indiscreo de transportar para alem, ao conhecimento da criadagem + bisbilhoteira, os amuos graves de CLOVIS e AMARYLLIA. + + A denuncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de + ferro, destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos + grosseiros perpetrados pelas mos violentas de CLOVIS, que, + distrahindo-se um pouco com as fumaradas de um havana, ouvia, + sem intervenes, as queixas de AMARYLLIA... + +......................................................................... + +--Como eu, to ladina para outras, comprehendendo to bem o mal alheio, +deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amavel hoje, tinha sido +um presente valioso hontem, era uma lembrana expressiva amanhan... E o +meu filhinho servindo de _passe_ para os maiores engodos!... Toda hora o +telephone pedia Arthurzinho. L se ia o innocente, coitadinho! E +raramente voltava. Prendiam-n'o dias seguidos com a ama. Poderia eu +desconfiar do embuste? Ha genios capazes de todas as villezas. O filho +era o motivo da entrada do pae, os presentes eram as cinzas nos meus +olhos, e os convites eram a perfidia da traioeira. Mas, agora, ou eu +succumbirei, ou estar tudo acabado. Ouve-me bem, Clovis: nesta caza, +emquanto eu viva fr, Carlota jamais tornar, e se tu desceres +indignidade de voltar caza dessa mulher, ouve bem! Serei eu quem ir +buscar o tolo do esposo para te surprehendermos na sordidez. Sempre so +os interessados nas causas os que por ultimo se sentem logrados. _Il +n'y a qu'un mot pour dire les choses._ Essa palavra no devo, porem, +proferir sem macular os meus labios, sem regosijar o meu enganoso +marido, e sem elevar a perdida que me furta a tranquillidade, que me +logra no dom legal da fidelidade esponsalicia. Um dia desconfiei. A ama +de Arthurzinho levava um pacote s escondidas, quando, para castigo, +elle rolou ao cho, na hora da partida, quasi aos meus ps... Perguntei + cumplice que significava aquelle _embrulho_... Foi o sr. Clovis quem +tomou a palavra: um romance que mando, a pedido, para D. Carlota +ler... Ingenuamente me convenci. Pois seria possivel que o meu marido +trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraioava? que expuzesse +o meu filho infamao de ser posto junto perfida, em lugar de seu +pai gozado?... meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me +e vejo-me s. Roubada naquillo porque mais zelos e mais ciumes alimento, +eu que me tenho submettido machinalmente concepo de treze filhos, +exgottando a minha juventude para parecer velha aos trinta e dois annos, +assassinando a minha belleza, relaxando os meus tecidos, criando uma +ruga nova em cada manhan em que me olho ao espelho!... para ser +recompensada duramente com uma traio, uma tripla traio, em que se +envolveram as minhas lealdades de esposa, de me e... de amiga. Sim, +porque, desgraadamente o digo, tolerei a concubina de Clovis na +intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por fora dessa leviandade +commum a todas as mulheres, terei dado causa de rizo maldita que me +engazupava. Contava-lhe os meus esforos para trazer sempre o meu marido +na obrigao pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o +recebia com intimas indisposies, para que regeitado uma feita elle se +no atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a duvida de sua +saciedade noutra fonte... No sei onde estava escondido o sol de minha +comprehenso que agora recenna a minha intelligencia. E uma miseria +moral essa em que se prostite, com o conjuge das outras, uma velha, +desrespeitadora das cans do esposo e da innocencia de suas filhas. Havia +de ser l, naquella alcva cheia de seduces, que o meu companheiro se +convertia em assassino da paz de minha alma. Aos olhos daquellas tres +criancinhas--mulheres faceis, por herana, que desabrocham nos comoros +lamacentos da podrido materna--elles dois se encaminhavam do leito, +quantas vezes Clovis ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o +ardentemente com o nome de pae! Bemdito o poeta que j disse estar ao +lado de cada homem uma fra monstruosa: o instincto. E esse poeta foi o +meu proprio esposo, accusando toda a humanidade com o seu proprio mal. +Foi preciso que uma generosidade extranha me avisasse para que eu +conhecesse essa nova Mylitta babylonica, torpe, pantano no qual at a +trahida companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram +poderes lascivos. injustia divina! Porque no me despertaste, a mais +tempo, do somno em que sonhei com a lealdade de um templo christo e me +achava desgarrada na nave de um templo de Buddha?!... Foi hoje o +assignalado dia de minha victoria. A carta chegou-me s mos com as +resteas violetas do sol posto. Li-a de um folego. O meu primeiro impeto, +naturalmente, foi de indignao contra o denunciante. Mas, alli estavam +os factos verificaveis, possiveis, e terrorosos. A noite veiu mais +depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo. A verdadeira noite +essa em que tambem a alma se recolhe na escurido de uma dr +apunhalante. O meu marido jantaria fra, num banquete intimo, mas +numa sociedade festiva. Resolvi chamal-o prontamente s explicaes de +suas infidelidades. E fil-o sem tardada, no o nego. criada de +Arthurzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha affectos meus por +dar o seu leite formao organica de meu filho, trouxe logo s contas. +No lhe disse a denuncia, no lhe proporcionei ensejo de contestar a sua +aco, porque a interpellei segura do facto, inteiramente consciente do +que fazia. E ella me confessou que levava e trazia romances immoraes, +que levava e trazia cartas e recados... O instante unico! Ao depois, +calma e friamente, sabendo que aguava a minha dr, revolveu-me nalma o +punhal de seu descaro, revelando-me a indignidade de ser o meu filho +abraado e beijado ardentemente, durante a ausencia do pae, com o nome +deste entre os labios da corruptora... Nega, Clovis, que no s o amante +dessa barregan de padres, dessa immunda mulher que maculou o meu lar com +a sua abjecta convivencia... + +--Nego, sim! + +--Frte coragem! Jura que hontem no beijaste, quasi aos olhos do +publico, no salo de visitas, os labios rxos pelo cansao da idade de +Carlota. + +--Juro-te. + +--Leviano! Mente como quizeres. Mas, ouve: emquanto o meu corpo sentir +as commoes do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquella +devassa, emquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquella carta +nas tuas vestias, que o perfume de uso na alcva de tua hervoeira, +terei a coragem de repellir-te e de cerrar os meus labios s menores +palavras para as nossas relaes. E se, porventura, desconfiar eu que +foste buscar, como uma abelha sem sorte, o nectar que se esconde na +corolla daquella flor murcha e fanada, dentro desta caza, escuta bem +Clovis, haver a incompatibilidade de ns dois... tu entrares e eu +sahir, ou s ficarei se tu te fres para sempre. Sabes quanto sou +caprichosa, o bastante para no me arrepender das resolues tomadas. +Negas, ainda, o teu erro? Serei facil de perdoar-te com a verdade, to +facil quanto no te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade! + +--Nego, sim! + +--Quero convencer-me. A p firme? + +--Com toda lealdade. + +--Pois bem! escusado irmos adiante: sabes o que est contido naquelle +pacote? + +--Ignro. + +--So os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero +devolvel-os. + +--Mas, como? + +--No os guardarei mais commigo. + +--Vais romper, ento, com a familia do Aurelio? + +--Forosamente. + +-- de mau alvitre. + +--Incommoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar +com uma amizade que me aborrece, e se te excusares a esse acabamento, +confessas o interesse que ters em manter a verminao desse convivio +immundo... + +--Se encaras por este lado, rompe Amaryllia, devolve tudo do modo mais +grosseiro. + +--Devolverei, sim, no ha que ver. + +--Ests no teu direito. + +--E espero a tua sanco. + +--J a tens. + +--No. No a tenho ainda. A devoluo no poder ser feita sem uma carta. + +--Pois escreve-a! + +--No! Tambem no! Sers tu... + +--Eu?!... + +--Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?... + +--Amaryllia, pensa bem! Ns, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos +nessas rusgas de mulheres. + +--Comprehendo-te: romperei eu, e tu, s occultas qui, com menores +apparencias, te dedicars continuao de teu adulterio. Has de ser +quem escrever a carta hoje mesmo, agora... + +--Convencer-te-s de minha innocencia? + +--De todo, no. Encaminhar-me-ei de convencer-me. + +--No haja duvida. D-me papel e tinta. Escreverei num momento... + +--E pensas que escrevers como quizeres? + +--No: como fr conveniente. + +--No te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado. + +--Qu? + +--Nos termos que me espoucarem arrevezadamente aos labios... + +--Mas... + +--Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga... + +--Amaryllia?!... + +--Virulenta e grosseira... + +--Faa-se a tua vontade. + +--Escreves? + +--Como quizeres. + +--E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquelle modo escripta? + +--A Carlota! + +--No, Clovis. Quero que se escreva ao marido della, com o seu nome em +todas as letras... + +-- demais! + +--No retrocedas! + +--Abusas de minha bondade... + +--Enganas-te. Clovis, ou tu escreves como eu te determino, ou... + +--Absolutamente, no! + +--... ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A caza de meu pae +ter sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortavel. + +--Tua alma, tua... + +--Sei bem! Queres o escandalo da separao para o renome do +conquistador? No te darei essa vantagem... Debaixo deste tecto, +tragars, Clovis, o amargo da tortura mais incondescendente, soffrers a +queimadura do inferno mais verdadeiro... + +......................................................................... + + Ao longe, um relogio temerario, arriscou o aviso tetrico da + meia-noite, ao fim do qual, resolutamente, AMARYLLIA se retirou para + o seu leito... + + + + +IRADO AT CURA... + + +IRADO AT CURA... + + Ampla alcva: no _armoire--glace_ reflectida como outro vasto + commodo... + + Rico mobiliario de pau-setim com incrustaes de jacarand reluzente... + + Um leito de cazados, e sobre elle, cadaverico, pelles e ossos, + despojado de carnes, ventrudo, olhar ancioso, o louro ORMINDO, + luctando com a morte... + + um erro de diagnostico, rebelde a enfermidade medicao + despropositada. + + Junto do leito, uma banca, e sobre esta, alem de um thermometro e de + um chronometro, desenvolta frascaria... + + Aos ps da cama, fatigada, somnolenta, s vezes, DOCA heroina na + vigilia: o seu semblante merencoreo s consegue alguma graa + quando ELOY visita o enfermo. + +......................................................................... + +--A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaos sorrateiramente... +Doca, tu bem vs como eu morro todos os segundos, como eu minguo sem +cessar... + +--Tem f em Deus, Ormindo. + +--Morrerei com ella, sim. A f! Ella o facho illuminador da estrada +eterna... Como deve ser doloroso no crer em nada, Doca!... Sentir a +alma cahir no vacuo... Ah! no me conformo, porem... Morrer quando tanto +preciso viver... Vou deixar-te na penuria... a braos, por certo, com +os creditos da medicina e da pharmacia... + +--Tu pensas demais. + +--Como no hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilhars a codea endurecida +e atrazada. com horror que prevejo as tuas infelicidades... s nova. +Mas de que servir a tua mocidade sem po, os teus verdes annos sem um +amparo? s bella. Mas de que prestar a tua lindeza se no tiveres um +manto para o frio e um abanico para o calor? Nova e bella... na +viuvez! Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei? + +--A pobreza um estimulo, Ormindo: saberei trabalhar afim de haver com +honra um pedao de po e alguns covados de fazendas... + +--No te peo nada, e peo-te muito: no macla o nome de teu marido. A +herva reverdesce a fronde dos vegetaes, augmenta-lhes a copa, +ennobrece-lhes o aspecto: crava-lhes, porem, at ao durano, as raizes +assassinas e rouba-lhes a seiva at morte. A arvore cessa de existir +com a trepadeira phytocida que lhe rendilha os contornos. A mulher deve +pensar que o bem-estar no a honra, e que ha tranquillidades mais +homicidas do que a herva do passarinho... A deshonra no provem da +pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A deshonra fructo das +transigencias de alma, e a mulher viuva a que pde peiormente +transigir... Que dores!... Ui!... + +--Ests vendo: peioras quando falas! + +--Doca, no meu caso extremo, a morte assim qualquer coisa como uma +sorte grande... + +--Num bilhete branco para mim que fico sem ti... No sabes aproveitar o +silencio como um meio de cura, no sabes tirar partido, poupando +foras para momentos mais graves... + +--Durarei muito pouco. + +--No pdes saber mais do que os medicos. + +--Ah! mulher! S eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se +avisinha o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam. +verdade, pois tenho neste momento a viso mais lucida dos meus +primordios. Que isto seno que se vai fechar a circumferencia de minha +traslao em torno do vacuo universal? O aneurisma cresce, avoluma-se, +rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a frma de uma esphera, um +globo pequenino de vivos, na lucta pela existencia. Vai arrebentar, +latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que nunca +me illudi com a esperana da cura? Illudi-me, mas antes de todos... + +--Quem est vivo, Ormindo, ainda no est morto, e toda a cura plausivel. + +--A tua dedicao cega. Desde que adoeci, desde que sobre o corao +senti a formao mortifera do mal circulatorio, certifiquei-me estar +mais longe do mundo do que do nada. E deste momento para c, que fiz +para denunciar que creio na cura? Ao contrario, a minha vida tem sido a +chamma de uma vla a luctar com o spro das auras. No ha um +instante em que no me morra uma alegria, em que no nasa uma saudade. +Em torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa +teimosa em torno de uma lampada. + +--Aggravas-te, Ormindo! Cala a bocca por piedade! As tuas palavras so +outros tantos punhaes que me sangram o corao. + +--Que horas sero? + +--J noite. + +--E os medicos que no vieram? + +--Vieram, sim. Tu estavas dormindo. + +--Os medicos no vieram, no... At a minha esposa conspira contra a +minha existencia... + +--No pesas as tuas palavras, Ormindo. + +--J sei de tudo. Perderam a esperana, abandonaram-me. No passarei de +hoje. Estou condemnado a horas. + +--Descansa um pouco. + +--Descansar, agora, s de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e +parece-me que foi hontem tarde que nos vimos pela primeira vez. Um +sonho s vezes tem existencia mais real, porque nos acompanha do momento +da concepo em criana ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me +o ar... + +--Assim queres! Falas tanto... + +--Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: no ha rio que no chegue ao mar. +Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas +consegue... Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez no te +lembres mais do meu enfeitiamento; no me esqueo eu do sorriso unico +com que festejaste o nosso encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh! +que lindo luar te prateou as pupilas, te diademou os cabellos e te +banhou luciferamente as espaduas! Mezes depois, o cazamento... A noite +de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso amor insatisfeito sempre +para accordar novas caricias, para fomentar alegrias... A esperana de +um filho... O reco da esperana... E tudo isto acabar quando mesmo +principiava?!... + +--No temas a morte: um cerebro que pensa como o teu d confiana na +renascena da vida. + +--A alma no morre, Doca! ella quem esta vivendo agora. Os pulmes +fraqueiam, o corao tem espasmos, a viso escurece-se, a voz +arrasta-se, mas o cerebro pensa... Crs tu que, porque no falam, todos +os moribundos no pensam? Illudes-te! a hora de maior pensamento. S +recompr todo o passado afim de o ligar ao presente e encerrar o +circulo das sensaes mundanas, pensar robustamente. Um moribundo que +eu vi, no tinha a fala. Os membros eram paralyticos, os olhos +envidrados e photographavam a luz do dia para a eternidade... Pois bem! +esse homem assim amortecido, repelliu com o gesto brusco de uma perna o +supplicio de uma injeco nos ultimos instantes... Acaso, no pensaria +mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros ha que conhecem at o +segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser tocante o +adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um +agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecer mais +no extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro +mundo... Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que no falo certo? + +--No me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperana +illuminar-me o rosto... + +--Como s amante?!... Quererias de corao e de alma, com todos os +affectos e vontades, a minha cura? + +--Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado sade. + +-- bem pouco um desejo! + +--Duvidas que todas as minhas foras funccionam s na inteno de +possuir-te novamente so? + +--No duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a +prolongao de minha tortura... + +--Aborrecer-me eu!... + +--E ento?!... + +--Tens coragem! S me representa que gravars na alma uma eterna +desconfiana da amizade de tua esposa... + +--Isto no! + +--Pois parece, Ormindo! + +--Neste caso, escutas-me com agrado? + +--Sim. + +--Posso falar? + +--No. + +--Ah! j sei... a mesma quesilia de que falar um desperdicio de +foras organicas... + +--Diz o doutor... + +--Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro +conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar +num terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido s intenes +animaes dos homens, a equao da mulher perigosamente diversa. +Virgem, ella tem a expresso de um sonho; esposa, representa uma +realidade; e viuva, ella uma alma em que se derramam os mananciaes +copiosos da luxuria humana... Virgem, fste uma criadora; esposa, uma +inspiradora; viuva, sers, em nome da honra de teu marido, uma +redemptora... Ai!... Dem-me os pulmes... Morrerei, porem, com todas as +sensaes... + +--No morrers, Ormindo! + +--So os teus votos? + +--Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda +no instante derradeiro? + +--No duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz. + +--Pois ento?!... + +--D-me a tua mo... + +--Ests frio! + +-- a gelidez da morte... No tardar... Fazes-me um favor?... + +--Se o fao... + +-- para depois de minha morte... + +--Juro-te. + +--Mas, responde franca e precisamente, para que eu no succumba com uma +duvida... + +--Pede o que quizeres... Pede... no!... ordena! + +--Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se no me derrubou de vez, +vai invadindo-me com o glo de seu halito das extremidades para o +corao. Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez um +despenhadeiro. Peo-te em nome de minha tranquillidade, que te cases, +immediatamente, afim de que no paire uma s nuvem sobre a limpidez do +teu e do meu nome... Casars logo... Peo-te... o ultimo sacrificio em +prol do teu defuncto... + +--Intranquillisas-me, Ormindo. + +--No ha razo para isso. + +--Se tu mandas... + +--Mando, no; peo... Agradar-te- Eloy? + +--Queres, Ormindo, a verdade antes da morte? + +-- isso... + +--Pois bem! O que tu propes j estava assentado entre ns outros... + +......................................................................... + + A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um + grande esforo e se salva com o despedaamento brusco do myoma + desconhecido, do assassino erro de diagnstico... + + + + +A HUNGARA + + +A HUNGARA + + Commodo de hotel. Um fco electrico esverdinhava o azul papel das + paredes. + + Revolvido, o leito denunciava em duas cvas a presso de dois corpos + que nelle se afundaram. + + SARAH, a hungara, recebia GUANABARINO, o chronista theatral, com um + estridente signal de contentamento... + +......................................................................... + +--Aqui estou. Nem sei como acertei. + +--Ests apaixonado? + +--Crs, Sarah, que paixo desponte como um sorriso? + +--Quem te disse o meu nome? + +--Li-o nos programmas. + +--Ah! sim. Gostaste do meu canto? + +--No te ouvi. + +--Como te agradei? + +--Pertencendo a outro. A mulher sem dono custar a topar com um amante. +Rolar uma eternidade como a pedra que no cria limo... Tenha um amante +e dezenas surgiro... + +--Como elle experiente! + +--Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por +Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo brao delle, no teu longo +_manteau_ de sdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo +dezenas de mulheres no Caf-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o +canariar de suas vozes; francesas, que arrebatam com o _savoir-dire_ as +malicias mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus +sapateados; americanas, que lembram bugios nos saltos do _cake-walk_... +Todas so-me indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com +cocottes para todo o mundo... De comeo estive tentado a emprehender uma +_mnage--trois_ com uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo +prohibido e vivia aferrolhado concupiscencia de seu proprio pae. +Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente +encontrei-me comtigo... + +--Ladrosinho! Como elle sabe contar! + +--Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu +amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de +amigos attrahiu-me e a attraco de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um +cumprimento com a cabea. No me teres sido apresentada, significou que +o teu galan zelava de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho +de seu progresso na sabedoria dos olhares que as pessas cultas pdem +trocar. Viste como te comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho +para o _buffet_? Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo +de junto de ti e como tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro? +Na sombra dos ps da meza, os nossos corpos se trocavam desejos nos +encontros, animavam-se tambem com os promettimentos mais claros, e as +nossas carnes se queimavam por detraz dos tecidos de nossas vestias. +Tudo isto, porem, ainda no paixo. um grito do instincto animal. S +nos no apaixonaremos se no quizermos... + +--Como sabes a vida! + +--Precisas prender Gustavo. A epoca das melhores. O dinheiro passa-lhe +pelas mos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque, +alem do mais, um amante que, por fora de ter mulher e filhos e morar +longe, te dar muito tempo aos amores furtados. + +--No os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo no +se tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e s o +trahi uma s vez: com o pae de meu filho. Gsto de um amor s, de ter um +dono e de ser cubiada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso, +o Gustavo no me agrada... Prefiro-te a elle, sers o meu amante... + +--Errars se assim preferires, Sarah. No tenho posses para te manter, +ao passo que o Gustavo... + +--Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho +para o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero... + +--Neste caso ficars com elle... + +--Porque ento? + +--Conheceste-o primeiro. + +--No importa isso. A elle conheci na manhan, a ti noite, ambos no +mesmo dia. Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra. Encaminhou-me +do hotel, e... m recommendao tem dado com os multifarios obsequios, +com os gastos e as gentilezas, smente com essas coisas... Ora, uma +mulher como eu, ou quer o homem, ou no o quer... De minha parte +dispenso as galanterias... + +--Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispres de sua +bolsa... + +--E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor... + +--L com isto combino eu. + +--Assim, v que seja e comecemos... + +--Que tenho eu para tanto me olhares?... + +--Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes +so dois vulces. Como te chamas? + +--Guanabarino, um nome difficil. + +--Como? + +--Gua-na-ba-ri-no! + +--Gua-na... + +--... barino. + +--Ah! sei. Guanabarino. a primeira vez que ouo esse nome. s brazileiro? + +--De corpo e alma. E tu? + +--Filha do sul da Hungria. Vim creana para a tua terra. Fui noiva, +aprendi a cantar com um meu amante e vivo disto... + +--Tens percorrido meio-mundo, hein? + +--No: conheo a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia... + +--Dize outra vez esse termo... + +--Reminiscencia. + +--Que lindo! Parece-me, Sarah, que ests a dar uma serie de beijos... + +--Como elle ardente! + +--De verdade? + +--A tua alma est fugindo-te pelos olhos... + +--Junto de um espirito como o teu, como ella no querer a transfuso +carnal? J notaste o frio que regela as mos do homem emocionado junto +da mulher que o escalda?... + +--Ih!... Que glo! + +--Sabes explicar? + +--No. difficil? + +--Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao corao. As +extremidades resfriaram-se. Tudo isto j comeo de paixo... Falaste +nos meus olhos! E os teus? So capazes de comprar o mundo com um s +relance. + +--Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento? + +--Que graa! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas +gentilezas. + +--Tens gozado tanto? + +--Inda perguntas?! No sabes que o amor se fez para os temperamentos +tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um +desejo para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda +hora: sinto que todo o teu sexo no seja uma s mulher para esta ser a +minha amante... + +--Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino! + +--No. + +--Desmentes o que asseguras. + +--J tiveste o teu quinho. + +--Como assim? + +--J te possuiu o Gustavo... + +--Juro-te que no. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja +revelada, ainda no desejou... + +--De facto? + +--Juro-te eu. + +--Ao depois delle... nunca! + +--Mas, porque? Mettes-me medo... + +--Por nada! O Gustavo um homem para se temer... + +--E porque me infles para ser a sua amante? + +--Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu +concubinato bem pdes usufruir grandes proventos. E, j agora te direi: +pouco mais far elle do que hoje... Entretanto, como homem de +recursos, talvez ainda no te dsse a menor prova do que seja... + +--Fez-me hoje a oblata de um collar de libras... + +--Um collar? + +--Sim. + +--De libras esterlinas? + +--Conheces? + +--Acho que no. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos... + +--Foram presente. + +--Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros +meios que no esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe +aqui... + +--No amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de +_chanteuse_. s vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a +primeira a no regeitar o que me do. Um deputado deu-me este annel... + +--Adoravel! + +--Um advogado, ao depois de uma perseguio de mezes, para eu o receber, +offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho +aquinhoou-me apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio, +outras... + +--Muito em cheio, Sarah! + +--Tu falas? Um mineiro, hoje desesperanado de conseguir a minha +retribuio, deu-me estes correntes para atilios... + +--Que lindas frmas! + +--Mostro-te apenas os atilios e no as pernas... + +--E eu vejo tudo! admiravel como o _fraise_ das meias se destaca no +gsso das tuas pelles... + +--Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me +cubrissem de oiro tenho tido s carradas... mas, um s que me dissesse +coisas to lindas, nunca tive... A palavra inescutada tambem uma joia +preciosa. E para retribuir tantas distinces ineditas s um beijo de +muita paixo, s um beijo... + +--Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e dste mais de mil... + +--Longe disto, tu no me recompensaste com um s... Reparei bem... + +--Desculpa. Mas, quando sou beijado, no beijo. Esta caricia deve ser +sempre espontanea e impagavel. E eu no commetto a grosseira +sensualidade de pagar uma caricia... + +--Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan... + +--Com todo o fervor... + +--No te enciumas? + +--No. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de +ouro que elle te der. + +--Queres ver o collar de hoje? + +--Verei. + +--Elle me prometteu para amanhan um relogio e um corrento. + +--Aproveita, Sarah! Gustavo desperdia dinheiros de herana... + +--Vs tu o bello collar? + +-- lindo!... Elle t'o deu? + +--Sim. + +--Esta joia? + +--Que significa o teu espanto? + +-- que este collar ... + +--Falso? + +--No! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo... + +--Agora minha! + +--Ests no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos... + +--E s a ti amarei, Guanabarino!... + +......................................................................... + + Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de + GUSTAVO evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando o + silencio somnolento do casaro do hotel, a figura caprina de um mal + conhecido visinho de quarto... + + + + +DEPOIS DO COMETA + + +DEPOIS DO COMETA + + De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, ALEXANDRINA + ergueu-se da _steeple-chaise_, e beijou a mo da velha senhora D. + CAROLINA, que acompanhava MIMI, naquella matutina visita de nupcias. + + Ao depois, como duas flores de uma s haste separadas para sempre + que se reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braos + a figura da amiga e beijaram-se fartamente. + + De outro lado, ARTHUR, o novel esposo, enfardado no seu dolman de + brins brancos, cumprimentra, ceremoniosamente, a DONA CAROLINA e + com um sorrizo prazenteiro applaudiu as bregeirices de MIMI. + + Esta e ALEXANDRINA, ao depois de affaveis cumprimentos geraes, + confidenciavam numa janella, por detraz de arrendadas cortinas, + onde se foram acastellar para a permuta de segredos... + +......................................................................... + +--A que horas despertaste? + +--Nem sei mesmo... + +--No possivel. + +--Palavra! + +--Ento ferraste no somno, e... + +--Ao contrario: no durmimos. + +-- exquisito. + +--Como te enganas! No calculas o que seja a estafa de um dia de noivado. + +--O dia mais bello da mulher... + +--Parece-te? + +--Esta ba, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: no te +sentiste extraordinariamente feliz? + +--Ah! sim... Casei-me por meu gosto... + +--Olha que j me pareces outra com tanta sisudez e seccura... + +--No , Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. +preciso que no me tenham na conta de alguma leviana: j hoje em dia, +minha amiga, tenho segredos que te no posso falar... + +--Prohibiram-te de dizer-m'os.. + +--No! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alterao na vida de uma mulher +que se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida +conjugal, que nem sei como me reconheceste hoje... J viste, no +craveiro, o botosinho verde; o caslo de folhas, como, na manhan +seguinte, est um perfumoso cravo, uma flor distincta? Se te dessem as +duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o facto como inveridico... + +--Mas eu te vejo a mesma boniteza... + +--Sim! questo de alma. Suppe que adormeceste no comeo de uma viagem +e que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo +seria o mesmo, a tua lindeza no seria transformada, mas o teu corao +palpitaria diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As +tuas amigas ficariam noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso +que regressasses ou que ellas viajassem para onde fras. Assim no +cazamento: viajei para muito longe de ti. Para nos irmanarmos como +dantes, ou voltarei minha immaculabilidade de hontem, o que seria +impossivel, ou tu ascenders ao matrimonio para o que fao votos. + +--Tens razo! + +--No te parece? + +--Falas e procedes to judiciosamente que no me atrevo a duvidar das +alteraes por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o +cazamento para no me esquecer to depressa das intimidades com as +minhas amigas... + +--No me esqueci. s injusta! No te darei novas confidencias: as +velhas, entretanto, ficaro acariciadas como um sonho de felicidades na +vida de uma mulher inditosa. + +--Pois pensei que me dirias tudo... + +--Tudo... qu? + +--Ora! + +--Denuncias que pensas em algumas coisas que no so veridicas, ou, pelo +menos, no o foram para mim. + +--Foste differente das outras! + +--Offendes-me. + +--No te offendo, no. Desconheo-te. + +--Que quererias tu que eu te falasse? + +--No sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses. + +--Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha +com um olhar seriamente investigador e tua me franze o sobrolho para +mim... Um ha de suppr-me indiscreta para te communicar tolices... +e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras... + +--No! Deixa... + +--s m! Tens talento e no queres comprehender a minha situao, +especialmente no dia de hoje. + +--J te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres... + +--Amas sem razo. + +--Com que direito a planta exige vio da flor que j foi colhida? +Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre ns duas existe a alma do +sr. Arthur... + +--No exaggeres... + +--Pdes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirs delle tambem. Os +meus sero contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo, +porque no deve haver um conhecimento novo que no pertena a ambos: os +delle... morrero comtigo, porque no deves trahir tua f conjugal... + +--s incondescendente! + +--Sim, sou incondescendente na verdade das cousas. + +--Em parte, minha amiga. + +--No. Em tudo. + +--Veremos. + +--Pois experimenta! + +--E se eu te provar? + +--Pago-te com um beijo... + +--Oh! Pois ento a mulher que se cazou pde beijar outra pessa que no +seja o seu esposo? + +--Deste modo, Mimi, no chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha +conversas... O que te conversei at hontem, no conversarei jamais com o +meu esposo. O que te converso agora, no conversarei jamais com a tua +maman. Beijos!... Os que te dou so da ordem dos que sempre te dei... + +--Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias. + +--No sei se smente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei +quantas tem... + +--Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes +ou no ao teu marido? + +--Conforme. + +--No caso de dubiedades. Dizes ou no? + +--Se fr s do teu interesse, no. + +--Fao-te justia, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao +falseamento agora, smente agora, do teu dever. Contars tudo o que te +disserem, ou sers uma perjura na f conjugal. Eu mesma duvidaria +de tuas intenes, se occultasses do teu marido o menor acontecimento +que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de +descobrir sempre esse interesse que no exclusivo da pessa que te +fallou, para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de +parte, e affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres... + +--Dou-te razo, minha amiga. O mundo esse mesmo e no serei eu quem o +modificar. + +--Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva! + +--Achaste? + +--Encantadoramente bella! + +--E tu me viste? + +--Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem porta da +igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja. + +--Era a ultima nota do meu pudor de virgem! + +--A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro +assentou-te a grinalda como uma cora de rainha. Agradou-me a tua +elegancia. E, porque no te censurar? s no gostei de trazeres os +olhos humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar esplendido. + +--Lisonjeira! + +--Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multides que se +dominavam com a curiosidade de ver-me... + +--Tens razo. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem +saber que... mais tarde... + +--Dize... dize... + +--Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais +algozes... + +--De vras? + +--Sim, minha amiga! No calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh! +Digo-te de mais! Perda se te offendo... + +--Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que, +ainda ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu? + +--Guardei-o j para offerenda a uma Santa. + +--Quem t'o tirou? + +--A maman... Arthur conversava no salo com o pap e dois amigos +retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem j era alta hora da +madrugada. Duas ou tres, no sei. + +--E o teu vestido? Era primoroso... + +--Est no _armoire--glace_... + +--Muito amarrotado? + +--No. Quando o despi... chorei! Como que uma mulher s se veste to +bem uma vez na vida?!... + +--Choraste, Alexandrina? + +--Sim. + +-- de mau agoiro. Dizem que morrer primeiro aquelle que chora... + +--No sabia. + +--Nem que morrer antes do outro o que se deitou por primeiro? + +--Tambem no! E por isso tambem serei eu quem morrer antes... + +--Ah! j estavas deitada quando elle appareceu na alcva? + +--Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mos, tratou do +successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada, +desde as asperezas do juiz cazamenteiro, at s melifluidades de voz do +sacerdote, quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal. +Recompuzemos a sociedade que aqui esteve. As dansas, o servio de +_buffet_, a ceremonia do ch... Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa, +eu lembrava outra. Sorriamo-nos, commentavamos, com seriedade, as +incorreces dos outros... + +--E o tempo se passava... + +-- exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. No sabes, porem, +como foi opportuna a nossa conversao. Quando extremecemos, ouviu-se o +tiro das cinco horas... + +--E ento? + +--Arthur lembrou-se do cometa... J o viste? + +--Ainda no! + +--Pois bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada +do meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi... + +......................................................................... + + Interrompidas por DONA CAROLINA, MIMI e ALEXANDRINA, dando-se as + mos, nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na + conversao commum... + + + + +AMORES NO CLAUSTRO + + +AMORES NO CLAUSTRO + + Um ar tpido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos, + instigador do sensualismo mais humano e menos animal, era o + excellente conforto da cella de FREY PATRICIO. + + Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de + dedos enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro + e o seu affectuoso irmo de ordem, FREY THOMASIO, palravam + gostosamente de coisas alegres... + +......................................................................... + +--Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resoluo +improvisada... + +--Pois eu, no! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e no +venci: fui derrotado. + +--No posso crer facilmente. + +-- a verdade, irmo Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no +sepulchro. Para aqui trouxe o meu corpo, e, l fra, borboleteando, sem +parar, a minha alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella +animava. Emquanto moo, nas minhas preces s o nome de uma mulher viava +triumphante... + +--Tambem a mulher... + +--Sim. Preconceitos, preconceitos! A barona estulta de uma familia +asphyxiou sem d a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje, +tremo de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre +hymnos e bemdies, tel-a-ia levado, no cova, sublevando-se contra os +pais, sim ao hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem +cuidados naquillo que outros apreavam--a feeria dos titulos +nobiliarchicos--vivemos apenas pelas suggestes do sentimento que nos +venceu... + +--Os teus labios tremem, irmo Patricio, as tuas pupilas se inflammam e +olham por sobre ns para tempos bem distanciados... + +--Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingana que exerci +contra mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia +ainda, mas respirando bales de oxygenio. Artificios da sciencia! E +tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo, naquella +tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do +esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A +vista annuviou-se-me e, balouadas pela briza, as rendas do esquife me +disseram um adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenos muito +brancos, molhados de lagrimas... Succumbi deante da falsa viso e +esmaeci... debruado sobre aquelle leito, onde chorei incansavelmente +irado--Deus me perde!--como o mais pecador dos homens... + +--Tanto poude o amor! + +--A mola do mundo, Frei Thomasio, a mulher. No ha um burel aqui +dentro que no seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem +corriqueira e profanamente os francses, _chercher la femme_... Por +ventura no professaste como os outros? + +--Sem tirar nem pr na cauza. + +--Sempre assim. + +--Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu +entre os outros homens e te elegeu o seu preferido. + +--Ah! por certo. + +--Quem me dra! + +--E que te faltou, Frei Thomasio? + +--Justamente o amor. + +--Intrigas-me de vras. + +--Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei +mocinho? + +--Se me lembro!... + +--Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era +menino, e se me dissessem que o heliantho foi obra da preteno e do +desabuso de Hephaestos querendo, como um Deus, criar ses e mais ses, +todo o credito eu daria, porque no tinha discernimento para me salvar +das tentaes humanas... + +--Que so as verdadeiras tentaes da serpente no Paraiso... + +--Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o +carreiro que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas +e ramos para sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambies +de saber... Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as +primeiras cousas de amor... + +--E no lias o _Cantico dos Canticos_! + +--Ah! no! Fui sabendo que, como Eva fra criada para acompanhar o +primeiro homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os +arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com +olhos de escaldo... + +--Que magano! + +--E no peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas +amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o +cortejo dos mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras no tinham +as calenturas de um amor, ella abrasava na abundancia das pretenes +exaltadas: todos porfia lhe disputavam a preferencia... Tolamente eu +era conduzido entre os fascinados pelo olhar da mooila cortejada. + +--Estou vendo que eras o preferido... + +--No sei, porque no tive capacidade para aquilatar, bem como porque--e +daqui se originou a minha principal historia--troquei logo essa +espectativa de amor bem aventurado por uma effectividade de amor bem +triste... Mas sei que os olhares dos meus velhinhos cahiam sobre ns +dois como punhados de olorosos jasmins, quando elles nos viam, quaes +dois noivos conscientes, em falaes na varanda arborisada de nossa +caza, amorosamente illuminados pela lua... + +--Bem feliz que ias para a vida entrando, irmo Thomasio? + +--Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a +minha desdita foi ella a que mais lagrimas chorou... Ora, se a intuio +de amar crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais +fulgentes e chispantes, me sensualisaram todo e a carne arvorou-se em +maior do que o sentimento... + +--O pecado! + +--Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, s vezes +ainda peiando cigarras e apedrejando, com rudes instinctos, os +inoffensivos gaturamos, fui prendendo-me s ardencias das esbrazeadas +pupilas de uma mulher facil... A principio, quando o seu olhar incidia +sobre mim, eu cerrava os olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer, +pensava nas ternuras da outra. Nada mais. Os dias repetiam-se e as +scenas mudavam-se, crescendo as investidas e diminuindo a resistencia. +Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da aggressora, eu sentia +uma purpurido nas faces, mas incolume proseguia o meu caminho... Mais +tempo, e duas, tres, quatro vezes, voltava-me para trocar sorrisos... Em +caza, a presena da outra, comeou de aborrecer-me. noite, por sobre +as paginas abertas dos meus livros, dansavam cabrioladamente as imagens +das duas mulheres. E eu me decidia fragorosamente pela menos +conhecida. Um dia, notei que os labios da extranha se moviam. Nada +percebi, no entanto. Que ella falava, eu estava certo. Nas passagens +seguintes, com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo exquisito. Duas +syllabas apenas, e, se no te offendo nem abuso de tua condescendencia, +irmo Patricio, dir-t'o-ei j... + +--Fao mesmo questo de sabel-o... + +--J que queres ouvir-me, continuarei... + +--Contina... + +--A deslumbrante mulher dizia-me apenas: Tico... + +--Ol!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocabulo... + +--Nada sei explicar-te, Frey Patricio, seno que corri os diccionarios +dos meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo +convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo +investigador, depois de algumas pesquisas fra da convivencia dos +collegas, soprou-me segredadamente: _Tico um convite... E quando +ouvires, responde taco..._ Corei deante da revelao e maldei de tudo. +O meu primeiro impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me +furtar s seduces de Almira... + +--Que bello nome, e lendario! + +--Tive, porem, de ceder contingencia dos factos. No era possivel +andar por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti +da ideia e affrontei a tentao. Com o tempo fui cedendo. E, um bello +dia, como se diz l fra, escorreguei... Tico!, disse-me ella, e eu +lhe oppuz murmuradamente quasi: Taco! Em resposta, ouvi: Amanhan! +Que noite, Frey Patricio! Se ha caldeiras para queimar almas, ns as +experimentamos quando fazemos a espera de alguma coisa. No durmi, +confesso. E, para encurtar as razes, s acordei, effectivamente, +quando, advertido por ella de que l iria chegar o seu homem, me vi +escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse +esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que +cresceram e motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que +creatura perversa! Foi s bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho +animal me arrancou de debaixo das pilhas de saccos, s bastonadas, Frey +Patricio... + +--Ah!... ah!... ah!... ah! + +--No rias, Irmo! + +--No te zangues, Frei Thomasio. No me posso conter... A tua historia +alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!... + +--Nem sei como de maus tratos no me acabaram naquella hora furiosa... E +quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais! + +--Pudra!... Ah! ah! ah! ah!... + +--Alis, no foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido j, e +voltando aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia: +Taco?... e eu a repellia instinctivamente... Nem tico, nem taco... +nem l dentro do teu sacco... + +-- ba, ba!... Ah!... ah!... ah!... ah!... + +--Em seguida... + +--Sim... + +--... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos +conhecidos me estygmatisava com o escandalo, e soffri, abrazadoramente. +Ninita, escandalisada com a minha quda, definiu-se por outro, que a +recebeu como esposa perante Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim +mesmo... O mundo era um tedio... Ento pensei no vicio... + +--Mizericordia! + +--Mas, no era?... Para abafar uma mizeria moral, s outra maior... ou o +passo que dei... + +......................................................................... + + A bronzea sineta da confraria, no se retendo na misso avisadora, + chamava a Ordem para a humilde refeio da noite. + + E quando FREY PATRICIO chegou ao salo, na companhia de FREY + THOMASIO, j se liam, emphaticamente, as consoantes oraes da + hora. + + + + +A CONSULZA + + +A CONSULZA + + De _maillot_, apenas, arrebicando as faces diante de um espelho, + NINA, a bailadeira, tinha um milho de pensamentos banaes no cerebro + ardente. + + Os traos da sepia e os rebordos do nanquim, j lhe accentuavam a + grande vivacidade do olhar, e o p de arroz attenuava e embellecia + as cres roseas do rosto criadas pelo carmin vencedor. + + Uma vez por outra, deixava de conformar-se, para attender aos + appellos da porta, de onde, sem deixar ninguem penetrar, voltava + enfastiada com as iteraes de extranhos. + + Esperava OCTAVIO: era o _aimant du coeur_, porque o CONSUL, o + velho francs, pelas suas funces representativas, evitava + aquelles encontros mais notorios... + +......................................................................... + +--Nina? + +--Quem bate? Octavio? + +--Elle, sim! + +--Entra, meu rico amor! + +--Fiz-me esperar, hein? + +--Nem tanto, mas eu tenho a regalia de poder cheirar-te as vestimentas +para saber se tiveste o contacto do corpo de outra mulher, de +vistoriar-lhe o casaco, para descobrir ahi os fios perdidos dos cabellos +da que me logrou... + +--Descansa o teu corao. Vivo inteiramente para ti. E emquanto estou +longe do teu olhar, sou como o barro que espera, ardorosamente, a toda a +hora, a plasmagem do artista. Por elle, passam e voltam, vo e tornam, +todos os profanos: mas elle no menos monopolisador de sua +plasticidade do que uma flor do gnomo que s abra a horas certas... + +--No sabes? O Consul pediu-me a noite... + +--E deste-lh'a? + +--Nem sei... + +--J me toma os dias inteiros... Entra agora pelas noites... Que horas +sero as minhas? + +--Todas at. Aturo-o porque tu consentes. + +--Exactamente. Mas elle vem a prejudicar-me se continas a no se +satisfazer com o que lhe ds. s vezes, l para as tantas do dia, penso +em ti. O brazido abre em chammas ao menor sopro. O incendio alastra. +Quero remediar-me e soffrer a caricia dos teus beijos anti-incendiarios. +Vem logo a certeza de que o Consul te frequenta o dia inteiro. Esmoreo. +Abomino-me e espero confiante o prazer da noite. Tenho sido certo e +insubstituido. De agora por diante, nem mesmo nas noites poderei +confiar. Ao amante nunca lhe ds demais. Se te pede uma hora, d-lhe +meia, se te pede um dia, d-lhe horas, se te pede uma noite, d-lhe um +dia, e reduze sempre as suas pretenes. Ao contrario, todo o tempo ser +absorvido. E, quanto ao mais, espera-te hoje a ventura. Vais dormir com +o Consul... Estou libertado... + +--Oh! no! Que succede Octavio? + +--Nada. No estorvo os teus anhelos. Leva comtigo o Consul. D-lhe o meu +lugar, mas dize-lhe, ao menos, que no me occultaste a entrada +delle no leito que deixo vasio... + +--Espera um pouco que te falarei melhor. s acabar de toucar-me... + +--Careces de mim? + +--No me aborrece, Octavio! + +--Pensei sempre que valhesse mais do que todos os outros teus amantes. +Vejo, entretanto, agora, que um existe mais poderoso ainda do que todos +ns reunidos... + +--Vale a pena a descuberta. + +--Desmente-me, pois. No tens um amante que preferes ao Consul, um +amante deante do qual te esqueces mesmo de mim? + +--Dizes-me coisas extraordinarias... + +--Contesta a existencia desse outro amante omnipoderoso, que motiva +teres-me deixado no exilio deste divan, na semi-obscurido de teu +camarim... + +--No s amavel. + +--De mais em mais se confirma o que te digo: nem tens animo, por causa +delle mesmo, para contestares o que te affirmo de um modo to +categorico... Digo-te centos de coisas e nada te abstrai desse amante +unico... + +--Agora, sim! Dei um ultimo retoque nos meus preparativos de scena... +Que te pareo de _maillot_? + +--No trato disto. Refiro-me ao teu poderoso amante. + +--O Consul? + +--No sabia que este seja poderoso. Mas no a elle. Ao outro, deante +do qual te esqueces de mim, do Consul e de alguns menos e mais cotados +do que ns outros... + +--Amante? + +--De certo. Negas que no te absorve elle mais do que qualquer de ns? + +--Nego. + +--Contestas que exista esse amante? + +--Juro-te mesmo. + +--V l que no me enganas... + +--Quem ser, Octavio? + +--O teu espelho... + +--Aceito a graa. Em troca, porem, vais dizer-me o que julgas de meus +trajos em _maillot_?... + +--Julgo mal, porque te acho parecida com uma lebre a quem cortaram cerce +todos os pellos... Assim muito delambida, muito escorrida, muito +masculina... + +--Tens espirito. + +--E fui franco do modo que tu me pediste. Veste as rendas, sobrepe as +sedas, ou tira o _maillot_. Se vamos ao mundo, todos os atavios, todos +os _soutaches_, applicaes e _manteaux_ sero poucos; se ficamos +aqui, o menor fragmento de tecido mais fino, ser demais... Ou o extremo +enroupamento, ou a extrema nudez... + +--Figuremos duas hypotheses. Se me visses enroupada, com um luxuoso +vestido, de muitas rendas, muitas fitas, muito decte, muita joia, e +lindo chapeu de plumas, que farias de mim? + +-- essa a primeira hypothese? + +--Sim! + +--Pois bem: levar-te-ia, logo, tua caza para que, antecipando a hora +de tua sahida, o Consul, nem de longe, pelo meu brao, te visse hoje... + +--s digno de um acto destes. + +--Bravura do amor. Agora, a segunda hypothese? + +--Sim: se me visses na, to na que nem uma _charpe_ me velasse as +pomas, que farias de mim? + +--Ah!... Ahi est uma pergunta de difficil resposta, uma hypothese de +operosa soluo... + +--Porque? + +--Porque uma nueza dessas exigiria um leito e sem este tu serias apenas +uma gravura... + +--Venceste-me. Despacharei o Consul. + +--No sou eu quem determina. Passarias uma noite igual s de Bhodis na +companhia de Chrysis... Porque escancellas tanto os teus deformados +olhos? No calculas, assim, a desproporo do teu semblante, lindo como +um camapheu... + +--Procurei ouvir o que se faz em scena, afim de verificar quanto falta +para a minha vez... + +--Queres, saio a ver... + +--No. Chamarei o contraregra. Nem precisa: canta a Solidonia... + +--A pernstica! + +--Deixa-a, coitada! Ainda tenho todo um intervallo e dois numeros da +outra parte. Agora... d-me um beijo, paixosinha! + +--Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulza... + +--Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu +lhe tenha promettido uma noite, quando no lh'a darei por preo nenhum? + +--Ciumes?!... No os sinto dos outros homens, porque nenhum delles +lograr de ti as venturas e as concesses que eu tenho gozado... Nem +mesmo do Consul... Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve +dizer sempre que antes delle provei-o eu. Tenho ciumes, Nina, do +que tu vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que +fitas... Se eu pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus +vestidos. Invejo delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem +confidentes dos teus nervos e das tuas pulsaes. Tenho cimes das +flores que exornam os teus cabellos, porque smente ellas passam o +deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor. Tenho cimes do +fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado entre os +teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te +inebria, porque smente elle atravessa as tuas frmas e vai arrebatar-te +na essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque +smente ella vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo +isto, eu quereria ser o somno que te fecha as palpebras, porque +participaria das felicidades todas dos teus sonhos; a agua que te banha +as frmas, porque desvendaria os immensos segredos e mysterios de tua +belleza unica, e o riso que te doura o semblante, porque teria o dominio +do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do instante magico em que pela +primeira vez nos pertencemos mutuamente? So de vras muito irmans as +almas que tocam meta de uma ventura no mesmo instante... e as +nossas duas... + +--De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o +poder de duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a +inclemencia de Nausitha deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao +amante, no fervor do gzo, entre os teus braos, naquella noite, +Octavio, naquella primeira noite... + +--Desgraadamente, j eu, ento, poderia ter sentido por toda a parte de +teu corpo, o halito bafiento do outro amante. + +--O outro amante?!... Tenho-o, e como se elle no existisse. Tenho-o +porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor, +protestam os meus seios, bem diversos na tua presena do que so na +delle. Deante de ti, as minhas pomas parecem florescer como os +jasmineiros em deliciosas noites de luar, como as laranjeiras em +uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem perdem na seccura e +esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas dos +rochedos... s a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos +labios. Elle o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os +seus desejos... + +--Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher no se cede a um homem +sem a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer... + +--Acertaste. No sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente +procuram por toda a parte o homem e que s ao depois de muitos descobre +o procurado? Quando topei comtigo, j o tinha no convivio de suas +esquisitices. + +--Tu s formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam +divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias! +Quero enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos +amores... + +--Bem sei que os homens todos so uns animaes. Uns, porem, so menos do +que outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que +os cis, nesse mistr, so os equivalentes de certos homens? E que elles +so os seres que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um co... +Os seus labios, como os de Pan, seriam capazes de devorar as +virgindades, se as virgens recebessem os seus beijos... + +--Quero crer. + +-- um libertino. + +--Nada mais? + +-- um extrangeiro... + +--Que importa? + +-- um devasso... + +--E smente isto? + +--Ama como um co, Octavio. + +--E que que faz? + +--Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me +arrastar concesso do prazer que s vige nos seus labios? No te +bastar a expresso do pouco que te digo? + +--Repugnante!... + +--Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante s tu!... Toda esta noite serei tua +como nas demais... + +......................................................................... + + Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus + cabellos de oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de + todas as volupias da terra, como os crnos de Almatheia foram de + todas as riquezas do mundo... + + + + +DE COMO O AVARENTO MORREU... + + +DE COMO O AVARENTO MORREU... + + Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:--uma + enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, MANUEL CARLOS proferia + blasphemias. + + Ao seu lado, a NEGRA, que era uma amante retinta, carnuda e + fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos + cautelosos a agitao do moribundo angustiado. + + Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal + percebido, a principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima + reaco da vida contra a morte. + + Nesta hora, da doena, por entre as chocantes palavras de MANUEL + CARLOS, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim dos seus dentes que + rangiam como uma lima activa sobre um pedao de ferro... + +......................................................................... + +--E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito +dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida um +pedao de ouro comprado com um milho de moedas... A morte uma ladra +que nos furta, para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a +reunir... Sou rico! Digo-o com um cordial prazer. Tambem trabalhei como +uma alma possessa. No houve domingo nem dia santo, que me dssem +descanso, chuva e ao sol, alta madrugada e avanada noite... Rim... +rim... rim... rim... + +--Como elle range os dentes?!... + +--Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as +cavallarias despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como +massas de feno, nos recantos das mangedouras. s vezes, chovia como um +diluvio. E eu, com o corpo quente da cama, cortava o pateo, mettido no +meu capote de lan, e, menos feliz do que os meus assalariados que +ainda dormiam, tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem, +dava-me calor e foras. Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da +Beira, de onde sahi, num dia de inverno, ha mais de trinta annos. Nesse +dia, a avsinha e a mi-Geralda levaram-me at caza do moo que me +trouxe para aqui. Ah! Deus lhe d o reino dos cus, j que na terra eu +nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim... Bella pessa, generoso +ao desperdicio... Que barulho esse que ouo de instante a instante? + +--So os trabalhadores no terreiro. + +--Sahiram hoje os vehiculos? + +--Sahiram todos. + +--Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza. + +--Talvez os cis... + +--No me veiu ver hoje o _Tupy_. Tem sido esse canzarro o meu maior +amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mos. +Por onde andar elle que hoje se esqueceu de mim? + +--Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e... + +--Nem pense nisso: o pobre animal se ladra no morde. Vigia-me a caza e +desconhece os extranhos. + +--Ladra e assusta. + +--Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as +suas lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos. +E sempre tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de +longe mesmo, o tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em +meio de caminho. Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em +fidelidade e presteza. Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim... +rim... Nem sei como se tm feito por ahi afra os meus servios... E +hoje o ultimo do ms. Se no se procurar, a terrivel corja no paga. +Nem tenho uma pessa a quem confie esse servio. Neste mundo s se +encontram gatunos e ladres. Um honesto, como eu, uma realidade rara! +Em tudo fui roubado, at na sade. Dos poucos, das moedas de cobre, os +simples trocos e differenas nas compras, tu te assenhoreavas, porque me +dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dce, uma +fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo +de ter deixado nas tuas mos as economias que deviam ter voltado ao meu +capital, porque delle se despediam para sempre... Rim... rim... +rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!... +Ouo novos ruidos... S me parece que os de agora so dentro de caza... + +--Pois quem seria? + +--Sei l... Ouo coisas que s me parecem na sala da frente. Vai ver se + alguem... + +--Nem precisa. A porteira est fechada, e abrindo-se ella a campainha d +signal. Ao depois, o velho Thom trata na estribaria dos animaes em que +montas... + +--Vai tudo muito bem, mas no me posso conformar com esta vida de +cama. Seis dias de doena, e estou derreado como uma velha mangueira... +Inda assim, considero-me bastante feliz. No devo nada a ninguem. E, a +mim, todos me devem. Depois de amanhan, vence-se uma letra de um +devedor: ha de querer pagar-me os juros de quinze por cento por novo +semestre... Mas elle estar enganado. Se quizer reformar, os juros +crescero. Agora s darei dinheiros a dezoito ao ms... Serviu? Faamos +o negocio. No serviu, passe muito bem... Rim... rim... rim... rim... +Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera de +seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres +annos. Ao depois de vencido o seu compromisso, levou engabelando-me +por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa +amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu no +mettesse advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o +conselho de que poupa e os santos te ajudaro... No ganhei nunca +quatro vintens de que no guardasse tres... No te estou dizendo? Esse +barulho dentro de caza... + +--Desta vez no ouvi nada. + +--Ento, ests surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente +andava. Rim... rim... rim... rim... + +--No sei que especie de gente... + +--Realmente posso enganar-me. + +--J te convences? A esta hora, nem os trabalhadores esto aqui... Ah! +Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros no foram hoje pedreira... + +--Miseraveis! Preguiosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados +deixam de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, um +prejuiso... Rim... rim... rim... rim... + +--Fiz ver tudo isto a elles. + +--E porque no trabalharam? + +--Porque morreu a moa do mestre, e este no veiu... + +--No digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois l +na minha terra, que se sabe trabalhar... L trabalhariam at hora do +enterro. Aqui encontram a razo para muitos dias de ocio. Se eu +estivesse bom, a esta hora teria tocado todos elles para a rua. Rim... +rim... rim... rim... No gosto de vadios. Fui homem que, numa vida +inteira, no teve uma hora de vadiao. Sempre comi de chapeu na cabea +e esporas nas botinas. Por isso guardei meia-duzia de contos. Digo assim +meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas meias-duzias guardei... +Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora? + +--Sim. + +--E ento? + +--No sabes o que foi? + +--No sei... + +--O _Tupy_ que esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e +aos outros mandei pr as correntes... + +--Vai soltar o _Tupy_. inoffensivo, tanta quanto leal e cuidadoso. +Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o! + +--Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avana +sobre elle... + +-- uma prova de lealdade. + +--Que incommoda aos extranhos. Porque no bebes o leite? Queres? + +--Leite?!... Hontem te preveni que leite luxo e que no posso com +essas despesas... Ainda o compraste hoje? + +--O doutor mandou... + +--Rim... rim... rim... rim... + +--Ao depois, em caso de doena no ha desperdicio... + +--Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. o leite, a botica, + o doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das +pernas sou senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem +recostar-me! Tenho kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se +a coisa continua assim... Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um +homem conservado e indisposto para divertimentos. No sei como a minha +sade estragou-se... Vai soltar o cachorro! Os seus movimentos +inquietam-me. J atirou outra coisa ao cho... + +--Deixa o cachorro preso. + +--Pde arrebentar mais alguma coisa, e sero novas despesas para mim... +Que afflio sinto agora! + +--Bebe o leite! + +--D-me. + +--J se devem trinta medidas... + +--Como? + +--Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e +duas tarde... + +--Que desperdicio! No digo! Se levar aqui um ms, o leite, o medico e a +botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me tero reduzido +mizeria... Sabes que mais? No quero mais leite... Supprima-se desde +hoje... + +--E com que te alimentas? + +--Com agua... intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo +em oito dias de cama! No possivel. No sou rico, no! Toca a poupar... + +--Sem o leite no poders passar... + +--Passo, sim! Quem foi que disse que no poderei? + +--O medico. + +--Pois passo, sim. Sem dinheiro que nada possivel. Parece-me que se +combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um +pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim... +rim... Est muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem +sei se tomei poro igual em todo o resto da vida! ter ganho uma +fortuna em mais de trinta annos para acabal-a bebendo leite, +pagando medico e sustentando boticas... No quero mais leite! Rim... +rim... rim... rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella m f e +plano de roubo... Ah!... L se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em +cima: o co preso, por um capricho, para quebrar os moveis e as +louas... Mas, esse ruido que agora ouvi muito bem... + +--Foi a mesma coisa... + +--... no foi l dentro... + +--Foi, sim! + +--Pareceu-me na sala da frente... + +--No cuidars de outra coisa? + +--E que seria o que cahiu? + +--Uma bacia de folhas... + +--No!... no!... no!... + +--Que queres fazer? + +--Levanta-me aqui... + +--Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu s peior do +que um menino... + +--Aquelle barulho... Levanta-me aqui... + +--Para que? no me dirs? + +--Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como +se pegasses num pedao de pau... + +--Assim? + +--Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro... + +--Queres muita coisa tambem... + +--No me fazes favor... No preciso de ninguem contra a vontade... Tenho +dinheiro para ser bem servido, e gsto que me tenham obediencia... + +--Ests muito impaciente... + +--Tira o travesseiro... + +--Prompto. Queres mais alguma coisa? + +--As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... No esto aqui... Bem +sei agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba... + +......................................................................... + + E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer, + minutos depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu + esconderijo, como verdadeiras inutilidades... + + + + + +AO DESPIR UM PIERROT + + +AO DESPIR UM PIERROT + + A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em + que, sem acceder ao somno, CHRISTINA se divertia, mostrando ao astro + lubrico os tons roseos de sua carnao perfeita como se talhada em + marmore rozado e humido. + + Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas vises; mas + soffrendo o conflicto das ideias de uma traio de NARCISO e da + lealdade perquiridora de STELLA, a desaccordada mulher caprichou de + no durmir emquanto a espiona no tornasse do baile fantasia. + +......................................................................... + +--Reconheceu-te, Stella? + +--Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile? + +--No o viste? + +--Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no +baile, e, escrava dessa supposio, criaste todo um systema de +desconfianas, que comearam de traduzir-se, muito naturalmente, +naquella tua phrase. + +--Viste-o? + +--Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? No esperavas esta noticia? + +--Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com +uma pontinha de esperana em contrario, suppuz sempre que no puzesses +os olhos sobre elle. Embora trahida, eu quereria no ser sabedora do mal... + +--Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te no +obstines em aggravar o acaecido. No remediars o mal, no assim? +Pois, corao larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as aces. +Acompanhei-o por toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que uma +_pierrot_ o acompanhasse. Se tu lhe falas, ters de dizer-lhe quem foi +espionar-lhe os passos de homem livre... + +-- o que te parece: livre?... + +--Pois no livre Narciso? + +--Digo-te que no! + +--O teu noivo no tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo +estado? + +--Repito-te que no. + +--Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das +vistas da mulher amada, ficam sendo o que so: homens solteiros... + +--Narciso differe dos outros... + +--Uffa!... Christina!... Vou tirando o _pierrot_ que me acalora as +carnes... + +--O noivado um comeo de intimidades, que se distendem, mais ou menos, +conforme as razes de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado +semi-escuro, onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos +assegurados na nossa posio, com a possivel presena immediata de todos +os de caza, as nossas intimidades seguem uma derrota que me d o direito +de exigir de Narciso maiores fidelidades do que tu pensas... + +--Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o +collte... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda +ordinaria, esta! + +--Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias +das almas passaram s do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais +cedo... Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua, +os seus labios roaram sobre os meus olhos, e os seus bigodes +produziram-me um _frisson_ nas carnes, com o qual eu me teria entregue +ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus +dedos que elle segurava entre os seus, sorriu--um sorriso mais lindo do +que um raio de sol!--e, sem o querermos, talvez, por certo +instinctivamente, os nossos labios se encontraram... + +--V, Christina, como ficaram as minhas calas... + +--Desbotou nellas o setim? + +--Alguma coisa. A cr amarella mais fixa do que a vermelha... Mas, +esto para ser exprimidas... Que sudorifico! + +--Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos so de +um homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo... +Avia-te, afim de que me contes o que viste... + +--Dir-te-ei centos de coisas novas... + +--Appeteo o conhecimento do que sabes. uma infelicidade ter-se um +pae, como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse +que eu fra a um baile publico espionar os desvarios de meu noivo... +Ah!... Como eu seria venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte +que cubio... + +--Nem tu calculas pallidamente o que por l se vive... + +--Apressa-te, Stella! + +--Acaba, primeiramente, o que contavas... No quero perder a ba hora de +confidencias que inauguraste... + +--Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os +contactos... Em seguida, as mutuas confianas, mais um arregaamento +hoje, mais uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe +resistisse, desejou ver-me o comeo das pernas... Intimidades, Stella, +intimidades, proprias, communs e infalliveis entre todos os noivos... +Eram ellas que me garantiam, at hoje, a constancia de Narciso, e, +quando vejo, como agora, que o que lhe fao j se torna pouco para o +prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco mais, sem comtudo +deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as concesses, na +medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores... Conta, agora, +o que tu viste... + +--Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o +corpo quer distender-se nervosamente num leito macio... + +--E onde ficou Alberto? + +--O meu primo? + +--Sim. + +--Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos dois _pierrots_ +da maior sensao! Nem calculas como deliciosa a companhia do meu +primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado +geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos. +Soube corresponder minha excitao, no commettendo maiores pecados do +que me beijar nas passagens mais sombrias das ruas... + +--Invejo-te, Stella! + +--Bem poderias ter ido... + +--Qual nada! + +--Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois no foi? + +--Isto fcil para ti... + +--Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?... + +--No! + +--Ahi est! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que +vissemos... L estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do +baile. Custei a topar com elle. S em meio da festa deparei com elle +numa das banquinhas do _buffet_. Mais de vinte homens e mulheres... + +--Mulheres, tambem? + +--E ento? Tu pensas que haver quem resista solido naquelle cahos de +sensaes extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho, +casado com a Lucinda, l estavam, cada qual com a sua mascarada... + +--Narciso tambem? + +--No te espantes seno se eu te disser que elle era o unico que no +tinha uma mulher fantasiada ao seu flanco... + +--Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei +logo na traio. Aquelle semblante enfarruscado no era sincero... + +--Ao seu lado estava uma _cuyre_ italiana: deves gabar-te do gosto de +teu noivo. No se acompanha de mulher feia. serio... + +--Era bonita a que o seguia? + +--Linda, Christina: _mignon_, alva, loura, e, com um arrebatador decte, +exhibindo um collo mais branco do que um pedao de neve, do meio da +qual, como uma abelha sobre uma petala de gardnia, um negro signal era +tido como mascotte... + +--J agora me penso feliz por no ter ido l. + +--Que teria se tu tivesses ido? + +--No me conteria. + +--Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu +noivo sabe gozar uma mulher. No dirias nem uma palavra, mas lhe +acompanharias a pessa como a sua sombra. Quando no te agradasse +fecharias os olhos. Vi-o, por exemplo, encher a bocca de champagne... + +--Nada mais natural. + +-- o teu erro. Quem no sabe como quem no v. Pensas, ento, que +elle tomou a bebida de dentro da taa? + +--Sim. + +--Pois no! A _divette_ foi quem lhe passou o champagne collando os seus +nos labios delle... Garanto-te que no sabias deste modo de acariciar... + +--Confesso-te que no. + +--Ahi est. Verias a _droiture_ com que o teu noivo se curvou, encostou +nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e +sugou-lhe a entontecedora bebida... + +--Como deve ser bom esse carinho! + +--Ao depois, beijaram-se... + +--Aos olhos do publico? + +--Sim. + +--Ah!... Se eu estivesse l... + +--No farias seno nada. Eu, pelo menos, nessas occasies de grande +excesso, alli mesmo me voltava, e, se no fossem as nossas +mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos... +No conheo, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um +conto de Caliban menos excitante, e um par dansando bem um conto +luxurioso escripto com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto +final de um beijo. Os corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se +entranavam, as mos, servindo de oppressores, estreitavam os troncos e +cada par, assim enlaado, cabea descahida sobre cabea, parecia um +corpo s com a monstruosidade de quatro pernas... Exquisito, sem +igual... Homens e mulheres no se distinguiam na furia dos sentidos... + +--E Narciso dansou? + +--No. Nem todos dansam. parte, pelo jardim e nas mezas do _buffet_, +os que no estavam fantasiados, se divertiam grande, mas um pouco +retrahidos das vistas do grosso publico, porque s no salo elles +escandalisariam... + +--Todavia, vingar-me-ei... + +--Poupa-o, Stella... O pecado divino... Vinga-te em mim... + +......................................................................... + + As duas mulheres, num longo beijo, abraaram-se e confundiram-se, + cada qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente... + + A lua, devassamente, illuminou-lhes, at quando quiz, os seus bellos + corpos de uma semi-nudez pagan... + + + + +A TAVERNA DE MME BERTHON + + +A TAVERNA DE MME BERTHON + + No terrao do Caf Leontina, agasalhados em seus lanzudos + _pardessus_, ODORICO e WENCESLAU, dois typos mundanos, + essencialmente mundanos, conversavam surdamente... + + Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha + de sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares + cupidos por todas as bancas. + + ODORICO enlanguesceu-se, e, como uma reaco, assignalou, assim, a + passagem da exquisita-mulher com uma rememorao cruel... + +......................................................................... + +--Sempre curioso este Caf em materia de mulheres. No vejo esta +Menina Leontina, como a chamam, que no me recorde logo da +infeliz Madame Berthon. + +--E tu, meu caro Wenceslau, s bem a chronica viva de toda a feminidade +desta terra. No ha uma mulher de quem no tenhas informaes, +anedoctas, segredos, sobre quem no lances um episodio de curioso entrecho. + +--No conheceste tambem a Madame Berthon? + +--Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo +ignorado... + +--Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a +inspirao do artista mais rude para produzir uma obra-prima. + +--Alguma divindade incognita... + +--No, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem +a visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e +na temperana dos seus costumes, no diria jamais que era a senhora +absoluta de um corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais +inspirado... No se julgue a felicidade dos fins pelas venturas que +povoam a estrada por que trilhamos. Muitas vezes, um momento de +tranquillidade agora a sementeira de um incommensuravel estado de +attribulaes mais tarde. Madame Berthon despejava invejas a todas as +mulheres do seu conhecimento. Desta caza tirava ella os meios de sua +subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o taciturno aspecto de +seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais ruidosa alegria, +aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum excesso d o +rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma algoz +cambiante de tristeza. Tinha a crte de poderosos pretendentes, mas +decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de +alguem, era, ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E, +se a ninguem promettia, a nenhum negava, e a todos faltava... +Curiosissima mulher! Os seus habitos eram os de uma leviana, mas a sua +alma contrastava com a sua existencia costumeira. Exquisita mulher, +Odorico, muito exquisita, senhora de muitos coraes se tivesse querido, +entretanto escrava de um s que a levou, finalmente, sepultura. +Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia. Um assassinio e um +suicidio... + +--Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas, +em algumas, ha a sementeira de muitos casos fataes. + +--Espera, Odorico, espera. No condemnes a desventurada pelos primeiros +tons de sua historia. Juiz mais severo do que eu, no conhecers, por +certo, para o julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que +veste escandalos, e que escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a +mulher o algoz, parecendo a extrema fraqueza. Neste caso, porem, +Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se crime ella teve, foi o de amar +o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... conjugalmente, porque +nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. s deshoras, l para as +tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares +cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e +recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de +enciumar-se at de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea +to geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de +compensaes: o feio conjugado com o bonito, e reciprocamente, o +bonito com o feio... Dahi a naturalidade daquella unio de Gaspar com a +Madame Berthon. Mais de noventa noites durou aquelle consorcio +espontaneo. Aqui vinha eu, e naturalmente, cortejava mulher +gentil, espionando sempre o amante. Os homens todos, Odorico, +saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril, como os armentios saudariam, +com ardente f, a vinda do outomno, porque a estao das colheitas. Na +manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois amantes, l para as aguas +furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento ouccubo. Visinhos, +espicaados pela anormalidade, attenderam ao que se passava na moradia +de Madame Berthon. Depois de acalorada discusso, durante a qual o +assassino descera as vidraas, cautelosamente, para no ser ouvido pelos +extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento +no interior daquella caza. Momentos aps, Gaspar, conduzindo uma bolsa +de mo, descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia, +meticuloso e tranquillo, trancando s suas costas a entrada no sobrado +em que commettera o assassinato de Madame Berthon. E, como um homem +feliz, l se fra rua abaixo. Quem o visse, no lhe diria o autor de um +crime, muito menos quando, no desempenho de um habito, asseiava os +botins, e olhava serenamente o movimento das ruas... + +--Revolto-me j contra esse perverso. + +--Pois bem! O movel do crime fra o roubo e todas as poupanas daquella +operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava +zelosamente. Em torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos +dois tiros, populares encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito, +arrastando-se como lemures merios em trilhas brancas de areiaes +desertos. Vozes surdas contavam as supposies de um crime; a suspeita +avolumou-se... O rochedo n da desconfiana vestiu-se fartamente com os +ouropeis das espumas brancas dos commentarios. Pelas janellas descidas, +olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios vivos do barbaro +crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse as botas e +penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares +tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presena proxima de um +delegado. Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina +autoridade do seu aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina... +Tudo o mais foi rapido. Num instante abriu-se com violencia a entrada. +Um obstaculo appareceu: a porta estava presa, como que escorada por +dentro. Que seria que obstava o seu movimento? Uma cabea affoita +enfiou-se por uma nesga, e voltou transfigurada, annunciando smente: +Est morta. Outros typos mais curiosos vieram, ageitaram-se e +penetraram com a autoridade. Estatelada sobre o cho, Madame Berthon, +numa nueza arrebatadora ainda no tinha a gelidez dos cadaveres, mas j +era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue escarlate. E sobre +as suas frmas nuas, nada, seno as meias presas com atilios de fitas +rubras, e as pequenas sapatinhas... + +--Que miseria! + +--J conheceste a victima. Dahi por diante a aco foi sobre o agente. A +perseguio popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros +perseguidores foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas +proprias temporas, Gaspar era um suicida... No calculas a impresso que +esse crime deixou no meu espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e +senti que o assassino no tivesse ficado vivo para pagar com a recluso +da vida a barbaridade do assassinio de uma mulher, cujo corpo +esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer austeros +Areopagos... se desvendado fsse tal como eu o vi... E nota, Odorico, +que um corpo morto, por mais bello que seja, menos do que o vivo, +porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que o fluido mais +sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, s +naturezas muito fortes no cedero necrophilia... Ento ella que +possuia um nevo sobre o quadril direito... + +--Sensualizas tudo, Wenceslau! + +--E que que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte, +como tu deves saber, um pedao de sensualismo microbiano... Quantas +fecundaes damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, seno pela +fora dos sexos, baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre +instancia do amor que topars com a absolvio da mulher, e carregars a +mo na dosagem da condemnao do homem algoz. + +--Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido +condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no +senhorio dos homens. + +--E como influiria tudo isto para que Gaspar no victimasse Madame Berthon? + +--Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o comeo +do mundo, e coisa que no se sabe a data da primeira traio da +mulher, de to distantes tempos vem ella. + +--Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa +traio do homem, e formada de uma traio, porque foi necessario que +Ado adormecesse para que Jehovah, trahindo perfectibilidade da sua +obra, lhe tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella no +poderia ser contraria sua origem... + +--s rigoroso demais... + +--No sou, no, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os +dias e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo +e escreveu precisamente: As mulheres tm sido tratadas at aqui, pelos +homens, como passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam +no meio delles: como qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil, +de selvagem, de doce, de arrebatador--mas, igualmente, alguma coisa que + necessario engaiolar para que se no v embora num vo... Que isto +seno o reconhecimento do espirito traioeiro de nossas Evas?... Ao +demais... estamos muito fra dos eixos... Que bebemos agora?... + +......................................................................... + + Fra do terrao do Caf Leontina, solemnemente encapotados, dois + policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta + noite... + + + + +INDICE + + Dedicatoria VII + Epigraphes IX + Nedda 3 + Voluptuosas 17 + O poeta moribundo 29 + O velho medico 41 + Os dois espelhos 53 + O primeiro filho 65 + vista da denuncia 75 + Irado at cura... 89 + A hungara 101 + Depois do cometa 115 + Amores no claustro 127 + A Consulza 139 + De como o avarento morreu... 153 + Ao despir um pierrot 167 + A taverna de Madame Berthon 179 + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Mundanismos, by Almquio Dins + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MUNDANISMOS *** + +***** This file should be named 30413-8.txt or 30413-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/0/4/1/30413/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/30413-8.zip b/old/30413-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..fe02531 --- /dev/null +++ b/old/30413-8.zip diff --git a/old/30413-h.zip b/old/30413-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..67ff471 --- /dev/null +++ b/old/30413-h.zip diff --git a/old/30413-h/30413-h.htm b/old/30413-h/30413-h.htm new file mode 100644 index 0000000..cb515a7 --- /dev/null +++ b/old/30413-h/30413-h.htm @@ -0,0 +1,4713 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Mundanismos, por Almquio Dinis</title> + <meta name="Author" content="Almachio Diniz"> + <meta name="Publisher" content="Frana Amado"> + <meta name="Date" content="1911"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + font-family: sans-serif; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em; margin-top: 0.2em; margin-bottom: 0.2em;} + h1, h2 {text-align: center; margin-top: 8em; margin-bottom: 8em;} + h3, h4 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.centrado {text-align: center; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + blockquote {font-size: small; margin-left: 40%;} + blockquote p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + li {list-style: none;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Mundanismos, by Almquio Dins + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Mundanismos + +Author: Almquio Dins + +Release Date: November 7, 2009 [EBook #30413] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-15 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MUNDANISMOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<p></p> + +<div style="text-align:center; border: double 4px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.2em;">ALMACHIO DINIZ</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">MUNDANISMOS</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">(CONTOS)</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">F. Frana Amado, editor</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">Coimbra. 1911.</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">Composto e impresso na Typographia Frana Amado,<br> +rua Ferreira Borges, 115—Coimbra.</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"> +<p style="font-size: 1.5em;">MUNDANISMOS</p> + +<p>(CONTOS)</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">Obras completas de ALMACHIO DINIZ</p> + +<p> </p> +<ul style="font-size: 0.8em;"> + <li><strong>Contos</strong> + <ul> + <li><strong>Um artista da moda</strong>, Lisba, Jos Bastos & C., + editores.</li> + <li><strong>Sombras de pudor</strong>.</li> + <li><strong>Mundanismos</strong>, Coimbra, F. Frana Amado, editor.</li> + </ul> + </li> + <li><strong>Novellas</strong> + <ul> + <li><strong>A Carne de Jesus</strong>, Lisba, Gomes de Carvalho, editor, + 1910.</li> + <li><strong>O Diamante Verde</strong>, Lisba, Guimares & C., + editores, 1910.</li> + <li><strong>Sonhos de meduza</strong>, em preparo.</li> + </ul> + </li> + <li><strong>Romances</strong> + <ul> + <li><strong>Raio de sol</strong>, Bahia, em folhetins, 1903.</li> + <li><strong>Crises</strong>, Lisba, Guimares & C., editores, 1906. + </li> + <li><strong>Paves</strong>, Bahia, Fonseca Magalhes, editor, 1908 + (Exgottado).</li> + <li><strong>Amen!</strong>, Bahia, em folhetins, 1909-1910.</li> + <li><strong>Duvidas e remorso</strong>, em preparo.</li> + </ul> + </li> + <li>Theatro + <ul> + <li><strong>A Escarpa</strong>, Porto, Lello & Irmo, editores.</li> + <li><strong>Tropheus em cinzas</strong>.</li> + <li><strong>Sazo de luz</strong> (em preparo).</li> + </ul> + </li> + <li>Critica + <ul> + <li><strong>O passado, o presente e o futuro do heleno-latinismo em lucta + com o germanismo</strong>, Bahia, 1903 (Exgottado).</li> + <li><strong>Zoilos e Esthetas</strong>, Porto, Lello & Irmo, + editores, 1908.</li> + <li><strong>Sociologia e critica</strong>, Porto, Magalhes & Moniz, + editores.</li> + <li><strong>Da Esthetica na Literatura Comparada</strong>, Rio, H. + Garnier, editor.</li> + <li><strong>A questo das raas na literatura universal</strong>, em + preparo.</li> + </ul> + </li> + <li>Symbolismo + <ul> + <li><strong>Eterno Incesto</strong>, Bahia, 1902 (Exgottado).</li> + <li><strong>S bemdita!</strong>, Bahia, 1905 (Exgottado).</li> + </ul> + </li> + <li>Lingua portuguesa + <ul> + <li><strong>A reforma ortografica</strong>, Bahia, 1907 (Exgottado).</li> + <li><strong>O evolucionismo morphologico da lingua portuguesa</strong>, + Lisba, Santos & Vieira, editores.</li> + </ul> + </li> + <li>Scientificos + <ul> + <li><strong>Genesis hereditria do direito</strong>, Bahia, 1903 + (Exgottado).</li> + <li><strong>Ensaios philosophicos sobre o mechanismo do direito</strong>, + Bahia, 1906.</li> + <li><strong>A sciencia do direito e as produces espirituaes do + homem</strong>, Bahia, 1907 (Exgottado).</li> + <li><strong>Questes actuaes de philosophia e direito</strong>, Rio, H. + Garnier, editor, 1909.</li> + <li><strong>A objectividade do phenomeno juridico no direito + brazileiro</strong>, em pub.</li> + <li><strong>As formaes naturaes na philosophia biologica</strong>, em + preparo.</li> + </ul> + </li> +</ul> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;"> +<p style="font-size: 1.2em;">ALMACHIO DINIZ</p> + +<p style="font-size: 2.5em;">MUNDANISMOS</p> + +<p>(CONTOS)</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.</p> + + <p style="text-align:right;">A<small>NATOLE</small> F<small>RANCE.</small></p> +</blockquote> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">COIMBRA</p> + +<p>F. FRANA AMADO, EDITOR</p> + +<p>1911</p> +</div> + +<p><a name="dedicatoria"> </a></p> + +<p style="text-align:center;">A</p> + +<p style="text-align:center;">GUERRA JUNQUEIRO</p> + +<p> </p> + +<p><a name="epigrafes"> </a></p> + +<blockquote> + <p>L'art veut imiter la nature. Nous faire prouver les sensations et les + sentiments que la vie nous impose ou pourrait nous imposer, tel est son + premier souci. Le romancier et le dramaturge comme le peintre, le sculpteur + comme le musicien s'essayent faire dans la fiction, comme la vie dans la + ralit. Au fond de chaque œuvre d'art il y a toujours en somme—que ce soit + par imitation troite ou libre vocation—une ralit reproduite de la + vie.</p> + + <p style="text-align:right;">C<small>HARLES</small> A<small>LBERT.</small></p> +</blockquote> + +<blockquote> + <p>O conto, assim desatavado, exprimido, apenas succo e, se no agrada + <em>viso</em>, interessa o sentir. Falta-lhe horizonte, mas o espao, por + isso mesmo, mais vasto, sem empeos: segue-se livremente a aco que a + descriptiva, por vezes, compromette.</p> + + <p style="text-align:right;">C<small>OELHO</small> N<small>ETTO.</small></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1><a name="SECTION00100000">MUNDANISMOS</a> </h1> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.</p> + + <p style="text-align:right;">A<small>NATOLE</small> F<small>RANCE.</small></p> +</blockquote> +<span class="pn">{1}</span> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00200000">NEDDA</a> </h2> + +<p><span class="pn">{2}<br> +{3}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00210000">NEDDA</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Manhansinha.</p> + + <p>A sala, de azuladas paredes seminas, estava pobremente mobiliada: era no + saguo da casa, e as duas mulheres entraram s tontas, at se abrirem de par + em par as gelosias.</p> + + <p>S<small>AUL</small>, de N<small>EDDA</small> esposo, ficra a dormir na + alcova.</p> + + <p>E N<small>EDDA</small>, abysmada com a indifferena delle que apenas lhe + no dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que + D<small>ONA</small> L<small>OURA</small>, a sua me, era uma interprete das + indisposies do genro...</p> + + <p>Num canap, as duas mulheres, D<small>ONA</small> L<small>OURA</small>, + archaica nas suas vestias de capote e turbante, e N<small>EDDA</small>, + deliciosamente matutina num roupo branco que descansava,<span + class="pn">{4}</span> <em>sans-dessous</em>, sobre a finissima camizta de + cambraias,—sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida do cansado + movel...</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me entre +dentes e indisposto como um burgus dispeptico, silencioso como uma esphynge e +entristecido como um beato sem almoo, adivinho logo que vens por ahi como a +mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem tarde...</p> + +<p>—Exactamente.</p> + +<p>—Previ tudo isto. Ha cinco dias que ns no falamos, e, pensando-o na rua, +hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella cadeira, +lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me e no contive um +gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os meus passos. Ha quatro +annos que somos casados e nunca passamos dois mezes sem uma rusga. sempre +elle quem as promove com um resaibo de malentendido ciume. Aceito sempre o seu +rompimento e nunca lhe dei a honra de capitular<span class="pn">{5}</span> nas +hostilidades. Quando ellas so de nonada, aqui mesmo se resolvem; mas, quando +avultam como agora, elle te vai buscar como intercessora. J sei que vamos ter, +como sempre, uma crise de amorosidades que me enfastiam. Lastimo no conceber +um filho desse homem para o embeiar pela nova criatura e sentir-me menos +jungida s suas intemperanas de... mal educado! s vezes, chego a ter nojo do +senhor meu marido...</p> + +<p>—Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que me +pasma...</p> + +<p>—Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter o +assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um tal +matrimonio no se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em caza, por +torna-viagem, a mentira de que Saul um tuberculoso. Tanto mais eu o +aborrecia, quanto a senhora e o pap intervinham, patrocinando a causa do moo +platonico. D-me, na verdade, um insistente desejo de rir muito quando lembro +os idealismos delle, seguindo a minha sombra, porque nunca lhe deixei o direito +de enfrentar-se commigo em parte alguma... Expz-lhe sempre que sonhos no me +satisfaziam, nem eram para o meu<span class="pn">{6}</span> temperamento homens +vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe intensa guerra, apaixonando-me por +Frederico Stltze. Est! Com este provavelmente eu teria sido bem cazada. O +pobre allemosinho levou o caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o +abandonei, com uma defeituosa... Foi um despique, no ha a menor duvida, mas +quem sahiu perdendo foi elle. Saul um temperamento de phoca...</p> + +<p>—Respeita o teu marido, minha filha!</p> + +<p>—Pois no , maman?</p> + +<p>—Essas couzas no se devem dizer...</p> + +<p>—No tratarei de occultar o sol com a mo. J disse e mesmo: um +temperamento de phoca. S quer hybernar sobre os livros, deante dos quaes se +abespinha como o animal sobre o glo. Eu, porem, quero muito sol, muita luz, +muito calor, muita actividade... Maman, o que vocs velhos veem no cazamento +o interesse de collocar as filhas, porque ficando velhos receiam que nos +tornemos muito ss no mundo. Por isso acontecem destas, cazamo-nos com a +vontade dos paps encarnada na figura de um homem que no a correspondencia +de nosso instincto. Olha! No intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada +qual commetta a sua doidice<span class="pn">{7}</span> como quizer, e, se +escolher um lorpa como Saul, arrependa-se de si mesmo e no me culpe a mim.</p> + +<p>—Tu vs no homem uma excitao, Nedda, quando devias ver uma satisfaco. +</p> + +<p>—Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje dessas +trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu toda a minha +repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, no sabe aproveitar-se de +minha tolerancia e quer subserviencia, servido, ou coisa similhante... Est +enganado! Devias ter sanccionado a minha repulsa logo de principio. Lembras-te +do convescte dado aos chilenos, nas Salinas? Tu no foste, e Saul, que era +apenas meu pretendente sem a menor esperana, moveu contra mim uma intriga +terrorosa, porque viu, no campo, o primeiro tenente Santander amarrar os +cordeis de minha botina que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te +de como energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do +contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia, todos +suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de mulheres feias. +Afinal, maman, que te disse elle desta vez?<span class="pn">{8}</span></p> + +<p>—Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o +comprehendes como um devaneio. Isto proprio para as meninas. Tu te esqueces, +e nisto eu lhe dou razo, que s uma senhora escrava da moral esponsalicia. +Contou-me o teu marido um facto em que elle te surprehendeu. Realmente, se as +cousas se passaram como podem ser suppostas, e elle no quer crer, tu andaste +mal.</p> + +<p>—Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como tudo +se deu...</p> + +<p>—E dispensavel Nedda. O passado est passado. O que preciso que no ds +lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem calleja. Os +amuos fazem pequenos callos, mas tempo vir em que, callejada a alma, o amuo +ser definitivo.</p> + +<p>—Que teria isso?</p> + +<p>—Um escandalo, minha filha!</p> + +<p>—Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu no me +pouparei a um grande escandalo.</p> + +<p>—Toma juizo, doidinha. preciso acabares com estas zangas e receberes o +teu marido como o teu senhor...<span class="pn">{9}</span></p> + +<p>—Hein?... No me zangars, maman, pdes ridicularizar-me como entenderes... +No me darei por achada.</p> + +<p>—No promovo seno o teu bem. Resolve a crise e s... mulher de teu marido. +</p> + +<p>—J ests julgando o feito?</p> + +<p>—Tu tens toda a razo, elle tem igualmente toda a razo. Harmonisem-se e +sejam felizes.</p> + +<p>—Pareces-me uma juiza a Salomo, com a differena de que o rei hebreu ouvia +ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma s...</p> + +<p>—Interpretas muito mal o meu genio.</p> + +<p>—No te interessa conheceres a injustia de que sou accusada pelo sr. meu +marido?</p> + +<p>—Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a accusao, +eu nunca seria contra ti.</p> + +<p>—Obrigada, maman! Quero, entretanto, justia, e que, como Saul, no julgues +pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu o que se +passou...</p> + +<p>—Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes...</p> + +<p>—Pois bem! Na tera-feira, maman, de combinao com Saul, resolvi passar +uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle que me falou +pelo telephono,<span class="pn">{10}</span> fui Barra correr uma cazinha vaga +e que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao depois +de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a gentileza de +offerecer-se-me para o servio de abrir e fechar portas. Aceitei e foi elle +quem tomou as chaves na taverna da esquina... V tu!... No fsse elle e teria +eu de entrar numa taverna, ssinha, arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao +depois, o dr. Eduardo foi quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de +camura para fazer essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas... +Corremos o primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil +cavalheiro se lembrou de, por segurana, fechar por dentro a porta da rua... +Subimos. Mal chegavamos em cima, comearam de bater numa porta. Poderia eu +suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse, porque elle no teria +opportunidade de acompanhar-me, logo depois resolvesse o contrario, e estivesse +a bater na porta da rua? E foi por um acaso que ns o vimos. Chegamos +inesperadamente a uma janella do sotam e percebemos que era elle quem batia. O +dr. Eduardo, desculpando-se por j ter eu cavalheiro, despediu-se de mim, +desceu as escadas,<span class="pn">{11}</span> e, quando abria a porta, foi +insolentemente aggredido por Saul, que lhe negou a mo para o cumprimento do +estylo... S tu vendo, maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra +mim! Felizmente, desafiado pela minha calma, elle no teve animo para iterar o +qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle quiz, +fechou ssinho a caza e veiu s...</p> + +<p>—Devias ter evitado tudo isto, Nedda.</p> + +<p>—Evitado, como?</p> + +<p>—No acquiescendo companhia de um homem de m fama, como o dr. Eduardo. +</p> + +<p>—Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em que +eu fui... Hora de trabalhos na cidade...</p> + +<p>—Recusasses os favores offerecidos.</p> + +<p>—Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual a mulher que se anima grosseria +de recusar gentilezas de um moo de distincto trato?...</p> + +<p>—Conforme o renome desse moo.</p> + +<p>—Tem m fama o dr. Eduardo?</p> + +<p>—No sei, no. Dizem.</p> + +<p>—Se tem m fama, tem maus costumes. E como que Saul, to zeloso de sua +honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepes, um homem mal visto? Penso +que os frequentadores de nossos sales, os <em>habitus</em> de nossa<span +class="pn">{12}</span> intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um +ponto qualquer, e, se no fsse assim, a primeira privao delles, seria a do +nosso convivio...</p> + +<p>—Neste ponto s razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul +referiu-me que estavas sem chapeu...</p> + +<p>—De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha van +do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr. meu marido +alli estava para auxiliar a reposio, tirei o chapeu e asseiei-o +prestamente...</p> + +<p>—Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua +chegada, ao ponto de no saberes repr o chapeu...</p> + +<p>—Saul um mentiroso.</p> + +<p>—No te zangues, Nedda.</p> + +<p>—Injuriou-me.</p> + +<p>—No ds importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente...</p> + +<p>—E elle o quer?</p> + +<p>—Porque perguntas?</p> + +<p>—Porque to honrado elle no deveria aceitar mais a cohabitao da esposa +deshonesta.</p> + +<p>—No deves dizer assim, minha filha!</p> + +<p>—Aceita-me elle?<span class="pn">{13}</span></p> + +<p>—Que tolice, Nedda!</p> + +<p>—Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e no a fao em +atteno aos teus bons officios...</p> + +<p>—Fazes muito bem.</p> + +<p>—L vem elle descendo...</p> + +<p>—Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que no tem esposo...</p> + +<p>—Desculpa-me, maman: s agora reparo que estou muito vontade para nos +encontrarmos os tres...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Arrepanhando, ento, o bello roupo desabotoado, por cujas rendas e + decotes se viam as carnes luciferas de N<small>EDDA</small>, a mulher de Saul + se escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de esculptura + grega...<span class="pn">{14}<br> + {15}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00300000">VOLUPTUOSAS</a> </h2> + +<p><span class="pn">{16}<br> +{17}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00310000">VOLUPTUOSAS</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>No rz-do-cho de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendados + <em>stores</em> pallidos, H<small>ELENA</small> fazia somno hora da sesta, + quando M<small>ARIA</small> A<small>NGELICA</small> a surprehendeu + adormecida.</p> + + <p>A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma + voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabea desmaiada de + H<small>ELENA</small>...</p> + + <p>Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com um + fremito de prazer...</p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—De onde vens tu, Angelica?</p> + +<p>—De encommendar flores...<span class="pn">{18}</span></p> + +<p>—Flores?!</p> + +<p>—No te recordas de que Sophia se cazar amanhan, noitinha?</p> + +<p>—Sou uma esquecida.</p> + +<p>—E ella credora de nossas gentilezas...</p> + +<p>—Das minhas, especialmente.</p> + +<p>—Encommendei orchidas e chrysanthemos.</p> + +<p>—Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias.</p> + +<p>—Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das +orchidas. Uma catyleia um pedao de labios excitados por dois beijos.</p> + +<p>—No lhes acho graa.</p> + +<p>— exigente!</p> + +<p>—Flores do matto. E j notaste que quasi todas ellas so lilazes e roxas? +ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas cres melancolicas?</p> + +<p>—Descobres coisas...</p> + +<p>—Mas, no ?</p> + +<p>—Realmente.</p> + +<p>—E como vais presentear uma noiva com flores lilazes?</p> + +<p>— a moda, o chic, o <em>dernier-cri</em>...</p> + +<p>—Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas, chrysanthemos, +rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me?<span class="pn">{19}</span></p> + +<p>—Se no! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os olhos +muito brilhantes...</p> + +<p>—De verdade?</p> + +<p>—Sim. Sonhavas?</p> + +<p>—Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu ests intensamente corada...</p> + +<p>—Apanhei muito sol.</p> + +<p>—Os teus olhos esto pisados e languidos...</p> + +<p>— da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor que +abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados...</p> + +<p>—J tinha reparado: os teus cabellos esto desmanchando-se...</p> + +<p>—E eu os concertei no espelho de Esther.</p> + +<p>—Andaste l, hein? J havia desconfiado... Quando te vejo amollentada, +assim, tenho razes para me enciumar... muito descuidada a Esther. Cuida mal +das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Est mal posto, a +fita est retorcida...</p> + +<p>—Nem reparei...</p> + +<p>—Disto no s culpada, por certo... Eu no te deixaria sahir daqui to +mal-amanhada. de causar vergonha.</p> + +<p>—Foi a pressa, Helena.</p> + +<p>—E no teu hombro a sda est nodoada...<span class="pn">{20}</span></p> + +<p>—Nodoada?!...</p> + +<p>—Sim! Vem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei mesmo +que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!...</p> + +<p>—Quem o poderia fazer?</p> + +<p>—Esther.</p> + +<p>—s ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as flores. +Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Ests satisfeita?</p> + +<p>—Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas no convencida...</p> + +<p>—Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar +humido?... Ter sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo arrastada como +a de quem se fatigou num excesso de venturas...</p> + +<p>—Que venturas posso ter?</p> + +<p>—Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real... +Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha vezes em +que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras occasies, quando +volto a mim sem provocao, sou prompta a espantar-me porque me accordei e no +morri no meio do prazer sonhado...<span class="pn">{21}</span></p> + +<p>—Ha sonhos, effectivamente, que se no deveriam acabar... E no sentes +calor, Maria Angelica?</p> + +<p>—Algum.</p> + +<p>—Neste caso...</p> + +<p>—Que fazes?</p> + +<p>—Dispo-me. No me imitas?</p> + +<p>—Pde ser. Passarei a tarde comtigo...</p> + +<p>—Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta gla +assoberbante... No tens geito?... Chega, que te libertarei...</p> + +<p>—Tira os alfinetes.</p> + +<p>—Usas um bom p de arroz, Angelica.</p> + +<p>—Ui! Helena!</p> + +<p>—Que foi assim, ardilosa?</p> + +<p>—Espetaste-me as carnes...</p> + +<p>—Tambem uma ruma de alfinetes...</p> + +<p>— para segurar bem.</p> + +<p>—Tens uma pellugem de arminho...</p> + +<p>—Ai!... Assim no... no...</p> + +<p>—Que tens, rapariga?</p> + +<p>—Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... S me dste vontade +de...</p> + +<p>—Ui!... ui!... ui!... Fazes-me um <em>frisson</em> de arrepiar-me os +pellos...</p> + +<p>— para vingar o teu beijo...</p> + +<p>—Porque me olhas assim, Angelica?<span class="pn">{22}</span></p> + +<p>—s de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um +perfume originalissimo que me entontece...</p> + +<p>—Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se +cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o fao para attrahir as amigas +como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que se confundiam +os aromas do nardo de Tharsos e do metpyon do Aigypte. Nas axillas attritava +mentho e sobre as pestanas e nas palpebras marjolana de ks. Ao depois, a +escrava defumava-lhe os cabellos desennastrados com espiraes de incenso, que +combinava admiravelmente no s com a essencia de rozas de Phaslis que lhe +embalsamava a nuca e as faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava +sobre os rins. E, por fim, entre os seios, corria o celebre oinanth das +montanhas de Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica...</p> + +<p>—Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras...</p> + +<p>—Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do +irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodes embebidos na essencia de +rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para contrastar<span +class="pn">{23}</span> com as evolaes das essencias de jasmins que perfumam +as minhas vestias...</p> + +<p>—E na posse de tudo isto praticas uma m aco, Helena!</p> + +<p>—Qual?</p> + +<p>—Essa de referires tantos perfumes e no me dares nenhum a provar... s +avarenta, como ninguem, e eu cubiosa de gozar...</p> + +<p>—Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres...</p> + +<p>—Teria graa!</p> + +<p>—Porque assim?</p> + +<p>—Gsto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres. +Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas +carnes...</p> + +<p>—Tens desejos masculinos, minha queridinha!</p> + +<p>—E o que me faz lamentar-me: junto de uma graa no ser um Adonis, junto +de uma Helena no ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os teus perfumes +e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais feliz do que Syrinx, +louca de paixo, Byblis, unica na insaciabilidade, ou Mnasidika, macia como um +velludo... Helena, tu s uma perfeio...</p> + +<p>—Mofadora!<span class="pn">{24}</span></p> + +<p>—Mofar eu de ti?!...</p> + +<p>—No te abraza o calor?...</p> + +<p>—Sim... Intoleravelmente...</p> + +<p>—Safa o collte... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seduces na +tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os homens, +sabios no sensualismo pago, que o n de veus mais provocante do que o n sem +disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na mulher encoberta pela +semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te no conhecesse os segredos todos de +tuas lindas curvas, te rasgaria agora, impiedosamente, o veu de tua nudez... +</p> + +<p>—J sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do +arrcho de um collte dictatorial?</p> + +<p>—Quantas vezes?!</p> + +<p>—Tu brincas, mulher divertida...</p> + +<p>—Provo-te com a citao: despirei o meu collte e no me sentirei mais +provocada do que contemplando as tuas frmas semi-nas...</p> + +<p>—Es barbara, Helena! Como encarceras um to lindo quadril dentro dos +oppressivos liames de um collte... Ah! Como eu daria a vida por ser morena! O +ventre alvo uma desilluso, mas o trigueiro, como o teu, um<span +class="pn">{25}</span> incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o +instincto mais calmo...</p> + +<p>—No te agrada a minha nueza?</p> + +<p>—Inteiramente. Agora, v l se te no impressiona mal a brancura do meu +ventre...</p> + +<p>—Ao contrario, Maria Angelica: uma grande corolla de petalas alvas +desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... maravilhoso o teu contorno... +Dignas frmas para a perpetuidade de uma tla ou de um retrato...</p> + +<p>—Deixarias tu que fsse apanhada a tua nudez?</p> + +<p>—E porque no?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me?</p> + +<p>—Que egoismo leviano!</p> + +<p>—Acha-o?</p> + +<p>—Sim... Photographemo-nos...</p> + +<p>—Adoravel!... Como no irradiar no <em>clich</em> o contraste de nossas +pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa de um +plo...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma soluo + de perolas e opalas.<span class="pn">{26}</span></p> + + <p><span class="pn"></span>Os seus labios permutaram cariciosos beijos.</p> + + <p>E, horas depois, M<small>ARIA</small> A<small>NGELICA</small> e + H<small>ELENA</small>, retratadas por uma aia, desvendavam as suas + abrazadoras nuezas inveja de E<small>STHER</small>...<span + class="pn">{27}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00400000">O POETA MORIBUNDO</a> </h2> + +<p><span class="pn">{28}<br> +{29}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00410000">O POETA MORIBUNDO</a></h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Luxuoso salo de recepes: por entre cavalltes com quadros de fina + pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de Parreira e a + vocao de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio das tapearias, dos + <em>fauteils</em> e das luzes, um magestoso piano Ritter.</p> + + <p>H<small>ELOISA</small> acabou de executar, com todo o applauso do maestro + C<small>HRISTOVAM</small> D<small>ETMER</small>, a linda fantasia—<em>Le + pote mourant</em>—de Gotschalk.</p> + + <p>As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de admirao + e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos que obedeciam + grande inspirao de H<small>ELOISA</small>.</p> + + <p>Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente combalida<span + class="pn">{30}</span> pela dor de uma alma irman...</p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas +bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas e os +teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do passional poema +lyrico, me concentrei e te affirmo que a viso no despresou a audio, pois vi +e ouvi toda a scena, desenvolvida entre personagens vivas, que se moviam, se +soccorriam e testimunhavam o desfallecimento do artista moribundo. Durante +minutos que sero inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao +teu lado, frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e no denunciei, +pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a +existencia. Vim do gabinete privado de tua me, que se transformou +pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se lhe +dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a longa historia +de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes,<span class="pn">{31}</span> fui +minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a alma de +artista e no o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim inspirar-me para o +sacrificio no teu talento. E saio de tua presena illuminado como o prescripto +que recebeu o balsamo do conselho christo para subir em seguida ao patibulo. +D-me, pois, o conforto de tua confidencia ultima: amaste-me alguma vez?</p> + +<p>—Que pergunta, Christovam.</p> + +<p>—Indiscreta?</p> + +<p>—No; ao contrario. Amesquinhante...</p> + +<p>—Extranho-te.</p> + +<p>—No ha razo. Porventura pensars que te amei e no te amo agora? Acaso a +minha mo de mulher para te ser dada depender de alguma coisa irreductivel +deante de minha vontade altiva?</p> + +<p>—Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor +dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeas bellas de todas +as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz com que se +enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um homem que sabe musica +simplesmente, que apenas um artista, pequenino de mais para ter uma +preteno de<span class="pn">{32}</span> amor. Eu me pareo com esta figura +lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das fantasias +de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em sonhos egoistas, +cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava rozas, derrocando +castellos, para me conter na illuso em que me deleitava smente com a +audiencia da negativa inclemente de tua me. Confessou-me que maldava de todo o +nosso amor, desde principio. E porque, se assim era, protegia a ampliao de um +sentimento que deveria ser, como os filhos defeituosos das ciganas que so +atirados s piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse, +falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era porque, +doidivana como toda creana, jogavas a pla na orla do precipicio, esperando o +aviso amigo para te retirares gloriosamente... Negars, Heloisa, que tinhas +consciencia de minha preteno? Sophismars, em favor da excommunho que me +lanou a tua me, e contra a clareza da ordem que me deste afim de se +officialisarem as relaes do affecto, que nos encaminhava de um illusorio +paraiso? Responde com o talento immensuravel com que sempre me amaste...<span +class="pn">{33}</span></p> + +<p>—Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias +possuir o maior tino dos homens.</p> + +<p>—Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem pesada +se antepe sua esphera...</p> + +<p>—Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e no te hei de amar fra do +regosijo delles...</p> + +<p>—Dos teus paes?</p> + +<p>—Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em tuas +mos estariam vegetaes s ao spro de um fakir indiano. Porque admittirias que +a minha vontade fosse forte bastante para romper a marcha das intenes dos +meus paes sobre a minha razo de ser mulher? Por ventura sem o sopro do fakir +as sementes germinariam e attingiriam as frmas de seres definitivos? No +suppors que, sem aquelle spro, algo se realisasse. Como suppres que sem a +vontade dos meus maiores a nossa unio se perpetraria ao teu sabr?</p> + +<p>—Desconheo-te j...</p> + +<p>—Mas, porque...</p> + +<p>—O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto quesilia dos +outros...</p> + +<p>—Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a existencia de +mulher?<span class="pn">{34}</span></p> + +<p>—Nem sei de mim mesmo que te responda...</p> + +<p>—No poderias esperar. Se eu fsse livre, se a lagarta para ser papilio no +carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar a sanco +que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razes para tal fazer. +Aborrece-te o trovo? amedronta-te o curisco? Queres ver-te livre delles? Cr +num Deus e pede-lhe a extino... Infelizmente, Christovam, nem o trovo se +extinguiria, nem o teu querer triumpharia... De um lado, Deus seria impotente +para te dar o que pedisses porque no terias o direito de pedir... S pede quem +pde pedir; se se pede porque de quem d depende o pedido; e se o pedido no + dado, procura a causa na insufficiencia e na sem-razo de quem pediu...</p> + +<p>—Mas...</p> + +<p>—Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se +conservares a razo, que tenho o bom senso desejavel s creaturas perfeitas. +Queres responder-me?</p> + +<p>—Nada significar o que te responda.</p> + +<p>— preciso que sejas categorico.</p> + +<p>—Pois sim: responder-te-ei.</p> + +<p>—Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?</p> + +<p>—Por certo que no.<span class="pn">{35}</span></p> + +<p>—De minha parte a questo outra: teria eu o direito de responder por mim +num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer?</p> + +<p>—Se quizesses, sim.</p> + +<p>—No assim, no. Porque no me tomarias por mulher sem o meu +assentimento? Por impoderoso deante de minha definio adversa. Porque no me +daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por impoderosa deante da +pronuncia delles. Se tu pudesses alcanar de mim o amor sem vontade, +desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse de meu corpo sem a +interveno dos que m'o formaram do nada em materia e em alma, nem cogitaria de +enviar-te a elles...</p> + +<p>— um dilemma sophistico.</p> + +<p>—Por que principio, no sei.</p> + +<p>—Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sde do teu amor, Heloisa, +como correspondeste a esse lapso do meu instincto?</p> + +<p>—Do modo mais franco.</p> + +<p>—Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu +quizesse, matar a sde que allegava...</p> + +<p>—Dependia de mim. Dei-te.</p> + +<p>—De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixo. +Negaste-m'o?<span class="pn">{36}</span></p> + +<p>—No poderia negar.</p> + +<p>—Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na +grandeza das iteradas pulsaes cordiaes, affirmaste que eu reconheceria a +intensidade do teu sentimento...</p> + +<p>—Dependia de mim. Pratiquei.</p> + +<p>—Por fim, quando te acenei com o plano de nossa unio...</p> + +<p>—Como te respondi, Christovam?</p> + +<p>—Com a primeira negaa.</p> + +<p>—Adulteras a minha inteno: cumpri o meu dever, enviando-te maman, como +o caminho propicio para vencer o pap.</p> + +<p>—Realmente, Heloisa. Sou um vencido.</p> + +<p>—Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...</p> + +<p>—Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a +consummar uma grande obra musical sem a inspirao para a realidade do dever... +</p> + +<p>—Desistes, ento, do teu amor?</p> + +<p>—Razes me sobejam...</p> + +<p>—Que te disse, afinal, a maman?</p> + +<p>—Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e lembrou-me +que um musicista no compe sem ter inspirao...</p> + +<p>—Nada de mais, Christovam!<span class="pn">{37}</span></p> + +<p>—Talvez no queiras comprehendel-a... Mas tudo que se pde allegar contra +um homem...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>E, louco pela musica, inconsciente quasi, C<small>HRISTOVAM</small> + D<small>ETMER</small> assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a + esquisita criao de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se + despediu de H<small>ELOISA</small>...<span class="pn">{38}<br> + {39}</span></p> +</blockquote> + +<h2><a name="SECTION00500000">O VELHO MEDICO</a> </h2> + +<p><span class="pn">{40}<br> +{41}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00510000">O VELHO MEDICO</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.</p> + + <p>E<small>STEPHANIO</small> e J<small>UDITH</small>—esta desprendendo-se de + si no devotamento ao esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais + annos, como se lhe tivesse o corpo de cr, curvas e linhas, luzes e + perfumes—gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige os + defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...</p> + + <p>M<small>ARCO</small> A<small>NTONIO</small>—o medico afamado—cofiando as + ennevoadas barbas em que se escondiam as illuses do seu poder curador, + arrancou os olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, + de suas attenes...<span class="pn">{42}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Bem pde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgr da +mocidade...</p> + +<p>— exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel +salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, no posso affectar-me com +os seus effeitos: a sua medicina a criadora das humanas torturas. Parece-me +que j se disse: Tirem os medicos e as enfermidades desapparecero... Mas, eu +digo: fugi delles e estou curado. Deem-me milhes de medicos e estaro formados +trilhes de doenas.</p> + +<p>—E quem te curou, meu caro?</p> + +<p>—A natureza...</p> + +<p>—O novo deus pago...</p> + +<p>—Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes curadores. +Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria?</p> + +<p>—Lembro-me, sim.</p> + +<p>—Foram tantos os diagnosticos que j perdi o direito de dar-lhes autorias. +</p> + +<p>—O sr. era verdadeiramente um doente.</p> + +<p>—E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e +invariaveis.<span class="pn">{43}</span></p> + +<p>—Realmente.</p> + +<p>—Pois confesso-lhe: no fiz uso de um s. Tambem o doutor no foi o ultimo +medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na inspeco. Nada +faltou sua perspicacia, seno comprehender que, no meu estado, as suas +perguntas eram outras tantas suggestes e novos symptomas para a aggravao de +meu mal. Eu vivia desvairado na vontade de accusar males crescentes, e os meus +assistentes porfiavam em illustrar-me em torturas ineditas.</p> + +<p>—Afinal... quem te curou?</p> + +<p>—Dir-lhe-ei tudo, de comeo. Hygia, a deusa da saude, no de todo m... +</p> + +<p>—A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos: salvaram-se +pela aco do dedo de Deus, como teriam morrido pela interveno do doutor... +</p> + +<p>—Creio que o sr. adianta um mau conceito. No me tenho na conta dos casos +communs.</p> + +<p>—Desculpe-me.</p> + +<p>—Pois no! Mas, a minha doena foi uma criao dos meus medicos, e a minha +cura proveiu de minha inabalavel resoluo de abandonal-os. Eu estava em ultimo +grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei assim s mos de um +allopatha. Homeopathas<span class="pn">{44}</span> e feiticeiros nada fizeram +de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci, aos vinte e tres +annos, foi numa convalescena de enfermidade effectivamente assassina: o amor. +Eu tinha conseguido, pela vez primeira, objectivar uma paixo. E, no s isto: +tivera, com todo o delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra +a minha vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu +sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram sessenta +dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil e quatrocentos +minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes as paradas +assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao maximo possivel. O +prazo desse amor fra, entretanto, fatal. Exgottou-se e a mulher fugiu-se-me +dos braos como a espiral do fumo que procura as alturas. Ao depois disto, +separado do entretenimento carnal, que me combalia as fibras, como a agua que +vai abalar as galerias subterraneas para derribar as minas, tive a sensao do +remorso de um grande crime...</p> + +<p>—De um crime delicioso...</p> + +<p>—Talvez, doutor.</p> + +<p>—E ento?<span class="pn">{45}</span></p> + +<p>—Encegueirado pelo amor, o mundo ficou s escuras sem a luz do olhar della. +Quiz correr nas suas pgadas, e senti-me tolhido como a voz na garganta do +atormentado por um pezadlo. Vi em todos os convivas de minha existencia, +terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre num choro convulso, +durante o qual me punha a tremer com tanta violencia quanta fazia extremecer +todo o assoalho de minha alcova e soar fra de tempo a campainha do relogio +sobre a meza... Senti-me muitas vezes balanado como a espherasinha de madeira +que anima o trillo dos apitos...</p> + +<p>— curioso, de vras, o seu caso.</p> + +<p>—Foi, doutor.</p> + +<p>—Sim! Foi! E hoje sinto no lhe ter visto nesse tempo originalissimo.</p> + +<p>—Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico.</p> + +<p>—Paranoico?</p> + +<p>—Exactamente, doutor, e v vendo. Aconselhou que eu me tratasse com banhos +de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro medico, os meus +paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente banhado, a contragosto, com +luzes de todas as cres. Era inocuo o tratamento para me<span +class="pn">{46}</span> fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males +Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguados por alta dose, mas +no toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico—j a esta hora e ha muito +tempo—victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e disse, carrancudamente, +deante de uma das minhas crises de saudade carnal: so delirios +epileptiformes... E o tratamento passou a ser feito com altas doses de +bromurto. A minha ennervao deprimiu-se, e tornei-me um atoleimado, tanto que +nem pranteei a morte de minha me, desgostosa com a minha tragica existencia... +Novo medico; vim a ser um simples neurasthenico, com atonias nervosas. +Reconstituintes, passeios, boas alimentaes, prazeres, etc.: nada, porem, +matava as saudades do meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora +por excesso de alimentao, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de +insomnias, tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos +medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodtos e tive +hemoptises. Um Esculapio chamado s pressas, levando em conta a minha magrsa, +o sangue exvasado dos meus pulmes e o historico dos meus soffrimentos,<span +class="pn">{47}</span> num rapido prognstico, annunciou a minha morte breve, +por fora de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me +interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria smente: +suggeriam-me cousas que s dalli por deante eu comeava de sentir. E veiu um +curador homeopatha: os seus remedios ingeri com facilidade, pela falta de +sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um visinho, que se enforcou dias depois +porque se sentiu arruinado nas suas foras commerciaes, lembrou que os maus +espiritos encostados aos corpos de pessas novas, faziam artes do demo... E no +s apresentou a conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma +velhinha, encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruos +na cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira...</p> + +<p>—E nem rezado, sr. Estephanio?</p> + +<p>—Para o doutor ver! Nem rezado!</p> + +<p>— unica a sua historia.</p> + +<p>—Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau +funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado.</p> + +<p>—Assim acaeceu.</p> + +<p>—E inda pensa o doutor que eu tivesse affeco nos rins?<span +class="pn">{48}</span></p> + +<p>—Se me no falha a memoria, effectivamente.</p> + +<p>—Pois escute: logo depois de sua interveno, repudiando eu os medicamentos +que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram trazidos em +conferencia.</p> + +<p>—Que disseram elles?</p> + +<p>—Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles mesmos. +Do doutor discordaram reputando sos os meus rins.</p> + +<p>—Sos, ou curados?</p> + +<p>—Curados, no. Inattingidos at quella data. E firmaram o diagnostico de +uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgo e o outro hypertrophia. +</p> + +<p>—Mas, afinal, acertaram?</p> + +<p>—Suppem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a saude. +</p> + +<p>— espantoso, meu caro senhor.</p> + +<p>—No , no, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha reapparecido +a mulher que eu amra. Visitou-me. Inflammamo-nos, e... estamos casados, no +foi assim, Judith?</p> + +<p>—Parece-me!<span class="pn">{49}</span></p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando o + enfeitiamento de um lindo <em>manteau</em> exposto no mostruario de modas e + confeces... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente a espaosa + fronte...<span class="pn">{50}<br> + {51}</span> </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00600000">OS DOIS ESPELHOS</a> </h2> + +<p><span class="pn">{52}<br> +{53}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00610000">OS DOIS ESPELHOS</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Depois de mandar retirar-se a criada, V<small>IOLANTE</small> foi, p ante + p, fechar a porta do salo de jantar que deitava para a copa, e veiu + sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mos profundamente + geladas.</p> + + <p>S<small>IMEO</small>, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo + no canto dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as + feies com um claro colerico.</p> + + <p>Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a cadeirinha + de balanos, V<small>IOLANTE</small> provocou-o...</p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Faze a tua scena.</p> + +<p>—E no sem tempo.<span class="pn">{54}</span></p> + +<p>—Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se no sem tempo?</p> + +<p>—Facilidades.</p> + +<p>—Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o homem +cazado no tem direito a facilidades.</p> + +<p>—Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que +Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma existencia +inteira para passar escravisado aos laos de uma unio infeliz!... Maldita +hora!</p> + +<p>—Ah!... ah!... ah!... ah!...</p> + +<p>—Sorris...</p> + +<p>—E ento? Hei de chorar para te sentires bem na oppresso que me fazes?</p> + +<p>—A minha vida depois que me senti enganado...</p> + +<p>—No tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci o +teu adulterio...</p> + +<p>—Insultas-me ainda em cima, Violante?</p> + +<p>—No te insulto. Repillo as tuas aggresses, termo por termo. O que eu digo + que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado e perfumoso +para agradar s amantes, tem a mulher de...</p> + +<p>—No dize, Violante, a indignidade!<span class="pn">{55}</span></p> + +<p>—Porque no dizer as cousas como ellas devem ser? S depois que senti a tua +ausencia do lar...</p> + +<p>—E confessas o delicto?!...</p> + +<p>—... s depois que conheci a tua amante...</p> + +<p>—Mentes, mulher!</p> + +<p>—... s depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui +sais...</p> + +<p>— horrivel, Violante!</p> + +<p>—... s depois de ver-te partir de l e a tua concubina despedir-se de ti +com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravido...</p> + +<p>—Tu viste?</p> + +<p>—Sim... s depois de ter a certeza de possuires uma amante...</p> + +<p>—Poupa, Violante, essa phrase...</p> + +<p>—... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a +crte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no lar pelo +marido libertino...</p> + +<p>— demais!</p> + +<p>—Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num +isolamento de aborrecer. Entretanto, fra diverso o teu proceder nos primeiros +tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava na<span +class="pn">{56}</span> rua, mal eu comeava a sentir a tua ausencia, estavas de +volta. Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te +retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te perguntei, a +hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz saber. E, at hoje, +nunca te pedi a menor palavra sobre o teu procedimento...</p> + +<p>—E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informaes.</p> + +<p>—Pois bem! Para evitar essa negao, nunca t'as pedi, sciente e consciente +de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, no te devo +satisfaces... So ellas por ellas...</p> + +<p>—Abusas...</p> + +<p>—Corrige-me se puderes... No s o meu marido?... Toma conta dos meus +actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze o que +entenderes, certo de que atraz de mim haver quem vingue as tuas incontinencias +e perversidades...</p> + +<p>—E sabes quem a minha amante?</p> + +<p>—Se sei, Simeo?!...</p> + +<p>—Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: no +conheces ninguem...</p> + +<p>—S com o rizo!... Ah!... ah!... ah!...<span class="pn">{57}</span></p> + +<p>—Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha paciencia se +exgottar afinal...</p> + +<p>—Ainda em cima me ameaas?</p> + +<p>—Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me confesses +tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante?</p> + +<p>—Ninguem!</p> + +<p>—Ninguem, como?</p> + +<p>—Desconfiei e fui ao teu encalo...</p> + +<p>—No falas a verdade, Violante.</p> + +<p>—A certeza das coisas adquirida quando nos abeiramos dellas. Molestias +mortaes, por miasmas exhalados dos paes, s as contrai quem lhes vai beira. +Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio... Olhas-me agora atravessado? +Nega ento que te falo a verdade como ella ?!... Por favor, desmente-me, se s +capaz...</p> + +<p>—Juro-te que no sei do que se trata.</p> + +<p>—Perjuro!... Ento, toda a manhan no vais daqui caza de Idalia... No me +interrompas, no... toda a manhan, no passas l horas esquecidas, quando sais +no fica ella por traz da gelosia a acenar-te e tu a corresponderes-lhe os +acenos de apaixonada despedida?</p> + +<p>—Ousada! Alem do mais, injurias mulher de um amigo da nossa +familia...<span class="pn">{58}</span></p> + +<p>—E que a tua amante...</p> + +<p>—Pois se , est tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre +vontade... Constou-te j que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As minhas +obrigaes maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e comeam, +quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a dentro, estou eu +cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem jurei culto eterno, alias, +em tempos melhores... Casei por uma supposio de momento: a solido de +solteiro era um suicidio de todos os dias. E s no me enganei em suppr que o +matrimonio me facilitaria relaes difficeis antes de ter as qualidades de +senhor duma mulher... O mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a +tua companhia, e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado um +pequenino jardim, o maior cu a entrada de uma furna... A companheira um +tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo homem +respeitador...</p> + +<p>—Outro tanto te allego eu... Mentir aquelle que disser me ter visto, +sorrateira ou clandestinamente, embuada ou mascarada, penetrar em lugares +escusos, ou ao lado de algum homem que no fsses tu... Casei-me<span +class="pn">{59}</span> por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixo +momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto o meu +marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me eu... Adquiriu +uma amante...</p> + +<p>—Retem-te, Violante!...</p> + +<p>—No! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem pde viver longe do +pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu marido!... +</p> + +<p>—Intoleravel!</p> + +<p>—Tambem tu o s!</p> + +<p>—Adultera!</p> + +<p>—Deixemo-nos, Simeo, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os +devolver todos, um por um...</p> + +<p>—Saber-me trahido...</p> + +<p>—Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando nada, +no ters de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher digna do +marido que lhe deram...</p> + +<p>—Sinto faltar-me a luz da vista...</p> + +<p>—Impresses, Simeo.</p> + +<p>—Pois justo que me consinta enganado?</p> + +<p>—No nos deshonramos...</p> + +<p>— um conslo ridiculo.<span class="pn">{60}</span></p> + +<p>—E que dirias tu se trahida eu no te trahisse igualmente?</p> + +<p>—Diversa a situao do homem, Violante.</p> + +<p>—O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente nos +submettemos a esse regimen de igualdade...</p> + +<p>—Doloroso!</p> + +<p>—Assim exclamei, Simeo! Agora, porem, me sinto melhor: no me enganaste, e +isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos...</p> + +<p>—E o teu amante?</p> + +<p>—Dispensa sabel-o...</p> + +<p>—Ah!... Repillo a lembrana que me occorre... No, no possivel!... O +massagista...</p> + +<p>—Rende justia tua mulher, Simeo! Pois no vs que eu me no vingaria de +ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te fizesse crar perante a +sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de ti?</p> + +<p>—Ento... Desabafa-me!... S completa!</p> + +<p>—Insistes em conhecer tudo?</p> + +<p>—No duvides que o quero de corao.</p> + +<p>— Lourival...</p> + +<p>—O marido de Idalia?...</p> + +<p>—De certo.<span class="pn">{61}</span></p> + +<p>—Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem +conjugadamente...</p> + +<p>—Mas eu estou vingada...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fra do salo, perguntava + aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar...</p> + + <p>E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz...<span + class="pn">{62}<br> + {63}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00700000">O PRIMEIRO FILHO</a> </h2> + +<p><span class="pn">{64}<br> +{65}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00710000">O PRIMEIRO FILHO</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Na secretaria fra extranhada a falta primeira de O<small>RLANDO</small>, + assiduo at no se ter ausentado do servio no attrahente dia do matrimonio. + </p> + + <p>O D<small>IRECTOR</small> do esposo de O<small>LIVIA</small> era + reconhecido assiduidade do moo, e, por duas vezes, determinra o seu + accesso por merecimento.</p> + + <p>Ao penetrar na Repartio depois da primeira falta, todos os olhares + recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se entregou ao + trabalho sem explicaes.</p> + + <p>Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado, + O<small>RLANDO</small> e o D<small>IRECTOR</small> entravam em confidencia... + </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Ah! Sr. Director!<span class="pn">{66}</span></p> + +<p>—Estiveste doente?</p> + +<p>—No, no foi doena minha. Antes o fsse...</p> + +<p>—Trocaste o dia?</p> + +<p>—Como assim?</p> + +<p>—Levaste conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos?</p> + +<p>—Tambem no!</p> + +<p>—Viajaste a negocio?</p> + +<p>—Qual, Sr. Director! Os meus negociou so smente os de meu dever aqui +dentro...</p> + +<p>—No sei explicar a tua falta.</p> + +<p>—E eu careo de coragem para dizer...</p> + +<p>—To futil no ha de ter sido o motivo.</p> + +<p>—Eu conto. Foi o meu primeiro filho...</p> + +<p>—Felicito-o desde j.</p> + +<p>—Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade. Conhecendo +bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a s quando se manifestaram os +primeiros incommodos do parto. E confiando em que o acontecimento cedo me daria +liberdade para saltar repartio, fui-me deixando ficar, ora mais embebido +nos cuidados que a parturiente exigia, ora menos descontente com o que se ia +passando, at que, s na madrugada de hoje, aps vinte e duas horas de +labutaes, se concluiram os trabalhos...<span class="pn">{67}</span></p> + +<p>—Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia.</p> + +<p>—No menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi em +mim e vi que faltra hontem improficuamente, porque...</p> + +<p>—Ora, Sr. Orlando! Uma falta no infle, tanto mais quanto fui o primeiro a +no mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber corresponder ao +valor dos meus funccionarios.</p> + +<p>—Fico embaraado... Nem sei como lhe agradea... Ao depois das torturas +porque passei, era natural que Deus me dsse o allivio de uma honra como a que +o Sr. Director acaba de conceder-me.</p> + +<p>—E a senhora ficou sem novidade?</p> + +<p>—Pouco mais ou menos, Sr.</p> + +<p>—Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia...</p> + +<p>—Qual nada!... Faltar hoje?...</p> + +<p>—No digo isto.</p> + +<p>—Ento...</p> + +<p>—Obter uma dispensa de servio...</p> + +<p>—Nem pensar bom, Sr. Director. Se me dssem licena eu hoje emendaria o +dia com a noite para descontar o atrazo de hontem...<span +class="pn">{68}</span></p> + +<p>—So excessos, Sr. Orlando. justo que um chefe de familia precise dessas +lacunas no servio para gozar mais largamente as venturas de seu lar.</p> + +<p>—Estas, francamente, eu s poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz no +acontecido.</p> + +<p>—E no o foi?</p> + +<p>—Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigao.</p> + +<p>—Qual foi o medico?</p> + +<p>—Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo.</p> + +<p>—Bons medicos, sem duvida.</p> + +<p>—E que ho de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como um +horror...</p> + +<p>—Mandarei dar-te uma gratificao para cubrires com ella os extraordinarios +desse acontecimento inquietador.</p> + +<p>—No aceitarei, Sr. Director.</p> + +<p>—Porque assim?</p> + +<p>—No soberbia, no. Desculpe-me, mas eu no posso aceitar.</p> + +<p>—Quereria ter as razes dessa sua desatteno...</p> + +<p>—No desatteno, Sr. Supponha que eu aceito. Desfao-me das minhas +difficuldades graas ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo filho, +nas mesmas condies<span class="pn">{69}</span> difficeis do primeiro. O Sr. +descuida-se e eu no obtenho nova gratificao. Naturalmente me enciumarei com +o seu procedimento e o que no quero hoje, no devo esperar amanhan... Pois no +?</p> + +<p>—Eu daria do melhor grado.</p> + +<p>—Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao +depois, se a parturiente inspira cuidados...</p> + +<p>—No se ficou bem ella?</p> + +<p>—Acho que no. Ao depois do parto, comeou de ter desmaios consecutivos... +</p> + +<p>—E o que recommendaram os medicos?</p> + +<p>—Repouso. Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher uma +inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que Olivia +padeceu.</p> + +<p>—Pois penso que devias retirar-te.</p> + +<p>—No devo, Sr. Director. O lar uma preoccupao para fra das horas da +secretaria.</p> + +<p>—At o servio poderia lucrar com a tua ausencia...</p> + +<p>—Perdo, senhor, mas...</p> + +<p>—Admiras-te? No queria falar-te com tanta franqueza para no te consumires +ainda mais...</p> + +<p>—Por acaso commetti alguma outra falta?</p> + +<p>—Gravissima... Sabes porque te chamei?<span class="pn">{70}</span></p> + +<p>—Lealmente ignoro.</p> + +<p>—Porque te desconheci. Ests um desconchavado e erras todo o servio. Pelos +teus grandes creditos, s aqui dentro um rico de odios e de invejas. Conheo-os +todos...</p> + +<p>—Agradecido, Sr. Director.</p> + +<p>—Cada companheiro teu um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem com +os teus lapsos o teu valor. No o admitto eu.</p> + +<p>—Mas, que fiz assim?</p> + +<p>—Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua informao. +</p> + +<p>—Oh!... Esta cabea...</p> + +<p>—A conta de Silva & C....</p> + +<p>—Sei!... sei!... Ento... errei-a?</p> + +<p>—Inconvenientemente.</p> + +<p>—E sei porque perpetrei o engano...</p> + +<p>— o que tu pensas...</p> + +<p>—Por ventura outro me corrigiu?</p> + +<p>—Absolutamente no. Sers tu mesmo quem far este trabalho ao depois...</p> + +<p>—Porque no hoje?</p> + +<p>—Ests dispensado, incondicionalmente, do servio por tres dias...</p> + +<p>—No me conformo, Sr. Director.</p> + +<p>—Sou irrevogavel.</p> + +<p>—No maximo me satisfarei com o dia de hoje.<span class="pn">{71}</span></p> + +<p>—Sero tres dias irreductiveis, e pdes ir para a companhia de tua esposa +descansar a tua cabea. Vejo-te perturbado enormemente com o pensamento do que +possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda!</p> + +<p>—D licena?</p> + +<p>—Pois no.</p> + +<p>—s ordens do Sr. Director.</p> + +<p>—Ah!... Sr. Orlando?</p> + +<p>—Sou todo ouvidos.</p> + +<p>—Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? homem?</p> + +<p>—Perdo, Sr. Director... Mas... no lhe sei responder... Com a atrapalhao +da hora no me lembrei... Ah!... sim...</p> + +<p>—Que respondes?</p> + +<p>—Desculpe-me, Sr. justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem +verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Sorrira o D<small>IRECTOR</small> e dispensra de vez O<small>RLANDO</small>, com a + inveja crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos + factos...<span class="pn">{72}<br> + {73}</span> </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00800000"> VISTA DA DENUNCIA</a> </h2> + +<p><span class="pn">{74}<br> +{75}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00810000"> VISTA DA DENUNCIA</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>O interior da envidraada varanda, exornado com ipomas e glycinias, em + cacos, orchidas e arums nos recantos, no tinha seno a luz pallida, muito + pallida, de um luar de inverno, coado preguiosamente pelos vos das + grinaldas verdes.</p> + + <p>Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma commettia a + indiscreo de transportar para alem, ao conhecimento da criadagem + bisbilhoteira, os amuos graves de C<small>LOVIS</small> e + A<small>MARYLLIA</small>.</p> + + <p>A denuncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de ferro, + destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos grosseiros + perpetrados pelas mos violentas de C<small>LOVIS</small>, que, + distrahindo-se um pouco com as<span class="pn">{76}</span> fumaradas de um + havana, ouvia, sem intervenes, as queixas de A<small>MARYLLIA</small>... + </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Como eu, to ladina para outras, comprehendendo to bem o mal alheio, +deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amavel hoje, tinha sido um +presente valioso hontem, era uma lembrana expressiva amanhan... E o meu +filhinho servindo de <em>passe</em> para os maiores engodos!... Toda hora o +telephone pedia Arthurzinho. L se ia o innocente, coitadinho! E raramente +voltava. Prendiam-n'o dias seguidos com a ama. Poderia eu desconfiar do +embuste? Ha genios capazes de todas as villezas. O filho era o motivo da +entrada do pae, os presentes eram as cinzas nos meus olhos, e os convites eram +a perfidia da traioeira. Mas, agora, ou eu succumbirei, ou estar tudo +acabado. Ouve-me bem, Clovis: nesta caza, emquanto eu viva fr, Carlota jamais +tornar, e se tu desceres indignidade de voltar caza dessa mulher, ouve +bem! Serei eu quem ir buscar o tolo do esposo para te surprehendermos na +sordidez. Sempre so os interessados nas<span class="pn">{77}</span> causas os +que por ultimo se sentem logrados. <em>Il n'y a qu'un mot pour dire les +choses.</em> Essa palavra no devo, porem, proferir sem macular os meus labios, +sem regosijar o meu enganoso marido, e sem elevar a perdida que me furta a +tranquillidade, que me logra no dom legal da fidelidade esponsalicia. Um dia +desconfiei. A ama de Arthurzinho levava um pacote s escondidas, quando, para +castigo, elle rolou ao cho, na hora da partida, quasi aos meus ps... +Perguntei cumplice que significava aquelle <em>embrulho</em>... Foi o sr. +Clovis quem tomou a palavra: um romance que mando, a pedido, para D. Carlota +ler... Ingenuamente me convenci. Pois seria possivel que o meu marido +trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraioava? que expuzesse o meu +filho infamao de ser posto junto perfida, em lugar de seu pai gozado?... + meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me e vejo-me s. Roubada +naquillo porque mais zelos e mais ciumes alimento, eu que me tenho submettido +machinalmente concepo de treze filhos, exgottando a minha juventude para +parecer velha aos trinta e dois annos, assassinando a minha belleza, relaxando +os meus tecidos, criando uma ruga nova em cada manhan em que me<span +class="pn">{78}</span> olho ao espelho!... para ser recompensada duramente com +uma traio, uma tripla traio, em que se envolveram as minhas lealdades de +esposa, de me e... de amiga. Sim, porque, desgraadamente o digo, tolerei a +concubina de Clovis na intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por fora +dessa leviandade commum a todas as mulheres, terei dado causa de rizo maldita +que me engazupava. Contava-lhe os meus esforos para trazer sempre o meu marido +na obrigao pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o +recebia com intimas indisposies, para que regeitado uma feita elle se no +atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a duvida de sua saciedade +noutra fonte... No sei onde estava escondido o sol de minha comprehenso que +agora recenna a minha intelligencia. E uma miseria moral essa em que se +prostite, com o conjuge das outras, uma velha, desrespeitadora das cans do +esposo e da innocencia de suas filhas. Havia de ser l, naquella alcva cheia +de seduces, que o meu companheiro se convertia em assassino da paz de minha +alma. Aos olhos daquellas tres criancinhas—mulheres faceis, por herana, que +desabrocham nos comoros lamacentos da podrido materna—elles<span +class="pn">{79}</span> dois se encaminhavam do leito, quantas vezes Clovis +ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o ardentemente com o nome de pae! +Bemdito o poeta que j disse estar ao lado de cada homem uma fra monstruosa: o +instincto. E esse poeta foi o meu proprio esposo, accusando toda a humanidade +com o seu proprio mal. Foi preciso que uma generosidade extranha me avisasse +para que eu conhecesse essa nova Mylitta babylonica, torpe, pantano no qual at +a trahida companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram +poderes lascivos. injustia divina! Porque no me despertaste, a mais tempo, +do somno em que sonhei com a lealdade de um templo christo e me achava +desgarrada na nave de um templo de Buddha?!... Foi hoje o assignalado dia de +minha victoria. A carta chegou-me s mos com as resteas violetas do sol posto. +Li-a de um folego. O meu primeiro impeto, naturalmente, foi de indignao +contra o denunciante. Mas, alli estavam os factos verificaveis, possiveis, e +terrorosos. A noite veiu mais depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo. +A verdadeira noite essa em que tambem a alma se recolhe na escurido de uma +dr apunhalante. O meu marido jantaria fra,<span class="pn">{80}</span> num +banquete intimo, mas numa sociedade festiva. Resolvi chamal-o prontamente s +explicaes de suas infidelidades. E fil-o sem tardada, no o nego. criada de +Arthurzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha affectos meus por dar o +seu leite formao organica de meu filho, trouxe logo s contas. No lhe +disse a denuncia, no lhe proporcionei ensejo de contestar a sua aco, porque +a interpellei segura do facto, inteiramente consciente do que fazia. E ella me +confessou que levava e trazia romances immoraes, que levava e trazia cartas e +recados... O instante unico! Ao depois, calma e friamente, sabendo que aguava +a minha dr, revolveu-me nalma o punhal de seu descaro, revelando-me a +indignidade de ser o meu filho abraado e beijado ardentemente, durante a +ausencia do pae, com o nome deste entre os labios da corruptora... Nega, +Clovis, que no s o amante dessa barregan de padres, dessa immunda mulher que +maculou o meu lar com a sua abjecta convivencia...</p> + +<p>—Nego, sim!</p> + +<p>—Frte coragem! Jura que hontem no beijaste, quasi aos olhos do publico, +no salo de visitas, os labios rxos pelo cansao da idade de Carlota.<span +class="pn">{81}</span></p> + +<p>—Juro-te.</p> + +<p>—Leviano! Mente como quizeres. Mas, ouve: emquanto o meu corpo sentir as +commoes do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquella devassa, +emquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquella carta nas tuas vestias, +que o perfume de uso na alcva de tua hervoeira, terei a coragem de +repellir-te e de cerrar os meus labios s menores palavras para as nossas +relaes. E se, porventura, desconfiar eu que foste buscar, como uma abelha sem +sorte, o nectar que se esconde na corolla daquella flor murcha e fanada, dentro +desta caza, escuta bem Clovis, haver a incompatibilidade de ns dois... tu +entrares e eu sahir, ou s ficarei se tu te fres para sempre. Sabes quanto sou +caprichosa, o bastante para no me arrepender das resolues tomadas. Negas, +ainda, o teu erro? Serei facil de perdoar-te com a verdade, to facil quanto +no te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade!</p> + +<p>—Nego, sim!</p> + +<p>—Quero convencer-me. A p firme?</p> + +<p>—Com toda lealdade.</p> + +<p>—Pois bem! escusado irmos adiante: sabes o que est contido naquelle +pacote?<span class="pn">{82}</span></p> + +<p>—Ignro.</p> + +<p>—So os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero +devolvel-os.</p> + +<p>—Mas, como?</p> + +<p>—No os guardarei mais commigo.</p> + +<p>—Vais romper, ento, com a familia do Aurelio?</p> + +<p>—Forosamente.</p> + +<p>— de mau alvitre.</p> + +<p>—Incommoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar com +uma amizade que me aborrece, e se te excusares a esse acabamento, confessas o +interesse que ters em manter a verminao desse convivio immundo...</p> + +<p>—Se encaras por este lado, rompe Amaryllia, devolve tudo do modo mais +grosseiro.</p> + +<p>—Devolverei, sim, no ha que ver.</p> + +<p>—Ests no teu direito.</p> + +<p>—E espero a tua sanco.</p> + +<p>—J a tens.</p> + +<p>—No. No a tenho ainda. A devoluo no poder ser feita sem uma carta. +</p> + +<p>—Pois escreve-a!</p> + +<p>—No! Tambem no! Sers tu...</p> + +<p>—Eu?!...</p> + +<p>—Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?...<span class="pn">{83}</span> +</p> + +<p>—Amaryllia, pensa bem! Ns, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos +nessas rusgas de mulheres.</p> + +<p>—Comprehendo-te: romperei eu, e tu, s occultas qui, com menores +apparencias, te dedicars continuao de teu adulterio. Has de ser quem +escrever a carta hoje mesmo, agora...</p> + +<p>—Convencer-te-s de minha innocencia?</p> + +<p>—De todo, no. Encaminhar-me-ei de convencer-me.</p> + +<p>—No haja duvida. D-me papel e tinta. Escreverei num momento...</p> + +<p>—E pensas que escrevers como quizeres?</p> + +<p>—No: como fr conveniente.</p> + +<p>—No te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado.</p> + +<p>—Qu?</p> + +<p>—Nos termos que me espoucarem arrevezadamente aos labios...</p> + +<p>—Mas...</p> + +<p>—Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga...</p> + +<p>—Amaryllia?!...</p> + +<p>—Virulenta e grosseira...</p> + +<p>—Faa-se a tua vontade.</p> + +<p>—Escreves?</p> + +<p>—Como quizeres.<span class="pn">{84}</span></p> + +<p>—E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquelle modo escripta?</p> + +<p>—A Carlota!</p> + +<p>—No, Clovis. Quero que se escreva ao marido della, com o seu nome em todas +as letras...</p> + +<p>— demais!</p> + +<p>—No retrocedas!</p> + +<p>—Abusas de minha bondade...</p> + +<p>—Enganas-te. Clovis, ou tu escreves como eu te determino, ou...</p> + +<p>—Absolutamente, no!</p> + +<p>—... ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A caza de meu pae ter +sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortavel.</p> + +<p>—Tua alma, tua...</p> + +<p>—Sei bem! Queres o escandalo da separao para o renome do conquistador? +No te darei essa vantagem... Debaixo deste tecto, tragars, Clovis, o amargo +da tortura mais incondescendente, soffrers a queimadura do inferno mais +verdadeiro...<span class="pn">{85}</span></p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Ao longe, um relogio temerario, arriscou o aviso tetrico da meia-noite, ao + fim do qual, resolutamente, A<small>MARYLLIA</small> se retirou para o seu + leito...<span class="pn">{86}<br> + {87}</span> </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00900000">IRADO AT CURA...</a> </h2> + +<p><span class="pn">{88}<br> +{89}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION00910000">IRADO AT CURA...</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Ampla alcva: no <em>armoire--glace</em> reflectida como outro vasto + commodo...</p> + + <p>Rico mobiliario de pau-setim com incrustaes de jacarand reluzente... + </p> + + <p>Um leito de cazados, e sobre elle, cadaverico, pelles e ossos, despojado + de carnes, ventrudo, olhar ancioso, o louro O<small>RMINDO</small>, luctando + com a morte...</p> + + <p> um erro de diagnostico, rebelde a enfermidade medicao + despropositada. </p> + + <p>Junto do leito, uma banca, e sobre esta, alem de um thermometro e de um + chronometro, desenvolta frascaria...</p> + + <p>Aos ps da cama, fatigada, somnolenta, s vezes, D<small>OCA</small> + heroina na vigilia: o seu semblante merencoreo<span class="pn">{90}</span> s + consegue alguma graa quando E<small>LOY</small> visita o enfermo. </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaos sorrateiramente... Doca, tu +bem vs como eu morro todos os segundos, como eu minguo sem cessar...</p> + +<p>—Tem f em Deus, Ormindo.</p> + +<p>—Morrerei com ella, sim. A f! Ella o facho illuminador da estrada +eterna... Como deve ser doloroso no crer em nada, Doca!... Sentir a alma cahir +no vacuo... Ah! no me conformo, porem... Morrer quando tanto preciso +viver... Vou deixar-te na penuria... a braos, por certo, com os creditos da +medicina e da pharmacia...</p> + +<p>—Tu pensas demais.</p> + +<p>—Como no hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilhars a codea endurecida e +atrazada. com horror que prevejo as tuas infelicidades... s nova. Mas de que +servir a tua mocidade sem po, os teus verdes annos sem um amparo? s bella. +Mas de que prestar a tua lindeza se no tiveres um manto para o frio e um +abanico para o calor? Nova e<span class="pn">{91}</span> bella... na viuvez! +Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei?</p> + +<p>—A pobreza um estimulo, Ormindo: saberei trabalhar afim de haver com +honra um pedao de po e alguns covados de fazendas...</p> + +<p>—No te peo nada, e peo-te muito: no macla o nome de teu marido. A +herva reverdesce a fronde dos vegetaes, augmenta-lhes a copa, ennobrece-lhes o +aspecto: crava-lhes, porem, at ao durano, as raizes assassinas e rouba-lhes a +seiva at morte. A arvore cessa de existir com a trepadeira phytocida que lhe +rendilha os contornos. A mulher deve pensar que o bem-estar no a honra, e +que ha tranquillidades mais homicidas do que a herva do passarinho... A +deshonra no provem da pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A deshonra fructo +das transigencias de alma, e a mulher viuva a que pde peiormente +transigir... Que dores!... Ui!...</p> + +<p>—Ests vendo: peioras quando falas!</p> + +<p>—Doca, no meu caso extremo, a morte assim qualquer coisa como uma sorte +grande...</p> + +<p>—Num bilhete branco para mim que fico sem ti... No sabes aproveitar o +silencio como um meio de cura, no sabes tirar partido,<span +class="pn">{92}</span> poupando foras para momentos mais graves...</p> + +<p>—Durarei muito pouco.</p> + +<p>—No pdes saber mais do que os medicos.</p> + +<p>—Ah! mulher! S eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se avisinha +o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam. verdade, pois tenho +neste momento a viso mais lucida dos meus primordios. Que isto seno que se +vai fechar a circumferencia de minha traslao em torno do vacuo universal? O +aneurisma cresce, avoluma-se, rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a frma +de uma esphera, um globo pequenino de vivos, na lucta pela existencia. Vai +arrebentar, latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que +nunca me illudi com a esperana da cura? Illudi-me, mas antes de todos...</p> + +<p>—Quem est vivo, Ormindo, ainda no est morto, e toda a cura plausivel. +</p> + +<p>—A tua dedicao cega. Desde que adoeci, desde que sobre o corao senti +a formao mortifera do mal circulatorio, certifiquei-me estar mais longe do +mundo do que do nada. E deste momento para c, que fiz para denunciar que creio +na cura? Ao contrario, a minha vida tem sido a chamma de<span +class="pn">{93}</span> uma vla a luctar com o spro das auras. No ha um +instante em que no me morra uma alegria, em que no nasa uma saudade. Em +torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa teimosa em +torno de uma lampada.</p> + +<p>—Aggravas-te, Ormindo! Cala a bocca por piedade! As tuas palavras so +outros tantos punhaes que me sangram o corao.</p> + +<p>—Que horas sero?</p> + +<p>—J noite.</p> + +<p>—E os medicos que no vieram?</p> + +<p>—Vieram, sim. Tu estavas dormindo.</p> + +<p>—Os medicos no vieram, no... At a minha esposa conspira contra a minha +existencia...</p> + +<p>—No pesas as tuas palavras, Ormindo.</p> + +<p>—J sei de tudo. Perderam a esperana, abandonaram-me. No passarei de +hoje. Estou condemnado a horas.</p> + +<p>—Descansa um pouco.</p> + +<p>—Descansar, agora, s de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e parece-me +que foi hontem tarde que nos vimos pela primeira vez. Um sonho s vezes tem +existencia mais real, porque nos acompanha do momento da concepo em criana +ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me o ar...<span +class="pn">{94}</span></p> + +<p>—Assim queres! Falas tanto...</p> + +<p>—Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: no ha rio que no chegue ao mar. +Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas consegue... +Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez no te lembres mais do meu +enfeitiamento; no me esqueo eu do sorriso unico com que festejaste o nosso +encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh! que lindo luar te prateou as +pupilas, te diademou os cabellos e te banhou luciferamente as espaduas! Mezes +depois, o cazamento... A noite de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso +amor insatisfeito sempre para accordar novas caricias, para fomentar +alegrias... A esperana de um filho... O reco da esperana... E tudo isto +acabar quando mesmo principiava?!...</p> + +<p>—No temas a morte: um cerebro que pensa como o teu d confiana na +renascena da vida.</p> + +<p>—A alma no morre, Doca! ella quem esta vivendo agora. Os pulmes +fraqueiam, o corao tem espasmos, a viso escurece-se, a voz arrasta-se, mas o +cerebro pensa... Crs tu que, porque no falam, todos os moribundos no pensam? +Illudes-te! a hora de maior pensamento. S recompr todo o passado<span +class="pn">{95}</span> afim de o ligar ao presente e encerrar o circulo das +sensaes mundanas, pensar robustamente. Um moribundo que eu vi, no tinha a +fala. Os membros eram paralyticos, os olhos envidrados e photographavam a luz +do dia para a eternidade... Pois bem! esse homem assim amortecido, repelliu com +o gesto brusco de uma perna o supplicio de uma injeco nos ultimos +instantes... Acaso, no pensaria mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros +ha que conhecem at o segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser +tocante o adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um +agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecer mais no +extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro mundo... +Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que no falo certo?</p> + +<p>—No me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperana +illuminar-me o rosto...</p> + +<p>—Como s amante?!... Quererias de corao e de alma, com todos os affectos +e vontades, a minha cura?</p> + +<p>—Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado sade.<span +class="pn">{96}</span></p> + +<p>— bem pouco um desejo!</p> + +<p>—Duvidas que todas as minhas foras funccionam s na inteno de possuir-te +novamente so?</p> + +<p>—No duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a prolongao +de minha tortura...</p> + +<p>—Aborrecer-me eu!...</p> + +<p>—E ento?!...</p> + +<p>—Tens coragem! S me representa que gravars na alma uma eterna +desconfiana da amizade de tua esposa...</p> + +<p>—Isto no!</p> + +<p>—Pois parece, Ormindo!</p> + +<p>—Neste caso, escutas-me com agrado?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Posso falar?</p> + +<p>—No.</p> + +<p>—Ah! j sei... a mesma quesilia de que falar um desperdicio de foras +organicas...</p> + +<p>—Diz o doutor...</p> + +<p>—Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro +conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar num +terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido s intenes animaes dos +homens, a equao da mulher <span class="pn">{97}</span> perigosamente +diversa. Virgem, ella tem a expresso de um sonho; esposa, representa uma +realidade; e viuva, ella uma alma em que se derramam os mananciaes copiosos +da luxuria humana... Virgem, fste uma criadora; esposa, uma inspiradora; +viuva, sers, em nome da honra de teu marido, uma redemptora... Ai!... Dem-me +os pulmes... Morrerei, porem, com todas as sensaes...</p> + +<p>—No morrers, Ormindo!</p> + +<p>—So os teus votos?</p> + +<p>—Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda no +instante derradeiro?</p> + +<p>—No duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz.</p> + +<p>—Pois ento?!...</p> + +<p>—D-me a tua mo...</p> + +<p>—Ests frio!</p> + +<p>— a gelidez da morte... No tardar... Fazes-me um favor?...</p> + +<p>—Se o fao...</p> + +<p>— para depois de minha morte...</p> + +<p>—Juro-te.</p> + +<p>—Mas, responde franca e precisamente, para que eu no succumba com uma +duvida...</p> + +<p>—Pede o que quizeres... Pede... no!... ordena!<span class="pn">{98}</span> +</p> + +<p>—Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se no me derrubou de vez, vai +invadindo-me com o glo de seu halito das extremidades para o corao. +Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez um despenhadeiro. Peo-te em +nome de minha tranquillidade, que te cases, immediatamente, afim de que no +paire uma s nuvem sobre a limpidez do teu e do meu nome... Casars logo... +Peo-te... o ultimo sacrificio em prol do teu defuncto...</p> + +<p>—Intranquillisas-me, Ormindo.</p> + +<p>—No ha razo para isso.</p> + +<p>—Se tu mandas...</p> + +<p>—Mando, no; peo... Agradar-te- Eloy?</p> + +<p>—Queres, Ormindo, a verdade antes da morte?</p> + +<p>— isso...</p> + +<p>—Pois bem! O que tu propes j estava assentado entre ns outros...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um grande + esforo e se salva com o despedaamento brusco do myoma desconhecido, do + assassino erro de diagnstico...<span class="pn">{99}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001000000">A HUNGARA</a> </h2> + +<p><span class="pn">{100}<br> +{101}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001010000">A HUNGARA</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Commodo de hotel. Um fco electrico esverdinhava o azul papel das paredes. + </p> + + <p>Revolvido, o leito denunciava em duas cvas a presso de dois corpos que + nelle se afundaram.</p> + + <p>S<small>ARAH</small>, a hungara, recebia G<small>UANABARINO</small>, o + chronista theatral, com um estridente signal de contentamento...</p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Aqui estou. Nem sei como acertei.</p> + +<p>—Ests apaixonado?</p> + +<p>—Crs, Sarah, que paixo desponte como um sorriso?<span +class="pn">{102}</span></p> + +<p>—Quem te disse o meu nome?</p> + +<p>—Li-o nos programmas.</p> + +<p>—Ah! sim. Gostaste do meu canto?</p> + +<p>—No te ouvi.</p> + +<p>—Como te agradei?</p> + +<p>—Pertencendo a outro. A mulher sem dono custar a topar com um amante. +Rolar uma eternidade como a pedra que no cria limo... Tenha um amante e +dezenas surgiro...</p> + +<p>—Como elle experiente!</p> + +<p>—Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por +Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo brao delle, no teu longo +<em>manteau</em> de sdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo +dezenas de mulheres no Caf-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o canariar +de suas vozes; francesas, que arrebatam com o <em>savoir-dire</em> as malicias +mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus sapateados; +americanas, que lembram bugios nos saltos do <em>cake-walk</em>... Todas so-me +indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com cocottes para todo o +mundo... De comeo estive tentado a emprehender uma <em>mnage--trois</em> com +uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo prohibido e vivia +aferrolhado<span class="pn">{103}</span> concupiscencia de seu proprio pae. +Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente encontrei-me +comtigo...</p> + +<p>—Ladrosinho! Como elle sabe contar!</p> + +<p>—Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu +amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de amigos +attrahiu-me e a attraco de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um cumprimento +com a cabea. No me teres sido apresentada, significou que o teu galan zelava +de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho de seu progresso na +sabedoria dos olhares que as pessas cultas pdem trocar. Viste como te +comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho para o <em>buffet</em>? +Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo de junto de ti e como +tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro? Na sombra dos ps da meza, os +nossos corpos se trocavam desejos nos encontros, animavam-se tambem com os +promettimentos mais claros, e as nossas carnes se queimavam por detraz dos +tecidos de nossas vestias. Tudo isto, porem, ainda no paixo. um grito do +instincto animal. S nos no apaixonaremos se no quizermos...</p> + +<p>—Como sabes a vida!<span class="pn">{104}</span></p> + +<p>—Precisas prender Gustavo. A epoca das melhores. O dinheiro passa-lhe +pelas mos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque, alem do +mais, um amante que, por fora de ter mulher e filhos e morar longe, te dar +muito tempo aos amores furtados.</p> + +<p>—No os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo no se +tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e s o trahi uma +s vez: com o pae de meu filho. Gsto de um amor s, de ter um dono e de ser +cubiada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso, o Gustavo no me +agrada... Prefiro-te a elle, sers o meu amante...</p> + +<p>—Errars se assim preferires, Sarah. No tenho posses para te manter, ao +passo que o Gustavo...</p> + +<p>—Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho para +o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero...</p> + +<p>—Neste caso ficars com elle...</p> + +<p>—Porque ento?</p> + +<p>—Conheceste-o primeiro.</p> + +<p>—No importa isso. A elle conheci na manhan, a ti noite, ambos no mesmo +dia.<span class="pn">{105}</span> Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra. +Encaminhou-me do hotel, e... m recommendao tem dado com os multifarios +obsequios, com os gastos e as gentilezas, smente com essas coisas... Ora, uma +mulher como eu, ou quer o homem, ou no o quer... De minha parte dispenso as +galanterias...</p> + +<p>—Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispres de sua +bolsa...</p> + +<p>—E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor... +</p> + +<p>—L com isto combino eu.</p> + +<p>—Assim, v que seja e comecemos...</p> + +<p>—Que tenho eu para tanto me olhares?...</p> + +<p>—Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes so +dois vulces. Como te chamas?</p> + +<p>—Guanabarino, um nome difficil.</p> + +<p>—Como?</p> + +<p>—Gua-na-ba-ri-no!</p> + +<p>—Gua-na...</p> + +<p>—... barino.</p> + +<p>—Ah! sei. Guanabarino. a primeira vez que ouo esse nome. s brazileiro? +</p> + +<p>—De corpo e alma. E tu?</p> + +<p>—Filha do sul da Hungria. Vim creana para a tua terra. Fui noiva, aprendi +a cantar com um meu amante e vivo disto...<span class="pn">{106}</span></p> + +<p>—Tens percorrido meio-mundo, hein?</p> + +<p>—No: conheo a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia...</p> + +<p>—Dize outra vez esse termo...</p> + +<p>—Reminiscencia.</p> + +<p>—Que lindo! Parece-me, Sarah, que ests a dar uma serie de beijos...</p> + +<p>—Como elle ardente!</p> + +<p>—De verdade?</p> + +<p>—A tua alma est fugindo-te pelos olhos...</p> + +<p>—Junto de um espirito como o teu, como ella no querer a transfuso carnal? +J notaste o frio que regela as mos do homem emocionado junto da mulher que o +escalda?...</p> + +<p>—Ih!... Que glo!</p> + +<p>—Sabes explicar?</p> + +<p>—No. difficil?</p> + +<p>—Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao corao. As +extremidades resfriaram-se. Tudo isto j comeo de paixo... Falaste nos meus +olhos! E os teus? So capazes de comprar o mundo com um s relance.</p> + +<p>—Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento?</p> + +<p>—Que graa! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas gentilezas. +</p> + +<p>—Tens gozado tanto?<span class="pn">{107}</span></p> + +<p>—Inda perguntas?! No sabes que o amor se fez para os temperamentos +tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um desejo +para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda hora: sinto que +todo o teu sexo no seja uma s mulher para esta ser a minha amante...</p> + +<p>—Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino!</p> + +<p>—No.</p> + +<p>—Desmentes o que asseguras.</p> + +<p>—J tiveste o teu quinho.</p> + +<p>—Como assim?</p> + +<p>—J te possuiu o Gustavo...</p> + +<p>—Juro-te que no. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja revelada, +ainda no desejou...</p> + +<p>—De facto?</p> + +<p>—Juro-te eu.</p> + +<p>—Ao depois delle... nunca!</p> + +<p>—Mas, porque? Mettes-me medo...</p> + +<p>—Por nada! O Gustavo um homem para se temer...</p> + +<p>—E porque me infles para ser a sua amante?</p> + +<p>—Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu +concubinato bem pdes usufruir grandes proventos. E, j agora te direi: pouco +mais far elle do que<span class="pn">{108}</span> hoje... Entretanto, como +homem de recursos, talvez ainda no te dsse a menor prova do que seja...</p> + +<p>—Fez-me hoje a oblata de um collar de libras...</p> + +<p>—Um collar?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—De libras esterlinas?</p> + +<p>—Conheces?</p> + +<p>—Acho que no. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos...</p> + +<p>—Foram presente.</p> + +<p>—Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros +meios que no esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe +aqui...</p> + +<p>—No amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de +<em>chanteuse</em>. s vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a +primeira a no regeitar o que me do. Um deputado deu-me este annel...</p> + +<p>—Adoravel!</p> + +<p>—Um advogado, ao depois de uma perseguio de mezes, para eu o receber, +offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho aquinhoou-me +apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio, outras...</p> + +<p>—Muito em cheio, Sarah!<span class="pn">{109}</span></p> + +<p>—Tu falas? Um mineiro, hoje desesperanado de conseguir a minha +retribuio, deu-me estes correntes para atilios...</p> + +<p>—Que lindas frmas!</p> + +<p>—Mostro-te apenas os atilios e no as pernas...</p> + +<p>—E eu vejo tudo! admiravel como o <em>fraise</em> das meias se destaca no +gsso das tuas pelles...</p> + +<p>—Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me cubrissem +de oiro tenho tido s carradas... mas, um s que me dissesse coisas to lindas, +nunca tive... A palavra inescutada tambem uma joia preciosa. E para retribuir +tantas distinces ineditas s um beijo de muita paixo, s um beijo...</p> + +<p>—Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e dste mais de mil...</p> + +<p>—Longe disto, tu no me recompensaste com um s... Reparei bem...</p> + +<p>—Desculpa. Mas, quando sou beijado, no beijo. Esta caricia deve ser sempre +espontanea e impagavel. E eu no commetto a grosseira sensualidade de pagar uma +caricia...</p> + +<p>—Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan...</p> + +<p>—Com todo o fervor...<span class="pn">{110}</span></p> + +<p>—No te enciumas?</p> + +<p>—No. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de ouro +que elle te der.</p> + +<p>—Queres ver o collar de hoje?</p> + +<p>—Verei.</p> + +<p>—Elle me prometteu para amanhan um relogio e um corrento.</p> + +<p>—Aproveita, Sarah! Gustavo desperdia dinheiros de herana...</p> + +<p>—Vs tu o bello collar?</p> + +<p>— lindo!... Elle t'o deu?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Esta joia?</p> + +<p>—Que significa o teu espanto?</p> + +<p>— que este collar ...</p> + +<p>—Falso?</p> + +<p>—No! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo...</p> + +<p>—Agora minha!</p> + +<p>—Ests no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos...</p> + +<p>—E s a ti amarei, Guanabarino!...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de G<small>USTAVO</small><span + class="pn">{111}</span> evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando + o silencio somnolento do casaro do hotel, a figura caprina de um mal + conhecido visinho de quarto...<span class="pn">{112}<br> + {113}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001100000">DEPOIS DO COMETA</a> </h2> + +<p><span class="pn">{114}<br> +{115}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001110000">DEPOIS DO COMETA</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, + A<small>LEXANDRINA</small> ergueu-se da <em>steeple-chaise</em>, e beijou a + mo da velha senhora D. C<small>AROLINA</small>, que acompanhava + M<small>IMI</small>, naquella matutina visita de nupcias.</p> + + <p>Ao depois, como duas flores de uma s haste separadas para sempre que se + reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braos a figura da + amiga e beijaram-se fartamente.</p> + + <p>De outro lado, A<small>RTHUR</small>, o novel esposo, enfardado no seu + dolman de brins brancos, cumprimentra, ceremoniosamente, a + D<small>ONA</small> C<small>AROLINA</small> e com um sorrizo prazenteiro + applaudiu as bregeirices de M<small>IMI</small>.</p> + + <p>Esta e A<small>LEXANDRINA</small>, ao depois de affaveis cumprimentos + geraes, confidenciavam numa janella, por<span class="pn">{116}</span> detraz + de arrendadas cortinas, onde se foram acastellar para a permuta de + segredos... </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—A que horas despertaste?</p> + +<p>—Nem sei mesmo...</p> + +<p>—No possivel.</p> + +<p>—Palavra!</p> + +<p>—Ento ferraste no somno, e...</p> + +<p>—Ao contrario: no durmimos.</p> + +<p>— exquisito.</p> + +<p>—Como te enganas! No calculas o que seja a estafa de um dia de noivado. +</p> + +<p>—O dia mais bello da mulher...</p> + +<p>—Parece-te?</p> + +<p>—Esta ba, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: no te sentiste +extraordinariamente feliz?</p> + +<p>—Ah! sim... Casei-me por meu gosto...</p> + +<p>—Olha que j me pareces outra com tanta sisudez e seccura...</p> + +<p>—No , Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. preciso +que no me tenham na conta de alguma leviana: j hoje em dia, minha amiga, +tenho segredos que te no posso falar...<span class="pn">{117}</span></p> + +<p>—Prohibiram-te de dizer-m'os..</p> + +<p>—No! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alterao na vida de uma mulher que +se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida conjugal, que +nem sei como me reconheceste hoje... J viste, no craveiro, o botosinho verde; +o caslo de folhas, como, na manhan seguinte, est um perfumoso cravo, uma flor +distincta? Se te dessem as duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o +facto como inveridico...</p> + +<p>—Mas eu te vejo a mesma boniteza...</p> + +<p>—Sim! questo de alma. Suppe que adormeceste no comeo de uma viagem e +que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo seria o +mesmo, a tua lindeza no seria transformada, mas o teu corao palpitaria +diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As tuas amigas ficariam +noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso que regressasses ou que ellas +viajassem para onde fras. Assim no cazamento: viajei para muito longe de ti. +Para nos irmanarmos como dantes, ou voltarei minha immaculabilidade de +hontem, o que seria impossivel, ou tu ascenders ao matrimonio para o que fao +votos.</p> + +<p>—Tens razo!<span class="pn">{118}</span></p> + +<p>—No te parece?</p> + +<p>—Falas e procedes to judiciosamente que no me atrevo a duvidar das +alteraes por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o cazamento +para no me esquecer to depressa das intimidades com as minhas amigas...</p> + +<p>—No me esqueci. s injusta! No te darei novas confidencias: as velhas, +entretanto, ficaro acariciadas como um sonho de felicidades na vida de uma +mulher inditosa.</p> + +<p>—Pois pensei que me dirias tudo...</p> + +<p>—Tudo... qu?</p> + +<p>—Ora!</p> + +<p>—Denuncias que pensas em algumas coisas que no so veridicas, ou, pelo +menos, no o foram para mim.</p> + +<p>—Foste differente das outras!</p> + +<p>—Offendes-me.</p> + +<p>—No te offendo, no. Desconheo-te.</p> + +<p>—Que quererias tu que eu te falasse?</p> + +<p>—No sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses.</p> + +<p>—Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha com +um olhar seriamente investigador e tua me franze o sobrolho para mim... Um ha +de<span class="pn">{119}</span> suppr-me indiscreta para te communicar +tolices... e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras...</p> + +<p>—No! Deixa...</p> + +<p>—s m! Tens talento e no queres comprehender a minha situao, +especialmente no dia de hoje.</p> + +<p>—J te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres...</p> + +<p>—Amas sem razo.</p> + +<p>—Com que direito a planta exige vio da flor que j foi colhida? +Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre ns duas existe a alma do sr. +Arthur...</p> + +<p>—No exaggeres...</p> + +<p>—Pdes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirs delle tambem. Os meus +sero contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo, porque no +deve haver um conhecimento novo que no pertena a ambos: os delle... morrero +comtigo, porque no deves trahir tua f conjugal...</p> + +<p>—s incondescendente!</p> + +<p>—Sim, sou incondescendente na verdade das cousas.</p> + +<p>—Em parte, minha amiga.</p> + +<p>—No. Em tudo.</p> + +<p>—Veremos.<span class="pn">{120}</span></p> + +<p>—Pois experimenta!</p> + +<p>—E se eu te provar?</p> + +<p>—Pago-te com um beijo...</p> + +<p>—Oh! Pois ento a mulher que se cazou pde beijar outra pessa que no seja +o seu esposo?</p> + +<p>—Deste modo, Mimi, no chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha +conversas... O que te conversei at hontem, no conversarei jamais com o meu +esposo. O que te converso agora, no conversarei jamais com a tua maman. +Beijos!... Os que te dou so da ordem dos que sempre te dei...</p> + +<p>—Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias.</p> + +<p>—No sei se smente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei +quantas tem...</p> + +<p>—Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes ou +no ao teu marido?</p> + +<p>—Conforme.</p> + +<p>—No caso de dubiedades. Dizes ou no?</p> + +<p>—Se fr s do teu interesse, no.</p> + +<p>—Fao-te justia, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao +falseamento agora, smente agora, do teu dever. Contars tudo o que te +disserem, ou sers uma perjura na f<span class="pn">{121}</span> conjugal. Eu +mesma duvidaria de tuas intenes, se occultasses do teu marido o menor +acontecimento que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de +descobrir sempre esse interesse que no exclusivo da pessa que te fallou, +para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de parte, e +affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres...</p> + +<p>—Dou-te razo, minha amiga. O mundo esse mesmo e no serei eu quem o +modificar.</p> + +<p>—Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva!</p> + +<p>—Achaste?</p> + +<p>—Encantadoramente bella!</p> + +<p>—E tu me viste?</p> + +<p>—Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem porta da +igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja.</p> + +<p>—Era a ultima nota do meu pudor de virgem!</p> + +<p>—A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro +assentou-te a grinalda como uma cora de rainha. Agradou-me a tua elegancia. E, +porque no te censurar? s no gostei de trazeres os olhos<span +class="pn">{122}</span> humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar +esplendido.</p> + +<p>—Lisonjeira!</p> + +<p>—Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multides que se +dominavam com a curiosidade de ver-me...</p> + +<p>—Tens razo. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem saber +que... mais tarde...</p> + +<p>—Dize... dize...</p> + +<p>—Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais +algozes...</p> + +<p>—De vras?</p> + +<p>—Sim, minha amiga! No calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh! +Digo-te de mais! Perda se te offendo...</p> + +<p>—Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que, ainda +ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu?</p> + +<p>—Guardei-o j para offerenda a uma Santa.</p> + +<p>—Quem t'o tirou?</p> + +<p>—A maman... Arthur conversava no salo com o pap e dois amigos +retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem j era alta hora da madrugada. +Duas ou tres, no sei.</p> + +<p>—E o teu vestido? Era primoroso...</p> + +<p>—Est no <em>armoire--glace</em>...<span class="pn">{123}</span></p> + +<p>—Muito amarrotado?</p> + +<p>—No. Quando o despi... chorei! Como que uma mulher s se veste to bem +uma vez na vida?!...</p> + +<p>—Choraste, Alexandrina?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>— de mau agoiro. Dizem que morrer primeiro aquelle que chora...</p> + +<p>—No sabia.</p> + +<p>—Nem que morrer antes do outro o que se deitou por primeiro?</p> + +<p>—Tambem no! E por isso tambem serei eu quem morrer antes...</p> + +<p>—Ah! j estavas deitada quando elle appareceu na alcva?</p> + +<p>—Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mos, tratou do +successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada, desde as +asperezas do juiz cazamenteiro, at s melifluidades de voz do sacerdote, +quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal. Recompuzemos a sociedade que +aqui esteve. As dansas, o servio de <em>buffet</em>, a ceremonia do ch... +Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa, eu lembrava outra. Sorriamo-nos, +commentavamos, com seriedade, as incorreces dos outros...</p> + +<p>—E o tempo se passava...<span class="pn">{124}</span></p> + +<p>— exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. No sabes, porem, como +foi opportuna a nossa conversao. Quando extremecemos, ouviu-se o tiro das +cinco horas...</p> + +<p>—E ento?</p> + +<p>—Arthur lembrou-se do cometa... J o viste?</p> + +<p>—Ainda no!</p> + +<p>—Pois bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada do +meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Interrompidas por D<small>ONA</small> C<small>AROLINA</small>, + M<small>IMI</small> e A<small>LEXANDRINA</small>, dando-se as mos, + nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na conversao + commum...<span class="pn">{125}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001200000">AMORES NO CLAUSTRO</a> </h2> + +<p><span class="pn">{126}<br> +{127}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001210000">AMORES NO CLAUSTRO</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Um ar tpido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos, instigador + do sensualismo mais humano e menos animal, era o excellente conforto da cella + de F<small>REY</small> P<small>ATRICIO</small>.</p> + + <p>Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de dedos + enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro e o seu + affectuoso irmo de ordem, F<small>REY</small> T<small>HOMASIO</small>, + palravam gostosamente de coisas alegres...</p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resoluo +improvisada...</p> + +<p>—Pois eu, no! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e no venci: +fui derrotado.<span class="pn">{128}</span></p> + +<p>—No posso crer facilmente.</p> + +<p>— a verdade, irmo Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no sepulchro. +Para aqui trouxe o meu corpo, e, l fra, borboleteando, sem parar, a minha +alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella animava. Emquanto moo, +nas minhas preces s o nome de uma mulher viava triumphante...</p> + +<p>—Tambem a mulher...</p> + +<p>—Sim. Preconceitos, preconceitos! A barona estulta de uma familia +asphyxiou sem d a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje, tremo +de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre hymnos e +bemdies, tel-a-ia levado, no cova, sublevando-se contra os pais, sim ao +hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem cuidados naquillo que +outros apreavam—a feeria dos titulos nobiliarchicos—vivemos apenas pelas +suggestes do sentimento que nos venceu...</p> + +<p>—Os teus labios tremem, irmo Patricio, as tuas pupilas se inflammam e +olham por sobre ns para tempos bem distanciados...</p> + +<p>—Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingana que exerci contra +mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia ainda, mas +respirando<span class="pn">{129}</span> bales de oxygenio. Artificios da +sciencia! E tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo, +naquella tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do +esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A vista +annuviou-se-me e, balouadas pela briza, as rendas do esquife me disseram um +adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenos muito brancos, molhados de +lagrimas... Succumbi deante da falsa viso e esmaeci... debruado sobre aquelle +leito, onde chorei incansavelmente irado—Deus me perde!—como o mais pecador +dos homens...</p> + +<p>—Tanto poude o amor!</p> + +<p>—A mola do mundo, Frei Thomasio, a mulher. No ha um burel aqui dentro +que no seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem corriqueira e +profanamente os francses, <em>chercher la femme</em>... Por ventura no +professaste como os outros?</p> + +<p>—Sem tirar nem pr na cauza.</p> + +<p>—Sempre assim.</p> + +<p>—Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu +entre os outros homens e te elegeu o seu preferido.</p> + +<p>—Ah! por certo.</p> + +<p>—Quem me dra!<span class="pn">{130}</span></p> + +<p>—E que te faltou, Frei Thomasio?</p> + +<p>—Justamente o amor.</p> + +<p>—Intrigas-me de vras.</p> + +<p>—Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei +mocinho?</p> + +<p>—Se me lembro!...</p> + +<p>—Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era menino, +e se me dissessem que o heliantho foi obra da preteno e do desabuso de +Hephaestos querendo, como um Deus, criar ses e mais ses, todo o credito eu +daria, porque no tinha discernimento para me salvar das tentaes humanas... +</p> + +<p>—Que so as verdadeiras tentaes da serpente no Paraiso...</p> + +<p>—Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o carreiro +que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas e ramos para +sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambies de saber... +Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as primeiras cousas de +amor...</p> + +<p>—E no lias o <em>Cantico dos Canticos</em>!</p> + +<p>—Ah! no! Fui sabendo que, como Eva fra criada para acompanhar o primeiro +homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os<span class="pn">{131}</span> +arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com olhos de +escaldo...</p> + +<p>—Que magano!</p> + +<p>—E no peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas +amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o cortejo dos +mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras no tinham as calenturas de um +amor, ella abrasava na abundancia das pretenes exaltadas: todos porfia lhe +disputavam a preferencia... Tolamente eu era conduzido entre os fascinados pelo +olhar da mooila cortejada.</p> + +<p>—Estou vendo que eras o preferido...</p> + +<p>—No sei, porque no tive capacidade para aquilatar, bem como porque—e +daqui se originou a minha principal historia—troquei logo essa espectativa de +amor bem aventurado por uma effectividade de amor bem triste... Mas sei que os +olhares dos meus velhinhos cahiam sobre ns dois como punhados de olorosos +jasmins, quando elles nos viam, quaes dois noivos conscientes, em falaes na +varanda arborisada de nossa caza, amorosamente illuminados pela lua...</p> + +<p>—Bem feliz que ias para a vida entrando, irmo Thomasio?<span +class="pn">{132}</span></p> + +<p>—Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a minha +desdita foi ella a que mais lagrimas chorou... Ora, se a intuio de amar +crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais fulgentes e chispantes, +me sensualisaram todo e a carne arvorou-se em maior do que o sentimento...</p> + +<p>—O pecado!</p> + +<p>—Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, s vezes +ainda peiando cigarras e apedrejando, com rudes instinctos, os inoffensivos +gaturamos, fui prendendo-me s ardencias das esbrazeadas pupilas de uma mulher +facil... A principio, quando o seu olhar incidia sobre mim, eu cerrava os +olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer, pensava nas ternuras da outra. Nada +mais. Os dias repetiam-se e as scenas mudavam-se, crescendo as investidas e +diminuindo a resistencia. Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da +aggressora, eu sentia uma purpurido nas faces, mas incolume proseguia o meu +caminho... Mais tempo, e duas, tres, quatro vezes, voltava-me para trocar +sorrisos... Em caza, a presena da outra, comeou de aborrecer-me. noite, por +sobre as paginas abertas dos meus livros, dansavam cabrioladamente as imagens +das duas mulheres. E eu<span class="pn">{133}</span> me decidia fragorosamente +pela menos conhecida. Um dia, notei que os labios da extranha se moviam. Nada +percebi, no entanto. Que ella falava, eu estava certo. Nas passagens seguintes, +com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo exquisito. Duas syllabas apenas, e, +se no te offendo nem abuso de tua condescendencia, irmo Patricio, dir-t'o-ei +j...</p> + +<p>—Fao mesmo questo de sabel-o...</p> + +<p>—J que queres ouvir-me, continuarei...</p> + +<p>—Contina...</p> + +<p>—A deslumbrante mulher dizia-me apenas: Tico...</p> + +<p>—Ol!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocabulo...</p> + +<p>—Nada sei explicar-te, Frey Patricio, seno que corri os diccionarios dos +meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo +convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo +investigador, depois de algumas pesquisas fra da convivencia dos collegas, +soprou-me segredadamente: <em>Tico um convite... E quando ouvires, responde +taco...</em> Corei deante da revelao e maldei de tudo. O meu primeiro +impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me furtar s seduces de +Almira...</p> + +<p>—Que bello nome, e lendario!<span class="pn">{134}</span></p> + +<p>—Tive, porem, de ceder contingencia dos factos. No era possivel andar +por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti da ideia e +affrontei a tentao. Com o tempo fui cedendo. E, um bello dia, como se diz l +fra, escorreguei... Tico!, disse-me ella, e eu lhe oppuz murmuradamente +quasi: Taco! Em resposta, ouvi: Amanhan! Que noite, Frey Patricio! Se ha +caldeiras para queimar almas, ns as experimentamos quando fazemos a espera de +alguma coisa. No durmi, confesso. E, para encurtar as razes, s acordei, +effectivamente, quando, advertido por ella de que l iria chegar o seu homem, +me vi escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse +esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que cresceram e +motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que creatura perversa! Foi s +bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho animal me arrancou de debaixo das +pilhas de saccos, s bastonadas, Frey Patricio...</p> + +<p>—Ah!... ah!... ah!... ah!</p> + +<p>—No rias, Irmo!</p> + +<p>—No te zangues, Frei Thomasio. No me posso conter... A tua historia +alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!...<span class="pn">{135}</span></p> + +<p>—Nem sei como de maus tratos no me acabaram naquella hora furiosa... E +quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais!</p> + +<p>—Pudra!... Ah! ah! ah! ah!...</p> + +<p>—Alis, no foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido j, e voltando +aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia: Taco?... e eu a +repellia instinctivamente... Nem tico, nem taco... nem l dentro do teu +sacco...</p> + +<p>— ba, ba!... Ah!... ah!... ah!... ah!...</p> + +<p>—Em seguida...</p> + +<p>—Sim...</p> + +<p>—... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos conhecidos me +estygmatisava com o escandalo, e soffri, abrazadoramente. Ninita, escandalisada +com a minha quda, definiu-se por outro, que a recebeu como esposa perante +Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim mesmo... O mundo era um tedio... Ento +pensei no vicio...</p> + +<p>—Mizericordia!</p> + +<p>—Mas, no era?... Para abafar uma mizeria moral, s outra maior... ou o +passo que dei...<span class="pn">{136}</span></p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>A bronzea sineta da confraria, no se retendo na misso avisadora, chamava + a Ordem para a humilde refeio da noite.</p> + + <p>E quando F<small>REY</small> P<small>ATRICIO</small> chegou ao salo, na + companhia de F<small>REY </small>T<small>HOMASIO</small>, j se liam, + emphaticamente, as consoantes oraes da hora.<span class="pn">{137}</span> + </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001300000">A CONSULZA</a> </h2> + +<p><span class="pn">{138}<br> +{139}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001310000">A CONSULZA</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>De <em>maillot</em>, apenas, arrebicando as faces diante de um espelho, + N<small>INA</small>, a bailadeira, tinha um milho de pensamentos banaes no + cerebro ardente.</p> + + <p>Os traos da sepia e os rebordos do nanquim, j lhe accentuavam a grande + vivacidade do olhar, e o p de arroz attenuava e embellecia as cres roseas + do rosto criadas pelo carmin vencedor.</p> + + <p>Uma vez por outra, deixava de conformar-se, para attender aos appellos da + porta, de onde, sem deixar ninguem penetrar, voltava enfastiada com as + iteraes de extranhos.</p> + + <p>Esperava O<small>CTAVIO</small>: era o <em>aimant du coeur</em>, porque o + C<small>ONSUL</small>, o velho<span class="pn">{140}</span> francs, pelas + suas funces representativas, evitava aquelles encontros mais notorios... + </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Nina?</p> + +<p>—Quem bate? Octavio?</p> + +<p>—Elle, sim!</p> + +<p>—Entra, meu rico amor!</p> + +<p>—Fiz-me esperar, hein?</p> + +<p>—Nem tanto, mas eu tenho a regalia de poder cheirar-te as vestimentas para +saber se tiveste o contacto do corpo de outra mulher, de vistoriar-lhe o +casaco, para descobrir ahi os fios perdidos dos cabellos da que me logrou... +</p> + +<p>—Descansa o teu corao. Vivo inteiramente para ti. E emquanto estou longe +do teu olhar, sou como o barro que espera, ardorosamente, a toda a hora, a +plasmagem do artista. Por elle, passam e voltam, vo e tornam, todos os +profanos: mas elle no menos monopolisador de sua plasticidade do que uma +flor do gnomo que s abra a horas certas...</p> + +<p>—No sabes? O Consul pediu-me a noite...</p> + +<p>—E deste-lh'a?<span class="pn">{141}</span></p> + +<p>—Nem sei...</p> + +<p>—J me toma os dias inteiros... Entra agora pelas noites... Que horas sero +as minhas?</p> + +<p>—Todas at. Aturo-o porque tu consentes.</p> + +<p>—Exactamente. Mas elle vem a prejudicar-me se continas a no se satisfazer +com o que lhe ds. s vezes, l para as tantas do dia, penso em ti. O brazido +abre em chammas ao menor sopro. O incendio alastra. Quero remediar-me e soffrer +a caricia dos teus beijos anti-incendiarios. Vem logo a certeza de que o Consul +te frequenta o dia inteiro. Esmoreo. Abomino-me e espero confiante o prazer da +noite. Tenho sido certo e insubstituido. De agora por diante, nem mesmo nas +noites poderei confiar. Ao amante nunca lhe ds demais. Se te pede uma hora, +d-lhe meia, se te pede um dia, d-lhe horas, se te pede uma noite, d-lhe um +dia, e reduze sempre as suas pretenes. Ao contrario, todo o tempo ser +absorvido. E, quanto ao mais, espera-te hoje a ventura. Vais dormir com o +Consul... Estou libertado...</p> + +<p>—Oh! no! Que succede Octavio?</p> + +<p>—Nada. No estorvo os teus anhelos. Leva comtigo o Consul. D-lhe o meu +lugar,<span class="pn">{142}</span> mas dize-lhe, ao menos, que no me +occultaste a entrada delle no leito que deixo vasio...</p> + +<p>—Espera um pouco que te falarei melhor. s acabar de toucar-me...</p> + +<p>—Careces de mim?</p> + +<p>—No me aborrece, Octavio!</p> + +<p>—Pensei sempre que valhesse mais do que todos os outros teus amantes. Vejo, +entretanto, agora, que um existe mais poderoso ainda do que todos ns +reunidos...</p> + +<p>—Vale a pena a descuberta.</p> + +<p>—Desmente-me, pois. No tens um amante que preferes ao Consul, um amante +deante do qual te esqueces mesmo de mim?</p> + +<p>—Dizes-me coisas extraordinarias...</p> + +<p>—Contesta a existencia desse outro amante omnipoderoso, que motiva teres-me +deixado no exilio deste divan, na semi-obscurido de teu camarim...</p> + +<p>—No s amavel.</p> + +<p>—De mais em mais se confirma o que te digo: nem tens animo, por causa delle +mesmo, para contestares o que te affirmo de um modo to categorico... Digo-te +centos de coisas e nada te abstrai desse amante unico...</p> + +<p>—Agora, sim! Dei um ultimo retoque nos meus preparativos de scena... Que te +pareo de <em>maillot</em>?<span class="pn">{143}</span></p> + +<p>—No trato disto. Refiro-me ao teu poderoso amante.</p> + +<p>—O Consul?</p> + +<p>—No sabia que este seja poderoso. Mas no a elle. Ao outro, deante do +qual te esqueces de mim, do Consul e de alguns menos e mais cotados do que ns +outros...</p> + +<p>—Amante?</p> + +<p>—De certo. Negas que no te absorve elle mais do que qualquer de ns?</p> + +<p>—Nego.</p> + +<p>—Contestas que exista esse amante?</p> + +<p>—Juro-te mesmo.</p> + +<p>—V l que no me enganas...</p> + +<p>—Quem ser, Octavio?</p> + +<p>—O teu espelho...</p> + +<p>—Aceito a graa. Em troca, porem, vais dizer-me o que julgas de meus trajos +em <em>maillot</em>?...</p> + +<p>—Julgo mal, porque te acho parecida com uma lebre a quem cortaram cerce +todos os pellos... Assim muito delambida, muito escorrida, muito masculina... +</p> + +<p>—Tens espirito.</p> + +<p>—E fui franco do modo que tu me pediste. Veste as rendas, sobrepe as +sedas, ou tira o <em>maillot</em>. Se vamos ao mundo, todos os atavios, todos +os <em>soutaches</em>, applicaes e <em>manteaux</em><span +class="pn">{144}</span> sero poucos; se ficamos aqui, o menor fragmento de +tecido mais fino, ser demais... Ou o extremo enroupamento, ou a extrema +nudez...</p> + +<p>—Figuremos duas hypotheses. Se me visses enroupada, com um luxuoso vestido, +de muitas rendas, muitas fitas, muito decte, muita joia, e lindo chapeu de +plumas, que farias de mim?</p> + +<p>— essa a primeira hypothese?</p> + +<p>—Sim!</p> + +<p>—Pois bem: levar-te-ia, logo, tua caza para que, antecipando a hora de +tua sahida, o Consul, nem de longe, pelo meu brao, te visse hoje...</p> + +<p>—s digno de um acto destes.</p> + +<p>—Bravura do amor. Agora, a segunda hypothese?</p> + +<p>—Sim: se me visses na, to na que nem uma <em>charpe</em> me velasse as +pomas, que farias de mim?</p> + +<p>—Ah!... Ahi est uma pergunta de difficil resposta, uma hypothese de +operosa soluo...</p> + +<p>—Porque?</p> + +<p>—Porque uma nueza dessas exigiria um leito e sem este tu serias apenas uma +gravura...</p> + +<p>—Venceste-me. Despacharei o Consul.<span class="pn">{145}</span></p> + +<p>—No sou eu quem determina. Passarias uma noite igual s de Bhodis na +companhia de Chrysis... Porque escancellas tanto os teus deformados olhos? No +calculas, assim, a desproporo do teu semblante, lindo como um camapheu...</p> + +<p>—Procurei ouvir o que se faz em scena, afim de verificar quanto falta para +a minha vez...</p> + +<p>—Queres, saio a ver...</p> + +<p>—No. Chamarei o contraregra. Nem precisa: canta a Solidonia...</p> + +<p>—A pernstica!</p> + +<p>—Deixa-a, coitada! Ainda tenho todo um intervallo e dois numeros da outra +parte. Agora... d-me um beijo, paixosinha!</p> + +<p>—Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulza...</p> + +<p>—Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu lhe +tenha promettido uma noite, quando no lh'a darei por preo nenhum?</p> + +<p>—Ciumes?!... No os sinto dos outros homens, porque nenhum delles lograr +de ti as venturas e as concesses que eu tenho gozado... Nem mesmo do Consul... +Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve dizer sempre que antes +delle provei-o eu.<span class="pn">{146}</span> Tenho ciumes, Nina, do que tu +vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que fitas... Se eu +pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus vestidos. Invejo +delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem confidentes dos teus nervos e das +tuas pulsaes. Tenho cimes das flores que exornam os teus cabellos, porque +smente ellas passam o deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor. +Tenho cimes do fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado +entre os teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te +inebria, porque smente elle atravessa as tuas frmas e vai arrebatar-te na +essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque smente ella +vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo isto, eu quereria +ser o somno que te fecha as palpebras, porque participaria das felicidades +todas dos teus sonhos; a agua que te banha as frmas, porque desvendaria os +immensos segredos e mysterios de tua belleza unica, e o riso que te doura o +semblante, porque teria o dominio do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do +instante magico em que pela primeira vez nos pertencemos mutuamente? So de +vras muito irmans as almas que tocam <span class="pn">{147}</span> meta de +uma ventura no mesmo instante... e as nossas duas...</p> + +<p>—De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o poder de +duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a inclemencia de +Nausitha deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao amante, no fervor do +gzo, entre os teus braos, naquella noite, Octavio, naquella primeira noite... +</p> + +<p>—Desgraadamente, j eu, ento, poderia ter sentido por toda a parte de teu +corpo, o halito bafiento do outro amante.</p> + +<p>—O outro amante?!... Tenho-o, e como se elle no existisse. Tenho-o +porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor, protestam +os meus seios, bem diversos na tua presena do que so na delle. Deante de ti, +as minhas pomas parecem florescer como os jasmineiros em deliciosas noites de +luar, como as laranjeiras em uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem +perdem na seccura e esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas +dos rochedos... s a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos labios. +Elle o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os seus +desejos...<span class="pn">{148}</span></p> + +<p>—Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher no se cede a um homem sem +a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer...</p> + +<p>—Acertaste. No sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente procuram +por toda a parte o homem e que s ao depois de muitos descobre o procurado? +Quando topei comtigo, j o tinha no convivio de suas esquisitices.</p> + +<p>—Tu s formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam +divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias! Quero +enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos amores...</p> + +<p>—Bem sei que os homens todos so uns animaes. Uns, porem, so menos do que +outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que os cis, +nesse mistr, so os equivalentes de certos homens? E que elles so os seres +que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um co... Os seus labios, como +os de Pan, seriam capazes de devorar as virgindades, se as virgens recebessem +os seus beijos...</p> + +<p>—Quero crer.</p> + +<p>— um libertino.<span class="pn">{149}</span></p> + +<p>—Nada mais?</p> + +<p>— um extrangeiro...</p> + +<p>—Que importa?</p> + +<p>— um devasso...</p> + +<p>—E smente isto?</p> + +<p>—Ama como um co, Octavio.</p> + +<p>—E que que faz?</p> + +<p>—Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me arrastar + concesso do prazer que s vige nos seus labios? No te bastar a expresso +do pouco que te digo?</p> + +<p>—Repugnante!...</p> + +<p>—Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante s tu!... Toda esta noite serei tua +como nas demais...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus cabellos de + oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de todas as volupias da + terra, como os crnos de Almatheia foram de todas as riquezas do + mundo...<span class="pn">{150}<br> + {151}</span> </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001400000">DE COMO O AVARENTO MORREU...</a> </h2> + +<p><span class="pn">{152}<br> +{153}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001410000">DE COMO O AVARENTO MORREU...</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:—uma + enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, M<small>ANUEL</small> + C<small>ARLOS</small> proferia blasphemias.</p> + + <p>Ao seu lado, a N<small>EGRA</small>, que era uma amante retinta, carnuda e + fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos cautelosos a + agitao do moribundo angustiado.</p> + + <p>Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal percebido, a + principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima reaco da vida contra a + morte.</p> + + <p>Nesta hora, da doena, por entre as chocantes palavras de M<small>ANUEL + </small>C<small>ARLOS</small>, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim<span + class="pn">{154}</span> dos seus dentes que rangiam como uma lima activa + sobre um pedao de ferro...</p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito +dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida um pedao de +ouro comprado com um milho de moedas... A morte uma ladra que nos furta, +para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a reunir... Sou rico! Digo-o +com um cordial prazer. Tambem trabalhei como uma alma possessa. No houve +domingo nem dia santo, que me dssem descanso, chuva e ao sol, alta madrugada +e avanada noite... Rim... rim... rim... rim...</p> + +<p>—Como elle range os dentes?!...</p> + +<p>—Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as cavallarias +despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como massas de feno, nos +recantos das mangedouras. s vezes, chovia como um diluvio. E eu, com o corpo +quente da cama, cortava o pateo, mettido no meu capote de lan, e, menos feliz +do que os meus assalariados<span class="pn">{155}</span> que ainda dormiam, +tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem, dava-me calor e foras. +Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da Beira, de onde sahi, num dia de +inverno, ha mais de trinta annos. Nesse dia, a avsinha e a mi-Geralda +levaram-me at caza do moo que me trouxe para aqui. Ah! Deus lhe d o reino +dos cus, j que na terra eu nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim... +Bella pessa, generoso ao desperdicio... Que barulho esse que ouo de +instante a instante?</p> + +<p>—So os trabalhadores no terreiro.</p> + +<p>—Sahiram hoje os vehiculos?</p> + +<p>—Sahiram todos.</p> + +<p>—Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza.</p> + +<p>—Talvez os cis...</p> + +<p>—No me veiu ver hoje o <em>Tupy</em>. Tem sido esse canzarro o meu maior +amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mos. Por onde +andar elle que hoje se esqueceu de mim?</p> + +<p>—Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e...</p> + +<p>—Nem pense nisso: o pobre animal se ladra no morde. Vigia-me a caza e +desconhece os extranhos.<span class="pn">{156}</span></p> + +<p>—Ladra e assusta.</p> + +<p>—Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as suas +lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos. E sempre +tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de longe mesmo, o +tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em meio de caminho. +Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em fidelidade e presteza. +Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim... rim... Nem sei como se tm +feito por ahi afra os meus servios... E hoje o ultimo do ms. Se no se +procurar, a terrivel corja no paga. Nem tenho uma pessa a quem confie esse +servio. Neste mundo s se encontram gatunos e ladres. Um honesto, como eu, +uma realidade rara! Em tudo fui roubado, at na sade. Dos poucos, das moedas +de cobre, os simples trocos e differenas nas compras, tu te assenhoreavas, +porque me dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dce, uma +fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo de ter +deixado nas tuas mos as economias que deviam ter voltado ao meu capital, +porque delle se despediam para sempre... Rim...<span class="pn">{157}</span> +rim... rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!... +Ouo novos ruidos... S me parece que os de agora so dentro de caza...</p> + +<p>—Pois quem seria?</p> + +<p>—Sei l... Ouo coisas que s me parecem na sala da frente. Vai ver se +alguem...</p> + +<p>—Nem precisa. A porteira est fechada, e abrindo-se ella a campainha d +signal. Ao depois, o velho Thom trata na estribaria dos animaes em que +montas...</p> + +<p>—Vai tudo muito bem, mas no me posso conformar com esta vida de cama. +Seis dias de doena, e estou derreado como uma velha mangueira... Inda assim, +considero-me bastante feliz. No devo nada a ninguem. E, a mim, todos me devem. +Depois de amanhan, vence-se uma letra de um devedor: ha de querer pagar-me os +juros de quinze por cento por novo semestre... Mas elle estar enganado. Se +quizer reformar, os juros crescero. Agora s darei dinheiros a dezoito ao +ms... Serviu? Faamos o negocio. No serviu, passe muito bem... Rim... rim... +rim... rim... Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera +de seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres annos. Ao +depois<span class="pn">{158}</span> de vencido o seu compromisso, levou +engabelando-me por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa +amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu no mettesse +advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o conselho de que +poupa e os santos te ajudaro... No ganhei nunca quatro vintens de que no +guardasse tres... No te estou dizendo? Esse barulho dentro de caza...</p> + +<p>—Desta vez no ouvi nada.</p> + +<p>—Ento, ests surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente andava. +Rim... rim... rim... rim...</p> + +<p>—No sei que especie de gente...</p> + +<p>—Realmente posso enganar-me.</p> + +<p>—J te convences? A esta hora, nem os trabalhadores esto aqui... Ah! +Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros no foram hoje pedreira...</p> + +<p>—Miseraveis! Preguiosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados deixam +de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, um prejuiso... Rim... +rim... rim... rim...</p> + +<p>—Fiz ver tudo isto a elles.</p> + +<p>—E porque no trabalharam?</p> + +<p>—Porque morreu a moa do mestre, e este no veiu...<span +class="pn">{159}</span></p> + +<p>—No digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois l na +minha terra, que se sabe trabalhar... L trabalhariam at hora do enterro. +Aqui encontram a razo para muitos dias de ocio. Se eu estivesse bom, a esta +hora teria tocado todos elles para a rua. Rim... rim... rim... rim... No gosto +de vadios. Fui homem que, numa vida inteira, no teve uma hora de vadiao. +Sempre comi de chapeu na cabea e esporas nas botinas. Por isso guardei +meia-duzia de contos. Digo assim meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas +meias-duzias guardei... Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—E ento?</p> + +<p>—No sabes o que foi?</p> + +<p>—No sei...</p> + +<p>—O <em>Tupy</em> que esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e +aos outros mandei pr as correntes...</p> + +<p>—Vai soltar o <em>Tupy</em>. inoffensivo, tanta quanto leal e +cuidadoso. Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o!</p> + +<p>—Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avana +sobre elle...</p> + +<p>— uma prova de lealdade.<span class="pn">{160}</span></p> + +<p>—Que incommoda aos extranhos. Porque no bebes o leite? Queres?</p> + +<p>—Leite?!... Hontem te preveni que leite luxo e que no posso com essas +despesas... Ainda o compraste hoje?</p> + +<p>—O doutor mandou...</p> + +<p>—Rim... rim... rim... rim...</p> + +<p>—Ao depois, em caso de doena no ha desperdicio...</p> + +<p>—Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. o leite, a botica, o +doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das pernas sou +senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem recostar-me! Tenho +kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se a coisa continua assim... +Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um homem conservado e indisposto para +divertimentos. No sei como a minha sade estragou-se... Vai soltar o cachorro! +Os seus movimentos inquietam-me. J atirou outra coisa ao cho...</p> + +<p>—Deixa o cachorro preso.</p> + +<p>—Pde arrebentar mais alguma coisa, e sero novas despesas para mim... Que +afflio sinto agora!</p> + +<p>—Bebe o leite!</p> + +<p>—D-me.<span class="pn">{161}</span></p> + +<p>—J se devem trinta medidas...</p> + +<p>—Como?</p> + +<p>—Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e duas + tarde...</p> + +<p>—Que desperdicio! No digo! Se levar aqui um ms, o leite, o medico e a +botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me tero reduzido mizeria... +Sabes que mais? No quero mais leite... Supprima-se desde hoje...</p> + +<p>—E com que te alimentas?</p> + +<p>—Com agua... intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo em +oito dias de cama! No possivel. No sou rico, no! Toca a poupar...</p> + +<p>—Sem o leite no poders passar...</p> + +<p>—Passo, sim! Quem foi que disse que no poderei?</p> + +<p>—O medico.</p> + +<p>—Pois passo, sim. Sem dinheiro que nada possivel. Parece-me que se +combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um +pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim... rim... +Est muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem sei se tomei +poro igual em todo o resto da vida! ter ganho uma fortuna em mais de +trinta<span class="pn">{162}</span> annos para acabal-a bebendo leite, pagando +medico e sustentando boticas... No quero mais leite! Rim... rim... rim... +rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella m f e plano de roubo... Ah!... +L se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em cima: o co preso, por um +capricho, para quebrar os moveis e as louas... Mas, esse ruido que agora ouvi +muito bem...</p> + +<p>—Foi a mesma coisa...</p> + +<p>—... no foi l dentro...</p> + +<p>—Foi, sim!</p> + +<p>—Pareceu-me na sala da frente...</p> + +<p>—No cuidars de outra coisa?</p> + +<p>—E que seria o que cahiu?</p> + +<p>—Uma bacia de folhas...</p> + +<p>—No!... no!... no!...</p> + +<p>—Que queres fazer?</p> + +<p>—Levanta-me aqui...</p> + +<p>—Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu s peior do que +um menino...</p> + +<p>—Aquelle barulho... Levanta-me aqui...</p> + +<p>—Para que? no me dirs?</p> + +<p>—Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como se +pegasses num pedao de pau...</p> + +<p>—Assim?<span class="pn">{163}</span></p> + +<p>—Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro...</p> + +<p>—Queres muita coisa tambem...</p> + +<p>—No me fazes favor... No preciso de ninguem contra a vontade... Tenho +dinheiro para ser bem servido, e gsto que me tenham obediencia...</p> + +<p>—Ests muito impaciente...</p> + +<p>—Tira o travesseiro...</p> + +<p>—Prompto. Queres mais alguma coisa?</p> + +<p>—As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... No esto aqui... Bem sei +agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba...</p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer, minutos + depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu esconderijo, como + verdadeiras inutilidades...<span class="pn">{164}<br> + {165}</span> </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001500000">AO DESPIR UM PIERROT</a> </h2> + +<p><span class="pn">{166}<br> +{167}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001510000">AO DESPIR UM PIERROT</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em que, + sem acceder ao somno, C<small>HRISTINA</small> se divertia, mostrando ao + astro lubrico os tons roseos de sua carnao perfeita como se talhada em + marmore rozado e humido.</p> + + <p>Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas vises; mas + soffrendo o conflicto das ideias de uma traio de N<small>ARCISO</small> e + da lealdade perquiridora de S<small>TELLA</small>, a desaccordada mulher + caprichou de no durmir emquanto a espiona no tornasse do baile fantasia. + </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Reconheceu-te, Stella?</p> + +<p>—Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile?</p> + +<p>—No o viste?<span class="pn">{168}</span></p> + +<p>—Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no +baile, e, escrava dessa supposio, criaste todo um systema de desconfianas, +que comearam de traduzir-se, muito naturalmente, naquella tua phrase.</p> + +<p>—Viste-o?</p> + +<p>—Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? No esperavas esta noticia? +</p> + +<p>—Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com uma +pontinha de esperana em contrario, suppuz sempre que no puzesses os olhos +sobre elle. Embora trahida, eu quereria no ser sabedora do mal...</p> + +<p>—Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te no +obstines em aggravar o acaecido. No remediars o mal, no assim? Pois, +corao larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as aces. Acompanhei-o por +toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que uma <em>pierrot</em> o +acompanhasse. Se tu lhe falas, ters de dizer-lhe quem foi espionar-lhe os +passos de homem livre...</p> + +<p>— o que te parece: livre?...</p> + +<p>—Pois no livre Narciso?</p> + +<p>—Digo-te que no!</p> + +<p>—O teu noivo no tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo +estado?<span class="pn">{169}</span></p> + +<p>—Repito-te que no.</p> + +<p>—Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das vistas da +mulher amada, ficam sendo o que so: homens solteiros...</p> + +<p>—Narciso differe dos outros...</p> + +<p>—Uffa!... Christina!... Vou tirando o <em>pierrot</em> que me acalora as +carnes...</p> + +<p>—O noivado um comeo de intimidades, que se distendem, mais ou menos, +conforme as razes de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado semi-escuro, +onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos assegurados na nossa +posio, com a possivel presena immediata de todos os de caza, as nossas +intimidades seguem uma derrota que me d o direito de exigir de Narciso maiores +fidelidades do que tu pensas...</p> + +<p>—Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o +collte... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda ordinaria, +esta!</p> + +<p>—Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias das +almas passaram s do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais cedo... +Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua, os seus labios +roaram sobre os meus<span class="pn">{170}</span> olhos, e os seus bigodes +produziram-me um <em>frisson</em> nas carnes, com o qual eu me teria entregue +ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus dedos +que elle segurava entre os seus, sorriu—um sorriso mais lindo do que um raio +de sol!—e, sem o querermos, talvez, por certo instinctivamente, os nossos +labios se encontraram...</p> + +<p>—V, Christina, como ficaram as minhas calas...</p> + +<p>—Desbotou nellas o setim?</p> + +<p>—Alguma coisa. A cr amarella mais fixa do que a vermelha... Mas, esto +para ser exprimidas... Que sudorifico!</p> + +<p>—Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos so de um +homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo... Avia-te, +afim de que me contes o que viste...</p> + +<p>—Dir-te-ei centos de coisas novas...</p> + +<p>—Appeteo o conhecimento do que sabes. uma infelicidade ter-se um pae, +como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse que eu fra a +um baile publico espionar os desvarios de meu noivo... Ah!... Como eu seria +venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte que cubio...<span +class="pn">{171}</span></p> + +<p>—Nem tu calculas pallidamente o que por l se vive...</p> + +<p>—Apressa-te, Stella!</p> + +<p>—Acaba, primeiramente, o que contavas... No quero perder a ba hora de +confidencias que inauguraste...</p> + +<p>—Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os +contactos... Em seguida, as mutuas confianas, mais um arregaamento hoje, mais +uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe resistisse, desejou +ver-me o comeo das pernas... Intimidades, Stella, intimidades, proprias, +communs e infalliveis entre todos os noivos... Eram ellas que me garantiam, at +hoje, a constancia de Narciso, e, quando vejo, como agora, que o que lhe fao +j se torna pouco para o prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco +mais, sem comtudo deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as +concesses, na medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores... +Conta, agora, o que tu viste...</p> + +<p>—Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o +corpo quer distender-se nervosamente num leito macio...</p> + +<p>—E onde ficou Alberto?</p> + +<p>—O meu primo?<span class="pn">{172}</span></p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos dois +<em>pierrots</em> da maior sensao! Nem calculas como deliciosa a companhia +do meu primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado +geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos. Soube +corresponder minha excitao, no commettendo maiores pecados do que me +beijar nas passagens mais sombrias das ruas...</p> + +<p>—Invejo-te, Stella!</p> + +<p>—Bem poderias ter ido...</p> + +<p>—Qual nada!</p> + +<p>—Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois no foi?</p> + +<p>—Isto fcil para ti...</p> + +<p>—Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?...</p> + +<p>—No!</p> + +<p>—Ahi est! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que vissemos... +L estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do baile. Custei a topar +com elle. S em meio da festa deparei com elle numa das banquinhas do +<em>buffet</em>. Mais de vinte homens e mulheres...</p> + +<p>—Mulheres, tambem?<span class="pn">{173}</span></p> + +<p>—E ento? Tu pensas que haver quem resista solido naquelle cahos de +sensaes extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho, casado +com a Lucinda, l estavam, cada qual com a sua mascarada...</p> + +<p>—Narciso tambem?</p> + +<p>—No te espantes seno se eu te disser que elle era o unico que no tinha +uma mulher fantasiada ao seu flanco...</p> + +<p>—Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei logo +na traio. Aquelle semblante enfarruscado no era sincero...</p> + +<p>—Ao seu lado estava uma <em>cuyre</em> italiana: deves gabar-te do gosto +de teu noivo. No se acompanha de mulher feia. serio...</p> + +<p>—Era bonita a que o seguia?</p> + +<p>—Linda, Christina: <em>mignon</em>, alva, loura, e, com um arrebatador +decte, exhibindo um collo mais branco do que um pedao de neve, do meio da +qual, como uma abelha sobre uma petala de gardnia, um negro signal era tido +como mascotte...</p> + +<p>—J agora me penso feliz por no ter ido l.</p> + +<p>—Que teria se tu tivesses ido?</p> + +<p>—No me conteria.<span class="pn">{174}</span></p> + +<p>—Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu +noivo sabe gozar uma mulher. No dirias nem uma palavra, mas lhe acompanharias +a pessa como a sua sombra. Quando no te agradasse fecharias os olhos. Vi-o, +por exemplo, encher a bocca de champagne...</p> + +<p>—Nada mais natural.</p> + +<p>— o teu erro. Quem no sabe como quem no v. Pensas, ento, que elle +tomou a bebida de dentro da taa?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Pois no! A <em>divette</em> foi quem lhe passou o champagne collando os +seus nos labios delle... Garanto-te que no sabias deste modo de acariciar... +</p> + +<p>—Confesso-te que no.</p> + +<p>—Ahi est. Verias a <em>droiture</em> com que o teu noivo se curvou, +encostou nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e +sugou-lhe a entontecedora bebida...</p> + +<p>—Como deve ser bom esse carinho!</p> + +<p>—Ao depois, beijaram-se...</p> + +<p>—Aos olhos do publico?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Ah!... Se eu estivesse l...</p> + +<p>—No farias seno nada. Eu, pelo menos, nessas occasies de grande excesso, +alli mesmo<span class="pn">{175}</span> me voltava, e, se no fossem as nossas +mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos... No +conheo, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um conto de +Caliban menos excitante, e um par dansando bem um conto luxurioso escripto +com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto final de um beijo. Os +corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se entranavam, as mos, servindo +de oppressores, estreitavam os troncos e cada par, assim enlaado, cabea +descahida sobre cabea, parecia um corpo s com a monstruosidade de quatro +pernas... Exquisito, sem igual... Homens e mulheres no se distinguiam na furia +dos sentidos...</p> + +<p>—E Narciso dansou?</p> + +<p>—No. Nem todos dansam. parte, pelo jardim e nas mezas do +<em>buffet</em>, os que no estavam fantasiados, se divertiam grande, mas um +pouco retrahidos das vistas do grosso publico, porque s no salo elles +escandalisariam...</p> + +<p>—Todavia, vingar-me-ei...</p> + +<p>—Poupa-o, Stella... O pecado divino... Vinga-te em mim...<span +class="pn">{176}</span></p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>As duas mulheres, num longo beijo, abraaram-se e confundiram-se, cada + qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente...</p> + + <p>A lua, devassamente, illuminou-lhes, at quando quiz, os seus bellos + corpos de uma semi-nudez pagan...<span class="pn">{177}</span></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION001600000">A TAVERNA DE M<sup>ME</sup> BERTHON</a> </h2> + +<p><span class="pn">{178}<br> +{179}</span></p> + +<p> </p> + +<h3><a name="SECTION001610000">A TAVERNA DE M<sup>ME</sup> BERTHON</a> </h3> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>No terrao do Caf Leontina, agasalhados em seus lanzudos + <em>pardessus</em>, O<small>DORICO</small> e W<small>ENCESLAU</small>, dois + typos mundanos, essencialmente mundanos, conversavam surdamente... </p> + + <p>Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha de + sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares cupidos por + todas as bancas.</p> + + <p>O<small>DORICO</small> enlanguesceu-se, e, como uma reaco, assignalou, + assim, a passagem da exquisita-mulher com uma rememorao cruel... </p> +</blockquote> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p>—Sempre curioso este Caf em materia de mulheres. No vejo esta +Menina<span class="pn">{180}</span> Leontina, como a chamam, que no me +recorde logo da infeliz Madame Berthon.</p> + +<p>—E tu, meu caro Wenceslau, s bem a chronica viva de toda a feminidade +desta terra. No ha uma mulher de quem no tenhas informaes, anedoctas, +segredos, sobre quem no lances um episodio de curioso entrecho.</p> + +<p>—No conheceste tambem a Madame Berthon?</p> + +<p>—Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo +ignorado...</p> + +<p>—Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a +inspirao do artista mais rude para produzir uma obra-prima.</p> + +<p>—Alguma divindade incognita...</p> + +<p>—No, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem a +visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e na +temperana dos seus costumes, no diria jamais que era a senhora absoluta de um +corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais inspirado... No se julgue +a felicidade dos fins pelas venturas que povoam a estrada por que trilhamos. +Muitas vezes, um momento de tranquillidade<span class="pn">{181}</span> agora +a sementeira de um incommensuravel estado de attribulaes mais tarde. Madame +Berthon despejava invejas a todas as mulheres do seu conhecimento. Desta caza +tirava ella os meios de sua subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o +taciturno aspecto de seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais +ruidosa alegria, aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum +excesso d o rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma +algoz cambiante de tristeza. Tinha a crte de poderosos pretendentes, mas +decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de alguem, era, +ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E, se a ninguem +promettia, a nenhum negava, e a todos faltava... Curiosissima mulher! Os seus +habitos eram os de uma leviana, mas a sua alma contrastava com a sua existencia +costumeira. Exquisita mulher, Odorico, muito exquisita, senhora de muitos +coraes se tivesse querido, entretanto escrava de um s que a levou, +finalmente, sepultura. Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia. +Um assassinio e um suicidio...</p> + +<p>—Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas, +em<span class="pn">{182}</span> algumas, ha a sementeira de muitos casos +fataes.</p> + +<p>—Espera, Odorico, espera. No condemnes a desventurada pelos primeiros tons +de sua historia. Juiz mais severo do que eu, no conhecers, por certo, para o +julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que veste escandalos, e que +escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a mulher o algoz, parecendo a +extrema fraqueza. Neste caso, porem, Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se +crime ella teve, foi o de amar o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... +conjugalmente, porque nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. s deshoras, l +para as tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares +cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e +recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de +enciumar-se at de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea to +geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de compensaes: o +feio conjugado com o bonito, e reciprocamente, o bonito com o feio... Dahi a +naturalidade daquella unio de Gaspar com a Madame Berthon. Mais de noventa +noites durou aquelle consorcio espontaneo.<span class="pn">{183}</span> Aqui +vinha eu, e naturalmente, cortejava mulher gentil, espionando sempre o +amante. Os homens todos, Odorico, saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril, +como os armentios saudariam, com ardente f, a vinda do outomno, porque a +estao das colheitas. Na manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois +amantes, l para as aguas furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento +ouccubo. Visinhos, espicaados pela anormalidade, attenderam ao que se passava +na moradia de Madame Berthon. Depois de acalorada discusso, durante a qual o +assassino descera as vidraas, cautelosamente, para no ser ouvido pelos +extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento no +interior daquella caza. Momentos aps, Gaspar, conduzindo uma bolsa de mo, +descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia, meticuloso e +tranquillo, trancando s suas costas a entrada no sobrado em que commettera o +assassinato de Madame Berthon. E, como um homem feliz, l se fra rua abaixo. +Quem o visse, no lhe diria o autor de um crime, muito menos quando, no +desempenho de um habito, asseiava os botins, e olhava serenamente o movimento +das ruas...<span class="pn">{184}</span></p> + +<p>—Revolto-me j contra esse perverso.</p> + +<p>—Pois bem! O movel do crime fra o roubo e todas as poupanas daquella +operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava zelosamente. Em +torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos dois tiros, populares +encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito, arrastando-se como lemures +merios em trilhas brancas de areiaes desertos. Vozes surdas contavam as +supposies de um crime; a suspeita avolumou-se... O rochedo n da desconfiana +vestiu-se fartamente com os ouropeis das espumas brancas dos commentarios. +Pelas janellas descidas, olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios +vivos do barbaro crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse +as botas e penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares +tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presena proxima de um delegado. +Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina autoridade do seu +aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina... Tudo o mais foi rapido. +Num instante abriu-se com violencia a entrada. Um obstaculo appareceu: a porta +estava presa, como que escorada por dentro. Que seria que obstava o seu +movimento?<span class="pn">{185}</span> Uma cabea affoita enfiou-se por uma +nesga, e voltou transfigurada, annunciando smente: Est morta. Outros typos +mais curiosos vieram, ageitaram-se e penetraram com a autoridade. Estatelada +sobre o cho, Madame Berthon, numa nueza arrebatadora ainda no tinha a gelidez +dos cadaveres, mas j era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue +escarlate. E sobre as suas frmas nuas, nada, seno as meias presas com atilios +de fitas rubras, e as pequenas sapatinhas...</p> + +<p>—Que miseria!</p> + +<p>—J conheceste a victima. Dahi por diante a aco foi sobre o agente. A +perseguio popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros perseguidores +foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas proprias temporas, Gaspar +era um suicida... No calculas a impresso que esse crime deixou no meu +espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e senti que o assassino no tivesse +ficado vivo para pagar com a recluso da vida a barbaridade do assassinio de +uma mulher, cujo corpo esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer +austeros Areopagos... se desvendado fsse tal como eu o vi... E nota, Odorico, +que um corpo<span class="pn">{186}</span> morto, por mais bello que seja, +menos do que o vivo, porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que +o fluido mais sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, s +naturezas muito fortes no cedero necrophilia... Ento ella que possuia um +nevo sobre o quadril direito...</p> + +<p>—Sensualizas tudo, Wenceslau!</p> + +<p>—E que que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte, como tu +deves saber, um pedao de sensualismo microbiano... Quantas fecundaes +damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, seno pela fora dos sexos, +baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre instancia do amor que topars +com a absolvio da mulher, e carregars a mo na dosagem da condemnao do +homem algoz.</p> + +<p>—Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido +condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no senhorio +dos homens.</p> + +<p>—E como influiria tudo isto para que Gaspar no victimasse Madame Berthon? +</p> + +<p>—Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o comeo do +mundo, e coisa que no se sabe a data da primeira<span +class="pn">{187}</span> traio da mulher, de to distantes tempos vem ella. +</p> + +<p>—Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa +traio do homem, e formada de uma traio, porque foi necessario que Ado +adormecesse para que Jehovah, trahindo perfectibilidade da sua obra, lhe +tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella no poderia ser +contraria sua origem...</p> + +<p>—s rigoroso demais...</p> + +<p>—No sou, no, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os dias +e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo e escreveu +precisamente: As mulheres tm sido tratadas at aqui, pelos homens, como +passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam no meio delles: como +qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil, de selvagem, de doce, de +arrebatador—mas, igualmente, alguma coisa que necessario engaiolar para que +se no v embora num vo... Que isto seno o reconhecimento do espirito +traioeiro de nossas Evas?... Ao demais... estamos muito fra dos eixos... Que +bebemos agora?...<span class="pn">{188}</span></p> + +<p> </p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<blockquote> + <p>Fra do terrao do Caf Leontina, solemnemente encapotados, dois + policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta noite...</p> +</blockquote> +<br> +</div> + +<h3><a name="SECTION001700000">INDICE</a> </h3> +<ul class="TofC"> + <li><a name="dedicatoria_l" href="#dedicatoria">Dedicatoria</a></li> + <li><a name="epigrafes_l" href="#epigrafes">Epigraphes</a></li> + <li><a name="tex2html35" href="#SECTION00200000">Nedda</a></li> + <li><a name="tex2html37" href="#SECTION00300000">Voluptuosas</a></li> + <li><a name="tex2html39" href="#SECTION00400000">O poeta moribundo</a></li> + <li><a name="tex2html41" href="#SECTION00500000">O velho medico</a></li> + <li><a name="tex2html43" href="#SECTION00600000">Os dois espelhos</a></li> + <li><a name="tex2html45" href="#SECTION00700000">O primeiro filho</a></li> + <li><a name="tex2html47" href="#SECTION00800000"> vista da denuncia</a></li> + <li><a name="tex2html49" href="#SECTION00900000">Irado at cura...</a></li> + <li><a name="tex2html51" href="#SECTION001000000">A hungara</a></li> + <li><a name="tex2html53" href="#SECTION001100000">Depois do cometa</a></li> + <li><a name="tex2html55" href="#SECTION001200000">Amores no claustro</a></li> + <li><a name="tex2html57" href="#SECTION001300000">A Consulza</a></li> + <li><a name="tex2html59" href="#SECTION001400000">De como o avarento + morreu...</a></li> + <li><a name="tex2html61" href="#SECTION001500000">Ao despir um + pierrot</a></li> + <li><a name="tex2html63" href="#SECTION001600000">A taverna de Madame Berthon</a></li> +</ul> + +<p> </p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Mundanismos, by Almquio Dins + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MUNDANISMOS *** + +***** This file should be named 30413-h.htm or 30413-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/0/4/1/30413/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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