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+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30413 ***
+
+ ALMACHIO DINIZ
+
+ MUNDANISMOS
+
+ (CONTOS)
+
+
+
+
+ F. França Amado, editor
+
+ Coimbra. 1911.
+
+
+
+
+
+Composto e impresso na Typographia França Amado,
+rua Ferreira Borges, 115--Coimbra.
+
+
+
+
+
+MUNDANISMOS
+
+(CONTOS)
+
+
+
+
+ Obras completas de ALMACHIO DINIZ
+
+ Contos
+ Um artista da moda, Lisbôa, José Bastos & C.ª, editores.
+ Sombras de pudor.
+ Mundanismos, Coimbra, F. França Amado, editor.
+ Novellas
+ A Carne de Jesus, Lisbôa, Gomes de Carvalho, editor, 1910.
+ O Diamante Verde, Lisbôa, Guimarães & C.ª, editores, 1910.
+ Sonhos de meduza, em preparo.
+ Romances
+ Raio de sol, Bahia, em folhetins, 1903.
+ Crises, Lisbôa, Guimarães & C.ª, editores, 1906.
+ Pavões, Bahia, Fonseca Magalhães, editor, 1908 (Exgottado).
+ Amen!, Bahia, em folhetins, 1909-1910.
+ Duvidas e remorso, em preparo.
+ Theatro
+ A Escarpa, Porto, Lello & Irmão, editores.
+ Tropheus em cinzas.
+ Sazão de luz (em preparo).
+ Critica
+ O passado, o presente e o futuro do heleno-latinismo em
+ lucta com o germanismo, Bahia, 1903 (Exgottado).
+ Zoilos e Esthetas, Porto, Lello & Irmão, editores, 1908.
+ Sociologia e critica, Porto, Magalhães & Moniz, editores.
+ Da Esthetica na Literatura Comparada, Rio, H. Garnier, editor.
+ A questão das raças na literatura universal, em preparo.
+ Symbolismo
+ Eterno Incesto, Bahia, 1902 (Exgottado).
+ Sê bemdita!, Bahia, 1905 (Exgottado).
+ Lingua portuguesa
+ A reforma ortografica, Bahia, 1907 (Exgottado).
+ O evolucionismo morphologico da lingua portuguesa, Lisbôa,
+ Santos & Vieira, editores.
+ Scientificos
+ Genesis hereditária do direito, Bahia, 1903 (Exgottado).
+ Ensaios philosophicos sobre o mechanismo do direito,
+ Bahia, 1906.
+ A sciencia do direito e as producções espirituaes do
+ homem, Bahia, 1907 (Exgottado).
+ Questões actuaes de philosophia e direito, Rio, H.
+ Garnier, editor, 1909.
+ A objectividade do phenomeno juridico no direito
+ brazileiro, em pub.
+ As formações naturaes na philosophia biologica, em preparo.
+
+
+
+
+
+ALMACHIO DINIZ
+
+MUNDANISMOS
+
+(CONTOS)
+
+
+
+ Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.
+
+ ANATOLE FRANCE.
+
+COIMBRA
+
+F. FRANÇA AMADO, EDITOR
+
+1911
+
+
+
+
+A
+
+GUERRA JUNQUEIRO
+
+
+
+
+ L'art veut imiter la nature. Nous faire éprouver les sensations et
+ les sentiments que la vie nous impose ou pourrait nous imposer, tel
+ est son premier souci. Le romancier et le dramaturge comme le
+ peintre, le sculpteur comme le musicien s'essayent à faire dans la
+ fiction, comme la vie dans la réalité. Au fond de chaque oeuvre
+ d'art il y a toujours en somme--que ce soit par imitation étroite ou
+ libre évocation--une réalité reproduite de la vie.
+
+ CHARLES ALBERT.
+
+
+ O conto, assim desatavíado, exprimido, é apenas succo e, se não
+ agrada à _visão_, interessa o sentir. Falta-lhe horizonte, mas o
+ espaço, por isso mesmo, é mais vasto, sem empeços: segue-se
+ livremente a acção que a descriptiva, por vezes, compromette.
+
+ COELHO NETTO.
+
+
+
+ MUNDANISMOS
+
+
+ Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.
+
+ ANATOLE FRANCE.
+
+
+
+
+NEDDA
+
+
+NEDDA
+
+ Manhansinha.
+
+ A sala, de azuladas paredes seminúas, estava pobremente mobiliada:
+ era no saguão da casa, e as duas mulheres entraram às tontas, até se
+ abrirem de par em par as gelosias.
+
+ SAUL, de NEDDA esposo, ficàra a dormir na alcova.
+
+ E NEDDA, abysmada com a indifferença delle que apenas lhe não
+ dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que
+ DONA LOURA, a sua mãe, era uma interprete das indisposições do genro...
+
+ Num canapé, as duas mulheres, DONA LOURA, archaica nas suas vestias
+ de capote e turbante, e NEDDA, deliciosamente matutina num roupão
+ branco que descansava, _sans-dessous_, sobre a finissima camizêta
+ de cambraias,--sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida
+ do cansado movel...
+
+.........................................................................
+
+--Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me
+entre dentes e indisposto como um burguês dispeptico, silencioso como
+uma esphynge e entristecido como um beato sem almoço, adivinho logo que
+vens por ahi como a mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem à
+tarde...
+
+--Exactamente.
+
+--Previ tudo isto. Ha cinco dias que nós não falamos, e, pensando-o na
+rua, hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella
+cadeira, lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me
+e não contive um gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os
+meus passos. Ha quatro annos que somos casados e nunca passamos dois
+mezes sem uma rusga. É sempre elle quem as promove com um resaibo de
+malentendido ciume. Aceito sempre o seu rompimento e nunca lhe dei a
+honra de capitular nas hostilidades. Quando ellas são de nonada, aqui
+mesmo se resolvem; mas, quando avultam como agora, elle te vai buscar
+como intercessora. Jà sei que vamos ter, como sempre, uma crise de
+amorosidades que me enfastiam. Lastimo é não conceber um filho desse
+homem para o embeiçar pela nova criatura e sentir-me menos jungida às
+suas intemperanças de... mal educado! Ás vezes, chego a ter nojo do
+senhor meu marido...
+
+--Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que
+me pasma...
+
+--Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter
+o assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um
+tal matrimonio não se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em
+caza, por torna-viagem, a mentira de que Saul é um tuberculoso. Tanto
+mais eu o aborrecia, quanto a senhora e o papá intervinham, patrocinando
+a causa do moço platonico. Dá-me, na verdade, um insistente desejo de
+rir muito quando lembro os idealismos delle, seguindo a minha sombra,
+porque nunca lhe deixei o direito de enfrentar-se commigo em parte
+alguma... Expúz-lhe sempre que sonhos não me satisfaziam, nem eram para
+o meu temperamento homens vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe
+intensa guerra, apaixonando-me por Frederico Stöltze. Está! Com este
+provavelmente eu teria sido bem cazada. O pobre «allemãosinho» levou o
+caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o abandonei, com uma
+defeituosa... Foi um despique, não ha a menor duvida, mas quem sahiu
+perdendo foi elle. Saul é um temperamento de phoca...
+
+--Respeita o teu marido, minha filha!
+
+--Pois não é, maman?
+
+--Essas couzas não se devem dizer...
+
+--Não tratarei de occultar o sol com a mão. Já disse e é mesmo: um
+temperamento de phoca. Só quer hybernar sobre os livros, deante dos
+quaes se abespinha como o animal sobre o gêlo. Eu, porem, quero muito
+sol, muita luz, muito calor, muita actividade... Maman, o que vocês
+velhos veem no cazamento é o interesse de collocar as filhas, porque
+ficando velhos receiam que nos tornemos muito sós no mundo. Por isso
+acontecem destas, cazamo-nos com a vontade dos papás encarnada na figura
+de um homem que não é a correspondencia de nosso instincto. Olha! Não
+intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada qual commetta a sua
+doidice como quizer, e, se escolher um lorpa como Saul, arrependa-se
+de si mesmo e não me culpe a mim.
+
+--Tu vês no homem uma excitação, Nedda, quando devias ver uma satisfacção.
+
+--Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje
+dessas trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu
+toda a minha repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, não sabe
+aproveitar-se de minha tolerancia e quer subserviencia, servidão, ou
+coisa similhante... Está enganado! Devias ter sanccionado a minha
+repulsa logo de principio. Lembras-te do convescóte dado aos chilenos,
+nas Salinas? Tu não foste, e Saul, que era apenas meu pretendente sem a
+menor esperança, moveu contra mim uma intriga terrorosa, porque viu, no
+campo, o primeiro tenente Santander amarrar os cordeis de minha botina
+que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te de como
+energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do
+contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia,
+todos suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de
+mulheres feias. Afinal, maman, que te disse elle desta vez?
+
+--Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o
+comprehendes como um devaneio. Isto é proprio para as meninas. Tu te
+esqueces, e nisto eu lhe dou razão, que és uma senhora escrava da moral
+esponsalicia. Contou-me o teu marido um facto em que elle te
+surprehendeu. Realmente, se as cousas se passaram como podem ser
+suppostas, e elle não quer crer, tu andaste mal.
+
+--Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como
+tudo se deu...
+
+--E dispensavel Nedda. O passado está passado. O que é preciso é que não
+dês lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem
+calleja. Os amuos fazem pequenos callos, mas tempo virá em que,
+callejada a alma, o amuo será definitivo.
+
+--Que teria isso?
+
+--Um escandalo, minha filha!
+
+--Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu não me
+pouparei a um grande escandalo.
+
+--Toma juizo, doidinha. É preciso acabares com estas zangas e receberes
+o teu marido como o teu senhor...
+
+--Hein?... Não me zangarás, maman, pódes ridicularizar-me como
+entenderes... Não me darei por achada.
+
+--Não promovo senão o teu bem. Resolve a crise e sê... mulher de teu
+marido.
+
+--Jà estás julgando o feito?
+
+--Tu tens toda a razão, elle tem igualmente toda a razão. Harmonisem-se
+e sejam felizes.
+
+--Pareces-me uma juiza a Salomão, com a differença de que o rei hebreu
+ouvia ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma
+só...
+
+--Interpretas muito mal o meu genio.
+
+--Não te interessa conheceres a injustiça de que sou accusada pelo sr.
+meu marido?
+
+--Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a
+accusação, eu nunca seria contra ti.
+
+--Obrigada, maman! Quero, entretanto, justiça, e que, como Saul, não
+julgues pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu
+o que se passou...
+
+--Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes...
+
+--Pois bem! Na terça-feira, maman, de combinação com Saul, resolvi
+passar uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle
+que me falou pelo telephono, fui à Barra correr uma cazinha vaga e
+que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao
+depois de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a
+gentileza de offerecer-se-me para o serviço de abrir e fechar portas.
+Aceitei e foi elle quem tomou as chaves na taverna da esquina... Vê
+tu!... Não fôsse elle e teria eu de entrar numa taverna, sósinha,
+arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao depois, o dr. Eduardo foi
+quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de camurça para fazer
+essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas... Corremos o
+primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil
+cavalheiro se lembrou de, por segurança, fechar por dentro a porta da
+rua... Subimos. Mal chegavamos em cima, começaram de bater numa porta.
+Poderia eu suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse,
+porque elle não teria opportunidade de acompanhar-me, logo depois
+resolvesse o contrario, e estivesse a bater na porta da rua? E foi por
+um acaso que nós o vimos. Chegamos inesperadamente a uma janella do
+sotam e percebemos que era elle quem batia. O dr. Eduardo,
+desculpando-se por jà ter eu cavalheiro, despediu-se de mim, desceu as
+escadas, e, quando abria a porta, foi insolentemente aggredido por
+Saul, que lhe negou a mão para o cumprimento do estylo... Só tu vendo,
+maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra mim! Felizmente,
+desafiado pela minha calma, elle não teve animo para iterar o
+qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle
+quiz, fechou sósinho a caza e veiu só...
+
+--Devias ter evitado tudo isto, Nedda.
+
+--Evitado, como?
+
+--Não acquiescendo à companhia de um homem de mà fama, como é o dr.
+Eduardo.
+
+--Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em
+que eu fui... Hora de trabalhos na cidade...
+
+--Recusasses os favores offerecidos.
+
+--Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual é a mulher que se anima à
+grosseria de recusar gentilezas de um moço de distincto trato?...
+
+--Conforme o renome desse moço.
+
+--Tem mà fama o dr. Eduardo?
+
+--Não sei, não. Dizem.
+
+--Se tem mà fama, tem maus costumes. E como é que Saul, tão zeloso de
+sua honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepções, um homem mal
+visto? Penso que os frequentadores de nossos salões, os _habitués_ de
+nossa intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um ponto
+qualquer, e, se não fôsse assim, a primeira privação delles, seria a do
+nosso convivio...
+
+--Neste ponto és razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul
+referiu-me que estavas sem chapeu...
+
+--De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha
+van do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr.
+meu marido alli estava para auxiliar a reposição, tirei o chapeu e
+asseiei-o prestamente...
+
+--Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua
+chegada, ao ponto de não saberes repôr o chapeu...
+
+--Saul é um mentiroso.
+
+--Não te zangues, Nedda.
+
+--Injuriou-me.
+
+--Não dês importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente...
+
+--E elle o quer?
+
+--Porque perguntas?
+
+--Porque tão honrado elle não deveria aceitar mais a cohabitação da
+esposa deshonesta.
+
+--Não deves dizer assim, minha filha!
+
+--Aceita-me elle?
+
+--Que tolice, Nedda!
+
+--Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e não a faço
+em attenção aos teus bons officios...
+
+--Fazes muito bem.
+
+--Là vem elle descendo...
+
+--Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que não tem esposo...
+
+--Desculpa-me, maman: só agora reparo que estou muito à vontade para nos
+encontrarmos os tres...
+
+.........................................................................
+
+ Arrepanhando, então, o bello roupão desabotoado, por cujas rendas e
+ decotes se viam as carnes luciferas de NEDDA, a mulher de Saul se
+ escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de
+ esculptura grega...
+
+
+
+
+VOLUPTUOSAS
+
+
+VOLUPTUOSAS
+
+ No rêz-do-chão de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendados
+ _stores_ pallidos, HELENA fazia somno à hora da sesta, quando MARIA
+ ANGELICA a surprehendeu adormecida.
+
+ A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma
+ voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabeça desmaiada de
+ HELENA...
+
+ Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com
+ um fremito de prazer...
+
+.........................................................................
+
+--De onde vens tu, Angelica?
+
+--De encommendar flores...
+
+--Flores?!
+
+--Não te recordas de que Sophia se cazará amanhan, à noitinha?
+
+--Sou uma esquecida.
+
+--E ella é credora de nossas gentilezas...
+
+--Das minhas, especialmente.
+
+--Encommendei orchidéas e chrysanthemos.
+
+--Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias.
+
+--Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das
+orchidéas. Uma catyleia é um pedaço de labios excitados por dois beijos.
+
+--Não lhes acho graça.
+
+--Ó exigente!
+
+--Flores do matto. E jà notaste que quasi todas ellas são lilazes e
+roxas? ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas côres
+melancolicas?
+
+--Descobres coisas...
+
+--Mas, não é?
+
+--Realmente.
+
+--E como vais presentear uma noiva com flores lilazes?
+
+--É a moda, é o chic, é o _dernier-cri_...
+
+--Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas,
+chrysanthemos, rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me?
+
+--Se não! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os
+olhos muito brilhantes...
+
+--De verdade?
+
+--Sim. Sonhavas?
+
+--Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu estás intensamente corada...
+
+--Apanhei muito sol.
+
+--Os teus olhos estão pisados e languidos...
+
+--É da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor
+que abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados...
+
+--Jà tinha reparado: os teus cabellos estão desmanchando-se...
+
+--E eu os concertei no espelho de Esther.
+
+--Andaste là, hein? Jà havia desconfiado... Quando te vejo amollentada,
+assim, tenho razões para me enciumar... É muito descuidada a Esther.
+Cuida mal das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Está
+mal posto, a fita está retorcida...
+
+--Nem reparei...
+
+--Disto não és culpada, por certo... Eu não te deixaria sahir daqui tão
+mal-amanhada. É de causar vergonha.
+
+--Foi a pressa, Helena.
+
+--E no teu hombro a sêda está nodoada...
+
+--Nodoada?!...
+
+--Sim! Vêem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei
+mesmo que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!...
+
+--Quem o poderia fazer?
+
+--Esther.
+
+--És ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as
+flores. Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Estás
+satisfeita?
+
+--Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas não convencida...
+
+--Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar
+humido?... Terá sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo é
+arrastada como a de quem se fatigou num excesso de venturas...
+
+--Que venturas posso ter?
+
+--Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real...
+Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha
+vezes em que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras
+occasiões, quando volto a mim sem provocação, sou prompta a espantar-me
+porque me accordei e não morri no meio do prazer sonhado...
+
+--Ha sonhos, effectivamente, que se não deveriam acabar... E não sentes
+calor, Maria Angelica?
+
+--Algum.
+
+--Neste caso...
+
+--Que fazes?
+
+--Dispo-me. Não me imitas?
+
+--Póde ser. Passarei a tarde comtigo...
+
+--Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta góla
+assoberbante... Não tens geito?... Chega, que te libertarei...
+
+--Tira os alfinetes.
+
+--Usas um bom pó de arroz, Angelica.
+
+--Ui! Helena!
+
+--Que foi assim, ardilosa?
+
+--Espetaste-me as carnes...
+
+--Tambem é uma ruma de alfinetões...
+
+--É para segurar bem.
+
+--Tens uma pellugem de arminho...
+
+--Ai!... Assim não... não...
+
+--Que tens, rapariga?
+
+--Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... Só me déste
+vontade de...
+
+--Ui!... ui!... ui!... Fazes-me um _frisson_ de arrepiar-me os pellos...
+
+--É para vingar o teu beijo...
+
+--Porque me olhas assim, Angelica?
+
+--És de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um
+perfume originalissimo que me entontece...
+
+--Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se
+cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o faço para attrahir as
+amigas como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que
+se confundiam os aromas do nardo de Tharsos e do metôpyon do Aigypte.
+Nas axillas attritava mentho e sobre as pestanas e nas palpebras
+marjolana de kôs. Ao depois, a escrava defumava-lhe os cabellos
+desennastrados com espiraes de incenso, que combinava admiravelmente não
+só com a essencia de rozas de Phasêlis que lhe embalsamava a nuca e as
+faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava sobre os rins. E, por
+fim, entre os seios, corria o celebre oinanthê das montanhas de
+Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica...
+
+--Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras...
+
+--Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do
+irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodões embebidos na
+essencia de rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para
+contrastar com as evolações das essencias de jasmins que perfumam as
+minhas vestias...
+
+--E na posse de tudo isto praticas uma mà acção, Helena!
+
+--Qual?
+
+--Essa de referires tantos perfumes e não me dares nenhum a provar... És
+avarenta, como ninguem, e eu cubiçosa de gozar...
+
+--Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres...
+
+--Teria graça!
+
+--Porque assim?
+
+--Gósto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres.
+Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas
+carnes...
+
+--Tens desejos masculinos, minha queridinha!
+
+--E é o que me faz lamentar-me: junto de uma graça não ser um Adonis,
+junto de uma Helena não ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os
+teus perfumes e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais
+feliz do que Syrinx, louca de paixão, Byblis, unica na insaciabilidade,
+ou Mnasidika, macia como um velludo... Helena, tu és uma perfeição...
+
+--Mofadora!
+
+--Mofar eu de ti?!...
+
+--Não te abraza o calor?...
+
+--Sim... Intoleravelmente...
+
+--Safa o collête... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seducções
+na tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os
+homens, sabios no sensualismo pagão, que o nú de veus é mais provocante
+do que o nú sem disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na
+mulher encoberta pela semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te não
+conhecesse os segredos todos de tuas lindas curvas, te rasgaria agora,
+impiedosamente, o veu de tua nudez...
+
+--Jà sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do
+arrôcho de um collête dictatorial?
+
+--Quantas vezes?!
+
+--Tu brincas, mulher divertida...
+
+--Provo-te com a citação: despirei o meu collête e não me sentirei mais
+provocada do que contemplando as tuas fórmas semi-núas...
+
+--Es barbara, Helena! Como encarceras um tão lindo quadril dentro dos
+oppressivos liames de um collête... Ah! Como eu daria a vida por ser
+morena! O ventre alvo é uma desillusão, mas o trigueiro, como o teu, é
+um incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o instincto
+mais calmo...
+
+--Não te agrada a minha nueza?
+
+--Inteiramente. Agora, vê là se te não impressiona mal a brancura do meu
+ventre...
+
+--Ao contrario, Maria Angelica: é uma grande corolla de petalas alvas
+desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... É maravilhoso o teu
+contorno... Dignas fórmas para a perpetuidade de uma téla ou de um
+retrato...
+
+--Deixarias tu que fôsse apanhada a tua nudez?
+
+--E porque não?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me?
+
+--Que egoismo leviano!
+
+--Acha-o?
+
+--Sim... Photographemo-nos...
+
+--Adoravel!... Como não irradiará no _cliché_ o contraste de nossas
+pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa
+de um pólo...
+
+.........................................................................
+
+ Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma
+ solução de perolas e opalas.
+
+ Os seus labios permutaram cariciosos beijos.
+
+ E, horas depois, MARIA ANGELICA e HELENA, retratadas por uma aia,
+ desvendavam as suas abrazadoras nuezas à inveja de ESTHER...
+
+
+
+
+O POETA MORIBUNDO
+
+
+O POETA MORIBUNDO
+
+ Luxuoso salão de recepções: por entre cavallêtes com quadros de fina
+ pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de
+ Parreira e a vocação de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio
+ das tapeçarias, dos _fauteils_ e das luzes, um magestoso piano Ritter.
+
+ HELOISA acabou de executar, com todo o applauso do maestro
+ CHRISTOVAM DETMER, a linda fantasia--_Le poète mourant_--de Gotschalk.
+
+ As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de
+ admiração e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos
+ que obedeciam á grande inspiração de HELOISA.
+
+ Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente
+ combalida pela dor de uma alma irman...
+
+.........................................................................
+
+--Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas
+bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas
+e os teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do
+passional poema lyrico, me concentrei e te affirmo que a visão não
+despresou a audição, pois vi e ouvi toda a scena, desenvolvida entre
+personagens vivas, que se moviam, se soccorriam e testimunhavam o
+desfallecimento do artista moribundo. Durante minutos que serão
+inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao teu lado,
+frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e não denunciei,
+pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a
+existencia. Vim do gabinete privado de tua mãe, que se transformou
+pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se
+lhe dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a
+longa historia de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes, fui
+minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a
+alma de artista e não o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim
+inspirar-me para o sacrificio no teu talento. E saio de tua presença
+illuminado como o prescripto que recebeu o balsamo do conselho christão
+para subir em seguida ao patibulo. Dá-me, pois, o conforto de tua
+confidencia ultima: amaste-me alguma vez?
+
+--Que pergunta, Christovam.
+
+--Indiscreta?
+
+--Não; ao contrario. Amesquinhante...
+
+--Extranho-te.
+
+--Não ha razão. Porventura pensarás que te amei e não te amo agora?
+Acaso a minha mão de mulher para te ser dada dependerá de alguma coisa
+irreductivel deante de minha vontade altiva?
+
+--Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor
+dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeças bellas
+de todas as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz
+com que se enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um
+homem que sabe musica simplesmente, que é apenas um artista, é pequenino
+de mais para ter uma pretenção de amor. Eu me pareço com esta figura
+lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das
+fantasias de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em
+sonhos egoistas, cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava
+rozas, derrocando castellos, para me conter na illusão em que me
+deleitava sómente com a audiencia da negativa inclemente de tua mãe.
+Confessou-me que maldava de todo o nosso amor, desde principio. E
+porque, se assim era, protegia a ampliação de um sentimento que deveria
+ser, como os filhos defeituosos das ciganas que são atirados ás
+piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse,
+falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era
+porque, doidivana como toda creança, jogavas a péla na orla do
+precipicio, esperando o aviso amigo para te retirares gloriosamente...
+Negarás, Heloisa, que tinhas consciencia de minha pretenção?
+Sophismarás, em favor da excommunhão que me lançou a tua mãe, e contra a
+clareza da ordem que me deste afim de se officialisarem as relações do
+affecto, que nos encaminhava de um illusorio paraiso? Responde com o
+talento immensuravel com que sempre me amaste...
+
+--Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias
+possuir o maior tino dos homens.
+
+--Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem
+pesada se antepõe á sua esphera...
+
+--Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e não te hei de amar fóra do
+regosijo delles...
+
+--Dos teus paes?
+
+--Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em
+tuas mãos estariam vegetaes só ao sôpro de um fakir indiano. Porque
+admittirias que a minha vontade fosse forte bastante para romper a
+marcha das intenções dos meus paes sobre a minha razão de ser mulher?
+Por ventura sem o sopro do fakir as sementes germinariam e attingiriam
+as fórmas de seres definitivos? Não supporás que, sem aquelle sôpro,
+algo se realisasse. Como suppôres que sem a vontade dos meus maiores a
+nossa união se perpetraria ao teu sabôr?
+
+--Desconheço-te já...
+
+--Mas, porque...
+
+--O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto á quesilia dos
+outros...
+
+--Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a
+existencia de mulher?
+
+--Nem sei de mim mesmo que te responda...
+
+--Não poderias esperar. Se eu fôsse livre, se a lagarta para ser papilio
+não carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar
+a sancção que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razões para
+tal fazer. Aborrece-te o trovão? amedronta-te o curisco? Queres ver-te
+livre delles? Crê num Deus e pede-lhe a extinção... Infelizmente,
+Christovam, nem o trovão se extinguiria, nem o teu querer triumpharia...
+De um lado, Deus seria impotente para te dar o que pedisses porque não
+terias o direito de pedir... Só pede quem póde pedir; se se pede é
+porque de quem dá depende o pedido; e se o pedido não é dado, procura a
+causa na insufficiencia e na sem-razão de quem pediu...
+
+--Mas...
+
+--Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se
+conservares a razão, que tenho o bom senso desejavel ás creaturas
+perfeitas. Queres responder-me?
+
+--Nada significará o que te responda.
+
+--É preciso que sejas categorico.
+
+--Pois sim: responder-te-ei.
+
+--Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?
+
+--Por certo que não.
+
+--De minha parte a questão é outra: teria eu o direito de responder por
+mim num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer?
+
+--Se quizesses, sim.
+
+--Não é assim, não. Porque não me tomarias por mulher sem o meu
+assentimento? Por impoderoso deante de minha definição adversa. Porque
+não me daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por
+impoderosa deante da pronuncia delles. Se tu pudesses alcançar de mim o
+amor sem vontade, desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse
+de meu corpo sem a intervenção dos que m'o formaram do nada em materia e
+em alma, nem cogitaria de enviar-te a elles...
+
+--É um dilemma sophistico.
+
+--Por que principio, não sei.
+
+--Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sêde do teu amor,
+Heloisa, como correspondeste a esse lapso do meu instincto?
+
+--Do modo mais franco.
+
+--Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu
+quizesse, matar a sêde que allegava...
+
+--Dependia de mim. Dei-te.
+
+--De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixão.
+Negaste-m'o?
+
+--Não poderia negar.
+
+--Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na
+grandeza das iteradas pulsações cordiaes, affirmaste que eu reconheceria
+a intensidade do teu sentimento...
+
+--Dependia de mim. Pratiquei.
+
+--Por fim, quando te acenei com o plano de nossa união...
+
+--Como te respondi, Christovam?
+
+--Com a primeira negaça.
+
+--Adulteras a minha intenção: cumpri o meu dever, enviando-te á maman,
+como o caminho propicio para vencer o papá.
+
+--Realmente, Heloisa. Sou um vencido.
+
+--Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...
+
+--Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a
+consummar uma grande obra musical sem a inspiração para a realidade do
+dever...
+
+--Desistes, então, do teu amor?
+
+--Razões me sobejam...
+
+--Que te disse, afinal, a maman?
+
+--Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e
+lembrou-me que um musicista não compõe sem ter inspiração...
+
+--Nada de mais, Christovam!
+
+--Talvez não queiras comprehendel-a... Mas é tudo que se póde allegar
+contra um homem...
+
+.........................................................................
+
+ E, louco pela musica, inconsciente quasi, CHRISTOVAM DETMER
+ assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita
+ criação de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se
+ despediu de HELOISA...
+
+
+
+
+O VELHO MEDICO
+
+
+
+O VELHO MEDICO
+
+ O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.
+
+ ESTEPHANIO e JUDITH--esta desprendendo-se de si no devotamento ao
+ esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais annos, como
+ se lhe tivesse o corpo de cór, curvas e linhas, luzes e
+ perfumes--gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige
+ os defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...
+
+ MARCO ANTONIO--o medico afamado--cofiando as ennevoadas barbas em
+ que se escondiam as illusões do seu poder curador, arrancou os
+ olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, de
+ suas attenções...
+
+.........................................................................
+
+--Bem póde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgôr da
+mocidade...
+
+--É exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel
+salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, não posso
+affectar-me com os seus effeitos: a sua medicina é a criadora das
+humanas torturas. Parece-me que jà se disse: «Tirem os medicos e as
+enfermidades desapparecerão»... Mas, eu digo: fugi delles e estou
+curado. Deem-me milhões de medicos e estarão formados trilhões de doenças.
+
+--E quem te curou, meu caro?
+
+--A natureza...
+
+--O novo deus pagão...
+
+--Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes
+curadores. Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria?
+
+--Lembro-me, sim.
+
+--Foram tantos os diagnosticos que jà perdi o direito de dar-lhes autorias.
+
+--O sr. era verdadeiramente um doente.
+
+--E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e
+invariaveis.
+
+--Realmente.
+
+--Pois confesso-lhe: não fiz uso de um só. Tambem o doutor não foi o
+ultimo medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na
+inspecção. Nada faltou à sua perspicacia, senão comprehender que, no meu
+estado, as suas perguntas eram outras tantas suggestões e novos
+symptomas para a aggravação de meu mal. Eu vivia desvairado na vontade
+de accusar males crescentes, e os meus assistentes porfiavam em
+illustrar-me em torturas ineditas.
+
+--Afinal... quem te curou?
+
+--Dir-lhe-ei tudo, de começo. Hygia, a deusa da saude, não é de todo mà...
+
+--A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos:
+salvaram-se pela acção do dedo de Deus, como teriam morrido pela
+intervenção do doutor...
+
+--Creio que o sr. adianta um mau conceito. Não me tenho na conta dos
+casos communs.
+
+--Desculpe-me.
+
+--Pois não! Mas, a minha doença foi uma criação dos meus medicos, e a
+minha cura proveiu de minha inabalavel resolução de abandonal-os. Eu
+estava em ultimo grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei
+assim às mãos de um allopatha. Homeopathas e feiticeiros nada
+fizeram de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci,
+aos vinte e tres annos, foi numa convalescença de enfermidade
+effectivamente assassina: o amor. Eu tinha conseguido, pela vez
+primeira, objectivar uma paixão. E, não só isto: tivera, com todo o
+delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra a minha
+vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu
+sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram
+sessenta dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil
+e quatrocentos minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes
+as paradas assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao
+maximo possivel. O prazo desse amor fôra, entretanto, fatal. Exgottou-se
+e a mulher fugiu-se-me dos braços como a espiral do fumo que procura as
+alturas. Ao depois disto, separado do entretenimento carnal, que me
+combalia as fibras, como a agua que vai abalar as galerias subterraneas
+para derribar as minas, tive a sensação do remorso de um grande crime...
+
+--De um crime delicioso...
+
+--Talvez, doutor.
+
+--E então?
+
+--Encegueirado pelo amor, o mundo ficou às escuras sem a luz do olhar
+della. Quiz correr nas suas pégadas, e senti-me tolhido como a voz na
+garganta do atormentado por um pezadêlo. Vi em todos os convivas de
+minha existencia, terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre
+num choro convulso, durante o qual me punha a tremer com tanta violencia
+quanta fazia extremecer todo o assoalho de minha alcova e soar fóra de
+tempo a campainha do relogio sobre a meza... Senti-me muitas vezes
+balançado como a espherasinha de madeira que anima o trillo dos apitos...
+
+--É curioso, de véras, o seu caso.
+
+--Foi, doutor.
+
+--Sim! Foi! E hoje sinto não lhe ter visto nesse tempo originalissimo.
+
+--Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico.
+
+--Paranoico?
+
+--Exactamente, doutor, e và vendo. Aconselhou que eu me tratasse com
+banhos de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro
+medico, os meus paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente
+banhado, a contragosto, com luzes de todas as côres. Era inocuo o
+tratamento para me fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males
+Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguçados por alta
+dose, mas não toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico--jà a esta
+hora e ha muito tempo--victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e
+disse, carrancudamente, deante de uma das minhas crises de saudade
+carnal: «são delirios epileptiformes»... E o tratamento passou a ser
+feito com altas doses de bromurêto. A minha ennervação deprimiu-se, e
+tornei-me um atoleimado, tanto que nem pranteei a morte de minha mãe,
+desgostosa com a minha tragica existencia... Novo medico; vim a ser um
+simples neurasthenico, com atonias nervosas. Reconstituintes, passeios,
+boas alimentações, prazeres, etc.: nada, porem, matava as saudades do
+meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora por excesso de
+alimentação, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de insomnias,
+tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos
+medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodêtos
+e tive hemoptises. Um Esculapio chamado às pressas, levando em conta a
+minha magrêsa, o sangue exvasado dos meus pulmões e o historico dos meus
+soffrimentos, num rapido prognóstico, annunciou a minha morte breve,
+por força de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me
+interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria
+sómente: suggeriam-me cousas que só dalli por deante eu começava de
+sentir. E veiu um curador homeopatha: os seus remedios ingeri com
+facilidade, pela falta de sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um
+visinho, que se enforcou dias depois porque se sentiu arruinado nas suas
+forças commerciaes, lembrou que os maus espiritos encostados aos corpos
+de pessôas novas, faziam artes do demo... E não só apresentou a
+conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma velhinha,
+encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruços na
+cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira...
+
+--E nem rezado, sr. Estephanio?
+
+--Para o doutor ver! Nem rezado!
+
+--É unica a sua historia.
+
+--Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau
+funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado.
+
+--Assim acaeceu.
+
+--E inda pensa o doutor que eu tivesse affecção nos rins?
+
+--Se me não falha a memoria, effectivamente.
+
+--Pois escute: logo depois de sua intervenção, repudiando eu os
+medicamentos que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram
+trazidos em conferencia.
+
+--Que disseram elles?
+
+--Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles
+mesmos. Do doutor discordaram reputando sãos os meus rins.
+
+--Sãos, ou curados?
+
+--Curados, não. Inattingidos até àquella data. E firmaram o diagnostico
+de uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgão e o outro
+hypertrophia.
+
+--Mas, afinal, acertaram?
+
+--Suppõem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a
+saude.
+
+--É espantoso, meu caro senhor.
+
+--Não é, não, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha
+reapparecido a mulher que eu amára. Visitou-me. Inflammamo-nos, e...
+estamos casados, não foi assim, Judith?
+
+--Parece-me!
+
+.........................................................................
+
+ Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando
+ o enfeitiçamento de um lindo _manteau_ exposto no mostruario de
+ modas e confecções... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente
+ a espaçosa fronte...
+
+
+
+
+OS DOIS ESPELHOS
+
+
+OS DOIS ESPELHOS
+
+ Depois de mandar retirar-se a criada, VIOLANTE foi, pé ante pé,
+ fechar a porta do salão de jantar que deitava para a copa, e veiu
+ sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mãos
+ profundamente geladas.
+
+ SIMEÃO, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo no canto
+ dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as
+ feições com um clarão colerico.
+
+ Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a
+ cadeirinha de balanços, VIOLANTE provocou-o...
+
+.........................................................................
+
+--Faze a tua scena.
+
+--E não é sem tempo.
+
+--Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se não é sem tempo?
+
+--Facilidades.
+
+--Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o
+homem cazado não tem direito a facilidades.
+
+--Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que
+Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma
+existencia inteira para passar escravisado aos laços de uma união
+infeliz!... Maldita hora!
+
+--Ah!... ah!... ah!... ah!...
+
+--Sorris...
+
+--E então? Hei de chorar para te sentires bem na oppressão que me fazes?
+
+--A minha vida depois que me senti enganado...
+
+--Não tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci
+o teu adulterio...
+
+--Insultas-me ainda em cima, Violante?
+
+--Não te insulto. Repillo as tuas aggressões, termo por termo. O que eu
+digo é que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado
+e perfumoso para agradar às amantes, tem a mulher de...
+
+--Não dize, Violante, a indignidade!
+
+--Porque não dizer as cousas como ellas devem ser? Só depois que senti a
+tua ausencia do lar...
+
+--E confessas o delicto?!...
+
+--... só depois que conheci a tua amante...
+
+--Mentes, mulher!
+
+--... só depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui
+sais...
+
+--É horrivel, Violante!
+
+--... só depois de ver-te partir de là e a tua concubina despedir-se de
+ti com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravidão...
+
+--Tu viste?
+
+--Sim... só depois de ter a certeza de possuires uma amante...
+
+--Poupa, Violante, essa phrase...
+
+--... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a
+côrte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no
+lar pelo marido libertino...
+
+--É demais!
+
+--Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num
+isolamento de aborrecer. Entretanto, fôra diverso o teu proceder nos
+primeiros tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava
+na rua, mal eu começava a sentir a tua ausencia, estavas de volta.
+Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te
+retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te
+perguntei, a hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz
+saber. E, até hoje, nunca te pedi a menor palavra sobre o teu
+procedimento...
+
+--E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informações.
+
+--Pois bem! Para evitar essa negação, nunca t'as pedi, sciente e
+consciente de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, não te
+devo satisfacções... São ellas por ellas...
+
+--Abusas...
+
+--Corrige-me se puderes... Não és o meu marido?... Toma conta dos meus
+actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze
+o que entenderes, certo de que atraz de mim haverá quem vingue as tuas
+incontinencias e perversidades...
+
+--E sabes quem é a minha amante?
+
+--Se sei, Simeão?!...
+
+--Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: não
+conheces ninguem...
+
+--Só com o rizo!... Ah!... ah!... ah!...
+
+--Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha
+paciencia se exgottarà afinal...
+
+--Ainda em cima me ameaças?
+
+--Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me
+confesses tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante?
+
+--Ninguem!
+
+--Ninguem, como?
+
+--Desconfiei e fui ao teu encalço...
+
+--Não falas a verdade, Violante.
+
+--A certeza das coisas é adquirida quando nos abeiramos dellas.
+Molestias mortaes, por miasmas exhalados dos paúes, só as contrai quem
+lhes vai à beira. Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio...
+Olhas-me agora atravessado? Nega então que te falo a verdade como ella
+é?!... Por favor, desmente-me, se és capaz...
+
+--Juro-te que não sei do que se trata.
+
+--Perjuro!... Então, toda a manhan não vais daqui à caza de Idalia...
+Não me interrompas, não... toda a manhan, não passas là horas
+esquecidas, quando sais não fica ella por traz da gelosia a acenar-te e
+tu a corresponderes-lhe os acenos de apaixonada despedida?
+
+--Ousada! Alem do mais, injurias à mulher de um amigo da nossa
+familia...
+
+--E que é a tua amante...
+
+--Pois se é, está tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre
+vontade... Constou-te jà que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As
+minhas obrigações maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e
+começam, quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a
+dentro, estou eu cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem
+jurei culto eterno, alias, em tempos melhores... Casei por uma
+supposição de momento: a solidão de solteiro era um suicidio de todos os
+dias. E só não me enganei em suppôr que o matrimonio me facilitaria
+relações difficeis antes de ter as qualidades de senhor duma mulher... O
+mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a tua companhia,
+e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado é um pequenino
+jardim, o maior céu é a entrada de uma furna... A companheira é um
+tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo
+homem respeitador...
+
+--Outro tanto te allego eu... Mentirá aquelle que disser me ter visto,
+sorrateira ou clandestinamente, embuçada ou mascarada, penetrar em
+lugares escusos, ou ao lado de algum homem que não fôsses tu...
+Casei-me por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixão
+momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto
+o meu marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me
+eu... Adquiriu uma amante...
+
+--Retem-te, Violante!...
+
+--Não! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem póde viver longe
+do pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu
+marido!...
+
+--Intoleravel!
+
+--Tambem tu o és!
+
+--Adultera!
+
+--Deixemo-nos, Simeão, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os
+devolver todos, um por um...
+
+--Saber-me trahido...
+
+--Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando
+nada, não terás de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher
+digna do marido que lhe deram...
+
+--Sinto faltar-me a luz da vista...
+
+--Impressões, Simeão.
+
+--Pois é justo que me consinta enganado?
+
+--Não nos deshonramos...
+
+--É um consôlo ridiculo.
+
+--E que dirias tu se trahida eu não te trahisse igualmente?
+
+--Diversa é a situação do homem, Violante.
+
+--O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente
+nos submettemos a esse regimen de igualdade...
+
+--Doloroso!
+
+--Assim exclamei, Simeão! Agora, porem, me sinto melhor: não me
+enganaste, e isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos...
+
+--E o teu amante?
+
+--Dispensa sabel-o...
+
+--Ah!... Repillo a lembrança que me occorre... Não, não é possivel!... O
+massagista...
+
+--Rende justiça à tua mulher, Simeão! Pois não vês que eu me não
+vingaria de ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te
+fizesse córar perante a sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de
+ti?
+
+--Então... Desabafa-me!... Sê completa!
+
+--Insistes em conhecer tudo?
+
+--Não duvides que o quero de coração.
+
+--É Lourival...
+
+--O marido de Idalia?...
+
+--De certo.
+
+--Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem
+conjugadamente...
+
+--Mas eu estou vingada...
+
+.........................................................................
+
+ Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fóra do salão,
+ perguntava aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar...
+
+ E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz...
+
+
+
+
+O PRIMEIRO FILHO
+
+
+O PRIMEIRO FILHO
+
+ Na secretaria fôra extranhada a falta primeira de ORLANDO, assiduo
+ até não se ter ausentado do serviço no attrahente dia do matrimonio.
+
+ O DIRECTOR do esposo de OLIVIA era reconhecido à assiduidade do
+ moço, e, por duas vezes, determinàra o seu accesso por merecimento.
+
+ Ao penetrar na Repartição depois da primeira falta, todos os olhares
+ recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se
+ entregou ao trabalho sem explicações.
+
+ Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado, ORLANDO e o
+ DIRECTOR entravam em confidencia...
+
+.........................................................................
+
+--Ah! Sr. Director!
+
+--Estiveste doente?
+
+--Não, não foi doença minha. Antes o fôsse...
+
+--Trocaste o dia?
+
+--Como assim?
+
+--Levaste à conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos?
+
+--Tambem não!
+
+--Viajaste a negocio?
+
+--Qual, Sr. Director! Os meus negociou são sómente os de meu dever aqui
+dentro...
+
+--Não sei explicar a tua falta.
+
+--E eu careço de coragem para dizer...
+
+--Tão futil não ha de ter sido o motivo.
+
+--Eu conto. Foi o meu primeiro filho...
+
+--Felicito-o desde jà.
+
+--Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade.
+Conhecendo bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a só quando
+se manifestaram os primeiros incommodos do parto. E confiando em que o
+acontecimento cedo me daria liberdade para saltar à repartição, fui-me
+deixando ficar, ora mais embebido nos cuidados que a parturiente exigia,
+ora menos descontente com o que se ia passando, até que, só na madrugada
+de hoje, após vinte e duas horas de labutações, se concluiram os
+trabalhos...
+
+--Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia.
+
+--Não menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi
+em mim e vi que faltàra hontem improficuamente, porque...
+
+--Ora, Sr. Orlando! Uma falta não inflúe, tanto mais quanto fui o
+primeiro a não mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber
+corresponder ao valor dos meus funccionarios.
+
+--Fico embaraçado... Nem sei como lhe agradeça... Ao depois das torturas
+porque passei, era natural que Deus me désse o allivio de uma honra como
+a que o Sr. Director acaba de conceder-me.
+
+--E a senhora ficou sem novidade?
+
+--Pouco mais ou menos, Sr.
+
+--Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia...
+
+--Qual nada!... Faltar hoje?...
+
+--Não digo isto.
+
+--Então...
+
+--Obter uma dispensa de serviço...
+
+--Nem pensar é bom, Sr. Director. Se me déssem licença eu hoje emendaria
+o dia com a noite para descontar o atrazo de hontem...
+
+--São excessos, Sr. Orlando. É justo que um chefe de familia precise
+dessas lacunas no serviço para gozar mais largamente as venturas de seu
+lar.
+
+--Estas, francamente, eu só poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz
+no acontecido.
+
+--E não o foi?
+
+--Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigação.
+
+--Qual foi o medico?
+
+--Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo.
+
+--Bons medicos, sem duvida.
+
+--E que hão de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como
+um horror...
+
+--Mandarei dar-te uma gratificação para cubrires com ella os
+extraordinarios desse acontecimento inquietador.
+
+--Não aceitarei, Sr. Director.
+
+--Porque assim?
+
+--Não é soberbia, não. Desculpe-me, mas eu não posso aceitar.
+
+--Quereria ter as razões dessa sua desattenção...
+
+--Não é desattenção, Sr. Supponha que eu aceito. Desfaço-me das minhas
+difficuldades graças ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo
+filho, nas mesmas condições difficeis do primeiro. O Sr. descuida-se e
+eu não obtenho nova gratificação. Naturalmente me enciumarei com o seu
+procedimento e o que não quero hoje, não devo esperar amanhan... Pois
+não é?
+
+--Eu daria do melhor grado.
+
+--Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao
+depois, se a parturiente inspira cuidados...
+
+--Não se ficou bem ella?
+
+--Acho que não. Ao depois do parto, começou de ter desmaios consecutivos...
+
+--E o que recommendaram os medicos?
+
+--Repouso. Ó Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher é
+uma inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que
+Olivia padeceu.
+
+--Pois penso que devias retirar-te.
+
+--Não devo, Sr. Director. O lar é uma preoccupação para fóra das horas
+da secretaria.
+
+--Até o serviço poderia lucrar com a tua ausencia...
+
+--Perdão, senhor, mas...
+
+--Admiras-te? Não queria falar-te com tanta franqueza para não te
+consumires ainda mais...
+
+--Por acaso commetti alguma outra falta?
+
+--Gravissima... Sabes porque te chamei?
+
+--Lealmente ignoro.
+
+--Porque te desconheci. Estás um desconchavado e erras todo o serviço.
+Pelos teus grandes creditos, és aqui dentro um rico de odios e de
+invejas. Conheço-os todos...
+
+--Agradecido, Sr. Director.
+
+--Cada companheiro teu é um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem
+com os teus lapsos o teu valor. Não o admitto eu.
+
+--Mas, que fiz assim?
+
+--Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua
+informação.
+
+--Oh!... Esta cabeça...
+
+--A conta de Silva & C.ª...
+
+--Sei!... sei!... Então... errei-a?
+
+--Inconvenientemente.
+
+--E sei porque perpetrei o engano...
+
+--É o que tu pensas...
+
+--Por ventura outro me corrigiu?
+
+--Absolutamente não. Serás tu mesmo quem fará este trabalho ao depois...
+
+--Porque não hoje?
+
+--Estás dispensado, incondicionalmente, do serviço por tres dias...
+
+--Não me conformo, Sr. Director.
+
+--Sou irrevogavel.
+
+--No maximo me satisfarei com o dia de hoje.
+
+--Serão tres dias irreductiveis, e pódes ir para a companhia de tua
+esposa descansar a tua cabeça. Vejo-te perturbado enormemente com o
+pensamento do que possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda!
+
+--Dá licença?
+
+--Pois não.
+
+--Ás ordens do Sr. Director.
+
+--Ah!... Sr. Orlando?
+
+--Sou todo ouvidos.
+
+--Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? é homem?
+
+--Perdão, Sr. Director... Mas... não lhe sei responder... Com a
+atrapalhação da hora não me lembrei... Ah!... sim...
+
+--Que respondes?
+
+--Desculpe-me, Sr. É justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem
+verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou...
+
+.........................................................................
+
+ Sorrira o DIRECTOR e dispensàra de vez ORLANDO, com a inveja
+ crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos
+ factos...
+
+
+
+
+Á VISTA DA DENUNCIA
+
+
+Á VISTA DA DENUNCIA
+
+ O interior da envidraçada varanda, exornado com ipoméas e glycinias,
+ em cacos, orchidéas e arums nos recantos, não tinha senão a luz
+ pallida, muito pallida, de um luar de inverno, coado preguiçosamente
+ pelos vãos das grinaldas verdes.
+
+ Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma commettia a
+ indiscreção de transportar para alem, ao conhecimento da criadagem
+ bisbilhoteira, os amuos graves de CLOVIS e AMARYLLIA.
+
+ A denuncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de
+ ferro, destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos
+ grosseiros perpetrados pelas mãos violentas de CLOVIS, que,
+ distrahindo-se um pouco com as fumaradas de um havana, ouvia,
+ sem intervenções, as queixas de AMARYLLIA...
+
+.........................................................................
+
+--Como eu, tão ladina para outras, comprehendendo tão bem o mal alheio,
+deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amavel hoje, tinha sido
+um presente valioso hontem, era uma lembrança expressiva amanhan... E o
+meu filhinho servindo de _passe_ para os maiores engodos!... Toda hora o
+telephone pedia Arthurzinho. Là se ia o innocente, coitadinho! E
+raramente voltava. Prendiam-n'o dias seguidos com a ama. Poderia eu
+desconfiar do embuste? Ha genios capazes de todas as villezas. O filho
+era o motivo da entrada do pae, os presentes eram as cinzas nos meus
+olhos, e os convites eram a perfidia da traiçoeira. Mas, agora, ou eu
+succumbirei, ou estará tudo acabado. Ouve-me bem, Clovis: nesta caza,
+emquanto eu viva fôr, Carlota jamais tornará, e se tu desceres à
+indignidade de voltar à caza dessa mulher, ouve bem! Serei eu quem irà
+buscar o tolo do esposo para te surprehendermos na sordidez. Sempre são
+os interessados nas causas os que por ultimo se sentem logrados. _Il
+n'y a qu'un mot pour dire les choses._ Essa palavra não devo, porem,
+proferir sem macular os meus labios, sem regosijar o meu enganoso
+marido, e sem elevar a perdida que me furta a tranquillidade, que me
+logra no dom legal da fidelidade esponsalicia. Um dia desconfiei. A ama
+de Arthurzinho levava um pacote às escondidas, quando, para castigo,
+elle rolou ao chão, na hora da partida, quasi aos meus pés... Perguntei
+à cumplice que significava aquelle _embrulho_... Foi o sr. Clovis quem
+tomou a palavra: «é um romance que mando, a pedido, para D. Carlota
+ler...» Ingenuamente me convenci. Pois seria possivel que o meu marido
+trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraiçoava? que expuzesse
+o meu filho à infamação de ser posto junto à perfida, em lugar de seu
+pai gozado?... Ó meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me
+e vejo-me só. Roubada naquillo porque mais zelos e mais ciumes alimento,
+eu que me tenho submettido machinalmente à concepção de treze filhos,
+exgottando a minha juventude para parecer velha aos trinta e dois annos,
+assassinando a minha belleza, relaxando os meus tecidos, criando uma
+ruga nova em cada manhan em que me olho ao espelho!... para ser
+recompensada duramente com uma traição, uma tripla traição, em que se
+envolveram as minhas lealdades de esposa, de mãe e... de amiga. Sim,
+porque, desgraçadamente o digo, tolerei a concubina de Clovis na
+intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por força dessa leviandade
+commum a todas as mulheres, terei dado causa de rizo à maldita que me
+engazupava. Contava-lhe os meus esforços para trazer sempre o meu marido
+na obrigação pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o
+recebia com intimas indisposições, para que regeitado uma feita elle se
+não atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a duvida de sua
+saciedade noutra fonte... Não sei onde estava escondido o sol de minha
+comprehensão que agora recenna a minha intelligencia. E uma miseria
+moral essa em que se prostitúe, com o conjuge das outras, uma velha,
+desrespeitadora das cans do esposo e da innocencia de suas filhas. Havia
+de ser là, naquella alcôva cheia de seducções, que o meu companheiro se
+convertia em assassino da paz de minha alma. Aos olhos daquellas tres
+criancinhas--mulheres faceis, por herança, que desabrocham nos comoros
+lamacentos da podridão materna--elles dois se encaminhavam do leito,
+quantas vezes Clovis ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o
+ardentemente com o nome de pae! Bemdito o poeta que jà disse estar ao
+lado de cada homem uma féra monstruosa: o instincto. E esse poeta foi o
+meu proprio esposo, accusando toda a humanidade com o seu proprio mal.
+Foi preciso que uma generosidade extranha me avisasse para que eu
+conhecesse essa nova Mylitta babylonica, torpe, pantano no qual até a
+trahida companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram
+poderes lascivos. Ó injustiça divina! Porque não me despertaste, a mais
+tempo, do somno em que sonhei com a lealdade de um templo christão e me
+achava desgarrada na nave de um templo de Buddha?!... Foi hoje o
+assignalado dia de minha victoria. A carta chegou-me às mãos com as
+resteas violetas do sol posto. Li-a de um folego. O meu primeiro impeto,
+naturalmente, foi de indignação contra o denunciante. Mas, alli estavam
+os factos verificaveis, possiveis, e terrorosos. A noite veiu mais
+depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo. A verdadeira noite é
+essa em que tambem a alma se recolhe na escuridão de uma dôr
+apunhalante. O meu marido jantaria fóra, num banquete intimo, mas
+numa sociedade festiva. Resolvi chamal-o prontamente às explicações de
+suas infidelidades. E fil-o sem tardada, não o nego. Á criada de
+Arthurzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha affectos meus por
+dar o seu leite à formação organica de meu filho, trouxe logo às contas.
+Não lhe disse a denuncia, não lhe proporcionei ensejo de contestar a sua
+acção, porque a interpellei segura do facto, inteiramente consciente do
+que fazia. E ella me confessou que levava e trazia romances immoraes,
+que levava e trazia cartas e recados... O instante unico! Ao depois,
+calma e friamente, sabendo que aguçava a minha dôr, revolveu-me nalma o
+punhal de seu descaro, revelando-me a indignidade de ser o meu filho
+abraçado e beijado ardentemente, durante a ausencia do pae, com o nome
+deste entre os labios da corruptora... Nega, Clovis, que não és o amante
+dessa barregan de padres, dessa immunda mulher que maculou o meu lar com
+a sua abjecta convivencia...
+
+--Nego, sim!
+
+--Fórte coragem! Jura que hontem não beijaste, quasi aos olhos do
+publico, no salão de visitas, os labios rôxos pelo cansaço da idade de
+Carlota.
+
+--Juro-te.
+
+--Leviano! Mente como quizeres. Mas, ouve: emquanto o meu corpo sentir
+as commoções do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquella
+devassa, emquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquella carta
+nas tuas vestias, que é o perfume de uso na alcôva de tua hervoeira,
+terei a coragem de repellir-te e de cerrar os meus labios às menores
+palavras para as nossas relações. E se, porventura, desconfiar eu que
+foste buscar, como uma abelha sem sorte, o nectar que se esconde na
+corolla daquella flor murcha e fanada, dentro desta caza, escuta bem
+Clovis, haverá a incompatibilidade de nós dois... É tu entrares e eu
+sahir, ou só ficarei se tu te fôres para sempre. Sabes quanto sou
+caprichosa, o bastante para não me arrepender das resoluções tomadas.
+Negas, ainda, o teu erro? Serei facil de perdoar-te com a verdade, tão
+facil quanto não te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade!
+
+--Nego, sim!
+
+--Quero convencer-me. A pé firme?
+
+--Com toda lealdade.
+
+--Pois bem! É escusado irmos adiante: sabes o que está contido naquelle
+pacote?
+
+--Ignóro.
+
+--São os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero
+devolvel-os.
+
+--Mas, como?
+
+--Não os guardarei mais commigo.
+
+--Vais romper, então, com a familia do Aurelio?
+
+--Forçosamente.
+
+--É de mau alvitre.
+
+--Incommoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar
+com uma amizade que me aborrece, e se te excusares a esse acabamento,
+confessas o interesse que terás em manter a verminação desse convivio
+immundo...
+
+--Se encaras por este lado, rompe Amaryllia, devolve tudo do modo mais
+grosseiro.
+
+--Devolverei, sim, não ha que ver.
+
+--Estàs no teu direito.
+
+--E espero a tua sancção.
+
+--Jà a tens.
+
+--Não. Não a tenho ainda. A devolução não poderá ser feita sem uma carta.
+
+--Pois escreve-a!
+
+--Não! Tambem não! Serás tu...
+
+--Eu?!...
+
+--Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?...
+
+--Amaryllia, pensa bem! Nós, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos
+nessas rusgas de mulheres.
+
+--Comprehendo-te: romperei eu, e tu, às occultas quiçá, com menores
+apparencias, te dedicarás à continuação de teu adulterio. Has de ser
+quem escreverá a carta hoje mesmo, agora...
+
+--Convencer-te-às de minha innocencia?
+
+--De todo, não. Encaminhar-me-ei de convencer-me.
+
+--Não haja duvida. Dà-me papel e tinta. Escreverei num momento...
+
+--E pensas que escreverás como quizeres?
+
+--Não: como fôr conveniente.
+
+--Não te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado.
+
+--Quê?
+
+--Nos termos que me espoucarem arrevezadamente aos labios...
+
+--Mas...
+
+--Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga...
+
+--Amaryllia?!...
+
+--Virulenta e grosseira...
+
+--Faça-se a tua vontade.
+
+--Escreves?
+
+--Como quizeres.
+
+--E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquelle modo escripta?
+
+--A Carlota!
+
+--Não, Clovis. Quero que se escreva ao marido della, com o seu nome em
+todas as letras...
+
+--É demais!
+
+--Não retrocedas!
+
+--Abusas de minha bondade...
+
+--Enganas-te. Clovis, ou tu escreves como eu te determino, ou...
+
+--Absolutamente, não!
+
+--... ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A caza de meu pae
+terá sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortavel.
+
+--Tua alma, tua...
+
+--Sei bem! Queres o escandalo da separação para o renome do
+conquistador? Não te darei essa vantagem... Debaixo deste tecto,
+tragarás, Clovis, o amargo da tortura mais incondescendente, soffreràs a
+queimadura do inferno mais verdadeiro...
+
+.........................................................................
+
+ Ao longe, um relogio temerario, arriscou o aviso tetrico da
+ meia-noite, ao fim do qual, resolutamente, AMARYLLIA se retirou para
+ o seu leito...
+
+
+
+
+IRADO ATÉ À CURA...
+
+
+IRADO ATÉ À CURA...
+
+ Ampla alcôva: no _armoire-à-glace_ reflectida como outro vasto
+ commodo...
+
+ Rico mobiliario de pau-setim com incrustações de jacarandà reluzente...
+
+ Um leito de cazados, e sobre elle, cadaverico, pelles e ossos,
+ despojado de carnes, ventrudo, olhar ancioso, o louro ORMINDO,
+ luctando com a morte...
+
+ É um erro de diagnostico, rebelde a enfermidade à medicação
+ despropositada.
+
+ Junto do leito, uma banca, e sobre esta, alem de um thermometro e de
+ um chronometro, desenvolta frascaria...
+
+ Aos pés da cama, fatigada, somnolenta, às vezes, DOCA é heroina na
+ vigilia: o seu semblante merencoreo só consegue alguma graça
+ quando ELOY visita o enfermo.
+
+.........................................................................
+
+--A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaços sorrateiramente...
+Doca, tu bem vês como eu morro todos os segundos, como eu minguo sem
+cessar...
+
+--Tem fé em Deus, Ormindo.
+
+--Morrerei com ella, sim. A fé! Ella é o facho illuminador da estrada
+eterna... Como deve ser doloroso não crer em nada, Doca!... Sentir a
+alma cahir no vacuo... Ah! não me conformo, porem... Morrer quando tanto
+preciso é viver... Vou deixar-te na penuria... a braços, por certo, com
+os creditos da medicina e da pharmacia...
+
+--Tu pensas demais.
+
+--Como não hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilharás a codea endurecida
+e atrazada. É com horror que prevejo as tuas infelicidades... És nova.
+Mas de que servirà a tua mocidade sem pão, os teus verdes annos sem um
+amparo? És bella. Mas de que prestarà a tua lindeza se não tiveres um
+manto para o frio e um abanico para o calor? Nova e bella... na
+viuvez! Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei?
+
+--A pobreza é um estimulo, Ormindo: saberei trabalhar afim de haver com
+honra um pedaço de pão e alguns covados de fazendas...
+
+--Não te peço nada, e peço-te muito: não macúla o nome de teu marido. A
+herva reverdesce a fronde dos vegetaes, augmenta-lhes a copa,
+ennobrece-lhes o aspecto: crava-lhes, porem, até ao durano, as raizes
+assassinas e rouba-lhes a seiva até à morte. A arvore cessa de existir
+com a trepadeira phytocida que lhe rendilha os contornos. A mulher deve
+pensar que o bem-estar não é a honra, e que ha tranquillidades mais
+homicidas do que a herva do passarinho... A deshonra não provem da
+pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A deshonra é fructo das
+transigencias de alma, e a mulher viuva é a que póde peiormente
+transigir... Que dores!... Ui!...
+
+--Estàs vendo: peioras quando falas!
+
+--Doca, no meu caso extremo, a morte é assim qualquer coisa como uma
+sorte grande...
+
+--Num bilhete branco para mim que fico sem ti... Não sabes aproveitar o
+silencio como um meio de cura, não sabes tirar partido, poupando
+forças para momentos mais graves...
+
+--Durarei muito pouco.
+
+--Não pódes saber mais do que os medicos.
+
+--Ah! mulher! Só eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se
+avisinha o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam. É
+verdade, pois tenho neste momento a visão mais lucida dos meus
+primordios. Que é isto senão que se vai fechar a circumferencia de minha
+traslação em torno do vacuo universal? O aneurisma cresce, avoluma-se,
+rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a fórma de uma esphera, é um
+globo pequenino de vivos, na lucta pela existencia. Vai arrebentar,
+latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que nunca
+me illudi com a esperança da cura? Illudi-me, mas antes de todos...
+
+--Quem està vivo, Ormindo, ainda não està morto, e toda a cura é plausivel.
+
+--A tua dedicação é cega. Desde que adoeci, desde que sobre o coração
+senti a formação mortifera do mal circulatorio, certifiquei-me estar
+mais longe do mundo do que do nada. E deste momento para cà, que fiz
+para denunciar que creio na cura? Ao contrario, a minha vida tem sido a
+chamma de uma véla a luctar com o sôpro das auras. Não ha um
+instante em que não me morra uma alegria, em que não nasça uma saudade.
+Em torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa
+teimosa em torno de uma lampada.
+
+--Aggravas-te, Ormindo! Cala a bocca por piedade! As tuas palavras são
+outros tantos punhaes que me sangram o coração.
+
+--Que horas serão?
+
+--Jà é noite.
+
+--E os medicos que não vieram?
+
+--Vieram, sim. Tu estavas dormindo.
+
+--Os medicos não vieram, não... Até a minha esposa conspira contra a
+minha existencia...
+
+--Não pesas as tuas palavras, Ormindo.
+
+--Jà sei de tudo. Perderam a esperança, abandonaram-me. Não passarei de
+hoje. Estou condemnado a horas.
+
+--Descansa um pouco.
+
+--Descansar, agora, só de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e
+parece-me que foi hontem à tarde que nos vimos pela primeira vez. Um
+sonho às vezes tem existencia mais real, porque nos acompanha do momento
+da concepção em criança ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me
+o ar...
+
+--Assim queres! Falas tanto...
+
+--Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: não ha rio que não chegue ao mar.
+Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas
+consegue... Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez não te
+lembres mais do meu enfeitiçamento; não me esqueço eu do sorriso unico
+com que festejaste o nosso encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh!
+que lindo luar te prateou as pupilas, te diademou os cabellos e te
+banhou luciferamente as espaduas! Mezes depois, o cazamento... A noite
+de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso amor insatisfeito sempre
+para accordar novas caricias, para fomentar alegrias... A esperança de
+um filho... O recúo da esperança... E tudo isto acabar quando mesmo
+principiava?!...
+
+--Não temas a morte: um cerebro que pensa como o teu dà confiança na
+renascença da vida.
+
+--A alma não morre, Doca! É ella quem esta vivendo agora. Os pulmões
+fraqueiam, o coração tem espasmos, a visão escurece-se, a voz
+arrasta-se, mas o cerebro pensa... Crês tu que, porque não falam, todos
+os moribundos não pensam? Illudes-te! É a hora de maior pensamento. Só
+recompôr todo o passado afim de o ligar ao presente e encerrar o
+circulo das sensações mundanas, é pensar robustamente. Um moribundo que
+eu vi, não tinha a fala. Os membros eram paralyticos, os olhos
+envidrados e photographavam a luz do dia para a eternidade... Pois bem!
+esse homem assim amortecido, repelliu com o gesto brusco de uma perna o
+supplicio de uma injecção nos ultimos instantes... Acaso, não pensaria
+mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros ha que conhecem até o
+segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser tocante o
+adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um
+agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecerà mais
+no extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro
+mundo... Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que não falo certo?
+
+--Não me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperança
+illuminar-me o rosto...
+
+--Como és amante?!... Quererias de coração e de alma, com todos os
+affectos e vontades, a minha cura?
+
+--Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado à saúde.
+
+--É bem pouco um desejo!
+
+--Duvidas que todas as minhas forças funccionam só na intenção de
+possuir-te novamente são?
+
+--Não duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a
+prolongação de minha tortura...
+
+--Aborrecer-me eu!...
+
+--E então?!...
+
+--Tens coragem! Só me representa que gravaràs na alma uma eterna
+desconfiança da amizade de tua esposa...
+
+--Isto não!
+
+--Pois parece, Ormindo!
+
+--Neste caso, escutas-me com agrado?
+
+--Sim.
+
+--Posso falar?
+
+--Não.
+
+--Ah! jà sei... É a mesma quesilia de que falar é um desperdicio de
+forças organicas...
+
+--Diz o doutor...
+
+--Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro
+conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar
+num terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido às intenções
+animaes dos homens, a equação da mulher é perigosamente diversa.
+Virgem, ella tem a expressão de um sonho; esposa, representa uma
+realidade; e viuva, ella é uma alma em que se derramam os mananciaes
+copiosos da luxuria humana... Virgem, fôste uma criadora; esposa, uma
+inspiradora; viuva, seràs, em nome da honra de teu marido, uma
+redemptora... Ai!... Dóem-me os pulmões... Morrerei, porem, com todas as
+sensações...
+
+--Não morreràs, Ormindo!
+
+--São os teus votos?
+
+--Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda
+no instante derradeiro?
+
+--Não duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz.
+
+--Pois então?!...
+
+--Dà-me a tua mão...
+
+--Estàs frio!
+
+--É a gelidez da morte... Não tardarà... Fazes-me um favor?...
+
+--Se o faço...
+
+--É para depois de minha morte...
+
+--Juro-te.
+
+--Mas, responde franca e precisamente, para que eu não succumba com uma
+duvida...
+
+--Pede o que quizeres... Pede... não!... ordena!
+
+--Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se não me derrubou de vez,
+vai invadindo-me com o gêlo de seu halito das extremidades para o
+coração. Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez é um
+despenhadeiro. Peço-te em nome de minha tranquillidade, que te cases,
+immediatamente, afim de que não paire uma só nuvem sobre a limpidez do
+teu e do meu nome... Casarás logo... Peço-te... É o ultimo sacrificio em
+prol do teu defuncto...
+
+--Intranquillisas-me, Ormindo.
+
+--Não ha razão para isso.
+
+--Se tu mandas...
+
+--Mando, não; peço... Agradar-te-à Eloy?
+
+--Queres, Ormindo, a verdade antes da morte?
+
+--É isso...
+
+--Pois bem! O que tu propões jà estava assentado entre nós outros...
+
+.........................................................................
+
+ A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um
+ grande esforço e se salva com o despedaçamento brusco do myoma
+ desconhecido, do assassino erro de diagnóstico...
+
+
+
+
+A HUNGARA
+
+
+A HUNGARA
+
+ Commodo de hotel. Um fóco electrico esverdinhava o azul papel das
+ paredes.
+
+ Revolvido, o leito denunciava em duas cóvas a pressão de dois corpos
+ que nelle se afundaram.
+
+ SARAH, a hungara, recebia GUANABARINO, o chronista theatral, com um
+ estridente signal de contentamento...
+
+.........................................................................
+
+--Aqui estou. Nem sei como acertei.
+
+--Estás apaixonado?
+
+--Crês, Sarah, que paixão desponte como um sorriso?
+
+--Quem te disse o meu nome?
+
+--Li-o nos programmas.
+
+--Ah! sim. Gostaste do meu canto?
+
+--Não te ouvi.
+
+--Como te agradei?
+
+--Pertencendo a outro. A mulher sem dono custarà a topar com um amante.
+Rolarà uma eternidade como a pedra que não cria limo... Tenha um amante
+e dezenas surgirão...
+
+--Como elle é experiente!
+
+--Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por
+Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo braço delle, no teu longo
+_manteau_ de sêdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo
+dezenas de mulheres no Café-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o
+canariar de suas vozes; francesas, que arrebatam com o _savoir-dire_ as
+malicias mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus
+sapateados; americanas, que lembram bugios nos saltos do _cake-walk_...
+Todas são-me indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com
+cocottes para todo o mundo... De começo estive tentado a emprehender uma
+_ménage-à-trois_ com uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo
+prohibido e vivia aferrolhado à concupiscencia de seu proprio pae.
+Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente
+encontrei-me comtigo...
+
+--Ladrãosinho! Como elle sabe contar!
+
+--Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu
+amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de
+amigos attrahiu-me e a attracção de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um
+cumprimento com a cabeça. Não me teres sido apresentada, significou que
+o teu galan zelava de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho
+de seu progresso na sabedoria dos olhares que as pessôas cultas pódem
+trocar. Viste como te comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho
+para o _buffet_? Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo
+de junto de ti e como tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro?
+Na sombra dos pés da meza, os nossos corpos se trocavam desejos nos
+encontros, animavam-se tambem com os promettimentos mais claros, e as
+nossas carnes se queimavam por detraz dos tecidos de nossas vestias.
+Tudo isto, porem, ainda não é paixão. É um grito do instincto animal. Só
+nos não apaixonaremos se não quizermos...
+
+--Como sabes a vida!
+
+--Precisas prender Gustavo. A epoca é das melhores. O dinheiro passa-lhe
+pelas mãos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque,
+alem do mais, é um amante que, por força de ter mulher e filhos e morar
+longe, te darà muito tempo aos amores furtados.
+
+--Não os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo não
+se tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e só o
+trahi uma só vez: com o pae de meu filho. Gósto de um amor só, de ter um
+dono e de ser cubiçada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso,
+o Gustavo não me agrada... Prefiro-te a elle, serás o meu amante...
+
+--Erraràs se assim preferires, Sarah. Não tenho posses para te manter,
+ao passo que o Gustavo...
+
+--Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho
+para o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero...
+
+--Neste caso ficaràs com elle...
+
+--Porque então?
+
+--Conheceste-o primeiro.
+
+--Não importa isso. A elle conheci na manhan, a ti à noite, ambos no
+mesmo dia. Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra. Encaminhou-me
+do hotel, e... má recommendação tem dado com os multifarios obsequios,
+com os gastos e as gentilezas, sómente com essas coisas... Ora, uma
+mulher como eu, ou quer o homem, ou não o quer... De minha parte
+dispenso as galanterias...
+
+--Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispôres de sua
+bolsa...
+
+--E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor...
+
+--Là com isto combino eu.
+
+--Assim, và que seja e comecemos...
+
+--Que tenho eu para tanto me olhares?...
+
+--Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes
+são dois vulcões. Como te chamas?
+
+--Guanabarino, um nome difficil.
+
+--Como?
+
+--Gua-na-ba-ri-no!
+
+--Gua-na...
+
+--... barino.
+
+--Ah! sei. Guanabarino. É a primeira vez que ouço esse nome. És brazileiro?
+
+--De corpo e alma. E tu?
+
+--Filha do sul da Hungria. Vim creança para a tua terra. Fui noiva,
+aprendi a cantar com um meu amante e vivo disto...
+
+--Tens percorrido meio-mundo, hein?
+
+--Não: conheço a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia...
+
+--Dize outra vez esse termo...
+
+--Reminiscencia.
+
+--Que lindo! Parece-me, Sarah, que estás a dar uma serie de beijos...
+
+--Como elle é ardente!
+
+--De verdade?
+
+--A tua alma està fugindo-te pelos olhos...
+
+--Junto de um espirito como o teu, como ella não querer a transfusão
+carnal? Jà notaste o frio que regela as mãos do homem emocionado junto
+da mulher que o escalda?...
+
+--Ih!... Que gêlo!
+
+--Sabes explicar?
+
+--Não. É difficil?
+
+--Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao coração. As
+extremidades resfriaram-se. Tudo isto jà é começo de paixão... Falaste
+nos meus olhos! E os teus? São capazes de comprar o mundo com um só
+relance.
+
+--Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento?
+
+--Que graça! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas
+gentilezas.
+
+--Tens gozado tanto?
+
+--Inda perguntas?! Não sabes que o amor se fez para os temperamentos
+tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um
+desejo para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda
+hora: sinto que todo o teu sexo não seja uma só mulher para esta ser a
+minha amante...
+
+--Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino!
+
+--Não.
+
+--Desmentes o que asseguras.
+
+--Jà tiveste o teu quinhão.
+
+--Como assim?
+
+--Jà te possuiu o Gustavo...
+
+--Juro-te que não. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja
+revelada, ainda não desejou...
+
+--De facto?
+
+--Juro-te eu.
+
+--Ao depois delle... nunca!
+
+--Mas, porque? Mettes-me medo...
+
+--Por nada! O Gustavo é um homem para se temer...
+
+--E porque me inflúes para ser a sua amante?
+
+--Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu
+concubinato bem pódes usufruir grandes proventos. E, jà agora te direi:
+pouco mais fará elle do que hoje... Entretanto, como homem de
+recursos, talvez ainda não te désse a menor prova do que seja...
+
+--Fez-me hoje a oblata de um collar de libras...
+
+--Um collar?
+
+--Sim.
+
+--De libras esterlinas?
+
+--Conheces?
+
+--Acho que não. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos...
+
+--Foram presente.
+
+--Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros
+meios que não esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe
+aqui...
+
+--Não amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de
+_chanteuse_. Ás vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a
+primeira a não regeitar o que me dão. Um deputado deu-me este annel...
+
+--Adoravel!
+
+--Um advogado, ao depois de uma perseguição de mezes, para eu o receber,
+offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho
+aquinhoou-me apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio,
+outras...
+
+--Muito em cheio, Sarah!
+
+--Tu falas? Um mineiro, hoje desesperançado de conseguir a minha
+retribuição, deu-me estes correntões para atilios...
+
+--Que lindas fórmas!
+
+--Mostro-te apenas os atilios e não as pernas...
+
+--E eu vejo tudo! É admiravel como o _fraise_ das meias se destaca no
+gêsso das tuas pelles...
+
+--Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me
+cubrissem de oiro tenho tido às carradas... mas, um só que me dissesse
+coisas tão lindas, nunca tive... A palavra inescutada é tambem uma joia
+preciosa. E para retribuir tantas distincções ineditas só um beijo de
+muita paixão, só um beijo...
+
+--Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e déste mais de mil...
+
+--Longe disto, tu não me recompensaste com um só... Reparei bem...
+
+--Desculpa. Mas, quando sou beijado, não beijo. Esta caricia deve ser
+sempre espontanea e impagavel. E eu não commetto a grosseira
+sensualidade de pagar uma caricia...
+
+--Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan...
+
+--Com todo o fervor...
+
+--Não te enciumas?
+
+--Não. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de
+ouro que elle te der.
+
+--Queres ver o collar de hoje?
+
+--Verei.
+
+--Elle me prometteu para amanhan um relogio e um correntão.
+
+--Aproveita, Sarah! Gustavo desperdiça dinheiros de herança...
+
+--Vês tu o bello collar?
+
+--É lindo!... Elle t'o deu?
+
+--Sim.
+
+--Esta joia?
+
+--Que significa o teu espanto?
+
+--É que este collar é...
+
+--Falso?
+
+--Não! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo...
+
+--Agora é minha!
+
+--Estàs no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos...
+
+--E só a ti amarei, Guanabarino!...
+
+.........................................................................
+
+ Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de
+ GUSTAVO evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando o
+ silencio somnolento do casarão do hotel, a figura caprina de um mal
+ conhecido visinho de quarto...
+
+
+
+
+DEPOIS DO COMETA
+
+
+DEPOIS DO COMETA
+
+ De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, ALEXANDRINA
+ ergueu-se da _steeple-chaise_, e beijou a mão da velha senhora D.
+ CAROLINA, que acompanhava MIMI, naquella matutina visita de nupcias.
+
+ Ao depois, como duas flores de uma só haste separadas para sempre
+ que se reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braços
+ a figura da amiga e beijaram-se fartamente.
+
+ De outro lado, ARTHUR, o novel esposo, enfardado no seu dolman de
+ brins brancos, cumprimentàra, ceremoniosamente, a DONA CAROLINA e
+ com um sorrizo prazenteiro applaudiu as bregeirices de MIMI.
+
+ Esta e ALEXANDRINA, ao depois de affaveis cumprimentos geraes,
+ confidenciavam numa janella, por detraz de arrendadas cortinas,
+ onde se foram acastellar para a permuta de segredos...
+
+.........................................................................
+
+--A que horas despertaste?
+
+--Nem sei mesmo...
+
+--Não é possivel.
+
+--Palavra!
+
+--Então ferraste no somno, e...
+
+--Ao contrario: não durmimos.
+
+--É exquisito.
+
+--Como te enganas! Não calculas o que seja a estafa de um dia de noivado.
+
+--O dia mais bello da mulher...
+
+--Parece-te?
+
+--Esta é bôa, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: não te
+sentiste extraordinariamente feliz?
+
+--Ah! sim... Casei-me por meu gosto...
+
+--Olha que já me pareces outra com tanta sisudez e seccura...
+
+--Não é, Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. É
+preciso que não me tenham na conta de alguma leviana: jà hoje em dia,
+minha amiga, tenho segredos que te não posso falar...
+
+--Prohibiram-te de dizer-m'os..
+
+--Não! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alteração na vida de uma mulher
+que se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida
+conjugal, que nem sei como me reconheceste hoje... Jà viste, no
+craveiro, o botãosinho verde; o casúlo de folhas, como, na manhan
+seguinte, está um perfumoso cravo, uma flor distincta? Se te dessem as
+duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o facto como inveridico...
+
+--Mas eu te vejo a mesma boniteza...
+
+--Sim! É questão de alma. Suppõe que adormeceste no começo de uma viagem
+e que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo
+seria o mesmo, a tua lindeza não seria transformada, mas o teu coração
+palpitaria diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As
+tuas amigas ficariam noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso
+que regressasses ou que ellas viajassem para onde fôras. Assim no
+cazamento: viajei para muito longe de ti. Para nos irmanarmos como
+dantes, ou voltarei à minha immaculabilidade de hontem, o que seria
+impossivel, ou tu ascenderás ao matrimonio para o que faço votos.
+
+--Tens razão!
+
+--Não te parece?
+
+--Falas e procedes tão judiciosamente que não me atrevo a duvidar das
+alterações por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o
+cazamento para não me esquecer tão depressa das intimidades com as
+minhas amigas...
+
+--Não me esqueci. És injusta! Não te darei novas confidencias: as
+velhas, entretanto, ficarão acariciadas como um sonho de felicidades na
+vida de uma mulher inditosa.
+
+--Pois pensei que me dirias tudo...
+
+--Tudo... quê?
+
+--Ora!
+
+--Denuncias que pensas em algumas coisas que não são veridicas, ou, pelo
+menos, não o foram para mim.
+
+--Foste differente das outras!
+
+--Offendes-me.
+
+--Não te offendo, não. Desconheço-te.
+
+--Que quererias tu que eu te falasse?
+
+--Não sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses.
+
+--Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha
+com um olhar seriamente investigador e tua mãe franze o sobrolho para
+mim... Um ha de suppôr-me indiscreta para te communicar tolices...
+e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras...
+
+--Não! Deixa...
+
+--És má! Tens talento e não queres comprehender a minha situação,
+especialmente no dia de hoje.
+
+--Jà te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres...
+
+--Amúas sem razão.
+
+--Com que direito a planta exige viço da flor que já foi colhida?
+Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre nós duas existe a alma do
+sr. Arthur...
+
+--Não exaggeres...
+
+--Pódes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirás delle tambem. Os
+meus serão contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo,
+porque não deve haver um conhecimento novo que não pertença a ambos: os
+delle... morrerão comtigo, porque não deves trahir à tua fé conjugal...
+
+--És incondescendente!
+
+--Sim, sou incondescendente na verdade das cousas.
+
+--Em parte, minha amiga.
+
+--Não. Em tudo.
+
+--Veremos.
+
+--Pois experimenta!
+
+--E se eu te provar?
+
+--Pago-te com um beijo...
+
+--Oh! Pois então a mulher que se cazou póde beijar outra pessôa que não
+seja o seu esposo?
+
+--Deste modo, Mimi, não chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha
+conversas... O que te conversei até hontem, não conversarei jamais com o
+meu esposo. O que te converso agora, não conversarei jamais com a tua
+maman. Beijos!... Os que te dou são da ordem dos que sempre te dei...
+
+--Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias.
+
+--Não sei se sómente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei
+quantas tem...
+
+--Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes
+ou não ao teu marido?
+
+--Conforme.
+
+--Não é caso de dubiedades. Dizes ou não?
+
+--Se fôr só do teu interesse, não.
+
+--Faço-te justiça, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao
+falseamento agora, sómente agora, do teu dever. Contarás tudo o que te
+disserem, ou serás uma perjura na fé conjugal. Eu mesma duvidaria
+de tuas intenções, se occultasses do teu marido o menor acontecimento
+que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de
+descobrir sempre esse interesse que não é exclusivo da pessôa que te
+fallou, para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de
+parte, e affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres...
+
+--Dou-te razão, minha amiga. O mundo é esse mesmo e não serei eu quem o
+modificará.
+
+--Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva!
+
+--Achaste?
+
+--Encantadoramente bella!
+
+--E tu me viste?
+
+--Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem à porta da
+igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja.
+
+--Era a ultima nota do meu pudor de virgem!
+
+--A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro
+assentou-te a grinalda como uma corôa de rainha. Agradou-me a tua
+elegancia. E, porque não te censurar? só não gostei de trazeres os
+olhos humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar esplendido.
+
+--Lisonjeira!
+
+--Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multidões que se
+dominavam com a curiosidade de ver-me...
+
+--Tens razão. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem
+saber que... mais tarde...
+
+--Dize... dize...
+
+--Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais
+algozes...
+
+--De véras?
+
+--Sim, minha amiga! Não calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh!
+Digo-te de mais! Perdôa se te offendo...
+
+--Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que,
+ainda ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu?
+
+--Guardei-o já para offerenda a uma Santa.
+
+--Quem t'o tirou?
+
+--A maman... Arthur conversava no salão com o papà e dois amigos
+retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem jà era alta hora da
+madrugada. Duas ou tres, não sei.
+
+--E o teu vestido? Era primoroso...
+
+--Está no _armoire-à-glace_...
+
+--Muito amarrotado?
+
+--Não. Quando o despi... chorei! Como é que uma mulher só se veste tão
+bem uma vez na vida?!...
+
+--Choraste, Alexandrina?
+
+--Sim.
+
+--É de mau agoiro. Dizem que morrerá primeiro aquelle que chora...
+
+--Não sabia.
+
+--Nem que morrerá antes do outro o que se deitou por primeiro?
+
+--Tambem não! E por isso tambem serei eu quem morrerá antes...
+
+--Ah! já estavas deitada quando elle appareceu na alcôva?
+
+--Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mãos, tratou do
+successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada,
+desde as asperezas do juiz cazamenteiro, até às melifluidades de voz do
+sacerdote, quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal.
+Recompuzemos a sociedade que aqui esteve. As dansas, o serviço de
+_buffet_, a ceremonia do chá... Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa,
+eu lembrava outra. Sorriamo-nos, commentavamos, com seriedade, as
+incorrecções dos outros...
+
+--E o tempo se passava...
+
+--É exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. Não sabes, porem,
+como foi opportuna a nossa conversação. Quando extremecemos, ouviu-se o
+tiro das cinco horas...
+
+--E então?
+
+--Arthur lembrou-se do cometa... Já o viste?
+
+--Ainda não!
+
+--Pois é bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada
+do meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi...
+
+.........................................................................
+
+ Interrompidas por DONA CAROLINA, MIMI e ALEXANDRINA, dando-se as
+ mãos, nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na
+ conversação commum...
+
+
+
+
+AMORES NO CLAUSTRO
+
+
+AMORES NO CLAUSTRO
+
+ Um ar tépido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos,
+ instigador do sensualismo mais humano e menos animal, era o
+ excellente conforto da cella de FREY PATRICIO.
+
+ Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de
+ dedos enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro
+ e o seu affectuoso irmão de ordem, FREY THOMASIO, palravam
+ gostosamente de coisas alegres...
+
+.........................................................................
+
+--Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resolução
+improvisada...
+
+--Pois eu, não! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e não
+venci: fui derrotado.
+
+--Não posso crer facilmente.
+
+--É a verdade, irmão Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no
+sepulchro. Para aqui trouxe o meu corpo, e, là fóra, borboleteando, sem
+parar, a minha alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella
+animava. Emquanto moço, nas minhas preces só o nome de uma mulher viçava
+triumphante...
+
+--Tambem a mulher...
+
+--Sim. Preconceitos, preconceitos! A baronía estulta de uma familia
+asphyxiou sem dó a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje,
+tremo de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre
+hymnos e bemdições, tel-a-ia levado, não à cova, sublevando-se contra os
+pais, sim ao hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem
+cuidados naquillo que outros apreçavam--a feeria dos titulos
+nobiliarchicos--vivemos apenas pelas suggestões do sentimento que nos
+venceu...
+
+--Os teus labios tremem, irmão Patricio, as tuas pupilas se inflammam e
+olham por sobre nós para tempos bem distanciados...
+
+--Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingança que exerci
+contra mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia
+ainda, mas respirando balões de oxygenio. Artificios da sciencia! E
+tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo, naquella
+tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do
+esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A
+vista annuviou-se-me e, balouçadas pela briza, as rendas do esquife me
+disseram um adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenços muito
+brancos, molhados de lagrimas... Succumbi deante da falsa visão e
+esmaeci... debruçado sobre aquelle leito, onde chorei incansavelmente
+irado--Deus me perdôe!--como o mais pecador dos homens...
+
+--Tanto poude o amor!
+
+--A mola do mundo, Frei Thomasio, é a mulher. Não ha um burel aqui
+dentro que não seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem
+corriqueira e profanamente os francêses, _chercher la femme_... Por
+ventura não professaste como os outros?
+
+--Sem tirar nem pôr na cauza.
+
+--Sempre assim.
+
+--Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu
+entre os outros homens e te elegeu o seu preferido.
+
+--Ah! por certo.
+
+--Quem me déra!
+
+--E que te faltou, Frei Thomasio?
+
+--Justamente o amor.
+
+--Intrigas-me de véras.
+
+--Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei
+mocinho?
+
+--Se me lembro!...
+
+--Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era
+menino, e se me dissessem que o heliantho foi obra da pretenção e do
+desabuso de Hephaestos querendo, como um Deus, criar sóes e mais sóes,
+todo o credito eu daria, porque não tinha discernimento para me salvar
+das tentações humanas...
+
+--Que são as verdadeiras tentações da serpente no Paraiso...
+
+--Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o
+carreiro que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas
+e ramos para sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambições
+de saber... Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as
+primeiras cousas de amor...
+
+--E não lias o _Cantico dos Canticos_!
+
+--Ah! não! Fui sabendo que, como Eva fôra criada para acompanhar o
+primeiro homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os
+arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com
+olhos de escaldo...
+
+--Que maganão!
+
+--E não peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas
+amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o
+cortejo dos mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras não tinham
+as calenturas de um amor, ella abrasava na abundancia das pretenções
+exaltadas: todos à porfia lhe disputavam a preferencia... Tolamente eu
+era conduzido entre os fascinados pelo olhar da moçoila cortejada.
+
+--Estou vendo que eras o preferido...
+
+--Não sei, porque não tive capacidade para aquilatar, bem como porque--e
+daqui se originou a minha principal historia--troquei logo essa
+espectativa de amor bem aventurado por uma effectividade de amor bem
+triste... Mas sei que os olhares dos meus velhinhos cahiam sobre nós
+dois como punhados de olorosos jasmins, quando elles nos viam, quaes
+dois noivos conscientes, em falações na varanda arborisada de nossa
+caza, amorosamente illuminados pela lua...
+
+--Bem feliz que ias para a vida entrando, irmão Thomasio?
+
+--Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a
+minha desdita foi ella a que mais lagrimas chorou... Ora, se a intuição
+de amar crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais
+fulgentes e chispantes, me sensualisaram todo e a carne arvorou-se em
+maior do que o sentimento...
+
+--O pecado!
+
+--Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, às vezes
+ainda peiando cigarras e apedrejando, com rudes instinctos, os
+inoffensivos gaturamos, fui prendendo-me às ardencias das esbrazeadas
+pupilas de uma mulher facil... A principio, quando o seu olhar incidia
+sobre mim, eu cerrava os olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer,
+pensava nas ternuras da outra. Nada mais. Os dias repetiam-se e as
+scenas mudavam-se, crescendo as investidas e diminuindo a resistencia.
+Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da aggressora, eu sentia
+uma purpuridão nas faces, mas incolume proseguia o meu caminho... Mais
+tempo, e duas, tres, quatro vezes, voltava-me para trocar sorrisos... Em
+caza, a presença da outra, começou de aborrecer-me. Á noite, por sobre
+as paginas abertas dos meus livros, dansavam cabrioladamente as imagens
+das duas mulheres. E eu me decidia fragorosamente pela menos
+conhecida. Um dia, notei que os labios da extranha se moviam. Nada
+percebi, no entanto. Que ella falava, eu estava certo. Nas passagens
+seguintes, com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo exquisito. Duas
+syllabas apenas, e, se não te offendo nem abuso de tua condescendencia,
+irmão Patricio, dir-t'o-ei jà...
+
+--Faço mesmo questão de sabel-o...
+
+--Jà que queres ouvir-me, continuarei...
+
+--Continúa...
+
+--A deslumbrante mulher dizia-me apenas: «Tico»...
+
+--Olá!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocabulo...
+
+--Nada sei explicar-te, Frey Patricio, senão que corri os diccionarios
+dos meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo
+convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo
+investigador, depois de algumas pesquisas fóra da convivencia dos
+collegas, soprou-me segredadamente: «_Tico é um convite... E quando
+ouvires, responde taco..._» Corei deante da revelação e maldei de tudo.
+O meu primeiro impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me
+furtar às seducções de Almira...
+
+--Que bello nome, e lendario!
+
+--Tive, porem, de ceder à contingencia dos factos. Não era possivel
+andar por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti
+da ideia e affrontei a tentação. Com o tempo fui cedendo. E, um bello
+dia, como se diz là fóra, escorreguei... «Tico!», disse-me ella, e eu
+lhe oppuz murmuradamente quasi: «Taco!» Em resposta, ouvi: «Amanhan!»
+Que noite, Frey Patricio! Se ha caldeiras para queimar almas, nós as
+experimentamos quando fazemos a espera de alguma coisa. Não durmi,
+confesso. E, para encurtar as razões, só acordei, effectivamente,
+quando, advertido por ella de que là iria chegar o seu homem, me vi
+escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse
+esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que
+cresceram e motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que
+creatura perversa! Foi às bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho
+animal me arrancou de debaixo das pilhas de saccos, às bastonadas, Frey
+Patricio...
+
+--Ah!... ah!... ah!... ah!
+
+--Não rias, Irmão!
+
+--Não te zangues, Frei Thomasio. Não me posso conter... A tua historia é
+alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!...
+
+--Nem sei como de maus tratos não me acabaram naquella hora furiosa... E
+quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais!
+
+--Pudéra!... Ah! ah! ah! ah!...
+
+--Aliás, não foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido jà, e
+voltando aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia:
+«Taco?»... e eu a repellia instinctivamente... «Nem tico, nem taco...
+nem là dentro do teu sacco...»
+
+--É bôa, é bôa!... Ah!... ah!... ah!... ah!...
+
+--Em seguida...
+
+--Sim...
+
+--... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos
+conhecidos me estygmatisava com o escandalo, e soffri, abrazadoramente.
+Ninita, escandalisada com a minha quéda, definiu-se por outro, que a
+recebeu como esposa perante Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim
+mesmo... O mundo era um tedio... Então pensei no vicio...
+
+--Mizericordia!
+
+--Mas, não era?... Para abafar uma mizeria moral, só outra maior... ou o
+passo que dei...
+
+.........................................................................
+
+ A bronzea sineta da confraria, não se retendo na missão avisadora,
+ chamava a Ordem para a humilde refeição da noite.
+
+ E quando FREY PATRICIO chegou ao salão, na companhia de FREY
+ THOMASIO, jà se liam, emphaticamente, as consoantes orações da
+ hora.
+
+
+
+
+A CONSULÊZA
+
+
+A CONSULÊZA
+
+ De _maillot_, apenas, arrebicando as faces diante de um espelho,
+ NINA, a bailadeira, tinha um milhão de pensamentos banaes no cerebro
+ ardente.
+
+ Os traços da sepia e os rebordos do nanquim, já lhe accentuavam a
+ grande vivacidade do olhar, e o pó de arroz attenuava e embellecia
+ as côres roseas do rosto criadas pelo carmin vencedor.
+
+ Uma vez por outra, deixava de conformar-se, para attender aos
+ appellos da porta, de onde, sem deixar ninguem penetrar, voltava
+ enfastiada com as iterações de extranhos.
+
+ Esperava OCTAVIO: era o _aimant du coeur_, porque o CONSUL, o
+ velho francês, pelas suas funcções representativas, evitava
+ aquelles encontros mais notorios...
+
+.........................................................................
+
+--Nina?
+
+--Quem bate? Octavio?
+
+--Elle, sim!
+
+--Entra, meu rico amor!
+
+--Fiz-me esperar, hein?
+
+--Nem tanto, mas eu tenho a regalia de poder cheirar-te as vestimentas
+para saber se tiveste o contacto do corpo de outra mulher, de
+vistoriar-lhe o casaco, para descobrir ahi os fios perdidos dos cabellos
+da que me logrou...
+
+--Descansa o teu coração. Vivo inteiramente para ti. E emquanto estou
+longe do teu olhar, sou como o barro que espera, ardorosamente, a toda a
+hora, a plasmagem do artista. Por elle, passam e voltam, vão e tornam,
+todos os profanos: mas elle não é menos monopolisador de sua
+plasticidade do que uma flor do gnomo que só abra a horas certas...
+
+--Não sabes? O Consul pediu-me a noite...
+
+--E deste-lh'a?
+
+--Nem sei...
+
+--Já me toma os dias inteiros... Entra agora pelas noites... Que horas
+serão as minhas?
+
+--Todas até. Aturo-o porque tu consentes.
+
+--Exactamente. Mas elle vem a prejudicar-me se continúas a não se
+satisfazer com o que lhe dás. Ás vezes, lá para as tantas do dia, penso
+em ti. O brazido abre em chammas ao menor sopro. O incendio alastra.
+Quero remediar-me e soffrer a caricia dos teus beijos anti-incendiarios.
+Vem logo a certeza de que o Consul te frequenta o dia inteiro. Esmoreço.
+Abomino-me e espero confiante o prazer da noite. Tenho sido certo e
+insubstituido. De agora por diante, nem mesmo nas noites poderei
+confiar. Ao amante nunca lhe dês demais. Se te pede uma hora, dá-lhe
+meia, se te pede um dia, dá-lhe horas, se te pede uma noite, dá-lhe um
+dia, e reduze sempre as suas pretenções. Ao contrario, todo o tempo será
+absorvido. E, quanto ao mais, espera-te hoje a ventura. Vais dormir com
+o Consul... Estou libertado...
+
+--Oh! não! Que succede Octavio?
+
+--Nada. Não estorvo os teus anhelos. Leva comtigo o Consul. Dá-lhe o meu
+lugar, mas dize-lhe, ao menos, que não me occultaste a entrada
+delle no leito que deixo vasio...
+
+--Espera um pouco que te falarei melhor. É só acabar de toucar-me...
+
+--Careces de mim?
+
+--Não me aborrece, Octavio!
+
+--Pensei sempre que valhesse mais do que todos os outros teus amantes.
+Vejo, entretanto, agora, que um existe mais poderoso ainda do que todos
+nós reunidos...
+
+--Vale a pena a descuberta.
+
+--Desmente-me, pois. Não tens um amante que preferes ao Consul, um
+amante deante do qual te esqueces mesmo de mim?
+
+--Dizes-me coisas extraordinarias...
+
+--Contesta a existencia desse outro amante omnipoderoso, que motiva
+teres-me deixado no exilio deste divan, na semi-obscuridão de teu
+camarim...
+
+--Não és amavel.
+
+--De mais em mais se confirma o que te digo: nem tens animo, por causa
+delle mesmo, para contestares o que te affirmo de um modo tão
+categorico... Digo-te centos de coisas e nada te abstrai desse amante
+unico...
+
+--Agora, sim! Dei um ultimo retoque nos meus preparativos de scena...
+Que te pareço de _maillot_?
+
+--Não trato disto. Refiro-me ao teu poderoso amante.
+
+--O Consul?
+
+--Não sabia que este seja poderoso. Mas não é a elle. Ao outro, deante
+do qual te esqueces de mim, do Consul e de alguns menos e mais cotados
+do que nós outros...
+
+--Amante?
+
+--De certo. Negas que não te absorve elle mais do que qualquer de nós?
+
+--Nego.
+
+--Contestas que exista esse amante?
+
+--Juro-te mesmo.
+
+--Vê lá que não me enganas...
+
+--Quem será, Octavio?
+
+--O teu espelho...
+
+--Aceito a graça. Em troca, porem, vais dizer-me o que julgas de meus
+trajos em _maillot_?...
+
+--Julgo mal, porque te acho parecida com uma lebre a quem cortaram cerce
+todos os pellos... Assim muito delambida, muito escorrida, muito
+masculina...
+
+--Tens espirito.
+
+--E fui franco do modo que tu me pediste. Veste as rendas, sobrepõe as
+sedas, ou tira o _maillot_. Se vamos ao mundo, todos os atavios, todos
+os _soutaches_, applicações e _manteaux_ serão poucos; se ficamos
+aqui, o menor fragmento de tecido mais fino, será demais... Ou o extremo
+enroupamento, ou a extrema nudez...
+
+--Figuremos duas hypotheses. Se me visses enroupada, com um luxuoso
+vestido, de muitas rendas, muitas fitas, muito decóte, muita joia, e
+lindo chapeu de plumas, que farias de mim?
+
+--É essa a primeira hypothese?
+
+--Sim!
+
+--Pois bem: levar-te-ia, logo, à tua caza para que, antecipando a hora
+de tua sahida, o Consul, nem de longe, pelo meu braço, te visse hoje...
+
+--És digno de um acto destes.
+
+--Bravura do amor. Agora, a segunda hypothese?
+
+--Sim: se me visses núa, tão núa que nem uma _écharpe_ me velasse as
+pomas, que farias de mim?
+
+--Ah!... Ahi está uma pergunta de difficil resposta, uma hypothese de
+operosa solução...
+
+--Porque?
+
+--Porque uma nueza dessas exigiria um leito e sem este tu serias apenas
+uma gravura...
+
+--Venceste-me. Despacharei o Consul.
+
+--Não sou eu quem determina. Passarias uma noite igual às de Bhodis na
+companhia de Chrysis... Porque escancellas tanto os teus deformados
+olhos? Não calculas, assim, a desproporção do teu semblante, lindo como
+um camapheu...
+
+--Procurei ouvir o que se faz em scena, afim de verificar quanto falta
+para a minha vez...
+
+--Queres, saio a ver...
+
+--Não. Chamarei o contraregra. Nem precisa: canta a Solidonia...
+
+--A pernóstica!
+
+--Deixa-a, coitada! Ainda tenho todo um intervallo e dois numeros da
+outra parte. Agora... dà-me um beijo, paixãosinha!
+
+--Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulêza...
+
+--Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu
+lhe tenha promettido uma noite, quando não lh'a darei por preço nenhum?
+
+--Ciumes?!... Não os sinto dos outros homens, porque nenhum delles
+logrará de ti as venturas e as concessões que eu tenho gozado... Nem
+mesmo do Consul... Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve
+dizer sempre que antes delle provei-o eu. Tenho ciumes, Nina, do
+que tu vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que
+fitas... Se eu pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus
+vestidos. Invejo delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem
+confidentes dos teus nervos e das tuas pulsações. Tenho ciúmes das
+flores que exornam os teus cabellos, porque sómente ellas passam o
+deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor. Tenho ciúmes do
+fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado entre os
+teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te
+inebria, porque sómente elle atravessa as tuas fórmas e vai arrebatar-te
+na essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque
+sómente ella vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo
+isto, eu quereria ser o somno que te fecha as palpebras, porque
+participaria das felicidades todas dos teus sonhos; a agua que te banha
+as fórmas, porque desvendaria os immensos segredos e mysterios de tua
+belleza unica, e o riso que te doura o semblante, porque teria o dominio
+do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do instante magico em que pela
+primeira vez nos pertencemos mutuamente? São de véras muito irmans as
+almas que tocam à meta de uma ventura no mesmo instante... e as
+nossas duas...
+
+--De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o
+poder de duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a
+inclemencia de Nausithêa deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao
+amante, no fervor do gôzo, entre os teus braços, naquella noite,
+Octavio, naquella primeira noite...
+
+--Desgraçadamente, jà eu, então, poderia ter sentido por toda a parte de
+teu corpo, o halito bafiento do outro amante.
+
+--O outro amante?!... Tenho-o, e é como se elle não existisse. Tenho-o
+porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor,
+protestam os meus seios, bem diversos na tua presença do que são na
+delle. Deante de ti, as minhas pomas parecem florescer como os
+jasmineiros em deliciosas noites de luar, como as laranjeiras em
+uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem perdem na seccura e
+esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas dos
+rochedos... És a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos
+labios. Elle é o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os
+seus desejos...
+
+--Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher não se cede a um homem
+sem a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer...
+
+--Acertaste. Não sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente
+procuram por toda a parte o homem e que só ao depois de muitos descobre
+o procurado? Quando topei comtigo, jà o tinha no convivio de suas
+esquisitices.
+
+--Tu és formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam
+divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias!
+Quero enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos
+amores...
+
+--Bem sei que os homens todos são uns animaes. Uns, porem, são menos do
+que outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que
+os cãis, nesse mistér, são os equivalentes de certos homens? E que elles
+são os seres que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um cão...
+Os seus labios, como os de Pan, seriam capazes de devorar as
+virgindades, se as virgens recebessem os seus beijos...
+
+--Quero crer.
+
+--É um libertino.
+
+--Nada mais?
+
+--É um extrangeiro...
+
+--Que importa?
+
+--É um devasso...
+
+--E sómente isto?
+
+--Ama como um cão, Octavio.
+
+--E que é que faz?
+
+--Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me
+arrastar à concessão do prazer que só vige nos seus labios? Não te
+bastará a expressão do pouco que te digo?
+
+--Repugnante!...
+
+--Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante és tu!... Toda esta noite serei tua
+como nas demais...
+
+.........................................................................
+
+ Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus
+ cabellos de oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de
+ todas as volupias da terra, como os córnos de Almatheia foram de
+ todas as riquezas do mundo...
+
+
+
+
+DE COMO O AVARENTO MORREU...
+
+
+DE COMO O AVARENTO MORREU...
+
+ Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:--uma
+ enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, MANUEL CARLOS proferia
+ blasphemias.
+
+ Ao seu lado, a NEGRA, que era uma amante retinta, carnuda e
+ fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos
+ cautelosos a agitação do moribundo angustiado.
+
+ Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal
+ percebido, a principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima
+ reacção da vida contra a morte.
+
+ Nesta hora, da doença, por entre as chocantes palavras de MANUEL
+ CARLOS, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim dos seus dentes que
+ rangiam como uma lima activa sobre um pedaço de ferro...
+
+.........................................................................
+
+--E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito
+dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida é um
+pedaço de ouro comprado com um milhão de moedas... A morte é uma ladra
+que nos furta, para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a
+reunir... Sou rico! Digo-o com um cordial prazer. Tambem trabalhei como
+uma alma possessa. Não houve domingo nem dia santo, que me déssem
+descanso, à chuva e ao sol, alta madrugada e avançada noite... Rim...
+rim... rim... rim...
+
+--Como elle range os dentes?!...
+
+--Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as
+cavallariças despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como
+massas de feno, nos recantos das mangedouras. Ás vezes, chovia como um
+diluvio. E eu, com o corpo quente da cama, cortava o pateo, mettido no
+meu capote de lan, e, menos feliz do que os meus assalariados que
+ainda dormiam, tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem,
+dava-me calor e forças. Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da
+Beira, de onde sahi, num dia de inverno, ha mais de trinta annos. Nesse
+dia, a avósinha e a mãi-Geralda levaram-me até à caza do moço que me
+trouxe para aqui. Ah! Deus lhe dê o reino dos céus, jà que na terra eu
+nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim... Bella pessôa, generoso
+ao desperdicio... Que barulho é esse que ouço de instante a instante?
+
+--São os trabalhadores no terreiro.
+
+--Sahiram hoje os vehiculos?
+
+--Sahiram todos.
+
+--Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza.
+
+--Talvez os cãis...
+
+--Não me veiu ver hoje o _Tupy_. Tem sido esse canzarrão o meu maior
+amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mãos.
+Por onde andará elle que hoje se esqueceu de mim?
+
+--Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e...
+
+--Nem pense nisso: o pobre animal se ladra não morde. Vigia-me a caza e
+desconhece os extranhos.
+
+--Ladra e assusta.
+
+--Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as
+suas lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos.
+E sempre tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de
+longe mesmo, o tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em
+meio de caminho. Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em
+fidelidade e presteza. Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim...
+rim... Nem sei como se têm feito por ahi afóra os meus serviços... E
+hoje é o ultimo do mês. Se não se procurar, a terrivel corja não paga.
+Nem tenho uma pessôa a quem confie esse serviço. Neste mundo só se
+encontram gatunos e ladrões. Um honesto, como eu, é uma realidade rara!
+Em tudo fui roubado, até na saúde. Dos poucos, das moedas de cobre, os
+simples trocos e differenças nas compras, tu te assenhoreavas, porque me
+dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dôce, uma
+fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo
+de ter deixado nas tuas mãos as economias que deviam ter voltado ao meu
+capital, porque delle se despediam para sempre... Rim... rim...
+rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!...
+Ouço novos ruidos... Só me parece que os de agora são dentro de caza...
+
+--Pois quem seria?
+
+--Sei lá... Ouço coisas que só me parecem na sala da frente. Vai ver se
+é alguem...
+
+--Nem precisa. A porteira está fechada, e abrindo-se ella a campainha dá
+signal. Ao depois, o velho Thomé trata na estribaria dos animaes em que
+montas...
+
+--Vai tudo muito bem, mas não me posso conformar é com esta vida de
+cama. Seis dias de doença, e estou derreado como uma velha mangueira...
+Inda assim, considero-me bastante feliz. Não devo nada a ninguem. E, a
+mim, todos me devem. Depois de amanhan, vence-se uma letra de um
+devedor: ha de querer pagar-me os juros de quinze por cento por novo
+semestre... Mas elle estará enganado. Se quizer reformar, os juros
+crescerão. Agora só darei dinheiros a dezoito ao mês... Serviu? Façamos
+o negocio. Não serviu, passe muito bem... Rim... rim... rim... rim...
+Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera de
+seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres
+annos. Ao depois de vencido o seu compromisso, levou engabelando-me
+por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa
+amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu não
+mettesse advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o
+conselho de que «poupa e os santos te ajudarão»... Não ganhei nunca
+quatro vintens de que não guardasse tres... Não te estou dizendo? Esse
+barulho é dentro de caza...
+
+--Desta vez não ouvi nada.
+
+--Então, estás surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente
+andava. Rim... rim... rim... rim...
+
+--Não sei que especie de gente...
+
+--Realmente posso enganar-me.
+
+--Jà te convences? A esta hora, nem os trabalhadores estão aqui... Ah!
+Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros não foram hoje à pedreira...
+
+--Miseraveis! Preguiçosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados
+deixam de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, é um
+prejuisão... Rim... rim... rim... rim...
+
+--Fiz ver tudo isto a elles.
+
+--E porque não trabalharam?
+
+--Porque morreu a moça do mestre, e este não veiu...
+
+--Não digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois là
+na minha terra, é que se sabe trabalhar... Là trabalhariam até à hora do
+enterro. Aqui encontram a razão para muitos dias de ocio. Se eu
+estivesse bom, a esta hora teria tocado todos elles para a rua. Rim...
+rim... rim... rim... Não gosto de vadios. Fui homem que, numa vida
+inteira, não teve uma hora de vadiação. Sempre comi de chapeu na cabeça
+e esporas nas botinas. Por isso guardei meia-duzia de contos. Digo assim
+meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas meias-duzias guardei...
+Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora?
+
+--Sim.
+
+--E então?
+
+--Não sabes o que foi?
+
+--Não sei...
+
+--O _Tupy_ que esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e
+aos outros mandei pôr as correntes...
+
+--Vai soltar o _Tupy_. É inoffensivo, tanta quanto é leal e cuidadoso.
+Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o!
+
+--Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avança
+sobre elle...
+
+--É uma prova de lealdade.
+
+--Que incommoda aos extranhos. Porque não bebes o leite? Queres?
+
+--Leite?!... Hontem te preveni que leite é luxo e que não posso com
+essas despesas... Ainda o compraste hoje?
+
+--O doutor mandou...
+
+--Rim... rim... rim... rim...
+
+--Ao depois, em caso de doença não ha desperdicio...
+
+--Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. É o leite, é a botica,
+é o doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das
+pernas sou senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem
+recostar-me! Tenho kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se
+a coisa continua assim... Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um
+homem conservado e indisposto para divertimentos. Não sei como a minha
+saúde estragou-se... Vai soltar o cachorro! Os seus movimentos
+inquietam-me. Jà atirou outra coisa ao chão...
+
+--Deixa o cachorro preso.
+
+--Póde arrebentar mais alguma coisa, e serão novas despesas para mim...
+Que afflição sinto agora!
+
+--Bebe o leite!
+
+--Dà-me.
+
+--Jà se devem trinta medidas...
+
+--Como?
+
+--Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e
+duas à tarde...
+
+--Que desperdicio! Não digo! Se levar aqui um mês, o leite, o medico e a
+botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me terão reduzido à
+mizeria... Sabes que mais? Não quero mais leite... Supprima-se desde
+hoje...
+
+--E com que te alimentas?
+
+--Com agua... É intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo
+em oito dias de cama! Não é possivel. Não sou rico, não! Toca a poupar...
+
+--Sem o leite não poderás passar...
+
+--Passo, sim! Quem foi que disse que não poderei?
+
+--O medico.
+
+--Pois passo, sim. Sem dinheiro é que nada é possivel. Parece-me que se
+combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um
+pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim...
+rim... Está muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem
+sei se tomei porção igual em todo o resto da vida! É ter ganho uma
+fortuna em mais de trinta annos para acabal-a bebendo leite,
+pagando medico e sustentando boticas... Não quero mais leite! Rim...
+rim... rim... rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella é má fé e
+plano de roubo... Ah!... Lá se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em
+cima: o cão preso, por um capricho, para quebrar os moveis e as
+louças... Mas, esse ruido que agora ouvi muito bem...
+
+--Foi a mesma coisa...
+
+--... não foi là dentro...
+
+--Foi, sim!
+
+--Pareceu-me na sala da frente...
+
+--Não cuidarás de outra coisa?
+
+--E que seria o que cahiu?
+
+--Uma bacia de folhas...
+
+--Não!... não!... não!...
+
+--Que queres fazer?
+
+--Levanta-me aqui...
+
+--Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu és peior do
+que um menino...
+
+--Aquelle barulho... Levanta-me aqui...
+
+--Para que? não me dirás?
+
+--Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como
+se pegasses num pedaço de pau...
+
+--Assim?
+
+--Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro...
+
+--Queres muita coisa tambem...
+
+--Não me fazes favor... Não preciso de ninguem contra a vontade... Tenho
+dinheiro para ser bem servido, e gósto que me tenham obediencia...
+
+--Estás muito impaciente...
+
+--Tira o travesseiro...
+
+--Prompto. Queres mais alguma coisa?
+
+--As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... Não estão aqui... Bem
+sei agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba...
+
+.........................................................................
+
+ E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer,
+ minutos depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu
+ esconderijo, como verdadeiras inutilidades...
+
+
+
+
+
+AO DESPIR UM PIERROT
+
+
+AO DESPIR UM PIERROT
+
+ A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em
+ que, sem acceder ao somno, CHRISTINA se divertia, mostrando ao astro
+ lubrico os tons roseos de sua carnação perfeita como se talhada em
+ marmore rozado e humido.
+
+ Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas visões; mas
+ soffrendo o conflicto das ideias de uma traição de NARCISO e da
+ lealdade perquiridora de STELLA, a desaccordada mulher caprichou de
+ não durmir emquanto a espiona não tornasse do baile à fantasia.
+
+.........................................................................
+
+--Reconheceu-te, Stella?
+
+--Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile?
+
+--Não o viste?
+
+--Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no
+baile, e, escrava dessa supposição, criaste todo um systema de
+desconfianças, que começaram de traduzir-se, muito naturalmente,
+naquella tua phrase.
+
+--Viste-o?
+
+--Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? Não esperavas esta noticia?
+
+--Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com
+uma pontinha de esperança em contrario, suppuz sempre que não puzesses
+os olhos sobre elle. Embora trahida, eu quereria não ser sabedora do mal...
+
+--Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te não
+obstines em aggravar o acaecido. Não remediarás o mal, não é assim?
+Pois, coração à larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as acções.
+Acompanhei-o por toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que uma
+_pierrot_ o acompanhasse. Se tu lhe falas, teràs de dizer-lhe quem foi
+espionar-lhe os passos de homem livre...
+
+--É o que te parece: livre?...
+
+--Pois não é livre Narciso?
+
+--Digo-te que não!
+
+--O teu noivo não tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo
+estado?
+
+--Repito-te que não.
+
+--Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das
+vistas da mulher amada, ficam sendo o que são: homens solteiros...
+
+--Narciso differe dos outros...
+
+--Uffa!... Christina!... Vou tirando o _pierrot_ que me acalora as
+carnes...
+
+--O noivado é um começo de intimidades, que se distendem, mais ou menos,
+conforme as razões de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado
+semi-escuro, onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos
+assegurados na nossa posição, com a possivel presença immediata de todos
+os de caza, as nossas intimidades seguem uma derrota que me dá o direito
+de exigir de Narciso maiores fidelidades do que tu pensas...
+
+--Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o
+collête... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda
+ordinaria, esta!
+
+--Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias
+das almas passaram às do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais
+cedo... Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua,
+os seus labios roçaram sobre os meus olhos, e os seus bigodes
+produziram-me um _frisson_ nas carnes, com o qual eu me teria entregue
+ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus
+dedos que elle segurava entre os seus, sorriu--um sorriso mais lindo do
+que um raio de sol!--e, sem o querermos, talvez, por certo
+instinctivamente, os nossos labios se encontraram...
+
+--Vê, Christina, como ficaram as minhas calças...
+
+--Desbotou nellas o setim?
+
+--Alguma coisa. A côr amarella é mais fixa do que a vermelha... Mas,
+estão para ser exprimidas... Que sudorifico!
+
+--Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos são de
+um homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo...
+Avia-te, afim de que me contes o que viste...
+
+--Dir-te-ei centos de coisas novas...
+
+--Appeteço o conhecimento do que sabes. É uma infelicidade ter-se um
+pae, como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse
+que eu fôra a um baile publico espionar os desvarios de meu noivo...
+Ah!... Como eu seria venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte
+que cubiço...
+
+--Nem tu calculas pallidamente o que por là se vive...
+
+--Apressa-te, Stella!
+
+--Acaba, primeiramente, o que contavas... Não quero perder a bôa hora de
+confidencias que inauguraste...
+
+--Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os
+contactos... Em seguida, as mutuas confianças, mais um arregaçamento
+hoje, mais uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe
+resistisse, desejou ver-me o começo das pernas... Intimidades, Stella,
+intimidades, proprias, communs e infalliveis entre todos os noivos...
+Eram ellas que me garantiam, até hoje, a constancia de Narciso, e,
+quando vejo, como agora, que o que lhe faço jà se torna pouco para o
+prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco mais, sem comtudo
+deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as concessões, na
+medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores... Conta, agora,
+o que tu viste...
+
+--Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o
+corpo quer distender-se nervosamente num leito macio...
+
+--E onde ficou Alberto?
+
+--O meu primo?
+
+--Sim.
+
+--Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos dois _pierrots_
+da maior sensação! Nem calculas como é deliciosa a companhia do meu
+primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado
+geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos.
+Soube corresponder à minha excitação, não commettendo maiores pecados do
+que me beijar nas passagens mais sombrias das ruas...
+
+--Invejo-te, Stella!
+
+--Bem poderias ter ido...
+
+--Qual nada!
+
+--Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois não foi?
+
+--Isto é fácil para ti...
+
+--Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?...
+
+--Não!
+
+--Ahi está! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que
+vissemos... Là estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do
+baile. Custei a topar com elle. Só em meio da festa deparei com elle
+numa das banquinhas do _buffet_. Mais de vinte homens e mulheres...
+
+--Mulheres, tambem?
+
+--E então? Tu pensas que haverá quem resista à solidão naquelle cahos de
+sensações extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho,
+casado com a Lucinda, là estavam, cada qual com a sua mascarada...
+
+--Narciso tambem?
+
+--Não te espantes senão se eu te disser que elle era o unico que não
+tinha uma mulher fantasiada ao seu flanco...
+
+--Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei
+logo na traição. Aquelle semblante enfarruscado não era sincero...
+
+--Ao seu lado estava uma _écuyère_ italiana: deves gabar-te do gosto de
+teu noivo. Não se acompanha de mulher feia. É serio...
+
+--Era bonita a que o seguia?
+
+--Linda, Christina: _mignon_, alva, loura, e, com um arrebatador decóte,
+exhibindo um collo mais branco do que um pedaço de neve, do meio da
+qual, como uma abelha sobre uma petala de gardénia, um negro signal era
+tido como mascotte...
+
+--Jà agora me penso feliz por não ter ido là.
+
+--Que teria se tu tivesses ido?
+
+--Não me conteria.
+
+--Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu
+noivo sabe gozar uma mulher. Não dirias nem uma palavra, mas lhe
+acompanharias a pessôa como a sua sombra. Quando não te agradasse
+fecharias os olhos. Vi-o, por exemplo, encher a bocca de champagne...
+
+--Nada mais natural.
+
+--É o teu erro. Quem não sabe é como quem não vê. Pensas, então, que
+elle tomou a bebida de dentro da taça?
+
+--Sim.
+
+--Pois não! A _divette_ foi quem lhe passou o champagne collando os seus
+nos labios delle... Garanto-te que não sabias deste modo de acariciar...
+
+--Confesso-te que não.
+
+--Ahi está. Verias a _droiture_ com que o teu noivo se curvou, encostou
+nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e
+sugou-lhe a entontecedora bebida...
+
+--Como deve ser bom esse carinho!
+
+--Ao depois, beijaram-se...
+
+--Aos olhos do publico?
+
+--Sim.
+
+--Ah!... Se eu estivesse là...
+
+--Não farias senão nada. Eu, pelo menos, nessas occasiões de grande
+excesso, alli mesmo me voltava, e, se não fossem as nossas
+mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos...
+Não conheço, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um
+conto de Caliban é menos excitante, e um par dansando é bem um conto
+luxurioso escripto com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto
+final de um beijo. Os corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se
+entrançavam, as mãos, servindo de oppressores, estreitavam os troncos e
+cada par, assim enlaçado, cabeça descahida sobre cabeça, parecia um
+corpo só com a monstruosidade de quatro pernas... Exquisito, sem
+igual... Homens e mulheres não se distinguiam na furia dos sentidos...
+
+--E Narciso dansou?
+
+--Não. Nem todos dansam. Á parte, pelo jardim e nas mezas do _buffet_,
+os que não estavam fantasiados, se divertiam à grande, mas um pouco
+retrahidos das vistas do grosso publico, porque só no salão elles
+escandalisariam...
+
+--Todavia, vingar-me-ei...
+
+--Poupa-o, Stella... O pecado é divino... Vinga-te em mim...
+
+.........................................................................
+
+ As duas mulheres, num longo beijo, abraçaram-se e confundiram-se,
+ cada qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente...
+
+ A lua, devassamente, illuminou-lhes, até quando quiz, os seus bellos
+ corpos de uma semi-nudez pagan...
+
+
+
+
+A TAVERNA DE MME BERTHON
+
+
+A TAVERNA DE MME BERTHON
+
+ No terraço do «Café Leontina», agasalhados em seus lanzudos
+ _pardessus_, ODORICO e WENCESLAU, dois typos mundanos,
+ essencialmente mundanos, conversavam surdamente...
+
+ Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha
+ de sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares
+ cupidos por todas as bancas.
+
+ ODORICO enlanguesceu-se, e, como uma reacção, assignalou, assim, a
+ passagem da exquisita-mulher com uma rememoração cruel...
+
+.........................................................................
+
+--Sempre é curioso este «Café» em materia de mulheres. Não vejo esta
+«Menina Leontina», como a chamam, que não me recorde logo da
+infeliz Madame Berthon.
+
+--E tu, meu caro Wenceslau, és bem a chronica viva de toda a feminidade
+desta terra. Não ha uma mulher de quem não tenhas informações,
+anedoctas, segredos, sobre quem não lances um episodio de curioso entrecho.
+
+--Não conheceste tambem a Madame Berthon?
+
+--Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo
+ignorado...
+
+--Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a
+inspiração do artista mais rude para produzir uma obra-prima.
+
+--Alguma divindade incognita...
+
+--Não, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem
+a visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e
+na temperança dos seus costumes, não diria jamais que era a senhora
+absoluta de um corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais
+inspirado... Não se julgue a felicidade dos fins pelas venturas que
+povoam a estrada por que trilhamos. Muitas vezes, um momento de
+tranquillidade agora é a sementeira de um incommensuravel estado de
+attribulações mais tarde. Madame Berthon despejava invejas a todas as
+mulheres do seu conhecimento. Desta caza tirava ella os meios de sua
+subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o taciturno aspecto de
+seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais ruidosa alegria,
+aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum excesso dê o
+rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma algoz
+cambiante de tristeza. Tinha a côrte de poderosos pretendentes, mas
+decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de
+alguem, era, ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E,
+se a ninguem promettia, a nenhum negava, e a todos faltava...
+Curiosissima mulher! Os seus habitos eram os de uma leviana, mas a sua
+alma contrastava com a sua existencia costumeira. Exquisita mulher,
+Odorico, muito exquisita, senhora de muitos corações se tivesse querido,
+entretanto escrava de um só que a levou, finalmente, à sepultura.
+Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia. Um assassinio e um
+suicidio...
+
+--Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas,
+em algumas, ha a sementeira de muitos casos fataes.
+
+--Espera, Odorico, espera. Não condemnes a desventurada pelos primeiros
+tons de sua historia. Juiz mais severo do que eu, não conhecerás, por
+certo, para o julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que
+veste escandalos, e que escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a
+mulher é o algoz, parecendo a extrema fraqueza. Neste caso, porem,
+Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se crime ella teve, foi o de amar
+o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... conjugalmente, porque
+nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. Ás deshoras, lá para as
+tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares
+cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e
+recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de
+enciumar-se até de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea
+tão geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de
+compensações: o feio é conjugado com o bonito, e reciprocamente, o
+bonito com o feio... Dahi a naturalidade daquella união de Gaspar com a
+Madame Berthon. Mais de noventa noites durou aquelle consorcio
+espontaneo. Aqui vinha eu, e naturalmente, cortejava à mulher
+gentil, espionando sempre o amante. Os homens todos, Odorico,
+saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril, como os armentios saudariam,
+com ardente fé, a vinda do outomno, porque é a estação das colheitas. Na
+manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois amantes, là para as aguas
+furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento ouccubo. Visinhos,
+espicaçados pela anormalidade, attenderam ao que se passava na moradia
+de Madame Berthon. Depois de acalorada discussão, durante a qual o
+assassino descera as vidraças, cautelosamente, para não ser ouvido pelos
+extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento
+no interior daquella caza. Momentos após, Gaspar, conduzindo uma bolsa
+de mão, descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia,
+meticuloso e tranquillo, trancando às suas costas a entrada no sobrado
+em que commettera o assassinato de Madame Berthon. E, como um homem
+feliz, là se fôra rua abaixo. Quem o visse, não lhe diria o autor de um
+crime, muito menos quando, no desempenho de um habito, asseiava os
+botins, e olhava serenamente o movimento das ruas...
+
+--Revolto-me jà contra esse perverso.
+
+--Pois bem! O movel do crime fôra o roubo e todas as poupanças daquella
+operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava
+zelosamente. Em torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos
+dois tiros, populares encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito,
+arrastando-se como lemures ámerios em trilhas brancas de areiaes
+desertos. Vozes surdas contavam as supposições de um crime; a suspeita
+avolumou-se... O rochedo nú da desconfiança vestiu-se fartamente com os
+ouropeis das espumas brancas dos commentarios. Pelas janellas descidas,
+olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios vivos do barbaro
+crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse as botas e
+penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares
+tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presença proxima de um
+delegado. Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina
+autoridade do seu aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina...
+Tudo o mais foi rapido. Num instante abriu-se com violencia a entrada.
+Um obstaculo appareceu: a porta estava presa, como que escorada por
+dentro. Que seria que obstava o seu movimento? Uma cabeça affoita
+enfiou-se por uma nesga, e voltou transfigurada, annunciando sómente:
+«Está morta». Outros typos mais curiosos vieram, ageitaram-se e
+penetraram com a autoridade. Estatelada sobre o chão, Madame Berthon,
+numa nueza arrebatadora ainda não tinha a gelidez dos cadaveres, mas já
+era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue escarlate. E sobre
+as suas fórmas nuas, nada, senão as meias presas com atilios de fitas
+rubras, e as pequenas sapatinhas...
+
+--Que miseria!
+
+--Já conheceste a victima. Dahi por diante a acção foi sobre o agente. A
+perseguição popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros
+perseguidores foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas
+proprias temporas, Gaspar era um suicida... Não calculas a impressão que
+esse crime deixou no meu espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e
+senti que o assassino não tivesse ficado vivo para pagar com a reclusão
+da vida a barbaridade do assassinio de uma mulher, cujo corpo
+esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer austeros
+Areopagos... se desvendado fôsse tal como eu o vi... E nota, Odorico,
+que um corpo morto, por mais bello que seja, é menos do que o vivo,
+porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que é o fluido mais
+sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, só
+naturezas muito fortes não cederão à necrophilia... Então ella que
+possuia um nevo sobre o quadril direito...
+
+--Sensualizas tudo, Wenceslau!
+
+--E que é que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte,
+como tu deves saber, é um pedaço de sensualismo microbiano... Quantas
+fecundações damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, senão pela
+força dos sexos, baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre à
+instancia do amor que toparàs com a absolvição da mulher, e carregarás a
+mão na dosagem da condemnação do homem algoz.
+
+--Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido
+condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no
+senhorio dos homens.
+
+--E como influiria tudo isto para que Gaspar não victimasse Madame Berthon?
+
+--Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o começo
+do mundo, e é coisa que não se sabe é a data da primeira traição da
+mulher, de tão distantes tempos vem ella.
+
+--Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa
+traição do homem, e formada de uma traição, porque foi necessario que
+Adão adormecesse para que Jehovah, trahindo à perfectibilidade da sua
+obra, lhe tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella não
+poderia ser contraria à sua origem...
+
+--És rigoroso demais...
+
+--Não sou, não, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os
+dias e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo
+e escreveu precisamente: «As mulheres têm sido tratadas até aqui, pelos
+homens, como passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam
+no meio delles: como qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil,
+de selvagem, de doce, de arrebatador--mas, igualmente, alguma coisa que
+é necessario engaiolar para que se não và embora num vôo»... Que é isto
+senão o reconhecimento do espirito traiçoeiro de nossas Evas?... Ao
+demais... estamos muito fóra dos eixos... Que bebemos agora?...
+
+.........................................................................
+
+ Fóra do terraço do «Café Leontina», solemnemente encapotados, dois
+ policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta
+ noite...
+
+
+
+
+INDICE
+
+ Dedicatoria VII
+ Epigraphes IX
+ Nedda 3
+ Voluptuosas 17
+ O poeta moribundo 29
+ O velho medico 41
+ Os dois espelhos 53
+ O primeiro filho 65
+ Á vista da denuncia 75
+ Irado até à cura... 89
+ A hungara 101
+ Depois do cometa 115
+ Amores no claustro 127
+ A Consulêza 139
+ De como o avarento morreu... 153
+ Ao despir um pierrot 167
+ A taverna de Madame Berthon 179
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Mundanismos, by Almáquio Dinís
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30413 ***
diff --git a/30413-h/30413-h.htm b/30413-h/30413-h.htm
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+++ b/30413-h/30413-h.htm
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+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Mundanismos, por Almáquio Dinis</title>
+ <meta name="Author" content="Almachio Diniz">
+ <meta name="Publisher" content="França Amado">
+ <meta name="Date" content="1911">
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=UTF-8">
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+ h1, h2 {text-align: center; margin-top: 8em; margin-bottom: 8em;}
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+ </style>
+</head>
+
+<body>
+<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30413 ***</div>
+
+<p> </p>
+
+<div style="text-align:center; border: double 4px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.2em;">ALMACHIO DINIZ</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">MUNDANISMOS</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">(CONTOS)</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">F. França Amado, editor</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Coimbra. 1911.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">Composto e impresso na Typographia França Amado,<br>
+rua Ferreira Borges, 115&mdash;Coimbra.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">
+<p style="font-size: 1.5em;">MUNDANISMOS</p>
+
+<p>(CONTOS)</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">Obras completas de ALMACHIO DINIZ</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<ul style="font-size: 0.8em;">
+ <li><strong>Contos</strong>
+ <ul>
+ <li><strong>Um artista da moda</strong>, Lisbôa, José Bastos &amp; C.ª,
+ editores.</li>
+ <li><strong>Sombras de pudor</strong>.</li>
+ <li><strong>Mundanismos</strong>, Coimbra, F. França Amado, editor.</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li><strong>Novellas</strong>
+ <ul>
+ <li><strong>A Carne de Jesus</strong>, Lisbôa, Gomes de Carvalho, editor,
+ 1910.</li>
+ <li><strong>O Diamante Verde</strong>, Lisbôa, Guimarães &amp; C.ª,
+ editores, 1910.</li>
+ <li><strong>Sonhos de meduza</strong>, em preparo.</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li><strong>Romances</strong>
+ <ul>
+ <li><strong>Raio de sol</strong>, Bahia, em folhetins, 1903.</li>
+ <li><strong>Crises</strong>, Lisbôa, Guimarães &amp; C.ª, editores, 1906.
+ </li>
+ <li><strong>Pavões</strong>, Bahia, Fonseca Magalhães, editor, 1908
+ (Exgottado).</li>
+ <li><strong>Amen!</strong>, Bahia, em folhetins, 1909-1910.</li>
+ <li><strong>Duvidas e remorso</strong>, em preparo.</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li>Theatro
+ <ul>
+ <li><strong>A Escarpa</strong>, Porto, Lello &amp; Irmão, editores.</li>
+ <li><strong>Tropheus em cinzas</strong>.</li>
+ <li><strong>Sazão de luz</strong> (em preparo).</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li>Critica
+ <ul>
+ <li><strong>O passado, o presente e o futuro do heleno-latinismo em lucta
+ com o germanismo</strong>, Bahia, 1903 (Exgottado).</li>
+ <li><strong>Zoilos e Esthetas</strong>, Porto, Lello &amp; Irmão,
+ editores, 1908.</li>
+ <li><strong>Sociologia e critica</strong>, Porto, Magalhães &amp; Moniz,
+ editores.</li>
+ <li><strong>Da Esthetica na Literatura Comparada</strong>, Rio, H.
+ Garnier, editor.</li>
+ <li><strong>A questão das raças na literatura universal</strong>, em
+ preparo.</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li>Symbolismo
+ <ul>
+ <li><strong>Eterno Incesto</strong>, Bahia, 1902 (Exgottado).</li>
+ <li><strong>Sê bemdita!</strong>, Bahia, 1905 (Exgottado).</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li>Lingua portuguesa
+ <ul>
+ <li><strong>A reforma ortografica</strong>, Bahia, 1907 (Exgottado).</li>
+ <li><strong>O evolucionismo morphologico da lingua portuguesa</strong>,
+ Lisbôa, Santos &amp; Vieira, editores.</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li>Scientificos
+ <ul>
+ <li><strong>Genesis hereditária do direito</strong>, Bahia, 1903
+ (Exgottado).</li>
+ <li><strong>Ensaios philosophicos sobre o mechanismo do direito</strong>,
+ Bahia, 1906.</li>
+ <li><strong>A sciencia do direito e as producções espirituaes do
+ homem</strong>, Bahia, 1907 (Exgottado).</li>
+ <li><strong>Questões actuaes de philosophia e direito</strong>, Rio, H.
+ Garnier, editor, 1909.</li>
+ <li><strong>A objectividade do phenomeno juridico no direito
+ brazileiro</strong>, em pub.</li>
+ <li><strong>As formações naturaes na philosophia biologica</strong>, em
+ preparo.</li>
+ </ul>
+ </li>
+</ul>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">
+<p style="font-size: 1.2em;">ALMACHIO DINIZ</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">MUNDANISMOS</p>
+
+<p>(CONTOS)</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.</p>
+
+ <p style="text-align:right;">A<small>NATOLE</small> F<small>RANCE.</small></p>
+</blockquote>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">COIMBRA</p>
+
+<p>F. FRANÇA AMADO, EDITOR</p>
+
+<p>1911</p>
+</div>
+
+<p><a name="dedicatoria">&nbsp;</a></p>
+
+<p style="text-align:center;">A</p>
+
+<p style="text-align:center;">GUERRA JUNQUEIRO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><a name="epigrafes">&nbsp;</a></p>
+
+<blockquote>
+ <p>L'art veut imiter la nature. Nous faire éprouver les sensations et les
+ sentiments que la vie nous impose ou pourrait nous imposer, tel est son
+ premier souci. Le romancier et le dramaturge comme le peintre, le sculpteur
+ comme le musicien s'essayent à faire dans la fiction, comme la vie dans la
+ réalité. Au fond de chaque &oelig;uvre d'art il y a toujours en somme&mdash;que ce soit
+ par imitation étroite ou libre évocation&mdash;une réalité reproduite de la
+ vie.</p>
+
+ <p style="text-align:right;">C<small>HARLES</small> A<small>LBERT.</small></p>
+</blockquote>
+
+<blockquote>
+ <p>O conto, assim desatavíado, exprimido, é apenas succo e, se não agrada à
+ <em>visão</em>, interessa o sentir. Falta-lhe horizonte, mas o espaço, por
+ isso mesmo, é mais vasto, sem empeços: segue-se livremente a acção que a
+ descriptiva, por vezes, compromette.</p>
+
+ <p style="text-align:right;">C<small>OELHO</small> N<small>ETTO.</small></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1><a name="SECTION00100000">MUNDANISMOS</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.</p>
+
+ <p style="text-align:right;">A<small>NATOLE</small> F<small>RANCE.</small></p>
+</blockquote>
+<span class="pn">{1}</span>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00200000">NEDDA</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{2}<br>
+{3}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00210000">NEDDA</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Manhansinha.</p>
+
+ <p>A sala, de azuladas paredes seminúas, estava pobremente mobiliada: era no
+ saguão da casa, e as duas mulheres entraram às tontas, até se abrirem de par
+ em par as gelosias.</p>
+
+ <p>S<small>AUL</small>, de N<small>EDDA</small> esposo, ficàra a dormir na
+ alcova.</p>
+
+ <p>E N<small>EDDA</small>, abysmada com a indifferença delle que apenas lhe
+ não dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que
+ D<small>ONA</small> L<small>OURA</small>, a sua mãe, era uma interprete das
+ indisposições do genro...</p>
+
+ <p>Num canapé, as duas mulheres, D<small>ONA</small> L<small>OURA</small>,
+ archaica nas suas vestias de capote e turbante, e N<small>EDDA</small>,
+ deliciosamente matutina num roupão branco que descansava,<span
+ class="pn">{4}</span> <em>sans-dessous</em>, sobre a finissima camizêta de
+ cambraias,&mdash;sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida do cansado
+ movel...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me entre
+dentes e indisposto como um burguês dispeptico, silencioso como uma esphynge e
+entristecido como um beato sem almoço, adivinho logo que vens por ahi como a
+mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem à tarde...</p>
+
+<p>&mdash;Exactamente.</p>
+
+<p>&mdash;Previ tudo isto. Ha cinco dias que nós não falamos, e, pensando-o na rua,
+hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella cadeira,
+lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me e não contive um
+gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os meus passos. Ha quatro
+annos que somos casados e nunca passamos dois mezes sem uma rusga. É sempre
+elle quem as promove com um resaibo de malentendido ciume. Aceito sempre o seu
+rompimento e nunca lhe dei a honra de capitular<span class="pn">{5}</span> nas
+hostilidades. Quando ellas são de nonada, aqui mesmo se resolvem; mas, quando
+avultam como agora, elle te vai buscar como intercessora. Jà sei que vamos ter,
+como sempre, uma crise de amorosidades que me enfastiam. Lastimo é não conceber
+um filho desse homem para o embeiçar pela nova criatura e sentir-me menos
+jungida às suas intemperanças de... mal educado! Ás vezes, chego a ter nojo do
+senhor meu marido...</p>
+
+<p>&mdash;Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que me
+pasma...</p>
+
+<p>&mdash;Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter o
+assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um tal
+matrimonio não se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em caza, por
+torna-viagem, a mentira de que Saul é um tuberculoso. Tanto mais eu o
+aborrecia, quanto a senhora e o papá intervinham, patrocinando a causa do moço
+platonico. Dá-me, na verdade, um insistente desejo de rir muito quando lembro
+os idealismos delle, seguindo a minha sombra, porque nunca lhe deixei o direito
+de enfrentar-se commigo em parte alguma... Expúz-lhe sempre que sonhos não me
+satisfaziam, nem eram para o meu<span class="pn">{6}</span> temperamento homens
+vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe intensa guerra, apaixonando-me por
+Frederico Stöltze. Está! Com este provavelmente eu teria sido bem cazada. O
+pobre «allemãosinho» levou o caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o
+abandonei, com uma defeituosa... Foi um despique, não ha a menor duvida, mas
+quem sahiu perdendo foi elle. Saul é um temperamento de phoca...</p>
+
+<p>&mdash;Respeita o teu marido, minha filha!</p>
+
+<p>&mdash;Pois não é, maman?</p>
+
+<p>&mdash;Essas couzas não se devem dizer...</p>
+
+<p>&mdash;Não tratarei de occultar o sol com a mão. Já disse e é mesmo: um
+temperamento de phoca. Só quer hybernar sobre os livros, deante dos quaes se
+abespinha como o animal sobre o gêlo. Eu, porem, quero muito sol, muita luz,
+muito calor, muita actividade... Maman, o que vocês velhos veem no cazamento é
+o interesse de collocar as filhas, porque ficando velhos receiam que nos
+tornemos muito sós no mundo. Por isso acontecem destas, cazamo-nos com a
+vontade dos papás encarnada na figura de um homem que não é a correspondencia
+de nosso instincto. Olha! Não intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada
+qual commetta a sua doidice<span class="pn">{7}</span> como quizer, e, se
+escolher um lorpa como Saul, arrependa-se de si mesmo e não me culpe a mim.</p>
+
+<p>&mdash;Tu vês no homem uma excitação, Nedda, quando devias ver uma satisfacção.
+</p>
+
+<p>&mdash;Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje dessas
+trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu toda a minha
+repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, não sabe aproveitar-se de
+minha tolerancia e quer subserviencia, servidão, ou coisa similhante... Está
+enganado! Devias ter sanccionado a minha repulsa logo de principio. Lembras-te
+do convescóte dado aos chilenos, nas Salinas? Tu não foste, e Saul, que era
+apenas meu pretendente sem a menor esperança, moveu contra mim uma intriga
+terrorosa, porque viu, no campo, o primeiro tenente Santander amarrar os
+cordeis de minha botina que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te
+de como energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do
+contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia, todos
+suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de mulheres feias.
+Afinal, maman, que te disse elle desta vez?<span class="pn">{8}</span></p>
+
+<p>&mdash;Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o
+comprehendes como um devaneio. Isto é proprio para as meninas. Tu te esqueces,
+e nisto eu lhe dou razão, que és uma senhora escrava da moral esponsalicia.
+Contou-me o teu marido um facto em que elle te surprehendeu. Realmente, se as
+cousas se passaram como podem ser suppostas, e elle não quer crer, tu andaste
+mal.</p>
+
+<p>&mdash;Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como tudo
+se deu...</p>
+
+<p>&mdash;E dispensavel Nedda. O passado está passado. O que é preciso é que não dês
+lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem calleja. Os
+amuos fazem pequenos callos, mas tempo virá em que, callejada a alma, o amuo
+será definitivo.</p>
+
+<p>&mdash;Que teria isso?</p>
+
+<p>&mdash;Um escandalo, minha filha!</p>
+
+<p>&mdash;Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu não me
+pouparei a um grande escandalo.</p>
+
+<p>&mdash;Toma juizo, doidinha. É preciso acabares com estas zangas e receberes o
+teu marido como o teu senhor...<span class="pn">{9}</span></p>
+
+<p>&mdash;Hein?... Não me zangarás, maman, pódes ridicularizar-me como entenderes...
+Não me darei por achada.</p>
+
+<p>&mdash;Não promovo senão o teu bem. Resolve a crise e sê... mulher de teu marido.
+</p>
+
+<p>&mdash;Jà estás julgando o feito?</p>
+
+<p>&mdash;Tu tens toda a razão, elle tem igualmente toda a razão. Harmonisem-se e
+sejam felizes.</p>
+
+<p>&mdash;Pareces-me uma juiza a Salomão, com a differença de que o rei hebreu ouvia
+ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma só...</p>
+
+<p>&mdash;Interpretas muito mal o meu genio.</p>
+
+<p>&mdash;Não te interessa conheceres a injustiça de que sou accusada pelo sr. meu
+marido?</p>
+
+<p>&mdash;Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a accusação,
+eu nunca seria contra ti.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigada, maman! Quero, entretanto, justiça, e que, como Saul, não julgues
+pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu o que se
+passou...</p>
+
+<p>&mdash;Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes...</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! Na terça-feira, maman, de combinação com Saul, resolvi passar
+uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle que me falou
+pelo telephono,<span class="pn">{10}</span> fui à Barra correr uma cazinha vaga
+e que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao depois
+de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a gentileza de
+offerecer-se-me para o serviço de abrir e fechar portas. Aceitei e foi elle
+quem tomou as chaves na taverna da esquina... Vê tu!... Não fôsse elle e teria
+eu de entrar numa taverna, sósinha, arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao
+depois, o dr. Eduardo foi quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de
+camurça para fazer essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas...
+Corremos o primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil
+cavalheiro se lembrou de, por segurança, fechar por dentro a porta da rua...
+Subimos. Mal chegavamos em cima, começaram de bater numa porta. Poderia eu
+suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse, porque elle não teria
+opportunidade de acompanhar-me, logo depois resolvesse o contrario, e estivesse
+a bater na porta da rua? E foi por um acaso que nós o vimos. Chegamos
+inesperadamente a uma janella do sotam e percebemos que era elle quem batia. O
+dr. Eduardo, desculpando-se por jà ter eu cavalheiro, despediu-se de mim,
+desceu as escadas,<span class="pn">{11}</span> e, quando abria a porta, foi
+insolentemente aggredido por Saul, que lhe negou a mão para o cumprimento do
+estylo... Só tu vendo, maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra
+mim! Felizmente, desafiado pela minha calma, elle não teve animo para iterar o
+qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle quiz,
+fechou sósinho a caza e veiu só...</p>
+
+<p>&mdash;Devias ter evitado tudo isto, Nedda.</p>
+
+<p>&mdash;Evitado, como?</p>
+
+<p>&mdash;Não acquiescendo à companhia de um homem de mà fama, como é o dr. Eduardo.
+</p>
+
+<p>&mdash;Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em que
+eu fui... Hora de trabalhos na cidade...</p>
+
+<p>&mdash;Recusasses os favores offerecidos.</p>
+
+<p>&mdash;Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual é a mulher que se anima à grosseria
+de recusar gentilezas de um moço de distincto trato?...</p>
+
+<p>&mdash;Conforme o renome desse moço.</p>
+
+<p>&mdash;Tem mà fama o dr. Eduardo?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, não. Dizem.</p>
+
+<p>&mdash;Se tem mà fama, tem maus costumes. E como é que Saul, tão zeloso de sua
+honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepções, um homem mal visto? Penso
+que os frequentadores de nossos salões, os <em>habitués</em> de nossa<span
+class="pn">{12}</span> intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um
+ponto qualquer, e, se não fôsse assim, a primeira privação delles, seria a do
+nosso convivio...</p>
+
+<p>&mdash;Neste ponto és razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul
+referiu-me que estavas sem chapeu...</p>
+
+<p>&mdash;De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha van
+do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr. meu marido
+alli estava para auxiliar a reposição, tirei o chapeu e asseiei-o
+prestamente...</p>
+
+<p>&mdash;Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua
+chegada, ao ponto de não saberes repôr o chapeu...</p>
+
+<p>&mdash;Saul é um mentiroso.</p>
+
+<p>&mdash;Não te zangues, Nedda.</p>
+
+<p>&mdash;Injuriou-me.</p>
+
+<p>&mdash;Não dês importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente...</p>
+
+<p>&mdash;E elle o quer?</p>
+
+<p>&mdash;Porque perguntas?</p>
+
+<p>&mdash;Porque tão honrado elle não deveria aceitar mais a cohabitação da esposa
+deshonesta.</p>
+
+<p>&mdash;Não deves dizer assim, minha filha!</p>
+
+<p>&mdash;Aceita-me elle?<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que tolice, Nedda!</p>
+
+<p>&mdash;Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e não a faço em
+attenção aos teus bons officios...</p>
+
+<p>&mdash;Fazes muito bem.</p>
+
+<p>&mdash;Là vem elle descendo...</p>
+
+<p>&mdash;Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que não tem esposo...</p>
+
+<p>&mdash;Desculpa-me, maman: só agora reparo que estou muito à vontade para nos
+encontrarmos os tres...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Arrepanhando, então, o bello roupão desabotoado, por cujas rendas e
+ decotes se viam as carnes luciferas de N<small>EDDA</small>, a mulher de Saul
+ se escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de esculptura
+ grega...<span class="pn">{14}<br>
+ {15}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00300000">VOLUPTUOSAS</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{16}<br>
+{17}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00310000">VOLUPTUOSAS</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>No rêz-do-chão de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendados
+ <em>stores</em> pallidos, H<small>ELENA</small> fazia somno à hora da sesta,
+ quando M<small>ARIA</small> A<small>NGELICA</small> a surprehendeu
+ adormecida.</p>
+
+ <p>A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma
+ voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabeça desmaiada de
+ H<small>ELENA</small>...</p>
+
+ <p>Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com um
+ fremito de prazer...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;De onde vens tu, Angelica?</p>
+
+<p>&mdash;De encommendar flores...<span class="pn">{18}</span></p>
+
+<p>&mdash;Flores?!</p>
+
+<p>&mdash;Não te recordas de que Sophia se cazará amanhan, à noitinha?</p>
+
+<p>&mdash;Sou uma esquecida.</p>
+
+<p>&mdash;E ella é credora de nossas gentilezas...</p>
+
+<p>&mdash;Das minhas, especialmente.</p>
+
+<p>&mdash;Encommendei orchidéas e chrysanthemos.</p>
+
+<p>&mdash;Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias.</p>
+
+<p>&mdash;Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das
+orchidéas. Uma catyleia é um pedaço de labios excitados por dois beijos.</p>
+
+<p>&mdash;Não lhes acho graça.</p>
+
+<p>&mdash;Ó exigente!</p>
+
+<p>&mdash;Flores do matto. E jà notaste que quasi todas ellas são lilazes e roxas?
+ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas côres melancolicas?</p>
+
+<p>&mdash;Descobres coisas...</p>
+
+<p>&mdash;Mas, não é?</p>
+
+<p>&mdash;Realmente.</p>
+
+<p>&mdash;E como vais presentear uma noiva com flores lilazes?</p>
+
+<p>&mdash;É a moda, é o chic, é o <em>dernier-cri</em>...</p>
+
+<p>&mdash;Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas, chrysanthemos,
+rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me?<span class="pn">{19}</span></p>
+
+<p>&mdash;Se não! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os olhos
+muito brilhantes...</p>
+
+<p>&mdash;De verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Sonhavas?</p>
+
+<p>&mdash;Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu estás intensamente corada...</p>
+
+<p>&mdash;Apanhei muito sol.</p>
+
+<p>&mdash;Os teus olhos estão pisados e languidos...</p>
+
+<p>&mdash;É da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor que
+abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados...</p>
+
+<p>&mdash;Jà tinha reparado: os teus cabellos estão desmanchando-se...</p>
+
+<p>&mdash;E eu os concertei no espelho de Esther.</p>
+
+<p>&mdash;Andaste là, hein? Jà havia desconfiado... Quando te vejo amollentada,
+assim, tenho razões para me enciumar... É muito descuidada a Esther. Cuida mal
+das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Está mal posto, a
+fita está retorcida...</p>
+
+<p>&mdash;Nem reparei...</p>
+
+<p>&mdash;Disto não és culpada, por certo... Eu não te deixaria sahir daqui tão
+mal-amanhada. É de causar vergonha.</p>
+
+<p>&mdash;Foi a pressa, Helena.</p>
+
+<p>&mdash;E no teu hombro a sêda está nodoada...<span class="pn">{20}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nodoada?!...</p>
+
+<p>&mdash;Sim! Vêem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei mesmo
+que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!...</p>
+
+<p>&mdash;Quem o poderia fazer?</p>
+
+<p>&mdash;Esther.</p>
+
+<p>&mdash;És ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as flores.
+Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Estás satisfeita?</p>
+
+<p>&mdash;Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas não convencida...</p>
+
+<p>&mdash;Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar
+humido?... Terá sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo é arrastada como
+a de quem se fatigou num excesso de venturas...</p>
+
+<p>&mdash;Que venturas posso ter?</p>
+
+<p>&mdash;Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real...
+Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha vezes em
+que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras occasiões, quando
+volto a mim sem provocação, sou prompta a espantar-me porque me accordei e não
+morri no meio do prazer sonhado...<span class="pn">{21}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ha sonhos, effectivamente, que se não deveriam acabar... E não sentes
+calor, Maria Angelica?</p>
+
+<p>&mdash;Algum.</p>
+
+<p>&mdash;Neste caso...</p>
+
+<p>&mdash;Que fazes?</p>
+
+<p>&mdash;Dispo-me. Não me imitas?</p>
+
+<p>&mdash;Póde ser. Passarei a tarde comtigo...</p>
+
+<p>&mdash;Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta góla
+assoberbante... Não tens geito?... Chega, que te libertarei...</p>
+
+<p>&mdash;Tira os alfinetes.</p>
+
+<p>&mdash;Usas um bom pó de arroz, Angelica.</p>
+
+<p>&mdash;Ui! Helena!</p>
+
+<p>&mdash;Que foi assim, ardilosa?</p>
+
+<p>&mdash;Espetaste-me as carnes...</p>
+
+<p>&mdash;Tambem é uma ruma de alfinetões...</p>
+
+<p>&mdash;É para segurar bem.</p>
+
+<p>&mdash;Tens uma pellugem de arminho...</p>
+
+<p>&mdash;Ai!... Assim não... não...</p>
+
+<p>&mdash;Que tens, rapariga?</p>
+
+<p>&mdash;Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... Só me déste vontade
+de...</p>
+
+<p>&mdash;Ui!... ui!... ui!... Fazes-me um <em>frisson</em> de arrepiar-me os
+pellos...</p>
+
+<p>&mdash;É para vingar o teu beijo...</p>
+
+<p>&mdash;Porque me olhas assim, Angelica?<span class="pn">{22}</span></p>
+
+<p>&mdash;És de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um
+perfume originalissimo que me entontece...</p>
+
+<p>&mdash;Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se
+cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o faço para attrahir as amigas
+como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que se confundiam
+os aromas do nardo de Tharsos e do metôpyon do Aigypte. Nas axillas attritava
+mentho e sobre as pestanas e nas palpebras marjolana de kôs. Ao depois, a
+escrava defumava-lhe os cabellos desennastrados com espiraes de incenso, que
+combinava admiravelmente não só com a essencia de rozas de Phasêlis que lhe
+embalsamava a nuca e as faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava
+sobre os rins. E, por fim, entre os seios, corria o celebre oinanthê das
+montanhas de Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica...</p>
+
+<p>&mdash;Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras...</p>
+
+<p>&mdash;Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do
+irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodões embebidos na essencia de
+rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para contrastar<span
+class="pn">{23}</span> com as evolações das essencias de jasmins que perfumam
+as minhas vestias...</p>
+
+<p>&mdash;E na posse de tudo isto praticas uma mà acção, Helena!</p>
+
+<p>&mdash;Qual?</p>
+
+<p>&mdash;Essa de referires tantos perfumes e não me dares nenhum a provar... És
+avarenta, como ninguem, e eu cubiçosa de gozar...</p>
+
+<p>&mdash;Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres...</p>
+
+<p>&mdash;Teria graça!</p>
+
+<p>&mdash;Porque assim?</p>
+
+<p>&mdash;Gósto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres.
+Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas
+carnes...</p>
+
+<p>&mdash;Tens desejos masculinos, minha queridinha!</p>
+
+<p>&mdash;E é o que me faz lamentar-me: junto de uma graça não ser um Adonis, junto
+de uma Helena não ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os teus perfumes
+e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais feliz do que Syrinx,
+louca de paixão, Byblis, unica na insaciabilidade, ou Mnasidika, macia como um
+velludo... Helena, tu és uma perfeição...</p>
+
+<p>&mdash;Mofadora!<span class="pn">{24}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mofar eu de ti?!...</p>
+
+<p>&mdash;Não te abraza o calor?...</p>
+
+<p>&mdash;Sim... Intoleravelmente...</p>
+
+<p>&mdash;Safa o collête... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seducções na
+tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os homens,
+sabios no sensualismo pagão, que o nú de veus é mais provocante do que o nú sem
+disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na mulher encoberta pela
+semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te não conhecesse os segredos todos de
+tuas lindas curvas, te rasgaria agora, impiedosamente, o veu de tua nudez...
+</p>
+
+<p>&mdash;Jà sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do
+arrôcho de um collête dictatorial?</p>
+
+<p>&mdash;Quantas vezes?!</p>
+
+<p>&mdash;Tu brincas, mulher divertida...</p>
+
+<p>&mdash;Provo-te com a citação: despirei o meu collête e não me sentirei mais
+provocada do que contemplando as tuas fórmas semi-núas...</p>
+
+<p>&mdash;Es barbara, Helena! Como encarceras um tão lindo quadril dentro dos
+oppressivos liames de um collête... Ah! Como eu daria a vida por ser morena! O
+ventre alvo é uma desillusão, mas o trigueiro, como o teu, é um<span
+class="pn">{25}</span> incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o
+instincto mais calmo...</p>
+
+<p>&mdash;Não te agrada a minha nueza?</p>
+
+<p>&mdash;Inteiramente. Agora, vê là se te não impressiona mal a brancura do meu
+ventre...</p>
+
+<p>&mdash;Ao contrario, Maria Angelica: é uma grande corolla de petalas alvas
+desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... É maravilhoso o teu contorno...
+Dignas fórmas para a perpetuidade de uma téla ou de um retrato...</p>
+
+<p>&mdash;Deixarias tu que fôsse apanhada a tua nudez?</p>
+
+<p>&mdash;E porque não?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me?</p>
+
+<p>&mdash;Que egoismo leviano!</p>
+
+<p>&mdash;Acha-o?</p>
+
+<p>&mdash;Sim... Photographemo-nos...</p>
+
+<p>&mdash;Adoravel!... Como não irradiará no <em>cliché</em> o contraste de nossas
+pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa de um
+pólo...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma solução
+ de perolas e opalas.<span class="pn">{26}</span></p>
+
+ <p><span class="pn"></span>Os seus labios permutaram cariciosos beijos.</p>
+
+ <p>E, horas depois, M<small>ARIA</small> A<small>NGELICA</small> e
+ H<small>ELENA</small>, retratadas por uma aia, desvendavam as suas
+ abrazadoras nuezas à inveja de E<small>STHER</small>...<span
+ class="pn">{27}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00400000">O POETA MORIBUNDO</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{28}<br>
+{29}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00410000">O POETA MORIBUNDO</a></h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Luxuoso salão de recepções: por entre cavallêtes com quadros de fina
+ pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de Parreira e a
+ vocação de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio das tapeçarias, dos
+ <em>fauteils</em> e das luzes, um magestoso piano Ritter.</p>
+
+ <p>H<small>ELOISA</small> acabou de executar, com todo o applauso do maestro
+ C<small>HRISTOVAM</small> D<small>ETMER</small>, a linda fantasia&mdash;<em>Le
+ poète mourant</em>&mdash;de Gotschalk.</p>
+
+ <p>As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de admiração
+ e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos que obedeciam á
+ grande inspiração de H<small>ELOISA</small>.</p>
+
+ <p>Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente combalida<span
+ class="pn">{30}</span> pela dor de uma alma irman...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas
+bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas e os
+teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do passional poema
+lyrico, me concentrei e te affirmo que a visão não despresou a audição, pois vi
+e ouvi toda a scena, desenvolvida entre personagens vivas, que se moviam, se
+soccorriam e testimunhavam o desfallecimento do artista moribundo. Durante
+minutos que serão inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao
+teu lado, frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e não denunciei,
+pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a
+existencia. Vim do gabinete privado de tua mãe, que se transformou
+pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se lhe
+dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a longa historia
+de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes,<span class="pn">{31}</span> fui
+minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a alma de
+artista e não o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim inspirar-me para o
+sacrificio no teu talento. E saio de tua presença illuminado como o prescripto
+que recebeu o balsamo do conselho christão para subir em seguida ao patibulo.
+Dá-me, pois, o conforto de tua confidencia ultima: amaste-me alguma vez?</p>
+
+<p>&mdash;Que pergunta, Christovam.</p>
+
+<p>&mdash;Indiscreta?</p>
+
+<p>&mdash;Não; ao contrario. Amesquinhante...</p>
+
+<p>&mdash;Extranho-te.</p>
+
+<p>&mdash;Não ha razão. Porventura pensarás que te amei e não te amo agora? Acaso a
+minha mão de mulher para te ser dada dependerá de alguma coisa irreductivel
+deante de minha vontade altiva?</p>
+
+<p>&mdash;Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor
+dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeças bellas de todas
+as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz com que se
+enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um homem que sabe musica
+simplesmente, que é apenas um artista, é pequenino de mais para ter uma
+pretenção de<span class="pn">{32}</span> amor. Eu me pareço com esta figura
+lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das fantasias
+de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em sonhos egoistas,
+cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava rozas, derrocando
+castellos, para me conter na illusão em que me deleitava sómente com a
+audiencia da negativa inclemente de tua mãe. Confessou-me que maldava de todo o
+nosso amor, desde principio. E porque, se assim era, protegia a ampliação de um
+sentimento que deveria ser, como os filhos defeituosos das ciganas que são
+atirados ás piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse,
+falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era porque,
+doidivana como toda creança, jogavas a péla na orla do precipicio, esperando o
+aviso amigo para te retirares gloriosamente... Negarás, Heloisa, que tinhas
+consciencia de minha pretenção? Sophismarás, em favor da excommunhão que me
+lançou a tua mãe, e contra a clareza da ordem que me deste afim de se
+officialisarem as relações do affecto, que nos encaminhava de um illusorio
+paraiso? Responde com o talento immensuravel com que sempre me amaste...<span
+class="pn">{33}</span></p>
+
+<p>&mdash;Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias
+possuir o maior tino dos homens.</p>
+
+<p>&mdash;Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem pesada
+se antepõe á sua esphera...</p>
+
+<p>&mdash;Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e não te hei de amar fóra do
+regosijo delles...</p>
+
+<p>&mdash;Dos teus paes?</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em tuas
+mãos estariam vegetaes só ao sôpro de um fakir indiano. Porque admittirias que
+a minha vontade fosse forte bastante para romper a marcha das intenções dos
+meus paes sobre a minha razão de ser mulher? Por ventura sem o sopro do fakir
+as sementes germinariam e attingiriam as fórmas de seres definitivos? Não
+supporás que, sem aquelle sôpro, algo se realisasse. Como suppôres que sem a
+vontade dos meus maiores a nossa união se perpetraria ao teu sabôr?</p>
+
+<p>&mdash;Desconheço-te já...</p>
+
+<p>&mdash;Mas, porque...</p>
+
+<p>&mdash;O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto á quesilia dos
+outros...</p>
+
+<p>&mdash;Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a existencia de
+mulher?<span class="pn">{34}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nem sei de mim mesmo que te responda...</p>
+
+<p>&mdash;Não poderias esperar. Se eu fôsse livre, se a lagarta para ser papilio não
+carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar a sancção
+que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razões para tal fazer.
+Aborrece-te o trovão? amedronta-te o curisco? Queres ver-te livre delles? Crê
+num Deus e pede-lhe a extinção... Infelizmente, Christovam, nem o trovão se
+extinguiria, nem o teu querer triumpharia... De um lado, Deus seria impotente
+para te dar o que pedisses porque não terias o direito de pedir... Só pede quem
+póde pedir; se se pede é porque de quem dá depende o pedido; e se o pedido não
+é dado, procura a causa na insufficiencia e na sem-razão de quem pediu...</p>
+
+<p>&mdash;Mas...</p>
+
+<p>&mdash;Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se
+conservares a razão, que tenho o bom senso desejavel ás creaturas perfeitas.
+Queres responder-me?</p>
+
+<p>&mdash;Nada significará o que te responda.</p>
+
+<p>&mdash;É preciso que sejas categorico.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim: responder-te-ei.</p>
+
+<p>&mdash;Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?</p>
+
+<p>&mdash;Por certo que não.<span class="pn">{35}</span></p>
+
+<p>&mdash;De minha parte a questão é outra: teria eu o direito de responder por mim
+num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer?</p>
+
+<p>&mdash;Se quizesses, sim.</p>
+
+<p>&mdash;Não é assim, não. Porque não me tomarias por mulher sem o meu
+assentimento? Por impoderoso deante de minha definição adversa. Porque não me
+daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por impoderosa deante da
+pronuncia delles. Se tu pudesses alcançar de mim o amor sem vontade,
+desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse de meu corpo sem a
+intervenção dos que m'o formaram do nada em materia e em alma, nem cogitaria de
+enviar-te a elles...</p>
+
+<p>&mdash;É um dilemma sophistico.</p>
+
+<p>&mdash;Por que principio, não sei.</p>
+
+<p>&mdash;Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sêde do teu amor, Heloisa,
+como correspondeste a esse lapso do meu instincto?</p>
+
+<p>&mdash;Do modo mais franco.</p>
+
+<p>&mdash;Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu
+quizesse, matar a sêde que allegava...</p>
+
+<p>&mdash;Dependia de mim. Dei-te.</p>
+
+<p>&mdash;De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixão.
+Negaste-m'o?<span class="pn">{36}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não poderia negar.</p>
+
+<p>&mdash;Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na
+grandeza das iteradas pulsações cordiaes, affirmaste que eu reconheceria a
+intensidade do teu sentimento...</p>
+
+<p>&mdash;Dependia de mim. Pratiquei.</p>
+
+<p>&mdash;Por fim, quando te acenei com o plano de nossa união...</p>
+
+<p>&mdash;Como te respondi, Christovam?</p>
+
+<p>&mdash;Com a primeira negaça.</p>
+
+<p>&mdash;Adulteras a minha intenção: cumpri o meu dever, enviando-te á maman, como
+o caminho propicio para vencer o papá.</p>
+
+<p>&mdash;Realmente, Heloisa. Sou um vencido.</p>
+
+<p>&mdash;Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...</p>
+
+<p>&mdash;Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a
+consummar uma grande obra musical sem a inspiração para a realidade do dever...
+</p>
+
+<p>&mdash;Desistes, então, do teu amor?</p>
+
+<p>&mdash;Razões me sobejam...</p>
+
+<p>&mdash;Que te disse, afinal, a maman?</p>
+
+<p>&mdash;Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e lembrou-me
+que um musicista não compõe sem ter inspiração...</p>
+
+<p>&mdash;Nada de mais, Christovam!<span class="pn">{37}</span></p>
+
+<p>&mdash;Talvez não queiras comprehendel-a... Mas é tudo que se póde allegar contra
+um homem...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>E, louco pela musica, inconsciente quasi, C<small>HRISTOVAM</small>
+ D<small>ETMER</small> assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a
+ esquisita criação de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se
+ despediu de H<small>ELOISA</small>...<span class="pn">{38}<br>
+ {39}</span></p>
+</blockquote>
+
+<h2><a name="SECTION00500000">O VELHO MEDICO</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{40}<br>
+{41}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00510000">O VELHO MEDICO</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.</p>
+
+ <p>E<small>STEPHANIO</small> e J<small>UDITH</small>&mdash;esta desprendendo-se de
+ si no devotamento ao esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais
+ annos, como se lhe tivesse o corpo de cór, curvas e linhas, luzes e
+ perfumes&mdash;gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige os
+ defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...</p>
+
+ <p>M<small>ARCO</small> A<small>NTONIO</small>&mdash;o medico afamado&mdash;cofiando as
+ ennevoadas barbas em que se escondiam as illusões do seu poder curador,
+ arrancou os olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio,
+ de suas attenções...<span class="pn">{42}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Bem póde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgôr da
+mocidade...</p>
+
+<p>&mdash;É exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel
+salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, não posso affectar-me com
+os seus effeitos: a sua medicina é a criadora das humanas torturas. Parece-me
+que jà se disse: «Tirem os medicos e as enfermidades desapparecerão»... Mas, eu
+digo: fugi delles e estou curado. Deem-me milhões de medicos e estarão formados
+trilhões de doenças.</p>
+
+<p>&mdash;E quem te curou, meu caro?</p>
+
+<p>&mdash;A natureza...</p>
+
+<p>&mdash;O novo deus pagão...</p>
+
+<p>&mdash;Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes curadores.
+Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria?</p>
+
+<p>&mdash;Lembro-me, sim.</p>
+
+<p>&mdash;Foram tantos os diagnosticos que jà perdi o direito de dar-lhes autorias.
+</p>
+
+<p>&mdash;O sr. era verdadeiramente um doente.</p>
+
+<p>&mdash;E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e
+invariaveis.<span class="pn">{43}</span></p>
+
+<p>&mdash;Realmente.</p>
+
+<p>&mdash;Pois confesso-lhe: não fiz uso de um só. Tambem o doutor não foi o ultimo
+medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na inspecção. Nada
+faltou à sua perspicacia, senão comprehender que, no meu estado, as suas
+perguntas eram outras tantas suggestões e novos symptomas para a aggravação de
+meu mal. Eu vivia desvairado na vontade de accusar males crescentes, e os meus
+assistentes porfiavam em illustrar-me em torturas ineditas.</p>
+
+<p>&mdash;Afinal... quem te curou?</p>
+
+<p>&mdash;Dir-lhe-ei tudo, de começo. Hygia, a deusa da saude, não é de todo mà...
+</p>
+
+<p>&mdash;A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos: salvaram-se
+pela acção do dedo de Deus, como teriam morrido pela intervenção do doutor...
+</p>
+
+<p>&mdash;Creio que o sr. adianta um mau conceito. Não me tenho na conta dos casos
+communs.</p>
+
+<p>&mdash;Desculpe-me.</p>
+
+<p>&mdash;Pois não! Mas, a minha doença foi uma criação dos meus medicos, e a minha
+cura proveiu de minha inabalavel resolução de abandonal-os. Eu estava em ultimo
+grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei assim às mãos de um
+allopatha. Homeopathas<span class="pn">{44}</span> e feiticeiros nada fizeram
+de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci, aos vinte e tres
+annos, foi numa convalescença de enfermidade effectivamente assassina: o amor.
+Eu tinha conseguido, pela vez primeira, objectivar uma paixão. E, não só isto:
+tivera, com todo o delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra
+a minha vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu
+sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram sessenta
+dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil e quatrocentos
+minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes as paradas
+assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao maximo possivel. O
+prazo desse amor fôra, entretanto, fatal. Exgottou-se e a mulher fugiu-se-me
+dos braços como a espiral do fumo que procura as alturas. Ao depois disto,
+separado do entretenimento carnal, que me combalia as fibras, como a agua que
+vai abalar as galerias subterraneas para derribar as minas, tive a sensação do
+remorso de um grande crime...</p>
+
+<p>&mdash;De um crime delicioso...</p>
+
+<p>&mdash;Talvez, doutor.</p>
+
+<p>&mdash;E então?<span class="pn">{45}</span></p>
+
+<p>&mdash;Encegueirado pelo amor, o mundo ficou às escuras sem a luz do olhar della.
+Quiz correr nas suas pégadas, e senti-me tolhido como a voz na garganta do
+atormentado por um pezadêlo. Vi em todos os convivas de minha existencia,
+terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre num choro convulso,
+durante o qual me punha a tremer com tanta violencia quanta fazia extremecer
+todo o assoalho de minha alcova e soar fóra de tempo a campainha do relogio
+sobre a meza... Senti-me muitas vezes balançado como a espherasinha de madeira
+que anima o trillo dos apitos...</p>
+
+<p>&mdash;É curioso, de véras, o seu caso.</p>
+
+<p>&mdash;Foi, doutor.</p>
+
+<p>&mdash;Sim! Foi! E hoje sinto não lhe ter visto nesse tempo originalissimo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico.</p>
+
+<p>&mdash;Paranoico?</p>
+
+<p>&mdash;Exactamente, doutor, e và vendo. Aconselhou que eu me tratasse com banhos
+de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro medico, os meus
+paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente banhado, a contragosto, com
+luzes de todas as côres. Era inocuo o tratamento para me<span
+class="pn">{46}</span> fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males
+Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguçados por alta dose, mas
+não toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico&mdash;jà a esta hora e ha muito
+tempo&mdash;victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e disse, carrancudamente,
+deante de uma das minhas crises de saudade carnal: «são delirios
+epileptiformes»... E o tratamento passou a ser feito com altas doses de
+bromurêto. A minha ennervação deprimiu-se, e tornei-me um atoleimado, tanto que
+nem pranteei a morte de minha mãe, desgostosa com a minha tragica existencia...
+Novo medico; vim a ser um simples neurasthenico, com atonias nervosas.
+Reconstituintes, passeios, boas alimentações, prazeres, etc.: nada, porem,
+matava as saudades do meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora
+por excesso de alimentação, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de
+insomnias, tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos
+medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodêtos e tive
+hemoptises. Um Esculapio chamado às pressas, levando em conta a minha magrêsa,
+o sangue exvasado dos meus pulmões e o historico dos meus soffrimentos,<span
+class="pn">{47}</span> num rapido prognóstico, annunciou a minha morte breve,
+por força de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me
+interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria sómente:
+suggeriam-me cousas que só dalli por deante eu começava de sentir. E veiu um
+curador homeopatha: os seus remedios ingeri com facilidade, pela falta de
+sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um visinho, que se enforcou dias depois
+porque se sentiu arruinado nas suas forças commerciaes, lembrou que os maus
+espiritos encostados aos corpos de pessôas novas, faziam artes do demo... E não
+só apresentou a conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma
+velhinha, encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruços
+na cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira...</p>
+
+<p>&mdash;E nem rezado, sr. Estephanio?</p>
+
+<p>&mdash;Para o doutor ver! Nem rezado!</p>
+
+<p>&mdash;É unica a sua historia.</p>
+
+<p>&mdash;Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau
+funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado.</p>
+
+<p>&mdash;Assim acaeceu.</p>
+
+<p>&mdash;E inda pensa o doutor que eu tivesse affecção nos rins?<span
+class="pn">{48}</span></p>
+
+<p>&mdash;Se me não falha a memoria, effectivamente.</p>
+
+<p>&mdash;Pois escute: logo depois de sua intervenção, repudiando eu os medicamentos
+que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram trazidos em
+conferencia.</p>
+
+<p>&mdash;Que disseram elles?</p>
+
+<p>&mdash;Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles mesmos.
+Do doutor discordaram reputando sãos os meus rins.</p>
+
+<p>&mdash;Sãos, ou curados?</p>
+
+<p>&mdash;Curados, não. Inattingidos até àquella data. E firmaram o diagnostico de
+uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgão e o outro hypertrophia.
+</p>
+
+<p>&mdash;Mas, afinal, acertaram?</p>
+
+<p>&mdash;Suppõem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a saude.
+</p>
+
+<p>&mdash;É espantoso, meu caro senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Não é, não, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha reapparecido
+a mulher que eu amára. Visitou-me. Inflammamo-nos, e... estamos casados, não
+foi assim, Judith?</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me!<span class="pn">{49}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando o
+ enfeitiçamento de um lindo <em>manteau</em> exposto no mostruario de modas e
+ confecções... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente a espaçosa
+ fronte...<span class="pn">{50}<br>
+ {51}</span> </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00600000">OS DOIS ESPELHOS</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{52}<br>
+{53}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00610000">OS DOIS ESPELHOS</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Depois de mandar retirar-se a criada, V<small>IOLANTE</small> foi, pé ante
+ pé, fechar a porta do salão de jantar que deitava para a copa, e veiu
+ sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mãos profundamente
+ geladas.</p>
+
+ <p>S<small>IMEÃO</small>, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo
+ no canto dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as
+ feições com um clarão colerico.</p>
+
+ <p>Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a cadeirinha
+ de balanços, V<small>IOLANTE</small> provocou-o...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Faze a tua scena.</p>
+
+<p>&mdash;E não é sem tempo.<span class="pn">{54}</span></p>
+
+<p>&mdash;Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se não é sem tempo?</p>
+
+<p>&mdash;Facilidades.</p>
+
+<p>&mdash;Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o homem
+cazado não tem direito a facilidades.</p>
+
+<p>&mdash;Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que
+Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma existencia
+inteira para passar escravisado aos laços de uma união infeliz!... Maldita
+hora!</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... ah!... ah!... ah!...</p>
+
+<p>&mdash;Sorris...</p>
+
+<p>&mdash;E então? Hei de chorar para te sentires bem na oppressão que me fazes?</p>
+
+<p>&mdash;A minha vida depois que me senti enganado...</p>
+
+<p>&mdash;Não tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci o
+teu adulterio...</p>
+
+<p>&mdash;Insultas-me ainda em cima, Violante?</p>
+
+<p>&mdash;Não te insulto. Repillo as tuas aggressões, termo por termo. O que eu digo
+é que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado e perfumoso
+para agradar às amantes, tem a mulher de...</p>
+
+<p>&mdash;Não dize, Violante, a indignidade!<span class="pn">{55}</span></p>
+
+<p>&mdash;Porque não dizer as cousas como ellas devem ser? Só depois que senti a tua
+ausencia do lar...</p>
+
+<p>&mdash;E confessas o delicto?!...</p>
+
+<p>&mdash;... só depois que conheci a tua amante...</p>
+
+<p>&mdash;Mentes, mulher!</p>
+
+<p>&mdash;... só depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui
+sais...</p>
+
+<p>&mdash;É horrivel, Violante!</p>
+
+<p>&mdash;... só depois de ver-te partir de là e a tua concubina despedir-se de ti
+com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravidão...</p>
+
+<p>&mdash;Tu viste?</p>
+
+<p>&mdash;Sim... só depois de ter a certeza de possuires uma amante...</p>
+
+<p>&mdash;Poupa, Violante, essa phrase...</p>
+
+<p>&mdash;... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a
+côrte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no lar pelo
+marido libertino...</p>
+
+<p>&mdash;É demais!</p>
+
+<p>&mdash;Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num
+isolamento de aborrecer. Entretanto, fôra diverso o teu proceder nos primeiros
+tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava na<span
+class="pn">{56}</span> rua, mal eu começava a sentir a tua ausencia, estavas de
+volta. Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te
+retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te perguntei, a
+hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz saber. E, até hoje,
+nunca te pedi a menor palavra sobre o teu procedimento...</p>
+
+<p>&mdash;E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informações.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! Para evitar essa negação, nunca t'as pedi, sciente e consciente
+de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, não te devo
+satisfacções... São ellas por ellas...</p>
+
+<p>&mdash;Abusas...</p>
+
+<p>&mdash;Corrige-me se puderes... Não és o meu marido?... Toma conta dos meus
+actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze o que
+entenderes, certo de que atraz de mim haverá quem vingue as tuas incontinencias
+e perversidades...</p>
+
+<p>&mdash;E sabes quem é a minha amante?</p>
+
+<p>&mdash;Se sei, Simeão?!...</p>
+
+<p>&mdash;Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: não
+conheces ninguem...</p>
+
+<p>&mdash;Só com o rizo!... Ah!... ah!... ah!...<span class="pn">{57}</span></p>
+
+<p>&mdash;Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha paciencia se
+exgottarà afinal...</p>
+
+<p>&mdash;Ainda em cima me ameaças?</p>
+
+<p>&mdash;Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me confesses
+tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante?</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem!</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem, como?</p>
+
+<p>&mdash;Desconfiei e fui ao teu encalço...</p>
+
+<p>&mdash;Não falas a verdade, Violante.</p>
+
+<p>&mdash;A certeza das coisas é adquirida quando nos abeiramos dellas. Molestias
+mortaes, por miasmas exhalados dos paúes, só as contrai quem lhes vai à beira.
+Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio... Olhas-me agora atravessado?
+Nega então que te falo a verdade como ella é?!... Por favor, desmente-me, se és
+capaz...</p>
+
+<p>&mdash;Juro-te que não sei do que se trata.</p>
+
+<p>&mdash;Perjuro!... Então, toda a manhan não vais daqui à caza de Idalia... Não me
+interrompas, não... toda a manhan, não passas là horas esquecidas, quando sais
+não fica ella por traz da gelosia a acenar-te e tu a corresponderes-lhe os
+acenos de apaixonada despedida?</p>
+
+<p>&mdash;Ousada! Alem do mais, injurias à mulher de um amigo da nossa
+familia...<span class="pn">{58}</span></p>
+
+<p>&mdash;E que é a tua amante...</p>
+
+<p>&mdash;Pois se é, está tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre
+vontade... Constou-te jà que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As minhas
+obrigações maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e começam,
+quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a dentro, estou eu
+cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem jurei culto eterno, alias,
+em tempos melhores... Casei por uma supposição de momento: a solidão de
+solteiro era um suicidio de todos os dias. E só não me enganei em suppôr que o
+matrimonio me facilitaria relações difficeis antes de ter as qualidades de
+senhor duma mulher... O mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a
+tua companhia, e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado é um
+pequenino jardim, o maior céu é a entrada de uma furna... A companheira é um
+tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo homem
+respeitador...</p>
+
+<p>&mdash;Outro tanto te allego eu... Mentirá aquelle que disser me ter visto,
+sorrateira ou clandestinamente, embuçada ou mascarada, penetrar em lugares
+escusos, ou ao lado de algum homem que não fôsses tu... Casei-me<span
+class="pn">{59}</span> por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixão
+momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto o meu
+marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me eu... Adquiriu
+uma amante...</p>
+
+<p>&mdash;Retem-te, Violante!...</p>
+
+<p>&mdash;Não! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem póde viver longe do
+pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu marido!...
+</p>
+
+<p>&mdash;Intoleravel!</p>
+
+<p>&mdash;Tambem tu o és!</p>
+
+<p>&mdash;Adultera!</p>
+
+<p>&mdash;Deixemo-nos, Simeão, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os
+devolver todos, um por um...</p>
+
+<p>&mdash;Saber-me trahido...</p>
+
+<p>&mdash;Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando nada,
+não terás de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher digna do
+marido que lhe deram...</p>
+
+<p>&mdash;Sinto faltar-me a luz da vista...</p>
+
+<p>&mdash;Impressões, Simeão.</p>
+
+<p>&mdash;Pois é justo que me consinta enganado?</p>
+
+<p>&mdash;Não nos deshonramos...</p>
+
+<p>&mdash;É um consôlo ridiculo.<span class="pn">{60}</span></p>
+
+<p>&mdash;E que dirias tu se trahida eu não te trahisse igualmente?</p>
+
+<p>&mdash;Diversa é a situação do homem, Violante.</p>
+
+<p>&mdash;O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente nos
+submettemos a esse regimen de igualdade...</p>
+
+<p>&mdash;Doloroso!</p>
+
+<p>&mdash;Assim exclamei, Simeão! Agora, porem, me sinto melhor: não me enganaste, e
+isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos...</p>
+
+<p>&mdash;E o teu amante?</p>
+
+<p>&mdash;Dispensa sabel-o...</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... Repillo a lembrança que me occorre... Não, não é possivel!... O
+massagista...</p>
+
+<p>&mdash;Rende justiça à tua mulher, Simeão! Pois não vês que eu me não vingaria de
+ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te fizesse córar perante a
+sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de ti?</p>
+
+<p>&mdash;Então... Desabafa-me!... Sê completa!</p>
+
+<p>&mdash;Insistes em conhecer tudo?</p>
+
+<p>&mdash;Não duvides que o quero de coração.</p>
+
+<p>&mdash;É Lourival...</p>
+
+<p>&mdash;O marido de Idalia?...</p>
+
+<p>&mdash;De certo.<span class="pn">{61}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem
+conjugadamente...</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu estou vingada...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fóra do salão, perguntava
+ aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar...</p>
+
+ <p>E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz...<span
+ class="pn">{62}<br>
+ {63}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00700000">O PRIMEIRO FILHO</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{64}<br>
+{65}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00710000">O PRIMEIRO FILHO</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Na secretaria fôra extranhada a falta primeira de O<small>RLANDO</small>,
+ assiduo até não se ter ausentado do serviço no attrahente dia do matrimonio.
+ </p>
+
+ <p>O D<small>IRECTOR</small> do esposo de O<small>LIVIA</small> era
+ reconhecido à assiduidade do moço, e, por duas vezes, determinàra o seu
+ accesso por merecimento.</p>
+
+ <p>Ao penetrar na Repartição depois da primeira falta, todos os olhares
+ recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se entregou ao
+ trabalho sem explicações.</p>
+
+ <p>Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado,
+ O<small>RLANDO</small> e o D<small>IRECTOR</small> entravam em confidencia...
+ </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Sr. Director!<span class="pn">{66}</span></p>
+
+<p>&mdash;Estiveste doente?</p>
+
+<p>&mdash;Não, não foi doença minha. Antes o fôsse...</p>
+
+<p>&mdash;Trocaste o dia?</p>
+
+<p>&mdash;Como assim?</p>
+
+<p>&mdash;Levaste à conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos?</p>
+
+<p>&mdash;Tambem não!</p>
+
+<p>&mdash;Viajaste a negocio?</p>
+
+<p>&mdash;Qual, Sr. Director! Os meus negociou são sómente os de meu dever aqui
+dentro...</p>
+
+<p>&mdash;Não sei explicar a tua falta.</p>
+
+<p>&mdash;E eu careço de coragem para dizer...</p>
+
+<p>&mdash;Tão futil não ha de ter sido o motivo.</p>
+
+<p>&mdash;Eu conto. Foi o meu primeiro filho...</p>
+
+<p>&mdash;Felicito-o desde jà.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade. Conhecendo
+bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a só quando se manifestaram os
+primeiros incommodos do parto. E confiando em que o acontecimento cedo me daria
+liberdade para saltar à repartição, fui-me deixando ficar, ora mais embebido
+nos cuidados que a parturiente exigia, ora menos descontente com o que se ia
+passando, até que, só na madrugada de hoje, após vinte e duas horas de
+labutações, se concluiram os trabalhos...<span class="pn">{67}</span></p>
+
+<p>&mdash;Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia.</p>
+
+<p>&mdash;Não menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi em
+mim e vi que faltàra hontem improficuamente, porque...</p>
+
+<p>&mdash;Ora, Sr. Orlando! Uma falta não inflúe, tanto mais quanto fui o primeiro a
+não mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber corresponder ao
+valor dos meus funccionarios.</p>
+
+<p>&mdash;Fico embaraçado... Nem sei como lhe agradeça... Ao depois das torturas
+porque passei, era natural que Deus me désse o allivio de uma honra como a que
+o Sr. Director acaba de conceder-me.</p>
+
+<p>&mdash;E a senhora ficou sem novidade?</p>
+
+<p>&mdash;Pouco mais ou menos, Sr.</p>
+
+<p>&mdash;Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia...</p>
+
+<p>&mdash;Qual nada!... Faltar hoje?...</p>
+
+<p>&mdash;Não digo isto.</p>
+
+<p>&mdash;Então...</p>
+
+<p>&mdash;Obter uma dispensa de serviço...</p>
+
+<p>&mdash;Nem pensar é bom, Sr. Director. Se me déssem licença eu hoje emendaria o
+dia com a noite para descontar o atrazo de hontem...<span
+class="pn">{68}</span></p>
+
+<p>&mdash;São excessos, Sr. Orlando. É justo que um chefe de familia precise dessas
+lacunas no serviço para gozar mais largamente as venturas de seu lar.</p>
+
+<p>&mdash;Estas, francamente, eu só poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz no
+acontecido.</p>
+
+<p>&mdash;E não o foi?</p>
+
+<p>&mdash;Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigação.</p>
+
+<p>&mdash;Qual foi o medico?</p>
+
+<p>&mdash;Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo.</p>
+
+<p>&mdash;Bons medicos, sem duvida.</p>
+
+<p>&mdash;E que hão de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como um
+horror...</p>
+
+<p>&mdash;Mandarei dar-te uma gratificação para cubrires com ella os extraordinarios
+desse acontecimento inquietador.</p>
+
+<p>&mdash;Não aceitarei, Sr. Director.</p>
+
+<p>&mdash;Porque assim?</p>
+
+<p>&mdash;Não é soberbia, não. Desculpe-me, mas eu não posso aceitar.</p>
+
+<p>&mdash;Quereria ter as razões dessa sua desattenção...</p>
+
+<p>&mdash;Não é desattenção, Sr. Supponha que eu aceito. Desfaço-me das minhas
+difficuldades graças ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo filho,
+nas mesmas condições<span class="pn">{69}</span> difficeis do primeiro. O Sr.
+descuida-se e eu não obtenho nova gratificação. Naturalmente me enciumarei com
+o seu procedimento e o que não quero hoje, não devo esperar amanhan... Pois não
+é?</p>
+
+<p>&mdash;Eu daria do melhor grado.</p>
+
+<p>&mdash;Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao
+depois, se a parturiente inspira cuidados...</p>
+
+<p>&mdash;Não se ficou bem ella?</p>
+
+<p>&mdash;Acho que não. Ao depois do parto, começou de ter desmaios consecutivos...
+</p>
+
+<p>&mdash;E o que recommendaram os medicos?</p>
+
+<p>&mdash;Repouso. Ó Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher é uma
+inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que Olivia
+padeceu.</p>
+
+<p>&mdash;Pois penso que devias retirar-te.</p>
+
+<p>&mdash;Não devo, Sr. Director. O lar é uma preoccupação para fóra das horas da
+secretaria.</p>
+
+<p>&mdash;Até o serviço poderia lucrar com a tua ausencia...</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, senhor, mas...</p>
+
+<p>&mdash;Admiras-te? Não queria falar-te com tanta franqueza para não te consumires
+ainda mais...</p>
+
+<p>&mdash;Por acaso commetti alguma outra falta?</p>
+
+<p>&mdash;Gravissima... Sabes porque te chamei?<span class="pn">{70}</span></p>
+
+<p>&mdash;Lealmente ignoro.</p>
+
+<p>&mdash;Porque te desconheci. Estás um desconchavado e erras todo o serviço. Pelos
+teus grandes creditos, és aqui dentro um rico de odios e de invejas. Conheço-os
+todos...</p>
+
+<p>&mdash;Agradecido, Sr. Director.</p>
+
+<p>&mdash;Cada companheiro teu é um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem com
+os teus lapsos o teu valor. Não o admitto eu.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, que fiz assim?</p>
+
+<p>&mdash;Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua informação.
+</p>
+
+<p>&mdash;Oh!... Esta cabeça...</p>
+
+<p>&mdash;A conta de Silva &amp; C.ª...</p>
+
+<p>&mdash;Sei!... sei!... Então... errei-a?</p>
+
+<p>&mdash;Inconvenientemente.</p>
+
+<p>&mdash;E sei porque perpetrei o engano...</p>
+
+<p>&mdash;É o que tu pensas...</p>
+
+<p>&mdash;Por ventura outro me corrigiu?</p>
+
+<p>&mdash;Absolutamente não. Serás tu mesmo quem fará este trabalho ao depois...</p>
+
+<p>&mdash;Porque não hoje?</p>
+
+<p>&mdash;Estás dispensado, incondicionalmente, do serviço por tres dias...</p>
+
+<p>&mdash;Não me conformo, Sr. Director.</p>
+
+<p>&mdash;Sou irrevogavel.</p>
+
+<p>&mdash;No maximo me satisfarei com o dia de hoje.<span class="pn">{71}</span></p>
+
+<p>&mdash;Serão tres dias irreductiveis, e pódes ir para a companhia de tua esposa
+descansar a tua cabeça. Vejo-te perturbado enormemente com o pensamento do que
+possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda!</p>
+
+<p>&mdash;Dá licença?</p>
+
+<p>&mdash;Pois não.</p>
+
+<p>&mdash;Ás ordens do Sr. Director.</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... Sr. Orlando?</p>
+
+<p>&mdash;Sou todo ouvidos.</p>
+
+<p>&mdash;Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? é homem?</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, Sr. Director... Mas... não lhe sei responder... Com a atrapalhação
+da hora não me lembrei... Ah!... sim...</p>
+
+<p>&mdash;Que respondes?</p>
+
+<p>&mdash;Desculpe-me, Sr. É justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem
+verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Sorrira o D<small>IRECTOR</small> e dispensàra de vez O<small>RLANDO</small>, com a
+ inveja crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos
+ factos...<span class="pn">{72}<br>
+ {73}</span> </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00800000">Á VISTA DA DENUNCIA</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{74}<br>
+{75}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00810000">Á VISTA DA DENUNCIA</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>O interior da envidraçada varanda, exornado com ipoméas e glycinias, em
+ cacos, orchidéas e arums nos recantos, não tinha senão a luz pallida, muito
+ pallida, de um luar de inverno, coado preguiçosamente pelos vãos das
+ grinaldas verdes.</p>
+
+ <p>Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma commettia a
+ indiscreção de transportar para alem, ao conhecimento da criadagem
+ bisbilhoteira, os amuos graves de C<small>LOVIS</small> e
+ A<small>MARYLLIA</small>.</p>
+
+ <p>A denuncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de ferro,
+ destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos grosseiros
+ perpetrados pelas mãos violentas de C<small>LOVIS</small>, que,
+ distrahindo-se um pouco com as<span class="pn">{76}</span> fumaradas de um
+ havana, ouvia, sem intervenções, as queixas de A<small>MARYLLIA</small>...
+ </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Como eu, tão ladina para outras, comprehendendo tão bem o mal alheio,
+deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amavel hoje, tinha sido um
+presente valioso hontem, era uma lembrança expressiva amanhan... E o meu
+filhinho servindo de <em>passe</em> para os maiores engodos!... Toda hora o
+telephone pedia Arthurzinho. Là se ia o innocente, coitadinho! E raramente
+voltava. Prendiam-n'o dias seguidos com a ama. Poderia eu desconfiar do
+embuste? Ha genios capazes de todas as villezas. O filho era o motivo da
+entrada do pae, os presentes eram as cinzas nos meus olhos, e os convites eram
+a perfidia da traiçoeira. Mas, agora, ou eu succumbirei, ou estará tudo
+acabado. Ouve-me bem, Clovis: nesta caza, emquanto eu viva fôr, Carlota jamais
+tornará, e se tu desceres à indignidade de voltar à caza dessa mulher, ouve
+bem! Serei eu quem irà buscar o tolo do esposo para te surprehendermos na
+sordidez. Sempre são os interessados nas<span class="pn">{77}</span> causas os
+que por ultimo se sentem logrados. <em>Il n'y a qu'un mot pour dire les
+choses.</em> Essa palavra não devo, porem, proferir sem macular os meus labios,
+sem regosijar o meu enganoso marido, e sem elevar a perdida que me furta a
+tranquillidade, que me logra no dom legal da fidelidade esponsalicia. Um dia
+desconfiei. A ama de Arthurzinho levava um pacote às escondidas, quando, para
+castigo, elle rolou ao chão, na hora da partida, quasi aos meus pés...
+Perguntei à cumplice que significava aquelle <em>embrulho</em>... Foi o sr.
+Clovis quem tomou a palavra: «é um romance que mando, a pedido, para D. Carlota
+ler...» Ingenuamente me convenci. Pois seria possivel que o meu marido
+trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraiçoava? que expuzesse o meu
+filho à infamação de ser posto junto à perfida, em lugar de seu pai gozado?...
+Ó meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me e vejo-me só. Roubada
+naquillo porque mais zelos e mais ciumes alimento, eu que me tenho submettido
+machinalmente à concepção de treze filhos, exgottando a minha juventude para
+parecer velha aos trinta e dois annos, assassinando a minha belleza, relaxando
+os meus tecidos, criando uma ruga nova em cada manhan em que me<span
+class="pn">{78}</span> olho ao espelho!... para ser recompensada duramente com
+uma traição, uma tripla traição, em que se envolveram as minhas lealdades de
+esposa, de mãe e... de amiga. Sim, porque, desgraçadamente o digo, tolerei a
+concubina de Clovis na intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por força
+dessa leviandade commum a todas as mulheres, terei dado causa de rizo à maldita
+que me engazupava. Contava-lhe os meus esforços para trazer sempre o meu marido
+na obrigação pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o
+recebia com intimas indisposições, para que regeitado uma feita elle se não
+atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a duvida de sua saciedade
+noutra fonte... Não sei onde estava escondido o sol de minha comprehensão que
+agora recenna a minha intelligencia. E uma miseria moral essa em que se
+prostitúe, com o conjuge das outras, uma velha, desrespeitadora das cans do
+esposo e da innocencia de suas filhas. Havia de ser là, naquella alcôva cheia
+de seducções, que o meu companheiro se convertia em assassino da paz de minha
+alma. Aos olhos daquellas tres criancinhas&mdash;mulheres faceis, por herança, que
+desabrocham nos comoros lamacentos da podridão materna&mdash;elles<span
+class="pn">{79}</span> dois se encaminhavam do leito, quantas vezes Clovis
+ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o ardentemente com o nome de pae!
+Bemdito o poeta que jà disse estar ao lado de cada homem uma féra monstruosa: o
+instincto. E esse poeta foi o meu proprio esposo, accusando toda a humanidade
+com o seu proprio mal. Foi preciso que uma generosidade extranha me avisasse
+para que eu conhecesse essa nova Mylitta babylonica, torpe, pantano no qual até
+a trahida companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram
+poderes lascivos. Ó injustiça divina! Porque não me despertaste, a mais tempo,
+do somno em que sonhei com a lealdade de um templo christão e me achava
+desgarrada na nave de um templo de Buddha?!... Foi hoje o assignalado dia de
+minha victoria. A carta chegou-me às mãos com as resteas violetas do sol posto.
+Li-a de um folego. O meu primeiro impeto, naturalmente, foi de indignação
+contra o denunciante. Mas, alli estavam os factos verificaveis, possiveis, e
+terrorosos. A noite veiu mais depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo.
+A verdadeira noite é essa em que tambem a alma se recolhe na escuridão de uma
+dôr apunhalante. O meu marido jantaria fóra,<span class="pn">{80}</span> num
+banquete intimo, mas numa sociedade festiva. Resolvi chamal-o prontamente às
+explicações de suas infidelidades. E fil-o sem tardada, não o nego. Á criada de
+Arthurzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha affectos meus por dar o
+seu leite à formação organica de meu filho, trouxe logo às contas. Não lhe
+disse a denuncia, não lhe proporcionei ensejo de contestar a sua acção, porque
+a interpellei segura do facto, inteiramente consciente do que fazia. E ella me
+confessou que levava e trazia romances immoraes, que levava e trazia cartas e
+recados... O instante unico! Ao depois, calma e friamente, sabendo que aguçava
+a minha dôr, revolveu-me nalma o punhal de seu descaro, revelando-me a
+indignidade de ser o meu filho abraçado e beijado ardentemente, durante a
+ausencia do pae, com o nome deste entre os labios da corruptora... Nega,
+Clovis, que não és o amante dessa barregan de padres, dessa immunda mulher que
+maculou o meu lar com a sua abjecta convivencia...</p>
+
+<p>&mdash;Nego, sim!</p>
+
+<p>&mdash;Fórte coragem! Jura que hontem não beijaste, quasi aos olhos do publico,
+no salão de visitas, os labios rôxos pelo cansaço da idade de Carlota.<span
+class="pn">{81}</span></p>
+
+<p>&mdash;Juro-te.</p>
+
+<p>&mdash;Leviano! Mente como quizeres. Mas, ouve: emquanto o meu corpo sentir as
+commoções do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquella devassa,
+emquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquella carta nas tuas vestias,
+que é o perfume de uso na alcôva de tua hervoeira, terei a coragem de
+repellir-te e de cerrar os meus labios às menores palavras para as nossas
+relações. E se, porventura, desconfiar eu que foste buscar, como uma abelha sem
+sorte, o nectar que se esconde na corolla daquella flor murcha e fanada, dentro
+desta caza, escuta bem Clovis, haverá a incompatibilidade de nós dois... É tu
+entrares e eu sahir, ou só ficarei se tu te fôres para sempre. Sabes quanto sou
+caprichosa, o bastante para não me arrepender das resoluções tomadas. Negas,
+ainda, o teu erro? Serei facil de perdoar-te com a verdade, tão facil quanto
+não te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade!</p>
+
+<p>&mdash;Nego, sim!</p>
+
+<p>&mdash;Quero convencer-me. A pé firme?</p>
+
+<p>&mdash;Com toda lealdade.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! É escusado irmos adiante: sabes o que está contido naquelle
+pacote?<span class="pn">{82}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ignóro.</p>
+
+<p>&mdash;São os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero
+devolvel-os.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, como?</p>
+
+<p>&mdash;Não os guardarei mais commigo.</p>
+
+<p>&mdash;Vais romper, então, com a familia do Aurelio?</p>
+
+<p>&mdash;Forçosamente.</p>
+
+<p>&mdash;É de mau alvitre.</p>
+
+<p>&mdash;Incommoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar com
+uma amizade que me aborrece, e se te excusares a esse acabamento, confessas o
+interesse que terás em manter a verminação desse convivio immundo...</p>
+
+<p>&mdash;Se encaras por este lado, rompe Amaryllia, devolve tudo do modo mais
+grosseiro.</p>
+
+<p>&mdash;Devolverei, sim, não ha que ver.</p>
+
+<p>&mdash;Estàs no teu direito.</p>
+
+<p>&mdash;E espero a tua sancção.</p>
+
+<p>&mdash;Jà a tens.</p>
+
+<p>&mdash;Não. Não a tenho ainda. A devolução não poderá ser feita sem uma carta.
+</p>
+
+<p>&mdash;Pois escreve-a!</p>
+
+<p>&mdash;Não! Tambem não! Serás tu...</p>
+
+<p>&mdash;Eu?!...</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?...<span class="pn">{83}</span>
+</p>
+
+<p>&mdash;Amaryllia, pensa bem! Nós, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos
+nessas rusgas de mulheres.</p>
+
+<p>&mdash;Comprehendo-te: romperei eu, e tu, às occultas quiçá, com menores
+apparencias, te dedicarás à continuação de teu adulterio. Has de ser quem
+escreverá a carta hoje mesmo, agora...</p>
+
+<p>&mdash;Convencer-te-às de minha innocencia?</p>
+
+<p>&mdash;De todo, não. Encaminhar-me-ei de convencer-me.</p>
+
+<p>&mdash;Não haja duvida. Dà-me papel e tinta. Escreverei num momento...</p>
+
+<p>&mdash;E pensas que escreverás como quizeres?</p>
+
+<p>&mdash;Não: como fôr conveniente.</p>
+
+<p>&mdash;Não te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado.</p>
+
+<p>&mdash;Quê?</p>
+
+<p>&mdash;Nos termos que me espoucarem arrevezadamente aos labios...</p>
+
+<p>&mdash;Mas...</p>
+
+<p>&mdash;Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga...</p>
+
+<p>&mdash;Amaryllia?!...</p>
+
+<p>&mdash;Virulenta e grosseira...</p>
+
+<p>&mdash;Faça-se a tua vontade.</p>
+
+<p>&mdash;Escreves?</p>
+
+<p>&mdash;Como quizeres.<span class="pn">{84}</span></p>
+
+<p>&mdash;E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquelle modo escripta?</p>
+
+<p>&mdash;A Carlota!</p>
+
+<p>&mdash;Não, Clovis. Quero que se escreva ao marido della, com o seu nome em todas
+as letras...</p>
+
+<p>&mdash;É demais!</p>
+
+<p>&mdash;Não retrocedas!</p>
+
+<p>&mdash;Abusas de minha bondade...</p>
+
+<p>&mdash;Enganas-te. Clovis, ou tu escreves como eu te determino, ou...</p>
+
+<p>&mdash;Absolutamente, não!</p>
+
+<p>&mdash;... ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A caza de meu pae terá
+sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortavel.</p>
+
+<p>&mdash;Tua alma, tua...</p>
+
+<p>&mdash;Sei bem! Queres o escandalo da separação para o renome do conquistador?
+Não te darei essa vantagem... Debaixo deste tecto, tragarás, Clovis, o amargo
+da tortura mais incondescendente, soffreràs a queimadura do inferno mais
+verdadeiro...<span class="pn">{85}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Ao longe, um relogio temerario, arriscou o aviso tetrico da meia-noite, ao
+ fim do qual, resolutamente, A<small>MARYLLIA</small> se retirou para o seu
+ leito...<span class="pn">{86}<br>
+ {87}</span> </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00900000">IRADO ATÉ À CURA...</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{88}<br>
+{89}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00910000">IRADO ATÉ À CURA...</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Ampla alcôva: no <em>armoire-à-glace</em> reflectida como outro vasto
+ commodo...</p>
+
+ <p>Rico mobiliario de pau-setim com incrustações de jacarandà reluzente...
+ </p>
+
+ <p>Um leito de cazados, e sobre elle, cadaverico, pelles e ossos, despojado
+ de carnes, ventrudo, olhar ancioso, o louro O<small>RMINDO</small>, luctando
+ com a morte...</p>
+
+ <p>É um erro de diagnostico, rebelde a enfermidade à medicação
+ despropositada. </p>
+
+ <p>Junto do leito, uma banca, e sobre esta, alem de um thermometro e de um
+ chronometro, desenvolta frascaria...</p>
+
+ <p>Aos pés da cama, fatigada, somnolenta, às vezes, D<small>OCA</small> é
+ heroina na vigilia: o seu semblante merencoreo<span class="pn">{90}</span> só
+ consegue alguma graça quando E<small>LOY</small> visita o enfermo. </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaços sorrateiramente... Doca, tu
+bem vês como eu morro todos os segundos, como eu minguo sem cessar...</p>
+
+<p>&mdash;Tem fé em Deus, Ormindo.</p>
+
+<p>&mdash;Morrerei com ella, sim. A fé! Ella é o facho illuminador da estrada
+eterna... Como deve ser doloroso não crer em nada, Doca!... Sentir a alma cahir
+no vacuo... Ah! não me conformo, porem... Morrer quando tanto preciso é
+viver... Vou deixar-te na penuria... a braços, por certo, com os creditos da
+medicina e da pharmacia...</p>
+
+<p>&mdash;Tu pensas demais.</p>
+
+<p>&mdash;Como não hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilharás a codea endurecida e
+atrazada. É com horror que prevejo as tuas infelicidades... És nova. Mas de que
+servirà a tua mocidade sem pão, os teus verdes annos sem um amparo? És bella.
+Mas de que prestarà a tua lindeza se não tiveres um manto para o frio e um
+abanico para o calor? Nova e<span class="pn">{91}</span> bella... na viuvez!
+Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei?</p>
+
+<p>&mdash;A pobreza é um estimulo, Ormindo: saberei trabalhar afim de haver com
+honra um pedaço de pão e alguns covados de fazendas...</p>
+
+<p>&mdash;Não te peço nada, e peço-te muito: não macúla o nome de teu marido. A
+herva reverdesce a fronde dos vegetaes, augmenta-lhes a copa, ennobrece-lhes o
+aspecto: crava-lhes, porem, até ao durano, as raizes assassinas e rouba-lhes a
+seiva até à morte. A arvore cessa de existir com a trepadeira phytocida que lhe
+rendilha os contornos. A mulher deve pensar que o bem-estar não é a honra, e
+que ha tranquillidades mais homicidas do que a herva do passarinho... A
+deshonra não provem da pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A deshonra é fructo
+das transigencias de alma, e a mulher viuva é a que póde peiormente
+transigir... Que dores!... Ui!...</p>
+
+<p>&mdash;Estàs vendo: peioras quando falas!</p>
+
+<p>&mdash;Doca, no meu caso extremo, a morte é assim qualquer coisa como uma sorte
+grande...</p>
+
+<p>&mdash;Num bilhete branco para mim que fico sem ti... Não sabes aproveitar o
+silencio como um meio de cura, não sabes tirar partido,<span
+class="pn">{92}</span> poupando forças para momentos mais graves...</p>
+
+<p>&mdash;Durarei muito pouco.</p>
+
+<p>&mdash;Não pódes saber mais do que os medicos.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! mulher! Só eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se avisinha
+o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam. É verdade, pois tenho
+neste momento a visão mais lucida dos meus primordios. Que é isto senão que se
+vai fechar a circumferencia de minha traslação em torno do vacuo universal? O
+aneurisma cresce, avoluma-se, rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a fórma
+de uma esphera, é um globo pequenino de vivos, na lucta pela existencia. Vai
+arrebentar, latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que
+nunca me illudi com a esperança da cura? Illudi-me, mas antes de todos...</p>
+
+<p>&mdash;Quem està vivo, Ormindo, ainda não està morto, e toda a cura é plausivel.
+</p>
+
+<p>&mdash;A tua dedicação é cega. Desde que adoeci, desde que sobre o coração senti
+a formação mortifera do mal circulatorio, certifiquei-me estar mais longe do
+mundo do que do nada. E deste momento para cà, que fiz para denunciar que creio
+na cura? Ao contrario, a minha vida tem sido a chamma de<span
+class="pn">{93}</span> uma véla a luctar com o sôpro das auras. Não ha um
+instante em que não me morra uma alegria, em que não nasça uma saudade. Em
+torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa teimosa em
+torno de uma lampada.</p>
+
+<p>&mdash;Aggravas-te, Ormindo! Cala a bocca por piedade! As tuas palavras são
+outros tantos punhaes que me sangram o coração.</p>
+
+<p>&mdash;Que horas serão?</p>
+
+<p>&mdash;Jà é noite.</p>
+
+<p>&mdash;E os medicos que não vieram?</p>
+
+<p>&mdash;Vieram, sim. Tu estavas dormindo.</p>
+
+<p>&mdash;Os medicos não vieram, não... Até a minha esposa conspira contra a minha
+existencia...</p>
+
+<p>&mdash;Não pesas as tuas palavras, Ormindo.</p>
+
+<p>&mdash;Jà sei de tudo. Perderam a esperança, abandonaram-me. Não passarei de
+hoje. Estou condemnado a horas.</p>
+
+<p>&mdash;Descansa um pouco.</p>
+
+<p>&mdash;Descansar, agora, só de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e parece-me
+que foi hontem à tarde que nos vimos pela primeira vez. Um sonho às vezes tem
+existencia mais real, porque nos acompanha do momento da concepção em criança
+ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me o ar...<span
+class="pn">{94}</span></p>
+
+<p>&mdash;Assim queres! Falas tanto...</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: não ha rio que não chegue ao mar.
+Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas consegue...
+Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez não te lembres mais do meu
+enfeitiçamento; não me esqueço eu do sorriso unico com que festejaste o nosso
+encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh! que lindo luar te prateou as
+pupilas, te diademou os cabellos e te banhou luciferamente as espaduas! Mezes
+depois, o cazamento... A noite de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso
+amor insatisfeito sempre para accordar novas caricias, para fomentar
+alegrias... A esperança de um filho... O recúo da esperança... E tudo isto
+acabar quando mesmo principiava?!...</p>
+
+<p>&mdash;Não temas a morte: um cerebro que pensa como o teu dà confiança na
+renascença da vida.</p>
+
+<p>&mdash;A alma não morre, Doca! É ella quem esta vivendo agora. Os pulmões
+fraqueiam, o coração tem espasmos, a visão escurece-se, a voz arrasta-se, mas o
+cerebro pensa... Crês tu que, porque não falam, todos os moribundos não pensam?
+Illudes-te! É a hora de maior pensamento. Só recompôr todo o passado<span
+class="pn">{95}</span> afim de o ligar ao presente e encerrar o circulo das
+sensações mundanas, é pensar robustamente. Um moribundo que eu vi, não tinha a
+fala. Os membros eram paralyticos, os olhos envidrados e photographavam a luz
+do dia para a eternidade... Pois bem! esse homem assim amortecido, repelliu com
+o gesto brusco de uma perna o supplicio de uma injecção nos ultimos
+instantes... Acaso, não pensaria mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros
+ha que conhecem até o segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser
+tocante o adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um
+agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecerà mais no
+extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro mundo...
+Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que não falo certo?</p>
+
+<p>&mdash;Não me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperança
+illuminar-me o rosto...</p>
+
+<p>&mdash;Como és amante?!... Quererias de coração e de alma, com todos os affectos
+e vontades, a minha cura?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado à saúde.<span
+class="pn">{96}</span></p>
+
+<p>&mdash;É bem pouco um desejo!</p>
+
+<p>&mdash;Duvidas que todas as minhas forças funccionam só na intenção de possuir-te
+novamente são?</p>
+
+<p>&mdash;Não duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a prolongação
+de minha tortura...</p>
+
+<p>&mdash;Aborrecer-me eu!...</p>
+
+<p>&mdash;E então?!...</p>
+
+<p>&mdash;Tens coragem! Só me representa que gravaràs na alma uma eterna
+desconfiança da amizade de tua esposa...</p>
+
+<p>&mdash;Isto não!</p>
+
+<p>&mdash;Pois parece, Ormindo!</p>
+
+<p>&mdash;Neste caso, escutas-me com agrado?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Posso falar?</p>
+
+<p>&mdash;Não.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! jà sei... É a mesma quesilia de que falar é um desperdicio de forças
+organicas...</p>
+
+<p>&mdash;Diz o doutor...</p>
+
+<p>&mdash;Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro
+conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar num
+terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido às intenções animaes dos
+homens, a equação da mulher é<span class="pn">{97}</span> perigosamente
+diversa. Virgem, ella tem a expressão de um sonho; esposa, representa uma
+realidade; e viuva, ella é uma alma em que se derramam os mananciaes copiosos
+da luxuria humana... Virgem, fôste uma criadora; esposa, uma inspiradora;
+viuva, seràs, em nome da honra de teu marido, uma redemptora... Ai!... Dóem-me
+os pulmões... Morrerei, porem, com todas as sensações...</p>
+
+<p>&mdash;Não morreràs, Ormindo!</p>
+
+<p>&mdash;São os teus votos?</p>
+
+<p>&mdash;Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda no
+instante derradeiro?</p>
+
+<p>&mdash;Não duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz.</p>
+
+<p>&mdash;Pois então?!...</p>
+
+<p>&mdash;Dà-me a tua mão...</p>
+
+<p>&mdash;Estàs frio!</p>
+
+<p>&mdash;É a gelidez da morte... Não tardarà... Fazes-me um favor?...</p>
+
+<p>&mdash;Se o faço...</p>
+
+<p>&mdash;É para depois de minha morte...</p>
+
+<p>&mdash;Juro-te.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, responde franca e precisamente, para que eu não succumba com uma
+duvida...</p>
+
+<p>&mdash;Pede o que quizeres... Pede... não!... ordena!<span class="pn">{98}</span>
+</p>
+
+<p>&mdash;Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se não me derrubou de vez, vai
+invadindo-me com o gêlo de seu halito das extremidades para o coração.
+Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez é um despenhadeiro. Peço-te em
+nome de minha tranquillidade, que te cases, immediatamente, afim de que não
+paire uma só nuvem sobre a limpidez do teu e do meu nome... Casarás logo...
+Peço-te... É o ultimo sacrificio em prol do teu defuncto...</p>
+
+<p>&mdash;Intranquillisas-me, Ormindo.</p>
+
+<p>&mdash;Não ha razão para isso.</p>
+
+<p>&mdash;Se tu mandas...</p>
+
+<p>&mdash;Mando, não; peço... Agradar-te-à Eloy?</p>
+
+<p>&mdash;Queres, Ormindo, a verdade antes da morte?</p>
+
+<p>&mdash;É isso...</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! O que tu propões jà estava assentado entre nós outros...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um grande
+ esforço e se salva com o despedaçamento brusco do myoma desconhecido, do
+ assassino erro de diagnóstico...<span class="pn">{99}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001000000">A HUNGARA</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{100}<br>
+{101}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001010000">A HUNGARA</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Commodo de hotel. Um fóco electrico esverdinhava o azul papel das paredes.
+ </p>
+
+ <p>Revolvido, o leito denunciava em duas cóvas a pressão de dois corpos que
+ nelle se afundaram.</p>
+
+ <p>S<small>ARAH</small>, a hungara, recebia G<small>UANABARINO</small>, o
+ chronista theatral, com um estridente signal de contentamento...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Aqui estou. Nem sei como acertei.</p>
+
+<p>&mdash;Estás apaixonado?</p>
+
+<p>&mdash;Crês, Sarah, que paixão desponte como um sorriso?<span
+class="pn">{102}</span></p>
+
+<p>&mdash;Quem te disse o meu nome?</p>
+
+<p>&mdash;Li-o nos programmas.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim. Gostaste do meu canto?</p>
+
+<p>&mdash;Não te ouvi.</p>
+
+<p>&mdash;Como te agradei?</p>
+
+<p>&mdash;Pertencendo a outro. A mulher sem dono custarà a topar com um amante.
+Rolarà uma eternidade como a pedra que não cria limo... Tenha um amante e
+dezenas surgirão...</p>
+
+<p>&mdash;Como elle é experiente!</p>
+
+<p>&mdash;Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por
+Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo braço delle, no teu longo
+<em>manteau</em> de sêdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo
+dezenas de mulheres no Café-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o canariar
+de suas vozes; francesas, que arrebatam com o <em>savoir-dire</em> as malicias
+mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus sapateados;
+americanas, que lembram bugios nos saltos do <em>cake-walk</em>... Todas são-me
+indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com cocottes para todo o
+mundo... De começo estive tentado a emprehender uma <em>ménage-à-trois</em> com
+uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo prohibido e vivia
+aferrolhado<span class="pn">{103}</span> à concupiscencia de seu proprio pae.
+Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente encontrei-me
+comtigo...</p>
+
+<p>&mdash;Ladrãosinho! Como elle sabe contar!</p>
+
+<p>&mdash;Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu
+amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de amigos
+attrahiu-me e a attracção de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um cumprimento
+com a cabeça. Não me teres sido apresentada, significou que o teu galan zelava
+de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho de seu progresso na
+sabedoria dos olhares que as pessôas cultas pódem trocar. Viste como te
+comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho para o <em>buffet</em>?
+Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo de junto de ti e como
+tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro? Na sombra dos pés da meza, os
+nossos corpos se trocavam desejos nos encontros, animavam-se tambem com os
+promettimentos mais claros, e as nossas carnes se queimavam por detraz dos
+tecidos de nossas vestias. Tudo isto, porem, ainda não é paixão. É um grito do
+instincto animal. Só nos não apaixonaremos se não quizermos...</p>
+
+<p>&mdash;Como sabes a vida!<span class="pn">{104}</span></p>
+
+<p>&mdash;Precisas prender Gustavo. A epoca é das melhores. O dinheiro passa-lhe
+pelas mãos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque, alem do
+mais, é um amante que, por força de ter mulher e filhos e morar longe, te darà
+muito tempo aos amores furtados.</p>
+
+<p>&mdash;Não os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo não se
+tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e só o trahi uma
+só vez: com o pae de meu filho. Gósto de um amor só, de ter um dono e de ser
+cubiçada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso, o Gustavo não me
+agrada... Prefiro-te a elle, serás o meu amante...</p>
+
+<p>&mdash;Erraràs se assim preferires, Sarah. Não tenho posses para te manter, ao
+passo que o Gustavo...</p>
+
+<p>&mdash;Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho para
+o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero...</p>
+
+<p>&mdash;Neste caso ficaràs com elle...</p>
+
+<p>&mdash;Porque então?</p>
+
+<p>&mdash;Conheceste-o primeiro.</p>
+
+<p>&mdash;Não importa isso. A elle conheci na manhan, a ti à noite, ambos no mesmo
+dia.<span class="pn">{105}</span> Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra.
+Encaminhou-me do hotel, e... má recommendação tem dado com os multifarios
+obsequios, com os gastos e as gentilezas, sómente com essas coisas... Ora, uma
+mulher como eu, ou quer o homem, ou não o quer... De minha parte dispenso as
+galanterias...</p>
+
+<p>&mdash;Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispôres de sua
+bolsa...</p>
+
+<p>&mdash;E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor...
+</p>
+
+<p>&mdash;Là com isto combino eu.</p>
+
+<p>&mdash;Assim, và que seja e comecemos...</p>
+
+<p>&mdash;Que tenho eu para tanto me olhares?...</p>
+
+<p>&mdash;Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes são
+dois vulcões. Como te chamas?</p>
+
+<p>&mdash;Guanabarino, um nome difficil.</p>
+
+<p>&mdash;Como?</p>
+
+<p>&mdash;Gua-na-ba-ri-no!</p>
+
+<p>&mdash;Gua-na...</p>
+
+<p>&mdash;... barino.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sei. Guanabarino. É a primeira vez que ouço esse nome. És brazileiro?
+</p>
+
+<p>&mdash;De corpo e alma. E tu?</p>
+
+<p>&mdash;Filha do sul da Hungria. Vim creança para a tua terra. Fui noiva, aprendi
+a cantar com um meu amante e vivo disto...<span class="pn">{106}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tens percorrido meio-mundo, hein?</p>
+
+<p>&mdash;Não: conheço a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia...</p>
+
+<p>&mdash;Dize outra vez esse termo...</p>
+
+<p>&mdash;Reminiscencia.</p>
+
+<p>&mdash;Que lindo! Parece-me, Sarah, que estás a dar uma serie de beijos...</p>
+
+<p>&mdash;Como elle é ardente!</p>
+
+<p>&mdash;De verdade?</p>
+
+<p>&mdash;A tua alma està fugindo-te pelos olhos...</p>
+
+<p>&mdash;Junto de um espirito como o teu, como ella não querer a transfusão carnal?
+Jà notaste o frio que regela as mãos do homem emocionado junto da mulher que o
+escalda?...</p>
+
+<p>&mdash;Ih!... Que gêlo!</p>
+
+<p>&mdash;Sabes explicar?</p>
+
+<p>&mdash;Não. É difficil?</p>
+
+<p>&mdash;Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao coração. As
+extremidades resfriaram-se. Tudo isto jà é começo de paixão... Falaste nos meus
+olhos! E os teus? São capazes de comprar o mundo com um só relance.</p>
+
+<p>&mdash;Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento?</p>
+
+<p>&mdash;Que graça! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas gentilezas.
+</p>
+
+<p>&mdash;Tens gozado tanto?<span class="pn">{107}</span></p>
+
+<p>&mdash;Inda perguntas?! Não sabes que o amor se fez para os temperamentos
+tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um desejo
+para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda hora: sinto que
+todo o teu sexo não seja uma só mulher para esta ser a minha amante...</p>
+
+<p>&mdash;Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino!</p>
+
+<p>&mdash;Não.</p>
+
+<p>&mdash;Desmentes o que asseguras.</p>
+
+<p>&mdash;Jà tiveste o teu quinhão.</p>
+
+<p>&mdash;Como assim?</p>
+
+<p>&mdash;Jà te possuiu o Gustavo...</p>
+
+<p>&mdash;Juro-te que não. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja revelada,
+ainda não desejou...</p>
+
+<p>&mdash;De facto?</p>
+
+<p>&mdash;Juro-te eu.</p>
+
+<p>&mdash;Ao depois delle... nunca!</p>
+
+<p>&mdash;Mas, porque? Mettes-me medo...</p>
+
+<p>&mdash;Por nada! O Gustavo é um homem para se temer...</p>
+
+<p>&mdash;E porque me inflúes para ser a sua amante?</p>
+
+<p>&mdash;Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu
+concubinato bem pódes usufruir grandes proventos. E, jà agora te direi: pouco
+mais fará elle do que<span class="pn">{108}</span> hoje... Entretanto, como
+homem de recursos, talvez ainda não te désse a menor prova do que seja...</p>
+
+<p>&mdash;Fez-me hoje a oblata de um collar de libras...</p>
+
+<p>&mdash;Um collar?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;De libras esterlinas?</p>
+
+<p>&mdash;Conheces?</p>
+
+<p>&mdash;Acho que não. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos...</p>
+
+<p>&mdash;Foram presente.</p>
+
+<p>&mdash;Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros
+meios que não esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe
+aqui...</p>
+
+<p>&mdash;Não amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de
+<em>chanteuse</em>. Ás vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a
+primeira a não regeitar o que me dão. Um deputado deu-me este annel...</p>
+
+<p>&mdash;Adoravel!</p>
+
+<p>&mdash;Um advogado, ao depois de uma perseguição de mezes, para eu o receber,
+offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho aquinhoou-me
+apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio, outras...</p>
+
+<p>&mdash;Muito em cheio, Sarah!<span class="pn">{109}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tu falas? Um mineiro, hoje desesperançado de conseguir a minha
+retribuição, deu-me estes correntões para atilios...</p>
+
+<p>&mdash;Que lindas fórmas!</p>
+
+<p>&mdash;Mostro-te apenas os atilios e não as pernas...</p>
+
+<p>&mdash;E eu vejo tudo! É admiravel como o <em>fraise</em> das meias se destaca no
+gêsso das tuas pelles...</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me cubrissem
+de oiro tenho tido às carradas... mas, um só que me dissesse coisas tão lindas,
+nunca tive... A palavra inescutada é tambem uma joia preciosa. E para retribuir
+tantas distincções ineditas só um beijo de muita paixão, só um beijo...</p>
+
+<p>&mdash;Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e déste mais de mil...</p>
+
+<p>&mdash;Longe disto, tu não me recompensaste com um só... Reparei bem...</p>
+
+<p>&mdash;Desculpa. Mas, quando sou beijado, não beijo. Esta caricia deve ser sempre
+espontanea e impagavel. E eu não commetto a grosseira sensualidade de pagar uma
+caricia...</p>
+
+<p>&mdash;Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan...</p>
+
+<p>&mdash;Com todo o fervor...<span class="pn">{110}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não te enciumas?</p>
+
+<p>&mdash;Não. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de ouro
+que elle te der.</p>
+
+<p>&mdash;Queres ver o collar de hoje?</p>
+
+<p>&mdash;Verei.</p>
+
+<p>&mdash;Elle me prometteu para amanhan um relogio e um correntão.</p>
+
+<p>&mdash;Aproveita, Sarah! Gustavo desperdiça dinheiros de herança...</p>
+
+<p>&mdash;Vês tu o bello collar?</p>
+
+<p>&mdash;É lindo!... Elle t'o deu?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Esta joia?</p>
+
+<p>&mdash;Que significa o teu espanto?</p>
+
+<p>&mdash;É que este collar é...</p>
+
+<p>&mdash;Falso?</p>
+
+<p>&mdash;Não! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo...</p>
+
+<p>&mdash;Agora é minha!</p>
+
+<p>&mdash;Estàs no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos...</p>
+
+<p>&mdash;E só a ti amarei, Guanabarino!...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de G<small>USTAVO</small><span
+ class="pn">{111}</span> evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando
+ o silencio somnolento do casarão do hotel, a figura caprina de um mal
+ conhecido visinho de quarto...<span class="pn">{112}<br>
+ {113}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001100000">DEPOIS DO COMETA</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{114}<br>
+{115}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001110000">DEPOIS DO COMETA</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta,
+ A<small>LEXANDRINA</small> ergueu-se da <em>steeple-chaise</em>, e beijou a
+ mão da velha senhora D. C<small>AROLINA</small>, que acompanhava
+ M<small>IMI</small>, naquella matutina visita de nupcias.</p>
+
+ <p>Ao depois, como duas flores de uma só haste separadas para sempre que se
+ reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braços a figura da
+ amiga e beijaram-se fartamente.</p>
+
+ <p>De outro lado, A<small>RTHUR</small>, o novel esposo, enfardado no seu
+ dolman de brins brancos, cumprimentàra, ceremoniosamente, a
+ D<small>ONA</small> C<small>AROLINA</small> e com um sorrizo prazenteiro
+ applaudiu as bregeirices de M<small>IMI</small>.</p>
+
+ <p>Esta e A<small>LEXANDRINA</small>, ao depois de affaveis cumprimentos
+ geraes, confidenciavam numa janella, por<span class="pn">{116}</span> detraz
+ de arrendadas cortinas, onde se foram acastellar para a permuta de
+ segredos... </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;A que horas despertaste?</p>
+
+<p>&mdash;Nem sei mesmo...</p>
+
+<p>&mdash;Não é possivel.</p>
+
+<p>&mdash;Palavra!</p>
+
+<p>&mdash;Então ferraste no somno, e...</p>
+
+<p>&mdash;Ao contrario: não durmimos.</p>
+
+<p>&mdash;É exquisito.</p>
+
+<p>&mdash;Como te enganas! Não calculas o que seja a estafa de um dia de noivado.
+</p>
+
+<p>&mdash;O dia mais bello da mulher...</p>
+
+<p>&mdash;Parece-te?</p>
+
+<p>&mdash;Esta é bôa, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: não te sentiste
+extraordinariamente feliz?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim... Casei-me por meu gosto...</p>
+
+<p>&mdash;Olha que já me pareces outra com tanta sisudez e seccura...</p>
+
+<p>&mdash;Não é, Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. É preciso
+que não me tenham na conta de alguma leviana: jà hoje em dia, minha amiga,
+tenho segredos que te não posso falar...<span class="pn">{117}</span></p>
+
+<p>&mdash;Prohibiram-te de dizer-m'os..</p>
+
+<p>&mdash;Não! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alteração na vida de uma mulher que
+se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida conjugal, que
+nem sei como me reconheceste hoje... Jà viste, no craveiro, o botãosinho verde;
+o casúlo de folhas, como, na manhan seguinte, está um perfumoso cravo, uma flor
+distincta? Se te dessem as duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o
+facto como inveridico...</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu te vejo a mesma boniteza...</p>
+
+<p>&mdash;Sim! É questão de alma. Suppõe que adormeceste no começo de uma viagem e
+que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo seria o
+mesmo, a tua lindeza não seria transformada, mas o teu coração palpitaria
+diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As tuas amigas ficariam
+noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso que regressasses ou que ellas
+viajassem para onde fôras. Assim no cazamento: viajei para muito longe de ti.
+Para nos irmanarmos como dantes, ou voltarei à minha immaculabilidade de
+hontem, o que seria impossivel, ou tu ascenderás ao matrimonio para o que faço
+votos.</p>
+
+<p>&mdash;Tens razão!<span class="pn">{118}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não te parece?</p>
+
+<p>&mdash;Falas e procedes tão judiciosamente que não me atrevo a duvidar das
+alterações por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o cazamento
+para não me esquecer tão depressa das intimidades com as minhas amigas...</p>
+
+<p>&mdash;Não me esqueci. És injusta! Não te darei novas confidencias: as velhas,
+entretanto, ficarão acariciadas como um sonho de felicidades na vida de uma
+mulher inditosa.</p>
+
+<p>&mdash;Pois pensei que me dirias tudo...</p>
+
+<p>&mdash;Tudo... quê?</p>
+
+<p>&mdash;Ora!</p>
+
+<p>&mdash;Denuncias que pensas em algumas coisas que não são veridicas, ou, pelo
+menos, não o foram para mim.</p>
+
+<p>&mdash;Foste differente das outras!</p>
+
+<p>&mdash;Offendes-me.</p>
+
+<p>&mdash;Não te offendo, não. Desconheço-te.</p>
+
+<p>&mdash;Que quererias tu que eu te falasse?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses.</p>
+
+<p>&mdash;Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha com
+um olhar seriamente investigador e tua mãe franze o sobrolho para mim... Um ha
+de<span class="pn">{119}</span> suppôr-me indiscreta para te communicar
+tolices... e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras...</p>
+
+<p>&mdash;Não! Deixa...</p>
+
+<p>&mdash;És má! Tens talento e não queres comprehender a minha situação,
+especialmente no dia de hoje.</p>
+
+<p>&mdash;Jà te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres...</p>
+
+<p>&mdash;Amúas sem razão.</p>
+
+<p>&mdash;Com que direito a planta exige viço da flor que já foi colhida?
+Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre nós duas existe a alma do sr.
+Arthur...</p>
+
+<p>&mdash;Não exaggeres...</p>
+
+<p>&mdash;Pódes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirás delle tambem. Os meus
+serão contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo, porque não
+deve haver um conhecimento novo que não pertença a ambos: os delle... morrerão
+comtigo, porque não deves trahir à tua fé conjugal...</p>
+
+<p>&mdash;És incondescendente!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sou incondescendente na verdade das cousas.</p>
+
+<p>&mdash;Em parte, minha amiga.</p>
+
+<p>&mdash;Não. Em tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Veremos.<span class="pn">{120}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois experimenta!</p>
+
+<p>&mdash;E se eu te provar?</p>
+
+<p>&mdash;Pago-te com um beijo...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! Pois então a mulher que se cazou póde beijar outra pessôa que não seja
+o seu esposo?</p>
+
+<p>&mdash;Deste modo, Mimi, não chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha
+conversas... O que te conversei até hontem, não conversarei jamais com o meu
+esposo. O que te converso agora, não conversarei jamais com a tua maman.
+Beijos!... Os que te dou são da ordem dos que sempre te dei...</p>
+
+<p>&mdash;Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei se sómente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei
+quantas tem...</p>
+
+<p>&mdash;Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes ou
+não ao teu marido?</p>
+
+<p>&mdash;Conforme.</p>
+
+<p>&mdash;Não é caso de dubiedades. Dizes ou não?</p>
+
+<p>&mdash;Se fôr só do teu interesse, não.</p>
+
+<p>&mdash;Faço-te justiça, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao
+falseamento agora, sómente agora, do teu dever. Contarás tudo o que te
+disserem, ou serás uma perjura na fé<span class="pn">{121}</span> conjugal. Eu
+mesma duvidaria de tuas intenções, se occultasses do teu marido o menor
+acontecimento que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de
+descobrir sempre esse interesse que não é exclusivo da pessôa que te fallou,
+para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de parte, e
+affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres...</p>
+
+<p>&mdash;Dou-te razão, minha amiga. O mundo é esse mesmo e não serei eu quem o
+modificará.</p>
+
+<p>&mdash;Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva!</p>
+
+<p>&mdash;Achaste?</p>
+
+<p>&mdash;Encantadoramente bella!</p>
+
+<p>&mdash;E tu me viste?</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem à porta da
+igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja.</p>
+
+<p>&mdash;Era a ultima nota do meu pudor de virgem!</p>
+
+<p>&mdash;A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro
+assentou-te a grinalda como uma corôa de rainha. Agradou-me a tua elegancia. E,
+porque não te censurar? só não gostei de trazeres os olhos<span
+class="pn">{122}</span> humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar
+esplendido.</p>
+
+<p>&mdash;Lisonjeira!</p>
+
+<p>&mdash;Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multidões que se
+dominavam com a curiosidade de ver-me...</p>
+
+<p>&mdash;Tens razão. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem saber
+que... mais tarde...</p>
+
+<p>&mdash;Dize... dize...</p>
+
+<p>&mdash;Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais
+algozes...</p>
+
+<p>&mdash;De véras?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha amiga! Não calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh!
+Digo-te de mais! Perdôa se te offendo...</p>
+
+<p>&mdash;Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que, ainda
+ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu?</p>
+
+<p>&mdash;Guardei-o já para offerenda a uma Santa.</p>
+
+<p>&mdash;Quem t'o tirou?</p>
+
+<p>&mdash;A maman... Arthur conversava no salão com o papà e dois amigos
+retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem jà era alta hora da madrugada.
+Duas ou tres, não sei.</p>
+
+<p>&mdash;E o teu vestido? Era primoroso...</p>
+
+<p>&mdash;Está no <em>armoire-à-glace</em>...<span class="pn">{123}</span></p>
+
+<p>&mdash;Muito amarrotado?</p>
+
+<p>&mdash;Não. Quando o despi... chorei! Como é que uma mulher só se veste tão bem
+uma vez na vida?!...</p>
+
+<p>&mdash;Choraste, Alexandrina?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;É de mau agoiro. Dizem que morrerá primeiro aquelle que chora...</p>
+
+<p>&mdash;Não sabia.</p>
+
+<p>&mdash;Nem que morrerá antes do outro o que se deitou por primeiro?</p>
+
+<p>&mdash;Tambem não! E por isso tambem serei eu quem morrerá antes...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! já estavas deitada quando elle appareceu na alcôva?</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mãos, tratou do
+successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada, desde as
+asperezas do juiz cazamenteiro, até às melifluidades de voz do sacerdote,
+quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal. Recompuzemos a sociedade que
+aqui esteve. As dansas, o serviço de <em>buffet</em>, a ceremonia do chá...
+Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa, eu lembrava outra. Sorriamo-nos,
+commentavamos, com seriedade, as incorrecções dos outros...</p>
+
+<p>&mdash;E o tempo se passava...<span class="pn">{124}</span></p>
+
+<p>&mdash;É exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. Não sabes, porem, como
+foi opportuna a nossa conversação. Quando extremecemos, ouviu-se o tiro das
+cinco horas...</p>
+
+<p>&mdash;E então?</p>
+
+<p>&mdash;Arthur lembrou-se do cometa... Já o viste?</p>
+
+<p>&mdash;Ainda não!</p>
+
+<p>&mdash;Pois é bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada do
+meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Interrompidas por D<small>ONA</small> C<small>AROLINA</small>,
+ M<small>IMI</small> e A<small>LEXANDRINA</small>, dando-se as mãos,
+ nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na conversação
+ commum...<span class="pn">{125}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001200000">AMORES NO CLAUSTRO</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{126}<br>
+{127}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001210000">AMORES NO CLAUSTRO</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Um ar tépido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos, instigador
+ do sensualismo mais humano e menos animal, era o excellente conforto da cella
+ de F<small>REY</small> P<small>ATRICIO</small>.</p>
+
+ <p>Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de dedos
+ enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro e o seu
+ affectuoso irmão de ordem, F<small>REY</small> T<small>HOMASIO</small>,
+ palravam gostosamente de coisas alegres...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resolução
+improvisada...</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu, não! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e não venci:
+fui derrotado.<span class="pn">{128}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não posso crer facilmente.</p>
+
+<p>&mdash;É a verdade, irmão Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no sepulchro.
+Para aqui trouxe o meu corpo, e, là fóra, borboleteando, sem parar, a minha
+alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella animava. Emquanto moço,
+nas minhas preces só o nome de uma mulher viçava triumphante...</p>
+
+<p>&mdash;Tambem a mulher...</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Preconceitos, preconceitos! A baronía estulta de uma familia
+asphyxiou sem dó a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje, tremo
+de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre hymnos e
+bemdições, tel-a-ia levado, não à cova, sublevando-se contra os pais, sim ao
+hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem cuidados naquillo que
+outros apreçavam&mdash;a feeria dos titulos nobiliarchicos&mdash;vivemos apenas pelas
+suggestões do sentimento que nos venceu...</p>
+
+<p>&mdash;Os teus labios tremem, irmão Patricio, as tuas pupilas se inflammam e
+olham por sobre nós para tempos bem distanciados...</p>
+
+<p>&mdash;Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingança que exerci contra
+mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia ainda, mas
+respirando<span class="pn">{129}</span> balões de oxygenio. Artificios da
+sciencia! E tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo,
+naquella tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do
+esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A vista
+annuviou-se-me e, balouçadas pela briza, as rendas do esquife me disseram um
+adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenços muito brancos, molhados de
+lagrimas... Succumbi deante da falsa visão e esmaeci... debruçado sobre aquelle
+leito, onde chorei incansavelmente irado&mdash;Deus me perdôe!&mdash;como o mais pecador
+dos homens...</p>
+
+<p>&mdash;Tanto poude o amor!</p>
+
+<p>&mdash;A mola do mundo, Frei Thomasio, é a mulher. Não ha um burel aqui dentro
+que não seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem corriqueira e
+profanamente os francêses, <em>chercher la femme</em>... Por ventura não
+professaste como os outros?</p>
+
+<p>&mdash;Sem tirar nem pôr na cauza.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre assim.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu
+entre os outros homens e te elegeu o seu preferido.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! por certo.</p>
+
+<p>&mdash;Quem me déra!<span class="pn">{130}</span></p>
+
+<p>&mdash;E que te faltou, Frei Thomasio?</p>
+
+<p>&mdash;Justamente o amor.</p>
+
+<p>&mdash;Intrigas-me de véras.</p>
+
+<p>&mdash;Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei
+mocinho?</p>
+
+<p>&mdash;Se me lembro!...</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era menino,
+e se me dissessem que o heliantho foi obra da pretenção e do desabuso de
+Hephaestos querendo, como um Deus, criar sóes e mais sóes, todo o credito eu
+daria, porque não tinha discernimento para me salvar das tentações humanas...
+</p>
+
+<p>&mdash;Que são as verdadeiras tentações da serpente no Paraiso...</p>
+
+<p>&mdash;Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o carreiro
+que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas e ramos para
+sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambições de saber...
+Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as primeiras cousas de
+amor...</p>
+
+<p>&mdash;E não lias o <em>Cantico dos Canticos</em>!</p>
+
+<p>&mdash;Ah! não! Fui sabendo que, como Eva fôra criada para acompanhar o primeiro
+homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os<span class="pn">{131}</span>
+arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com olhos de
+escaldo...</p>
+
+<p>&mdash;Que maganão!</p>
+
+<p>&mdash;E não peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas
+amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o cortejo dos
+mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras não tinham as calenturas de um
+amor, ella abrasava na abundancia das pretenções exaltadas: todos à porfia lhe
+disputavam a preferencia... Tolamente eu era conduzido entre os fascinados pelo
+olhar da moçoila cortejada.</p>
+
+<p>&mdash;Estou vendo que eras o preferido...</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, porque não tive capacidade para aquilatar, bem como porque&mdash;e
+daqui se originou a minha principal historia&mdash;troquei logo essa espectativa de
+amor bem aventurado por uma effectividade de amor bem triste... Mas sei que os
+olhares dos meus velhinhos cahiam sobre nós dois como punhados de olorosos
+jasmins, quando elles nos viam, quaes dois noivos conscientes, em falações na
+varanda arborisada de nossa caza, amorosamente illuminados pela lua...</p>
+
+<p>&mdash;Bem feliz que ias para a vida entrando, irmão Thomasio?<span
+class="pn">{132}</span></p>
+
+<p>&mdash;Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a minha
+desdita foi ella a que mais lagrimas chorou... Ora, se a intuição de amar
+crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais fulgentes e chispantes,
+me sensualisaram todo e a carne arvorou-se em maior do que o sentimento...</p>
+
+<p>&mdash;O pecado!</p>
+
+<p>&mdash;Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, às vezes
+ainda peiando cigarras e apedrejando, com rudes instinctos, os inoffensivos
+gaturamos, fui prendendo-me às ardencias das esbrazeadas pupilas de uma mulher
+facil... A principio, quando o seu olhar incidia sobre mim, eu cerrava os
+olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer, pensava nas ternuras da outra. Nada
+mais. Os dias repetiam-se e as scenas mudavam-se, crescendo as investidas e
+diminuindo a resistencia. Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da
+aggressora, eu sentia uma purpuridão nas faces, mas incolume proseguia o meu
+caminho... Mais tempo, e duas, tres, quatro vezes, voltava-me para trocar
+sorrisos... Em caza, a presença da outra, começou de aborrecer-me. Á noite, por
+sobre as paginas abertas dos meus livros, dansavam cabrioladamente as imagens
+das duas mulheres. E eu<span class="pn">{133}</span> me decidia fragorosamente
+pela menos conhecida. Um dia, notei que os labios da extranha se moviam. Nada
+percebi, no entanto. Que ella falava, eu estava certo. Nas passagens seguintes,
+com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo exquisito. Duas syllabas apenas, e,
+se não te offendo nem abuso de tua condescendencia, irmão Patricio, dir-t'o-ei
+jà...</p>
+
+<p>&mdash;Faço mesmo questão de sabel-o...</p>
+
+<p>&mdash;Jà que queres ouvir-me, continuarei...</p>
+
+<p>&mdash;Continúa...</p>
+
+<p>&mdash;A deslumbrante mulher dizia-me apenas: «Tico»...</p>
+
+<p>&mdash;Olá!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocabulo...</p>
+
+<p>&mdash;Nada sei explicar-te, Frey Patricio, senão que corri os diccionarios dos
+meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo
+convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo
+investigador, depois de algumas pesquisas fóra da convivencia dos collegas,
+soprou-me segredadamente: «<em>Tico é um convite... E quando ouvires, responde
+taco...</em>» Corei deante da revelação e maldei de tudo. O meu primeiro
+impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me furtar às seducções de
+Almira...</p>
+
+<p>&mdash;Que bello nome, e lendario!<span class="pn">{134}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tive, porem, de ceder à contingencia dos factos. Não era possivel andar
+por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti da ideia e
+affrontei a tentação. Com o tempo fui cedendo. E, um bello dia, como se diz là
+fóra, escorreguei... «Tico!», disse-me ella, e eu lhe oppuz murmuradamente
+quasi: «Taco!» Em resposta, ouvi: «Amanhan!» Que noite, Frey Patricio! Se ha
+caldeiras para queimar almas, nós as experimentamos quando fazemos a espera de
+alguma coisa. Não durmi, confesso. E, para encurtar as razões, só acordei,
+effectivamente, quando, advertido por ella de que là iria chegar o seu homem,
+me vi escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse
+esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que cresceram e
+motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que creatura perversa! Foi às
+bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho animal me arrancou de debaixo das
+pilhas de saccos, às bastonadas, Frey Patricio...</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... ah!... ah!... ah!</p>
+
+<p>&mdash;Não rias, Irmão!</p>
+
+<p>&mdash;Não te zangues, Frei Thomasio. Não me posso conter... A tua historia é
+alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!...<span class="pn">{135}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nem sei como de maus tratos não me acabaram naquella hora furiosa... E
+quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais!</p>
+
+<p>&mdash;Pudéra!... Ah! ah! ah! ah!...</p>
+
+<p>&mdash;Aliás, não foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido jà, e voltando
+aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia: «Taco?»... e eu a
+repellia instinctivamente... «Nem tico, nem taco... nem là dentro do teu
+sacco...»</p>
+
+<p>&mdash;É bôa, é bôa!... Ah!... ah!... ah!... ah!...</p>
+
+<p>&mdash;Em seguida...</p>
+
+<p>&mdash;Sim...</p>
+
+<p>&mdash;... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos conhecidos me
+estygmatisava com o escandalo, e soffri, abrazadoramente. Ninita, escandalisada
+com a minha quéda, definiu-se por outro, que a recebeu como esposa perante
+Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim mesmo... O mundo era um tedio... Então
+pensei no vicio...</p>
+
+<p>&mdash;Mizericordia!</p>
+
+<p>&mdash;Mas, não era?... Para abafar uma mizeria moral, só outra maior... ou o
+passo que dei...<span class="pn">{136}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>A bronzea sineta da confraria, não se retendo na missão avisadora, chamava
+ a Ordem para a humilde refeição da noite.</p>
+
+ <p>E quando F<small>REY</small> P<small>ATRICIO</small> chegou ao salão, na
+ companhia de F<small>REY </small>T<small>HOMASIO</small>, jà se liam,
+ emphaticamente, as consoantes orações da hora.<span class="pn">{137}</span>
+ </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001300000">A CONSULÊZA</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{138}<br>
+{139}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001310000">A CONSULÊZA</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>De <em>maillot</em>, apenas, arrebicando as faces diante de um espelho,
+ N<small>INA</small>, a bailadeira, tinha um milhão de pensamentos banaes no
+ cerebro ardente.</p>
+
+ <p>Os traços da sepia e os rebordos do nanquim, já lhe accentuavam a grande
+ vivacidade do olhar, e o pó de arroz attenuava e embellecia as côres roseas
+ do rosto criadas pelo carmin vencedor.</p>
+
+ <p>Uma vez por outra, deixava de conformar-se, para attender aos appellos da
+ porta, de onde, sem deixar ninguem penetrar, voltava enfastiada com as
+ iterações de extranhos.</p>
+
+ <p>Esperava O<small>CTAVIO</small>: era o <em>aimant du coeur</em>, porque o
+ C<small>ONSUL</small>, o velho<span class="pn">{140}</span> francês, pelas
+ suas funcções representativas, evitava aquelles encontros mais notorios...
+ </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Nina?</p>
+
+<p>&mdash;Quem bate? Octavio?</p>
+
+<p>&mdash;Elle, sim!</p>
+
+<p>&mdash;Entra, meu rico amor!</p>
+
+<p>&mdash;Fiz-me esperar, hein?</p>
+
+<p>&mdash;Nem tanto, mas eu tenho a regalia de poder cheirar-te as vestimentas para
+saber se tiveste o contacto do corpo de outra mulher, de vistoriar-lhe o
+casaco, para descobrir ahi os fios perdidos dos cabellos da que me logrou...
+</p>
+
+<p>&mdash;Descansa o teu coração. Vivo inteiramente para ti. E emquanto estou longe
+do teu olhar, sou como o barro que espera, ardorosamente, a toda a hora, a
+plasmagem do artista. Por elle, passam e voltam, vão e tornam, todos os
+profanos: mas elle não é menos monopolisador de sua plasticidade do que uma
+flor do gnomo que só abra a horas certas...</p>
+
+<p>&mdash;Não sabes? O Consul pediu-me a noite...</p>
+
+<p>&mdash;E deste-lh'a?<span class="pn">{141}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nem sei...</p>
+
+<p>&mdash;Já me toma os dias inteiros... Entra agora pelas noites... Que horas serão
+as minhas?</p>
+
+<p>&mdash;Todas até. Aturo-o porque tu consentes.</p>
+
+<p>&mdash;Exactamente. Mas elle vem a prejudicar-me se continúas a não se satisfazer
+com o que lhe dás. Ás vezes, lá para as tantas do dia, penso em ti. O brazido
+abre em chammas ao menor sopro. O incendio alastra. Quero remediar-me e soffrer
+a caricia dos teus beijos anti-incendiarios. Vem logo a certeza de que o Consul
+te frequenta o dia inteiro. Esmoreço. Abomino-me e espero confiante o prazer da
+noite. Tenho sido certo e insubstituido. De agora por diante, nem mesmo nas
+noites poderei confiar. Ao amante nunca lhe dês demais. Se te pede uma hora,
+dá-lhe meia, se te pede um dia, dá-lhe horas, se te pede uma noite, dá-lhe um
+dia, e reduze sempre as suas pretenções. Ao contrario, todo o tempo será
+absorvido. E, quanto ao mais, espera-te hoje a ventura. Vais dormir com o
+Consul... Estou libertado...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! não! Que succede Octavio?</p>
+
+<p>&mdash;Nada. Não estorvo os teus anhelos. Leva comtigo o Consul. Dá-lhe o meu
+lugar,<span class="pn">{142}</span> mas dize-lhe, ao menos, que não me
+occultaste a entrada delle no leito que deixo vasio...</p>
+
+<p>&mdash;Espera um pouco que te falarei melhor. É só acabar de toucar-me...</p>
+
+<p>&mdash;Careces de mim?</p>
+
+<p>&mdash;Não me aborrece, Octavio!</p>
+
+<p>&mdash;Pensei sempre que valhesse mais do que todos os outros teus amantes. Vejo,
+entretanto, agora, que um existe mais poderoso ainda do que todos nós
+reunidos...</p>
+
+<p>&mdash;Vale a pena a descuberta.</p>
+
+<p>&mdash;Desmente-me, pois. Não tens um amante que preferes ao Consul, um amante
+deante do qual te esqueces mesmo de mim?</p>
+
+<p>&mdash;Dizes-me coisas extraordinarias...</p>
+
+<p>&mdash;Contesta a existencia desse outro amante omnipoderoso, que motiva teres-me
+deixado no exilio deste divan, na semi-obscuridão de teu camarim...</p>
+
+<p>&mdash;Não és amavel.</p>
+
+<p>&mdash;De mais em mais se confirma o que te digo: nem tens animo, por causa delle
+mesmo, para contestares o que te affirmo de um modo tão categorico... Digo-te
+centos de coisas e nada te abstrai desse amante unico...</p>
+
+<p>&mdash;Agora, sim! Dei um ultimo retoque nos meus preparativos de scena... Que te
+pareço de <em>maillot</em>?<span class="pn">{143}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não trato disto. Refiro-me ao teu poderoso amante.</p>
+
+<p>&mdash;O Consul?</p>
+
+<p>&mdash;Não sabia que este seja poderoso. Mas não é a elle. Ao outro, deante do
+qual te esqueces de mim, do Consul e de alguns menos e mais cotados do que nós
+outros...</p>
+
+<p>&mdash;Amante?</p>
+
+<p>&mdash;De certo. Negas que não te absorve elle mais do que qualquer de nós?</p>
+
+<p>&mdash;Nego.</p>
+
+<p>&mdash;Contestas que exista esse amante?</p>
+
+<p>&mdash;Juro-te mesmo.</p>
+
+<p>&mdash;Vê lá que não me enganas...</p>
+
+<p>&mdash;Quem será, Octavio?</p>
+
+<p>&mdash;O teu espelho...</p>
+
+<p>&mdash;Aceito a graça. Em troca, porem, vais dizer-me o que julgas de meus trajos
+em <em>maillot</em>?...</p>
+
+<p>&mdash;Julgo mal, porque te acho parecida com uma lebre a quem cortaram cerce
+todos os pellos... Assim muito delambida, muito escorrida, muito masculina...
+</p>
+
+<p>&mdash;Tens espirito.</p>
+
+<p>&mdash;E fui franco do modo que tu me pediste. Veste as rendas, sobrepõe as
+sedas, ou tira o <em>maillot</em>. Se vamos ao mundo, todos os atavios, todos
+os <em>soutaches</em>, applicações e <em>manteaux</em><span
+class="pn">{144}</span> serão poucos; se ficamos aqui, o menor fragmento de
+tecido mais fino, será demais... Ou o extremo enroupamento, ou a extrema
+nudez...</p>
+
+<p>&mdash;Figuremos duas hypotheses. Se me visses enroupada, com um luxuoso vestido,
+de muitas rendas, muitas fitas, muito decóte, muita joia, e lindo chapeu de
+plumas, que farias de mim?</p>
+
+<p>&mdash;É essa a primeira hypothese?</p>
+
+<p>&mdash;Sim!</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem: levar-te-ia, logo, à tua caza para que, antecipando a hora de
+tua sahida, o Consul, nem de longe, pelo meu braço, te visse hoje...</p>
+
+<p>&mdash;És digno de um acto destes.</p>
+
+<p>&mdash;Bravura do amor. Agora, a segunda hypothese?</p>
+
+<p>&mdash;Sim: se me visses núa, tão núa que nem uma <em>écharpe</em> me velasse as
+pomas, que farias de mim?</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... Ahi está uma pergunta de difficil resposta, uma hypothese de
+operosa solução...</p>
+
+<p>&mdash;Porque?</p>
+
+<p>&mdash;Porque uma nueza dessas exigiria um leito e sem este tu serias apenas uma
+gravura...</p>
+
+<p>&mdash;Venceste-me. Despacharei o Consul.<span class="pn">{145}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não sou eu quem determina. Passarias uma noite igual às de Bhodis na
+companhia de Chrysis... Porque escancellas tanto os teus deformados olhos? Não
+calculas, assim, a desproporção do teu semblante, lindo como um camapheu...</p>
+
+<p>&mdash;Procurei ouvir o que se faz em scena, afim de verificar quanto falta para
+a minha vez...</p>
+
+<p>&mdash;Queres, saio a ver...</p>
+
+<p>&mdash;Não. Chamarei o contraregra. Nem precisa: canta a Solidonia...</p>
+
+<p>&mdash;A pernóstica!</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-a, coitada! Ainda tenho todo um intervallo e dois numeros da outra
+parte. Agora... dà-me um beijo, paixãosinha!</p>
+
+<p>&mdash;Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulêza...</p>
+
+<p>&mdash;Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu lhe
+tenha promettido uma noite, quando não lh'a darei por preço nenhum?</p>
+
+<p>&mdash;Ciumes?!... Não os sinto dos outros homens, porque nenhum delles logrará
+de ti as venturas e as concessões que eu tenho gozado... Nem mesmo do Consul...
+Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve dizer sempre que antes
+delle provei-o eu.<span class="pn">{146}</span> Tenho ciumes, Nina, do que tu
+vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que fitas... Se eu
+pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus vestidos. Invejo
+delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem confidentes dos teus nervos e das
+tuas pulsações. Tenho ciúmes das flores que exornam os teus cabellos, porque
+sómente ellas passam o deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor.
+Tenho ciúmes do fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado
+entre os teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te
+inebria, porque sómente elle atravessa as tuas fórmas e vai arrebatar-te na
+essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque sómente ella
+vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo isto, eu quereria
+ser o somno que te fecha as palpebras, porque participaria das felicidades
+todas dos teus sonhos; a agua que te banha as fórmas, porque desvendaria os
+immensos segredos e mysterios de tua belleza unica, e o riso que te doura o
+semblante, porque teria o dominio do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do
+instante magico em que pela primeira vez nos pertencemos mutuamente? São de
+véras muito irmans as almas que tocam à<span class="pn">{147}</span> meta de
+uma ventura no mesmo instante... e as nossas duas...</p>
+
+<p>&mdash;De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o poder de
+duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a inclemencia de
+Nausithêa deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao amante, no fervor do
+gôzo, entre os teus braços, naquella noite, Octavio, naquella primeira noite...
+</p>
+
+<p>&mdash;Desgraçadamente, jà eu, então, poderia ter sentido por toda a parte de teu
+corpo, o halito bafiento do outro amante.</p>
+
+<p>&mdash;O outro amante?!... Tenho-o, e é como se elle não existisse. Tenho-o
+porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor, protestam
+os meus seios, bem diversos na tua presença do que são na delle. Deante de ti,
+as minhas pomas parecem florescer como os jasmineiros em deliciosas noites de
+luar, como as laranjeiras em uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem
+perdem na seccura e esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas
+dos rochedos... És a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos labios.
+Elle é o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os seus
+desejos...<span class="pn">{148}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher não se cede a um homem sem
+a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer...</p>
+
+<p>&mdash;Acertaste. Não sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente procuram
+por toda a parte o homem e que só ao depois de muitos descobre o procurado?
+Quando topei comtigo, jà o tinha no convivio de suas esquisitices.</p>
+
+<p>&mdash;Tu és formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam
+divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias! Quero
+enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos amores...</p>
+
+<p>&mdash;Bem sei que os homens todos são uns animaes. Uns, porem, são menos do que
+outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que os cãis,
+nesse mistér, são os equivalentes de certos homens? E que elles são os seres
+que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um cão... Os seus labios, como
+os de Pan, seriam capazes de devorar as virgindades, se as virgens recebessem
+os seus beijos...</p>
+
+<p>&mdash;Quero crer.</p>
+
+<p>&mdash;É um libertino.<span class="pn">{149}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nada mais?</p>
+
+<p>&mdash;É um extrangeiro...</p>
+
+<p>&mdash;Que importa?</p>
+
+<p>&mdash;É um devasso...</p>
+
+<p>&mdash;E sómente isto?</p>
+
+<p>&mdash;Ama como um cão, Octavio.</p>
+
+<p>&mdash;E que é que faz?</p>
+
+<p>&mdash;Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me arrastar
+à concessão do prazer que só vige nos seus labios? Não te bastará a expressão
+do pouco que te digo?</p>
+
+<p>&mdash;Repugnante!...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante és tu!... Toda esta noite serei tua
+como nas demais...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus cabellos de
+ oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de todas as volupias da
+ terra, como os córnos de Almatheia foram de todas as riquezas do
+ mundo...<span class="pn">{150}<br>
+ {151}</span> </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001400000">DE COMO O AVARENTO MORREU...</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{152}<br>
+{153}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001410000">DE COMO O AVARENTO MORREU...</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:&mdash;uma
+ enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, M<small>ANUEL</small>
+ C<small>ARLOS</small> proferia blasphemias.</p>
+
+ <p>Ao seu lado, a N<small>EGRA</small>, que era uma amante retinta, carnuda e
+ fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos cautelosos a
+ agitação do moribundo angustiado.</p>
+
+ <p>Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal percebido, a
+ principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima reacção da vida contra a
+ morte.</p>
+
+ <p>Nesta hora, da doença, por entre as chocantes palavras de M<small>ANUEL
+ </small>C<small>ARLOS</small>, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim<span
+ class="pn">{154}</span> dos seus dentes que rangiam como uma lima activa
+ sobre um pedaço de ferro...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito
+dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida é um pedaço de
+ouro comprado com um milhão de moedas... A morte é uma ladra que nos furta,
+para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a reunir... Sou rico! Digo-o
+com um cordial prazer. Tambem trabalhei como uma alma possessa. Não houve
+domingo nem dia santo, que me déssem descanso, à chuva e ao sol, alta madrugada
+e avançada noite... Rim... rim... rim... rim...</p>
+
+<p>&mdash;Como elle range os dentes?!...</p>
+
+<p>&mdash;Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as cavallariças
+despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como massas de feno, nos
+recantos das mangedouras. Ás vezes, chovia como um diluvio. E eu, com o corpo
+quente da cama, cortava o pateo, mettido no meu capote de lan, e, menos feliz
+do que os meus assalariados<span class="pn">{155}</span> que ainda dormiam,
+tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem, dava-me calor e forças.
+Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da Beira, de onde sahi, num dia de
+inverno, ha mais de trinta annos. Nesse dia, a avósinha e a mãi-Geralda
+levaram-me até à caza do moço que me trouxe para aqui. Ah! Deus lhe dê o reino
+dos céus, jà que na terra eu nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim...
+Bella pessôa, generoso ao desperdicio... Que barulho é esse que ouço de
+instante a instante?</p>
+
+<p>&mdash;São os trabalhadores no terreiro.</p>
+
+<p>&mdash;Sahiram hoje os vehiculos?</p>
+
+<p>&mdash;Sahiram todos.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza.</p>
+
+<p>&mdash;Talvez os cãis...</p>
+
+<p>&mdash;Não me veiu ver hoje o <em>Tupy</em>. Tem sido esse canzarrão o meu maior
+amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mãos. Por onde
+andará elle que hoje se esqueceu de mim?</p>
+
+<p>&mdash;Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e...</p>
+
+<p>&mdash;Nem pense nisso: o pobre animal se ladra não morde. Vigia-me a caza e
+desconhece os extranhos.<span class="pn">{156}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ladra e assusta.</p>
+
+<p>&mdash;Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as suas
+lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos. E sempre
+tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de longe mesmo, o
+tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em meio de caminho.
+Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em fidelidade e presteza.
+Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim... rim... Nem sei como se têm
+feito por ahi afóra os meus serviços... E hoje é o ultimo do mês. Se não se
+procurar, a terrivel corja não paga. Nem tenho uma pessôa a quem confie esse
+serviço. Neste mundo só se encontram gatunos e ladrões. Um honesto, como eu, é
+uma realidade rara! Em tudo fui roubado, até na saúde. Dos poucos, das moedas
+de cobre, os simples trocos e differenças nas compras, tu te assenhoreavas,
+porque me dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dôce, uma
+fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo de ter
+deixado nas tuas mãos as economias que deviam ter voltado ao meu capital,
+porque delle se despediam para sempre... Rim...<span class="pn">{157}</span>
+rim... rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!...
+Ouço novos ruidos... Só me parece que os de agora são dentro de caza...</p>
+
+<p>&mdash;Pois quem seria?</p>
+
+<p>&mdash;Sei lá... Ouço coisas que só me parecem na sala da frente. Vai ver se é
+alguem...</p>
+
+<p>&mdash;Nem precisa. A porteira está fechada, e abrindo-se ella a campainha dá
+signal. Ao depois, o velho Thomé trata na estribaria dos animaes em que
+montas...</p>
+
+<p>&mdash;Vai tudo muito bem, mas não me posso conformar é com esta vida de cama.
+Seis dias de doença, e estou derreado como uma velha mangueira... Inda assim,
+considero-me bastante feliz. Não devo nada a ninguem. E, a mim, todos me devem.
+Depois de amanhan, vence-se uma letra de um devedor: ha de querer pagar-me os
+juros de quinze por cento por novo semestre... Mas elle estará enganado. Se
+quizer reformar, os juros crescerão. Agora só darei dinheiros a dezoito ao
+mês... Serviu? Façamos o negocio. Não serviu, passe muito bem... Rim... rim...
+rim... rim... Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera
+de seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres annos. Ao
+depois<span class="pn">{158}</span> de vencido o seu compromisso, levou
+engabelando-me por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa
+amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu não mettesse
+advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o conselho de que
+«poupa e os santos te ajudarão»... Não ganhei nunca quatro vintens de que não
+guardasse tres... Não te estou dizendo? Esse barulho é dentro de caza...</p>
+
+<p>&mdash;Desta vez não ouvi nada.</p>
+
+<p>&mdash;Então, estás surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente andava.
+Rim... rim... rim... rim...</p>
+
+<p>&mdash;Não sei que especie de gente...</p>
+
+<p>&mdash;Realmente posso enganar-me.</p>
+
+<p>&mdash;Jà te convences? A esta hora, nem os trabalhadores estão aqui... Ah!
+Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros não foram hoje à pedreira...</p>
+
+<p>&mdash;Miseraveis! Preguiçosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados deixam
+de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, é um prejuisão... Rim...
+rim... rim... rim...</p>
+
+<p>&mdash;Fiz ver tudo isto a elles.</p>
+
+<p>&mdash;E porque não trabalharam?</p>
+
+<p>&mdash;Porque morreu a moça do mestre, e este não veiu...<span
+class="pn">{159}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois là na
+minha terra, é que se sabe trabalhar... Là trabalhariam até à hora do enterro.
+Aqui encontram a razão para muitos dias de ocio. Se eu estivesse bom, a esta
+hora teria tocado todos elles para a rua. Rim... rim... rim... rim... Não gosto
+de vadios. Fui homem que, numa vida inteira, não teve uma hora de vadiação.
+Sempre comi de chapeu na cabeça e esporas nas botinas. Por isso guardei
+meia-duzia de contos. Digo assim meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas
+meias-duzias guardei... Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;E então?</p>
+
+<p>&mdash;Não sabes o que foi?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei...</p>
+
+<p>&mdash;O <em>Tupy</em> que esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e
+aos outros mandei pôr as correntes...</p>
+
+<p>&mdash;Vai soltar o <em>Tupy</em>. É inoffensivo, tanta quanto é leal e
+cuidadoso. Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o!</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avança
+sobre elle...</p>
+
+<p>&mdash;É uma prova de lealdade.<span class="pn">{160}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que incommoda aos extranhos. Porque não bebes o leite? Queres?</p>
+
+<p>&mdash;Leite?!... Hontem te preveni que leite é luxo e que não posso com essas
+despesas... Ainda o compraste hoje?</p>
+
+<p>&mdash;O doutor mandou...</p>
+
+<p>&mdash;Rim... rim... rim... rim...</p>
+
+<p>&mdash;Ao depois, em caso de doença não ha desperdicio...</p>
+
+<p>&mdash;Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. É o leite, é a botica, é o
+doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das pernas sou
+senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem recostar-me! Tenho
+kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se a coisa continua assim...
+Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um homem conservado e indisposto para
+divertimentos. Não sei como a minha saúde estragou-se... Vai soltar o cachorro!
+Os seus movimentos inquietam-me. Jà atirou outra coisa ao chão...</p>
+
+<p>&mdash;Deixa o cachorro preso.</p>
+
+<p>&mdash;Póde arrebentar mais alguma coisa, e serão novas despesas para mim... Que
+afflição sinto agora!</p>
+
+<p>&mdash;Bebe o leite!</p>
+
+<p>&mdash;Dà-me.<span class="pn">{161}</span></p>
+
+<p>&mdash;Jà se devem trinta medidas...</p>
+
+<p>&mdash;Como?</p>
+
+<p>&mdash;Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e duas
+à tarde...</p>
+
+<p>&mdash;Que desperdicio! Não digo! Se levar aqui um mês, o leite, o medico e a
+botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me terão reduzido à mizeria...
+Sabes que mais? Não quero mais leite... Supprima-se desde hoje...</p>
+
+<p>&mdash;E com que te alimentas?</p>
+
+<p>&mdash;Com agua... É intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo em
+oito dias de cama! Não é possivel. Não sou rico, não! Toca a poupar...</p>
+
+<p>&mdash;Sem o leite não poderás passar...</p>
+
+<p>&mdash;Passo, sim! Quem foi que disse que não poderei?</p>
+
+<p>&mdash;O medico.</p>
+
+<p>&mdash;Pois passo, sim. Sem dinheiro é que nada é possivel. Parece-me que se
+combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um
+pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim... rim...
+Está muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem sei se tomei
+porção igual em todo o resto da vida! É ter ganho uma fortuna em mais de
+trinta<span class="pn">{162}</span> annos para acabal-a bebendo leite, pagando
+medico e sustentando boticas... Não quero mais leite! Rim... rim... rim...
+rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella é má fé e plano de roubo... Ah!...
+Lá se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em cima: o cão preso, por um
+capricho, para quebrar os moveis e as louças... Mas, esse ruido que agora ouvi
+muito bem...</p>
+
+<p>&mdash;Foi a mesma coisa...</p>
+
+<p>&mdash;... não foi là dentro...</p>
+
+<p>&mdash;Foi, sim!</p>
+
+<p>&mdash;Pareceu-me na sala da frente...</p>
+
+<p>&mdash;Não cuidarás de outra coisa?</p>
+
+<p>&mdash;E que seria o que cahiu?</p>
+
+<p>&mdash;Uma bacia de folhas...</p>
+
+<p>&mdash;Não!... não!... não!...</p>
+
+<p>&mdash;Que queres fazer?</p>
+
+<p>&mdash;Levanta-me aqui...</p>
+
+<p>&mdash;Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu és peior do que
+um menino...</p>
+
+<p>&mdash;Aquelle barulho... Levanta-me aqui...</p>
+
+<p>&mdash;Para que? não me dirás?</p>
+
+<p>&mdash;Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como se
+pegasses num pedaço de pau...</p>
+
+<p>&mdash;Assim?<span class="pn">{163}</span></p>
+
+<p>&mdash;Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro...</p>
+
+<p>&mdash;Queres muita coisa tambem...</p>
+
+<p>&mdash;Não me fazes favor... Não preciso de ninguem contra a vontade... Tenho
+dinheiro para ser bem servido, e gósto que me tenham obediencia...</p>
+
+<p>&mdash;Estás muito impaciente...</p>
+
+<p>&mdash;Tira o travesseiro...</p>
+
+<p>&mdash;Prompto. Queres mais alguma coisa?</p>
+
+<p>&mdash;As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... Não estão aqui... Bem sei
+agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer, minutos
+ depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu esconderijo, como
+ verdadeiras inutilidades...<span class="pn">{164}<br>
+ {165}</span> </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001500000">AO DESPIR UM PIERROT</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{166}<br>
+{167}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001510000">AO DESPIR UM PIERROT</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em que,
+ sem acceder ao somno, C<small>HRISTINA</small> se divertia, mostrando ao
+ astro lubrico os tons roseos de sua carnação perfeita como se talhada em
+ marmore rozado e humido.</p>
+
+ <p>Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas visões; mas
+ soffrendo o conflicto das ideias de uma traição de N<small>ARCISO</small> e
+ da lealdade perquiridora de S<small>TELLA</small>, a desaccordada mulher
+ caprichou de não durmir emquanto a espiona não tornasse do baile à fantasia.
+ </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Reconheceu-te, Stella?</p>
+
+<p>&mdash;Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile?</p>
+
+<p>&mdash;Não o viste?<span class="pn">{168}</span></p>
+
+<p>&mdash;Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no
+baile, e, escrava dessa supposição, criaste todo um systema de desconfianças,
+que começaram de traduzir-se, muito naturalmente, naquella tua phrase.</p>
+
+<p>&mdash;Viste-o?</p>
+
+<p>&mdash;Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? Não esperavas esta noticia?
+</p>
+
+<p>&mdash;Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com uma
+pontinha de esperança em contrario, suppuz sempre que não puzesses os olhos
+sobre elle. Embora trahida, eu quereria não ser sabedora do mal...</p>
+
+<p>&mdash;Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te não
+obstines em aggravar o acaecido. Não remediarás o mal, não é assim? Pois,
+coração à larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as acções. Acompanhei-o por
+toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que uma <em>pierrot</em> o
+acompanhasse. Se tu lhe falas, teràs de dizer-lhe quem foi espionar-lhe os
+passos de homem livre...</p>
+
+<p>&mdash;É o que te parece: livre?...</p>
+
+<p>&mdash;Pois não é livre Narciso?</p>
+
+<p>&mdash;Digo-te que não!</p>
+
+<p>&mdash;O teu noivo não tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo
+estado?<span class="pn">{169}</span></p>
+
+<p>&mdash;Repito-te que não.</p>
+
+<p>&mdash;Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das vistas da
+mulher amada, ficam sendo o que são: homens solteiros...</p>
+
+<p>&mdash;Narciso differe dos outros...</p>
+
+<p>&mdash;Uffa!... Christina!... Vou tirando o <em>pierrot</em> que me acalora as
+carnes...</p>
+
+<p>&mdash;O noivado é um começo de intimidades, que se distendem, mais ou menos,
+conforme as razões de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado semi-escuro,
+onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos assegurados na nossa
+posição, com a possivel presença immediata de todos os de caza, as nossas
+intimidades seguem uma derrota que me dá o direito de exigir de Narciso maiores
+fidelidades do que tu pensas...</p>
+
+<p>&mdash;Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o
+collête... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda ordinaria,
+esta!</p>
+
+<p>&mdash;Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias das
+almas passaram às do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais cedo...
+Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua, os seus labios
+roçaram sobre os meus<span class="pn">{170}</span> olhos, e os seus bigodes
+produziram-me um <em>frisson</em> nas carnes, com o qual eu me teria entregue
+ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus dedos
+que elle segurava entre os seus, sorriu&mdash;um sorriso mais lindo do que um raio
+de sol!&mdash;e, sem o querermos, talvez, por certo instinctivamente, os nossos
+labios se encontraram...</p>
+
+<p>&mdash;Vê, Christina, como ficaram as minhas calças...</p>
+
+<p>&mdash;Desbotou nellas o setim?</p>
+
+<p>&mdash;Alguma coisa. A côr amarella é mais fixa do que a vermelha... Mas, estão
+para ser exprimidas... Que sudorifico!</p>
+
+<p>&mdash;Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos são de um
+homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo... Avia-te,
+afim de que me contes o que viste...</p>
+
+<p>&mdash;Dir-te-ei centos de coisas novas...</p>
+
+<p>&mdash;Appeteço o conhecimento do que sabes. É uma infelicidade ter-se um pae,
+como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse que eu fôra a
+um baile publico espionar os desvarios de meu noivo... Ah!... Como eu seria
+venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte que cubiço...<span
+class="pn">{171}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nem tu calculas pallidamente o que por là se vive...</p>
+
+<p>&mdash;Apressa-te, Stella!</p>
+
+<p>&mdash;Acaba, primeiramente, o que contavas... Não quero perder a bôa hora de
+confidencias que inauguraste...</p>
+
+<p>&mdash;Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os
+contactos... Em seguida, as mutuas confianças, mais um arregaçamento hoje, mais
+uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe resistisse, desejou
+ver-me o começo das pernas... Intimidades, Stella, intimidades, proprias,
+communs e infalliveis entre todos os noivos... Eram ellas que me garantiam, até
+hoje, a constancia de Narciso, e, quando vejo, como agora, que o que lhe faço
+jà se torna pouco para o prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco
+mais, sem comtudo deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as
+concessões, na medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores...
+Conta, agora, o que tu viste...</p>
+
+<p>&mdash;Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o
+corpo quer distender-se nervosamente num leito macio...</p>
+
+<p>&mdash;E onde ficou Alberto?</p>
+
+<p>&mdash;O meu primo?<span class="pn">{172}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos dois
+<em>pierrots</em> da maior sensação! Nem calculas como é deliciosa a companhia
+do meu primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado
+geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos. Soube
+corresponder à minha excitação, não commettendo maiores pecados do que me
+beijar nas passagens mais sombrias das ruas...</p>
+
+<p>&mdash;Invejo-te, Stella!</p>
+
+<p>&mdash;Bem poderias ter ido...</p>
+
+<p>&mdash;Qual nada!</p>
+
+<p>&mdash;Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois não foi?</p>
+
+<p>&mdash;Isto é fácil para ti...</p>
+
+<p>&mdash;Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?...</p>
+
+<p>&mdash;Não!</p>
+
+<p>&mdash;Ahi está! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que vissemos...
+Là estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do baile. Custei a topar
+com elle. Só em meio da festa deparei com elle numa das banquinhas do
+<em>buffet</em>. Mais de vinte homens e mulheres...</p>
+
+<p>&mdash;Mulheres, tambem?<span class="pn">{173}</span></p>
+
+<p>&mdash;E então? Tu pensas que haverá quem resista à solidão naquelle cahos de
+sensações extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho, casado
+com a Lucinda, là estavam, cada qual com a sua mascarada...</p>
+
+<p>&mdash;Narciso tambem?</p>
+
+<p>&mdash;Não te espantes senão se eu te disser que elle era o unico que não tinha
+uma mulher fantasiada ao seu flanco...</p>
+
+<p>&mdash;Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei logo
+na traição. Aquelle semblante enfarruscado não era sincero...</p>
+
+<p>&mdash;Ao seu lado estava uma <em>écuyère</em> italiana: deves gabar-te do gosto
+de teu noivo. Não se acompanha de mulher feia. É serio...</p>
+
+<p>&mdash;Era bonita a que o seguia?</p>
+
+<p>&mdash;Linda, Christina: <em>mignon</em>, alva, loura, e, com um arrebatador
+decóte, exhibindo um collo mais branco do que um pedaço de neve, do meio da
+qual, como uma abelha sobre uma petala de gardénia, um negro signal era tido
+como mascotte...</p>
+
+<p>&mdash;Jà agora me penso feliz por não ter ido là.</p>
+
+<p>&mdash;Que teria se tu tivesses ido?</p>
+
+<p>&mdash;Não me conteria.<span class="pn">{174}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu
+noivo sabe gozar uma mulher. Não dirias nem uma palavra, mas lhe acompanharias
+a pessôa como a sua sombra. Quando não te agradasse fecharias os olhos. Vi-o,
+por exemplo, encher a bocca de champagne...</p>
+
+<p>&mdash;Nada mais natural.</p>
+
+<p>&mdash;É o teu erro. Quem não sabe é como quem não vê. Pensas, então, que elle
+tomou a bebida de dentro da taça?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Pois não! A <em>divette</em> foi quem lhe passou o champagne collando os
+seus nos labios delle... Garanto-te que não sabias deste modo de acariciar...
+</p>
+
+<p>&mdash;Confesso-te que não.</p>
+
+<p>&mdash;Ahi está. Verias a <em>droiture</em> com que o teu noivo se curvou,
+encostou nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e
+sugou-lhe a entontecedora bebida...</p>
+
+<p>&mdash;Como deve ser bom esse carinho!</p>
+
+<p>&mdash;Ao depois, beijaram-se...</p>
+
+<p>&mdash;Aos olhos do publico?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... Se eu estivesse là...</p>
+
+<p>&mdash;Não farias senão nada. Eu, pelo menos, nessas occasiões de grande excesso,
+alli mesmo<span class="pn">{175}</span> me voltava, e, se não fossem as nossas
+mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos... Não
+conheço, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um conto de
+Caliban é menos excitante, e um par dansando é bem um conto luxurioso escripto
+com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto final de um beijo. Os
+corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se entrançavam, as mãos, servindo
+de oppressores, estreitavam os troncos e cada par, assim enlaçado, cabeça
+descahida sobre cabeça, parecia um corpo só com a monstruosidade de quatro
+pernas... Exquisito, sem igual... Homens e mulheres não se distinguiam na furia
+dos sentidos...</p>
+
+<p>&mdash;E Narciso dansou?</p>
+
+<p>&mdash;Não. Nem todos dansam. Á parte, pelo jardim e nas mezas do
+<em>buffet</em>, os que não estavam fantasiados, se divertiam à grande, mas um
+pouco retrahidos das vistas do grosso publico, porque só no salão elles
+escandalisariam...</p>
+
+<p>&mdash;Todavia, vingar-me-ei...</p>
+
+<p>&mdash;Poupa-o, Stella... O pecado é divino... Vinga-te em mim...<span
+class="pn">{176}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>As duas mulheres, num longo beijo, abraçaram-se e confundiram-se, cada
+ qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente...</p>
+
+ <p>A lua, devassamente, illuminou-lhes, até quando quiz, os seus bellos
+ corpos de uma semi-nudez pagan...<span class="pn">{177}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001600000">A TAVERNA DE M<sup>ME</sup> BERTHON</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{178}<br>
+{179}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001610000">A TAVERNA DE M<sup>ME</sup> BERTHON</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>No terraço do «Café Leontina», agasalhados em seus lanzudos
+ <em>pardessus</em>, O<small>DORICO</small> e W<small>ENCESLAU</small>, dois
+ typos mundanos, essencialmente mundanos, conversavam surdamente... </p>
+
+ <p>Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha de
+ sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares cupidos por
+ todas as bancas.</p>
+
+ <p>O<small>DORICO</small> enlanguesceu-se, e, como uma reacção, assignalou,
+ assim, a passagem da exquisita-mulher com uma rememoração cruel... </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Sempre é curioso este «Café» em materia de mulheres. Não vejo esta
+«Menina<span class="pn">{180}</span> Leontina», como a chamam, que não me
+recorde logo da infeliz Madame Berthon.</p>
+
+<p>&mdash;E tu, meu caro Wenceslau, és bem a chronica viva de toda a feminidade
+desta terra. Não ha uma mulher de quem não tenhas informações, anedoctas,
+segredos, sobre quem não lances um episodio de curioso entrecho.</p>
+
+<p>&mdash;Não conheceste tambem a Madame Berthon?</p>
+
+<p>&mdash;Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo
+ignorado...</p>
+
+<p>&mdash;Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a
+inspiração do artista mais rude para produzir uma obra-prima.</p>
+
+<p>&mdash;Alguma divindade incognita...</p>
+
+<p>&mdash;Não, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem a
+visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e na
+temperança dos seus costumes, não diria jamais que era a senhora absoluta de um
+corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais inspirado... Não se julgue
+a felicidade dos fins pelas venturas que povoam a estrada por que trilhamos.
+Muitas vezes, um momento de tranquillidade<span class="pn">{181}</span> agora é
+a sementeira de um incommensuravel estado de attribulações mais tarde. Madame
+Berthon despejava invejas a todas as mulheres do seu conhecimento. Desta caza
+tirava ella os meios de sua subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o
+taciturno aspecto de seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais
+ruidosa alegria, aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum
+excesso dê o rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma
+algoz cambiante de tristeza. Tinha a côrte de poderosos pretendentes, mas
+decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de alguem, era,
+ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E, se a ninguem
+promettia, a nenhum negava, e a todos faltava... Curiosissima mulher! Os seus
+habitos eram os de uma leviana, mas a sua alma contrastava com a sua existencia
+costumeira. Exquisita mulher, Odorico, muito exquisita, senhora de muitos
+corações se tivesse querido, entretanto escrava de um só que a levou,
+finalmente, à sepultura. Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia.
+Um assassinio e um suicidio...</p>
+
+<p>&mdash;Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas,
+em<span class="pn">{182}</span> algumas, ha a sementeira de muitos casos
+fataes.</p>
+
+<p>&mdash;Espera, Odorico, espera. Não condemnes a desventurada pelos primeiros tons
+de sua historia. Juiz mais severo do que eu, não conhecerás, por certo, para o
+julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que veste escandalos, e que
+escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a mulher é o algoz, parecendo a
+extrema fraqueza. Neste caso, porem, Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se
+crime ella teve, foi o de amar o homem que a assassinaria mais tarde. E amou...
+conjugalmente, porque nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. Ás deshoras, lá
+para as tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares
+cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e
+recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de
+enciumar-se até de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea tão
+geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de compensações: o
+feio é conjugado com o bonito, e reciprocamente, o bonito com o feio... Dahi a
+naturalidade daquella união de Gaspar com a Madame Berthon. Mais de noventa
+noites durou aquelle consorcio espontaneo.<span class="pn">{183}</span> Aqui
+vinha eu, e naturalmente, cortejava à mulher gentil, espionando sempre o
+amante. Os homens todos, Odorico, saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril,
+como os armentios saudariam, com ardente fé, a vinda do outomno, porque é a
+estação das colheitas. Na manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois
+amantes, là para as aguas furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento
+ouccubo. Visinhos, espicaçados pela anormalidade, attenderam ao que se passava
+na moradia de Madame Berthon. Depois de acalorada discussão, durante a qual o
+assassino descera as vidraças, cautelosamente, para não ser ouvido pelos
+extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento no
+interior daquella caza. Momentos após, Gaspar, conduzindo uma bolsa de mão,
+descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia, meticuloso e
+tranquillo, trancando às suas costas a entrada no sobrado em que commettera o
+assassinato de Madame Berthon. E, como um homem feliz, là se fôra rua abaixo.
+Quem o visse, não lhe diria o autor de um crime, muito menos quando, no
+desempenho de um habito, asseiava os botins, e olhava serenamente o movimento
+das ruas...<span class="pn">{184}</span></p>
+
+<p>&mdash;Revolto-me jà contra esse perverso.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! O movel do crime fôra o roubo e todas as poupanças daquella
+operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava zelosamente. Em
+torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos dois tiros, populares
+encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito, arrastando-se como lemures
+ámerios em trilhas brancas de areiaes desertos. Vozes surdas contavam as
+supposições de um crime; a suspeita avolumou-se... O rochedo nú da desconfiança
+vestiu-se fartamente com os ouropeis das espumas brancas dos commentarios.
+Pelas janellas descidas, olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios
+vivos do barbaro crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse
+as botas e penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares
+tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presença proxima de um delegado.
+Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina autoridade do seu
+aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina... Tudo o mais foi rapido.
+Num instante abriu-se com violencia a entrada. Um obstaculo appareceu: a porta
+estava presa, como que escorada por dentro. Que seria que obstava o seu
+movimento?<span class="pn">{185}</span> Uma cabeça affoita enfiou-se por uma
+nesga, e voltou transfigurada, annunciando sómente: «Está morta». Outros typos
+mais curiosos vieram, ageitaram-se e penetraram com a autoridade. Estatelada
+sobre o chão, Madame Berthon, numa nueza arrebatadora ainda não tinha a gelidez
+dos cadaveres, mas já era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue
+escarlate. E sobre as suas fórmas nuas, nada, senão as meias presas com atilios
+de fitas rubras, e as pequenas sapatinhas...</p>
+
+<p>&mdash;Que miseria!</p>
+
+<p>&mdash;Já conheceste a victima. Dahi por diante a acção foi sobre o agente. A
+perseguição popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros perseguidores
+foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas proprias temporas, Gaspar
+era um suicida... Não calculas a impressão que esse crime deixou no meu
+espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e senti que o assassino não tivesse
+ficado vivo para pagar com a reclusão da vida a barbaridade do assassinio de
+uma mulher, cujo corpo esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer
+austeros Areopagos... se desvendado fôsse tal como eu o vi... E nota, Odorico,
+que um corpo<span class="pn">{186}</span> morto, por mais bello que seja, é
+menos do que o vivo, porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que é
+o fluido mais sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, só
+naturezas muito fortes não cederão à necrophilia... Então ella que possuia um
+nevo sobre o quadril direito...</p>
+
+<p>&mdash;Sensualizas tudo, Wenceslau!</p>
+
+<p>&mdash;E que é que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte, como tu
+deves saber, é um pedaço de sensualismo microbiano... Quantas fecundações
+damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, senão pela força dos sexos,
+baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre à instancia do amor que toparàs
+com a absolvição da mulher, e carregarás a mão na dosagem da condemnação do
+homem algoz.</p>
+
+<p>&mdash;Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido
+condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no senhorio
+dos homens.</p>
+
+<p>&mdash;E como influiria tudo isto para que Gaspar não victimasse Madame Berthon?
+</p>
+
+<p>&mdash;Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o começo do
+mundo, e é coisa que não se sabe é a data da primeira<span
+class="pn">{187}</span> traição da mulher, de tão distantes tempos vem ella.
+</p>
+
+<p>&mdash;Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa
+traição do homem, e formada de uma traição, porque foi necessario que Adão
+adormecesse para que Jehovah, trahindo à perfectibilidade da sua obra, lhe
+tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella não poderia ser
+contraria à sua origem...</p>
+
+<p>&mdash;És rigoroso demais...</p>
+
+<p>&mdash;Não sou, não, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os dias
+e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo e escreveu
+precisamente: «As mulheres têm sido tratadas até aqui, pelos homens, como
+passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam no meio delles: como
+qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil, de selvagem, de doce, de
+arrebatador&mdash;mas, igualmente, alguma coisa que é necessario engaiolar para que
+se não và embora num vôo»... Que é isto senão o reconhecimento do espirito
+traiçoeiro de nossas Evas?... Ao demais... estamos muito fóra dos eixos... Que
+bebemos agora?...<span class="pn">{188}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Fóra do terraço do «Café Leontina», solemnemente encapotados, dois
+ policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta noite...</p>
+</blockquote>
+<br>
+</div>
+
+<h3><a name="SECTION001700000">INDICE</a> </h3>
+<ul class="TofC">
+ <li><a name="dedicatoria_l" href="#dedicatoria">Dedicatoria</a></li>
+ <li><a name="epigrafes_l" href="#epigrafes">Epigraphes</a></li>
+ <li><a name="tex2html35" href="#SECTION00200000">Nedda</a></li>
+ <li><a name="tex2html37" href="#SECTION00300000">Voluptuosas</a></li>
+ <li><a name="tex2html39" href="#SECTION00400000">O poeta moribundo</a></li>
+ <li><a name="tex2html41" href="#SECTION00500000">O velho medico</a></li>
+ <li><a name="tex2html43" href="#SECTION00600000">Os dois espelhos</a></li>
+ <li><a name="tex2html45" href="#SECTION00700000">O primeiro filho</a></li>
+ <li><a name="tex2html47" href="#SECTION00800000">Á vista da denuncia</a></li>
+ <li><a name="tex2html49" href="#SECTION00900000">Irado até à cura...</a></li>
+ <li><a name="tex2html51" href="#SECTION001000000">A hungara</a></li>
+ <li><a name="tex2html53" href="#SECTION001100000">Depois do cometa</a></li>
+ <li><a name="tex2html55" href="#SECTION001200000">Amores no claustro</a></li>
+ <li><a name="tex2html57" href="#SECTION001300000">A Consulêza</a></li>
+ <li><a name="tex2html59" href="#SECTION001400000">De como o avarento
+ morreu...</a></li>
+ <li><a name="tex2html61" href="#SECTION001500000">Ao despir um
+ pierrot</a></li>
+ <li><a name="tex2html63" href="#SECTION001600000">A taverna de Madame Berthon</a></li>
+</ul>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30413 ***</div>
+</body>
+</html>
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #30413 (https://www.gutenberg.org/ebooks/30413)
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+The Project Gutenberg EBook of Mundanismos, by Almquio Dins
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Mundanismos
+
+Author: Almquio Dins
+
+Release Date: November 7, 2009 [EBook #30413]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MUNDANISMOS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+ ALMACHIO DINIZ
+
+ MUNDANISMOS
+
+ (CONTOS)
+
+
+
+
+ F. Frana Amado, editor
+
+ Coimbra. 1911.
+
+
+
+
+
+Composto e impresso na Typographia Frana Amado,
+rua Ferreira Borges, 115--Coimbra.
+
+
+
+
+
+MUNDANISMOS
+
+(CONTOS)
+
+
+
+
+ Obras completas de ALMACHIO DINIZ
+
+ Contos
+ Um artista da moda, Lisba, Jos Bastos & C., editores.
+ Sombras de pudor.
+ Mundanismos, Coimbra, F. Frana Amado, editor.
+ Novellas
+ A Carne de Jesus, Lisba, Gomes de Carvalho, editor, 1910.
+ O Diamante Verde, Lisba, Guimares & C., editores, 1910.
+ Sonhos de meduza, em preparo.
+ Romances
+ Raio de sol, Bahia, em folhetins, 1903.
+ Crises, Lisba, Guimares & C., editores, 1906.
+ Paves, Bahia, Fonseca Magalhes, editor, 1908 (Exgottado).
+ Amen!, Bahia, em folhetins, 1909-1910.
+ Duvidas e remorso, em preparo.
+ Theatro
+ A Escarpa, Porto, Lello & Irmo, editores.
+ Tropheus em cinzas.
+ Sazo de luz (em preparo).
+ Critica
+ O passado, o presente e o futuro do heleno-latinismo em
+ lucta com o germanismo, Bahia, 1903 (Exgottado).
+ Zoilos e Esthetas, Porto, Lello & Irmo, editores, 1908.
+ Sociologia e critica, Porto, Magalhes & Moniz, editores.
+ Da Esthetica na Literatura Comparada, Rio, H. Garnier, editor.
+ A questo das raas na literatura universal, em preparo.
+ Symbolismo
+ Eterno Incesto, Bahia, 1902 (Exgottado).
+ S bemdita!, Bahia, 1905 (Exgottado).
+ Lingua portuguesa
+ A reforma ortografica, Bahia, 1907 (Exgottado).
+ O evolucionismo morphologico da lingua portuguesa, Lisba,
+ Santos & Vieira, editores.
+ Scientificos
+ Genesis hereditria do direito, Bahia, 1903 (Exgottado).
+ Ensaios philosophicos sobre o mechanismo do direito,
+ Bahia, 1906.
+ A sciencia do direito e as produces espirituaes do
+ homem, Bahia, 1907 (Exgottado).
+ Questes actuaes de philosophia e direito, Rio, H.
+ Garnier, editor, 1909.
+ A objectividade do phenomeno juridico no direito
+ brazileiro, em pub.
+ As formaes naturaes na philosophia biologica, em preparo.
+
+
+
+
+
+ALMACHIO DINIZ
+
+MUNDANISMOS
+
+(CONTOS)
+
+
+
+ Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.
+
+ ANATOLE FRANCE.
+
+COIMBRA
+
+F. FRANA AMADO, EDITOR
+
+1911
+
+
+
+
+A
+
+GUERRA JUNQUEIRO
+
+
+
+
+ L'art veut imiter la nature. Nous faire prouver les sensations et
+ les sentiments que la vie nous impose ou pourrait nous imposer, tel
+ est son premier souci. Le romancier et le dramaturge comme le
+ peintre, le sculpteur comme le musicien s'essayent faire dans la
+ fiction, comme la vie dans la ralit. Au fond de chaque oeuvre
+ d'art il y a toujours en somme--que ce soit par imitation troite ou
+ libre vocation--une ralit reproduite de la vie.
+
+ CHARLES ALBERT.
+
+
+ O conto, assim desatavado, exprimido, apenas succo e, se no
+ agrada _viso_, interessa o sentir. Falta-lhe horizonte, mas o
+ espao, por isso mesmo, mais vasto, sem empeos: segue-se
+ livremente a aco que a descriptiva, por vezes, compromette.
+
+ COELHO NETTO.
+
+
+
+ MUNDANISMOS
+
+
+ Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.
+
+ ANATOLE FRANCE.
+
+
+
+
+NEDDA
+
+
+NEDDA
+
+ Manhansinha.
+
+ A sala, de azuladas paredes seminas, estava pobremente mobiliada:
+ era no saguo da casa, e as duas mulheres entraram s tontas, at se
+ abrirem de par em par as gelosias.
+
+ SAUL, de NEDDA esposo, ficra a dormir na alcova.
+
+ E NEDDA, abysmada com a indifferena delle que apenas lhe no
+ dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que
+ DONA LOURA, a sua me, era uma interprete das indisposies do genro...
+
+ Num canap, as duas mulheres, DONA LOURA, archaica nas suas vestias
+ de capote e turbante, e NEDDA, deliciosamente matutina num roupo
+ branco que descansava, _sans-dessous_, sobre a finissima camizta
+ de cambraias,--sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida
+ do cansado movel...
+
+.........................................................................
+
+--Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me
+entre dentes e indisposto como um burgus dispeptico, silencioso como
+uma esphynge e entristecido como um beato sem almoo, adivinho logo que
+vens por ahi como a mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem
+tarde...
+
+--Exactamente.
+
+--Previ tudo isto. Ha cinco dias que ns no falamos, e, pensando-o na
+rua, hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella
+cadeira, lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me
+e no contive um gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os
+meus passos. Ha quatro annos que somos casados e nunca passamos dois
+mezes sem uma rusga. sempre elle quem as promove com um resaibo de
+malentendido ciume. Aceito sempre o seu rompimento e nunca lhe dei a
+honra de capitular nas hostilidades. Quando ellas so de nonada, aqui
+mesmo se resolvem; mas, quando avultam como agora, elle te vai buscar
+como intercessora. J sei que vamos ter, como sempre, uma crise de
+amorosidades que me enfastiam. Lastimo no conceber um filho desse
+homem para o embeiar pela nova criatura e sentir-me menos jungida s
+suas intemperanas de... mal educado! s vezes, chego a ter nojo do
+senhor meu marido...
+
+--Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que
+me pasma...
+
+--Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter
+o assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um
+tal matrimonio no se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em
+caza, por torna-viagem, a mentira de que Saul um tuberculoso. Tanto
+mais eu o aborrecia, quanto a senhora e o pap intervinham, patrocinando
+a causa do moo platonico. D-me, na verdade, um insistente desejo de
+rir muito quando lembro os idealismos delle, seguindo a minha sombra,
+porque nunca lhe deixei o direito de enfrentar-se commigo em parte
+alguma... Expz-lhe sempre que sonhos no me satisfaziam, nem eram para
+o meu temperamento homens vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe
+intensa guerra, apaixonando-me por Frederico Stltze. Est! Com este
+provavelmente eu teria sido bem cazada. O pobre allemosinho levou o
+caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o abandonei, com uma
+defeituosa... Foi um despique, no ha a menor duvida, mas quem sahiu
+perdendo foi elle. Saul um temperamento de phoca...
+
+--Respeita o teu marido, minha filha!
+
+--Pois no , maman?
+
+--Essas couzas no se devem dizer...
+
+--No tratarei de occultar o sol com a mo. J disse e mesmo: um
+temperamento de phoca. S quer hybernar sobre os livros, deante dos
+quaes se abespinha como o animal sobre o glo. Eu, porem, quero muito
+sol, muita luz, muito calor, muita actividade... Maman, o que vocs
+velhos veem no cazamento o interesse de collocar as filhas, porque
+ficando velhos receiam que nos tornemos muito ss no mundo. Por isso
+acontecem destas, cazamo-nos com a vontade dos paps encarnada na figura
+de um homem que no a correspondencia de nosso instincto. Olha! No
+intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada qual commetta a sua
+doidice como quizer, e, se escolher um lorpa como Saul, arrependa-se
+de si mesmo e no me culpe a mim.
+
+--Tu vs no homem uma excitao, Nedda, quando devias ver uma satisfaco.
+
+--Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje
+dessas trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu
+toda a minha repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, no sabe
+aproveitar-se de minha tolerancia e quer subserviencia, servido, ou
+coisa similhante... Est enganado! Devias ter sanccionado a minha
+repulsa logo de principio. Lembras-te do convescte dado aos chilenos,
+nas Salinas? Tu no foste, e Saul, que era apenas meu pretendente sem a
+menor esperana, moveu contra mim uma intriga terrorosa, porque viu, no
+campo, o primeiro tenente Santander amarrar os cordeis de minha botina
+que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te de como
+energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do
+contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia,
+todos suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de
+mulheres feias. Afinal, maman, que te disse elle desta vez?
+
+--Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o
+comprehendes como um devaneio. Isto proprio para as meninas. Tu te
+esqueces, e nisto eu lhe dou razo, que s uma senhora escrava da moral
+esponsalicia. Contou-me o teu marido um facto em que elle te
+surprehendeu. Realmente, se as cousas se passaram como podem ser
+suppostas, e elle no quer crer, tu andaste mal.
+
+--Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como
+tudo se deu...
+
+--E dispensavel Nedda. O passado est passado. O que preciso que no
+ds lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem
+calleja. Os amuos fazem pequenos callos, mas tempo vir em que,
+callejada a alma, o amuo ser definitivo.
+
+--Que teria isso?
+
+--Um escandalo, minha filha!
+
+--Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu no me
+pouparei a um grande escandalo.
+
+--Toma juizo, doidinha. preciso acabares com estas zangas e receberes
+o teu marido como o teu senhor...
+
+--Hein?... No me zangars, maman, pdes ridicularizar-me como
+entenderes... No me darei por achada.
+
+--No promovo seno o teu bem. Resolve a crise e s... mulher de teu
+marido.
+
+--J ests julgando o feito?
+
+--Tu tens toda a razo, elle tem igualmente toda a razo. Harmonisem-se
+e sejam felizes.
+
+--Pareces-me uma juiza a Salomo, com a differena de que o rei hebreu
+ouvia ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma
+s...
+
+--Interpretas muito mal o meu genio.
+
+--No te interessa conheceres a injustia de que sou accusada pelo sr.
+meu marido?
+
+--Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a
+accusao, eu nunca seria contra ti.
+
+--Obrigada, maman! Quero, entretanto, justia, e que, como Saul, no
+julgues pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu
+o que se passou...
+
+--Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes...
+
+--Pois bem! Na tera-feira, maman, de combinao com Saul, resolvi
+passar uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle
+que me falou pelo telephono, fui Barra correr uma cazinha vaga e
+que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao
+depois de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a
+gentileza de offerecer-se-me para o servio de abrir e fechar portas.
+Aceitei e foi elle quem tomou as chaves na taverna da esquina... V
+tu!... No fsse elle e teria eu de entrar numa taverna, ssinha,
+arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao depois, o dr. Eduardo foi
+quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de camura para fazer
+essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas... Corremos o
+primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil
+cavalheiro se lembrou de, por segurana, fechar por dentro a porta da
+rua... Subimos. Mal chegavamos em cima, comearam de bater numa porta.
+Poderia eu suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse,
+porque elle no teria opportunidade de acompanhar-me, logo depois
+resolvesse o contrario, e estivesse a bater na porta da rua? E foi por
+um acaso que ns o vimos. Chegamos inesperadamente a uma janella do
+sotam e percebemos que era elle quem batia. O dr. Eduardo,
+desculpando-se por j ter eu cavalheiro, despediu-se de mim, desceu as
+escadas, e, quando abria a porta, foi insolentemente aggredido por
+Saul, que lhe negou a mo para o cumprimento do estylo... S tu vendo,
+maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra mim! Felizmente,
+desafiado pela minha calma, elle no teve animo para iterar o
+qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle
+quiz, fechou ssinho a caza e veiu s...
+
+--Devias ter evitado tudo isto, Nedda.
+
+--Evitado, como?
+
+--No acquiescendo companhia de um homem de m fama, como o dr.
+Eduardo.
+
+--Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em
+que eu fui... Hora de trabalhos na cidade...
+
+--Recusasses os favores offerecidos.
+
+--Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual a mulher que se anima
+grosseria de recusar gentilezas de um moo de distincto trato?...
+
+--Conforme o renome desse moo.
+
+--Tem m fama o dr. Eduardo?
+
+--No sei, no. Dizem.
+
+--Se tem m fama, tem maus costumes. E como que Saul, to zeloso de
+sua honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepes, um homem mal
+visto? Penso que os frequentadores de nossos sales, os _habitus_ de
+nossa intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um ponto
+qualquer, e, se no fsse assim, a primeira privao delles, seria a do
+nosso convivio...
+
+--Neste ponto s razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul
+referiu-me que estavas sem chapeu...
+
+--De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha
+van do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr.
+meu marido alli estava para auxiliar a reposio, tirei o chapeu e
+asseiei-o prestamente...
+
+--Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua
+chegada, ao ponto de no saberes repr o chapeu...
+
+--Saul um mentiroso.
+
+--No te zangues, Nedda.
+
+--Injuriou-me.
+
+--No ds importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente...
+
+--E elle o quer?
+
+--Porque perguntas?
+
+--Porque to honrado elle no deveria aceitar mais a cohabitao da
+esposa deshonesta.
+
+--No deves dizer assim, minha filha!
+
+--Aceita-me elle?
+
+--Que tolice, Nedda!
+
+--Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e no a fao
+em atteno aos teus bons officios...
+
+--Fazes muito bem.
+
+--L vem elle descendo...
+
+--Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que no tem esposo...
+
+--Desculpa-me, maman: s agora reparo que estou muito vontade para nos
+encontrarmos os tres...
+
+.........................................................................
+
+ Arrepanhando, ento, o bello roupo desabotoado, por cujas rendas e
+ decotes se viam as carnes luciferas de NEDDA, a mulher de Saul se
+ escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de
+ esculptura grega...
+
+
+
+
+VOLUPTUOSAS
+
+
+VOLUPTUOSAS
+
+ No rz-do-cho de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendados
+ _stores_ pallidos, HELENA fazia somno hora da sesta, quando MARIA
+ ANGELICA a surprehendeu adormecida.
+
+ A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma
+ voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabea desmaiada de
+ HELENA...
+
+ Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com
+ um fremito de prazer...
+
+.........................................................................
+
+--De onde vens tu, Angelica?
+
+--De encommendar flores...
+
+--Flores?!
+
+--No te recordas de que Sophia se cazar amanhan, noitinha?
+
+--Sou uma esquecida.
+
+--E ella credora de nossas gentilezas...
+
+--Das minhas, especialmente.
+
+--Encommendei orchidas e chrysanthemos.
+
+--Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias.
+
+--Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das
+orchidas. Uma catyleia um pedao de labios excitados por dois beijos.
+
+--No lhes acho graa.
+
+-- exigente!
+
+--Flores do matto. E j notaste que quasi todas ellas so lilazes e
+roxas? ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas cres
+melancolicas?
+
+--Descobres coisas...
+
+--Mas, no ?
+
+--Realmente.
+
+--E como vais presentear uma noiva com flores lilazes?
+
+-- a moda, o chic, o _dernier-cri_...
+
+--Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas,
+chrysanthemos, rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me?
+
+--Se no! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os
+olhos muito brilhantes...
+
+--De verdade?
+
+--Sim. Sonhavas?
+
+--Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu ests intensamente corada...
+
+--Apanhei muito sol.
+
+--Os teus olhos esto pisados e languidos...
+
+-- da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor
+que abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados...
+
+--J tinha reparado: os teus cabellos esto desmanchando-se...
+
+--E eu os concertei no espelho de Esther.
+
+--Andaste l, hein? J havia desconfiado... Quando te vejo amollentada,
+assim, tenho razes para me enciumar... muito descuidada a Esther.
+Cuida mal das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Est
+mal posto, a fita est retorcida...
+
+--Nem reparei...
+
+--Disto no s culpada, por certo... Eu no te deixaria sahir daqui to
+mal-amanhada. de causar vergonha.
+
+--Foi a pressa, Helena.
+
+--E no teu hombro a sda est nodoada...
+
+--Nodoada?!...
+
+--Sim! Vem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei
+mesmo que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!...
+
+--Quem o poderia fazer?
+
+--Esther.
+
+--s ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as
+flores. Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Ests
+satisfeita?
+
+--Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas no convencida...
+
+--Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar
+humido?... Ter sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo
+arrastada como a de quem se fatigou num excesso de venturas...
+
+--Que venturas posso ter?
+
+--Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real...
+Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha
+vezes em que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras
+occasies, quando volto a mim sem provocao, sou prompta a espantar-me
+porque me accordei e no morri no meio do prazer sonhado...
+
+--Ha sonhos, effectivamente, que se no deveriam acabar... E no sentes
+calor, Maria Angelica?
+
+--Algum.
+
+--Neste caso...
+
+--Que fazes?
+
+--Dispo-me. No me imitas?
+
+--Pde ser. Passarei a tarde comtigo...
+
+--Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta gla
+assoberbante... No tens geito?... Chega, que te libertarei...
+
+--Tira os alfinetes.
+
+--Usas um bom p de arroz, Angelica.
+
+--Ui! Helena!
+
+--Que foi assim, ardilosa?
+
+--Espetaste-me as carnes...
+
+--Tambem uma ruma de alfinetes...
+
+-- para segurar bem.
+
+--Tens uma pellugem de arminho...
+
+--Ai!... Assim no... no...
+
+--Que tens, rapariga?
+
+--Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... S me dste
+vontade de...
+
+--Ui!... ui!... ui!... Fazes-me um _frisson_ de arrepiar-me os pellos...
+
+-- para vingar o teu beijo...
+
+--Porque me olhas assim, Angelica?
+
+--s de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um
+perfume originalissimo que me entontece...
+
+--Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se
+cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o fao para attrahir as
+amigas como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que
+se confundiam os aromas do nardo de Tharsos e do metpyon do Aigypte.
+Nas axillas attritava mentho e sobre as pestanas e nas palpebras
+marjolana de ks. Ao depois, a escrava defumava-lhe os cabellos
+desennastrados com espiraes de incenso, que combinava admiravelmente no
+s com a essencia de rozas de Phaslis que lhe embalsamava a nuca e as
+faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava sobre os rins. E, por
+fim, entre os seios, corria o celebre oinanth das montanhas de
+Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica...
+
+--Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras...
+
+--Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do
+irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodes embebidos na
+essencia de rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para
+contrastar com as evolaes das essencias de jasmins que perfumam as
+minhas vestias...
+
+--E na posse de tudo isto praticas uma m aco, Helena!
+
+--Qual?
+
+--Essa de referires tantos perfumes e no me dares nenhum a provar... s
+avarenta, como ninguem, e eu cubiosa de gozar...
+
+--Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres...
+
+--Teria graa!
+
+--Porque assim?
+
+--Gsto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres.
+Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas
+carnes...
+
+--Tens desejos masculinos, minha queridinha!
+
+--E o que me faz lamentar-me: junto de uma graa no ser um Adonis,
+junto de uma Helena no ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os
+teus perfumes e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais
+feliz do que Syrinx, louca de paixo, Byblis, unica na insaciabilidade,
+ou Mnasidika, macia como um velludo... Helena, tu s uma perfeio...
+
+--Mofadora!
+
+--Mofar eu de ti?!...
+
+--No te abraza o calor?...
+
+--Sim... Intoleravelmente...
+
+--Safa o collte... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seduces
+na tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os
+homens, sabios no sensualismo pago, que o n de veus mais provocante
+do que o n sem disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na
+mulher encoberta pela semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te no
+conhecesse os segredos todos de tuas lindas curvas, te rasgaria agora,
+impiedosamente, o veu de tua nudez...
+
+--J sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do
+arrcho de um collte dictatorial?
+
+--Quantas vezes?!
+
+--Tu brincas, mulher divertida...
+
+--Provo-te com a citao: despirei o meu collte e no me sentirei mais
+provocada do que contemplando as tuas frmas semi-nas...
+
+--Es barbara, Helena! Como encarceras um to lindo quadril dentro dos
+oppressivos liames de um collte... Ah! Como eu daria a vida por ser
+morena! O ventre alvo uma desilluso, mas o trigueiro, como o teu,
+um incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o instincto
+mais calmo...
+
+--No te agrada a minha nueza?
+
+--Inteiramente. Agora, v l se te no impressiona mal a brancura do meu
+ventre...
+
+--Ao contrario, Maria Angelica: uma grande corolla de petalas alvas
+desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... maravilhoso o teu
+contorno... Dignas frmas para a perpetuidade de uma tla ou de um
+retrato...
+
+--Deixarias tu que fsse apanhada a tua nudez?
+
+--E porque no?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me?
+
+--Que egoismo leviano!
+
+--Acha-o?
+
+--Sim... Photographemo-nos...
+
+--Adoravel!... Como no irradiar no _clich_ o contraste de nossas
+pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa
+de um plo...
+
+.........................................................................
+
+ Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma
+ soluo de perolas e opalas.
+
+ Os seus labios permutaram cariciosos beijos.
+
+ E, horas depois, MARIA ANGELICA e HELENA, retratadas por uma aia,
+ desvendavam as suas abrazadoras nuezas inveja de ESTHER...
+
+
+
+
+O POETA MORIBUNDO
+
+
+O POETA MORIBUNDO
+
+ Luxuoso salo de recepes: por entre cavalltes com quadros de fina
+ pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de
+ Parreira e a vocao de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio
+ das tapearias, dos _fauteils_ e das luzes, um magestoso piano Ritter.
+
+ HELOISA acabou de executar, com todo o applauso do maestro
+ CHRISTOVAM DETMER, a linda fantasia--_Le pote mourant_--de Gotschalk.
+
+ As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de
+ admirao e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos
+ que obedeciam grande inspirao de HELOISA.
+
+ Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente
+ combalida pela dor de uma alma irman...
+
+.........................................................................
+
+--Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas
+bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas
+e os teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do
+passional poema lyrico, me concentrei e te affirmo que a viso no
+despresou a audio, pois vi e ouvi toda a scena, desenvolvida entre
+personagens vivas, que se moviam, se soccorriam e testimunhavam o
+desfallecimento do artista moribundo. Durante minutos que sero
+inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao teu lado,
+frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e no denunciei,
+pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a
+existencia. Vim do gabinete privado de tua me, que se transformou
+pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se
+lhe dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a
+longa historia de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes, fui
+minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a
+alma de artista e no o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim
+inspirar-me para o sacrificio no teu talento. E saio de tua presena
+illuminado como o prescripto que recebeu o balsamo do conselho christo
+para subir em seguida ao patibulo. D-me, pois, o conforto de tua
+confidencia ultima: amaste-me alguma vez?
+
+--Que pergunta, Christovam.
+
+--Indiscreta?
+
+--No; ao contrario. Amesquinhante...
+
+--Extranho-te.
+
+--No ha razo. Porventura pensars que te amei e no te amo agora?
+Acaso a minha mo de mulher para te ser dada depender de alguma coisa
+irreductivel deante de minha vontade altiva?
+
+--Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor
+dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeas bellas
+de todas as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz
+com que se enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um
+homem que sabe musica simplesmente, que apenas um artista, pequenino
+de mais para ter uma preteno de amor. Eu me pareo com esta figura
+lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das
+fantasias de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em
+sonhos egoistas, cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava
+rozas, derrocando castellos, para me conter na illuso em que me
+deleitava smente com a audiencia da negativa inclemente de tua me.
+Confessou-me que maldava de todo o nosso amor, desde principio. E
+porque, se assim era, protegia a ampliao de um sentimento que deveria
+ser, como os filhos defeituosos das ciganas que so atirados s
+piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse,
+falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era
+porque, doidivana como toda creana, jogavas a pla na orla do
+precipicio, esperando o aviso amigo para te retirares gloriosamente...
+Negars, Heloisa, que tinhas consciencia de minha preteno?
+Sophismars, em favor da excommunho que me lanou a tua me, e contra a
+clareza da ordem que me deste afim de se officialisarem as relaes do
+affecto, que nos encaminhava de um illusorio paraiso? Responde com o
+talento immensuravel com que sempre me amaste...
+
+--Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias
+possuir o maior tino dos homens.
+
+--Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem
+pesada se antepe sua esphera...
+
+--Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e no te hei de amar fra do
+regosijo delles...
+
+--Dos teus paes?
+
+--Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em
+tuas mos estariam vegetaes s ao spro de um fakir indiano. Porque
+admittirias que a minha vontade fosse forte bastante para romper a
+marcha das intenes dos meus paes sobre a minha razo de ser mulher?
+Por ventura sem o sopro do fakir as sementes germinariam e attingiriam
+as frmas de seres definitivos? No suppors que, sem aquelle spro,
+algo se realisasse. Como suppres que sem a vontade dos meus maiores a
+nossa unio se perpetraria ao teu sabr?
+
+--Desconheo-te j...
+
+--Mas, porque...
+
+--O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto quesilia dos
+outros...
+
+--Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a
+existencia de mulher?
+
+--Nem sei de mim mesmo que te responda...
+
+--No poderias esperar. Se eu fsse livre, se a lagarta para ser papilio
+no carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar
+a sanco que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razes para
+tal fazer. Aborrece-te o trovo? amedronta-te o curisco? Queres ver-te
+livre delles? Cr num Deus e pede-lhe a extino... Infelizmente,
+Christovam, nem o trovo se extinguiria, nem o teu querer triumpharia...
+De um lado, Deus seria impotente para te dar o que pedisses porque no
+terias o direito de pedir... S pede quem pde pedir; se se pede
+porque de quem d depende o pedido; e se o pedido no dado, procura a
+causa na insufficiencia e na sem-razo de quem pediu...
+
+--Mas...
+
+--Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se
+conservares a razo, que tenho o bom senso desejavel s creaturas
+perfeitas. Queres responder-me?
+
+--Nada significar o que te responda.
+
+-- preciso que sejas categorico.
+
+--Pois sim: responder-te-ei.
+
+--Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?
+
+--Por certo que no.
+
+--De minha parte a questo outra: teria eu o direito de responder por
+mim num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer?
+
+--Se quizesses, sim.
+
+--No assim, no. Porque no me tomarias por mulher sem o meu
+assentimento? Por impoderoso deante de minha definio adversa. Porque
+no me daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por
+impoderosa deante da pronuncia delles. Se tu pudesses alcanar de mim o
+amor sem vontade, desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse
+de meu corpo sem a interveno dos que m'o formaram do nada em materia e
+em alma, nem cogitaria de enviar-te a elles...
+
+-- um dilemma sophistico.
+
+--Por que principio, no sei.
+
+--Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sde do teu amor,
+Heloisa, como correspondeste a esse lapso do meu instincto?
+
+--Do modo mais franco.
+
+--Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu
+quizesse, matar a sde que allegava...
+
+--Dependia de mim. Dei-te.
+
+--De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixo.
+Negaste-m'o?
+
+--No poderia negar.
+
+--Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na
+grandeza das iteradas pulsaes cordiaes, affirmaste que eu reconheceria
+a intensidade do teu sentimento...
+
+--Dependia de mim. Pratiquei.
+
+--Por fim, quando te acenei com o plano de nossa unio...
+
+--Como te respondi, Christovam?
+
+--Com a primeira negaa.
+
+--Adulteras a minha inteno: cumpri o meu dever, enviando-te maman,
+como o caminho propicio para vencer o pap.
+
+--Realmente, Heloisa. Sou um vencido.
+
+--Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...
+
+--Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a
+consummar uma grande obra musical sem a inspirao para a realidade do
+dever...
+
+--Desistes, ento, do teu amor?
+
+--Razes me sobejam...
+
+--Que te disse, afinal, a maman?
+
+--Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e
+lembrou-me que um musicista no compe sem ter inspirao...
+
+--Nada de mais, Christovam!
+
+--Talvez no queiras comprehendel-a... Mas tudo que se pde allegar
+contra um homem...
+
+.........................................................................
+
+ E, louco pela musica, inconsciente quasi, CHRISTOVAM DETMER
+ assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita
+ criao de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se
+ despediu de HELOISA...
+
+
+
+
+O VELHO MEDICO
+
+
+
+O VELHO MEDICO
+
+ O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.
+
+ ESTEPHANIO e JUDITH--esta desprendendo-se de si no devotamento ao
+ esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais annos, como
+ se lhe tivesse o corpo de cr, curvas e linhas, luzes e
+ perfumes--gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige
+ os defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...
+
+ MARCO ANTONIO--o medico afamado--cofiando as ennevoadas barbas em
+ que se escondiam as illuses do seu poder curador, arrancou os
+ olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, de
+ suas attenes...
+
+.........................................................................
+
+--Bem pde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgr da
+mocidade...
+
+-- exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel
+salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, no posso
+affectar-me com os seus effeitos: a sua medicina a criadora das
+humanas torturas. Parece-me que j se disse: Tirem os medicos e as
+enfermidades desapparecero... Mas, eu digo: fugi delles e estou
+curado. Deem-me milhes de medicos e estaro formados trilhes de doenas.
+
+--E quem te curou, meu caro?
+
+--A natureza...
+
+--O novo deus pago...
+
+--Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes
+curadores. Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria?
+
+--Lembro-me, sim.
+
+--Foram tantos os diagnosticos que j perdi o direito de dar-lhes autorias.
+
+--O sr. era verdadeiramente um doente.
+
+--E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e
+invariaveis.
+
+--Realmente.
+
+--Pois confesso-lhe: no fiz uso de um s. Tambem o doutor no foi o
+ultimo medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na
+inspeco. Nada faltou sua perspicacia, seno comprehender que, no meu
+estado, as suas perguntas eram outras tantas suggestes e novos
+symptomas para a aggravao de meu mal. Eu vivia desvairado na vontade
+de accusar males crescentes, e os meus assistentes porfiavam em
+illustrar-me em torturas ineditas.
+
+--Afinal... quem te curou?
+
+--Dir-lhe-ei tudo, de comeo. Hygia, a deusa da saude, no de todo m...
+
+--A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos:
+salvaram-se pela aco do dedo de Deus, como teriam morrido pela
+interveno do doutor...
+
+--Creio que o sr. adianta um mau conceito. No me tenho na conta dos
+casos communs.
+
+--Desculpe-me.
+
+--Pois no! Mas, a minha doena foi uma criao dos meus medicos, e a
+minha cura proveiu de minha inabalavel resoluo de abandonal-os. Eu
+estava em ultimo grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei
+assim s mos de um allopatha. Homeopathas e feiticeiros nada
+fizeram de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci,
+aos vinte e tres annos, foi numa convalescena de enfermidade
+effectivamente assassina: o amor. Eu tinha conseguido, pela vez
+primeira, objectivar uma paixo. E, no s isto: tivera, com todo o
+delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra a minha
+vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu
+sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram
+sessenta dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil
+e quatrocentos minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes
+as paradas assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao
+maximo possivel. O prazo desse amor fra, entretanto, fatal. Exgottou-se
+e a mulher fugiu-se-me dos braos como a espiral do fumo que procura as
+alturas. Ao depois disto, separado do entretenimento carnal, que me
+combalia as fibras, como a agua que vai abalar as galerias subterraneas
+para derribar as minas, tive a sensao do remorso de um grande crime...
+
+--De um crime delicioso...
+
+--Talvez, doutor.
+
+--E ento?
+
+--Encegueirado pelo amor, o mundo ficou s escuras sem a luz do olhar
+della. Quiz correr nas suas pgadas, e senti-me tolhido como a voz na
+garganta do atormentado por um pezadlo. Vi em todos os convivas de
+minha existencia, terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre
+num choro convulso, durante o qual me punha a tremer com tanta violencia
+quanta fazia extremecer todo o assoalho de minha alcova e soar fra de
+tempo a campainha do relogio sobre a meza... Senti-me muitas vezes
+balanado como a espherasinha de madeira que anima o trillo dos apitos...
+
+-- curioso, de vras, o seu caso.
+
+--Foi, doutor.
+
+--Sim! Foi! E hoje sinto no lhe ter visto nesse tempo originalissimo.
+
+--Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico.
+
+--Paranoico?
+
+--Exactamente, doutor, e v vendo. Aconselhou que eu me tratasse com
+banhos de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro
+medico, os meus paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente
+banhado, a contragosto, com luzes de todas as cres. Era inocuo o
+tratamento para me fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males
+Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguados por alta
+dose, mas no toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico--j a esta
+hora e ha muito tempo--victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e
+disse, carrancudamente, deante de uma das minhas crises de saudade
+carnal: so delirios epileptiformes... E o tratamento passou a ser
+feito com altas doses de bromurto. A minha ennervao deprimiu-se, e
+tornei-me um atoleimado, tanto que nem pranteei a morte de minha me,
+desgostosa com a minha tragica existencia... Novo medico; vim a ser um
+simples neurasthenico, com atonias nervosas. Reconstituintes, passeios,
+boas alimentaes, prazeres, etc.: nada, porem, matava as saudades do
+meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora por excesso de
+alimentao, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de insomnias,
+tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos
+medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodtos
+e tive hemoptises. Um Esculapio chamado s pressas, levando em conta a
+minha magrsa, o sangue exvasado dos meus pulmes e o historico dos meus
+soffrimentos, num rapido prognstico, annunciou a minha morte breve,
+por fora de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me
+interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria
+smente: suggeriam-me cousas que s dalli por deante eu comeava de
+sentir. E veiu um curador homeopatha: os seus remedios ingeri com
+facilidade, pela falta de sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um
+visinho, que se enforcou dias depois porque se sentiu arruinado nas suas
+foras commerciaes, lembrou que os maus espiritos encostados aos corpos
+de pessas novas, faziam artes do demo... E no s apresentou a
+conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma velhinha,
+encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruos na
+cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira...
+
+--E nem rezado, sr. Estephanio?
+
+--Para o doutor ver! Nem rezado!
+
+-- unica a sua historia.
+
+--Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau
+funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado.
+
+--Assim acaeceu.
+
+--E inda pensa o doutor que eu tivesse affeco nos rins?
+
+--Se me no falha a memoria, effectivamente.
+
+--Pois escute: logo depois de sua interveno, repudiando eu os
+medicamentos que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram
+trazidos em conferencia.
+
+--Que disseram elles?
+
+--Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles
+mesmos. Do doutor discordaram reputando sos os meus rins.
+
+--Sos, ou curados?
+
+--Curados, no. Inattingidos at quella data. E firmaram o diagnostico
+de uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgo e o outro
+hypertrophia.
+
+--Mas, afinal, acertaram?
+
+--Suppem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a
+saude.
+
+-- espantoso, meu caro senhor.
+
+--No , no, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha
+reapparecido a mulher que eu amra. Visitou-me. Inflammamo-nos, e...
+estamos casados, no foi assim, Judith?
+
+--Parece-me!
+
+.........................................................................
+
+ Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando
+ o enfeitiamento de um lindo _manteau_ exposto no mostruario de
+ modas e confeces... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente
+ a espaosa fronte...
+
+
+
+
+OS DOIS ESPELHOS
+
+
+OS DOIS ESPELHOS
+
+ Depois de mandar retirar-se a criada, VIOLANTE foi, p ante p,
+ fechar a porta do salo de jantar que deitava para a copa, e veiu
+ sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mos
+ profundamente geladas.
+
+ SIMEO, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo no canto
+ dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as
+ feies com um claro colerico.
+
+ Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a
+ cadeirinha de balanos, VIOLANTE provocou-o...
+
+.........................................................................
+
+--Faze a tua scena.
+
+--E no sem tempo.
+
+--Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se no sem tempo?
+
+--Facilidades.
+
+--Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o
+homem cazado no tem direito a facilidades.
+
+--Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que
+Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma
+existencia inteira para passar escravisado aos laos de uma unio
+infeliz!... Maldita hora!
+
+--Ah!... ah!... ah!... ah!...
+
+--Sorris...
+
+--E ento? Hei de chorar para te sentires bem na oppresso que me fazes?
+
+--A minha vida depois que me senti enganado...
+
+--No tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci
+o teu adulterio...
+
+--Insultas-me ainda em cima, Violante?
+
+--No te insulto. Repillo as tuas aggresses, termo por termo. O que eu
+digo que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado
+e perfumoso para agradar s amantes, tem a mulher de...
+
+--No dize, Violante, a indignidade!
+
+--Porque no dizer as cousas como ellas devem ser? S depois que senti a
+tua ausencia do lar...
+
+--E confessas o delicto?!...
+
+--... s depois que conheci a tua amante...
+
+--Mentes, mulher!
+
+--... s depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui
+sais...
+
+-- horrivel, Violante!
+
+--... s depois de ver-te partir de l e a tua concubina despedir-se de
+ti com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravido...
+
+--Tu viste?
+
+--Sim... s depois de ter a certeza de possuires uma amante...
+
+--Poupa, Violante, essa phrase...
+
+--... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a
+crte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no
+lar pelo marido libertino...
+
+-- demais!
+
+--Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num
+isolamento de aborrecer. Entretanto, fra diverso o teu proceder nos
+primeiros tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava
+na rua, mal eu comeava a sentir a tua ausencia, estavas de volta.
+Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te
+retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te
+perguntei, a hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz
+saber. E, at hoje, nunca te pedi a menor palavra sobre o teu
+procedimento...
+
+--E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informaes.
+
+--Pois bem! Para evitar essa negao, nunca t'as pedi, sciente e
+consciente de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, no te
+devo satisfaces... So ellas por ellas...
+
+--Abusas...
+
+--Corrige-me se puderes... No s o meu marido?... Toma conta dos meus
+actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze
+o que entenderes, certo de que atraz de mim haver quem vingue as tuas
+incontinencias e perversidades...
+
+--E sabes quem a minha amante?
+
+--Se sei, Simeo?!...
+
+--Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: no
+conheces ninguem...
+
+--S com o rizo!... Ah!... ah!... ah!...
+
+--Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha
+paciencia se exgottar afinal...
+
+--Ainda em cima me ameaas?
+
+--Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me
+confesses tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante?
+
+--Ninguem!
+
+--Ninguem, como?
+
+--Desconfiei e fui ao teu encalo...
+
+--No falas a verdade, Violante.
+
+--A certeza das coisas adquirida quando nos abeiramos dellas.
+Molestias mortaes, por miasmas exhalados dos paes, s as contrai quem
+lhes vai beira. Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio...
+Olhas-me agora atravessado? Nega ento que te falo a verdade como ella
+?!... Por favor, desmente-me, se s capaz...
+
+--Juro-te que no sei do que se trata.
+
+--Perjuro!... Ento, toda a manhan no vais daqui caza de Idalia...
+No me interrompas, no... toda a manhan, no passas l horas
+esquecidas, quando sais no fica ella por traz da gelosia a acenar-te e
+tu a corresponderes-lhe os acenos de apaixonada despedida?
+
+--Ousada! Alem do mais, injurias mulher de um amigo da nossa
+familia...
+
+--E que a tua amante...
+
+--Pois se , est tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre
+vontade... Constou-te j que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As
+minhas obrigaes maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e
+comeam, quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a
+dentro, estou eu cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem
+jurei culto eterno, alias, em tempos melhores... Casei por uma
+supposio de momento: a solido de solteiro era um suicidio de todos os
+dias. E s no me enganei em suppr que o matrimonio me facilitaria
+relaes difficeis antes de ter as qualidades de senhor duma mulher... O
+mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a tua companhia,
+e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado um pequenino
+jardim, o maior cu a entrada de uma furna... A companheira um
+tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo
+homem respeitador...
+
+--Outro tanto te allego eu... Mentir aquelle que disser me ter visto,
+sorrateira ou clandestinamente, embuada ou mascarada, penetrar em
+lugares escusos, ou ao lado de algum homem que no fsses tu...
+Casei-me por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixo
+momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto
+o meu marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me
+eu... Adquiriu uma amante...
+
+--Retem-te, Violante!...
+
+--No! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem pde viver longe
+do pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu
+marido!...
+
+--Intoleravel!
+
+--Tambem tu o s!
+
+--Adultera!
+
+--Deixemo-nos, Simeo, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os
+devolver todos, um por um...
+
+--Saber-me trahido...
+
+--Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando
+nada, no ters de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher
+digna do marido que lhe deram...
+
+--Sinto faltar-me a luz da vista...
+
+--Impresses, Simeo.
+
+--Pois justo que me consinta enganado?
+
+--No nos deshonramos...
+
+-- um conslo ridiculo.
+
+--E que dirias tu se trahida eu no te trahisse igualmente?
+
+--Diversa a situao do homem, Violante.
+
+--O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente
+nos submettemos a esse regimen de igualdade...
+
+--Doloroso!
+
+--Assim exclamei, Simeo! Agora, porem, me sinto melhor: no me
+enganaste, e isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos...
+
+--E o teu amante?
+
+--Dispensa sabel-o...
+
+--Ah!... Repillo a lembrana que me occorre... No, no possivel!... O
+massagista...
+
+--Rende justia tua mulher, Simeo! Pois no vs que eu me no
+vingaria de ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te
+fizesse crar perante a sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de
+ti?
+
+--Ento... Desabafa-me!... S completa!
+
+--Insistes em conhecer tudo?
+
+--No duvides que o quero de corao.
+
+-- Lourival...
+
+--O marido de Idalia?...
+
+--De certo.
+
+--Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem
+conjugadamente...
+
+--Mas eu estou vingada...
+
+.........................................................................
+
+ Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fra do salo,
+ perguntava aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar...
+
+ E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz...
+
+
+
+
+O PRIMEIRO FILHO
+
+
+O PRIMEIRO FILHO
+
+ Na secretaria fra extranhada a falta primeira de ORLANDO, assiduo
+ at no se ter ausentado do servio no attrahente dia do matrimonio.
+
+ O DIRECTOR do esposo de OLIVIA era reconhecido assiduidade do
+ moo, e, por duas vezes, determinra o seu accesso por merecimento.
+
+ Ao penetrar na Repartio depois da primeira falta, todos os olhares
+ recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se
+ entregou ao trabalho sem explicaes.
+
+ Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado, ORLANDO e o
+ DIRECTOR entravam em confidencia...
+
+.........................................................................
+
+--Ah! Sr. Director!
+
+--Estiveste doente?
+
+--No, no foi doena minha. Antes o fsse...
+
+--Trocaste o dia?
+
+--Como assim?
+
+--Levaste conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos?
+
+--Tambem no!
+
+--Viajaste a negocio?
+
+--Qual, Sr. Director! Os meus negociou so smente os de meu dever aqui
+dentro...
+
+--No sei explicar a tua falta.
+
+--E eu careo de coragem para dizer...
+
+--To futil no ha de ter sido o motivo.
+
+--Eu conto. Foi o meu primeiro filho...
+
+--Felicito-o desde j.
+
+--Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade.
+Conhecendo bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a s quando
+se manifestaram os primeiros incommodos do parto. E confiando em que o
+acontecimento cedo me daria liberdade para saltar repartio, fui-me
+deixando ficar, ora mais embebido nos cuidados que a parturiente exigia,
+ora menos descontente com o que se ia passando, at que, s na madrugada
+de hoje, aps vinte e duas horas de labutaes, se concluiram os
+trabalhos...
+
+--Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia.
+
+--No menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi
+em mim e vi que faltra hontem improficuamente, porque...
+
+--Ora, Sr. Orlando! Uma falta no infle, tanto mais quanto fui o
+primeiro a no mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber
+corresponder ao valor dos meus funccionarios.
+
+--Fico embaraado... Nem sei como lhe agradea... Ao depois das torturas
+porque passei, era natural que Deus me dsse o allivio de uma honra como
+a que o Sr. Director acaba de conceder-me.
+
+--E a senhora ficou sem novidade?
+
+--Pouco mais ou menos, Sr.
+
+--Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia...
+
+--Qual nada!... Faltar hoje?...
+
+--No digo isto.
+
+--Ento...
+
+--Obter uma dispensa de servio...
+
+--Nem pensar bom, Sr. Director. Se me dssem licena eu hoje emendaria
+o dia com a noite para descontar o atrazo de hontem...
+
+--So excessos, Sr. Orlando. justo que um chefe de familia precise
+dessas lacunas no servio para gozar mais largamente as venturas de seu
+lar.
+
+--Estas, francamente, eu s poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz
+no acontecido.
+
+--E no o foi?
+
+--Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigao.
+
+--Qual foi o medico?
+
+--Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo.
+
+--Bons medicos, sem duvida.
+
+--E que ho de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como
+um horror...
+
+--Mandarei dar-te uma gratificao para cubrires com ella os
+extraordinarios desse acontecimento inquietador.
+
+--No aceitarei, Sr. Director.
+
+--Porque assim?
+
+--No soberbia, no. Desculpe-me, mas eu no posso aceitar.
+
+--Quereria ter as razes dessa sua desatteno...
+
+--No desatteno, Sr. Supponha que eu aceito. Desfao-me das minhas
+difficuldades graas ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo
+filho, nas mesmas condies difficeis do primeiro. O Sr. descuida-se e
+eu no obtenho nova gratificao. Naturalmente me enciumarei com o seu
+procedimento e o que no quero hoje, no devo esperar amanhan... Pois
+no ?
+
+--Eu daria do melhor grado.
+
+--Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao
+depois, se a parturiente inspira cuidados...
+
+--No se ficou bem ella?
+
+--Acho que no. Ao depois do parto, comeou de ter desmaios consecutivos...
+
+--E o que recommendaram os medicos?
+
+--Repouso. Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher
+uma inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que
+Olivia padeceu.
+
+--Pois penso que devias retirar-te.
+
+--No devo, Sr. Director. O lar uma preoccupao para fra das horas
+da secretaria.
+
+--At o servio poderia lucrar com a tua ausencia...
+
+--Perdo, senhor, mas...
+
+--Admiras-te? No queria falar-te com tanta franqueza para no te
+consumires ainda mais...
+
+--Por acaso commetti alguma outra falta?
+
+--Gravissima... Sabes porque te chamei?
+
+--Lealmente ignoro.
+
+--Porque te desconheci. Ests um desconchavado e erras todo o servio.
+Pelos teus grandes creditos, s aqui dentro um rico de odios e de
+invejas. Conheo-os todos...
+
+--Agradecido, Sr. Director.
+
+--Cada companheiro teu um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem
+com os teus lapsos o teu valor. No o admitto eu.
+
+--Mas, que fiz assim?
+
+--Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua
+informao.
+
+--Oh!... Esta cabea...
+
+--A conta de Silva & C....
+
+--Sei!... sei!... Ento... errei-a?
+
+--Inconvenientemente.
+
+--E sei porque perpetrei o engano...
+
+-- o que tu pensas...
+
+--Por ventura outro me corrigiu?
+
+--Absolutamente no. Sers tu mesmo quem far este trabalho ao depois...
+
+--Porque no hoje?
+
+--Ests dispensado, incondicionalmente, do servio por tres dias...
+
+--No me conformo, Sr. Director.
+
+--Sou irrevogavel.
+
+--No maximo me satisfarei com o dia de hoje.
+
+--Sero tres dias irreductiveis, e pdes ir para a companhia de tua
+esposa descansar a tua cabea. Vejo-te perturbado enormemente com o
+pensamento do que possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda!
+
+--D licena?
+
+--Pois no.
+
+--s ordens do Sr. Director.
+
+--Ah!... Sr. Orlando?
+
+--Sou todo ouvidos.
+
+--Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? homem?
+
+--Perdo, Sr. Director... Mas... no lhe sei responder... Com a
+atrapalhao da hora no me lembrei... Ah!... sim...
+
+--Que respondes?
+
+--Desculpe-me, Sr. justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem
+verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou...
+
+.........................................................................
+
+ Sorrira o DIRECTOR e dispensra de vez ORLANDO, com a inveja
+ crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos
+ factos...
+
+
+
+
+ VISTA DA DENUNCIA
+
+
+ VISTA DA DENUNCIA
+
+ O interior da envidraada varanda, exornado com ipomas e glycinias,
+ em cacos, orchidas e arums nos recantos, no tinha seno a luz
+ pallida, muito pallida, de um luar de inverno, coado preguiosamente
+ pelos vos das grinaldas verdes.
+
+ Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma commettia a
+ indiscreo de transportar para alem, ao conhecimento da criadagem
+ bisbilhoteira, os amuos graves de CLOVIS e AMARYLLIA.
+
+ A denuncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de
+ ferro, destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos
+ grosseiros perpetrados pelas mos violentas de CLOVIS, que,
+ distrahindo-se um pouco com as fumaradas de um havana, ouvia,
+ sem intervenes, as queixas de AMARYLLIA...
+
+.........................................................................
+
+--Como eu, to ladina para outras, comprehendendo to bem o mal alheio,
+deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amavel hoje, tinha sido
+um presente valioso hontem, era uma lembrana expressiva amanhan... E o
+meu filhinho servindo de _passe_ para os maiores engodos!... Toda hora o
+telephone pedia Arthurzinho. L se ia o innocente, coitadinho! E
+raramente voltava. Prendiam-n'o dias seguidos com a ama. Poderia eu
+desconfiar do embuste? Ha genios capazes de todas as villezas. O filho
+era o motivo da entrada do pae, os presentes eram as cinzas nos meus
+olhos, e os convites eram a perfidia da traioeira. Mas, agora, ou eu
+succumbirei, ou estar tudo acabado. Ouve-me bem, Clovis: nesta caza,
+emquanto eu viva fr, Carlota jamais tornar, e se tu desceres
+indignidade de voltar caza dessa mulher, ouve bem! Serei eu quem ir
+buscar o tolo do esposo para te surprehendermos na sordidez. Sempre so
+os interessados nas causas os que por ultimo se sentem logrados. _Il
+n'y a qu'un mot pour dire les choses._ Essa palavra no devo, porem,
+proferir sem macular os meus labios, sem regosijar o meu enganoso
+marido, e sem elevar a perdida que me furta a tranquillidade, que me
+logra no dom legal da fidelidade esponsalicia. Um dia desconfiei. A ama
+de Arthurzinho levava um pacote s escondidas, quando, para castigo,
+elle rolou ao cho, na hora da partida, quasi aos meus ps... Perguntei
+ cumplice que significava aquelle _embrulho_... Foi o sr. Clovis quem
+tomou a palavra: um romance que mando, a pedido, para D. Carlota
+ler... Ingenuamente me convenci. Pois seria possivel que o meu marido
+trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraioava? que expuzesse
+o meu filho infamao de ser posto junto perfida, em lugar de seu
+pai gozado?... meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me
+e vejo-me s. Roubada naquillo porque mais zelos e mais ciumes alimento,
+eu que me tenho submettido machinalmente concepo de treze filhos,
+exgottando a minha juventude para parecer velha aos trinta e dois annos,
+assassinando a minha belleza, relaxando os meus tecidos, criando uma
+ruga nova em cada manhan em que me olho ao espelho!... para ser
+recompensada duramente com uma traio, uma tripla traio, em que se
+envolveram as minhas lealdades de esposa, de me e... de amiga. Sim,
+porque, desgraadamente o digo, tolerei a concubina de Clovis na
+intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por fora dessa leviandade
+commum a todas as mulheres, terei dado causa de rizo maldita que me
+engazupava. Contava-lhe os meus esforos para trazer sempre o meu marido
+na obrigao pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o
+recebia com intimas indisposies, para que regeitado uma feita elle se
+no atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a duvida de sua
+saciedade noutra fonte... No sei onde estava escondido o sol de minha
+comprehenso que agora recenna a minha intelligencia. E uma miseria
+moral essa em que se prostite, com o conjuge das outras, uma velha,
+desrespeitadora das cans do esposo e da innocencia de suas filhas. Havia
+de ser l, naquella alcva cheia de seduces, que o meu companheiro se
+convertia em assassino da paz de minha alma. Aos olhos daquellas tres
+criancinhas--mulheres faceis, por herana, que desabrocham nos comoros
+lamacentos da podrido materna--elles dois se encaminhavam do leito,
+quantas vezes Clovis ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o
+ardentemente com o nome de pae! Bemdito o poeta que j disse estar ao
+lado de cada homem uma fra monstruosa: o instincto. E esse poeta foi o
+meu proprio esposo, accusando toda a humanidade com o seu proprio mal.
+Foi preciso que uma generosidade extranha me avisasse para que eu
+conhecesse essa nova Mylitta babylonica, torpe, pantano no qual at a
+trahida companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram
+poderes lascivos. injustia divina! Porque no me despertaste, a mais
+tempo, do somno em que sonhei com a lealdade de um templo christo e me
+achava desgarrada na nave de um templo de Buddha?!... Foi hoje o
+assignalado dia de minha victoria. A carta chegou-me s mos com as
+resteas violetas do sol posto. Li-a de um folego. O meu primeiro impeto,
+naturalmente, foi de indignao contra o denunciante. Mas, alli estavam
+os factos verificaveis, possiveis, e terrorosos. A noite veiu mais
+depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo. A verdadeira noite
+essa em que tambem a alma se recolhe na escurido de uma dr
+apunhalante. O meu marido jantaria fra, num banquete intimo, mas
+numa sociedade festiva. Resolvi chamal-o prontamente s explicaes de
+suas infidelidades. E fil-o sem tardada, no o nego. criada de
+Arthurzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha affectos meus por
+dar o seu leite formao organica de meu filho, trouxe logo s contas.
+No lhe disse a denuncia, no lhe proporcionei ensejo de contestar a sua
+aco, porque a interpellei segura do facto, inteiramente consciente do
+que fazia. E ella me confessou que levava e trazia romances immoraes,
+que levava e trazia cartas e recados... O instante unico! Ao depois,
+calma e friamente, sabendo que aguava a minha dr, revolveu-me nalma o
+punhal de seu descaro, revelando-me a indignidade de ser o meu filho
+abraado e beijado ardentemente, durante a ausencia do pae, com o nome
+deste entre os labios da corruptora... Nega, Clovis, que no s o amante
+dessa barregan de padres, dessa immunda mulher que maculou o meu lar com
+a sua abjecta convivencia...
+
+--Nego, sim!
+
+--Frte coragem! Jura que hontem no beijaste, quasi aos olhos do
+publico, no salo de visitas, os labios rxos pelo cansao da idade de
+Carlota.
+
+--Juro-te.
+
+--Leviano! Mente como quizeres. Mas, ouve: emquanto o meu corpo sentir
+as commoes do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquella
+devassa, emquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquella carta
+nas tuas vestias, que o perfume de uso na alcva de tua hervoeira,
+terei a coragem de repellir-te e de cerrar os meus labios s menores
+palavras para as nossas relaes. E se, porventura, desconfiar eu que
+foste buscar, como uma abelha sem sorte, o nectar que se esconde na
+corolla daquella flor murcha e fanada, dentro desta caza, escuta bem
+Clovis, haver a incompatibilidade de ns dois... tu entrares e eu
+sahir, ou s ficarei se tu te fres para sempre. Sabes quanto sou
+caprichosa, o bastante para no me arrepender das resolues tomadas.
+Negas, ainda, o teu erro? Serei facil de perdoar-te com a verdade, to
+facil quanto no te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade!
+
+--Nego, sim!
+
+--Quero convencer-me. A p firme?
+
+--Com toda lealdade.
+
+--Pois bem! escusado irmos adiante: sabes o que est contido naquelle
+pacote?
+
+--Ignro.
+
+--So os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero
+devolvel-os.
+
+--Mas, como?
+
+--No os guardarei mais commigo.
+
+--Vais romper, ento, com a familia do Aurelio?
+
+--Forosamente.
+
+-- de mau alvitre.
+
+--Incommoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar
+com uma amizade que me aborrece, e se te excusares a esse acabamento,
+confessas o interesse que ters em manter a verminao desse convivio
+immundo...
+
+--Se encaras por este lado, rompe Amaryllia, devolve tudo do modo mais
+grosseiro.
+
+--Devolverei, sim, no ha que ver.
+
+--Ests no teu direito.
+
+--E espero a tua sanco.
+
+--J a tens.
+
+--No. No a tenho ainda. A devoluo no poder ser feita sem uma carta.
+
+--Pois escreve-a!
+
+--No! Tambem no! Sers tu...
+
+--Eu?!...
+
+--Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?...
+
+--Amaryllia, pensa bem! Ns, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos
+nessas rusgas de mulheres.
+
+--Comprehendo-te: romperei eu, e tu, s occultas qui, com menores
+apparencias, te dedicars continuao de teu adulterio. Has de ser
+quem escrever a carta hoje mesmo, agora...
+
+--Convencer-te-s de minha innocencia?
+
+--De todo, no. Encaminhar-me-ei de convencer-me.
+
+--No haja duvida. D-me papel e tinta. Escreverei num momento...
+
+--E pensas que escrevers como quizeres?
+
+--No: como fr conveniente.
+
+--No te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado.
+
+--Qu?
+
+--Nos termos que me espoucarem arrevezadamente aos labios...
+
+--Mas...
+
+--Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga...
+
+--Amaryllia?!...
+
+--Virulenta e grosseira...
+
+--Faa-se a tua vontade.
+
+--Escreves?
+
+--Como quizeres.
+
+--E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquelle modo escripta?
+
+--A Carlota!
+
+--No, Clovis. Quero que se escreva ao marido della, com o seu nome em
+todas as letras...
+
+-- demais!
+
+--No retrocedas!
+
+--Abusas de minha bondade...
+
+--Enganas-te. Clovis, ou tu escreves como eu te determino, ou...
+
+--Absolutamente, no!
+
+--... ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A caza de meu pae
+ter sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortavel.
+
+--Tua alma, tua...
+
+--Sei bem! Queres o escandalo da separao para o renome do
+conquistador? No te darei essa vantagem... Debaixo deste tecto,
+tragars, Clovis, o amargo da tortura mais incondescendente, soffrers a
+queimadura do inferno mais verdadeiro...
+
+.........................................................................
+
+ Ao longe, um relogio temerario, arriscou o aviso tetrico da
+ meia-noite, ao fim do qual, resolutamente, AMARYLLIA se retirou para
+ o seu leito...
+
+
+
+
+IRADO AT CURA...
+
+
+IRADO AT CURA...
+
+ Ampla alcva: no _armoire--glace_ reflectida como outro vasto
+ commodo...
+
+ Rico mobiliario de pau-setim com incrustaes de jacarand reluzente...
+
+ Um leito de cazados, e sobre elle, cadaverico, pelles e ossos,
+ despojado de carnes, ventrudo, olhar ancioso, o louro ORMINDO,
+ luctando com a morte...
+
+ um erro de diagnostico, rebelde a enfermidade medicao
+ despropositada.
+
+ Junto do leito, uma banca, e sobre esta, alem de um thermometro e de
+ um chronometro, desenvolta frascaria...
+
+ Aos ps da cama, fatigada, somnolenta, s vezes, DOCA heroina na
+ vigilia: o seu semblante merencoreo s consegue alguma graa
+ quando ELOY visita o enfermo.
+
+.........................................................................
+
+--A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaos sorrateiramente...
+Doca, tu bem vs como eu morro todos os segundos, como eu minguo sem
+cessar...
+
+--Tem f em Deus, Ormindo.
+
+--Morrerei com ella, sim. A f! Ella o facho illuminador da estrada
+eterna... Como deve ser doloroso no crer em nada, Doca!... Sentir a
+alma cahir no vacuo... Ah! no me conformo, porem... Morrer quando tanto
+preciso viver... Vou deixar-te na penuria... a braos, por certo, com
+os creditos da medicina e da pharmacia...
+
+--Tu pensas demais.
+
+--Como no hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilhars a codea endurecida
+e atrazada. com horror que prevejo as tuas infelicidades... s nova.
+Mas de que servir a tua mocidade sem po, os teus verdes annos sem um
+amparo? s bella. Mas de que prestar a tua lindeza se no tiveres um
+manto para o frio e um abanico para o calor? Nova e bella... na
+viuvez! Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei?
+
+--A pobreza um estimulo, Ormindo: saberei trabalhar afim de haver com
+honra um pedao de po e alguns covados de fazendas...
+
+--No te peo nada, e peo-te muito: no macla o nome de teu marido. A
+herva reverdesce a fronde dos vegetaes, augmenta-lhes a copa,
+ennobrece-lhes o aspecto: crava-lhes, porem, at ao durano, as raizes
+assassinas e rouba-lhes a seiva at morte. A arvore cessa de existir
+com a trepadeira phytocida que lhe rendilha os contornos. A mulher deve
+pensar que o bem-estar no a honra, e que ha tranquillidades mais
+homicidas do que a herva do passarinho... A deshonra no provem da
+pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A deshonra fructo das
+transigencias de alma, e a mulher viuva a que pde peiormente
+transigir... Que dores!... Ui!...
+
+--Ests vendo: peioras quando falas!
+
+--Doca, no meu caso extremo, a morte assim qualquer coisa como uma
+sorte grande...
+
+--Num bilhete branco para mim que fico sem ti... No sabes aproveitar o
+silencio como um meio de cura, no sabes tirar partido, poupando
+foras para momentos mais graves...
+
+--Durarei muito pouco.
+
+--No pdes saber mais do que os medicos.
+
+--Ah! mulher! S eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se
+avisinha o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam.
+verdade, pois tenho neste momento a viso mais lucida dos meus
+primordios. Que isto seno que se vai fechar a circumferencia de minha
+traslao em torno do vacuo universal? O aneurisma cresce, avoluma-se,
+rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a frma de uma esphera, um
+globo pequenino de vivos, na lucta pela existencia. Vai arrebentar,
+latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que nunca
+me illudi com a esperana da cura? Illudi-me, mas antes de todos...
+
+--Quem est vivo, Ormindo, ainda no est morto, e toda a cura plausivel.
+
+--A tua dedicao cega. Desde que adoeci, desde que sobre o corao
+senti a formao mortifera do mal circulatorio, certifiquei-me estar
+mais longe do mundo do que do nada. E deste momento para c, que fiz
+para denunciar que creio na cura? Ao contrario, a minha vida tem sido a
+chamma de uma vla a luctar com o spro das auras. No ha um
+instante em que no me morra uma alegria, em que no nasa uma saudade.
+Em torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa
+teimosa em torno de uma lampada.
+
+--Aggravas-te, Ormindo! Cala a bocca por piedade! As tuas palavras so
+outros tantos punhaes que me sangram o corao.
+
+--Que horas sero?
+
+--J noite.
+
+--E os medicos que no vieram?
+
+--Vieram, sim. Tu estavas dormindo.
+
+--Os medicos no vieram, no... At a minha esposa conspira contra a
+minha existencia...
+
+--No pesas as tuas palavras, Ormindo.
+
+--J sei de tudo. Perderam a esperana, abandonaram-me. No passarei de
+hoje. Estou condemnado a horas.
+
+--Descansa um pouco.
+
+--Descansar, agora, s de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e
+parece-me que foi hontem tarde que nos vimos pela primeira vez. Um
+sonho s vezes tem existencia mais real, porque nos acompanha do momento
+da concepo em criana ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me
+o ar...
+
+--Assim queres! Falas tanto...
+
+--Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: no ha rio que no chegue ao mar.
+Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas
+consegue... Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez no te
+lembres mais do meu enfeitiamento; no me esqueo eu do sorriso unico
+com que festejaste o nosso encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh!
+que lindo luar te prateou as pupilas, te diademou os cabellos e te
+banhou luciferamente as espaduas! Mezes depois, o cazamento... A noite
+de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso amor insatisfeito sempre
+para accordar novas caricias, para fomentar alegrias... A esperana de
+um filho... O reco da esperana... E tudo isto acabar quando mesmo
+principiava?!...
+
+--No temas a morte: um cerebro que pensa como o teu d confiana na
+renascena da vida.
+
+--A alma no morre, Doca! ella quem esta vivendo agora. Os pulmes
+fraqueiam, o corao tem espasmos, a viso escurece-se, a voz
+arrasta-se, mas o cerebro pensa... Crs tu que, porque no falam, todos
+os moribundos no pensam? Illudes-te! a hora de maior pensamento. S
+recompr todo o passado afim de o ligar ao presente e encerrar o
+circulo das sensaes mundanas, pensar robustamente. Um moribundo que
+eu vi, no tinha a fala. Os membros eram paralyticos, os olhos
+envidrados e photographavam a luz do dia para a eternidade... Pois bem!
+esse homem assim amortecido, repelliu com o gesto brusco de uma perna o
+supplicio de uma injeco nos ultimos instantes... Acaso, no pensaria
+mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros ha que conhecem at o
+segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser tocante o
+adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um
+agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecer mais
+no extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro
+mundo... Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que no falo certo?
+
+--No me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperana
+illuminar-me o rosto...
+
+--Como s amante?!... Quererias de corao e de alma, com todos os
+affectos e vontades, a minha cura?
+
+--Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado sade.
+
+-- bem pouco um desejo!
+
+--Duvidas que todas as minhas foras funccionam s na inteno de
+possuir-te novamente so?
+
+--No duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a
+prolongao de minha tortura...
+
+--Aborrecer-me eu!...
+
+--E ento?!...
+
+--Tens coragem! S me representa que gravars na alma uma eterna
+desconfiana da amizade de tua esposa...
+
+--Isto no!
+
+--Pois parece, Ormindo!
+
+--Neste caso, escutas-me com agrado?
+
+--Sim.
+
+--Posso falar?
+
+--No.
+
+--Ah! j sei... a mesma quesilia de que falar um desperdicio de
+foras organicas...
+
+--Diz o doutor...
+
+--Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro
+conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar
+num terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido s intenes
+animaes dos homens, a equao da mulher perigosamente diversa.
+Virgem, ella tem a expresso de um sonho; esposa, representa uma
+realidade; e viuva, ella uma alma em que se derramam os mananciaes
+copiosos da luxuria humana... Virgem, fste uma criadora; esposa, uma
+inspiradora; viuva, sers, em nome da honra de teu marido, uma
+redemptora... Ai!... Dem-me os pulmes... Morrerei, porem, com todas as
+sensaes...
+
+--No morrers, Ormindo!
+
+--So os teus votos?
+
+--Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda
+no instante derradeiro?
+
+--No duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz.
+
+--Pois ento?!...
+
+--D-me a tua mo...
+
+--Ests frio!
+
+-- a gelidez da morte... No tardar... Fazes-me um favor?...
+
+--Se o fao...
+
+-- para depois de minha morte...
+
+--Juro-te.
+
+--Mas, responde franca e precisamente, para que eu no succumba com uma
+duvida...
+
+--Pede o que quizeres... Pede... no!... ordena!
+
+--Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se no me derrubou de vez,
+vai invadindo-me com o glo de seu halito das extremidades para o
+corao. Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez um
+despenhadeiro. Peo-te em nome de minha tranquillidade, que te cases,
+immediatamente, afim de que no paire uma s nuvem sobre a limpidez do
+teu e do meu nome... Casars logo... Peo-te... o ultimo sacrificio em
+prol do teu defuncto...
+
+--Intranquillisas-me, Ormindo.
+
+--No ha razo para isso.
+
+--Se tu mandas...
+
+--Mando, no; peo... Agradar-te- Eloy?
+
+--Queres, Ormindo, a verdade antes da morte?
+
+-- isso...
+
+--Pois bem! O que tu propes j estava assentado entre ns outros...
+
+.........................................................................
+
+ A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um
+ grande esforo e se salva com o despedaamento brusco do myoma
+ desconhecido, do assassino erro de diagnstico...
+
+
+
+
+A HUNGARA
+
+
+A HUNGARA
+
+ Commodo de hotel. Um fco electrico esverdinhava o azul papel das
+ paredes.
+
+ Revolvido, o leito denunciava em duas cvas a presso de dois corpos
+ que nelle se afundaram.
+
+ SARAH, a hungara, recebia GUANABARINO, o chronista theatral, com um
+ estridente signal de contentamento...
+
+.........................................................................
+
+--Aqui estou. Nem sei como acertei.
+
+--Ests apaixonado?
+
+--Crs, Sarah, que paixo desponte como um sorriso?
+
+--Quem te disse o meu nome?
+
+--Li-o nos programmas.
+
+--Ah! sim. Gostaste do meu canto?
+
+--No te ouvi.
+
+--Como te agradei?
+
+--Pertencendo a outro. A mulher sem dono custar a topar com um amante.
+Rolar uma eternidade como a pedra que no cria limo... Tenha um amante
+e dezenas surgiro...
+
+--Como elle experiente!
+
+--Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por
+Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo brao delle, no teu longo
+_manteau_ de sdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo
+dezenas de mulheres no Caf-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o
+canariar de suas vozes; francesas, que arrebatam com o _savoir-dire_ as
+malicias mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus
+sapateados; americanas, que lembram bugios nos saltos do _cake-walk_...
+Todas so-me indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com
+cocottes para todo o mundo... De comeo estive tentado a emprehender uma
+_mnage--trois_ com uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo
+prohibido e vivia aferrolhado concupiscencia de seu proprio pae.
+Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente
+encontrei-me comtigo...
+
+--Ladrosinho! Como elle sabe contar!
+
+--Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu
+amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de
+amigos attrahiu-me e a attraco de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um
+cumprimento com a cabea. No me teres sido apresentada, significou que
+o teu galan zelava de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho
+de seu progresso na sabedoria dos olhares que as pessas cultas pdem
+trocar. Viste como te comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho
+para o _buffet_? Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo
+de junto de ti e como tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro?
+Na sombra dos ps da meza, os nossos corpos se trocavam desejos nos
+encontros, animavam-se tambem com os promettimentos mais claros, e as
+nossas carnes se queimavam por detraz dos tecidos de nossas vestias.
+Tudo isto, porem, ainda no paixo. um grito do instincto animal. S
+nos no apaixonaremos se no quizermos...
+
+--Como sabes a vida!
+
+--Precisas prender Gustavo. A epoca das melhores. O dinheiro passa-lhe
+pelas mos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque,
+alem do mais, um amante que, por fora de ter mulher e filhos e morar
+longe, te dar muito tempo aos amores furtados.
+
+--No os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo no
+se tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e s o
+trahi uma s vez: com o pae de meu filho. Gsto de um amor s, de ter um
+dono e de ser cubiada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso,
+o Gustavo no me agrada... Prefiro-te a elle, sers o meu amante...
+
+--Errars se assim preferires, Sarah. No tenho posses para te manter,
+ao passo que o Gustavo...
+
+--Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho
+para o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero...
+
+--Neste caso ficars com elle...
+
+--Porque ento?
+
+--Conheceste-o primeiro.
+
+--No importa isso. A elle conheci na manhan, a ti noite, ambos no
+mesmo dia. Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra. Encaminhou-me
+do hotel, e... m recommendao tem dado com os multifarios obsequios,
+com os gastos e as gentilezas, smente com essas coisas... Ora, uma
+mulher como eu, ou quer o homem, ou no o quer... De minha parte
+dispenso as galanterias...
+
+--Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispres de sua
+bolsa...
+
+--E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor...
+
+--L com isto combino eu.
+
+--Assim, v que seja e comecemos...
+
+--Que tenho eu para tanto me olhares?...
+
+--Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes
+so dois vulces. Como te chamas?
+
+--Guanabarino, um nome difficil.
+
+--Como?
+
+--Gua-na-ba-ri-no!
+
+--Gua-na...
+
+--... barino.
+
+--Ah! sei. Guanabarino. a primeira vez que ouo esse nome. s brazileiro?
+
+--De corpo e alma. E tu?
+
+--Filha do sul da Hungria. Vim creana para a tua terra. Fui noiva,
+aprendi a cantar com um meu amante e vivo disto...
+
+--Tens percorrido meio-mundo, hein?
+
+--No: conheo a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia...
+
+--Dize outra vez esse termo...
+
+--Reminiscencia.
+
+--Que lindo! Parece-me, Sarah, que ests a dar uma serie de beijos...
+
+--Como elle ardente!
+
+--De verdade?
+
+--A tua alma est fugindo-te pelos olhos...
+
+--Junto de um espirito como o teu, como ella no querer a transfuso
+carnal? J notaste o frio que regela as mos do homem emocionado junto
+da mulher que o escalda?...
+
+--Ih!... Que glo!
+
+--Sabes explicar?
+
+--No. difficil?
+
+--Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao corao. As
+extremidades resfriaram-se. Tudo isto j comeo de paixo... Falaste
+nos meus olhos! E os teus? So capazes de comprar o mundo com um s
+relance.
+
+--Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento?
+
+--Que graa! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas
+gentilezas.
+
+--Tens gozado tanto?
+
+--Inda perguntas?! No sabes que o amor se fez para os temperamentos
+tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um
+desejo para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda
+hora: sinto que todo o teu sexo no seja uma s mulher para esta ser a
+minha amante...
+
+--Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino!
+
+--No.
+
+--Desmentes o que asseguras.
+
+--J tiveste o teu quinho.
+
+--Como assim?
+
+--J te possuiu o Gustavo...
+
+--Juro-te que no. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja
+revelada, ainda no desejou...
+
+--De facto?
+
+--Juro-te eu.
+
+--Ao depois delle... nunca!
+
+--Mas, porque? Mettes-me medo...
+
+--Por nada! O Gustavo um homem para se temer...
+
+--E porque me infles para ser a sua amante?
+
+--Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu
+concubinato bem pdes usufruir grandes proventos. E, j agora te direi:
+pouco mais far elle do que hoje... Entretanto, como homem de
+recursos, talvez ainda no te dsse a menor prova do que seja...
+
+--Fez-me hoje a oblata de um collar de libras...
+
+--Um collar?
+
+--Sim.
+
+--De libras esterlinas?
+
+--Conheces?
+
+--Acho que no. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos...
+
+--Foram presente.
+
+--Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros
+meios que no esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe
+aqui...
+
+--No amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de
+_chanteuse_. s vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a
+primeira a no regeitar o que me do. Um deputado deu-me este annel...
+
+--Adoravel!
+
+--Um advogado, ao depois de uma perseguio de mezes, para eu o receber,
+offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho
+aquinhoou-me apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio,
+outras...
+
+--Muito em cheio, Sarah!
+
+--Tu falas? Um mineiro, hoje desesperanado de conseguir a minha
+retribuio, deu-me estes correntes para atilios...
+
+--Que lindas frmas!
+
+--Mostro-te apenas os atilios e no as pernas...
+
+--E eu vejo tudo! admiravel como o _fraise_ das meias se destaca no
+gsso das tuas pelles...
+
+--Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me
+cubrissem de oiro tenho tido s carradas... mas, um s que me dissesse
+coisas to lindas, nunca tive... A palavra inescutada tambem uma joia
+preciosa. E para retribuir tantas distinces ineditas s um beijo de
+muita paixo, s um beijo...
+
+--Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e dste mais de mil...
+
+--Longe disto, tu no me recompensaste com um s... Reparei bem...
+
+--Desculpa. Mas, quando sou beijado, no beijo. Esta caricia deve ser
+sempre espontanea e impagavel. E eu no commetto a grosseira
+sensualidade de pagar uma caricia...
+
+--Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan...
+
+--Com todo o fervor...
+
+--No te enciumas?
+
+--No. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de
+ouro que elle te der.
+
+--Queres ver o collar de hoje?
+
+--Verei.
+
+--Elle me prometteu para amanhan um relogio e um corrento.
+
+--Aproveita, Sarah! Gustavo desperdia dinheiros de herana...
+
+--Vs tu o bello collar?
+
+-- lindo!... Elle t'o deu?
+
+--Sim.
+
+--Esta joia?
+
+--Que significa o teu espanto?
+
+-- que este collar ...
+
+--Falso?
+
+--No! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo...
+
+--Agora minha!
+
+--Ests no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos...
+
+--E s a ti amarei, Guanabarino!...
+
+.........................................................................
+
+ Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de
+ GUSTAVO evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando o
+ silencio somnolento do casaro do hotel, a figura caprina de um mal
+ conhecido visinho de quarto...
+
+
+
+
+DEPOIS DO COMETA
+
+
+DEPOIS DO COMETA
+
+ De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, ALEXANDRINA
+ ergueu-se da _steeple-chaise_, e beijou a mo da velha senhora D.
+ CAROLINA, que acompanhava MIMI, naquella matutina visita de nupcias.
+
+ Ao depois, como duas flores de uma s haste separadas para sempre
+ que se reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braos
+ a figura da amiga e beijaram-se fartamente.
+
+ De outro lado, ARTHUR, o novel esposo, enfardado no seu dolman de
+ brins brancos, cumprimentra, ceremoniosamente, a DONA CAROLINA e
+ com um sorrizo prazenteiro applaudiu as bregeirices de MIMI.
+
+ Esta e ALEXANDRINA, ao depois de affaveis cumprimentos geraes,
+ confidenciavam numa janella, por detraz de arrendadas cortinas,
+ onde se foram acastellar para a permuta de segredos...
+
+.........................................................................
+
+--A que horas despertaste?
+
+--Nem sei mesmo...
+
+--No possivel.
+
+--Palavra!
+
+--Ento ferraste no somno, e...
+
+--Ao contrario: no durmimos.
+
+-- exquisito.
+
+--Como te enganas! No calculas o que seja a estafa de um dia de noivado.
+
+--O dia mais bello da mulher...
+
+--Parece-te?
+
+--Esta ba, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: no te
+sentiste extraordinariamente feliz?
+
+--Ah! sim... Casei-me por meu gosto...
+
+--Olha que j me pareces outra com tanta sisudez e seccura...
+
+--No , Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente.
+preciso que no me tenham na conta de alguma leviana: j hoje em dia,
+minha amiga, tenho segredos que te no posso falar...
+
+--Prohibiram-te de dizer-m'os..
+
+--No! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alterao na vida de uma mulher
+que se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida
+conjugal, que nem sei como me reconheceste hoje... J viste, no
+craveiro, o botosinho verde; o caslo de folhas, como, na manhan
+seguinte, est um perfumoso cravo, uma flor distincta? Se te dessem as
+duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o facto como inveridico...
+
+--Mas eu te vejo a mesma boniteza...
+
+--Sim! questo de alma. Suppe que adormeceste no comeo de uma viagem
+e que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo
+seria o mesmo, a tua lindeza no seria transformada, mas o teu corao
+palpitaria diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As
+tuas amigas ficariam noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso
+que regressasses ou que ellas viajassem para onde fras. Assim no
+cazamento: viajei para muito longe de ti. Para nos irmanarmos como
+dantes, ou voltarei minha immaculabilidade de hontem, o que seria
+impossivel, ou tu ascenders ao matrimonio para o que fao votos.
+
+--Tens razo!
+
+--No te parece?
+
+--Falas e procedes to judiciosamente que no me atrevo a duvidar das
+alteraes por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o
+cazamento para no me esquecer to depressa das intimidades com as
+minhas amigas...
+
+--No me esqueci. s injusta! No te darei novas confidencias: as
+velhas, entretanto, ficaro acariciadas como um sonho de felicidades na
+vida de uma mulher inditosa.
+
+--Pois pensei que me dirias tudo...
+
+--Tudo... qu?
+
+--Ora!
+
+--Denuncias que pensas em algumas coisas que no so veridicas, ou, pelo
+menos, no o foram para mim.
+
+--Foste differente das outras!
+
+--Offendes-me.
+
+--No te offendo, no. Desconheo-te.
+
+--Que quererias tu que eu te falasse?
+
+--No sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses.
+
+--Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha
+com um olhar seriamente investigador e tua me franze o sobrolho para
+mim... Um ha de suppr-me indiscreta para te communicar tolices...
+e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras...
+
+--No! Deixa...
+
+--s m! Tens talento e no queres comprehender a minha situao,
+especialmente no dia de hoje.
+
+--J te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres...
+
+--Amas sem razo.
+
+--Com que direito a planta exige vio da flor que j foi colhida?
+Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre ns duas existe a alma do
+sr. Arthur...
+
+--No exaggeres...
+
+--Pdes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirs delle tambem. Os
+meus sero contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo,
+porque no deve haver um conhecimento novo que no pertena a ambos: os
+delle... morrero comtigo, porque no deves trahir tua f conjugal...
+
+--s incondescendente!
+
+--Sim, sou incondescendente na verdade das cousas.
+
+--Em parte, minha amiga.
+
+--No. Em tudo.
+
+--Veremos.
+
+--Pois experimenta!
+
+--E se eu te provar?
+
+--Pago-te com um beijo...
+
+--Oh! Pois ento a mulher que se cazou pde beijar outra pessa que no
+seja o seu esposo?
+
+--Deste modo, Mimi, no chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha
+conversas... O que te conversei at hontem, no conversarei jamais com o
+meu esposo. O que te converso agora, no conversarei jamais com a tua
+maman. Beijos!... Os que te dou so da ordem dos que sempre te dei...
+
+--Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias.
+
+--No sei se smente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei
+quantas tem...
+
+--Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes
+ou no ao teu marido?
+
+--Conforme.
+
+--No caso de dubiedades. Dizes ou no?
+
+--Se fr s do teu interesse, no.
+
+--Fao-te justia, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao
+falseamento agora, smente agora, do teu dever. Contars tudo o que te
+disserem, ou sers uma perjura na f conjugal. Eu mesma duvidaria
+de tuas intenes, se occultasses do teu marido o menor acontecimento
+que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de
+descobrir sempre esse interesse que no exclusivo da pessa que te
+fallou, para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de
+parte, e affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres...
+
+--Dou-te razo, minha amiga. O mundo esse mesmo e no serei eu quem o
+modificar.
+
+--Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva!
+
+--Achaste?
+
+--Encantadoramente bella!
+
+--E tu me viste?
+
+--Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem porta da
+igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja.
+
+--Era a ultima nota do meu pudor de virgem!
+
+--A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro
+assentou-te a grinalda como uma cora de rainha. Agradou-me a tua
+elegancia. E, porque no te censurar? s no gostei de trazeres os
+olhos humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar esplendido.
+
+--Lisonjeira!
+
+--Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multides que se
+dominavam com a curiosidade de ver-me...
+
+--Tens razo. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem
+saber que... mais tarde...
+
+--Dize... dize...
+
+--Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais
+algozes...
+
+--De vras?
+
+--Sim, minha amiga! No calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh!
+Digo-te de mais! Perda se te offendo...
+
+--Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que,
+ainda ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu?
+
+--Guardei-o j para offerenda a uma Santa.
+
+--Quem t'o tirou?
+
+--A maman... Arthur conversava no salo com o pap e dois amigos
+retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem j era alta hora da
+madrugada. Duas ou tres, no sei.
+
+--E o teu vestido? Era primoroso...
+
+--Est no _armoire--glace_...
+
+--Muito amarrotado?
+
+--No. Quando o despi... chorei! Como que uma mulher s se veste to
+bem uma vez na vida?!...
+
+--Choraste, Alexandrina?
+
+--Sim.
+
+-- de mau agoiro. Dizem que morrer primeiro aquelle que chora...
+
+--No sabia.
+
+--Nem que morrer antes do outro o que se deitou por primeiro?
+
+--Tambem no! E por isso tambem serei eu quem morrer antes...
+
+--Ah! j estavas deitada quando elle appareceu na alcva?
+
+--Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mos, tratou do
+successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada,
+desde as asperezas do juiz cazamenteiro, at s melifluidades de voz do
+sacerdote, quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal.
+Recompuzemos a sociedade que aqui esteve. As dansas, o servio de
+_buffet_, a ceremonia do ch... Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa,
+eu lembrava outra. Sorriamo-nos, commentavamos, com seriedade, as
+incorreces dos outros...
+
+--E o tempo se passava...
+
+-- exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. No sabes, porem,
+como foi opportuna a nossa conversao. Quando extremecemos, ouviu-se o
+tiro das cinco horas...
+
+--E ento?
+
+--Arthur lembrou-se do cometa... J o viste?
+
+--Ainda no!
+
+--Pois bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada
+do meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi...
+
+.........................................................................
+
+ Interrompidas por DONA CAROLINA, MIMI e ALEXANDRINA, dando-se as
+ mos, nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na
+ conversao commum...
+
+
+
+
+AMORES NO CLAUSTRO
+
+
+AMORES NO CLAUSTRO
+
+ Um ar tpido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos,
+ instigador do sensualismo mais humano e menos animal, era o
+ excellente conforto da cella de FREY PATRICIO.
+
+ Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de
+ dedos enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro
+ e o seu affectuoso irmo de ordem, FREY THOMASIO, palravam
+ gostosamente de coisas alegres...
+
+.........................................................................
+
+--Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resoluo
+improvisada...
+
+--Pois eu, no! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e no
+venci: fui derrotado.
+
+--No posso crer facilmente.
+
+-- a verdade, irmo Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no
+sepulchro. Para aqui trouxe o meu corpo, e, l fra, borboleteando, sem
+parar, a minha alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella
+animava. Emquanto moo, nas minhas preces s o nome de uma mulher viava
+triumphante...
+
+--Tambem a mulher...
+
+--Sim. Preconceitos, preconceitos! A barona estulta de uma familia
+asphyxiou sem d a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje,
+tremo de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre
+hymnos e bemdies, tel-a-ia levado, no cova, sublevando-se contra os
+pais, sim ao hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem
+cuidados naquillo que outros apreavam--a feeria dos titulos
+nobiliarchicos--vivemos apenas pelas suggestes do sentimento que nos
+venceu...
+
+--Os teus labios tremem, irmo Patricio, as tuas pupilas se inflammam e
+olham por sobre ns para tempos bem distanciados...
+
+--Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingana que exerci
+contra mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia
+ainda, mas respirando bales de oxygenio. Artificios da sciencia! E
+tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo, naquella
+tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do
+esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A
+vista annuviou-se-me e, balouadas pela briza, as rendas do esquife me
+disseram um adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenos muito
+brancos, molhados de lagrimas... Succumbi deante da falsa viso e
+esmaeci... debruado sobre aquelle leito, onde chorei incansavelmente
+irado--Deus me perde!--como o mais pecador dos homens...
+
+--Tanto poude o amor!
+
+--A mola do mundo, Frei Thomasio, a mulher. No ha um burel aqui
+dentro que no seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem
+corriqueira e profanamente os francses, _chercher la femme_... Por
+ventura no professaste como os outros?
+
+--Sem tirar nem pr na cauza.
+
+--Sempre assim.
+
+--Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu
+entre os outros homens e te elegeu o seu preferido.
+
+--Ah! por certo.
+
+--Quem me dra!
+
+--E que te faltou, Frei Thomasio?
+
+--Justamente o amor.
+
+--Intrigas-me de vras.
+
+--Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei
+mocinho?
+
+--Se me lembro!...
+
+--Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era
+menino, e se me dissessem que o heliantho foi obra da preteno e do
+desabuso de Hephaestos querendo, como um Deus, criar ses e mais ses,
+todo o credito eu daria, porque no tinha discernimento para me salvar
+das tentaes humanas...
+
+--Que so as verdadeiras tentaes da serpente no Paraiso...
+
+--Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o
+carreiro que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas
+e ramos para sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambies
+de saber... Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as
+primeiras cousas de amor...
+
+--E no lias o _Cantico dos Canticos_!
+
+--Ah! no! Fui sabendo que, como Eva fra criada para acompanhar o
+primeiro homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os
+arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com
+olhos de escaldo...
+
+--Que magano!
+
+--E no peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas
+amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o
+cortejo dos mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras no tinham
+as calenturas de um amor, ella abrasava na abundancia das pretenes
+exaltadas: todos porfia lhe disputavam a preferencia... Tolamente eu
+era conduzido entre os fascinados pelo olhar da mooila cortejada.
+
+--Estou vendo que eras o preferido...
+
+--No sei, porque no tive capacidade para aquilatar, bem como porque--e
+daqui se originou a minha principal historia--troquei logo essa
+espectativa de amor bem aventurado por uma effectividade de amor bem
+triste... Mas sei que os olhares dos meus velhinhos cahiam sobre ns
+dois como punhados de olorosos jasmins, quando elles nos viam, quaes
+dois noivos conscientes, em falaes na varanda arborisada de nossa
+caza, amorosamente illuminados pela lua...
+
+--Bem feliz que ias para a vida entrando, irmo Thomasio?
+
+--Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a
+minha desdita foi ella a que mais lagrimas chorou... Ora, se a intuio
+de amar crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais
+fulgentes e chispantes, me sensualisaram todo e a carne arvorou-se em
+maior do que o sentimento...
+
+--O pecado!
+
+--Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, s vezes
+ainda peiando cigarras e apedrejando, com rudes instinctos, os
+inoffensivos gaturamos, fui prendendo-me s ardencias das esbrazeadas
+pupilas de uma mulher facil... A principio, quando o seu olhar incidia
+sobre mim, eu cerrava os olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer,
+pensava nas ternuras da outra. Nada mais. Os dias repetiam-se e as
+scenas mudavam-se, crescendo as investidas e diminuindo a resistencia.
+Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da aggressora, eu sentia
+uma purpurido nas faces, mas incolume proseguia o meu caminho... Mais
+tempo, e duas, tres, quatro vezes, voltava-me para trocar sorrisos... Em
+caza, a presena da outra, comeou de aborrecer-me. noite, por sobre
+as paginas abertas dos meus livros, dansavam cabrioladamente as imagens
+das duas mulheres. E eu me decidia fragorosamente pela menos
+conhecida. Um dia, notei que os labios da extranha se moviam. Nada
+percebi, no entanto. Que ella falava, eu estava certo. Nas passagens
+seguintes, com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo exquisito. Duas
+syllabas apenas, e, se no te offendo nem abuso de tua condescendencia,
+irmo Patricio, dir-t'o-ei j...
+
+--Fao mesmo questo de sabel-o...
+
+--J que queres ouvir-me, continuarei...
+
+--Contina...
+
+--A deslumbrante mulher dizia-me apenas: Tico...
+
+--Ol!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocabulo...
+
+--Nada sei explicar-te, Frey Patricio, seno que corri os diccionarios
+dos meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo
+convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo
+investigador, depois de algumas pesquisas fra da convivencia dos
+collegas, soprou-me segredadamente: _Tico um convite... E quando
+ouvires, responde taco..._ Corei deante da revelao e maldei de tudo.
+O meu primeiro impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me
+furtar s seduces de Almira...
+
+--Que bello nome, e lendario!
+
+--Tive, porem, de ceder contingencia dos factos. No era possivel
+andar por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti
+da ideia e affrontei a tentao. Com o tempo fui cedendo. E, um bello
+dia, como se diz l fra, escorreguei... Tico!, disse-me ella, e eu
+lhe oppuz murmuradamente quasi: Taco! Em resposta, ouvi: Amanhan!
+Que noite, Frey Patricio! Se ha caldeiras para queimar almas, ns as
+experimentamos quando fazemos a espera de alguma coisa. No durmi,
+confesso. E, para encurtar as razes, s acordei, effectivamente,
+quando, advertido por ella de que l iria chegar o seu homem, me vi
+escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse
+esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que
+cresceram e motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que
+creatura perversa! Foi s bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho
+animal me arrancou de debaixo das pilhas de saccos, s bastonadas, Frey
+Patricio...
+
+--Ah!... ah!... ah!... ah!
+
+--No rias, Irmo!
+
+--No te zangues, Frei Thomasio. No me posso conter... A tua historia
+alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!...
+
+--Nem sei como de maus tratos no me acabaram naquella hora furiosa... E
+quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais!
+
+--Pudra!... Ah! ah! ah! ah!...
+
+--Alis, no foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido j, e
+voltando aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia:
+Taco?... e eu a repellia instinctivamente... Nem tico, nem taco...
+nem l dentro do teu sacco...
+
+-- ba, ba!... Ah!... ah!... ah!... ah!...
+
+--Em seguida...
+
+--Sim...
+
+--... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos
+conhecidos me estygmatisava com o escandalo, e soffri, abrazadoramente.
+Ninita, escandalisada com a minha quda, definiu-se por outro, que a
+recebeu como esposa perante Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim
+mesmo... O mundo era um tedio... Ento pensei no vicio...
+
+--Mizericordia!
+
+--Mas, no era?... Para abafar uma mizeria moral, s outra maior... ou o
+passo que dei...
+
+.........................................................................
+
+ A bronzea sineta da confraria, no se retendo na misso avisadora,
+ chamava a Ordem para a humilde refeio da noite.
+
+ E quando FREY PATRICIO chegou ao salo, na companhia de FREY
+ THOMASIO, j se liam, emphaticamente, as consoantes oraes da
+ hora.
+
+
+
+
+A CONSULZA
+
+
+A CONSULZA
+
+ De _maillot_, apenas, arrebicando as faces diante de um espelho,
+ NINA, a bailadeira, tinha um milho de pensamentos banaes no cerebro
+ ardente.
+
+ Os traos da sepia e os rebordos do nanquim, j lhe accentuavam a
+ grande vivacidade do olhar, e o p de arroz attenuava e embellecia
+ as cres roseas do rosto criadas pelo carmin vencedor.
+
+ Uma vez por outra, deixava de conformar-se, para attender aos
+ appellos da porta, de onde, sem deixar ninguem penetrar, voltava
+ enfastiada com as iteraes de extranhos.
+
+ Esperava OCTAVIO: era o _aimant du coeur_, porque o CONSUL, o
+ velho francs, pelas suas funces representativas, evitava
+ aquelles encontros mais notorios...
+
+.........................................................................
+
+--Nina?
+
+--Quem bate? Octavio?
+
+--Elle, sim!
+
+--Entra, meu rico amor!
+
+--Fiz-me esperar, hein?
+
+--Nem tanto, mas eu tenho a regalia de poder cheirar-te as vestimentas
+para saber se tiveste o contacto do corpo de outra mulher, de
+vistoriar-lhe o casaco, para descobrir ahi os fios perdidos dos cabellos
+da que me logrou...
+
+--Descansa o teu corao. Vivo inteiramente para ti. E emquanto estou
+longe do teu olhar, sou como o barro que espera, ardorosamente, a toda a
+hora, a plasmagem do artista. Por elle, passam e voltam, vo e tornam,
+todos os profanos: mas elle no menos monopolisador de sua
+plasticidade do que uma flor do gnomo que s abra a horas certas...
+
+--No sabes? O Consul pediu-me a noite...
+
+--E deste-lh'a?
+
+--Nem sei...
+
+--J me toma os dias inteiros... Entra agora pelas noites... Que horas
+sero as minhas?
+
+--Todas at. Aturo-o porque tu consentes.
+
+--Exactamente. Mas elle vem a prejudicar-me se continas a no se
+satisfazer com o que lhe ds. s vezes, l para as tantas do dia, penso
+em ti. O brazido abre em chammas ao menor sopro. O incendio alastra.
+Quero remediar-me e soffrer a caricia dos teus beijos anti-incendiarios.
+Vem logo a certeza de que o Consul te frequenta o dia inteiro. Esmoreo.
+Abomino-me e espero confiante o prazer da noite. Tenho sido certo e
+insubstituido. De agora por diante, nem mesmo nas noites poderei
+confiar. Ao amante nunca lhe ds demais. Se te pede uma hora, d-lhe
+meia, se te pede um dia, d-lhe horas, se te pede uma noite, d-lhe um
+dia, e reduze sempre as suas pretenes. Ao contrario, todo o tempo ser
+absorvido. E, quanto ao mais, espera-te hoje a ventura. Vais dormir com
+o Consul... Estou libertado...
+
+--Oh! no! Que succede Octavio?
+
+--Nada. No estorvo os teus anhelos. Leva comtigo o Consul. D-lhe o meu
+lugar, mas dize-lhe, ao menos, que no me occultaste a entrada
+delle no leito que deixo vasio...
+
+--Espera um pouco que te falarei melhor. s acabar de toucar-me...
+
+--Careces de mim?
+
+--No me aborrece, Octavio!
+
+--Pensei sempre que valhesse mais do que todos os outros teus amantes.
+Vejo, entretanto, agora, que um existe mais poderoso ainda do que todos
+ns reunidos...
+
+--Vale a pena a descuberta.
+
+--Desmente-me, pois. No tens um amante que preferes ao Consul, um
+amante deante do qual te esqueces mesmo de mim?
+
+--Dizes-me coisas extraordinarias...
+
+--Contesta a existencia desse outro amante omnipoderoso, que motiva
+teres-me deixado no exilio deste divan, na semi-obscurido de teu
+camarim...
+
+--No s amavel.
+
+--De mais em mais se confirma o que te digo: nem tens animo, por causa
+delle mesmo, para contestares o que te affirmo de um modo to
+categorico... Digo-te centos de coisas e nada te abstrai desse amante
+unico...
+
+--Agora, sim! Dei um ultimo retoque nos meus preparativos de scena...
+Que te pareo de _maillot_?
+
+--No trato disto. Refiro-me ao teu poderoso amante.
+
+--O Consul?
+
+--No sabia que este seja poderoso. Mas no a elle. Ao outro, deante
+do qual te esqueces de mim, do Consul e de alguns menos e mais cotados
+do que ns outros...
+
+--Amante?
+
+--De certo. Negas que no te absorve elle mais do que qualquer de ns?
+
+--Nego.
+
+--Contestas que exista esse amante?
+
+--Juro-te mesmo.
+
+--V l que no me enganas...
+
+--Quem ser, Octavio?
+
+--O teu espelho...
+
+--Aceito a graa. Em troca, porem, vais dizer-me o que julgas de meus
+trajos em _maillot_?...
+
+--Julgo mal, porque te acho parecida com uma lebre a quem cortaram cerce
+todos os pellos... Assim muito delambida, muito escorrida, muito
+masculina...
+
+--Tens espirito.
+
+--E fui franco do modo que tu me pediste. Veste as rendas, sobrepe as
+sedas, ou tira o _maillot_. Se vamos ao mundo, todos os atavios, todos
+os _soutaches_, applicaes e _manteaux_ sero poucos; se ficamos
+aqui, o menor fragmento de tecido mais fino, ser demais... Ou o extremo
+enroupamento, ou a extrema nudez...
+
+--Figuremos duas hypotheses. Se me visses enroupada, com um luxuoso
+vestido, de muitas rendas, muitas fitas, muito decte, muita joia, e
+lindo chapeu de plumas, que farias de mim?
+
+-- essa a primeira hypothese?
+
+--Sim!
+
+--Pois bem: levar-te-ia, logo, tua caza para que, antecipando a hora
+de tua sahida, o Consul, nem de longe, pelo meu brao, te visse hoje...
+
+--s digno de um acto destes.
+
+--Bravura do amor. Agora, a segunda hypothese?
+
+--Sim: se me visses na, to na que nem uma _charpe_ me velasse as
+pomas, que farias de mim?
+
+--Ah!... Ahi est uma pergunta de difficil resposta, uma hypothese de
+operosa soluo...
+
+--Porque?
+
+--Porque uma nueza dessas exigiria um leito e sem este tu serias apenas
+uma gravura...
+
+--Venceste-me. Despacharei o Consul.
+
+--No sou eu quem determina. Passarias uma noite igual s de Bhodis na
+companhia de Chrysis... Porque escancellas tanto os teus deformados
+olhos? No calculas, assim, a desproporo do teu semblante, lindo como
+um camapheu...
+
+--Procurei ouvir o que se faz em scena, afim de verificar quanto falta
+para a minha vez...
+
+--Queres, saio a ver...
+
+--No. Chamarei o contraregra. Nem precisa: canta a Solidonia...
+
+--A pernstica!
+
+--Deixa-a, coitada! Ainda tenho todo um intervallo e dois numeros da
+outra parte. Agora... d-me um beijo, paixosinha!
+
+--Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulza...
+
+--Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu
+lhe tenha promettido uma noite, quando no lh'a darei por preo nenhum?
+
+--Ciumes?!... No os sinto dos outros homens, porque nenhum delles
+lograr de ti as venturas e as concesses que eu tenho gozado... Nem
+mesmo do Consul... Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve
+dizer sempre que antes delle provei-o eu. Tenho ciumes, Nina, do
+que tu vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que
+fitas... Se eu pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus
+vestidos. Invejo delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem
+confidentes dos teus nervos e das tuas pulsaes. Tenho cimes das
+flores que exornam os teus cabellos, porque smente ellas passam o
+deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor. Tenho cimes do
+fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado entre os
+teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te
+inebria, porque smente elle atravessa as tuas frmas e vai arrebatar-te
+na essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque
+smente ella vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo
+isto, eu quereria ser o somno que te fecha as palpebras, porque
+participaria das felicidades todas dos teus sonhos; a agua que te banha
+as frmas, porque desvendaria os immensos segredos e mysterios de tua
+belleza unica, e o riso que te doura o semblante, porque teria o dominio
+do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do instante magico em que pela
+primeira vez nos pertencemos mutuamente? So de vras muito irmans as
+almas que tocam meta de uma ventura no mesmo instante... e as
+nossas duas...
+
+--De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o
+poder de duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a
+inclemencia de Nausitha deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao
+amante, no fervor do gzo, entre os teus braos, naquella noite,
+Octavio, naquella primeira noite...
+
+--Desgraadamente, j eu, ento, poderia ter sentido por toda a parte de
+teu corpo, o halito bafiento do outro amante.
+
+--O outro amante?!... Tenho-o, e como se elle no existisse. Tenho-o
+porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor,
+protestam os meus seios, bem diversos na tua presena do que so na
+delle. Deante de ti, as minhas pomas parecem florescer como os
+jasmineiros em deliciosas noites de luar, como as laranjeiras em
+uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem perdem na seccura e
+esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas dos
+rochedos... s a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos
+labios. Elle o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os
+seus desejos...
+
+--Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher no se cede a um homem
+sem a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer...
+
+--Acertaste. No sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente
+procuram por toda a parte o homem e que s ao depois de muitos descobre
+o procurado? Quando topei comtigo, j o tinha no convivio de suas
+esquisitices.
+
+--Tu s formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam
+divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias!
+Quero enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos
+amores...
+
+--Bem sei que os homens todos so uns animaes. Uns, porem, so menos do
+que outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que
+os cis, nesse mistr, so os equivalentes de certos homens? E que elles
+so os seres que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um co...
+Os seus labios, como os de Pan, seriam capazes de devorar as
+virgindades, se as virgens recebessem os seus beijos...
+
+--Quero crer.
+
+-- um libertino.
+
+--Nada mais?
+
+-- um extrangeiro...
+
+--Que importa?
+
+-- um devasso...
+
+--E smente isto?
+
+--Ama como um co, Octavio.
+
+--E que que faz?
+
+--Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me
+arrastar concesso do prazer que s vige nos seus labios? No te
+bastar a expresso do pouco que te digo?
+
+--Repugnante!...
+
+--Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante s tu!... Toda esta noite serei tua
+como nas demais...
+
+.........................................................................
+
+ Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus
+ cabellos de oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de
+ todas as volupias da terra, como os crnos de Almatheia foram de
+ todas as riquezas do mundo...
+
+
+
+
+DE COMO O AVARENTO MORREU...
+
+
+DE COMO O AVARENTO MORREU...
+
+ Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:--uma
+ enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, MANUEL CARLOS proferia
+ blasphemias.
+
+ Ao seu lado, a NEGRA, que era uma amante retinta, carnuda e
+ fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos
+ cautelosos a agitao do moribundo angustiado.
+
+ Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal
+ percebido, a principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima
+ reaco da vida contra a morte.
+
+ Nesta hora, da doena, por entre as chocantes palavras de MANUEL
+ CARLOS, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim dos seus dentes que
+ rangiam como uma lima activa sobre um pedao de ferro...
+
+.........................................................................
+
+--E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito
+dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida um
+pedao de ouro comprado com um milho de moedas... A morte uma ladra
+que nos furta, para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a
+reunir... Sou rico! Digo-o com um cordial prazer. Tambem trabalhei como
+uma alma possessa. No houve domingo nem dia santo, que me dssem
+descanso, chuva e ao sol, alta madrugada e avanada noite... Rim...
+rim... rim... rim...
+
+--Como elle range os dentes?!...
+
+--Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as
+cavallarias despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como
+massas de feno, nos recantos das mangedouras. s vezes, chovia como um
+diluvio. E eu, com o corpo quente da cama, cortava o pateo, mettido no
+meu capote de lan, e, menos feliz do que os meus assalariados que
+ainda dormiam, tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem,
+dava-me calor e foras. Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da
+Beira, de onde sahi, num dia de inverno, ha mais de trinta annos. Nesse
+dia, a avsinha e a mi-Geralda levaram-me at caza do moo que me
+trouxe para aqui. Ah! Deus lhe d o reino dos cus, j que na terra eu
+nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim... Bella pessa, generoso
+ao desperdicio... Que barulho esse que ouo de instante a instante?
+
+--So os trabalhadores no terreiro.
+
+--Sahiram hoje os vehiculos?
+
+--Sahiram todos.
+
+--Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza.
+
+--Talvez os cis...
+
+--No me veiu ver hoje o _Tupy_. Tem sido esse canzarro o meu maior
+amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mos.
+Por onde andar elle que hoje se esqueceu de mim?
+
+--Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e...
+
+--Nem pense nisso: o pobre animal se ladra no morde. Vigia-me a caza e
+desconhece os extranhos.
+
+--Ladra e assusta.
+
+--Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as
+suas lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos.
+E sempre tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de
+longe mesmo, o tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em
+meio de caminho. Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em
+fidelidade e presteza. Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim...
+rim... Nem sei como se tm feito por ahi afra os meus servios... E
+hoje o ultimo do ms. Se no se procurar, a terrivel corja no paga.
+Nem tenho uma pessa a quem confie esse servio. Neste mundo s se
+encontram gatunos e ladres. Um honesto, como eu, uma realidade rara!
+Em tudo fui roubado, at na sade. Dos poucos, das moedas de cobre, os
+simples trocos e differenas nas compras, tu te assenhoreavas, porque me
+dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dce, uma
+fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo
+de ter deixado nas tuas mos as economias que deviam ter voltado ao meu
+capital, porque delle se despediam para sempre... Rim... rim...
+rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!...
+Ouo novos ruidos... S me parece que os de agora so dentro de caza...
+
+--Pois quem seria?
+
+--Sei l... Ouo coisas que s me parecem na sala da frente. Vai ver se
+ alguem...
+
+--Nem precisa. A porteira est fechada, e abrindo-se ella a campainha d
+signal. Ao depois, o velho Thom trata na estribaria dos animaes em que
+montas...
+
+--Vai tudo muito bem, mas no me posso conformar com esta vida de
+cama. Seis dias de doena, e estou derreado como uma velha mangueira...
+Inda assim, considero-me bastante feliz. No devo nada a ninguem. E, a
+mim, todos me devem. Depois de amanhan, vence-se uma letra de um
+devedor: ha de querer pagar-me os juros de quinze por cento por novo
+semestre... Mas elle estar enganado. Se quizer reformar, os juros
+crescero. Agora s darei dinheiros a dezoito ao ms... Serviu? Faamos
+o negocio. No serviu, passe muito bem... Rim... rim... rim... rim...
+Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera de
+seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres
+annos. Ao depois de vencido o seu compromisso, levou engabelando-me
+por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa
+amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu no
+mettesse advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o
+conselho de que poupa e os santos te ajudaro... No ganhei nunca
+quatro vintens de que no guardasse tres... No te estou dizendo? Esse
+barulho dentro de caza...
+
+--Desta vez no ouvi nada.
+
+--Ento, ests surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente
+andava. Rim... rim... rim... rim...
+
+--No sei que especie de gente...
+
+--Realmente posso enganar-me.
+
+--J te convences? A esta hora, nem os trabalhadores esto aqui... Ah!
+Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros no foram hoje pedreira...
+
+--Miseraveis! Preguiosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados
+deixam de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, um
+prejuiso... Rim... rim... rim... rim...
+
+--Fiz ver tudo isto a elles.
+
+--E porque no trabalharam?
+
+--Porque morreu a moa do mestre, e este no veiu...
+
+--No digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois l
+na minha terra, que se sabe trabalhar... L trabalhariam at hora do
+enterro. Aqui encontram a razo para muitos dias de ocio. Se eu
+estivesse bom, a esta hora teria tocado todos elles para a rua. Rim...
+rim... rim... rim... No gosto de vadios. Fui homem que, numa vida
+inteira, no teve uma hora de vadiao. Sempre comi de chapeu na cabea
+e esporas nas botinas. Por isso guardei meia-duzia de contos. Digo assim
+meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas meias-duzias guardei...
+Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora?
+
+--Sim.
+
+--E ento?
+
+--No sabes o que foi?
+
+--No sei...
+
+--O _Tupy_ que esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e
+aos outros mandei pr as correntes...
+
+--Vai soltar o _Tupy_. inoffensivo, tanta quanto leal e cuidadoso.
+Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o!
+
+--Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avana
+sobre elle...
+
+-- uma prova de lealdade.
+
+--Que incommoda aos extranhos. Porque no bebes o leite? Queres?
+
+--Leite?!... Hontem te preveni que leite luxo e que no posso com
+essas despesas... Ainda o compraste hoje?
+
+--O doutor mandou...
+
+--Rim... rim... rim... rim...
+
+--Ao depois, em caso de doena no ha desperdicio...
+
+--Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. o leite, a botica,
+ o doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das
+pernas sou senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem
+recostar-me! Tenho kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se
+a coisa continua assim... Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um
+homem conservado e indisposto para divertimentos. No sei como a minha
+sade estragou-se... Vai soltar o cachorro! Os seus movimentos
+inquietam-me. J atirou outra coisa ao cho...
+
+--Deixa o cachorro preso.
+
+--Pde arrebentar mais alguma coisa, e sero novas despesas para mim...
+Que afflio sinto agora!
+
+--Bebe o leite!
+
+--D-me.
+
+--J se devem trinta medidas...
+
+--Como?
+
+--Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e
+duas tarde...
+
+--Que desperdicio! No digo! Se levar aqui um ms, o leite, o medico e a
+botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me tero reduzido
+mizeria... Sabes que mais? No quero mais leite... Supprima-se desde
+hoje...
+
+--E com que te alimentas?
+
+--Com agua... intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo
+em oito dias de cama! No possivel. No sou rico, no! Toca a poupar...
+
+--Sem o leite no poders passar...
+
+--Passo, sim! Quem foi que disse que no poderei?
+
+--O medico.
+
+--Pois passo, sim. Sem dinheiro que nada possivel. Parece-me que se
+combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um
+pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim...
+rim... Est muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem
+sei se tomei poro igual em todo o resto da vida! ter ganho uma
+fortuna em mais de trinta annos para acabal-a bebendo leite,
+pagando medico e sustentando boticas... No quero mais leite! Rim...
+rim... rim... rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella m f e
+plano de roubo... Ah!... L se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em
+cima: o co preso, por um capricho, para quebrar os moveis e as
+louas... Mas, esse ruido que agora ouvi muito bem...
+
+--Foi a mesma coisa...
+
+--... no foi l dentro...
+
+--Foi, sim!
+
+--Pareceu-me na sala da frente...
+
+--No cuidars de outra coisa?
+
+--E que seria o que cahiu?
+
+--Uma bacia de folhas...
+
+--No!... no!... no!...
+
+--Que queres fazer?
+
+--Levanta-me aqui...
+
+--Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu s peior do
+que um menino...
+
+--Aquelle barulho... Levanta-me aqui...
+
+--Para que? no me dirs?
+
+--Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como
+se pegasses num pedao de pau...
+
+--Assim?
+
+--Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro...
+
+--Queres muita coisa tambem...
+
+--No me fazes favor... No preciso de ninguem contra a vontade... Tenho
+dinheiro para ser bem servido, e gsto que me tenham obediencia...
+
+--Ests muito impaciente...
+
+--Tira o travesseiro...
+
+--Prompto. Queres mais alguma coisa?
+
+--As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... No esto aqui... Bem
+sei agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba...
+
+.........................................................................
+
+ E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer,
+ minutos depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu
+ esconderijo, como verdadeiras inutilidades...
+
+
+
+
+
+AO DESPIR UM PIERROT
+
+
+AO DESPIR UM PIERROT
+
+ A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em
+ que, sem acceder ao somno, CHRISTINA se divertia, mostrando ao astro
+ lubrico os tons roseos de sua carnao perfeita como se talhada em
+ marmore rozado e humido.
+
+ Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas vises; mas
+ soffrendo o conflicto das ideias de uma traio de NARCISO e da
+ lealdade perquiridora de STELLA, a desaccordada mulher caprichou de
+ no durmir emquanto a espiona no tornasse do baile fantasia.
+
+.........................................................................
+
+--Reconheceu-te, Stella?
+
+--Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile?
+
+--No o viste?
+
+--Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no
+baile, e, escrava dessa supposio, criaste todo um systema de
+desconfianas, que comearam de traduzir-se, muito naturalmente,
+naquella tua phrase.
+
+--Viste-o?
+
+--Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? No esperavas esta noticia?
+
+--Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com
+uma pontinha de esperana em contrario, suppuz sempre que no puzesses
+os olhos sobre elle. Embora trahida, eu quereria no ser sabedora do mal...
+
+--Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te no
+obstines em aggravar o acaecido. No remediars o mal, no assim?
+Pois, corao larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as aces.
+Acompanhei-o por toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que uma
+_pierrot_ o acompanhasse. Se tu lhe falas, ters de dizer-lhe quem foi
+espionar-lhe os passos de homem livre...
+
+-- o que te parece: livre?...
+
+--Pois no livre Narciso?
+
+--Digo-te que no!
+
+--O teu noivo no tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo
+estado?
+
+--Repito-te que no.
+
+--Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das
+vistas da mulher amada, ficam sendo o que so: homens solteiros...
+
+--Narciso differe dos outros...
+
+--Uffa!... Christina!... Vou tirando o _pierrot_ que me acalora as
+carnes...
+
+--O noivado um comeo de intimidades, que se distendem, mais ou menos,
+conforme as razes de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado
+semi-escuro, onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos
+assegurados na nossa posio, com a possivel presena immediata de todos
+os de caza, as nossas intimidades seguem uma derrota que me d o direito
+de exigir de Narciso maiores fidelidades do que tu pensas...
+
+--Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o
+collte... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda
+ordinaria, esta!
+
+--Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias
+das almas passaram s do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais
+cedo... Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua,
+os seus labios roaram sobre os meus olhos, e os seus bigodes
+produziram-me um _frisson_ nas carnes, com o qual eu me teria entregue
+ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus
+dedos que elle segurava entre os seus, sorriu--um sorriso mais lindo do
+que um raio de sol!--e, sem o querermos, talvez, por certo
+instinctivamente, os nossos labios se encontraram...
+
+--V, Christina, como ficaram as minhas calas...
+
+--Desbotou nellas o setim?
+
+--Alguma coisa. A cr amarella mais fixa do que a vermelha... Mas,
+esto para ser exprimidas... Que sudorifico!
+
+--Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos so de
+um homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo...
+Avia-te, afim de que me contes o que viste...
+
+--Dir-te-ei centos de coisas novas...
+
+--Appeteo o conhecimento do que sabes. uma infelicidade ter-se um
+pae, como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse
+que eu fra a um baile publico espionar os desvarios de meu noivo...
+Ah!... Como eu seria venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte
+que cubio...
+
+--Nem tu calculas pallidamente o que por l se vive...
+
+--Apressa-te, Stella!
+
+--Acaba, primeiramente, o que contavas... No quero perder a ba hora de
+confidencias que inauguraste...
+
+--Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os
+contactos... Em seguida, as mutuas confianas, mais um arregaamento
+hoje, mais uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe
+resistisse, desejou ver-me o comeo das pernas... Intimidades, Stella,
+intimidades, proprias, communs e infalliveis entre todos os noivos...
+Eram ellas que me garantiam, at hoje, a constancia de Narciso, e,
+quando vejo, como agora, que o que lhe fao j se torna pouco para o
+prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco mais, sem comtudo
+deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as concesses, na
+medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores... Conta, agora,
+o que tu viste...
+
+--Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o
+corpo quer distender-se nervosamente num leito macio...
+
+--E onde ficou Alberto?
+
+--O meu primo?
+
+--Sim.
+
+--Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos dois _pierrots_
+da maior sensao! Nem calculas como deliciosa a companhia do meu
+primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado
+geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos.
+Soube corresponder minha excitao, no commettendo maiores pecados do
+que me beijar nas passagens mais sombrias das ruas...
+
+--Invejo-te, Stella!
+
+--Bem poderias ter ido...
+
+--Qual nada!
+
+--Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois no foi?
+
+--Isto fcil para ti...
+
+--Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?...
+
+--No!
+
+--Ahi est! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que
+vissemos... L estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do
+baile. Custei a topar com elle. S em meio da festa deparei com elle
+numa das banquinhas do _buffet_. Mais de vinte homens e mulheres...
+
+--Mulheres, tambem?
+
+--E ento? Tu pensas que haver quem resista solido naquelle cahos de
+sensaes extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho,
+casado com a Lucinda, l estavam, cada qual com a sua mascarada...
+
+--Narciso tambem?
+
+--No te espantes seno se eu te disser que elle era o unico que no
+tinha uma mulher fantasiada ao seu flanco...
+
+--Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei
+logo na traio. Aquelle semblante enfarruscado no era sincero...
+
+--Ao seu lado estava uma _cuyre_ italiana: deves gabar-te do gosto de
+teu noivo. No se acompanha de mulher feia. serio...
+
+--Era bonita a que o seguia?
+
+--Linda, Christina: _mignon_, alva, loura, e, com um arrebatador decte,
+exhibindo um collo mais branco do que um pedao de neve, do meio da
+qual, como uma abelha sobre uma petala de gardnia, um negro signal era
+tido como mascotte...
+
+--J agora me penso feliz por no ter ido l.
+
+--Que teria se tu tivesses ido?
+
+--No me conteria.
+
+--Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu
+noivo sabe gozar uma mulher. No dirias nem uma palavra, mas lhe
+acompanharias a pessa como a sua sombra. Quando no te agradasse
+fecharias os olhos. Vi-o, por exemplo, encher a bocca de champagne...
+
+--Nada mais natural.
+
+-- o teu erro. Quem no sabe como quem no v. Pensas, ento, que
+elle tomou a bebida de dentro da taa?
+
+--Sim.
+
+--Pois no! A _divette_ foi quem lhe passou o champagne collando os seus
+nos labios delle... Garanto-te que no sabias deste modo de acariciar...
+
+--Confesso-te que no.
+
+--Ahi est. Verias a _droiture_ com que o teu noivo se curvou, encostou
+nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e
+sugou-lhe a entontecedora bebida...
+
+--Como deve ser bom esse carinho!
+
+--Ao depois, beijaram-se...
+
+--Aos olhos do publico?
+
+--Sim.
+
+--Ah!... Se eu estivesse l...
+
+--No farias seno nada. Eu, pelo menos, nessas occasies de grande
+excesso, alli mesmo me voltava, e, se no fossem as nossas
+mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos...
+No conheo, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um
+conto de Caliban menos excitante, e um par dansando bem um conto
+luxurioso escripto com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto
+final de um beijo. Os corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se
+entranavam, as mos, servindo de oppressores, estreitavam os troncos e
+cada par, assim enlaado, cabea descahida sobre cabea, parecia um
+corpo s com a monstruosidade de quatro pernas... Exquisito, sem
+igual... Homens e mulheres no se distinguiam na furia dos sentidos...
+
+--E Narciso dansou?
+
+--No. Nem todos dansam. parte, pelo jardim e nas mezas do _buffet_,
+os que no estavam fantasiados, se divertiam grande, mas um pouco
+retrahidos das vistas do grosso publico, porque s no salo elles
+escandalisariam...
+
+--Todavia, vingar-me-ei...
+
+--Poupa-o, Stella... O pecado divino... Vinga-te em mim...
+
+.........................................................................
+
+ As duas mulheres, num longo beijo, abraaram-se e confundiram-se,
+ cada qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente...
+
+ A lua, devassamente, illuminou-lhes, at quando quiz, os seus bellos
+ corpos de uma semi-nudez pagan...
+
+
+
+
+A TAVERNA DE MME BERTHON
+
+
+A TAVERNA DE MME BERTHON
+
+ No terrao do Caf Leontina, agasalhados em seus lanzudos
+ _pardessus_, ODORICO e WENCESLAU, dois typos mundanos,
+ essencialmente mundanos, conversavam surdamente...
+
+ Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha
+ de sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares
+ cupidos por todas as bancas.
+
+ ODORICO enlanguesceu-se, e, como uma reaco, assignalou, assim, a
+ passagem da exquisita-mulher com uma rememorao cruel...
+
+.........................................................................
+
+--Sempre curioso este Caf em materia de mulheres. No vejo esta
+Menina Leontina, como a chamam, que no me recorde logo da
+infeliz Madame Berthon.
+
+--E tu, meu caro Wenceslau, s bem a chronica viva de toda a feminidade
+desta terra. No ha uma mulher de quem no tenhas informaes,
+anedoctas, segredos, sobre quem no lances um episodio de curioso entrecho.
+
+--No conheceste tambem a Madame Berthon?
+
+--Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo
+ignorado...
+
+--Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a
+inspirao do artista mais rude para produzir uma obra-prima.
+
+--Alguma divindade incognita...
+
+--No, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem
+a visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e
+na temperana dos seus costumes, no diria jamais que era a senhora
+absoluta de um corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais
+inspirado... No se julgue a felicidade dos fins pelas venturas que
+povoam a estrada por que trilhamos. Muitas vezes, um momento de
+tranquillidade agora a sementeira de um incommensuravel estado de
+attribulaes mais tarde. Madame Berthon despejava invejas a todas as
+mulheres do seu conhecimento. Desta caza tirava ella os meios de sua
+subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o taciturno aspecto de
+seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais ruidosa alegria,
+aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum excesso d o
+rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma algoz
+cambiante de tristeza. Tinha a crte de poderosos pretendentes, mas
+decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de
+alguem, era, ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E,
+se a ninguem promettia, a nenhum negava, e a todos faltava...
+Curiosissima mulher! Os seus habitos eram os de uma leviana, mas a sua
+alma contrastava com a sua existencia costumeira. Exquisita mulher,
+Odorico, muito exquisita, senhora de muitos coraes se tivesse querido,
+entretanto escrava de um s que a levou, finalmente, sepultura.
+Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia. Um assassinio e um
+suicidio...
+
+--Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas,
+em algumas, ha a sementeira de muitos casos fataes.
+
+--Espera, Odorico, espera. No condemnes a desventurada pelos primeiros
+tons de sua historia. Juiz mais severo do que eu, no conhecers, por
+certo, para o julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que
+veste escandalos, e que escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a
+mulher o algoz, parecendo a extrema fraqueza. Neste caso, porem,
+Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se crime ella teve, foi o de amar
+o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... conjugalmente, porque
+nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. s deshoras, l para as
+tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares
+cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e
+recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de
+enciumar-se at de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea
+to geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de
+compensaes: o feio conjugado com o bonito, e reciprocamente, o
+bonito com o feio... Dahi a naturalidade daquella unio de Gaspar com a
+Madame Berthon. Mais de noventa noites durou aquelle consorcio
+espontaneo. Aqui vinha eu, e naturalmente, cortejava mulher
+gentil, espionando sempre o amante. Os homens todos, Odorico,
+saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril, como os armentios saudariam,
+com ardente f, a vinda do outomno, porque a estao das colheitas. Na
+manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois amantes, l para as aguas
+furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento ouccubo. Visinhos,
+espicaados pela anormalidade, attenderam ao que se passava na moradia
+de Madame Berthon. Depois de acalorada discusso, durante a qual o
+assassino descera as vidraas, cautelosamente, para no ser ouvido pelos
+extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento
+no interior daquella caza. Momentos aps, Gaspar, conduzindo uma bolsa
+de mo, descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia,
+meticuloso e tranquillo, trancando s suas costas a entrada no sobrado
+em que commettera o assassinato de Madame Berthon. E, como um homem
+feliz, l se fra rua abaixo. Quem o visse, no lhe diria o autor de um
+crime, muito menos quando, no desempenho de um habito, asseiava os
+botins, e olhava serenamente o movimento das ruas...
+
+--Revolto-me j contra esse perverso.
+
+--Pois bem! O movel do crime fra o roubo e todas as poupanas daquella
+operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava
+zelosamente. Em torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos
+dois tiros, populares encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito,
+arrastando-se como lemures merios em trilhas brancas de areiaes
+desertos. Vozes surdas contavam as supposies de um crime; a suspeita
+avolumou-se... O rochedo n da desconfiana vestiu-se fartamente com os
+ouropeis das espumas brancas dos commentarios. Pelas janellas descidas,
+olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios vivos do barbaro
+crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse as botas e
+penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares
+tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presena proxima de um
+delegado. Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina
+autoridade do seu aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina...
+Tudo o mais foi rapido. Num instante abriu-se com violencia a entrada.
+Um obstaculo appareceu: a porta estava presa, como que escorada por
+dentro. Que seria que obstava o seu movimento? Uma cabea affoita
+enfiou-se por uma nesga, e voltou transfigurada, annunciando smente:
+Est morta. Outros typos mais curiosos vieram, ageitaram-se e
+penetraram com a autoridade. Estatelada sobre o cho, Madame Berthon,
+numa nueza arrebatadora ainda no tinha a gelidez dos cadaveres, mas j
+era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue escarlate. E sobre
+as suas frmas nuas, nada, seno as meias presas com atilios de fitas
+rubras, e as pequenas sapatinhas...
+
+--Que miseria!
+
+--J conheceste a victima. Dahi por diante a aco foi sobre o agente. A
+perseguio popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros
+perseguidores foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas
+proprias temporas, Gaspar era um suicida... No calculas a impresso que
+esse crime deixou no meu espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e
+senti que o assassino no tivesse ficado vivo para pagar com a recluso
+da vida a barbaridade do assassinio de uma mulher, cujo corpo
+esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer austeros
+Areopagos... se desvendado fsse tal como eu o vi... E nota, Odorico,
+que um corpo morto, por mais bello que seja, menos do que o vivo,
+porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que o fluido mais
+sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, s
+naturezas muito fortes no cedero necrophilia... Ento ella que
+possuia um nevo sobre o quadril direito...
+
+--Sensualizas tudo, Wenceslau!
+
+--E que que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte,
+como tu deves saber, um pedao de sensualismo microbiano... Quantas
+fecundaes damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, seno pela
+fora dos sexos, baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre
+instancia do amor que topars com a absolvio da mulher, e carregars a
+mo na dosagem da condemnao do homem algoz.
+
+--Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido
+condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no
+senhorio dos homens.
+
+--E como influiria tudo isto para que Gaspar no victimasse Madame Berthon?
+
+--Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o comeo
+do mundo, e coisa que no se sabe a data da primeira traio da
+mulher, de to distantes tempos vem ella.
+
+--Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa
+traio do homem, e formada de uma traio, porque foi necessario que
+Ado adormecesse para que Jehovah, trahindo perfectibilidade da sua
+obra, lhe tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella no
+poderia ser contraria sua origem...
+
+--s rigoroso demais...
+
+--No sou, no, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os
+dias e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo
+e escreveu precisamente: As mulheres tm sido tratadas at aqui, pelos
+homens, como passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam
+no meio delles: como qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil,
+de selvagem, de doce, de arrebatador--mas, igualmente, alguma coisa que
+ necessario engaiolar para que se no v embora num vo... Que isto
+seno o reconhecimento do espirito traioeiro de nossas Evas?... Ao
+demais... estamos muito fra dos eixos... Que bebemos agora?...
+
+.........................................................................
+
+ Fra do terrao do Caf Leontina, solemnemente encapotados, dois
+ policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta
+ noite...
+
+
+
+
+INDICE
+
+ Dedicatoria VII
+ Epigraphes IX
+ Nedda 3
+ Voluptuosas 17
+ O poeta moribundo 29
+ O velho medico 41
+ Os dois espelhos 53
+ O primeiro filho 65
+ vista da denuncia 75
+ Irado at cura... 89
+ A hungara 101
+ Depois do cometa 115
+ Amores no claustro 127
+ A Consulza 139
+ De como o avarento morreu... 153
+ Ao despir um pierrot 167
+ A taverna de Madame Berthon 179
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Mundanismos, by Almquio Dins
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MUNDANISMOS ***
+
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
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+
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
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+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
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+
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+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
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+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
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+ must be paid within 60 days following each date on which you
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+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
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+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+approach us with offers to donate.
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+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
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+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Mundanismos, by Almquio Dins
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Mundanismos
+
+Author: Almquio Dins
+
+Release Date: November 7, 2009 [EBook #30413]
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+Language: Portuguese
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MUNDANISMOS ***
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+</pre>
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+<p></p>
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+<div style="text-align:center; border: double 4px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.2em;">ALMACHIO DINIZ</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">MUNDANISMOS</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">(CONTOS)</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">F. Frana Amado, editor</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Coimbra. 1911.</p>
+</div>
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+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
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+<p style="text-align:center;">Composto e impresso na Typographia Frana Amado,<br>
+rua Ferreira Borges, 115&mdash;Coimbra.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">
+<p style="font-size: 1.5em;">MUNDANISMOS</p>
+
+<p>(CONTOS)</p>
+</div>
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+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">Obras completas de ALMACHIO DINIZ</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<ul style="font-size: 0.8em;">
+ <li><strong>Contos</strong>
+ <ul>
+ <li><strong>Um artista da moda</strong>, Lisba, Jos Bastos &amp; C.,
+ editores.</li>
+ <li><strong>Sombras de pudor</strong>.</li>
+ <li><strong>Mundanismos</strong>, Coimbra, F. Frana Amado, editor.</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li><strong>Novellas</strong>
+ <ul>
+ <li><strong>A Carne de Jesus</strong>, Lisba, Gomes de Carvalho, editor,
+ 1910.</li>
+ <li><strong>O Diamante Verde</strong>, Lisba, Guimares &amp; C.,
+ editores, 1910.</li>
+ <li><strong>Sonhos de meduza</strong>, em preparo.</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li><strong>Romances</strong>
+ <ul>
+ <li><strong>Raio de sol</strong>, Bahia, em folhetins, 1903.</li>
+ <li><strong>Crises</strong>, Lisba, Guimares &amp; C., editores, 1906.
+ </li>
+ <li><strong>Paves</strong>, Bahia, Fonseca Magalhes, editor, 1908
+ (Exgottado).</li>
+ <li><strong>Amen!</strong>, Bahia, em folhetins, 1909-1910.</li>
+ <li><strong>Duvidas e remorso</strong>, em preparo.</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li>Theatro
+ <ul>
+ <li><strong>A Escarpa</strong>, Porto, Lello &amp; Irmo, editores.</li>
+ <li><strong>Tropheus em cinzas</strong>.</li>
+ <li><strong>Sazo de luz</strong> (em preparo).</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li>Critica
+ <ul>
+ <li><strong>O passado, o presente e o futuro do heleno-latinismo em lucta
+ com o germanismo</strong>, Bahia, 1903 (Exgottado).</li>
+ <li><strong>Zoilos e Esthetas</strong>, Porto, Lello &amp; Irmo,
+ editores, 1908.</li>
+ <li><strong>Sociologia e critica</strong>, Porto, Magalhes &amp; Moniz,
+ editores.</li>
+ <li><strong>Da Esthetica na Literatura Comparada</strong>, Rio, H.
+ Garnier, editor.</li>
+ <li><strong>A questo das raas na literatura universal</strong>, em
+ preparo.</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li>Symbolismo
+ <ul>
+ <li><strong>Eterno Incesto</strong>, Bahia, 1902 (Exgottado).</li>
+ <li><strong>S bemdita!</strong>, Bahia, 1905 (Exgottado).</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li>Lingua portuguesa
+ <ul>
+ <li><strong>A reforma ortografica</strong>, Bahia, 1907 (Exgottado).</li>
+ <li><strong>O evolucionismo morphologico da lingua portuguesa</strong>,
+ Lisba, Santos &amp; Vieira, editores.</li>
+ </ul>
+ </li>
+ <li>Scientificos
+ <ul>
+ <li><strong>Genesis hereditria do direito</strong>, Bahia, 1903
+ (Exgottado).</li>
+ <li><strong>Ensaios philosophicos sobre o mechanismo do direito</strong>,
+ Bahia, 1906.</li>
+ <li><strong>A sciencia do direito e as produces espirituaes do
+ homem</strong>, Bahia, 1907 (Exgottado).</li>
+ <li><strong>Questes actuaes de philosophia e direito</strong>, Rio, H.
+ Garnier, editor, 1909.</li>
+ <li><strong>A objectividade do phenomeno juridico no direito
+ brazileiro</strong>, em pub.</li>
+ <li><strong>As formaes naturaes na philosophia biologica</strong>, em
+ preparo.</li>
+ </ul>
+ </li>
+</ul>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">
+<p style="font-size: 1.2em;">ALMACHIO DINIZ</p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;">MUNDANISMOS</p>
+
+<p>(CONTOS)</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.</p>
+
+ <p style="text-align:right;">A<small>NATOLE</small> F<small>RANCE.</small></p>
+</blockquote>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">COIMBRA</p>
+
+<p>F. FRANA AMADO, EDITOR</p>
+
+<p>1911</p>
+</div>
+
+<p><a name="dedicatoria">&nbsp;</a></p>
+
+<p style="text-align:center;">A</p>
+
+<p style="text-align:center;">GUERRA JUNQUEIRO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><a name="epigrafes">&nbsp;</a></p>
+
+<blockquote>
+ <p>L'art veut imiter la nature. Nous faire prouver les sensations et les
+ sentiments que la vie nous impose ou pourrait nous imposer, tel est son
+ premier souci. Le romancier et le dramaturge comme le peintre, le sculpteur
+ comme le musicien s'essayent faire dans la fiction, comme la vie dans la
+ ralit. Au fond de chaque &oelig;uvre d'art il y a toujours en somme&mdash;que ce soit
+ par imitation troite ou libre vocation&mdash;une ralit reproduite de la
+ vie.</p>
+
+ <p style="text-align:right;">C<small>HARLES</small> A<small>LBERT.</small></p>
+</blockquote>
+
+<blockquote>
+ <p>O conto, assim desatavado, exprimido, apenas succo e, se no agrada
+ <em>viso</em>, interessa o sentir. Falta-lhe horizonte, mas o espao, por
+ isso mesmo, mais vasto, sem empeos: segue-se livremente a aco que a
+ descriptiva, por vezes, compromette.</p>
+
+ <p style="text-align:right;">C<small>OELHO</small> N<small>ETTO.</small></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1><a name="SECTION00100000">MUNDANISMOS</a> </h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.</p>
+
+ <p style="text-align:right;">A<small>NATOLE</small> F<small>RANCE.</small></p>
+</blockquote>
+<span class="pn">{1}</span>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00200000">NEDDA</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{2}<br>
+{3}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00210000">NEDDA</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Manhansinha.</p>
+
+ <p>A sala, de azuladas paredes seminas, estava pobremente mobiliada: era no
+ saguo da casa, e as duas mulheres entraram s tontas, at se abrirem de par
+ em par as gelosias.</p>
+
+ <p>S<small>AUL</small>, de N<small>EDDA</small> esposo, ficra a dormir na
+ alcova.</p>
+
+ <p>E N<small>EDDA</small>, abysmada com a indifferena delle que apenas lhe
+ no dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que
+ D<small>ONA</small> L<small>OURA</small>, a sua me, era uma interprete das
+ indisposies do genro...</p>
+
+ <p>Num canap, as duas mulheres, D<small>ONA</small> L<small>OURA</small>,
+ archaica nas suas vestias de capote e turbante, e N<small>EDDA</small>,
+ deliciosamente matutina num roupo branco que descansava,<span
+ class="pn">{4}</span> <em>sans-dessous</em>, sobre a finissima camizta de
+ cambraias,&mdash;sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida do cansado
+ movel...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me entre
+dentes e indisposto como um burgus dispeptico, silencioso como uma esphynge e
+entristecido como um beato sem almoo, adivinho logo que vens por ahi como a
+mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem tarde...</p>
+
+<p>&mdash;Exactamente.</p>
+
+<p>&mdash;Previ tudo isto. Ha cinco dias que ns no falamos, e, pensando-o na rua,
+hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella cadeira,
+lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me e no contive um
+gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os meus passos. Ha quatro
+annos que somos casados e nunca passamos dois mezes sem uma rusga. sempre
+elle quem as promove com um resaibo de malentendido ciume. Aceito sempre o seu
+rompimento e nunca lhe dei a honra de capitular<span class="pn">{5}</span> nas
+hostilidades. Quando ellas so de nonada, aqui mesmo se resolvem; mas, quando
+avultam como agora, elle te vai buscar como intercessora. J sei que vamos ter,
+como sempre, uma crise de amorosidades que me enfastiam. Lastimo no conceber
+um filho desse homem para o embeiar pela nova criatura e sentir-me menos
+jungida s suas intemperanas de... mal educado! s vezes, chego a ter nojo do
+senhor meu marido...</p>
+
+<p>&mdash;Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que me
+pasma...</p>
+
+<p>&mdash;Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter o
+assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um tal
+matrimonio no se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em caza, por
+torna-viagem, a mentira de que Saul um tuberculoso. Tanto mais eu o
+aborrecia, quanto a senhora e o pap intervinham, patrocinando a causa do moo
+platonico. D-me, na verdade, um insistente desejo de rir muito quando lembro
+os idealismos delle, seguindo a minha sombra, porque nunca lhe deixei o direito
+de enfrentar-se commigo em parte alguma... Expz-lhe sempre que sonhos no me
+satisfaziam, nem eram para o meu<span class="pn">{6}</span> temperamento homens
+vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe intensa guerra, apaixonando-me por
+Frederico Stltze. Est! Com este provavelmente eu teria sido bem cazada. O
+pobre allemosinho levou o caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o
+abandonei, com uma defeituosa... Foi um despique, no ha a menor duvida, mas
+quem sahiu perdendo foi elle. Saul um temperamento de phoca...</p>
+
+<p>&mdash;Respeita o teu marido, minha filha!</p>
+
+<p>&mdash;Pois no , maman?</p>
+
+<p>&mdash;Essas couzas no se devem dizer...</p>
+
+<p>&mdash;No tratarei de occultar o sol com a mo. J disse e mesmo: um
+temperamento de phoca. S quer hybernar sobre os livros, deante dos quaes se
+abespinha como o animal sobre o glo. Eu, porem, quero muito sol, muita luz,
+muito calor, muita actividade... Maman, o que vocs velhos veem no cazamento
+o interesse de collocar as filhas, porque ficando velhos receiam que nos
+tornemos muito ss no mundo. Por isso acontecem destas, cazamo-nos com a
+vontade dos paps encarnada na figura de um homem que no a correspondencia
+de nosso instincto. Olha! No intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada
+qual commetta a sua doidice<span class="pn">{7}</span> como quizer, e, se
+escolher um lorpa como Saul, arrependa-se de si mesmo e no me culpe a mim.</p>
+
+<p>&mdash;Tu vs no homem uma excitao, Nedda, quando devias ver uma satisfaco.
+</p>
+
+<p>&mdash;Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje dessas
+trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu toda a minha
+repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, no sabe aproveitar-se de
+minha tolerancia e quer subserviencia, servido, ou coisa similhante... Est
+enganado! Devias ter sanccionado a minha repulsa logo de principio. Lembras-te
+do convescte dado aos chilenos, nas Salinas? Tu no foste, e Saul, que era
+apenas meu pretendente sem a menor esperana, moveu contra mim uma intriga
+terrorosa, porque viu, no campo, o primeiro tenente Santander amarrar os
+cordeis de minha botina que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te
+de como energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do
+contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia, todos
+suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de mulheres feias.
+Afinal, maman, que te disse elle desta vez?<span class="pn">{8}</span></p>
+
+<p>&mdash;Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o
+comprehendes como um devaneio. Isto proprio para as meninas. Tu te esqueces,
+e nisto eu lhe dou razo, que s uma senhora escrava da moral esponsalicia.
+Contou-me o teu marido um facto em que elle te surprehendeu. Realmente, se as
+cousas se passaram como podem ser suppostas, e elle no quer crer, tu andaste
+mal.</p>
+
+<p>&mdash;Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como tudo
+se deu...</p>
+
+<p>&mdash;E dispensavel Nedda. O passado est passado. O que preciso que no ds
+lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem calleja. Os
+amuos fazem pequenos callos, mas tempo vir em que, callejada a alma, o amuo
+ser definitivo.</p>
+
+<p>&mdash;Que teria isso?</p>
+
+<p>&mdash;Um escandalo, minha filha!</p>
+
+<p>&mdash;Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu no me
+pouparei a um grande escandalo.</p>
+
+<p>&mdash;Toma juizo, doidinha. preciso acabares com estas zangas e receberes o
+teu marido como o teu senhor...<span class="pn">{9}</span></p>
+
+<p>&mdash;Hein?... No me zangars, maman, pdes ridicularizar-me como entenderes...
+No me darei por achada.</p>
+
+<p>&mdash;No promovo seno o teu bem. Resolve a crise e s... mulher de teu marido.
+</p>
+
+<p>&mdash;J ests julgando o feito?</p>
+
+<p>&mdash;Tu tens toda a razo, elle tem igualmente toda a razo. Harmonisem-se e
+sejam felizes.</p>
+
+<p>&mdash;Pareces-me uma juiza a Salomo, com a differena de que o rei hebreu ouvia
+ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma s...</p>
+
+<p>&mdash;Interpretas muito mal o meu genio.</p>
+
+<p>&mdash;No te interessa conheceres a injustia de que sou accusada pelo sr. meu
+marido?</p>
+
+<p>&mdash;Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a accusao,
+eu nunca seria contra ti.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigada, maman! Quero, entretanto, justia, e que, como Saul, no julgues
+pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu o que se
+passou...</p>
+
+<p>&mdash;Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes...</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! Na tera-feira, maman, de combinao com Saul, resolvi passar
+uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle que me falou
+pelo telephono,<span class="pn">{10}</span> fui Barra correr uma cazinha vaga
+e que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao depois
+de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a gentileza de
+offerecer-se-me para o servio de abrir e fechar portas. Aceitei e foi elle
+quem tomou as chaves na taverna da esquina... V tu!... No fsse elle e teria
+eu de entrar numa taverna, ssinha, arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao
+depois, o dr. Eduardo foi quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de
+camura para fazer essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas...
+Corremos o primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil
+cavalheiro se lembrou de, por segurana, fechar por dentro a porta da rua...
+Subimos. Mal chegavamos em cima, comearam de bater numa porta. Poderia eu
+suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse, porque elle no teria
+opportunidade de acompanhar-me, logo depois resolvesse o contrario, e estivesse
+a bater na porta da rua? E foi por um acaso que ns o vimos. Chegamos
+inesperadamente a uma janella do sotam e percebemos que era elle quem batia. O
+dr. Eduardo, desculpando-se por j ter eu cavalheiro, despediu-se de mim,
+desceu as escadas,<span class="pn">{11}</span> e, quando abria a porta, foi
+insolentemente aggredido por Saul, que lhe negou a mo para o cumprimento do
+estylo... S tu vendo, maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra
+mim! Felizmente, desafiado pela minha calma, elle no teve animo para iterar o
+qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle quiz,
+fechou ssinho a caza e veiu s...</p>
+
+<p>&mdash;Devias ter evitado tudo isto, Nedda.</p>
+
+<p>&mdash;Evitado, como?</p>
+
+<p>&mdash;No acquiescendo companhia de um homem de m fama, como o dr. Eduardo.
+</p>
+
+<p>&mdash;Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em que
+eu fui... Hora de trabalhos na cidade...</p>
+
+<p>&mdash;Recusasses os favores offerecidos.</p>
+
+<p>&mdash;Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual a mulher que se anima grosseria
+de recusar gentilezas de um moo de distincto trato?...</p>
+
+<p>&mdash;Conforme o renome desse moo.</p>
+
+<p>&mdash;Tem m fama o dr. Eduardo?</p>
+
+<p>&mdash;No sei, no. Dizem.</p>
+
+<p>&mdash;Se tem m fama, tem maus costumes. E como que Saul, to zeloso de sua
+honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepes, um homem mal visto? Penso
+que os frequentadores de nossos sales, os <em>habitus</em> de nossa<span
+class="pn">{12}</span> intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um
+ponto qualquer, e, se no fsse assim, a primeira privao delles, seria a do
+nosso convivio...</p>
+
+<p>&mdash;Neste ponto s razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul
+referiu-me que estavas sem chapeu...</p>
+
+<p>&mdash;De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha van
+do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr. meu marido
+alli estava para auxiliar a reposio, tirei o chapeu e asseiei-o
+prestamente...</p>
+
+<p>&mdash;Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua
+chegada, ao ponto de no saberes repr o chapeu...</p>
+
+<p>&mdash;Saul um mentiroso.</p>
+
+<p>&mdash;No te zangues, Nedda.</p>
+
+<p>&mdash;Injuriou-me.</p>
+
+<p>&mdash;No ds importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente...</p>
+
+<p>&mdash;E elle o quer?</p>
+
+<p>&mdash;Porque perguntas?</p>
+
+<p>&mdash;Porque to honrado elle no deveria aceitar mais a cohabitao da esposa
+deshonesta.</p>
+
+<p>&mdash;No deves dizer assim, minha filha!</p>
+
+<p>&mdash;Aceita-me elle?<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que tolice, Nedda!</p>
+
+<p>&mdash;Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e no a fao em
+atteno aos teus bons officios...</p>
+
+<p>&mdash;Fazes muito bem.</p>
+
+<p>&mdash;L vem elle descendo...</p>
+
+<p>&mdash;Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que no tem esposo...</p>
+
+<p>&mdash;Desculpa-me, maman: s agora reparo que estou muito vontade para nos
+encontrarmos os tres...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Arrepanhando, ento, o bello roupo desabotoado, por cujas rendas e
+ decotes se viam as carnes luciferas de N<small>EDDA</small>, a mulher de Saul
+ se escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de esculptura
+ grega...<span class="pn">{14}<br>
+ {15}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00300000">VOLUPTUOSAS</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{16}<br>
+{17}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00310000">VOLUPTUOSAS</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>No rz-do-cho de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendados
+ <em>stores</em> pallidos, H<small>ELENA</small> fazia somno hora da sesta,
+ quando M<small>ARIA</small> A<small>NGELICA</small> a surprehendeu
+ adormecida.</p>
+
+ <p>A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma
+ voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabea desmaiada de
+ H<small>ELENA</small>...</p>
+
+ <p>Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com um
+ fremito de prazer...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;De onde vens tu, Angelica?</p>
+
+<p>&mdash;De encommendar flores...<span class="pn">{18}</span></p>
+
+<p>&mdash;Flores?!</p>
+
+<p>&mdash;No te recordas de que Sophia se cazar amanhan, noitinha?</p>
+
+<p>&mdash;Sou uma esquecida.</p>
+
+<p>&mdash;E ella credora de nossas gentilezas...</p>
+
+<p>&mdash;Das minhas, especialmente.</p>
+
+<p>&mdash;Encommendei orchidas e chrysanthemos.</p>
+
+<p>&mdash;Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias.</p>
+
+<p>&mdash;Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das
+orchidas. Uma catyleia um pedao de labios excitados por dois beijos.</p>
+
+<p>&mdash;No lhes acho graa.</p>
+
+<p>&mdash; exigente!</p>
+
+<p>&mdash;Flores do matto. E j notaste que quasi todas ellas so lilazes e roxas?
+ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas cres melancolicas?</p>
+
+<p>&mdash;Descobres coisas...</p>
+
+<p>&mdash;Mas, no ?</p>
+
+<p>&mdash;Realmente.</p>
+
+<p>&mdash;E como vais presentear uma noiva com flores lilazes?</p>
+
+<p>&mdash; a moda, o chic, o <em>dernier-cri</em>...</p>
+
+<p>&mdash;Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas, chrysanthemos,
+rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me?<span class="pn">{19}</span></p>
+
+<p>&mdash;Se no! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os olhos
+muito brilhantes...</p>
+
+<p>&mdash;De verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Sonhavas?</p>
+
+<p>&mdash;Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu ests intensamente corada...</p>
+
+<p>&mdash;Apanhei muito sol.</p>
+
+<p>&mdash;Os teus olhos esto pisados e languidos...</p>
+
+<p>&mdash; da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor que
+abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados...</p>
+
+<p>&mdash;J tinha reparado: os teus cabellos esto desmanchando-se...</p>
+
+<p>&mdash;E eu os concertei no espelho de Esther.</p>
+
+<p>&mdash;Andaste l, hein? J havia desconfiado... Quando te vejo amollentada,
+assim, tenho razes para me enciumar... muito descuidada a Esther. Cuida mal
+das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Est mal posto, a
+fita est retorcida...</p>
+
+<p>&mdash;Nem reparei...</p>
+
+<p>&mdash;Disto no s culpada, por certo... Eu no te deixaria sahir daqui to
+mal-amanhada. de causar vergonha.</p>
+
+<p>&mdash;Foi a pressa, Helena.</p>
+
+<p>&mdash;E no teu hombro a sda est nodoada...<span class="pn">{20}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nodoada?!...</p>
+
+<p>&mdash;Sim! Vem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei mesmo
+que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!...</p>
+
+<p>&mdash;Quem o poderia fazer?</p>
+
+<p>&mdash;Esther.</p>
+
+<p>&mdash;s ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as flores.
+Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Ests satisfeita?</p>
+
+<p>&mdash;Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas no convencida...</p>
+
+<p>&mdash;Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar
+humido?... Ter sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo arrastada como
+a de quem se fatigou num excesso de venturas...</p>
+
+<p>&mdash;Que venturas posso ter?</p>
+
+<p>&mdash;Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real...
+Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha vezes em
+que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras occasies, quando
+volto a mim sem provocao, sou prompta a espantar-me porque me accordei e no
+morri no meio do prazer sonhado...<span class="pn">{21}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ha sonhos, effectivamente, que se no deveriam acabar... E no sentes
+calor, Maria Angelica?</p>
+
+<p>&mdash;Algum.</p>
+
+<p>&mdash;Neste caso...</p>
+
+<p>&mdash;Que fazes?</p>
+
+<p>&mdash;Dispo-me. No me imitas?</p>
+
+<p>&mdash;Pde ser. Passarei a tarde comtigo...</p>
+
+<p>&mdash;Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta gla
+assoberbante... No tens geito?... Chega, que te libertarei...</p>
+
+<p>&mdash;Tira os alfinetes.</p>
+
+<p>&mdash;Usas um bom p de arroz, Angelica.</p>
+
+<p>&mdash;Ui! Helena!</p>
+
+<p>&mdash;Que foi assim, ardilosa?</p>
+
+<p>&mdash;Espetaste-me as carnes...</p>
+
+<p>&mdash;Tambem uma ruma de alfinetes...</p>
+
+<p>&mdash; para segurar bem.</p>
+
+<p>&mdash;Tens uma pellugem de arminho...</p>
+
+<p>&mdash;Ai!... Assim no... no...</p>
+
+<p>&mdash;Que tens, rapariga?</p>
+
+<p>&mdash;Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... S me dste vontade
+de...</p>
+
+<p>&mdash;Ui!... ui!... ui!... Fazes-me um <em>frisson</em> de arrepiar-me os
+pellos...</p>
+
+<p>&mdash; para vingar o teu beijo...</p>
+
+<p>&mdash;Porque me olhas assim, Angelica?<span class="pn">{22}</span></p>
+
+<p>&mdash;s de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um
+perfume originalissimo que me entontece...</p>
+
+<p>&mdash;Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se
+cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o fao para attrahir as amigas
+como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que se confundiam
+os aromas do nardo de Tharsos e do metpyon do Aigypte. Nas axillas attritava
+mentho e sobre as pestanas e nas palpebras marjolana de ks. Ao depois, a
+escrava defumava-lhe os cabellos desennastrados com espiraes de incenso, que
+combinava admiravelmente no s com a essencia de rozas de Phaslis que lhe
+embalsamava a nuca e as faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava
+sobre os rins. E, por fim, entre os seios, corria o celebre oinanth das
+montanhas de Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica...</p>
+
+<p>&mdash;Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras...</p>
+
+<p>&mdash;Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do
+irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodes embebidos na essencia de
+rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para contrastar<span
+class="pn">{23}</span> com as evolaes das essencias de jasmins que perfumam
+as minhas vestias...</p>
+
+<p>&mdash;E na posse de tudo isto praticas uma m aco, Helena!</p>
+
+<p>&mdash;Qual?</p>
+
+<p>&mdash;Essa de referires tantos perfumes e no me dares nenhum a provar... s
+avarenta, como ninguem, e eu cubiosa de gozar...</p>
+
+<p>&mdash;Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres...</p>
+
+<p>&mdash;Teria graa!</p>
+
+<p>&mdash;Porque assim?</p>
+
+<p>&mdash;Gsto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres.
+Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas
+carnes...</p>
+
+<p>&mdash;Tens desejos masculinos, minha queridinha!</p>
+
+<p>&mdash;E o que me faz lamentar-me: junto de uma graa no ser um Adonis, junto
+de uma Helena no ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os teus perfumes
+e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais feliz do que Syrinx,
+louca de paixo, Byblis, unica na insaciabilidade, ou Mnasidika, macia como um
+velludo... Helena, tu s uma perfeio...</p>
+
+<p>&mdash;Mofadora!<span class="pn">{24}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mofar eu de ti?!...</p>
+
+<p>&mdash;No te abraza o calor?...</p>
+
+<p>&mdash;Sim... Intoleravelmente...</p>
+
+<p>&mdash;Safa o collte... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seduces na
+tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os homens,
+sabios no sensualismo pago, que o n de veus mais provocante do que o n sem
+disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na mulher encoberta pela
+semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te no conhecesse os segredos todos de
+tuas lindas curvas, te rasgaria agora, impiedosamente, o veu de tua nudez...
+</p>
+
+<p>&mdash;J sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do
+arrcho de um collte dictatorial?</p>
+
+<p>&mdash;Quantas vezes?!</p>
+
+<p>&mdash;Tu brincas, mulher divertida...</p>
+
+<p>&mdash;Provo-te com a citao: despirei o meu collte e no me sentirei mais
+provocada do que contemplando as tuas frmas semi-nas...</p>
+
+<p>&mdash;Es barbara, Helena! Como encarceras um to lindo quadril dentro dos
+oppressivos liames de um collte... Ah! Como eu daria a vida por ser morena! O
+ventre alvo uma desilluso, mas o trigueiro, como o teu, um<span
+class="pn">{25}</span> incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o
+instincto mais calmo...</p>
+
+<p>&mdash;No te agrada a minha nueza?</p>
+
+<p>&mdash;Inteiramente. Agora, v l se te no impressiona mal a brancura do meu
+ventre...</p>
+
+<p>&mdash;Ao contrario, Maria Angelica: uma grande corolla de petalas alvas
+desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... maravilhoso o teu contorno...
+Dignas frmas para a perpetuidade de uma tla ou de um retrato...</p>
+
+<p>&mdash;Deixarias tu que fsse apanhada a tua nudez?</p>
+
+<p>&mdash;E porque no?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me?</p>
+
+<p>&mdash;Que egoismo leviano!</p>
+
+<p>&mdash;Acha-o?</p>
+
+<p>&mdash;Sim... Photographemo-nos...</p>
+
+<p>&mdash;Adoravel!... Como no irradiar no <em>clich</em> o contraste de nossas
+pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa de um
+plo...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma soluo
+ de perolas e opalas.<span class="pn">{26}</span></p>
+
+ <p><span class="pn"></span>Os seus labios permutaram cariciosos beijos.</p>
+
+ <p>E, horas depois, M<small>ARIA</small> A<small>NGELICA</small> e
+ H<small>ELENA</small>, retratadas por uma aia, desvendavam as suas
+ abrazadoras nuezas inveja de E<small>STHER</small>...<span
+ class="pn">{27}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00400000">O POETA MORIBUNDO</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{28}<br>
+{29}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00410000">O POETA MORIBUNDO</a></h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Luxuoso salo de recepes: por entre cavalltes com quadros de fina
+ pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de Parreira e a
+ vocao de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio das tapearias, dos
+ <em>fauteils</em> e das luzes, um magestoso piano Ritter.</p>
+
+ <p>H<small>ELOISA</small> acabou de executar, com todo o applauso do maestro
+ C<small>HRISTOVAM</small> D<small>ETMER</small>, a linda fantasia&mdash;<em>Le
+ pote mourant</em>&mdash;de Gotschalk.</p>
+
+ <p>As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de admirao
+ e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos que obedeciam
+ grande inspirao de H<small>ELOISA</small>.</p>
+
+ <p>Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente combalida<span
+ class="pn">{30}</span> pela dor de uma alma irman...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas
+bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas e os
+teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do passional poema
+lyrico, me concentrei e te affirmo que a viso no despresou a audio, pois vi
+e ouvi toda a scena, desenvolvida entre personagens vivas, que se moviam, se
+soccorriam e testimunhavam o desfallecimento do artista moribundo. Durante
+minutos que sero inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao
+teu lado, frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e no denunciei,
+pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a
+existencia. Vim do gabinete privado de tua me, que se transformou
+pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se lhe
+dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a longa historia
+de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes,<span class="pn">{31}</span> fui
+minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a alma de
+artista e no o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim inspirar-me para o
+sacrificio no teu talento. E saio de tua presena illuminado como o prescripto
+que recebeu o balsamo do conselho christo para subir em seguida ao patibulo.
+D-me, pois, o conforto de tua confidencia ultima: amaste-me alguma vez?</p>
+
+<p>&mdash;Que pergunta, Christovam.</p>
+
+<p>&mdash;Indiscreta?</p>
+
+<p>&mdash;No; ao contrario. Amesquinhante...</p>
+
+<p>&mdash;Extranho-te.</p>
+
+<p>&mdash;No ha razo. Porventura pensars que te amei e no te amo agora? Acaso a
+minha mo de mulher para te ser dada depender de alguma coisa irreductivel
+deante de minha vontade altiva?</p>
+
+<p>&mdash;Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor
+dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeas bellas de todas
+as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz com que se
+enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um homem que sabe musica
+simplesmente, que apenas um artista, pequenino de mais para ter uma
+preteno de<span class="pn">{32}</span> amor. Eu me pareo com esta figura
+lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das fantasias
+de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em sonhos egoistas,
+cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava rozas, derrocando
+castellos, para me conter na illuso em que me deleitava smente com a
+audiencia da negativa inclemente de tua me. Confessou-me que maldava de todo o
+nosso amor, desde principio. E porque, se assim era, protegia a ampliao de um
+sentimento que deveria ser, como os filhos defeituosos das ciganas que so
+atirados s piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse,
+falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era porque,
+doidivana como toda creana, jogavas a pla na orla do precipicio, esperando o
+aviso amigo para te retirares gloriosamente... Negars, Heloisa, que tinhas
+consciencia de minha preteno? Sophismars, em favor da excommunho que me
+lanou a tua me, e contra a clareza da ordem que me deste afim de se
+officialisarem as relaes do affecto, que nos encaminhava de um illusorio
+paraiso? Responde com o talento immensuravel com que sempre me amaste...<span
+class="pn">{33}</span></p>
+
+<p>&mdash;Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias
+possuir o maior tino dos homens.</p>
+
+<p>&mdash;Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem pesada
+se antepe sua esphera...</p>
+
+<p>&mdash;Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e no te hei de amar fra do
+regosijo delles...</p>
+
+<p>&mdash;Dos teus paes?</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em tuas
+mos estariam vegetaes s ao spro de um fakir indiano. Porque admittirias que
+a minha vontade fosse forte bastante para romper a marcha das intenes dos
+meus paes sobre a minha razo de ser mulher? Por ventura sem o sopro do fakir
+as sementes germinariam e attingiriam as frmas de seres definitivos? No
+suppors que, sem aquelle spro, algo se realisasse. Como suppres que sem a
+vontade dos meus maiores a nossa unio se perpetraria ao teu sabr?</p>
+
+<p>&mdash;Desconheo-te j...</p>
+
+<p>&mdash;Mas, porque...</p>
+
+<p>&mdash;O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto quesilia dos
+outros...</p>
+
+<p>&mdash;Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a existencia de
+mulher?<span class="pn">{34}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nem sei de mim mesmo que te responda...</p>
+
+<p>&mdash;No poderias esperar. Se eu fsse livre, se a lagarta para ser papilio no
+carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar a sanco
+que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razes para tal fazer.
+Aborrece-te o trovo? amedronta-te o curisco? Queres ver-te livre delles? Cr
+num Deus e pede-lhe a extino... Infelizmente, Christovam, nem o trovo se
+extinguiria, nem o teu querer triumpharia... De um lado, Deus seria impotente
+para te dar o que pedisses porque no terias o direito de pedir... S pede quem
+pde pedir; se se pede porque de quem d depende o pedido; e se o pedido no
+ dado, procura a causa na insufficiencia e na sem-razo de quem pediu...</p>
+
+<p>&mdash;Mas...</p>
+
+<p>&mdash;Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se
+conservares a razo, que tenho o bom senso desejavel s creaturas perfeitas.
+Queres responder-me?</p>
+
+<p>&mdash;Nada significar o que te responda.</p>
+
+<p>&mdash; preciso que sejas categorico.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim: responder-te-ei.</p>
+
+<p>&mdash;Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?</p>
+
+<p>&mdash;Por certo que no.<span class="pn">{35}</span></p>
+
+<p>&mdash;De minha parte a questo outra: teria eu o direito de responder por mim
+num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer?</p>
+
+<p>&mdash;Se quizesses, sim.</p>
+
+<p>&mdash;No assim, no. Porque no me tomarias por mulher sem o meu
+assentimento? Por impoderoso deante de minha definio adversa. Porque no me
+daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por impoderosa deante da
+pronuncia delles. Se tu pudesses alcanar de mim o amor sem vontade,
+desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse de meu corpo sem a
+interveno dos que m'o formaram do nada em materia e em alma, nem cogitaria de
+enviar-te a elles...</p>
+
+<p>&mdash; um dilemma sophistico.</p>
+
+<p>&mdash;Por que principio, no sei.</p>
+
+<p>&mdash;Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sde do teu amor, Heloisa,
+como correspondeste a esse lapso do meu instincto?</p>
+
+<p>&mdash;Do modo mais franco.</p>
+
+<p>&mdash;Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu
+quizesse, matar a sde que allegava...</p>
+
+<p>&mdash;Dependia de mim. Dei-te.</p>
+
+<p>&mdash;De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixo.
+Negaste-m'o?<span class="pn">{36}</span></p>
+
+<p>&mdash;No poderia negar.</p>
+
+<p>&mdash;Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na
+grandeza das iteradas pulsaes cordiaes, affirmaste que eu reconheceria a
+intensidade do teu sentimento...</p>
+
+<p>&mdash;Dependia de mim. Pratiquei.</p>
+
+<p>&mdash;Por fim, quando te acenei com o plano de nossa unio...</p>
+
+<p>&mdash;Como te respondi, Christovam?</p>
+
+<p>&mdash;Com a primeira negaa.</p>
+
+<p>&mdash;Adulteras a minha inteno: cumpri o meu dever, enviando-te maman, como
+o caminho propicio para vencer o pap.</p>
+
+<p>&mdash;Realmente, Heloisa. Sou um vencido.</p>
+
+<p>&mdash;Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...</p>
+
+<p>&mdash;Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a
+consummar uma grande obra musical sem a inspirao para a realidade do dever...
+</p>
+
+<p>&mdash;Desistes, ento, do teu amor?</p>
+
+<p>&mdash;Razes me sobejam...</p>
+
+<p>&mdash;Que te disse, afinal, a maman?</p>
+
+<p>&mdash;Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e lembrou-me
+que um musicista no compe sem ter inspirao...</p>
+
+<p>&mdash;Nada de mais, Christovam!<span class="pn">{37}</span></p>
+
+<p>&mdash;Talvez no queiras comprehendel-a... Mas tudo que se pde allegar contra
+um homem...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>E, louco pela musica, inconsciente quasi, C<small>HRISTOVAM</small>
+ D<small>ETMER</small> assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a
+ esquisita criao de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se
+ despediu de H<small>ELOISA</small>...<span class="pn">{38}<br>
+ {39}</span></p>
+</blockquote>
+
+<h2><a name="SECTION00500000">O VELHO MEDICO</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{40}<br>
+{41}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00510000">O VELHO MEDICO</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.</p>
+
+ <p>E<small>STEPHANIO</small> e J<small>UDITH</small>&mdash;esta desprendendo-se de
+ si no devotamento ao esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais
+ annos, como se lhe tivesse o corpo de cr, curvas e linhas, luzes e
+ perfumes&mdash;gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige os
+ defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...</p>
+
+ <p>M<small>ARCO</small> A<small>NTONIO</small>&mdash;o medico afamado&mdash;cofiando as
+ ennevoadas barbas em que se escondiam as illuses do seu poder curador,
+ arrancou os olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio,
+ de suas attenes...<span class="pn">{42}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Bem pde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgr da
+mocidade...</p>
+
+<p>&mdash; exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel
+salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, no posso affectar-me com
+os seus effeitos: a sua medicina a criadora das humanas torturas. Parece-me
+que j se disse: Tirem os medicos e as enfermidades desapparecero... Mas, eu
+digo: fugi delles e estou curado. Deem-me milhes de medicos e estaro formados
+trilhes de doenas.</p>
+
+<p>&mdash;E quem te curou, meu caro?</p>
+
+<p>&mdash;A natureza...</p>
+
+<p>&mdash;O novo deus pago...</p>
+
+<p>&mdash;Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes curadores.
+Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria?</p>
+
+<p>&mdash;Lembro-me, sim.</p>
+
+<p>&mdash;Foram tantos os diagnosticos que j perdi o direito de dar-lhes autorias.
+</p>
+
+<p>&mdash;O sr. era verdadeiramente um doente.</p>
+
+<p>&mdash;E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e
+invariaveis.<span class="pn">{43}</span></p>
+
+<p>&mdash;Realmente.</p>
+
+<p>&mdash;Pois confesso-lhe: no fiz uso de um s. Tambem o doutor no foi o ultimo
+medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na inspeco. Nada
+faltou sua perspicacia, seno comprehender que, no meu estado, as suas
+perguntas eram outras tantas suggestes e novos symptomas para a aggravao de
+meu mal. Eu vivia desvairado na vontade de accusar males crescentes, e os meus
+assistentes porfiavam em illustrar-me em torturas ineditas.</p>
+
+<p>&mdash;Afinal... quem te curou?</p>
+
+<p>&mdash;Dir-lhe-ei tudo, de comeo. Hygia, a deusa da saude, no de todo m...
+</p>
+
+<p>&mdash;A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos: salvaram-se
+pela aco do dedo de Deus, como teriam morrido pela interveno do doutor...
+</p>
+
+<p>&mdash;Creio que o sr. adianta um mau conceito. No me tenho na conta dos casos
+communs.</p>
+
+<p>&mdash;Desculpe-me.</p>
+
+<p>&mdash;Pois no! Mas, a minha doena foi uma criao dos meus medicos, e a minha
+cura proveiu de minha inabalavel resoluo de abandonal-os. Eu estava em ultimo
+grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei assim s mos de um
+allopatha. Homeopathas<span class="pn">{44}</span> e feiticeiros nada fizeram
+de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci, aos vinte e tres
+annos, foi numa convalescena de enfermidade effectivamente assassina: o amor.
+Eu tinha conseguido, pela vez primeira, objectivar uma paixo. E, no s isto:
+tivera, com todo o delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra
+a minha vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu
+sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram sessenta
+dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil e quatrocentos
+minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes as paradas
+assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao maximo possivel. O
+prazo desse amor fra, entretanto, fatal. Exgottou-se e a mulher fugiu-se-me
+dos braos como a espiral do fumo que procura as alturas. Ao depois disto,
+separado do entretenimento carnal, que me combalia as fibras, como a agua que
+vai abalar as galerias subterraneas para derribar as minas, tive a sensao do
+remorso de um grande crime...</p>
+
+<p>&mdash;De um crime delicioso...</p>
+
+<p>&mdash;Talvez, doutor.</p>
+
+<p>&mdash;E ento?<span class="pn">{45}</span></p>
+
+<p>&mdash;Encegueirado pelo amor, o mundo ficou s escuras sem a luz do olhar della.
+Quiz correr nas suas pgadas, e senti-me tolhido como a voz na garganta do
+atormentado por um pezadlo. Vi em todos os convivas de minha existencia,
+terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre num choro convulso,
+durante o qual me punha a tremer com tanta violencia quanta fazia extremecer
+todo o assoalho de minha alcova e soar fra de tempo a campainha do relogio
+sobre a meza... Senti-me muitas vezes balanado como a espherasinha de madeira
+que anima o trillo dos apitos...</p>
+
+<p>&mdash; curioso, de vras, o seu caso.</p>
+
+<p>&mdash;Foi, doutor.</p>
+
+<p>&mdash;Sim! Foi! E hoje sinto no lhe ter visto nesse tempo originalissimo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico.</p>
+
+<p>&mdash;Paranoico?</p>
+
+<p>&mdash;Exactamente, doutor, e v vendo. Aconselhou que eu me tratasse com banhos
+de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro medico, os meus
+paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente banhado, a contragosto, com
+luzes de todas as cres. Era inocuo o tratamento para me<span
+class="pn">{46}</span> fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males
+Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguados por alta dose, mas
+no toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico&mdash;j a esta hora e ha muito
+tempo&mdash;victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e disse, carrancudamente,
+deante de uma das minhas crises de saudade carnal: so delirios
+epileptiformes... E o tratamento passou a ser feito com altas doses de
+bromurto. A minha ennervao deprimiu-se, e tornei-me um atoleimado, tanto que
+nem pranteei a morte de minha me, desgostosa com a minha tragica existencia...
+Novo medico; vim a ser um simples neurasthenico, com atonias nervosas.
+Reconstituintes, passeios, boas alimentaes, prazeres, etc.: nada, porem,
+matava as saudades do meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora
+por excesso de alimentao, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de
+insomnias, tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos
+medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodtos e tive
+hemoptises. Um Esculapio chamado s pressas, levando em conta a minha magrsa,
+o sangue exvasado dos meus pulmes e o historico dos meus soffrimentos,<span
+class="pn">{47}</span> num rapido prognstico, annunciou a minha morte breve,
+por fora de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me
+interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria smente:
+suggeriam-me cousas que s dalli por deante eu comeava de sentir. E veiu um
+curador homeopatha: os seus remedios ingeri com facilidade, pela falta de
+sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um visinho, que se enforcou dias depois
+porque se sentiu arruinado nas suas foras commerciaes, lembrou que os maus
+espiritos encostados aos corpos de pessas novas, faziam artes do demo... E no
+s apresentou a conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma
+velhinha, encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruos
+na cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira...</p>
+
+<p>&mdash;E nem rezado, sr. Estephanio?</p>
+
+<p>&mdash;Para o doutor ver! Nem rezado!</p>
+
+<p>&mdash; unica a sua historia.</p>
+
+<p>&mdash;Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau
+funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado.</p>
+
+<p>&mdash;Assim acaeceu.</p>
+
+<p>&mdash;E inda pensa o doutor que eu tivesse affeco nos rins?<span
+class="pn">{48}</span></p>
+
+<p>&mdash;Se me no falha a memoria, effectivamente.</p>
+
+<p>&mdash;Pois escute: logo depois de sua interveno, repudiando eu os medicamentos
+que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram trazidos em
+conferencia.</p>
+
+<p>&mdash;Que disseram elles?</p>
+
+<p>&mdash;Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles mesmos.
+Do doutor discordaram reputando sos os meus rins.</p>
+
+<p>&mdash;Sos, ou curados?</p>
+
+<p>&mdash;Curados, no. Inattingidos at quella data. E firmaram o diagnostico de
+uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgo e o outro hypertrophia.
+</p>
+
+<p>&mdash;Mas, afinal, acertaram?</p>
+
+<p>&mdash;Suppem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a saude.
+</p>
+
+<p>&mdash; espantoso, meu caro senhor.</p>
+
+<p>&mdash;No , no, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha reapparecido
+a mulher que eu amra. Visitou-me. Inflammamo-nos, e... estamos casados, no
+foi assim, Judith?</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me!<span class="pn">{49}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando o
+ enfeitiamento de um lindo <em>manteau</em> exposto no mostruario de modas e
+ confeces... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente a espaosa
+ fronte...<span class="pn">{50}<br>
+ {51}</span> </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00600000">OS DOIS ESPELHOS</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{52}<br>
+{53}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00610000">OS DOIS ESPELHOS</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Depois de mandar retirar-se a criada, V<small>IOLANTE</small> foi, p ante
+ p, fechar a porta do salo de jantar que deitava para a copa, e veiu
+ sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mos profundamente
+ geladas.</p>
+
+ <p>S<small>IMEO</small>, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo
+ no canto dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as
+ feies com um claro colerico.</p>
+
+ <p>Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a cadeirinha
+ de balanos, V<small>IOLANTE</small> provocou-o...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Faze a tua scena.</p>
+
+<p>&mdash;E no sem tempo.<span class="pn">{54}</span></p>
+
+<p>&mdash;Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se no sem tempo?</p>
+
+<p>&mdash;Facilidades.</p>
+
+<p>&mdash;Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o homem
+cazado no tem direito a facilidades.</p>
+
+<p>&mdash;Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que
+Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma existencia
+inteira para passar escravisado aos laos de uma unio infeliz!... Maldita
+hora!</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... ah!... ah!... ah!...</p>
+
+<p>&mdash;Sorris...</p>
+
+<p>&mdash;E ento? Hei de chorar para te sentires bem na oppresso que me fazes?</p>
+
+<p>&mdash;A minha vida depois que me senti enganado...</p>
+
+<p>&mdash;No tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci o
+teu adulterio...</p>
+
+<p>&mdash;Insultas-me ainda em cima, Violante?</p>
+
+<p>&mdash;No te insulto. Repillo as tuas aggresses, termo por termo. O que eu digo
+ que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado e perfumoso
+para agradar s amantes, tem a mulher de...</p>
+
+<p>&mdash;No dize, Violante, a indignidade!<span class="pn">{55}</span></p>
+
+<p>&mdash;Porque no dizer as cousas como ellas devem ser? S depois que senti a tua
+ausencia do lar...</p>
+
+<p>&mdash;E confessas o delicto?!...</p>
+
+<p>&mdash;... s depois que conheci a tua amante...</p>
+
+<p>&mdash;Mentes, mulher!</p>
+
+<p>&mdash;... s depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui
+sais...</p>
+
+<p>&mdash; horrivel, Violante!</p>
+
+<p>&mdash;... s depois de ver-te partir de l e a tua concubina despedir-se de ti
+com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravido...</p>
+
+<p>&mdash;Tu viste?</p>
+
+<p>&mdash;Sim... s depois de ter a certeza de possuires uma amante...</p>
+
+<p>&mdash;Poupa, Violante, essa phrase...</p>
+
+<p>&mdash;... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a
+crte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no lar pelo
+marido libertino...</p>
+
+<p>&mdash; demais!</p>
+
+<p>&mdash;Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num
+isolamento de aborrecer. Entretanto, fra diverso o teu proceder nos primeiros
+tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava na<span
+class="pn">{56}</span> rua, mal eu comeava a sentir a tua ausencia, estavas de
+volta. Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te
+retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te perguntei, a
+hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz saber. E, at hoje,
+nunca te pedi a menor palavra sobre o teu procedimento...</p>
+
+<p>&mdash;E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informaes.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! Para evitar essa negao, nunca t'as pedi, sciente e consciente
+de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, no te devo
+satisfaces... So ellas por ellas...</p>
+
+<p>&mdash;Abusas...</p>
+
+<p>&mdash;Corrige-me se puderes... No s o meu marido?... Toma conta dos meus
+actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze o que
+entenderes, certo de que atraz de mim haver quem vingue as tuas incontinencias
+e perversidades...</p>
+
+<p>&mdash;E sabes quem a minha amante?</p>
+
+<p>&mdash;Se sei, Simeo?!...</p>
+
+<p>&mdash;Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: no
+conheces ninguem...</p>
+
+<p>&mdash;S com o rizo!... Ah!... ah!... ah!...<span class="pn">{57}</span></p>
+
+<p>&mdash;Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha paciencia se
+exgottar afinal...</p>
+
+<p>&mdash;Ainda em cima me ameaas?</p>
+
+<p>&mdash;Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me confesses
+tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante?</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem!</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem, como?</p>
+
+<p>&mdash;Desconfiei e fui ao teu encalo...</p>
+
+<p>&mdash;No falas a verdade, Violante.</p>
+
+<p>&mdash;A certeza das coisas adquirida quando nos abeiramos dellas. Molestias
+mortaes, por miasmas exhalados dos paes, s as contrai quem lhes vai beira.
+Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio... Olhas-me agora atravessado?
+Nega ento que te falo a verdade como ella ?!... Por favor, desmente-me, se s
+capaz...</p>
+
+<p>&mdash;Juro-te que no sei do que se trata.</p>
+
+<p>&mdash;Perjuro!... Ento, toda a manhan no vais daqui caza de Idalia... No me
+interrompas, no... toda a manhan, no passas l horas esquecidas, quando sais
+no fica ella por traz da gelosia a acenar-te e tu a corresponderes-lhe os
+acenos de apaixonada despedida?</p>
+
+<p>&mdash;Ousada! Alem do mais, injurias mulher de um amigo da nossa
+familia...<span class="pn">{58}</span></p>
+
+<p>&mdash;E que a tua amante...</p>
+
+<p>&mdash;Pois se , est tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre
+vontade... Constou-te j que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As minhas
+obrigaes maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e comeam,
+quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a dentro, estou eu
+cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem jurei culto eterno, alias,
+em tempos melhores... Casei por uma supposio de momento: a solido de
+solteiro era um suicidio de todos os dias. E s no me enganei em suppr que o
+matrimonio me facilitaria relaes difficeis antes de ter as qualidades de
+senhor duma mulher... O mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a
+tua companhia, e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado um
+pequenino jardim, o maior cu a entrada de uma furna... A companheira um
+tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo homem
+respeitador...</p>
+
+<p>&mdash;Outro tanto te allego eu... Mentir aquelle que disser me ter visto,
+sorrateira ou clandestinamente, embuada ou mascarada, penetrar em lugares
+escusos, ou ao lado de algum homem que no fsses tu... Casei-me<span
+class="pn">{59}</span> por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixo
+momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto o meu
+marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me eu... Adquiriu
+uma amante...</p>
+
+<p>&mdash;Retem-te, Violante!...</p>
+
+<p>&mdash;No! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem pde viver longe do
+pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu marido!...
+</p>
+
+<p>&mdash;Intoleravel!</p>
+
+<p>&mdash;Tambem tu o s!</p>
+
+<p>&mdash;Adultera!</p>
+
+<p>&mdash;Deixemo-nos, Simeo, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os
+devolver todos, um por um...</p>
+
+<p>&mdash;Saber-me trahido...</p>
+
+<p>&mdash;Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando nada,
+no ters de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher digna do
+marido que lhe deram...</p>
+
+<p>&mdash;Sinto faltar-me a luz da vista...</p>
+
+<p>&mdash;Impresses, Simeo.</p>
+
+<p>&mdash;Pois justo que me consinta enganado?</p>
+
+<p>&mdash;No nos deshonramos...</p>
+
+<p>&mdash; um conslo ridiculo.<span class="pn">{60}</span></p>
+
+<p>&mdash;E que dirias tu se trahida eu no te trahisse igualmente?</p>
+
+<p>&mdash;Diversa a situao do homem, Violante.</p>
+
+<p>&mdash;O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente nos
+submettemos a esse regimen de igualdade...</p>
+
+<p>&mdash;Doloroso!</p>
+
+<p>&mdash;Assim exclamei, Simeo! Agora, porem, me sinto melhor: no me enganaste, e
+isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos...</p>
+
+<p>&mdash;E o teu amante?</p>
+
+<p>&mdash;Dispensa sabel-o...</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... Repillo a lembrana que me occorre... No, no possivel!... O
+massagista...</p>
+
+<p>&mdash;Rende justia tua mulher, Simeo! Pois no vs que eu me no vingaria de
+ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te fizesse crar perante a
+sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de ti?</p>
+
+<p>&mdash;Ento... Desabafa-me!... S completa!</p>
+
+<p>&mdash;Insistes em conhecer tudo?</p>
+
+<p>&mdash;No duvides que o quero de corao.</p>
+
+<p>&mdash; Lourival...</p>
+
+<p>&mdash;O marido de Idalia?...</p>
+
+<p>&mdash;De certo.<span class="pn">{61}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem
+conjugadamente...</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu estou vingada...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fra do salo, perguntava
+ aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar...</p>
+
+ <p>E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz...<span
+ class="pn">{62}<br>
+ {63}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00700000">O PRIMEIRO FILHO</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{64}<br>
+{65}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00710000">O PRIMEIRO FILHO</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Na secretaria fra extranhada a falta primeira de O<small>RLANDO</small>,
+ assiduo at no se ter ausentado do servio no attrahente dia do matrimonio.
+ </p>
+
+ <p>O D<small>IRECTOR</small> do esposo de O<small>LIVIA</small> era
+ reconhecido assiduidade do moo, e, por duas vezes, determinra o seu
+ accesso por merecimento.</p>
+
+ <p>Ao penetrar na Repartio depois da primeira falta, todos os olhares
+ recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se entregou ao
+ trabalho sem explicaes.</p>
+
+ <p>Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado,
+ O<small>RLANDO</small> e o D<small>IRECTOR</small> entravam em confidencia...
+ </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Sr. Director!<span class="pn">{66}</span></p>
+
+<p>&mdash;Estiveste doente?</p>
+
+<p>&mdash;No, no foi doena minha. Antes o fsse...</p>
+
+<p>&mdash;Trocaste o dia?</p>
+
+<p>&mdash;Como assim?</p>
+
+<p>&mdash;Levaste conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos?</p>
+
+<p>&mdash;Tambem no!</p>
+
+<p>&mdash;Viajaste a negocio?</p>
+
+<p>&mdash;Qual, Sr. Director! Os meus negociou so smente os de meu dever aqui
+dentro...</p>
+
+<p>&mdash;No sei explicar a tua falta.</p>
+
+<p>&mdash;E eu careo de coragem para dizer...</p>
+
+<p>&mdash;To futil no ha de ter sido o motivo.</p>
+
+<p>&mdash;Eu conto. Foi o meu primeiro filho...</p>
+
+<p>&mdash;Felicito-o desde j.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade. Conhecendo
+bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a s quando se manifestaram os
+primeiros incommodos do parto. E confiando em que o acontecimento cedo me daria
+liberdade para saltar repartio, fui-me deixando ficar, ora mais embebido
+nos cuidados que a parturiente exigia, ora menos descontente com o que se ia
+passando, at que, s na madrugada de hoje, aps vinte e duas horas de
+labutaes, se concluiram os trabalhos...<span class="pn">{67}</span></p>
+
+<p>&mdash;Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia.</p>
+
+<p>&mdash;No menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi em
+mim e vi que faltra hontem improficuamente, porque...</p>
+
+<p>&mdash;Ora, Sr. Orlando! Uma falta no infle, tanto mais quanto fui o primeiro a
+no mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber corresponder ao
+valor dos meus funccionarios.</p>
+
+<p>&mdash;Fico embaraado... Nem sei como lhe agradea... Ao depois das torturas
+porque passei, era natural que Deus me dsse o allivio de uma honra como a que
+o Sr. Director acaba de conceder-me.</p>
+
+<p>&mdash;E a senhora ficou sem novidade?</p>
+
+<p>&mdash;Pouco mais ou menos, Sr.</p>
+
+<p>&mdash;Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia...</p>
+
+<p>&mdash;Qual nada!... Faltar hoje?...</p>
+
+<p>&mdash;No digo isto.</p>
+
+<p>&mdash;Ento...</p>
+
+<p>&mdash;Obter uma dispensa de servio...</p>
+
+<p>&mdash;Nem pensar bom, Sr. Director. Se me dssem licena eu hoje emendaria o
+dia com a noite para descontar o atrazo de hontem...<span
+class="pn">{68}</span></p>
+
+<p>&mdash;So excessos, Sr. Orlando. justo que um chefe de familia precise dessas
+lacunas no servio para gozar mais largamente as venturas de seu lar.</p>
+
+<p>&mdash;Estas, francamente, eu s poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz no
+acontecido.</p>
+
+<p>&mdash;E no o foi?</p>
+
+<p>&mdash;Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigao.</p>
+
+<p>&mdash;Qual foi o medico?</p>
+
+<p>&mdash;Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo.</p>
+
+<p>&mdash;Bons medicos, sem duvida.</p>
+
+<p>&mdash;E que ho de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como um
+horror...</p>
+
+<p>&mdash;Mandarei dar-te uma gratificao para cubrires com ella os extraordinarios
+desse acontecimento inquietador.</p>
+
+<p>&mdash;No aceitarei, Sr. Director.</p>
+
+<p>&mdash;Porque assim?</p>
+
+<p>&mdash;No soberbia, no. Desculpe-me, mas eu no posso aceitar.</p>
+
+<p>&mdash;Quereria ter as razes dessa sua desatteno...</p>
+
+<p>&mdash;No desatteno, Sr. Supponha que eu aceito. Desfao-me das minhas
+difficuldades graas ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo filho,
+nas mesmas condies<span class="pn">{69}</span> difficeis do primeiro. O Sr.
+descuida-se e eu no obtenho nova gratificao. Naturalmente me enciumarei com
+o seu procedimento e o que no quero hoje, no devo esperar amanhan... Pois no
+?</p>
+
+<p>&mdash;Eu daria do melhor grado.</p>
+
+<p>&mdash;Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao
+depois, se a parturiente inspira cuidados...</p>
+
+<p>&mdash;No se ficou bem ella?</p>
+
+<p>&mdash;Acho que no. Ao depois do parto, comeou de ter desmaios consecutivos...
+</p>
+
+<p>&mdash;E o que recommendaram os medicos?</p>
+
+<p>&mdash;Repouso. Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher uma
+inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que Olivia
+padeceu.</p>
+
+<p>&mdash;Pois penso que devias retirar-te.</p>
+
+<p>&mdash;No devo, Sr. Director. O lar uma preoccupao para fra das horas da
+secretaria.</p>
+
+<p>&mdash;At o servio poderia lucrar com a tua ausencia...</p>
+
+<p>&mdash;Perdo, senhor, mas...</p>
+
+<p>&mdash;Admiras-te? No queria falar-te com tanta franqueza para no te consumires
+ainda mais...</p>
+
+<p>&mdash;Por acaso commetti alguma outra falta?</p>
+
+<p>&mdash;Gravissima... Sabes porque te chamei?<span class="pn">{70}</span></p>
+
+<p>&mdash;Lealmente ignoro.</p>
+
+<p>&mdash;Porque te desconheci. Ests um desconchavado e erras todo o servio. Pelos
+teus grandes creditos, s aqui dentro um rico de odios e de invejas. Conheo-os
+todos...</p>
+
+<p>&mdash;Agradecido, Sr. Director.</p>
+
+<p>&mdash;Cada companheiro teu um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem com
+os teus lapsos o teu valor. No o admitto eu.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, que fiz assim?</p>
+
+<p>&mdash;Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua informao.
+</p>
+
+<p>&mdash;Oh!... Esta cabea...</p>
+
+<p>&mdash;A conta de Silva &amp; C....</p>
+
+<p>&mdash;Sei!... sei!... Ento... errei-a?</p>
+
+<p>&mdash;Inconvenientemente.</p>
+
+<p>&mdash;E sei porque perpetrei o engano...</p>
+
+<p>&mdash; o que tu pensas...</p>
+
+<p>&mdash;Por ventura outro me corrigiu?</p>
+
+<p>&mdash;Absolutamente no. Sers tu mesmo quem far este trabalho ao depois...</p>
+
+<p>&mdash;Porque no hoje?</p>
+
+<p>&mdash;Ests dispensado, incondicionalmente, do servio por tres dias...</p>
+
+<p>&mdash;No me conformo, Sr. Director.</p>
+
+<p>&mdash;Sou irrevogavel.</p>
+
+<p>&mdash;No maximo me satisfarei com o dia de hoje.<span class="pn">{71}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sero tres dias irreductiveis, e pdes ir para a companhia de tua esposa
+descansar a tua cabea. Vejo-te perturbado enormemente com o pensamento do que
+possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda!</p>
+
+<p>&mdash;D licena?</p>
+
+<p>&mdash;Pois no.</p>
+
+<p>&mdash;s ordens do Sr. Director.</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... Sr. Orlando?</p>
+
+<p>&mdash;Sou todo ouvidos.</p>
+
+<p>&mdash;Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? homem?</p>
+
+<p>&mdash;Perdo, Sr. Director... Mas... no lhe sei responder... Com a atrapalhao
+da hora no me lembrei... Ah!... sim...</p>
+
+<p>&mdash;Que respondes?</p>
+
+<p>&mdash;Desculpe-me, Sr. justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem
+verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Sorrira o D<small>IRECTOR</small> e dispensra de vez O<small>RLANDO</small>, com a
+ inveja crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos
+ factos...<span class="pn">{72}<br>
+ {73}</span> </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00800000"> VISTA DA DENUNCIA</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{74}<br>
+{75}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00810000"> VISTA DA DENUNCIA</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>O interior da envidraada varanda, exornado com ipomas e glycinias, em
+ cacos, orchidas e arums nos recantos, no tinha seno a luz pallida, muito
+ pallida, de um luar de inverno, coado preguiosamente pelos vos das
+ grinaldas verdes.</p>
+
+ <p>Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma commettia a
+ indiscreo de transportar para alem, ao conhecimento da criadagem
+ bisbilhoteira, os amuos graves de C<small>LOVIS</small> e
+ A<small>MARYLLIA</small>.</p>
+
+ <p>A denuncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de ferro,
+ destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos grosseiros
+ perpetrados pelas mos violentas de C<small>LOVIS</small>, que,
+ distrahindo-se um pouco com as<span class="pn">{76}</span> fumaradas de um
+ havana, ouvia, sem intervenes, as queixas de A<small>MARYLLIA</small>...
+ </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Como eu, to ladina para outras, comprehendendo to bem o mal alheio,
+deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amavel hoje, tinha sido um
+presente valioso hontem, era uma lembrana expressiva amanhan... E o meu
+filhinho servindo de <em>passe</em> para os maiores engodos!... Toda hora o
+telephone pedia Arthurzinho. L se ia o innocente, coitadinho! E raramente
+voltava. Prendiam-n'o dias seguidos com a ama. Poderia eu desconfiar do
+embuste? Ha genios capazes de todas as villezas. O filho era o motivo da
+entrada do pae, os presentes eram as cinzas nos meus olhos, e os convites eram
+a perfidia da traioeira. Mas, agora, ou eu succumbirei, ou estar tudo
+acabado. Ouve-me bem, Clovis: nesta caza, emquanto eu viva fr, Carlota jamais
+tornar, e se tu desceres indignidade de voltar caza dessa mulher, ouve
+bem! Serei eu quem ir buscar o tolo do esposo para te surprehendermos na
+sordidez. Sempre so os interessados nas<span class="pn">{77}</span> causas os
+que por ultimo se sentem logrados. <em>Il n'y a qu'un mot pour dire les
+choses.</em> Essa palavra no devo, porem, proferir sem macular os meus labios,
+sem regosijar o meu enganoso marido, e sem elevar a perdida que me furta a
+tranquillidade, que me logra no dom legal da fidelidade esponsalicia. Um dia
+desconfiei. A ama de Arthurzinho levava um pacote s escondidas, quando, para
+castigo, elle rolou ao cho, na hora da partida, quasi aos meus ps...
+Perguntei cumplice que significava aquelle <em>embrulho</em>... Foi o sr.
+Clovis quem tomou a palavra: um romance que mando, a pedido, para D. Carlota
+ler... Ingenuamente me convenci. Pois seria possivel que o meu marido
+trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraioava? que expuzesse o meu
+filho infamao de ser posto junto perfida, em lugar de seu pai gozado?...
+ meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me e vejo-me s. Roubada
+naquillo porque mais zelos e mais ciumes alimento, eu que me tenho submettido
+machinalmente concepo de treze filhos, exgottando a minha juventude para
+parecer velha aos trinta e dois annos, assassinando a minha belleza, relaxando
+os meus tecidos, criando uma ruga nova em cada manhan em que me<span
+class="pn">{78}</span> olho ao espelho!... para ser recompensada duramente com
+uma traio, uma tripla traio, em que se envolveram as minhas lealdades de
+esposa, de me e... de amiga. Sim, porque, desgraadamente o digo, tolerei a
+concubina de Clovis na intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por fora
+dessa leviandade commum a todas as mulheres, terei dado causa de rizo maldita
+que me engazupava. Contava-lhe os meus esforos para trazer sempre o meu marido
+na obrigao pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o
+recebia com intimas indisposies, para que regeitado uma feita elle se no
+atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a duvida de sua saciedade
+noutra fonte... No sei onde estava escondido o sol de minha comprehenso que
+agora recenna a minha intelligencia. E uma miseria moral essa em que se
+prostite, com o conjuge das outras, uma velha, desrespeitadora das cans do
+esposo e da innocencia de suas filhas. Havia de ser l, naquella alcva cheia
+de seduces, que o meu companheiro se convertia em assassino da paz de minha
+alma. Aos olhos daquellas tres criancinhas&mdash;mulheres faceis, por herana, que
+desabrocham nos comoros lamacentos da podrido materna&mdash;elles<span
+class="pn">{79}</span> dois se encaminhavam do leito, quantas vezes Clovis
+ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o ardentemente com o nome de pae!
+Bemdito o poeta que j disse estar ao lado de cada homem uma fra monstruosa: o
+instincto. E esse poeta foi o meu proprio esposo, accusando toda a humanidade
+com o seu proprio mal. Foi preciso que uma generosidade extranha me avisasse
+para que eu conhecesse essa nova Mylitta babylonica, torpe, pantano no qual at
+a trahida companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram
+poderes lascivos. injustia divina! Porque no me despertaste, a mais tempo,
+do somno em que sonhei com a lealdade de um templo christo e me achava
+desgarrada na nave de um templo de Buddha?!... Foi hoje o assignalado dia de
+minha victoria. A carta chegou-me s mos com as resteas violetas do sol posto.
+Li-a de um folego. O meu primeiro impeto, naturalmente, foi de indignao
+contra o denunciante. Mas, alli estavam os factos verificaveis, possiveis, e
+terrorosos. A noite veiu mais depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo.
+A verdadeira noite essa em que tambem a alma se recolhe na escurido de uma
+dr apunhalante. O meu marido jantaria fra,<span class="pn">{80}</span> num
+banquete intimo, mas numa sociedade festiva. Resolvi chamal-o prontamente s
+explicaes de suas infidelidades. E fil-o sem tardada, no o nego. criada de
+Arthurzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha affectos meus por dar o
+seu leite formao organica de meu filho, trouxe logo s contas. No lhe
+disse a denuncia, no lhe proporcionei ensejo de contestar a sua aco, porque
+a interpellei segura do facto, inteiramente consciente do que fazia. E ella me
+confessou que levava e trazia romances immoraes, que levava e trazia cartas e
+recados... O instante unico! Ao depois, calma e friamente, sabendo que aguava
+a minha dr, revolveu-me nalma o punhal de seu descaro, revelando-me a
+indignidade de ser o meu filho abraado e beijado ardentemente, durante a
+ausencia do pae, com o nome deste entre os labios da corruptora... Nega,
+Clovis, que no s o amante dessa barregan de padres, dessa immunda mulher que
+maculou o meu lar com a sua abjecta convivencia...</p>
+
+<p>&mdash;Nego, sim!</p>
+
+<p>&mdash;Frte coragem! Jura que hontem no beijaste, quasi aos olhos do publico,
+no salo de visitas, os labios rxos pelo cansao da idade de Carlota.<span
+class="pn">{81}</span></p>
+
+<p>&mdash;Juro-te.</p>
+
+<p>&mdash;Leviano! Mente como quizeres. Mas, ouve: emquanto o meu corpo sentir as
+commoes do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquella devassa,
+emquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquella carta nas tuas vestias,
+que o perfume de uso na alcva de tua hervoeira, terei a coragem de
+repellir-te e de cerrar os meus labios s menores palavras para as nossas
+relaes. E se, porventura, desconfiar eu que foste buscar, como uma abelha sem
+sorte, o nectar que se esconde na corolla daquella flor murcha e fanada, dentro
+desta caza, escuta bem Clovis, haver a incompatibilidade de ns dois... tu
+entrares e eu sahir, ou s ficarei se tu te fres para sempre. Sabes quanto sou
+caprichosa, o bastante para no me arrepender das resolues tomadas. Negas,
+ainda, o teu erro? Serei facil de perdoar-te com a verdade, to facil quanto
+no te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade!</p>
+
+<p>&mdash;Nego, sim!</p>
+
+<p>&mdash;Quero convencer-me. A p firme?</p>
+
+<p>&mdash;Com toda lealdade.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! escusado irmos adiante: sabes o que est contido naquelle
+pacote?<span class="pn">{82}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ignro.</p>
+
+<p>&mdash;So os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero
+devolvel-os.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, como?</p>
+
+<p>&mdash;No os guardarei mais commigo.</p>
+
+<p>&mdash;Vais romper, ento, com a familia do Aurelio?</p>
+
+<p>&mdash;Forosamente.</p>
+
+<p>&mdash; de mau alvitre.</p>
+
+<p>&mdash;Incommoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar com
+uma amizade que me aborrece, e se te excusares a esse acabamento, confessas o
+interesse que ters em manter a verminao desse convivio immundo...</p>
+
+<p>&mdash;Se encaras por este lado, rompe Amaryllia, devolve tudo do modo mais
+grosseiro.</p>
+
+<p>&mdash;Devolverei, sim, no ha que ver.</p>
+
+<p>&mdash;Ests no teu direito.</p>
+
+<p>&mdash;E espero a tua sanco.</p>
+
+<p>&mdash;J a tens.</p>
+
+<p>&mdash;No. No a tenho ainda. A devoluo no poder ser feita sem uma carta.
+</p>
+
+<p>&mdash;Pois escreve-a!</p>
+
+<p>&mdash;No! Tambem no! Sers tu...</p>
+
+<p>&mdash;Eu?!...</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?...<span class="pn">{83}</span>
+</p>
+
+<p>&mdash;Amaryllia, pensa bem! Ns, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos
+nessas rusgas de mulheres.</p>
+
+<p>&mdash;Comprehendo-te: romperei eu, e tu, s occultas qui, com menores
+apparencias, te dedicars continuao de teu adulterio. Has de ser quem
+escrever a carta hoje mesmo, agora...</p>
+
+<p>&mdash;Convencer-te-s de minha innocencia?</p>
+
+<p>&mdash;De todo, no. Encaminhar-me-ei de convencer-me.</p>
+
+<p>&mdash;No haja duvida. D-me papel e tinta. Escreverei num momento...</p>
+
+<p>&mdash;E pensas que escrevers como quizeres?</p>
+
+<p>&mdash;No: como fr conveniente.</p>
+
+<p>&mdash;No te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado.</p>
+
+<p>&mdash;Qu?</p>
+
+<p>&mdash;Nos termos que me espoucarem arrevezadamente aos labios...</p>
+
+<p>&mdash;Mas...</p>
+
+<p>&mdash;Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga...</p>
+
+<p>&mdash;Amaryllia?!...</p>
+
+<p>&mdash;Virulenta e grosseira...</p>
+
+<p>&mdash;Faa-se a tua vontade.</p>
+
+<p>&mdash;Escreves?</p>
+
+<p>&mdash;Como quizeres.<span class="pn">{84}</span></p>
+
+<p>&mdash;E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquelle modo escripta?</p>
+
+<p>&mdash;A Carlota!</p>
+
+<p>&mdash;No, Clovis. Quero que se escreva ao marido della, com o seu nome em todas
+as letras...</p>
+
+<p>&mdash; demais!</p>
+
+<p>&mdash;No retrocedas!</p>
+
+<p>&mdash;Abusas de minha bondade...</p>
+
+<p>&mdash;Enganas-te. Clovis, ou tu escreves como eu te determino, ou...</p>
+
+<p>&mdash;Absolutamente, no!</p>
+
+<p>&mdash;... ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A caza de meu pae ter
+sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortavel.</p>
+
+<p>&mdash;Tua alma, tua...</p>
+
+<p>&mdash;Sei bem! Queres o escandalo da separao para o renome do conquistador?
+No te darei essa vantagem... Debaixo deste tecto, tragars, Clovis, o amargo
+da tortura mais incondescendente, soffrers a queimadura do inferno mais
+verdadeiro...<span class="pn">{85}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Ao longe, um relogio temerario, arriscou o aviso tetrico da meia-noite, ao
+ fim do qual, resolutamente, A<small>MARYLLIA</small> se retirou para o seu
+ leito...<span class="pn">{86}<br>
+ {87}</span> </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00900000">IRADO AT CURA...</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{88}<br>
+{89}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION00910000">IRADO AT CURA...</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Ampla alcva: no <em>armoire--glace</em> reflectida como outro vasto
+ commodo...</p>
+
+ <p>Rico mobiliario de pau-setim com incrustaes de jacarand reluzente...
+ </p>
+
+ <p>Um leito de cazados, e sobre elle, cadaverico, pelles e ossos, despojado
+ de carnes, ventrudo, olhar ancioso, o louro O<small>RMINDO</small>, luctando
+ com a morte...</p>
+
+ <p> um erro de diagnostico, rebelde a enfermidade medicao
+ despropositada. </p>
+
+ <p>Junto do leito, uma banca, e sobre esta, alem de um thermometro e de um
+ chronometro, desenvolta frascaria...</p>
+
+ <p>Aos ps da cama, fatigada, somnolenta, s vezes, D<small>OCA</small>
+ heroina na vigilia: o seu semblante merencoreo<span class="pn">{90}</span> s
+ consegue alguma graa quando E<small>LOY</small> visita o enfermo. </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaos sorrateiramente... Doca, tu
+bem vs como eu morro todos os segundos, como eu minguo sem cessar...</p>
+
+<p>&mdash;Tem f em Deus, Ormindo.</p>
+
+<p>&mdash;Morrerei com ella, sim. A f! Ella o facho illuminador da estrada
+eterna... Como deve ser doloroso no crer em nada, Doca!... Sentir a alma cahir
+no vacuo... Ah! no me conformo, porem... Morrer quando tanto preciso
+viver... Vou deixar-te na penuria... a braos, por certo, com os creditos da
+medicina e da pharmacia...</p>
+
+<p>&mdash;Tu pensas demais.</p>
+
+<p>&mdash;Como no hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilhars a codea endurecida e
+atrazada. com horror que prevejo as tuas infelicidades... s nova. Mas de que
+servir a tua mocidade sem po, os teus verdes annos sem um amparo? s bella.
+Mas de que prestar a tua lindeza se no tiveres um manto para o frio e um
+abanico para o calor? Nova e<span class="pn">{91}</span> bella... na viuvez!
+Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei?</p>
+
+<p>&mdash;A pobreza um estimulo, Ormindo: saberei trabalhar afim de haver com
+honra um pedao de po e alguns covados de fazendas...</p>
+
+<p>&mdash;No te peo nada, e peo-te muito: no macla o nome de teu marido. A
+herva reverdesce a fronde dos vegetaes, augmenta-lhes a copa, ennobrece-lhes o
+aspecto: crava-lhes, porem, at ao durano, as raizes assassinas e rouba-lhes a
+seiva at morte. A arvore cessa de existir com a trepadeira phytocida que lhe
+rendilha os contornos. A mulher deve pensar que o bem-estar no a honra, e
+que ha tranquillidades mais homicidas do que a herva do passarinho... A
+deshonra no provem da pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A deshonra fructo
+das transigencias de alma, e a mulher viuva a que pde peiormente
+transigir... Que dores!... Ui!...</p>
+
+<p>&mdash;Ests vendo: peioras quando falas!</p>
+
+<p>&mdash;Doca, no meu caso extremo, a morte assim qualquer coisa como uma sorte
+grande...</p>
+
+<p>&mdash;Num bilhete branco para mim que fico sem ti... No sabes aproveitar o
+silencio como um meio de cura, no sabes tirar partido,<span
+class="pn">{92}</span> poupando foras para momentos mais graves...</p>
+
+<p>&mdash;Durarei muito pouco.</p>
+
+<p>&mdash;No pdes saber mais do que os medicos.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! mulher! S eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se avisinha
+o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam. verdade, pois tenho
+neste momento a viso mais lucida dos meus primordios. Que isto seno que se
+vai fechar a circumferencia de minha traslao em torno do vacuo universal? O
+aneurisma cresce, avoluma-se, rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a frma
+de uma esphera, um globo pequenino de vivos, na lucta pela existencia. Vai
+arrebentar, latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que
+nunca me illudi com a esperana da cura? Illudi-me, mas antes de todos...</p>
+
+<p>&mdash;Quem est vivo, Ormindo, ainda no est morto, e toda a cura plausivel.
+</p>
+
+<p>&mdash;A tua dedicao cega. Desde que adoeci, desde que sobre o corao senti
+a formao mortifera do mal circulatorio, certifiquei-me estar mais longe do
+mundo do que do nada. E deste momento para c, que fiz para denunciar que creio
+na cura? Ao contrario, a minha vida tem sido a chamma de<span
+class="pn">{93}</span> uma vla a luctar com o spro das auras. No ha um
+instante em que no me morra uma alegria, em que no nasa uma saudade. Em
+torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa teimosa em
+torno de uma lampada.</p>
+
+<p>&mdash;Aggravas-te, Ormindo! Cala a bocca por piedade! As tuas palavras so
+outros tantos punhaes que me sangram o corao.</p>
+
+<p>&mdash;Que horas sero?</p>
+
+<p>&mdash;J noite.</p>
+
+<p>&mdash;E os medicos que no vieram?</p>
+
+<p>&mdash;Vieram, sim. Tu estavas dormindo.</p>
+
+<p>&mdash;Os medicos no vieram, no... At a minha esposa conspira contra a minha
+existencia...</p>
+
+<p>&mdash;No pesas as tuas palavras, Ormindo.</p>
+
+<p>&mdash;J sei de tudo. Perderam a esperana, abandonaram-me. No passarei de
+hoje. Estou condemnado a horas.</p>
+
+<p>&mdash;Descansa um pouco.</p>
+
+<p>&mdash;Descansar, agora, s de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e parece-me
+que foi hontem tarde que nos vimos pela primeira vez. Um sonho s vezes tem
+existencia mais real, porque nos acompanha do momento da concepo em criana
+ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me o ar...<span
+class="pn">{94}</span></p>
+
+<p>&mdash;Assim queres! Falas tanto...</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: no ha rio que no chegue ao mar.
+Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas consegue...
+Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez no te lembres mais do meu
+enfeitiamento; no me esqueo eu do sorriso unico com que festejaste o nosso
+encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh! que lindo luar te prateou as
+pupilas, te diademou os cabellos e te banhou luciferamente as espaduas! Mezes
+depois, o cazamento... A noite de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso
+amor insatisfeito sempre para accordar novas caricias, para fomentar
+alegrias... A esperana de um filho... O reco da esperana... E tudo isto
+acabar quando mesmo principiava?!...</p>
+
+<p>&mdash;No temas a morte: um cerebro que pensa como o teu d confiana na
+renascena da vida.</p>
+
+<p>&mdash;A alma no morre, Doca! ella quem esta vivendo agora. Os pulmes
+fraqueiam, o corao tem espasmos, a viso escurece-se, a voz arrasta-se, mas o
+cerebro pensa... Crs tu que, porque no falam, todos os moribundos no pensam?
+Illudes-te! a hora de maior pensamento. S recompr todo o passado<span
+class="pn">{95}</span> afim de o ligar ao presente e encerrar o circulo das
+sensaes mundanas, pensar robustamente. Um moribundo que eu vi, no tinha a
+fala. Os membros eram paralyticos, os olhos envidrados e photographavam a luz
+do dia para a eternidade... Pois bem! esse homem assim amortecido, repelliu com
+o gesto brusco de uma perna o supplicio de uma injeco nos ultimos
+instantes... Acaso, no pensaria mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros
+ha que conhecem at o segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser
+tocante o adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um
+agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecer mais no
+extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro mundo...
+Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que no falo certo?</p>
+
+<p>&mdash;No me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperana
+illuminar-me o rosto...</p>
+
+<p>&mdash;Como s amante?!... Quererias de corao e de alma, com todos os affectos
+e vontades, a minha cura?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado sade.<span
+class="pn">{96}</span></p>
+
+<p>&mdash; bem pouco um desejo!</p>
+
+<p>&mdash;Duvidas que todas as minhas foras funccionam s na inteno de possuir-te
+novamente so?</p>
+
+<p>&mdash;No duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a prolongao
+de minha tortura...</p>
+
+<p>&mdash;Aborrecer-me eu!...</p>
+
+<p>&mdash;E ento?!...</p>
+
+<p>&mdash;Tens coragem! S me representa que gravars na alma uma eterna
+desconfiana da amizade de tua esposa...</p>
+
+<p>&mdash;Isto no!</p>
+
+<p>&mdash;Pois parece, Ormindo!</p>
+
+<p>&mdash;Neste caso, escutas-me com agrado?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Posso falar?</p>
+
+<p>&mdash;No.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! j sei... a mesma quesilia de que falar um desperdicio de foras
+organicas...</p>
+
+<p>&mdash;Diz o doutor...</p>
+
+<p>&mdash;Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro
+conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar num
+terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido s intenes animaes dos
+homens, a equao da mulher <span class="pn">{97}</span> perigosamente
+diversa. Virgem, ella tem a expresso de um sonho; esposa, representa uma
+realidade; e viuva, ella uma alma em que se derramam os mananciaes copiosos
+da luxuria humana... Virgem, fste uma criadora; esposa, uma inspiradora;
+viuva, sers, em nome da honra de teu marido, uma redemptora... Ai!... Dem-me
+os pulmes... Morrerei, porem, com todas as sensaes...</p>
+
+<p>&mdash;No morrers, Ormindo!</p>
+
+<p>&mdash;So os teus votos?</p>
+
+<p>&mdash;Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda no
+instante derradeiro?</p>
+
+<p>&mdash;No duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz.</p>
+
+<p>&mdash;Pois ento?!...</p>
+
+<p>&mdash;D-me a tua mo...</p>
+
+<p>&mdash;Ests frio!</p>
+
+<p>&mdash; a gelidez da morte... No tardar... Fazes-me um favor?...</p>
+
+<p>&mdash;Se o fao...</p>
+
+<p>&mdash; para depois de minha morte...</p>
+
+<p>&mdash;Juro-te.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, responde franca e precisamente, para que eu no succumba com uma
+duvida...</p>
+
+<p>&mdash;Pede o que quizeres... Pede... no!... ordena!<span class="pn">{98}</span>
+</p>
+
+<p>&mdash;Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se no me derrubou de vez, vai
+invadindo-me com o glo de seu halito das extremidades para o corao.
+Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez um despenhadeiro. Peo-te em
+nome de minha tranquillidade, que te cases, immediatamente, afim de que no
+paire uma s nuvem sobre a limpidez do teu e do meu nome... Casars logo...
+Peo-te... o ultimo sacrificio em prol do teu defuncto...</p>
+
+<p>&mdash;Intranquillisas-me, Ormindo.</p>
+
+<p>&mdash;No ha razo para isso.</p>
+
+<p>&mdash;Se tu mandas...</p>
+
+<p>&mdash;Mando, no; peo... Agradar-te- Eloy?</p>
+
+<p>&mdash;Queres, Ormindo, a verdade antes da morte?</p>
+
+<p>&mdash; isso...</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! O que tu propes j estava assentado entre ns outros...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um grande
+ esforo e se salva com o despedaamento brusco do myoma desconhecido, do
+ assassino erro de diagnstico...<span class="pn">{99}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001000000">A HUNGARA</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{100}<br>
+{101}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001010000">A HUNGARA</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Commodo de hotel. Um fco electrico esverdinhava o azul papel das paredes.
+ </p>
+
+ <p>Revolvido, o leito denunciava em duas cvas a presso de dois corpos que
+ nelle se afundaram.</p>
+
+ <p>S<small>ARAH</small>, a hungara, recebia G<small>UANABARINO</small>, o
+ chronista theatral, com um estridente signal de contentamento...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Aqui estou. Nem sei como acertei.</p>
+
+<p>&mdash;Ests apaixonado?</p>
+
+<p>&mdash;Crs, Sarah, que paixo desponte como um sorriso?<span
+class="pn">{102}</span></p>
+
+<p>&mdash;Quem te disse o meu nome?</p>
+
+<p>&mdash;Li-o nos programmas.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim. Gostaste do meu canto?</p>
+
+<p>&mdash;No te ouvi.</p>
+
+<p>&mdash;Como te agradei?</p>
+
+<p>&mdash;Pertencendo a outro. A mulher sem dono custar a topar com um amante.
+Rolar uma eternidade como a pedra que no cria limo... Tenha um amante e
+dezenas surgiro...</p>
+
+<p>&mdash;Como elle experiente!</p>
+
+<p>&mdash;Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por
+Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo brao delle, no teu longo
+<em>manteau</em> de sdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo
+dezenas de mulheres no Caf-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o canariar
+de suas vozes; francesas, que arrebatam com o <em>savoir-dire</em> as malicias
+mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus sapateados;
+americanas, que lembram bugios nos saltos do <em>cake-walk</em>... Todas so-me
+indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com cocottes para todo o
+mundo... De comeo estive tentado a emprehender uma <em>mnage--trois</em> com
+uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo prohibido e vivia
+aferrolhado<span class="pn">{103}</span> concupiscencia de seu proprio pae.
+Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente encontrei-me
+comtigo...</p>
+
+<p>&mdash;Ladrosinho! Como elle sabe contar!</p>
+
+<p>&mdash;Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu
+amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de amigos
+attrahiu-me e a attraco de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um cumprimento
+com a cabea. No me teres sido apresentada, significou que o teu galan zelava
+de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho de seu progresso na
+sabedoria dos olhares que as pessas cultas pdem trocar. Viste como te
+comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho para o <em>buffet</em>?
+Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo de junto de ti e como
+tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro? Na sombra dos ps da meza, os
+nossos corpos se trocavam desejos nos encontros, animavam-se tambem com os
+promettimentos mais claros, e as nossas carnes se queimavam por detraz dos
+tecidos de nossas vestias. Tudo isto, porem, ainda no paixo. um grito do
+instincto animal. S nos no apaixonaremos se no quizermos...</p>
+
+<p>&mdash;Como sabes a vida!<span class="pn">{104}</span></p>
+
+<p>&mdash;Precisas prender Gustavo. A epoca das melhores. O dinheiro passa-lhe
+pelas mos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque, alem do
+mais, um amante que, por fora de ter mulher e filhos e morar longe, te dar
+muito tempo aos amores furtados.</p>
+
+<p>&mdash;No os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo no se
+tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e s o trahi uma
+s vez: com o pae de meu filho. Gsto de um amor s, de ter um dono e de ser
+cubiada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso, o Gustavo no me
+agrada... Prefiro-te a elle, sers o meu amante...</p>
+
+<p>&mdash;Errars se assim preferires, Sarah. No tenho posses para te manter, ao
+passo que o Gustavo...</p>
+
+<p>&mdash;Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho para
+o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero...</p>
+
+<p>&mdash;Neste caso ficars com elle...</p>
+
+<p>&mdash;Porque ento?</p>
+
+<p>&mdash;Conheceste-o primeiro.</p>
+
+<p>&mdash;No importa isso. A elle conheci na manhan, a ti noite, ambos no mesmo
+dia.<span class="pn">{105}</span> Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra.
+Encaminhou-me do hotel, e... m recommendao tem dado com os multifarios
+obsequios, com os gastos e as gentilezas, smente com essas coisas... Ora, uma
+mulher como eu, ou quer o homem, ou no o quer... De minha parte dispenso as
+galanterias...</p>
+
+<p>&mdash;Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispres de sua
+bolsa...</p>
+
+<p>&mdash;E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor...
+</p>
+
+<p>&mdash;L com isto combino eu.</p>
+
+<p>&mdash;Assim, v que seja e comecemos...</p>
+
+<p>&mdash;Que tenho eu para tanto me olhares?...</p>
+
+<p>&mdash;Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes so
+dois vulces. Como te chamas?</p>
+
+<p>&mdash;Guanabarino, um nome difficil.</p>
+
+<p>&mdash;Como?</p>
+
+<p>&mdash;Gua-na-ba-ri-no!</p>
+
+<p>&mdash;Gua-na...</p>
+
+<p>&mdash;... barino.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sei. Guanabarino. a primeira vez que ouo esse nome. s brazileiro?
+</p>
+
+<p>&mdash;De corpo e alma. E tu?</p>
+
+<p>&mdash;Filha do sul da Hungria. Vim creana para a tua terra. Fui noiva, aprendi
+a cantar com um meu amante e vivo disto...<span class="pn">{106}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tens percorrido meio-mundo, hein?</p>
+
+<p>&mdash;No: conheo a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia...</p>
+
+<p>&mdash;Dize outra vez esse termo...</p>
+
+<p>&mdash;Reminiscencia.</p>
+
+<p>&mdash;Que lindo! Parece-me, Sarah, que ests a dar uma serie de beijos...</p>
+
+<p>&mdash;Como elle ardente!</p>
+
+<p>&mdash;De verdade?</p>
+
+<p>&mdash;A tua alma est fugindo-te pelos olhos...</p>
+
+<p>&mdash;Junto de um espirito como o teu, como ella no querer a transfuso carnal?
+J notaste o frio que regela as mos do homem emocionado junto da mulher que o
+escalda?...</p>
+
+<p>&mdash;Ih!... Que glo!</p>
+
+<p>&mdash;Sabes explicar?</p>
+
+<p>&mdash;No. difficil?</p>
+
+<p>&mdash;Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao corao. As
+extremidades resfriaram-se. Tudo isto j comeo de paixo... Falaste nos meus
+olhos! E os teus? So capazes de comprar o mundo com um s relance.</p>
+
+<p>&mdash;Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento?</p>
+
+<p>&mdash;Que graa! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas gentilezas.
+</p>
+
+<p>&mdash;Tens gozado tanto?<span class="pn">{107}</span></p>
+
+<p>&mdash;Inda perguntas?! No sabes que o amor se fez para os temperamentos
+tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um desejo
+para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda hora: sinto que
+todo o teu sexo no seja uma s mulher para esta ser a minha amante...</p>
+
+<p>&mdash;Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino!</p>
+
+<p>&mdash;No.</p>
+
+<p>&mdash;Desmentes o que asseguras.</p>
+
+<p>&mdash;J tiveste o teu quinho.</p>
+
+<p>&mdash;Como assim?</p>
+
+<p>&mdash;J te possuiu o Gustavo...</p>
+
+<p>&mdash;Juro-te que no. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja revelada,
+ainda no desejou...</p>
+
+<p>&mdash;De facto?</p>
+
+<p>&mdash;Juro-te eu.</p>
+
+<p>&mdash;Ao depois delle... nunca!</p>
+
+<p>&mdash;Mas, porque? Mettes-me medo...</p>
+
+<p>&mdash;Por nada! O Gustavo um homem para se temer...</p>
+
+<p>&mdash;E porque me infles para ser a sua amante?</p>
+
+<p>&mdash;Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu
+concubinato bem pdes usufruir grandes proventos. E, j agora te direi: pouco
+mais far elle do que<span class="pn">{108}</span> hoje... Entretanto, como
+homem de recursos, talvez ainda no te dsse a menor prova do que seja...</p>
+
+<p>&mdash;Fez-me hoje a oblata de um collar de libras...</p>
+
+<p>&mdash;Um collar?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;De libras esterlinas?</p>
+
+<p>&mdash;Conheces?</p>
+
+<p>&mdash;Acho que no. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos...</p>
+
+<p>&mdash;Foram presente.</p>
+
+<p>&mdash;Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros
+meios que no esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe
+aqui...</p>
+
+<p>&mdash;No amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de
+<em>chanteuse</em>. s vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a
+primeira a no regeitar o que me do. Um deputado deu-me este annel...</p>
+
+<p>&mdash;Adoravel!</p>
+
+<p>&mdash;Um advogado, ao depois de uma perseguio de mezes, para eu o receber,
+offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho aquinhoou-me
+apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio, outras...</p>
+
+<p>&mdash;Muito em cheio, Sarah!<span class="pn">{109}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tu falas? Um mineiro, hoje desesperanado de conseguir a minha
+retribuio, deu-me estes correntes para atilios...</p>
+
+<p>&mdash;Que lindas frmas!</p>
+
+<p>&mdash;Mostro-te apenas os atilios e no as pernas...</p>
+
+<p>&mdash;E eu vejo tudo! admiravel como o <em>fraise</em> das meias se destaca no
+gsso das tuas pelles...</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me cubrissem
+de oiro tenho tido s carradas... mas, um s que me dissesse coisas to lindas,
+nunca tive... A palavra inescutada tambem uma joia preciosa. E para retribuir
+tantas distinces ineditas s um beijo de muita paixo, s um beijo...</p>
+
+<p>&mdash;Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e dste mais de mil...</p>
+
+<p>&mdash;Longe disto, tu no me recompensaste com um s... Reparei bem...</p>
+
+<p>&mdash;Desculpa. Mas, quando sou beijado, no beijo. Esta caricia deve ser sempre
+espontanea e impagavel. E eu no commetto a grosseira sensualidade de pagar uma
+caricia...</p>
+
+<p>&mdash;Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan...</p>
+
+<p>&mdash;Com todo o fervor...<span class="pn">{110}</span></p>
+
+<p>&mdash;No te enciumas?</p>
+
+<p>&mdash;No. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de ouro
+que elle te der.</p>
+
+<p>&mdash;Queres ver o collar de hoje?</p>
+
+<p>&mdash;Verei.</p>
+
+<p>&mdash;Elle me prometteu para amanhan um relogio e um corrento.</p>
+
+<p>&mdash;Aproveita, Sarah! Gustavo desperdia dinheiros de herana...</p>
+
+<p>&mdash;Vs tu o bello collar?</p>
+
+<p>&mdash; lindo!... Elle t'o deu?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Esta joia?</p>
+
+<p>&mdash;Que significa o teu espanto?</p>
+
+<p>&mdash; que este collar ...</p>
+
+<p>&mdash;Falso?</p>
+
+<p>&mdash;No! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo...</p>
+
+<p>&mdash;Agora minha!</p>
+
+<p>&mdash;Ests no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos...</p>
+
+<p>&mdash;E s a ti amarei, Guanabarino!...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de G<small>USTAVO</small><span
+ class="pn">{111}</span> evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando
+ o silencio somnolento do casaro do hotel, a figura caprina de um mal
+ conhecido visinho de quarto...<span class="pn">{112}<br>
+ {113}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001100000">DEPOIS DO COMETA</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{114}<br>
+{115}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001110000">DEPOIS DO COMETA</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta,
+ A<small>LEXANDRINA</small> ergueu-se da <em>steeple-chaise</em>, e beijou a
+ mo da velha senhora D. C<small>AROLINA</small>, que acompanhava
+ M<small>IMI</small>, naquella matutina visita de nupcias.</p>
+
+ <p>Ao depois, como duas flores de uma s haste separadas para sempre que se
+ reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braos a figura da
+ amiga e beijaram-se fartamente.</p>
+
+ <p>De outro lado, A<small>RTHUR</small>, o novel esposo, enfardado no seu
+ dolman de brins brancos, cumprimentra, ceremoniosamente, a
+ D<small>ONA</small> C<small>AROLINA</small> e com um sorrizo prazenteiro
+ applaudiu as bregeirices de M<small>IMI</small>.</p>
+
+ <p>Esta e A<small>LEXANDRINA</small>, ao depois de affaveis cumprimentos
+ geraes, confidenciavam numa janella, por<span class="pn">{116}</span> detraz
+ de arrendadas cortinas, onde se foram acastellar para a permuta de
+ segredos... </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;A que horas despertaste?</p>
+
+<p>&mdash;Nem sei mesmo...</p>
+
+<p>&mdash;No possivel.</p>
+
+<p>&mdash;Palavra!</p>
+
+<p>&mdash;Ento ferraste no somno, e...</p>
+
+<p>&mdash;Ao contrario: no durmimos.</p>
+
+<p>&mdash; exquisito.</p>
+
+<p>&mdash;Como te enganas! No calculas o que seja a estafa de um dia de noivado.
+</p>
+
+<p>&mdash;O dia mais bello da mulher...</p>
+
+<p>&mdash;Parece-te?</p>
+
+<p>&mdash;Esta ba, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: no te sentiste
+extraordinariamente feliz?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim... Casei-me por meu gosto...</p>
+
+<p>&mdash;Olha que j me pareces outra com tanta sisudez e seccura...</p>
+
+<p>&mdash;No , Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. preciso
+que no me tenham na conta de alguma leviana: j hoje em dia, minha amiga,
+tenho segredos que te no posso falar...<span class="pn">{117}</span></p>
+
+<p>&mdash;Prohibiram-te de dizer-m'os..</p>
+
+<p>&mdash;No! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alterao na vida de uma mulher que
+se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida conjugal, que
+nem sei como me reconheceste hoje... J viste, no craveiro, o botosinho verde;
+o caslo de folhas, como, na manhan seguinte, est um perfumoso cravo, uma flor
+distincta? Se te dessem as duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o
+facto como inveridico...</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu te vejo a mesma boniteza...</p>
+
+<p>&mdash;Sim! questo de alma. Suppe que adormeceste no comeo de uma viagem e
+que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo seria o
+mesmo, a tua lindeza no seria transformada, mas o teu corao palpitaria
+diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As tuas amigas ficariam
+noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso que regressasses ou que ellas
+viajassem para onde fras. Assim no cazamento: viajei para muito longe de ti.
+Para nos irmanarmos como dantes, ou voltarei minha immaculabilidade de
+hontem, o que seria impossivel, ou tu ascenders ao matrimonio para o que fao
+votos.</p>
+
+<p>&mdash;Tens razo!<span class="pn">{118}</span></p>
+
+<p>&mdash;No te parece?</p>
+
+<p>&mdash;Falas e procedes to judiciosamente que no me atrevo a duvidar das
+alteraes por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o cazamento
+para no me esquecer to depressa das intimidades com as minhas amigas...</p>
+
+<p>&mdash;No me esqueci. s injusta! No te darei novas confidencias: as velhas,
+entretanto, ficaro acariciadas como um sonho de felicidades na vida de uma
+mulher inditosa.</p>
+
+<p>&mdash;Pois pensei que me dirias tudo...</p>
+
+<p>&mdash;Tudo... qu?</p>
+
+<p>&mdash;Ora!</p>
+
+<p>&mdash;Denuncias que pensas em algumas coisas que no so veridicas, ou, pelo
+menos, no o foram para mim.</p>
+
+<p>&mdash;Foste differente das outras!</p>
+
+<p>&mdash;Offendes-me.</p>
+
+<p>&mdash;No te offendo, no. Desconheo-te.</p>
+
+<p>&mdash;Que quererias tu que eu te falasse?</p>
+
+<p>&mdash;No sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses.</p>
+
+<p>&mdash;Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha com
+um olhar seriamente investigador e tua me franze o sobrolho para mim... Um ha
+de<span class="pn">{119}</span> suppr-me indiscreta para te communicar
+tolices... e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras...</p>
+
+<p>&mdash;No! Deixa...</p>
+
+<p>&mdash;s m! Tens talento e no queres comprehender a minha situao,
+especialmente no dia de hoje.</p>
+
+<p>&mdash;J te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres...</p>
+
+<p>&mdash;Amas sem razo.</p>
+
+<p>&mdash;Com que direito a planta exige vio da flor que j foi colhida?
+Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre ns duas existe a alma do sr.
+Arthur...</p>
+
+<p>&mdash;No exaggeres...</p>
+
+<p>&mdash;Pdes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirs delle tambem. Os meus
+sero contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo, porque no
+deve haver um conhecimento novo que no pertena a ambos: os delle... morrero
+comtigo, porque no deves trahir tua f conjugal...</p>
+
+<p>&mdash;s incondescendente!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sou incondescendente na verdade das cousas.</p>
+
+<p>&mdash;Em parte, minha amiga.</p>
+
+<p>&mdash;No. Em tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Veremos.<span class="pn">{120}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois experimenta!</p>
+
+<p>&mdash;E se eu te provar?</p>
+
+<p>&mdash;Pago-te com um beijo...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! Pois ento a mulher que se cazou pde beijar outra pessa que no seja
+o seu esposo?</p>
+
+<p>&mdash;Deste modo, Mimi, no chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha
+conversas... O que te conversei at hontem, no conversarei jamais com o meu
+esposo. O que te converso agora, no conversarei jamais com a tua maman.
+Beijos!... Os que te dou so da ordem dos que sempre te dei...</p>
+
+<p>&mdash;Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias.</p>
+
+<p>&mdash;No sei se smente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei
+quantas tem...</p>
+
+<p>&mdash;Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes ou
+no ao teu marido?</p>
+
+<p>&mdash;Conforme.</p>
+
+<p>&mdash;No caso de dubiedades. Dizes ou no?</p>
+
+<p>&mdash;Se fr s do teu interesse, no.</p>
+
+<p>&mdash;Fao-te justia, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao
+falseamento agora, smente agora, do teu dever. Contars tudo o que te
+disserem, ou sers uma perjura na f<span class="pn">{121}</span> conjugal. Eu
+mesma duvidaria de tuas intenes, se occultasses do teu marido o menor
+acontecimento que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de
+descobrir sempre esse interesse que no exclusivo da pessa que te fallou,
+para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de parte, e
+affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres...</p>
+
+<p>&mdash;Dou-te razo, minha amiga. O mundo esse mesmo e no serei eu quem o
+modificar.</p>
+
+<p>&mdash;Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva!</p>
+
+<p>&mdash;Achaste?</p>
+
+<p>&mdash;Encantadoramente bella!</p>
+
+<p>&mdash;E tu me viste?</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem porta da
+igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja.</p>
+
+<p>&mdash;Era a ultima nota do meu pudor de virgem!</p>
+
+<p>&mdash;A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro
+assentou-te a grinalda como uma cora de rainha. Agradou-me a tua elegancia. E,
+porque no te censurar? s no gostei de trazeres os olhos<span
+class="pn">{122}</span> humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar
+esplendido.</p>
+
+<p>&mdash;Lisonjeira!</p>
+
+<p>&mdash;Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multides que se
+dominavam com a curiosidade de ver-me...</p>
+
+<p>&mdash;Tens razo. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem saber
+que... mais tarde...</p>
+
+<p>&mdash;Dize... dize...</p>
+
+<p>&mdash;Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais
+algozes...</p>
+
+<p>&mdash;De vras?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha amiga! No calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh!
+Digo-te de mais! Perda se te offendo...</p>
+
+<p>&mdash;Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que, ainda
+ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu?</p>
+
+<p>&mdash;Guardei-o j para offerenda a uma Santa.</p>
+
+<p>&mdash;Quem t'o tirou?</p>
+
+<p>&mdash;A maman... Arthur conversava no salo com o pap e dois amigos
+retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem j era alta hora da madrugada.
+Duas ou tres, no sei.</p>
+
+<p>&mdash;E o teu vestido? Era primoroso...</p>
+
+<p>&mdash;Est no <em>armoire--glace</em>...<span class="pn">{123}</span></p>
+
+<p>&mdash;Muito amarrotado?</p>
+
+<p>&mdash;No. Quando o despi... chorei! Como que uma mulher s se veste to bem
+uma vez na vida?!...</p>
+
+<p>&mdash;Choraste, Alexandrina?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash; de mau agoiro. Dizem que morrer primeiro aquelle que chora...</p>
+
+<p>&mdash;No sabia.</p>
+
+<p>&mdash;Nem que morrer antes do outro o que se deitou por primeiro?</p>
+
+<p>&mdash;Tambem no! E por isso tambem serei eu quem morrer antes...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! j estavas deitada quando elle appareceu na alcva?</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mos, tratou do
+successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada, desde as
+asperezas do juiz cazamenteiro, at s melifluidades de voz do sacerdote,
+quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal. Recompuzemos a sociedade que
+aqui esteve. As dansas, o servio de <em>buffet</em>, a ceremonia do ch...
+Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa, eu lembrava outra. Sorriamo-nos,
+commentavamos, com seriedade, as incorreces dos outros...</p>
+
+<p>&mdash;E o tempo se passava...<span class="pn">{124}</span></p>
+
+<p>&mdash; exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. No sabes, porem, como
+foi opportuna a nossa conversao. Quando extremecemos, ouviu-se o tiro das
+cinco horas...</p>
+
+<p>&mdash;E ento?</p>
+
+<p>&mdash;Arthur lembrou-se do cometa... J o viste?</p>
+
+<p>&mdash;Ainda no!</p>
+
+<p>&mdash;Pois bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada do
+meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Interrompidas por D<small>ONA</small> C<small>AROLINA</small>,
+ M<small>IMI</small> e A<small>LEXANDRINA</small>, dando-se as mos,
+ nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na conversao
+ commum...<span class="pn">{125}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001200000">AMORES NO CLAUSTRO</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{126}<br>
+{127}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001210000">AMORES NO CLAUSTRO</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Um ar tpido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos, instigador
+ do sensualismo mais humano e menos animal, era o excellente conforto da cella
+ de F<small>REY</small> P<small>ATRICIO</small>.</p>
+
+ <p>Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de dedos
+ enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro e o seu
+ affectuoso irmo de ordem, F<small>REY</small> T<small>HOMASIO</small>,
+ palravam gostosamente de coisas alegres...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resoluo
+improvisada...</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu, no! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e no venci:
+fui derrotado.<span class="pn">{128}</span></p>
+
+<p>&mdash;No posso crer facilmente.</p>
+
+<p>&mdash; a verdade, irmo Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no sepulchro.
+Para aqui trouxe o meu corpo, e, l fra, borboleteando, sem parar, a minha
+alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella animava. Emquanto moo,
+nas minhas preces s o nome de uma mulher viava triumphante...</p>
+
+<p>&mdash;Tambem a mulher...</p>
+
+<p>&mdash;Sim. Preconceitos, preconceitos! A barona estulta de uma familia
+asphyxiou sem d a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje, tremo
+de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre hymnos e
+bemdies, tel-a-ia levado, no cova, sublevando-se contra os pais, sim ao
+hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem cuidados naquillo que
+outros apreavam&mdash;a feeria dos titulos nobiliarchicos&mdash;vivemos apenas pelas
+suggestes do sentimento que nos venceu...</p>
+
+<p>&mdash;Os teus labios tremem, irmo Patricio, as tuas pupilas se inflammam e
+olham por sobre ns para tempos bem distanciados...</p>
+
+<p>&mdash;Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingana que exerci contra
+mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia ainda, mas
+respirando<span class="pn">{129}</span> bales de oxygenio. Artificios da
+sciencia! E tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo,
+naquella tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do
+esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A vista
+annuviou-se-me e, balouadas pela briza, as rendas do esquife me disseram um
+adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenos muito brancos, molhados de
+lagrimas... Succumbi deante da falsa viso e esmaeci... debruado sobre aquelle
+leito, onde chorei incansavelmente irado&mdash;Deus me perde!&mdash;como o mais pecador
+dos homens...</p>
+
+<p>&mdash;Tanto poude o amor!</p>
+
+<p>&mdash;A mola do mundo, Frei Thomasio, a mulher. No ha um burel aqui dentro
+que no seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem corriqueira e
+profanamente os francses, <em>chercher la femme</em>... Por ventura no
+professaste como os outros?</p>
+
+<p>&mdash;Sem tirar nem pr na cauza.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre assim.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu
+entre os outros homens e te elegeu o seu preferido.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! por certo.</p>
+
+<p>&mdash;Quem me dra!<span class="pn">{130}</span></p>
+
+<p>&mdash;E que te faltou, Frei Thomasio?</p>
+
+<p>&mdash;Justamente o amor.</p>
+
+<p>&mdash;Intrigas-me de vras.</p>
+
+<p>&mdash;Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei
+mocinho?</p>
+
+<p>&mdash;Se me lembro!...</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era menino,
+e se me dissessem que o heliantho foi obra da preteno e do desabuso de
+Hephaestos querendo, como um Deus, criar ses e mais ses, todo o credito eu
+daria, porque no tinha discernimento para me salvar das tentaes humanas...
+</p>
+
+<p>&mdash;Que so as verdadeiras tentaes da serpente no Paraiso...</p>
+
+<p>&mdash;Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o carreiro
+que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas e ramos para
+sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambies de saber...
+Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as primeiras cousas de
+amor...</p>
+
+<p>&mdash;E no lias o <em>Cantico dos Canticos</em>!</p>
+
+<p>&mdash;Ah! no! Fui sabendo que, como Eva fra criada para acompanhar o primeiro
+homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os<span class="pn">{131}</span>
+arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com olhos de
+escaldo...</p>
+
+<p>&mdash;Que magano!</p>
+
+<p>&mdash;E no peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas
+amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o cortejo dos
+mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras no tinham as calenturas de um
+amor, ella abrasava na abundancia das pretenes exaltadas: todos porfia lhe
+disputavam a preferencia... Tolamente eu era conduzido entre os fascinados pelo
+olhar da mooila cortejada.</p>
+
+<p>&mdash;Estou vendo que eras o preferido...</p>
+
+<p>&mdash;No sei, porque no tive capacidade para aquilatar, bem como porque&mdash;e
+daqui se originou a minha principal historia&mdash;troquei logo essa espectativa de
+amor bem aventurado por uma effectividade de amor bem triste... Mas sei que os
+olhares dos meus velhinhos cahiam sobre ns dois como punhados de olorosos
+jasmins, quando elles nos viam, quaes dois noivos conscientes, em falaes na
+varanda arborisada de nossa caza, amorosamente illuminados pela lua...</p>
+
+<p>&mdash;Bem feliz que ias para a vida entrando, irmo Thomasio?<span
+class="pn">{132}</span></p>
+
+<p>&mdash;Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a minha
+desdita foi ella a que mais lagrimas chorou... Ora, se a intuio de amar
+crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais fulgentes e chispantes,
+me sensualisaram todo e a carne arvorou-se em maior do que o sentimento...</p>
+
+<p>&mdash;O pecado!</p>
+
+<p>&mdash;Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, s vezes
+ainda peiando cigarras e apedrejando, com rudes instinctos, os inoffensivos
+gaturamos, fui prendendo-me s ardencias das esbrazeadas pupilas de uma mulher
+facil... A principio, quando o seu olhar incidia sobre mim, eu cerrava os
+olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer, pensava nas ternuras da outra. Nada
+mais. Os dias repetiam-se e as scenas mudavam-se, crescendo as investidas e
+diminuindo a resistencia. Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da
+aggressora, eu sentia uma purpurido nas faces, mas incolume proseguia o meu
+caminho... Mais tempo, e duas, tres, quatro vezes, voltava-me para trocar
+sorrisos... Em caza, a presena da outra, comeou de aborrecer-me. noite, por
+sobre as paginas abertas dos meus livros, dansavam cabrioladamente as imagens
+das duas mulheres. E eu<span class="pn">{133}</span> me decidia fragorosamente
+pela menos conhecida. Um dia, notei que os labios da extranha se moviam. Nada
+percebi, no entanto. Que ella falava, eu estava certo. Nas passagens seguintes,
+com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo exquisito. Duas syllabas apenas, e,
+se no te offendo nem abuso de tua condescendencia, irmo Patricio, dir-t'o-ei
+j...</p>
+
+<p>&mdash;Fao mesmo questo de sabel-o...</p>
+
+<p>&mdash;J que queres ouvir-me, continuarei...</p>
+
+<p>&mdash;Contina...</p>
+
+<p>&mdash;A deslumbrante mulher dizia-me apenas: Tico...</p>
+
+<p>&mdash;Ol!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocabulo...</p>
+
+<p>&mdash;Nada sei explicar-te, Frey Patricio, seno que corri os diccionarios dos
+meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo
+convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo
+investigador, depois de algumas pesquisas fra da convivencia dos collegas,
+soprou-me segredadamente: <em>Tico um convite... E quando ouvires, responde
+taco...</em> Corei deante da revelao e maldei de tudo. O meu primeiro
+impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me furtar s seduces de
+Almira...</p>
+
+<p>&mdash;Que bello nome, e lendario!<span class="pn">{134}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tive, porem, de ceder contingencia dos factos. No era possivel andar
+por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti da ideia e
+affrontei a tentao. Com o tempo fui cedendo. E, um bello dia, como se diz l
+fra, escorreguei... Tico!, disse-me ella, e eu lhe oppuz murmuradamente
+quasi: Taco! Em resposta, ouvi: Amanhan! Que noite, Frey Patricio! Se ha
+caldeiras para queimar almas, ns as experimentamos quando fazemos a espera de
+alguma coisa. No durmi, confesso. E, para encurtar as razes, s acordei,
+effectivamente, quando, advertido por ella de que l iria chegar o seu homem,
+me vi escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse
+esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que cresceram e
+motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que creatura perversa! Foi s
+bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho animal me arrancou de debaixo das
+pilhas de saccos, s bastonadas, Frey Patricio...</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... ah!... ah!... ah!</p>
+
+<p>&mdash;No rias, Irmo!</p>
+
+<p>&mdash;No te zangues, Frei Thomasio. No me posso conter... A tua historia
+alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!...<span class="pn">{135}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nem sei como de maus tratos no me acabaram naquella hora furiosa... E
+quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais!</p>
+
+<p>&mdash;Pudra!... Ah! ah! ah! ah!...</p>
+
+<p>&mdash;Alis, no foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido j, e voltando
+aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia: Taco?... e eu a
+repellia instinctivamente... Nem tico, nem taco... nem l dentro do teu
+sacco...</p>
+
+<p>&mdash; ba, ba!... Ah!... ah!... ah!... ah!...</p>
+
+<p>&mdash;Em seguida...</p>
+
+<p>&mdash;Sim...</p>
+
+<p>&mdash;... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos conhecidos me
+estygmatisava com o escandalo, e soffri, abrazadoramente. Ninita, escandalisada
+com a minha quda, definiu-se por outro, que a recebeu como esposa perante
+Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim mesmo... O mundo era um tedio... Ento
+pensei no vicio...</p>
+
+<p>&mdash;Mizericordia!</p>
+
+<p>&mdash;Mas, no era?... Para abafar uma mizeria moral, s outra maior... ou o
+passo que dei...<span class="pn">{136}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>A bronzea sineta da confraria, no se retendo na misso avisadora, chamava
+ a Ordem para a humilde refeio da noite.</p>
+
+ <p>E quando F<small>REY</small> P<small>ATRICIO</small> chegou ao salo, na
+ companhia de F<small>REY </small>T<small>HOMASIO</small>, j se liam,
+ emphaticamente, as consoantes oraes da hora.<span class="pn">{137}</span>
+ </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001300000">A CONSULZA</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{138}<br>
+{139}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001310000">A CONSULZA</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>De <em>maillot</em>, apenas, arrebicando as faces diante de um espelho,
+ N<small>INA</small>, a bailadeira, tinha um milho de pensamentos banaes no
+ cerebro ardente.</p>
+
+ <p>Os traos da sepia e os rebordos do nanquim, j lhe accentuavam a grande
+ vivacidade do olhar, e o p de arroz attenuava e embellecia as cres roseas
+ do rosto criadas pelo carmin vencedor.</p>
+
+ <p>Uma vez por outra, deixava de conformar-se, para attender aos appellos da
+ porta, de onde, sem deixar ninguem penetrar, voltava enfastiada com as
+ iteraes de extranhos.</p>
+
+ <p>Esperava O<small>CTAVIO</small>: era o <em>aimant du coeur</em>, porque o
+ C<small>ONSUL</small>, o velho<span class="pn">{140}</span> francs, pelas
+ suas funces representativas, evitava aquelles encontros mais notorios...
+ </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Nina?</p>
+
+<p>&mdash;Quem bate? Octavio?</p>
+
+<p>&mdash;Elle, sim!</p>
+
+<p>&mdash;Entra, meu rico amor!</p>
+
+<p>&mdash;Fiz-me esperar, hein?</p>
+
+<p>&mdash;Nem tanto, mas eu tenho a regalia de poder cheirar-te as vestimentas para
+saber se tiveste o contacto do corpo de outra mulher, de vistoriar-lhe o
+casaco, para descobrir ahi os fios perdidos dos cabellos da que me logrou...
+</p>
+
+<p>&mdash;Descansa o teu corao. Vivo inteiramente para ti. E emquanto estou longe
+do teu olhar, sou como o barro que espera, ardorosamente, a toda a hora, a
+plasmagem do artista. Por elle, passam e voltam, vo e tornam, todos os
+profanos: mas elle no menos monopolisador de sua plasticidade do que uma
+flor do gnomo que s abra a horas certas...</p>
+
+<p>&mdash;No sabes? O Consul pediu-me a noite...</p>
+
+<p>&mdash;E deste-lh'a?<span class="pn">{141}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nem sei...</p>
+
+<p>&mdash;J me toma os dias inteiros... Entra agora pelas noites... Que horas sero
+as minhas?</p>
+
+<p>&mdash;Todas at. Aturo-o porque tu consentes.</p>
+
+<p>&mdash;Exactamente. Mas elle vem a prejudicar-me se continas a no se satisfazer
+com o que lhe ds. s vezes, l para as tantas do dia, penso em ti. O brazido
+abre em chammas ao menor sopro. O incendio alastra. Quero remediar-me e soffrer
+a caricia dos teus beijos anti-incendiarios. Vem logo a certeza de que o Consul
+te frequenta o dia inteiro. Esmoreo. Abomino-me e espero confiante o prazer da
+noite. Tenho sido certo e insubstituido. De agora por diante, nem mesmo nas
+noites poderei confiar. Ao amante nunca lhe ds demais. Se te pede uma hora,
+d-lhe meia, se te pede um dia, d-lhe horas, se te pede uma noite, d-lhe um
+dia, e reduze sempre as suas pretenes. Ao contrario, todo o tempo ser
+absorvido. E, quanto ao mais, espera-te hoje a ventura. Vais dormir com o
+Consul... Estou libertado...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! no! Que succede Octavio?</p>
+
+<p>&mdash;Nada. No estorvo os teus anhelos. Leva comtigo o Consul. D-lhe o meu
+lugar,<span class="pn">{142}</span> mas dize-lhe, ao menos, que no me
+occultaste a entrada delle no leito que deixo vasio...</p>
+
+<p>&mdash;Espera um pouco que te falarei melhor. s acabar de toucar-me...</p>
+
+<p>&mdash;Careces de mim?</p>
+
+<p>&mdash;No me aborrece, Octavio!</p>
+
+<p>&mdash;Pensei sempre que valhesse mais do que todos os outros teus amantes. Vejo,
+entretanto, agora, que um existe mais poderoso ainda do que todos ns
+reunidos...</p>
+
+<p>&mdash;Vale a pena a descuberta.</p>
+
+<p>&mdash;Desmente-me, pois. No tens um amante que preferes ao Consul, um amante
+deante do qual te esqueces mesmo de mim?</p>
+
+<p>&mdash;Dizes-me coisas extraordinarias...</p>
+
+<p>&mdash;Contesta a existencia desse outro amante omnipoderoso, que motiva teres-me
+deixado no exilio deste divan, na semi-obscurido de teu camarim...</p>
+
+<p>&mdash;No s amavel.</p>
+
+<p>&mdash;De mais em mais se confirma o que te digo: nem tens animo, por causa delle
+mesmo, para contestares o que te affirmo de um modo to categorico... Digo-te
+centos de coisas e nada te abstrai desse amante unico...</p>
+
+<p>&mdash;Agora, sim! Dei um ultimo retoque nos meus preparativos de scena... Que te
+pareo de <em>maillot</em>?<span class="pn">{143}</span></p>
+
+<p>&mdash;No trato disto. Refiro-me ao teu poderoso amante.</p>
+
+<p>&mdash;O Consul?</p>
+
+<p>&mdash;No sabia que este seja poderoso. Mas no a elle. Ao outro, deante do
+qual te esqueces de mim, do Consul e de alguns menos e mais cotados do que ns
+outros...</p>
+
+<p>&mdash;Amante?</p>
+
+<p>&mdash;De certo. Negas que no te absorve elle mais do que qualquer de ns?</p>
+
+<p>&mdash;Nego.</p>
+
+<p>&mdash;Contestas que exista esse amante?</p>
+
+<p>&mdash;Juro-te mesmo.</p>
+
+<p>&mdash;V l que no me enganas...</p>
+
+<p>&mdash;Quem ser, Octavio?</p>
+
+<p>&mdash;O teu espelho...</p>
+
+<p>&mdash;Aceito a graa. Em troca, porem, vais dizer-me o que julgas de meus trajos
+em <em>maillot</em>?...</p>
+
+<p>&mdash;Julgo mal, porque te acho parecida com uma lebre a quem cortaram cerce
+todos os pellos... Assim muito delambida, muito escorrida, muito masculina...
+</p>
+
+<p>&mdash;Tens espirito.</p>
+
+<p>&mdash;E fui franco do modo que tu me pediste. Veste as rendas, sobrepe as
+sedas, ou tira o <em>maillot</em>. Se vamos ao mundo, todos os atavios, todos
+os <em>soutaches</em>, applicaes e <em>manteaux</em><span
+class="pn">{144}</span> sero poucos; se ficamos aqui, o menor fragmento de
+tecido mais fino, ser demais... Ou o extremo enroupamento, ou a extrema
+nudez...</p>
+
+<p>&mdash;Figuremos duas hypotheses. Se me visses enroupada, com um luxuoso vestido,
+de muitas rendas, muitas fitas, muito decte, muita joia, e lindo chapeu de
+plumas, que farias de mim?</p>
+
+<p>&mdash; essa a primeira hypothese?</p>
+
+<p>&mdash;Sim!</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem: levar-te-ia, logo, tua caza para que, antecipando a hora de
+tua sahida, o Consul, nem de longe, pelo meu brao, te visse hoje...</p>
+
+<p>&mdash;s digno de um acto destes.</p>
+
+<p>&mdash;Bravura do amor. Agora, a segunda hypothese?</p>
+
+<p>&mdash;Sim: se me visses na, to na que nem uma <em>charpe</em> me velasse as
+pomas, que farias de mim?</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... Ahi est uma pergunta de difficil resposta, uma hypothese de
+operosa soluo...</p>
+
+<p>&mdash;Porque?</p>
+
+<p>&mdash;Porque uma nueza dessas exigiria um leito e sem este tu serias apenas uma
+gravura...</p>
+
+<p>&mdash;Venceste-me. Despacharei o Consul.<span class="pn">{145}</span></p>
+
+<p>&mdash;No sou eu quem determina. Passarias uma noite igual s de Bhodis na
+companhia de Chrysis... Porque escancellas tanto os teus deformados olhos? No
+calculas, assim, a desproporo do teu semblante, lindo como um camapheu...</p>
+
+<p>&mdash;Procurei ouvir o que se faz em scena, afim de verificar quanto falta para
+a minha vez...</p>
+
+<p>&mdash;Queres, saio a ver...</p>
+
+<p>&mdash;No. Chamarei o contraregra. Nem precisa: canta a Solidonia...</p>
+
+<p>&mdash;A pernstica!</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-a, coitada! Ainda tenho todo um intervallo e dois numeros da outra
+parte. Agora... d-me um beijo, paixosinha!</p>
+
+<p>&mdash;Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulza...</p>
+
+<p>&mdash;Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu lhe
+tenha promettido uma noite, quando no lh'a darei por preo nenhum?</p>
+
+<p>&mdash;Ciumes?!... No os sinto dos outros homens, porque nenhum delles lograr
+de ti as venturas e as concesses que eu tenho gozado... Nem mesmo do Consul...
+Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve dizer sempre que antes
+delle provei-o eu.<span class="pn">{146}</span> Tenho ciumes, Nina, do que tu
+vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que fitas... Se eu
+pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus vestidos. Invejo
+delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem confidentes dos teus nervos e das
+tuas pulsaes. Tenho cimes das flores que exornam os teus cabellos, porque
+smente ellas passam o deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor.
+Tenho cimes do fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado
+entre os teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te
+inebria, porque smente elle atravessa as tuas frmas e vai arrebatar-te na
+essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque smente ella
+vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo isto, eu quereria
+ser o somno que te fecha as palpebras, porque participaria das felicidades
+todas dos teus sonhos; a agua que te banha as frmas, porque desvendaria os
+immensos segredos e mysterios de tua belleza unica, e o riso que te doura o
+semblante, porque teria o dominio do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do
+instante magico em que pela primeira vez nos pertencemos mutuamente? So de
+vras muito irmans as almas que tocam <span class="pn">{147}</span> meta de
+uma ventura no mesmo instante... e as nossas duas...</p>
+
+<p>&mdash;De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o poder de
+duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a inclemencia de
+Nausitha deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao amante, no fervor do
+gzo, entre os teus braos, naquella noite, Octavio, naquella primeira noite...
+</p>
+
+<p>&mdash;Desgraadamente, j eu, ento, poderia ter sentido por toda a parte de teu
+corpo, o halito bafiento do outro amante.</p>
+
+<p>&mdash;O outro amante?!... Tenho-o, e como se elle no existisse. Tenho-o
+porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor, protestam
+os meus seios, bem diversos na tua presena do que so na delle. Deante de ti,
+as minhas pomas parecem florescer como os jasmineiros em deliciosas noites de
+luar, como as laranjeiras em uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem
+perdem na seccura e esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas
+dos rochedos... s a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos labios.
+Elle o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os seus
+desejos...<span class="pn">{148}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher no se cede a um homem sem
+a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer...</p>
+
+<p>&mdash;Acertaste. No sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente procuram
+por toda a parte o homem e que s ao depois de muitos descobre o procurado?
+Quando topei comtigo, j o tinha no convivio de suas esquisitices.</p>
+
+<p>&mdash;Tu s formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam
+divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias! Quero
+enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos amores...</p>
+
+<p>&mdash;Bem sei que os homens todos so uns animaes. Uns, porem, so menos do que
+outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que os cis,
+nesse mistr, so os equivalentes de certos homens? E que elles so os seres
+que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um co... Os seus labios, como
+os de Pan, seriam capazes de devorar as virgindades, se as virgens recebessem
+os seus beijos...</p>
+
+<p>&mdash;Quero crer.</p>
+
+<p>&mdash; um libertino.<span class="pn">{149}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nada mais?</p>
+
+<p>&mdash; um extrangeiro...</p>
+
+<p>&mdash;Que importa?</p>
+
+<p>&mdash; um devasso...</p>
+
+<p>&mdash;E smente isto?</p>
+
+<p>&mdash;Ama como um co, Octavio.</p>
+
+<p>&mdash;E que que faz?</p>
+
+<p>&mdash;Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me arrastar
+ concesso do prazer que s vige nos seus labios? No te bastar a expresso
+do pouco que te digo?</p>
+
+<p>&mdash;Repugnante!...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante s tu!... Toda esta noite serei tua
+como nas demais...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus cabellos de
+ oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de todas as volupias da
+ terra, como os crnos de Almatheia foram de todas as riquezas do
+ mundo...<span class="pn">{150}<br>
+ {151}</span> </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001400000">DE COMO O AVARENTO MORREU...</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{152}<br>
+{153}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001410000">DE COMO O AVARENTO MORREU...</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:&mdash;uma
+ enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, M<small>ANUEL</small>
+ C<small>ARLOS</small> proferia blasphemias.</p>
+
+ <p>Ao seu lado, a N<small>EGRA</small>, que era uma amante retinta, carnuda e
+ fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos cautelosos a
+ agitao do moribundo angustiado.</p>
+
+ <p>Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal percebido, a
+ principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima reaco da vida contra a
+ morte.</p>
+
+ <p>Nesta hora, da doena, por entre as chocantes palavras de M<small>ANUEL
+ </small>C<small>ARLOS</small>, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim<span
+ class="pn">{154}</span> dos seus dentes que rangiam como uma lima activa
+ sobre um pedao de ferro...</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito
+dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida um pedao de
+ouro comprado com um milho de moedas... A morte uma ladra que nos furta,
+para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a reunir... Sou rico! Digo-o
+com um cordial prazer. Tambem trabalhei como uma alma possessa. No houve
+domingo nem dia santo, que me dssem descanso, chuva e ao sol, alta madrugada
+e avanada noite... Rim... rim... rim... rim...</p>
+
+<p>&mdash;Como elle range os dentes?!...</p>
+
+<p>&mdash;Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as cavallarias
+despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como massas de feno, nos
+recantos das mangedouras. s vezes, chovia como um diluvio. E eu, com o corpo
+quente da cama, cortava o pateo, mettido no meu capote de lan, e, menos feliz
+do que os meus assalariados<span class="pn">{155}</span> que ainda dormiam,
+tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem, dava-me calor e foras.
+Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da Beira, de onde sahi, num dia de
+inverno, ha mais de trinta annos. Nesse dia, a avsinha e a mi-Geralda
+levaram-me at caza do moo que me trouxe para aqui. Ah! Deus lhe d o reino
+dos cus, j que na terra eu nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim...
+Bella pessa, generoso ao desperdicio... Que barulho esse que ouo de
+instante a instante?</p>
+
+<p>&mdash;So os trabalhadores no terreiro.</p>
+
+<p>&mdash;Sahiram hoje os vehiculos?</p>
+
+<p>&mdash;Sahiram todos.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza.</p>
+
+<p>&mdash;Talvez os cis...</p>
+
+<p>&mdash;No me veiu ver hoje o <em>Tupy</em>. Tem sido esse canzarro o meu maior
+amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mos. Por onde
+andar elle que hoje se esqueceu de mim?</p>
+
+<p>&mdash;Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e...</p>
+
+<p>&mdash;Nem pense nisso: o pobre animal se ladra no morde. Vigia-me a caza e
+desconhece os extranhos.<span class="pn">{156}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ladra e assusta.</p>
+
+<p>&mdash;Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as suas
+lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos. E sempre
+tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de longe mesmo, o
+tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em meio de caminho.
+Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em fidelidade e presteza.
+Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim... rim... Nem sei como se tm
+feito por ahi afra os meus servios... E hoje o ultimo do ms. Se no se
+procurar, a terrivel corja no paga. Nem tenho uma pessa a quem confie esse
+servio. Neste mundo s se encontram gatunos e ladres. Um honesto, como eu,
+uma realidade rara! Em tudo fui roubado, at na sade. Dos poucos, das moedas
+de cobre, os simples trocos e differenas nas compras, tu te assenhoreavas,
+porque me dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dce, uma
+fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo de ter
+deixado nas tuas mos as economias que deviam ter voltado ao meu capital,
+porque delle se despediam para sempre... Rim...<span class="pn">{157}</span>
+rim... rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!...
+Ouo novos ruidos... S me parece que os de agora so dentro de caza...</p>
+
+<p>&mdash;Pois quem seria?</p>
+
+<p>&mdash;Sei l... Ouo coisas que s me parecem na sala da frente. Vai ver se
+alguem...</p>
+
+<p>&mdash;Nem precisa. A porteira est fechada, e abrindo-se ella a campainha d
+signal. Ao depois, o velho Thom trata na estribaria dos animaes em que
+montas...</p>
+
+<p>&mdash;Vai tudo muito bem, mas no me posso conformar com esta vida de cama.
+Seis dias de doena, e estou derreado como uma velha mangueira... Inda assim,
+considero-me bastante feliz. No devo nada a ninguem. E, a mim, todos me devem.
+Depois de amanhan, vence-se uma letra de um devedor: ha de querer pagar-me os
+juros de quinze por cento por novo semestre... Mas elle estar enganado. Se
+quizer reformar, os juros crescero. Agora s darei dinheiros a dezoito ao
+ms... Serviu? Faamos o negocio. No serviu, passe muito bem... Rim... rim...
+rim... rim... Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera
+de seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres annos. Ao
+depois<span class="pn">{158}</span> de vencido o seu compromisso, levou
+engabelando-me por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa
+amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu no mettesse
+advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o conselho de que
+poupa e os santos te ajudaro... No ganhei nunca quatro vintens de que no
+guardasse tres... No te estou dizendo? Esse barulho dentro de caza...</p>
+
+<p>&mdash;Desta vez no ouvi nada.</p>
+
+<p>&mdash;Ento, ests surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente andava.
+Rim... rim... rim... rim...</p>
+
+<p>&mdash;No sei que especie de gente...</p>
+
+<p>&mdash;Realmente posso enganar-me.</p>
+
+<p>&mdash;J te convences? A esta hora, nem os trabalhadores esto aqui... Ah!
+Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros no foram hoje pedreira...</p>
+
+<p>&mdash;Miseraveis! Preguiosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados deixam
+de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, um prejuiso... Rim...
+rim... rim... rim...</p>
+
+<p>&mdash;Fiz ver tudo isto a elles.</p>
+
+<p>&mdash;E porque no trabalharam?</p>
+
+<p>&mdash;Porque morreu a moa do mestre, e este no veiu...<span
+class="pn">{159}</span></p>
+
+<p>&mdash;No digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois l na
+minha terra, que se sabe trabalhar... L trabalhariam at hora do enterro.
+Aqui encontram a razo para muitos dias de ocio. Se eu estivesse bom, a esta
+hora teria tocado todos elles para a rua. Rim... rim... rim... rim... No gosto
+de vadios. Fui homem que, numa vida inteira, no teve uma hora de vadiao.
+Sempre comi de chapeu na cabea e esporas nas botinas. Por isso guardei
+meia-duzia de contos. Digo assim meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas
+meias-duzias guardei... Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;E ento?</p>
+
+<p>&mdash;No sabes o que foi?</p>
+
+<p>&mdash;No sei...</p>
+
+<p>&mdash;O <em>Tupy</em> que esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e
+aos outros mandei pr as correntes...</p>
+
+<p>&mdash;Vai soltar o <em>Tupy</em>. inoffensivo, tanta quanto leal e
+cuidadoso. Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o!</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avana
+sobre elle...</p>
+
+<p>&mdash; uma prova de lealdade.<span class="pn">{160}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que incommoda aos extranhos. Porque no bebes o leite? Queres?</p>
+
+<p>&mdash;Leite?!... Hontem te preveni que leite luxo e que no posso com essas
+despesas... Ainda o compraste hoje?</p>
+
+<p>&mdash;O doutor mandou...</p>
+
+<p>&mdash;Rim... rim... rim... rim...</p>
+
+<p>&mdash;Ao depois, em caso de doena no ha desperdicio...</p>
+
+<p>&mdash;Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. o leite, a botica, o
+doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das pernas sou
+senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem recostar-me! Tenho
+kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se a coisa continua assim...
+Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um homem conservado e indisposto para
+divertimentos. No sei como a minha sade estragou-se... Vai soltar o cachorro!
+Os seus movimentos inquietam-me. J atirou outra coisa ao cho...</p>
+
+<p>&mdash;Deixa o cachorro preso.</p>
+
+<p>&mdash;Pde arrebentar mais alguma coisa, e sero novas despesas para mim... Que
+afflio sinto agora!</p>
+
+<p>&mdash;Bebe o leite!</p>
+
+<p>&mdash;D-me.<span class="pn">{161}</span></p>
+
+<p>&mdash;J se devem trinta medidas...</p>
+
+<p>&mdash;Como?</p>
+
+<p>&mdash;Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e duas
+ tarde...</p>
+
+<p>&mdash;Que desperdicio! No digo! Se levar aqui um ms, o leite, o medico e a
+botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me tero reduzido mizeria...
+Sabes que mais? No quero mais leite... Supprima-se desde hoje...</p>
+
+<p>&mdash;E com que te alimentas?</p>
+
+<p>&mdash;Com agua... intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo em
+oito dias de cama! No possivel. No sou rico, no! Toca a poupar...</p>
+
+<p>&mdash;Sem o leite no poders passar...</p>
+
+<p>&mdash;Passo, sim! Quem foi que disse que no poderei?</p>
+
+<p>&mdash;O medico.</p>
+
+<p>&mdash;Pois passo, sim. Sem dinheiro que nada possivel. Parece-me que se
+combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um
+pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim... rim...
+Est muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem sei se tomei
+poro igual em todo o resto da vida! ter ganho uma fortuna em mais de
+trinta<span class="pn">{162}</span> annos para acabal-a bebendo leite, pagando
+medico e sustentando boticas... No quero mais leite! Rim... rim... rim...
+rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella m f e plano de roubo... Ah!...
+L se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em cima: o co preso, por um
+capricho, para quebrar os moveis e as louas... Mas, esse ruido que agora ouvi
+muito bem...</p>
+
+<p>&mdash;Foi a mesma coisa...</p>
+
+<p>&mdash;... no foi l dentro...</p>
+
+<p>&mdash;Foi, sim!</p>
+
+<p>&mdash;Pareceu-me na sala da frente...</p>
+
+<p>&mdash;No cuidars de outra coisa?</p>
+
+<p>&mdash;E que seria o que cahiu?</p>
+
+<p>&mdash;Uma bacia de folhas...</p>
+
+<p>&mdash;No!... no!... no!...</p>
+
+<p>&mdash;Que queres fazer?</p>
+
+<p>&mdash;Levanta-me aqui...</p>
+
+<p>&mdash;Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu s peior do que
+um menino...</p>
+
+<p>&mdash;Aquelle barulho... Levanta-me aqui...</p>
+
+<p>&mdash;Para que? no me dirs?</p>
+
+<p>&mdash;Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como se
+pegasses num pedao de pau...</p>
+
+<p>&mdash;Assim?<span class="pn">{163}</span></p>
+
+<p>&mdash;Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro...</p>
+
+<p>&mdash;Queres muita coisa tambem...</p>
+
+<p>&mdash;No me fazes favor... No preciso de ninguem contra a vontade... Tenho
+dinheiro para ser bem servido, e gsto que me tenham obediencia...</p>
+
+<p>&mdash;Ests muito impaciente...</p>
+
+<p>&mdash;Tira o travesseiro...</p>
+
+<p>&mdash;Prompto. Queres mais alguma coisa?</p>
+
+<p>&mdash;As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... No esto aqui... Bem sei
+agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer, minutos
+ depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu esconderijo, como
+ verdadeiras inutilidades...<span class="pn">{164}<br>
+ {165}</span> </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001500000">AO DESPIR UM PIERROT</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{166}<br>
+{167}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001510000">AO DESPIR UM PIERROT</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em que,
+ sem acceder ao somno, C<small>HRISTINA</small> se divertia, mostrando ao
+ astro lubrico os tons roseos de sua carnao perfeita como se talhada em
+ marmore rozado e humido.</p>
+
+ <p>Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas vises; mas
+ soffrendo o conflicto das ideias de uma traio de N<small>ARCISO</small> e
+ da lealdade perquiridora de S<small>TELLA</small>, a desaccordada mulher
+ caprichou de no durmir emquanto a espiona no tornasse do baile fantasia.
+ </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Reconheceu-te, Stella?</p>
+
+<p>&mdash;Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile?</p>
+
+<p>&mdash;No o viste?<span class="pn">{168}</span></p>
+
+<p>&mdash;Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no
+baile, e, escrava dessa supposio, criaste todo um systema de desconfianas,
+que comearam de traduzir-se, muito naturalmente, naquella tua phrase.</p>
+
+<p>&mdash;Viste-o?</p>
+
+<p>&mdash;Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? No esperavas esta noticia?
+</p>
+
+<p>&mdash;Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com uma
+pontinha de esperana em contrario, suppuz sempre que no puzesses os olhos
+sobre elle. Embora trahida, eu quereria no ser sabedora do mal...</p>
+
+<p>&mdash;Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te no
+obstines em aggravar o acaecido. No remediars o mal, no assim? Pois,
+corao larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as aces. Acompanhei-o por
+toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que uma <em>pierrot</em> o
+acompanhasse. Se tu lhe falas, ters de dizer-lhe quem foi espionar-lhe os
+passos de homem livre...</p>
+
+<p>&mdash; o que te parece: livre?...</p>
+
+<p>&mdash;Pois no livre Narciso?</p>
+
+<p>&mdash;Digo-te que no!</p>
+
+<p>&mdash;O teu noivo no tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo
+estado?<span class="pn">{169}</span></p>
+
+<p>&mdash;Repito-te que no.</p>
+
+<p>&mdash;Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das vistas da
+mulher amada, ficam sendo o que so: homens solteiros...</p>
+
+<p>&mdash;Narciso differe dos outros...</p>
+
+<p>&mdash;Uffa!... Christina!... Vou tirando o <em>pierrot</em> que me acalora as
+carnes...</p>
+
+<p>&mdash;O noivado um comeo de intimidades, que se distendem, mais ou menos,
+conforme as razes de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado semi-escuro,
+onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos assegurados na nossa
+posio, com a possivel presena immediata de todos os de caza, as nossas
+intimidades seguem uma derrota que me d o direito de exigir de Narciso maiores
+fidelidades do que tu pensas...</p>
+
+<p>&mdash;Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o
+collte... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda ordinaria,
+esta!</p>
+
+<p>&mdash;Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias das
+almas passaram s do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais cedo...
+Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua, os seus labios
+roaram sobre os meus<span class="pn">{170}</span> olhos, e os seus bigodes
+produziram-me um <em>frisson</em> nas carnes, com o qual eu me teria entregue
+ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus dedos
+que elle segurava entre os seus, sorriu&mdash;um sorriso mais lindo do que um raio
+de sol!&mdash;e, sem o querermos, talvez, por certo instinctivamente, os nossos
+labios se encontraram...</p>
+
+<p>&mdash;V, Christina, como ficaram as minhas calas...</p>
+
+<p>&mdash;Desbotou nellas o setim?</p>
+
+<p>&mdash;Alguma coisa. A cr amarella mais fixa do que a vermelha... Mas, esto
+para ser exprimidas... Que sudorifico!</p>
+
+<p>&mdash;Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos so de um
+homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo... Avia-te,
+afim de que me contes o que viste...</p>
+
+<p>&mdash;Dir-te-ei centos de coisas novas...</p>
+
+<p>&mdash;Appeteo o conhecimento do que sabes. uma infelicidade ter-se um pae,
+como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse que eu fra a
+um baile publico espionar os desvarios de meu noivo... Ah!... Como eu seria
+venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte que cubio...<span
+class="pn">{171}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nem tu calculas pallidamente o que por l se vive...</p>
+
+<p>&mdash;Apressa-te, Stella!</p>
+
+<p>&mdash;Acaba, primeiramente, o que contavas... No quero perder a ba hora de
+confidencias que inauguraste...</p>
+
+<p>&mdash;Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os
+contactos... Em seguida, as mutuas confianas, mais um arregaamento hoje, mais
+uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe resistisse, desejou
+ver-me o comeo das pernas... Intimidades, Stella, intimidades, proprias,
+communs e infalliveis entre todos os noivos... Eram ellas que me garantiam, at
+hoje, a constancia de Narciso, e, quando vejo, como agora, que o que lhe fao
+j se torna pouco para o prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco
+mais, sem comtudo deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as
+concesses, na medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores...
+Conta, agora, o que tu viste...</p>
+
+<p>&mdash;Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o
+corpo quer distender-se nervosamente num leito macio...</p>
+
+<p>&mdash;E onde ficou Alberto?</p>
+
+<p>&mdash;O meu primo?<span class="pn">{172}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos dois
+<em>pierrots</em> da maior sensao! Nem calculas como deliciosa a companhia
+do meu primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado
+geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos. Soube
+corresponder minha excitao, no commettendo maiores pecados do que me
+beijar nas passagens mais sombrias das ruas...</p>
+
+<p>&mdash;Invejo-te, Stella!</p>
+
+<p>&mdash;Bem poderias ter ido...</p>
+
+<p>&mdash;Qual nada!</p>
+
+<p>&mdash;Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois no foi?</p>
+
+<p>&mdash;Isto fcil para ti...</p>
+
+<p>&mdash;Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?...</p>
+
+<p>&mdash;No!</p>
+
+<p>&mdash;Ahi est! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que vissemos...
+L estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do baile. Custei a topar
+com elle. S em meio da festa deparei com elle numa das banquinhas do
+<em>buffet</em>. Mais de vinte homens e mulheres...</p>
+
+<p>&mdash;Mulheres, tambem?<span class="pn">{173}</span></p>
+
+<p>&mdash;E ento? Tu pensas que haver quem resista solido naquelle cahos de
+sensaes extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho, casado
+com a Lucinda, l estavam, cada qual com a sua mascarada...</p>
+
+<p>&mdash;Narciso tambem?</p>
+
+<p>&mdash;No te espantes seno se eu te disser que elle era o unico que no tinha
+uma mulher fantasiada ao seu flanco...</p>
+
+<p>&mdash;Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei logo
+na traio. Aquelle semblante enfarruscado no era sincero...</p>
+
+<p>&mdash;Ao seu lado estava uma <em>cuyre</em> italiana: deves gabar-te do gosto
+de teu noivo. No se acompanha de mulher feia. serio...</p>
+
+<p>&mdash;Era bonita a que o seguia?</p>
+
+<p>&mdash;Linda, Christina: <em>mignon</em>, alva, loura, e, com um arrebatador
+decte, exhibindo um collo mais branco do que um pedao de neve, do meio da
+qual, como uma abelha sobre uma petala de gardnia, um negro signal era tido
+como mascotte...</p>
+
+<p>&mdash;J agora me penso feliz por no ter ido l.</p>
+
+<p>&mdash;Que teria se tu tivesses ido?</p>
+
+<p>&mdash;No me conteria.<span class="pn">{174}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu
+noivo sabe gozar uma mulher. No dirias nem uma palavra, mas lhe acompanharias
+a pessa como a sua sombra. Quando no te agradasse fecharias os olhos. Vi-o,
+por exemplo, encher a bocca de champagne...</p>
+
+<p>&mdash;Nada mais natural.</p>
+
+<p>&mdash; o teu erro. Quem no sabe como quem no v. Pensas, ento, que elle
+tomou a bebida de dentro da taa?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Pois no! A <em>divette</em> foi quem lhe passou o champagne collando os
+seus nos labios delle... Garanto-te que no sabias deste modo de acariciar...
+</p>
+
+<p>&mdash;Confesso-te que no.</p>
+
+<p>&mdash;Ahi est. Verias a <em>droiture</em> com que o teu noivo se curvou,
+encostou nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e
+sugou-lhe a entontecedora bebida...</p>
+
+<p>&mdash;Como deve ser bom esse carinho!</p>
+
+<p>&mdash;Ao depois, beijaram-se...</p>
+
+<p>&mdash;Aos olhos do publico?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... Se eu estivesse l...</p>
+
+<p>&mdash;No farias seno nada. Eu, pelo menos, nessas occasies de grande excesso,
+alli mesmo<span class="pn">{175}</span> me voltava, e, se no fossem as nossas
+mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos... No
+conheo, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um conto de
+Caliban menos excitante, e um par dansando bem um conto luxurioso escripto
+com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto final de um beijo. Os
+corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se entranavam, as mos, servindo
+de oppressores, estreitavam os troncos e cada par, assim enlaado, cabea
+descahida sobre cabea, parecia um corpo s com a monstruosidade de quatro
+pernas... Exquisito, sem igual... Homens e mulheres no se distinguiam na furia
+dos sentidos...</p>
+
+<p>&mdash;E Narciso dansou?</p>
+
+<p>&mdash;No. Nem todos dansam. parte, pelo jardim e nas mezas do
+<em>buffet</em>, os que no estavam fantasiados, se divertiam grande, mas um
+pouco retrahidos das vistas do grosso publico, porque s no salo elles
+escandalisariam...</p>
+
+<p>&mdash;Todavia, vingar-me-ei...</p>
+
+<p>&mdash;Poupa-o, Stella... O pecado divino... Vinga-te em mim...<span
+class="pn">{176}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>As duas mulheres, num longo beijo, abraaram-se e confundiram-se, cada
+ qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente...</p>
+
+ <p>A lua, devassamente, illuminou-lhes, at quando quiz, os seus bellos
+ corpos de uma semi-nudez pagan...<span class="pn">{177}</span></p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION001600000">A TAVERNA DE M<sup>ME</sup> BERTHON</a> </h2>
+
+<p><span class="pn">{178}<br>
+{179}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3><a name="SECTION001610000">A TAVERNA DE M<sup>ME</sup> BERTHON</a> </h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>No terrao do Caf Leontina, agasalhados em seus lanzudos
+ <em>pardessus</em>, O<small>DORICO</small> e W<small>ENCESLAU</small>, dois
+ typos mundanos, essencialmente mundanos, conversavam surdamente... </p>
+
+ <p>Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha de
+ sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares cupidos por
+ todas as bancas.</p>
+
+ <p>O<small>DORICO</small> enlanguesceu-se, e, como uma reaco, assignalou,
+ assim, a passagem da exquisita-mulher com uma rememorao cruel... </p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Sempre curioso este Caf em materia de mulheres. No vejo esta
+Menina<span class="pn">{180}</span> Leontina, como a chamam, que no me
+recorde logo da infeliz Madame Berthon.</p>
+
+<p>&mdash;E tu, meu caro Wenceslau, s bem a chronica viva de toda a feminidade
+desta terra. No ha uma mulher de quem no tenhas informaes, anedoctas,
+segredos, sobre quem no lances um episodio de curioso entrecho.</p>
+
+<p>&mdash;No conheceste tambem a Madame Berthon?</p>
+
+<p>&mdash;Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo
+ignorado...</p>
+
+<p>&mdash;Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a
+inspirao do artista mais rude para produzir uma obra-prima.</p>
+
+<p>&mdash;Alguma divindade incognita...</p>
+
+<p>&mdash;No, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem a
+visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e na
+temperana dos seus costumes, no diria jamais que era a senhora absoluta de um
+corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais inspirado... No se julgue
+a felicidade dos fins pelas venturas que povoam a estrada por que trilhamos.
+Muitas vezes, um momento de tranquillidade<span class="pn">{181}</span> agora
+a sementeira de um incommensuravel estado de attribulaes mais tarde. Madame
+Berthon despejava invejas a todas as mulheres do seu conhecimento. Desta caza
+tirava ella os meios de sua subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o
+taciturno aspecto de seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais
+ruidosa alegria, aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum
+excesso d o rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma
+algoz cambiante de tristeza. Tinha a crte de poderosos pretendentes, mas
+decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de alguem, era,
+ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E, se a ninguem
+promettia, a nenhum negava, e a todos faltava... Curiosissima mulher! Os seus
+habitos eram os de uma leviana, mas a sua alma contrastava com a sua existencia
+costumeira. Exquisita mulher, Odorico, muito exquisita, senhora de muitos
+coraes se tivesse querido, entretanto escrava de um s que a levou,
+finalmente, sepultura. Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia.
+Um assassinio e um suicidio...</p>
+
+<p>&mdash;Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas,
+em<span class="pn">{182}</span> algumas, ha a sementeira de muitos casos
+fataes.</p>
+
+<p>&mdash;Espera, Odorico, espera. No condemnes a desventurada pelos primeiros tons
+de sua historia. Juiz mais severo do que eu, no conhecers, por certo, para o
+julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que veste escandalos, e que
+escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a mulher o algoz, parecendo a
+extrema fraqueza. Neste caso, porem, Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se
+crime ella teve, foi o de amar o homem que a assassinaria mais tarde. E amou...
+conjugalmente, porque nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. s deshoras, l
+para as tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares
+cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e
+recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de
+enciumar-se at de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea to
+geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de compensaes: o
+feio conjugado com o bonito, e reciprocamente, o bonito com o feio... Dahi a
+naturalidade daquella unio de Gaspar com a Madame Berthon. Mais de noventa
+noites durou aquelle consorcio espontaneo.<span class="pn">{183}</span> Aqui
+vinha eu, e naturalmente, cortejava mulher gentil, espionando sempre o
+amante. Os homens todos, Odorico, saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril,
+como os armentios saudariam, com ardente f, a vinda do outomno, porque a
+estao das colheitas. Na manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois
+amantes, l para as aguas furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento
+ouccubo. Visinhos, espicaados pela anormalidade, attenderam ao que se passava
+na moradia de Madame Berthon. Depois de acalorada discusso, durante a qual o
+assassino descera as vidraas, cautelosamente, para no ser ouvido pelos
+extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento no
+interior daquella caza. Momentos aps, Gaspar, conduzindo uma bolsa de mo,
+descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia, meticuloso e
+tranquillo, trancando s suas costas a entrada no sobrado em que commettera o
+assassinato de Madame Berthon. E, como um homem feliz, l se fra rua abaixo.
+Quem o visse, no lhe diria o autor de um crime, muito menos quando, no
+desempenho de um habito, asseiava os botins, e olhava serenamente o movimento
+das ruas...<span class="pn">{184}</span></p>
+
+<p>&mdash;Revolto-me j contra esse perverso.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! O movel do crime fra o roubo e todas as poupanas daquella
+operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava zelosamente. Em
+torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos dois tiros, populares
+encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito, arrastando-se como lemures
+merios em trilhas brancas de areiaes desertos. Vozes surdas contavam as
+supposies de um crime; a suspeita avolumou-se... O rochedo n da desconfiana
+vestiu-se fartamente com os ouropeis das espumas brancas dos commentarios.
+Pelas janellas descidas, olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios
+vivos do barbaro crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse
+as botas e penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares
+tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presena proxima de um delegado.
+Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina autoridade do seu
+aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina... Tudo o mais foi rapido.
+Num instante abriu-se com violencia a entrada. Um obstaculo appareceu: a porta
+estava presa, como que escorada por dentro. Que seria que obstava o seu
+movimento?<span class="pn">{185}</span> Uma cabea affoita enfiou-se por uma
+nesga, e voltou transfigurada, annunciando smente: Est morta. Outros typos
+mais curiosos vieram, ageitaram-se e penetraram com a autoridade. Estatelada
+sobre o cho, Madame Berthon, numa nueza arrebatadora ainda no tinha a gelidez
+dos cadaveres, mas j era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue
+escarlate. E sobre as suas frmas nuas, nada, seno as meias presas com atilios
+de fitas rubras, e as pequenas sapatinhas...</p>
+
+<p>&mdash;Que miseria!</p>
+
+<p>&mdash;J conheceste a victima. Dahi por diante a aco foi sobre o agente. A
+perseguio popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros perseguidores
+foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas proprias temporas, Gaspar
+era um suicida... No calculas a impresso que esse crime deixou no meu
+espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e senti que o assassino no tivesse
+ficado vivo para pagar com a recluso da vida a barbaridade do assassinio de
+uma mulher, cujo corpo esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer
+austeros Areopagos... se desvendado fsse tal como eu o vi... E nota, Odorico,
+que um corpo<span class="pn">{186}</span> morto, por mais bello que seja,
+menos do que o vivo, porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que
+o fluido mais sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, s
+naturezas muito fortes no cedero necrophilia... Ento ella que possuia um
+nevo sobre o quadril direito...</p>
+
+<p>&mdash;Sensualizas tudo, Wenceslau!</p>
+
+<p>&mdash;E que que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte, como tu
+deves saber, um pedao de sensualismo microbiano... Quantas fecundaes
+damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, seno pela fora dos sexos,
+baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre instancia do amor que topars
+com a absolvio da mulher, e carregars a mo na dosagem da condemnao do
+homem algoz.</p>
+
+<p>&mdash;Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido
+condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no senhorio
+dos homens.</p>
+
+<p>&mdash;E como influiria tudo isto para que Gaspar no victimasse Madame Berthon?
+</p>
+
+<p>&mdash;Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o comeo do
+mundo, e coisa que no se sabe a data da primeira<span
+class="pn">{187}</span> traio da mulher, de to distantes tempos vem ella.
+</p>
+
+<p>&mdash;Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa
+traio do homem, e formada de uma traio, porque foi necessario que Ado
+adormecesse para que Jehovah, trahindo perfectibilidade da sua obra, lhe
+tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella no poderia ser
+contraria sua origem...</p>
+
+<p>&mdash;s rigoroso demais...</p>
+
+<p>&mdash;No sou, no, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os dias
+e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo e escreveu
+precisamente: As mulheres tm sido tratadas at aqui, pelos homens, como
+passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam no meio delles: como
+qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil, de selvagem, de doce, de
+arrebatador&mdash;mas, igualmente, alguma coisa que necessario engaiolar para que
+se no v embora num vo... Que isto seno o reconhecimento do espirito
+traioeiro de nossas Evas?... Ao demais... estamos muito fra dos eixos... Que
+bebemos agora?...<span class="pn">{188}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Fra do terrao do Caf Leontina, solemnemente encapotados, dois
+ policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta noite...</p>
+</blockquote>
+<br>
+</div>
+
+<h3><a name="SECTION001700000">INDICE</a> </h3>
+<ul class="TofC">
+ <li><a name="dedicatoria_l" href="#dedicatoria">Dedicatoria</a></li>
+ <li><a name="epigrafes_l" href="#epigrafes">Epigraphes</a></li>
+ <li><a name="tex2html35" href="#SECTION00200000">Nedda</a></li>
+ <li><a name="tex2html37" href="#SECTION00300000">Voluptuosas</a></li>
+ <li><a name="tex2html39" href="#SECTION00400000">O poeta moribundo</a></li>
+ <li><a name="tex2html41" href="#SECTION00500000">O velho medico</a></li>
+ <li><a name="tex2html43" href="#SECTION00600000">Os dois espelhos</a></li>
+ <li><a name="tex2html45" href="#SECTION00700000">O primeiro filho</a></li>
+ <li><a name="tex2html47" href="#SECTION00800000"> vista da denuncia</a></li>
+ <li><a name="tex2html49" href="#SECTION00900000">Irado at cura...</a></li>
+ <li><a name="tex2html51" href="#SECTION001000000">A hungara</a></li>
+ <li><a name="tex2html53" href="#SECTION001100000">Depois do cometa</a></li>
+ <li><a name="tex2html55" href="#SECTION001200000">Amores no claustro</a></li>
+ <li><a name="tex2html57" href="#SECTION001300000">A Consulza</a></li>
+ <li><a name="tex2html59" href="#SECTION001400000">De como o avarento
+ morreu...</a></li>
+ <li><a name="tex2html61" href="#SECTION001500000">Ao despir um
+ pierrot</a></li>
+ <li><a name="tex2html63" href="#SECTION001600000">A taverna de Madame Berthon</a></li>
+</ul>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Mundanismos, by Almquio Dins
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK MUNDANISMOS ***
+
+***** This file should be named 30413-h.htm or 30413-h.zip *****
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
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+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
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+
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+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+
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+ gbnewby@pglaf.org
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
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+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
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+
+
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+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
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