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+The Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron,
+traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez
+
+Author: George Gordon Byron
+
+Translator: Henrique Ernesto de Almeida Coutinho
+
+Release Date: August 31, 2010 [EBook #33592]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: UTF-8
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+ Nota de transcrição:
+
+ Foi mantida a grafia usada na edição original de 1839, tendo sido
+ corrigidos apenas pequenos erros tipográficos evidentes.
+
+
+
+
+ O CERCO DE CORINTHO,
+
+ POEMA
+
+ DE
+
+ LORD BYRON,
+
+ TRADUZIDO EM VERSO PORTUGUEZ,
+
+ POR
+
+ _H. E. A. C._
+
+
+ PORTO.
+ TYPOGRAPHIA COMMERCIAL PORTUENSE.
+ LARGO DE S. JOÃO NOVO N. 12.
+ 1839.
+
+
+
+
+AO ESTIMAVEL ANONYMO.
+
+
+ _Alma prestante, onde reside e impera
+ O Genio da Amizade,
+ Que a luminosa esfera
+ Deixou, para acudir á humanidade,
+ Sumida em pesadumes e agonias,
+ Em feia escuridade!
+ Alma onde o typo eterno não se encobre,
+ E que, n'estes d'egoismo ferreos dias,
+ O instante de ser util só vigias,
+ Sincera, affavel, nobre!
+ Acceita, em oblação a ti votado,
+ Ancioso de agradar-te, este traslado._
+
+ Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho.
+
+
+
+
+_O TRADUCTOR,_
+
+
+Para perpetuar a gloria do sublime poeta que tanto enriqueceo a sua
+patria e o mundo literario com o preciosissimo cabedal de suas
+producções, bastaria esta de que emprehendemos e agora publicamos a
+traducção. Sciencia dos tempos e dos costumes, vasta erudição, profundo
+conhecimento do homem, variedade e magnificência de quadros, fecunda
+elevação de pensamentos, lustre e vigor de poesia, sobresahindo por
+effeito da mais acertada e judiciosa distribuição, eis os titulos com
+que se engrandece este poema, onde lord Byron não houve mister longo
+espaço para mostrar-se, immortal.
+
+Não é raro tecerem os traductores sobejo encomio ainda a mediocres
+originaes, quando com estes despendêrão vigilias e desvelos; mas nem por
+isso receamos que, elogiando a lord Byron, nos accusem de
+encarecimento ou de leviandade: as suas obras ahi estão bem patentes, e
+a sua reputação é já colossal.
+
+Todavia, notando a mui sincera affeição que consagramos a tão estremado
+engenho, ninguem haja de persuadir-se que o avaliamos como isento de
+toda a mácula. Por certo que lord Byron era homem, e o fragil da
+humanidade transparece em algumas das suas producções, e ás vezes
+procura brilhar em detrimento daquella gentil gravidade que mui bem
+assenta nas Musas, e sem a qual desmentem ellas a sua origem celeste;
+mas de semelhante desar campea livre o poema que apresentamos
+traduzido.--Só de passagem mencionaremos um descomedido orgulho
+nacional[1], um amor á liberdade, que por vezes degenera
+em fanatismo: estes sentimentos os bebeo o poeta com o primeiro alimento
+de sua infância, e, quando concentrados em justo limite, são nobres, e
+longe estamos de criminá-los.
+
+Não menos que lord Byron admiramos os grandes capitães Gregos e Romanos;
+tambem nas escolas estudamos e traduzimos Nepote, Tacito, Tito-Livio,
+&c. Todavia os heróes n'essas historias memorados viverão em tempos mui
+diversos dos nossos, e diversissima foi a sua educação fisica e moral:
+por tanto o joven enthusiasta hodierno que ambiciona a todo o custo
+igualá-los, arrisca-se a cometter mil despropositos, e mesmo a ser
+victima inutil de suas desattentadas proezas. Para morrer com gloria no
+desfiladeiro de Thermópylas, cumpre, além de haver sido educado em
+Esparta, ter á frente um Leonidas. A prudencia de Fabio transtornou os
+planos de Annibal e salvou Roma, conseguindo aquillo mesmo que fôra
+denegado ás fastuosas e arrogantes ousadias de Sempronio e de Flaminio.
+Do sacrificio de Curcio, despenhando-se armado e com seu proprio cavallo
+no boqueirão aberto por um terremoto em certa praça de Roma, que
+proveito recolhêrão os concidadãos, a patria, ou a especie humana?
+Curcio era pois um esquentado enthusiasta, ou antes um orate rematado. É
+indubitavel que a cega ambição de figurar com heroismo Grego ou Romano,
+associada ao sofrego ardor não sei de que liberdade turbulenta,
+insidiosa, desmoralisadora, e de mais pernicioso effeito que qualquer
+desmascarada tyrannia, tem excandescido bom numero de cabeças e avultou
+de sobejo na mui abalisada revolução de França, que ainda hoje em
+sangrentas paginas aterra a humanidade.--Talvez o amor que sempre
+tributamos á verdade nos levou em demasia longe; mas como quer que seja,
+não cessaremos de confessar que o sublimado engenho de lord Byron nos
+penetra de admiração, e deixa, ao menos em nosso alvitre, o homem
+justificado pelo poeta.
+
+Quanto á nossa traducção, sobre diligenciarmos que portugueza fosse,
+pozemos todo o cuidado em exprimir com clareza os pensamentos do poeta,
+bem como em não deteriorar-lhes a nativa gala, que antes nos parece mais
+pomposa n'este nosso fertil e sonoro idioma: entretanto não é por nossa
+conta que deve correr a cabal decisão na materia, mas sim por conta de
+mais competentes juizes, que, versados nas duas linguas, queirão dar-se
+ao trabalho de cotejar o original com a versão.
+
+Entre os nossos traductores poetas, alguns houve que gemêrão sob a
+ferrenha tarefa de traduzir tragedias e longos poemas verso por verso;
+mas que resultou de tanta diligencia? o substituirem, pela maior parte,
+a versos fluentes e vigorosos uma enfiada de semsaborias, de durezas, de
+enigmas, onde a graça e louçania dos originaes degenera em rugosa e
+desalinhada velhice. Não negamos que isso tenha cabimento e deva
+adoptar-se quando nenhum inconveniente o estorva; porém o verter
+affincadamente poemas inteiros verso por verso, é uma curiosidade que em
+muitos casos empece á nobre franqueza do estilo, á suavidade do metro, e
+ao effeito geral dos quadros poeticos. Estamos persuadidos de que deve o
+traductor de um poema ser sempre fiel á quantidade das idéas, não assim
+á quantidade dos versos: tal foi o nosso systema de traducção no _Cêrco
+de Corintho_.
+
+Ardua e mui ardua emprêsa é traduzir poetas; bem o sabemos e
+experimentamos. Se todavia para traduzir lord Byron de nada mais se
+carecesse que de estar profundamente penetrado das extraordinarias e
+sublimes bellezas com que este filho da immortalidade abrilhantou suas
+obras, então nos lisonjeariamos de apresentar a nossos leitores uma
+copia digna do original, e preciosa para elles.
+
+ [1] Este orgulho se deixa ver bem claro no _Childe Harold's
+ Pilgrimage_, cant. I.º est. 16, onde, entre outros motejos com que o
+ poeta pertende aviltar os Portuguezes, tambem lhes exprobra o serem
+
+ _A nation swoln with ignorance and pride._
+ Nação inflada d'ignorancia e orgulho.
+
+ Quererá isto dizer que a Inglaterra é um paiz todo cheio de sabios, e
+ onde o orgulho morre de frio, por falta de quem o aquartele?
+
+
+
+
+O CERCO
+
+DE
+
+CORINTHO.
+
+
+I.
+
+Longo trilho de seculos exhaustos,
+Rijas tormentas, bellicos furores,
+Infestárão Corintho: ella entretanto
+Persiste em pé, e no alteroso alcáçar
+Nova conquista á Liberdade off'rece.
+Nem bramir de tufões, nem terremotos
+O alvejante penhasco lhe abalárão,
+Esse lageoso assento, que, em despeito
+Da decadencia sua, inda parece
+Não sem orgulho contemplar seu cimo;
+Esse padrão demarcador erguido
+Entre os dous mares, que d'um lado e d'outro
+Lhe estão rolando purpurinas ondas,
+Que sempre a forcejar por se reunirem,
+O acatão sempre, e vem morrer-lhe ás plantas.
+Se o sangue n'estes sitios derramado
+Desde que n'elles o fraterno sangue
+Timoléon vertêra, ou desde quando
+Pelo aviltado despota da Persia
+Abandonados forão, borbulhasse
+Da terra que o bebeo no morticinio,
+Este sangrento oceano sepultára
+Sob os tremendos escarcéos todo o isthmo:
+Ou se podessem amontoar-se os ossos
+Dos que alli perecêrão, surgiria
+Por entre aquelles ceos abrilhantados
+A colossal pyramide espantosa,
+Dando rival á Acrópolis, que as nuvens
+Se vê roçar co'a torreada fronte.
+
+
+II.
+
+Eis lanças vinte mil sobre as espaduas
+Do nebuloso Citherón fulgurão;
+E em toda a planta do isthmo, sobre as duas
+Oppostas praias que o ladeão amplas,
+Se eleva o pavilhão, brilha o Crescente
+Nas federadas linhas Musulmanas;
+E o tisnado Spahí desfila em bandos
+Á vista dos Bachás amplo-barbados;
+E os olhos podem ver ao longo e ao largo
+As cohortes cingidas do turbante,
+Que o promontorio alastrão, enxameão:
+Lá se ajoelhão do Arabe os camelos,
+Do Tartaro os ginetes la volteão;
+Dando de mão á grei, o Turcomano
+Prestes unio ao lado a cimitarra.
+Dos bellicos trovões crebro rebombo
+Té faz emmudecer, de susto, os mares,
+Profunda-se a trincheira, e muito longe
+Silvando vôa no pelouro a morte;
+Sob o peso da bomba assoladora,
+Soltão-se em pulverento remoinho
+Os da muralha esboroados lanços;
+E, do recinto d'ella, eis o inimigo
+Ás do Infiel intimações responde
+Com manejo expedito, e fogos destros.
+Que vão cruzando os empoeirados plainos,
+E os ares que anuvia o fumo em rôlos.
+
+
+III.
+
+Das muralhas porém o mais visinho
+Entre os que punhão peito e mãos á empresa
+De as converter em ruina, o mais profundo
+Que nenhum dos da prole Musulmana
+Nas da guerra artes tétricas, e altivo
+Qual nunca o foi assignalado chefe
+Colhendo louros em sangrentas lides;
+O que voando audaz de posto a posto,
+D'um feito a maior feito, se avantaja
+Em destro esporear corsel fumante,
+Em surdir mais veloz onde arde o p'rigo,
+Cada vez que ha sortidas ou assaltos;
+E quando a bateria, em mãos valentes,
+Resiste inexpugnavel, então mesmo
+Com exultante aspecto desmontando
+A dar alento, na refrega, aos tibios;
+O mais abalisado e o mais recente
+Da hoste que lucrou n'estas paragens
+Ao sultão de Stamboul renome egregio;
+O guia incomparavel em campanhas,
+Ou solerte assestando o ferreo tubo,
+Ou manejando a temerosa lança,
+Ou tufão que rebenta onde ha conflictos,--
+É Alp, o Veneziano renegado!
+
+
+IV.
+
+O renegado de Veneza!--ah! elle
+De vetusta linhagem primorosa
+Teve o seu nascimento: todavia,
+Desterrado a final do patrio ninho,
+Contra os concidadãos tomou as armas,
+Em que por elles adestrado fôra;
+E orna-lhe a fronte rasa hoje o turbante.
+Depois d'eventuaes destinos varios,
+Sob a lei que Veneza lhe dictára
+Se acolheo, como a Grecia, então Corintho;
+E ei-lo que ante seus muros se apresenta,
+Inimigo entre os feros inimigos
+Da Grecia e de Veneza, e trasbordando
+De resentido ardor, qual excandesce
+Ao joven convertido a alma orgulhosa,
+Onde duestos mil accumulados
+Estão sempre em tumulto, e eternos vivem.
+Nem por isso com elle quiz Veneza
+Desempenhar o civico appellido
+Em que firmava o seu brazão = A LIVRE; =
+E de São Marcos no palacio excelso,
+Delatores incognitos lançárão
+Na _Boca do Leão_, durante a noite.
+Denuncia atroz de requintados crimes,
+Que o cobrião de macula indelével:
+Salvou seus dias pressurosa fuga.
+Desde esse lance despendia a vida
+No meio dos combates, demostrando
+Bem claro á patria o que perdeo no alumno
+Que contra a Cruz, já supplantada, erguia
+O soberbo Crescente, e, guerreando,
+Só vingar-se ou morrer buscava ancioso.
+
+
+V.
+
+Coumourgi--aquelle que impôz termo aos feitos,
+O ultimo perecendo, e o mais pujante,
+Lá nos de Carlowitz sangrentos plainos,
+Sem magoa de morrer, porém, raivoso,
+Dos Christãos maldizendo inclitos louros,
+E d'Eugenio adornando o grão triunfo;
+Coumourgi--e por ventura a gloria d'este
+Conquistador da Grecia derradeiro
+Poderá perecer, senão surgindo
+Braço Christão que restitua á Grecia
+Sequer os fóros que gozou outr'ora
+Por Veneza outorgados? Elle vinha,
+Já depois de volvidos lustros vinte,
+Reintegrar a Othomana prepotencia;
+E, os veteranos seus pospondo agora,
+Para mandar do exercito a vanguarda
+Alp escolheo, que a confidencia summa,
+Arrazando cidades, lhe pagava,
+E mostrando em façanhas destructoras
+O seu zeloso affêrro á nova crença.
+
+
+VI.
+
+A muralha enfraquece: de continuo
+As Turcas baterias lhe varejão
+O parapeito e ameias; restrugindo,
+Sahe de cada canhão a voz do raio:
+Aqui flammeja, ao rebentar da bomba,
+Crepitante zimborio; além baquea
+Este, est'outro edificio derrocado,
+Sob o espesso granizo d'estilhaços,
+Que em lufadas volcanicas recresce:
+Vai resfolgando em rúbidas columnas
+Voraz incendio, que tão alto sobe,
+Como sobe o fragor da ruina ingente,
+Ou solta-se em terrestres meteoros
+Que vão no ceo esvaecer-se infindos:
+Mais nebuloso, mais impervio o dia
+Se torna á luz do sol, co'a mole opaca
+Do fumo alçado em tortuosos rôlos,
+Que d'enxofrado horror a esfera enlutão.
+
+
+VII.
+
+Nem sómente ardor cego de vingança,
+Que a longa dilação fez mais ferino,
+Esporeára esse Alp apostatado
+Á adestrar os guerreiros Mahométas
+N'arte de abrir a promettida brecha.
+D'aquelles muros no recinto havia
+Uma donzella, cuja mão formosa
+Elle obter pertendia apesar mesmo
+Do inexoravel pai, que, furibundo,
+Aos rogos lha negou, quando Alp outr'ora,
+Chamando-se Lanciotto, o bafejavão
+Tempos melhores, mais propicios fados;
+E sem nota e sem crime de perfidia,
+Aos palacios, ás góndolas levando
+Alegria vivaz, se assignalava
+Nos Carnavaes, ou resoar fazendo
+Sobre aguas do Adria esses descantes meigos
+Que alvoroçadas de prazer escutão
+Á meia-noite as Italas donzellas.
+
+
+VIII.
+
+Que do seu coração já possessora
+Não fosse a virgem, suspeitavão muitos;
+No em tanto d'infinitos requestada,
+E a nenhum acolhendo, persistia
+De todo o laço conjugal isenta
+A juvenil Francina: e desde o instante
+Em que das Adriaticas paragens
+Se retirou Lanciotto a pagãos climas,
+O sorriso expirou nos labios d'ella;
+Meditabunda e pallida tornou-se;
+Confissões amiudava, e já não era
+Tão vista em mascaradas e assembleas;
+Ou, se lá ia, os olhos seus descidos
+Avassalavão, n'um volver furtivo,
+Mil corações de balde suspirosos:
+Nenhum objecto contemplava attenta;
+Não punha em atavios tanto apuro,
+Nem já tão terno desprendia o canto;
+Seus passos, bem que leves, o erão menos
+Que os dos parceiros seus, a quem na dança
+Colhia absortos o raiar d'aurora.
+
+
+IX.
+
+D'um sólo aos Musulmanos arrancado,
+Quando a soberba lhes calcou Sobieski
+Ante os muros de Buda, ás margens do Istro;
+D'um sólo que depois Veneza altiva
+Empolgou com violencia desde Patras
+Té a Euboica enseada, o regimento,
+Por ordem sup'rior, tomou Minotti;
+E de Corintho na torreada estancia
+Já elle era do Doge o delegado,
+Quando os olhos da Paz fagueiros, pios,
+Depois da larga ausencia, confortavão
+C'um sorriso dos seus a Grecia sua,
+Inda não rôto esse armisticio trêdo
+Que ao jugo anti-Christão a subtrahia.
+Entrou Minotti alli co'a filha amavel;
+E desde o tempo em que a formosa Helena,
+Deixando o esposo e a patria, fez ver quantos
+D'um illicito amor desastres brotão,
+Nunca estas praias adornou belleza
+Digna de comparar-se á da estrangeira.
+
+
+X.
+
+Em crebros boqueirões abre-se o muro;
+E sobre as ruinas da alluida mole
+Vai, á primeira luz, desenvolver-se
+Assalto mais que todos formidando.
+Tropas enfileirarão-se; escolhidos
+Forão para formar toda a vanguarda
+Tartaros e Othomanos; e vós outros,
+Flor dos guerreiros, a quem foi sem causa
+Imposto o sobrenome de _perdidos_,
+E para quem a morte e riso, é jôgo;
+Vós, que co'alfange em punho abris caminho,
+Ou de vossos cadaveres juncando
+A que o braço rompeo vereda honrosa,
+Sois marmoreo degráo, por onde affoutos
+Os socios trepão,--morrereis mais tarde!
+
+
+XI.
+
+É meia-noite: a fria lua ostenta
+O disco inteiro, e amplo fulgor diffunde
+A contrastar co'a sombra das montanhas;
+Traja d'azul o mar, d'azul se veste
+O firmamento, este suspenso oceano,
+Todo cravado d'ilhas que refulgem
+Lá tão remotas, com ardor tão vivo:
+E quem, quem póde attento contemplá-las,
+E repascer depois os olhos tristes
+No valle dos mortaes, sem que apeteça
+Voar e unir-se para sempre a ellas?
+Dormem as ondas, n'uma praia e n'outra,
+Placidas e ceruleas como os ares;
+Só de leve as areas roça a espuma,
+Com murmurinho igual ao d'um regato.
+Os ventos se recostão sobre as ondas;
+E das hastes ao longo quietas pendem,
+Em pregas conchegando-se, as bandeiras,
+Que remata arci-fúlgido Crescente.
+Nada interrompe esta mudez profunda,
+Senão além a voz da sentinella
+Reproduzindo a senha, ou lá mais longe
+Relincho de corseis agudo e crebro,
+Ou écos que respondem dos outeiros,
+Ou da hoste bravia o rumor vasto,
+Que semelhante ao de agitadas folhas
+Alongando-se vai de praia a praia,
+Ou preces usuaes que á meia-noite
+Levanta o Muezzin, rasgando os ares
+Co'a lamentosa garganteada lôa,
+Qual 'spirito que vaga na planicie:
+Melódicos accentos, mas prantivos,
+Quaes os produz o vento, que, passando,
+Encontra as cordas de sonoras harpas,
+E extrahe descompassadas harmonias,
+Que não conhece o menestrel mundano.
+Este som se affigura aos sitiados
+Grito agoureiro da infallivel queda;
+Elle fere no ouvido aos sitiadores
+Como indicio aziago e pavoroso,
+Repentina toada indefinivel,
+Que os corações lhes paralisa agora,
+E logo os faz pulsar mui apressados,
+Co'a vergonha de haver surdido n'elles
+Tão desusada sensação furtiva:
+Dest'arte o sino apregoador da morte
+Nos sobresalta de repente ouvido,
+Inda que seja em funeral d'estranhos.
+
+
+XII.
+
+Calou-se o som, a rogativa é finda;
+As sentinellas em seus postos velão;
+Foi a nocturna ronda percorrida,
+E em tudo as ordens satisfeitas todas.
+Tem Alp o seu tentorio sobre a praia,
+E em ancias vai curtir inda esta noite;
+Mas bem póde a manhã suavisá-las,
+Na fruição das vantagens tão copiosas
+Com que o amor e a vingança hão de reunidos
+Demora indemnisar tão prolongada.
+Horas poucas lhe restão, e carece
+De repousar, por que expedito esteja
+Ás proezas da crástina matança:
+Mas baralhados, quaes estuantes vagas,
+Os pensamentos lhe reluctão n'alma.
+Sem repouso e só elle em todo o campo;
+Nem sente o coração entumecer-lhe
+Fanatica vangloria blasonante
+De ver pelo Crescente a Cruz calcada,
+Ou de vender seus dias mui baratos,
+Seguro de gozar no paraiso
+O sempiterno amor das Houris bellas;
+Nem se sente abrazar d'aquelle austero
+Patriotico ardor que de bom grado
+Supporta árduas fadigas, verte o sangue.
+Quando peleja sobre o chão nativo,
+Elle não era mais--que um renegado.
+Ora verdugo da trahida patria;
+Elle não era mais que um peito forte,
+Um braço acreditado entre o seu bando.
+Seguião-no, por que era valeroso,
+E já lhes grangeára espolio grande;
+Davão-lhe acatamento, por ver quanto
+Elle sabia captivar do vulgo
+As vontades, e arteiro dispôr d'ellas:
+Mas nem por isso lhe entejavão menos
+O Christão nascimento: inveja influe-lhes
+A propria fama atreiçoadora que elle
+Ganhára sob um nome Musulmano:
+De qualquer modo, esse esforçado chefe
+Vil Nazareno foi na juventude.
+Não lhes era sabido té que ponto
+É capaz de curvar-se o orgulho, quando
+Murcho e aviltado o pundonor baquea;
+Não lhes era sabido quão violenta
+Chamma voraz em corações se accende
+Que de meigos tornarão-se bravios;
+Ignoravão qual zêlo de vinganças
+Refalsado e fatal se gera e cresce
+D'um convertido n'alma. Elle os regia:
+Póde um homem reger outros peores,
+E de ser o primeiro gloriar-se.
+Taes os leões sobre o jakal dominão:
+Destro o jakal espia e abate a prêsa;
+Mas, no apertão da rugidora turba,
+Da-se por pago, se devora os restos.
+
+
+XIII.
+
+A cabeça lhe ferve, e apressuradas
+As arterias palpitão-lhe convulsas;
+D'um lado e d'outro volta-se, baldando
+Modos de repousar; e se dormita,
+O som mais leve, o mais pequeno abalo
+Prestes o acordão angustiado em dôbro.
+A fronte excandescida lhe molesta
+Hoje o turbante, e, nem que plumbea fosse,
+A loriga lhe pesa sobre o peito,
+Se bem que tanta vez, e a somno solto,
+Sob esse mesmo pêso repousasse,
+Tendo apenas por leito um chão saibroso,
+E por docel o firmamento apenas,
+Leito e docel quaes ao guerreiro a noite
+Agora os deparou. Elle nem póde
+No seu tentorio adormecer, nem quieto
+Esperar que desponte a luz diurna,
+E eis vaga ao longo da arenosa praia,
+Alastrada de tantos que repousão.
+Quem os acalentou? e por que causa
+Ha de elle só velar, despossuido
+D'um bem que logrão rasos subalternos,
+A quem cabe arrostar maiores p'rigos,
+E lidas superar mais affanosas?
+Mas ah! que um sonho animador lhes pinta
+Os lucros todos do futuro espolio;
+E em quanto mil e mil passão dormindo
+Esta que a noite extrema é talvez d'elles,
+Alp, em vigilia atroz, vaguea anciado,
+E lhe é alvo d'invejas quanto encontra.
+
+
+XIV.
+
+Vai na aprazivel fresquidão da noite
+Achando refrigerio ás ancias d'alma.
+Relentoso ora o ceo, bem que tranquillo,
+As affogueadas faces lhe aspergia
+Com brando orvalho. Apóz lhe fica o campo;
+De fronte lhe serpea, derramado
+Em crebros surgidouros e enseadas,
+O golfo de Lepanto; está-lhe á vista
+A de Delphos montanha sempiterna,
+Onde os gêlos accrescem, brilhão, durão,
+De mil estios affrontando a ardencia,
+Campeando no golfo, e serro, e clima,
+Sem que os dissolva, como a nós, o Tempo.
+Desapparecem o tyranno e o servo,
+Improprios a aguantar fulgente raio;
+Mas este véo deslumbrador e fragil,
+De que vês envolvido o monte excelso,
+Quando torres baqueão, jazem troncos,
+Lá brilha sempre no empinado alcáçar;
+Pileo na fórma, nuvem no elevado,
+Na côr e na amplidão lançol funereo,
+Erguido a designar que a Liberdade
+Se ausentou da mimosa estancia sua,
+E hoje languida jaz no mesmo sólo,
+Onde foi largos tempos escutado
+Seu profetico ardor em aureos versos.
+Oh! que de quando em quando inda lá sôão
+Os passos seus sobre arescentes campos,
+Sobre tantos altares demolidos;
+E ella, um a um mostrando aquelles restos
+Abonadores da passada gloria,
+Alentar busca os animos prostrados:
+Porém de balde bradará, em quanto
+Não despontar n'um coração preclaro
+Destimidez possante, toda accesa
+Ao clarão d'esses dias que luzírão
+Sobre a fuga do Persa, e que risonhos
+O intérito arrostárão do Espartano.
+
+
+XV.
+
+Inda que fugitivo e criminoso,
+Alp admirava as inclitas virtudes
+D'esses tempos heroicos; e esta noite,
+Em quanto vagueava, e na memoria
+O presente e o passado revolvia,
+Apreciando as mortes gloriosas
+Dos que em defensa da genuina causa
+Seu sangue alli vertêrão, mui bem sente
+A que ponto é fallaz, mesquinha, obscura
+Quanta fama lucrou d'um bando á frente,
+E, nefario traidor, brandindo a espada
+Entre as turmas cingidas do turbante,
+Que raivoso guiára a injusto assedio.
+Onde era em cada prospero successo
+Não menos computado um sacrilegio.
+Taes não lhe mostra a fantasia os chefes,
+Por quem aquelle pó que o circumdava
+Fôra illustrado, e que as phalanges suas
+Perfilavão no plaino, não de balde
+Então de baluartes guarnecido.
+Estes morrêrão escudando a patria,
+E eternos vivem no fulgor da gloria:
+Suspirar-lhes alli os nomes gratos
+Inda parece a brisa; alli seus feitos
+Sôão no murmurinho das correntes;
+Povôa seu renome aquelles campos;
+O pilar taciturno, ermo, alvacento,
+Demanda aos sacros vultos alliar-se;
+Os espiritos seus em tôrno girão
+Dos fuscos serros; a memoria sua
+Toda se espelha no cristal das fontes;
+O arroio humilde, o caudaloso rio
+Perennes fluem co'a perenne fama
+Dos estremados campeões sublimes.
+Por mais que a opprima um jugo, é esta sempre
+A patria d'elles, e a mansão da gloria!
+A Grecia!--ha de levar sempre este nome
+Um som despertador ao Mundo inteiro.
+Varão que aspira a perpetrar façanhas,
+Lá põem na Grecia o fito, e abjura as normas
+Que sómente os tyrannos sanccionárão;
+Para lá olha, e se arremessa aonde
+Conquiste a Liberdade, ou deixe a vida.
+
+
+XVI.
+
+Sempre assim meditando silencioso,
+Alp ao longo da praia os passos move,
+E com brando rocio a noite o ameiga.
+Coarctados e sem ésto, aquelles mares
+Em moto igual ondeão sempiternos,
+E a vaga que possuem mais furiosa
+Nem um quarto de geira ao sólo invade;
+E ou se mostre, ou se esconda, ou mude as phases,
+Não tem sobre elles influencia a lua:
+Mansos, tumentes, no alto, na enseada,
+Do dominio lunar se movem francos.
+O escolho immovel, descobrindo a base,
+Olha ao largo, e de balde espera as ondas:
+Póde ver-se a que o cinge espumea linha,
+Que em baixo lhe traçou a mão dos évos.
+Um pequeno areal loureja plaino
+Entre o salgado leito e o chão relvoso.
+Pela marina margem vagabundo,
+Eis Alp assoma dos sitiados muros
+Desviado não mais que quanto alcança
+Um tiro de clavina. Como é crivel
+Que alli não fosse visto, ou que evitasse
+O golpe hostil? Entre os Christãos acaso
+Remanecem traidores encobertos?
+Qual torpor lhes vincula as mãos agora?
+Qual gêlo os corações lhes paralisa?
+Tal brandura elle estranha; mas é certo
+Que de nenhum dos lanços lá do muro
+Escorva reluzio, sibilou bala,
+Se bem que tão de baixo agora avulte
+Dos bastiões minaces que flanqueão
+Essa porta, resguardo da cidade
+Pela banda do mar; se bem que possa
+Quasi as palavras distinguir ferrenhas,
+E os passos numerar da sentinella,
+Que sôão, indo e vindo compassados,
+Pela extensão da sotoposta lagem.
+Nem os cães, de occupados, lhe latírão!
+E, magros e famélicos rosnando,
+Os vê sob a muralha dar-se ao bôdo
+De sangrentos cadaveres e ossadas:
+Ei-los que estão da pelle despojando
+Nest'hora um craneo Tartaro, bem como
+Nós despojamos o recente figo;
+E alvejantes lhes rangem os colmilhos
+Sobre a caveira que inda mais alveja,
+E que dos queixos lhes resvala, quando
+Embotados os deixa o roer crebro;
+Mas vão moendo de vagar os ossos,
+Se um acaso permitte que não achem
+Sobre aquelle torrão melhor sustento.
+Seu antigo jejum quebrou-se á larga
+Nos guerreiros que alli perdendo a vida,
+Lhes são manjar em refeição nocturna.
+Pelos turbantes sobre a aréa esparsos,
+Alp a flor do seu bando reconhece;
+Bem nota o verde, o carmesim das telas
+Com que cingião por costume a fronte;
+E cada pericraneo off'rece a esguia
+Madeixa longa, e no demais é raso.
+Os pericraneos jazem na guela
+Feroz dos cães, ao passo que a madeixa
+Se lhes enreda em volta das queixadas.
+Lá se vê mais além, do golfo á orla,
+Sofrego abutre contender c'um lobo,
+Que, das montanhas a prear baixando,
+Era alli solitario, e não ousava,
+Dos cães espavorido, tomar parte
+No amplo repasto das humanas carnes;
+Mas engole a ração que lhe coubera
+D'um corsel debicado já das aves,
+Que da enseada no areal jazia.
+
+
+XVII.
+
+De tão feio espectaculo insoffrivel
+Arreda os olhos Alp: elle em conflictos
+O que era estremecer não soube nunca;
+Porém não é tão arduo, tão penoso
+Olhar ao que estendido se revolve
+Do proprio sangue em fumegante lago,
+E arqueja entregue á insaturavel sêde
+E ao vasquejar da morte, quanto é vê-lo
+Depois que pereceo, e é só cadaver.
+No momento fatal, um certo orgulho
+Se desenvolve n'alma do soldado,
+Lhe adoça o fim cruento: se fenece,
+Espera reviver na voz da Fama,
+Ficar bemquisto á Honra, que tem sempre
+Os olhos fitos no que morre affouto!
+Mas quando em fim s'esvaeceo tudo isto,
+Bem misero se sente quem percorre
+Campo alastrado d'insepultos mortos.
+Ao ver como da terra surde o verme,
+Deixa o bruto as florestas, a ave desce,
+E alli affluem, demandando no homem
+Todos quinhoar prêsa, e achando todos
+O lucro seu na decadencia d'elle.
+
+
+XVIII.
+
+Alli se via derrocado templo:
+São cinza e longo olvido as mãos que o erguêrão.
+Inda algumas columnas, e dispersos
+De marmore e granito mil fragmentos
+O sólo opprimem, recobertos d'herva.
+Inexoravel Tempo! e nunca inteiras
+Deixarás ao porvir obras passadas!
+Inexoravel Tempo! e has de tu sempre
+Querer que do passado fique apenas
+Aquillo que o presente affligir deve;
+E assim fazer-nos dolorosa a imagem
+Do que já foi, do que ha de ser um dia!
+Bem como nós, verão nossos vindouros,
+Em reliquias d'antigos monumentos,
+Só pedras que exalçou o homem de barro!
+
+
+XIX.
+
+Ao pé d'uma columna Alp eis se assenta:
+Co'a mão comprime a face, e o corpo inclina
+Como quem se resente acabrunhado
+D'aterradores pensamentos tetros;
+A cabeça descahe-lhe sobre o peito
+Excandescido, palpitante, oppresso;
+Girão-lhe pela fronte debruçada
+Os dedos velocissimos, bem como
+Pelo eburneo teclado os dedos girão
+De primoroso artista, que em preludios
+Por ora se entretem, da escôlha incerto.
+Vergando assim ao pesadume infenso,
+Crê que ouvio suspirar nocturna brisa.
+Acaso em lagens concavas murmura
+Gemido terno de macias auras?
+Ergue então a cabeça, e o mar observa;--
+Repousa o mar, qual cristalino espelho:
+Contempla esguias hervas;--nada as move:
+D'onde procederia o som mavioso?
+Repara nas bandeiras;--quietos pendem
+No alto do Citherón, quaes os deixára,
+Inda os hasteados pannos; leve aragem
+Nem sequer lhe roçou a téz do rosto:
+Qual do imprevisto murmurinho a causa?
+Volve-se ao lado esquerdo:--será isto
+Illusão ou verdade? Ante seus olhos
+Eis joven dama refulgente assoma!
+
+
+XX.
+
+Se Alp então visse um inimigo armado
+Surgir-lhe face a face, não se erguêra
+Tão abalado de profundo assombro.
+"Deos de meus pais! que vejo? quem es? como
+D'hostís fileiras te aproximas tanto?"
+A mão tremente lhe recusa agora
+Estampar sobre a fronte essa Cruz mesma
+Que elle tanto insultou; mas n'este lance
+Se persignára, se a consciencia sua
+Lhe não fizesse ver quanto era indigno.
+Repara, observa a fundo, e reconhece
+O rosto bello, as engraçadas fórmas:
+É Francina, essa virgem suspirada
+Que elle a si pertendia unir consorte!
+Inda nas faces lhe viceja a rosa,
+Porém a rubra côr é menos viva.
+Que é do attractivo d'esses labios meigos?
+Não mora n'elles o sorrir donoso
+Que ao rubim dava esmalte. Inda em seus olhos
+Reside o azul do socegado oceano;
+Mas se no aspecto bonançoso o imitão,
+Também o imitão na frieza immovel.
+Talhe accusão gentil vestes ligeiras;
+Nada lhe vela o seio luminoso;
+Soltas d'ebano as tranças, ver não tolhem,
+Por entre a chuva dos anneis ondeantes,
+Nivea nudez dos torneados braços.
+Levanta ao alto a mão antes que falle;
+E de tal modo branca e transparente
+Se mostrava essa mão, que poderieis
+Ver por entre ella rutilar a lua.
+
+
+XXI.
+
+"O repouso deixei, a fim sómente
+De vir ao meu amado, e de fazê-lo
+Feliz commigo, e ser feliz com elle.
+Por teu respeito entre inimigas turmas
+Eis movo os passos, e transpuz a salvo
+Muralhas, portas, sentinellas, tudo.
+Uma joven donzella, em todo o brio
+Da nativa pureza, ha quem affirme
+Que dos proprios leões é respeitada:
+E o superno Poder que ao innocente
+Escuda contra o despota dos bosques,
+Se encarregou tambem de defender-me
+Do insulto d'infieis confederados;
+E vim:--se vim de balde, oh! vê que nunca,
+Nunca mais tornaremos a encontrar-nos!
+Sei que, abjurando de teus pais a crença,
+Es réo de crime hediondo; todavia
+Lança por terra esse turbante, e imprime
+Sobre a fronte o da Cruz signal divino,
+E eu de ti folgue na perpetua posse.
+Eia, o negro labéo expelle d'alma;
+E pois havemos ámanhã de unir-nos,
+Não queiras para sempre separar-nos."
+
+"E ao tóro nupcial onde acharemos
+O apetecido espaço? póde havê-lo
+Entre montões de mortos e expirantes?
+Os Christãos, seus altares, quanto é d'elles,
+Ha de o ferro ámanhã unido á chamma
+Tudo, tudo extinguir: nenhum mais deve,
+Senão es tu e os teus, ver nova aurora;
+Que eu assim o jurei. Mas ser-me-ha doce
+A mais donosos sitios transportar-te,
+Onde se enlacem mãos, se olvidem mágoas,
+Onde tu sejas a consorte minha,
+Quando abatido de Veneza o orgulho
+Eu já tiver; quando este braço, que ella
+Quiz sumir na abjecção, deixe açoutados
+Com viperino látego os infames
+Que accendeo contra mim o vicio e a inveja."
+
+Ella pousou a mão sobre a mão d'elle:
+Foi leve o toque, mas varou-lhe prompto
+As medullas dos ossos, e entranhou-lhe
+Pelo imo coração gêlo indizivel,
+Que nem d'estremecer lhe deixou posses;
+E este frio mortal, de que se arguia,
+Removê-lo de si em vão tentava.
+Oh! nunca, nunca de tão caro objecto
+Partíra movimento que viesse
+Com tamanho terror gelar-lhe o sangue,
+Qual n'esta noite o subitaneo toque
+D'aquelles alvos dedos alongados.
+Morreo-lhe em pallidez a effervescencia,
+Ficou-lhe o coração, qual seixo, immovel,
+Ao ver aquelle rosto, ai! tão mudado
+Já de si proprio: bello, mas languente--
+Sem vestigio nenhum d'incendios d'alma,
+Que em cada feição d'elle se espelhavão,
+Como um dia de sol se espelha n'agua.
+Anhélito nenhum se unia ás vozes
+Que lhe escapavão dos immotos labios;
+Do quieto coração nenhum palpite
+Lhe sublevava o seio; nada havia
+Que a rigida attenção interrompesse
+D'aquelles olhos estacados, fixos.
+Taes são os do somnambulo, que, em meio
+D'anciados sonhos, deixa o leito e vaga;
+Taes, na extensão de apainelados razes,
+Baças figuras de minaz aspecto,
+Se ao trémulo clarão as contemplamos
+D'expirante lucerna, desenvolvem
+Não sei qual mixto de animado e morto,
+Com que parecem, aterrando a vista,
+Ora avançar do tenebroso fundo,
+Ora entranhar-se n'elle, em moto alterno,
+Que a seu sabor lhes communica o vento.
+
+"Se por amor de mim tu crês que é muito,
+Por amor só do Ceo embora o faze:
+Longe arremessa (inda outra vez to digo)
+Da fronte criminosa esse turbante,
+E me promette de não ser infesto
+Aos filhos da insultada patria tua,
+Ou es perdido, e despedir-te deves,
+Não já da Terra--esvaeceo-se a Terra--
+Mas do Ceo e de mim, que te fui cara.
+Eia, cede a meus rogos: vê que abertas
+Inda te esperão da clemencia as portas;
+E bem que contra ti grave sentença
+Fosse já proferida, o rigor d'ella
+Em grande parte expiará teu crime.
+Pondera a fundo; e provocar não queiras
+A maldição d'Aquelle que abjuraste.
+Ao Ceo inda uma vez levanta os olhos,
+Vê que a ti mesmo para sempre o fechas.
+Essa nuvem que esconde agora a lua,
+Lá vai passando, e passará de pressa:
+Se, quando rebrilhar o disco inteiro
+Desafrontado do vapor sombrio,
+Não revolveo a contrição teu peito,
+Ficão de ti vingados Deos e os homens:
+Tremendo fim terás, e mais tremenda
+Te espera a eternidade dos perversos."
+
+Alp ergue a vista ao Ceo, e reconhece
+O indicado signal; porém o orgulho
+Entumeceo-lhe o coração, e o rege
+Com despotico imperio inabalavel;
+E esta paixão fallaz que o predomina,
+É torrente caudal que tudo alaga.
+Elle implorar perdão! elle render-se
+A impertinencias de mesquinha virgem!
+Elle, offendido de Veneza ingrata,
+Poupar-lhe os filhos, que votou á morte!
+Não:--embora essa nuvem traga um raio,
+Embora um raio o esmague:--e inda não trôa?
+
+Sem que a minima voz dos labios solte,
+Elle fitava ancioso aquella nuvem:
+Attento a vê passar; fugio de todo:
+Em seu pleno fulgor se mostra a lua.
+"Qualquer que seja o meu destino (exclama),
+Não tenho de mudar: agora é tarde.
+No meio da tormenta póde a canna
+Dobrar-se e logo erguer-se, os troncos quebrão.
+Qual Veneza me fez, serei já'gora;
+Seu implacavel inimigo em tudo,
+Excepto na affeição que eu te consagro.
+Tu pois es salva: oh! vem, meus passos segue."
+Voltando-se, elle a busca; ella sumio-se:
+Só o antigo pilar lhe avulta ao lado.
+Sorveo-a a terra, ou s'esvaío nos ares?
+Nada elle vio--nada escutou só sabe
+Que alli nenhum vestigio existe d'ella.
+
+
+XXII.
+
+A noite dissipou-se, e o sol resplende,
+Qual se um dia de festa esclarecesse.
+Eis d'entre bruscos véos pomposa surge
+Arraiada a manhã d'aureos fulgores,
+E abrasador promette o meio-dia.
+Trombetas se ouvem, rufos de tambores,
+Hórridos sons de barbara corneta,
+Sussurrar de bandeiras fluctuantes,
+Relinchar de corseis, tropear de turmas,
+E o retinir das armas, e o alarido:
+"Ei-los vem! ei-los vem!" Da terra prestes
+Descravão-se os pendões equi-caudatos,
+Desnudão-se as espadas lampejantes,
+E tudo a entrar em fórma apercebido,
+Só depende da voz, e a voz já sôa:
+= Tartaros, e Spahís, e Turcomanos,
+As tendas abatei, ide á vanguarda,
+Dai d'espora aos corseis, e na planicie
+Seja cortado o passo aos fugitivos,
+Quando estes proromperem da cidade:
+Não escape nem velho nem mancebo,
+Que offrecer de Christão qualquer indicio.
+Entretanto que em massa prepotente
+Vão sustentar os camaradas vossos
+A ensanguentada brecha, e entrar por ella. =
+Já o fogoso corsel remorde o freio,
+E arquea o collo, e, sacudindo a crina,
+As redeas tinge d'alvejante espuma:
+Estão em riste as lanças, e flammejão
+Accesos os murrões, e em continente
+O assestado canhão vai despejar-se
+Com estampido horrísono, e as muralhas,
+Rôtas em frente, esboroar de todo.
+Na phalange os Janizaros entrárão:
+Alp os commanda; e a cimitarra nua
+No erguido braço nu sustenta e brande.
+Kans e Bachás fixárão-se em seus postos;
+E ei-lo á frente da hoste se apresenta
+Em pessoa o Visir.--Tanto que a senha
+Troar na disparada colubrina,
+Tudo em Corintho será ruina e morte:
+Não ficará um sacerdote ás aras,
+Nem um chefe no centro das familias,
+Nem fôlgo vivo que as mansões povôe,
+Nem sequer uma pedra sobre os muros.
+"Deos e o Profeta seu! _Allah-Hu!_"--Sobe
+Té ás estrêllas o feroz ulúlo!
+"Lá tendes, para entrar, aberta a brecha;
+E escadas não vos faltão: tambem todos
+N'essas robustas mãos sustentais armas;
+E como ha de falhar-vos o triunfo?
+D'entre vós o primeiro que se affoute
+Á arrancar a vermelha Cruz hasteada,
+Póde franco pedir quanto apetece
+Com mais vehemente ardor: supplique e obtenha."
+Tal se exprimio Coumourgi, o Visir bravo.
+Foi resposta o brandir d'espadas, lanças,
+Com mil acclamações de raiva alegre.--
+Silencio!--á senha estai attentos!--fogo!
+
+
+XXIII.
+
+Como quando esfaimados ruem lobos
+De chofre sobre o bufalo soberbo,
+Sem tremerem da tórva catadura,
+Do mugir fero, do escavar das plantas,
+Nem dos minaces cornos assestados;
+E elle ou lança por terra ou ergue aos ares
+Os primeiros que accessos o acommettem,
+Mas que no cego arrôjo a morte encontrão:
+Assim o Musulmano invade os muros,
+E no impeto primeiro é repellido.
+Alli rôtos do bellico granizo,
+Dispersos como vidro espedaçado,
+Quantos de bronze acobertados peitos
+Ora juncando a terra, d'onde nunca
+Se hão de levantar mais! Estão fileiras
+Inda alinhadas, quaes na queda o estavão;
+Jaz dos mais destemidos copia grande:
+Tal, quando o dia é findo, e o labor cessa,
+Vemos jazer sobre aplainados campos
+A herva que o segador deixou ceifada.
+
+
+XXIV.
+
+Bem como, em viva preamar, se observa
+D'algosos escarcéos batida rocha,
+E já minada dos diuturnos éstos,
+Soltar enormes lascas alvejantes,
+Que com fragor horrísono se abatem,
+Assemelhando ao torreão de gêlo
+Que Alpinos valles despenhado aterra:
+Assim os de Corintho habitadores,
+A final quebrantados, exhauridos,
+Forão na ruina atroz precipitados
+Pelo acintoso impulso recrescente
+Das cerradas cohortes Musulmanas.
+Elles insistem firmes, e, na queda,
+O furor do Infiel os prostra em massa.
+Pelejão braço a braço, e planta a planta;
+E nada, excepto a morte, alli é mudo:
+Impetos, golpes, empuxões, clamores
+Ou a pedir quartel, ou de victoria.
+Reunidos ao troar increbescente
+Dos bellicos trovões, e ao temeroso
+Estrondo da batalha encarniçada.
+Lá vão disseminando susto immenso
+Por longinquas cidades, d'igual modo
+Que se estivessem sob o golpe infesto,
+E já dentro o inimigo as depredasse;
+Não d'outra sorte que se proprio fôra
+A excitar sensação ou triste ou leda
+Aquelle som que anniquilar só sabe,
+E que, varando dos soturnos montes
+As entranhas durissimas, se expande
+Em pavorosos écos desusados:
+Lá os ouvio Megára e Salamina,
+E, se não exaggera a voz do vulgo,
+Té na enseada do Pirêo troárão.
+
+
+XXV.
+
+Em rijo e solto embate retinindo,
+Sabres, espadas, desde a ponta aos copos,
+Gotejão sangue; mas entrados forão
+Os muros já, e eis principia o saque,
+E apóz elle a feroz carnificina.
+Rompe dos edificios depredados
+Medonha confusão de agudos gritos:
+Escuta quão velozes na fugida
+Vão pés escorregando em quente sangue,
+Que as ruas deixou lúbricas: no em tanto
+Aqui e além, onde o terreno offreça
+Contra o fero invasor qualquer vantagem,
+Onde algum lanço de parede ou muro
+Lhes proteger as costas, então elles,
+Aos dez, aos doze, em mal parados grupos,
+Logo alli fazem alto,--alli renovão
+Desesperada briga audazes, firmes,
+Ou co'as armas na mão perecem todos.
+Eis a pé firme um ancião lá surge;--
+De cãs lhe alveja povoada a fronte;
+Porém vigor pujante lhe robora
+O veterano pulso: não se altera
+Seu bisarro denôdo, entre o bulicio
+Do revôlto brigar; tem por trincheira
+Semicirculo espêsso d'inimigos,
+Que hoje uns sobre outros apinhava mortos;
+Ferve em dura peleja não ferido,
+E sabe retirar-se não cercado.
+Sob a loriga refulgente esconde
+Dos certames d'outr'ora as cicatrizes
+Innumeraveis; que de toda a especie,
+E o corpo inteiro lhe crivárão golpes.
+Em despeito d'aquella ancianidade,
+É de tão ferreos membros, que difficil
+Fôra d'igual jaêz achar-se um môço:
+E os inimigos, que empatados tinha,
+Pullulavão-lhe alli mais numerosos
+Que as prateadas cãs da fronte altiva;
+Mas apoucando-os vai a forte dextra.
+Muitas mãis Othomanas pranteárão
+Filhos que, quando pela vez primeira
+Elle a espada tingio em sangue Turco,
+Inda não erão nados, e hoje expirão
+Antes de perfazerem lustros quatro.
+Bem poderá elle ser o avô de quantos
+N'este dia immolou ás iras suas:
+Vingando um filho que perdêra ha muito,
+Vai dos contrarios seus matando os filhos:
+E desde quando o desvelado joven,
+Unica prole varonil que tinha,
+Morreo a combater no undoso estreito
+Que d'Asia o chão divide do d'Europa,
+Logo o pai prometteo sacrificar-lhe
+Sanguinosa hecatombe d'inimigos,
+Ceifada ao golpear do ferreo braço.
+Se o morticinio pacifica as sombras,
+Nem mesmo de Patroclo aos manes coube
+Júbilo igual ao que sentir devião
+Os do joven Minotti. Sepultado
+Ficou seu corpo nas oppostas praias,
+E ora privados de sepulcro n'estas
+Cá ficão mil para milhares d'annos.
+Qual d'elles escapou que referisse
+Como os outros morrêrão, e onde jazem?
+Lousa nenhuma os cobre, não lhes guarda
+Nenhum tumulo as cinzas: entretanto
+Vivem e vivirão no immortal plectro.
+
+
+XXVI.
+
+Qual clamoroso _Allah!_--um terço avança
+De tropa Musulmana a mais affouta,
+E de pulso melhor: vai-lhe na frente,
+Nervoso, nu té o hombro, e em moto ondeante
+Brandindo o ferro, e sobranceiro a todos,
+Do commandante o braço, que expedito
+Sabe ferir, e perdoar não sabe.--
+Outros embora em mais pomposo traje,
+D'espolio ao inimigo a sêde ateem;
+Sejão embora muitos os que empunhão
+D'aureo lavor custosas cimitarras,
+Que de nenhuma escorre tanto sangue;
+Ostentem muitos adornada a fronte
+De turbantes mais altos, mais airosos;--
+Alp é só conhecido por aquelle
+Braço nu, que branqueja levantado.
+Ei-lo campea onde mais arde a briga!
+Não se arvorou pendão sobre estas praias
+Que mais destro as fileiras anteceda;
+Jámais, durante a Musulmana guerra,
+Se despregou bandeira que attrahisse
+De tão longe os Delhís: sempre o distinguem
+A lampejar como cadente estrêlla!
+Onde quer que este braço prepotente
+Uma vez se mostrou, logo os mais bravos
+Surdem todos alli, ou tarde chegão;
+Alli quartel o ignavo em vãos clamores
+Ao vingativo Tartaro supplica;
+Alli o heróe, no chão deitado e mudo,
+Nem quer que quando morre um ai lhe escape,
+E inda com tibio golpe derradeiro
+Invade o antagonista, que não menos
+A par de si prostrou; e bem que expire
+Tão alquebrado das feridas mutuas,
+Raivando afferra o ensanguentado sólo.
+
+
+XXVII.
+
+O ancião, persistindo inabalavel,
+Oppôr consegue momentaneo estôrvo
+D'Alp á carreira atroz.--"Cede, Minotti:
+Salva todos os teus, attende á filha."
+--"Nunca o verás, vil renegado, nunca!
+Nem tinha eu de annuir inda que fosse
+Vida eterna essa vida que me off'reces."
+--"E Francina!--e a futura minha noiva!
+Queres, assim teimoso resistindo,
+Ser tambem causador da morte d'ella?"
+--"Ella está mui a salvo."--"Onde? em que sitios?"
+--"No Ceo, d'onde banida para sempre
+Foi tu'alma aleivosa,--e onde Francina
+Vive longe de ti, vive sem mancha."
+Alp, a taes vozes, titubante, anciado,
+Fica não d'outra sorte que se o peito
+Lhe traspassasse truculento golpe;
+E de Minotti despontou nos labios
+Irónico sorriso de vingança.
+
+"Oh Deos! quando expirou?"--"Inda esta noite;
+Mas do espirito seu não choro a ausencia,
+Antes fólgo de ver que cá não deixo
+D'esta minha linhagem nobre e pura
+Ninguem que haja de ser misero escravo
+De Mafamede ou teu. Anda, acommette!"
+Baldado desafio! Alp é já morto.
+Ao tempo que Minotti lhe vertia
+N'aquellas expressões criminadoras
+Todo o fel da vingança, e que mais cruas
+Que a propria ponta de buído alfange
+Ellas varavão Alp, eis vôa o golpe
+D'um templo não distante, defendido
+Com incriveis primores de firmeza
+Por esse dos Christãos ultimo resto,
+Que tão minguado e d'esperança exhausto,
+Inda de lá fazia esforços grandes
+Para o combate restaurar fallido:
+E antes de descobrir d'onde assestada
+Lhe foi a lethal bala sibilante,
+Alp o cerebro tem varado d'ella,
+E voltea, e vacilla, e cahe por terra:
+Lampejou-lhe ante os olhos clarão debil,
+Quando vergou para não mais erguer-se,
+Ficando apenas palpitante tronco,
+Que ei-lo envolvido jaz na noite eterna.
+N'elle indicio não ha que vida inculque,
+Salvo o tremor dos membros onde o tiro
+Deixou menor estrago. A ponto acodem,
+E de costas o estendem: rosto e peito
+Lhe estão manchados de poeira e sangue,
+E jorra-lhe da boca o vital fluido,
+Que as cavernosas veias desampara;
+Mas não lateja o pulso, não se escuta
+Nos labios murmurar-lhe o arranco extremo;
+Nem sequer um suspiro, uma palavra,
+Um penoso arquejar, lhe assignalárão
+O transito fatal da vida á morte.
+Antes que o pensamento levantasse
+Em súpplica contrita, réo nefando,
+Se apresenta aos umbraes da eternidade,
+Sem que ao perdão celeste aspirar possa,
+E na vida e na morte--Renegado.
+
+
+XXVIII.
+
+Então d'um lado e d'outro aos ares sobe
+Espantoso alarido retumbante:
+Aqui, de regozijo; além, de raiva.
+Eis de novo travadas em conflicto
+Espadas de Christãos e Turcas lanças
+Embatem com furor, mutuão golpes,
+Estendendo no pó guerreiros muitos.
+Ousa, de rua em rua e passo a passo,
+Minotti disputar aos inimigos
+Qualquer porção restante do terreno
+Que ao seu bravo commando fôra entregue:
+Ao lado, a reforçar-lhe audacia e pulso,
+As sobras tem da guarnição briosa.
+Resistencia tenaz off'rece o templo,
+D'onde predestinada veio a bala
+Que em grande parte despicou Corintho,
+Morto Alp, o mais feroz de seus contrarios
+Para alli recuando sem desvio,
+Deixando diante ensanguentado rasto,
+E os inimigos encarando sempre,
+E nunca sem matar vibrando um golpe,
+O chefe e o seu cortejo, em retirada,
+Conseguem reunir-se aos que occupavão
+A sacra estancia: no recinto d'ella
+Inda lhes cabe respirar um pouco,
+Das maciças paredes escudados.
+
+
+XXIX.
+
+Remanso bem mesquinho! Os Musulmanos,
+De pujante refôrço abastecidos,
+Borbotando furores e ufania,
+Tão cerrados, tão férvidos avanção,
+Que o número lhes tolhe a retirada:
+Dest'arte se atravancão no caminho
+Que vai ao templo, onde os Christãos não sabem
+O que é render-se; e os batalhões infestos
+Tanto apinhão-se á frente, que, inda quando
+Lavrasse o susto alli, nenhum podéra
+Por entre as fortes massas escoar-se:
+Ou vencer ou morrer lhes era fôrça.
+Morrem; mas sobre os corpos palpitantes
+Lhes surgem de repente os vingadores.
+Que, frescos e raivosos pullulando,
+As filas, sempre rôtas, enchem sempre;
+E os Christãos affadigão, extenuão,
+Violentas amiudando as investidas:
+E ei-los agora os Infieis assomão
+Junto ao sacro portal. Por longo espaço
+A ferrea contextura inda resiste,
+Inda de cada fresta vôão tiros,
+Todos bem assestados, mortaes todos;
+E de cada janella se desatão
+Em chuveiro as sulfureas alcanzias.
+Mas já fraqueão as nutantes portas--
+Vérgão rangendo os quicios, cede o ferro,--
+Lá pendem--lá se abatem já cahírão:
+Não mais resistirá, morreo Corintho!
+
+
+XXX.
+
+Soturno, sem que o vejão, só comsigo,
+Ao altar arrimado está Minotti.
+D'um painel sobranceiro, a Virgem santa
+O affavel rosto fúlgido lhe volve,
+Transumpto de celeste colorido,
+Onde os olhos são luz, amor o aspecto;
+E na ara collocado a fim que possa
+Dos humanos fixar o pensamento
+Sobre as cousas do Ceo, quando elles orão
+Devotos, genuflexos ante a imagem
+D'esta Mãi admiravel, que em seu gremio
+Sustem e affaga o Redemptor-menino,
+E com sorrisos acolhendo meigos
+Uma por uma as fervorosas preces,
+Como que ao Ceo de transferi-las cuida.
+Sorrindo sempre, inda sorrí agora,
+Em despeito da atroz carnificina,
+Do sangue em jôrros que deturpa as naves.
+Eleva então Minotti os olhos lassos,
+E, exhalando um suspiro, se persigna;
+Logo alli d'uma tocha que era accesa
+Ei-lo se apossa, e permanece firme,
+Em quanto os Musulmanos irruindo,
+Desenvolvendo á larga ferro e fogo,
+Hórridos enchem a mansão sagrada.
+
+
+XXXI.
+
+Sob a lagem que o vasto pavimento
+Recompunha em mosaico variada,
+Subterraneas abobadas se arqueão.
+Jazigo aos mortos das passadas eras:
+Em memorandas lápidas incisos
+Lião-se os nomes seus, que ler não deixa
+Ora o sangue que os cobre: aqui não menos
+Vião-se, honrando as cinzas, esculpidos
+Timbres, emblemas de lavor prestante,
+Marmores luzidíos, de vistosas
+Multicolores veias serpeados,--
+Que, sórdidos já hoje, se baralhão
+Com fragmentos d'espadas, de montantes.
+Com morriões e arnezes abolados,
+Confuso mixto que por cima avulta
+D'innumeraveis ataúdes, onde
+Enfileirados os defunctos dormem:
+Podes vê-los em lugubre apparato,
+Ao macilento albor que inda os visita
+Por fisgas breves de sombrias grades.
+Mas nem por isso desistio a Guerra
+D'entrar por estas lobregas cavernas,
+Com tórva profusão disseminando
+Das sepulcraes abobadas ao longo
+Seus thesouros sulfureos, que se elevão
+Empilhados em massas volumosas
+Junto dos resequidos esqueletos.
+Aqui, durante o cêrco, havião feito
+Seu paiol os Christãos: longo rastrilho,
+Desde agora entornado, se encaminha
+Do templo a estes sitios; e eis o extremo
+Recurso inabalavel de Minotti
+Contra o poder das irruentes turmas.
+
+
+XXXII.
+
+O inimigo enche tudo; e poucos tentão
+Inda arrostá-lo, ou mui de balde o arrostão.
+Elle, á falta de vivos, vai nos mortos
+Saciar da vingança a voraz sêde,
+Que exacerbou-se agora; elle os invade
+Com sacrilegos golpes, e decepa
+Cabeças já finadas, e dos nichos
+As estatuas despenha baqueantes,
+E as aras despe d'oblações opimas,
+E co'as callosas mãos profanadoras
+O argento empolga dos sagrados vasos.
+Chegada apenas a caterva infrene
+Ante o altar principal, detem-se e pasma:
+Oh qual o adorna resplandor pomposo!
+Sobre a pedra lhe surge bem patente
+O consagrado Caliz, ouro estrême,
+Prêsa que enleva os depredantes olhos,
+A fulgurar maciça e ponderosa:
+Hoje conteve o sacrosanto vinho,
+Que Christo em sangue seu mudar dignou-se,
+E com que, ao romper d'alva, os seus cultores,
+Antes de pelejar, fortalecêrão
+As almas ao dever e ao Ceo votadas:
+Inda no fundo remanecem gotas;
+E tambem, circumdando a sacra mesa,
+Em symetria esplendida dispostas,
+Ardem lampadas doze d'ouro fino:
+Este o mais opulento e ultimo espolio.
+
+
+XXXIII.
+
+Apinhão-se alli todos; e o que estava
+Da prêsa mais visinho, faz-se avante,
+E quasi quasi que a empolgava, quando
+O longevo Minotti applica a tocha
+Ao rastrilho fatal;--ei-lo se inflamma!
+Campanarios, abobadas, altares,
+Espolio, vivos, mortos, moribundos,
+Christãos vencidos, Turcos vencedores,
+E o templo esboroado, e quanto ha n'elle,
+Se ergue aos ares com hórrido rebombo,
+E finda envôlto na explosão terrivel!
+A cidade abalada--o chão coberto
+D'edificios, de muros demolidos--
+As ondas que recuão, de assustadas--
+Os montes, senão rôtos, vacillantes,
+Como se os sacudisse um terremoto--
+De milhares d'objectos mixto informe
+Que os Ceos toldando vai de fogo e fumo.
+Ao rebentar da horrítona lufada--
+Não cessão de apregoar que n'estas praias,
+Ha longo tempo, afflictas, terminou-se
+Dos combates o mais desesperado.
+Como accesa em girandolas festivas,
+Lá roça os astros a confusa mole.
+Varões não poucos d'estatura ingente,
+D'apparencia gentil, ora abrasados,
+Curtos como pigmeos, descem dos ares,
+Em torrado carvão juncando a terra.
+Grossa chuva de cinzas se despenha:
+Muitas recebe o golfo, e, ao recebê-las,
+Fórma em tôrno escarcéos, que se desfazem
+N'um progresso de circulos undosos;
+Muitas recebe a praia, e vão, por longe
+Disseminadas, recobrir todo o isthmo:
+São cinzas de Christãos ou d'Othomanos?
+Suas mãis se aproximem, venhão vê-las,
+E digão se as conhecem!--Por ventura
+Houve alguma de vós, ó desgraçadas,
+Que quando aos peitos lhe pendia o filho,
+Ou no embalado berço o adormentava,
+E, sorrindo d'amor, se comprazia
+N'aquelle brando repousar donoso,
+Ai! houve alguma então que nem por sombras
+Esperasse este dia, ou ver dispersos
+Da cara prole os lacerados membros?
+Nem sequer, nem sequer as extremosas
+Matronas que no ventre os alojárão
+Estremar sabem os nascidos d'ellas;
+Um só momento lhes tirou de todo
+Fórma e semblante d'homens; resta apenas
+Algum disperso pericraneo ou osso.
+Barrotes, vigas flammejantes descem,
+E em redor se derramão; vem cahindo
+Engastadas em barro infindas lagens,
+Que o sólo opprimem fumegantes, negras.
+Todo o vivente a quem troou no ouvido
+O abalo estragador, pregão de morte,
+Ou jazeo ou sumio-se: espavoridas
+O vôo affastão carniceiras aves;
+Bravíos cães vão-se arredando em uivos,
+Nem se lhes dá dos insepultos mortos;
+O camelo as prisões deixou quebradas;
+O touro, ao longe, se desfez do jugo;
+O corsel, que o fragor ouvio de perto,
+Rompendo a silha, espedaçando as redeas,
+A galope alongou-se pelo plaino;
+As incolas dos charcos lutulentos,
+Alçando a boca sobremodo aberta,
+Clamor soltárão importuno em dôbro;
+Uivárão pelas furnas das montanhas
+Os lobos, quando alli a trovoada
+Em écos retroou; lá mui distantes,
+As alcatéas dos jakaes bramírão
+Com mixto som, que, lamentoso e agudo,
+Ora imitava criancinha em chóros,
+Ora lebréo ganindo fustigado:
+Esbaforida accelerando os vôos,
+A aguia desamparou a rocha alpestre,
+Onde aquecia o ninho, e remontou-se
+Mais proxima do sol, achando crassas
+Em demasia as sotopostas nuvens,
+Que vinhão, d'atro fumo conglobadas,
+Roçar-lhe o bico amedrontado, hiante,
+Mais e mais excitando-a a sublimar-se,
+E o grito a reforçar.--Eis de qual modo
+Conquistada e perdida foi Corintho.
+
+FIM.
+
+
+
+
+NOTAS ABREVIADAS.
+
+
+NOTAS ABREVIADAS.
+
+
+II.--_vers._ 14.
+
+ Dando de mão á grei, o Turcomano
+ Prestes unio ao lado a cimitarra.
+
+Domiciliados debaixo de tendas, vivem estes povos uma vida patriarcal.
+
+
+V.--_vers._ 1.
+
+ Coumourgi--aquelle etc.
+
+Ali Coumourgi, valido de tres sultões, e grão visir de Achmet III,
+havendo retomado em uma só campanha o Peloponeso aos Venezianos, foi, no
+seguinte anno, mortalmente ferido na batalha de Peterwaradin, quando
+forcejava para reunir suas tropas.
+
+
+XVI.--_vers._ 4.
+
+ Coarctados e sem ésto, aquelles mares
+ Em moto igual ondeão sempiternos.
+
+É talvez desnecessario recordar ao leitor que o movimento do fluxo não é
+visivel no Mediterraneo.
+
+
+Ibi--_vers._ 42.
+
+ Ei-los que estão da pelle despojando
+ Nest'hora um craneo Tartaro, etc.
+
+Este espectaculo, qual o descrevo, foi por mim presenciado sob os muros
+do serralho de Constantinopla; e os cadaveres erão talvez os de alguns
+Janizaros rebeldes.
+
+
+Ibi--_vers._ 59.
+
+ E cada pericraneo off'rece a esguia
+ Madeixa longa, etc.
+
+Crêm os Musulmanos que o seu Mafôma, no ponto de transferi-los ao
+Paraiso, os tomará por esta madeixa; e, firmados sobre tão supersticioso
+fundamento, a deixão crescer.
+
+
+XXI.--_vers._ 94.
+
+ Essa nuvem que esconde agora a lua,
+ Lá vai passando, etc.
+
+Este pensamento não é original, por quanto deparei com elle na versão
+ingleza de Vathek.
+
+
+XXII.--_vers._ 11.
+
+ ---------- Da terra prestes
+ Descravão-se os pendões equi-caudatos.
+
+De uma cauda de cavallo, fixa no alto de uma lança, são compostos os
+pendões dos Bachás.
+
+
+XXV.--_vers._ 51.
+
+ Morreo a combater no undoso estreito
+ Que d'Asia o chão divide do d'Europa.
+
+Na batalha naval que os Venezianos travarão com os Turcos á entrada dos
+Dardanellos.
+
+
+FIM DAS NOTAS.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+P. S. _Escrevemos accentuada e sem_ h _a 3.ª pessoa do singular no
+indicativo presente do verbo substantivo ser, e igualmente sem_ h _o
+adjectivo numeral um, por nos parecerem terminantes as razões em que é
+fundado este uso. Por certo que nem sempre adherimos á opinião de nossos
+Grammaticos e Diccionaristas modernos, com quanto sejão alguns de
+reconhecida erudição; e em meia duzia de paginas, que talvez
+publicaremos, hão de apparecer indicados os pontos e expendidos os
+motivos d'esta divergência. Pelo que toca á exactidão typografica do
+Poema que apresentamos traduzido, empregou-se ahi mui boa diligencia: é
+pois de presumir que será leve e de facil emenda o defeito que ainda
+remanecer._
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord
+Byron, traduzido em verso portugue, by George Gordon Byron
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA ***
+
+***** This file should be named 33592-0.txt or 33592-0.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/3/5/9/33592/
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+Produced by Pedro Saborano
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
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+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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@@ -0,0 +1,2040 @@
+The Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron,
+traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez
+
+Author: George Gordon Byron
+
+Translator: Henrique Ernesto de Almeida Coutinho
+
+Release Date: August 31, 2010 [EBook #33592]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+ Nota de transcrio:
+
+ Foi mantida a grafia usada na edio original de 1839, tendo sido
+ corrigidos apenas pequenos erros tipogrficos evidentes.
+
+
+
+
+ O CERCO DE CORINTHO,
+
+ POEMA
+
+ DE
+
+ LORD BYRON,
+
+ TRADUZIDO EM VERSO PORTUGUEZ,
+
+ POR
+
+ _H. E. A. C._
+
+
+ PORTO.
+ TYPOGRAPHIA COMMERCIAL PORTUENSE.
+ LARGO DE S. JOO NOVO N. 12.
+ 1839.
+
+
+
+
+AO ESTIMAVEL ANONYMO.
+
+
+ _Alma prestante, onde reside e impera
+ O Genio da Amizade,
+ Que a luminosa esfera
+ Deixou, para acudir humanidade,
+ Sumida em pesadumes e agonias,
+ Em feia escuridade!
+ Alma onde o typo eterno no se encobre,
+ E que, n'estes d'egoismo ferreos dias,
+ O instante de ser util s vigias,
+ Sincera, affavel, nobre!
+ Acceita, em oblao a ti votado,
+ Ancioso de agradar-te, este traslado._
+
+ Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho.
+
+
+
+
+_O TRADUCTOR,_
+
+
+Para perpetuar a gloria do sublime poeta que tanto enriqueceo a sua
+patria e o mundo literario com o preciosissimo cabedal de suas
+produces, bastaria esta de que emprehendemos e agora publicamos a
+traduco. Sciencia dos tempos e dos costumes, vasta erudio, profundo
+conhecimento do homem, variedade e magnificncia de quadros, fecunda
+elevao de pensamentos, lustre e vigor de poesia, sobresahindo por
+effeito da mais acertada e judiciosa distribuio, eis os titulos com
+que se engrandece este poema, onde lord Byron no houve mister longo
+espao para mostrar-se, immortal.
+
+No raro tecerem os traductores sobejo encomio ainda a mediocres
+originaes, quando com estes despendro vigilias e desvelos; mas nem por
+isso receamos que, elogiando a lord Byron, nos accusem de
+encarecimento ou de leviandade: as suas obras ahi esto bem patentes, e
+a sua reputao j colossal.
+
+Todavia, notando a mui sincera affeio que consagramos a to estremado
+engenho, ninguem haja de persuadir-se que o avaliamos como isento de
+toda a mcula. Por certo que lord Byron era homem, e o fragil da
+humanidade transparece em algumas das suas produces, e s vezes
+procura brilhar em detrimento daquella gentil gravidade que mui bem
+assenta nas Musas, e sem a qual desmentem ellas a sua origem celeste;
+mas de semelhante desar campea livre o poema que apresentamos
+traduzido.--S de passagem mencionaremos um descomedido orgulho
+nacional[1], um amor liberdade, que por vezes degenera
+em fanatismo: estes sentimentos os bebeo o poeta com o primeiro alimento
+de sua infncia, e, quando concentrados em justo limite, so nobres, e
+longe estamos de crimin-los.
+
+No menos que lord Byron admiramos os grandes capites Gregos e Romanos;
+tambem nas escolas estudamos e traduzimos Nepote, Tacito, Tito-Livio,
+&c. Todavia os heres n'essas historias memorados vivero em tempos mui
+diversos dos nossos, e diversissima foi a sua educao fisica e moral:
+por tanto o joven enthusiasta hodierno que ambiciona a todo o custo
+igual-los, arrisca-se a cometter mil despropositos, e mesmo a ser
+victima inutil de suas desattentadas proezas. Para morrer com gloria no
+desfiladeiro de Thermpylas, cumpre, alm de haver sido educado em
+Esparta, ter frente um Leonidas. A prudencia de Fabio transtornou os
+planos de Annibal e salvou Roma, conseguindo aquillo mesmo que fra
+denegado s fastuosas e arrogantes ousadias de Sempronio e de Flaminio.
+Do sacrificio de Curcio, despenhando-se armado e com seu proprio cavallo
+no boqueiro aberto por um terremoto em certa praa de Roma, que
+proveito recolhro os concidados, a patria, ou a especie humana?
+Curcio era pois um esquentado enthusiasta, ou antes um orate rematado.
+indubitavel que a cega ambio de figurar com heroismo Grego ou Romano,
+associada ao sofrego ardor no sei de que liberdade turbulenta,
+insidiosa, desmoralisadora, e de mais pernicioso effeito que qualquer
+desmascarada tyrannia, tem excandescido bom numero de cabeas e avultou
+de sobejo na mui abalisada revoluo de Frana, que ainda hoje em
+sangrentas paginas aterra a humanidade.--Talvez o amor que sempre
+tributamos verdade nos levou em demasia longe; mas como quer que seja,
+no cessaremos de confessar que o sublimado engenho de lord Byron nos
+penetra de admirao, e deixa, ao menos em nosso alvitre, o homem
+justificado pelo poeta.
+
+Quanto nossa traduco, sobre diligenciarmos que portugueza fosse,
+pozemos todo o cuidado em exprimir com clareza os pensamentos do poeta,
+bem como em no deteriorar-lhes a nativa gala, que antes nos parece mais
+pomposa n'este nosso fertil e sonoro idioma: entretanto no por nossa
+conta que deve correr a cabal deciso na materia, mas sim por conta de
+mais competentes juizes, que, versados nas duas linguas, queiro dar-se
+ao trabalho de cotejar o original com a verso.
+
+Entre os nossos traductores poetas, alguns houve que gemro sob a
+ferrenha tarefa de traduzir tragedias e longos poemas verso por verso;
+mas que resultou de tanta diligencia? o substituirem, pela maior parte,
+a versos fluentes e vigorosos uma enfiada de semsaborias, de durezas, de
+enigmas, onde a graa e louania dos originaes degenera em rugosa e
+desalinhada velhice. No negamos que isso tenha cabimento e deva
+adoptar-se quando nenhum inconveniente o estorva; porm o verter
+affincadamente poemas inteiros verso por verso, uma curiosidade que em
+muitos casos empece nobre franqueza do estilo, suavidade do metro, e
+ao effeito geral dos quadros poeticos. Estamos persuadidos de que deve o
+traductor de um poema ser sempre fiel quantidade das idas, no assim
+ quantidade dos versos: tal foi o nosso systema de traduco no _Crco
+de Corintho_.
+
+Ardua e mui ardua emprsa traduzir poetas; bem o sabemos e
+experimentamos. Se todavia para traduzir lord Byron de nada mais se
+carecesse que de estar profundamente penetrado das extraordinarias e
+sublimes bellezas com que este filho da immortalidade abrilhantou suas
+obras, ento nos lisonjeariamos de apresentar a nossos leitores uma
+copia digna do original, e preciosa para elles.
+
+ [1] Este orgulho se deixa ver bem claro no _Childe Harold's
+ Pilgrimage_, cant. I. est. 16, onde, entre outros motejos com que o
+ poeta pertende aviltar os Portuguezes, tambem lhes exprobra o serem
+
+ _A nation swoln with ignorance and pride._
+ Nao inflada d'ignorancia e orgulho.
+
+ Querer isto dizer que a Inglaterra um paiz todo cheio de sabios, e
+ onde o orgulho morre de frio, por falta de quem o aquartele?
+
+
+
+
+O CERCO
+
+DE
+
+CORINTHO.
+
+
+I.
+
+Longo trilho de seculos exhaustos,
+Rijas tormentas, bellicos furores,
+Infestro Corintho: ella entretanto
+Persiste em p, e no alteroso alcar
+Nova conquista Liberdade off'rece.
+Nem bramir de tufes, nem terremotos
+O alvejante penhasco lhe abalro,
+Esse lageoso assento, que, em despeito
+Da decadencia sua, inda parece
+No sem orgulho contemplar seu cimo;
+Esse padro demarcador erguido
+Entre os dous mares, que d'um lado e d'outro
+Lhe esto rolando purpurinas ondas,
+Que sempre a forcejar por se reunirem,
+O acato sempre, e vem morrer-lhe s plantas.
+Se o sangue n'estes sitios derramado
+Desde que n'elles o fraterno sangue
+Timolon vertra, ou desde quando
+Pelo aviltado despota da Persia
+Abandonados foro, borbulhasse
+Da terra que o bebeo no morticinio,
+Este sangrento oceano sepultra
+Sob os tremendos escarcos todo o isthmo:
+Ou se podessem amontoar-se os ossos
+Dos que alli perecro, surgiria
+Por entre aquelles ceos abrilhantados
+A colossal pyramide espantosa,
+Dando rival Acrpolis, que as nuvens
+Se v roar co'a torreada fronte.
+
+
+II.
+
+Eis lanas vinte mil sobre as espaduas
+Do nebuloso Cithern fulguro;
+E em toda a planta do isthmo, sobre as duas
+Oppostas praias que o ladeo amplas,
+Se eleva o pavilho, brilha o Crescente
+Nas federadas linhas Musulmanas;
+E o tisnado Spah desfila em bandos
+ vista dos Bachs amplo-barbados;
+E os olhos podem ver ao longo e ao largo
+As cohortes cingidas do turbante,
+Que o promontorio alastro, enxameo:
+L se ajoelho do Arabe os camelos,
+Do Tartaro os ginetes la volteo;
+Dando de mo grei, o Turcomano
+Prestes unio ao lado a cimitarra.
+Dos bellicos troves crebro rebombo
+T faz emmudecer, de susto, os mares,
+Profunda-se a trincheira, e muito longe
+Silvando va no pelouro a morte;
+Sob o peso da bomba assoladora,
+Solto-se em pulverento remoinho
+Os da muralha esboroados lanos;
+E, do recinto d'ella, eis o inimigo
+s do Infiel intimaes responde
+Com manejo expedito, e fogos destros.
+Que vo cruzando os empoeirados plainos,
+E os ares que anuvia o fumo em rlos.
+
+
+III.
+
+Das muralhas porm o mais visinho
+Entre os que punho peito e mos empresa
+De as converter em ruina, o mais profundo
+Que nenhum dos da prole Musulmana
+Nas da guerra artes ttricas, e altivo
+Qual nunca o foi assignalado chefe
+Colhendo louros em sangrentas lides;
+O que voando audaz de posto a posto,
+D'um feito a maior feito, se avantaja
+Em destro esporear corsel fumante,
+Em surdir mais veloz onde arde o p'rigo,
+Cada vez que ha sortidas ou assaltos;
+E quando a bateria, em mos valentes,
+Resiste inexpugnavel, ento mesmo
+Com exultante aspecto desmontando
+A dar alento, na refrega, aos tibios;
+O mais abalisado e o mais recente
+Da hoste que lucrou n'estas paragens
+Ao sulto de Stamboul renome egregio;
+O guia incomparavel em campanhas,
+Ou solerte assestando o ferreo tubo,
+Ou manejando a temerosa lana,
+Ou tufo que rebenta onde ha conflictos,--
+ Alp, o Veneziano renegado!
+
+
+IV.
+
+O renegado de Veneza!--ah! elle
+De vetusta linhagem primorosa
+Teve o seu nascimento: todavia,
+Desterrado a final do patrio ninho,
+Contra os concidados tomou as armas,
+Em que por elles adestrado fra;
+E orna-lhe a fronte rasa hoje o turbante.
+Depois d'eventuaes destinos varios,
+Sob a lei que Veneza lhe dictra
+Se acolheo, como a Grecia, ento Corintho;
+E ei-lo que ante seus muros se apresenta,
+Inimigo entre os feros inimigos
+Da Grecia e de Veneza, e trasbordando
+De resentido ardor, qual excandesce
+Ao joven convertido a alma orgulhosa,
+Onde duestos mil accumulados
+Esto sempre em tumulto, e eternos vivem.
+Nem por isso com elle quiz Veneza
+Desempenhar o civico appellido
+Em que firmava o seu brazo = A LIVRE; =
+E de So Marcos no palacio excelso,
+Delatores incognitos lanro
+Na _Boca do Leo_, durante a noite.
+Denuncia atroz de requintados crimes,
+Que o cobrio de macula indelvel:
+Salvou seus dias pressurosa fuga.
+Desde esse lance despendia a vida
+No meio dos combates, demostrando
+Bem claro patria o que perdeo no alumno
+Que contra a Cruz, j supplantada, erguia
+O soberbo Crescente, e, guerreando,
+S vingar-se ou morrer buscava ancioso.
+
+
+V.
+
+Coumourgi--aquelle que impz termo aos feitos,
+O ultimo perecendo, e o mais pujante,
+L nos de Carlowitz sangrentos plainos,
+Sem magoa de morrer, porm, raivoso,
+Dos Christos maldizendo inclitos louros,
+E d'Eugenio adornando o gro triunfo;
+Coumourgi--e por ventura a gloria d'este
+Conquistador da Grecia derradeiro
+Poder perecer, seno surgindo
+Brao Christo que restitua Grecia
+Sequer os fros que gozou outr'ora
+Por Veneza outorgados? Elle vinha,
+J depois de volvidos lustros vinte,
+Reintegrar a Othomana prepotencia;
+E, os veteranos seus pospondo agora,
+Para mandar do exercito a vanguarda
+Alp escolheo, que a confidencia summa,
+Arrazando cidades, lhe pagava,
+E mostrando em faanhas destructoras
+O seu zeloso affrro nova crena.
+
+
+VI.
+
+A muralha enfraquece: de continuo
+As Turcas baterias lhe varejo
+O parapeito e ameias; restrugindo,
+Sahe de cada canho a voz do raio:
+Aqui flammeja, ao rebentar da bomba,
+Crepitante zimborio; alm baquea
+Este, est'outro edificio derrocado,
+Sob o espesso granizo d'estilhaos,
+Que em lufadas volcanicas recresce:
+Vai resfolgando em rbidas columnas
+Voraz incendio, que to alto sobe,
+Como sobe o fragor da ruina ingente,
+Ou solta-se em terrestres meteoros
+Que vo no ceo esvaecer-se infindos:
+Mais nebuloso, mais impervio o dia
+Se torna luz do sol, co'a mole opaca
+Do fumo alado em tortuosos rlos,
+Que d'enxofrado horror a esfera enluto.
+
+
+VII.
+
+Nem smente ardor cego de vingana,
+Que a longa dilao fez mais ferino,
+Esporera esse Alp apostatado
+ adestrar os guerreiros Mahomtas
+N'arte de abrir a promettida brecha.
+D'aquelles muros no recinto havia
+Uma donzella, cuja mo formosa
+Elle obter pertendia apesar mesmo
+Do inexoravel pai, que, furibundo,
+Aos rogos lha negou, quando Alp outr'ora,
+Chamando-se Lanciotto, o bafejavo
+Tempos melhores, mais propicios fados;
+E sem nota e sem crime de perfidia,
+Aos palacios, s gndolas levando
+Alegria vivaz, se assignalava
+Nos Carnavaes, ou resoar fazendo
+Sobre aguas do Adria esses descantes meigos
+Que alvoroadas de prazer escuto
+ meia-noite as Italas donzellas.
+
+
+VIII.
+
+Que do seu corao j possessora
+No fosse a virgem, suspeitavo muitos;
+No em tanto d'infinitos requestada,
+E a nenhum acolhendo, persistia
+De todo o lao conjugal isenta
+A juvenil Francina: e desde o instante
+Em que das Adriaticas paragens
+Se retirou Lanciotto a pagos climas,
+O sorriso expirou nos labios d'ella;
+Meditabunda e pallida tornou-se;
+Confisses amiudava, e j no era
+To vista em mascaradas e assembleas;
+Ou, se l ia, os olhos seus descidos
+Avassalavo, n'um volver furtivo,
+Mil coraes de balde suspirosos:
+Nenhum objecto contemplava attenta;
+No punha em atavios tanto apuro,
+Nem j to terno desprendia o canto;
+Seus passos, bem que leves, o ero menos
+Que os dos parceiros seus, a quem na dana
+Colhia absortos o raiar d'aurora.
+
+
+IX.
+
+D'um slo aos Musulmanos arrancado,
+Quando a soberba lhes calcou Sobieski
+Ante os muros de Buda, s margens do Istro;
+D'um slo que depois Veneza altiva
+Empolgou com violencia desde Patras
+T a Euboica enseada, o regimento,
+Por ordem sup'rior, tomou Minotti;
+E de Corintho na torreada estancia
+J elle era do Doge o delegado,
+Quando os olhos da Paz fagueiros, pios,
+Depois da larga ausencia, confortavo
+C'um sorriso dos seus a Grecia sua,
+Inda no rto esse armisticio trdo
+Que ao jugo anti-Christo a subtrahia.
+Entrou Minotti alli co'a filha amavel;
+E desde o tempo em que a formosa Helena,
+Deixando o esposo e a patria, fez ver quantos
+D'um illicito amor desastres broto,
+Nunca estas praias adornou belleza
+Digna de comparar-se da estrangeira.
+
+
+X.
+
+Em crebros boqueires abre-se o muro;
+E sobre as ruinas da alluida mole
+Vai, primeira luz, desenvolver-se
+Assalto mais que todos formidando.
+Tropas enfileiraro-se; escolhidos
+Foro para formar toda a vanguarda
+Tartaros e Othomanos; e vs outros,
+Flor dos guerreiros, a quem foi sem causa
+Imposto o sobrenome de _perdidos_,
+E para quem a morte e riso, jgo;
+Vs, que co'alfange em punho abris caminho,
+Ou de vossos cadaveres juncando
+A que o brao rompeo vereda honrosa,
+Sois marmoreo degro, por onde affoutos
+Os socios trepo,--morrereis mais tarde!
+
+
+XI.
+
+ meia-noite: a fria lua ostenta
+O disco inteiro, e amplo fulgor diffunde
+A contrastar co'a sombra das montanhas;
+Traja d'azul o mar, d'azul se veste
+O firmamento, este suspenso oceano,
+Todo cravado d'ilhas que refulgem
+L to remotas, com ardor to vivo:
+E quem, quem pde attento contempl-las,
+E repascer depois os olhos tristes
+No valle dos mortaes, sem que apetea
+Voar e unir-se para sempre a ellas?
+Dormem as ondas, n'uma praia e n'outra,
+Placidas e ceruleas como os ares;
+S de leve as areas roa a espuma,
+Com murmurinho igual ao d'um regato.
+Os ventos se recosto sobre as ondas;
+E das hastes ao longo quietas pendem,
+Em pregas conchegando-se, as bandeiras,
+Que remata arci-flgido Crescente.
+Nada interrompe esta mudez profunda,
+Seno alm a voz da sentinella
+Reproduzindo a senha, ou l mais longe
+Relincho de corseis agudo e crebro,
+Ou cos que respondem dos outeiros,
+Ou da hoste bravia o rumor vasto,
+Que semelhante ao de agitadas folhas
+Alongando-se vai de praia a praia,
+Ou preces usuaes que meia-noite
+Levanta o Muezzin, rasgando os ares
+Co'a lamentosa garganteada la,
+Qual 'spirito que vaga na planicie:
+Meldicos accentos, mas prantivos,
+Quaes os produz o vento, que, passando,
+Encontra as cordas de sonoras harpas,
+E extrahe descompassadas harmonias,
+Que no conhece o menestrel mundano.
+Este som se affigura aos sitiados
+Grito agoureiro da infallivel queda;
+Elle fere no ouvido aos sitiadores
+Como indicio aziago e pavoroso,
+Repentina toada indefinivel,
+Que os coraes lhes paralisa agora,
+E logo os faz pulsar mui apressados,
+Co'a vergonha de haver surdido n'elles
+To desusada sensao furtiva:
+Dest'arte o sino apregoador da morte
+Nos sobresalta de repente ouvido,
+Inda que seja em funeral d'estranhos.
+
+
+XII.
+
+Calou-se o som, a rogativa finda;
+As sentinellas em seus postos velo;
+Foi a nocturna ronda percorrida,
+E em tudo as ordens satisfeitas todas.
+Tem Alp o seu tentorio sobre a praia,
+E em ancias vai curtir inda esta noite;
+Mas bem pde a manh suavis-las,
+Na fruio das vantagens to copiosas
+Com que o amor e a vingana ho de reunidos
+Demora indemnisar to prolongada.
+Horas poucas lhe resto, e carece
+De repousar, por que expedito esteja
+s proezas da crstina matana:
+Mas baralhados, quaes estuantes vagas,
+Os pensamentos lhe relucto n'alma.
+Sem repouso e s elle em todo o campo;
+Nem sente o corao entumecer-lhe
+Fanatica vangloria blasonante
+De ver pelo Crescente a Cruz calcada,
+Ou de vender seus dias mui baratos,
+Seguro de gozar no paraiso
+O sempiterno amor das Houris bellas;
+Nem se sente abrazar d'aquelle austero
+Patriotico ardor que de bom grado
+Supporta rduas fadigas, verte o sangue.
+Quando peleja sobre o cho nativo,
+Elle no era mais--que um renegado.
+Ora verdugo da trahida patria;
+Elle no era mais que um peito forte,
+Um brao acreditado entre o seu bando.
+Seguio-no, por que era valeroso,
+E j lhes grangera espolio grande;
+Davo-lhe acatamento, por ver quanto
+Elle sabia captivar do vulgo
+As vontades, e arteiro dispr d'ellas:
+Mas nem por isso lhe entejavo menos
+O Christo nascimento: inveja influe-lhes
+A propria fama atreioadora que elle
+Ganhra sob um nome Musulmano:
+De qualquer modo, esse esforado chefe
+Vil Nazareno foi na juventude.
+No lhes era sabido t que ponto
+ capaz de curvar-se o orgulho, quando
+Murcho e aviltado o pundonor baquea;
+No lhes era sabido quo violenta
+Chamma voraz em coraes se accende
+Que de meigos tornaro-se bravios;
+Ignoravo qual zlo de vinganas
+Refalsado e fatal se gera e cresce
+D'um convertido n'alma. Elle os regia:
+Pde um homem reger outros peores,
+E de ser o primeiro gloriar-se.
+Taes os lees sobre o jakal domino:
+Destro o jakal espia e abate a prsa;
+Mas, no aperto da rugidora turba,
+Da-se por pago, se devora os restos.
+
+
+XIII.
+
+A cabea lhe ferve, e apressuradas
+As arterias palpito-lhe convulsas;
+D'um lado e d'outro volta-se, baldando
+Modos de repousar; e se dormita,
+O som mais leve, o mais pequeno abalo
+Prestes o acordo angustiado em dbro.
+A fronte excandescida lhe molesta
+Hoje o turbante, e, nem que plumbea fosse,
+A loriga lhe pesa sobre o peito,
+Se bem que tanta vez, e a somno solto,
+Sob esse mesmo pso repousasse,
+Tendo apenas por leito um cho saibroso,
+E por docel o firmamento apenas,
+Leito e docel quaes ao guerreiro a noite
+Agora os deparou. Elle nem pde
+No seu tentorio adormecer, nem quieto
+Esperar que desponte a luz diurna,
+E eis vaga ao longo da arenosa praia,
+Alastrada de tantos que repouso.
+Quem os acalentou? e por que causa
+Ha de elle s velar, despossuido
+D'um bem que logro rasos subalternos,
+A quem cabe arrostar maiores p'rigos,
+E lidas superar mais affanosas?
+Mas ah! que um sonho animador lhes pinta
+Os lucros todos do futuro espolio;
+E em quanto mil e mil passo dormindo
+Esta que a noite extrema talvez d'elles,
+Alp, em vigilia atroz, vaguea anciado,
+E lhe alvo d'invejas quanto encontra.
+
+
+XIV.
+
+Vai na aprazivel fresquido da noite
+Achando refrigerio s ancias d'alma.
+Relentoso ora o ceo, bem que tranquillo,
+As affogueadas faces lhe aspergia
+Com brando orvalho. Apz lhe fica o campo;
+De fronte lhe serpea, derramado
+Em crebros surgidouros e enseadas,
+O golfo de Lepanto; est-lhe vista
+A de Delphos montanha sempiterna,
+Onde os glos accrescem, brilho, duro,
+De mil estios affrontando a ardencia,
+Campeando no golfo, e serro, e clima,
+Sem que os dissolva, como a ns, o Tempo.
+Desapparecem o tyranno e o servo,
+Improprios a aguantar fulgente raio;
+Mas este vo deslumbrador e fragil,
+De que vs envolvido o monte excelso,
+Quando torres baqueo, jazem troncos,
+L brilha sempre no empinado alcar;
+Pileo na frma, nuvem no elevado,
+Na cr e na amplido lanol funereo,
+Erguido a designar que a Liberdade
+Se ausentou da mimosa estancia sua,
+E hoje languida jaz no mesmo slo,
+Onde foi largos tempos escutado
+Seu profetico ardor em aureos versos.
+Oh! que de quando em quando inda l so
+Os passos seus sobre arescentes campos,
+Sobre tantos altares demolidos;
+E ella, um a um mostrando aquelles restos
+Abonadores da passada gloria,
+Alentar busca os animos prostrados:
+Porm de balde bradar, em quanto
+No despontar n'um corao preclaro
+Destimidez possante, toda accesa
+Ao claro d'esses dias que luzro
+Sobre a fuga do Persa, e que risonhos
+O intrito arrostro do Espartano.
+
+
+XV.
+
+Inda que fugitivo e criminoso,
+Alp admirava as inclitas virtudes
+D'esses tempos heroicos; e esta noite,
+Em quanto vagueava, e na memoria
+O presente e o passado revolvia,
+Apreciando as mortes gloriosas
+Dos que em defensa da genuina causa
+Seu sangue alli vertro, mui bem sente
+A que ponto fallaz, mesquinha, obscura
+Quanta fama lucrou d'um bando frente,
+E, nefario traidor, brandindo a espada
+Entre as turmas cingidas do turbante,
+Que raivoso guira a injusto assedio.
+Onde era em cada prospero successo
+No menos computado um sacrilegio.
+Taes no lhe mostra a fantasia os chefes,
+Por quem aquelle p que o circumdava
+Fra illustrado, e que as phalanges suas
+Perfilavo no plaino, no de balde
+Ento de baluartes guarnecido.
+Estes morrro escudando a patria,
+E eternos vivem no fulgor da gloria:
+Suspirar-lhes alli os nomes gratos
+Inda parece a brisa; alli seus feitos
+So no murmurinho das correntes;
+Pova seu renome aquelles campos;
+O pilar taciturno, ermo, alvacento,
+Demanda aos sacros vultos alliar-se;
+Os espiritos seus em trno giro
+Dos fuscos serros; a memoria sua
+Toda se espelha no cristal das fontes;
+O arroio humilde, o caudaloso rio
+Perennes fluem co'a perenne fama
+Dos estremados campees sublimes.
+Por mais que a opprima um jugo, esta sempre
+A patria d'elles, e a manso da gloria!
+A Grecia!--ha de levar sempre este nome
+Um som despertador ao Mundo inteiro.
+Varo que aspira a perpetrar faanhas,
+L pem na Grecia o fito, e abjura as normas
+Que smente os tyrannos sanccionro;
+Para l olha, e se arremessa aonde
+Conquiste a Liberdade, ou deixe a vida.
+
+
+XVI.
+
+Sempre assim meditando silencioso,
+Alp ao longo da praia os passos move,
+E com brando rocio a noite o ameiga.
+Coarctados e sem sto, aquelles mares
+Em moto igual ondeo sempiternos,
+E a vaga que possuem mais furiosa
+Nem um quarto de geira ao slo invade;
+E ou se mostre, ou se esconda, ou mude as phases,
+No tem sobre elles influencia a lua:
+Mansos, tumentes, no alto, na enseada,
+Do dominio lunar se movem francos.
+O escolho immovel, descobrindo a base,
+Olha ao largo, e de balde espera as ondas:
+Pde ver-se a que o cinge espumea linha,
+Que em baixo lhe traou a mo dos vos.
+Um pequeno areal loureja plaino
+Entre o salgado leito e o cho relvoso.
+Pela marina margem vagabundo,
+Eis Alp assoma dos sitiados muros
+Desviado no mais que quanto alcana
+Um tiro de clavina. Como crivel
+Que alli no fosse visto, ou que evitasse
+O golpe hostil? Entre os Christos acaso
+Remanecem traidores encobertos?
+Qual torpor lhes vincula as mos agora?
+Qual glo os coraes lhes paralisa?
+Tal brandura elle estranha; mas certo
+Que de nenhum dos lanos l do muro
+Escorva reluzio, sibilou bala,
+Se bem que to de baixo agora avulte
+Dos basties minaces que flanqueo
+Essa porta, resguardo da cidade
+Pela banda do mar; se bem que possa
+Quasi as palavras distinguir ferrenhas,
+E os passos numerar da sentinella,
+Que so, indo e vindo compassados,
+Pela extenso da sotoposta lagem.
+Nem os ces, de occupados, lhe latro!
+E, magros e famlicos rosnando,
+Os v sob a muralha dar-se ao bdo
+De sangrentos cadaveres e ossadas:
+Ei-los que esto da pelle despojando
+Nest'hora um craneo Tartaro, bem como
+Ns despojamos o recente figo;
+E alvejantes lhes rangem os colmilhos
+Sobre a caveira que inda mais alveja,
+E que dos queixos lhes resvala, quando
+Embotados os deixa o roer crebro;
+Mas vo moendo de vagar os ossos,
+Se um acaso permitte que no achem
+Sobre aquelle torro melhor sustento.
+Seu antigo jejum quebrou-se larga
+Nos guerreiros que alli perdendo a vida,
+Lhes so manjar em refeio nocturna.
+Pelos turbantes sobre a ara esparsos,
+Alp a flor do seu bando reconhece;
+Bem nota o verde, o carmesim das telas
+Com que cingio por costume a fronte;
+E cada pericraneo off'rece a esguia
+Madeixa longa, e no demais raso.
+Os pericraneos jazem na guela
+Feroz dos ces, ao passo que a madeixa
+Se lhes enreda em volta das queixadas.
+L se v mais alm, do golfo orla,
+Sofrego abutre contender c'um lobo,
+Que, das montanhas a prear baixando,
+Era alli solitario, e no ousava,
+Dos ces espavorido, tomar parte
+No amplo repasto das humanas carnes;
+Mas engole a rao que lhe coubera
+D'um corsel debicado j das aves,
+Que da enseada no areal jazia.
+
+
+XVII.
+
+De to feio espectaculo insoffrivel
+Arreda os olhos Alp: elle em conflictos
+O que era estremecer no soube nunca;
+Porm no to arduo, to penoso
+Olhar ao que estendido se revolve
+Do proprio sangue em fumegante lago,
+E arqueja entregue insaturavel sde
+E ao vasquejar da morte, quanto v-lo
+Depois que pereceo, e s cadaver.
+No momento fatal, um certo orgulho
+Se desenvolve n'alma do soldado,
+Lhe adoa o fim cruento: se fenece,
+Espera reviver na voz da Fama,
+Ficar bemquisto Honra, que tem sempre
+Os olhos fitos no que morre affouto!
+Mas quando em fim s'esvaeceo tudo isto,
+Bem misero se sente quem percorre
+Campo alastrado d'insepultos mortos.
+Ao ver como da terra surde o verme,
+Deixa o bruto as florestas, a ave desce,
+E alli affluem, demandando no homem
+Todos quinhoar prsa, e achando todos
+O lucro seu na decadencia d'elle.
+
+
+XVIII.
+
+Alli se via derrocado templo:
+So cinza e longo olvido as mos que o erguro.
+Inda algumas columnas, e dispersos
+De marmore e granito mil fragmentos
+O slo opprimem, recobertos d'herva.
+Inexoravel Tempo! e nunca inteiras
+Deixars ao porvir obras passadas!
+Inexoravel Tempo! e has de tu sempre
+Querer que do passado fique apenas
+Aquillo que o presente affligir deve;
+E assim fazer-nos dolorosa a imagem
+Do que j foi, do que ha de ser um dia!
+Bem como ns, vero nossos vindouros,
+Em reliquias d'antigos monumentos,
+S pedras que exalou o homem de barro!
+
+
+XIX.
+
+Ao p d'uma columna Alp eis se assenta:
+Co'a mo comprime a face, e o corpo inclina
+Como quem se resente acabrunhado
+D'aterradores pensamentos tetros;
+A cabea descahe-lhe sobre o peito
+Excandescido, palpitante, oppresso;
+Giro-lhe pela fronte debruada
+Os dedos velocissimos, bem como
+Pelo eburneo teclado os dedos giro
+De primoroso artista, que em preludios
+Por ora se entretem, da esclha incerto.
+Vergando assim ao pesadume infenso,
+Cr que ouvio suspirar nocturna brisa.
+Acaso em lagens concavas murmura
+Gemido terno de macias auras?
+Ergue ento a cabea, e o mar observa;--
+Repousa o mar, qual cristalino espelho:
+Contempla esguias hervas;--nada as move:
+D'onde procederia o som mavioso?
+Repara nas bandeiras;--quietos pendem
+No alto do Cithern, quaes os deixra,
+Inda os hasteados pannos; leve aragem
+Nem sequer lhe roou a tz do rosto:
+Qual do imprevisto murmurinho a causa?
+Volve-se ao lado esquerdo:--ser isto
+Illuso ou verdade? Ante seus olhos
+Eis joven dama refulgente assoma!
+
+
+XX.
+
+Se Alp ento visse um inimigo armado
+Surgir-lhe face a face, no se ergura
+To abalado de profundo assombro.
+"Deos de meus pais! que vejo? quem es? como
+D'hosts fileiras te aproximas tanto?"
+A mo tremente lhe recusa agora
+Estampar sobre a fronte essa Cruz mesma
+Que elle tanto insultou; mas n'este lance
+Se persignra, se a consciencia sua
+Lhe no fizesse ver quanto era indigno.
+Repara, observa a fundo, e reconhece
+O rosto bello, as engraadas frmas:
+ Francina, essa virgem suspirada
+Que elle a si pertendia unir consorte!
+Inda nas faces lhe viceja a rosa,
+Porm a rubra cr menos viva.
+Que do attractivo d'esses labios meigos?
+No mora n'elles o sorrir donoso
+Que ao rubim dava esmalte. Inda em seus olhos
+Reside o azul do socegado oceano;
+Mas se no aspecto bonanoso o imito,
+Tambm o imito na frieza immovel.
+Talhe accuso gentil vestes ligeiras;
+Nada lhe vela o seio luminoso;
+Soltas d'ebano as tranas, ver no tolhem,
+Por entre a chuva dos anneis ondeantes,
+Nivea nudez dos torneados braos.
+Levanta ao alto a mo antes que falle;
+E de tal modo branca e transparente
+Se mostrava essa mo, que poderieis
+Ver por entre ella rutilar a lua.
+
+
+XXI.
+
+"O repouso deixei, a fim smente
+De vir ao meu amado, e de faz-lo
+Feliz commigo, e ser feliz com elle.
+Por teu respeito entre inimigas turmas
+Eis movo os passos, e transpuz a salvo
+Muralhas, portas, sentinellas, tudo.
+Uma joven donzella, em todo o brio
+Da nativa pureza, ha quem affirme
+Que dos proprios lees respeitada:
+E o superno Poder que ao innocente
+Escuda contra o despota dos bosques,
+Se encarregou tambem de defender-me
+Do insulto d'infieis confederados;
+E vim:--se vim de balde, oh! v que nunca,
+Nunca mais tornaremos a encontrar-nos!
+Sei que, abjurando de teus pais a crena,
+Es ro de crime hediondo; todavia
+Lana por terra esse turbante, e imprime
+Sobre a fronte o da Cruz signal divino,
+E eu de ti folgue na perpetua posse.
+Eia, o negro labo expelle d'alma;
+E pois havemos manh de unir-nos,
+No queiras para sempre separar-nos."
+
+"E ao tro nupcial onde acharemos
+O apetecido espao? pde hav-lo
+Entre montes de mortos e expirantes?
+Os Christos, seus altares, quanto d'elles,
+Ha de o ferro manh unido chamma
+Tudo, tudo extinguir: nenhum mais deve,
+Seno es tu e os teus, ver nova aurora;
+Que eu assim o jurei. Mas ser-me-ha doce
+A mais donosos sitios transportar-te,
+Onde se enlacem mos, se olvidem mgoas,
+Onde tu sejas a consorte minha,
+Quando abatido de Veneza o orgulho
+Eu j tiver; quando este brao, que ella
+Quiz sumir na abjeco, deixe aoutados
+Com viperino ltego os infames
+Que accendeo contra mim o vicio e a inveja."
+
+Ella pousou a mo sobre a mo d'elle:
+Foi leve o toque, mas varou-lhe prompto
+As medullas dos ossos, e entranhou-lhe
+Pelo imo corao glo indizivel,
+Que nem d'estremecer lhe deixou posses;
+E este frio mortal, de que se arguia,
+Remov-lo de si em vo tentava.
+Oh! nunca, nunca de to caro objecto
+Partra movimento que viesse
+Com tamanho terror gelar-lhe o sangue,
+Qual n'esta noite o subitaneo toque
+D'aquelles alvos dedos alongados.
+Morreo-lhe em pallidez a effervescencia,
+Ficou-lhe o corao, qual seixo, immovel,
+Ao ver aquelle rosto, ai! to mudado
+J de si proprio: bello, mas languente--
+Sem vestigio nenhum d'incendios d'alma,
+Que em cada feio d'elle se espelhavo,
+Como um dia de sol se espelha n'agua.
+Anhlito nenhum se unia s vozes
+Que lhe escapavo dos immotos labios;
+Do quieto corao nenhum palpite
+Lhe sublevava o seio; nada havia
+Que a rigida atteno interrompesse
+D'aquelles olhos estacados, fixos.
+Taes so os do somnambulo, que, em meio
+D'anciados sonhos, deixa o leito e vaga;
+Taes, na extenso de apainelados razes,
+Baas figuras de minaz aspecto,
+Se ao trmulo claro as contemplamos
+D'expirante lucerna, desenvolvem
+No sei qual mixto de animado e morto,
+Com que parecem, aterrando a vista,
+Ora avanar do tenebroso fundo,
+Ora entranhar-se n'elle, em moto alterno,
+Que a seu sabor lhes communica o vento.
+
+"Se por amor de mim tu crs que muito,
+Por amor s do Ceo embora o faze:
+Longe arremessa (inda outra vez to digo)
+Da fronte criminosa esse turbante,
+E me promette de no ser infesto
+Aos filhos da insultada patria tua,
+Ou es perdido, e despedir-te deves,
+No j da Terra--esvaeceo-se a Terra--
+Mas do Ceo e de mim, que te fui cara.
+Eia, cede a meus rogos: v que abertas
+Inda te espero da clemencia as portas;
+E bem que contra ti grave sentena
+Fosse j proferida, o rigor d'ella
+Em grande parte expiar teu crime.
+Pondera a fundo; e provocar no queiras
+A maldio d'Aquelle que abjuraste.
+Ao Ceo inda uma vez levanta os olhos,
+V que a ti mesmo para sempre o fechas.
+Essa nuvem que esconde agora a lua,
+L vai passando, e passar de pressa:
+Se, quando rebrilhar o disco inteiro
+Desafrontado do vapor sombrio,
+No revolveo a contrio teu peito,
+Fico de ti vingados Deos e os homens:
+Tremendo fim ters, e mais tremenda
+Te espera a eternidade dos perversos."
+
+Alp ergue a vista ao Ceo, e reconhece
+O indicado signal; porm o orgulho
+Entumeceo-lhe o corao, e o rege
+Com despotico imperio inabalavel;
+E esta paixo fallaz que o predomina,
+ torrente caudal que tudo alaga.
+Elle implorar perdo! elle render-se
+A impertinencias de mesquinha virgem!
+Elle, offendido de Veneza ingrata,
+Poupar-lhe os filhos, que votou morte!
+No:--embora essa nuvem traga um raio,
+Embora um raio o esmague:--e inda no tra?
+
+Sem que a minima voz dos labios solte,
+Elle fitava ancioso aquella nuvem:
+Attento a v passar; fugio de todo:
+Em seu pleno fulgor se mostra a lua.
+"Qualquer que seja o meu destino (exclama),
+No tenho de mudar: agora tarde.
+No meio da tormenta pde a canna
+Dobrar-se e logo erguer-se, os troncos quebro.
+Qual Veneza me fez, serei j'gora;
+Seu implacavel inimigo em tudo,
+Excepto na affeio que eu te consagro.
+Tu pois es salva: oh! vem, meus passos segue."
+Voltando-se, elle a busca; ella sumio-se:
+S o antigo pilar lhe avulta ao lado.
+Sorveo-a a terra, ou s'esvao nos ares?
+Nada elle vio--nada escutou s sabe
+Que alli nenhum vestigio existe d'ella.
+
+
+XXII.
+
+A noite dissipou-se, e o sol resplende,
+Qual se um dia de festa esclarecesse.
+Eis d'entre bruscos vos pomposa surge
+Arraiada a manh d'aureos fulgores,
+E abrasador promette o meio-dia.
+Trombetas se ouvem, rufos de tambores,
+Hrridos sons de barbara corneta,
+Sussurrar de bandeiras fluctuantes,
+Relinchar de corseis, tropear de turmas,
+E o retinir das armas, e o alarido:
+"Ei-los vem! ei-los vem!" Da terra prestes
+Descravo-se os pendes equi-caudatos,
+Desnudo-se as espadas lampejantes,
+E tudo a entrar em frma apercebido,
+S depende da voz, e a voz j sa:
+= Tartaros, e Spahs, e Turcomanos,
+As tendas abatei, ide vanguarda,
+Dai d'espora aos corseis, e na planicie
+Seja cortado o passo aos fugitivos,
+Quando estes proromperem da cidade:
+No escape nem velho nem mancebo,
+Que offrecer de Christo qualquer indicio.
+Entretanto que em massa prepotente
+Vo sustentar os camaradas vossos
+A ensanguentada brecha, e entrar por ella. =
+J o fogoso corsel remorde o freio,
+E arquea o collo, e, sacudindo a crina,
+As redeas tinge d'alvejante espuma:
+Esto em riste as lanas, e flammejo
+Accesos os murres, e em continente
+O assestado canho vai despejar-se
+Com estampido horrsono, e as muralhas,
+Rtas em frente, esboroar de todo.
+Na phalange os Janizaros entrro:
+Alp os commanda; e a cimitarra nua
+No erguido brao nu sustenta e brande.
+Kans e Bachs fixro-se em seus postos;
+E ei-lo frente da hoste se apresenta
+Em pessoa o Visir.--Tanto que a senha
+Troar na disparada colubrina,
+Tudo em Corintho ser ruina e morte:
+No ficar um sacerdote s aras,
+Nem um chefe no centro das familias,
+Nem flgo vivo que as manses pove,
+Nem sequer uma pedra sobre os muros.
+"Deos e o Profeta seu! _Allah-Hu!_"--Sobe
+T s estrllas o feroz ullo!
+"L tendes, para entrar, aberta a brecha;
+E escadas no vos falto: tambem todos
+N'essas robustas mos sustentais armas;
+E como ha de falhar-vos o triunfo?
+D'entre vs o primeiro que se affoute
+ arrancar a vermelha Cruz hasteada,
+Pde franco pedir quanto apetece
+Com mais vehemente ardor: supplique e obtenha."
+Tal se exprimio Coumourgi, o Visir bravo.
+Foi resposta o brandir d'espadas, lanas,
+Com mil acclamaes de raiva alegre.--
+Silencio!-- senha estai attentos!--fogo!
+
+
+XXIII.
+
+Como quando esfaimados ruem lobos
+De chofre sobre o bufalo soberbo,
+Sem tremerem da trva catadura,
+Do mugir fero, do escavar das plantas,
+Nem dos minaces cornos assestados;
+E elle ou lana por terra ou ergue aos ares
+Os primeiros que accessos o acommettem,
+Mas que no cego arrjo a morte encontro:
+Assim o Musulmano invade os muros,
+E no impeto primeiro repellido.
+Alli rtos do bellico granizo,
+Dispersos como vidro espedaado,
+Quantos de bronze acobertados peitos
+Ora juncando a terra, d'onde nunca
+Se ho de levantar mais! Esto fileiras
+Inda alinhadas, quaes na queda o estavo;
+Jaz dos mais destemidos copia grande:
+Tal, quando o dia findo, e o labor cessa,
+Vemos jazer sobre aplainados campos
+A herva que o segador deixou ceifada.
+
+
+XXIV.
+
+Bem como, em viva preamar, se observa
+D'algosos escarcos batida rocha,
+E j minada dos diuturnos stos,
+Soltar enormes lascas alvejantes,
+Que com fragor horrsono se abatem,
+Assemelhando ao torreo de glo
+Que Alpinos valles despenhado aterra:
+Assim os de Corintho habitadores,
+A final quebrantados, exhauridos,
+Foro na ruina atroz precipitados
+Pelo acintoso impulso recrescente
+Das cerradas cohortes Musulmanas.
+Elles insistem firmes, e, na queda,
+O furor do Infiel os prostra em massa.
+Pelejo brao a brao, e planta a planta;
+E nada, excepto a morte, alli mudo:
+Impetos, golpes, empuxes, clamores
+Ou a pedir quartel, ou de victoria.
+Reunidos ao troar increbescente
+Dos bellicos troves, e ao temeroso
+Estrondo da batalha encarniada.
+L vo disseminando susto immenso
+Por longinquas cidades, d'igual modo
+Que se estivessem sob o golpe infesto,
+E j dentro o inimigo as depredasse;
+No d'outra sorte que se proprio fra
+A excitar sensao ou triste ou leda
+Aquelle som que anniquilar s sabe,
+E que, varando dos soturnos montes
+As entranhas durissimas, se expande
+Em pavorosos cos desusados:
+L os ouvio Megra e Salamina,
+E, se no exaggera a voz do vulgo,
+T na enseada do Piro troro.
+
+
+XXV.
+
+Em rijo e solto embate retinindo,
+Sabres, espadas, desde a ponta aos copos,
+Gotejo sangue; mas entrados foro
+Os muros j, e eis principia o saque,
+E apz elle a feroz carnificina.
+Rompe dos edificios depredados
+Medonha confuso de agudos gritos:
+Escuta quo velozes na fugida
+Vo ps escorregando em quente sangue,
+Que as ruas deixou lbricas: no em tanto
+Aqui e alm, onde o terreno offrea
+Contra o fero invasor qualquer vantagem,
+Onde algum lano de parede ou muro
+Lhes proteger as costas, ento elles,
+Aos dez, aos doze, em mal parados grupos,
+Logo alli fazem alto,--alli renovo
+Desesperada briga audazes, firmes,
+Ou co'as armas na mo perecem todos.
+Eis a p firme um ancio l surge;--
+De cs lhe alveja povoada a fronte;
+Porm vigor pujante lhe robora
+O veterano pulso: no se altera
+Seu bisarro dendo, entre o bulicio
+Do revlto brigar; tem por trincheira
+Semicirculo espsso d'inimigos,
+Que hoje uns sobre outros apinhava mortos;
+Ferve em dura peleja no ferido,
+E sabe retirar-se no cercado.
+Sob a loriga refulgente esconde
+Dos certames d'outr'ora as cicatrizes
+Innumeraveis; que de toda a especie,
+E o corpo inteiro lhe crivro golpes.
+Em despeito d'aquella ancianidade,
+ de to ferreos membros, que difficil
+Fra d'igual jaz achar-se um mo:
+E os inimigos, que empatados tinha,
+Pullulavo-lhe alli mais numerosos
+Que as prateadas cs da fronte altiva;
+Mas apoucando-os vai a forte dextra.
+Muitas mis Othomanas prantero
+Filhos que, quando pela vez primeira
+Elle a espada tingio em sangue Turco,
+Inda no ero nados, e hoje expiro
+Antes de perfazerem lustros quatro.
+Bem poder elle ser o av de quantos
+N'este dia immolou s iras suas:
+Vingando um filho que perdra ha muito,
+Vai dos contrarios seus matando os filhos:
+E desde quando o desvelado joven,
+Unica prole varonil que tinha,
+Morreo a combater no undoso estreito
+Que d'Asia o cho divide do d'Europa,
+Logo o pai prometteo sacrificar-lhe
+Sanguinosa hecatombe d'inimigos,
+Ceifada ao golpear do ferreo brao.
+Se o morticinio pacifica as sombras,
+Nem mesmo de Patroclo aos manes coube
+Jbilo igual ao que sentir devio
+Os do joven Minotti. Sepultado
+Ficou seu corpo nas oppostas praias,
+E ora privados de sepulcro n'estas
+C fico mil para milhares d'annos.
+Qual d'elles escapou que referisse
+Como os outros morrro, e onde jazem?
+Lousa nenhuma os cobre, no lhes guarda
+Nenhum tumulo as cinzas: entretanto
+Vivem e viviro no immortal plectro.
+
+
+XXVI.
+
+Qual clamoroso _Allah!_--um tero avana
+De tropa Musulmana a mais affouta,
+E de pulso melhor: vai-lhe na frente,
+Nervoso, nu t o hombro, e em moto ondeante
+Brandindo o ferro, e sobranceiro a todos,
+Do commandante o brao, que expedito
+Sabe ferir, e perdoar no sabe.--
+Outros embora em mais pomposo traje,
+D'espolio ao inimigo a sde ateem;
+Sejo embora muitos os que empunho
+D'aureo lavor custosas cimitarras,
+Que de nenhuma escorre tanto sangue;
+Ostentem muitos adornada a fronte
+De turbantes mais altos, mais airosos;--
+Alp s conhecido por aquelle
+Brao nu, que branqueja levantado.
+Ei-lo campea onde mais arde a briga!
+No se arvorou pendo sobre estas praias
+Que mais destro as fileiras anteceda;
+Jmais, durante a Musulmana guerra,
+Se despregou bandeira que attrahisse
+De to longe os Delhs: sempre o distinguem
+A lampejar como cadente estrlla!
+Onde quer que este brao prepotente
+Uma vez se mostrou, logo os mais bravos
+Surdem todos alli, ou tarde chego;
+Alli quartel o ignavo em vos clamores
+Ao vingativo Tartaro supplica;
+Alli o here, no cho deitado e mudo,
+Nem quer que quando morre um ai lhe escape,
+E inda com tibio golpe derradeiro
+Invade o antagonista, que no menos
+A par de si prostrou; e bem que expire
+To alquebrado das feridas mutuas,
+Raivando afferra o ensanguentado slo.
+
+
+XXVII.
+
+O ancio, persistindo inabalavel,
+Oppr consegue momentaneo estrvo
+D'Alp carreira atroz.--"Cede, Minotti:
+Salva todos os teus, attende filha."
+--"Nunca o vers, vil renegado, nunca!
+Nem tinha eu de annuir inda que fosse
+Vida eterna essa vida que me off'reces."
+--"E Francina!--e a futura minha noiva!
+Queres, assim teimoso resistindo,
+Ser tambem causador da morte d'ella?"
+--"Ella est mui a salvo."--"Onde? em que sitios?"
+--"No Ceo, d'onde banida para sempre
+Foi tu'alma aleivosa,--e onde Francina
+Vive longe de ti, vive sem mancha."
+Alp, a taes vozes, titubante, anciado,
+Fica no d'outra sorte que se o peito
+Lhe traspassasse truculento golpe;
+E de Minotti despontou nos labios
+Irnico sorriso de vingana.
+
+"Oh Deos! quando expirou?"--"Inda esta noite;
+Mas do espirito seu no choro a ausencia,
+Antes flgo de ver que c no deixo
+D'esta minha linhagem nobre e pura
+Ninguem que haja de ser misero escravo
+De Mafamede ou teu. Anda, acommette!"
+Baldado desafio! Alp j morto.
+Ao tempo que Minotti lhe vertia
+N'aquellas expresses criminadoras
+Todo o fel da vingana, e que mais cruas
+Que a propria ponta de budo alfange
+Ellas varavo Alp, eis va o golpe
+D'um templo no distante, defendido
+Com incriveis primores de firmeza
+Por esse dos Christos ultimo resto,
+Que to minguado e d'esperana exhausto,
+Inda de l fazia esforos grandes
+Para o combate restaurar fallido:
+E antes de descobrir d'onde assestada
+Lhe foi a lethal bala sibilante,
+Alp o cerebro tem varado d'ella,
+E voltea, e vacilla, e cahe por terra:
+Lampejou-lhe ante os olhos claro debil,
+Quando vergou para no mais erguer-se,
+Ficando apenas palpitante tronco,
+Que ei-lo envolvido jaz na noite eterna.
+N'elle indicio no ha que vida inculque,
+Salvo o tremor dos membros onde o tiro
+Deixou menor estrago. A ponto acodem,
+E de costas o estendem: rosto e peito
+Lhe esto manchados de poeira e sangue,
+E jorra-lhe da boca o vital fluido,
+Que as cavernosas veias desampara;
+Mas no lateja o pulso, no se escuta
+Nos labios murmurar-lhe o arranco extremo;
+Nem sequer um suspiro, uma palavra,
+Um penoso arquejar, lhe assignalro
+O transito fatal da vida morte.
+Antes que o pensamento levantasse
+Em spplica contrita, ro nefando,
+Se apresenta aos umbraes da eternidade,
+Sem que ao perdo celeste aspirar possa,
+E na vida e na morte--Renegado.
+
+
+XXVIII.
+
+Ento d'um lado e d'outro aos ares sobe
+Espantoso alarido retumbante:
+Aqui, de regozijo; alm, de raiva.
+Eis de novo travadas em conflicto
+Espadas de Christos e Turcas lanas
+Embatem com furor, mutuo golpes,
+Estendendo no p guerreiros muitos.
+Ousa, de rua em rua e passo a passo,
+Minotti disputar aos inimigos
+Qualquer poro restante do terreno
+Que ao seu bravo commando fra entregue:
+Ao lado, a reforar-lhe audacia e pulso,
+As sobras tem da guarnio briosa.
+Resistencia tenaz off'rece o templo,
+D'onde predestinada veio a bala
+Que em grande parte despicou Corintho,
+Morto Alp, o mais feroz de seus contrarios
+Para alli recuando sem desvio,
+Deixando diante ensanguentado rasto,
+E os inimigos encarando sempre,
+E nunca sem matar vibrando um golpe,
+O chefe e o seu cortejo, em retirada,
+Conseguem reunir-se aos que occupavo
+A sacra estancia: no recinto d'ella
+Inda lhes cabe respirar um pouco,
+Das macias paredes escudados.
+
+
+XXIX.
+
+Remanso bem mesquinho! Os Musulmanos,
+De pujante refro abastecidos,
+Borbotando furores e ufania,
+To cerrados, to frvidos avano,
+Que o nmero lhes tolhe a retirada:
+Dest'arte se atravanco no caminho
+Que vai ao templo, onde os Christos no sabem
+O que render-se; e os batalhes infestos
+Tanto apinho-se frente, que, inda quando
+Lavrasse o susto alli, nenhum podra
+Por entre as fortes massas escoar-se:
+Ou vencer ou morrer lhes era fra.
+Morrem; mas sobre os corpos palpitantes
+Lhes surgem de repente os vingadores.
+Que, frescos e raivosos pullulando,
+As filas, sempre rtas, enchem sempre;
+E os Christos affadigo, extenuo,
+Violentas amiudando as investidas:
+E ei-los agora os Infieis assomo
+Junto ao sacro portal. Por longo espao
+A ferrea contextura inda resiste,
+Inda de cada fresta vo tiros,
+Todos bem assestados, mortaes todos;
+E de cada janella se desato
+Em chuveiro as sulfureas alcanzias.
+Mas j fraqueo as nutantes portas--
+Vrgo rangendo os quicios, cede o ferro,--
+L pendem--l se abatem j cahro:
+No mais resistir, morreo Corintho!
+
+
+XXX.
+
+Soturno, sem que o vejo, s comsigo,
+Ao altar arrimado est Minotti.
+D'um painel sobranceiro, a Virgem santa
+O affavel rosto flgido lhe volve,
+Transumpto de celeste colorido,
+Onde os olhos so luz, amor o aspecto;
+E na ara collocado a fim que possa
+Dos humanos fixar o pensamento
+Sobre as cousas do Ceo, quando elles oro
+Devotos, genuflexos ante a imagem
+D'esta Mi admiravel, que em seu gremio
+Sustem e affaga o Redemptor-menino,
+E com sorrisos acolhendo meigos
+Uma por uma as fervorosas preces,
+Como que ao Ceo de transferi-las cuida.
+Sorrindo sempre, inda sorr agora,
+Em despeito da atroz carnificina,
+Do sangue em jrros que deturpa as naves.
+Eleva ento Minotti os olhos lassos,
+E, exhalando um suspiro, se persigna;
+Logo alli d'uma tocha que era accesa
+Ei-lo se apossa, e permanece firme,
+Em quanto os Musulmanos irruindo,
+Desenvolvendo larga ferro e fogo,
+Hrridos enchem a manso sagrada.
+
+
+XXXI.
+
+Sob a lagem que o vasto pavimento
+Recompunha em mosaico variada,
+Subterraneas abobadas se arqueo.
+Jazigo aos mortos das passadas eras:
+Em memorandas lpidas incisos
+Lio-se os nomes seus, que ler no deixa
+Ora o sangue que os cobre: aqui no menos
+Vio-se, honrando as cinzas, esculpidos
+Timbres, emblemas de lavor prestante,
+Marmores luzidos, de vistosas
+Multicolores veias serpeados,--
+Que, srdidos j hoje, se baralho
+Com fragmentos d'espadas, de montantes.
+Com morries e arnezes abolados,
+Confuso mixto que por cima avulta
+D'innumeraveis atades, onde
+Enfileirados os defunctos dormem:
+Podes v-los em lugubre apparato,
+Ao macilento albor que inda os visita
+Por fisgas breves de sombrias grades.
+Mas nem por isso desistio a Guerra
+D'entrar por estas lobregas cavernas,
+Com trva profuso disseminando
+Das sepulcraes abobadas ao longo
+Seus thesouros sulfureos, que se elevo
+Empilhados em massas volumosas
+Junto dos resequidos esqueletos.
+Aqui, durante o crco, havio feito
+Seu paiol os Christos: longo rastrilho,
+Desde agora entornado, se encaminha
+Do templo a estes sitios; e eis o extremo
+Recurso inabalavel de Minotti
+Contra o poder das irruentes turmas.
+
+
+XXXII.
+
+O inimigo enche tudo; e poucos tento
+Inda arrost-lo, ou mui de balde o arrosto.
+Elle, falta de vivos, vai nos mortos
+Saciar da vingana a voraz sde,
+Que exacerbou-se agora; elle os invade
+Com sacrilegos golpes, e decepa
+Cabeas j finadas, e dos nichos
+As estatuas despenha baqueantes,
+E as aras despe d'oblaes opimas,
+E co'as callosas mos profanadoras
+O argento empolga dos sagrados vasos.
+Chegada apenas a caterva infrene
+Ante o altar principal, detem-se e pasma:
+Oh qual o adorna resplandor pomposo!
+Sobre a pedra lhe surge bem patente
+O consagrado Caliz, ouro estrme,
+Prsa que enleva os depredantes olhos,
+A fulgurar macia e ponderosa:
+Hoje conteve o sacrosanto vinho,
+Que Christo em sangue seu mudar dignou-se,
+E com que, ao romper d'alva, os seus cultores,
+Antes de pelejar, fortalecro
+As almas ao dever e ao Ceo votadas:
+Inda no fundo remanecem gotas;
+E tambem, circumdando a sacra mesa,
+Em symetria esplendida dispostas,
+Ardem lampadas doze d'ouro fino:
+Este o mais opulento e ultimo espolio.
+
+
+XXXIII.
+
+Apinho-se alli todos; e o que estava
+Da prsa mais visinho, faz-se avante,
+E quasi quasi que a empolgava, quando
+O longevo Minotti applica a tocha
+Ao rastrilho fatal;--ei-lo se inflamma!
+Campanarios, abobadas, altares,
+Espolio, vivos, mortos, moribundos,
+Christos vencidos, Turcos vencedores,
+E o templo esboroado, e quanto ha n'elle,
+Se ergue aos ares com hrrido rebombo,
+E finda envlto na exploso terrivel!
+A cidade abalada--o cho coberto
+D'edificios, de muros demolidos--
+As ondas que recuo, de assustadas--
+Os montes, seno rtos, vacillantes,
+Como se os sacudisse um terremoto--
+De milhares d'objectos mixto informe
+Que os Ceos toldando vai de fogo e fumo.
+Ao rebentar da horrtona lufada--
+No cesso de apregoar que n'estas praias,
+Ha longo tempo, afflictas, terminou-se
+Dos combates o mais desesperado.
+Como accesa em girandolas festivas,
+L roa os astros a confusa mole.
+Vares no poucos d'estatura ingente,
+D'apparencia gentil, ora abrasados,
+Curtos como pigmeos, descem dos ares,
+Em torrado carvo juncando a terra.
+Grossa chuva de cinzas se despenha:
+Muitas recebe o golfo, e, ao receb-las,
+Frma em trno escarcos, que se desfazem
+N'um progresso de circulos undosos;
+Muitas recebe a praia, e vo, por longe
+Disseminadas, recobrir todo o isthmo:
+So cinzas de Christos ou d'Othomanos?
+Suas mis se aproximem, venho v-las,
+E digo se as conhecem!--Por ventura
+Houve alguma de vs, desgraadas,
+Que quando aos peitos lhe pendia o filho,
+Ou no embalado bero o adormentava,
+E, sorrindo d'amor, se comprazia
+N'aquelle brando repousar donoso,
+Ai! houve alguma ento que nem por sombras
+Esperasse este dia, ou ver dispersos
+Da cara prole os lacerados membros?
+Nem sequer, nem sequer as extremosas
+Matronas que no ventre os alojro
+Estremar sabem os nascidos d'ellas;
+Um s momento lhes tirou de todo
+Frma e semblante d'homens; resta apenas
+Algum disperso pericraneo ou osso.
+Barrotes, vigas flammejantes descem,
+E em redor se derramo; vem cahindo
+Engastadas em barro infindas lagens,
+Que o slo opprimem fumegantes, negras.
+Todo o vivente a quem troou no ouvido
+O abalo estragador, prego de morte,
+Ou jazeo ou sumio-se: espavoridas
+O vo affasto carniceiras aves;
+Bravos ces vo-se arredando em uivos,
+Nem se lhes d dos insepultos mortos;
+O camelo as prises deixou quebradas;
+O touro, ao longe, se desfez do jugo;
+O corsel, que o fragor ouvio de perto,
+Rompendo a silha, espedaando as redeas,
+A galope alongou-se pelo plaino;
+As incolas dos charcos lutulentos,
+Alando a boca sobremodo aberta,
+Clamor soltro importuno em dbro;
+Uivro pelas furnas das montanhas
+Os lobos, quando alli a trovoada
+Em cos retroou; l mui distantes,
+As alcatas dos jakaes bramro
+Com mixto som, que, lamentoso e agudo,
+Ora imitava criancinha em chros,
+Ora lebro ganindo fustigado:
+Esbaforida accelerando os vos,
+A aguia desamparou a rocha alpestre,
+Onde aquecia o ninho, e remontou-se
+Mais proxima do sol, achando crassas
+Em demasia as sotopostas nuvens,
+Que vinho, d'atro fumo conglobadas,
+Roar-lhe o bico amedrontado, hiante,
+Mais e mais excitando-a a sublimar-se,
+E o grito a reforar.--Eis de qual modo
+Conquistada e perdida foi Corintho.
+
+FIM.
+
+
+
+
+NOTAS ABREVIADAS.
+
+
+NOTAS ABREVIADAS.
+
+
+II.--_vers._ 14.
+
+ Dando de mo grei, o Turcomano
+ Prestes unio ao lado a cimitarra.
+
+Domiciliados debaixo de tendas, vivem estes povos uma vida patriarcal.
+
+
+V.--_vers._ 1.
+
+ Coumourgi--aquelle etc.
+
+Ali Coumourgi, valido de tres sultes, e gro visir de Achmet III,
+havendo retomado em uma s campanha o Peloponeso aos Venezianos, foi, no
+seguinte anno, mortalmente ferido na batalha de Peterwaradin, quando
+forcejava para reunir suas tropas.
+
+
+XVI.--_vers._ 4.
+
+ Coarctados e sem sto, aquelles mares
+ Em moto igual ondeo sempiternos.
+
+ talvez desnecessario recordar ao leitor que o movimento do fluxo no
+visivel no Mediterraneo.
+
+
+Ibi--_vers._ 42.
+
+ Ei-los que esto da pelle despojando
+ Nest'hora um craneo Tartaro, etc.
+
+Este espectaculo, qual o descrevo, foi por mim presenciado sob os muros
+do serralho de Constantinopla; e os cadaveres ero talvez os de alguns
+Janizaros rebeldes.
+
+
+Ibi--_vers._ 59.
+
+ E cada pericraneo off'rece a esguia
+ Madeixa longa, etc.
+
+Crm os Musulmanos que o seu Mafma, no ponto de transferi-los ao
+Paraiso, os tomar por esta madeixa; e, firmados sobre to supersticioso
+fundamento, a deixo crescer.
+
+
+XXI.--_vers._ 94.
+
+ Essa nuvem que esconde agora a lua,
+ L vai passando, etc.
+
+Este pensamento no original, por quanto deparei com elle na verso
+ingleza de Vathek.
+
+
+XXII.--_vers._ 11.
+
+ ---------- Da terra prestes
+ Descravo-se os pendes equi-caudatos.
+
+De uma cauda de cavallo, fixa no alto de uma lana, so compostos os
+pendes dos Bachs.
+
+
+XXV.--_vers._ 51.
+
+ Morreo a combater no undoso estreito
+ Que d'Asia o cho divide do d'Europa.
+
+Na batalha naval que os Venezianos travaro com os Turcos entrada dos
+Dardanellos.
+
+
+FIM DAS NOTAS.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+P. S. _Escrevemos accentuada e sem_ h _a 3. pessoa do singular no
+indicativo presente do verbo substantivo ser, e igualmente sem_ h _o
+adjectivo numeral um, por nos parecerem terminantes as razes em que
+fundado este uso. Por certo que nem sempre adherimos opinio de nossos
+Grammaticos e Diccionaristas modernos, com quanto sejo alguns de
+reconhecida erudio; e em meia duzia de paginas, que talvez
+publicaremos, ho de apparecer indicados os pontos e expendidos os
+motivos d'esta divergncia. Pelo que toca exactido typografica do
+Poema que apresentamos traduzido, empregou-se ahi mui boa diligencia:
+pois de presumir que ser leve e de facil emenda o defeito que ainda
+remanecer._
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord
+Byron, traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA ***
+
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+ <title>O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron</title>
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+</head>
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+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron,
+traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez
+
+Author: George Gordon Byron
+
+Translator: Henrique Ernesto de Almeida Coutinho
+
+Release Date: August 31, 2010 [EBook #33592]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: UTF-8
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div class="ntrans">
+<p><b>Notas de transcrio:</b></p>
+
+<p>Foi mantida a grafia usada na edio original de 1839, tendo sido
+corrigidos apenas pequenos erros tipogrficos evidentes.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1.6em;">O CERCO DE CORINTHO,</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">POEMA</p>
+
+<p>DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">LORD BYRON,</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">TRADUZIDO EM VERSO PORTUGUEZ,</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;"><em>H. E. A. C.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><img src="images/ilustr.png" border="0" alt="Ilustrao da capa"></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">PORTO.</p>
+
+<hr style="width: 10%">
+
+<p>TYPOGRAPHIA COMMERCIAL PORTUENSE.<br>
+
+LARGO DE S. JOO NOVO N. 12.</p>
+
+<hr style="width: 10%">
+
+<p>1839.</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h2>AO ESTIMAVEL ANONYMO.</h2>
+
+<p class="versos"><em>Alma prestante, onde reside e impera<br>
+O Genio da Amizade,<br>
+Que a luminosa esfera<br>
+Deixou, para acudir humanidade,<br>
+Sumida em pesadumes e agonias,<br>
+Em feia escuridade!<br>
+Alma onde o typo eterno no se encobre,<br>
+E que, n'estes d'egoismo ferreos dias,<br>
+O instante de ser util s vigias,<br>
+Sincera, affavel, nobre!<br>
+Acceita, em oblao a ti votado,<br>
+Ancioso de agradar-te, este traslado.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;">Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><em>O TRADUCTOR,</em></h2>
+
+<p>Para perpetuar a gloria do sublime poeta que tanto enriqueceo a sua patria e
+o mundo literario com o preciosissimo cabedal de suas produces, bastaria esta
+de que emprehendemos e agora publicamos a traduco. Sciencia dos tempos e dos
+costumes, vasta erudio, profundo conhecimento do homem, variedade e
+magnificncia de quadros, fecunda elevao de pensamentos, lustre e vigor de
+poesia, sobresahindo por effeito da mais acertada e judiciosa distribuio, eis
+os titulos com que se engrandece este poema, onde lord Byron no houve mister
+longo espao para mostrar-se, immortal.</p>
+
+<p>No raro tecerem os traductores sobejo encomio ainda a mediocres
+originaes, quando com estes despendro vigilias e desvelos; mas nem por isso
+receamos que, elogiando a lord Byron, nos<span class="pn">{II}</span> accusem de encarecimento ou de
+leviandade: as suas obras ahi esto bem patentes, e a sua reputao j
+colossal.</p>
+
+<p>Todavia, notando a mui sincera affeio que consagramos a to estremado
+engenho, ninguem haja de persuadir-se que o avaliamos como isento de toda a
+mcula. Por certo que lord Byron era homem, e o fragil da humanidade
+transparece em algumas das suas produces, e s vezes procura brilhar em
+detrimento daquella gentil gravidade que mui bem assenta nas Musas, e sem a
+qual desmentem ellas a sua origem celeste; mas de semelhante desar campea livre
+o poema que apresentamos traduzido.&mdash;S de passagem mencionaremos um
+descomedido orgulho nacional<a name="L4251" id="L4251"
+href="#L4257"><sup>[1]</sup></a>,<span class="pn">{III}</span> um amor
+liberdade, que por vezes degenera em fanatismo: estes sentimentos os bebeo o
+poeta com o primeiro alimento de sua infncia, e, quando concentrados em justo
+limite, so nobres, e longe estamos de crimin-los.</p>
+
+<p>No menos que lord Byron admiramos os grandes capites Gregos e Romanos;
+tambem nas escolas estudamos e traduzimos Nepote, Tacito, Tito-Livio, &amp;c.
+Todavia os heres n'essas historias memorados vivero em tempos mui diversos
+dos nossos, e diversissima foi a sua educao fisica e moral: por tanto o joven
+enthusiasta hodierno que ambiciona a todo o custo igual-los, arrisca-se a
+cometter mil despropositos, e mesmo a ser victima inutil de suas desattentadas
+proezas. Para morrer com gloria no desfiladeiro de Thermpylas, cumpre,<span
+class="pn">{IV}</span> alm de haver sido educado em Esparta, ter frente um
+Leonidas. A prudencia de Fabio transtornou os planos de Annibal e salvou Roma,
+conseguindo aquillo mesmo que fra denegado s fastuosas e arrogantes ousadias
+de Sempronio e de Flaminio. Do sacrificio de Curcio, despenhando-se armado e
+com seu proprio cavallo no boqueiro aberto por um terremoto em certa praa de
+Roma, que proveito recolhro os concidados, a patria, ou a especie humana?
+Curcio era pois um esquentado enthusiasta, ou antes um orate rematado.
+indubitavel que a cega ambio de figurar com heroismo Grego ou Romano,
+associada ao sofrego ardor no sei de que liberdade turbulenta, insidiosa,
+desmoralisadora, e de mais pernicioso effeito que qualquer desmascarada
+tyrannia, tem excandescido bom numero de cabeas e avultou de sobejo na mui
+abalisada revoluo<span class="pn">{V}</span> de Frana, que ainda hoje em
+sangrentas paginas aterra a humanidade.&mdash;Talvez o amor que sempre tributamos
+verdade nos levou em demasia longe; mas como quer que seja, no cessaremos de
+confessar que o sublimado engenho de lord Byron nos penetra de admirao, e
+deixa, ao menos em nosso alvitre, o homem justificado pelo poeta.</p>
+
+<p>Quanto nossa traduco, sobre diligenciarmos que portugueza fosse, pozemos
+todo o cuidado em exprimir com clareza os pensamentos do poeta, bem como em no
+deteriorar-lhes a nativa gala, que antes nos parece mais pomposa n'este nosso
+fertil e sonoro idioma: entretanto no por nossa conta que deve correr a
+cabal deciso na materia, mas sim por conta de mais competentes juizes, que,
+versados nas duas linguas, queiro dar-se ao trabalho de cotejar o original com
+a verso.</p>
+
+<p>Entre os nossos traductores<span class="pn">{VI}</span> poetas, alguns houve
+que gemro sob a ferrenha tarefa de traduzir tragedias e longos poemas verso
+por verso; mas que resultou de tanta diligencia? o substituirem, pela maior
+parte, a versos fluentes e vigorosos uma enfiada de semsaborias, de durezas, de
+enigmas, onde a graa e louania dos originaes degenera em rugosa e desalinhada
+velhice. No negamos que isso tenha cabimento e deva adoptar-se quando nenhum
+inconveniente o estorva; porm o verter affincadamente poemas inteiros verso
+por verso, uma curiosidade que em muitos casos empece nobre franqueza do
+estilo, suavidade do metro, e ao effeito geral dos quadros poeticos. Estamos
+persuadidos de que deve o traductor de um poema ser sempre fiel quantidade
+das idas, no assim quantidade dos versos: tal foi o nosso systema de
+traduco no <em>Crco de Corintho</em>.<span class="pn">{VII}</span></p>
+
+<p>Ardua e mui ardua emprsa traduzir poetas; bem o sabemos e experimentamos.
+Se todavia para traduzir lord Byron de nada mais se carecesse que de estar
+profundamente penetrado das extraordinarias e sublimes bellezas com que este
+filho da immortalidade abrilhantou suas obras, ento nos lisonjeariamos de
+apresentar a nossos leitores uma copia digna do original, e preciosa para
+elles.<span class="pn">{VIII}</span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="L4257" id="L4257" href="#L4251"><sup>[1]</sup></a> Este orgulho se
+deixa ver bem claro no <em>Childe Harold's Pilgrimage</em>, cant. I. est. 16,
+onde, entre outros motejos com que o poeta pertende aviltar os Portuguezes,
+tambem lhes exprobra o serem</p>
+
+<p class="versos"><em>A nation swoln with ignorance and pride.</em><br>
+Nao inflada d'ignorancia e orgulho.</p>
+
+<p>Querer isto dizer que a Inglaterra um paiz todo cheio de sabios, e onde o
+orgulho morre de frio, por falta de quem o aquartele?</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{1}</span></p>
+
+<p style="text-align:center;">O CERCO</p>
+
+<p style="text-align:center;">DE</p>
+
+<p style="text-align:center;">CORINTHO.</p>
+
+<blockquote>
+
+<h4>I.</h4>
+
+<p class="versos">Longo trilho de seculos exhaustos,<br>
+Rijas tormentas, bellicos furores,<br>
+Infestro Corintho: ella entretanto<br>
+Persiste em p, e no alteroso alcar<br>
+Nova conquista Liberdade off'rece.<br>
+Nem bramir de tufes, nem terremotos<br>
+O alvejante penhasco lhe abalro,<br>
+Esse lageoso assento, que, em despeito<br>
+Da decadencia sua, inda parece<br>
+No sem orgulho contemplar seu cimo;<br>
+Esse padro demarcador erguido<br>
+Entre os dous mares, que d'um lado e d'outro<br>
+Lhe esto rolando purpurinas ondas,<br>
+Que sempre a forcejar por se reunirem,<br>
+O acato sempre, e vem morrer-lhe s plantas.<span class="pn">{2}</span><br>
+Se o sangue n'estes sitios derramado<br>
+Desde que n'elles o fraterno sangue<br>
+Timolon vertra, ou desde quando<br>
+Pelo aviltado despota da Persia<br>
+Abandonados foro, borbulhasse<br>
+Da terra que o bebeo no morticinio,<br>
+Este sangrento oceano sepultra<br>
+Sob os tremendos escarcos todo o isthmo:<br>
+Ou se podessem amontoar-se os ossos<br>
+Dos que alli perecro, surgiria<br>
+Por entre aquelles ceos abrilhantados<br>
+A colossal pyramide espantosa,<br>
+Dando rival Acrpolis, que as nuvens<br>
+Se v roar co'a torreada fronte.</p>
+
+<h4>II.</h4>
+
+<p class="versos">Eis lanas vinte mil sobre as espaduas<br>
+Do nebuloso Cithern fulguro;<br>
+E em toda a planta do isthmo, sobre as duas<br>
+Oppostas praias que o ladeo amplas,<br>
+Se eleva o pavilho, brilha o Crescente<br>
+Nas federadas linhas Musulmanas;<br>
+E o tisnado Spah desfila em bandos<br>
+ vista dos Bachs amplo-barbados;<br>
+E os olhos podem ver ao longo e ao largo<br>
+As cohortes cingidas do turbante,<br>
+Que o promontorio alastro, enxameo:<br>
+L se ajoelho do Arabe os camelos,<br>
+Do Tartaro os ginetes la volteo;<br>
+<a name="Dando" id="Dando" href="#II.--">Dando de mo grei, o Turcomano<br>
+Prestes unio ao lado a cimitarra.</a><span class="pn">{3}</span><br>
+Dos bellicos troves crebro rebombo<br>
+T faz emmudecer, de susto, os mares,<br>
+Profunda-se a trincheira, e muito longe<br>
+Silvando va no pelouro a morte;<br>
+Sob o peso da bomba assoladora,<br>
+Solto-se em pulverento remoinho<br>
+Os da muralha esboroados lanos;<br>
+E, do recinto d'ella, eis o inimigo<br>
+s do Infiel intimaes responde<br>
+Com manejo expedito, e fogos destros.<br>
+Que vo cruzando os empoeirados plainos,<br>
+E os ares que anuvia o fumo em rlos.</p>
+
+<h4>III.</h4>
+
+<p class="versos">Das muralhas porm o mais visinho<br>
+Entre os que punho peito e mos empresa<br>
+De as converter em ruina, o mais profundo<br>
+Que nenhum dos da prole Musulmana<br>
+Nas da guerra artes ttricas, e altivo<br>
+Qual nunca o foi assignalado chefe<br>
+Colhendo louros em sangrentas lides;<br>
+O que voando audaz de posto a posto,<br>
+D'um feito a maior feito, se avantaja<br>
+Em destro esporear corsel fumante,<br>
+Em surdir mais veloz onde arde o p'rigo,<br>
+Cada vez que ha sortidas ou assaltos;<br>
+E quando a bateria, em mos valentes,<br>
+Resiste inexpugnavel, ento mesmo<br>
+Com exultante aspecto desmontando<br>
+A dar alento, na refrega, aos tibios;<br>
+O mais abalisado e o mais recente<span class="pn">{4}</span><br>
+Da hoste que lucrou n'estas paragens<br>
+Ao sulto de Stamboul renome egregio;<br>
+O guia incomparavel em campanhas,<br>
+Ou solerte assestando o ferreo tubo,<br>
+Ou manejando a temerosa lana,<br>
+Ou tufo que rebenta onde ha conflictos,&mdash;<br>
+ Alp, o Veneziano renegado!</p>
+
+<h4>IV.</h4>
+
+<p class="versos">O renegado de Veneza!&mdash;ah! elle<br>
+De vetusta linhagem primorosa<br>
+Teve o seu nascimento: todavia,<br>
+Desterrado a final do patrio ninho,<br>
+Contra os concidados tomou as armas,<br>
+Em que por elles adestrado fra;<br>
+E orna-lhe a fronte rasa hoje o turbante.<br>
+Depois d'eventuaes destinos varios,<br>
+Sob a lei que Veneza lhe dictra<br>
+Se acolheo, como a Grecia, ento Corintho;<br>
+E ei-lo que ante seus muros se apresenta,<br>
+Inimigo entre os feros inimigos<br>
+Da Grecia e de Veneza, e trasbordando<br>
+De resentido ardor, qual excandesce<br>
+Ao joven convertido a alma orgulhosa,<br>
+Onde duestos mil accumulados<br>
+Esto sempre em tumulto, e eternos vivem.<br>
+Nem por isso com elle quiz Veneza<br>
+Desempenhar o civico appellido<br>
+Em que firmava o seu brazo = <small>A LIVRE</small>; =<br>
+E de So Marcos no palacio excelso,<br>
+Delatores incognitos lanro<span class="pn">{5}</span><br>
+Na <em>Boca do Leo</em>, durante a noite.<br>
+Denuncia atroz de requintados crimes,<br>
+Que o cobrio de macula indelvel:<br>
+Salvou seus dias pressurosa fuga.<br>
+Desde esse lance despendia a vida<br>
+No meio dos combates, demostrando<br>
+Bem claro patria o que perdeo no alumno<br>
+Que contra a Cruz, j supplantada, erguia<br>
+O soberbo Crescente, e, guerreando,<br>
+S vingar-se ou morrer buscava ancioso.</p>
+
+<h4>V.</h4>
+
+<p class="versos"><a name="Coumourgi" id="Coumourgi"
+href="#V.--">Coumourgi</a>&mdash;aquelle que impz termo aos feitos,<br>
+O ultimo perecendo, e o mais pujante,<br>
+L nos de Carlowitz sangrentos plainos,<br>
+Sem magoa de morrer, porm, raivoso,<br>
+Dos Christos maldizendo inclitos louros,<br>
+E d'Eugenio adornando o gro triunfo;<br>
+Coumourgi&mdash;e por ventura a gloria d'este<br>
+Conquistador da Grecia derradeiro<br>
+Poder perecer, seno surgindo<br>
+Brao Christo que restitua Grecia<br>
+Sequer os fros que gozou outr'ora<br>
+Por Veneza outorgados? Elle vinha,<br>
+J depois de volvidos lustros vinte,<br>
+Reintegrar a Othomana prepotencia;<br>
+E, os veteranos seus pospondo agora,<br>
+Para mandar do exercito a vanguarda<br>
+Alp escolheo, que a confidencia summa,<br>
+Arrazando cidades, lhe pagava,<span class="pn">{6}</span><br>
+E mostrando em faanhas destructoras<br>
+O seu zeloso affrro nova crena.</p>
+
+<h4>VI.</h4>
+
+<p class="versos">A muralha enfraquece: de continuo<br>
+As Turcas baterias lhe varejo<br>
+O parapeito e ameias; restrugindo,<br>
+Sahe de cada canho a voz do raio:<br>
+Aqui flammeja, ao rebentar da bomba,<br>
+Crepitante zimborio; alm baquea<br>
+Este, est'outro edificio derrocado,<br>
+Sob o espesso granizo d'estilhaos,<br>
+Que em lufadas volcanicas recresce:<br>
+Vai resfolgando em rbidas columnas<br>
+Voraz incendio, que to alto sobe,<br>
+Como sobe o fragor da ruina ingente,<br>
+Ou solta-se em terrestres meteoros<br>
+Que vo no ceo esvaecer-se infindos:<br>
+Mais nebuloso, mais impervio o dia<br>
+Se torna luz do sol, co'a mole opaca<br>
+Do fumo alado em tortuosos rlos,<br>
+Que d'enxofrado horror a esfera enluto.</p>
+
+<h4>VII.</h4>
+
+<p class="versos">Nem smente ardor cego de vingana,<br>
+Que a longa dilao fez mais ferino,<br>
+Esporera esse Alp apostatado<br>
+ adestrar os guerreiros Mahomtas<br>
+N'arte de abrir a promettida brecha.<span class="pn">{7}</span><br>
+D'aquelles muros no recinto havia<br>
+Uma donzella, cuja mo formosa<br>
+Elle obter pertendia apesar mesmo<br>
+Do inexoravel pai, que, furibundo,<br>
+Aos rogos lha negou, quando Alp outr'ora,<br>
+Chamando-se Lanciotto, o bafejavo<br>
+Tempos melhores, mais propicios fados;<br>
+E sem nota e sem crime de perfidia,<br>
+Aos palacios, s gndolas levando<br>
+Alegria vivaz, se assignalava<br>
+Nos Carnavaes, ou resoar fazendo<br>
+Sobre aguas do Adria esses descantes meigos<br>
+Que alvoroadas de prazer escuto<br>
+ meia-noite as Italas donzellas.</p>
+
+<h4>VIII.</h4>
+
+<p class="versos">Que do seu corao j possessora<br>
+No fosse a virgem, suspeitavo muitos;<br>
+No em tanto d'infinitos requestada,<br>
+E a nenhum acolhendo, persistia<br>
+De todo o lao conjugal isenta<br>
+A juvenil Francina: e desde o instante<br>
+Em que das Adriaticas paragens<br>
+Se retirou Lanciotto a pagos climas,<br>
+O sorriso expirou nos labios d'ella;<br>
+Meditabunda e pallida tornou-se;<br>
+Confisses amiudava, e j no era<br>
+To vista em mascaradas e assembleas;<br>
+Ou, se l ia, os olhos seus descidos<br>
+Avassalavo, n'um volver furtivo,<br>
+Mil coraes de balde suspirosos:<span class="pn">{8}</span><br>
+Nenhum objecto contemplava attenta;<br>
+No punha em atavios tanto apuro,<br>
+Nem j to terno desprendia o canto;<br>
+Seus passos, bem que leves, o ero menos<br>
+Que os dos parceiros seus, a quem na dana<br>
+Colhia absortos o raiar d'aurora.</p>
+
+<h4>IX.</h4>
+
+<p class="versos">D'um slo aos Musulmanos arrancado,<br>
+Quando a soberba lhes calcou Sobieski<br>
+Ante os muros de Buda, s margens do Istro;<br>
+D'um slo que depois Veneza altiva<br>
+Empolgou com violencia desde Patras<br>
+T a Euboica enseada, o regimento,<br>
+Por ordem sup'rior, tomou Minotti;<br>
+E de Corintho na torreada estancia<br>
+J elle era do Doge o delegado,<br>
+Quando os olhos da Paz fagueiros, pios,<br>
+Depois da larga ausencia, confortavo<br>
+C'um sorriso dos seus a Grecia sua,<br>
+Inda no rto esse armisticio trdo<br>
+Que ao jugo anti-Christo a subtrahia.<br>
+Entrou Minotti alli co'a filha amavel;<br>
+E desde o tempo em que a formosa Helena,<br>
+Deixando o esposo e a patria, fez ver quantos<br>
+D'um illicito amor desastres broto,<br>
+Nunca estas praias adornou belleza<br>
+Digna de comparar-se da estrangeira.</p>
+
+<h4>X.</h4>
+
+<p class="versos">Em crebros boqueires abre-se o muro;<span
+class="pn">{9}</span><br>
+E sobre as ruinas da alluida mole<br>
+Vai, primeira luz, desenvolver-se<br>
+Assalto mais que todos formidando.<br>
+Tropas enfileiraro-se; escolhidos<br>
+Foro para formar toda a vanguarda<br>
+Tartaros e Othomanos; e vs outros,<br>
+Flor dos guerreiros, a quem foi sem causa<br>
+Imposto o sobrenome de <em>perdidos</em>,<br>
+E para quem a morte e riso, jgo;<br>
+Vs, que co'alfange em punho abris caminho,<br>
+Ou de vossos cadaveres juncando<br>
+A que o brao rompeo vereda honrosa,<br>
+Sois marmoreo degro, por onde affoutos<br>
+Os socios trepo,&mdash;morrereis mais tarde!</p>
+
+<h4>XI.</h4>
+
+<p class="versos"> meia-noite: a fria lua ostenta<br>
+O disco inteiro, e amplo fulgor diffunde<br>
+A contrastar co'a sombra das montanhas;<br>
+Traja d'azul o mar, d'azul se veste<br>
+O firmamento, este suspenso oceano,<br>
+Todo cravado d'ilhas que refulgem<br>
+L to remotas, com ardor to vivo:<br>
+E quem, quem pde attento contempl-las,<br>
+E repascer depois os olhos tristes<br>
+No valle dos mortaes, sem que apetea<br>
+Voar e unir-se para sempre a ellas?<br>
+Dormem as ondas, n'uma praia e n'outra,<br>
+Placidas e ceruleas como os ares;<br>
+S de leve as areas roa a espuma,<span class="pn">{10}</span><br>
+Com murmurinho igual ao d'um regato.<br>
+Os ventos se recosto sobre as ondas;<br>
+E das hastes ao longo quietas pendem,<br>
+Em pregas conchegando-se, as bandeiras,<br>
+Que remata arci-flgido Crescente.<br>
+Nada interrompe esta mudez profunda,<br>
+Seno alm a voz da sentinella<br>
+Reproduzindo a senha, ou l mais longe<br>
+Relincho de corseis agudo e crebro,<br>
+Ou cos que respondem dos outeiros,<br>
+Ou da hoste bravia o rumor vasto,<br>
+Que semelhante ao de agitadas folhas<br>
+Alongando-se vai de praia a praia,<br>
+Ou preces usuaes que meia-noite<br>
+Levanta o Muezzin, rasgando os ares<br>
+Co'a lamentosa garganteada la,<br>
+Qual 'spirito que vaga na planicie:<br>
+Meldicos accentos, mas prantivos,<br>
+Quaes os produz o vento, que, passando,<br>
+Encontra as cordas de sonoras harpas,<br>
+E extrahe descompassadas harmonias,<br>
+Que no conhece o menestrel mundano.<br>
+Este som se affigura aos sitiados<br>
+Grito agoureiro da infallivel queda;<br>
+Elle fere no ouvido aos sitiadores<br>
+Como indicio aziago e pavoroso,<br>
+Repentina toada indefinivel,<br>
+Que os coraes lhes paralisa agora,<br>
+E logo os faz pulsar mui apressados,<br>
+Co'a vergonha de haver surdido n'elles<br>
+To desusada sensao furtiva:<span class="pn">{11}</span><br>
+Dest'arte o sino apregoador da morte<br>
+Nos sobresalta de repente ouvido,<br>
+Inda que seja em funeral d'estranhos.</p>
+
+<h4>XII.</h4>
+
+<p class="versos">Calou-se o som, a rogativa finda;<br>
+As sentinellas em seus postos velo;<br>
+Foi a nocturna ronda percorrida,<br>
+E em tudo as ordens satisfeitas todas.<br>
+Tem Alp o seu tentorio sobre a praia,<br>
+E em ancias vai curtir inda esta noite;<br>
+Mas bem pde a manh suavis-las,<br>
+Na fruio das vantagens to copiosas<br>
+Com que o amor e a vingana ho de reunidos<br>
+Demora indemnisar to prolongada.<br>
+Horas poucas lhe resto, e carece<br>
+De repousar, por que expedito esteja<br>
+s proezas da crstina matana:<br>
+Mas baralhados, quaes estuantes vagas,<br>
+Os pensamentos lhe relucto n'alma.<br>
+Sem repouso e s elle em todo o campo;<br>
+Nem sente o corao entumecer-lhe<br>
+Fanatica vangloria blasonante<br>
+De ver pelo Crescente a Cruz calcada,<br>
+Ou de vender seus dias mui baratos,<br>
+Seguro de gozar no paraiso<br>
+O sempiterno amor das Houris bellas;<br>
+Nem se sente abrazar d'aquelle austero<br>
+Patriotico ardor que de bom grado<br>
+Supporta rduas fadigas, verte o sangue.<span class="pn">{12}</span><br>
+Quando peleja sobre o cho nativo,<br>
+Elle no era mais&mdash;que um renegado.<br>
+Ora verdugo da trahida patria;<br>
+Elle no era mais que um peito forte,<br>
+Um brao acreditado entre o seu bando.<br>
+Seguio-no, por que era valeroso,<br>
+E j lhes grangera espolio grande;<br>
+Davo-lhe acatamento, por ver quanto<br>
+Elle sabia captivar do vulgo<br>
+As vontades, e arteiro dispr d'ellas:<br>
+Mas nem por isso lhe entejavo menos<br>
+O Christo nascimento: inveja influe-lhes<br>
+A propria fama atreioadora que elle<br>
+Ganhra sob um nome Musulmano:<br>
+De qualquer modo, esse esforado chefe<br>
+Vil Nazareno foi na juventude.<br>
+No lhes era sabido t que ponto<br>
+ capaz de curvar-se o orgulho, quando<br>
+Murcho e aviltado o pundonor baquea;<br>
+No lhes era sabido quo violenta<br>
+Chamma voraz em coraes se accende<br>
+Que de meigos tornaro-se bravios;<br>
+Ignoravo qual zlo de vinganas<br>
+Refalsado e fatal se gera e cresce<br>
+D'um convertido n'alma. Elle os regia:<br>
+Pde um homem reger outros peores,<br>
+E de ser o primeiro gloriar-se.<br>
+Taes os lees sobre o jakal domino:<br>
+Destro o jakal espia e abate a prsa;<br>
+Mas, no aperto da rugidora turba,<br>
+Da-se por pago, se devora os restos.<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<h4>XIII.</h4>
+
+<p class="versos">A cabea lhe ferve, e apressuradas<br>
+As arterias palpito-lhe convulsas;<br>
+D'um lado e d'outro volta-se, baldando<br>
+Modos de repousar; e se dormita,<br>
+O som mais leve, o mais pequeno abalo<br>
+Prestes o acordo angustiado em dbro.<br>
+A fronte excandescida lhe molesta<br>
+Hoje o turbante, e, nem que plumbea fosse,<br>
+A loriga lhe pesa sobre o peito,<br>
+Se bem que tanta vez, e a somno solto,<br>
+Sob esse mesmo pso repousasse,<br>
+Tendo apenas por leito um cho saibroso,<br>
+E por docel o firmamento apenas,<br>
+Leito e docel quaes ao guerreiro a noite<br>
+Agora os deparou. Elle nem pde<br>
+No seu tentorio adormecer, nem quieto<br>
+Esperar que desponte a luz diurna,<br>
+E eis vaga ao longo da arenosa praia,<br>
+Alastrada de tantos que repouso.<br>
+Quem os acalentou? e por que causa<br>
+Ha de elle s velar, despossuido<br>
+D'um bem que logro rasos subalternos,<br>
+A quem cabe arrostar maiores p'rigos,<br>
+E lidas superar mais affanosas?<br>
+Mas ah! que um sonho animador lhes pinta<br>
+Os lucros todos do futuro espolio;<br>
+E em quanto mil e mil passo dormindo<br>
+Esta que a noite extrema talvez d'elles,<br>
+Alp, em vigilia atroz, vaguea anciado,<span class="pn">{14}</span><br>
+E lhe alvo d'invejas quanto encontra.</p>
+
+<h4>XIV.</h4>
+
+<p class="versos">Vai na aprazivel fresquido da noite<br>
+Achando refrigerio s ancias d'alma.<br>
+Relentoso ora o ceo, bem que tranquillo,<br>
+As affogueadas faces lhe aspergia<br>
+Com brando orvalho. Apz lhe fica o campo;<br>
+De fronte lhe serpea, derramado<br>
+Em crebros surgidouros e enseadas,<br>
+O golfo de Lepanto; est-lhe vista<br>
+A de Delphos montanha sempiterna,<br>
+Onde os glos accrescem, brilho, duro,<br>
+De mil estios affrontando a ardencia,<br>
+Campeando no golfo, e serro, e clima,<br>
+Sem que os dissolva, como a ns, o Tempo.<br>
+Desapparecem o tyranno e o servo,<br>
+Improprios a aguantar fulgente raio;<br>
+Mas este vo deslumbrador e fragil,<br>
+De que vs envolvido o monte excelso,<br>
+Quando torres baqueo, jazem troncos,<br>
+L brilha sempre no empinado alcar;<br>
+Pileo na frma, nuvem no elevado,<br>
+Na cr e na amplido lanol funereo,<br>
+Erguido a designar que a Liberdade<br>
+Se ausentou da mimosa estancia sua,<br>
+E hoje languida jaz no mesmo slo,<br>
+Onde foi largos tempos escutado<br>
+Seu profetico ardor em aureos versos.<br>
+Oh! que de quando em quando inda l so<span class="pn">{15}</span><br>
+Os passos seus sobre arescentes campos,<br>
+Sobre tantos altares demolidos;<br>
+E ella, um a um mostrando aquelles restos<br>
+Abonadores da passada gloria,<br>
+Alentar busca os animos prostrados:<br>
+Porm de balde bradar, em quanto<br>
+No despontar n'um corao preclaro<br>
+Destimidez possante, toda accesa<br>
+Ao claro d'esses dias que luzro<br>
+Sobre a fuga do Persa, e que risonhos<br>
+O intrito arrostro do Espartano.</p>
+
+<h4>XV.</h4>
+
+<p class="versos">Inda que fugitivo e criminoso,<br>
+Alp admirava as inclitas virtudes<br>
+D'esses tempos heroicos; e esta noite,<br>
+Em quanto vagueava, e na memoria<br>
+O presente e o passado revolvia,<br>
+Apreciando as mortes gloriosas<br>
+Dos que em defensa da genuina causa<br>
+Seu sangue alli vertro, mui bem sente<br>
+A que ponto fallaz, mesquinha, obscura<br>
+Quanta fama lucrou d'um bando frente,<br>
+E, nefario traidor, brandindo a espada<br>
+Entre as turmas cingidas do turbante,<br>
+Que raivoso guira a injusto assedio.<br>
+Onde era em cada prospero successo<br>
+No menos computado um sacrilegio.<br>
+Taes no lhe mostra a fantasia os chefes,<br>
+Por quem aquelle p que o circumdava<span class="pn">{16}</span><br>
+Fra illustrado, e que as phalanges suas<br>
+Perfilavo no plaino, no de balde<br>
+Ento de baluartes guarnecido.<br>
+Estes morrro escudando a patria,<br>
+E eternos vivem no fulgor da gloria:<br>
+Suspirar-lhes alli os nomes gratos<br>
+Inda parece a brisa; alli seus feitos<br>
+So no murmurinho das correntes;<br>
+Pova seu renome aquelles campos;<br>
+O pilar taciturno, ermo, alvacento,<br>
+Demanda aos sacros vultos alliar-se;<br>
+Os espiritos seus em trno giro<br>
+Dos fuscos serros; a memoria sua<br>
+Toda se espelha no cristal das fontes;<br>
+O arroio humilde, o caudaloso rio<br>
+Perennes fluem co'a perenne fama<br>
+Dos estremados campees sublimes.<br>
+Por mais que a opprima um jugo, esta sempre<br>
+A patria d'elles, e a manso da gloria!<br>
+A Grecia!&mdash;ha de levar sempre este nome<br>
+Um som despertador ao Mundo inteiro.<br>
+Varo que aspira a perpetrar faanhas,<br>
+L pem na Grecia o fito, e abjura as normas<br>
+Que smente os tyrannos sanccionro;<br>
+Para l olha, e se arremessa aonde<br>
+Conquiste a Liberdade, ou deixe a vida.</p>
+
+<h4>XVI.</h4>
+
+<p class="versos">Sempre assim meditando silencioso,<br>
+Alp ao longo da praia os passos move,<span class="pn">{17}</span><br>
+E com brando rocio a noite o ameiga.<br>
+<a name="Coarctados" id="Coarctados" href="#XVI.--">Coarctados e sem sto,
+aquelles mares<br>
+Em moto igual ondeo sempiternos,</a><br>
+E a vaga que possuem mais furiosa<br>
+Nem um quarto de geira ao slo invade;<br>
+E ou se mostre, ou se esconda, ou mude as phases,<br>
+No tem sobre elles influencia a lua:<br>
+Mansos, tumentes, no alto, na enseada,<br>
+Do dominio lunar se movem francos.<br>
+O escolho immovel, descobrindo a base,<br>
+Olha ao largo, e de balde espera as ondas:<br>
+Pde ver-se a que o cinge espumea linha,<br>
+Que em baixo lhe traou a mo dos vos.<br>
+Um pequeno areal loureja plaino<br>
+Entre o salgado leito e o cho relvoso.<br>
+Pela marina margem vagabundo,<br>
+Eis Alp assoma dos sitiados muros<br>
+Desviado no mais que quanto alcana<br>
+Um tiro de clavina. Como crivel<br>
+Que alli no fosse visto, ou que evitasse<br>
+O golpe hostil? Entre os Christos acaso<br>
+Remanecem traidores encobertos?<br>
+Qual torpor lhes vincula as mos agora?<br>
+Qual glo os coraes lhes paralisa?<br>
+Tal brandura elle estranha; mas certo<br>
+Que de nenhum dos lanos l do muro<br>
+Escorva reluzio, sibilou bala,<br>
+Se bem que to de baixo agora avulte<br>
+Dos basties minaces que flanqueo<br>
+Essa porta, resguardo da cidade<br>
+Pela banda do mar; se bem que possa<span class="pn">{18}</span><br>
+Quasi as palavras distinguir ferrenhas,<br>
+E os passos numerar da sentinella,<br>
+Que so, indo e vindo compassados,<br>
+Pela extenso da sotoposta lagem.<br>
+Nem os ces, de occupados, lhe latro!<br>
+E, magros e famlicos rosnando,<br>
+Os v sob a muralha dar-se ao bdo<br>
+De sangrentos cadaveres e ossadas:<br>
+<a name="Ei-los" id="Ei-los" href="#Ibi--">Ei-los que esto da pelle
+despojando<br>
+Nest'hora um craneo Tartaro</a>, bem como<br>
+Ns despojamos o recente figo;<br>
+E alvejantes lhes rangem os colmilhos<br>
+Sobre a caveira que inda mais alveja,<br>
+E que dos queixos lhes resvala, quando<br>
+Embotados os deixa o roer crebro;<br>
+Mas vo moendo de vagar os ossos,<br>
+Se um acaso permitte que no achem<br>
+Sobre aquelle torro melhor sustento.<br>
+Seu antigo jejum quebrou-se larga<br>
+Nos guerreiros que alli perdendo a vida,<br>
+Lhes so manjar em refeio nocturna.<br>
+Pelos turbantes sobre a ara esparsos,<br>
+Alp a flor do seu bando reconhece;<br>
+Bem nota o verde, o carmesim das telas<br>
+Com que cingio por costume a fronte;<br>
+<a name="cada" id="cada" href="#Ibi--1">E cada pericraneo off'rece a esguia<br>
+Madeixa longa</a>, e no demais raso.<br>
+Os pericraneos jazem na guela<br>
+Feroz dos ces, ao passo que a madeixa<br>
+Se lhes enreda em volta das queixadas.<br>
+L se v mais alm, do golfo orla,<span class="pn">{19}</span><br>
+Sofrego abutre contender c'um lobo,<br>
+Que, das montanhas a prear baixando,<br>
+Era alli solitario, e no ousava,<br>
+Dos ces espavorido, tomar parte<br>
+No amplo repasto das humanas carnes;<br>
+Mas engole a rao que lhe coubera<br>
+D'um corsel debicado j das aves,<br>
+Que da enseada no areal jazia.</p>
+
+<h4>XVII.</h4>
+
+<p class="versos">De to feio espectaculo insoffrivel<br>
+Arreda os olhos Alp: elle em conflictos<br>
+O que era estremecer no soube nunca;<br>
+Porm no to arduo, to penoso<br>
+Olhar ao que estendido se revolve<br>
+Do proprio sangue em fumegante lago,<br>
+E arqueja entregue insaturavel sde<br>
+E ao vasquejar da morte, quanto v-lo<br>
+Depois que pereceo, e s cadaver.<br>
+No momento fatal, um certo orgulho<br>
+Se desenvolve n'alma do soldado,<br>
+Lhe adoa o fim cruento: se fenece,<br>
+Espera reviver na voz da Fama,<br>
+Ficar bemquisto Honra, que tem sempre<br>
+Os olhos fitos no que morre affouto!<br>
+Mas quando em fim s'esvaeceo tudo isto,<br>
+Bem misero se sente quem percorre<br>
+Campo alastrado d'insepultos mortos.<br>
+Ao ver como da terra surde o verme,<br>
+Deixa o bruto as florestas, a ave desce,<span class="pn">{20}</span><br>
+E alli affluem, demandando no homem<br>
+Todos quinhoar prsa, e achando todos<br>
+O lucro seu na decadencia d'elle.</p>
+
+<h4>XVIII.</h4>
+
+<p class="versos">Alli se via derrocado templo:<br>
+So cinza e longo olvido as mos que o erguro.<br>
+Inda algumas columnas, e dispersos<br>
+De marmore e granito mil fragmentos<br>
+O slo opprimem, recobertos d'herva.<br>
+Inexoravel Tempo! e nunca inteiras<br>
+Deixars ao porvir obras passadas!<br>
+Inexoravel Tempo! e has de tu sempre<br>
+Querer que do passado fique apenas<br>
+Aquillo que o presente affligir deve;<br>
+E assim fazer-nos dolorosa a imagem<br>
+Do que j foi, do que ha de ser um dia!<br>
+Bem como ns, vero nossos vindouros,<br>
+Em reliquias d'antigos monumentos,<br>
+S pedras que exalou o homem de barro!</p>
+
+<h4>XIX.</h4>
+
+<p class="versos">Ao p d'uma columna Alp eis se assenta:<br>
+Co'a mo comprime a face, e o corpo inclina<br>
+Como quem se resente acabrunhado<br>
+D'aterradores pensamentos tetros;<br>
+A cabea descahe-lhe sobre o peito<br>
+Excandescido, palpitante, oppresso;<br>
+Giro-lhe pela fronte debruada<span class="pn">{21}</span><br>
+Os dedos velocissimos, bem como<br>
+Pelo eburneo teclado os dedos giro<br>
+De primoroso artista, que em preludios<br>
+Por ora se entretem, da esclha incerto.<br>
+Vergando assim ao pesadume infenso,<br>
+Cr que ouvio suspirar nocturna brisa.<br>
+Acaso em lagens concavas murmura<br>
+Gemido terno de macias auras?<br>
+Ergue ento a cabea, e o mar observa;&mdash;<br>
+Repousa o mar, qual cristalino espelho:<br>
+Contempla esguias hervas;&mdash;nada as move:<br>
+D'onde procederia o som mavioso?<br>
+Repara nas bandeiras;&mdash;quietos pendem<br>
+No alto do Cithern, quaes os deixra,<br>
+Inda os hasteados pannos; leve aragem<br>
+Nem sequer lhe roou a tz do rosto:<br>
+Qual do imprevisto murmurinho a causa?<br>
+Volve-se ao lado esquerdo:&mdash;ser isto<br>
+Illuso ou verdade? Ante seus olhos<br>
+Eis joven dama refulgente assoma!</p>
+
+<h4>XX.</h4>
+
+<p class="versos">Se Alp ento visse um inimigo armado<br>
+Surgir-lhe face a face, no se ergura<br>
+To abalado de profundo assombro.<br>
+"Deos de meus pais! que vejo? quem es? como<br>
+D'hosts fileiras te aproximas tanto?"<br>
+A mo tremente lhe recusa agora<br>
+Estampar sobre a fronte essa Cruz mesma<br>
+Que elle tanto insultou; mas n'este lance<span class="pn">{22}</span><br>
+Se persignra, se a consciencia sua<br>
+Lhe no fizesse ver quanto era indigno.<br>
+Repara, observa a fundo, e reconhece<br>
+O rosto bello, as engraadas frmas:<br>
+ Francina, essa virgem suspirada<br>
+Que elle a si pertendia unir consorte!<br>
+Inda nas faces lhe viceja a rosa,<br>
+Porm a rubra cr menos viva.<br>
+Que do attractivo d'esses labios meigos?<br>
+No mora n'elles o sorrir donoso<br>
+Que ao rubim dava esmalte. Inda em seus olhos<br>
+Reside o azul do socegado oceano;<br>
+Mas se no aspecto bonanoso o imito,<br>
+Tambm o imito na frieza immovel.<br>
+Talhe accuso gentil vestes ligeiras;<br>
+Nada lhe vela o seio luminoso;<br>
+Soltas d'ebano as tranas, ver no tolhem,<br>
+Por entre a chuva dos anneis ondeantes,<br>
+Nivea nudez dos torneados braos.<br>
+Levanta ao alto a mo antes que falle;<br>
+E de tal modo branca e transparente<br>
+Se mostrava essa mo, que poderieis<br>
+Ver por entre ella rutilar a lua.</p>
+
+<h4>XXI.</h4>
+
+<p class="versos">"O repouso deixei, a fim smente<br>
+De vir ao meu amado, e de faz-lo<br>
+Feliz commigo, e ser feliz com elle.<br>
+Por teu respeito entre inimigas turmas<br>
+Eis movo os passos, e transpuz a salvo<span class="pn">{23}</span><br>
+Muralhas, portas, sentinellas, tudo.<br>
+Uma joven donzella, em todo o brio<br>
+Da nativa pureza, ha quem affirme<br>
+Que dos proprios lees respeitada:<br>
+E o superno Poder que ao innocente<br>
+Escuda contra o despota dos bosques,<br>
+Se encarregou tambem de defender-me<br>
+Do insulto d'infieis confederados;<br>
+E vim:&mdash;se vim de balde, oh! v que nunca,<br>
+Nunca mais tornaremos a encontrar-nos!<br>
+Sei que, abjurando de teus pais a crena,<br>
+Es ro de crime hediondo; todavia<br>
+Lana por terra esse turbante, e imprime<br>
+Sobre a fronte o da Cruz signal divino,<br>
+E eu de ti folgue na perpetua posse.<br>
+Eia, o negro labo expelle d'alma;<br>
+E pois havemos manh de unir-nos,<br>
+No queiras para sempre separar-nos."</p>
+
+<p class="versos">"E ao tro nupcial onde acharemos<br>
+O apetecido espao? pde hav-lo<br>
+Entre montes de mortos e expirantes?<br>
+Os Christos, seus altares, quanto d'elles,<br>
+Ha de o ferro manh unido chamma<br>
+Tudo, tudo extinguir: nenhum mais deve,<br>
+Seno es tu e os teus, ver nova aurora;<br>
+Que eu assim o jurei. Mas ser-me-ha doce<br>
+A mais donosos sitios transportar-te,<br>
+Onde se enlacem mos, se olvidem mgoas,<br>
+Onde tu sejas a consorte minha,<br>
+Quando abatido de Veneza o orgulho<span class="pn">{24}</span><br>
+Eu j tiver; quando este brao, que ella<br>
+Quiz sumir na abjeco, deixe aoutados<br>
+Com viperino ltego os infames<br>
+Que accendeo contra mim o vicio e a inveja."</p>
+
+<p class="versos">Ella pousou a mo sobre a mo d'elle:<br>
+Foi leve o toque, mas varou-lhe prompto<br>
+As medullas dos ossos, e entranhou-lhe<br>
+Pelo imo corao glo indizivel,<br>
+Que nem d'estremecer lhe deixou posses;<br>
+E este frio mortal, de que se arguia,<br>
+Remov-lo de si em vo tentava.<br>
+Oh! nunca, nunca de to caro objecto<br>
+Partra movimento que viesse<br>
+Com tamanho terror gelar-lhe o sangue,<br>
+Qual n'esta noite o subitaneo toque<br>
+D'aquelles alvos dedos alongados.<br>
+Morreo-lhe em pallidez a effervescencia,<br>
+Ficou-lhe o corao, qual seixo, immovel,<br>
+Ao ver aquelle rosto, ai! to mudado<br>
+J de si proprio: bello, mas languente&mdash;<br>
+Sem vestigio nenhum d'incendios d'alma,<br>
+Que em cada feio d'elle se espelhavo,<br>
+Como um dia de sol se espelha n'agua.<br>
+Anhlito nenhum se unia s vozes<br>
+Que lhe escapavo dos immotos labios;<br>
+Do quieto corao nenhum palpite<br>
+Lhe sublevava o seio; nada havia<br>
+Que a rigida atteno interrompesse<br>
+D'aquelles olhos estacados, fixos.<br>
+Taes so os do somnambulo, que, em meio<span class="pn">{25}</span><br>
+D'anciados sonhos, deixa o leito e vaga;<br>
+Taes, na extenso de apainelados razes,<br>
+Baas figuras de minaz aspecto,<br>
+Se ao trmulo claro as contemplamos<br>
+D'expirante lucerna, desenvolvem<br>
+No sei qual mixto de animado e morto,<br>
+Com que parecem, aterrando a vista,<br>
+Ora avanar do tenebroso fundo,<br>
+Ora entranhar-se n'elle, em moto alterno,<br>
+Que a seu sabor lhes communica o vento.</p>
+
+<p class="versos">"Se por amor de mim tu crs que muito,<br>
+Por amor s do Ceo embora o faze:<br>
+Longe arremessa (inda outra vez to digo)<br>
+Da fronte criminosa esse turbante,<br>
+E me promette de no ser infesto<br>
+Aos filhos da insultada patria tua,<br>
+Ou es perdido, e despedir-te deves,<br>
+No j da Terra&mdash;esvaeceo-se a Terra&mdash;<br>
+Mas do Ceo e de mim, que te fui cara.<br>
+Eia, cede a meus rogos: v que abertas<br>
+Inda te espero da clemencia as portas;<br>
+E bem que contra ti grave sentena<br>
+Fosse j proferida, o rigor d'ella<br>
+Em grande parte expiar teu crime.<br>
+Pondera a fundo; e provocar no queiras<br>
+A maldio d'Aquelle que abjuraste.<br>
+Ao Ceo inda uma vez levanta os olhos,<br>
+V que a ti mesmo para sempre o fechas.<br>
+<a name="Essa" id="Essa" href="#XXI.--">Essa nuvem que esconde agora a lua,<br>
+L vai passando</a>, e passar de pressa:<span class="pn">{26}</span><br>
+Se, quando rebrilhar o disco inteiro<br>
+Desafrontado do vapor sombrio,<br>
+No revolveo a contrio teu peito,<br>
+Fico de ti vingados Deos e os homens:<br>
+Tremendo fim ters, e mais tremenda<br>
+Te espera a eternidade dos perversos."</p>
+
+<p class="versos">Alp ergue a vista ao Ceo, e reconhece<br>
+O indicado signal; porm o orgulho<br>
+Entumeceo-lhe o corao, e o rege<br>
+Com despotico imperio inabalavel;<br>
+E esta paixo fallaz que o predomina,<br>
+ torrente caudal que tudo alaga.<br>
+Elle implorar perdo! elle render-se<br>
+A impertinencias de mesquinha virgem!<br>
+Elle, offendido de Veneza ingrata,<br>
+Poupar-lhe os filhos, que votou morte!<br>
+No:&mdash;embora essa nuvem traga um raio,<br>
+Embora um raio o esmague:&mdash;e inda no tra?</p>
+
+<p class="versos">Sem que a minima voz dos labios solte,<br>
+Elle fitava ancioso aquella nuvem:<br>
+Attento a v passar; fugio de todo:<br>
+Em seu pleno fulgor se mostra a lua.<br>
+"Qualquer que seja o meu destino (exclama),<br>
+No tenho de mudar: agora tarde.<br>
+No meio da tormenta pde a canna<br>
+Dobrar-se e logo erguer-se, os troncos quebro.<br>
+Qual Veneza me fez, serei j'gora;<br>
+Seu implacavel inimigo em tudo,<br>
+Excepto na affeio que eu te consagro.<span class="pn">{27}</span><br>
+Tu pois es salva: oh! vem, meus passos segue."<br>
+Voltando-se, elle a busca; ella sumio-se:<br>
+S o antigo pilar lhe avulta ao lado.<br>
+Sorveo-a a terra, ou s'esvao nos ares?<br>
+Nada elle vio&mdash;nada escutou s sabe<br>
+Que alli nenhum vestigio existe d'ella.</p>
+
+<h4>XXII.</h4>
+
+<p class="versos">A noite dissipou-se, e o sol resplende,<br>
+Qual se um dia de festa esclarecesse.<br>
+Eis d'entre bruscos vos pomposa surge<br>
+Arraiada a manh d'aureos fulgores,<br>
+E abrasador promette o meio-dia.<br>
+Trombetas se ouvem, rufos de tambores,<br>
+Hrridos sons de barbara corneta,<br>
+Sussurrar de bandeiras fluctuantes,<br>
+Relinchar de corseis, tropear de turmas,<br>
+E o retinir das armas, e o alarido:<br>
+"Ei-los vem! ei-los vem!" <a name="terra" id="terra" href="#XXII.--">Da terra
+prestes<br>
+Descravo-se os pendes equi-caudatos</a>,<br>
+Desnudo-se as espadas lampejantes,<br>
+E tudo a entrar em frma apercebido,<br>
+S depende da voz, e a voz j sa:<br>
+= Tartaros, e Spahs, e Turcomanos,<br>
+As tendas abatei, ide vanguarda,<br>
+Dai d'espora aos corseis, e na planicie<br>
+Seja cortado o passo aos fugitivos,<br>
+Quando estes proromperem da cidade:<br>
+No escape nem velho nem mancebo,<br>
+Que offrecer de Christo qualquer indicio.<span class="pn">{28}</span><br>
+Entretanto que em massa prepotente<br>
+Vo sustentar os camaradas vossos<br>
+A ensanguentada brecha, e entrar por ella.=<br>
+J o fogoso corsel remorde o freio,<br>
+E arquea o collo, e, sacudindo a crina,<br>
+As rdeas tinge d'alvejante espuma:<br>
+Esto em riste as lanas, e flammejo<br>
+Accesos os murres, e em continente<br>
+O assestado canho vai despejar-se<br>
+Com estampido horrsono, e as muralhas,<br>
+Rtas em frente, esboroar de todo.<br>
+Na phalange os Janizaros entrro:<br>
+Alp os commanda; e a cimitarra nua<br>
+No erguido brao nu sustenta e brande.<br>
+Kans e Bachs fixro-se em seus postos;<br>
+E ei-lo frente da hoste se apresenta<br>
+Em pessoa o Visir.&mdash;Tanto que a senha<br>
+Troar na disparada colubrina,<br>
+Tudo em Corintho ser ruina e morte:<br>
+No ficar um sacerdote s aras,<br>
+Nem um chefe no centro das familias,<br>
+Nem flgo vivo que as manses pove,<br>
+Nem sequer uma pedra sobre os muros.<br>
+"Deos e o Profeta seu! <em>Allah-Hu!</em>"&mdash;Sobe<br>
+T s estrllas o feroz ullo!<br>
+"L tendes, para entrar, aberta a brecha;<br>
+E escadas no vos falto: tambem todos<br>
+N'essas robustas mos sustentais armas;<br>
+E como ha de falhar-vos o triunfo?<br>
+D'entre vs o primeiro que se affoute<br>
+ arrancar a vermelha Cruz hasteada,<span class="pn">{29}</span><br>
+Pde franco pedir quanto apetece<br>
+Com mais vehemente ardor: supplique e obtenha."<br>
+Tal se exprimio Coumourgi, o Visir bravo.<br>
+Foi resposta o brandir d'espadas, lanas,<br>
+Com mil acclamaes de raiva alegre.&mdash;<br>
+Silencio!&mdash; senha estai attentos!&mdash;fogo!</p>
+
+<h4>XXIII.</h4>
+
+<p class="versos">Como quando esfaimados ruem lobos<br>
+De chofre sobre o bufalo soberbo,<br>
+Sem tremerem da trva catadura,<br>
+Do mugir fero, do escavar das plantas,<br>
+Nem dos minaces cornos assestados;<br>
+E elle ou lana por terra ou ergue aos ares<br>
+Os primeiros que accessos o acommettem,<br>
+Mas que no cego arrjo a morte encontro:<br>
+Assim o Musulmano invade os muros,<br>
+E no impeto primeiro repellido.<br>
+Alli rtos do bellico granizo,<br>
+Dispersos como vidro espedaado,<br>
+Quantos de bronze acobertados peitos<br>
+Ora juncando a terra, d'onde nunca<br>
+Se ho de levantar mais! Esto fileiras<br>
+Inda alinhadas, quaes na queda o estavo;<br>
+Jaz dos mais destemidos copia grande:<br>
+Tal, quando o dia findo, e o labor cessa,<br>
+Vemos jazer sobre aplainados campos<br>
+A herva que o segador deixou ceifada.<span class="pn">{30}</span></p>
+
+<h4>XXIV.</h4>
+
+<p class="versos">Bem como, em viva preamar, se observa<br>
+D'algosos escarcos batida rocha,<br>
+E j minada dos diuturnos stos,<br>
+Soltar enormes lascas alvejantes,<br>
+Que com fragor horrsono se abatem,<br>
+Assemelhando ao torreo de glo<br>
+Que Alpinos valles despenhado aterra:<br>
+Assim os de Corintho habitadores,<br>
+A final quebrantados, exhauridos,<br>
+Foro na ruina atroz precipitados<br>
+Pelo acintoso impulso recrescente<br>
+Das cerradas cohortes Musulmanas.<br>
+Elles insistem firmes, e, na queda,<br>
+O furor do Infiel os prostra em massa.<br>
+Pelejo brao a brao, e planta a planta;<br>
+E nada, excepto a morte, alli mudo:<br>
+Impetos, golpes, empuxes, clamores<br>
+Ou a pedir quartel, ou de victoria.<br>
+Reunidos ao troar increbescente<br>
+Dos bellicos troves, e ao temeroso<br>
+Estrondo da batalha encarniada.<br>
+L vo disseminando susto immenso<br>
+Por longinquas cidades, d'igual modo<br>
+Que se estivessem sob o golpe infesto,<br>
+E j dentro o inimigo as depredasse;<br>
+No d'outra sorte que se proprio fra<br>
+A excitar sensao ou triste ou leda<br>
+Aquelle som que anniquilar s sabe,<span class="pn">{31}</span><br>
+E que, varando dos soturnos montes<br>
+As entranhas durissimas, se expande<br>
+Em pavorosos cos desusados:<br>
+L os ouvio Megra e Salamina,<br>
+E, se no exaggera a voz do vulgo,<br>
+T na enseada do Piro troro.</p>
+
+<h4>XXV.</h4>
+
+<p class="versos">Em rijo e solto embate retinindo,<br>
+Sabres, espadas, desde a ponta aos copos,<br>
+Gotejo sangue; mas entrados foro<br>
+Os muros j, e eis principia o saque,<br>
+E apz elle a feroz carnificina.<br>
+Rompe dos edificios depredados<br>
+Medonha confuso de agudos gritos:<br>
+Escuta quo velozes na fugida<br>
+Vo ps escorregando em quente sangue,<br>
+Que as ruas deixou lbricas: no em tanto<br>
+Aqui e alm, onde o terreno offrea<br>
+Contra o fero invasor qualquer vantagem,<br>
+Onde algum lano de parede ou muro<br>
+Lhes proteger as costas, ento elles,<br>
+Aos dez, aos doze, em mal parados grupos,<br>
+Logo alli fazem alto,&mdash;alli renovo<br>
+Desesperada briga audazes, firmes,<br>
+Ou co'as armas na mo perecem todos.<br>
+Eis a p firme um ancio l surge;&mdash;<br>
+De cs lhe alveja povoada a fronte;<br>
+Porm vigor pujante lhe robora<br>
+O veterano pulso: no se altera<span class="pn">{32}</span><br>
+Seu bisarro dendo, entre o bulicio<br>
+Do revlto brigar; tem por trincheira<br>
+Semicirculo espsso d'inimigos,<br>
+Que hoje uns sobre outros apinhava mortos;<br>
+Ferve em dura peleja no ferido,<br>
+E sabe retirar-se no cercado.<br>
+Sob a loriga refulgente esconde<br>
+Dos certames d'outr'ora as cicatrizes<br>
+Innumeraveis; que de toda a especie,<br>
+E o corpo inteiro lhe crivro golpes.<br>
+Em despeito d'aquella ancianidade,<br>
+ de to ferreos membros, que difficil<br>
+Fra d'igual jaz achar-se um mo:<br>
+E os inimigos, que empatados tinha,<br>
+Pullulavo-lhe alli mais numerosos<br>
+Que as prateadas cs da fronte altiva;<br>
+Mas apoucando-os vai a forte dextra.<br>
+Muitas mis Othomanas prantero<br>
+Filhos que, quando pela vez primeira<br>
+Elle a espada tingio em sangue Turco,<br>
+Inda no ero nados, e hoje expiro<br>
+Antes de perfazerem lustros quatro.<br>
+Bem poder elle ser o av de quantos<br>
+N'este dia immolou s iras suas:<br>
+Vingando um filho que perdra ha muito,<br>
+Vai dos contrarios seus matando os filhos:<br>
+E desde quando o desvelado joven,<br>
+Unica prole varonil que tinha,<br>
+<a name="Morreo" id="Morreo" href="#XXV.--">Morreo a combater no undoso
+estreito<br>
+Que d'Asia o cho divide do d'Europa</a>,<br>
+Logo o pai prometteo sacrificar-lhe<span class="pn">{33}</span><br>
+Sanguinosa hecatombe d'inimigos,<br>
+Ceifada ao golpear do ferreo brao.<br>
+Se o morticinio pacifica as sombras,<br>
+Nem mesmo de Patroclo aos manes coube<br>
+Jbilo igual ao que sentir devio<br>
+Os do joven Minotti. Sepultado<br>
+Ficou seu corpo nas oppostas praias,<br>
+E ora privados de sepulcro n'estas<br>
+C fico mil para milhares d'annos.<br>
+Qual d'elles escapou que referisse<br>
+Como os outros morrro, e onde jazem?<br>
+Lousa nenhuma os cobre, no lhes guarda<br>
+Nenhum tumulo as cinzas: entretanto<br>
+Vivem e viviro no immortal plectro.</p>
+
+<h4>XXVI.</h4>
+
+<p class="versos">Qual clamoroso <em>Allah!</em>&mdash;um tero avana<br>
+De tropa Musulmana a mais affouta,<br>
+E de pulso melhor: vai-lhe na frente,<br>
+Nervoso, nu t o hombro, e em moto ondeante<br>
+Brandindo o ferro, e sobranceiro a todos,<br>
+Do commandante o brao, que expedito<br>
+Sabe ferir, e perdoar no sabe.&mdash;<br>
+Outros embora em mais pomposo traje,<br>
+D'espolio ao inimigo a sde ateem;<br>
+Sejo embora muitos os que empunho<br>
+D'aureo lavor custosas cimitarras,<br>
+Que de nenhuma escorre tanto sangue;<br>
+Ostentem muitos adornada a fronte<br>
+De turbantes mais altos, mais airosos;&mdash;<span class="pn">{34}</span><br>
+Alp s conhecido por aquelle<br>
+Brao nu, que branqueja levantado.<br>
+Ei-lo campea onde mais arde a briga!<br>
+No se arvorou pendo sobre estas praias<br>
+Que mais destro as fileiras anteceda;<br>
+Jmais, durante a Musulmana guerra,<br>
+Se despregou bandeira que attrahisse<br>
+De to longe os Delhs: sempre o distinguem<br>
+A lampejar como cadente estrlla!<br>
+Onde quer que este brao prepotente<br>
+Uma vez se mostrou, logo os mais bravos<br>
+Surdem todos alli, ou tarde chego;<br>
+Alli quartel o ignavo em vos clamores<br>
+Ao vingativo Tartaro supplica;<br>
+Alli o here, no cho deitado e mudo,<br>
+Nem quer que quando morre um ai lhe escape,<br>
+E inda com tibio golpe derradeiro<br>
+Invade o antagonista, que no menos<br>
+A par de si prostrou; e bem que expire<br>
+To alquebrado das feridas mutuas,<br>
+Raivando afferra o ensanguentado slo.</p>
+
+<h4>XXVII.</h4>
+
+<p class="versos">O ancio, persistindo inabalavel,<br>
+Oppr consegue momentaneo estrvo<br>
+D'Alp carreira atroz.&mdash;"Cede, Minotti:<br>
+Salva todos os teus, attende filha."<br>
+&mdash;"Nunca o vers, vil renegado, nunca!<br>
+Nem tinha eu de annuir inda que fosse<br>
+Vida eterna essa vida que me off'reces."<span class="pn">{35}</span><br>
+&mdash;"E Francina!&mdash;e a futura minha noiva!<br>
+Queres, assim teimoso resistindo,<br>
+Ser tambem causador da morte d'ella?"<br>
+&mdash;"Ella est mui a salvo."&mdash;"Onde? em que sitios?"<br>
+&mdash;"No Ceo, d'onde banida para sempre<br>
+Foi tu'alma aleivosa,&mdash;e onde Francina<br>
+Vive longe de ti, vive sem mancha."<br>
+Alp, a taes vozes, titubante, anciado,<br>
+Fica no d'outra sorte que se o peito<br>
+Lhe traspassasse truculento golpe;<br>
+E de Minotti despontou nos labios<br>
+Irnico sorriso de vingana.</p>
+
+<p class="versos">"Oh Deos! quando expirou?"&mdash;"Inda esta noite;<br>
+Mas do espirito seu no choro a ausencia,<br>
+Antes flgo de ver que c no deixo<br>
+D'esta minha linhagem nobre e pura<br>
+Ninguem que haja de ser misero escravo<br>
+De Mafamede ou teu. Anda, acommette!"<br>
+Baldado desafio! Alp j morto.<br>
+Ao tempo que Minotti lhe vertia<br>
+N'aquellas expresses criminadoras<br>
+Todo o fel da vingana, e que mais cruas<br>
+Que a propria ponta de budo alfange<br>
+Ellas varavo Alp, eis va o golpe<br>
+D'um templo no distante, defendido<br>
+Com incriveis primores de firmeza<br>
+Por esse dos Christos ultimo resto,<br>
+Que to minguado e d'esperana exhausto,<br>
+Inda de l fazia esforos grandes<span class="pn">{36}</span><br>
+Para o combate restaurar fallido:<br>
+E antes de descobrir d'onde assestada<br>
+Lhe foi a lethal bala sibilante,<br>
+Alp o cerebro tem varado d'ella,<br>
+E voltea, e vacilla, e cahe por terra:<br>
+Lampejou-lhe ante os olhos claro debil,<br>
+Quando vergou para no mais erguer-se,<br>
+Ficando apenas palpitante tronco,<br>
+Que ei-lo envolvido jaz na noite eterna.<br>
+N'elle indicio no ha que vida inculque,<br>
+Salvo o tremor dos membros onde o tiro<br>
+Deixou menor estrago. A ponto acodem,<br>
+E de costas o estendem: rosto e peito<br>
+Lhe esto manchados de poeira e sangue,<br>
+E jorra-lhe da boca o vital fluido,<br>
+Que as cavernosas veias desampara;<br>
+Mas no lateja o pulso, no se escuta<br>
+Nos labios murmurar-lhe o arranco extremo;<br>
+Nem sequer um suspiro, uma palavra,<br>
+Um penoso arquejar, lhe assignalro<br>
+O transito fatal da vida morte.<br>
+Antes que o pensamento levantasse<br>
+Em spplica contrita, ro nefando,<br>
+Se apresenta aos umbraes da eternidade,<br>
+Sem que ao perdo celeste aspirar possa,<br>
+E na vida e na morte&mdash;Renegado.</p>
+
+<h4>XXVIII.</h4>
+
+<p class="versos">Ento d'um lado e d'outro aos ares sobe<br>
+Espantoso alarido retumbante:<span class="pn">{37}</span><br>
+Aqui, de regozijo; alm, de raiva.<br>
+Eis de novo travadas em conflicto<br>
+Espadas de Christos e Turcas lanas<br>
+Embatem com furor, mutuo golpes,<br>
+Estendendo no p guerreiros muitos.<br>
+Ousa, de rua em rua e passo a passo,<br>
+Minotti disputar aos inimigos<br>
+Qualquer poro restante do terreno<br>
+Que ao seu bravo commando fra entregue:<br>
+Ao lado, a reforar-lhe audacia e pulso,<br>
+As sobras tem da guarnio briosa.<br>
+Resistencia tenaz off'rece o templo,<br>
+D'onde predestinada veio a bala<br>
+Que em grande parte despicou Corintho,<br>
+Morto Alp, o mais feroz de seus contrarios<br>
+Para alli recuando sem desvio,<br>
+Deixando diante ensanguentado rasto,<br>
+E os inimigos encarando sempre,<br>
+E nunca sem matar vibrando um golpe,<br>
+O chefe e o seu cortejo, em retirada,<br>
+Conseguem reunir-se aos que occupavo<br>
+A sacra estancia: no recinto d'ella<br>
+Inda lhes cabe respirar um pouco,<br>
+Das macias paredes escudados.</p>
+
+<h4>XXIX.</h4>
+
+<p class="versos">Remanso bem mesquinho! Os Musulmanos,<br>
+De pujante refro abastecidos,<br>
+Borbotando furores e ufania,<br>
+To cerrados, to frvidos avano,<span class="pn">{38}</span><br>
+Que o nmero lhes tolhe a retirada:<br>
+Dest'arte se atravanco no caminho<br>
+Que vai ao templo, onde os Christos no sabem<br>
+O que render-se; e os batalhes infestos<br>
+Tanto apinho-se frente, que, inda quando<br>
+Lavrasse o susto alli, nenhum podra<br>
+Por entre as fortes massas escoar-se:<br>
+Ou vencer ou morrer lhes era fra.<br>
+Morrem; mas sobre os corpos palpitantes<br>
+Lhes surgem de repente os vingadores.<br>
+Que, frescos e raivosos pullulando,<br>
+As filas, sempre rtas, enchem sempre;<br>
+E os Christos affadigo, extenuo,<br>
+Violentas amiudando as investidas:<br>
+E ei-los agora os Infieis assomo<br>
+Junto ao sacro portal. Por longo espao<br>
+A ferrea contextura inda resiste,<br>
+Inda de cada fresta vo tiros,<br>
+Todos bem assestados, mortaes todos;<br>
+E de cada janella se desato<br>
+Em chuveiro as sulfureas alcanzias.<br>
+Mas j fraqueo as nutantes portas&mdash;<br>
+Vrgo rangendo os quicios, cede o ferro,&mdash;<br>
+L pendem&mdash;l se abatem j cahro:<br>
+No mais resistir, morreo Corintho!</p>
+
+<h4>XXX.</h4>
+
+<p class="versos">Soturno, sem que o vejo, s comsigo,<br>
+Ao altar arrimado est Minotti.<br>
+D'um painel sobranceiro, a Virgem santa<span class="pn">{39}</span><br>
+O affavel rosto flgido lhe volve,<br>
+Transumpto de celeste colorido,<br>
+Onde os olhos so luz, amor o aspecto;<br>
+E na ara collocado a fim que possa<br>
+Dos humanos fixar o pensamento<br>
+Sobre as cousas do Ceo, quando elles oro<br>
+Devotos, genuflexos ante a imagem<br>
+D'esta Mi admiravel, que em seu gremio<br>
+Sustem e affaga o Redemptor-menino,<br>
+E com sorrisos acolhendo meigos<br>
+Uma por uma as fervorosas preces,<br>
+Como que ao Ceo de transferi-las cuida.<br>
+Sorrindo sempre, inda sorr agora,<br>
+Em despeito da atroz carnificina,<br>
+Do sangue em jrros que deturpa as naves.<br>
+Eleva ento Minotti os olhos lassos,<br>
+E, exhalando um suspiro, se persigna;<br>
+Logo alli d'uma tocha que era accesa<br>
+Ei-lo se apossa, e permanece firme,<br>
+Em quanto os Musulmanos irruindo,<br>
+Desenvolvendo larga ferro e fogo,<br>
+Hrridos enchem a manso sagrada.</p>
+
+<h4>XXXI.</h4>
+
+<p class="versos">Sob a lagem que o vasto pavimento<br>
+Recompunha em mosaico variada,<br>
+Subterraneas abobadas se arqueo.<br>
+Jazigo aos mortos das passadas eras:<br>
+Em memorandas lpidas incisos<br>
+Lio-se os nomes seus, que ler no deixa<span class="pn">{40}</span><br>
+Ora o sangue que os cobre: aqui no menos<br>
+Vio-se, honrando as cinzas, esculpidos<br>
+Timbres, emblemas de lavor prestante,<br>
+Marmores luzidos, de vistosas<br>
+Multicolores veias serpeados,&mdash;<br>
+Que, srdidos j hoje, se baralho<br>
+Com fragmentos d'espadas, de montantes.<br>
+Com morries e arnezes abolados,<br>
+Confuso mixto que por cima avulta<br>
+D'innumeraveis atades, onde<br>
+Enfileirados os defunctos dormem:<br>
+Podes v-los em lugubre apparato,<br>
+Ao macilento albor que inda os visita<br>
+Por fisgas breves de sombrias grades.<br>
+Mas nem por isso desistio a Guerra<br>
+D'entrar por estas lobregas cavernas,<br>
+Com trva profuso disseminando<br>
+Das sepulcraes abobadas ao longo<br>
+Seus thesouros sulfureos, que se elevo<br>
+Empilhados em massas volumosas<br>
+Junto dos resequidos esqueletos.<br>
+Aqui, durante o crco, havio feito<br>
+Seu paiol os Christos: longo rastrilho,<br>
+Desde agora entornado, se encaminha<br>
+Do templo a estes sitios; e eis o extremo<br>
+Recurso inabalavel de Minotti<br>
+Contra o poder das irruentes turmas.</p>
+
+<h4>XXXII.</h4>
+
+<p class="versos">O inimigo enche tudo; e poucos tento<span
+class="pn">{41}</span><br>
+Inda arrost-lo, ou mui de balde o arrosto.<br>
+Elle, falta de vivos, vai nos mortos<br>
+Saciar da vingana a voraz sde,<br>
+Que exacerbou-se agora; elle os invade<br>
+Com sacrilegos golpes, e decepa<br>
+Cabeas j finadas, e dos nichos<br>
+As estatuas despenha baqueantes,<br>
+E as aras despe d'oblaes opimas,<br>
+E co'as callosas mos profanadoras<br>
+O argento empolga dos sagrados vasos.<br>
+Chegada apenas a caterva infrene<br>
+Ante o altar principal, detem-se e pasma:<br>
+Oh qual o adorna resplandor pomposo!<br>
+Sobre a pedra lhe surge bem patente<br>
+O consagrado Caliz, ouro estrme,<br>
+Prsa que enleva os depredantes olhos,<br>
+A fulgurar macia e ponderosa:<br>
+Hoje conteve o sacrosanto vinho,<br>
+Que Christo em sangue seu mudar dignou-se,<br>
+E com que, ao romper d'alva, os seus cultores,<br>
+Antes de pelejar, fortalecro<br>
+As almas ao dever e ao Ceo votadas:<br>
+Inda no fundo remanecem gotas;<br>
+E tambem, circumdando a sacra mesa,<br>
+Em symetria esplendida dispostas,<br>
+Ardem lampadas doze d'ouro fino:<br>
+Este o mais opulento e ultimo espolio.</p>
+
+<h4>XXXIII.</h4>
+
+<p class="versos">Apinho-se alli todos; e o que estava<span
+class="pn">{42}</span><br>
+Da prsa mais visinho, faz-se avante,<br>
+E quasi quasi que a empolgava, quando<br>
+O longevo Minotti applica a tocha<br>
+Ao rastrilho fatal;&mdash;ei-lo se inflamma!<br>
+Campanarios, abobadas, altares,<br>
+Espolio, vivos, mortos, moribundos,<br>
+Christos vencidos, Turcos vencedores,<br>
+E o templo esboroado, e quanto ha n'elle,<br>
+Se ergue aos ares com hrrido rebombo,<br>
+E finda envlto na exploso terrivel!<br>
+A cidade abalada&mdash;o cho coberto<br>
+D'edificios, de muros demolidos&mdash;<br>
+As ondas que recuo, de assustadas&mdash;<br>
+Os montes, seno rtos, vacillantes,<br>
+Como se os sacudisse um terremoto&mdash;<br>
+De milhares d'objectos mixto informe<br>
+Que os Ceos toldando vai de fogo e fumo.<br>
+Ao rebentar da horrtona lufada&mdash;<br>
+No cesso de apregoar que n'estas praias,<br>
+Ha longo tempo, afflictas, terminou-se<br>
+Dos combates o mais desesperado.<br>
+Como accesa em girandolas festivas,<br>
+L roa os astros a confusa mole.<br>
+Vares no poucos d'estatura ingente,<br>
+D'apparencia gentil, ora abrasados,<br>
+Curtos como pigmeos, descem dos ares,<br>
+Em torrado carvo juncando a terra.<br>
+Grossa chuva de cinzas se despenha:<br>
+Muitas recebe o golfo, e, ao receb-las,<br>
+Frma em trno escarcos, que se desfazem<br>
+N'um progresso de circulos undosos;<span class="pn">{43}</span><br>
+Muitas recebe a praia, e vo, por longe<br>
+Disseminadas, recobrir todo o isthmo:<br>
+So cinzas de Christos ou d'Othomanos?<br>
+Suas mis se aproximem, venho v-las,<br>
+E digo se as conhecem!&mdash;Por ventura<br>
+Houve alguma de vs, desgraadas,<br>
+Que quando aos peitos lhe pendia o filho,<br>
+Ou no embalado bero o adormentava,<br>
+E, sorrindo d'amor, se comprazia<br>
+N'aquelle brando repousar donoso,<br>
+Ai! houve alguma ento que nem por sombras<br>
+Esperasse este dia, ou ver dispersos<br>
+Da cara prole os lacerados membros?<br>
+Nem sequer, nem sequer as extremosas<br>
+Matronas que no ventre os alojro<br>
+Estremar sabem os nascidos d'ellas;<br>
+Um s momento lhes tirou de todo<br>
+Frma e semblante d'homens; resta apenas<br>
+Algum disperso pericraneo ou osso.<br>
+Barrotes, vigas flammejantes descem,<br>
+E em redor se derramo; vem cahindo<br>
+Engastadas em barro infindas lagens,<br>
+Que o slo opprimem fumegantes, negras.<br>
+Todo o vivente a quem troou no ouvido<br>
+O abalo estragador, prego de morte,<br>
+Ou jazeo ou sumio-se: espavoridas<br>
+O vo affasto carniceiras aves;<br>
+Bravos ces vo-se arredando em uivos,<br>
+Nem se lhes d dos insepultos mortos;<br>
+O camelo as prises deixou quebradas;<br>
+O touro, ao longe, se desfez do jugo;<span class="pn">{44}</span><br>
+O corsel, que o fragor ouvio de perto,<br>
+Rompendo a silha, espedaando as redeas,<br>
+A galope alongou-se pelo plaino;<br>
+As incolas dos charcos lutulentos,<br>
+Alando a boca sobremodo aberta,<br>
+Clamor soltro importuno em dbro;<br>
+Uivro pelas furnas das montanhas<br>
+Os lobos, quando alli a trovoada<br>
+Em cos retroou; l mui distantes,<br>
+As alcatas dos jakaes bramro<br>
+Com mixto som, que, lamentoso e agudo,<br>
+Ora imitava criancinha em chros,<br>
+Ora lebro ganindo fustigado:<br>
+Esbaforida accelerando os vos,<br>
+A aguia desamparou a rocha alpestre,<br>
+Onde aquecia o ninho, e remontou-se<br>
+Mais proxima do sol, achando crassas<br>
+Em demasia as sotopostas nuvens,<br>
+Que vinho, d'atro fumo conglobadas,<br>
+Roar-lhe o bico amedrontado, hiante,<br>
+Mais e mais excitando-a a sublimar-se,<br>
+E o grito a reforar.&mdash;Eis de qual modo<br>
+Conquistada e perdida foi Corintho.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM.</p>
+
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{45}</span></p>
+
+<h1>NOTAS ABREVIADAS.</h1>
+
+<p><span class="pn">{46}<br>{47}</span></p>
+
+<h2>NOTAS ABREVIADAS.</h2>
+
+<h3><a name="II.--" id="II.--" href="#Dando">II.&mdash;<em>vers.</em> 14.</a></h3>
+
+<p class="versos">Dando de mo grei, o Turcomano<br>
+Prestes unio ao lado a cimitarra.</p>
+
+<p>Domiciliados debaixo de tendas, vivem estes povos uma vida patriarcal.</p>
+
+<h3><a name="V.--" id="V.--" href="#Coumourgi">V.&mdash;<em>vers.</em> 1.</a></h3>
+
+<p class="versos">Coumourgi&mdash;aquelle etc.</p>
+
+<p>Ali Coumourgi, valido de tres sultes, e gro visir de Achmet III, havendo
+retomado em uma s campanha o Peloponeso aos Venezianos, foi, no seguinte anno,
+mortalmente ferido na batalha de Peterwaradin, quando forcejava para reunir
+suas tropas.</p>
+
+<h3><a name="XVI.--" id="XVI.--" href="#Coarctados">XVI.&mdash;<em>vers.</em>
+4.</a></h3>
+
+<p class="versos">Coarctados e sem sto, aquelles mares<br>
+Em moto igual ondeo sempiternos.</p>
+
+<p> talvez desnecessario recordar ao leitor que o movimento do fluxo no
+visivel no Mediterraneo.<span class="pn">{48}</span></p>
+
+<h3><a name="Ibi--" id="Ibi--" href="#Ei-los">Ibi&mdash;<em>vers.</em> 42.</a></h3>
+
+<p class="versos">Ei-los que esto da pelle despojando<br>
+Nest'hora um craneo Tartaro, etc.</p>
+
+<p>Este espectaculo, qual o descrevo, foi por mim presenciado sob os muros do
+serralho de Constantinopla; e os cadaveres ero talvez os de alguns Janizaros
+rebeldes.</p>
+
+<h3><a name="Ibi--1" id="Ibi--1" href="#cada">Ibi&mdash;<em>vers.</em> 59.</a></h3>
+
+<p class="versos">E cada pericraneo off'rece a esguia<br>
+Madeixa longa, etc.</p>
+
+<p>Crm os Musulmanos que o seu Mafma, no ponto de transferi-los ao Paraiso,
+os tomar por esta madeixa; e, firmados sobre to supersticioso fundamento, a
+deixo crescer.</p>
+
+<h3><a name="XXI.--" id="XXI.--" href="#Essa">XXI.&mdash;<em>vers.</em> 94.</a></h3>
+
+<p class="versos">Essa nuvem que esconde agora a lua,<br>
+L vai passando, etc.</p>
+
+<p>Este pensamento no original, por quanto deparei com elle na verso
+ingleza de Vathek.</p>
+
+<h3><a name="XXII.--" id="XXII.--" href="#terra">XXII.&mdash;<em>vers.</em>
+11.</a></h3>
+
+<p class="versos">&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash; Da terra prestes<br>
+Descravo-se os pendes equi-caudatos.</p>
+
+<p>De uma cauda de cavallo, fixa no alto de uma lana, so compostos os pendes
+dos Bachs.<span class="pn">{49}</span></p>
+
+<h3><a name="XXV.--" id="XXV.--" href="#Morreo">XXV.&mdash;<em>vers.</em>
+51.</a></h3>
+
+<p class="versos">Morreo a combater no undoso estreito<br>
+Que d'Asia o cho divide do d'Europa.</p>
+
+<p>Na batalha naval que os Venezianos travaro com os Turcos entrada dos
+Dardanellos.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3>FIM DAS NOTAS.</h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr>
+
+<p>P. S. <em>Escrevemos accentuada e sem</em> h <em>a 3. pessoa do singular no
+indicativo presente do verbo substantivo ser, e igualmente sem</em> h <em>o adjectivo
+numeral um, por nos parecerem terminantes as razes em que fundado este uso.
+Por certo que nem sempre adherimos opinio de nossos Grammaticos e
+Diccionaristas modernos, com quanto sejo alguns de reconhecida erudio; e em
+meia duzia de paginas, que talvez publicaremos, ho de apparecer indicados os
+pontos e expendidos os motivos d'esta divergncia. Pelo que toca exactido
+typografica do Poema que apresentamos traduzido, empregou-se ahi mui boa
+diligencia: pois de presumir que ser leve e de facil emenda o defeito que
+ainda remanecer.</em></p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord
+Byron, traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA ***
+
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+works. See paragraph 1.E below.
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+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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