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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:53:57 -0700 |
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Castilho e Melo"> + <meta name="Publisher" content="Empresa Editora Carvalho e C.ª"> + <meta name="Date" content="1875"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1,h2 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .vermelho {color: red;} + .verde {color: green;} + .indlist {text-indent: -1em; margin-left: 1em;} + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Nas Cinzas, by Gontran Borys + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Nas Cinzas + +Author: Gontran Borys + +Translator: Augusto Ernesto de Castilho e Melo + +Release Date: November 25, 2009 [EBook #30543] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS CINZAS *** + + + + +Produced by M. Silva + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<div class="fbox"> <b>Notas de transcrição:</b> +Este texto é uma transcrição do original de 1875, tendo-se actualizado a grafia para a variante europeia da língua portuguesa (pré-acordo ortográfico de 1990).<br> +Foram corrigidos alguns erros tipográficos evidentes. +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<div style="border: dotted 2px red; padding: 2px;"> +<div style="border: double 4px green;padding: 2px;"> +<div style="text-align:center; border: dotted 2px red; padding: 1em;" class="verde"> + +<p style="font-size: 3em;">NAS CINZAS</p> + +<p style="font-size: 0.8em;" class="vermelho">POR</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">GONTRAN BORYS</p> + +<p style="font-size: 0.8em;" class="vermelho">TRADUÇÃO DE</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">L. C. M.</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.8em;">C & C</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p class="vermelho">LISBOA</p> + +<p>EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C.ª</p> + +<p style="font-size: 0.8em;" class="vermelho">RUA LARGA DE S. ROQUE, 100</p> +</div> +</div> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 2em;">NAS CINZAS</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">GONTRAN BORYS</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>Imprensa nacional—1875</p> +</div> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 3em;">NAS CINZAS</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">GONTRAN BORYS</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">TRADUÇÃO DE</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">L. C. M.</p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr style="width: 30%"> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>LISBOA</p> + +<p>EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C.ª</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">RUA LARGA DE S. ROQUE, 100</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p><span class="pn">{5}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00100000000000000000">I</a></h1> + +<p>Se perguntásseis hoje diante de dez pessoas quem é André Sauvain, nove delas +achariam ridícula a vossa ignorância, e a décima não hesitaria em soltar uma +gargalhada. A ninguém é permitido desconhecer uma gloria nacional: entretanto +ninguém conhecia há sete anos aquele nome, tão celebre agora.</p> + +<p>Nessa época, ainda André Sauvain não era um pintor ilustre. Ocupava, ao cimo +da rua dos Mártires, um <em>rez-de-chaussée</em>, tão próprio pela humidade a +criar cogumelos, como pela escuridão a inspirar tragédias. A habitação do jovem +pintor limitava-se a uma só casa, que acumulava as funções de sala, quarto de +cama, <em>atelier</em> e refeitório. E nem por isso ele passava pior do que se +residisse em sumptuoso palácio.</p> + +<p>André era um rapaz vigoroso, com músculos de<span class="pn">{6}</span> aço, +esbelto como um vime e magro como um gato em Abril. O seu porte altivo, bigode +castanho e retorcido, pêra aguçada, cabelo alourado e abundantíssimo, +assemelhavam-no a alguns retratos de Van-Dyck por forma, que não causaria +estranheza ver pender-lhe ao lado uma espada. E com efeito a blusa rafada, que +trajava, ia tão bem à sua figura nobre e elegante, como um gibão do melhor +veludo.</p> + +<p>Numa bela e clara manhã de Dezembro André Sauvain acabava de retocar um +<em>Faust au sabbat</em>: recuando um pouco para melhor avaliar o efeito do seu +quadro, e erguendo por acaso os olhos, foi testemunha de um prodígio. Através +das vidraças do seu quarto descobria-se parte de uma casa esplendidamente +iluminada pelos raios do sol. Aquele prédio era o constante pesadelo do pintor. +Segundo os caprichos da atmosfera, ora reflectia execrável claridade no +<em>atelier</em>, ora lhe interceptava completamente a luz. André lançava-lhe +pela milésima vez a sua maldição, quando de repente viu abrir-se uma janela, e +aos ouvidos do mancebo chegaram as últimas notas de uma cançoneta entoada por +voz fresca e harmoniosa: não tardou que a essa janela se mostrasse uma cabeça +de mulher, inclinando-se para fora. Aquela cabeça arrancou ao pintor um grito +de admiração e, bem que nunca a tivesse visto, reconheceu-a imediatamente.<span +class="pn">{7}</span></p> + +<p>Há no Louvre uma miniatura de Fragonard, do tamanho de uma peça de 40 +francos, que é a imagem de uma menina de quinze anos, rosada, loura, com a +risonha expansão da inocência a iluminar-lhe o rosto. A boca é uma cereja: +deseja-se colhe-la com os lábios. A brisa de maio brinca travessa com os bastos +anéis dos seus cabelos doirados. Nos seus olhos negros, de extraordinária +viveza, crepita a jovialidade. É a primavera, é a alegria, é a mocidade em +flor. Pois, embora o não creiam, esse rosto encantador, emoldurado pela janela +que se abrira fronteira ao <em>atelier</em> de Sauvain, era o original daquela +miniatura, feita havia mais de cem anos.</p> + +<p>A jovem vizinha do pintor tinha na mão um grande ramo de violetas, e +voltando-se para falar a alguém, sorriu-se. Mas que sorriso! Um minuto antes +eram bem lúgubres os pensamentos de André Sauvain. Na confusão de monstros, de +demónios, lobisomens e bruxas, de que povoara o seu quadro, entrevia +amargamente no espírito o símbolo da sua existência atribulada. Estava triste +como a morte. Porém a gentil visão dispersara os fantasmas, como um facho +luminoso dissipa as trevas. André sentiu o coração bater-lhe com força +desusada. Era de júbilo. Teve uma vertigem e baixou os olhos, enquanto o +ardente sangue dos seus vinte e cinco anos fazia retumbar-lhe aos ouvidos, em +grande orquestra, a arrebatadora sinfonia da esperança.<span +class="pn">{8}</span></p> + +<p>Foi apenas um relâmpago. A visão desaparecera; a janela fechou-se. E André, +querendo continuar o seu trabalho, não pôde, porque lhe tremiam os dedos; +abandonou a palheta, e foi sentar-se a um dos cantos da casa com os cotovelos +fincados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. A noite veio surpreende-lo +assim. Então cada objecto assumiu para ele um aspecto fantástico; parecia-lhe +que, em volta de si, aromatizava o ar um suave perfume de violetas; aplicou o +ouvido, e julgou perceber o eco longínquo de uma cançoneta; olhou para o seu +quadro, e só viu nele um turbilhão de cabeças louras, iluminadas por grandes +olhos pretos.</p> + +<p>E por toda a parte, no centro da casa, por detrás dos modelos de gesso e dos +cavaletes, nas paredes nuas, entre as vigas do tecto, no meio das telas +esboçadas, afigurava-se-lhe sempre ver um sorriso de anjo, um ramo de violetas, +uns olhos negros e uns cabelos louros.</p> + +<p>—Será assim que nasce o amor? perguntou André a si próprio, tomando-se o +pulso. Depois, levantou-se aterrado:</p> + +<p>—Se amo, estou perdido! exclamou ele. Vamos jantar!<span +class="pn">{9}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00200000000000000000">II</a></h1> + +<p>Nesse tempo (refiro-me ao ano da graça de 1853) André Sauvain, bem que +fosse proprietário, não jantava todos os dias. Verdade é que a <em>sua +propriedade</em> não valia sessenta escudos, e não lhe rendia sequer um franco! +Consistia numa casa velha e pequena, num recanto da Normandia; uma ruína +musgosa e enegrecida, sempre abalada pelos ventos da costa. Mesmo assim, André +podia te-la vendido a algum pescador, mas nem a mais horrível miséria o +determinaria a tal: apegara-se-lhe o coração àquele pardieiro pelas raízes +profundas, a que chamam recordações; tinha lá nascido e lá morrera sua mãe.</p> + +<p>Além da humilde casinha de seus pais, André Sauvain só possuía... a sua +pessoa: nem um parente, nem uma amante, nem um amigo, nem um cão! Devera ter +começado por dizer: nem um soldo!<span class="pn">{10}</span> O resto +depreendia-se por simples ilação. Vivia de esperanças e de privações; frugal +alimento, que o conservava sadio e alegre. Tanto de verão como de inverno, +levantava-se com a aurora, pintava até à tardinha, e aproveitava-se da +escuridão para percorrer Paris em todas as direcções; depois recolhia extenuado +de fadiga, deitava-se às apalpadelas, para economizar azeite, e dormia a sono +solto. Estas caminhadas pelas trevas restabeleciam-lhe a circulação do sangue e +entretinham-lhe a actividade do cérebro. De noite, as ruas inspiram os +cismadores. Parece que aquelas grandes artérias, onde circulam sem cessar +correntes humanas, estão saturadas de fluidos intelectuais, e que as ideias se +exalam do solo em vapores invisíveis...</p> + +<p>Aqueles prodigiosos passeios eram as únicas extravagâncias de André. +Habitava Paris havia doze anos, e nunca quisera saber de outros divertimentos, +que não fossem os museus e as bibliotecas. Do teatro abstinha-se ele com +extremo cuidado, reflectindo em que um bilhete de plateia lhe cerceava dois +dias de subsistência.</p> + +<p>Além de que, alimentava na mente uma quimera, como dantes se mantinha um +<em>terno</em><a name="tex2html1" href="#foot65"><sup>[1]</sup></a> à loteria; +consistia ela em reunir alguns centos de francos,<span class="pn">{11}</span> +não só para reparar o famoso pardieiro natal, mas ainda para cobrir com modesta +lousa a pobre viúva, que repousava a um canto do pequeno cemitério da +aldeia.</p> + +<p>Eis porque, nessa tarde, fugindo do seu <em>atelier</em>, onde perigosas +imagens lhe perturbavam o espírito, exclamou: «Se amo, estou perdido! O amor e +o trabalho são dois inimigos mortais. Não amemos!»</p> + +<p>Ora, prometer não amar equivale a jurar que não nos cairá uma telha sobre a +cabeça. André reconheceu-o um pouco tarde: a sua imaginação corria à desfilada, +e ele já não era senhor de a fazer parar! Jantou em três garfadas e com três +suspiros, segundo o uso imemorial dos namorados; depois saiu e caminhou ao +acaso, com o olhar desvairado e o aspecto carrancudo. Mas, por mais que +fizesse, sentia sempre aquela boca rosada, os olhos negros, os cabelos louros e +a canção alegre a prenderem-se-lhe ao coração com as suas garras de diamante. +</p> + +<p>Era véspera de Natal. Em toda a linha dos <em>boulevards</em> humildes +barracas de madeira branca irradiavam o pálido clarão das suas lanternas sobre +as suas vizinhas fronteiras, magníficas lojas, cintilantes de gás e de +doirados. Por entre esses dois cordões de luz cruzavam-se torrentes de ociosos +passeantes. Aquele ruído, aquela claridade, o perpassar da multidão buliçosa e +festiva, forçaram André Sauvain a baixar à terra. Voltou a si, como um +dormente<span class="pn">{12}</span> que desperta em sobressalto, e, poucos +minutos depois de poder reconhecer o lugar em que estava, surpreendia-lhe o +olhar ainda distraído, e vivamente lhe excitava a atenção, uma fisionomia na +verdade singular.<span class="pn">{13}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00300000000000000000">III</a></h1> + +<p>Defronte da vidraça de uma casa de pasto agrupava-se, como sempre, uma +multidão curiosa e vítima do suplício de Tântalo.</p> + +<p>No centro desse grupo via-se um homem de quase sessenta anos, de baixa +estatura, mas grosso e exibindo um busto de atleta.</p> + +<p>A longa barba, espessa e grisalha, caía-lhe sobre o peito, onde se bifurcava +em duas pontas; tinha o nariz tuberculoso e avermelhado, ao passo que a pele +macilenta, tisnada e enrugada das suas faces, estava coberta de manchas +lívidas. Não obstante o termómetro marcar dez graus abaixo de zero, cobria-lhe +a cabeça um chapéu pardo, cujas abas moles e cansadas já não tinham cor +apreciável; uma sobre-casaca no fio, quase erma de botões, mal lhe protegia o +tronco contra os rigores da temperatura,<span class="pn">{14}</span> e os +braços mergulhavam até aos cotovelos nas algibeiras de umas velhas calças de +ganga.</p> + +<p>Estava ali; boquiaberto e imóvel. Os seus olhos, brilhando ávidos sob +grossas pálpebras vermelhas e lacrimosas, pareciam querer saltar das órbitas +para devorar os tesouros gastronómicos perante eles expostos: perdigotos +recheados de trufas, terrinas misteriosas, salsichões enormes, lagostas +escarlates sobre ramos de verde salsa, carpas do Reno, cujos lombos prateados +vergavam sob pedaços de gelo... tudo o tentava, e as suas ventas dilatadas +aspiravam com força as emanações culinárias que saíam pelos ventiladores.</p> + +<p>De repente André viu-o empalidecer e vacilar; mas não tardou que o +desconhecido cobrasse animo e mil impressões rápidas transpareceram +sucessivamente no seu rosto extraordinário. Foram elas: a raiva concentrada, um +sofrimento agudo, o cinismo descarado, e um embaraço tímido. Passou a mão curta +e cabeluda sobre os seus olhos, deslumbrados, mais ainda pela atracção dos +comestíveis do que pelas luzes. Depois estudou, uma a uma, com angustiosa +atenção as figuras que o rodeavam inclinadas para a vidraça. Por fim +franziram-se-lhe os lábios num amargo sorriso, e o seu olhar tornou-se +carregado. Tirou lentamente o chapéu, e soltando um suspiro, enxugou o crânio +calvo, onde brilhavam grossas bagas de suor. Foi então que descobriu André<span +class="pn">{15}</span> Sauvain, o qual, parado a pouca distância, o observava +com crescente interesse. Vendo-se espiado, o velho franziu as negras +sobrancelhas, e fugitivo rubor lhe coloriu o pergaminho das faces; com um gesto +indiferente e irónico, tornou a pôr o chapéu no alto da cabeça, e +balanceando-se à moda dos marinheiros, disse-lhe num tom em que transparecia a +contrariedade:</p> + +<p>—Então, mancebo, que temos? Serei porventura um fenómeno? Julga-me +empalhado?</p> + +<p>Sauvain estremeceu ao som daquela voz concentrada, metálica, e mais notável +ainda pela sua acentuação provençal muito pronunciada.</p> + +<p>—Desculpe-me, senhor, balbuciou André um pouco atrapalhado. Não tive +intenção de o ofender.</p> + +<p>—Com mil bombardas! assim o creio. Então julgou conhecer-me, heim?</p> + +<p>—É a primeira vez que o vejo!</p> + +<p>—Outro tanto não digo eu, murmurou o velho, cujos olhares penetrantes +examinavam André dos pés à cabeça; parece-me tê-lo encontrado algures... ou ao +senhor ou a alguém muito parecido consigo!... Em Roterdão, suponho eu... ou em +Calcutá... talvez na Filadélfia?...</p> + +<p>—Nunca me afastei tanto de Paris, disse André.</p> + +<p>—E eu venho cá pela primeira vez. E portanto evidente que me enganei. Mas +então que fazia aí, em êxtase diante da minha pessoa?<span +class="pn">{16}</span></p> + +<p>—Vou confessar-lho francamente, respondeu Sauvain; sou artista, e a sua +fisionomia interessou-me.</p> + +<p>—Artista! Percebo agora. Na verdade eu devo ter uma cabeça de Sócrates... +ou de sátiro, disse o desconhecido rindo. Mas o riso extinguiu-se-lhe logo numa +contracção nervosa; tornou-se mais pálido, e segurou-se, para não cair, ao +ombro do moço pintor.</p> + +<p>—Mau! continuou ele com voz fraca, as minhas endiabradas pernas querem +deixar-me... Ajude-me a sentar em qualquer parte... pois sinto que vou para o +fundo.</p> + +<p>André, muito inquieto, amparou-o até ao mais próximo banco e sentou-se ao pé +dele.</p> + +<p>—Não é nada, disse o velho... uma vertigem... isto vai a passar...</p> + +<p>Com efeito, pouco a pouco pareceu recuperar as forças. Depois de alguns +minutos de silêncio, fincou os cotovelos nos joelhos, tomou em cada mão uma das +pontas da sua longa barba, e fitando André Sauvain, com o seu olhar manhoso e +ousado, disse-lhe bruscamente:</p> + +<p>—Não receia comprometer-se, senhor?</p> + +<p>—Como?...</p> + +<p>—Mostrando-se na companhia de um miserável maltrapilho como eu.</p> + +<p>André encolheu os ombros.<span class="pn">{17}</span></p> + +<p>—Não tenho preconceitos, respondeu ele, nem tão pouco amigos, ou mesmo +conhecidos: os meus meios não me permitem esse luxo. Além disso não estou muito +mais bem vestido do que o senhor...</p> + +<p>—Belamente! retrucou o velho. Jovem, altivo, pobre e artista... é o que me +convém!</p> + +<p>—O que lhe convém!... Que quer dizer?</p> + +<p>—Ora imagine, continuou o singular personagem, que, desde o pôr do sol, +procuro na turba um homem de coração!... Não vi senão homens gordos e +irrepreensivelmente trajados, raça de que desconfio, e por isso ficaram-me as +palavras na garganta. O que eu tenho a confessar é... nauseabundo. Nem todos o +entenderiam.</p> + +<p>—Então o que é? perguntou o pintor. Pode dizer...</p> + +<p>—Duas palavras somente, mas que me afogam! Tenho fome.</p> + +<p>André sentiu um calafrio no coração.</p> + +<p>—Ufa! exclamou o desconhecido, até que enfim soltou-se o segredo! Sim, +mancebo, há três dias que estou em Paris, e há quarenta e oito horas que não +como! Eis a razão por que me encontrou estupidamente pasmado defronte dessa +exposição culinária. Com mil bombardas! é cruel mostrar assim aos esfaimados +tantas coisas que fariam crescer água na boca até a um homem farto! +Contemplando-as, imaginava-me numa noite de festim, uma noite em que<span +class="pn">{18}</span> o tinido dos garfos e o <em>glu-glu</em> das garrafas se +fazia ouvir através das janelas... E as cãibras do meu estômago sugeriram-me o +pensamento de que, no meio de um milhão de indivíduos que vão sentar-se à mesa; +seria estúpido deixar-me morrer à fome por não querer dar-me ao incomodo de +articular duas sílabas. Enfim chegou o senhor... a sua fisionomia inspirou-me +confiança... parece-se com... com quem diabo se parece das pessoas que tenho +conhecido?... Não importa, falei... o pior está passado!</p> + +<p>André remexia já nas algibeiras.</p> + +<p>—Espere! disse o velho segurando-lhe o braço. Vai oferecer-me dinheiro... e +partirá com a convicção de que o roubaram. Obrigado. Chamo-me Pedro Toucard; é +um nome, que não rima com mendigo, nem com tratante. Preste-me um serviço.</p> + +<p>—Qual?</p> + +<p>—Indique-me o meio de ganhar imediatamente alguns soldos. Sou esperto, aqui +onde me vê; e, se não morrer esta noite, tirar-me-hei de embaraços...</p> + +<p>—Um meio... imediato? disse André. Não conheço nenhum. Mas aqui está a +minha bolsa, partilhemos.</p> + +<p>E tirou de dentro dela duas peças de cinco francos, que era toda a sua +fortuna.</p> + +<p>As pupilas do velho iluminaram-se; contemplou<span class="pn">{19}</span> +aquele metal, como um amante traído contemplaria ainda a mulher infiel e +adorada.</p> + +<p>—Dinheiro! murmurou ele. Tinha-me esquecido da cor e do feitio dele!... eu +que o possuí aos montes!... Como é belo o dinheiro!... Mas... não... não... +exclamou ele recuando um passo, não recebo esmolas!</p> + +<p>—Não é esmola, é apenas um empréstimo! lhe tornou André.</p> + +<p>E, quer ele quisesse quer não, foi metendo uma das peças de cinco francos na +mão calosa do desconhecido.</p> + +<p>Àquele contacto, Pedro Toucard, fez-se rubro; as fontes e a testa +inundaram-se-lhe de ardentes gotas de suor, vapor condensado da terrível luta +que nele se travava entre a vergonha e a fome. Os olhos, de um pardo +esverdeado, tornaram-se-lhe húmidos e brilhantes.</p> + +<p>—É então a pobreza emprestando à miséria? disse ele com voz rouca, retendo +a mão de André nas suas e apertando-a com energia.</p> + +<p>Depois, enxugando as pálpebras com as costas dos seus felpudos dedos, +exclamou:</p> + +<p>—Ora adeus! sou um espertalhão, e por mais depressa que a fortuna corra, +apanha-la-hei ainda uma vez. O seu nome e morada, mancebo? André respondeu +apenas com um grito abafado.</p> + +<p>Pálido, com o coração palpitante, seguia com os<span class="pn">{20}</span> +olhos uma mulher, cujo vestido roçara por ele ao passar.</p> + +<p>Aquela mulher, que se afastava, graciosa e ligeira, tinha cabelos louros sob +um chapéu de veludo preto, e olhos negros sob os cabelos louros.</p> + +<p>—Não ouve? repetiu Pedro Toucard, desejo saber o seu nome e morada.</p> + +<p>Porém o pintor já ia longe; desprendendo a mão das do velho, lançara-se +desesperadamente atrás da sua visão.</p> + +<p>Pedro interpretou mal aquela brusca partida; retorceu por muito tempo a sua +barba grisalha, e resmoneou com ar pensativo:</p> + +<p>—Uma esmola disfarçada... É pena! Agradava-me este rapaz!... Mas com quem +diabo se parece ele?...<span class="pn">{21}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00400000000000000000">IV</a></h1> + +<p>André Sauvain, empurrando vinte pessoas, alcançou e passou adiante do chapéu +de veludo preto, voltou-se timidamente, encomendou a sua alma a Deus, e ousou +enfim encarar... uma decepção!</p> + +<p>Não era ela!</p> + +<p>—Venho a dar em doido!... disse consigo ao voltar para casa. Apaixonar-me +antes de haver cimentado o meu futuro... é o mesmo que fazer círculos na água +com luíses de oiro. Sou porventura um homem, ou não o sou? Sou. Pois bem! +esquecerei essa criança loura.</p> + +<p>Passou a noite jurando não pensar mais nela, e estorcendo-se sobre as brasas +da insónia. Eis a razão por que, na manhã seguinte, quando a senhora +Poussignol, porteira de bigode e com os pés da largura de pratos sopeiros, +invadiu o <em>atelier</em> no desempenho do seu oficio de servente, achou André +empoleirado<span class="pn">{22}</span> sobre três cadeiras, espreitando, +através do seu postigo envidraçado, uma janela fronteira, que tinha ainda as +portas cerradas.</p> + +<p>—E esta! exclamou ela com voz masculina.</p> + +<p>—Quem mora ali? perguntou o pintor.</p> + +<p>A senhora Poussignol arregalou os olhos na direcção que lhe indicava o dedo +do seu cliente, aspirou uma pitada de rapé, e brandiu a vassoura com gesto +feroz.</p> + +<p>—Aquilo?... disse ela, não é coisa que preste!</p> + +<p>André sentiu-se assomado de violenta indignação.</p> + +<p>Conteve-se todavia, e montando a cavalo sobre a sua caranguejola de +cadeiras, pediu à porteira que continuasse.</p> + +<p>—Dois quartos para a traseira, prosseguiu a senhora Poussignol... uma +mobília de cinco soldos... e duzentos francos de aluguer, compreendendo a +luz... Eis-aí está!</p> + +<p>—E ela? interrogou André.</p> + +<p>—Ela!... O locatário chama-se Germinal. É um empregado reformado, um velho +avarento, um pelintra, um unhas de fome, que se enforcaria por um soldo, e que +nem é capaz de largar seis liards pelas festas do ano!</p> + +<p>—E ela? repetiu André.</p> + +<p>—Ela... quem? Ah! sim, a rapariguinha que leva a vida à janela... +Felizmente perde o seu tempo; o senhor André é o rei dos trabalhadores, e<span +class="pn">{23}</span> não levantaria o nariz de cima das suas telas para ver a +própria Vénus!</p> + +<p>André empalideceu.</p> + +<p>—Como!... pois pensa que é por minha causa? Nunca dei por tal.</p> + +<p>—Pudera!... Todo entregue às suas pinturas, não repara em mais nada. Pois +há bastantes dias que ela deita o lúzio para cá. Vê-se muito bem lá de cima o +interior deste quarto, e parece que isso diverte a rapariga!...</p> + +<p>—Mas quem é ela? exclamou André impaciente.</p> + +<p>—Ora! é a menina, Rosa Germinal, filha daquele velho sovina... a figura de +um lacrau, tal e qual! Não pode deixar de ser algum antigo criminoso, que tenha +a consciência carregada de assassínios.</p> + +<p>—Que ideia!</p> + +<p>—É o que lhe digo. Em primeiro lugar, há onze anos que não põe os pés na +rua! não se mexe de casa, mais do que um caracol da concha... Onze anos! Que +pensa daquilo?</p> + +<p>—Será.</p> + +<p>—Qual historia! Tem tanta saúde, como o senhor ou como eu, mas tem medo de +ser filado, ora aí está! Só apanha ar num jardim de bonecas, do tamanho do +<em>Constitucional</em> desdobrado... e isso porque o proprietário lho permite +de graça... Até causa dó!...</p> + +<p>—E ela? insistiu André.<span class="pn">{24}</span></p> + +<p>—A menina Rosa? essa... vai e vem, corre ao mercado, cuida da panela e +remenda os trapos do pai, que, salvo seja! nunca mais comprou coisa alguma +desde o atentado de Ficschi. O vestuário preocupa muito pouco esse velho +papa-moscas. Quando sente passos no pátio, foge para casa a sete pés; se batem +à porta, treme como varas verdes, bate o queixo, e só se decide a abrir ao cabo +de um quarto de hora. Se lhe entregam uma carta, fica verde como um afogado. +Ora diga-me se é possível que um cristão honrado tenha semelhantes sustos?</p> + +<p>—E ela?</p> + +<p>—Ela?... Deve confessar-se que é uma criatura bem ageitadinha, +desembaraçada e habilidosa; asseada como um soldo novo, alegre como um +pintassilgo, chilreando desde pela manhã até à noite!... Mas, apesar disso, +ainda ganha os seus quarenta soldos por dia, a fazer flores: o pai Germinal +apenas tem seiscentos francos da pensão de reforma, e, se não fosse a filha, +havia de custar-lhe a passar a vida.</p> + +<p>—Mas, disse André, linda como ela é... sim, pareceu-me bonita!...</p> + +<p>—Isso lá!... é linda como os amores, o diabrete da rapariga! afirmou a +porteira.</p> + +<p>—É verdade, disse André tentando sorrir, e... deve ter muitos namorados?... +</p> + +<p>—Ora, pois não! Aquilo tem um juízo... uma seriedade! Quando sai à rua +podia... vadiar o seu<span class="pn">{25}</span> bocado, requebrar-se, dar +ouvidos a lerias, mas... não senhor! compradas as provisões e entregue o seu +trabalho, volta para casa de corrida, e só trata de divertir o velho maroto do +pai, que então fica todo contente. Oh!... contente como se nenhum remorso +tivesse a pesar-lhe no estômago!</p> + +<p>—Que espécie de gente costuma receber?</p> + +<p>—Gente?... em casa dele!</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Receber?... o sr. Germinal!... Essa é melhor! Se ele nem um gato conhece +no mundo inteiro!</p> + +<p>—E... os vizinhos?</p> + +<p>—Sabe lá sequer quem são! Uma figura nova produz-lhe um ataque de nervos. +</p> + +<p>—Com a breca! murmurou André despeitado; é com efeito um ente bem +misterioso, e parece-me assaz difícil domesticá-lo!</p> + +<p>—Pois se eu lhe digo que é um urso! Não há exemplo de que tenha dirigido +uma palavra, seja a quem for, excepto a mim e à filha. E pelo que toca a sair +do seu buraco, era mais fácil deixar-se fazer pedaços...</p> + +<p>Uma pancada, discretamente batida na porta do <em>atelier</em>, interrompeu +a senhora Poussignol.</p> + +<p>—Entre! exclamou o pintor, deixando-se ficar empoleirado onde estava.</p> + +<p>A porta entreabriu-se, e um homem comprido e esguio passou pela +abertura.<span class="pn">{26}</span></p> + +<p>—Senhor... disse ele dirigindo-se a Sauvain.</p> + +<p>Neste ponto estacou, exalou um suspiro, esfregou as mãos, o que produziu +ruído semelhante ao de um raspador, olhou em volta de si com ar assustado, e +pareceu querer fugir. Reconsiderou porém, e continuou, articulando as palavras +como se cada silaba lhe fosse arrancada da laringe por um saca-rolhas +invisível:</p> + +<p>—Senhor... chamo-me Germinal... moro aqui defronte... e venho... na +qualidade de vizinho... fazer-lhe uma pequena visita...</p> + +<p>André desabou da sua caranguejola com grande estrondo; o senhor Germinal, +aterrado, lívido de susto, cingiu-se rapidamente com a parede.</p> + +<p>—E esta! rosnou a senhora Poussignol no auge do espanto...<span +class="pn">{27}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00500000000000000000">V</a></h1> + +<p>Se a ferrugem, esse peróxido de ferro hidratado, pudesse tomar forma humana, +escolheria, para encarnar, o individuo que André Sauvain tinha diante de si. +</p> + +<p>O senhor Germinal assemelhava-se a um prego colossal, esquecido durante seis +meses em sitio húmido.</p> + +<p>Tudo nele estava enferrujado, desde a cadeia donde pendia o seu relógio de +caixas de prata, até aos botões do colete. Cor de ferrugem era o seu fato cheio +de cerziduras e lustroso, à força de gasto, nos cotovelos, nos joelhos e nas +coxas; cor de ferrugem eram as suas suíças sarapintadas, os cabelos raros +deixando a descoberto um pedaço de crânio amarelado, a pele salpicada de +manchas ruivas, os olhos inquietos orlados de um círculo desbotado como os<span +class="pn">{28}</span> dos peixes cozidos, os lábios que deixavam entrever as +suas gengivas arruinadas, os dentes que nelas encaixavam... e tudo enfim! +Enferrujada era também a sua voz, e até se exalava da sua individualidade um +tal ou qual cheiro ferruginoso.</p> + +<p>Todavia, a despeito da afirmativa da senhora Poussignol, o senhor Germinal +não tinha de modo algum a aparência de um ex-bandido. Era um homem tímido, +humilde, vítima de um contínuo mal-estar e de uma trepidação nervosa +inexplicável, sempre com o ouvido à escuta, e a atenção alerta. Naquele mesmo +momento, em que arriscava um passo verdadeiramente fenomenal para o seu +carácter, parecia obrar sob a pressão de uma vontade mais forte do que a sua, +como um sonâmbulo recalcitrante, que o magnetizador dirige.</p> + +<p>E contudo nunca mortal algum, mesmo o mais sedutor, foi acolhido, +lisonjeado, afagado por um sorriso semelhante ao que André Sauvain dispensou ao +pai da sua... quimera loura.</p> + +<p>—Tenha a bondade de sentar-se, senhor Germinal, faça favor!... Que amável +surpresa!... Que excelente ideia teve!... Não sei como agradecer-lhe...</p> + +<p>Pouco faltou para que André ajoelhasse.</p> + +<p>O senhor Germinal suspirou, assentou-se com certas precauções, que davam a +entender precisarem de untura de azeite os seus pontiagudos joelhos, +esfregou<span class="pn">{29}</span> lentamente os dedos nodosos, uns contra os +outros, e disse:</p> + +<p>—É hoje dia de Natal, senhor Sauvain! Ouvindo aquela incontestável verdade, +André entendeu dever manifestar alguns sinais de alegria.</p> + +<p>—Com efeito é dia de Natal... Uma grande festa!</p> + +<p>—Muito grande.</p> + +<p>—Felizmente o tempo está bom.</p> + +<p>—Muito bom.</p> + +<p>—Ainda que bastante frio.</p> + +<p>—Muito frio.</p> + +<p>Neste período da conversação houve uma pausa de cinco minutos. André +contemplou o senhor Germinal com ar animador, e apoderou-se-lhe de uma das +mãos, que estreitou nas suas de um modo inteiramente filial. O senhor Germinal +baixou pudicamente os olhos, retirou a mão, e com ela esfregou a outra.</p> + +<p>—Parece-me, prosseguiu este, que por ocasião de tal solenidade, poderíamos +permitir-nos... um leve extraordinário...</p> + +<p>—É tão curta a vida... respondeu Sauvain, procurando adivinhar a conclusão +a que queria chegar o seu interlocutor.</p> + +<p>—Permitir-mo-hei pois, continuou o velho, e como o senhor é meu +vizinho...<span class="pn">{30}</span></p> + +<p>O coração de André cessou de bater.</p> + +<p>—Tomo a liberdade; articulou o senhor Germinal com incrível esforço, sim... +tomo a liberdade... de o convidar...</p> + +<p>—Ora essa! bradou a senhora Poussignol, dando um salto.</p> + +<p>—Senhor! exclamou o pintor, meu caro senhor, semelhante honra, um tal... +Ah! senhor, disponha de mim... pertenço-lhe em corpo e alma!...</p> + +<p>—Não exijo tanto, disse o senhor Germinal, tirando do bolso um lenço cor de +ferrugem, com o qual enxugou a sua calva amarelada. Peço-lhe unicamente... o +favor de vir esta noite a minha casa... das oito horas às oito e dez minutos... +para passar o serão... modestamente... em família.</p> + +<p>—Em família! repetiu André extasiado.</p> + +<p>—Então... aceita?</p> + +<p>—Se aceito! querido e venerado senhor... com entusiasmo!... com delírio! +</p> + +<p>O senhor Germinal levantou-se como se fora feito de uma só peça. Parecia +consternado.</p> + +<p>—Nesse caso, disse ele em tom lúgubre, até à noite.</p> + +<p>—Até à noite, meu respeitável vizinho! modulou André, que interrompeu o +ruído de raspador, apertando nas suas ambas as mãos do senhor Germinal.</p> + +<p>Este último encaminhou-se para a porta.<span class="pn">{31}</span></p> + +<p>—Haverá, acrescentou com voz abafada... sim... haverá talvez... uma garrafa +de cidra.</p> + +<p>—Adoro a cidra!</p> + +<p>O senhor Germinal abriu a porta.</p> + +<p>—E... sim... creio poder afirmar que haverá também... castanhas.</p> + +<p>—Sou doido por castanhas!</p> + +<p>A porta fechou-se.</p> + +<p>André Sauvain ficou um momento como esmagado pela enorme ventura, que a +Providencia lhe enviava; depois saltou para o meio do <em>atelier</em>, +executando a capricho uma sarabanda furiosa, delirante, como de outra igual não +há memoria!</p> + +<p>Pelo que respeita à senhora Poussignol, apenas teve forças para repetir: +«Ora essa!»</p> + +<p>Paralisada pelo excesso de espanto, deixou-se cair com todo o seu peso sobre +a caixa das tintas, derramando algumas.<span class="pn">{32}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00600000000000000000">VI</a></h1> + +<p>Que fada haveria tocado o senhor Germinal com a sua magica varinha? Por que +prodígio aquele misantropo, que durante onze anos não se aventurara fora de +casa, com medo de encontrar o oval de qualquer dos seus semelhantes, vinha +agora convidar um desconhecido para festejar com ele o aniversario do Natal! +</p> + +<p>O pintor não se inquietou com esse enigma. Contentou-se com ser feliz.</p> + +<p>Às oito horas em ponto, agitou, não sem sobressalto, o fio de ferro que +correspondia à campainha do seu amável vizinho.</p> + +<p>André tinha tido o cuidado de aformosear-se. Escovara o fato e vestira roupa +lavada; contudo sentia-se pouco à vontade. Quando Rosa olhou para ele, fez-se +tão branco como a própria camisa, e pela primeira<span class="pn">{33}</span> +vez deplorou o comprimento dos seus braços e pernas, das quais não sabia o que +fizesse.</p> + +<p>Pelo que toca à jovem, ignoro em que ela pensou, mas o seu lindo rosto +tornou-se da cor do seu nome.</p> + +<p>O arranjo de casa do senhor Germinal, não só era totalmente desprovido de +magnificência, mas até deixava adivinhar a presença de um mau hóspede, a quem +chamam pobreza; contudo a ordem, harmonia e limpeza, que ali reinava, fazia +alegrar o coração: cada móvel fora conquistado à custa de laboriosas vitorias, +e ostentava-se no seu lugar, polido, espanado e lustroso, como convém a um +troféu doméstico.</p> + +<p>A noite correu deliciosamente. Houve cidra... e houve castanhas!... Para +André houve também certos regalos pouco apreciados pelo vulgo, mas que o pintor +saboreou como artista e como poeta: o prazer dos olhos, a embriaguez da alma, o +delírio da imaginação... são esses a que me refiro.</p> + +<p>Porque... ela estava ali, Rosa, a travessa e meiga criança. Para +certificar-se de que não sonhava, Sauvain beliscava os braços de vez em quando; +ora, como apesar disso continuava a absorver por todos os poros a suave música +da sua voz, as escalas argentinas do seu riso e o <em>fru-fru</em> do seu +vestido azul; como a via voejar, qual ave encantadora, ruborizar-se por ser +admirada, e sorrir<span class="pn">{34}</span> de prazer corando; como, enfim, +quando ela inclinava a cabeça, o candeeiro iluminava de reflexos doirados os +anéis do seu cabelo, punha em relevo o seu gracioso perfil, sombreado por +pestanas de seda; ou lhe transformava o colo em uma lamina de puríssimo marfim, +André viu-se obrigado a reconhecer que não dormia.</p> + +<p>O senhor Germinal ganhou dezassete partidas de <em>écarté</em> ao seu jovem +vizinho... que nem deu por isso!</p> + +<p>O pintor não notou também as singulares contracções nervosas do seu +parceiro, que estremecia ao menor ruído exterior, empalidecendo ao fechar +longínquo do portão do pátio, e saltando na cadeira quando a escada rangia sob +a pressão de passos humanos. Bem podia cair um raio sobre a mesa, que André não +repararia em tal!</p> + +<p>Às onze horas retirou-se este, cambaleando como um ébrio, posto só tivesse +aceitado um cálice de cidra; e quando Rosa, à despedida, lhe tocou levemente +nas pontas dos dedos, pareceu-lhe que o peito se lhe dilatava até ao infinito, +e que dentro dele se abrigava o céu inteiro, límpido, azulado, transparente e +todo povoado de pombas de cândida plumagem.</p> + +<p>Enquanto a Rosa, depois de André partir, fazendo um colar dos seus braços +nevados ao papá Germinal, cobriu-lhe de beijos as faces enferrujadas, e +gorjeou-lhe ternamente ao ouvido:<span class="pn">{35}</span></p> + +<p>«Muito obrigada, meu bom, meu querido, meu adorado papázinho!»</p> + +<p>E, feito isto, voou para o ninho.</p> + +<p>O senhor Germinal, vendo-se só, esfregou as mãos por tal forma, que +ter-se-ia jurado estar ali um batalhão de marçanos raspando cones de açúcar. +Depois suspirou, bateu na testa e deu algumas voltas pelo quarto, até que +aferrolhou a porta, tapando o buraco da fechadura, fechou a janela e correu as +cortinas. Tomadas estas precauções, arredou o leito, ajoelhou no sobrado, no +mesmo lugar que ocupara a cama, levantou uma tábua, deixando a descoberto uma +profunda escavação, meteu por ela o braço e exumou um volumoso rolo de papeis. +</p> + +<p>Aqueles papeis amarelentos, ensebados, velhos e cheios de nódoas, tinham o +selo do banco de França. Eram notas de mil francos.</p> + +<p>O senhor Germinal contou-os, recontou-os, espalhou-os, beijou-os, e depois, +acamando-os num maço, contou-os ainda outra vez.</p> + +<p>Eram noventa e dois.</p> + +<p>O senhor Germinal não devia conservar dúvida alguma sobre o seu numero e +valor, porquanto os verificava trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.</p> + +<p>E quando as notas foram de novo recolhidas no esconderijo, e o leito +restituído ao seu lugar, o senhor Germinal consultou o almanaque, e disse em +voz baixa:<span class="pn">{36}</span></p> + +<p>«Onze anos, sete meses e dezassete dias... Daqui a quatro meses e meio, a +minha Rosinha será feliz! E eu?... acrescentou ele estremecendo.»<span +class="pn">{37}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00700000000000000000">VII</a></h1> + +<p>Voltou a primavera. Na da rua dos Mártires havia um jardim, separado do +pátio por uma sebe de buxo; e esse jardim era dividido em vários talhões, de +modo que cada locatário, mediante um pequeno aumento na renda, gozava de uma +pequeníssima nesga de terreno, que podia cultivar a seu bel-prazer.</p> + +<p>André Sauvain não participava dessa regalia.</p> + +<p>Mas, quando as folhas, ainda franzidas, começavam a romper do seio dos +rebentos, quando as aves ensaiavam já os seus gorjeios, e o ar amornecendo +espalhava as nuvens sobre um fundo de pálido azul, o moço pintor visitou +quotidianamente o jardim do seu vizinho Germinal.</p> + +<p>Havia quatro meses que, por uma série não interrompida de milagres, André se +tornara indispensável<span class="pn">{38}</span> ao misterioso velhote; +contava-se com ele, agora, como com um génio do lar.</p> + +<p>O pintor não se saciava de admirar Rosa; enlevava-se na contemplação daquela +flor animada, que também ia desabrochando ao calor da primavera. Uma manhã +estavam eles sós no seu paraíso de doze pés quadrados; um raio de sol, +escorregando à beira do telhado, cujas ardósias coloria de azul, deixara-se +cair nos laços que lhe armavam os ramos das árvores e as novas vergônteas; +debatia-se, o imprudente raio, no meio de um folhedo de verdura; e a brisa, +segredando, mofava do seu desatino. Ouvia-se já o zumbido das abelhas, e +delicados perfumes se exalavam das flores, que tinham aberto as suas corolas +durante a noite.</p> + +<p>«Eu também, dizia André, possuo um jardim, um velho jardim, que povoam +copadas árvores!... Rodeia a casa onde nasci; muitas vezes ali passeio... em +sonhos. Se lá voltasse, parece-me que cada tronco estremeceria sob o seu +invólucro de musgo, que o lagarto viria alegre mostrar-se à fenda do muro, que +a aranha desceria da sua teia rendilhada para acorrer jubilosa, que a água do +tanque se agitaria de contente, que a parreira enlaçaria os seus esteios +carunchosos, e tudo ali me bradaria com voz comovida: «Bons dias, André! Sê bem +vindo!... Pobre André! já não és a criança que nós encantávamos; já não tens as +faces rosadas, a fronte límpida,<span class="pn">{39}</span> a franca alegria, +a gargalhada espontânea de então! Agora... és um homem! cresceste, lutaste, +sofreste; os companheiros dos teus brinquedos já se esqueceram do teu nome; o +camponês, que te trouxe às costas, passa e não te conhece. Mas nós, amigos +humildes como somos, conhecemos-te ainda, André; deixaste entre nós a melhor +parte das tuas recordações, e irás encontra-las lá em baixo, naquele banco +carunchoso, onde tua mãe te embalava cantando.»</p> + +<p>Rosa escutava-o comovida, entrançando um ramo de pervincas.</p> + +<p>—Oh! continue, murmurou ela. Amo essa casinha e esse velho jardim. Quando +me fala deles, os seus olhos impregnam-se de infinita doçura; dir-se-ia que +reflectem, como a água límpida de um regato, a imagem daqueles companheiros da +sua infância.</p> + +<p>—É porque, junto de si, querida menina, respondeu Sauvain, tudo o que na +minha alma há de sagrado, me sobe aos lábios e aos olhos. Ah! se a esperança +transparece neles tão claramente como as mágoas, dar-se-á acaso que não +descobrisse ainda?...</p> + +<p>Não concluiu. Nunca tinha dito tanto!</p> + +<p>Rosa, sentindo bater o coração e com as faces em rubor, curvou a cabeça e +esperou. Mas André não teve ânimo para continuar. O silencio apenas foi<span +class="pn">{40}</span> perturbado pelos trilos de uma toutinegra, que esvoaçava +por cima dos dois jovens.</p> + +<p>—Fale-me do seu jardim? lhe tornou Rosa; conte-me o que ele lhe confiou, a +última vez que o viu.</p> + +<p>O sorriso de André extinguiu-se, e a voz tornou-se-lhe mais triste.</p> + +<p>—Nesse dia, disse ele; o meu velho jardim estremecia sacudido por áspera +brisa, e quando transpus a porta, as árvores desfolhadas e as folhas em +redemoinho, só me enviaram um gemido, que acolhi com lágrimas...</p> + +<p>Rosa ficou pensativa e fitou no rosto de Sauvain as suas pupilas negras e +inquietas.</p> + +<p>—Há doze anos que isto sucedeu, prosseguiu o pintor. Tinha eu então treze, +e era aprendiz em casa de um escultor. Recebera da Normandia uma carta, que +beijei; continha apenas estas palavras: «Estou muito doente, meu querido filho, +e queria abraçar-te». Um quarto de hora depois, partia eu... a pé, por falta de +dinheiro. Andei noite e dia, comendo o meu pão enquanto caminhava, matando a +sede na água lodosa dos fossos da estrada, repelindo o sono, que me fechava as +pálpebras... Cheguei enfim! A porta estava aberta... entrei chamando minha +mãe... vi-a imóvel, branca como a cera, estendida sobre o leito em que eu +nasci; ao lado dela, ardia uma tocha... Caí de joelhos<span +class="pn">{41}</span> no meio do quarto... sem gritos, sem lágrimas, sem +ideias... Minha mãe estava morta!</p> + +<p>O pintor proferiu estas últimas palavras com a voz entrecortada pela +comoção. Rosa pousou-lhe timidamente a mão sobre o ombro.</p> + +<p>—Enterraram-na, ao cair da noite, continuou ele... Quando tudo terminou, +retomei o caminho de Paris, trazendo a chave de minha casa deserta... menos deserta +que a minha alma!</p> + +<p>Rosa deixara cair o ramo; os anéis louros do seu cabelo escondiam-lhe os +olhos.</p> + +<p>—Parece-se com sua mãe, André?</p> + +<p>—Não, Rosa; pareço-me com meu pai, um ousado marinheiro que pereceu num +naufrágio, e que eu não cheguei a conhecer... A pobre viúva nada mais possuía, +neste mundo, além do meu afecto: a sua existência decorrera triste e solitária; +éramos pobres; foram-lhe necessários prodígios de dedicação para educar-me; +chamava-me a sua alegria, o seu orgulho, a sua consolação... E eu tinha por ela +um culto apaixonado; por ela jurara ser rico, respeitado, celebre... Minha mãe +morreu!</p> + +<p>Rosa estava de pé, um pouco inclinada para o pintor. Este sentiu uma pérola +líquida cair-lhe sobre a fronte.</p> + +<p>—Como eu a teria amado! suspirou a jovem.</p> + +<p>André pegou-lhe nas mãos, atraindo-a brandamente para si.<span +class="pn">{42}</span></p> + +<p>—Minha mãe morreu! repetiu ele, e pensei por muito tempo que nada +preencheria o horrível vácuo, que em mim causou a sua falta. Porém, Rosa, +acredita-lo-á?... A par dessa indelével saudade insinuou-se, pouco a pouco, +uma ternura não menos forte, ainda que de outra natureza. Ao princípio, era +apenas um gérmen, um grão dourado que o acaso lançara no meu caminho, mas... o +gérmen cresceu, o grão desenvolveu-se em planta, e a planta em frondosa +floresta, cheia de canções, de murmúrios e de perfumes!...</p> + +<p>André sentiu tremer, entre as suas, as mãos de Rosa. Contudo... ela sorria +através das lágrimas.</p> + +<p>—E, se as almas pudessem falar, sabe Rosa o que lhe diria a alma de minha +mãe? Dir-lhe-ia: «Rosinha, também te amo muito... a ti, que me terias amado! +Amo-te, porque és boa, inocente e piedosa; porque o teu espírito encantador tem +mil delicadezas; porque me substituíste nos sonhos de meu filho; porque és a +luz dos seus olhos, a flor da sua esperança, o enlevo da sua vida! Ama-o, +Rosinha... peço-to eu! ama meu filho, que te ama tanto!»</p> + +<p>Rosa volveu para o pintor o seu olhar, radiante e cândido.</p> + +<p>—Mas, disse ela com simplicidade, eu amo-o!... Pois não o sabia, André?</p> + +<p>Sauvain empalideceu, e estreitou nos braços a<span class="pn">{43}</span> +donzela, cujas faces se encenderam em pudico rubor.</p> + +<p>Neste momento ouviu-se aquele, já mui conhecido, som de raspador, e à porta +do jardim apareceu o senhor Germinal, mais frio, mais compassado, mais +ferrugento do que nunca.</p> + +<p>—Muito bem! disse ele em tom levemente irónico, então quando é o +casamento?<span class="pn">{44}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00800000000000000000">VIII</a></h1> + +<p>Os dois namorados ficaram confusos, como colegiais surpreendidos a furtar +maçãs.</p> + +<p>—Senhor, balbuciou André, não pense que... Juro-lhe, pela minha honra, que +é a primeira vez que...</p> + +<p>—Meu caro vizinho, permita-me que lhe diga que é um parvo! interrompeu o +senhor Germinal, que se assentou sossegadamente, e puxou para junto de si, +ameaçando-a com o dedo, a linda Rosa, um tanto enleada.</p> + +<p>Quem, então, ficou de todo embatocado foi o pintor...</p> + +<p>Pois supõe, continuou o senhor Germinal, que iria eu próprio meter o lobo no +aprisco, se não tivesse... cá o meu plano?</p> + +<p>—Será possível!... exclamou Sauvain</p> + +<p>—Tudo é possível, meu caro. E possível que, à<span class="pn">{45}</span> +força de deitar o nariz fora da janela, esta criança reparasse em certo +vizinho; é possível que o pai, vendo-a pensativa, procurasse descobrir o que a +preocupava; é possível que, adivinhando ele o que de ordinário atormenta uma +rapariga de dezassete anos, a seguisse à dita janela e aventurasse um olhar por +cima do ombro da filha; é possível enfim, que, por entender que ao longe se vê +mal, aproximasse os dois curiosos para se verem de perto.</p> + +<p>André lançara-se de joelhos na areia do jardim: com uma das suas mãos +apertava a dextra escabrosa do senhor Germinal, com a outra levava aos lábios a +alva mão da donzela.</p> + +<p>—Rosa!... minha Rosinha! anjo querido! sonho dourado da minha vida! repita +diante de seu pai aquelas palavras, que há pouco me iluminaram o coração!</p> + +<p>—Amo-o; André! disse ela ingenuamente e sem hesitar.</p> + +<p>—Não se morre de alegria!... exclamou o enamorado moço.</p> + +<p>—E o senhor... meu bom amigo... meu pai... dá-ma?</p> + +<p>—Ela ama-o, André! respondeu o senhor Germinal, arremedando Rosa. Mas +levante-se daí, vizinho! há mais janelas e mais inquilinos, no prédio!</p> + +<p>André obedeceu: nos seus olhos ardiam fogos de<span class="pn">{46}</span> +artifício, o coração tocava-lhe a rebate, e no cérebro sentia ressoar uma banda +regimental.</p> + +<p>—Escute-me, disse o velho.</p> + +<p>—Sou todo ouvidos!...</p> + +<p>—Não se vive só de ar: não lhe parece?</p> + +<p>—É verdade, infelizmente!...</p> + +<p>—Bem. E que trará o senhor para a comunidade conjugal?</p> + +<p>André mordeu o bigode, e consultou as nuvens, como se elas estivessem +encarregadas de trazer-lhe barras de oiro e se houvessem demorado no caminho. +</p> + +<p>—Trarei, respondeu enfim, o meu amor, a minha coragem, a minha perseverança +e... a minha fé no futuro.</p> + +<p>—Muito bem, disse o senhor Germinal. E tu Rosa, que levarás em dote a teu +marido?</p> + +<p>—A felicidade, respondeu ela simplesmente, mas com profunda convicção.</p> + +<p>—Muito bem, repetiu o velho. Pois, meus filhos, possuís exactamente o mesmo +capital, que eu possuía quando casei.</p> + +<p>—E foi feliz, afirmou Rosa.</p> + +<p>—Feliz!... redarguiu ele com amargura; feliz, como o ladrão, que se apressa +a dissipar o que roubou, pensando incessantemente nas galés que o esperam!... +feliz, como o condenado à morte, que afoga a razão numa orgia efémera, e que +despertará no cadafalso!... Não sabe, André, quanto custa<span +class="pn">{47}</span> ver a mulher que adoramos, uma criatura delicada a quem +desejaríamos entretecer um ninho com todas as maravilhas do universo, +estragando a vista num trabalho ingrato para poder comprar um miserável vestido +de chita!... sorrir forçadamente para nos esconder as pálpebras avermelhadas +pela vigília!... definhar-se; a fogo lento, à mingua de um pouco de +supérfluo!... E tu ignoras também, minha pobre Rosa, o que é ver entrar à noite +um homem desanimado, abatido, prostrado pelo excesso de um trabalho mecânico, +humilhado por superiores insolentes, escarnecido por subalternos mais bem +trajados do que ele, consentindo, para poder ganhar um salário irrisório, em +calcar aos pés a sua inteligência e a sua dignidade!... Tu não sabes, repito, o +que é sentir-se uma pessoa esmagada por esta luta com a pobreza, prever próxima +a morte, e inclinar-se de noite sobre um berço, murmurando: «Que será desta +criança, quando eu lhe faltar?»</p> + +<p>Rosa e André achegaram-se um ao outro, trocando olhares altivos, que +desafiavam a adversidade.</p> + +<p>—Ignoram tudo isto, prosseguiu o senhor Germinal; porém eu, que o sei por +experiência própria, jurei sobre o túmulo de minha mulher, morta de miséria, +vítima de privações de toda a espécie!... que nunca daria minha filha a um +homem pobre.</p> + +<p>André levantou-se, pálido e com as feições transtornadas.<span +class="pn">{48}</span></p> + +<p>—A não ser que ela tenha um dote razoável... concluiu o velho.</p> + +<p>Os dois jovens ficaram aterrados.</p> + +<p>—Oh, meu pai!... meu pai!... exclamou Rosa, quase irrompendo em pranto.</p> + +<p>—Senhor! bradou André, trémulo de indignação, se o que diz é um gracejo... +é bem cruel!</p> + +<p>Papá Germinal esfregou as mãos, produzindo desta vez o ruído de um raspador +colossal.</p> + +<p>—Senhor Sauvain, a quantos estamos do mês?</p> + +<p>—Oh!... o senhor está abusando...</p> + +<p>—Responda-me por favor: quantos são hoje?</p> + +<p>—Não sei!... 8 de maio, creio eu.</p> + +<p>—Pois bem, senhor Sauvain; hoje mesmo, 8 de maio de 1854, minha filha +possui um dote.</p> + +<p>—Um dote?... eu! exclamou Rosa, incrédula.</p> + +<p>—Isso pouco me importa, disse André, o essencial para mim...</p> + +<p>—Pelo contrario, deve importar-lhe muito; sem dote, não consentiria eu que +casasse com minha filha. Dou-lha... com noventa e dois mil francos.</p> + +<p>Desta feita, o susto sufocou Rosa e André. Pareceu-lhes palpável que o +senhor Germinal trilhava o caminho que conduz a Charenton<a name="tex2html2" +href="#foot119"><sup>[2]</sup></a>.</p> + +<p>Mas o velho, sempre sério, tirou convulsivamente do bolso um grande maço de +notas de banco, folheou-o<span class="pn">{49}</span> perante os olhares +atónitos dos dois namorados, e repetiu, acentuando cada silaba: «Noventa e dois +mil francos!» Tome lá, meu genro!<span class="pn">{50}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION00900000000000000000">IX</a></h1> + +<p>Sauvain abriu desmesuradamente os olhos. Tantos valores nas mãos do senhor +Germinal, cuja miséria igualava a de Job!... O caso era de natureza a inspirar +suposições extravagantes: até Rosa se inquietou.</p> + +<p>—Como assim, meu pai! disse ela, tudo isso lhe pertence?</p> + +<p>—Pertence-te a ti; pois que to dou.</p> + +<p>—E de onde lhe veio tanta riqueza?</p> + +<p>A fronte do velho enrugou-se; até aquele momento desenvolvera insólito +desembaraço, mas a esta pergunta de sua filha, reapareceram o seu +constrangimento anterior, o seu balbuciar e timidez habituais.</p> + +<p>—De onde me veio este dinheiro!... retorquiu ele; queres sabe-lo?</p> + +<p>—Certamente!...<span class="pn">{51}</span></p> + +<p>—Das minhas economias.</p> + +<p>—Economias!... quando cem vezes nos tem faltado o necessário!... quando não +era raro ignorarmos na véspera se jantaríamos no dia seguinte!</p> + +<p>—Minha filha, é bom sofrer no presente para assegurar o futuro.</p> + +<p>—Economias!... quando o pai, estando doente, ia morrendo por falta de +remédios e de dinheiro para os comprar!</p> + +<p>—Sou avarento!... balbuciou o senhor Germinal, evidentemente constrangido. +</p> + +<p>—Talvez... Mas explique-me por favor, meu pai, como pôde poupar perto de +cem mil francos, dos seus seiscentos francos de ordenado?</p> + +<p>—Há muito tempo que comecei, disse o velho enxugando o crânio; os pequenos +regatos tornam-se em rios, os soldos transformam-se em francos, e os francos em +notas do banco.</p> + +<p>—Para isso mesmo era necessário recorrer ao cambista, e há doze anos que +meu pai não põe os pés fora de casa!</p> + +<p>—Estás importuna!... articulou o senhor Germinal, que, de amarelo cor de +palha, passou ao amarelo do enxofre; além de que... há mais de doze anos que +tive uma herança...</p> + +<p>—Agora diz que o herdou!...</p> + +<p>—Foi ainda em vida de sua mulher? perguntou André secamente.<span +class="pn">{52}</span></p> + +<p>—Ao que parece...</p> + +<p>—Entretanto, senhor, acaba de confiar-nos que a mãe de Rosa morreu à míngua +do necessário!...</p> + +<p>—Vão para o diabo! bradou o senhor Germinal. Dar-se-á acaso que me tomem +por um ladrão?</p> + +<p>—Meu pai!...</p> + +<p>—Vizinho!...</p> + +<p>—Minha filha... Meu amigo... Não querem o meu dinheiro, não é assim? +julgam-no de origem impura? Pois não o queiram. Reembolso-o, e... basta de +amor... nada de casamento! Voltemos para nossas casas, e não falemos mais em +tal!</p> + +<p>—Senhor, exclamou André, afiance-nos ao menos que existe um motivo grave +que o obriga a ocultar a origem da sua riqueza!...</p> + +<p>—Nada mais desejam?... Pois bem; é verdade, com a breca! Tenho um motivo +grave... gravíssimo! tenho dez... tenho cem... tenho mil!</p> + +<p>O senhor Germinal estava extremamente agitado.</p> + +<p>—Porém, continuou André, como o consideramos um dos homens mais honrados +deste mundo...</p> + +<p>—Não carecemos saber mais nada, concluiu Rosa.</p> + +<p>—Ora... ainda bem! Graças a Deus! exclamou o velho, respirando mais +livremente.</p> + +<p>E, enlaçando Rosa nos seus braços, envolveu-a num olhar cheio de ternura, e +beijou-a na testa.</p> + +<p>—Criança má!... murmurou ele, estás com<span class="pn">{53}</span> muita +pressa de abandonar o teu velho pai?... Porque não esperas cinco ou seis anos? +</p> + +<p>—E quinze, porque não? resmoneou André.</p> + +<p>—Nós não te deixaremos, papá!</p> + +<p>O senhor Germinal abanou a cabeça.</p> + +<p>—É o mesmo, acrescentou ele, foi uma grande tolice enamorares-te deste +arganaz desengonçado!</p> + +<p>—Obrigadíssimo pelo elogio, disse o pintor.</p> + +<p>—E, a final de contas, se não casasses com ele... nem por isso adoecerias! +</p> + +<p>—Perdão, meu pai, respondeu Rosa resolutamente, morreria!</p> + +<p>—Está bom! basta! interrompeu o velho assustado; já mo disseste... E foi +mister essa ameaça, continuou ele entre dentes, para me resolver...</p> + +<p>Não disse mais, soltou um suspiro, apalpou as notas do banco através do +usado pano da sobre-casaca, e passados poucos segundos exclamou de súbito:</p> + +<p>—Vamos! abracem-se diante de mim!</p> + +<p>O pintor não se fez rogar, e as faces de Rosa tingiram-se de vivas cores. +</p> + +<p>—E trabalhe cada um por sua parte, prosseguiu o senhor Germinal. A riqueza +de minha filha não deve impedi-lo de dar ao pincel, senhor Sauvain.</p> + +<p>—Antes duplicará as minhas forças, lhe tornou André; quero ganhar um dote +igual ao de Rosa, e... ganhá-lo-hei!<span class="pn">{54}</span></p> + +<p>—Então vá para o seu <em>atelier</em>, e volte depois para jantar +connosco. À sobremesa fixaremos... sim, talvez possamos fixar o dia da +cerimonia!</p> + +<p>Quando acabou de proferir estas palavras, que visivelmente lhe custaram a +soltar dos lábios, ouviu-se no pátio o rumor de uma violenta altercação.</p> + +<p>Duas vozes masculinas, uma das quais era a da senhora Poussignol, discutiam +calorosamente:</p> + +<p>—Mas aonde vai o senhor?... uivava a barbuda porteira.</p> + +<p>—A casa de um dos seus inquilinos, já lho disse, com mil demónios! +respondeu um baixo profundo, de timbre metálico e pronúncia meridional.</p> + +<p>—Qual inquilino?</p> + +<p>—De certo o menos tolo.</p> + +<p>—Isso não basta... Como se chama ele?</p> + +<p>—Não sei.</p> + +<p>—Ora essa!...</p> + +<p>O senhor Germinal, ao ouvir o som de um órgão humano, mudara de semblante. +</p> + +<p>—Quem está aí? perguntou ele, quem é esse homem?... que quer?... Vamo-nos +embora, não digam que estou em casa!</p> + +<p>Os olhos rolavam-lhe assustados nas órbitas; os membros tremiam-lhe, os +queixos batiam um no outro a seu pesar.</p> + +<p>—Mas, disse Rosa, não pode ser para nós, meu pai; não conhecemos pessoa +alguma!...<span class="pn">{55}</span></p> + +<p>—Vamo-nos... vamo-nos embora! repetia o velho.</p> + +<p>—Que tem ele?... perguntou o pintor em voz baixa.</p> + +<p>—Sempre esta doença nervosa! respondeu a jovem. A presença de um +desconhecido transtorna-o completamente! Veja quem é, meu amigo... e +sossegue-o.</p> + +<p>André subiu a um banco, e olhou por cima da sebe. Viu a senhora Poussignol, +calando baioneta com a vassoura, diante de um individuo de pequena estatura, +largo de ombros, e de pernas arqueadas.</p> + +<p>—Vamos! Rua! vociferava a digna mulher; falhou-lhe o plano; para cá vem +<em>barrado</em>, freguês! Safe-se quanto antes, quando não grito «ó da +guarda!»</p> + +<p>—Não faça tanta bulha, tiasinha, cale-se aí!... Com mil amarras!... Por +quem me toma, você?</p> + +<p>—Por um velho larápio, que tratava de se encaixar cá em casa! Ah, seu +grande velhaco! julgava que o não viam, quando passou diante da minha loja?</p> + +<p>Uma gargalhada sonora acolheu a conjectura da porteira, e o desconhecido fez +uma pirueta, apertando as ilhargas. Resultou deste movimento achar-se em frente +de André, cujo rosto admirado aparecia por cima da sebe de buxo.</p> + +<p>—Ah, ah! exclamou ele; eis o meu homem! E,<span class="pn">{56}</span> +caminhando direito ao pintor, estendeu-lhe a mão, gritando:</p> + +<p>—Como passa, querido amigo, cujo nome ignoro! Estou encantado pelo +encontrar!</p> + +<p>Depois, vendo o senhor Germinal e sua filha, tirou o chapéu e +cumprimentou-os com galantaria.</p> + +<p>—Desculpe-me, senhor; peço mil perdões, menina, se os interrompo na sua +conversação... São apenas duas palavras que tenho a dizer ao meu jovem amigo. +Permitam-me que lho roube por um segundo...</p> + +<p>—Perdão, senhor, disse André, estupefacto; a quem tenho a honra de falar? +</p> + +<p>—Que diabo!... pois não me reconhece?</p> + +<p>—Confesso que não.</p> + +<p>—Ora olhe bem para mim, com a breca!</p> + +<p>André olhou. A sua verificação deu em resultado: uma cabeça calva, um nariz +cor de violeta, uma comprida barba de duas pontas, um casaco sórdido, umas +botas acalcanhadas, e um chapéu pardo. Tudo isto, iluminado por dois olhos +buliçosos, brilhantes e cheios de malícia, despertou-lhe pouco a pouco a +memoria...</p> + +<p>—Então não se recorda? perguntou o recém-chegado.</p> + +<p>—Ora espere!...</p> + +<p>—Em 24 de Dezembro, à noite... na véspera de Natal...<span +class="pn">{57}</span></p> + +<p>—Ah!... sim!...</p> + +<p>—Defronte da vidraça...</p> + +<p>—De uma casa de pasto, concluiu o pintor. Estou às suas ordens, meu bravo! +</p> + +<p>Durante este tempo, o senhor Germinal, convencido de que o objecto da visita +lhe não dizia respeito, voltara a si do seu estranho pavor. Esfregava +lentamente as mãos, soprando como uma baleia ferida. Rosa contemplava Pedro +Toucard.</p> + +<p>—É um novo conhecimento, disse-lhe baixinho André, sorrindo-se; esta noite +lhe contarei como o adquiri.</p> + +<p>E despediu-se do pai e da filha.</p> + +<p>—Senhor... Menina... disse Pedro Toucard, saudando os dois, tenho a honra +de apresentar-lhes os meus respeitos... Linda criatura, com mil amarras! +observou ele a André, seguindo-o; e o pai parece bom homem...<span +class="pn">{58}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION001000000000000000000">X</a></h1> + +<p>Às vessas de certo romano, que desejava que os seus compatriotas tivessem +todos uma só cabeça, para lha cortar de um golpe, André Sauvain desejara, nesse +momento, que o género humano tivesse um só peito, para poder estreita-lo +amigavelmente nos braços.</p> + +<p>Portanto, fez boa cara e bom acolhimento àquele indigente desconhecido, cuja +companhia teria apreciado mediocremente noutra ocasião.</p> + +<p>—Irra!... mancebo, disse-lhe o provençal enquanto atravessavam o pátio, +pode gabar-se de me ter dado que fazer! Há quatro meses que corro Seca e Meca +por sua causa.</p> + +<p>—Como assim!... Julgava ter-lhe dito onde morava?</p> + +<p>—Nem o nome, nem a morada... No momento<span class="pn">{59}</span> em que +lhe perguntava uma e outra coisa, zás! partiu como uma bala!</p> + +<p>—Sim, recordo-me... Uma pessoa a quem desejava falar...</p> + +<p>—Farsista!... A verdade é que lhe desagradava o papel de meu credor, e +queria tacitamente dar por saldada a minha dívida.</p> + +<p>—Ora... uma bagatela!</p> + +<p>—Uma bagatela, que me impediu de morrer de fome. Felizmente vi-o ontem à +noite; reconheci-o à luz de um bico de gás, quando atravessava para a rua dos +Mártires; movia-se como uma locomotiva! Corri atrás de si, mas as minhas pernas +já não são setas, e cheguei justamente a tempo de receber com a sua porta na +cara. Não eram horas para visitas. Tomei o numero da casa, e eis-me aqui!</p> + +<p>—Seja bem vindo, disse Sauvain, introduzindo-o no <em>atelier</em>.</p> + +<p>Pedro Toucard entrou, com o chapéu à banda, bamboleando-se e retorcendo com +afã uma das pontas da sua barba grisalha. Começou reembolsando o pintor da +módica soma que lhe devia; e depois, sentindo-se mais à vontade. instalou-se +como se estivera em sua casa, e tornou-se de uma familiaridade cada vez maior. +</p> + +<p>Num volver de olhos, inventariou a mobília e permitiu-se fazer um trejeito +de capitalista extraviado num casebre. Em seguida passou a examinar vários<span +class="pn">{60}</span> esboços; fez careta a uns, e sorriu para outros com ar +aprovador. Depois, voltou muitas telas encostadas à parede, e descobriu +sucessivamente uma, duas, três, quatro cabeças de mulher... sempre a mesma, com +olhos negros e cabelos louros.</p> + +<p>—Bravo! exclamou ele.</p> + +<p>—Que temos? interrogou André descontente.</p> + +<p>—A virgem do jardim! Sim, senhor!... Não é digno de dó, meu amigo... porque +naturalmente é correspondido!</p> + +<p>—Senhor, disse o pintor, um pouco irritado pela demasiada sem-cerimónia, +estou com pressa; tenho um negócio urgente, e se lhe não sou já preciso...</p> + +<p>—Não vale zangar!... replicou Pedro Toucard. O senhor agrada-me, com mil +bombardas! e é por isso que me interesso no que lhe diz respeito. Além de que, +fui sempre curioso, tagarela e indiscreto... Ninguém se corrige nesta idade, +com todos os diabos!</p> + +<p>—Tanto pior! observou-lhe André.</p> + +<p>—Pelo contrário, tanto melhor! Tenho apego aos meus defeitos; estou +habituado a eles, há sessenta anos, e ser-me-ia penoso deixa-los.</p> + +<p>André sorriu-se; e o velho, vendo isto, foi buscar uma cadeira.</p> + +<p>—Quer que lhe conte a minha historia? perguntou ele.</p> + +<p>—Para quê?<span class="pn">{61}</span></p> + +<p>—Ora essa!... para que me conheça bem. Embora por sorte mofina me veja +reduzido a um ente miserável, velho e pobre, sou com tudo um patusco +aproveitável; posso servir para alguma coisa... principalmente a quem me +prestou serviços. À falta de dinheiro, tenho ideias: a felicidade de um homem +depende, algumas vezes, do maltrapilho que lhe pediu esmola.</p> + +<p>—Pelo que toca à minha felicidade, lhe tornou André, outra pessoa se +encarregou dela. É negócio concluído. Porém... não lhe agradeço menos a boa +intenção, meu bravo!</p> + +<p>—Vejam lá como são os rapazes! Este julga-se completamente feliz, porque +vai desposar a sua bela das tranças doiradas!</p> + +<p>—Como o sabe?</p> + +<p>—Que grande mistério! Qualquer caraíba o teria adivinhado, só de os ver ao +lado um do outro. E os quatro retratos dela? Aposto que foram feitos de +memória!... Mas, meu caro... a felicidade não consiste só numa afeição, aguda +ou crónica; a felicidade, não obstante o que têm dito os trovadores, prefere +tectos doirados a barrotes... assim!</p> + +<p>E Pedro Toucard designava o tecto, que aranhas centenárias haviam ornado com +bambinelas de seu lavor.</p> + +<p>—Dar-se-á acaso que o senhor tenha a veleidade de doirar os meus? +perguntou André, rindo.<span class="pn">{62}</span></p> + +<p>—Presentemente não, respondeu o provençal, contemplando melancolicamente as +suas velhas botas esburacadas. Falta-me o metal necessário... Agora estou muito +em baixo!... Mas tenho diante de mim o futuro; ainda hei de <em>trepar</em>, +creia! É a minha sina! E, quem sabe?... talvez que eu algum dia lhe compre +quadros.</p> + +<p>André contemplou com admiração aquele sexagenário, falando do futuro, na +idade em que geralmente só se pensa no repouso.</p> + +<p>—Nada o faz desanimar! disse o pintor.</p> + +<p>—E tenho boas razões para isso. Repito a pergunta: Quer que o inicie na +minha historia?</p> + +<p>—Venha ela!</p> + +<p>O velho exumou da algibeira um cachimbo, curto e enegrecido, e logo em +seguida um cartucho de papel, contendo um resto de tabaco.</p> + +<p>—Pode a gente fumar em sua casa?</p> + +<p>—De certo!</p> + +<p>Pedro Toucard acendeu o seu queima-goelas, po-lo ao canto da boca, +escarranchou-se numa cadeira, torceu em cada mão uma das pontas da sua longa +barba, e contou por miúdo o que nós vamos contar... por grosso.<span +class="pn">{63}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION001100000000000000000">XI</a></h1> + +<p>Pedro viera ao mundo sob a influência de uma estrela buliçosa, e trouxe a +bossa da especulação. Em pequeno, o pensamento de ser rico meteu-lhe o diabo no +corpo; e o sobredito diabo nunca mais de lá saiu. Foi este que obrigou Pedro, +ainda criança, a trocar umas vacas, de que lhe haviam confiado a guarda, por um +pesado fardo de bufarinheiro. Havia ali, na sua opinião, o gérmen de uma casa +de comércio. Mas Pedro foi agarrado; Pedro levou uma boa surra de pancadas; e +Pedro... recomeçou as suas operações em mais larga escala.</p> + +<p>Dentro em pouco, o seu furor pelo negócio, a necessidade de agitação, o seu +carácter irrequieto e extravagante, tornaram-no um ente insuportável. Seu pai, +humilde lavrador, que nada percebia de indústria, pediu-lhe que escolhesse uma +carreira e partisse quanto antes. Pedro quis ser marujo. Aos<span +class="pn">{64}</span> doze anos embarcou como grumete, com a cabeça recheada +de projectos, de cálculos e de empresas futuras. Levava consigo um pacote de +peões, de bolas, de fitas e de missangas, que obtivera barato dos seus +camaradas, e que contava impingir muito caro aos rapazotes negros, ou +peles-vermelhas, que encontrasse na viagem.</p> + +<p>Com a ajuda das chicotadas, Pedro depressa se fartou da sua profissão. Na +primeira paragem do navio, desertou sem dizer «água vai». Não tinha as pernas +muito compridas, mas a ambição forneceu-lhe botas de sete léguas, e lançou-se a +galope atrás da fortuna.</p> + +<p>Desde então, a sua vida não foi mais do que uma carreira desenfreada. Só à +sua parte, viajou mais do que dez Judeus errantes e vinte ingleses +spleenaticos. A terra e o oceano pareceram-lhe pouco; esperava encontrar +maiores extensões. Contudo empregou em percorre-los todos os meios de locomoção +conhecidos, e inventou alguns novos. Vagueou durante cinco anos a pé, a cavalo, +em burro, em dromedário, em piroga, em paquete, a nado, em diligência, pela +posta, em patacho... traficando, vendendo, comprando, trocando, especulando em +trigo, em vinho, em peliças, em azeite, em peles de castor, em negros e negras, +etc. Engraxa-botas em S. Francisco, mercador de estofos em Esmirna, banqueiro +em Génova, expositor em Londres, mestre<span class="pn">{65}</span> de dança em +S. Petersburgo, caçador em Arkansas, vendedor de ópio em Cantão, fotografo em +Madrid, livreiro em Leipziek, e... um tanto corsário por toda a parte, exerceu +cem profissões, pela maior parte honestas, e outras... um pouco menos.</p> + +<p>Dez vezes alcançou a cega deusa e a deixou fugir: chegou a possuir cem mil +escudos, que um desastre reduziu a quinhentos francos, os quais depois se +tornaram em duzentas mil libras, para mais tarde recaírem em zero... E sempre +assim, durante meio século!</p> + +<p>O acaso, que tomara por bússola, brincava com este homem, como um colegial +com uma pela, lançando-a a grande altura, ou mergulhando-a no fundo de um poço. +Porém ele comprazia-se no meio destas alternativas, que lhe proporcionavam uma +febre perpetua de inteligência. Tão ardente no prazer, como tenaz no lucro, +levava uma existência faustosa nos seus dias felizes; dava festas gigantescas, +semeava oiro às mãos cheias, e saciava-se de todas as sensualidades. Mudava a +sorte, vivia de uma côdea de pão e de um cachimbo de tabaco, não se importando +de servir de criado àqueles mesmos que recebera à sua mesa.</p> + +<p>Desconhecia preconceitos e falsas vergonhas: respirava só pelas comoções +corrosivas da perda e do ganho.</p> + +<p>Entretanto fixara um limite à sua futura riqueza,<span +class="pn">{66}</span> e dissera consigo: «Não irás além!» Queria dois milhões. +Por varias vezes conseguiu o seu fim; mas... vinha um incêndio, uma falência, +uma revolução, um cataclismo qualquer, que tudo absorvia. Acontecera-lhe um dia +seguir uma caravana, carregada por ele de perfumes, marfim, ébano e pedras +preciosas. Pelo caminho calculou os lucros prováveis dessas mercadorias, e como +achasse o seu ideal muito excedido, jurou que seria aquela a sua última +tentativa. Eis senão quando, uma nuvem de salteadores árabes ataca a caravana e +rouba-a, deixando Pedro quase morto no meio dos seus servos estrangulados. E +Pedro, sempre filósofo, recomeçara pacientemente a sua teia despedaçada.</p> + +<p>Assim rolando, de quedas em triunfos, e de vitórias em derrotas, sentiu +chegar os sessenta anos; e, como aventureiro já saciado de fadigas, opulento à +medida dos seus desejos, singrava enfim para as terras da pátria. Porém a +tempestade arrojara o navio sobre a costa; dispersara os seus marinheiros e +aniquilara a carregação, arruinando Pedro pela décima ou duodécima vez.</p> + +<p>Um brigue estrangeiro recolheu-o das ondas, meio-morto, atado a uma tábua, +louco de sede e de dor, fantasiando ainda no seu delírio uma sociedade colossal +de comercio, que imaginava ter fundado. Apenas pôde sair do hospital, para onde +o tinham transportado, a braços com um tétano, dirigiu-se<span +class="pn">{67}</span> para Paris. Foi lá que André Sauvain o encontrou +andrajoso e faminto.</p> + +<p>—E, desde esse dia, que mais empreendeu? perguntou o pintor, que escutara +esta narrativa com crescente interesse.</p> + +<p>—Um pouco de tudo, respondeu Pedro Toucard. Com o que me restava do seu +dinheiro, comprei fósforos e revendi-os, apanhei pontas de charutos, serrei +madeira, abri as portinholas das carruagens, fui moço de recados, escritor +público, contratador de bilhetes de teatro, professor de esgrima, dei serventia +a pedreiros, etc.; enfim, tal como me vê, possuo já alguns centos de francos, +que me produzirão avultados lucros. Vou alugar uma tenda; venderei seja o que +for... seja a quem for: e, quando tiver mil francos de meu, visto-me de novo e +vou jogar na Bolsa.</p> + +<p>—Com que fundos?</p> + +<p>—Com os da minha inteligência, respondeu Pedro Toucard, batendo na testa +com gesto inspirado. Que grande habilidade jogar com capitais!... Com a +breca!... se me emprestassem agora cinquenta mil francos, num mês teria ganho o +quádruplo!</p> + +<p>—Ou ficaria sem nada...</p> + +<p>—Qual história! só os tolos é que se enterram, e eu tenho olho vivo... +Aposto que ainda me verá milionário!</p> + +<p>—Irra! disse Sauvain maravilhado daquela rara audácia, já é ter confiança +em si!<span class="pn">{68}</span></p> + +<p>—Porque tenho sorte... e ideias, replicou Pedro Toucard. Sou o amante +preferido da fortuna: abandona-me às vezes, mas volta sempre para junto de +mim... As ideias vêm-me, como aos outros o ar que respiram; uma palavra +proferida pelo primeiro transeunte, o latido de um cão, uma tabuleta, a forma +de uma nuvem, a musica de um realejo, tudo me gera uma ideia... Eis porque eu +tenho confiança!...</p> + +<p>Assim falando, o provençal enchera o cachimbo; e como o seu cartucho de +tabaco ficara vazio, desenrolou-o maquinalmente, e alisou-o sobre o joelho.</p> + +<p>—Olhe! acrescentou ele, mostrando o papel; quando me acho em embaraços, +leio um anuncio, abro um jornal, ou o primeiro impresso que se me depara... +este, por exemplo, e zás! uma ideia me...</p> + +<p>Interrompeu-se de súbito, e o seu olhar ficou fixo no pedaço de papel, que +lhe estava servindo para demonstração...</p> + +<p>—Com mil amarras! exclamou ele, com voz tonante e erguendo-se de chofre. +</p> + +<p>—Que foi?... interrogou o pintor, erguendo-se também. O velho fez-se +amarelo, logo carmesim, depois branco como um sudário, e por fim agarrou no +pulso de Sauvain, e apertando-lho com força, balbuciou:</p> + +<p>—Que numero é o desta casa?</p> + +<p>—Oitenta e sete.</p> + +<p>—Rua dos Mártires?<span class="pn">{69}</span></p> + +<p>—Sem dúvida.</p> + +<p>—Há cá alguém que se chame Germinal?</p> + +<p>—Há, sem dúvida!... respondeu André estupefacto.</p> + +<p>—Aonde mora?</p> + +<p>—Aqui... ao lado... Era com ele que eu conversava há pouco!...</p> + +<p>—Com mil raios! bradou Pedro.</p> + +<p>E, num salto de jaguar, atravessou o <em>atelier</em>, abriu a porta, correu +para o pátio, e chegou ao jardim, seguido do pintor, ofegante e desnorteado. +</p> + +<p>Rosa e seu pai conservavam-se ainda sentados no mesmo lugar.</p> + +<p>—É o senhor Germinal a quem tenho a honra de falar? perguntou Pedro +Toucard.</p> + +<p>O senhor Germinal, sufocado por esta pergunta à queima-roupa, respondeu +apenas com o seu eterno raspadouro.</p> + +<p>—Sim senhor, disse Rosa.</p> + +<p>—Muito bem!... continuou o provençal, pois eu chamo-me Pedro Toucard e +sou...</p> + +<p>Não teve tempo de dizer mais. O pobre senhor Germinal soltou um grito +abafado, a ferrugem da sua pele transformou-se em verdete, agitou o ar com os +braços, e caiu pesadamente sobre o banco.</p> + +<p>—Meu pai!... exclamou Rosa assustada.</p> + +<p>—Que aconteceu? perguntou Sauvain na maior. ansiedade.<span +class="pn">{70}</span></p> + +<p>—Aconteceu... que tudo está desfeito, articulou o velho com voz +estrangulada; casamento, amor, futuro... foi tudo um sonho! Separem-se... pois +nunca serão um do outro. Depois, dirigindo-se bruscamente a Pedro Toucard, que +o observava com impaciente curiosidade, disse-lhe:</p> + +<p>—Siga-me, senhor. E afastou-se, mal podendo suster-se nas pernas, seguido +pelo provençal, não menos agitado do que ele.</p> + +<p>Rosa e André entreolharam-se com terror: dir-se-ia que caíra um raio ao pé +deles. Por um movimento espontâneo, a jovem refugiou-se nos braços do seu amado +André.</p> + +<p>—Separar-nos!... murmurou ela.</p> + +<p>—Quem o ousaria!... rugiu, o pintor.</p> + +<p>—Mas... que significa isto, meu Deus?! André, no auge da desesperação, +meteu loucamente os dedos pelos cabelos banhados em suor... depois, abatido, +deixou pender a cabeça sobre o peito. Nesse instante, descobriu por terra o +pedaço de papel, que ocasionara esta peripécia. Levantou-o.</p> + +<p>Era um pedaço de jornal, em que se distinguiam ainda alguns fragmentos de +anúncios.</p> + +<p>O pintor leu o que se segue:</p> + +<p>«Aos herdeiros ou parentes do senhor Onésimo Toucard, falecido em 8 de maio +de 1872, roga-se com instância, para seu interesse, que se dirijam a M. +Germinal, rua dos Mártires, n. 87.»<span class="pn">{71}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION001200000000000000000">XII</a></h1> + +<p>É indispensável agora, para clareza desta narrativa, que volvamos alguns +anos atrás.</p> + +<p>Em 1842, num esplêndido domingo de primavera, o senhor Germinal, então +empregado numa repartição publica, dirigiu-se para o caminho de ferro da margem +esquerda, e subiu para o comboio com alegria, difícil de descrever.</p> + +<p>Durante toda a semana, o senhor Germinal consultara o barómetro; através da +espessa névoa, que embaciava os vidros das janelas, interrogara cem vezes o +aspecto do firmamento; cem vezes os seus companheiros de trabalho o haviam +surpreendido a olhar fixo para o céu; cem vezes perpetrara erros nas contas; +cem vezes, enfim, esboçara na mesa, com a ponta da raspadeira, árvores, +campanários, carneiros e choupanas. Tantas distracções num empregado-modelo, +atraiçoavam algum projecto, amorosamente<span class="pn">{72}</span> +acalentado; e, se bem que o senhor Germinal fosse taciturno e pouco +comunicativo, todos sabiam qual era esse projecto: ia no próximo domingo a +Viroflay.</p> + +<p>Nesta época, o senhor Germinal roçava pelos seus quarenta e sete anos, e +havia vinte e cinco que vinha, trezentas vezes por ano, assentar-se à mesma +hora, na mesma cadeira, à mesma secretária, com as mesmas mangas de lustrina, +em frente dos mesmos indivíduos, e recebendo o mesmo ordenado, cujo +quantitativo era de cento e trinta e três francos e trinta e três cêntimos.</p> + +<p>O senhor Germinal passava, e com razão, entre os seus chefes e colegas, por +um homem de medíocre inteligência, mas trabalhador assíduo, de inteira +probidade e inflexível honradez. As suas ideias, somadas, ofereceriam por certo +um diminuto total, mas eram rectas, firmes e alinhadas, como uma tábua de +Pitágoras. Quando à noite se deitava, exausto de fadiga, com os dedos +inteiriçados de segurar a pena, e o espírito baralhado de algarismos, não +pensava sequer em meter-se nas questões sublimes da politica, religião, moral +ou filosofia, que fazem divagar nas alturas o pensamento dos que nada têm que +fazer. Limitavam-se os seus esforços de imaginação à saudade de sua falecida +mulher, a um impulso de ternura por sua filha, e a um plano de trabalho no dia +seguinte; depois, o sono<span class="pn">{73}</span> envolvia-o nas suas +pesadas dobras e levava-o ao mundo do esquecimento. Nunca um fermento de +inveja, nem uma dessas veleidades maldosas, que mancham a consciência, o +agitava sequer por um segundo; adormecia puro e acordava inocente.</p> + +<p>Aquela existência de ostra pegada ao rochedo, fará compreender o +extraordinário alvoroço, que sentia o senhor Germinal com a perspectiva de uma +digressão, por mais curta que fosse. Entretanto, era por ele classificado em +segundo lugar o gozo material, que o esperava, respirando o ar puro do campo e +dilatando a vista pelas colinas vicejantes; o que mais o deleitava era o prazer +próximo de beijar sua filha, que tinha então cinco anos, e de apreciar, por +intuição própria, os progressos que ela fizera em saúde, estatura e vigor, +durante os dezoito meses, em que deixara de a ver.</p> + +<p>O senhor Germinal aproveitara dois dias de feriado, na Páscoa, para desposar +uma rapariga... um pouco mais pobre do que ele. Era de natureza humilde e +tímida, como a dele, mas delicada, fraca e demasiado franzina para resistir ao +sopro gelado da miséria. Morreu de parto, deixando-lhe uma filha, com as suas +feições, e a quem o empregado pôs o nome de Rosa, em memoria dela.</p> + +<p>A criança era débil; a sua vida parecia depender de um sopro. O senhor +Germinal procurou e descobriu uma camponesa de Viroflay, moça e robusta,<span +class="pn">{74}</span> que levou a pequerrucha banhada das lágrimas de seu pai, +e prometeu restituir-lha, dentro em pouco, esperta, robusta e traquinas. E com +efeito, cumpriu tão bem a sua palavra, que o senhor Germinal, achando-a de dia +para dia mais rechonchuda e chilreadora, resolveu deixá-la mais tempo em casa +da ama, e mesmo vê-la só de longe em longe, porque a despesa das viagens abria +sensível brecha no seu modesto orçamento.</p> + +<p>Eis o motivo porque, no dia a que nos referimos, o senhor Germinal se sentia +ligeiro como um pássaro. Entreabria-lhe os lábios, cor de ferrugem, um franco +sorriso (sorria ainda nessa época...) e o ruído de raspador, produzido pelo +esfregar das suas mãos, confundia-se com os silvos da locomotiva. O vento +incomodava os seus companheiros de viagem; ele porém acolhia-o com delicias, +pensando que aquela mesma brisa teria talvez acariciado os faces de sua filha. +Bem que o comboio deslizasse veloz sobre os seus cordões de ferro, acusava-o de +lentidão, e vinte vezes olhou para fora, desconfiado de que o horizonte, por +pirraça, se afastava dele.</p> + +<p>Entretanto ia depressa! e tão depressa, que nenhum dos viajantes se +recordava de semelhante celeridade.</p> + +<p>As árvores, os prados, as sebes, as colinas, os postes que ladeavam a +estrada, fugiam arrebatados num turbilhão infernal... Apareciam e +desapareciam<span class="pn">{75}</span> antes que se pudesse distinguir-lhes +as formas... E a rapidez aumentava, de minuto para minuto... Pouco a pouco, os +objectos exteriores confundiram os seus perfis indecisos... era uma confusão +extraordinária... um vertiginoso turbilhão... uma miragem louca, análoga à que +reflectiria uma onda violentamente agitada...</p> + +<p>Dentro do comboio, os passageiros consultavam-se com terror; +entrechocavam-se os dentes uns nos outros, os seios arfavam, as mãos uniam-se +convulsivas e alagadas de frio suor.</p> + +<p>E a velocidade aumentava... aumentava sempre, de segundo para segundo...</p> + +<p>Houve um momento solene, um momento longo como um século, um momento durante +o qual cada um orou do intimo de alma ao que perscruta as consciências, e +pensou nos entes queridos que o prendiam à vida... Depois... um choque +espantoso... e um clamor, ainda mais espantoso!... Eram 8 de maio de 1842.</p> + +<p>Como escapou o senhor Germinal àquele desastre? Ele mesmo nunca pôde +recordar-se.</p> + +<p>À mingua da rasto, que o abandonara, o instinto, esse guia cego do animal, +conduziu-o intacto a salvamento. Quando deu acordo de si, corria através dos +campos, espavorido, ofegante, meio-louco; mas apenas recuperou o espírito, o +seu primeiro acto foi voltar atrás e auxiliar os socorros, que de todos os +lados acorriam.<span class="pn">{76}</span></p> + +<p>Passou-se então um facto, que deixou na sua vida indelével impressão.</p> + +<p>Um homem, um moribundo, que ele debalde tentava salvar, desprendeu-se-lhe +dos braços, e entregou-lhe uma carteira, murmurando estas palavras:</p> + +<p>—Guarde: é um depósito... que lhe confio... Entregue-o pela sua própria mão +a... Eu chamo-me...</p> + +<p>Fez um esforço supremo para concluir, mas não pôde; caiu morto no +<em>wagon</em>, que começava a ser invadido pelo fogo.<span +class="pn">{77}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION001300000000000000000">XIII</a></h1> + +<p>No dia seguinte, regressou o senhor Germinal a Paris. Inútil é acrescentar +que foi de carruagem.</p> + +<p>Quando se reinstalou na sua habitação, a senhora Possignol recusava-se a +reconhecê-lo; em vinte e quatro horas envelhecera vinte e quatro anos. O seu +semblante parecia uma planície devastada por um ciclone; para o corpo fez à +involuntária aquisição de um tremor nervoso; e para o espírito, a de dois +cuidados graves: o depósito, que lhe fora confiado; e sua filha, que trouxera +consigo, não querendo estar por mais tempo separado dela, depois de ter visto a +morte tão de perto.</p> + +<p>A pequena Rosa dormia a sono solto. Ele improvisou-lhe um leito, correu as +cortinas, aferrolhou-se solidamente, e foi sentar-se imóvel ante um objecto, +que exumara das profundezas do seu sobretudo.<span class="pn">{78}</span></p> + +<p>Era uma carteira assaz volumosa, denegrida pelo uso, e tendo gravado no +couro, em letras outrora douradas, o nome de Onésimo Toucard.</p> + +<p>Continha noventa e dois mil francos.</p> + +<p>Perante aquele maço de papeis, que representavam mais de sessenta anos do +seu ordenado, o digno burocrata por pouco não perdeu os sentidos; +eriçaram-se-lhe os raros cabelos, ergueu-se, e arrastou um móvel, com o qual +barricou a porta.</p> + +<p>Depois, prosseguiu nas suas investigações com ardor febril.</p> + +<p>Não levaram essas muito tempo: a carteira não continha papel algum, que +pudesse servir de esclarecimento; as folhas, pela maior parte em branco, só +forneceram ao senhor Germinal algumas notas de compras e várias despesas, +escritas com má caligrafia, umas a lápis, outras a tinta.</p> + +<p>O viúvo ficou imerso em profunda perplexidade; reflectiu tanto tempo que os +objectos se lhe baralharam diante dos olhos, multiplicando-se confusamente; a +final, exausto por tão diversas comoções, arrecadou a carteira no fundo de uma +gaveta, cuja chave meteu debaixo do travesseiro, e deitou-se.</p> + +<p>Se o sono não chegou, veio em seu lugar o pesadelo; pelas fendas da janela, +pelo buraco da fechadura, ou pela chaminé, insinuavam-se ladrões, que +esquadrinhavam na gaveta com deplorável afinco.<span class="pn">{79}</span></p> + +<p>O senhor Germinal, inundado de suores frios, saltou fora da cama, e em pé, +descalço, imóvel no seu traje alvejante, passou o resto da noite a perguntar a +si próprio onde poderia ocultar melhor o seu importuno tesouro.</p> + +<p>Ao romper do dia, surgiu-lhe uma ideia. Desarrumou a cama, ergueu uma tábua +do soalho, e por debaixo dela escavou um esconderijo, assaz engenhoso.</p> + +<p>Feito isto, vestiu-se e foi de corrida dar a sua demissão da secretaria, e +fazer valer os seus direitos à aposentação.</p> + +<p>À secretaria!... Bem lhe importava agora a secretaria! Só cuidava em +desencantar a família Toucard, e desembaraçar-se de uma aterradora +responsabilidade, em proveito dela.</p> + +<p>Outro qualquer julgaria ter feito muito, indo depositar a soma no mais +próximo comissariado de polícia, mas o senhor Germinal não era do feitio de +outro qualquer; na sua escrupulosa delicadeza, considerava-se como ligado ao +morto por um compromisso; tinha sempre presente na memoria aquele rosto +contraído, sentia aquela mão fria apertando a sua, ouvia aquela voz agonizante +a dizer-lhe:</p> + +<p>—Entregue-o pela sua própria mão a...</p> + +<p>Mas... a quem? A alma, fugindo, levara a chave do enigma. Fosse a quem +fosse: Onésimo dissera «Pela sua própria mão»... e isso era o bastante<span +class="pn">{80}</span> para o senhor Germinal não se arredar um passo da +vontade expressa do moribundo.</p> + +<p>Pôs mãos à obra sem tardança. Durante muitos meses, viram-no sair +quotidianamente ao romper de alva, para só voltar depois de noite, estafado, +moído e de mau humor. Interrogou o <em>Almanaque do comercio</em>, gastou dez +pares de botas nas ruas de Paris, fatigou os ecos da prefeitura de polícia, por +pouco não pegou de estaca em cada uma das legações estrangeiras, percorreu os +arrabaldes, esquadrinhou Versailles e seus subúrbios, revolveu céu e terra, e +contudo não descobriu em parte alguma vestígios da passagem ou da morada de +Onésimo Toucard.</p> + +<p>Ora, enquanto as suas pernas funcionavam ao longe, as notas de banco +aboloreciam no buraco, à mercê dos ladrões ou do incêndio; e a pequerrucha, +confiada a uma ou outra vizinha obsequiosa, desaprendia de sorrir à máscara +ferrugenta de seu pai. Um tal estado de coisas não podia prolongar-se, e o +senhor Germinal desistiu enfim das suas correrias infrutíferas; quebrou o +mealheiro, no qual, desde que enviuvara, ia juntando, soldo por soldo, os +elementos de um dote para sua filha; e com esse dinheiro, deduzido do seu +passadio, fez publicar um anuncio nos jornais... depois dois... depois três... +depois vinte...</p> + +<p>À medida que o tempo decorria, o senhor Germinal tornava-se mais frenético, +mais nervoso, mais<span class="pn">{81}</span> pusilânime. Os noventa e dois +mil francos invadiram-lhe o cérebro, submergindo todos os seus pensamentos. +Tiraram-lhe o sono e o apetite absurdos terrores; paralisaram-se-lhe as +faculdades morais a ponto de não ousar mais afastar-se de casa, e dispôs as +coisas de modo que nada interrompesse o seu cativeiro voluntário. +Primeiramente, matriculou Rosa em um colégio próximo, com a condição expressa +de a virem buscar todas as manhãs, e trazê-la de tarde. Depois, contratou com +uma agência de anúncios para que, até nova ordem, o seu reclame fosse publicado +duas vezes por mês. E feito isto, aferrolhou-se dentro de casa e entrou de +sentinela.</p> + +<p>Ninguém o rendeu do seu posto; e aí adquiriu, pouco a pouco, uma doença +singular. Ou fosse porque aquela perpétua expectativa, sempre alerta e sempre +frustrada, tivesse enfraquecido as suas faculdades mentais, ou porque o +contacto incessante do dinheiro desenvolvesse nele predisposições latentes, +começou a manifestar sintomas de avareza. Achou-se muitas vezes, sem saber +como, a mergulhar as mãos, trémulas de voluptuosidade, no maço das noventa e +duas notas de banco, a amarrotá-las, rindo de prazer ao escutar deliciosamente +o seu macio <em>fru-fru</em>... E então, envergonhado de si mesmo, afastava-se +de súbito, fazendo votos sinceros pela aparição de um Toucard qualquer.<span +class="pn">{82}</span></p> + +<p>Sete anos se passaram assim. Rosa tinha doze, e o colégio já a enfastiava. +Logo que se instalou definitivamente no domicílio paterno, a sua fisionomia, +fresca e louçã, iluminou-se como uma aurora boreal...</p> + +<p>Foi uma felicidade para o pobre homem; algum tempo mais de solidão, e a +loucura não tardaria. Contudo, a influência daquela criança adorada não +tranquilizara o senhor Germinal; apenas imprimiu outra direcção às suas +inquietações. Rosa prometia ser extremamente bela, e, de todas as promessas que +as mulheres fazem, é essa a única que geralmente costumam cumprir. O viúvo +admirava nela as feições queridas da sua defunta; tinha a mesma graça, a mesma +afectuosa alegria, a mesma expressão no olhar, mas também a mesma débil +constituição. O pobre pai suspirava, vendo-a estragar, em grosseiras ocupações, +as suas mãos pequeninas e brancas; empalidecia, observando que o menor trabalho +a fatigava.</p> + +<p>À força de temer para ela a miséria, acostumou-se gradualmente a desejar-lhe +o impossível... isto é, <em>dinheiro</em>. Os seus vagos, instintos de cobiça +pelo que diariamente remexia, aumentaram de consistência desde que tiveram um +fim nobre e elevado. Chegou um momento em que, contemplando a carteira de +Onésimo Toucard, o senhor Germinal dissera consigo:<span class="pn">{83}</span> +</p> + +<p>—Se o não reclamassem!...</p> + +<p>Esta ideia, uma vez encaixada no cérebro do senhor Germinal, alastrou-se +como uma nódoa de azeite. Tudo poderia obter para Rosa com noventa e dois mil +francos: ar, sol, espaço, prazeres e saúde... tudo simultaneamente lhe passou +pela imaginação fascinada. Em vão se desculpava para com a sua consciência, +murmurando:</p> + +<p>—É uma simples hipótese!... A hipótese era já uma esperança, que fizera +mudar de causa a sua impaciência e agitação; tanto estremecera de júbilo, +quanto estremecia agora de receio, à vista de um estranho; cessara de publicar +anúncios, e cada dia, que passava, era riscado no almanaque, como um perigo de +menos a evitar.</p> + +<p>Três anos decorreram ainda, e foram terríveis! A pensão do senhor Germinal, +até então suficiente para um velho e uma criança, não o era já para duas +pessoas; as suas economias tinham desaparecido na educação de Rosa e nos gastos +da publicidade. Mais de uma vez, deitado na sua enxerga, a braços com a febre +ou com a fome, sentindo através do tabique sua filha a chorar, tivera +horripilantes tentações, relativas a esse dinheiro, que dormia inútil ao +alcance da sua mão. Contudo não tirou dele a mínima parcela, nem sequer trocou +uma nota.</p> + +<p>Decorridos dez anos, aquele homem probo, escrupuloso,<span +class="pn">{84}</span> austero até ao superlativo, chegou, de concessão em +concessão, a formar o seguinte raciocínio:</p> + +<p>«Fiz tudo quanto era humanamente possível para descobrir os herdeiros de +Onésimo: o meu dever está cumprido. Restituir esta soma ao estado, que não +carece dela, seria um absurdo. Acaso não quereria a Providencia compensar-me +dos meus sofrimentos, proporcionando-me os meios de me utilizar destes valores? +Portanto, sou livre de dispor deles.»</p> + +<p>Conspirava consigo mesmo para fazer uma surpresa a sua filha: seria uma +casinha branca, no campo, um retiro florente, onde Rosa gozasse enfim dos ócios +e distracções, de que até então fora privada a sua mocidade. Mas, logo que +pegou nas notas com a intenção formal de se apossar delas, empalideceu e +deixou-as cair no fundo do esconderijo. Parecia-lhe que ia cometer um roubo. +</p> + +<p>«Não é de urgência, pensou o velho. Rosa tem apenas quinze anos... É uma +criança nobre e corajosa, que soube criar-nos recursos e trouxe um pouco de +bem-estar à nossa pobre casa. A verdade é que não nos falta o pão! Esperemos +mais dois anos... Doze anos é um prazo razoável...»</p> + +<p>Todavia, é provável que o fosse adiando, de ano para ano, detido sempre +pelos mesmos escrúpulos, se Rosa lhe não houvesse confessado o seu amor por +André Sauvain.<span class="pn">{85}</span></p> + +<p>Aquela noticia afligiu o senhor Germinal, mas acabou com as suas hesitações. +Convenceu-se de que existia uma séria paixão, de parte a parte; estudou o +pintor, afeiçoou-se-lhe, e, meio desesperado, meio satisfeito, resolveu +conceder-lhe a mão de Rosa, com os noventa e dois mil francos, no dia em que +expirasse o décimo segundo ano do depósito.</p> + +<p>Foi desse modo que, entre perpetuas angustias, com a consciência oprimida e +o espírito torturado, o senhor Germinal dotou e chamou noivos aos dois jovens. +</p> + +<p>Vimos já como surgira nesse momento Pedro Toucard, qual outro +Desmancha-prazeres.<span class="pn">{86}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION001400000000000000000">XIV</a></h1> + +<p>Ao centro do quarto, que escondera um tesouro sob o seu pavimento, estavam +sentados Pedro Toucard e o senhor Germinal, um em frente do outro, na atitude +de duas esfinges que tentassem adivinhar-se.</p> + +<p>Ambos estavam pálidos, comovidos e agitados.</p> + +<p>Os olhos do provençal luziam como carbúnculos; torcia a barba a ponto de +quase lhe arrancar os cabelos.</p> + +<p>—Como íamos dizendo, começou ele, os parentes ou herdeiros de Onésimo +Toucard foram rogados, com instância, para, a bem de seus interesses, se +dirigirem ao senhor... O que, segundo creio, significa que em sua mão existem +alguns fundos, os quais devem pertencer àqueles, não é assim?»</p> + +<p>O senhor Germinal hesitou. Pensava na sua querida Rosa, na felicidade que +lhe prometera e que<span class="pn">{87}</span> ia roubar-lhe. Verdade era que +podia ainda negar o depósito, e desembaraçar-se de Toucard, mentindo; mas... +não se é honrado impunemente!</p> + +<p>—Sim, senhor, respondeu com voz sumida.</p> + +<p>Pedro Toucard reteve um grito de alegria. Respirou estrepitosamente e +aproximou a cadeira.</p> + +<p>—Queira continuar, disse ele; sou todo ouvidos.</p> + +<p>—É ao senhor que compete falar, replicou o pai de Rosa, analisando +tacitamente os andrajos de Pedro, que lhe inspiravam pouca confiança.</p> + +<p>—Em que grau era parente de Onésimo Toucard?</p> + +<p>Uma vermelhidão, cor de tijolo, invadiu as faces crestadas do provençal; +abaixou os olhos: dir-se-ia que se travava nele uma luta interior. Contudo, +após alguns segundos de reflexão, recobrou o seu habitual desembaraço e +respondeu:</p> + +<p>—Em grau muito próximo; sou seu irmão, e o único representante da família, +hoje extinta.</p> + +<p>—Então... porque não deu sinal de existência durante doze anos?</p> + +<p>—A razão é simples. Há doze anos que vagueio do outro lado dos mares, e +apenas quatro meses que habito em Paris, aonde nunca tinha vindo; enfim, +ignorava a morte do meu pobre Onésimo, e só esta manhã a soube.</p> + +<p>—De que modo?</p> + +<p>—Por um dos seus anúncios.<span class="pn">{88}</span></p> + +<p>—Há cinco anos que os não publico!...</p> + +<p>—É possível que o pedaço de jornal, em que o encontrei, datasse dessa +época... Mas não percamos tempo com bagatelas. A quanto monta a herança?</p> + +<p>—Não calcula o seu valor? perguntou o senhor Germinal.</p> + +<p>—Aproximadamente... talvez. Meu irmão era sócio da minha casa comercial; em +30 de Abril de 1842, liquidámos, partilhando os lucros, que se elevavam a... +cerca de duzentos mil francos. Se Onésimo morreu em 8 de maio, devia ter em +caixa de oitenta a noventa mil libras...</p> + +<p>—Foi em Paris que se efectuou a partilha?</p> + +<p>—Não, em Liverpool.</p> + +<p>—Nesse caso, quando seu irmão faleceu estava em França, havia quatro ou +cinco dias apenas?</p> + +<p>—Um ou dois, se tanto.</p> + +<p>—E o senhor?</p> + +<p>—Eu, a 8 de Maio, embarcava em Liverpool e fazia-me de vela para Calcutá, +sem pressentir que nesse mesmo dia Onésimo esticava a canela em Versailles.</p> + +<p>—Como sabe que foi em Versailles que ele morreu?</p> + +<p>—Presumo-o; ele tinha tenção de lá fixar a sua residência...</p> + +<p>O senhor Germinal ergueu-se? passeando no quarto com agitação.<span +class="pn">{89}</span></p> + +<p>—Senhor, disse ele, todas as suas respostas combinam com os documentos que +possuo, mas desculpar-me-á se exijo provas mais palpáveis da sua identidade... +</p> + +<p>—Ora essa! disse o provençal; é muito justo. Felizmente trago sempre comigo +os meus papeis, visto não ter domicilio certo, nem fechadura segura...</p> + +<p>E dizendo isto, a mão do aventureiro mergulhou no andrajoso casaco e +reapareceu à superfície, carregada com uma carteira grande e sebenta.</p> + +<p>Logo que para ela lançou os olhos, o senhor Germinal ficou inteiramente +convencido. Aquela carteira era irmã gémea de outra, que por tanto tempo +namorara! o mesmo feitio, as mesmas dimensões, e os mesmos caracteres, outrora +dourados, indicando o nome do seu proprietário: Pedro Toucard.</p> + +<p>—Aqui tem, em primeiro lugar, a minha certidão de baptismo, disse o +provençal; eis aqui, também, diferentes passaportes; e enfim, duas cartas de +Onésimo... Conhece-lhe a letra?</p> + +<p>—Conheço, respondeu o senhor Germinal, examinando as duas missivas.</p> + +<p>Eram curtas; tratavam unicamente de negócios e tinham a assinatura de +Onésimo Toucard. Ambas as cartas começavam por estas palavras: «Meu querido +irmão...»</p> + +<p>O pai de Rosa abriu uma gaveta, tirou de dentro a carteira do morto, e +comparou a letra dos<span class="pn">{90}</span> apontamentos com a das cartas. +Não podia conservar a sombra de uma dúvida.</p> + +<p>—Senhor, disse ele ao provençal, cujos olhares impacientes revistavam todo +o quarto, como procurando descobrir onde se escondia a herança, reconheço-o por +irmão e herdeiro de Onésimo Toucard. Só me resta...</p> + +<p>—Entregar-me a herança, interrompeu Pedro, ofegante. Desencante-a pois... +meu bravo!</p> + +<p>—Permita-me que, primeiro, lhe conte de que morte desgraçada seu irmão +pereceu.</p> + +<p>Ora!... ora!... ora!... é inútil. Não percamos tempo precioso!</p> + +<p>—Entretanto...</p> + +<p>—Que morresse de bexigas, ou tísico, pouco importa. O positivo é que +morreu; agora vamos às contas...</p> + +<p>—Mas, disse Germinal admirado, preciso de fazer-lhe saber como, e porquê, +ele me confiou as suas últimas vontades.</p> + +<p>—Pois sim, diga lá! Mas seja conciso, com mil bombardas!</p> + +<p>O senhor Germinal foi tão conciso, quanto parecia desejá-lo o seu +interlocutor.</p> + +<p>—Pobre Onésimo! disse Pedro. Acabou mal; lamento-o, mas... era um grande +traste!</p> + +<p>Porém, notando o espanto e estranheza, que produzira no velho uma oração +fúnebre tão pouco fraternal, apressou-se a acrescentar:<span +class="pn">{91}</span></p> + +<p>—Que quer! Nas famílias numerosas, é raro deixar de haver... há sempre +algum tratante... Mas tratemos agora...</p> + +<p>—Agora, disse o velho suspirando, vou entregar-lhe os valores do defunto. +</p> + +<p>E, proferindo estas palavras, tirou do bolso as notas do banco e depô-las +sobre a mesa, uma por uma.</p> + +<p>A cada macete de dez mil francos, o rosto de Pedro coloria-se um pouco mais. +</p> + +<p>—Noventa e dois mil francos! exclamou ele afinal, ébrio de alegria. Viva a +França! e vamos à Bolsa! Com a breca! farão bem em ter cuidado comigo, lá na +Bolsa!... Se, daqui a seis meses, não possuir dois milhões, consinto em que me +enforquem!</p> + +<p>O senhor Germinal ficou impassível e pensativo ante aquela exuberância de +júbilo. Para ele estava consumado o sacrifício...</p> + +<p>Pedro bateu-lhe no ombro.</p> + +<p>—Não lhe farei a injuria, disse ele maliciosamente, de oferecer-lhe uma +recompensa...</p> + +<p>O senhor Germinal abanou a cabeça.</p> + +<p>—Tanto mais, continuou o manhoso velho, que os interesses deste capital +devem ter produzido uma continha menos má...</p> + +<p>—Os interesses!... observou o pai de Rosa; que quer dizer com isso? Estes +valores são os próprios que recebi em depósito; não saíram de minha casa!<span +class="pn">{92}</span></p> + +<p>—Farsista! Então não os empregou em acções, em rendas, em obrigações, em +terras, ou em inscrições sobre hipoteca?... em suma, não os fez render de +alguma forma?</p> + +<p>—Não, senhor.</p> + +<p>—E guardou-os doze anos, assim... num buraco?</p> + +<p>—Certamente!...</p> + +<p>—Ignorava então, meu camarada, que um capital se duplica ao fim de catorze +anos?</p> + +<p>—Não o ignorava. Mas acaso tinha eu o direito de dispor do dinheiro de +outrem?</p> + +<p>—Maganão!... disse Pedro, sorrindo com ar incrédulo.</p> + +<p>—Senhor! exclamou Germinal, rubro de indignação, esquece que, se acaso eu +fosse um tratante, nada me impedia de apropriar-me da soma toda.</p> + +<p>—Isso é verdade... respondeu Toucard.</p> + +<p>E, olhando em torno de si, acrescentou:</p> + +<p>—E com efeito, este quarto não é dos mais luxuosos... Decididamente, a +virtude é uma bela coisa!</p> + +<p>E, enrolando as notas com evidente voluptuosidade, continuou:</p> + +<p>—Visto isso, considero-me seu devedor, e quero pagar...</p> + +<p>O senhor Germinal desdobrou um papel e apresentou-o a Pedro.<span +class="pn">{93}</span></p> + +<p>—O que é? perguntou este último.</p> + +<p>—É a conta circunstanciada do que desembolsei: despesas de anúncios, +aluguer de carruagens, etc. Total: mil quarenta e dois francos e cinquenta +cêntimos.</p> + +<p>—Com mil amarras!... Ora vá passear, mais as suas contas de boticário! +exclamou Pedro; atirando fora o papel. Toma-me por algum sovina?... Aqui tem o +maço, tire o que quiser.</p> + +<p>O senhor Germinal endireitou-se com altivez.</p> + +<p>—Não aceitarei um soldo, sequer, a mais do que se me deve! disse ele.</p> + +<p>Pedro Toucard insistiu vivamente. O senhor Germinal resistiu com firmeza. +Cansado de lutar, o provençal cedeu, porque estava ardendo por ver-se dali para +fora, e esboçar nova especulação. Reembolsou-o dos mil quarenta e dois francos +e meio, e tomando nas suas as mãos do velho, disse-lhe:</p> + +<p>—Meu bom amigo, eu sou espertalhão, e conhecedor de fisionomias. Gosto de +ler na sua, posto não seja das mais belas... O senhor é teimoso como um burro, +mas é o homem mais honrado que tenho conhecido. Isto não ficará assim, palavra +de Pedro! Havemos de tornar a ver-nos! Adeus.</p> + +<p>Recitado este discurso, enterrou com um murro o chapéu na cabeça, enfiou as +notas nos bolsos das suas calças esfarrapadas, e, radiante, com os olhos<span +class="pn">{94}</span> a cintilar, e a boca entreaberta por um franco sorriso, +desceu a escada cantarolando.</p> + +<p>O senhor Germinal seguiu-o, um pouco pálido ainda, mas desta vez +tranquilo... e quase alegre também!</p> + +<p>Havia exactamente doze anos, que o desastre se dera.<span +class="pn">{95}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION001500000000000000000">XV</a></h1> + +<p>À ténue sombra do microscópico jardim, através das moitas de liláses, +distinguiam-se dois rostos juvenis, que não tinham vontade de rir.</p> + +<p>Rosa e André, conchegavam-se um ao outro, como duas aves ao aproximar da +tempestade. Lendo o anúncio, tinham quase atinado com a verdade, e as últimas +palavras do velho retumbavam ainda aos seus ouvidos.</p> + +<p>Entretanto, não bastavam palavras para desarreigar as firmes raízes da +esperança, e Rosa encostando a loura cabeça no ombro do seu prometido, +tranquilizava-se ouvindo-lhe a voz altiva é varonil repetir:—Amemo-nos, apesar +de tudo!</p> + +<p>Quando o senhor Germinal passou, precedido do triunfante provençal, envolveu +o lindo par num olhar terno e contristado.<span class="pn">{96}</span></p> + +<p>—Olhe, disse Pedro parando; ali está o que nos rejuvenesce trinta anos, meu +amigo!...</p> + +<p>O senhor Germinal carregou o sobrolho e, esforçando-se por mostrar-se +severo, bradou:</p> + +<p>—Rosa!</p> + +<p>—Meu pai? respondeu a jovem, estremecendo.</p> + +<p>—Vá já para casa.</p> + +<p>Ela ergueu-se com tímida lentidão e, oferecendo a fronte aos lábios de seu +pai; fitou-o com os seus grandes olhos negros, cheios de súplicas e de +amargura.</p> + +<p>—Vai para casa, minha filha, emendou mais meigamente o velho. Preciso de +falar com André.</p> + +<p>Rosa afastou-se sem voltar a cabeça. Não queria que lhe vissem as lágrimas. +</p> + +<p>—E o senhor, balbuciou Germinal, meu querido senhor Sauvain...</p> + +<p>Pedro Toucard, que torcia a barba sorrindo, recuou de um salto, como se +tivesse pisado uma serpente; decompôs-se-lhe a fisionomia e, segurando o senhor +Germinal pela gola do casaco:</p> + +<p>—Que nome foi o que acaba de pronunciar? articulou ele, passado um momento. +</p> + +<p>—O do senhor Sauvain.</p> + +<p>—E quem é que se chama assim?</p> + +<p>—Este mancebo.</p> + +<p>O provençal saltou por cima da sebe de murta, e achou-se em face de André, +que mediu com olhar inflamado.<span class="pn">{97}</span></p> + +<p>—Sauvain!... Pois o senhor chama-se Sauvain?</p> + +<p>—Certamente!...</p> + +<p>—Nasceu perto de Granville?</p> + +<p>—É exacto.</p> + +<p>—E seu pai era marinheiro?</p> + +<p>—Era.</p> + +<p>—A bordo da <em>Ariana</em>, que se perdeu com a carga e tripulação... há +vinte anos?</p> + +<p>—Sim, mas porque acaso?...</p> + +<p>—Com mil amarras! com mil bombas! com mil raios! gritou Toucard, +tornando-se carmesim.</p> + +<p>E como sufocasse, arrancou a gravata, rasgou o colete e atirou fora o +chapéu.</p> + +<p>—E sua mãe? continuou ele ofegante.</p> + +<p>—Minha mãe...</p> + +<p>—Não receberia ela?...</p> + +<p>—O quê?</p> + +<p>—Quero dizer... sua mãe... Onde está sua mãe, senhor?</p> + +<p>—Minha mãe morreu. Conheceu-a, porventura?</p> + +<p>—Eu! exclamou o provençal, nunca a vi.</p> + +<p>—Entretanto...</p> + +<p>—Não, já lho disse; nunca a vi na minha vida!</p> + +<p>—Então teve relações com meu pai?</p> + +<p>Toucard não respondeu. A sua agitação atingiu proporções assustadoras.</p> + +<p>—Não! não! mil vezes não! balbuciou ele, tropeçando no chapéu sem reparar; +tenho de fazer fortuna...<span class="pn">{98}</span> c'os diabos! Mais tarde +não digo que... mas presentemente...</p> + +<p>Interrompeu-se, e vendo ali perto um balde com água, destinada provavelmente +à rega do jardim, mergulhou dentro dele, por muitas vezes, o seu crânio calvo, +que ficou vermelho e fumegante.</p> + +<p>Depois de refrescado pela imersão, sacudiu-se como um cão molhado, e +sentou-se num banco para tomar alento.</p> + +<p>O senhor Germinal e André observavam-no com crescente estupefacção.</p> + +<p>—Que é isso? que tem?... perguntou-lhes Pedro. Porque olham para mim assim? +Que disse eu, que tanto os espante?</p> + +<p>—Nada disse por ora, respondeu André, mas peço-lhe que me explique...</p> + +<p>—A explicação será curta, meu rapaz. Encontrei nas minhas viagens um +marinheiro chamado Sauvain... seu pai, ao que parece... Soube depois que +morrera num naufrágio: eis o motivo por que o seu nome me abalou. Demais... sou +propenso à apoplexia... a menor comoção faz-me subir o sangue à cabeça! Mas não +façam caso... já passou.</p> + +<p>O provençal falava com dificuldade, procurando as palavras e pensando noutra +coisa. As suas feições expressivas revelavam a maior irresolução.</p> + +<p>Apesar do banho que se aplicara, corria-lhe o suor da fronte.<span +class="pn">{99}</span></p> + +<p>André Sauvain não se contentou com tão sucinto esclarecimento.</p> + +<p>—Mancebo, lhe disse Pedro Toucard, venha comigo a três passos daqui, quero +dar-lhe duas palavras.</p> + +<p>O pintor seguiu-o, assaz intrigado.</p> + +<p>—Escute-me, meu caro: entrei na posse de fundos com que não contava. O +senhor vai pôr casa... Se duas ou três notas de mil francos... ou mesmo +quatro... Sim, se quatro, ou cinco mil francos, lhe podem ser úteis nesta +ocasião, não faça cerimonia... Hei-los!</p> + +<p>E Pedro folheava com mão trémula o maço das notas.</p> + +<p>André corou muito, e endireitou-se quanto a sua estatura lho permitia.</p> + +<p>—A que título me faz esse oferecimento? perguntou ele.</p> + +<p>—A título de amigo.</p> + +<p>—Vimos-nos apenas duas vezes!...</p> + +<p>—A título... de antigo amigo de seu pai.</p> + +<p>—Conhecia-o de leve, segundo disse.</p> + +<p>—Então... a título de gratidão. Fez-me um favor, quando eu precisava... É a +minha vez agora. Que diabo!...</p> + +<p>—Agradeço-lhe a intenção, mas recuso.</p> + +<p>—Porquê?</p> + +<p>—Por muitos motivos, e eis o principal: Sou demasiado<span +class="pn">{100}</span> pobre para aceitar qualquer empréstimo, não sabendo +quando poderei pagá-lo.</p> + +<p>—Ora? que importa isso?...</p> + +<p>—Importa-me muitíssimo!</p> + +<p>—Com mil bombas! que esquisitices! e que demónio de casa esta, onde se +recusa aceitar o que tantos outros...</p> + +<p>Um relógio da vizinhança vibrou no espaço.</p> + +<p>—Uma hora! exclamou Pedro, cujas ventas se dilataram, e cujo olhar faiscou. +A hora da Bolsa! Vamos, Pedro Toucard! em campo, meu velho! Vais aventurar-te +sobre um terreno movediço... Prova a essa súcia de imbecis que lhe és superior +no artigo <em>inteligência</em>.</p> + +<p>—Um momento, senhor, disse André; rogo-lhe que me explique...</p> + +<p>—Coisa nenhuma, neste momento!...</p> + +<p>—Aonde vai a correr?</p> + +<p>Pedro apanhou do chão o chapéu, amolgado em dez partes, brandiu-o com gesto +majestoso, e partiu exclamando:</p> + +<p>—A casa do meu banqueiro!</p> + +<p>E desapareceu.<span class="pn">{101}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION001600000000000000000">XVI</a></h1> + +<p>—É fora de dúvida, disse o pintor, que este aventureiro teve relações com a +minha família. Mas, porque fará mistério disso? É, na verdade, um homem +surpreendente! Que impaciência, que febre de agiotagem! Veja como corre!... É +um furacão!</p> + +<p>—Sim... um furacão, murmurou Germinal, passando amigavelmente o braço pelo +de Sauvain, um furacão que derrubou os nossos <em>castelos no ar</em>! Entremos +em sua casa: preciso de falar-lhe. André obedeceu, cerrando os punhos de raiva. +</p> + +<p>Adivinhava o fim da conferência, que iam ter, e, já ardendo em indignação, +revestia-se de uma tríplice couraça para entrar na luta.</p> + +<p>Pela sua parte, o senhor Germinal também não se sentia em leito de rosas. +Assentou-se, tossiu, esfregou as mãos, piscou os seus olhos de peixe +cozido,<span class="pn">{102}</span> e antes de tomar a palavra, suspirou cinco +ou seis vezes, com intervalos.</p> + +<p>Dava-lhe em cheio a luz no crânio, cor de ferrugem, e essa circunstância fez +notar a André, não sem terror, que aquela caixa ossuda, estreita e deprimida, +tinha bem característica a bossa da teima invencível.</p> + +<p>O senhor Germinal começou pela narração do seu triste encontro com Onésimo +Toucard; contou a vida que levara durante onze anos, as suas más tentações +reprimidas, as suas esperanças, os seus receios e os seus desalentos.</p> + +<p>Quando acabou, André disse-lhe friamente:</p> + +<p>—Muito bem: o dinheiro foi reembolsado, a sua consciência ficou em repouso; +está tudo o melhor possível. Porém devia ter a certeza de que nós, mesmo depois +de casados e em posse dessa fortuna, a entregaríamos sem hesitação ao seu +legítimo proprietário.</p> + +<p>—Não tenho a menor dúvida, retrucou o senhor Germinal; sei que é um mancebo +digno. Quanto melhor o conheço, mais o aprecio... Teria orgulho em chamar-lhe +meu filho...</p> + +<p>André tornou-se pálido, mas fingiu não ter ouvido aquele condicional.</p> + +<p>—Agora, senhor, disse ele sorrindo, conversê-mos um pouco sobre coisas mais +importantes; voltemos ao que esta manhã se combinou...<span +class="pn">{103}</span></p> + +<p>—Que foi o que se combinou? disse o viúvo, corando.</p> + +<p>—Que hoje mesmo se fixaria a época do meu casamento com Rosa.</p> + +<p>O senhor Germinal levantou-se bruscamente.</p> + +<p>—Não me entendeu, pelo que vejo?</p> + +<p>—Peço perdão: entendi perfeitamente que lhe confiaram um depósito, e que o +restituiu. Mas, que tem de comum uma acção tão simples com o facto, muito mais +importante, de que dependerá o nosso futuro?</p> + +<p>—Não há surdos piores do que os que não querem ouvir! replicou asperamente +o senhor Germinal. Aquela soma garantia-me a felicidade material de minha +filha...</p> + +<p>—Não, senhor, porque bem sabia que, de um momento para o outro, a podiam +reclamar. Para quando prefixa a bênção nupcial?</p> + +<p>—Para as calendas gregas! gritou o senhor Germinal, exasperado por aquela +obstinação sistemática. Como ousa o senhor pretender associar à sua a sorte de +Rosa? Onde estão os seus meios de subsistência? Há-de ela viver neste cacifo? +Virão os filhos, e com eles as dificuldades, os expedientes, as dívidas, os +cuidados, a doença... a morte!</p> + +<p>—Nego-o energicamente! retorquiu André, não menos furioso. Mas, embora o +senhor tivesse carradas de razão, era tarde para desdizer-se. Se este<span +class="pn">{104}</span> consorcio lhe desagradava, para que veio, há quatro +meses, procurar-me ao fundo deste cacifo, como acaba de chamar-lhe?... Porque +incitou um amor, que, entregue a si mesmo, talvez houvesse sido sufocado?</p> + +<p>—Rosa assim o exigia... Rosa amava-o...</p> + +<p>—E pensa que deixará de amar-me por lho ordenar?</p> + +<p>—Ignoro-o, mas não casará consigo.</p> + +<p>—Ora, senhor!... se o casamento fosse só permitido às pessoas ricas, +extinguir-se-ia o sol.</p> + +<p>—Pois que se extinga. Não casará com minha filha; é escusado pensar mais +nisso.</p> + +<p>—Não pensar mais nisso!... Imagina que um sentimento, igual ao meu, se +aniquila à vontade, como a chama de uma vela! Rosa é o sangue das minhas +artérias, a seiva da minha mocidade, o paraíso da minha alma, a primavera do +meu coração!... Peça-me que viva sem respirar, mas não ouse pedir-me que +esqueça Rosa!</p> + +<p>—Peço-lho, e, sendo preciso, ordeno-lho!... Nunca consentirei em vê-la +miserável! A imagem de sua mãe... tenho-a sempre diante dos olhos! Não casará +com minha filha!</p> + +<p>—Homem teimoso! Quem lhe disse que, mesmo no seio da abundância e do luxo, +sua mulher teria vivido? Quem lhe disse que ela não encerrava no peito o gérmen +de uma doença mortal? E com que<span class="pn">{105}</span> direito aquilata +pelo seu passado o meu futuro? Por ventura os recursos de um amanuense, +acorrentado a um trabalho estúpido, e cujo ínfimo salário nunca aumenta, embora +trabalhe noite e dia, podem comparar-se aos de um artista, moço, corajoso, +inteligente e forte?</p> + +<p>—Não ponho em dúvida a sua coragem, nem o seu talento: mas presumo que, +quando os resultados forem apreciáveis, já Rosa terá os cabelos brancos. Não +possuirá minha filha, senhor Sauvain.</p> + +<p>—Possui-la-hei! gritou o pintor... Juro-o!</p> + +<p>—Não gracejemos, peço-lho!... Ouça, senhor André: vim falar-lhe, movido por +verdadeira simpatia. Lamento-o e estimo-o. Dê-me a sua palavra de honra de que +não tentará ver, nem falar a minha filha, ou fazer-lhe acalentar ilusões +inúteis. Com essa condição...</p> + +<p>—Nunca!</p> + +<p>—Nesse caso, estão quebradas as nossas relações.</p> + +<p>—É a sua terminante decisão?</p> + +<p>—É.</p> + +<p>—Basta. Graças a Deus há leis em França; não se coage ninguém. Rosa e eu +esperaremos...</p> + +<p>—A minha morte?</p> + +<p>—Não, senhor; a maioridade de sua filha.</p> + +<p>—Seja assim, disse o senhor Germinal. Mas, até então, desculpará que eu lhe +feche a minha porta,<span class="pn">{106}</span> e terá a bondade de renunciar +à conversação de minha filha.</p> + +<p>—Engana-se! vê-la-hei, falar-lhe-hei, ama-la-hei e casarei com ela; mesmo +contra sua vontade!</p> + +<p>—Tomarei as medidas necessárias para obstar a essas loucuras.</p> + +<p>E o senhor Germinal, erguendo-se com um gesto ameaçador, saiu do +<em>atelier</em>.</p> + +<p>Apenas transpôs o liminar, André correu atrás dele. Arrependia-se da sua +arrogância. Queria lançar-se-lhe aos pés e enternecê-lo à força de súplicas; +mas, quando ia a alcançá-lo, as abas flutuantes de um enferrujado casaco +abriram-se como duas asas, e o senhor Germinal, veloz como uma seta, +encaixou-se em casa e trancou ruidosamente a porta. André voltou desanimado; ao +desânimo seguiu-se o furor; ao furor, o desespero; depois... os projectos +extremos, as resoluções insensatas, e até uns vagos desejos de lançar fogo ao +edifício, precipitar-se através das ruínas fumegantes, estreitar Rosa nos +braços e fugir com ela... fosse para onde fosse!...</p> + +<p>André Sauvain mordia os dedos e andava de um para outro lado, como um tigre +na jaula. Perto da noite, não podendo conter-se, trepou quatro a quatro a +escada do que recusava ser seu sogro; tocou à campainha, primeiro timidamente, +depois com mais força.</p> + +<p>Nenhuma resposta.<span class="pn">{107}</span></p> + +<p>Tocou outra vez, bateu, suplicou, disse quem era, tornou a tocar, atroou o +patamar com as suas imprecações. Mas ninguém apareceu, a não ser um vizinho +desagradável, que resmungou vagamente as palavras: comissario de policia.</p> + +<p>Depois disto, André desceu ao <em>atelier</em>, atirou consigo para cima do +canapé, estorcendo-se e invocando Rosa.</p> + +<p>Após muitas horas deste exercício incoerente, um colosso ficaria prostrado. +Havia muito que era noite. O pintor adormeceu num sono febril, assaltado de +sonhos extravagantes, e interrompido de dez em dez minutos. Vinte vezes acordou +em sobressalto para ver se o dia não surgira ainda.</p> + +<p>Pela madrugada julgou ouvir ao longe a voz da sua noiva, que, com queixumes +angustiosos, o chamava por entre soluços. Correu à porta, e, com os cabelos +eriçados e o ouvido à escuta, olhou para fora.</p> + +<p>Já nascera o sol; ténue claridade se coava a custo através das nuvens +escuras; a chuva caía vertical e em grossas gotas, marulhando no pátio +pedregoso e nos canteiros do jardim, que exalavam um odor terroso. Entretanto a +casa estava inteiramente tranquila, e as janelas de Rosa, hermeticamente +fechadas, não deixavam filtrar o mínimo raio de luz.</p> + +<p>O frio da manhã atenuou a sobre-excitação febril de André; tornou a +deitar-se, vestido como estava,<span class="pn">{108}</span> dizendo consigo... +que ninguém já sequestra raparigas; que de certo Rosa tomaria ar de vez em +quando; que ele aproveitaria essas ocasiões, mesmo nas barbas do senhor +Germinal, e finalmente que era tolo em preocupar-se assim. Com estas reflexões, +adormeceu sossegadamente, e tão deveras, que a senhora Poussignol, na sua +habitual visita matutina, não logrou despertá-lo inteiramente.</p> + +<p>—E esta!</p> + +<p>Tal foi a exclamação, que retumbou aos ouvidos de Sauvain. Semi-abriu os +olhos e contemplou a porteira, que estava de pé, em frente dele, com o bigode +eriçado, com os punhos fincados nas ancas, e firmada nos seus sapatos de +ourelo, como um pato nos seus pés espalmados.</p> + +<p>—Então, disse ela, não o tinha eu prevenido!...</p> + +<p>—De quê?</p> + +<p>—De que fazia muito mal em frequentar aquela gente...</p> + +<p>—Que gente?</p> + +<p>—A família Germinal.</p> + +<p>André sentou-se de súbito no canapé.</p> + +<p>—Faça favor de falar mais respeitosamente dos meus vizinhos.</p> + +<p>—Não lhes falto ao respeito, mas isso não impede que eu volte à minha +primeira opinião, de que aquele homem é um antigo criminoso.</p> + +<p>—Ainda a mesma tolice!<span class="pn">{109}</span></p> + +<p>—Tolice!... A prova é que fugiu, e a polícia vai-lhe no encalço.</p> + +<p>—Do senhor Germinal?... Você endoideceu!</p> + +<p>—Ah, endoideci!... Pois bem! quando souber o que aconteceu...</p> + +<p>—O que foi? Vamos, explique-se! bradou André com impaciência.</p> + +<p>—Esta manha, às quatro horas, ainda não era dia claro, bateram nos vidros +do meu quarto. Quem é? perguntei eu.—Sou eu, Germinal, responderam. Era já +caso para admirar!... pois não era? Um homem que, durante doze anos, não deitou +o nariz fora da porta, e que hoje, sem mais nem menos, vai passear antes de +luzir o buraco!... Levantei-me, acendi a candeia, e que vejo?... O senhor +Germinal, com a mala debaixo de um braço e a filha pelo outro, chorando, a +pobrezita, que enternecia um rochedo! Que deseja? perguntei eu. Em resposta, +paga-me o mês por inteiro, pespega-me dez francos na mão (primeiro dinheiro +dele, a que vejo a cor—sempre é bom saber-se!) participa-me que vai viajar, e +não sabe quando voltará; mas que me não inquiete eu pelos móveis, porque +brevemente os mandará buscar. Então, a menina Rosa, que continuava a chorar, +tentou dizer-me duas palavras em voz baixa, porém o pai levou-a de repelão. +Puxei a corda e... boas noites!</p> + +<p>André parecia uma estátua.<span class="pn">{110}</span></p> + +<p>—Partiu!... partiu!... Rosa partiu!... murmurou ele afinal; é impossível! +</p> + +<p>—A prova é que tenho aqui a chave da casa.</p> + +<p>O pintor arrancou a chave das mãos da senhora Poussignol, que ficou pasmada. +Dez segundos depois, penetrava em casa do seu velho vizinho.</p> + +<p>O quarto do senhor Germinal estava limpo e em ordem, como sempre; a cama não +fora desfeita.</p> + +<p>André, lívido, gelado, empurrou uma porta, a do quarto de Rosa. Entrou nele +com passo de fantasma; mas, quando percorreu com a vista aquele mimoso retiro +abandonado, quando aspirou o suave perfume de violetas, que lhe recordava a +ausente, encostou-se à parede, inclinou a cabeça sobre o peito e perdeu os +sentidos.<span class="pn">{111}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION001700000000000000000">XVII</a></h1> + +<p>Durante quinze dias, André Sauvain vagueou pelas ruas de Paris, como um cão +que perdera seu dono.</p> + +<p>Quem visse aquele gigantesco moço, com a fisionomia espantada, os cabelos +flutuantes, o bigode arrepiado, e o vestuário em desalinho, correr como um +doido atrás de qualquer transeunte, mirá-lo em face, e logo voltar-lhe as +costas para correr atrás de outro, teria acusado mentalmente de negligencia os +guardas e o porteiro de Bicêtre.</p> + +<p>Naquele lapso de tempo, um desconhecido visitou, por duas vezes no mesmo +dia, a casa do senhor Germinal. Da primeira visita, examinou escrupulosamente +os móveis; da segunda, levou-os, depois de exibir um acto de venda +perfeitamente em regra. Pode presumir-se como o pintor se agarrou, com ambas as +mãos a essa suposta tábua de salvação! Interrogou,<span class="pn">{112}</span> +suplicou, afagou, ameaçou, e maçou de mil maneiras o infeliz comprador para +extorquir-lhe a nova residência do fugitivo, ou ao menos algum indício, que o +guiasse na busca de Rosa.</p> + +<p>Todavia, a vítima não lhe fornecera o menor esclarecimento. Era um ebanista +do <em>faubourg</em> Saint-Antoine; comprara em globo a mobília do senhor +Germinal, que lhe anunciou estar em vésperas de empreender uma longa viagem. +</p> + +<p>Podiam cortar o ebanista em mil pedaços, ou oferecer-lhe os tesouros de +Golconda, que ele não saberia dizer mais nada.</p> + +<p>Como o senhor Germinal pagara religiosamente o aluguer da casa, ninguém opôs +dificuldades à remoção dos moveis. André seguiu-os com os olhos até à esquina +da rua; levavam-lhe a última esperança.</p> + +<p>Depois recomeçou as suas furibundas correrias. O comer, o beber e o dormir, +foram tratados por ele como importunos credores, que se deixam gritar e a quem +se não paga. Mas a natureza tem os seus limites; este estado de exaltação +originou uma febre cerebral, e o pobre André desceu rapidamente o declive que +conduz ao cemitério.</p> + +<p>Felizmente, sua mãe moldara-o em bronze: a doença apenas o apalpou de leve, +e, não obstante a senhora Poussignol ter chamado dois médicos, o pintor +escapou. O seu físico restabeleceu-se à<span class="pn">{113}</span> custa do +moral: André, sempre profundamente melancólico, atirou-se ao trabalho como quem +se atira a um poço.</p> + +<p>Este género de suicídio não era dos menos eficazes: André prosseguia nele +com uma pertinácia de mau agouro, e qualquer outro convalescente, menos bem +construído do que ele, não duraria três semanas com semelhante afã.</p> + +<p>Entretanto, onde ele esperava encontrar a morte, encontrou um paliativo. A +fadiga do corpo adormentou-lhe, pouco a pouco, a dor do espírito. E a arte +ganhou com isso: a pintura de André ressentiu-se das tribulações da sua vida. +Desenvolveu nos seus quadros um vigor de colorido, uma fúria de concepção, um +arrojo de pensamentos, uma originalidade de meios, que não teriam de certo +brotado das plácidas inspirações de um espírito tranquilo. O homem feliz já não +existia: revelou-se o artista.</p> + +<p>Enfim, o acaso também entrou em cena. Como André, a tudo indiferente, não +corria atrás do dinheiro nem da fama, aconteceu naturalmente que a fama e o +dinheiro correram atrás dele.</p> + +<p>Surgiram no horizonte sinais precursores de gloria. O mercador de quadros, +que até ali o explorara sem vergonha, e lhe comprara muitas telas por preços +fabulosamente baixos, aumentou-os... oh, prodígio!... e aumentou-os de seu moto +próprio.<span class="pn">{114}</span></p> + +<p>Fez mais ainda: concordou, sem hesitar, em que o nome de Sauvain ecoava já +na opinião de alguns ricos amadores, e que, se André quisesse, o oiro, de ora +em diante, seria para ele uma realidade.</p> + +<p>O pintor encolheu os ombros, pagou as dívidas que contraíra durante a +doença, e voltou à sua lida obstinada.</p> + +<p>O verão acabou lentamente. A julgar pelo número de encomendas, os créditos +de André não diminuíam; apenas concluído um dos seus quadros, era logo vendido. +O seu <em>Faust au sabbat</em> tornou-se propriedade de um capitalista +misterioso, que o pagou muito caro e desejou conservar o anónimo.</p> + +<p>Noutro tempo, aquela veia de bom êxito teria enlevado Sauvain; agora era-lhe +mais um motivo de ironia e de amargura. Pensava em Rosa perdida para ele, em +Rosa talvez infiel, em Rosa que o esquecia, pois nem sequer lhe escrevera, e +repetia a si mesmo: «De que me serve isto?»</p> + +<p>Contudo, a abastança substituíra a pobreza; nada impedia André de trocar o +seu escuro cubículo da rua dos Mártires por um <em>atelier</em> mais cómodo e +decente; todavia não o quis deixar. Invisíveis cadeias o ligavam ali. Alugara +os dois quartos, habitados anteriormente pela sua Rosa e pelo pai. Podia acaso +afastar-se daquela janela, onde ela lhe aparecera na flor da sua radiante +beleza? Podia afastar-se daquele jardim, onde ela lhe fizera a<span +class="pn">{115}</span> primeira confissão do seu amor?... daquele banco, onde +se sentava a par dele?... daquela casa, onde lhe decorreram horas tão +venturosas?...</p> + +<p>Ficou, e continuou a torturar a alma na saudade, como torturava o corpo na +fadiga.</p> + +<p>Porém, quando veio o outono, quando as árvores, que vira frondosas e +virentes, amareleceram e deixaram cair as folhas... então abandonou-o a +coragem: à sua fictícia actividade seguiu-se uma indolência invencível; como o +trabalho o não matara, amaldiçoou o trabalho e aborreceu-o; pálido, enervado, +emagrecido, com os olhos brilhantes de febre, sem forças, nem energia, passou +os seus dias, inúteis, ruminando a própria dor.</p> + +<p>Como as folhas caíam das árvores, uma a uma, assim se desprendiam as suas +quimeras. Crenças de gloria e crenças de amor... todas iam pelo mesmo caminho. +Da sua mocidade florescente, restava apenas o esqueleto.</p> + +<p>Era a estação cismadora, em que a terra e o sol confundem num beijo os seus +últimos adeuses, em que o céu se vela num crepe cor de opala, bruma +transparente, que o voo das andorinhas rasga ao partirem. Era a estação +temerosa, em que o enfermo melancólico pressente o seu próximo fim, e busca um +seio amigo, onde reclinar a fronte.</p> + +<p>E André, pressentindo também o inverno para a sua alma, buscava ao redor de +si um conforto, uma<span class="pn">{116}</span> dedicação, uma simpatia... +Mas... debalde: nada encontrava... nem um ente, a quem amar! No seu passado, no +presente ou no futuro, nenhuma ligação, nenhuma alegria, nenhuma esperança! Em +tudo o deserto, em tudo o vácuo, em tudo o desalento!...</p> + +<p>Então, prostrado de corpo e desfalecido de espírito, com o peito entumecido +de lágrimas, exalou instintivamente o queixume habitual da criança em aflição. +Bem como a pérola, lançada nas ondas, volta à superfície, assim uma palavra de +há muito esquecida, subindo do fundo da sua fraqueza, do abismo do seu +isolamento, lhe vibrou nos lábios: «Minha mãe!»</p> + +<p>Oh, maternidade! afeição puríssima e inexcedível, consolação sobre-humana, +único amor desinteressado, único apoio... que resiste quando todos os outros se +nos despedaçaram nas mãos, e ainda quando os mais indeléveis sentimentos se +esvaíram em fumo! Maternidade! santa encarnação do sacrifício! O homem só te +aprecia quando te perde!</p> + +<p>Oh! se sua mãe vivesse!... Como iria refugiar-se no seu seio! Como ela teria +derramado naquele coração o bálsamo da sua ternura! Como o embalaria com +aqueles misteriosos acentos, que as mães tiram do vocabulário dos anjos!...</p> + +<p>Ai dele! sua mãe era morta!</p> + +<p>Àquela recordação pura, tanto tempo abandonada<span class="pn">{117}</span> +por amor de uma ingrata, André corou de remorsos.</p> + +<p>Lembrou-se do tempo, em que o seu máximo desejo fora cobrir com uma campa as +cinzas da viúva, e o seu mais acariciado projecto restaurar as ruínas da +casinha onde vivera com ela.</p> + +<p>O oiro necessário possuía-o agora.</p> + +<p>Que significava, pois, o ficar ali covardemente suspirando? A morta +esperava.</p> + +<p>—Coragem! exclamou André. A caminho!...</p> + +<p>E, numa linda manhã de Setembro, partiu com a mala aos ombros, levando sob a +blusa de linho os seus modestos haveres, e sentindo amarga satisfação em pensar +que ia morrer no tugúrio em que nascera. Para cumprir escrupulosamente o seu +voto, empreendeu a viagem a pé, como no tempo em que era tão alegre, quanto +pobre. Nesse tempo, sua mãe não tinha rival no coração do pintor; a sua imagem +adorada sorria-lhe de entre as árvores do caminho. Agora não acontecia o mesmo: +a seu pesar, uma outra imagem substituía a primeira. Queria chorar pela santa +guarda da sua infância, e chorava pela fada da sua juventude, Rosa! Debalde +concentrava o pensamento no termo da sua peregrinação; a cada passo voltava +insensivelmente a cabeça para trás. Em vão evocava o semblante frio e macilento +da morta; a memoria só lhe reproduzia um rosto animado, com olhos negros e +cabelos louros...<span class="pn">{118}</span></p> + +<p>Assim caminhou André por muitos dias, descansando nas estalagens dos +almocreves, bebendo na palma da mão, dormindo no meio dos campos matizados de +amarelo e púrpura.</p> + +<p>Desses esplendores do outono, nada notou... ele, o artista, o entusiasta! +Nada o comoveu; nem o horizonte, nem a verdura, nem os efeitos da luz, nem a +poesia campestre que a terra emanava por todos os seus poros, no intervalo +abençoado, que vai da ceifa à vindima. Somente, quando por acaso descobria dois +namorados, ocultos entre as ervas, uma dor atroz lhe apertava a garganta, e +fugia blasfemando.</p> + +<p>Enfim, uma tarde, à hora do crepúsculo, André atravessou a última aldeia, +que o separava de sua casa: os camponeses sentados à soleira das suas portas, +as velhas fiando na roca, as crianças semi-nuas, as frescas mocetonas de riso +sonoro, acompanharam-no com olhar curioso, perguntando a si mesmos para onde se +dirigiria aquele forasteiro, tão pálido e com os pés embranquecidos da poeira. +</p> + +<p>Uma hora depois, André avistava o seu casebre.<span class="pn">{119}</span> +</p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION001800000000000000000">XVIII</a></h1> + +<p>Lá estava ainda, mudo, negro e meio-derrocado, ao cimo da colina. O vento da +Costa não o derrubara de todo.</p> + +<p>Os seus contornos desenhavam-se vigorosamente no acinzentado do céu, com o +seu tecto de verde musgo, e as árvores desfolhadas do velho jardim. Uma brisa +áspera, precursora do inverno, fazia bater as portas das janelas, arrancadas +dos seus gonzos; e aranhas enormes urdiam tranquilamente as suas teias nos +buracos dos vidros quebrados.</p> + +<p>Mais adiante estendia-se, a perder de vista, o vasto oceano. Balouçava-se +pacífico, com o seu monótono e solene murmúrio: da superfície das ondas +elevava-se lentamente um intenso nevoeiro, qual gigantesco sudário.</p> + +<p>André parou, possuído de religiosa comoção; abriu a porta carunchosa e +entrou em casa. Um<span class="pn">{120}</span> odor indefinível se exalava +daquele recinto, onde ninguém penetrara depois da morte de sua mãe. À luz +indecisa do dia, que acabava, André pôde distinguir o grande leito de colunas, +com os seus cortinados de ramagens e flores fantásticas, a arca de nogueira, o +crucifixo com palmas bentas, os escabelos maciços, e as redes da pesca, herança +de seu pai. Sobre a mesa, via-se ainda uma tapeçaria por acabar. Parecia que a +obreira saíra de casa... momentos antes.</p> + +<p>André beijou aquele pedaço de estofo, que as mãos de sua mãe tinham bordado. +</p> + +<p>Depois fechou a porta e sentou-se pensativo junto da chaminé. E aí, +mergulhado nas trevas, que rapidamente aumentavam, com os olhos fitos na +lareira vazia, transportou-se em espírito ao sombrio passado.</p> + +<p>O marulhar cadente do oceano acompanhava-o na sua tristeza. Ao menor +estalido do vigamento, André comprazia-se em fantasiar que sua mãe estava ali; +que, terna e risonha, se aproximava com passos ligeiros; e que ele ia sentir na +fronte o doce contacto dos seus lábios...</p> + +<p>Entregue completamente às suas recordações, dizia de si para consigo, que, +se Deus recompensa o martírio, a pobre mulher devia ser bem feliz no outro +mundo.</p> + +<p>O pintor não confessara tudo a Rosa.<span class="pn">{121}</span></p> + +<p>Filha de um rico rendeiro, cortejada pelos melhores proprietários dos +arredores, a mãe de André preferira-lhes Sauvain, um simples pescador da costa. +Ao cabo de um ano de vida conjugal, esse homem enfastiara-se dela; maltratou-a, +desbaratou em deboches e embriaguez, quanto possuíam, e afinal desapareceu, +abandonando à miséria a esposa e o filho recém-nascido.</p> + +<p>Três anos depois, soube ela simultaneamente, do seu alistamento a bordo da +<em>Ariana</em>, e da perda daquele navio com toda a tripulação.</p> + +<p>Bela e virtuosa, fácil lhe teria sido tornar a casar. Mas... idolatrava seu +filho, e temia impor-lhe um tirano. Além disso, não obstante as brutalidades de +Sauvain, não cessara de ama-lo. Dedicou à sua memoria um culto, aliás pouco +merecido, e conservou-se viúva.</p> + +<p>Então começou para ela uma vida heróica, toda de sacrifícios e abnegação. +Privou-se de comer e de dormir, para poder dar a seu filho uma educação +conveniente; desejava-lhe uma carreira modesta, um emprego que o fixasse em +Granville, a dois passos da sua casa natal, perto de si enfim...</p> + +<p>Mas André iludiu aquele plano materno. Atormentava-o uma inquietação +incompreensível, tinha sede de movimento e de espaço; começavam a nascer as +suas asas de artista... Não tinha ainda doze anos, quando um escultor, passando +por ali, o<span class="pn">{122}</span> encontrou, e apreciando a sua +inteligência precoce, propôs-lhe levá-lo consigo. André bateu as palmas de +alegria; e a viúva, engolindo as lágrimas, deixou-o ir.</p> + +<p>Alguns meses depois, chamou-o ela a toda a pressa: André veio logo, mas +chegou só a tempo de assistir-lhe ao enterro.</p> + +<p>Aquela súbita doença, aquela morte inesperada, fulminaram a criança de +surpresa e terror; interrogou os que tinham assistido a sua mãe, mas apenas +puderam responder-lhe que um dia, ouvindo em casa da viúva um grito estridente, +acudiram e encontraram-na pálida e trémula, com o rosto desfigurado, +segurando-se a um móvel para não cair no chão. Por um prodígio de coragem, +conseguiu ainda escrever duas linhas a seu filho; deitaram-na na cama, pediu um +padre, e expirou no dia seguinte. Não podia duvidar-se de que, mais uma +desgraça pousara a sua mão de ferro sobre aquela humilde existência... Que +desgraça fora, nunca o soube André.</p> + +<p>Quantas vezes, desde então, torturara ele o espírito para penetrar o +sinistro enigma?</p> + +<p>Naquele momento ainda, decorridos tantos anos, sozinho entre aquelas paredes +mudas, ora aglomerava, ora repelia, e logo reconstruía, na sua imaginação +ardente, mil hipóteses contraditórias; e as rajadas impetuosas do vento, +abalando o tecto,<span class="pn">{123}</span> sucediam-se, como gargalhadas de +escárnio, mofando de suas loucas conjecturas...</p> + +<p>Entretanto adiantava-se a noite, e pelas mil fendas do casebre filtrava-se +glacial humidade. André, transido de frio, ergueu-se enfim às apalpadelas, +acendeu luz, dirigiu-se a uma pequena carvoeira contígua, e aí ajuntou algumas +achas, que dispôs na lareira.</p> + +<p>Tentou fazer uma boa fogueira, mas a tarefa não era fácil.</p> + +<p>Um montão de cinzas, extintas havia doze anos, obstruía a chaminé. O pintor +quis desvia-las; porém, ao enterrar a pá, tocou num objecto duro, resistente, +metálico, que não pôde logo adivinhar o que fosse. Tirou-o e limpou-o ao forro +da blusa.</p> + +<p>Era uma chave ferrugenta, de mui exígua dimensão e de forma particular. +Evidentemente só podia pertencer a um pequeno cofre, ou a um indispensável de +mulher.</p> + +<p>André olhou em volta de si, mas não descobriu nenhum utensílio daquele +género. Atirou com a chavinha para cima da mesa e acendeu a lenha, que começou +a crepitar.</p> + +<p>O velho recinto iluminou-se de alegre claridade. O pintor tentava reatar o +fio dos seus pensamentos, mas debalde; a seu pesar, a pequena chave +intrigava-o; não sei que vaga intuição lhe segredava ao ouvido que, entre +aquela chave e o mistério<span class="pn">{124}</span> que procurava desvendar, +havia talvez íntima relação...</p> + +<p>De repente, à força de a virar e revirar nos dedos. Lembrou-se de haver +brincado em criança com uma caixinha, habilmente coberta de conchas +multicolores, como muitas que se vendem em certos portos de mar.</p> + +<p>Sua mãe apreciava-a muito: fora um presente do marido, que lha comprou na +feira de Granville... Conservava-a como uma relíquia, e nela guardava o que +tinha de mais precioso. A caixa existiria ainda?</p> + +<p>André começou a procurá-la, e, sempre guiado pelas suas recordações, +descobriu-a sobre um resto de roupa branca, que ficara a um canto da arca de +nogueira. Tomou-a nas mãos e, pelo seu pouco peso, julgou que estava vazia. +Contudo meteu a chave na fechadura.</p> + +<p>A caixa abriu-se; continha apenas um papel.</p> + +<p>Era uma carta aberta. O sobrescrito, matizado pelos selos da posta inglesa, +indicava a procedência de Liverpool.</p> + +<p>Durante alguns minutos, o pintor ficou imóvel, perplexo, comovido, em frente +daquele escrito, que sem dúvida encerrava o segredo da morte de sua mãe.</p> + +<p>Contudo sentou-se, aproximou a luz, desdobrou a missiva, e buscou +primeiramente a assinatura.<span class="pn">{125}</span> Ao vê-la, +escapou-se-lhe dos lábios um grito de surpresa.</p> + +<p>No fim da terceira página de uma caligrafia incorrecta mas de traços +vigorosos, desenhava-se em letras enormes, o nome de Pedro Toucard!</p> + +<p>Depois, André leu o que se segue:</p> + +<p>«Liverpool, 4 de Maio de 1842.—Minha senhora: O meu nome, embora lhe seja +desconhecido, é o de um homem, que a lamenta e lhe dedica sincero interesse. +Julga poder provar-lho, e cumprir ao mesmo tempo um dever, informando-a de uma +particularidade que, sem isso, ignoraria sempre.</p> + +<p>«Há nove anos, que a senhora chora Onésimo Sauvain, seu marido; porém +Onésimo Sauvain não morreu.</p> + +<p>«Quando a <em>Ariana</em> naufragou, era eu passageiro a bordo daquele +navio, do qual ele era marinheiro. Só eu e ele, dentre toda a tripulação, +tivemos a boa fortuna de escapar.</p> + +<p>«Arrojados a uma praia pouco hospitaleira, igualmente esfaimados, igualmente +desprovidos de recursos, associámos os nossos destinos. Seu marido é um +malandro, mas inteligente e resoluto. Ajudou-me nas minhas empresas, e, +navegando de conserva, levámos a cabo não poucas especulações lucrativas.</p> + +<p>«Desde o princípio, e sem dizer-me a razão, manifestava ele o desejo de +passar por morto; anunciou-se por toda a parte como meu irmão, e<span +class="pn">{126}</span> de Onésimo Sauvain, que era, transformou-se em Onésimo +Toucard. Ora eu, que não sou tolo, não tardei em fazê-lo dar à língua. +Confessou-me que deixara por aí... a qualquer canto; uma mulher e um filho, e +que não tinha grande empenho em tornar a vê-los. A coisa pareceu-me ignóbil; +disse-lho claramente, porém ele mandou-me para o diabo. Entretanto persegui-o +com tais instâncias e ameaças de desmentir o boato da sua morte, que me +prometeu, não sem repugnância, escrever-lhe logo que tivesse adquirido meios +suficientes para viverem cómoda e honradamente.</p> + +<p>«Hoje, minha senhora, decorridos nove anos de alternativas de boa e má +fortuna, depois de uma viagem feliz, liquidámos as nossas contas. A parte de +Onésimo eleva-se a perto de dez mil francos; a nossa sociedade dissolveu-se; +ele renuncia ao comércio, e quer, segundo diz, gozar em paz da sua modesta +abastança. Quanto a mim, que não me contento com tão exíguo capital, reembarco +para a Índia, daqui a três dias, e vou de novo tentar fortuna.</p> + +<p>«Onésimo volta para França, e jurou-me reintegrar o domicílio conjugal; mas, +como depois me pediu que lhe dirigisse provisoriamente as minhas cartas para +Versailles, posta restante, e sob certas iniciais, inclino-me a crer que ele +roerá a palavra a este seu criado, continuando a deixar a esposa em +viuvez,<span class="pn">{127}</span> e que dissipará em orgias o capital, que +pertence legitimamente a seu filho.</p> + +<p>«Previno-a pois, minha senhora, para que, pelos meios que julgar +convenientes, impeça seu marido de cometer novas loucuras, imperdoáveis na sua +idade, e também para que procure restituir o pai a seu filho.</p> + +<p>«Talvez esta advertência vá demasiado tarde; porventura estará morta, ou +tornaria a casar a mulher de Onésimo... Em todo o caso, obedeço às ordens que +me dita a consciência.</p> + +<p>«Onésimo partiu ontem, 3; segundo todas as probabilidades deve chegar a +Paris no dia 6, e a Versailles, de 7 a 10. Ignoro o segundo pseudónimo que +adoptará; mas, indicando-lhe a terra onde tenciona esconder-se, não me parece +difícil que consiga descobri-lo.</p> + +<p>«Queira aceitar, minha senhora, as expressões do profundo respeito +de==<em>Pedro Toucard</em>.»</p> + +<p>Quando André voltou a si do espanto, que lhe causara aquela carta, +estremeceu ao pensar na impressão dolorosíssima, que ela devia ter produzido em +sua mãe.</p> + +<p>Saber que seu marido vivia, e a detestava a ponto de preferir a morte civil +à vida de família!... Saber que esse homem era relativamente rico, e não lhe +importava sequer se seu filho tinha pão!...</p> + +<p>Sem dúvida, aquelas terríveis decepções, as suas<span +class="pn">{128}</span> ilusões violentamente arrancadas, tinham morto a pobre +mulher, sem dar-lhe tempo, nem forças, para comunicar a André a noticia, que +tivera.</p> + +<p>Depois, o pintor tentou reunir as suas ideias, porém elas dançavam em +vertiginoso galope, e com grande custo conseguiu desembaraçar a meada dos +acontecimentos, que o acaso enredara em tão extraordinárias complicações.</p> + +<p>Então... aquele viajante, vitima da catástrofe de 8 de Maio, era seu pai! +</p> + +<p>Então... os noventa e dois mil francos, depositados pelo moribundo nas mãos +de um estranho, pertenciam-lhe!</p> + +<p>Então... o senhor Germinal, que durante doze anos procurara, e receara +encontrar, o herdeiro de Onésimo, morou defronte dele todo esse tempo!</p> + +<p>Então... desposando Rosa, e aceitando o dote que o velho lhe oferecera, era +André quem enriquecia a mulher que amava!</p> + +<p>Então... Pedro Toucard, levado ali por essa série de singulares +coincidências, abusou do seu falso parentesco com Onésimo para apossar-se de +uma soma, a qual todavia tentara em tempos fazer reverter para os seus +legítimos donos!</p> + +<p>André compreendia agora a extraordinária comoção do provençal ao ouvir o +nome de Sauvain. A consciência do aventureiro era elástica, mas ainda não +estava gangrenada; apesar dos seus escrúpulos,<span class="pn">{129}</span> não +pudera vencer o seu frenesim de especulação, nem deixar fugir a ocasião de +traficar mais uma vez.</p> + +<p>Entretanto tinha, sem o saber, despedaçado a felicidade futura de Rosa e de +André!</p> + +<p>«Pela memoria de minha mãe! exclamou o pintor, juro que lhe farei restituir +o dinheiro!»</p> + +<p>E logo um clarão de alegria lhe iluminou e reanimou o espírito. Reflectiu em +que, uma vez na posse daquela soma, disporia de meios enérgicos para descobrir +o senhor Germinal, e que o velho teimoso não teria então mais nenhum obstáculo, +que opor ao seu casamento com Rosa.</p> + +<p>Passou grande parte da noite a passear pela casa, como um louco. Depois, +prostrado de fadiga, deitou-se, adormeceu com a cabeça escandecida, e teve um +pesadelo.</p> + +<p>Sonhou que Pedro Toucard, trajando um fato recamado de oiro e pedras +preciosas, pendendo-lhe do rosto uma barba em duas pontas, de prata maciça, +galopava, ao longo dos <em>boulevards</em>, numa carruagem puxada por doze +cavalos... André perseguia-o, correndo a bom correr... Queria gritar: «Agarra, +que é ladrão!» mas a sua garganta não soltava o menor som... E Pedro fugia +sempre, semeando às mãos cheias, por sobre a multidão, noventa e duas mil notas +do banco, carimbadas com o nome de Sauvain...<span class="pn">{130}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION001900000000000000000">XIX</a></h1> + +<p>Quando o pintor acordou, estava transfigurado. Do mesmo modo que, em face +dele, o sol se alevantava majestosamente por cima do mar, rompendo as névoas +pardacentas, enrolando-as como um manto, e descobrindo a imensidade líquida, +sobre a qual espargia milhares de gotas de oiro; assim, no coração de André, a +tristeza, o abatimento, o desanimo, tudo se evaporara ao sol da esperança.</p> + +<p>Uma resolução firme substituíra todas as suas indecisões. O seu programa +era:</p> + +<p>1.º—Encontrar Pedro Toucard: o que devia ser fácil, vista a excentricidade +da sua pessoa, e a atenção que não podia deixar de atrair sobre si.</p> + +<p>2.º—Fazer-lhe restituir o dinheiro, que levara.</p> + +<p>3.º—Lançar uma matilha inteira, se preciso fosse, na pista do senhor +Germinal; ir ter com<span class="pn">{131}</span> ele, ainda que estivesse na +Gronelândia, agarra-lo à viva força, desposar Rosa, e ser feliz.</p> + +<p>Nada mais simples!</p> + +<p>André saiu, portanto, alegre e despreocupado; aspirou deliciosamente os +perfumes do ar salino da costa, enviou um olhar reconhecido ao céu de +azul-turquesa, e descendo por atalhos desertos, entrou no cemitério da aldeia, +cujas campas, abrigadas pela igreja musgosa, alvejavam ao romper do sol.</p> + +<p>Ali, num canto isolado, parou, mais por instinto do que por fiel recordação, +ante um montículo invadido por ervas parasitas e por parietárias. Uma cruz de +madeira, negra e carunchosa, jazia quebrada entre as plantas incultas; o nome, +outrora gravado nos braços dessa cruz, já não se distinguia.</p> + +<p>André ajoelhou na relva húmida, e ficou assim por muito tempo. Só quando +rumores longínquos lhe anunciaram o despertar da aldeia, afastou-se tranquilo, +mas em profundo recolhimento.</p> + +<p>No mesmo dia, encomendou uma lápide tumular, que pagou adiantada, e +entendeu-se com um arquitecto para as reparações do seu pardieiro e do velho +jardim. Empenhava-se tanto em dar-lhes um aspecto risonho, porque decidira +passar ali com Rosa as horas encantadas da lua de mel.</p> + +<p>Cumpridos estes deveres, meteu no bolso a carta de Pedro Toucard, tornou a +pôr na arca a caixa<span class="pn">{132}</span> de conchinhas, confiou a chave +da casa ao empreiteiro encarregado das obras, e, nessa mesma tarde, partiu para +Paris no último comboio do caminho de ferro, pois que, desta feita, não tinha +tempo a perder.</p> + +<p>No dia seguinte, ao meio dia, estava ele de pé no seu <em>atelier</em>, +escovando o chapéu para correr em busca do provençal.</p> + +<p>—Por onde começarei? perguntava a si próprio; onde poderei mais facilmente +encontra-lo?... Ora... já sei! na Bolsa! Foi para lá, que ele transportou a sua +tenda de campanha, e tenho quase a certeza de o ir apanhar, entre uma compra e +uma venda de fundos.</p> + +<p>Quando acabava de proferir estas palavras, abriu-se a porta, e André, +petrificado de espanto, recuou três passos.</p> + +<p>Entrou Pedro Toucard... Pedro Toucard, em carne e osso!</p> + +<p>—O senhor!... exclamou Sauvain.</p> + +<p>—Eu mesmo, respondeu o aventureiro com o seu habitual desembaraço. Bons +dias, caro amigo!...</p> + +<p>E, como André lhe não estendesse a mão, agarrou-a ele quase à força, +estreitando-a nas suas.</p> + +<p>Depois continuou, escarranchando-se numa cadeira:</p> + +<p>—Então, como vai isso?... bem?... Folgo deveras. Acho-o um pouco mudado... +um tanto pálido...<span class="pn">{133}</span> mais magro... mas bem disposto +e animado, o que me causa imenso prazer.</p> + +<p>—É muita bondade!... lhe tornou André, com voz ironicamente ameaçadora.</p> + +<p>—Dá-me prazer, palavra de honra! porque não foi sem uma tal ou qual +inquietação, que embarquei esta manhã para a rua dos Mártires...</p> + +<p>—E por que motivo? perguntou o pintor, curioso de ver até que ponto chegava +semelhante impudência.</p> + +<p>—Primeiramente, porque há muito que o não vejo... Lembra-se de que a minha +última visita data de há quatro meses?</p> + +<p>—Lembra-me muito bem!... resmungou André com os dentes cerrados.</p> + +<p>—Em segundo lugar... sim... é porque tenho uma confidência... um pouco +difícil, para fazer-lhe.</p> + +<p>—Uma confidência!</p> + +<p>—Ou, mais propriamente, uma confissão... Ora, imagine o senhor que tem suas +razões de queixa contra mim... graves razões de queixa!...</p> + +<p>—Realmente?</p> + +<p>—É exacto... Podia ocultar-lhas sempre, mas a minha consciência tem andado +opressa: hoje transborda e impele-me às confissões...</p> + +<p>Perante este arrependimento, real ou fingido, a cólera de André esvaiu-se +quase de súbito.<span class="pn">{134}</span></p> + +<p>—Ora vamos!... pensou o pintor, este homem ainda tem bons sentimentos; e +visto que se emenda, não tenho coragem para lhe querer mal. Para todo o +arrependimento, misericórdia!...</p> + +<p>—Estou pronto a escutá-lo? disse ele a Pedro em tom mais brando.</p> + +<p>O provençal torceu os cabelos grisalhos da barba e coçou a orelha.</p> + +<p>—Custa a contar!... murmurou este. Se me dessem a escolher, preferiria +trepar ao cimo do Himalaia... A coisa é dura, que tem diabo!...</p> + +<p>—Então, disse-lhe André sorrindo, não diga nada, meu bravo! E inútil, +porque eu sei tudo.</p> + +<p>—Ora essa!... exclamou Pedro, erguendo-se aterrado!</p> + +<p>—Trata-se dos meus noventa e dois mil francos, não é assim?</p> + +<p>—Dos seus... Ai, com mil bombardas! é certo que sabe tudo!... Mas quem +diabo podia instruí-lo de uma coisa, que ninguém neste mundo...</p> + +<p>—Foi o senhor mesmo, interrompeu o pintor.</p> + +<p>—Eu!...</p> + +<p>—Ora leia.</p> + +<p>E Sauvain colocou-lhe debaixo dos olhos a carta datada de Liverpool.</p> + +<p>Pedro Toucard, atentando na carta aberta, corou ligeiramente.</p> + +<p>—Reconheço a letra, disse ele, posto seja mais<span class="pn">{135}</span> +nova do que eu... doze anos. Mas juraria que essa carta não tinha chegado ao +seu destino!</p> + +<p>—Enganava-se.</p> + +<p>—Convenço-me porém de que, há quatro meses, quando embolsei este +dinheiro...</p> + +<p>—O meu dinheiro, quer dizer?</p> + +<p>—Seja... Convenço-me de que o senhor ignorava o conteúdo dela?</p> + +<p>—Ignorava-o ainda há quarenta e oito horas.</p> + +<p>E André contou como, por acaso, ao remexer as cinzas do lar, desenterrara a +chave da caixa, a qual era ao mesmo tempo a chave de tantos mistérios!</p> + +<p>—É indubitável que existe uma Providência! disse Pedro abanando a cabeça. +Tudo se descobre, mais cedo ou mais tarde! Ora vejam com que cara ficaria +diante de si, se, confiando na impunidade, não fosse eu o primeiro a confessar +a minha culpa, porque... enfim... eu roubei-o!</p> + +<p>—Ai! suspirou André, não é do dinheiro que eu mais tenho lamentado a falta! +</p> + +<p>—Sim, sim, adivinho!... e é isso o que torna o meu crime imperdoável! +Informei-me, e soube da ruptura do casamento, assim como da desaparição de +Rosa, levada por seu pai, não se sabe para onde. Pobre rapaz!... e fui eu... +eu!...</p> + +<p>—Ora!... disse alegremente o pintor, havemos de dar com ela.<span +class="pn">{136}</span></p> + +<p>Os olhos cintilantes do provençal fixaram-se em André com inquieta surpresa. +</p> + +<p>—Com a fortuna! exclamou ele, o senhor é um filosofo às direitas!</p> + +<p>—Porquê?</p> + +<p>—Pois, um homem rouba-lhe uma soma avultada, destrói as suas esperanças de +amor e de casamento; e o senhor, em vez de sova-lo com um cacete, conversa +tranquilamente com ele!...</p> + +<p>—A falar a verdade, meu caro senhor, disse Sauvain rindo, se o tivesse +encontrado de improviso esta manhã, não responderia pelos meus gestos. Mas o +passo, que acaba de dar, desarmou-me, e como concorda em que fez mal... sim... +visto estar pronto a restituir...</p> + +<p>—Restituir! interrompeu Pedro. Com mil bombas! já não nos entendemos!... +</p> + +<p>André deu um pulo, com os lábios a tremer-lhe de raiva.</p> + +<p>—Olá! mestre Toucard, dar-se-á acaso que pretenda conservar?...</p> + +<p>—Não pretendo nada, com mil raios!... Não olhou para mim? Ora examine o meu +exterior!... É esta porventura a aparência de um capitalista? Terei ares de um +feliz mortal, que lhe trouxesse no bolso noventa e dois mil francos?</p> + +<p>Efectivamente, Pedro Toucard estava a cem léguas de possuir semelhantes +ares.<span class="pn">{137}</span></p> + +<p>Envolto em sórdidos farrapos, enlameado até ao pescoço, ter-lhe-iam +oferecido dois soldos à esquina da rua. Luzia-lhe a pele através dos buracos do +fato, e as botas arrebentadas vomitavam jorros de lama.</p> + +<p>O artista sentiu um choque violento quando reparou naquela libré da miséria. +Uma ideia horrível lhe descompôs as feições.</p> + +<p>—Olá!... que é isso? disse o provençal, assustado com a palidez dele; agora +olha demais para mim!... Sossegue, meu rapaz, e beba um copo de água. Feridas +de dinheiro não são mortais.</p> + +<p>—Oh! articulou o pintor angustiado, é então verdade?</p> + +<p>—O quê?</p> + +<p>—O que eu suponho...</p> + +<p>—Não sei o que supõe, mancebo. O facto é que estive na alta, e depois... +veio a baixa.</p> + +<p>—Portanto está tudo perdido!</p> + +<p>—Fundido, destruído, evaporado!</p> + +<p>—Não resta coisa alguma?</p> + +<p>—Restam-me... dívidas.</p> + +<p>—E a herança de meu pai?</p> + +<p>—Foi para casa de seiscentos diabos.</p> + +<p>—Infame! rugiu Sauvain, agarrando Pedro pela gola da velha sobre-casaca, e +sacudindo-o rudemente.</p> + +<p>O aventureiro deixou-se sacudir. Meteu sossegadamente as mãos nas algibeiras +das calças despedaçadas,<span class="pn">{138}</span> e poderia mesmo jurar-se +que um vago sorriso de infernal satisfação lhe assomara aos lábios.</p> + +<p>—Vamos, mancebo!... disse ele. Não hesite: bata-me, estropie-me, mate-me. +Sou um tratante, um canalha, um ladrão; nem valho a corda com que me +enforcarem!...</p> + +<p>André largou-o; repugnava-lhe maltratar um velho.</p> + +<p>Cego pelas lágrimas, sufocado pela indignação, aniquilado pelo desespero, +caiu prostrado numa cadeira e só pôde balbuciar estas palavras:</p> + +<p>«Rosa!... Rosa!... minha pobre Rosa!...»</p> + +<p>Pedro pareceu sinceramente comovido.</p> + +<p>—Ah!... resmoneou ele, procurando em vão no crânio calvo um punhado de +cabelos para arrancar; eu devera-o ter previsto!... O desgraçado contava com o +seu dinheiro para desposar a pequena... e tu, grande bandido, velho celerado, +devoraste tudo, deitaste-lhe abaixo a igrejinha!</p> + +<p>E nisto, infligindo a si próprio as maiores injúrias, desenfiava um rosário +de pragas.</p> + +<p>Entretanto a dor de André atingia o seu paroxismo. Encostado à mesa, com o +rosto esmagado entre os punhos contraídos, fazia esforços incríveis para +recalcar no peito os gemidos e gritos de raiva... mas debalde.</p> + +<p>—Ora vamos!... vamos! continuou Toucard; que não haja, sobre queda, coice! +O enguiço triunfa<span class="pn">{139}</span> hoje, de acordo! mas eu sou um +espertalhão, bem o sabe... Dentro em pouco tirarei a desforra, e +reembolsa-lo-hei então do capital e juros. Quer que lhe assine uma obrigação de +cem mil francos, pagável na minha primeira veia de fortuna?</p> + +<p>André ergueu-se bruscamente, deixando ver o rosto afogueado e banhado em +pranto.</p> + +<p>—Fora daqui, miserável! exclamou ele. Não tente a minha desesperação com as +suas covardes zombarias!... Saia!</p> + +<p>—Não estou zombando, disse o provençal; e juro-lhe pela minha honra...</p> + +<p>—Pela sua honra!... interrompeu amargamente o pintor.</p> + +<p>—Seja pelo que for... Enfim... juro-lhe que o meu desejo mais veemente +seria vê-lo rico e satisfeito.</p> + +<p>—E por isso me roubou o meu património, não é assim?</p> + +<p>—Que diabo posso eu dizer-lhe? As notas do banco já estavam no meu bolso, +agarravam-se a mim e gritavam-me: «Leva-nos! Foi, graças a ti, que Onésimo nos +ganhou; portanto... pertencemos-te um pouco!... Leva-nos, Pedro, e +quintuplicar-nos-ás... decuplicar-nos-ás! André, Rosa, toda a família será +feliz, e isso devido a ti... Leva-nos!»... Com a breca, levei-as!... Se esta +explicação<span class="pn">{140}</span> lhe não basta, pegue numa pistola, e +abra-me a cabeça; até me faz favor!... Ou então... arraste-me ao banco dos +réus, para que me condenem às galés.</p> + +<p>André, silencioso, envolveu o aventureiro num longo olhar de tédio.</p> + +<p>—Não, replicou por fim. Não me esqueço de que foi amigo de meu pai; não me +esqueço desta carta... a única acção honesta da sua vida! Não me vingarei, +senhor mas, pelo amor de Deus, retire-se!</p> + +<p>Apesar da sua casca grossa, Pedro Toucard sentia-se enternecido.</p> + +<p>Dirigiu-se lentamente para a porta; depois parou, torceu a barba, reflectiu, +e inclinando-se para André, que lhe voltava as costas, murmurou:</p> + +<p>—Senhor Sauvain...</p> + +<p>—Ainda aqui! exclamou o pintor.</p> + +<p>—Antes de ir-me embora, quero que saiba, se isto pode servir-lhe de +consolação, que o céu se encarregou de castigar-me. Estou mais miserável, +senhor André, do que no dia em que me fez a esmola... que tão pouco lhe +aproveitou! Numa palavra, morro de fome; e como me repugna mendigar, vou +direito daqui lançar-me ao rio. Adeus!</p> + +<p>—Espere!... disse Sauvain.</p> + +<p>E puxando da bolsa, despejou-a sobre a mesa.</p> + +<p>—Leve isso.<span class="pn">{141}</span></p> + +<p>—Eu!...</p> + +<p>—Arrecade isso, já lho disse, e vá-se embora. É em memoria de minha mãe, a +quem tentou prestar um serviço. Eu... de nada preciso já.</p> + +<p>Toucard guardou o dinheiro; porém os dedos tremiam-lhe, e os seus olhos +lampejavam humedecidos.</p> + +<p>—De que me serve viver, retorquiu ele, se não me perdoa?... se não recobro +o sono, que me foge?</p> + +<p>O pintor encolheu os ombros.</p> + +<p>—O que está feito, está feito! respondeu-lhe com voz abatida. Toda a minha +raiva, todo o meu ódio, todo o meu desprezo, não ressuscitariam uma parcela +sequer da minha felicidade perdida!... Vá em paz; perdoo-lhe!</p> + +<p>O aventureiro ficou imóvel, e como fulminado de espanto, no limiar do +<em>atelier</em>. Contemplou Sauvain, o qual se encostara ao canapé, e, com o +semblante meio oculto pelos seus longos cabelos, parecia ter-se tornado +insensível ao mundo exterior.</p> + +<p>—Este, sim!... que tem um coração de oiro sem liga! murmurou ele com +singular expressão. Se a sorte lhe não sorri... é uma grande velhaca, com mil +bombardas!</p> + +<p>E saiu.<span class="pn">{142}</span></p> + +<p> </p> + +<h1><a name="SECTION002000000000000000000">XX</a></h1> + +<p>Imaginem um homem caído do alto de uma torre, uma massa de carne +ensanguentada, que ainda respira. Os olhos vêem tudo cor de sangue; os ouvidos +só recebem rugidos confusos; a inteligência flutua ao acaso; e o corpo inerte, +despedaçado, inútil, sofre demasiado para continuar a viver, mas não o bastante +para conseguir morrer.</p> + +<p>Assim estava André Sauvain.</p> + +<p>Precipitado do alto das suas esperanças, vegetou quinze dias sem pensar, sem +acção, sem ter consciência do tempo, nem das alternativas do sol e das trevas, +que se sucediam regularmente na marcha imutável das horas.</p> + +<p>Porém, um dia, despertou de súbito daquela assustadora prostração.</p> + +<p>Ergueu-se, frio e resoluto, juntou os quatro retratos<span +class="pn">{143}</span> de Rosa, que pintara na época da sua felicidade, e +dispo-los nos cavaletes, em volta de si, nas condições de luz mais favoráveis; +depois, fechou à chave a porta do <em>atelier</em> e desprendeu da parede uma +pistola, que cuidadosamente carregou.</p> + +<p>Feito isto, pousou a arma sobre a mesa, ao alcance da mão.</p> + +<p>Davam onze horas num relógio próximo.</p> + +<p>—Á última pancada do meio dia, disse André falando consigo, farei saltar os +miolos.</p> + +<p>Era uma espécie de prazo, que concedia à Providência. E com efeito, não +podia Rosa regressar, nesses sessenta minutos?... O acaso tem tantos +recursos!...</p> + +<p>Encostou-se sobre os cotovelos, pensativo e com a vista fixa nos quatro +retratos... Acariciando com o olhar aqueles rostos, risonhos e suaves, aquelas +pupilas límpidas, aquelas frontes resplendentes de inocência, André +recomendava-se às recordações da sua amada, e os seus lábios murmuravam +palavras ininteligíveis.</p> + +<p>Deu meio dia.</p> + +<p>André pegou na pistola.</p> + +<p>—Uma carta para o senhor Sauvain: disse nesse momento uma voz, de fora.</p> + +<p>—Uma carta?... repetiu André, uma carta dela!... Era tempo!</p> + +<p>Atirou a arma para o fundo de uma gaveta, abriu<span class="pn">{144}</span> +a porta, pegou na carta, e levou-a com gesto de avaro para um canto da janela. +</p> + +<p>Não era de Rosa!</p> + +<p>A missiva dimanava prosaicamente do arquitecto de Granville, reclamando +algum dinheiro, à conta, pelas reparações da casa.</p> + +<p>André ficou aterrado.</p> + +<p>Apagara-se-lhe da memoria aquela dívida sagrada. Recordava-se dela agora, +mas não tinha dinheiro, e só o trabalho podia dar-lho.</p> + +<p>Portanto... nem sequer tinha a liberdade de morrer!</p> + +<p>O pintor apelou, com desespero, para a sua antiga energia.</p> + +<p>—Vamos!... pensou ele, mais uns dias de coragem e de tortura!... Ganhemos, +com o suor do rosto, o direito ao eterno repouso!</p> + +<p>E lívido, desfalecido, vacilante, dirigiu-se ao seu comprador de quadros, e +pediu-lhe que lhe adiantasse a soma de que precisava.</p> + +<p>O industrial anuiu de bom grado.</p> + +<p>—Esperava-o com impaciência, disse-lhe este homem; apresenta-se agora uma +ocasião, magnífica para si, e bastante lucrativa.</p> + +<p>—Seja como for, disse Sauvain, aproveito-a.</p> + +<p>—Eis o negócio: um dos meus fregueses acaba de comprar, nos arredores de +Paris, uma casa, que deseja ornar o mais elegantemente possível. Pediu-me<span +class="pn">{145}</span> que o relacionasse com um pintor de talento, e eu +falei-lhe no senhor. Trata-se de alguns quadros e muitas pinturas a fresco; +convém-lhe?</p> + +<p>—Convém.</p> + +<p>—Nesse caso, é necessário começar a obra quanto antes. O meu freguês habita +na sua propriedade: vá procurá-lo. É um homem generoso e inteligente. O senhor +entender-se-á perfeitamente com ele.</p> + +<p>—Como se chama?</p> + +<p>—Aqui está a direcção: «Monsieur Nuavias, em Audily-Seine-et-Oise». É no +vale de Montmorency, a dois passos da floresta. O sítio é delicioso, e creio +que o senhor não terá razão de queixa.</p> + +<p>—Irei amanhã, disse André. Com efeito, no dia seguinte, Sauvain desembarcou +em Audily pelas três horas da tarde. Não pôde conseguir que lhe indicassem a +casa do senhor Nuavias, porque ninguém conhecia aquele nome, o qual decerto era +novo no país; mas, após diferentes investigações, descobriu, a dois tiros de +espingarda da vila, um pequeno castelo, que alvejava no cume de uma pitoresca +colina.</p> + +<p>—Deve ser ali, disse ele consigo. Uma gradaria de ferro, delicadamente +trabalhado e com portão ao centro, separava da estrada pública os jardins do +castelo, permitindo aos transeuntes admirar a alameda, tapetada de verde +relva,<span class="pn">{146}</span> que se estendia em suave declive até à +entrada do edifício, o qual primava pela sua elegante simplicidade. Dois +pavilhões simetricamente dispostos de cada lado da grade, pareciam destinados, +um para cavalariça, e o outro para habitação do porteiro. Este individuo +destacava, no limiar do portão, tomando o fresco e olhando para as moscas.</p> + +<p>Era um homem gordo, de rosto jovial e rubicundo, com o pescoço descoberto, +ermo de pelos e enrugado como o de uma perua. Usava enormes brincos nas +orelhas, e notava-se-lhe numa das faces prodigiosa inchação.</p> + +<p>—Mora aqui o senhor Nuavias? perguntou André.</p> + +<p>A esta interpelação, o porteiro nada respondeu. Lançou um jacto de saliva +negra, fitando André, a quem mediu de alto a baixo. O volume da face direita +passou para a esquerda: o inchaço era de tabaco.</p> + +<p>—Ao que parece, disse ele, o senhor é o tal pintor?</p> + +<p>—Ah! exclamou Sauvain admirado, já estão prevenidos da minha chegada?</p> + +<p>O homem obeso assumiu ar malicioso, piscou os olhos, deitou a língua de +fora, e entrou num acesso de muda hilaridade, que lhe fazia oscilar o abdómen e +retinir os brincos.</p> + +<p>—Os artistas são alegres... murmurou ele. Temos muito que rir, se o senhor +também entra...<span class="pn">{147}</span></p> + +<p>—Se entro!... em quê?</p> + +<p>—Na farsa.</p> + +<p>—Qual farsa?</p> + +<p>—A que vai representar-se.</p> + +<p>—A quem?</p> + +<p>—Ao senhor Nuavias, já se vê!</p> + +<p>—Não entendo.</p> + +<p>—Ah; bom! faz-se de novas... Basta!... Bico calado! Faça conta de que eu +nada disse... Suponha que me não participaram coisa alguma... que ignoro +tudo...</p> + +<p>E os brincos a tinirem, e o abdómen a dançar, e o rosto passando de +vermelhusco a purpúreo, e de purpúreo a roxo.</p> + +<p>—Seu amo está cá? lhe tornou Sauvain com impaciência.</p> + +<p>—Não, senhor, respondeu o faceto porteiro quase sem fôlego; ainda não veio. +Ora!... o senhor bem o sabe, visto que entra na conspiração.</p> + +<p>—Eu!... Está enganado.</p> + +<p>—Ele não deve tardar. Vamos divertir-nos muito, esta tarde... Regozijo-me +de antemão, palavra de Jacinto!</p> + +<p>—Esses negócios não são da minha conta, disse André. Na ausência do senhor +Nuavias posso ver a casa?</p> + +<p>—Certamente! Tenha a bondade de passear um momento no jardim, enquanto eu +enfio um casaco e<span class="pn">{148}</span> vou buscar as chaves. Não me +demoro cinco minutos.</p> + +<p>André fez um sinal de anuência, e dirigiu-se pensativo para uma rua +arborizada. Primeiramente, o ar livre pesou-lhe um pouco no cérebro fatigado, +mas bem depressa o gracioso aspecto do jardim lhe acalmou o espírito.</p> + +<p>Flores em profusão, cascatas e fontes, um pequeno bosque, frondosas árvores, +povoadas de chilreantes passarinhos, rodeavam o castelo num círculo encantado. +O sol do outono, já declinando para o horizonte, derramava sobre tudo aquilo +ondas de luz e matizava-o de vivas cores; o dia extinguia-se lentamente; nuvens +de opala flutuavam na atmosfera, orlando o céu azul.</p> + +<p>Como podia o pintor alimentar ideias de morte em face daquele panorama tão +tranquilo, e ao mesmo tempo tão cheio de vida?... Nenhum rumor se ouvia; nem um +som, além dos agudos assobios dos melros, e dos seus próprios passos sobre a +areia. André sentiu percorrer-lhe as veias delicioso frescor; a brisa da tarde, +morna, pura, embalsamada de mil perfumes, transformou a sua agitação nervosa +numa languidez fantasiadora. E, enquanto o sol, próximo do seu ocaso, lhe +estendia aos pés as trémulas sombras da folhagem, chegou a invejar a posse +daquele sossegado Éden.</p> + +<p>Como seria feliz com Rosa num semelhante retiro!<span +class="pn">{149}</span> Que delicia lhes seria vaguearem a sós, silenciosos, +com os braços enlaçados, por aquelas alamedas misteriosas! ele... a rever-se em +dois olhos pretos radiantes... e a beijar uns louros cabelos, que a brisa +complacente traria para junto de seus lábios! E mais tarde... que delicia, +ainda, contemplarem ambos uma linda criança, brincando alegre na relva do +parque!...</p> + +<p>A voz do porteiro arrancou bruscamente André àquelas perigosas alucinações. +</p> + +<p>O honrado Jacinto vinha risonho, gracejador, trajando soberba libré, e +munido de nova dose de tabaco.</p> + +<p>—Se o senhor quer ver as salas, estou pronto para lhas mostrar.</p> + +<p>André seguiu-o distraidamente. O interior da casa correspondia ao exterior. +Tudo era rico e de bom gosto; somente, na sua disposição, faltava talvez um +certo cunho de elegância íntima, que revela sempre a presença de uma mulher. +</p> + +<p>—O sr. Nuavias é casado? perguntou Sauvain.</p> + +<p>—Ainda não, mas não tardará, disse Jacinto, soprando como um cachalote. +Deveras... o senhor não está na confidencia?</p> + +<p>—Nem pouco, nem muito!</p> + +<p>—Pois bem! é precisamente a respeito do seu próximo casamento, que se +prepara uma surpresa ao senhor Nuavias.<span class="pn">{150}</span></p> + +<p>—E essa surpresa em que consiste?</p> + +<p>—Isso é querer saber muito! Parece-me que vai haver grande risota, e eu já +começo a rir, só com essa ideia!... Demais, a futura será igualmente +mistificada.</p> + +<p>—Ela é bonita?</p> + +<p>—Encantadora, segundo dizem.</p> + +<p>—Nova?</p> + +<p>—Muito nova.</p> + +<p>—E ele?</p> + +<p>—Também é moço.</p> + +<p>—Amam-se?</p> + +<p>—Apaixonadamente!</p> + +<p>André suspirou.</p> + +<p>Nesse momento ouviu-se o rápido rodar de uma carruagem.</p> + +<p>—É o patrão! exclamou Jacinto. Bravo! a coisa vai principiar. E um rir, +silencioso e desordenado, agitou-o desde o topo até à base, pondo em movimento +as suas bochechas escarlates, que se tornaram roxas.</p> + +<p>—Ufa! arrebento de riso, com certeza! balbuciou ele, meio-sufocado. Mas não +se impaciente, que já vou dizer a meu amo que o senhor o procura.</p> + +<p>E saiu, apertando as ilhargas.</p> + +<p>André encostou a fronte ao caixilho de uma janela. O dia declinava; +espalhava-se pelas avenidas um vapor azulado, e, impelidas pela aragem, as<span +class="pn">{151}</span> flores dos canteiros balouçavam-se como turíbulos.</p> + +<p>André padecia. Aquele recôndito lugar, aquela pacífica habitação, aqueles +jovens para ele desconhecidos, que a felicidade ia para sempre reunir, tudo +enfim... até a alegria daquele criado burlesco, lhe pesava no coração, +reabrindo-lhe as feridas que vinha ali buscar... ele, o inconsolável!... àquele +retiro festivo? Que figura faria, se o envolvessem na turba indiferente dos +convivas descuidosos?</p> + +<p>Ao pensar nisto, assaltaram-no os receios, mas... era demasiado tarde. +Jacinto surgiu, perfilou-se defronte dele, piscou os olhos, abanou a cabeça, +mordeu o lenço para não estoirar de riso, depois conduziu o pintor através de +uma enfiada de quartos, empurrou-o para o meio de uma vasta sala, já invadida +pelas sombras do crepúsculo, e fugiu.</p> + +<p>Ao principio, Sauvain julgou-se só.</p> + +<p>Por uma grande porta envidraçada, que abria para o jardim, penetravam +livremente os aromas da tarde. Nada se movia; porém André distinguiu, dentro em +pouco, a um canto do fogão, que acabava de apagar-se, os contornos indecisos de +uma mulher sentada.</p> + +<p>—Minha senhora... balbuciou ele, inclinando-se.</p> + +<p>Um grito vibrou, como uma nota de cristal.</p> + +<p>—André... É André!...</p> + +<p>E a forma vaga ergueu-se de súbito. Um último<span class="pn">{152}</span> +raio de sol, que borboleteava nas vidraças, iluminou um perfil de anjo.</p> + +<p>Esse grito, essa voz, essa visão, penetraram no peito de Sauvain, como uma +lâmina de oiro. Oscilou e caiu de joelhos.</p> + +<p>—Rosa!... murmurou ele, és tu?... ou é o teu fantasma?...</p> + +<p>Um fantasma! Não: foi bem realmente um corpo de donzela, um corpo flexível e +palpitante, que se lhe lançou nos braços! Foram duas mãos pequeninas, mas bem +vivas, que lhe enlaçaram o pescoço! Foi o puro hálito de Rosa, que lhe deslizou +nos lábios!</p> + +<p>E André, deslumbrado, louco, fora de si, ébrio de felicidade, embebia-se na +contemplação de um rosto bem real, de um rosto adorado, de um rosto comovido, +radiante de júbilo, envolto numa auréola de cabelos louros...</p> + +<p>Entretanto, mais outra forma vaga subia nesse momento as escadas do terraço. +Parou estupefacto. Desta vez, era uma sombra masculina, uma sombra estreita e +alongada, trajando fantásticas vestes, que ondeavam em volta dela, como um +lençol cor de ferrugem dependurado num pau.</p> + +<p>A sombra não soltou uma palavra, como convém a uma sombra que se respeita; +porém, um som singular atravessou o espaço; jurar-se-ia que a sombra estava +raspando uma noz moscada. A este ruído prolongado, os dois jovens despertaram +do seu êxtase,<span class="pn">{153}</span> e André, chorando e rindo ao mesmo +tempo, André mais ébrio do que se tivesse esvaziado seis garrafas de Champanhe, +atirou-se ao pescoço da sombra, exclamando:</p> + +<p>—Adivinho tudo!... adivinho tudo!... Obrigado... obrigado, meu querido +sogro!</p> + +<p>A sombra debateu-se violentamente.</p> + +<p>—O senhor!... Com a fortuna! Que faz aqui?</p> + +<p>—Ora essa!... Abraço-o.</p> + +<p>—Quer dizer... que abraçava minha filha?</p> + +<p>—Não o nego, meu sogro.</p> + +<p>—E eu nego-lhe o direito de chamar-me assim... Proíbo-o!...</p> + +<p>—Ora!...</p> + +<p>—Não há <em>ora</em>, nem <em>meia ora</em>... Vamos! largue-me!...</p> + +<p>—Meu velho amigo!... meu excelente vizinho!...</p> + +<p>—Largue-me, com trezentos demónios!...</p> + +<p>—Pois sim, meu caro sogro: o gracejo foi delicioso... mas, de que serve +prolongá-lo? Sejamos felizes... que não é sem tempo!</p> + +<p>—O senhor zomba de mim?</p> + +<p>—Eu!... zombar! Ah? antes beijaria o rasto dos seus passos! Zombar, quando +a sua presença e a de Rosa, aqui, em casa estranha, sobre este terreno neutro, +onde de certo esperava encontrar-me, me provam que...<span +class="pn">{154}</span></p> + +<p>—Com a breca! interrompeu o senhor Germinal; é de uma rara impudência!... +Pretende acaso dizer...</p> + +<p>—Que o enterneceram a minha dor e as lágrimas de Rosa... enfim, que é o +melhor dos homens? Sim? meu sogro! é o que eu quis dizer: abracemo-nos!...</p> + +<p>—Para trás, senhor! bradou o velho exasperado, não junte o escárnio à sua +indigna acção!</p> + +<p>—Como!... disse o pintor estupefacto; de que escárnio... de que acção +indigna fala?</p> + +<p>—Sim... finja-se surpreendido! se lhe parece, negue que me atraiu aqui +enganado! negue as suas tenebrosas maquinações! Ah!... julgou que triunfaria +por uma cilada?</p> + +<p>—Eu!...</p> + +<p>—Pois bem!... desengane-se! A minha decisão é irrevogável! Não possuirá +minha filha!</p> + +<p>—Uma cilada!... eu, que o supunha longe de França! eu, que teria dado vinte +anos da minha vida para descobrir...</p> + +<p>—Jesus! que mentiroso!... exclamou Rosa, sorrindo-se. E as minhas +cartas?... acrescentou ela em voz baixa.</p> + +<p>—As suas cartas! Meu Deus!... Rosa, de que cartas fala?</p> + +<p>—De muitas, que lhe enviei às escondidas?</p> + +<p>—Pois escreveu-me?... a mim...<span class="pn">{155}</span></p> + +<p>—Sim, senhor, oito ou dez cartas que todas ficaram sem resposta!</p> + +<p>—Foram doze, minha filha, disse gravemente o senhor Germinal; tenho-as aqui +no bolso.</p> + +<p>—Tem-nas?... Oh, meu pai!... É bem mal feito!...</p> + +<p>—Horrível, minha filha!... Teria sido mais moral não interceptar a +correspondência amorosa, não te parece?</p> + +<p>—Confesse ao menos, senhor, disse Sauvain, que uma cilada da minha parte +era impossível!...</p> + +<p>—Mas... que outra intenção podia trazê-lo aqui? Faz favor de dizer-me?</p> + +<p>—Simplesmente a de pintar tectos e bandeiras de portas!</p> + +<p>—E a nós, disse Rosa, a esperança de uma encomenda importante; pois eu +continuo a fazer flores, e o dono desta casa deseja uma porção delas +considerável.</p> + +<p>—O senhor Nuavias?</p> + +<p>—Sim.</p> + +<p>—Quem lho inculcou?</p> + +<p>—A modista, para quem trabalho. E André?</p> + +<p>—O meu comprador de quadros.</p> + +<p>—Os diabos levem o acaso! rosnou o senhor Germinal.</p> + +<p>—O acaso!... suspirou André; divino acaso, ou<span class="pn">{156}</span> +antes Providência, que me restituis a minha Rosa e o meu velho amigo, sê mil +vezes bendita!...</p> + +<p>—Senhor, disse Germinal, delira certamente!...</p> + +<p>—Creio que sim, meu sogro... e muito!</p> + +<p>—Já fez fortuna?</p> + +<p>—Oh, muito pouca!</p> + +<p>—E ainda ama minha filha?</p> + +<p>—Apaixonadamente!</p> + +<p>—Contudo renuncia à sua mão?</p> + +<p>—Isso de modo nenhum!...</p> + +<p>—Então, nada de amizade, nem de relações entre nós!... Vá para o diabo!</p> + +<p>—Porém...</p> + +<p>—Não lhe dou minha filha!</p> + +<p>—Entretanto...</p> + +<p>—Não casa com minha filha!... Não casa com minha filha!... Não casa com +minha filha! Já disse.</p> + +<p>O senhor Germinal esganiçava-se debalde; André tinha mais sólidos pulmões, e +por isso facilmente cobriu o timbre de cana rachada do seu adversário, +bramindo:</p> + +<p>—Casarei, com ela, ou deixarei de ser quem sou!</p> + +<p>Enfim, a sua cólera fazia explosão. André estava farto de sofrer; e, +sorrindo em ar de desafio, valeu-se da escuridão da sala para beijar Rosa, +unindo-a docemente ao coração.</p> + +<p>Mas, se a voz do senhor Germinal era fraca, em compensação tinha olhos de +lince.<span class="pn">{157}</span></p> + +<p>—Ah! Vocês querem brincar comigo?... Rosa! o teu xaile... o teu chapéu... +Partamos imediatamente!</p> + +<p>—Ainda não! exclamou, da porta, uma voz de baixo-profundo.</p> + +<p>E logo a sala se iluminou de súbita e viva claridade.</p> + +<p>No limiar, entre dois lacaios agaloados, empunhando cada um deles uma +serpentina, carregada de velas cor de rosa, apareceu um personagem baixo, de +espessa e forte construção, enluvado de fresco, engravatado de branco, vestido +de preto, e rescendendo a aromas, que perfumavam o recinto a dez passos de +distância. Avançou majestosamente, com os polegares suspensos nas algibeiras do +seu faustoso colete, e fazendo ouvir no sobrado o ranger de umas botas novas. +</p> + +<p>O senhor Germinal e André suspenderam os seus clamores, e inclinaram-se +confusos.</p> + +<p>—Então!... exclamou o magnífico intruso; há bulhas aqui? Com mil +amarras!...</p> + +<p>—Pedro Toucard!... exclamaram os assistentes. Era Pedro, sem dúvida... +Pedro, o aventureiro! Mas, que transformação!...</p> + +<p>Abolida a barba de duas pontas; conservava apenas uma estreita suíça, curta, +bem talhada, macia e frisada. O seu crânio resplandecia, como um espelho: +ter-se-iam mirado nele as andorinhas em<span class="pn">{158}</span> pleno dia. +Uma cadeia de oiro, da grossura de um dedo, pendia sobre o seu orgulhoso +abdómen as cabeludas falanges estavam meio-estranguladas por enormes anéis; as +algibeiras, prodigiosamente entumecidas, transbordavam de napoleões.</p> + +<p>Fez um sinal, e os criados pousaram os candelabros; a outro sinal, +desapareceram todos eles, mais as suas cabeleiras empoadas e os seus calções +curtos, que punham em relevo postiças barrigas de pernas, de dimensões enormes. +Pedro sentou-se ao pé do fogão, apoderou-se das tenazes e atiçou o lume.</p> + +<p>Uma chama cintilante crepitou no fundo da fornalha; os seus reflexos +dançaram alegremente sobre os móveis esculpidos, sobre o luzidio sobrado, e +sobre as guarnições de seda azul com franjas de prata.</p> + +<p>—Chegue-se para o lume, compadre! as noites estão frias. Aproxime-se do +fogão, minha linda menina!... e também o senhor, amigo Sauvain!...</p> + +<p>Disse. E era espectáculo digno de admirar-se o sorriso diabólico de Pedro, o +perfil espantado do pintor, os olhos maravilhados de Rosa, e a boca aberta do +senhor Germinal.</p> + +<p>Toucard cruzou a perna direita sobre a esquerda, e afagando o queixo +escanhoado, continuou:</p> + +<p>—Olá, meus meninos! parece-me que se mostram demasiado frios para com um +homem, que os reuniu... contra vento e maré!<span class="pn">{159}</span></p> + +<p>—Pois foi o senhor!... exclamou André. E os dois amantes estreitaram as, +mãos do aventureiro.</p> + +<p>—Sim, meu rapaz, fui eu que descobri o ninho desta linda ave do paraíso. +</p> + +<p>—Senhor, disse Sauvain, o que acaba de praticar absolve-o de todas as suas +culpas!</p> + +<p>—Apre!... então passa-me quitação das noventa e duas mil libras?</p> + +<p>—De todo o coração! suspirou o pintor; ainda que...</p> + +<p>—Ainda que lhe fariam óptimo arranjo, na presente conjuntura; não é assim? +E a menina Rosa não me recompensará também?</p> + +<p>—Bem o desejara, disse ela, apresentando a cândida fronte aos lábios +encortiçados do velho; mas, por muito reconhecida que lhe seja, não posso... +</p> + +<p>—Não pode oferecer senão o que tem, e eu contento-me!... disse Pedro, entre +dois estrondosos beijos. Obrigado, minha linda fada; heis-me rejuvenescido!</p> + +<p>—Que significa isto? bradou o senhor Germinal. Caçoam comigo!.... Não sou +aqui ninguém?... Com a breca!...</p> + +<p>—O compadre, disse Toucard com ironia, é, como nós, hospede do senhor +Nuavias; e, nessa qualidade, seria de mau gosto fazer bulha em sua casa. Mas... +acrescentou, interrompendo-se de súbito, que é aquilo?... que vejo eu ali?<span +class="pn">{160}</span></p> + +<p>—Onde?</p> + +<p>—Acolá... nas cinzas... Rosa inclinou-se para o fogão.</p> + +<p>—É uma chave! exclamou ela.</p> + +<p>—Com efeito, disse André apanhando-a, é uma pequena chave, que me faz +recordar...</p> + +<p>—Oh!... A que demónio de fechadura pertencerá ela? regougou Pedro.</p> + +<p>E inequívoca expressão de benévola malícia transparecia no seu enrugado +rosto.</p> + +<p>—Ah! agora penso eu... Não servirá por acaso essa chavinha naquele cofre, +que ali está?... atrás de si... sobre a jardineira...</p> + +<p>André voltou-se e viu uma caixa de conchinhas, muito semelhante à que +deixara em Granville, na sua arca de nogueira.</p> + +<p>—Recorda-se?... perguntou Pedro, apoiando-se-lhe no ombro. Foi dum +cofrezinho igual que o senhor desenterrou a única acção louvável da minha vida: +estas caixas são de bom agouro!</p> + +<p>E dirigindo-se a Rosa:</p> + +<p>—Veja o que essa contém, minha linda; uma chave, que desce pelo tubo da +chaminé, merece atenção!... Seria algum génio benfazejo, que a deixou cair? +Reviste sempre, Rosinha!...</p> + +<p>—Infeliz! bradou o senhor Germinal; vai cometer um abuso de confiança!... +Que dirá o senhor Nuavias?<span class="pn">{161}</span></p> + +<p>—Aprovará, compadre: fico por isso. Procure, minha linda Rosa, procure... +</p> + +<p>A jovem não se fez rogar; o seu instinto de mulher segredava-lhe que o génio +benfazejo era Pedro, e que ele conduzia rapidamente as coisas para um desenredo +agradável.</p> + +<p>Abriu a caixa, e tirou de dentro um maço de papeis cetinosos.</p> + +<p>—Notas do banco!... exclamou ela.</p> + +<p>—Devem ser noventa e duas, disse o aventureiro, as mesmas que o senhor +Germinal destinava para o dote de Rosa; ora, como não é possível dar-lhes +melhor aplicação, o senhor Nuavias resolveu restituir-lhas. Tome-as lá, +compadre...</p> + +<p>—A mim!... Eu!... balbuciou o senhor Germinal. Mas como?... porquê?... com +que direito?... o que significa?...</p> + +<p>—Tanta pergunta ao mesmo tempo! Vá sempre guardando... Continue a buscar, +minha filha...</p> + +<p>Um adereço de diamantes!... e um colar de pérolas!... murmurou Rosa, +deslumbrada.</p> + +<p>—Isso é consigo, minha menina. É o presente de noivado do senhor Nuavias... +Procure mais...</p> + +<p>—Mas enfim, disse o senhor Germinal, suando em bagas, esse Nuavias é o +senhor, ou é o diabo?...</p> + +<p>—Nem um, nem outro... Querem conhecê-lo?<span class="pn">{162}</span></p> + +<p>—Quero... quero... quero... gritaram três vozes ansiosas.</p> + +<p>—Pois bem! Esse jovem e belo senhor Nuavias, esse feliz senhor Nuavias, que +dentro em quinze dias vai desposar uma encantadora menina; esse afortunado +senhor Nuavias, de quem somos hospedes, é...</p> + +<p>—É... quem?</p> + +<p>—André.</p> + +<p>—Eu!...</p> + +<p>—Sim? sem a menor dúvida! Nuavias é apenas o anagrama de Sauvain.</p> + +<p>—Porém, esta casa...</p> + +<p>—Ah! tem razão... Esta casa... Ora queira procurar novamente na caixa, +senhora noiva...</p> + +<p>Na caixa havia ainda outros papeis; mas esses eram espessos, pesados, com +selo, cobertos de maçuda escrita, e rubricados por dois tabeliães. Continham um +acto legal e autêntico, assegurando a André Sauvain a propriedade de uma casa, +situada em Audily (Seine-et-Oise).</p> + +<p>—Senhor!... exclamou o pintor fora de si, é demais!... É demais!... Não +posso aceitar...</p> + +<p>Pedro interrompeu-o com gesto suplicante; a sua fisionomia tornara-se grave +e sisuda.</p> + +<p>—Meu querido amigo, disse ele com voz comovida, permita-me que resgate, a +meu modo os erros passados... Talvez devesse te-lo feito mais cedo...<span +class="pn">{163}</span> Mas, se prolonguei por alguns dias as suas mágoas, se +me apresentei em sua casa sob farrapos mentirosos, foi porque ainda não tinha +encontrado Rosa, e queria entregar-lha juntamente com o seu património. Dessa +experiência, saiu o senhor vitorioso; outro qualquer ter-me-ia morto, porém o +senhor... coração nobilíssimo!... para o homem, que lhe despedaçara a vida, +teve ainda uma última e sublime esmola!... Pois bem! seja generoso até ao +fim... não recuse os meus dons... não me deixe remorsos...</p> + +<p>—Cumpra-se o seu desejo, respondeu Sauvain. Aceito este oásis encantador... +com a condição, porém, de restituir-lho quando a fortuna o houver atraiçoado. +</p> + +<p>—Com mil amarras!... Espere por isso! Graças a Deus, estou curado da febre +de traficar; viverei como um bom burguês; o meu amigo Germinal ensinar-me-á o +gamão; e nunca mais especularei, senão em sonhos.</p> + +<p>—Pelo amor de Deus, murmurou o pai de Rosa, expliquem-me de que se +trata!... Que diabo está o senhor para aí a falar em erros, remorsos, e +património?... Que significa todo esse aranzel?...</p> + +<p>—Significa, respondeu o aventureiro, que encontrei no meu caminho duas +virtudes raras, e tão raras que me converteram...</p> + +<p>—E quais são essas virtudes?...<span class="pn">{164}</span></p> + +<p>—O perdão das injúrias, disse Pedro, apertando a mão a André... e a inteira +probidade, acrescentou, estendendo a outra ao senhor Germinal.</p> + +<p>Este esfregou desesperadamente o seu ferruginoso crânio.</p> + +<p>—Tudo isso para mim é hebraico, replicou o pai de Rosa. A única coisa, que +pude coligir, foi que o senhor está milionário!...</p> + +<p>—É verdade, meu bom amigo. A sorte favorece os doidos. Esse depósito +sagrado, pelo qual velou durante doze anos, como homem probo, que é, +arrisquei-o eu, sem reflectir, num lance de dados... Ganhei... Sou portanto um +grande especulador. Mas... se tivesse perdido?... Quando penso nisso, sobe-me o +coração à garganta, e sinto-me tremer como... como o seu <em>Faust au +sabbat</em>, André!... um quadro admirável! que, entre parêntesis, possuo em +Paris no meu palacete, e pelo qual me ofereceram já o seu peso em oiro?</p> + +<p>—De modo que, disse o pintor, o meu mercador de quadros entrava na +conspiração?... Traidor!...</p> + +<p>—Ora!... e também a modista, para quem fazia flores a menina Rosa, os +criados desta casa, e até o pateta do Jacinto, antigo marinheiro, que eu elevei +à categoria de guarda-portão, e que hoje tomo a liberdade de recomendar à sua +benevolência.</p> + +<p>—Oh! quanto a esse, disse Sauvain rindo, é possível<span +class="pn">{165}</span> que tentassem inicia-lo no segredo, mas assevero-lhe +que nada percebeu!</p> + +<p>—Nem eu tão pouco, palavra de honra! replicou sinceramente o senhor +Germinal, e por isso... meto a viola no saco. Toque nestes ossos, meu genro! +</p> + +<p>—Com mil vontades! exclamou alegremente o pintor, apertando nas mãos a +garra descarnada do pai da sua noiva. Estava escrito que, riqueza, gloria e +felicidade, tudo encontraria...</p> + +<p>—N<small>AS CINZAS</small>, concluiu Pedro Toucard.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot65" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Reunião de três +números, cuja extracção simultânea era uma sorte feliz.</p> + +<p><a name="foot119" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Hospital de +alienados.</p> +</div> + +<p> </p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="border: dotted 2px red; padding: 2px;"> +<div style="border: double 4px green;padding: 2px;"> +<div style="text-align:justify; border: dotted 2px red; padding: 1em;" class="verde"> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;">OBRAS PUBLICADAS</p> + +<p style="text-align:center; font-size: 0.8em;" class="vermelho">PELA</p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;">EMPRESA EDITORA CARVALHO & C.ª</p> + + +<p style="text-align:center;" class="vermelho">TEATRO</p> + +<p class="indlist">Os sabichões<span class="vermelho">—Comédia original em 4 actos, por E. +Biester,</span> 250</p> + +<p class="indlist">Ao calçar das luvas<span class="vermelho">—Comédia original em 1 acto, por +Rangel de Lima,</span> 100</p> + +<p class="indlist">O afilhado de Pompignac<span class="vermelho">—Comédia (tradução) em 4 +actos, por L. C. M.,</span> 200 </p> + +<p class="indlist">Um homem político<span class="vermelho">—Comédia (imitação) em 3 actos por +Aristides Abranches,</span> 200</p> + +<p class="indlist">O fidalguinho<span class="vermelho">—Comédia original em 3 actos, por +Ferreira de Mesquita,</span> 200 </p> + +<p class="indlist">Abençoado progresso<span class="vermelho">—Comédia original em 1 acto, por +Rangel de Lima,</span> 100</p> + +<p class="indlist">As campainhas<span class="vermelho">—Comédia (tradução) em 1 acto, por +Pinheiro Chagas,</span> 100</p> + +<p class="indlist">João o britador<span class="vermelho">—Drama (tradução) em 5 actos, por L. +C. M.,</span> 250</p> + +<p class="indlist">As três rocas de cristal<span class="vermelho">—Mágica em 3 actos e 17 +quadros, por Aristides Abranches,</span> 300</p> + +<p class="indlist">A família<span class="vermelho">—Drama original em 5 actos, por J. R. +Cordeiro,</span> 300</p> + +<p class="indlist">Quem desdenha<span class="vermelho">—Comédia original em 1 acto, por +Pinheiro Chagas,</span> 100</p> + +<p class="indlist">Caso de consciência<span class="vermelho">—Comédia (tradução) em 1 acto, +por Pinheiro Chagas,</span> 100 </p> + +<p class="indlist">Luís XI e o poeta<span class="vermelho">—Comédia (tradução) em 1 acto +Ferreira de Mesquita,</span> 160 </p> + +<p class="indlist">A mosca branca<span class="vermelho">—Comédia (imitação) em 3 actos, por +Duarte Santos,</span> 200</p> + +<p class="indlist">A cruz de prata<span class="vermelho">—Drama (tradução) em 5 actos, por L. +C. M.,</span> 300</p> + +<p style="text-indent: 1em;">N. B. A quem comprar a colecção completa (15 peças) 40 por cento de +abatimento.</p> + +<p style="text-align:center;" class="vermelho">ROMANCES</p> + +<p class="indlist">As duas flores de sangue<span class="vermelho">—Original, por Pinheiro +Chagas (1 volume),</span> 500</p> + +<p class="indlist">As doze espadas do diabo<span class="vermelho">—Tradução de Guilherme +Celestino (2 volumes),</span> 800 </p> + +<p class="indlist">Cláudio<span class="vermelho">—Original, por Júlio César Machado (1 +volume),</span> 500</p> + +<p class="indlist">Nas cinzas<span class="vermelho">—Tradução por L. C. M. (1 volume),</span> +300</p> + +<p style="text-align:center;" class="vermelho">NO PRELO</p> + +<p class="indlist">Uma noite em Florença<span class="vermelho">—Tradução de Guilherme +Celestino (1 volume),</span> 400</p> + +<p style="text-indent: 1em;">Remetem-se, francos de porte, a quem enviar a sua importância em estampilhas +ao escritório da empresa, rua larga de S. Roque, n.º 100, 1.º andar.</p> + + +<p style="text-align:center;" class="vermelho">Imprensa Nacional—1875<br> +</p> +</div> +</div> +</div> +<p> </p> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Nas Cinzas, by Gontran Borys + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS CINZAS *** + +***** This file should be named 30543-h.htm or 30543-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/0/5/4/30543/ + +Produced by M. Silva + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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