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diff --git a/30413-0.txt b/30413-0.txt new file mode 100644 index 0000000..d343cf1 --- /dev/null +++ b/30413-0.txt @@ -0,0 +1,3990 @@ +*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30413 *** + + ALMACHIO DINIZ + + MUNDANISMOS + + (CONTOS) + + + + + F. França Amado, editor + + Coimbra. 1911. + + + + + +Composto e impresso na Typographia França Amado, +rua Ferreira Borges, 115--Coimbra. + + + + + +MUNDANISMOS + +(CONTOS) + + + + + Obras completas de ALMACHIO DINIZ + + Contos + Um artista da moda, Lisbôa, José Bastos & C.ª, editores. + Sombras de pudor. + Mundanismos, Coimbra, F. França Amado, editor. + Novellas + A Carne de Jesus, Lisbôa, Gomes de Carvalho, editor, 1910. + O Diamante Verde, Lisbôa, Guimarães & C.ª, editores, 1910. + Sonhos de meduza, em preparo. + Romances + Raio de sol, Bahia, em folhetins, 1903. + Crises, Lisbôa, Guimarães & C.ª, editores, 1906. + Pavões, Bahia, Fonseca Magalhães, editor, 1908 (Exgottado). + Amen!, Bahia, em folhetins, 1909-1910. + Duvidas e remorso, em preparo. + Theatro + A Escarpa, Porto, Lello & Irmão, editores. + Tropheus em cinzas. + Sazão de luz (em preparo). + Critica + O passado, o presente e o futuro do heleno-latinismo em + lucta com o germanismo, Bahia, 1903 (Exgottado). + Zoilos e Esthetas, Porto, Lello & Irmão, editores, 1908. + Sociologia e critica, Porto, Magalhães & Moniz, editores. + Da Esthetica na Literatura Comparada, Rio, H. Garnier, editor. + A questão das raças na literatura universal, em preparo. + Symbolismo + Eterno Incesto, Bahia, 1902 (Exgottado). + Sê bemdita!, Bahia, 1905 (Exgottado). + Lingua portuguesa + A reforma ortografica, Bahia, 1907 (Exgottado). + O evolucionismo morphologico da lingua portuguesa, Lisbôa, + Santos & Vieira, editores. + Scientificos + Genesis hereditária do direito, Bahia, 1903 (Exgottado). + Ensaios philosophicos sobre o mechanismo do direito, + Bahia, 1906. + A sciencia do direito e as producções espirituaes do + homem, Bahia, 1907 (Exgottado). + Questões actuaes de philosophia e direito, Rio, H. + Garnier, editor, 1909. + A objectividade do phenomeno juridico no direito + brazileiro, em pub. + As formações naturaes na philosophia biologica, em preparo. + + + + + +ALMACHIO DINIZ + +MUNDANISMOS + +(CONTOS) + + + + Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira. + + ANATOLE FRANCE. + +COIMBRA + +F. FRANÇA AMADO, EDITOR + +1911 + + + + +A + +GUERRA JUNQUEIRO + + + + + L'art veut imiter la nature. Nous faire éprouver les sensations et + les sentiments que la vie nous impose ou pourrait nous imposer, tel + est son premier souci. Le romancier et le dramaturge comme le + peintre, le sculpteur comme le musicien s'essayent à faire dans la + fiction, comme la vie dans la réalité. Au fond de chaque oeuvre + d'art il y a toujours en somme--que ce soit par imitation étroite ou + libre évocation--une réalité reproduite de la vie. + + CHARLES ALBERT. + + + O conto, assim desatavíado, exprimido, é apenas succo e, se não + agrada à _visão_, interessa o sentir. Falta-lhe horizonte, mas o + espaço, por isso mesmo, é mais vasto, sem empeços: segue-se + livremente a acção que a descriptiva, por vezes, compromette. + + COELHO NETTO. + + + + MUNDANISMOS + + + Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira. + + ANATOLE FRANCE. + + + + +NEDDA + + +NEDDA + + Manhansinha. + + A sala, de azuladas paredes seminúas, estava pobremente mobiliada: + era no saguão da casa, e as duas mulheres entraram às tontas, até se + abrirem de par em par as gelosias. + + SAUL, de NEDDA esposo, ficàra a dormir na alcova. + + E NEDDA, abysmada com a indifferença delle que apenas lhe não + dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que + DONA LOURA, a sua mãe, era uma interprete das indisposições do genro... + + Num canapé, as duas mulheres, DONA LOURA, archaica nas suas vestias + de capote e turbante, e NEDDA, deliciosamente matutina num roupão + branco que descansava, _sans-dessous_, sobre a finissima camizêta + de cambraias,--sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida + do cansado movel... + +......................................................................... + +--Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me +entre dentes e indisposto como um burguês dispeptico, silencioso como +uma esphynge e entristecido como um beato sem almoço, adivinho logo que +vens por ahi como a mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem à +tarde... + +--Exactamente. + +--Previ tudo isto. Ha cinco dias que nós não falamos, e, pensando-o na +rua, hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella +cadeira, lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me +e não contive um gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os +meus passos. Ha quatro annos que somos casados e nunca passamos dois +mezes sem uma rusga. É sempre elle quem as promove com um resaibo de +malentendido ciume. Aceito sempre o seu rompimento e nunca lhe dei a +honra de capitular nas hostilidades. Quando ellas são de nonada, aqui +mesmo se resolvem; mas, quando avultam como agora, elle te vai buscar +como intercessora. Jà sei que vamos ter, como sempre, uma crise de +amorosidades que me enfastiam. Lastimo é não conceber um filho desse +homem para o embeiçar pela nova criatura e sentir-me menos jungida às +suas intemperanças de... mal educado! Ás vezes, chego a ter nojo do +senhor meu marido... + +--Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que +me pasma... + +--Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter +o assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um +tal matrimonio não se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em +caza, por torna-viagem, a mentira de que Saul é um tuberculoso. Tanto +mais eu o aborrecia, quanto a senhora e o papá intervinham, patrocinando +a causa do moço platonico. Dá-me, na verdade, um insistente desejo de +rir muito quando lembro os idealismos delle, seguindo a minha sombra, +porque nunca lhe deixei o direito de enfrentar-se commigo em parte +alguma... Expúz-lhe sempre que sonhos não me satisfaziam, nem eram para +o meu temperamento homens vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe +intensa guerra, apaixonando-me por Frederico Stöltze. Está! Com este +provavelmente eu teria sido bem cazada. O pobre «allemãosinho» levou o +caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o abandonei, com uma +defeituosa... Foi um despique, não ha a menor duvida, mas quem sahiu +perdendo foi elle. Saul é um temperamento de phoca... + +--Respeita o teu marido, minha filha! + +--Pois não é, maman? + +--Essas couzas não se devem dizer... + +--Não tratarei de occultar o sol com a mão. Já disse e é mesmo: um +temperamento de phoca. Só quer hybernar sobre os livros, deante dos +quaes se abespinha como o animal sobre o gêlo. Eu, porem, quero muito +sol, muita luz, muito calor, muita actividade... Maman, o que vocês +velhos veem no cazamento é o interesse de collocar as filhas, porque +ficando velhos receiam que nos tornemos muito sós no mundo. Por isso +acontecem destas, cazamo-nos com a vontade dos papás encarnada na figura +de um homem que não é a correspondencia de nosso instincto. Olha! Não +intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada qual commetta a sua +doidice como quizer, e, se escolher um lorpa como Saul, arrependa-se +de si mesmo e não me culpe a mim. + +--Tu vês no homem uma excitação, Nedda, quando devias ver uma satisfacção. + +--Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje +dessas trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu +toda a minha repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, não sabe +aproveitar-se de minha tolerancia e quer subserviencia, servidão, ou +coisa similhante... Está enganado! Devias ter sanccionado a minha +repulsa logo de principio. Lembras-te do convescóte dado aos chilenos, +nas Salinas? Tu não foste, e Saul, que era apenas meu pretendente sem a +menor esperança, moveu contra mim uma intriga terrorosa, porque viu, no +campo, o primeiro tenente Santander amarrar os cordeis de minha botina +que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te de como +energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do +contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia, +todos suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de +mulheres feias. Afinal, maman, que te disse elle desta vez? + +--Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o +comprehendes como um devaneio. Isto é proprio para as meninas. Tu te +esqueces, e nisto eu lhe dou razão, que és uma senhora escrava da moral +esponsalicia. Contou-me o teu marido um facto em que elle te +surprehendeu. Realmente, se as cousas se passaram como podem ser +suppostas, e elle não quer crer, tu andaste mal. + +--Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como +tudo se deu... + +--E dispensavel Nedda. O passado está passado. O que é preciso é que não +dês lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem +calleja. Os amuos fazem pequenos callos, mas tempo virá em que, +callejada a alma, o amuo será definitivo. + +--Que teria isso? + +--Um escandalo, minha filha! + +--Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu não me +pouparei a um grande escandalo. + +--Toma juizo, doidinha. É preciso acabares com estas zangas e receberes +o teu marido como o teu senhor... + +--Hein?... Não me zangarás, maman, pódes ridicularizar-me como +entenderes... Não me darei por achada. + +--Não promovo senão o teu bem. Resolve a crise e sê... mulher de teu +marido. + +--Jà estás julgando o feito? + +--Tu tens toda a razão, elle tem igualmente toda a razão. Harmonisem-se +e sejam felizes. + +--Pareces-me uma juiza a Salomão, com a differença de que o rei hebreu +ouvia ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma +só... + +--Interpretas muito mal o meu genio. + +--Não te interessa conheceres a injustiça de que sou accusada pelo sr. +meu marido? + +--Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a +accusação, eu nunca seria contra ti. + +--Obrigada, maman! Quero, entretanto, justiça, e que, como Saul, não +julgues pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu +o que se passou... + +--Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes... + +--Pois bem! Na terça-feira, maman, de combinação com Saul, resolvi +passar uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle +que me falou pelo telephono, fui à Barra correr uma cazinha vaga e +que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao +depois de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a +gentileza de offerecer-se-me para o serviço de abrir e fechar portas. +Aceitei e foi elle quem tomou as chaves na taverna da esquina... Vê +tu!... Não fôsse elle e teria eu de entrar numa taverna, sósinha, +arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao depois, o dr. Eduardo foi +quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de camurça para fazer +essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas... Corremos o +primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil +cavalheiro se lembrou de, por segurança, fechar por dentro a porta da +rua... Subimos. Mal chegavamos em cima, começaram de bater numa porta. +Poderia eu suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse, +porque elle não teria opportunidade de acompanhar-me, logo depois +resolvesse o contrario, e estivesse a bater na porta da rua? E foi por +um acaso que nós o vimos. Chegamos inesperadamente a uma janella do +sotam e percebemos que era elle quem batia. O dr. Eduardo, +desculpando-se por jà ter eu cavalheiro, despediu-se de mim, desceu as +escadas, e, quando abria a porta, foi insolentemente aggredido por +Saul, que lhe negou a mão para o cumprimento do estylo... Só tu vendo, +maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra mim! Felizmente, +desafiado pela minha calma, elle não teve animo para iterar o +qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle +quiz, fechou sósinho a caza e veiu só... + +--Devias ter evitado tudo isto, Nedda. + +--Evitado, como? + +--Não acquiescendo à companhia de um homem de mà fama, como é o dr. +Eduardo. + +--Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em +que eu fui... Hora de trabalhos na cidade... + +--Recusasses os favores offerecidos. + +--Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual é a mulher que se anima à +grosseria de recusar gentilezas de um moço de distincto trato?... + +--Conforme o renome desse moço. + +--Tem mà fama o dr. Eduardo? + +--Não sei, não. Dizem. + +--Se tem mà fama, tem maus costumes. E como é que Saul, tão zeloso de +sua honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepções, um homem mal +visto? Penso que os frequentadores de nossos salões, os _habitués_ de +nossa intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um ponto +qualquer, e, se não fôsse assim, a primeira privação delles, seria a do +nosso convivio... + +--Neste ponto és razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul +referiu-me que estavas sem chapeu... + +--De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha +van do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr. +meu marido alli estava para auxiliar a reposição, tirei o chapeu e +asseiei-o prestamente... + +--Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua +chegada, ao ponto de não saberes repôr o chapeu... + +--Saul é um mentiroso. + +--Não te zangues, Nedda. + +--Injuriou-me. + +--Não dês importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente... + +--E elle o quer? + +--Porque perguntas? + +--Porque tão honrado elle não deveria aceitar mais a cohabitação da +esposa deshonesta. + +--Não deves dizer assim, minha filha! + +--Aceita-me elle? + +--Que tolice, Nedda! + +--Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e não a faço +em attenção aos teus bons officios... + +--Fazes muito bem. + +--Là vem elle descendo... + +--Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que não tem esposo... + +--Desculpa-me, maman: só agora reparo que estou muito à vontade para nos +encontrarmos os tres... + +......................................................................... + + Arrepanhando, então, o bello roupão desabotoado, por cujas rendas e + decotes se viam as carnes luciferas de NEDDA, a mulher de Saul se + escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de + esculptura grega... + + + + +VOLUPTUOSAS + + +VOLUPTUOSAS + + No rêz-do-chão de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendados + _stores_ pallidos, HELENA fazia somno à hora da sesta, quando MARIA + ANGELICA a surprehendeu adormecida. + + A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma + voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabeça desmaiada de + HELENA... + + Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com + um fremito de prazer... + +......................................................................... + +--De onde vens tu, Angelica? + +--De encommendar flores... + +--Flores?! + +--Não te recordas de que Sophia se cazará amanhan, à noitinha? + +--Sou uma esquecida. + +--E ella é credora de nossas gentilezas... + +--Das minhas, especialmente. + +--Encommendei orchidéas e chrysanthemos. + +--Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias. + +--Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das +orchidéas. Uma catyleia é um pedaço de labios excitados por dois beijos. + +--Não lhes acho graça. + +--Ó exigente! + +--Flores do matto. E jà notaste que quasi todas ellas são lilazes e +roxas? ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas côres +melancolicas? + +--Descobres coisas... + +--Mas, não é? + +--Realmente. + +--E como vais presentear uma noiva com flores lilazes? + +--É a moda, é o chic, é o _dernier-cri_... + +--Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas, +chrysanthemos, rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me? + +--Se não! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os +olhos muito brilhantes... + +--De verdade? + +--Sim. Sonhavas? + +--Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu estás intensamente corada... + +--Apanhei muito sol. + +--Os teus olhos estão pisados e languidos... + +--É da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor +que abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados... + +--Jà tinha reparado: os teus cabellos estão desmanchando-se... + +--E eu os concertei no espelho de Esther. + +--Andaste là, hein? Jà havia desconfiado... Quando te vejo amollentada, +assim, tenho razões para me enciumar... É muito descuidada a Esther. +Cuida mal das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Está +mal posto, a fita está retorcida... + +--Nem reparei... + +--Disto não és culpada, por certo... Eu não te deixaria sahir daqui tão +mal-amanhada. É de causar vergonha. + +--Foi a pressa, Helena. + +--E no teu hombro a sêda está nodoada... + +--Nodoada?!... + +--Sim! Vêem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei +mesmo que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!... + +--Quem o poderia fazer? + +--Esther. + +--És ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as +flores. Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Estás +satisfeita? + +--Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas não convencida... + +--Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar +humido?... Terá sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo é +arrastada como a de quem se fatigou num excesso de venturas... + +--Que venturas posso ter? + +--Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real... +Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha +vezes em que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras +occasiões, quando volto a mim sem provocação, sou prompta a espantar-me +porque me accordei e não morri no meio do prazer sonhado... + +--Ha sonhos, effectivamente, que se não deveriam acabar... E não sentes +calor, Maria Angelica? + +--Algum. + +--Neste caso... + +--Que fazes? + +--Dispo-me. Não me imitas? + +--Póde ser. Passarei a tarde comtigo... + +--Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta góla +assoberbante... Não tens geito?... Chega, que te libertarei... + +--Tira os alfinetes. + +--Usas um bom pó de arroz, Angelica. + +--Ui! Helena! + +--Que foi assim, ardilosa? + +--Espetaste-me as carnes... + +--Tambem é uma ruma de alfinetões... + +--É para segurar bem. + +--Tens uma pellugem de arminho... + +--Ai!... Assim não... não... + +--Que tens, rapariga? + +--Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... Só me déste +vontade de... + +--Ui!... ui!... ui!... Fazes-me um _frisson_ de arrepiar-me os pellos... + +--É para vingar o teu beijo... + +--Porque me olhas assim, Angelica? + +--És de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um +perfume originalissimo que me entontece... + +--Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se +cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o faço para attrahir as +amigas como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que +se confundiam os aromas do nardo de Tharsos e do metôpyon do Aigypte. +Nas axillas attritava mentho e sobre as pestanas e nas palpebras +marjolana de kôs. Ao depois, a escrava defumava-lhe os cabellos +desennastrados com espiraes de incenso, que combinava admiravelmente não +só com a essencia de rozas de Phasêlis que lhe embalsamava a nuca e as +faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava sobre os rins. E, por +fim, entre os seios, corria o celebre oinanthê das montanhas de +Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica... + +--Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras... + +--Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do +irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodões embebidos na +essencia de rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para +contrastar com as evolações das essencias de jasmins que perfumam as +minhas vestias... + +--E na posse de tudo isto praticas uma mà acção, Helena! + +--Qual? + +--Essa de referires tantos perfumes e não me dares nenhum a provar... És +avarenta, como ninguem, e eu cubiçosa de gozar... + +--Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres... + +--Teria graça! + +--Porque assim? + +--Gósto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres. +Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas +carnes... + +--Tens desejos masculinos, minha queridinha! + +--E é o que me faz lamentar-me: junto de uma graça não ser um Adonis, +junto de uma Helena não ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os +teus perfumes e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais +feliz do que Syrinx, louca de paixão, Byblis, unica na insaciabilidade, +ou Mnasidika, macia como um velludo... Helena, tu és uma perfeição... + +--Mofadora! + +--Mofar eu de ti?!... + +--Não te abraza o calor?... + +--Sim... Intoleravelmente... + +--Safa o collête... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seducções +na tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os +homens, sabios no sensualismo pagão, que o nú de veus é mais provocante +do que o nú sem disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na +mulher encoberta pela semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te não +conhecesse os segredos todos de tuas lindas curvas, te rasgaria agora, +impiedosamente, o veu de tua nudez... + +--Jà sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do +arrôcho de um collête dictatorial? + +--Quantas vezes?! + +--Tu brincas, mulher divertida... + +--Provo-te com a citação: despirei o meu collête e não me sentirei mais +provocada do que contemplando as tuas fórmas semi-núas... + +--Es barbara, Helena! Como encarceras um tão lindo quadril dentro dos +oppressivos liames de um collête... Ah! Como eu daria a vida por ser +morena! O ventre alvo é uma desillusão, mas o trigueiro, como o teu, é +um incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o instincto +mais calmo... + +--Não te agrada a minha nueza? + +--Inteiramente. Agora, vê là se te não impressiona mal a brancura do meu +ventre... + +--Ao contrario, Maria Angelica: é uma grande corolla de petalas alvas +desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... É maravilhoso o teu +contorno... Dignas fórmas para a perpetuidade de uma téla ou de um +retrato... + +--Deixarias tu que fôsse apanhada a tua nudez? + +--E porque não?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me? + +--Que egoismo leviano! + +--Acha-o? + +--Sim... Photographemo-nos... + +--Adoravel!... Como não irradiará no _cliché_ o contraste de nossas +pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa +de um pólo... + +......................................................................... + + Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma + solução de perolas e opalas. + + Os seus labios permutaram cariciosos beijos. + + E, horas depois, MARIA ANGELICA e HELENA, retratadas por uma aia, + desvendavam as suas abrazadoras nuezas à inveja de ESTHER... + + + + +O POETA MORIBUNDO + + +O POETA MORIBUNDO + + Luxuoso salão de recepções: por entre cavallêtes com quadros de fina + pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de + Parreira e a vocação de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio + das tapeçarias, dos _fauteils_ e das luzes, um magestoso piano Ritter. + + HELOISA acabou de executar, com todo o applauso do maestro + CHRISTOVAM DETMER, a linda fantasia--_Le poète mourant_--de Gotschalk. + + As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de + admiração e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos + que obedeciam á grande inspiração de HELOISA. + + Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente + combalida pela dor de uma alma irman... + +......................................................................... + +--Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas +bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas +e os teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do +passional poema lyrico, me concentrei e te affirmo que a visão não +despresou a audição, pois vi e ouvi toda a scena, desenvolvida entre +personagens vivas, que se moviam, se soccorriam e testimunhavam o +desfallecimento do artista moribundo. Durante minutos que serão +inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao teu lado, +frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e não denunciei, +pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a +existencia. Vim do gabinete privado de tua mãe, que se transformou +pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se +lhe dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a +longa historia de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes, fui +minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a +alma de artista e não o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim +inspirar-me para o sacrificio no teu talento. E saio de tua presença +illuminado como o prescripto que recebeu o balsamo do conselho christão +para subir em seguida ao patibulo. Dá-me, pois, o conforto de tua +confidencia ultima: amaste-me alguma vez? + +--Que pergunta, Christovam. + +--Indiscreta? + +--Não; ao contrario. Amesquinhante... + +--Extranho-te. + +--Não ha razão. Porventura pensarás que te amei e não te amo agora? +Acaso a minha mão de mulher para te ser dada dependerá de alguma coisa +irreductivel deante de minha vontade altiva? + +--Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor +dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeças bellas +de todas as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz +com que se enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um +homem que sabe musica simplesmente, que é apenas um artista, é pequenino +de mais para ter uma pretenção de amor. Eu me pareço com esta figura +lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das +fantasias de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em +sonhos egoistas, cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava +rozas, derrocando castellos, para me conter na illusão em que me +deleitava sómente com a audiencia da negativa inclemente de tua mãe. +Confessou-me que maldava de todo o nosso amor, desde principio. E +porque, se assim era, protegia a ampliação de um sentimento que deveria +ser, como os filhos defeituosos das ciganas que são atirados ás +piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse, +falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era +porque, doidivana como toda creança, jogavas a péla na orla do +precipicio, esperando o aviso amigo para te retirares gloriosamente... +Negarás, Heloisa, que tinhas consciencia de minha pretenção? +Sophismarás, em favor da excommunhão que me lançou a tua mãe, e contra a +clareza da ordem que me deste afim de se officialisarem as relações do +affecto, que nos encaminhava de um illusorio paraiso? Responde com o +talento immensuravel com que sempre me amaste... + +--Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias +possuir o maior tino dos homens. + +--Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem +pesada se antepõe á sua esphera... + +--Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e não te hei de amar fóra do +regosijo delles... + +--Dos teus paes? + +--Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em +tuas mãos estariam vegetaes só ao sôpro de um fakir indiano. Porque +admittirias que a minha vontade fosse forte bastante para romper a +marcha das intenções dos meus paes sobre a minha razão de ser mulher? +Por ventura sem o sopro do fakir as sementes germinariam e attingiriam +as fórmas de seres definitivos? Não supporás que, sem aquelle sôpro, +algo se realisasse. Como suppôres que sem a vontade dos meus maiores a +nossa união se perpetraria ao teu sabôr? + +--Desconheço-te já... + +--Mas, porque... + +--O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto á quesilia dos +outros... + +--Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a +existencia de mulher? + +--Nem sei de mim mesmo que te responda... + +--Não poderias esperar. Se eu fôsse livre, se a lagarta para ser papilio +não carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar +a sancção que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razões para +tal fazer. Aborrece-te o trovão? amedronta-te o curisco? Queres ver-te +livre delles? Crê num Deus e pede-lhe a extinção... Infelizmente, +Christovam, nem o trovão se extinguiria, nem o teu querer triumpharia... +De um lado, Deus seria impotente para te dar o que pedisses porque não +terias o direito de pedir... Só pede quem póde pedir; se se pede é +porque de quem dá depende o pedido; e se o pedido não é dado, procura a +causa na insufficiencia e na sem-razão de quem pediu... + +--Mas... + +--Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se +conservares a razão, que tenho o bom senso desejavel ás creaturas +perfeitas. Queres responder-me? + +--Nada significará o que te responda. + +--É preciso que sejas categorico. + +--Pois sim: responder-te-ei. + +--Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade? + +--Por certo que não. + +--De minha parte a questão é outra: teria eu o direito de responder por +mim num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer? + +--Se quizesses, sim. + +--Não é assim, não. Porque não me tomarias por mulher sem o meu +assentimento? Por impoderoso deante de minha definição adversa. Porque +não me daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por +impoderosa deante da pronuncia delles. Se tu pudesses alcançar de mim o +amor sem vontade, desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse +de meu corpo sem a intervenção dos que m'o formaram do nada em materia e +em alma, nem cogitaria de enviar-te a elles... + +--É um dilemma sophistico. + +--Por que principio, não sei. + +--Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sêde do teu amor, +Heloisa, como correspondeste a esse lapso do meu instincto? + +--Do modo mais franco. + +--Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu +quizesse, matar a sêde que allegava... + +--Dependia de mim. Dei-te. + +--De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixão. +Negaste-m'o? + +--Não poderia negar. + +--Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na +grandeza das iteradas pulsações cordiaes, affirmaste que eu reconheceria +a intensidade do teu sentimento... + +--Dependia de mim. Pratiquei. + +--Por fim, quando te acenei com o plano de nossa união... + +--Como te respondi, Christovam? + +--Com a primeira negaça. + +--Adulteras a minha intenção: cumpri o meu dever, enviando-te á maman, +como o caminho propicio para vencer o papá. + +--Realmente, Heloisa. Sou um vencido. + +--Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei... + +--Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a +consummar uma grande obra musical sem a inspiração para a realidade do +dever... + +--Desistes, então, do teu amor? + +--Razões me sobejam... + +--Que te disse, afinal, a maman? + +--Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e +lembrou-me que um musicista não compõe sem ter inspiração... + +--Nada de mais, Christovam! + +--Talvez não queiras comprehendel-a... Mas é tudo que se póde allegar +contra um homem... + +......................................................................... + + E, louco pela musica, inconsciente quasi, CHRISTOVAM DETMER + assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita + criação de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se + despediu de HELOISA... + + + + +O VELHO MEDICO + + + +O VELHO MEDICO + + O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa. + + ESTEPHANIO e JUDITH--esta desprendendo-se de si no devotamento ao + esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais annos, como + se lhe tivesse o corpo de cór, curvas e linhas, luzes e + perfumes--gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige + os defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo... + + MARCO ANTONIO--o medico afamado--cofiando as ennevoadas barbas em + que se escondiam as illusões do seu poder curador, arrancou os + olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, de + suas attenções... + +......................................................................... + +--Bem póde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgôr da +mocidade... + +--É exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel +salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, não posso +affectar-me com os seus effeitos: a sua medicina é a criadora das +humanas torturas. Parece-me que jà se disse: «Tirem os medicos e as +enfermidades desapparecerão»... Mas, eu digo: fugi delles e estou +curado. Deem-me milhões de medicos e estarão formados trilhões de doenças. + +--E quem te curou, meu caro? + +--A natureza... + +--O novo deus pagão... + +--Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes +curadores. Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria? + +--Lembro-me, sim. + +--Foram tantos os diagnosticos que jà perdi o direito de dar-lhes autorias. + +--O sr. era verdadeiramente um doente. + +--E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e +invariaveis. + +--Realmente. + +--Pois confesso-lhe: não fiz uso de um só. Tambem o doutor não foi o +ultimo medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na +inspecção. Nada faltou à sua perspicacia, senão comprehender que, no meu +estado, as suas perguntas eram outras tantas suggestões e novos +symptomas para a aggravação de meu mal. Eu vivia desvairado na vontade +de accusar males crescentes, e os meus assistentes porfiavam em +illustrar-me em torturas ineditas. + +--Afinal... quem te curou? + +--Dir-lhe-ei tudo, de começo. Hygia, a deusa da saude, não é de todo mà... + +--A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos: +salvaram-se pela acção do dedo de Deus, como teriam morrido pela +intervenção do doutor... + +--Creio que o sr. adianta um mau conceito. Não me tenho na conta dos +casos communs. + +--Desculpe-me. + +--Pois não! Mas, a minha doença foi uma criação dos meus medicos, e a +minha cura proveiu de minha inabalavel resolução de abandonal-os. Eu +estava em ultimo grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei +assim às mãos de um allopatha. Homeopathas e feiticeiros nada +fizeram de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci, +aos vinte e tres annos, foi numa convalescença de enfermidade +effectivamente assassina: o amor. Eu tinha conseguido, pela vez +primeira, objectivar uma paixão. E, não só isto: tivera, com todo o +delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra a minha +vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu +sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram +sessenta dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil +e quatrocentos minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes +as paradas assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao +maximo possivel. O prazo desse amor fôra, entretanto, fatal. Exgottou-se +e a mulher fugiu-se-me dos braços como a espiral do fumo que procura as +alturas. Ao depois disto, separado do entretenimento carnal, que me +combalia as fibras, como a agua que vai abalar as galerias subterraneas +para derribar as minas, tive a sensação do remorso de um grande crime... + +--De um crime delicioso... + +--Talvez, doutor. + +--E então? + +--Encegueirado pelo amor, o mundo ficou às escuras sem a luz do olhar +della. Quiz correr nas suas pégadas, e senti-me tolhido como a voz na +garganta do atormentado por um pezadêlo. Vi em todos os convivas de +minha existencia, terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre +num choro convulso, durante o qual me punha a tremer com tanta violencia +quanta fazia extremecer todo o assoalho de minha alcova e soar fóra de +tempo a campainha do relogio sobre a meza... Senti-me muitas vezes +balançado como a espherasinha de madeira que anima o trillo dos apitos... + +--É curioso, de véras, o seu caso. + +--Foi, doutor. + +--Sim! Foi! E hoje sinto não lhe ter visto nesse tempo originalissimo. + +--Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico. + +--Paranoico? + +--Exactamente, doutor, e và vendo. Aconselhou que eu me tratasse com +banhos de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro +medico, os meus paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente +banhado, a contragosto, com luzes de todas as côres. Era inocuo o +tratamento para me fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males +Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguçados por alta +dose, mas não toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico--jà a esta +hora e ha muito tempo--victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e +disse, carrancudamente, deante de uma das minhas crises de saudade +carnal: «são delirios epileptiformes»... E o tratamento passou a ser +feito com altas doses de bromurêto. A minha ennervação deprimiu-se, e +tornei-me um atoleimado, tanto que nem pranteei a morte de minha mãe, +desgostosa com a minha tragica existencia... Novo medico; vim a ser um +simples neurasthenico, com atonias nervosas. Reconstituintes, passeios, +boas alimentações, prazeres, etc.: nada, porem, matava as saudades do +meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora por excesso de +alimentação, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de insomnias, +tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos +medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodêtos +e tive hemoptises. Um Esculapio chamado às pressas, levando em conta a +minha magrêsa, o sangue exvasado dos meus pulmões e o historico dos meus +soffrimentos, num rapido prognóstico, annunciou a minha morte breve, +por força de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me +interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria +sómente: suggeriam-me cousas que só dalli por deante eu começava de +sentir. E veiu um curador homeopatha: os seus remedios ingeri com +facilidade, pela falta de sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um +visinho, que se enforcou dias depois porque se sentiu arruinado nas suas +forças commerciaes, lembrou que os maus espiritos encostados aos corpos +de pessôas novas, faziam artes do demo... E não só apresentou a +conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma velhinha, +encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruços na +cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira... + +--E nem rezado, sr. Estephanio? + +--Para o doutor ver! Nem rezado! + +--É unica a sua historia. + +--Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau +funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado. + +--Assim acaeceu. + +--E inda pensa o doutor que eu tivesse affecção nos rins? + +--Se me não falha a memoria, effectivamente. + +--Pois escute: logo depois de sua intervenção, repudiando eu os +medicamentos que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram +trazidos em conferencia. + +--Que disseram elles? + +--Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles +mesmos. Do doutor discordaram reputando sãos os meus rins. + +--Sãos, ou curados? + +--Curados, não. Inattingidos até àquella data. E firmaram o diagnostico +de uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgão e o outro +hypertrophia. + +--Mas, afinal, acertaram? + +--Suppõem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a +saude. + +--É espantoso, meu caro senhor. + +--Não é, não, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha +reapparecido a mulher que eu amára. Visitou-me. Inflammamo-nos, e... +estamos casados, não foi assim, Judith? + +--Parece-me! + +......................................................................... + + Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando + o enfeitiçamento de um lindo _manteau_ exposto no mostruario de + modas e confecções... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente + a espaçosa fronte... + + + + +OS DOIS ESPELHOS + + +OS DOIS ESPELHOS + + Depois de mandar retirar-se a criada, VIOLANTE foi, pé ante pé, + fechar a porta do salão de jantar que deitava para a copa, e veiu + sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mãos + profundamente geladas. + + SIMEÃO, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo no canto + dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as + feições com um clarão colerico. + + Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a + cadeirinha de balanços, VIOLANTE provocou-o... + +......................................................................... + +--Faze a tua scena. + +--E não é sem tempo. + +--Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se não é sem tempo? + +--Facilidades. + +--Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o +homem cazado não tem direito a facilidades. + +--Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que +Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma +existencia inteira para passar escravisado aos laços de uma união +infeliz!... Maldita hora! + +--Ah!... ah!... ah!... ah!... + +--Sorris... + +--E então? Hei de chorar para te sentires bem na oppressão que me fazes? + +--A minha vida depois que me senti enganado... + +--Não tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci +o teu adulterio... + +--Insultas-me ainda em cima, Violante? + +--Não te insulto. Repillo as tuas aggressões, termo por termo. O que eu +digo é que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado +e perfumoso para agradar às amantes, tem a mulher de... + +--Não dize, Violante, a indignidade! + +--Porque não dizer as cousas como ellas devem ser? Só depois que senti a +tua ausencia do lar... + +--E confessas o delicto?!... + +--... só depois que conheci a tua amante... + +--Mentes, mulher! + +--... só depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui +sais... + +--É horrivel, Violante! + +--... só depois de ver-te partir de là e a tua concubina despedir-se de +ti com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravidão... + +--Tu viste? + +--Sim... só depois de ter a certeza de possuires uma amante... + +--Poupa, Violante, essa phrase... + +--... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a +côrte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no +lar pelo marido libertino... + +--É demais! + +--Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num +isolamento de aborrecer. Entretanto, fôra diverso o teu proceder nos +primeiros tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava +na rua, mal eu começava a sentir a tua ausencia, estavas de volta. +Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te +retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te +perguntei, a hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz +saber. E, até hoje, nunca te pedi a menor palavra sobre o teu +procedimento... + +--E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informações. + +--Pois bem! Para evitar essa negação, nunca t'as pedi, sciente e +consciente de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, não te +devo satisfacções... São ellas por ellas... + +--Abusas... + +--Corrige-me se puderes... Não és o meu marido?... Toma conta dos meus +actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze +o que entenderes, certo de que atraz de mim haverá quem vingue as tuas +incontinencias e perversidades... + +--E sabes quem é a minha amante? + +--Se sei, Simeão?!... + +--Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: não +conheces ninguem... + +--Só com o rizo!... Ah!... ah!... ah!... + +--Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha +paciencia se exgottarà afinal... + +--Ainda em cima me ameaças? + +--Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me +confesses tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante? + +--Ninguem! + +--Ninguem, como? + +--Desconfiei e fui ao teu encalço... + +--Não falas a verdade, Violante. + +--A certeza das coisas é adquirida quando nos abeiramos dellas. +Molestias mortaes, por miasmas exhalados dos paúes, só as contrai quem +lhes vai à beira. Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio... +Olhas-me agora atravessado? Nega então que te falo a verdade como ella +é?!... Por favor, desmente-me, se és capaz... + +--Juro-te que não sei do que se trata. + +--Perjuro!... Então, toda a manhan não vais daqui à caza de Idalia... +Não me interrompas, não... toda a manhan, não passas là horas +esquecidas, quando sais não fica ella por traz da gelosia a acenar-te e +tu a corresponderes-lhe os acenos de apaixonada despedida? + +--Ousada! Alem do mais, injurias à mulher de um amigo da nossa +familia... + +--E que é a tua amante... + +--Pois se é, está tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre +vontade... Constou-te jà que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As +minhas obrigações maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e +começam, quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a +dentro, estou eu cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem +jurei culto eterno, alias, em tempos melhores... Casei por uma +supposição de momento: a solidão de solteiro era um suicidio de todos os +dias. E só não me enganei em suppôr que o matrimonio me facilitaria +relações difficeis antes de ter as qualidades de senhor duma mulher... O +mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a tua companhia, +e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado é um pequenino +jardim, o maior céu é a entrada de uma furna... A companheira é um +tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo +homem respeitador... + +--Outro tanto te allego eu... Mentirá aquelle que disser me ter visto, +sorrateira ou clandestinamente, embuçada ou mascarada, penetrar em +lugares escusos, ou ao lado de algum homem que não fôsses tu... +Casei-me por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixão +momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto +o meu marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me +eu... Adquiriu uma amante... + +--Retem-te, Violante!... + +--Não! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem póde viver longe +do pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu +marido!... + +--Intoleravel! + +--Tambem tu o és! + +--Adultera! + +--Deixemo-nos, Simeão, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os +devolver todos, um por um... + +--Saber-me trahido... + +--Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando +nada, não terás de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher +digna do marido que lhe deram... + +--Sinto faltar-me a luz da vista... + +--Impressões, Simeão. + +--Pois é justo que me consinta enganado? + +--Não nos deshonramos... + +--É um consôlo ridiculo. + +--E que dirias tu se trahida eu não te trahisse igualmente? + +--Diversa é a situação do homem, Violante. + +--O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente +nos submettemos a esse regimen de igualdade... + +--Doloroso! + +--Assim exclamei, Simeão! Agora, porem, me sinto melhor: não me +enganaste, e isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos... + +--E o teu amante? + +--Dispensa sabel-o... + +--Ah!... Repillo a lembrança que me occorre... Não, não é possivel!... O +massagista... + +--Rende justiça à tua mulher, Simeão! Pois não vês que eu me não +vingaria de ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te +fizesse córar perante a sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de +ti? + +--Então... Desabafa-me!... Sê completa! + +--Insistes em conhecer tudo? + +--Não duvides que o quero de coração. + +--É Lourival... + +--O marido de Idalia?... + +--De certo. + +--Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem +conjugadamente... + +--Mas eu estou vingada... + +......................................................................... + + Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fóra do salão, + perguntava aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar... + + E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz... + + + + +O PRIMEIRO FILHO + + +O PRIMEIRO FILHO + + Na secretaria fôra extranhada a falta primeira de ORLANDO, assiduo + até não se ter ausentado do serviço no attrahente dia do matrimonio. + + O DIRECTOR do esposo de OLIVIA era reconhecido à assiduidade do + moço, e, por duas vezes, determinàra o seu accesso por merecimento. + + Ao penetrar na Repartição depois da primeira falta, todos os olhares + recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se + entregou ao trabalho sem explicações. + + Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado, ORLANDO e o + DIRECTOR entravam em confidencia... + +......................................................................... + +--Ah! Sr. Director! + +--Estiveste doente? + +--Não, não foi doença minha. Antes o fôsse... + +--Trocaste o dia? + +--Como assim? + +--Levaste à conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos? + +--Tambem não! + +--Viajaste a negocio? + +--Qual, Sr. Director! Os meus negociou são sómente os de meu dever aqui +dentro... + +--Não sei explicar a tua falta. + +--E eu careço de coragem para dizer... + +--Tão futil não ha de ter sido o motivo. + +--Eu conto. Foi o meu primeiro filho... + +--Felicito-o desde jà. + +--Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade. +Conhecendo bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a só quando +se manifestaram os primeiros incommodos do parto. E confiando em que o +acontecimento cedo me daria liberdade para saltar à repartição, fui-me +deixando ficar, ora mais embebido nos cuidados que a parturiente exigia, +ora menos descontente com o que se ia passando, até que, só na madrugada +de hoje, após vinte e duas horas de labutações, se concluiram os +trabalhos... + +--Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia. + +--Não menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi +em mim e vi que faltàra hontem improficuamente, porque... + +--Ora, Sr. Orlando! Uma falta não inflúe, tanto mais quanto fui o +primeiro a não mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber +corresponder ao valor dos meus funccionarios. + +--Fico embaraçado... Nem sei como lhe agradeça... Ao depois das torturas +porque passei, era natural que Deus me désse o allivio de uma honra como +a que o Sr. Director acaba de conceder-me. + +--E a senhora ficou sem novidade? + +--Pouco mais ou menos, Sr. + +--Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia... + +--Qual nada!... Faltar hoje?... + +--Não digo isto. + +--Então... + +--Obter uma dispensa de serviço... + +--Nem pensar é bom, Sr. Director. Se me déssem licença eu hoje emendaria +o dia com a noite para descontar o atrazo de hontem... + +--São excessos, Sr. Orlando. É justo que um chefe de familia precise +dessas lacunas no serviço para gozar mais largamente as venturas de seu +lar. + +--Estas, francamente, eu só poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz +no acontecido. + +--E não o foi? + +--Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigação. + +--Qual foi o medico? + +--Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo. + +--Bons medicos, sem duvida. + +--E que hão de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como +um horror... + +--Mandarei dar-te uma gratificação para cubrires com ella os +extraordinarios desse acontecimento inquietador. + +--Não aceitarei, Sr. Director. + +--Porque assim? + +--Não é soberbia, não. Desculpe-me, mas eu não posso aceitar. + +--Quereria ter as razões dessa sua desattenção... + +--Não é desattenção, Sr. Supponha que eu aceito. Desfaço-me das minhas +difficuldades graças ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo +filho, nas mesmas condições difficeis do primeiro. O Sr. descuida-se e +eu não obtenho nova gratificação. Naturalmente me enciumarei com o seu +procedimento e o que não quero hoje, não devo esperar amanhan... Pois +não é? + +--Eu daria do melhor grado. + +--Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao +depois, se a parturiente inspira cuidados... + +--Não se ficou bem ella? + +--Acho que não. Ao depois do parto, começou de ter desmaios consecutivos... + +--E o que recommendaram os medicos? + +--Repouso. Ó Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher é +uma inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que +Olivia padeceu. + +--Pois penso que devias retirar-te. + +--Não devo, Sr. Director. O lar é uma preoccupação para fóra das horas +da secretaria. + +--Até o serviço poderia lucrar com a tua ausencia... + +--Perdão, senhor, mas... + +--Admiras-te? Não queria falar-te com tanta franqueza para não te +consumires ainda mais... + +--Por acaso commetti alguma outra falta? + +--Gravissima... Sabes porque te chamei? + +--Lealmente ignoro. + +--Porque te desconheci. Estás um desconchavado e erras todo o serviço. +Pelos teus grandes creditos, és aqui dentro um rico de odios e de +invejas. Conheço-os todos... + +--Agradecido, Sr. Director. + +--Cada companheiro teu é um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem +com os teus lapsos o teu valor. Não o admitto eu. + +--Mas, que fiz assim? + +--Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua +informação. + +--Oh!... Esta cabeça... + +--A conta de Silva & C.ª... + +--Sei!... sei!... Então... errei-a? + +--Inconvenientemente. + +--E sei porque perpetrei o engano... + +--É o que tu pensas... + +--Por ventura outro me corrigiu? + +--Absolutamente não. Serás tu mesmo quem fará este trabalho ao depois... + +--Porque não hoje? + +--Estás dispensado, incondicionalmente, do serviço por tres dias... + +--Não me conformo, Sr. Director. + +--Sou irrevogavel. + +--No maximo me satisfarei com o dia de hoje. + +--Serão tres dias irreductiveis, e pódes ir para a companhia de tua +esposa descansar a tua cabeça. Vejo-te perturbado enormemente com o +pensamento do que possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda! + +--Dá licença? + +--Pois não. + +--Ás ordens do Sr. Director. + +--Ah!... Sr. Orlando? + +--Sou todo ouvidos. + +--Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? é homem? + +--Perdão, Sr. Director... Mas... não lhe sei responder... Com a +atrapalhação da hora não me lembrei... Ah!... sim... + +--Que respondes? + +--Desculpe-me, Sr. É justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem +verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou... + +......................................................................... + + Sorrira o DIRECTOR e dispensàra de vez ORLANDO, com a inveja + crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos + factos... + + + + +Á VISTA DA DENUNCIA + + +Á VISTA DA DENUNCIA + + O interior da envidraçada varanda, exornado com ipoméas e glycinias, + em cacos, orchidéas e arums nos recantos, não tinha senão a luz + pallida, muito pallida, de um luar de inverno, coado preguiçosamente + pelos vãos das grinaldas verdes. + + Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma commettia a + indiscreção de transportar para alem, ao conhecimento da criadagem + bisbilhoteira, os amuos graves de CLOVIS e AMARYLLIA. + + A denuncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de + ferro, destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos + grosseiros perpetrados pelas mãos violentas de CLOVIS, que, + distrahindo-se um pouco com as fumaradas de um havana, ouvia, + sem intervenções, as queixas de AMARYLLIA... + +......................................................................... + +--Como eu, tão ladina para outras, comprehendendo tão bem o mal alheio, +deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amavel hoje, tinha sido +um presente valioso hontem, era uma lembrança expressiva amanhan... E o +meu filhinho servindo de _passe_ para os maiores engodos!... Toda hora o +telephone pedia Arthurzinho. Là se ia o innocente, coitadinho! E +raramente voltava. Prendiam-n'o dias seguidos com a ama. Poderia eu +desconfiar do embuste? Ha genios capazes de todas as villezas. O filho +era o motivo da entrada do pae, os presentes eram as cinzas nos meus +olhos, e os convites eram a perfidia da traiçoeira. Mas, agora, ou eu +succumbirei, ou estará tudo acabado. Ouve-me bem, Clovis: nesta caza, +emquanto eu viva fôr, Carlota jamais tornará, e se tu desceres à +indignidade de voltar à caza dessa mulher, ouve bem! Serei eu quem irà +buscar o tolo do esposo para te surprehendermos na sordidez. Sempre são +os interessados nas causas os que por ultimo se sentem logrados. _Il +n'y a qu'un mot pour dire les choses._ Essa palavra não devo, porem, +proferir sem macular os meus labios, sem regosijar o meu enganoso +marido, e sem elevar a perdida que me furta a tranquillidade, que me +logra no dom legal da fidelidade esponsalicia. Um dia desconfiei. A ama +de Arthurzinho levava um pacote às escondidas, quando, para castigo, +elle rolou ao chão, na hora da partida, quasi aos meus pés... Perguntei +à cumplice que significava aquelle _embrulho_... Foi o sr. Clovis quem +tomou a palavra: «é um romance que mando, a pedido, para D. Carlota +ler...» Ingenuamente me convenci. Pois seria possivel que o meu marido +trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraiçoava? que expuzesse +o meu filho à infamação de ser posto junto à perfida, em lugar de seu +pai gozado?... Ó meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me +e vejo-me só. Roubada naquillo porque mais zelos e mais ciumes alimento, +eu que me tenho submettido machinalmente à concepção de treze filhos, +exgottando a minha juventude para parecer velha aos trinta e dois annos, +assassinando a minha belleza, relaxando os meus tecidos, criando uma +ruga nova em cada manhan em que me olho ao espelho!... para ser +recompensada duramente com uma traição, uma tripla traição, em que se +envolveram as minhas lealdades de esposa, de mãe e... de amiga. Sim, +porque, desgraçadamente o digo, tolerei a concubina de Clovis na +intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por força dessa leviandade +commum a todas as mulheres, terei dado causa de rizo à maldita que me +engazupava. Contava-lhe os meus esforços para trazer sempre o meu marido +na obrigação pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o +recebia com intimas indisposições, para que regeitado uma feita elle se +não atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a duvida de sua +saciedade noutra fonte... Não sei onde estava escondido o sol de minha +comprehensão que agora recenna a minha intelligencia. E uma miseria +moral essa em que se prostitúe, com o conjuge das outras, uma velha, +desrespeitadora das cans do esposo e da innocencia de suas filhas. Havia +de ser là, naquella alcôva cheia de seducções, que o meu companheiro se +convertia em assassino da paz de minha alma. Aos olhos daquellas tres +criancinhas--mulheres faceis, por herança, que desabrocham nos comoros +lamacentos da podridão materna--elles dois se encaminhavam do leito, +quantas vezes Clovis ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o +ardentemente com o nome de pae! Bemdito o poeta que jà disse estar ao +lado de cada homem uma féra monstruosa: o instincto. E esse poeta foi o +meu proprio esposo, accusando toda a humanidade com o seu proprio mal. +Foi preciso que uma generosidade extranha me avisasse para que eu +conhecesse essa nova Mylitta babylonica, torpe, pantano no qual até a +trahida companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram +poderes lascivos. Ó injustiça divina! Porque não me despertaste, a mais +tempo, do somno em que sonhei com a lealdade de um templo christão e me +achava desgarrada na nave de um templo de Buddha?!... Foi hoje o +assignalado dia de minha victoria. A carta chegou-me às mãos com as +resteas violetas do sol posto. Li-a de um folego. O meu primeiro impeto, +naturalmente, foi de indignação contra o denunciante. Mas, alli estavam +os factos verificaveis, possiveis, e terrorosos. A noite veiu mais +depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo. A verdadeira noite é +essa em que tambem a alma se recolhe na escuridão de uma dôr +apunhalante. O meu marido jantaria fóra, num banquete intimo, mas +numa sociedade festiva. Resolvi chamal-o prontamente às explicações de +suas infidelidades. E fil-o sem tardada, não o nego. Á criada de +Arthurzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha affectos meus por +dar o seu leite à formação organica de meu filho, trouxe logo às contas. +Não lhe disse a denuncia, não lhe proporcionei ensejo de contestar a sua +acção, porque a interpellei segura do facto, inteiramente consciente do +que fazia. E ella me confessou que levava e trazia romances immoraes, +que levava e trazia cartas e recados... O instante unico! Ao depois, +calma e friamente, sabendo que aguçava a minha dôr, revolveu-me nalma o +punhal de seu descaro, revelando-me a indignidade de ser o meu filho +abraçado e beijado ardentemente, durante a ausencia do pae, com o nome +deste entre os labios da corruptora... Nega, Clovis, que não és o amante +dessa barregan de padres, dessa immunda mulher que maculou o meu lar com +a sua abjecta convivencia... + +--Nego, sim! + +--Fórte coragem! Jura que hontem não beijaste, quasi aos olhos do +publico, no salão de visitas, os labios rôxos pelo cansaço da idade de +Carlota. + +--Juro-te. + +--Leviano! Mente como quizeres. Mas, ouve: emquanto o meu corpo sentir +as commoções do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquella +devassa, emquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquella carta +nas tuas vestias, que é o perfume de uso na alcôva de tua hervoeira, +terei a coragem de repellir-te e de cerrar os meus labios às menores +palavras para as nossas relações. E se, porventura, desconfiar eu que +foste buscar, como uma abelha sem sorte, o nectar que se esconde na +corolla daquella flor murcha e fanada, dentro desta caza, escuta bem +Clovis, haverá a incompatibilidade de nós dois... É tu entrares e eu +sahir, ou só ficarei se tu te fôres para sempre. Sabes quanto sou +caprichosa, o bastante para não me arrepender das resoluções tomadas. +Negas, ainda, o teu erro? Serei facil de perdoar-te com a verdade, tão +facil quanto não te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade! + +--Nego, sim! + +--Quero convencer-me. A pé firme? + +--Com toda lealdade. + +--Pois bem! É escusado irmos adiante: sabes o que está contido naquelle +pacote? + +--Ignóro. + +--São os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero +devolvel-os. + +--Mas, como? + +--Não os guardarei mais commigo. + +--Vais romper, então, com a familia do Aurelio? + +--Forçosamente. + +--É de mau alvitre. + +--Incommoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar +com uma amizade que me aborrece, e se te excusares a esse acabamento, +confessas o interesse que terás em manter a verminação desse convivio +immundo... + +--Se encaras por este lado, rompe Amaryllia, devolve tudo do modo mais +grosseiro. + +--Devolverei, sim, não ha que ver. + +--Estàs no teu direito. + +--E espero a tua sancção. + +--Jà a tens. + +--Não. Não a tenho ainda. A devolução não poderá ser feita sem uma carta. + +--Pois escreve-a! + +--Não! Tambem não! Serás tu... + +--Eu?!... + +--Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?... + +--Amaryllia, pensa bem! Nós, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos +nessas rusgas de mulheres. + +--Comprehendo-te: romperei eu, e tu, às occultas quiçá, com menores +apparencias, te dedicarás à continuação de teu adulterio. Has de ser +quem escreverá a carta hoje mesmo, agora... + +--Convencer-te-às de minha innocencia? + +--De todo, não. Encaminhar-me-ei de convencer-me. + +--Não haja duvida. Dà-me papel e tinta. Escreverei num momento... + +--E pensas que escreverás como quizeres? + +--Não: como fôr conveniente. + +--Não te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado. + +--Quê? + +--Nos termos que me espoucarem arrevezadamente aos labios... + +--Mas... + +--Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga... + +--Amaryllia?!... + +--Virulenta e grosseira... + +--Faça-se a tua vontade. + +--Escreves? + +--Como quizeres. + +--E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquelle modo escripta? + +--A Carlota! + +--Não, Clovis. Quero que se escreva ao marido della, com o seu nome em +todas as letras... + +--É demais! + +--Não retrocedas! + +--Abusas de minha bondade... + +--Enganas-te. Clovis, ou tu escreves como eu te determino, ou... + +--Absolutamente, não! + +--... ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A caza de meu pae +terá sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortavel. + +--Tua alma, tua... + +--Sei bem! Queres o escandalo da separação para o renome do +conquistador? Não te darei essa vantagem... Debaixo deste tecto, +tragarás, Clovis, o amargo da tortura mais incondescendente, soffreràs a +queimadura do inferno mais verdadeiro... + +......................................................................... + + Ao longe, um relogio temerario, arriscou o aviso tetrico da + meia-noite, ao fim do qual, resolutamente, AMARYLLIA se retirou para + o seu leito... + + + + +IRADO ATÉ À CURA... + + +IRADO ATÉ À CURA... + + Ampla alcôva: no _armoire-à-glace_ reflectida como outro vasto + commodo... + + Rico mobiliario de pau-setim com incrustações de jacarandà reluzente... + + Um leito de cazados, e sobre elle, cadaverico, pelles e ossos, + despojado de carnes, ventrudo, olhar ancioso, o louro ORMINDO, + luctando com a morte... + + É um erro de diagnostico, rebelde a enfermidade à medicação + despropositada. + + Junto do leito, uma banca, e sobre esta, alem de um thermometro e de + um chronometro, desenvolta frascaria... + + Aos pés da cama, fatigada, somnolenta, às vezes, DOCA é heroina na + vigilia: o seu semblante merencoreo só consegue alguma graça + quando ELOY visita o enfermo. + +......................................................................... + +--A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaços sorrateiramente... +Doca, tu bem vês como eu morro todos os segundos, como eu minguo sem +cessar... + +--Tem fé em Deus, Ormindo. + +--Morrerei com ella, sim. A fé! Ella é o facho illuminador da estrada +eterna... Como deve ser doloroso não crer em nada, Doca!... Sentir a +alma cahir no vacuo... Ah! não me conformo, porem... Morrer quando tanto +preciso é viver... Vou deixar-te na penuria... a braços, por certo, com +os creditos da medicina e da pharmacia... + +--Tu pensas demais. + +--Como não hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilharás a codea endurecida +e atrazada. É com horror que prevejo as tuas infelicidades... És nova. +Mas de que servirà a tua mocidade sem pão, os teus verdes annos sem um +amparo? És bella. Mas de que prestarà a tua lindeza se não tiveres um +manto para o frio e um abanico para o calor? Nova e bella... na +viuvez! Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei? + +--A pobreza é um estimulo, Ormindo: saberei trabalhar afim de haver com +honra um pedaço de pão e alguns covados de fazendas... + +--Não te peço nada, e peço-te muito: não macúla o nome de teu marido. A +herva reverdesce a fronde dos vegetaes, augmenta-lhes a copa, +ennobrece-lhes o aspecto: crava-lhes, porem, até ao durano, as raizes +assassinas e rouba-lhes a seiva até à morte. A arvore cessa de existir +com a trepadeira phytocida que lhe rendilha os contornos. A mulher deve +pensar que o bem-estar não é a honra, e que ha tranquillidades mais +homicidas do que a herva do passarinho... A deshonra não provem da +pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A deshonra é fructo das +transigencias de alma, e a mulher viuva é a que póde peiormente +transigir... Que dores!... Ui!... + +--Estàs vendo: peioras quando falas! + +--Doca, no meu caso extremo, a morte é assim qualquer coisa como uma +sorte grande... + +--Num bilhete branco para mim que fico sem ti... Não sabes aproveitar o +silencio como um meio de cura, não sabes tirar partido, poupando +forças para momentos mais graves... + +--Durarei muito pouco. + +--Não pódes saber mais do que os medicos. + +--Ah! mulher! Só eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se +avisinha o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam. É +verdade, pois tenho neste momento a visão mais lucida dos meus +primordios. Que é isto senão que se vai fechar a circumferencia de minha +traslação em torno do vacuo universal? O aneurisma cresce, avoluma-se, +rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a fórma de uma esphera, é um +globo pequenino de vivos, na lucta pela existencia. Vai arrebentar, +latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que nunca +me illudi com a esperança da cura? Illudi-me, mas antes de todos... + +--Quem està vivo, Ormindo, ainda não està morto, e toda a cura é plausivel. + +--A tua dedicação é cega. Desde que adoeci, desde que sobre o coração +senti a formação mortifera do mal circulatorio, certifiquei-me estar +mais longe do mundo do que do nada. E deste momento para cà, que fiz +para denunciar que creio na cura? Ao contrario, a minha vida tem sido a +chamma de uma véla a luctar com o sôpro das auras. Não ha um +instante em que não me morra uma alegria, em que não nasça uma saudade. +Em torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa +teimosa em torno de uma lampada. + +--Aggravas-te, Ormindo! Cala a bocca por piedade! As tuas palavras são +outros tantos punhaes que me sangram o coração. + +--Que horas serão? + +--Jà é noite. + +--E os medicos que não vieram? + +--Vieram, sim. Tu estavas dormindo. + +--Os medicos não vieram, não... Até a minha esposa conspira contra a +minha existencia... + +--Não pesas as tuas palavras, Ormindo. + +--Jà sei de tudo. Perderam a esperança, abandonaram-me. Não passarei de +hoje. Estou condemnado a horas. + +--Descansa um pouco. + +--Descansar, agora, só de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e +parece-me que foi hontem à tarde que nos vimos pela primeira vez. Um +sonho às vezes tem existencia mais real, porque nos acompanha do momento +da concepção em criança ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me +o ar... + +--Assim queres! Falas tanto... + +--Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: não ha rio que não chegue ao mar. +Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas +consegue... Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez não te +lembres mais do meu enfeitiçamento; não me esqueço eu do sorriso unico +com que festejaste o nosso encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh! +que lindo luar te prateou as pupilas, te diademou os cabellos e te +banhou luciferamente as espaduas! Mezes depois, o cazamento... A noite +de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso amor insatisfeito sempre +para accordar novas caricias, para fomentar alegrias... A esperança de +um filho... O recúo da esperança... E tudo isto acabar quando mesmo +principiava?!... + +--Não temas a morte: um cerebro que pensa como o teu dà confiança na +renascença da vida. + +--A alma não morre, Doca! É ella quem esta vivendo agora. Os pulmões +fraqueiam, o coração tem espasmos, a visão escurece-se, a voz +arrasta-se, mas o cerebro pensa... Crês tu que, porque não falam, todos +os moribundos não pensam? Illudes-te! É a hora de maior pensamento. Só +recompôr todo o passado afim de o ligar ao presente e encerrar o +circulo das sensações mundanas, é pensar robustamente. Um moribundo que +eu vi, não tinha a fala. Os membros eram paralyticos, os olhos +envidrados e photographavam a luz do dia para a eternidade... Pois bem! +esse homem assim amortecido, repelliu com o gesto brusco de uma perna o +supplicio de uma injecção nos ultimos instantes... Acaso, não pensaria +mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros ha que conhecem até o +segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser tocante o +adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um +agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecerà mais +no extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro +mundo... Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que não falo certo? + +--Não me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperança +illuminar-me o rosto... + +--Como és amante?!... Quererias de coração e de alma, com todos os +affectos e vontades, a minha cura? + +--Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado à saúde. + +--É bem pouco um desejo! + +--Duvidas que todas as minhas forças funccionam só na intenção de +possuir-te novamente são? + +--Não duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a +prolongação de minha tortura... + +--Aborrecer-me eu!... + +--E então?!... + +--Tens coragem! Só me representa que gravaràs na alma uma eterna +desconfiança da amizade de tua esposa... + +--Isto não! + +--Pois parece, Ormindo! + +--Neste caso, escutas-me com agrado? + +--Sim. + +--Posso falar? + +--Não. + +--Ah! jà sei... É a mesma quesilia de que falar é um desperdicio de +forças organicas... + +--Diz o doutor... + +--Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro +conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar +num terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido às intenções +animaes dos homens, a equação da mulher é perigosamente diversa. +Virgem, ella tem a expressão de um sonho; esposa, representa uma +realidade; e viuva, ella é uma alma em que se derramam os mananciaes +copiosos da luxuria humana... Virgem, fôste uma criadora; esposa, uma +inspiradora; viuva, seràs, em nome da honra de teu marido, uma +redemptora... Ai!... Dóem-me os pulmões... Morrerei, porem, com todas as +sensações... + +--Não morreràs, Ormindo! + +--São os teus votos? + +--Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda +no instante derradeiro? + +--Não duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz. + +--Pois então?!... + +--Dà-me a tua mão... + +--Estàs frio! + +--É a gelidez da morte... Não tardarà... Fazes-me um favor?... + +--Se o faço... + +--É para depois de minha morte... + +--Juro-te. + +--Mas, responde franca e precisamente, para que eu não succumba com uma +duvida... + +--Pede o que quizeres... Pede... não!... ordena! + +--Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se não me derrubou de vez, +vai invadindo-me com o gêlo de seu halito das extremidades para o +coração. Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez é um +despenhadeiro. Peço-te em nome de minha tranquillidade, que te cases, +immediatamente, afim de que não paire uma só nuvem sobre a limpidez do +teu e do meu nome... Casarás logo... Peço-te... É o ultimo sacrificio em +prol do teu defuncto... + +--Intranquillisas-me, Ormindo. + +--Não ha razão para isso. + +--Se tu mandas... + +--Mando, não; peço... Agradar-te-à Eloy? + +--Queres, Ormindo, a verdade antes da morte? + +--É isso... + +--Pois bem! O que tu propões jà estava assentado entre nós outros... + +......................................................................... + + A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um + grande esforço e se salva com o despedaçamento brusco do myoma + desconhecido, do assassino erro de diagnóstico... + + + + +A HUNGARA + + +A HUNGARA + + Commodo de hotel. Um fóco electrico esverdinhava o azul papel das + paredes. + + Revolvido, o leito denunciava em duas cóvas a pressão de dois corpos + que nelle se afundaram. + + SARAH, a hungara, recebia GUANABARINO, o chronista theatral, com um + estridente signal de contentamento... + +......................................................................... + +--Aqui estou. Nem sei como acertei. + +--Estás apaixonado? + +--Crês, Sarah, que paixão desponte como um sorriso? + +--Quem te disse o meu nome? + +--Li-o nos programmas. + +--Ah! sim. Gostaste do meu canto? + +--Não te ouvi. + +--Como te agradei? + +--Pertencendo a outro. A mulher sem dono custarà a topar com um amante. +Rolarà uma eternidade como a pedra que não cria limo... Tenha um amante +e dezenas surgirão... + +--Como elle é experiente! + +--Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por +Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo braço delle, no teu longo +_manteau_ de sêdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo +dezenas de mulheres no Café-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o +canariar de suas vozes; francesas, que arrebatam com o _savoir-dire_ as +malicias mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus +sapateados; americanas, que lembram bugios nos saltos do _cake-walk_... +Todas são-me indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com +cocottes para todo o mundo... De começo estive tentado a emprehender uma +_ménage-à-trois_ com uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo +prohibido e vivia aferrolhado à concupiscencia de seu proprio pae. +Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente +encontrei-me comtigo... + +--Ladrãosinho! Como elle sabe contar! + +--Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu +amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de +amigos attrahiu-me e a attracção de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um +cumprimento com a cabeça. Não me teres sido apresentada, significou que +o teu galan zelava de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho +de seu progresso na sabedoria dos olhares que as pessôas cultas pódem +trocar. Viste como te comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho +para o _buffet_? Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo +de junto de ti e como tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro? +Na sombra dos pés da meza, os nossos corpos se trocavam desejos nos +encontros, animavam-se tambem com os promettimentos mais claros, e as +nossas carnes se queimavam por detraz dos tecidos de nossas vestias. +Tudo isto, porem, ainda não é paixão. É um grito do instincto animal. Só +nos não apaixonaremos se não quizermos... + +--Como sabes a vida! + +--Precisas prender Gustavo. A epoca é das melhores. O dinheiro passa-lhe +pelas mãos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque, +alem do mais, é um amante que, por força de ter mulher e filhos e morar +longe, te darà muito tempo aos amores furtados. + +--Não os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo não +se tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e só o +trahi uma só vez: com o pae de meu filho. Gósto de um amor só, de ter um +dono e de ser cubiçada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso, +o Gustavo não me agrada... Prefiro-te a elle, serás o meu amante... + +--Erraràs se assim preferires, Sarah. Não tenho posses para te manter, +ao passo que o Gustavo... + +--Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho +para o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero... + +--Neste caso ficaràs com elle... + +--Porque então? + +--Conheceste-o primeiro. + +--Não importa isso. A elle conheci na manhan, a ti à noite, ambos no +mesmo dia. Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra. Encaminhou-me +do hotel, e... má recommendação tem dado com os multifarios obsequios, +com os gastos e as gentilezas, sómente com essas coisas... Ora, uma +mulher como eu, ou quer o homem, ou não o quer... De minha parte +dispenso as galanterias... + +--Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispôres de sua +bolsa... + +--E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor... + +--Là com isto combino eu. + +--Assim, và que seja e comecemos... + +--Que tenho eu para tanto me olhares?... + +--Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes +são dois vulcões. Como te chamas? + +--Guanabarino, um nome difficil. + +--Como? + +--Gua-na-ba-ri-no! + +--Gua-na... + +--... barino. + +--Ah! sei. Guanabarino. É a primeira vez que ouço esse nome. És brazileiro? + +--De corpo e alma. E tu? + +--Filha do sul da Hungria. Vim creança para a tua terra. Fui noiva, +aprendi a cantar com um meu amante e vivo disto... + +--Tens percorrido meio-mundo, hein? + +--Não: conheço a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia... + +--Dize outra vez esse termo... + +--Reminiscencia. + +--Que lindo! Parece-me, Sarah, que estás a dar uma serie de beijos... + +--Como elle é ardente! + +--De verdade? + +--A tua alma està fugindo-te pelos olhos... + +--Junto de um espirito como o teu, como ella não querer a transfusão +carnal? Jà notaste o frio que regela as mãos do homem emocionado junto +da mulher que o escalda?... + +--Ih!... Que gêlo! + +--Sabes explicar? + +--Não. É difficil? + +--Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao coração. As +extremidades resfriaram-se. Tudo isto jà é começo de paixão... Falaste +nos meus olhos! E os teus? São capazes de comprar o mundo com um só +relance. + +--Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento? + +--Que graça! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas +gentilezas. + +--Tens gozado tanto? + +--Inda perguntas?! Não sabes que o amor se fez para os temperamentos +tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um +desejo para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda +hora: sinto que todo o teu sexo não seja uma só mulher para esta ser a +minha amante... + +--Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino! + +--Não. + +--Desmentes o que asseguras. + +--Jà tiveste o teu quinhão. + +--Como assim? + +--Jà te possuiu o Gustavo... + +--Juro-te que não. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja +revelada, ainda não desejou... + +--De facto? + +--Juro-te eu. + +--Ao depois delle... nunca! + +--Mas, porque? Mettes-me medo... + +--Por nada! O Gustavo é um homem para se temer... + +--E porque me inflúes para ser a sua amante? + +--Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu +concubinato bem pódes usufruir grandes proventos. E, jà agora te direi: +pouco mais fará elle do que hoje... Entretanto, como homem de +recursos, talvez ainda não te désse a menor prova do que seja... + +--Fez-me hoje a oblata de um collar de libras... + +--Um collar? + +--Sim. + +--De libras esterlinas? + +--Conheces? + +--Acho que não. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos... + +--Foram presente. + +--Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros +meios que não esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe +aqui... + +--Não amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de +_chanteuse_. Ás vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a +primeira a não regeitar o que me dão. Um deputado deu-me este annel... + +--Adoravel! + +--Um advogado, ao depois de uma perseguição de mezes, para eu o receber, +offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho +aquinhoou-me apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio, +outras... + +--Muito em cheio, Sarah! + +--Tu falas? Um mineiro, hoje desesperançado de conseguir a minha +retribuição, deu-me estes correntões para atilios... + +--Que lindas fórmas! + +--Mostro-te apenas os atilios e não as pernas... + +--E eu vejo tudo! É admiravel como o _fraise_ das meias se destaca no +gêsso das tuas pelles... + +--Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me +cubrissem de oiro tenho tido às carradas... mas, um só que me dissesse +coisas tão lindas, nunca tive... A palavra inescutada é tambem uma joia +preciosa. E para retribuir tantas distincções ineditas só um beijo de +muita paixão, só um beijo... + +--Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e déste mais de mil... + +--Longe disto, tu não me recompensaste com um só... Reparei bem... + +--Desculpa. Mas, quando sou beijado, não beijo. Esta caricia deve ser +sempre espontanea e impagavel. E eu não commetto a grosseira +sensualidade de pagar uma caricia... + +--Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan... + +--Com todo o fervor... + +--Não te enciumas? + +--Não. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de +ouro que elle te der. + +--Queres ver o collar de hoje? + +--Verei. + +--Elle me prometteu para amanhan um relogio e um correntão. + +--Aproveita, Sarah! Gustavo desperdiça dinheiros de herança... + +--Vês tu o bello collar? + +--É lindo!... Elle t'o deu? + +--Sim. + +--Esta joia? + +--Que significa o teu espanto? + +--É que este collar é... + +--Falso? + +--Não! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo... + +--Agora é minha! + +--Estàs no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos... + +--E só a ti amarei, Guanabarino!... + +......................................................................... + + Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de + GUSTAVO evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando o + silencio somnolento do casarão do hotel, a figura caprina de um mal + conhecido visinho de quarto... + + + + +DEPOIS DO COMETA + + +DEPOIS DO COMETA + + De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, ALEXANDRINA + ergueu-se da _steeple-chaise_, e beijou a mão da velha senhora D. + CAROLINA, que acompanhava MIMI, naquella matutina visita de nupcias. + + Ao depois, como duas flores de uma só haste separadas para sempre + que se reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braços + a figura da amiga e beijaram-se fartamente. + + De outro lado, ARTHUR, o novel esposo, enfardado no seu dolman de + brins brancos, cumprimentàra, ceremoniosamente, a DONA CAROLINA e + com um sorrizo prazenteiro applaudiu as bregeirices de MIMI. + + Esta e ALEXANDRINA, ao depois de affaveis cumprimentos geraes, + confidenciavam numa janella, por detraz de arrendadas cortinas, + onde se foram acastellar para a permuta de segredos... + +......................................................................... + +--A que horas despertaste? + +--Nem sei mesmo... + +--Não é possivel. + +--Palavra! + +--Então ferraste no somno, e... + +--Ao contrario: não durmimos. + +--É exquisito. + +--Como te enganas! Não calculas o que seja a estafa de um dia de noivado. + +--O dia mais bello da mulher... + +--Parece-te? + +--Esta é bôa, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: não te +sentiste extraordinariamente feliz? + +--Ah! sim... Casei-me por meu gosto... + +--Olha que já me pareces outra com tanta sisudez e seccura... + +--Não é, Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. É +preciso que não me tenham na conta de alguma leviana: jà hoje em dia, +minha amiga, tenho segredos que te não posso falar... + +--Prohibiram-te de dizer-m'os.. + +--Não! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alteração na vida de uma mulher +que se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida +conjugal, que nem sei como me reconheceste hoje... Jà viste, no +craveiro, o botãosinho verde; o casúlo de folhas, como, na manhan +seguinte, está um perfumoso cravo, uma flor distincta? Se te dessem as +duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o facto como inveridico... + +--Mas eu te vejo a mesma boniteza... + +--Sim! É questão de alma. Suppõe que adormeceste no começo de uma viagem +e que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo +seria o mesmo, a tua lindeza não seria transformada, mas o teu coração +palpitaria diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As +tuas amigas ficariam noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso +que regressasses ou que ellas viajassem para onde fôras. Assim no +cazamento: viajei para muito longe de ti. Para nos irmanarmos como +dantes, ou voltarei à minha immaculabilidade de hontem, o que seria +impossivel, ou tu ascenderás ao matrimonio para o que faço votos. + +--Tens razão! + +--Não te parece? + +--Falas e procedes tão judiciosamente que não me atrevo a duvidar das +alterações por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o +cazamento para não me esquecer tão depressa das intimidades com as +minhas amigas... + +--Não me esqueci. És injusta! Não te darei novas confidencias: as +velhas, entretanto, ficarão acariciadas como um sonho de felicidades na +vida de uma mulher inditosa. + +--Pois pensei que me dirias tudo... + +--Tudo... quê? + +--Ora! + +--Denuncias que pensas em algumas coisas que não são veridicas, ou, pelo +menos, não o foram para mim. + +--Foste differente das outras! + +--Offendes-me. + +--Não te offendo, não. Desconheço-te. + +--Que quererias tu que eu te falasse? + +--Não sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses. + +--Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha +com um olhar seriamente investigador e tua mãe franze o sobrolho para +mim... Um ha de suppôr-me indiscreta para te communicar tolices... +e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras... + +--Não! Deixa... + +--És má! Tens talento e não queres comprehender a minha situação, +especialmente no dia de hoje. + +--Jà te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres... + +--Amúas sem razão. + +--Com que direito a planta exige viço da flor que já foi colhida? +Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre nós duas existe a alma do +sr. Arthur... + +--Não exaggeres... + +--Pódes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirás delle tambem. Os +meus serão contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo, +porque não deve haver um conhecimento novo que não pertença a ambos: os +delle... morrerão comtigo, porque não deves trahir à tua fé conjugal... + +--És incondescendente! + +--Sim, sou incondescendente na verdade das cousas. + +--Em parte, minha amiga. + +--Não. Em tudo. + +--Veremos. + +--Pois experimenta! + +--E se eu te provar? + +--Pago-te com um beijo... + +--Oh! Pois então a mulher que se cazou póde beijar outra pessôa que não +seja o seu esposo? + +--Deste modo, Mimi, não chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha +conversas... O que te conversei até hontem, não conversarei jamais com o +meu esposo. O que te converso agora, não conversarei jamais com a tua +maman. Beijos!... Os que te dou são da ordem dos que sempre te dei... + +--Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias. + +--Não sei se sómente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei +quantas tem... + +--Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes +ou não ao teu marido? + +--Conforme. + +--Não é caso de dubiedades. Dizes ou não? + +--Se fôr só do teu interesse, não. + +--Faço-te justiça, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao +falseamento agora, sómente agora, do teu dever. Contarás tudo o que te +disserem, ou serás uma perjura na fé conjugal. Eu mesma duvidaria +de tuas intenções, se occultasses do teu marido o menor acontecimento +que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de +descobrir sempre esse interesse que não é exclusivo da pessôa que te +fallou, para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de +parte, e affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres... + +--Dou-te razão, minha amiga. O mundo é esse mesmo e não serei eu quem o +modificará. + +--Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva! + +--Achaste? + +--Encantadoramente bella! + +--E tu me viste? + +--Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem à porta da +igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja. + +--Era a ultima nota do meu pudor de virgem! + +--A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro +assentou-te a grinalda como uma corôa de rainha. Agradou-me a tua +elegancia. E, porque não te censurar? só não gostei de trazeres os +olhos humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar esplendido. + +--Lisonjeira! + +--Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multidões que se +dominavam com a curiosidade de ver-me... + +--Tens razão. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem +saber que... mais tarde... + +--Dize... dize... + +--Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais +algozes... + +--De véras? + +--Sim, minha amiga! Não calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh! +Digo-te de mais! Perdôa se te offendo... + +--Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que, +ainda ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu? + +--Guardei-o já para offerenda a uma Santa. + +--Quem t'o tirou? + +--A maman... Arthur conversava no salão com o papà e dois amigos +retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem jà era alta hora da +madrugada. Duas ou tres, não sei. + +--E o teu vestido? Era primoroso... + +--Está no _armoire-à-glace_... + +--Muito amarrotado? + +--Não. Quando o despi... chorei! Como é que uma mulher só se veste tão +bem uma vez na vida?!... + +--Choraste, Alexandrina? + +--Sim. + +--É de mau agoiro. Dizem que morrerá primeiro aquelle que chora... + +--Não sabia. + +--Nem que morrerá antes do outro o que se deitou por primeiro? + +--Tambem não! E por isso tambem serei eu quem morrerá antes... + +--Ah! já estavas deitada quando elle appareceu na alcôva? + +--Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mãos, tratou do +successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada, +desde as asperezas do juiz cazamenteiro, até às melifluidades de voz do +sacerdote, quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal. +Recompuzemos a sociedade que aqui esteve. As dansas, o serviço de +_buffet_, a ceremonia do chá... Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa, +eu lembrava outra. Sorriamo-nos, commentavamos, com seriedade, as +incorrecções dos outros... + +--E o tempo se passava... + +--É exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. Não sabes, porem, +como foi opportuna a nossa conversação. Quando extremecemos, ouviu-se o +tiro das cinco horas... + +--E então? + +--Arthur lembrou-se do cometa... Já o viste? + +--Ainda não! + +--Pois é bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada +do meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi... + +......................................................................... + + Interrompidas por DONA CAROLINA, MIMI e ALEXANDRINA, dando-se as + mãos, nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na + conversação commum... + + + + +AMORES NO CLAUSTRO + + +AMORES NO CLAUSTRO + + Um ar tépido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos, + instigador do sensualismo mais humano e menos animal, era o + excellente conforto da cella de FREY PATRICIO. + + Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de + dedos enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro + e o seu affectuoso irmão de ordem, FREY THOMASIO, palravam + gostosamente de coisas alegres... + +......................................................................... + +--Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resolução +improvisada... + +--Pois eu, não! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e não +venci: fui derrotado. + +--Não posso crer facilmente. + +--É a verdade, irmão Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no +sepulchro. Para aqui trouxe o meu corpo, e, là fóra, borboleteando, sem +parar, a minha alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella +animava. Emquanto moço, nas minhas preces só o nome de uma mulher viçava +triumphante... + +--Tambem a mulher... + +--Sim. Preconceitos, preconceitos! A baronía estulta de uma familia +asphyxiou sem dó a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje, +tremo de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre +hymnos e bemdições, tel-a-ia levado, não à cova, sublevando-se contra os +pais, sim ao hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem +cuidados naquillo que outros apreçavam--a feeria dos titulos +nobiliarchicos--vivemos apenas pelas suggestões do sentimento que nos +venceu... + +--Os teus labios tremem, irmão Patricio, as tuas pupilas se inflammam e +olham por sobre nós para tempos bem distanciados... + +--Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingança que exerci +contra mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia +ainda, mas respirando balões de oxygenio. Artificios da sciencia! E +tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo, naquella +tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do +esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A +vista annuviou-se-me e, balouçadas pela briza, as rendas do esquife me +disseram um adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenços muito +brancos, molhados de lagrimas... Succumbi deante da falsa visão e +esmaeci... debruçado sobre aquelle leito, onde chorei incansavelmente +irado--Deus me perdôe!--como o mais pecador dos homens... + +--Tanto poude o amor! + +--A mola do mundo, Frei Thomasio, é a mulher. Não ha um burel aqui +dentro que não seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem +corriqueira e profanamente os francêses, _chercher la femme_... Por +ventura não professaste como os outros? + +--Sem tirar nem pôr na cauza. + +--Sempre assim. + +--Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu +entre os outros homens e te elegeu o seu preferido. + +--Ah! por certo. + +--Quem me déra! + +--E que te faltou, Frei Thomasio? + +--Justamente o amor. + +--Intrigas-me de véras. + +--Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei +mocinho? + +--Se me lembro!... + +--Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era +menino, e se me dissessem que o heliantho foi obra da pretenção e do +desabuso de Hephaestos querendo, como um Deus, criar sóes e mais sóes, +todo o credito eu daria, porque não tinha discernimento para me salvar +das tentações humanas... + +--Que são as verdadeiras tentações da serpente no Paraiso... + +--Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o +carreiro que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas +e ramos para sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambições +de saber... Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as +primeiras cousas de amor... + +--E não lias o _Cantico dos Canticos_! + +--Ah! não! Fui sabendo que, como Eva fôra criada para acompanhar o +primeiro homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os +arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com +olhos de escaldo... + +--Que maganão! + +--E não peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas +amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o +cortejo dos mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras não tinham +as calenturas de um amor, ella abrasava na abundancia das pretenções +exaltadas: todos à porfia lhe disputavam a preferencia... Tolamente eu +era conduzido entre os fascinados pelo olhar da moçoila cortejada. + +--Estou vendo que eras o preferido... + +--Não sei, porque não tive capacidade para aquilatar, bem como porque--e +daqui se originou a minha principal historia--troquei logo essa +espectativa de amor bem aventurado por uma effectividade de amor bem +triste... Mas sei que os olhares dos meus velhinhos cahiam sobre nós +dois como punhados de olorosos jasmins, quando elles nos viam, quaes +dois noivos conscientes, em falações na varanda arborisada de nossa +caza, amorosamente illuminados pela lua... + +--Bem feliz que ias para a vida entrando, irmão Thomasio? + +--Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a +minha desdita foi ella a que mais lagrimas chorou... Ora, se a intuição +de amar crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais +fulgentes e chispantes, me sensualisaram todo e a carne arvorou-se em +maior do que o sentimento... + +--O pecado! + +--Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, às vezes +ainda peiando cigarras e apedrejando, com rudes instinctos, os +inoffensivos gaturamos, fui prendendo-me às ardencias das esbrazeadas +pupilas de uma mulher facil... A principio, quando o seu olhar incidia +sobre mim, eu cerrava os olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer, +pensava nas ternuras da outra. Nada mais. Os dias repetiam-se e as +scenas mudavam-se, crescendo as investidas e diminuindo a resistencia. +Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da aggressora, eu sentia +uma purpuridão nas faces, mas incolume proseguia o meu caminho... Mais +tempo, e duas, tres, quatro vezes, voltava-me para trocar sorrisos... Em +caza, a presença da outra, começou de aborrecer-me. Á noite, por sobre +as paginas abertas dos meus livros, dansavam cabrioladamente as imagens +das duas mulheres. E eu me decidia fragorosamente pela menos +conhecida. Um dia, notei que os labios da extranha se moviam. Nada +percebi, no entanto. Que ella falava, eu estava certo. Nas passagens +seguintes, com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo exquisito. Duas +syllabas apenas, e, se não te offendo nem abuso de tua condescendencia, +irmão Patricio, dir-t'o-ei jà... + +--Faço mesmo questão de sabel-o... + +--Jà que queres ouvir-me, continuarei... + +--Continúa... + +--A deslumbrante mulher dizia-me apenas: «Tico»... + +--Olá!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocabulo... + +--Nada sei explicar-te, Frey Patricio, senão que corri os diccionarios +dos meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo +convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo +investigador, depois de algumas pesquisas fóra da convivencia dos +collegas, soprou-me segredadamente: «_Tico é um convite... E quando +ouvires, responde taco..._» Corei deante da revelação e maldei de tudo. +O meu primeiro impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me +furtar às seducções de Almira... + +--Que bello nome, e lendario! + +--Tive, porem, de ceder à contingencia dos factos. Não era possivel +andar por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti +da ideia e affrontei a tentação. Com o tempo fui cedendo. E, um bello +dia, como se diz là fóra, escorreguei... «Tico!», disse-me ella, e eu +lhe oppuz murmuradamente quasi: «Taco!» Em resposta, ouvi: «Amanhan!» +Que noite, Frey Patricio! Se ha caldeiras para queimar almas, nós as +experimentamos quando fazemos a espera de alguma coisa. Não durmi, +confesso. E, para encurtar as razões, só acordei, effectivamente, +quando, advertido por ella de que là iria chegar o seu homem, me vi +escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse +esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que +cresceram e motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que +creatura perversa! Foi às bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho +animal me arrancou de debaixo das pilhas de saccos, às bastonadas, Frey +Patricio... + +--Ah!... ah!... ah!... ah! + +--Não rias, Irmão! + +--Não te zangues, Frei Thomasio. Não me posso conter... A tua historia é +alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!... + +--Nem sei como de maus tratos não me acabaram naquella hora furiosa... E +quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais! + +--Pudéra!... Ah! ah! ah! ah!... + +--Aliás, não foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido jà, e +voltando aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia: +«Taco?»... e eu a repellia instinctivamente... «Nem tico, nem taco... +nem là dentro do teu sacco...» + +--É bôa, é bôa!... Ah!... ah!... ah!... ah!... + +--Em seguida... + +--Sim... + +--... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos +conhecidos me estygmatisava com o escandalo, e soffri, abrazadoramente. +Ninita, escandalisada com a minha quéda, definiu-se por outro, que a +recebeu como esposa perante Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim +mesmo... O mundo era um tedio... Então pensei no vicio... + +--Mizericordia! + +--Mas, não era?... Para abafar uma mizeria moral, só outra maior... ou o +passo que dei... + +......................................................................... + + A bronzea sineta da confraria, não se retendo na missão avisadora, + chamava a Ordem para a humilde refeição da noite. + + E quando FREY PATRICIO chegou ao salão, na companhia de FREY + THOMASIO, jà se liam, emphaticamente, as consoantes orações da + hora. + + + + +A CONSULÊZA + + +A CONSULÊZA + + De _maillot_, apenas, arrebicando as faces diante de um espelho, + NINA, a bailadeira, tinha um milhão de pensamentos banaes no cerebro + ardente. + + Os traços da sepia e os rebordos do nanquim, já lhe accentuavam a + grande vivacidade do olhar, e o pó de arroz attenuava e embellecia + as côres roseas do rosto criadas pelo carmin vencedor. + + Uma vez por outra, deixava de conformar-se, para attender aos + appellos da porta, de onde, sem deixar ninguem penetrar, voltava + enfastiada com as iterações de extranhos. + + Esperava OCTAVIO: era o _aimant du coeur_, porque o CONSUL, o + velho francês, pelas suas funcções representativas, evitava + aquelles encontros mais notorios... + +......................................................................... + +--Nina? + +--Quem bate? Octavio? + +--Elle, sim! + +--Entra, meu rico amor! + +--Fiz-me esperar, hein? + +--Nem tanto, mas eu tenho a regalia de poder cheirar-te as vestimentas +para saber se tiveste o contacto do corpo de outra mulher, de +vistoriar-lhe o casaco, para descobrir ahi os fios perdidos dos cabellos +da que me logrou... + +--Descansa o teu coração. Vivo inteiramente para ti. E emquanto estou +longe do teu olhar, sou como o barro que espera, ardorosamente, a toda a +hora, a plasmagem do artista. Por elle, passam e voltam, vão e tornam, +todos os profanos: mas elle não é menos monopolisador de sua +plasticidade do que uma flor do gnomo que só abra a horas certas... + +--Não sabes? O Consul pediu-me a noite... + +--E deste-lh'a? + +--Nem sei... + +--Já me toma os dias inteiros... Entra agora pelas noites... Que horas +serão as minhas? + +--Todas até. Aturo-o porque tu consentes. + +--Exactamente. Mas elle vem a prejudicar-me se continúas a não se +satisfazer com o que lhe dás. Ás vezes, lá para as tantas do dia, penso +em ti. O brazido abre em chammas ao menor sopro. O incendio alastra. +Quero remediar-me e soffrer a caricia dos teus beijos anti-incendiarios. +Vem logo a certeza de que o Consul te frequenta o dia inteiro. Esmoreço. +Abomino-me e espero confiante o prazer da noite. Tenho sido certo e +insubstituido. De agora por diante, nem mesmo nas noites poderei +confiar. Ao amante nunca lhe dês demais. Se te pede uma hora, dá-lhe +meia, se te pede um dia, dá-lhe horas, se te pede uma noite, dá-lhe um +dia, e reduze sempre as suas pretenções. Ao contrario, todo o tempo será +absorvido. E, quanto ao mais, espera-te hoje a ventura. Vais dormir com +o Consul... Estou libertado... + +--Oh! não! Que succede Octavio? + +--Nada. Não estorvo os teus anhelos. Leva comtigo o Consul. Dá-lhe o meu +lugar, mas dize-lhe, ao menos, que não me occultaste a entrada +delle no leito que deixo vasio... + +--Espera um pouco que te falarei melhor. É só acabar de toucar-me... + +--Careces de mim? + +--Não me aborrece, Octavio! + +--Pensei sempre que valhesse mais do que todos os outros teus amantes. +Vejo, entretanto, agora, que um existe mais poderoso ainda do que todos +nós reunidos... + +--Vale a pena a descuberta. + +--Desmente-me, pois. Não tens um amante que preferes ao Consul, um +amante deante do qual te esqueces mesmo de mim? + +--Dizes-me coisas extraordinarias... + +--Contesta a existencia desse outro amante omnipoderoso, que motiva +teres-me deixado no exilio deste divan, na semi-obscuridão de teu +camarim... + +--Não és amavel. + +--De mais em mais se confirma o que te digo: nem tens animo, por causa +delle mesmo, para contestares o que te affirmo de um modo tão +categorico... Digo-te centos de coisas e nada te abstrai desse amante +unico... + +--Agora, sim! Dei um ultimo retoque nos meus preparativos de scena... +Que te pareço de _maillot_? + +--Não trato disto. Refiro-me ao teu poderoso amante. + +--O Consul? + +--Não sabia que este seja poderoso. Mas não é a elle. Ao outro, deante +do qual te esqueces de mim, do Consul e de alguns menos e mais cotados +do que nós outros... + +--Amante? + +--De certo. Negas que não te absorve elle mais do que qualquer de nós? + +--Nego. + +--Contestas que exista esse amante? + +--Juro-te mesmo. + +--Vê lá que não me enganas... + +--Quem será, Octavio? + +--O teu espelho... + +--Aceito a graça. Em troca, porem, vais dizer-me o que julgas de meus +trajos em _maillot_?... + +--Julgo mal, porque te acho parecida com uma lebre a quem cortaram cerce +todos os pellos... Assim muito delambida, muito escorrida, muito +masculina... + +--Tens espirito. + +--E fui franco do modo que tu me pediste. Veste as rendas, sobrepõe as +sedas, ou tira o _maillot_. Se vamos ao mundo, todos os atavios, todos +os _soutaches_, applicações e _manteaux_ serão poucos; se ficamos +aqui, o menor fragmento de tecido mais fino, será demais... Ou o extremo +enroupamento, ou a extrema nudez... + +--Figuremos duas hypotheses. Se me visses enroupada, com um luxuoso +vestido, de muitas rendas, muitas fitas, muito decóte, muita joia, e +lindo chapeu de plumas, que farias de mim? + +--É essa a primeira hypothese? + +--Sim! + +--Pois bem: levar-te-ia, logo, à tua caza para que, antecipando a hora +de tua sahida, o Consul, nem de longe, pelo meu braço, te visse hoje... + +--És digno de um acto destes. + +--Bravura do amor. Agora, a segunda hypothese? + +--Sim: se me visses núa, tão núa que nem uma _écharpe_ me velasse as +pomas, que farias de mim? + +--Ah!... Ahi está uma pergunta de difficil resposta, uma hypothese de +operosa solução... + +--Porque? + +--Porque uma nueza dessas exigiria um leito e sem este tu serias apenas +uma gravura... + +--Venceste-me. Despacharei o Consul. + +--Não sou eu quem determina. Passarias uma noite igual às de Bhodis na +companhia de Chrysis... Porque escancellas tanto os teus deformados +olhos? Não calculas, assim, a desproporção do teu semblante, lindo como +um camapheu... + +--Procurei ouvir o que se faz em scena, afim de verificar quanto falta +para a minha vez... + +--Queres, saio a ver... + +--Não. Chamarei o contraregra. Nem precisa: canta a Solidonia... + +--A pernóstica! + +--Deixa-a, coitada! Ainda tenho todo um intervallo e dois numeros da +outra parte. Agora... dà-me um beijo, paixãosinha! + +--Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulêza... + +--Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu +lhe tenha promettido uma noite, quando não lh'a darei por preço nenhum? + +--Ciumes?!... Não os sinto dos outros homens, porque nenhum delles +logrará de ti as venturas e as concessões que eu tenho gozado... Nem +mesmo do Consul... Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve +dizer sempre que antes delle provei-o eu. Tenho ciumes, Nina, do +que tu vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que +fitas... Se eu pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus +vestidos. Invejo delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem +confidentes dos teus nervos e das tuas pulsações. Tenho ciúmes das +flores que exornam os teus cabellos, porque sómente ellas passam o +deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor. Tenho ciúmes do +fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado entre os +teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te +inebria, porque sómente elle atravessa as tuas fórmas e vai arrebatar-te +na essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque +sómente ella vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo +isto, eu quereria ser o somno que te fecha as palpebras, porque +participaria das felicidades todas dos teus sonhos; a agua que te banha +as fórmas, porque desvendaria os immensos segredos e mysterios de tua +belleza unica, e o riso que te doura o semblante, porque teria o dominio +do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do instante magico em que pela +primeira vez nos pertencemos mutuamente? São de véras muito irmans as +almas que tocam à meta de uma ventura no mesmo instante... e as +nossas duas... + +--De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o +poder de duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a +inclemencia de Nausithêa deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao +amante, no fervor do gôzo, entre os teus braços, naquella noite, +Octavio, naquella primeira noite... + +--Desgraçadamente, jà eu, então, poderia ter sentido por toda a parte de +teu corpo, o halito bafiento do outro amante. + +--O outro amante?!... Tenho-o, e é como se elle não existisse. Tenho-o +porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor, +protestam os meus seios, bem diversos na tua presença do que são na +delle. Deante de ti, as minhas pomas parecem florescer como os +jasmineiros em deliciosas noites de luar, como as laranjeiras em +uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem perdem na seccura e +esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas dos +rochedos... És a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos +labios. Elle é o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os +seus desejos... + +--Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher não se cede a um homem +sem a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer... + +--Acertaste. Não sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente +procuram por toda a parte o homem e que só ao depois de muitos descobre +o procurado? Quando topei comtigo, jà o tinha no convivio de suas +esquisitices. + +--Tu és formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam +divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias! +Quero enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos +amores... + +--Bem sei que os homens todos são uns animaes. Uns, porem, são menos do +que outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que +os cãis, nesse mistér, são os equivalentes de certos homens? E que elles +são os seres que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um cão... +Os seus labios, como os de Pan, seriam capazes de devorar as +virgindades, se as virgens recebessem os seus beijos... + +--Quero crer. + +--É um libertino. + +--Nada mais? + +--É um extrangeiro... + +--Que importa? + +--É um devasso... + +--E sómente isto? + +--Ama como um cão, Octavio. + +--E que é que faz? + +--Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me +arrastar à concessão do prazer que só vige nos seus labios? Não te +bastará a expressão do pouco que te digo? + +--Repugnante!... + +--Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante és tu!... Toda esta noite serei tua +como nas demais... + +......................................................................... + + Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus + cabellos de oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de + todas as volupias da terra, como os córnos de Almatheia foram de + todas as riquezas do mundo... + + + + +DE COMO O AVARENTO MORREU... + + +DE COMO O AVARENTO MORREU... + + Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:--uma + enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, MANUEL CARLOS proferia + blasphemias. + + Ao seu lado, a NEGRA, que era uma amante retinta, carnuda e + fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos + cautelosos a agitação do moribundo angustiado. + + Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal + percebido, a principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima + reacção da vida contra a morte. + + Nesta hora, da doença, por entre as chocantes palavras de MANUEL + CARLOS, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim dos seus dentes que + rangiam como uma lima activa sobre um pedaço de ferro... + +......................................................................... + +--E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito +dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida é um +pedaço de ouro comprado com um milhão de moedas... A morte é uma ladra +que nos furta, para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a +reunir... Sou rico! Digo-o com um cordial prazer. Tambem trabalhei como +uma alma possessa. Não houve domingo nem dia santo, que me déssem +descanso, à chuva e ao sol, alta madrugada e avançada noite... Rim... +rim... rim... rim... + +--Como elle range os dentes?!... + +--Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as +cavallariças despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como +massas de feno, nos recantos das mangedouras. Ás vezes, chovia como um +diluvio. E eu, com o corpo quente da cama, cortava o pateo, mettido no +meu capote de lan, e, menos feliz do que os meus assalariados que +ainda dormiam, tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem, +dava-me calor e forças. Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da +Beira, de onde sahi, num dia de inverno, ha mais de trinta annos. Nesse +dia, a avósinha e a mãi-Geralda levaram-me até à caza do moço que me +trouxe para aqui. Ah! Deus lhe dê o reino dos céus, jà que na terra eu +nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim... Bella pessôa, generoso +ao desperdicio... Que barulho é esse que ouço de instante a instante? + +--São os trabalhadores no terreiro. + +--Sahiram hoje os vehiculos? + +--Sahiram todos. + +--Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza. + +--Talvez os cãis... + +--Não me veiu ver hoje o _Tupy_. Tem sido esse canzarrão o meu maior +amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mãos. +Por onde andará elle que hoje se esqueceu de mim? + +--Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e... + +--Nem pense nisso: o pobre animal se ladra não morde. Vigia-me a caza e +desconhece os extranhos. + +--Ladra e assusta. + +--Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as +suas lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos. +E sempre tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de +longe mesmo, o tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em +meio de caminho. Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em +fidelidade e presteza. Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim... +rim... Nem sei como se têm feito por ahi afóra os meus serviços... E +hoje é o ultimo do mês. Se não se procurar, a terrivel corja não paga. +Nem tenho uma pessôa a quem confie esse serviço. Neste mundo só se +encontram gatunos e ladrões. Um honesto, como eu, é uma realidade rara! +Em tudo fui roubado, até na saúde. Dos poucos, das moedas de cobre, os +simples trocos e differenças nas compras, tu te assenhoreavas, porque me +dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dôce, uma +fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo +de ter deixado nas tuas mãos as economias que deviam ter voltado ao meu +capital, porque delle se despediam para sempre... Rim... rim... +rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!... +Ouço novos ruidos... Só me parece que os de agora são dentro de caza... + +--Pois quem seria? + +--Sei lá... Ouço coisas que só me parecem na sala da frente. Vai ver se +é alguem... + +--Nem precisa. A porteira está fechada, e abrindo-se ella a campainha dá +signal. Ao depois, o velho Thomé trata na estribaria dos animaes em que +montas... + +--Vai tudo muito bem, mas não me posso conformar é com esta vida de +cama. Seis dias de doença, e estou derreado como uma velha mangueira... +Inda assim, considero-me bastante feliz. Não devo nada a ninguem. E, a +mim, todos me devem. Depois de amanhan, vence-se uma letra de um +devedor: ha de querer pagar-me os juros de quinze por cento por novo +semestre... Mas elle estará enganado. Se quizer reformar, os juros +crescerão. Agora só darei dinheiros a dezoito ao mês... Serviu? Façamos +o negocio. Não serviu, passe muito bem... Rim... rim... rim... rim... +Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera de +seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres +annos. Ao depois de vencido o seu compromisso, levou engabelando-me +por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa +amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu não +mettesse advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o +conselho de que «poupa e os santos te ajudarão»... Não ganhei nunca +quatro vintens de que não guardasse tres... Não te estou dizendo? Esse +barulho é dentro de caza... + +--Desta vez não ouvi nada. + +--Então, estás surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente +andava. Rim... rim... rim... rim... + +--Não sei que especie de gente... + +--Realmente posso enganar-me. + +--Jà te convences? A esta hora, nem os trabalhadores estão aqui... Ah! +Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros não foram hoje à pedreira... + +--Miseraveis! Preguiçosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados +deixam de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, é um +prejuisão... Rim... rim... rim... rim... + +--Fiz ver tudo isto a elles. + +--E porque não trabalharam? + +--Porque morreu a moça do mestre, e este não veiu... + +--Não digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois là +na minha terra, é que se sabe trabalhar... Là trabalhariam até à hora do +enterro. Aqui encontram a razão para muitos dias de ocio. Se eu +estivesse bom, a esta hora teria tocado todos elles para a rua. Rim... +rim... rim... rim... Não gosto de vadios. Fui homem que, numa vida +inteira, não teve uma hora de vadiação. Sempre comi de chapeu na cabeça +e esporas nas botinas. Por isso guardei meia-duzia de contos. Digo assim +meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas meias-duzias guardei... +Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora? + +--Sim. + +--E então? + +--Não sabes o que foi? + +--Não sei... + +--O _Tupy_ que esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e +aos outros mandei pôr as correntes... + +--Vai soltar o _Tupy_. É inoffensivo, tanta quanto é leal e cuidadoso. +Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o! + +--Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avança +sobre elle... + +--É uma prova de lealdade. + +--Que incommoda aos extranhos. Porque não bebes o leite? Queres? + +--Leite?!... Hontem te preveni que leite é luxo e que não posso com +essas despesas... Ainda o compraste hoje? + +--O doutor mandou... + +--Rim... rim... rim... rim... + +--Ao depois, em caso de doença não ha desperdicio... + +--Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. É o leite, é a botica, +é o doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das +pernas sou senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem +recostar-me! Tenho kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se +a coisa continua assim... Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um +homem conservado e indisposto para divertimentos. Não sei como a minha +saúde estragou-se... Vai soltar o cachorro! Os seus movimentos +inquietam-me. Jà atirou outra coisa ao chão... + +--Deixa o cachorro preso. + +--Póde arrebentar mais alguma coisa, e serão novas despesas para mim... +Que afflição sinto agora! + +--Bebe o leite! + +--Dà-me. + +--Jà se devem trinta medidas... + +--Como? + +--Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e +duas à tarde... + +--Que desperdicio! Não digo! Se levar aqui um mês, o leite, o medico e a +botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me terão reduzido à +mizeria... Sabes que mais? Não quero mais leite... Supprima-se desde +hoje... + +--E com que te alimentas? + +--Com agua... É intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo +em oito dias de cama! Não é possivel. Não sou rico, não! Toca a poupar... + +--Sem o leite não poderás passar... + +--Passo, sim! Quem foi que disse que não poderei? + +--O medico. + +--Pois passo, sim. Sem dinheiro é que nada é possivel. Parece-me que se +combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um +pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim... +rim... Está muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem +sei se tomei porção igual em todo o resto da vida! É ter ganho uma +fortuna em mais de trinta annos para acabal-a bebendo leite, +pagando medico e sustentando boticas... Não quero mais leite! Rim... +rim... rim... rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella é má fé e +plano de roubo... Ah!... Lá se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em +cima: o cão preso, por um capricho, para quebrar os moveis e as +louças... Mas, esse ruido que agora ouvi muito bem... + +--Foi a mesma coisa... + +--... não foi là dentro... + +--Foi, sim! + +--Pareceu-me na sala da frente... + +--Não cuidarás de outra coisa? + +--E que seria o que cahiu? + +--Uma bacia de folhas... + +--Não!... não!... não!... + +--Que queres fazer? + +--Levanta-me aqui... + +--Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu és peior do +que um menino... + +--Aquelle barulho... Levanta-me aqui... + +--Para que? não me dirás? + +--Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como +se pegasses num pedaço de pau... + +--Assim? + +--Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro... + +--Queres muita coisa tambem... + +--Não me fazes favor... Não preciso de ninguem contra a vontade... Tenho +dinheiro para ser bem servido, e gósto que me tenham obediencia... + +--Estás muito impaciente... + +--Tira o travesseiro... + +--Prompto. Queres mais alguma coisa? + +--As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... Não estão aqui... Bem +sei agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba... + +......................................................................... + + E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer, + minutos depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu + esconderijo, como verdadeiras inutilidades... + + + + + +AO DESPIR UM PIERROT + + +AO DESPIR UM PIERROT + + A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em + que, sem acceder ao somno, CHRISTINA se divertia, mostrando ao astro + lubrico os tons roseos de sua carnação perfeita como se talhada em + marmore rozado e humido. + + Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas visões; mas + soffrendo o conflicto das ideias de uma traição de NARCISO e da + lealdade perquiridora de STELLA, a desaccordada mulher caprichou de + não durmir emquanto a espiona não tornasse do baile à fantasia. + +......................................................................... + +--Reconheceu-te, Stella? + +--Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile? + +--Não o viste? + +--Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no +baile, e, escrava dessa supposição, criaste todo um systema de +desconfianças, que começaram de traduzir-se, muito naturalmente, +naquella tua phrase. + +--Viste-o? + +--Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? Não esperavas esta noticia? + +--Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com +uma pontinha de esperança em contrario, suppuz sempre que não puzesses +os olhos sobre elle. Embora trahida, eu quereria não ser sabedora do mal... + +--Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te não +obstines em aggravar o acaecido. Não remediarás o mal, não é assim? +Pois, coração à larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as acções. +Acompanhei-o por toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que uma +_pierrot_ o acompanhasse. Se tu lhe falas, teràs de dizer-lhe quem foi +espionar-lhe os passos de homem livre... + +--É o que te parece: livre?... + +--Pois não é livre Narciso? + +--Digo-te que não! + +--O teu noivo não tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo +estado? + +--Repito-te que não. + +--Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das +vistas da mulher amada, ficam sendo o que são: homens solteiros... + +--Narciso differe dos outros... + +--Uffa!... Christina!... Vou tirando o _pierrot_ que me acalora as +carnes... + +--O noivado é um começo de intimidades, que se distendem, mais ou menos, +conforme as razões de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado +semi-escuro, onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos +assegurados na nossa posição, com a possivel presença immediata de todos +os de caza, as nossas intimidades seguem uma derrota que me dá o direito +de exigir de Narciso maiores fidelidades do que tu pensas... + +--Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o +collête... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda +ordinaria, esta! + +--Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias +das almas passaram às do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais +cedo... Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua, +os seus labios roçaram sobre os meus olhos, e os seus bigodes +produziram-me um _frisson_ nas carnes, com o qual eu me teria entregue +ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus +dedos que elle segurava entre os seus, sorriu--um sorriso mais lindo do +que um raio de sol!--e, sem o querermos, talvez, por certo +instinctivamente, os nossos labios se encontraram... + +--Vê, Christina, como ficaram as minhas calças... + +--Desbotou nellas o setim? + +--Alguma coisa. A côr amarella é mais fixa do que a vermelha... Mas, +estão para ser exprimidas... Que sudorifico! + +--Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos são de +um homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo... +Avia-te, afim de que me contes o que viste... + +--Dir-te-ei centos de coisas novas... + +--Appeteço o conhecimento do que sabes. É uma infelicidade ter-se um +pae, como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse +que eu fôra a um baile publico espionar os desvarios de meu noivo... +Ah!... Como eu seria venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte +que cubiço... + +--Nem tu calculas pallidamente o que por là se vive... + +--Apressa-te, Stella! + +--Acaba, primeiramente, o que contavas... Não quero perder a bôa hora de +confidencias que inauguraste... + +--Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os +contactos... Em seguida, as mutuas confianças, mais um arregaçamento +hoje, mais uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe +resistisse, desejou ver-me o começo das pernas... Intimidades, Stella, +intimidades, proprias, communs e infalliveis entre todos os noivos... +Eram ellas que me garantiam, até hoje, a constancia de Narciso, e, +quando vejo, como agora, que o que lhe faço jà se torna pouco para o +prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco mais, sem comtudo +deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as concessões, na +medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores... Conta, agora, +o que tu viste... + +--Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o +corpo quer distender-se nervosamente num leito macio... + +--E onde ficou Alberto? + +--O meu primo? + +--Sim. + +--Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos dois _pierrots_ +da maior sensação! Nem calculas como é deliciosa a companhia do meu +primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado +geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos. +Soube corresponder à minha excitação, não commettendo maiores pecados do +que me beijar nas passagens mais sombrias das ruas... + +--Invejo-te, Stella! + +--Bem poderias ter ido... + +--Qual nada! + +--Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois não foi? + +--Isto é fácil para ti... + +--Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?... + +--Não! + +--Ahi está! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que +vissemos... Là estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do +baile. Custei a topar com elle. Só em meio da festa deparei com elle +numa das banquinhas do _buffet_. Mais de vinte homens e mulheres... + +--Mulheres, tambem? + +--E então? Tu pensas que haverá quem resista à solidão naquelle cahos de +sensações extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho, +casado com a Lucinda, là estavam, cada qual com a sua mascarada... + +--Narciso tambem? + +--Não te espantes senão se eu te disser que elle era o unico que não +tinha uma mulher fantasiada ao seu flanco... + +--Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei +logo na traição. Aquelle semblante enfarruscado não era sincero... + +--Ao seu lado estava uma _écuyère_ italiana: deves gabar-te do gosto de +teu noivo. Não se acompanha de mulher feia. É serio... + +--Era bonita a que o seguia? + +--Linda, Christina: _mignon_, alva, loura, e, com um arrebatador decóte, +exhibindo um collo mais branco do que um pedaço de neve, do meio da +qual, como uma abelha sobre uma petala de gardénia, um negro signal era +tido como mascotte... + +--Jà agora me penso feliz por não ter ido là. + +--Que teria se tu tivesses ido? + +--Não me conteria. + +--Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu +noivo sabe gozar uma mulher. Não dirias nem uma palavra, mas lhe +acompanharias a pessôa como a sua sombra. Quando não te agradasse +fecharias os olhos. Vi-o, por exemplo, encher a bocca de champagne... + +--Nada mais natural. + +--É o teu erro. Quem não sabe é como quem não vê. Pensas, então, que +elle tomou a bebida de dentro da taça? + +--Sim. + +--Pois não! A _divette_ foi quem lhe passou o champagne collando os seus +nos labios delle... Garanto-te que não sabias deste modo de acariciar... + +--Confesso-te que não. + +--Ahi está. Verias a _droiture_ com que o teu noivo se curvou, encostou +nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e +sugou-lhe a entontecedora bebida... + +--Como deve ser bom esse carinho! + +--Ao depois, beijaram-se... + +--Aos olhos do publico? + +--Sim. + +--Ah!... Se eu estivesse là... + +--Não farias senão nada. Eu, pelo menos, nessas occasiões de grande +excesso, alli mesmo me voltava, e, se não fossem as nossas +mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos... +Não conheço, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um +conto de Caliban é menos excitante, e um par dansando é bem um conto +luxurioso escripto com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto +final de um beijo. Os corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se +entrançavam, as mãos, servindo de oppressores, estreitavam os troncos e +cada par, assim enlaçado, cabeça descahida sobre cabeça, parecia um +corpo só com a monstruosidade de quatro pernas... Exquisito, sem +igual... Homens e mulheres não se distinguiam na furia dos sentidos... + +--E Narciso dansou? + +--Não. Nem todos dansam. Á parte, pelo jardim e nas mezas do _buffet_, +os que não estavam fantasiados, se divertiam à grande, mas um pouco +retrahidos das vistas do grosso publico, porque só no salão elles +escandalisariam... + +--Todavia, vingar-me-ei... + +--Poupa-o, Stella... O pecado é divino... Vinga-te em mim... + +......................................................................... + + As duas mulheres, num longo beijo, abraçaram-se e confundiram-se, + cada qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente... + + A lua, devassamente, illuminou-lhes, até quando quiz, os seus bellos + corpos de uma semi-nudez pagan... + + + + +A TAVERNA DE MME BERTHON + + +A TAVERNA DE MME BERTHON + + No terraço do «Café Leontina», agasalhados em seus lanzudos + _pardessus_, ODORICO e WENCESLAU, dois typos mundanos, + essencialmente mundanos, conversavam surdamente... + + Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha + de sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares + cupidos por todas as bancas. + + ODORICO enlanguesceu-se, e, como uma reacção, assignalou, assim, a + passagem da exquisita-mulher com uma rememoração cruel... + +......................................................................... + +--Sempre é curioso este «Café» em materia de mulheres. Não vejo esta +«Menina Leontina», como a chamam, que não me recorde logo da +infeliz Madame Berthon. + +--E tu, meu caro Wenceslau, és bem a chronica viva de toda a feminidade +desta terra. Não ha uma mulher de quem não tenhas informações, +anedoctas, segredos, sobre quem não lances um episodio de curioso entrecho. + +--Não conheceste tambem a Madame Berthon? + +--Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo +ignorado... + +--Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a +inspiração do artista mais rude para produzir uma obra-prima. + +--Alguma divindade incognita... + +--Não, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem +a visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e +na temperança dos seus costumes, não diria jamais que era a senhora +absoluta de um corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais +inspirado... Não se julgue a felicidade dos fins pelas venturas que +povoam a estrada por que trilhamos. Muitas vezes, um momento de +tranquillidade agora é a sementeira de um incommensuravel estado de +attribulações mais tarde. Madame Berthon despejava invejas a todas as +mulheres do seu conhecimento. Desta caza tirava ella os meios de sua +subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o taciturno aspecto de +seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais ruidosa alegria, +aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum excesso dê o +rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma algoz +cambiante de tristeza. Tinha a côrte de poderosos pretendentes, mas +decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de +alguem, era, ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E, +se a ninguem promettia, a nenhum negava, e a todos faltava... +Curiosissima mulher! Os seus habitos eram os de uma leviana, mas a sua +alma contrastava com a sua existencia costumeira. Exquisita mulher, +Odorico, muito exquisita, senhora de muitos corações se tivesse querido, +entretanto escrava de um só que a levou, finalmente, à sepultura. +Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia. Um assassinio e um +suicidio... + +--Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas, +em algumas, ha a sementeira de muitos casos fataes. + +--Espera, Odorico, espera. Não condemnes a desventurada pelos primeiros +tons de sua historia. Juiz mais severo do que eu, não conhecerás, por +certo, para o julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que +veste escandalos, e que escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a +mulher é o algoz, parecendo a extrema fraqueza. Neste caso, porem, +Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se crime ella teve, foi o de amar +o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... conjugalmente, porque +nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. Ás deshoras, lá para as +tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares +cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e +recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de +enciumar-se até de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea +tão geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de +compensações: o feio é conjugado com o bonito, e reciprocamente, o +bonito com o feio... Dahi a naturalidade daquella união de Gaspar com a +Madame Berthon. Mais de noventa noites durou aquelle consorcio +espontaneo. Aqui vinha eu, e naturalmente, cortejava à mulher +gentil, espionando sempre o amante. Os homens todos, Odorico, +saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril, como os armentios saudariam, +com ardente fé, a vinda do outomno, porque é a estação das colheitas. Na +manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois amantes, là para as aguas +furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento ouccubo. Visinhos, +espicaçados pela anormalidade, attenderam ao que se passava na moradia +de Madame Berthon. Depois de acalorada discussão, durante a qual o +assassino descera as vidraças, cautelosamente, para não ser ouvido pelos +extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento +no interior daquella caza. Momentos após, Gaspar, conduzindo uma bolsa +de mão, descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia, +meticuloso e tranquillo, trancando às suas costas a entrada no sobrado +em que commettera o assassinato de Madame Berthon. E, como um homem +feliz, là se fôra rua abaixo. Quem o visse, não lhe diria o autor de um +crime, muito menos quando, no desempenho de um habito, asseiava os +botins, e olhava serenamente o movimento das ruas... + +--Revolto-me jà contra esse perverso. + +--Pois bem! O movel do crime fôra o roubo e todas as poupanças daquella +operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava +zelosamente. Em torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos +dois tiros, populares encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito, +arrastando-se como lemures ámerios em trilhas brancas de areiaes +desertos. Vozes surdas contavam as supposições de um crime; a suspeita +avolumou-se... O rochedo nú da desconfiança vestiu-se fartamente com os +ouropeis das espumas brancas dos commentarios. Pelas janellas descidas, +olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios vivos do barbaro +crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse as botas e +penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares +tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presença proxima de um +delegado. Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina +autoridade do seu aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina... +Tudo o mais foi rapido. Num instante abriu-se com violencia a entrada. +Um obstaculo appareceu: a porta estava presa, como que escorada por +dentro. Que seria que obstava o seu movimento? Uma cabeça affoita +enfiou-se por uma nesga, e voltou transfigurada, annunciando sómente: +«Está morta». Outros typos mais curiosos vieram, ageitaram-se e +penetraram com a autoridade. Estatelada sobre o chão, Madame Berthon, +numa nueza arrebatadora ainda não tinha a gelidez dos cadaveres, mas já +era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue escarlate. E sobre +as suas fórmas nuas, nada, senão as meias presas com atilios de fitas +rubras, e as pequenas sapatinhas... + +--Que miseria! + +--Já conheceste a victima. Dahi por diante a acção foi sobre o agente. A +perseguição popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros +perseguidores foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas +proprias temporas, Gaspar era um suicida... Não calculas a impressão que +esse crime deixou no meu espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e +senti que o assassino não tivesse ficado vivo para pagar com a reclusão +da vida a barbaridade do assassinio de uma mulher, cujo corpo +esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer austeros +Areopagos... se desvendado fôsse tal como eu o vi... E nota, Odorico, +que um corpo morto, por mais bello que seja, é menos do que o vivo, +porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que é o fluido mais +sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, só +naturezas muito fortes não cederão à necrophilia... Então ella que +possuia um nevo sobre o quadril direito... + +--Sensualizas tudo, Wenceslau! + +--E que é que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte, +como tu deves saber, é um pedaço de sensualismo microbiano... Quantas +fecundações damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, senão pela +força dos sexos, baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre à +instancia do amor que toparàs com a absolvição da mulher, e carregarás a +mão na dosagem da condemnação do homem algoz. + +--Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido +condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no +senhorio dos homens. + +--E como influiria tudo isto para que Gaspar não victimasse Madame Berthon? + +--Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o começo +do mundo, e é coisa que não se sabe é a data da primeira traição da +mulher, de tão distantes tempos vem ella. + +--Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa +traição do homem, e formada de uma traição, porque foi necessario que +Adão adormecesse para que Jehovah, trahindo à perfectibilidade da sua +obra, lhe tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella não +poderia ser contraria à sua origem... + +--És rigoroso demais... + +--Não sou, não, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os +dias e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo +e escreveu precisamente: «As mulheres têm sido tratadas até aqui, pelos +homens, como passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam +no meio delles: como qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil, +de selvagem, de doce, de arrebatador--mas, igualmente, alguma coisa que +é necessario engaiolar para que se não và embora num vôo»... Que é isto +senão o reconhecimento do espirito traiçoeiro de nossas Evas?... Ao +demais... estamos muito fóra dos eixos... Que bebemos agora?... + +......................................................................... + + Fóra do terraço do «Café Leontina», solemnemente encapotados, dois + policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta + noite... + + + + +INDICE + + Dedicatoria VII + Epigraphes IX + Nedda 3 + Voluptuosas 17 + O poeta moribundo 29 + O velho medico 41 + Os dois espelhos 53 + O primeiro filho 65 + Á vista da denuncia 75 + Irado até à cura... 89 + A hungara 101 + Depois do cometa 115 + Amores no claustro 127 + A Consulêza 139 + De como o avarento morreu... 153 + Ao despir um pierrot 167 + A taverna de Madame Berthon 179 + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Mundanismos, by Almáquio Dinís + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30413 *** |
