summaryrefslogtreecommitdiff
path: root/30543-h
diff options
context:
space:
mode:
Diffstat (limited to '30543-h')
-rw-r--r--30543-h/30543-h.htm4813
1 files changed, 4813 insertions, 0 deletions
diff --git a/30543-h/30543-h.htm b/30543-h/30543-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..84c91a1
--- /dev/null
+++ b/30543-h/30543-h.htm
@@ -0,0 +1,4813 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Nas Cinzas, por Gontran Borys</title>
+ <meta name="Author" content="Gontran Borys">
+ <meta name="Translator" content="L. Castilho e Melo">
+ <meta name="Publisher" content="Empresa Editora Carvalho e C.ª">
+ <meta name="Date" content="1875">
+ <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15">
+ <style type="text/css">
+ body{margin-left: 10%;
+ margin-right: 10%;
+ }
+ .pn {
+ text-indent: 0em;
+ position: absolute;
+ left: 92%;
+ font-size: smaller;
+ text-align: right;
+ color: silver;
+ }
+ #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;}
+ h1,h2 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;}
+ #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;}
+ hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;}
+ hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;}
+ .rodape {
+ font-size: 0.8em;
+ margin: 2em;
+ }
+ .vermelho {color: red;}
+ .verde {color: green;}
+ .indlist {text-indent: -1em; margin-left: 1em;}
+ .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;}
+
+ </style>
+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Nas Cinzas, by Gontran Borys
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Nas Cinzas
+
+Author: Gontran Borys
+
+Translator: Augusto Ernesto de Castilho e Melo
+
+Release Date: November 25, 2009 [EBook #30543]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS CINZAS ***
+
+
+
+
+Produced by M. Silva
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div class="fbox"> <b>Notas de transcrição:</b>
+Este texto é uma transcrição do original de 1875, tendo-se actualizado a grafia para a variante europeia da língua portuguesa (pré-acordo ortográfico de 1990).<br>
+Foram corrigidos alguns erros tipográficos evidentes.
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div style="border: dotted 2px red; padding: 2px;">
+<div style="border: double 4px green;padding: 2px;">
+<div style="text-align:center; border: dotted 2px red; padding: 1em;" class="verde">
+
+<p style="font-size: 3em;">NAS CINZAS</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;" class="vermelho">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">GONTRAN BORYS</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;" class="vermelho">TRADUÇÃO DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">L. C. M.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">C &amp; C</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="vermelho">LISBOA</p>
+
+<p>EMPRESA EDITORA, CARVALHO &amp; C.ª</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;" class="vermelho">RUA LARGA DE S. ROQUE, 100</p>
+</div>
+</div>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 2em;">NAS CINZAS</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">GONTRAN BORYS</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Imprensa nacional&mdash;1875</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 3em;">NAS CINZAS</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">GONTRAN BORYS</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">TRADUÇÃO DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">L. C. M.</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 30%">
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LISBOA</p>
+
+<p>EMPRESA EDITORA, CARVALHO &amp; C.ª</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">RUA LARGA DE S. ROQUE, 100</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p><span class="pn">{5}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00100000000000000000">I</a></h1>
+
+<p>Se perguntásseis hoje diante de dez pessoas quem é André Sauvain, nove delas
+achariam ridícula a vossa ignorância, e a décima não hesitaria em soltar uma
+gargalhada. A ninguém é permitido desconhecer uma gloria nacional: entretanto
+ninguém conhecia há sete anos aquele nome, tão celebre agora.</p>
+
+<p>Nessa época, ainda André Sauvain não era um pintor ilustre. Ocupava, ao cimo
+da rua dos Mártires, um <em>rez-de-chaussée</em>, tão próprio pela humidade a
+criar cogumelos, como pela escuridão a inspirar tragédias. A habitação do jovem
+pintor limitava-se a uma só casa, que acumulava as funções de sala, quarto de
+cama, <em>atelier</em> e refeitório. E nem por isso ele passava pior do que se
+residisse em sumptuoso palácio.</p>
+
+<p>André era um rapaz vigoroso, com músculos de<span class="pn">{6}</span> aço,
+esbelto como um vime e magro como um gato em Abril. O seu porte altivo, bigode
+castanho e retorcido, pêra aguçada, cabelo alourado e abundantíssimo,
+assemelhavam-no a alguns retratos de Van-Dyck por forma, que não causaria
+estranheza ver pender-lhe ao lado uma espada. E com efeito a blusa rafada, que
+trajava, ia tão bem à sua figura nobre e elegante, como um gibão do melhor
+veludo.</p>
+
+<p>Numa bela e clara manhã de Dezembro André Sauvain acabava de retocar um
+<em>Faust au sabbat</em>: recuando um pouco para melhor avaliar o efeito do seu
+quadro, e erguendo por acaso os olhos, foi testemunha de um prodígio. Através
+das vidraças do seu quarto descobria-se parte de uma casa esplendidamente
+iluminada pelos raios do sol. Aquele prédio era o constante pesadelo do pintor.
+Segundo os caprichos da atmosfera, ora reflectia execrável claridade no
+<em>atelier</em>, ora lhe interceptava completamente a luz. André lançava-lhe
+pela milésima vez a sua maldição, quando de repente viu abrir-se uma janela, e
+aos ouvidos do mancebo chegaram as últimas notas de uma cançoneta entoada por
+voz fresca e harmoniosa: não tardou que a essa janela se mostrasse uma cabeça
+de mulher, inclinando-se para fora. Aquela cabeça arrancou ao pintor um grito
+de admiração e, bem que nunca a tivesse visto, reconheceu-a imediatamente.<span
+class="pn">{7}</span></p>
+
+<p>Há no Louvre uma miniatura de Fragonard, do tamanho de uma peça de 40
+francos, que é a imagem de uma menina de quinze anos, rosada, loura, com a
+risonha expansão da inocência a iluminar-lhe o rosto. A boca é uma cereja:
+deseja-se colhe-la com os lábios. A brisa de maio brinca travessa com os bastos
+anéis dos seus cabelos doirados. Nos seus olhos negros, de extraordinária
+viveza, crepita a jovialidade. É a primavera, é a alegria, é a mocidade em
+flor. Pois, embora o não creiam, esse rosto encantador, emoldurado pela janela
+que se abrira fronteira ao <em>atelier</em> de Sauvain, era o original daquela
+miniatura, feita havia mais de cem anos.</p>
+
+<p>A jovem vizinha do pintor tinha na mão um grande ramo de violetas, e
+voltando-se para falar a alguém, sorriu-se. Mas que sorriso! Um minuto antes
+eram bem lúgubres os pensamentos de André Sauvain. Na confusão de monstros, de
+demónios, lobisomens e bruxas, de que povoara o seu quadro, entrevia
+amargamente no espírito o símbolo da sua existência atribulada. Estava triste
+como a morte. Porém a gentil visão dispersara os fantasmas, como um facho
+luminoso dissipa as trevas. André sentiu o coração bater-lhe com força
+desusada. Era de júbilo. Teve uma vertigem e baixou os olhos, enquanto o
+ardente sangue dos seus vinte e cinco anos fazia retumbar-lhe aos ouvidos, em
+grande orquestra, a arrebatadora sinfonia da esperança.<span
+class="pn">{8}</span></p>
+
+<p>Foi apenas um relâmpago. A visão desaparecera; a janela fechou-se. E André,
+querendo continuar o seu trabalho, não pôde, porque lhe tremiam os dedos;
+abandonou a palheta, e foi sentar-se a um dos cantos da casa com os cotovelos
+fincados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. A noite veio surpreende-lo
+assim. Então cada objecto assumiu para ele um aspecto fantástico; parecia-lhe
+que, em volta de si, aromatizava o ar um suave perfume de violetas; aplicou o
+ouvido, e julgou perceber o eco longínquo de uma cançoneta; olhou para o seu
+quadro, e só viu nele um turbilhão de cabeças louras, iluminadas por grandes
+olhos pretos.</p>
+
+<p>E por toda a parte, no centro da casa, por detrás dos modelos de gesso e dos
+cavaletes, nas paredes nuas, entre as vigas do tecto, no meio das telas
+esboçadas, afigurava-se-lhe sempre ver um sorriso de anjo, um ramo de violetas,
+uns olhos negros e uns cabelos louros.</p>
+
+<p>&mdash;Será assim que nasce o amor? perguntou André a si próprio, tomando-se o
+pulso. Depois, levantou-se aterrado:</p>
+
+<p>&mdash;Se amo, estou perdido! exclamou ele. Vamos jantar!<span
+class="pn">{9}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00200000000000000000">II</a></h1>
+
+<p>Nesse tempo (refiro-me ao ano da graça de 1853) André Sauvain, bem que
+fosse proprietário, não jantava todos os dias. Verdade é que a <em>sua
+propriedade</em> não valia sessenta escudos, e não lhe rendia sequer um franco!
+Consistia numa casa velha e pequena, num recanto da Normandia; uma ruína
+musgosa e enegrecida, sempre abalada pelos ventos da costa. Mesmo assim, André
+podia te-la vendido a algum pescador, mas nem a mais horrível miséria o
+determinaria a tal: apegara-se-lhe o coração àquele pardieiro pelas raízes
+profundas, a que chamam recordações; tinha lá nascido e lá morrera sua mãe.</p>
+
+<p>Além da humilde casinha de seus pais, André Sauvain só possuía... a sua
+pessoa: nem um parente, nem uma amante, nem um amigo, nem um cão! Devera ter
+começado por dizer: nem um soldo!<span class="pn">{10}</span> O resto
+depreendia-se por simples ilação. Vivia de esperanças e de privações; frugal
+alimento, que o conservava sadio e alegre. Tanto de verão como de inverno,
+levantava-se com a aurora, pintava até à tardinha, e aproveitava-se da
+escuridão para percorrer Paris em todas as direcções; depois recolhia extenuado
+de fadiga, deitava-se às apalpadelas, para economizar azeite, e dormia a sono
+solto. Estas caminhadas pelas trevas restabeleciam-lhe a circulação do sangue e
+entretinham-lhe a actividade do cérebro. De noite, as ruas inspiram os
+cismadores. Parece que aquelas grandes artérias, onde circulam sem cessar
+correntes humanas, estão saturadas de fluidos intelectuais, e que as ideias se
+exalam do solo em vapores invisíveis...</p>
+
+<p>Aqueles prodigiosos passeios eram as únicas extravagâncias de André.
+Habitava Paris havia doze anos, e nunca quisera saber de outros divertimentos,
+que não fossem os museus e as bibliotecas. Do teatro abstinha-se ele com
+extremo cuidado, reflectindo em que um bilhete de plateia lhe cerceava dois
+dias de subsistência.</p>
+
+<p>Além de que, alimentava na mente uma quimera, como dantes se mantinha um
+<em>terno</em><a name="tex2html1" href="#foot65"><sup>[1]</sup></a> à loteria;
+consistia ela em reunir alguns centos de francos,<span class="pn">{11}</span>
+não só para reparar o famoso pardieiro natal, mas ainda para cobrir com modesta
+lousa a pobre viúva, que repousava a um canto do pequeno cemitério da
+aldeia.</p>
+
+<p>Eis porque, nessa tarde, fugindo do seu <em>atelier</em>, onde perigosas
+imagens lhe perturbavam o espírito, exclamou: «Se amo, estou perdido! O amor e
+o trabalho são dois inimigos mortais. Não amemos!»</p>
+
+<p>Ora, prometer não amar equivale a jurar que não nos cairá uma telha sobre a
+cabeça. André reconheceu-o um pouco tarde: a sua imaginação corria à desfilada,
+e ele já não era senhor de a fazer parar! Jantou em três garfadas e com três
+suspiros, segundo o uso imemorial dos namorados; depois saiu e caminhou ao
+acaso, com o olhar desvairado e o aspecto carrancudo. Mas, por mais que
+fizesse, sentia sempre aquela boca rosada, os olhos negros, os cabelos louros e
+a canção alegre a prenderem-se-lhe ao coração com as suas garras de diamante.
+</p>
+
+<p>Era véspera de Natal. Em toda a linha dos <em>boulevards</em> humildes
+barracas de madeira branca irradiavam o pálido clarão das suas lanternas sobre
+as suas vizinhas fronteiras, magníficas lojas, cintilantes de gás e de
+doirados. Por entre esses dois cordões de luz cruzavam-se torrentes de ociosos
+passeantes. Aquele ruído, aquela claridade, o perpassar da multidão buliçosa e
+festiva, forçaram André Sauvain a baixar à terra. Voltou a si, como um
+dormente<span class="pn">{12}</span> que desperta em sobressalto, e, poucos
+minutos depois de poder reconhecer o lugar em que estava, surpreendia-lhe o
+olhar ainda distraído, e vivamente lhe excitava a atenção, uma fisionomia na
+verdade singular.<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00300000000000000000">III</a></h1>
+
+<p>Defronte da vidraça de uma casa de pasto agrupava-se, como sempre, uma
+multidão curiosa e vítima do suplício de Tântalo.</p>
+
+<p>No centro desse grupo via-se um homem de quase sessenta anos, de baixa
+estatura, mas grosso e exibindo um busto de atleta.</p>
+
+<p>A longa barba, espessa e grisalha, caía-lhe sobre o peito, onde se bifurcava
+em duas pontas; tinha o nariz tuberculoso e avermelhado, ao passo que a pele
+macilenta, tisnada e enrugada das suas faces, estava coberta de manchas
+lívidas. Não obstante o termómetro marcar dez graus abaixo de zero, cobria-lhe
+a cabeça um chapéu pardo, cujas abas moles e cansadas já não tinham cor
+apreciável; uma sobre-casaca no fio, quase erma de botões, mal lhe protegia o
+tronco contra os rigores da temperatura,<span class="pn">{14}</span> e os
+braços mergulhavam até aos cotovelos nas algibeiras de umas velhas calças de
+ganga.</p>
+
+<p>Estava ali; boquiaberto e imóvel. Os seus olhos, brilhando ávidos sob
+grossas pálpebras vermelhas e lacrimosas, pareciam querer saltar das órbitas
+para devorar os tesouros gastronómicos perante eles expostos: perdigotos
+recheados de trufas, terrinas misteriosas, salsichões enormes, lagostas
+escarlates sobre ramos de verde salsa, carpas do Reno, cujos lombos prateados
+vergavam sob pedaços de gelo... tudo o tentava, e as suas ventas dilatadas
+aspiravam com força as emanações culinárias que saíam pelos ventiladores.</p>
+
+<p>De repente André viu-o empalidecer e vacilar; mas não tardou que o
+desconhecido cobrasse animo e mil impressões rápidas transpareceram
+sucessivamente no seu rosto extraordinário. Foram elas: a raiva concentrada, um
+sofrimento agudo, o cinismo descarado, e um embaraço tímido. Passou a mão curta
+e cabeluda sobre os seus olhos, deslumbrados, mais ainda pela atracção dos
+comestíveis do que pelas luzes. Depois estudou, uma a uma, com angustiosa
+atenção as figuras que o rodeavam inclinadas para a vidraça. Por fim
+franziram-se-lhe os lábios num amargo sorriso, e o seu olhar tornou-se
+carregado. Tirou lentamente o chapéu, e soltando um suspiro, enxugou o crânio
+calvo, onde brilhavam grossas bagas de suor. Foi então que descobriu André<span
+class="pn">{15}</span> Sauvain, o qual, parado a pouca distância, o observava
+com crescente interesse. Vendo-se espiado, o velho franziu as negras
+sobrancelhas, e fugitivo rubor lhe coloriu o pergaminho das faces; com um gesto
+indiferente e irónico, tornou a pôr o chapéu no alto da cabeça, e
+balanceando-se à moda dos marinheiros, disse-lhe num tom em que transparecia a
+contrariedade:</p>
+
+<p>&mdash;Então, mancebo, que temos? Serei porventura um fenómeno? Julga-me
+empalhado?</p>
+
+<p>Sauvain estremeceu ao som daquela voz concentrada, metálica, e mais notável
+ainda pela sua acentuação provençal muito pronunciada.</p>
+
+<p>&mdash;Desculpe-me, senhor, balbuciou André um pouco atrapalhado. Não tive
+intenção de o ofender.</p>
+
+<p>&mdash;Com mil bombardas! assim o creio. Então julgou conhecer-me, heim?</p>
+
+<p>&mdash;É a primeira vez que o vejo!</p>
+
+<p>&mdash;Outro tanto não digo eu, murmurou o velho, cujos olhares penetrantes
+examinavam André dos pés à cabeça; parece-me tê-lo encontrado algures... ou ao
+senhor ou a alguém muito parecido consigo!... Em Roterdão, suponho eu... ou em
+Calcutá... talvez na Filadélfia?...</p>
+
+<p>&mdash;Nunca me afastei tanto de Paris, disse André.</p>
+
+<p>&mdash;E eu venho cá pela primeira vez. E portanto evidente que me enganei. Mas
+então que fazia aí, em êxtase diante da minha pessoa?<span
+class="pn">{16}</span></p>
+
+<p>&mdash;Vou confessar-lho francamente, respondeu Sauvain; sou artista, e a sua
+fisionomia interessou-me.</p>
+
+<p>&mdash;Artista! Percebo agora. Na verdade eu devo ter uma cabeça de Sócrates...
+ou de sátiro, disse o desconhecido rindo. Mas o riso extinguiu-se-lhe logo numa
+contracção nervosa; tornou-se mais pálido, e segurou-se, para não cair, ao
+ombro do moço pintor.</p>
+
+<p>&mdash;Mau! continuou ele com voz fraca, as minhas endiabradas pernas querem
+deixar-me... Ajude-me a sentar em qualquer parte... pois sinto que vou para o
+fundo.</p>
+
+<p>André, muito inquieto, amparou-o até ao mais próximo banco e sentou-se ao pé
+dele.</p>
+
+<p>&mdash;Não é nada, disse o velho... uma vertigem... isto vai a passar...</p>
+
+<p>Com efeito, pouco a pouco pareceu recuperar as forças. Depois de alguns
+minutos de silêncio, fincou os cotovelos nos joelhos, tomou em cada mão uma das
+pontas da sua longa barba, e fitando André Sauvain, com o seu olhar manhoso e
+ousado, disse-lhe bruscamente:</p>
+
+<p>&mdash;Não receia comprometer-se, senhor?</p>
+
+<p>&mdash;Como?...</p>
+
+<p>&mdash;Mostrando-se na companhia de um miserável maltrapilho como eu.</p>
+
+<p>André encolheu os ombros.<span class="pn">{17}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não tenho preconceitos, respondeu ele, nem tão pouco amigos, ou mesmo
+conhecidos: os meus meios não me permitem esse luxo. Além disso não estou muito
+mais bem vestido do que o senhor...</p>
+
+<p>&mdash;Belamente! retrucou o velho. Jovem, altivo, pobre e artista... é o que me
+convém!</p>
+
+<p>&mdash;O que lhe convém!... Que quer dizer?</p>
+
+<p>&mdash;Ora imagine, continuou o singular personagem, que, desde o pôr do sol,
+procuro na turba um homem de coração!... Não vi senão homens gordos e
+irrepreensivelmente trajados, raça de que desconfio, e por isso ficaram-me as
+palavras na garganta. O que eu tenho a confessar é... nauseabundo. Nem todos o
+entenderiam.</p>
+
+<p>&mdash;Então o que é? perguntou o pintor. Pode dizer...</p>
+
+<p>&mdash;Duas palavras somente, mas que me afogam! Tenho fome.</p>
+
+<p>André sentiu um calafrio no coração.</p>
+
+<p>&mdash;Ufa! exclamou o desconhecido, até que enfim soltou-se o segredo! Sim,
+mancebo, há três dias que estou em Paris, e há quarenta e oito horas que não
+como! Eis a razão por que me encontrou estupidamente pasmado defronte dessa
+exposição culinária. Com mil bombardas! é cruel mostrar assim aos esfaimados
+tantas coisas que fariam crescer água na boca até a um homem farto!
+Contemplando-as, imaginava-me numa noite de festim, uma noite em que<span
+class="pn">{18}</span> o tinido dos garfos e o <em>glu-glu</em> das garrafas se
+fazia ouvir através das janelas... E as cãibras do meu estômago sugeriram-me o
+pensamento de que, no meio de um milhão de indivíduos que vão sentar-se à mesa;
+seria estúpido deixar-me morrer à fome por não querer dar-me ao incomodo de
+articular duas sílabas. Enfim chegou o senhor... a sua fisionomia inspirou-me
+confiança... parece-se com... com quem diabo se parece das pessoas que tenho
+conhecido?... Não importa, falei... o pior está passado!</p>
+
+<p>André remexia já nas algibeiras.</p>
+
+<p>&mdash;Espere! disse o velho segurando-lhe o braço. Vai oferecer-me dinheiro... e
+partirá com a convicção de que o roubaram. Obrigado. Chamo-me Pedro Toucard; é
+um nome, que não rima com mendigo, nem com tratante. Preste-me um serviço.</p>
+
+<p>&mdash;Qual?</p>
+
+<p>&mdash;Indique-me o meio de ganhar imediatamente alguns soldos. Sou esperto, aqui
+onde me vê; e, se não morrer esta noite, tirar-me-hei de embaraços...</p>
+
+<p>&mdash;Um meio... imediato? disse André. Não conheço nenhum. Mas aqui está a
+minha bolsa, partilhemos.</p>
+
+<p>E tirou de dentro dela duas peças de cinco francos, que era toda a sua
+fortuna.</p>
+
+<p>As pupilas do velho iluminaram-se; contemplou<span class="pn">{19}</span>
+aquele metal, como um amante traído contemplaria ainda a mulher infiel e
+adorada.</p>
+
+<p>&mdash;Dinheiro! murmurou ele. Tinha-me esquecido da cor e do feitio dele!... eu
+que o possuí aos montes!... Como é belo o dinheiro!... Mas... não... não...
+exclamou ele recuando um passo, não recebo esmolas!</p>
+
+<p>&mdash;Não é esmola, é apenas um empréstimo! lhe tornou André.</p>
+
+<p>E, quer ele quisesse quer não, foi metendo uma das peças de cinco francos na
+mão calosa do desconhecido.</p>
+
+<p>Àquele contacto, Pedro Toucard, fez-se rubro; as fontes e a testa
+inundaram-se-lhe de ardentes gotas de suor, vapor condensado da terrível luta
+que nele se travava entre a vergonha e a fome. Os olhos, de um pardo
+esverdeado, tornaram-se-lhe húmidos e brilhantes.</p>
+
+<p>&mdash;É então a pobreza emprestando à miséria? disse ele com voz rouca, retendo
+a mão de André nas suas e apertando-a com energia.</p>
+
+<p>Depois, enxugando as pálpebras com as costas dos seus felpudos dedos,
+exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Ora adeus! sou um espertalhão, e por mais depressa que a fortuna corra,
+apanha-la-hei ainda uma vez. O seu nome e morada, mancebo? André respondeu
+apenas com um grito abafado.</p>
+
+<p>Pálido, com o coração palpitante, seguia com os<span class="pn">{20}</span>
+olhos uma mulher, cujo vestido roçara por ele ao passar.</p>
+
+<p>Aquela mulher, que se afastava, graciosa e ligeira, tinha cabelos louros sob
+um chapéu de veludo preto, e olhos negros sob os cabelos louros.</p>
+
+<p>&mdash;Não ouve? repetiu Pedro Toucard, desejo saber o seu nome e morada.</p>
+
+<p>Porém o pintor já ia longe; desprendendo a mão das do velho, lançara-se
+desesperadamente atrás da sua visão.</p>
+
+<p>Pedro interpretou mal aquela brusca partida; retorceu por muito tempo a sua
+barba grisalha, e resmoneou com ar pensativo:</p>
+
+<p>&mdash;Uma esmola disfarçada... É pena! Agradava-me este rapaz!... Mas com quem
+diabo se parece ele?...<span class="pn">{21}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00400000000000000000">IV</a></h1>
+
+<p>André Sauvain, empurrando vinte pessoas, alcançou e passou adiante do chapéu
+de veludo preto, voltou-se timidamente, encomendou a sua alma a Deus, e ousou
+enfim encarar... uma decepção!</p>
+
+<p>Não era ela!</p>
+
+<p>&mdash;Venho a dar em doido!... disse consigo ao voltar para casa. Apaixonar-me
+antes de haver cimentado o meu futuro... é o mesmo que fazer círculos na água
+com luíses de oiro. Sou porventura um homem, ou não o sou? Sou. Pois bem!
+esquecerei essa criança loura.</p>
+
+<p>Passou a noite jurando não pensar mais nela, e estorcendo-se sobre as brasas
+da insónia. Eis a razão por que, na manhã seguinte, quando a senhora
+Poussignol, porteira de bigode e com os pés da largura de pratos sopeiros,
+invadiu o <em>atelier</em> no desempenho do seu oficio de servente, achou André
+empoleirado<span class="pn">{22}</span> sobre três cadeiras, espreitando,
+através do seu postigo envidraçado, uma janela fronteira, que tinha ainda as
+portas cerradas.</p>
+
+<p>&mdash;E esta! exclamou ela com voz masculina.</p>
+
+<p>&mdash;Quem mora ali? perguntou o pintor.</p>
+
+<p>A senhora Poussignol arregalou os olhos na direcção que lhe indicava o dedo
+do seu cliente, aspirou uma pitada de rapé, e brandiu a vassoura com gesto
+feroz.</p>
+
+<p>&mdash;Aquilo?... disse ela, não é coisa que preste!</p>
+
+<p>André sentiu-se assomado de violenta indignação.</p>
+
+<p>Conteve-se todavia, e montando a cavalo sobre a sua caranguejola de
+cadeiras, pediu à porteira que continuasse.</p>
+
+<p>&mdash;Dois quartos para a traseira, prosseguiu a senhora Poussignol... uma
+mobília de cinco soldos... e duzentos francos de aluguer, compreendendo a
+luz... Eis-aí está!</p>
+
+<p>&mdash;E ela? interrogou André.</p>
+
+<p>&mdash;Ela!... O locatário chama-se Germinal. É um empregado reformado, um velho
+avarento, um pelintra, um unhas de fome, que se enforcaria por um soldo, e que
+nem é capaz de largar seis liards pelas festas do ano!</p>
+
+<p>&mdash;E ela? repetiu André.</p>
+
+<p>&mdash;Ela... quem? Ah! sim, a rapariguinha que leva a vida à janela...
+Felizmente perde o seu tempo; o senhor André é o rei dos trabalhadores, e<span
+class="pn">{23}</span> não levantaria o nariz de cima das suas telas para ver a
+própria Vénus!</p>
+
+<p>André empalideceu.</p>
+
+<p>&mdash;Como!... pois pensa que é por minha causa? Nunca dei por tal.</p>
+
+<p>&mdash;Pudera!... Todo entregue às suas pinturas, não repara em mais nada. Pois
+há bastantes dias que ela deita o lúzio para cá. Vê-se muito bem lá de cima o
+interior deste quarto, e parece que isso diverte a rapariga!...</p>
+
+<p>&mdash;Mas quem é ela? exclamou André impaciente.</p>
+
+<p>&mdash;Ora! é a menina, Rosa Germinal, filha daquele velho sovina... a figura de
+um lacrau, tal e qual! Não pode deixar de ser algum antigo criminoso, que tenha
+a consciência carregada de assassínios.</p>
+
+<p>&mdash;Que ideia!</p>
+
+<p>&mdash;É o que lhe digo. Em primeiro lugar, há onze anos que não põe os pés na
+rua! não se mexe de casa, mais do que um caracol da concha... Onze anos! Que
+pensa daquilo?</p>
+
+<p>&mdash;Será.</p>
+
+<p>&mdash;Qual historia! Tem tanta saúde, como o senhor ou como eu, mas tem medo de
+ser filado, ora aí está! Só apanha ar num jardim de bonecas, do tamanho do
+<em>Constitucional</em> desdobrado... e isso porque o proprietário lho permite
+de graça... Até causa dó!...</p>
+
+<p>&mdash;E ela? insistiu André.<span class="pn">{24}</span></p>
+
+<p>&mdash;A menina Rosa? essa... vai e vem, corre ao mercado, cuida da panela e
+remenda os trapos do pai, que, salvo seja! nunca mais comprou coisa alguma
+desde o atentado de Ficschi. O vestuário preocupa muito pouco esse velho
+papa-moscas. Quando sente passos no pátio, foge para casa a sete pés; se batem
+à porta, treme como varas verdes, bate o queixo, e só se decide a abrir ao cabo
+de um quarto de hora. Se lhe entregam uma carta, fica verde como um afogado.
+Ora diga-me se é possível que um cristão honrado tenha semelhantes sustos?</p>
+
+<p>&mdash;E ela?</p>
+
+<p>&mdash;Ela?... Deve confessar-se que é uma criatura bem ageitadinha,
+desembaraçada e habilidosa; asseada como um soldo novo, alegre como um
+pintassilgo, chilreando desde pela manhã até à noite!... Mas, apesar disso,
+ainda ganha os seus quarenta soldos por dia, a fazer flores: o pai Germinal
+apenas tem seiscentos francos da pensão de reforma, e, se não fosse a filha,
+havia de custar-lhe a passar a vida.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, disse André, linda como ela é... sim, pareceu-me bonita!...</p>
+
+<p>&mdash;Isso lá!... é linda como os amores, o diabrete da rapariga! afirmou a
+porteira.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, disse André tentando sorrir, e... deve ter muitos namorados?...
+</p>
+
+<p>&mdash;Ora, pois não! Aquilo tem um juízo... uma seriedade! Quando sai à rua
+podia... vadiar o seu<span class="pn">{25}</span> bocado, requebrar-se, dar
+ouvidos a lerias, mas... não senhor! compradas as provisões e entregue o seu
+trabalho, volta para casa de corrida, e só trata de divertir o velho maroto do
+pai, que então fica todo contente. Oh!... contente como se nenhum remorso
+tivesse a pesar-lhe no estômago!</p>
+
+<p>&mdash;Que espécie de gente costuma receber?</p>
+
+<p>&mdash;Gente?... em casa dele!</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Receber?... o sr. Germinal!... Essa é melhor! Se ele nem um gato conhece
+no mundo inteiro!</p>
+
+<p>&mdash;E... os vizinhos?</p>
+
+<p>&mdash;Sabe lá sequer quem são! Uma figura nova produz-lhe um ataque de nervos.
+</p>
+
+<p>&mdash;Com a breca! murmurou André despeitado; é com efeito um ente bem
+misterioso, e parece-me assaz difícil domesticá-lo!</p>
+
+<p>&mdash;Pois se eu lhe digo que é um urso! Não há exemplo de que tenha dirigido
+uma palavra, seja a quem for, excepto a mim e à filha. E pelo que toca a sair
+do seu buraco, era mais fácil deixar-se fazer pedaços...</p>
+
+<p>Uma pancada, discretamente batida na porta do <em>atelier</em>, interrompeu
+a senhora Poussignol.</p>
+
+<p>&mdash;Entre! exclamou o pintor, deixando-se ficar empoleirado onde estava.</p>
+
+<p>A porta entreabriu-se, e um homem comprido e esguio passou pela
+abertura.<span class="pn">{26}</span></p>
+
+<p>&mdash;Senhor... disse ele dirigindo-se a Sauvain.</p>
+
+<p>Neste ponto estacou, exalou um suspiro, esfregou as mãos, o que produziu
+ruído semelhante ao de um raspador, olhou em volta de si com ar assustado, e
+pareceu querer fugir. Reconsiderou porém, e continuou, articulando as palavras
+como se cada silaba lhe fosse arrancada da laringe por um saca-rolhas
+invisível:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor... chamo-me Germinal... moro aqui defronte... e venho... na
+qualidade de vizinho... fazer-lhe uma pequena visita...</p>
+
+<p>André desabou da sua caranguejola com grande estrondo; o senhor Germinal,
+aterrado, lívido de susto, cingiu-se rapidamente com a parede.</p>
+
+<p>&mdash;E esta! rosnou a senhora Poussignol no auge do espanto...<span
+class="pn">{27}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00500000000000000000">V</a></h1>
+
+<p>Se a ferrugem, esse peróxido de ferro hidratado, pudesse tomar forma humana,
+escolheria, para encarnar, o individuo que André Sauvain tinha diante de si.
+</p>
+
+<p>O senhor Germinal assemelhava-se a um prego colossal, esquecido durante seis
+meses em sitio húmido.</p>
+
+<p>Tudo nele estava enferrujado, desde a cadeia donde pendia o seu relógio de
+caixas de prata, até aos botões do colete. Cor de ferrugem era o seu fato cheio
+de cerziduras e lustroso, à força de gasto, nos cotovelos, nos joelhos e nas
+coxas; cor de ferrugem eram as suas suíças sarapintadas, os cabelos raros
+deixando a descoberto um pedaço de crânio amarelado, a pele salpicada de
+manchas ruivas, os olhos inquietos orlados de um círculo desbotado como os<span
+class="pn">{28}</span> dos peixes cozidos, os lábios que deixavam entrever as
+suas gengivas arruinadas, os dentes que nelas encaixavam... e tudo enfim!
+Enferrujada era também a sua voz, e até se exalava da sua individualidade um
+tal ou qual cheiro ferruginoso.</p>
+
+<p>Todavia, a despeito da afirmativa da senhora Poussignol, o senhor Germinal
+não tinha de modo algum a aparência de um ex-bandido. Era um homem tímido,
+humilde, vítima de um contínuo mal-estar e de uma trepidação nervosa
+inexplicável, sempre com o ouvido à escuta, e a atenção alerta. Naquele mesmo
+momento, em que arriscava um passo verdadeiramente fenomenal para o seu
+carácter, parecia obrar sob a pressão de uma vontade mais forte do que a sua,
+como um sonâmbulo recalcitrante, que o magnetizador dirige.</p>
+
+<p>E contudo nunca mortal algum, mesmo o mais sedutor, foi acolhido,
+lisonjeado, afagado por um sorriso semelhante ao que André Sauvain dispensou ao
+pai da sua... quimera loura.</p>
+
+<p>&mdash;Tenha a bondade de sentar-se, senhor Germinal, faça favor!... Que amável
+surpresa!... Que excelente ideia teve!... Não sei como agradecer-lhe...</p>
+
+<p>Pouco faltou para que André ajoelhasse.</p>
+
+<p>O senhor Germinal suspirou, assentou-se com certas precauções, que davam a
+entender precisarem de untura de azeite os seus pontiagudos joelhos,
+esfregou<span class="pn">{29}</span> lentamente os dedos nodosos, uns contra os
+outros, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;É hoje dia de Natal, senhor Sauvain! Ouvindo aquela incontestável verdade,
+André entendeu dever manifestar alguns sinais de alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Com efeito é dia de Natal... Uma grande festa!</p>
+
+<p>&mdash;Muito grande.</p>
+
+<p>&mdash;Felizmente o tempo está bom.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bom.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda que bastante frio.</p>
+
+<p>&mdash;Muito frio.</p>
+
+<p>Neste período da conversação houve uma pausa de cinco minutos. André
+contemplou o senhor Germinal com ar animador, e apoderou-se-lhe de uma das
+mãos, que estreitou nas suas de um modo inteiramente filial. O senhor Germinal
+baixou pudicamente os olhos, retirou a mão, e com ela esfregou a outra.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me, prosseguiu este, que por ocasião de tal solenidade, poderíamos
+permitir-nos... um leve extraordinário...</p>
+
+<p>&mdash;É tão curta a vida... respondeu Sauvain, procurando adivinhar a conclusão
+a que queria chegar o seu interlocutor.</p>
+
+<p>&mdash;Permitir-mo-hei pois, continuou o velho, e como o senhor é meu
+vizinho...<span class="pn">{30}</span></p>
+
+<p>O coração de André cessou de bater.</p>
+
+<p>&mdash;Tomo a liberdade; articulou o senhor Germinal com incrível esforço, sim...
+tomo a liberdade... de o convidar...</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! bradou a senhora Poussignol, dando um salto.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor! exclamou o pintor, meu caro senhor, semelhante honra, um tal...
+Ah! senhor, disponha de mim... pertenço-lhe em corpo e alma!...</p>
+
+<p>&mdash;Não exijo tanto, disse o senhor Germinal, tirando do bolso um lenço cor de
+ferrugem, com o qual enxugou a sua calva amarelada. Peço-lhe unicamente... o
+favor de vir esta noite a minha casa... das oito horas às oito e dez minutos...
+para passar o serão... modestamente... em família.</p>
+
+<p>&mdash;Em família! repetiu André extasiado.</p>
+
+<p>&mdash;Então... aceita?</p>
+
+<p>&mdash;Se aceito! querido e venerado senhor... com entusiasmo!... com delírio!
+</p>
+
+<p>O senhor Germinal levantou-se como se fora feito de uma só peça. Parecia
+consternado.</p>
+
+<p>&mdash;Nesse caso, disse ele em tom lúgubre, até à noite.</p>
+
+<p>&mdash;Até à noite, meu respeitável vizinho! modulou André, que interrompeu o
+ruído de raspador, apertando nas suas ambas as mãos do senhor Germinal.</p>
+
+<p>Este último encaminhou-se para a porta.<span class="pn">{31}</span></p>
+
+<p>&mdash;Haverá, acrescentou com voz abafada... sim... haverá talvez... uma garrafa
+de cidra.</p>
+
+<p>&mdash;Adoro a cidra!</p>
+
+<p>O senhor Germinal abriu a porta.</p>
+
+<p>&mdash;E... sim... creio poder afirmar que haverá também... castanhas.</p>
+
+<p>&mdash;Sou doido por castanhas!</p>
+
+<p>A porta fechou-se.</p>
+
+<p>André Sauvain ficou um momento como esmagado pela enorme ventura, que a
+Providencia lhe enviava; depois saltou para o meio do <em>atelier</em>,
+executando a capricho uma sarabanda furiosa, delirante, como de outra igual não
+há memoria!</p>
+
+<p>Pelo que respeita à senhora Poussignol, apenas teve forças para repetir:
+«Ora essa!»</p>
+
+<p>Paralisada pelo excesso de espanto, deixou-se cair com todo o seu peso sobre
+a caixa das tintas, derramando algumas.<span class="pn">{32}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00600000000000000000">VI</a></h1>
+
+<p>Que fada haveria tocado o senhor Germinal com a sua magica varinha? Por que
+prodígio aquele misantropo, que durante onze anos não se aventurara fora de
+casa, com medo de encontrar o oval de qualquer dos seus semelhantes, vinha
+agora convidar um desconhecido para festejar com ele o aniversario do Natal!
+</p>
+
+<p>O pintor não se inquietou com esse enigma. Contentou-se com ser feliz.</p>
+
+<p>Às oito horas em ponto, agitou, não sem sobressalto, o fio de ferro que
+correspondia à campainha do seu amável vizinho.</p>
+
+<p>André tinha tido o cuidado de aformosear-se. Escovara o fato e vestira roupa
+lavada; contudo sentia-se pouco à vontade. Quando Rosa olhou para ele, fez-se
+tão branco como a própria camisa, e pela primeira<span class="pn">{33}</span>
+vez deplorou o comprimento dos seus braços e pernas, das quais não sabia o que
+fizesse.</p>
+
+<p>Pelo que toca à jovem, ignoro em que ela pensou, mas o seu lindo rosto
+tornou-se da cor do seu nome.</p>
+
+<p>O arranjo de casa do senhor Germinal, não só era totalmente desprovido de
+magnificência, mas até deixava adivinhar a presença de um mau hóspede, a quem
+chamam pobreza; contudo a ordem, harmonia e limpeza, que ali reinava, fazia
+alegrar o coração: cada móvel fora conquistado à custa de laboriosas vitorias,
+e ostentava-se no seu lugar, polido, espanado e lustroso, como convém a um
+troféu doméstico.</p>
+
+<p>A noite correu deliciosamente. Houve cidra... e houve castanhas!... Para
+André houve também certos regalos pouco apreciados pelo vulgo, mas que o pintor
+saboreou como artista e como poeta: o prazer dos olhos, a embriaguez da alma, o
+delírio da imaginação... são esses a que me refiro.</p>
+
+<p>Porque... ela estava ali, Rosa, a travessa e meiga criança. Para
+certificar-se de que não sonhava, Sauvain beliscava os braços de vez em quando;
+ora, como apesar disso continuava a absorver por todos os poros a suave música
+da sua voz, as escalas argentinas do seu riso e o <em>fru-fru</em> do seu
+vestido azul; como a via voejar, qual ave encantadora, ruborizar-se por ser
+admirada, e sorrir<span class="pn">{34}</span> de prazer corando; como, enfim,
+quando ela inclinava a cabeça, o candeeiro iluminava de reflexos doirados os
+anéis do seu cabelo, punha em relevo o seu gracioso perfil, sombreado por
+pestanas de seda; ou lhe transformava o colo em uma lamina de puríssimo marfim,
+André viu-se obrigado a reconhecer que não dormia.</p>
+
+<p>O senhor Germinal ganhou dezassete partidas de <em>écarté</em> ao seu jovem
+vizinho... que nem deu por isso!</p>
+
+<p>O pintor não notou também as singulares contracções nervosas do seu
+parceiro, que estremecia ao menor ruído exterior, empalidecendo ao fechar
+longínquo do portão do pátio, e saltando na cadeira quando a escada rangia sob
+a pressão de passos humanos. Bem podia cair um raio sobre a mesa, que André não
+repararia em tal!</p>
+
+<p>Às onze horas retirou-se este, cambaleando como um ébrio, posto só tivesse
+aceitado um cálice de cidra; e quando Rosa, à despedida, lhe tocou levemente
+nas pontas dos dedos, pareceu-lhe que o peito se lhe dilatava até ao infinito,
+e que dentro dele se abrigava o céu inteiro, límpido, azulado, transparente e
+todo povoado de pombas de cândida plumagem.</p>
+
+<p>Enquanto a Rosa, depois de André partir, fazendo um colar dos seus braços
+nevados ao papá Germinal, cobriu-lhe de beijos as faces enferrujadas, e
+gorjeou-lhe ternamente ao ouvido:<span class="pn">{35}</span></p>
+
+<p>«Muito obrigada, meu bom, meu querido, meu adorado papázinho!»</p>
+
+<p>E, feito isto, voou para o ninho.</p>
+
+<p>O senhor Germinal, vendo-se só, esfregou as mãos por tal forma, que
+ter-se-ia jurado estar ali um batalhão de marçanos raspando cones de açúcar.
+Depois suspirou, bateu na testa e deu algumas voltas pelo quarto, até que
+aferrolhou a porta, tapando o buraco da fechadura, fechou a janela e correu as
+cortinas. Tomadas estas precauções, arredou o leito, ajoelhou no sobrado, no
+mesmo lugar que ocupara a cama, levantou uma tábua, deixando a descoberto uma
+profunda escavação, meteu por ela o braço e exumou um volumoso rolo de papeis.
+</p>
+
+<p>Aqueles papeis amarelentos, ensebados, velhos e cheios de nódoas, tinham o
+selo do banco de França. Eram notas de mil francos.</p>
+
+<p>O senhor Germinal contou-os, recontou-os, espalhou-os, beijou-os, e depois,
+acamando-os num maço, contou-os ainda outra vez.</p>
+
+<p>Eram noventa e dois.</p>
+
+<p>O senhor Germinal não devia conservar dúvida alguma sobre o seu numero e
+valor, porquanto os verificava trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.</p>
+
+<p>E quando as notas foram de novo recolhidas no esconderijo, e o leito
+restituído ao seu lugar, o senhor Germinal consultou o almanaque, e disse em
+voz baixa:<span class="pn">{36}</span></p>
+
+<p>«Onze anos, sete meses e dezassete dias... Daqui a quatro meses e meio, a
+minha Rosinha será feliz! E eu?... acrescentou ele estremecendo.»<span
+class="pn">{37}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00700000000000000000">VII</a></h1>
+
+<p>Voltou a primavera. Na da rua dos Mártires havia um jardim, separado do
+pátio por uma sebe de buxo; e esse jardim era dividido em vários talhões, de
+modo que cada locatário, mediante um pequeno aumento na renda, gozava de uma
+pequeníssima nesga de terreno, que podia cultivar a seu bel-prazer.</p>
+
+<p>André Sauvain não participava dessa regalia.</p>
+
+<p>Mas, quando as folhas, ainda franzidas, começavam a romper do seio dos
+rebentos, quando as aves ensaiavam já os seus gorjeios, e o ar amornecendo
+espalhava as nuvens sobre um fundo de pálido azul, o moço pintor visitou
+quotidianamente o jardim do seu vizinho Germinal.</p>
+
+<p>Havia quatro meses que, por uma série não interrompida de milagres, André se
+tornara indispensável<span class="pn">{38}</span> ao misterioso velhote;
+contava-se com ele, agora, como com um génio do lar.</p>
+
+<p>O pintor não se saciava de admirar Rosa; enlevava-se na contemplação daquela
+flor animada, que também ia desabrochando ao calor da primavera. Uma manhã
+estavam eles sós no seu paraíso de doze pés quadrados; um raio de sol,
+escorregando à beira do telhado, cujas ardósias coloria de azul, deixara-se
+cair nos laços que lhe armavam os ramos das árvores e as novas vergônteas;
+debatia-se, o imprudente raio, no meio de um folhedo de verdura; e a brisa,
+segredando, mofava do seu desatino. Ouvia-se já o zumbido das abelhas, e
+delicados perfumes se exalavam das flores, que tinham aberto as suas corolas
+durante a noite.</p>
+
+<p>«Eu também, dizia André, possuo um jardim, um velho jardim, que povoam
+copadas árvores!... Rodeia a casa onde nasci; muitas vezes ali passeio... em
+sonhos. Se lá voltasse, parece-me que cada tronco estremeceria sob o seu
+invólucro de musgo, que o lagarto viria alegre mostrar-se à fenda do muro, que
+a aranha desceria da sua teia rendilhada para acorrer jubilosa, que a água do
+tanque se agitaria de contente, que a parreira enlaçaria os seus esteios
+carunchosos, e tudo ali me bradaria com voz comovida: «Bons dias, André! Sê bem
+vindo!... Pobre André! já não és a criança que nós encantávamos; já não tens as
+faces rosadas, a fronte límpida,<span class="pn">{39}</span> a franca alegria,
+a gargalhada espontânea de então! Agora... és um homem! cresceste, lutaste,
+sofreste; os companheiros dos teus brinquedos já se esqueceram do teu nome; o
+camponês, que te trouxe às costas, passa e não te conhece. Mas nós, amigos
+humildes como somos, conhecemos-te ainda, André; deixaste entre nós a melhor
+parte das tuas recordações, e irás encontra-las lá em baixo, naquele banco
+carunchoso, onde tua mãe te embalava cantando.»</p>
+
+<p>Rosa escutava-o comovida, entrançando um ramo de pervincas.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! continue, murmurou ela. Amo essa casinha e esse velho jardim. Quando
+me fala deles, os seus olhos impregnam-se de infinita doçura; dir-se-ia que
+reflectem, como a água límpida de um regato, a imagem daqueles companheiros da
+sua infância.</p>
+
+<p>&mdash;É porque, junto de si, querida menina, respondeu Sauvain, tudo o que na
+minha alma há de sagrado, me sobe aos lábios e aos olhos. Ah! se a esperança
+transparece neles tão claramente como as mágoas, dar-se-á acaso que não
+descobrisse ainda?...</p>
+
+<p>Não concluiu. Nunca tinha dito tanto!</p>
+
+<p>Rosa, sentindo bater o coração e com as faces em rubor, curvou a cabeça e
+esperou. Mas André não teve ânimo para continuar. O silencio apenas foi<span
+class="pn">{40}</span> perturbado pelos trilos de uma toutinegra, que esvoaçava
+por cima dos dois jovens.</p>
+
+<p>&mdash;Fale-me do seu jardim? lhe tornou Rosa; conte-me o que ele lhe confiou, a
+última vez que o viu.</p>
+
+<p>O sorriso de André extinguiu-se, e a voz tornou-se-lhe mais triste.</p>
+
+<p>&mdash;Nesse dia, disse ele; o meu velho jardim estremecia sacudido por áspera
+brisa, e quando transpus a porta, as árvores desfolhadas e as folhas em
+redemoinho, só me enviaram um gemido, que acolhi com lágrimas...</p>
+
+<p>Rosa ficou pensativa e fitou no rosto de Sauvain as suas pupilas negras e
+inquietas.</p>
+
+<p>&mdash;Há doze anos que isto sucedeu, prosseguiu o pintor. Tinha eu então treze,
+e era aprendiz em casa de um escultor. Recebera da Normandia uma carta, que
+beijei; continha apenas estas palavras: «Estou muito doente, meu querido filho,
+e queria abraçar-te». Um quarto de hora depois, partia eu... a pé, por falta de
+dinheiro. Andei noite e dia, comendo o meu pão enquanto caminhava, matando a
+sede na água lodosa dos fossos da estrada, repelindo o sono, que me fechava as
+pálpebras... Cheguei enfim! A porta estava aberta... entrei chamando minha
+mãe... vi-a imóvel, branca como a cera, estendida sobre o leito em que eu
+nasci; ao lado dela, ardia uma tocha... Caí de joelhos<span
+class="pn">{41}</span> no meio do quarto... sem gritos, sem lágrimas, sem
+ideias... Minha mãe estava morta!</p>
+
+<p>O pintor proferiu estas últimas palavras com a voz entrecortada pela
+comoção. Rosa pousou-lhe timidamente a mão sobre o ombro.</p>
+
+<p>&mdash;Enterraram-na, ao cair da noite, continuou ele... Quando tudo terminou,
+retomei o caminho de Paris, trazendo a chave de minha casa deserta... menos deserta
+que a minha alma!</p>
+
+<p>Rosa deixara cair o ramo; os anéis louros do seu cabelo escondiam-lhe os
+olhos.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-se com sua mãe, André?</p>
+
+<p>&mdash;Não, Rosa; pareço-me com meu pai, um ousado marinheiro que pereceu num
+naufrágio, e que eu não cheguei a conhecer... A pobre viúva nada mais possuía,
+neste mundo, além do meu afecto: a sua existência decorrera triste e solitária;
+éramos pobres; foram-lhe necessários prodígios de dedicação para educar-me;
+chamava-me a sua alegria, o seu orgulho, a sua consolação... E eu tinha por ela
+um culto apaixonado; por ela jurara ser rico, respeitado, celebre... Minha mãe
+morreu!</p>
+
+<p>Rosa estava de pé, um pouco inclinada para o pintor. Este sentiu uma pérola
+líquida cair-lhe sobre a fronte.</p>
+
+<p>&mdash;Como eu a teria amado! suspirou a jovem.</p>
+
+<p>André pegou-lhe nas mãos, atraindo-a brandamente para si.<span
+class="pn">{42}</span></p>
+
+<p>&mdash;Minha mãe morreu! repetiu ele, e pensei por muito tempo que nada
+preencheria o horrível vácuo, que em mim causou a sua falta. Porém, Rosa,
+acredita-lo-á?... A par dessa indelével saudade insinuou-se, pouco a pouco,
+uma ternura não menos forte, ainda que de outra natureza. Ao princípio, era
+apenas um gérmen, um grão dourado que o acaso lançara no meu caminho, mas... o
+gérmen cresceu, o grão desenvolveu-se em planta, e a planta em frondosa
+floresta, cheia de canções, de murmúrios e de perfumes!...</p>
+
+<p>André sentiu tremer, entre as suas, as mãos de Rosa. Contudo... ela sorria
+através das lágrimas.</p>
+
+<p>&mdash;E, se as almas pudessem falar, sabe Rosa o que lhe diria a alma de minha
+mãe? Dir-lhe-ia: «Rosinha, também te amo muito... a ti, que me terias amado!
+Amo-te, porque és boa, inocente e piedosa; porque o teu espírito encantador tem
+mil delicadezas; porque me substituíste nos sonhos de meu filho; porque és a
+luz dos seus olhos, a flor da sua esperança, o enlevo da sua vida! Ama-o,
+Rosinha... peço-to eu! ama meu filho, que te ama tanto!»</p>
+
+<p>Rosa volveu para o pintor o seu olhar, radiante e cândido.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, disse ela com simplicidade, eu amo-o!... Pois não o sabia, André?</p>
+
+<p>Sauvain empalideceu, e estreitou nos braços a<span class="pn">{43}</span>
+donzela, cujas faces se encenderam em pudico rubor.</p>
+
+<p>Neste momento ouviu-se aquele, já mui conhecido, som de raspador, e à porta
+do jardim apareceu o senhor Germinal, mais frio, mais compassado, mais
+ferrugento do que nunca.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem! disse ele em tom levemente irónico, então quando é o
+casamento?<span class="pn">{44}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00800000000000000000">VIII</a></h1>
+
+<p>Os dois namorados ficaram confusos, como colegiais surpreendidos a furtar
+maçãs.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, balbuciou André, não pense que... Juro-lhe, pela minha honra, que
+é a primeira vez que...</p>
+
+<p>&mdash;Meu caro vizinho, permita-me que lhe diga que é um parvo! interrompeu o
+senhor Germinal, que se assentou sossegadamente, e puxou para junto de si,
+ameaçando-a com o dedo, a linda Rosa, um tanto enleada.</p>
+
+<p>Quem, então, ficou de todo embatocado foi o pintor...</p>
+
+<p>Pois supõe, continuou o senhor Germinal, que iria eu próprio meter o lobo no
+aprisco, se não tivesse... cá o meu plano?</p>
+
+<p>&mdash;Será possível!... exclamou Sauvain</p>
+
+<p>&mdash;Tudo é possível, meu caro. E possível que, à<span class="pn">{45}</span>
+força de deitar o nariz fora da janela, esta criança reparasse em certo
+vizinho; é possível que o pai, vendo-a pensativa, procurasse descobrir o que a
+preocupava; é possível que, adivinhando ele o que de ordinário atormenta uma
+rapariga de dezassete anos, a seguisse à dita janela e aventurasse um olhar por
+cima do ombro da filha; é possível enfim, que, por entender que ao longe se vê
+mal, aproximasse os dois curiosos para se verem de perto.</p>
+
+<p>André lançara-se de joelhos na areia do jardim: com uma das suas mãos
+apertava a dextra escabrosa do senhor Germinal, com a outra levava aos lábios a
+alva mão da donzela.</p>
+
+<p>&mdash;Rosa!... minha Rosinha! anjo querido! sonho dourado da minha vida! repita
+diante de seu pai aquelas palavras, que há pouco me iluminaram o coração!</p>
+
+<p>&mdash;Amo-o; André! disse ela ingenuamente e sem hesitar.</p>
+
+<p>&mdash;Não se morre de alegria!... exclamou o enamorado moço.</p>
+
+<p>&mdash;E o senhor... meu bom amigo... meu pai... dá-ma?</p>
+
+<p>&mdash;Ela ama-o, André! respondeu o senhor Germinal, arremedando Rosa. Mas
+levante-se daí, vizinho! há mais janelas e mais inquilinos, no prédio!</p>
+
+<p>André obedeceu: nos seus olhos ardiam fogos de<span class="pn">{46}</span>
+artifício, o coração tocava-lhe a rebate, e no cérebro sentia ressoar uma banda
+regimental.</p>
+
+<p>&mdash;Escute-me, disse o velho.</p>
+
+<p>&mdash;Sou todo ouvidos!...</p>
+
+<p>&mdash;Não se vive só de ar: não lhe parece?</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, infelizmente!...</p>
+
+<p>&mdash;Bem. E que trará o senhor para a comunidade conjugal?</p>
+
+<p>André mordeu o bigode, e consultou as nuvens, como se elas estivessem
+encarregadas de trazer-lhe barras de oiro e se houvessem demorado no caminho.
+</p>
+
+<p>&mdash;Trarei, respondeu enfim, o meu amor, a minha coragem, a minha perseverança
+e... a minha fé no futuro.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem, disse o senhor Germinal. E tu Rosa, que levarás em dote a teu
+marido?</p>
+
+<p>&mdash;A felicidade, respondeu ela simplesmente, mas com profunda convicção.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem, repetiu o velho. Pois, meus filhos, possuís exactamente o mesmo
+capital, que eu possuía quando casei.</p>
+
+<p>&mdash;E foi feliz, afirmou Rosa.</p>
+
+<p>&mdash;Feliz!... redarguiu ele com amargura; feliz, como o ladrão, que se apressa
+a dissipar o que roubou, pensando incessantemente nas galés que o esperam!...
+feliz, como o condenado à morte, que afoga a razão numa orgia efémera, e que
+despertará no cadafalso!... Não sabe, André, quanto custa<span
+class="pn">{47}</span> ver a mulher que adoramos, uma criatura delicada a quem
+desejaríamos entretecer um ninho com todas as maravilhas do universo,
+estragando a vista num trabalho ingrato para poder comprar um miserável vestido
+de chita!... sorrir forçadamente para nos esconder as pálpebras avermelhadas
+pela vigília!... definhar-se; a fogo lento, à mingua de um pouco de
+supérfluo!... E tu ignoras também, minha pobre Rosa, o que é ver entrar à noite
+um homem desanimado, abatido, prostrado pelo excesso de um trabalho mecânico,
+humilhado por superiores insolentes, escarnecido por subalternos mais bem
+trajados do que ele, consentindo, para poder ganhar um salário irrisório, em
+calcar aos pés a sua inteligência e a sua dignidade!... Tu não sabes, repito, o
+que é sentir-se uma pessoa esmagada por esta luta com a pobreza, prever próxima
+a morte, e inclinar-se de noite sobre um berço, murmurando: «Que será desta
+criança, quando eu lhe faltar?»</p>
+
+<p>Rosa e André achegaram-se um ao outro, trocando olhares altivos, que
+desafiavam a adversidade.</p>
+
+<p>&mdash;Ignoram tudo isto, prosseguiu o senhor Germinal; porém eu, que o sei por
+experiência própria, jurei sobre o túmulo de minha mulher, morta de miséria,
+vítima de privações de toda a espécie!... que nunca daria minha filha a um
+homem pobre.</p>
+
+<p>André levantou-se, pálido e com as feições transtornadas.<span
+class="pn">{48}</span></p>
+
+<p>&mdash;A não ser que ela tenha um dote razoável... concluiu o velho.</p>
+
+<p>Os dois jovens ficaram aterrados.</p>
+
+<p>&mdash;Oh, meu pai!... meu pai!... exclamou Rosa, quase irrompendo em pranto.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor! bradou André, trémulo de indignação, se o que diz é um gracejo...
+é bem cruel!</p>
+
+<p>Papá Germinal esfregou as mãos, produzindo desta vez o ruído de um raspador
+colossal.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor Sauvain, a quantos estamos do mês?</p>
+
+<p>&mdash;Oh!... o senhor está abusando...</p>
+
+<p>&mdash;Responda-me por favor: quantos são hoje?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei!... 8 de maio, creio eu.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, senhor Sauvain; hoje mesmo, 8 de maio de 1854, minha filha
+possui um dote.</p>
+
+<p>&mdash;Um dote?... eu! exclamou Rosa, incrédula.</p>
+
+<p>&mdash;Isso pouco me importa, disse André, o essencial para mim...</p>
+
+<p>&mdash;Pelo contrario, deve importar-lhe muito; sem dote, não consentiria eu que
+casasse com minha filha. Dou-lha... com noventa e dois mil francos.</p>
+
+<p>Desta feita, o susto sufocou Rosa e André. Pareceu-lhes palpável que o
+senhor Germinal trilhava o caminho que conduz a Charenton<a name="tex2html2"
+href="#foot119"><sup>[2]</sup></a>.</p>
+
+<p>Mas o velho, sempre sério, tirou convulsivamente do bolso um grande maço de
+notas de banco, folheou-o<span class="pn">{49}</span> perante os olhares
+atónitos dos dois namorados, e repetiu, acentuando cada silaba: «Noventa e dois
+mil francos!» Tome lá, meu genro!<span class="pn">{50}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00900000000000000000">IX</a></h1>
+
+<p>Sauvain abriu desmesuradamente os olhos. Tantos valores nas mãos do senhor
+Germinal, cuja miséria igualava a de Job!... O caso era de natureza a inspirar
+suposições extravagantes: até Rosa se inquietou.</p>
+
+<p>&mdash;Como assim, meu pai! disse ela, tudo isso lhe pertence?</p>
+
+<p>&mdash;Pertence-te a ti; pois que to dou.</p>
+
+<p>&mdash;E de onde lhe veio tanta riqueza?</p>
+
+<p>A fronte do velho enrugou-se; até aquele momento desenvolvera insólito
+desembaraço, mas a esta pergunta de sua filha, reapareceram o seu
+constrangimento anterior, o seu balbuciar e timidez habituais.</p>
+
+<p>&mdash;De onde me veio este dinheiro!... retorquiu ele; queres sabe-lo?</p>
+
+<p>&mdash;Certamente!...<span class="pn">{51}</span></p>
+
+<p>&mdash;Das minhas economias.</p>
+
+<p>&mdash;Economias!... quando cem vezes nos tem faltado o necessário!... quando não
+era raro ignorarmos na véspera se jantaríamos no dia seguinte!</p>
+
+<p>&mdash;Minha filha, é bom sofrer no presente para assegurar o futuro.</p>
+
+<p>&mdash;Economias!... quando o pai, estando doente, ia morrendo por falta de
+remédios e de dinheiro para os comprar!</p>
+
+<p>&mdash;Sou avarento!... balbuciou o senhor Germinal, evidentemente constrangido.
+</p>
+
+<p>&mdash;Talvez... Mas explique-me por favor, meu pai, como pôde poupar perto de
+cem mil francos, dos seus seiscentos francos de ordenado?</p>
+
+<p>&mdash;Há muito tempo que comecei, disse o velho enxugando o crânio; os pequenos
+regatos tornam-se em rios, os soldos transformam-se em francos, e os francos em
+notas do banco.</p>
+
+<p>&mdash;Para isso mesmo era necessário recorrer ao cambista, e há doze anos que
+meu pai não põe os pés fora de casa!</p>
+
+<p>&mdash;Estás importuna!... articulou o senhor Germinal, que, de amarelo cor de
+palha, passou ao amarelo do enxofre; além de que... há mais de doze anos que
+tive uma herança...</p>
+
+<p>&mdash;Agora diz que o herdou!...</p>
+
+<p>&mdash;Foi ainda em vida de sua mulher? perguntou André secamente.<span
+class="pn">{52}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ao que parece...</p>
+
+<p>&mdash;Entretanto, senhor, acaba de confiar-nos que a mãe de Rosa morreu à míngua
+do necessário!...</p>
+
+<p>&mdash;Vão para o diabo! bradou o senhor Germinal. Dar-se-á acaso que me tomem
+por um ladrão?</p>
+
+<p>&mdash;Meu pai!...</p>
+
+<p>&mdash;Vizinho!...</p>
+
+<p>&mdash;Minha filha... Meu amigo... Não querem o meu dinheiro, não é assim?
+julgam-no de origem impura? Pois não o queiram. Reembolso-o, e... basta de
+amor... nada de casamento! Voltemos para nossas casas, e não falemos mais em
+tal!</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, exclamou André, afiance-nos ao menos que existe um motivo grave
+que o obriga a ocultar a origem da sua riqueza!...</p>
+
+<p>&mdash;Nada mais desejam?... Pois bem; é verdade, com a breca! Tenho um motivo
+grave... gravíssimo! tenho dez... tenho cem... tenho mil!</p>
+
+<p>O senhor Germinal estava extremamente agitado.</p>
+
+<p>&mdash;Porém, continuou André, como o consideramos um dos homens mais honrados
+deste mundo...</p>
+
+<p>&mdash;Não carecemos saber mais nada, concluiu Rosa.</p>
+
+<p>&mdash;Ora... ainda bem! Graças a Deus! exclamou o velho, respirando mais
+livremente.</p>
+
+<p>E, enlaçando Rosa nos seus braços, envolveu-a num olhar cheio de ternura, e
+beijou-a na testa.</p>
+
+<p>&mdash;Criança má!... murmurou ele, estás com<span class="pn">{53}</span> muita
+pressa de abandonar o teu velho pai?... Porque não esperas cinco ou seis anos?
+</p>
+
+<p>&mdash;E quinze, porque não? resmoneou André.</p>
+
+<p>&mdash;Nós não te deixaremos, papá!</p>
+
+<p>O senhor Germinal abanou a cabeça.</p>
+
+<p>&mdash;É o mesmo, acrescentou ele, foi uma grande tolice enamorares-te deste
+arganaz desengonçado!</p>
+
+<p>&mdash;Obrigadíssimo pelo elogio, disse o pintor.</p>
+
+<p>&mdash;E, a final de contas, se não casasses com ele... nem por isso adoecerias!
+</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, meu pai, respondeu Rosa resolutamente, morreria!</p>
+
+<p>&mdash;Está bom! basta! interrompeu o velho assustado; já mo disseste... E foi
+mister essa ameaça, continuou ele entre dentes, para me resolver...</p>
+
+<p>Não disse mais, soltou um suspiro, apalpou as notas do banco através do
+usado pano da sobre-casaca, e passados poucos segundos exclamou de súbito:</p>
+
+<p>&mdash;Vamos! abracem-se diante de mim!</p>
+
+<p>O pintor não se fez rogar, e as faces de Rosa tingiram-se de vivas cores.
+</p>
+
+<p>&mdash;E trabalhe cada um por sua parte, prosseguiu o senhor Germinal. A riqueza
+de minha filha não deve impedi-lo de dar ao pincel, senhor Sauvain.</p>
+
+<p>&mdash;Antes duplicará as minhas forças, lhe tornou André; quero ganhar um dote
+igual ao de Rosa, e... ganhá-lo-hei!<span class="pn">{54}</span></p>
+
+<p>&mdash;Então vá para o seu <em>atelier</em>, e volte depois para jantar
+connosco. À sobremesa fixaremos... sim, talvez possamos fixar o dia da
+cerimonia!</p>
+
+<p>Quando acabou de proferir estas palavras, que visivelmente lhe custaram a
+soltar dos lábios, ouviu-se no pátio o rumor de uma violenta altercação.</p>
+
+<p>Duas vozes masculinas, uma das quais era a da senhora Poussignol, discutiam
+calorosamente:</p>
+
+<p>&mdash;Mas aonde vai o senhor?... uivava a barbuda porteira.</p>
+
+<p>&mdash;A casa de um dos seus inquilinos, já lho disse, com mil demónios!
+respondeu um baixo profundo, de timbre metálico e pronúncia meridional.</p>
+
+<p>&mdash;Qual inquilino?</p>
+
+<p>&mdash;De certo o menos tolo.</p>
+
+<p>&mdash;Isso não basta... Como se chama ele?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!...</p>
+
+<p>O senhor Germinal, ao ouvir o som de um órgão humano, mudara de semblante.
+</p>
+
+<p>&mdash;Quem está aí? perguntou ele, quem é esse homem?... que quer?... Vamo-nos
+embora, não digam que estou em casa!</p>
+
+<p>Os olhos rolavam-lhe assustados nas órbitas; os membros tremiam-lhe, os
+queixos batiam um no outro a seu pesar.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, disse Rosa, não pode ser para nós, meu pai; não conhecemos pessoa
+alguma!...<span class="pn">{55}</span></p>
+
+<p>&mdash;Vamo-nos... vamo-nos embora! repetia o velho.</p>
+
+<p>&mdash;Que tem ele?... perguntou o pintor em voz baixa.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre esta doença nervosa! respondeu a jovem. A presença de um
+desconhecido transtorna-o completamente! Veja quem é, meu amigo... e
+sossegue-o.</p>
+
+<p>André subiu a um banco, e olhou por cima da sebe. Viu a senhora Poussignol,
+calando baioneta com a vassoura, diante de um individuo de pequena estatura,
+largo de ombros, e de pernas arqueadas.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos! Rua! vociferava a digna mulher; falhou-lhe o plano; para cá vem
+<em>barrado</em>, freguês! Safe-se quanto antes, quando não grito «ó da
+guarda!»</p>
+
+<p>&mdash;Não faça tanta bulha, tiasinha, cale-se aí!... Com mil amarras!... Por
+quem me toma, você?</p>
+
+<p>&mdash;Por um velho larápio, que tratava de se encaixar cá em casa! Ah, seu
+grande velhaco! julgava que o não viam, quando passou diante da minha loja?</p>
+
+<p>Uma gargalhada sonora acolheu a conjectura da porteira, e o desconhecido fez
+uma pirueta, apertando as ilhargas. Resultou deste movimento achar-se em frente
+de André, cujo rosto admirado aparecia por cima da sebe de buxo.</p>
+
+<p>&mdash;Ah, ah! exclamou ele; eis o meu homem! E,<span class="pn">{56}</span>
+caminhando direito ao pintor, estendeu-lhe a mão, gritando:</p>
+
+<p>&mdash;Como passa, querido amigo, cujo nome ignoro! Estou encantado pelo
+encontrar!</p>
+
+<p>Depois, vendo o senhor Germinal e sua filha, tirou o chapéu e
+cumprimentou-os com galantaria.</p>
+
+<p>&mdash;Desculpe-me, senhor; peço mil perdões, menina, se os interrompo na sua
+conversação... São apenas duas palavras que tenho a dizer ao meu jovem amigo.
+Permitam-me que lho roube por um segundo...</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, senhor, disse André, estupefacto; a quem tenho a honra de falar?
+</p>
+
+<p>&mdash;Que diabo!... pois não me reconhece?</p>
+
+<p>&mdash;Confesso que não.</p>
+
+<p>&mdash;Ora olhe bem para mim, com a breca!</p>
+
+<p>André olhou. A sua verificação deu em resultado: uma cabeça calva, um nariz
+cor de violeta, uma comprida barba de duas pontas, um casaco sórdido, umas
+botas acalcanhadas, e um chapéu pardo. Tudo isto, iluminado por dois olhos
+buliçosos, brilhantes e cheios de malícia, despertou-lhe pouco a pouco a
+memoria...</p>
+
+<p>&mdash;Então não se recorda? perguntou o recém-chegado.</p>
+
+<p>&mdash;Ora espere!...</p>
+
+<p>&mdash;Em 24 de Dezembro, à noite... na véspera de Natal...<span
+class="pn">{57}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ah!... sim!...</p>
+
+<p>&mdash;Defronte da vidraça...</p>
+
+<p>&mdash;De uma casa de pasto, concluiu o pintor. Estou às suas ordens, meu bravo!
+</p>
+
+<p>Durante este tempo, o senhor Germinal, convencido de que o objecto da visita
+lhe não dizia respeito, voltara a si do seu estranho pavor. Esfregava
+lentamente as mãos, soprando como uma baleia ferida. Rosa contemplava Pedro
+Toucard.</p>
+
+<p>&mdash;É um novo conhecimento, disse-lhe baixinho André, sorrindo-se; esta noite
+lhe contarei como o adquiri.</p>
+
+<p>E despediu-se do pai e da filha.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor... Menina... disse Pedro Toucard, saudando os dois, tenho a honra
+de apresentar-lhes os meus respeitos... Linda criatura, com mil amarras!
+observou ele a André, seguindo-o; e o pai parece bom homem...<span
+class="pn">{58}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001000000000000000000">X</a></h1>
+
+<p>Às vessas de certo romano, que desejava que os seus compatriotas tivessem
+todos uma só cabeça, para lha cortar de um golpe, André Sauvain desejara, nesse
+momento, que o género humano tivesse um só peito, para poder estreita-lo
+amigavelmente nos braços.</p>
+
+<p>Portanto, fez boa cara e bom acolhimento àquele indigente desconhecido, cuja
+companhia teria apreciado mediocremente noutra ocasião.</p>
+
+<p>&mdash;Irra!... mancebo, disse-lhe o provençal enquanto atravessavam o pátio,
+pode gabar-se de me ter dado que fazer! Há quatro meses que corro Seca e Meca
+por sua causa.</p>
+
+<p>&mdash;Como assim!... Julgava ter-lhe dito onde morava?</p>
+
+<p>&mdash;Nem o nome, nem a morada... No momento<span class="pn">{59}</span> em que
+lhe perguntava uma e outra coisa, zás! partiu como uma bala!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, recordo-me... Uma pessoa a quem desejava falar...</p>
+
+<p>&mdash;Farsista!... A verdade é que lhe desagradava o papel de meu credor, e
+queria tacitamente dar por saldada a minha dívida.</p>
+
+<p>&mdash;Ora... uma bagatela!</p>
+
+<p>&mdash;Uma bagatela, que me impediu de morrer de fome. Felizmente vi-o ontem à
+noite; reconheci-o à luz de um bico de gás, quando atravessava para a rua dos
+Mártires; movia-se como uma locomotiva! Corri atrás de si, mas as minhas pernas
+já não são setas, e cheguei justamente a tempo de receber com a sua porta na
+cara. Não eram horas para visitas. Tomei o numero da casa, e eis-me aqui!</p>
+
+<p>&mdash;Seja bem vindo, disse Sauvain, introduzindo-o no <em>atelier</em>.</p>
+
+<p>Pedro Toucard entrou, com o chapéu à banda, bamboleando-se e retorcendo com
+afã uma das pontas da sua barba grisalha. Começou reembolsando o pintor da
+módica soma que lhe devia; e depois, sentindo-se mais à vontade. instalou-se
+como se estivera em sua casa, e tornou-se de uma familiaridade cada vez maior.
+</p>
+
+<p>Num volver de olhos, inventariou a mobília e permitiu-se fazer um trejeito
+de capitalista extraviado num casebre. Em seguida passou a examinar vários<span
+class="pn">{60}</span> esboços; fez careta a uns, e sorriu para outros com ar
+aprovador. Depois, voltou muitas telas encostadas à parede, e descobriu
+sucessivamente uma, duas, três, quatro cabeças de mulher... sempre a mesma, com
+olhos negros e cabelos louros.</p>
+
+<p>&mdash;Bravo! exclamou ele.</p>
+
+<p>&mdash;Que temos? interrogou André descontente.</p>
+
+<p>&mdash;A virgem do jardim! Sim, senhor!... Não é digno de dó, meu amigo... porque
+naturalmente é correspondido!</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, disse o pintor, um pouco irritado pela demasiada sem-cerimónia,
+estou com pressa; tenho um negócio urgente, e se lhe não sou já preciso...</p>
+
+<p>&mdash;Não vale zangar!... replicou Pedro Toucard. O senhor agrada-me, com mil
+bombardas! e é por isso que me interesso no que lhe diz respeito. Além de que,
+fui sempre curioso, tagarela e indiscreto... Ninguém se corrige nesta idade,
+com todos os diabos!</p>
+
+<p>&mdash;Tanto pior! observou-lhe André.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo contrário, tanto melhor! Tenho apego aos meus defeitos; estou
+habituado a eles, há sessenta anos, e ser-me-ia penoso deixa-los.</p>
+
+<p>André sorriu-se; e o velho, vendo isto, foi buscar uma cadeira.</p>
+
+<p>&mdash;Quer que lhe conte a minha historia? perguntou ele.</p>
+
+<p>&mdash;Para quê?<span class="pn">{61}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!... para que me conheça bem. Embora por sorte mofina me veja
+reduzido a um ente miserável, velho e pobre, sou com tudo um patusco
+aproveitável; posso servir para alguma coisa... principalmente a quem me
+prestou serviços. À falta de dinheiro, tenho ideias: a felicidade de um homem
+depende, algumas vezes, do maltrapilho que lhe pediu esmola.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo que toca à minha felicidade, lhe tornou André, outra pessoa se
+encarregou dela. É negócio concluído. Porém... não lhe agradeço menos a boa
+intenção, meu bravo!</p>
+
+<p>&mdash;Vejam lá como são os rapazes! Este julga-se completamente feliz, porque
+vai desposar a sua bela das tranças doiradas!</p>
+
+<p>&mdash;Como o sabe?</p>
+
+<p>&mdash;Que grande mistério! Qualquer caraíba o teria adivinhado, só de os ver ao
+lado um do outro. E os quatro retratos dela? Aposto que foram feitos de
+memória!... Mas, meu caro... a felicidade não consiste só numa afeição, aguda
+ou crónica; a felicidade, não obstante o que têm dito os trovadores, prefere
+tectos doirados a barrotes... assim!</p>
+
+<p>E Pedro Toucard designava o tecto, que aranhas centenárias haviam ornado com
+bambinelas de seu lavor.</p>
+
+<p>&mdash;Dar-se-á acaso que o senhor tenha a veleidade de doirar os meus?
+perguntou André, rindo.<span class="pn">{62}</span></p>
+
+<p>&mdash;Presentemente não, respondeu o provençal, contemplando melancolicamente as
+suas velhas botas esburacadas. Falta-me o metal necessário... Agora estou muito
+em baixo!... Mas tenho diante de mim o futuro; ainda hei de <em>trepar</em>,
+creia! É a minha sina! E, quem sabe?... talvez que eu algum dia lhe compre
+quadros.</p>
+
+<p>André contemplou com admiração aquele sexagenário, falando do futuro, na
+idade em que geralmente só se pensa no repouso.</p>
+
+<p>&mdash;Nada o faz desanimar! disse o pintor.</p>
+
+<p>&mdash;E tenho boas razões para isso. Repito a pergunta: Quer que o inicie na
+minha historia?</p>
+
+<p>&mdash;Venha ela!</p>
+
+<p>O velho exumou da algibeira um cachimbo, curto e enegrecido, e logo em
+seguida um cartucho de papel, contendo um resto de tabaco.</p>
+
+<p>&mdash;Pode a gente fumar em sua casa?</p>
+
+<p>&mdash;De certo!</p>
+
+<p>Pedro Toucard acendeu o seu queima-goelas, po-lo ao canto da boca,
+escarranchou-se numa cadeira, torceu em cada mão uma das pontas da sua longa
+barba, e contou por miúdo o que nós vamos contar... por grosso.<span
+class="pn">{63}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001100000000000000000">XI</a></h1>
+
+<p>Pedro viera ao mundo sob a influência de uma estrela buliçosa, e trouxe a
+bossa da especulação. Em pequeno, o pensamento de ser rico meteu-lhe o diabo no
+corpo; e o sobredito diabo nunca mais de lá saiu. Foi este que obrigou Pedro,
+ainda criança, a trocar umas vacas, de que lhe haviam confiado a guarda, por um
+pesado fardo de bufarinheiro. Havia ali, na sua opinião, o gérmen de uma casa
+de comércio. Mas Pedro foi agarrado; Pedro levou uma boa surra de pancadas; e
+Pedro... recomeçou as suas operações em mais larga escala.</p>
+
+<p>Dentro em pouco, o seu furor pelo negócio, a necessidade de agitação, o seu
+carácter irrequieto e extravagante, tornaram-no um ente insuportável. Seu pai,
+humilde lavrador, que nada percebia de indústria, pediu-lhe que escolhesse uma
+carreira e partisse quanto antes. Pedro quis ser marujo. Aos<span
+class="pn">{64}</span> doze anos embarcou como grumete, com a cabeça recheada
+de projectos, de cálculos e de empresas futuras. Levava consigo um pacote de
+peões, de bolas, de fitas e de missangas, que obtivera barato dos seus
+camaradas, e que contava impingir muito caro aos rapazotes negros, ou
+peles-vermelhas, que encontrasse na viagem.</p>
+
+<p>Com a ajuda das chicotadas, Pedro depressa se fartou da sua profissão. Na
+primeira paragem do navio, desertou sem dizer «água vai». Não tinha as pernas
+muito compridas, mas a ambição forneceu-lhe botas de sete léguas, e lançou-se a
+galope atrás da fortuna.</p>
+
+<p>Desde então, a sua vida não foi mais do que uma carreira desenfreada. Só à
+sua parte, viajou mais do que dez Judeus errantes e vinte ingleses
+spleenaticos. A terra e o oceano pareceram-lhe pouco; esperava encontrar
+maiores extensões. Contudo empregou em percorre-los todos os meios de locomoção
+conhecidos, e inventou alguns novos. Vagueou durante cinco anos a pé, a cavalo,
+em burro, em dromedário, em piroga, em paquete, a nado, em diligência, pela
+posta, em patacho... traficando, vendendo, comprando, trocando, especulando em
+trigo, em vinho, em peliças, em azeite, em peles de castor, em negros e negras,
+etc. Engraxa-botas em S. Francisco, mercador de estofos em Esmirna, banqueiro
+em Génova, expositor em Londres, mestre<span class="pn">{65}</span> de dança em
+S. Petersburgo, caçador em Arkansas, vendedor de ópio em Cantão, fotografo em
+Madrid, livreiro em Leipziek, e... um tanto corsário por toda a parte, exerceu
+cem profissões, pela maior parte honestas, e outras... um pouco menos.</p>
+
+<p>Dez vezes alcançou a cega deusa e a deixou fugir: chegou a possuir cem mil
+escudos, que um desastre reduziu a quinhentos francos, os quais depois se
+tornaram em duzentas mil libras, para mais tarde recaírem em zero... E sempre
+assim, durante meio século!</p>
+
+<p>O acaso, que tomara por bússola, brincava com este homem, como um colegial
+com uma pela, lançando-a a grande altura, ou mergulhando-a no fundo de um poço.
+Porém ele comprazia-se no meio destas alternativas, que lhe proporcionavam uma
+febre perpetua de inteligência. Tão ardente no prazer, como tenaz no lucro,
+levava uma existência faustosa nos seus dias felizes; dava festas gigantescas,
+semeava oiro às mãos cheias, e saciava-se de todas as sensualidades. Mudava a
+sorte, vivia de uma côdea de pão e de um cachimbo de tabaco, não se importando
+de servir de criado àqueles mesmos que recebera à sua mesa.</p>
+
+<p>Desconhecia preconceitos e falsas vergonhas: respirava só pelas comoções
+corrosivas da perda e do ganho.</p>
+
+<p>Entretanto fixara um limite à sua futura riqueza,<span
+class="pn">{66}</span> e dissera consigo: «Não irás além!» Queria dois milhões.
+Por varias vezes conseguiu o seu fim; mas... vinha um incêndio, uma falência,
+uma revolução, um cataclismo qualquer, que tudo absorvia. Acontecera-lhe um dia
+seguir uma caravana, carregada por ele de perfumes, marfim, ébano e pedras
+preciosas. Pelo caminho calculou os lucros prováveis dessas mercadorias, e como
+achasse o seu ideal muito excedido, jurou que seria aquela a sua última
+tentativa. Eis senão quando, uma nuvem de salteadores árabes ataca a caravana e
+rouba-a, deixando Pedro quase morto no meio dos seus servos estrangulados. E
+Pedro, sempre filósofo, recomeçara pacientemente a sua teia despedaçada.</p>
+
+<p>Assim rolando, de quedas em triunfos, e de vitórias em derrotas, sentiu
+chegar os sessenta anos; e, como aventureiro já saciado de fadigas, opulento à
+medida dos seus desejos, singrava enfim para as terras da pátria. Porém a
+tempestade arrojara o navio sobre a costa; dispersara os seus marinheiros e
+aniquilara a carregação, arruinando Pedro pela décima ou duodécima vez.</p>
+
+<p>Um brigue estrangeiro recolheu-o das ondas, meio-morto, atado a uma tábua,
+louco de sede e de dor, fantasiando ainda no seu delírio uma sociedade colossal
+de comercio, que imaginava ter fundado. Apenas pôde sair do hospital, para onde
+o tinham transportado, a braços com um tétano, dirigiu-se<span
+class="pn">{67}</span> para Paris. Foi lá que André Sauvain o encontrou
+andrajoso e faminto.</p>
+
+<p>&mdash;E, desde esse dia, que mais empreendeu? perguntou o pintor, que escutara
+esta narrativa com crescente interesse.</p>
+
+<p>&mdash;Um pouco de tudo, respondeu Pedro Toucard. Com o que me restava do seu
+dinheiro, comprei fósforos e revendi-os, apanhei pontas de charutos, serrei
+madeira, abri as portinholas das carruagens, fui moço de recados, escritor
+público, contratador de bilhetes de teatro, professor de esgrima, dei serventia
+a pedreiros, etc.; enfim, tal como me vê, possuo já alguns centos de francos,
+que me produzirão avultados lucros. Vou alugar uma tenda; venderei seja o que
+for... seja a quem for: e, quando tiver mil francos de meu, visto-me de novo e
+vou jogar na Bolsa.</p>
+
+<p>&mdash;Com que fundos?</p>
+
+<p>&mdash;Com os da minha inteligência, respondeu Pedro Toucard, batendo na testa
+com gesto inspirado. Que grande habilidade jogar com capitais!... Com a
+breca!... se me emprestassem agora cinquenta mil francos, num mês teria ganho o
+quádruplo!</p>
+
+<p>&mdash;Ou ficaria sem nada...</p>
+
+<p>&mdash;Qual história! só os tolos é que se enterram, e eu tenho olho vivo...
+Aposto que ainda me verá milionário!</p>
+
+<p>&mdash;Irra! disse Sauvain maravilhado daquela rara audácia, já é ter confiança
+em si!<span class="pn">{68}</span></p>
+
+<p>&mdash;Porque tenho sorte... e ideias, replicou Pedro Toucard. Sou o amante
+preferido da fortuna: abandona-me às vezes, mas volta sempre para junto de
+mim... As ideias vêm-me, como aos outros o ar que respiram; uma palavra
+proferida pelo primeiro transeunte, o latido de um cão, uma tabuleta, a forma
+de uma nuvem, a musica de um realejo, tudo me gera uma ideia... Eis porque eu
+tenho confiança!...</p>
+
+<p>Assim falando, o provençal enchera o cachimbo; e como o seu cartucho de
+tabaco ficara vazio, desenrolou-o maquinalmente, e alisou-o sobre o joelho.</p>
+
+<p>&mdash;Olhe! acrescentou ele, mostrando o papel; quando me acho em embaraços,
+leio um anuncio, abro um jornal, ou o primeiro impresso que se me depara...
+este, por exemplo, e zás! uma ideia me...</p>
+
+<p>Interrompeu-se de súbito, e o seu olhar ficou fixo no pedaço de papel, que
+lhe estava servindo para demonstração...</p>
+
+<p>&mdash;Com mil amarras! exclamou ele, com voz tonante e erguendo-se de chofre.
+</p>
+
+<p>&mdash;Que foi?... interrogou o pintor, erguendo-se também. O velho fez-se
+amarelo, logo carmesim, depois branco como um sudário, e por fim agarrou no
+pulso de Sauvain, e apertando-lho com força, balbuciou:</p>
+
+<p>&mdash;Que numero é o desta casa?</p>
+
+<p>&mdash;Oitenta e sete.</p>
+
+<p>&mdash;Rua dos Mártires?<span class="pn">{69}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sem dúvida.</p>
+
+<p>&mdash;Há cá alguém que se chame Germinal?</p>
+
+<p>&mdash;Há, sem dúvida!... respondeu André estupefacto.</p>
+
+<p>&mdash;Aonde mora?</p>
+
+<p>&mdash;Aqui... ao lado... Era com ele que eu conversava há pouco!...</p>
+
+<p>&mdash;Com mil raios! bradou Pedro.</p>
+
+<p>E, num salto de jaguar, atravessou o <em>atelier</em>, abriu a porta, correu
+para o pátio, e chegou ao jardim, seguido do pintor, ofegante e desnorteado.
+</p>
+
+<p>Rosa e seu pai conservavam-se ainda sentados no mesmo lugar.</p>
+
+<p>&mdash;É o senhor Germinal a quem tenho a honra de falar? perguntou Pedro
+Toucard.</p>
+
+<p>O senhor Germinal, sufocado por esta pergunta à queima-roupa, respondeu
+apenas com o seu eterno raspadouro.</p>
+
+<p>&mdash;Sim senhor, disse Rosa.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem!... continuou o provençal, pois eu chamo-me Pedro Toucard e
+sou...</p>
+
+<p>Não teve tempo de dizer mais. O pobre senhor Germinal soltou um grito
+abafado, a ferrugem da sua pele transformou-se em verdete, agitou o ar com os
+braços, e caiu pesadamente sobre o banco.</p>
+
+<p>&mdash;Meu pai!... exclamou Rosa assustada.</p>
+
+<p>&mdash;Que aconteceu? perguntou Sauvain na maior. ansiedade.<span
+class="pn">{70}</span></p>
+
+<p>&mdash;Aconteceu... que tudo está desfeito, articulou o velho com voz
+estrangulada; casamento, amor, futuro... foi tudo um sonho! Separem-se... pois
+nunca serão um do outro. Depois, dirigindo-se bruscamente a Pedro Toucard, que
+o observava com impaciente curiosidade, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Siga-me, senhor. E afastou-se, mal podendo suster-se nas pernas, seguido
+pelo provençal, não menos agitado do que ele.</p>
+
+<p>Rosa e André entreolharam-se com terror: dir-se-ia que caíra um raio ao pé
+deles. Por um movimento espontâneo, a jovem refugiou-se nos braços do seu amado
+André.</p>
+
+<p>&mdash;Separar-nos!... murmurou ela.</p>
+
+<p>&mdash;Quem o ousaria!... rugiu, o pintor.</p>
+
+<p>&mdash;Mas... que significa isto, meu Deus?! André, no auge da desesperação,
+meteu loucamente os dedos pelos cabelos banhados em suor... depois, abatido,
+deixou pender a cabeça sobre o peito. Nesse instante, descobriu por terra o
+pedaço de papel, que ocasionara esta peripécia. Levantou-o.</p>
+
+<p>Era um pedaço de jornal, em que se distinguiam ainda alguns fragmentos de
+anúncios.</p>
+
+<p>O pintor leu o que se segue:</p>
+
+<p>«Aos herdeiros ou parentes do senhor Onésimo Toucard, falecido em 8 de maio
+de 1872, roga-se com instância, para seu interesse, que se dirijam a M.
+Germinal, rua dos Mártires, n. 87.»<span class="pn">{71}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001200000000000000000">XII</a></h1>
+
+<p>É indispensável agora, para clareza desta narrativa, que volvamos alguns
+anos atrás.</p>
+
+<p>Em 1842, num esplêndido domingo de primavera, o senhor Germinal, então
+empregado numa repartição publica, dirigiu-se para o caminho de ferro da margem
+esquerda, e subiu para o comboio com alegria, difícil de descrever.</p>
+
+<p>Durante toda a semana, o senhor Germinal consultara o barómetro; através da
+espessa névoa, que embaciava os vidros das janelas, interrogara cem vezes o
+aspecto do firmamento; cem vezes os seus companheiros de trabalho o haviam
+surpreendido a olhar fixo para o céu; cem vezes perpetrara erros nas contas;
+cem vezes, enfim, esboçara na mesa, com a ponta da raspadeira, árvores,
+campanários, carneiros e choupanas. Tantas distracções num empregado-modelo,
+atraiçoavam algum projecto, amorosamente<span class="pn">{72}</span>
+acalentado; e, se bem que o senhor Germinal fosse taciturno e pouco
+comunicativo, todos sabiam qual era esse projecto: ia no próximo domingo a
+Viroflay.</p>
+
+<p>Nesta época, o senhor Germinal roçava pelos seus quarenta e sete anos, e
+havia vinte e cinco que vinha, trezentas vezes por ano, assentar-se à mesma
+hora, na mesma cadeira, à mesma secretária, com as mesmas mangas de lustrina,
+em frente dos mesmos indivíduos, e recebendo o mesmo ordenado, cujo
+quantitativo era de cento e trinta e três francos e trinta e três cêntimos.</p>
+
+<p>O senhor Germinal passava, e com razão, entre os seus chefes e colegas, por
+um homem de medíocre inteligência, mas trabalhador assíduo, de inteira
+probidade e inflexível honradez. As suas ideias, somadas, ofereceriam por certo
+um diminuto total, mas eram rectas, firmes e alinhadas, como uma tábua de
+Pitágoras. Quando à noite se deitava, exausto de fadiga, com os dedos
+inteiriçados de segurar a pena, e o espírito baralhado de algarismos, não
+pensava sequer em meter-se nas questões sublimes da politica, religião, moral
+ou filosofia, que fazem divagar nas alturas o pensamento dos que nada têm que
+fazer. Limitavam-se os seus esforços de imaginação à saudade de sua falecida
+mulher, a um impulso de ternura por sua filha, e a um plano de trabalho no dia
+seguinte; depois, o sono<span class="pn">{73}</span> envolvia-o nas suas
+pesadas dobras e levava-o ao mundo do esquecimento. Nunca um fermento de
+inveja, nem uma dessas veleidades maldosas, que mancham a consciência, o
+agitava sequer por um segundo; adormecia puro e acordava inocente.</p>
+
+<p>Aquela existência de ostra pegada ao rochedo, fará compreender o
+extraordinário alvoroço, que sentia o senhor Germinal com a perspectiva de uma
+digressão, por mais curta que fosse. Entretanto, era por ele classificado em
+segundo lugar o gozo material, que o esperava, respirando o ar puro do campo e
+dilatando a vista pelas colinas vicejantes; o que mais o deleitava era o prazer
+próximo de beijar sua filha, que tinha então cinco anos, e de apreciar, por
+intuição própria, os progressos que ela fizera em saúde, estatura e vigor,
+durante os dezoito meses, em que deixara de a ver.</p>
+
+<p>O senhor Germinal aproveitara dois dias de feriado, na Páscoa, para desposar
+uma rapariga... um pouco mais pobre do que ele. Era de natureza humilde e
+tímida, como a dele, mas delicada, fraca e demasiado franzina para resistir ao
+sopro gelado da miséria. Morreu de parto, deixando-lhe uma filha, com as suas
+feições, e a quem o empregado pôs o nome de Rosa, em memoria dela.</p>
+
+<p>A criança era débil; a sua vida parecia depender de um sopro. O senhor
+Germinal procurou e descobriu uma camponesa de Viroflay, moça e robusta,<span
+class="pn">{74}</span> que levou a pequerrucha banhada das lágrimas de seu pai,
+e prometeu restituir-lha, dentro em pouco, esperta, robusta e traquinas. E com
+efeito, cumpriu tão bem a sua palavra, que o senhor Germinal, achando-a de dia
+para dia mais rechonchuda e chilreadora, resolveu deixá-la mais tempo em casa
+da ama, e mesmo vê-la só de longe em longe, porque a despesa das viagens abria
+sensível brecha no seu modesto orçamento.</p>
+
+<p>Eis o motivo porque, no dia a que nos referimos, o senhor Germinal se sentia
+ligeiro como um pássaro. Entreabria-lhe os lábios, cor de ferrugem, um franco
+sorriso (sorria ainda nessa época...) e o ruído de raspador, produzido pelo
+esfregar das suas mãos, confundia-se com os silvos da locomotiva. O vento
+incomodava os seus companheiros de viagem; ele porém acolhia-o com delicias,
+pensando que aquela mesma brisa teria talvez acariciado os faces de sua filha.
+Bem que o comboio deslizasse veloz sobre os seus cordões de ferro, acusava-o de
+lentidão, e vinte vezes olhou para fora, desconfiado de que o horizonte, por
+pirraça, se afastava dele.</p>
+
+<p>Entretanto ia depressa! e tão depressa, que nenhum dos viajantes se
+recordava de semelhante celeridade.</p>
+
+<p>As árvores, os prados, as sebes, as colinas, os postes que ladeavam a
+estrada, fugiam arrebatados num turbilhão infernal... Apareciam e
+desapareciam<span class="pn">{75}</span> antes que se pudesse distinguir-lhes
+as formas... E a rapidez aumentava, de minuto para minuto... Pouco a pouco, os
+objectos exteriores confundiram os seus perfis indecisos... era uma confusão
+extraordinária... um vertiginoso turbilhão... uma miragem louca, análoga à que
+reflectiria uma onda violentamente agitada...</p>
+
+<p>Dentro do comboio, os passageiros consultavam-se com terror;
+entrechocavam-se os dentes uns nos outros, os seios arfavam, as mãos uniam-se
+convulsivas e alagadas de frio suor.</p>
+
+<p>E a velocidade aumentava... aumentava sempre, de segundo para segundo...</p>
+
+<p>Houve um momento solene, um momento longo como um século, um momento durante
+o qual cada um orou do intimo de alma ao que perscruta as consciências, e
+pensou nos entes queridos que o prendiam à vida... Depois... um choque
+espantoso... e um clamor, ainda mais espantoso!... Eram 8 de maio de 1842.</p>
+
+<p>Como escapou o senhor Germinal àquele desastre? Ele mesmo nunca pôde
+recordar-se.</p>
+
+<p>À mingua da rasto, que o abandonara, o instinto, esse guia cego do animal,
+conduziu-o intacto a salvamento. Quando deu acordo de si, corria através dos
+campos, espavorido, ofegante, meio-louco; mas apenas recuperou o espírito, o
+seu primeiro acto foi voltar atrás e auxiliar os socorros, que de todos os
+lados acorriam.<span class="pn">{76}</span></p>
+
+<p>Passou-se então um facto, que deixou na sua vida indelével impressão.</p>
+
+<p>Um homem, um moribundo, que ele debalde tentava salvar, desprendeu-se-lhe
+dos braços, e entregou-lhe uma carteira, murmurando estas palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Guarde: é um depósito... que lhe confio... Entregue-o pela sua própria mão
+a... Eu chamo-me...</p>
+
+<p>Fez um esforço supremo para concluir, mas não pôde; caiu morto no
+<em>wagon</em>, que começava a ser invadido pelo fogo.<span
+class="pn">{77}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001300000000000000000">XIII</a></h1>
+
+<p>No dia seguinte, regressou o senhor Germinal a Paris. Inútil é acrescentar
+que foi de carruagem.</p>
+
+<p>Quando se reinstalou na sua habitação, a senhora Possignol recusava-se a
+reconhecê-lo; em vinte e quatro horas envelhecera vinte e quatro anos. O seu
+semblante parecia uma planície devastada por um ciclone; para o corpo fez à
+involuntária aquisição de um tremor nervoso; e para o espírito, a de dois
+cuidados graves: o depósito, que lhe fora confiado; e sua filha, que trouxera
+consigo, não querendo estar por mais tempo separado dela, depois de ter visto a
+morte tão de perto.</p>
+
+<p>A pequena Rosa dormia a sono solto. Ele improvisou-lhe um leito, correu as
+cortinas, aferrolhou-se solidamente, e foi sentar-se imóvel ante um objecto,
+que exumara das profundezas do seu sobretudo.<span class="pn">{78}</span></p>
+
+<p>Era uma carteira assaz volumosa, denegrida pelo uso, e tendo gravado no
+couro, em letras outrora douradas, o nome de Onésimo Toucard.</p>
+
+<p>Continha noventa e dois mil francos.</p>
+
+<p>Perante aquele maço de papeis, que representavam mais de sessenta anos do
+seu ordenado, o digno burocrata por pouco não perdeu os sentidos;
+eriçaram-se-lhe os raros cabelos, ergueu-se, e arrastou um móvel, com o qual
+barricou a porta.</p>
+
+<p>Depois, prosseguiu nas suas investigações com ardor febril.</p>
+
+<p>Não levaram essas muito tempo: a carteira não continha papel algum, que
+pudesse servir de esclarecimento; as folhas, pela maior parte em branco, só
+forneceram ao senhor Germinal algumas notas de compras e várias despesas,
+escritas com má caligrafia, umas a lápis, outras a tinta.</p>
+
+<p>O viúvo ficou imerso em profunda perplexidade; reflectiu tanto tempo que os
+objectos se lhe baralharam diante dos olhos, multiplicando-se confusamente; a
+final, exausto por tão diversas comoções, arrecadou a carteira no fundo de uma
+gaveta, cuja chave meteu debaixo do travesseiro, e deitou-se.</p>
+
+<p>Se o sono não chegou, veio em seu lugar o pesadelo; pelas fendas da janela,
+pelo buraco da fechadura, ou pela chaminé, insinuavam-se ladrões, que
+esquadrinhavam na gaveta com deplorável afinco.<span class="pn">{79}</span></p>
+
+<p>O senhor Germinal, inundado de suores frios, saltou fora da cama, e em pé,
+descalço, imóvel no seu traje alvejante, passou o resto da noite a perguntar a
+si próprio onde poderia ocultar melhor o seu importuno tesouro.</p>
+
+<p>Ao romper do dia, surgiu-lhe uma ideia. Desarrumou a cama, ergueu uma tábua
+do soalho, e por debaixo dela escavou um esconderijo, assaz engenhoso.</p>
+
+<p>Feito isto, vestiu-se e foi de corrida dar a sua demissão da secretaria, e
+fazer valer os seus direitos à aposentação.</p>
+
+<p>À secretaria!... Bem lhe importava agora a secretaria! Só cuidava em
+desencantar a família Toucard, e desembaraçar-se de uma aterradora
+responsabilidade, em proveito dela.</p>
+
+<p>Outro qualquer julgaria ter feito muito, indo depositar a soma no mais
+próximo comissariado de polícia, mas o senhor Germinal não era do feitio de
+outro qualquer; na sua escrupulosa delicadeza, considerava-se como ligado ao
+morto por um compromisso; tinha sempre presente na memoria aquele rosto
+contraído, sentia aquela mão fria apertando a sua, ouvia aquela voz agonizante
+a dizer-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Entregue-o pela sua própria mão a...</p>
+
+<p>Mas... a quem? A alma, fugindo, levara a chave do enigma. Fosse a quem
+fosse: Onésimo dissera «Pela sua própria mão»... e isso era o bastante<span
+class="pn">{80}</span> para o senhor Germinal não se arredar um passo da
+vontade expressa do moribundo.</p>
+
+<p>Pôs mãos à obra sem tardança. Durante muitos meses, viram-no sair
+quotidianamente ao romper de alva, para só voltar depois de noite, estafado,
+moído e de mau humor. Interrogou o <em>Almanaque do comercio</em>, gastou dez
+pares de botas nas ruas de Paris, fatigou os ecos da prefeitura de polícia, por
+pouco não pegou de estaca em cada uma das legações estrangeiras, percorreu os
+arrabaldes, esquadrinhou Versailles e seus subúrbios, revolveu céu e terra, e
+contudo não descobriu em parte alguma vestígios da passagem ou da morada de
+Onésimo Toucard.</p>
+
+<p>Ora, enquanto as suas pernas funcionavam ao longe, as notas de banco
+aboloreciam no buraco, à mercê dos ladrões ou do incêndio; e a pequerrucha,
+confiada a uma ou outra vizinha obsequiosa, desaprendia de sorrir à máscara
+ferrugenta de seu pai. Um tal estado de coisas não podia prolongar-se, e o
+senhor Germinal desistiu enfim das suas correrias infrutíferas; quebrou o
+mealheiro, no qual, desde que enviuvara, ia juntando, soldo por soldo, os
+elementos de um dote para sua filha; e com esse dinheiro, deduzido do seu
+passadio, fez publicar um anuncio nos jornais... depois dois... depois três...
+depois vinte...</p>
+
+<p>À medida que o tempo decorria, o senhor Germinal tornava-se mais frenético,
+mais nervoso, mais<span class="pn">{81}</span> pusilânime. Os noventa e dois
+mil francos invadiram-lhe o cérebro, submergindo todos os seus pensamentos.
+Tiraram-lhe o sono e o apetite absurdos terrores; paralisaram-se-lhe as
+faculdades morais a ponto de não ousar mais afastar-se de casa, e dispôs as
+coisas de modo que nada interrompesse o seu cativeiro voluntário.
+Primeiramente, matriculou Rosa em um colégio próximo, com a condição expressa
+de a virem buscar todas as manhãs, e trazê-la de tarde. Depois, contratou com
+uma agência de anúncios para que, até nova ordem, o seu reclame fosse publicado
+duas vezes por mês. E feito isto, aferrolhou-se dentro de casa e entrou de
+sentinela.</p>
+
+<p>Ninguém o rendeu do seu posto; e aí adquiriu, pouco a pouco, uma doença
+singular. Ou fosse porque aquela perpétua expectativa, sempre alerta e sempre
+frustrada, tivesse enfraquecido as suas faculdades mentais, ou porque o
+contacto incessante do dinheiro desenvolvesse nele predisposições latentes,
+começou a manifestar sintomas de avareza. Achou-se muitas vezes, sem saber
+como, a mergulhar as mãos, trémulas de voluptuosidade, no maço das noventa e
+duas notas de banco, a amarrotá-las, rindo de prazer ao escutar deliciosamente
+o seu macio <em>fru-fru</em>... E então, envergonhado de si mesmo, afastava-se
+de súbito, fazendo votos sinceros pela aparição de um Toucard qualquer.<span
+class="pn">{82}</span></p>
+
+<p>Sete anos se passaram assim. Rosa tinha doze, e o colégio já a enfastiava.
+Logo que se instalou definitivamente no domicílio paterno, a sua fisionomia,
+fresca e louçã, iluminou-se como uma aurora boreal...</p>
+
+<p>Foi uma felicidade para o pobre homem; algum tempo mais de solidão, e a
+loucura não tardaria. Contudo, a influência daquela criança adorada não
+tranquilizara o senhor Germinal; apenas imprimiu outra direcção às suas
+inquietações. Rosa prometia ser extremamente bela, e, de todas as promessas que
+as mulheres fazem, é essa a única que geralmente costumam cumprir. O viúvo
+admirava nela as feições queridas da sua defunta; tinha a mesma graça, a mesma
+afectuosa alegria, a mesma expressão no olhar, mas também a mesma débil
+constituição. O pobre pai suspirava, vendo-a estragar, em grosseiras ocupações,
+as suas mãos pequeninas e brancas; empalidecia, observando que o menor trabalho
+a fatigava.</p>
+
+<p>À força de temer para ela a miséria, acostumou-se gradualmente a desejar-lhe
+o impossível... isto é, <em>dinheiro</em>. Os seus vagos, instintos de cobiça
+pelo que diariamente remexia, aumentaram de consistência desde que tiveram um
+fim nobre e elevado. Chegou um momento em que, contemplando a carteira de
+Onésimo Toucard, o senhor Germinal dissera consigo:<span class="pn">{83}</span>
+</p>
+
+<p>&mdash;Se o não reclamassem!...</p>
+
+<p>Esta ideia, uma vez encaixada no cérebro do senhor Germinal, alastrou-se
+como uma nódoa de azeite. Tudo poderia obter para Rosa com noventa e dois mil
+francos: ar, sol, espaço, prazeres e saúde... tudo simultaneamente lhe passou
+pela imaginação fascinada. Em vão se desculpava para com a sua consciência,
+murmurando:</p>
+
+<p>&mdash;É uma simples hipótese!... A hipótese era já uma esperança, que fizera
+mudar de causa a sua impaciência e agitação; tanto estremecera de júbilo,
+quanto estremecia agora de receio, à vista de um estranho; cessara de publicar
+anúncios, e cada dia, que passava, era riscado no almanaque, como um perigo de
+menos a evitar.</p>
+
+<p>Três anos decorreram ainda, e foram terríveis! A pensão do senhor Germinal,
+até então suficiente para um velho e uma criança, não o era já para duas
+pessoas; as suas economias tinham desaparecido na educação de Rosa e nos gastos
+da publicidade. Mais de uma vez, deitado na sua enxerga, a braços com a febre
+ou com a fome, sentindo através do tabique sua filha a chorar, tivera
+horripilantes tentações, relativas a esse dinheiro, que dormia inútil ao
+alcance da sua mão. Contudo não tirou dele a mínima parcela, nem sequer trocou
+uma nota.</p>
+
+<p>Decorridos dez anos, aquele homem probo, escrupuloso,<span
+class="pn">{84}</span> austero até ao superlativo, chegou, de concessão em
+concessão, a formar o seguinte raciocínio:</p>
+
+<p>«Fiz tudo quanto era humanamente possível para descobrir os herdeiros de
+Onésimo: o meu dever está cumprido. Restituir esta soma ao estado, que não
+carece dela, seria um absurdo. Acaso não quereria a Providencia compensar-me
+dos meus sofrimentos, proporcionando-me os meios de me utilizar destes valores?
+Portanto, sou livre de dispor deles.»</p>
+
+<p>Conspirava consigo mesmo para fazer uma surpresa a sua filha: seria uma
+casinha branca, no campo, um retiro florente, onde Rosa gozasse enfim dos ócios
+e distracções, de que até então fora privada a sua mocidade. Mas, logo que
+pegou nas notas com a intenção formal de se apossar delas, empalideceu e
+deixou-as cair no fundo do esconderijo. Parecia-lhe que ia cometer um roubo.
+</p>
+
+<p>«Não é de urgência, pensou o velho. Rosa tem apenas quinze anos... É uma
+criança nobre e corajosa, que soube criar-nos recursos e trouxe um pouco de
+bem-estar à nossa pobre casa. A verdade é que não nos falta o pão! Esperemos
+mais dois anos... Doze anos é um prazo razoável...»</p>
+
+<p>Todavia, é provável que o fosse adiando, de ano para ano, detido sempre
+pelos mesmos escrúpulos, se Rosa lhe não houvesse confessado o seu amor por
+André Sauvain.<span class="pn">{85}</span></p>
+
+<p>Aquela noticia afligiu o senhor Germinal, mas acabou com as suas hesitações.
+Convenceu-se de que existia uma séria paixão, de parte a parte; estudou o
+pintor, afeiçoou-se-lhe, e, meio desesperado, meio satisfeito, resolveu
+conceder-lhe a mão de Rosa, com os noventa e dois mil francos, no dia em que
+expirasse o décimo segundo ano do depósito.</p>
+
+<p>Foi desse modo que, entre perpetuas angustias, com a consciência oprimida e
+o espírito torturado, o senhor Germinal dotou e chamou noivos aos dois jovens.
+</p>
+
+<p>Vimos já como surgira nesse momento Pedro Toucard, qual outro
+Desmancha-prazeres.<span class="pn">{86}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001400000000000000000">XIV</a></h1>
+
+<p>Ao centro do quarto, que escondera um tesouro sob o seu pavimento, estavam
+sentados Pedro Toucard e o senhor Germinal, um em frente do outro, na atitude
+de duas esfinges que tentassem adivinhar-se.</p>
+
+<p>Ambos estavam pálidos, comovidos e agitados.</p>
+
+<p>Os olhos do provençal luziam como carbúnculos; torcia a barba a ponto de
+quase lhe arrancar os cabelos.</p>
+
+<p>&mdash;Como íamos dizendo, começou ele, os parentes ou herdeiros de Onésimo
+Toucard foram rogados, com instância, para, a bem de seus interesses, se
+dirigirem ao senhor... O que, segundo creio, significa que em sua mão existem
+alguns fundos, os quais devem pertencer àqueles, não é assim?»</p>
+
+<p>O senhor Germinal hesitou. Pensava na sua querida Rosa, na felicidade que
+lhe prometera e que<span class="pn">{87}</span> ia roubar-lhe. Verdade era que
+podia ainda negar o depósito, e desembaraçar-se de Toucard, mentindo; mas...
+não se é honrado impunemente!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, respondeu com voz sumida.</p>
+
+<p>Pedro Toucard reteve um grito de alegria. Respirou estrepitosamente e
+aproximou a cadeira.</p>
+
+<p>&mdash;Queira continuar, disse ele; sou todo ouvidos.</p>
+
+<p>&mdash;É ao senhor que compete falar, replicou o pai de Rosa, analisando
+tacitamente os andrajos de Pedro, que lhe inspiravam pouca confiança.</p>
+
+<p>&mdash;Em que grau era parente de Onésimo Toucard?</p>
+
+<p>Uma vermelhidão, cor de tijolo, invadiu as faces crestadas do provençal;
+abaixou os olhos: dir-se-ia que se travava nele uma luta interior. Contudo,
+após alguns segundos de reflexão, recobrou o seu habitual desembaraço e
+respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Em grau muito próximo; sou seu irmão, e o único representante da família,
+hoje extinta.</p>
+
+<p>&mdash;Então... porque não deu sinal de existência durante doze anos?</p>
+
+<p>&mdash;A razão é simples. Há doze anos que vagueio do outro lado dos mares, e
+apenas quatro meses que habito em Paris, aonde nunca tinha vindo; enfim,
+ignorava a morte do meu pobre Onésimo, e só esta manhã a soube.</p>
+
+<p>&mdash;De que modo?</p>
+
+<p>&mdash;Por um dos seus anúncios.<span class="pn">{88}</span></p>
+
+<p>&mdash;Há cinco anos que os não publico!...</p>
+
+<p>&mdash;É possível que o pedaço de jornal, em que o encontrei, datasse dessa
+época... Mas não percamos tempo com bagatelas. A quanto monta a herança?</p>
+
+<p>&mdash;Não calcula o seu valor? perguntou o senhor Germinal.</p>
+
+<p>&mdash;Aproximadamente... talvez. Meu irmão era sócio da minha casa comercial; em
+30 de Abril de 1842, liquidámos, partilhando os lucros, que se elevavam a...
+cerca de duzentos mil francos. Se Onésimo morreu em 8 de maio, devia ter em
+caixa de oitenta a noventa mil libras...</p>
+
+<p>&mdash;Foi em Paris que se efectuou a partilha?</p>
+
+<p>&mdash;Não, em Liverpool.</p>
+
+<p>&mdash;Nesse caso, quando seu irmão faleceu estava em França, havia quatro ou
+cinco dias apenas?</p>
+
+<p>&mdash;Um ou dois, se tanto.</p>
+
+<p>&mdash;E o senhor?</p>
+
+<p>&mdash;Eu, a 8 de Maio, embarcava em Liverpool e fazia-me de vela para Calcutá,
+sem pressentir que nesse mesmo dia Onésimo esticava a canela em Versailles.</p>
+
+<p>&mdash;Como sabe que foi em Versailles que ele morreu?</p>
+
+<p>&mdash;Presumo-o; ele tinha tenção de lá fixar a sua residência...</p>
+
+<p>O senhor Germinal ergueu-se? passeando no quarto com agitação.<span
+class="pn">{89}</span></p>
+
+<p>&mdash;Senhor, disse ele, todas as suas respostas combinam com os documentos que
+possuo, mas desculpar-me-á se exijo provas mais palpáveis da sua identidade...
+</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! disse o provençal; é muito justo. Felizmente trago sempre comigo
+os meus papeis, visto não ter domicilio certo, nem fechadura segura...</p>
+
+<p>E dizendo isto, a mão do aventureiro mergulhou no andrajoso casaco e
+reapareceu à superfície, carregada com uma carteira grande e sebenta.</p>
+
+<p>Logo que para ela lançou os olhos, o senhor Germinal ficou inteiramente
+convencido. Aquela carteira era irmã gémea de outra, que por tanto tempo
+namorara! o mesmo feitio, as mesmas dimensões, e os mesmos caracteres, outrora
+dourados, indicando o nome do seu proprietário: Pedro Toucard.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui tem, em primeiro lugar, a minha certidão de baptismo, disse o
+provençal; eis aqui, também, diferentes passaportes; e enfim, duas cartas de
+Onésimo... Conhece-lhe a letra?</p>
+
+<p>&mdash;Conheço, respondeu o senhor Germinal, examinando as duas missivas.</p>
+
+<p>Eram curtas; tratavam unicamente de negócios e tinham a assinatura de
+Onésimo Toucard. Ambas as cartas começavam por estas palavras: «Meu querido
+irmão...»</p>
+
+<p>O pai de Rosa abriu uma gaveta, tirou de dentro a carteira do morto, e
+comparou a letra dos<span class="pn">{90}</span> apontamentos com a das cartas.
+Não podia conservar a sombra de uma dúvida.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, disse ele ao provençal, cujos olhares impacientes revistavam todo
+o quarto, como procurando descobrir onde se escondia a herança, reconheço-o por
+irmão e herdeiro de Onésimo Toucard. Só me resta...</p>
+
+<p>&mdash;Entregar-me a herança, interrompeu Pedro, ofegante. Desencante-a pois...
+meu bravo!</p>
+
+<p>&mdash;Permita-me que, primeiro, lhe conte de que morte desgraçada seu irmão
+pereceu.</p>
+
+<p>Ora!... ora!... ora!... é inútil. Não percamos tempo precioso!</p>
+
+<p>&mdash;Entretanto...</p>
+
+<p>&mdash;Que morresse de bexigas, ou tísico, pouco importa. O positivo é que
+morreu; agora vamos às contas...</p>
+
+<p>&mdash;Mas, disse Germinal admirado, preciso de fazer-lhe saber como, e porquê,
+ele me confiou as suas últimas vontades.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, diga lá! Mas seja conciso, com mil bombardas!</p>
+
+<p>O senhor Germinal foi tão conciso, quanto parecia desejá-lo o seu
+interlocutor.</p>
+
+<p>&mdash;Pobre Onésimo! disse Pedro. Acabou mal; lamento-o, mas... era um grande
+traste!</p>
+
+<p>Porém, notando o espanto e estranheza, que produzira no velho uma oração
+fúnebre tão pouco fraternal, apressou-se a acrescentar:<span
+class="pn">{91}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que quer! Nas famílias numerosas, é raro deixar de haver... há sempre
+algum tratante... Mas tratemos agora...</p>
+
+<p>&mdash;Agora, disse o velho suspirando, vou entregar-lhe os valores do defunto.
+</p>
+
+<p>E, proferindo estas palavras, tirou do bolso as notas do banco e depô-las
+sobre a mesa, uma por uma.</p>
+
+<p>A cada macete de dez mil francos, o rosto de Pedro coloria-se um pouco mais.
+</p>
+
+<p>&mdash;Noventa e dois mil francos! exclamou ele afinal, ébrio de alegria. Viva a
+França! e vamos à Bolsa! Com a breca! farão bem em ter cuidado comigo, lá na
+Bolsa!... Se, daqui a seis meses, não possuir dois milhões, consinto em que me
+enforquem!</p>
+
+<p>O senhor Germinal ficou impassível e pensativo ante aquela exuberância de
+júbilo. Para ele estava consumado o sacrifício...</p>
+
+<p>Pedro bateu-lhe no ombro.</p>
+
+<p>&mdash;Não lhe farei a injuria, disse ele maliciosamente, de oferecer-lhe uma
+recompensa...</p>
+
+<p>O senhor Germinal abanou a cabeça.</p>
+
+<p>&mdash;Tanto mais, continuou o manhoso velho, que os interesses deste capital
+devem ter produzido uma continha menos má...</p>
+
+<p>&mdash;Os interesses!... observou o pai de Rosa; que quer dizer com isso? Estes
+valores são os próprios que recebi em depósito; não saíram de minha casa!<span
+class="pn">{92}</span></p>
+
+<p>&mdash;Farsista! Então não os empregou em acções, em rendas, em obrigações, em
+terras, ou em inscrições sobre hipoteca?... em suma, não os fez render de
+alguma forma?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;E guardou-os doze anos, assim... num buraco?</p>
+
+<p>&mdash;Certamente!...</p>
+
+<p>&mdash;Ignorava então, meu camarada, que um capital se duplica ao fim de catorze
+anos?</p>
+
+<p>&mdash;Não o ignorava. Mas acaso tinha eu o direito de dispor do dinheiro de
+outrem?</p>
+
+<p>&mdash;Maganão!... disse Pedro, sorrindo com ar incrédulo.</p>
+
+<p>&mdash;Senhor! exclamou Germinal, rubro de indignação, esquece que, se acaso eu
+fosse um tratante, nada me impedia de apropriar-me da soma toda.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é verdade... respondeu Toucard.</p>
+
+<p>E, olhando em torno de si, acrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;E com efeito, este quarto não é dos mais luxuosos... Decididamente, a
+virtude é uma bela coisa!</p>
+
+<p>E, enrolando as notas com evidente voluptuosidade, continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Visto isso, considero-me seu devedor, e quero pagar...</p>
+
+<p>O senhor Germinal desdobrou um papel e apresentou-o a Pedro.<span
+class="pn">{93}</span></p>
+
+<p>&mdash;O que é? perguntou este último.</p>
+
+<p>&mdash;É a conta circunstanciada do que desembolsei: despesas de anúncios,
+aluguer de carruagens, etc. Total: mil quarenta e dois francos e cinquenta
+cêntimos.</p>
+
+<p>&mdash;Com mil amarras!... Ora vá passear, mais as suas contas de boticário!
+exclamou Pedro; atirando fora o papel. Toma-me por algum sovina?... Aqui tem o
+maço, tire o que quiser.</p>
+
+<p>O senhor Germinal endireitou-se com altivez.</p>
+
+<p>&mdash;Não aceitarei um soldo, sequer, a mais do que se me deve! disse ele.</p>
+
+<p>Pedro Toucard insistiu vivamente. O senhor Germinal resistiu com firmeza.
+Cansado de lutar, o provençal cedeu, porque estava ardendo por ver-se dali para
+fora, e esboçar nova especulação. Reembolsou-o dos mil quarenta e dois francos
+e meio, e tomando nas suas as mãos do velho, disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Meu bom amigo, eu sou espertalhão, e conhecedor de fisionomias. Gosto de
+ler na sua, posto não seja das mais belas... O senhor é teimoso como um burro,
+mas é o homem mais honrado que tenho conhecido. Isto não ficará assim, palavra
+de Pedro! Havemos de tornar a ver-nos! Adeus.</p>
+
+<p>Recitado este discurso, enterrou com um murro o chapéu na cabeça, enfiou as
+notas nos bolsos das suas calças esfarrapadas, e, radiante, com os olhos<span
+class="pn">{94}</span> a cintilar, e a boca entreaberta por um franco sorriso,
+desceu a escada cantarolando.</p>
+
+<p>O senhor Germinal seguiu-o, um pouco pálido ainda, mas desta vez
+tranquilo... e quase alegre também!</p>
+
+<p>Havia exactamente doze anos, que o desastre se dera.<span
+class="pn">{95}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001500000000000000000">XV</a></h1>
+
+<p>À ténue sombra do microscópico jardim, através das moitas de liláses,
+distinguiam-se dois rostos juvenis, que não tinham vontade de rir.</p>
+
+<p>Rosa e André, conchegavam-se um ao outro, como duas aves ao aproximar da
+tempestade. Lendo o anúncio, tinham quase atinado com a verdade, e as últimas
+palavras do velho retumbavam ainda aos seus ouvidos.</p>
+
+<p>Entretanto, não bastavam palavras para desarreigar as firmes raízes da
+esperança, e Rosa encostando a loura cabeça no ombro do seu prometido,
+tranquilizava-se ouvindo-lhe a voz altiva é varonil repetir:&mdash;Amemo-nos, apesar
+de tudo!</p>
+
+<p>Quando o senhor Germinal passou, precedido do triunfante provençal, envolveu
+o lindo par num olhar terno e contristado.<span class="pn">{96}</span></p>
+
+<p>&mdash;Olhe, disse Pedro parando; ali está o que nos rejuvenesce trinta anos, meu
+amigo!...</p>
+
+<p>O senhor Germinal carregou o sobrolho e, esforçando-se por mostrar-se
+severo, bradou:</p>
+
+<p>&mdash;Rosa!</p>
+
+<p>&mdash;Meu pai? respondeu a jovem, estremecendo.</p>
+
+<p>&mdash;Vá já para casa.</p>
+
+<p>Ela ergueu-se com tímida lentidão e, oferecendo a fronte aos lábios de seu
+pai; fitou-o com os seus grandes olhos negros, cheios de súplicas e de
+amargura.</p>
+
+<p>&mdash;Vai para casa, minha filha, emendou mais meigamente o velho. Preciso de
+falar com André.</p>
+
+<p>Rosa afastou-se sem voltar a cabeça. Não queria que lhe vissem as lágrimas.
+</p>
+
+<p>&mdash;E o senhor, balbuciou Germinal, meu querido senhor Sauvain...</p>
+
+<p>Pedro Toucard, que torcia a barba sorrindo, recuou de um salto, como se
+tivesse pisado uma serpente; decompôs-se-lhe a fisionomia e, segurando o senhor
+Germinal pela gola do casaco:</p>
+
+<p>&mdash;Que nome foi o que acaba de pronunciar? articulou ele, passado um momento.
+</p>
+
+<p>&mdash;O do senhor Sauvain.</p>
+
+<p>&mdash;E quem é que se chama assim?</p>
+
+<p>&mdash;Este mancebo.</p>
+
+<p>O provençal saltou por cima da sebe de murta, e achou-se em face de André,
+que mediu com olhar inflamado.<span class="pn">{97}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sauvain!... Pois o senhor chama-se Sauvain?</p>
+
+<p>&mdash;Certamente!...</p>
+
+<p>&mdash;Nasceu perto de Granville?</p>
+
+<p>&mdash;É exacto.</p>
+
+<p>&mdash;E seu pai era marinheiro?</p>
+
+<p>&mdash;Era.</p>
+
+<p>&mdash;A bordo da <em>Ariana</em>, que se perdeu com a carga e tripulação... há
+vinte anos?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, mas porque acaso?...</p>
+
+<p>&mdash;Com mil amarras! com mil bombas! com mil raios! gritou Toucard,
+tornando-se carmesim.</p>
+
+<p>E como sufocasse, arrancou a gravata, rasgou o colete e atirou fora o
+chapéu.</p>
+
+<p>&mdash;E sua mãe? continuou ele ofegante.</p>
+
+<p>&mdash;Minha mãe...</p>
+
+<p>&mdash;Não receberia ela?...</p>
+
+<p>&mdash;O quê?</p>
+
+<p>&mdash;Quero dizer... sua mãe... Onde está sua mãe, senhor?</p>
+
+<p>&mdash;Minha mãe morreu. Conheceu-a, porventura?</p>
+
+<p>&mdash;Eu! exclamou o provençal, nunca a vi.</p>
+
+<p>&mdash;Entretanto...</p>
+
+<p>&mdash;Não, já lho disse; nunca a vi na minha vida!</p>
+
+<p>&mdash;Então teve relações com meu pai?</p>
+
+<p>Toucard não respondeu. A sua agitação atingiu proporções assustadoras.</p>
+
+<p>&mdash;Não! não! mil vezes não! balbuciou ele, tropeçando no chapéu sem reparar;
+tenho de fazer fortuna...<span class="pn">{98}</span> c'os diabos! Mais tarde
+não digo que... mas presentemente...</p>
+
+<p>Interrompeu-se, e vendo ali perto um balde com água, destinada provavelmente
+à rega do jardim, mergulhou dentro dele, por muitas vezes, o seu crânio calvo,
+que ficou vermelho e fumegante.</p>
+
+<p>Depois de refrescado pela imersão, sacudiu-se como um cão molhado, e
+sentou-se num banco para tomar alento.</p>
+
+<p>O senhor Germinal e André observavam-no com crescente estupefacção.</p>
+
+<p>&mdash;Que é isso? que tem?... perguntou-lhes Pedro. Porque olham para mim assim?
+Que disse eu, que tanto os espante?</p>
+
+<p>&mdash;Nada disse por ora, respondeu André, mas peço-lhe que me explique...</p>
+
+<p>&mdash;A explicação será curta, meu rapaz. Encontrei nas minhas viagens um
+marinheiro chamado Sauvain... seu pai, ao que parece... Soube depois que
+morrera num naufrágio: eis o motivo por que o seu nome me abalou. Demais... sou
+propenso à apoplexia... a menor comoção faz-me subir o sangue à cabeça! Mas não
+façam caso... já passou.</p>
+
+<p>O provençal falava com dificuldade, procurando as palavras e pensando noutra
+coisa. As suas feições expressivas revelavam a maior irresolução.</p>
+
+<p>Apesar do banho que se aplicara, corria-lhe o suor da fronte.<span
+class="pn">{99}</span></p>
+
+<p>André Sauvain não se contentou com tão sucinto esclarecimento.</p>
+
+<p>&mdash;Mancebo, lhe disse Pedro Toucard, venha comigo a três passos daqui, quero
+dar-lhe duas palavras.</p>
+
+<p>O pintor seguiu-o, assaz intrigado.</p>
+
+<p>&mdash;Escute-me, meu caro: entrei na posse de fundos com que não contava. O
+senhor vai pôr casa... Se duas ou três notas de mil francos... ou mesmo
+quatro... Sim, se quatro, ou cinco mil francos, lhe podem ser úteis nesta
+ocasião, não faça cerimonia... Hei-los!</p>
+
+<p>E Pedro folheava com mão trémula o maço das notas.</p>
+
+<p>André corou muito, e endireitou-se quanto a sua estatura lho permitia.</p>
+
+<p>&mdash;A que título me faz esse oferecimento? perguntou ele.</p>
+
+<p>&mdash;A título de amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Vimos-nos apenas duas vezes!...</p>
+
+<p>&mdash;A título... de antigo amigo de seu pai.</p>
+
+<p>&mdash;Conhecia-o de leve, segundo disse.</p>
+
+<p>&mdash;Então... a título de gratidão. Fez-me um favor, quando eu precisava... É a
+minha vez agora. Que diabo!...</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço-lhe a intenção, mas recuso.</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?</p>
+
+<p>&mdash;Por muitos motivos, e eis o principal: Sou demasiado<span
+class="pn">{100}</span> pobre para aceitar qualquer empréstimo, não sabendo
+quando poderei pagá-lo.</p>
+
+<p>&mdash;Ora? que importa isso?...</p>
+
+<p>&mdash;Importa-me muitíssimo!</p>
+
+<p>&mdash;Com mil bombas! que esquisitices! e que demónio de casa esta, onde se
+recusa aceitar o que tantos outros...</p>
+
+<p>Um relógio da vizinhança vibrou no espaço.</p>
+
+<p>&mdash;Uma hora! exclamou Pedro, cujas ventas se dilataram, e cujo olhar faiscou.
+A hora da Bolsa! Vamos, Pedro Toucard! em campo, meu velho! Vais aventurar-te
+sobre um terreno movediço... Prova a essa súcia de imbecis que lhe és superior
+no artigo <em>inteligência</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Um momento, senhor, disse André; rogo-lhe que me explique...</p>
+
+<p>&mdash;Coisa nenhuma, neste momento!...</p>
+
+<p>&mdash;Aonde vai a correr?</p>
+
+<p>Pedro apanhou do chão o chapéu, amolgado em dez partes, brandiu-o com gesto
+majestoso, e partiu exclamando:</p>
+
+<p>&mdash;A casa do meu banqueiro!</p>
+
+<p>E desapareceu.<span class="pn">{101}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001600000000000000000">XVI</a></h1>
+
+<p>&mdash;É fora de dúvida, disse o pintor, que este aventureiro teve relações com a
+minha família. Mas, porque fará mistério disso? É, na verdade, um homem
+surpreendente! Que impaciência, que febre de agiotagem! Veja como corre!... É
+um furacão!</p>
+
+<p>&mdash;Sim... um furacão, murmurou Germinal, passando amigavelmente o braço pelo
+de Sauvain, um furacão que derrubou os nossos <em>castelos no ar</em>! Entremos
+em sua casa: preciso de falar-lhe. André obedeceu, cerrando os punhos de raiva.
+</p>
+
+<p>Adivinhava o fim da conferência, que iam ter, e, já ardendo em indignação,
+revestia-se de uma tríplice couraça para entrar na luta.</p>
+
+<p>Pela sua parte, o senhor Germinal também não se sentia em leito de rosas.
+Assentou-se, tossiu, esfregou as mãos, piscou os seus olhos de peixe
+cozido,<span class="pn">{102}</span> e antes de tomar a palavra, suspirou cinco
+ou seis vezes, com intervalos.</p>
+
+<p>Dava-lhe em cheio a luz no crânio, cor de ferrugem, e essa circunstância fez
+notar a André, não sem terror, que aquela caixa ossuda, estreita e deprimida,
+tinha bem característica a bossa da teima invencível.</p>
+
+<p>O senhor Germinal começou pela narração do seu triste encontro com Onésimo
+Toucard; contou a vida que levara durante onze anos, as suas más tentações
+reprimidas, as suas esperanças, os seus receios e os seus desalentos.</p>
+
+<p>Quando acabou, André disse-lhe friamente:</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem: o dinheiro foi reembolsado, a sua consciência ficou em repouso;
+está tudo o melhor possível. Porém devia ter a certeza de que nós, mesmo depois
+de casados e em posse dessa fortuna, a entregaríamos sem hesitação ao seu
+legítimo proprietário.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho a menor dúvida, retrucou o senhor Germinal; sei que é um mancebo
+digno. Quanto melhor o conheço, mais o aprecio... Teria orgulho em chamar-lhe
+meu filho...</p>
+
+<p>André tornou-se pálido, mas fingiu não ter ouvido aquele condicional.</p>
+
+<p>&mdash;Agora, senhor, disse ele sorrindo, conversê-mos um pouco sobre coisas mais
+importantes; voltemos ao que esta manhã se combinou...<span
+class="pn">{103}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que foi o que se combinou? disse o viúvo, corando.</p>
+
+<p>&mdash;Que hoje mesmo se fixaria a época do meu casamento com Rosa.</p>
+
+<p>O senhor Germinal levantou-se bruscamente.</p>
+
+<p>&mdash;Não me entendeu, pelo que vejo?</p>
+
+<p>&mdash;Peço perdão: entendi perfeitamente que lhe confiaram um depósito, e que o
+restituiu. Mas, que tem de comum uma acção tão simples com o facto, muito mais
+importante, de que dependerá o nosso futuro?</p>
+
+<p>&mdash;Não há surdos piores do que os que não querem ouvir! replicou asperamente
+o senhor Germinal. Aquela soma garantia-me a felicidade material de minha
+filha...</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor, porque bem sabia que, de um momento para o outro, a podiam
+reclamar. Para quando prefixa a bênção nupcial?</p>
+
+<p>&mdash;Para as calendas gregas! gritou o senhor Germinal, exasperado por aquela
+obstinação sistemática. Como ousa o senhor pretender associar à sua a sorte de
+Rosa? Onde estão os seus meios de subsistência? Há-de ela viver neste cacifo?
+Virão os filhos, e com eles as dificuldades, os expedientes, as dívidas, os
+cuidados, a doença... a morte!</p>
+
+<p>&mdash;Nego-o energicamente! retorquiu André, não menos furioso. Mas, embora o
+senhor tivesse carradas de razão, era tarde para desdizer-se. Se este<span
+class="pn">{104}</span> consorcio lhe desagradava, para que veio, há quatro
+meses, procurar-me ao fundo deste cacifo, como acaba de chamar-lhe?... Porque
+incitou um amor, que, entregue a si mesmo, talvez houvesse sido sufocado?</p>
+
+<p>&mdash;Rosa assim o exigia... Rosa amava-o...</p>
+
+<p>&mdash;E pensa que deixará de amar-me por lho ordenar?</p>
+
+<p>&mdash;Ignoro-o, mas não casará consigo.</p>
+
+<p>&mdash;Ora, senhor!... se o casamento fosse só permitido às pessoas ricas,
+extinguir-se-ia o sol.</p>
+
+<p>&mdash;Pois que se extinga. Não casará com minha filha; é escusado pensar mais
+nisso.</p>
+
+<p>&mdash;Não pensar mais nisso!... Imagina que um sentimento, igual ao meu, se
+aniquila à vontade, como a chama de uma vela! Rosa é o sangue das minhas
+artérias, a seiva da minha mocidade, o paraíso da minha alma, a primavera do
+meu coração!... Peça-me que viva sem respirar, mas não ouse pedir-me que
+esqueça Rosa!</p>
+
+<p>&mdash;Peço-lho, e, sendo preciso, ordeno-lho!... Nunca consentirei em vê-la
+miserável! A imagem de sua mãe... tenho-a sempre diante dos olhos! Não casará
+com minha filha!</p>
+
+<p>&mdash;Homem teimoso! Quem lhe disse que, mesmo no seio da abundância e do luxo,
+sua mulher teria vivido? Quem lhe disse que ela não encerrava no peito o gérmen
+de uma doença mortal? E com que<span class="pn">{105}</span> direito aquilata
+pelo seu passado o meu futuro? Por ventura os recursos de um amanuense,
+acorrentado a um trabalho estúpido, e cujo ínfimo salário nunca aumenta, embora
+trabalhe noite e dia, podem comparar-se aos de um artista, moço, corajoso,
+inteligente e forte?</p>
+
+<p>&mdash;Não ponho em dúvida a sua coragem, nem o seu talento: mas presumo que,
+quando os resultados forem apreciáveis, já Rosa terá os cabelos brancos. Não
+possuirá minha filha, senhor Sauvain.</p>
+
+<p>&mdash;Possui-la-hei! gritou o pintor... Juro-o!</p>
+
+<p>&mdash;Não gracejemos, peço-lho!... Ouça, senhor André: vim falar-lhe, movido por
+verdadeira simpatia. Lamento-o e estimo-o. Dê-me a sua palavra de honra de que
+não tentará ver, nem falar a minha filha, ou fazer-lhe acalentar ilusões
+inúteis. Com essa condição...</p>
+
+<p>&mdash;Nunca!</p>
+
+<p>&mdash;Nesse caso, estão quebradas as nossas relações.</p>
+
+<p>&mdash;É a sua terminante decisão?</p>
+
+<p>&mdash;É.</p>
+
+<p>&mdash;Basta. Graças a Deus há leis em França; não se coage ninguém. Rosa e eu
+esperaremos...</p>
+
+<p>&mdash;A minha morte?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor; a maioridade de sua filha.</p>
+
+<p>&mdash;Seja assim, disse o senhor Germinal. Mas, até então, desculpará que eu lhe
+feche a minha porta,<span class="pn">{106}</span> e terá a bondade de renunciar
+à conversação de minha filha.</p>
+
+<p>&mdash;Engana-se! vê-la-hei, falar-lhe-hei, ama-la-hei e casarei com ela; mesmo
+contra sua vontade!</p>
+
+<p>&mdash;Tomarei as medidas necessárias para obstar a essas loucuras.</p>
+
+<p>E o senhor Germinal, erguendo-se com um gesto ameaçador, saiu do
+<em>atelier</em>.</p>
+
+<p>Apenas transpôs o liminar, André correu atrás dele. Arrependia-se da sua
+arrogância. Queria lançar-se-lhe aos pés e enternecê-lo à força de súplicas;
+mas, quando ia a alcançá-lo, as abas flutuantes de um enferrujado casaco
+abriram-se como duas asas, e o senhor Germinal, veloz como uma seta,
+encaixou-se em casa e trancou ruidosamente a porta. André voltou desanimado; ao
+desânimo seguiu-se o furor; ao furor, o desespero; depois... os projectos
+extremos, as resoluções insensatas, e até uns vagos desejos de lançar fogo ao
+edifício, precipitar-se através das ruínas fumegantes, estreitar Rosa nos
+braços e fugir com ela... fosse para onde fosse!...</p>
+
+<p>André Sauvain mordia os dedos e andava de um para outro lado, como um tigre
+na jaula. Perto da noite, não podendo conter-se, trepou quatro a quatro a
+escada do que recusava ser seu sogro; tocou à campainha, primeiro timidamente,
+depois com mais força.</p>
+
+<p>Nenhuma resposta.<span class="pn">{107}</span></p>
+
+<p>Tocou outra vez, bateu, suplicou, disse quem era, tornou a tocar, atroou o
+patamar com as suas imprecações. Mas ninguém apareceu, a não ser um vizinho
+desagradável, que resmungou vagamente as palavras: comissario de policia.</p>
+
+<p>Depois disto, André desceu ao <em>atelier</em>, atirou consigo para cima do
+canapé, estorcendo-se e invocando Rosa.</p>
+
+<p>Após muitas horas deste exercício incoerente, um colosso ficaria prostrado.
+Havia muito que era noite. O pintor adormeceu num sono febril, assaltado de
+sonhos extravagantes, e interrompido de dez em dez minutos. Vinte vezes acordou
+em sobressalto para ver se o dia não surgira ainda.</p>
+
+<p>Pela madrugada julgou ouvir ao longe a voz da sua noiva, que, com queixumes
+angustiosos, o chamava por entre soluços. Correu à porta, e, com os cabelos
+eriçados e o ouvido à escuta, olhou para fora.</p>
+
+<p>Já nascera o sol; ténue claridade se coava a custo através das nuvens
+escuras; a chuva caía vertical e em grossas gotas, marulhando no pátio
+pedregoso e nos canteiros do jardim, que exalavam um odor terroso. Entretanto a
+casa estava inteiramente tranquila, e as janelas de Rosa, hermeticamente
+fechadas, não deixavam filtrar o mínimo raio de luz.</p>
+
+<p>O frio da manhã atenuou a sobre-excitação febril de André; tornou a
+deitar-se, vestido como estava,<span class="pn">{108}</span> dizendo consigo...
+que ninguém já sequestra raparigas; que de certo Rosa tomaria ar de vez em
+quando; que ele aproveitaria essas ocasiões, mesmo nas barbas do senhor
+Germinal, e finalmente que era tolo em preocupar-se assim. Com estas reflexões,
+adormeceu sossegadamente, e tão deveras, que a senhora Poussignol, na sua
+habitual visita matutina, não logrou despertá-lo inteiramente.</p>
+
+<p>&mdash;E esta!</p>
+
+<p>Tal foi a exclamação, que retumbou aos ouvidos de Sauvain. Semi-abriu os
+olhos e contemplou a porteira, que estava de pé, em frente dele, com o bigode
+eriçado, com os punhos fincados nas ancas, e firmada nos seus sapatos de
+ourelo, como um pato nos seus pés espalmados.</p>
+
+<p>&mdash;Então, disse ela, não o tinha eu prevenido!...</p>
+
+<p>&mdash;De quê?</p>
+
+<p>&mdash;De que fazia muito mal em frequentar aquela gente...</p>
+
+<p>&mdash;Que gente?</p>
+
+<p>&mdash;A família Germinal.</p>
+
+<p>André sentou-se de súbito no canapé.</p>
+
+<p>&mdash;Faça favor de falar mais respeitosamente dos meus vizinhos.</p>
+
+<p>&mdash;Não lhes falto ao respeito, mas isso não impede que eu volte à minha
+primeira opinião, de que aquele homem é um antigo criminoso.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda a mesma tolice!<span class="pn">{109}</span></p>
+
+<p>&mdash;Tolice!... A prova é que fugiu, e a polícia vai-lhe no encalço.</p>
+
+<p>&mdash;Do senhor Germinal?... Você endoideceu!</p>
+
+<p>&mdash;Ah, endoideci!... Pois bem! quando souber o que aconteceu...</p>
+
+<p>&mdash;O que foi? Vamos, explique-se! bradou André com impaciência.</p>
+
+<p>&mdash;Esta manha, às quatro horas, ainda não era dia claro, bateram nos vidros
+do meu quarto. Quem é? perguntei eu.&mdash;Sou eu, Germinal, responderam. Era já
+caso para admirar!... pois não era? Um homem que, durante doze anos, não deitou
+o nariz fora da porta, e que hoje, sem mais nem menos, vai passear antes de
+luzir o buraco!... Levantei-me, acendi a candeia, e que vejo?... O senhor
+Germinal, com a mala debaixo de um braço e a filha pelo outro, chorando, a
+pobrezita, que enternecia um rochedo! Que deseja? perguntei eu. Em resposta,
+paga-me o mês por inteiro, pespega-me dez francos na mão (primeiro dinheiro
+dele, a que vejo a cor&mdash;sempre é bom saber-se!) participa-me que vai viajar, e
+não sabe quando voltará; mas que me não inquiete eu pelos móveis, porque
+brevemente os mandará buscar. Então, a menina Rosa, que continuava a chorar,
+tentou dizer-me duas palavras em voz baixa, porém o pai levou-a de repelão.
+Puxei a corda e... boas noites!</p>
+
+<p>André parecia uma estátua.<span class="pn">{110}</span></p>
+
+<p>&mdash;Partiu!... partiu!... Rosa partiu!... murmurou ele afinal; é impossível!
+</p>
+
+<p>&mdash;A prova é que tenho aqui a chave da casa.</p>
+
+<p>O pintor arrancou a chave das mãos da senhora Poussignol, que ficou pasmada.
+Dez segundos depois, penetrava em casa do seu velho vizinho.</p>
+
+<p>O quarto do senhor Germinal estava limpo e em ordem, como sempre; a cama não
+fora desfeita.</p>
+
+<p>André, lívido, gelado, empurrou uma porta, a do quarto de Rosa. Entrou nele
+com passo de fantasma; mas, quando percorreu com a vista aquele mimoso retiro
+abandonado, quando aspirou o suave perfume de violetas, que lhe recordava a
+ausente, encostou-se à parede, inclinou a cabeça sobre o peito e perdeu os
+sentidos.<span class="pn">{111}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001700000000000000000">XVII</a></h1>
+
+<p>Durante quinze dias, André Sauvain vagueou pelas ruas de Paris, como um cão
+que perdera seu dono.</p>
+
+<p>Quem visse aquele gigantesco moço, com a fisionomia espantada, os cabelos
+flutuantes, o bigode arrepiado, e o vestuário em desalinho, correr como um
+doido atrás de qualquer transeunte, mirá-lo em face, e logo voltar-lhe as
+costas para correr atrás de outro, teria acusado mentalmente de negligencia os
+guardas e o porteiro de Bicêtre.</p>
+
+<p>Naquele lapso de tempo, um desconhecido visitou, por duas vezes no mesmo
+dia, a casa do senhor Germinal. Da primeira visita, examinou escrupulosamente
+os móveis; da segunda, levou-os, depois de exibir um acto de venda
+perfeitamente em regra. Pode presumir-se como o pintor se agarrou, com ambas as
+mãos a essa suposta tábua de salvação! Interrogou,<span class="pn">{112}</span>
+suplicou, afagou, ameaçou, e maçou de mil maneiras o infeliz comprador para
+extorquir-lhe a nova residência do fugitivo, ou ao menos algum indício, que o
+guiasse na busca de Rosa.</p>
+
+<p>Todavia, a vítima não lhe fornecera o menor esclarecimento. Era um ebanista
+do <em>faubourg</em> Saint-Antoine; comprara em globo a mobília do senhor
+Germinal, que lhe anunciou estar em vésperas de empreender uma longa viagem.
+</p>
+
+<p>Podiam cortar o ebanista em mil pedaços, ou oferecer-lhe os tesouros de
+Golconda, que ele não saberia dizer mais nada.</p>
+
+<p>Como o senhor Germinal pagara religiosamente o aluguer da casa, ninguém opôs
+dificuldades à remoção dos moveis. André seguiu-os com os olhos até à esquina
+da rua; levavam-lhe a última esperança.</p>
+
+<p>Depois recomeçou as suas furibundas correrias. O comer, o beber e o dormir,
+foram tratados por ele como importunos credores, que se deixam gritar e a quem
+se não paga. Mas a natureza tem os seus limites; este estado de exaltação
+originou uma febre cerebral, e o pobre André desceu rapidamente o declive que
+conduz ao cemitério.</p>
+
+<p>Felizmente, sua mãe moldara-o em bronze: a doença apenas o apalpou de leve,
+e, não obstante a senhora Poussignol ter chamado dois médicos, o pintor
+escapou. O seu físico restabeleceu-se à<span class="pn">{113}</span> custa do
+moral: André, sempre profundamente melancólico, atirou-se ao trabalho como quem
+se atira a um poço.</p>
+
+<p>Este género de suicídio não era dos menos eficazes: André prosseguia nele
+com uma pertinácia de mau agouro, e qualquer outro convalescente, menos bem
+construído do que ele, não duraria três semanas com semelhante afã.</p>
+
+<p>Entretanto, onde ele esperava encontrar a morte, encontrou um paliativo. A
+fadiga do corpo adormentou-lhe, pouco a pouco, a dor do espírito. E a arte
+ganhou com isso: a pintura de André ressentiu-se das tribulações da sua vida.
+Desenvolveu nos seus quadros um vigor de colorido, uma fúria de concepção, um
+arrojo de pensamentos, uma originalidade de meios, que não teriam de certo
+brotado das plácidas inspirações de um espírito tranquilo. O homem feliz já não
+existia: revelou-se o artista.</p>
+
+<p>Enfim, o acaso também entrou em cena. Como André, a tudo indiferente, não
+corria atrás do dinheiro nem da fama, aconteceu naturalmente que a fama e o
+dinheiro correram atrás dele.</p>
+
+<p>Surgiram no horizonte sinais precursores de gloria. O mercador de quadros,
+que até ali o explorara sem vergonha, e lhe comprara muitas telas por preços
+fabulosamente baixos, aumentou-os... oh, prodígio!... e aumentou-os de seu moto
+próprio.<span class="pn">{114}</span></p>
+
+<p>Fez mais ainda: concordou, sem hesitar, em que o nome de Sauvain ecoava já
+na opinião de alguns ricos amadores, e que, se André quisesse, o oiro, de ora
+em diante, seria para ele uma realidade.</p>
+
+<p>O pintor encolheu os ombros, pagou as dívidas que contraíra durante a
+doença, e voltou à sua lida obstinada.</p>
+
+<p>O verão acabou lentamente. A julgar pelo número de encomendas, os créditos
+de André não diminuíam; apenas concluído um dos seus quadros, era logo vendido.
+O seu <em>Faust au sabbat</em> tornou-se propriedade de um capitalista
+misterioso, que o pagou muito caro e desejou conservar o anónimo.</p>
+
+<p>Noutro tempo, aquela veia de bom êxito teria enlevado Sauvain; agora era-lhe
+mais um motivo de ironia e de amargura. Pensava em Rosa perdida para ele, em
+Rosa talvez infiel, em Rosa que o esquecia, pois nem sequer lhe escrevera, e
+repetia a si mesmo: «De que me serve isto?»</p>
+
+<p>Contudo, a abastança substituíra a pobreza; nada impedia André de trocar o
+seu escuro cubículo da rua dos Mártires por um <em>atelier</em> mais cómodo e
+decente; todavia não o quis deixar. Invisíveis cadeias o ligavam ali. Alugara
+os dois quartos, habitados anteriormente pela sua Rosa e pelo pai. Podia acaso
+afastar-se daquela janela, onde ela lhe aparecera na flor da sua radiante
+beleza? Podia afastar-se daquele jardim, onde ela lhe fizera a<span
+class="pn">{115}</span> primeira confissão do seu amor?... daquele banco, onde
+se sentava a par dele?... daquela casa, onde lhe decorreram horas tão
+venturosas?...</p>
+
+<p>Ficou, e continuou a torturar a alma na saudade, como torturava o corpo na
+fadiga.</p>
+
+<p>Porém, quando veio o outono, quando as árvores, que vira frondosas e
+virentes, amareleceram e deixaram cair as folhas... então abandonou-o a
+coragem: à sua fictícia actividade seguiu-se uma indolência invencível; como o
+trabalho o não matara, amaldiçoou o trabalho e aborreceu-o; pálido, enervado,
+emagrecido, com os olhos brilhantes de febre, sem forças, nem energia, passou
+os seus dias, inúteis, ruminando a própria dor.</p>
+
+<p>Como as folhas caíam das árvores, uma a uma, assim se desprendiam as suas
+quimeras. Crenças de gloria e crenças de amor... todas iam pelo mesmo caminho.
+Da sua mocidade florescente, restava apenas o esqueleto.</p>
+
+<p>Era a estação cismadora, em que a terra e o sol confundem num beijo os seus
+últimos adeuses, em que o céu se vela num crepe cor de opala, bruma
+transparente, que o voo das andorinhas rasga ao partirem. Era a estação
+temerosa, em que o enfermo melancólico pressente o seu próximo fim, e busca um
+seio amigo, onde reclinar a fronte.</p>
+
+<p>E André, pressentindo também o inverno para a sua alma, buscava ao redor de
+si um conforto, uma<span class="pn">{116}</span> dedicação, uma simpatia...
+Mas... debalde: nada encontrava... nem um ente, a quem amar! No seu passado, no
+presente ou no futuro, nenhuma ligação, nenhuma alegria, nenhuma esperança! Em
+tudo o deserto, em tudo o vácuo, em tudo o desalento!...</p>
+
+<p>Então, prostrado de corpo e desfalecido de espírito, com o peito entumecido
+de lágrimas, exalou instintivamente o queixume habitual da criança em aflição.
+Bem como a pérola, lançada nas ondas, volta à superfície, assim uma palavra de
+há muito esquecida, subindo do fundo da sua fraqueza, do abismo do seu
+isolamento, lhe vibrou nos lábios: «Minha mãe!»</p>
+
+<p>Oh, maternidade! afeição puríssima e inexcedível, consolação sobre-humana,
+único amor desinteressado, único apoio... que resiste quando todos os outros se
+nos despedaçaram nas mãos, e ainda quando os mais indeléveis sentimentos se
+esvaíram em fumo! Maternidade! santa encarnação do sacrifício! O homem só te
+aprecia quando te perde!</p>
+
+<p>Oh! se sua mãe vivesse!... Como iria refugiar-se no seu seio! Como ela teria
+derramado naquele coração o bálsamo da sua ternura! Como o embalaria com
+aqueles misteriosos acentos, que as mães tiram do vocabulário dos anjos!...</p>
+
+<p>Ai dele! sua mãe era morta!</p>
+
+<p>Àquela recordação pura, tanto tempo abandonada<span class="pn">{117}</span>
+por amor de uma ingrata, André corou de remorsos.</p>
+
+<p>Lembrou-se do tempo, em que o seu máximo desejo fora cobrir com uma campa as
+cinzas da viúva, e o seu mais acariciado projecto restaurar as ruínas da
+casinha onde vivera com ela.</p>
+
+<p>O oiro necessário possuía-o agora.</p>
+
+<p>Que significava, pois, o ficar ali covardemente suspirando? A morta
+esperava.</p>
+
+<p>&mdash;Coragem! exclamou André. A caminho!...</p>
+
+<p>E, numa linda manhã de Setembro, partiu com a mala aos ombros, levando sob a
+blusa de linho os seus modestos haveres, e sentindo amarga satisfação em pensar
+que ia morrer no tugúrio em que nascera. Para cumprir escrupulosamente o seu
+voto, empreendeu a viagem a pé, como no tempo em que era tão alegre, quanto
+pobre. Nesse tempo, sua mãe não tinha rival no coração do pintor; a sua imagem
+adorada sorria-lhe de entre as árvores do caminho. Agora não acontecia o mesmo:
+a seu pesar, uma outra imagem substituía a primeira. Queria chorar pela santa
+guarda da sua infância, e chorava pela fada da sua juventude, Rosa! Debalde
+concentrava o pensamento no termo da sua peregrinação; a cada passo voltava
+insensivelmente a cabeça para trás. Em vão evocava o semblante frio e macilento
+da morta; a memoria só lhe reproduzia um rosto animado, com olhos negros e
+cabelos louros...<span class="pn">{118}</span></p>
+
+<p>Assim caminhou André por muitos dias, descansando nas estalagens dos
+almocreves, bebendo na palma da mão, dormindo no meio dos campos matizados de
+amarelo e púrpura.</p>
+
+<p>Desses esplendores do outono, nada notou... ele, o artista, o entusiasta!
+Nada o comoveu; nem o horizonte, nem a verdura, nem os efeitos da luz, nem a
+poesia campestre que a terra emanava por todos os seus poros, no intervalo
+abençoado, que vai da ceifa à vindima. Somente, quando por acaso descobria dois
+namorados, ocultos entre as ervas, uma dor atroz lhe apertava a garganta, e
+fugia blasfemando.</p>
+
+<p>Enfim, uma tarde, à hora do crepúsculo, André atravessou a última aldeia,
+que o separava de sua casa: os camponeses sentados à soleira das suas portas,
+as velhas fiando na roca, as crianças semi-nuas, as frescas mocetonas de riso
+sonoro, acompanharam-no com olhar curioso, perguntando a si mesmos para onde se
+dirigiria aquele forasteiro, tão pálido e com os pés embranquecidos da poeira.
+</p>
+
+<p>Uma hora depois, André avistava o seu casebre.<span class="pn">{119}</span>
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001800000000000000000">XVIII</a></h1>
+
+<p>Lá estava ainda, mudo, negro e meio-derrocado, ao cimo da colina. O vento da
+Costa não o derrubara de todo.</p>
+
+<p>Os seus contornos desenhavam-se vigorosamente no acinzentado do céu, com o
+seu tecto de verde musgo, e as árvores desfolhadas do velho jardim. Uma brisa
+áspera, precursora do inverno, fazia bater as portas das janelas, arrancadas
+dos seus gonzos; e aranhas enormes urdiam tranquilamente as suas teias nos
+buracos dos vidros quebrados.</p>
+
+<p>Mais adiante estendia-se, a perder de vista, o vasto oceano. Balouçava-se
+pacífico, com o seu monótono e solene murmúrio: da superfície das ondas
+elevava-se lentamente um intenso nevoeiro, qual gigantesco sudário.</p>
+
+<p>André parou, possuído de religiosa comoção; abriu a porta carunchosa e
+entrou em casa. Um<span class="pn">{120}</span> odor indefinível se exalava
+daquele recinto, onde ninguém penetrara depois da morte de sua mãe. À luz
+indecisa do dia, que acabava, André pôde distinguir o grande leito de colunas,
+com os seus cortinados de ramagens e flores fantásticas, a arca de nogueira, o
+crucifixo com palmas bentas, os escabelos maciços, e as redes da pesca, herança
+de seu pai. Sobre a mesa, via-se ainda uma tapeçaria por acabar. Parecia que a
+obreira saíra de casa... momentos antes.</p>
+
+<p>André beijou aquele pedaço de estofo, que as mãos de sua mãe tinham bordado.
+</p>
+
+<p>Depois fechou a porta e sentou-se pensativo junto da chaminé. E aí,
+mergulhado nas trevas, que rapidamente aumentavam, com os olhos fitos na
+lareira vazia, transportou-se em espírito ao sombrio passado.</p>
+
+<p>O marulhar cadente do oceano acompanhava-o na sua tristeza. Ao menor
+estalido do vigamento, André comprazia-se em fantasiar que sua mãe estava ali;
+que, terna e risonha, se aproximava com passos ligeiros; e que ele ia sentir na
+fronte o doce contacto dos seus lábios...</p>
+
+<p>Entregue completamente às suas recordações, dizia de si para consigo, que,
+se Deus recompensa o martírio, a pobre mulher devia ser bem feliz no outro
+mundo.</p>
+
+<p>O pintor não confessara tudo a Rosa.<span class="pn">{121}</span></p>
+
+<p>Filha de um rico rendeiro, cortejada pelos melhores proprietários dos
+arredores, a mãe de André preferira-lhes Sauvain, um simples pescador da costa.
+Ao cabo de um ano de vida conjugal, esse homem enfastiara-se dela; maltratou-a,
+desbaratou em deboches e embriaguez, quanto possuíam, e afinal desapareceu,
+abandonando à miséria a esposa e o filho recém-nascido.</p>
+
+<p>Três anos depois, soube ela simultaneamente, do seu alistamento a bordo da
+<em>Ariana</em>, e da perda daquele navio com toda a tripulação.</p>
+
+<p>Bela e virtuosa, fácil lhe teria sido tornar a casar. Mas... idolatrava seu
+filho, e temia impor-lhe um tirano. Além disso, não obstante as brutalidades de
+Sauvain, não cessara de ama-lo. Dedicou à sua memoria um culto, aliás pouco
+merecido, e conservou-se viúva.</p>
+
+<p>Então começou para ela uma vida heróica, toda de sacrifícios e abnegação.
+Privou-se de comer e de dormir, para poder dar a seu filho uma educação
+conveniente; desejava-lhe uma carreira modesta, um emprego que o fixasse em
+Granville, a dois passos da sua casa natal, perto de si enfim...</p>
+
+<p>Mas André iludiu aquele plano materno. Atormentava-o uma inquietação
+incompreensível, tinha sede de movimento e de espaço; começavam a nascer as
+suas asas de artista... Não tinha ainda doze anos, quando um escultor, passando
+por ali, o<span class="pn">{122}</span> encontrou, e apreciando a sua
+inteligência precoce, propôs-lhe levá-lo consigo. André bateu as palmas de
+alegria; e a viúva, engolindo as lágrimas, deixou-o ir.</p>
+
+<p>Alguns meses depois, chamou-o ela a toda a pressa: André veio logo, mas
+chegou só a tempo de assistir-lhe ao enterro.</p>
+
+<p>Aquela súbita doença, aquela morte inesperada, fulminaram a criança de
+surpresa e terror; interrogou os que tinham assistido a sua mãe, mas apenas
+puderam responder-lhe que um dia, ouvindo em casa da viúva um grito estridente,
+acudiram e encontraram-na pálida e trémula, com o rosto desfigurado,
+segurando-se a um móvel para não cair no chão. Por um prodígio de coragem,
+conseguiu ainda escrever duas linhas a seu filho; deitaram-na na cama, pediu um
+padre, e expirou no dia seguinte. Não podia duvidar-se de que, mais uma
+desgraça pousara a sua mão de ferro sobre aquela humilde existência... Que
+desgraça fora, nunca o soube André.</p>
+
+<p>Quantas vezes, desde então, torturara ele o espírito para penetrar o
+sinistro enigma?</p>
+
+<p>Naquele momento ainda, decorridos tantos anos, sozinho entre aquelas paredes
+mudas, ora aglomerava, ora repelia, e logo reconstruía, na sua imaginação
+ardente, mil hipóteses contraditórias; e as rajadas impetuosas do vento,
+abalando o tecto,<span class="pn">{123}</span> sucediam-se, como gargalhadas de
+escárnio, mofando de suas loucas conjecturas...</p>
+
+<p>Entretanto adiantava-se a noite, e pelas mil fendas do casebre filtrava-se
+glacial humidade. André, transido de frio, ergueu-se enfim às apalpadelas,
+acendeu luz, dirigiu-se a uma pequena carvoeira contígua, e aí ajuntou algumas
+achas, que dispôs na lareira.</p>
+
+<p>Tentou fazer uma boa fogueira, mas a tarefa não era fácil.</p>
+
+<p>Um montão de cinzas, extintas havia doze anos, obstruía a chaminé. O pintor
+quis desvia-las; porém, ao enterrar a pá, tocou num objecto duro, resistente,
+metálico, que não pôde logo adivinhar o que fosse. Tirou-o e limpou-o ao forro
+da blusa.</p>
+
+<p>Era uma chave ferrugenta, de mui exígua dimensão e de forma particular.
+Evidentemente só podia pertencer a um pequeno cofre, ou a um indispensável de
+mulher.</p>
+
+<p>André olhou em volta de si, mas não descobriu nenhum utensílio daquele
+género. Atirou com a chavinha para cima da mesa e acendeu a lenha, que começou
+a crepitar.</p>
+
+<p>O velho recinto iluminou-se de alegre claridade. O pintor tentava reatar o
+fio dos seus pensamentos, mas debalde; a seu pesar, a pequena chave
+intrigava-o; não sei que vaga intuição lhe segredava ao ouvido que, entre
+aquela chave e o mistério<span class="pn">{124}</span> que procurava desvendar,
+havia talvez íntima relação...</p>
+
+<p>De repente, à força de a virar e revirar nos dedos. Lembrou-se de haver
+brincado em criança com uma caixinha, habilmente coberta de conchas
+multicolores, como muitas que se vendem em certos portos de mar.</p>
+
+<p>Sua mãe apreciava-a muito: fora um presente do marido, que lha comprou na
+feira de Granville... Conservava-a como uma relíquia, e nela guardava o que
+tinha de mais precioso. A caixa existiria ainda?</p>
+
+<p>André começou a procurá-la, e, sempre guiado pelas suas recordações,
+descobriu-a sobre um resto de roupa branca, que ficara a um canto da arca de
+nogueira. Tomou-a nas mãos e, pelo seu pouco peso, julgou que estava vazia.
+Contudo meteu a chave na fechadura.</p>
+
+<p>A caixa abriu-se; continha apenas um papel.</p>
+
+<p>Era uma carta aberta. O sobrescrito, matizado pelos selos da posta inglesa,
+indicava a procedência de Liverpool.</p>
+
+<p>Durante alguns minutos, o pintor ficou imóvel, perplexo, comovido, em frente
+daquele escrito, que sem dúvida encerrava o segredo da morte de sua mãe.</p>
+
+<p>Contudo sentou-se, aproximou a luz, desdobrou a missiva, e buscou
+primeiramente a assinatura.<span class="pn">{125}</span> Ao vê-la,
+escapou-se-lhe dos lábios um grito de surpresa.</p>
+
+<p>No fim da terceira página de uma caligrafia incorrecta mas de traços
+vigorosos, desenhava-se em letras enormes, o nome de Pedro Toucard!</p>
+
+<p>Depois, André leu o que se segue:</p>
+
+<p>«Liverpool, 4 de Maio de 1842.&mdash;Minha senhora: O meu nome, embora lhe seja
+desconhecido, é o de um homem, que a lamenta e lhe dedica sincero interesse.
+Julga poder provar-lho, e cumprir ao mesmo tempo um dever, informando-a de uma
+particularidade que, sem isso, ignoraria sempre.</p>
+
+<p>«Há nove anos, que a senhora chora Onésimo Sauvain, seu marido; porém
+Onésimo Sauvain não morreu.</p>
+
+<p>«Quando a <em>Ariana</em> naufragou, era eu passageiro a bordo daquele
+navio, do qual ele era marinheiro. Só eu e ele, dentre toda a tripulação,
+tivemos a boa fortuna de escapar.</p>
+
+<p>«Arrojados a uma praia pouco hospitaleira, igualmente esfaimados, igualmente
+desprovidos de recursos, associámos os nossos destinos. Seu marido é um
+malandro, mas inteligente e resoluto. Ajudou-me nas minhas empresas, e,
+navegando de conserva, levámos a cabo não poucas especulações lucrativas.</p>
+
+<p>«Desde o princípio, e sem dizer-me a razão, manifestava ele o desejo de
+passar por morto; anunciou-se por toda a parte como meu irmão, e<span
+class="pn">{126}</span> de Onésimo Sauvain, que era, transformou-se em Onésimo
+Toucard. Ora eu, que não sou tolo, não tardei em fazê-lo dar à língua.
+Confessou-me que deixara por aí... a qualquer canto; uma mulher e um filho, e
+que não tinha grande empenho em tornar a vê-los. A coisa pareceu-me ignóbil;
+disse-lho claramente, porém ele mandou-me para o diabo. Entretanto persegui-o
+com tais instâncias e ameaças de desmentir o boato da sua morte, que me
+prometeu, não sem repugnância, escrever-lhe logo que tivesse adquirido meios
+suficientes para viverem cómoda e honradamente.</p>
+
+<p>«Hoje, minha senhora, decorridos nove anos de alternativas de boa e má
+fortuna, depois de uma viagem feliz, liquidámos as nossas contas. A parte de
+Onésimo eleva-se a perto de dez mil francos; a nossa sociedade dissolveu-se;
+ele renuncia ao comércio, e quer, segundo diz, gozar em paz da sua modesta
+abastança. Quanto a mim, que não me contento com tão exíguo capital, reembarco
+para a Índia, daqui a três dias, e vou de novo tentar fortuna.</p>
+
+<p>«Onésimo volta para França, e jurou-me reintegrar o domicílio conjugal; mas,
+como depois me pediu que lhe dirigisse provisoriamente as minhas cartas para
+Versailles, posta restante, e sob certas iniciais, inclino-me a crer que ele
+roerá a palavra a este seu criado, continuando a deixar a esposa em
+viuvez,<span class="pn">{127}</span> e que dissipará em orgias o capital, que
+pertence legitimamente a seu filho.</p>
+
+<p>«Previno-a pois, minha senhora, para que, pelos meios que julgar
+convenientes, impeça seu marido de cometer novas loucuras, imperdoáveis na sua
+idade, e também para que procure restituir o pai a seu filho.</p>
+
+<p>«Talvez esta advertência vá demasiado tarde; porventura estará morta, ou
+tornaria a casar a mulher de Onésimo... Em todo o caso, obedeço às ordens que
+me dita a consciência.</p>
+
+<p>«Onésimo partiu ontem, 3; segundo todas as probabilidades deve chegar a
+Paris no dia 6, e a Versailles, de 7 a 10. Ignoro o segundo pseudónimo que
+adoptará; mas, indicando-lhe a terra onde tenciona esconder-se, não me parece
+difícil que consiga descobri-lo.</p>
+
+<p>«Queira aceitar, minha senhora, as expressões do profundo respeito
+de==<em>Pedro Toucard</em>.»</p>
+
+<p>Quando André voltou a si do espanto, que lhe causara aquela carta,
+estremeceu ao pensar na impressão dolorosíssima, que ela devia ter produzido em
+sua mãe.</p>
+
+<p>Saber que seu marido vivia, e a detestava a ponto de preferir a morte civil
+à vida de família!... Saber que esse homem era relativamente rico, e não lhe
+importava sequer se seu filho tinha pão!...</p>
+
+<p>Sem dúvida, aquelas terríveis decepções, as suas<span
+class="pn">{128}</span> ilusões violentamente arrancadas, tinham morto a pobre
+mulher, sem dar-lhe tempo, nem forças, para comunicar a André a noticia, que
+tivera.</p>
+
+<p>Depois, o pintor tentou reunir as suas ideias, porém elas dançavam em
+vertiginoso galope, e com grande custo conseguiu desembaraçar a meada dos
+acontecimentos, que o acaso enredara em tão extraordinárias complicações.</p>
+
+<p>Então... aquele viajante, vitima da catástrofe de 8 de Maio, era seu pai!
+</p>
+
+<p>Então... os noventa e dois mil francos, depositados pelo moribundo nas mãos
+de um estranho, pertenciam-lhe!</p>
+
+<p>Então... o senhor Germinal, que durante doze anos procurara, e receara
+encontrar, o herdeiro de Onésimo, morou defronte dele todo esse tempo!</p>
+
+<p>Então... desposando Rosa, e aceitando o dote que o velho lhe oferecera, era
+André quem enriquecia a mulher que amava!</p>
+
+<p>Então... Pedro Toucard, levado ali por essa série de singulares
+coincidências, abusou do seu falso parentesco com Onésimo para apossar-se de
+uma soma, a qual todavia tentara em tempos fazer reverter para os seus
+legítimos donos!</p>
+
+<p>André compreendia agora a extraordinária comoção do provençal ao ouvir o
+nome de Sauvain. A consciência do aventureiro era elástica, mas ainda não
+estava gangrenada; apesar dos seus escrúpulos,<span class="pn">{129}</span> não
+pudera vencer o seu frenesim de especulação, nem deixar fugir a ocasião de
+traficar mais uma vez.</p>
+
+<p>Entretanto tinha, sem o saber, despedaçado a felicidade futura de Rosa e de
+André!</p>
+
+<p>«Pela memoria de minha mãe! exclamou o pintor, juro que lhe farei restituir
+o dinheiro!»</p>
+
+<p>E logo um clarão de alegria lhe iluminou e reanimou o espírito. Reflectiu em
+que, uma vez na posse daquela soma, disporia de meios enérgicos para descobrir
+o senhor Germinal, e que o velho teimoso não teria então mais nenhum obstáculo,
+que opor ao seu casamento com Rosa.</p>
+
+<p>Passou grande parte da noite a passear pela casa, como um louco. Depois,
+prostrado de fadiga, deitou-se, adormeceu com a cabeça escandecida, e teve um
+pesadelo.</p>
+
+<p>Sonhou que Pedro Toucard, trajando um fato recamado de oiro e pedras
+preciosas, pendendo-lhe do rosto uma barba em duas pontas, de prata maciça,
+galopava, ao longo dos <em>boulevards</em>, numa carruagem puxada por doze
+cavalos... André perseguia-o, correndo a bom correr... Queria gritar: «Agarra,
+que é ladrão!» mas a sua garganta não soltava o menor som... E Pedro fugia
+sempre, semeando às mãos cheias, por sobre a multidão, noventa e duas mil notas
+do banco, carimbadas com o nome de Sauvain...<span class="pn">{130}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION001900000000000000000">XIX</a></h1>
+
+<p>Quando o pintor acordou, estava transfigurado. Do mesmo modo que, em face
+dele, o sol se alevantava majestosamente por cima do mar, rompendo as névoas
+pardacentas, enrolando-as como um manto, e descobrindo a imensidade líquida,
+sobre a qual espargia milhares de gotas de oiro; assim, no coração de André, a
+tristeza, o abatimento, o desanimo, tudo se evaporara ao sol da esperança.</p>
+
+<p>Uma resolução firme substituíra todas as suas indecisões. O seu programa
+era:</p>
+
+<p>1.º&mdash;Encontrar Pedro Toucard: o que devia ser fácil, vista a excentricidade
+da sua pessoa, e a atenção que não podia deixar de atrair sobre si.</p>
+
+<p>2.º&mdash;Fazer-lhe restituir o dinheiro, que levara.</p>
+
+<p>3.º&mdash;Lançar uma matilha inteira, se preciso fosse, na pista do senhor
+Germinal; ir ter com<span class="pn">{131}</span> ele, ainda que estivesse na
+Gronelândia, agarra-lo à viva força, desposar Rosa, e ser feliz.</p>
+
+<p>Nada mais simples!</p>
+
+<p>André saiu, portanto, alegre e despreocupado; aspirou deliciosamente os
+perfumes do ar salino da costa, enviou um olhar reconhecido ao céu de
+azul-turquesa, e descendo por atalhos desertos, entrou no cemitério da aldeia,
+cujas campas, abrigadas pela igreja musgosa, alvejavam ao romper do sol.</p>
+
+<p>Ali, num canto isolado, parou, mais por instinto do que por fiel recordação,
+ante um montículo invadido por ervas parasitas e por parietárias. Uma cruz de
+madeira, negra e carunchosa, jazia quebrada entre as plantas incultas; o nome,
+outrora gravado nos braços dessa cruz, já não se distinguia.</p>
+
+<p>André ajoelhou na relva húmida, e ficou assim por muito tempo. Só quando
+rumores longínquos lhe anunciaram o despertar da aldeia, afastou-se tranquilo,
+mas em profundo recolhimento.</p>
+
+<p>No mesmo dia, encomendou uma lápide tumular, que pagou adiantada, e
+entendeu-se com um arquitecto para as reparações do seu pardieiro e do velho
+jardim. Empenhava-se tanto em dar-lhes um aspecto risonho, porque decidira
+passar ali com Rosa as horas encantadas da lua de mel.</p>
+
+<p>Cumpridos estes deveres, meteu no bolso a carta de Pedro Toucard, tornou a
+pôr na arca a caixa<span class="pn">{132}</span> de conchinhas, confiou a chave
+da casa ao empreiteiro encarregado das obras, e, nessa mesma tarde, partiu para
+Paris no último comboio do caminho de ferro, pois que, desta feita, não tinha
+tempo a perder.</p>
+
+<p>No dia seguinte, ao meio dia, estava ele de pé no seu <em>atelier</em>,
+escovando o chapéu para correr em busca do provençal.</p>
+
+<p>&mdash;Por onde começarei? perguntava a si próprio; onde poderei mais facilmente
+encontra-lo?... Ora... já sei! na Bolsa! Foi para lá, que ele transportou a sua
+tenda de campanha, e tenho quase a certeza de o ir apanhar, entre uma compra e
+uma venda de fundos.</p>
+
+<p>Quando acabava de proferir estas palavras, abriu-se a porta, e André,
+petrificado de espanto, recuou três passos.</p>
+
+<p>Entrou Pedro Toucard... Pedro Toucard, em carne e osso!</p>
+
+<p>&mdash;O senhor!... exclamou Sauvain.</p>
+
+<p>&mdash;Eu mesmo, respondeu o aventureiro com o seu habitual desembaraço. Bons
+dias, caro amigo!...</p>
+
+<p>E, como André lhe não estendesse a mão, agarrou-a ele quase à força,
+estreitando-a nas suas.</p>
+
+<p>Depois continuou, escarranchando-se numa cadeira:</p>
+
+<p>&mdash;Então, como vai isso?... bem?... Folgo deveras. Acho-o um pouco mudado...
+um tanto pálido...<span class="pn">{133}</span> mais magro... mas bem disposto
+e animado, o que me causa imenso prazer.</p>
+
+<p>&mdash;É muita bondade!... lhe tornou André, com voz ironicamente ameaçadora.</p>
+
+<p>&mdash;Dá-me prazer, palavra de honra! porque não foi sem uma tal ou qual
+inquietação, que embarquei esta manhã para a rua dos Mártires...</p>
+
+<p>&mdash;E por que motivo? perguntou o pintor, curioso de ver até que ponto chegava
+semelhante impudência.</p>
+
+<p>&mdash;Primeiramente, porque há muito que o não vejo... Lembra-se de que a minha
+última visita data de há quatro meses?</p>
+
+<p>&mdash;Lembra-me muito bem!... resmungou André com os dentes cerrados.</p>
+
+<p>&mdash;Em segundo lugar... sim... é porque tenho uma confidência... um pouco
+difícil, para fazer-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Uma confidência!</p>
+
+<p>&mdash;Ou, mais propriamente, uma confissão... Ora, imagine o senhor que tem suas
+razões de queixa contra mim... graves razões de queixa!...</p>
+
+<p>&mdash;Realmente?</p>
+
+<p>&mdash;É exacto... Podia ocultar-lhas sempre, mas a minha consciência tem andado
+opressa: hoje transborda e impele-me às confissões...</p>
+
+<p>Perante este arrependimento, real ou fingido, a cólera de André esvaiu-se
+quase de súbito.<span class="pn">{134}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ora vamos!... pensou o pintor, este homem ainda tem bons sentimentos; e
+visto que se emenda, não tenho coragem para lhe querer mal. Para todo o
+arrependimento, misericórdia!...</p>
+
+<p>&mdash;Estou pronto a escutá-lo? disse ele a Pedro em tom mais brando.</p>
+
+<p>O provençal torceu os cabelos grisalhos da barba e coçou a orelha.</p>
+
+<p>&mdash;Custa a contar!... murmurou este. Se me dessem a escolher, preferiria
+trepar ao cimo do Himalaia... A coisa é dura, que tem diabo!...</p>
+
+<p>&mdash;Então, disse-lhe André sorrindo, não diga nada, meu bravo! E inútil,
+porque eu sei tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!... exclamou Pedro, erguendo-se aterrado!</p>
+
+<p>&mdash;Trata-se dos meus noventa e dois mil francos, não é assim?</p>
+
+<p>&mdash;Dos seus... Ai, com mil bombardas! é certo que sabe tudo!... Mas quem
+diabo podia instruí-lo de uma coisa, que ninguém neste mundo...</p>
+
+<p>&mdash;Foi o senhor mesmo, interrompeu o pintor.</p>
+
+<p>&mdash;Eu!...</p>
+
+<p>&mdash;Ora leia.</p>
+
+<p>E Sauvain colocou-lhe debaixo dos olhos a carta datada de Liverpool.</p>
+
+<p>Pedro Toucard, atentando na carta aberta, corou ligeiramente.</p>
+
+<p>&mdash;Reconheço a letra, disse ele, posto seja mais<span class="pn">{135}</span>
+nova do que eu... doze anos. Mas juraria que essa carta não tinha chegado ao
+seu destino!</p>
+
+<p>&mdash;Enganava-se.</p>
+
+<p>&mdash;Convenço-me porém de que, há quatro meses, quando embolsei este
+dinheiro...</p>
+
+<p>&mdash;O meu dinheiro, quer dizer?</p>
+
+<p>&mdash;Seja... Convenço-me de que o senhor ignorava o conteúdo dela?</p>
+
+<p>&mdash;Ignorava-o ainda há quarenta e oito horas.</p>
+
+<p>E André contou como, por acaso, ao remexer as cinzas do lar, desenterrara a
+chave da caixa, a qual era ao mesmo tempo a chave de tantos mistérios!</p>
+
+<p>&mdash;É indubitável que existe uma Providência! disse Pedro abanando a cabeça.
+Tudo se descobre, mais cedo ou mais tarde! Ora vejam com que cara ficaria
+diante de si, se, confiando na impunidade, não fosse eu o primeiro a confessar
+a minha culpa, porque... enfim... eu roubei-o!</p>
+
+<p>&mdash;Ai! suspirou André, não é do dinheiro que eu mais tenho lamentado a falta!
+</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim, adivinho!... e é isso o que torna o meu crime imperdoável!
+Informei-me, e soube da ruptura do casamento, assim como da desaparição de
+Rosa, levada por seu pai, não se sabe para onde. Pobre rapaz!... e fui eu...
+eu!...</p>
+
+<p>&mdash;Ora!... disse alegremente o pintor, havemos de dar com ela.<span
+class="pn">{136}</span></p>
+
+<p>Os olhos cintilantes do provençal fixaram-se em André com inquieta surpresa.
+</p>
+
+<p>&mdash;Com a fortuna! exclamou ele, o senhor é um filosofo às direitas!</p>
+
+<p>&mdash;Porquê?</p>
+
+<p>&mdash;Pois, um homem rouba-lhe uma soma avultada, destrói as suas esperanças de
+amor e de casamento; e o senhor, em vez de sova-lo com um cacete, conversa
+tranquilamente com ele!...</p>
+
+<p>&mdash;A falar a verdade, meu caro senhor, disse Sauvain rindo, se o tivesse
+encontrado de improviso esta manhã, não responderia pelos meus gestos. Mas o
+passo, que acaba de dar, desarmou-me, e como concorda em que fez mal... sim...
+visto estar pronto a restituir...</p>
+
+<p>&mdash;Restituir! interrompeu Pedro. Com mil bombas! já não nos entendemos!...
+</p>
+
+<p>André deu um pulo, com os lábios a tremer-lhe de raiva.</p>
+
+<p>&mdash;Olá! mestre Toucard, dar-se-á acaso que pretenda conservar?...</p>
+
+<p>&mdash;Não pretendo nada, com mil raios!... Não olhou para mim? Ora examine o meu
+exterior!... É esta porventura a aparência de um capitalista? Terei ares de um
+feliz mortal, que lhe trouxesse no bolso noventa e dois mil francos?</p>
+
+<p>Efectivamente, Pedro Toucard estava a cem léguas de possuir semelhantes
+ares.<span class="pn">{137}</span></p>
+
+<p>Envolto em sórdidos farrapos, enlameado até ao pescoço, ter-lhe-iam
+oferecido dois soldos à esquina da rua. Luzia-lhe a pele através dos buracos do
+fato, e as botas arrebentadas vomitavam jorros de lama.</p>
+
+<p>O artista sentiu um choque violento quando reparou naquela libré da miséria.
+Uma ideia horrível lhe descompôs as feições.</p>
+
+<p>&mdash;Olá!... que é isso? disse o provençal, assustado com a palidez dele; agora
+olha demais para mim!... Sossegue, meu rapaz, e beba um copo de água. Feridas
+de dinheiro não são mortais.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! articulou o pintor angustiado, é então verdade?</p>
+
+<p>&mdash;O quê?</p>
+
+<p>&mdash;O que eu suponho...</p>
+
+<p>&mdash;Não sei o que supõe, mancebo. O facto é que estive na alta, e depois...
+veio a baixa.</p>
+
+<p>&mdash;Portanto está tudo perdido!</p>
+
+<p>&mdash;Fundido, destruído, evaporado!</p>
+
+<p>&mdash;Não resta coisa alguma?</p>
+
+<p>&mdash;Restam-me... dívidas.</p>
+
+<p>&mdash;E a herança de meu pai?</p>
+
+<p>&mdash;Foi para casa de seiscentos diabos.</p>
+
+<p>&mdash;Infame! rugiu Sauvain, agarrando Pedro pela gola da velha sobre-casaca, e
+sacudindo-o rudemente.</p>
+
+<p>O aventureiro deixou-se sacudir. Meteu sossegadamente as mãos nas algibeiras
+das calças despedaçadas,<span class="pn">{138}</span> e poderia mesmo jurar-se
+que um vago sorriso de infernal satisfação lhe assomara aos lábios.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos, mancebo!... disse ele. Não hesite: bata-me, estropie-me, mate-me.
+Sou um tratante, um canalha, um ladrão; nem valho a corda com que me
+enforcarem!...</p>
+
+<p>André largou-o; repugnava-lhe maltratar um velho.</p>
+
+<p>Cego pelas lágrimas, sufocado pela indignação, aniquilado pelo desespero,
+caiu prostrado numa cadeira e só pôde balbuciar estas palavras:</p>
+
+<p>«Rosa!... Rosa!... minha pobre Rosa!...»</p>
+
+<p>Pedro pareceu sinceramente comovido.</p>
+
+<p>&mdash;Ah!... resmoneou ele, procurando em vão no crânio calvo um punhado de
+cabelos para arrancar; eu devera-o ter previsto!... O desgraçado contava com o
+seu dinheiro para desposar a pequena... e tu, grande bandido, velho celerado,
+devoraste tudo, deitaste-lhe abaixo a igrejinha!</p>
+
+<p>E nisto, infligindo a si próprio as maiores injúrias, desenfiava um rosário
+de pragas.</p>
+
+<p>Entretanto a dor de André atingia o seu paroxismo. Encostado à mesa, com o
+rosto esmagado entre os punhos contraídos, fazia esforços incríveis para
+recalcar no peito os gemidos e gritos de raiva... mas debalde.</p>
+
+<p>&mdash;Ora vamos!... vamos! continuou Toucard; que não haja, sobre queda, coice!
+O enguiço triunfa<span class="pn">{139}</span> hoje, de acordo! mas eu sou um
+espertalhão, bem o sabe... Dentro em pouco tirarei a desforra, e
+reembolsa-lo-hei então do capital e juros. Quer que lhe assine uma obrigação de
+cem mil francos, pagável na minha primeira veia de fortuna?</p>
+
+<p>André ergueu-se bruscamente, deixando ver o rosto afogueado e banhado em
+pranto.</p>
+
+<p>&mdash;Fora daqui, miserável! exclamou ele. Não tente a minha desesperação com as
+suas covardes zombarias!... Saia!</p>
+
+<p>&mdash;Não estou zombando, disse o provençal; e juro-lhe pela minha honra...</p>
+
+<p>&mdash;Pela sua honra!... interrompeu amargamente o pintor.</p>
+
+<p>&mdash;Seja pelo que for... Enfim... juro-lhe que o meu desejo mais veemente
+seria vê-lo rico e satisfeito.</p>
+
+<p>&mdash;E por isso me roubou o meu património, não é assim?</p>
+
+<p>&mdash;Que diabo posso eu dizer-lhe? As notas do banco já estavam no meu bolso,
+agarravam-se a mim e gritavam-me: «Leva-nos! Foi, graças a ti, que Onésimo nos
+ganhou; portanto... pertencemos-te um pouco!... Leva-nos, Pedro, e
+quintuplicar-nos-ás... decuplicar-nos-ás! André, Rosa, toda a família será
+feliz, e isso devido a ti... Leva-nos!»... Com a breca, levei-as!... Se esta
+explicação<span class="pn">{140}</span> lhe não basta, pegue numa pistola, e
+abra-me a cabeça; até me faz favor!... Ou então... arraste-me ao banco dos
+réus, para que me condenem às galés.</p>
+
+<p>André, silencioso, envolveu o aventureiro num longo olhar de tédio.</p>
+
+<p>&mdash;Não, replicou por fim. Não me esqueço de que foi amigo de meu pai; não me
+esqueço desta carta... a única acção honesta da sua vida! Não me vingarei,
+senhor mas, pelo amor de Deus, retire-se!</p>
+
+<p>Apesar da sua casca grossa, Pedro Toucard sentia-se enternecido.</p>
+
+<p>Dirigiu-se lentamente para a porta; depois parou, torceu a barba, reflectiu,
+e inclinando-se para André, que lhe voltava as costas, murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor Sauvain...</p>
+
+<p>&mdash;Ainda aqui! exclamou o pintor.</p>
+
+<p>&mdash;Antes de ir-me embora, quero que saiba, se isto pode servir-lhe de
+consolação, que o céu se encarregou de castigar-me. Estou mais miserável,
+senhor André, do que no dia em que me fez a esmola... que tão pouco lhe
+aproveitou! Numa palavra, morro de fome; e como me repugna mendigar, vou
+direito daqui lançar-me ao rio. Adeus!</p>
+
+<p>&mdash;Espere!... disse Sauvain.</p>
+
+<p>E puxando da bolsa, despejou-a sobre a mesa.</p>
+
+<p>&mdash;Leve isso.<span class="pn">{141}</span></p>
+
+<p>&mdash;Eu!...</p>
+
+<p>&mdash;Arrecade isso, já lho disse, e vá-se embora. É em memoria de minha mãe, a
+quem tentou prestar um serviço. Eu... de nada preciso já.</p>
+
+<p>Toucard guardou o dinheiro; porém os dedos tremiam-lhe, e os seus olhos
+lampejavam humedecidos.</p>
+
+<p>&mdash;De que me serve viver, retorquiu ele, se não me perdoa?... se não recobro
+o sono, que me foge?</p>
+
+<p>O pintor encolheu os ombros.</p>
+
+<p>&mdash;O que está feito, está feito! respondeu-lhe com voz abatida. Toda a minha
+raiva, todo o meu ódio, todo o meu desprezo, não ressuscitariam uma parcela
+sequer da minha felicidade perdida!... Vá em paz; perdoo-lhe!</p>
+
+<p>O aventureiro ficou imóvel, e como fulminado de espanto, no limiar do
+<em>atelier</em>. Contemplou Sauvain, o qual se encostara ao canapé, e, com o
+semblante meio oculto pelos seus longos cabelos, parecia ter-se tornado
+insensível ao mundo exterior.</p>
+
+<p>&mdash;Este, sim!... que tem um coração de oiro sem liga! murmurou ele com
+singular expressão. Se a sorte lhe não sorri... é uma grande velhaca, com mil
+bombardas!</p>
+
+<p>E saiu.<span class="pn">{142}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION002000000000000000000">XX</a></h1>
+
+<p>Imaginem um homem caído do alto de uma torre, uma massa de carne
+ensanguentada, que ainda respira. Os olhos vêem tudo cor de sangue; os ouvidos
+só recebem rugidos confusos; a inteligência flutua ao acaso; e o corpo inerte,
+despedaçado, inútil, sofre demasiado para continuar a viver, mas não o bastante
+para conseguir morrer.</p>
+
+<p>Assim estava André Sauvain.</p>
+
+<p>Precipitado do alto das suas esperanças, vegetou quinze dias sem pensar, sem
+acção, sem ter consciência do tempo, nem das alternativas do sol e das trevas,
+que se sucediam regularmente na marcha imutável das horas.</p>
+
+<p>Porém, um dia, despertou de súbito daquela assustadora prostração.</p>
+
+<p>Ergueu-se, frio e resoluto, juntou os quatro retratos<span
+class="pn">{143}</span> de Rosa, que pintara na época da sua felicidade, e
+dispo-los nos cavaletes, em volta de si, nas condições de luz mais favoráveis;
+depois, fechou à chave a porta do <em>atelier</em> e desprendeu da parede uma
+pistola, que cuidadosamente carregou.</p>
+
+<p>Feito isto, pousou a arma sobre a mesa, ao alcance da mão.</p>
+
+<p>Davam onze horas num relógio próximo.</p>
+
+<p>&mdash;Á última pancada do meio dia, disse André falando consigo, farei saltar os
+miolos.</p>
+
+<p>Era uma espécie de prazo, que concedia à Providência. E com efeito, não
+podia Rosa regressar, nesses sessenta minutos?... O acaso tem tantos
+recursos!...</p>
+
+<p>Encostou-se sobre os cotovelos, pensativo e com a vista fixa nos quatro
+retratos... Acariciando com o olhar aqueles rostos, risonhos e suaves, aquelas
+pupilas límpidas, aquelas frontes resplendentes de inocência, André
+recomendava-se às recordações da sua amada, e os seus lábios murmuravam
+palavras ininteligíveis.</p>
+
+<p>Deu meio dia.</p>
+
+<p>André pegou na pistola.</p>
+
+<p>&mdash;Uma carta para o senhor Sauvain: disse nesse momento uma voz, de fora.</p>
+
+<p>&mdash;Uma carta?... repetiu André, uma carta dela!... Era tempo!</p>
+
+<p>Atirou a arma para o fundo de uma gaveta, abriu<span class="pn">{144}</span>
+a porta, pegou na carta, e levou-a com gesto de avaro para um canto da janela.
+</p>
+
+<p>Não era de Rosa!</p>
+
+<p>A missiva dimanava prosaicamente do arquitecto de Granville, reclamando
+algum dinheiro, à conta, pelas reparações da casa.</p>
+
+<p>André ficou aterrado.</p>
+
+<p>Apagara-se-lhe da memoria aquela dívida sagrada. Recordava-se dela agora,
+mas não tinha dinheiro, e só o trabalho podia dar-lho.</p>
+
+<p>Portanto... nem sequer tinha a liberdade de morrer!</p>
+
+<p>O pintor apelou, com desespero, para a sua antiga energia.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos!... pensou ele, mais uns dias de coragem e de tortura!... Ganhemos,
+com o suor do rosto, o direito ao eterno repouso!</p>
+
+<p>E lívido, desfalecido, vacilante, dirigiu-se ao seu comprador de quadros, e
+pediu-lhe que lhe adiantasse a soma de que precisava.</p>
+
+<p>O industrial anuiu de bom grado.</p>
+
+<p>&mdash;Esperava-o com impaciência, disse-lhe este homem; apresenta-se agora uma
+ocasião, magnífica para si, e bastante lucrativa.</p>
+
+<p>&mdash;Seja como for, disse Sauvain, aproveito-a.</p>
+
+<p>&mdash;Eis o negócio: um dos meus fregueses acaba de comprar, nos arredores de
+Paris, uma casa, que deseja ornar o mais elegantemente possível. Pediu-me<span
+class="pn">{145}</span> que o relacionasse com um pintor de talento, e eu
+falei-lhe no senhor. Trata-se de alguns quadros e muitas pinturas a fresco;
+convém-lhe?</p>
+
+<p>&mdash;Convém.</p>
+
+<p>&mdash;Nesse caso, é necessário começar a obra quanto antes. O meu freguês habita
+na sua propriedade: vá procurá-lo. É um homem generoso e inteligente. O senhor
+entender-se-á perfeitamente com ele.</p>
+
+<p>&mdash;Como se chama?</p>
+
+<p>&mdash;Aqui está a direcção: «Monsieur Nuavias, em Audily-Seine-et-Oise». É no
+vale de Montmorency, a dois passos da floresta. O sítio é delicioso, e creio
+que o senhor não terá razão de queixa.</p>
+
+<p>&mdash;Irei amanhã, disse André. Com efeito, no dia seguinte, Sauvain desembarcou
+em Audily pelas três horas da tarde. Não pôde conseguir que lhe indicassem a
+casa do senhor Nuavias, porque ninguém conhecia aquele nome, o qual decerto era
+novo no país; mas, após diferentes investigações, descobriu, a dois tiros de
+espingarda da vila, um pequeno castelo, que alvejava no cume de uma pitoresca
+colina.</p>
+
+<p>&mdash;Deve ser ali, disse ele consigo. Uma gradaria de ferro, delicadamente
+trabalhado e com portão ao centro, separava da estrada pública os jardins do
+castelo, permitindo aos transeuntes admirar a alameda, tapetada de verde
+relva,<span class="pn">{146}</span> que se estendia em suave declive até à
+entrada do edifício, o qual primava pela sua elegante simplicidade. Dois
+pavilhões simetricamente dispostos de cada lado da grade, pareciam destinados,
+um para cavalariça, e o outro para habitação do porteiro. Este individuo
+destacava, no limiar do portão, tomando o fresco e olhando para as moscas.</p>
+
+<p>Era um homem gordo, de rosto jovial e rubicundo, com o pescoço descoberto,
+ermo de pelos e enrugado como o de uma perua. Usava enormes brincos nas
+orelhas, e notava-se-lhe numa das faces prodigiosa inchação.</p>
+
+<p>&mdash;Mora aqui o senhor Nuavias? perguntou André.</p>
+
+<p>A esta interpelação, o porteiro nada respondeu. Lançou um jacto de saliva
+negra, fitando André, a quem mediu de alto a baixo. O volume da face direita
+passou para a esquerda: o inchaço era de tabaco.</p>
+
+<p>&mdash;Ao que parece, disse ele, o senhor é o tal pintor?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! exclamou Sauvain admirado, já estão prevenidos da minha chegada?</p>
+
+<p>O homem obeso assumiu ar malicioso, piscou os olhos, deitou a língua de
+fora, e entrou num acesso de muda hilaridade, que lhe fazia oscilar o abdómen e
+retinir os brincos.</p>
+
+<p>&mdash;Os artistas são alegres... murmurou ele. Temos muito que rir, se o senhor
+também entra...<span class="pn">{147}</span></p>
+
+<p>&mdash;Se entro!... em quê?</p>
+
+<p>&mdash;Na farsa.</p>
+
+<p>&mdash;Qual farsa?</p>
+
+<p>&mdash;A que vai representar-se.</p>
+
+<p>&mdash;A quem?</p>
+
+<p>&mdash;Ao senhor Nuavias, já se vê!</p>
+
+<p>&mdash;Não entendo.</p>
+
+<p>&mdash;Ah; bom! faz-se de novas... Basta!... Bico calado! Faça conta de que eu
+nada disse... Suponha que me não participaram coisa alguma... que ignoro
+tudo...</p>
+
+<p>E os brincos a tinirem, e o abdómen a dançar, e o rosto passando de
+vermelhusco a purpúreo, e de purpúreo a roxo.</p>
+
+<p>&mdash;Seu amo está cá? lhe tornou Sauvain com impaciência.</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor, respondeu o faceto porteiro quase sem fôlego; ainda não veio.
+Ora!... o senhor bem o sabe, visto que entra na conspiração.</p>
+
+<p>&mdash;Eu!... Está enganado.</p>
+
+<p>&mdash;Ele não deve tardar. Vamos divertir-nos muito, esta tarde... Regozijo-me
+de antemão, palavra de Jacinto!</p>
+
+<p>&mdash;Esses negócios não são da minha conta, disse André. Na ausência do senhor
+Nuavias posso ver a casa?</p>
+
+<p>&mdash;Certamente! Tenha a bondade de passear um momento no jardim, enquanto eu
+enfio um casaco e<span class="pn">{148}</span> vou buscar as chaves. Não me
+demoro cinco minutos.</p>
+
+<p>André fez um sinal de anuência, e dirigiu-se pensativo para uma rua
+arborizada. Primeiramente, o ar livre pesou-lhe um pouco no cérebro fatigado,
+mas bem depressa o gracioso aspecto do jardim lhe acalmou o espírito.</p>
+
+<p>Flores em profusão, cascatas e fontes, um pequeno bosque, frondosas árvores,
+povoadas de chilreantes passarinhos, rodeavam o castelo num círculo encantado.
+O sol do outono, já declinando para o horizonte, derramava sobre tudo aquilo
+ondas de luz e matizava-o de vivas cores; o dia extinguia-se lentamente; nuvens
+de opala flutuavam na atmosfera, orlando o céu azul.</p>
+
+<p>Como podia o pintor alimentar ideias de morte em face daquele panorama tão
+tranquilo, e ao mesmo tempo tão cheio de vida?... Nenhum rumor se ouvia; nem um
+som, além dos agudos assobios dos melros, e dos seus próprios passos sobre a
+areia. André sentiu percorrer-lhe as veias delicioso frescor; a brisa da tarde,
+morna, pura, embalsamada de mil perfumes, transformou a sua agitação nervosa
+numa languidez fantasiadora. E, enquanto o sol, próximo do seu ocaso, lhe
+estendia aos pés as trémulas sombras da folhagem, chegou a invejar a posse
+daquele sossegado Éden.</p>
+
+<p>Como seria feliz com Rosa num semelhante retiro!<span
+class="pn">{149}</span> Que delicia lhes seria vaguearem a sós, silenciosos,
+com os braços enlaçados, por aquelas alamedas misteriosas! ele... a rever-se em
+dois olhos pretos radiantes... e a beijar uns louros cabelos, que a brisa
+complacente traria para junto de seus lábios! E mais tarde... que delicia,
+ainda, contemplarem ambos uma linda criança, brincando alegre na relva do
+parque!...</p>
+
+<p>A voz do porteiro arrancou bruscamente André àquelas perigosas alucinações.
+</p>
+
+<p>O honrado Jacinto vinha risonho, gracejador, trajando soberba libré, e
+munido de nova dose de tabaco.</p>
+
+<p>&mdash;Se o senhor quer ver as salas, estou pronto para lhas mostrar.</p>
+
+<p>André seguiu-o distraidamente. O interior da casa correspondia ao exterior.
+Tudo era rico e de bom gosto; somente, na sua disposição, faltava talvez um
+certo cunho de elegância íntima, que revela sempre a presença de uma mulher.
+</p>
+
+<p>&mdash;O sr. Nuavias é casado? perguntou Sauvain.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda não, mas não tardará, disse Jacinto, soprando como um cachalote.
+Deveras... o senhor não está na confidencia?</p>
+
+<p>&mdash;Nem pouco, nem muito!</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! é precisamente a respeito do seu próximo casamento, que se
+prepara uma surpresa ao senhor Nuavias.<span class="pn">{150}</span></p>
+
+<p>&mdash;E essa surpresa em que consiste?</p>
+
+<p>&mdash;Isso é querer saber muito! Parece-me que vai haver grande risota, e eu já
+começo a rir, só com essa ideia!... Demais, a futura será igualmente
+mistificada.</p>
+
+<p>&mdash;Ela é bonita?</p>
+
+<p>&mdash;Encantadora, segundo dizem.</p>
+
+<p>&mdash;Nova?</p>
+
+<p>&mdash;Muito nova.</p>
+
+<p>&mdash;E ele?</p>
+
+<p>&mdash;Também é moço.</p>
+
+<p>&mdash;Amam-se?</p>
+
+<p>&mdash;Apaixonadamente!</p>
+
+<p>André suspirou.</p>
+
+<p>Nesse momento ouviu-se o rápido rodar de uma carruagem.</p>
+
+<p>&mdash;É o patrão! exclamou Jacinto. Bravo! a coisa vai principiar. E um rir,
+silencioso e desordenado, agitou-o desde o topo até à base, pondo em movimento
+as suas bochechas escarlates, que se tornaram roxas.</p>
+
+<p>&mdash;Ufa! arrebento de riso, com certeza! balbuciou ele, meio-sufocado. Mas não
+se impaciente, que já vou dizer a meu amo que o senhor o procura.</p>
+
+<p>E saiu, apertando as ilhargas.</p>
+
+<p>André encostou a fronte ao caixilho de uma janela. O dia declinava;
+espalhava-se pelas avenidas um vapor azulado, e, impelidas pela aragem, as<span
+class="pn">{151}</span> flores dos canteiros balouçavam-se como turíbulos.</p>
+
+<p>André padecia. Aquele recôndito lugar, aquela pacífica habitação, aqueles
+jovens para ele desconhecidos, que a felicidade ia para sempre reunir, tudo
+enfim... até a alegria daquele criado burlesco, lhe pesava no coração,
+reabrindo-lhe as feridas que vinha ali buscar... ele, o inconsolável!... àquele
+retiro festivo? Que figura faria, se o envolvessem na turba indiferente dos
+convivas descuidosos?</p>
+
+<p>Ao pensar nisto, assaltaram-no os receios, mas... era demasiado tarde.
+Jacinto surgiu, perfilou-se defronte dele, piscou os olhos, abanou a cabeça,
+mordeu o lenço para não estoirar de riso, depois conduziu o pintor através de
+uma enfiada de quartos, empurrou-o para o meio de uma vasta sala, já invadida
+pelas sombras do crepúsculo, e fugiu.</p>
+
+<p>Ao principio, Sauvain julgou-se só.</p>
+
+<p>Por uma grande porta envidraçada, que abria para o jardim, penetravam
+livremente os aromas da tarde. Nada se movia; porém André distinguiu, dentro em
+pouco, a um canto do fogão, que acabava de apagar-se, os contornos indecisos de
+uma mulher sentada.</p>
+
+<p>&mdash;Minha senhora... balbuciou ele, inclinando-se.</p>
+
+<p>Um grito vibrou, como uma nota de cristal.</p>
+
+<p>&mdash;André... É André!...</p>
+
+<p>E a forma vaga ergueu-se de súbito. Um último<span class="pn">{152}</span>
+raio de sol, que borboleteava nas vidraças, iluminou um perfil de anjo.</p>
+
+<p>Esse grito, essa voz, essa visão, penetraram no peito de Sauvain, como uma
+lâmina de oiro. Oscilou e caiu de joelhos.</p>
+
+<p>&mdash;Rosa!... murmurou ele, és tu?... ou é o teu fantasma?...</p>
+
+<p>Um fantasma! Não: foi bem realmente um corpo de donzela, um corpo flexível e
+palpitante, que se lhe lançou nos braços! Foram duas mãos pequeninas, mas bem
+vivas, que lhe enlaçaram o pescoço! Foi o puro hálito de Rosa, que lhe deslizou
+nos lábios!</p>
+
+<p>E André, deslumbrado, louco, fora de si, ébrio de felicidade, embebia-se na
+contemplação de um rosto bem real, de um rosto adorado, de um rosto comovido,
+radiante de júbilo, envolto numa auréola de cabelos louros...</p>
+
+<p>Entretanto, mais outra forma vaga subia nesse momento as escadas do terraço.
+Parou estupefacto. Desta vez, era uma sombra masculina, uma sombra estreita e
+alongada, trajando fantásticas vestes, que ondeavam em volta dela, como um
+lençol cor de ferrugem dependurado num pau.</p>
+
+<p>A sombra não soltou uma palavra, como convém a uma sombra que se respeita;
+porém, um som singular atravessou o espaço; jurar-se-ia que a sombra estava
+raspando uma noz moscada. A este ruído prolongado, os dois jovens despertaram
+do seu êxtase,<span class="pn">{153}</span> e André, chorando e rindo ao mesmo
+tempo, André mais ébrio do que se tivesse esvaziado seis garrafas de Champanhe,
+atirou-se ao pescoço da sombra, exclamando:</p>
+
+<p>&mdash;Adivinho tudo!... adivinho tudo!... Obrigado... obrigado, meu querido
+sogro!</p>
+
+<p>A sombra debateu-se violentamente.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor!... Com a fortuna! Que faz aqui?</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!... Abraço-o.</p>
+
+<p>&mdash;Quer dizer... que abraçava minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;Não o nego, meu sogro.</p>
+
+<p>&mdash;E eu nego-lhe o direito de chamar-me assim... Proíbo-o!...</p>
+
+<p>&mdash;Ora!...</p>
+
+<p>&mdash;Não há <em>ora</em>, nem <em>meia ora</em>... Vamos! largue-me!...</p>
+
+<p>&mdash;Meu velho amigo!... meu excelente vizinho!...</p>
+
+<p>&mdash;Largue-me, com trezentos demónios!...</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, meu caro sogro: o gracejo foi delicioso... mas, de que serve
+prolongá-lo? Sejamos felizes... que não é sem tempo!</p>
+
+<p>&mdash;O senhor zomba de mim?</p>
+
+<p>&mdash;Eu!... zombar! Ah? antes beijaria o rasto dos seus passos! Zombar, quando
+a sua presença e a de Rosa, aqui, em casa estranha, sobre este terreno neutro,
+onde de certo esperava encontrar-me, me provam que...<span
+class="pn">{154}</span></p>
+
+<p>&mdash;Com a breca! interrompeu o senhor Germinal; é de uma rara impudência!...
+Pretende acaso dizer...</p>
+
+<p>&mdash;Que o enterneceram a minha dor e as lágrimas de Rosa... enfim, que é o
+melhor dos homens? Sim? meu sogro! é o que eu quis dizer: abracemo-nos!...</p>
+
+<p>&mdash;Para trás, senhor! bradou o velho exasperado, não junte o escárnio à sua
+indigna acção!</p>
+
+<p>&mdash;Como!... disse o pintor estupefacto; de que escárnio... de que acção
+indigna fala?</p>
+
+<p>&mdash;Sim... finja-se surpreendido! se lhe parece, negue que me atraiu aqui
+enganado! negue as suas tenebrosas maquinações! Ah!... julgou que triunfaria
+por uma cilada?</p>
+
+<p>&mdash;Eu!...</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem!... desengane-se! A minha decisão é irrevogável! Não possuirá
+minha filha!</p>
+
+<p>&mdash;Uma cilada!... eu, que o supunha longe de França! eu, que teria dado vinte
+anos da minha vida para descobrir...</p>
+
+<p>&mdash;Jesus! que mentiroso!... exclamou Rosa, sorrindo-se. E as minhas
+cartas?... acrescentou ela em voz baixa.</p>
+
+<p>&mdash;As suas cartas! Meu Deus!... Rosa, de que cartas fala?</p>
+
+<p>&mdash;De muitas, que lhe enviei às escondidas?</p>
+
+<p>&mdash;Pois escreveu-me?... a mim...<span class="pn">{155}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, oito ou dez cartas que todas ficaram sem resposta!</p>
+
+<p>&mdash;Foram doze, minha filha, disse gravemente o senhor Germinal; tenho-as aqui
+no bolso.</p>
+
+<p>&mdash;Tem-nas?... Oh, meu pai!... É bem mal feito!...</p>
+
+<p>&mdash;Horrível, minha filha!... Teria sido mais moral não interceptar a
+correspondência amorosa, não te parece?</p>
+
+<p>&mdash;Confesse ao menos, senhor, disse Sauvain, que uma cilada da minha parte
+era impossível!...</p>
+
+<p>&mdash;Mas... que outra intenção podia trazê-lo aqui? Faz favor de dizer-me?</p>
+
+<p>&mdash;Simplesmente a de pintar tectos e bandeiras de portas!</p>
+
+<p>&mdash;E a nós, disse Rosa, a esperança de uma encomenda importante; pois eu
+continuo a fazer flores, e o dono desta casa deseja uma porção delas
+considerável.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor Nuavias?</p>
+
+<p>&mdash;Sim.</p>
+
+<p>&mdash;Quem lho inculcou?</p>
+
+<p>&mdash;A modista, para quem trabalho. E André?</p>
+
+<p>&mdash;O meu comprador de quadros.</p>
+
+<p>&mdash;Os diabos levem o acaso! rosnou o senhor Germinal.</p>
+
+<p>&mdash;O acaso!... suspirou André; divino acaso, ou<span class="pn">{156}</span>
+antes Providência, que me restituis a minha Rosa e o meu velho amigo, sê mil
+vezes bendita!...</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, disse Germinal, delira certamente!...</p>
+
+<p>&mdash;Creio que sim, meu sogro... e muito!</p>
+
+<p>&mdash;Já fez fortuna?</p>
+
+<p>&mdash;Oh, muito pouca!</p>
+
+<p>&mdash;E ainda ama minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;Apaixonadamente!</p>
+
+<p>&mdash;Contudo renuncia à sua mão?</p>
+
+<p>&mdash;Isso de modo nenhum!...</p>
+
+<p>&mdash;Então, nada de amizade, nem de relações entre nós!... Vá para o diabo!</p>
+
+<p>&mdash;Porém...</p>
+
+<p>&mdash;Não lhe dou minha filha!</p>
+
+<p>&mdash;Entretanto...</p>
+
+<p>&mdash;Não casa com minha filha!... Não casa com minha filha!... Não casa com
+minha filha! Já disse.</p>
+
+<p>O senhor Germinal esganiçava-se debalde; André tinha mais sólidos pulmões, e
+por isso facilmente cobriu o timbre de cana rachada do seu adversário,
+bramindo:</p>
+
+<p>&mdash;Casarei, com ela, ou deixarei de ser quem sou!</p>
+
+<p>Enfim, a sua cólera fazia explosão. André estava farto de sofrer; e,
+sorrindo em ar de desafio, valeu-se da escuridão da sala para beijar Rosa,
+unindo-a docemente ao coração.</p>
+
+<p>Mas, se a voz do senhor Germinal era fraca, em compensação tinha olhos de
+lince.<span class="pn">{157}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ah! Vocês querem brincar comigo?... Rosa! o teu xaile... o teu chapéu...
+Partamos imediatamente!</p>
+
+<p>&mdash;Ainda não! exclamou, da porta, uma voz de baixo-profundo.</p>
+
+<p>E logo a sala se iluminou de súbita e viva claridade.</p>
+
+<p>No limiar, entre dois lacaios agaloados, empunhando cada um deles uma
+serpentina, carregada de velas cor de rosa, apareceu um personagem baixo, de
+espessa e forte construção, enluvado de fresco, engravatado de branco, vestido
+de preto, e rescendendo a aromas, que perfumavam o recinto a dez passos de
+distância. Avançou majestosamente, com os polegares suspensos nas algibeiras do
+seu faustoso colete, e fazendo ouvir no sobrado o ranger de umas botas novas.
+</p>
+
+<p>O senhor Germinal e André suspenderam os seus clamores, e inclinaram-se
+confusos.</p>
+
+<p>&mdash;Então!... exclamou o magnífico intruso; há bulhas aqui? Com mil
+amarras!...</p>
+
+<p>&mdash;Pedro Toucard!... exclamaram os assistentes. Era Pedro, sem dúvida...
+Pedro, o aventureiro! Mas, que transformação!...</p>
+
+<p>Abolida a barba de duas pontas; conservava apenas uma estreita suíça, curta,
+bem talhada, macia e frisada. O seu crânio resplandecia, como um espelho:
+ter-se-iam mirado nele as andorinhas em<span class="pn">{158}</span> pleno dia.
+Uma cadeia de oiro, da grossura de um dedo, pendia sobre o seu orgulhoso
+abdómen as cabeludas falanges estavam meio-estranguladas por enormes anéis; as
+algibeiras, prodigiosamente entumecidas, transbordavam de napoleões.</p>
+
+<p>Fez um sinal, e os criados pousaram os candelabros; a outro sinal,
+desapareceram todos eles, mais as suas cabeleiras empoadas e os seus calções
+curtos, que punham em relevo postiças barrigas de pernas, de dimensões enormes.
+Pedro sentou-se ao pé do fogão, apoderou-se das tenazes e atiçou o lume.</p>
+
+<p>Uma chama cintilante crepitou no fundo da fornalha; os seus reflexos
+dançaram alegremente sobre os móveis esculpidos, sobre o luzidio sobrado, e
+sobre as guarnições de seda azul com franjas de prata.</p>
+
+<p>&mdash;Chegue-se para o lume, compadre! as noites estão frias. Aproxime-se do
+fogão, minha linda menina!... e também o senhor, amigo Sauvain!...</p>
+
+<p>Disse. E era espectáculo digno de admirar-se o sorriso diabólico de Pedro, o
+perfil espantado do pintor, os olhos maravilhados de Rosa, e a boca aberta do
+senhor Germinal.</p>
+
+<p>Toucard cruzou a perna direita sobre a esquerda, e afagando o queixo
+escanhoado, continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Olá, meus meninos! parece-me que se mostram demasiado frios para com um
+homem, que os reuniu... contra vento e maré!<span class="pn">{159}</span></p>
+
+<p>&mdash;Pois foi o senhor!... exclamou André. E os dois amantes estreitaram as,
+mãos do aventureiro.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, meu rapaz, fui eu que descobri o ninho desta linda ave do paraíso.
+</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, disse Sauvain, o que acaba de praticar absolve-o de todas as suas
+culpas!</p>
+
+<p>&mdash;Apre!... então passa-me quitação das noventa e duas mil libras?</p>
+
+<p>&mdash;De todo o coração! suspirou o pintor; ainda que...</p>
+
+<p>&mdash;Ainda que lhe fariam óptimo arranjo, na presente conjuntura; não é assim?
+E a menina Rosa não me recompensará também?</p>
+
+<p>&mdash;Bem o desejara, disse ela, apresentando a cândida fronte aos lábios
+encortiçados do velho; mas, por muito reconhecida que lhe seja, não posso...
+</p>
+
+<p>&mdash;Não pode oferecer senão o que tem, e eu contento-me!... disse Pedro, entre
+dois estrondosos beijos. Obrigado, minha linda fada; heis-me rejuvenescido!</p>
+
+<p>&mdash;Que significa isto? bradou o senhor Germinal. Caçoam comigo!.... Não sou
+aqui ninguém?... Com a breca!...</p>
+
+<p>&mdash;O compadre, disse Toucard com ironia, é, como nós, hospede do senhor
+Nuavias; e, nessa qualidade, seria de mau gosto fazer bulha em sua casa. Mas...
+acrescentou, interrompendo-se de súbito, que é aquilo?... que vejo eu ali?<span
+class="pn">{160}</span></p>
+
+<p>&mdash;Onde?</p>
+
+<p>&mdash;Acolá... nas cinzas... Rosa inclinou-se para o fogão.</p>
+
+<p>&mdash;É uma chave! exclamou ela.</p>
+
+<p>&mdash;Com efeito, disse André apanhando-a, é uma pequena chave, que me faz
+recordar...</p>
+
+<p>&mdash;Oh!... A que demónio de fechadura pertencerá ela? regougou Pedro.</p>
+
+<p>E inequívoca expressão de benévola malícia transparecia no seu enrugado
+rosto.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! agora penso eu... Não servirá por acaso essa chavinha naquele cofre,
+que ali está?... atrás de si... sobre a jardineira...</p>
+
+<p>André voltou-se e viu uma caixa de conchinhas, muito semelhante à que
+deixara em Granville, na sua arca de nogueira.</p>
+
+<p>&mdash;Recorda-se?... perguntou Pedro, apoiando-se-lhe no ombro. Foi dum
+cofrezinho igual que o senhor desenterrou a única acção louvável da minha vida:
+estas caixas são de bom agouro!</p>
+
+<p>E dirigindo-se a Rosa:</p>
+
+<p>&mdash;Veja o que essa contém, minha linda; uma chave, que desce pelo tubo da
+chaminé, merece atenção!... Seria algum génio benfazejo, que a deixou cair?
+Reviste sempre, Rosinha!...</p>
+
+<p>&mdash;Infeliz! bradou o senhor Germinal; vai cometer um abuso de confiança!...
+Que dirá o senhor Nuavias?<span class="pn">{161}</span></p>
+
+<p>&mdash;Aprovará, compadre: fico por isso. Procure, minha linda Rosa, procure...
+</p>
+
+<p>A jovem não se fez rogar; o seu instinto de mulher segredava-lhe que o génio
+benfazejo era Pedro, e que ele conduzia rapidamente as coisas para um desenredo
+agradável.</p>
+
+<p>Abriu a caixa, e tirou de dentro um maço de papeis cetinosos.</p>
+
+<p>&mdash;Notas do banco!... exclamou ela.</p>
+
+<p>&mdash;Devem ser noventa e duas, disse o aventureiro, as mesmas que o senhor
+Germinal destinava para o dote de Rosa; ora, como não é possível dar-lhes
+melhor aplicação, o senhor Nuavias resolveu restituir-lhas. Tome-as lá,
+compadre...</p>
+
+<p>&mdash;A mim!... Eu!... balbuciou o senhor Germinal. Mas como?... porquê?... com
+que direito?... o que significa?...</p>
+
+<p>&mdash;Tanta pergunta ao mesmo tempo! Vá sempre guardando... Continue a buscar,
+minha filha...</p>
+
+<p>Um adereço de diamantes!... e um colar de pérolas!... murmurou Rosa,
+deslumbrada.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é consigo, minha menina. É o presente de noivado do senhor Nuavias...
+Procure mais...</p>
+
+<p>&mdash;Mas enfim, disse o senhor Germinal, suando em bagas, esse Nuavias é o
+senhor, ou é o diabo?...</p>
+
+<p>&mdash;Nem um, nem outro... Querem conhecê-lo?<span class="pn">{162}</span></p>
+
+<p>&mdash;Quero... quero... quero... gritaram três vozes ansiosas.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem! Esse jovem e belo senhor Nuavias, esse feliz senhor Nuavias, que
+dentro em quinze dias vai desposar uma encantadora menina; esse afortunado
+senhor Nuavias, de quem somos hospedes, é...</p>
+
+<p>&mdash;É... quem?</p>
+
+<p>&mdash;André.</p>
+
+<p>&mdash;Eu!...</p>
+
+<p>&mdash;Sim? sem a menor dúvida! Nuavias é apenas o anagrama de Sauvain.</p>
+
+<p>&mdash;Porém, esta casa...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! tem razão... Esta casa... Ora queira procurar novamente na caixa,
+senhora noiva...</p>
+
+<p>Na caixa havia ainda outros papeis; mas esses eram espessos, pesados, com
+selo, cobertos de maçuda escrita, e rubricados por dois tabeliães. Continham um
+acto legal e autêntico, assegurando a André Sauvain a propriedade de uma casa,
+situada em Audily (Seine-et-Oise).</p>
+
+<p>&mdash;Senhor!... exclamou o pintor fora de si, é demais!... É demais!... Não
+posso aceitar...</p>
+
+<p>Pedro interrompeu-o com gesto suplicante; a sua fisionomia tornara-se grave
+e sisuda.</p>
+
+<p>&mdash;Meu querido amigo, disse ele com voz comovida, permita-me que resgate, a
+meu modo os erros passados... Talvez devesse te-lo feito mais cedo...<span
+class="pn">{163}</span> Mas, se prolonguei por alguns dias as suas mágoas, se
+me apresentei em sua casa sob farrapos mentirosos, foi porque ainda não tinha
+encontrado Rosa, e queria entregar-lha juntamente com o seu património. Dessa
+experiência, saiu o senhor vitorioso; outro qualquer ter-me-ia morto, porém o
+senhor... coração nobilíssimo!... para o homem, que lhe despedaçara a vida,
+teve ainda uma última e sublime esmola!... Pois bem! seja generoso até ao
+fim... não recuse os meus dons... não me deixe remorsos...</p>
+
+<p>&mdash;Cumpra-se o seu desejo, respondeu Sauvain. Aceito este oásis encantador...
+com a condição, porém, de restituir-lho quando a fortuna o houver atraiçoado.
+</p>
+
+<p>&mdash;Com mil amarras!... Espere por isso! Graças a Deus, estou curado da febre
+de traficar; viverei como um bom burguês; o meu amigo Germinal ensinar-me-á o
+gamão; e nunca mais especularei, senão em sonhos.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo amor de Deus, murmurou o pai de Rosa, expliquem-me de que se
+trata!... Que diabo está o senhor para aí a falar em erros, remorsos, e
+património?... Que significa todo esse aranzel?...</p>
+
+<p>&mdash;Significa, respondeu o aventureiro, que encontrei no meu caminho duas
+virtudes raras, e tão raras que me converteram...</p>
+
+<p>&mdash;E quais são essas virtudes?...<span class="pn">{164}</span></p>
+
+<p>&mdash;O perdão das injúrias, disse Pedro, apertando a mão a André... e a inteira
+probidade, acrescentou, estendendo a outra ao senhor Germinal.</p>
+
+<p>Este esfregou desesperadamente o seu ferruginoso crânio.</p>
+
+<p>&mdash;Tudo isso para mim é hebraico, replicou o pai de Rosa. A única coisa, que
+pude coligir, foi que o senhor está milionário!...</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, meu bom amigo. A sorte favorece os doidos. Esse depósito
+sagrado, pelo qual velou durante doze anos, como homem probo, que é,
+arrisquei-o eu, sem reflectir, num lance de dados... Ganhei... Sou portanto um
+grande especulador. Mas... se tivesse perdido?... Quando penso nisso, sobe-me o
+coração à garganta, e sinto-me tremer como... como o seu <em>Faust au
+sabbat</em>, André!... um quadro admirável! que, entre parêntesis, possuo em
+Paris no meu palacete, e pelo qual me ofereceram já o seu peso em oiro?</p>
+
+<p>&mdash;De modo que, disse o pintor, o meu mercador de quadros entrava na
+conspiração?... Traidor!...</p>
+
+<p>&mdash;Ora!... e também a modista, para quem fazia flores a menina Rosa, os
+criados desta casa, e até o pateta do Jacinto, antigo marinheiro, que eu elevei
+à categoria de guarda-portão, e que hoje tomo a liberdade de recomendar à sua
+benevolência.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! quanto a esse, disse Sauvain rindo, é possível<span
+class="pn">{165}</span> que tentassem inicia-lo no segredo, mas assevero-lhe
+que nada percebeu!</p>
+
+<p>&mdash;Nem eu tão pouco, palavra de honra! replicou sinceramente o senhor
+Germinal, e por isso... meto a viola no saco. Toque nestes ossos, meu genro!
+</p>
+
+<p>&mdash;Com mil vontades! exclamou alegremente o pintor, apertando nas mãos a
+garra descarnada do pai da sua noiva. Estava escrito que, riqueza, gloria e
+felicidade, tudo encontraria...</p>
+
+<p>&mdash;N<small>AS CINZAS</small>, concluiu Pedro Toucard.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot65" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> Reunião de três
+números, cuja extracção simultânea era uma sorte feliz.</p>
+
+<p><a name="foot119" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> Hospital de
+alienados.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="border: dotted 2px red; padding: 2px;">
+<div style="border: double 4px green;padding: 2px;">
+<div style="text-align:justify; border: dotted 2px red; padding: 1em;" class="verde">
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;">OBRAS PUBLICADAS</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 0.8em;" class="vermelho">PELA</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;">EMPRESA EDITORA CARVALHO &amp; C.ª</p>
+
+
+<p style="text-align:center;" class="vermelho">TEATRO</p>
+
+<p class="indlist">Os sabichões<span class="vermelho">&mdash;Comédia original em 4 actos, por E.
+Biester,</span> 250</p>
+
+<p class="indlist">Ao calçar das luvas<span class="vermelho">&mdash;Comédia original em 1 acto, por
+Rangel de Lima,</span> 100</p>
+
+<p class="indlist">O afilhado de Pompignac<span class="vermelho">&mdash;Comédia (tradução) em 4
+actos, por L. C. M.,</span> 200 </p>
+
+<p class="indlist">Um homem político<span class="vermelho">&mdash;Comédia (imitação) em 3 actos por
+Aristides Abranches,</span> 200</p>
+
+<p class="indlist">O fidalguinho<span class="vermelho">&mdash;Comédia original em 3 actos, por
+Ferreira de Mesquita,</span> 200 </p>
+
+<p class="indlist">Abençoado progresso<span class="vermelho">&mdash;Comédia original em 1 acto, por
+Rangel de Lima,</span> 100</p>
+
+<p class="indlist">As campainhas<span class="vermelho">&mdash;Comédia (tradução) em 1 acto, por
+Pinheiro Chagas,</span> 100</p>
+
+<p class="indlist">João o britador<span class="vermelho">&mdash;Drama (tradução) em 5 actos, por L.
+C. M.,</span> 250</p>
+
+<p class="indlist">As três rocas de cristal<span class="vermelho">&mdash;Mágica em 3 actos e 17
+quadros, por Aristides Abranches,</span> 300</p>
+
+<p class="indlist">A família<span class="vermelho">&mdash;Drama original em 5 actos, por J. R.
+Cordeiro,</span> 300</p>
+
+<p class="indlist">Quem desdenha<span class="vermelho">&mdash;Comédia original em 1 acto, por
+Pinheiro Chagas,</span> 100</p>
+
+<p class="indlist">Caso de consciência<span class="vermelho">&mdash;Comédia (tradução) em 1 acto,
+por Pinheiro Chagas,</span> 100 </p>
+
+<p class="indlist">Luís XI e o poeta<span class="vermelho">&mdash;Comédia (tradução) em 1 acto
+Ferreira de Mesquita,</span> 160 </p>
+
+<p class="indlist">A mosca branca<span class="vermelho">&mdash;Comédia (imitação) em 3 actos, por
+Duarte Santos,</span> 200</p>
+
+<p class="indlist">A cruz de prata<span class="vermelho">&mdash;Drama (tradução) em 5 actos, por L.
+C. M.,</span> 300</p>
+
+<p style="text-indent: 1em;">N. B. A quem comprar a colecção completa (15 peças) 40 por cento de
+abatimento.</p>
+
+<p style="text-align:center;" class="vermelho">ROMANCES</p>
+
+<p class="indlist">As duas flores de sangue<span class="vermelho">&mdash;Original, por Pinheiro
+Chagas (1 volume),</span> 500</p>
+
+<p class="indlist">As doze espadas do diabo<span class="vermelho">&mdash;Tradução de Guilherme
+Celestino (2 volumes),</span> 800 </p>
+
+<p class="indlist">Cláudio<span class="vermelho">&mdash;Original, por Júlio César Machado (1
+volume),</span> 500</p>
+
+<p class="indlist">Nas cinzas<span class="vermelho">&mdash;Tradução por L. C. M. (1 volume),</span>
+300</p>
+
+<p style="text-align:center;" class="vermelho">NO PRELO</p>
+
+<p class="indlist">Uma noite em Florença<span class="vermelho">&mdash;Tradução de Guilherme
+Celestino (1 volume),</span> 400</p>
+
+<p style="text-indent: 1em;">Remetem-se, francos de porte, a quem enviar a sua importância em estampilhas
+ao escritório da empresa, rua larga de S. Roque, n.º 100, 1.º andar.</p>
+
+
+<p style="text-align:center;" class="vermelho">Imprensa Nacional&mdash;1875<br>
+</p>
+</div>
+</div>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Nas Cinzas, by Gontran Borys
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NAS CINZAS ***
+
+***** This file should be named 30543-h.htm or 30543-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/0/5/4/30543/
+
+Produced by M. Silva
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>