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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:55:55 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II + +Author: Luís de Camões + +Release Date: March 5, 2010 [EBook #31509] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS COMPLETAS--LUIS DE CAMOES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +Notas de transcrição: + +O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro +impresso em 1843. + +Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns +pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, +e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos +inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em +particular quanto à acentuação. + +Nesta versão electrónica, em texto simples, não é possível representar +alguns caracteres usados no livro impresso. Usamos como substituto desses +caracteres os seguintes marcadores: + +[~e] = e com til por cima, corresponde aproximadamente a "em"; + +[~u] = u com til por cima, corresponde aproximadamente a "um"; + + + * * * * * + + + + + + CLASSICOS PORTUGUEZES. + + TOMO II. + + CAMÕES. + + II. + + + +PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT, +Rua Racine, 28, junto ao Odeon. + + + +OBRAS COMPLETAS + +DE + +LUIS DE CAMÕES, + +CORRECTAS E EMENDADAS + +PELO CUIDADO E DILIGENCIA + +DE + +J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro. + + +TOMO SEGUNDO. + + +LISBOA. + +ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ, +NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY, +3, quai Malaquais, près le pont des Arts. + +1843 + + + + +PREFAÇÃO. + + +Os que são versados na historia terão feito esta observação, que em todos +os povos que no mundo tem figurado, as armas precedêrão sempre ás letras. +Para haver Homeros, necessario foi que houvesse primeiro Achilles. O amor +da patria e da liberdade, e aquelle innato desejo, que mais ou menos +violento segundo as diversas indoles, arde no coração de todo homem, de se +elevar acima de seus iguaes por meio de acções grandiosas e sublimes, +excitárão as almas nobres a tentar grandes empresas; e as façanhas dos +heroes impellirão depois os bons engenhos a transmitti-las aos vindouros, +elegantemente escrevendo em prosa ou verso. E nunca vimos que prosperassem +muito as letras n'um povo indigno de historia. Assim que bem se póde dizer +que sempre a penna dos Escritores foi aparada pela espada dos Guerreiros: +testimunhas Grecia e Roma. + +Portugal, des de o berço educado para as armas e endurecido na guerra, a +todas as nações modernas se avantajou em gloria militar. Com poucas forças +e meios não somente sustentou longas e terriveis guerras, mas não contente +de reconquistar e manter gloriosamente a sua independencia, emprehendeo +mores cousas: devassou mares virgens, descobrio novas regiões, venceo e +sujeitou a seu jugo muitos e mui poderosos Reis e povos; e tendo estendido +o seu imperio até aos ultimos confins da terra, excitando a admiração das +gentes com nunca vistos prodigios de industria, de valor, e de constancia +por espaço de quasi cinco seculos, longo tempo se manteve no apice da +grandeza e gloria humana: até que o ultimo Henrique, dessemelhante em tudo +do primeiro, preparada ja nos dous antecedentes reinados a encosta por onde +a illustre nação devia descer da altura a que subira; reunindo em si o Bago +e o Sceptro e manchando as mãos sagradas nas cousas temporaes, a despenhou +no abysmo, donde até hoje não ha podido mais levantar-se. + +Tendo, pois, florescido tanto nas armas, razão era que florescesse tambem +nas letras. E com effeito, despertados os engenhos com o estrondo dos +feitos militares, um pouco mais tarde começárão ellas de nascer, e achando +o chão propicio, pouco a pouco se forão arraigando de maneira, que ja no +decimo terceiro seculo, reinando ElRei Dom Denis, desabrochárão suas +primeiras flores; tendo aquelle grande Rei a gloria de lhes haver dado o +primeiro impulso, escrevendo elle mesmo com summa elegancia para o tempo +algumas obras, como um Tratado entitulado _Dos principaes deveres da +Milicia_, e dous Cancioneiros, um dos quaes appareceo em Roma, reinando em +Portugal João III. E no decimo quarto produzírão ja um tão sazonado fructo, +como o Amadis de Gaula, obra de Vasco de Lobeira, que traduzida por +Bernardo Tasso, pae do Epico Italiano, tamanho brado deo na Italia, e da +qual o mesmo Epico diz (Defens. di Goffredo): _Per giudizio di molti e mio +particularmente è la più bella che si legga fra quelle di queste genere.... +Perche nell'affetto e nei costumi se lascia addietro tutte l'altre, e nella +varietá de gli accidenti non cede ad alcuna, che dapoi nè daprima fosse +stato scritta._ E como tal a exceptuou Miguel de Cervantes na revista que +fez o Cura dos livros de Dom Quixote, dizendo: _Este livro fué el primero +de Caballarías que se escrevió en España, y todos los demas han tenido +principio y origen deste.... Es el mijor de todos los que deste genero se +han compuesto._ + +No decimo quarto se escreveo a Chronica do Condestavel e grande capitão +Dom Nuno Alvares Pereira (primeiro ensaio historico de que temos +noticia) que se imprimio em Lisboa em 1520. + +No decimo quinto escreveo ElRei Dom Duarte _O Leal Conselheiro_, que se +conserva na bibliotheca Real de París, e dous tratados entitulados, um _Da +Misericordia_, outro _Do Regimento da justiça e Officiaes della etc_. Seu +irmão o Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra, que veio a ser depois Regente +do Reino durante a menoridade de Affonso 5.º, tambem escreveo algumas obras +politicas e moraes em prosa e verso, algumas das quaes se imprimírão em +Leiria 6 annos depois da invenção da imprensa, e traduzio do Latim e +dedicou a seu irmão Dom Duarte _Cicero de Officiis_, e _Vegetius de re +militari_. Ayres Telles de Menezes, que por esse mesmo tempo floresceo, foi +elegante poeta; e delle nos conservou Rezende no seu Cancioneiro algumas +poesias; e para que se veja a que estado de cultura e perfeição havia ja +então chegado a nossa bella lingua, transcreveremos aqui a seguinte + + ODE + + De pungentes estimulos ferido + O Regedor dos ceos e humilde terra, + Sôbre ti manda, desastrada Lysia, + Effeitos da sua íra. + + A peste armada destruir teu povo + A um seu leve aceno vôa logo: + Estraga, fere, mata sanguinosa, + Despiedada e crua. + + Despenhada no abysmo da ruina, + Fugir pretendes aos accesos raios, + Qual horrida phantasma, porém logo + Desfallecida cahes. + + O açoute do Ceo lamenta, ó Lysia, + Mas inda muito mais os teus errores + Que provocar fizerão contra ti + Contagião mortal. + + Dos Ceos apagar cuida a justa sanha + Da penitencia com as bastas ágoas, + Ja que revel e surda te mostraste + + A seus mudos avisos. + Então verás ornada a nobre frente, + Como nos priscos tempos que passárão, + De esclarecidos louros, sinal certo + De teus almos triumphos. + +Por esse mesmo tempo Fernão Lopes, Duarte Galvão, Gomes Eanes de Zurara +começárão a encommendar á memoria as façanhas dos Portuguezes, +escrevendo regularmente as Chronicas dos nossos Reis des de a fundação +da monarchia. + +No principio do decimo sexto seculo Bernardim Ribeiro e Gil Vicente +introduzírão, aquelle o estilo bucolico, este as representações theatraes. +Francisco de Moraes escreveo o seu excellente Romance de Cavalleria, _O +Palmeirim de Inglaterra_, do qual o mesmo Cervantes (que erradamente o +attribue a ElRei Dom Duarte) faz o seguinte elogio: _Esta palma de +Inglaterra se guarde y se conserve, como cosa unica; y se haga para ella +otra caja de oro como la que halló Alejandro en los despojos de Dario, que +la diputó para guardar en ella las obras del poeta Homero. Este libro, +Señor compadre, tiene autoridad por dos cosas; la una porque él por si es +muy bueno, y la otra porque es fama que le compuso un Rey de Portugal. +Todas las aventuras del castillo de Miraguarda son bonisimas y de grande +arteficio, las razones cortesanas y claras, que guardan y miran el decoro +dei que habla con mucho entendimiento. Digo pues.... que este y Amadis de +Gaula queden libres del fuego; y todos los demas, sin hacer mas cala ni +cata, perescan_. Fernão Lopes de Castanheda e João de Barros, cognominado o +Livio Portuguez, escrevêrão a historia das nossas descobertas e conquistas +d'Asia. Sá de Miranda introduzio a verdadeira Comedia e a Satyra dos +costumes, em que sobretudo he insigne. E finalmente, quando ja Portugal se +avizinhava á fatal epocha da sua decadencia, veio tambem a produzir, como +Roma, o seu Virgilio, dando ás letras um Camões; genio criador e sublime, +que nascido para ser grande em tudo, se com soberano alento embocou a +trombeta heroica, não pulsou com menor destreza a lyra, nem tirou da frauta +sons menos harmoniosos e suaves. + +Do seu Poema Epico ja n'outro lugar dissemos, não o que poderiamos dizer, +mas o que julgámos bastante. Diremos tambem agora alguma cousa de suas +poesias lyricas. E começaremos por observar que se nenhum escritor foi mais +desprezado e perseguido de seus compatriotas, tambem nenhuma nação ha sido +tão castigada, como a Portugueza das perseguições e desprezos, que soffreo +este grande homem, não della, mas do seu governo, e dos grandes e +poderosos, de cujos crimes he quasi sempre o povo quem vem a pagar as +penas. Porque não lhe tendo sido possivel, pela miseria em que viveo, dar á +luz as suas poesias sôltas, não as polio nem limou, nem deixou collecção +dellas; e assim as mais se perdêrão, e as outras, espalhadas por mãos de +muitos, se forão corrompendo nas copias, de sorte que inda as que menos +damno soffrêrão, andão hoje nas impressões mui diversas do que erão, quando +sahírão da penna de seu autor. E assim veio esta culpa de alguns a ter para +nós as mesmas consequencias, que teve a de Adam para a humanidade; isto he, +cahir dos culpados sôbre os innocentes e estender-se a todas as gerações. E +se não foi mais amplo este castigo, a Fernão Rodrigues Lobo Surrupita o +devemos. Este, com incansavel diligencia juntando algumas obras varias, que +pôde alcançar, as deo pela primeira vez á luz no anno de 1595, assim +desfiguradas como as achou: com o que não só evitou perderem-se estas, mas +com o seu exemplo instigou outros a proseguir na mesma diligencia: e assim +se forão descobrindo mais algumas, que pelo tempo adiante se forão dando ao +prelo. De modo que podemos dizer que em todos os estilos nos ficou do nosso +poeta apenas uma pequena amostra, para que pelo dedo se conhecesse o +gigante. Porém de tal quilate he o ouro, que essas pequenas reliquias +bástão para elevar o cume do nosso Parnaso a tal altura, que lhe não fique +superior o de nenhuma outra nação estranha. + +Porque nos Sonetos he eminente o nosso poeta; e para lhe obter a palma +sôbre quantos neste genero de composição se tem exercido, bastaria, +quando outros muitos não tivesse de igual belleza, só este, que he o 72: + + SONETO + + Quando de minhas mágoas a comprida + Maginação os olhos me adormece, + Em sonhos aquella alma me apparece, + Que para mim foi sonho nesta vida. + + Lá n'uma soidade, onde estendida + A vista pelo campo desfallece, + Corro apos ella; e ella então parece + Que de mim mais se alonga, compellida. + + Brado: Não me fujais, sombra benina. + Ella, os olhos em mim co'um brando pejo + Como quem diz que ja não pode ser, + + Torna a fugir-me: tórno a bradar: _Dina_... + E antes que diga _mene_, acordo, e vejo + Que nem um breve engano posso ter. + +Diante deste desapparece toda a caterva de Sonetos que tem inundado Italia +e Hespanha. Impossivel parece que com palavras tão vulgares se podesse +pintar tão bella imagem, exprimir tal sentimento. Da outra banda do Lethes, +confinando com os Elysios, descortinou a imaginação de Virgilio umas +dilatadas campinas, a que na sua Lingua Latina chamou _Lugentes campi_, que +o nosso Franco Barreto traduzio: _Campos sem luz_, e nós diremos: _Campos +da Saudade_. Nestes campos e pela mesma Saudade parece que foi ditado este +maravilhoso Soneto, que em nossa fraca opinião inda não foi igualado, nem +será nunca excedido. E como este puderamos citar muitos. + +Nas Canções deixou a perder de vista a Petrarca, Bembo, e a quantos a +este genero de composição se tem dado: o que melhor poderá ver quem +quizer comparar umas com outras. + +Nas Odes, como em todo outro genero de poesia, todos sabem que ha diversos +estilos para os diversos assumptos. O que a cada um destes convem, a mesma +natureza delle o indica; e tanto erraria o que descrevesse um prado +florido, um ribeiro socegado, as graças de uma pastora, ou Diana exercendo +as dansas e choreas de suas nymphas pelos cabeços do monte Cynthio, no +mesmo estilo em que se deve descrever o mar impetuoso, o combate dos +Athletas, ou Jove fulminando os gigantes, como vice versa. Pindaro, +Anacreonte, e Horacio são os tres poetas que neste genero se nos propõe por +modelos. Mas que differença de estilo entre Horacio, Anacreonte, e Pindaro! +Certamente não he menor que a que vai do bucolico ao lyrico, ou do lyrico +ao epico. O nosso Camões, profundo conhecedor da natureza, e mestre em +todos os estilos, habilmente soube escolher aquelle que mais convinha ás +materias que tratava, sempre natural e facil, sempre elegante e florido, e +muitas vezes sublime. E as suas Odes, ainda que não tenhão o requisito, que +hoje se tem por essencial, de serem inintelligiveis, são pelos entendedores +summamente louvadas, e até não falta quem as prefira ás Canções; mas desta +opinião não somos, ainda que pensamos com Faria e Sousa, que a 4.ª, 6.ª, +9.ª e 10.ª tarde serão excedidas; e o mesmo diriamos da 1.ª se não andára +viciada. + +No estilo bucolico, de que o poeta parece mais se aprazia, e em que des de +a puericia exerceo a sua Musa, he onde alguns lhe querem negar a palma, +para a concederem a Bernardes. Verdade he que Bernardes, depois da morte de +Camões, appareceo em publico mui bem ataviado; mas os que lhe conhecião os +cabedaes, admirados de o verem tão ricamente vestido, logo disserão uns +para os outros: _Donde vem a Pedro fallar gallego?_ e Manoel de Faria e +Sousa o chamou a juizo, e convencendo-o de furto, o condemnou a despir na +praça e restituir a seu dono parte dos vestidos roubados; sendo justo e de +razão que quem o alheio veste, na praça o dispa. Mas deixando a Bernardes +para outro processo, que intentamos fazer-lhe sobre estes mesmos roubos, +passemos a examinar se he ou não exacto o juizo, que Luis de Camões se não +mostrára tão grande poeta no genero pastoril, como no lyrico e heroico. + +Surropita no seu prologo á primeira edição das Rimas foi o primeiro que +emittio esta opinião desfavoravel ao poeta, quanto ao estilo bucolico, +dizendo, depois de o louvar devidamente nos mais: _Oxalá pudera humilhar +a grandeza do seu engenho, conformando-se mais com o estilo bucolico!_ +Da mesma sorte o julgou Faria e Sousa, a quem seguírão depois o Padre +Thomaz de Aquino e outros, que sem se darem ao trabalho de profundar as +cousas, querem decidir de tudo, sem appellação nem aggravo. Vejamos se +tem razão. + +Assenta este juizo principalmente sobre a Egloga 1.ª, que o poeta reputava +pela melhor de quantas havia feito, e sobre a 6.ª, que elle de certo não +tinha pela peor. E este voto do mesmo autor, que era tão grande homem, e no +julgar de suas proprias obras nenhum interesse podia ter em exaltar umas +para abater outras, ja he de algum momento. Porque, sendo a poesia, como a +pintura, uma imitação da natureza, segue-se necessariamente que os melhores +poetas e pintores são os mais profundos observadores e conhecedores da +natureza, porque ninguem a póde perfeitamente imitar, sem que profundamente +a conheça. Grandes imitadores, e portanto profundos conhecedores da +natureza forão na poesia Homero, Virgilio, Camões etc., e na pintura +Apelles, Raphael e Miguel Angelo; e mais val o voto de qualquer destes +poetas ou pintores, que o de muitos milhões de versejadores ou borradores. +Disse Camões que a sua Egloga de Umbrano e Frondelio, que Surropita e Faria +tachárão de lavantada no estilo mais do que convinha ao genero bucolico, +lhe parecia a elle a melhor de quantas fizera, isto he, que nella estava +melhor imitada a natureza, que em todas as mais; e nós (se tambem nos he +permittido interpor nossa humilde opinião) a temos não só pela melhor de +quantas o poeta escreveo, mas de quantas havemos lido. E diremos o porque. + +Preceito he, ditado pela mesma natureza, que tenha cada genero de poesia +seu estilo particular, e que o som da frauta se não confunda com o da lyra +ou da trombeta; mas tambem he preceito da natureza que, pois a choça e o +throno estão igualmente sujeitos aos revezes da fortuna, e na vida pastoril +pódem occorrer varios casos que dem assumpto ao poeta; se levante ou abaixe +o estilo segundo for mais ou menos alto o assumpto, e que se o pastor se +propõe louvar o Consul se tornem as florestas dignas delle. + + _Si canimus sylvas, sylvae sint Consule dignae._ + +Assim o entendeo e fez Virgilio, assim o entendeo e fez Camões, e assim +o estabeleceo depois em preceito o judicioso Boileau na sua arte poetica. + + _L'Églogue quelquefois + Rend dignes du Consul la campagne et les bois._ + +E contra estas autoridades e a razão em que se ellas fundão mal podem +sustentar-se em campo os que pretendem que neste genero de poesia se não +possa tratar senão assumptos de lana caprina na lingoagem dos trivios. + +Na sua Egloga 1.ª lamenta o nosso poeta as mortes de Dom Antonio de Noronha +e do Principe Dom João, que profundamente sentio, aquella como verdadeiro +amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as consequencias de +tão desastrado acontecimento. E como o forte sentir produz o forte e +elevado pensar, algumas vezes se eleva, assim na sentença como na dicção, +até tocar as raias prescriptas a esta especie de poesia, mas não as +transcende nunca; nem as figuras e imagens de que se serve, as estranha o +estilo bucolico; e muito mais n'uma lingua, em que essas mesmas imagens e +figuras de tal sorte estão recebidas, que até os mais rudos camponezes rara +vez se exprimem sem ellas. Mas inda quando fossem alheias da linguagem +vulgar, quem as estranharia na poesia, que de sua natureza se deve levantar +do uso commum de fallar? Permitte-se a Virgilio dizer n'uma Egloga: + + _Ipsae te, Tityre, pinus, + Ipsae te fontes, ipsae haec arbusta vocabant._ + + Estes pinheiros, Tityro, estas fontes, + Estes mesmos arbustos te chamavão. + +e não se hade consentir a Camões dizer: + + Canta agora, pastor, que o gado pasce + Entre as humidas hervas socegado, + E lá nas altas serras onde nasce, + O sacro Tejo á sombra recostado + Com seus olhos no chão, a mão na face, + Está para te ouvir apparelhado; + E com silencio triste estão as Nymphas + Dos olhos destillando claras lymphas? + +Emfim nesta admiravel Egloga nada falta da parte do poeta; se alguma +cousa faltar, será da parte do leitor. Passemos agora á 6.ª + +Nesta Egloga mistura o poeta o estilo pastoril e o piscatorio, de que elle +foi entre nós o primeiro introductor, e que levou a tal perfeição, que +desanimou os que depois se seguírão a ponto, que ficou quasi de todo +esquecido. He o seu argumento uma contenda entre um pastor e um pescador +sobre qual dos estilos deve ter a preferencia, cantando cada um a belleza +da sua amada. E ja daqui se vê que um e outro deve levantar o estilo quanto +puder, e pôr nesta porfia todo o seu cabedal, para não ficar vencido. Esta +Egloga he onde Faria mais se funda para dizer que o poeta se não podia +domar na força do seu enthusiasmo. Mas tão longe está de justificar este +juizo, que della mesma nos queremos servir para mostrar a pasmosa +facilidade, com que o poeta sabia variar de tom e passar de um estilo a +outro. E sem gastar mais palavras, passemos a analysar cada uma de suas +Estancias, porque a verdade he facil de ver-se, e por si mesma saltará aos +olhos. + +Dá o pastor princípio á contenda, invocando as divindades campestres +deste modo: + + AGRARIO. + + Vós, semicapros deoses do alto monte, + Faunos longevos, Satyros, Sylvanos; + E vós, deosas do bosque e clara fonte, + E dos troncos que vivem largos anos; + Se tendes prompta um pouco a sacra fronte + A nossos versos rusticos e humanos, + Ou me dai ja a capella de loureiro, + Ou penda a minha lyra d'um pinheiro. + +Sublime e admiravel invocação! Mas ouçamos agora o pescador + + ALICUTO. + + Vós, humidas deidades deste pégo, + Tritões ceruleos, Próteo, com Palemo; + Vós, Nereidas do sal em que navego, + Por quem do vento a furia pouco temo; + Se a vossas sacras aras nunca nego + O congro nadador na pá do remo, + Não consintais que a musica marinha + Vencida seja aqui na lyra minha. + +Que terão que dizer esses Senhores a estas duas Estancias? Dirão que são +demasiado sublimes, e que estão fóra do natural, porque a este simples, +a este natural, a este sublime não podem elles chegar. Mas não lhes +demos ouvidos, e continuemos a prestar attenção aos nossos contendores. +Vejamos com que despejo entrão na lide. + + AGRARIO. + + Pastor se fez um tempo o moço louro + Que do pae as carretas move e guia; + Ouvio o rio Amphryso a lyra d'ouro, + Que o seu claro inventor alli tangia. + Io foi vacca, Jupiter foi touro + Mansas ovelhas junto d'ágoa fria + Guardou formoso Adonis, e tornado + Em bezerro Neptuno foi ja achado. + +A esta formosa Estancia em louvor da vida campestre oppõe o pescador a +seguinte, exaltando a sua profissão. + + ALICUTO. + + Pescador ja foi Glauco, e deos agora + He do mar, e Protêo phocas guarda; + Nasceo no pégo a deosa, qu'he senhora + Do amoroso prazer, que sempre tarda. + Se foi bezerro o deos que cá se adora, + Tambem ja foi delphim. Se se resguarda, + Vê-se que os moços pescadores erão, + Que o escuro enigma ao primo vate derão. + +Agora passa o vaqueiro a queixar-se da frieza com que a sua pastora +recebe as suas finezas. + + AGRARIO. + + Formosa Dinamene, se dos ninhos + Os implumes penhores ja furtei + Á doce philomela, e dos murtinhos + Para ti (fera!) as flores apanhei; + E se os crespos madronhos nos raminhos + Com tanto gosto ja te presentei, + Porque não dás a Agrario desditoso + Um só revolver d'olhos piedoso? + +Responde-lhe o seu adversario com uma Estancia do mesmo genero, segundo +os preceitos do canto amebeo, ou alternado. + + ALICUTO. + + Para quem trago d'ágoa em vaso cavo + Os curvos camarões vivos saltando? + Para quem as conchinhas ruivas cavo + Na praia, os brancos buzios apanhando? + Para quem de mergulho no mar bravo + Os ramos de coral vou arrancando, + Senão para a formosa Lemnoria, + Que co'um só riso a vida me daria? + +Agora vão descrever, um as furias do ciume, outro as da desesperação de +ver galardoado o seu amor. Vejamos como sahem da empresa. + + AGRARIO. + + Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno, + D'átras nuvens vestido, horrido e feio, + Ennegrecendo á vista o ceo superno, + Quando os troncos arranca o rio cheio; + Raios, chuvas, trovões, um triste inferno + Que ao mundo mostra um pallido receio: + Tal o amor he cioso a quem suspeita + Que outrem de seu trabalho se aproveita. + + ALICUTO. + + Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante + Furor lançando flammas e bramidos, + Quando as pasmosas serras traz diante, + Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos; + A braços derribando o ja nutante + Mundo co'os elementos destruidos; + Assim me representa a phantasia + A desesperação de ver um dia. + +Estas Estancias diz Faria que as estranha o estilo bucolico. Mas se as +estranha necessariamente ha de ser ou pelos pensamentos ou pela dicção. +Pelos pensamentos seguramente não he, porque ninguem dirá que está fóra do +alcance de um pastor ou de um pescador o sentir a semelhança que tem as +furias do ciume, ou da desesperação com as tempestades do inverno, ou com o +mar agitado pelos ventos. Pela dicção tambem não, porque se o pensamento +não he estranho, tambem esta o não póde ser, quando tão perfeitamente se +lhe accommoda e ajusta, como aqui se observa; e muito mais quando as mesmas +figuras e imagens de que o poeta aqui usa, andão na boca do povo de sorte, +que nada he mais ordinario que ouvir dizer a um camponez _que o ceo está +toldado de negras nuvens etc._, ou a um marinheiro ou pescador _que o vento +traz todo o mar em serras diante de si; que parece querer destruir a terra +etc._ A differença está em que onde o pastor diria _coberto_ ou _toldado_, +diz o poeta _vestido_, e onde o marinheiro diria _abalado_, diz o poeta +_nutante_, para se levantar um pouco do uso commum de fallar. E portanto +não ha aqui impropriedade alguma; antes summa conveniencia de pensamentos e +palavras. E desta mutua conveniencia e propriedade resulta esta viveza de +pintura, esta sublimidade, de que se espanta Faria. Porém sem razão se +espanta, porque fóra do natural não ha sublime, e o que he natural não se +estranha. Nem se persuada ninguem que se o poeta aqui se elevou, foi porque +não podia domar-se; que mui de proposito o fez, por assim julgar que o +devia fazer. Porque não ha poeta, que melhor soubesse variar de tom, pintar +os objectos com propriedade e viveza, e seguir com a phrase o pensamento. +Senão veja-se nas Estancias logo seguintes como ja serpeia manso regato o +que inda ha pouco era rio caudaloso. + + AGRARIO. + + Minha alva Dinamene, a primavera + Que os deleitosos campos pinta e veste, + E rindo-se uma côr aos olhos gera, + Que em terra lhes faz ver o Arco celeste; + As aves, as boninas, a verde hera, + E toda a formosura amena agreste + Não he para os meus olhos tão formosa, + Como a tua, que abate o lirio e rosa. + + ALICUTO. + + As conchinhas da praia, que presentão + A côr das nuvens, quando nasce o dia; + O canto das Sirenas, que adormentão; + A tinta que no murice se cria; + O navegar por ondas, que se assentão + Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria, + Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me, + Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me. + + AGRARIO. + + A deosa, que na Lybica lagôa + Em fórma virginal appareceo, + Cujo nome tomou, que tanto sôa, + Os olhos bellos t[~e]e da côr do ceo: + Garços os tem; mas uma, que a corôa + Das formosas do campo mereceo, + Da côr do campo os mostra graciosos. + Quem não diz que são estes os formosos? + + ALICUTO. + + Perdoem-me as deidades, mas tu diva + Que no liquido marmore es gerada, + A luz dos olhos teus, celeste e viva, + Tens por vicio amoroso atravessada: + Nós petos lhe chamâmos: mas quem priva + De luz o dia, baixa e socegada + Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego, + E com toda esta luz sempre estou cego. + +Agora diga quem nasceo para sentir as bellezas da natureza, se ha em +Theocrito ou Virgilio, ou algum outro poeta antigo ou moderno, um desafio +igual a este, ou se póde chegar a mais a perfeição humana. E eis-aqui as +duas Eglogas com que alguns individuos, que tendo olhos e tempo para ler +muito, os não tiverão para observar a natureza, e conhecer com que +ampliações ou restricções se devem entender e applicar os preceitos de +Aristoteles e Horacio, pretendêrão provar que o nosso poeta não possuia o +estilo bucolico. Certo que não ha na republica das Letras sevandijas mais +nojentas, que certos homens de espirito acanhado, que enfatuados com graos +de Doutores e titulos de Academicos, sem nunca terem produzido nem serem +capazes de produzir cousa alguma, se arrogão o direito de taxar o +merecimento e preço das obras dos grandes homens. + +Mas inda quando fosse verdade que da frauta se não podesse tirar mais que +um som unico, e a respeito destas Eglogas a razão da parte delles, e não da +nossa estivesse, ousarião esses Aristarchos dizer que em todas as mais, e +com especialidade na 8.ª, 9.ª, 10.ª, 11.ª, 13.ª, 14.ª se não encontra o +verdadeiro estilo bucolico, e em tal perfeição que nenhuma inveja podemos +ter a Theocrito ou Virgilio? E se estes dous poetas que neste genero se +recommendão como modelos, julgárão não offender os preceitos d'arte, +aquelle em levantar o estilo a ponto de poder celebrar na humilde avena os +louvores de Ptolomeo Philadelpho e alguns dos trabalhos de Hercules, que +parecião mais proprio assumpto para uma Ode Pindarica, este de tornar a +selvas dignas do Consul, sem que por isso deixassem de ser olhados como +oraculos; por que lei ou com que autoridade pretendem esses guarda-portões +do Parnaso expulsar o nosso poeta do lugar que ao lado desses primeiros +mestres, lhe assinou o mesmo Apollo. + +Doze Elegias temos do nosso poeta, (porque as que nas edições posteriores á +de Faria se forão introduzindo, assim como os tres Cantos da Criação do +homem e alguns Sonetos, que atéqui andavão com o titulo de _Obras +Attribuidas_, evidentemente não são delle, e por isso os rejeitamos nesta +edição) e ainda que destas doze apenas quatro ou cinco se podem +propriamente chamar Elegias; dellas se vê que tambem neste estilo era +excellente. + +Temos tambem tres Comedias suas, a de ElRei Seleuco, que he um pequeno +Drama, daquelles a que os nossos antigos chamavão Autos, a dos Amphytriões, +que não he, como diz Severim de Faria, uma traducção de Plauto, mas sim uma +composição sua, e a de Filodemo, ambas em cinco actos: as quaes se não +podem appresentar-se como modelos de verdadeira Comedia, todavia he preciso +confessar que ha nellas muito que admirar. E muito mais se considerarmos +que forão escritas nos seus primeiros annos, antes de sahir do Reino, e não +para se representarem em Theatro publico, que nesse tempo não havia, mas +para divertimento particular. + +E se nos versos maiores deixou a perder de vista todos os mais poetas +peninsulares, tambem nas Redondilhas e outras composições de verso menor +(nas que de impulso proprio escreveo; que muitas andão impressas, que elle, +se fosse vivo, não dera á luz) se lhes avantajou muito. E assim por +consenso universal lhe foi conferido o titulo de Principe dos poetas +heroicos e lyricos de Hespanha. + +Emfim poucas nações se podem gloriar de haverem produzido um homem como +Luis de Camões; raras vezes se vírão reunidos n'um só sujeito tantos +talentos e dotes da natureza, tão vasta erudição e doutrina, tanta +facilidade em exprimir seus pensamentos. Igualmente versado nas artes da +paz e da guerra, Achilles e ao mesmo tempo Homero, com a espada e com a +penna toda a vida trabalhou por illustrar a sua patria: e se a Fortuna lhe +impedio igualar a fama dos grandes capitães, não lhe pôde estorvar (porque +nas obras de engenho não tem imperio a Fortuna) igualar a dos summos +escritores, e levar a nossa gloria literaria a ponto de hombrear com a +militar. + +Porém desgraçadamente, quando uma ia emparelhando com a outra, confundio +tudo a Fortuna, que a seu arbitrio dispõe das cousas humanas; e ambas +desapparecêrão com a nossa liberdade e independencia. Se nenhuma nação +subio mais alto, tambem nenhuma deo maior quéda. Cumprida está a primeira +parte da prophecia do fundador da monarchia: resta cumprir-se a segunda; +que tambem se ha de cumprir. Quando expurgados os vicios que nos ficárão da +antiga prosperidade, e reformados nossos costumes na frágoa da desgraça, +tiver renascido no coração de todos os Portuguezes aquelle amor de patria, +que tanto distinguio nossos maiores, brilharemos outra vez nas armas, +brilharemos nas letras; tornaremos a ser o que ja fomos. E para isso nada +póde tanto contribuir, como a contínua e reflectida lição das obras do +nosso immortal Camões, que, se foi grande escritor, inda foi melhor +cidadão. Por isso com tanto cuidado as estamos alimpando dos muitos erros e +vicios das primeiras edições, para que melhor sejão entendidas e gostadas: +na esperança de que o seu poema dos Lusiadas virá a ser uma trombeta, que +assim mesmo enrouquecida como está pela abominavel Censura, fara um dia +resurgir os mortos. + + + + +VIDA DE LUIS DE CAMÕES. + + +Muitos tempos se esteve em duvida ácerca do anno e do lugar em que +nasceo Luis de Camões; o que deo causa a que algumas villas e cidades +disputassem entre si a gloria de lhe haverem dado o berço, para que em +tudo o Lusitano Homero corresse a sorte do Grego. Pedro Mariz, o +primeiro que nos deo algumas noticias da vida do poeta, pela maior parte +mal averiguadas e falsas, nada nos diz a este respeito; e Severim de +Faria o deo primeiramente nascido em 1517, porém depois reparando que o +poeta quando escrevia a Estancia 9.ª do Canto X, ia caminhando para os +seus cincoenta (que isso quer dizer o passar do estio para o outono) e +computando melhor o tempo, veio a concluir que devia ter quando morreo +55 de idade, e que portanto havia nascido em 1524: o que depois +comprovou Faria e Sousa com um assento, que descobrio no livro de +Registo da Casa da India, onde o mesmo poeta, allistando-se para passar +a servir naquelle Estado no anno de 1550, declarou, estando alli +presente seu pae, ter 25 de idade. E do mesmo assento constava serem +seus paes moradores em Lisboa no bairro da Mouraria: com o que se +tirárão todas as duvidas assim ácerca do anno, como do lugar do seu +nascimento. + +Quem fossem seus ascendentes, cousa he que aos olhos do philosopho mui +pouco importa saber-se, porque o homem he filho das proprias obras, e +verdadeiramente nasce para os outros, quando lhes principia a ser util; +como o sol, que então dizemos que nasce, quando começa a raiar por cima +do horizonte. Mas, pois vivemos no mundo, e forçado he conformarmo-nos +com os prejuizos delle, daremos tambem aqui a nossos leitores a sua +genealogia. + +A familia dos Camões, uma das mais antigas de Hespanha, tinha o seu +Solar na Galiza, onde era senhora de muitas terras e gozava de muitas +regalias. Vasco Pires de Camões, ultimo representante desta familia, +fôra um dos fidalgos que Dom Fernando, 9.º Rei de Portugal, trouxera a +seu partido, quando aspirava á coroa de toda a Hespanha. Mas, como se +malograsse a empresa, teve este fidalgo de abandonar a antiga patria e +passar-se a Portugal, onde aquelle Rei, em recompensa do muito que por +seu respeito perdêra, lhe fez mercê das villas do Sardoal e Punhete, +Marvão e Amendoa, com o Concelho Géstaço e as terras e herdades, que em +Estremôz e Avís forão da Infanta Dona Beatriz; e o fez Alcaide mor de +Portalegre e membro do seu conselho. + +Casou Vasco Pires neste Reino com uma filha de Gonçalo Tenreiro, capitão +mor das armadas, a quem Dom João 1.º, sendo ainda Defensor do Reino, deo +depois a capitania de Lisboa, pola muita confiança que tinha ha sua +honra e valor. E della houve a Gonçalo e João Vas de Camões. Mas a +inconstancia do pae cortou depois a fortuna aos filhos. Porque na +guerra, que por morte de Dom Fernando veio a ter lugar por causa da +successão, como Vasco Pires seguisse a voz de Castella, como antes +seguíra a de Portugal, e na batalha de Aljubarrota fosse tomado com as +armas na mão, lhe forão tiradas todas as terras e fortalezas que Dom +Fernando lhe dera, deixando-lhe apenas a clemencia do vencedor as +herdades de Estremôz e Avís, com algumas propriedades que tinha em +Alemquer. + +João Vas de Camões, que era o segundo genito, e veio depois a ser +Vassallo de Affonso 5.º (titulo então mui honorifico) pelos relevantes +serviços que lhe fez nas guerras de Africa e contra Castella, casou com +Ignez Gomes da Silva, filha bastarda de Jorge da Silva, filho de Gonçalo +Gomes da Silva e irmão de João Gomes da Silva, que em tempo de Dom João +1.º, fôra Alferes mor do Reino e Senhor de muitas terras: e deste +matrimonio houve a Antão Vas de Camões, que, desposando a Guiomar da +Gama (da familia do Descobridor) della teve a Simão Vas de Camões, que +casou com Anna de Macedo, pessoa mui illustre da villa de Santarem. E +destes nasceo o nosso poeta. + +Robusto e agil de corpo, e dotado de grande engenho e de uma prodigiosa +memoria, logo des de os primeiros annos deo mostras de que viria a ser +insigne, assim nas armas, como nas letras. Pelo que seus paes se +empenhárão em lhe dar uma boa educação, com tanto maior desvelo, quanto +se vião faltos de meios, na esperança de que viria a ser o bordão de sua +velhice. Instruido nas primeiras letras e habilitado para maiores +estudos, de mui tenra idade o mandárão para a Universidade que de +Lisboa (para onde a trouxera Dom Fernando) acabava de ser então +restituida a Coimbra por João III, e florescia em todas as sciencias sob +a direcção e disciplina de homens doutos, naturaes e estrangeiros, que +este Rei com largos premios de toda a parte attrahíra. Com tão felizes +disposições e tão sabios preceptores, não podia Luis de Camões deixar de +fazer agigantados progressos, e de vir a ser o que foi. + +Aqui teve elle os seus primeiros amores, e se começou a dar ao commercio +das Musas, que encantadas de tão gentil alumno, o prendárão des de logo +com aquella doce lyra, que depois lhe adquirio mais fama que ventura. E +desse tempo de Coimbra he a sua Egloga 5.ª, que parece ter sido o seu +primeiro ensaio no estilo pastoril, pois que nas primeiras edições se +entitula da sua puericia, por se haver encontrado com esse titulo em +todos os manuscriptos, e tambem o Soneto 111, que segundo delle se +infere, foi feito quando voltava de férias, ja ferido de outra paixão. + +Concluidos os seus estudos, voltou á Corte: e com que saudade se +apartasse daquella deliciosa habitação, onde lhe ficava o doce emprêgo +de seus cuidados, se póde ver do Soneto 133, feito nesta despedida. +Restituido á patria, cheio de tão saudosas lembranças, ahi escreveo +aquella maviosa Canção que principia: + + Vão as serenas ágoas + Do Mondego descendo etc. + +Mas em quanto ao som da lyra entoava este harmonioso canto, lhe estava +Amor preparando novo assumpto. Fazia então o principal ornamento +do paço uma Dama, illustre por nascimento, e mais ainda por sua rara +belleza, Dona Catharina de Ataide, que estava destinada a ser Laura de +maior Petrarca. Vio-a Luis de Camões em um templo, que dos Sonetos 77 e +123 se infere ser o das Chagas; e o mesmo foi vê-la, que ficar perdido +de amores. Des de então não soube mais parte de si; e ufano de se ver +vencido de tão peregrina formosura, divinamente inspirado, compoz a +maravilhosa Canção 7.ª; e como quem desejava que este passo, o mais +notavel da sua vida, ficasse dignamente celebrado; com ser aquella +Canção uma das mais sublimes producções do espirito humano, inda não +satisfeito della, a procurou reformar na 8.ª: mas, não sendo possivel +subir-se a mais, uma e outra sahírão tão iguaes, que não he possivel +saber-se qual dellas seja melhor, ou a qual dava o poeta a preferencia. +Cansa-se Faria e Sousa em nos provar que estes amores erão puramente +Platonicos; mas disso não ficamos por fiadores, porque o poeta rara vez +se afastou do natural; e se usava desta lingoagem, era para melhor +insinuar-se a fim de obter seu intento, porque o lascivo desejo, que +manifesta na Canção 15 onde diz: + + Des que com gentil arte + Vestís de flores bellas + A terra, que tocais co'a bella planta, + Quantas vezes com vê-las, + Quiz n'uma dessas flores transformar-me! + Porque vendo pisar-me + Desse candido pe, que a neve espanta, + Póde ser que na flor mudado fòra + Que deo a Juno irada a linda Flora. + +não deixa a este respeito duvida alguma a quem tiver noticia da maneira +por que Marte foi gerado. + +Aos extremos e finezas do seu amor não foi a Nympha insensivel: e assim, +amante e amado, se reputava o mais feliz dos homens: quando, por pouco +acautelado em occultar esta fatal paixão (como elle mesmo confessa, +Egloga 3.ª) que lhe occasionou depois todas as desgraças da sua vida, +foi desterrado da Corte para Santarem, ou outra povoação das que ficão +sobre o Tejo, como se colhe da Elegia 1.ª E que neste meio tempo +estivesse tambem alguns dias hospedado em casa de um seu amigo, nas +vizinhanças do Zezere, se infere da Canção 13. Depois ou porque este +desterro se lhe tornasse insoffrivel, ou porque tivesse ja fallecido +Dona Catharina (que segundo affirma Faria e Sousa, pouco tempo viveo +depois do princípio destes amores) determinou passar a Africa, onde seu +pae então militava; e ahi, peleijando a seu lado, em um combate naval +com os Mouros junto a Ceuta perdeo o olho direito. E porque no fogo de +Amor trazia sempre o coração abrazado, e agora do fogo de Marte recebêra +aquella offensa; no escudo que trazia em branco, como cavalleiro donzel, +mandou pintar por divisa a ave Phenix ardendo sobre as chammas, como +elle mesmo diz, Canção XI, Estancia 10.ª + + Agora exprimentando a furia rara + De Marte, que nos olhos quiz que logo + Visse e tocasse o acerbo fructo seu. + E neste escudo meu + A pintura verão do infesto fogo. + +Depois de alli servir algum tempo, voltou á patria, onde por travessuras +amorosas e brigas com seus rivaes se lhe movêrão taes perseguições, que +para fugir aos laços que se lhe ormavão, não encontrou melhor meio, que +o de passar a servir na India. No anno de 1550 se alistou, como +dissemos, para sahir na mesma nao, em que ia o Viso-Rei Dom Affonso de +Noronha: mas esta nao, pelo mao estado em que ia, depois de sahir, +arribou ao porto de Lisboa para se concertar, e o poeta, se acaso estava +a seu bordo, tornou a desembarcar; e ou por falta de saude, ou por outro +impedimento se deixou ficar em terra; e não veio a sahir para o seu +destino, senão dous annos depois, no de 1553, como consta de outro +assento do ja citado livro de Registo, tambem achado por Faria e Sousa: +e foi na mesma nao, em que ia Fernão Alvares Cabral, capitão mor de +quatro, que então sahírão do Tejo, das quaes só esta pôde chegar no +mesmo anno a Goa, depois de haver soffrido grandes tormentas. E tão +anojado ia o poeta contra a patria, que as derradeiras palavras que +disse na despedida, forão (como se ve de uma carta que de Goa escreveo) +as de Scipião Africano: _Ingrata patria, non possidebis ossa mea_. + +Na occasião da sua chegada a Goa, como o Viso-Rei Dom Affonso estivesse +aprestando uma grossa armada para ir em soccorro do Rei de Porcá, nosso +alliado, a quem o da Pimenta ou Chembé havia tomado uma ilha, o +acompanhou o poeta nesta expedição, cujo successo elle mesmo brevemente +refere na Elegia 3.ª; e com elle voltou a Goa. Em Setembro do +seguinte anno de 1554 chegárão as naos do Reino, em que ia Dom Pedro +Mascarenhas succeder a Dom Affonso; e então se divulgou a triste noticia +das mortes de Dom Antonio de Noronha, sobrinho do Viso-Rei, e do +Principe Dom João, as quaes o poeta profundamente sentio; aquella como +verdadeiro amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as +consequencias de tão funesto acontecimento: e a este assumpto escreveo a +Egloga 1.ª e o Soneto 12 que enviou a um seu amigo de Lisboa em uma +carta com data de Janeiro de 1555. + +E tão bem-quisto e estimado de todos estava então alli o poeta, que +nessa mesma carta se dava por feliz em haver passado á India, dizendo: +_Emfim, Sñr., eu não sei com que me pague saber tão bem fugir aos laços +que nessa terra me armavão os acontecimentos, como com vir para esta, +onde vivo mais venerado que os touros de Merciana, e mais quieto que a +cella de um frade prégador_. Mas esta felicidade e socego não lhe durou +muito, porque logo no anno seguinte, vindo a fallecer Dom Pedro +Mascarenhas, e succedendo-lhe no governo Francisco Barreto, que não era +affecto ao poeta, o desterrou de Goa. Sobre a causa deste procedimento e +tempo em que teve lugar, não concordão os autores. Manoel Correa no seu +commento á Est. 128 do Canto X diz que tendo Luis de Camões exercido na +China o Officio de Provedor mor dos defuntos, em que fôra provido pelo +Viso-Rei, quando voltára a Goa, fôra preso por Francisco Barreto, pela +fazenda dos defuntos que trazia comsigo e perdêra em um naufragio, que +miseravelmente soffrêra na costa de Camboja. Pedro Mariz he da mesma +opinião, e acrescenta que Fransisco Barreto o mandára preso e capitulado +para o reino. E nem um nem outro fazem menção do desterro. Manoel +Severim nega que o Viso-Rei Dom Pedro Mascarenhas o provesse em tal +Officio, e he de parecer, que tendo o poeta ido na armada que este +Viso-Rei mandára ao Estreito do mar roxo a cargo de Manoel de +Vasconcellos, voltando a Goa, fizera aquella Satyra contra os que havião +festejado a successão de Francisco Barreto; do que este resentido, ou +por zelo da justiça, ou por queixas dos motejados, o desterrou no anno +de 1556: e a este parecer se encosta Manoel de Faria e Sousa. Mas em +tudo isto não ha de verdadeiro, senão que Luis de Camões foi desterrado +por Francisco Barreto, como passâmos a demonstrar. + +Chegou Luis de Camões a Goa em Setembro de 1553; acompanhou o Viso-Rei +Dom Affonso de Noronha na expedição contra o Rei de Chembé, e com elle +voltou a Goa; em Janeiro de 1555 ahi estava, porque ahi escreveo a +Egloga, Soneto e Carta que dissemos; em 16 de Junho do mesmo anno, em +que succedeo no governo Francisco Barreto, ainda ahi estava, como se +prova com a mesma Satyra, em que descreve as festas que por essa +occasião se fizerão, como testimunha ocular. Logo não foi Luis de Camões +provido pelo Viso-Rei Pedro Mascarenhas no cargo de Provedor mor dos +defuntos para a China, como affirmão Manoel Correa e Pedro Mariz, nem +sahio para o Estreito de Meca na armada de Manoel de Vasconcellos, como +conjectura Severim de Faria, porque essa armada voltou a Goa em +Outubro, e Francisco Barreto entrou no governo em Junho do mesmo anno, +como dissemos. Tambem he falso que Luis de Camões, voltando de Macao a +Goa, fosse preso por Francisco Barreto, pelo dinheiro das partes que +perdêra no naufragio, porque nem isso lhe podia ser imputado a crime, +não estando em sua mão evitar um tal desastre, nem Francisco Barreto o +podia mandar prender, porque em Setembro de 1558 entregou elle o governo +ao Viso-Rei Dom Constantino, e Camões voltou a Goa depois do anno de +1560. E a falsidade da asserção de Mariz, que o poeta viera preso e +capitulado para o Reino, se prova com a outra sua asserção, que Pedro +Barreto, indo por governador de Çofala, e desejando levar a Luis de +Camões na sua companhia, lhe fizera largas promessas e o movêra a isso, +dando-lhe logo duzentos cruzados para os seus arranjos de viagem, porque +se tudo isto foi necessario para o mover, certo he que estava em sua +plena liberdade. + +Vejamos agora se este desterro do poeta seria, como pensão Manoel +Severim e Manoel de Faria e Sousa, em consequencia da Satyra ou das +Redondilhas, que andão nas suas Rimas com o titulo de _Disparates na +India_. + +Pelas Redondilhas não podia ser, porque se o poeta alguns vicios ahi +reprehende, o faz de um modo tão geral, que ninguem em particular se +poderia dar por offendido; e pela Satyra tambem não; e as razões em que +nos fundamos são estas: O desterro de Camões foi uma cousa notoria a +seus contemporaneos, assim porque muitos havião sido testimunhas do +mesmo facto, como porque o poeta em seus escritos o publicou ao +mundo inteiro; e se o motivo delle tivesse sido esta satyra, com a pena +constára juntamente a culpa. Mas nem Manoel Correa, nem Pedro Mariz, que +para desculpar a Barreto não poupou a Camões, lhe assinárão esta causa; +prova evidente de que não tiverão della noticia alguma, porque, se a +tivessem, não andárão inventando outras. Domingos Fernandes descobrio um +fragmento della, com duas cartas em prosa, que ajuntou na 3.ª edição das +Rimas em 1607; e logo Manoel Severim, por achar sem fundamento as causas +que se davão deste desterro, o attribuio a esta; que tão innocente foi a +vida de Camões, que com ter tantos inimigos, nenhum delles lhe pôde +descobrir crime ou falta, sôbre que recahisse um tal castigo. Mas além +desta razão, que nos parece mui ponderosa, para acreditarmos que esta +Satyra não havia sido publicada, nem para isso tinha sido escrita, temos +ainda outra, e he, que na carta 2.ª, a que ella andava unida, começa +Luis de Camões por pedir ao amigo a quem a dirigio, o mais inviolavel +segredo, dizendo: _Esta vai com a candeia na mão morrer nas de V. M.; e +se dahí passar seja em cinzas etc._ donde se deve suppor que vai a fazer +alguma revelação de alta importancia; e em todo o seu conteudo não +apparece cousa, que se não podesse dizer em publico: por onde nos +inclinâmos a crer que nella vinha incluso algum outro papel, que fazia +necessaria aquella recommendação; e não podia ser senão a Satyra. Ajuda +esta conjectura a grande probabilidade que ha, de serem uma e outra +escritas na mesma occasião; porque só duas teve o poeta, de +escrever para o Reino depois da sua chegada á India, e antes de ser +desterrado: em 1555 pelas naos que trouxerão a carta que tratava das +mortes de Dom Antonio de Noronha e do Principe Dom João, ou pelas que de +lá vierão em 1556, governando ja Francisco Barreto; e na primeira +occasião de certo não foi escrita, nem tambem depois do desterro, por +ser em estilo jocoso e não fazer menção alguma destes acontecimentos, +que tanto o magoárão. Acresce mais que na mesma carta parece alludir á +enfatuação e soberba do governador, quando diz: _Principes de condição, +ainda que o sejão de sangue, são mais enfadonhos que a pobreza: fazem +com suas fidalguias, com que lhe cavemos fidalguias de seus avós, onde +não ha trigo tão joeirado, que não tenha alguma hervilhaca_. Ora se o +segredo que o poeta recommendava ao seu amigo, era (como parece) por +causa desta Satyra, não he verosimil que elle mesmo fizesse publico em +Goa o que tão secreto queria a tantas mil legoas de distancia. Além de +que se Luis de Camões quizesse publicamente satyrizar a Francisco +Barreto, certo he que lhe assentára mais de rijo a espada do ridiculo, +que melhor que ninguem sabia manejar. E tambem he certo que, se +Francisco Barreto alcançasse este papel, ou tivesse algum outro crime de +que arguir o poeta, não deixára de o mandar julgar conforme as leis; nem +um homem tão comedido, como Luis de Camões, quando tivesse merecido um +tal castigo, se queixára tão amargamente deste desterro em tantos +lugares das suas obras, como nos Lusiadas, Canto VII, Est. 81. + + E ainda, Nymphas minhas, não bastava + Que tamanhas miserias me cercassem, + Senão que aquelles que eu cantando andava + Tal premio de meus versos me tornassem! + A trôco dos descansos que esperava, + Das capellas de Louro que me honrassem, + Trabalhos nunca usados me inventárão, + Com que em tão duro estado me deitárão. + +e na Canção XI: + + Emfim, não houve trance de fortuna, + Nem perigos nem casos duvidosos, + Injustiças daquelles, que o confuso + Regimento do mundo, antigo abuso, + Faz sobre os outros homens poderosos, + Que eu não passasse, atado á fiel columna + Do soffrimento meu, que a importuna + Perseguição de males em pedaços + Mil vezes fez á força de seus braços. + +e naquellas admiraveis Redondilhas, em que paraphraseando o Psalmo 136, +compara as suas calamidades ás que padecêrão os Israelitas no captiveiro +de Babylonia: + + A pena deste desterro, + Que eu mais desejo esculpida + Em pedra ou em duro ferro etc. + +Nem com tanta vehemencia pedíra aos Ceos vingança, como ahi mesmo: + + No grão dia singular + Que na lyra em douto som + Hierusalem celebrar, + Lembrai-vos de castigar + Os ruins filhos de Edom. + Aquelles que tintos vão + No pobre sangue innocente, + Soberbos co'o poder vão, + Arrazá-los igualmente: + Conheção que humanos são. + +Emfim, que foi arbitrario e injusto este procedimento, não ha duvida, +porque se esta pena lhe houvesse sido imposta judicialmente; na mesma +sentença lhe fôra limitado o tempo e o lugar do desterro, segundo as +leis do Reino e a prática de todos os tribunaes: e o poeta andou +peregrinando por varias terras, como elle mesmo diz, Canto VII, Est. 79, +fallando com as Tagides: + + Olhai que ha tanto tempo que cantando + O vosso Tejo e os vossos Lusitanos + A fortuna me traz peregrinando, + Novos trabalhos vendo e novos danos. + +e Est. 80: + + Agora com pobreza aborrecida + Por hospicios alheios degradado. + +Primeiro esteve no monte Feliz, na Arabia do mesmo nome, como se vê da +Canção X, que o poeta escreveo ja no desterro, e não andando em +expedição, como suppõe Manoel Severim, e Manoel de Faria e Sousa, porque +se assim fosse não diria elle, nem teria razão para dizer: + + Aqui me achei gastando uns tristes dias, + Tristes, forçados, maos e solitarios, + De trabalho, de dor, e de ira cheios. + +porquanto nem os dias que em serviço da sua patria gastasse, serião +_forçados_, porque a servia por gôsto, nem _solitarios_, porque não +havia de ir só á guerra, nem _cheios de ira_, porque esta só póde +nascer de alguma injúria ou violencia soffrida. + +Dalli passou á Ilha de Ternate, uma das Molucas, onde militou alguns +annos e recebeo algumas feridas, como consta da Canção 6.ª + + Aqui minha ventura + Quiz qu'uma grande parte + Da vida que não tinha se passasse, + Para que a sepultura + Nas mãos do fero Marte + De sangue e de lembranças matizasse. + +E que tambem esta foi escrita no desterro, he fóra de toda a duvida, não +só porque isso mesmo consta do remate della + + Canção, neste desterro viverás, + Voz nua e descoberta, + Até que o tempo em eco te converta. + +mas muito principalmente porque o não podia ser antes; sendo certo, como +ja fizemos ver, que até ao anno de 1556 não sahio de Goa o poeta, ou se +sahio em alguma expedição, não foi longa a sua ausencia. + +De Ternate passou emfim a Macao, do que ainda hoje faz fé uma gruta que ahi +existe, chamada a gruta de Camões. Com o que julgâmos ter demonstrado que o +poeta foi arbitrariamente expulso de Goa, e portanto sem haver commettido +crime, sôbre que recahisse uma tal pena. Donde se segue ser falso quanto a +este respeito tem dito os que nos precedêrão neste trabalho. E assim se ha +de ter por certo que a unica e verdadeira causa das perseguições e +trabalhos, que soffreo este grande homem, foi a mesma grandeza do seu +merecimento e virtude. E a Satyra, unica acção reprehensivel que na sua +vida se encontra, não serve senão para provar que entre Camões e Barreto +havia inimizade. Nem em tal disparidade de sentir e de pensar podia haver +perfeita concordia. Francisco Barreto, homem soberbo e mediocre, posto que +não desajudado da Fortuna, que sempre se inclina mais a esta especie de +gente, não podia amar nem soffrer um homem tão superior, como Luis de +Camões: desejava-o longe de si, para que não fosse testimunha e juiz das +suas acções; e apenas se vio com o poder na mão, o prendeo e desterrou, +deixando-se arrastar da sua paixão, ou dando ouvidos a mexericos e +calumnias, como affirma o commentador Manoel Correa, que o ouvio da propria +boca do poeta: o que perfeitamente se ajusta com o que elle mesmo nos diz +nos ultimos dous versos da ja citada Estancia 81 do Canto VII: + + Trabalhos nunca usados me inventárão, + Com que em tão duro estado me deitárão. + +Nem este foi o só acto despotico do governador Francisco Barreto. Porque, +tendo mandado destruir por Pedro Barreto Rolim a florescente e populosa +cidade de Tatá no reino de Cinde, que tinha grande trato de commercio com a +nossa praça de Ormus, como o governador della, Dom João de Ataide, +censurasse esta medida cruel, assim por humanidade, como pela deminuição +que dahi resultava nos rendimentos daquella Alfandega, e isto chegasse aos +ouvidos de Barreto; o mandou autoar por um Desembargador e conduzir preso a +Goa para ser julgado, não obstante haver sido provido por ElRei no governo +daquella fortaleza, e ter grande valimento na Corte. E se isto ousou fazer +a um poderoso, como teria mais respeito a um desvalido? + +Depois de tantos trabalhos, parece que, chegado a Macao, ahi encontrou +algum descanso; e ahi concluio o seu Poema: e tambem he tradição que +exercêra o Officio de Provedor dos defuntos, em que adquiríra alguma +fortuna. O certo he que Luis de Camões das ilhas Molucas passou a Macao, e +que de lá voltou a Goa, depois do anno de 1558, quando ja governava aquelle +Estado o Viso-Rei Dom Constantino de Bragança; trazendo algum cabedal, +fosse adquirido no exercicio daquelle cargo, ou por outros meios, porque +isso mesmo se entende da Est. 80 do Canto VII onde diz: + + Agora da esperança ja adquirida + De novo mais que nunca derribado. + +Porem, chegando á costa de Camboja, de fronte da foz do rio Mecom, deo a +nao em uns baixos, onde se fez em pedaços; e deste naufragio, perdida toda +a sua fortuna, pôde apenas salvar a vida e o seu Poema, ganhando, como +Cesar, a praia a nado. E deste infortunio e da humanidade, com que foi +recebido e agasalhado por aquelles povos, se lembra elle no Canto X, Est. +128, onde diz, fallando do rio Mecom: + + Este receberá placido e brando + No seu regaço os Cantos, que molhados + Vem do naufragio triste e miserando, + Dos procellosos baixos escapados, + Das fomes, dos perigos grandes, quando + Será o injusto mando executado[1] + Naquelle, cuja lyra sonorosa + Será mais affamada, que ditosa. + +Neste porto se demorou algum tempo, ou convidado da boa hospitalidade, ou +por não achar embarcação em que seguir viagem: e aqui escreveo a paraphrase +do Psalmo que dissemos, e talvez, inserio no seu Poema as Estancias que +tratão deste naufragio: depois, quando achou opportunidade, partio para +Goa, onde chegou no principio do anno de 1561. E como quem se via cercado +de inimigos, e tinha exprimentado quão fragil escudo he por si só a +innocencia, para captar a benevolencia do Viso-Rei Dom Constantino, cuja +administração, com razão ou sem ella, havia sido censurada de alguns, lhe +dirigio a Epistola que começa: _Como nos vossos hombros tão constantes +etc._, em que, exaltando as virtudes e boas intenções deste Principe, o +exhorta com o exemplo dos grandes homens (e pudera tambem juntar o seu +proprio) a desprezar com animo igual as envenenadas settas da inveja e da +calumnia: e a Dom Antonio de Noronha (o que depois veio a ser Viso-Rei da +India, e não, como suppõe Faria e Sousa, o que foi morto em Africa) +escreveo outra sobre o desconcerto do mundo. + +Neste vice-reinado chegou Luis de Camões a tal miseria, que se vio na +precisão de pedir uma camisa para cobrir o corpo. Que espectaculo! + + O Valor e o Saber pedindo vão + Ás portas da cubiça e da vileza! + +Todavia muito deveo a Dom Constantino, porque não foi inquietado. Mas no do +Conde do Redondo Dom Francisco Coutinho, que lhe succedeo, e que se dizia +amigo do poeta, e por elle havia sido louvado em umas Redondilhas, se lhe +movêrão novos trabalhos, e foi lançado em tão estreita e rigorosa prisão, +que nem espaço tinha para mover-se, nem ar para respirar, como consta da +Canção XI, onde fallando desta perseguição, e da que havia soffrido no +governo de Francisco Barreto, diz: + + A piedade humana me faltava + A gente amiga ja contraria via + No perigo primeiro; e no segundo + Terra em que pôr os pés me fallecia, + Ar para respirar se me negava. + +Qual fosse a natureza da accusação não consta; necessario he que fosse mui +grave, pois que a este chama elle o seu segundo perigo. Seus perseguidores +tambem ignorâmos quem fossem; mas he de presumir fossem homens poderosos, e +que no numero destes entrasse um Miguel Rodrigues Fios Seccos, homem +fidalgo e rico; pois que tendo o poeta mostrado a sua innocencia, e estando +a ponto de ser sôlto, o embargou na cadeia por certa somma que lhe +emprestára, e que muito bem sabia que elle lhe não podia pagar. Neste novo +embaraço, rindo-se como Democrito, da loucura e extravagancia dos homens, +recorreo Luis de Camões ao Viso-Rei, dirigindo-lhe aquelle jocoso +requerimento, que anda entre as suas Rimas; e teve por despacho a soltura. + +Livre desta prisão, ainda que de seus serviços não tirava senão +perseguições e trabalhos, continuou a servir ainda por alguns annos, sem +nunca despir as armas, e portando-se em todas as acções e combates de +maneira, que seus proprios inimigos erão os maiores pregoeiros do seu +valor: até que, vendo-se ja sobre a idade, e com as fôrças quebradas de +tantas privações e fadigas, tomou a resolução de voltar á patria, para +terminar a carreira da sua vida no mesmo ponto, onde a havia começado. E +nestes pensamentos andava, quando Pedro Barreto se lhe appresentou, como +dissemos, e com rogos e promessas o persuadio a que fosse com elle para +Çofala. Mas de tal maneira cumprio o promettido, que o poeta chegando a +Moçambique, assentou resgatar-se daquelle captiveiro; e andava procurando +meios de se transportar ao Reino, quando, mui a proposito para o seu +intento, alli aportou a nao Santa Fe, em que vinhão alguns amigos seus, +como Heitor da Silveira e o Chronista Diogo do Couto e outros, que pela +honra de trazerem na sua companhia tão grande homem, lhe offerecêrão +passagem franca para Lisboa. Mas Pedro Barreto, como lhe chegasse isto aos +ouvidos, a exemplo do Fios Seccos, o mandou prender por duzentos cruzados, +que na India lhe dera para sua matalotagem, e agora lhe pedia como divida: +do que indignados aquelles generosos amigos se fintárão entre si, e +satisfazendo a somma exigida, resgastárão o poeta. Assim que (observa Faria +e Sousa) a pessoa de Luis de Camões e a honra de Pedro Barreto por duzentos +cruzados foi vendida. + +Nesta viagem vinha elle escrevendo muito n'um livro entitulado _Parnaso +de Luis de Camões_, que trazia ja mui adiantado: do qual diz Diogo do +Couto, a quem o poeta o mostrou, que era obra de inestimavel preço, +cheia de erudição e philosophia. + +No anno de 1569 chegou emfim a Lisboa, onde então ardia o contagio, que +chamárão a grande peste. E não obstante este flagello do Ceo, que tinha +todos os animos occupados de terror, tal foi o seu contentamento em ver-se +restituido á patria, que escrevendo a um seu amigo do Porto, lhe dizia _que +ainda não podia crer tanta ventura_. Pensava Luis de Camões que nella +encontraria a felicidade e socego, que fóra della em vão procurára; mas +succedeo-lhe bem ao contrario, porque seus inimigos lhe movêrão tão crua +guerra, que todas as tormentas passadas lhe parecêrão bonança, como elle +expressamente nos diz (Egloga XI): + + Tinha lá para mim que a vida tinha + Mais socegada cá e mais segura + Entre os meus, que com gosto a buscar vinha. + Foi de outro parecer minha ventura: + Discordias sos achei, achei dureza + Em lugar de socêgo e de brandura. + Achei as boas leis da natureza + Vencidas do interesse, e a gente cega + Tanto, que mais que o sangue, o gado préza. + Dizem que quando o mar bonança nega, + Correndo vai aquella nao mor p'rigo. + Que á desejada terra mais se chega. + Assi me aconteceo a mi comigo: + Seguro sempre ao longe, sempre ledo; + Triste ao perto, e tratado como imigo. + +E a razão por que assim foi tratado Camões não he difficil de achar. O +escrever dos modernos foi sempre cousa arriscada: todos querem boa fama, +poucos fazem pola merecer; todos commettem erros, poucos, depois de os +commetterem, gostão de os ouvir contar. E assim para não ser perseguido +necessario he ou adular, ou callar. Mas o nosso Camões, que nunca voltou +cara aos perigos, se propoz não só fallar dos modernos, mas dos mesmos +contemporaneos; fazendo juramento solemne (que religiosamente guardou) de +não louvar senão quem o merecesse. Donde resultou que censurados e +não-louvados se unírão para o desgraçarem e perderem. E se antes de +publicar o seu poema, ja na India o perseguírão, muito peor lhe havia de +succeder depois; e isso mui bem prevío elle, quando o estava ordindo; pois +que, tendo invocado no principio da obra somente as Nymphas do Tejo; no fim +do Canto VII, quando ia concluir a narração dos feitos antigos para passar +aos contemporaneos, pede auxilio tambem ás do Mondego, dizendo (Est. 78): + + Mas oh cego! + Eu que commetto insano e temerario + Sem vós, Nymphas do Tejo e do Mondego, + Por caminho tão arduo longo e vario! + Vosso favor invoco, que navego + Por alto mar com vento tão contrario, + Que, se não me ajudais, hei grande medo + Que o meu fraco batel se alague cedo. + +e depois (Estancia 83): + + Pois logo em tantos males he forçado + Que se vosso favor me não falleça, + Principalmente aqui, que sou chegado + Onde feitos diversos engrandeça. + Dai-mo vós sós, que eu tenho ja jurado + Que não o empregue em quem o não mereça, + Nem por lisonja louve algum subido, + Sob pena de não ser agradecido. + +Mas não obstante conhecer a quanto se expunha, respeitando mais a fama +posthuma, que a ira dos poderosos, como se vio restituido á patria, +cuidou em imprimir o seu Poema. Porém algum obstaculo encontrou, porque +dous annos esteve sem sahir com elle á luz. + +Ora, lendo nós muitas vezes e meditando attentamente esta producção divina, +sempre nos pareceo que em alguns lugares não estava como seu autor a havia +originalmente escrito; e agora achamos confirmada nossa suspeita. Porque, +estando ja concluida esta nossa edição, como obtivessemos um exemplar da de +1613 commentada pelo Licenciado Manoel Correa, contemporaneo e amigo do +poeta, ahi encontrámos na exposição á Estancia 81 do Canto 9º a seguinte +revelação: _Se o poeta (diz elle) se não alargára em algumas palavras, que +poderia escusar, o fingimento, este he poetico e excellente, como são todas +suas cousas. Por isso se lhe emendárão e declarárão algumas Oitavas._ E no +mesmo Canto, Estancia 71: _E assim como aqui vão impressas, as tinha elle +emendadas por conselho dos Religiosos de S. Domingos, com quem tinha grande +familiaridade_. E aqui temos que o Poema achou embaraço na censura da +Inquisição, e que para poder passar, foi preciso que seu autor por conselho +dos frades de S. Domingos, isto he, por ordem dos mesmos Inquisidores lhe +fizesse as alterações e emendas por elles exigidas. E portanto he fóra de +toda a duvida que a explicação da allegoria delle posta na boca de Tethys, +e o dizer ella mesma (Canto X, Estancia 82): + + Porque eu, Saturno e Jano, + Jupiter, Juno, somos fabulosos, + Fingidos de mortal e cego engano; + +a historia do milagre e martirio do Apostolo S. Thomé (Estancias 108 e +seguintes do mesmo Canto); e Baccho adorando a Christo (Canto II, +Estancia 12) são obra dos Senhores Inquisidores. Que felicidade não +he (dizia o grande Tacito) nascer o homem em tempos, em que lhe he +permittido sentir como quizer, e exprimir o que sente! + +Compradas por um tal preço as licenças, e obtido privilegio, em 1572 +sahio finalmente á luz este maravilhoso e desgraçado Poema, não como +queria o poeta, mas como os sabios Censores quizerão que apparecesse; e +póde ser que os muitos e notaveis erros de impressão que desfigurão as +duas edições que nesse mesmo anno se fizerão, procedessem de que +desgostado o autor de ver assim estragada a sua obra, não quizesse +cansar-se com a revisão das provas. + +Achamos em escritores contemporaneos que ElRei por esta publicação lhe +fizera mercê de uma tença de 15$ reis mensaes, com a clausula inaudita +de tirar para a sua cobrança provisão cada tres annos, e de residir na +Corte. Mas se assim foi, não foi logo, senão alguns annos depois, porque +no de 1575 em uma Epistola que o poeta lhe dirigio, juntamente (ao que +parece) com um exemplar do seu Poema, por occasião de uma setta que o +Papa Gregorio XIII enviou a este Rei, ainda elle lhe supplicava se +dignasse dar-lhe algum premio, se não por justiça, ao menos por +caridade, como se vê dos seguintes versos: + + Estes humildes versos, que pregão + São destes vossos Reinos com verdade, + Tenhão, se não merecem galardão, + Favor sequer da Regia Magestade: + Assim tenhais de quem ja tendes tanto, + Com o nome e reliquia, favor santo. + +E esta graça, depois de concedida, veio a ser de nenhum effeito; porque os +monstros[2] que se havião apoderado da menoridade daquelle fatal Rei, e +pouco depois o arrastárão a sepultar comsigo a patria nos campos de +Alcacerquivir, tão célebres por essa desgraça nossa, se enraivecêrão contra +o poeta, porque tivera o nobre arrojo de aconselhar áquelle Principe, +tomasse as redeas do govêrno, e mandasse os frades rezar no côro, e tiverão +arte para inutilizar a mercê feita; de sorte que o infeliz, cansado de +andar de Herodes para Pilatus, costumava dizer que o só requerimento, que +jagora tinha a fazer a S. Magestade, era que lhe commutasse a mercê dos 15$ +reis em 15$ açoutes nos ministros a cujo cargo estava o pagamento della. +Por outra parte os fidalgos, que estavão acostumados a desfrutar os +commodos da inercia e os premios da virtude, vendo que ousára quebrar seus +foros submettendo-os a uma rigorosa censura, lhe movêrão guerra de morte, +não obstante haver elle supprimido algumas Estancias em que os fustigava +mais forte: das quaes Faria e Sousa nos conservou a seguinte: + + Oh inimigos maos da natureza, + Que injuriais a propria geração! + Degenerantes, baixos! Que fraqueza + De esforço, de saber e de razão + Vos fez que a clara estirpe, que se préza + De leal, fido e limpo coração, + Esqueçais dessa sorte? Mas respeito, + Que este dos nobres he o menor defeito. + +E assim no ultimo quartel da vida se vio desamparado de todos e reduzido +a tão esqualida miseria, que um escravo (antes verdadeiro amigo) que de +Java trouxera, por nome Antonio, sahia de noute a pedir esmola para o +sustentar; e [~u]a mulata (Barbara se chamava ella) que pelas ruas de +Lisboa andava vendendo mexilhões, condoida do seu desamparo, lhe ia +todos os dias levar um pratinho do que trazia a vender, e de quando em +quando lhe deixava tambem algum vintem do que havia vendido. Que +desengano! De tantos que outrora se dizião seus amigos, só estes +achou fieis na sua adversa fortuna. _Tempora si fuerint nubila, solus +eris._ E neste estado de desesperação parece que foi escrita aquella +incomparavel Canção 11, que he um gemido da natureza, que retumbará no +mundo em quanto nelle houver quem falle ou entenda a lingua Portugueza. + +Um só da classe dos fidalgos, Rui da Camara, dizem escritores +contemporaneos se dignára entrar na sua pobre morada: cuidarão nossos +Leitores que iria para o soccorrer? Pois não; foi para o reprehender. Ha +tanto (lhe disse o bom do fidalgo) que vos pedi me traduzisseis os sete +Psalmos Penitenciaes, e ainda os não traduzistes? Nenhuma desculpa +tendes que dar: tendo feito tantos versos e um tão formoso Poema, se me +não servis, não he porque não possais; he, sim, porque não quereis. +_Senhor_ (lhe respondeo o poeta) _quando eu fiz esse Poema e esses +versos, era moço e favorecido das Damas, e tinha o necessario á vida; e +agora não tenho espirito nem contentamento para nada, porque tudo isso +me falta, e em tal miseria me vejo, que ahi está o meu Antonio a +pedir-me um vintem para carvão, e não o tenho para lho dar_. Sabía este +Cavalheiro que Luis de Camões era poeta, para lhe pedir a traducção dos +sete Psalmos Penitenciaes, e não sabia que era pobre, para lhe dar uma +esmola. + +Uma insigne affronta lhe fizerão ainda os Cortezãos: quando ElRei Dom +Sebastião ia partir para a sua fatal jornada de Africa, lhe lembrárão +levasse comsigo a Diogo Bernardes, para que este novo Tityro fosse +testimunha ocular de suas proezas, e sahindo das selvas, onde andava +homiziado, as celebrasse depois na tuba heroica. Mas tão generoso e +magnanimo era Luis de Camões, que, não obstante esta injuria, affirma +Severim de Faria, estava ja traçando outro poema, que pelos principios +promettia não ser inferior ao primeiro, se o resultado da empresa não +convertesse o canto em chôro. + +Assim foi tratado este grande homem emquanto reinou Dom Sebastião, e muito +peor ainda depois que subio ao throno o Cardial Dom Henrique: e como pouco +depois viesse a cahir n'uma longa infirmidade, e por cúmulo de desgraça lhe +morresse o seu verdadeiro amigo Antonio, que era o unico esteio de seus +dias; opprimido de tantos males, o seguio elle poucos mezes depois á +sepultura, no anno de 1579, com cincoenta e cinco de idade. Querem uns que +morresse na mesma pobre casa onde morava, na rua de S. Anna, a qual depois +da sua morte nunca mais foi habitada, outros que no Hospital; mas como +todos concordão em que de casa de Dom Francisco Manoel lhe mandárão por +caridade um lençol para lhe servir de mortalha, he fóra de toda a duvida +que não morreo no hospital, porque todos os que morrem naquella piedosa +casa, ahi achão mortalha e sepultura. + +Em todos os povos, qualquer que fosse a forma de seu govêrno, hão sido +sempre odiados e mais ou menos perseguidos, segundo as conjuncturas dos +tempos, os summos e verdadeiros Escritores; isto he, os que á força do +pensar e á elegancia do dizer unírão em summo grao o amor da verdade e da +justiça. Não puderão as leis de Athenas proteger a innocencia de Socrates +contra as calumnias de um Melito, Seneca em Roma não pôde evitar a morte +debaixo da tyrannia de um Nero; e a estes puderamos ajuntar uma infinidade +de escritores desta classe, philosophos, poetas e oradores, que em diversos +tempos e por diversos modos soffrêrão a mesma sorte. Mas Luis de Camões foi +mais infeliz que todos: se lhe não fizerão beber a cicuta, se lhe não +abrírão as veias, amargurarão-lhe a vida com toda a especie de desgosto, e +depois de o haverem trazido de masmorra em masmorra, e de degredo em +degredo envolto na mais esqualida miseria, com um refinamento de tyrannia, +cuja descoberta estava reservada aos tempos modernos, o obrigárão a +submetter seus escritos a uma junta de idiotas e hypocritas, e escurecer +elle mesmo sua propria fama, rejeitando o que lhe agradava, para adoptar o +que elles querião; e por fim de tudo o condemnárão a morrer de fome; morte +muito mais cruel. E o mais he que, não costumando a inveja apascentar-se em +cadaveres, ainda na sepultura não tem cessado de lhe inquietar as cinzas, +conspirando-se contra todos os que tem querido levantar o véo que encobre o +merecimento deste Escritor insigne. Primeiramente ao poema dos Lusiadas +pretendêrão os da facção perseguidora antepor o da Ulyssea que, ainda que +não destituido de merecimento, está mui longe não só de se lhe poder +comparar em cousa alguma, mas até de dever ser classificado entre as obras +de primeira ordem neste genero: depois como tivessem noticia que Manoel de +Faria e Sousa estava imprimindo em Madrid os seus commentarios, tiverão a +impudencia de lhe escrever, pedindo-lhe com todo o empenho desacreditasse a +Camões; e como este não désse ouvidos a tão infames supplicas, o +denunciárão ao Tribunal da SANTA INQUISIÇÃO; o que constando ao pobre +Faria, se foi valer dos Santos Inquisidores de Hespanha, para que +mitigassem a santa raiva dos de Portugal, escudando com o seu parecer um +folheto que escreveo em sua defesa delle, entitulado: + +_Informacion en favor de Manuel de Faria y Sousa, Caballero de la Orden +de Christo, y de la Casa Real, sobre la acusacion que se hizo en el +Tribunal del Santo Oficio de Lisboa, á los Commentarios que docta y +judiciosa y Catolicamente escrevió á Las Lusiadas del doctissimo y +profundissimo y solidissimo Poeta Christiano Luis de Camoens, unico +ornamento de la Academia Española en este genero de Letras._ + +Deste folheto, que foi impresso em Madrid, anno de 1640, transcreveremos +aqui na sua mesma lingua adoptiva a seguinte passagem, para que se veja +com quanto encarniçamento foi perseguido pelo odio e pela inveja este +grande homem e todos os que o ousárão louvar: + +_De los Acusadores, los mas declarados son dos, de cuya calidad y talento +no diremos algo, asi por ser notorio, como porque nos deban esta piadosa +cortesia. Diremos solo (por ser preciso á nuestra justicia) que son +enemigos patentes del Acusado, contra quien se levantaron, porque no los +celebró en estos Escritos, y les dió en ellos, y por cartas y de palabra á +entender su engaño..... Y tambien son enemigos notorios de la luz del +Poeta, como aves escuras, pues publican dilatados libelos difamatorios +contra él, sobre que tambien el Comentador los abomina en varios lances: y +á uno dellos doctrinó libremente por carta en respuesta de otra, con que le +persuadia á escrivir contra el proprio Poeta, al tiempo que comenzaba á +imprimir los Comentarios. De manera que lo que estos y otros pretenden +viendose ofendidos y alcanzados con la luz del Poeta, que de nuevo les dió +en los ojos, por haverla el Comentador sacado de la linterna en que estaba +escondida, no es vedar este libro por quitar de los ojos Catolicos la +representacion de las deidades, y lo osado de algunos discursos; sino por +quitar de sus mismos ojos el resplandor que se los hostija y de los de los +Letores aquellas cláusulas que descubren su flaquesa de vista._ + +_Ambos ellos son asistidos de personas mayores en nacimiento y fortuna (si +bien no mayores en el conocimiento destos estudios) que tambien se dan por +ofendidos de que no siguiese el Comentador su parecer en afrentar á un +Hombre, que hoy se vé reconocido por admirable de toda la Clase literaria +de Europa; porque en toda ella solo ellos deshonran á Luis de Camoens. Solo +ellos (ellos solo lo creen) saben mas que las Academias universales, que á +una mano publican la excelencia de sus obras._ + +Tal foi o odio que sobre elle e seus escritos attrahio a justissima +censura, que o poeta faz do infame comportamento daquelles, que, tendo +mais razão que ninguem para amar e defender sua patria, nos campos +de Aljubarrota ousárão tomar as armas contra ella. Mas a maior de todas +as insolencias foi a que teve lugar em nossos dias. O notorio Padre +Macedo, que nestes ultimos tempos assalariado por estrangeiros e +inimigos da patria, como assassino publico, se occupava em denegrir com +calumnias a reputação de todo o Portuguez honrado, tomou a si (não +sabemos se de seu moto proprio, se instigado) a louca empresa de +derribar a Camões, tratando o mesmo assumpto da descoberta da India: fez +umas Oitavas ao Gama, e, como a rãa da fábula, perguntou a seus sequazes +se sera maior que Camões. Respondêrão-lhe que não. Tornou a fazer +outras, e repetindo a mesma pergunta, como lhe dessem a mesma resposta, +cheio de raiva pizou aos pés a corneta; e, considerando melhor sua +natureza e forças, dos heroes passou a cantar os burros. Com tudo o seu +Oriente deve conservar-se como monumento de orgulho, e tambem as suas +cartas a Attico, ainda que não seja senão pelo quinao, que ahi deo a +Camões naquelles versos da Est. 37 do Canto V: + + Quando uma noute estando descuidados + Na cortadora prôa vigiando. + +Se estavão descuidados, (diz elle) como estavão vigiando? Que ignorancia! +Estavão descuidados, porque o ceo estava limpo e o ar sereno, e não vião +indicio de tempestade, nem cousa que lhes désse cuidado; e estavão +vigiando, porque navegavão por mares desconhecidos, e porque era costume +dos nossos mareantes (o qual inda hoje se conserva, porque os bons costumes +não se devem perder) ter sempre de noute vigias de prôa. E quem assim sabia +a sua lingua, queria ser maior poeta que Camões? + +Assim foi tratado em vida e depois de morto este Pregoeiro eterno da gloria +nacional por aquelles que no fundo da alma se conhecião reos de lesa-nação, +e por uns poucos de fanaticos e hypocritas. Mas da gente popular tão bem +recebida e apreciada foi a sua obra, que no mesmo anno se fizerão duas +impressões, e os soldados nas batalhas entoavão algumas Estancias della +como seu canto de guerra, e elle mesmo tão admirado e respeitado, que +quando apparecia em publico (o que era raro, porque nos ultimos tempos +vivia em grande retiro) paravão todos, sem tirar os olhos delle, até o +perderem de vista. E se morreo em tal desamparo (faça-se esta justiça aos +Portuguezes, que em serem compadecidos e generosos a nenhum outro povo +cedem) foi não só porque nessa desgraçada epocha se achavão todos os animos +possuidos de terror com a recente catastrophe, e as calamidades publicas +que se previão futuras, não davão lugar ao sentimento de males +particulares, mas muito principalmente porque a sua miseria não era +conhecida; pois que se mandava o seu Jao pedir esmola, era de noute, e sem +dizer para quem. Este e outros casos taes, não raros n'uma tão grande e +populosa cidade, derão causa á instituição de uma piedosa irmandade de +homens plebeos, (em quem ordinariamente se encontrão mais virtudes que nos +Grandes) a qual inda hoje existe, cujo fim he indagar pelos bairros se ha +algum pobre envergonhado, e apregoar de noute pelas ruas sua morada, para +que os cidadãos que puderem o mandem soccorrer. E o traductor infiel +(Mickle) que ousou arremendar Camões com trapos da sua fábrica, e deste +desastrado acontecimento tirou pretexto para desafogar o seu odio contra os +Portuguezes, que nenhum mal lhe fizerão, tratando-os de _nação barbara e +inculta_, devêra lembrar-se, que serem os bons sacrificados pelos maos, por +lhe conhecerem o merecimento, cousa he, que em toda a parte todos os dias +se vê; mas que no seculo desasete um Escritor insigne, com que hoje seus +compatriotas tanto blasonão, fosse igualmente infeliz, polo não saberem +apreciar, e que o seu livro, antes de impresso, fosse vendido pelo vil +preço de cinco Libras, e depois de impresso, jazesse tantos tempos +ignorado, de sorte que para saberem que o tinhão, fosse preciso haver quem +lho mostrasse, he caso que só em Inglaterra nos consta que succedesse. + +Foi Luis de Camões de mediana estatura; cabellos (quando moço) tão louros, +que tiravão a açafroados; olhos vivissimos; nariz comprido, alto no meio, e +grosso na ponta; rosto cheio, beiços grossos, e um tanto carregado da +fronte; pelo que ao primeiro aspecto inculcava severidade; mas na +conversação e trato era summamente affavel e jovial. Era liberal com os +amigos, honrador dos benemeritos, rigido censor dos vicios, intrepido nos +perigos, constante nas adversidades. Em todos os trances de fortuna +conservou sempre a mesma serenidade de alma: de maneira que ja no leito da +morte escrevendo a um seu amigo, lhe dizia gracejando: _Quem ouvio dizer, +que em tão pequeno theatro, como o de um pobre leito, quizesse a fortuna +representar tão grandes desventuras? E eu, como se ellas não bastassem, me +ponho ainda da sua parte; porque procurar resistir a tantos males, +pareceria especie de desavergonhamento._ Emfim, de todas as virtudes foi +ornado este grande homem; e a que nelle mais sobresahia, era um extremoso e +desinteressado amor de patria, que da maneira mais evidente se manifestou +em todo o discurso da sua trabalhosa vida, e nos ultimos momentos della, +como lampada moribunda, inda despedio de si maior clarão: pois ja nos +parocismos da morte, passando em resenha todas as suas acções, parece que +nenhuma outra mágoa sentia, senão a de haver soltado n'um transporte d'ira +aquellas palavras: _Ingrata patria, não possuirás meus ossos_. Porque +julgava elle, que por maiores aggravos que um cidadão haja recebido da sua +patria, nunca, nem por pensamento, deve procurar vingança. E querendo na +sua derradeira hora deixar-nos um testimunho deste seu arrependimento, +vendo-se em tal desamparo, sem ter ninguem a seu lado, escreveo a Dom +Francisco de Almeida, que na comarca de Lamego andava allistando gente, uma +carta onde se lião estas memoraveis palavras: _Emfim, acabarei a vida; e +aqui verão todos que tão amante fui da minha patria, que não contente de +morrer nella, quiz tambem morrer com ella._ + +Foi enterrado sem distincção alguma na Igreja das Religiosas de S.ta +Anna da Ordem de S. Francisco; e assim jazêrão seus ossos confundidos +com os do vulgo sem nome até ao anno de 1595, em que Dom Gonçalo +Coutinho lhe mandou pôr sobre a sepultura uma campa lisa de marmore, e +nella gravar este letreiro: + + AQUI JAZ LUIS DE CAMÕES, + PRINCIPE + DOS POETAS DE SEU TEMPO. + VIVEO POBRE E MISERAVELMENTE, + E ASSI MORREO + ANNO DE MDLXXIX. + ESTA CAMPA LHE MANDOU AQUI PÔR + DOM GONÇALO COUTINHO, NA QUAL SE + NÃO ENTERRARÁ PESSOA ALGUMA. + +Alguns annos depois lhe mandou abrir na mesma campa Martim Gonçalves da +Camara o seguinte Epitaphio: + + _Naso Elegis, Flaccus Lyricis, Epigrammate Marcus, + Hic jacet heroe carmine Virgilius. + Ense simul calamoque auxit tibi, Lysia, famam. + Unam nobilitant Mars et Apollo manum. + Castalium fontem traxit modulamine: at Indo + Et Gangi telis obstupefecit aquas. + India mirata est, quando aurea carmina, lucrum + Ingenii, haut gazas, ex Oriente tulit. + Sic bene de patria meruit, dum fulminat ense: + At plus, dum calamo bellicosa facta refert. + Hunc Itali, Galli, Hispani vertere poetam: + Quaelibet hunc vellet terra vocare suum. + Vertere fas, aequare nefas: aequabilis uni + Est sibi: par nemo, nemo secundus erit._ + +Achamos em Pedro Mariz que um fidalgo Alemão escrevêra a um seu +correspondente de Lisboa que lhe soubesse que sepultura tinha Camões, e +quando a não tivesse sumptuosa, tratasse com a cidade lhe désse +licença para trasladar seus ossos para Alemanha, onde lhe faria um +tumulo superbissimo, igual aos dos mais famosos antigos. Mas o Senado da +Camara attendendo á dignidade da nação, não consentio na proposta, +talvez porque tivesse em vista fazer essa mesma honra ás cinzas de tão +grande homem. Mas este projecto ficou depois em esquecimento até ao anno +de 1775, em que o grande terremoto, sovertendo aquella Igreja, confundio +os ossos debaixo das ruinas. Mas tempo virá em que a patria agradecida +erija á sua memoria um pomposo monumento, que seja digno della, digno de +tão insigne varão. + + + + +RIMAS. + + + + +RIMAS. + + +SONETOS. + + +I. + + Em quanto quiz fortuna que tivesse + Esperança de algum contentamento, + O gosto de hum suave pensamento + Me fez que seus effeitos escrevesse. + Porém temendo Amor que aviso désse + Minha escriptura a algum juizo isento, + Escureceo-me o engenho co'o tormento, + Para que seus enganos não dissesse. + Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos + A diversas vontades! quando lerdes + N'hum breve livro casos tão diversos; + (Verdades puras são, e não defeitos) + Entendei que segundo o amor tiverdes, + Tereis o entendimento de meus versos. + + +II. + + Eu cantarei de amor tão docemente, + Por huns termos em si tão concertados, + Que dous mil accidentes namorados + Faça sentir ao peito que não sente. + Farei que Amor a todos avivente, + Pintando mil segredos delicados, + Brandas iras, suspiros magoados, + Temerosa ousadia, e pena, ausente. + Tambem, Senhora, do desprêzo honesto + De vossa vista branda e rigorosa, + Contentar-me-hei dizendo a menor parte. + Porém para cantar de vosso gesto + A composição alta e milagrosa, + Aqui falta saber, engenho, e arte. + + +III. + + Com grandes esperanças ja cantei, + Com que os deoses no Olympo conquistára; + Depois vim a chorar porque cantára, + E agora chóro ja porque chorei. + Se cuido nas passadas que ja dei, + Custa-me esta lembrança só tão cara, + Que a dor de ver as mágoas que passára, + Tenho por a mór mágoa que passei. + Pois logo, se está claro que hum tormento + Dá causa que outro na alma se accrescente, + Ja nunca posso ter contentamento. + Mas esta phantasia se me mente? + Oh ocioso e cego pensamento! + Ainda eu imagino em ser contente? + + +IV. + + Despois que quiz Amor que eu só passasse + Quanto mal ja por muitos repartio, + Entregou-me á Fortuna, porque vio + Que não tinha mais mal que em mi mostrasse. + Ella, porque do Amor se avantajasse + Na pena a que elle só me reduzio, + O que para ninguem se consentio, + Para mim consentio que se inventasse. + Eis-me aqui vou com vário som gritando. + Copioso exemplario para a gente + Que destes dous tyrannos he sujeita; + Desvarios em versos concertando. + Triste quem seu descanso tanto estreita, + Que deste tão pequeno está contente! + + +V. + + Em prisões baixas fui hum tempo atado; + Vergonhoso castigo de meus erros: + Inda agora arrojando levo os ferros, + Que a morte, a meu pezar, t[~e]e ja quebrado. + Sacrifiquei a vida a meu cuidado, + Que Amor não quer cordeiros nem bezerros; + Vi mágoas, vi miserias, vi desterros: + Parece-me que estava assi ordenado. + Contentei-me com pouco, conhecendo + Que era o contentamento vergonhoso, + Só por ver que cousa era viver ledo. + Mas minha Estrella, que eu ja agora entendo, + A Morte cega, e o Caso duvidoso + Me fizerão de gostos haver medo. + + +VI. + + Illustre e digno ramo dos Menezes, + Aos quaes o providente e largo Ceo + (Que errar não sabe) em dote concedeo, + Rompessem os Maometicos arnezes; + Desprezando a Fortuna e seus revezes, + Ide para onde o Fado vos moveo; + Erguei flammas no mar alto Erythreo, + E sereis nova luz aos Portuguezes. + Opprimi com tão firme e forte peito + O Pirata insolente, que se espante + E trema Taprobana e Gedrosia. + Dai nova causa á côr do Arabo Estreito; + Assi que o Roxo mar, daqui em diante + O seja só com sangue de Turquia. + + +VII. + + No tempo que de amor viver sohia, + Nem sempre andava ao remo ferrolhado; + Antes agora livre, agora atado, + Em várias flammas variamente ardia. + Que ardesse n'hum só fogo não queria + O Ceo porque tivesse exprimentado + Que nem mudar as causas ao cuidado + Mudança na ventura me faria. + E se algum pouco tempo andava isento, + Foi como quem co'o pêzo descansou + Por tornar a cansar com mais alento. + Louvado seja Amor em meu tormento, + Pois para passatempo seu tomou + Este meu tão cansado soffrimento! + + +VIII. + + Amor, que o gesto humano na alma escreve, + Vivas faiscas me mostrou hum dia, + Donde hum puro crystal se derretia + Por entre vivas rosas e alva neve. + A vista, que em si mesma não se atreve, + Por se certificar do que alli via, + Foi convertida em fonte, que fazia + A dor ao soffrimento doce e leve. + Jura Amor, que brandura de vontade + Causa o primeiro effeito; o pensamento + Endoudece, se cuida que he verdade. + Olhai como Amor gera, em hum momento, + De lagrimas de honesta piedade + Lagrimas de immortal contentamento. + + +IX. + + Tanto de meu estado me acho incerto, + Que em vivo ardor tremendo estou de frio; + Sem causa juntamente chóro e rio; + O mundo todo abarco, e nada apérto. + He tudo quanto sinto hum desconcêrto: + Da alma hum fogo me sahe, da vista hum rio; + Agora espero, agora desconfio; + Agora desvarío, agora acérto. + Estando em terra, chego ao ceo voando; + N'hum'hora acho mil annos, e he de geito + Que em mil annos não posso achar hum'hora. + Se me pergunta alguem, porque assi ando, + Respondo, que não sei: porém suspeito + Que só porque vos vi, minha Senhora. + + +X. + + Transforma-se o amador na cousa amada, + Por virtude do muito imaginar: + Não tenho logo mais que desejar, + Pois em mim tenho a parte desejada. + Se nella está minha alma transformada, + Que mais deseja o corpo de alcançar? + Em si somente póde descansar, + Pois com elle tal alma está liada. + Mas esta linda e pura semidea, + Que como o accidente em seu sojeito, + Assi com a alma minha se confórma; + Está no pensamento como idea; + E o vivo e puro amor de que sou feito, + Como a materia simples busca a fórma. + + +XI. + + Passo por meus trabalhos tão isento + De sentimento grande nem pequeno, + Que só por a vontade com que peno + Me fica Amor devendo mais tormento. + Mas vai-me Amor matando tanto a tento, + Temperando a triaga co'o veneno, + Que do penar a ordem desordeno, + Porque não mo consente o soffrimento. + Porém se esta fineza o Amor sente + E pagar-me meu mal com mal pretende, + Torna-me com prazer como ao sol neve. + Mas se me vê co'os males tão contente, + Faz-se avaro da pena, porque entende + Que quanto mais me paga, mais me deve. + + +XII. + + Em flor vos arrancou, de então crescida, + (Ah Senhor Dom Antonio!) a dura sorte + Donde fazendo andava o braço forte + A fama dos antiguos esquecida. + Huma só razão tenho conhecida + Com que tamanha mágoa se conforte: + Que se no Mundo havia honrada morte, + Não podieis vós ter mais larga vida. + Se meus humildes versos podem tanto + Que co'o desejo meu se iguale a arte, + Especial materia me sereis. + E celebrado em triste e longo canto, + Se morrestes nas mãos do fero Marte, + Na memoria das gentes vivireis. + + +XIII. + + N'hum jardim adornado de verdura, + Que esmaltavão por cima várias flores, + Entrou hum dia a deosa dos amores, + Com a deosa da caça e da espessura. + Diana tomou logo h[~u]a rosa pura, + Venus hum roxo lyrio, dos melhores; + Mas excedião muito ás outras flores + As violas na graça e formosura. + Perguntão a Cupido, que alli estava, + Qual de aquellas tres flores tomaria + Por mais suave e pura, e mais formosa. + Sorrindo-se o menino lhes tornava: + Todas formosas são; mas eu queria + Viola antes que lyrio, nem que rosa. + + +XIV. + + Todo animal da calma repousava, + Só Liso o ardor della não sentia; + Que o repouso do fogo, em que elle ardia, + Consistia na Nympha que buscava. + Os montes parecia que abalava + O triste som das mágoas que dizia: + Mas nada o duro peito commovia, + Que na vontade de outro posto estava. + Cansado ja de andar por a espessura, + No tronco de huma faia, por lembrança, + Escreve estas palavras de tristeza: + Nunca ponha ninguem sua esperança + Em peito feminil, que de natura + Somente em ser mudavel t[~e]e firmeza. + + +XV. + + Busque Amor novas artes, novo engenho + Para matar-me, e novas esquivanças; + Que não póde tirar-me as esperanças, + Pois mal me tirará o que eu não tenho. + Olhai de que esperanças me mantenho! + Vêde que perigosas seguranças! + Pois não temo contrastes nem mudanças, + Andando em bravo mar, perdido o lenho. + Mas com quanto não póde haver desgôsto + Onde esperança falta, lá me esconde + Amor hum mal, que mata e não se vê. + Que dias ha que na alma me t[~e]e posto + Hum não sei que, que nasce não sei onde; + Vem não sei como; e doe não sei porque. + + +XVI. + + Quem vê, Senhora, claro e manifesto + O lindo ser de vossos olhos bellos, + Se não perder a vista só com vellos, + Ja não paga o que deve a vosso gesto. + Este me parecia preço honesto; + Mas eu, por de vantagem merecellos, + Dei mais a vida e alma por querellos; + Donde ja me não fica mais de resto. + Assi que alma, que vida, que esperança, + E que quanto for meu, he tudo vosso: + Mas de tudo o interêsse eu só o levo. + Porque he tamanha bem-aventurança + O dar-vos quanto tenho, e quanto posso, + Que quanto mais vos pago, mais vos devo. + + +XVII. + + Quando da bella vista e doce riso + Tomando estão meus olhos mantimento, + Tão elevado sinto o pensamento, + Que me faz ver na terra o Paraiso. + Tanto do bem humano estou diviso, + Que qualquer outro bem julgo por vento: + Assi que em termo tal, segundo sento, + Pouco vem a fazer quem perde o siso. + Em louvar-vos, Senhora, não me fundo; + Porque quem vossas graças claro sente, + Sentirá que não póde conhecellas. + Pois de tanta estranheza sois ao mundo, + Que não he de estranhar, Dama excellente, + Que quem vos fez, fizesse ceo e estrellas. + + +XVIII. + + Doces lembranças da passada gloria, + Que me tirou fortuna roubadora, + Deixai-me descansar em paz hum'hora, + Que comigo ganhais pouca victoria. + Impressa tenho na alma larga historia + Deste passado bem, que nunca fôra; + Ou fôra, e não passára: mas ja agora + Em mi não póde haver mais que a memoria. + Vivo em lembranças, morro de esquecido + De quem sempre devêra ser lembrado, + Se lhe lembrára estado tão contente. + Oh quem tornar pudéra a ser nascido! + Soubera-me lograr do bem passado, + Se conhecer soubera o mal presente. + + +XIX. + + Alma minha gentil, que te partiste + Tão cedo desta vida descontente, + Repousa lá no Ceo eternamente, + E viva eu cá na terra sempre triste. + Se lá no assento Ethereo, onde subiste, + Memoria desta vida se consente, + Não te esqueças de aquelle amor ardente, + Que ja nos olhos meus tão puro viste. + E se vires que póde merecer-te + Alg[~u]a cousa a dor que me ficou + Da mágoa, sem remedio, de perder-te; + Roga a Deos que teus annos encurtou, + Que tão cedo de cá me leve a ver-te, + Quão cedo de meus olhos te levou. + + +XX. + + N'hum bosque, que das Nymphas se habitava, + Sibella, Nympha linda, andava hum dia; + E subida em huma árvore sombria, + As amarellas flores apanhava. + Cupido, que alli sempre costumava + A vir passar a sésta á sombra fria, + Em hum ramo arco e settas, que trazia, + Antes que adormecesse, pendurava. + A Nympha, como idoneo tempo víra + Para tamanha empresa, não dilata; + Mas com as armas foge ao moço esquivo. + As settas traz nos olhos, com que tira. + Ó Pastores! fugi, que a todos mata, + Senão a mim, que de matar-me vivo. + + +XXI. + + Os Reinos e os Imperios poderosos, + Que em grandeza no mundo mais crescêrão; + Ou por valor de esfôrço florecêrão, + Ou por Barões nas letras espantosos. + Teve Grecia Themistocles famosos; + Os Scipiões a Roma engrandecêrão; + Doze Pares a França gloria derão; + Cides a Hespanha, e Laras bellicosos. + Ao nosso Portugal, que agora vemos + Tão differente de seu ser primeiro, + Os vossos derão honra e liberdade. + E em vós, grão successor e novo herdeiro + Do Braganção Estado, ha mil extremos + Iguaes ao sangue, e móres que a idade. + + +XXII. + + De vós me parto, ó vida, e em tal mudança + Sinto vivo da morte o sentimento. + Não sei para que he ter contentamento, + Se mais ha de perder quem mais alcança. + Mas dou-vos esta firme segurança: + Que postoque me mate o meu tormento, + Por as aguas do eterno esquecimento + Segura passará minha lembrança. + Antes sem vós meus olhos se entristeção, + Que com cousa outra alguma se contentem: + Antes os esqueçais, que vos esqueção. + Antes nesta lembrança se atormentem, + Que com esquecimento desmereção + A gloria que em soffrer tal pena sentem. + + +XXIII. + + Chara minha inimiga, em cuja mão + Poz meus contentamentos a ventura, + Faltou-te a ti na terra sepultura, + Porque me falte a mi consolação. + Eternamente as águas lograrão + A tua peregrina formosura: + Mas em quanto me a mim a vida dura, + Sempre viva em minha alma te acharão. + E se meus rudos versos podem tanto, + Que possão prometter-te longa historia + De aquelle amor tão puro e verdadeiro; + Celebrada serás sempre em meu canto: + Porque em quanto no mundo houver memoria, + Será a minha escriptura o teu letreiro. + + +XXIV. + + Aquella triste e leda madrugada, + Cheia toda de mágoa e de piedade, + Em quanto houver no mundo saudade + Quero que seja sempre celebrada. + Ella só, quando amena e marchetada + Sahia, dando á terra claridade, + Vio apartar-se de huma outra vontade, + Que nunca poderá ver-se apartada; + Ella só vio as lagrimas em fio, + Que de huns e de outros olhos derivadas, + Juntando-se, formárão largo rio; + Ella ouvio as palavras magoadas, + Que puderão tornar o fogo frio, + E dar descanço ás almas condemnadas. + + +XXV. + + Se quando vos perdi, minha esperança, + A memoria perdêra juntamente + Do doce bem passado e mal presente, + Pouco sentira a dor de tal mudança. + Mas Amor, em quem tinha confiança, + Me representa mui miudamente + Quantas vezes me vi ledo e contente, + Por me tirar a vida esta lembrança. + De cousas de que apenas hum signal + Havia, porque as dei ao esquecimento, + Me vejo com memorias perseguido. + Ah dura estrella minha! Ah grão tormento! + Que mal póde ser mor, que no meu mal + Ter lembranças do bem que he ja passado? + + +XXVI. + + Em formosa Lethea se confia, + Por onde vaidade tanta alcança, + Que, tornada em soberba a confiança, + Com os deoses celestes competia. + Porque não fosse avante esta ousadia, + (Que nascem muitos erros da tardança) + Em effeito puzerão a vingança + Que tamanha doudice merecia. + Mas Oleno, perdido por Lethea, + Não lhe soffrendo Amor que supportasse + Duro castigo em tanta formosura, + Quiz a pena tomar da culpa alhea: + Mas, porque a Morte Amor não apartasse, + Ambos tornados são em pedra dura. + + +XXVII. + + Males, que contra mim vos conjurastes, + Quanto ha de durar tão duro intento? + Se dura, porque dure meu tormento, + Baste-vos quanto ja me atormentastes. + Mas se assi porfiais, porque cuidastes + Derribar o meu alto pensamento, + Mais póde a causa delle, em que o sustento, + Que vós, que della mesma o ser tomastes. + E pois vossa tenção com minha morte + He de acabar o mal destes amores, + Dai ja fim a tormento tão comprido. + Assi de ambos contente será a sorte; + Em vós por acabar-me, vencedores, + Em mim porque acabei de vós vencido. + + +XXVIII. + + Está-se a Primavera trasladando + Em vossa vista deleitosa e honesta; + Nas bellas faces, e na boca e testa, + Cecens, rosas, e cravos debuxando. + De sorte, vosso gesto matizando, + Natura quanto póde manifesta, + Que o monte, o campo, o rio, e a floresta, + Se estão de vós, Senhora, namorando. + Se agora não quereis que quem vos ama + Possa colher o fructo destas flores, + Perderão toda a graça os vossos olhos. + Porque pouco aproveita, linda Dama, + Que semeasse o Amor em vós amores, + Se vossa condição produze abrolhos. + + +XXIX. + + Sete annos de pastor Jacob servia + Labão, pae de Raquel, serrana bella: + Mas não servia ao pae, servia a ella, + Que a ella só por premio pertendia. + Os dias na esperança de hum só dia + Passava, contentando-se com vella: + Porém o pae, usando de cautella, + Em lugar de Raquel lhe deo a Lia. + Vendo o triste Pastor que com enganos + Assi lhe era negada a sua Pastora, + Como se a não tivera merecida; + Começou a servir outros sete annos, + Dizendo: Mais servíra, senão fôra + Para tão longo amor tão curta a vida. + + +XXX. + + Está o lascivo e doce passarinho + Com o biquinho as pennas ordenando; + O verso sem medida, alegre e brando, + Despedindo no rustico raminho. + O cruel caçador, que do caminho + Se vem callado e manso desviando, + Com prompta vista a setta endireitando, + Lhe dá no Estygio Lago eterno ninho. + Desta arte o coração, que livre andava, + (Postoque ja de longe destinado) + Onde menos temia, foi ferido. + Porque o frecheiro cego me esperava, + Para que me tomasse descuidado, + Em vossos claros olhos escondido. + + +XXXI. + + Pede o desejo, Dama, que vos veja: + Não entende o que pede; está enganado. + He este amor tão fino e tão delgado, + Que quem o t[~e]e, não sabe o que deseja. + Não ha cousa, a qüal natural seja, + Que não queira perpétuo o seu estado. + Não quer logo o desejo o desejado, + Só porque nunca falte onde sobeja. + Mas este puro affecto em mim se dana: + Que, como a grave pedra t[~e]e por arte + O centro desejar da natureza; + Assi meu pensamento por a parte, + Que vai tomar de mi, terreste e humana, + Foi, Senhora, pedir esta baixeza. + + +XXXII. + + Porque quereis, Senhora, que offereça + A vida a tanto mal como padeço? + Se vos nasce do pouco que eu mereço, + Bem por nascer está quem vos mereça. + Entendei que por muito que vos peça, + Poderei merecer quanto vos peço; + Pois não consente amor que em baixo preço + Tão alto pensamento se conheça. + Assi que a paga igual de minhas dores + Com nada se restaura; mas devêsma + Por ser capaz de tantos desfavores. + E se o valor de vossos amadores + Houver de ser igual comvosco mesma, + Vós só comvosco mesma andai de amores. + + +XXXIII. + + Se tanta pena tenho merecida + Em pago de soffrer tantas durezas; + Provai, Senhora, em mi vossas cruezas, + Que aqui tendes huma alma offerecida. + Nella experimentai, se sois servida, + Desprezos, desfavores e asperezas; + Que móres soffrimentos e firmezas + Sustentarei na guerra desta vida. + Mas contra vossos olhos quaes serão? + He preciso que tudo se lhes renda; + Mas porei por escudo o coração. + Porque em tão dura e aspera contenda + He bem que, pois não acho defensão, + Com meter-me nas lanças me defenda. + + +XXXIV. + + Quando o sol encoberto vai mostrando + Ao mundo a luz quieta e duvidosa, + Ao longo de huma praia deleitosa + Vou na minha inimiga imaginando. + Aqui a vi os cabellos concertando; + Alli co'a mão na face, tão formosa; + Aqui fallando alegre, alli cuidosa; + Agora estando quêda, agora andando. + Aqui esteve sentada, alli me vio, + Erguendo aquelles olhos, tão isentos; + Commovida aqui hum pouco, alli segura. + Aqui se entristeceo, alli se rio: + E, em fim, nestes cansados pensamentos + Passo esta vida vãa, que sempre dura. + + +XXXV. + + Hum mover de olhos, brando e piedoso, + Sem ver de que; hum riso brando e honesto, + Quasi forçado; hum doce e humilde gesto, + De qualquer alegria duvidoso: + Hum despejo quieto e vergonhoso; + Hum repouso gravissimo e modesto; + Huma pura bondade, manifesto + Indicio da alma, limpo e gracioso: + Hum encolhido ousar; huma brandura; + Hum medo sem ter culpa; hum ar sereno; + Hum longo e obediente soffrimento: + Esta foi a celeste formosura + Da minha Circe, e o magico veneno + Que pôde transformar meu pensamento. + + +XXXVI. + + Tomou-me vossa vista soberana + Adonde tinha as armas mais á mão, + Por mostrar a quem busca defensão + Contra esses bellos olhos, que se engana. + Por ficar da victoria mais ufana, + Deixou-me armar primeiro da razão. + Bem salvar-me cuidei, mas foi em vão, + Que contra o Ceo não val defensa humana. + Com tudo, se vos tinha promettido + O vosso alto destino esta victoria, + Ser-vos ella bem pouca está entendido. + Pois, indaque eu me achasse apercebido, + Não levais de vencer-me grande gloria, + Eu a levo maior de ser vencido. + + +XXXVII. + + Não passes, caminhante. Quem me chama? + H[~u]a memoria nova e nunca ouvida, + De hum que trocou finita e humana vida + Por divina, infinita, e clara fama. + Quem he, que tão gentil louvor derrama? + Quem derramar seu sangue não duvida, + Por seguir a bandeira esclarecida + De hum capitão de Christo que mais ama. + Ditoso fim, ditoso sacrificio, + Que a Deos se fez e ao mundo juntamente! + Pregoando direi tão alta sorte. + Mais poderás contar a toda a gente + Que sempre deo na vida claro indicio + De vir a merecer tão santa morte. + + +XXXVIII. + + Formosos olhos, que na idade nossa + Mostrais do Ceo certissimos signais, + Se quereis conhecer quanto possais, + Olhai-me a mim, que sou feitura vossa. + Vereis que do viver me desapossa + Aquelle riso com que a vida dais: + Vereis como de Amor não quero mais, + Por mais que o tempo corra, o damno possa. + E se ver-vos nesta alma, emfim, quizerdes, + Como em hum claro espelho, alli vereis + Tambem a vossa angelica e serena. + Mas eu cuido que, só por me não verdes, + Ver-vos em mim, Senhora, não quereis: + Tanto gôsto levais de minha pena! + + +XXXIX. + + O fogo que na branda cera ardia, + Vendo o rosto gentil, que eu na alma vejo, + Se accendeo de outro fogo do desejo + Por alcançar a luz que vence o dia. + Como de dous ardores se encendia, + Da grande impaciencia fez despejo, + E remettendo com furor sobejo, + Vos foi beijar na parte onde se via. + Ditosa aquella flamma que se atreve + A apagar seus adores e tormentos + Na vista a quem o sol temores deve! + Namorão-se, Senhora, os Elementos + De vós, e queima o fogo aquella neve + Que queima corações e pensamentos. + + +XL. + + Alegres campos, verdes arvoredos, + Claras e frescas águas de crystal, + Que em vós os debuxais ao natural, + Discorrendo da altura dos rochedos: + Sylvestres montes, asperos penedos + Compostos de concêrto desigual; + Sabei que sem licença de meu mal + Ja não podeis fazer meus olhos ledos. + E pois ja me não vêdes como vistes, + Não me alegrem verduras deleitosas, + Nem águas que correndo alegres vem. + Semearei em vós lembranças tristes, + Regar-vos-hei com lagrimas saudosas, + E nascerão saudades de meu bem. + + +XLI. + + Quantas vezes do fuso se esquecia + Daliana, banhando o lindo seio, + Outras tantas de hum aspero receio + Salteado Laurenio a côr perdia. + Ella, que a Sylvio mais que a si queria, + Para podê-lo ver não tinha meio. + Ora como curára o mal alheio + Quem o seu mal tão mal curar podia? + Elle, que vio tão clara esta verdade, + Com soluços dizia (que a espessura + Inclinavão, de mágoa, a piedade): + Como póde a desordem da natura + Fazer tão differentes na vontade + Aos que fez tão conformes na ventura? + + +XLII. + + Lindo e subtil trançado, que ficaste + Em penhor do remedio que mereço, + Se só comtigo, vendo-te, endoudeço, + Que fôra co'os cabellos que apertaste? + Aquellas tranças de ouro que ligaste, + Que os raios do sol t[~e]e em pouco preço, + Não sei se ou para engano do que peço, + Ou para me matar as desataste. + Lindo trançado, em minhas mãos te vejo, + E por satisfação de minhas dores, + Como quem não t[~e]e outra, hei de tomar-te. + E se não for contente o meu desejo, + Dir-lhe-hei que nesta regra dos amores + Por o todo tambem se toma a parte. + + +XLIII. + + O cysne quando sente ser chegada + A hora que põe termo á sua vida, + Harmonia maior, com voz sentida, + Levanta por a praia inhabitada. + Deseja lograr vida prolongada, + E della está chorando a despedida: + Com grande saudade da partida, + Celebra o triste fim desta jornada. + Assi, Senhora minha, quando eu via + O triste fim que davão meus amores, + Estando posto ja no extremo fio; + Com mais suave accento de harmonia + Descantei por os vossos desfavores + _La vuestra falsa fe, y el amor mio._ + + +XLIV. + + Por os raros extremos que mostrou + Em sábia Pallas, Venus em formosa, + Diana em casta, Juno em animosa, + Africa, Europa e Asia as adorou. + Aquelle saber grande que juntou + Esprito e corpo em liga generosa, + Esta mundana máchina lustrosa, + De sós quatro elementos fabricou. + Mas fez maior milagre a natureza + Em vós, Senhoras, pondo em cada h[~u]a + O que por todas quatro repartio. + A vós seu resplandor deo sol e l[~u]a: + A vós com viva luz, graça e pureza, + Ar, Fogo, Terra e Agua vos servio. + + +XLV. + + Tomava Daliana por vingança + Da culpa do pastor que tanto amava, + Casar com Gil vaqueiro; e em si vingava + O êrro alheio, e perfida esquivança. + A discrição segura, a confiança + Das rosas que o seu rosto debuxava, + O descontentamento lhas mudava; + Que tudo muda huma aspera mudança. + Gentil planta disposta em sêcca terra; + Lindo fructo de dura mão colhido; + Lembranças de outro amor, e fé perjura, + Tornárão verde prado em serra dura; + Interêsse enganoso, amor fingido, + Fizerão desditosa a formosura. + + +XLVI. + + Grão tempo ha ja que soube da Ventura + A vida que me tinha destinada; + Que a longa experiencia da passada + Me dava claro indicio da futura. + Amor fero e cruel, Fortuna escura, + Bem tendes vossa fôrça exprimentada: + Assolai, destrui, não fique nada; + Vingai-vos desta vida, que inda dura. + Soube Amor da Ventura, que a não tinha, + E porque mais sentisse a falta della, + De imagens impossiveis me mantinha. + Mas vós, Senhora, pois que minha estrella + Não foi melhor, vivei nesta alma minha; + Que não t[~e]e a Fortuna poder nella. + + +XLVII. + + Se somente hora alguma em vós piedade + De tão longo tormento se sentíra, + Amor sofrêra mal que eu me partíra + De vossos olhos, minha Saudade. + Apartei-me de vós, mas a vontade, + Que por o natural na alma vos tira, + Me faz crer que esta ausencia he de mentira; + Porém venho a provar que he de verdade. + Ir-me-hei, Senhora; e neste apartamento + Lagrimas tristes tomarão vingança + Nos olhos de quem fostes mantimento. + Desta arte darei vida a meu tormento; + Que, em fim, cá me achará minha lembrança + Sepultado no vosso esquecimento. + + +XLVIII. + + Oh como se me alonga de anno em ano + A peregrinação cansada minha! + Como se encurta, e como ao fim caminha + Este meu breve e vão discurso humano! + Mingoando a idade vai, crescendo o dano; + Perdeo-se-me hum remedio, que inda tinha: + Se por experiencia se adivinha, + Qualquer grande esperança he grande engano. + Corro apoz este bem que não se alcança; + No meio do caminho me fallece; + Mil vezes caio, e perco a confiança. + Quando elle foge, eu tardo; e na tardança, + Se os olhos ergo a ver se inda apparece, + Da vista se me perde, e da esperança. + + +XLIX. + + Ja he tempo, ja, que minha confiança + Se desça de huma falsa opinião: + Mas Amor não se rege por razão; + Não posso perder, logo, a esperança. + A vida si; que huma aspera mudança + Não deixa viver tanto hum coração, + E eu só na morte tenho a salvação: + Si: mas quem a deseja não a alcança. + Forçado he logo que eu espere e viva. + Ali dura lei de Amor, que não consente + Quietação n'hum'alma que he captiva! + Se hei de viver, em fim, forçadamente, + Para que quero a gloria fugitiva + De huma esperança vãa que me atormente? + + +L. + + Amor, com a esperança ja perdida + Teu soberano templo visitei: + Por signal do naufragio que passei, + Em lugar dos vestidos, puz a vida. + Que mais queres de mi, pois destruida + Me t[~e]es a gloria toda que alcancei? + Não cuides de render-me; que não sei + Tornar a entrar-me onde não ha sahida. + Vês aqui a vida, e a alma, e a esperança, + Doces despojos de meu bem passado, + Em quanto o quiz aquella que eu adoro. + Nellas podes tomar de mi vingança: + E se te queres inda mais vingado, + Contenta-te co'as lagrimas que chóro. + + +LI. + + Apollo e as nove Musas, descantando + Com a dourada lyra, me influião + Na suave harmonia que fazião, + Quando tomei a penna, começando: + Ditoso seja o dia e hora, quando + Tão delicados olhos me ferião! + Ditosos os sentidos que sentião + Estar-se em seu desejo traspassando! + Assi cantava, quando Amor virou + A roda á esperança, que corria + Tão ligeira, que quasi era invisibil. + Converteo-se-me em noite o claro dia; + E se alguma esperança me ficou, + Será de maior mal, se for possibil. + + +LII. + + Lembranças saudosas, se cuidais + De me acabar a vida neste estado, + Não vivo com meu mal tão enganado, + Que não espere delle muito mais. + De longo tempo ja me costumais + A viver de algum bem desesperado: + Ja tenho co'a Fortuna concertado + De soffrer os tormentos que me dais. + Atada ao remo tenho a paciencia + Para quantos desgostos der a vida; + Cuide quanto quizer o pensamento. + Que pois não posso ter mais resistencia + Para tão dura quéda, de subida, + Aparar-lhe-hei debaixo o soffrimento. + + +LIII. + + Apartava-se Nise de Montano, + Em cuja alma, partindo-se, ficava; + Que o pastor na memoria a debuxava, + Por poder sustentar-se deste engano. + Por huma praia do Indico Oceano + Sôbre o curvo cajado se encostava, + E os olhos por as águas alongava, + Que pouco se doião de seu dano. + Pois com tamanha mágoa e saudade, + (Dizia) quiz deixar-me a que eu adoro, + Por testimunhas tómo ceo e estrellas. + Mas se em vós, ondas, mora piedade, + Levai tambem as lagrimas que chóro, + Pois assi me levais a causa dellas. + + +LIV. + + Quando vejo que meu destino ordena + Que, por me exprimentar, de vós me aparte, + Deixando de meu bem tão grande parte, + Que a mesma culpa fica grave pena; + O duro desfavor, que me condena, + Quando por a memoria se reparte, + Endurece os sentidos de tal arte + Que a dor da ausencia fica mais pequena. + Mas como póde ser que na mudança + D'aquillo que mais quero, estê tão fóra + De me não apartar tambem da vida? + Eu refrearei tão aspera esquivança: + Porque mais sentirei partir, Senhora, + Sem sentir muito a pena da partida. + + +LV. + + Despois de tantos dias mal gastados, + Despois de tantas noites mal dormidas, + Despois de tantas lagrimas vertidas, + Tantos suspiros vãos vãamente dados, + Como não sois vós ja desenganados, + Desejos, que de cousas esquecidas + Quereis remediar mortaes feridas. + Que Amor fez sem remedio, o Tempo, os Fados? + Se não tivereis ja longa exp'riencia + Das semrazões de Amor a quem servistes, + Fraqueza fôra em vós a resistencia. + Mas pois por vosso mal seus males vistes, + Que o tempo não curou, nem larga ausencia, + Qual bem delle esperais, desejos tristes? + + +LVI. + + Naiades, vós que os rios habitais, + Que os saudosos campos vão regando, + De meus olhos vereis estar manando + Outros que quasi aos vossos são iguais. + Dryades, que com setta sempre andais + Os fugitivos cervos derribando, + Outros olhos vereis, que triumphando + Derribão corações, que valem mais. + Deixai logo as aljavas e águas frias, + E vinde, Nymphas bellas, se quereis, + A ver como de huns olhos nascem mágoas. + Notareis como em vão passão os dias; + Mas em vão não vireis, porque achareis + Nos seus as settas, e nos meus as ágoas. + + +LVII. + + Mudão-se os tempos, mudão-se as vontades, + Muda-se o ser, muda-se a confiança: + Todo o mundo he composto de mudança, + Tomando sempre novas qualidades. + Continuamente vemos novidades, + Differentes em tudo da esperança: + Do mal ficão as mágoas na lembrança, + E do bem (se algum houve) as saudades. + O tempo cobre o chão de verde manto, + Que ja coberto foi de neve fria, + E em mi converte em chôro o doce canto. + E afora este mudar-se cada dia, + Outra mudança faz de mor espanto, + Que não se muda ja como sohia. + + +LVIII. + + Se as penas com que Amor tão mal me trata + Permittirem que eu tanto viva dellas, + Que veja escuro o lume das estrellas, + Em cuja vista o meu se accende e mata; + E se o tempo, que tudo desbarata, + Seccar as frescas rosas, sem colhellas, + Deixando a linda côr das tranças bellas + Mudada de ouro fino em fina prata; + Tambem, Senhora, então vereis mudado + O pensamento e a aspereza vossa, + Quando não sirva ja sua mudança. + Ver-vos-heis suspirar por o passado, + Em tempo quando executar-se possa + No vosso arrepender minha vingança. + + +LIX. + + Quem jaz no grão sepulchro, que descreve + Tão illustres signaes no forte escudo? + Ninguem; que nisso, em fim se torna tudo: + Mas foi quem tudo pôde e tudo teve. + Foi Rei? Fez tudo quanto a Rei se deve: + Poz na guerra e na paz devido estudo. + Mas quão pezado foi ao Mouro rudo, + Tanto lhe seja agora a terra leve. + Alexandro será? Ninguem se engane: + Mais que o adquirir, o sustentar estima. + Será Hadriano grão Senhor do mundo? + Mais observante foi da Lei de cima. + He Numa? Numa não, mas he Joane. + De Portugal Terceiro sem segundo. + + +LX. + + Quem póde livre ser, gentil Senhora, + Vendo-vos com juizo socegado, + Se o menino, que de olhos he privado, + Nas meninas dos vossos olhos mora? + Alli manda, alli reina, alli namora, + Alli vive das gentes venerado; + Que o vivo lume, e o rosto delicado, + Imagens são adonde Amor se adora. + Quem vê que em branca neve nascem rosas + Que crespos fios de ouro vão cercando, + Se por entre esta luz a vista passa, + Raios de ouro verá, que as duvidosas + Almas estão no peito traspassando, + Assi como hum crystal o sol traspassa. + + +LXI. + + Como fizeste, ó Porcia, tal ferida? + Foi voluntaria, ou foi por innocencia? + He que Amor fazer só quiz exp'riencia + Se podia eu soffrer tirar-me a vida. + E com teu proprio sangue te convida + A que faças á morte resistencia? + He que costume faço da paciencia, + Porque o temor morrer me não impida. + Pois porque estás comendo fogo ardente, + Se a ferro te costumas? He que ordena + Amor que morra, e pene juntamente. + E t[~e]es a dor do ferro por pequena? + Si; que a dor costumada não se sente; + E não quero eu a morte sem a pena. + + +LXII. + + De tão divino accento em voz humana, + De elegancias que são tão peregrinas, + Sei bem que minhas obras não são dinas; + Que o rudo engenho meu me desengana. + Porém da vossa penna illustre mana + Licor que vence as águas Caballinas; + E comvosco do Tejo as flores finas + Farão inveja á cópia Mantuana. + E pois, a vós de si não sendo avaras, + As filhas de Mnemosine formosa + Partes dadas vos t[~e]e ao mundo claras; + A minha Musa, e a vossa tão famosa, + Ambas se podem nelle chamar raras, + A vossa de alta, a minha de invejosa. + + +LXIII. + + Debaixo desta pedra está metido, + Das sanguinosas armas descansado, + O Capitão illustre e assinalado + Dom Fernando de Castro esclarecido. + Este por todo o Oriente tão temido, + Este da propria inveja tão cantado, + Este, em fim, raio de Mavorte irado, + Aqui está agora em terra convertido. + Alegra-te, ó guerreira Lusitania, + Por est'outro Viriato que criaste, + E chora a perda sua eternamente. + Exemplo toma nisto de Dardania; + Que se a Roma com elle anniquilaste, + Nem por isso Carthago está contente. + + +LXIV. + + Que vençais no Oriente tantos Reis, + Que de novo nos deis da India o Estado, + Que escureçais a fama que hão ganhado + Aquelles, que a ganhárão de infieis; + Que vencidas tenhais da morte as leis, + E que vencesseis tudo, em fim, armado, + Mais he vencer na patria, desarmado, + Os monstros e as Chimeras que venceis. + Sôbre vencerdes, pois, tanto inimigo, + E por armas fazer que sem segundo + No mundo o vosso nome ouvido seja; + O que vos dá mais fama inda no mundo, + He vencerdes, Senhor, no Reino amigo, + Tantas ingratidões, tão grande inveja. + + +LXV. + + Vossos olhos, Senhora, que competem + Com o sol em belleza e claridade, + Enchem os meus de tal suavidade, + Que em lagrimas de vê-los se derretem. + Meus sentidos prostrados se submetem + Assi cegos a tanta magestade; + E da triste prisão, da escuridade, + Cheios de medo, por fugir, remetem. + Porém se então me vêdes por acêrto, + Esse aspero desprêzo com que olhais + Me torna a animar a alma enfraquecida. + Oh gentil cura! Oh estranho desconcêrto! + Que dareis co'hum favor que vós não dais, + Quando com hum desprêzo me dais vida? + + +LXVI. + + Formosura do Ceo a nós descida, + Que nenhum coração deixas isento, + Satisfazendo a todo pensamento, + Sem que sejas de algum bem entendida; + Qual lingoa póde haver tão atrevida, + Que tenha de louvar-te atrevimento, + Pois a parte melhor do entendimento, + No menos que em ti ha se vê perdida? + Se em teu valor contemplo a menor parte, + Vendo que abre na terra hum paraiso, + Logo o engenho me falta, o esprito míngoa. + Mas o que mais me impede inda louvar-te, + He que quando te vejo perco a lingoa, + E quando não te vejo perco o siso. + + +LXVII. + + Pois meus olhos não cansão de chorar + Tristezas não cansadas de cansar-me; + Pois não se abranda o fogo em que abrazar-me + Pôde quem eu jamais pude abrandar; + Não canse o cego Amor de me guiar + Onde nunca de lá possa tornar-me; + Nem deixe o mundo todo de escutar-me, + Em quanto a fraca voz me não deixar. + E se em montes, se em prados, e se em valles + Piedade mora alguma, algum amor + Em feras, plantas, aves, pedras, agoas; + Oução a longa historia de meus males, + E curem sua dor com minha dor; + Que grandes mágoas podem curar mágoas. + + +LXVIII. + + Dai-me h[~u]a lei, Senhora, de querer-vos, + Porque a guarde sobpena de enojar-vos; + Pois a fé que me obriga a tanto amar-vos + Fara que fique em lei de obedecer-vos. + Tudo me defendei, senão só ver-vos + E dentro na minha alma contemplar-vos; + Que se assi não chegar a contentar-vos, + Ao menos nunca chegue a aborrecer-vos. + E se essa condição cruel e esquiva + Que me deis lei de vida não consente, + Dai-ma, Senhora, ja, seja de morte. + Se nem essa me dais, he bem que viva, + Sem saber como vivo, tristemente; + Mas contente estarei com minha sorte. + + +LXIX. + + Ferido sem ter cura perecia + O forte e duro Télepho temido + Por aquelle que na agua foi metido, + E a quem ferro nenhum cortar podia. + Quando a Apollineo Oraculo pedia + Conselho para ser restituido, + Respondeo-lhe, tornasse a ser ferido + Por quem o ja ferira, e sararia. + Assi, Senhora, quer minha ventura; + Que ferido de ver-vos claramente, + Com tornar-vos a ver Amor me cura. + Mas he tão doce vossa formosura, + Que fico como o hydropico doente, + Que bebendo lhe cresce mór seccura. + + +LXX. + + Na metade do ceo subido ardia + O claro, almo Pastor, quando deixavão + O verde pasto as cabras, e buscavão + A frescura suave da agua fria. + Com a folha das árvores, sombria, + Do raio ardente as aves se amparavão: + O módulo cantar, de que cessavão, + Só nas roucas cigarras se sentia. + Quando Liso pastor n'hum campo verde + Natercia, crua Nympha, só buscava + Com mil suspiros tristes que derrama. + Porque te vás de quem por ti se perde, + Para quem pouco te ama? (suspirava) + E o eco lhe responde: Pouco te ama. + + +LXXI. + + Ja a roxa e branca Aurora destoucava + Os seus cabellos de ouro delicados, + E das flores os campos esmaltados + Com crystallino orvalho borrifava; + Quando o formoso gado se espalhava + De Sylvio e de Laurente por os prados; + Pastores ambos, e ambos apartados, + De quem o mesmo amor não se apartava. + Com verdadeiras lagrimas Laurente, + Não sei, (dizia) ó Nympha delicada, + Porque não morre ja quem vive ausente; + Pois a vida sem ti não presta nada. + Responde Sylvio: Amor não o consente: + Que offende as esperanças da tornada. + + +LXXII. + + Quando de minhas mágoas a comprida + Maginação os olhos me adormece, + Em sonhos aquella alma me apparece, + Que para mi foi sonho nesta vida. + Lá n'huma soidade, onde estendida + A vista por o campo desfallece, + Corro apoz ella; e ella então parece + Que mais de mi se alonga, compellida. + Brado: Não me fujais, sombra benina. + Ella (os olhos em mi co'hum brando pejo, + Como quem diz, que ja não póde ser) + Torna a fugir-me: torno a bradar: _Dina_... + E antes que diga _mene_, acórdo, e vejo + Que nem hum breve engano posso ter. + + +LXXIII. + + Suspiros inflammados que cantais + A tristeza com que eu vivi tão ledo, + Eu morro e não vos levo, porque hei medo + Que ao passar do Letheio vos percais. + Escriptos para sempre ja ficais + Onde vos mostrarão todos co'o dedo, + Como exemplo de males; e eu concedo + Que para aviso de outros estejais. + Em quem, pois, virdes largas esperanças + De Amor e da Fortuna, (cujos danos + Alguns terão por bem-aventuranças) + Dizei-lhe, que os servistes muitos anos, + E que em Fortuna tudo são mudanças, + E que em Amor não ha senão enganos. + + +LXXIV. + + Aquella fera humana que enriquece + A sua presunçosa tyrannia + Destas minhas entranhas, onde cria + Amor hum mal, que falta quando crece; + Se nella o Ceo mostrou (como parece) + Quanto mostrar ao mundo pretendia, + Porque de minha vida se injuria? + Porque de minha morte se ennobrece? + Ora, em fim, sublimai vossa victoria, + Senhora, com vencer-me e captivar-me: + Fazei della no mundo larga historia. + Pois, por mais que vos veja atormentar-me, + Ja me fico logrando desta gloria + De ver que tendes tanta de matar-me. + + +LXXV. + + Ditoso seja aquelle que somente + Se queixa de amorosas esquivanças; + Pois por ellas não perde as esperanças + De poder n'algum tempo ser contente. + Ditoso seja quem estando ausente + Não sente mais que a pena das lembranças; + Porqu'inda que se tema de mudanças, + Menos se teme a dor quando se sente. + Ditoso seja, em fim, qualquer estado, + Onde enganos, desprezos e isenção + Trazem hum coração atormentado. + Mas triste quem se sente magoado + De erros em que não póde haver perdão + Sem ficar na alma a mágoa do peccado. + + +LXXVI. + + Quem fosse acompanhando juntamente + Por esses verdes campos a avezinha, + Que despois de perder hum bem que tinha, + Não sabe mais que cousa he ser contente! + E quem fosse apartando-se da gente. + Ella por companheira e por vizinha, + Me ajudasse a chorar a pena minha, + E eu a ella tambem a que ella sente! + Ditosa ave! que ao menos, se a natura + A seu primeiro bem não dá segundo, + Dá-lhe o ser triste a seu contentamento. + Mas triste quem de longe quiz ventura + Que para respirar lhe falte o vento, + E para tudo, em fim, lhe falte o mundo! + + +LXXVII. + + O culto divinal se celebrava + No templo donde toda criatura + Louva o Feitor divino, que a feitura + Com seu sagrado sangue restaurava. + Amor alli, que o tempo me aguardava + Onde a vontade tinha mais segura, + Com huma rara e angelica figura + A vista da razão me salteava. + Eu crendo que o lugar me defendia + De seu livre costume, não sabendo + Que nenhum confiado lhe fugia; + Deixei-me captivar: mas hoje vendo, + Senhora, que por vosso me queria, + Do tempo que fui livre me arrependo. + + +LXXVIII. + + Leda serenidade deleitosa, + Que representa em terra hum paraiso; + Entre rubis e perlas doce riso, + Debaixo de ouro e neve côr de rosa; + Presença moderada e graciosa, + Onde ensinando estão despejo e siso + Que se póde por arte e por aviso, + Como por natureza, ser formosa; + Falla de que ou ja vida, ou morte pende. + Rara e suave, em fim, Senhora, vossa, + Repouso na alegria comedido; + Estas as armas são com que me rende + E me captiva Amor; mas não que possa + Despojar-me da gloria de rendido. + + +LXXIX. + + Bem sei, Amor, que he certo o que receio; + Mas tu, porque com isso mais te apuras, + De manhoso mo negas, e mo juras + Nesse teu arco de ouro; e eu te creio. + A mão tenho metida no meu seio, + E não vejo os meus damnos ás escuras: + Porém porfias tanto e me asseguras, + Que me digo que minto, e que me enleio. + Nem somente consinto neste engano, + Mas inda to agradeço, e a mi me nego + Tudo o que vejo e sinto de meu dano. + Oh poderoso mal a que me entrego! + Que no meio do justo desengano + Me possa inda cegar hum moço cego? + + +LXXX. + + Como quando do mar tempestuoso + O marinheiro todo trabalhado, + De hum naufragio cruel sahindo a nado, + Só de ouvir fallar nelle está medroso: + Firme jura que o vê-lo bonançoso + Do seu lar o não tire socegado; + Mas esquecido ja do horror passado, + Delle a fiar se torna cobiçoso: + Assi, Senhora, eu que da tormenta + De vossa vista fujo, por salvar-me, + Jurando de não mais em outra ver-me; + Com a alma que de vós nunca se ausenta, + Me tórno, por cobiça de ganhar-me, + Onde estive tão perto de perder-me. + + +LXXXI. + + Amor he hum fogo que arde sem se ver; + He ferida que doe e não se sente; + He hum contentamento descontente; + He dor que desatina sem doer; + He hum não querer mais que bem querer; + He solitario andar por entre a gente; + He hum não contentar-se de contente; + He cuidar que se ganha em se perder; + He hum estar-se preso por vontade; + He servir a quem vence o vencedor; + He hum ter com quem nos mata lealdade. + Mas como causar póde o seu favor + Nos mortaes corações conformidade, + Sendo a si tão contrário o mesmo Amor? + + +LXXXII. + + Se pena por amar-vos se merece, + Quem della estará livre? quem isento? + E que alma, que razão, que entendimento + No instante em que vos vê não obedece? + Qual mor gloria na vida ja se offrece, + Que a de occupar-se em vós o pensamento? + Não só todo rigor, todo tormento + Com ver-vos não magôa, mas se esquece. + Porém se heis de matar a quem amando, + Ser vosso de amor tanto só pretende, + O mundo matareis, que todo he vosso. + Em mi podeis, Senhora, ir começando, + Pois bem claro se mostra e bem se entende + Amar-vos quanto devo e quanto posso. + + +LXXXIII. + + Que levas, cruel Morte? Hum claro dia. + A que horas o tomaste? Amanhecendo. + E entendes o que levas? Não o entendo. + Pois quem to faz levar? Quem o entendia. + Seu corpo quem o goza? A terra fria. + Como ficou sua luz? Anoitecendo. + Lusitania que diz? Fica dizendo... + Que diz? Não mereci a grã Maria. + Mataste a quem a vio? Ja morto estava. + Que discorre o Amor? Fallar não ousa. + E quem o faz callar? Minha vontade. + Na Corte que ficou? Saudade brava. + Que fica lá que ver? Nenhuma cousa. + Que gloria lhe faltou? Esta beldade. + + +LXXXIV. + + Ondados fios de ouro reluzente, + Que agora da mão bella recolhidos, + Agora sôbre as rosas esparzidos + Fazeis que a sua graça se accrescente; + Olhos, que vos moveis tão docemente, + Em mil divinos raios incendidos, + Se de cá me levais a alma e sentidos, + Que fôra, se eu de vós não fôra ausente? + Honesto riso, que entre a mór fineza + De perlas e coraes nasce e apparece; + Oh quem seus doces ecos ja lhe ouvisse! + Se imaginando só tanta belleza, + De si com nova gloria a alma se esquece, + Que será quando a vir? Ah quem a visse! + + +LXXXV. + + Foi ja n'hum tempo doce cousa amar, + Em quanto me enganou huma esperança: + O coração com esta confiança + Todo se desfazia em desejar. + Oh vão, caduco e debil esperar! + Como, em fim, desengana huma mudança! + Que quanto he mor a bem-aventurança, + Tanto menos se crê que ha de durar. + Quem ja se vio com gostos prosperado, + Vendo-se brevemente em pena tanta, + Razão t[~e]e de viver bem magoado. + Mas quem ja t[~e]e o mundo exprimentado, + Não o magôa a pena, nem o espanta; + Que mal se estranhára o costumado. + + +LXXXVI. + + Dos antigos Illustres, que deixárão + Hum nome digno de immortal memoria, + Ficou por luz do tempo a larga historia + Dos feitos em que mais se avantajárão. + Se com suas acções se cotejárão + Mil vossas, cada huma tão notoria, + Vencêra a menor dellas a mor gloria + Que elles em tantos annos alcançárão. + A gloria sua foi: ninguem lha tome: + Seguindo cada qual varios caminhos + Estatuas mereceo no heroico Templo. + Vós honra Portugueza e dos Coutinhos, + Clarissimo Dom João, com melhor nome + A vós encheis de gloria, a nós de exemplo. + + +LXXXVII. + + Conversação doméstica affeiçoa, + Ora em fórma de limpa e sãa vontade, + Ora de huma amorosa piedade, + Sem olhar qualidade de pessoa. + Se despois, por ventura, vos magôa + Com desamor e pouca lealdade, + Logo vos faz mentira da verdade + O brando Amor, que tudo, em fim, perdoa, + Não são isto que fallo conjecturas + Que o pensamento julga na apparencia, + Por fazer delicadas escripturas. + Metida tenho a mão na consciencia, + E não fallo senão verdades puras + Que me ensinou a viva experiencia. + + +LXXXVIII. + + Esfôrço grande, igual ao pensamento, + Pensamentos em obras divulgados, + E não em peito timido encerrados, + E desfeitos despois em chuva e vento; + Ánimo da cobiça baixa isento, + Digno por isto só de altos estados, + Fero açoute dos nunca bem domados + Povos do Malabar sanguinolento; + Gentileza de membros corporaes + Ornados de pudica continencia, + Obra por certo da celeste altura: + Estas virtudes raras e outras mais, + Dignas todas da Homerica eloquencia, + Jazem debaixo desta sepultura. + + +LXXXIX. + + No mundo quiz o Tempo que se achasse + O bem que por acêrto, ou sorte vinha; + E por exprimentar que dita tinha, + Quiz que a Fortuna em mi se exprimentasse. + Mas porque o meu destino me mostrasse + Que nem ter esperanças me convinha, + Nunca nesta tão longa vida minha + Cousa me deixou ver que desejasse. + Mudando andei costume, terra, estado, + Por ver se se mudava a sorte dura; + A vida puz nas mãos de hum leve lenho. + Mas, segundo o que o Ceo me t[~e]e mostrado, + Ja sei que deste meu buscar ventura + Achado tenho ja que não a tenho. + + +XC. + + A perfeição, a graça, o doce geito, + A Primavera cheia de frescura, + Que sempre em vós florece; a que a ventura, + E a razão entregárão este peito; + Aquelle crystallino e puro aspeito, + Que em si comprehende toda a formosura; + O resplandor dos olhos e a brandura, + Donde Amor a ninguem quiz ter respeito; + S'isto que em vós se vê, ver desejais, + Como digno de ver-se claramente, + Por muito que de Amor vos isentais; + Traduzido o vereis tão fielmente + No meio deste espirito onde estais, + Que vendo-vos sintais o que elle sente. + + +XCI. + + Vós, que de olhos suaves e serenos, + Com justa causa a vida captivais, + E que os outros cuidados condemnais + Por indevidos, baixos e pequenos; + Se de Amor os domesticos venenos + Nunca provastes, quero que sintais + Que he tanto mais o amor despois que amais, + Quanto são mais as causas de ser menos. + E não presuma alguem que algum defeito, + Quando na cousa amada se apresenta, + Possa diminuir o amor perfeito: + Antes o dobra mais; e se atormenta, + Pouco a pouco desculpa o brando peito; + Que Amor com seus contrarios se accrescenta. + + +XCII. + + Que poderei do mundo ja querer, + Pois no mesmo em que puz tamanho amor, + Não vi senão desgôsto e desfavor, + E morte, em fim; que mais não póde ser? + Pois me não farta a vida de viver, + Pois ja sei que não mata grande dor, + Se houver cousa que mágoa dê maior, + Eu a verei; que tudo posso ver. + A Morte, a meu pezar, me assegurou + De quanto mal me vinha: ja perdi + O que a perder o medo me ensinou. + Na vida desamor somente vi, + Na morte a grande dor que me ficou: + Parece que para isto só nasci. + + +XCIII. + + Pensamentos, que agora novamente + Cuidados vãos em mi resuscitais, + Dizei-me: E ainda não vos contentais + De ter a quem vos t[~e]e tão descontente? + Que phantasia he esta, que presente + Cad'hora ante os meus olhos me mostrais? + Com huns sonhos tão vãos inda tentais + Quem nem por sonhos póde ser contente? + Vejo-vos, pensamentos, alterados, + E não quereis, de esquivos, declarar-me + Que he isto que vos traz tão enleados? + Não mo negueis, se andais para negar-me; + Porque se contra mi 'stais levantados, + Eu vos ajudarei mesmo a matar-me. + + +XCIV. + + Se tomo a minha pena em penitencia + Do error em que cahio o pensamento, + Não abrando, mas dóbro meu tormento, + Que a tanto, e mais, obriga a paciencia. + E se huma côr de morto na apparencia, + Hum espalhar suspiros vãos ao vento + Não faz em vós, Senhora, movimento, + Fique o meu mal em vossa consciencia. + Mas se de qualquer aspera mudança + Toda vontade isenta Amor castiga, + (Como eu vejo no mal que me condena) + E se em vós não se entende haver vingança, + Será forçado (pois Amor me obriga) + Que eu só da culpa vossa pague a pena. + + +XCV. + + Aquella que, de pura castidade, + De si mesma tomou cruel vingança + Por huma breve e subita mudança + Contrária á sua honra e qualidade; + Venceo á formosura a honestidade, + Venceo no fim da vida a esperança, + Porque ficasse viva tal lembrança, + Tal amor, tanta fé, tanta verdade. + De si, da gente e do mundo esquecida, + Ferio com duro ferro o brando peito, + Banhando em sangue a fôrça do tyrano. + Oh ousadia estranha! estranho feito! + Que dando breve morte ao corpo humano, + Tenha sua memoria larga vida! + + +XCVI. + + Os vestidos Elisa revolvia, + Que Eneas lhe deixára por memoria; + Doces despojos da passada gloria; + Doces quando seu fado o consentia. + Entre elles a formosa espada via, + Que instrumento, em fim, foi da triste historia; + E como quem de si tinha a victoria, + Fallando só com ella, assi dizia: + Formosa e nova espada, se ficaste + Só porque executasses os enganos + De quem te quiz deixar, em minha vida; + Sabe que tu comigo te enganaste; + Que para me tirar de tantos danos + Sobeja-me a tristeza da partida. + + +XCVII. + + Oh quão caro me custa o entender-te, + Molesto Amor que, só por alcançar-te, + De dor em dor me tens trazido a parte + Donde em ti odio e íra se converte! + Cuidei que para em tudo conhecer-te + Me não faltava experiencia e arte; + Mas na alma vejo agora accrescentar-te + Aquillo que era causa de perder-te. + Estavas tão secreto no meu peito, + Que eu mesmo, que te tinha, não sabia + Que me senhoreavas deste geito. + Descubriste-te agora; e foi por via + Que teu descobrimento e meu defeito, + Hum me envergonha e outro me injuria. + + +XCVIII. + + Se despois de esperança tão perdida, + Amor por causa alguma consentisse + Que inda algum'hora breve alegre visse + De quantas tristes vio tão longa vida; + Hum'alma ja tão fraca e tão cahida + (Quando a sorte mais alto me subisse) + Não tenho para mi que consentisse + Alegria tão tarde consentida. + Nem tamsomente o Amor me não mostrou + Hum'hora em que vivesse alegremente, + De quantas nesta vida me negou; + Mas inda tanta pena me consente, + Que co'o contentamento me tirou + O gôsto de algum'hora ser contente. + + +XCIX. + + O raio crystallino se estendia + Por o mundo da Aurora marchetada, + Quando Nise, pastora delicada, + Donde a vida deixava se partia. + Dos olhos, com que o sol escurecia, + Levando a luz em lagrimas banhada, + De si, do fado, e tempo magoada, + Pondo os olhos no Ceo, assi dizia: + Nasce, sereno sol, puro e luzente; + Resplandece, purpurea e branca aurora, + Qualquer alma alegrando descontente; + Que a minha, sabe tu que desde agora + Jamais na vida a podes ver contente, + Nem tão triste nenhuma outra pastora. + + +C. + + No mundo poucos annos e cansados + Vivi, cheios de vil miseria e dura: + Foi-me tão cedo a luz do dia escura, + Que não vi cinco lustros acabados. + Corri terras e mares apartados, + Buscando á vida algum remedio ou cura: + Mas aquillo que, em fim, não dá ventura + Não o dão os trabalhos arriscados. + Criou-me Portugal na verde e chara + Patria minha Alemquer; mas ar corruto, + Que neste meu terreno vaso tinha, + Me fez manjar de peixes em ti, bruto + Mar, que bates a Abássia fera e avara, + Tão longe da ditosa patria minha. + + +CI. + + Vós, que escuitais em Rimas derramado + Dos suspiros o som que me alentava + Na juvenil idade, quando andava + Em outro em parte do que sou mudado; + Sabei que busca só do ja cantado + No tempo em que ou temia ou esperava, + De quem o mal provou, que eu tanto amava, + Piedade, e não perdão, o meu cuidado. + Pois vejo que tamanho sentimento + Só me rendeo ser fábula da gente, + (Do que comigo mesmo me envergonho) + Sirva de exemplo claro meu tormento, + Com que todos conheção claramente + Que quanto ao mundo apraz he breve sonho. + + +CII. + + De amor escrevo, de amor trato e vivo; + De amor me nasce amar sem ser amado; + De tudo se descuida o meu cuidado, + Quanto não seja ser de amor captivo: + De amor que a lugar alto voe altivo, + E funde a gloria sua em ser ousado; + Que se veja melhor purificado + No immenso resplandor de hum raio esquivo. + Mas ai que tanto amor só pena alcança! + Mais constante ella, e elle mais constante, + De seu triumpho cada qual só trata. + Nada, em fim, me aproveita; que a esperança, + Se anima alguma vez a hum triste amante, + Ao perto vivifica, ao longe mata. + + +CIII. + + Se da célebre Laura a formosura + Hum numeroso cysne ufano escreve, + Huma angelica penna se te deve, + Pois o Ceo em formar-te mais se apura. + E se voz menos alta te procura + Celebrar, (oh Natercia!) em vão se atreve: + De ver-te ja a ventura Liso teve, + Mas de cantar-te falta-lhe a ventura. + No ceo nasceste, certo, e não na terra: + Para gloria do mundo cá desceste: + Quem mais isto negar, muito mais erra. + E eu imagino que de lá vieste + Para emendar os vicios que elle encerra, + Co'os divinos poderes que trouxeste. + + +CIV. + + Esses cabellos louros e escolhidos, + Que o ser ao aureo sol estão tirando; + Esse ar immenso, adonde naufragando + Estão continuamente os meus sentidos; + Esses furtados olhos tão fingidos + Que minha vida e morte estão causando; + Essa divina graça, que em fallando + Finge os meus pensamentos não ser cridos; + Esse compasso certo, essa medida + Que faz dobrar no corpo a gentileza; + A divindade em terra, tão subida; + Mostrem ja piedade, e não crueza, + Que são laços que Amor tece na vida, + Sendo em mi sofrimento, em vós dureza. + + +CV. + + Quem pudéra julgar de vós, Senhora, + Que huma tal fé pudesse assi perder-vos? + Se por amar-vos chego a aborrecer-vos, + Deixar não posso o amar-vos algum'hora. + Deixais a quem vos ama, ou vos adora, + Por ver a quem quiçá não sabe ver-vos? + Mas eu sou quem não soube merecer-vos, + E esta minha ignorancia entendo agora. + Nunca soube entender vossa vontade, + Nem a minha mostrar-vos verdadeira, + Indaque clara estava esta verdade. + Esta, em quanto eu viver, vereis inteira; + E se em vão meu querer vos persuade, + Mais vosso não querer faz que vos queira. + + +CVI. + + Quem, Senhora, presume de louvar-vos + Com discurso que baixe de divino, + De tanto maior pena será dino, + Quanto vós sois maior ao contemplar-vos. + Não aspire algum canto a celebrar-vos, + Por mais que seja raro, ou peregrino; + Pois de vossa belleza eu imagino + Que só comvosco o Ceo quiz comparar-vos. + Ditosa esta alma vossa, a que quizestes + Pôr em posse de prenda tão subida, + Qual esta que benigna, em fim, me déstes. + Sempre será anteposta á mesma vida: + Esta estimar em menos me fizestes, + Se antes que ess'outra a quero ver perdida. + + +CVII. + + Moradoras gentis e delicadas + Do claro e aureo Tejo, que metidas + Estais em suas grutas escondidas, + E com doce repouso socegadas; + Agora esteis de amores inflammadas, + Nos crystallinos paços entretidas; + Agora no exercicio embevecidas + Das télas de ouro puro matizadas; + Movei dos lindos rostos a luz pura + De vossos olhos bellos, consentindo + Que lagrimas derramem de tristura. + E assi com dor mais propria ireis ouvindo + As queixas que derramo da Ventura, + Que com penas de Amor me vai seguindo. + + +CVIII. + + Brandas águas do Tejo que, passando + Por estes verdes campos que regais, + Plantas, hervas, e flores, e animais, + Pastores, Nymphas, ides alegrando; + Não sei, (ah doces águas!) não sei quando + Vos tornarei a ver; que mágoas tais, + Vendo como vos deixo, me causais, + Que de tornar ja vou desconfiando. + Ordenou o destino, desejoso + De converter meus gostos em pezares, + Partida que me vai custando tanto. + Saudoso de vós, delle queixoso, + Encherei de suspiros outros ares, + Turbarei outras águas com meu pranto. + + +CIX. + + Novos casos de Amor, novos enganos, + Envoltos em lisonjas conhecidas; + Do bem promessas falsas e escondidas, + Onde do mal se cumprem grandes danos; + Como não tomais ja por desenganos + Tantos ais, tantas lagrimas perdidas, + Pois que a vida não basta, nem mil vidas, + A tantos dias tristes, tantos anos? + Hum novo coração mister havia, + Com outros olhos menos aggravados, + Para tornar a crer o que eu vos cria. + Andais comigo, enganos, enganados; + E se o quizerdes ver, cuidai hum dia + O que se diz dos bem acutilados. + + +CX. + + Onde porei meus olhos que não veja + A causa de que nasce o meu tormento? + A qual parte me irei co'o pensamento, + Que para descansar parte me seja? + Ja sei como se engana quem deseja + Em vão amor fiel contentamento; + E que nos gostos seus, que são de vento, + Sempre falta seu bem, seu mal sobeja. + Mas inda, sôbre o claro desengano, + Assi me traz esta alma sobjugada, + Que delle está pendendo o meu desejo. + E vou de dia em dia, de anno em ano, + Apoz hum não sei que, apoz hum nada, + Que quanto mais me chego, menos vejo. + + +CXI. + + Ja do Mondego as águas apparecem + A meus olhos, não meus, antes alheios, + Que de outras differentes vindo cheios, + Na sua branda vista inda mais crecem. + Parece que tambem forçadas decem, + Segundo se detem em seus rodeios. + Triste! por quantos modos, quantos meios, + As minhas saudades me entristecem! + Vida de tantos males salteada, + Amor a põe em termos, que duvida + De conseguir o fim desta jornada. + Antes se dá de todo por perdida, + Vendo que não vai da alma acompanhada, + Que se deixou ficar onde t[~e]e vida. + + +CXII. + + Que doudo pensamento he o que sigo? + Apos que vão cuidado vou correndo? + Sem ventura de mi! que não me entendo; + Nem o que callo sei, nem o que digo. + Pelejo com quem trata paz comigo; + De quem guerra me faz não me defendo. + De falsas esperanças que pertendo? + Quem do meu proprio mal me faz amigo? + Porque, se nasci livre, me captivo? + E pois o quero ser, porque o não quero? + Como me engano mais com desenganos? + Se ja desesperei, que mais espero? + E se inda espero mais, porque não vivo? + E se vivo, que accuso mortaes danos? + + +CXIII. + + Hum firme coração posto em ventura; + Hum desejar honesto, que se engeite + De vossa condição, sem que respeite + A meu tão puro amor, a fé tão pura; + Hum ver-vos de piedade e de brandura + Sempre inimiga, faz-me que suspeite + Se alguma Hyrcana fera vos deo leite, + Ou se nascestes de huma pedra dura. + Ando buscando causa, que desculpe + Crueza tão estranha; porém quanto + Nisso trabalho mais, mais mal me trata. + Donde vem, que não ha quem nos não culpe; + A vós, porque matais quem vos quer tanto, + A mim, por querer tanto a quem me mata. + + +CXIV. + + Ar, que de meus suspiros vejo cheio; + Terra, cansada ja com meu tormento; + Agua, que com mil lagrimas sustento; + Fogo, que mais accendo no meu seio; + Em paz estais em mim; e assi o creio, + Sem esse ser o vosso proprio intento; + Pois em dor onde falta o soffrimento, + A vida se sostem por vosso meio. + Ai imiga Fortuna! ai vingativo + Amor! a que discursos por vós venho, + Sem nunca vos mover com minha mágoa! + Se me quereis matar, para que vivo? + E como vivo, se contrarios tenho + Fogo, Fortuna, Amor, Ar, Terra e Agoa? + + +CXV. + + Ja claro vejo bem, ja bem conheço + Quanto augmentando vou o meu tormento; + Pois sei que fundo em água, escrevo em vento, + E que o cordeiro manso ao lobo peço; + Que Arachne sou, pois ja com Pallas teço; + Que a tigres em meus males me lamento; + Que reduzir o mar a hum vaso intento, + Aspirando a esse ceo que não mereço. + Quero achar paz em hum confuso inferno; + Na noite do sol puro a claridade; + E o suave verão no duro inverno. + Busco em luzente Olympo escuridade, + E o desejado bem no mal eterno, + Buscando amor em vossa crueldade. + + +CXVI. + + De cá, donde somente o imaginar-vos + A rigorosa ausencia me consente, + Sôbre as azas de Amor, ousadamente + O mal soffrido esprito vai buscar-vos. + E se não receára de abrazar-vos + Nas chammas que por vossa causa sente, + Lá ficára comvosco e, vós presente, + Aprendêra de vós a contentar-vos. + Mas, pois que estar ausente lhe he forçado, + Por senhora, de cá, vos reconhece, + Aos pés de imagens vossas inclinado. + E pois vêdes a fé que vos offrece, + Ponde os olhos, de lá, no seu cuidado, + E dar-lhe-heis inda mais do que merece. + + +CXVII. + + Não ha louvor que arribe á menor parte + De quanto em vós se vê, bella Senhora: + Vós sois vosso louvor: quem vos adora + Reduz somente a este o engenho e arte. + Quanto por muitas damas se reparte + De bello e de formoso, em vós agora + Se junta em modo tal, que pouco fôra + Dizer que sois o todo, ellas a parte. + Culpa, logo, não he, se vou louvar-vos, + Ver incapazes todos os louvores, + Pois tanto quiz o Ceo avantajar-vos. + Seja a culpa de vossos resplandores; + E a que elles t[~e]e vos dou, só para dar-vos + O mor louvor de todos os maiores. + + +CXVIII. + + Não vás ao monte, Nise, com teu gado; + Que lá vi que Cupido te buscava: + Por ti somente a todos perguntava, + No gesto menos placido que irado. + Elle publíca, em fim, que lhe has roubado + Os melhores farpões da sua aljava; + E com hum dardo ardente assegurava + Traspassar esse peito delicado. + Fuge de ver-te lá nesta aventura, + Porque se contra ti o tens iroso, + Póde ser que te alcance com mão dura. + Mas ai! que em vão te advirto temeroso, + Se á tua incomparavel formosura + Se rende o dardo seu mais poderoso! + + +CXIX. + + A violeta mais bella que amanhece + No valle por esmalte da verdura, + Com seu pallido lustre e formosura, + Por mais bella, Violante, te obedece. + Perguntas-me porque? Porque apparece + Em ti seu nome, e sua côr mais pura; + E estudar em teu rosto só procura + Tudo quanto em beldade mais florece. + Oh luminosa flor! Oh sol mais claro! + Unico roubador de meu sentido, + Não permittas que Amor me seja avaro. + Oh penetrante setta de Cupido! + Que queres? Que te peça por reparo + Ser neste valle Eneas desta Dido? + + +CXX. + + Tornae essa brancura á alva assucena, + E essa purpurea côr ás puras rosas; + Tornae ao sol as chammas luminosas + De essa vista que a roubos vos condena. + Tornae á suavissima sirena + D'essa voz as cadencias deleitosas: + Tornae a graça ás Graças, que queixosas + Estão de a ter por vós menos serena: + Tornae á bella Venus a belleza; + A Minerva o saber, o engenho, e a arte; + E a pureza á castissima Diana. + Despojae-vos de toda essa grandeza + De dões; e ficareis em toda parte + Comvosco só, que he só ser inhumana. + + +CXXI. + + De mil suspeitas vãas se me levantão + Trabalhos e desgostos verdadeiros. + Ai que estes bens de Amor são feiticeiros, + Que com hum não sei que toda alma encantão! + Como serêas docemente cantão + Para enganar os tristes marinheiros: + Os meus assi me attrahem lisongeiros, + E despois com horrores mil me espantão. + Quando cuido que tomo porto ou terra, + Tal vento se levanta em hum instante, + Que subito da vida desconfio. + Mas eu sou quem me faz a maior guerra, + Pois conhecendo os riscos de hum amante + Fiado a ondas de Amor, dellas me fio. + + +CXXII. + + Mil vezes determino não vos ver, + Por ver se abranda mais o meu penar: + E se cuido de assi me magoar, + Cuidai o que será, se houver de ser. + Pouco me importa ja muito soffrer, + Despois que Amor me poz em tal lugar; + E o que inda me doe mais he só cuidar, + Que mal sem esta dor posso viver. + Assi não busco eu cura contra a dor, + Porque, buscando alguma, entendo bem + Que nesse mesmo ponto me perdi. + Quereis que viva, em fim, neste rigor? + Somente o querer vosso me convem. + Assi quereis que seja? Seja assi. + + +CXXIII. + + A chaga que, Senhora, me fizestes, + Não foi para curar-se em hum só dia; + Porque crescendo vai com tal porfia, + Que bem descobre o intento que tivestes. + De causar tanta dor vos não doestes? + Mas a doer-vos, dor me não sería, + Pois ja com esperança me veria + Do que vós que em mi visse não quizestes. + Os olhos com que todo me roubastes + Forão causa do mal que vou passando; + E vós estais fingindo o não causastes. + Mas eu me vingarei. E sabeis quando? + Quando vos vir queixar porque deixastes + Ir-se a minha alma nelles abrazando. + + +CXXIV. + + Se com desprezos, Nympha, te parece + Que podes desviar do seu cuidado + Hum coração constante, que se offrece + A ter por gloria o ser atormentado. + Deixa a tua porfia, e reconhece + Que mal sabes de amor desenganado; + Pois não sentes, nem vês que em teu mal crece, + Crescendo em mi de ti mais desamado. + O esquivo desamor, com que me tratas, + Converte em piedade, se não queres + Que cresça o meu querer, e o teu desgosto. + Vencer-me com cruezas nunca esperes: + Bem me podes matar, e bem me matas; + Mas sempre ha de viver meu presupposto. + + +CXXV. + + Senhora minha, se eu de vós ausente + Me defendêra de hum penar severo, + Suspeito que offendêra o que vos quero, + Esquecido do bem de estar presente. + Traz este, logo sinto outro accidente, + E he ver que se da vida desespero, + Perco a gloria que vendo-vos espero; + E assi estou em meus males differente. + E nesta differença meus sentidos + Combatem com tão aspera porfia, + Que julgo este meu mal por deshumano. + Entre si sempre os vejo divididos; + E se acaso concordão algum dia, + He só conjuração para meu dano. + + +CXXVI. + + No regaço de mãe Amor estava + Dormindo tão formoso, que movia + O coração que mais isento o via; + E a sua propria mãe de amor matava. + Ella, co'os olhos nelle, contemplava + A quanto estrago o mundo reduzia: + Elle porém, sonhando, lhe dizia + Que todo aquelle mal ella o causava. + Soliso que, graduado em seus amores, + De saber de ambos mais teve a ventura, + Assi soltou a dúvida aos pastores: + Se bem me ferem sempre sem ter cura + Do menino os ardentes passadores, + Mais me fere da mãe a formosura. + + +CXXVII. + + Este terreste caos com seus vapores + Não póde condensar as nuvens tanto, + Que o claro sol não rompa o negro manto + Cum suas bellas e luzentes côres. + A ingratidão esquiva de rigores + Opposta nuvem he, que dura em quanto + Nos não converte o Ceo em triste pranto + Suas vãas esperanças, seus favores. + Póde-se contrapôr ao ceo a terra, + E estar o sol por horas eclipsado; + Mas não póde ficar escurecido. + Póde prevalecer a vossa guerra; + Mas, a pezar das nuvens, declarado + Ha de ser vosso sol, e obedecido. + + +CXXVIII. + + Huma admiravel herva se conhece, + Que vai ao sol seguindo de hora em hora, + Logo que elle do Euphrates se vê fóra, + E quando está mais alto, então florece. + Mas quando ao Oceano o carro dece, + Toda a sua belleza perde Flora, + Porque ella se emmurchece e se descora: + Tanto co'a luz ausente se entristece! + Meu sol, quando alegrais esta alma vossa, + Mostrando-lhe esse rosto que dá vida, + Cria flores em seu contentamento. + Mas logo, em não vos vendo, entristecida + Se murcha e se consume em grão tormento: + Nem ha quem vossa ausencia soffrer possa. + + +CXXIX. + + Crescei, desejo meu, pois que a Ventura + Ja vos t[~e]e nos seus braços levantado; + Que a bella causa de que sois gerado + O mais ditoso fim vos assegura. + Se aspirais por ousado a tanta altura, + Não vos espante haver ao sol chegado; + Porque he de aguia Real vosso cuidado, + Que quanto mais o soffre, mais se apura. + Ánimo, coração; que o pensamento + Te póde inda fazer mais glorioso, + Sem que respeite a teu merecimento. + Que cresças inda mais he ja forçoso; + Porque se foi de ousado o teu intento, + Agora de atrevido he venturoso. + + +CXXX. + + He o gozado bem em água escrito; + Vive no desejar, morre no effeito: + O desejado sempre he mais perfeito, + Porque t[~e]e parte alguma de infinito. + Dar a huma alma immortal gôzo prescrito, + Em verdadeiro amor, fôra defeito: + Por modo sup'rior, não imperfeito, + Sois excepção de quanto aqui limito. + De huma esperança nunca conhecida, + Da fé do desejar não alcançada, + Sereis mais desejada, possuida. + Não podeis da esperança ser amada; + Vista podereis ser, e então mais crida; + Porém não, sem aggravo, comparada. + + +CXXXI. + + De quantas graças tinha a natureza + Fez hum bello e riquissimo thesouro; + E com rubis e rosas, neve e ouro, + Formou sublime e angelica belleza. + Poz na boca os rubis, e na pureza + Do bello rosto as rosas, por quem mouro; + No cabello o valor do metal louro; + No peito a neve, em que a alma tenho accesa. + Mas nos olhos mostrou quanto podia, + E fez delles hum sol, onde se apura + A luz mais clara que a do claro dia. + Em fim, Senhora, em vossa compostura, + Ella a apurar chegou quanto sabia + De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura. + + +CXXXII. + + Nunca em amor damnou o atrevimento; + Favorece a Fortuna a ousadia; + Porque sempre a encolhida covardia + De pedra serve ao livre pensamento. + Quem se eleva ao sublime Firmamento, + A estrella nelle encontra, que lhe he guia; + Que o bem que encerra em si a phantasia + São humas illusões que leva o vento. + Abrir se devem passos á ventura: + Sem si proprio ninguem será ditoso: + Os principios somente a sorte os move. + Atrever-se he valor, e não loucura. + Perderá por covarde o venturoso + Que vos vê, se os temores não remove. + + +CXXXIII. + + Doces e claras águas do Mondego, + Doce repouso de minha lembrança, + Onde a comprida e perfida esperança + Longo tempo apos si me trouxe cego, + De vós me aparto, si; porém não nego + Que inda a longa memoria, que me alcança, + Me não deixa de vós fazer mudança, + Mas quanto mais me alongo, mais me achego + Bem poderá a Fortuna este instrumento + Da alma levar por terra nova e estranha, + Offerecido ao mar remoto, ao vento. + Mas a alma, que de cá vos acompanha, + Nas azas do ligeiro pensamento + Para vós, águas, vôa, e em vós se banha. + + +CXXXIV. + + Senhor João Lopes, o meu baixo estado + Hontem vi posto em grao tão excellente, + Que sendo vós inveja a toda a gente, + Só por mi vos quizereis ver trocado. + O gesto vi suave e delicado, + Que ja vos fez contente e descontente, + Lançar ao vento a voz tão docemente, + Que fez o ar sereno e socegado. + Vi-lhe em poucas palavras dizer quanto + Ninguem diria em muitas: mas eu chego + A espirar só de ouvir a doce fala. + Oh mal o haja a Fortuna, e o moço cego! + Elle, que os corações obriga a tanto; + Ella, porque os estados desiguala. + + +CXXXV. + + A Morte, que da vida o nó desata, + Os nós, que dá o Amor, cortar quizera + Co'a ausencia, que he sôbre elle espada fera, + E co'o tempo, que tudo desbarata. + Duas contrárias, que huma a outra mata, + A Morte contra Amor junta e altera; + Huma, Razão contra a Fortuna austera; + Outra, contra a Razão Fortuna ingrata. + Mas mostre a sua imperial potencia + A Morte em apartar de hum corpo a alma, + O Amor n'hum corpo duas almas una; + Para que assi triumphante leve a palma + Da Morte Amor a grão pesar da ausencia, + Do tempo, da Razão, e da Fortuna. + + +CXXXVI + + Árvore, cujo pomo bello e brando + Natureza de leite e sangue pinta, + Onde a pureza, de vergonha tinta, + Está virgineas faces imitando; + Nunca do vento a ira, que arrancando + Os troncos vai, o teu injúria sinta; + Nem por malícia de ar te seja extinta + A côr que está teu fructo debuxando. + E pois emprestas doce e idoneo abrigo + A meu contentamento, e favoreces + Com teu suave cheiro a minha gloria; + Se eu não te celebrar como mereces, + Cantando-te, se quer farei comtigo + Doce nos casos tristes a memoria. + + +CXXXVII. + + O filho de Latona esclarecido, + Que com seu raio alegra a humana gente, + Matar pôde a Phytonica serpente + Que mortes mil havia produzido. + Ferio com arco, e de arco foi ferido, + Com ponta aguda de ouro reluzente: + Nas Thessalicas praias docemente + Por a nympha Penea andou perdido. + Não lhe pôde valer contra seu dano + Saber, nem diligencias, nem respeito + De quanto era celeste e soberano. + Pois se hum deos nunca vio nem hum engano + De quem era tão pouco em seu respeito, + Eu qu'espero de hum ser, qu'he mais que humano? + + +CXXXVIII. + + Presença bella, angelica figura, + Em quem quanto o Ceo tinha nos t[~e]e dado; + Gesto alegre de rosas semeado, + Entre as quaes se está rindo a Formosura: + Olhos, onde t[~e]e feito tal mistura + Em crystal puro o negro marchetado, + Que vemos ja no verde delicado + Não esperança, mas inveja escura: + Brandura, aviso, e graça, que augmentando + A natural belleza co'hum desprezo, + Com que mais desprezada mais se augmenta: + São as prizões de hum coração, que prêzo, + Seu mal ao som dos ferros vai cantando, + Como faz a serêa na tormenta + + +CXXXIX. + + Por cima destas águas forte e firme + Irei aonde os Fados o ordenárão, + Pois por cima de quantas derramárão + Aquelles claros olhos pude vir-me. + Ja chegado era o fim de despedir-me; + Ja mil impedimentos se acabárão, + Quando rios de amor se atravessárão + A me impedir o passo de partir-me. + Passei-os eu com ânimo obstinado, + Com que a morte forçada gloriosa + Faz o vencido ja desesperado. + Em qual figura, ou gesto desusado, + Póde ja fazer medo a morte irosa + A quem t[~e]e a seus pés rendido e atado? + + +CXL. + + Tal mostra de si dá vossa figura, + Sibela, clara luz da redondeza, + Que as fôrças e o poder da natureza + Com sua claridade mais apura. + Quem confiança ha visto tão segura, + Tão singular esmalte da belleza, + Que não padeça mal de mais graveza, + Se resistir a seu amor procura? + Eu, pois, por escusar tal esquivança, + A razão sujeitei ao pensamento, + A quem logo os sentidos se entregárão. + Se vos offende o meu atrevimento, + Inda podeis tomar nova vingança + Nas reliquias da vida que ficárão. + + +CXLI. + + Na desesperação ja repousava + O peito longamente magoado, + E, com seu damno eterno concertado, + Ja não temia, ja não desejava; + Quando huma sombra vãa me assegurava + Que algum bem me podia estar guardado + Em tão formosa imagem, que o traslado + N'alma ficou, que nella se enlevava. + Que credito que dá tão facilmente + O coração áquillo que deseja, + Quando lhe esquece o fero seu destino! + Ah! deixem-me enganar; que eu sou contente; + Pois, postoque maior meu damno seja, + Fica-me a gloria ja do que imagino. + + +CXLII. + + Diversos dões reparte o Ceo benino, + E quer que cada huma alma hum só possua; + Por isso ornou de casto peito a Lua, + Que o primeiro orbe illustra crystallino; + De graça a Mãe formosa do Menino, + Que nessa vista t[~e]e perdido a sua; + Pallas de sciencia não maior que a tua: + T[~e]e Juno da nobreza o imperio dino. + Mas junto agora o largo Ceo derrama + Em ti o mais que tinha, e foi o menos + Em respeito do Autor da natureza. + Que a seu pezar te dão, formosa dama, + Seu peito a Lua, sua graça Venos, + Sua sciencia Pallas, Juno sua nobreza. + + +CXLIII. + + Gentil Senhora, se a Fortuna imiga, + Que contra mi com todo o Ceo conspira, + Os olhos meus de ver os vossos tira, + Porque em mais graves casos me persiga; + Comigo levo esta alma, que se obriga + Na mor pressa de mar, de fogo, e d'íra, + A dar-vos a memoria, que suspira + Só por fazer comvosco eterna liga. + Nesta alma, onde a fortuna póde pouco, + Tão viva vos terei, que frio e fome, + Vos não possão tirar, nem mais perigos. + Antes, com som de voz trémulo e rouco + Por vós chamando, só com vosso nome + Farei fugir os ventos, e os imigos. + + +CXLIV + + Que modo tão subtil da natureza + Para fugir ao mundo e seus enganos! + Permitte que se esconda em tenros anos + Debaixo de hum burel tanta belleza! + Mas não póde esconder-se aquella alteza + E gravidade de olhos soberanos, + A cujo resplandor entre os humanos + Resistencia não sinto, ou fortaleza. + Quem quer livre ficar de dor e pena, + Vendo-a ja, ja trazendo-a na memoria, + Na mesma razão sua se condena. + Porque quem mereceo ver tanta gloria + Captivo ha de ficar; que Amor ordena + Que de juro tenha ella esta victoria. + + +CXLV + + Quando se vir com água o fogo arder, + Juntar-se ao claro dia a noite escura, + E a terra collocada lá na altura + Em que se vem os ceos prevalecer; + Quando Amor á Razão obedecer, + E em todos for igual huma ventura, + Deixarei eu de ver tal formosura, + E de a amar deixarei depois de a ver. + Porém não sendo vista esta mudança + No mundo, porque, em fim, não póde ver-se, + Ninguem mudar-me queira de querer-vos. + Que basta estar em vós minha esperança, + E o ganhar-se a minha alma, ou o perder-se, + Para dos olhos meus nunca perder-vos. + + +CXLVI. + + Quando a suprema dor muito me aperta, + Se digo que desejo esquecimento, + He fôrça que se faz ao pensamento, + De que a vontade livre desconcerta. + Assi de êrro tão grave me desperta + A luz do bem regido entendimento, + Que mostra ser engano, ou fingimento, + Dizer que em tal descanso mais se acerta. + Porque essa propria imagem, que na mente + Me representa o bem de que careço, + Faz-mo de hum certo modo ser presente. + Ditosa he, logo, a pena que padeço, + Pois que da causa della em mi se sente + Hum bem que, inda sem ver-vos, reconheço. + + +CXLVII. + + Na margem de hum ribeiro, que fendia + Com liquido crystal hum verde prado, + O triste pastor Liso debruçado + Sôbre o tronco de hum freixo assi dizia: + Ah Natercia cruel! quem te desvia + Esse cuidado teu do meu cuidado? + Se tanto hei de penar desenganado, + Enganado de ti viver queria. + Que foi de aquella fé que tu me déste? + D'aquelle puro amor que me mostraste? + Quem tudo trocar pôde tão asinha? + Quando esses olhos teus n'outro puzeste, + Como te não lembrou que me juraste + Por toda a sua luz que eras só minha? + + +CXLVIII. + + Se me vem tanta gloria só de olhar-te, + He pena desigual deixar de ver-te; + Se presumo com obras merecer-te, + Grão paga de hum engano he desejar-te. + Se aspiro por quem es a celebrar-te, + Sei certo por quem sou que hei de offender-te; + Se mal me quero a mi por bem querer-te, + Que premio querer posso mais que amar-te? + Porque hum tão raro amor não me soccorre? + Oh humano thesouro! oh doce gloria! + Ditoso quem á morte por ti corre! + Sempre escrita estaras nesta memoria; + E esta alma viverá, pois por ti morre, + Porque ao fim da batalha he a victoria. + + +CXLIX. + + Sempre a Razão vencida foi de Amor; + Mas, porque assi o pedia o coração, + Quiz Amor ser vencido da Razão. + Ora que caso póde haver maior! + Novo modo de morte, e nova dor! + Estranheza de grande admiração! + Pois, em fim, seu vigor perde a affeição, + Porque não perca a pena o seu vigor. + Fraqueza, nunca a houve no querer; + Mas antes muito mais se esforça assim + Hum contrário com outro por vencer. + Mas a razão que a luta vence, em fim, + Não creio que he razão; mas deve ser + Inclinação que eu tenho contra mim. + + +CL. + + Coitado! que em hum tempo chóro e rio; + Espero e temo, quero e aborreço; + Juntamente me allegro e me entristeço; + Confio de huma cousa e desconfio. + Vôo sem azas; estou cego e guio; + Alcanço menos no que mais mereço; + Entaõ fallo melhor, quando emmudeço; + Sem ter contradiçaõ sempre porfio. + Possivel se me faz todo o impossivel; + Intento com mudar-me estar-me quedo; + Usar de liberdade, e ser captivo; + Queria visto ser, ser invisivel; + Ver-me desenredado, amando o enredo: + Taes os extremos são com que hoje vivo! + + +CLI. + + Julga-me a gente toda por perdido, + Vendo-me, tão entregue a meu cuidado, + Andar sempre dos homens apartado, + E de humanos commercios esquecido. + Mas eu, que tenho o mundo conhecido, + E quasi que sôbre elle ando dobrado, + Tenho por baixo, rustico, e enganado + Quem não he com meu mal engrandecido. + Vá revolvendo a terra, o mar, e o vento, + Honras busque e riquezas a outra gente, + Vencendo ferro, fogo, frio e calma. + Que eu por amor sómente me contento + De trazer esculpido eternamente + Vosso formoso gesto dentro da alma. + + +CLII. + + Olhos, aonde o Ceo com luz mais pura + Quiz dar de seu poder claros signais, + Se quizerdes ver bem quanto possais, + Vêde-me a mi que sou vossa feitura. + Em mi viva vereis vossa figura + Mais propria que em purissimos crystais, + Porque nesta alma he certo que vejais + Melhor que em hum crystal tal formosura. + De meu não quero mais que o meu desejo, + Se acaso por querer-vos mais mereço, + Porque o vosso poder em mi se asselle. + Do mundo outra memoria em mi não vejo: + Com lembrar-me de vós, delle me esqueço, + Com triumphardes de mi, triumpharei delle. + + +CLIII. + + Criou a natureza Damas bellas, + Que forão de altos plectros celebradas; + Dellas tomou as partes mais prezadas, + E a vós, Senhora, fez do melhor dellas. + Ellas diante vós são as estrellas, + Que ficão com vos ver logo eclipsadas. + Mas se ellas t[~e]e por sol essas rosadas + Luzes de sol maior, felices ellas! + Em perfeição, em graça e gentileza, + Por hum modo entre humanos peregrino, + A todo bello excede essa belleza. + Oh quem tivera partes de divino + Para vos merecer! Mas se pureza + De amor vai ante vós, de vós sou dino. + + +CLIV. + + Que esperais, esperança? Desespéro. + Quem disso a causa foi? H[~u]a mudança. + Vós, vida, como estais? Sem esperança. + Que dizeis, coração? Que muito quero. + Que sentis, alma, vós? Que amor he fero. + E, em fim, como viveis? Sem confiança. + Quem vos sustenta, logo? Huma lembrança. + E só nella esperais? Só nella espero. + Em que podeis parar? Nisto em que estou. + E em que estais vós? Em acabar a vida. + E ténde-lo por bem? Amor o quer. + Quem vos obriga assi? Saber quem sou. + E quem sois? Quem de todo está rendida. + A quem rendida estais? A hum só querer. + + +CLV. + + Se como em tudo o mais fostes perfeita, + Foreis de condição menos esquiva, + Fôra a minha fortuna mais altiva, + Fôra a sua altiveza mais sujeita. + Mas quando a vida a vossos pés se deita, + Porque não a acceitais, não quer que eu viva: + Ella propria de si ja a mi me priva; + Que, porque me engeitais, tambem me engeita. + Se nisso contradiz vossa vontade, + Mandai-lhe vós, Senhora, que dê fim + Á minha profundissima tristeza. + Pois ella não mo dá, porque piedade + Tenha deste meu mal, mas porque em mim + Possais assi fartar vossa crueza. + + +CLVI. + + Se algum'hora essa vista mais suave + Acaso a mi volveis, em hum momento + Me sinto com hum tal contentamento, + Que não temo que damno algum me aggrave. + Mas quando com desdem esquivo e grave + O bello rosto me mostrais isento, + Huma dor provo tal, hum tal tormento, + Que muito vem a ser que não me acabe. + Assi está minha vida, ou minha morte + No volver de esses olhos; pois podeis + Dar co'huma volta delles morte, ou vida. + Ditoso eu, se o Ceo quer, ou minha sorte, + Que ou vida, para dar-vo-la, me deis, + Ou morte, para haver morte querida! + + +CLVII. + + Tanto se forão, Nympha, costumando + Meus olhos a chorar tua dureza, + Que vão passando ja por natureza + O que por accidente hião passando. + No que ao somno se deve estou velando, + E venho a velar só minha tristeza: + O chôro não abranda esta aspereza, + E meus olhos estão sempre chorando. + Assi de dor em dor, de mágoa em mágoa, + Consumindo-se vão inutilmente, + E esta vida tambem vão consumindo. + Sôbre o fogo de amor inutil ágoa! + Pois eu em chôro estou continuamente, + E do que vou chorando te vás rindo. + Assi nova corrente + Levas de chôro em foro; + Porque de ver-te rir, de novo chóro. + + +CLVIII. + + Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo, + Quando menos temia esta partida; + E se a minha alma vai entristecida, + Nos olhos o vereis com que vos vejo. + Pequenas esperanças, mal sobejo, + Vontade que razão leva vencida, + Presto verão o fim á triste vida, + Se vos não tórno a ver como desejo. + Nunca a noite entretanto, nunca o dia, + Verão partir de mi vossa lembrança: + Amor, que vai comigo, o certifica. + Por mais que no tornar haja tardança, + Me farão sempre triste companhia + Saudades do bem que em vós me fia. + + +CLIX. + + Vencido está de amor Meu pensamento + O mais que póde ser, Vencida a vida, + Sujeita a vos servir e Instituida, + Oferecendo tudo A vosso intento. + Contente deste bem Louva o momento, + Ou hora em que se vio Tão bem perdida; + Mil vezes desejando, Assi ferida, + Outras mil renovar Seu perdimento. + Com esta pretenção Está segura + A causa que me guia Nesta empreza + Tão sobrenatural, Honrosa, e alta. + Jurando não querer Outra ventura, + Votando só por vós Rara firmeza, + Ou ser no vosso amor Achado em falta. + + +CLX. + + Divina companhia, que nos prados + Do claro Eurotas, ou no Olympo monte, + Ou sôbre as margens da Castalia fonte + Vossos estudos tendes mais sagrados; + Pois por destino dos immoveis fados + Quereis qu'em vosso número me conte, + No eterno templo de Belorofonte + Ponde em bronze estes versos entalhados: + Soliso (porque em seculos futuros + Se veja da belleza o que merece + Quem de sábia doudice a mente inflama) + Seus escritos, da sorte ja seguros, + A estas aras em h[~u]a mão offrece, + E a alma em outra á sua bella dama. + + +CLXI. + + Á la margen del Tajo, en claro dia, + Con rayado marfil peinando estaba + Natercia sus cabellos, y quitaba + Con sus ojos la luz al sol que ardia. + Soliso que, cual Clicie, la seguia, + Lejos de sí, mas cerca della estaba: + Al son de su zampoña celebraba + La causa de su ardor, y así decia: + Si tantas, como tú tienes cabellos, + Tuviera vidas yo, me las llevaras + Colgada cada cual del uno dellos. + De no tenerlas tú me consolaras, + Si tantas veces mil, como son ellos, + En ellos la que tengo me enredaras. + + +CLXII. + + Por gloria tuve un tiempo el ser perdido; + Perdíame de puro bien ganado; + Gané cuando perdí ser libertado; + Libre agora me veo, mas vencido. + Vencí cuando de Nise fuí rendido; + Rendíme por no ser della dejado: + Dejóme en la memoria el bien pasado; + Paso agora á llorar lo que he servido. + Servia al premio de la luz que amaba; + Amándola esperábale por cierto; + Incierto me salió cuanto esperaba. + La esperanza se queda en desconcierto; + El concierto en el mal que no pensaba; + El pensamiento con un fin incierto. + + +CLXIII. + + Revuelvo en la incesable fantasía + Cuando me he visto en mas dichoso estado, + Si agora que de Amor vivo inflamado, + Si cuando de su ardor libre vivia. + Entonces desta llama solo huia, + Despreciando en mi vida su cuidado; + Agora, con dolor de lo pasado, + Tengo por gloria aquello que temia. + Bien veo que era vida deleitosa + Aquella que lograba sin temores, + Cuando gustos de Amor tuve por viento. + Mas viendo hoy á Natercia tan hermosa, + Hallo en esta prision glorias mayores, + Y en perderlas por libre hallo tormento. + + +CLXIV. + + Las peñas retumbaban al gemido + Del misero zagal, que lamentaba + El dolor que á su alma lastimaba, + De un obstinado desamor nacido. + El mar, que las batia, su bramido + Con los retumbos dellas ayuntaba; + Confuso son el viento derramaba, + En cavernosos valles repetido. + Responden a mi llanto duras peñas, + Ai de mí! (dijo) la mar brama y gime; + Los ecos suenan de tristeza llenos: + Y tú, por quien la muerte en mí se imprime, + De oir las ansias mias te desdeñas; + Y cuando lloro mas, te abrando menos. + + +CLXV. + + En una selva al dispuntar del dia + Estaba Endimion triste y lloroso, + Vuelto al rayo del sol, que presuroso + Por la falda de un monte descendia. + Mirando al turbador de su alegría, + Contrario de su bien y su reposo, + Tras un suspiro y otro, congojoso, + Razones semejantes le decia: + Luz clara, para mi la mas escura, + Que con esse paseo apresurado, + Mi sol con tu teniebla escureciste; + Si allà pueden moverte en esa altura + Las quejas de un pastor enamorado, + No tardes en volver á dó saliste. + + +CLXVI. + + Orfeo enamorado que tañia + Por la perdida Ninfa que buscaba, + En el Orco implacable donde estaba, + Con la arpa, y con la voz la enternecia. + La rueda de Ixion no se movia, + Ningun atormentado se quejaba; + Las penas de los otros ablandaba, + Y todas las de todos él sentia. + El son pudo obligar de tal manera, + Que en dulce galardon de lo cantado, + Los infernales Reyes condolidos, + Le mandáron volver su compañera, + Y volvióla á perder el desdichado; + Con que fueron entrambos los perdidos. + + +CLXVII. + + Eu cantei ja, e agora vou chorando + O tempo que cantei tão confiado: + Parece que no canto ja passado + Se estavão minhas lagrimas criando. + Cantei; mas se me alguem pergunta, quando? + Não sei; que tambem fui nisso enganado. + He tão triste este meu presente estado, + Que o passado por ledo estou julgando. + Fizerão-me cantar manhosamente + Contentamentos não, mas confianças: + Cantava, mas ja era ao som dos ferros. + De quem me queixarei, se tudo mente? + Porém que culpas ponho ás esperanças, + Onde a fortuna injusta he mais qu'os erros? + + +CLXVIII. + + Ai amiga cruel! que apartamento + He este que fazeis da patria terra? + Ai! quem do amado ninho vos desterra, + Gloria dos olhos, bem do pensamento? + His tentar da fortuna o movimento, + E dos ventos crueis a dura guerra? + Ver brenhas de ondas? feito o mar em serra + Levantado de hum vento e de outro vento? + Mas ja que vós partis, sem vos partirdes, + Parta comvosco o Ceo tanta ventura, + Que se avantaje áquella qu'esperardes. + E só desta verdade ide segura, + Que fazeis mais saudades com vos irdes, + Do que levais desejos por chegardes. + + +CLXIX. + + Campo! nas syrtes deste mar da vida, + Apos naufragios seus taboa segura; + Claras bonanças em tormenta escura, + Habitação da paz, de amor guarida; + A ti fujo: e se vence tal fugida, + E quem mudou lugar, mudou ventura, + Cantemos a victoria; e na espessura + Triumphe a honra da ambição vencida. + Em flor e fructo de verão e outono; + Utilmente murmurão claras ágoas; + Alegre me acha aqui, me deixa o dia. + Amantes rouxinoes rompem-me o sono + Que ata o descanso: aqui sepulto mágoas + Que ja forão sepulcros de alegria. + + +CLXX. + + Ah minha Dinamene! assi deixaste + Quem nunca deixar pôde de querer-te! + Que ja, Nympha gentil, não possa ver-te! + Que tão veloz a vida desprezaste! + Como por tempo eterno te apartaste + De quem tão longe andava de perder-te? + Puderão essas ágoas defender-te + Que não visses quem tanto magoaste? + Nem somente fallar-te a dura morte + Me deixou, qu'apressada o negro manto + Lançar sôbre os teus olhos consentiste. + Oh mar! oh ceo! oh minha escura sorte! + Qual vida perderei que valha tanto, + Se inda tenho por pouco o viver triste? + + +CLXXI. + + Guardando em mi a Sorte o seu direito. + Em verde me cortou minha alegria. + Oh quanto feneceo naquelle dia, + Cuja triste lembrança arde em meu peito! + Quando mais o imagino, bem suspeito + Que a tal bem tal desconto se devia, + Por não dizer o mundo que podia + Achar-se em seus enganos bem perfeito. + Pois se a Fortuna o fez por descontar-me + Aquelle gôsto, em cujo sentimento + A memoria não faz senão matar-me; + Que culpas póde dar-me o pensamento, + Se a causa qu'elle t[~e]e de atormentar-me, + Tenho eu de soffrer mal o seu tormento? + + +CLXXII. + + Cantando estava hum dia bem seguro, + Quando passava Sylvio, e me dizia: + (Sylvio, pastor antiguo que sabia + Por o canto das aves o futuro) + Liso, quando quizer o fado escuro, + A opprimir-te virão em hum só dia + Dous lobos; logo a voz e a melodia + Te fugirão, e o som suave e puro. + Bem foi assi; porque hum me degolou + Quanto gado vacum pastava e tinha, + De que grandes soldadas esperava. + E por mais damno o outro me matou + A cordeira gentil, qu'eu tanto amava, + Perpétua saudade da alma minha. + + +CLXXIII. + + O ceo, a terra, o vento socegado, + As ondas que se estendem por a areia, + Os peixes que no mar o somno enfreia, + O nocturno silencio repousado; + O Pescador Aonio que, deitado + Onde co'o vento a água se meneia, + Chorando, o nome amado em vão nomeia, + Que não póde ser mais que nomeado, + Ondas, (dizia) antes que Amor me mate, + Tornae-me a minha Nympha, que tão cedo + Me fizestes á morte estar sujeita. + Ninguem responde; o mar de longe bate; + Move-se brandamente o arvoredo; + Leva-lhe o vento a voz, qu'ao vento deita. + + +CLXXIV. + + Ah Fortuna cruel! ah duros Fados! + Quão asinha em meu damno vos mudastes! + Com os vossos cuidados me cansastes, + E agora descansais co'os meus cuidados. + Fizestes-me provar gostos passados, + E vossa condição nelles provastes: + Singelos em hum'hora mos levastes, + Deixando em seu lugar males dobrados. + Quanto melhor me fôra que não vira + Os doces bens de Amor? Ah bens suaves! + Quem me deixa sem vós, porque me deixa? + De queixar-te, alma minha, te retira: + Alma, de alto cahida em penas graves, + Pois tanto amaste em vão, em vão te queixa. + + +CLXXV. + + Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento + Vos hei de ver tão tristes e aggravados? + Não bástão meus suspiros inflammados, + Que sempre em mi renovão seu tormento? + Não basta consentir meu pensamento + Em mágoas, em tristezas e em cuidados, + Senão que haveis de andar tão maltratados, + Que lagrimas tenhais por mantimento? + Não sei porque tomais esta vingança, + Mostrando-vos na ausencia tão saudosos, + Se sabeis quanto póde huma esperança. + Olhos, não aggraveis outros formosos, + Tornando hum puro amor em esquivança, + Pois ficais por esquivos desdenhosos. + + +CLXXVI. + + Lembranças, que lembrais o bem passado + Para que sinta mais o mal presente, + Deixae-me, se quereis, viver contente, + Morrer não me deixeis em tal estado. + Se de todo, comtudo, está do Fado, + Que eu morra de viver tão descontente, + Venha-me todo o bem por accidente, + E todo o mal me venha por cuidado. + Que muito melhor he perder-se a vida, + Perdendo-se as lembranças da memoria, + Pois fazem tanto damno ao pensamento. + Porque, em fim, nada perde quem perdida + A esperança t[~e]e ja daquella gloria + Que fazia suave o seu tormento. + + +CLXXVII. + + Quando os olhos emprégo no passado, + De quanto passei me acho arrependido; + Vejo que tudo foi tempo perdido, + Que tudo emprêgo foi mal empregado. + Sempre no mais damnoso mais cuidado; + Tudo o que mais cumpria, mal cumprido; + De desenganos menos advertido + Fui, quando de esperanças mais frustrado. + Os castellos que erguia o pensamento, + No ponto que mais altos os erguia, + Por esse chão os via em hum momento. + Que erradas contas faz a phantasia! + Pois tudo pára em morte, tudo em vento, + Triste o que espera! triste o que confia! + + +CLXXVIII + + Ja cantei, ja chorei a dura guerra + Por Amor sustentada longos anos; + Vezes mil me vedou dizer seus danos, + Por não ver quem o segue o muito que erra. + Nymphas, por quem Castalia se abre e cerra; + Vós que fazeis á morte mil enganos, + Concedei-me ja alentos soberanos + Para que diga o mal que Amor encerra: + Para que aquelle, que o seguir ardente, + Veja em meus puros versos hum exemplo + De quanto em glorias promettidas mente. + Qu'inda qu'em triste estado me contemplo, + Se neste assumpto me inspirais, contente + Darei a minha lyra ao vosso templo. + + +CLXXIX + + Os meus alegres, venturosos dias + Passárão, como raio, brevemente; + Movem-se os tristes mais pezadamente + Apos das fugitivas alegrias. + Ah falsas pretenções! vãas phantasias! + Que me podeis ja dar que me contente? + Ja de meu triste peito a chamma ardente + O tempo reduzio a cinzas frias. + Nellas revolvo agora erros passados; + Que outro fructo não deo a mocidade, + A quem vergonha e dor minha alma deve + Revolvo mais de toda a mais idade, + Desejos vãos, vãos choros, vãos cuidados, + Para que leve tudo o tempo leve. + + +CLXXX. + + Horas breves de meu contentamento, + Nunca me pareceo, quando vos tinha, + Que vos visse mudadas tão asinha + Em tão compridos annos de tormento. + As altas tôrres, que fundei no vento, + Levou, em fim, o vento que as sostinha: + Do mal, que me ficou, a culpa he minha, + Pois sôbre cousas vãas fiz fundamento. + Amor com brandas mostras apparece, + Tudo possivel faz, tudo assegura; + Mas logo no melhor desapparece. + Estranho mal! estranha desventura! + Por hum pequeno bem que desfallece, + Hum bem aventurar, que sempre dura! + + +CLXXXI. + + Onde acharei lugar tão apartado, + E tão isento em tudo da ventura, + Que, não digo eu de humana criatura, + Mas nem de feras seja frequentado? + Algum bosque medonho e carregado, + Ou selva solitaria, triste e escura, + Sem fonte clara, ou placida verdura; + Em fim, lugar conforme a meu cuidado? + Porque alli nas entranhas dos penedos, + Em vida morto, sepultado em vida, + Me queixe copiosa e livremente. + Que, pois a minha pena he sem medida, + Alli não serei triste em dias ledos, + E dias tristes me farão contente. + + +CLXXXII. + + Aqui de longos damnos breve historia + Verão os que se jactão de amadores: + Reparo póde ser das suas dores + Não apartar as minhas da memoria. + Escrevi, não por fama, nem por gloria, + De que outros versos são merecedores, + Mas por mostrar seus triumphos, seus rigores + A quem de mi logrou tanta victoria. + Crescendo foi a dor co'o tempo, tanto + Que em número me fez, alheio de arte, + Dizer do cego Amor, que me venceo. + Se ao canto dei a voz, dei a alma ao pranto; + E dando a penna á mão, esta só parte + De minhas tristes penas escreveo. + + +CLXXXIII. + + Por sua Nympha Céphalo deixava + A Aurora, que por elle se perdia, + Postoque dá principio ao claro dia, + Postoque as roxas flores imitava. + Elle, que a bella Procris tanto amava, + Que só por ella tudo engeitaria, + Deseja de tentar se lhe acharia + Tão firme fé, como ella nelle achava. + Mudado o trage, tece hum duro engano; + Outro se finge, preço põe diante; + Quebra-se a fé mudavel, e consente. + Oh subtil invenção para seu dano! + Vêde que manhas busca hum cego amante + Para que sempre seja descontente! + + +CLXXXIV. + + Sentindo-se alcançada a bella esposa + De Céphalo no crime consentido, + Para os montes fugia do marido; + E não sei se de astuta, ou vergonhosa. + Porque elle, em fim, soffrendo a dor ciosa, + Da cegueira obrigado de Cupido, + Apos ella se vai como perdido, + Ja perdoando a culpa criminosa. + Deita-se aos pés da Nympha endurecida, + Que do cioso engano está aggravada; + Ja lhe pede perdão, ja pede a vida. + Oh fôrça d'affeição desatinada! + Que da culpa contr'elle commettida, + Perdão pedia á parte que he culpada! + + +CLXXXV. + + Seguia aquelle fogo, que o guiava, + Leandro, contra o mar e contra o vento; + Quebravão-lhe ondas o animoso alento, + Por mais e mais que Amor lho renovava. + Com sentir ja que quasi lhe faltava, + Sem nada esmorecer, no pensamento + (Não podendo fallar) de seu intento + O fim ao surdo mar encommendava. + Ó mar, (dizia o moço só comsigo) + Ja te não peço a vida; só queria + Que a d'Hero me salvasses: não me veja: + Este defunto corpo lá o desvia + D'aquella tôrre: sê-me nisto amigo, + Pois no meu maior bem me houveste inveja. + + +CLXXXVI. + + Os olhos onde o casto Amor ardia, + Ledo de se ver nelles abrazado; + O rosto onde com lustre desusado + Purpurea rosa sôbre neve ardia; + O cabello, que inveja ao sol fazia, + Porque fazia o seu menos dourado; + A branca mão, o corpo bem talhado, + Tudo aqui se reduz a terra fria. + Perfeita formosura em tenra idade, + Qual flor, que antecipada foi colhida, + Murchada está da mão da morte dura. + Como não morre Amor de piedade? + Não della, que se foi á clara vida; + Mas de si, que ficou em noute escura. + + +CLXXXVII. + + Ditosa penna, como a mão que a guia + Com tantas perfeições da subtil arte, + Que quando com razão venho a louvar-te, + Em teus louvores perco a phantasia. + Porém Amor, que effeitos varios cria, + De ti cantar me manda em toda parte, + Não em plectro belligero de Marte, + Mas em suave e branda melodia. + Teu nome, Emmanuel, de hum n'outro pólo, + Voando se levanta e te pregoa, + Agora que ninguem te levantava. + E porque immortal sejas, eis Apolo + Te offerece de flores a coroa, + Que ja de longo tempo te guardava. + + +CLXXXVIII. + + Espanta crescer tanto o crocodilo + Só por seu limitado nascimento; + Que, se maior nascêra, mais isento + Estivera de espanto o patrio Nilo. + Em vão levantará meu baixo estilo + Vosso Pontifical, novo ornamento; + Pois no ventre o immortal merecimento + Vo-lo talhou, para despois vesti-lo. + Tardou, mas veio; que a quem mais merece + Vir o premio mais tarde he sempre certo, + Inda que vez alguma venha cedo. + Os ceos, que do primeiro estão mais perto, + Mais devagar se movem. Quem conhece, + Sôbre aquelle segredo, este segredo! + + +CLXXXIX. + + Ornou sublime esfôrço ao grande Atlante, + Com qu'a celeste máchina sustenta; + Honrou a Homero o engenho, com que intenta + Grecia do quarto ceo passá-lo avante; + Coroou claro Amor de amor constante + A Orpheo, na paz firme e na tormenta; + Inspirou a Fortuna, em tudo isenta, + A Cesar, de quem foi hum tempo amante; + Exaltaste tu, Fama, a gloria alta + De Alcides lá no monte em que resides; + Mas Castro, em quem o Ceo seus dões derrama, + Mais orna, honra, coroa, inspira, exalta, + Que Atlante, Homero, Orpheo, Cesar e Alcides, + Esfôrço, engenho, Amor, Fortuna e Fama. + + +CXC. + + Despois que vio Cibele o corpo humano + Do formoso Atys seu verde pinheiro, + Em piedade o vão furor primeiro + Convertido, chorava o grave dano. + E, á sua dor fazendo illustre engano, + A Jupiter pedio, que o verdadeiro + Preço da nobre palma e do loureiro + Ao seu pinheiro désse, soberano. + Mais lhe concede o filho poderoso + Que, crescendo, as estrellas tocar possa, + Vendo os segredos lá do ceo superno. + Oh ditoso pinheiro! oh mais ditoso + Quem se vir coroar da rama vossa, + Cantando á vossa sombra verso eterno! + + +CXCI. + + Pois torna por seu Rei e juntamente + Por Christo a governar aquella parte + Onde se t[~e]e mostrado hum Numa, hum Marte + O famoso Luis, justo e valente; + O Tejo espere ver de todo o Oriente, + Onde tão raros dões o Ceo reparte, + Render a tanto esfôrço, aviso e arte, + Mil palmas, mil tributos novamente. + Os que bebem no Gange, os que no Indo, + A quem pouco valêrão lança e escudo, + O render-se terão por bom partido. + O Euphrates temerá, seu nome ouvindo; + Que para delle ver vencido tudo, + Ja vio do braço seu tudo vencido. + + +CXCII. + + Agora toma a espada, agora a pena, + Estacio nosso, em ambas celebrado, + Sendo, ou no salso mar de Marte amado, + Ou n'água doce amante da Camena. + Cysne sonoro por ribeira amena + De mi para cantar-te he cobiçado; + Porque não podes tu ser bem cantado + De ruda frauta, nem de agreste avena. + Se eu, que a penna tomei, tomei a espada, + Para poder jogar licença tenho + Desta alta influïção de dous Planetas; + Com huma e outra luz delles lograda, + Tu com pujante braço, ardente engenho, + Serás pharo a Soldados e a Poetas. + + +CXCIII. + + Erros meus, ma Fortuna, Amor ardente + Em minha perdição se conjurárão: + Os erros e a Fortuna sobejárão; + Que para mi bastava Amor somente. + Tudo passei; mas tenho tão presente + A grande dor das cousas, que passárão, + Que ja as frequencias suas me ensinárão + A desejos deixar de ser contente. + Errei todo o discurso de meus anos; + Dei causa a que a Fortuna castigasse + As minhas mal fundadas esperanças. + De Amor não vi senão breves enganos. + Oh quem tanto pudesse, que fartasse + Este meu duro Genio de vinganças! + + +CXCIV. + + Cá nesta Babylonia donde mana + Materia a quanto mal o mundo cria; + Cá donde o puro Amor não t[~e]e valia; + Que a Mãe, que manda mais, tudo profana; + Cá donde o mal se affina, o bem se dana, + E póde mais que a honra a tyrannia; + Cá donde a errada e cega Monarchia + Cuida que hum nome vão a Deos engana; + Cá neste labyrintho onde a Nobreza, + O Valor e o Saber pedindo vão + Ás portas da Cobiça e da Vileza; + Cá neste escuro caos de confusão + Cumprindo o curso estou da natureza. + Vê se me esquecerei de ti, Sião! + + +CXCV. + + Correm turbas as águas deste rio, + Que as rapidas enchentes enturbárão; + Os florecidos campos se seccárão; + Intratavel se fez o valle e frio. + Passou, como o verão, o ardente estio; + Humas cousas por outras se trocárão: + Os fementidos fados ja deixárão + Do mundo o regimento, ou desvario. + Ja o tempo a ordem sua t[~e]e sabida; + O mundo não; mas anda tão confuso, + Que parece que delle Deos se esquece. + Casos, opiniões, natura, e uso, + Fazem que nos pareça desta vida + Que não ha nella mais do que parece. + + +CXCVI. + + Vós outros, que buscais repouso certo + Na vida, com diversos exercicios; + A quem, vendo do mundo os beneficios, + O regimento seu fica encoberto; + Dedicae, se quereis, ao Desconcêrto + Novas honras e cegos sacrificios; + Que, por castigo igual de antiguos vicios, + Quer Deos que andem as cousas por acêrto. + Não cahio neste modo de castigo + Quem poz culpa á Fortuna, quem somente + Crê que acontecimentos ha no mundo. + A grande experiencia he grão perigo: + Mas o que a Deos he justo e evidente + Parece injusto aos homens e profundo. + + +CXCVII. + + Para se namorar do que criou, + Te fez Deos, sacra Phenix, Virgem pura. + Vêde que tal seria esta feitura + Que para si o seu Feitor guardou! + No seu alto conceito te formou + Primeiro que a primeira criatura, + Para que unica fosse a compostura + Que de tão longo tempo se estudou. + Não sei se digo em tudo quanto baste + Para exprimir as raras qualidades + Que quiz criar em ti quem tu criaste. + Es Filha, Mãe, e Esposa: e se alcançaste + Huma só, tres tão altas dignidades, + Foi porqu'a Tres de Hum só tanto agradaste. + + +CXCVIII. + + Desce do ceo immenso Deos benino + Para encarnar na Virgem soberana. + Porque desce o divino a cousa humana? + Para subir o humano a ser divino. + Pois como vem tão pobre e tão menino, + Rendendo-se ao poder da mão tyrana? + Porque vem receber morte inhumana + Para pagar de Adão o desatino. + He possivel que os dous o fructo comem + Que de quem lhes deo tanto foi vedado? + Si; porque o proprio ser de deoses tomem. + E por esta razão foi humanado? + Si; porque foi com causa decretado, + Se quiz o homem ser Deos, que Deos fosse homem. + + +CXCIX. + + Dos ceos á terra desce a mor Belleza, + Une-se á nossa carne, e a faz nobre; + E, sendo a humanidade d'antes pobre, + Hoje subida fica á mor riqueza. + Busca o Senhor mais rico a mor pobreza; + Que, como ao mundo o seu amor descobre, + De palhas vis o corpo tenro cobre, + E por ellas o mesmo ceo despreza. + Como? Deos em pobreza á terra dece? + O qu'he mais pobre tanto lhe contenta, + Qu'este somente rico lhe parece. + Pobreza este Presepio representa; + Mas tanto por ser pobre ja merece, + Que quanto mais o he, mais lhe contenta. + + +CC. + + Porque a tamanhas penas se offerece + Por o peccado alheio, e êrro insano, + O Trino Deos? Porque o sogeito humano + Não póde co'o castigo que merece. + Quem padecerá as penas que padece? + Quem soffrerá deshonra, morte e dano? + Quem será, se não for o Soberano + Que reina, e servos manda, e obedece? + Foi a fôrça do homem tão pequena, + Que não pôde soster tanta aspereza, + Pois não sosteve a Lei que Deos ordena. + Mas soffre-a aquella immensa Fortaleza + Por amor puro; que a mortal fraqueza + Foi para o êrro, e não ja para a pena. + + +CCI. + + Despois de haver chorado os meus tormentos, + Quer Amor que lhe cante as suas glorias. + Canto de huma belleza os vencimentos, + De hum longo padecer chóro as memorias. + Porém, se as minhas penas são victorias, + Por a causa, a meus altos pensamentos; + Dilatem-se em larguissimas historias + Estes meus gloriosos rendimentos. + Mova-se em todo o mundo unico espanto + De qu'he, por a belleza qu'eu adoro, + Do que cantado tenho premio o pranto. + Contente offreço a amor tão triste foro: + Que se chôro não ha como o meu canto, + Não sei canto melhor qu'este meu chôro. + + +CCII. + + Onde mereci eu tal pensamento + Nunca de ser humano merecido? + Onde mereci eu ficar vencido + De quem tanto me honrou co'o vencimento? + Em gloria se converte o meu tormento, + Quando vendo-me estou tão bem perdido; + Pois não foi tanto mal ser atrevido, + Como foi gloria o mesmo atrevimento. + Vivo, Senhora, só de contemplar-vos; + E pois esta alma tenho tão rendida, + Em lagrimas desfeito acabarei. + Porque não me farão deixar de amar-vos + Receios de perder por vós a vida; + Que por vós vezes mil a perderei. + + +CCIII. + + De frescas belvederes rodeadas + Estão as puras águas desta fonte; + Formosas Nymphas lhes estão defronte, + A vencer e a matar acostumadas. + Andão contra Cupido levantadas + As suas graças, que não ha quem conte: + D'outro valle esquecidas, d'outro monte, + A vida passão neste socegadas. + O seu poder juntou, sua valia + Amor, ja não soffrendo este desprêzo, + Somente por se ver dellas vingado; + Mas, vendo-as, entendeo que não podia + De ser morto livrar-se, ou de ser prêzo, + E ficou-se com ellas desarmado. + + +CCIV. + + Nos braços de hum Sylvano adormecendo + Se estava aquella Nympha qu'eu adoro, + Pagando com a boca o doce foro, + Com que os meus olhos foi escurecendo. + Oh bella Venus! porqu'estás soffrendo + Que a maior formosura do teu côro + Em hum poder tão vil perca o decoro + Que o merito maior lhe está devendo? + Eu levarei daqui por presupposto + Desta nova estranheza que fizeste, + Que em ti não póde haver cousa segura. + Que, pois o claro lume, o bello rosto + Áquelle monstro tão disforme déste, + Não creio qu'haja Amor, senão Ventura. + + +CCV. + + Quem diz que Amor he falso, ou enganoso, + Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido, + Sem falta lhe terá bem merecido + Que lhe seja cruel, ou rigoroso, + Amor he brando, he doce, e he piedoso: + Quem o contrário diz não seja crido; + Seja por cego e apaixonado tido, + E aos homens, e inda aos deoses odioso. + Se males faz Amor, em mi se vem; + Em mi mostrando todo o seu rigor, + Ao mundo quiz mostrar quanto podia. + Mas todas suas iras são d'Amor; + Todos estes seus males são hum bem, + Qu'eu por todo outro bem não trocaria. + + +CCVI. + + Formosa Beatriz, tendes taes geitos + N'hum brando revolver dos olhos bellos, + Que só no contemplá-los, se não ve-los, + Se inflammão corações e humanos peitos. + Em toda perfeição são tão perfeitos, + Que o desengano dão de merecê-los: + Não póde haver quem possa conhecê-los, + Sem nelle Amor fazer grandes effeitos. + Sentirão, por meu mal, tão graves danos + Os meus, que com os ver cegos e tristes + Ficarão sem prazer, co'a luz perdida. + Mas ja que vós com elles me feristes, + Tornai-me a ver com elles mais humanos, + E deixareis curada esta ferida. + + +CCVII. + + Alegres campos, verdes, deleitosos, + Suaves me serão vossas boninas, + Em quanto forem vistas das meninas + Dos olhos de Ignez bella tão formosos. + Dos meus, que vos serão sempre invejosos + Por não verem estrellas tão divinas, + Sereis regados d'águas peregrinas, + Soprados de suspiros amorosos. + E vós, douradas flores, por ventura + Se Ignez quizer fazer de meus amores + Exp'riencias na folha derradeira, + Mostrai-lhe, para ver minha fé pura, + O bem que sempre quiz, formosas flores; + Qu'então não sentirei que mal me queira. + + +CCVIII. + + Ondados fios de ouro, onde enlaçado. + Continuamente tenho o pensamento; + Que quanto mais vos sólta o fresco vento, + Mais preso fico então de meu cuidado; + Amor, d'huns bellos olhos sempre armado, + Me combate co'as fôrças do tormento, + Provando da minha alma o soffrimento + Que á justa lei da paz trago obrigado. + Assi que em vosso gesto mais que humano + Amo a paz juntamente e o perigo; + E em amar hum e outro não me engano. + Muitas vezes dizendo estou comigo + Que, pois he tal a causa de meu dano, + He justa a guerra, he justa a paz que sigo. + + +CCIX. + + Amor, que em sonhos vãos do pensamento + Paga o zêlo maior de seu cuidado, + Em toda condição, em todo estado, + Tributario me fez de seu tormento. + Eu sirvo, eu canso; e o grão merecimento + De quanto tenho a Amor sacrificado, + Nas mãos da ingratidão despedaçado + Por prêza vai do eterno esquecimento. + Mas quando muito, em fim, cresça o perigo, + A que perpetuamente me condena + Amor, que amor não he, mas inimigo; + Tenho hum grande descanso em minha pena, + Que a gloria do querer, que tanto sigo, + Não póde ser co'os males mais pequena. + + +CCX. + + Nem o tremendo estrépito da guerra + Com armas, com incendios espantosos + Que despachão pelouros perigosos, + Bastantes a abalar huma alta serra, + Podem pôr medo a quem nenhum encerra, + Despois que vio os olhos tão formosos, + Por quem o horror nos casos pavorosos + De mi todo se aparta e se desterra, + A vida posso ao fogo e ferro dar, + E perdê-la em qualquer duro perigo, + E nelle, como phenix, renovar. + Não póde mal haver para comigo, + De qu'eu ja me não possa bem livrar, + Senão do que me ordena Amor imigo. + + +CCXI. + + Fiou-se o coração, de muito isento, + De si, cuidando mal que tomaria + Tão illicito amor, tal ousadia, + Tal modo nunca visto de tormento. + Mas os olhos pintárão tão a tento + Outros que vistos t[~e]e na phantasia, + Que a razão, temerosa do que via, + Fugio, deixando o campo ao pensamento. + Ó Hippolyto casto, que de geito + De Phedra tua madrasta foste amado, + Que não sabia ter nenhum respeito; + Em mi vingou Amor teu casto peito: + Mas está deste aggravo tão vingado, + Que se arrepende ja do que t[~e]e feito. + + +CCXII. + + Quem quizer ver d'amor huma excellencia + Onde sua fineza mais se apura, + Attente onde me põe minha ventura, + Porque de minha fé faça exp'riencia. + Onde lembranças mata a larga ausencia, + Em temeroso mar, em guerra dura, + A saudade alli'stá mais segura, + Quando risco maior corre a paciencia. + Mas ponha-me a Fortuna e o duro Fado, + Em morte, ou nojo, ou damno, ou perdição, + Ou em sublime e próspera ventura; + Ponha-me, em fim, em baixo ou alto estado; + Que até na dura morte me acharão + Na lingua o nome, e n'alma a vista pura. + + +CCXIII. + + Los ojos que con blando movimiento + Al pasar enternecen la alma mia, + Si detener pudiera solo un dia, + Pudiera bien libraria de tormento. + Deste tan amoroso sentimiento + El importuno mal se acabaria; + Ó tambien su accidente creceria + Para acabar la vida en un momento. + Oh! si ya tu esquivez me permitiese + Que al ver, o Ninfa, tu semblante hermoso, + A manos de tus ojos yo muriese! + Oh si los detuvieras! cuan dichoso + Seria aquel momento en que me viese + Vida en ellos cobrar, cobrar reposo! + + +CCXIV. + + No bastaba que amor puro y ardiente + Por términos la vida me quitase; + Mas que la muerte así se apresurase + Con un deshumanisimo accidente? + No pretendió mi alma, aunque lo siente, + Que el riguroso curso se atajase, + Porque nunca morir se exprimentase + Desamado el que amó tan dulcemente. + Mas vuestra voluntad tan poderosa + Con esas gracias vuestras ordenaron + Crueldad asi imposible, ó nunca oída. + Aquel frio desden, y la amorosa + Furia, de un golpe solo, me quitaron + Con dós contrarias muertes una vida. + + +CCXV. + + Ayudame, Señora, á hacer venganza + De tal selvatiquez, de tal rudeza, + Pues de mi poquedad, de mi bajeza + Osado á ti elevaba la esperanza. + Á esa tu perfeccion, que no se alcanza, + Á esas sublimes cumbres de belleza, + Donde una vez llegó naturaleza, + Mas de volver perdió la confianza. + Aquello que en ti miro contemplando, + (Que apenas contemplarlo me consiente) + Contemplándolo mas, menos lo espero. + Si gloria de mi pena en ti se siente, + Derrama en mí tus iras, desamando; + Que al ofenderme mas yo mas te quiero. + + +CCXVI. + + O claras águas deste blando rio, + Que en vos al natural estais pintando + El frondífero adorno con que alzando + Se vá á los cielos este bosque umbrio; + Así las lluvias, así el Austro frio + Jamás puedan veniros enturbiando, + Que os vais del seco estio preservando + Con socorreros deste llanto mio. + Y cuando en vos Marfisa se mirare, + Mi figura, cual veis desfallecida, + Ante sus claros ojos puesta sea. + Y si por mí de vos los apartare, + De verme alli mostrándose ofendida, + En pena de no verme no se vea. + + +CCXVII. + + Mil veces entre sueños tu figura, + O bella Ninfa, claramente veo; + Y cuando mas la miro, mas deseo + Gozar libre de sueños su hermosura. + En tanto que este dulce engaño dura, + Vivo en la vana gloria que poseo: + Mas cuanto allí se eleva mi deseo, + Viene a caer despierto en sombra escura. + Duéleme el despertar por contemplarte; + Que si bien sé te huelgas de no verme, + Huélgome de ser ciego por mirarte. + Mas si quiero de engaños mantenerme, + Y tú quieres me pierda por amarte, + Sin gran ganancia no podré perderme. + + +CCXVIII. + + Mi gusto y tu beldad se desposaron, + Terceros por mi mal mis ojos fueron: + Su logro ha sido tal, que, alfin, hicieron + Un hijo hermoso á quien amor llamaron. + Tan fuera de compás le regalaron, + Que cuando mas alegres estuvieron, + Sin entender el mal que produjeron, + Perdidos por amores se miraron. + La beldad desposada deste duelo, + Vino á parir un monstro con dós alas; + La madre es la soberbia, el niño el zelo. + Oh madre que á tu hijo en todo igualas! + Quien mortal hace al inmortal abuelo, + Y al padre mortal da inmortales zalas? + + +CCXIX. + + Si el fuego que me enciende, consumido + De algun mas suelto Aquario ser pudiese; + Si el alto suspirar me convertiese + En aire por el aire desparcido; + Si un horrible rumor siendo sentido, + La alma á dejar el cuerpo redujese; + Ó por estos mis ojos al mar fuese + Este mi cuerpo en llanto convertido; + Nunca podria la fortuna airada, + Com todos sus horrores, sus espantos, + Derrocar la alma mia de su gloria. + Porque en vuestra beldad ya transformada, + Ni del Estigio lago eternos llantos + Os podrian quitar de mi memoria. + + +CCXX. + + Que me quereis perpétuas saudades? + Com qu'esperanças inda me enganais? + O tempo, que se vai, não torna mais, + E se torna, não tornão as idades. + Razão he ja, ó annos, que vos vades, + Porque estes tão ligeiros que passais, + Nem todos para hum gôsto sois iguais, + Nem sempre são conformes as vontades. + Aquillo a que ja quiz he tão mudado, + Que quasi he outra cousa; porque os dias + T[~e]e o primeiro gôsto ja damnado. + Esperanças de novas alegrias, + Não m'as deixa a Fortuna e o tempo irado, + Que do contentamento são espias. + + +CCXXI. + + Oh rigorosa ausencia desejada + De mi sempre, mas nunca conhecida! + Saudade, n'outro tempo tão temida, + Como em meu damno agora exprimentada! + Ja rigorosamente começada + Tendes vossa esperança em minha vida; + Mas tanto, que ja temo que opprimida + Sejais com ella cedo, ou acabada. + Os dias mais alegres me entristecem; + As noites, com cuidados as desconto, + Em que sem vós sem conto me parecem. + Eu desejando espero, e os annos conto; + Mas com a vida, em fim, elles fallecem: + Nem basta á carne enfêrma esprito pronto. + + +CCXXII. + + Ay! quien dará á mis ojos una fuente + De lágrimas que manen noche y dia? + Respirara si quiera la alma mia, + Llorando lo pasado, y lo presente. + Quien me diera apartado de la gente, + De mi dolor siguiendo la porfia + Con la triste memoria y fantasia + Del bien por quien mal tanto así se siente! + Quien me dará palabras con que iguale + El duro agravio que el amor me ha hecho, + Donde tan poco el sufrimiento vale? + Quien me abrirá profundamente el pecho, + Dó está escrito el secreto que no sale, + Con tanto dolor mio, á mi despecho? + + +CCXXIII. + + Con razon os vais, aguas, fatigando + Por llegar dó sereis bien recebidas; + Y en aquel mar inmenso convertidas, + Que ya de tantos dias vais buscando. + Triste de aquel que siempre anda llorando + Las vanas esperanzas ya perdidas, + Y con dolor las lágrimas vertidas + Nunca al fin pretendido van llegando! + Vosotras sin traer derecha via, + Al término llegais tan deseado, + Por mas que os embarace el gran rodeo; + Mas yo siempre afligido noche y dia, + Por un camino, que no llevo errado, + Jamás puedo llegar donde deseo. + + +CCXXIV. + + Oh cese ya, Señor, tu dura mano! + No llegues tanto al cabo con mi vida; + Baste el estar por ti tan consumida, + Que ya no se halla en ella lugar sano. + Ay estraña hermosura! ay deshumano + Hado, á que nunca puedo hallar salida! + Si tú de tu piedad no eres movida, + Roto el hilo vital verás temprano. + Un blando desamor, un amor blando, + Bien basta para un hombre tan perdido, + Que de su mal ningun remedio espera. + Y si estimas en poco el ver cual ando, + Aqui me tienes ante ti rendido: + Viva tu gusto, mi esperanza muera. + + +CCXXV. + + Dulces engaños de mis ojos tristes, + Cuan vivo despertais mi pensamiento! + Aquello que pudiera dar contento, + En sombra de pintura lo volvistes. + De blando sobresalto enternecistes + Con vista arrebatada el sentimiento; + Mas no le asegurastes un momento + Aqueste vano bien que le ofrecistes. + Veo que la figura era fingida, + Y no aquella que en sí mi alma esconde, + Aunque en esto se llega al natural: + Así escucha mi llanto, así responde, + Así se condolece de mi vida, + Como si fuera el propio original. + + +CCXXVI. + + Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste, + Como si alguno alegre yo esperara? + Como, o Tajo, al pasar esa tu clara + Agua, no la alteraste, y no me hundiste? + El paso me cerraste, el pecho abriste, + O mi ventura, de mi bien avara! + Á Dios, montañas de hermosura rara; + Á Dios, mi corazon, que no partiste. + Si adonde quedas en dichosa suerte + No bebieres las aguas del olvido, + En tanto bien no quieras olvidarme. + Cantando mi dolor llora mi muerte; + Porque hasta el hueco monte sin sentido + Suelta su ronca voz por consolarme. + + +CCXXVII. + + Levantai, minhas Tagides, a frente, + Deixando o Tejo ás sombras nemorosas; + Dourai o valle umbroso, as frescas rosas, + E o monte com as árvores frondente. + Fique de vós hum pouco o rio ausente, + Cessem agora as lyras numerosas, + Cesse vosso lavor, Nymphas formosas, + Cesse da fonte vossa a grã corrente. + Vinde a ver a Theodosio grande e claro, + A quem 'stá offrecendo maior canto + Na cithara dourada o louro Apolo. + Minerva do saber dá-lhe o dom raro, + Pallas lhe dá o valor de mais espanto, + E a Fama o leva ja de pólo a pólo. + + +CCXXVIII. + + Vós, Nymphas da Gangetica espessura, + Cantae suavemente, em voz sonora, + Hum grande Capitão que a roxa Aurora + Dos filhos defendeo da noite escura. + Ajuntou-se a caterva negra e dura, + Que na Aurea Chersoneso affouta mora, + Para lançar do charo ninho fóra + Aquelles que mais podem que a ventura. + Mas hum forte leão, com pouca gente, + A multidão tão fera como necia, + Destruindo castiga e torna fraca. + Ó Nymphas, cantai, pois; que claramente + Mais do que Leonidas fez em Grecia, + O nobre Leoniz fez em Malaca. + + +CCXXIX. + + Alma gentil, que á firme eternidade + Subiste clara e valerosamente, + Cá durará de ti perpetuamente + A fama, a gloria, o nome e a saudade. + Não sei se he mor espanto em tal idade + Deixar de teu valor inveja á gente, + Se hum peito de diamante, ou de serpente, + Fazeres que se mova a piedade. + Invejosa da tua acho mil sortes, + E a minha mais que todas invejosa, + Pois ao teu mal o meu tanto igualaste. + Oh ditoso morrer! sorte ditosa! + Pois o que não se alcança com mil mortes, + Tu com huma só morte o alcançaste. + + +CCXXX. + + Debaixo desta pedra sepultada + Jaz do mundo a mais nobre formosura, + A quem a morte, só de inveja pura, + Sem tempo sua vida t[~e]e roubada, + Sem ter respeito áquella assi estremada + Gentileza de luz, que a noite escura + Tornava em claro dia; cuja alvura + Do sol a clara luz tinha eclipsada. + Do sol peitada foste, cruel morte, + Para o livrar de quem o escurecia; + E da lua, que ante ella luz não tinha. + Como de tal poder tiveste sorte? + E se a tiveste, como tão asinha + Tornaste a luz do mundo em terra fria? + + +CCXXXI. + + Imagens vãas me imprime a phantasia; + Discursos novos acha o pensamento; + Com que dão á minha alma grão tormento + Cuidados de cem annos n'hum só dia. + Se fim grande tivessem, bem sería + Responder a esperança ao fundamento: + Mas o fado não corre tão a tento, + Que reserve á razão sua valia. + Caso e Fortuna pódem acertar; + Mas se por accidente dão victoria, + Sempre o favor da Fama he falsa historia. + Excede ao saber, determinar: + Á constancia se deve toda a gloria: + O ânimo livre he digno de memoria. + + +CCXXXII. + + Quanta incerta esperança, quanto engano! + Quanto viver de falsos pensamentos! + Pois todos vão fazer seus fundamentos + Só no mesmo em qu'está seu proprio dano. + Na incerta vida estribão de hum humano; + Dão credito a palavras que são ventos; + Chórão despois as horas e os momentos, + Que rírão com mais gôsto em todo o ano. + Não haja em apparencias confianças; + Entendei que o viver he de emprestado; + Que o de que vive o mundo são mudanças. + Mudai, pois, o sentido e o cuidado, + Somente amando aquellas esperanças + Que durão para sempre com o amado. + + +CCXXXIII. + + Mal, que de tempo em tempo vás crescendo, + Quem te visse de hum bem acompanhado! + A vida passaria descansado, + Da morte não temêra o rosto horrendo. + Se os vãos cuidados fôra convertendo + Em suspiros que dão outro cuidado, + Oh quão prudente, oh quão affortunado + A capella do louro irá tecendo! + Tempo he ja de esquecer contentamentos + Passados, co'a esperança que passou, + E de que triumphem novos pensamentos. + A fé, que viva n'alma me ficou, + Dê ja fim aos caducos ardimentos + A que o passado bem se condemnou. + + +CCXXXIV. + + Oh quanto melhor he o supremo dia + Da mansa morte, que o do nascimento! + Oh quanto melhor he hum só momento, + Que livra de annos tantos de agonia! + De alcançar outro bem cesse a porfia; + Cesse todo applicado pensamento + De tudo quanto dá contentamento, + Pois só contenta ao corpo a terra fria. + O que do seu fez Deos seu despenseiro, + T[~e]e mais estreita conta que lhe dar: + Então parece rico o ovelheiro. + Triste de quem no dia derradeiro + T[~e]e o suor alheio por pagar, + Pois a alma ha de vender por o dinheiro! + + +CCXXXV. + + Como podes (oh cego peccador!) + Estar em teus errores tão isento, + Sabendo que esta vida he hum momento, + Se comparada com a eterna for? + Não cuides tu que o justo Julgador + Deixará tuas culpas sem tormento, + Nem que passando vai o tempo lento + Do dia de horrendíssimo pavor. + Não gastes horas, dias, mezes, anos, + Em seguir de teus damnos a amisade + De que despois resultão mores danos. + E pois de teus enganos a verdade + Conheces, deixa ja tantos enganos, + Pedindo a Deos perdão com humildade. + + +CCXXXVI. + + Verdade, Amor, Razão, Merecimento, + Qualquer alma farão segura e forte; + Porém Fortuna, Caso, Tempo, e Sorte, + T[~e]e do confuso mundo o regimento. + Effeitos mil revolve o pensamento, + E não sabe a que causa se reporte: + Mas sabe que o que he mais que vida e morte + Não se alcança de humano entendimento. + Doctos varões darão razões subidas; + Mas são as exp'riencias mais provadas: + E por tanto he melhor ter muito visto. + Cousas ha hi que passão sem ser cridas: + E cousas cridas ha sem ser passadas. + Mas o melhor de tudo he crer em Christo. + + +CCXXXVII. + + De Babel sôbre os rios nos sentámos, + De nossa doce patria desterrados, + As mãos na face, os olhos derribados, + Com saudades de ti, Sião, chorámos. + Os orgãos nos salgueiros pendurámos, + Em outro tempo bem de nós tocados; + Outro era elle, por certo, outros cuidados; + Mas por deixar saudades os deixâmos. + Aquelles que captivos nos trazião + Por cantigas alegres perguntavão: + Cantai (nos dizem) hymnos de Sião. + Sôbre tal pena, pena tal nos dão, + Pois tyranicamente pretendião + Que cantassem aquelles que choravão. + + +CCXXXVIII. + + Sôbre os rios do Reino escuro, quando + Tristes, quaes nossas culpas o ordenárão, + Lagrimas nossos olhos derramárão, + Por ti, Sião divina, suspirando, + Os que hião nossas almas infestando, + De contino em error, as captivárão; + E em vão por nossos Psalmos perguntárão; + Que tudo era silencio miserando. + Dizendo estamos: Como cantaremos + As acceitas canções a Deos benino, + Quando a contrarios seus obedecemos? + Mas ja, Senhor só Santo, determino, + Deixando viciosissimos extremos, + Os cantos proseguir de Amor Divino. + + +CCXXXIX. + + Em Babylonia sôbre os rios, quando + De ti, Sião sagrada, nos lembrámos, + Alli com grã saudade nos sentámos, + O bem perdido, miseros, chorando. + Os instrumentos musicos deixando, + Nos estranhos salgueiros pendurámos, + Quando aos cantares, que ja em ti cantámos, + Nos estavão imigos incitando. + Ás esquadras dizemos inimigas: + Como hemos de cantar em terra alhea + As cantigas de Deos, sacras cantigas? + Se a lembrança eu perder que me recrea + Cá nestas penosissimas fadigas, + _Oblivioni detur dextra mea._ + + +CCXL. + + Aponta a bella Aurora, luz primeira, + Que a grã nova nos deo do claro dia: + Vesti-vos, corações, ja de alegria, + E recebei da vida a Mensageira. + Da humana Redempção nasce a Terceira: + Alegra-te, Divina Monarchia; + Da terra terás cedo a companhia, + Do ceo verás tambem a nossa feira. + De tal obra se espanta a natureza, + Confuso fica de temor o inferno, + Vendo a que nasce isenta da defeza. + Lei geral era posta desde eterno; + Mas o Senhor da Lei toda limpeza + Para o Sacrario seu guardou Materno. + + +CCXLI. + + Porque a terra no ceo agasalhasse, + O ceo na terra Deos agasalhou: + Lá não cabendo, cá se accommodou, + Porque lá, de cá indo, se alargasse. + Porqu'o homem a ser Deos por Deos chegasse, + Por o homem a ser homem Deos chegou: + Seu divino poder tanto humanou, + Porque o humano em divino se tornasse. + Vêde bem o que deo e recebeo: + Não se perca hum bem tanto da memoria: + Deo-nos a vida, a morte padeceo. + Trocou por nossa pena a sua gloria; + Deo-nos o triumpho qu'elle mereceo; + Porque amor foi auctor desta victoria. + + +CCXLII. + + Qu'estilla a Arvore sacra? Hum licor santo. + Para quem? Para o genero he humano. + Que faz delle? Hum remedio soberano. + Para que? Para a culpa e triste pranto. + E que obra? Reduzir Lusbel a espanto. + Porque? Porque co'hum pomo fez grão dano. + Que foi? A morte deo com hum engano. + Tanto pôde? Sem falta pôde tanto. + Quem sobe a ella? Quem do ceo desceo. + A que desce? A subir a creatura. + Que quiz da terra? Só levá-la ao Ceo. + He escada para ir lá? E a mais segura. + Quem o obrigou? De amor só se venceo. + Que amava este Feitor? Sua feitura. + + +CCXLIII. + + Oh Arma unicamente só triumphante, + Propugnaculo só de nossas vidas, + Por quem forão ganhadas as perdidas + Com que o Tartaro horrendo andava ovante! + Sigua-se esta bandeira militante + Por quem são taes victorias conseguidas, + Por quantas almas, della divertidas, + No Ponente errão cá, lá no Levante. + Oh Arvore sublime, e marchetada + De branco e carmesi, de ouro embutida, + Dos rubis mais preciosos esmaltada, + E de trophéos mais claros guarnecida! + Á vida a morte vimos em ti dada, + Para qu'em ti se désse á morte a vida. + + +CCXLIV. + + Aos homens hum só homem poz espanto, + E o poz a toda a humana natureza; + Que de homem teve o ser, de Anjo a pureza, + Porqu'antes que nascesse era ja Santo. + Propheta foi na Mãe; em fim, foi tanto, + Qu'entre os nascidos houve a mor alteza; + Que da Luz, sem a ver, vio a grandeza, + Tendo por trompa o Verbo Sacrosanto. + Aquella voz foi elle sonorosa, + No concavo dos Orbes resonante, + E que a Carne inculpavel baptizou; + Quem do mor Pae ouvio a voz amante; + Quem a subtil pergunta industriosa + Com sincera resposta socegou. + + +CCXLV. + + Vós só podeis, sagrado Evangelista, + Angelico abrazado Seraphim, + E na sciencia mais alto Cherubim, + Do que he mais sabio Amor ser Coronista. + Divina e real Aguia, cuja vista + Vio o qu'he sem princípio, o qu'he sem fim, + De Jacob mais querido Benjamim, + Quem mais campêa de Joseph na lista. + Apostolo, e Propheta, e Patriarca, + Ao Principe dos Ceos o mais acceito, + Qu'em seu seio dormindo então mais via. + A quem o mesmo Deos por irmão marca; + Quem por filho da Mãe unica feito, + Em corpo e alma goza o claro dia. + + +CCXLVI. + + Como louvarei eu, Seraphim santo, + Tanta humildade, tanta penitencia, + Castidade, e pobreza, e paciencia, + Com este meu inculto e rudo canto? + Argumento que ás Musas põe espanto, + Que faz muda a grandiloqua eloquencia. + Oh imagem, qu'a Divina Providencia + De si viva em vós fez para bem tanto! + Fostes de Santos huma rara mina; + Almas de mil a mil ao ceo mandastes + Do mundo, que perdido reformastes. + E não roubaveis só com a doutrina + As vontades mortaes, mas a Divina; + Pois os seus rubis cinco lhe roubastes. + + +CCXLVII. + + Ditosas almas, que ambas juntamente + Ao ceo de Venus e de Amor voastes, + Onde hum bem que tão breve cá lograstes, + Estais logrando agora eternamente; + Aquelle estado vosso tão contente, + Que só por durar pouco triste achastes, + Por outro mais contente ja o trocastes, + Onde sem sobresalto o bem se sente. + Triste de quem cá vive tão cercado, + Na amorosa fineza, de hum tormento + Que a gloria lhe perturba mais crescida! + Triste, pois me não val o soffrimento, + E Amor para mais damno me t[~e]e dado + Para tão duro mal tão larga vida! + + +CCXLVIII. + + Contente vivi ja, vendo-me isento + Deste mal de que a muitos queixar via: + Chamão-lhe amor; mas eu lhe chamaria + Discordia e semrazão, guerra e tormento. + Enganou-me co'o nome o pensamento: + (Quem com tal nome não se enganaria?) + Agora tal estou, que temo hum dia + Em que venha a faltar-me o soffrimento. + Com desesperação, e com desejo + Me paga o que por elle estou passando, + E inda está do meu mal mal satisfeito. + Pois sôbre tantos damnos inda vejo + Para dar-me outros mil hum olhar brando, + E para os não curar hum duro peito. + + +CCXLIX. + + Deixa Apollo o correr tão apressado, + Não sigas essa Nympha tão ufano: + Não te leva o amor, leva-te o engano + Com sombras de algum bem a mal dobrado. + E quando seja amor, será forçado; + E se forçado for, será teu dano. + Hum parecer não queiras mais que humano + Em hum sylvestre adôrno ver tornado. + Não percas por hum vão contentamento + A vista que te faz viver contente; + Modera em teu favor o pensamento. + Porque menos mal he, tendo-a presente, + Soffrer sua crueza, e teu tormento, + Que sentir sua ausencia eternamente. + + +CCL. + + Nas Cidades, nos bosques, nas florestas, + Nos valles, e nos montes, teus louvores + Sempre te cantem musicos pastores + Nas manhãas frias, nas ardentes sestas. + E neste Templo donde manifestas + E repartes agora teus favores, + Com Psalmos, hymnos, e com varias flores + Sejão celebres sempre as tuas festas. + Estes te offreção pés, ess'outros mãos; + D'aquelles pendão sôbre os teus altares + Monstros do mar, de servidão prisões. + Que eu cuidados, enganos e affeições, + Muito maiores monstros, e milhares + Te deixo aqui de pensamentos vãos. + + +CCLI. + + Vi queixosos de Amor mil namorados, + E nenhuns inda vi com seus louvores; + E aquelle que mais chora o mal de amores, + Vejo menos fugir de seus cuidados. + Se das dores de Amor sois mal tratados, + Porque tanto buscais de Amor as dores? + E se tambem as tendes por favores, + Porque dellas fallais como aggravados? + Não queirais alegria achar alg[~u]a + No Amor, porque he composto de tristeza, + Na fortuna que acheis mais agradavel. + Nella e nelle achei sempre a mesma l[~u]a, + Em quem nunca se vio outra firmeza, + Que não seja a de ser sempre mudavel. + + +CCLII. + + Se lagrimas choradas de verdade + O marmore abrandar podem mais duro, + Porque as minhas que nascem de amor puro + Hum coração não rendem a piedade? + Por vós perdi, Senhora, a liberdade, + E nem da propria vida estou seguro. + Rompei desse rigor o forte muro, + Não passe tanto avante a crueldade. + Ao prezar de desprezos dae ja fim: + Não vos chamem cruel; nome devido + A quem se ri de quem suspira e ama. + Abrandai esse peito endurecido, + Por o que toca a vós, ja não por mim, + Que eu aventuro a vida, e vós a fama. + + +CCLIII. + + Ja me fundei em vãos contentamentos, + Quando delles vivi todo enganado + De hum phantastico bem, e de hum cuidado, + De que só cuidão cegos pensamentos. + Passava dias, horas e momentos, + Deste enleio de amores tão pagado, + Que tinha só por bem-aventurado + Quem só por elles mais bebia os ventos. + Mas agora que ja cahi na conta, + Desengana-me quanto me enganava; + Que tudo o tempo dá, tudo descobre. + O Amor mais caudaloso menos monta. + Qu'he de gostos mais rico, eu ignorava, + Aquelle que de amores he mais pobre. + + +CCLIV. + + Em huma lapa toda tenebrosa, + Adonde bate o mar com furia brava, + Sôbre h[~u]a mão o rosto, vi qu'estava + Huma Nympha gentil, mas cuidadosa. + Igualmente que linda, lastimosa, + Aljofar dos seus olhos distillava: + O mar os seus furores applacava + Com ver cousa tão triste e tão formosa. + Alguma vez na horrivel penedia + Os bellos olhos punha com brandura, + Bastante a desfazer sua dureza. + Com angelica voz assi dizia: + Ah! que falte mais vezes a ventura + Onde sobeja mais a natureza! + + +CCLV. + + Se em mim, ó alma, vive mais lembrança + Que aquella só da gloria de querer-vos, + Eu perca todo o bem que lógro em ver-vos, + E de ver-vos tambem toda a esperança. + Veja-se em mi tão rustica esquivança, + Que possa indigno ser de conhecer-vos; + E, quando em mor empenho de aprazer-vos, + Vos offenda, se em mi houver mudança. + Confirmado estou ja nesta certeza: + Examine-me vossa crueldade, + Exprimente-se em mi vossa dureza. + Conhecei ja de mi tanta verdade; + Pois em penhor e fé desta pureza + Tributo vos fiz ser o que he vontade. + + +CCLVI. + + Ilustre Gracia, nombre de una moza, + Primera malhechora en este caso + Á Mondoñedo, á Palma, al cojo Traso, + Sugeto digno de immortal coroza; + Si en medio de la Iglesia no reboza + El manto á vuestro rostro tan devaso, + Por vos dirán las gentes recio y paso: + Veis quien con el demonio se retoza. + Puede mover los montes sin trabajo; + Con palabras el curso al agua enfrena; + Por las ondas hará camino enjuto. + Averguenza su patria y rico Tajo, + Que por ella hombres lleva, mas que arena, + De que paga al infierno gran tributo. + + +CCLVII. + + Qual t[~e]e a borboleta por costume, + Qu'enlevada na luz da acesa vella, + Dando vai voltas mil, até que nella + Se queima agora, agora se consume: + Tal eu correndo vou ao vivo lume + D'esses olhos gentis, Aonia bella; + E abrazo-me, por mais que com cautella + Livrar-me a parte racional presume. + Conheço o muito a que se atreve a vista, + O quanto se levanta o pensamento, + O como vou morrendo claramente; + Porém não quer Amor que lhe resista, + Nem a minh'alma o quer; qu'em tal tormento, + Qual em gloria maior está contente. + + +CCLVIII. + + Lembranças de meu bem, doces lembranças + Que tão vivas estais nesta alma minha, + Não queirais mais de mi, se os bens que tinha + Em poder vêdes todos de mudanças. + Ai cego Amor! ai mortas esperanças + De qu'eu em outro tempo me matinha! + Agora deixareis quem vos sostinha; + Acabarão co'a vida as confianças. + Co'a vida acabarão, pois a ventura + Me roubou n'hum momento aquella gloria, + Que, quando tão grande he, tão pouco dura. + Oh se apoz o prazer fôra a memoria! + Ao menos estivera a alma segura + De ganhar-se com ella mais victoria. + + +CCLIX. + + Formosos olhos, que cuidado dais + Á mesma luz do sol mais clara e pura; + Que sua esclarecida formosura, + Com tanta gloria vossa, atraz deixais; + Se por serdes tão bellos desprezais + A fineza de amor que vos procura, + Pois tanto vêdes, vêde que não dura + O vosso resplandor quanto cuidais. + Colhei, colhei do tempo fugitivo + E de vossa belleza o doce fruto; + Qu'em vão fóra de tempo he desejado. + E a mi, que por vós morro, e por vós vivo, + Fazei pagar a Amor o seu tributo, + Contente de por vós lho haver pagado. + + +CCLX. + + Pues siempre sin cesar, mais ojos tristes, + En lágrimas tratais la noche el dia, + Mirad si es lágrima esta que os envia + Aquel sol por quien vos tantas vertistes. + Si vos me asegurais, pues ya la vistes, + Que es lágrima, será ventura mia; + Por empleadas bien desde hoy tendria + Las muchas que por ella sola distes. + Mas cualquier cosa mucho deseada, + Aunque viendo se esté, nunca es creida; + Y menos esta, nunca imaginada. + Pero della aseguro, si es fingida, + Que basta ser por lágrima enviada, + Para que sea por lágrima tenida. + + +CCLXI. + + T[~e]e feito os olhos neste apartamento + Hum mar de saudosa tempestade, + Que póde dar saudade á saudade, + Sentimentos ao proprio sentimento. + Em dor vai convertido o soffrimento, + Em pena convertida a piedade; + A razão tão vencida da vontade, + Qu'escravo faz do mal o entendimento. + A lingua não alcança o qu'a alma sente. + E assi, se alguem quizer em algum'hora + Saber que cousa he dor não comprehendida, + Parta-se do seu bem, porque exprimente + Qu'antes de se partir, melhor lhe fôra + Partir-se do viver para ter vida. + + +CCLXII. + + A peregrinação d'hum pensamento, + Que dos males fez hábito e costume, + Tanto da triste vida me consume, + Quanto cresce na causa do tormento. + Leva a dor de vencida ao soffrimento; + Mas a alma está, de entregue, tão sem lume, + Qu'enlevada no bem que haver presume, + Não faz caso do mal qu'está de assento. + De longe receei (se me valêra) + O perigo que tanto á porta vejo, + Quando não acho em mi cousa segura. + Mas ja conheço, (oh nunca o conhecêra!) + Qu'entendimentos presos do desejo + Não t[~e]e remedio mais que o da ventura. + + +CCLXIII. + + Acho-me da fortuna salteado; + O tempo vai fugindo presuroso, + Deixando-me da vida duvidoso, + E cada instante mais desesperado. + Trocou-se o meu descuido em tal cuidado, + Que donde a gloria he mais, he mais penoso. + Nem vivo de perder-me receoso, + Nem de poder ganhar-me confiado. + Qualquer ave nos montes mais agrestes, + Qualquer fera na cova repousando, + T[~e]e horas de alegria: eu todas tristes. + Vós, saudosos olhos, que o quizestes, + (Pois com tormento Amor me está pagando) + Chorai, como que vêdes, o que vistes. + + +CCLXIV. + + Se no que tenho dito vos offendo, + Não he a intenção minha de offender-vos; + Qu'inda que não pretenda merecer-vos, + Não vos desmerecer sempre pretendo. + Mas he meu fado tal, segundo entendo, + Que, por quanto ganhava em entender-vos, + Não me deixa atégora conhecer-vos, + Por a mi proprio m'ir desconhecendo. + Os dias ajudados da ventura + A cada qual de si dão desenganos, + E a outros soe da-lo a desventura. + Qual destas sirva a mi, dirão os danos + Ou gostos que eu tiver, em quanto dura + Esta vida, tão larga em poucos anos. + + +CCLXV. + + Doce contentamento ja passado, + Em que todo o meu bem só consistia, + Quem vos levou de minha companhia, + E me deixou de vós tão apartado? + Quem cuidou que se visse neste estado + Naquellas breves horas d'alegria, + Quando minha ventura consentia + Que d'enganos vivesse meu cuidado? + Fortuna minha foi cruel e dura + Aquella que causou meu perdimento, + Com a qual ninguem póde ter cautella. + Nem se engane nenhuma creatura; + Que não póde nenhum impedimento + Fugir o que lh'ordena sua estrella. + + +CCLXVI. + + Sempre, cruel Senhora, receei, + Medindo vossa grã desconfiança, + Que désse em desamor vossa tardança, + E que me perdesse eu, pois vos amei. + Perca-se, em fim, ja tudo o qu'esperei, + Pois n'outro amor ja tendes esperança. + Tão patente será vossa mudança, + Quanto eu encobri sempre o que vos dei. + Dei-vos a alma, a vida e o sentido; + De tudo o qu'em mi ha vos fiz senhora. + Prometteis, e negais o mesmo Amor. + Agora tal estou, que de perdido, + Não sei por onde vou, mas algum'hora + Vos dará tal lembrança grande dor. + + +CCLXVII. + + Se a fortuna inquieta e mal olhada, + Que a justa lei do Ceo comsigo infama, + A vida quieta, qu'ella mais dasama, + Me concedêra honesta e repousada; + Pudéra ser que a Musa, alevantada + Com luz de mais ardente e viva flama, + Fizera ao Tejo lá na patria cama + Adormecer co'o som da lyra amada. + Porém, pois o destino trabalhoso, + Que m'escurece a Musa fraca e lassa, + Louvor de tanto preço não sustenta; + A vossa, de louvar-me pouco escassa, + Outro sogeito busque valeroso, + Tal qual em vós ao mundo se apresenta. + + +CCLXVIII. + + Este amor, que vos tenho limpo e puro, + De pensamento vil nunca tocado, + Em minha tenra idade começado, + Tê-lo dentro nesta alma só procuro. + D'haver nelle mudança estou seguro, + Sem temer nenhum caso, ou duro fado, + Nem o supremo bem, ou baixo estado, + Nem o tempo presente, nem futuro. + A bonina e a flor asinha passa; + Tudo por terra o inverno e estio deita; + Só para meu amor he sempre Maio. + Mas ver-vos para mim, Senhora, escassa, + E qu'essa ingratidão tudo me engeita, + Traz este meu amor sempre em desmaio. + + +CCLXIX. + + A formosura desta fresca serra, + E a sombra dos verdes castanheiros, + O manso caminhar destes ribeiros, + Donde toda a tristeza se desterra; + O rouco som do mar, a estranha terra, + O esconder do sol pelos outeiros, + O recolher dos gados derradeiros, + Das nuvens pelo ar a branda guerra: + Em fim, tudo o que a rara natureza + Com tanta variedade nos offrece, + M'está (se não te vejo) magoando. + Sem ti tudo me enoja, e me aborrece; + Sem ti perpetuamente estou passando + Nas mores alegrias môr tristeza. + + +CCLXX. + + Sustenta meu viver huma esperança + Derivada de hum bem tão desejado, + Que quando nella estou mais confiado, + Mor dúvida me põe qualquer mudança. + E quando inda este bem na mór pujança + De seus gostos me t[~e]e mais enlevado, + Me atormenta então ver eu qu'alcançado + Será por quem de vós não t[~e]e lembrança. + Assi que, nestas redes enlaçado, + A penas dou a vida, sustentando + Huma nova materia a meu cuidado. + Suspiros d'alma tristes arrancando, + Dos silvos d'huma pedra acompanhado, + Estou materias tristes lamentando. + + +CCLXXI. + + Ja não sinto, Senhora, os desenganos, + Com que minha affeição sempre tratastes, + Nem ver o galardão, que me negastes, + Merecido por fé ha tantos anos. + A mágoa chóro só, só chóro os danos + De ver por quem, Senhora, me trocastes; + Mas em tal caso vós só me vingastes + De vossa ingratidão, vossos enganos. + Dobrada gloria dá qualquer vingança, + Que o offendido toma do culpado, + Quando se satisfaz com causa justa; + Mas eu de vossos males e esquivança, + De que agora me vejo bem vingado, + Não a quizera tanto á vossa custa. + + +CCLXXII. + + Quando, Senhora, quiz Amor qu'amasse + Essa grã perfeição e gentileza, + Logo deo por sentença, que a crueza + Em vosso peito amor accrescentasse. + Determinou, que nada me apartasse, + Nem desfavor cruel, nem aspereza; + Mas qu'em minha rarissima firmeza + Vossa isenção cruel se executasse. + E, pois tendes aqui offerecida + Est'alma vossa a vosso sacrificio, + Acabai de fartar vossa vontade. + Não lhe alargueis, Senhora, mais a vida; + Acabará morrendo em seu officio, + Sua fé defendendo e lealdade. + + +CCLXXIII. + + Eu vivia de lagrimas isento, + N'hum engano tão doce e deleitoso, + Qu'em qu'outro amante fosse mais ditoso + Não valião mil glorias hum tormento. + Vendo-me possuir tal pensamento, + De nenhuma riqueza era invejoso; + Vivia bem, de nada receoso, + Com doce amor e doce sentimento. + Cobiçosa a Fortuna, me tirou + Deste meu tão contente e alegre estado; + E passou-se este bem, que nunca fôra: + Em trôco do qual bem só me deixou + Lembranças, que me mátão cada hora, + Trazendo-me á memoria o bem passado. + + +CCLXXIV. + + Indo o triste pastor todo embebido + Na sombra de seu doce pensamento, + Taes queixas espalhava ao leve vento, + Co'hum brando suspirar d'alma sahido: + A quem me queixarei, cego, perdido, + Pois nas pedras não acho sentimento? + Com quem fallo? A quem digo meu tormento? + Que onde mais chamo, sou menos ouvido. + Ó bella Nympha, porque não respondes? + Porque o olhar-me tanto m'encareces? + Porque queres que sempre me querelle? + Eu quanto mais te busco, mais te escondes! + Quanto mais mal me vês, mais te endureces! + Assim que co'o mal cresce a causa delle. + + +CCLXXV. + + Dizei, Senhora, da belleza idêa, + Para fazerdes esse aureo crino, + Onde fostes buscar esse ouro fino? + De qu'escondida mina ou de que vêa? + Dos vossos olhos essa luz Phebêa, + Esse respeito, de hum Imperio dino? + Se o alcançastes com saber divino, + Se com encantamentos de Medéa? + De qu'escondidas conchas escolhestes + As perlas preciosas Orientais, + Que fallando mostrais no doce riso? + Pois vos formastes tal, como quizestes, + Vigiai-vos de vós, não vos vejais, + Fugi das fontes; lembre-vos Narciso. + + +CCLXXVI. + + Na ribeira do Euphrates assentado, + Discorrendo me achei pela memoria + Aquelle breve bem, aquella gloria, + Que em ti, doce Sião, tinha passado. + Da causa de meus males perguntado + Me foi: Como não cantas a historia + De teu passado bem, e da victoria + Que sempre de teu mal has alcançado? + Não sabes, que a quem canta se lhe esquece + O mal, indaque grave e rigoroso? + Canta pois, e não chores dessa sorte. + Respondi com suspiros: Quando crece + A muita saudade, o piedoso + Remedio he não cantar, senão a morte. + + +CCLXXVII. + + Chorai, Nymphas, os fados poderosos + Daquella soberana formosura. + Onde forão parar? na sepultura? + Aquelles Reaes olhos graciosos? + Oh bens do mundo falsos e enganosos! + Que mágoas para ouvir! Que tal figura + Jaza sem resplandor na terra dura + Com tal rosto e cabellos tão formosos! + Das outras que será! pois poder teve + A morte sôbre cousa tanto bella, + Que ella eclipsava a luz do claro dia. + Mas o mundo não era digno della, + Por isso mais na terra não esteve, + Ao ceo subio, que ja se lhe devia. + + +CCLXXVIII. + + Senhora ja desta alma, perdoae + De hum vencido de Amor os desatinos, + E sejão vossos olhos tão beninos + Com este puro amor, que d'alma sae. + A minha pura fé sómente olhae, + E vêde meus extremos se são finos; + E se de alguma pena forem dinos, + Em mim, Senhora minha, vos vingae. + Não seja a dor que abraza o triste peito + Causa por onde pene o coração, + Que tanto em firme amor vos he sujeito. + Guardae-vos do que alguns, dama, dirão, + Que sendo raro em tudo vosso objeito, + Possa morar em vós ingratidão. + + +CCLXXIX. + + Doce sonho, suave e soberano, + Se por mais longo tempo me durára! + Ah quem de sonho tal nunca acordára, + Pois havia de ver tal desengano! + Ah deleitoso bem! ah doce engano! + Se por mais largo espaço me enganára! + Se então a vida misera acabára, + De alegria e prazer morrêra ufano. + Ditoso, não estando em mi, pois tive + Dormindo o que acordado ter quizera. + Olhae com que me paga meu destino! + Em fim, fóra de mim ditoso estive. + Em mentiras ter dita razão era, + Pois sempre nas verdades fui mofino. + + +CCLXXX. + + Diana prateada, esclarecida + Com a luz que do claro Phebo ardente, + Por ser de natureza transparente, + Em si, como em espelho, reluzia, + Cem mil milhões de graças lhe influia, + Quando me appareceo o excellente + Raio de vosso aspecto, diferente + Em graça e em amor do que sohia. + Eu vendo-me tão cheio de favores, + E tão propinquo a ser de todo vosso, + Louvei a hora clara, e a noite escura, + Pois nella déstes côr a meus amores: + Donde collijo claro que não posso + De dia para vós ja ter ventura. + + +CCLXXXI. + + Em quanto Phebo os montes accendia + Do ceo com luminosa claridade, + Por conservar illesa a castidade + Na caça o tempo Delia despendia. + Venus, qu' então de furto descendia + Por captivar de Anchises a vontade, + Vendo Diana em tanta honestidade, + Quasi zombando della, lhe dizia: + Tu vás com tuas redes na espessura + Os fugitivos cervos enredando; + Mas as minhas enredão o sentido. + Melhor he (respondia a deosa pura) + Nas redes leves cervos ir tomando, + Que tomar-te a ti nellas teu marido. + + +CCLXXXII. + + N'hum tão alto lugar, de tanto preço, + Este meu pensamento posto vejo, + Que desfallece nelle inda o desejo, + Vendo quanto par mi o desmereço. + Quando esta tal baixeza em mi conheço, + Acho que cuidar nelle he grão despejo, + E que morrer por elle me he sobejo + E mór bem para mi, do que mereço. + O mais que natural merecimento + De quem me causa hum mal tão duro e forte, + O faz que vá crescendo de hora em hora. + Mas eu não deixarei meu pensamento, + Porque inda qu'este mal me causa a morte, + _Un bel morir tutta la vita honora._ + + +CCLXXXIII. + + Quantas penas, Amor, quantos cuidados, + Quantas lagrimas tristes sem proveito, + De que mil vezes olhos, rosto e peito, + Por ti, cego, me viste ja banhados; + Quantos mortaes suspiros derramados + Do coração por tanto a ti sujeito, + Quantos males, em fim, tu me tens feito, + Todos forão em mi bem empregados. + A tudo satisfaz (confesso-te isto) + Huma só vista branda e amorosa + De quem me captivou minha ventura. + Oh sempre para mi hora ditosa! + Que posso temer ja, pois tenho visto, + Com tanto gôsto meu, tanta brandura? + + +CCLXXXIV. + + Posto me t[~e]e fortuna em tal estado, + E tanto a seus pés me t[~e]e rendido! + Não tenho que perder, ja de perdido, + Nem tenho que mudar, ja de mudado. + Todo bem para mi he acabado: + D'aqui dou o viver ja por vivido; + Que aonde o mal he tão conhecido, + Tambem o viver mais será'scusado. + Se me basta querer, a morte quero, + Que bem outra esperança não convem: + E curarei hum mal com outro mal. + E pois do bem tão pouco bem espero, + Ja que o mal este só remedio tem, + Não me culpem em qu'rer remedio tal. + + +CCLXXXV. + + Pues lágrimas tratais, mis ojos tristes, + Y en lágrimas pasais la noche y dia, + Mirad si es llanto este que os envia + Aquella por quien vos tantas vertistes: + Sentid, mis ojos, bien esta que vistes; + Y si ella lo es, oh gran ventura mia! + Por muy bien empleadas las habria + Mil cuentos que por esta sola distes. + Mas una cosa mucho deseada, + Aunque se vea cierta, no es creida, + Cuanto mas esta, que me es enviada. + Pero digo, que aunque sea fingida, + Que basta que por lágrima sea dada, + Porque sea por lágrima tenida. + + +CCLXXXVI. + + Que póde ja fazer minha ventura, + Que seja para meu contentamento? + Ou como fazer devo fundamento + De cousa que o não t[~e]e, nem he segura? + Que pena póde ser tão certa e dura, + Que possa ser maior que meu tormento? + Ou como receará meu pensamento + Os males, se com elles mais se apura? + Como quem se costuma de pequeno + Com peçonha criar por mão sciente, + Da qual o uso ja o t[~e]e seguro: + Assim de acostumado co'o veneno, + O uso de soffrer meu mal presente + Me faz não sentir ja nada o futuro. + + + + +ECLOGAS + + +ECLOGA I. + + +INTERLOCUTORES. + +UMBRANO, FRONDELIO, AONIA. + + Que grande variedade vão fazendo, + Frondelio amigo, as horas apressadas! + Como se vão as cousas convertendo + Em outras cousas várias e insperadas! + Hum dia a outro dia vai trazendo + Por suas mesmas horas ja ordenadas; + Mas quão conformes são na quantidade, + Tão differentes são na qualidade. + Eu vi ja deste campo as várias flores + Ás estrellas do ceo fazendo inveja; + Adornados andar vi os pastores + De quanto por o mundo se deseja; + E vi co'o campo competir nas côres + Os trajes, de obra tanta e tão sobeja, + Que se a rica materia não faltava, + A obra de mais rica sobejava. + E vi perder seu preço ás brancas rosas + E quasi escurecer-se o claro dia + Diante de h[~u]as mostras perigosas, + Que Venus mais que nunca engrandecia. + As pastoras, emfim, vi tão formosas, + Que o Amor de si mesmo se temia; + Mas mais temia o pensamento falto + De não ser para ter temor tão alto. + Agora tudo está tão differente, + Que move os corações a grande espanto; + E parece que Jupiter potente + Se enfada ja d'o mundo durar tanto. + O Tejo corre turvo e descontente, + As aves deixão seu suave canto, + E o gado, inda que a herva lhe fallece, + Mais que da falta della se emmagrece. + FRONDELIO. + Umbrano irmão, decreto he da natura, + Inviolavel, fixo e sempiterno, + Que a todo bem succeda desventura, + E não haja prazer que seja eterno: + Ao claro dia segue a noite escura, + Ao suave verão o duro inverno; + E se ha cousa que saiba ter firmeza, + He somente esta lei da natureza. + Toda alegria grande e sumptuosa + A porta abrindo vem ao triste estado: + Se hum'hora vejo alegre e deleitosa, + Temendo estou do mal apparelhado. + Não vês que mora a serpe venenosa + Entre as flores do fresco e verde prado? + Ah! não te engane algum contentamento; + Que mais instavel he que o pensamento. + E praza a Deos que o triste e duro fado + De tamanhos desastres se contente; + Que sempre hum grande mal inopinado + He mais do que o espera a incauta gente: + Que vejo este carvalho que queimado + Tão gravemente foi do raio ardente. + Não seja ora prodigio que declare + Que o barbaro cultor meus campos are. + UMBRANO. + Em quanto do seguro azambujeiro + Nos pastores de Luso houver cajados, + Como valor antiguo, que primeiro + Os fez no mundo tão assinalados, + Não temas tu, Frondelio companheiro, + Qu'em algum tempo sejão sobjugados, + Nem que a cerviz indomita obedeça + A outro jugo qualquer que se lhe offreça. + E postoque a soberba se levante + De inimigos a torto e a direito, + Não crêas tu que a fôrça repugnante + Do fero e nunca ja vencido peito, + Que desde quem possue o monte Atlante + Adonde bebe o Hydaspe t[~e]e sujeito, + O possa nunca ser de fôrça alheia, + Em quanto o sol a terra e o ceo rodeia. + FRONDELIO. + Umbrano, a temeraria segurança + Qu'em fôrça, ou em razão não se assegura, + He falsa e vãa; que a grande confiança + Não he sempre ajudada da ventura. + Que lá junto das aras da esperança, + Némesis moderada, justa e dura, + Hum freio lhe está pondo e lei terribil, + Que os limites não passe do possibil. + E se attentares bem os grandes danos + Que se nos vão mostrando cada dia, + Poras freio tambem a esses enganos + Que te está figurando a ousadia. + Tu não vês como os lobos Tingitanos, + Apartados de toda cobardia, + Mátão os cães do gado guardadores, + E não somente os cães, mas os pastores? + Pois o grande curral, seguro e forte, + Do alto monte Atlas não ouviste + Que com sanguinolenta e fera morte + Despovoado foi por caso triste? + Oh triste caso! oh desastrada sorte, + Contra quem fôrça humana não resiste! + Que alli tambem da vida foi privado + O meu Tionio, ainda em flor cortado! + UMBRANO. + Em lagrimas me banha rosto e peito + Desse caso terrivel a memoria, + Quando vejo quão sabio e quão perfeito, + E quão merecedor de longa historia + Era esse teu pastor, que sem direito + Deo ás Parcas a vida transitoria. + Mas não ha hi quem d'herva o gado farte, + Nem de juvenil sangue o fero Marte. + Porém, se te não for muito pezado, + (Ja qu'esta triste morte me lembraste) + Canta-me desse caso desastrado + Aquelles brandos versos que cantaste, + Quando hontem, recolhendo o manso gado, + De nós-outros pastores te apartaste; + Qu'eu tambem que as ovelhas recolhia, + Não te podia ouvir como queria. + FRONDELIO. + Como queres renove ao pensamento + Tamanho mal, tamanha desventura? + Porqu'espalhar suspiros vãos ao vento, + Para os que tristes são, he falsa cura. + Mas, pois te move tanto o sentimento + Da morte de Tionio, triste e escura, + Eu porei teu desejo em doce effeito, + Se a dor me não congela a voz no peito. + UMBRANO. + Canta agora, pastor, que o gado pace + Entre as humidas hervas socegado; + E lá nas altas serras, onde nace, + O sacro Tejo á sombra recostado, + Co'os seus olhos no chão, a mão na face, + Está para te ouvir apparelhado; + E com silencio triste estão as Nymphas + Dos olhos destillando claras lymphas. + O prado as flores brancas e vermelhas + Está suavemente presentando; + As doces e solícitas abelhas, + Com susurro agradavel vão voando; + As candidas, pacíficas ovelhas, + Das hervas esquecidas, inclinando + As cabeças estão ao som divino + Que faz, passando, o Tejo crystallino. + O vento d'entre as árvores respira, + Fazendo companhia ao claro rio; + Nas sombras a ave garrula suspira, + Sua mágoa espalhando ao vento frio. + Toca, Frondelio, toca a doce lira; + Que d'aquelle verde alamo sombrio + A branda Philomela entristecida + Ao mais saudoso canto te convida. + FRONDELIO. + Aquelle dia as águas não gostárão + As mimosas ovelhas; e os cordeiros + O campo enchêrão d'amorosos gritos. + E não se pendurárão dos salgueiros + As cabras, de tristeza; mas negárão + O pasto a si, e o leite a os cabritos. + Prodigios infinitos + Mostrava aquelle dia, + Quando a Parca queria + Princípio dar ao fero caso triste. + E tu tambem (ó corvo) o descobriste, + Quando da mão direita em voz escura, + Voando, repetiste + A tyrannica lei da morte dura. + Tionio meu, o Tejo crystallino, + E as árvores que ja desamparaste + Chórão o mal de tua ausencia eterna. + Não sei porque tão cedo nos deixaste! + Mas foi consentimento do Destino, + Por quem o mar e a terra se governa. + A noite sempiterna, + Que tu tão cedo viste + Cruel, acerba e triste, + Sequer de tua idade não te dera + Que lográras a fresca primavera? + Não usára comnosco tal crueza, + Que nem nos montes fera, + Nem pastor ha no campo sem tristeza. + Os Faunos, certa guarda dos pastores, + Ja não seguem as Nymphas na espessura, + Nem as Nymphas aos cervos dão trabalho. + Tudo, qual vês, he cheio de tristura: + Ás abelhas o campo nega as flores, + Como ás flores a aurora nega o orvalho. + Eu que cantando espalho + Tristezas todo o dia, + A frauta que soia + Mover as altas árvores tangendo, + Se me vai de tristeza enrouquecendo; + Que tudo vejo triste neste monte: + E tu tambem correndo + Manas envolta e triste, ó clara fonte. + As Tagides no rio, e na aspereza + Do monte as Oreádas, conhecendo + Quem te obrigou ao duro e fero Marte; + Como em geral sentença vão dizendo, + Que não póde no mundo haver tristeza + Em cuja causa amor não tenha parte. + Porqu'elle, enfim, dest'arte + Nos olhos saudosos, + Nos passos vagarosos, + E no rosto, que Amor com phantasia + Da pallida viola lhe tingia, + A todos de si dava sinal certo + Do fogo que trazia; + Que nunca soube amor ser encoberto. + Ja diante dos olhos lhe voavão + Imagens e phantasticas pinturas, + Exercicios do falso pensamento; + Ja por as solitarias espessuras + Entre os penedos sós, que não fallavão, + Fallava e descobria seu tormento. + Em longo esquecimento + De si, todo embebido, + Andava tão perdido, + Que quando algum pastor lhe perguntava + A causa da tristeza que mostrava, + Como quem para penas só vivia, + Sorrindo, lhe tornava: + Se não vivesse triste, morreria. + Mas como este tormento o sinalou, + E tanto no seu rosto se mostrasse, + Entendendo-o ja bem o pae sisudo, + Porque do pensamento lho tirasse, + Longe da causa delle o apartou; + Porque, emfim, longa ausencia acaba tudo. + Oh falso Marte rudo, + Das vidas cobiçoso! + Que donde o generoso + Peito resuscitava em tanta gloria + De seus Antecessores a memoria, + Alli, fero e cruel, lhe destruiste, + Por injusta victoria, + Primeiro que o cuidado, a vida triste. + Parece-me, Tionio, que te vejo, + Por tingires a lança cobiçoso + Naquelle infido sangue Mauritano, + No Hispanico ginete bellicoso, + Que ardendo tambem vinha no desejo + De atropellar por terra ao Tingitano. + Oh confiado engano! + Oh encurtada vida! + Que a virtude opprimida + Da multidão forçosa do inimigo + Não pôde defender-se do perigo: + Porqu'assi o Destino o permittio; + E assi levou comsigo + O mais gentil pastor que o Tejo vio. + Qual o mancebo Euryalo enredado + Entre o poder dos Rutulos, fartando + As íras da soberba e dura guerra; + Do cristallino rosto a côr mudando, + Cujo purpureo sangue, derramado + Por as alvas espaldas, tinge a serra; + Que como flor, que a terra + Lhe nega o mantimento, + Porque o tempo avarento + Tambem o largo humor lhe t[~e]e negado, + O collo inclina languido e cansado: + Tal te pinto, ó Tionio, dando o esprito + A quem to tinha dado; + Qu'este he somente eterno e infinito. + Da congelada boca a alma pura, + Co'o nome juntamente da inimiga + E excellente Marfida, derramava. + E tu, gentil Senhora, não te obriga + A pranto sempiterno a morte dura + De quem por ti somente a vida amava? + Por ti aos ecos dava + Accentos numerosos; + Por ti aos bellicosos + Exercicios se deo do fero Marte. + E tu ingrata o amor ja n'outra parte + Porás, como acontece ao fraco intento: + Que, emfim, emfim, dest'arte + Se muda o feminino pensamento. + Pastores deste valle ameno e frio, + Que de Tionio o caso desastrado + Quereis nas altas serras que se conte; + Hum tumulo, de flores adornado, + Lhe edificai ao longo deste rio, + Que a vela enfreie ao duro navegante: + E o lasso caminhante, + Vendo tamanha mágoa, + Arraze os olhos d'ágoa, + Lendo na pedra dura o verso escrito, + Que diga assi: _Memoria sou, que grito_ + _Para dar testimunho em toda parte + Do mais gentil Esprito + Que tirárão do mundo Amor e Marte_. + UMBRANO. + Qual o quieto somno aos cansados + Debaixo de algum'árvore sombria; + Ou qual aos sequiosos encalmados + O vento respirante e a fonte fria: + Taes me forão teus versos delicados, + Teu numeroso canto e melodia: + E ainda agora o tom suave e brando + Os ouvidos me fica adormentando. + Em quanto os peixes humidos tiverem + As areosas covas deste rio, + E correndo estas águas conhecerem + Do largo mar o antiguo senhorio; + E em quanto estas hervinhas pasto derem + Ás petulantes cabras, eu te fio + Que em virtude dos versos que cantaste + Sempre viva o pastor que tanto amaste. + Mas ja que pouco a pouco o sol nos falta, + E dos montes as sombras se accrescentão; + De flores mil o claro ceo se esmalta, + Que tão ledas aos olhos se presentão; + Levemos por o pé desta serra alta + Os gados, que ja agora se contentão + Do que comido t[~e]e, Frondelio amigo: + Anda; que até o outeiro irei comtigo. + FRONDELIO. + Antes por este valle, amigo Umbrano, + Se t'aprouver, levemos as ovelhas; + Porque, se eu por acêrto não me engano, + De lá me sôa hum eco nas orelhas: + O doce accento não parece humano. + E, se em contrário tu não m'aconselhas, + Eu quero descobrir que cousa seja; + Que o tom m'espanta, e a voz me faz inveja. + UMBRANO. + Comtigo vou, que quanto mais me chego, + Mais gentil me parece a voz que ouviste, + Peregrina, excellente; e não te nego + Que me faz cá no peito a alma triste. + Vês como t[~e]e os ventos em socêgo? + Nenhum rumor da serra lhe resiste: + Nenhum passaro vôa, mas parece + Que, do canto vencido, lhe obedece. + Porém, irmão, melhor me parecia + Que não fôssemos lá; que estorvaremos; + Mas sobidos nest'árvore sombria, + Todo o valle de aqui descobriremos. + Os çurrões e cajados, todavia, + Neste comprido tronco penduremos: + Para subir fica homem mais ligeiro. + Deixa-me tu, Frondelio, ir primeiro. + FRONDELIO. + Espera, assi, dar-te-hei de pé, se queres: + Subirás sem trabalho e sem ruido; + E despois que subido lá 'stiveres, + Dar-me-has a mão de cima; que he partido. + Mas primeiro me dize, se o puderes + Ver, donde nasce o canto nunca ouvido; + Quem lança o doce accento delicado. + Falla; que ja te vejo estar pasmado. + UMBRANO. + Cousas não costumadas na espessura, + Que nunca vi, Frondelio, vejo agora: + Formosas Nymphas vejo na verdura, + Cujo divino gesto o ceo namora. + Huma de desusada formosura, + Que das outras parece ser Senhora, + Sôbre hum triste sepulcro, não cessando, + Está perlas dos olhos destillando. + De todas estas altas semidêas, + Qu'em tôrno estão do corpo sepultado, + Humas, regando as humidas arêas, + De flores t[~e]e o tumulo adornado; + Outras, queimando lagrimas Sabêas, + Enchem o ar de cheiro sublimado; + Outras em ricos pannos, mais avante, + Envolvem brandamente hum novo infante. + Huma, que d'entre as outras se apartou, + Com gritos, que a montanha entristecêrão, + Diz, que despois que a morte a flor cortou + Que as estrellas somente merecêrão, + Este penhor charissimo ficou + Daquelle, a cujo imperio obedecêrão + Douro, Mondego, Tejo e Guadiana, + Até o remoto mar da Taprobana. + Diz mais, que se encontrar este menino + A noite intempestiva, amanhecendo, + O Tejo, agora claro e crystallino, + Tornará a fera Alecto em vulto horrendo. + Mas que, a ser conservado do Destino, + As benignas estrellas promettendo + Lh'estão o largo pasto de Ampelusa, + Co'o monte que em mao ponto vio Medusa. + Este prodigio grande Nympha bella + Com abundantes lagrimas recita. + Porém, qual a eclipsada clara estrella, + Qu'entre as outras o ceo primeiro habita: + Tal coberta de negro vejo aquella, + A quem só n'alma toca a grã desdita. + Dá cá, Frondelio, a mão; e sobe a ver + Tudo o mais qu'eu de dor não sei dizer. + FRONDELIO. + Oh triste morte, esquiva e mal olhada, + Que a tantas formosuras injurías! + Áquella deosa bella e delicada + Sequer algum respeito ter devias. + Esta he, por certo, Aonia filha amada + Daquelle grã Pastor, qu'em nossos dias + Danubio enfreia, manda o claro Ibero, + E espanta o morador do Euxino fero. + Morreo-nos o excellente e poderoso, + (Que a isto está sujeita a vida humana) + Doce Aonio, d'Aonia charo Esposo. + Ah lei dos fados, aspera e tyrana! + Mas o som peregrino e piedoso, + Com que a formosa Nympha a dor engana, + Escuta hum pouco. Nota e vê, Umbrano, + Quão bem que sôa o verso Castelhano. + AONIA. + Alma, y primero amor del alma mia, + Espíritu dichoso, en cuya vida + La mia estuvo en cuanto Dios queria! + Sombra gentil de su prision salida, + Que del mundo á la patria te volviste, + Donde fuiste engendrada y procedida! + Recibe allá este sacrificio triste, + Que te offrecen los ojos que te vieron; + Si la memoria dellos no perdiste. + Que, pues los altos Cielos permitieron, + Que no te acompañase en tal jornada, + Y para ornarse solo á ti quisieron; + Nunca permitirán, que acompañada + De mi no sea esta memoria tuya, + Que está de tus despojos adornada. + Ni dejará, por mas que el tiempo huya, + De estar en mí con sempiterno llanto, + Hasta que vida y alma se destruya. + Mas tú, gentil Espíritu, entretanto + Que otros campos y flores vas pisando, + Y otras zampoñas oyes, y otro canto; + Agora embevecido estés mirando + Allá en el Empireo aquella Idea, + Que el mundo enfrena y rige con su mando; + Agora te posuya Citherea + En el tercero asiento, ó porque amaste, + Ó porque nueva amante allá te sea; + Agora el sol te admire, si miraste + Como vá por los Signos, encendido, + Las tierras alumbrando que dejaste: + Si en ver estos milagros no has perdido + La memoria de mí, ó fué en tu mano + No pasar por las aguas del olvido; + Vuelve un poco los ojos á este llano, + Verás una, que á ti con triste lloro + Sobre este mármol sordo llama en vano. + Pero si entraren en los Signos de oro + Lágrimas y gemidos amorosos, + Que muevan el supremo y santo coro; + La lumbre de tus ojos tan hermosos + Yo la veré muy presto: y podré verte; + Que á pesar de los hados enojosos + Tambiem para los tristes hubo muerte. + + +ECLOGA II. + + +INTERLOCUTORES. + +ALMENO e AGRARIO. + + Ao longo do sereno + Tejo, suave e brando, + N'hum valle d'altas árvores sombrio + Estava o triste Almeno + Suspiros espalhando + Ao vento, e doces lagrimas ao rio. + No derradeiro fio + O tinha a esperança, + Que com doces enganos + Lhe sustentára a vida tantos anos + N'h[~u]a amorosa e branda confiança; + Que quem tanto queria, + Parece que não erra, se confia. + A noite escura dava + Repouso aos cansados + Animaes esquecidos da verdura; + O valle triste estava + Co'huns ramos carregados, + Qu'inda a noite fazião mais escura. + Offrecia a espessura + Hum temeroso espanto: + As roucas rãas soavão + N'hum charco de água negra e ajudavão + Do passaro nocturno o triste canto: + O Tejo com som grave + Corria mais medonho que suave. + Como toda a tristeza + No silencio consiste, + Parecia que o valle estava mudo. + E com esta graveza + Estava tudo triste, + Porém o triste Almeno mais que tudo: + Tomando por escudo + De sua doce pena, + Para poder soffrella, + Estar imaginando a causa della; + Qu'em tanto mal he cura bem pequena. + Maior o he o tormento, + Que toma por allívio hum pensamento. + Ao rio se queixava + Com lagrimas em fio, + Com que as ondas crescião outro tanto. + Seu doce canto dava + Tristes águas ao rio, + E o rio triste som ao doce canto. + Ao sonoroso pranto, + Que as águas enfreava, + Responde o valle umbroso. + De tanta voz o accento temeroso + Na outra parte do rio retumbava; + Quando, da phantasia + O silencio rompendo, assi dizia: + Corre suave e brando + Com tuas claras ágoas, + Sahidas de meus olhos, doce Tejo; + Fé de meus males dando, + Para que minhas mágoas + Sejão castigo igual de meu desejo: + Que, pois em mim não vejo + Remedio, nem o espero; + E a morte se despreza + De me matar, deixando-me á crueza + Daquella por quem meu tormento quero; + Saiba o mundo meu dano, + Porque se desengane em meu engano. + Ja que minha ventura, + Ou a causa qu'a ordena, + Quer qu'em pago da dor tome o soffrella; + Será mais certa cura + Para tamanha pena + Desesperar d'haver ja cura nella. + Porque se minha estrella + Causou tal esquivança, + Consinta meu cuidado + Que me farte de ser desesperado, + Para desenganar minha esperança: + Pois somente nasci + Para viver na morte, e ella em mi. + Não cesse meu tormento + De fazer seu officio, + Pois aqui t[~e]e hum'alma ao jugo atada: + Nem falte o soffrimento, + Porque parece vício + Para tão doce mal faltar-me nada. + Oh Nympha delicada, + Honra da natureza! + Como póde isto ser, + Que de tão peregrino parecer + Pudesse proceder tanta crueza? + Não vem de nenhum geito + De causa divinal contrário effeito. + Pois como pena tanta + He contra a causa della? + Fóra he do natural minha tristeza. + Mas a mi que m'espanta? + Não basta (ó Nympha bella) + Que podes perverter a natureza? + Não he a gentileza + De teu gesto celeste + Fóra do natural? + Não póde a natureza fazer tal: + Tu mesma (ó bella Nympha) te fizeste; + Porém, porque tomaste + Tão dura condição, se te formaste? + Por ti o alegre prado + Me he penoso e duro; + Abrolhos me parecem suas flores. + Por ti do manso gado, + Como de mi, não curo, + Por não fazer offensa a teus amores. + Os jogos dos pastores, + As lutas entr'a rama, + Nada me faz contente: + E sou ja do que fui tão differente, + Que quando por meu nome alguem me chama, + Pasmo, porque conheço + Qu'inda comigo proprio me pareço. + O gado, que apascento, + São n'alma os meus cuidados; + As flores, que no campo sempre vejo, + São no meu pensamento + Teus olhos debuxados, + Com qu'estou enganando o meu desejo. + Do frio e doce Tejo + As águas se tornárão + Ardentes e salgadas, + Despois que minhas lagrimas cansadas + Com seu puro licor se misturárão; + Como quando mistura + Hyppanis co'o Exampêo sua água pura. + Se ahi no mundo houvesse + Ouvires-me algum'hora, + Assentados na praia deste rio; + E d'arte te dissesse + O mal que passo agora, + Que pudesse mover-te o peito frio!.. + Oh quanto desvario, + Qu'estou imaginando! + Ja agora meu tormento + Não póde pedir mais ao pensamento, + Qu'este phantasiar, donde penando + A vida me reserva. + Querer mais de meu mal será soberba. + Ja a esmaltada Aurora + Descobre o negro manto + Da sombra, que as montanhas encobria. + Descansa, frauta, agora, + Pois meu escuro canto + Não merece que veja o claro dia. + Não canse a phantasia + D'estar em si pintando + O gesto delicado, + Em quanto traz ao pasto o manso gado + Esse pastor, que lá só vem fallando. + Callar-me-hei somente; + Que o meu mal nem ouvir se me consente. + AGRARIO. + Formosa manhãa clara e deleitosa, + Que, como fresca rosa na verdura, + Te mostras bella e pura, marchetando + As Nymphas, espalhando teus cabellos + Nos verdes montes bellos; tu só fazes, + Quando a sombra desfazes triste e escura, + Formosa a espesura e a clara fonte, + Formoso o alto monte e o rochedo, + Formoso o arvoredo e deleitoso, + E emfim tudo formoso co'o teu rosto + D'ouro e rosas composto e claridade; + Trazes a saudade ao pensamento, + Mostrando em hum momento o roxo dia, + Com a doce harmonia nos cantares + Dos passaros a pares, que voando + Seu pasto andão buscando nos raminhos, + Para os amados ninhos que mantém. + Oh grande e summo bem da natureza! + Estranha subtileza de pintora, + Que matiza em hum'hora de mil côres + O ceo, a terra, as flores, monte e prado! + Oh tempo ja passado! quão presente + Te vejo abertamente na vontade! + Quão grande saudade tenho agora + Do tempo que a pastora minha amava, + E de quanto prezava a minha dor! + Então tinha o amor maior poder, + Quando em hum só querer nos igualava; + Porque quando hum amava a quem queria, + Logo eco respondia d'affeição + No brando coração da doce imiga. + Nesta amorosa liga concertavão + Os tempos, que passavão com prazeres. + Mostrava a flava Ceres por as eiras + Das brancas sementeiras ledo fruto, + Pagando seu tributo aos Lavradores; + E enchia aos pastores todo o prado + Pales do manso gado guardadora. + Hião Zéphyro e Flora passeando, + Os campos esmaltando de boninas; + Nas fontes cristallinas triste estava + Narciso, qu'inda olhava n'água pura + Sua linda figura e delicada: + Mas Eco, namorada de tal gesto, + Com pranto manifesto, seu tormento + No derradeiro accento lamentava. + Alli tambem se achava o sangue tinto + Do purpureo Jacintho; e o destrôço + De Adonis bello moço; morte fêa + Da bella Cytherêa tão chorada; + Toda a terra esmaltada destas rosas. + Hião Nymphas formosas por os prados; + E os Faunos namorados apos ellas, + Mostrando-lhes capellas de mil côres, + Ordenadas das flores que colhião: + As Nymphas lhe fugião espantadas, + As faldas levantadas, por os montes. + Via-sea água das fontes espalhar-se; + Vertumno transformar-se alli se via; + Pomona, que trazia os doces fruitos; + Alli pastores muitos, que tangião + As gaitas que trazião, e cantando + Estavão enganando as suas penas, + Tomando das Sirenas o exercicio. + Ouvia-se Salicio lamentar-se; + Da mudança queixar-se crua e fêa + Da dura Galathêa tão formosa: + E da morte invejosa Nemoroso + Ao monte cavernoso se querella, + Que a sua Elisa bella em pouco espaço + Cortou inda em agraço. Ah dura sorte! + Oh immatura morte, que a ninguem + De quantos vida t[~e]e jamais perdoas! + Mas tu, tempo, que voas apressado, + Hum deleitoso estado quão asinha + Nesta vida mesquinha transfiguras + Em mil desaventuras, e a lembrança + Nos deixas por herança do que levas! + Assi que se nos cevas com prazeres, + He para nos comeres no melhor. + Cada vez em peor te vás mudando: + Quanto v[~e]es inventando, qu'hoje approvas, + Logo á manhãa reprovas com instancia. + Oh perversa inconstancia e tão profana + De toda cousa humana inferior, + A quem o cego error sempre anda annexo! + Mas eu de que me queixo? ou eu que digo? + Vive o tempo comigo? ou elle tem + Culpa no mal que vem da cega gente? + Por ventura elle sente, ou elle entende + Aquillo que defende o ser divino? + Elle usa de contino seu officio, + Que ja por exercicio lhe he devido: + Dá-nos fructo colhido na sazão + Do formoso verão; e no inverno, + Com seu humor eterno congelado, + Do vapor levantado co'a quentura + Do sol, a terra dura lhe dá alento, + Para que o mantimento produzindo, + Estê sempre cumprindo seu costume. + Assi que não consume de si nada, + Nem muda da passada vida hum dedo: + Antes sempre está quedo no devido, + Porqu'este he seu partido e sua usança; + E nelle esta mudança he mais firmeza. + Mas quem a Lei despreza, e pouco estima, + De quem de lá de cima está movendo + O ceo sublime e horrendo, o mundo puro, + Este muda o seguro e firme estado + Do tempo, não mudado de verdade. + Não foi naquella idade d'ouro claro + O firme tempo charo e excellente? + Vivia então a gente moderada; + Sem ser a terra arada dava pão; + Sem ser cavado o chão as fructas dava; + Nem águas desejava, nem quentura; + Suppria então natura o necessario. + Pois quem foi tão contrário a esta vida? + Saturno, que, perdida a luz serena, + Causou, qu'em dura pena, desterrado, + Fosse do ceo lançado, onde vivia; + Porque os filhos comia, que gerava. + Por isso se mudava o tempo igual + Em mais baixo metal: e assi descendo + Nos veio, emfim, trazendo a este estado. + Mas eu, desatinado, aonde vou? + Para onde me levou a phantasia? + Qu'estou gastando o dia em vãas palavras? + Quero ora minhas cabras ir levando + Ao Tejo claro e brando; porque achar + No mundo qu'emendar, não he d'agora: + Basta que a vida fóra delle tenho: + Com meu gado me avenho, e estou contente. + Porém, se me não mente a vista, eu vejo + Nesta praia do Tejo estar deitado + Almeno, que enlevado em pensamentos, + As horas e os momentos vai gastando: + Vou-me a elle chegando, só por ver + Se poderei fazer que o mal que sente, + Hum pouco se lhe ausente da memoria. + ALMENO. + Oh doce pensamento! oh doce gloria! + São estes por ventura os olhos bellos, + Que t[~e]e de meus sentidos a victoria? + São estas, Nympha, as tranças dos cabellos, + Que fazem de seu preço o ouro alheio, + Como a mi de mi mesmo só com vellos? + He esta a alva columna, o lindo esteio, + Sustentador das obras mais que humanas, + Qu'eu nestes braços tenho, e não o creio? + Ah falso pensamento, que me enganas! + Fazes-me pôr a boca onde não devo, + Com palavras de doudo, ou quasi insanas! + Como a alçar-te tão alto assi me atrevo? + Taes azas dou-tas eu, ou tu mas dás? + Levas-me tu a mi, ou eu te levo? + Não poderei eu ir onde tu vás? + Porém, pois ir não posso onde tu fores, + Quando fores, não tornes onde estás. + AGRARIO. + Oh que triste successo foi de amores, + O que a este pastor aconteceo, + Segundo ouvi contar a outros pastores! + Tanto emfim, por seu damno se perdeo, + Que o longo imaginar em seu tormento, + Em desatino Amor lh'o converteo. + Oh forçoso vigor do pensamento, + Que póde em outra cousa estar mudando + A fórma, a vida, o siso, o entendimento! + Está-se hum triste amante transformando + Na vontade daquella, que tanto ama, + De si a propria essencia transportando. + E nenhum'outra cousa mais desama, + Que a si, se vê qu'em si ha algum sentido, + Que deste fogo insano não se inflama. + Almeno, que aqui 'stá tão influido + No phantastico sonho, que o cuidado + Lhe traz sempre ante os olhos esculpido, + Está-se-lhe pintando, de enlevado, + Que t[~e]e ja da phantastica pastora + O peito diamantino mitigado. + Em este doce engano estava agora + Fallando como em sonho, mas achando + Ser vento o que sonhava, grita e chora. + Dest'arte andavão sonhos enganando + O pastor somnolento, que a Diana + Andava entre as ovelhas celebrando; + Dest'arte a nuvem falsa, em fórma humana, + O vão pae dos Centauros enganava: + (Que Amor quando contenta, sempre engana) + Como este, que comsigo só fallava, + Cuidando que fallava, de enleado, + Com quem lhe o pensamento figurava. + Não póde quem quer muito, ser culpado + Em nenhum êrro, quando vem a ser + Este amor em doudice transformado. + Amor não será amor, se não vier + Com doudices, deshonras, dissensões, + Pazes, guerras, prazer e desprazer; + Perigos, linguas más, murmurações + Ciumes, arruidos, competencias, + Temores, nojos, mortes, perdições. + Estas são verdadeiras penitencias + De quem põe o desejo onde não deve, + De quem engana alheias innocencias. + Mas isto t[~e]e o amor, que não se escreve + Senão donde he illicito e custoso; + E donde he mais o risco, mais se atreve. + Passava o tempo alegre e deleitoso + O Troiano pastor, em quanto andava + Sem ter alto desejo e perigoso. + Seus furiosos touros coroava, + E nos álamos altos escrevia + Teu nome (Enone) quando a ti só amava. + Os álamos crescião, e crescia + O amor qu'elle te tinha: sem perigo, + E sem temor, contente te servia. + Mas despois que deixou entrar comsigo + Illicito desejo e pensamento, + De sua quietação tão inimigo; + A toda a patria poz em detrimento + Com mortes de parentes e de irmãos, + Com crú incendio, e grande perdimento. + Nisto fenecem pensamentos vãos: + Tristes serviços mal galardoados, + Cuja glória se passa d'entre as mãos. + Lagrimas e suspiros arrancados + D'alma, todos se pagão com enganos: + E oxalá forão muitos enganados! + Andão com seu tormento tão ufanos, + Que gastão na doçura d'hum cuidado + Apos huma esperança muitos anos. + E talha tão perdido namorado, + Tão contente co'o pouco, que daria + Por hum só volver d'olhos todo o gado. + Em todo povoado e companhia, + Sendo ausentes de si, se vem presentes + Com quem lhes pinta sempre a phantasia. + Co'hum certo não sei que andão contentes, + E logo hum nada os torna, ao contrário, + De todo ser humano differentes. + Oh tyrannico Amor, oh caso vario, + Que obrigas a hum querer que sempre seja + De si contínuo e aspero adversario! + E qu'outr'hora nenhuma alegre esteja, + Senão quando do seu despôjo amado + Sua inimiga estar triumphando veja. + Quero fallar com este, qu'enredado + Nesta cegueira está sem nenhum tento. + Acorda ja, pastor, desacordado. + ALMENO. + Oh porque me tiraste hum pensamento, + Que agora estava aos olhos debuxando, + De quem aos meus foi doce mantimento? + AGRARIO. + Nesta imaginação estás gastando + O tempo e vida, Almeno? Perda grande! + Não vês quão mal os dias vás passando? + ALMENO. + Formosos olhos, ande a gente e ande; + Que nunca vos ireis dest'alma minha, + Por mais qu'o tempo corra, a morte o mande. + AGRARIO. + Quem poderá cuidar que tão asinha + Se perca o curso assi do siso humano, + Que corre por direita e justa linha? + Que sejas tão perdido por teu dano, + Almeno meu, não he por certo aviso; + He só doudice grande, grande engano. + ALMENO. + Ó Agrario meu, que vendo o doce riso, + E o rosto tão formoso, como esquivo, + O menos que perdi foi todo o siso. + E não entendo, desque sou captivo, + Outra cousa de mi, senão que mouro: + Nem isto entendo bem, pois inda vivo. + Á sombra deste umbroso e verde louro + Passo a vida, ora em lagrimas cansadas, + Ora em louvores dos cabellos d'ouro. + Se perguntares porque são choradas, + Ou porque tanta pena me consume, + Revolvendo memorias magoadas; + Desque perdi da vida o claro lume, + E perdi a esperança e causa della, + Não chóro por razão, mas por costume. + Jamais pude co'o fado ter cautella; + Nem houve nunca em mi contentamento, + Que não fosse trocado em dura estrella. + Que bem livre vivia e bem isento, + Sem qu'ao jugo me visse submettido + De nenhum amoroso pensamento! + Lembra-me, amigo Agrario, que o sentido + Tão fóra d'amor tinha, que me ria + De quem por elle via andar perdido. + De várias côres sempre me vestia; + De boninas a fronte coroava; + Nenhum pastor cantando me vencia. + A barba então nas faces me apontava; + Na luta, na carreira, em qualquer manha, + Sempre a palma entre todos alcançava. + Da minha idade tenra, em tudo estranha, + Vendo (como acontece) affeiçoadas + Muitas Nymphas do rio e da montanha; + Com palavras mimosas e forjadas, + De solta liberdade e livre peito, + As trazia contentes e enganadas. + Mas não querendo Amor, que deste geito + Dos corações andasse triumphando, + Em quem elle criou tão puro affeito; + Pouco a pouco me foi de mi levando + Dissimuladamente ás mãos de quem + Toda esta injuria agora está vingando. + AGRARIO. + Deste teu caso, Almeno, eu sei mui bem + O princípio e o fim; que Nemoroso + Contado tudo isso, e mais, me tem. + Mas (quero-to dizer) se este enganoso + Amor he tão usado a desconcertos, + Que nunca amando fez pastor ditoso; + Ja que nelle estes casos são tão certos, + Porqu'os estranhas tanto, que de mágoa + Te chorão valles, montes e desertos? + Vejo-te estar gastando em viva fragoa, + E juntamente em lagrimas; vencendo + A grã Sicilia em fogo, o Nilo em ágoa. + Vejo que as tuas cabras, não querendo + Gostar as verdes hervas, se emmagrecem, + As tetas aos cabritos encolhendo. + Os campos, que co'o tempo reverdecem, + Os olhos alegrando descontentes, + Em te vendo, parece, se entristecem. + De todos teus amigos e parentes, + Que lá da serra vem por consolar-te, + Sentindo na alma a pena, que tu sentes, + Se querem de teus males apartar-te, + Deixando a choça e gado vás fugindo, + Como cervo ferido, a outra parte. + Não vês que Amor, as vidas consumindo, + Vive só de vontades enlevadas + No falso parecer d'hum gesto lindo? + Nem as hervas das águas desejadas + Se fartão; nem de flores as abelhas; + Nem este Amor de lagrimas cansadas. + Quantas vezes, perdido entr'as ovelhas, + Chorou Phebo de Daphne as esquivanças, + Regando as flores brancas e vermelhas? + Quantas vezes as asperas mudanças + O namorado Gallo t[~e]e chorado + De quem o tinha envolto em esperanças? + Estava o triste amante recostado, + Chorando ao pé d'hum freixo o triste caso, + Que o falso Amor lhe tinha destinado. + Por elle o sacro Pindo e o grão Parnaso, + Na fonte de Aganippe destillando, + Se fazião de lagrimas hum vaso. + O intonso Apollo o vinha alli culpando, + A sobeja tristeza perigosa + Com asperas palavras reprovando. + Gallo, porqu'endoudeces? que a formosa + Nympha, que tanto amaste, descobrindo + Por falsa a fé, que dava, e mentirosa; + Por as Alpinas neves vai seguindo + Outro bem, outro amor, outro desejo; + Como inimiga, emfim, de ti fugindo. + Mas o misero amante, que o sobejo + Mal empregado amor lhe defendia + Ter de tamanha fé vergonha ou pejo; + Da falsífica Nympha não sentia + Senão que o frio do gelado Rheno + Os delicados pés lhe offenderia. + Ora se tu vês claro, amigo Almeno, + Que d'Amor os desastres são de sorte, + Que para matar basta o mais pequeno, + Porque não pões hum freio a mal tão forte, + Qu'em estado te põe, que sendo vivo, + Ja não se entende em ti vida nem morte? + ALMENO. + Agrario; se do gesto fugitivo, + Por caso de fortuna desastrado, + Algum'hora deixar de ser captivo; + Ou sendo para as Ursas degradado, + Adonde Boreas t[~e]e o Oceano + Co'os frios Hyperboreos congelado; + Ou donde o filho de Climene insano, + Mudando a côr das gentes totalmente, + As terras apartou do trato humano; + Ou se ja por qualquer outro accidente + Deixar este cuidado tão ditoso, + Por quem sou de ser triste tão contente; + Este rio, que passa deleitoso, + Tornando para traz, irá negando + Á natureza o curso pressuroso. + As cabras por o mar irão buscando + Seu pasto; e andar-se-hão por a espessura + Das hervas os delfins apascentando. + Ora se tu vês, n'alma quão segura + Deste amor tenho a fé, para qu'insistes + Nesse conselho e prática tão dura? + Se de tua porfia não desistes, + Vae repastar teu gado a outra parte; + Qu'he dura a companhia para os tristes. + Huma só cousa quero encomendarte, + Para repouso algum de meu engano, + Antes que o tempo, emfim, de mi te aparte: + Que s'esta fera, qu'anda em traje humano, + Por a montanha vires ir vagando, + De meu despôjo rica e de meu dano, + Comos vivos espritos inflammando + O ar, o monte e a serra, que comsigo + Continuamente leva namorando; + Se queres contentar-me, como amigo, + Passando, lhe dirás: Gentil pastora, + Não ha no mundo vício sem castigo. + Tornada em puro marmore não fôra + A fera Anaxarete, se amoroso + Mostrára o rosto angelico algum'hora. + Foi bem justo o castigo rigoroso: + Porém quem te ama (Nympha) não queria + Nódoa tão feia em gesto tão formoso. + AGRARIO. + Tudo farei, Almeno, e mais faria + Por algum dia ver-te descansado, + Se s'acabão trabalhos algum dia. + Mas bem vês como Phebo ja empinado + Me manda que da calma iniqua e crua, + Recolha em algum valle o manso gado. + Tu nessa phantasia falsa e nua, + Para engano maior de teu perigo, + Não queres companhia mais que a sua. + Vou-me d'aqui, e fique Deos comtigo; + E ficarás melhor acompanhado. + ALMENO. + Elle comtigo vá, como comigo + Me fica acompanhando o meu cuidado. + + +ECLOGA III. + + +INTERLOCUTORES. + +ALMENO e BELISA. + + Passado ja algum tempo que os amores + D'Almeno, por seu mal, erão passados, + Porque nunca Amor cumpre o que promette; + Entr'huns verdes ulmeiros apartado, + Regando por o campo as brancas flores, + Em lagrimas cansadas se derrete: + Quando a linda pastora, que compete + Co'o monte em aspereza, + Co'o prado em gentileza, + Por quem o pastor triste endoudecia, + Por a praia do Tejo discorria + A lavar a beatilha e o trançado: + O sol ja consentia + Que sahisse da sombra o manso gado. + Ja acordado daquelle pensamento + Que tão desacordado sempre o teve, + Vio por acêrto o bem, que incerto tinha. + E porque donde amor a mais se atreve, + Alli mais enfraquece o entendimento, + Não lhe soube dizer o que convinha. + Como homem que á aprazada briga vinha, + A quem de fóra engana + A confiança humana, + E despois, vendo o rosto a quem resiste, + Treme, e teme o perigo e não insiste; + Ja se arrepende, a audacia lhe fallece: + Dest'arte o pastor triste + Ousa, receia, esforça e enfraquece. + E tendo assi ja attonito o sentido, + Cometteo com furor desatinado, + E tirou da fraqueza coração. + Comettimento foi desesperado: + Qu'huma só salvação t[~e]e hum perdido, + Perder toda a esperança á salvação. + As mágoas, que passárão, se dirão: + Mas as qu'ella dizia, + Lembrando-lhe que via + As águas murmurar do Tejo amenas, + Remetto a vós, ó Tagides Camenas; + Qu'eu, de mágoa, não posso dizer tanto; + Porqu'em tamanhas penas + Me cansa a penna, e a dor m'impede o canto. + BELISA. + Que alegre campo e praia deleitosa! + Quão saudosa faz esta espessura + A formosura angelica e serena + Da tarde amena! Quão saudosamente + A sesta ardente abranda, suspirando, + De quando em quando o vento alegre e frio! + No fundo rio os mudos peixes sáltão; + Os ceos se esmaltão todos d'ouro e verde, + E Phebo perde a fôrça da quentura. + Por a espessura levão, passeando, + O gado brando ao som das çanfoninas, + Pizando as finas e formosas flores, + Os Guardadores, que cantando o gesto + Formoso e honesto das pastoras qu'amão, + Por o ar derramão mil suspiros vãos. + Hum louva as mãos, louva outro os raios bellos, + Outro os cabellos d'ouro, em som suave: + E a amorosa ave leva o contraponto. + Mas oh que conto e saudosa historia + Que na memoria aqui se m'offerece! + Se não m'esquece, ja deste lugar + Ouvi soar os valles algum dia, + E respondia o eco o nome em vão + N'hum coração, _Belisa_ retumbando. + Estou cuidando como o tempo passa, + E quão escaça he toda alegre vida; + E quão comprida, quando he triste e dura. + Nesta 'spessura longo tempo amei: + Se m'enganei com quem do peito amava, + Não me pezava de ser enganada. + Fui salteada, emfim, d'hum pensamento, + Que hum movimento tinha casto e são. + Conversação foi fonte dest'engano + Que, por meu dano, entrou com falsa côr. + Porque o amor na Nympha, que he segura, + Entra em figura de vontade honesta. + Mas que me presta agora dar desculpa? + Pois se houve culpa, foi do firme amor + Só, n'hum pastor, que nunca sol nem l[~u]a, + Ou serra alg[~u]a, desde o Ibero ao Indo, + Outro tão lindo vírão, tão manhoso. + Nest'amoroso estado, e fé que tinha + Nest'alma minha tão secretamente, + Vivi contente, amando e encobrindo. + Elle fingindo mentirosos danos, + Que são enganos que não custão nada; + Tendo alcançada ja no entendimento + A fé e intento meu só nelle pôsto; + (Que logo o rosto mostra os corações, + E as affeições co'os olhos se praticão + Que mais publicão muito, que palavras) + Com suas cabras sempre á parte vinha, + Ond'eu mantinha os olhos do desejo. + Tu, manso Tejo, e tu, florído prado, + Do mais passado, emfim, que aqui não digo, + Sereis, m'obrigo, testimunho certo; + Pois descoberto vos foi tudo e claro. + Oh tempo avaro! oh sorte nunca igual! + Quão grande mal quereis á humana gente! + Porque hum contente estado assi trocastes? + Vós me tirastes do meu peito isento + O pensamento honesto e repousado, + Ja dedicado ao côro de Diana; + Vós n'huma ufana vida me puzestes, + E alli quizestes que gozasse o dano + Do doce engano, que se chama amor, + Com cujo error passava o tempo ledo: + E vós tão cedo me tirais hum bem, + Que Amor ja tem impresso n'alma minha, + Despois qu'a tinha envolta em esperanças; + E com lembranças tristes me deixais? + Mal me pagais a fé que sempre tive. + Mas assi vive quem sem dita nace. + Mas ja a face alegre o sol esconde; + E não responde alguem a tantas mágoas, + Senão as ágoas, que dos olhos sahem. + As sombras cahem; vão-se as alimarias, + Fartas das várias hervas, seu caminho; + Buscão seu ninho os passaros sem dono: + Ja por o sono esquecem o comer. + Quero esquecer tambem tão doce historia, + Pois he memoria que traz mor cuidado. + Isto he passado; e se me deo paixão, + Os dias vão gastando o mal e o bem; + E não convém querer-me magoar + Do qu'emendar não posso ja com mágoas. + Nas claras ágoas deste rio brando, + Que vão regando o valle matizado, + Este trançado lavar quero emfim; + Que ja de mim m'esqueço co'a lembrança + Desta mudança, qu'esquecer não sei: + Bem qu'eu verei mudar a opinião, + Pois homens são: a quem o esquecimento + Depressa faz mudar o pensamento. + ALMENO. + Se a vista não m'engana a phantasia, + Como ja m'enganou mil vezes, quando + Minha ventura enganos me soffria; + Parece-me, que vejo estar lavando + Huma Nympha algum véo no claro Tejo, + Que se m'está Belisa figurando. + Não póde ser verdade isto que vejo; + Que facilmente aos olhos se figura + Aquillo que se pinta no desejo. + Oh acontecimento, qu'a ventura + Me dá para mor damno! Esta he, certo; + Que não he d'outrem tanta formosura. + Se poderei fallar-lhe de mais perto? + Mas fugir-me-ha. Não póde ser; qu'o rio + Para acolá não t[~e]e caminho aberto. + Oh temor grande! oh grande desvario, + Qu'a voz m'impede, e a lingua negligente + Assi m'está tornando, e o peito frio! + De quanto me sobeja, estando ausente, + Que para lhe fallar sempre imagino, + Tudo me falta quando estou presente. + Oh aspecto suave e peregrino! + Pois como? tão asinha assi s'esquece + Huma fé verdadeira, hum amor fino? + BELISA. + Oh altas semideas! pois padece + Em vosso rio a honra delicada + De quem tamanha fôrça não merece: + Ou seja por vós, Nymphas, preservada; + Ou em arvore alguma, ou pedra dura + Me deixai velozmente transformada. + ALMENO. + Ah Nympha! não te mudes a figura: + Nem vós, deosas, queirais qu'eu seja parte + De se mudar tão rara formosura. + Porqu'a quem falta a voz para fallar-te, + E a quem falta o despejo da ousadia, + Tambem faltarão mãos para tocar-te. + BELISA. + Que me queres, Almeno, ou que porfia + Foi a tua tão aspera comigo? + Minha vontade não to merecia. + Se com amor o fazes, eu te digo, + Qu'amor, que tanto mal me faz em tudo, + Não póde ser amor, mas inimigo. + Não es tu de saber tão falto e rudo, + Que tão sem siso amasses, como amaste. + ALMENO. + Onde viste tu, Nympha, amor sisudo? + Porque ja não te lembra que folgaste + Com meus tormentos tristes, e algum'hora + Com teus formosos olhos ja m'olhaste? + Como t'esquece ja (gentil pastora) + Que folgavas de ler nos freixos verdes + O que de ti 'screvia cada hora? + Porqu'a memoria tão á pressa perdes + Do amor que me mostravas, qu'eu não digo, + Se o vós, ó altos montes, não disserdes? + E como te não lembras do perigo, + A que só por m'ouvir t'aventuravas, + Buscando horas de sesta, horas d'abrigo? + Co'a maçãa da discordia me tiravas; + Qu'a Venus, qu'a ganhou por formosura, + Tu, como mais formosa, lha ganhavas. + E escondendo-te logo na'spessura, + Hias fugindo, como vergonhosa + Da namorada e doce travessura. + Não era esta a maçãa d'ouro formosa + Com qu'encoberta assi d'astucia tanta + Cydippe s'enganou por cubiçosa, + Nem a que o curso teve d'Atalanta; + Mas era aquella, com que Galathêa + O pastor captivou, como elle canta. + Se más tenções puzerão nodoa fêa + Em nosso firme amor, d'inveja pura, + Porque pagarei eu a culpa alhea? + Quem desta fé, quem dest'amor não cura, + Nunca teve sujeito o coração; + Queo firme amor com a alma eterna dura. + BELISA. + Mal conheces, Almeno, huma affeição; + Que s'eu desse amor tenho esquecimento, + Meus olhos magoados to dirão. + Mas teu sobejo e livre atrevimento, + E teu pouco segredo, descuidando, + Foi causa deste longo apartamento. + Vês as Nymphas do Tejo, que mudando + Me vão ja pouco a pouco, o claro gesto + N'outra mais dura fórma traspassando. + Hum só segredo meu te manifesto: + Que te quiz muito em quanto Deos queria; + Mas de pura affeição, d'amor honesto. + E pois de teus descuidos e ousadia + Nasceo tão dura e aspera mudança, + Fólgo; que muitas vezes to dizia. + Fica-te embora, e perde a confiança + De ver-me nunca mais, como ja viste: + Que assi se desengana huma esperança. + ALMENO. + Oh duro apartamento! oh vida triste! + Oh nunca acontecida desventura! + Pois como, Nympha? assi te despediste? + Assi s'ha d'ir tornando (ah sorte dura!) + Nesta sylvestre e aspera rudeza + Tão branda e excellente formosura? + Tua nunca entendida gentileza, + E teus membros assi se transformárão, + Negando-se-lhe a propria natureza? + Dest'arte os teus cabellos se tornárão + (Deixando ja seu preço ao ouro fino) + Em fôlhas, que a côr t[~e]e do que negárão? + S'este consentimento foi divino, + Consinta-me tambem que perca a vida, + Antes que a mais m'obrigue o desatino. + Pois se a fortuna sempre embravecida + Em meu tormento tanto se desmede, + Não viva mais hum'alma tão perdida. + E vós, feras do monte, pois vos pede + Minha pena o remedio derradeiro, + Fartae ja de meu sangue vossa sêde. + E vós, pastores rudos deste outeiro, + Porque a todos, emfim, se manifeste + Que cousa he amor puro e verdadeiro; + Á sombra deste funebre cypreste + Me fareis hum sepulcro sem arrêo + De boninas que o prado ameno veste. + As desusadas musicas de Orphêo + Aqui me cantareis; e desta sorte + Não haverei inveja ao mausolêo. + E porqu'a minha cinza se conforte, + Em vossos metros doces e suaves + As exequias direis de minha morte. + Alli responderão as altas aves, + Não módulas no canto nem lascivas, + Mas de dor ora roucas, ora graves. + Não correrão as águas fugitivas, + Alegres por aqui, mas saudosas, + Que pareça que vem dos olhos vivas. + Nascerão por as praias deleitosas + Os asperos abrolhos em lugar + Dos roxos lirios, das pudicas rosas. + Não trarão as ovelhas a pastar + De redor do sepulcro os guardadores; + Pois nada comerião de pezar. + Virão os Faunos, guarda dos pastores, + Se morri por amores, perguntando; + Responderão os ecos: _Por amores_. + Dos que por aqui forem caminhando, + Hum epitaphio triste se lerá, + Qu'esteja minha morte declarando. + E no tronco de huma árvore estara, + N'huma rude cortiça pendurado + Escripto co'huma fouce, e assi dirá: + _Almeno fui, pastor de manso gado, + Em quanto o consentio minha ventura, + De Nymphas e pastores celebrado. + Se algum dia, por caso, na 'spessura + Se perder o amor e a affeição, + Tirem a pedra desta sepultura, + E em figura de cinza os acharão._ + + +ECLOGA IV. + + +INTERLOCUTORES. + +FRONDOSO e DURIANO. + + Cantando por hum valle docemente + Descião dous pastores, quando Phebo + No reino Neptunino se escondia: + De idade cada qual era mancebo; + Mas velho no cuidado, e descontente + Do que lh'elle causava parecia. + O que cada hum dizia + Lamentando seu mal, seu duro fado, + Não sou eu tão ousado, + Que o pretenda cantar sem vossa ajuda: + Porque se a minha ruda + Frauta deste favor vosso for dina, + Posso escusar a fonte Caballina. + Em vós tenho Helicon, tenho Pegáso; + Em vós tenho Calliope e Thalia; + E as outras sete irmãas, co'o fero Marte; + Em vós deixou Minerva sua valia; + Em vós estão os sonhos do Parnaso; + Das Pierides em vós s'encerra a arte. + Com qualquer pouca parte, + Senhora, que me deis d'ajuda vossa + Podeis fazer qu'eu possa + Escurecer ao sol resplandecente: + Podeis fazer que a gente + Em mi do grão poder vosso s'espante; + E que vossos louvores sempre cante. + Podeis fazer que cresça d'hora em hora + O nome Lusitano, e faça inveja + A Esmirna, que d'Homero s'engrandece. + Podeis fazer tambem que o mundo veja + Soar na ruda frauta o que a sonora + Cithara Mantuana só merece. + Ja agora me parece, + Que podem começar os meus pastores + A cantar seus amores. + Porqu'inda que presentes não estejão + As qu'elles ver desejão, + Mudança de lugar, menos d'estado, + Não muda hum coração do seu cuidado. + Ja deixava dos montes a altura, + E nas salgadas ondas s'escondia + O sol, quando Frondoso e Duriano, + Ao longo d'hum ribeiro, que corria + Por a mais fresca parte da verdura + Claro, suave e manso, todo o ano, + Lamentando seu dano, + Vinhão ja recolhendo o manso gado. + Hum estava callado, + Em quanto hum pouco o outro se queixava; + Apos elle tornava + A dizer de seu mal o que sentia; + E em quanto este fallava, aquelle ouvia. + Vinhão-se assi queixando aos penedos, + Aos sylvestres montes e á aspereza, + Que quasi de seus males se doião. + Alli as pedras perdião a dureza; + Alli correntes rios estar quedos, + Promptos ás suas queixas, parecião. + Somente as que podião + Estes males curar, pois os causavão, + O ouvido lhes negavão, + Por perderem de todo a esperança: + Mas elles, que mudança + D'amor com tantos damnos não fazião, + Com ellas fallando inda, assi dizião: + FRONDOSO. + Isto he o que aquella verdadeira + Fé, com que t'amei sempre, merecia, + Sem nunca te deixar hum só momento? + Como (cruel Belisa) t'esquecia + Hum mal, cuja esperança derradeira + Em ti só tinha pôsto o seu assento? + Não vias meu tormento? + Não vias tu a fé, com que t'amava? + Porque não t'abrandava + Est'amor, que me tu tão mal pagaste? + Mas pois ja me deixaste + Co'a esperança de ti toda perdida, + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Se os males que por ti tenho soffrido + (Oh Silvana, em meus males tão constante!) + Quizesses que algum'hora te dissera; + Inda que, qual durissimo diamante, + Fôra o teu cruel peito endurecido, + Creio que a piedade te movêra. + Ja agora em branda cera + Os montes são tornados e os penedos; + E os rios, qu'estão quedos, + Sentírão meus suspiros, minhas queixas. + Tu só, cruel, me deixas, + Qu'es mais, que montes e penedos, dura, + E fugitiva mais qu'a fonte pura. + FRONDOSO. + Ond'está aquella falla, que sohia + Só com seu doce tom, que me chegava, + Avivar-me os espiritos cansados? + Onde está o olhar brando, que cegava + O sol resplandecente ao meio dia? + Ond'estão os cabellos delicados, + Que ao vento espalhados + Escurecião o ouro, a mi matavão; + E a quantos os olhavão, + Causavão tambem novos accidentes? + Porque, cruel, consentes + Qu'outro goze da gloria a mi devida? + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Nenhum bem vejo, que a meu mal espere, + Se não fosse esperar que morte dura + Me venha emfim a dar a saudade. + Vejo faltar-me a tua formosura; + A vontade me diz que desespere, + Contradiz-me a razão esta vontade. + Diz qu'em huma beldade, + Em quem mostrou o cabo a natureza, + Não ha tanta crueza, + Qu'hum tão constante amor desprezar queira, + E fé tão verdadeira; + Mas tu, que de razão jamais curaste, + Porqu'era dar-me a vida, ma tiraste. + FRONDOSO. + A quem, Belisa ingrata, t'entregaste? + A quem déste, cruel, a formosura, + Qu'a meu tormento só, só se devia? + Porqu'huma fé deixaste, firme e pura? + Porque tão sem respeito me trocaste + Por quem só nem olhar-te merecia? + O bem que t'eu queria, + E que não perderei se não por morte, + Não he de maior sorte, + Que quanto a cega gente estima e preza? + Só a tua crueza + Foi nisto contra mi endurecida. + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Levaste-me o meu bem n'hum só momento; + Levaste-me com elle juntamente + De cobrá-lo jamais a confiança: + Deixaste-me em lugar delle sómente + Huma contínua dor, hum grão tormento, + Hum mal, de que não póde haver mudança. + Tu, qu'eras a esperança + Dos males que, cruel, tu me causaste, + De todo te trocaste, + Com Amor conjurada em minha morte. + Porém se a minha sorte + Consente que por ti seja causada, + Morte não foi mais bem-aventurada. + FRONDOSO. + Não nasceste d'alguma pedra dura; + Não te gerou alguma Tigre Hyrcana; + Não te criaste, não, entre a rudeza, + A quem, cruel, sahiste deshumana? + No ceo formada foi tal formosura, + Onde a mesma brandura he natureza. + Pois, logo, essa dureza + Donde teve princípio, ou a tomaste? + Porque, dura, engeitaste + De hum verdadeiro amor, que tu bem vias, + A fé, que conhecias, + Por outra de ti nunca conhecida? + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Vai-se co'o seu pastor o manso gado, + Porque d'amor entende aquella parte, + Qu'a natureza irracional lh'ensina. + O rustico leão sem algum'arte, + Do natural instincto só ensinado, + Aonde sente amor, logo se inclina. + E tu, que de divina + Não tens menos queVenus e Cupido, + Porque sequer co'o ouvido + Hum amor verdadeiro não soccorres? + Ah! porque te não corres + De que o leão te vença em piedade, + Se não te vence Venus na beldade? + FRONDOSO. + A mi não me faltava o que se preza + Entre os celestes deoses, que formárão + A tua mais que humana formosura: + Em mi os voluntarios ceos faltárão; + Em mi se perverteo a natureza + D'huma cruel formosa creatura. + Mas, pois, Belisa dura, + Que do mais alto ceo a nós vieste, + E em teu peito celeste + Hum tal contrário pôde aposentar-se, + Não he contrário achar-se + Tamanha fé tão mal agradecida. + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Por ti a noite escura me contenta; + Por ti o claro dia m'aborrece; + Abrolhos me parecem frescas flores; + A doce Philomela m'entristece: + Todo contentamento m'atormenta + Com a contemplação de teus amores; + As festas dos pastores, + Que podem alegrar toda a tristeza. + Em mi tua crueza + Faz que o mal cada hora vá dobrando. + Oh cruel! até quando + Ha de durar em ti tal pensamento, + E a vida em mi, que soffre tal tormento? + FRONDOSO. + Fugiste d'hum amor tão conhecido, + Fugiste d'huma fé tão clara e firme; + E seguiste a quem nunca conheceste, + Não por fugir d'amor, mas por fugir-me; + Pois bem vês, quanto eu tinha merecido + Esse amor que tu a outro concedeste. + A mi não me fizeste + Alguma sem razão; que bem conheço + Que tanto não mereço: + Fizeste-a áquelle bem firme e sincero + Que sabes que te quero, + Em lhe tirar a gloria merecida. + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Cresce cad'hora em mi mais o cuidado, + E vejo qu'em ti cresce juntamente + Cad'hora mais de mi o esquecimento. + Oh Silvana cruel! porque consente + Esse peito formoso e delicado + Que s'esqueça hum tão aspero tormento? + Tal aborrecimento + Merece hum capital teu inimigo: + Não eu, que só comtigo + Estou contente, e nada mais desejo, + Se algum'hora te vejo. + Tu es hum só meu bem, huma só gloria, + Que nunca se m'aparta da memoria. + FRONDOSO. + Olhos, que vírão tua formosura; + Vida, que só de ver-te se sostinha; + Vontade, qu'em ti'stava transformada; + Alma, qu'ess'alma tua em si só tinha, + Tão unida comsigo, quanto a pura + Alma co'o debil corpo está liada; + E que agora apartada + Te vê de si com tal apartamento, + Qual será seu tormento? + Qual será aquelle mal que t[~e]e presente? + Maior he que o que sente + O triste corpo em última partida. + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Regendo em outro tempo o manso gado, + Tangendo a minha frauta nestes vales, + Passava a doce vida alegremente: + Não sentia o tormento destes males; + Menos sentia o mal deste cuidado; + Que tudo então em mi era contente. + Agora não somente + Desta vida suave m'apartaste. + Mas outra me deixaste, + Que ao duro mal que sinto ca no peito, + Me t[~e]e ja tão affeito, + Que sinto ja por gloria a minha pena, + Por natureza o mal, que me condena. + FRONDOSO. + Juntamente viver compridos anos, + Os fados te concedão, que quizerão + Ajuntar-te com tal contentamento. + Pois os bens para ti todos nascêrão, + Nascêrão para mi todos os danos, + Logra tu tua gloria, eu meu tormento. + Nenhum apartamento, + Belisa, me fara deixar d'amar-te; + Porqu'em nenhuma parte + Poderás nunca estar sem mi hum'hora. + Consente pois agora, + Qu'em pago desta fé tão conhecida, + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Veja-t'eu, crua, amar quem te desame, + Porque saibas que cousa he ser amada + De quem tanto aborreces e desprezas. + Veja-t'eu ser ainda desprezada + De quem tu mais desejas que te ame, + Porque sintas em ti tuas cruezas, + Sintas tuas durezas, + E quanto póde o seu cruel effeito + N'hum coração sujeito. + Porqu'em sentindo o mal, qu'eu sinto agora, + Espero qu'algum'hora + Faça o teu proprio mal de mi lembrar-te, + Ja que não pôde o meu nunca abrandar-te. + FRONDOSO. + Mil annos de tormento me parece + Cad'hora que sem ti, sem esperança + Vivo de poder mais tornar a ver-te. + A vida só me dá tua lembrança; + A vida sôbre tudo m'entristece; + A vida antes perdêra, que perder-te. + Mas eu se, por querer-te + Hum bem qu'em ti só t[~e]e seu firme assento, + Padeço tal tormento, + Qu'esperará de ti quem te desama, + Ou quem ao menos te ama + Com algum falso amor, ou fé fingida? + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Então, cruel, verás se te merece + Com tamanho desprêzo ser tratada + Hum'alma, que d'amar-te só se preza. + Mas como poderás ser desprezada, + Se o menos qu'em ti fóra se parece, + Póde abrandar dos montes a aspereza? + Porque se a natureza + Em ti o remate poz da formosura, + Qual será a pedra dura, + Qu'a teu valor resista brandamente? + Que fará a fraca gente, + Se ao humano parecer não se defende, + E a mesma Venus deosa ao teu se rende? + FRONDOSO. + E pois fé verdadeira, amor perfeito, + Tormento desigual e vida triste, + Junta com hum contino soffrimento, + E hum mal, em que o mal todo, emfim, consiste, + Não puderão mover teu duro peito + A mostrares sequer contentamento + De ver o meu tormento; + Antes tudo soberba desprezaste, + E a outrem t'entregaste + Por nada me ficar em qu'esperasse, + Senão quando acabasse + A vida, a pezar meu, ja tão comprida, + Perca, quem te perdeo, tambem a vida. + DURIANO. + Longo curso de tempo, e apartado + Lugar a hum coração, que vive entregue, + Não podem apartar de seu intento. + Porque foges, cruel, a quem te segue? + Não vês que teu fugir he escusado, + Pois sem mim não estás hum só momento? + Nenhum apartamento, + Inda que a alma do corpo se m'aparte, + Poderá ja ausentar-te + Dest'alma triste, que continuamente + Em si te t[~e]e presente. + Torna, cruel; não fujas a quem t'ama: + Vem a dar vida, ou morte a quem te chama. + A noite escura, triste e tenebrosa, + Que ja tinha estendido o negro manto, + D'escuridade a terra toda enchendo, + Fez pôr a estes pastores fim ao canto, + Que ao longo da ribeira deleitosa + Vinhão seu manso gado recolhendo. + Se aquillo, qu'eu pretendo + Deste trabalho haver, que he todo vosso, + Senhora, alcançar posso; + Não será muito haver tambem a gloria + E o louro da victoria, + Que Virgilio procura e haver pretende, + Pois o mesmo Virgilio a vós se rende. + + +ECLOGA V. + +_Falla hum só pastor._ + + A quem darei queixumes namorados + Do meu pastor queixoso e namorado? + A branda voz, suspiros magoados, + A causa porque n'alma he magoado? + De quem serão seus males consolados? + Quem lhe fara devido gasalhado? + Só vós, Senhor famoso e excellente, + Especial em graças entr'a gente. + Por partes mil lançando a phantasia, + Busquei na terra estrella, que guiasse + Meu rudo verso; em cuja companhia + A santa piedade sempre andasse + Luzente e clara, como a luz do dia, + Que o rudo engenho meu m'allumiasse; + E em vossas perfeições, grão Senhor, vejo + Ainda além cumprido o meu desejo. + A vós se dem, a quem junto se ha dado + Brandura, mansidão, engenho e arte, + D'hum esprito divino acompanhado, + Dos sobrehumanos hum em toda parte: + Em vós as graças todas se hão juntado; + De vós em outras partes se reparte. + Sois claro raio, sois ardente chama; + Gloria e louvor do tempo, azas da fama. + Em quanto eu apparelho hum novo esprito, + E voz de cysne tal, que o mundo espante, + Com que de vós, Senhor, em alto grito + Louvores mil em toda parte cante; + Ouvi o canto agreste em tronco escrito, + Entre vaccas e gado petulante: + Que quando tempo for, em melhor modo + Ha de m'ouvir por vós o mundo todo. + As vãas querellas, brandas e amorosas, + Sejão de vós tratadas brandamente; + Verdades d'alma pouco venturosas, + Sahidas com suspiro vivo e ardente: + Em vossas mãos s'entregão valerosas, + Porqu'ao futuro vivão entr'a gente, + Chorando sempre a antigua crueldade, + Para mover as almas a piedade. + Ja declinava o sol contra o Oriente, + E o mais do dia ja era passado, + Quando o pastor co'o grave mal que sente, + Por dar allívio em parte a seu cuidado, + Se queixa da pastora docemente, + Cuidando de ninguem ser escutado. + Eu que o escutei, n'huma árvore escrevia + As mágoas que cantou; e assi dizia: + Ou tu do monte Pindaso es nascida, + Ou marmor te pario formosa e dura: + Não póde ser que fosse concebida + Dureza tal de humana creatura: + Ou quiçá qu'es em pedra convertida, + Ou tens da natureza tal ventura; + Porém não fez em ti boa impressão, + Só de marmor tornar-te o coração. + Ja, ja com minha voz rouca e chorosa + A gente mais austera moveria; + E com esta corrente lagrimosa + Os tigres em Hyrcania amansaria. + Se não fosses cruel, quanto formosa, + Meu longo suspirar t'abrandaria: + Mas suspirar por ti, mas bem querer-te, + Que fazem senão mais endurecer-te? + Se deixáras vencer a crueldade + De tua tão perfeita formosura; + Hum pouco víras bem minha vontade, + E víras a fé minha, limpa e pura, + Por ventura, que houveras ja piedade, + E tivera eu quiçá melhor ventura: + Mas nunca achou igual tua belleza, + Se não se foi em ti tua dureza. + Ja hum peito abrandára, que não sente, + Este meu grave mal, segundo he forte; + Se descêra do inferno ao Polo ardente, + A piedade movêra a propria morte. + Pois se huma gotta d'agua brandamente + Torna brando hum penedo, duro e forte, + Tantas lagrimas minhas não farão + Hum pequeno sinal n'hum coração? + Na testa fonte viva tenho d'ágoa, + Que por meus olhos tristes se derrama; + E no peito de fogo viva fragoa, + Que tudo em si converte, tudo inflama: + Amor em de redor, por maior mágoa, + Voando mais accende a ardente chama. + Se queres ver se ardentes são seus tiros, + Ólha se são ardentes meus suspiros. + Quando grita e rumor grande se sente, + Porque fogo se ateia em casa, ou torre, + De pura compaixão vai toda a gente, + Ágoa ao fogo gritando; e cada hum corre. + Dest'arte anda o meu peito em chamma ardente, + E com a ágoa dos olhos se soccorre; + Que quem me abraza, outra ágoa me defende, + Porque com esta o fogo mais se accende. + Quando vemos que sahe lá no Oriente + O sol, seu curso antigo começando, + Formoso, intenso, puro, refulgente, + O monte, o campo, o mar, tudo alegrando; + Quando de nós s'esconde no Ponente, + E em outras terras sahe, allumiando, + Sempre, em quanto vai dando ao mundo giro, + Chórão por ti meus olhos, e eu suspiro. + Caminha o dia todo o caminhante, + E, emfim, lhe chega a noite, em que descança; + Trabalha na tormenta o navegante, + Traz-lhe a clara manhãa feliz bonança; + Recobra o fructo fertil e abundante + Da terra o lavrador, se nella cança: + Mas eu de meu cuidado e mal tão forte + Tormento espero só, só crua morte. + D'ouvir meu damno as rosas matutinas, + Condoidas se cerrão, s'emmurchecem; + Com meu suspiro ardente as côres finas + Perdem o cravo, o lyrio, e não florecem. + Co'a roxa aurora as pallidas boninas, + Em vez de se alegrarem, s'entristecem: + Deixão seu canto Progne e Philomena; + Que mais lhes doe, que a sua, a minha pena. + Responde o monte concavo a meus ais, + E tu como aspid, cerras-lhe o ouvido; + Os indomitos feros animais, + Sem humano sentir, mostrão sentido: + Mas em ti minhas dores desiguais + Nunca movem o peito endurecido: + Por muito que te chame, não respondes; + E quanto mais te busco, mais t'escondes. + Naquella parte donde costumavas + Apascentar meus olhos e teu gado; + Alli donde mil vezes me mostravas, + Qu'era o pastor de ti mais desejado, + Vezes mil te busquei, por ver se davas + Algum breve descanso a meu cuidado. + Busco-te em vão no valle, em vão no monte, + Qual o ferido cervo busca a fonte. + Este lugar de ti desamparado, + Com cujas sombras frias ja folgaste, + Agora triste, escuro he ja tornado; + Que todo o bem comtigo nos levaste. + Eras tu nosso sol mais desejado; + Não temos luz, despois que nos deixaste. + Torna, meu claro sol; torna, meu bem: + Qual he o Josué que te detém? + Despois que deste valle t'apartaste, + Não pasce ja algum gado, com seccura; + Seccou-se o campo, des que lhe negaste + Dos teus formosos olhos a luz pura; + Seccou-se a fonte, donde ja te olhaste, + Quando menos, que agora, aspera e dura; + Nega sem ti a terra, ouvindo gritos, + Ás cabras pasto e leite a os cabritos. + Sem ti, doce cruel minha inimiga, + A clara luz, escura me parece: + Este ribeiro, quando a dor m'obriga, + Com meu chorar por ti contino crece. + Não ha fera, a que a fome não persiga; + Algum prado sem ti ja não florece: + Cegos estão meus olhos; nada vem, + Porque não podem ver seu claro bem. + O campo, como d'antes, não s'esmalta + De boninas azues, brancas, vermelhas; + Falta ágoa ao pasto, e sentem d'ágoa a falta + As candidas pacíficas ovelhas: + Bem conhecem tambem que o ceo lhes falta + As doces e solícitas abelhas: + Com lagrimas, que manão dos meus olhos, + A terra nos produz duros abrolhos. + Torna pois ja, pastora, ao nosso prado, + Se restituir-lhe queres a alegria: + Alegrarás o valle, o campo, o gado, + E aquelle espelho teu da fonte fria. + Torna, torna, meu sol tão desejado, + Faras a noite escura, claro dia; + E alegra ja esta vida magoada, + Em que só tua ausencia he Parca irada. + Vem, como quando o raio transparente + Deste nosso horizonte, qu'escondido, + Deixa hum certo temor á mortal gente, + Causado de ver o Orbe escurecido; + E quando torna a vir claro e luzente, + Alegra o mundo todo entristecido: + Que assi he para mi tua luz pura + Claro sol, como a ausencia noite escura. + Mas tu 'squecida ja do bem passado, + E do primeiro amor, que me mostraste, + Teu coração de mi t[~e]es apartado, + Não menos que do valle t'apartaste. + Não te quero eu a ti mais qu'a meu gado? + Não sou eu mesmo aquelle que tu amaste? + Onde o meu êrro viste, ou desvario, + Que pôde merecer-te hum tal desvio? + Bem vês que por Amor se move tudo, + E que delle não ha quem seja isento; + O mais simple animal, mais baixo e rudo, + O demais levantado pensamento: + Debaixo d'ágoa fria o peixe mudo + Tambem lá t[~e]e d'ardor seu movimento. + Pois as aves, que no ar cantando vôão, + Não menos humas d'outras s'affeiçôão. + A musica do leve passarinho + Que sem concêrto algum sólta e derrama, + De hum raminho saltando a outro raminho, + Mostra que por amor suspira e chama. + Em quanto no secreto amado ninho + Não acha aquelle, que só busca e ama, + No canto, a nós alegre, triste chora, + Porque teme perder a quem namora. + A fera, que he mais fera, e o leão, + Sempre acha outro leão, sempre outra fera, + Em quem possa empregar huma affeição, + Que o conversar no peito seu lhe gera: + Tambem sabe sentir sua paixão, + Tambem suspira, morre, desespera; + Acena, salta, brada, ferve e geme; + E não temendo a nada, a Amor só teme. + O cervo, qu'escondido e emboscado, + Temendo ao cobiçoso caçador, + Está na selva, monte, bosque, ou prado, + Alli donde anda e vive, vive amor. + De temor e d'amor acompanhado, + Com justa causa amor t[~e]e e temor: + Temor a quem para feri-lo vinha, + Amor a quem ja, ja ferido o tinha. + Pois se a fera insensivel, que não sente, + Tambem sente d'Amor a frecha dura, + Porqu'a ti não t'abranda hum fogo ardente, + Que procede da tua formosura? + Porqu'escondes a luz do sol á gente, + Que nesses olhos trazes bella e pura? + Mais pura, mais suave, mais formosa, + Que, lyrio, que jasmim, que cravo e rosa. + Póde ser, se me visses, que sentiras + Ver liquidar hum peito em triste pranto; + E bem pouco fizeras, se me viras, + Pois eu só por te ver suspiro tanto: + As mágoas, os suspiros, que m'ouviras + Te puderão mover a grande espanto, + A dor, a piedade, a sentimento, + E a mais, que para mais he meu tormento. + Os pensamentos vãos, que o vento leve: + O suspirar em vão tambem ao vento; + Hum esperar á calma, á chuva, á neve, + E nunca poder ver-te hum só momento; + Tormento he, que somente a ti se deve. + E se póde inda haver maior tormento, + Quem te vio, e se vê de ti ausente, + Muito mais passará mais levemente. + Faz mossa a pedra dura em sua dureza + Com a ágoa que lhe toca brandamente; + Abranda o ferro forte a fortaleza, + Se lhe toca tambem o fogo ardente: + Em ti só desconheço a natureza; + Que, a ser de pedra ou ferro totalmente, + Ja teu peito cruel fôra desfeito + Das ágoas e das chammas do meu peito. + Quando a formosa Aurora mostra a fronte, + Alegra toda a terra, vendo o dia; + Quando Phebo apparece no horizonte, + Manifesta tambem grande alegria; + Contente pasce o gado ao pé do monte, + Contente a beber vai na fonte fria: + Está tudo contente, alegre tudo; + Eu só, só pensativo, triste e mudo. + Se ja d'alma e do corpo tens a palma, + E do corpo sem alma não tens dó, + Ha dó do corpo só, qu'está sem alma, + Pois sem alma não vive o corpo só. + Nas chammas e no ardor, no fogo e calma, + Na affeição, no querer eu sou hum só: + Não acharás vontade tão captiva; + Nem outra como a tua tão esquiva. + Se te apartas por não ouvir meu rôgo, + Onde estiveres te hei d'importunar: + Postoque vás por ágoa, ferro, ou fogo, + Comtigo em toda parte m'has d'achar; + Que o fogo em que ardo, e a ágoa em que m'affogo, + Emquanto eu vivo for, hão de durar; + Pois o nó, que m'enlaça, he de tal sorte, + Que não se ha de soltar em vida, ou morte. + Neste meu coração sempr'estaras, + Emquanto a alma estiver com elle unida: + Tambem o meu esprito possuirás + Despois que a alma do corpo for partida. + Por mais e mais que faças, não faras + Que deixe o amar-te nesta e ess'outra vida: + Impossivel sera qu'eternamente + Ausente estês de mim, estando ausente. + Cá m'acompanhará vossa memoria, + Se o rio, que se diz do esquecimento, + Da minha não borrar tão longa historia, + Tão grave mal, tão duro apartamento. + Até quando vos veja entrar na gloria, + Viverei n'hum contino sentimento: + E ainda então vereis (s'isto ser possa) + Esta minh'alma lá servir a vossa. + Aqui com grave dor, com triste accento, + Deo o triste pastor fim a seu canto: + Co'o rosto baixo e alto o pensamento, + Seus olhos começárão novo pranto: + Mil vezes parar fez no ar o vento, + E apiedou no ceo o coro santo: + As circumstantes sylvas s'inclinárão, + Condoidas das mágoas qu'escutárão. + Com h[~u]a mão na face, reclinado, + Tão enlevado em sua dor estava, + Que, como em grave somno sepultado, + Não via que ja o sol no mar entrava. + Berrando andava em roda o manso gado, + Que o seguro curral ja desejava: + Nas covas as raposas, e em seus ninhos + Se recolhem os simples passarinhos. + Ja sôbre hum sêcco ramo estava pôsto + O mocho com funesto e triste canto: + Ao som delle o pastor ergueo o rosto, + E vio a terra envolta em negro manto. + Quebrando então o fio de seu gôsto, + E o fio não quebrando de seu pranto, + Por não se descuidar de seu cuidado, + Levou para os curraes o manso gado. + + +ECLOGA VI + + +INTERLOCUTORES + +AGRARIO, Pastor. ALICUTO, Pescador. + + A rustica contenda desusada + Entr'as Musas dos bosques, das areias, + De seus rudos cultores modulada; + A cujo som attonitas e alheias + Do monte as brancas vaccas estiverão, + E do rio as saxatiles lampreias; + Desejo de cantar. Que se movêrão + Os troncos ás avenas dos pastores, + E ja sylvestres brutos suspendêrão. + Não menos o cantar dos pescadores + As ondas amansou do fundo pégo, + E fez ouvir os mudos nadadores. + E se por sustentar-se o moço cego + Nos trabalhos agrestes a alma inflama, + O que he mais proprio no ocio e no socêgo; + Mais maravilhas dando á voz da fama, + No mesmo mar undoso e vento frio + Brazas roxas accende a roxa flama. + Vós, ó ramo d'hum Tronco alto e sombrio, + Cuja frondente coma ja cobrio + De Luso todo o gado e senhorio; + E cujo são madeiro ja sahio + A lançar a forçosa e larga rede + No mais remoto mar que o mundo vio; + E vós, cujo valor tão alto excede, + Que, a cantá-lo com voz alta e divina, + A fonte do Parnaso move a sêde; + Ouvi da minha humilde çanfonina + A harmonia, que vós ja levantais + Tanto, que de vós mesmo a fazeis dina. + Mas se agora que affabil m'escutais, + Não ouvirdes cantar com alta tuba + O que vos deve o mundo, que dourais; + E se os Reis avós vossos, que de Juba + Os Reinos debellárão, não ouvis + Que nas azas do excelso verso suba; + Se não sabem as frautas pastoris + Pintar de Toro os campos semeados + D'armas e corpos fortes e gentis; + Por hum Moço animoso sustentados, + Contra o indomito Rei de toda Hespanha, + Contra a fortuna vãa e injustos fados: + Hum Moço, cujo esfôrço, brio e manha, + Do Olympo fez descer o duro Marte, + E dar-lhe a quinta esphera, que acompanha; + Se não sabem cantar a menor parte + Do sapiente peito e grão conselho, + Que pôde, ó Reino illustre, descansar-te; + Peito, que ao douto Apollo faz, vermelho, + Deixar o sacro Monte e as nove Irmãas, + Porque a elle se affeitem como a espelho; + Saberão bem cantar, em nada vãas, + D'Alicuto as contendas e d'Agrario; + Hum d'escamas coberto, outro de lãas. + Vereis, Duque sereno, o estylo vário, + A nós novo, mas n'outro mar cantado + De hum, que só foi das Musas secretario: + O pescador Sincero, que amansado + T[~e]e o pégo de Prochyta co'o canto + Por as sonoras ondas compassado. + Deste seguindo o som, que póde tanto, + E misturando o antigo Mantuano, + Façamos novo estylo, novo espanto. + Partira-se do monte Agrario insano + Para onde a fôrça só do pensamento + Lh'encaminhava o lasso pêzo humano. + Embebido em hum longo esquecimento + De si, e do seu gado e pobre fato, + Apos hum doce sonho e fingimento, + Rompendo as sylvas horridas do mato, + Vai por cima d'outeiros e penedos, + Fugindo, emfim, de todo humano trato. + Ante os seus olhos leva os olhos ledos + Da branca Dinamene, qu'enverdece + Só co'o meneo valles e rochedos. + Ora se ri comsigo, quando tece + Na phantasia algum prazer fingido; + Ora falla; ora mudo s'entristece. + Qual a tenra novilha, que corrido + T[~e]e montanhas fragosas e espessuras, + Por buscar o cornigero marido; + E cansada nas humidas verduras + Cahir se deixa ao longo d'hum ribeiro, + Ja quando as sombras vem cahindo escuras; + E nem co'a noite ao valle seu primeiro + Se lembra de tornar, como sohia, + Perdida por o bruto companheiro: + Tal Agrario chegado, emfim, se via + Onde o grão pégo horrisono suspira + N'huma praia arenosa, humida e fria. + Tanto que ao mar estranho os olhos vira, + Tornando em si, de longe ouvio tocar-se + De douta mão não vista e nova lira. + Fez-lhe o som desusado desviar-se + Para onde mais soava, desejando + D'ouvir e conversar, e de provar-se. + Muito não tinha proseguido, quando + Em a concavidade d'hum penedo, + Que pouco a pouco fôra o mar cavando, + Topou hum pescador, que prompto e quedo, + N'huma pedra assentado, brandamente + Tangendo, faz o mar sereno e ledo. + Mancebo era d'idade florecente, + Pescador grande do alto, conhecido + Por o nome de toda humida gente: + Alicuto se chama: que perdido + Era por a formosa Lemnoria; + Nympha que t[~e]e o mar ennobrecido. + Por ella as redes lança noite e dia; + Por ella as ondas tumidas despreza; + Por ella soffre o sol e a chuva fria. + Co'o seu nome mil vezes a braveza + D'irados ventos amansou co'o verso, + Que remove das rochas a dureza. + E agora em som de voz, suave e terso, + Está seu nome aos ecos ensinando + Por estylo do agreste som diverso. + Ouvindo Agrario, attonito, affroxando + Da phantasia hum pouco seu cuidado, + Suspenso esteve os numeros notando. + Mas Alicuto, vendo-se estorvado + Por hum pastor da musica divina, + O rosto levantou bem socegado, + E disse assi: Vaqueiro da campina, + Que vens buscar ás arenosas praias, + Onde a bella Amphitrite só domina? + Que razão ha, pastor, para que saias + A este nosso escamoso e vil terreno + Dos teus floridos myrtos e altas faias? + Pois s'agora o mar vês brando e sereno, + E estender-se estas ondas por a areia, + Amansadas das mágoas, com que peno, + Logo verás o como desenfreia + Eolo o vento por o mar undoso, + De sorte que Neptuno se receia. + Responde Agrario: Oh musico e amoroso + Pescador! eu não venho a ver o lago + Bravo e quieto, ou vento brando e iroso; + Mas o meu pensamento, com que apago + As flammas ao desejo, me trazia + Sem ouvir e sem ver, suspenso e vago: + Até que a tua angelica harmonia + M'acordou, vendo o som, com que aqui cantas + A tua perigosa Lemnoria. + Mas se de ver-me cá no mar t'espantas, + Eu m'espanto tambem do estylo novo + Com que as ondas horrisonas quebrantas. + Porém se com verdade o louvo e approvo, + Desejo de o provar contra o sylvestre + Antigo pastoril, qu'eu mal renóvo. + E tu, que no tocar pareces mestre, + Bem julgarás se ha clara differença + Entr'o canto maritimo e o campestre. + Não ha (disse Alicuto) em mi detença: + Alvorôço antes ha, por mais que veja + Que a tua confiança só me vença. + Mas, porque saibas que nenhuma inveja + Os pescadores temos aos pastores + Do som que pelo mundo se deseja, + Toma a lyra na mão, que os moradores + Do vitreo fundo vendo estou juntar-se + Para ouvir nossos rusticos amores. + Bem vês por essa praia presentar-se + Nas conchas vária côr á vista humana; + E o mar vir por entr'ellas e tornar-se. + Socegada do vento a furia insana, + Encrespa brandamente o ameno rio, + Que seu licor aqui mistura e dana. + Estepenedo concavo e sombrio, + Que de cangrejos ves estar coberto, + Nos dá abrigo do sol, quieto e frio. + Tudo nos mostra, emfim, repouso certo, + E nos convida ao canto, com que os mudos + Peixes sahem ouvindo ao ar aberto. + Assi se desafião estes rudos + Poetas, nos officios discrepantes; + Nos engenhos porém subtis e agudos. + Eis ja mil companheiros circumstantes + Estavão para ouvir, e apparelhavão + Ao vencedor os premios semelhantes. + As bem sonantes lyras se tocavão; + Agrario começava, e da harmonia + Os pescadores todos s'admiravão; + E dest'arte Alicuto respondia. + AGRARIO. + Vós semicapros deoses do alto monte, + Faunos longevos, Satyros, Sylvanos; + E vós, deosas do bosque e clara fonte, + E dos troncos que vivem largos anos; + Se tendes prompta hum pouco a sacra fronte + A nossos versos rusticos e humanos, + Ou me dae ja a capella de loureiro, + Ou penda a minha lyra d'hum pinheiro. + ALICUTO. + Vós humidas deidades deste pégo, + Tritões ceruleos, Próteo, com Palemo; + Vós, Nereidas do sal em que navego, + Por quem do vento as furias pouco temo; + Se ás vossas sacras aras nunca nego + O congro nadador na pá do remo, + Não consintais, que a musica marinha + Vencida seja aqui na lyra minha. + AGRARIO. + Pastor se fez hum tempo o moço louro, + Que do sol as carretas move e guia; + Ouvio o rio Amphriso a lyra d'ouro, + Que o seu claro inventor alli tangia. + Io foi vacca; Jupiter foi touro: + Mansas ovelhas junto d'ágoa fria + Guardou formoso Adonis; e tornado + Em bezerro Neptuno foi ja achado. + ALICUTO. + Pescador ja foi Glauco, e deos agora + He do mar; e Protêo Phocas guarda. + Nasceo no pégo a deosa, que he senhora + Do amoroso prazer, que sempre tarda. + Se foi bezerro o deos, que cá se adora, + Tambem ja foi delfim. Se se resguarda, + Vê-se que os moços pescadores erão, + Que o escuro enigma ao primo Vate derão. + AGRARIO. + Formosa Dinamene, se dos ninhos + Os implumes penhores ja furtei + Á doce Philomela; e dos murtinhos + Para ti (fera!) as flores apanhei; + E se os crespos madronhos nos raminhos + Com tanto gôsto ja te presentei, + Porque não dás a Agrario desditoso + Hum só revolver d'olhos piedoso? + ALICUTO. + Para quem trago d'ágoa em vaso cavo + Os curvos camarões vivos saltando? + Para quem as conchinhas ruivas cavo + Na praia, os brancos buzios apanhando? + Para quem de mergulho no mar bravo + Os ramos de coral vou arrancando, + Senão para a formosa Lemnoria, + Que co'hum só riso a vida me daria? + AGRARIO. + Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno, + D'atras nuvens vestido, horrido e feio, + Ennegrecendo á vista o ceo superno, + Quando os troncos arranca o rio cheio; + Raios, chuvas, trovões, hum triste inferno, + Que ao mundo mostra hum pallido receio: + Tal o amor he cioso, a quem suspeita + Que outrem de seus trabalhos se aproveita. + ALICUTO. + Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante + Furor lançando flammas e bramidos, + Quando as pasmosas serras traz diante, + Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos: + A braços derribando o ja nutante + Mundo, co'os elementos destruidos: + Assi me representa a phantasia + A desesperação de ver hum dia. + AGRARIO. + Minha alva Dinamene, a primavera, + Que os deleitosos campos pinta e veste, + E rindo-se huma côr aos olhos gera, + Qu'em terra lhes faz ver o Arco celeste; + As aves, as boninas, a verde hera, + E toda a formosura amena agreste + Não he para os meus olhos tão formosa, + Como a tua, que abate o lirio e rosa. + ALICUTO. + As conchinhas da praia, que presentão + A côr das nuvens, quando nasce o dia; + O canto das Sirenas, que adormentão; + A tinta, que no Murice se cria; + O navegar por ondas, que se assentão + Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria, + Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me, + Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me. + AGRARIO. + A deosa, que na Lybica lagôa + Em fórma virginal appareceo, + Cujo nome tomou, que tanto sôa, + Os olhos bellos t[~e]e da côr do ceo: + Garços os t[~e]e; mas huma, que a corôa + Das formosas do campo mereceo, + Da côr do campo os mostra graciosos. + Quem diz, que não são estes os formosos? + ALICUTO. + Perdoem-me as deidades; mas tu, diva, + Que no liquido marmore es gerada, + A luz dos olhos teus, celeste e viva, + T[~e]es por vício amoroso atravessada: + Nós petos lhe chamâmos; mas quem priva + De luz o dia, baixa e socegada + Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego; + E com toda esta luz sempre estou cego. + Assi cantavão ambos os cultores + Do monte e praia, quando os atalhárão; + A hum pastores, a outro pescadores. + E quaesquer a seu Vate coroárão + De capellas idoneas e formosas, + Que as Nymphas lhes tecêrão e ordenárão: + A Agrario de murtinhos e de rosas; + A Alicuto d'hum fio de torcidos + Buzios, e conchas ruivas e lustrosas. + Estavão n'ágoa os peixes embebidos + Com as cabeças fóra; e quasi em terra + Os musicos delfins estão perdidos. + Julgavão os pastores que na serra + O cume e preço está do antigo canto; + Que quem o nega, contra as Musas erra. + Dizem os pescadores que outro tanto + T[~e]e na sonora frauta, quanto teve + O monte pastoril da antigua Manto. + Mas ja o pastor d'Admeto o carro leve + Molhava n'ágoa amara, e compellia + A recolher a roxa tarde e breve: + E foi fim da contenda o fim do dia. + + +ECLOGA VII. + + +INTERLOCUTORES. + +SATYRO I. SATYRO II. + + As doces cantilenas, que cantavão + Os semicapros deoses, amadores + Das Napêas, que os montes habitavão, + Cantando escreverei: que se os amores + A sylvestres deidades maltratárão, + Ja ficão desculpados os pastores. + Vós, Senhor Dom Antonio, aonde achárão + O claro Apollo e Marte hum ser perfeito, + Em quem suas altas mentes assinárão; + Se o meu engenho he rudo, ou imperfeito, + Bem sabe onde se salva, pois pretende + Levantar com a causa o baixo effeito. + Em vós minha fraqueza se defende; + Em vós instilla a fonte do Pegáso, + O que o meu canto por o mundo estende. + Vêdes que as altas Musas do Parnaso + Cantando vos estão na doce lira, + Tomando-me das mãos tão alto caso. + Vêdes o louro Apollo, que me tira + De louvar vossa estirpe, e escurece + O que a vosso louvor meu canto aspira. + Ou por me haver inveja me fallece, + Ou por não ver soar na frauta ruda + O que a sonora cithara merece. + Pois sei dizer, Senhor, que a lingua muda, + Em quanto Progne triste o sentimento + Da corrompida irmãa co'o pranto ajuda; + E em quanto Galatea ao manso vento + Sólta os cabellos louros da cabeça, + E Tityro nas sombras faz assento; + E em quanto flor aos campos não falleça, + (Se não recebeis isto por affronta) + Fará que o Douro e o Ganges vos conheça. + E ja que a lingua nisto fica pronta, + Consenti que a minha Ecloga se conte, + Em quanto Apollo as vossas cousas conta. + No cume do Parnaso, duro monte, + De sylvestre arvoredo rodeado, + Nasce huma crystallina e clara fonte, + Donde hum manso ribeiro derivado, + Por cima d'alvas pedras mansamente + Vai correndo suave e socegado. + O murmurar das ondas excellente + Os passaros incita, que cantando + Fazem o verde monte mais contente. + Tão claras vão as ágoas caminhando, + Que no fundo as pedrinhas delicadas + Se podem, huma e huma, estar contando. + Não se verão em derredor pizadas + De fera ou de pastor, que alli chegasse, + Porque de espesso monte são vedadas. + Herva se não verá, que alli criasse + O monte ameno, triste ou venenosa, + Senão que lá no centro as igualasse. + O roxo lirio a par da branca rosa, + A cecem pura, a flor que dos amantes + A côr t[~e]e magoada e saudosa; + Alli se vem os myrtos circumstantes + Que a crystallina Venus encobrírão, + Escondendo-a dos Faunos petulantes. + Hortelãa, mangerona, alli respirão, + Onde nem frio inverno, ou quente estio, + As murchárão jamais, ou sêccas vírão. + Dest'arte vai seguindo o curso o rio, + O monte inhabitado e o deserto + Sempre com verdes árvores sombrio. + Aqui huma linda Nympha, por acêrto + Perdida da fragueira companhia, + A quem este lugar era encoberto; + Cansada ja da caça vindo hum dia, + Quiz descansar á sombra da floresta, + E tirar nas mãos alvas d'ágoa fria. + A novidade vendo manifesta + Do sítio, e como as árvores co'o vento + As calmas defendião da alta sesta; + Das aves o lascivo movimento, + Qu'em seus modulos versos occupadas + As azas dão ao doce pensamento; + Tendo notado tudo, ja passadas + As horas da grã sesta, se tornou + A buscar as irmãas, no centro, amadas. + Despois que largamente lhes contou + Do não visto lugar, que perto estava + E tanto por extremo a namorou, + Que ao outro dia fossem, lhes rogava, + A lavar-se em aquella fonte amena, + Que tão formosas ágoas destillava. + Ja tinha dado hum giro a luz serena + Do grão pastor d'Admeto, e já nascia + Aos ditosos amantes nova pena, + Quando as formosas Nymphas em porfia + Para o lugar do monte caminhavão, + Rompendo a manhãa roxa, alegre e fria. + D'huma os louros cabellos s'espalhavão + Por o formoso collo sem concêrto, + E com mil nós suaves s'enlaçavão; + Outra, levando o collo descoberto, + Por mais despejo em tranças os atára, + Havendo por pezado o desconcêrto. + Dinamene e Ephyre, a quem topára + Nuas Phebo em hum rio, e encobrirão + Seus delicados corpos n'ágoa clara; + Syrinx e Nyse, que das mãos fugírão + Do Tegêo Pan; Amanta e mais Elisa, + Destras nos arcos mais que quantas tirão; + A linda Daliana, com Belisa, + Ambas vindas do Tejo, que como ellas + Nenhuma tão formosa as hervas pisa: + Todas estas angelicas donzellas, + Por o viçoso monte alegres hião, + Quaes no ceo largo as nitidas estrellas. + Mas dous sylvestres deoses, que trazião + O pensamento em duas occupado, + A quem de longe mais que a si querião, + Não lhes ficava monte, valle ou prado, + Nem árvore, por onde quer que andavão, + Que não soubesse delles seu cuidado. + Quantas vezes os rios, que passavão, + Detiverão seu curso ouvindo os danos, + Que aos proprios duros montes magoavão! + Quantas vezes amor de tantos anos + Abrandára qualquer vontade isenta, + Se em Nymphas corações houvesse humanos! + Mas quem de seu cuidado se contenta, + Offereça de longe a paciencia; + Que Amor d'alegres mágoas se sustenta. + Que o moço Idalio quiz nesta sciencia + Que se compadecessem dous contrários. + Diga-o quem tiver delle experiencia. + Indo os deoses, emfim, por montes varios + Exercitando os olhos saudosos, + Ao crystallino rio tributarios; + Topárão dos pés alvos e mimosos + As pizadas na terra conhecidas, + As quaes forão seguindo pressurosos. + Mas, encontrando as Nymphas que despidas + Na clara fonte estavão, não cuidando + Que d'alguem fossem vistas ou sentidas, + Deixárão-se estar quedos, contemplando + As feições nunca vistas, de maneira + Que vissem, sem ser vistos, espreitando. + Porém a espessa mata, mensageira + Da cilada dos dous, com o rugido + Dos raminhos d'huma aspera aveleira, + Manifestando claro o escondido, + Todas huma alta grita levantárão, + Que o monte pareceo ser destruido. + Assi despidas logo se lançárão + Por a espessura tão ligeiramente, + Que mais que o proprio vento então voárão. + Qual o bando das pombas quando sente + A rapida aguia, cuja vista pura + Não obedece ao sol resplandecente; + Empresta-lhe o temor da mortedura + Nas azas novo alento; e, não parando, + Veloz rompendo o ar fugir procura: + Dest'arte as deosas timidas, deixando + De seu despôjo os ramos carregados, + Nuas por entre as sylvas vão voando. + Mas os amantes ja desesperados, + Que para as alcançar, emfim, se vião + Nada dos pés caprinos ajudados; + Com amorosos brados as seguião. + Hum só (que o outro ainda não tomava + Folego algum da pressa que trazião) + Desta sorte sentido se queixava: + SATYRO PRIMEIRO. + Ah Nymphas fugitivas, + Que só por não usar humanidade + Os perigos dos matos não temeis! + Para que sois esquivas? + Qu'inda de nós não peço piedade, + Mas dessas alvas carnes, que offendeis. + Ah Nymphas! não vereis + Que Eurydice, fugindo dessa sorte, + Fugio do amante, e não da fera morte? + Tambem assi Eperie foi mordida + Da vibora escondida. + Olhae a serpe occulta na herva verde. + Quem o rigor não perde, perde a vida. + Que tigre, ou que leão, + Que peçonhenta fera venenosa, + Ou qu'inimigo, emfim, vos vai seguindo? + D'hum brando coração, + Que preso dessa vista rigorosa + De si para vós foge, andais fugindo? + Olhae que em gesto lindo + Não se consente peito tão disforme; + Se não quereis que tudo se conforme. + Posto que bellas n'ágoa vos vejais, + Á fonte não creais, + Que vos traz enganadas por vingança + Desta nossa esperança, que enganais. + Mas ah! que não consinto + Que nem palavra minha vos offenda, + Postoque me desculpe a mágoa pura. + Digo, Nymphas, que minto: + Pois mal póde haver nunca quem pretenda + Negar-vos essa rara formosura. + Se amor de tanta dura + Por tanto mal tão pouco bem merece, + Não estranheis, minh'alma se endoudece: + Que se doudices falla d'improviso + Sem tento e sem aviso, + Queira Deos, que dureza tão crescida + Me não prive da vida além do siso. + Cousas grandes e estranhas + Por o mundo t[~e]e feito e faz natura, + Que a quem vos não vio, Nymphas, muito espantão. + Nas Libycas montanhas + As Scitales são feras, de pintura + Tão singular, que só co'a vista encantão. + As hienas levantão + A voz tão natural á voz humana, + Que a quem as ouve, facilmente engana. + E vós (ó gentis feras) cujo aspeito + O mundo t[~e]e sujeito, + Tendes de natureza juntamente + A vista e voz de gente, e fero o peito. + Das amorosas leis, + Com que liga natura os corações, + Andais fugindo (ó Nymphas) na espessura? + Como? E não vos correis + D'haver em vós tão duras condições, + Que possão mais que a próvida natura? + Se vossa formosura + He sobrenatural, não he forçado + Que assi tenha tambem o peito irado: + Antes ao puro Amor, em cuja mão + Os corações estão, + Por vossa gentileza tão formosa + Lhe deveis amorosa condição. + Amor he hum brando affeito, + Que Deos no mundo poz e a natureza, + Para augmentar as cousas que creou. + De Amor está sugeito + Tudo quanto possue a redondeza: + Nada sem este affecto se gerou. + Por elle conservou + A causa principal o mundo amado, + Donde o pae famulento foi deitado. + As cousas elle as ata e as confórma + Com o mundo, e reforma + A materia. Quem ha que não o veja? + Quanto meu mal deseja sempre fórma. + Entre as plantas do prado + Não ha machos e femias conhecidas, + Que junto huma da outra permanece? + Não estão carregados + Os ulmeiros das vides retorcidas, + Onde o cacho enforcado amadurece? + Não vêdes que padece + Tanta tristeza a rôla por a morte + Da sua amada e unica consorte? + Pois lá no Olympo, a quantos captivou + Cupido e maltratou? + Melhor qu'eu o dirá a subtil donzella, + Que ja na sua téla o debuxou. + Ah caso grande e grave! + Ah peitos de diamante fabricados, + E das leis absolutos naturais! + Aquelle amor suave, + Aquelle poder alto, que forçados + Os deoses obedecem, desprezais? + Pois quero que saibais, + Que contra o fero Amor nunca houve escudo: + Costume he seu tomar vingança em tudo. + Eu vos verei lançar em hum momento + Suspiros mil ao vento, + Lagrimas, triste pranto e nova dor + Por quem tenha outro amor no pensamento. + Mais quizera dizer + O desditoso amante, que ajudado + Se via então da mágoa e da tristeza; + Mas foi-lho defender + O outro companheiro, como irado + Com tão disforme e aspera dureza. + Aquillo que a rudeza + D'huma sciencia agreste lh'ensinára, + Disse, qual se em tal ponto despertára + D'horrendo sonho com pezado grito. + O mais que alli foi dito, + Vós, montes, o direis, e vós penedos; + Qu'em vossos arvoredos anda escrito. + SATYRO SEGUNDO. + Nem vós nascidas sois de gente humana, + Nem foi humano o leite que mamastes, + Mas de alguma disforme fera Hyrcana: + Lá no Caucaso horrendo vos criastes: + Daqui trouxestes a aspereza insana; + Daqui os calidos peitos congelastes. + Sois Esphinges nos gestos naturais, + Que de humanas os rostos só mostrais. + Se vós fostes criadas na espessura, + Onde não houve cousa que se achasse, + Agoa, pedra, arbor, flor, ave, alma, dura, + Qu'em seu passado tempo não amasse, + Nem a quem a affeição suave e pura + Nessa presente fórma não mudasse; + Porque não deixareis tambem memoria + De vós em namorada e longa historia? + Olhae como, na Arcadia soterrando + O namorado Alpheo su'ágoa clara, + Lá na ardente Sicilia vai buscando + Por debaixo do mar a Nympha chara. + Assi tambem vereis passar nadando + Atys, que Galatêa tanto amára, + Por onde do Cyclopea grande mágoa + Converteo do mancebo o sangue em ágoa. + Virae os olhos, Nymphas, á Erycina + Espessura; vereis alli mudar-se + Egeria, e em fonte clara e crystallina + Por a morte de Numa distillar-se. + Olhae que a triste Byblis vos ensina, + Com perder-se de todo e transformar-se + Em lagrimas, qu'emfim puderão tanto, + Que accrescentarão sempre o verde manto. + E s'entre as claras ágoas houve amores, + Os penedos tambem forão perdidos. + Olhae os dous conformes amadores + Lá no monte Ida em pedra convertidos: + Lethêa, por cahir em vãos errores + De sua formosura procedidos; + Oleno, porque a culpa em si tomava, + Por escusar a pena a quem amava. + Tomae exemplo, e vêde em Cypro aquella, + Por quem Iphis no laço poz a vida. + Tambem vereis em pedra a Nympha bella, + Cuja voz foi por Juno consumida, + E, se queixar-se quer de sua estrella, + A voz extrema só lhe he concedida. + E tu tambem, ó Daphnis, que trouxeste + Primeiro ao monte o doce verso agreste! + Tamanho amor lhe tinha a branda amiga, + Que em inimiga, emfim, se foi tornando: + Porque outra Nympha estranha ja o sogiga, + Suas magicas hervas vai buscando. + Olhae a quanto a crua dor obriga! + Por vingar-se, assi irada transformando + O foi em pedra. Oh dura confusão! + Despois lhe pezaria; mas em vão. + Olhae, Nymphas, as árvores alçadas, + A cuja sombra andais colhendo flores, + Como em seu tempo forão namoradas; + Do qu'inda agora o tronco sente as dores. + Vereis, entre as de fructo matizadas, + Como a côr das amoras he de amores: + O sangue dos amantes na verdura + Testimunha de Tisbe a sepultura. + E lá por a odorifera Sabêa + Não vêdes que de lagrimas daquella, + Que com seu pae se junta e se recrêa, + Arabia s'enriquece, e vive della? + Lembrai-vos da verde árvore Penêa, + Que foi ja n'outro tempo Nympha bella, + E Cyparisso angelico mancebo; + Ambos verdes com lagrimas de Phebo. + De Phrygia vêde o moço delicado + No mais alto arvoredo convertido, + Que tantas vezes fere o vento irado; + Galardão de seus erros merecido: + Pois, da alta Berecynthia sendo amado, + Por huma Nympha baixa foi perdido; + E a deosa, a quem perdeo do pensamento, + Quiz que tambem perdesse o entendimento. + O subito furor lhe figurava + Que as árvores e os montes se cahião; + Ja dos pudicos membros se privava, + Que os horrores a tanto o constrangião; + Ja indignado no monte se lançava: + De sua morte as feras se doião. + Dest'arte perdeo Atys na espessura, + Despois de tantas perdas, a figura. + Lembre-vos quando as gentes celebravão + Em Grecia as grandes festas de Liêo, + Onde as formosas Nymphas se juntavão, + E os sacros moradores do Licêo. + Todos em doce somno se occupavão + Por o monte, despois que anoiteceo; + Mas o deos do Hellesponto não dormia; + Que hum novo amor o somno lh'impedia. + Mas ella emfim, os braços estendendo, + Em ramos se lhe forão transformando; + Em raizes os pés se vão torcendo; + E o nome Loto só lhe vai ficando. + Vêde, Napêas, este caso horrendo, + Que vos está de longe ameaçando. + Assi tambem daquella, a quem seguia + O sacro Pan, a fórma se perdia. + Que vos direi de Filis, pois perdida + Da saudosa dor com que vivia, + Á desesperação emfim trazida + Do comprido esperar de dia em dia, + Por desatar do corpo a triste vida + Atava ao collo a cinta que trazia. + Mas o tronco sem fôlha por o monte + Rhodope abraça o lento Demophonte. + Nas boninas, tambem vereis Jacinto, + Porquem Phebo de si se queixa em vão; + Vereis o monte Idalio em sangue tinto + Do neto de seu pae, da mãe irmão. + Chora Venus a dor do moço extinto, + Maldiz o ceo e a terra, com razão; + A terra, porque logo não se abrio; + O ceo, porque tal morte permittio. + E tu, constante Clycie, a quem fallece + A fé de teus amores enganosos, + No louro amante, que de ti s'esquece, + S'esquecem os teus olhos saudosos. + Nenhum alegre estado permanece; + Que são do mundo os gostos mentirosos; + E á tua clara luz, por quem suspiras, + Ainda agora em herva os olhos víras. + Trago-vos estas cousas á lembrança, + Porque s'estranhe mais vossa crueza + Com ver que a criação e longa usança + Vos não perverte e muda a natureza. + Dou as lagrimas minhas em fiança, + Qu'em tudo quanto está na redondeza, + Cousa d'Amor isenta, se attentais, + Em quanto vos não virdes, não vejais. + Ja disse, que d'Amor sempre tiverão + As cousas insensiveis pena e gloria. + Vêde as sensiveis como se perdêrão. + E dir-vos-hei das aves larga historia: + As penas, qu'em su'alma se soffrêrão, + Nas azas lhes ficárão por memoria; + E aquelle altivo e leve movimento + Lhes ficou do voar do pensamento. + O doce rouxinol e a andorinha, + Donde lhes veio o ir-se transformando, + Senão do puro amor que o Thracio tinha, + Qu'em poupa ainda a amada vai chamando? + Clama sem culpa a misera avezinha, + Que n'areia de Phasis habitando, + Do rio toma o nome; e quando clama, + Cruel á mãe, ao pae injusto chama. + Vêde a que engeitou Pallas por fallar, + (Que dos amores he maior defeito) + E aquella, que succede em seu lugar, + Ambas aves; de amor usado effeito; + Huma, porque fugia ao deos do mar; + Outra, porque tentára o patrio leito: + E Scylla, que a seu pae poz em perigo, + Só por ser muito amiga do inimigo. + E Pico, a quem ficárão inda as côres + Da purpura Real, que antes vestia; + Esaco, que o seguir de seus amores + O trouxe a ver tão cedo o extremo dia: + Ou vêde os dous tão firmes amadores, + Que amor aves tornou na praia fria. + Do Rei dos ventos era genro o triste; + Mas contra o fado, emfim, nada resiste. + Estava a triste Halcyone, esperando + Com longos olhos o marido ausente; + Mas os ventos indomitos soprando, + Nas ágoas o affogárão tristemente. + Em sonhos se lh'está representando; + Que o coração preságo nunca mente: + Só do bem as suspeitas mentirão, + Mas as do mal futuro certas são. + Ao pranto os olhos seus a triste ensaia; + Buscando o mar com elles hia e vinha: + Quando o corpo sem alma achou na praia. + Sem alma o corpo achou, que n'alma tinha! + Ó Nereidas do Egêo, consolai-a, + Pois este pio officio vos convinha. + Consolai-a; sahi das vossas ágoas; + Se consolação ha em grandes mágoas. + Mas oh nescio de mi! qu'estou fallando + Das avezinhas mansas e amorosas? + Pois tambem teve Amor natural mando + Entr'as feras montezes venenosas. + O leão e a leoa, como, ou quando + Taes formas alcançárão temerosas? + Sabe-o da deosa Dindymene o templo, + E a que a Adonis o dava por exemplo. + Quem fosse a mansa vacca di-lo-hia; + Mas o grão Nilo o diga, pois a adora. + Que fórma teve á Ursa, saber-se-hia + Do Pólo Boreal, onde ella mora. + O caso d'Acteon tambem diria + Em cervo transformado; e melhor fôra + Se dos olhos perdêra a vista pura, + Que em seus galgos achar a sepultura. + Tudo isto Acteon vio na fonte clara, + Onde a si d'improviso em cervo vio: + Que quem assi dest'arte alli o topára, + Que se mudasse em cervo permittio. + Mas, como o triste Principe em si achára + A desusada fórma, se partio. + Os seus, desconhecendo-o, o vão chamando; + E, tendo-o alli presente, o vão buscando. + Co'os olhos e co'o gesto lhes fallava; + Que a voz humana ja perdida tinha. + Qualquer delles por elle então chamava, + E a multidão dos cães contr'elle vinha. + Hum cervo acude a ver (qualquer gritava) + Acteon, donde estás? acude asinha, + Que tardar tanto he este? (repetia) + _He este, he este_, o eco respondia. + Quantas cousas em vão estou fallando + (Oh Napêas esquivas!) sem que veja + O peito de diamante hum pouco brando + De quem meu damno tanto só deseja. + Pois, por mais que de mi me andais tirando, + E por mais longa emfim que a vida seja, + Nunca em mi se verá tamanha dor, + Que Amor a não converta em mais amor. + Aqui (formosas Nymphas) vos pintei + Todo d'amores hum jardim suave; + D'ágoas, de pedras, d'árvores contei, + De flores, d'almas, feras, de huma, outra ave. + Se este amor, que no peito aposentei, + Que dos contentamentos t[~e]e a chave, + Por dita em tempo algum determinasse + Que de tão longos damnos vos pezasse, + Quanto mais devagar vos contaria + De minha larga historia e não alheia? + E com quanta mais ágoa regaria, + Que o rio, de contente, a branca areia? + Novo contentamento me seria + Formar de meu cuidado a nova ideia: + E vós, gostando deste estado ufano, + Zombarieis então de vosso engano. + Mas com quem fallo ja? que estou gritando, + Pois não ha nos penedos sentimento? + Ao vento estou palavras espalhando; + A quem as digo, corre mais que o vento. + A voz e a vida a dor m'está tirando, + E o tempo não me tira o pensamento. + Direi, emfim, ás duras esquivanças + Que só na morte tenho as esperanças. + Aqui, sentido, o Satyro acabou, + Com huns soluços que a alma lhe arrancavão. + Os montes insensiveis, que abalou, + Nas ultimas respostas o ajudavão. + Então Phebo nas ágoas se encerrou + Co'os animaes que o mundo allumiavão; + E co'o luzente gado appareceo + A candida pastora por o ceo. + + +ECLOGA VIII. + + +PISCATORIA. + +_Sereno._ + + Arde por Galatêa branca e loura + Sereno pescador pobre, forçado + D'huma estrella, que quer á míngoa moura. + Os outros pescadores t[~e]e lançado + No Tejo as redes: elle só fazia + Este queixume ao vento descuidado: + Quando virá (formosa Nympha) hum dia, + Em que te possa dar a conta estreita + Desta doudice triste e vãa porfia? + Não vês, que me foge a alma e que m'engeita, + Buscando em hum só riso d'essa boca, + Nos teus olhos azues mansa colheita? + Se ao teu esprito alg[~u]a mágoa toca, + Se d'amor fica nelle huma pégada, + Que te vai, Galatêa, nesta troca? + Dar-te-hei minh'alma: lá ma tens roubada: + Não ta demandarei: dá-me por ella + Huma só volta d'olhos descuidada. + Se muito te parece, e minha estrella + Não consentir ventura tão ditosa, + Dou-te as azas do Amor perdidas nella. + Que mais te posso dar, Nympha formosa, + Inda que o mar d'aljofar me cubríra + Toda esta praia leda e graciosa? + Amansão-se ondas, quebra o vento a ira: + Minha tormenta só nunca socega; + O meu peito arde em vão, em vão suspira. + Anda no romper d'alva a nevoa cega + Sôbre os montes d'Arrabida viçosos, + Em quanto o solar raio lhes não chega. + Eu, vendo apparecer outros formosos + Raios, que a graça e côr ao ceo roubárão, + Se os olhos cegos vi, vejo saudosos. + Quantas vezes as ondas se encrespárão + Com meus suspiros! quantas com meu pranto + As fiz parar de mágoa e me escutárão! + Se na fôrça da dor a voz levanto, + E ao som do remo, que ágoa vai ferindo, + Perante a lua meu cuidado canto; + Os maviosos delfins m'estão ouvindo; + A noite socegada; o mar callado: + Tu só foges d'ouvir-me, e te vás rindo. + Estranhas, por ventura, o mar cercado + Da fraca rede; a barca ao vento solta; + E hum pobre pescador aqui lançado? + Antes que o sol no ceo cerre huma volta + Se póde melhorar minha ventura, + Como a outros succede, n'ágoa envolta. + Igual preço não he da formosura + D'ouro a areia, que o rico Tejo espraia, + Mas hum amor, que para sempre dura. + Vejão teus olhos (bella Nympha) a praia; + Verás teu nome na mimosa areia. + Nunca sôbre elle o mar com furia saia! + Vento algum atégora o não salteia: + Tres dias ha que escripto aqui o deixou + Amor, e o veda a toda fôrça alheia. + Elle com suas mãos proprio ajudou + A escolher estas conchas, affirmando + Que o sol para ti só as matizou. + Hum ramo te colhi de coral brando: + Antes que o ar lhe désse, parecia + O que de tua boca estou cuidando. + Ditoso se o soubesse inda algum dia! + + +ECLOGA IX. + + +PISCATORIA. + +_Palemo._ + + Despois que o leve barco ao duro remo, + Onde menos das ondas se temia, + Atou o pescador pobre Palemo; + Em quanto as negras redes estendia + Seu companheiro Alcão na branca arêa, + E Lico as longas cordas envolvia; + De cima d'huma rocha, a qual rodêa + O mar, quebrando nella de contino, + Começou a chamar por Galatêa. + Deixa o molle licor e crystallino, + (Dizia) ó Nympha, ja, que o sol deseja + Enxugar teu cabello d'ouro fino. + Inda que t[~e]e de ti tão grande inveja, + Não temas que te queime o rosto brando: + Basta para abrandar-se que te veja. + Não te detenhas mais, vem ja cortando + Com teu candido peito as brancas ondas, + Escumas menos brancas levantando. + Dar-te-hei (com condição que não t'escondas + De mi lá nessas humidas moradas, + E que algum'hora, branda me respondas) + Mil conchas n'hum cordão verde enfiadas, + Todas d'huma feição; não d'huma côr, + Pois dellas são azues, dellas rosadas. + Indaque seja pobre pescador, + Não sei se em desprezar-me muito acertas, + Pois rico do amor teu me fez Amor. + Para ti n'outras praias mais desertas + Irei pescar por entre pedras duras, + Que sempre verde musgo t[~e]e cobertas, + As pardas ostras, onde gottas puras + De fresco orvalho, dentro endurecidas, + Não podem da cobiça estar seguras. + Porque deixas de vir? porque duvídas? + Por ventura d'algum meu companheiro? + Inda as redes ao sol t[~e]e estendidas. + Toda a noite pescárão, e primeiro + Querem dormir a sesta nesta praia, + Que o barco polo mar levem ligeiro. + Eu, vigiando aqui como atalaia, + Te chamarei, até que de cansado + Hum dia desta rocha abaixo caia, + Deixando este lugar tão infamado + Com minha morte, que dos marinheiros + Com o dedo de lá será mostrado. + Dirão os naturaes e os estrangeiros: + Alli morreo Palemo. Ai triste historia! + Guardae a nao de alli, ventos ligeiros. + Antes que tal succeda, vê que gloria + Alcanças com deixar aos navegantes + Da tua ingratidão esta memoria. + Da nossa differença não te espantes: + Tu Nympha, eu pescador: Glauco, deos vosso, + Qual eu agora sou, tal era d'antes. + Tambem eu entre as hervas achar posso + Aquella, a quem o ceo deo tal virtude, + Que muda n'outro ser este ser nosso. + Mas este amor, qu'eu cá mudar não pude, + Inda que vá a morar lá nessas ágoas, + Não temas que a mudança em mi o mude. + Serão as vivas ondas vivas frágoas, + Em que estarei ardendo noite e dia, + Se não tiveres dó de tantas mágoas. + As horas naturaes da pescaria + Não vês que vão passando? Como as passas? + Quem deste passatempo te desvia? + Ah rigorosa Nympha! ah! não me faças + Dar em vão tantos gritos: vem; iremos + Ambos a levantar as verdes naças. + Ambos os anzoes curvos cobriremos + De mentirosas iscas, com que os peixes + A todo prazer nosso prenderemos. + Assi d'Amor cruel nunca te queixes, + E dessa formosura as mais formosas + Nymphas do mar azul vencidas deixes; + Que venhas (pois por ti com saudosas + Lagrimas vou gastando a vida e alma) + A tirar-me esperanças duvidosas. + A praia está callada, o mar em calma; + Por cima desta rocha brandamente + Zephyro respirando a desencalma. + Aqui não sinto cousa certamente + Porque deixes de vir, como sohías, + Senão, que não es tu disso contente. + Se desgostas das grossas pescarias, + Marisco appetitoso aqui não falta, + Ja sejão luas cheias, ja vazias. + Polos pés desta rocha dura e alta + Irei eu despegando huns como pés + D'hum pequeno animal, que nella salta. + E vivos te darei (se delles es + Amiga) mil cangrejos vagarosos, + Que verás ir andando de revés. + Não te darei ouriços espinhosos, + Porque te quero tanto, que receio + Qu'esses teus dedos piquem tão mimosos. + Faz d'aqui perto o mar hum largo seio, + Onde de ameijoas lisas, sem trabalho, + Podemos apanhar hum cesto cheio. + Mas além de tudo isto hum crespo galho + De vermelho coral te darei logo, + Que por dita arrastou o meu tresmalho. + Mas ai! qu'em vão te chamo, em vão te rógo; + Que nem tu a meus rogos tens respeito, + Nem eu, por mais que grite, desaffógo. + Hum coração em lagrimas desfeito + Como ja não te abranda? quem encerra + Crueza tal em tão formoso peito? + Não reina Amor no mar, como na terra? + Bem sabes que mil vezes ja venceo + A Neptuno teu Rei em clara guerra. + Sua formosa mãe onde nasceo, + Senão no proprio mar em que te banhas? + Onde Thetis por Péleo em fogo ardeo? + Se das pedras nascesses nas montanhas, + Se com leite de tigres te criáras, + Mais duras não tiveras as entranhas. + Apparecêras tu, e então tornáras + Logo a esconder-te, logo, se quizeras + Nas ondas, que de ti me são avaras. + Com h[~u]a mostra só que de ti deras, + A vida, que me foge em não te vendo, + Co'os teus formosos olhos detiveras. + Então víras os meus, donde correndo + De lagrimas se vem dous largos rios, + Que o mar tambem em si vai recolhendo. + Ah nescio pescador! que desvarios + Me deixo aqui dizer! a quem os digo! + A surdas ondas ja, ja a ventos frios. + Elles e ellas ja crescem: ja em p'rigo + O barco vejo: ai! ei-lo combatido. + Ellas e elles o levão ja comsigo. + Olhos, que lá me tendes o sentido, + A culpa he vossa só, que me não vêdes. + Mas, pois o pescador anda perdido, + Perca-se o barco seu, percão-se as redes. + + +ECLOGA X. + + +PISCATORIA. + +_Meliso._ + + Encheo do mar azul a branca praia + Meliso pescador de mil querellas; + Meliso, que por Lilia arde e desmaia. + Despois que á luz da lua e das estrellas, + Sôbre dura fatexa o barco pôsto, + As redes recolheo, remos e velas: + Que gôsto, ó Lilia, (disse) ou que desgôsto + Te move a me negar, vendo qual ando, + Teus olhos côr do ceo, teu alvo rosto? + Se tu queres que pene desejando, + Se queres que no mar em fogo viva; + Ardendo sempre estê, sempre penando. + Mas ólha, ó branda Lilia, (antes esquiva) + Que não merece ser tão mal tratada + Hum'alma desses olhos tão captiva. + Vives dos meus cuidados descuidada: + Coitado de quem traz a duvidosa + Vida no mar e terra aventurada! + Bem podes com razão ser piedosa + Com quem não quer mor bem, que bem quererte, + Não sendo tão cruel como es formosa. + Ora deixa ja, ingrata, deixa ver-te + A meus cansados olhos, que de tantas + Lagrimas são movidos, sem mover-te. + Se tu me vences, e se tu m'encantas + Com tua doce falla, doce riso, + Porque foges de mi? porque te espantas? + Lembre-te a formosura de Narciso, + E qual pago lhe deo seu desamor: + Ólha que com amor disto te aviso. + Mas quando essa crueza tanta for, + Que mereça do ceo novo castigo, + Qual herva será digna de tal flor? + Amor que me persegue, Amor que sigo, + Me faz d'hum grave mal andar temendo; + D'hum mal, qu'eu sinto na alma e que não digo. + Quanto mais ledo ja te estive vendo + Aqui as mansas ondas esperando, + Que por chegar a ti vinhão correndo, + E da molhada areia despegando + Com a candida mão roxas conchinhas, + A fórma do teu pé nella deixando? + Daquellas, de que tu mais gôsto tinhas, + Muitas te trago aqui, postoque temo + Que menos o terás por serem minhas. + Hum temor tal me chega a tal extremo, + Que, vencido d'hum triste esquecimento, + No mar me cahe da mão o duro remo. + E quando a branca vela sólto ao vento, + Tão descuidado vou do fiel leme, + Que me leva a perder meu pouco tento. + Mas quem arde por ti, quem por ti treme, + Os seus maiores riscos não receia, + Os teus que sente mais, muito mais teme. + Despois que te não vi, (não sei que creia + Desta tardança tua e morte minha) + Sendo a lua vazia, he quasi cheia. + O tempo, que nos gostos passa asinha, + Detem-se neste mal da saudade, + Por me dobrar a dor que d'antes tinha. + Não desprezes, ó Lilia, huma vontade, + Que por te contentar tudo despreza, + Tudo julga, sem ti, por pouquidade. + Se pretendes amor, ja tens certeza + Que não podes ser nunca mais amada + Dos que vencidos traz tua belleza. + Se por ventura estás affeiçoada + A gentil parecer, a bom engenho, + A ninguem nestas partes devo nada. + Se fazes caso d'honra, ólha que venho + De geração d'honrados pescadores; + Se de riqueza, barco e redes tenho. + Por erros julgarás estes louvores; + E oxalá não os julgues por doudice! + Mas quem siso quer ter não tenha amores. + E mais tudo foi pouco quanto disse, + Pondo os olhos no muito que meu fado + Nos teus, que ver desejo, quiz que visse. + Aconteceo-me hum caso desusado, + (Inda que d'huma cousa n'outra salto) + Digno, por ser de amor, de ser contado. + Pescando hontem á tarde no mar alto, + Suspenso nessa rara formosura, + A quem com mil lembranças nunca falto, + Comecei a cantar: Lilia, mais dura + Que a mais inculta rocha rodeada + Do mar, de cujo encontro está segura; + Mais alva que jasmins, e mais córada + Que purpureas serejas polo Maio; + Mais loura que manhãa desentrançada; + Não vês... dizer queria que desmaio, + Quando (cousa que mal me será crida) + No mar, vencido d'hum, do barco caio? + Alli tivera fim a triste vida, + Se d'hum brando delfim, que me escuitava, + Não fôra, por ser tua, soccorrida. + Parece que tambem vencido estava + Do mal, de que me via andar vencido, + Quem em tamanho risco m'ajudava. + Trouxe-me sôbre si adormecido, + Nadando ao som das ondas mansamente, + Até que me sentio em meu sentido. + Livre deste mortal, bravo accidente, + Tal foi o espanto meu, tal meu temor, + Que d'outro me livrei escaçamente. + Mas logo o amoroso nadador + Me poz junto do barco, que tão perto + Esteve de ficar sem pescador. + O sol era de todo ja coberto, + Quando eu, entrando nelle, sahi fóra + Do perigo, onde tive o fim tão certo. + Porém outro maior me cansa agora, + De que mal sahirei, se te não vir + Amanhecer aqui co'a nova aurora. + Não póde ella tardar em descobrir + As suas louras tranças dasatadas, + Das quaes as tuas bem se podem rir. + Pois por cima das ondas, acordadas, + As Halcyoneas ouço lamentar-se, + Do seu antigo damno inda lembradas. + E sinto o fresco orvalho derramar-se + Mais congelado e frio; e Venus bella + Polo Oriente ja vejo levantar-se. + Bem podes, Lilia, competir com ella, + E com Pallas e Juno em gentileza; + Em amor não, pois elle nasceo della: + Desterrou-o de ti tua aspereza, + Que desterra de mi prazer e vida, + Deixando em seu lugar mágoa e tristeza. + No silencio da noite, que convida + A descanso commum, tanto me cança, + Que não sei se remedio ou morte pida. + Se tu quizesses dar-me huma esperança + De te servir de mi ou tarde, ou cedo, + Nunca me negaria o mar bonança. + Polas inchadas ondas, que põe medo, + Eu só, sem mais ajuda, levaria + Sempre á fôrça de braço o barco quedo. + Tão seguro por ellas andaria, + Como polo seu campo o lavrador + No mais quieto, claro e bello dia. + Ólha que não ha destro pescador, + Que mais manhoso as redes desencolha, + Nem os tortos anzoes isque melhor. + Os peixes deixarei em tua escolha: + Aquelles de que fores mais amiga, + Nunca te faltarão de fôlha a fôlha. + Não sei, Lilia formosa, que mais diga, + Que mova amor em ti, que mova mágoa; + Sei que mágoa, e que amor a mais obriga. + Mas antes que o sol dê naquella frágoa, + Onde meus ais dilata a triste Ecco, + Vou-me segurar mais o barco na ágoa, + Porque de baixa mar não fique em sêcco. + + +ECLOGA XI. + + +INTERLOCUTORES. + +ANZINO e LIMIANO. + + Parece-me, pastor, se mal não vejo, + Que ja te vi mais ledo andar outr'hora + Nos largos campos do famoso Tejo. + LIMIANO. + Podia ser; que muito tempo fóra + Andei desta ribeira, patria minha, + Onde triste me vez andar agora. + Tinha lá para mi, que a vida tinha + Mais socegada cá e mais segura, + Entre os meus, que com gôsto a buscar vinha. + Foi d'outro parecer minha ventura: + Discordias sós achei, e achei dureza, + Em lugar de socêgo, e de brandura. + Achei as boas leis da natureza + Vencidas do interesse; e a gente cega, + Tanto, que mais que o sangue, o gado préza. + Dizem que quando o mar bonança nega, + Correndo vai aquella não mor prigo, + Que á desejada terra mais se chega. + Assi m'aconteceo a mi comigo; + Seguro sempre ao longe, sempre ledo; + Triste ao perto, e tratado como imigo. + ANZINO. + Sempre (podes-me crer este segredo) + Desejei de te ver; mas com desgôsto, + Inda te não quizera ver tão cedo. + Prestando para cousas de teu gôsto, + Como camaleão não mudo côres; + Qual he meu coração, tal he meu rosto. + LIMIANO. + Não são logo assi, não, outros pastores, + Que de promessas vãas te fazem rico, + E nunca fructo dão: tudo são flores. + Mas desejo saber com quem pratíco, + Porque não caia em falta, e porque entenda + A quem tamanho amor devendo fico. + ANZINO. + Antes que tempo nisso se dispenda, + Busquemos hum lugar mais fresco e frio, + Que da calma, que cahe, bem nos defenda. + LIMIANO. + Vamos alli, que alli bosque sombrio + Nos dara fresco abrigo, assento o prado, + Formosa vista o valle, o monte, o rio: + O rio, que verás tão socegado, + Que te parecerá que se arrepende + De levar ágoa doce ao mar salgado. + Nem cabra, nem ovelha alli offende + Herva, folha, nem flor, ou ferro duro: + A planta polo ar livre se estende. + Verás cahindo em gottas crystal puro + No vão d'huma caverna carcomida, + Por entre o musgo molle, verde-escuro. + ANZINO. + Quem traz á saudade a alma rendida, + A saudade busca, onde descansa; + Maso descanso della encurta a vida. + Com tudo, quem do ceo na terra alcansa + Poder gozar-se desta liberdade, + Que mais deseja ter? que mais o cansa? + Affirmo-te de mi esta verdade, + Que muitos valles vi, muitas ribeiras; + Mas esta me dobrou a saudade. + Oh que viçosas murtas! que oliveiras! + Que freixos! como estão d'hera cingidos! + Quantas voltas lhes dá de mil maneiras! + Os lirios junto d'ágoa bem nascidos + Quanta graça que t[~e]e entre as boninas, + Sem ordem, com mais graça, entremetidos! + Vem encrespando as ágoas crystallinas + A branda viração; a fôlha treme; + O movimento apenas determinas. + A rôla seu amor suspira e geme; + Escondida se queixa Philomella: + Parece que do campo inda se teme. + Espanta a quem se atreve, ver aquella + Rocha por cima d'ágoa pendurada + Como ja se não deixa cahir nella. + Ó ribeira do Lima, celebrada + De mil brandos espritos sempre sejas, + Sempre de brandas Nymphas povoada. + Fujão longe de ti duras invejas; + Peçonha de pastores, morte sua: + Tudo sintas amor, tudo amor vejas. + De dia o claro sol, de noite a lua, + Em teu favor inspirem de maneira, + Que sempre fertil seja a praia tua. + Tornando, emfim, á prática primeira, + Por dar-te, como queres, de mi conta, + Larga ta quero dar e verdadeira. + Apartar-te do gado leva em conta; + Que, pois com elle fica o pegureiro, + Que te detenha hum pouco, pouco monta. + O meu nome he Anzino: fui vaqueiro + Na grã serra da Estrella, que não tive; + Não sei se natural, ou se estrangeiro. + Hum pastor me criou, que ja não vive; + De todos por seu filho era julgado; + E eu tambem neste engano hum tempo estive. + Até que delle soube ser achado + Em huma anzina envolto em pobres panos; + E daqui veio, que Anzino fui chamado. + Neste meu desengano outros enganos + Fundou de novo a pouca dita minha, + Com que o vim a servir mais de sete annos. + Tinha muito de seu, e mais não tinha + De filhos, que huma filha bem formosa, + Á qual por morte delle tudo vinha. + Conversação doméstica e damnosa, + Na livre formosura e tenra idade, + Em ambos accendeu chamma amorosa. + Como ella de mi soube esta verdade, + Com outro amor, com outros exercicios, + Nella ganhei de novo outra vontade. + Amor mestre me fez de mil officios + Para meio do fim que desejava; + E delle sinal davão mil indicios. + Tecia alvos cestinhos, quando andava + Com as vaccas no prado: á noite hum cheio + De fructa, outro de flores lhe levava. + Nas mangas muitas vezes e no seio + As nozes lhe levei com as castanhas, + Quer do souto do pae, quer d'outro alheio. + Nos intricados bosques, nas montanhas, + Por seu amor as feras perseguia, + Fôrças agora usando, agora manhas. + Vivos os mansos cervos lhe trazia; + Vivas medrosas lebres fugitivas: + Ligeireza de pés não lhes valia. + Mas, se lhe dava as mansas feras vivas, + Mortas lhe dava as que por natureza, + Sem domar-se, são bravas, ou esquivas. + Certo dia achei eu n'huma aspereza, + Sem mãe, hum cervo branco e pequenino; + Trouxe-lho; ella o criou; inda hoje o préza. + Ou ja criação seja, ou ja destino, + Tanto que não o vê, geme e suspira. + Como menos fara o triste Anzino? + Tangia mal na frauta, mal na lira; + Despois tão bem tangia, qu'era espanto + A quem antes d'amor tanger m'ouvíra. + Ouvia celebrar sempre em meu canto + Ulina a sua rara formosura: + (Tal nome t[~e]e aquella, a que amo tanto.) + Contava-lhe meus males por figura: + Ficava eu, de medroso, frio e mudo; + Ficava ella suspensa; a historia escura. + Assi com tal temor, com tal estudo, + Amor fui grangeando longamente, + Á conta deste amor perdendo tudo. + Ella, dos meus desejos innocente, + O mesmo amor me tinha, tanto, digo; + Que no ser era todo differente. + Praticava seus gostos só comigo; + Seus desgostos tambem, seus pensamentos, + Com rara graça e com saber antigo. + Outras vezes, confusa nos intentos, + Os modos me notava, e me dizia: + Entre irmãos de que servem comprimentos? + Eu quizera, Senhora, (respondia) + Que soubesses de mi, qu'irmão não sendo, + Não com menos amor te serviria. + Tornou-me: Essa resposta não entendo: + O que não quiz o ceo, queres que seja? + Que castellos no vento andas fazendo? + Se me queres ver leda, não te veja + Soltar essas palavras ociosas: + Materia mais honesta nos sobeja. + Dizendo assi, nascião-lhe outras rosas + Naquellas proprias suas, sôbre a neve + Das suas faces mais que o sol formosas. + Destas quebras comigo algumas teve; + Cujas fôrças amor quebrava logo + N'outra conversação mais branda e leve. + Cresceo desta maneira o vivo fogo, + Que ardendo dentro na alma encurta a vida; + Cujo principio foi hum brinco, ou jôgo. + Mas ella neste tempo era pedida + De muitos a seu pae em casamento; + Nova dor para mi, mortal ferida! + Elle lhe nomeava mais de cento: + Delles paternamente lhe rogava + Hum escolhesse a seu contentamento. + Com mil razões fingidas s'escusava, + Sendo só a razão, não ser contente; + Com que desgôsto ao pae, gôsto a mi dava. + Estando nós por huma sesta ardente + Á sombra d'huns madronhos repousando, + Affastados da casa e mais da gente, + Ja d'huma e d'outra cousa praticando; + Soltou com hum suspiro estas palabras: + Desde hontem para cá em mi não ando. + Logo que nosso pae tornou das labras, + Me disse que assentára de casar-me + Com Tityro, pastor de muitas cabras. + Que não buscasse causas d'escusar-me, + Como por muitas vezes ja fizera, + Pois tinha muitas mais de contentar-me. + Que afóra esta tenção, que a sua era, + O mesmo seus parentes lhe dizião, + A quem de seus intentos conta dera. + As ágoas, que dos olhos me corrião, + Em quanto elle me disse o que te digo, + Por mi, que fiquei muda, respondião. + Com seu chôro abrandou ao pae amigo; + Qu'emfim, deixando-a menos magoada, + Lhe disse que fallasse isto comigo. + Assi me disse; e que determinada + Estava a qualquer mal que lhe viesse. + Antes que ser com Tityro casada. + Que por mais de mil cabras que tivesse, + Jamais esta vontade mudaria; + Que buscava saber, não interesse. + E que de melhor mente casaria + Com hum qualquer pastor, pobre de gado, + Se nelle as partes visse, que em mi via. + Por extremo de mi lhe foi louvado + O pensamento seu; e sem detença + Tal resposta lhe dei acautelado: + Se a dar meu parecer me dás licença, + Hum pastor te darei de qualidade, + Que em nada de mi tenha differença; + Nem de menos saber, nem mais idade; + Nas manhas outro tal, e em corpo e gesto: + Da fazenda não sei a quantidade. + Se esse me fazes bom, daqui protesto + De não receber outro por marido: + Me respondia com sembrante honesto. + Pois sabe (respondi) que ja admittido + Me tens com gôsto teu por teu esposo; + Que com dar-te-me dou o promettido. + Não pude dizer mais, de vergonhoso, + Nem ella me deixou com ouvir tal, + Suspeitando de mi amor vicioso. + Logo me respondeo: Ah desleal! + Ah deshonesto irmão! isso pretendes? + Mas não irmão, imigo capital. + O ceo, que com injusto amor offendes, + Tome, cruel, de ti justa vingança, + Antes que de tamanho error t'emendes. + Andavas-me enganando na esperança + Com esses falsos e indevidos meios + Ao sangue nosso e minha confiança? + Fizeste verdadeiros os receios, + A que confusamente me levavas + De sombras enganosas com rodeios. + Desejo no teu peito agasalhavas + Tão torpe, tão infame, tão alheio + Do puro amor, a que obrigado estavas? + Não te desculpes, não; que ja não creio + Lagrimas, nem palavras, nem desculpas + De quem imaginou caso tão feio. + Timido respondi: De que me culpas? + Se ouvido me não dás, não tens razão; + Acaba de me ouvir o fim das culpas. + T[~e]e-me, Ulina, por teu, não por irmão: + Se me não queres crer esta verdade, + De teu pae saberás se minto, ou não. + Por filho me criou: a flor da idade + Gastei em o servir por teu respeito: + Ólha o que te merece esta vontade. + Se com ser isto assi tenho êrro feito + Em grangear-te; que a ti só desejo; + Eis este ferro aqui, eis este peito. + Isto ouvindo, mostrou hum ledo pejo, + Pondo os olhos no chão, formosa e branda; + E cuido qu'inda assi nos meus a vejo. + Disse-me: Em que revoltas o amor anda! + No bem, como no mal, tambem me enleia: + Inda agora o senti, ja reina e manda. + Como queres, Anzino, qu'eu te creia + Cousa que nem sonhada foi tégora? + Não sabes de quem ama, o que receia? + Fallarei com meu pae: fica-t'embora: + No desengano seu teu bem consiste; + Da palavra que dei não estou fóra. + Com isto me deixou alegre e triste. + O comêço ja ouviste de meu dano, + Amigo Limiano: o fim amargo, + Em que não serei largo, escuita agora. + Fulgencia, outra pastora, que vizinha + Era d'amada minha e grande amiga, + (Não sei como isto diga que não moura) + Pastora branca e loura, que na serra + Era a segunda guerra dos pastores, + Por mal dos meus amores me quiz bem. + Fundava-se porém em casamento; + E deste fundamento lhe nascia, + Que, como me não via, o valle, o monte, + O bosque, o rio, a fonte rodeava. + Em busca minha andava aquella sesta; + Entrou pola floresta, onde nos vio; + E tudo nos ouvio quanto fallámos, + Entre huns espessos ramos escondida. + Cruelmente ferida dos ciumes, + Foi-se a fazer queixumes (descobrindo + Mais do qu'esteve ouvindo) ao pae d'Ulina. + Eis logo desatina o triste velho; + Eis que sem mais conselho a filha entrega, + Que com chôro se nega e com palabras, + Ao simple guarda cabras, por esposa. + Ah hora desditosa! ah sorte dura! + Daquella formosura desusada, + De tantos desejada, e de mi tanto + Servida com espanto e puro amor, + Quizeste, por mais dor, enriquecer + Quem não sabe entender o preço della? + Ó tu, serra d'Estrella, que tal viste, + Como te não abriste; e no teu centro + Me não cerraste dentro, estando vivo, + Porque mal tão esquivo não sentíra? + Oh cega, oh cruel ira! oh pae fingido! + Para me ver perdido me criaste? + Porque me não deixaste no deserto? + Menos crueza, certo, então usáras, + Inda que me deixáras (não te aggraves) + Ás cruas feras e aves da montanha. + Não vês que o ceo estranha isso que tratas? + Não vês que a ti te matas cobiçoso? + Na porta o novo esposo tropeçou; + Na casa não entrou co'o pé direito: + Gritou sobolo teito a noite inteira + A ave, qu'he mensageira de fins tristes. + O mesmo vós sentistes, cães da aldeia, + Quando por má estreia, juntos todos, + Com differentes modos huiviastes. + Serranas, qu'esperastes nestas vodas + Cantar alegres todas Hymeneos, + Dos vossos alvos seios, alvas flores, + Em lugar dos licores mais custosos, + Por cima dos esposos derramando; + Ou vendo estar bailando, estando quedas, + Ao som das gaitas ledas no terreiro + O moço tão ligeiro á maravilha, + Que quasi o pé não trilha o junco mole; + Qual será que console a triste amiga, + A quem a fôrça obriga do pae duro, + A quem o Amor puro obriga tanto, + Que n'hum contino pranto se consume? + Assi do grande cume da esperança + Com subita mudança derribado, + Me poz em tal estado a triste nova, + Como sabe por prova quem bem ama. + Levou a leve fama a minha dor + A Sincero pastor, meu grande amigo, + Que com rogos comsigo me levou, + Do monte, onde me achou, ja noite escura, + Chorando a desventura em que me via. + As vaccas, vindo o dia, derramadas, + De mi desamparadas, vem bramando, + Sinal n'aldeia dando em seu bramido + De qu'era ja perdido o pastor seu. + Tamanha pena deo á bella Ulina + (Bella, porém mofina) a pena minha, + Sôbre quantas ja tinha no seu peito, + Que mais do triste leito não s'ergueo. + Seu pae adoeceo tambem de nojo: + Da morte foi despojo ao dia quinto. + A dor que daqui sinto he sem medida. + Pois m'apartou da vida, a vida acabe, + Ou n'alma, onde não cabe, faça pausa. + Fulgencia, que foi causa destes males, + Des que montes e valles descobrio, + Despois que me não vio em toda a serra, + Deixou, deixando a terra, mágoa aos pais, + Que della nunca mais novas souberão. + Emfim, tal fim tiverão meus amores. + Chorárão os pastores juntamente + D'Ulina descontente a triste sorte, + Do pae a breve morte, e de Fulgencia + A vingadoura ausencia de seu êrro; + De mi este destêrro em que me pôs. + Mas mais chorastes vós, meus olhos tristes, + Quando de vossa luz, sem a do dia, + Por terras tão estranhas vos partistes. + Cuido que meia noite então seria; + Cantando os gallos ja na triste aldeia, + Chorava só quem della se partia. + Casa de meus suspiros sempre cheia, + (Disse eu, quando passei pela de Ulina) + Tal fructo colhe quem amor semeia! + Fortuna, a mi cruel, sempre benina + Em tudo seja áquella, que em ti mora, + Indaqu'em outros braços se reclina. + Fica-te aqui, minha alma, fica embora, + Que, pois assi o quiz fado inimigo, + Jamais te não verei dia nem hora. + Dalli nos ricos campos dei comigo, + Que das ágoas do Tejo são regados; + Onde te vi mais ledo, como digo. + Por ver se posso agora a meus cuidados + Achar algum repouso, algum socêgo, + Atravessando vou montes e prados. + Passei as claras ágoas do Mondego, + Das Lusitanas Musas charo ninho; + As do Douro despois em turvo pégo. + Daqui continuando meu caminho, + Espero ver a casa aos ceos acceita, + Na terra que da nossa aparta o Minho. + Onde vou visitar na urna estreita + Os santos ossos do Varão divino, + Que pretendeo do Mestre o mão direita. + Assi, d'hum lugar n'outro de contino, + O bem que ja cantei, chorando venho; + Tornei-me de vaqueiro, peregrino: + Tal hábito me vês, tal vida tenho. + LIMIANO. + Anzino, he breve o dia + Para poder contar + O que sinto de tua desventura. + E sei bem qu'erraria, + Se quizesse louvar + O grave estylo teu, tua brandura. + Aquella formosura, + Por quem alegre fôras; + Que tu ledo cantaste, + E que despois choraste + Tão triste, qu'ind'agora triste choras; + Vivendo eterna nella, + Será mágoa commum, e louvor della. + As mágoas deixo enfim; + Tambem louvores deixo, + Por grandes ellas, elles por pequenos. + Tu, por amor de mim, + (Dir-te-hei de que me queixo) + Repousa hoje comigo, quando menos: + Assi vejas serenos + Esses teus tristes lumes. + Abranda a dura mágoa, + Que tira fontes de ágoa + Do fogo em que chorando te consumes; + Dar-te-hei conta mais larga + Da vida que aqui passo tão amarga. + E mais saber desejo + Se a fama nos engana, + Que diz, que o grão pastor dos Lusitanos, + Com todos os do Tejo, + E com fato e cabana, + Reside ja nos campos Africanos; + Onde mil soberanos + Triumphos, delle dinos, + Lh'ordena a fatal sorte, + Com grande estrago e morte + Dos brutos mal nascidos Sarracinos, + Que de si despejados + Os curraes deixão ja cheios de gados. + Que sendo assi, te digo + Que não espero mais + Nesta para mi sempre ingrata terra. + Quem traz guerra comsigo + Entre seus naturais, + Não deve d'estranhar estranha guerra. + Sem mi de serra a serra + (O ceo assi o queira) + Logrem meus inimigos + Os valles e pacigos + Desta, donde nasci, fresca ribeira; + Na qual (se não m'engano) + Inda será chorado Limiano. + ANZINO. + Limiano, ja bem tenho entendido + Quanto sentes meu mal; mas eu te digo + Que o teu mal he de mi menos sentido. + Ácerca de ficar hoje comtigo, + Farei pois (ja qu'assi nos detivemos) + Tudo o que tu quizeres, como amigo. + E, pois o dia ja passado temos, + Vamos-nos mais chegando para o gado; + E lá nas outras cousas fallaremos. + Todavia de funda e de cajado + Te vai apercebendo a som de guerra; + Que não foi tal pastor cá do ceo dado, + Para não dar ao ceo tão larga terra. + + +ECLOGA XII. + + +INTERLOCUTORES. + +DELIO, ALCIDO, GALASIO. + + DELIO. + Agora, Alcido, em quanto o nosso gado + Pasce diante nós manso e seguro, + Sentemos-nos aqui neste abrigado. + Logremos este sol sereno e puro, + Que livre se nos dá, antes que venha + A noite fria com seu manto escuro. + O rico com seu ouro lá se avenha; + Não se farta a cobiça co'a riqueza: + Mais arde o fogo quando t[~e]e mais lenha. + Com pouco se contenta a natureza. + Quem isto bem olhasse, certifico + Que não fugisse tanto da pobreza. + O sol tambem m'aquenta, como ao rico; + A fonte ágoa me dá, fructos a terra: + Com pouco mantimento farto fico. + Ah! que a má vaidade nos faz guerra! + (Para que gasto tempo em mais palabras?) + Os olhos da razão esta nos cerra. + Alcido, tens ovelhas, e tens cabras, + De que tiras da lãa, tiras do leite; + E não te faltão campos em que labras. + Inda tu queres mais? Amigo (eu hei-te + De fallar claro e sem lisongerias: + Não hajas medo tu, qu'eu as affeite) + Tu cantavas amor, amor tangias; + Faltava a tua frauta; agora he muda: + Que mal te mudou tanto em poucos dias? + ALCIDO. + Muda-se a idade, Delio; e se se muda + Com ella a condição, nada m'espanto; + O gôsto m'ajudou, ja não m'ajuda. + Se ja cantei amor, se amor não canto, + Culpas do tempo são, que vai mudando + O meu cantar alegre em triste pranto. + O tempo, que tão leve vai voando, + Delio, não torna mais; e assi fugindo, + Mil claros desenganos nos vai dando. + Pouco a pouco se veio descobrindo + O mal d'huma esperança vãa e incerta, + Que me deixou chorando, e foi-se rindo. + Quem nasce sem ventura, ou quem acerta + De fazer fundamento em peito alheio, + De mil contas que faz nenhuma he certa. + DELIO. + Pois se isso entendes tu, donde te veio + Sentir tão de verdade as sem-razões, + Não sendo d'outra cousa o mundo cheio? + ALCIDO. + Não queres tu que sintão corações + Obrigados com dor a sentimento, + Vendo a razão vencida d'affeições? + DELIO. + Emfim, todas as cousas querem tento: + Encobre a dor, e guarda-te d'extremos; + Que sempre trazem arrependimento. + Ao nosso doce canto nos tornemos: + Das nossas Nymphas, bellas inimigas, + Crueza e formosura celebremos. + ALCIDO. + Como cantarei eu novas cantigas + Em terra tão esteril, cheia d'ira, + Que nega flores, e que nega espigas? + Pendurei n'hum salgeiro a minha lira: + Ouvi-la ao som do vento he h[~u]a mágoa: + Em lugar de tanger, geme e suspira. + A Amarilia pintei, pintada trago-a + Aqui neste meu seio, e tambem chora: + Seus olhos me dão fogo, os meus dão-lhe ágoa. + Mas vejo vir Galasio. + DELIO. + Venha embora. + Galasio, queres tu cantar comigo? + GALASIO. + Eu nunca me roguei: menos agora. + DELIO. + Cantaremos d'Amor cruel imigo, + Ou brando e amoroso, em razão pôsto, + Tyranno e cego, e cego até comsigo? + GALASIO. + Cada qual cante do que for seu gôsto; + Quer mimos, quer rigores d'Amor fero; + Ou d'olhos verdes cante, ou d'alvo rosto. + ALCIDO. + Em quanto vós cantais, recolher quero + O gado; que são horas de ordenhar: + Á noite na malhada vos espero. + GALASIO. + Isso não: has d'ouvir para julgar + Qual de nós melhor canta e melhor sente. + DELIO. + Eu ja não cantarei, sem apostar. + Aposto o meu rafeiro, que Valente + Se chama, e com razão; que o lobo affasta, + Se não cantar mais branda e docemente. + GALASIO. + Hum cervo manso aposto. + DELIO. + Isso não basta: + Põe mais hum par da cabras. + GALASIO. + Deos me guarde; + Porque, Delio, este gado he da madrasta. + ALCIDO. + Fazeis-me vós juiz? Quereis que aguarde? + Ora cantae sem preço e sem inveja; + E seja logo, porque ja he tarde. + DELIO. + Learda minha, branca mais que a neve, + E muito mais corada que a grãa fina; + S'inda Amor a vencer-te não se atreve, + Que fara quem d'Amor por ti se fina? + Eu morro; e tu meu mal julgas por leve? + Não vês tu como ja me desatina? + Ai triste! que me vem valles e montes, + Regados de meus olhos feitos fontes. + GALASIO. + Marfida, branca mais que o branco leite; + Vermelha muito mais que a rosa pura; + Assi descuido em ti nunca suspeite, + Assi me trates inda com brandura; + Que a cabana, que a vida e a alma engeite + Por ti, quando tu mais que marmor dura. + Testimunhas serão montes e valles, + A quem dou larga conta de meus males. + DELIO. + Quando a minha Learda desencolhe + Os seus cabellos d'ouro, longo, ondado, + O sol, de pura inveja, se recolhe, + Corrido de se ver menos dourado. + Livre pastor não ha, que bem os olhe, + Sem se achar logo nelles enlaçado. + Ai! não soltes, Learda, os teus cabellos, + Pois tanto prendem quantos ousão vellos. + GALASIO. + Os tristes corações se tornão ledos, + Ouvindo de Marfida o doce canto; + Os furiosos ventos estão quedos; + Não guia o claro sol seu carro em tanto. + Converte-se a dureza dos penedos + Em brando amor: Amor desfaz-se em pranto, + Vencido dessa voz, doce Marfida; + Mas tu nunca d'Amor foste vencida. + DELIO. + O campo de verdura vejo pobre; + O ceo chuivoso sempre, e turvo o rio; + Da sua leve folha a terra cobre + O bosque, que foi ja verde e sombrio. + Mas se Learda o rosto seu descobre, + Logo desapparece o tempo frio: + Comsigo a primavera traz Learda. + Ai quem a visse ja! Ai quanto tarda! + GALASIO. + A triste Progne ja despareceo; + A toda flor o frio foi imigo; + A doce Philomela emmudeceo, + Rouca de lamentar seu mal antigo. + Mas venha por aqui quem me venceo + Com hum só volver d'olhos; qu'eu m'obrigo, + Que as aves tornem logo a seus amores, + E os campos se matizem de mil flores. + DELIO. + A viva chamma, aquelle vivo ardor, + Que brando sinto ja pelo costume, + De noite dá de si tal resplandor, + Que os pastores vem delle a tomar lume. + Pasmados ficão, vendo em mi d'amor + O fogo, que me queima e não consume: + E tu, por quem eu ardo noite e dia, + Quando vês tal ardor ficas mais fria! + GALASIO. + Eu sempre chóro, e tanto ja chorei, + Vencido da grã dor que n'alma tinha, + Que mil vezes de lagrimas fartei + Meu gado, quando a fonte a buscar vinha. + Chorando as duras pedras abrandei; + Mas nunca a ti, cruel imiga minha, + Que, vendo que por ti m'estillo em ágoa, + Nenh[~u]a mágoa tens de minha mágoa. + DELIO. + Quando vires, Learda, o nosso Lima, + Que lá vai de meu chôro acompanhado, + Tornar com suas ágoas para cima, + De seu curso esquecido, costumado; + Então embora julga, então estima + Que tenho n'outra parte o meu cuidado. + Mas deixarão os rios de correr, + Primeiro que deixe eu de te querer. + GALASIO. + Estas serras, Marfida, por certeza + De minha firme fé só quero dar-te: + Quando com espantosa ligeireza + Daqui correr as vires a outra parte, + Então cuida que falta em mi firmeza, + Qu'então deixarei eu, meu bem, de amar-te. + Mas mudar-se daqui bem podem ellas, + E eu não mudar de mi graças tão bellas. + ALCIDO. + Se esta vontade minha não deseja + A vossos versos dar justos louvores, + Hora nunca na vida alegre veja. + Acceitae meu desejo, meus pastores: + Mais vos não póde dar quem traz o esprito + De todo entregue a damnos, mágoas, dores. + Mas porque dê de vós público grito + A leve fama, como vêdes, deixo + O vosso canto e o meu juizo escrito + No liso tronco deste verde freixo. + Delio neste lugar doce cantou + Com Galasio, que doce respondia: + Hum Learda, Marfida outro louvou, + Com inveja de qual melhor diria. + Alcido, que o seu canto bem notou + Por ver quem a victoria levaria, + Como livre juiz, deo por sentença, + Que não havia entr'elles differença. + + +ECLOGA XIII. + +_Phyllis._ + + Pascei, minhas ovelhas: eu, em quanto + Aquelle passarinho canta ou chora, + Chamarei Corydon com triste pranto. + Se entre vós, bellas plantas, amor mora + (Plantas, ja vós amastes) tende mágoa + De mi, pois que m'ouvis queixar agora. + Ai cruel Corydon! cruel a frágoa + Em que vivo por ti! Não tens piedade + Dever meu peito fogo, os olhos ágoa? + Ja não amas a Phyllis? Ah crueldade! + Ai triste! E que farei? Em poucos dias + Mudaste tu de mi tua vontade. + A Phyllis ja deixaste, a quem trazias + No formoso verão formosas fruitas, + Sinal do grande bem que me querias? + Sabes, cruel, que tenho causas muitas + Para te convencer, de que queixar-me; + Por isso vás fugindo e não me escuitas. + Puderão os teus rogos abrandar-me: + Os meus (triste de mi!) mais te endurecem. + Ja não acho em que possa confiar-me. + Aquelles doces versos ja t'esquecem, + Que tu nos lisos álamos cortavas, + Onde com teus enganos inda crescem? + Arder por meu amor nelles mostravas: + Eu, crendo que era assi, não entendia + Quanto fingiste amar, quão pouco amavas. + Tristes meus fados forão, triste o dia + Em que nasci: coitada de mi triste, + Qu'em mágoa se tornou minha alegria! + Logo que a tua Galatêa viste, + Vi eu deste meu mal grandes agouros; + E tu da parte esquerda hum corvo ouviste. + E não t[~e]e Galatêa mais thesouros, + Nem t[~e]e mais formosura, inda que seja + Ou d'alvo rosto, ou de cabellos louros. + Á negra violeta t[~e]e inveja + O branco lirio, porque tal não tem + O cheiro, que vencido não se veja. + Tityro arde por mi; Tityro, a quem + Mil Nymphas dão capellas de mil flores; + Mas elle a mi só chama, a mi quer bem. + Eu desprézo por ti muitos pastores, + E tu por Galatêa me desprezas! + Tal pago dás, cruel, a meus amores? + Em que te mereci tantas cruezas, + Quantas usas comigo? Por ventura + Usei comtigo d'ira, ou d'asperezas? + Prouvera a Deos que tão isenta e dura + Me víras para ti, que nunca víras + Em mi sinal d'amor, ou de brandura! + S'eu fugíra de ti, tu me seguiras; + Por mi ardêras, não por huma ingrata, + Por quem choras em vão, em vão suspiras. + Bem me vinga de ti, pois te maltrata: + Mas eu te quero tanto, que desamo + (Por mais que tu me mates) quem te mata. + Respondem-me estes montes, quando chamo + Por ti com triste voz; Ecco responde + Das lagrimas, movida, que derramo. + E tu não me respondes, nem sei onde + Te leva esse desejo; mas bem sei + Que amor e desamor de mi t'esconde. + Ai triste Phyllis! triste! Onde acharei + Remedio a tanto mal? O fogo puro + Em que m'abrazo, com que abrandarei? + Ja fugíra daqui por mais que duro + Fosse o deixar o ninho em que nasci: + Mas não ha contra Amor lugar seguro. + A morte só (mil vezes isto ouvi + Á nossa Celia) por remedio espere + Aquelle que a Amor fez senhor de si. + Então, porque de todo desespere, + Este cego, a quem cegos nós seguimos, + A mi por ti, e a ti por outra fere. + S'eu morrêra no ponto em que nos vimos, + Não víra tanto mal. Mas que da sua + Sorte fugisse alguem, nós nunca ouvimos. + Eu me queixo de ti, e tu da tua + Galatêa te queixas; e não vês + Que mais piedosa te he, quando mais crua. + Sendo tu tão cruel, (tão cego es!) + Queres achar piedade? Como queres + Que te creião teu mal, se o meu não crês? + Qu'eu viva com pezar, tu com prazeres, + Não quer o justo Ceo. Ou ambos tristes, + Ou ledos ambos, si: mais não esperes. + Selvas, que n'outro tempo nos cobristes + Com frescas sombras lá do ardor de cima, + Dizei, se a Corydon dizer ouvistes: + Primeiro ha de tornar o brando Lima + As ágoas de crystal á fonte clara, + Que no meu peito novo amor s'imprima. + Primeiro qu'eu te deixe, Phyllis chara, + Me ha de deixar a mi a propria vida. + Mas quem, por não deixar-te, a não deixára! + Pois tu, Phyllis, ma dás, eu offrecida + A tenho a teu querer; tu della ordena + Como, doce amor meu, fores servida. + Por ti me será branda a dura pena; + Por ti suave a dor, leve o tormento, + A que m'inclina o fado, ou me condena. + Ah falso Corydon! teu pensamento + Era enganar-me: dada a fé me tinhas; + E a fé co'as palavras leva o vento. + Mas (ai triste de mi!) tambem as minhas + O vento vai levando. O sol he pôsto. + Porque, ligeira luz, te não detinhas, + Em quanto em meu queixume achava gôsto? + + +ECLOGA XIV. + + +INTERLOCUTORES. + +ERGASTO, DELIO, LAURENO. + + ERGASTO. + Agora, ja que o Tejo nos redeia, + Neste penedo, donde mansamente + Murmurando se quebra a branda veia, + Espera, Delio, até que do Occidente + D'azul deixe a ribeira matizada + O sol, levando o dia a outra gente. + Entretanto daqui verás pintada + A praia de conchinhas d'ouro e prata, + E a ágoa dos mansos sopros encrespada. + Verás como do monte se desata + A vagarosa fonte por penedos, + Que pouco a pouco cava e desbarata; + E como move os frescos arvoredos + Favonio, que de flores pinta o prado; + E como s'estão rindo os campos ledos. + Ditoso o que do Ceo foi tão amado, + Que no campo alcançou passar a vida, + Livre de pena, livre de cuidado. + O rouxinol na vara, que vestida + De verdes folhas, sombra faz ao rio, + Lhe canta o doce verso sem medida. + Agora ao pé d'hum alamo sombrio + Vê como dous carneiros s'offerecem, + Os cornos inclinando, a desafio. + Como ao que vence todos obedecem + E folgão de o ver fóra de perigo; + E outros com face esquiva o aborrecem. + Ditoso aquelle, que co'o ferro antigo + Lavra os campos do pae, e se contenta, + Nos seus mólhos atando o louro trigo! + Este a furia do mar não exprimenta, + Nem corre, por achar a pedra rica, + A estranha praia, que outro sol aquenta. + Onde, quando a esperança o fortifica + Em adquirir mais ouro e mais riqueza, + Ouro, esperança, e vida a muitos fica. + Este vive quieto na pobreza; + E deste confiarei que a anteponha + A quanto o mundo mais procura e préza. + Comendo em mesa vil, não s'envergonha: + Antes bebe nas mãos a fonte pura, + Qu'em precioso metal cruel peçonha. + Oh feliz tempo d'ouro! Ind'aqui dura, + Inda conversa aqui com os humanos + A Justiça, fugindo á gente impura! + Quem visse bem tão claros desenganos, + E quanto mal nos vicios se apparelha, + No campo gastaria bem os anos. + Ao dia a nossa vida se assemelha, + Porque quando no mar o sol se banha + Se costuma tingir de côr vermelha. + Assi, se olharmos bem, sempre se ganha + Lá no occaso da mal gastada vida + Rubicunda vergonha em mágoa estranha. + DELIO. + A gloria, Ergasto meu, qu'he possuida, + Nunca sabe de nós ser tida em preço: + Só despois que se perde he conhecida. + E desta vida os bens, qu'eu não mereço, + Quando os perco e o mal da outra ja m'espera, + Com grandes mágoas d'alma os reconheço. + Oh se em ditosa sorte me coubera + Por favor ou destino das estrellas, + Qu'entre pastores, eu pastor vivêra! + Muitas vezes t'ouvira as luzes bellas + Cantar da linda Nise, nas quaes arde + Teu peito, sempre ufano d'arder nellas. + Buscae pastor, ovelhas, que vos guarde; + Que o Ceo não quer qu'eu mais vos guarde e conte, + E despois vos recolha, sôbre a tarde. + Nãovos verei saltar junto da fonte, + Cabras minhas, ja meu querido gado, + Nem da rocha pender no verde monte. + ERGASTO. + Consente agora, ó Delio, que chorado + Em triste verso seja apartamento, + Que assi me deixa triste e magoado. + DELIO. + Não: que se dobrará meu sentimento. + Mas se queres, Ergasto, que m'esqueça + Partida, que lembrada he só tormento, + Canta aquelle Soneto, que começa: + _Quantas vezes do fuso s'esquecia_. + Que digas hum dos teus, não sei se o peça. + ERGASTO. + Se com m'ouvir, a dor se te allivia, + Eu o direi. Mas eis cá vem Laureno, + Que a cantar vezes mil me desafia. + Cantando venceo ja Tityro e Almeno: + E eu, inda que sei certo ser vencido, + Apostar a cantar com elle ordeno. + LAURENO. + Ergasto, pois o tempo se ha offrecido, + Celebremos amor e formosura, + Emquanto o gado á sombra está acolhido. + ERGASTO. + Postoque ja a victoria tens segura, + Não cantarei sem preço, porque saia + Mais ledo quem cantar com mais brandura. + LAURENO. + Eu hum vaso porei de lisa faia, + Divina obra de Alceo, que celebrado + Será sempre por claro nesta praia. + A vide, de que em roda está cercado, + Os roxos cachos cobre; e primor teve + Em pôr no meio a Dama e Pan cansado. + Parece que a beija-la o deos se atreve, + E que ainda dos beijos mal soffridos + Inclinado lhe foge o tronco leve. + ERGASTO. + Outro vaso porei d'hera cingido, + No qual Orpheo das aves esquecidas + E dos suspensos bosques he seguido. + Não cuido que de faia são sahidas + De tal arte, lavor de tal maneira: + Tambem obra he d'Alceo, das mais polidas. + Esta, das que me deo, foi a primeira; + Que a dar-ma o velho Alcido emfim s'abranda, + Ouvindo-me cantar nesta ribeira. + Ouvio-m'então, estando desta banda; + E dando-ma, dizia-me: Este seja + O premio, Ergasto, dessa Musa branda. + LAURENO. + Delio o nosso cantar pondere, e veja + Qual dos dous a voz dá mais docemente; + Que huma tal causa tal juiz deseja. + DELIO. + Se o meu juizo cada qual consente, + Tu, Ergasto, ao doce canto dá comêço; + Tu responde, Laureno, juntamente: + E eu fico que nenhum perca o seu preço. + ERGASTO. + Alcida, que na côr o leite puro, + E a rosa da manhãa deixas vencida, + Culpa he dos olhos teus, nelles o juro, + Est'amor de qu'estás tão offendida. + Castiga-os com me verem; qu'eu seguro + Que a vingança será delles sentida: + Nem temas tu d'os meus alegres serem, + Vendo tristes taes olhos por me verem. + LAURENO. + Violante minha, cuja côr iguala, + Mas antes vence os cravos, vence a neve; + Desta dor, que atéqui minha alma cala, + Teu amoroso riso a culpa teve. + Se só por viver della e por amá-la, + Julgas que algum castigo se me deve, + A ver-te sempre rindo me condena, + Pois crescendo o amor mais, mais cresce a pena. + ERGASTO. + Com a mãe, que maçãas colhendo andava, + Inda pequena, a bella Alcida vinha: + Eu os ramos da terra ja tocava, + Ja facil para amar o tempo tinha. + Não sei que fogo ou neve se passava + Daquelles olhos seus a est'alma minha, + Que me deixárão pôsto em tal extremo, + Que até de cuidar nelles ardo e tremo. + LAURENO. + No bosque a Violante vi hum dia, + Doce princípio destas doces dores; + A flor cahia nella, e parecia + Dizer cahindo: Aqui reinão amores. + Humilde em tanta gloria ella se ria, + E errando hião sôbre ella as várias flores: + Eu, que vencido fui d'hum error cego, + Áquelle honesto riso est'alma entrego. + ERGASTO. + Pastores deste bosque, que buscais, + Anoitecendo, o lume por costume; + Chegae a mi; qu'eu fico, se chegais, + Que destes meus suspiros leveis lume. + Accesos sahem d'alma os doces ais + No ardor, que pouco a pouco me consume; + Mas nem as chammas, qu'em suspiros deito, + Accendérão jamais hum frio peito. + LAURENO. + Pastores, que buscais na sombra amada + A fonte, por fugir o ardor do estio, + Vinde a mi, porque d'ágoa destillada + Por meus olhos, se sólta hum largo rio; + Tal, que a sêde d'Amor nunca apagada, + Fartá-la ja de lagrimas confio. + Mas com chôro de tanta quantidade + Não movo aquelles olhos a piedade. + ERGASTO. + Se quando a minha Alcida est'alma visse + Nos meus olhos, d'Amor tão maltratada; + Se quando a grave dor fóra sahisse + Entre suspiros mil rôta e quebrada, + Sequer com brandos olhos m'admittisse, + Ficando de vergonha mais córada; + Ditoso fôra, vendo-a, juntamente + Com ser mais bella, deste amor contente. + LAURENO. + Se á vista de Violante derramadas + As lagrimas d'amor, que vive nellas, + Tal fôrça lhe fizessem, que orvalhadas + Lhe ficassem de dor ambas estrellas, + E as rosas entre a neve semeadas, + Co'o piedoso orvalho, inda mais bellas; + Ditoso me fizera. Hora ditosa, + Se a víra ser mais bella e ser piedosa! + ERGASTO. + Claros olhos, que ao sol fazeis inveja, + Que brandos vos mostreis ja vos não peço; + Mas que poder-vos ver paga me seja, + Se por tamanho amor tanto mereço: + Armados d'esquivança então vos veja + Cheios d'hum não sei que, com que pereço; + Que doce me será tal esquivança. + Doce o morrer, qu'em olhos taes s'alcança! + LAURENO. + Olhos, que vos moveis tão docemente, + Que traz vós todo o mundo ides levando, + Eu não sei se tomais do ceo luzente + O movimento seu, se lho estais dando: + Sei certo (e não m'engano,) sei somente + Que a vós de mi minh'alma ides passando: + Mas não posso entender como deixais + Ao descuido o que vós em vós levais. + ERGASTO. + Por mais que a minha soberana Alcida + (Minha não, porque só sua belleza + Vem a ser minha em ser de mi querida) + Me trate vezes mil com aspereza; + Huma só vez que della acho admittida + Minha pequena vista na grandeza + Da luz do rosto seu, sinto tal gloria, + Que de todo o penar perco a memoria. + LAURENO. + Quando a minha mais que unica Violante + (Se minha póde ser a que he tão sua) + Aquella santa luz hum breve instante + Me deixa ver, por mais que a veja crua; + A vista tanto em mi vejo a diante, + Que não he muito, não, que m'attribua + A soberba de ser hum'aguia nova, + Que do ceo no ôlho claro a vista prova. + DELIO. + Pastores, que alcançar pudestes tanto + Com vossa branda Musa, que ja nesta + Idade renovais o antigo canto; + Para vosso louvor, que verso presta? + Qu'hera digna será? que louro dino + Qu'em premio a cada qual adorne a testa? + Em parte paga Amor, se de contino + Por dentro a cada hum gasta os espritos, + Pois co'o divino canto o faz divino. + Nós veremos por annos infinitos + Nos altos troncos destas faias bellas + Os nomes vossos por memoria escritos. + De unicas flores mereceis capellas: + T[~e]e Alcida e Violante sós taes flores; + E, pois ellas as t[~e]e, dem-vo-las ellas. + Os vossos premios recolhei, pastores: + Cada qual igualmente o seu merece; + E ambos d'Apollo os mereceis maiores. + Recolhamos o gado; que anoitece. + + +ECLOGA XV. + + +INTERLOCUTORES. + +SOLISO e SYLVANO. + + SOLISO. + De quanto alento e gôsto me causava + A vista da manhãa resplandecente, + Com que toda a tristeza s'alegrava; + Que quando vinha o sol claro e luzente, + Bem claro então em mi se conhecia + Huma nova alegria differente; + Tanto agora me offende o novo dia, + Vendo que me não mostra a formosura, + De que só me mantinha e só vivia. + E não me quiz deixar triste ventura + Esperanças de mais tornar a vella! + Oh destino cruel! oh sorte dura! + Oh querida Natercia! oh Nympha bella, + Em quem, emfim, mostrou a natureza + O mais que se podia esperar della! + Se lá no assento da maior alteza + Te lembras de quem viste cá na terra, + Para te magoar sua tristeza; + Lembre-te de contino a cruel guerra, + Que contínua me faz tua lembrança, + Esquecido do gado, valle e serra. + Lembre-te que perdi a confiança + De ver os olhos teus, e juntamente + De todo o bem d'Amor toda a esperança. + Lembre-te que por ti de mi ausente + A crystallina fonte me he nojosa, + Com que ja n'outro tempo fui contente. + Que por ti a manhãa clara e formosa + Males cada momento me accrescenta; + Sendo-me em outros dias deleitosa. + Por ti o puro sol me descontenta; + Com seu canto m'offende a Philomella: + Mas, porque nelle chora, me contenta. + Por ti, Natercia pura, Nympha bella, + Na verdura suave deste prado + Os males multiplico só com vella. + Por ti não curo ja do manso gado: + Com o mesmo qu'então meu bem crescia, + Agora vai crescendo o meu cuidado. + Não sou ja, ja não sou quem ser sohia; + Mudou-se-me a vontade co'a ventura; + Mudou-se co'os tormentos a alegria; + Trocou-se o claro dia em noite escura: + Nem he muito que tudo se mudasse, + Pois se mudou a tua formosura. + Não via outro reparo, que cuidasse + Poder aproveitar ao meu tormento, + Nem outra gloria alguma em qu'esperasse, + Senão em quanto o triste pensamento + Se punha a contemplar tua beldade, + Sem lhe lembrar tão longo apartamento. + Agora que me falta a claridade, + Que de ver-te a minha alma recebia, + Ficando-me só della a saudade; + Qual ficará hum'alma, que sabía + Somente desta gloria contentar-se? + Gloria de que gozar não merecia! + Qual poderá ficar quem com lembrar-se + Mortalmente do bem qu'he ja passado, + Só t[~e]e por melhor vida á morte dar-se? + E qual se póde ver quem hum cuidado + Sostem, que he só da dor certa morada, + E nelle vive só desesperado? + Qual ha de ver-se, ó Nympha delicada, + Hum'alma que te via; e em te vendo + O fio lhe cortou a Parca irada? + A causa deste mal eu não a entendo: + Só entendo que, perdida essa luz pura, + Por perdida a não ver, vivo morrendo. + Vejo que me roubou fortuna escura + Hum bem por quem meu mal me contentava: + Lembra-te tu de tanta desventura. + Lembra-te tu, que só de ti'sperava + Remedio aos males meus; e então verás + Qual ficou quem em ti só confiava. + Lembre-te adonde estou, adonde estás, + E que tudo sem ti cá m'aborrece: + Dest'arte o estado meu entenderás. + SYLVANO. + Não sei por que razão nos amanhece + Este dia dos outros differente, + Com que toda a alegria s'entristece. + O manso gado vejo, que contente + Buscando hia nos campos a verdura, + E dos rios a limpida corrente: + Agora triste errar pola espessura, + Alheio d'herva verde e d'ágoa fria; + Sinal d'alguma grande desventura. + Suspensa está das aves a harmonia; + E em certo modo mostra que lá chora + A mesma sequidão da penedia. + A candida, rosada, bella aurora, + Que sempre os altos montes vem dourando, + Com hum pallor mortal se mostra agora. + Está-se nestas hervas enxergando + Tão triste côr, que della se conhece + Que algum mal se nos vai apparelhando. + Emfim, vejo que tudo s'entristece; + A causa ignoro. O ceo piedoso queira + Que menos seja o mal, do que parece. + Porque, desde que habíto esta ribeira, + Não m'acórdo de a ver tão carregada, + Nem de a ouvir murmurar desta maneira. + Não m'acórdo que visse outra alvorada + Tão confusa sahir, como esta vejo, + De profunda tristeza acompanhada. + Agora aqui tomára quem sem pejo + A causa, se a soubesse, m'ensinasse, + Para satisfazer a meu desejo. + Porque não posso eu crer que resultasse + D'alguma baixa causa hum tal effeito, + Que até nos duros montes se enxergasse. + O coração cá dentro no meu peito + M'assegura, que tanta novidade + Não traz a origem de commum respeito. + Mas, por entre a confusa claridade, + Lá vejo vir Soliso com seu gado: + Delle espero entender toda a verdade. + Mas não posso cuidar neste cuidado, + Que nos olhos não mostre onde me chega + A dor de o ver de dores traspassado. + Mas aquelle, que a Amor cruel s'entrega, + Não he muito que passe hum tal tormento; + Porque todo mal dá, todo bem nega. + Em quanto este pastor o pensamento + Logrou, sem qu'em amores o empregasse, + Senão só em buscar contentamento; + Festa não se fazia em que faltasse + A sua frauta, qu'elle assi tangia, + Que outra nunca se ouvio que lhe igualasse. + Ja agora não he aquelle que sohia; + Vejo-o na condição todo mudado; + Mudada tambem delle está a alegria. + Não cura ja do seu querido gado; + Aborrecem-lhe as plantas, hervas, flores; + Aborrece-lhe a gente e o povoado. + Não lhe lembrão as festas dos pastores; + Apartando se vai pola espessura, + Enlevado somente em seus amores. + Contenta-se da noite triste e escura; + Odio t[~e]e com o sol puro e luzente. + Quem vio nunca tamanha desventura? + Com esta vai passando tão contente, + Que diz que, quando o mal mais o atormenta, + Se gôsto sentirp óde, então o sente. + Neste bosque huma Nympha se aposenta, + Por quem elle na vida anda morrendo; + E he causa desta dor que lhe contenta. + E segundo o que delle agora entendo, + Se a vista não m'engana o pensamento, + Ou de vãa phantasia estou pendendo; + Quando fôra maior o grão tormento, + Que Soliso padece, não pudera + Igualar-se com seu merecimento. + Quero chegar-me a elle, em quanto espera + Que vá descendo o vagaroso gado: + Saberei delle o que saber quizera. + Venho, Soliso, a ti com hum cuidado, + Que todo m'entristece; e com grão medo + De grão mal sôbre nós inopinado. + Vês tu como está agora este arvoredo + Triste e pezado, lugubre e sombrio? + Como o vento parece que está quedo? + Vês a commum corrente deste rio + Que ora tanto se pára, ora anda tanto, + Deixando de seu curso o certo fio? + Vês como a Philomella deixa o canto, + Com que incita os pastores namorados, + E multiplica Progne o triste pranto? + E vês, emfim, por todos esses prados + Desmaiadas as hervas, que sohião + Viçoso pasto dar aos nossos gados? + Todos estes sinaes, que não se vião + Nas Auroras a esta antecedentes, + Algum damno mortal nos annuncião. + Eu não sinto o que seja: se o tu sentes, + Não te seja o dizer-mo mui penoso; + E entenderei por ti taes accidentes. + SOLISO. + N'outro tempo me fôra deleitoso + Por extremo, Sylvano, gôsto dar-te; + Mas todo gôsto agora me he nojoso. + Bem quizera poder communicar-te + A causa deste horror; mas antes quero + Anojar-me a mi proprio, que anojar-te. + Porém ja sinto o fado tão severo, + Que quanto mais me ponho a declará-lo, + Mais então d'entendê-lo desespero. + E se acaso o entender para contá-lo, + Se quero começar, quer a ventura + Á fôrça de soluços atalhá-lo. + Que despois que me falta a formosura + Daquella illustre Nympha, que contente + Pudera bem fazer a noite escura, + Foi-me faltando o esprito juntamente: + Em suspirar só gasto a noite e dia, + Sem me fartar de ver-me descontente. + SYLVANO. + Novidade maior em mi sería + O espantar-me de ver-te estar queixando, + Que o ver em ti desejos d'alegria. + Responde-me ao que t'hia perguntando + Da causa desta singular tristeza: + Não gastes todo o tempo lamentando. + SOLISO. + Sempre em ti conheci huma dureza, + E austera inclinação, que bem declara + Quão conforme he teu nome á natureza. + Porque se o meu tormento t'alcançára, + O mor bem para ti o mor mal fôra; + E todo o mal maior te contentára. + Deixa que chore quem com gôsto chora: + Deixa-me lamentar meu triste fado; + Que a hum triste a hora de chôro he melhor hora. + Tu não trazes agora outro cuidado + Mais que buscar no valle a sombra fria, + Quando te offende o sol mais empinado. + Coitado de quem passa a noite e dia + Porfiando em morrer, e a sorte dura + Em fugir-lhe co'a morte só porfia! + Oh formosa Natercia! a excelsa altura + Do glorioso Olympo andas pizando; + E eu ausente da tua formosura! + SYLVANO. + Qu'he isso, que do ceo estás fallando? + Parece-me que ja não es Soliso, + Ou que de puro amar vás delirando. + SOLISO. + Quem ja perdeo aquelle doce riso, + Que siso produzia e dava vida, + Não he muito que perca a vida e siso. + SYLVANO. + Declara-me que cousa tens perdida, + De que tanto te queixas; que ao que sento, + Natercia destes valles he partida. + SOLISO. + Quão livre falla aquelle que o tormento + Alheio vê de fóra, mas não sente + Onde chega tamanho sentimento! + A gloria qu'eu perdi não me consente + Palavras naturaes, razões expertas, + Que possão declarar a dor presente. + Mas nesse teu error vejo que acertas; + Porque com nenhum mal deve turbar-se + Quem só delle esperanças logra certas. + SYLVANO. + A quem, Soliso meu, de declarar-se + Com outro em casos taes falta vontade, + Nunca faltão razões para escusar-se. + Não sei donde te vem tal novidade; + Pois negando-me agora o que te peço, + Suspeito que me negas a amizade. + Se pola que te guardo te aborreço, + Sabe que só hum cego entendimento + Ás amizades faz perder o preço. + Eu te deixarei só com teu tormento; + Mas não sem dor de ver que tanto a peito + Tomes hum tão damnoso pensamento. + SOLISO. + Outra he, certo, a razão, outro o respeito + Que negar-te me fez o que pedias: + Não creias que de ti tão mal suspeito. + Bem sei que o meu descanso pretendias; + E a mesma confiança faz negar-te + O que destes sinaes saber querias. + SYLVANO. + Não queiras mais, Soliso, prolongar-te; + Pois pende o gôsto meu da tua vida: + Se corre risco, dá-me delle parte. + SOLISO. + De todo a sinto ja desfallecida + Nas lembranças daquella breve historia, + Que foi para meus males tão comprida. + Ja me vence a tristissima memoria + Da gloria que presente me animava. + Quem pudera voar traz tanta gloria! + Natercia qu'estes montes alegrava, + E que á casta Diana fez inveja, + E que com sua vista o sol cegava; + Aquella a quem render-se só deseja + Aquelle que de bella mãe presume, + E a quem as armas dá com que peleja; + Natercia, que no mundo foi hum lume, + Onde a belleza de maior estado + Incendios aprendia por costume; + Natercia, por quem ando acompanhado + De mágoa tal, que só da morte dura + Espero o feliz fim de meu cuidado; + Ao ceo se foi co'aquella formosura, + Qu'era mostra do ceo, gloria da terra; + Qu'era o sogeito mor da mor ventura. + Ja não fara no prado ás almas guerra + Com a vista, senão com a lembrança; + Guerra em que o damno mais cruel s'encerra. + Ja de vê-la não tenhas esperança; + Qu'esta vida trocou de mal cercada + Por outra, em que do bem não ha mudança. + E a causa vês aqui de que a alvorada + Visses desta manhãa tão differente + De outra qualquer, de ti mais ponderada. + Dizer-te o mais não posso, porque sente + Est'alma no que disse tal tormento, + Qu'esta memoria apenas me consente. + O espirito ja debil, sem alento, + No pouco que te tenho referido, + Nas azas se sostem do pensamento. + Oh mundo! qual he aquelle tão perdido, + Qu'em ti crê, qual aquelle tão insano, + Vendo-te todo em damno instituido? + Deixas passar hum gôsto d'anno em ano, + Porque, com nosso opprobrio e tua gloria, + Nos faças mais patente o teu engano. + Sempre assi vai comtigo a mor victoria, + Deixando-nos somente por herança + D'hum possuido bem triste memoria. + Quem faz de ti alguma confiança, + Sabendo ja que quem de ti confia, + D'hum engano penoso emfim se alcança? + Aquelle da belleza novo dia + Cegaste, quando mais resplandecente + Triumphos mil d'Amor nos promettia. + De qual tigre cruel peito inclemente + Não se rompe de mágoa, morta aquella, + Que a tristeza mil vezes fez contente? + Quem, que vê eclipsada a vista bella, + Despois de visto haver sua beldade, + E não sabe morrer por hir traz ella? + Como não te applacou tão tenra idade + Ao cortar do seu fio, ó Parca dura, + Que agora o mundo matas de saudade? + Deixae, deixae, pastores, a verdura; + As frautas deixae ja, e os mansos gados; + E chorae todos vossa desventura. + E vós, sylvestres Faunos namorados, + Tambem chorar podeis, pois ja perdêrão + O objecto mais gentil vossos cuidados. + Nymphas, a quem os deoses concedêrão + Destes sagrados bosques a morada, + E em quem tamanhas graças escondêrão; + Se aquella piedade costumada, + De que mais vos prezais, não esquecestes, + Que sempre foi de vós tão venerada; + Se ja d'alheio damno vos doestes, + Do vosso proprio vos doei agora, + Pois com Natercia todo o bem perdestes. + Oh Naiades! das ágoas sahi fóra; + E de vós ágoa saia em mal tão forte, + Pois de vê-lo tambem o monte chora. + Oh Napêas! chorae a triste sorte + Dos miseros pastores, a quem nega + O fado por mais pena o mortal córte. + Oh Dryas! vós, a quem Amor s'entrega, + Tomae todo o cuidado deste pranto, + Pois sabeis onde a causa delle chega. + Deixae, ó Amadryas, entretanto + As plantas que guardais, por ajudar-me, + Pois deixa a Philomella o doce canto. + E vós, ó vida minha, pois curar-me + Ja não podeis, deixae-me juntamente, + Porque lembranças taes possão deixar-me. + Mas se dellas morreis, morro contente. + + + + +CANÇÕES. + + +CANÇÃO I. + + Formosa e gentil Dama, quando vejo + A testa d'ouro e neve, o lindo aspeito, + A boca graciosa, o riso honesto, + O collo de crystal, o branco peito, + De meu não quero mais que meu desejo, + Nem mais de vós, que ver tão lindo gesto. + Alli me manifesto + Por vosso a Deos e ao mundo; alli m'inflamo + Nas lagrimas que chóro; + E de mi que vos amo, + Em ver que soube amar-vos me namóro; + E fico por mi só perdido de arte, + Qu'hei ciumes de mi por vossa parte. + Se por ventura vivo descontente + Por fraqueza d'esprito, padecendo + A doce pena qu'entender não sei, + Fujo de mi, e acolho-me correndo + Á vossa vista; e fico tão contente, + Que zombo dos tormentos que passei. + De quem me queixarei, + Se vós me dais a vida deste geito + Nos males que padeço, + Senão de meu sogeito, + Que não cabe com bem de tanto preço? + Mas inda isto de mi cuidar não posso, + D'estar muito soberbo com ser vosso. + Se por algum acêrto Amor vos erra + Por parte do desejo, commettendo + Algum nefando e torpe desatino; + E s'inda mais que ver, emfim, pretendo; + Fraquezas são do corpo, qu'he de terra, + Mas não do pensamento, qu'he divino. + Se tão alto imagino + Que de vista me perco, ou pecco nisto, + Desculpa-me o que vejo. + Porém como resisto + Contra hum tão atrevido e vão desejo, + Faço-me forte em vossa vista pura, + Armando-me da vossa formosura. + Das delicadas sobrancelhas pretas + Os arcos com que fere Amor tomou, + E fez a linda corda dos cabellos: + E porque de vós tudo lhe quadrou, + Dos raios desses olhos fez as settas + Com que fere quem alça os seus a vellos. + Olhos que são tão bellos + Dão armas de vantajem ao Amor, + Com que as almas destrue. + Porém se he grande a dor + Com a alteza do mal a restitue; + E as armas com que mata são de sorte, + Que ainda lhe ficais devendo a morte. + Lagrimas, e suspiros, pensamentos, + Quem delles se queixar, formosa Dama, + Mimoso está do mal que por vós sente. + Qual bem maior deseja quem vos ama, + Qu'estar desabafando seus tormentos, + Chorando, imaginando docemente? + Quem vive descontente + Não ha de dar allívio a seu desgôsto, + Porque se lhe agradeça; + Mas com alegre rôsto + Soffra seus males, para que os mereça: + Que quem do mal se queixa, que padece, + O faz porqu'esta gloria não conhece. + De modo que se cahe o pensamento + Em alguma fraqueza, de contente, + He porqu'este segredo não conheço. + Assi que com razões não tãosomente + Desculpo ao Amor de meu tormento, + Mas inda a culpa sua lh'agradeço. + Por esta fé mereço + A graça qu'esses olhos acompanha, + E o bem do doce riso. + Mas ah! que não se ganha + Co'hum paraiso, outro paraiso. + E d'enleada assi minha esperança + Se satisfaz co'o bem que não alcança. + Se com razões escuso meu remedio, + Sabe, Canção, que só porque o não vejo, + Engano com palavras o desejo. + + +CANÇÃO II. + + A instabilidade da fortuna, + Os enganos suaves d'Amor cego, + (Suaves se durárão longamente) + Direi, por dar á vida algum socêgo; + Que pois a grave pena m'importuna, + Importune meu canto a toda gente. + E se o passado bem co'o mal presente + M'endurecer a voz no peito frio; + O grande desvario + Dara de minha pena sinal certo; + Que hum êrro em tantos erros he concêrto. + E pois nesta verdade me confio, + (Se verdade se achar no mal que digo) + Saiba o mundo d'Amor o desengano, + Que ja com a razão se fez amigo, + Só por não deixar culpa sem castigo. + Ja Amor fez leis, sem ter comigo alguma; + Ja se tornou de cego razoado, + Só por usar comigo semrazões. + E se em alguma cousa o tenho errado, + Com siso grande dor não vi nenhuma: + Nem elle deo sem erros affeições. + Mas, por usar de suas isenções, + Buscou fingidas causas de matar-me: + Que para derribar-me + A este abysmo infernal de meu tormento, + Nunca soberbo foi meu pensamento, + Nem pretendeo mais alto levantar-me + D'aquillo qu'elle quiz; e s'elle ordena + Qu'eu pague seu ousado atrevimento, + Saibão que o mesmo Amor, que me condena, + Me fez cahir na culpa e mais na pena. + Os olhos, qu'eu adoro, aquelle dia + Que descêrão ao baixo pensamento, + N'alma os aposentei suavemente; + E pretendendo mais, como avarento, + O coração lhe dei por iguaria, + Que a meu mandado tinha obediente. + Mas, como lhes esteve alli presente, + E entendêrão o fim do meu desejo, + Ou por outro despejo, + Que a lingua descobrio por desvario, + Morto de sêde estou pôsto em hum rio, + Onde de meu servir o fructo vejo; + Mas logo se alça se a colhê-lo venho, + E foge-me a ágoa s'em beber porfio. + Assi qu'em fome e sêde me mantenho: + Não t[~e]e Tantalo a pena qu'eu sostenho. + Despois que aquella, em quem minh'alma vive, + Quiz alcançar o baixo atrevimento, + Debaixo d'este engano a alcancei: + A nuvem do contino pensamento + Ma figurou nos braços, e assi tive + Sonhando, o que acordado desejei. + E porque a meu desejo me gabei + De conseguir hum bem de tanto preço; + Além do que padeço, + Atado em huma roda estou penando, + Qu'em mil mudanças me anda rodeando; + Onde, se a algum bem subo, logo deço. + E assi ganho, e assi perco a confiança; + E assi de mi fugindo traz mim ando; + E assi me t[~e]e atado huma vingança, + Como Ixião, tão firme na mudança. + Quando a vista suave e inhumana + Meu humano desejo, de atrevido, + Commetteo, sem saber o que fazia, + (Que da sua belleza foi nascido + O cego moço, que com setta insana + O peccado vingou desta ousadia) + Afora este penar, qu'eu merecia, + Me deo outra maneira de tormento: + Que nunca o pensamento, + Voando sempre d'huma a outra parte, + Destas entranhas tristes bem se farte, + Imaginando como o famulento, + Que come mais e a fome vai crescendo, + Porque de atormentar-me não se aparte. + Assi que para a pena estou vivendo: + Sou outro novo Ticio, e não m'entendo. + De vontades alheias, qu'eu roubava, + E que enganosamente recolhia + Em meu fingido peito, me mantinha. + O engano de maneira lhes fingia, + Que despois que a meu mando as sobjugava, + Com amor as matava, qu'eu não tinha. + Porém logo o castigo que convinha + O vingativo Amor me fez sentir, + Fazendo-me subir + Ao monte da aspereza qu'em vós vejo, + Co'o pezado penedo do desejo, + Que do cume do bem me vai cahir: + Tórno a subi-lo ao desejado assento; + Torna a cahir-me: em vão, emfim pelejo. + Sisypho, não t'espantes deste alento, + Que ás costas o subi do soffrimento. + Dest'arte o summo bem se m'offerece + Ao faminto desejo, porque sinta + A perda de perdê-lo mais penosa. + Bem como o avaro, a quem o sonho pinta + O achado d'hum thesouro, onde enriquece, + E farta a sua sêde cobiçosa; + E acordando, com furia pressurosa + Vai o sítio cavar com que sonhava; + Mas tudo o que buscava + Lhe converte em carvão a desventura; + Alli sua cobiça mais se apura, + Por lhe faltar aquillo qu'esperava: + O Amor assi me faz perder o siso. + Porque aquelles qu'estão na noite escura + Não sentirião tanto o triste abisso, + Se ignorassem o bem do Paraisso. + Canção, não mais; que ja não sei que diga: + Mas, porque a dor me seja menos forte, + Diga o pregão a causa desta morte. + + +CANÇÃO III. + + Ja a roxa manhãa clara + As portas do Oriente vinha abrindo; + Os montes descobrindo + A negra escuridão da luz avara. + O sol, que nunca pára, + Da sua alegre vista saudoso, + Traz ella pressuroso + Nos cavallos cansados do trabalho, + Que respirão nas hervas fresco orvalho, + S'estende claro, alegre e luminoso. + Os passaros voando, + De raminho em raminho vão saltando; + E com suave e doce melodia + O claro dia estão manifestando. + A manhãa bella, amena, + Seu rosto descobrindo, a espessura + Se cobre de verdura + Clara, suave, angelica, serena. + Oh deleitosa pena! + Oh effeito d'Amor alto e potente! + Pois permitte e consente + Qu'ou donde quer qu'eu ande, ou dond'esteja, + O seraphico gesto sempre veja, + Por quem de viver triste sou contente. + Mas tu, Aurora pura, + De tanto bem dá graças á ventura, + Pois as foi pôr em ti tão excellentes, + Que representes tanta formosura. + A luz suave e leda + A meus olhos me mostra por quem mouro, + Com os cabellos d'ouro, + Que nenhum ouro iguala, se os remeda. + Esta a luz he que arreda + A negra escuridão do sentimento + Ao doce pensamento; + Os orvalhos das flores delicadas + São nos meus olhos lagrimas cansadas, + Qu'eu chóro co'o prazer de meu tormento; + Os passaros que cantão, + Meus espiritos são, que a voz levantão, + Manifestando o gesto peregrino + Com tão divino som, que o mundo espantão. + Assi como acontece + A quem a chara vida está perdendo, + Qu'em quanto vai morrendo, + Alguma visão santa lh'apparece; + A mim em quem fallece + A vida, que sois vós, minha Senhora, + A est'alma, qu'em vós mora + (Em quanto da prisão s'está apartando) + Vos estais justamente apresentando + Em fórma de formosa e roxa Aurora. + Oh ditosa partida! + Oh gloria soberana, alta e subida! + Se me não impedir o meu desejo; + Porque o que vejo, emfim, me torna a vida. + Porém a natureza, + Que nesta pura vista se mantinha, + Me falta tão asinha, + Como o sol faltar soe á redondeza. + Se houverdes qu'he fraqueza + Morrer em tão penoso e triste estado, + Amor será culpado, + Ou vós, ond'elle vive tão isento, + Que causastes tão largo apartamento, + Porque perdesse a vida co'o cuidado. + Que se viver não posso, + Homem formado só de carne e osso, + Esta vida que perco, Amor ma deo; + Que não sou meu: se morro, o damno he vosso. + Canção de cysne, feita em hora extrema, + Na dura pedra fria + Da memoria te deixo em companhia + Do letreiro da minha sepultura; + Que a sombra escura ja m'impede o dia. + + +CANÇÃO IV. + + Vão as serenas ágoas + Do Mondego descendo, + E mansamente até o mar não parão; + Por onde as minhas mágoas + Pouco a pouco crescendo, + Para nunca acabar se começárão. + Alli se me mostrárão + Neste lugar ameno, + Em qu'inda agora mouro, + Testa de neve e d'ouro; + Riso brando e suave; olhar sereno; + Hum gesto delicado, + Que sempre n'alma m'estará pintado. + Nesta florída terra, + Leda, fresca e serena, + Ledo e contente para mi vivia; + Em paz com minha guerra, + Glorioso co'a pena + Que de tão bellos olhos procedia. + D'hum dia em outro dia, + O esperar m'enganava: + Tempo longo passei; + Com a vida folguei, + Só porqu'em bem tamanho s'empregava. + Mas que me presta ja, + Que tão formosos olhos não os ha? + Oh quem me alli dissera + Que d'Amor tão profundo + O fim pudesse ver eu algum'hora! + E quem cuidar pudera + Que houvesse ahi no mundo + Apartar-me eu de vós, minha Senhora! + Para que desde agora, + Ja perdida a esperança, + Visse o vão pensamento + Desfeito em hum momento, + Sem me poder ficar mais que a lembrança; + Que sempre estará firme + Até no derradeiro despedir-me. + Mas a mor alegria + Que daqui levar posso, + E com que defender-me triste espero, + He que nunca sentia + No tempo que fui vosso, + Quererdes-me vós quanto vos eu quero. + Porque o tormento fero + De vosso apartamento, + Não vos dará tal pena + Como a que me condena; + Que mais sentirei vosso sentimento, + Que o que a minh'alma sente. + Morra eu, Senhora; e vós ficae contente. + Tu, Canção, estarás + Agora acompanhando + Por estes campos estas claras ágoas; + E por mi ficarás + Com chôro suspirando; + Porque, ao mundo dizendo tantas mágoas, + Como huma larga historia + Minhas lagrimas fiquem por memoria. + + +CANÇÃO V. + + S'este meu pensamento, + Como he doce e suave, + D'alma pudesse vir gritando fóra; + Mostrando seu tormento + Cruel, aspero e grave, + Diante de vós só, minha Senhora; + Pudera ser que agora + O vosso peito duro + Tornára manso e brando. + E então eu, que sempre ando + Passaro solitario, humilde e escuro, + Tornado hum cysne puro, + Brando e sonoro, por o ar voando, + Com canto manifesto + Pintára a minha pena, e o vosso gesto. + Pintára os olhos bellos + Que trazem nas meninas + O menino que os seus nelles cegou; + Os dourados cabellos + Em tranças d'ouro finas, + A quem o sol os raios seus baixou; + A testa que ordenou + Natura tão formosa; + O bem proporcionado + Nariz, lindo, afilado, + Que cada parte t[~e]e da fresca rosa; + A boca graciosa, + Que o querê-la louvar he ja 'scusado. + Emfim, he hum thesouro; + Perolas dentes, e palavras ouro. + Víra-se claramente, + (Oh Dama delicada!) + Qu'em vós s'esmerou mais a natureza. + Mas eu, de gente em gente, + Trouxera trasladada + Em meu tormento vossa gentileza; + E somente a aspereza + De vossa condição, + Senhora, não dissera, + Porque se não soubera + Qu'em vós podia haver algum senão. + E se alguem, com razão, + Porque morres? dissesse, respondêra: + Morro, porque he tão bella, + Qu'inda não sou para morrer por ella. + E quando, por ventura, + Dama, vos offendesse, + Escrevendo de vós o que não sento, + E vossa formosura + Tanto á terra descesse, + Que a alcançasse humano entendimento; + Sería o fundamento + De tudo o qu'eu cantasse, + Todo de puro amor; + Porque o vosso louvor + Em figura de mágoas se mostrasse. + E aonde se julgasse + A causa por o effeito, a minha dor + Diria alli sem medo: + Quem me sentir verá de quem procedo. + Logo então mostraria + Os olhos saudosos, + E o suspirar que traz a alma comsigo; + A fingida alegria; + Os passos vagarosos; + O fallar e esquecer-me do que digo; + Hum pelejar comigo, + E logo desculpar-me; + Hum recear ousando; + Andar meu bem buscando, + E de o poder achar acovardar-me; + E, emfim, averiguar-me + Que o fim de tudo quanto estou fallando, + São lagrimas e amores; + São vossas isenções e minhas dores. + Mas quem terá, Senhora, + Palavras com qu'iguale + Com vossa formosura a minha pena; + E em doce voz de fóra + Aquella gloria falle + Que dentro na minh'alma Amor ordena? + Não póde tão pequena + Fôrça d'engenho humano + Com carga tão pezada, + Se não for ajudada + D'hum piedoso olhar, d'hum doce engano, + Que fazendo-me o dano + Vão deleitoso e a dor tão moderada, + Emfim se convertesse + No gôsto dos louvores qu'escrevesse. + Canção, não digas mais; e se teus versos + Á pena vem pequenos, + Não queirão de ti mais; que dirás menos. + + +CANÇÃO VI. + + Com força desusada + Aquenta o fogo eterno + Huma Ilha nas partes do Oriente, + D'estranhos habitada, + Aonde o duro inverno + Os campos reverdece alegremente. + A Lusitana gente + Por armas sanguinosas + T[~e]e della o senhorio. + Cercada está d'hum rio + De maritimas ágoas saudosas. + Das hervas qu'aqui nascem, + Os gados juntamente e os olhos pascem. + Aqui minha ventura + Quiz que huma grande parte + Da vida, qu'eu não tinha, se passasse; + Para que a sepultura + Nas mãos do fero Marte + De sangue e de lembranças matizasse. + Se Amor determinasse + Que a trôco desta vida, + De mi qualquer memoria + Ficasse como historia, + Que d'huns formosos olhos fosse lida; + A vida e a alegria + Por tão doce memoria trocaria. + Mas este fingimento, + Por minha dura sórte, + Com falsas esperanças me convida. + Não cuide o pensamento + Que póde achar na morte + O que não pôde achar tão longa vida. + Está ja tão perdida + A minha confiança, + Que de desesperado, + Em ver meu triste estado, + Tambem da morte perco a esperança. + Mas oh! que s'algum dia + Desesperar pudesse, viveria. + De quanto tenho visto + Ja agora não m'espanto, + Que até desesperar se me defende. + Outrem foi causa disto, + Pois eu nunca fui tanto + Que causasse este fogo que m'encende. + Se cuidão que m'offende + Temor d'esquecimento, + Oxalá meu perigo + Me fôra tão amigo, + Que algum temor deixára ao pensamento! + Quem vio tamanho enleio, + Que houvesse ahi'sperança sem receio? + Quem t[~e]e que perder possa, + Só póde recear. + Mas triste quem não póde ja perder! + Senhora, a culpa he vossa, + Que para me matar + Bastára hum'hora só de vos não ver. + Puzestes-me em poder + De falsas esperanças: + E do que mais m'espanto, + Que nunca vali tanto, + Que visse tanto bem, como esquivanças. + Valia tão pequena + Não póde merecer tão doce pena. + Houve-se Amor comigo + Tão brando, ou pouco irado, + Quanto agora em meus males se conhece. + Que não ha mor castigo + Para quem t[~e]e errado, + Que negar-lhe o castigo que merece. + Da sórte que acontece + Ao misero doente, + Da cura despedido, + Que o Medico advertido + Tudo quanto deseja lhe consente; + O Amor me consentia + Esperanças, desejos e ousadia. + E agora venho a dar + Conta do bem passado + A esta triste vida e longa ausencia. + Quem póde imaginar + Qu'houvesse em mi peccado + Digno d'huma tão grave penitencia? + Olhae que he consciencia + Por tão pequeno êrro, + Senhora, tanta pena. + Não vêdes que he onzena? + Mas se tão longo e misero destêrro + Vos dá contentamento, + Nunca m'acabe nelle o meu tormento. + Rio formoso e claro, + E vós, ó arvoredos, + Que os justos vencedores coroais, + E ao cultor avaro, + Continuamente ledos, + D'hum tronco só diversos fructos dais; + Assi nunca sintais + Do tempo injúria alg[~u]a, + Qu'em vós achem abrigo + As mágoas que aqui digo, + Em quanto der o sol virtude á l[~u]a; + Porque de gente em gente + Saibão que ja não mata a vida ausente. + Canção, neste destêrro viverás, + Voz nua e descoberta, + Até que o tempo em ecco te converta. + + +CANÇÃO VII. + + Manda-me Amor que cante docemente + O qu'elle ja em minh'alma t[~e]e impresso, + Com presupposto de desabafar-me; + E porque com meu mal seja contente, + Diz que o ser de tão lindos olhos preso, + Cantá-lo bastaria a contentar-me. + Este excellente modo d'enganar-me + Tomára eu só d'Amor por interêsse, + Se não s'arrependesse, + Com a pena o engenho escurecendo. + Porém a mais me atrevo, + Em virtude do gesto de qu'escrevo. + E s'he mais o que canto que o qu'entendo, + Invoco o lindo aspeito, + Que póde mais que Amor, em meu defeito. + Sem conhecer a Amor viver sohia, + Seu arco e seus enganos desprezando, + Quando vivendo delles me mantinha. + Hum Amor enganoso, que fingia, + Mil vontades alheias enganando, + Me fazia zombar de quem o tinha. + No Touro entrava Phebo, e Progne vinha; + O corno de Acheloo Flora entornava; + Quando o Amor soltava + Os fios d'ouro, as tranças encrespadas, + Ao doce vento esquivas; + Os olhos rutilando chammas vivas; + E as rosas entre a neve semeadas; + Co'o riso tão galante, + Que hum peito desfizera de diamante. + Hum não sei que suave respirando, + Causava hum admiravel, novo espanto, + Que as cousas insensiveis o sentião. + Alli as garrulas aves, levantando + Vozes não ordinarias em seu canto, + Como eu no meu desejo, s'encendião. + As fontes crystallinas não corrião, + D'inflammadas na vista linda e pura; + Florecia a verdura, + Que andando co'os divinos pés tocava; + Os ramos se baixavão, + Ou d'inveja das hervas que pizavão, + Ou porque tudo ant'ella se baixava. + Não houve cousa, emfim, + Que não pasmasse della, e eu de mim. + Porque, quando vi dar entendimento + Ás cousas que o não tinhão, o temor + Me fez cuidar qu'effeito em mi faria. + Conheci-me não ter conhecimento: + Porém só nisto o tive, porque Amor + Mo deixou para ver o que podia. + Tanta vingança Amor de mi queria, + Que mudava a humana natureza + Nos montes, e a dureza + Delles em mi por trôco traspassava. + Oh que gentil partido, + Trocar o ser do monte sem sentido, + Por o qu'em hum juizo humano estava! + Olhae que doce engano! + Tirar commum proveito de meu dano. + Assi qu'indo perdendo o sentimento + A parte racional, m'entristecia + Vê-la a hum appetite submettida. + Mas dentro n'alma o fim do pensamento, + Por tão sublime causa, me dizia + Qu'era razão ser a razão vencida. + Assi que quando a via ser perdida, + A mesma perdição a restaurava: + E em mansa paz estava + Cada hum com seu contrário em hum sogeito. + Oh grão concêrto este! + Quem será que não julgue por celeste + A causa donde vem tamanho effeito, + Que faz n'hum coração + Que venha o appetite a ser razão? + Aqui senti d'Amor a mor fineza, + Como foi ver sentir o insensivel, + E o ver a mi de mi proprio perder-me: + E, emfim, senti negar-se a natureza; + Por onde cri que tudo era possivel + Aos lindos olhos seus, senão querer-me. + Despois que ja senti desfallecer-me, + Em lugar do sentido que perdia, + Não sei quem m'escrevia + Dentro n'alma co'as letras da memoria + O mais deste processo, + Co'o claro gesto juntamente impresso, + Que foi a causa de tão longa historia. + Se bem a declarei, + Eu não a escrevo, d'alma a trasladei. + Canção, se quem te ler + Não crer dos olhos lindos o que dizes, + Por o que a si s'esconde; + Os sentidos humanos (lhe responde) + Não podem dos divinos ser juizes, + Senão hum pensamento + Que a falta suppra a fé do entendimento. + + +CANÇÃO VIII.[3] + + Manda-me Amor que cante o qu'a alma sente, + Caso que nunca em verso foi cantado, + Nem d'antes entre a gente acontecido. + Assi me paga em parte o meu cuidado; + Pois que quer que me louve e represente + Quão bem soube no mundo ser perdido. + Sou parte, e não serei da gente crido: + Mas he tamanho o gôsto de louvar-me, + E de manifestar-me + Por captivo de gesto tão formoso, + Que todo o impedimento + Rompe e desfaz a gloria do tormento + Peregrino, suave e deleitoso; + Que bem sei que o que canto + Ha d'achar menos credito qu'espanto. + Em vivia do cego Amor isento, + Porém tão inclinado a viver preso, + Que me dava desgôsto a liberdade. + Hum natural desejo tinha acceso + D'algum ditoso e doce pensamento, + Que m'illustrasse a insana mocidade. + Tornava do anno ja a primeira idade; + A revestida terra s'alegrava, + Quando o Amor me mostrava + De fios d'ouro as tranças desatadas + Ao doce vento estivo; + Os olhos rutilando lume vivo, + As rosas entre a neve semeadas; + O gesto grave e ledo, + Que juntos move em mi desejo e medo. + Hum não sei que suave respirando, + Causava hum desusado e novo espanto, + Que as cousas insensiveis o sentião. + Porque as garrulas aves, entretanto + Vozes desordenadas levantando, + Como eu em meu desejo, s'encendião. + As fontes crystallinas não corrião, + Inflammadas na vista clara e pura; + Florecia a verdura, + Que, andando, co'os ditosos pés tocava; + As ramas se baixavão, + Ou d'inveja das hervas que pizavão, + Ou porque tudo ant'elles se baixava: + O ar, o vento, o dia, + D'espiritos continuos influia. + E quando vi que dava entendimento + A cousas fóra delle, imaginei + Que milagres faria em mi que o tinha: + Vi que me desatou da minha lei, + Privando-me de todo sentimento, + E em outra transformando a vida minha. + Com tamanhos poderes d'Amor vinha, + Que o uso dos sentidos me tirava. + E não sei como o dava + Contra o poder e ordem da natura, + Ás arvores, aos montes, + Á rudeza das hervas e das fontes, + Que conhecêrão logo a vista pura. + Fiquei eu só tornado + Quasi em hum rudo tronco d'admirado. + Despois de ter perdido o sentimento, + D'humano hum só desejo me ficava, + Em que toda a razão se convertia. + Mas não sei quem no peito m'affirmava + Que por tão alto e doce pensamento, + Com razão, a razão se me perdia. + Assi que quando mais perdida a via, + Na sua mesma perda se ganhava. + Em doce paz estava + Com seu contrário proprio em hum sogeito. + Oh caso estranho e novo! + Por alta e grande certamente approvo + A causa, donde vem tamanho effeito, + Que faz n'hum coração + Que hum desejo, sem ser, seja razão. + Despois d'entregue ja ao meu desejo, + Ou quasi nelle todo convertido, + Solitario, sylvestre e inhumano, + Tão contente fiquei de ser perdido, + Que me parece tudo quanto vejo + Escusado, senão meu proprio dano. + Bebendo este suave e doce engano, + A trôco dos sentidos que perdia, + Vi que Amor m'esculpia + Dentro n'alma a figura illustre e bella, + A gravidade, o siso, + A mansidão, a graça, o doce riso. + E porque não cabia dentro nella + De bens tamanhos tanto, + Sahe por a boca convertido em canto. + Canção, se te não crerem + Daquelle claro gesto quanto dizes, + Por o que se lhe esconde; + Os sentidos humanos (lhe responde) + Não podem dos divinos ser juizes, + Senão hum pensamento, + Que a falta suppra a fé do entendimento. + + +CANÇÃO IX. + + Tomei a triste pena + Ja de desesperado + De vos lembrar as muitas que padeço; + Vendo que me condena + A ficar eu culpado + O mal que me tratais, e o que mereço. + Confesso que conheço + Qu'em parte a causa dei + Ao mal em que me vejo, + Pois sempre o meu desejo + A tão largas promessas entreguei; + Mas não tive suspeita + Que seguisseis tenção tão imperfeita. + S'em vosso esquecimento + Tão condemnado estou, + Como os sinaes demostrão, que mostrais; + Neste vivo tormento, + Lembranças mais não dou + Que as que desta razão tomar queirais: + Olhae que me tratais + Assi de dia em dia + Com vossas esquivanças; + E as vossas esperanças, + De que vãamente ja m'enriquecia, + Renovão a memoria; + Pois com a ter de vós só tenho gloria. + E s'isto conhecesseis + Ser verdade mais pura + Do que d'Arabia o ouro reluzente; + Inda que não quizesseis, + Essa condição dura + Em branda se mudára facilmente. + Eu, vendo-me innocente, + Senhora neste caso, + Bem no arbitrio o puzera + De quem sentença dera, + Com que o que he justo se mostrasse raso; + Se, emfim, não receára + Que a vós por mi, e a mi por vós matára. + Em vós escrita vi + Vossa grande dureza, + E n'alma escrita está, que de vós vive: + Não que acabasse alli + Sua grande firmeza + O triste desengano qu'então tive; + Porque antes que me prive + A dor de meus sentidos, + Ao penoso tormento + Acode o entendimento + Com dous fortes soldados guarnecidos + De rica pedraria, + Que ficão sendo minha luz e guia. + Destes acompanhado + Estou pôsto sem medo + A tudo o que o fatal destino ordene: + Póde ser que cansado, + Ou seja tarde, ou cedo, + Com pena de penar-me, me despene. + E quando me condene + (Qu'he o que mais espero) + Inda a penas maiores; + Perdidos os temores, + Por mais que venhão, não direi, não quero. + Estou, emfim, tão forte, + Que não pode mudar-me a propria morte. + Canção, se ja não queres + Crer tanta crueldade, + Lá vae onde verás minha verdade. + + +CANÇÃO X. + + Junto d'hum sêcco, duro, esteril monte, + Inutil e despido, calvo e informe, + Da natureza em tudo aborrecido; + Onde nem ave vôa, ou fera dorme, + Nem corre claro rio, ou ferve fonte, + Nem verde ramo faz doce ruido; + Cujo nome, do vulgo introduzido, + He Feliz, por antiphrasi infelice; + O qual a natureza + Situou junto á parte, + Aonde hum braço d'alto mar reparte + A Abassia da Arabica aspereza, + Em que fundada ja foi Berenice, + Ficando á parte, donde + O sol, que nella ferve, se lh'esconde; + O cabo se descobre, com que a costa + Africana, que do Austro vem correndo, + Limite faz, Arómata chamado: + Arómata outro tempo; que volvendo + A roda, a ruda lingua mal composta + Dos proprios outro nome lhe t[~e]e dado. + Aqui, no mar, que quer apressurado + Entrar por a garganta deste braço, + Me trouxe hum tempo e teve + Minha fera ventura. + Aqui nesta remota, aspera e dura + Parte do mundo, quiz que a vida breve + Tambem de si deixasse hum breve espaço; + Porque ficasse a vida + Por o mundo em pedaços repartida. + Aqui me achei gastando huns tristes dias, + Tristes, forçados, maos e solitarios, + De trabalho, de dor, e d'ira cheios: + Não tendo tãosomente por contrarios + A vida, o sol ardente, as ágoas frias, + Os ares grossos, férvidos e feios, + Mas os meus pensamentos, que são meios + Para enganar a propria natureza, + Tambem vi contra mi; + Trazendo-me á memoria + Alguma ja passada e breve gloria, + Qu'eu ja no mundo vi, quando vivi; + Por me dobrar dos males a aspereza; + Por mostrar-me que havia + No mundo muitas horas d'alegria. + Aqui'stive eu com estes pensamentos + Gastando tempo e vida; os quaes tão alto + Me subião nas asas, que cahia + (Oh vêde se seria leve o salto!) + De sonhados e vãos contentamentos + Em desesperação de ver hum dia. + O imaginar aqui se convertia + Em improvisos choros e em suspiros, + Que rompião os ares. + Aqui a alma captiva, + Chagada toda, estava em carne viva, + De dores rodeada e de pezares, + Desamparada e descoberta aos tiros + Da soberba Fortuna; + Soberba, inexoravel e importuna. + Não tinha parte donde se deitasse, + Nem esperança alguma, onde a cabeça + Hum pouco reclinasse, por descanso: + Tudo dor lhe era e causa que padeça, + Mas que pereça não; porque passasse + O que quiz o destino nunca manso. + Oh qu'este irado mar gemendo amanso! + Estes ventos, da voz importunados, + Parece que se enfreião: + Somente o Ceo severo, + As estrellas e o fado sempre fero, + Com meu perpétuo damno se recreião; + Mostrando-se potentes e indignados + Contra hum corpo terreno, + Bicho da terra vil e tão pequeno. + Se de tantos trabalhos só tirasse + Saber inda por certo que algum'hora + Lembrava a huns claros olhos que ja vi; + E s'esta triste voz, rompendo fóra, + As orelhas angelicas tocasse + Daquella em cuja vista ja vivi; + A qual, tornando hum pouco sôbre si, + Revolvendo na mente pressurosa + Os tempos ja passados + De meus doces errores, + De meus suaves males e furores, + Por ella padecidos e buscados, + E (pôsto que ja tarde) piedosa, + Hum pouco lhe pezasse, + E lá entre si por dura se julgasse: + Isto só que soubesse me seria + Descanso para a vida que me fica; + Com isto affagaria o soffrimento. + Ah Senhora! Ah Senhora! E que tão rica + Estais, que cá tão longe d'alegria + Me sustentais com doce fingimento! + Logo que vos figura o pensamento, + Foge todo o trabalho e toda a pena. + Só com vossas lembranças + Me acho seguro e forte + Contra o rosto feroz da fera morte; + E logo se me juntão esperanças + Com que, a fronte tornada mais serena, + Torno os tormentos graves + Em saudades brandas e suaves. + Aqui com ellas fico perguntando + Aos ventos amorosos, que respirão + Da parte donde estais, por vós Senhora; + Ás aves qu'alli voão, se vos virão, + Que fazieis, qu'estaveis praticando; + Onde, como, com quem, que dia e que hora. + Alli a vida cansada se melhora, + Toma espiritos novos, com que vença + A fortuna e trabalho, + Só por tornar a ver-vos, + Só por ir a servir-vos e querer-vos. + Diz-me o tempo que a tudo dará talho: + Mas o desejo ardente, que detença + Nunca soffreo, sem tento + Me abre as chagas de novo ao soffrimento. + Assi vivo; e s'alguem te perguntasse, + Canção, porque não mouro; + Podes-lhe responder; que porque mouro. + + +CANÇÃO XI. + + Vinde cá meu tão certo Secretario + Dos queixumes que sempre ando fazendo, + Papel, com quem a pena desaffógo. + As semrazões digamos, que vivendo + Me faz o inexoravel e contrário + Destino, surdo a lagrimas e a rôgo. + Lancemos ágoa pouca em muito fogo, + Accenda-se com gritos hum tormento, + Que a todas as memorias seja estranho. + Digamos mal tamanho + A Deos, ao mundo, á gente e, emfim, ao vento, + A quem ja muitas vezes o contei, + Tanto debalde como o conto agora. + Mas ja que para errores fui nascido, + Vir este a ser hum delles não duvido. + E, pois ja d'acertar estou tão fóra, + Não me culpem tambem se nisto errei. + Se quer este refúgio só terei, + Fallar e errar, sem culpa, livremente. + Triste quem de tão pouco está contente! + Ja me desenganei que de queixar-me + Não s'alcança remedio; mas quem pena, + Forçado lh'he gritar, se a dor he grande. + Gritarei; mas he debil e pequena + A voz para poder desabafar-me; + Porque nem com gritar a dor se abrande. + Quem me dará se quer que fóra mande + Lagrimas e suspiros infinitos, + Iguaes ao mal que dentro na alma mora? + Mas quem pôde algum'hora + Medir o mal com lagrimas, ou gritos? + Direi, emfim, aquillo que m'ensinão + A ira, e mágoa, e dellas a lembrança, + Que outra dor he por si mais dura e firme. + Chegae, desesperados, para ouvir-me; + E fujão os que vivem d'esperança, + Ou aquelles que nella se imaginão; + Porque Amor e Fortuna determinão + De lhes deixar poder para entenderem + Á medida dos males que tiverem. + Quando vim da materna sepultura + De novo ao mundo, logo me fizerão + Estrellas infelices obrigado: + Com ter livre alvedrio, mo não derão; + Qu'eu conheci mil vezes na ventura + O melhor, e o peor segui forçado. + E para que o tormento conformado + Me dessem com a idade, quando abrisse + Inda menino os olhos brandamente, + Mândão que diligente + Hum menino sem olhos me ferisse. + As lagrimas da infancia ja manavão + Com huma saudade namorada; + O som dos gritos, que no berço dava, + Ja como de suspiros me soava. + Co'a idade e fado estava concertado: + Porque quando por caso m'embalavão, + Se d'Amor tristes versos me cantavão, + Logo m'adormecia a natureza; + Que tão conforme estava co'a tristeza! + Foi minh'ama huma fera; que o destino + Não quiz que mulher fosse a que tivesse + Tal nome para mi; nem a haveria. + Assi criado fui, porque bebesse + O veneno amoroso de menino, + Que na maior idade beberia, + E por costume não me mataria. + Logo então vi a image e semelhança + Daquella humana fera tão formosa, + Suave e venenosa, + Que me criou aos peitos da esperança; + De quem eu vi despois o original, + Que de todos os grandes desatinos + Faz a culpa soberba e soberana. + Parece-me que tinha fórma humana, + Mas scintilava espiritos divinos. + Hum meneio, e presença tinha tal, + Que se vangloriava todo o mal + Na vista della: a sombra co'a viveza + Excedia o poder da natureza. + Que genero tão novo de tormento + Teve Amor, sem que fosse não somente + Provado em mi, mas todo executado? + Implacaveis durezas, que ao fervente + Desejo, que dá fôrça ao pensamento, + Tinhão de seu proposito abalado, + E corrido de ver-se e injuriado: + Aqui sombras phantasticas, trazidas + D'algumas temerarias esperanças; + As bem-aventuranças + Tambem nellas pintadas e fingidas. + Mas a dor do desprêzo recebido, + Que todo o phantasiar desatinava, + Estes enganos punha em desconcêrto. + Aqui o adivinhar, e o ter por certo + Qu'era verdade quanto adivinhava, + E logo o desdizer-me de corrido; + Dar ás cousas que via outro sentido; + E para tudo, emfim, buscar razões: + Mas erão muitas mais as semrazões. + Não sei como sabía estar roubando + Co'os raios as entranhas, que fugião + Par'ella por os olhos subtilmente! + Pouco a pouco invisiveis me sahião; + Bem como do véo humido exhalando + Está o subtil humor o sol ardente. + O gesto puro, emfim, e transparente, + Para quem fica baixo e sem valia + Este nome de bello e de formoso; + O doce e piedoso + Mover d'olhos, que as almas suspendia, + Forão as hervas magicas, que o Ceo + Me fez beber: as quaes por longos anos + N'outro ser me tiverão transformado, + E tão contente de me ver trocado, + Que as mágoas enganava co'os enganos; + E diante dos olhos punha o véo, + Que m'encobrisse o mal que assi cresceo: + Como quem com affagos se criava + Daquella para quem crescido estava. + Pois quem póde pintar a vida ausente, + Com hum descontentar-me quanto via, + E aquell'estar tão longe donde estava; + O fallar sem saber o que dizia; + Andar sem ver por onde, e juntamente + Suspirar sem saber que suspirava? + Pois quando aquelle mal m'atormentava, + E aquella dor, que das Tartareas ágoas + Sahio ao mundo, e mais que todas doe, + Que tantas vezes soe + Duras íras tornar em brandas mágoas? + Agora co'o furor da mágoa irado, + Querer, e não querer deixar de amar; + E mudar n'outra parte, por vingança, + O desejo privado d'esperança, + Que tão mal se podia ja mudar? + Agora a saudade do passado, + Tormento puro, doce e magoado, + Que converter fazia estes furores + Em magoadas lagrimas d'amores? + Que desculpas comigo só buscava, + Quando o suave Amor me não soffria + Culpa na cousa amada, e tão amada! + Erão, emfim, remedios que fingia + O medo do tormento, qu'ensinava + A vida a sustentar-se d'enganada. + Nisto huma parte della foi passada; + Na qual se tive algum contentamento + Breve, imperfeito, timido, indecente, + Não foi senão semente + D'hum cumprido, amarissimo tormento. + Este curso contino de tristeza, + Estes passos vãamente derramados, + Me forão apagando o ardente gôsto, + Que tão de siso n'alma tinha pôsto, + Daquelles pensamentos namorados + Com que criei a tenra natureza, + Que do longo costume da aspereza, + Contra quem fôrça humana não resiste, + Se converteo no gôsto de ser triste. + Dest'arte a vida em outra fui trocando; + Eu não, mas o destino fero, irado; + Qu'eu, inda assi, por outra a não trocára. + Fez-me deixar o patrio ninho amado, + Passando o longo mar, que ameaçando + Tantas vezes m'esteve a vida chara. + Agora exprimentando a furia rara + De Marte, que nos olhos quiz que logo + Visse, e tocasse o acerbo fructo seu. + E neste escudo meu + A pintura verão do infesto fogo. + Agora peregrino, vago, errante, + Vendo nações, linguagens e costumes, + Ceos varios, qualidades differentes, + Só por seguir com passos diligentes + A ti, Fortuna injusta, que consumes + As idades, levando-lhes diante + Huma esperança em vista de diamante: + Mas quando das mãos cahe se conhece + Que he fragil vidro aquillo que apparece. + A piedade humana me faltava, + A gente amiga ja contrária via, + No perigo primeiro; e no segundo, + Terra em que pôr os pés me fallecia, + Ar para respirar se me negava, + E faltava-me, emfim, o tempo e o mundo. + Que segredo tão arduo e tão profundo, + Nascer para viver e para a vida, + Faltar-me quanto o mundo t[~e]e para ella! + E não poder perdella, + Estando tantas vezes ja perdida! + Emfim, não houve trance de fortuna, + Nem perigos, nem casos duvidosos, + Injustiças daquelles que o confuso + Regimento do mundo, antigo abuso, + Faz sôbre os outros homens poderosos, + Qu'eu não passasse, atado á fiel coluna + Do soffrimento meu, que a importuna + Perseguição de males em pedaços + Mil vezes fez á fôrça de seus braços. + Não conto tantos males, como aquelle + Que despois da tormenta procellosa, + Os casos della conta em porto ledo; + Qu'inda agora a fortuna fluctuosa + A tamanhas miserias me compelle, + Que de dar hum só passo tenho medo. + Ja de mal que me venha não m'arredo, + Nem bem que me falleça ja pretendo; + Que para mi não val astucia humana, + De fôrça soberana, + Da Providencia, emfim, Divina pendo. + Isto que cuido e vejo, ás vezes tomo + Para consolação de tantos danos. + Mas a fraqueza humana quando lança + Os olhos no que corre, e não alcança + Senão memoria dos passados anos; + As ágoas qu'então bebo, e o pão que como, + Lagrimas tristes são, qu'eu nunca domo, + Senão com fabricar na phantasia + Phantasticas pinturas d'alegria. + Que se possivel fosse que tornasse + O tempo para traz, como a memoria, + Por os vestigios da primeira idade; + E de novo tecendo a antigua historia + De meus doces errores, me levasse + Por as flores que vi da mocidade; + E a lembrança da longa saudade + Então fosse maior contentamento, + Vendo a conversação leda e suave, + Onde huma e outra chave + Esteve de meu novo pensamento, + Os campos, as passadas, os sinais, + A vista, a neve, a rosa, a formosura, + A graça, a mansidão, a cortezia, + A singela amizade, que desvia + Toda a baixa tenção, terrena, impura, + Como a qual outra alguma não vi mais... + Ah vãas memorias! onde me levais + O debil coração, qu'inda não posso + Domar bem este vão desejo vosso? + Não mais, Canção, não mais; qu'irei fallando, + Sem o sentir, mil annos; e se acaso + Te culparem de larga e de pezada; + Não póde ser (lhe dize) limitada + A ágoa do mar em tão pequeno vaso. + Nem eu delicadezas vou cantando + Co'o gôsto do louvor, mas explicando + Puras verdades ja por mi passadas. + Oxalá forão fábulas sonhadas! + + +CANÇÃO XII. + + Nem roxa flor de Abril, + Pintor do campo ameno e da verdura, + Colhida entre outras mil, + Foi nunca assi agradavel á donzella + Cortez, alegre e bella, + De sua mãe cuidado e glória pura, + Como a mi foi a inculta formosura + Natural, que pudera + A Saturno render na sua Esphera. + Natural fonte agreste, + Não lavrada d'Artifice excellente, + Mas por arte celeste + Derivada de rustico penedo, + Não fez ja mais tão ledo + Cansado caçador por sesta ardente, + Quanto o cuidado a mi me fez contente + Do ver tão descuidado, + Que faz sereno a Jupiter irado. + Fructa, que sem concêrto + Naturalmente em ramos se pendura, + Achada por acêrto; + A quem pintada a vê de sangue e leite, + Não lhe dara o deleite, + Qu'essa graça me dá sem compostura, + Ornamento da mesma formosura, + E o toucado sem arte, + Que tornára pastor ao bravo Marte. + A manhãa graciosa, + Que derramando sahe d'entre os cabellos + A flor, o lirio, a rosa, + Sem ajuda d'ornato, ou d'artificio, + Não faz o beneficio, + Que faz a luz dos vossos olhos bellos + A quem os vê tão puros e singelos; + E esse innocente riso, + Por quem Apollo o Tejo torna Amphriso. + Outeiros coroados + Das árvores que fazem a espessura + Com os ramos copados + Alegre, que mão destra os não cultiva, + Graça tão excessiva + Não t[~e]e na sua natural verdura, + Quanta na d'esses olhos, clara e pura, + Deposita a esperança, + Com que Amor gôsto, a mãe tormento alcança. + Dos simples passarinhos + A musica sem arte concertada, + D'entre os verdes raminhos, + Tão suave não he, tão deleitosa + A quem na selva umbrosa + Com mente ouvindo-a está toda enlevada, + Quanto a mi essa falla doce agrada, + E o natural aviso, + Que roubão a Mercurio sceptro e siso. + De frescos rios ágoa, + Que clara entre arvoredos se deriva, + Cahindo d'alta fragoa, + Esmaltando de perolas no prado + O verde delicado, + Com brando som aos olhos fugitiva, + Não nos alegra quanto a graça esquiva + D'essa luz soberana, + Que faz cortez a rustica Diana. + A tal luz (ó Canção, que ousaste vella!) + Vendo estás ja prostrado + Saturno triste, Jupiter irado, + Bravo Marte, aureo Apollo, Venus bella, + E Mercurio, e Diana, e toda estrella. + + +CANÇÃO XIII. + + Oh pomar venturoso, + Onde co'a natureza + A subtil arte t[~e]e demanda incerta; + Qu'em sítio tão formoso + A maior subtileza + D'engenho em ti nos mostras descoberta! + Nenhum juizo acerta, + De cego e d'enlevado, + Se t[~e]e em ti mais parte + A natureza, ou arte; + Se Terra ou Ceo de ti t[~e]e mais cuidado, + Pois em feliz terreno + Gozas d'hum ar mais puro e mais sereno. + De teu formoso pêzo + Se mostra o monte ledo, + E o caudaloso Zezere t'estranha, + Porque ólhas com desprêzo + Seu crystal puro e quedo, + Que com Pera os teus pés rodeia e banha. + Em ti pintura estranha, + A que Apelles cedêra, + Enigmas intricados, + E myrtos animados + Vemos, que o proprio Escopas não fizera; + Em ti, co'a paz interna, + T[~e]e o santo prazer morada eterna. + Os jardins da famosa + Babel, tão nomeados, + Por maravilha o mundo não levante, + Inda que com gloriosa + Voz, qu'estão pendurados + Do instavel ar, a fama antigua cante: + Nem haja quem s'espante + Dos famosos d'Alcino; + Nem as mais doutas pennas + Cantem os de Mecenas, + Cultor de todo engenho peregrino; + Mas onde quer que vôe, + De ti só falle a Fama, e te pregôe. + Que s'era antiguamente + De pomos d'ouro bellos + O jardim das Hesperidas ornado; + E, a pezar da serpente + Que os guardou, só colhellos + Pôde o famoso Alcides, d'esforçado; + Tu, mais avantajado, + Mostras a hum'alma casta + Seguir o que deseja, + Fugir da torpe inveja + (Pomos d'ouro que o tempo não contrasta): + Emfim, co'a caridade + Vencer o Inferno, abrir a Eternidade. + Por tanto da ventura, + Para ti reservada, + Te deixe o Ceo gozar perpetuamente; + Porque sejas figura + Da gloria avantajada + Delle mesmo, e qu'em ti se represente; + Porqu'em quanto sustente + O ceo, o mar e a terra, + Seus feitos milagrosos, + Mysterios mais gloriosos, + Com que a morte das almas nos desterra, + Por onde em nossas almas + Com mais pompas triumpha e com mais palmas, + ....................... + Goza, pois, longamente + Teu venturoso fado, + Da mãe do teu autor bem possuido: + Qu'em ti, sempre contente + De seu sublime estado, + A alma dos seus alegra e o sentido. + Cada qual preferido + Nas grandes qualidades + Ao sabio Nestor seja, + Para que o mundo os veja + Exceder as longuissimas idades; + E com a longa vida + Seja sua memoria ennobrecida. + Canção, pois mais famosas + Por ti não podem ser + Deste monte as estancias deleitosas; + Bem póde succeder + Que aquelle que os teus numeros governa, + Por querê-las cantar te faça eterna. + + +CANÇÃO XIV. + + Quem com sólido intento + Os segredos buscar da natureza, + Quanto d'Athenas préza, + Entregue ao mar irado, ao leve vento: + Em forjar meu tormento, + Nova Philosophia, + D'experiencias feita, Amor m'ensina. + Das Leis do antigo tempo bem declina; + Que Amor a natureza em mi varía; + Donde escola de Sabios nunca vio + Em natural sogeito + Quanto Amor em meu peito descobrio. + As aves no ar sereno, + O gado de Proteo nas ágoas pasce; + Vive o homem e nasce + Neste mundo, qual mundo mais pequeno: + Eu tudo desordeno, + Em todos dividido; + A boca no ar, na terra o entendimento: + Dá-me esse Amor, dá-me esta o pensamento; + O coração no fogo he consumido: + Mas a ágoa, que dos olhos sempre desce, + T[~e]e effeito tão vário, + Qu'em hum humor contrário o fogo cresce. + Da vista Amor sohia + Abrir ao coração segura entrada: + Lei he ja profanada; + Que quando a luz d'huns olhos me fería, + Amando o que não via, + Qual d'escopeta o lume, + Primeiro o querer vi, que a causa visse. + Quem o desejo co'a esperança unisse, + Cego iria apos cego e vil costume; + Qu'eu dest'alma, das leis do mundo isenta, + Morta a esperança vejo, + Onde sempre o desejo se sustenta. + Em vão se considera + Que hum semelhante a outro busca e ama, + E que foge e desama + Todo mortal a morte esquiva e fera: + Sigo huma linda fera, + Qu'esconde em vista humana + Coração de diamante e peito d'aço, + De meu sangue faminta; e satisfaço + Com cruel morte a sêde deshumana. + Assi que, sendo em tudo differente, + Corro apos minha sorte, + E se m'entrego á morte, estou contente. + Cahe em maior defeito + Quem cuida ser sciencia clara e certa, + Que a causa descoberta + Sempre produz a si conforme o effeito: + Rendeo-me hum lindo objeito, + Que, sendo neve pura, + Vivo me abraza, e o fogo interno aviva; + Qu'esta formosa fera fugitiva, + Com ser neve, do fogo s'assegura: + Donde infiro por certo (e cesse a fama + Vãa, mentirosa e leve) + Que não desfaz a neve ardente chama. + Bem no effeito se sente + Cessar, cessando a causa donde pende; + Que o fogo mais se accende, + Estando á vista, donde mais ausente; + Mas n'alma vivamente + A trazem debuxada, + De noite Amor, de dia o pensamento: + E quando Apollo deixa o claro assento, + Por entre sombras vejo a Nympha amada. + Pois se sem luz Amor os olhos ceva, + Cego, se não concede + Qu'em nada a Amor impede a escura treva. + Erra quem atrevido + Pregôa ser maior que a parte o todo: + Amor me t[~e]e de modo, + Qu'estou n'hum'alma minha convertido: + Desta gloria ha nascido + O temor de perdê-la: + E, postoque o receio a muitos finge + Lá na imaginação Chimera e Sfinge + De mal futuro, que urde imiga estrella, + Vejo em mi, por incognito segredo, + Quando estou mais contente, + Que só do bem presente nasce o medo. + T[~e]e-se por manifesto + Parecer-se ao sogeito o accidente; + Mas inda em mi se sente + O pensamento, a côr, o riso, o gesto; + E, tendo todo o resto + Da vida ja perdido + Neste tormento meu tão duro e esquivo, + A gostos morto estou, a penas vivo. + E, sendo morto ja, vive o sentido, + Porque sinta que n'alma despedida + Póde em meu mal unir-se + O ficar e o partir-se, a morte e a vida. + Destas razões, Canção, infiro e creio, + Que ou se mudou em tudo a fórma usada + Da natural firmeza, + Ou tenho a natureza em mi mudada. + + +CANÇÃO XV. + + Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura, + Que sempre na alma vejo? + Ou me pinta o desejo + O bem qu'em vão cad'hora m'assegura? + Mal póde a noite escura, + Amando a sombra fria, + Mandar-me em sonho a luz formosa e bella, + Que se não torne em dia, + De seus luzentes raios inflammada. + Oh vista desejada + De graciosa Nympha e viva estrella! + Que ha tanto que por este mar navego + (Sem ver meu claro Polo) escuro e cego. + Nesses formosos olhos, d'enlevada, + Minh'alma se escondeo, + Quando ordenava o Ceo + Que vivesse comigo desterrada. + Vós a mais certa estrada + De ver a summa alteza, + Do efeito a causa abris a est'alma minha. + Assi mortal belleza + Só della nasce, e nella se resume; + Assi celeste lume + Lá dos ceos se deriva, e lá caminha. + Pois, como a Deos unir-me a vista possa, + Porque a negais, meu sol, a est'alma vossa? + Se me quereis prender a parte a parte, + Cabello ondado e louro, + Tecei-me a rede de ouro + Em que prendeo Vulcano a Cypria e Marte. + Des que com gentil arte + Vestis de flores bellas + A terra em que tocais co'a bella planta, + Quantas vezes com vellas + Quiz n'huma d'essas flores transformar-me? + Porque, vendo pizar-me + D'esse candido pé, que a neve espanta, + Póde ser que na flor mudado fôra + Que deo a Juno irada a linda Flora. + Mas onde te acolheste (ó doce vida!) + Mais leve e pressurosa, + Do que na selva umbrosa + Cerva d'aguda setta vai ferida? + Se para tal partida, + Meus olhos, vos abristes, + Cerrára-vos o somno eternamente, + Antes que ver-vos tristes, + Perdendo tão suave e doce engano! + Agora, com meu dano, + Vêdes, para mor mágoa, claramente, + Neste bem fugitivo e somno leve, + Que mal não ha mais longo, que hum bem breve. + Ditoso Endymião que a deosa chara, + Que a noite vai guiando, + Teve em braços sonhando! + Ah quem de sonho tal nunca acordára! + Tu só, Aurora avara, + Quando os olhos feriste, + Me mataste cruel d'inveja pura. + Mas se d'esta alma triste + A negra escuridão vencer quizeste, + Sabe qu'em vão nasceste; + Que para desfazer-se a nevoa escura + De meus olhos, importa estar presente + Outro sol, outra aurora, outro Oriente. + Se a luz de meu Planeta, + Não m'aviva, Canção, branda e quieta, + Qual flor de chuva, em breve consumida, + Verás desfeita em lagrimas a vida. + + +CANÇÃO XVI. + + Por meio d'humas serras mui fragosas, + Cercadas de sylvestres arvoredos, + Retumbando por asperos penedos, + Correm perennes ágoas deleitosas. + Na ribeira de Buina, assi chamada, + Celebrada, + Porqu'em prados + Esmaltados + Com frescura + De verdura, + Assi se mostra amena, assi graciosa, + Qu'excede a qualquer outra mais formosa; + As correntes se vem, que acceleradas, + As hervas regalando e as boninas, + Se vão a entrar nas ágoas Neptuninas, + Por diversas ribeiras derivadas. + Com mil brancas conchinhas a aurea areia + Bem se arreia; + Voão aves; + Mil suaves + Passarinhos + Nos raminhos + Acordemente estão sempre cantando, + Com doce accento os ares abrandando. + O doce rouxinol n'hum ramo canta, + E d'outro o pintasirgo lhe responde; + A perdiz d'entre a mata, em que s'esconde, + O caçador sentindo, se levanta: + Voando vai ligeira mais que o vento; + Outro assento + Vai buscando; + Porém quando + Vai fugindo; + Retinindo, + Traz ella mais veloz a setta corre, + De que ferida logo cahe e morre. + Aqui Progne d'hum ramo em outro ramo, + Co'o peito ensanguentado anda voando, + Cibato para o ninho indo buscando; + A leda codorniz vem ao reclamo + Do sagaz caçador, que a rede estende, + E pretende + Com engano + Fazer dano + Á coitada, + Qu'enganada + D'huns esparzidos grãos de louro trigo, + Nas mãos vai a cahir de seu imigo. + Aqui sôa a calhandra na parreira; + A rôla geme; palra o estorninho; + Sahe a candida pomba do seu ninho; + O tordo pousa em cima da oliveira: + Vão as doces abelhas susurrando, + E apanhando + O rocio + Fresco e frio + Por o prado + D'herva ornado, + Com que o aureo licor fazem, que deo + Á humana gente a indústria d'Aristeo. + Aqui as uvas luzidas, penduradas + Das pampinosas vides, resplandecem; + As frondiferas árvores se offrecem + Com differentes fructos carregadas: + Os peixes n'ágoa clara andão saltando, + Levantando + As pedrinhas, + E as conchinhas + Rubicundas, + Que as jucundas + Ondas comsigo trazem, crepitando + Por a praia alva com ruido brando. + Aqui por entre as serras se levantão + Animaes Calidoneos, e os veados + Na fugida inda mal assegurados, + Porque do som dos proprios pés s'espantão. + Sahe o coelho, e lebre sahe manhosa + Da frondosa + Breve mata, + Donde a cata + Cão ligeiro. + Mas primeiro + Qu'ella ao contrário férvido s'entregue, + Ás vezes deixa em branco a quem a segue. + Luzem as brancas e purpúreas flores, + Com que o brando Favonio a terra esmalta; + O formoso jacintho alli não falta, + Lembrado dos antiguos seus amores. + Inda na flor se mostrão esculpidos + Os gemidos: + Aqui Flora + Sempre mora; + E com rosas + Mais formosas, + Com lirios e boninas mil fragrantes, + Alegra os seus amores circumstantes. + Aqui Narciso em líquido crystal + Se namora de sua formosura: + Nelle as pendentes ramas da'spessura + Debuxando-se estão ao natural. + Adonis, com que a linda Cytherêa + Se recrêa, + Bem florido, + Convertido + Na bonina, + Qu'Erycina + Por imagem deixou de qual sería + Aquelle por quem ella se perdia. + Lugar alegre, fresco, accommodado + Para se deleitar qualquer amante, + A quem com sua ponta penetrante + O cego Amor tivesse derribado; + E para memorar ao som das ágoas + Suas mágoas + Amorosas, + As cheirosas + Flores vendo, + Escolhendo, + Para fazer preciosas mil capellas, + E dar por grão penhor a Nymphas bellas. + Eu dellas, por penhor de meus amores, + Huma capella á minha deosa dava: + Que lhe queria bem, bem lhe mostrava + O bem-mequeres entre tantas flores: + Porém, como se fôra mal-mequeres, + Os poderes + Da crueldade + Na beldade + Bem mostrou; + Desprezou + A dadiva de flores; não por minha, + Mas porque muitas mais ella em si tinha. + + +CANÇÃO XVII. + + A vida ja passei assaz contente, + Livre tinha a vontade e o pensamento, + Sem receios d'Amor, nem da Ventura: + Mas isto foi hum bem d'hum só momento; + E á minha custa vejo claramente, + Que a vida não dá algum de muita dura. + No tempo em qu'eu vivia mais segura + D'Amor e seu cuidado, + Por me ver n'hum estado + Em qu'eu cuidei que Amor não tinha parte; + Não sinto por qual arte + Me vejo entregue a elle de tal sorte, + Qu'em quanto tarda a morte, + A esperança do bem tenho perdida. + Ai quão devagar passa a triste vida! + Quantas vezes eu triste aqui ouvia + O meu Felicio, e outros mil pastores, + Queixar-se em vão de minha crueldade! + E mais surda então eu a seus clamores, + Que aspide surda, ou surda penedia, + Julgava os seus amores por vaidade. + Agora em pago disto a liberdade, + A vontade e o desejo + De todo entregue vejo + A quem, inda que brade, não responde; + Pois vejo que s'esconde + Ja debaixo da terra este qu'eu chamo, + Que he aquelle a quem amo, + Aquelle a quem agora estou rendida. + Ai quão devagar passa a triste vida! + Que gloria, Amor cruel, com meu tormento, + Que louvor a teu nome accrescentaste? + Ou que te constrangeo a tal crueza, + Que com tal pressa esta alma sujeitaste + A hum mal, onde não basta o soffrimento? + Mas se, Amor, es cruel de natureza, + Bastava usar comigo da aspereza + Que usas com outra gente: + Mas tu como somente + De ver-me estar morrendo te contentas, + Quando mais me atormentas, + Então desejas mais d'atormentar-me; + E não queres matar-me + Porque este mal de mi se não despida. + Ai quão devagar passa a triste vida! + Onde cousa acharei que alegre veja? + A quem chamarei ja que me responda? + Quem me dará remedio á dor presente? + Não ha bem, que de mi ja não s'esconda; + Nem algum verei ja, que a mi o seja, + Porqu'está quem o foi da vida ausente. + Eu alguma não vi tão descontente, + Que Amor tão mal tratasse, + Qu'inda não esperasse + A seus males remedio achar vivendo: + Eu só vivo soffrendo + Hum mal tão grave e tão desesperado, + Que tanto he mais pezado, + Quanto a vida com elle he mais comprida. + Ai quão devagar passa a triste vida! + Suaves ágoas, dura penedia, + Arvoredo sombrio, verde prado, + Donde eu ja tive livre o pensamento; + Frescas flores; e vós, meu manso gado, + Que ja m'acompanhastes na alegria, + Não me deixeis agora no tormento. + Se do mal meu vos toca sentimento, + Dae-me par'elle ajuda, + Qu'eu tenho a lingua muda, + O alento me vai ja desamparando. + Mas quando (ai triste!) quando + D'hum dia hum'hora me virá contente, + Qu'eu te veja presente, + Pastor meu, e comtigo est'alma unida? + Ai quão devagar passa a triste vida! + Mas não sei se he sobrado atrevimento + Querer-se est'alma minha unir comtigo, + Pois della foste ja tão desprezado. + Amor me livrará deste perigo; + Que despois que lá vires meu tormento, + Creio que t'haverás por bem vingado. + E s'inda em ti durar o amor passado, + E aquella fé tão pura, + Eu estou bem segura + Que has lá de receber-me brandamente. + Aprenda em mi a gente + Quão cara huma isenção com Amor custa: + A pena dá bem justa + A hum'alma que lhe he pouco agradecida. + Ai quão devagar passa a triste vida! + + + + +ODES. + + +ODE I. + + Detem hum pouco, Musa, o largo pranto + Que Amor te abre do peito; + E vestida de rico e ledo manto, + Demos honra e respeito + Áquella, cujo objeito + Todo o mundo allumia, + Trocando a noite escura em claro dia. + O Delia, que a pezar da nevoa grossa, + Co'os teus raios de prata + A noite escura fazes que não possa + Encontrar o que trata, + E o que n'alma retrata + Amor por teu divino + Raio, por qu'endoudeço e desatino: + Tu, que de formosissimas estrellas + Corôas e rodeias + Tua candida fronte e faces bellas; + E os campos formoseias + Co'as rosas que semeias, + Co'as boninas que gera + O teu celeste humor na primavera: + Para ti guarda o sítio fresco d'Ilio + Suas sombras formosas; + Para ti o Erymantho e o lindo Pylio + As mais purpureas rosas; + E as drogas mais cheirosas + Desse nosso Oriente + Guarda a felice Arabia mais contente. + De qual panthera, ou tigre, ou leopardo + As asperas entranhas + Não temêrão teu fero e agudo dardo, + Quando por as montanhas + Mais remotas e estranhas + Ligeira atravessavas, + Tão formosa que a Amor d'amor matavas? + Pois, Delia, do teu ceo vendo estás quantos + Furtos de purídades, + Suspiros, mágoas, ais, musicas, prantos, + As conformes vontades, + Humas por saudades, + Outras por crus indicios + Fazem das proprias vidas sacrificios: + Ja veio Endymião por estes montes + O ceo, suspenso, olhando, + E teu nome, co'os olhos feitos fontes, + Em vão sempre chamando, + Pedindo (suspirando) + Mercês á tua beldade, + Sem que ache em ti hum'hora piedade. + Por ti feito pastor de branco gado + Nas selvas solitarias, + Só de seu pensamento acompanhado, + Conversa as alimarias, + De todo Amor contrárias, + Mas não como ti duras, + Onde lamenta e chora desventuras. + Das castas virgens sempre os altos gritos, + Clara Lucina, ouviste, + Renovando-lhe as fôrças e os espritos: + Mas os daquelle triste, + Ja nunca consentiste + Ouvi-los hum momento, + Para ser menos grave o seu tormento. + Não fujas, não de mi! Ah não t'escondas + D'hum tão fiel amante! + Ólha como suspirão estas ondas, + E como o velho Atlante + O seu collo arrogante + Move piedosamente, + Ouvindo a minha voz fraca e doente. + Triste de mi! Qu'alcanço por queixar-me, + Pois minhas queixas digo + A quem ja ergueo a mão para matar-me, + Como a cruel imigo? + Mas eu meu fado sigo, + Que a isto me destina, + E qu'isto só pretende e só m'ensina. + Oh quanto ha ja que o Ceo me desengana! + Mas eu sempre porfio + Cada vez mais na minha teima insana. + Tendo livre alvedrio, + Não fujo o desvario; + Porque este em que me vejo + Engana co'a esperança o meu desejo. + Oh quanto melhor fôra que dormissem + Hum somno perennal + Estes meus olhos tristes, e não vissem + A causa de seu mal + Fugir, a hum tempo tal, + Mais que d'antes proterva, + Mais cruel que ursa, mais fugaz que cerva! + Ai de mi, que me abrazo em fogo vivo, + Com mil mortes ao lado; + E quando morro mais, então mais vivo! + Porque t[~e]e ordenado + Meu infelice fado, + Que quando me convida + A morte, para a morte tenha vida. + Secreta noite amiga, a que obedeço, + Estas rosas (por quanto + Meus queixumes me ouviste) te offereço, + E este fresco amaranto, + Humido ja do pranto, + E lagrimas da esposa + Do cioso Titão, branca e formosa. + + +ODE II. + + Tão suave, tão fresca e tão formosa, + Nunca no ceo sahio + A Aurora no princípio do verão, + Ás flores dando a graça costumada, + Como a formosa mansa fera, quando + Hum pensamento vivo m'inspirou, + Por quem me desconheço. + Bonina pudibunda, ou fresca rosa, + Nunca no campo abrio, + Quando os raios do sol no Touro estão, + De côres differentes esmaltada, + Como esta flor, que os olhos inclinando, + O soffrimento triste costumou + Á pena que padeço. + Ligeira, bella Nympha, linda, irosa, + Não creio que seguio + Satyro, cujo brando coração + D'amores commovesse fera irada, + Qu'assi fosse fugindo e desprezando + Este tormento, donde Amor mostrou + Tão próspero comêço. + Nunca, emfim, cousa bella e rigorosa + Natura produzio, + Qu'iguale aquella fórma e condição, + Que as dores em que vivo estima em nada. + Mas com tão doce gesto, irado e brando, + O sentimento, e a vida m'enlevou, + Que a pena lhe agradeço. + Bem cuidei d'exaltar em verso, ou prosa, + Aquillo que a alma vio + Entre a doce dureza e mansidão, + Primores de belleza desusada; + Mas quando quiz voar ao ceo cantando, + Entendimento e engenho me cegou + Luz de tão alto preço. + Naquella alta pureza deleitosa + Que ao mundo s'encobrio; + E nos olhos Angelicos, que são + Senhores desta vida destinada; + E naquelles cabellos, que soltando + Ao manso vento, a vida me enredou, + M'alegro e m'entristeço. + Saudade e suspeita perigosa, + Que Amor constituio + Por castigo daquelles que se vão; + Temores, penas d'alma desprezada, + Fera esquivança, que me vai tirando + O mantimento que me sustentou, + A tudo me offereço. + Amor isento a huns olhos m'entregou, + Nos quaes a Deos conheço. + + +ODE III. + + Se de meu pensamento + Tanta razão tivera d'alegrar-me, + Quanto de meu tormento + A tenho de queixar-me, + Puderas, triste lyra, consolar-me. + E minha voz cansada, + Qu'em outro tempo foi alegre e pura, + Não fôra assi tornada, + Com tanta desventura, + Tão rouca, tão pezada, nem tão dura. + A ser como sohia, + Pudera levantar vossos louvores; + Vós, minha Hierarchia, + Ouvíreis meus amores, + Qu'exemplo são ao mundo ja de dores. + Alegres meus cuidados, + Contentes dias, horas e momentos, + Oh quanto bem lembrados + Sois de meus pensamentos, + Reinando agora em mi duros tormentos! + Ai gostos fugitivos! + Ai gloria ja acabada e consumida! + Ai males tão esquivos! + Qual me deixais a vida! + Quão cheia de pezar! quão destruida! + Mas como não he morta + Ja esta vida? como tanto dura? + Como não abre a porta + A tanta desventura, + Qu'em vão com seu poder o tempo cura? + Mas para padecê-la + S'esforça o meu sogeito e convalece; + Que só para dizê-la, + A fôrça me fallece, + E de todo me cansa e m'enfraquece. + Oh bem affortunado + Tu, que alcançaste com lyra toante, + Orphêo, ser escutado + Do fero Rhadamante, + E co'os teus olhos ver a doce amante! + As infernaes figuras + Moveste com teu canto docemente; + As tres Furias escuras, + Implacaveis á gente, + Applacadas se vírão derepente. + Ficou como pasmado + Todo o Estygio Reino co'o teu canto; + E quasi descansado + De seu eterno pranto, + Cessou de alçar Sisypho o grave canto. + A ordem se mudava + Das penas que regendo está Plutão; + Em descanso se achava + A roda de Ixião, + E em glória quantas penas alli são. + De todo ja admirada + A Rainha infernal e commovida, + Te deo a desejada + Esposa, que perdida + De tantos dias ja tivera a vida. + Pois minha desventura, + Como ja não abranda hum'alma humana, + Qu'he contra mi mais dura, + E inda mais deshumana, + Que o furor de Callirrhoë profana? + Oh crua, esquiva e fera, + Duro peito, cruel e empedernido, + D'alguma tigre fera + Lá na Hircania nascido, + Ou d'entre as duras rochas produzido! + Mas que digo, coitado! + E de quem fio em vão minhas querellas? + Só vós, ó do salgado, + Humido Reino bellas + E claras Nymphas, condoei-vos dellas. + E d'ouro guarnecidas + Vossas louras cabeças levantando + Sôbre as ondas erguidas, + As tranças gottejando, + Sahindo todas, vinde a ver qual ando. + Sahi em companhia, + E cantando e colhendo as lindas flores; + Vereis minha agonia, + Ouvireis meus amores, + E sentireis meus prantos, meus clamores. + Vereis o mais perdido + E mais infeliz corpo qu'he gerado; + Qu'está ja convertido + Em chôro, e neste estado + Somente vive nelle o seu cuidado. + + +ODE IV. + + Formosa fera humana, + Em cujo coração soberbo e rudo + A fôrça soberana + Do vingativo Amor, que vence tudo, + As pontas amoladas + De quantas settas tinha t[~e]e quebradas: + Amada Circe minha, + Postoque minha não, com tudo amada; + A quem hum bem que tinha + Da doce liberdade desejada, + Pouco a pouco entreguei, + E se mais tenho, mais entregarei; + Pois natureza irosa + Da razão te deo partes tão contrárias, + Que sendo tão formosa, + Folgues de te queimar em flammas várias, + Sem arder em nenh[~u]a + Mais qu'em quanto allumia o mundo a l[~u]a; + Pois triumphando vás + Com diversos despojos de perdidos, + Que tu privando estás + De razão, de juizo e de sentidos, + E quasi a todos dando + Aquelle bem que a todos vás negando; + Pois tanto te contenta + Ver o nocturno moço, em ferro envolto, + Debaixo da tormenta + De Jupiter em ágoa e vento sôlto, + Á porta, que impedido + Lhe t[~e]e seu bem, de mágoa adormecido; + Porque não tens receio + Que tantas insolencias e esquivanças + A deosa, que põe freio + A soberbas e doudas esperanças, + Castigue com rigor, + E contra ti se accenda o fero Amor? + Ólha a formosa Flora; + De despojos de mil suspiros rica, + Por o Capitão chora, + Que lá em Thessalia, emfim, vencido fica, + E foi sublime tanto, + Que altares lhe deo Roma e nome santo. + Ólha em Lesbos aquella + No seu salteiro insigne conhecida; + Dos muitos que por ella + Se perdêrão, perdeo a chara vida + Na rocha que se infama + Com ser remedio extremo de quem ama. + Por o moço escolhido, + Onde mais se mostrárão as tres Graças; + Que Venus escondido + Para si teve hum tempo entre as alfaças, + Pagou co'a morte fria + A má vida que a muitos ja daria. + E, vendo-se deixada + Daquelle por quem tantos ja deixára, + Se foi, desesperada, + Precipitar da infame rocha chara: + Que o mal de mal querida + Sabe que vida lhe he perder a vida. + Tomae-me, bravos mares; + Vós me tomae, pois outrem me deixou. + Disse: e dos altos ares + Pendendo, com furor s'arremessou. + Acude tu, suave, + Acude, poderosa e divina ave. + Toma-a nas azas tuas, + Menino pio, illesa e sem perigo, + Antes que nestas cruas + Ágoas cahindo apague o fogo antigo. + He digno amor tamanho + De viver, e ser tido por estranho. + Não: qu'he razão que seja + Para as lobas isentas, que amor vendem, + Exemplo onde se veja + Que tambem ficão presas as que prendem. + Assi o deo por sentença + Nemesis, que Amor quiz que tudo vença. + + +ODE V. + + Nunca manhãa suave + Estendendo seus raios por o mundo, + Despois de noite grave, + Tempestuosa, negra, em mar profundo + Alegrou tanto nao, que ja no fundo + Se vio em mares grossos, + Como a luz clara a mi dos olhos vossos. + Aquella formosura, + Que só no virar delles resplandece; + E com que a sombra escura + Clara se faz, e o campo reverdece; + Quando o meu pensamento se entristece, + Ella e sua viveza + Me desfazem a nuvem da tristeza. + O meu peito, onde estais, + He para tanto bem pequeno vaso; + Quando acaso virais + Os olhos, que de mi não fazem caso, + Todo, gentil Senhora, então me abraso + Na luz que me consume, + Bem como a borboleta faz no lume. + Se mil almas tivera + Que a tão formosos olhos entregára, + Todas quantas pudera + Por as pestanas delles pendurára; + E, enlevadas na vista pura e clara, + (Postoque disso indinas) + Se andárão sempre vendo nas meninas. + E vós, que descuidada + Agora vivereis de taes querellas, + D'almas minhas cercada, + Não pudesseis tirar os olhos dellas; + Não póde ser que, vendo a vossa entr'ellas + A dor que lhe mostrassem, + Tantas huma alma só não abrandassem. + Mas, pois o peito ardente + Huma só póde ter, formosa Dama, + Basta que esta somente, + Como se fossem mil e mil, vos ama, + Para que a dor de sua ardente flama + Comvosco tanto possa, + Que não queirais ver cinza hum'alma vossa. + + +ODE VI. + + Póde hum desejo immenso + Arder no peito tanto, + Que á branda e á viva alma o fogo intenso + Lhe gaste as nodoas do terreno manto; + E purifique em tanta alteza o esprito + Com olhos immortais, + Que faz que leia mais do que vê'scrito. + Que a flamma, que se accende + Alto, tanto allumia, + Que se o nobre desejo ao bem s'estende + Que nunca vio, o sente claro dia; + E lá vê do que busca o natural, + A graça, a viva côr, + N'outra especie melhor que a corporal. + Pois vós, ó claro exemplo + De viva formosura, + Que de tão longe cá noto e contemplo + N'alma, que este desejo sobe e apura; + Não creais que não vejo aquella imagem + Que as gentes nunca vem, + Se de humanos não tem muita vantagem. + Que se os olhos ausentes + Não vem a compassada + Proporção, que das côres excellentes + De pureza e vergonha he variada; + Da qual a Poesia, que cantou + Atéqui só pinturas + Com mortaes formosuras igualou; + Se não vem os cabellos + Que o vulgo chama de ouro; + E se não vem os claros olhos bellos, + De quem cantão que são de sol thesouro; + E se não vem do rosto as excellencias, + A quem dirão que deve + Rosa, e crystal, e neve as apparencias; + Vem logo a graça pura, + A luz alta e severa, + Que he raio da divina formosura, + Que n'alma imprime e fóra reverbera; + Assi como crystal do sol ferido, + Que por fóra derrama + A recebida flamma esclarecido. + E vem a gravidade, + Com a viva alegria + Que misturada t[~e]e de qualidade, + Que huma da outra nunca se desvia; + Nem deixa de ser huma receada + Por leda e por suave, + Nem outra, por ser grave, muito amada. + E vem do honesto siso + Os altos resplandores + Temperados co'o doce e ledo riso, + A cujo abrir abrem no campo as flores; + As palavras discretas e suaves, + Das quaes o movimento + Fara deter o vento e as altas aves: + Dos olhos o virar + Que torna tudo raso, + Do qual não sabe o engenho divisar + Se foi por artificio, ou feito acaso; + Da presença os meneios e a postura, + O andar e o mover-se, + Donde póde aprender-se formosura. + Aquelle não sei que, + Que aspira não sei como, + Qu'invisivel sahindo, a vista o vê, + Mas para o comprender não lhe acha tomo; + E que toda a Toscana Poesia, + Que mais Phebo restaura, + Em Beatriz, nem Laura nunca via: + Em vós a nossa idade, + Senhora, o póde ver, + S'engenho, se sciencia e habilidade, + Iguaes á vossa formosura der, + Qual a vi no meu longo apartamento, + Qual em ausencia a vejo. + Taes azas dá o desejo ao pensamento! + Pois se o desejo afina + Hum'alma accesa tanto, + Que por vós use as partes de divina; + Por vós levantarei não visto canto, + Que o Betis me ouça, e o Tibre me levante: + Que o nosso claro Tejo, + Envolto hum pouco o vejo e dissonante. + O campo não o esmaltão + Flores, mas só abrolhos + O fazem feio; e cuido que lhe faltão + Ouvidos para mi, para vós olhos. + Mas faça o que quizer o vil costume; + Que o sol, qu'em vós está, + Na escuridão dara mais claro lume. + + +ODE VII. + + A quem darão de Pindo as moradoras, + Tão doctas como bellas, + Florecentes capellas + De triumphante louro, ou myrto verde; + Da gloriosa palma, que não perde + A presumpção sublime, + Nem por fôrça de pêzo algum se opprime? + A quem trarão nas faldas delicadas, + Rosas a roxa Cloris, + Conchas a branca Doris; + Estas, flores do mar; da terra aquellas, + Argenteas, ruivas; brancas e amarellas, + Com danças e corêas + De formosas Nereidas e Napêas? + A quem farão os Hymnos, Odes, Cantos, + Em Thebas Amphion, + Em Lesbos Arion, + Senão a vós, por quem restituida + Se vê da Poesia ja perdida + A honra e gloria igual, + Senhor Dom Manoel de Portugal? + Imitando os espritos ja passados, + Gentis, altos, Reais, + Honra benigna dais + A meu tão baixo, quão zeloso engenho. + Por Mecenas a vós celebro e tenho; + E sacro o nome vosso + Farei, se alguma cousa em verso posso. + O rudo canto meu, que resuscita + As honras sepultadas, + As palmas ja passadas + Dos bellicosos nossos Lusitanos + Para thesouro dos futuros anos, + Comvosco se defende + Da lei Lethêa, á qual tudo se rende. + Na vossa árvore ornada d'honra e glória + Achou tronco excellente + A hera florecente + Para a minha atéqui de baixa estima: + Nelle, para trepar, s'encosta e arrima; + E nella subireis + Tão alto, quanto os ramos estendeis. + Sempre forão engenhos peregrinos + Da Fortuna invejados; + Que quanto levantados + Por hum braço nas azas são da Fama, + Tanto por outro aquella, que os desama, + Co'o pêzo e gravidade + Os opprime da vil necessidade. + Mas altos corações dignos d'Imperio, + Que vencem a Fortuna, + Forão sempre coluna + Da sciencia gentil: Octaviano, + Scipião, Alexandre e Graciano, + Que vemos immortais; + E vós, que o nosso seculo dourais. + Pois, logo, em quanto a cithara sonora + S'estimar por o mundo, + Com som docto e jucundo; + E em quanto produzir o Tejo e o Douro + Peitos de Marte e Phebo crespo e louro, + Tereis glória immortal, + Senhor Dom Manoel de Portugal. + + +ODE VIII. + + Aquelle unico exemplo + De fortaleza heroica e ousadia, + Que mereceo no templo + Da Fama eterna ter perpétuo dia; + O grão filho de Thetis, que dez anos + Flagello foi dos miseros Troianos; + Não menos ensinado + Foi nas hervas e Medica polícia, + Que destro e costumado + No soberbo exercicio da Milicia: + Assi que as mãos que a tantos morte derão, + Tambem a muitos vida dar puderão. + E não se desprezou + Aquelle fero e indomito mancebo + Das Artes qu'ensinou + Para o languido corpo o intonso Phebo; + Que se o temido Heitor matar podia, + Tambem chagas mortaes curar sabía. + Taes Artes aprendeo + Do semiviro Mestre e docto velho, + Onde tanto cresceo + Em virtude, e em sciencia e em conselho, + Que Telepho, por elle vulnerado, + Só delle pôde ser despois curado. + Pois vós, ó excellente + E illustrissimo Conde, do ceo dado + Para fazer presente + D'altos Heroes o seculo passado; + E em quem bem trasladada está a memoria + De vossos ascendentes, a honra e glória: + Postoque o pensamento + Occupado tenhais na guerra infesta, + Ou co'o sanguinolento + Taprobano, ou Achem, que o mar molesta, + Ou co'o Cambaico, occulto imigo nosso, + Que qualquer delles teme o nome vosso; + Favorecei a antiga + Sciencia que ja Achilles estimou; + Olhae que vos obriga + O ver qu'em vosso tempo rebentou + O fructo daquell'Orta onde florecem + Plantas novas, que os doctos não conhecem. + Olhae qu'em vossos anos + Huma Orta produze várias hervas + Nos campos Indianos, + As quaes aquellas doctas e protervas, + Medêa e Circe, nunca conhecêrão, + Postoque a lei da Magica excedêrão. + E vêde carregado + D'annos e traz a vária experiencia + Hum velho, qu'ensinado + Das Gangeticas Musas na sciencia + Podaliria subtil, e arte sylvestre, + Vence ao velho Chiron, d'Achilles mestre. + O qual está pedindo + Vosso favor e amparo ao grão volume, + Qu'impresso á luz sahindo, + Dara da Medicina hum vivo lume; + E descobrir-nos-ha segredos certos, + A todos os Antiguos encobertos. + Assi que não podeis + Negar a que vos pede benigna aura: + Que se muito valeis + Na sanguinosa guerra Turca e Maura, + Ajudae quem ajuda contra a morte; + E sereis semelhante ao Grego forte. + + +ODE IX. + + Fogem as neves frias + Dos altos montes quando reverdecem + As árvores sombrias; + As verdes hervas crecem, + E o prado ameno de mil côres tecem. + Zephyro brando espíra; + Suas settas Amor afia agora; + Progne triste suspira, + E Philomela chora: + O ceo da fresca terra se namora. + Ja a linda Cytherêa + Vem, do côro das Nymphas rodeada; + A branca Pasitêa Despida e delicada, + Com as duas irmãas acompanhada. + Em quanto as officinas + Dos Cyclopas Vulcano está queimando, + Vão colhendo boninas + As Nymphas, e cantando, + A terra co'o ligeiro pé tocando. + Desce do aspero monte + Diana, ja cansada da espessura, + Buscando a clara fonte, + Onde por sorte dura + Perdeo Actêo a natural figura. + Assi se vai passando + A verde Primavera e o sêcco Estio; + O Outono vem entrando; + E logo o Inverno frio, + Que tambem passará por certo fio. + Ir-se-ha embranquecendo + Com a frigida neve o sêcco monte; + E Jupiter chovendo + Turbará a clara fonte: + Temerá o marinheiro a Orionte. + Porque, emfim, tudo passa; + Não sabe o Tempo ter firmeza em nada; + E a nossa vida escassa + Foge tão apressada, + Que quando se começa he acabada. + Que se fez dos Troianos + Heitor temido, Enêas piedoso? + Consumírão-te os anos, + Ó Cresso tão famoso, + Sem te valer teu ouro precioso. + Todo o contentamento + Crias qu'estava em ter thesouro ufano! + Oh falso pensamento! + Que á custa de teu dano + Do sabio Solon crêste o desengano. + O bem que aqui se alcança, + Não dura por passante, nem por forte: + Que a bem-aventurança + Duravel, de outra sorte + Se ha de alcançar na vida para a morte. + Porque, emfim, nada basta + Contra o terrivel fim da noite eterna; + Nem póde a deosa casta + Tornar á luz superna + Hippolyto da escura sombra averna. + Nem Thesêo esforçado, + Ou com manha, ou com fôrça valerosa, + Livrar póde o ousado + Perithoo da espantosa + Prisão Lethêa escura e tenebrosa. + + +ODE X. + + Aquelle moço fero + Nas Pelethronias covas doctrinado + Do Centauro severo; + Cujo peito esforçado + Com tutanos de tigres foi criado. + N'ágoa fatal menino + O lava a mãe, presaga do futuro, + Para que ferro fino + Não passe o peito duro + Que de si mesmo a si se t[~e]e por muro. + A carne lh'endurece, + Porque não seja d'armas offendida. + Cega! pois não conhece + Que póde haver ferida + N'alma, e que menos doe perder a vida. + Que donde o braço irado + Dos Troianos passava arnez e escudo, + Alli se vio passado + Daquelle ferro agudo + Do menino qu'em todos póde tudo. + Alli se vio captivo + Da captiva gentil que serve e adora; + Alli se vio que vivo + Em vivo fogo mora, + Porque de seu senhor a vê senhora. + Ja toma a branda lyra + Na mão que a dura Pelias meneára; + Alli canta e suspira, + Não como lh'ensinára + O velho, mas o moço que o cegára. + Pois, logo, quem culpado + Será, se de pequeno offerecido + Foi todo a seu cuidado; + No berço instituido + A não poder deixar de ser ferido? + Quem logo fraco infante + D'outro mais poderoso foi sujeito, + E para cego amante + Desd'o princípio feito, + Com lagrimas banhando o tenro peito? + Se agora foi ferido + Da penetrante ponta e fôrça d'herva; + E se Amor he servido + Que sirva á linda serva, + Para quem minha estrella me reserva? + O gesto bem talhado; + O airoso meneio e a postura; + O rosto delicado, + Que na vista figura + Que s'ensina por arte a formosura, + Como póde deixar + De render a quem tenha entendimento? + Que quem não penetrar + Hum doce gesto, attento, + Não lhe he nenhum louvor viver isento. + Aquelles, cujos peitos + Ornou d'altas sciencias o destino. + Se vírão mais sujeitos + Ao cego e vão menino, + Arrebatados do furor divino. + O Rei famoso Hebreio, + Que mais que todos soube, mais amou; + Tanto, que a deos alheio + Falso sacrificou. + Se muito soube e teve, muito errou. + E o grão Sabio qu'ensina, + Passeando, os segredos da Sophia, + Á baixa concubina + Do vil Eunuco Hermia + Aras ergueo, que aos deoses só devia. + Aras ergue a quem ama + O Philosopho insigne namorado. + Doe-se a perpétua fama, + E grita qu'he culpado: + Da lesa divindade he accusado. + Ja foge donde habita; + Ja paga a culpa enorme com destêrro. + Mas, oh grande desdita! + Bem mostra tamanho êrro + Que doctos corações não são de ferro. + Antes na altiva mente, + No subtil sangue e engenho mais perfeito + Ha mais conveniente + E conforme sogeito, + Onde s'imprima o brando e doce affeito. + + +ODE XI. + + Naquelle tempo brando + Em que se vê do mundo a formosura, + Que Thetis descansando + De seu trabalho está, formosa e pura, + Cansava Amor o peito + Do mancebo Peleo d'hum duro affeito. + Com impeto forçoso + Lhe havia ja fugido a bella Nympha, + Quando no tempo aquoso + Noto irado revolve a clara lympha, + Serras no mar erguendo, + Que os cumes das da terra vão lambendo. + Esperava o mancebo, + Com a profunda dor que n'alma sente, + Hum dia em que ja Phebo + Começava a mostrar-se ao mundo ardente, + Soltando as tranças d'ouro, + Em que Clicie d'amor faz seu thesouro. + Era no mez que Apolo + Entre os irmãos celestes passa o tempo: + O vento enfreia Eolo, + Para que o deleitoso passatempo + Seja quieto e mudo; + Que a tudo Amor obriga, e vence tudo. + O luminoso dia + Os amorosos corpos despertava + Á cega idolatria, + Que ao peito mais contenta e mais aggrava; + Onde o cego menino + Faz que os humanos crêão que he divino: + Quando a formosa Nympha, + Com todo o ajuntamento venerando, + Na crystallina lympha + O corpo crystallino está lavando; + O qual nas ágoas vendo, + Nelle, alegre de o ver, s'está revendo: + O peito diamantino, + Em cuja branca teta Amor se cria; + O gesto peregrino, + Cuja presença torna a noite em dia; + A graciosa boca + Que a Amor com seus amores mais provoca; + Os rubins graciosos; + As pérolas qu'escondem vivas rosas + Dos jardins deleitosos, + Que o ceo plantou em faces tão formosas; + O transparente collo, + Que ciumes a Daphne faz d'Apollo; + O subtil mantimento + Dos olhos, cuja vista a Amor cegou; + A Amor que, com tormento + Glorioso, nunca delles se apartou, + Pois elles de contino + Nas meninas o trazem por menino; + Os fios derramados + Daquelle ouro que o peito mais cobiça, + Donde Amor enredados + Os corações humanos traz e atiça, + E donde com desejo + Mais ardente começa a ser sobejo. + O mancebo Peleo, + Que de Neptuno estava aconselhado, + Vendo na terra o ceo + Em tão bella figura trasladado, + Mudo hum pouco ficou, + Porque Amor logo a falla lhe tirou. + Emfim, querendo ver + Quem tanto mal de longe lhe fazia, + A vista foi perder, + Porque de puro amor, Amor não via: + Vio-se assi cego e mudo + Por a fôrça d'Amor que póde tudo. + Agora s'apparelha + Para a batalha; agora remettendo; + Agora s'aconselha; + Agora vai; agora está tremendo; + Quando ja de Cupido + Com nova setta o peito vio ferido. + Remette o moço logo + Para ond'estava a chamma sem socêgo; + E co'o sobejo fogo + Quanto mais perto estava, então mais cego: + E cego, e co'hum suspiro, + Na formosa donzella emprega o tiro. + Vingado assi Peleo, + Nasceo deste amoroso ajuntamento + O forte Larisseo, + Destruição do Phrygio pensamento; + Que, por não ser ferido, + Foi nas ágoas Estygias submergido. + + +ODE XII. + + Ja a calma nos deixou + Sem flores as ribeiras deleitosas; + Ja de todo seccou + Candidos lirios, rubicundas rosas: + Fogem do grave ardor os passarinhos + Para o sombrio amparo de seus ninhos. + Meneia os altos freixos + A branda viração de quando em quando; + E d'entre vários seixos + O liquido crystal sahe murmurando: + As gottas, que das alvas pedras sáltão, + O prado, como pérolas, esmaltão. + Da caça ja cansada + Busca a casta Titanica a espessura, + Onde á sombra inclinada + Logre o doce repouso da verdura, + E sôbre o seu cabello ondado e louro + Deixe cahir o bosque o seu thesouro. + O ceo desimpedido + Mostrava o lume eterno das estrellas; + E de flores vestido + O campo, brancas, roxas e amarellas, + Alegre o bosque tinha, alegre o monte, + O prado, o arvoredo, o rio, a fonte. + Porém como o menino, + Que a Jupiter por a aguia foi levado, + No cêrco crystallino + For do amante de Clicie visitado; + O bosque chorará, chorará a fonte, + O rio, o arvoredo, o prado, o monte. + O mar, que agora brando + He das Nereidas candidas cortado, + Logo se irá mostrando + Todo em crespas escumas empolado: + O soberbo furor de negro vento + Fara por toda parte movimento. + Lei he da natureza + Mudar-se desta sorte o tempo leve: + Succeder á belleza + Da Primavera o fructo; a elle a neve; + E tornar outra vez por certo fio + Outono, Inverno, Primavera, Estio. + Tudo, emfim, faz mudança + Quanto o claro sol vê, quanto allumia; + Não se acha segurança + Em tudo quanto alegra o bello dia: + Mudão-se as condições, muda-se a idade, + A bonança, os estados e a vontade. + Somente a minha imiga + A dura condição nunca mudou; + Para que o mundo diga + Que nella lei tão certa se quebrou: + Em não ver-me ella só sempre está firme, + Ou por fugir d'Amor, ou por fugir-me. + Mas ja soffrivel fôra + Qu'em matar-me ella só mostre firmeza, + Se não achára agora + Tambem em mi mudada a natureza; + Pois sempre o coração tenho turbado, + Sempre d'escuras nuvens rodeado. + Sempre exprimento os fios + Qu'em contino receio Amor me manda; + Sempre os dous caudaes rios, + Qu'em meus olhos abrio quem nos seus anda, + Correm, sem chegar nunca o Verão brando, + Que tamanha aspereza vá mudando. + O sol sereno e puro, + Que no formoso rosto resplandece, + Envolto em manto escuro + Do triste esquecimento, não parece; + Deixando em triste noite a triste vida + Que nunca de luz nova he soccorrida. + Porém seja o que for: + Mude-se por meu damno a natureza; + Perca a inconstancia Amor; + A Fortuna inconstante ache firmeza; + Tudo mudável seja contra mi, + Mas eu firme estarei no qu'emprendi. + + + + +NOTAS. + + + + +NOTAS. + + +Pag. 4. V. 4. _Que rompesse os Mahometicos arnezes_] Faria e Sousa. +_Rompessem os Mahometicos arnezes_] 3.ª ed. A primeira lição he viciosa, +a segunda correcta; e por isso e por ser mais antiga a adoptámos. + + +P. 14. V. 24. _Ha de acabar o mal destes amores_.] Todas as ed. Mas +o vício he manifesto, porque a tenção, desacompanhada da obra, +nada póde acabar. Corrigimos: + + Mas se vossa tenção com minha morte + He de acabar o mal destes amores etc. + + +P. 29. V. 13. _Mas em vão não vereis, porque vereis_] Faria e +Sousa. _Mas em vão não vireis, porque achareis_] 3.ª ed. Adoptámos esta +lição, que he a do poeta. + + +P. 30. V. 10. _O pensamento da aspereza vossa_] Faria e Sousa. +_O pensamento e a aspereza vossa_] 3.ª ed. Porque rejeitaria Faria e +Sousa esta lição? ou que entenderia elle por _pensamento da aspereza_? +Seguimos a lição antiga, que he a verdadeira. + + +P. 34. V. 7. _Pois a parte maior do entendimento_] Faria e +Sousa. _Pois a parte melhor do entendimento_] 3.ª ed. Adoptámos a lição +antiga, porque por _parte maior_, se entende a maior porção. + + +P. 34. V. 9. _Se em teu valor contemplo a melhor parte_] +Faria, e 3.ª ed. Mas he vício, porque o poeta acaba dizer que a melhor +parte do entendimento se vê perdida no menos que ha na sua amada, e +não he possivel que não quizesse continuar no mesmo encarecimento. +Corrigimos: + + Se em teu valor contemplo a menor parte. + + +P. 34. V. 25. _Em feras mora, em aves, pedras ágoas_] Faria e +Sousa. _Em feras, plantas, aves, pedras, ágoas_] 3.ª ed. Só quem for +destituido de gosto poderá preferir aquella a esta lição. + + +P. 40. V. 19. _A mão tenho mettida no teu seio_] Faria e +Sousa, e 3.ª ed. He êrro: corrigimos: + + A mão tenho mettida no meu seio. + + +P. 69. V. 5. _Nunca do vento e ira, que arrancando_] Faria e +Sousa. He êrro; corrigimos: + + Nunca do vento a ira, que arrancando. + + +P. 70. V. 24. + _Com que a morte forçada e gloriosa, + Faz o vencido etc._] Faria e Sousa. He êrro: corrigimos: + + Com que a morte forçada gloriosa + Faz o vencido etc. + + +P. 86. V. 24. + _Pois se a fortuna o fez por descontar-me + Esse desgosto etc._] Faria e Sousa. He lição viciosa, porque o +poeta acaba de dizer que a sorte lhe cortou em flor a sua alegria, que +era tal, que era de razão, tivesse este desconto, porque se não dissesse +que no mundo podia haver bem perfeito; e seria disparate chamar agora +desgosto ao que pouco antes chamou summa alegria. Corrigimos: + + Mas se a fortuna o fez por descontar-me + Aquelle gosto etc. + + +P. 108. V. 15. _Ayúdame, Señora, á ser vingança_] Faria e +Sousa. He êrro. Corrigimos: + + Ayúdame, Señora, á hacer vinganza. + + +P. 111. V. 7. _Nem todos para um gôsto são iguaes_] Faria e +Sousa. He êrro, porque o poeta diz: Vós, ó annos, estes que passais tão +ligeiros, nem todos sois iguaes: e se dissesse _são_, era absurdo. +Corrigimos: + + Nem todos para um gôsto sois iguaes. + + +P. 113. V. 25. _Aunque en esta se llega al natural_] Faria e +Sousa. He êrro. Corrigimos: + + Aunque en esto se llega al natural. + +Porque o sentido do poeta he que só n'uma cousa se aproxima ao natural o +retrato da sua amada; e vem a ser, que assim ouve, e assim responde o +seu pranto como se fôra o proprio original. + + +P. 114. V. 11. _En tanto bien no quieras olvidarte_] Faria e +Sousa. Foi descuido, porque a mesma Rima exige que seja _olvidarme_. + + +P. 114. V. 21. _Cesse vosso louvor, Nymphas formosas_] Faria +e Sousa. He vicio, porque o poeta não diz ás Nymphas que deixem o seu +proprio louvor; mas, sim, o seu lavor; isto he, as telas que estavão +lavrando. Corrigimos: + + Cesse vosso lavor etc. + + +P. 115. V. 22. _Fizeres que se mova a piedade_] Faria e +Sousa. _Fazeres que se mova a piedade_] 3.ª ed. Seguimos esta lição, que +he a verdadeira. + + +P. 120. V. 15. _Em Babylonia sôbre os rios_] Faria e Sousa. +Mas parece que tambem aqui, como nos outros lugares, se deve ler: + + De Babylonia sobre os rios etc. + + +P. 128. V. 13. _Ah! que falta mais vezes a ventura_] Faria e +Sousa; mas a lição do poeta he esta: + + Ah! que falte mais vezes a ventura. + + +P. 133. V. 28. + _Que não póde nenhum impedimento + Fugir do que lhe ordena sua Estrella._] +Lição vulgar. Mas o fugir está aqui por evitar: corrigimos: + + Fugir o que lhe ordena etc. + + +P. 134. V. 7. _Tão potente será vossa mudança_.] Lição +vulgar. He viciosa: corrigimos: + + Tão patente será etc. + + +P. 136. V. 28. _Não o quizera tanto á vossa custa_.] Lição +vulgar. He vicio, porque se entende a vingança. Corrigimos: + + Não a quizera tanto á vossa custa. + + +P. 138. V. 11. _Eu quanto mais te vejo, mais te escondes_.] +Lição vulgar. He absurda: corrigimos: + + Eu quanto mais te busco, mais te escondes. + + +P. 139. V. 20. _Que mágoas para ouvir! e que figura_.] Lição +vulgar. He viciosa: corrigimos: + + Que mágoas para ouvir! Que tal figura. + + +P. 144. V. 11. + _Mas eu acostumado ao veneno, + E uso de soffrer meu mal presente_.] Lição vulgar. He viciosa: +corrigimos: + + Assim de acostumado co'o veneno, + O uso de soffrer etc. + + +P. 159. V. 3. _Ni dejarán, por mas que el tiempo huya_.] +Todas as ed. Mas he vicio, porque se entende a memoria. Corrigimos: + + Ni dejará, por mas que el tiempo huya. + + +P. 165. V. 12. _Seus cabellos_] Tod. as ed. Mas quem espalha +os cabellos, não são as Nymphas; he a manhãa. Nem as Nymphas podião ter +tantos e tão longos cabellos, que os espalhassem pelos montes. +Corrigimos: _Teus cabellos_. + + +P. 167. V. 9. _Gaitas, que bem se ouvião_] Faria e Sousa. _As +gaitas que trazião_] 3.ª ed. Adoptamos esta lição, que he a do poeta. + + +P. 175. V. 5. + _Com palavras mimosas e forjadas + Da solta liberdade e livre peito._] Todas as ed. Mas he vicio, +porque o sentido he este: Com palavras mimosas e forjadas eu, de solta +liberdade e livre peito, as trazia (a ellas Nymphas) contentes e +enganadas. Corrigimos: + + Com palavras mimosas e forjadas, + De solta liberdade e livre peito etc. + + +P. 184. V. 20. _Assim me está tornando o peito frio._] Todas +as ed. Mas o temor he que produz todos estes effeitos: impedir a voz, +tornar a lingua negligente e o peito frio; e desta lição parece +entender-se que o peito frio he quem torna a lingua negligente, ou que a +lingua negligente torna o peito frio. Esta amphibologia argue vicio de +texto. Corrigimos: + + Assim me está tornando, e o peito frio. + +Este lugar nos fornece mais uma prova incontestavel de que a emenda que +fizemos na Estancia 29, Canto IV dos Lusiadas, he a verdadeira e genuina +lição do poeta. E não só neste, mas em todos os mais lugares onde o +poeta falla do medo, sempre lhe attribue o effeito de esfriar e gelar: +como no mesmo ja citado Canto, Estancia 21: + + Desta arte a gente força e esforça Nuno, + Que com lh'ouvir as ultimas razões, + Removem o temor frio, importuno + Que gelados lhe tinha os corações. + +e no Canto I, Estancia 89: + + O temor grande, o sangue lhe resfria. + +Sempre disse que fazia parar a circulação do sangue, e que seus effeitos +se fazião primeiro sentir no coração, como no Canto V, Estancia 38: + + Que poz no coração um grande medo. + +O mesmo fazem todos os grandes poetas, e com especialidade Virgilio, +como se ve nos seguintes exemplos: + + _Extemplo Aeneae solvuntur frigore membra._ + Eneida L. I, V. 96. + + _Solvite corde metum, Teucri._ + ibi V. 566. + + _Diffugimus visu exangues._ + ibi L. 2, V. 212. + + _At sociis subitâ gelidus formidine sanguis + Diriguit: cecidêre animi._ + ibi L. III, V. 259. + + _Gelidus Teucris per dura cucurrit + Ossa tremor._ + ibi L. VI, V. 54. + +E além destes muitos e muitos outros puderamos citar. + +Pois se o temor esfria e gela, e primeiro se faz sentir no coração, como +diz o nosso Camões e disserão antes, e tem dito depois todos os grandes +poetas; com a autoridade do mesmo Camões se prova que, se no campo de +Aljubarrota, quando a trombeta Castelhana deo o sinal da batalha, o +sangue acudio ao coração dos Portuguezes, e por consequencia se lhes +concentrou alli o calor, não foi porque o temor fosse maior, mas, sim, +porque era muito menor, que o perigo. E portanto he viciosa a lição +vulgar, e a nossa verdadeira. + + +P. 187. V. 30. _E vós, pastores deste rudo outeiro_] Faria e +Sousa. _E vós, pastores rudos deste outeiro_] 3.ª ed. A lição do poeta +he esta. + + +P. 188. V. 30. _No tronco de alguma árvore sombria_] Faria e +Sousa. _E no tronco d'uma arvore sombria_] 3.ª ed. Esta he a lição +verdadeira. + + +P. 190 V. 3. _Em vós deixou Minerva o que valia_] Faria e +Sousa. _Em vós deixou Minerva sua valia_] 3.ª ed. Porque desprezaria +Faria esta lição? + + +P. 198. V. 15. _Porque saibas o que he ser amada_] Faria e +Sousa. _Porque saibas que cousa he ser amada_] 3.ª ed. Quem hesitará em +seguir a lição antiga? + + +P. 199. V. 23. _Se humano parecer não se defende_] Faria e +Sousa. _Que ao humano parecer não se defende_] 3.ª ed. Ambas estas +lições são viciosas. A que nos parece verdadeira ou pelo menos correcta, +he esta: + + Se ao humano parecer não se defende. + + +P. 200. V. 13. _Porque segues em vão esse cuidado?_] Faria e +Sousa. _Não vés que teu fugir he escusado?_] 3.ª ed. A lição antiga he a +do poeta. + + +P. 200. V. 14. _Pois nunca estás sem mim algum momento_] +Faria e Sousa. _Que sem mim não estás um so momento_] 3.ª ed. Este verso +he incomparavelmente melhor que o de Faria, e tem o cunho do poeta. + + +P. 201. V. 21. _A vós se dão, a quem junto se ha dado_] Faria +e Sousa. _A vós se dem, a quem junto se ha dado_] 3.ª ed. A lição +verdadeira he esta. + + +P. 202. V. 23. _E o mais do roxo dia era passado_] Faria e +Sousa. _E o mais do dia ja era passado_] 3.ª ed. O epiteto de _roxo_ +aqui desnecessario parece introduzido por mão estranha. + + +P. 203. V. 14. _Que farão mais que mais endurecer-te?_] Faria +e Sousa. _Que fazem senão mais endurecer-te?_] 3.ª ed. Este verso he +muito mais natural e melhor que o outro. + + +P. 203. V. 23. _Um bronze ja abrandára que não sente_] Faria. +_Ja um peito abrandára que não sente_] 3.ª ed. Esta segunda lição he sem +duvida alguma a do poeta, por que, alem de que he ocioso dizer do bronze +que he insensivel, esta expressão de _peito que não sente_, he nelle tão +frequente que não podemos deixar de a ter por sua. + + +P. 205. V. 6. _Em lugar de alegrar-se, se entristecem_] +Faria. _Em vez de se alegrarem, se entristecem_] 3.ª ed. Este verso em +harmonia he mui superior ao primeiro, e tem mais a seu favor ser das +primeiras edições. Pelo que lhe damos a preferencia. + + +P. 211. V. 2. _Com rosto baixo, e alto pensamento_] Faria e +Sousa. _Co'o rosto baixo, e alto o pensamento_] 3.ª ed. Andando este +verso assim nas primeiras ed., tão impossivel parece que Faria o não +tivesse visto, como que, depois de o ver, lhe preferisse o primeiro. + + +P. 213. V. 1. _E vós, cujo valor em tanto excede_] Faria e +Sousa. _E vós, cujo valor tão alto excede_] 3.ª ed. Preferimos a lição +antiga, que he correcta, á emenda de Faria, que he viciosa. + + +P. 213. V. 17. _Contra o indomito Pãe de toda Hespanha._ +Todas as ed. Mas he vicio manifesto. Faria e Sousa explica assim este +lugar do texto: "Esto es, que los campos estaban sustentados de toda +España, contra Don Alonso, padre del Principe, que venciendo, los +sustentó contra la fortuna e Hados." Mas a isto temos duas razões que +oppor, a primeira he, que não era possivel que um poeta como Camões, +para exprimir cousa tão simples fizesse tal geringonça; a segunda he +appresentar o texto como o poeta o escreveo: + + _Se não sabem as frautas pastoris + Pintar de Toro os campos semeados + D'armas e corpos fortes e gentis, + + Por um moço animoso sustentados + Contra o indomito Rei de toda Hespanha, + Contra a Fortuna vãa, e injustos Fados._ + +Faria devia saber, e por certo não ignorava que ElRei Dom Fernando de +Castella foi feliz nas armas, razão por que o poeta lhe dá o epiteto de +indomito; e que reunio em si varias corôas, que d'antes erão separadas e +independentes, razão por que o poeta lhe chama rei de toda Hespanha. E +se em tudo isto reflectisse, em lugar da palavra _pae_, aqui +visivelmente introduzida por mão estranha, teria restabelecido no texto +a palavra _Rei_, que o poeta ahi tinha posto; e com isso nos poupára o +trabalho de o fazer agora. + + +P. 214. V. 13. _De si ja, não ja só do pobre fato_] Faria e +Sousa. _De si, e do seu gado e pobre fato_] 3.ª ed. Assim andava este +verso nas primeiras edições; e a verdade he mais antiga, que a mentira. +Restituimos a lição antiga. Porque por gado se entende bois etc., e por +fato, cabras. + + +P. 217. V. 11. _Do som que no Parnaso se deseja_] Faria e +Sousa. _Do som, que pelo mundo se deseja_] 3.ª ed. A lição de Faria nos +he suspeita, porque no Parnaso residem Apollo e as Musas; e he de lá que +os poetas pretendem haver esse desejado som; e como tal a desprezamos, +restituindo o verso como se lia nas primeiras edições; que he como o +poeta o escreveo. + + +P. 220. V. 1. _D'altas nuvens vestido_.] Todas as ed. Mas he +êrro das copias: deve ler-se: + + D'átras nuvens vestido etc. + + +P. 224. V. 31. _Quiz descansar á sombra da espessura_] Faria. +He êrro, porque espessura não rima com _manifesta_ e _sesta_. +Restituimos o verso, como andava nas primeiras edições: + + Quiz descansar á sombra da floresta. + + +P. 226. V. 1. + _Sirene e Nyse que das mãos fugirão + De Tegeo Pan_] +Todas as ed. Mas he vicio das copias, porque não consta que Sirene +fugisse nunca das mãos de Pan. Restituimos: + + Syrinx e Nyse. + + +P. 234. V. 21. _Ja no indignado monte se lançava_] Faria e +Sousa. _Ja no indigno monte se lançava_] 3.ª ed. Uma e outra lição he +viciosa; a do poeta he: + + Ja indignado no monte se lançava. + + +P. 236. V. 3. _Ainda agora em herva as folhas viras_] Todas +as ed. Mas he êrro, porque o gira-sol, que he a flor em que foi +convertida Clycie, não víra as folhas contra o sol, nem tal disse o +poeta: o que elle disse he que esta nympha inda, depois de transformada +em planta, segue com os olhos o seu amante; mas a ignorancia ou +descuido dos copiadores a _olhos_ substituio _folhas_. Restituimos: + + Ainda agora em herva os olhos viras. + + +P. 284. P. 4. _Com as mãos que maçãas colhendo andava._] +Todas as ed. Eis-aqui mais um exemplo dos infinitos estragos que nas +obras do poeta tem feito a ignorancia dos copiadores. Este verso como +elle o escreveo he: + + Com a mãe que maçãas colhendo andava. + + +P. 289. V. 15. _Como o mesmo que então meu mal crescia._] +Faria e Sousa. He êrro: corrigimos: + + Com o mesmo etc. + + +P. 302. V. 28. _Sabe, Canção, que só porque não vejo._] Todas +as ed. Mas o verso como o poeta o escreveo he seguramente assim: + + Sabe, Canção, que só porque o não vejo. + + +P. 304. V. 26. _Ma figurou nos braços, e assim a tive_] Todas +as ed. Mas aquelle _a_ está aqui de mais para o sentido e para o verso. +Porque o poeta o que diz he, que teve dormindo o que desejou ter +acordado. Corrigimos: + + Ma figurou nos braços, e assi tive. + + +P. 307. V. 3. _Dos montes descobrindo._] Todas as ed. Mas he +vicio de cópia; porque descobrir dos montes a escuridão he avistá-la de +lá; e o poeta o que diz he que vinha apparecendo a manhãa, e a escuridão +ia descobrindo os montes. Corrigimos: + + Os montes descobrindo. + + +P. 308. V. 27. _Se mo não impedir o meu desejo._] Todas as +ed. Mas he êrro. O poeta está gozando a doce visão da sua amada, e +deseja morrer antes que se lhe desvaneça; mas ao mesmo tempo teme, que +esta gloria que está gozando, lhe impida a de morrer, que era o seu +desejo, tornando-lhe a vida. E nesta perplexidade e enleio exclama: +Oh ditosa partida! (a morte) oh gloria soberana alta e subida! (a da +visão que está gozando) se esta lhe não impedir aquella. E a lição neste +lugar he: + + Se me não impedir o meu desejo. + + +P. 314. V. 25. _Á pena vem pequenos._] Todas as ed. O P. +Thomaz d'Aquino corrigio _penna_. Mal, porque estava bem o texto; e se +deve lêr _pena_. + + +P. 321. V. 24. _Pelo que em si se esconde._] Assim se lê este +verso nas primeiras ed. Faria e Sousa corrigio _em ti_. Mal, porque o +vicio inda ficou. A verdadeira emenda he: + + Pelo que a si se esconde. + + +P. 325. V. 21. Este verso diz Faria e Sousa se lia no +manuscripto: + + _Pelo que em si lhe esconde._ + +Mas foi êrro de quem o copiou: deve ler-se + + Pelo que se lhe esconde. + + +P. 329. V. 19. _Não tendo, não, somente por contrarios_] +Faria e Sousa. _Não tendo tãosomente por contrarios_] 3.ª ed. A lição +antiga he a verdadeira. + + +P. 331. V. 26. _Com que a fronte tornada mais serena Torna +os tormentos graves._] Todas as ed. Mas he vicio das copias; porque a +fronte, por mais serena que esteja não pode serenar as agitações do +animo. Corrigimos: + + Com que, a fronta tornada mais serena, + Tórno os tormentos graves &c. + + +P. 336. V. 1. _Pouco a pouco invenciveis me sahião._] Todas +as ed. Mas he êrro grosseiro dos copiadores. + +Corrigimos: + + Pouco a pouco invisiveis me sahião. + + +P. 339. V. 19. _Os olhos na que corre, e não alcança._] Todas +as ed. Mas he êrro palpavel das cópias. Sobre este lugar diz Faria: +_Mirese lo que me viene á embarazar sobre irme desembarazando de tantas +difficuldades destes poemas. Dice aqui: quando pone los ojos en la que +corre. Qué es la que corre? Arriba queda providencia, y luego +consolacion, y despues flaqueza humana; y no hallo que ninguna destas +corre, si no es la flaqueza humana á la muerte; y ni asi lo entiendo +bien_. Mas não tem muito que entender: este lugar está corrompido, como +tantos outros que temos visto: a lição do poeta era _No que corre_: quem +copiou poz _Na que corre_. E o sentido he: Mas a fraqueza humana, quando +lança os olhos no que corre; isto he, no muito que corre com os olhos +d'alma, e não alcança, senão &c. + + +P. 360. Ode I.ª A primeira cousa que temos a observar nesta +Ode he: que a Estancia, que principia: _Para ti guarda o sitio fresco +d'Ilio_, e a outra logo seguinte que principia: _De qual panthera ou +tigre ou leopardo_, se achão em todas as edições depois da que começa: +_Por ti feito pastor de branco gado_, onde são absolutamente estranhas; +e procurando nós outro lugar onde pudessem caber, não achamos outro mais +proprio, que depois da 3.ª Estancia que começa: _Tu que de formosissimas +estrellas_: para aqui as transportamos; ainda que nos parece que, +omittidas inteiramente, fica a Ode mais perfeita. + + +P. 361. V. 2. _Para ti no Erymantho o lindo Epilio_.] Assim +anda este verso nas primeiras edições. Faria e Sousa julga, com razão, +que está viciado, porque não ha no Erymantho lugar que se chame Epilio: +faz diversas conjecturas, e não sabe determinar-se. Nós julgamos que +deve ler-se Pylio, porque por Pylio se entende a Elide, a que os Gregos +chamavão Caloscopi (bella vista). E assim lhe quadra o epiteto de lindo +que lhe dá aqui o poeta. E o verso todo deve corrigir-se assim + + Para ti o Erymantho e o lindo Pylio + + +P. 361. V. 5. _Deste nosso oriente._] Todas as ed. Mas he +vicio de copia, porque o poeta estava escrevendo em Africa, e não na +India, como se infere desta mesma Ode, onde diz: + + _Olha como suspirão estas ondas,_ + E como o velho Atlante + O seu collo arrogante + Move piedosamente + Ouvindo a minha voz fraca e doente._ + +E portanto deve ler-se + + Desse nosso Oriente + +como Faria diz que vira em um manuscripto. + + +P. 363. V. 12. _Meu infelice estado._] Todas as ed. Mas he +êrro visivel, porque o estado nada lhe podia ordenar, propriamente +fallando: e a verdadeira lição está saltando aos olhos: + + Porque tem ordenado + Meu infelice Fado &c. + + +P. 363. V. 19. _Humido inda do pranto._] Todas as ed. Mas he +vicio, porque os sacrificios e offrendas á Noute de noute devem ser +feitos; e este _humido inda do pranto e lagrimas da esposa do cioso +Titão_ denota que ja o sol era nado. E portanto a verdadeira lição he a +que Faria diz encontrára n'um manuscripto: + + _Humido ja do pranto,_ + +o que dá a entender que era sobre manhãa. + + +P. 368. V. 13. _E assentareis meus prantos, meus clamores._] +Todas as ed. Mas a verdadeira lição deste lugar he a que nos dá o P. +Thomaz d'Aquino. + + E sentireis meus prantos, meus clamores. + +Porque o poeta não chama as Nymphas para que venhão applacar os seus +prantos e clamores (que esse poder só tinha aquella, que os motivava); +chama-as para que os venhão ouvir, e para que vejão a que estado o tem +reduzido o seu amor, e a esquivança da sua amada. + + +P. 380. V. 19. _Ajuda quem ajuda contra a morte._] Todas as +ed. He vicio: corrigimos + + Ajudai quem ajuda &c. + + +P. 385. V. 17. _E grita que culpado._] Todas as ed. Mas deve +ler-se + + E grita qu'he culpado, + +porque do modo que está, não faz sentido. + + +P. 388. V. 21. + _Remette o moço logo + Para onde estava a chaga sem socêgo._] +Todas as ed. Mas que he vicio, não ha duvida, porque a chaga devia elle +ter no corpo, e não podia correr para ella: correo para a chamma, isto +he, para a Nympha donde vinha o fogo que o abrasava. Corrigimos + + Para onde estava a chamma sem socêgo. + + + + +INDEX. + + + Pag. + PREFAÇÃO VII + VIDA DE LUIS DE CAMÕES XXXII + + SONETOS. + + Pag. + A chaga que, Senhora, me fizestes 62 + A formosura desta fresca serra 135 + A morte, que da vida nó desata 68 + A peregrinação d'hum pensamento 132 + A perfeição, a graça, o doce geito 46 + A violeta mais bella que amanhece 60 + Á la margen del Tajo, en claro dia 81 + Acho-me da fortuna salteado 132 + Agora toma a espada, agora a penna[4] 97 + Ah Fortuna cruel! ah duros Fados 88 + Ah minha Dinamene! assi deixaste 86 + Ai amiga cruel! que apartamento 85 + Alegres campos, verdes arvoredos 21 + Alegres campos, verdes, deleitosos 104 + Alma gentil que á firme eternidade 215 + Alma minha gentil que te partiste 10 + Amor, com a esperança ja perdida 26 + Amor he hum fogo que arde sem se ver 41 + Amor, que em sonhos vãos do pensamento 105 + Amor, que o gesto humano na alma escreve 5 + Aos homens hum só homem poz espanto 123 + Apartava-se Nise de Montano 27 + Apollo e as nove Musas, descantando 26 + Aponta a bella Aurora, luz primeira 121 + Aquella fera humana que enriquece 38 + Aquella que de pura castidade 48 + Aquella triste e leda madrugada 13 + Aqui de longos damnos breve historia 92 + Ar, que de meus suspiros vejo cheio 58 + Árvore, cujo pomo bello e brando 69 + Ay! quien dará á mis ojos una fuente 112 + Ayúdame, Señora, á hacer venganza 108 + Bem sei, Amor, que he certo o que receio 40 + Brandas agoas do Tejo que passando[5] 55 + Busque Amor novas artes, novo engenho 8 + Ca nesta Babylonia donde mana 98 + Campo! nas syrtes deste mar da vida 85 + Cantando estava hum dia bem seguro 87 + Chara minha inimiga, em cuja mão 12 + Chorai, Nymphas, os fados poderosos 139 + Coitado! que em hum tempo chóro e rio 76 + Com grandes esperanças ja cantei 2 + Como fizeste, ó Porcia, tal ferida? 31 + Como louvarei eu, Seraphim santo 124 + Como podes (oh cego peccador!) 118 + Como quando do mar tempestuoso 41 + Con razon os vais, aguas, fatigando 112 + Contente vivi ja vendo-me isento 125 + Conversação doméstica affeiçoa 44 + Correm turbas as agoas deste rio 98 + Crescei, desejo meu, pois que a Ventura 65 + Criou a natureza Damas bellas 77 + Cuanto tiempo ha que lloro un dia triste 114 + Dai-me h[~u]a lei, Senhora, de querer-vos 35 + De amor escrevo, de amor trato e vivo 52 + De Babel sôbre os rios nos sentamos 119 + De cá, donde somente o imaginar-vos 59 + De frescas belvederes rodeadas 102 + De mil suspeitas vãas se me levantão 61 + De quantas graças tinha a natureza 66 + De tão divino accento em voz humana[6] 32 + De vós me parto, ó vida, e em tal mudança 12 + Debaixo desta pedra está metido 32 + Debaixo desta pedra sepultada 116 + Deixa, Apollo, o correr tão apressado 125 + Desce do ceo, immenso Deos benino 100 + Despois de haver chorado os meus tormentos 101 + Despois de tantos dias mal gastados[7] 28 + Despois que quiz Amor que eu só passasse 3 + Despois que vio Cibele o corpo humano[8] 96 + Diana prateada esclarecida 141 + Ditosa pena, como a mão que a guia[9] 94 + Ditosas almas que ambas juntamente 124 + Ditoso seja aquelle que somente 38 + Diversos dões reparte o ceo benino 72 + Divina companhia que nos prados 81 + Dizei, Senhora, da belleza idea 138 + Doce contentamento ja passado 133 + Doce sonho, suave e soberano 140 + Doces e claras agoas do Mondego 67 + Doces lembranças da passada gloria 10 + Dos antigos Illustres que deixárão 44 + Dos ceos á terra desce a mor belleza 100 + Dulces engaños de mis ojos tristes 113 + Em Babylonia sôbre os rios quando 120 + Em flor vos arrancou de então crescida[10] 7 + Em formosa Lethea se confia 14 + Em huma lapa toda tenebrosa 128 + Em prisões baixas fui hum tempo atado 3 + Em quanto Phebo os montes accendia 141 + Em quanto quiz fortuna que tivesse 1 + En una selva al dispuntar del dia 83 + Erros meus, má Fortuna, amor ardente 97 + Esfôrço grande, igual ao pensamento[11] 45 + Espanta crescer tanto o crocodilo 95 + Esses cabellos louros e escolhidos 53 + Está o lascivo e doce passarinho 16 + Está-se a Primavera trasladando 15 + Este amor que vos tenho limpo e puro 135 + Este terreste caos com seus vapores 46 + Eu cantarei de amor tão docemente 2 + Eu cantei ja, e agora vou chorando 86 + Eu me aparto de vós, Nymphas do Tejo 80 + Eu vivia de lagrimas isento 137 + Ferido sem ter cura parecia 35 + Fiou-se o coração de muito isento 106 + Foi ja n'hum tempo doce cousa amar 43 + Formosa Beatriz, tendes taes geitos 104 + Formosos olhos, que cuidado dais 130 + Formosos olhos, que na idade nossa 20 + Formosura do ceo a nós descida 34 + Gentil Senhora, se a Fortuna imiga 72 + Grão tempo ha ja que soube da Ventura 24 + Guardando em mi a sorte o seu direito 86 + He o gozado bem em agoa escrito 66 + Horas breves de meu contentamento 91 + Hum firme coração posto em ventura[12] 57 + Hum mover de olhos brando e piedoso 18 + Huma admiravel herva se conhece 65 + Illustre e digno ramo dos Menezes[13] 4 + Illustre Garcia, nombre de una moza 129 + Imagens vãas me imprime a phantasia 116 + Indo o triste pastor todo embebido 138 + Ja a roxa e branca Aurora destoucava 36 + Ja cantei, ja chorei a dura guerra 90 + Ja claro vejo bem, ja bem conheço 58 + Ja do Mondego as agoas apparecem[14] 56 + Ja he tempo, ja que minha confiança 25 + Ja me fundei em vãos contentamentos 127 + Ja não sinto, Senhora, os desenganos 136 + Julga-me a gente toda por perdido 76 + Las peñas retumbaban al gemído 83 + Leda serenidade deleitosa 40 + Lembranças de meu bem, doces lembranças 130 + Lembranças, que lembrais o bem passado 89 + Lembranças saudosas, se cuidais 27 + Levantai, minhas Tagides, a frente[15] 114 + Lindo e subtil trançado que ficaste 22 + Los ojos que con blando movimiento 107 + Mal, que de tempo em tempo vas crescendo 117 + Males que contra mim vos conjurastes 14 + Mi gusto y tu beldad se desposaron 110 + Mil veces entre sueños tu figura 109 + Mil vezes determino não vos ver 62 + Moradoras gentis e delicadas 54 + Mudão-se os tempos, mudão-se as vontades 29 + Na desesperação ja repousava 71 + Na margem de hum ribeiro que fendia 74 + Na metade do ceo subido ardia 36 + Naiades, vós que os rios habitais 29 + Na ribeira do Euphrates assentado 139 + Não ha louvor que arribe á menor parte 59 + Não passes, caminhante. Quem me chama? 19 + Não vas ao monte, Nise, com teu gado 60 + Nas cidades, nos bosques, nas florestas 126 + Nem o tremendo estrepito da guerra 106 + N'hum bosque que das Nymphas se habitava 11 + N'hum jardim adornado de verdura 7 + N'hum tão alto lugar de tanto preço 142 + No bastaba que amor puro y ardiente 108 + No mundo poucos annos e cansados 51 + No mundo quiz o Tempo que se achasse 45 + No regaço da mãe Amor estava 64 + No tempo que de amor viver sohia 4 + Nos braços de hum Sylvano adormecendo 103 + Novos casos de Amor, novos enganos[16] 55 + Nunca em amor damnou o atrevimento 67 + O ceo, a terra, o vento socegado 87 + O culto divinal se celebrava 39 + O cysne quando sente ser chegado 22 + O filho de Latona esclarecido 69 + O fogo que na branda cera ardia[17] 20 + O raio crystallino se estendia 50 + O claras aguas deste blando rio 109 + Oh arma unicamente só triumphante 122 + Oh cese ya, Señor, tu dura mano 113 + Oh como se me alonga de anno em anno 25 + Oh quanto melhor he o supremo dia 118 + Oh quão caro me custa o entender-te 49 + Oh rigorosa ausencia desejada 111 + Olhos, aonde o ceo com luz mais pura 77 + Ondados fios d'ouro onde enlaçado 105 + Ondados fios d'ouro reluzente 43 + Onde acharei lugar tão apartado 91 + Onde mereci eu tal pensamento 102 + Onde porei meus olhos que não veja 56 + Orfeo enamorado que tañia 84 + Ornou sublime esfôrço ao grande Atlante[18] 95 + Os meus alegres, venturosos dias 90 + Os olhos onde o casto amor ardia 94 + Os Reinos e os Imperios poderosos[19] 11 + Os vestidos Eliza revolvia 49 + Para se namorar do que criou 99 + Passo por meus trabalhos tão isento 6 + Pede o desejo, Dama, que vos veja 16 + Pensamentos que agora novamente 47 + Pois meus olhos não cansão de chorar 34 + Pois torna por seu rei e juntamente[20] 96 + Por cima destas agoas forte e firme 70 + Por gloria tuve un tiempo el ser perdido 82 + Por os raros extremos que mostrou 23 + Por sua nympha Céphalo deixava 92 + Porque a tamanhas penas se offerece 101 + Porque a terra no ceo agasalhasse 121 + Porque quereis, Senhora, que offereça 17 + Posto me tem fortuna em tal estado 143 + Presença bella, angelica figura 94 + Pues lágrimas tratais, mis ojos tristes 143 + Pues siempre sin cesar, mis ojos tristes[21] 131 + Qual tem a borboleta por costume 129 + Quando a suprema dor muito me aperta 74 + Quando da bella vista e doce riso 9 + Quando de minhas mágoas a comprida 37 + Quando o sol encoberto vai mostrando 18 + Quando os olhos emprégo no passado 89 + Quando se vir com agoa o fogo arder 73 + Quando, Senhora, quiz Amor que amasse 137 + Quando vejo que meu destino ordena 28 + Quanta incerta esperança, quanto engano 117 + Quantas penas, Amor, quantos cuidados 142 + Quantas vezes do fuso se esquecia 21 + Quanto tempo, olhos meus, com tal lamento 88 + Que doudo pensamento he o que sigo[22] 57 + Que esperais esperança? Desespéro 78 + Que estilla a árvore sacra? Hum licor santo 122 + Que levas, cruel Morte? Hum claro dia[23] 42 + Que me quereis, perpétuas saudades? 111 + Que modo tão subtil da natureza 73 + Que pode ja fazer minha ventura 144 + Que poderei do mundo ja querer 47 + Que vençais no Oriente tantos Reis[24] 33 + Quem diz que Amor he falso, ou enganoso 103 + Quem fosse acompanhando juntamente 39 + Quem jaz no grão sepulcro, que descreve 30 + Quem póde livre ser, gentil Senhora 31 + Quem pudera julgar de vós, Senhora 53 + Quem quizer ver d'amor huma excellencia 107 + Quem, Senhora, presume de louvar-vos 54 + Quem ve, Senhora, claro e manifesto 9 + Revuelvo en la incesable fantasía 82 + Se a fortuna inquieta e mal olhada 134 + Se algum'hora essa vista mais suave 79 + Se as penas com que Amor tão mal me trata 30 + Se com desprezos, Nympha, te parece 63 + Se como em tudo o mais fostes perfeita 78 + Se da célebre Laura a formosura 52 + Se despois de esperança tão perdida 50 + Se em mim, ó alma, vive mais lembrança 128 + Se lagrimas choradas de verdade 127 + Se me vem tanta gloria só de olhar-te 75 + Se no que tenho dito vos offendo 133 + Se pena por amar-vos se merece 42 + Se quando vos perdi, minha esperança 13 + Se somente hora alguma em vós piedade 24 + Se tanta pena tenho merecida 17 + Se tomo a minha pena em penitencia 48 + Seguia aquelle fogo que o guiava 93 + Sempre a razão vencida foi de amor 75 + Sempre, cruel Senhora, receei 134 + Senhor João Lopes, o meu baixo estado[25] 68 + Senhora ja desta alma perdoae 140 + Senhora minha, se eu de vós ausente 63 + Sentindo-se alcançada a bella esposa 93 + Sete annos de pastor Jacob servia 15 + Si el fuego que me enciende, consumido 110 + Sôbre os rios do Reino escuro, quando 120 + Suspiros inflammados que cantais 37 + Sustenta meu viver huma esperança 136 + Tal mostra de si dá vossa figura 71 + Tanto de meu estado me acho incerto 5 + Tanto se forão, Nympha, costumando 79 + Tem feito os olhos neste apartamento 131 + Todo animal da calma repousava 8 + Tomava Daliana por vingança 23 + Tomou-me vossa vista soberana 19 + Tornae essa brancura á alva açucena 64 + Transforma-se o amador na cousa amada 6 + Vencido está de amor Meu pensamento 80 + Verdade, Amor, Razão, Merecimento 119 + Vi queixosos de Amor mil namorados 126 + Vós Nymphas da Gangetica espessura[26] 115 + Vós outros que buscais repouso certo 99 + Vós, que de olhos suaves e serenos 46 + Vós que escutais em rimas derramado 51 + Vós só podeis, sagrado Evangelista 123 + Vossos olhos, Senhora, que competem 33 + + ECLOGAS. + Pag. + A quem darei queixumes namorados[27] 201 + A rustica contenda desusada[28] 212 + Agora, Alcido, emquanto o nosso gado 268 + Agora ja que o Tejo nos rodeia 279 + Ao longo do sereno 160 + Arde por Galatea branca e loura 240 + As doces cantilenas que cantavão[29] 222 + Cantando por hum valle docemente 189 + De quanto alento e gôsto me causava 288 + Despois que o leve barco ao duro remo 242 + Encheo do mar azul a branca praia 247 + Parece-me, pastor, se mal não vejo 252 + Pascei, minhas ovelhas: eu em quanto 275 + Passado ja algum tempo que os amores 179 + Que grande variedade vão fazendo[30] 145 + + CANÇÕES + Pag. + A instabilidade da fortuna 303 + A vida ja passei assaz contente 356 + Com fôrça desusada 315 + Formosa e gentil Dama, quando vejo 300 + Ja a roxa manhãa clara 307 + Junto d'hum secco, duro e esteril monte 328 + Manda-me Amor que cante docemente 318 + Manda-me Amor que cante o que a alma sente 322 + Nem roxa flor d'Abril 340 + Oh pomar venturoso 343 + Por meio de humas serras mui fragosas 352 + Qu'he isto? Sonho? Ou vejo a Nympha pura 349 + Quem com solido intento 346 + Se este meu pensamento 311 + Tornei a triste pena 326 + Vinde cá, meu tão certo secretario 322 + Vão as serenas agoas 309 + + ODES. + Pag. + A quem darão do Pindo as moradoras 376 + Aquelle moço fero 383 + Aquelle unico exemplo[31] 378 + Detem hum pouco, Musa, o largo pranto 360 + Fogem as neves frias 381 + Formosa fera humana 368 + Ja a calma nos deixou 389 + Naquelle tempo brando 386 + Nunca manhãa suave 371 + Póde hum desejo immenso 373 + Se de meu pensamento 365 + Tão suave, tão fresca e tão formosa 363 + + NOTAS 395 + + + + + [1] A ma intelligencia que Faria e Sousa deo a este verso, o fez + duvidar se este naufragio foi antes ou depois do desterro, porque + diz elle: _Deste modo de hablar parece que se infiere que á este + naufragio sucedió el destierro; pues dice que á aquella fortuna + sucederá el ejecutar-se en él un injusto mandato... Mas los poetas + en sus cláusulas suelen mudar los tiempos: y asi aquello de será + ejecutado puede estar por fué ejecutado. Y si no es esto, quedaré + sin poder averiguarlo_. Mas nem he isto por certo, nem de o não ser + se segue que ao naufragio succedesse o desterro, antes se confirma + que o precedeo; porque ainda os pouco versados na lingua Portugueza + não ignorão que o verbo _ser_ tem duas accepções; a de _ser_ e a de + _estar_: e se na significação propria de _ser_ denotaria, neste + lugar, o principio da acção, na de _estar_, em que o tomou o poeta, + denota o complemento e termo della. E sendo este uso tão frequente + ainda nos melhores prosadores, he para admirar que a um homem tão + lido, como Faria e Sousa, podesse causar estranheza ou novidade. Mas + nem tudo occorre a todos. E para que não succeda o mesmo a alguns + leitores, julgámos conveniente deixar aqui esta advertencia. + + [2] Os dous irmãos Jesuitas, Luis e Martim Gonçalves da Camara, + aquelle confessor, este escrivão da puridade, ou secretario intimo + de ElRei, que tyrannizavão o reino, e de longe ião preparando o + jugo, que por sessenta annos depois pesou sobre o collo da infeliz + nação: aos quaes o Bispo Ozorio, indignado de taes escandalos, + dirigio uma carta, onde se lia o seguinte: + + "Somente lembro a V. R. e ao Sñr. Martim Gonçalves seu irmão, hajão + de sustentar esta grandeza, em que os pôz a fortuna, como o mundo + cuida, ou o bem commum como Vossas Mercês dizem; pois nunca vi maior + esquecimento, que tratarem-se as cousas como nunca se tratárão, e + fazerem a si e a pessoa de um Rei (que naturalmente he amavel) os + mais aborrecidos, os mais odiosos que nunca houve, antes e depois de + Dom Pedro o Cru; em tanto que a gente em todolos estados e + qualidades falla sem medo, e jurão os Portuguezes que tomárão antes + ser governados por dous Turcos, que os tratassem com amor e + prudencia, que do modo que agora o são: que nenhum mal tamanho póde + vir a este Reino, nem a pessoa propria de ElRei (que o nosso Senhor + guarde) que não houvessem por grandissima dita, se com isso se + houvessem de ver livres do estado em que se vem." + + [3] _Esta Canção e a precedente são feitas ao mesmo assumpto; e em + sentença e dicção pouco differem. Quer Faria e Sousa que esta fosse + a primeira que o poeta escreveo, e que, desgostoso della, passára a + escrever segunda. Mas para nós não he líquido qual fosse a elegida + pelo autor, porque, sendo ambas admiraveis, em alguns lugares se + vencem uma á outra. E não podemos persuadir-nos que ao remate da + ultima Estancia desta:_ + + _E porque não cabia dentro nella + De bens tamanhos tanto, + Sahe por a boca convertido em canto_ + + _preferisse o poeta o daquell'outra:_ + + _Se bem a declarei, + Eu não a escrevo, da alma a trasladei._ + + _por ser este um pensamento, inda que delicado e sublime, por elle ja + repisado em varios lugares das suas Rimas, e aquelle inteiramente novo + e peregrino._ + + _Nota dos editores._ + + [4] Conjectura Faria e Sousa que este Soneto fosse feito a seu avô + Estacio de Faria, amigo de Camões, e como elle poeta e soldado. + + [5] Este Soneto anda impresso nas Rimas de Diogo Bernardes, que o deu + por seu. + + [6] Em resposta ao Soneto: "Quem he este que na harpa Lusitana." + + [7] Bernardes imprimio este Soneto como seu e é o 77 nas suas Rimas, + aindaque os seus mesmos contemporaneos o julgavão de Camões, + imprimindo-o na primeira ed. de suas Rimas. + + [8] A D. Rodrigo Pinheiro, que foi Bispo do Porto, segundo + conjectura Faria. + + [9] A Manuel Barata, famoso professor de Calligraphia no seculo XVI, + publicando a sua Arte de escrever em 1572. + + [10] Á morte de D. Antonio de Noronha, morto em hum recontro com os + Mouros, junto a Ceuta em 1553. + + [11] A sepultura de D. Henrique de Menezes, septimo Governador da + India, fallecido em Goa no anno de 1526. + + [12] Este he tambem hum dos Sonetos que Bernardes publicou por seus, + e que Faria achou nos M. S. que continhão obras de Camões. + + [13] Diversos forão os cavalleiros deste apellido que servírão com + distincção na India no tempo de Camões. Suppomos que o Soneto foi + feito a D. Fernando de Menezes Baroche, que passou á India com seu + Pae o Viso-Rei D. Affonso de Noronha, na mesma nao em que ia Camões, + onde naturalmente contrahírão amizade; pois este fidalgo foi + encarregado por seu pae no anno de 1554 de ir curzar com uma armada + no Estreito. + + [14] Tambem este Soneto anda nas Rimas de Bernardes. + + [15] A D. Theodosio de Bragança. + + [16] Tambem impresso entre os de Bernardes. + + [17] A D. Guiomar de Blasfet, Dama da Rainha D. Catherina, tendo + cahido de hum castiçal uma vela accesa que lhe queimou o rosto. + + [18] A D. João de Castro. + + [19] A D. Theodosio de Bragança. + + [20] A D. Luis de Ataïde, voltando pela segunda vez a governar a + India, no anno de 1577. Bernardes tambem metteu este Soneto entre os + seus. + + [21] Em um M. S. foi achado este Soneto com este titulo: _De Luis de + Camões a uma Dama que lhe enviou uma lagrima entre dous pratos._ + Thomaz d'Aquino. + + [22] Este Soneto, diz Faria e Sousa, em um M. S. se entítula do + Conde de Vimioso; e anda tambem impresso entre os de Bernardes e he + o 79. + + [23] Na morte da Infanta D. Maria filha d'ElRei D. Manuel e de sua + terceira Rainha D. Leonor. + + [24] Ao Viso-Rei D. Luis d'Ataïde. + + [25] A João Lopes Leitão, a quem se attribue o Soneto em louvor de + Camões: "Quem he este que na harpa Lusitana." + + [26] A D. Leoniz Pereira, defendendo valerosamente a praça de Malaca + de que era Capitão, contra o formidavel poder do Achem, em 1568. + + [27] A D. Antonio de Noronha. + + [28] A D. João de Lencastro, Duque de Aveiro, neto de D. João II. + + [29] A D. Antonio de Noronha. + + [30] Á morte de D. Antonio de Noronha e do Principe D. João, pae + d'ElRei D. Sebastião. + + [31] A D. Francisco Coutinho, Conde do Redondo, Viso-Rei da India, + por occasião de haver Garcia da Orta, famoso Medico Portuguez, + publicado em Goa em 1563 uma obra intitulada: _Colloquio dos + Simples, e cousas medicinaes da India_. + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Obras Completas de Luis de Camões, +Tomo II, by Luís de Camões + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OBRAS COMPLETAS--LUIS DE CAMOES *** + +***** This file should be named 31509-8.txt or 31509-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/1/5/0/31509/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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