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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/33592-0.txt b/33592-0.txt new file mode 100644 index 0000000..14ced64 --- /dev/null +++ b/33592-0.txt @@ -0,0 +1,2040 @@ +The Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, +traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez + +Author: George Gordon Byron + +Translator: Henrique Ernesto de Almeida Coutinho + +Release Date: August 31, 2010 [EBook #33592] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: UTF-8 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + Nota de transcrição: + + Foi mantida a grafia usada na edição original de 1839, tendo sido + corrigidos apenas pequenos erros tipográficos evidentes. + + + + + O CERCO DE CORINTHO, + + POEMA + + DE + + LORD BYRON, + + TRADUZIDO EM VERSO PORTUGUEZ, + + POR + + _H. E. A. C._ + + + PORTO. + TYPOGRAPHIA COMMERCIAL PORTUENSE. + LARGO DE S. JOÃO NOVO N. 12. + 1839. + + + + +AO ESTIMAVEL ANONYMO. + + + _Alma prestante, onde reside e impera + O Genio da Amizade, + Que a luminosa esfera + Deixou, para acudir á humanidade, + Sumida em pesadumes e agonias, + Em feia escuridade! + Alma onde o typo eterno não se encobre, + E que, n'estes d'egoismo ferreos dias, + O instante de ser util só vigias, + Sincera, affavel, nobre! + Acceita, em oblação a ti votado, + Ancioso de agradar-te, este traslado._ + + Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho. + + + + +_O TRADUCTOR,_ + + +Para perpetuar a gloria do sublime poeta que tanto enriqueceo a sua +patria e o mundo literario com o preciosissimo cabedal de suas +producções, bastaria esta de que emprehendemos e agora publicamos a +traducção. Sciencia dos tempos e dos costumes, vasta erudição, profundo +conhecimento do homem, variedade e magnificência de quadros, fecunda +elevação de pensamentos, lustre e vigor de poesia, sobresahindo por +effeito da mais acertada e judiciosa distribuição, eis os titulos com +que se engrandece este poema, onde lord Byron não houve mister longo +espaço para mostrar-se, immortal. + +Não é raro tecerem os traductores sobejo encomio ainda a mediocres +originaes, quando com estes despendêrão vigilias e desvelos; mas nem por +isso receamos que, elogiando a lord Byron, nos accusem de +encarecimento ou de leviandade: as suas obras ahi estão bem patentes, e +a sua reputação é já colossal. + +Todavia, notando a mui sincera affeição que consagramos a tão estremado +engenho, ninguem haja de persuadir-se que o avaliamos como isento de +toda a mácula. Por certo que lord Byron era homem, e o fragil da +humanidade transparece em algumas das suas producções, e ás vezes +procura brilhar em detrimento daquella gentil gravidade que mui bem +assenta nas Musas, e sem a qual desmentem ellas a sua origem celeste; +mas de semelhante desar campea livre o poema que apresentamos +traduzido.--Só de passagem mencionaremos um descomedido orgulho +nacional[1], um amor á liberdade, que por vezes degenera +em fanatismo: estes sentimentos os bebeo o poeta com o primeiro alimento +de sua infância, e, quando concentrados em justo limite, são nobres, e +longe estamos de criminá-los. + +Não menos que lord Byron admiramos os grandes capitães Gregos e Romanos; +tambem nas escolas estudamos e traduzimos Nepote, Tacito, Tito-Livio, +&c. Todavia os heróes n'essas historias memorados viverão em tempos mui +diversos dos nossos, e diversissima foi a sua educação fisica e moral: +por tanto o joven enthusiasta hodierno que ambiciona a todo o custo +igualá-los, arrisca-se a cometter mil despropositos, e mesmo a ser +victima inutil de suas desattentadas proezas. Para morrer com gloria no +desfiladeiro de Thermópylas, cumpre, além de haver sido educado em +Esparta, ter á frente um Leonidas. A prudencia de Fabio transtornou os +planos de Annibal e salvou Roma, conseguindo aquillo mesmo que fôra +denegado ás fastuosas e arrogantes ousadias de Sempronio e de Flaminio. +Do sacrificio de Curcio, despenhando-se armado e com seu proprio cavallo +no boqueirão aberto por um terremoto em certa praça de Roma, que +proveito recolhêrão os concidadãos, a patria, ou a especie humana? +Curcio era pois um esquentado enthusiasta, ou antes um orate rematado. É +indubitavel que a cega ambição de figurar com heroismo Grego ou Romano, +associada ao sofrego ardor não sei de que liberdade turbulenta, +insidiosa, desmoralisadora, e de mais pernicioso effeito que qualquer +desmascarada tyrannia, tem excandescido bom numero de cabeças e avultou +de sobejo na mui abalisada revolução de França, que ainda hoje em +sangrentas paginas aterra a humanidade.--Talvez o amor que sempre +tributamos á verdade nos levou em demasia longe; mas como quer que seja, +não cessaremos de confessar que o sublimado engenho de lord Byron nos +penetra de admiração, e deixa, ao menos em nosso alvitre, o homem +justificado pelo poeta. + +Quanto á nossa traducção, sobre diligenciarmos que portugueza fosse, +pozemos todo o cuidado em exprimir com clareza os pensamentos do poeta, +bem como em não deteriorar-lhes a nativa gala, que antes nos parece mais +pomposa n'este nosso fertil e sonoro idioma: entretanto não é por nossa +conta que deve correr a cabal decisão na materia, mas sim por conta de +mais competentes juizes, que, versados nas duas linguas, queirão dar-se +ao trabalho de cotejar o original com a versão. + +Entre os nossos traductores poetas, alguns houve que gemêrão sob a +ferrenha tarefa de traduzir tragedias e longos poemas verso por verso; +mas que resultou de tanta diligencia? o substituirem, pela maior parte, +a versos fluentes e vigorosos uma enfiada de semsaborias, de durezas, de +enigmas, onde a graça e louçania dos originaes degenera em rugosa e +desalinhada velhice. Não negamos que isso tenha cabimento e deva +adoptar-se quando nenhum inconveniente o estorva; porém o verter +affincadamente poemas inteiros verso por verso, é uma curiosidade que em +muitos casos empece á nobre franqueza do estilo, á suavidade do metro, e +ao effeito geral dos quadros poeticos. Estamos persuadidos de que deve o +traductor de um poema ser sempre fiel á quantidade das idéas, não assim +á quantidade dos versos: tal foi o nosso systema de traducção no _Cêrco +de Corintho_. + +Ardua e mui ardua emprêsa é traduzir poetas; bem o sabemos e +experimentamos. Se todavia para traduzir lord Byron de nada mais se +carecesse que de estar profundamente penetrado das extraordinarias e +sublimes bellezas com que este filho da immortalidade abrilhantou suas +obras, então nos lisonjeariamos de apresentar a nossos leitores uma +copia digna do original, e preciosa para elles. + + [1] Este orgulho se deixa ver bem claro no _Childe Harold's + Pilgrimage_, cant. I.º est. 16, onde, entre outros motejos com que o + poeta pertende aviltar os Portuguezes, tambem lhes exprobra o serem + + _A nation swoln with ignorance and pride._ + Nação inflada d'ignorancia e orgulho. + + Quererá isto dizer que a Inglaterra é um paiz todo cheio de sabios, e + onde o orgulho morre de frio, por falta de quem o aquartele? + + + + +O CERCO + +DE + +CORINTHO. + + +I. + +Longo trilho de seculos exhaustos, +Rijas tormentas, bellicos furores, +Infestárão Corintho: ella entretanto +Persiste em pé, e no alteroso alcáçar +Nova conquista á Liberdade off'rece. +Nem bramir de tufões, nem terremotos +O alvejante penhasco lhe abalárão, +Esse lageoso assento, que, em despeito +Da decadencia sua, inda parece +Não sem orgulho contemplar seu cimo; +Esse padrão demarcador erguido +Entre os dous mares, que d'um lado e d'outro +Lhe estão rolando purpurinas ondas, +Que sempre a forcejar por se reunirem, +O acatão sempre, e vem morrer-lhe ás plantas. +Se o sangue n'estes sitios derramado +Desde que n'elles o fraterno sangue +Timoléon vertêra, ou desde quando +Pelo aviltado despota da Persia +Abandonados forão, borbulhasse +Da terra que o bebeo no morticinio, +Este sangrento oceano sepultára +Sob os tremendos escarcéos todo o isthmo: +Ou se podessem amontoar-se os ossos +Dos que alli perecêrão, surgiria +Por entre aquelles ceos abrilhantados +A colossal pyramide espantosa, +Dando rival á Acrópolis, que as nuvens +Se vê roçar co'a torreada fronte. + + +II. + +Eis lanças vinte mil sobre as espaduas +Do nebuloso Citherón fulgurão; +E em toda a planta do isthmo, sobre as duas +Oppostas praias que o ladeão amplas, +Se eleva o pavilhão, brilha o Crescente +Nas federadas linhas Musulmanas; +E o tisnado Spahí desfila em bandos +Á vista dos Bachás amplo-barbados; +E os olhos podem ver ao longo e ao largo +As cohortes cingidas do turbante, +Que o promontorio alastrão, enxameão: +Lá se ajoelhão do Arabe os camelos, +Do Tartaro os ginetes la volteão; +Dando de mão á grei, o Turcomano +Prestes unio ao lado a cimitarra. +Dos bellicos trovões crebro rebombo +Té faz emmudecer, de susto, os mares, +Profunda-se a trincheira, e muito longe +Silvando vôa no pelouro a morte; +Sob o peso da bomba assoladora, +Soltão-se em pulverento remoinho +Os da muralha esboroados lanços; +E, do recinto d'ella, eis o inimigo +Ás do Infiel intimações responde +Com manejo expedito, e fogos destros. +Que vão cruzando os empoeirados plainos, +E os ares que anuvia o fumo em rôlos. + + +III. + +Das muralhas porém o mais visinho +Entre os que punhão peito e mãos á empresa +De as converter em ruina, o mais profundo +Que nenhum dos da prole Musulmana +Nas da guerra artes tétricas, e altivo +Qual nunca o foi assignalado chefe +Colhendo louros em sangrentas lides; +O que voando audaz de posto a posto, +D'um feito a maior feito, se avantaja +Em destro esporear corsel fumante, +Em surdir mais veloz onde arde o p'rigo, +Cada vez que ha sortidas ou assaltos; +E quando a bateria, em mãos valentes, +Resiste inexpugnavel, então mesmo +Com exultante aspecto desmontando +A dar alento, na refrega, aos tibios; +O mais abalisado e o mais recente +Da hoste que lucrou n'estas paragens +Ao sultão de Stamboul renome egregio; +O guia incomparavel em campanhas, +Ou solerte assestando o ferreo tubo, +Ou manejando a temerosa lança, +Ou tufão que rebenta onde ha conflictos,-- +É Alp, o Veneziano renegado! + + +IV. + +O renegado de Veneza!--ah! elle +De vetusta linhagem primorosa +Teve o seu nascimento: todavia, +Desterrado a final do patrio ninho, +Contra os concidadãos tomou as armas, +Em que por elles adestrado fôra; +E orna-lhe a fronte rasa hoje o turbante. +Depois d'eventuaes destinos varios, +Sob a lei que Veneza lhe dictára +Se acolheo, como a Grecia, então Corintho; +E ei-lo que ante seus muros se apresenta, +Inimigo entre os feros inimigos +Da Grecia e de Veneza, e trasbordando +De resentido ardor, qual excandesce +Ao joven convertido a alma orgulhosa, +Onde duestos mil accumulados +Estão sempre em tumulto, e eternos vivem. +Nem por isso com elle quiz Veneza +Desempenhar o civico appellido +Em que firmava o seu brazão = A LIVRE; = +E de São Marcos no palacio excelso, +Delatores incognitos lançárão +Na _Boca do Leão_, durante a noite. +Denuncia atroz de requintados crimes, +Que o cobrião de macula indelével: +Salvou seus dias pressurosa fuga. +Desde esse lance despendia a vida +No meio dos combates, demostrando +Bem claro á patria o que perdeo no alumno +Que contra a Cruz, já supplantada, erguia +O soberbo Crescente, e, guerreando, +Só vingar-se ou morrer buscava ancioso. + + +V. + +Coumourgi--aquelle que impôz termo aos feitos, +O ultimo perecendo, e o mais pujante, +Lá nos de Carlowitz sangrentos plainos, +Sem magoa de morrer, porém, raivoso, +Dos Christãos maldizendo inclitos louros, +E d'Eugenio adornando o grão triunfo; +Coumourgi--e por ventura a gloria d'este +Conquistador da Grecia derradeiro +Poderá perecer, senão surgindo +Braço Christão que restitua á Grecia +Sequer os fóros que gozou outr'ora +Por Veneza outorgados? Elle vinha, +Já depois de volvidos lustros vinte, +Reintegrar a Othomana prepotencia; +E, os veteranos seus pospondo agora, +Para mandar do exercito a vanguarda +Alp escolheo, que a confidencia summa, +Arrazando cidades, lhe pagava, +E mostrando em façanhas destructoras +O seu zeloso affêrro á nova crença. + + +VI. + +A muralha enfraquece: de continuo +As Turcas baterias lhe varejão +O parapeito e ameias; restrugindo, +Sahe de cada canhão a voz do raio: +Aqui flammeja, ao rebentar da bomba, +Crepitante zimborio; além baquea +Este, est'outro edificio derrocado, +Sob o espesso granizo d'estilhaços, +Que em lufadas volcanicas recresce: +Vai resfolgando em rúbidas columnas +Voraz incendio, que tão alto sobe, +Como sobe o fragor da ruina ingente, +Ou solta-se em terrestres meteoros +Que vão no ceo esvaecer-se infindos: +Mais nebuloso, mais impervio o dia +Se torna á luz do sol, co'a mole opaca +Do fumo alçado em tortuosos rôlos, +Que d'enxofrado horror a esfera enlutão. + + +VII. + +Nem sómente ardor cego de vingança, +Que a longa dilação fez mais ferino, +Esporeára esse Alp apostatado +Á adestrar os guerreiros Mahométas +N'arte de abrir a promettida brecha. +D'aquelles muros no recinto havia +Uma donzella, cuja mão formosa +Elle obter pertendia apesar mesmo +Do inexoravel pai, que, furibundo, +Aos rogos lha negou, quando Alp outr'ora, +Chamando-se Lanciotto, o bafejavão +Tempos melhores, mais propicios fados; +E sem nota e sem crime de perfidia, +Aos palacios, ás góndolas levando +Alegria vivaz, se assignalava +Nos Carnavaes, ou resoar fazendo +Sobre aguas do Adria esses descantes meigos +Que alvoroçadas de prazer escutão +Á meia-noite as Italas donzellas. + + +VIII. + +Que do seu coração já possessora +Não fosse a virgem, suspeitavão muitos; +No em tanto d'infinitos requestada, +E a nenhum acolhendo, persistia +De todo o laço conjugal isenta +A juvenil Francina: e desde o instante +Em que das Adriaticas paragens +Se retirou Lanciotto a pagãos climas, +O sorriso expirou nos labios d'ella; +Meditabunda e pallida tornou-se; +Confissões amiudava, e já não era +Tão vista em mascaradas e assembleas; +Ou, se lá ia, os olhos seus descidos +Avassalavão, n'um volver furtivo, +Mil corações de balde suspirosos: +Nenhum objecto contemplava attenta; +Não punha em atavios tanto apuro, +Nem já tão terno desprendia o canto; +Seus passos, bem que leves, o erão menos +Que os dos parceiros seus, a quem na dança +Colhia absortos o raiar d'aurora. + + +IX. + +D'um sólo aos Musulmanos arrancado, +Quando a soberba lhes calcou Sobieski +Ante os muros de Buda, ás margens do Istro; +D'um sólo que depois Veneza altiva +Empolgou com violencia desde Patras +Té a Euboica enseada, o regimento, +Por ordem sup'rior, tomou Minotti; +E de Corintho na torreada estancia +Já elle era do Doge o delegado, +Quando os olhos da Paz fagueiros, pios, +Depois da larga ausencia, confortavão +C'um sorriso dos seus a Grecia sua, +Inda não rôto esse armisticio trêdo +Que ao jugo anti-Christão a subtrahia. +Entrou Minotti alli co'a filha amavel; +E desde o tempo em que a formosa Helena, +Deixando o esposo e a patria, fez ver quantos +D'um illicito amor desastres brotão, +Nunca estas praias adornou belleza +Digna de comparar-se á da estrangeira. + + +X. + +Em crebros boqueirões abre-se o muro; +E sobre as ruinas da alluida mole +Vai, á primeira luz, desenvolver-se +Assalto mais que todos formidando. +Tropas enfileirarão-se; escolhidos +Forão para formar toda a vanguarda +Tartaros e Othomanos; e vós outros, +Flor dos guerreiros, a quem foi sem causa +Imposto o sobrenome de _perdidos_, +E para quem a morte e riso, é jôgo; +Vós, que co'alfange em punho abris caminho, +Ou de vossos cadaveres juncando +A que o braço rompeo vereda honrosa, +Sois marmoreo degráo, por onde affoutos +Os socios trepão,--morrereis mais tarde! + + +XI. + +É meia-noite: a fria lua ostenta +O disco inteiro, e amplo fulgor diffunde +A contrastar co'a sombra das montanhas; +Traja d'azul o mar, d'azul se veste +O firmamento, este suspenso oceano, +Todo cravado d'ilhas que refulgem +Lá tão remotas, com ardor tão vivo: +E quem, quem póde attento contemplá-las, +E repascer depois os olhos tristes +No valle dos mortaes, sem que apeteça +Voar e unir-se para sempre a ellas? +Dormem as ondas, n'uma praia e n'outra, +Placidas e ceruleas como os ares; +Só de leve as areas roça a espuma, +Com murmurinho igual ao d'um regato. +Os ventos se recostão sobre as ondas; +E das hastes ao longo quietas pendem, +Em pregas conchegando-se, as bandeiras, +Que remata arci-fúlgido Crescente. +Nada interrompe esta mudez profunda, +Senão além a voz da sentinella +Reproduzindo a senha, ou lá mais longe +Relincho de corseis agudo e crebro, +Ou écos que respondem dos outeiros, +Ou da hoste bravia o rumor vasto, +Que semelhante ao de agitadas folhas +Alongando-se vai de praia a praia, +Ou preces usuaes que á meia-noite +Levanta o Muezzin, rasgando os ares +Co'a lamentosa garganteada lôa, +Qual 'spirito que vaga na planicie: +Melódicos accentos, mas prantivos, +Quaes os produz o vento, que, passando, +Encontra as cordas de sonoras harpas, +E extrahe descompassadas harmonias, +Que não conhece o menestrel mundano. +Este som se affigura aos sitiados +Grito agoureiro da infallivel queda; +Elle fere no ouvido aos sitiadores +Como indicio aziago e pavoroso, +Repentina toada indefinivel, +Que os corações lhes paralisa agora, +E logo os faz pulsar mui apressados, +Co'a vergonha de haver surdido n'elles +Tão desusada sensação furtiva: +Dest'arte o sino apregoador da morte +Nos sobresalta de repente ouvido, +Inda que seja em funeral d'estranhos. + + +XII. + +Calou-se o som, a rogativa é finda; +As sentinellas em seus postos velão; +Foi a nocturna ronda percorrida, +E em tudo as ordens satisfeitas todas. +Tem Alp o seu tentorio sobre a praia, +E em ancias vai curtir inda esta noite; +Mas bem póde a manhã suavisá-las, +Na fruição das vantagens tão copiosas +Com que o amor e a vingança hão de reunidos +Demora indemnisar tão prolongada. +Horas poucas lhe restão, e carece +De repousar, por que expedito esteja +Ás proezas da crástina matança: +Mas baralhados, quaes estuantes vagas, +Os pensamentos lhe reluctão n'alma. +Sem repouso e só elle em todo o campo; +Nem sente o coração entumecer-lhe +Fanatica vangloria blasonante +De ver pelo Crescente a Cruz calcada, +Ou de vender seus dias mui baratos, +Seguro de gozar no paraiso +O sempiterno amor das Houris bellas; +Nem se sente abrazar d'aquelle austero +Patriotico ardor que de bom grado +Supporta árduas fadigas, verte o sangue. +Quando peleja sobre o chão nativo, +Elle não era mais--que um renegado. +Ora verdugo da trahida patria; +Elle não era mais que um peito forte, +Um braço acreditado entre o seu bando. +Seguião-no, por que era valeroso, +E já lhes grangeára espolio grande; +Davão-lhe acatamento, por ver quanto +Elle sabia captivar do vulgo +As vontades, e arteiro dispôr d'ellas: +Mas nem por isso lhe entejavão menos +O Christão nascimento: inveja influe-lhes +A propria fama atreiçoadora que elle +Ganhára sob um nome Musulmano: +De qualquer modo, esse esforçado chefe +Vil Nazareno foi na juventude. +Não lhes era sabido té que ponto +É capaz de curvar-se o orgulho, quando +Murcho e aviltado o pundonor baquea; +Não lhes era sabido quão violenta +Chamma voraz em corações se accende +Que de meigos tornarão-se bravios; +Ignoravão qual zêlo de vinganças +Refalsado e fatal se gera e cresce +D'um convertido n'alma. Elle os regia: +Póde um homem reger outros peores, +E de ser o primeiro gloriar-se. +Taes os leões sobre o jakal dominão: +Destro o jakal espia e abate a prêsa; +Mas, no apertão da rugidora turba, +Da-se por pago, se devora os restos. + + +XIII. + +A cabeça lhe ferve, e apressuradas +As arterias palpitão-lhe convulsas; +D'um lado e d'outro volta-se, baldando +Modos de repousar; e se dormita, +O som mais leve, o mais pequeno abalo +Prestes o acordão angustiado em dôbro. +A fronte excandescida lhe molesta +Hoje o turbante, e, nem que plumbea fosse, +A loriga lhe pesa sobre o peito, +Se bem que tanta vez, e a somno solto, +Sob esse mesmo pêso repousasse, +Tendo apenas por leito um chão saibroso, +E por docel o firmamento apenas, +Leito e docel quaes ao guerreiro a noite +Agora os deparou. Elle nem póde +No seu tentorio adormecer, nem quieto +Esperar que desponte a luz diurna, +E eis vaga ao longo da arenosa praia, +Alastrada de tantos que repousão. +Quem os acalentou? e por que causa +Ha de elle só velar, despossuido +D'um bem que logrão rasos subalternos, +A quem cabe arrostar maiores p'rigos, +E lidas superar mais affanosas? +Mas ah! que um sonho animador lhes pinta +Os lucros todos do futuro espolio; +E em quanto mil e mil passão dormindo +Esta que a noite extrema é talvez d'elles, +Alp, em vigilia atroz, vaguea anciado, +E lhe é alvo d'invejas quanto encontra. + + +XIV. + +Vai na aprazivel fresquidão da noite +Achando refrigerio ás ancias d'alma. +Relentoso ora o ceo, bem que tranquillo, +As affogueadas faces lhe aspergia +Com brando orvalho. Apóz lhe fica o campo; +De fronte lhe serpea, derramado +Em crebros surgidouros e enseadas, +O golfo de Lepanto; está-lhe á vista +A de Delphos montanha sempiterna, +Onde os gêlos accrescem, brilhão, durão, +De mil estios affrontando a ardencia, +Campeando no golfo, e serro, e clima, +Sem que os dissolva, como a nós, o Tempo. +Desapparecem o tyranno e o servo, +Improprios a aguantar fulgente raio; +Mas este véo deslumbrador e fragil, +De que vês envolvido o monte excelso, +Quando torres baqueão, jazem troncos, +Lá brilha sempre no empinado alcáçar; +Pileo na fórma, nuvem no elevado, +Na côr e na amplidão lançol funereo, +Erguido a designar que a Liberdade +Se ausentou da mimosa estancia sua, +E hoje languida jaz no mesmo sólo, +Onde foi largos tempos escutado +Seu profetico ardor em aureos versos. +Oh! que de quando em quando inda lá sôão +Os passos seus sobre arescentes campos, +Sobre tantos altares demolidos; +E ella, um a um mostrando aquelles restos +Abonadores da passada gloria, +Alentar busca os animos prostrados: +Porém de balde bradará, em quanto +Não despontar n'um coração preclaro +Destimidez possante, toda accesa +Ao clarão d'esses dias que luzírão +Sobre a fuga do Persa, e que risonhos +O intérito arrostárão do Espartano. + + +XV. + +Inda que fugitivo e criminoso, +Alp admirava as inclitas virtudes +D'esses tempos heroicos; e esta noite, +Em quanto vagueava, e na memoria +O presente e o passado revolvia, +Apreciando as mortes gloriosas +Dos que em defensa da genuina causa +Seu sangue alli vertêrão, mui bem sente +A que ponto é fallaz, mesquinha, obscura +Quanta fama lucrou d'um bando á frente, +E, nefario traidor, brandindo a espada +Entre as turmas cingidas do turbante, +Que raivoso guiára a injusto assedio. +Onde era em cada prospero successo +Não menos computado um sacrilegio. +Taes não lhe mostra a fantasia os chefes, +Por quem aquelle pó que o circumdava +Fôra illustrado, e que as phalanges suas +Perfilavão no plaino, não de balde +Então de baluartes guarnecido. +Estes morrêrão escudando a patria, +E eternos vivem no fulgor da gloria: +Suspirar-lhes alli os nomes gratos +Inda parece a brisa; alli seus feitos +Sôão no murmurinho das correntes; +Povôa seu renome aquelles campos; +O pilar taciturno, ermo, alvacento, +Demanda aos sacros vultos alliar-se; +Os espiritos seus em tôrno girão +Dos fuscos serros; a memoria sua +Toda se espelha no cristal das fontes; +O arroio humilde, o caudaloso rio +Perennes fluem co'a perenne fama +Dos estremados campeões sublimes. +Por mais que a opprima um jugo, é esta sempre +A patria d'elles, e a mansão da gloria! +A Grecia!--ha de levar sempre este nome +Um som despertador ao Mundo inteiro. +Varão que aspira a perpetrar façanhas, +Lá põem na Grecia o fito, e abjura as normas +Que sómente os tyrannos sanccionárão; +Para lá olha, e se arremessa aonde +Conquiste a Liberdade, ou deixe a vida. + + +XVI. + +Sempre assim meditando silencioso, +Alp ao longo da praia os passos move, +E com brando rocio a noite o ameiga. +Coarctados e sem ésto, aquelles mares +Em moto igual ondeão sempiternos, +E a vaga que possuem mais furiosa +Nem um quarto de geira ao sólo invade; +E ou se mostre, ou se esconda, ou mude as phases, +Não tem sobre elles influencia a lua: +Mansos, tumentes, no alto, na enseada, +Do dominio lunar se movem francos. +O escolho immovel, descobrindo a base, +Olha ao largo, e de balde espera as ondas: +Póde ver-se a que o cinge espumea linha, +Que em baixo lhe traçou a mão dos évos. +Um pequeno areal loureja plaino +Entre o salgado leito e o chão relvoso. +Pela marina margem vagabundo, +Eis Alp assoma dos sitiados muros +Desviado não mais que quanto alcança +Um tiro de clavina. Como é crivel +Que alli não fosse visto, ou que evitasse +O golpe hostil? Entre os Christãos acaso +Remanecem traidores encobertos? +Qual torpor lhes vincula as mãos agora? +Qual gêlo os corações lhes paralisa? +Tal brandura elle estranha; mas é certo +Que de nenhum dos lanços lá do muro +Escorva reluzio, sibilou bala, +Se bem que tão de baixo agora avulte +Dos bastiões minaces que flanqueão +Essa porta, resguardo da cidade +Pela banda do mar; se bem que possa +Quasi as palavras distinguir ferrenhas, +E os passos numerar da sentinella, +Que sôão, indo e vindo compassados, +Pela extensão da sotoposta lagem. +Nem os cães, de occupados, lhe latírão! +E, magros e famélicos rosnando, +Os vê sob a muralha dar-se ao bôdo +De sangrentos cadaveres e ossadas: +Ei-los que estão da pelle despojando +Nest'hora um craneo Tartaro, bem como +Nós despojamos o recente figo; +E alvejantes lhes rangem os colmilhos +Sobre a caveira que inda mais alveja, +E que dos queixos lhes resvala, quando +Embotados os deixa o roer crebro; +Mas vão moendo de vagar os ossos, +Se um acaso permitte que não achem +Sobre aquelle torrão melhor sustento. +Seu antigo jejum quebrou-se á larga +Nos guerreiros que alli perdendo a vida, +Lhes são manjar em refeição nocturna. +Pelos turbantes sobre a aréa esparsos, +Alp a flor do seu bando reconhece; +Bem nota o verde, o carmesim das telas +Com que cingião por costume a fronte; +E cada pericraneo off'rece a esguia +Madeixa longa, e no demais é raso. +Os pericraneos jazem na guela +Feroz dos cães, ao passo que a madeixa +Se lhes enreda em volta das queixadas. +Lá se vê mais além, do golfo á orla, +Sofrego abutre contender c'um lobo, +Que, das montanhas a prear baixando, +Era alli solitario, e não ousava, +Dos cães espavorido, tomar parte +No amplo repasto das humanas carnes; +Mas engole a ração que lhe coubera +D'um corsel debicado já das aves, +Que da enseada no areal jazia. + + +XVII. + +De tão feio espectaculo insoffrivel +Arreda os olhos Alp: elle em conflictos +O que era estremecer não soube nunca; +Porém não é tão arduo, tão penoso +Olhar ao que estendido se revolve +Do proprio sangue em fumegante lago, +E arqueja entregue á insaturavel sêde +E ao vasquejar da morte, quanto é vê-lo +Depois que pereceo, e é só cadaver. +No momento fatal, um certo orgulho +Se desenvolve n'alma do soldado, +Lhe adoça o fim cruento: se fenece, +Espera reviver na voz da Fama, +Ficar bemquisto á Honra, que tem sempre +Os olhos fitos no que morre affouto! +Mas quando em fim s'esvaeceo tudo isto, +Bem misero se sente quem percorre +Campo alastrado d'insepultos mortos. +Ao ver como da terra surde o verme, +Deixa o bruto as florestas, a ave desce, +E alli affluem, demandando no homem +Todos quinhoar prêsa, e achando todos +O lucro seu na decadencia d'elle. + + +XVIII. + +Alli se via derrocado templo: +São cinza e longo olvido as mãos que o erguêrão. +Inda algumas columnas, e dispersos +De marmore e granito mil fragmentos +O sólo opprimem, recobertos d'herva. +Inexoravel Tempo! e nunca inteiras +Deixarás ao porvir obras passadas! +Inexoravel Tempo! e has de tu sempre +Querer que do passado fique apenas +Aquillo que o presente affligir deve; +E assim fazer-nos dolorosa a imagem +Do que já foi, do que ha de ser um dia! +Bem como nós, verão nossos vindouros, +Em reliquias d'antigos monumentos, +Só pedras que exalçou o homem de barro! + + +XIX. + +Ao pé d'uma columna Alp eis se assenta: +Co'a mão comprime a face, e o corpo inclina +Como quem se resente acabrunhado +D'aterradores pensamentos tetros; +A cabeça descahe-lhe sobre o peito +Excandescido, palpitante, oppresso; +Girão-lhe pela fronte debruçada +Os dedos velocissimos, bem como +Pelo eburneo teclado os dedos girão +De primoroso artista, que em preludios +Por ora se entretem, da escôlha incerto. +Vergando assim ao pesadume infenso, +Crê que ouvio suspirar nocturna brisa. +Acaso em lagens concavas murmura +Gemido terno de macias auras? +Ergue então a cabeça, e o mar observa;-- +Repousa o mar, qual cristalino espelho: +Contempla esguias hervas;--nada as move: +D'onde procederia o som mavioso? +Repara nas bandeiras;--quietos pendem +No alto do Citherón, quaes os deixára, +Inda os hasteados pannos; leve aragem +Nem sequer lhe roçou a téz do rosto: +Qual do imprevisto murmurinho a causa? +Volve-se ao lado esquerdo:--será isto +Illusão ou verdade? Ante seus olhos +Eis joven dama refulgente assoma! + + +XX. + +Se Alp então visse um inimigo armado +Surgir-lhe face a face, não se erguêra +Tão abalado de profundo assombro. +"Deos de meus pais! que vejo? quem es? como +D'hostís fileiras te aproximas tanto?" +A mão tremente lhe recusa agora +Estampar sobre a fronte essa Cruz mesma +Que elle tanto insultou; mas n'este lance +Se persignára, se a consciencia sua +Lhe não fizesse ver quanto era indigno. +Repara, observa a fundo, e reconhece +O rosto bello, as engraçadas fórmas: +É Francina, essa virgem suspirada +Que elle a si pertendia unir consorte! +Inda nas faces lhe viceja a rosa, +Porém a rubra côr é menos viva. +Que é do attractivo d'esses labios meigos? +Não mora n'elles o sorrir donoso +Que ao rubim dava esmalte. Inda em seus olhos +Reside o azul do socegado oceano; +Mas se no aspecto bonançoso o imitão, +Também o imitão na frieza immovel. +Talhe accusão gentil vestes ligeiras; +Nada lhe vela o seio luminoso; +Soltas d'ebano as tranças, ver não tolhem, +Por entre a chuva dos anneis ondeantes, +Nivea nudez dos torneados braços. +Levanta ao alto a mão antes que falle; +E de tal modo branca e transparente +Se mostrava essa mão, que poderieis +Ver por entre ella rutilar a lua. + + +XXI. + +"O repouso deixei, a fim sómente +De vir ao meu amado, e de fazê-lo +Feliz commigo, e ser feliz com elle. +Por teu respeito entre inimigas turmas +Eis movo os passos, e transpuz a salvo +Muralhas, portas, sentinellas, tudo. +Uma joven donzella, em todo o brio +Da nativa pureza, ha quem affirme +Que dos proprios leões é respeitada: +E o superno Poder que ao innocente +Escuda contra o despota dos bosques, +Se encarregou tambem de defender-me +Do insulto d'infieis confederados; +E vim:--se vim de balde, oh! vê que nunca, +Nunca mais tornaremos a encontrar-nos! +Sei que, abjurando de teus pais a crença, +Es réo de crime hediondo; todavia +Lança por terra esse turbante, e imprime +Sobre a fronte o da Cruz signal divino, +E eu de ti folgue na perpetua posse. +Eia, o negro labéo expelle d'alma; +E pois havemos ámanhã de unir-nos, +Não queiras para sempre separar-nos." + +"E ao tóro nupcial onde acharemos +O apetecido espaço? póde havê-lo +Entre montões de mortos e expirantes? +Os Christãos, seus altares, quanto é d'elles, +Ha de o ferro ámanhã unido á chamma +Tudo, tudo extinguir: nenhum mais deve, +Senão es tu e os teus, ver nova aurora; +Que eu assim o jurei. Mas ser-me-ha doce +A mais donosos sitios transportar-te, +Onde se enlacem mãos, se olvidem mágoas, +Onde tu sejas a consorte minha, +Quando abatido de Veneza o orgulho +Eu já tiver; quando este braço, que ella +Quiz sumir na abjecção, deixe açoutados +Com viperino látego os infames +Que accendeo contra mim o vicio e a inveja." + +Ella pousou a mão sobre a mão d'elle: +Foi leve o toque, mas varou-lhe prompto +As medullas dos ossos, e entranhou-lhe +Pelo imo coração gêlo indizivel, +Que nem d'estremecer lhe deixou posses; +E este frio mortal, de que se arguia, +Removê-lo de si em vão tentava. +Oh! nunca, nunca de tão caro objecto +Partíra movimento que viesse +Com tamanho terror gelar-lhe o sangue, +Qual n'esta noite o subitaneo toque +D'aquelles alvos dedos alongados. +Morreo-lhe em pallidez a effervescencia, +Ficou-lhe o coração, qual seixo, immovel, +Ao ver aquelle rosto, ai! tão mudado +Já de si proprio: bello, mas languente-- +Sem vestigio nenhum d'incendios d'alma, +Que em cada feição d'elle se espelhavão, +Como um dia de sol se espelha n'agua. +Anhélito nenhum se unia ás vozes +Que lhe escapavão dos immotos labios; +Do quieto coração nenhum palpite +Lhe sublevava o seio; nada havia +Que a rigida attenção interrompesse +D'aquelles olhos estacados, fixos. +Taes são os do somnambulo, que, em meio +D'anciados sonhos, deixa o leito e vaga; +Taes, na extensão de apainelados razes, +Baças figuras de minaz aspecto, +Se ao trémulo clarão as contemplamos +D'expirante lucerna, desenvolvem +Não sei qual mixto de animado e morto, +Com que parecem, aterrando a vista, +Ora avançar do tenebroso fundo, +Ora entranhar-se n'elle, em moto alterno, +Que a seu sabor lhes communica o vento. + +"Se por amor de mim tu crês que é muito, +Por amor só do Ceo embora o faze: +Longe arremessa (inda outra vez to digo) +Da fronte criminosa esse turbante, +E me promette de não ser infesto +Aos filhos da insultada patria tua, +Ou es perdido, e despedir-te deves, +Não já da Terra--esvaeceo-se a Terra-- +Mas do Ceo e de mim, que te fui cara. +Eia, cede a meus rogos: vê que abertas +Inda te esperão da clemencia as portas; +E bem que contra ti grave sentença +Fosse já proferida, o rigor d'ella +Em grande parte expiará teu crime. +Pondera a fundo; e provocar não queiras +A maldição d'Aquelle que abjuraste. +Ao Ceo inda uma vez levanta os olhos, +Vê que a ti mesmo para sempre o fechas. +Essa nuvem que esconde agora a lua, +Lá vai passando, e passará de pressa: +Se, quando rebrilhar o disco inteiro +Desafrontado do vapor sombrio, +Não revolveo a contrição teu peito, +Ficão de ti vingados Deos e os homens: +Tremendo fim terás, e mais tremenda +Te espera a eternidade dos perversos." + +Alp ergue a vista ao Ceo, e reconhece +O indicado signal; porém o orgulho +Entumeceo-lhe o coração, e o rege +Com despotico imperio inabalavel; +E esta paixão fallaz que o predomina, +É torrente caudal que tudo alaga. +Elle implorar perdão! elle render-se +A impertinencias de mesquinha virgem! +Elle, offendido de Veneza ingrata, +Poupar-lhe os filhos, que votou á morte! +Não:--embora essa nuvem traga um raio, +Embora um raio o esmague:--e inda não trôa? + +Sem que a minima voz dos labios solte, +Elle fitava ancioso aquella nuvem: +Attento a vê passar; fugio de todo: +Em seu pleno fulgor se mostra a lua. +"Qualquer que seja o meu destino (exclama), +Não tenho de mudar: agora é tarde. +No meio da tormenta póde a canna +Dobrar-se e logo erguer-se, os troncos quebrão. +Qual Veneza me fez, serei já'gora; +Seu implacavel inimigo em tudo, +Excepto na affeição que eu te consagro. +Tu pois es salva: oh! vem, meus passos segue." +Voltando-se, elle a busca; ella sumio-se: +Só o antigo pilar lhe avulta ao lado. +Sorveo-a a terra, ou s'esvaío nos ares? +Nada elle vio--nada escutou só sabe +Que alli nenhum vestigio existe d'ella. + + +XXII. + +A noite dissipou-se, e o sol resplende, +Qual se um dia de festa esclarecesse. +Eis d'entre bruscos véos pomposa surge +Arraiada a manhã d'aureos fulgores, +E abrasador promette o meio-dia. +Trombetas se ouvem, rufos de tambores, +Hórridos sons de barbara corneta, +Sussurrar de bandeiras fluctuantes, +Relinchar de corseis, tropear de turmas, +E o retinir das armas, e o alarido: +"Ei-los vem! ei-los vem!" Da terra prestes +Descravão-se os pendões equi-caudatos, +Desnudão-se as espadas lampejantes, +E tudo a entrar em fórma apercebido, +Só depende da voz, e a voz já sôa: += Tartaros, e Spahís, e Turcomanos, +As tendas abatei, ide á vanguarda, +Dai d'espora aos corseis, e na planicie +Seja cortado o passo aos fugitivos, +Quando estes proromperem da cidade: +Não escape nem velho nem mancebo, +Que offrecer de Christão qualquer indicio. +Entretanto que em massa prepotente +Vão sustentar os camaradas vossos +A ensanguentada brecha, e entrar por ella. = +Já o fogoso corsel remorde o freio, +E arquea o collo, e, sacudindo a crina, +As redeas tinge d'alvejante espuma: +Estão em riste as lanças, e flammejão +Accesos os murrões, e em continente +O assestado canhão vai despejar-se +Com estampido horrísono, e as muralhas, +Rôtas em frente, esboroar de todo. +Na phalange os Janizaros entrárão: +Alp os commanda; e a cimitarra nua +No erguido braço nu sustenta e brande. +Kans e Bachás fixárão-se em seus postos; +E ei-lo á frente da hoste se apresenta +Em pessoa o Visir.--Tanto que a senha +Troar na disparada colubrina, +Tudo em Corintho será ruina e morte: +Não ficará um sacerdote ás aras, +Nem um chefe no centro das familias, +Nem fôlgo vivo que as mansões povôe, +Nem sequer uma pedra sobre os muros. +"Deos e o Profeta seu! _Allah-Hu!_"--Sobe +Té ás estrêllas o feroz ulúlo! +"Lá tendes, para entrar, aberta a brecha; +E escadas não vos faltão: tambem todos +N'essas robustas mãos sustentais armas; +E como ha de falhar-vos o triunfo? +D'entre vós o primeiro que se affoute +Á arrancar a vermelha Cruz hasteada, +Póde franco pedir quanto apetece +Com mais vehemente ardor: supplique e obtenha." +Tal se exprimio Coumourgi, o Visir bravo. +Foi resposta o brandir d'espadas, lanças, +Com mil acclamações de raiva alegre.-- +Silencio!--á senha estai attentos!--fogo! + + +XXIII. + +Como quando esfaimados ruem lobos +De chofre sobre o bufalo soberbo, +Sem tremerem da tórva catadura, +Do mugir fero, do escavar das plantas, +Nem dos minaces cornos assestados; +E elle ou lança por terra ou ergue aos ares +Os primeiros que accessos o acommettem, +Mas que no cego arrôjo a morte encontrão: +Assim o Musulmano invade os muros, +E no impeto primeiro é repellido. +Alli rôtos do bellico granizo, +Dispersos como vidro espedaçado, +Quantos de bronze acobertados peitos +Ora juncando a terra, d'onde nunca +Se hão de levantar mais! Estão fileiras +Inda alinhadas, quaes na queda o estavão; +Jaz dos mais destemidos copia grande: +Tal, quando o dia é findo, e o labor cessa, +Vemos jazer sobre aplainados campos +A herva que o segador deixou ceifada. + + +XXIV. + +Bem como, em viva preamar, se observa +D'algosos escarcéos batida rocha, +E já minada dos diuturnos éstos, +Soltar enormes lascas alvejantes, +Que com fragor horrísono se abatem, +Assemelhando ao torreão de gêlo +Que Alpinos valles despenhado aterra: +Assim os de Corintho habitadores, +A final quebrantados, exhauridos, +Forão na ruina atroz precipitados +Pelo acintoso impulso recrescente +Das cerradas cohortes Musulmanas. +Elles insistem firmes, e, na queda, +O furor do Infiel os prostra em massa. +Pelejão braço a braço, e planta a planta; +E nada, excepto a morte, alli é mudo: +Impetos, golpes, empuxões, clamores +Ou a pedir quartel, ou de victoria. +Reunidos ao troar increbescente +Dos bellicos trovões, e ao temeroso +Estrondo da batalha encarniçada. +Lá vão disseminando susto immenso +Por longinquas cidades, d'igual modo +Que se estivessem sob o golpe infesto, +E já dentro o inimigo as depredasse; +Não d'outra sorte que se proprio fôra +A excitar sensação ou triste ou leda +Aquelle som que anniquilar só sabe, +E que, varando dos soturnos montes +As entranhas durissimas, se expande +Em pavorosos écos desusados: +Lá os ouvio Megára e Salamina, +E, se não exaggera a voz do vulgo, +Té na enseada do Pirêo troárão. + + +XXV. + +Em rijo e solto embate retinindo, +Sabres, espadas, desde a ponta aos copos, +Gotejão sangue; mas entrados forão +Os muros já, e eis principia o saque, +E apóz elle a feroz carnificina. +Rompe dos edificios depredados +Medonha confusão de agudos gritos: +Escuta quão velozes na fugida +Vão pés escorregando em quente sangue, +Que as ruas deixou lúbricas: no em tanto +Aqui e além, onde o terreno offreça +Contra o fero invasor qualquer vantagem, +Onde algum lanço de parede ou muro +Lhes proteger as costas, então elles, +Aos dez, aos doze, em mal parados grupos, +Logo alli fazem alto,--alli renovão +Desesperada briga audazes, firmes, +Ou co'as armas na mão perecem todos. +Eis a pé firme um ancião lá surge;-- +De cãs lhe alveja povoada a fronte; +Porém vigor pujante lhe robora +O veterano pulso: não se altera +Seu bisarro denôdo, entre o bulicio +Do revôlto brigar; tem por trincheira +Semicirculo espêsso d'inimigos, +Que hoje uns sobre outros apinhava mortos; +Ferve em dura peleja não ferido, +E sabe retirar-se não cercado. +Sob a loriga refulgente esconde +Dos certames d'outr'ora as cicatrizes +Innumeraveis; que de toda a especie, +E o corpo inteiro lhe crivárão golpes. +Em despeito d'aquella ancianidade, +É de tão ferreos membros, que difficil +Fôra d'igual jaêz achar-se um môço: +E os inimigos, que empatados tinha, +Pullulavão-lhe alli mais numerosos +Que as prateadas cãs da fronte altiva; +Mas apoucando-os vai a forte dextra. +Muitas mãis Othomanas pranteárão +Filhos que, quando pela vez primeira +Elle a espada tingio em sangue Turco, +Inda não erão nados, e hoje expirão +Antes de perfazerem lustros quatro. +Bem poderá elle ser o avô de quantos +N'este dia immolou ás iras suas: +Vingando um filho que perdêra ha muito, +Vai dos contrarios seus matando os filhos: +E desde quando o desvelado joven, +Unica prole varonil que tinha, +Morreo a combater no undoso estreito +Que d'Asia o chão divide do d'Europa, +Logo o pai prometteo sacrificar-lhe +Sanguinosa hecatombe d'inimigos, +Ceifada ao golpear do ferreo braço. +Se o morticinio pacifica as sombras, +Nem mesmo de Patroclo aos manes coube +Júbilo igual ao que sentir devião +Os do joven Minotti. Sepultado +Ficou seu corpo nas oppostas praias, +E ora privados de sepulcro n'estas +Cá ficão mil para milhares d'annos. +Qual d'elles escapou que referisse +Como os outros morrêrão, e onde jazem? +Lousa nenhuma os cobre, não lhes guarda +Nenhum tumulo as cinzas: entretanto +Vivem e vivirão no immortal plectro. + + +XXVI. + +Qual clamoroso _Allah!_--um terço avança +De tropa Musulmana a mais affouta, +E de pulso melhor: vai-lhe na frente, +Nervoso, nu té o hombro, e em moto ondeante +Brandindo o ferro, e sobranceiro a todos, +Do commandante o braço, que expedito +Sabe ferir, e perdoar não sabe.-- +Outros embora em mais pomposo traje, +D'espolio ao inimigo a sêde ateem; +Sejão embora muitos os que empunhão +D'aureo lavor custosas cimitarras, +Que de nenhuma escorre tanto sangue; +Ostentem muitos adornada a fronte +De turbantes mais altos, mais airosos;-- +Alp é só conhecido por aquelle +Braço nu, que branqueja levantado. +Ei-lo campea onde mais arde a briga! +Não se arvorou pendão sobre estas praias +Que mais destro as fileiras anteceda; +Jámais, durante a Musulmana guerra, +Se despregou bandeira que attrahisse +De tão longe os Delhís: sempre o distinguem +A lampejar como cadente estrêlla! +Onde quer que este braço prepotente +Uma vez se mostrou, logo os mais bravos +Surdem todos alli, ou tarde chegão; +Alli quartel o ignavo em vãos clamores +Ao vingativo Tartaro supplica; +Alli o heróe, no chão deitado e mudo, +Nem quer que quando morre um ai lhe escape, +E inda com tibio golpe derradeiro +Invade o antagonista, que não menos +A par de si prostrou; e bem que expire +Tão alquebrado das feridas mutuas, +Raivando afferra o ensanguentado sólo. + + +XXVII. + +O ancião, persistindo inabalavel, +Oppôr consegue momentaneo estôrvo +D'Alp á carreira atroz.--"Cede, Minotti: +Salva todos os teus, attende á filha." +--"Nunca o verás, vil renegado, nunca! +Nem tinha eu de annuir inda que fosse +Vida eterna essa vida que me off'reces." +--"E Francina!--e a futura minha noiva! +Queres, assim teimoso resistindo, +Ser tambem causador da morte d'ella?" +--"Ella está mui a salvo."--"Onde? em que sitios?" +--"No Ceo, d'onde banida para sempre +Foi tu'alma aleivosa,--e onde Francina +Vive longe de ti, vive sem mancha." +Alp, a taes vozes, titubante, anciado, +Fica não d'outra sorte que se o peito +Lhe traspassasse truculento golpe; +E de Minotti despontou nos labios +Irónico sorriso de vingança. + +"Oh Deos! quando expirou?"--"Inda esta noite; +Mas do espirito seu não choro a ausencia, +Antes fólgo de ver que cá não deixo +D'esta minha linhagem nobre e pura +Ninguem que haja de ser misero escravo +De Mafamede ou teu. Anda, acommette!" +Baldado desafio! Alp é já morto. +Ao tempo que Minotti lhe vertia +N'aquellas expressões criminadoras +Todo o fel da vingança, e que mais cruas +Que a propria ponta de buído alfange +Ellas varavão Alp, eis vôa o golpe +D'um templo não distante, defendido +Com incriveis primores de firmeza +Por esse dos Christãos ultimo resto, +Que tão minguado e d'esperança exhausto, +Inda de lá fazia esforços grandes +Para o combate restaurar fallido: +E antes de descobrir d'onde assestada +Lhe foi a lethal bala sibilante, +Alp o cerebro tem varado d'ella, +E voltea, e vacilla, e cahe por terra: +Lampejou-lhe ante os olhos clarão debil, +Quando vergou para não mais erguer-se, +Ficando apenas palpitante tronco, +Que ei-lo envolvido jaz na noite eterna. +N'elle indicio não ha que vida inculque, +Salvo o tremor dos membros onde o tiro +Deixou menor estrago. A ponto acodem, +E de costas o estendem: rosto e peito +Lhe estão manchados de poeira e sangue, +E jorra-lhe da boca o vital fluido, +Que as cavernosas veias desampara; +Mas não lateja o pulso, não se escuta +Nos labios murmurar-lhe o arranco extremo; +Nem sequer um suspiro, uma palavra, +Um penoso arquejar, lhe assignalárão +O transito fatal da vida á morte. +Antes que o pensamento levantasse +Em súpplica contrita, réo nefando, +Se apresenta aos umbraes da eternidade, +Sem que ao perdão celeste aspirar possa, +E na vida e na morte--Renegado. + + +XXVIII. + +Então d'um lado e d'outro aos ares sobe +Espantoso alarido retumbante: +Aqui, de regozijo; além, de raiva. +Eis de novo travadas em conflicto +Espadas de Christãos e Turcas lanças +Embatem com furor, mutuão golpes, +Estendendo no pó guerreiros muitos. +Ousa, de rua em rua e passo a passo, +Minotti disputar aos inimigos +Qualquer porção restante do terreno +Que ao seu bravo commando fôra entregue: +Ao lado, a reforçar-lhe audacia e pulso, +As sobras tem da guarnição briosa. +Resistencia tenaz off'rece o templo, +D'onde predestinada veio a bala +Que em grande parte despicou Corintho, +Morto Alp, o mais feroz de seus contrarios +Para alli recuando sem desvio, +Deixando diante ensanguentado rasto, +E os inimigos encarando sempre, +E nunca sem matar vibrando um golpe, +O chefe e o seu cortejo, em retirada, +Conseguem reunir-se aos que occupavão +A sacra estancia: no recinto d'ella +Inda lhes cabe respirar um pouco, +Das maciças paredes escudados. + + +XXIX. + +Remanso bem mesquinho! Os Musulmanos, +De pujante refôrço abastecidos, +Borbotando furores e ufania, +Tão cerrados, tão férvidos avanção, +Que o número lhes tolhe a retirada: +Dest'arte se atravancão no caminho +Que vai ao templo, onde os Christãos não sabem +O que é render-se; e os batalhões infestos +Tanto apinhão-se á frente, que, inda quando +Lavrasse o susto alli, nenhum podéra +Por entre as fortes massas escoar-se: +Ou vencer ou morrer lhes era fôrça. +Morrem; mas sobre os corpos palpitantes +Lhes surgem de repente os vingadores. +Que, frescos e raivosos pullulando, +As filas, sempre rôtas, enchem sempre; +E os Christãos affadigão, extenuão, +Violentas amiudando as investidas: +E ei-los agora os Infieis assomão +Junto ao sacro portal. Por longo espaço +A ferrea contextura inda resiste, +Inda de cada fresta vôão tiros, +Todos bem assestados, mortaes todos; +E de cada janella se desatão +Em chuveiro as sulfureas alcanzias. +Mas já fraqueão as nutantes portas-- +Vérgão rangendo os quicios, cede o ferro,-- +Lá pendem--lá se abatem já cahírão: +Não mais resistirá, morreo Corintho! + + +XXX. + +Soturno, sem que o vejão, só comsigo, +Ao altar arrimado está Minotti. +D'um painel sobranceiro, a Virgem santa +O affavel rosto fúlgido lhe volve, +Transumpto de celeste colorido, +Onde os olhos são luz, amor o aspecto; +E na ara collocado a fim que possa +Dos humanos fixar o pensamento +Sobre as cousas do Ceo, quando elles orão +Devotos, genuflexos ante a imagem +D'esta Mãi admiravel, que em seu gremio +Sustem e affaga o Redemptor-menino, +E com sorrisos acolhendo meigos +Uma por uma as fervorosas preces, +Como que ao Ceo de transferi-las cuida. +Sorrindo sempre, inda sorrí agora, +Em despeito da atroz carnificina, +Do sangue em jôrros que deturpa as naves. +Eleva então Minotti os olhos lassos, +E, exhalando um suspiro, se persigna; +Logo alli d'uma tocha que era accesa +Ei-lo se apossa, e permanece firme, +Em quanto os Musulmanos irruindo, +Desenvolvendo á larga ferro e fogo, +Hórridos enchem a mansão sagrada. + + +XXXI. + +Sob a lagem que o vasto pavimento +Recompunha em mosaico variada, +Subterraneas abobadas se arqueão. +Jazigo aos mortos das passadas eras: +Em memorandas lápidas incisos +Lião-se os nomes seus, que ler não deixa +Ora o sangue que os cobre: aqui não menos +Vião-se, honrando as cinzas, esculpidos +Timbres, emblemas de lavor prestante, +Marmores luzidíos, de vistosas +Multicolores veias serpeados,-- +Que, sórdidos já hoje, se baralhão +Com fragmentos d'espadas, de montantes. +Com morriões e arnezes abolados, +Confuso mixto que por cima avulta +D'innumeraveis ataúdes, onde +Enfileirados os defunctos dormem: +Podes vê-los em lugubre apparato, +Ao macilento albor que inda os visita +Por fisgas breves de sombrias grades. +Mas nem por isso desistio a Guerra +D'entrar por estas lobregas cavernas, +Com tórva profusão disseminando +Das sepulcraes abobadas ao longo +Seus thesouros sulfureos, que se elevão +Empilhados em massas volumosas +Junto dos resequidos esqueletos. +Aqui, durante o cêrco, havião feito +Seu paiol os Christãos: longo rastrilho, +Desde agora entornado, se encaminha +Do templo a estes sitios; e eis o extremo +Recurso inabalavel de Minotti +Contra o poder das irruentes turmas. + + +XXXII. + +O inimigo enche tudo; e poucos tentão +Inda arrostá-lo, ou mui de balde o arrostão. +Elle, á falta de vivos, vai nos mortos +Saciar da vingança a voraz sêde, +Que exacerbou-se agora; elle os invade +Com sacrilegos golpes, e decepa +Cabeças já finadas, e dos nichos +As estatuas despenha baqueantes, +E as aras despe d'oblações opimas, +E co'as callosas mãos profanadoras +O argento empolga dos sagrados vasos. +Chegada apenas a caterva infrene +Ante o altar principal, detem-se e pasma: +Oh qual o adorna resplandor pomposo! +Sobre a pedra lhe surge bem patente +O consagrado Caliz, ouro estrême, +Prêsa que enleva os depredantes olhos, +A fulgurar maciça e ponderosa: +Hoje conteve o sacrosanto vinho, +Que Christo em sangue seu mudar dignou-se, +E com que, ao romper d'alva, os seus cultores, +Antes de pelejar, fortalecêrão +As almas ao dever e ao Ceo votadas: +Inda no fundo remanecem gotas; +E tambem, circumdando a sacra mesa, +Em symetria esplendida dispostas, +Ardem lampadas doze d'ouro fino: +Este o mais opulento e ultimo espolio. + + +XXXIII. + +Apinhão-se alli todos; e o que estava +Da prêsa mais visinho, faz-se avante, +E quasi quasi que a empolgava, quando +O longevo Minotti applica a tocha +Ao rastrilho fatal;--ei-lo se inflamma! +Campanarios, abobadas, altares, +Espolio, vivos, mortos, moribundos, +Christãos vencidos, Turcos vencedores, +E o templo esboroado, e quanto ha n'elle, +Se ergue aos ares com hórrido rebombo, +E finda envôlto na explosão terrivel! +A cidade abalada--o chão coberto +D'edificios, de muros demolidos-- +As ondas que recuão, de assustadas-- +Os montes, senão rôtos, vacillantes, +Como se os sacudisse um terremoto-- +De milhares d'objectos mixto informe +Que os Ceos toldando vai de fogo e fumo. +Ao rebentar da horrítona lufada-- +Não cessão de apregoar que n'estas praias, +Ha longo tempo, afflictas, terminou-se +Dos combates o mais desesperado. +Como accesa em girandolas festivas, +Lá roça os astros a confusa mole. +Varões não poucos d'estatura ingente, +D'apparencia gentil, ora abrasados, +Curtos como pigmeos, descem dos ares, +Em torrado carvão juncando a terra. +Grossa chuva de cinzas se despenha: +Muitas recebe o golfo, e, ao recebê-las, +Fórma em tôrno escarcéos, que se desfazem +N'um progresso de circulos undosos; +Muitas recebe a praia, e vão, por longe +Disseminadas, recobrir todo o isthmo: +São cinzas de Christãos ou d'Othomanos? +Suas mãis se aproximem, venhão vê-las, +E digão se as conhecem!--Por ventura +Houve alguma de vós, ó desgraçadas, +Que quando aos peitos lhe pendia o filho, +Ou no embalado berço o adormentava, +E, sorrindo d'amor, se comprazia +N'aquelle brando repousar donoso, +Ai! houve alguma então que nem por sombras +Esperasse este dia, ou ver dispersos +Da cara prole os lacerados membros? +Nem sequer, nem sequer as extremosas +Matronas que no ventre os alojárão +Estremar sabem os nascidos d'ellas; +Um só momento lhes tirou de todo +Fórma e semblante d'homens; resta apenas +Algum disperso pericraneo ou osso. +Barrotes, vigas flammejantes descem, +E em redor se derramão; vem cahindo +Engastadas em barro infindas lagens, +Que o sólo opprimem fumegantes, negras. +Todo o vivente a quem troou no ouvido +O abalo estragador, pregão de morte, +Ou jazeo ou sumio-se: espavoridas +O vôo affastão carniceiras aves; +Bravíos cães vão-se arredando em uivos, +Nem se lhes dá dos insepultos mortos; +O camelo as prisões deixou quebradas; +O touro, ao longe, se desfez do jugo; +O corsel, que o fragor ouvio de perto, +Rompendo a silha, espedaçando as redeas, +A galope alongou-se pelo plaino; +As incolas dos charcos lutulentos, +Alçando a boca sobremodo aberta, +Clamor soltárão importuno em dôbro; +Uivárão pelas furnas das montanhas +Os lobos, quando alli a trovoada +Em écos retroou; lá mui distantes, +As alcatéas dos jakaes bramírão +Com mixto som, que, lamentoso e agudo, +Ora imitava criancinha em chóros, +Ora lebréo ganindo fustigado: +Esbaforida accelerando os vôos, +A aguia desamparou a rocha alpestre, +Onde aquecia o ninho, e remontou-se +Mais proxima do sol, achando crassas +Em demasia as sotopostas nuvens, +Que vinhão, d'atro fumo conglobadas, +Roçar-lhe o bico amedrontado, hiante, +Mais e mais excitando-a a sublimar-se, +E o grito a reforçar.--Eis de qual modo +Conquistada e perdida foi Corintho. + +FIM. + + + + +NOTAS ABREVIADAS. + + +NOTAS ABREVIADAS. + + +II.--_vers._ 14. + + Dando de mão á grei, o Turcomano + Prestes unio ao lado a cimitarra. + +Domiciliados debaixo de tendas, vivem estes povos uma vida patriarcal. + + +V.--_vers._ 1. + + Coumourgi--aquelle etc. + +Ali Coumourgi, valido de tres sultões, e grão visir de Achmet III, +havendo retomado em uma só campanha o Peloponeso aos Venezianos, foi, no +seguinte anno, mortalmente ferido na batalha de Peterwaradin, quando +forcejava para reunir suas tropas. + + +XVI.--_vers._ 4. + + Coarctados e sem ésto, aquelles mares + Em moto igual ondeão sempiternos. + +É talvez desnecessario recordar ao leitor que o movimento do fluxo não é +visivel no Mediterraneo. + + +Ibi--_vers._ 42. + + Ei-los que estão da pelle despojando + Nest'hora um craneo Tartaro, etc. + +Este espectaculo, qual o descrevo, foi por mim presenciado sob os muros +do serralho de Constantinopla; e os cadaveres erão talvez os de alguns +Janizaros rebeldes. + + +Ibi--_vers._ 59. + + E cada pericraneo off'rece a esguia + Madeixa longa, etc. + +Crêm os Musulmanos que o seu Mafôma, no ponto de transferi-los ao +Paraiso, os tomará por esta madeixa; e, firmados sobre tão supersticioso +fundamento, a deixão crescer. + + +XXI.--_vers._ 94. + + Essa nuvem que esconde agora a lua, + Lá vai passando, etc. + +Este pensamento não é original, por quanto deparei com elle na versão +ingleza de Vathek. + + +XXII.--_vers._ 11. + + ---------- Da terra prestes + Descravão-se os pendões equi-caudatos. + +De uma cauda de cavallo, fixa no alto de uma lança, são compostos os +pendões dos Bachás. + + +XXV.--_vers._ 51. + + Morreo a combater no undoso estreito + Que d'Asia o chão divide do d'Europa. + +Na batalha naval que os Venezianos travarão com os Turcos á entrada dos +Dardanellos. + + +FIM DAS NOTAS. + + + + + * * * * * + +P. S. _Escrevemos accentuada e sem_ h _a 3.ª pessoa do singular no +indicativo presente do verbo substantivo ser, e igualmente sem_ h _o +adjectivo numeral um, por nos parecerem terminantes as razões em que é +fundado este uso. Por certo que nem sempre adherimos á opinião de nossos +Grammaticos e Diccionaristas modernos, com quanto sejão alguns de +reconhecida erudição; e em meia duzia de paginas, que talvez +publicaremos, hão de apparecer indicados os pontos e expendidos os +motivos d'esta divergência. Pelo que toca á exactidão typografica do +Poema que apresentamos traduzido, empregou-se ahi mui boa diligencia: é +pois de presumir que será leve e de facil emenda o defeito que ainda +remanecer._ + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord +Byron, traduzido em verso portugue, by George Gordon Byron + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA *** + +***** This file should be named 33592-0.txt or 33592-0.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/3/5/9/33592/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez + +Author: George Gordon Byron + +Translator: Henrique Ernesto de Almeida Coutinho + +Release Date: August 31, 2010 [EBook #33592] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + Nota de transcrio: + + Foi mantida a grafia usada na edio original de 1839, tendo sido + corrigidos apenas pequenos erros tipogrficos evidentes. + + + + + O CERCO DE CORINTHO, + + POEMA + + DE + + LORD BYRON, + + TRADUZIDO EM VERSO PORTUGUEZ, + + POR + + _H. E. A. C._ + + + PORTO. + TYPOGRAPHIA COMMERCIAL PORTUENSE. + LARGO DE S. JOO NOVO N. 12. + 1839. + + + + +AO ESTIMAVEL ANONYMO. + + + _Alma prestante, onde reside e impera + O Genio da Amizade, + Que a luminosa esfera + Deixou, para acudir humanidade, + Sumida em pesadumes e agonias, + Em feia escuridade! + Alma onde o typo eterno no se encobre, + E que, n'estes d'egoismo ferreos dias, + O instante de ser util s vigias, + Sincera, affavel, nobre! + Acceita, em oblao a ti votado, + Ancioso de agradar-te, este traslado._ + + Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho. + + + + +_O TRADUCTOR,_ + + +Para perpetuar a gloria do sublime poeta que tanto enriqueceo a sua +patria e o mundo literario com o preciosissimo cabedal de suas +produces, bastaria esta de que emprehendemos e agora publicamos a +traduco. Sciencia dos tempos e dos costumes, vasta erudio, profundo +conhecimento do homem, variedade e magnificncia de quadros, fecunda +elevao de pensamentos, lustre e vigor de poesia, sobresahindo por +effeito da mais acertada e judiciosa distribuio, eis os titulos com +que se engrandece este poema, onde lord Byron no houve mister longo +espao para mostrar-se, immortal. + +No raro tecerem os traductores sobejo encomio ainda a mediocres +originaes, quando com estes despendro vigilias e desvelos; mas nem por +isso receamos que, elogiando a lord Byron, nos accusem de +encarecimento ou de leviandade: as suas obras ahi esto bem patentes, e +a sua reputao j colossal. + +Todavia, notando a mui sincera affeio que consagramos a to estremado +engenho, ninguem haja de persuadir-se que o avaliamos como isento de +toda a mcula. Por certo que lord Byron era homem, e o fragil da +humanidade transparece em algumas das suas produces, e s vezes +procura brilhar em detrimento daquella gentil gravidade que mui bem +assenta nas Musas, e sem a qual desmentem ellas a sua origem celeste; +mas de semelhante desar campea livre o poema que apresentamos +traduzido.--S de passagem mencionaremos um descomedido orgulho +nacional[1], um amor liberdade, que por vezes degenera +em fanatismo: estes sentimentos os bebeo o poeta com o primeiro alimento +de sua infncia, e, quando concentrados em justo limite, so nobres, e +longe estamos de crimin-los. + +No menos que lord Byron admiramos os grandes capites Gregos e Romanos; +tambem nas escolas estudamos e traduzimos Nepote, Tacito, Tito-Livio, +&c. Todavia os heres n'essas historias memorados vivero em tempos mui +diversos dos nossos, e diversissima foi a sua educao fisica e moral: +por tanto o joven enthusiasta hodierno que ambiciona a todo o custo +igual-los, arrisca-se a cometter mil despropositos, e mesmo a ser +victima inutil de suas desattentadas proezas. Para morrer com gloria no +desfiladeiro de Thermpylas, cumpre, alm de haver sido educado em +Esparta, ter frente um Leonidas. A prudencia de Fabio transtornou os +planos de Annibal e salvou Roma, conseguindo aquillo mesmo que fra +denegado s fastuosas e arrogantes ousadias de Sempronio e de Flaminio. +Do sacrificio de Curcio, despenhando-se armado e com seu proprio cavallo +no boqueiro aberto por um terremoto em certa praa de Roma, que +proveito recolhro os concidados, a patria, ou a especie humana? +Curcio era pois um esquentado enthusiasta, ou antes um orate rematado. +indubitavel que a cega ambio de figurar com heroismo Grego ou Romano, +associada ao sofrego ardor no sei de que liberdade turbulenta, +insidiosa, desmoralisadora, e de mais pernicioso effeito que qualquer +desmascarada tyrannia, tem excandescido bom numero de cabeas e avultou +de sobejo na mui abalisada revoluo de Frana, que ainda hoje em +sangrentas paginas aterra a humanidade.--Talvez o amor que sempre +tributamos verdade nos levou em demasia longe; mas como quer que seja, +no cessaremos de confessar que o sublimado engenho de lord Byron nos +penetra de admirao, e deixa, ao menos em nosso alvitre, o homem +justificado pelo poeta. + +Quanto nossa traduco, sobre diligenciarmos que portugueza fosse, +pozemos todo o cuidado em exprimir com clareza os pensamentos do poeta, +bem como em no deteriorar-lhes a nativa gala, que antes nos parece mais +pomposa n'este nosso fertil e sonoro idioma: entretanto no por nossa +conta que deve correr a cabal deciso na materia, mas sim por conta de +mais competentes juizes, que, versados nas duas linguas, queiro dar-se +ao trabalho de cotejar o original com a verso. + +Entre os nossos traductores poetas, alguns houve que gemro sob a +ferrenha tarefa de traduzir tragedias e longos poemas verso por verso; +mas que resultou de tanta diligencia? o substituirem, pela maior parte, +a versos fluentes e vigorosos uma enfiada de semsaborias, de durezas, de +enigmas, onde a graa e louania dos originaes degenera em rugosa e +desalinhada velhice. No negamos que isso tenha cabimento e deva +adoptar-se quando nenhum inconveniente o estorva; porm o verter +affincadamente poemas inteiros verso por verso, uma curiosidade que em +muitos casos empece nobre franqueza do estilo, suavidade do metro, e +ao effeito geral dos quadros poeticos. Estamos persuadidos de que deve o +traductor de um poema ser sempre fiel quantidade das idas, no assim + quantidade dos versos: tal foi o nosso systema de traduco no _Crco +de Corintho_. + +Ardua e mui ardua emprsa traduzir poetas; bem o sabemos e +experimentamos. Se todavia para traduzir lord Byron de nada mais se +carecesse que de estar profundamente penetrado das extraordinarias e +sublimes bellezas com que este filho da immortalidade abrilhantou suas +obras, ento nos lisonjeariamos de apresentar a nossos leitores uma +copia digna do original, e preciosa para elles. + + [1] Este orgulho se deixa ver bem claro no _Childe Harold's + Pilgrimage_, cant. I. est. 16, onde, entre outros motejos com que o + poeta pertende aviltar os Portuguezes, tambem lhes exprobra o serem + + _A nation swoln with ignorance and pride._ + Nao inflada d'ignorancia e orgulho. + + Querer isto dizer que a Inglaterra um paiz todo cheio de sabios, e + onde o orgulho morre de frio, por falta de quem o aquartele? + + + + +O CERCO + +DE + +CORINTHO. + + +I. + +Longo trilho de seculos exhaustos, +Rijas tormentas, bellicos furores, +Infestro Corintho: ella entretanto +Persiste em p, e no alteroso alcar +Nova conquista Liberdade off'rece. +Nem bramir de tufes, nem terremotos +O alvejante penhasco lhe abalro, +Esse lageoso assento, que, em despeito +Da decadencia sua, inda parece +No sem orgulho contemplar seu cimo; +Esse padro demarcador erguido +Entre os dous mares, que d'um lado e d'outro +Lhe esto rolando purpurinas ondas, +Que sempre a forcejar por se reunirem, +O acato sempre, e vem morrer-lhe s plantas. +Se o sangue n'estes sitios derramado +Desde que n'elles o fraterno sangue +Timolon vertra, ou desde quando +Pelo aviltado despota da Persia +Abandonados foro, borbulhasse +Da terra que o bebeo no morticinio, +Este sangrento oceano sepultra +Sob os tremendos escarcos todo o isthmo: +Ou se podessem amontoar-se os ossos +Dos que alli perecro, surgiria +Por entre aquelles ceos abrilhantados +A colossal pyramide espantosa, +Dando rival Acrpolis, que as nuvens +Se v roar co'a torreada fronte. + + +II. + +Eis lanas vinte mil sobre as espaduas +Do nebuloso Cithern fulguro; +E em toda a planta do isthmo, sobre as duas +Oppostas praias que o ladeo amplas, +Se eleva o pavilho, brilha o Crescente +Nas federadas linhas Musulmanas; +E o tisnado Spah desfila em bandos + vista dos Bachs amplo-barbados; +E os olhos podem ver ao longo e ao largo +As cohortes cingidas do turbante, +Que o promontorio alastro, enxameo: +L se ajoelho do Arabe os camelos, +Do Tartaro os ginetes la volteo; +Dando de mo grei, o Turcomano +Prestes unio ao lado a cimitarra. +Dos bellicos troves crebro rebombo +T faz emmudecer, de susto, os mares, +Profunda-se a trincheira, e muito longe +Silvando va no pelouro a morte; +Sob o peso da bomba assoladora, +Solto-se em pulverento remoinho +Os da muralha esboroados lanos; +E, do recinto d'ella, eis o inimigo +s do Infiel intimaes responde +Com manejo expedito, e fogos destros. +Que vo cruzando os empoeirados plainos, +E os ares que anuvia o fumo em rlos. + + +III. + +Das muralhas porm o mais visinho +Entre os que punho peito e mos empresa +De as converter em ruina, o mais profundo +Que nenhum dos da prole Musulmana +Nas da guerra artes ttricas, e altivo +Qual nunca o foi assignalado chefe +Colhendo louros em sangrentas lides; +O que voando audaz de posto a posto, +D'um feito a maior feito, se avantaja +Em destro esporear corsel fumante, +Em surdir mais veloz onde arde o p'rigo, +Cada vez que ha sortidas ou assaltos; +E quando a bateria, em mos valentes, +Resiste inexpugnavel, ento mesmo +Com exultante aspecto desmontando +A dar alento, na refrega, aos tibios; +O mais abalisado e o mais recente +Da hoste que lucrou n'estas paragens +Ao sulto de Stamboul renome egregio; +O guia incomparavel em campanhas, +Ou solerte assestando o ferreo tubo, +Ou manejando a temerosa lana, +Ou tufo que rebenta onde ha conflictos,-- + Alp, o Veneziano renegado! + + +IV. + +O renegado de Veneza!--ah! elle +De vetusta linhagem primorosa +Teve o seu nascimento: todavia, +Desterrado a final do patrio ninho, +Contra os concidados tomou as armas, +Em que por elles adestrado fra; +E orna-lhe a fronte rasa hoje o turbante. +Depois d'eventuaes destinos varios, +Sob a lei que Veneza lhe dictra +Se acolheo, como a Grecia, ento Corintho; +E ei-lo que ante seus muros se apresenta, +Inimigo entre os feros inimigos +Da Grecia e de Veneza, e trasbordando +De resentido ardor, qual excandesce +Ao joven convertido a alma orgulhosa, +Onde duestos mil accumulados +Esto sempre em tumulto, e eternos vivem. +Nem por isso com elle quiz Veneza +Desempenhar o civico appellido +Em que firmava o seu brazo = A LIVRE; = +E de So Marcos no palacio excelso, +Delatores incognitos lanro +Na _Boca do Leo_, durante a noite. +Denuncia atroz de requintados crimes, +Que o cobrio de macula indelvel: +Salvou seus dias pressurosa fuga. +Desde esse lance despendia a vida +No meio dos combates, demostrando +Bem claro patria o que perdeo no alumno +Que contra a Cruz, j supplantada, erguia +O soberbo Crescente, e, guerreando, +S vingar-se ou morrer buscava ancioso. + + +V. + +Coumourgi--aquelle que impz termo aos feitos, +O ultimo perecendo, e o mais pujante, +L nos de Carlowitz sangrentos plainos, +Sem magoa de morrer, porm, raivoso, +Dos Christos maldizendo inclitos louros, +E d'Eugenio adornando o gro triunfo; +Coumourgi--e por ventura a gloria d'este +Conquistador da Grecia derradeiro +Poder perecer, seno surgindo +Brao Christo que restitua Grecia +Sequer os fros que gozou outr'ora +Por Veneza outorgados? Elle vinha, +J depois de volvidos lustros vinte, +Reintegrar a Othomana prepotencia; +E, os veteranos seus pospondo agora, +Para mandar do exercito a vanguarda +Alp escolheo, que a confidencia summa, +Arrazando cidades, lhe pagava, +E mostrando em faanhas destructoras +O seu zeloso affrro nova crena. + + +VI. + +A muralha enfraquece: de continuo +As Turcas baterias lhe varejo +O parapeito e ameias; restrugindo, +Sahe de cada canho a voz do raio: +Aqui flammeja, ao rebentar da bomba, +Crepitante zimborio; alm baquea +Este, est'outro edificio derrocado, +Sob o espesso granizo d'estilhaos, +Que em lufadas volcanicas recresce: +Vai resfolgando em rbidas columnas +Voraz incendio, que to alto sobe, +Como sobe o fragor da ruina ingente, +Ou solta-se em terrestres meteoros +Que vo no ceo esvaecer-se infindos: +Mais nebuloso, mais impervio o dia +Se torna luz do sol, co'a mole opaca +Do fumo alado em tortuosos rlos, +Que d'enxofrado horror a esfera enluto. + + +VII. + +Nem smente ardor cego de vingana, +Que a longa dilao fez mais ferino, +Esporera esse Alp apostatado + adestrar os guerreiros Mahomtas +N'arte de abrir a promettida brecha. +D'aquelles muros no recinto havia +Uma donzella, cuja mo formosa +Elle obter pertendia apesar mesmo +Do inexoravel pai, que, furibundo, +Aos rogos lha negou, quando Alp outr'ora, +Chamando-se Lanciotto, o bafejavo +Tempos melhores, mais propicios fados; +E sem nota e sem crime de perfidia, +Aos palacios, s gndolas levando +Alegria vivaz, se assignalava +Nos Carnavaes, ou resoar fazendo +Sobre aguas do Adria esses descantes meigos +Que alvoroadas de prazer escuto + meia-noite as Italas donzellas. + + +VIII. + +Que do seu corao j possessora +No fosse a virgem, suspeitavo muitos; +No em tanto d'infinitos requestada, +E a nenhum acolhendo, persistia +De todo o lao conjugal isenta +A juvenil Francina: e desde o instante +Em que das Adriaticas paragens +Se retirou Lanciotto a pagos climas, +O sorriso expirou nos labios d'ella; +Meditabunda e pallida tornou-se; +Confisses amiudava, e j no era +To vista em mascaradas e assembleas; +Ou, se l ia, os olhos seus descidos +Avassalavo, n'um volver furtivo, +Mil coraes de balde suspirosos: +Nenhum objecto contemplava attenta; +No punha em atavios tanto apuro, +Nem j to terno desprendia o canto; +Seus passos, bem que leves, o ero menos +Que os dos parceiros seus, a quem na dana +Colhia absortos o raiar d'aurora. + + +IX. + +D'um slo aos Musulmanos arrancado, +Quando a soberba lhes calcou Sobieski +Ante os muros de Buda, s margens do Istro; +D'um slo que depois Veneza altiva +Empolgou com violencia desde Patras +T a Euboica enseada, o regimento, +Por ordem sup'rior, tomou Minotti; +E de Corintho na torreada estancia +J elle era do Doge o delegado, +Quando os olhos da Paz fagueiros, pios, +Depois da larga ausencia, confortavo +C'um sorriso dos seus a Grecia sua, +Inda no rto esse armisticio trdo +Que ao jugo anti-Christo a subtrahia. +Entrou Minotti alli co'a filha amavel; +E desde o tempo em que a formosa Helena, +Deixando o esposo e a patria, fez ver quantos +D'um illicito amor desastres broto, +Nunca estas praias adornou belleza +Digna de comparar-se da estrangeira. + + +X. + +Em crebros boqueires abre-se o muro; +E sobre as ruinas da alluida mole +Vai, primeira luz, desenvolver-se +Assalto mais que todos formidando. +Tropas enfileiraro-se; escolhidos +Foro para formar toda a vanguarda +Tartaros e Othomanos; e vs outros, +Flor dos guerreiros, a quem foi sem causa +Imposto o sobrenome de _perdidos_, +E para quem a morte e riso, jgo; +Vs, que co'alfange em punho abris caminho, +Ou de vossos cadaveres juncando +A que o brao rompeo vereda honrosa, +Sois marmoreo degro, por onde affoutos +Os socios trepo,--morrereis mais tarde! + + +XI. + + meia-noite: a fria lua ostenta +O disco inteiro, e amplo fulgor diffunde +A contrastar co'a sombra das montanhas; +Traja d'azul o mar, d'azul se veste +O firmamento, este suspenso oceano, +Todo cravado d'ilhas que refulgem +L to remotas, com ardor to vivo: +E quem, quem pde attento contempl-las, +E repascer depois os olhos tristes +No valle dos mortaes, sem que apetea +Voar e unir-se para sempre a ellas? +Dormem as ondas, n'uma praia e n'outra, +Placidas e ceruleas como os ares; +S de leve as areas roa a espuma, +Com murmurinho igual ao d'um regato. +Os ventos se recosto sobre as ondas; +E das hastes ao longo quietas pendem, +Em pregas conchegando-se, as bandeiras, +Que remata arci-flgido Crescente. +Nada interrompe esta mudez profunda, +Seno alm a voz da sentinella +Reproduzindo a senha, ou l mais longe +Relincho de corseis agudo e crebro, +Ou cos que respondem dos outeiros, +Ou da hoste bravia o rumor vasto, +Que semelhante ao de agitadas folhas +Alongando-se vai de praia a praia, +Ou preces usuaes que meia-noite +Levanta o Muezzin, rasgando os ares +Co'a lamentosa garganteada la, +Qual 'spirito que vaga na planicie: +Meldicos accentos, mas prantivos, +Quaes os produz o vento, que, passando, +Encontra as cordas de sonoras harpas, +E extrahe descompassadas harmonias, +Que no conhece o menestrel mundano. +Este som se affigura aos sitiados +Grito agoureiro da infallivel queda; +Elle fere no ouvido aos sitiadores +Como indicio aziago e pavoroso, +Repentina toada indefinivel, +Que os coraes lhes paralisa agora, +E logo os faz pulsar mui apressados, +Co'a vergonha de haver surdido n'elles +To desusada sensao furtiva: +Dest'arte o sino apregoador da morte +Nos sobresalta de repente ouvido, +Inda que seja em funeral d'estranhos. + + +XII. + +Calou-se o som, a rogativa finda; +As sentinellas em seus postos velo; +Foi a nocturna ronda percorrida, +E em tudo as ordens satisfeitas todas. +Tem Alp o seu tentorio sobre a praia, +E em ancias vai curtir inda esta noite; +Mas bem pde a manh suavis-las, +Na fruio das vantagens to copiosas +Com que o amor e a vingana ho de reunidos +Demora indemnisar to prolongada. +Horas poucas lhe resto, e carece +De repousar, por que expedito esteja +s proezas da crstina matana: +Mas baralhados, quaes estuantes vagas, +Os pensamentos lhe relucto n'alma. +Sem repouso e s elle em todo o campo; +Nem sente o corao entumecer-lhe +Fanatica vangloria blasonante +De ver pelo Crescente a Cruz calcada, +Ou de vender seus dias mui baratos, +Seguro de gozar no paraiso +O sempiterno amor das Houris bellas; +Nem se sente abrazar d'aquelle austero +Patriotico ardor que de bom grado +Supporta rduas fadigas, verte o sangue. +Quando peleja sobre o cho nativo, +Elle no era mais--que um renegado. +Ora verdugo da trahida patria; +Elle no era mais que um peito forte, +Um brao acreditado entre o seu bando. +Seguio-no, por que era valeroso, +E j lhes grangera espolio grande; +Davo-lhe acatamento, por ver quanto +Elle sabia captivar do vulgo +As vontades, e arteiro dispr d'ellas: +Mas nem por isso lhe entejavo menos +O Christo nascimento: inveja influe-lhes +A propria fama atreioadora que elle +Ganhra sob um nome Musulmano: +De qualquer modo, esse esforado chefe +Vil Nazareno foi na juventude. +No lhes era sabido t que ponto + capaz de curvar-se o orgulho, quando +Murcho e aviltado o pundonor baquea; +No lhes era sabido quo violenta +Chamma voraz em coraes se accende +Que de meigos tornaro-se bravios; +Ignoravo qual zlo de vinganas +Refalsado e fatal se gera e cresce +D'um convertido n'alma. Elle os regia: +Pde um homem reger outros peores, +E de ser o primeiro gloriar-se. +Taes os lees sobre o jakal domino: +Destro o jakal espia e abate a prsa; +Mas, no aperto da rugidora turba, +Da-se por pago, se devora os restos. + + +XIII. + +A cabea lhe ferve, e apressuradas +As arterias palpito-lhe convulsas; +D'um lado e d'outro volta-se, baldando +Modos de repousar; e se dormita, +O som mais leve, o mais pequeno abalo +Prestes o acordo angustiado em dbro. +A fronte excandescida lhe molesta +Hoje o turbante, e, nem que plumbea fosse, +A loriga lhe pesa sobre o peito, +Se bem que tanta vez, e a somno solto, +Sob esse mesmo pso repousasse, +Tendo apenas por leito um cho saibroso, +E por docel o firmamento apenas, +Leito e docel quaes ao guerreiro a noite +Agora os deparou. Elle nem pde +No seu tentorio adormecer, nem quieto +Esperar que desponte a luz diurna, +E eis vaga ao longo da arenosa praia, +Alastrada de tantos que repouso. +Quem os acalentou? e por que causa +Ha de elle s velar, despossuido +D'um bem que logro rasos subalternos, +A quem cabe arrostar maiores p'rigos, +E lidas superar mais affanosas? +Mas ah! que um sonho animador lhes pinta +Os lucros todos do futuro espolio; +E em quanto mil e mil passo dormindo +Esta que a noite extrema talvez d'elles, +Alp, em vigilia atroz, vaguea anciado, +E lhe alvo d'invejas quanto encontra. + + +XIV. + +Vai na aprazivel fresquido da noite +Achando refrigerio s ancias d'alma. +Relentoso ora o ceo, bem que tranquillo, +As affogueadas faces lhe aspergia +Com brando orvalho. Apz lhe fica o campo; +De fronte lhe serpea, derramado +Em crebros surgidouros e enseadas, +O golfo de Lepanto; est-lhe vista +A de Delphos montanha sempiterna, +Onde os glos accrescem, brilho, duro, +De mil estios affrontando a ardencia, +Campeando no golfo, e serro, e clima, +Sem que os dissolva, como a ns, o Tempo. +Desapparecem o tyranno e o servo, +Improprios a aguantar fulgente raio; +Mas este vo deslumbrador e fragil, +De que vs envolvido o monte excelso, +Quando torres baqueo, jazem troncos, +L brilha sempre no empinado alcar; +Pileo na frma, nuvem no elevado, +Na cr e na amplido lanol funereo, +Erguido a designar que a Liberdade +Se ausentou da mimosa estancia sua, +E hoje languida jaz no mesmo slo, +Onde foi largos tempos escutado +Seu profetico ardor em aureos versos. +Oh! que de quando em quando inda l so +Os passos seus sobre arescentes campos, +Sobre tantos altares demolidos; +E ella, um a um mostrando aquelles restos +Abonadores da passada gloria, +Alentar busca os animos prostrados: +Porm de balde bradar, em quanto +No despontar n'um corao preclaro +Destimidez possante, toda accesa +Ao claro d'esses dias que luzro +Sobre a fuga do Persa, e que risonhos +O intrito arrostro do Espartano. + + +XV. + +Inda que fugitivo e criminoso, +Alp admirava as inclitas virtudes +D'esses tempos heroicos; e esta noite, +Em quanto vagueava, e na memoria +O presente e o passado revolvia, +Apreciando as mortes gloriosas +Dos que em defensa da genuina causa +Seu sangue alli vertro, mui bem sente +A que ponto fallaz, mesquinha, obscura +Quanta fama lucrou d'um bando frente, +E, nefario traidor, brandindo a espada +Entre as turmas cingidas do turbante, +Que raivoso guira a injusto assedio. +Onde era em cada prospero successo +No menos computado um sacrilegio. +Taes no lhe mostra a fantasia os chefes, +Por quem aquelle p que o circumdava +Fra illustrado, e que as phalanges suas +Perfilavo no plaino, no de balde +Ento de baluartes guarnecido. +Estes morrro escudando a patria, +E eternos vivem no fulgor da gloria: +Suspirar-lhes alli os nomes gratos +Inda parece a brisa; alli seus feitos +So no murmurinho das correntes; +Pova seu renome aquelles campos; +O pilar taciturno, ermo, alvacento, +Demanda aos sacros vultos alliar-se; +Os espiritos seus em trno giro +Dos fuscos serros; a memoria sua +Toda se espelha no cristal das fontes; +O arroio humilde, o caudaloso rio +Perennes fluem co'a perenne fama +Dos estremados campees sublimes. +Por mais que a opprima um jugo, esta sempre +A patria d'elles, e a manso da gloria! +A Grecia!--ha de levar sempre este nome +Um som despertador ao Mundo inteiro. +Varo que aspira a perpetrar faanhas, +L pem na Grecia o fito, e abjura as normas +Que smente os tyrannos sanccionro; +Para l olha, e se arremessa aonde +Conquiste a Liberdade, ou deixe a vida. + + +XVI. + +Sempre assim meditando silencioso, +Alp ao longo da praia os passos move, +E com brando rocio a noite o ameiga. +Coarctados e sem sto, aquelles mares +Em moto igual ondeo sempiternos, +E a vaga que possuem mais furiosa +Nem um quarto de geira ao slo invade; +E ou se mostre, ou se esconda, ou mude as phases, +No tem sobre elles influencia a lua: +Mansos, tumentes, no alto, na enseada, +Do dominio lunar se movem francos. +O escolho immovel, descobrindo a base, +Olha ao largo, e de balde espera as ondas: +Pde ver-se a que o cinge espumea linha, +Que em baixo lhe traou a mo dos vos. +Um pequeno areal loureja plaino +Entre o salgado leito e o cho relvoso. +Pela marina margem vagabundo, +Eis Alp assoma dos sitiados muros +Desviado no mais que quanto alcana +Um tiro de clavina. Como crivel +Que alli no fosse visto, ou que evitasse +O golpe hostil? Entre os Christos acaso +Remanecem traidores encobertos? +Qual torpor lhes vincula as mos agora? +Qual glo os coraes lhes paralisa? +Tal brandura elle estranha; mas certo +Que de nenhum dos lanos l do muro +Escorva reluzio, sibilou bala, +Se bem que to de baixo agora avulte +Dos basties minaces que flanqueo +Essa porta, resguardo da cidade +Pela banda do mar; se bem que possa +Quasi as palavras distinguir ferrenhas, +E os passos numerar da sentinella, +Que so, indo e vindo compassados, +Pela extenso da sotoposta lagem. +Nem os ces, de occupados, lhe latro! +E, magros e famlicos rosnando, +Os v sob a muralha dar-se ao bdo +De sangrentos cadaveres e ossadas: +Ei-los que esto da pelle despojando +Nest'hora um craneo Tartaro, bem como +Ns despojamos o recente figo; +E alvejantes lhes rangem os colmilhos +Sobre a caveira que inda mais alveja, +E que dos queixos lhes resvala, quando +Embotados os deixa o roer crebro; +Mas vo moendo de vagar os ossos, +Se um acaso permitte que no achem +Sobre aquelle torro melhor sustento. +Seu antigo jejum quebrou-se larga +Nos guerreiros que alli perdendo a vida, +Lhes so manjar em refeio nocturna. +Pelos turbantes sobre a ara esparsos, +Alp a flor do seu bando reconhece; +Bem nota o verde, o carmesim das telas +Com que cingio por costume a fronte; +E cada pericraneo off'rece a esguia +Madeixa longa, e no demais raso. +Os pericraneos jazem na guela +Feroz dos ces, ao passo que a madeixa +Se lhes enreda em volta das queixadas. +L se v mais alm, do golfo orla, +Sofrego abutre contender c'um lobo, +Que, das montanhas a prear baixando, +Era alli solitario, e no ousava, +Dos ces espavorido, tomar parte +No amplo repasto das humanas carnes; +Mas engole a rao que lhe coubera +D'um corsel debicado j das aves, +Que da enseada no areal jazia. + + +XVII. + +De to feio espectaculo insoffrivel +Arreda os olhos Alp: elle em conflictos +O que era estremecer no soube nunca; +Porm no to arduo, to penoso +Olhar ao que estendido se revolve +Do proprio sangue em fumegante lago, +E arqueja entregue insaturavel sde +E ao vasquejar da morte, quanto v-lo +Depois que pereceo, e s cadaver. +No momento fatal, um certo orgulho +Se desenvolve n'alma do soldado, +Lhe adoa o fim cruento: se fenece, +Espera reviver na voz da Fama, +Ficar bemquisto Honra, que tem sempre +Os olhos fitos no que morre affouto! +Mas quando em fim s'esvaeceo tudo isto, +Bem misero se sente quem percorre +Campo alastrado d'insepultos mortos. +Ao ver como da terra surde o verme, +Deixa o bruto as florestas, a ave desce, +E alli affluem, demandando no homem +Todos quinhoar prsa, e achando todos +O lucro seu na decadencia d'elle. + + +XVIII. + +Alli se via derrocado templo: +So cinza e longo olvido as mos que o erguro. +Inda algumas columnas, e dispersos +De marmore e granito mil fragmentos +O slo opprimem, recobertos d'herva. +Inexoravel Tempo! e nunca inteiras +Deixars ao porvir obras passadas! +Inexoravel Tempo! e has de tu sempre +Querer que do passado fique apenas +Aquillo que o presente affligir deve; +E assim fazer-nos dolorosa a imagem +Do que j foi, do que ha de ser um dia! +Bem como ns, vero nossos vindouros, +Em reliquias d'antigos monumentos, +S pedras que exalou o homem de barro! + + +XIX. + +Ao p d'uma columna Alp eis se assenta: +Co'a mo comprime a face, e o corpo inclina +Como quem se resente acabrunhado +D'aterradores pensamentos tetros; +A cabea descahe-lhe sobre o peito +Excandescido, palpitante, oppresso; +Giro-lhe pela fronte debruada +Os dedos velocissimos, bem como +Pelo eburneo teclado os dedos giro +De primoroso artista, que em preludios +Por ora se entretem, da esclha incerto. +Vergando assim ao pesadume infenso, +Cr que ouvio suspirar nocturna brisa. +Acaso em lagens concavas murmura +Gemido terno de macias auras? +Ergue ento a cabea, e o mar observa;-- +Repousa o mar, qual cristalino espelho: +Contempla esguias hervas;--nada as move: +D'onde procederia o som mavioso? +Repara nas bandeiras;--quietos pendem +No alto do Cithern, quaes os deixra, +Inda os hasteados pannos; leve aragem +Nem sequer lhe roou a tz do rosto: +Qual do imprevisto murmurinho a causa? +Volve-se ao lado esquerdo:--ser isto +Illuso ou verdade? Ante seus olhos +Eis joven dama refulgente assoma! + + +XX. + +Se Alp ento visse um inimigo armado +Surgir-lhe face a face, no se ergura +To abalado de profundo assombro. +"Deos de meus pais! que vejo? quem es? como +D'hosts fileiras te aproximas tanto?" +A mo tremente lhe recusa agora +Estampar sobre a fronte essa Cruz mesma +Que elle tanto insultou; mas n'este lance +Se persignra, se a consciencia sua +Lhe no fizesse ver quanto era indigno. +Repara, observa a fundo, e reconhece +O rosto bello, as engraadas frmas: + Francina, essa virgem suspirada +Que elle a si pertendia unir consorte! +Inda nas faces lhe viceja a rosa, +Porm a rubra cr menos viva. +Que do attractivo d'esses labios meigos? +No mora n'elles o sorrir donoso +Que ao rubim dava esmalte. Inda em seus olhos +Reside o azul do socegado oceano; +Mas se no aspecto bonanoso o imito, +Tambm o imito na frieza immovel. +Talhe accuso gentil vestes ligeiras; +Nada lhe vela o seio luminoso; +Soltas d'ebano as tranas, ver no tolhem, +Por entre a chuva dos anneis ondeantes, +Nivea nudez dos torneados braos. +Levanta ao alto a mo antes que falle; +E de tal modo branca e transparente +Se mostrava essa mo, que poderieis +Ver por entre ella rutilar a lua. + + +XXI. + +"O repouso deixei, a fim smente +De vir ao meu amado, e de faz-lo +Feliz commigo, e ser feliz com elle. +Por teu respeito entre inimigas turmas +Eis movo os passos, e transpuz a salvo +Muralhas, portas, sentinellas, tudo. +Uma joven donzella, em todo o brio +Da nativa pureza, ha quem affirme +Que dos proprios lees respeitada: +E o superno Poder que ao innocente +Escuda contra o despota dos bosques, +Se encarregou tambem de defender-me +Do insulto d'infieis confederados; +E vim:--se vim de balde, oh! v que nunca, +Nunca mais tornaremos a encontrar-nos! +Sei que, abjurando de teus pais a crena, +Es ro de crime hediondo; todavia +Lana por terra esse turbante, e imprime +Sobre a fronte o da Cruz signal divino, +E eu de ti folgue na perpetua posse. +Eia, o negro labo expelle d'alma; +E pois havemos manh de unir-nos, +No queiras para sempre separar-nos." + +"E ao tro nupcial onde acharemos +O apetecido espao? pde hav-lo +Entre montes de mortos e expirantes? +Os Christos, seus altares, quanto d'elles, +Ha de o ferro manh unido chamma +Tudo, tudo extinguir: nenhum mais deve, +Seno es tu e os teus, ver nova aurora; +Que eu assim o jurei. Mas ser-me-ha doce +A mais donosos sitios transportar-te, +Onde se enlacem mos, se olvidem mgoas, +Onde tu sejas a consorte minha, +Quando abatido de Veneza o orgulho +Eu j tiver; quando este brao, que ella +Quiz sumir na abjeco, deixe aoutados +Com viperino ltego os infames +Que accendeo contra mim o vicio e a inveja." + +Ella pousou a mo sobre a mo d'elle: +Foi leve o toque, mas varou-lhe prompto +As medullas dos ossos, e entranhou-lhe +Pelo imo corao glo indizivel, +Que nem d'estremecer lhe deixou posses; +E este frio mortal, de que se arguia, +Remov-lo de si em vo tentava. +Oh! nunca, nunca de to caro objecto +Partra movimento que viesse +Com tamanho terror gelar-lhe o sangue, +Qual n'esta noite o subitaneo toque +D'aquelles alvos dedos alongados. +Morreo-lhe em pallidez a effervescencia, +Ficou-lhe o corao, qual seixo, immovel, +Ao ver aquelle rosto, ai! to mudado +J de si proprio: bello, mas languente-- +Sem vestigio nenhum d'incendios d'alma, +Que em cada feio d'elle se espelhavo, +Como um dia de sol se espelha n'agua. +Anhlito nenhum se unia s vozes +Que lhe escapavo dos immotos labios; +Do quieto corao nenhum palpite +Lhe sublevava o seio; nada havia +Que a rigida atteno interrompesse +D'aquelles olhos estacados, fixos. +Taes so os do somnambulo, que, em meio +D'anciados sonhos, deixa o leito e vaga; +Taes, na extenso de apainelados razes, +Baas figuras de minaz aspecto, +Se ao trmulo claro as contemplamos +D'expirante lucerna, desenvolvem +No sei qual mixto de animado e morto, +Com que parecem, aterrando a vista, +Ora avanar do tenebroso fundo, +Ora entranhar-se n'elle, em moto alterno, +Que a seu sabor lhes communica o vento. + +"Se por amor de mim tu crs que muito, +Por amor s do Ceo embora o faze: +Longe arremessa (inda outra vez to digo) +Da fronte criminosa esse turbante, +E me promette de no ser infesto +Aos filhos da insultada patria tua, +Ou es perdido, e despedir-te deves, +No j da Terra--esvaeceo-se a Terra-- +Mas do Ceo e de mim, que te fui cara. +Eia, cede a meus rogos: v que abertas +Inda te espero da clemencia as portas; +E bem que contra ti grave sentena +Fosse j proferida, o rigor d'ella +Em grande parte expiar teu crime. +Pondera a fundo; e provocar no queiras +A maldio d'Aquelle que abjuraste. +Ao Ceo inda uma vez levanta os olhos, +V que a ti mesmo para sempre o fechas. +Essa nuvem que esconde agora a lua, +L vai passando, e passar de pressa: +Se, quando rebrilhar o disco inteiro +Desafrontado do vapor sombrio, +No revolveo a contrio teu peito, +Fico de ti vingados Deos e os homens: +Tremendo fim ters, e mais tremenda +Te espera a eternidade dos perversos." + +Alp ergue a vista ao Ceo, e reconhece +O indicado signal; porm o orgulho +Entumeceo-lhe o corao, e o rege +Com despotico imperio inabalavel; +E esta paixo fallaz que o predomina, + torrente caudal que tudo alaga. +Elle implorar perdo! elle render-se +A impertinencias de mesquinha virgem! +Elle, offendido de Veneza ingrata, +Poupar-lhe os filhos, que votou morte! +No:--embora essa nuvem traga um raio, +Embora um raio o esmague:--e inda no tra? + +Sem que a minima voz dos labios solte, +Elle fitava ancioso aquella nuvem: +Attento a v passar; fugio de todo: +Em seu pleno fulgor se mostra a lua. +"Qualquer que seja o meu destino (exclama), +No tenho de mudar: agora tarde. +No meio da tormenta pde a canna +Dobrar-se e logo erguer-se, os troncos quebro. +Qual Veneza me fez, serei j'gora; +Seu implacavel inimigo em tudo, +Excepto na affeio que eu te consagro. +Tu pois es salva: oh! vem, meus passos segue." +Voltando-se, elle a busca; ella sumio-se: +S o antigo pilar lhe avulta ao lado. +Sorveo-a a terra, ou s'esvao nos ares? +Nada elle vio--nada escutou s sabe +Que alli nenhum vestigio existe d'ella. + + +XXII. + +A noite dissipou-se, e o sol resplende, +Qual se um dia de festa esclarecesse. +Eis d'entre bruscos vos pomposa surge +Arraiada a manh d'aureos fulgores, +E abrasador promette o meio-dia. +Trombetas se ouvem, rufos de tambores, +Hrridos sons de barbara corneta, +Sussurrar de bandeiras fluctuantes, +Relinchar de corseis, tropear de turmas, +E o retinir das armas, e o alarido: +"Ei-los vem! ei-los vem!" Da terra prestes +Descravo-se os pendes equi-caudatos, +Desnudo-se as espadas lampejantes, +E tudo a entrar em frma apercebido, +S depende da voz, e a voz j sa: += Tartaros, e Spahs, e Turcomanos, +As tendas abatei, ide vanguarda, +Dai d'espora aos corseis, e na planicie +Seja cortado o passo aos fugitivos, +Quando estes proromperem da cidade: +No escape nem velho nem mancebo, +Que offrecer de Christo qualquer indicio. +Entretanto que em massa prepotente +Vo sustentar os camaradas vossos +A ensanguentada brecha, e entrar por ella. = +J o fogoso corsel remorde o freio, +E arquea o collo, e, sacudindo a crina, +As redeas tinge d'alvejante espuma: +Esto em riste as lanas, e flammejo +Accesos os murres, e em continente +O assestado canho vai despejar-se +Com estampido horrsono, e as muralhas, +Rtas em frente, esboroar de todo. +Na phalange os Janizaros entrro: +Alp os commanda; e a cimitarra nua +No erguido brao nu sustenta e brande. +Kans e Bachs fixro-se em seus postos; +E ei-lo frente da hoste se apresenta +Em pessoa o Visir.--Tanto que a senha +Troar na disparada colubrina, +Tudo em Corintho ser ruina e morte: +No ficar um sacerdote s aras, +Nem um chefe no centro das familias, +Nem flgo vivo que as manses pove, +Nem sequer uma pedra sobre os muros. +"Deos e o Profeta seu! _Allah-Hu!_"--Sobe +T s estrllas o feroz ullo! +"L tendes, para entrar, aberta a brecha; +E escadas no vos falto: tambem todos +N'essas robustas mos sustentais armas; +E como ha de falhar-vos o triunfo? +D'entre vs o primeiro que se affoute + arrancar a vermelha Cruz hasteada, +Pde franco pedir quanto apetece +Com mais vehemente ardor: supplique e obtenha." +Tal se exprimio Coumourgi, o Visir bravo. +Foi resposta o brandir d'espadas, lanas, +Com mil acclamaes de raiva alegre.-- +Silencio!-- senha estai attentos!--fogo! + + +XXIII. + +Como quando esfaimados ruem lobos +De chofre sobre o bufalo soberbo, +Sem tremerem da trva catadura, +Do mugir fero, do escavar das plantas, +Nem dos minaces cornos assestados; +E elle ou lana por terra ou ergue aos ares +Os primeiros que accessos o acommettem, +Mas que no cego arrjo a morte encontro: +Assim o Musulmano invade os muros, +E no impeto primeiro repellido. +Alli rtos do bellico granizo, +Dispersos como vidro espedaado, +Quantos de bronze acobertados peitos +Ora juncando a terra, d'onde nunca +Se ho de levantar mais! Esto fileiras +Inda alinhadas, quaes na queda o estavo; +Jaz dos mais destemidos copia grande: +Tal, quando o dia findo, e o labor cessa, +Vemos jazer sobre aplainados campos +A herva que o segador deixou ceifada. + + +XXIV. + +Bem como, em viva preamar, se observa +D'algosos escarcos batida rocha, +E j minada dos diuturnos stos, +Soltar enormes lascas alvejantes, +Que com fragor horrsono se abatem, +Assemelhando ao torreo de glo +Que Alpinos valles despenhado aterra: +Assim os de Corintho habitadores, +A final quebrantados, exhauridos, +Foro na ruina atroz precipitados +Pelo acintoso impulso recrescente +Das cerradas cohortes Musulmanas. +Elles insistem firmes, e, na queda, +O furor do Infiel os prostra em massa. +Pelejo brao a brao, e planta a planta; +E nada, excepto a morte, alli mudo: +Impetos, golpes, empuxes, clamores +Ou a pedir quartel, ou de victoria. +Reunidos ao troar increbescente +Dos bellicos troves, e ao temeroso +Estrondo da batalha encarniada. +L vo disseminando susto immenso +Por longinquas cidades, d'igual modo +Que se estivessem sob o golpe infesto, +E j dentro o inimigo as depredasse; +No d'outra sorte que se proprio fra +A excitar sensao ou triste ou leda +Aquelle som que anniquilar s sabe, +E que, varando dos soturnos montes +As entranhas durissimas, se expande +Em pavorosos cos desusados: +L os ouvio Megra e Salamina, +E, se no exaggera a voz do vulgo, +T na enseada do Piro troro. + + +XXV. + +Em rijo e solto embate retinindo, +Sabres, espadas, desde a ponta aos copos, +Gotejo sangue; mas entrados foro +Os muros j, e eis principia o saque, +E apz elle a feroz carnificina. +Rompe dos edificios depredados +Medonha confuso de agudos gritos: +Escuta quo velozes na fugida +Vo ps escorregando em quente sangue, +Que as ruas deixou lbricas: no em tanto +Aqui e alm, onde o terreno offrea +Contra o fero invasor qualquer vantagem, +Onde algum lano de parede ou muro +Lhes proteger as costas, ento elles, +Aos dez, aos doze, em mal parados grupos, +Logo alli fazem alto,--alli renovo +Desesperada briga audazes, firmes, +Ou co'as armas na mo perecem todos. +Eis a p firme um ancio l surge;-- +De cs lhe alveja povoada a fronte; +Porm vigor pujante lhe robora +O veterano pulso: no se altera +Seu bisarro dendo, entre o bulicio +Do revlto brigar; tem por trincheira +Semicirculo espsso d'inimigos, +Que hoje uns sobre outros apinhava mortos; +Ferve em dura peleja no ferido, +E sabe retirar-se no cercado. +Sob a loriga refulgente esconde +Dos certames d'outr'ora as cicatrizes +Innumeraveis; que de toda a especie, +E o corpo inteiro lhe crivro golpes. +Em despeito d'aquella ancianidade, + de to ferreos membros, que difficil +Fra d'igual jaz achar-se um mo: +E os inimigos, que empatados tinha, +Pullulavo-lhe alli mais numerosos +Que as prateadas cs da fronte altiva; +Mas apoucando-os vai a forte dextra. +Muitas mis Othomanas prantero +Filhos que, quando pela vez primeira +Elle a espada tingio em sangue Turco, +Inda no ero nados, e hoje expiro +Antes de perfazerem lustros quatro. +Bem poder elle ser o av de quantos +N'este dia immolou s iras suas: +Vingando um filho que perdra ha muito, +Vai dos contrarios seus matando os filhos: +E desde quando o desvelado joven, +Unica prole varonil que tinha, +Morreo a combater no undoso estreito +Que d'Asia o cho divide do d'Europa, +Logo o pai prometteo sacrificar-lhe +Sanguinosa hecatombe d'inimigos, +Ceifada ao golpear do ferreo brao. +Se o morticinio pacifica as sombras, +Nem mesmo de Patroclo aos manes coube +Jbilo igual ao que sentir devio +Os do joven Minotti. Sepultado +Ficou seu corpo nas oppostas praias, +E ora privados de sepulcro n'estas +C fico mil para milhares d'annos. +Qual d'elles escapou que referisse +Como os outros morrro, e onde jazem? +Lousa nenhuma os cobre, no lhes guarda +Nenhum tumulo as cinzas: entretanto +Vivem e viviro no immortal plectro. + + +XXVI. + +Qual clamoroso _Allah!_--um tero avana +De tropa Musulmana a mais affouta, +E de pulso melhor: vai-lhe na frente, +Nervoso, nu t o hombro, e em moto ondeante +Brandindo o ferro, e sobranceiro a todos, +Do commandante o brao, que expedito +Sabe ferir, e perdoar no sabe.-- +Outros embora em mais pomposo traje, +D'espolio ao inimigo a sde ateem; +Sejo embora muitos os que empunho +D'aureo lavor custosas cimitarras, +Que de nenhuma escorre tanto sangue; +Ostentem muitos adornada a fronte +De turbantes mais altos, mais airosos;-- +Alp s conhecido por aquelle +Brao nu, que branqueja levantado. +Ei-lo campea onde mais arde a briga! +No se arvorou pendo sobre estas praias +Que mais destro as fileiras anteceda; +Jmais, durante a Musulmana guerra, +Se despregou bandeira que attrahisse +De to longe os Delhs: sempre o distinguem +A lampejar como cadente estrlla! +Onde quer que este brao prepotente +Uma vez se mostrou, logo os mais bravos +Surdem todos alli, ou tarde chego; +Alli quartel o ignavo em vos clamores +Ao vingativo Tartaro supplica; +Alli o here, no cho deitado e mudo, +Nem quer que quando morre um ai lhe escape, +E inda com tibio golpe derradeiro +Invade o antagonista, que no menos +A par de si prostrou; e bem que expire +To alquebrado das feridas mutuas, +Raivando afferra o ensanguentado slo. + + +XXVII. + +O ancio, persistindo inabalavel, +Oppr consegue momentaneo estrvo +D'Alp carreira atroz.--"Cede, Minotti: +Salva todos os teus, attende filha." +--"Nunca o vers, vil renegado, nunca! +Nem tinha eu de annuir inda que fosse +Vida eterna essa vida que me off'reces." +--"E Francina!--e a futura minha noiva! +Queres, assim teimoso resistindo, +Ser tambem causador da morte d'ella?" +--"Ella est mui a salvo."--"Onde? em que sitios?" +--"No Ceo, d'onde banida para sempre +Foi tu'alma aleivosa,--e onde Francina +Vive longe de ti, vive sem mancha." +Alp, a taes vozes, titubante, anciado, +Fica no d'outra sorte que se o peito +Lhe traspassasse truculento golpe; +E de Minotti despontou nos labios +Irnico sorriso de vingana. + +"Oh Deos! quando expirou?"--"Inda esta noite; +Mas do espirito seu no choro a ausencia, +Antes flgo de ver que c no deixo +D'esta minha linhagem nobre e pura +Ninguem que haja de ser misero escravo +De Mafamede ou teu. Anda, acommette!" +Baldado desafio! Alp j morto. +Ao tempo que Minotti lhe vertia +N'aquellas expresses criminadoras +Todo o fel da vingana, e que mais cruas +Que a propria ponta de budo alfange +Ellas varavo Alp, eis va o golpe +D'um templo no distante, defendido +Com incriveis primores de firmeza +Por esse dos Christos ultimo resto, +Que to minguado e d'esperana exhausto, +Inda de l fazia esforos grandes +Para o combate restaurar fallido: +E antes de descobrir d'onde assestada +Lhe foi a lethal bala sibilante, +Alp o cerebro tem varado d'ella, +E voltea, e vacilla, e cahe por terra: +Lampejou-lhe ante os olhos claro debil, +Quando vergou para no mais erguer-se, +Ficando apenas palpitante tronco, +Que ei-lo envolvido jaz na noite eterna. +N'elle indicio no ha que vida inculque, +Salvo o tremor dos membros onde o tiro +Deixou menor estrago. A ponto acodem, +E de costas o estendem: rosto e peito +Lhe esto manchados de poeira e sangue, +E jorra-lhe da boca o vital fluido, +Que as cavernosas veias desampara; +Mas no lateja o pulso, no se escuta +Nos labios murmurar-lhe o arranco extremo; +Nem sequer um suspiro, uma palavra, +Um penoso arquejar, lhe assignalro +O transito fatal da vida morte. +Antes que o pensamento levantasse +Em spplica contrita, ro nefando, +Se apresenta aos umbraes da eternidade, +Sem que ao perdo celeste aspirar possa, +E na vida e na morte--Renegado. + + +XXVIII. + +Ento d'um lado e d'outro aos ares sobe +Espantoso alarido retumbante: +Aqui, de regozijo; alm, de raiva. +Eis de novo travadas em conflicto +Espadas de Christos e Turcas lanas +Embatem com furor, mutuo golpes, +Estendendo no p guerreiros muitos. +Ousa, de rua em rua e passo a passo, +Minotti disputar aos inimigos +Qualquer poro restante do terreno +Que ao seu bravo commando fra entregue: +Ao lado, a reforar-lhe audacia e pulso, +As sobras tem da guarnio briosa. +Resistencia tenaz off'rece o templo, +D'onde predestinada veio a bala +Que em grande parte despicou Corintho, +Morto Alp, o mais feroz de seus contrarios +Para alli recuando sem desvio, +Deixando diante ensanguentado rasto, +E os inimigos encarando sempre, +E nunca sem matar vibrando um golpe, +O chefe e o seu cortejo, em retirada, +Conseguem reunir-se aos que occupavo +A sacra estancia: no recinto d'ella +Inda lhes cabe respirar um pouco, +Das macias paredes escudados. + + +XXIX. + +Remanso bem mesquinho! Os Musulmanos, +De pujante refro abastecidos, +Borbotando furores e ufania, +To cerrados, to frvidos avano, +Que o nmero lhes tolhe a retirada: +Dest'arte se atravanco no caminho +Que vai ao templo, onde os Christos no sabem +O que render-se; e os batalhes infestos +Tanto apinho-se frente, que, inda quando +Lavrasse o susto alli, nenhum podra +Por entre as fortes massas escoar-se: +Ou vencer ou morrer lhes era fra. +Morrem; mas sobre os corpos palpitantes +Lhes surgem de repente os vingadores. +Que, frescos e raivosos pullulando, +As filas, sempre rtas, enchem sempre; +E os Christos affadigo, extenuo, +Violentas amiudando as investidas: +E ei-los agora os Infieis assomo +Junto ao sacro portal. Por longo espao +A ferrea contextura inda resiste, +Inda de cada fresta vo tiros, +Todos bem assestados, mortaes todos; +E de cada janella se desato +Em chuveiro as sulfureas alcanzias. +Mas j fraqueo as nutantes portas-- +Vrgo rangendo os quicios, cede o ferro,-- +L pendem--l se abatem j cahro: +No mais resistir, morreo Corintho! + + +XXX. + +Soturno, sem que o vejo, s comsigo, +Ao altar arrimado est Minotti. +D'um painel sobranceiro, a Virgem santa +O affavel rosto flgido lhe volve, +Transumpto de celeste colorido, +Onde os olhos so luz, amor o aspecto; +E na ara collocado a fim que possa +Dos humanos fixar o pensamento +Sobre as cousas do Ceo, quando elles oro +Devotos, genuflexos ante a imagem +D'esta Mi admiravel, que em seu gremio +Sustem e affaga o Redemptor-menino, +E com sorrisos acolhendo meigos +Uma por uma as fervorosas preces, +Como que ao Ceo de transferi-las cuida. +Sorrindo sempre, inda sorr agora, +Em despeito da atroz carnificina, +Do sangue em jrros que deturpa as naves. +Eleva ento Minotti os olhos lassos, +E, exhalando um suspiro, se persigna; +Logo alli d'uma tocha que era accesa +Ei-lo se apossa, e permanece firme, +Em quanto os Musulmanos irruindo, +Desenvolvendo larga ferro e fogo, +Hrridos enchem a manso sagrada. + + +XXXI. + +Sob a lagem que o vasto pavimento +Recompunha em mosaico variada, +Subterraneas abobadas se arqueo. +Jazigo aos mortos das passadas eras: +Em memorandas lpidas incisos +Lio-se os nomes seus, que ler no deixa +Ora o sangue que os cobre: aqui no menos +Vio-se, honrando as cinzas, esculpidos +Timbres, emblemas de lavor prestante, +Marmores luzidos, de vistosas +Multicolores veias serpeados,-- +Que, srdidos j hoje, se baralho +Com fragmentos d'espadas, de montantes. +Com morries e arnezes abolados, +Confuso mixto que por cima avulta +D'innumeraveis atades, onde +Enfileirados os defunctos dormem: +Podes v-los em lugubre apparato, +Ao macilento albor que inda os visita +Por fisgas breves de sombrias grades. +Mas nem por isso desistio a Guerra +D'entrar por estas lobregas cavernas, +Com trva profuso disseminando +Das sepulcraes abobadas ao longo +Seus thesouros sulfureos, que se elevo +Empilhados em massas volumosas +Junto dos resequidos esqueletos. +Aqui, durante o crco, havio feito +Seu paiol os Christos: longo rastrilho, +Desde agora entornado, se encaminha +Do templo a estes sitios; e eis o extremo +Recurso inabalavel de Minotti +Contra o poder das irruentes turmas. + + +XXXII. + +O inimigo enche tudo; e poucos tento +Inda arrost-lo, ou mui de balde o arrosto. +Elle, falta de vivos, vai nos mortos +Saciar da vingana a voraz sde, +Que exacerbou-se agora; elle os invade +Com sacrilegos golpes, e decepa +Cabeas j finadas, e dos nichos +As estatuas despenha baqueantes, +E as aras despe d'oblaes opimas, +E co'as callosas mos profanadoras +O argento empolga dos sagrados vasos. +Chegada apenas a caterva infrene +Ante o altar principal, detem-se e pasma: +Oh qual o adorna resplandor pomposo! +Sobre a pedra lhe surge bem patente +O consagrado Caliz, ouro estrme, +Prsa que enleva os depredantes olhos, +A fulgurar macia e ponderosa: +Hoje conteve o sacrosanto vinho, +Que Christo em sangue seu mudar dignou-se, +E com que, ao romper d'alva, os seus cultores, +Antes de pelejar, fortalecro +As almas ao dever e ao Ceo votadas: +Inda no fundo remanecem gotas; +E tambem, circumdando a sacra mesa, +Em symetria esplendida dispostas, +Ardem lampadas doze d'ouro fino: +Este o mais opulento e ultimo espolio. + + +XXXIII. + +Apinho-se alli todos; e o que estava +Da prsa mais visinho, faz-se avante, +E quasi quasi que a empolgava, quando +O longevo Minotti applica a tocha +Ao rastrilho fatal;--ei-lo se inflamma! +Campanarios, abobadas, altares, +Espolio, vivos, mortos, moribundos, +Christos vencidos, Turcos vencedores, +E o templo esboroado, e quanto ha n'elle, +Se ergue aos ares com hrrido rebombo, +E finda envlto na exploso terrivel! +A cidade abalada--o cho coberto +D'edificios, de muros demolidos-- +As ondas que recuo, de assustadas-- +Os montes, seno rtos, vacillantes, +Como se os sacudisse um terremoto-- +De milhares d'objectos mixto informe +Que os Ceos toldando vai de fogo e fumo. +Ao rebentar da horrtona lufada-- +No cesso de apregoar que n'estas praias, +Ha longo tempo, afflictas, terminou-se +Dos combates o mais desesperado. +Como accesa em girandolas festivas, +L roa os astros a confusa mole. +Vares no poucos d'estatura ingente, +D'apparencia gentil, ora abrasados, +Curtos como pigmeos, descem dos ares, +Em torrado carvo juncando a terra. +Grossa chuva de cinzas se despenha: +Muitas recebe o golfo, e, ao receb-las, +Frma em trno escarcos, que se desfazem +N'um progresso de circulos undosos; +Muitas recebe a praia, e vo, por longe +Disseminadas, recobrir todo o isthmo: +So cinzas de Christos ou d'Othomanos? +Suas mis se aproximem, venho v-las, +E digo se as conhecem!--Por ventura +Houve alguma de vs, desgraadas, +Que quando aos peitos lhe pendia o filho, +Ou no embalado bero o adormentava, +E, sorrindo d'amor, se comprazia +N'aquelle brando repousar donoso, +Ai! houve alguma ento que nem por sombras +Esperasse este dia, ou ver dispersos +Da cara prole os lacerados membros? +Nem sequer, nem sequer as extremosas +Matronas que no ventre os alojro +Estremar sabem os nascidos d'ellas; +Um s momento lhes tirou de todo +Frma e semblante d'homens; resta apenas +Algum disperso pericraneo ou osso. +Barrotes, vigas flammejantes descem, +E em redor se derramo; vem cahindo +Engastadas em barro infindas lagens, +Que o slo opprimem fumegantes, negras. +Todo o vivente a quem troou no ouvido +O abalo estragador, prego de morte, +Ou jazeo ou sumio-se: espavoridas +O vo affasto carniceiras aves; +Bravos ces vo-se arredando em uivos, +Nem se lhes d dos insepultos mortos; +O camelo as prises deixou quebradas; +O touro, ao longe, se desfez do jugo; +O corsel, que o fragor ouvio de perto, +Rompendo a silha, espedaando as redeas, +A galope alongou-se pelo plaino; +As incolas dos charcos lutulentos, +Alando a boca sobremodo aberta, +Clamor soltro importuno em dbro; +Uivro pelas furnas das montanhas +Os lobos, quando alli a trovoada +Em cos retroou; l mui distantes, +As alcatas dos jakaes bramro +Com mixto som, que, lamentoso e agudo, +Ora imitava criancinha em chros, +Ora lebro ganindo fustigado: +Esbaforida accelerando os vos, +A aguia desamparou a rocha alpestre, +Onde aquecia o ninho, e remontou-se +Mais proxima do sol, achando crassas +Em demasia as sotopostas nuvens, +Que vinho, d'atro fumo conglobadas, +Roar-lhe o bico amedrontado, hiante, +Mais e mais excitando-a a sublimar-se, +E o grito a reforar.--Eis de qual modo +Conquistada e perdida foi Corintho. + +FIM. + + + + +NOTAS ABREVIADAS. + + +NOTAS ABREVIADAS. + + +II.--_vers._ 14. + + Dando de mo grei, o Turcomano + Prestes unio ao lado a cimitarra. + +Domiciliados debaixo de tendas, vivem estes povos uma vida patriarcal. + + +V.--_vers._ 1. + + Coumourgi--aquelle etc. + +Ali Coumourgi, valido de tres sultes, e gro visir de Achmet III, +havendo retomado em uma s campanha o Peloponeso aos Venezianos, foi, no +seguinte anno, mortalmente ferido na batalha de Peterwaradin, quando +forcejava para reunir suas tropas. + + +XVI.--_vers._ 4. + + Coarctados e sem sto, aquelles mares + Em moto igual ondeo sempiternos. + + talvez desnecessario recordar ao leitor que o movimento do fluxo no +visivel no Mediterraneo. + + +Ibi--_vers._ 42. + + Ei-los que esto da pelle despojando + Nest'hora um craneo Tartaro, etc. + +Este espectaculo, qual o descrevo, foi por mim presenciado sob os muros +do serralho de Constantinopla; e os cadaveres ero talvez os de alguns +Janizaros rebeldes. + + +Ibi--_vers._ 59. + + E cada pericraneo off'rece a esguia + Madeixa longa, etc. + +Crm os Musulmanos que o seu Mafma, no ponto de transferi-los ao +Paraiso, os tomar por esta madeixa; e, firmados sobre to supersticioso +fundamento, a deixo crescer. + + +XXI.--_vers._ 94. + + Essa nuvem que esconde agora a lua, + L vai passando, etc. + +Este pensamento no original, por quanto deparei com elle na verso +ingleza de Vathek. + + +XXII.--_vers._ 11. + + ---------- Da terra prestes + Descravo-se os pendes equi-caudatos. + +De uma cauda de cavallo, fixa no alto de uma lana, so compostos os +pendes dos Bachs. + + +XXV.--_vers._ 51. + + Morreo a combater no undoso estreito + Que d'Asia o cho divide do d'Europa. + +Na batalha naval que os Venezianos travaro com os Turcos entrada dos +Dardanellos. + + +FIM DAS NOTAS. + + + + + * * * * * + +P. S. _Escrevemos accentuada e sem_ h _a 3. pessoa do singular no +indicativo presente do verbo substantivo ser, e igualmente sem_ h _o +adjectivo numeral um, por nos parecerem terminantes as razes em que +fundado este uso. Por certo que nem sempre adherimos opinio de nossos +Grammaticos e Diccionaristas modernos, com quanto sejo alguns de +reconhecida erudio; e em meia duzia de paginas, que talvez +publicaremos, ho de apparecer indicados os pontos e expendidos os +motivos d'esta divergncia. Pelo que toca exactido typografica do +Poema que apresentamos traduzido, empregou-se ahi mui boa diligencia: +pois de presumir que ser leve e de facil emenda o defeito que ainda +remanecer._ + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord +Byron, traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA *** + +***** This file should be named 33592-8.txt or 33592-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/3/5/9/33592/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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Typographia Commercial Portuense, 1839"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + a {text-decoration: none;} + #corpo p.centrado{text-align: center; text-indent: 0;} + #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + #corpo p.versos {text-align: left; text-indent: 0; margin-left: 5%; } + h4 {text-align: left; text-indent: 0; margin-left: 20%;} + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .imagem {width: 40%; float: right; text-align: center;} + .ntrans {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%; padding: 1em;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, +traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez + +Author: George Gordon Byron + +Translator: Henrique Ernesto de Almeida Coutinho + +Release Date: August 31, 2010 [EBook #33592] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: UTF-8 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<div class="ntrans"> +<p><b>Notas de transcrio:</b></p> + +<p>Foi mantida a grafia usada na edio original de 1839, tendo sido +corrigidos apenas pequenos erros tipogrficos evidentes.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.6em;">O CERCO DE CORINTHO,</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">POEMA</p> + +<p>DE</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">LORD BYRON,</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">TRADUZIDO EM VERSO PORTUGUEZ,</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.4em;"><em>H. E. A. C.</em></p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p><img src="images/ilustr.png" border="0" alt="Ilustrao da capa"></p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">PORTO.</p> + +<hr style="width: 10%"> + +<p>TYPOGRAPHIA COMMERCIAL PORTUENSE.<br> + +LARGO DE S. JOO NOVO N. 12.</p> + +<hr style="width: 10%"> + +<p>1839.</p> +</div> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h2>AO ESTIMAVEL ANONYMO.</h2> + +<p class="versos"><em>Alma prestante, onde reside e impera<br> +O Genio da Amizade,<br> +Que a luminosa esfera<br> +Deixou, para acudir humanidade,<br> +Sumida em pesadumes e agonias,<br> +Em feia escuridade!<br> +Alma onde o typo eterno no se encobre,<br> +E que, n'estes d'egoismo ferreos dias,<br> +O instante de ser util s vigias,<br> +Sincera, affavel, nobre!<br> +Acceita, em oblao a ti votado,<br> +Ancioso de agradar-te, este traslado.</em></p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:right;">Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho.</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<h2><em>O TRADUCTOR,</em></h2> + +<p>Para perpetuar a gloria do sublime poeta que tanto enriqueceo a sua patria e +o mundo literario com o preciosissimo cabedal de suas produces, bastaria esta +de que emprehendemos e agora publicamos a traduco. Sciencia dos tempos e dos +costumes, vasta erudio, profundo conhecimento do homem, variedade e +magnificncia de quadros, fecunda elevao de pensamentos, lustre e vigor de +poesia, sobresahindo por effeito da mais acertada e judiciosa distribuio, eis +os titulos com que se engrandece este poema, onde lord Byron no houve mister +longo espao para mostrar-se, immortal.</p> + +<p>No raro tecerem os traductores sobejo encomio ainda a mediocres +originaes, quando com estes despendro vigilias e desvelos; mas nem por isso +receamos que, elogiando a lord Byron, nos<span class="pn">{II}</span> accusem de encarecimento ou de +leviandade: as suas obras ahi esto bem patentes, e a sua reputao j +colossal.</p> + +<p>Todavia, notando a mui sincera affeio que consagramos a to estremado +engenho, ninguem haja de persuadir-se que o avaliamos como isento de toda a +mcula. Por certo que lord Byron era homem, e o fragil da humanidade +transparece em algumas das suas produces, e s vezes procura brilhar em +detrimento daquella gentil gravidade que mui bem assenta nas Musas, e sem a +qual desmentem ellas a sua origem celeste; mas de semelhante desar campea livre +o poema que apresentamos traduzido.—S de passagem mencionaremos um +descomedido orgulho nacional<a name="L4251" id="L4251" +href="#L4257"><sup>[1]</sup></a>,<span class="pn">{III}</span> um amor +liberdade, que por vezes degenera em fanatismo: estes sentimentos os bebeo o +poeta com o primeiro alimento de sua infncia, e, quando concentrados em justo +limite, so nobres, e longe estamos de crimin-los.</p> + +<p>No menos que lord Byron admiramos os grandes capites Gregos e Romanos; +tambem nas escolas estudamos e traduzimos Nepote, Tacito, Tito-Livio, &c. +Todavia os heres n'essas historias memorados vivero em tempos mui diversos +dos nossos, e diversissima foi a sua educao fisica e moral: por tanto o joven +enthusiasta hodierno que ambiciona a todo o custo igual-los, arrisca-se a +cometter mil despropositos, e mesmo a ser victima inutil de suas desattentadas +proezas. Para morrer com gloria no desfiladeiro de Thermpylas, cumpre,<span +class="pn">{IV}</span> alm de haver sido educado em Esparta, ter frente um +Leonidas. A prudencia de Fabio transtornou os planos de Annibal e salvou Roma, +conseguindo aquillo mesmo que fra denegado s fastuosas e arrogantes ousadias +de Sempronio e de Flaminio. Do sacrificio de Curcio, despenhando-se armado e +com seu proprio cavallo no boqueiro aberto por um terremoto em certa praa de +Roma, que proveito recolhro os concidados, a patria, ou a especie humana? +Curcio era pois um esquentado enthusiasta, ou antes um orate rematado. +indubitavel que a cega ambio de figurar com heroismo Grego ou Romano, +associada ao sofrego ardor no sei de que liberdade turbulenta, insidiosa, +desmoralisadora, e de mais pernicioso effeito que qualquer desmascarada +tyrannia, tem excandescido bom numero de cabeas e avultou de sobejo na mui +abalisada revoluo<span class="pn">{V}</span> de Frana, que ainda hoje em +sangrentas paginas aterra a humanidade.—Talvez o amor que sempre tributamos +verdade nos levou em demasia longe; mas como quer que seja, no cessaremos de +confessar que o sublimado engenho de lord Byron nos penetra de admirao, e +deixa, ao menos em nosso alvitre, o homem justificado pelo poeta.</p> + +<p>Quanto nossa traduco, sobre diligenciarmos que portugueza fosse, pozemos +todo o cuidado em exprimir com clareza os pensamentos do poeta, bem como em no +deteriorar-lhes a nativa gala, que antes nos parece mais pomposa n'este nosso +fertil e sonoro idioma: entretanto no por nossa conta que deve correr a +cabal deciso na materia, mas sim por conta de mais competentes juizes, que, +versados nas duas linguas, queiro dar-se ao trabalho de cotejar o original com +a verso.</p> + +<p>Entre os nossos traductores<span class="pn">{VI}</span> poetas, alguns houve +que gemro sob a ferrenha tarefa de traduzir tragedias e longos poemas verso +por verso; mas que resultou de tanta diligencia? o substituirem, pela maior +parte, a versos fluentes e vigorosos uma enfiada de semsaborias, de durezas, de +enigmas, onde a graa e louania dos originaes degenera em rugosa e desalinhada +velhice. No negamos que isso tenha cabimento e deva adoptar-se quando nenhum +inconveniente o estorva; porm o verter affincadamente poemas inteiros verso +por verso, uma curiosidade que em muitos casos empece nobre franqueza do +estilo, suavidade do metro, e ao effeito geral dos quadros poeticos. Estamos +persuadidos de que deve o traductor de um poema ser sempre fiel quantidade +das idas, no assim quantidade dos versos: tal foi o nosso systema de +traduco no <em>Crco de Corintho</em>.<span class="pn">{VII}</span></p> + +<p>Ardua e mui ardua emprsa traduzir poetas; bem o sabemos e experimentamos. +Se todavia para traduzir lord Byron de nada mais se carecesse que de estar +profundamente penetrado das extraordinarias e sublimes bellezas com que este +filho da immortalidade abrilhantou suas obras, ento nos lisonjeariamos de +apresentar a nossos leitores uma copia digna do original, e preciosa para +elles.<span class="pn">{VIII}</span></p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="L4257" id="L4257" href="#L4251"><sup>[1]</sup></a> Este orgulho se +deixa ver bem claro no <em>Childe Harold's Pilgrimage</em>, cant. I. est. 16, +onde, entre outros motejos com que o poeta pertende aviltar os Portuguezes, +tambem lhes exprobra o serem</p> + +<p class="versos"><em>A nation swoln with ignorance and pride.</em><br> +Nao inflada d'ignorancia e orgulho.</p> + +<p>Querer isto dizer que a Inglaterra um paiz todo cheio de sabios, e onde o +orgulho morre de frio, por falta de quem o aquartele?</p> +</div> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{1}</span></p> + +<p style="text-align:center;">O CERCO</p> + +<p style="text-align:center;">DE</p> + +<p style="text-align:center;">CORINTHO.</p> + +<blockquote> + +<h4>I.</h4> + +<p class="versos">Longo trilho de seculos exhaustos,<br> +Rijas tormentas, bellicos furores,<br> +Infestro Corintho: ella entretanto<br> +Persiste em p, e no alteroso alcar<br> +Nova conquista Liberdade off'rece.<br> +Nem bramir de tufes, nem terremotos<br> +O alvejante penhasco lhe abalro,<br> +Esse lageoso assento, que, em despeito<br> +Da decadencia sua, inda parece<br> +No sem orgulho contemplar seu cimo;<br> +Esse padro demarcador erguido<br> +Entre os dous mares, que d'um lado e d'outro<br> +Lhe esto rolando purpurinas ondas,<br> +Que sempre a forcejar por se reunirem,<br> +O acato sempre, e vem morrer-lhe s plantas.<span class="pn">{2}</span><br> +Se o sangue n'estes sitios derramado<br> +Desde que n'elles o fraterno sangue<br> +Timolon vertra, ou desde quando<br> +Pelo aviltado despota da Persia<br> +Abandonados foro, borbulhasse<br> +Da terra que o bebeo no morticinio,<br> +Este sangrento oceano sepultra<br> +Sob os tremendos escarcos todo o isthmo:<br> +Ou se podessem amontoar-se os ossos<br> +Dos que alli perecro, surgiria<br> +Por entre aquelles ceos abrilhantados<br> +A colossal pyramide espantosa,<br> +Dando rival Acrpolis, que as nuvens<br> +Se v roar co'a torreada fronte.</p> + +<h4>II.</h4> + +<p class="versos">Eis lanas vinte mil sobre as espaduas<br> +Do nebuloso Cithern fulguro;<br> +E em toda a planta do isthmo, sobre as duas<br> +Oppostas praias que o ladeo amplas,<br> +Se eleva o pavilho, brilha o Crescente<br> +Nas federadas linhas Musulmanas;<br> +E o tisnado Spah desfila em bandos<br> + vista dos Bachs amplo-barbados;<br> +E os olhos podem ver ao longo e ao largo<br> +As cohortes cingidas do turbante,<br> +Que o promontorio alastro, enxameo:<br> +L se ajoelho do Arabe os camelos,<br> +Do Tartaro os ginetes la volteo;<br> +<a name="Dando" id="Dando" href="#II.--">Dando de mo grei, o Turcomano<br> +Prestes unio ao lado a cimitarra.</a><span class="pn">{3}</span><br> +Dos bellicos troves crebro rebombo<br> +T faz emmudecer, de susto, os mares,<br> +Profunda-se a trincheira, e muito longe<br> +Silvando va no pelouro a morte;<br> +Sob o peso da bomba assoladora,<br> +Solto-se em pulverento remoinho<br> +Os da muralha esboroados lanos;<br> +E, do recinto d'ella, eis o inimigo<br> +s do Infiel intimaes responde<br> +Com manejo expedito, e fogos destros.<br> +Que vo cruzando os empoeirados plainos,<br> +E os ares que anuvia o fumo em rlos.</p> + +<h4>III.</h4> + +<p class="versos">Das muralhas porm o mais visinho<br> +Entre os que punho peito e mos empresa<br> +De as converter em ruina, o mais profundo<br> +Que nenhum dos da prole Musulmana<br> +Nas da guerra artes ttricas, e altivo<br> +Qual nunca o foi assignalado chefe<br> +Colhendo louros em sangrentas lides;<br> +O que voando audaz de posto a posto,<br> +D'um feito a maior feito, se avantaja<br> +Em destro esporear corsel fumante,<br> +Em surdir mais veloz onde arde o p'rigo,<br> +Cada vez que ha sortidas ou assaltos;<br> +E quando a bateria, em mos valentes,<br> +Resiste inexpugnavel, ento mesmo<br> +Com exultante aspecto desmontando<br> +A dar alento, na refrega, aos tibios;<br> +O mais abalisado e o mais recente<span class="pn">{4}</span><br> +Da hoste que lucrou n'estas paragens<br> +Ao sulto de Stamboul renome egregio;<br> +O guia incomparavel em campanhas,<br> +Ou solerte assestando o ferreo tubo,<br> +Ou manejando a temerosa lana,<br> +Ou tufo que rebenta onde ha conflictos,—<br> + Alp, o Veneziano renegado!</p> + +<h4>IV.</h4> + +<p class="versos">O renegado de Veneza!—ah! elle<br> +De vetusta linhagem primorosa<br> +Teve o seu nascimento: todavia,<br> +Desterrado a final do patrio ninho,<br> +Contra os concidados tomou as armas,<br> +Em que por elles adestrado fra;<br> +E orna-lhe a fronte rasa hoje o turbante.<br> +Depois d'eventuaes destinos varios,<br> +Sob a lei que Veneza lhe dictra<br> +Se acolheo, como a Grecia, ento Corintho;<br> +E ei-lo que ante seus muros se apresenta,<br> +Inimigo entre os feros inimigos<br> +Da Grecia e de Veneza, e trasbordando<br> +De resentido ardor, qual excandesce<br> +Ao joven convertido a alma orgulhosa,<br> +Onde duestos mil accumulados<br> +Esto sempre em tumulto, e eternos vivem.<br> +Nem por isso com elle quiz Veneza<br> +Desempenhar o civico appellido<br> +Em que firmava o seu brazo = <small>A LIVRE</small>; =<br> +E de So Marcos no palacio excelso,<br> +Delatores incognitos lanro<span class="pn">{5}</span><br> +Na <em>Boca do Leo</em>, durante a noite.<br> +Denuncia atroz de requintados crimes,<br> +Que o cobrio de macula indelvel:<br> +Salvou seus dias pressurosa fuga.<br> +Desde esse lance despendia a vida<br> +No meio dos combates, demostrando<br> +Bem claro patria o que perdeo no alumno<br> +Que contra a Cruz, j supplantada, erguia<br> +O soberbo Crescente, e, guerreando,<br> +S vingar-se ou morrer buscava ancioso.</p> + +<h4>V.</h4> + +<p class="versos"><a name="Coumourgi" id="Coumourgi" +href="#V.--">Coumourgi</a>—aquelle que impz termo aos feitos,<br> +O ultimo perecendo, e o mais pujante,<br> +L nos de Carlowitz sangrentos plainos,<br> +Sem magoa de morrer, porm, raivoso,<br> +Dos Christos maldizendo inclitos louros,<br> +E d'Eugenio adornando o gro triunfo;<br> +Coumourgi—e por ventura a gloria d'este<br> +Conquistador da Grecia derradeiro<br> +Poder perecer, seno surgindo<br> +Brao Christo que restitua Grecia<br> +Sequer os fros que gozou outr'ora<br> +Por Veneza outorgados? Elle vinha,<br> +J depois de volvidos lustros vinte,<br> +Reintegrar a Othomana prepotencia;<br> +E, os veteranos seus pospondo agora,<br> +Para mandar do exercito a vanguarda<br> +Alp escolheo, que a confidencia summa,<br> +Arrazando cidades, lhe pagava,<span class="pn">{6}</span><br> +E mostrando em faanhas destructoras<br> +O seu zeloso affrro nova crena.</p> + +<h4>VI.</h4> + +<p class="versos">A muralha enfraquece: de continuo<br> +As Turcas baterias lhe varejo<br> +O parapeito e ameias; restrugindo,<br> +Sahe de cada canho a voz do raio:<br> +Aqui flammeja, ao rebentar da bomba,<br> +Crepitante zimborio; alm baquea<br> +Este, est'outro edificio derrocado,<br> +Sob o espesso granizo d'estilhaos,<br> +Que em lufadas volcanicas recresce:<br> +Vai resfolgando em rbidas columnas<br> +Voraz incendio, que to alto sobe,<br> +Como sobe o fragor da ruina ingente,<br> +Ou solta-se em terrestres meteoros<br> +Que vo no ceo esvaecer-se infindos:<br> +Mais nebuloso, mais impervio o dia<br> +Se torna luz do sol, co'a mole opaca<br> +Do fumo alado em tortuosos rlos,<br> +Que d'enxofrado horror a esfera enluto.</p> + +<h4>VII.</h4> + +<p class="versos">Nem smente ardor cego de vingana,<br> +Que a longa dilao fez mais ferino,<br> +Esporera esse Alp apostatado<br> + adestrar os guerreiros Mahomtas<br> +N'arte de abrir a promettida brecha.<span class="pn">{7}</span><br> +D'aquelles muros no recinto havia<br> +Uma donzella, cuja mo formosa<br> +Elle obter pertendia apesar mesmo<br> +Do inexoravel pai, que, furibundo,<br> +Aos rogos lha negou, quando Alp outr'ora,<br> +Chamando-se Lanciotto, o bafejavo<br> +Tempos melhores, mais propicios fados;<br> +E sem nota e sem crime de perfidia,<br> +Aos palacios, s gndolas levando<br> +Alegria vivaz, se assignalava<br> +Nos Carnavaes, ou resoar fazendo<br> +Sobre aguas do Adria esses descantes meigos<br> +Que alvoroadas de prazer escuto<br> + meia-noite as Italas donzellas.</p> + +<h4>VIII.</h4> + +<p class="versos">Que do seu corao j possessora<br> +No fosse a virgem, suspeitavo muitos;<br> +No em tanto d'infinitos requestada,<br> +E a nenhum acolhendo, persistia<br> +De todo o lao conjugal isenta<br> +A juvenil Francina: e desde o instante<br> +Em que das Adriaticas paragens<br> +Se retirou Lanciotto a pagos climas,<br> +O sorriso expirou nos labios d'ella;<br> +Meditabunda e pallida tornou-se;<br> +Confisses amiudava, e j no era<br> +To vista em mascaradas e assembleas;<br> +Ou, se l ia, os olhos seus descidos<br> +Avassalavo, n'um volver furtivo,<br> +Mil coraes de balde suspirosos:<span class="pn">{8}</span><br> +Nenhum objecto contemplava attenta;<br> +No punha em atavios tanto apuro,<br> +Nem j to terno desprendia o canto;<br> +Seus passos, bem que leves, o ero menos<br> +Que os dos parceiros seus, a quem na dana<br> +Colhia absortos o raiar d'aurora.</p> + +<h4>IX.</h4> + +<p class="versos">D'um slo aos Musulmanos arrancado,<br> +Quando a soberba lhes calcou Sobieski<br> +Ante os muros de Buda, s margens do Istro;<br> +D'um slo que depois Veneza altiva<br> +Empolgou com violencia desde Patras<br> +T a Euboica enseada, o regimento,<br> +Por ordem sup'rior, tomou Minotti;<br> +E de Corintho na torreada estancia<br> +J elle era do Doge o delegado,<br> +Quando os olhos da Paz fagueiros, pios,<br> +Depois da larga ausencia, confortavo<br> +C'um sorriso dos seus a Grecia sua,<br> +Inda no rto esse armisticio trdo<br> +Que ao jugo anti-Christo a subtrahia.<br> +Entrou Minotti alli co'a filha amavel;<br> +E desde o tempo em que a formosa Helena,<br> +Deixando o esposo e a patria, fez ver quantos<br> +D'um illicito amor desastres broto,<br> +Nunca estas praias adornou belleza<br> +Digna de comparar-se da estrangeira.</p> + +<h4>X.</h4> + +<p class="versos">Em crebros boqueires abre-se o muro;<span +class="pn">{9}</span><br> +E sobre as ruinas da alluida mole<br> +Vai, primeira luz, desenvolver-se<br> +Assalto mais que todos formidando.<br> +Tropas enfileiraro-se; escolhidos<br> +Foro para formar toda a vanguarda<br> +Tartaros e Othomanos; e vs outros,<br> +Flor dos guerreiros, a quem foi sem causa<br> +Imposto o sobrenome de <em>perdidos</em>,<br> +E para quem a morte e riso, jgo;<br> +Vs, que co'alfange em punho abris caminho,<br> +Ou de vossos cadaveres juncando<br> +A que o brao rompeo vereda honrosa,<br> +Sois marmoreo degro, por onde affoutos<br> +Os socios trepo,—morrereis mais tarde!</p> + +<h4>XI.</h4> + +<p class="versos"> meia-noite: a fria lua ostenta<br> +O disco inteiro, e amplo fulgor diffunde<br> +A contrastar co'a sombra das montanhas;<br> +Traja d'azul o mar, d'azul se veste<br> +O firmamento, este suspenso oceano,<br> +Todo cravado d'ilhas que refulgem<br> +L to remotas, com ardor to vivo:<br> +E quem, quem pde attento contempl-las,<br> +E repascer depois os olhos tristes<br> +No valle dos mortaes, sem que apetea<br> +Voar e unir-se para sempre a ellas?<br> +Dormem as ondas, n'uma praia e n'outra,<br> +Placidas e ceruleas como os ares;<br> +S de leve as areas roa a espuma,<span class="pn">{10}</span><br> +Com murmurinho igual ao d'um regato.<br> +Os ventos se recosto sobre as ondas;<br> +E das hastes ao longo quietas pendem,<br> +Em pregas conchegando-se, as bandeiras,<br> +Que remata arci-flgido Crescente.<br> +Nada interrompe esta mudez profunda,<br> +Seno alm a voz da sentinella<br> +Reproduzindo a senha, ou l mais longe<br> +Relincho de corseis agudo e crebro,<br> +Ou cos que respondem dos outeiros,<br> +Ou da hoste bravia o rumor vasto,<br> +Que semelhante ao de agitadas folhas<br> +Alongando-se vai de praia a praia,<br> +Ou preces usuaes que meia-noite<br> +Levanta o Muezzin, rasgando os ares<br> +Co'a lamentosa garganteada la,<br> +Qual 'spirito que vaga na planicie:<br> +Meldicos accentos, mas prantivos,<br> +Quaes os produz o vento, que, passando,<br> +Encontra as cordas de sonoras harpas,<br> +E extrahe descompassadas harmonias,<br> +Que no conhece o menestrel mundano.<br> +Este som se affigura aos sitiados<br> +Grito agoureiro da infallivel queda;<br> +Elle fere no ouvido aos sitiadores<br> +Como indicio aziago e pavoroso,<br> +Repentina toada indefinivel,<br> +Que os coraes lhes paralisa agora,<br> +E logo os faz pulsar mui apressados,<br> +Co'a vergonha de haver surdido n'elles<br> +To desusada sensao furtiva:<span class="pn">{11}</span><br> +Dest'arte o sino apregoador da morte<br> +Nos sobresalta de repente ouvido,<br> +Inda que seja em funeral d'estranhos.</p> + +<h4>XII.</h4> + +<p class="versos">Calou-se o som, a rogativa finda;<br> +As sentinellas em seus postos velo;<br> +Foi a nocturna ronda percorrida,<br> +E em tudo as ordens satisfeitas todas.<br> +Tem Alp o seu tentorio sobre a praia,<br> +E em ancias vai curtir inda esta noite;<br> +Mas bem pde a manh suavis-las,<br> +Na fruio das vantagens to copiosas<br> +Com que o amor e a vingana ho de reunidos<br> +Demora indemnisar to prolongada.<br> +Horas poucas lhe resto, e carece<br> +De repousar, por que expedito esteja<br> +s proezas da crstina matana:<br> +Mas baralhados, quaes estuantes vagas,<br> +Os pensamentos lhe relucto n'alma.<br> +Sem repouso e s elle em todo o campo;<br> +Nem sente o corao entumecer-lhe<br> +Fanatica vangloria blasonante<br> +De ver pelo Crescente a Cruz calcada,<br> +Ou de vender seus dias mui baratos,<br> +Seguro de gozar no paraiso<br> +O sempiterno amor das Houris bellas;<br> +Nem se sente abrazar d'aquelle austero<br> +Patriotico ardor que de bom grado<br> +Supporta rduas fadigas, verte o sangue.<span class="pn">{12}</span><br> +Quando peleja sobre o cho nativo,<br> +Elle no era mais—que um renegado.<br> +Ora verdugo da trahida patria;<br> +Elle no era mais que um peito forte,<br> +Um brao acreditado entre o seu bando.<br> +Seguio-no, por que era valeroso,<br> +E j lhes grangera espolio grande;<br> +Davo-lhe acatamento, por ver quanto<br> +Elle sabia captivar do vulgo<br> +As vontades, e arteiro dispr d'ellas:<br> +Mas nem por isso lhe entejavo menos<br> +O Christo nascimento: inveja influe-lhes<br> +A propria fama atreioadora que elle<br> +Ganhra sob um nome Musulmano:<br> +De qualquer modo, esse esforado chefe<br> +Vil Nazareno foi na juventude.<br> +No lhes era sabido t que ponto<br> + capaz de curvar-se o orgulho, quando<br> +Murcho e aviltado o pundonor baquea;<br> +No lhes era sabido quo violenta<br> +Chamma voraz em coraes se accende<br> +Que de meigos tornaro-se bravios;<br> +Ignoravo qual zlo de vinganas<br> +Refalsado e fatal se gera e cresce<br> +D'um convertido n'alma. Elle os regia:<br> +Pde um homem reger outros peores,<br> +E de ser o primeiro gloriar-se.<br> +Taes os lees sobre o jakal domino:<br> +Destro o jakal espia e abate a prsa;<br> +Mas, no aperto da rugidora turba,<br> +Da-se por pago, se devora os restos.<span class="pn">{13}</span></p> + +<h4>XIII.</h4> + +<p class="versos">A cabea lhe ferve, e apressuradas<br> +As arterias palpito-lhe convulsas;<br> +D'um lado e d'outro volta-se, baldando<br> +Modos de repousar; e se dormita,<br> +O som mais leve, o mais pequeno abalo<br> +Prestes o acordo angustiado em dbro.<br> +A fronte excandescida lhe molesta<br> +Hoje o turbante, e, nem que plumbea fosse,<br> +A loriga lhe pesa sobre o peito,<br> +Se bem que tanta vez, e a somno solto,<br> +Sob esse mesmo pso repousasse,<br> +Tendo apenas por leito um cho saibroso,<br> +E por docel o firmamento apenas,<br> +Leito e docel quaes ao guerreiro a noite<br> +Agora os deparou. Elle nem pde<br> +No seu tentorio adormecer, nem quieto<br> +Esperar que desponte a luz diurna,<br> +E eis vaga ao longo da arenosa praia,<br> +Alastrada de tantos que repouso.<br> +Quem os acalentou? e por que causa<br> +Ha de elle s velar, despossuido<br> +D'um bem que logro rasos subalternos,<br> +A quem cabe arrostar maiores p'rigos,<br> +E lidas superar mais affanosas?<br> +Mas ah! que um sonho animador lhes pinta<br> +Os lucros todos do futuro espolio;<br> +E em quanto mil e mil passo dormindo<br> +Esta que a noite extrema talvez d'elles,<br> +Alp, em vigilia atroz, vaguea anciado,<span class="pn">{14}</span><br> +E lhe alvo d'invejas quanto encontra.</p> + +<h4>XIV.</h4> + +<p class="versos">Vai na aprazivel fresquido da noite<br> +Achando refrigerio s ancias d'alma.<br> +Relentoso ora o ceo, bem que tranquillo,<br> +As affogueadas faces lhe aspergia<br> +Com brando orvalho. Apz lhe fica o campo;<br> +De fronte lhe serpea, derramado<br> +Em crebros surgidouros e enseadas,<br> +O golfo de Lepanto; est-lhe vista<br> +A de Delphos montanha sempiterna,<br> +Onde os glos accrescem, brilho, duro,<br> +De mil estios affrontando a ardencia,<br> +Campeando no golfo, e serro, e clima,<br> +Sem que os dissolva, como a ns, o Tempo.<br> +Desapparecem o tyranno e o servo,<br> +Improprios a aguantar fulgente raio;<br> +Mas este vo deslumbrador e fragil,<br> +De que vs envolvido o monte excelso,<br> +Quando torres baqueo, jazem troncos,<br> +L brilha sempre no empinado alcar;<br> +Pileo na frma, nuvem no elevado,<br> +Na cr e na amplido lanol funereo,<br> +Erguido a designar que a Liberdade<br> +Se ausentou da mimosa estancia sua,<br> +E hoje languida jaz no mesmo slo,<br> +Onde foi largos tempos escutado<br> +Seu profetico ardor em aureos versos.<br> +Oh! que de quando em quando inda l so<span class="pn">{15}</span><br> +Os passos seus sobre arescentes campos,<br> +Sobre tantos altares demolidos;<br> +E ella, um a um mostrando aquelles restos<br> +Abonadores da passada gloria,<br> +Alentar busca os animos prostrados:<br> +Porm de balde bradar, em quanto<br> +No despontar n'um corao preclaro<br> +Destimidez possante, toda accesa<br> +Ao claro d'esses dias que luzro<br> +Sobre a fuga do Persa, e que risonhos<br> +O intrito arrostro do Espartano.</p> + +<h4>XV.</h4> + +<p class="versos">Inda que fugitivo e criminoso,<br> +Alp admirava as inclitas virtudes<br> +D'esses tempos heroicos; e esta noite,<br> +Em quanto vagueava, e na memoria<br> +O presente e o passado revolvia,<br> +Apreciando as mortes gloriosas<br> +Dos que em defensa da genuina causa<br> +Seu sangue alli vertro, mui bem sente<br> +A que ponto fallaz, mesquinha, obscura<br> +Quanta fama lucrou d'um bando frente,<br> +E, nefario traidor, brandindo a espada<br> +Entre as turmas cingidas do turbante,<br> +Que raivoso guira a injusto assedio.<br> +Onde era em cada prospero successo<br> +No menos computado um sacrilegio.<br> +Taes no lhe mostra a fantasia os chefes,<br> +Por quem aquelle p que o circumdava<span class="pn">{16}</span><br> +Fra illustrado, e que as phalanges suas<br> +Perfilavo no plaino, no de balde<br> +Ento de baluartes guarnecido.<br> +Estes morrro escudando a patria,<br> +E eternos vivem no fulgor da gloria:<br> +Suspirar-lhes alli os nomes gratos<br> +Inda parece a brisa; alli seus feitos<br> +So no murmurinho das correntes;<br> +Pova seu renome aquelles campos;<br> +O pilar taciturno, ermo, alvacento,<br> +Demanda aos sacros vultos alliar-se;<br> +Os espiritos seus em trno giro<br> +Dos fuscos serros; a memoria sua<br> +Toda se espelha no cristal das fontes;<br> +O arroio humilde, o caudaloso rio<br> +Perennes fluem co'a perenne fama<br> +Dos estremados campees sublimes.<br> +Por mais que a opprima um jugo, esta sempre<br> +A patria d'elles, e a manso da gloria!<br> +A Grecia!—ha de levar sempre este nome<br> +Um som despertador ao Mundo inteiro.<br> +Varo que aspira a perpetrar faanhas,<br> +L pem na Grecia o fito, e abjura as normas<br> +Que smente os tyrannos sanccionro;<br> +Para l olha, e se arremessa aonde<br> +Conquiste a Liberdade, ou deixe a vida.</p> + +<h4>XVI.</h4> + +<p class="versos">Sempre assim meditando silencioso,<br> +Alp ao longo da praia os passos move,<span class="pn">{17}</span><br> +E com brando rocio a noite o ameiga.<br> +<a name="Coarctados" id="Coarctados" href="#XVI.--">Coarctados e sem sto, +aquelles mares<br> +Em moto igual ondeo sempiternos,</a><br> +E a vaga que possuem mais furiosa<br> +Nem um quarto de geira ao slo invade;<br> +E ou se mostre, ou se esconda, ou mude as phases,<br> +No tem sobre elles influencia a lua:<br> +Mansos, tumentes, no alto, na enseada,<br> +Do dominio lunar se movem francos.<br> +O escolho immovel, descobrindo a base,<br> +Olha ao largo, e de balde espera as ondas:<br> +Pde ver-se a que o cinge espumea linha,<br> +Que em baixo lhe traou a mo dos vos.<br> +Um pequeno areal loureja plaino<br> +Entre o salgado leito e o cho relvoso.<br> +Pela marina margem vagabundo,<br> +Eis Alp assoma dos sitiados muros<br> +Desviado no mais que quanto alcana<br> +Um tiro de clavina. Como crivel<br> +Que alli no fosse visto, ou que evitasse<br> +O golpe hostil? Entre os Christos acaso<br> +Remanecem traidores encobertos?<br> +Qual torpor lhes vincula as mos agora?<br> +Qual glo os coraes lhes paralisa?<br> +Tal brandura elle estranha; mas certo<br> +Que de nenhum dos lanos l do muro<br> +Escorva reluzio, sibilou bala,<br> +Se bem que to de baixo agora avulte<br> +Dos basties minaces que flanqueo<br> +Essa porta, resguardo da cidade<br> +Pela banda do mar; se bem que possa<span class="pn">{18}</span><br> +Quasi as palavras distinguir ferrenhas,<br> +E os passos numerar da sentinella,<br> +Que so, indo e vindo compassados,<br> +Pela extenso da sotoposta lagem.<br> +Nem os ces, de occupados, lhe latro!<br> +E, magros e famlicos rosnando,<br> +Os v sob a muralha dar-se ao bdo<br> +De sangrentos cadaveres e ossadas:<br> +<a name="Ei-los" id="Ei-los" href="#Ibi--">Ei-los que esto da pelle +despojando<br> +Nest'hora um craneo Tartaro</a>, bem como<br> +Ns despojamos o recente figo;<br> +E alvejantes lhes rangem os colmilhos<br> +Sobre a caveira que inda mais alveja,<br> +E que dos queixos lhes resvala, quando<br> +Embotados os deixa o roer crebro;<br> +Mas vo moendo de vagar os ossos,<br> +Se um acaso permitte que no achem<br> +Sobre aquelle torro melhor sustento.<br> +Seu antigo jejum quebrou-se larga<br> +Nos guerreiros que alli perdendo a vida,<br> +Lhes so manjar em refeio nocturna.<br> +Pelos turbantes sobre a ara esparsos,<br> +Alp a flor do seu bando reconhece;<br> +Bem nota o verde, o carmesim das telas<br> +Com que cingio por costume a fronte;<br> +<a name="cada" id="cada" href="#Ibi--1">E cada pericraneo off'rece a esguia<br> +Madeixa longa</a>, e no demais raso.<br> +Os pericraneos jazem na guela<br> +Feroz dos ces, ao passo que a madeixa<br> +Se lhes enreda em volta das queixadas.<br> +L se v mais alm, do golfo orla,<span class="pn">{19}</span><br> +Sofrego abutre contender c'um lobo,<br> +Que, das montanhas a prear baixando,<br> +Era alli solitario, e no ousava,<br> +Dos ces espavorido, tomar parte<br> +No amplo repasto das humanas carnes;<br> +Mas engole a rao que lhe coubera<br> +D'um corsel debicado j das aves,<br> +Que da enseada no areal jazia.</p> + +<h4>XVII.</h4> + +<p class="versos">De to feio espectaculo insoffrivel<br> +Arreda os olhos Alp: elle em conflictos<br> +O que era estremecer no soube nunca;<br> +Porm no to arduo, to penoso<br> +Olhar ao que estendido se revolve<br> +Do proprio sangue em fumegante lago,<br> +E arqueja entregue insaturavel sde<br> +E ao vasquejar da morte, quanto v-lo<br> +Depois que pereceo, e s cadaver.<br> +No momento fatal, um certo orgulho<br> +Se desenvolve n'alma do soldado,<br> +Lhe adoa o fim cruento: se fenece,<br> +Espera reviver na voz da Fama,<br> +Ficar bemquisto Honra, que tem sempre<br> +Os olhos fitos no que morre affouto!<br> +Mas quando em fim s'esvaeceo tudo isto,<br> +Bem misero se sente quem percorre<br> +Campo alastrado d'insepultos mortos.<br> +Ao ver como da terra surde o verme,<br> +Deixa o bruto as florestas, a ave desce,<span class="pn">{20}</span><br> +E alli affluem, demandando no homem<br> +Todos quinhoar prsa, e achando todos<br> +O lucro seu na decadencia d'elle.</p> + +<h4>XVIII.</h4> + +<p class="versos">Alli se via derrocado templo:<br> +So cinza e longo olvido as mos que o erguro.<br> +Inda algumas columnas, e dispersos<br> +De marmore e granito mil fragmentos<br> +O slo opprimem, recobertos d'herva.<br> +Inexoravel Tempo! e nunca inteiras<br> +Deixars ao porvir obras passadas!<br> +Inexoravel Tempo! e has de tu sempre<br> +Querer que do passado fique apenas<br> +Aquillo que o presente affligir deve;<br> +E assim fazer-nos dolorosa a imagem<br> +Do que j foi, do que ha de ser um dia!<br> +Bem como ns, vero nossos vindouros,<br> +Em reliquias d'antigos monumentos,<br> +S pedras que exalou o homem de barro!</p> + +<h4>XIX.</h4> + +<p class="versos">Ao p d'uma columna Alp eis se assenta:<br> +Co'a mo comprime a face, e o corpo inclina<br> +Como quem se resente acabrunhado<br> +D'aterradores pensamentos tetros;<br> +A cabea descahe-lhe sobre o peito<br> +Excandescido, palpitante, oppresso;<br> +Giro-lhe pela fronte debruada<span class="pn">{21}</span><br> +Os dedos velocissimos, bem como<br> +Pelo eburneo teclado os dedos giro<br> +De primoroso artista, que em preludios<br> +Por ora se entretem, da esclha incerto.<br> +Vergando assim ao pesadume infenso,<br> +Cr que ouvio suspirar nocturna brisa.<br> +Acaso em lagens concavas murmura<br> +Gemido terno de macias auras?<br> +Ergue ento a cabea, e o mar observa;—<br> +Repousa o mar, qual cristalino espelho:<br> +Contempla esguias hervas;—nada as move:<br> +D'onde procederia o som mavioso?<br> +Repara nas bandeiras;—quietos pendem<br> +No alto do Cithern, quaes os deixra,<br> +Inda os hasteados pannos; leve aragem<br> +Nem sequer lhe roou a tz do rosto:<br> +Qual do imprevisto murmurinho a causa?<br> +Volve-se ao lado esquerdo:—ser isto<br> +Illuso ou verdade? Ante seus olhos<br> +Eis joven dama refulgente assoma!</p> + +<h4>XX.</h4> + +<p class="versos">Se Alp ento visse um inimigo armado<br> +Surgir-lhe face a face, no se ergura<br> +To abalado de profundo assombro.<br> +"Deos de meus pais! que vejo? quem es? como<br> +D'hosts fileiras te aproximas tanto?"<br> +A mo tremente lhe recusa agora<br> +Estampar sobre a fronte essa Cruz mesma<br> +Que elle tanto insultou; mas n'este lance<span class="pn">{22}</span><br> +Se persignra, se a consciencia sua<br> +Lhe no fizesse ver quanto era indigno.<br> +Repara, observa a fundo, e reconhece<br> +O rosto bello, as engraadas frmas:<br> + Francina, essa virgem suspirada<br> +Que elle a si pertendia unir consorte!<br> +Inda nas faces lhe viceja a rosa,<br> +Porm a rubra cr menos viva.<br> +Que do attractivo d'esses labios meigos?<br> +No mora n'elles o sorrir donoso<br> +Que ao rubim dava esmalte. Inda em seus olhos<br> +Reside o azul do socegado oceano;<br> +Mas se no aspecto bonanoso o imito,<br> +Tambm o imito na frieza immovel.<br> +Talhe accuso gentil vestes ligeiras;<br> +Nada lhe vela o seio luminoso;<br> +Soltas d'ebano as tranas, ver no tolhem,<br> +Por entre a chuva dos anneis ondeantes,<br> +Nivea nudez dos torneados braos.<br> +Levanta ao alto a mo antes que falle;<br> +E de tal modo branca e transparente<br> +Se mostrava essa mo, que poderieis<br> +Ver por entre ella rutilar a lua.</p> + +<h4>XXI.</h4> + +<p class="versos">"O repouso deixei, a fim smente<br> +De vir ao meu amado, e de faz-lo<br> +Feliz commigo, e ser feliz com elle.<br> +Por teu respeito entre inimigas turmas<br> +Eis movo os passos, e transpuz a salvo<span class="pn">{23}</span><br> +Muralhas, portas, sentinellas, tudo.<br> +Uma joven donzella, em todo o brio<br> +Da nativa pureza, ha quem affirme<br> +Que dos proprios lees respeitada:<br> +E o superno Poder que ao innocente<br> +Escuda contra o despota dos bosques,<br> +Se encarregou tambem de defender-me<br> +Do insulto d'infieis confederados;<br> +E vim:—se vim de balde, oh! v que nunca,<br> +Nunca mais tornaremos a encontrar-nos!<br> +Sei que, abjurando de teus pais a crena,<br> +Es ro de crime hediondo; todavia<br> +Lana por terra esse turbante, e imprime<br> +Sobre a fronte o da Cruz signal divino,<br> +E eu de ti folgue na perpetua posse.<br> +Eia, o negro labo expelle d'alma;<br> +E pois havemos manh de unir-nos,<br> +No queiras para sempre separar-nos."</p> + +<p class="versos">"E ao tro nupcial onde acharemos<br> +O apetecido espao? pde hav-lo<br> +Entre montes de mortos e expirantes?<br> +Os Christos, seus altares, quanto d'elles,<br> +Ha de o ferro manh unido chamma<br> +Tudo, tudo extinguir: nenhum mais deve,<br> +Seno es tu e os teus, ver nova aurora;<br> +Que eu assim o jurei. Mas ser-me-ha doce<br> +A mais donosos sitios transportar-te,<br> +Onde se enlacem mos, se olvidem mgoas,<br> +Onde tu sejas a consorte minha,<br> +Quando abatido de Veneza o orgulho<span class="pn">{24}</span><br> +Eu j tiver; quando este brao, que ella<br> +Quiz sumir na abjeco, deixe aoutados<br> +Com viperino ltego os infames<br> +Que accendeo contra mim o vicio e a inveja."</p> + +<p class="versos">Ella pousou a mo sobre a mo d'elle:<br> +Foi leve o toque, mas varou-lhe prompto<br> +As medullas dos ossos, e entranhou-lhe<br> +Pelo imo corao glo indizivel,<br> +Que nem d'estremecer lhe deixou posses;<br> +E este frio mortal, de que se arguia,<br> +Remov-lo de si em vo tentava.<br> +Oh! nunca, nunca de to caro objecto<br> +Partra movimento que viesse<br> +Com tamanho terror gelar-lhe o sangue,<br> +Qual n'esta noite o subitaneo toque<br> +D'aquelles alvos dedos alongados.<br> +Morreo-lhe em pallidez a effervescencia,<br> +Ficou-lhe o corao, qual seixo, immovel,<br> +Ao ver aquelle rosto, ai! to mudado<br> +J de si proprio: bello, mas languente—<br> +Sem vestigio nenhum d'incendios d'alma,<br> +Que em cada feio d'elle se espelhavo,<br> +Como um dia de sol se espelha n'agua.<br> +Anhlito nenhum se unia s vozes<br> +Que lhe escapavo dos immotos labios;<br> +Do quieto corao nenhum palpite<br> +Lhe sublevava o seio; nada havia<br> +Que a rigida atteno interrompesse<br> +D'aquelles olhos estacados, fixos.<br> +Taes so os do somnambulo, que, em meio<span class="pn">{25}</span><br> +D'anciados sonhos, deixa o leito e vaga;<br> +Taes, na extenso de apainelados razes,<br> +Baas figuras de minaz aspecto,<br> +Se ao trmulo claro as contemplamos<br> +D'expirante lucerna, desenvolvem<br> +No sei qual mixto de animado e morto,<br> +Com que parecem, aterrando a vista,<br> +Ora avanar do tenebroso fundo,<br> +Ora entranhar-se n'elle, em moto alterno,<br> +Que a seu sabor lhes communica o vento.</p> + +<p class="versos">"Se por amor de mim tu crs que muito,<br> +Por amor s do Ceo embora o faze:<br> +Longe arremessa (inda outra vez to digo)<br> +Da fronte criminosa esse turbante,<br> +E me promette de no ser infesto<br> +Aos filhos da insultada patria tua,<br> +Ou es perdido, e despedir-te deves,<br> +No j da Terra—esvaeceo-se a Terra—<br> +Mas do Ceo e de mim, que te fui cara.<br> +Eia, cede a meus rogos: v que abertas<br> +Inda te espero da clemencia as portas;<br> +E bem que contra ti grave sentena<br> +Fosse j proferida, o rigor d'ella<br> +Em grande parte expiar teu crime.<br> +Pondera a fundo; e provocar no queiras<br> +A maldio d'Aquelle que abjuraste.<br> +Ao Ceo inda uma vez levanta os olhos,<br> +V que a ti mesmo para sempre o fechas.<br> +<a name="Essa" id="Essa" href="#XXI.--">Essa nuvem que esconde agora a lua,<br> +L vai passando</a>, e passar de pressa:<span class="pn">{26}</span><br> +Se, quando rebrilhar o disco inteiro<br> +Desafrontado do vapor sombrio,<br> +No revolveo a contrio teu peito,<br> +Fico de ti vingados Deos e os homens:<br> +Tremendo fim ters, e mais tremenda<br> +Te espera a eternidade dos perversos."</p> + +<p class="versos">Alp ergue a vista ao Ceo, e reconhece<br> +O indicado signal; porm o orgulho<br> +Entumeceo-lhe o corao, e o rege<br> +Com despotico imperio inabalavel;<br> +E esta paixo fallaz que o predomina,<br> + torrente caudal que tudo alaga.<br> +Elle implorar perdo! elle render-se<br> +A impertinencias de mesquinha virgem!<br> +Elle, offendido de Veneza ingrata,<br> +Poupar-lhe os filhos, que votou morte!<br> +No:—embora essa nuvem traga um raio,<br> +Embora um raio o esmague:—e inda no tra?</p> + +<p class="versos">Sem que a minima voz dos labios solte,<br> +Elle fitava ancioso aquella nuvem:<br> +Attento a v passar; fugio de todo:<br> +Em seu pleno fulgor se mostra a lua.<br> +"Qualquer que seja o meu destino (exclama),<br> +No tenho de mudar: agora tarde.<br> +No meio da tormenta pde a canna<br> +Dobrar-se e logo erguer-se, os troncos quebro.<br> +Qual Veneza me fez, serei j'gora;<br> +Seu implacavel inimigo em tudo,<br> +Excepto na affeio que eu te consagro.<span class="pn">{27}</span><br> +Tu pois es salva: oh! vem, meus passos segue."<br> +Voltando-se, elle a busca; ella sumio-se:<br> +S o antigo pilar lhe avulta ao lado.<br> +Sorveo-a a terra, ou s'esvao nos ares?<br> +Nada elle vio—nada escutou s sabe<br> +Que alli nenhum vestigio existe d'ella.</p> + +<h4>XXII.</h4> + +<p class="versos">A noite dissipou-se, e o sol resplende,<br> +Qual se um dia de festa esclarecesse.<br> +Eis d'entre bruscos vos pomposa surge<br> +Arraiada a manh d'aureos fulgores,<br> +E abrasador promette o meio-dia.<br> +Trombetas se ouvem, rufos de tambores,<br> +Hrridos sons de barbara corneta,<br> +Sussurrar de bandeiras fluctuantes,<br> +Relinchar de corseis, tropear de turmas,<br> +E o retinir das armas, e o alarido:<br> +"Ei-los vem! ei-los vem!" <a name="terra" id="terra" href="#XXII.--">Da terra +prestes<br> +Descravo-se os pendes equi-caudatos</a>,<br> +Desnudo-se as espadas lampejantes,<br> +E tudo a entrar em frma apercebido,<br> +S depende da voz, e a voz j sa:<br> += Tartaros, e Spahs, e Turcomanos,<br> +As tendas abatei, ide vanguarda,<br> +Dai d'espora aos corseis, e na planicie<br> +Seja cortado o passo aos fugitivos,<br> +Quando estes proromperem da cidade:<br> +No escape nem velho nem mancebo,<br> +Que offrecer de Christo qualquer indicio.<span class="pn">{28}</span><br> +Entretanto que em massa prepotente<br> +Vo sustentar os camaradas vossos<br> +A ensanguentada brecha, e entrar por ella.=<br> +J o fogoso corsel remorde o freio,<br> +E arquea o collo, e, sacudindo a crina,<br> +As rdeas tinge d'alvejante espuma:<br> +Esto em riste as lanas, e flammejo<br> +Accesos os murres, e em continente<br> +O assestado canho vai despejar-se<br> +Com estampido horrsono, e as muralhas,<br> +Rtas em frente, esboroar de todo.<br> +Na phalange os Janizaros entrro:<br> +Alp os commanda; e a cimitarra nua<br> +No erguido brao nu sustenta e brande.<br> +Kans e Bachs fixro-se em seus postos;<br> +E ei-lo frente da hoste se apresenta<br> +Em pessoa o Visir.—Tanto que a senha<br> +Troar na disparada colubrina,<br> +Tudo em Corintho ser ruina e morte:<br> +No ficar um sacerdote s aras,<br> +Nem um chefe no centro das familias,<br> +Nem flgo vivo que as manses pove,<br> +Nem sequer uma pedra sobre os muros.<br> +"Deos e o Profeta seu! <em>Allah-Hu!</em>"—Sobe<br> +T s estrllas o feroz ullo!<br> +"L tendes, para entrar, aberta a brecha;<br> +E escadas no vos falto: tambem todos<br> +N'essas robustas mos sustentais armas;<br> +E como ha de falhar-vos o triunfo?<br> +D'entre vs o primeiro que se affoute<br> + arrancar a vermelha Cruz hasteada,<span class="pn">{29}</span><br> +Pde franco pedir quanto apetece<br> +Com mais vehemente ardor: supplique e obtenha."<br> +Tal se exprimio Coumourgi, o Visir bravo.<br> +Foi resposta o brandir d'espadas, lanas,<br> +Com mil acclamaes de raiva alegre.—<br> +Silencio!— senha estai attentos!—fogo!</p> + +<h4>XXIII.</h4> + +<p class="versos">Como quando esfaimados ruem lobos<br> +De chofre sobre o bufalo soberbo,<br> +Sem tremerem da trva catadura,<br> +Do mugir fero, do escavar das plantas,<br> +Nem dos minaces cornos assestados;<br> +E elle ou lana por terra ou ergue aos ares<br> +Os primeiros que accessos o acommettem,<br> +Mas que no cego arrjo a morte encontro:<br> +Assim o Musulmano invade os muros,<br> +E no impeto primeiro repellido.<br> +Alli rtos do bellico granizo,<br> +Dispersos como vidro espedaado,<br> +Quantos de bronze acobertados peitos<br> +Ora juncando a terra, d'onde nunca<br> +Se ho de levantar mais! Esto fileiras<br> +Inda alinhadas, quaes na queda o estavo;<br> +Jaz dos mais destemidos copia grande:<br> +Tal, quando o dia findo, e o labor cessa,<br> +Vemos jazer sobre aplainados campos<br> +A herva que o segador deixou ceifada.<span class="pn">{30}</span></p> + +<h4>XXIV.</h4> + +<p class="versos">Bem como, em viva preamar, se observa<br> +D'algosos escarcos batida rocha,<br> +E j minada dos diuturnos stos,<br> +Soltar enormes lascas alvejantes,<br> +Que com fragor horrsono se abatem,<br> +Assemelhando ao torreo de glo<br> +Que Alpinos valles despenhado aterra:<br> +Assim os de Corintho habitadores,<br> +A final quebrantados, exhauridos,<br> +Foro na ruina atroz precipitados<br> +Pelo acintoso impulso recrescente<br> +Das cerradas cohortes Musulmanas.<br> +Elles insistem firmes, e, na queda,<br> +O furor do Infiel os prostra em massa.<br> +Pelejo brao a brao, e planta a planta;<br> +E nada, excepto a morte, alli mudo:<br> +Impetos, golpes, empuxes, clamores<br> +Ou a pedir quartel, ou de victoria.<br> +Reunidos ao troar increbescente<br> +Dos bellicos troves, e ao temeroso<br> +Estrondo da batalha encarniada.<br> +L vo disseminando susto immenso<br> +Por longinquas cidades, d'igual modo<br> +Que se estivessem sob o golpe infesto,<br> +E j dentro o inimigo as depredasse;<br> +No d'outra sorte que se proprio fra<br> +A excitar sensao ou triste ou leda<br> +Aquelle som que anniquilar s sabe,<span class="pn">{31}</span><br> +E que, varando dos soturnos montes<br> +As entranhas durissimas, se expande<br> +Em pavorosos cos desusados:<br> +L os ouvio Megra e Salamina,<br> +E, se no exaggera a voz do vulgo,<br> +T na enseada do Piro troro.</p> + +<h4>XXV.</h4> + +<p class="versos">Em rijo e solto embate retinindo,<br> +Sabres, espadas, desde a ponta aos copos,<br> +Gotejo sangue; mas entrados foro<br> +Os muros j, e eis principia o saque,<br> +E apz elle a feroz carnificina.<br> +Rompe dos edificios depredados<br> +Medonha confuso de agudos gritos:<br> +Escuta quo velozes na fugida<br> +Vo ps escorregando em quente sangue,<br> +Que as ruas deixou lbricas: no em tanto<br> +Aqui e alm, onde o terreno offrea<br> +Contra o fero invasor qualquer vantagem,<br> +Onde algum lano de parede ou muro<br> +Lhes proteger as costas, ento elles,<br> +Aos dez, aos doze, em mal parados grupos,<br> +Logo alli fazem alto,—alli renovo<br> +Desesperada briga audazes, firmes,<br> +Ou co'as armas na mo perecem todos.<br> +Eis a p firme um ancio l surge;—<br> +De cs lhe alveja povoada a fronte;<br> +Porm vigor pujante lhe robora<br> +O veterano pulso: no se altera<span class="pn">{32}</span><br> +Seu bisarro dendo, entre o bulicio<br> +Do revlto brigar; tem por trincheira<br> +Semicirculo espsso d'inimigos,<br> +Que hoje uns sobre outros apinhava mortos;<br> +Ferve em dura peleja no ferido,<br> +E sabe retirar-se no cercado.<br> +Sob a loriga refulgente esconde<br> +Dos certames d'outr'ora as cicatrizes<br> +Innumeraveis; que de toda a especie,<br> +E o corpo inteiro lhe crivro golpes.<br> +Em despeito d'aquella ancianidade,<br> + de to ferreos membros, que difficil<br> +Fra d'igual jaz achar-se um mo:<br> +E os inimigos, que empatados tinha,<br> +Pullulavo-lhe alli mais numerosos<br> +Que as prateadas cs da fronte altiva;<br> +Mas apoucando-os vai a forte dextra.<br> +Muitas mis Othomanas prantero<br> +Filhos que, quando pela vez primeira<br> +Elle a espada tingio em sangue Turco,<br> +Inda no ero nados, e hoje expiro<br> +Antes de perfazerem lustros quatro.<br> +Bem poder elle ser o av de quantos<br> +N'este dia immolou s iras suas:<br> +Vingando um filho que perdra ha muito,<br> +Vai dos contrarios seus matando os filhos:<br> +E desde quando o desvelado joven,<br> +Unica prole varonil que tinha,<br> +<a name="Morreo" id="Morreo" href="#XXV.--">Morreo a combater no undoso +estreito<br> +Que d'Asia o cho divide do d'Europa</a>,<br> +Logo o pai prometteo sacrificar-lhe<span class="pn">{33}</span><br> +Sanguinosa hecatombe d'inimigos,<br> +Ceifada ao golpear do ferreo brao.<br> +Se o morticinio pacifica as sombras,<br> +Nem mesmo de Patroclo aos manes coube<br> +Jbilo igual ao que sentir devio<br> +Os do joven Minotti. Sepultado<br> +Ficou seu corpo nas oppostas praias,<br> +E ora privados de sepulcro n'estas<br> +C fico mil para milhares d'annos.<br> +Qual d'elles escapou que referisse<br> +Como os outros morrro, e onde jazem?<br> +Lousa nenhuma os cobre, no lhes guarda<br> +Nenhum tumulo as cinzas: entretanto<br> +Vivem e viviro no immortal plectro.</p> + +<h4>XXVI.</h4> + +<p class="versos">Qual clamoroso <em>Allah!</em>—um tero avana<br> +De tropa Musulmana a mais affouta,<br> +E de pulso melhor: vai-lhe na frente,<br> +Nervoso, nu t o hombro, e em moto ondeante<br> +Brandindo o ferro, e sobranceiro a todos,<br> +Do commandante o brao, que expedito<br> +Sabe ferir, e perdoar no sabe.—<br> +Outros embora em mais pomposo traje,<br> +D'espolio ao inimigo a sde ateem;<br> +Sejo embora muitos os que empunho<br> +D'aureo lavor custosas cimitarras,<br> +Que de nenhuma escorre tanto sangue;<br> +Ostentem muitos adornada a fronte<br> +De turbantes mais altos, mais airosos;—<span class="pn">{34}</span><br> +Alp s conhecido por aquelle<br> +Brao nu, que branqueja levantado.<br> +Ei-lo campea onde mais arde a briga!<br> +No se arvorou pendo sobre estas praias<br> +Que mais destro as fileiras anteceda;<br> +Jmais, durante a Musulmana guerra,<br> +Se despregou bandeira que attrahisse<br> +De to longe os Delhs: sempre o distinguem<br> +A lampejar como cadente estrlla!<br> +Onde quer que este brao prepotente<br> +Uma vez se mostrou, logo os mais bravos<br> +Surdem todos alli, ou tarde chego;<br> +Alli quartel o ignavo em vos clamores<br> +Ao vingativo Tartaro supplica;<br> +Alli o here, no cho deitado e mudo,<br> +Nem quer que quando morre um ai lhe escape,<br> +E inda com tibio golpe derradeiro<br> +Invade o antagonista, que no menos<br> +A par de si prostrou; e bem que expire<br> +To alquebrado das feridas mutuas,<br> +Raivando afferra o ensanguentado slo.</p> + +<h4>XXVII.</h4> + +<p class="versos">O ancio, persistindo inabalavel,<br> +Oppr consegue momentaneo estrvo<br> +D'Alp carreira atroz.—"Cede, Minotti:<br> +Salva todos os teus, attende filha."<br> +—"Nunca o vers, vil renegado, nunca!<br> +Nem tinha eu de annuir inda que fosse<br> +Vida eterna essa vida que me off'reces."<span class="pn">{35}</span><br> +—"E Francina!—e a futura minha noiva!<br> +Queres, assim teimoso resistindo,<br> +Ser tambem causador da morte d'ella?"<br> +—"Ella est mui a salvo."—"Onde? em que sitios?"<br> +—"No Ceo, d'onde banida para sempre<br> +Foi tu'alma aleivosa,—e onde Francina<br> +Vive longe de ti, vive sem mancha."<br> +Alp, a taes vozes, titubante, anciado,<br> +Fica no d'outra sorte que se o peito<br> +Lhe traspassasse truculento golpe;<br> +E de Minotti despontou nos labios<br> +Irnico sorriso de vingana.</p> + +<p class="versos">"Oh Deos! quando expirou?"—"Inda esta noite;<br> +Mas do espirito seu no choro a ausencia,<br> +Antes flgo de ver que c no deixo<br> +D'esta minha linhagem nobre e pura<br> +Ninguem que haja de ser misero escravo<br> +De Mafamede ou teu. Anda, acommette!"<br> +Baldado desafio! Alp j morto.<br> +Ao tempo que Minotti lhe vertia<br> +N'aquellas expresses criminadoras<br> +Todo o fel da vingana, e que mais cruas<br> +Que a propria ponta de budo alfange<br> +Ellas varavo Alp, eis va o golpe<br> +D'um templo no distante, defendido<br> +Com incriveis primores de firmeza<br> +Por esse dos Christos ultimo resto,<br> +Que to minguado e d'esperana exhausto,<br> +Inda de l fazia esforos grandes<span class="pn">{36}</span><br> +Para o combate restaurar fallido:<br> +E antes de descobrir d'onde assestada<br> +Lhe foi a lethal bala sibilante,<br> +Alp o cerebro tem varado d'ella,<br> +E voltea, e vacilla, e cahe por terra:<br> +Lampejou-lhe ante os olhos claro debil,<br> +Quando vergou para no mais erguer-se,<br> +Ficando apenas palpitante tronco,<br> +Que ei-lo envolvido jaz na noite eterna.<br> +N'elle indicio no ha que vida inculque,<br> +Salvo o tremor dos membros onde o tiro<br> +Deixou menor estrago. A ponto acodem,<br> +E de costas o estendem: rosto e peito<br> +Lhe esto manchados de poeira e sangue,<br> +E jorra-lhe da boca o vital fluido,<br> +Que as cavernosas veias desampara;<br> +Mas no lateja o pulso, no se escuta<br> +Nos labios murmurar-lhe o arranco extremo;<br> +Nem sequer um suspiro, uma palavra,<br> +Um penoso arquejar, lhe assignalro<br> +O transito fatal da vida morte.<br> +Antes que o pensamento levantasse<br> +Em spplica contrita, ro nefando,<br> +Se apresenta aos umbraes da eternidade,<br> +Sem que ao perdo celeste aspirar possa,<br> +E na vida e na morte—Renegado.</p> + +<h4>XXVIII.</h4> + +<p class="versos">Ento d'um lado e d'outro aos ares sobe<br> +Espantoso alarido retumbante:<span class="pn">{37}</span><br> +Aqui, de regozijo; alm, de raiva.<br> +Eis de novo travadas em conflicto<br> +Espadas de Christos e Turcas lanas<br> +Embatem com furor, mutuo golpes,<br> +Estendendo no p guerreiros muitos.<br> +Ousa, de rua em rua e passo a passo,<br> +Minotti disputar aos inimigos<br> +Qualquer poro restante do terreno<br> +Que ao seu bravo commando fra entregue:<br> +Ao lado, a reforar-lhe audacia e pulso,<br> +As sobras tem da guarnio briosa.<br> +Resistencia tenaz off'rece o templo,<br> +D'onde predestinada veio a bala<br> +Que em grande parte despicou Corintho,<br> +Morto Alp, o mais feroz de seus contrarios<br> +Para alli recuando sem desvio,<br> +Deixando diante ensanguentado rasto,<br> +E os inimigos encarando sempre,<br> +E nunca sem matar vibrando um golpe,<br> +O chefe e o seu cortejo, em retirada,<br> +Conseguem reunir-se aos que occupavo<br> +A sacra estancia: no recinto d'ella<br> +Inda lhes cabe respirar um pouco,<br> +Das macias paredes escudados.</p> + +<h4>XXIX.</h4> + +<p class="versos">Remanso bem mesquinho! Os Musulmanos,<br> +De pujante refro abastecidos,<br> +Borbotando furores e ufania,<br> +To cerrados, to frvidos avano,<span class="pn">{38}</span><br> +Que o nmero lhes tolhe a retirada:<br> +Dest'arte se atravanco no caminho<br> +Que vai ao templo, onde os Christos no sabem<br> +O que render-se; e os batalhes infestos<br> +Tanto apinho-se frente, que, inda quando<br> +Lavrasse o susto alli, nenhum podra<br> +Por entre as fortes massas escoar-se:<br> +Ou vencer ou morrer lhes era fra.<br> +Morrem; mas sobre os corpos palpitantes<br> +Lhes surgem de repente os vingadores.<br> +Que, frescos e raivosos pullulando,<br> +As filas, sempre rtas, enchem sempre;<br> +E os Christos affadigo, extenuo,<br> +Violentas amiudando as investidas:<br> +E ei-los agora os Infieis assomo<br> +Junto ao sacro portal. Por longo espao<br> +A ferrea contextura inda resiste,<br> +Inda de cada fresta vo tiros,<br> +Todos bem assestados, mortaes todos;<br> +E de cada janella se desato<br> +Em chuveiro as sulfureas alcanzias.<br> +Mas j fraqueo as nutantes portas—<br> +Vrgo rangendo os quicios, cede o ferro,—<br> +L pendem—l se abatem j cahro:<br> +No mais resistir, morreo Corintho!</p> + +<h4>XXX.</h4> + +<p class="versos">Soturno, sem que o vejo, s comsigo,<br> +Ao altar arrimado est Minotti.<br> +D'um painel sobranceiro, a Virgem santa<span class="pn">{39}</span><br> +O affavel rosto flgido lhe volve,<br> +Transumpto de celeste colorido,<br> +Onde os olhos so luz, amor o aspecto;<br> +E na ara collocado a fim que possa<br> +Dos humanos fixar o pensamento<br> +Sobre as cousas do Ceo, quando elles oro<br> +Devotos, genuflexos ante a imagem<br> +D'esta Mi admiravel, que em seu gremio<br> +Sustem e affaga o Redemptor-menino,<br> +E com sorrisos acolhendo meigos<br> +Uma por uma as fervorosas preces,<br> +Como que ao Ceo de transferi-las cuida.<br> +Sorrindo sempre, inda sorr agora,<br> +Em despeito da atroz carnificina,<br> +Do sangue em jrros que deturpa as naves.<br> +Eleva ento Minotti os olhos lassos,<br> +E, exhalando um suspiro, se persigna;<br> +Logo alli d'uma tocha que era accesa<br> +Ei-lo se apossa, e permanece firme,<br> +Em quanto os Musulmanos irruindo,<br> +Desenvolvendo larga ferro e fogo,<br> +Hrridos enchem a manso sagrada.</p> + +<h4>XXXI.</h4> + +<p class="versos">Sob a lagem que o vasto pavimento<br> +Recompunha em mosaico variada,<br> +Subterraneas abobadas se arqueo.<br> +Jazigo aos mortos das passadas eras:<br> +Em memorandas lpidas incisos<br> +Lio-se os nomes seus, que ler no deixa<span class="pn">{40}</span><br> +Ora o sangue que os cobre: aqui no menos<br> +Vio-se, honrando as cinzas, esculpidos<br> +Timbres, emblemas de lavor prestante,<br> +Marmores luzidos, de vistosas<br> +Multicolores veias serpeados,—<br> +Que, srdidos j hoje, se baralho<br> +Com fragmentos d'espadas, de montantes.<br> +Com morries e arnezes abolados,<br> +Confuso mixto que por cima avulta<br> +D'innumeraveis atades, onde<br> +Enfileirados os defunctos dormem:<br> +Podes v-los em lugubre apparato,<br> +Ao macilento albor que inda os visita<br> +Por fisgas breves de sombrias grades.<br> +Mas nem por isso desistio a Guerra<br> +D'entrar por estas lobregas cavernas,<br> +Com trva profuso disseminando<br> +Das sepulcraes abobadas ao longo<br> +Seus thesouros sulfureos, que se elevo<br> +Empilhados em massas volumosas<br> +Junto dos resequidos esqueletos.<br> +Aqui, durante o crco, havio feito<br> +Seu paiol os Christos: longo rastrilho,<br> +Desde agora entornado, se encaminha<br> +Do templo a estes sitios; e eis o extremo<br> +Recurso inabalavel de Minotti<br> +Contra o poder das irruentes turmas.</p> + +<h4>XXXII.</h4> + +<p class="versos">O inimigo enche tudo; e poucos tento<span +class="pn">{41}</span><br> +Inda arrost-lo, ou mui de balde o arrosto.<br> +Elle, falta de vivos, vai nos mortos<br> +Saciar da vingana a voraz sde,<br> +Que exacerbou-se agora; elle os invade<br> +Com sacrilegos golpes, e decepa<br> +Cabeas j finadas, e dos nichos<br> +As estatuas despenha baqueantes,<br> +E as aras despe d'oblaes opimas,<br> +E co'as callosas mos profanadoras<br> +O argento empolga dos sagrados vasos.<br> +Chegada apenas a caterva infrene<br> +Ante o altar principal, detem-se e pasma:<br> +Oh qual o adorna resplandor pomposo!<br> +Sobre a pedra lhe surge bem patente<br> +O consagrado Caliz, ouro estrme,<br> +Prsa que enleva os depredantes olhos,<br> +A fulgurar macia e ponderosa:<br> +Hoje conteve o sacrosanto vinho,<br> +Que Christo em sangue seu mudar dignou-se,<br> +E com que, ao romper d'alva, os seus cultores,<br> +Antes de pelejar, fortalecro<br> +As almas ao dever e ao Ceo votadas:<br> +Inda no fundo remanecem gotas;<br> +E tambem, circumdando a sacra mesa,<br> +Em symetria esplendida dispostas,<br> +Ardem lampadas doze d'ouro fino:<br> +Este o mais opulento e ultimo espolio.</p> + +<h4>XXXIII.</h4> + +<p class="versos">Apinho-se alli todos; e o que estava<span +class="pn">{42}</span><br> +Da prsa mais visinho, faz-se avante,<br> +E quasi quasi que a empolgava, quando<br> +O longevo Minotti applica a tocha<br> +Ao rastrilho fatal;—ei-lo se inflamma!<br> +Campanarios, abobadas, altares,<br> +Espolio, vivos, mortos, moribundos,<br> +Christos vencidos, Turcos vencedores,<br> +E o templo esboroado, e quanto ha n'elle,<br> +Se ergue aos ares com hrrido rebombo,<br> +E finda envlto na exploso terrivel!<br> +A cidade abalada—o cho coberto<br> +D'edificios, de muros demolidos—<br> +As ondas que recuo, de assustadas—<br> +Os montes, seno rtos, vacillantes,<br> +Como se os sacudisse um terremoto—<br> +De milhares d'objectos mixto informe<br> +Que os Ceos toldando vai de fogo e fumo.<br> +Ao rebentar da horrtona lufada—<br> +No cesso de apregoar que n'estas praias,<br> +Ha longo tempo, afflictas, terminou-se<br> +Dos combates o mais desesperado.<br> +Como accesa em girandolas festivas,<br> +L roa os astros a confusa mole.<br> +Vares no poucos d'estatura ingente,<br> +D'apparencia gentil, ora abrasados,<br> +Curtos como pigmeos, descem dos ares,<br> +Em torrado carvo juncando a terra.<br> +Grossa chuva de cinzas se despenha:<br> +Muitas recebe o golfo, e, ao receb-las,<br> +Frma em trno escarcos, que se desfazem<br> +N'um progresso de circulos undosos;<span class="pn">{43}</span><br> +Muitas recebe a praia, e vo, por longe<br> +Disseminadas, recobrir todo o isthmo:<br> +So cinzas de Christos ou d'Othomanos?<br> +Suas mis se aproximem, venho v-las,<br> +E digo se as conhecem!—Por ventura<br> +Houve alguma de vs, desgraadas,<br> +Que quando aos peitos lhe pendia o filho,<br> +Ou no embalado bero o adormentava,<br> +E, sorrindo d'amor, se comprazia<br> +N'aquelle brando repousar donoso,<br> +Ai! houve alguma ento que nem por sombras<br> +Esperasse este dia, ou ver dispersos<br> +Da cara prole os lacerados membros?<br> +Nem sequer, nem sequer as extremosas<br> +Matronas que no ventre os alojro<br> +Estremar sabem os nascidos d'ellas;<br> +Um s momento lhes tirou de todo<br> +Frma e semblante d'homens; resta apenas<br> +Algum disperso pericraneo ou osso.<br> +Barrotes, vigas flammejantes descem,<br> +E em redor se derramo; vem cahindo<br> +Engastadas em barro infindas lagens,<br> +Que o slo opprimem fumegantes, negras.<br> +Todo o vivente a quem troou no ouvido<br> +O abalo estragador, prego de morte,<br> +Ou jazeo ou sumio-se: espavoridas<br> +O vo affasto carniceiras aves;<br> +Bravos ces vo-se arredando em uivos,<br> +Nem se lhes d dos insepultos mortos;<br> +O camelo as prises deixou quebradas;<br> +O touro, ao longe, se desfez do jugo;<span class="pn">{44}</span><br> +O corsel, que o fragor ouvio de perto,<br> +Rompendo a silha, espedaando as redeas,<br> +A galope alongou-se pelo plaino;<br> +As incolas dos charcos lutulentos,<br> +Alando a boca sobremodo aberta,<br> +Clamor soltro importuno em dbro;<br> +Uivro pelas furnas das montanhas<br> +Os lobos, quando alli a trovoada<br> +Em cos retroou; l mui distantes,<br> +As alcatas dos jakaes bramro<br> +Com mixto som, que, lamentoso e agudo,<br> +Ora imitava criancinha em chros,<br> +Ora lebro ganindo fustigado:<br> +Esbaforida accelerando os vos,<br> +A aguia desamparou a rocha alpestre,<br> +Onde aquecia o ninho, e remontou-se<br> +Mais proxima do sol, achando crassas<br> +Em demasia as sotopostas nuvens,<br> +Que vinho, d'atro fumo conglobadas,<br> +Roar-lhe o bico amedrontado, hiante,<br> +Mais e mais excitando-a a sublimar-se,<br> +E o grito a reforar.—Eis de qual modo<br> +Conquistada e perdida foi Corintho.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM.</p> + +</blockquote> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{45}</span></p> + +<h1>NOTAS ABREVIADAS.</h1> + +<p><span class="pn">{46}<br>{47}</span></p> + +<h2>NOTAS ABREVIADAS.</h2> + +<h3><a name="II.--" id="II.--" href="#Dando">II.—<em>vers.</em> 14.</a></h3> + +<p class="versos">Dando de mo grei, o Turcomano<br> +Prestes unio ao lado a cimitarra.</p> + +<p>Domiciliados debaixo de tendas, vivem estes povos uma vida patriarcal.</p> + +<h3><a name="V.--" id="V.--" href="#Coumourgi">V.—<em>vers.</em> 1.</a></h3> + +<p class="versos">Coumourgi—aquelle etc.</p> + +<p>Ali Coumourgi, valido de tres sultes, e gro visir de Achmet III, havendo +retomado em uma s campanha o Peloponeso aos Venezianos, foi, no seguinte anno, +mortalmente ferido na batalha de Peterwaradin, quando forcejava para reunir +suas tropas.</p> + +<h3><a name="XVI.--" id="XVI.--" href="#Coarctados">XVI.—<em>vers.</em> +4.</a></h3> + +<p class="versos">Coarctados e sem sto, aquelles mares<br> +Em moto igual ondeo sempiternos.</p> + +<p> talvez desnecessario recordar ao leitor que o movimento do fluxo no +visivel no Mediterraneo.<span class="pn">{48}</span></p> + +<h3><a name="Ibi--" id="Ibi--" href="#Ei-los">Ibi—<em>vers.</em> 42.</a></h3> + +<p class="versos">Ei-los que esto da pelle despojando<br> +Nest'hora um craneo Tartaro, etc.</p> + +<p>Este espectaculo, qual o descrevo, foi por mim presenciado sob os muros do +serralho de Constantinopla; e os cadaveres ero talvez os de alguns Janizaros +rebeldes.</p> + +<h3><a name="Ibi--1" id="Ibi--1" href="#cada">Ibi—<em>vers.</em> 59.</a></h3> + +<p class="versos">E cada pericraneo off'rece a esguia<br> +Madeixa longa, etc.</p> + +<p>Crm os Musulmanos que o seu Mafma, no ponto de transferi-los ao Paraiso, +os tomar por esta madeixa; e, firmados sobre to supersticioso fundamento, a +deixo crescer.</p> + +<h3><a name="XXI.--" id="XXI.--" href="#Essa">XXI.—<em>vers.</em> 94.</a></h3> + +<p class="versos">Essa nuvem que esconde agora a lua,<br> +L vai passando, etc.</p> + +<p>Este pensamento no original, por quanto deparei com elle na verso +ingleza de Vathek.</p> + +<h3><a name="XXII.--" id="XXII.--" href="#terra">XXII.—<em>vers.</em> +11.</a></h3> + +<p class="versos">————— Da terra prestes<br> +Descravo-se os pendes equi-caudatos.</p> + +<p>De uma cauda de cavallo, fixa no alto de uma lana, so compostos os pendes +dos Bachs.<span class="pn">{49}</span></p> + +<h3><a name="XXV.--" id="XXV.--" href="#Morreo">XXV.—<em>vers.</em> +51.</a></h3> + +<p class="versos">Morreo a combater no undoso estreito<br> +Que d'Asia o cho divide do d'Europa.</p> + +<p>Na batalha naval que os Venezianos travaro com os Turcos entrada dos +Dardanellos.</p> + +<p> </p> + +<h3>FIM DAS NOTAS.</h3> + +<p> </p> +<hr> + +<p>P. S. <em>Escrevemos accentuada e sem</em> h <em>a 3. pessoa do singular no +indicativo presente do verbo substantivo ser, e igualmente sem</em> h <em>o adjectivo +numeral um, por nos parecerem terminantes as razes em que fundado este uso. +Por certo que nem sempre adherimos opinio de nossos Grammaticos e +Diccionaristas modernos, com quanto sejo alguns de reconhecida erudio; e em +meia duzia de paginas, que talvez publicaremos, ho de apparecer indicados os +pontos e expendidos os motivos d'esta divergncia. Pelo que toca exactido +typografica do Poema que apresentamos traduzido, empregou-se ahi mui boa +diligencia: pois de presumir que ser leve e de facil emenda o defeito que +ainda remanecer.</em></p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord +Byron, traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA *** + +***** This file should be named 33592-h.htm or 33592-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/3/5/9/33592/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/33592-h/images/ilustr.png b/33592-h/images/ilustr.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..0d31e6d --- /dev/null +++ b/33592-h/images/ilustr.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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