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+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30413 ***
+
+ ALMACHIO DINIZ
+
+ MUNDANISMOS
+
+ (CONTOS)
+
+
+
+
+ F. França Amado, editor
+
+ Coimbra. 1911.
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+
+
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+
+Composto e impresso na Typographia França Amado,
+rua Ferreira Borges, 115--Coimbra.
+
+
+
+
+
+MUNDANISMOS
+
+(CONTOS)
+
+
+
+
+ Obras completas de ALMACHIO DINIZ
+
+ Contos
+ Um artista da moda, Lisbôa, José Bastos & C.ª, editores.
+ Sombras de pudor.
+ Mundanismos, Coimbra, F. França Amado, editor.
+ Novellas
+ A Carne de Jesus, Lisbôa, Gomes de Carvalho, editor, 1910.
+ O Diamante Verde, Lisbôa, Guimarães & C.ª, editores, 1910.
+ Sonhos de meduza, em preparo.
+ Romances
+ Raio de sol, Bahia, em folhetins, 1903.
+ Crises, Lisbôa, Guimarães & C.ª, editores, 1906.
+ Pavões, Bahia, Fonseca Magalhães, editor, 1908 (Exgottado).
+ Amen!, Bahia, em folhetins, 1909-1910.
+ Duvidas e remorso, em preparo.
+ Theatro
+ A Escarpa, Porto, Lello & Irmão, editores.
+ Tropheus em cinzas.
+ Sazão de luz (em preparo).
+ Critica
+ O passado, o presente e o futuro do heleno-latinismo em
+ lucta com o germanismo, Bahia, 1903 (Exgottado).
+ Zoilos e Esthetas, Porto, Lello & Irmão, editores, 1908.
+ Sociologia e critica, Porto, Magalhães & Moniz, editores.
+ Da Esthetica na Literatura Comparada, Rio, H. Garnier, editor.
+ A questão das raças na literatura universal, em preparo.
+ Symbolismo
+ Eterno Incesto, Bahia, 1902 (Exgottado).
+ Sê bemdita!, Bahia, 1905 (Exgottado).
+ Lingua portuguesa
+ A reforma ortografica, Bahia, 1907 (Exgottado).
+ O evolucionismo morphologico da lingua portuguesa, Lisbôa,
+ Santos & Vieira, editores.
+ Scientificos
+ Genesis hereditária do direito, Bahia, 1903 (Exgottado).
+ Ensaios philosophicos sobre o mechanismo do direito,
+ Bahia, 1906.
+ A sciencia do direito e as producções espirituaes do
+ homem, Bahia, 1907 (Exgottado).
+ Questões actuaes de philosophia e direito, Rio, H.
+ Garnier, editor, 1909.
+ A objectividade do phenomeno juridico no direito
+ brazileiro, em pub.
+ As formações naturaes na philosophia biologica, em preparo.
+
+
+
+
+
+ALMACHIO DINIZ
+
+MUNDANISMOS
+
+(CONTOS)
+
+
+
+ Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.
+
+ ANATOLE FRANCE.
+
+COIMBRA
+
+F. FRANÇA AMADO, EDITOR
+
+1911
+
+
+
+
+A
+
+GUERRA JUNQUEIRO
+
+
+
+
+ L'art veut imiter la nature. Nous faire éprouver les sensations et
+ les sentiments que la vie nous impose ou pourrait nous imposer, tel
+ est son premier souci. Le romancier et le dramaturge comme le
+ peintre, le sculpteur comme le musicien s'essayent à faire dans la
+ fiction, comme la vie dans la réalité. Au fond de chaque oeuvre
+ d'art il y a toujours en somme--que ce soit par imitation étroite ou
+ libre évocation--une réalité reproduite de la vie.
+
+ CHARLES ALBERT.
+
+
+ O conto, assim desatavíado, exprimido, é apenas succo e, se não
+ agrada à _visão_, interessa o sentir. Falta-lhe horizonte, mas o
+ espaço, por isso mesmo, é mais vasto, sem empeços: segue-se
+ livremente a acção que a descriptiva, por vezes, compromette.
+
+ COELHO NETTO.
+
+
+
+ MUNDANISMOS
+
+
+ Le monde est frivole et vain, tant qu'il vous plaira.
+
+ ANATOLE FRANCE.
+
+
+
+
+NEDDA
+
+
+NEDDA
+
+ Manhansinha.
+
+ A sala, de azuladas paredes seminúas, estava pobremente mobiliada:
+ era no saguão da casa, e as duas mulheres entraram às tontas, até se
+ abrirem de par em par as gelosias.
+
+ SAUL, de NEDDA esposo, ficàra a dormir na alcova.
+
+ E NEDDA, abysmada com a indifferença delle que apenas lhe não
+ dirigia um monosyllabo desde a hora do facto, comprehendeu logo que
+ DONA LOURA, a sua mãe, era uma interprete das indisposições do genro...
+
+ Num canapé, as duas mulheres, DONA LOURA, archaica nas suas vestias
+ de capote e turbante, e NEDDA, deliciosamente matutina num roupão
+ branco que descansava, _sans-dessous_, sobre a finissima camizêta
+ de cambraias,--sentaram-se, afundando em concavos a palha flaccida
+ do cansado movel...
+
+.........................................................................
+
+--Esperava-te, maman, qualquer das horas. Quando vejo Saul levando-me
+entre dentes e indisposto como um burguês dispeptico, silencioso como
+uma esphynge e entristecido como um beato sem almoço, adivinho logo que
+vens por ahi como a mensageira da paz. E elle foi procurar-te hontem à
+tarde...
+
+--Exactamente.
+
+--Previ tudo isto. Ha cinco dias que nós não falamos, e, pensando-o na
+rua, hontem, vim ter aqui. Foi quando topei com elle, sentado naquella
+cadeira, lendo a Biblia, ou folheando-a, apenas... Vendo-o, assustei-me
+e não contive um gritinho de susto. Mas tornei immediatamente sobre os
+meus passos. Ha quatro annos que somos casados e nunca passamos dois
+mezes sem uma rusga. É sempre elle quem as promove com um resaibo de
+malentendido ciume. Aceito sempre o seu rompimento e nunca lhe dei a
+honra de capitular nas hostilidades. Quando ellas são de nonada, aqui
+mesmo se resolvem; mas, quando avultam como agora, elle te vai buscar
+como intercessora. Jà sei que vamos ter, como sempre, uma crise de
+amorosidades que me enfastiam. Lastimo é não conceber um filho desse
+homem para o embeiçar pela nova criatura e sentir-me menos jungida às
+suas intemperanças de... mal educado! Ás vezes, chego a ter nojo do
+senhor meu marido...
+
+--Que blasphemia, Nedda! Dizes isto do teu esposo com um sangue frio que
+me pasma...
+
+--Devias esperar isto. Cazei-me contra a minha vontade ao depois de ter
+o assedio do seu amor por mais de cinco annos. Tudo inventei para que um
+tal matrimonio não se fizesse. Por ultimo espalhei, e fiz conhecer-se em
+caza, por torna-viagem, a mentira de que Saul é um tuberculoso. Tanto
+mais eu o aborrecia, quanto a senhora e o papá intervinham, patrocinando
+a causa do moço platonico. Dá-me, na verdade, um insistente desejo de
+rir muito quando lembro os idealismos delle, seguindo a minha sombra,
+porque nunca lhe deixei o direito de enfrentar-se commigo em parte
+alguma... Expúz-lhe sempre que sonhos não me satisfaziam, nem eram para
+o meu temperamento homens vaporosos, poetas e doutores... Movi-lhe
+intensa guerra, apaixonando-me por Frederico Stöltze. Está! Com este
+provavelmente eu teria sido bem cazada. O pobre «allemãosinho» levou o
+caso muito a serio e cazou-se, logo que eu o abandonei, com uma
+defeituosa... Foi um despique, não ha a menor duvida, mas quem sahiu
+perdendo foi elle. Saul é um temperamento de phoca...
+
+--Respeita o teu marido, minha filha!
+
+--Pois não é, maman?
+
+--Essas couzas não se devem dizer...
+
+--Não tratarei de occultar o sol com a mão. Já disse e é mesmo: um
+temperamento de phoca. Só quer hybernar sobre os livros, deante dos
+quaes se abespinha como o animal sobre o gêlo. Eu, porem, quero muito
+sol, muita luz, muito calor, muita actividade... Maman, o que vocês
+velhos veem no cazamento é o interesse de collocar as filhas, porque
+ficando velhos receiam que nos tornemos muito sós no mundo. Por isso
+acontecem destas, cazamo-nos com a vontade dos papás encarnada na figura
+de um homem que não é a correspondencia de nosso instincto. Olha! Não
+intervirei nunca no cazamento de ninguem: cada qual commetta a sua
+doidice como quizer, e, se escolher um lorpa como Saul, arrependa-se
+de si mesmo e não me culpe a mim.
+
+--Tu vês no homem uma excitação, Nedda, quando devias ver uma satisfacção.
+
+--Deixasses eu escolher como tivesse querido, e estarias livre hoje
+dessas trabalheiras de paz... Saul, antes de meu marido ser, soffreu
+toda a minha repulsa. Cazada fui tolerante. Elle, no entanto, não sabe
+aproveitar-se de minha tolerancia e quer subserviencia, servidão, ou
+coisa similhante... Está enganado! Devias ter sanccionado a minha
+repulsa logo de principio. Lembras-te do convescóte dado aos chilenos,
+nas Salinas? Tu não foste, e Saul, que era apenas meu pretendente sem a
+menor esperança, moveu contra mim uma intriga terrorosa, porque viu, no
+campo, o primeiro tenente Santander amarrar os cordeis de minha botina
+que estavam difficultando-me o andar. Deves recordar-te de como
+energicamente o reprimendei, quando soube que lhe cabia a autoria do
+contado... Note-se que era apenas um pretendente, como muitos havia,
+todos suggestionados pela minha belleza pouco commum neste bairro de
+mulheres feias. Afinal, maman, que te disse elle desta vez?
+
+--Saul comprehende o amor como uma esthesia, minha queridinha, e tu o
+comprehendes como um devaneio. Isto é proprio para as meninas. Tu te
+esqueces, e nisto eu lhe dou razão, que és uma senhora escrava da moral
+esponsalicia. Contou-me o teu marido um facto em que elle te
+surprehendeu. Realmente, se as cousas se passaram como podem ser
+suppostas, e elle não quer crer, tu andaste mal.
+
+--Tu o ouviste, elle contou o acaecido a seu geito... Ouve, agora, como
+tudo se deu...
+
+--E dispensavel Nedda. O passado está passado. O que é preciso é que não
+dês lugares a aleives e que poupes os amuos. A alma dos homens tambem
+calleja. Os amuos fazem pequenos callos, mas tempo virá em que,
+callejada a alma, o amuo será definitivo.
+
+--Que teria isso?
+
+--Um escandalo, minha filha!
+
+--Para adquirir a minha liberdade maman, que tu sacrificaste, eu não me
+pouparei a um grande escandalo.
+
+--Toma juizo, doidinha. É preciso acabares com estas zangas e receberes
+o teu marido como o teu senhor...
+
+--Hein?... Não me zangarás, maman, pódes ridicularizar-me como
+entenderes... Não me darei por achada.
+
+--Não promovo senão o teu bem. Resolve a crise e sê... mulher de teu
+marido.
+
+--Jà estás julgando o feito?
+
+--Tu tens toda a razão, elle tem igualmente toda a razão. Harmonisem-se
+e sejam felizes.
+
+--Pareces-me uma juiza a Salomão, com a differença de que o rei hebreu
+ouvia ambas as partes em conflicto, e tu julgas com a audiencia de uma
+só...
+
+--Interpretas muito mal o meu genio.
+
+--Não te interessa conheceres a injustiça de que sou accusada pelo sr.
+meu marido?
+
+--Fala, minha filha! Mas tem a certeza de que, fosse qual fosse a
+accusação, eu nunca seria contra ti.
+
+--Obrigada, maman! Quero, entretanto, justiça, e que, como Saul, não
+julgues pelas apparencias. Daria a vida para saber como elle te referiu
+o que se passou...
+
+--Deixa o que elle me disse. Narra o que tu sabes...
+
+--Pois bem! Na terça-feira, maman, de combinação com Saul, resolvi
+passar uma temporada num arrabalde. E, devidamente autorisada por elle
+que me falou pelo telephono, fui à Barra correr uma cazinha vaga e
+que nos serviria. De caminho, encontrei-me com o dr. Eduardo que, ao
+depois de saber ao que eu ia, daquelle modo desacompanhada, teve a
+gentileza de offerecer-se-me para o serviço de abrir e fechar portas.
+Aceitei e foi elle quem tomou as chaves na taverna da esquina... Vê
+tu!... Não fôsse elle e teria eu de entrar numa taverna, sósinha,
+arriscada a ouvir qualquer indecencia... Ao depois, o dr. Eduardo foi
+quem abriu a porta... Como eu me ataria de luvas de camurça para fazer
+essa diligencia?... Umas chaves muito pouco asseiadas... Corremos o
+primeiro andar da caza, e, quando passamos ao sotam, o meu gentil
+cavalheiro se lembrou de, por segurança, fechar por dentro a porta da
+rua... Subimos. Mal chegavamos em cima, começaram de bater numa porta.
+Poderia eu suspeitar que o meu marido, tendo ordenado que eu fosse,
+porque elle não teria opportunidade de acompanhar-me, logo depois
+resolvesse o contrario, e estivesse a bater na porta da rua? E foi por
+um acaso que nós o vimos. Chegamos inesperadamente a uma janella do
+sotam e percebemos que era elle quem batia. O dr. Eduardo,
+desculpando-se por jà ter eu cavalheiro, despediu-se de mim, desceu as
+escadas, e, quando abria a porta, foi insolentemente aggredido por
+Saul, que lhe negou a mão para o cumprimento do estylo... Só tu vendo,
+maman, a furia com que o sr. meu esposo investiu contra mim! Felizmente,
+desafiado pela minha calma, elle não teve animo para iterar o
+qualificativo mau com que me mimoseou. Dei-lhe as costas e, se elle
+quiz, fechou sósinho a caza e veiu só...
+
+--Devias ter evitado tudo isto, Nedda.
+
+--Evitado, como?
+
+--Não acquiescendo à companhia de um homem de mà fama, como é o dr.
+Eduardo.
+
+--Adivinhasse eu que elle viajaria para a Barra naquelle mesmo bonde em
+que eu fui... Hora de trabalhos na cidade...
+
+--Recusasses os favores offerecidos.
+
+--Ora, maman! Deixa-te de coisas! Qual é a mulher que se anima à
+grosseria de recusar gentilezas de um moço de distincto trato?...
+
+--Conforme o renome desse moço.
+
+--Tem mà fama o dr. Eduardo?
+
+--Não sei, não. Dizem.
+
+--Se tem mà fama, tem maus costumes. E como é que Saul, tão zeloso de
+sua honra, admitte, no seu convivio e nas suas recepções, um homem mal
+visto? Penso que os frequentadores de nossos salões, os _habitués_ de
+nossa intimidade, sejam pessoas dignas de acompanhar-me a um ponto
+qualquer, e, se não fôsse assim, a primeira privação delles, seria a do
+nosso convivio...
+
+--Neste ponto és razoavel, sou eu a primeira a reconhecer... Mas, Saul
+referiu-me que estavas sem chapeu...
+
+--De facto. Ao depois que o dr. Eduardo se despediu, esbarrei na telha
+van do sotam, e enchi as flores do chapeu de teias... Sabendo que o sr.
+meu marido alli estava para auxiliar a reposição, tirei o chapeu e
+asseiei-o prestamente...
+
+--Diz mais elle que estavas empurpurada e que te confundiste com a sua
+chegada, ao ponto de não saberes repôr o chapeu...
+
+--Saul é um mentiroso.
+
+--Não te zangues, Nedda.
+
+--Injuriou-me.
+
+--Não dês importancia a isto e resolve-te a aceital-o pacificamente...
+
+--E elle o quer?
+
+--Porque perguntas?
+
+--Porque tão honrado elle não deveria aceitar mais a cohabitação da
+esposa deshonesta.
+
+--Não deves dizer assim, minha filha!
+
+--Aceita-me elle?
+
+--Que tolice, Nedda!
+
+--Maman, Saul deveria ter agora a minha repulsa definitiva, e não a faço
+em attenção aos teus bons officios...
+
+--Fazes muito bem.
+
+--Là vem elle descendo...
+
+--Trata-o bem, minha queridinha! Um lar que não tem esposo...
+
+--Desculpa-me, maman: só agora reparo que estou muito à vontade para nos
+encontrarmos os tres...
+
+.........................................................................
+
+ Arrepanhando, então, o bello roupão desabotoado, por cujas rendas e
+ decotes se viam as carnes luciferas de NEDDA, a mulher de Saul se
+ escapuliu, desenhando escorreita o seu impecavel corpinho de
+ esculptura grega...
+
+
+
+
+VOLUPTUOSAS
+
+
+VOLUPTUOSAS
+
+ No rêz-do-chão de um palacete, coadas as luzes do sol por arrendados
+ _stores_ pallidos, HELENA fazia somno à hora da sesta, quando MARIA
+ ANGELICA a surprehendeu adormecida.
+
+ A recemvinda impregnou o ambiente de essencia de iris, emquanto uma
+ voluptuosidade ennervante empurpurava a linda cabeça desmaiada de
+ HELENA...
+
+ Um beijo sobre os labios da desaccordada mulher, fel-a despertar com
+ um fremito de prazer...
+
+.........................................................................
+
+--De onde vens tu, Angelica?
+
+--De encommendar flores...
+
+--Flores?!
+
+--Não te recordas de que Sophia se cazará amanhan, à noitinha?
+
+--Sou uma esquecida.
+
+--E ella é credora de nossas gentilezas...
+
+--Das minhas, especialmente.
+
+--Encommendei orchidéas e chrysanthemos.
+
+--Que gosto! De minha parte vou mandar-lhe duas magnolias.
+
+--Bellas flores, realmente. Mas, a natureza esmerou-se no chiquismo das
+orchidéas. Uma catyleia é um pedaço de labios excitados por dois beijos.
+
+--Não lhes acho graça.
+
+--Ó exigente!
+
+--Flores do matto. E jà notaste que quasi todas ellas são lilazes e
+roxas? ou que se enfeitam com estrias e matizes dessas duas côres
+melancolicas?
+
+--Descobres coisas...
+
+--Mas, não é?
+
+--Realmente.
+
+--E como vais presentear uma noiva com flores lilazes?
+
+--É a moda, é o chic, é o _dernier-cri_...
+
+--Olha! Nas minhas bodas manda-me flores alvas, muito alvas,
+chrysanthemos, rosas, cravos, magnolias... Comprehendeste-me?
+
+--Se não! Agora, coisa notavel: eu te vejo com as faces pallidas e os
+olhos muito brilhantes...
+
+--De verdade?
+
+--Sim. Sonhavas?
+
+--Nem me lembro! Parece-me que sim. E tu estás intensamente corada...
+
+--Apanhei muito sol.
+
+--Os teus olhos estão pisados e languidos...
+
+--É da fadiga do caminho... Desde cedo na rua, exposta, Helena, ao calor
+que abraza e ao sopro canicular que afeia os penteados...
+
+--Jà tinha reparado: os teus cabellos estão desmanchando-se...
+
+--E eu os concertei no espelho de Esther.
+
+--Andaste là, hein? Jà havia desconfiado... Quando te vejo amollentada,
+assim, tenho razões para me enciumar... É muito descuidada a Esther.
+Cuida mal das vestimentas das amigas. Olha o teu cinto, Angelica... Está
+mal posto, a fita está retorcida...
+
+--Nem reparei...
+
+--Disto não és culpada, por certo... Eu não te deixaria sahir daqui tão
+mal-amanhada. É de causar vergonha.
+
+--Foi a pressa, Helena.
+
+--E no teu hombro a sêda está nodoada...
+
+--Nodoada?!...
+
+--Sim! Vêem-se duas curvas vincadas como os bordos de uma... Nem sei
+mesmo que diga... Parece-me que te morderam o hombro?!...
+
+--Quem o poderia fazer?
+
+--Esther.
+
+--És ciumenta! Fica sabendo: foi no jardim quando eu encommendava as
+flores. Deve ter sido agua das rozas, Helena, que aqui cahiu... Estás
+satisfeita?
+
+--Muito pouco. Quando muito, illudida, minha flor, mas não convencida...
+
+--Tu me censuras, e eu que te surprehendo com um esquisito fogo no olhar
+humido?... Terá sido algum sonho delicioso... A tua voz mesmo é
+arrastada como a de quem se fatigou num excesso de venturas...
+
+--Que venturas posso ter?
+
+--Em sonhos podemos ser venturosas como jamais seremos na vida real...
+Morpheu capricha em povoar-nos a mente com espectaculos espantosos. Ha
+vezes em que, se eu pudesse, esganaria quem me desperta... E outras
+occasiões, quando volto a mim sem provocação, sou prompta a espantar-me
+porque me accordei e não morri no meio do prazer sonhado...
+
+--Ha sonhos, effectivamente, que se não deveriam acabar... E não sentes
+calor, Maria Angelica?
+
+--Algum.
+
+--Neste caso...
+
+--Que fazes?
+
+--Dispo-me. Não me imitas?
+
+--Póde ser. Passarei a tarde comtigo...
+
+--Despe-te, pois... Tira o casaco... Desaffoga o collo desta góla
+assoberbante... Não tens geito?... Chega, que te libertarei...
+
+--Tira os alfinetes.
+
+--Usas um bom pó de arroz, Angelica.
+
+--Ui! Helena!
+
+--Que foi assim, ardilosa?
+
+--Espetaste-me as carnes...
+
+--Tambem é uma ruma de alfinetões...
+
+--É para segurar bem.
+
+--Tens uma pellugem de arminho...
+
+--Ai!... Assim não... não...
+
+--Que tens, rapariga?
+
+--Beijas-me, Helena, com uns labios quentes e gulosos... Só me déste
+vontade de...
+
+--Ui!... ui!... ui!... Fazes-me um _frisson_ de arrepiar-me os pellos...
+
+--É para vingar o teu beijo...
+
+--Porque me olhas assim, Angelica?
+
+--És de uma alvura surprehendente, minha amiga. De teu corpo rescende um
+perfume originalissimo que me entontece...
+
+--Aprendi a perfumar-me com as gregas. Li num livro que uma beldade se
+cubria de perfumes para agradar aos amantes. Eu o faço para attrahir as
+amigas como tu... Uma grega banhava as pernas numa bacia de prata em que
+se confundiam os aromas do nardo de Tharsos e do metôpyon do Aigypte.
+Nas axillas attritava mentho e sobre as pestanas e nas palpebras
+marjolana de kôs. Ao depois, a escrava defumava-lhe os cabellos
+desennastrados com espiraes de incenso, que combinava admiravelmente não
+só com a essencia de rozas de Phasêlis que lhe embalsamava a nuca e as
+faces, como tambem a bakkaris que se lhe derramava sobre os rins. E, por
+fim, entre os seios, corria o celebre oinanthê das montanhas de
+Chypre... Sei perfumar-me, Maria Angelica...
+
+--Bem se lhe pareciam as gregas, tuas mestras...
+
+--Entre os meus seios, inda ha pouco, deixei correr um fio languido do
+irresistivel Royal-Begonia, e nas axillas puz algodões embebidos na
+essencia de rozas... Nos meus cabellos derramei oleos de sandalo, para
+contrastar com as evolações das essencias de jasmins que perfumam as
+minhas vestias...
+
+--E na posse de tudo isto praticas uma mà acção, Helena!
+
+--Qual?
+
+--Essa de referires tantos perfumes e não me dares nenhum a provar... És
+avarenta, como ninguem, e eu cubiçosa de gozar...
+
+--Vai ao meu toucador e gasta do que quizeres...
+
+--Teria graça!
+
+--Porque assim?
+
+--Gósto das flores nos vegetaes, das essencias nos corpos das mulheres.
+Quero experimentar com o olfacto o odor unico que se desprende das tuas
+carnes...
+
+--Tens desejos masculinos, minha queridinha!
+
+--E é o que me faz lamentar-me: junto de uma graça não ser um Adonis,
+junto de uma Helena não ser cupido... Se eu pudesse embriagar-me com os
+teus perfumes e desmaiar de prazer entre os teus prazeres, seria mais
+feliz do que Syrinx, louca de paixão, Byblis, unica na insaciabilidade,
+ou Mnasidika, macia como um velludo... Helena, tu és uma perfeição...
+
+--Mofadora!
+
+--Mofar eu de ti?!...
+
+--Não te abraza o calor?...
+
+--Sim... Intoleravelmente...
+
+--Safa o collête... Assim... Que lindo corpo, Maria, e quantas seducções
+na tua plastica vista atravez da transparencia das gazes... Bem dizem os
+homens, sabios no sensualismo pagão, que o nú de veus é mais provocante
+do que o nú sem disfarces... Ha qualquer coisa de mystico, de irreal, na
+mulher encoberta pela semi-fluidez de um tecido fino... Se eu te não
+conhecesse os segredos todos de tuas lindas curvas, te rasgaria agora,
+impiedosamente, o veu de tua nudez...
+
+--Jà sentiste, Helena, um prazer maior do que esse das carnes livres do
+arrôcho de um collête dictatorial?
+
+--Quantas vezes?!
+
+--Tu brincas, mulher divertida...
+
+--Provo-te com a citação: despirei o meu collête e não me sentirei mais
+provocada do que contemplando as tuas fórmas semi-núas...
+
+--Es barbara, Helena! Como encarceras um tão lindo quadril dentro dos
+oppressivos liames de um collête... Ah! Como eu daria a vida por ser
+morena! O ventre alvo é uma desillusão, mas o trigueiro, como o teu, é
+um incentivo. Parece o tegumento de um fructo e provoca o instincto
+mais calmo...
+
+--Não te agrada a minha nueza?
+
+--Inteiramente. Agora, vê là se te não impressiona mal a brancura do meu
+ventre...
+
+--Ao contrario, Maria Angelica: é uma grande corolla de petalas alvas
+desenvolvida de um peluginoso calice de oiro... É maravilhoso o teu
+contorno... Dignas fórmas para a perpetuidade de uma téla ou de um
+retrato...
+
+--Deixarias tu que fôsse apanhada a tua nudez?
+
+--E porque não?... Sei que fascinaria... Queres photographar-me?
+
+--Que egoismo leviano!
+
+--Acha-o?
+
+--Sim... Photographemo-nos...
+
+--Adoravel!... Como não irradiará no _cliché_ o contraste de nossas
+pelles, o macio sombreado de um tropico sobre a tentadora alvura nevosa
+de um pólo...
+
+.........................................................................
+
+ Os olhos das duas mulheres vestiu-se com uma luz liquida como uma
+ solução de perolas e opalas.
+
+ Os seus labios permutaram cariciosos beijos.
+
+ E, horas depois, MARIA ANGELICA e HELENA, retratadas por uma aia,
+ desvendavam as suas abrazadoras nuezas à inveja de ESTHER...
+
+
+
+
+O POETA MORIBUNDO
+
+
+O POETA MORIBUNDO
+
+ Luxuoso salão de recepções: por entre cavallêtes com quadros de fina
+ pintura, em que apparecem, de par com extrangeiros, o gosto de
+ Parreira e a vocação de Prescilliano, vasos com flores, e, no meio
+ das tapeçarias, dos _fauteils_ e das luzes, um magestoso piano Ritter.
+
+ HELOISA acabou de executar, com todo o applauso do maestro
+ CHRISTOVAM DETMER, a linda fantasia--_Le poète mourant_--de Gotschalk.
+
+ As ultimas notas perderam-se artisticamente: o maestro cheio de
+ admiração e preso da infinita tristeza, dobrou-se e beijou os dedos
+ que obedeciam á grande inspiração de HELOISA.
+
+ Esta olhou-o e transfigurou-se como uma alma reflexamente
+ combalida pela dor de uma alma irman...
+
+.........................................................................
+
+--Como esse poeta, Heloisa, que o grande musico fez morrer nas notas
+bemolisadas do piano, finou-se hoje o nosso amor... Emquanto executavas
+e os teus dedos arrancavam da alma do instrumento piedoso os sons do
+passional poema lyrico, me concentrei e te affirmo que a visão não
+despresou a audição, pois vi e ouvi toda a scena, desenvolvida entre
+personagens vivas, que se moviam, se soccorriam e testimunhavam o
+desfallecimento do artista moribundo. Durante minutos que serão
+inegualaveis na minha existencia de musico, aqui estive ao teu lado,
+frio como uma estatua, hermetico como uma esphynge, e não denunciei,
+pela ruga menor de meu semblante, a dor imperiosa que me ennervava a
+existencia. Vim do gabinete privado de tua mãe, que se transformou
+pacificamente no Satan de nossa felicidade. Falei-lhe ardoroso, como se
+lhe dissesse uma aria de Beethoven, contei-lhe minucioso e preciso a
+longa historia de nosso amor. Vejo, agora, que, por vezes, fui
+minudente de mais, rememorando o platonismo inedito com que te amei a
+alma de artista e não o corpo de mulher. Ao depois de ouvil-a, vim
+inspirar-me para o sacrificio no teu talento. E saio de tua presença
+illuminado como o prescripto que recebeu o balsamo do conselho christão
+para subir em seguida ao patibulo. Dá-me, pois, o conforto de tua
+confidencia ultima: amaste-me alguma vez?
+
+--Que pergunta, Christovam.
+
+--Indiscreta?
+
+--Não; ao contrario. Amesquinhante...
+
+--Extranho-te.
+
+--Não ha razão. Porventura pensarás que te amei e não te amo agora?
+Acaso a minha mão de mulher para te ser dada dependerá de alguma coisa
+irreductivel deante de minha vontade altiva?
+
+--Sinto-me lisonjeado, de facto, com a tua constancia, Heloisa. A cor
+dourada dos teus cabellos que te faz distincta entre as cabeças bellas
+de todas as mulheres, neste instante, afigura-se-me a grinalda de luz
+com que se enfeitam as santas nos seus altares. Mas, um maestro, um
+homem que sabe musica simplesmente, que é apenas um artista, é pequenino
+de mais para ter uma pretenção de amor. Eu me pareço com esta figura
+lendaria de Kadjira que destruia as rozas por prazer. No reinado das
+fantasias de ouro e de fidalguia com que se entontecem os teus paes em
+sonhos egoistas, cheguei, como a perversa princeza turca que despetalava
+rozas, derrocando castellos, para me conter na illusão em que me
+deleitava sómente com a audiencia da negativa inclemente de tua mãe.
+Confessou-me que maldava de todo o nosso amor, desde principio. E
+porque, se assim era, protegia a ampliação de um sentimento que deveria
+ser, como os filhos defeituosos das ciganas que são atirados ás
+piranhas, destruido no nascedoiro? Antes que eu lhe communicasse,
+falou-me em que se correspondias aos meus calculos de matrimonio, era
+porque, doidivana como toda creança, jogavas a péla na orla do
+precipicio, esperando o aviso amigo para te retirares gloriosamente...
+Negarás, Heloisa, que tinhas consciencia de minha pretenção?
+Sophismarás, em favor da excommunhão que me lançou a tua mãe, e contra a
+clareza da ordem que me deste afim de se officialisarem as relações do
+affecto, que nos encaminhava de um illusorio paraiso? Responde com o
+talento immensuravel com que sempre me amaste...
+
+--Falas desatinadamente, Christovam, numa contingencia em que deverias
+possuir o maior tino dos homens.
+
+--Tens o dom solar de illuminar o mundo pelos flancos, se uma nuvem
+pesada se antepõe á sua esphera...
+
+--Sinto-me transfigurada. Amo-te ainda, e não te hei de amar fóra do
+regosijo delles...
+
+--Dos teus paes?
+
+--Sim. Acharias extranho se te dissessem que duas sementes postas em
+tuas mãos estariam vegetaes só ao sôpro de um fakir indiano. Porque
+admittirias que a minha vontade fosse forte bastante para romper a
+marcha das intenções dos meus paes sobre a minha razão de ser mulher?
+Por ventura sem o sopro do fakir as sementes germinariam e attingiriam
+as fórmas de seres definitivos? Não supporás que, sem aquelle sôpro,
+algo se realisasse. Como suppôres que sem a vontade dos meus maiores a
+nossa união se perpetraria ao teu sabôr?
+
+--Desconheço-te já...
+
+--Mas, porque...
+
+--O sophisma substitue a tua logica: o amor cedeu o posto á quesilia dos
+outros...
+
+--Esperarias o meu consorcio sem o consenso dos que me deram a
+existencia de mulher?
+
+--Nem sei de mim mesmo que te responda...
+
+--Não poderias esperar. Se eu fôsse livre, se a lagarta para ser papilio
+não carecesse de passar por ser chrysalida, nem eu te mandaria impetrar
+a sancção que nos faltou, nem os que nol-a negaram teriam razões para
+tal fazer. Aborrece-te o trovão? amedronta-te o curisco? Queres ver-te
+livre delles? Crê num Deus e pede-lhe a extinção... Infelizmente,
+Christovam, nem o trovão se extinguiria, nem o teu querer triumpharia...
+De um lado, Deus seria impotente para te dar o que pedisses porque não
+terias o direito de pedir... Só pede quem póde pedir; se se pede é
+porque de quem dá depende o pedido; e se o pedido não é dado, procura a
+causa na insufficiencia e na sem-razão de quem pediu...
+
+--Mas...
+
+--Nada adianta, Christovam. Corresponde ao meu inquerito e nega-me, se
+conservares a razão, que tenho o bom senso desejavel ás creaturas
+perfeitas. Queres responder-me?
+
+--Nada significará o que te responda.
+
+--É preciso que sejas categorico.
+
+--Pois sim: responder-te-ei.
+
+--Poderias tomar-me como tua esposa sem, obteres a minha vontade?
+
+--Por certo que não.
+
+--De minha parte a questão é outra: teria eu o direito de responder por
+mim num caso expresso de matrimonio? poderia ser unico o meu querer?
+
+--Se quizesses, sim.
+
+--Não é assim, não. Porque não me tomarias por mulher sem o meu
+assentimento? Por impoderoso deante de minha definição adversa. Porque
+não me daria eu por esposa sem o consentimento dos meus paes? Por
+impoderosa deante da pronuncia delles. Se tu pudesses alcançar de mim o
+amor sem vontade, desnecessario seria impetrares-m'a; se eu dispuzesse
+de meu corpo sem a intervenção dos que m'o formaram do nada em materia e
+em alma, nem cogitaria de enviar-te a elles...
+
+--É um dilemma sophistico.
+
+--Por que principio, não sei.
+
+--Um dia, quando eu te disse que me abrazava na sêde do teu amor,
+Heloisa, como correspondeste a esse lapso do meu instincto?
+
+--Do modo mais franco.
+
+--Sim... Dando-me apaixonadamente os teus labios para nelles, como eu
+quizesse, matar a sêde que allegava...
+
+--Dependia de mim. Dei-te.
+
+--De outra vez pedi-te um testimunho da correspondencia de tua paixão.
+Negaste-m'o?
+
+--Não poderia negar.
+
+--Exactamente. Levaste-me, com todo o carinho, a dextra ao collo, e, na
+grandeza das iteradas pulsações cordiaes, affirmaste que eu reconheceria
+a intensidade do teu sentimento...
+
+--Dependia de mim. Pratiquei.
+
+--Por fim, quando te acenei com o plano de nossa união...
+
+--Como te respondi, Christovam?
+
+--Com a primeira negaça.
+
+--Adulteras a minha intenção: cumpri o meu dever, enviando-te á maman,
+como o caminho propicio para vencer o papá.
+
+--Realmente, Heloisa. Sou um vencido.
+
+--Garanto-te, porem, Christovam, que te amo, ainda, como te amei...
+
+--Irresistivel tormento para mim: serei eternamente o artista obrigado a
+consummar uma grande obra musical sem a inspiração para a realidade do
+dever...
+
+--Desistes, então, do teu amor?
+
+--Razões me sobejam...
+
+--Que te disse, afinal, a maman?
+
+--Isso mesmo. Falou-me em que queria um marido para a sua filha e
+lembrou-me que um musicista não compõe sem ter inspiração...
+
+--Nada de mais, Christovam!
+
+--Talvez não queiras comprehendel-a... Mas é tudo que se póde allegar
+contra um homem...
+
+.........................................................................
+
+ E, louco pela musica, inconsciente quasi, CHRISTOVAM DETMER
+ assentou-se ao piano e executou, irreproduzivelmente, a esquisita
+ criação de Gotschalk, ao depois do que, ceremoniosamente, se
+ despediu de HELOISA...
+
+
+
+
+O VELHO MEDICO
+
+
+
+O VELHO MEDICO
+
+ O mostruario exhibia, garbosamente, os artigos da moda rigorosa.
+
+ ESTEPHANIO e JUDITH--esta desprendendo-se de si no devotamento ao
+ esposo, e aquelle, dominador da mulher vencida em mais annos, como
+ se lhe tivesse o corpo de cór, curvas e linhas, luzes e
+ perfumes--gozavam o esplendor dos luxos, com que o artificio corrige
+ os defeitos da Natureza e apaga os estragos do Tempo...
+
+ MARCO ANTONIO--o medico afamado--cofiando as ennevoadas barbas em
+ que se escondiam as illusões do seu poder curador, arrancou os
+ olhares dos dois esposos, e apoderou-se, com fascinante dominio, de
+ suas attenções...
+
+.........................................................................
+
+--Bem póde a therapeutica dos homens... Vejo-o restituido ao fulgôr da
+mocidade...
+
+--É exacto, doutor, passo agora sobre as molestias como a insensivel
+salamandra por sobre chammas... Descrendo da causa, não posso
+affectar-me com os seus effeitos: a sua medicina é a criadora das
+humanas torturas. Parece-me que jà se disse: «Tirem os medicos e as
+enfermidades desapparecerão»... Mas, eu digo: fugi delles e estou
+curado. Deem-me milhões de medicos e estarão formados trilhões de doenças.
+
+--E quem te curou, meu caro?
+
+--A natureza...
+
+--O novo deus pagão...
+
+--Assim diz o dr., mas, de facto, a inexgottavel fonte de poderes
+curadores. Lembra-se de que o procurei exasperado com o que soffria?
+
+--Lembro-me, sim.
+
+--Foram tantos os diagnosticos que jà perdi o direito de dar-lhes autorias.
+
+--O sr. era verdadeiramente um doente.
+
+--E o dr. escreveu uma longa lista de medicamentos para horas certas e
+invariaveis.
+
+--Realmente.
+
+--Pois confesso-lhe: não fiz uso de um só. Tambem o doutor não foi o
+ultimo medico que me assistiu. Ainda hoje louvo-lhe a sua acuidade na
+inspecção. Nada faltou à sua perspicacia, senão comprehender que, no meu
+estado, as suas perguntas eram outras tantas suggestões e novos
+symptomas para a aggravação de meu mal. Eu vivia desvairado na vontade
+de accusar males crescentes, e os meus assistentes porfiavam em
+illustrar-me em torturas ineditas.
+
+--Afinal... quem te curou?
+
+--Dir-lhe-ei tudo, de começo. Hygia, a deusa da saude, não é de todo mà...
+
+--A historia vai ser a mesma de todos os doentes restabelecidos:
+salvaram-se pela acção do dedo de Deus, como teriam morrido pela
+intervenção do doutor...
+
+--Creio que o sr. adianta um mau conceito. Não me tenho na conta dos
+casos communs.
+
+--Desculpe-me.
+
+--Pois não! Mas, a minha doença foi uma criação dos meus medicos, e a
+minha cura proveiu de minha inabalavel resolução de abandonal-os. Eu
+estava em ultimo grau de desengano quando o doutor foi chamado. Voltei
+assim às mãos de um allopatha. Homeopathas e feiticeiros nada
+fizeram de resultado para minorar os meus padecimentos. Quando adoeci,
+aos vinte e tres annos, foi numa convalescença de enfermidade
+effectivamente assassina: o amor. Eu tinha conseguido, pela vez
+primeira, objectivar uma paixão. E, não só isto: tivera, com todo o
+delirio proprio da idade, a posse facil, e passageira contra a minha
+vontade, de uma mulher amada. O mundo inteiro concentrou-se, ao meu
+sentir, nos violentos pezadelos de minha carne inexperimentada. Foram
+sessenta dias, mil quatrocentas e quarenta horas, ou oitenta e seis mil
+e quatrocentos minutos de frenetico jogo de instinctos, durante os quaes
+as paradas assediaram-me a alma, remontando as fichas do meu gozo ao
+maximo possivel. O prazo desse amor fôra, entretanto, fatal. Exgottou-se
+e a mulher fugiu-se-me dos braços como a espiral do fumo que procura as
+alturas. Ao depois disto, separado do entretenimento carnal, que me
+combalia as fibras, como a agua que vai abalar as galerias subterraneas
+para derribar as minas, tive a sensação do remorso de um grande crime...
+
+--De um crime delicioso...
+
+--Talvez, doutor.
+
+--E então?
+
+--Encegueirado pelo amor, o mundo ficou às escuras sem a luz do olhar
+della. Quiz correr nas suas pégadas, e senti-me tolhido como a voz na
+garganta do atormentado por um pezadêlo. Vi em todos os convivas de
+minha existencia, terriveis sombras fantasticas... E tudo findava sempre
+num choro convulso, durante o qual me punha a tremer com tanta violencia
+quanta fazia extremecer todo o assoalho de minha alcova e soar fóra de
+tempo a campainha do relogio sobre a meza... Senti-me muitas vezes
+balançado como a espherasinha de madeira que anima o trillo dos apitos...
+
+--É curioso, de véras, o seu caso.
+
+--Foi, doutor.
+
+--Sim! Foi! E hoje sinto não lhe ter visto nesse tempo originalissimo.
+
+--Mas viu-me um outro medico e diagnosticou-me: um paranoico.
+
+--Paranoico?
+
+--Exactamente, doutor, e và vendo. Aconselhou que eu me tratasse com
+banhos de luzes. Escravos do sentimentalismo clinico desse primeiro
+medico, os meus paes exgottaram uma fortuna e eu fui enormemente
+banhado, a contragosto, com luzes de todas as côres. Era inocuo o
+tratamento para me fazer bem, mas foi uma aggravante dos meus males
+Exacerbei-me. Os meus nervos polarisaram-se como se aguçados por alta
+dose, mas não toxica, de strychnina. Veiu um segundo medico--jà a esta
+hora e ha muito tempo--victimado por uma embolia cerebral. Olhou-me e
+disse, carrancudamente, deante de uma das minhas crises de saudade
+carnal: «são delirios epileptiformes»... E o tratamento passou a ser
+feito com altas doses de bromurêto. A minha ennervação deprimiu-se, e
+tornei-me um atoleimado, tanto que nem pranteei a morte de minha mãe,
+desgostosa com a minha tragica existencia... Novo medico; vim a ser um
+simples neurasthenico, com atonias nervosas. Reconstituintes, passeios,
+boas alimentações, prazeres, etc.: nada, porem, matava as saudades do
+meu instincto animal. Comecei de padecer do estomago, ora por excesso de
+alimentação, ou por escassez... Fui um dispeptico, padeci de insomnias,
+tornei-me um narcoticomano. Na insomnia, senti faltas de ar: novos
+medicos e fui um cardiaco, um arterio-schlerotico... Abusaram de iodêtos
+e tive hemoptises. Um Esculapio chamado às pressas, levando em conta a
+minha magrêsa, o sangue exvasado dos meus pulmões e o historico dos meus
+soffrimentos, num rapido prognóstico, annunciou a minha morte breve,
+por força de adiantadissima tuberculose. Quando os doutos senhores me
+interpellavam, nunca tiveram o escrupulo de ouvir-me no que soffria
+sómente: suggeriam-me cousas que só dalli por deante eu começava de
+sentir. E veiu um curador homeopatha: os seus remedios ingeri com
+facilidade, pela falta de sabor. Cahi num abatimento nervoso, e um
+visinho, que se enforcou dias depois porque se sentiu arruinado nas suas
+forças commerciaes, lembrou que os maus espiritos encostados aos corpos
+de pessôas novas, faziam artes do demo... E não só apresentou a
+conveniencia de ser eu rezado, como tambem foi buscar uma velhinha,
+encarquilhada e bronzea, que, de sobre o meu corpo, deitado de bruços na
+cama, exconjurou o meu malfeitor, com um galho da famosa arrudeira...
+
+--E nem rezado, sr. Estephanio?
+
+--Para o doutor ver! Nem rezado!
+
+--É unica a sua historia.
+
+--Creio que sim, mas verdadeira. Notou-se, ao depois, que eu tinha mau
+funccionamento renal... E foi quando o sr. foi chamado.
+
+--Assim acaeceu.
+
+--E inda pensa o doutor que eu tivesse affecção nos rins?
+
+--Se me não falha a memoria, effectivamente.
+
+--Pois escute: logo depois de sua intervenção, repudiando eu os
+medicamentos que o doutor indicou largamente, dois collegas seus foram
+trazidos em conferencia.
+
+--Que disseram elles?
+
+--Discordaram preliminarmente do doutor, e discordaram entre elles
+mesmos. Do doutor discordaram reputando sãos os meus rins.
+
+--Sãos, ou curados?
+
+--Curados, não. Inattingidos até àquella data. E firmaram o diagnostico
+de uma hepatite aguda, um encontrando atrophia do orgão e o outro
+hypertrophia.
+
+--Mas, afinal, acertaram?
+
+--Suppõem que sim, porque ao depois da assistencia delles recuperei a
+saude.
+
+--É espantoso, meu caro senhor.
+
+--Não é, não, doutor. Ao tempo em que descri dos medicos, tinha
+reapparecido a mulher que eu amára. Visitou-me. Inflammamo-nos, e...
+estamos casados, não foi assim, Judith?
+
+--Parece-me!
+
+.........................................................................
+
+ Assim exclamou, apenas, a seductora mulher, com os olhos espelhando
+ o enfeitiçamento de um lindo _manteau_ exposto no mostruario de
+ modas e confecções... emquanto o velho Doutor enrugava solemnemente
+ a espaçosa fronte...
+
+
+
+
+OS DOIS ESPELHOS
+
+
+OS DOIS ESPELHOS
+
+ Depois de mandar retirar-se a criada, VIOLANTE foi, pé ante pé,
+ fechar a porta do salão de jantar que deitava para a copa, e veiu
+ sentar-se junto do esposo com um olhar esbrazeado e as mãos
+ profundamente geladas.
+
+ SIMEÃO, o esposo, estava transfigurado: um tremor esquivo no canto
+ dos labios e o retorcer teimoso dos bigodes, illuminavam-lhe as
+ feições com um clarão colerico.
+
+ Ao depois de sentada ao seu flanco, impulsionando para traz a
+ cadeirinha de balanços, VIOLANTE provocou-o...
+
+.........................................................................
+
+--Faze a tua scena.
+
+--E não é sem tempo.
+
+--Porque te deixaste enganar se sabias de ha muito e se não é sem tempo?
+
+--Facilidades.
+
+--Os grandes generaes perdem sempre as batalhas porque facilitam. E o
+homem cazado não tem direito a facilidades.
+
+--Bem o sei... Quando penso no erro do meu casamento, soffro mais do que
+Orestes no remorso do seu crime lembrado sempre pelas erynias. Uma
+existencia inteira para passar escravisado aos laços de uma união
+infeliz!... Maldita hora!
+
+--Ah!... ah!... ah!... ah!...
+
+--Sorris...
+
+--E então? Hei de chorar para te sentires bem na oppressão que me fazes?
+
+--A minha vida depois que me senti enganado...
+
+--Não tem sido menos nem mais infernal do que a minha depois que conheci
+o teu adulterio...
+
+--Insultas-me ainda em cima, Violante?
+
+--Não te insulto. Repillo as tuas aggressões, termo por termo. O que eu
+digo é que o mesmo direito que tem o homem de trazer o corpo escarolado
+e perfumoso para agradar às amantes, tem a mulher de...
+
+--Não dize, Violante, a indignidade!
+
+--Porque não dizer as cousas como ellas devem ser? Só depois que senti a
+tua ausencia do lar...
+
+--E confessas o delicto?!...
+
+--... só depois que conheci a tua amante...
+
+--Mentes, mulher!
+
+--... só depois que fui ver onde entras, todas as manhans, quando daqui
+sais...
+
+--É horrivel, Violante!
+
+--... só depois de ver-te partir de là e a tua concubina despedir-se de
+ti com um olhar de escandalo e tu com gestos de lastimavel escravidão...
+
+--Tu viste?
+
+--Sim... só depois de ter a certeza de possuires uma amante...
+
+--Poupa, Violante, essa phrase...
+
+--... rendi-me voluntariosamente a um dos muitos homens que me faziam a
+côrte, sabendo-me uma mulher, infeliz como outras muitas, esquecida no
+lar pelo marido libertino...
+
+--É demais!
+
+--Porque tu o quizeste. Abandonaste a tua caza. Dias inteiros passei num
+isolamento de aborrecer. Entretanto, fôra diverso o teu proceder nos
+primeiros tempos de nosso casamento. Quando sahias, mal eu te pensava
+na rua, mal eu começava a sentir a tua ausencia, estavas de volta.
+Fui-me habituando a essa constancia ficticia. No dia em que te
+retardaste, pela primeira vez, chorei e nem soube, porque nunca te
+perguntei, a hora em que tornaste da rua... Onde estiveste? Nunca quiz
+saber. E, até hoje, nunca te pedi a menor palavra sobre o teu
+procedimento...
+
+--E como homem, senhor pleno de seus actos, eu te negaria informações.
+
+--Pois bem! Para evitar essa negação, nunca t'as pedi, sciente e
+consciente de que sobre o meu procedimento, dentro do nosso lar, não te
+devo satisfacções... São ellas por ellas...
+
+--Abusas...
+
+--Corrige-me se puderes... Não és o meu marido?... Toma conta dos meus
+actos! Soubeste que te trahi?... Mata-me, ou expulsa-me de teu lar. Faze
+o que entenderes, certo de que atraz de mim haverá quem vingue as tuas
+incontinencias e perversidades...
+
+--E sabes quem é a minha amante?
+
+--Se sei, Simeão?!...
+
+--Crias um conhecimento para justificares a tua falta. Mentes, pois: não
+conheces ninguem...
+
+--Só com o rizo!... Ah!... ah!... ah!...
+
+--Toma tento, Violante: enveredas por um caminho em que a minha
+paciencia se exgottarà afinal...
+
+--Ainda em cima me ameaças?
+
+--Sou senhor dos meus actos, dono de minha caza, e exijo que me
+confesses tudo... Quem te mentiu que tenho uma amante?
+
+--Ninguem!
+
+--Ninguem, como?
+
+--Desconfiei e fui ao teu encalço...
+
+--Não falas a verdade, Violante.
+
+--A certeza das coisas é adquirida quando nos abeiramos dellas.
+Molestias mortaes, por miasmas exhalados dos paúes, só as contrai quem
+lhes vai à beira. Acompanhei-te os passos... Foste ao suburbio...
+Olhas-me agora atravessado? Nega então que te falo a verdade como ella
+é?!... Por favor, desmente-me, se és capaz...
+
+--Juro-te que não sei do que se trata.
+
+--Perjuro!... Então, toda a manhan não vais daqui à caza de Idalia...
+Não me interrompas, não... toda a manhan, não passas là horas
+esquecidas, quando sais não fica ella por traz da gelosia a acenar-te e
+tu a corresponderes-lhe os acenos de apaixonada despedida?
+
+--Ousada! Alem do mais, injurias à mulher de um amigo da nossa
+familia...
+
+--E que é a tua amante...
+
+--Pois se é, está tudo muito bem... Escolhi-a por minha muito livre
+vontade... Constou-te jà que eu tivesse desrespeitado o nosso lar? As
+minhas obrigações maritaes concluem-se, quando saio, na porta da rua, e
+começam, quando entro, no mesmo ponto em que as deixei... Portas a
+dentro, estou eu cazado, e arrependido de ter renegado a Jessy a quem
+jurei culto eterno, alias, em tempos melhores... Casei por uma
+supposição de momento: a solidão de solteiro era um suicidio de todos os
+dias. E só não me enganei em suppôr que o matrimonio me facilitaria
+relações difficeis antes de ter as qualidades de senhor duma mulher... O
+mundo inteiro me foi pequeno sempre que tive em mente a tua companhia,
+e, inda hoje, Violante, se me lembro de ti, o maior prado é um pequenino
+jardim, o maior céu é a entrada de uma furna... A companheira é um
+tormento. Tomei uma amante... mas, dentro desta caza, fui sempre o mesmo
+homem respeitador...
+
+--Outro tanto te allego eu... Mentirá aquelle que disser me ter visto,
+sorrateira ou clandestinamente, embuçada ou mascarada, penetrar em
+lugares escusos, ou ao lado de algum homem que não fôsses tu...
+Casei-me por inexperiencia... Suppuz ser inextinguivel a paixão
+momentanea que ditou o acto de meu infortunio... Escravisei-me emquanto
+o meu marido tambem foi meu escravo... Libertou-se elle, libertei-me
+eu... Adquiriu uma amante...
+
+--Retem-te, Violante!...
+
+--Não! Hei de dizer-te como tu me disseste... Ninguem póde viver longe
+do pecado depois que pecou uma vez... Tambem tenho um amante, sr. meu
+marido!...
+
+--Intoleravel!
+
+--Tambem tu o és!
+
+--Adultera!
+
+--Deixemo-nos, Simeão, de apodos... Tenho lingua e liberdade para t'os
+devolver todos, um por um...
+
+--Saber-me trahido...
+
+--Nada mais natural: queimou-te a braza com que me queimaste... Quando
+nada, não terás de lastimar a alarvidade da tua esposa... Foi uma mulher
+digna do marido que lhe deram...
+
+--Sinto faltar-me a luz da vista...
+
+--Impressões, Simeão.
+
+--Pois é justo que me consinta enganado?
+
+--Não nos deshonramos...
+
+--É um consôlo ridiculo.
+
+--E que dirias tu se trahida eu não te trahisse igualmente?
+
+--Diversa é a situação do homem, Violante.
+
+--O casamento nivela os direitos de ambos os sexos... Espontaneamente
+nos submettemos a esse regimen de igualdade...
+
+--Doloroso!
+
+--Assim exclamei, Simeão! Agora, porem, me sinto melhor: não me
+enganaste, e isto deve ser glorioso para ti, enganamo-nos...
+
+--E o teu amante?
+
+--Dispensa sabel-o...
+
+--Ah!... Repillo a lembrança que me occorre... Não, não é possivel!... O
+massagista...
+
+--Rende justiça à tua mulher, Simeão! Pois não vês que eu me não
+vingaria de ti amando um homem indigno por todos os titulos, que te
+fizesse córar perante a sociedade, e que me fizesse enrubescer deante de
+ti?
+
+--Então... Desabafa-me!... Sê completa!
+
+--Insistes em conhecer tudo?
+
+--Não duvides que o quero de coração.
+
+--É Lourival...
+
+--O marido de Idalia?...
+
+--De certo.
+
+--Ah! como somos, do modo mais vil, dois espelhos que se reflectem
+conjugadamente...
+
+--Mas eu estou vingada...
+
+.........................................................................
+
+ Interrompendo-os, a criada de copa, do lado de fóra do salão,
+ perguntava aos harmonisados esposos, se podia servir o jantar...
+
+ E quando a sala se reabriu, reinava alli completa paz...
+
+
+
+
+O PRIMEIRO FILHO
+
+
+O PRIMEIRO FILHO
+
+ Na secretaria fôra extranhada a falta primeira de ORLANDO, assiduo
+ até não se ter ausentado do serviço no attrahente dia do matrimonio.
+
+ O DIRECTOR do esposo de OLIVIA era reconhecido à assiduidade do
+ moço, e, por duas vezes, determinàra o seu accesso por merecimento.
+
+ Ao penetrar na Repartição depois da primeira falta, todos os olhares
+ recahiram no conceituado funccionario, que, perturbadamente, se
+ entregou ao trabalho sem explicações.
+
+ Mas, horas depois, na intimidade do gabinete reservado, ORLANDO e o
+ DIRECTOR entravam em confidencia...
+
+.........................................................................
+
+--Ah! Sr. Director!
+
+--Estiveste doente?
+
+--Não, não foi doença minha. Antes o fôsse...
+
+--Trocaste o dia?
+
+--Como assim?
+
+--Levaste à conta de um domingo a quinta-feira de trabalhos?
+
+--Tambem não!
+
+--Viajaste a negocio?
+
+--Qual, Sr. Director! Os meus negociou são sómente os de meu dever aqui
+dentro...
+
+--Não sei explicar a tua falta.
+
+--E eu careço de coragem para dizer...
+
+--Tão futil não ha de ter sido o motivo.
+
+--Eu conto. Foi o meu primeiro filho...
+
+--Felicito-o desde jà.
+
+--Obrigado, Sr. Director. Eu tinha a certeza de sua generosidade.
+Conhecendo bem a fraqueza de Olivia, tive receios de deixal-a só quando
+se manifestaram os primeiros incommodos do parto. E confiando em que o
+acontecimento cedo me daria liberdade para saltar à repartição, fui-me
+deixando ficar, ora mais embebido nos cuidados que a parturiente exigia,
+ora menos descontente com o que se ia passando, até que, só na madrugada
+de hoje, após vinte e duas horas de labutações, se concluiram os
+trabalhos...
+
+--Fiquei verdadeiramente atordoado com a tua ausencia.
+
+--Não menos me senti eu, Sr. Director, quando, pela manhan de hoje, cahi
+em mim e vi que faltàra hontem improficuamente, porque...
+
+--Ora, Sr. Orlando! Uma falta não inflúe, tanto mais quanto fui o
+primeiro a não mandar que se a notificasse. Tenho o bom senso de saber
+corresponder ao valor dos meus funccionarios.
+
+--Fico embaraçado... Nem sei como lhe agradeça... Ao depois das torturas
+porque passei, era natural que Deus me désse o allivio de uma honra como
+a que o Sr. Director acaba de conceder-me.
+
+--E a senhora ficou sem novidade?
+
+--Pouco mais ou menos, Sr.
+
+--Talvez precisasses do dia de hoje para lhe fazeres companhia...
+
+--Qual nada!... Faltar hoje?...
+
+--Não digo isto.
+
+--Então...
+
+--Obter uma dispensa de serviço...
+
+--Nem pensar é bom, Sr. Director. Se me déssem licença eu hoje emendaria
+o dia com a noite para descontar o atrazo de hontem...
+
+--São excessos, Sr. Orlando. É justo que um chefe de familia precise
+dessas lacunas no serviço para gozar mais largamente as venturas de seu
+lar.
+
+--Estas, francamente, eu só poderia gozar se Olivia tivesse sido feliz
+no acontecido.
+
+--E não o foi?
+
+--Absolutamente, Sr. Director. Mas, antes de tudo, a obrigação.
+
+--Qual foi o medico?
+
+--Foram apenas dois: o dr. Oscar e o dr. Lucio Trevo.
+
+--Bons medicos, sem duvida.
+
+--E que hão de pedir caro, carissimo, porque realmente trabalharam como
+um horror...
+
+--Mandarei dar-te uma gratificação para cubrires com ella os
+extraordinarios desse acontecimento inquietador.
+
+--Não aceitarei, Sr. Director.
+
+--Porque assim?
+
+--Não é soberbia, não. Desculpe-me, mas eu não posso aceitar.
+
+--Quereria ter as razões dessa sua desattenção...
+
+--Não é desattenção, Sr. Supponha que eu aceito. Desfaço-me das minhas
+difficuldades graças ao seu procedimento generoso. Veiu-me um segundo
+filho, nas mesmas condições difficeis do primeiro. O Sr. descuida-se e
+eu não obtenho nova gratificação. Naturalmente me enciumarei com o seu
+procedimento e o que não quero hoje, não devo esperar amanhan... Pois
+não é?
+
+--Eu daria do melhor grado.
+
+--Sei disto. Hei de habituar-me a cozer-me com as linhas que tenho... Ao
+depois, se a parturiente inspira cuidados...
+
+--Não se ficou bem ella?
+
+--Acho que não. Ao depois do parto, começou de ter desmaios consecutivos...
+
+--E o que recommendaram os medicos?
+
+--Repouso. Ó Sr. Director: eu nunca tinha visto um parto... A mulher é
+uma inditosa, porque em momento nenhum da vida um homem soffre o que
+Olivia padeceu.
+
+--Pois penso que devias retirar-te.
+
+--Não devo, Sr. Director. O lar é uma preoccupação para fóra das horas
+da secretaria.
+
+--Até o serviço poderia lucrar com a tua ausencia...
+
+--Perdão, senhor, mas...
+
+--Admiras-te? Não queria falar-te com tanta franqueza para não te
+consumires ainda mais...
+
+--Por acaso commetti alguma outra falta?
+
+--Gravissima... Sabes porque te chamei?
+
+--Lealmente ignoro.
+
+--Porque te desconheci. Estás um desconchavado e erras todo o serviço.
+Pelos teus grandes creditos, és aqui dentro um rico de odios e de
+invejas. Conheço-os todos...
+
+--Agradecido, Sr. Director.
+
+--Cada companheiro teu é um vigia de tudo quanto fazes para diminuirem
+com os teus lapsos o teu valor. Não o admitto eu.
+
+--Mas, que fiz assim?
+
+--Erraste a somma de uma conta e o thesouro reclama contra a tua
+informação.
+
+--Oh!... Esta cabeça...
+
+--A conta de Silva & C.ª...
+
+--Sei!... sei!... Então... errei-a?
+
+--Inconvenientemente.
+
+--E sei porque perpetrei o engano...
+
+--É o que tu pensas...
+
+--Por ventura outro me corrigiu?
+
+--Absolutamente não. Serás tu mesmo quem fará este trabalho ao depois...
+
+--Porque não hoje?
+
+--Estás dispensado, incondicionalmente, do serviço por tres dias...
+
+--Não me conformo, Sr. Director.
+
+--Sou irrevogavel.
+
+--No maximo me satisfarei com o dia de hoje.
+
+--Serão tres dias irreductiveis, e pódes ir para a companhia de tua
+esposa descansar a tua cabeça. Vejo-te perturbado enormemente com o
+pensamento do que possa ella estar soffrendo a esta hora... Vai, anda!
+
+--Dá licença?
+
+--Pois não.
+
+--Ás ordens do Sr. Director.
+
+--Ah!... Sr. Orlando?
+
+--Sou todo ouvidos.
+
+--Escapou-me de perguntar-te: o teu filho? é homem?
+
+--Perdão, Sr. Director... Mas... não lhe sei responder... Com a
+atrapalhação da hora não me lembrei... Ah!... sim...
+
+--Que respondes?
+
+--Desculpe-me, Sr. É justo que eu tenha me descuidado tanto?!... Nem
+verifiquei, Sr. Director, se sou pai, ou...
+
+.........................................................................
+
+ Sorrira o DIRECTOR e dispensàra de vez ORLANDO, com a inveja
+ crescente de todo o funccionalismo bisbilhoteiro e ignorante dos
+ factos...
+
+
+
+
+Á VISTA DA DENUNCIA
+
+
+Á VISTA DA DENUNCIA
+
+ O interior da envidraçada varanda, exornado com ipoméas e glycinias,
+ em cacos, orchidéas e arums nos recantos, não tinha senão a luz
+ pallida, muito pallida, de um luar de inverno, coado preguiçosamente
+ pelos vãos das grinaldas verdes.
+
+ Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma commettia a
+ indiscreção de transportar para alem, ao conhecimento da criadagem
+ bisbilhoteira, os amuos graves de CLOVIS e AMARYLLIA.
+
+ A denuncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de
+ ferro, destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos
+ grosseiros perpetrados pelas mãos violentas de CLOVIS, que,
+ distrahindo-se um pouco com as fumaradas de um havana, ouvia,
+ sem intervenções, as queixas de AMARYLLIA...
+
+.........................................................................
+
+--Como eu, tão ladina para outras, comprehendendo tão bem o mal alheio,
+deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amavel hoje, tinha sido
+um presente valioso hontem, era uma lembrança expressiva amanhan... E o
+meu filhinho servindo de _passe_ para os maiores engodos!... Toda hora o
+telephone pedia Arthurzinho. Là se ia o innocente, coitadinho! E
+raramente voltava. Prendiam-n'o dias seguidos com a ama. Poderia eu
+desconfiar do embuste? Ha genios capazes de todas as villezas. O filho
+era o motivo da entrada do pae, os presentes eram as cinzas nos meus
+olhos, e os convites eram a perfidia da traiçoeira. Mas, agora, ou eu
+succumbirei, ou estará tudo acabado. Ouve-me bem, Clovis: nesta caza,
+emquanto eu viva fôr, Carlota jamais tornará, e se tu desceres à
+indignidade de voltar à caza dessa mulher, ouve bem! Serei eu quem irà
+buscar o tolo do esposo para te surprehendermos na sordidez. Sempre são
+os interessados nas causas os que por ultimo se sentem logrados. _Il
+n'y a qu'un mot pour dire les choses._ Essa palavra não devo, porem,
+proferir sem macular os meus labios, sem regosijar o meu enganoso
+marido, e sem elevar a perdida que me furta a tranquillidade, que me
+logra no dom legal da fidelidade esponsalicia. Um dia desconfiei. A ama
+de Arthurzinho levava um pacote às escondidas, quando, para castigo,
+elle rolou ao chão, na hora da partida, quasi aos meus pés... Perguntei
+à cumplice que significava aquelle _embrulho_... Foi o sr. Clovis quem
+tomou a palavra: «é um romance que mando, a pedido, para D. Carlota
+ler...» Ingenuamente me convenci. Pois seria possivel que o meu marido
+trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraiçoava? que expuzesse
+o meu filho à infamação de ser posto junto à perfida, em lugar de seu
+pai gozado?... Ó meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me
+e vejo-me só. Roubada naquillo porque mais zelos e mais ciumes alimento,
+eu que me tenho submettido machinalmente à concepção de treze filhos,
+exgottando a minha juventude para parecer velha aos trinta e dois annos,
+assassinando a minha belleza, relaxando os meus tecidos, criando uma
+ruga nova em cada manhan em que me olho ao espelho!... para ser
+recompensada duramente com uma traição, uma tripla traição, em que se
+envolveram as minhas lealdades de esposa, de mãe e... de amiga. Sim,
+porque, desgraçadamente o digo, tolerei a concubina de Clovis na
+intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por força dessa leviandade
+commum a todas as mulheres, terei dado causa de rizo à maldita que me
+engazupava. Contava-lhe os meus esforços para trazer sempre o meu marido
+na obrigação pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o
+recebia com intimas indisposições, para que regeitado uma feita elle se
+não atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a duvida de sua
+saciedade noutra fonte... Não sei onde estava escondido o sol de minha
+comprehensão que agora recenna a minha intelligencia. E uma miseria
+moral essa em que se prostitúe, com o conjuge das outras, uma velha,
+desrespeitadora das cans do esposo e da innocencia de suas filhas. Havia
+de ser là, naquella alcôva cheia de seducções, que o meu companheiro se
+convertia em assassino da paz de minha alma. Aos olhos daquellas tres
+criancinhas--mulheres faceis, por herança, que desabrocham nos comoros
+lamacentos da podridão materna--elles dois se encaminhavam do leito,
+quantas vezes Clovis ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o
+ardentemente com o nome de pae! Bemdito o poeta que jà disse estar ao
+lado de cada homem uma féra monstruosa: o instincto. E esse poeta foi o
+meu proprio esposo, accusando toda a humanidade com o seu proprio mal.
+Foi preciso que uma generosidade extranha me avisasse para que eu
+conhecesse essa nova Mylitta babylonica, torpe, pantano no qual até a
+trahida companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram
+poderes lascivos. Ó injustiça divina! Porque não me despertaste, a mais
+tempo, do somno em que sonhei com a lealdade de um templo christão e me
+achava desgarrada na nave de um templo de Buddha?!... Foi hoje o
+assignalado dia de minha victoria. A carta chegou-me às mãos com as
+resteas violetas do sol posto. Li-a de um folego. O meu primeiro impeto,
+naturalmente, foi de indignação contra o denunciante. Mas, alli estavam
+os factos verificaveis, possiveis, e terrorosos. A noite veiu mais
+depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo. A verdadeira noite é
+essa em que tambem a alma se recolhe na escuridão de uma dôr
+apunhalante. O meu marido jantaria fóra, num banquete intimo, mas
+numa sociedade festiva. Resolvi chamal-o prontamente às explicações de
+suas infidelidades. E fil-o sem tardada, não o nego. Á criada de
+Arthurzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha affectos meus por
+dar o seu leite à formação organica de meu filho, trouxe logo às contas.
+Não lhe disse a denuncia, não lhe proporcionei ensejo de contestar a sua
+acção, porque a interpellei segura do facto, inteiramente consciente do
+que fazia. E ella me confessou que levava e trazia romances immoraes,
+que levava e trazia cartas e recados... O instante unico! Ao depois,
+calma e friamente, sabendo que aguçava a minha dôr, revolveu-me nalma o
+punhal de seu descaro, revelando-me a indignidade de ser o meu filho
+abraçado e beijado ardentemente, durante a ausencia do pae, com o nome
+deste entre os labios da corruptora... Nega, Clovis, que não és o amante
+dessa barregan de padres, dessa immunda mulher que maculou o meu lar com
+a sua abjecta convivencia...
+
+--Nego, sim!
+
+--Fórte coragem! Jura que hontem não beijaste, quasi aos olhos do
+publico, no salão de visitas, os labios rôxos pelo cansaço da idade de
+Carlota.
+
+--Juro-te.
+
+--Leviano! Mente como quizeres. Mas, ouve: emquanto o meu corpo sentir
+as commoções do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquella
+devassa, emquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquella carta
+nas tuas vestias, que é o perfume de uso na alcôva de tua hervoeira,
+terei a coragem de repellir-te e de cerrar os meus labios às menores
+palavras para as nossas relações. E se, porventura, desconfiar eu que
+foste buscar, como uma abelha sem sorte, o nectar que se esconde na
+corolla daquella flor murcha e fanada, dentro desta caza, escuta bem
+Clovis, haverá a incompatibilidade de nós dois... É tu entrares e eu
+sahir, ou só ficarei se tu te fôres para sempre. Sabes quanto sou
+caprichosa, o bastante para não me arrepender das resoluções tomadas.
+Negas, ainda, o teu erro? Serei facil de perdoar-te com a verdade, tão
+facil quanto não te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade!
+
+--Nego, sim!
+
+--Quero convencer-me. A pé firme?
+
+--Com toda lealdade.
+
+--Pois bem! É escusado irmos adiante: sabes o que está contido naquelle
+pacote?
+
+--Ignóro.
+
+--São os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero
+devolvel-os.
+
+--Mas, como?
+
+--Não os guardarei mais commigo.
+
+--Vais romper, então, com a familia do Aurelio?
+
+--Forçosamente.
+
+--É de mau alvitre.
+
+--Incommoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar
+com uma amizade que me aborrece, e se te excusares a esse acabamento,
+confessas o interesse que terás em manter a verminação desse convivio
+immundo...
+
+--Se encaras por este lado, rompe Amaryllia, devolve tudo do modo mais
+grosseiro.
+
+--Devolverei, sim, não ha que ver.
+
+--Estàs no teu direito.
+
+--E espero a tua sancção.
+
+--Jà a tens.
+
+--Não. Não a tenho ainda. A devolução não poderá ser feita sem uma carta.
+
+--Pois escreve-a!
+
+--Não! Tambem não! Serás tu...
+
+--Eu?!...
+
+--Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?...
+
+--Amaryllia, pensa bem! Nós, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos
+nessas rusgas de mulheres.
+
+--Comprehendo-te: romperei eu, e tu, às occultas quiçá, com menores
+apparencias, te dedicarás à continuação de teu adulterio. Has de ser
+quem escreverá a carta hoje mesmo, agora...
+
+--Convencer-te-às de minha innocencia?
+
+--De todo, não. Encaminhar-me-ei de convencer-me.
+
+--Não haja duvida. Dà-me papel e tinta. Escreverei num momento...
+
+--E pensas que escreverás como quizeres?
+
+--Não: como fôr conveniente.
+
+--Não te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado.
+
+--Quê?
+
+--Nos termos que me espoucarem arrevezadamente aos labios...
+
+--Mas...
+
+--Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga...
+
+--Amaryllia?!...
+
+--Virulenta e grosseira...
+
+--Faça-se a tua vontade.
+
+--Escreves?
+
+--Como quizeres.
+
+--E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquelle modo escripta?
+
+--A Carlota!
+
+--Não, Clovis. Quero que se escreva ao marido della, com o seu nome em
+todas as letras...
+
+--É demais!
+
+--Não retrocedas!
+
+--Abusas de minha bondade...
+
+--Enganas-te. Clovis, ou tu escreves como eu te determino, ou...
+
+--Absolutamente, não!
+
+--... ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A caza de meu pae
+terá sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortavel.
+
+--Tua alma, tua...
+
+--Sei bem! Queres o escandalo da separação para o renome do
+conquistador? Não te darei essa vantagem... Debaixo deste tecto,
+tragarás, Clovis, o amargo da tortura mais incondescendente, soffreràs a
+queimadura do inferno mais verdadeiro...
+
+.........................................................................
+
+ Ao longe, um relogio temerario, arriscou o aviso tetrico da
+ meia-noite, ao fim do qual, resolutamente, AMARYLLIA se retirou para
+ o seu leito...
+
+
+
+
+IRADO ATÉ À CURA...
+
+
+IRADO ATÉ À CURA...
+
+ Ampla alcôva: no _armoire-à-glace_ reflectida como outro vasto
+ commodo...
+
+ Rico mobiliario de pau-setim com incrustações de jacarandà reluzente...
+
+ Um leito de cazados, e sobre elle, cadaverico, pelles e ossos,
+ despojado de carnes, ventrudo, olhar ancioso, o louro ORMINDO,
+ luctando com a morte...
+
+ É um erro de diagnostico, rebelde a enfermidade à medicação
+ despropositada.
+
+ Junto do leito, uma banca, e sobre esta, alem de um thermometro e de
+ um chronometro, desenvolta frascaria...
+
+ Aos pés da cama, fatigada, somnolenta, às vezes, DOCA é heroina na
+ vigilia: o seu semblante merencoreo só consegue alguma graça
+ quando ELOY visita o enfermo.
+
+.........................................................................
+
+--A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaços sorrateiramente...
+Doca, tu bem vês como eu morro todos os segundos, como eu minguo sem
+cessar...
+
+--Tem fé em Deus, Ormindo.
+
+--Morrerei com ella, sim. A fé! Ella é o facho illuminador da estrada
+eterna... Como deve ser doloroso não crer em nada, Doca!... Sentir a
+alma cahir no vacuo... Ah! não me conformo, porem... Morrer quando tanto
+preciso é viver... Vou deixar-te na penuria... a braços, por certo, com
+os creditos da medicina e da pharmacia...
+
+--Tu pensas demais.
+
+--Como não hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilharás a codea endurecida
+e atrazada. É com horror que prevejo as tuas infelicidades... És nova.
+Mas de que servirà a tua mocidade sem pão, os teus verdes annos sem um
+amparo? És bella. Mas de que prestarà a tua lindeza se não tiveres um
+manto para o frio e um abanico para o calor? Nova e bella... na
+viuvez! Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei?
+
+--A pobreza é um estimulo, Ormindo: saberei trabalhar afim de haver com
+honra um pedaço de pão e alguns covados de fazendas...
+
+--Não te peço nada, e peço-te muito: não macúla o nome de teu marido. A
+herva reverdesce a fronde dos vegetaes, augmenta-lhes a copa,
+ennobrece-lhes o aspecto: crava-lhes, porem, até ao durano, as raizes
+assassinas e rouba-lhes a seiva até à morte. A arvore cessa de existir
+com a trepadeira phytocida que lhe rendilha os contornos. A mulher deve
+pensar que o bem-estar não é a honra, e que ha tranquillidades mais
+homicidas do que a herva do passarinho... A deshonra não provem da
+pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A deshonra é fructo das
+transigencias de alma, e a mulher viuva é a que póde peiormente
+transigir... Que dores!... Ui!...
+
+--Estàs vendo: peioras quando falas!
+
+--Doca, no meu caso extremo, a morte é assim qualquer coisa como uma
+sorte grande...
+
+--Num bilhete branco para mim que fico sem ti... Não sabes aproveitar o
+silencio como um meio de cura, não sabes tirar partido, poupando
+forças para momentos mais graves...
+
+--Durarei muito pouco.
+
+--Não pódes saber mais do que os medicos.
+
+--Ah! mulher! Só eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se
+avisinha o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam. É
+verdade, pois tenho neste momento a visão mais lucida dos meus
+primordios. Que é isto senão que se vai fechar a circumferencia de minha
+traslação em torno do vacuo universal? O aneurisma cresce, avoluma-se,
+rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a fórma de uma esphera, é um
+globo pequenino de vivos, na lucta pela existencia. Vai arrebentar,
+latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que nunca
+me illudi com a esperança da cura? Illudi-me, mas antes de todos...
+
+--Quem està vivo, Ormindo, ainda não està morto, e toda a cura é plausivel.
+
+--A tua dedicação é cega. Desde que adoeci, desde que sobre o coração
+senti a formação mortifera do mal circulatorio, certifiquei-me estar
+mais longe do mundo do que do nada. E deste momento para cà, que fiz
+para denunciar que creio na cura? Ao contrario, a minha vida tem sido a
+chamma de uma véla a luctar com o sôpro das auras. Não ha um
+instante em que não me morra uma alegria, em que não nasça uma saudade.
+Em torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa
+teimosa em torno de uma lampada.
+
+--Aggravas-te, Ormindo! Cala a bocca por piedade! As tuas palavras são
+outros tantos punhaes que me sangram o coração.
+
+--Que horas serão?
+
+--Jà é noite.
+
+--E os medicos que não vieram?
+
+--Vieram, sim. Tu estavas dormindo.
+
+--Os medicos não vieram, não... Até a minha esposa conspira contra a
+minha existencia...
+
+--Não pesas as tuas palavras, Ormindo.
+
+--Jà sei de tudo. Perderam a esperança, abandonaram-me. Não passarei de
+hoje. Estou condemnado a horas.
+
+--Descansa um pouco.
+
+--Descansar, agora, só de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e
+parece-me que foi hontem à tarde que nos vimos pela primeira vez. Um
+sonho às vezes tem existencia mais real, porque nos acompanha do momento
+da concepção em criança ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me
+o ar...
+
+--Assim queres! Falas tanto...
+
+--Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: não ha rio que não chegue ao mar.
+Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas
+consegue... Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez não te
+lembres mais do meu enfeitiçamento; não me esqueço eu do sorriso unico
+com que festejaste o nosso encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh!
+que lindo luar te prateou as pupilas, te diademou os cabellos e te
+banhou luciferamente as espaduas! Mezes depois, o cazamento... A noite
+de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso amor insatisfeito sempre
+para accordar novas caricias, para fomentar alegrias... A esperança de
+um filho... O recúo da esperança... E tudo isto acabar quando mesmo
+principiava?!...
+
+--Não temas a morte: um cerebro que pensa como o teu dà confiança na
+renascença da vida.
+
+--A alma não morre, Doca! É ella quem esta vivendo agora. Os pulmões
+fraqueiam, o coração tem espasmos, a visão escurece-se, a voz
+arrasta-se, mas o cerebro pensa... Crês tu que, porque não falam, todos
+os moribundos não pensam? Illudes-te! É a hora de maior pensamento. Só
+recompôr todo o passado afim de o ligar ao presente e encerrar o
+circulo das sensações mundanas, é pensar robustamente. Um moribundo que
+eu vi, não tinha a fala. Os membros eram paralyticos, os olhos
+envidrados e photographavam a luz do dia para a eternidade... Pois bem!
+esse homem assim amortecido, repelliu com o gesto brusco de uma perna o
+supplicio de uma injecção nos ultimos instantes... Acaso, não pensaria
+mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros ha que conhecem até o
+segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser tocante o
+adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um
+agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecerà mais
+no extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro
+mundo... Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que não falo certo?
+
+--Não me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperança
+illuminar-me o rosto...
+
+--Como és amante?!... Quererias de coração e de alma, com todos os
+affectos e vontades, a minha cura?
+
+--Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado à saúde.
+
+--É bem pouco um desejo!
+
+--Duvidas que todas as minhas forças funccionam só na intenção de
+possuir-te novamente são?
+
+--Não duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a
+prolongação de minha tortura...
+
+--Aborrecer-me eu!...
+
+--E então?!...
+
+--Tens coragem! Só me representa que gravaràs na alma uma eterna
+desconfiança da amizade de tua esposa...
+
+--Isto não!
+
+--Pois parece, Ormindo!
+
+--Neste caso, escutas-me com agrado?
+
+--Sim.
+
+--Posso falar?
+
+--Não.
+
+--Ah! jà sei... É a mesma quesilia de que falar é um desperdicio de
+forças organicas...
+
+--Diz o doutor...
+
+--Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro
+conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar
+num terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido às intenções
+animaes dos homens, a equação da mulher é perigosamente diversa.
+Virgem, ella tem a expressão de um sonho; esposa, representa uma
+realidade; e viuva, ella é uma alma em que se derramam os mananciaes
+copiosos da luxuria humana... Virgem, fôste uma criadora; esposa, uma
+inspiradora; viuva, seràs, em nome da honra de teu marido, uma
+redemptora... Ai!... Dóem-me os pulmões... Morrerei, porem, com todas as
+sensações...
+
+--Não morreràs, Ormindo!
+
+--São os teus votos?
+
+--Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda
+no instante derradeiro?
+
+--Não duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz.
+
+--Pois então?!...
+
+--Dà-me a tua mão...
+
+--Estàs frio!
+
+--É a gelidez da morte... Não tardarà... Fazes-me um favor?...
+
+--Se o faço...
+
+--É para depois de minha morte...
+
+--Juro-te.
+
+--Mas, responde franca e precisamente, para que eu não succumba com uma
+duvida...
+
+--Pede o que quizeres... Pede... não!... ordena!
+
+--Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se não me derrubou de vez,
+vai invadindo-me com o gêlo de seu halito das extremidades para o
+coração. Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez é um
+despenhadeiro. Peço-te em nome de minha tranquillidade, que te cases,
+immediatamente, afim de que não paire uma só nuvem sobre a limpidez do
+teu e do meu nome... Casarás logo... Peço-te... É o ultimo sacrificio em
+prol do teu defuncto...
+
+--Intranquillisas-me, Ormindo.
+
+--Não ha razão para isso.
+
+--Se tu mandas...
+
+--Mando, não; peço... Agradar-te-à Eloy?
+
+--Queres, Ormindo, a verdade antes da morte?
+
+--É isso...
+
+--Pois bem! O que tu propões jà estava assentado entre nós outros...
+
+.........................................................................
+
+ A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um
+ grande esforço e se salva com o despedaçamento brusco do myoma
+ desconhecido, do assassino erro de diagnóstico...
+
+
+
+
+A HUNGARA
+
+
+A HUNGARA
+
+ Commodo de hotel. Um fóco electrico esverdinhava o azul papel das
+ paredes.
+
+ Revolvido, o leito denunciava em duas cóvas a pressão de dois corpos
+ que nelle se afundaram.
+
+ SARAH, a hungara, recebia GUANABARINO, o chronista theatral, com um
+ estridente signal de contentamento...
+
+.........................................................................
+
+--Aqui estou. Nem sei como acertei.
+
+--Estás apaixonado?
+
+--Crês, Sarah, que paixão desponte como um sorriso?
+
+--Quem te disse o meu nome?
+
+--Li-o nos programmas.
+
+--Ah! sim. Gostaste do meu canto?
+
+--Não te ouvi.
+
+--Como te agradei?
+
+--Pertencendo a outro. A mulher sem dono custarà a topar com um amante.
+Rolarà uma eternidade como a pedra que não cria limo... Tenha um amante
+e dezenas surgirão...
+
+--Como elle é experiente!
+
+--Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por
+Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo braço delle, no teu longo
+_manteau_ de sêdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo
+dezenas de mulheres no Café-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o
+canariar de suas vozes; francesas, que arrebatam com o _savoir-dire_ as
+malicias mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus
+sapateados; americanas, que lembram bugios nos saltos do _cake-walk_...
+Todas são-me indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com
+cocottes para todo o mundo... De começo estive tentado a emprehender uma
+_ménage-à-trois_ com uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo
+prohibido e vivia aferrolhado à concupiscencia de seu proprio pae.
+Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente
+encontrei-me comtigo...
+
+--Ladrãosinho! Como elle sabe contar!
+
+--Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu
+amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de
+amigos attrahiu-me e a attracção de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um
+cumprimento com a cabeça. Não me teres sido apresentada, significou que
+o teu galan zelava de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho
+de seu progresso na sabedoria dos olhares que as pessôas cultas pódem
+trocar. Viste como te comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho
+para o _buffet_? Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo
+de junto de ti e como tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro?
+Na sombra dos pés da meza, os nossos corpos se trocavam desejos nos
+encontros, animavam-se tambem com os promettimentos mais claros, e as
+nossas carnes se queimavam por detraz dos tecidos de nossas vestias.
+Tudo isto, porem, ainda não é paixão. É um grito do instincto animal. Só
+nos não apaixonaremos se não quizermos...
+
+--Como sabes a vida!
+
+--Precisas prender Gustavo. A epoca é das melhores. O dinheiro passa-lhe
+pelas mãos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque,
+alem do mais, é um amante que, por força de ter mulher e filhos e morar
+longe, te darà muito tempo aos amores furtados.
+
+--Não os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo não
+se tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e só o
+trahi uma só vez: com o pae de meu filho. Gósto de um amor só, de ter um
+dono e de ser cubiçada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso,
+o Gustavo não me agrada... Prefiro-te a elle, serás o meu amante...
+
+--Erraràs se assim preferires, Sarah. Não tenho posses para te manter,
+ao passo que o Gustavo...
+
+--Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho
+para o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero...
+
+--Neste caso ficaràs com elle...
+
+--Porque então?
+
+--Conheceste-o primeiro.
+
+--Não importa isso. A elle conheci na manhan, a ti à noite, ambos no
+mesmo dia. Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra. Encaminhou-me
+do hotel, e... má recommendação tem dado com os multifarios obsequios,
+com os gastos e as gentilezas, sómente com essas coisas... Ora, uma
+mulher como eu, ou quer o homem, ou não o quer... De minha parte
+dispenso as galanterias...
+
+--Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispôres de sua
+bolsa...
+
+--E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor...
+
+--Là com isto combino eu.
+
+--Assim, và que seja e comecemos...
+
+--Que tenho eu para tanto me olhares?...
+
+--Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes
+são dois vulcões. Como te chamas?
+
+--Guanabarino, um nome difficil.
+
+--Como?
+
+--Gua-na-ba-ri-no!
+
+--Gua-na...
+
+--... barino.
+
+--Ah! sei. Guanabarino. É a primeira vez que ouço esse nome. És brazileiro?
+
+--De corpo e alma. E tu?
+
+--Filha do sul da Hungria. Vim creança para a tua terra. Fui noiva,
+aprendi a cantar com um meu amante e vivo disto...
+
+--Tens percorrido meio-mundo, hein?
+
+--Não: conheço a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia...
+
+--Dize outra vez esse termo...
+
+--Reminiscencia.
+
+--Que lindo! Parece-me, Sarah, que estás a dar uma serie de beijos...
+
+--Como elle é ardente!
+
+--De verdade?
+
+--A tua alma està fugindo-te pelos olhos...
+
+--Junto de um espirito como o teu, como ella não querer a transfusão
+carnal? Jà notaste o frio que regela as mãos do homem emocionado junto
+da mulher que o escalda?...
+
+--Ih!... Que gêlo!
+
+--Sabes explicar?
+
+--Não. É difficil?
+
+--Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao coração. As
+extremidades resfriaram-se. Tudo isto jà é começo de paixão... Falaste
+nos meus olhos! E os teus? São capazes de comprar o mundo com um só
+relance.
+
+--Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento?
+
+--Que graça! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas
+gentilezas.
+
+--Tens gozado tanto?
+
+--Inda perguntas?! Não sabes que o amor se fez para os temperamentos
+tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um
+desejo para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda
+hora: sinto que todo o teu sexo não seja uma só mulher para esta ser a
+minha amante...
+
+--Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino!
+
+--Não.
+
+--Desmentes o que asseguras.
+
+--Jà tiveste o teu quinhão.
+
+--Como assim?
+
+--Jà te possuiu o Gustavo...
+
+--Juro-te que não. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja
+revelada, ainda não desejou...
+
+--De facto?
+
+--Juro-te eu.
+
+--Ao depois delle... nunca!
+
+--Mas, porque? Mettes-me medo...
+
+--Por nada! O Gustavo é um homem para se temer...
+
+--E porque me inflúes para ser a sua amante?
+
+--Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu
+concubinato bem pódes usufruir grandes proventos. E, jà agora te direi:
+pouco mais fará elle do que hoje... Entretanto, como homem de
+recursos, talvez ainda não te désse a menor prova do que seja...
+
+--Fez-me hoje a oblata de um collar de libras...
+
+--Um collar?
+
+--Sim.
+
+--De libras esterlinas?
+
+--Conheces?
+
+--Acho que não. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos...
+
+--Foram presente.
+
+--Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros
+meios que não esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe
+aqui...
+
+--Não amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de
+_chanteuse_. Ás vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a
+primeira a não regeitar o que me dão. Um deputado deu-me este annel...
+
+--Adoravel!
+
+--Um advogado, ao depois de uma perseguição de mezes, para eu o receber,
+offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho
+aquinhoou-me apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio,
+outras...
+
+--Muito em cheio, Sarah!
+
+--Tu falas? Um mineiro, hoje desesperançado de conseguir a minha
+retribuição, deu-me estes correntões para atilios...
+
+--Que lindas fórmas!
+
+--Mostro-te apenas os atilios e não as pernas...
+
+--E eu vejo tudo! É admiravel como o _fraise_ das meias se destaca no
+gêsso das tuas pelles...
+
+--Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me
+cubrissem de oiro tenho tido às carradas... mas, um só que me dissesse
+coisas tão lindas, nunca tive... A palavra inescutada é tambem uma joia
+preciosa. E para retribuir tantas distincções ineditas só um beijo de
+muita paixão, só um beijo...
+
+--Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e déste mais de mil...
+
+--Longe disto, tu não me recompensaste com um só... Reparei bem...
+
+--Desculpa. Mas, quando sou beijado, não beijo. Esta caricia deve ser
+sempre espontanea e impagavel. E eu não commetto a grosseira
+sensualidade de pagar uma caricia...
+
+--Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan...
+
+--Com todo o fervor...
+
+--Não te enciumas?
+
+--Não. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de
+ouro que elle te der.
+
+--Queres ver o collar de hoje?
+
+--Verei.
+
+--Elle me prometteu para amanhan um relogio e um correntão.
+
+--Aproveita, Sarah! Gustavo desperdiça dinheiros de herança...
+
+--Vês tu o bello collar?
+
+--É lindo!... Elle t'o deu?
+
+--Sim.
+
+--Esta joia?
+
+--Que significa o teu espanto?
+
+--É que este collar é...
+
+--Falso?
+
+--Não! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo...
+
+--Agora é minha!
+
+--Estàs no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos...
+
+--E só a ti amarei, Guanabarino!...
+
+.........................................................................
+
+ Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de
+ GUSTAVO evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando o
+ silencio somnolento do casarão do hotel, a figura caprina de um mal
+ conhecido visinho de quarto...
+
+
+
+
+DEPOIS DO COMETA
+
+
+DEPOIS DO COMETA
+
+ De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, ALEXANDRINA
+ ergueu-se da _steeple-chaise_, e beijou a mão da velha senhora D.
+ CAROLINA, que acompanhava MIMI, naquella matutina visita de nupcias.
+
+ Ao depois, como duas flores de uma só haste separadas para sempre
+ que se reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braços
+ a figura da amiga e beijaram-se fartamente.
+
+ De outro lado, ARTHUR, o novel esposo, enfardado no seu dolman de
+ brins brancos, cumprimentàra, ceremoniosamente, a DONA CAROLINA e
+ com um sorrizo prazenteiro applaudiu as bregeirices de MIMI.
+
+ Esta e ALEXANDRINA, ao depois de affaveis cumprimentos geraes,
+ confidenciavam numa janella, por detraz de arrendadas cortinas,
+ onde se foram acastellar para a permuta de segredos...
+
+.........................................................................
+
+--A que horas despertaste?
+
+--Nem sei mesmo...
+
+--Não é possivel.
+
+--Palavra!
+
+--Então ferraste no somno, e...
+
+--Ao contrario: não durmimos.
+
+--É exquisito.
+
+--Como te enganas! Não calculas o que seja a estafa de um dia de noivado.
+
+--O dia mais bello da mulher...
+
+--Parece-te?
+
+--Esta é bôa, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: não te
+sentiste extraordinariamente feliz?
+
+--Ah! sim... Casei-me por meu gosto...
+
+--Olha que já me pareces outra com tanta sisudez e seccura...
+
+--Não é, Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. É
+preciso que não me tenham na conta de alguma leviana: jà hoje em dia,
+minha amiga, tenho segredos que te não posso falar...
+
+--Prohibiram-te de dizer-m'os..
+
+--Não! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alteração na vida de uma mulher
+que se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida
+conjugal, que nem sei como me reconheceste hoje... Jà viste, no
+craveiro, o botãosinho verde; o casúlo de folhas, como, na manhan
+seguinte, está um perfumoso cravo, uma flor distincta? Se te dessem as
+duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o facto como inveridico...
+
+--Mas eu te vejo a mesma boniteza...
+
+--Sim! É questão de alma. Suppõe que adormeceste no começo de uma viagem
+e que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo
+seria o mesmo, a tua lindeza não seria transformada, mas o teu coração
+palpitaria diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As
+tuas amigas ficariam noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso
+que regressasses ou que ellas viajassem para onde fôras. Assim no
+cazamento: viajei para muito longe de ti. Para nos irmanarmos como
+dantes, ou voltarei à minha immaculabilidade de hontem, o que seria
+impossivel, ou tu ascenderás ao matrimonio para o que faço votos.
+
+--Tens razão!
+
+--Não te parece?
+
+--Falas e procedes tão judiciosamente que não me atrevo a duvidar das
+alterações por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o
+cazamento para não me esquecer tão depressa das intimidades com as
+minhas amigas...
+
+--Não me esqueci. És injusta! Não te darei novas confidencias: as
+velhas, entretanto, ficarão acariciadas como um sonho de felicidades na
+vida de uma mulher inditosa.
+
+--Pois pensei que me dirias tudo...
+
+--Tudo... quê?
+
+--Ora!
+
+--Denuncias que pensas em algumas coisas que não são veridicas, ou, pelo
+menos, não o foram para mim.
+
+--Foste differente das outras!
+
+--Offendes-me.
+
+--Não te offendo, não. Desconheço-te.
+
+--Que quererias tu que eu te falasse?
+
+--Não sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses.
+
+--Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha
+com um olhar seriamente investigador e tua mãe franze o sobrolho para
+mim... Um ha de suppôr-me indiscreta para te communicar tolices...
+e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras...
+
+--Não! Deixa...
+
+--És má! Tens talento e não queres comprehender a minha situação,
+especialmente no dia de hoje.
+
+--Jà te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres...
+
+--Amúas sem razão.
+
+--Com que direito a planta exige viço da flor que já foi colhida?
+Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre nós duas existe a alma do
+sr. Arthur...
+
+--Não exaggeres...
+
+--Pódes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirás delle tambem. Os
+meus serão contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo,
+porque não deve haver um conhecimento novo que não pertença a ambos: os
+delle... morrerão comtigo, porque não deves trahir à tua fé conjugal...
+
+--És incondescendente!
+
+--Sim, sou incondescendente na verdade das cousas.
+
+--Em parte, minha amiga.
+
+--Não. Em tudo.
+
+--Veremos.
+
+--Pois experimenta!
+
+--E se eu te provar?
+
+--Pago-te com um beijo...
+
+--Oh! Pois então a mulher que se cazou póde beijar outra pessôa que não
+seja o seu esposo?
+
+--Deste modo, Mimi, não chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha
+conversas... O que te conversei até hontem, não conversarei jamais com o
+meu esposo. O que te converso agora, não conversarei jamais com a tua
+maman. Beijos!... Os que te dou são da ordem dos que sempre te dei...
+
+--Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias.
+
+--Não sei se sómente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei
+quantas tem...
+
+--Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes
+ou não ao teu marido?
+
+--Conforme.
+
+--Não é caso de dubiedades. Dizes ou não?
+
+--Se fôr só do teu interesse, não.
+
+--Faço-te justiça, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao
+falseamento agora, sómente agora, do teu dever. Contarás tudo o que te
+disserem, ou serás uma perjura na fé conjugal. Eu mesma duvidaria
+de tuas intenções, se occultasses do teu marido o menor acontecimento
+que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de
+descobrir sempre esse interesse que não é exclusivo da pessôa que te
+fallou, para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de
+parte, e affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres...
+
+--Dou-te razão, minha amiga. O mundo é esse mesmo e não serei eu quem o
+modificará.
+
+--Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva!
+
+--Achaste?
+
+--Encantadoramente bella!
+
+--E tu me viste?
+
+--Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem à porta da
+igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja.
+
+--Era a ultima nota do meu pudor de virgem!
+
+--A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro
+assentou-te a grinalda como uma corôa de rainha. Agradou-me a tua
+elegancia. E, porque não te censurar? só não gostei de trazeres os
+olhos humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar esplendido.
+
+--Lisonjeira!
+
+--Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multidões que se
+dominavam com a curiosidade de ver-me...
+
+--Tens razão. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem
+saber que... mais tarde...
+
+--Dize... dize...
+
+--Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais
+algozes...
+
+--De véras?
+
+--Sim, minha amiga! Não calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh!
+Digo-te de mais! Perdôa se te offendo...
+
+--Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que,
+ainda ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu?
+
+--Guardei-o já para offerenda a uma Santa.
+
+--Quem t'o tirou?
+
+--A maman... Arthur conversava no salão com o papà e dois amigos
+retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem jà era alta hora da
+madrugada. Duas ou tres, não sei.
+
+--E o teu vestido? Era primoroso...
+
+--Está no _armoire-à-glace_...
+
+--Muito amarrotado?
+
+--Não. Quando o despi... chorei! Como é que uma mulher só se veste tão
+bem uma vez na vida?!...
+
+--Choraste, Alexandrina?
+
+--Sim.
+
+--É de mau agoiro. Dizem que morrerá primeiro aquelle que chora...
+
+--Não sabia.
+
+--Nem que morrerá antes do outro o que se deitou por primeiro?
+
+--Tambem não! E por isso tambem serei eu quem morrerá antes...
+
+--Ah! já estavas deitada quando elle appareceu na alcôva?
+
+--Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mãos, tratou do
+successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada,
+desde as asperezas do juiz cazamenteiro, até às melifluidades de voz do
+sacerdote, quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal.
+Recompuzemos a sociedade que aqui esteve. As dansas, o serviço de
+_buffet_, a ceremonia do chá... Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa,
+eu lembrava outra. Sorriamo-nos, commentavamos, com seriedade, as
+incorrecções dos outros...
+
+--E o tempo se passava...
+
+--É exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. Não sabes, porem,
+como foi opportuna a nossa conversação. Quando extremecemos, ouviu-se o
+tiro das cinco horas...
+
+--E então?
+
+--Arthur lembrou-se do cometa... Já o viste?
+
+--Ainda não!
+
+--Pois é bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada
+do meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi...
+
+.........................................................................
+
+ Interrompidas por DONA CAROLINA, MIMI e ALEXANDRINA, dando-se as
+ mãos, nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na
+ conversação commum...
+
+
+
+
+AMORES NO CLAUSTRO
+
+
+AMORES NO CLAUSTRO
+
+ Um ar tépido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos,
+ instigador do sensualismo mais humano e menos animal, era o
+ excellente conforto da cella de FREY PATRICIO.
+
+ Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de
+ dedos enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro
+ e o seu affectuoso irmão de ordem, FREY THOMASIO, palravam
+ gostosamente de coisas alegres...
+
+.........................................................................
+
+--Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resolução
+improvisada...
+
+--Pois eu, não! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e não
+venci: fui derrotado.
+
+--Não posso crer facilmente.
+
+--É a verdade, irmão Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no
+sepulchro. Para aqui trouxe o meu corpo, e, là fóra, borboleteando, sem
+parar, a minha alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella
+animava. Emquanto moço, nas minhas preces só o nome de uma mulher viçava
+triumphante...
+
+--Tambem a mulher...
+
+--Sim. Preconceitos, preconceitos! A baronía estulta de uma familia
+asphyxiou sem dó a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje,
+tremo de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre
+hymnos e bemdições, tel-a-ia levado, não à cova, sublevando-se contra os
+pais, sim ao hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem
+cuidados naquillo que outros apreçavam--a feeria dos titulos
+nobiliarchicos--vivemos apenas pelas suggestões do sentimento que nos
+venceu...
+
+--Os teus labios tremem, irmão Patricio, as tuas pupilas se inflammam e
+olham por sobre nós para tempos bem distanciados...
+
+--Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingança que exerci
+contra mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia
+ainda, mas respirando balões de oxygenio. Artificios da sciencia! E
+tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo, naquella
+tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do
+esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A
+vista annuviou-se-me e, balouçadas pela briza, as rendas do esquife me
+disseram um adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenços muito
+brancos, molhados de lagrimas... Succumbi deante da falsa visão e
+esmaeci... debruçado sobre aquelle leito, onde chorei incansavelmente
+irado--Deus me perdôe!--como o mais pecador dos homens...
+
+--Tanto poude o amor!
+
+--A mola do mundo, Frei Thomasio, é a mulher. Não ha um burel aqui
+dentro que não seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem
+corriqueira e profanamente os francêses, _chercher la femme_... Por
+ventura não professaste como os outros?
+
+--Sem tirar nem pôr na cauza.
+
+--Sempre assim.
+
+--Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu
+entre os outros homens e te elegeu o seu preferido.
+
+--Ah! por certo.
+
+--Quem me déra!
+
+--E que te faltou, Frei Thomasio?
+
+--Justamente o amor.
+
+--Intrigas-me de véras.
+
+--Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei
+mocinho?
+
+--Se me lembro!...
+
+--Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era
+menino, e se me dissessem que o heliantho foi obra da pretenção e do
+desabuso de Hephaestos querendo, como um Deus, criar sóes e mais sóes,
+todo o credito eu daria, porque não tinha discernimento para me salvar
+das tentações humanas...
+
+--Que são as verdadeiras tentações da serpente no Paraiso...
+
+--Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o
+carreiro que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas
+e ramos para sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambições
+de saber... Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as
+primeiras cousas de amor...
+
+--E não lias o _Cantico dos Canticos_!
+
+--Ah! não! Fui sabendo que, como Eva fôra criada para acompanhar o
+primeiro homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os
+arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com
+olhos de escaldo...
+
+--Que maganão!
+
+--E não peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas
+amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o
+cortejo dos mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras não tinham
+as calenturas de um amor, ella abrasava na abundancia das pretenções
+exaltadas: todos à porfia lhe disputavam a preferencia... Tolamente eu
+era conduzido entre os fascinados pelo olhar da moçoila cortejada.
+
+--Estou vendo que eras o preferido...
+
+--Não sei, porque não tive capacidade para aquilatar, bem como porque--e
+daqui se originou a minha principal historia--troquei logo essa
+espectativa de amor bem aventurado por uma effectividade de amor bem
+triste... Mas sei que os olhares dos meus velhinhos cahiam sobre nós
+dois como punhados de olorosos jasmins, quando elles nos viam, quaes
+dois noivos conscientes, em falações na varanda arborisada de nossa
+caza, amorosamente illuminados pela lua...
+
+--Bem feliz que ias para a vida entrando, irmão Thomasio?
+
+--Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a
+minha desdita foi ella a que mais lagrimas chorou... Ora, se a intuição
+de amar crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais
+fulgentes e chispantes, me sensualisaram todo e a carne arvorou-se em
+maior do que o sentimento...
+
+--O pecado!
+
+--Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, às vezes
+ainda peiando cigarras e apedrejando, com rudes instinctos, os
+inoffensivos gaturamos, fui prendendo-me às ardencias das esbrazeadas
+pupilas de uma mulher facil... A principio, quando o seu olhar incidia
+sobre mim, eu cerrava os olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer,
+pensava nas ternuras da outra. Nada mais. Os dias repetiam-se e as
+scenas mudavam-se, crescendo as investidas e diminuindo a resistencia.
+Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da aggressora, eu sentia
+uma purpuridão nas faces, mas incolume proseguia o meu caminho... Mais
+tempo, e duas, tres, quatro vezes, voltava-me para trocar sorrisos... Em
+caza, a presença da outra, começou de aborrecer-me. Á noite, por sobre
+as paginas abertas dos meus livros, dansavam cabrioladamente as imagens
+das duas mulheres. E eu me decidia fragorosamente pela menos
+conhecida. Um dia, notei que os labios da extranha se moviam. Nada
+percebi, no entanto. Que ella falava, eu estava certo. Nas passagens
+seguintes, com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo exquisito. Duas
+syllabas apenas, e, se não te offendo nem abuso de tua condescendencia,
+irmão Patricio, dir-t'o-ei jà...
+
+--Faço mesmo questão de sabel-o...
+
+--Jà que queres ouvir-me, continuarei...
+
+--Continúa...
+
+--A deslumbrante mulher dizia-me apenas: «Tico»...
+
+--Olá!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocabulo...
+
+--Nada sei explicar-te, Frey Patricio, senão que corri os diccionarios
+dos meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo
+convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo
+investigador, depois de algumas pesquisas fóra da convivencia dos
+collegas, soprou-me segredadamente: «_Tico é um convite... E quando
+ouvires, responde taco..._» Corei deante da revelação e maldei de tudo.
+O meu primeiro impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me
+furtar às seducções de Almira...
+
+--Que bello nome, e lendario!
+
+--Tive, porem, de ceder à contingencia dos factos. Não era possivel
+andar por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti
+da ideia e affrontei a tentação. Com o tempo fui cedendo. E, um bello
+dia, como se diz là fóra, escorreguei... «Tico!», disse-me ella, e eu
+lhe oppuz murmuradamente quasi: «Taco!» Em resposta, ouvi: «Amanhan!»
+Que noite, Frey Patricio! Se ha caldeiras para queimar almas, nós as
+experimentamos quando fazemos a espera de alguma coisa. Não durmi,
+confesso. E, para encurtar as razões, só acordei, effectivamente,
+quando, advertido por ella de que là iria chegar o seu homem, me vi
+escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse
+esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que
+cresceram e motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que
+creatura perversa! Foi às bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho
+animal me arrancou de debaixo das pilhas de saccos, às bastonadas, Frey
+Patricio...
+
+--Ah!... ah!... ah!... ah!
+
+--Não rias, Irmão!
+
+--Não te zangues, Frei Thomasio. Não me posso conter... A tua historia é
+alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!...
+
+--Nem sei como de maus tratos não me acabaram naquella hora furiosa... E
+quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais!
+
+--Pudéra!... Ah! ah! ah! ah!...
+
+--Aliás, não foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido jà, e
+voltando aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia:
+«Taco?»... e eu a repellia instinctivamente... «Nem tico, nem taco...
+nem là dentro do teu sacco...»
+
+--É bôa, é bôa!... Ah!... ah!... ah!... ah!...
+
+--Em seguida...
+
+--Sim...
+
+--... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos
+conhecidos me estygmatisava com o escandalo, e soffri, abrazadoramente.
+Ninita, escandalisada com a minha quéda, definiu-se por outro, que a
+recebeu como esposa perante Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim
+mesmo... O mundo era um tedio... Então pensei no vicio...
+
+--Mizericordia!
+
+--Mas, não era?... Para abafar uma mizeria moral, só outra maior... ou o
+passo que dei...
+
+.........................................................................
+
+ A bronzea sineta da confraria, não se retendo na missão avisadora,
+ chamava a Ordem para a humilde refeição da noite.
+
+ E quando FREY PATRICIO chegou ao salão, na companhia de FREY
+ THOMASIO, jà se liam, emphaticamente, as consoantes orações da
+ hora.
+
+
+
+
+A CONSULÊZA
+
+
+A CONSULÊZA
+
+ De _maillot_, apenas, arrebicando as faces diante de um espelho,
+ NINA, a bailadeira, tinha um milhão de pensamentos banaes no cerebro
+ ardente.
+
+ Os traços da sepia e os rebordos do nanquim, já lhe accentuavam a
+ grande vivacidade do olhar, e o pó de arroz attenuava e embellecia
+ as côres roseas do rosto criadas pelo carmin vencedor.
+
+ Uma vez por outra, deixava de conformar-se, para attender aos
+ appellos da porta, de onde, sem deixar ninguem penetrar, voltava
+ enfastiada com as iterações de extranhos.
+
+ Esperava OCTAVIO: era o _aimant du coeur_, porque o CONSUL, o
+ velho francês, pelas suas funcções representativas, evitava
+ aquelles encontros mais notorios...
+
+.........................................................................
+
+--Nina?
+
+--Quem bate? Octavio?
+
+--Elle, sim!
+
+--Entra, meu rico amor!
+
+--Fiz-me esperar, hein?
+
+--Nem tanto, mas eu tenho a regalia de poder cheirar-te as vestimentas
+para saber se tiveste o contacto do corpo de outra mulher, de
+vistoriar-lhe o casaco, para descobrir ahi os fios perdidos dos cabellos
+da que me logrou...
+
+--Descansa o teu coração. Vivo inteiramente para ti. E emquanto estou
+longe do teu olhar, sou como o barro que espera, ardorosamente, a toda a
+hora, a plasmagem do artista. Por elle, passam e voltam, vão e tornam,
+todos os profanos: mas elle não é menos monopolisador de sua
+plasticidade do que uma flor do gnomo que só abra a horas certas...
+
+--Não sabes? O Consul pediu-me a noite...
+
+--E deste-lh'a?
+
+--Nem sei...
+
+--Já me toma os dias inteiros... Entra agora pelas noites... Que horas
+serão as minhas?
+
+--Todas até. Aturo-o porque tu consentes.
+
+--Exactamente. Mas elle vem a prejudicar-me se continúas a não se
+satisfazer com o que lhe dás. Ás vezes, lá para as tantas do dia, penso
+em ti. O brazido abre em chammas ao menor sopro. O incendio alastra.
+Quero remediar-me e soffrer a caricia dos teus beijos anti-incendiarios.
+Vem logo a certeza de que o Consul te frequenta o dia inteiro. Esmoreço.
+Abomino-me e espero confiante o prazer da noite. Tenho sido certo e
+insubstituido. De agora por diante, nem mesmo nas noites poderei
+confiar. Ao amante nunca lhe dês demais. Se te pede uma hora, dá-lhe
+meia, se te pede um dia, dá-lhe horas, se te pede uma noite, dá-lhe um
+dia, e reduze sempre as suas pretenções. Ao contrario, todo o tempo será
+absorvido. E, quanto ao mais, espera-te hoje a ventura. Vais dormir com
+o Consul... Estou libertado...
+
+--Oh! não! Que succede Octavio?
+
+--Nada. Não estorvo os teus anhelos. Leva comtigo o Consul. Dá-lhe o meu
+lugar, mas dize-lhe, ao menos, que não me occultaste a entrada
+delle no leito que deixo vasio...
+
+--Espera um pouco que te falarei melhor. É só acabar de toucar-me...
+
+--Careces de mim?
+
+--Não me aborrece, Octavio!
+
+--Pensei sempre que valhesse mais do que todos os outros teus amantes.
+Vejo, entretanto, agora, que um existe mais poderoso ainda do que todos
+nós reunidos...
+
+--Vale a pena a descuberta.
+
+--Desmente-me, pois. Não tens um amante que preferes ao Consul, um
+amante deante do qual te esqueces mesmo de mim?
+
+--Dizes-me coisas extraordinarias...
+
+--Contesta a existencia desse outro amante omnipoderoso, que motiva
+teres-me deixado no exilio deste divan, na semi-obscuridão de teu
+camarim...
+
+--Não és amavel.
+
+--De mais em mais se confirma o que te digo: nem tens animo, por causa
+delle mesmo, para contestares o que te affirmo de um modo tão
+categorico... Digo-te centos de coisas e nada te abstrai desse amante
+unico...
+
+--Agora, sim! Dei um ultimo retoque nos meus preparativos de scena...
+Que te pareço de _maillot_?
+
+--Não trato disto. Refiro-me ao teu poderoso amante.
+
+--O Consul?
+
+--Não sabia que este seja poderoso. Mas não é a elle. Ao outro, deante
+do qual te esqueces de mim, do Consul e de alguns menos e mais cotados
+do que nós outros...
+
+--Amante?
+
+--De certo. Negas que não te absorve elle mais do que qualquer de nós?
+
+--Nego.
+
+--Contestas que exista esse amante?
+
+--Juro-te mesmo.
+
+--Vê lá que não me enganas...
+
+--Quem será, Octavio?
+
+--O teu espelho...
+
+--Aceito a graça. Em troca, porem, vais dizer-me o que julgas de meus
+trajos em _maillot_?...
+
+--Julgo mal, porque te acho parecida com uma lebre a quem cortaram cerce
+todos os pellos... Assim muito delambida, muito escorrida, muito
+masculina...
+
+--Tens espirito.
+
+--E fui franco do modo que tu me pediste. Veste as rendas, sobrepõe as
+sedas, ou tira o _maillot_. Se vamos ao mundo, todos os atavios, todos
+os _soutaches_, applicações e _manteaux_ serão poucos; se ficamos
+aqui, o menor fragmento de tecido mais fino, será demais... Ou o extremo
+enroupamento, ou a extrema nudez...
+
+--Figuremos duas hypotheses. Se me visses enroupada, com um luxuoso
+vestido, de muitas rendas, muitas fitas, muito decóte, muita joia, e
+lindo chapeu de plumas, que farias de mim?
+
+--É essa a primeira hypothese?
+
+--Sim!
+
+--Pois bem: levar-te-ia, logo, à tua caza para que, antecipando a hora
+de tua sahida, o Consul, nem de longe, pelo meu braço, te visse hoje...
+
+--És digno de um acto destes.
+
+--Bravura do amor. Agora, a segunda hypothese?
+
+--Sim: se me visses núa, tão núa que nem uma _écharpe_ me velasse as
+pomas, que farias de mim?
+
+--Ah!... Ahi está uma pergunta de difficil resposta, uma hypothese de
+operosa solução...
+
+--Porque?
+
+--Porque uma nueza dessas exigiria um leito e sem este tu serias apenas
+uma gravura...
+
+--Venceste-me. Despacharei o Consul.
+
+--Não sou eu quem determina. Passarias uma noite igual às de Bhodis na
+companhia de Chrysis... Porque escancellas tanto os teus deformados
+olhos? Não calculas, assim, a desproporção do teu semblante, lindo como
+um camapheu...
+
+--Procurei ouvir o que se faz em scena, afim de verificar quanto falta
+para a minha vez...
+
+--Queres, saio a ver...
+
+--Não. Chamarei o contraregra. Nem precisa: canta a Solidonia...
+
+--A pernóstica!
+
+--Deixa-a, coitada! Ainda tenho todo um intervallo e dois numeros da
+outra parte. Agora... dà-me um beijo, paixãosinha!
+
+--Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulêza...
+
+--Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu
+lhe tenha promettido uma noite, quando não lh'a darei por preço nenhum?
+
+--Ciumes?!... Não os sinto dos outros homens, porque nenhum delles
+logrará de ti as venturas e as concessões que eu tenho gozado... Nem
+mesmo do Consul... Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve
+dizer sempre que antes delle provei-o eu. Tenho ciumes, Nina, do
+que tu vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que
+fitas... Se eu pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus
+vestidos. Invejo delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem
+confidentes dos teus nervos e das tuas pulsações. Tenho ciúmes das
+flores que exornam os teus cabellos, porque sómente ellas passam o
+deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor. Tenho ciúmes do
+fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado entre os
+teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te
+inebria, porque sómente elle atravessa as tuas fórmas e vai arrebatar-te
+na essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque
+sómente ella vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo
+isto, eu quereria ser o somno que te fecha as palpebras, porque
+participaria das felicidades todas dos teus sonhos; a agua que te banha
+as fórmas, porque desvendaria os immensos segredos e mysterios de tua
+belleza unica, e o riso que te doura o semblante, porque teria o dominio
+do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do instante magico em que pela
+primeira vez nos pertencemos mutuamente? São de véras muito irmans as
+almas que tocam à meta de uma ventura no mesmo instante... e as
+nossas duas...
+
+--De lembrar isto, criei uma lenda. Sou eu a mulher que conseguiu o
+poder de duas virgindades, uma sacrificada no inicio da puberdade, com a
+inclemencia de Nausithêa deante do deus Priapo, e a outra, concedida ao
+amante, no fervor do gôzo, entre os teus braços, naquella noite,
+Octavio, naquella primeira noite...
+
+--Desgraçadamente, jà eu, então, poderia ter sentido por toda a parte de
+teu corpo, o halito bafiento do outro amante.
+
+--O outro amante?!... Tenho-o, e é como se elle não existisse. Tenho-o
+porque tu consentes que eu o tenha. E mais nada. Contra o seu amor,
+protestam os meus seios, bem diversos na tua presença do que são na
+delle. Deante de ti, as minhas pomas parecem florescer como os
+jasmineiros em deliciosas noites de luar, como as laranjeiras em
+uberosos tempos de outomno. Deante delle... nem perdem na seccura e
+esterilidade os pinheiros agrestes que vegetam nas fendas dos
+rochedos... És a aguia que se avisinha do sol e beija os astros nos
+labios. Elle é o verme que rasteja sobre o rochedo onde borda todos os
+seus desejos...
+
+--Mas, para elle houve um dia venturoso: a mulher não se cede a um homem
+sem a experiencia de um prazer. E tu tiveste esse prazer...
+
+--Acertaste. Não sabes, porem, que os olhos da mulher voluvelmente
+procuram por toda a parte o homem e que só ao depois de muitos descobre
+o procurado? Quando topei comtigo, jà o tinha no convivio de suas
+esquisitices.
+
+--Tu és formosa, Nina, como a flor de myrtho! Os gregos te diriam
+divinamente presagiada porque nasceste nas vesperas das Aphrodisias!
+Quero enlanguescer ao som de tua voz contando-me os teus mais baixos
+amores...
+
+--Bem sei que os homens todos são uns animaes. Uns, porem, são menos do
+que outros. Dahi esses amores que tu queres ouvir. Sabes, Octavio, que
+os cãis, nesse mistér, são os equivalentes de certos homens? E que elles
+são os seres que mais baixos amores fruem? O Consul ama como um cão...
+Os seus labios, como os de Pan, seriam capazes de devorar as
+virgindades, se as virgens recebessem os seus beijos...
+
+--Quero crer.
+
+--É um libertino.
+
+--Nada mais?
+
+--É um extrangeiro...
+
+--Que importa?
+
+--É um devasso...
+
+--E sómente isto?
+
+--Ama como um cão, Octavio.
+
+--E que é que faz?
+
+--Seria preciso descrever-te todas as astucias que emprega para me
+arrastar à concessão do prazer que só vige nos seus labios? Não te
+bastará a expressão do pouco que te digo?
+
+--Repugnante!...
+
+--Ah! deixa-o, deixa-o! O meu amante és tu!... Toda esta noite serei tua
+como nas demais...
+
+.........................................................................
+
+ Os rasgados olhos da hervoeira, luzentes nas sombras dos seus
+ cabellos de oiro como espigas de trigo maduro, pareceram a fonte de
+ todas as volupias da terra, como os córnos de Almatheia foram de
+ todas as riquezas do mundo...
+
+
+
+
+DE COMO O AVARENTO MORREU...
+
+
+DE COMO O AVARENTO MORREU...
+
+ Quarto humilde, humido e infecto, mal illuminado, e sem moveis:--uma
+ enxerga, e sobre esta, em inquieta agonia, MANUEL CARLOS proferia
+ blasphemias.
+
+ Ao seu lado, a NEGRA, que era uma amante retinta, carnuda e
+ fortalecida com as sabugens da avareza, acompanhava com os olhos
+ cautelosos a agitação do moribundo angustiado.
+
+ Doutro commodo da mansarda, partia um movimento suspeito, mal
+ percebido, a principio, pelo enfermo, que entrava numa ultima
+ reacção da vida contra a morte.
+
+ Nesta hora, da doença, por entre as chocantes palavras de MANUEL
+ CARLOS, ouvia-se, tambem, o rim-rim-rim dos seus dentes que
+ rangiam como uma lima activa sobre um pedaço de ferro...
+
+.........................................................................
+
+--E creio que me vou mesmo! Nem sei como se morre assim, quando muito
+dinheiro ainda eu poderia accumular dentro do meu cofre. A vida é um
+pedaço de ouro comprado com um milhão de moedas... A morte é uma ladra
+que nos furta, para esbanjar entre muitos, o ouro que tanto custa a
+reunir... Sou rico! Digo-o com um cordial prazer. Tambem trabalhei como
+uma alma possessa. Não houve domingo nem dia santo, que me déssem
+descanso, à chuva e ao sol, alta madrugada e avançada noite... Rim...
+rim... rim... rim...
+
+--Como elle range os dentes?!...
+
+--Todo o dia, a mesma coisa... Rompendo a madrugada, ia para as
+cavallariças despertar aquelles miseraveis todos que dormiam, como
+massas de feno, nos recantos das mangedouras. Ás vezes, chovia como um
+diluvio. E eu, com o corpo quente da cama, cortava o pateo, mettido no
+meu capote de lan, e, menos feliz do que os meus assalariados que
+ainda dormiam, tiritava, muitas vezes, de frio. A actividade, porem,
+dava-me calor e forças. Ora, muito pequeno comecei a vida nas terras da
+Beira, de onde sahi, num dia de inverno, ha mais de trinta annos. Nesse
+dia, a avósinha e a mãi-Geralda levaram-me até à caza do moço que me
+trouxe para aqui. Ah! Deus lhe dê o reino dos céus, jà que na terra eu
+nada lhe pude dar... Rim... rim... rim... rim... Bella pessôa, generoso
+ao desperdicio... Que barulho é esse que ouço de instante a instante?
+
+--São os trabalhadores no terreiro.
+
+--Sahiram hoje os vehiculos?
+
+--Sahiram todos.
+
+--Mas, esse ruido parece-me muito dentro de caza.
+
+--Talvez os cãis...
+
+--Não me veiu ver hoje o _Tupy_. Tem sido esse canzarrão o meu maior
+amigo. Todas as manhans salta sobre o meu leito e acaricia-me as mãos.
+Por onde andará elle que hoje se esqueceu de mim?
+
+--Prendi-o, inda ha pouco. Espera-se o medico, e...
+
+--Nem pense nisso: o pobre animal se ladra não morde. Vigia-me a caza e
+desconhece os extranhos.
+
+--Ladra e assusta.
+
+--Avisa-me de que desconhecidos penetraram neste lar. Fazem-me falta as
+suas lambarices. Tenho-o desde pequenino, ao desmamar-se. Ha oito annos.
+E sempre tive o pensamento de fazer-lhe o enterro. Se elle ouvia, de
+longe mesmo, o tropel do animal que eu montava, ia correndo buscar-me em
+meio de caminho. Nunca encontrei uma criatura que se lhe comparasse em
+fidelidade e presteza. Tudo uma cambada! Nem sei... Rim... rim... rim...
+rim... Nem sei como se têm feito por ahi afóra os meus serviços... E
+hoje é o ultimo do mês. Se não se procurar, a terrivel corja não paga.
+Nem tenho uma pessôa a quem confie esse serviço. Neste mundo só se
+encontram gatunos e ladrões. Um honesto, como eu, é uma realidade rara!
+Em tudo fui roubado, até na saúde. Dos poucos, das moedas de cobre, os
+simples trocos e differenças nas compras, tu te assenhoreavas, porque me
+dizias que eram economias. Na minha meza, nunca puzeste um dôce, uma
+fructa melhor. Era todo o santo dia a mesma coisa... Como me arrependo
+de ter deixado nas tuas mãos as economias que deviam ter voltado ao meu
+capital, porque delle se despediam para sempre... Rim... rim...
+rim... rim... Como se acaba mesquinhamente uma existencia operosa!...
+Ouço novos ruidos... Só me parece que os de agora são dentro de caza...
+
+--Pois quem seria?
+
+--Sei lá... Ouço coisas que só me parecem na sala da frente. Vai ver se
+é alguem...
+
+--Nem precisa. A porteira está fechada, e abrindo-se ella a campainha dá
+signal. Ao depois, o velho Thomé trata na estribaria dos animaes em que
+montas...
+
+--Vai tudo muito bem, mas não me posso conformar é com esta vida de
+cama. Seis dias de doença, e estou derreado como uma velha mangueira...
+Inda assim, considero-me bastante feliz. Não devo nada a ninguem. E, a
+mim, todos me devem. Depois de amanhan, vence-se uma letra de um
+devedor: ha de querer pagar-me os juros de quinze por cento por novo
+semestre... Mas elle estará enganado. Se quizer reformar, os juros
+crescerão. Agora só darei dinheiros a dezoito ao mês... Serviu? Façamos
+o negocio. Não serviu, passe muito bem... Rim... rim... rim... rim...
+Acabou-se o tempo em que eu era tolo. Esta caza deu-me uma espera de
+seis annos. Emprestei o dinheiro e o dono fez a hypotheca por tres
+annos. Ao depois de vencido o seu compromisso, levou engabelando-me
+por mais tres annos... Era uma conversa fiada hoje, uma promessa
+amanhan, e, nada, nem juros novos, nem capital velho... Se eu não
+mettesse advogado... Rim... rim... rim... rim... Eu sempre segui o
+conselho de que «poupa e os santos te ajudarão»... Não ganhei nunca
+quatro vintens de que não guardasse tres... Não te estou dizendo? Esse
+barulho é dentro de caza...
+
+--Desta vez não ouvi nada.
+
+--Então, estás surda. Pareceu-me que se abria uma porta e que gente
+andava. Rim... rim... rim... rim...
+
+--Não sei que especie de gente...
+
+--Realmente posso enganar-me.
+
+--Jà te convences? A esta hora, nem os trabalhadores estão aqui... Ah!
+Esqueci-me de dizer-te: os cavouqueiros não foram hoje à pedreira...
+
+--Miseraveis! Preguiçosos! Nem me vendo neste estado, esses malvados
+deixam de consumir-me. Um dia de descanso numa pedreira, é um
+prejuisão... Rim... rim... rim... rim...
+
+--Fiz ver tudo isto a elles.
+
+--E porque não trabalharam?
+
+--Porque morreu a moça do mestre, e este não veiu...
+
+--Não digo?!... Foi alguma imperatriz, certamente, que morreu. Pois là
+na minha terra, é que se sabe trabalhar... Là trabalhariam até à hora do
+enterro. Aqui encontram a razão para muitos dias de ocio. Se eu
+estivesse bom, a esta hora teria tocado todos elles para a rua. Rim...
+rim... rim... rim... Não gosto de vadios. Fui homem que, numa vida
+inteira, não teve uma hora de vadiação. Sempre comi de chapeu na cabeça
+e esporas nas botinas. Por isso guardei meia-duzia de contos. Digo assim
+meia-duzia, mas, ao certo, nem sei quantas meias-duzias guardei...
+Trabalha-se e guarda-se... Ouviste agora?
+
+--Sim.
+
+--E então?
+
+--Não sabes o que foi?
+
+--Não sei...
+
+--O _Tupy_ que esbarrou numa cadeira. Tranquei-o na sala de dentro, e
+aos outros mandei pôr as correntes...
+
+--Vai soltar o _Tupy_. É inoffensivo, tanta quanto é leal e cuidadoso.
+Nunca mereceu um castigo. Vai soltal-o!
+
+--Deixa-o preso. O doutor assusta-se sempre que chega e o animal avança
+sobre elle...
+
+--É uma prova de lealdade.
+
+--Que incommoda aos extranhos. Porque não bebes o leite? Queres?
+
+--Leite?!... Hontem te preveni que leite é luxo e que não posso com
+essas despesas... Ainda o compraste hoje?
+
+--O doutor mandou...
+
+--Rim... rim... rim... rim...
+
+--Ao depois, em caso de doença não ha desperdicio...
+
+--Ora, deixa-me! Estamos a gastar de mais a mais. É o leite, é a botica,
+é o doutor... E melhoras? Por um oculo. Sinto-me cada vez peior. Nem das
+pernas sou senhor... Ha tres dias ainda eu me podia sentar. Hoje... nem
+recostar-me! Tenho kilos de chumbo nas pernas... Sei que vou morrer, se
+a coisa continua assim... Rim... rim... rim... rim... Fui sempre um
+homem conservado e indisposto para divertimentos. Não sei como a minha
+saúde estragou-se... Vai soltar o cachorro! Os seus movimentos
+inquietam-me. Jà atirou outra coisa ao chão...
+
+--Deixa o cachorro preso.
+
+--Póde arrebentar mais alguma coisa, e serão novas despesas para mim...
+Que afflição sinto agora!
+
+--Bebe o leite!
+
+--Dà-me.
+
+--Jà se devem trinta medidas...
+
+--Como?
+
+--Trinta medidas do leite: seis dias a cinco medidas, tres de manhan, e
+duas à tarde...
+
+--Que desperdicio! Não digo! Se levar aqui um mês, o leite, o medico e a
+botica, mais os relaxamentos dos trabalhadores me terão reduzido à
+mizeria... Sabes que mais? Não quero mais leite... Supprima-se desde
+hoje...
+
+--E com que te alimentas?
+
+--Com agua... É intoleravel! Trabalhar uma vida inteira para perder tudo
+em oito dias de cama! Não é possivel. Não sou rico, não! Toca a poupar...
+
+--Sem o leite não poderás passar...
+
+--Passo, sim! Quem foi que disse que não poderei?
+
+--O medico.
+
+--Pois passo, sim. Sem dinheiro é que nada é possivel. Parece-me que se
+combinaram todos em roubar-me antes da morte... Tenham paciencia um
+pouquinho! Deixem-me fechar os olhos primeiro... Rim... rim... rim...
+rim... Está muito direito!... Trinta medidas de leite em seis dias! Nem
+sei se tomei porção igual em todo o resto da vida! É ter ganho uma
+fortuna em mais de trinta annos para acabal-a bebendo leite,
+pagando medico e sustentando boticas... Não quero mais leite! Rim...
+rim... rim... rim... Aborrece-me a vida, porque tudo nella é má fé e
+plano de roubo... Ah!... Lá se arrebentou tudo!... Ainda mais esta em
+cima: o cão preso, por um capricho, para quebrar os moveis e as
+louças... Mas, esse ruido que agora ouvi muito bem...
+
+--Foi a mesma coisa...
+
+--... não foi là dentro...
+
+--Foi, sim!
+
+--Pareceu-me na sala da frente...
+
+--Não cuidarás de outra coisa?
+
+--E que seria o que cahiu?
+
+--Uma bacia de folhas...
+
+--Não!... não!... não!...
+
+--Que queres fazer?
+
+--Levanta-me aqui...
+
+--Aquieta-te, homem!... O medico aconselha-te descanso e tu és peior do
+que um menino...
+
+--Aquelle barulho... Levanta-me aqui...
+
+--Para que? não me dirás?
+
+--Quero recostar-me... De vagarinho, mulher... Pegas no meu corpo como
+se pegasses num pedaço de pau...
+
+--Assim?
+
+--Devagarinho, sempre... Tira aqui o travesseiro...
+
+--Queres muita coisa tambem...
+
+--Não me fazes favor... Não preciso de ninguem contra a vontade... Tenho
+dinheiro para ser bem servido, e gósto que me tenham obediencia...
+
+--Estás muito impaciente...
+
+--Tira o travesseiro...
+
+--Prompto. Queres mais alguma coisa?
+
+--As minhas chaves... As minhas chaves... Ah!... Não estão aqui... Bem
+sei agora!... O meu cofre... o meu dinheiro... Estou rouba...
+
+.........................................................................
+
+ E cahiu apoplexiado com o conhecimento do roubo, para morrer,
+ minutos depois, quando as chaves de seu cofre, voltavam ao seu
+ esconderijo, como verdadeiras inutilidades...
+
+
+
+
+
+AO DESPIR UM PIERROT
+
+
+AO DESPIR UM PIERROT
+
+ A noite, lunarmente clara, envolvia em prata o recinto virginal, em
+ que, sem acceder ao somno, CHRISTINA se divertia, mostrando ao astro
+ lubrico os tons roseos de sua carnação perfeita como se talhada em
+ marmore rozado e humido.
+
+ Aquelle silencio luarento povoava as sombras de tetricas visões; mas
+ soffrendo o conflicto das ideias de uma traição de NARCISO e da
+ lealdade perquiridora de STELLA, a desaccordada mulher caprichou de
+ não durmir emquanto a espiona não tornasse do baile à fantasia.
+
+.........................................................................
+
+--Reconheceu-te, Stella?
+
+--Como me reconhecer?... Quem te disse estar elle no baile?
+
+--Não o viste?
+
+--Comprehendo-te, agora; empolgou-te a ideia de que Narciso estaria no
+baile, e, escrava dessa supposição, criaste todo um systema de
+desconfianças, que começaram de traduzir-se, muito naturalmente,
+naquella tua phrase.
+
+--Viste-o?
+
+--Vi-o. Porque arregalas deste modo os olhos? Não esperavas esta noticia?
+
+--Esperava. Mas, como todo o mundo que espera a nova de um desastre com
+uma pontinha de esperança em contrario, suppuz sempre que não puzesses
+os olhos sobre elle. Embora trahida, eu quereria não ser sabedora do mal...
+
+--Arrependo-me de ter sido exacta. E prudente, Christina, que te não
+obstines em aggravar o acaecido. Não remediarás o mal, não é assim?
+Pois, coração à larga. Narciso foi. Eu o vi. Medi-lhe as acções.
+Acompanhei-o por toda a parte. E, nem sequer, elle maldou de que uma
+_pierrot_ o acompanhasse. Se tu lhe falas, teràs de dizer-lhe quem foi
+espionar-lhe os passos de homem livre...
+
+--É o que te parece: livre?...
+
+--Pois não é livre Narciso?
+
+--Digo-te que não!
+
+--O teu noivo não tem a liberdade commum a todos os homens do mesmo
+estado?
+
+--Repito-te que não.
+
+--Pois, minha amiga, para o meu sentir, todos os noivos, longe das
+vistas da mulher amada, ficam sendo o que são: homens solteiros...
+
+--Narciso differe dos outros...
+
+--Uffa!... Christina!... Vou tirando o _pierrot_ que me acalora as
+carnes...
+
+--O noivado é um começo de intimidades, que se distendem, mais ou menos,
+conforme as razões de ser do amor vigiado. Naquelle avarandado
+semi-escuro, onde passamos todas as noites, por isso mesmo que estamos
+assegurados na nossa posição, com a possivel presença immediata de todos
+os de caza, as nossas intimidades seguem uma derrota que me dá o direito
+de exigir de Narciso maiores fidelidades do que tu pensas...
+
+--Olha, Christina, como o setim vermelho desbotou e nodoou rubramente o
+collête... Oh!... envermelheceu-me o collo tambem... Que fazenda
+ordinaria, esta!
+
+--Isto larga... Dois mezes, depois, de noivado, Stella, as confidencias
+das almas passaram às do corpo... Ah!... O primeiro beijo ainda foi mais
+cedo... Tinha eu tres dias de pedida... Na hora do adeus, deserta a rua,
+os seus labios roçaram sobre os meus olhos, e os seus bigodes
+produziram-me um _frisson_ nas carnes, com o qual eu me teria entregue
+ao mais terroroso dos homens. E Narciso, pelos extremecimentos de meus
+dedos que elle segurava entre os seus, sorriu--um sorriso mais lindo do
+que um raio de sol!--e, sem o querermos, talvez, por certo
+instinctivamente, os nossos labios se encontraram...
+
+--Vê, Christina, como ficaram as minhas calças...
+
+--Desbotou nellas o setim?
+
+--Alguma coisa. A côr amarella é mais fixa do que a vermelha... Mas,
+estão para ser exprimidas... Que sudorifico!
+
+--Despe-te logo. Pareces, com os teus costumes, que os teus olhos são de
+um homem que acompanhasse o desnudamento dos segredos de teu corpo...
+Avia-te, afim de que me contes o que viste...
+
+--Dir-te-ei centos de coisas novas...
+
+--Appeteço o conhecimento do que sabes. É uma infelicidade ter-se um
+pae, como o meu, que se indignaria contra mim, tolamente, se soubesse
+que eu fôra a um baile publico espionar os desvarios de meu noivo...
+Ah!... Como eu seria venturosa, se pudesse ir, como tu, a toda a parte
+que cubiço...
+
+--Nem tu calculas pallidamente o que por là se vive...
+
+--Apressa-te, Stella!
+
+--Acaba, primeiramente, o que contavas... Não quero perder a bôa hora de
+confidencias que inauguraste...
+
+--Pouco mais tenho para te dizer... Depois do primeiro beijo, os
+contactos... Em seguida, as mutuas confianças, mais um arregaçamento
+hoje, mais uma ternura amanhan... Um dia, porem, por mais que eu lhe
+resistisse, desejou ver-me o começo das pernas... Intimidades, Stella,
+intimidades, proprias, communs e infalliveis entre todos os noivos...
+Eram ellas que me garantiam, até hoje, a constancia de Narciso, e,
+quando vejo, como agora, que o que lhe faço jà se torna pouco para o
+prender na fidelidade accordada, adianto-lhe um pouco mais, sem comtudo
+deixar que elle perceba o manejo de fazer crescerem as concessões, na
+medida em que venha o seu enfartamento pelas anteriores... Conta, agora,
+o que tu viste...
+
+--Deitemo-nos, primeiro... A fadiga luxuriosa me alquebra os membros e o
+corpo quer distender-se nervosamente num leito macio...
+
+--E onde ficou Alberto?
+
+--O meu primo?
+
+--Sim.
+
+--Deixou-me ao entrar aqui. Pela nossa compostura fomos dois _pierrots_
+da maior sensação! Nem calculas como é deliciosa a companhia do meu
+primo nestes momentos... Ao depois, relembrou-me, com um calculado
+geito, pelo caminho, tudo quanto mais impressionou os meus sentidos.
+Soube corresponder à minha excitação, não commettendo maiores pecados do
+que me beijar nas passagens mais sombrias das ruas...
+
+--Invejo-te, Stella!
+
+--Bem poderias ter ido...
+
+--Qual nada!
+
+--Entrei e sahi sem que teu pae desse tento, pois não foi?
+
+--Isto é fácil para ti...
+
+--Procurou-te o teu pae durante a minha ausencia?...
+
+--Não!
+
+--Ahi está! Tinhas ido commigo e seriamos duas a commentar o que
+vissemos... Là estava Narciso... Foi um dos juizes no julgamento do
+baile. Custei a topar com elle. Só em meio da festa deparei com elle
+numa das banquinhas do _buffet_. Mais de vinte homens e mulheres...
+
+--Mulheres, tambem?
+
+--E então? Tu pensas que haverá quem resista à solidão naquelle cahos de
+sensações extranhas? O Lourival, marido da Conchinha, mais o Ramalho,
+casado com a Lucinda, là estavam, cada qual com a sua mascarada...
+
+--Narciso tambem?
+
+--Não te espantes senão se eu te disser que elle era o unico que não
+tinha uma mulher fantasiada ao seu flanco...
+
+--Como isto me incommoda! Quando o vi, aqui, promover o arrufo, pensei
+logo na traição. Aquelle semblante enfarruscado não era sincero...
+
+--Ao seu lado estava uma _écuyère_ italiana: deves gabar-te do gosto de
+teu noivo. Não se acompanha de mulher feia. É serio...
+
+--Era bonita a que o seguia?
+
+--Linda, Christina: _mignon_, alva, loura, e, com um arrebatador decóte,
+exhibindo um collo mais branco do que um pedaço de neve, do meio da
+qual, como uma abelha sobre uma petala de gardénia, um negro signal era
+tido como mascotte...
+
+--Jà agora me penso feliz por não ter ido là.
+
+--Que teria se tu tivesses ido?
+
+--Não me conteria.
+
+--Ora, Christina! Serias a primeira a deixar tudo para veres como o teu
+noivo sabe gozar uma mulher. Não dirias nem uma palavra, mas lhe
+acompanharias a pessôa como a sua sombra. Quando não te agradasse
+fecharias os olhos. Vi-o, por exemplo, encher a bocca de champagne...
+
+--Nada mais natural.
+
+--É o teu erro. Quem não sabe é como quem não vê. Pensas, então, que
+elle tomou a bebida de dentro da taça?
+
+--Sim.
+
+--Pois não! A _divette_ foi quem lhe passou o champagne collando os seus
+nos labios delle... Garanto-te que não sabias deste modo de acariciar...
+
+--Confesso-te que não.
+
+--Ahi está. Verias a _droiture_ com que o teu noivo se curvou, encostou
+nas suas as faces da encantadora mulher, collou-lhe os labios e
+sugou-lhe a entontecedora bebida...
+
+--Como deve ser bom esse carinho!
+
+--Ao depois, beijaram-se...
+
+--Aos olhos do publico?
+
+--Sim.
+
+--Ah!... Se eu estivesse là...
+
+--Não farias senão nada. Eu, pelo menos, nessas occasiões de grande
+excesso, alli mesmo me voltava, e, se não fossem as nossas
+mascaras, creio que, incondescendente, devoraria Alberto de beijos...
+Não conheço, Christina, nada que excite mais do que aquellas dansas. Um
+conto de Caliban é menos excitante, e um par dansando é bem um conto
+luxurioso escripto com a alma e a carne mais quentes, para ter o ponto
+final de um beijo. Os corpos estreitavam-se brutalmente, as pernas se
+entrançavam, as mãos, servindo de oppressores, estreitavam os troncos e
+cada par, assim enlaçado, cabeça descahida sobre cabeça, parecia um
+corpo só com a monstruosidade de quatro pernas... Exquisito, sem
+igual... Homens e mulheres não se distinguiam na furia dos sentidos...
+
+--E Narciso dansou?
+
+--Não. Nem todos dansam. Á parte, pelo jardim e nas mezas do _buffet_,
+os que não estavam fantasiados, se divertiam à grande, mas um pouco
+retrahidos das vistas do grosso publico, porque só no salão elles
+escandalisariam...
+
+--Todavia, vingar-me-ei...
+
+--Poupa-o, Stella... O pecado é divino... Vinga-te em mim...
+
+.........................................................................
+
+ As duas mulheres, num longo beijo, abraçaram-se e confundiram-se,
+ cada qual na ideia mais fixa de ter ao seu lado um outro ente...
+
+ A lua, devassamente, illuminou-lhes, até quando quiz, os seus bellos
+ corpos de uma semi-nudez pagan...
+
+
+
+
+A TAVERNA DE MME BERTHON
+
+
+A TAVERNA DE MME BERTHON
+
+ No terraço do «Café Leontina», agasalhados em seus lanzudos
+ _pardessus_, ODORICO e WENCESLAU, dois typos mundanos,
+ essencialmente mundanos, conversavam surdamente...
+
+ Subito, passou por elles e sumiu-se portas a dentro, uma figurinha
+ de sacudida mulher, muito morena e muito sensual, despejando olhares
+ cupidos por todas as bancas.
+
+ ODORICO enlanguesceu-se, e, como uma reacção, assignalou, assim, a
+ passagem da exquisita-mulher com uma rememoração cruel...
+
+.........................................................................
+
+--Sempre é curioso este «Café» em materia de mulheres. Não vejo esta
+«Menina Leontina», como a chamam, que não me recorde logo da
+infeliz Madame Berthon.
+
+--E tu, meu caro Wenceslau, és bem a chronica viva de toda a feminidade
+desta terra. Não ha uma mulher de quem não tenhas informações,
+anedoctas, segredos, sobre quem não lances um episodio de curioso entrecho.
+
+--Não conheceste tambem a Madame Berthon?
+
+--Somos os dois extremos: nada escapando ao teu saber e tudo me sendo
+ignorado...
+
+--Era uma vaporosa copia de Helena, capaz de mover guerras, e tentar a
+inspiração do artista mais rude para produzir uma obra-prima.
+
+--Alguma divindade incognita...
+
+--Não, mas a causadora de duas mortes: um assassinio e um suicidio. Quem
+a visse na simplicidade das suas vestias, no commum dos seus gestos, e
+na temperança dos seus costumes, não diria jamais que era a senhora
+absoluta de um corpo de estatua, para ser copiado pelo cinzel mais
+inspirado... Não se julgue a felicidade dos fins pelas venturas que
+povoam a estrada por que trilhamos. Muitas vezes, um momento de
+tranquillidade agora é a sementeira de um incommensuravel estado de
+attribulações mais tarde. Madame Berthon despejava invejas a todas as
+mulheres do seu conhecimento. Desta caza tirava ella os meios de sua
+subsistencia. Vi-a muitas noites, e sonhei com o taciturno aspecto de
+seu semblante. Taciturno, sim, porque, no meio da mais ruidosa alegria,
+aquella mulher era como uma virgem pallida a que nenhum excesso dê o
+rubor das faces... Sorria, mas o seu sorrizo revestia-se de uma algoz
+cambiante de tristeza. Tinha a côrte de poderosos pretendentes, mas
+decidia-se ordinariamente pelos mais fracos. Se ouvia a repulsa de
+alguem, era, ao depois, de um excessivo carinho para com o repellido. E,
+se a ninguem promettia, a nenhum negava, e a todos faltava...
+Curiosissima mulher! Os seus habitos eram os de uma leviana, mas a sua
+alma contrastava com a sua existencia costumeira. Exquisita mulher,
+Odorico, muito exquisita, senhora de muitos corações se tivesse querido,
+entretanto escrava de um só que a levou, finalmente, à sepultura.
+Durante algum tempo a sua tragedia foi a nota do dia. Um assassinio e um
+suicidio...
+
+--Foi sempre assim: em cada mulher ha o germen de uma fatalidade, mas,
+em algumas, ha a sementeira de muitos casos fataes.
+
+--Espera, Odorico, espera. Não condemnes a desventurada pelos primeiros
+tons de sua historia. Juiz mais severo do que eu, não conhecerás, por
+certo, para o julgamento dessa gente que pisa sobre escandalos, que
+veste escandalos, e que escandalisa o proprio escandalo. De ordinario, a
+mulher é o algoz, parecendo a extrema fraqueza. Neste caso, porem,
+Madame Berthon foi, apenas, a victima. Se crime ella teve, foi o de amar
+o homem que a assassinaria mais tarde. E amou... conjugalmente, porque
+nunca trahiu aquelle com quem cohabitava. Ás deshoras, lá para as
+tantas, assim numa hora de madrugada quando o vigilante gallo de Ares
+cantaria tatalando, como dois esposos, ella e o amante daqui sahiam e
+recolhiam-se calma e honestamente. De feio que era, o homem haveria de
+enciumar-se até de si mesmo, descrendo de ser elle o galan de uma femea
+tão geitosa. No mundo dos amores, ha, entretanto, essa especie de
+compensações: o feio é conjugado com o bonito, e reciprocamente, o
+bonito com o feio... Dahi a naturalidade daquella união de Gaspar com a
+Madame Berthon. Mais de noventa noites durou aquelle consorcio
+espontaneo. Aqui vinha eu, e naturalmente, cortejava à mulher
+gentil, espionando sempre o amante. Os homens todos, Odorico,
+saudavam-na com um mesmo enthusiasmo viril, como os armentios saudariam,
+com ardente fé, a vinda do outomno, porque é a estação das colheitas. Na
+manhan de um domingo, porem, no ninho dos dois amantes, là para as aguas
+furtadas de um sobrado, foi ouvido um movimento ouccubo. Visinhos,
+espicaçados pela anormalidade, attenderam ao que se passava na moradia
+de Madame Berthon. Depois de acalorada discussão, durante a qual o
+assassino descera as vidraças, cautelosamente, para não ser ouvido pelos
+extranhos, os estampidos de dois tiros indicaram um triste acontecimento
+no interior daquella caza. Momentos após, Gaspar, conduzindo uma bolsa
+de mão, descia os dois lances de escadas, abria as portas, e sahia,
+meticuloso e tranquillo, trancando às suas costas a entrada no sobrado
+em que commettera o assassinato de Madame Berthon. E, como um homem
+feliz, là se fôra rua abaixo. Quem o visse, não lhe diria o autor de um
+crime, muito menos quando, no desempenho de um habito, asseiava os
+botins, e olhava serenamente o movimento das ruas...
+
+--Revolto-me jà contra esse perverso.
+
+--Pois bem! O movel do crime fôra o roubo e todas as poupanças daquella
+operosa mulher estavam furtadas na bolsa que Gaspar segurava
+zelosamente. Em torno da caza de Madame Berthon, com o caso extranho dos
+dois tiros, populares encostavam-se nas redondezas do edificio suspeito,
+arrastando-se como lemures ámerios em trilhas brancas de areiaes
+desertos. Vozes surdas contavam as supposições de um crime; a suspeita
+avolumou-se... O rochedo nú da desconfiança vestiu-se fartamente com os
+ouropeis das espumas brancas dos commentarios. Pelas janellas descidas,
+olhos mais perspicazes queriam ver logo os indicios vivos do barbaro
+crime. E o tempo era bastante para que o assassino asseiasse as botas e
+penetrasse no Hotel onde tinha hospedagem official. Nos populares
+tressuou a vontade da denuncia, e um indicou a presença proxima de um
+delegado. Era preciso animo tambem para se ir retirar a fescennina
+autoridade do seu aninhamento concupiscente ao lado de uma concubina...
+Tudo o mais foi rapido. Num instante abriu-se com violencia a entrada.
+Um obstaculo appareceu: a porta estava presa, como que escorada por
+dentro. Que seria que obstava o seu movimento? Uma cabeça affoita
+enfiou-se por uma nesga, e voltou transfigurada, annunciando sómente:
+«Está morta». Outros typos mais curiosos vieram, ageitaram-se e
+penetraram com a autoridade. Estatelada sobre o chão, Madame Berthon,
+numa nueza arrebatadora ainda não tinha a gelidez dos cadaveres, mas já
+era morta. O seu thorax derramava coalhos de sangue escarlate. E sobre
+as suas fórmas nuas, nada, senão as meias presas com atilios de fitas
+rubras, e as pequenas sapatinhas...
+
+--Que miseria!
+
+--Já conheceste a victima. Dahi por diante a acção foi sobre o agente. A
+perseguição popular foi ter ao Hotel, e, quando os primeiros
+perseguidores foram percebidos, com a mesma arma, alvejando as suas
+proprias temporas, Gaspar era um suicida... Não calculas a impressão que
+esse crime deixou no meu espirito. Eu vi a nudez de Madame Berthon, e
+senti que o assassino não tivesse ficado vivo para pagar com a reclusão
+da vida a barbaridade do assassinio de uma mulher, cujo corpo
+esculptural seria capaz, como o de Mnezarete, de vencer austeros
+Areopagos... se desvendado fôsse tal como eu o vi... E nota, Odorico,
+que um corpo morto, por mais bello que seja, é menos do que o vivo,
+porque, quando nada, lhe falta essa humidade quente que é o fluido mais
+sensual do mundo. Deante de carnes como as de Madame Berthon, só
+naturezas muito fortes não cederão à necrophilia... Então ella que
+possuia um nevo sobre o quadril direito...
+
+--Sensualizas tudo, Wenceslau!
+
+--E que é que escapa, neste mundo, da sensualidade? A propria morte,
+como tu deves saber, é um pedaço de sensualismo microbiano... Quantas
+fecundações damnadas na hora extrema de um ser?!... Porque, senão pela
+força dos sexos, baqueou a inditosa Madame Berthon?!... Recorre à
+instancia do amor que toparàs com a absolvição da mulher, e carregarás a
+mão na dosagem da condemnação do homem algoz.
+
+--Comtudo, sou contra sempre a defesa da mulher. Esta tem sido
+condescendentemente tratada. Menos liberdade para ella, mais rigor no
+senhorio dos homens.
+
+--E como influiria tudo isto para que Gaspar não victimasse Madame Berthon?
+
+--Seria preciso, Wenceslau, que eu te contasse a historia desde o começo
+do mundo, e é coisa que não se sabe é a data da primeira traição da
+mulher, de tão distantes tempos vem ella.
+
+--Andas atrazado nisto, Odorico. A mulher teve o seu primeiro acto numa
+traição do homem, e formada de uma traição, porque foi necessario que
+Adão adormecesse para que Jehovah, trahindo à perfectibilidade da sua
+obra, lhe tirasse uma costella do corpo afim de formar Eva, ella não
+poderia ser contraria à sua origem...
+
+--És rigoroso demais...
+
+--Não sou, não, meu caro. Um grande philosopho, cuja obra leio todos os
+dias e quanto mais leio mais ella me ensina, observou bem o que te digo
+e escreveu precisamente: «As mulheres têm sido tratadas até aqui, pelos
+homens, como passaros que, descidos de uma altura qualquer, se perderam
+no meio delles: como qualquer coisa de extranho, de delicado, de fragil,
+de selvagem, de doce, de arrebatador--mas, igualmente, alguma coisa que
+é necessario engaiolar para que se não và embora num vôo»... Que é isto
+senão o reconhecimento do espirito traiçoeiro de nossas Evas?... Ao
+demais... estamos muito fóra dos eixos... Que bebemos agora?...
+
+.........................................................................
+
+ Fóra do terraço do «Café Leontina», solemnemente encapotados, dois
+ policiaes nem tinham alma para andar, tamanho era o frio da alta
+ noite...
+
+
+
+
+INDICE
+
+ Dedicatoria VII
+ Epigraphes IX
+ Nedda 3
+ Voluptuosas 17
+ O poeta moribundo 29
+ O velho medico 41
+ Os dois espelhos 53
+ O primeiro filho 65
+ Á vista da denuncia 75
+ Irado até à cura... 89
+ A hungara 101
+ Depois do cometa 115
+ Amores no claustro 127
+ A Consulêza 139
+ De como o avarento morreu... 153
+ Ao despir um pierrot 167
+ A taverna de Madame Berthon 179
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Mundanismos, by Almáquio Dinís
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30413 ***