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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 19:58:23 -0700
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+The Project Gutenberg EBook of A Biblia da Humanidade, by Anthero de Quental
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Biblia da Humanidade
+
+Author: Anthero de Quental
+
+Release Date: June 18, 2010 [EBook #32868]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A BIBLIA DA HUMANIDADE ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
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+
+ ANTHERO DE QUENTAL
+
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+
+ ANTHERO DE QUENTAL
+
+
+ A BIBLIA DA HUMANIDADE
+
+
+
+
+ BARCELLOS
+ Typographia da _Aurora do Cavado_
+ Editor--_R. V._
+ 1895
+
+
+
+ Tiragem apenas de 100 exemplares:
+ 20 em papel de linho.
+ 80 em papel d'algodão.
+ N.º___
+
+
+
+
+
+Collaborou Anthero do Quental, assiduamente, em verso e prosa, com João
+de Deus e outros vultos litterarios da geração de 1864, no _Seculo XIX_,
+periodico que n'esse anno se publicou em Penafiel, sob o influxo e
+direcção de Germano Vieira Meirelles, seu condiscipulo na Universidade,
+como elle formado em Direito no anno de 1863, um dos mais pujantes e
+promettedores talentos d'essa geração, com cedo roubado ao renome que
+por certo conquistaria, se a vida lhe fôra mais longa, no mundo das
+lettras e da politica.
+
+Entre outros escriptos de Anthero ahi sahidos, lugar mui saliente occupa
+_A Biblia da Humanidade_, trabalho philosophico de ancha envergadura e
+largos horisontes, que pena é ter ficado incompleto.
+
+Não obstante isto entendi que deveria elle entrar, por seu incontestado
+valor, na collecção, em que tão piedosamente ponho empenho, de todas as
+suas obras esparsas, e para o presente opusculo o traslado. Constitúe
+elle já o duodecimo da mesma collecção, e no intento proseguirei eu de a
+esta trazer tudo o que de Anthero se não ache publicado em volume sobre si.
+
+Nenhum interesse material me açula n'este meu proposito, que nem um só
+dos exemplares de qualquer dos opusculos, que vou fazendo sahir a lume,
+é exposto á venda, mas apenas e só n'elle me anima o vehemente desejo de
+reunir e facilitar materiaes para uma edição completa da obra de Anthero
+do Quental, edição em que não ficarião, creio eu, na sombra e nem sequer
+na penumbra, alguns dos seus trabalhos ainda não reunidos em volume, e
+alguns até incompletos, tão radiosa a luz que d'elles resalta.
+
+ RODRIGO VELLOSO
+
+
+
+
+A BIBLIA DA HUMANIDADE
+
+
+I
+
+Dentro do homem existe um Deus desconhecido, não sei qual, mas
+existe--dizia Socrates soletrando com os olhos da razão, á luz serena do
+ceu da Grecia, o problema do destino humano. E Christo com os olhos de
+fé lia no horisonte annuveado das visões do propheta esta outra palavra
+de consolação--dentro do homem está o reino dos ceus. Profundo,
+altissimo, accordo de dois genios tão distantes pela patria, pela raça,
+pela tradicção, por todos os abysmos que uma fatalidade mysteriosa cavou
+entre os irmãos infelizes, violentamente separados, d'uma mesma familia!
+Dos dois polos extremos da historia antiga atravez dos mares
+insondaveis, atravez dos tempos tenebrosos, o genio luminoso e humano
+das raças indicas e o genio sombrio, mas profundo, dos povos semiticos,
+se enviam como primeiro mas firme penhor da futura unidade, esta
+saudação fraternal, palavra de vida que o mundo esperava na angustia do
+seu cahos--o homem é um Deus que se ignora.
+
+Grande e soberana consolação a de ver essa luz de concordia raiar do
+ponto do horisonte aonde menos se esperava, de ver uma vez unidos,
+conciliados esses dois extremos inimigos, esses dois espiritos rivaes
+cuja luta entristecia o mundo, echoava como um tremendo dobre funeral do
+coração retalhado da humanidade antiga! Os combatentes no maior ardor da
+peleja, fitam-se, encaram-se com pasmo, e sentem as mãos abrirem-se para
+deixar cair o ferro fratricida. Estendem os braços... somos irmãos!
+
+Primeiro encontro, santo e purissimo dos promettidos da historia! Manhã
+suave dos primeiros sorrisos, dos olhares timidos mas leaes d'esses
+noivos formosissimos, que o tempo aproximava assim para o casamento
+mysterioso das raças!
+
+Não ha no mundo palacio do rei digno de lhes escutar as primeiras e
+sublimes confidencias! só um templo, alto como a cupola do ceu, largo
+como o vôo do desejo puro, como a esperança do primeiro e innocente
+ideal humano.
+
+Esse templo tiveram-no. Naquella palavra de dois loucos se encerra tudo.
+Nenhuma montanha tão alta, aonde a olho nú se aviste Deus, como o vôo
+d'esta phrase, a maior revelação que jamais ouvirá o mundo--dentro do
+homem está Deus.--
+
+
+II
+
+Este facto unico, aos olhos dos que lêem a historia nas lettras
+impalpaveis mas luminosas das ideias, e não nos hieroglificos barbaros e
+confusos dos acontecimentos fataes, basta a explicar o misterio que
+segue tudo o que depois virá.
+
+A adopção do ideal hebraico pelo genio grego: o christianismo,
+misterioso hospede oriental recebido com amor sob o tecto cheio de luz
+do Occidente; Jesus sentado entre os philosophos da Alexandria escutado
+e applaudido no Agora de Athenas; Christo descendo da sua cruz da Judea
+para, subindo ao Capitolio romano, estender os braços e tomar posse do
+mundo--este drama da fortuna inexplicada d'um Deus desconhecido, esta
+Odisseia das perigrinações da religião d'um mundo, acolhida, amada entre
+os cultos d'outro mundo tão distante--que ha em tudo isto d'incrivel? No
+dia em que Socrates exclamou «ha um Deus no homem» o primeiro arco da
+ponte extraordinaria estava lançado: ficou firme, sustido no fundo do
+oceano. Christo completou este caminho maravilhoso, lançou o segundo
+arco! Desde essa hora os filhos da Sára oriental podem atravessar de
+novo o Mar Roxo a pé enxuto: e a terra promettida, o occidente de doce e
+humana luz, cá está para os receber em seu seio vastissimo.
+
+O milagre, o milagre verdadeiro, começara ha seculos--o ideal commum--a
+unidade na aspiração. A realisação devia para ambos ser igual. A mesma
+prece deve subir ao mesmo céo. Egual desejo devia tarde ou cedo
+affirmar-se na mesma realidade. Maria é a irmã das Sybilas... Jesus por
+que não será então o irmão de Socrates? As differenças de genio, de
+raça, nada são aqui: o ideal commum, isso é tudo. E esse que assentou
+sobre a sua solida base a fé eterna da humanidade, a unidade dos
+corações, a verdadeira cidade de Deus! O christianismo creou a
+humanidade (no grande e verdadeiro sentido da palavra) mas foi a
+humanidade toda que o creou a elle, não o genio estreito d'uma raça.
+
+Fundando a unidade divina, construiu a unidade humana mas os elementos
+da obra todos é que suscitarem o operario, é que o fizeram.
+
+No dia em que Jesus se chamava a si Christo, n'esse dia deixou de ser
+judeu para se naturalizar homem. E o filho do homem--o filho da
+humanidade. Do desejo dos dois mundos brotou esse lyrio divino... mas o
+perfume que lhe sae do calix não ha templo bastante para o conter! Todo
+o ceu é essa cathedral: o templo de Jerusalem, o Parthenon e o Capitolio
+são naves, apenas, d'essa egreja universal!
+
+
+III
+
+Eil-a fundada em fim, idealmente, ao menos essa unidade, esse sonho
+milenario do mundo antigo! E quem dirá as dores, as lutas, as
+esperanças, as angustias de mil gerações esquecidas, cujas lagrimas
+regaram, e de cujo pó se alimenta ainda essa arvore d'immortal amor?
+
+Innumeras raças extinctas passaram curvadas sobre a terra; crusaram no
+perigrinar de cem odisseias misteriosas, todos os continentes, para que
+seus passos apenas deixassem como derradeiro vestigio sobre a face do
+globo as letras fatidicas d'esse epitafio de glorias, essa palavra
+unica--unidade! Tudo o mais é o segredo do tempo. Os seculos
+desconhecidos esconderam sob a dobra dos immoveis sudarios a memoria dos
+obreiros com o risco e os instrumentos do trabalho--e vê-se a prodigiosa
+obra anonima erguer-se recortando o perfil extranho no horisonte
+desmaiado do passado, como o vulto da esphinge incomprehensivel no ceu
+dos grandes desertos!
+
+É a melancolia da historia! Por entre o canto das Epopeias antigas
+escuta-se a espaço o gemido surdo d'esse desconhecido e infeliz mundo de
+escravos sobre cujos hombros doridos os heroes assentavam as suas
+cidades de luz...
+
+E os palacios heroicos da humanidade, que são as horas solemnes da sua
+inspiração, encobrem-nos tambem os peitos escuros mas fortes sobre que
+se ergueram esmagando os talvez, esses torreões de brilho!
+
+Mas que importam os sacrificios? O carro de triumpho não se lembra da
+mina sombria d'onde sahiu o metal das rodas que o levam.
+
+A obra do misterio, a cupula esplendida da historia antiga ergue-se e
+ninguem, sabe ahi por que mãos se ergue. Mas solida é a sua base, que
+nenhuma convulsão lançará por terra como o canto de granito nos
+alicerces do circo romano.
+
+A estatua ideal da Fé humana achou emfim o pedestal de marmore
+immaculado, onde se firmem seus pés divinos--a consciencia da nobresa do
+destino do homem, a revelação da sua mesma divindade.
+
+
+IV
+
+Mas, esse Deus misterioso, que ceu o esconde nos paramos do ceu azul
+immensuravel? Que Sinai enubla a sua gloria? O seu altar em que monte o
+ergueram os profetas desconhecidos? Que rito é o seu--e em que taboas de
+marmore escreveu o fogo de cima a legenda prodigiosa de sua lei? No meio
+de nós por entre o tumultuar das gerações passa como o Deus antigo, por
+entre os combates da Iliada, e ao longe retumba o echo de suas passadas.
+E, emtanto, ninguem o vê. Só de longe a longe, algum profeta desce das
+solidões a mostrar ao mundo a palidez de suas faces emagrecidas, seus
+olhos cavos e fixos, da fixidez assustadora das visões, como testemunho
+de ter entrevisto na sua noite um raio d'essa gloria que o deslumbrou e
+consumiu.
+
+É o absoluto que deixa nas mãos do homem, que o tentou prender na sua
+fuga eterna, um fio apenas da sua tunica de brilho. Mas esse fio é um
+raio de tal luz, que basta a alumiar o trabalho de muitos seculos!
+
+Toma-o nas mãos Moisés, mostra-o ao mundo, e chama-se Jehová. Ergue-o
+Mahomet entre os povos e chama-se Alláh. Deixa-o Christo cair do alto da
+sua cruz, e chama-se amor. De cima d'uma guilhotina o atira Robespierre
+para o meio das multidões e chamam-lhe Direitos do homem e Revolução. E
+Hegel, levantando a cabeça de sob as ondas immoveis e tristes da
+abstração, lança nos ventos, que a levam ao mundo, esta palavra--Ideia!
+
+O que revela cada profeta não é o Deus eterno, o Absoluto dominador,
+entre cujos braços se contém o universo, não confuso e multiforme nas
+mil apparencias do relativo, mas na verdade ideal da sua essencia--o ser
+puro.--Esse poderia por ventura, afirmal-o a creação toda, os soes e os
+insectos, o espirito e a materia; o visivel e o invisivel, o certo e o
+possivel, se um dia, esquecendo ao movimento lançar o metal ardente de
+suas creações nos moldes da variedade, se precipitasse todo sobre o seu
+centro ideal assumindo emfim a consciencia plena da sua universalidade.
+
+Mas o homem não afirma nada mais além da sua mesma alma? E esse vulto
+immenso a que ainda chamam Deus, é apenas a sombra do ideal humano, que
+acha o mundo estreito e se alarga pelo espaço. Concebe o absoluto nos
+limites da sua relatividade.
+
+Por seus mesmos passos mede o caminho do infinito. E, nos ultimos
+limites aonde alcança o seu pensamento, ergue elle as ballizas extremas
+do possivel. As religiões são os marcos successivos das mais longas
+corridas do seu desejo no caminho do infinito: mas não são o termo
+d'essa estrada que se perde nas nevoas do inatingivel e cujos desvios
+ultimos pé algum pôde ainda pisar.
+
+É por isso que os Deuses morrem, se succedem e transformam. Vê-se o fim
+d'essas eternidades--e o homem que as creára para perder cá a incerteza
+do seu transitorio destino, o homem, o seu coração, o seu ideal,
+sobrevive-lhes, é elle quem parece eterno ao pé d'esses absolutos
+passageiros!
+
+Mas que importa esse Deus que nenhum olhar pôde ainda descobrir no
+deserto dos ceus, se d'um ceu interior, tão puro e tão bello, sae para
+cada ouvido attento uma voz divina, e uma sybilla misteriosa deixa cair
+dos labios palavra a palavra, o oraculo successivo do destino dos homens?
+
+Se a alma cria deuses e, respirando, espalha o infinito em volta de
+si--é que lá dentro alguma cousa infinita se concentra e o divino se
+esconde para se manifestar dia a dia na revelação constante chamada
+Vida. É que o mais humilde d'entre nós dá em seu peito morada a um
+grande desconhecido que ali existe, cuja voz grave se ouve a espaços e
+nos alumia a face com os relampagos da sua gloria.
+
+Existe com effeito. Que somos nós todos senão uma forma visivel da
+essencia infinita--um momento determinado da existencia sem termo--uma
+vibração do movimento eterno--uma fase da Lei do todo, chamada aqui lei
+humana mas a mesma no ser, com igual fim, igual origem, que nos
+determina e de que vivemos? A lei! Protheu prodigioso de mil formas
+d'innumeros vultos inesperados em toda a parte diversos, e em toda a
+parte o mesmo sempre todavia! Mil faces, e uma só alma! mil braços, e
+uma vontade só! por mil caminhos, e um unico o termo da viagem!
+
+Uma d'essas do Protheu é o homem, a lei humana. A parte d'acção que
+exercemos no movimento eterno: a hora que nos é dado preencher na
+duração sem termo--é isso o que somos, por isso que nós agitamos, o
+nosso ser, o nosso misterio. É o Deus, que o universo esconde
+revelando-se pela consciencia. E o absoluto que fóra nem podemos
+entrever, eil-o vivo e palpitante em nosso coração e debaixo de nossas
+mãos, a ponto de o podermos palpar!--A alma da humanidade em cada homem;
+e, na humanidade a alma inteira do mundo--.
+
+No mais estreito, no mais tremulo e humilde raio de luz, coado a custo
+por entre duas nuvens, se estuda e está o segredo do brilho immenso e
+inefavel que innunda as alturas, se vê patente o misterio da maior
+gloria dos esplendores celestes. No gemer da onda indolente, que se
+espreguiça no areal, e nem assusta o folgar descuidoso d'uma creança,
+está a voz do oceano, a sua ancia, o porque de suas luctas, o motivo de
+tantas tempestades, tantos brados, tamanhas convulsões--. No que agita o
+peito do mais humilde e desconhecido dos homens está o segredo de
+anciedade, do desejo infinito, que commove os universos, o verbo do
+movimento que arrasta os imperios como os mendigos, as folhas do outomno
+como os astros do espaço--está a palavra do ser, a origem e o fim, Deus!
+
+Sim. Esse Deus buscado em vão na vastidão dos ceus desertos, que não
+revela a immensidade desoladora e fria, eil-o em fim que o vemos
+concentrado no fundo da consciencia, dormitando, mas em movimento, mudo,
+ao parecer, mas murmurando sempre, como um canto de lendas misteriosas,
+o oraculo successivo dos Destinos! É o Deus da humanidade; a parte do
+ser eterno, que se move n'ella, que a firma, que é ella mesma. Jehová,
+Brama, Sabaoth, Allá, Christo, por grandes, por luminosos que pareçam,
+não são mais que as sombras projectadas sobre a terra pelo vulto d'esse
+grande desconhecido--degraus da escada do desejo que essa alma sobe no
+caminho do seu Fim. É a luz, que nos sae de dentro, e diante dos nossos
+olhos se agita, convidando-nos a seguil-a em seu correr. É a columna de
+fogo do deserto--não aquella trazida de longe e sem se ver a mão que a
+trouxe, mas saida do mesmo seio do povo, como que a sua propria alma,
+adiante d'elle caminhando. Movemo-nos porque a seguimos; não pelo
+capricho de nossos passos. O nosso trabalho o seu brilho nol'o indica,
+não é só o lavor escuro de nossas mãos.
+
+Toda a esphera de nossas acções, as maiores, as melhores, fecha-a o
+circulo d'aquella lei--que é a nossa mesma.
+
+Nem d'outra lei precisamos. Cumprir a tarefa d'este momento é cumpril-a
+na sua fórma rigorosa, correspondendo ao destino d'elle entre todos os
+movimentos de que se compõe a duração eterna.--O fim do Homem é ser
+homem. E, para o ser, viver segundo a nós, ao nosso fim, que mais se
+precisa que seguir a lei humana? É a nossa affirmação. A força que a
+determina não lhe vem de fóra, d'alguma mão escondida entre as nuvens
+gloriosas d'algum ceu inatingivel. De dentro vem, como as folhas do
+lyrio, que se abre, vem todas do botão que as continha em suas dobras,
+como todos os suspiros vem do coração que deseja, e não do objecto que
+os accorda.
+
+É o seu trabalho quem cria os absolutos que depois a esmagam. Mas a
+força primitiva reage; e os espectros caem por terra estalados os braços
+com que tentavam suffocal-a.
+
+As revoluções, os cultos, os systemas, as philosophias, as revelações
+não são principios exteriores que dominem a historia, de cima, da altura
+de suas verdades determinando os sentimentos, os desejos, as crenças, a
+vida emfim. Pelo contrario.--São apenas evoluções d'um interior, que os
+cria e destroe, e faz o novo templo com as minas do templo antigo, e se
+chama Natureza.
+
+O Deus da Humanidade é o mesmo homem: e o seu Ideal, a religião da Vida.
+
+
+V
+
+É a negação do absoluto e, como tal a affirmação do homem.
+
+O Deus sae da immobilidade do symbolo inalteravel: faz-se vida,
+move-se--é um Deus progressivo.
+
+O seu dogma (semelhante á fonte nascida da terra e de continuo
+acrescentada) dia a dia o vai o tempo completando com tudo o que lhe sai
+do seio vasto e fecundissimo. É o culto de um misterio que
+descobrindo-se sempre, jamais se poderá ver todo. E a Biblia tem brancas
+as ultimas paginas, para que lhe possa cada geração nova escrever lá o
+verso d'oiro de cada novo Evangelho que se revelle.
+
+Religião doce e humana, que não despreza uma palavra de creança, o sonho
+d'um coração de mulher, o presentimento da mais humilde consciencia! É
+como o olho do sabio que se esquece horas sem conto na contemplação do
+mais estreito calice d'uma flor sem nome d'esses campos! No calix da
+flor, diz o poeta, se encerra a belleza toda do universo--e que
+profundos e desconhecidos thesouros de belleza e verdade não guarda o
+coração d'um simples?!...
+
+É por isso que esta religião abraça no seu circulo maravilhoso a alma
+toda e toda a vida como o sol do meio dia vê quanto rasteja na terra e
+quanto paira nas alturas--porque não despreza ninguem. Como Jesus entre
+as crianças aprende tanto quanto ensina. Missiona, e recebe todavia
+lições do mais humilde catechumeno. O seu decalogo tem uma margem larga
+bastante para que o povo o commente, quando não acrescente um artigo á
+lei. É a religião do movimento--o Colombo dos mundos encobertos do
+espirito erecto na proa do galeão, sondando o horisonte com os olhos,
+incitando, animando todos para a conquista do desconhecido. Sentado na
+tripode santa da sua inspiração, sente correr-lhe n'alma o espirito do
+Deus vivo: profetisa, improvisa de continuo e, como a chuva de perolas
+da bocca da fada legendaria, lhe caem dos labios as palavras nunca
+interrompidas da sua revellação--a lei, o ideal humano.
+
+
+VI
+
+A Edade Media não comprehendeu isto. Seu grande genio, sublime como
+Poesia, achamol-o aqui estreito e acanhado como Rasão. Porque do chão
+saío um dia essa flor maravilhosa, a mais bella entre todas no jardim do
+espirito, chamada unidade, pareceu-lhe ter morrido a força geradora da
+terra e tornar-se impossivel outra florescencia, outra primavera, outro
+perfume.
+
+Deu por concluido o trabalho das criações humanas, e fechado o cyclo dos
+poemas divinos chamados religiões. Declarou o coração incapaz de novos
+sonhos, a alma inerte para mais desejos, a intelligencia morta para
+outras concepções e outras fórmas que não fossem as suas--porque no
+ardor de sua fé, uma nobre illusão lhe fez ver o vacuo e o nada além do
+espaço que abrangia a sua vista halucinada. Grande e solemne dentro do
+templo santo da sua crença por isso mesmo desprezou o resto da terra
+aonde já se não avistava esse prodigioso edificio, e o resto da alma que
+o calor d'esse raio d'amor não aquecia. As tristes flores d'esse deserto
+não eram para adornar o seu altar--não era digno do seu Deus o perfume
+saído d'um coraçao não alumiado pelo brilho de sua gloria... Fez o Dogma
+e fechou-se n'elle como n'um sepulcro. Largo sepulcro, em verdade, como
+para um Deus e todo marmores e oiro... mas ainda no tumulo de Christo, o
+frio que se sente é sempre o frio da morte!
+
+A antiguidade pagã dava ás suas religiões um cinto elastico, para que a
+Virgem podesse crescer e engrossar, fazer-se mulher e mãe, conceber e
+criar o filho que lhe havia de succeder. Como as não revellava nenhuma
+voz encoberta, saíndo do meio das nuvens de fogo d'uma gloria
+sobrehumana--revellavam-se ellas por si, em toda a parte, em cada hora,
+e não já no cimo deserto do Sinai, mas em baixo, no valle, onde se
+assentam as tendas do povo, no ajuntamento dos homens. Por isso não
+havia palavra murmurada no meio da multidão, que se sumisse esquecida,
+que um deus amigo não ouvisse e decorasse, como ensino d'uma bocca
+humilde, mas nem por isso despresivel. A onda mais imperceptivel,
+nascida nos ultimos confins da sociedade trazida com o sopro do vento,
+achava sempre uma doce praia aonde depositar o seu pequeno tributo, um
+canto, uma espuma branca, uma rara flor muitas vezes.
+
+Cada modesto veio d'agua lá ia dar sempre ao lago d'essas religiões tão
+humanas, que não se pejavam de os receber, com elles crescer e alargar,
+ser por elles formado--fazendo assim a divindade com o melhor e o mais
+puro da humanidade. Essas religiões formavam-nas em collaboração as
+almas das gerações successivas, cada uma como que tinha de mais intimo
+em si, do mais elevado ao mais innocente. O sabio dava o forte
+pensamento, o simples a intuição profunda. Emprestava-lhes um facto o
+heroe, e a virgem lançava-lhes no regaço uma lagrima de piedade. A praça
+publica lhes enviava um echo de seus rumores, e a familia um reflexo
+amoravel do seu lar. Cada qual tirava do coração a perola que lá tem
+todos escondida; e com essas gemmas, preciosas, quentes ainda e quasi
+vivas, se adornava a divindade. As paixões, os amores, os cuidados, as
+lutas dos homens, tudo isto idealisado e puro se via brilhar sobre o
+peito dos deuses, como penhor da fraternidade entre terra e ceu, e
+modelos de perfeição que buscava cada qual realisar. Ser bom e forte e
+grande para ser semelhante a um Deus--porque este era a ultima expressão
+da humanidade.
+
+Era ella o que a criava. Ao lado da inspiração do augur caminhava a
+espontaniedade do Povo.
+
+Ella transformava a legenda; desenvolvia a moral; compunha o rito:
+adoptava cultos; erguia outros deuses ao lado senão sobre o pedestal dos
+antigos; vereficava a lei velha com o espirito novo: tinha autoridade em
+fim, autoridade, voto e força para obrigar um Deus progressivo a medir
+seus passos pelos d'uma sociedade sempre em movimento. Por detraz do
+Olympo havia muito ceu ainda e muito espaço. Alem da morada das
+divindades via-se o infinito sem termos--e Prometheu prophetisando a
+queda de Jupiter não era um impio; era um semi-deus. As religiões
+antigas não faziam da alma humana (e, com a alma as sociedades e o
+mundo) prisioneira d'um dogma immutavel. Sentiam ser ella mesma o
+verdadeiro dogma. Abriam o seio a cada palavra inspirada e
+transformavam-na em sangue do coração...
+
+Religiões humanas! uma intuição profunda da mesma lei da vida--a
+diversidade, o movimento, a successão--dava-lhes a largura, a
+flexibilidade e o vago necessarios para que correspondessem a todas ás
+formas innumeras e inesperadas do espirito, ás infinitas transformações
+das sociedades, ás mil apparencias da realidade. Dava-lhes a virtude
+d'esses cordeaes proprios para todas as idades e todas as compleições:
+para os fortes calmante; e para os fracos, balsamo e conforto. Eram como
+o vestido natural do corpo do homem acompanhando todos os movimentos,
+feito para todas as altitudes: simples ao pé do lar, nobre na praça,
+grave no repouso, e na luta ou na corrida ligeiro e facil.
+
+Esta verdade humana que as fez tão animadas, por isso mesmo as impedio
+d'avistarem o outro termo correlativo, o extra-humano, o absoluto.
+
+No coração d'essas raças como parte que é da alma, estava esse
+sentimento, por certo. Mas não vinha fóra em fórma de luz, não inundava
+d'ali o mundo, não doirava a fronte dos deuses nem a cabeça dos homens.
+Viram-na, a essa luz, passar como relampago nos olhos d'alguns
+inspirados; mas o povo não a soube comprehender, deixou-a morrer, quando
+a não matou elle mesmo. No meio da diversidade, que o absorvia, o
+politheismo não pôde conceber a unidade existente com ella e n'ella
+mesma porventura. Ao sol da Grecia e do Oriente, a rosa viva, a flor
+intima da humanidade, a alma, abrira todas as suas petalas extranhas mas
+formosissimas! uma só ficou fechada; mas essa era a mais larga e a mais
+forte, que devia conter todas as outras--o sentimento da unidade.
+
+Unidade de Deus! Unidade do Homem! n'esta onda mystica mergulhou o
+Christianismo a cabeça--com este Jordão baptisou o mundo! Esta
+contemplação do absoluto fez a sua força: foi ella tambem quem o matou.
+Em vista d'este principio resolveu corajosamente o destino humano; mas
+vinculando-a a essa resolução, desconheceu a sua lei essencial--o
+movimento.--Não. A contemplação inerte não pode ser o ar que o espirito
+do homem pede para respirar! O ar da vida é outro... A vida! no seu vôo
+para o ceu, na sua sublime ambição ideal, foi isso que esqueceu ao
+Christianismo--a terra, a vida.--
+
+.........................................................................
+
+FIM
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A Biblia da Humanidade, by Anthero de Quental
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A BIBLIA DA HUMANIDADE ***
+
+***** This file should be named 32868-8.txt or 32868-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/2/8/6/32868/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
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+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
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+works. See paragraph 1.E below.
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+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
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+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
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+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
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+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
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+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
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+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+1.F.
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
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+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
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+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+The Project Gutenberg EBook of A Biblia da Humanidade, by Anthero de Quental
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: A Biblia da Humanidade
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+Author: Anthero de Quental
+
+Release Date: June 18, 2010 [EBook #32868]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A BIBLIA DA HUMANIDADE ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
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+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 2em;">ANTHERO DE QUENTAL</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.5em;">ANTHERO DE QUENTAL</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">A BIBLIA DA HUMANIDADE</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>BARCELLOS <br>
+<small>Typographia da <i>Aurora do Cavado</i></small> <br>
+Editor&mdash;<i>R. V.</i> <br>
+1895</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="margin: 10%;text-align:center;">
+<p>Tiragem apenas de 100 exemplares:</p>
+
+<p>20 em papel de linho.</p>
+
+<p>80 em papel d'algodão.</p>
+
+<p>N.º___</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<p>Collaborou Anthero do Quental, assiduamente, em verso e prosa, com João de
+Deus e outros vultos litterarios da geração de 1864, no <i>Seculo XIX</i>,
+periodico que n'esse anno se publicou em Penafiel, sob o influxo e direcção de
+Germano Vieira Meirelles, seu condiscipulo na Universidade, <span
+class="pn">{6}</span> como elle formado em Direito no anno de 1863, um dos mais
+pujantes e promettedores talentos d'essa geração, com cedo roubado ao renome
+que por certo conquistaria, se a vida lhe fôra mais longa, no mundo das lettras
+e da politica.</p>
+
+<p>Entre outros escriptos de Anthero ahi sahidos, lugar mui saliente occupa
+<i>A Biblia da Humanidade</i>, trabalho philosophico de ancha envergadura e
+largos horisontes, que pena é ter ficado incompleto.</p>
+
+<p>Não obstante isto entendi que deveria elle entrar, por seu incontestado
+valor, na collecção, em que tão piedosamente ponho empenho, de todas as suas
+obras esparsas, e para o presente opusculo o traslado. Constitúe elle já o
+duodecimo da mesma collecção, e no intento proseguirei eu de a esta trazer tudo
+o que de Anthero se não ache publicado em volume sobre si.</p>
+
+<p>Nenhum interesse material me açula n'este meu proposito, que nem um só dos
+exemplares de qualquer dos opusculos, que vou fazendo sahir a lume, é exposto á
+venda, mas apenas e só n'elle me anima<span class="pn">{7}</span> o vehemente
+desejo de reunir e facilitar materiaes para uma edição completa da obra de
+Anthero do Quental, edição em que não ficarião, creio eu, na sombra e nem
+sequer na penumbra, alguns dos seus trabalhos ainda não reunidos em volume, e
+alguns até incompletos, tão radiosa a luz que d'elles resalta.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">R<small>ODRIGO
+</small>V<small>ELLOSO</small></p>
+
+<p><span class="pn">{8}<br>
+{9}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>A BIBLIA DA HUMANIDADE</h1>
+
+<h2>I</h2>
+
+<p>Dentro do homem existe um Deus desconhecido, não sei qual, mas
+existe&mdash;dizia Socrates soletrando com os olhos da razão, á luz serena do
+ceu da Grecia, o problema do destino humano. E Christo com os olhos de fé lia
+no horisonte<span class="pn">{10}</span> annuveado das visões do propheta esta
+outra palavra de consolação&mdash;dentro do homem está o reino dos ceus.
+Profundo, altissimo, accordo de dois genios tão distantes pela patria, pela
+raça, pela tradicção, por todos os abysmos que uma fatalidade mysteriosa cavou
+entre os irmãos infelizes, violentamente separados, d'uma mesma familia! Dos
+dois polos extremos da historia antiga atravez dos mares insondaveis, atravez
+dos tempos tenebrosos, o genio luminoso e humano das raças indicas e o genio
+sombrio, mas profundo, dos povos semiticos, se enviam como primeiro mas firme
+penhor da futura unidade, esta saudação fraternal, palavra de vida que o mundo
+esperava na angustia do seu cahos&mdash;o homem é um Deus que se ignora.</p>
+
+<p>Grande e soberana consolação a de ver essa luz de concordia raiar do ponto
+do horisonte aonde menos se esperava, <span class="pn">{11}</span> de ver uma
+vez unidos, conciliados esses dois extremos inimigos, esses dois espiritos
+rivaes cuja luta entristecia o mundo, echoava como um tremendo dobre funeral do
+coração retalhado da humanidade antiga! Os combatentes no maior ardor da
+peleja, fitam-se, encaram-se com pasmo, e sentem as mãos abrirem-se para deixar
+cair o ferro fratricida. Estendem os braços... somos irmãos!</p>
+
+<p>Primeiro encontro, santo e purissimo dos promettidos da historia! Manhã
+suave dos primeiros sorrisos, dos olhares timidos mas leaes d'esses noivos
+formosissimos, que o tempo aproximava assim para o casamento mysterioso das
+raças!</p>
+
+<p>Não ha no mundo palacio do rei digno de lhes escutar as primeiras e sublimes
+confidencias! só um templo, alto como a cupola do ceu, largo como o vôo do
+desejo puro, como a esperança do<span class="pn">{12}</span> primeiro e
+innocente ideal humano.</p>
+
+<p>Esse templo tiveram-no. Naquella palavra de dois loucos se encerra tudo.
+Nenhuma montanha tão alta, aonde a olho nú se aviste Deus, como o vôo d'esta
+phrase, a maior revelação que jamais ouvirá o mundo&mdash;dentro do homem está
+Deus.&mdash;</p>
+
+<h2>II</h2>
+
+<p>Este facto unico, aos olhos dos que lêem a historia nas lettras impalpaveis
+mas luminosas das ideias, e não nos hieroglificos barbaros e confusos dos
+acontecimentos fataes, basta a explicar o misterio que segue tudo o que depois
+virá.</p>
+
+<p>A adopção do ideal hebraico pelo genio grego: o christianismo, misterioso
+hospede oriental recebido com amor sob o tecto cheio de luz do Occidente;
+Jesus<span class="pn">{13}</span> sentado entre os philosophos da Alexandria
+escutado e applaudido no Agora de Athenas; Christo descendo da sua cruz da
+Judea para, subindo ao Capitolio romano, estender os braços e tomar posse do
+mundo&mdash;este drama da fortuna inexplicada d'um Deus desconhecido, esta
+Odisseia das perigrinações da religião d'um mundo, acolhida, amada entre os
+cultos d'outro mundo tão distante&mdash;que ha em tudo isto d'incrivel? No dia
+em que Socrates exclamou «ha um Deus no homem» o primeiro arco da ponte
+extraordinaria estava lançado: ficou firme, sustido no fundo do oceano. Christo
+completou este caminho maravilhoso, lançou o segundo arco! Desde essa hora os
+filhos da Sára oriental podem atravessar de novo o Mar Roxo a pé enxuto: e a
+terra promettida, o occidente de doce e humana luz, cá está para os receber em
+seu seio vastissimo.<span class="pn">{14}</span></p>
+
+<p>O milagre, o milagre verdadeiro, começara ha seculos&mdash;o ideal
+commum&mdash;a unidade na aspiração. A realisação devia para ambos ser igual. A
+mesma prece deve subir ao mesmo céo. Egual desejo devia tarde ou cedo
+affirmar-se na mesma realidade. Maria é a irmã das Sybilas... Jesus por que não
+será então o irmão de Socrates? As differenças de genio, de raça, nada são
+aqui: o ideal commum, isso é tudo. E esse que assentou sobre a sua solida base
+a fé eterna da humanidade, a unidade dos corações, a verdadeira cidade de Deus!
+O christianismo creou a humanidade (no grande e verdadeiro sentido da palavra)
+mas foi a humanidade toda que o creou a elle, não o genio estreito d'uma
+raça.</p>
+
+<p>Fundando a unidade divina, construiu a unidade humana mas os elementos da
+obra todos é que suscitarem o operario, é que o fizeram.<span
+class="pn">{15}</span></p>
+
+<p>No dia em que Jesus se chamava a si Christo, n'esse dia deixou de ser judeu
+para se naturalizar homem. E o filho do homem&mdash;o filho da humanidade. Do
+desejo dos dois mundos brotou esse lyrio divino... mas o perfume que lhe sae do
+calix não ha templo bastante para o conter! Todo o ceu é essa cathedral: o
+templo de Jerusalem, o Parthenon e o Capitolio são naves, apenas, d'essa egreja
+universal!</p>
+
+<h2>III</h2>
+
+<p>Eil-a fundada em fim, idealmente, ao menos essa unidade, esse sonho
+milenario do mundo antigo! E quem dirá as dores, as lutas, as esperanças, as
+angustias de mil gerações esquecidas, cujas lagrimas regaram, e de cujo pó se
+alimenta ainda essa arvore d'immortal amor?<span class="pn">{16}</span></p>
+
+<p>Innumeras raças extinctas passaram curvadas sobre a terra; crusaram no
+perigrinar de cem odisseias misteriosas, todos os continentes, para que seus
+passos apenas deixassem como derradeiro vestigio sobre a face do globo as
+letras fatidicas d'esse epitafio de glorias, essa palavra unica&mdash;unidade!
+Tudo o mais é o segredo do tempo. Os seculos desconhecidos esconderam sob a
+dobra dos immoveis sudarios a memoria dos obreiros com o risco e os
+instrumentos do trabalho&mdash;e vê-se a prodigiosa obra anonima erguer-se
+recortando o perfil extranho no horisonte desmaiado do passado, como o vulto da
+esphinge incomprehensivel no ceu dos grandes desertos!</p>
+
+<p>É a melancolia da historia! Por entre o canto das Epopeias antigas escuta-se
+a espaço o gemido surdo d'esse desconhecido e infeliz mundo de escravos sobre
+cujos hombros doridos os heroes<span class="pn">{17}</span> assentavam as suas
+cidades de luz...</p>
+
+<p>E os palacios heroicos da humanidade, que são as horas solemnes da sua
+inspiração, encobrem-nos tambem os peitos escuros mas fortes sobre que se
+ergueram esmagando os talvez, esses torreões de brilho!</p>
+
+<p>Mas que importam os sacrificios? O carro de triumpho não se lembra da mina
+sombria d'onde sahiu o metal das rodas que o levam.</p>
+
+<p>A obra do misterio, a cupula esplendida da historia antiga ergue-se e
+ninguem, sabe ahi por que mãos se ergue. Mas solida é a sua base, que nenhuma
+convulsão lançará por terra como o canto de granito nos alicerces do circo
+romano.</p>
+
+<p>A estatua ideal da Fé humana achou emfim o pedestal de marmore immaculado,
+onde se firmem seus pés divinos&mdash;a consciencia da nobresa do destino
+do<span class="pn">{18}</span> homem, a revelação da sua mesma divindade.</p>
+
+<h2>IV</h2>
+
+<p>Mas, esse Deus misterioso, que ceu o esconde nos paramos do ceu azul
+immensuravel? Que Sinai enubla a sua gloria? O seu altar em que monte o
+ergueram os profetas desconhecidos? Que rito é o seu&mdash;e em que taboas de
+marmore escreveu o fogo de cima a legenda prodigiosa de sua lei? No meio de nós
+por entre o tumultuar das gerações passa como o Deus antigo, por entre os
+combates da Iliada, e ao longe retumba o echo de suas passadas. E, emtanto,
+ninguem o vê. Só de longe a longe, algum profeta desce das solidões a mostrar
+ao mundo a palidez de suas faces emagrecidas, seus olhos cavos e fixos, da
+fixidez assustadora das visões, como testemunho<span class="pn">{19}</span> de
+ter entrevisto na sua noite um raio d'essa gloria que o deslumbrou e consumiu.
+</p>
+
+<p>É o absoluto que deixa nas mãos do homem, que o tentou prender na sua fuga
+eterna, um fio apenas da sua tunica de brilho. Mas esse fio é um raio de tal
+luz, que basta a alumiar o trabalho de muitos seculos!</p>
+
+<p>Toma-o nas mãos Moisés, mostra-o ao mundo, e chama-se Jehová. Ergue-o
+Mahomet entre os povos e chama-se Alláh. Deixa-o Christo cair do alto da sua
+cruz, e chama-se amor. De cima d'uma guilhotina o atira Robespierre para o meio
+das multidões e chamam-lhe Direitos do homem e Revolução. E Hegel, levantando a
+cabeça de sob as ondas immoveis e tristes da abstração, lança nos ventos, que a
+levam ao mundo, esta palavra&mdash;Ideia!</p>
+
+<p>O que revela cada profeta não é o<span class="pn">{20}</span> Deus eterno, o
+Absoluto dominador, entre cujos braços se contém o universo, não confuso e
+multiforme nas mil apparencias do relativo, mas na verdade ideal da sua
+essencia&mdash;o ser puro.&mdash;Esse poderia por ventura, afirmal-o a creação
+toda, os soes e os insectos, o espirito e a materia; o visivel e o invisivel, o
+certo e o possivel, se um dia, esquecendo ao movimento lançar o metal ardente
+de suas creações nos moldes da variedade, se precipitasse todo sobre o seu
+centro ideal assumindo emfim a consciencia plena da sua universalidade.</p>
+
+<p>Mas o homem não afirma nada mais além da sua mesma alma? E esse vulto
+immenso a que ainda chamam Deus, é apenas a sombra do ideal humano, que acha o
+mundo estreito e se alarga pelo espaço. Concebe o absoluto nos limites da sua
+relatividade.</p>
+
+<p>Por seus mesmos passos mede o caminho<span class="pn">{21}</span> do
+infinito. E, nos ultimos limites aonde alcança o seu pensamento, ergue elle as
+ballizas extremas do possivel. As religiões são os marcos successivos das mais
+longas corridas do seu desejo no caminho do infinito: mas não são o termo
+d'essa estrada que se perde nas nevoas do inatingivel e cujos desvios ultimos
+pé algum pôde ainda pisar.</p>
+
+<p>É por isso que os Deuses morrem, se succedem e transformam. Vê-se o fim
+d'essas eternidades&mdash;e o homem que as creára para perder cá a incerteza do
+seu transitorio destino, o homem, o seu coração, o seu ideal, sobrevive-lhes, é
+elle quem parece eterno ao pé d'esses absolutos passageiros!</p>
+
+<p>Mas que importa esse Deus que nenhum olhar pôde ainda descobrir no deserto
+dos ceus, se d'um ceu interior, tão puro e tão bello, sae para cada ouvido
+attento uma voz divina, e uma sybilla<span class="pn">{22}</span> misteriosa
+deixa cair dos labios palavra a palavra, o oraculo successivo do destino dos
+homens?</p>
+
+<p>Se a alma cria deuses e, respirando, espalha o infinito em volta de
+si&mdash;é que lá dentro alguma cousa infinita se concentra e o divino se
+esconde para se manifestar dia a dia na revelação constante chamada Vida. É que
+o mais humilde d'entre nós dá em seu peito morada a um grande desconhecido que
+ali existe, cuja voz grave se ouve a espaços e nos alumia a face com os
+relampagos da sua gloria.</p>
+
+<p>Existe com effeito. Que somos nós todos senão uma forma visivel da essencia
+infinita&mdash;um momento determinado da existencia sem termo&mdash;uma
+vibração do movimento eterno&mdash;uma fase da Lei do todo, chamada aqui lei
+humana mas a mesma no ser, com igual fim, igual origem, que nos determina e de
+que vivemos?<span class="pn">{23}</span> A lei! Protheu prodigioso de mil
+formas d'innumeros vultos inesperados em toda a parte diversos, e em toda a
+parte o mesmo sempre todavia! Mil faces, e uma só alma! mil braços, e uma
+vontade só! por mil caminhos, e um unico o termo da viagem!</p>
+
+<p>Uma d'essas do Protheu é o homem, a lei humana. A parte d'acção que
+exercemos no movimento eterno: a hora que nos é dado preencher na duração sem
+termo&mdash;é isso o que somos, por isso que nós agitamos, o nosso ser, o nosso
+misterio. É o Deus, que o universo esconde revelando-se pela consciencia. E o
+absoluto que fóra nem podemos entrever, eil-o vivo e palpitante em nosso
+coração e debaixo de nossas mãos, a ponto de o podermos palpar!&mdash;A alma da
+humanidade em cada homem; e, na humanidade a alma inteira do mundo&mdash;.</p>
+
+<p>No mais estreito, no mais tremulo e<span class="pn">{24}</span> humilde raio
+de luz, coado a custo por entre duas nuvens, se estuda e está o segredo do
+brilho immenso e inefavel que innunda as alturas, se vê patente o misterio da
+maior gloria dos esplendores celestes. No gemer da onda indolente, que se
+espreguiça no areal, e nem assusta o folgar descuidoso d'uma creança, está a
+voz do oceano, a sua ancia, o porque de suas luctas, o motivo de tantas
+tempestades, tantos brados, tamanhas convulsões&mdash;. No que agita o peito do
+mais humilde e desconhecido dos homens está o segredo de anciedade, do desejo
+infinito, que commove os universos, o verbo do movimento que arrasta os
+imperios como os mendigos, as folhas do outomno como os astros do
+espaço&mdash;está a palavra do ser, a origem e o fim, Deus!</p>
+
+<p>Sim. Esse Deus
+buscado em vão na vastidão dos ceus desertos, que não revela a immensidade
+desoladora e fria, eil-o<span class="pn">{25}</span> em fim que o vemos
+concentrado no fundo da consciencia, dormitando, mas em movimento, mudo, ao
+parecer, mas murmurando sempre, como um canto de lendas misteriosas, o oraculo
+successivo dos Destinos! É o Deus da humanidade; a parte do ser eterno, que se
+move n'ella, que a firma, que é ella mesma. Jehová, Brama, Sabaoth, Allá,
+Christo, por grandes, por luminosos que pareçam, não são mais que as sombras
+projectadas sobre a terra pelo vulto d'esse grande desconhecido&mdash;degraus
+da escada do desejo que essa alma sobe no caminho do seu Fim. É a luz, que nos
+sae de dentro, e diante dos nossos olhos se agita, convidando-nos a seguil-a em
+seu correr. É a columna de fogo do deserto&mdash;não aquella trazida de longe e
+sem se ver a mão que a trouxe, mas saida do mesmo seio do povo, como que a sua
+propria alma, adiante d'elle caminhando. Movemo-nos<span class="pn">{26}</span>
+porque a seguimos; não pelo capricho de nossos passos. O nosso trabalho o seu
+brilho nol'o indica, não é só o lavor escuro de nossas mãos.</p>
+
+<p>Toda a esphera de nossas acções, as maiores, as melhores, fecha-a o circulo
+d'aquella lei&mdash;que é a nossa mesma.</p>
+
+<p>Nem d'outra lei precisamos. Cumprir a tarefa d'este momento é cumpril-a na
+sua fórma rigorosa, correspondendo ao destino d'elle entre todos os movimentos
+de que se compõe a duração eterna.&mdash;O fim do Homem é ser homem. E, para o
+ser, viver segundo a nós, ao nosso fim, que mais se precisa que seguir a lei
+humana? É a nossa affirmação. A força que a determina não lhe vem de fóra,
+d'alguma mão escondida entre as nuvens gloriosas d'algum ceu inatingivel. De
+dentro vem, como as folhas do lyrio, que se abre, vem todas do botão que as
+continha em suas dobras, como todos os<span class="pn">{27}</span> suspiros vem
+do coração que deseja, e não do objecto que os accorda.</p>
+
+<p>É o seu trabalho quem cria os absolutos que depois a esmagam. Mas a força
+primitiva reage; e os espectros caem por terra estalados os braços com que
+tentavam suffocal-a.</p>
+
+<p>As revoluções, os cultos, os systemas, as philosophias, as revelações não
+são principios exteriores que dominem a historia, de cima, da altura de suas
+verdades determinando os sentimentos, os desejos, as crenças, a vida emfim.
+Pelo contrario.&mdash;São apenas evoluções d'um interior, que os cria e
+destroe, e faz o novo templo com as minas do templo antigo, e se chama
+Natureza.</p>
+
+<p>O Deus da Humanidade é o mesmo homem: e o seu Ideal, a religião da
+Vida.<span class="pn">{28}</span></p>
+
+<h2>V</h2>
+
+<p>É a negação do absoluto e, como tal a affirmação do homem.</p>
+
+<p>O Deus sae da immobilidade do symbolo inalteravel: faz-se vida,
+move-se&mdash;é um Deus progressivo.</p>
+
+<p>O seu dogma (semelhante á fonte nascida da terra e de continuo acrescentada)
+dia a dia o vai o tempo completando com tudo o que lhe sai do seio vasto e
+fecundissimo. É o culto de um misterio que descobrindo-se sempre, jamais se
+poderá ver todo. E a Biblia tem brancas as ultimas paginas, para que lhe possa
+cada geração nova escrever lá o verso d'oiro de cada novo Evangelho que se
+revelle.</p>
+
+<p>Religião doce e humana, que não despreza uma palavra de creança, o sonho
+d'um coração de mulher, o presentimento da mais humilde consciencia!<span
+class="pn">{29}</span> É como o olho do sabio que se esquece horas sem conto na
+contemplação do mais estreito calice d'uma flor sem nome d'esses campos! No
+calix da flor, diz o poeta, se encerra a belleza toda do universo&mdash;e que
+profundos e desconhecidos thesouros de belleza e verdade não guarda o coração
+d'um simples?!...</p>
+
+<p>É por isso que esta religião abraça no seu circulo maravilhoso a alma toda e
+toda a vida como o sol do meio dia vê quanto rasteja na terra e quanto paira
+nas alturas&mdash;porque não despreza ninguem. Como Jesus entre as crianças
+aprende tanto quanto ensina. Missiona, e recebe todavia lições do mais humilde
+catechumeno. O seu decalogo tem uma margem larga bastante para que o povo o
+commente, quando não acrescente um artigo á lei. É a religião do
+movimento&mdash;o Colombo dos mundos encobertos do espirito erecto na proa do
+galeão,<span class="pn">{30}</span> sondando o horisonte com os olhos,
+incitando, animando todos para a conquista do desconhecido. Sentado na tripode
+santa da sua inspiração, sente correr-lhe n'alma o espirito do Deus vivo:
+profetisa, improvisa de continuo e, como a chuva de perolas da bocca da fada
+legendaria, lhe caem dos labios as palavras nunca interrompidas da sua
+revellação&mdash;a lei, o ideal humano.</p>
+
+<h2>VI</h2>
+
+<p>A Edade Media não comprehendeu isto. Seu grande genio, sublime como Poesia,
+achamol-o aqui estreito e acanhado como Rasão. Porque do chão saío um dia essa
+flor maravilhosa, a mais bella entre todas no jardim do espirito, chamada
+unidade, pareceu-lhe ter morrido<span class="pn">{31}</span> a força geradora
+da terra e tornar-se impossivel outra florescencia, outra primavera, outro
+perfume.</p>
+
+<p>Deu por concluido o trabalho das criações humanas, e fechado o cyclo dos
+poemas divinos chamados religiões. Declarou o coração incapaz de novos sonhos,
+a alma inerte para mais desejos, a intelligencia morta para outras concepções e
+outras fórmas que não fossem as suas&mdash;porque no ardor de sua fé, uma nobre
+illusão lhe fez ver o vacuo e o nada além do espaço que abrangia a sua vista
+halucinada. Grande e solemne dentro do templo santo da sua crença por isso
+mesmo desprezou o resto da terra aonde já se não avistava esse prodigioso
+edificio, e o resto da alma que o calor d'esse raio d'amor não aquecia. As
+tristes flores d'esse deserto não eram para adornar o seu altar&mdash;não era
+digno do seu Deus o perfume saído d'um<span class="pn">{32}</span> coraçao não
+alumiado pelo brilho de sua gloria... Fez o Dogma e fechou-se n'elle como n'um
+sepulcro. Largo sepulcro, em verdade, como para um Deus e todo marmores e
+oiro... mas ainda no tumulo de Christo, o frio que se sente é sempre o frio da
+morte!</p>
+
+<p>A antiguidade pagã dava ás suas religiões um cinto elastico, para que a
+Virgem podesse crescer e engrossar, fazer-se mulher e mãe, conceber e criar o
+filho que lhe havia de succeder. Como as não revellava nenhuma voz encoberta,
+saíndo do meio das nuvens de fogo d'uma gloria sobrehumana&mdash;revellavam-se
+ellas por si, em toda a parte, em cada hora, e não já no cimo deserto do Sinai,
+mas em baixo, no valle, onde se assentam as tendas do povo, no ajuntamento dos
+homens. Por isso não havia palavra murmurada no meio da multidão, que se
+sumisse esquecida, que um deus amigo<span class="pn">{33}</span> não ouvisse e
+decorasse, como ensino d'uma bocca humilde, mas nem por isso despresivel. A
+onda mais imperceptivel, nascida nos ultimos confins da sociedade trazida com o
+sopro do vento, achava sempre uma doce praia aonde depositar o seu pequeno
+tributo, um canto, uma espuma branca, uma rara flor muitas vezes.</p>
+
+<p>Cada modesto veio d'agua lá ia dar sempre ao lago d'essas religiões tão
+humanas, que não se pejavam de os receber, com elles crescer e alargar, ser por
+elles formado&mdash;fazendo assim a divindade com o melhor e o mais puro da
+humanidade. Essas religiões formavam-nas em collaboração as almas das gerações
+successivas, cada uma como que tinha de mais intimo em si, do mais elevado ao
+mais innocente. O sabio dava o forte pensamento, o simples a intuição profunda.
+Emprestava-lhes um facto o<span class="pn">{34}</span> heroe, e a virgem
+lançava-lhes no regaço uma lagrima de piedade. A praça publica lhes enviava um
+echo de seus rumores, e a familia um reflexo amoravel do seu lar. Cada qual
+tirava do coração a perola que lá tem todos escondida; e com essas gemmas,
+preciosas, quentes ainda e quasi vivas, se adornava a divindade. As paixões, os
+amores, os cuidados, as lutas dos homens, tudo isto idealisado e puro se via
+brilhar sobre o peito dos deuses, como penhor da fraternidade entre terra e
+ceu, e modelos de perfeição que buscava cada qual realisar. Ser bom e forte e
+grande para ser semelhante a um Deus&mdash;porque este era a ultima expressão
+da humanidade.</p>
+
+<p>Era ella o que a criava. Ao lado da inspiração do augur caminhava a
+espontaniedade do Povo.</p>
+
+<p>Ella transformava a legenda; desenvolvia a moral; compunha o rito:
+adoptava<span class="pn">{35}</span> cultos; erguia outros deuses ao lado senão
+sobre o pedestal dos antigos; vereficava a lei velha com o espirito novo: tinha
+autoridade em fim, autoridade, voto e força para obrigar um Deus progressivo a
+medir seus passos pelos d'uma sociedade sempre em movimento. Por detraz do
+Olympo havia muito ceu ainda e muito espaço. Alem da morada das divindades
+via-se o infinito sem termos&mdash;e Prometheu prophetisando a queda de Jupiter
+não era um impio; era um semi-deus. As religiões antigas não faziam da alma
+humana (e, com a alma as sociedades e o mundo) prisioneira d'um dogma
+immutavel. Sentiam ser ella mesma o verdadeiro dogma. Abriam o seio a cada
+palavra inspirada e transformavam-na em sangue do coração...</p>
+
+<p>Religiões humanas! uma intuição profunda da mesma lei da vida&mdash;a
+diversidade, o movimento, a successão&mdash;dava-lhes<span
+class="pn">{36}</span> a largura, a flexibilidade e o vago necessarios para que
+correspondessem a todas ás formas innumeras e inesperadas do espirito, ás
+infinitas transformações das sociedades, ás mil apparencias da realidade.
+Dava-lhes a virtude d'esses cordeaes proprios para todas as idades e todas as
+compleições: para os fortes calmante; e para os fracos, balsamo e conforto.
+Eram como o vestido natural do corpo do homem acompanhando todos os movimentos,
+feito para todas as altitudes: simples ao pé do lar, nobre na praça, grave no
+repouso, e na luta ou na corrida ligeiro e facil.</p>
+
+<p>Esta verdade humana que as fez tão animadas, por isso mesmo as impedio
+d'avistarem o outro termo correlativo, o extra-humano, o absoluto.</p>
+
+<p>No coração d'essas raças como parte que é da alma, estava esse sentimento,
+por certo. Mas não vinha fóra em<span class="pn">{37}</span> fórma de luz, não
+inundava d'ali o mundo, não doirava a fronte dos deuses nem a cabeça dos
+homens. Viram-na, a essa luz, passar como relampago nos olhos d'alguns
+inspirados; mas o povo não a soube comprehender, deixou-a morrer, quando a não
+matou elle mesmo. No meio da diversidade, que o absorvia, o politheismo não
+pôde conceber a unidade existente com ella e n'ella mesma porventura. Ao sol da
+Grecia e do Oriente, a rosa viva, a flor intima da humanidade, a alma, abrira
+todas as suas petalas extranhas mas formosissimas! uma só ficou fechada; mas
+essa era a mais larga e a mais forte, que devia conter todas as outras&mdash;o
+sentimento da unidade.</p>
+
+<p>Unidade de Deus! Unidade do Homem! n'esta onda mystica mergulhou o
+Christianismo a cabeça&mdash;com este Jordão baptisou o mundo! Esta
+contemplação<span class="pn">{43}</span> do absoluto fez a sua força: foi ella
+tambem quem o matou. Em vista d'este principio resolveu corajosamente o destino
+humano; mas vinculando-a a essa resolução, desconheceu a sua lei
+essencial&mdash;o movimento.&mdash;Não. A contemplação inerte não pode ser o ar
+que o espirito do homem pede para respirar! O ar da vida é outro... A vida! no
+seu vôo para o ceu, na sua sublime ambição ideal, foi isso que esqueceu ao
+Christianismo&mdash;a terra, a vida.&mdash;</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">FIM</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A Biblia da Humanidade, by Anthero de Quental
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+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
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+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
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+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
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+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
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+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
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+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
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+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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