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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Biblia da Humanidade + +Author: Anthero de Quental + +Release Date: June 18, 2010 [EBook #32868] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A BIBLIA DA HUMANIDADE *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + ANTHERO DE QUENTAL + + + + ANTHERO DE QUENTAL + + + A BIBLIA DA HUMANIDADE + + + + + BARCELLOS + Typographia da _Aurora do Cavado_ + Editor--_R. V._ + 1895 + + + + Tiragem apenas de 100 exemplares: + 20 em papel de linho. + 80 em papel d'algodão. + N.º___ + + + + + +Collaborou Anthero do Quental, assiduamente, em verso e prosa, com João +de Deus e outros vultos litterarios da geração de 1864, no _Seculo XIX_, +periodico que n'esse anno se publicou em Penafiel, sob o influxo e +direcção de Germano Vieira Meirelles, seu condiscipulo na Universidade, +como elle formado em Direito no anno de 1863, um dos mais pujantes e +promettedores talentos d'essa geração, com cedo roubado ao renome que +por certo conquistaria, se a vida lhe fôra mais longa, no mundo das +lettras e da politica. + +Entre outros escriptos de Anthero ahi sahidos, lugar mui saliente occupa +_A Biblia da Humanidade_, trabalho philosophico de ancha envergadura e +largos horisontes, que pena é ter ficado incompleto. + +Não obstante isto entendi que deveria elle entrar, por seu incontestado +valor, na collecção, em que tão piedosamente ponho empenho, de todas as +suas obras esparsas, e para o presente opusculo o traslado. Constitúe +elle já o duodecimo da mesma collecção, e no intento proseguirei eu de a +esta trazer tudo o que de Anthero se não ache publicado em volume sobre si. + +Nenhum interesse material me açula n'este meu proposito, que nem um só +dos exemplares de qualquer dos opusculos, que vou fazendo sahir a lume, +é exposto á venda, mas apenas e só n'elle me anima o vehemente desejo de +reunir e facilitar materiaes para uma edição completa da obra de Anthero +do Quental, edição em que não ficarião, creio eu, na sombra e nem sequer +na penumbra, alguns dos seus trabalhos ainda não reunidos em volume, e +alguns até incompletos, tão radiosa a luz que d'elles resalta. + + RODRIGO VELLOSO + + + + +A BIBLIA DA HUMANIDADE + + +I + +Dentro do homem existe um Deus desconhecido, não sei qual, mas +existe--dizia Socrates soletrando com os olhos da razão, á luz serena do +ceu da Grecia, o problema do destino humano. E Christo com os olhos de +fé lia no horisonte annuveado das visões do propheta esta outra palavra +de consolação--dentro do homem está o reino dos ceus. Profundo, +altissimo, accordo de dois genios tão distantes pela patria, pela raça, +pela tradicção, por todos os abysmos que uma fatalidade mysteriosa cavou +entre os irmãos infelizes, violentamente separados, d'uma mesma familia! +Dos dois polos extremos da historia antiga atravez dos mares +insondaveis, atravez dos tempos tenebrosos, o genio luminoso e humano +das raças indicas e o genio sombrio, mas profundo, dos povos semiticos, +se enviam como primeiro mas firme penhor da futura unidade, esta +saudação fraternal, palavra de vida que o mundo esperava na angustia do +seu cahos--o homem é um Deus que se ignora. + +Grande e soberana consolação a de ver essa luz de concordia raiar do +ponto do horisonte aonde menos se esperava, de ver uma vez unidos, +conciliados esses dois extremos inimigos, esses dois espiritos rivaes +cuja luta entristecia o mundo, echoava como um tremendo dobre funeral do +coração retalhado da humanidade antiga! Os combatentes no maior ardor da +peleja, fitam-se, encaram-se com pasmo, e sentem as mãos abrirem-se para +deixar cair o ferro fratricida. Estendem os braços... somos irmãos! + +Primeiro encontro, santo e purissimo dos promettidos da historia! Manhã +suave dos primeiros sorrisos, dos olhares timidos mas leaes d'esses +noivos formosissimos, que o tempo aproximava assim para o casamento +mysterioso das raças! + +Não ha no mundo palacio do rei digno de lhes escutar as primeiras e +sublimes confidencias! só um templo, alto como a cupola do ceu, largo +como o vôo do desejo puro, como a esperança do primeiro e innocente +ideal humano. + +Esse templo tiveram-no. Naquella palavra de dois loucos se encerra tudo. +Nenhuma montanha tão alta, aonde a olho nú se aviste Deus, como o vôo +d'esta phrase, a maior revelação que jamais ouvirá o mundo--dentro do +homem está Deus.-- + + +II + +Este facto unico, aos olhos dos que lêem a historia nas lettras +impalpaveis mas luminosas das ideias, e não nos hieroglificos barbaros e +confusos dos acontecimentos fataes, basta a explicar o misterio que +segue tudo o que depois virá. + +A adopção do ideal hebraico pelo genio grego: o christianismo, +misterioso hospede oriental recebido com amor sob o tecto cheio de luz +do Occidente; Jesus sentado entre os philosophos da Alexandria escutado +e applaudido no Agora de Athenas; Christo descendo da sua cruz da Judea +para, subindo ao Capitolio romano, estender os braços e tomar posse do +mundo--este drama da fortuna inexplicada d'um Deus desconhecido, esta +Odisseia das perigrinações da religião d'um mundo, acolhida, amada entre +os cultos d'outro mundo tão distante--que ha em tudo isto d'incrivel? No +dia em que Socrates exclamou «ha um Deus no homem» o primeiro arco da +ponte extraordinaria estava lançado: ficou firme, sustido no fundo do +oceano. Christo completou este caminho maravilhoso, lançou o segundo +arco! Desde essa hora os filhos da Sára oriental podem atravessar de +novo o Mar Roxo a pé enxuto: e a terra promettida, o occidente de doce e +humana luz, cá está para os receber em seu seio vastissimo. + +O milagre, o milagre verdadeiro, começara ha seculos--o ideal commum--a +unidade na aspiração. A realisação devia para ambos ser igual. A mesma +prece deve subir ao mesmo céo. Egual desejo devia tarde ou cedo +affirmar-se na mesma realidade. Maria é a irmã das Sybilas... Jesus por +que não será então o irmão de Socrates? As differenças de genio, de +raça, nada são aqui: o ideal commum, isso é tudo. E esse que assentou +sobre a sua solida base a fé eterna da humanidade, a unidade dos +corações, a verdadeira cidade de Deus! O christianismo creou a +humanidade (no grande e verdadeiro sentido da palavra) mas foi a +humanidade toda que o creou a elle, não o genio estreito d'uma raça. + +Fundando a unidade divina, construiu a unidade humana mas os elementos +da obra todos é que suscitarem o operario, é que o fizeram. + +No dia em que Jesus se chamava a si Christo, n'esse dia deixou de ser +judeu para se naturalizar homem. E o filho do homem--o filho da +humanidade. Do desejo dos dois mundos brotou esse lyrio divino... mas o +perfume que lhe sae do calix não ha templo bastante para o conter! Todo +o ceu é essa cathedral: o templo de Jerusalem, o Parthenon e o Capitolio +são naves, apenas, d'essa egreja universal! + + +III + +Eil-a fundada em fim, idealmente, ao menos essa unidade, esse sonho +milenario do mundo antigo! E quem dirá as dores, as lutas, as +esperanças, as angustias de mil gerações esquecidas, cujas lagrimas +regaram, e de cujo pó se alimenta ainda essa arvore d'immortal amor? + +Innumeras raças extinctas passaram curvadas sobre a terra; crusaram no +perigrinar de cem odisseias misteriosas, todos os continentes, para que +seus passos apenas deixassem como derradeiro vestigio sobre a face do +globo as letras fatidicas d'esse epitafio de glorias, essa palavra +unica--unidade! Tudo o mais é o segredo do tempo. Os seculos +desconhecidos esconderam sob a dobra dos immoveis sudarios a memoria dos +obreiros com o risco e os instrumentos do trabalho--e vê-se a prodigiosa +obra anonima erguer-se recortando o perfil extranho no horisonte +desmaiado do passado, como o vulto da esphinge incomprehensivel no ceu +dos grandes desertos! + +É a melancolia da historia! Por entre o canto das Epopeias antigas +escuta-se a espaço o gemido surdo d'esse desconhecido e infeliz mundo de +escravos sobre cujos hombros doridos os heroes assentavam as suas +cidades de luz... + +E os palacios heroicos da humanidade, que são as horas solemnes da sua +inspiração, encobrem-nos tambem os peitos escuros mas fortes sobre que +se ergueram esmagando os talvez, esses torreões de brilho! + +Mas que importam os sacrificios? O carro de triumpho não se lembra da +mina sombria d'onde sahiu o metal das rodas que o levam. + +A obra do misterio, a cupula esplendida da historia antiga ergue-se e +ninguem, sabe ahi por que mãos se ergue. Mas solida é a sua base, que +nenhuma convulsão lançará por terra como o canto de granito nos +alicerces do circo romano. + +A estatua ideal da Fé humana achou emfim o pedestal de marmore +immaculado, onde se firmem seus pés divinos--a consciencia da nobresa do +destino do homem, a revelação da sua mesma divindade. + + +IV + +Mas, esse Deus misterioso, que ceu o esconde nos paramos do ceu azul +immensuravel? Que Sinai enubla a sua gloria? O seu altar em que monte o +ergueram os profetas desconhecidos? Que rito é o seu--e em que taboas de +marmore escreveu o fogo de cima a legenda prodigiosa de sua lei? No meio +de nós por entre o tumultuar das gerações passa como o Deus antigo, por +entre os combates da Iliada, e ao longe retumba o echo de suas passadas. +E, emtanto, ninguem o vê. Só de longe a longe, algum profeta desce das +solidões a mostrar ao mundo a palidez de suas faces emagrecidas, seus +olhos cavos e fixos, da fixidez assustadora das visões, como testemunho +de ter entrevisto na sua noite um raio d'essa gloria que o deslumbrou e +consumiu. + +É o absoluto que deixa nas mãos do homem, que o tentou prender na sua +fuga eterna, um fio apenas da sua tunica de brilho. Mas esse fio é um +raio de tal luz, que basta a alumiar o trabalho de muitos seculos! + +Toma-o nas mãos Moisés, mostra-o ao mundo, e chama-se Jehová. Ergue-o +Mahomet entre os povos e chama-se Alláh. Deixa-o Christo cair do alto da +sua cruz, e chama-se amor. De cima d'uma guilhotina o atira Robespierre +para o meio das multidões e chamam-lhe Direitos do homem e Revolução. E +Hegel, levantando a cabeça de sob as ondas immoveis e tristes da +abstração, lança nos ventos, que a levam ao mundo, esta palavra--Ideia! + +O que revela cada profeta não é o Deus eterno, o Absoluto dominador, +entre cujos braços se contém o universo, não confuso e multiforme nas +mil apparencias do relativo, mas na verdade ideal da sua essencia--o ser +puro.--Esse poderia por ventura, afirmal-o a creação toda, os soes e os +insectos, o espirito e a materia; o visivel e o invisivel, o certo e o +possivel, se um dia, esquecendo ao movimento lançar o metal ardente de +suas creações nos moldes da variedade, se precipitasse todo sobre o seu +centro ideal assumindo emfim a consciencia plena da sua universalidade. + +Mas o homem não afirma nada mais além da sua mesma alma? E esse vulto +immenso a que ainda chamam Deus, é apenas a sombra do ideal humano, que +acha o mundo estreito e se alarga pelo espaço. Concebe o absoluto nos +limites da sua relatividade. + +Por seus mesmos passos mede o caminho do infinito. E, nos ultimos +limites aonde alcança o seu pensamento, ergue elle as ballizas extremas +do possivel. As religiões são os marcos successivos das mais longas +corridas do seu desejo no caminho do infinito: mas não são o termo +d'essa estrada que se perde nas nevoas do inatingivel e cujos desvios +ultimos pé algum pôde ainda pisar. + +É por isso que os Deuses morrem, se succedem e transformam. Vê-se o fim +d'essas eternidades--e o homem que as creára para perder cá a incerteza +do seu transitorio destino, o homem, o seu coração, o seu ideal, +sobrevive-lhes, é elle quem parece eterno ao pé d'esses absolutos +passageiros! + +Mas que importa esse Deus que nenhum olhar pôde ainda descobrir no +deserto dos ceus, se d'um ceu interior, tão puro e tão bello, sae para +cada ouvido attento uma voz divina, e uma sybilla misteriosa deixa cair +dos labios palavra a palavra, o oraculo successivo do destino dos homens? + +Se a alma cria deuses e, respirando, espalha o infinito em volta de +si--é que lá dentro alguma cousa infinita se concentra e o divino se +esconde para se manifestar dia a dia na revelação constante chamada +Vida. É que o mais humilde d'entre nós dá em seu peito morada a um +grande desconhecido que ali existe, cuja voz grave se ouve a espaços e +nos alumia a face com os relampagos da sua gloria. + +Existe com effeito. Que somos nós todos senão uma forma visivel da +essencia infinita--um momento determinado da existencia sem termo--uma +vibração do movimento eterno--uma fase da Lei do todo, chamada aqui lei +humana mas a mesma no ser, com igual fim, igual origem, que nos +determina e de que vivemos? A lei! Protheu prodigioso de mil formas +d'innumeros vultos inesperados em toda a parte diversos, e em toda a +parte o mesmo sempre todavia! Mil faces, e uma só alma! mil braços, e +uma vontade só! por mil caminhos, e um unico o termo da viagem! + +Uma d'essas do Protheu é o homem, a lei humana. A parte d'acção que +exercemos no movimento eterno: a hora que nos é dado preencher na +duração sem termo--é isso o que somos, por isso que nós agitamos, o +nosso ser, o nosso misterio. É o Deus, que o universo esconde +revelando-se pela consciencia. E o absoluto que fóra nem podemos +entrever, eil-o vivo e palpitante em nosso coração e debaixo de nossas +mãos, a ponto de o podermos palpar!--A alma da humanidade em cada homem; +e, na humanidade a alma inteira do mundo--. + +No mais estreito, no mais tremulo e humilde raio de luz, coado a custo +por entre duas nuvens, se estuda e está o segredo do brilho immenso e +inefavel que innunda as alturas, se vê patente o misterio da maior +gloria dos esplendores celestes. No gemer da onda indolente, que se +espreguiça no areal, e nem assusta o folgar descuidoso d'uma creança, +está a voz do oceano, a sua ancia, o porque de suas luctas, o motivo de +tantas tempestades, tantos brados, tamanhas convulsões--. No que agita o +peito do mais humilde e desconhecido dos homens está o segredo de +anciedade, do desejo infinito, que commove os universos, o verbo do +movimento que arrasta os imperios como os mendigos, as folhas do outomno +como os astros do espaço--está a palavra do ser, a origem e o fim, Deus! + +Sim. Esse Deus buscado em vão na vastidão dos ceus desertos, que não +revela a immensidade desoladora e fria, eil-o em fim que o vemos +concentrado no fundo da consciencia, dormitando, mas em movimento, mudo, +ao parecer, mas murmurando sempre, como um canto de lendas misteriosas, +o oraculo successivo dos Destinos! É o Deus da humanidade; a parte do +ser eterno, que se move n'ella, que a firma, que é ella mesma. Jehová, +Brama, Sabaoth, Allá, Christo, por grandes, por luminosos que pareçam, +não são mais que as sombras projectadas sobre a terra pelo vulto d'esse +grande desconhecido--degraus da escada do desejo que essa alma sobe no +caminho do seu Fim. É a luz, que nos sae de dentro, e diante dos nossos +olhos se agita, convidando-nos a seguil-a em seu correr. É a columna de +fogo do deserto--não aquella trazida de longe e sem se ver a mão que a +trouxe, mas saida do mesmo seio do povo, como que a sua propria alma, +adiante d'elle caminhando. Movemo-nos porque a seguimos; não pelo +capricho de nossos passos. O nosso trabalho o seu brilho nol'o indica, +não é só o lavor escuro de nossas mãos. + +Toda a esphera de nossas acções, as maiores, as melhores, fecha-a o +circulo d'aquella lei--que é a nossa mesma. + +Nem d'outra lei precisamos. Cumprir a tarefa d'este momento é cumpril-a +na sua fórma rigorosa, correspondendo ao destino d'elle entre todos os +movimentos de que se compõe a duração eterna.--O fim do Homem é ser +homem. E, para o ser, viver segundo a nós, ao nosso fim, que mais se +precisa que seguir a lei humana? É a nossa affirmação. A força que a +determina não lhe vem de fóra, d'alguma mão escondida entre as nuvens +gloriosas d'algum ceu inatingivel. De dentro vem, como as folhas do +lyrio, que se abre, vem todas do botão que as continha em suas dobras, +como todos os suspiros vem do coração que deseja, e não do objecto que +os accorda. + +É o seu trabalho quem cria os absolutos que depois a esmagam. Mas a +força primitiva reage; e os espectros caem por terra estalados os braços +com que tentavam suffocal-a. + +As revoluções, os cultos, os systemas, as philosophias, as revelações +não são principios exteriores que dominem a historia, de cima, da altura +de suas verdades determinando os sentimentos, os desejos, as crenças, a +vida emfim. Pelo contrario.--São apenas evoluções d'um interior, que os +cria e destroe, e faz o novo templo com as minas do templo antigo, e se +chama Natureza. + +O Deus da Humanidade é o mesmo homem: e o seu Ideal, a religião da Vida. + + +V + +É a negação do absoluto e, como tal a affirmação do homem. + +O Deus sae da immobilidade do symbolo inalteravel: faz-se vida, +move-se--é um Deus progressivo. + +O seu dogma (semelhante á fonte nascida da terra e de continuo +acrescentada) dia a dia o vai o tempo completando com tudo o que lhe sai +do seio vasto e fecundissimo. É o culto de um misterio que +descobrindo-se sempre, jamais se poderá ver todo. E a Biblia tem brancas +as ultimas paginas, para que lhe possa cada geração nova escrever lá o +verso d'oiro de cada novo Evangelho que se revelle. + +Religião doce e humana, que não despreza uma palavra de creança, o sonho +d'um coração de mulher, o presentimento da mais humilde consciencia! É +como o olho do sabio que se esquece horas sem conto na contemplação do +mais estreito calice d'uma flor sem nome d'esses campos! No calix da +flor, diz o poeta, se encerra a belleza toda do universo--e que +profundos e desconhecidos thesouros de belleza e verdade não guarda o +coração d'um simples?!... + +É por isso que esta religião abraça no seu circulo maravilhoso a alma +toda e toda a vida como o sol do meio dia vê quanto rasteja na terra e +quanto paira nas alturas--porque não despreza ninguem. Como Jesus entre +as crianças aprende tanto quanto ensina. Missiona, e recebe todavia +lições do mais humilde catechumeno. O seu decalogo tem uma margem larga +bastante para que o povo o commente, quando não acrescente um artigo á +lei. É a religião do movimento--o Colombo dos mundos encobertos do +espirito erecto na proa do galeão, sondando o horisonte com os olhos, +incitando, animando todos para a conquista do desconhecido. Sentado na +tripode santa da sua inspiração, sente correr-lhe n'alma o espirito do +Deus vivo: profetisa, improvisa de continuo e, como a chuva de perolas +da bocca da fada legendaria, lhe caem dos labios as palavras nunca +interrompidas da sua revellação--a lei, o ideal humano. + + +VI + +A Edade Media não comprehendeu isto. Seu grande genio, sublime como +Poesia, achamol-o aqui estreito e acanhado como Rasão. Porque do chão +saío um dia essa flor maravilhosa, a mais bella entre todas no jardim do +espirito, chamada unidade, pareceu-lhe ter morrido a força geradora da +terra e tornar-se impossivel outra florescencia, outra primavera, outro +perfume. + +Deu por concluido o trabalho das criações humanas, e fechado o cyclo dos +poemas divinos chamados religiões. Declarou o coração incapaz de novos +sonhos, a alma inerte para mais desejos, a intelligencia morta para +outras concepções e outras fórmas que não fossem as suas--porque no +ardor de sua fé, uma nobre illusão lhe fez ver o vacuo e o nada além do +espaço que abrangia a sua vista halucinada. Grande e solemne dentro do +templo santo da sua crença por isso mesmo desprezou o resto da terra +aonde já se não avistava esse prodigioso edificio, e o resto da alma que +o calor d'esse raio d'amor não aquecia. As tristes flores d'esse deserto +não eram para adornar o seu altar--não era digno do seu Deus o perfume +saído d'um coraçao não alumiado pelo brilho de sua gloria... Fez o Dogma +e fechou-se n'elle como n'um sepulcro. Largo sepulcro, em verdade, como +para um Deus e todo marmores e oiro... mas ainda no tumulo de Christo, o +frio que se sente é sempre o frio da morte! + +A antiguidade pagã dava ás suas religiões um cinto elastico, para que a +Virgem podesse crescer e engrossar, fazer-se mulher e mãe, conceber e +criar o filho que lhe havia de succeder. Como as não revellava nenhuma +voz encoberta, saíndo do meio das nuvens de fogo d'uma gloria +sobrehumana--revellavam-se ellas por si, em toda a parte, em cada hora, +e não já no cimo deserto do Sinai, mas em baixo, no valle, onde se +assentam as tendas do povo, no ajuntamento dos homens. Por isso não +havia palavra murmurada no meio da multidão, que se sumisse esquecida, +que um deus amigo não ouvisse e decorasse, como ensino d'uma bocca +humilde, mas nem por isso despresivel. A onda mais imperceptivel, +nascida nos ultimos confins da sociedade trazida com o sopro do vento, +achava sempre uma doce praia aonde depositar o seu pequeno tributo, um +canto, uma espuma branca, uma rara flor muitas vezes. + +Cada modesto veio d'agua lá ia dar sempre ao lago d'essas religiões tão +humanas, que não se pejavam de os receber, com elles crescer e alargar, +ser por elles formado--fazendo assim a divindade com o melhor e o mais +puro da humanidade. Essas religiões formavam-nas em collaboração as +almas das gerações successivas, cada uma como que tinha de mais intimo +em si, do mais elevado ao mais innocente. O sabio dava o forte +pensamento, o simples a intuição profunda. Emprestava-lhes um facto o +heroe, e a virgem lançava-lhes no regaço uma lagrima de piedade. A praça +publica lhes enviava um echo de seus rumores, e a familia um reflexo +amoravel do seu lar. Cada qual tirava do coração a perola que lá tem +todos escondida; e com essas gemmas, preciosas, quentes ainda e quasi +vivas, se adornava a divindade. As paixões, os amores, os cuidados, as +lutas dos homens, tudo isto idealisado e puro se via brilhar sobre o +peito dos deuses, como penhor da fraternidade entre terra e ceu, e +modelos de perfeição que buscava cada qual realisar. Ser bom e forte e +grande para ser semelhante a um Deus--porque este era a ultima expressão +da humanidade. + +Era ella o que a criava. Ao lado da inspiração do augur caminhava a +espontaniedade do Povo. + +Ella transformava a legenda; desenvolvia a moral; compunha o rito: +adoptava cultos; erguia outros deuses ao lado senão sobre o pedestal dos +antigos; vereficava a lei velha com o espirito novo: tinha autoridade em +fim, autoridade, voto e força para obrigar um Deus progressivo a medir +seus passos pelos d'uma sociedade sempre em movimento. Por detraz do +Olympo havia muito ceu ainda e muito espaço. Alem da morada das +divindades via-se o infinito sem termos--e Prometheu prophetisando a +queda de Jupiter não era um impio; era um semi-deus. As religiões +antigas não faziam da alma humana (e, com a alma as sociedades e o +mundo) prisioneira d'um dogma immutavel. Sentiam ser ella mesma o +verdadeiro dogma. Abriam o seio a cada palavra inspirada e +transformavam-na em sangue do coração... + +Religiões humanas! uma intuição profunda da mesma lei da vida--a +diversidade, o movimento, a successão--dava-lhes a largura, a +flexibilidade e o vago necessarios para que correspondessem a todas ás +formas innumeras e inesperadas do espirito, ás infinitas transformações +das sociedades, ás mil apparencias da realidade. Dava-lhes a virtude +d'esses cordeaes proprios para todas as idades e todas as compleições: +para os fortes calmante; e para os fracos, balsamo e conforto. Eram como +o vestido natural do corpo do homem acompanhando todos os movimentos, +feito para todas as altitudes: simples ao pé do lar, nobre na praça, +grave no repouso, e na luta ou na corrida ligeiro e facil. + +Esta verdade humana que as fez tão animadas, por isso mesmo as impedio +d'avistarem o outro termo correlativo, o extra-humano, o absoluto. + +No coração d'essas raças como parte que é da alma, estava esse +sentimento, por certo. Mas não vinha fóra em fórma de luz, não inundava +d'ali o mundo, não doirava a fronte dos deuses nem a cabeça dos homens. +Viram-na, a essa luz, passar como relampago nos olhos d'alguns +inspirados; mas o povo não a soube comprehender, deixou-a morrer, quando +a não matou elle mesmo. No meio da diversidade, que o absorvia, o +politheismo não pôde conceber a unidade existente com ella e n'ella +mesma porventura. Ao sol da Grecia e do Oriente, a rosa viva, a flor +intima da humanidade, a alma, abrira todas as suas petalas extranhas mas +formosissimas! uma só ficou fechada; mas essa era a mais larga e a mais +forte, que devia conter todas as outras--o sentimento da unidade. + +Unidade de Deus! Unidade do Homem! n'esta onda mystica mergulhou o +Christianismo a cabeça--com este Jordão baptisou o mundo! Esta +contemplação do absoluto fez a sua força: foi ella tambem quem o matou. +Em vista d'este principio resolveu corajosamente o destino humano; mas +vinculando-a a essa resolução, desconheceu a sua lei essencial--o +movimento.--Não. A contemplação inerte não pode ser o ar que o espirito +do homem pede para respirar! O ar da vida é outro... A vida! no seu vôo +para o ceu, na sua sublime ambição ideal, foi isso que esqueceu ao +Christianismo--a terra, a vida.-- + +......................................................................... + +FIM + + + + + +End of Project Gutenberg's A Biblia da Humanidade, by Anthero de Quental + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A BIBLIA DA HUMANIDADE *** + +***** This file should be named 32868-8.txt or 32868-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/8/6/32868/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/32868-8.zip b/32868-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..27f22f8 --- /dev/null +++ b/32868-8.zip diff --git a/32868-h.zip b/32868-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..d717dc8 --- /dev/null +++ b/32868-h.zip diff --git a/32868-h/32868-h.htm b/32868-h/32868-h.htm new file mode 100644 index 0000000..429108d --- /dev/null +++ b/32868-h/32868-h.htm @@ -0,0 +1,957 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>A Biblia da Humanidade, por Anthero de Quental</title> + <meta name="Author" content="Anthero de Quental"> + <meta name="Edition" + content="Barcelos. Typographia da Aurora do Cavado, 1895."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + text-decoration: none; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;} + h1, h2, h3 {text-align: center; margin-top: 2em;} + h2 {text-align: center; margin-bottom: 2em;} + h4.sinopse {text-align: justify; margin: 1em; text-indent: -1em;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000; } + blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: 0.7em; + color: gray; + margin-left: 2em; + margin-right: 2em; + } + .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;} + .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;} + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of A Biblia da Humanidade, by Anthero de Quental + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Biblia da Humanidade + +Author: Anthero de Quental + +Release Date: June 18, 2010 [EBook #32868] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A BIBLIA DA HUMANIDADE *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;font-size: 2em;">ANTHERO DE QUENTAL</p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.5em;">ANTHERO DE QUENTAL</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.5em;">A BIBLIA DA HUMANIDADE</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>BARCELLOS <br> +<small>Typographia da <i>Aurora do Cavado</i></small> <br> +Editor—<i>R. V.</i> <br> +1895</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="margin: 10%;text-align:center;"> +<p>Tiragem apenas de 100 exemplares:</p> + +<p>20 em papel de linho.</p> + +<p>80 em papel d'algodão.</p> + +<p>N.º___</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p>Collaborou Anthero do Quental, assiduamente, em verso e prosa, com João de +Deus e outros vultos litterarios da geração de 1864, no <i>Seculo XIX</i>, +periodico que n'esse anno se publicou em Penafiel, sob o influxo e direcção de +Germano Vieira Meirelles, seu condiscipulo na Universidade, <span +class="pn">{6}</span> como elle formado em Direito no anno de 1863, um dos mais +pujantes e promettedores talentos d'essa geração, com cedo roubado ao renome +que por certo conquistaria, se a vida lhe fôra mais longa, no mundo das lettras +e da politica.</p> + +<p>Entre outros escriptos de Anthero ahi sahidos, lugar mui saliente occupa +<i>A Biblia da Humanidade</i>, trabalho philosophico de ancha envergadura e +largos horisontes, que pena é ter ficado incompleto.</p> + +<p>Não obstante isto entendi que deveria elle entrar, por seu incontestado +valor, na collecção, em que tão piedosamente ponho empenho, de todas as suas +obras esparsas, e para o presente opusculo o traslado. Constitúe elle já o +duodecimo da mesma collecção, e no intento proseguirei eu de a esta trazer tudo +o que de Anthero se não ache publicado em volume sobre si.</p> + +<p>Nenhum interesse material me açula n'este meu proposito, que nem um só dos +exemplares de qualquer dos opusculos, que vou fazendo sahir a lume, é exposto á +venda, mas apenas e só n'elle me anima<span class="pn">{7}</span> o vehemente +desejo de reunir e facilitar materiaes para uma edição completa da obra de +Anthero do Quental, edição em que não ficarião, creio eu, na sombra e nem +sequer na penumbra, alguns dos seus trabalhos ainda não reunidos em volume, e +alguns até incompletos, tão radiosa a luz que d'elles resalta.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;margin-left:auto;margin-right:0;">R<small>ODRIGO +</small>V<small>ELLOSO</small></p> + +<p><span class="pn">{8}<br> +{9}</span></p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<h1>A BIBLIA DA HUMANIDADE</h1> + +<h2>I</h2> + +<p>Dentro do homem existe um Deus desconhecido, não sei qual, mas +existe—dizia Socrates soletrando com os olhos da razão, á luz serena do +ceu da Grecia, o problema do destino humano. E Christo com os olhos de fé lia +no horisonte<span class="pn">{10}</span> annuveado das visões do propheta esta +outra palavra de consolação—dentro do homem está o reino dos ceus. +Profundo, altissimo, accordo de dois genios tão distantes pela patria, pela +raça, pela tradicção, por todos os abysmos que uma fatalidade mysteriosa cavou +entre os irmãos infelizes, violentamente separados, d'uma mesma familia! Dos +dois polos extremos da historia antiga atravez dos mares insondaveis, atravez +dos tempos tenebrosos, o genio luminoso e humano das raças indicas e o genio +sombrio, mas profundo, dos povos semiticos, se enviam como primeiro mas firme +penhor da futura unidade, esta saudação fraternal, palavra de vida que o mundo +esperava na angustia do seu cahos—o homem é um Deus que se ignora.</p> + +<p>Grande e soberana consolação a de ver essa luz de concordia raiar do ponto +do horisonte aonde menos se esperava, <span class="pn">{11}</span> de ver uma +vez unidos, conciliados esses dois extremos inimigos, esses dois espiritos +rivaes cuja luta entristecia o mundo, echoava como um tremendo dobre funeral do +coração retalhado da humanidade antiga! Os combatentes no maior ardor da +peleja, fitam-se, encaram-se com pasmo, e sentem as mãos abrirem-se para deixar +cair o ferro fratricida. Estendem os braços... somos irmãos!</p> + +<p>Primeiro encontro, santo e purissimo dos promettidos da historia! Manhã +suave dos primeiros sorrisos, dos olhares timidos mas leaes d'esses noivos +formosissimos, que o tempo aproximava assim para o casamento mysterioso das +raças!</p> + +<p>Não ha no mundo palacio do rei digno de lhes escutar as primeiras e sublimes +confidencias! só um templo, alto como a cupola do ceu, largo como o vôo do +desejo puro, como a esperança do<span class="pn">{12}</span> primeiro e +innocente ideal humano.</p> + +<p>Esse templo tiveram-no. Naquella palavra de dois loucos se encerra tudo. +Nenhuma montanha tão alta, aonde a olho nú se aviste Deus, como o vôo d'esta +phrase, a maior revelação que jamais ouvirá o mundo—dentro do homem está +Deus.—</p> + +<h2>II</h2> + +<p>Este facto unico, aos olhos dos que lêem a historia nas lettras impalpaveis +mas luminosas das ideias, e não nos hieroglificos barbaros e confusos dos +acontecimentos fataes, basta a explicar o misterio que segue tudo o que depois +virá.</p> + +<p>A adopção do ideal hebraico pelo genio grego: o christianismo, misterioso +hospede oriental recebido com amor sob o tecto cheio de luz do Occidente; +Jesus<span class="pn">{13}</span> sentado entre os philosophos da Alexandria +escutado e applaudido no Agora de Athenas; Christo descendo da sua cruz da +Judea para, subindo ao Capitolio romano, estender os braços e tomar posse do +mundo—este drama da fortuna inexplicada d'um Deus desconhecido, esta +Odisseia das perigrinações da religião d'um mundo, acolhida, amada entre os +cultos d'outro mundo tão distante—que ha em tudo isto d'incrivel? No dia +em que Socrates exclamou «ha um Deus no homem» o primeiro arco da ponte +extraordinaria estava lançado: ficou firme, sustido no fundo do oceano. Christo +completou este caminho maravilhoso, lançou o segundo arco! Desde essa hora os +filhos da Sára oriental podem atravessar de novo o Mar Roxo a pé enxuto: e a +terra promettida, o occidente de doce e humana luz, cá está para os receber em +seu seio vastissimo.<span class="pn">{14}</span></p> + +<p>O milagre, o milagre verdadeiro, começara ha seculos—o ideal +commum—a unidade na aspiração. A realisação devia para ambos ser igual. A +mesma prece deve subir ao mesmo céo. Egual desejo devia tarde ou cedo +affirmar-se na mesma realidade. Maria é a irmã das Sybilas... Jesus por que não +será então o irmão de Socrates? As differenças de genio, de raça, nada são +aqui: o ideal commum, isso é tudo. E esse que assentou sobre a sua solida base +a fé eterna da humanidade, a unidade dos corações, a verdadeira cidade de Deus! +O christianismo creou a humanidade (no grande e verdadeiro sentido da palavra) +mas foi a humanidade toda que o creou a elle, não o genio estreito d'uma +raça.</p> + +<p>Fundando a unidade divina, construiu a unidade humana mas os elementos da +obra todos é que suscitarem o operario, é que o fizeram.<span +class="pn">{15}</span></p> + +<p>No dia em que Jesus se chamava a si Christo, n'esse dia deixou de ser judeu +para se naturalizar homem. E o filho do homem—o filho da humanidade. Do +desejo dos dois mundos brotou esse lyrio divino... mas o perfume que lhe sae do +calix não ha templo bastante para o conter! Todo o ceu é essa cathedral: o +templo de Jerusalem, o Parthenon e o Capitolio são naves, apenas, d'essa egreja +universal!</p> + +<h2>III</h2> + +<p>Eil-a fundada em fim, idealmente, ao menos essa unidade, esse sonho +milenario do mundo antigo! E quem dirá as dores, as lutas, as esperanças, as +angustias de mil gerações esquecidas, cujas lagrimas regaram, e de cujo pó se +alimenta ainda essa arvore d'immortal amor?<span class="pn">{16}</span></p> + +<p>Innumeras raças extinctas passaram curvadas sobre a terra; crusaram no +perigrinar de cem odisseias misteriosas, todos os continentes, para que seus +passos apenas deixassem como derradeiro vestigio sobre a face do globo as +letras fatidicas d'esse epitafio de glorias, essa palavra unica—unidade! +Tudo o mais é o segredo do tempo. Os seculos desconhecidos esconderam sob a +dobra dos immoveis sudarios a memoria dos obreiros com o risco e os +instrumentos do trabalho—e vê-se a prodigiosa obra anonima erguer-se +recortando o perfil extranho no horisonte desmaiado do passado, como o vulto da +esphinge incomprehensivel no ceu dos grandes desertos!</p> + +<p>É a melancolia da historia! Por entre o canto das Epopeias antigas escuta-se +a espaço o gemido surdo d'esse desconhecido e infeliz mundo de escravos sobre +cujos hombros doridos os heroes<span class="pn">{17}</span> assentavam as suas +cidades de luz...</p> + +<p>E os palacios heroicos da humanidade, que são as horas solemnes da sua +inspiração, encobrem-nos tambem os peitos escuros mas fortes sobre que se +ergueram esmagando os talvez, esses torreões de brilho!</p> + +<p>Mas que importam os sacrificios? O carro de triumpho não se lembra da mina +sombria d'onde sahiu o metal das rodas que o levam.</p> + +<p>A obra do misterio, a cupula esplendida da historia antiga ergue-se e +ninguem, sabe ahi por que mãos se ergue. Mas solida é a sua base, que nenhuma +convulsão lançará por terra como o canto de granito nos alicerces do circo +romano.</p> + +<p>A estatua ideal da Fé humana achou emfim o pedestal de marmore immaculado, +onde se firmem seus pés divinos—a consciencia da nobresa do destino +do<span class="pn">{18}</span> homem, a revelação da sua mesma divindade.</p> + +<h2>IV</h2> + +<p>Mas, esse Deus misterioso, que ceu o esconde nos paramos do ceu azul +immensuravel? Que Sinai enubla a sua gloria? O seu altar em que monte o +ergueram os profetas desconhecidos? Que rito é o seu—e em que taboas de +marmore escreveu o fogo de cima a legenda prodigiosa de sua lei? No meio de nós +por entre o tumultuar das gerações passa como o Deus antigo, por entre os +combates da Iliada, e ao longe retumba o echo de suas passadas. E, emtanto, +ninguem o vê. Só de longe a longe, algum profeta desce das solidões a mostrar +ao mundo a palidez de suas faces emagrecidas, seus olhos cavos e fixos, da +fixidez assustadora das visões, como testemunho<span class="pn">{19}</span> de +ter entrevisto na sua noite um raio d'essa gloria que o deslumbrou e consumiu. +</p> + +<p>É o absoluto que deixa nas mãos do homem, que o tentou prender na sua fuga +eterna, um fio apenas da sua tunica de brilho. Mas esse fio é um raio de tal +luz, que basta a alumiar o trabalho de muitos seculos!</p> + +<p>Toma-o nas mãos Moisés, mostra-o ao mundo, e chama-se Jehová. Ergue-o +Mahomet entre os povos e chama-se Alláh. Deixa-o Christo cair do alto da sua +cruz, e chama-se amor. De cima d'uma guilhotina o atira Robespierre para o meio +das multidões e chamam-lhe Direitos do homem e Revolução. E Hegel, levantando a +cabeça de sob as ondas immoveis e tristes da abstração, lança nos ventos, que a +levam ao mundo, esta palavra—Ideia!</p> + +<p>O que revela cada profeta não é o<span class="pn">{20}</span> Deus eterno, o +Absoluto dominador, entre cujos braços se contém o universo, não confuso e +multiforme nas mil apparencias do relativo, mas na verdade ideal da sua +essencia—o ser puro.—Esse poderia por ventura, afirmal-o a creação +toda, os soes e os insectos, o espirito e a materia; o visivel e o invisivel, o +certo e o possivel, se um dia, esquecendo ao movimento lançar o metal ardente +de suas creações nos moldes da variedade, se precipitasse todo sobre o seu +centro ideal assumindo emfim a consciencia plena da sua universalidade.</p> + +<p>Mas o homem não afirma nada mais além da sua mesma alma? E esse vulto +immenso a que ainda chamam Deus, é apenas a sombra do ideal humano, que acha o +mundo estreito e se alarga pelo espaço. Concebe o absoluto nos limites da sua +relatividade.</p> + +<p>Por seus mesmos passos mede o caminho<span class="pn">{21}</span> do +infinito. E, nos ultimos limites aonde alcança o seu pensamento, ergue elle as +ballizas extremas do possivel. As religiões são os marcos successivos das mais +longas corridas do seu desejo no caminho do infinito: mas não são o termo +d'essa estrada que se perde nas nevoas do inatingivel e cujos desvios ultimos +pé algum pôde ainda pisar.</p> + +<p>É por isso que os Deuses morrem, se succedem e transformam. Vê-se o fim +d'essas eternidades—e o homem que as creára para perder cá a incerteza do +seu transitorio destino, o homem, o seu coração, o seu ideal, sobrevive-lhes, é +elle quem parece eterno ao pé d'esses absolutos passageiros!</p> + +<p>Mas que importa esse Deus que nenhum olhar pôde ainda descobrir no deserto +dos ceus, se d'um ceu interior, tão puro e tão bello, sae para cada ouvido +attento uma voz divina, e uma sybilla<span class="pn">{22}</span> misteriosa +deixa cair dos labios palavra a palavra, o oraculo successivo do destino dos +homens?</p> + +<p>Se a alma cria deuses e, respirando, espalha o infinito em volta de +si—é que lá dentro alguma cousa infinita se concentra e o divino se +esconde para se manifestar dia a dia na revelação constante chamada Vida. É que +o mais humilde d'entre nós dá em seu peito morada a um grande desconhecido que +ali existe, cuja voz grave se ouve a espaços e nos alumia a face com os +relampagos da sua gloria.</p> + +<p>Existe com effeito. Que somos nós todos senão uma forma visivel da essencia +infinita—um momento determinado da existencia sem termo—uma +vibração do movimento eterno—uma fase da Lei do todo, chamada aqui lei +humana mas a mesma no ser, com igual fim, igual origem, que nos determina e de +que vivemos?<span class="pn">{23}</span> A lei! Protheu prodigioso de mil +formas d'innumeros vultos inesperados em toda a parte diversos, e em toda a +parte o mesmo sempre todavia! Mil faces, e uma só alma! mil braços, e uma +vontade só! por mil caminhos, e um unico o termo da viagem!</p> + +<p>Uma d'essas do Protheu é o homem, a lei humana. A parte d'acção que +exercemos no movimento eterno: a hora que nos é dado preencher na duração sem +termo—é isso o que somos, por isso que nós agitamos, o nosso ser, o nosso +misterio. É o Deus, que o universo esconde revelando-se pela consciencia. E o +absoluto que fóra nem podemos entrever, eil-o vivo e palpitante em nosso +coração e debaixo de nossas mãos, a ponto de o podermos palpar!—A alma da +humanidade em cada homem; e, na humanidade a alma inteira do mundo—.</p> + +<p>No mais estreito, no mais tremulo e<span class="pn">{24}</span> humilde raio +de luz, coado a custo por entre duas nuvens, se estuda e está o segredo do +brilho immenso e inefavel que innunda as alturas, se vê patente o misterio da +maior gloria dos esplendores celestes. No gemer da onda indolente, que se +espreguiça no areal, e nem assusta o folgar descuidoso d'uma creança, está a +voz do oceano, a sua ancia, o porque de suas luctas, o motivo de tantas +tempestades, tantos brados, tamanhas convulsões—. No que agita o peito do +mais humilde e desconhecido dos homens está o segredo de anciedade, do desejo +infinito, que commove os universos, o verbo do movimento que arrasta os +imperios como os mendigos, as folhas do outomno como os astros do +espaço—está a palavra do ser, a origem e o fim, Deus!</p> + +<p>Sim. Esse Deus +buscado em vão na vastidão dos ceus desertos, que não revela a immensidade +desoladora e fria, eil-o<span class="pn">{25}</span> em fim que o vemos +concentrado no fundo da consciencia, dormitando, mas em movimento, mudo, ao +parecer, mas murmurando sempre, como um canto de lendas misteriosas, o oraculo +successivo dos Destinos! É o Deus da humanidade; a parte do ser eterno, que se +move n'ella, que a firma, que é ella mesma. Jehová, Brama, Sabaoth, Allá, +Christo, por grandes, por luminosos que pareçam, não são mais que as sombras +projectadas sobre a terra pelo vulto d'esse grande desconhecido—degraus +da escada do desejo que essa alma sobe no caminho do seu Fim. É a luz, que nos +sae de dentro, e diante dos nossos olhos se agita, convidando-nos a seguil-a em +seu correr. É a columna de fogo do deserto—não aquella trazida de longe e +sem se ver a mão que a trouxe, mas saida do mesmo seio do povo, como que a sua +propria alma, adiante d'elle caminhando. Movemo-nos<span class="pn">{26}</span> +porque a seguimos; não pelo capricho de nossos passos. O nosso trabalho o seu +brilho nol'o indica, não é só o lavor escuro de nossas mãos.</p> + +<p>Toda a esphera de nossas acções, as maiores, as melhores, fecha-a o circulo +d'aquella lei—que é a nossa mesma.</p> + +<p>Nem d'outra lei precisamos. Cumprir a tarefa d'este momento é cumpril-a na +sua fórma rigorosa, correspondendo ao destino d'elle entre todos os movimentos +de que se compõe a duração eterna.—O fim do Homem é ser homem. E, para o +ser, viver segundo a nós, ao nosso fim, que mais se precisa que seguir a lei +humana? É a nossa affirmação. A força que a determina não lhe vem de fóra, +d'alguma mão escondida entre as nuvens gloriosas d'algum ceu inatingivel. De +dentro vem, como as folhas do lyrio, que se abre, vem todas do botão que as +continha em suas dobras, como todos os<span class="pn">{27}</span> suspiros vem +do coração que deseja, e não do objecto que os accorda.</p> + +<p>É o seu trabalho quem cria os absolutos que depois a esmagam. Mas a força +primitiva reage; e os espectros caem por terra estalados os braços com que +tentavam suffocal-a.</p> + +<p>As revoluções, os cultos, os systemas, as philosophias, as revelações não +são principios exteriores que dominem a historia, de cima, da altura de suas +verdades determinando os sentimentos, os desejos, as crenças, a vida emfim. +Pelo contrario.—São apenas evoluções d'um interior, que os cria e +destroe, e faz o novo templo com as minas do templo antigo, e se chama +Natureza.</p> + +<p>O Deus da Humanidade é o mesmo homem: e o seu Ideal, a religião da +Vida.<span class="pn">{28}</span></p> + +<h2>V</h2> + +<p>É a negação do absoluto e, como tal a affirmação do homem.</p> + +<p>O Deus sae da immobilidade do symbolo inalteravel: faz-se vida, +move-se—é um Deus progressivo.</p> + +<p>O seu dogma (semelhante á fonte nascida da terra e de continuo acrescentada) +dia a dia o vai o tempo completando com tudo o que lhe sai do seio vasto e +fecundissimo. É o culto de um misterio que descobrindo-se sempre, jamais se +poderá ver todo. E a Biblia tem brancas as ultimas paginas, para que lhe possa +cada geração nova escrever lá o verso d'oiro de cada novo Evangelho que se +revelle.</p> + +<p>Religião doce e humana, que não despreza uma palavra de creança, o sonho +d'um coração de mulher, o presentimento da mais humilde consciencia!<span +class="pn">{29}</span> É como o olho do sabio que se esquece horas sem conto na +contemplação do mais estreito calice d'uma flor sem nome d'esses campos! No +calix da flor, diz o poeta, se encerra a belleza toda do universo—e que +profundos e desconhecidos thesouros de belleza e verdade não guarda o coração +d'um simples?!...</p> + +<p>É por isso que esta religião abraça no seu circulo maravilhoso a alma toda e +toda a vida como o sol do meio dia vê quanto rasteja na terra e quanto paira +nas alturas—porque não despreza ninguem. Como Jesus entre as crianças +aprende tanto quanto ensina. Missiona, e recebe todavia lições do mais humilde +catechumeno. O seu decalogo tem uma margem larga bastante para que o povo o +commente, quando não acrescente um artigo á lei. É a religião do +movimento—o Colombo dos mundos encobertos do espirito erecto na proa do +galeão,<span class="pn">{30}</span> sondando o horisonte com os olhos, +incitando, animando todos para a conquista do desconhecido. Sentado na tripode +santa da sua inspiração, sente correr-lhe n'alma o espirito do Deus vivo: +profetisa, improvisa de continuo e, como a chuva de perolas da bocca da fada +legendaria, lhe caem dos labios as palavras nunca interrompidas da sua +revellação—a lei, o ideal humano.</p> + +<h2>VI</h2> + +<p>A Edade Media não comprehendeu isto. Seu grande genio, sublime como Poesia, +achamol-o aqui estreito e acanhado como Rasão. Porque do chão saío um dia essa +flor maravilhosa, a mais bella entre todas no jardim do espirito, chamada +unidade, pareceu-lhe ter morrido<span class="pn">{31}</span> a força geradora +da terra e tornar-se impossivel outra florescencia, outra primavera, outro +perfume.</p> + +<p>Deu por concluido o trabalho das criações humanas, e fechado o cyclo dos +poemas divinos chamados religiões. Declarou o coração incapaz de novos sonhos, +a alma inerte para mais desejos, a intelligencia morta para outras concepções e +outras fórmas que não fossem as suas—porque no ardor de sua fé, uma nobre +illusão lhe fez ver o vacuo e o nada além do espaço que abrangia a sua vista +halucinada. Grande e solemne dentro do templo santo da sua crença por isso +mesmo desprezou o resto da terra aonde já se não avistava esse prodigioso +edificio, e o resto da alma que o calor d'esse raio d'amor não aquecia. As +tristes flores d'esse deserto não eram para adornar o seu altar—não era +digno do seu Deus o perfume saído d'um<span class="pn">{32}</span> coraçao não +alumiado pelo brilho de sua gloria... Fez o Dogma e fechou-se n'elle como n'um +sepulcro. Largo sepulcro, em verdade, como para um Deus e todo marmores e +oiro... mas ainda no tumulo de Christo, o frio que se sente é sempre o frio da +morte!</p> + +<p>A antiguidade pagã dava ás suas religiões um cinto elastico, para que a +Virgem podesse crescer e engrossar, fazer-se mulher e mãe, conceber e criar o +filho que lhe havia de succeder. Como as não revellava nenhuma voz encoberta, +saíndo do meio das nuvens de fogo d'uma gloria sobrehumana—revellavam-se +ellas por si, em toda a parte, em cada hora, e não já no cimo deserto do Sinai, +mas em baixo, no valle, onde se assentam as tendas do povo, no ajuntamento dos +homens. Por isso não havia palavra murmurada no meio da multidão, que se +sumisse esquecida, que um deus amigo<span class="pn">{33}</span> não ouvisse e +decorasse, como ensino d'uma bocca humilde, mas nem por isso despresivel. A +onda mais imperceptivel, nascida nos ultimos confins da sociedade trazida com o +sopro do vento, achava sempre uma doce praia aonde depositar o seu pequeno +tributo, um canto, uma espuma branca, uma rara flor muitas vezes.</p> + +<p>Cada modesto veio d'agua lá ia dar sempre ao lago d'essas religiões tão +humanas, que não se pejavam de os receber, com elles crescer e alargar, ser por +elles formado—fazendo assim a divindade com o melhor e o mais puro da +humanidade. Essas religiões formavam-nas em collaboração as almas das gerações +successivas, cada uma como que tinha de mais intimo em si, do mais elevado ao +mais innocente. O sabio dava o forte pensamento, o simples a intuição profunda. +Emprestava-lhes um facto o<span class="pn">{34}</span> heroe, e a virgem +lançava-lhes no regaço uma lagrima de piedade. A praça publica lhes enviava um +echo de seus rumores, e a familia um reflexo amoravel do seu lar. Cada qual +tirava do coração a perola que lá tem todos escondida; e com essas gemmas, +preciosas, quentes ainda e quasi vivas, se adornava a divindade. As paixões, os +amores, os cuidados, as lutas dos homens, tudo isto idealisado e puro se via +brilhar sobre o peito dos deuses, como penhor da fraternidade entre terra e +ceu, e modelos de perfeição que buscava cada qual realisar. Ser bom e forte e +grande para ser semelhante a um Deus—porque este era a ultima expressão +da humanidade.</p> + +<p>Era ella o que a criava. Ao lado da inspiração do augur caminhava a +espontaniedade do Povo.</p> + +<p>Ella transformava a legenda; desenvolvia a moral; compunha o rito: +adoptava<span class="pn">{35}</span> cultos; erguia outros deuses ao lado senão +sobre o pedestal dos antigos; vereficava a lei velha com o espirito novo: tinha +autoridade em fim, autoridade, voto e força para obrigar um Deus progressivo a +medir seus passos pelos d'uma sociedade sempre em movimento. Por detraz do +Olympo havia muito ceu ainda e muito espaço. Alem da morada das divindades +via-se o infinito sem termos—e Prometheu prophetisando a queda de Jupiter +não era um impio; era um semi-deus. As religiões antigas não faziam da alma +humana (e, com a alma as sociedades e o mundo) prisioneira d'um dogma +immutavel. Sentiam ser ella mesma o verdadeiro dogma. Abriam o seio a cada +palavra inspirada e transformavam-na em sangue do coração...</p> + +<p>Religiões humanas! uma intuição profunda da mesma lei da vida—a +diversidade, o movimento, a successão—dava-lhes<span +class="pn">{36}</span> a largura, a flexibilidade e o vago necessarios para que +correspondessem a todas ás formas innumeras e inesperadas do espirito, ás +infinitas transformações das sociedades, ás mil apparencias da realidade. +Dava-lhes a virtude d'esses cordeaes proprios para todas as idades e todas as +compleições: para os fortes calmante; e para os fracos, balsamo e conforto. +Eram como o vestido natural do corpo do homem acompanhando todos os movimentos, +feito para todas as altitudes: simples ao pé do lar, nobre na praça, grave no +repouso, e na luta ou na corrida ligeiro e facil.</p> + +<p>Esta verdade humana que as fez tão animadas, por isso mesmo as impedio +d'avistarem o outro termo correlativo, o extra-humano, o absoluto.</p> + +<p>No coração d'essas raças como parte que é da alma, estava esse sentimento, +por certo. Mas não vinha fóra em<span class="pn">{37}</span> fórma de luz, não +inundava d'ali o mundo, não doirava a fronte dos deuses nem a cabeça dos +homens. Viram-na, a essa luz, passar como relampago nos olhos d'alguns +inspirados; mas o povo não a soube comprehender, deixou-a morrer, quando a não +matou elle mesmo. No meio da diversidade, que o absorvia, o politheismo não +pôde conceber a unidade existente com ella e n'ella mesma porventura. Ao sol da +Grecia e do Oriente, a rosa viva, a flor intima da humanidade, a alma, abrira +todas as suas petalas extranhas mas formosissimas! uma só ficou fechada; mas +essa era a mais larga e a mais forte, que devia conter todas as outras—o +sentimento da unidade.</p> + +<p>Unidade de Deus! Unidade do Homem! n'esta onda mystica mergulhou o +Christianismo a cabeça—com este Jordão baptisou o mundo! Esta +contemplação<span class="pn">{43}</span> do absoluto fez a sua força: foi ella +tambem quem o matou. Em vista d'este principio resolveu corajosamente o destino +humano; mas vinculando-a a essa resolução, desconheceu a sua lei +essencial—o movimento.—Não. A contemplação inerte não pode ser o ar +que o espirito do homem pede para respirar! O ar da vida é outro... A vida! no +seu vôo para o ceu, na sua sublime ambição ideal, foi isso que esqueceu ao +Christianismo—a terra, a vida.—</p> +<hr class="dotted"> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;margin-left:auto;margin-right:auto;">FIM</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's A Biblia da Humanidade, by Anthero de Quental + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A BIBLIA DA HUMANIDADE *** + +***** This file should be named 32868-h.htm or 32868-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/8/6/32868/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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