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+<head>
+ <title>O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron</title>
+ <meta name="Author" content="Byron, George Gordon Byron, Baron, 1788-1824">
+ <meta name="Translator" content="Coutinho, Henrique Ernesto de Almeida, 1788-1868">
+ <meta name="Edition" content="Porto. Typographia Commercial Portuense, 1839">
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+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron,
+traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez
+
+Author: George Gordon Byron
+
+Translator: Henrique Ernesto de Almeida Coutinho
+
+Release Date: August 31, 2010 [EBook #33592]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: UTF-8
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div class="ntrans">
+<p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>Foi mantida a grafia usada na edição original de 1839, tendo sido
+corrigidos apenas pequenos erros tipográficos evidentes.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1.6em;">O CERCO DE CORINTHO,</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">POEMA</p>
+
+<p>DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">LORD BYRON,</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">TRADUZIDO EM VERSO PORTUGUEZ,</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;"><em>H. E. A. C.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><img src="images/ilustr.png" border="0" alt="Ilustração da capa"></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">PORTO.</p>
+
+<hr style="width: 10%">
+
+<p>TYPOGRAPHIA COMMERCIAL PORTUENSE.<br>
+
+LARGO DE S. JOÃO NOVO N. 12.</p>
+
+<hr style="width: 10%">
+
+<p>1839.</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h2>AO ESTIMAVEL ANONYMO.</h2>
+
+<p class="versos"><em>Alma prestante, onde reside e impera<br>
+          O Genio da Amizade,<br>
+          Que a luminosa esfera<br>
+Deixou, para acudir á humanidade,<br>
+Sumida em pesadumes e agonias,<br>
+          Em feia escuridade!<br>
+          Alma onde o typo eterno não se encobre,<br>
+E que, n'estes d'egoismo ferreos dias,<br>
+O instante de ser util só vigias,<br>
+          Sincera, affavel, nobre!<br>
+Acceita, em oblação a ti votado,<br>
+Ancioso de agradar-te, este traslado.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;">Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><em>O TRADUCTOR,</em></h2>
+
+<p>Para perpetuar a gloria do sublime poeta que tanto enriqueceo a sua patria e
+o mundo literario com o preciosissimo cabedal de suas producções, bastaria esta
+de que emprehendemos e agora publicamos a traducção. Sciencia dos tempos e dos
+costumes, vasta erudição, profundo conhecimento do homem, variedade e
+magnificência de quadros, fecunda elevação de pensamentos, lustre e vigor de
+poesia, sobresahindo por effeito da mais acertada e judiciosa distribuição, eis
+os titulos com que se engrandece este poema, onde lord Byron não houve mister
+longo espaço para mostrar-se, immortal.</p>
+
+<p>Não é raro tecerem os traductores sobejo encomio ainda a mediocres
+originaes, quando com estes despendêrão vigilias e desvelos; mas nem por isso
+receamos que, elogiando a lord Byron, nos<span class="pn">{II}</span> accusem de encarecimento ou de
+leviandade: as suas obras ahi estão bem patentes, e a sua reputação é já
+colossal.</p>
+
+<p>Todavia, notando a mui sincera affeição que consagramos a tão estremado
+engenho, ninguem haja de persuadir-se que o avaliamos como isento de toda a
+mácula. Por certo que lord Byron era homem, e o fragil da humanidade
+transparece em algumas das suas producções, e ás vezes procura brilhar em
+detrimento daquella gentil gravidade que mui bem assenta nas Musas, e sem a
+qual desmentem ellas a sua origem celeste; mas de semelhante desar campea livre
+o poema que apresentamos traduzido.&mdash;Só de passagem mencionaremos um
+descomedido orgulho nacional<a name="L4251" id="L4251"
+href="#L4257"><sup>[1]</sup></a>,<span class="pn">{III}</span> um amor á
+liberdade, que por vezes degenera em fanatismo: estes sentimentos os bebeo o
+poeta com o primeiro alimento de sua infância, e, quando concentrados em justo
+limite, são nobres, e longe estamos de criminá-los.</p>
+
+<p>Não menos que lord Byron admiramos os grandes capitães Gregos e Romanos;
+tambem nas escolas estudamos e traduzimos Nepote, Tacito, Tito-Livio, &amp;c.
+Todavia os heróes n'essas historias memorados viverão em tempos mui diversos
+dos nossos, e diversissima foi a sua educação fisica e moral: por tanto o joven
+enthusiasta hodierno que ambiciona a todo o custo igualá-los, arrisca-se a
+cometter mil despropositos, e mesmo a ser victima inutil de suas desattentadas
+proezas. Para morrer com gloria no desfiladeiro de Thermópylas, cumpre,<span
+class="pn">{IV}</span> além de haver sido educado em Esparta, ter á frente um
+Leonidas. A prudencia de Fabio transtornou os planos de Annibal e salvou Roma,
+conseguindo aquillo mesmo que fôra denegado ás fastuosas e arrogantes ousadias
+de Sempronio e de Flaminio. Do sacrificio de Curcio, despenhando-se armado e
+com seu proprio cavallo no boqueirão aberto por um terremoto em certa praça de
+Roma, que proveito recolhêrão os concidadãos, a patria, ou a especie humana?
+Curcio era pois um esquentado enthusiasta, ou antes um orate rematado. É
+indubitavel que a cega ambição de figurar com heroismo Grego ou Romano,
+associada ao sofrego ardor não sei de que liberdade turbulenta, insidiosa,
+desmoralisadora, e de mais pernicioso effeito que qualquer desmascarada
+tyrannia, tem excandescido bom numero de cabeças e avultou de sobejo na mui
+abalisada revolução<span class="pn">{V}</span> de França, que ainda hoje em
+sangrentas paginas aterra a humanidade.&mdash;Talvez o amor que sempre tributamos á
+verdade nos levou em demasia longe; mas como quer que seja, não cessaremos de
+confessar que o sublimado engenho de lord Byron nos penetra de admiração, e
+deixa, ao menos em nosso alvitre, o homem justificado pelo poeta.</p>
+
+<p>Quanto á nossa traducção, sobre diligenciarmos que portugueza fosse, pozemos
+todo o cuidado em exprimir com clareza os pensamentos do poeta, bem como em não
+deteriorar-lhes a nativa gala, que antes nos parece mais pomposa n'este nosso
+fertil e sonoro idioma: entretanto não é por nossa conta que deve correr a
+cabal decisão na materia, mas sim por conta de mais competentes juizes, que,
+versados nas duas linguas, queirão dar-se ao trabalho de cotejar o original com
+a versão.</p>
+
+<p>Entre os nossos traductores<span class="pn">{VI}</span> poetas, alguns houve
+que gemêrão sob a ferrenha tarefa de traduzir tragedias e longos poemas verso
+por verso; mas que resultou de tanta diligencia? o substituirem, pela maior
+parte, a versos fluentes e vigorosos uma enfiada de semsaborias, de durezas, de
+enigmas, onde a graça e louçania dos originaes degenera em rugosa e desalinhada
+velhice. Não negamos que isso tenha cabimento e deva adoptar-se quando nenhum
+inconveniente o estorva; porém o verter affincadamente poemas inteiros verso
+por verso, é uma curiosidade que em muitos casos empece á nobre franqueza do
+estilo, á suavidade do metro, e ao effeito geral dos quadros poeticos. Estamos
+persuadidos de que deve o traductor de um poema ser sempre fiel á quantidade
+das idéas, não assim á quantidade dos versos: tal foi o nosso systema de
+traducção no <em>Cêrco de Corintho</em>.<span class="pn">{VII}</span></p>
+
+<p>Ardua e mui ardua emprêsa é traduzir poetas; bem o sabemos e experimentamos.
+Se todavia para traduzir lord Byron de nada mais se carecesse que de estar
+profundamente penetrado das extraordinarias e sublimes bellezas com que este
+filho da immortalidade abrilhantou suas obras, então nos lisonjeariamos de
+apresentar a nossos leitores uma copia digna do original, e preciosa para
+elles.<span class="pn">{VIII}</span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="L4257" id="L4257" href="#L4251"><sup>[1]</sup></a> Este orgulho se
+deixa ver bem claro no <em>Childe Harold's Pilgrimage</em>, cant. I.º est. 16,
+onde, entre outros motejos com que o poeta pertende aviltar os Portuguezes,
+tambem lhes exprobra o serem</p>
+
+<p class="versos"><em>A nation swoln with ignorance and pride.</em><br>
+Nação inflada d'ignorancia e orgulho.</p>
+
+<p>Quererá isto dizer que a Inglaterra é um paiz todo cheio de sabios, e onde o
+orgulho morre de frio, por falta de quem o aquartele?</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{1}</span></p>
+
+<p style="text-align:center;">O CERCO</p>
+
+<p style="text-align:center;">DE</p>
+
+<p style="text-align:center;">CORINTHO.</p>
+
+<blockquote>
+
+<h4>I.</h4>
+
+<p class="versos">Longo trilho de seculos exhaustos,<br>
+Rijas tormentas, bellicos furores,<br>
+Infestárão Corintho: ella entretanto<br>
+Persiste em pé, e no alteroso alcáçar<br>
+Nova conquista á Liberdade off'rece.<br>
+Nem bramir de tufões, nem terremotos<br>
+O alvejante penhasco lhe abalárão,<br>
+Esse lageoso assento, que, em despeito<br>
+Da decadencia sua, inda parece<br>
+Não sem orgulho contemplar seu cimo;<br>
+Esse padrão demarcador erguido<br>
+Entre os dous mares, que d'um lado e d'outro<br>
+Lhe estão rolando purpurinas ondas,<br>
+Que sempre a forcejar por se reunirem,<br>
+O acatão sempre, e vem morrer-lhe ás plantas.<span class="pn">{2}</span><br>
+Se o sangue n'estes sitios derramado<br>
+Desde que n'elles o fraterno sangue<br>
+Timoléon vertêra, ou desde quando<br>
+Pelo aviltado despota da Persia<br>
+Abandonados forão, borbulhasse<br>
+Da terra que o bebeo no morticinio,<br>
+Este sangrento oceano sepultára<br>
+Sob os tremendos escarcéos todo o isthmo:<br>
+Ou se podessem amontoar-se os ossos<br>
+Dos que alli perecêrão, surgiria<br>
+Por entre aquelles ceos abrilhantados<br>
+A colossal pyramide espantosa,<br>
+Dando rival á Acrópolis, que as nuvens<br>
+Se vê roçar co'a torreada fronte.</p>
+
+<h4>II.</h4>
+
+<p class="versos">Eis lanças vinte mil sobre as espaduas<br>
+Do nebuloso Citherón fulgurão;<br>
+E em toda a planta do isthmo, sobre as duas<br>
+Oppostas praias que o ladeão amplas,<br>
+Se eleva o pavilhão, brilha o Crescente<br>
+Nas federadas linhas Musulmanas;<br>
+E o tisnado Spahí desfila em bandos<br>
+Á vista dos Bachás amplo-barbados;<br>
+E os olhos podem ver ao longo e ao largo<br>
+As cohortes cingidas do turbante,<br>
+Que o promontorio alastrão, enxameão:<br>
+Lá se ajoelhão do Arabe os camelos,<br>
+Do Tartaro os ginetes la volteão;<br>
+<a name="Dando" id="Dando" href="#II.--">Dando de mão á grei, o Turcomano<br>
+Prestes unio ao lado a cimitarra.</a><span class="pn">{3}</span><br>
+Dos bellicos trovões crebro rebombo<br>
+Té faz emmudecer, de susto, os mares,<br>
+Profunda-se a trincheira, e muito longe<br>
+Silvando vôa no pelouro a morte;<br>
+Sob o peso da bomba assoladora,<br>
+Soltão-se em pulverento remoinho<br>
+Os da muralha esboroados lanços;<br>
+E, do recinto d'ella, eis o inimigo<br>
+Ás do Infiel intimações responde<br>
+Com manejo expedito, e fogos destros.<br>
+Que vão cruzando os empoeirados plainos,<br>
+E os ares que anuvia o fumo em rôlos.</p>
+
+<h4>III.</h4>
+
+<p class="versos">Das muralhas porém o mais visinho<br>
+Entre os que punhão peito e mãos á empresa<br>
+De as converter em ruina, o mais profundo<br>
+Que nenhum dos da prole Musulmana<br>
+Nas da guerra artes tétricas, e altivo<br>
+Qual nunca o foi assignalado chefe<br>
+Colhendo louros em sangrentas lides;<br>
+O que voando audaz de posto a posto,<br>
+D'um feito a maior feito, se avantaja<br>
+Em destro esporear corsel fumante,<br>
+Em surdir mais veloz onde arde o p'rigo,<br>
+Cada vez que ha sortidas ou assaltos;<br>
+E quando a bateria, em mãos valentes,<br>
+Resiste inexpugnavel, então mesmo<br>
+Com exultante aspecto desmontando<br>
+A dar alento, na refrega, aos tibios;<br>
+O mais abalisado e o mais recente<span class="pn">{4}</span><br>
+Da hoste que lucrou n'estas paragens<br>
+Ao sultão de Stamboul renome egregio;<br>
+O guia incomparavel em campanhas,<br>
+Ou solerte assestando o ferreo tubo,<br>
+Ou manejando a temerosa lança,<br>
+Ou tufão que rebenta onde ha conflictos,&mdash;<br>
+É Alp, o Veneziano renegado!</p>
+
+<h4>IV.</h4>
+
+<p class="versos">O renegado de Veneza!&mdash;ah! elle<br>
+De vetusta linhagem primorosa<br>
+Teve o seu nascimento: todavia,<br>
+Desterrado a final do patrio ninho,<br>
+Contra os concidadãos tomou as armas,<br>
+Em que por elles adestrado fôra;<br>
+E orna-lhe a fronte rasa hoje o turbante.<br>
+Depois d'eventuaes destinos varios,<br>
+Sob a lei que Veneza lhe dictára<br>
+Se acolheo, como a Grecia, então Corintho;<br>
+E ei-lo que ante seus muros se apresenta,<br>
+Inimigo entre os feros inimigos<br>
+Da Grecia e de Veneza, e trasbordando<br>
+De resentido ardor, qual excandesce<br>
+Ao joven convertido a alma orgulhosa,<br>
+Onde duestos mil accumulados<br>
+Estão sempre em tumulto, e eternos vivem.<br>
+Nem por isso com elle quiz Veneza<br>
+Desempenhar o civico appellido<br>
+Em que firmava o seu brazão = <small>A LIVRE</small>; =<br>
+E de São Marcos no palacio excelso,<br>
+Delatores incognitos lançárão<span class="pn">{5}</span><br>
+Na <em>Boca do Leão</em>, durante a noite.<br>
+Denuncia atroz de requintados crimes,<br>
+Que o cobrião de macula indelével:<br>
+Salvou seus dias pressurosa fuga.<br>
+Desde esse lance despendia a vida<br>
+No meio dos combates, demostrando<br>
+Bem claro á patria o que perdeo no alumno<br>
+Que contra a Cruz, já supplantada, erguia<br>
+O soberbo Crescente, e, guerreando,<br>
+Só vingar-se ou morrer buscava ancioso.</p>
+
+<h4>V.</h4>
+
+<p class="versos"><a name="Coumourgi" id="Coumourgi"
+href="#V.--">Coumourgi</a>&mdash;aquelle que impôz termo aos feitos,<br>
+O ultimo perecendo, e o mais pujante,<br>
+Lá nos de Carlowitz sangrentos plainos,<br>
+Sem magoa de morrer, porém, raivoso,<br>
+Dos Christãos maldizendo inclitos louros,<br>
+E d'Eugenio adornando o grão triunfo;<br>
+Coumourgi&mdash;e por ventura a gloria d'este<br>
+Conquistador da Grecia derradeiro<br>
+Poderá perecer, senão surgindo<br>
+Braço Christão que restitua á Grecia<br>
+Sequer os fóros que gozou outr'ora<br>
+Por Veneza outorgados? Elle vinha,<br>
+Já depois de volvidos lustros vinte,<br>
+Reintegrar a Othomana prepotencia;<br>
+E, os veteranos seus pospondo agora,<br>
+Para mandar do exercito a vanguarda<br>
+Alp escolheo, que a confidencia summa,<br>
+Arrazando cidades, lhe pagava,<span class="pn">{6}</span><br>
+E mostrando em façanhas destructoras<br>
+O seu zeloso affêrro á nova crença.</p>
+
+<h4>VI.</h4>
+
+<p class="versos">A muralha enfraquece: de continuo<br>
+As Turcas baterias lhe varejão<br>
+O parapeito e ameias; restrugindo,<br>
+Sahe de cada canhão a voz do raio:<br>
+Aqui flammeja, ao rebentar da bomba,<br>
+Crepitante zimborio; além baquea<br>
+Este, est'outro edificio derrocado,<br>
+Sob o espesso granizo d'estilhaços,<br>
+Que em lufadas volcanicas recresce:<br>
+Vai resfolgando em rúbidas columnas<br>
+Voraz incendio, que tão alto sobe,<br>
+Como sobe o fragor da ruina ingente,<br>
+Ou solta-se em terrestres meteoros<br>
+Que vão no ceo esvaecer-se infindos:<br>
+Mais nebuloso, mais impervio o dia<br>
+Se torna á luz do sol, co'a mole opaca<br>
+Do fumo alçado em tortuosos rôlos,<br>
+Que d'enxofrado horror a esfera enlutão.</p>
+
+<h4>VII.</h4>
+
+<p class="versos">Nem sómente ardor cego de vingança,<br>
+Que a longa dilação fez mais ferino,<br>
+Esporeára esse Alp apostatado<br>
+Á adestrar os guerreiros Mahométas<br>
+N'arte de abrir a promettida brecha.<span class="pn">{7}</span><br>
+D'aquelles muros no recinto havia<br>
+Uma donzella, cuja mão formosa<br>
+Elle obter pertendia apesar mesmo<br>
+Do inexoravel pai, que, furibundo,<br>
+Aos rogos lha negou, quando Alp outr'ora,<br>
+Chamando-se Lanciotto, o bafejavão<br>
+Tempos melhores, mais propicios fados;<br>
+E sem nota e sem crime de perfidia,<br>
+Aos palacios, ás góndolas levando<br>
+Alegria vivaz, se assignalava<br>
+Nos Carnavaes, ou resoar fazendo<br>
+Sobre aguas do Adria esses descantes meigos<br>
+Que alvoroçadas de prazer escutão<br>
+Á meia-noite as Italas donzellas.</p>
+
+<h4>VIII.</h4>
+
+<p class="versos">Que do seu coração já possessora<br>
+Não fosse a virgem, suspeitavão muitos;<br>
+No em tanto d'infinitos requestada,<br>
+E a nenhum acolhendo, persistia<br>
+De todo o laço conjugal isenta<br>
+A juvenil Francina: e desde o instante<br>
+Em que das Adriaticas paragens<br>
+Se retirou Lanciotto a pagãos climas,<br>
+O sorriso expirou nos labios d'ella;<br>
+Meditabunda e pallida tornou-se;<br>
+Confissões amiudava, e já não era<br>
+Tão vista em mascaradas e assembleas;<br>
+Ou, se lá ia, os olhos seus descidos<br>
+Avassalavão, n'um volver furtivo,<br>
+Mil corações de balde suspirosos:<span class="pn">{8}</span><br>
+Nenhum objecto contemplava attenta;<br>
+Não punha em atavios tanto apuro,<br>
+Nem já tão terno desprendia o canto;<br>
+Seus passos, bem que leves, o erão menos<br>
+Que os dos parceiros seus, a quem na dança<br>
+Colhia absortos o raiar d'aurora.</p>
+
+<h4>IX.</h4>
+
+<p class="versos">D'um sólo aos Musulmanos arrancado,<br>
+Quando a soberba lhes calcou Sobieski<br>
+Ante os muros de Buda, ás margens do Istro;<br>
+D'um sólo que depois Veneza altiva<br>
+Empolgou com violencia desde Patras<br>
+Té a Euboica enseada, o regimento,<br>
+Por ordem sup'rior, tomou Minotti;<br>
+E de Corintho na torreada estancia<br>
+Já elle era do Doge o delegado,<br>
+Quando os olhos da Paz fagueiros, pios,<br>
+Depois da larga ausencia, confortavão<br>
+C'um sorriso dos seus a Grecia sua,<br>
+Inda não rôto esse armisticio trêdo<br>
+Que ao jugo anti-Christão a subtrahia.<br>
+Entrou Minotti alli co'a filha amavel;<br>
+E desde o tempo em que a formosa Helena,<br>
+Deixando o esposo e a patria, fez ver quantos<br>
+D'um illicito amor desastres brotão,<br>
+Nunca estas praias adornou belleza<br>
+Digna de comparar-se á da estrangeira.</p>
+
+<h4>X.</h4>
+
+<p class="versos">Em crebros boqueirões abre-se o muro;<span
+class="pn">{9}</span><br>
+E sobre as ruinas da alluida mole<br>
+Vai, á primeira luz, desenvolver-se<br>
+Assalto mais que todos formidando.<br>
+Tropas enfileirarão-se; escolhidos<br>
+Forão para formar toda a vanguarda<br>
+Tartaros e Othomanos; e vós outros,<br>
+Flor dos guerreiros, a quem foi sem causa<br>
+Imposto o sobrenome de <em>perdidos</em>,<br>
+E para quem a morte e riso, é jôgo;<br>
+Vós, que co'alfange em punho abris caminho,<br>
+Ou de vossos cadaveres juncando<br>
+A que o braço rompeo vereda honrosa,<br>
+Sois marmoreo degráo, por onde affoutos<br>
+Os socios trepão,&mdash;morrereis mais tarde!</p>
+
+<h4>XI.</h4>
+
+<p class="versos">É meia-noite: a fria lua ostenta<br>
+O disco inteiro, e amplo fulgor diffunde<br>
+A contrastar co'a sombra das montanhas;<br>
+Traja d'azul o mar, d'azul se veste<br>
+O firmamento, este suspenso oceano,<br>
+Todo cravado d'ilhas que refulgem<br>
+Lá tão remotas, com ardor tão vivo:<br>
+E quem, quem póde attento contemplá-las,<br>
+E repascer depois os olhos tristes<br>
+No valle dos mortaes, sem que apeteça<br>
+Voar e unir-se para sempre a ellas?<br>
+Dormem as ondas, n'uma praia e n'outra,<br>
+Placidas e ceruleas como os ares;<br>
+Só de leve as areas roça a espuma,<span class="pn">{10}</span><br>
+Com murmurinho igual ao d'um regato.<br>
+Os ventos se recostão sobre as ondas;<br>
+E das hastes ao longo quietas pendem,<br>
+Em pregas conchegando-se, as bandeiras,<br>
+Que remata arci-fúlgido Crescente.<br>
+Nada interrompe esta mudez profunda,<br>
+Senão além a voz da sentinella<br>
+Reproduzindo a senha, ou lá mais longe<br>
+Relincho de corseis agudo e crebro,<br>
+Ou écos que respondem dos outeiros,<br>
+Ou da hoste bravia o rumor vasto,<br>
+Que semelhante ao de agitadas folhas<br>
+Alongando-se vai de praia a praia,<br>
+Ou preces usuaes que á meia-noite<br>
+Levanta o Muezzin, rasgando os ares<br>
+Co'a lamentosa garganteada lôa,<br>
+Qual 'spirito que vaga na planicie:<br>
+Melódicos accentos, mas prantivos,<br>
+Quaes os produz o vento, que, passando,<br>
+Encontra as cordas de sonoras harpas,<br>
+E extrahe descompassadas harmonias,<br>
+Que não conhece o menestrel mundano.<br>
+Este som se affigura aos sitiados<br>
+Grito agoureiro da infallivel queda;<br>
+Elle fere no ouvido aos sitiadores<br>
+Como indicio aziago e pavoroso,<br>
+Repentina toada indefinivel,<br>
+Que os corações lhes paralisa agora,<br>
+E logo os faz pulsar mui apressados,<br>
+Co'a vergonha de haver surdido n'elles<br>
+Tão desusada sensação furtiva:<span class="pn">{11}</span><br>
+Dest'arte o sino apregoador da morte<br>
+Nos sobresalta de repente ouvido,<br>
+Inda que seja em funeral d'estranhos.</p>
+
+<h4>XII.</h4>
+
+<p class="versos">Calou-se o som, a rogativa é finda;<br>
+As sentinellas em seus postos velão;<br>
+Foi a nocturna ronda percorrida,<br>
+E em tudo as ordens satisfeitas todas.<br>
+Tem Alp o seu tentorio sobre a praia,<br>
+E em ancias vai curtir inda esta noite;<br>
+Mas bem póde a manhã suavisá-las,<br>
+Na fruição das vantagens tão copiosas<br>
+Com que o amor e a vingança hão de reunidos<br>
+Demora indemnisar tão prolongada.<br>
+Horas poucas lhe restão, e carece<br>
+De repousar, por que expedito esteja<br>
+Ás proezas da crástina matança:<br>
+Mas baralhados, quaes estuantes vagas,<br>
+Os pensamentos lhe reluctão n'alma.<br>
+Sem repouso e só elle em todo o campo;<br>
+Nem sente o coração entumecer-lhe<br>
+Fanatica vangloria blasonante<br>
+De ver pelo Crescente a Cruz calcada,<br>
+Ou de vender seus dias mui baratos,<br>
+Seguro de gozar no paraiso<br>
+O sempiterno amor das Houris bellas;<br>
+Nem se sente abrazar d'aquelle austero<br>
+Patriotico ardor que de bom grado<br>
+Supporta árduas fadigas, verte o sangue.<span class="pn">{12}</span><br>
+Quando peleja sobre o chão nativo,<br>
+Elle não era mais&mdash;que um renegado.<br>
+Ora verdugo da trahida patria;<br>
+Elle não era mais que um peito forte,<br>
+Um braço acreditado entre o seu bando.<br>
+Seguião-no, por que era valeroso,<br>
+E já lhes grangeára espolio grande;<br>
+Davão-lhe acatamento, por ver quanto<br>
+Elle sabia captivar do vulgo<br>
+As vontades, e arteiro dispôr d'ellas:<br>
+Mas nem por isso lhe entejavão menos<br>
+O Christão nascimento: inveja influe-lhes<br>
+A propria fama atreiçoadora que elle<br>
+Ganhára sob um nome Musulmano:<br>
+De qualquer modo, esse esforçado chefe<br>
+Vil Nazareno foi na juventude.<br>
+Não lhes era sabido té que ponto<br>
+É capaz de curvar-se o orgulho, quando<br>
+Murcho e aviltado o pundonor baquea;<br>
+Não lhes era sabido quão violenta<br>
+Chamma voraz em corações se accende<br>
+Que de meigos tornarão-se bravios;<br>
+Ignoravão qual zêlo de vinganças<br>
+Refalsado e fatal se gera e cresce<br>
+D'um convertido n'alma. Elle os regia:<br>
+Póde um homem reger outros peores,<br>
+E de ser o primeiro gloriar-se.<br>
+Taes os leões sobre o jakal dominão:<br>
+Destro o jakal espia e abate a prêsa;<br>
+Mas, no apertão da rugidora turba,<br>
+Da-se por pago, se devora os restos.<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<h4>XIII.</h4>
+
+<p class="versos">A cabeça lhe ferve, e apressuradas<br>
+As arterias palpitão-lhe convulsas;<br>
+D'um lado e d'outro volta-se, baldando<br>
+Modos de repousar; e se dormita,<br>
+O som mais leve, o mais pequeno abalo<br>
+Prestes o acordão angustiado em dôbro.<br>
+A fronte excandescida lhe molesta<br>
+Hoje o turbante, e, nem que plumbea fosse,<br>
+A loriga lhe pesa sobre o peito,<br>
+Se bem que tanta vez, e a somno solto,<br>
+Sob esse mesmo pêso repousasse,<br>
+Tendo apenas por leito um chão saibroso,<br>
+E por docel o firmamento apenas,<br>
+Leito e docel quaes ao guerreiro a noite<br>
+Agora os deparou. Elle nem póde<br>
+No seu tentorio adormecer, nem quieto<br>
+Esperar que desponte a luz diurna,<br>
+E eis vaga ao longo da arenosa praia,<br>
+Alastrada de tantos que repousão.<br>
+Quem os acalentou? e por que causa<br>
+Ha de elle só velar, despossuido<br>
+D'um bem que logrão rasos subalternos,<br>
+A quem cabe arrostar maiores p'rigos,<br>
+E lidas superar mais affanosas?<br>
+Mas ah! que um sonho animador lhes pinta<br>
+Os lucros todos do futuro espolio;<br>
+E em quanto mil e mil passão dormindo<br>
+Esta que a noite extrema é talvez d'elles,<br>
+Alp, em vigilia atroz, vaguea anciado,<span class="pn">{14}</span><br>
+E lhe é alvo d'invejas quanto encontra.</p>
+
+<h4>XIV.</h4>
+
+<p class="versos">Vai na aprazivel fresquidão da noite<br>
+Achando refrigerio ás ancias d'alma.<br>
+Relentoso ora o ceo, bem que tranquillo,<br>
+As affogueadas faces lhe aspergia<br>
+Com brando orvalho. Apóz lhe fica o campo;<br>
+De fronte lhe serpea, derramado<br>
+Em crebros surgidouros e enseadas,<br>
+O golfo de Lepanto; está-lhe á vista<br>
+A de Delphos montanha sempiterna,<br>
+Onde os gêlos accrescem, brilhão, durão,<br>
+De mil estios affrontando a ardencia,<br>
+Campeando no golfo, e serro, e clima,<br>
+Sem que os dissolva, como a nós, o Tempo.<br>
+Desapparecem o tyranno e o servo,<br>
+Improprios a aguantar fulgente raio;<br>
+Mas este véo deslumbrador e fragil,<br>
+De que vês envolvido o monte excelso,<br>
+Quando torres baqueão, jazem troncos,<br>
+Lá brilha sempre no empinado alcáçar;<br>
+Pileo na fórma, nuvem no elevado,<br>
+Na côr e na amplidão lançol funereo,<br>
+Erguido a designar que a Liberdade<br>
+Se ausentou da mimosa estancia sua,<br>
+E hoje languida jaz no mesmo sólo,<br>
+Onde foi largos tempos escutado<br>
+Seu profetico ardor em aureos versos.<br>
+Oh! que de quando em quando inda lá sôão<span class="pn">{15}</span><br>
+Os passos seus sobre arescentes campos,<br>
+Sobre tantos altares demolidos;<br>
+E ella, um a um mostrando aquelles restos<br>
+Abonadores da passada gloria,<br>
+Alentar busca os animos prostrados:<br>
+Porém de balde bradará, em quanto<br>
+Não despontar n'um coração preclaro<br>
+Destimidez possante, toda accesa<br>
+Ao clarão d'esses dias que luzírão<br>
+Sobre a fuga do Persa, e que risonhos<br>
+O intérito arrostárão do Espartano.</p>
+
+<h4>XV.</h4>
+
+<p class="versos">Inda que fugitivo e criminoso,<br>
+Alp admirava as inclitas virtudes<br>
+D'esses tempos heroicos; e esta noite,<br>
+Em quanto vagueava, e na memoria<br>
+O presente e o passado revolvia,<br>
+Apreciando as mortes gloriosas<br>
+Dos que em defensa da genuina causa<br>
+Seu sangue alli vertêrão, mui bem sente<br>
+A que ponto é fallaz, mesquinha, obscura<br>
+Quanta fama lucrou d'um bando á frente,<br>
+E, nefario traidor, brandindo a espada<br>
+Entre as turmas cingidas do turbante,<br>
+Que raivoso guiára a injusto assedio.<br>
+Onde era em cada prospero successo<br>
+Não menos computado um sacrilegio.<br>
+Taes não lhe mostra a fantasia os chefes,<br>
+Por quem aquelle pó que o circumdava<span class="pn">{16}</span><br>
+Fôra illustrado, e que as phalanges suas<br>
+Perfilavão no plaino, não de balde<br>
+Então de baluartes guarnecido.<br>
+Estes morrêrão escudando a patria,<br>
+E eternos vivem no fulgor da gloria:<br>
+Suspirar-lhes alli os nomes gratos<br>
+Inda parece a brisa; alli seus feitos<br>
+Sôão no murmurinho das correntes;<br>
+Povôa seu renome aquelles campos;<br>
+O pilar taciturno, ermo, alvacento,<br>
+Demanda aos sacros vultos alliar-se;<br>
+Os espiritos seus em tôrno girão<br>
+Dos fuscos serros; a memoria sua<br>
+Toda se espelha no cristal das fontes;<br>
+O arroio humilde, o caudaloso rio<br>
+Perennes fluem co'a perenne fama<br>
+Dos estremados campeões sublimes.<br>
+Por mais que a opprima um jugo, é esta sempre<br>
+A patria d'elles, e a mansão da gloria!<br>
+A Grecia!&mdash;ha de levar sempre este nome<br>
+Um som despertador ao Mundo inteiro.<br>
+Varão que aspira a perpetrar façanhas,<br>
+Lá põem na Grecia o fito, e abjura as normas<br>
+Que sómente os tyrannos sanccionárão;<br>
+Para lá olha, e se arremessa aonde<br>
+Conquiste a Liberdade, ou deixe a vida.</p>
+
+<h4>XVI.</h4>
+
+<p class="versos">Sempre assim meditando silencioso,<br>
+Alp ao longo da praia os passos move,<span class="pn">{17}</span><br>
+E com brando rocio a noite o ameiga.<br>
+<a name="Coarctados" id="Coarctados" href="#XVI.--">Coarctados e sem ésto,
+aquelles mares<br>
+Em moto igual ondeão sempiternos,</a><br>
+E a vaga que possuem mais furiosa<br>
+Nem um quarto de geira ao sólo invade;<br>
+E ou se mostre, ou se esconda, ou mude as phases,<br>
+Não tem sobre elles influencia a lua:<br>
+Mansos, tumentes, no alto, na enseada,<br>
+Do dominio lunar se movem francos.<br>
+O escolho immovel, descobrindo a base,<br>
+Olha ao largo, e de balde espera as ondas:<br>
+Póde ver-se a que o cinge espumea linha,<br>
+Que em baixo lhe traçou a mão dos évos.<br>
+Um pequeno areal loureja plaino<br>
+Entre o salgado leito e o chão relvoso.<br>
+Pela marina margem vagabundo,<br>
+Eis Alp assoma dos sitiados muros<br>
+Desviado não mais que quanto alcança<br>
+Um tiro de clavina. Como é crivel<br>
+Que alli não fosse visto, ou que evitasse<br>
+O golpe hostil? Entre os Christãos acaso<br>
+Remanecem traidores encobertos?<br>
+Qual torpor lhes vincula as mãos agora?<br>
+Qual gêlo os corações lhes paralisa?<br>
+Tal brandura elle estranha; mas é certo<br>
+Que de nenhum dos lanços lá do muro<br>
+Escorva reluzio, sibilou bala,<br>
+Se bem que tão de baixo agora avulte<br>
+Dos bastiões minaces que flanqueão<br>
+Essa porta, resguardo da cidade<br>
+Pela banda do mar; se bem que possa<span class="pn">{18}</span><br>
+Quasi as palavras distinguir ferrenhas,<br>
+E os passos numerar da sentinella,<br>
+Que sôão, indo e vindo compassados,<br>
+Pela extensão da sotoposta lagem.<br>
+Nem os cães, de occupados, lhe latírão!<br>
+E, magros e famélicos rosnando,<br>
+Os vê sob a muralha dar-se ao bôdo<br>
+De sangrentos cadaveres e ossadas:<br>
+<a name="Ei-los" id="Ei-los" href="#Ibi--">Ei-los que estão da pelle
+despojando<br>
+Nest'hora um craneo Tartaro</a>, bem como<br>
+Nós despojamos o recente figo;<br>
+E alvejantes lhes rangem os colmilhos<br>
+Sobre a caveira que inda mais alveja,<br>
+E que dos queixos lhes resvala, quando<br>
+Embotados os deixa o roer crebro;<br>
+Mas vão moendo de vagar os ossos,<br>
+Se um acaso permitte que não achem<br>
+Sobre aquelle torrão melhor sustento.<br>
+Seu antigo jejum quebrou-se á larga<br>
+Nos guerreiros que alli perdendo a vida,<br>
+Lhes são manjar em refeição nocturna.<br>
+Pelos turbantes sobre a aréa esparsos,<br>
+Alp a flor do seu bando reconhece;<br>
+Bem nota o verde, o carmesim das telas<br>
+Com que cingião por costume a fronte;<br>
+<a name="cada" id="cada" href="#Ibi--1">E cada pericraneo off'rece a esguia<br>
+Madeixa longa</a>, e no demais é raso.<br>
+Os pericraneos jazem na guela<br>
+Feroz dos cães, ao passo que a madeixa<br>
+Se lhes enreda em volta das queixadas.<br>
+Lá se vê mais além, do golfo á orla,<span class="pn">{19}</span><br>
+Sofrego abutre contender c'um lobo,<br>
+Que, das montanhas a prear baixando,<br>
+Era alli solitario, e não ousava,<br>
+Dos cães espavorido, tomar parte<br>
+No amplo repasto das humanas carnes;<br>
+Mas engole a ração que lhe coubera<br>
+D'um corsel debicado já das aves,<br>
+Que da enseada no areal jazia.</p>
+
+<h4>XVII.</h4>
+
+<p class="versos">De tão feio espectaculo insoffrivel<br>
+Arreda os olhos Alp: elle em conflictos<br>
+O que era estremecer não soube nunca;<br>
+Porém não é tão arduo, tão penoso<br>
+Olhar ao que estendido se revolve<br>
+Do proprio sangue em fumegante lago,<br>
+E arqueja entregue á insaturavel sêde<br>
+E ao vasquejar da morte, quanto é vê-lo<br>
+Depois que pereceo, e é só cadaver.<br>
+No momento fatal, um certo orgulho<br>
+Se desenvolve n'alma do soldado,<br>
+Lhe adoça o fim cruento: se fenece,<br>
+Espera reviver na voz da Fama,<br>
+Ficar bemquisto á Honra, que tem sempre<br>
+Os olhos fitos no que morre affouto!<br>
+Mas quando em fim s'esvaeceo tudo isto,<br>
+Bem misero se sente quem percorre<br>
+Campo alastrado d'insepultos mortos.<br>
+Ao ver como da terra surde o verme,<br>
+Deixa o bruto as florestas, a ave desce,<span class="pn">{20}</span><br>
+E alli affluem, demandando no homem<br>
+Todos quinhoar prêsa, e achando todos<br>
+O lucro seu na decadencia d'elle.</p>
+
+<h4>XVIII.</h4>
+
+<p class="versos">Alli se via derrocado templo:<br>
+São cinza e longo olvido as mãos que o erguêrão.<br>
+Inda algumas columnas, e dispersos<br>
+De marmore e granito mil fragmentos<br>
+O sólo opprimem, recobertos d'herva.<br>
+Inexoravel Tempo! e nunca inteiras<br>
+Deixarás ao porvir obras passadas!<br>
+Inexoravel Tempo! e has de tu sempre<br>
+Querer que do passado fique apenas<br>
+Aquillo que o presente affligir deve;<br>
+E assim fazer-nos dolorosa a imagem<br>
+Do que já foi, do que ha de ser um dia!<br>
+Bem como nós, verão nossos vindouros,<br>
+Em reliquias d'antigos monumentos,<br>
+Só pedras que exalçou o homem de barro!</p>
+
+<h4>XIX.</h4>
+
+<p class="versos">Ao pé d'uma columna Alp eis se assenta:<br>
+Co'a mão comprime a face, e o corpo inclina<br>
+Como quem se resente acabrunhado<br>
+D'aterradores pensamentos tetros;<br>
+A cabeça descahe-lhe sobre o peito<br>
+Excandescido, palpitante, oppresso;<br>
+Girão-lhe pela fronte debruçada<span class="pn">{21}</span><br>
+Os dedos velocissimos, bem como<br>
+Pelo eburneo teclado os dedos girão<br>
+De primoroso artista, que em preludios<br>
+Por ora se entretem, da escôlha incerto.<br>
+Vergando assim ao pesadume infenso,<br>
+Crê que ouvio suspirar nocturna brisa.<br>
+Acaso em lagens concavas murmura<br>
+Gemido terno de macias auras?<br>
+Ergue então a cabeça, e o mar observa;&mdash;<br>
+Repousa o mar, qual cristalino espelho:<br>
+Contempla esguias hervas;&mdash;nada as move:<br>
+D'onde procederia o som mavioso?<br>
+Repara nas bandeiras;&mdash;quietos pendem<br>
+No alto do Citherón, quaes os deixára,<br>
+Inda os hasteados pannos; leve aragem<br>
+Nem sequer lhe roçou a téz do rosto:<br>
+Qual do imprevisto murmurinho a causa?<br>
+Volve-se ao lado esquerdo:&mdash;será isto<br>
+Illusão ou verdade? Ante seus olhos<br>
+Eis joven dama refulgente assoma!</p>
+
+<h4>XX.</h4>
+
+<p class="versos">Se Alp então visse um inimigo armado<br>
+Surgir-lhe face a face, não se erguêra<br>
+Tão abalado de profundo assombro.<br>
+"Deos de meus pais! que vejo? quem es? como<br>
+D'hostís fileiras te aproximas tanto?"<br>
+A mão tremente lhe recusa agora<br>
+Estampar sobre a fronte essa Cruz mesma<br>
+Que elle tanto insultou; mas n'este lance<span class="pn">{22}</span><br>
+Se persignára, se a consciencia sua<br>
+Lhe não fizesse ver quanto era indigno.<br>
+Repara, observa a fundo, e reconhece<br>
+O rosto bello, as engraçadas fórmas:<br>
+É Francina, essa virgem suspirada<br>
+Que elle a si pertendia unir consorte!<br>
+Inda nas faces lhe viceja a rosa,<br>
+Porém a rubra côr é menos viva.<br>
+Que é do attractivo d'esses labios meigos?<br>
+Não mora n'elles o sorrir donoso<br>
+Que ao rubim dava esmalte. Inda em seus olhos<br>
+Reside o azul do socegado oceano;<br>
+Mas se no aspecto bonançoso o imitão,<br>
+Também o imitão na frieza immovel.<br>
+Talhe accusão gentil vestes ligeiras;<br>
+Nada lhe vela o seio luminoso;<br>
+Soltas d'ebano as tranças, ver não tolhem,<br>
+Por entre a chuva dos anneis ondeantes,<br>
+Nivea nudez dos torneados braços.<br>
+Levanta ao alto a mão antes que falle;<br>
+E de tal modo branca e transparente<br>
+Se mostrava essa mão, que poderieis<br>
+Ver por entre ella rutilar a lua.</p>
+
+<h4>XXI.</h4>
+
+<p class="versos">"O repouso deixei, a fim sómente<br>
+De vir ao meu amado, e de fazê-lo<br>
+Feliz commigo, e ser feliz com elle.<br>
+Por teu respeito entre inimigas turmas<br>
+Eis movo os passos, e transpuz a salvo<span class="pn">{23}</span><br>
+Muralhas, portas, sentinellas, tudo.<br>
+Uma joven donzella, em todo o brio<br>
+Da nativa pureza, ha quem affirme<br>
+Que dos proprios leões é respeitada:<br>
+E o superno Poder que ao innocente<br>
+Escuda contra o despota dos bosques,<br>
+Se encarregou tambem de defender-me<br>
+Do insulto d'infieis confederados;<br>
+E vim:&mdash;se vim de balde, oh! vê que nunca,<br>
+Nunca mais tornaremos a encontrar-nos!<br>
+Sei que, abjurando de teus pais a crença,<br>
+Es réo de crime hediondo; todavia<br>
+Lança por terra esse turbante, e imprime<br>
+Sobre a fronte o da Cruz signal divino,<br>
+E eu de ti folgue na perpetua posse.<br>
+Eia, o negro labéo expelle d'alma;<br>
+E pois havemos ámanhã de unir-nos,<br>
+Não queiras para sempre separar-nos."</p>
+
+<p class="versos">"E ao tóro nupcial onde acharemos<br>
+O apetecido espaço? póde havê-lo<br>
+Entre montões de mortos e expirantes?<br>
+Os Christãos, seus altares, quanto é d'elles,<br>
+Ha de o ferro ámanhã unido á chamma<br>
+Tudo, tudo extinguir: nenhum mais deve,<br>
+Senão es tu e os teus, ver nova aurora;<br>
+Que eu assim o jurei. Mas ser-me-ha doce<br>
+A mais donosos sitios transportar-te,<br>
+Onde se enlacem mãos, se olvidem mágoas,<br>
+Onde tu sejas a consorte minha,<br>
+Quando abatido de Veneza o orgulho<span class="pn">{24}</span><br>
+Eu já tiver; quando este braço, que ella<br>
+Quiz sumir na abjecção, deixe açoutados<br>
+Com viperino látego os infames<br>
+Que accendeo contra mim o vicio e a inveja."</p>
+
+<p class="versos">Ella pousou a mão sobre a mão d'elle:<br>
+Foi leve o toque, mas varou-lhe prompto<br>
+As medullas dos ossos, e entranhou-lhe<br>
+Pelo imo coração gêlo indizivel,<br>
+Que nem d'estremecer lhe deixou posses;<br>
+E este frio mortal, de que se arguia,<br>
+Removê-lo de si em vão tentava.<br>
+Oh! nunca, nunca de tão caro objecto<br>
+Partíra movimento que viesse<br>
+Com tamanho terror gelar-lhe o sangue,<br>
+Qual n'esta noite o subitaneo toque<br>
+D'aquelles alvos dedos alongados.<br>
+Morreo-lhe em pallidez a effervescencia,<br>
+Ficou-lhe o coração, qual seixo, immovel,<br>
+Ao ver aquelle rosto, ai! tão mudado<br>
+Já de si proprio: bello, mas languente&mdash;<br>
+Sem vestigio nenhum d'incendios d'alma,<br>
+Que em cada feição d'elle se espelhavão,<br>
+Como um dia de sol se espelha n'agua.<br>
+Anhélito nenhum se unia ás vozes<br>
+Que lhe escapavão dos immotos labios;<br>
+Do quieto coração nenhum palpite<br>
+Lhe sublevava o seio; nada havia<br>
+Que a rigida attenção interrompesse<br>
+D'aquelles olhos estacados, fixos.<br>
+Taes são os do somnambulo, que, em meio<span class="pn">{25}</span><br>
+D'anciados sonhos, deixa o leito e vaga;<br>
+Taes, na extensão de apainelados razes,<br>
+Baças figuras de minaz aspecto,<br>
+Se ao trémulo clarão as contemplamos<br>
+D'expirante lucerna, desenvolvem<br>
+Não sei qual mixto de animado e morto,<br>
+Com que parecem, aterrando a vista,<br>
+Ora avançar do tenebroso fundo,<br>
+Ora entranhar-se n'elle, em moto alterno,<br>
+Que a seu sabor lhes communica o vento.</p>
+
+<p class="versos">"Se por amor de mim tu crês que é muito,<br>
+Por amor só do Ceo embora o faze:<br>
+Longe arremessa (inda outra vez to digo)<br>
+Da fronte criminosa esse turbante,<br>
+E me promette de não ser infesto<br>
+Aos filhos da insultada patria tua,<br>
+Ou es perdido, e despedir-te deves,<br>
+Não já da Terra&mdash;esvaeceo-se a Terra&mdash;<br>
+Mas do Ceo e de mim, que te fui cara.<br>
+Eia, cede a meus rogos: vê que abertas<br>
+Inda te esperão da clemencia as portas;<br>
+E bem que contra ti grave sentença<br>
+Fosse já proferida, o rigor d'ella<br>
+Em grande parte expiará teu crime.<br>
+Pondera a fundo; e provocar não queiras<br>
+A maldição d'Aquelle que abjuraste.<br>
+Ao Ceo inda uma vez levanta os olhos,<br>
+Vê que a ti mesmo para sempre o fechas.<br>
+<a name="Essa" id="Essa" href="#XXI.--">Essa nuvem que esconde agora a lua,<br>
+Lá vai passando</a>, e passará de pressa:<span class="pn">{26}</span><br>
+Se, quando rebrilhar o disco inteiro<br>
+Desafrontado do vapor sombrio,<br>
+Não revolveo a contrição teu peito,<br>
+Ficão de ti vingados Deos e os homens:<br>
+Tremendo fim terás, e mais tremenda<br>
+Te espera a eternidade dos perversos."</p>
+
+<p class="versos">Alp ergue a vista ao Ceo, e reconhece<br>
+O indicado signal; porém o orgulho<br>
+Entumeceo-lhe o coração, e o rege<br>
+Com despotico imperio inabalavel;<br>
+E esta paixão fallaz que o predomina,<br>
+É torrente caudal que tudo alaga.<br>
+Elle implorar perdão! elle render-se<br>
+A impertinencias de mesquinha virgem!<br>
+Elle, offendido de Veneza ingrata,<br>
+Poupar-lhe os filhos, que votou á morte!<br>
+Não:&mdash;embora essa nuvem traga um raio,<br>
+Embora um raio o esmague:&mdash;e inda não trôa?</p>
+
+<p class="versos">Sem que a minima voz dos labios solte,<br>
+Elle fitava ancioso aquella nuvem:<br>
+Attento a vê passar; fugio de todo:<br>
+Em seu pleno fulgor se mostra a lua.<br>
+"Qualquer que seja o meu destino (exclama),<br>
+Não tenho de mudar: agora é tarde.<br>
+No meio da tormenta póde a canna<br>
+Dobrar-se e logo erguer-se, os troncos quebrão.<br>
+Qual Veneza me fez, serei já'gora;<br>
+Seu implacavel inimigo em tudo,<br>
+Excepto na affeição que eu te consagro.<span class="pn">{27}</span><br>
+Tu pois es salva: oh! vem, meus passos segue."<br>
+Voltando-se, elle a busca; ella sumio-se:<br>
+Só o antigo pilar lhe avulta ao lado.<br>
+Sorveo-a a terra, ou s'esvaío nos ares?<br>
+Nada elle vio&mdash;nada escutou só sabe<br>
+Que alli nenhum vestigio existe d'ella.</p>
+
+<h4>XXII.</h4>
+
+<p class="versos">A noite dissipou-se, e o sol resplende,<br>
+Qual se um dia de festa esclarecesse.<br>
+Eis d'entre bruscos véos pomposa surge<br>
+Arraiada a manhã d'aureos fulgores,<br>
+E abrasador promette o meio-dia.<br>
+Trombetas se ouvem, rufos de tambores,<br>
+Hórridos sons de barbara corneta,<br>
+Sussurrar de bandeiras fluctuantes,<br>
+Relinchar de corseis, tropear de turmas,<br>
+E o retinir das armas, e o alarido:<br>
+"Ei-los vem! ei-los vem!" <a name="terra" id="terra" href="#XXII.--">Da terra
+prestes<br>
+Descravão-se os pendões equi-caudatos</a>,<br>
+Desnudão-se as espadas lampejantes,<br>
+E tudo a entrar em fórma apercebido,<br>
+Só depende da voz, e a voz já sôa:<br>
+= Tartaros, e Spahís, e Turcomanos,<br>
+As tendas abatei, ide á vanguarda,<br>
+Dai d'espora aos corseis, e na planicie<br>
+Seja cortado o passo aos fugitivos,<br>
+Quando estes proromperem da cidade:<br>
+Não escape nem velho nem mancebo,<br>
+Que offrecer de Christão qualquer indicio.<span class="pn">{28}</span><br>
+Entretanto que em massa prepotente<br>
+Vão sustentar os camaradas vossos<br>
+A ensanguentada brecha, e entrar por ella.=<br>
+Já o fogoso corsel remorde o freio,<br>
+E arquea o collo, e, sacudindo a crina,<br>
+As rédeas tinge d'alvejante espuma:<br>
+Estão em riste as lanças, e flammejão<br>
+Accesos os murrões, e em continente<br>
+O assestado canhão vai despejar-se<br>
+Com estampido horrísono, e as muralhas,<br>
+Rôtas em frente, esboroar de todo.<br>
+Na phalange os Janizaros entrárão:<br>
+Alp os commanda; e a cimitarra nua<br>
+No erguido braço nu sustenta e brande.<br>
+Kans e Bachás fixárão-se em seus postos;<br>
+E ei-lo á frente da hoste se apresenta<br>
+Em pessoa o Visir.&mdash;Tanto que a senha<br>
+Troar na disparada colubrina,<br>
+Tudo em Corintho será ruina e morte:<br>
+Não ficará um sacerdote ás aras,<br>
+Nem um chefe no centro das familias,<br>
+Nem fôlgo vivo que as mansões povôe,<br>
+Nem sequer uma pedra sobre os muros.<br>
+"Deos e o Profeta seu! <em>Allah-Hu!</em>"&mdash;Sobe<br>
+Té ás estrêllas o feroz ulúlo!<br>
+"Lá tendes, para entrar, aberta a brecha;<br>
+E escadas não vos faltão: tambem todos<br>
+N'essas robustas mãos sustentais armas;<br>
+E como ha de falhar-vos o triunfo?<br>
+D'entre vós o primeiro que se affoute<br>
+Á arrancar a vermelha Cruz hasteada,<span class="pn">{29}</span><br>
+Póde franco pedir quanto apetece<br>
+Com mais vehemente ardor: supplique e obtenha."<br>
+Tal se exprimio Coumourgi, o Visir bravo.<br>
+Foi resposta o brandir d'espadas, lanças,<br>
+Com mil acclamações de raiva alegre.&mdash;<br>
+Silencio!&mdash;á senha estai attentos!&mdash;fogo!</p>
+
+<h4>XXIII.</h4>
+
+<p class="versos">Como quando esfaimados ruem lobos<br>
+De chofre sobre o bufalo soberbo,<br>
+Sem tremerem da tórva catadura,<br>
+Do mugir fero, do escavar das plantas,<br>
+Nem dos minaces cornos assestados;<br>
+E elle ou lança por terra ou ergue aos ares<br>
+Os primeiros que accessos o acommettem,<br>
+Mas que no cego arrôjo a morte encontrão:<br>
+Assim o Musulmano invade os muros,<br>
+E no impeto primeiro é repellido.<br>
+Alli rôtos do bellico granizo,<br>
+Dispersos como vidro espedaçado,<br>
+Quantos de bronze acobertados peitos<br>
+Ora juncando a terra, d'onde nunca<br>
+Se hão de levantar mais! Estão fileiras<br>
+Inda alinhadas, quaes na queda o estavão;<br>
+Jaz dos mais destemidos copia grande:<br>
+Tal, quando o dia é findo, e o labor cessa,<br>
+Vemos jazer sobre aplainados campos<br>
+A herva que o segador deixou ceifada.<span class="pn">{30}</span></p>
+
+<h4>XXIV.</h4>
+
+<p class="versos">Bem como, em viva preamar, se observa<br>
+D'algosos escarcéos batida rocha,<br>
+E já minada dos diuturnos éstos,<br>
+Soltar enormes lascas alvejantes,<br>
+Que com fragor horrísono se abatem,<br>
+Assemelhando ao torreão de gêlo<br>
+Que Alpinos valles despenhado aterra:<br>
+Assim os de Corintho habitadores,<br>
+A final quebrantados, exhauridos,<br>
+Forão na ruina atroz precipitados<br>
+Pelo acintoso impulso recrescente<br>
+Das cerradas cohortes Musulmanas.<br>
+Elles insistem firmes, e, na queda,<br>
+O furor do Infiel os prostra em massa.<br>
+Pelejão braço a braço, e planta a planta;<br>
+E nada, excepto a morte, alli é mudo:<br>
+Impetos, golpes, empuxões, clamores<br>
+Ou a pedir quartel, ou de victoria.<br>
+Reunidos ao troar increbescente<br>
+Dos bellicos trovões, e ao temeroso<br>
+Estrondo da batalha encarniçada.<br>
+Lá vão disseminando susto immenso<br>
+Por longinquas cidades, d'igual modo<br>
+Que se estivessem sob o golpe infesto,<br>
+E já dentro o inimigo as depredasse;<br>
+Não d'outra sorte que se proprio fôra<br>
+A excitar sensação ou triste ou leda<br>
+Aquelle som que anniquilar só sabe,<span class="pn">{31}</span><br>
+E que, varando dos soturnos montes<br>
+As entranhas durissimas, se expande<br>
+Em pavorosos écos desusados:<br>
+Lá os ouvio Megára e Salamina,<br>
+E, se não exaggera a voz do vulgo,<br>
+Té na enseada do Pirêo troárão.</p>
+
+<h4>XXV.</h4>
+
+<p class="versos">Em rijo e solto embate retinindo,<br>
+Sabres, espadas, desde a ponta aos copos,<br>
+Gotejão sangue; mas entrados forão<br>
+Os muros já, e eis principia o saque,<br>
+E apóz elle a feroz carnificina.<br>
+Rompe dos edificios depredados<br>
+Medonha confusão de agudos gritos:<br>
+Escuta quão velozes na fugida<br>
+Vão pés escorregando em quente sangue,<br>
+Que as ruas deixou lúbricas: no em tanto<br>
+Aqui e além, onde o terreno offreça<br>
+Contra o fero invasor qualquer vantagem,<br>
+Onde algum lanço de parede ou muro<br>
+Lhes proteger as costas, então elles,<br>
+Aos dez, aos doze, em mal parados grupos,<br>
+Logo alli fazem alto,&mdash;alli renovão<br>
+Desesperada briga audazes, firmes,<br>
+Ou co'as armas na mão perecem todos.<br>
+Eis a pé firme um ancião lá surge;&mdash;<br>
+De cãs lhe alveja povoada a fronte;<br>
+Porém vigor pujante lhe robora<br>
+O veterano pulso: não se altera<span class="pn">{32}</span><br>
+Seu bisarro denôdo, entre o bulicio<br>
+Do revôlto brigar; tem por trincheira<br>
+Semicirculo espêsso d'inimigos,<br>
+Que hoje uns sobre outros apinhava mortos;<br>
+Ferve em dura peleja não ferido,<br>
+E sabe retirar-se não cercado.<br>
+Sob a loriga refulgente esconde<br>
+Dos certames d'outr'ora as cicatrizes<br>
+Innumeraveis; que de toda a especie,<br>
+E o corpo inteiro lhe crivárão golpes.<br>
+Em despeito d'aquella ancianidade,<br>
+É de tão ferreos membros, que difficil<br>
+Fôra d'igual jaêz achar-se um môço:<br>
+E os inimigos, que empatados tinha,<br>
+Pullulavão-lhe alli mais numerosos<br>
+Que as prateadas cãs da fronte altiva;<br>
+Mas apoucando-os vai a forte dextra.<br>
+Muitas mãis Othomanas pranteárão<br>
+Filhos que, quando pela vez primeira<br>
+Elle a espada tingio em sangue Turco,<br>
+Inda não erão nados, e hoje expirão<br>
+Antes de perfazerem lustros quatro.<br>
+Bem poderá elle ser o avô de quantos<br>
+N'este dia immolou ás iras suas:<br>
+Vingando um filho que perdêra ha muito,<br>
+Vai dos contrarios seus matando os filhos:<br>
+E desde quando o desvelado joven,<br>
+Unica prole varonil que tinha,<br>
+<a name="Morreo" id="Morreo" href="#XXV.--">Morreo a combater no undoso
+estreito<br>
+Que d'Asia o chão divide do d'Europa</a>,<br>
+Logo o pai prometteo sacrificar-lhe<span class="pn">{33}</span><br>
+Sanguinosa hecatombe d'inimigos,<br>
+Ceifada ao golpear do ferreo braço.<br>
+Se o morticinio pacifica as sombras,<br>
+Nem mesmo de Patroclo aos manes coube<br>
+Júbilo igual ao que sentir devião<br>
+Os do joven Minotti. Sepultado<br>
+Ficou seu corpo nas oppostas praias,<br>
+E ora privados de sepulcro n'estas<br>
+Cá ficão mil para milhares d'annos.<br>
+Qual d'elles escapou que referisse<br>
+Como os outros morrêrão, e onde jazem?<br>
+Lousa nenhuma os cobre, não lhes guarda<br>
+Nenhum tumulo as cinzas: entretanto<br>
+Vivem e vivirão no immortal plectro.</p>
+
+<h4>XXVI.</h4>
+
+<p class="versos">Qual clamoroso <em>Allah!</em>&mdash;um terço avança<br>
+De tropa Musulmana a mais affouta,<br>
+E de pulso melhor: vai-lhe na frente,<br>
+Nervoso, nu té o hombro, e em moto ondeante<br>
+Brandindo o ferro, e sobranceiro a todos,<br>
+Do commandante o braço, que expedito<br>
+Sabe ferir, e perdoar não sabe.&mdash;<br>
+Outros embora em mais pomposo traje,<br>
+D'espolio ao inimigo a sêde ateem;<br>
+Sejão embora muitos os que empunhão<br>
+D'aureo lavor custosas cimitarras,<br>
+Que de nenhuma escorre tanto sangue;<br>
+Ostentem muitos adornada a fronte<br>
+De turbantes mais altos, mais airosos;&mdash;<span class="pn">{34}</span><br>
+Alp é só conhecido por aquelle<br>
+Braço nu, que branqueja levantado.<br>
+Ei-lo campea onde mais arde a briga!<br>
+Não se arvorou pendão sobre estas praias<br>
+Que mais destro as fileiras anteceda;<br>
+Jámais, durante a Musulmana guerra,<br>
+Se despregou bandeira que attrahisse<br>
+De tão longe os Delhís: sempre o distinguem<br>
+A lampejar como cadente estrêlla!<br>
+Onde quer que este braço prepotente<br>
+Uma vez se mostrou, logo os mais bravos<br>
+Surdem todos alli, ou tarde chegão;<br>
+Alli quartel o ignavo em vãos clamores<br>
+Ao vingativo Tartaro supplica;<br>
+Alli o heróe, no chão deitado e mudo,<br>
+Nem quer que quando morre um ai lhe escape,<br>
+E inda com tibio golpe derradeiro<br>
+Invade o antagonista, que não menos<br>
+A par de si prostrou; e bem que expire<br>
+Tão alquebrado das feridas mutuas,<br>
+Raivando afferra o ensanguentado sólo.</p>
+
+<h4>XXVII.</h4>
+
+<p class="versos">O ancião, persistindo inabalavel,<br>
+Oppôr consegue momentaneo estôrvo<br>
+D'Alp á carreira atroz.&mdash;"Cede, Minotti:<br>
+Salva todos os teus, attende á filha."<br>
+&mdash;"Nunca o verás, vil renegado, nunca!<br>
+Nem tinha eu de annuir inda que fosse<br>
+Vida eterna essa vida que me off'reces."<span class="pn">{35}</span><br>
+&mdash;"E Francina!&mdash;e a futura minha noiva!<br>
+Queres, assim teimoso resistindo,<br>
+Ser tambem causador da morte d'ella?"<br>
+&mdash;"Ella está mui a salvo."&mdash;"Onde? em que sitios?"<br>
+&mdash;"No Ceo, d'onde banida para sempre<br>
+Foi tu'alma aleivosa,&mdash;e onde Francina<br>
+Vive longe de ti, vive sem mancha."<br>
+Alp, a taes vozes, titubante, anciado,<br>
+Fica não d'outra sorte que se o peito<br>
+Lhe traspassasse truculento golpe;<br>
+E de Minotti despontou nos labios<br>
+Irónico sorriso de vingança.</p>
+
+<p class="versos">"Oh Deos! quando expirou?"&mdash;"Inda esta noite;<br>
+Mas do espirito seu não choro a ausencia,<br>
+Antes fólgo de ver que cá não deixo<br>
+D'esta minha linhagem nobre e pura<br>
+Ninguem que haja de ser misero escravo<br>
+De Mafamede ou teu. Anda, acommette!"<br>
+Baldado desafio! Alp é já morto.<br>
+Ao tempo que Minotti lhe vertia<br>
+N'aquellas expressões criminadoras<br>
+Todo o fel da vingança, e que mais cruas<br>
+Que a propria ponta de buído alfange<br>
+Ellas varavão Alp, eis vôa o golpe<br>
+D'um templo não distante, defendido<br>
+Com incriveis primores de firmeza<br>
+Por esse dos Christãos ultimo resto,<br>
+Que tão minguado e d'esperança exhausto,<br>
+Inda de lá fazia esforços grandes<span class="pn">{36}</span><br>
+Para o combate restaurar fallido:<br>
+E antes de descobrir d'onde assestada<br>
+Lhe foi a lethal bala sibilante,<br>
+Alp o cerebro tem varado d'ella,<br>
+E voltea, e vacilla, e cahe por terra:<br>
+Lampejou-lhe ante os olhos clarão debil,<br>
+Quando vergou para não mais erguer-se,<br>
+Ficando apenas palpitante tronco,<br>
+Que ei-lo envolvido jaz na noite eterna.<br>
+N'elle indicio não ha que vida inculque,<br>
+Salvo o tremor dos membros onde o tiro<br>
+Deixou menor estrago. A ponto acodem,<br>
+E de costas o estendem: rosto e peito<br>
+Lhe estão manchados de poeira e sangue,<br>
+E jorra-lhe da boca o vital fluido,<br>
+Que as cavernosas veias desampara;<br>
+Mas não lateja o pulso, não se escuta<br>
+Nos labios murmurar-lhe o arranco extremo;<br>
+Nem sequer um suspiro, uma palavra,<br>
+Um penoso arquejar, lhe assignalárão<br>
+O transito fatal da vida á morte.<br>
+Antes que o pensamento levantasse<br>
+Em súpplica contrita, réo nefando,<br>
+Se apresenta aos umbraes da eternidade,<br>
+Sem que ao perdão celeste aspirar possa,<br>
+E na vida e na morte&mdash;Renegado.</p>
+
+<h4>XXVIII.</h4>
+
+<p class="versos">Então d'um lado e d'outro aos ares sobe<br>
+Espantoso alarido retumbante:<span class="pn">{37}</span><br>
+Aqui, de regozijo; além, de raiva.<br>
+Eis de novo travadas em conflicto<br>
+Espadas de Christãos e Turcas lanças<br>
+Embatem com furor, mutuão golpes,<br>
+Estendendo no pó guerreiros muitos.<br>
+Ousa, de rua em rua e passo a passo,<br>
+Minotti disputar aos inimigos<br>
+Qualquer porção restante do terreno<br>
+Que ao seu bravo commando fôra entregue:<br>
+Ao lado, a reforçar-lhe audacia e pulso,<br>
+As sobras tem da guarnição briosa.<br>
+Resistencia tenaz off'rece o templo,<br>
+D'onde predestinada veio a bala<br>
+Que em grande parte despicou Corintho,<br>
+Morto Alp, o mais feroz de seus contrarios<br>
+Para alli recuando sem desvio,<br>
+Deixando diante ensanguentado rasto,<br>
+E os inimigos encarando sempre,<br>
+E nunca sem matar vibrando um golpe,<br>
+O chefe e o seu cortejo, em retirada,<br>
+Conseguem reunir-se aos que occupavão<br>
+A sacra estancia: no recinto d'ella<br>
+Inda lhes cabe respirar um pouco,<br>
+Das maciças paredes escudados.</p>
+
+<h4>XXIX.</h4>
+
+<p class="versos">Remanso bem mesquinho! Os Musulmanos,<br>
+De pujante refôrço abastecidos,<br>
+Borbotando furores e ufania,<br>
+Tão cerrados, tão férvidos avanção,<span class="pn">{38}</span><br>
+Que o número lhes tolhe a retirada:<br>
+Dest'arte se atravancão no caminho<br>
+Que vai ao templo, onde os Christãos não sabem<br>
+O que é render-se; e os batalhões infestos<br>
+Tanto apinhão-se á frente, que, inda quando<br>
+Lavrasse o susto alli, nenhum podéra<br>
+Por entre as fortes massas escoar-se:<br>
+Ou vencer ou morrer lhes era fôrça.<br>
+Morrem; mas sobre os corpos palpitantes<br>
+Lhes surgem de repente os vingadores.<br>
+Que, frescos e raivosos pullulando,<br>
+As filas, sempre rôtas, enchem sempre;<br>
+E os Christãos affadigão, extenuão,<br>
+Violentas amiudando as investidas:<br>
+E ei-los agora os Infieis assomão<br>
+Junto ao sacro portal. Por longo espaço<br>
+A ferrea contextura inda resiste,<br>
+Inda de cada fresta vôão tiros,<br>
+Todos bem assestados, mortaes todos;<br>
+E de cada janella se desatão<br>
+Em chuveiro as sulfureas alcanzias.<br>
+Mas já fraqueão as nutantes portas&mdash;<br>
+Vérgão rangendo os quicios, cede o ferro,&mdash;<br>
+Lá pendem&mdash;lá se abatem já cahírão:<br>
+Não mais resistirá, morreo Corintho!</p>
+
+<h4>XXX.</h4>
+
+<p class="versos">Soturno, sem que o vejão, só comsigo,<br>
+Ao altar arrimado está Minotti.<br>
+D'um painel sobranceiro, a Virgem santa<span class="pn">{39}</span><br>
+O affavel rosto fúlgido lhe volve,<br>
+Transumpto de celeste colorido,<br>
+Onde os olhos são luz, amor o aspecto;<br>
+E na ara collocado a fim que possa<br>
+Dos humanos fixar o pensamento<br>
+Sobre as cousas do Ceo, quando elles orão<br>
+Devotos, genuflexos ante a imagem<br>
+D'esta Mãi admiravel, que em seu gremio<br>
+Sustem e affaga o Redemptor-menino,<br>
+E com sorrisos acolhendo meigos<br>
+Uma por uma as fervorosas preces,<br>
+Como que ao Ceo de transferi-las cuida.<br>
+Sorrindo sempre, inda sorrí agora,<br>
+Em despeito da atroz carnificina,<br>
+Do sangue em jôrros que deturpa as naves.<br>
+Eleva então Minotti os olhos lassos,<br>
+E, exhalando um suspiro, se persigna;<br>
+Logo alli d'uma tocha que era accesa<br>
+Ei-lo se apossa, e permanece firme,<br>
+Em quanto os Musulmanos irruindo,<br>
+Desenvolvendo á larga ferro e fogo,<br>
+Hórridos enchem a mansão sagrada.</p>
+
+<h4>XXXI.</h4>
+
+<p class="versos">Sob a lagem que o vasto pavimento<br>
+Recompunha em mosaico variada,<br>
+Subterraneas abobadas se arqueão.<br>
+Jazigo aos mortos das passadas eras:<br>
+Em memorandas lápidas incisos<br>
+Lião-se os nomes seus, que ler não deixa<span class="pn">{40}</span><br>
+Ora o sangue que os cobre: aqui não menos<br>
+Vião-se, honrando as cinzas, esculpidos<br>
+Timbres, emblemas de lavor prestante,<br>
+Marmores luzidíos, de vistosas<br>
+Multicolores veias serpeados,&mdash;<br>
+Que, sórdidos já hoje, se baralhão<br>
+Com fragmentos d'espadas, de montantes.<br>
+Com morriões e arnezes abolados,<br>
+Confuso mixto que por cima avulta<br>
+D'innumeraveis ataúdes, onde<br>
+Enfileirados os defunctos dormem:<br>
+Podes vê-los em lugubre apparato,<br>
+Ao macilento albor que inda os visita<br>
+Por fisgas breves de sombrias grades.<br>
+Mas nem por isso desistio a Guerra<br>
+D'entrar por estas lobregas cavernas,<br>
+Com tórva profusão disseminando<br>
+Das sepulcraes abobadas ao longo<br>
+Seus thesouros sulfureos, que se elevão<br>
+Empilhados em massas volumosas<br>
+Junto dos resequidos esqueletos.<br>
+Aqui, durante o cêrco, havião feito<br>
+Seu paiol os Christãos: longo rastrilho,<br>
+Desde agora entornado, se encaminha<br>
+Do templo a estes sitios; e eis o extremo<br>
+Recurso inabalavel de Minotti<br>
+Contra o poder das irruentes turmas.</p>
+
+<h4>XXXII.</h4>
+
+<p class="versos">O inimigo enche tudo; e poucos tentão<span
+class="pn">{41}</span><br>
+Inda arrostá-lo, ou mui de balde o arrostão.<br>
+Elle, á falta de vivos, vai nos mortos<br>
+Saciar da vingança a voraz sêde,<br>
+Que exacerbou-se agora; elle os invade<br>
+Com sacrilegos golpes, e decepa<br>
+Cabeças já finadas, e dos nichos<br>
+As estatuas despenha baqueantes,<br>
+E as aras despe d'oblações opimas,<br>
+E co'as callosas mãos profanadoras<br>
+O argento empolga dos sagrados vasos.<br>
+Chegada apenas a caterva infrene<br>
+Ante o altar principal, detem-se e pasma:<br>
+Oh qual o adorna resplandor pomposo!<br>
+Sobre a pedra lhe surge bem patente<br>
+O consagrado Caliz, ouro estrême,<br>
+Prêsa que enleva os depredantes olhos,<br>
+A fulgurar maciça e ponderosa:<br>
+Hoje conteve o sacrosanto vinho,<br>
+Que Christo em sangue seu mudar dignou-se,<br>
+E com que, ao romper d'alva, os seus cultores,<br>
+Antes de pelejar, fortalecêrão<br>
+As almas ao dever e ao Ceo votadas:<br>
+Inda no fundo remanecem gotas;<br>
+E tambem, circumdando a sacra mesa,<br>
+Em symetria esplendida dispostas,<br>
+Ardem lampadas doze d'ouro fino:<br>
+Este o mais opulento e ultimo espolio.</p>
+
+<h4>XXXIII.</h4>
+
+<p class="versos">Apinhão-se alli todos; e o que estava<span
+class="pn">{42}</span><br>
+Da prêsa mais visinho, faz-se avante,<br>
+E quasi quasi que a empolgava, quando<br>
+O longevo Minotti applica a tocha<br>
+Ao rastrilho fatal;&mdash;ei-lo se inflamma!<br>
+Campanarios, abobadas, altares,<br>
+Espolio, vivos, mortos, moribundos,<br>
+Christãos vencidos, Turcos vencedores,<br>
+E o templo esboroado, e quanto ha n'elle,<br>
+Se ergue aos ares com hórrido rebombo,<br>
+E finda envôlto na explosão terrivel!<br>
+A cidade abalada&mdash;o chão coberto<br>
+D'edificios, de muros demolidos&mdash;<br>
+As ondas que recuão, de assustadas&mdash;<br>
+Os montes, senão rôtos, vacillantes,<br>
+Como se os sacudisse um terremoto&mdash;<br>
+De milhares d'objectos mixto informe<br>
+Que os Ceos toldando vai de fogo e fumo.<br>
+Ao rebentar da horrítona lufada&mdash;<br>
+Não cessão de apregoar que n'estas praias,<br>
+Ha longo tempo, afflictas, terminou-se<br>
+Dos combates o mais desesperado.<br>
+Como accesa em girandolas festivas,<br>
+Lá roça os astros a confusa mole.<br>
+Varões não poucos d'estatura ingente,<br>
+D'apparencia gentil, ora abrasados,<br>
+Curtos como pigmeos, descem dos ares,<br>
+Em torrado carvão juncando a terra.<br>
+Grossa chuva de cinzas se despenha:<br>
+Muitas recebe o golfo, e, ao recebê-las,<br>
+Fórma em tôrno escarcéos, que se desfazem<br>
+N'um progresso de circulos undosos;<span class="pn">{43}</span><br>
+Muitas recebe a praia, e vão, por longe<br>
+Disseminadas, recobrir todo o isthmo:<br>
+São cinzas de Christãos ou d'Othomanos?<br>
+Suas mãis se aproximem, venhão vê-las,<br>
+E digão se as conhecem!&mdash;Por ventura<br>
+Houve alguma de vós, ó desgraçadas,<br>
+Que quando aos peitos lhe pendia o filho,<br>
+Ou no embalado berço o adormentava,<br>
+E, sorrindo d'amor, se comprazia<br>
+N'aquelle brando repousar donoso,<br>
+Ai! houve alguma então que nem por sombras<br>
+Esperasse este dia, ou ver dispersos<br>
+Da cara prole os lacerados membros?<br>
+Nem sequer, nem sequer as extremosas<br>
+Matronas que no ventre os alojárão<br>
+Estremar sabem os nascidos d'ellas;<br>
+Um só momento lhes tirou de todo<br>
+Fórma e semblante d'homens; resta apenas<br>
+Algum disperso pericraneo ou osso.<br>
+Barrotes, vigas flammejantes descem,<br>
+E em redor se derramão; vem cahindo<br>
+Engastadas em barro infindas lagens,<br>
+Que o sólo opprimem fumegantes, negras.<br>
+Todo o vivente a quem troou no ouvido<br>
+O abalo estragador, pregão de morte,<br>
+Ou jazeo ou sumio-se: espavoridas<br>
+O vôo affastão carniceiras aves;<br>
+Bravíos cães vão-se arredando em uivos,<br>
+Nem se lhes dá dos insepultos mortos;<br>
+O camelo as prisões deixou quebradas;<br>
+O touro, ao longe, se desfez do jugo;<span class="pn">{44}</span><br>
+O corsel, que o fragor ouvio de perto,<br>
+Rompendo a silha, espedaçando as redeas,<br>
+A galope alongou-se pelo plaino;<br>
+As incolas dos charcos lutulentos,<br>
+Alçando a boca sobremodo aberta,<br>
+Clamor soltárão importuno em dôbro;<br>
+Uivárão pelas furnas das montanhas<br>
+Os lobos, quando alli a trovoada<br>
+Em écos retroou; lá mui distantes,<br>
+As alcatéas dos jakaes bramírão<br>
+Com mixto som, que, lamentoso e agudo,<br>
+Ora imitava criancinha em chóros,<br>
+Ora lebréo ganindo fustigado:<br>
+Esbaforida accelerando os vôos,<br>
+A aguia desamparou a rocha alpestre,<br>
+Onde aquecia o ninho, e remontou-se<br>
+Mais proxima do sol, achando crassas<br>
+Em demasia as sotopostas nuvens,<br>
+Que vinhão, d'atro fumo conglobadas,<br>
+Roçar-lhe o bico amedrontado, hiante,<br>
+Mais e mais excitando-a a sublimar-se,<br>
+E o grito a reforçar.&mdash;Eis de qual modo<br>
+Conquistada e perdida foi Corintho.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM.</p>
+
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{45}</span></p>
+
+<h1>NOTAS ABREVIADAS.</h1>
+
+<p><span class="pn">{46}<br>{47}</span></p>
+
+<h2>NOTAS ABREVIADAS.</h2>
+
+<h3><a name="II.--" id="II.--" href="#Dando">II.&mdash;<em>vers.</em> 14.</a></h3>
+
+<p class="versos">Dando de mão á grei, o Turcomano<br>
+Prestes unio ao lado a cimitarra.</p>
+
+<p>Domiciliados debaixo de tendas, vivem estes povos uma vida patriarcal.</p>
+
+<h3><a name="V.--" id="V.--" href="#Coumourgi">V.&mdash;<em>vers.</em> 1.</a></h3>
+
+<p class="versos">Coumourgi&mdash;aquelle etc.</p>
+
+<p>Ali Coumourgi, valido de tres sultões, e grão visir de Achmet III, havendo
+retomado em uma só campanha o Peloponeso aos Venezianos, foi, no seguinte anno,
+mortalmente ferido na batalha de Peterwaradin, quando forcejava para reunir
+suas tropas.</p>
+
+<h3><a name="XVI.--" id="XVI.--" href="#Coarctados">XVI.&mdash;<em>vers.</em>
+4.</a></h3>
+
+<p class="versos">Coarctados e sem ésto, aquelles mares<br>
+Em moto igual ondeão sempiternos.</p>
+
+<p>É talvez desnecessario recordar ao leitor que o movimento do fluxo não é
+visivel no Mediterraneo.<span class="pn">{48}</span></p>
+
+<h3><a name="Ibi--" id="Ibi--" href="#Ei-los">Ibi&mdash;<em>vers.</em> 42.</a></h3>
+
+<p class="versos">Ei-los que estão da pelle despojando<br>
+Nest'hora um craneo Tartaro, etc.</p>
+
+<p>Este espectaculo, qual o descrevo, foi por mim presenciado sob os muros do
+serralho de Constantinopla; e os cadaveres erão talvez os de alguns Janizaros
+rebeldes.</p>
+
+<h3><a name="Ibi--1" id="Ibi--1" href="#cada">Ibi&mdash;<em>vers.</em> 59.</a></h3>
+
+<p class="versos">E cada pericraneo off'rece a esguia<br>
+Madeixa longa, etc.</p>
+
+<p>Crêm os Musulmanos que o seu Mafôma, no ponto de transferi-los ao Paraiso,
+os tomará por esta madeixa; e, firmados sobre tão supersticioso fundamento, a
+deixão crescer.</p>
+
+<h3><a name="XXI.--" id="XXI.--" href="#Essa">XXI.&mdash;<em>vers.</em> 94.</a></h3>
+
+<p class="versos">Essa nuvem que esconde agora a lua,<br>
+Lá vai passando, etc.</p>
+
+<p>Este pensamento não é original, por quanto deparei com elle na versão
+ingleza de Vathek.</p>
+
+<h3><a name="XXII.--" id="XXII.--" href="#terra">XXII.&mdash;<em>vers.</em>
+11.</a></h3>
+
+<p class="versos">&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash; Da terra prestes<br>
+Descravão-se os pendões equi-caudatos.</p>
+
+<p>De uma cauda de cavallo, fixa no alto de uma lança, são compostos os pendões
+dos Bachás.<span class="pn">{49}</span></p>
+
+<h3><a name="XXV.--" id="XXV.--" href="#Morreo">XXV.&mdash;<em>vers.</em>
+51.</a></h3>
+
+<p class="versos">Morreo a combater no undoso estreito<br>
+Que d'Asia o chão divide do d'Europa.</p>
+
+<p>Na batalha naval que os Venezianos travarão com os Turcos á entrada dos
+Dardanellos.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3>FIM DAS NOTAS.</h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr>
+
+<p>P. S. <em>Escrevemos accentuada e sem</em> h <em>a 3.ª pessoa do singular no
+indicativo presente do verbo substantivo ser, e igualmente sem</em> h <em>o adjectivo
+numeral um, por nos parecerem terminantes as razões em que é fundado este uso.
+Por certo que nem sempre adherimos á opinião de nossos Grammaticos e
+Diccionaristas modernos, com quanto sejão alguns de reconhecida erudição; e em
+meia duzia de paginas, que talvez publicaremos, hão de apparecer indicados os
+pontos e expendidos os motivos d'esta divergência. Pelo que toca á exactidão
+typografica do Poema que apresentamos traduzido, empregou-se ahi mui boa
+diligencia: é pois de presumir que será leve e de facil emenda o defeito que
+ainda remanecer.</em></p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord
+Byron, traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA ***
+
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
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+works. See paragraph 1.E below.
+
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
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+
+ https://www.gutenberg.org
+
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>