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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:00:07 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Annel Mysterioso + Scenas da Guerra Peninsular + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: September 17, 2010 [EBook #33749] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ANNEL MYSTERIOSO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + Notas de transcrição: + + O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso + em 1904. + + Foi mantida a grafia usada na edição original de 1904, tendo + sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não + alteram a leitura do texto, e que por isso não foram assinalados. + + + + + O ANNEL MYSTERIOSO + + + + + NOVA COLLECÇÃO PORTUGUEZA + + II + + O ANEL MYSTERIOSO + + SCENAS DA GUERRA PENINSULAR + + ROMANCE ORIGINAL DE + + ALBERTO PIMENTEL + + 3.ª EDIÇÃO, ILLUSTRADA, REVISTA PELO AUCTOR + + + + + LISBOA + EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL + _Sociedade Editora_ + + LIVRARIA MODERNA + Rua Augusta, 95 + + TYPOGRAPHIA + 45, Rua Ivens, 47 + + 1904 + + + + +PROLOGO DA 3.ª EDIÇÃO + + +Este é um dos romances da minha mocidade. Foi publicado pelos editores +da _Bibliotheca Universal_, de Lisboa, em 1873. Precederam-n'o os +_Idyllios á beira d'agua_, (1870), a minha primeira tentativa no +romance, e _O testamento de sangue_, escripto aos vinte e trez annos. + +Estas datas desculpam hoje, aos meus proprios olhos, tudo quanto ha de +hesitante e incorrecto em todas as trez novellas, que foram as primicias +litterarias de um rapaz educado n'uma terra essencialmente commercial, +avessa a idealidades romanescas e ao convivio e apreço de escriptores, +bons ou simplesmente toleraveis. + +Pelo que especialmente respeita ao _Annel mysterioso_, se quando agora o +reli me não descontentou a acção dramatica, achei-lhe comtudo algum +excesso de floração declamatoria, que é um defeito peculiar a todos os +estreantes. + +A grande arte de escrever está na ponderada sobriedade da expressão, no +equilibrio estavel entre a phrase e o pensamento. + +Fóra d'isto ha rhetoricos, mas não ha escriptores. + +Se eu, no decorrer dos annos, consegui aproximar-me d'este requisito +essencial, não perdi de todo o meu tempo. Mas, ainda n'esse caso, é +defensavel a reimpressão de uma novella, que póde fornecer elementos de +confronto entre duas épocas da vida de um escriptor. + +Como quer que seja, o _Anel mysterioso_ agradou quando foi publicado em +1873. A breve trecho sahiu a segunda edicção. E os mesmos editores me +convidaram a escrever logo em seguida outro romance, que foi _A Porta do +Paraizo_.[1] + +Ambos estes livros me abriram caminho entre o publico de Lisboa. + +O exito da _Porta do Paraizo_ explica-se facilmente pelo interesse que +inspirava ainda então o reinado de D. Pedro V. + +Quanto ao _Annel mysterioso_, que não é senão a biographia de uma +celebridade das ruas do Porto, parece que foi o entrecho commovente que +no espirito dos leitores lisbonenses suppriu a falta de conhecimento +directo do protagonista. + +Quando eu escrevia este romance, muitas pessoas d'aquella cidade se +lembravam ainda de ter visto frequentes vezes o _Desgraça_. + +Uma d'essas pessoas era Camillo Castello Branco, que, seis annos depois +da publicação do _Anel mysterioso_, dizia a pag. 296 do livro +_Sentimentalismo e historia_: «A um canto (do botequim da _Aguia +d'ouro_) estava um velho de semblante livido, muito desgraçado, com um +chapeu enorme de sêda d'um azulado decrepito, com um grande cigarro no +canto da bocca. Ao lado, sobre um mocho, via-se uma guitarra com manchas +gordurosas de suor que punham brilhos, e aos pés um cão d'agua com o +felpo encarvoado, cheio de torçidas, encaroçado, dormia, e acordava de +salto, apanhando com muita furia, no ar, as moscas que lhe picavam as +orelhas. Era o José das Desgraças, o legendario mendigo, que morreu de +saudades do seu cão, aggravadas pela fome». + +Esta referencia authentíca hoje o retrato de uma individualidade +popular, cujos contemporaneos dormem, como ella, o somno eterno da morte. + +Lisboa, 10 de abril de 1903. + + _Alberto Pimentel._ + + + [1] A quarta edicção, luxuosa, d'este romance, foi por nós + publicada em 1900. + + (Nota dos editores.) + + + + +O ANNEL MYSTERIOSO + + +I + +O Desgráça + +Entre os typos populares, que pouco a pouco vão rolando a sepulturas +ignoradas, deixando após si o rasto de uma vida sobremodo accidentada de +peripecias quasi sempre sombrias--rasto que só um ou outro escriptor se +compraz em prucurar desde a cadeia ao degredo, do albergue ao +cemiterio--avulta na tradição portuense um homem que por longo tempo ahi +foi o alvo das assuadas do rapazio e dos chascos dos frequentadores de +botequim. Uns chamavam-lhe o _José das Desgraças_, outros simplesmente o +_Desgraça_. + +Parece dever inferir-se de tão lutuosa alcunha que a população da cidade +lhe conhecia a biographia exuberante de lastimosos lances. Tal não ha. +Quando elle passava coxeando arrimado ao seu bordão, sobraçada a +guitarra inseparavel, de velho chapéo alto amassado, sobrecasaca +abotoada, pendente a medalha de prata da guerra peninsular, annel d'ouro +na mão esquerda, na bocca o enorme cigarro que elle proprio manipulava +com pontas de charuto, seguido do cão fiel, que se chamava _Junot_, por +motivos que mais tarde desvelaremos, o gentio das ruas ou sorria +alvarmente da pittoresca pobresa do excentrico mendigo, ou rompia em +apostrophes de _Ó Desgraça! Ó Desgraça!_ que elle parecia não ouvir ou +despresar em sua imperturbavel serenidade. + +E a populaça, sem sequer suspeitar da tenebrosa origem do cognomento, +quedava-se a ouvil-o, calmadas as arruaças com que era saudado, quando +elle, sentado á porta de um café, especialmente o do Jardim de S. +Lazaro, começava a tanger melancolicamente a sua guitarra, na qual +executava operas completas, queimando o seu enorme rolo de tabaco e +contemplando, de cabeça inclinada, o cão que parecia escutal-o +attentamente... + +Depois, quando a mão caía extenuada sobre as cordas silenciosas, +affigurava-se, tão alheado ficava, que estava rememorando maguas +intimas, segredos da sua vida obscura, sem que parecesse dar tento das +esmolas que lhe atiravam ao regaço os que entravam ou saíam a porta do +botequim. + +Ás vezes, como se não houvesse conseguido linimentar com a musica as +recordações dolorosas acordadas no imo peito, voltava a tanger na +guitarra uns dulcissimos arpejos que finalmente lhe serenavam a alma +tempestuosamente alanceada, chorando por elle, que não tinha lagrimas. + +Restituido á realidade da sua resignada nobresa, erguia-se firmado no +bordão, sobraçava a guitarra, e continuava a peregrinação, vagueando +pelas ruas da cidade, sem todavia dirigir-se aos transeuntes e recebendo +impassivel os óbolos que jámais solicitava. E o cão, o leal companheiro +de infortunio, seguia egualmente resignado seu dono, e quasi sempre +indifferente ás provocações do rapazio que se divertia em apedrejal-o e +açulal-o. + +Frequentemente intervinha o _Desgraça_ ameaçando com o bordão os +perseguidores do seu dedicado companheiro; mas como o inquieto rapazio +conhecesse que a velhice lhe desnervava o braço, entrava de levantar +celeuma atroadora, em que, ainda assim, quasi sempre se distinguiam +vozes de «Morra o _Desgraça_ e o _Junot_! Vende o annel e não andes a +pedir!» + +Estranho homem devia de ser esse, que parecia guardar grande mysterio, e +tinha por unico amigo, entre uma população inteira, que o apupava, o cão +fiel, e por consolação unica a sua guitarra, e por unica protecção a +piedade dos seus conterraneos, que elle não implorava. + +O povo não suspeitava sequer que a biographia d'aquelle homem +justificasse o appellido. Quando o _Desgraça_ fazia chorar a guitarra +entre os dedos, e o cão denunciava comprehender a guitarra, como que +ligeiramente se commovia a turba acatasolada, mas d'ahi a pouco, quando +estrondeavam os apupos, era o cão o unico espectador que mostrava lêr na +physionomia do velho o mysterio de uma vida tormentosa. + +Ria a gentalha torpe d'aquella intima convivencia de homem e cão. E +todavia não saía d'entre a arraia miuda o mais desgraçado dos populares +a dizer ao pensativo guitarrista: «O teu cão sente e não fala; eu +falarei por elle. Soffres decerto muito e precisas consolação. Eu sou +tambem muito infeliz, muito mais do que tu, porque não tenho guitarra +nem cão. Deixa-me pois compartir do teu cão e da tua guitarra, que eu te +darei o que tu não tens, dois ouvidos que te escutem, uma voz que te +responda.» + +Não. A desgraça é tão infeliz, que se ri da desgraça; é ella que se +desauctorisa a si mesma. Só lhe falavam para chasqueal-o, para lhe +cuspir na face a zombaria que elle, absorto no seu continuo cogitar, +deixava resvalar aos pés. + +E todavia aquelle homem era um grande desgraçado, que só tinha no mundo +a sua guitarra, o seu cão, e as suas recordações. O annel, que trazia na +mão esquerda, podia matar-lhe talvez um dia de fome, mas não haveria +miseria que lh'o arrancasse do dedo, porque as suas recordações estavam +n'aquelle annel. + + * * * * * + + +II + +Na quinta das Chãs + +Na noite de 17 de fevereiro de 1809, a morgada viuva da quinta das Chãs +conferenciava gravemente com o seu capellão n'uma das salas terreas do +solar, a duas leguas de Braga, sobranceiro á aldeia de Carvalho d'Éste. +A morgada, senhora de uns sessenta annos, deixava entrever nas sombras +da physionomia a tempestade que lhe agitava a alma; o capellão, +passeando de um para outro lado, enviesava á morgada olhares +investigadores, que para logo revelariam perfidia e cupidez. + +--É preciso partir, padre capellão, dizia afflictivamente a morgada. Se +os francezes logram atravessar o rio Minho, estarão brevemente em Braga. +A mim pouco me importaria a vida se não fosse Augusta, que a esta hora +está dormindo na serenidade da sua innocencia. Tomára que chegasse o +Teixeira para contar o que se passou. Diga o que disser, padre capellão, +é preciso pensar maduramente. Meu genro fez-me depositária de um +thesouro, que eu hoje quero salvar de todos os perigos, custe o que +custar, porque se me affigura que já estimo mais Augusta do que aos seus +proprios paes, e a seu irmão. Recebi minha neta aos 5 annos, porque á +luz da consciencia conheci que melhor poderia eu sustentar uma criança, +apesar das hypothecas da minha casa, do que um pobre capitão do exercito +poderia sustentar dois filhos. O padre capellão administrava as +propriedades. Que me restava a mim para não morrer de aborrecimento +durante o dia? Augusta, a criança que me tinha sido confiada. Era ella a +minha unica distracção, o meu unico amor; ha dez annos que este tecto +lhe abriga a innocencia, e ha dez annos que eu abençôo a resolução de a +chamar para amparo da minha velhice. Olhe que os annos tornam a gente +egoista, padre capellão; a abnegação é só apanagio da mocidade. +Não pense que me bastava a unica distracção do voltarete; é sempre a +mesma cousa! Quando eu _peço licença_ o padre capellão _prefere_, e o +Teixeira dá-lhe _codilho_. Tambem é boa embirração a sua de _preferir_ +sem jogo. Nem que tivesse vontade de fazer mal... E o dia, estes longos +dias da provincia, que não teem fim! Era morrer de fastio. Augusta +trouxe-me cuidados e variedade. A principio com as suas exigencias de +criança; agora com as suas ingenuidades de donzella. Vi, anno a anno, +desabotoar a flôr. A flôr, disse bem, porque Augusta é realmente uma +rosa... de quinze annos. E é que eu a estimo como seu jardineiro que +sou. Instantemente lhe pedi que se deitasse para que não ouvisse dizer +ao Teixeira as proezas que os senhores francezes teem feito lá para esse +rio Minho. Mas, padre capellão, o que é certo é que eu já haveria +partido para o Porto, se n'esta occasião estivesse prevenida com +recursos. O padre capellão bem sabe... + +--Sei, sei, senhora morgada, que a occasião é má para todos. + +--Se os caseiros pudessem pagar o resto das rendas... + +--A senhora morgada devia conhecer o que é guerra sobre guerra. Tivemos +esse excommungado Junot, mais as suas aves de rapina, a comer-nos os +olhos da cara. Nem as egrejas respeitou, o maldito! A senhora morgada +ainda fala em pedir o resto das rendas aos caseiros! E para quê? Para +fugir para o Porto, para casa de seu genro, para abandonar as suas +propriedades! + +--O padre capellão velará por ellas. É que eu bem sei os sustos que +curti aqui durante a primeira invasão. Se no Porto não estivesse a +soldadesca do Taranco, teria fugido para lá. + +--E que teima essa de me querer confiar as suas propriedades, capacitado +como estou de que a senhora morgada suppõe que lh'as administro mal! +Administro mal, administro, porque não forço os caseiros a pagarem o +resto das rendas para vossa senhoria o ir gastar no Porto com a familia +de seu genro. Depois de uma guerra e em vesperas de outra é que a +senhora morgada fala em pagar! + +--Pagar é um dever, padre capellão, e quanto mais nos apressamos a +fazer o que devemos tanto maior é o repouso do espirito. Bem sei que são +más as circumstancias, mas é que tambem esta pobre gente se importa +pouco com o calendario, e acha que todo o tempo é tempo. É que tambem +não imaginam que se esconda a pobresa detraz de pergaminhos e +genealogias. Pois esconde, se esconde! Sabe o padre capellão que eu +falei no resto das rendas porque n'esta occasião não ha dinheiro em +casa. Ninguem melhor o sabe, porque lhe passam os negocios pela mão. O +que é certo é que eu sinto ameaços de pobresa... + +--Nem tanto ao mar, senhora morgada... + +--Se presinto! Vivo modestamente n'estas solitarias Chãs, encantada nas +graças d'Augusta, cerrando ouvidos ao bulicio da cidade que está +proxima. Não posso fazer despezas extraordinarias, é preciso não largar +a brida da mão para costear as indispensaveis. + +--Os chás não são indispensaveis, senhora morgada... + +--Magôa-me a sua ironia, padre capellão! Tanto mais que sabe como é +limitado o serviço da nossa mesa de jogo. E depois queria que eu +fechasse as minhas portas na face do velho Teixeira, amigo leal da nossa +casa desde a mocidade de meu marido? Sabe o padre capellão como o +morgado deixou as propriedades sobrecarregadas de hypothecas. Mal tenho +podido rehabilitar o casal, apesar de todas as economias e da maxima +abstenção d'obras de beneficencia... + +--Maxima abstenção!... + +--É injusto, padre capellão! Refere-se talvez á Augusta... Não sabe que +é filha de minha filha, casada por inclinação com um honrado militar do +exercito portuguez, a quem não basta unicamente a sua immaculada +honradez para ser feliz! Era-me impossivel soccorrer a mãe; soccorri a +filha. Eu não podia ir mais longe, senão teria ido. Sempre +contrariedades! Sempre o padre capellão a annunciar-me algum novo +desastre! Ah! mas d'esta vez creia que não haverá desastre nem +contrariedade que me véde o tirar dos hombros uma enorme +responsabilidade, levando Augusta para a companhia dos seus, e minha +tambem, porque ella é minha, e muito minha, pelo sangue e pelo +coração... Em ultimo caso, recorrerei ao emprestimo... + +--Outro? + +--É minha filha e meus netos que eu prejudico; o padre capellão, não. +Todavia, como é para bem d'elles, elles m'o perdoarão. O padre capellão +por sua propria mão recebe os juros das quantias que tem desembolçado, e +creio que as propriedades que conservo fartamente abastarão ao pagamento +do capital, no momento em que queira usar dos seus direitos de crédor. + +--Eu não quero... + +--Deixe-me figurar a peior hypothese, e evidenciar-lhe que lhe não +causam detrimento os seus desembolços. + +--Falando francamente, senhora morgada, sou a dizer-lhe que o juro é +pequeno... + +--Augmente-o como lhe apraza. Não é meu costume questionar cinco réis ao +padre capellão. + +--Eu sou tão pobre como a senhora morgada, tartamudeou o reverendo com +um frouxo de tosse que denunciava estar providencialmente entalado com o +osso da mentira. + +A morgada gesticulou de incredulidade e enfado. + +--Eu sou tão pobre como a senhora morgada, reatou o capellão ajudando-se +a engulir a falsidade com um sorvo de rapé--e é á custa de trabalho que +tenho recolhido escassas mealhas ao canto da gaveta. De inverno arrosto +as neves da madrugada para saír aos campos a espionar os trabalhadores +no interesse de vossa senhoria. No verão aguento as calmas do meio dia +para os estimular ao trabalho. As horas feriadas de canceiras externas +passo-as á banca a fazer a escripturação ou no quarto a rezar as minhas +orações. Tenho envelhecido ao serviço de vossa senhoria, e o magro +peculio do pobre padre ao trabalho o devo. E o mais é que já vou achando +ser horas de descançar... Vejo porém que não seria facil encontrar quem +com zelosa dedicação governasse a casa alheia, e, se me é canceira o +dirigil-a a despeito da velhice, tambem me é consolação o ouvir dizer-me +a consciencia que devo trabalhar por não ver quem facilmente me +substitua. Digam embora o senhor seu genro e a senhora sua filha o que +quizerem, e me consta que dizem: a verdade é esta... + +--Convenho, padre capellão, e é por conhecer a sua desinteressada--a +morgada deu a esta palavra uma inflexão sensivelmente +ironica--desinteressada dedicação, que tenho batido á sua porta sempre +que a necessidade me obriga a incommodar alguem. Se lhe pedia agora para +passar aviso aos caseiros, era porque não queria importunal-o com +repetidas mercês... + +--Nunca me incommodaram as ordens de vossa senhoria, atalhou o padre, +curvando-se respeitosamente a meio da sala. + +--Eu é que a mim mesma me incommodo com a ideia de incommodal-o, posto +que eu não seja dos devedores que mais devem aborrecer por egoistas... + +--Creio que já tive a honra de dizer á senhora morgada que a occasião é +má para todos.--E proseguiu mirando ao alvo que elle queria attingir: +Era porém grande a quantia que vossa senhoria desejava? + +--A sufficiente para me transportar ao Porto com a menina, e para não +tornar pesada a hospedagem que minha filha haja de dar-me. É preciso +partir, padre capellão, se os francezes não forem repellidos na +fronteira. Entrarão por esse Minho dentro furiosos, e eu não respondo só +pela minha vida, que já pouco vale, mas tambem pela de Augusta, que me +foi confiada em deposito. Que valeria a minha presença aqui? Os criados +fugiriam decerto, e a edade do padre capellão não lhe permittiria +defender duas mulheres, ambas timidas, uma porque é velha, e outra +porque é nova. Além de maior segurança que offerece o Porto, como grande +cidade que é, Augusta poderá d'ali seguir melhor a sorte de seu pae e +seu irmão nos combates. Não estará para aqui anciosa sem receber +noticias que a tranquillisem. Aqui, quando ha guerra, apenas se sabe que +ha guerra, e mais nada. O padre capellão offereceu-se para ficar; +desappareceram todas as difficuldades. Sem o seu offerecimento eu não +poderia deixar desamparado o solar de meus avós. Teria de luctar +angustiosamente entre o amor d'Augusta e o respeito á memoria de meus +paes e meu marido. Se os invasores entrarem, respeitarão porventura a +sua velhice e as suas vestes, padre capellão, se é que elles respeitam +alguma cousa... + +O padre capellão, julgando haver já simulado a precisa resistencia á +partida da morgada, apostrophou de golpe: + +--Mas, voltando ao caso, senhora morgada, ponhamos os pontos nos i i. +Quanto desejava vossa senhoria? + +--Eu... cem moedas talvez. + +--Cem moedas é muito, senhora morgada, e eu não estou prevenido. + +--Pois veja o padre capellão se póde obter essa quantia, que eu cederei +a qualquer exigencia de juro. + +--Menos de 15 por cento não será possivel, senhora morgada... + +--Pagarei os 15 por cento; trate o padre capellão de negociar sem demora +as cem moedas. + +--Hum! rouquejou o padre. Veremos. Póde ser que se abra alguma porta ao +homem honrado que só em grande estreiteza deixa d'abrir a sua. Ámanhã +falaremos, senhora morgada. Vou fazer as minhas rezas emquanto não chega +o palrador do Teixeira com noticias dos francezes... + +E saíu da sala em direcção ao seu quarto. + +A morgada, vendo-se só, pareceu respirar com sofreguidão, como o +encarcerado que conquista a liberdade e, como elle, pareceu conversar +comsigo mesma: + +--Que alma de marmore a d'este homem! É um inimigo que tenho de portas a +dentro e que conservo porque me não permitte o animo nem a edade travar +lucta com tão arteiro contendor, que apara todos os golpes na batina com +beatitude irritante. + +Depois levantou-se, agitou a campainha, e esperou com os olhos fitos na +porta que apparecesse a criada. + +--A menina dorme? perguntou. + +--Dorme, senhora morgada. + +--Accende o candieiro e abre a mesa. Quando bater o sr. Teixeira, manda +entrar. + +Palavras não eram ditas, resoou a aldrava do portão. + +Momentos depois entrava á sala o velho Teixeira, fidalgo retirado das +pompas da côrte por conselho da consciencia que o advertia de que estava +a empobrecer d'um dia a outro. N'aquelles tempos que precederam a +retirada da familia real para o Brazil, as tentações de Lisboa eram +tantas, e tão dispendiosas, que não admirava que um cortezão immolasse a +celebradas damarias o seu opulento morgado do Minho. Alguma coisa +salvára porém o velho aulico do muito que na côrte consumira. Trouxera +de lá a palaciana compostura que realça até mesmo na decadencia. +Maneiras e palavras, pesadas com fina discreção, estavam desculpando a +cada passo as sombras que por mais d'uma vez denunciavam não ser +impeccavelmente crystalina a reputação das açafatas da rainha D. Maria I. + +Entrou o fidalgo e logo correu a morgada a perguntar-lhe anciosamente: + +--Que noticias nos traz vossa senhoria? + +--Boas, senhora morgada, se póde haver boas noticias quando a +tempestade, que se descondensa n'um ponto, ameaça n'outro. + +--Inda bem! inda bem! apostrophou a morgada relanceando um olhar +d'alegria á porta do quarto onde estava descançando a neta. + +O padre capellão, sem se dar o incommodo de desculpar a ligeireza com +que alinhavara as suas orações, appareceu mordido de curiosidade. + +--E o caso é que pensei que das indagações já não sobrava tempo para o +nosso voltarete!--disse o Teixeira sentando-se a um gesto da +morgada.--Venho tarde, e porei por desculpa da demora o bom empenho que +tinha em poder satisfazer a justa anciedade de vossa senhoria. + +--Não obstante serem boas as informações, supplico-lhe que não aggrave +as côres do quadro, dado que entre por ahi de improviso a minha neta, +que se recolheu aos seus quartos, por ordem minha, para não ser +testemunha auricular da narrativa no caso de que fosse lugubre. + +--Os francezes foram repellidos heroicamente, disse o fidalgo baixando a +voz. + +--Vamos a isso! atalhou o padre capellão fungando uma pitada. + +O fidalgo proseguiu: + +--Os francezes não ousaram metter-se ao Minho, que vae de monte a monte, +com a agua que tem caído, por se arreceiarem da cheia. Trouxeram por +terra os barcos que puderam obter na Guardia, e puzeram-n'os a nado no +Tamuge. + +--Que artes teem os malditosl exclamou o capellão lembrando-se de +que não haveria thesouro que resistisse á astucia franceza. + +--Deixe ouvir... observou a morgada. + +--Eram vinte e tantos os barcos, que pretendiam abicar á praia do +Camarido. Trez separaram-se, ao descer o rio, e chegando primeiro á +praia, os soldados desembarcaram. Os outros barcos tiveram que luctar, e +muito, contra a maré que lhes era adversa. Isto durou toda a noite. Só +hontem de madrugada foi que o Champalimaud percebeu claramente a +tentativa do inimigo, e que mandou fazer fogo de fuzilaria. Um dos +barcos foi a pique; outro despedaçou-o o mar. Os francezes dos trez +primeiros barcos refugiaram-se no Camarido. Estes desastres deram alento +aos paisanos, que se embarcaram para atacar o inimigo no rio, protegidos +pela artilharia da Areia Grossa e da Insua, e pelos soldados do 21. Os +francezes, contrariados pela correnteza das aguas e pela resistencia dos +nossos, retrocederam para a margem direita do Minho, desesperando +d'atravessal-o. Então bateram os nossos a matta do Camarido, encontrando +dentro mais de trinta francezes, um dos quaes consta ser capitão e haver +declarado o nome do general em chefe de todo o exercito. Chama-se Soult +o general... + +--Elles tambem escolhem-n'os pelos nomes! interrompeu o padre para quem +toda a prosodia era difficil, incluindo a latina e a... portugueza. + +--Os paisanos, segundo se dizia em Braga, fizeram proezas, continuou +placidamente o fidalgo. Até as mulheres acudiram com fouces roçadouras e +forcados. + +--Nunca as mãos lhes dôam... observou impudentemente o capellão + +--Pelo meio dia atacaram os francezes Villa Nova da Cerveira, sendo +ainda repellidos brilhantemente pelos nossos, tropa e povo. Mas, senhora +morgada, o que mais dava que falar era a coragem de trez rapazes de +Valença, que se arrojaram a ir encravar um morteiro, que os francezes +tratavam de assestar contra a praça. Isto é o que se sabe desde manhã; o +que já se terá passado pertence a Deus e aos que estão em armas. + +--Mas que lhe parece a vossa senhoria: entrarão ou não entrarão? +perguntou a morgada. + +--Para que nos havemos de illudir com mentirosas esperanças? Os +invasores são poderosos e por mais d'uma parte poderão entrar, ao passo +que os nossos, divididos para guarnecerem as fronteiras, perdem muito de +sua força n'essa mesma divisão. + +--Com que então não se fala por ora em guerra! disse de improviso a +morgada ouvindo abrir a porta do quarto d'Augusta. + +O fidalgo já não teve tempo de responder porque sentiu na sala os passos +da menina. + +--Então não ha guerra? exclamou Augusta com graciosa innocencia. + +--Não ha, não ha, respondeu amavelmente o fidalgo; a não ser a do nosso +voltarete. + +E continuou, convidando a morgada a sentar-se: + +--Permitta-me vossa senhoria, senhora morgada que eu continue a assestar +a bateria dos codilhos contra a muralha de _preferencias_ do nosso +reverendo. Então, padre capellão, quer sentar-se?... Em que estava +pensando tão absorto? + +--Estava pensando que se não puderem entrar pelo litoral, poderão entrar +por Chaves, porque o castello está desmantelado, disse o capellão com a +maxima impudencia ou com a maxima velhacaria. + +--O quê?! perguntaram todos a um tempo, incluindo Augusta, que pareceu +fulminada de raio. + +--Ah! sim... isto é quando elles entrarem. Vamos lá fazer a partida. + + * * * * * + + +III + +Pomba que presente sangue + +A morgada das Chãs passou agitadamente essa noite, e do inquieto cogitar +na solidão do seu quarto resultou levantar-se decidida a partir n'esse +dia com a neta. + +O padre capellão negociou as cem moedas... comsigo mesmo, dizendo que as +obtivera d'um proprietario mediante o desconto dos juros d'um semestre +adiantado. + +Partiu a morgada, de manhã, para o Porto, acompanhada por Augusta, +depois de haver entregado as chaves da sua casa ao capellão, que tinha +nos labios um sorriso de alvar alegria. Tambem a morgada estava radiosa +do duplo jubilo de poder respirar desopprimida da sombra d'aquelle +homem, e de ir collocar sob o amparo paternal a neta querida do seu +coração. Nas faces d'Augusta havia egualmente um reflexo d'intimo +contentamento, não só porque a aproximavam dos paes, mas porque a +levavam para os braços do irmão, a quem ternamente estremecia, e com o +qual permutava cartas diarias perfumadas das mais suaves fragrancias do +amor de familia. + +A menina contava quinze annos, como já sabemos; o irmão, que se chamava +José Maria, tinha dezeseis. Estas duas creanças eram filhas do capitão +do exercito Graça Strech, que em 1809 morava á rua nova do Almada[2]. +O appellido Strech inculca á primeira vista procedencia +estrangeira, e realmente é d'origem germanica. O pae do capitão Graça, +allemão de nascimento, fôra capitão de navios, e tivera por ultimo um +modesto estabelecimento commercial em Cima do Muro. Os dois filhos de +Graça Strech nasceram porem á rua Direita, na casa que divide a rua de +Santo Ildefonso da rua de Santo André, e onde elle morára durante os +annos de 1793 e 1794. + +Augusta era tudo o que se póde imaginar de graciosamente feminil na +época em que nos é dado conhecel-a. O pintor que quizesse retratal-a +facilmente lançaria á tela os cabellos loiros, naturalmente annelados; +os olhos d'um azul suavissimo como os mais formosos horizontes; as faces +d'uma brancura levemente rosada; a estatura _mignonne_,--tudo quanto +póde haver de mais correcto e dôce em figura de mulher. Mas a +difficuldade estaria seguramente em reproduzir no retrato a meiga +morbidez dos lirios que se abrem ao desabrochar da manhã. E n'ella +brotava a mulher das graças da creança, como um lirio á luz da aurora. + +José Maria era uma organisação inteiramente opposta á de sua irmã. +Dir-se-ia que ella havia nascido para rosa, e elle para roble; ella para +succumbir, e elle para luctar. Desenhavam-se no seu corpo de dezeseis +annos os contornos athleticos d'um spartano. Olhos vivos, e pretos como +os cabellos; talhe esbelto, maneiras sacudidas e ageis. Pois que elle +era a força e Augusta a brandura, affigurava-se providencial essa +disparidade de constituições, e até de genios, para que a flôr pudesse +ser protegida pela sombra do roble. + +Quando a morgada das Chãs chegou ao Porto, entrou-se de profundo +arrependimento por ter feito vingar a sua resolução. Em casa da familia +Strech era grande a tristeza. O pae e o irmão[3] estavam no +exercito, e portanto a tristeza provinha da anciedade com que o azar dos +combates alvoroça sempre as familias dos militares. + +--Eu trouxe Augusta, dizia a morgada, chorando, á filha, para que, se +houvesse de correr perigos, não ficasse o meu coração atormentado de +medonha responsabilidade; porque mais facilmente saberia aqui noticias +do pae e do irmão do que nas Chãs; e porque finalmente o Porto +offerecia maiores garantias e segurança do que qualquer outra terra. + +De feito, a cidade do Porto era julgada inexpugnavel, e a ella se +acolhera grande parte da população do Minho, á medida que os +acontecimentos da guerra se iam desdobrando. + +Tratemos de saber quaes foram. + +Os francezes, impossibilitados de seguir o caminho do litoral, que lhes +tinha sido ordenado, marcharam para Traz-os-Montes no proposito de +entrar em Portugal pelo valle do Tamega. No dia 8 de março estavam as +avançadas francezas á vista de Chaves, que no dia 10 foi sitiada, +rendendo-se no dia 12. O marechal Soult, vendo-se impossibilitado de +guardar os prisioneiros, despediu as milicias e as ordenanças, que +estavam dentro da praça, depois de lhes exigir juramento de que nunca +mais pegariam em armas. As praças da tropa de linha convidou-as a +bandearem-se no seu exercito; ellas unanimemente aceitaram com o +proposito de desertar, como aconteceu. + +O sonho de Soult era tomar o Porto, e para o realisar tinha nada menos +que dois caminhos: o que vae a Villa Real e o que vae a Braga. O +marechal preferiu o segundo, por ser o menos accidentado. Chegado que +fosse a Braga, só encontraria no caminho do Porto a difficuldade da +passagem do Ave em Santo Thyrso. Seguiu, pois, o exercito francez para +as alturas de Barroso no dia 14. O general Bernardim Freire d'Andrade, +tendo noticia de que os piquetes francezes escaramuçavam na Portella de +Avado e em Villarelho da Raia com as avançadas do general Silveira, +commandadas pelo coronel Magalhães Pizarro, tomou desde logo todas as +medidas possiveis para salvar o Porto, repartindo as suas pequenas +forças por Salamonde, Ruivães, Salto e Ponte do Cavez, guarnecendo a +raia, e mandando occupar Amarante o brigadeiro Victoria, a cujas ordens +militavam o capitão Graça Strech e seu filho. + +No dia 15 foi Freire de Andrade insultado pela população de S. Gens, +quando voltava de visitar os postos entre Braga e Ruivães. O fim a que +avisava o general portuguez era retardar a marcha do inimigo sobre +Braga, quanto lhe fosse possivel, para dar tempo a que d'aquella cidade +saíssem para a defeza do Porto as munições e o laboratorio. Depois de +haver expedido ordem ao brigadeiro Victoria para se internar no +Porto, recolheu-se Freire d'Andrade no dia 17 a Braga, encontrando por +todo o caminho vestigios da grandissima exaltação popular, que se +levantára mal que soou a noticia da aproximação dos francezes. Dado o +signal de rebate, o povo do Minho saíu em turbamulta a esperar o inimigo +em Carvalho d'Éste, e outros logares convisinhos, armado de chuços, +fouces roçadouras, e mais instrumentos proprios do seu uso. + +Em Carvalho d'Éste houve brodio geral, constante de pão e vinho, a +expensas d'alguns particulares patriotas, o que não obstou a que um dos +membros da sordida junta de segurança apresentasse o rol das despezas. +Procedendo-se a uma collecta geral, que foi voluntariamente paga, ficou +o povo duplamente esfomeado, porque a contribuição parece que só +aproveitou á junta de segurança. + +Avisinharam-se, finalmente, os francezes da cidade de Braga, e +conhecendo Freire d'Andrade, no dia 17 em que ali entrou, que era +impossivel qualquer defeza, mandou retirar pela estrada do Porto, +resolvido a embargar denodadamente o passo ao inimigo n'essa marcha. + +Todavia o povo, suppondo-o traidor por não se haver empenhado em acção +geral com os invasores, saíu-lhe ao encontro em Carapoa, e já ahi seria +morto se lhe não valesse Antonio Berardo da Silva, commandante de uma +brigada de ordenanças. + +Removido o inesperado perigo, seguiu o general seu caminho, mas +encontrando-o as ordenanças de Tabosa, prenderam-n'o e conduziram-n'o a +Braga, onde, chegado que foi é prisão do Aljube, a populaça desenfreada +o arremessou pelas escadas abaixo, acabando de matal-o ás chuçadas. + +Subsequentemente foram tambem immolados á sanha popular, em Braga, o +quartel-mestre general de Bernardim Freire, Custodio Gomes Villas Boas, +o corregedor da cidade, Bernardo José de Passos, e outros; e em Santo +Thyrso, D. João Correa de Sá e Manoel Ferreira Sarmento. + +No mesmo dia da morte do general Bernardim Freire de Andrade tomavam os +francezes posição em frente de Carvalho d'Éste, sendo repellidos no +primeiro ataque. + +O barão d'Eben commandava as nossas tropas, com as quaes se havia +bandeado a gente das aldeias convisinhas. Entre a populaça contavam-se +os criados da quinta das Chãs que desampararam o padre capellão, sempre +prompto a castigal-os, e odiado por elles. + +Pelas onze horas da noite chegaram, para reforçar o posto, a legião de +Salamonde e duas companhias do regimento de Vianna. Soldados e povo +estavam famelicos. Durante a noite um magote de populares, engrossado +pelos criados da morgada, bateu ao portão da quinta. Ao primeiro +chamamento não respondeu ninguem; ao segundo assomou a uma das janellas +a cabeça silicosa do padre capellão. + +--Pão e vinho! gritou a turba. + +--Não está cá a senhora morgada, tartamudeou o reverendo. + +--É o mesmo; abra a porta, contestou o gentio. + +Como porém a impaciencia da turba fosse muita, a populaça metteu a porta +dentro a tempo que o padre atravessava o pateo de lampeão em punho. + +Um dos populares vibrou-lhe uma chuçada que o prostrou, e logo outro, +que era criado da casa, acrescentou:--Vamos á _burra_ do padreca; no que +fôr da senhora morgada não se toca. + +No dia seguinte atacou o inimigo novamente Carvalho d'Éste, e no dia 20 +voltou ao ataque, apparecendo em grande força. + +Parece que a Providencia havia aconselhado a morgada das Chãs a fugir de +um ponto onde a lucta foi mais renhida, porque, posto que os populares a +respeitassem, o inimigo caiu no dia 20 em forte columna sobre Carvalho +d'Éste, empenhando-se ataque geral, e sendo desesperada a posição dos +nossos, que fugiram em grande confusão, acossados muito de perto pela +cavallaria franceza. + +No pateo da quinta das Chãs tinham os nossos quinze barris de polvora +que, não podendo ser salvos, por estar muito proximo o inimigo, foram +incendiados por ordem do barão d'Eben, perecendo oito homens na execução +d'esse serviço.[4] As chammas, enleiando-se pelos alpendres +encostados ao edificio, acabaram por envolvel-o, e, horas depois dos +francezes entrarem em Braga, e a tempo que o povo enfuriado matava +os presos encarcerados no Aljube, ardia, chammejando como fornalha +enorme, o solar das Chãs, a duas leguas de distancia da cidade invadida. + +A noticia da tomada de Braga só se soube no Porto no dia 22, quer dizer, +quarenta e oito horas depois. + +Havia dias que o brigadeiro Victoria se tinha internado n'esta ultima +cidade com as suas forças, por ordem do agora fallecido Bernardim Freire +de Andrade. Como já sabemos, o capitão Graça Strech e seu filho +militavam ás ordens deste brigadeiro. Portanto, teve Augusta occasião de +abraçar o irmão e o pae, que procuraram serenar com palavras de carinho +e conforto os receios do angustiado coração da menina. + +A morgada, quando soube que os francezes tinham rompido por Carvalho +d'Éste sobre Braga, apesar de ignorar os pormenores da lucta, a morte do +capellão e o incendio do solar, agradeceu ao anjo da guarda a inspiração +da resolução tomada. + +N'esse mesmo dia foi o Porto theatro de lastimosas scenas. + +Conhecida a derrota de Braga, dirigiu-se a populaça á cadeia da Relação, +reclamando a entrega dos presos da Inconfidencia, e arrancando para fóra +dos muros do carcere o brigadeiro Luiz d'Oliveira e mais quatorze +infelizes, que foram arrastados pelas ruas até Villa Nova de Gaya, +d'onde a gentalha ensanguentada os precipitou, do Caes da Bica, á +corrente do Douro, por haverem sido condemnados á morte pelo tribunal +popular constituido na _Porta do Olival_. + +Só o bispo, D. Antonio José de Castro, poderia, por muito respeitado que +era, conter a furia dos cannibaes das ruas, mas, provavelmente para não +incorrer no desagrado da canalha contrariando-lhe os brutaes instinctos, +deixou-a espostejar á vontade os presos da Inconfiencia. + +Sua excellencia reverendissima é que se não arriscou a ser conceituado +de jacobino. + +Quando a turba descia com os presos a calçada dos Clerigos, ouvia-se na +rua Nova do Almada a celeuma das victimas e dos algozes. + +Augusta, tremula de horror, acolheu-se nos bracos do irmão, que obtivera +licença para sair por alguns momentos do seu posto na linha de +defesa, e poz as mãos supplicando a Deus que a tirasse do mundo onde os +homens se estavam despedaçando como feras no sertão. + +Só as caricias de José Maria lograram aquietal-a, quando a vozeria soava +mais longe, porque já a multidão havia enveredado pela rua das Flores, +caminho da Ribeira. + +A mãe e a avó pareciam agonisar abraçadas em estreito amplexo. + +O marechal Soult, senhor de Braga, podia recuperar as suas communicações +com Tuy ou marchar sobre o Porto, mas, como era natural, attenta a +importancia d'esta cidade e a fama das suas riquezas, optou pelo segundo +dos caminhos a tomar, porque melhor realisaria assim o seu sonho de +conquistador. + +Ouçamos o sr. Soriano historiando o roteiro que o marechal Soult seguiu +de Braga ao Porto: «Deixando portanto em Braga a divisão do general +Heudelet, para lhe defender a rectaguarda contra as incursões do general +portuguez, José Antonio Botelho de Sousa e Vasconcellos, que commandava +as forças da divisão da raia, entre os rios Lima e Minho, dividiu o seu +exercito em trez columnas, a primeira marchou pela estrada de Guimarães +a S. Justo, com ordem de forçar a passagem do Ave de Cima e occupar o +campo do lado de Pombeiro; a segunda, commandada pelo proprio Soult em +pessoa, marchou logo direita á Barca da Trofa; e a terceira, deixando +Barcellos, para onde de Braga tinha sido mandada, tomou a estrada da +ponte do Ave. A passagem d'este rio foi fortemente disputada pelos +portuguezes, sendo a columna da esquerda obrigada a bater-se +renhidamente em Guimarães, Pombeiro, Negrellos, e sobretudo n'este +ultimo ponto, onde morreu o bravo general Jardon, cuja falta muito +sentida foi pela totalidade do exercito inimigo. A marcha da columna do +centro foi interrompida na Barca da Trofa, por se ter n'ella cortado a +ponte do Ave; mas Soult, vendo o grande cumulo das nossas forças ali, +forçou a passagem em S. Justo, ganhando a margem opposta. Desde então +facil lhe foi a columna da direita fazer o mesmo, ficando assim vencida +a passagem do Ave em todos os pontos, e portanto aberto inteiramente o +caminho em direitura para a cidade do Porto, a cujos entrincheiramentos +o exercito francez chegou no dia 27 de março.» + +Na tarde d'esse mesmo dia a guarda avançada do inimigo, acampado em S. +Mamede de Infesta, adeantou-se até um quarto de legua das baterias do +Porto. + +Ouviu-se na cidade o fogo indicativo da aproximação dos francezes. Para +logo se espalhou o terror, não obstante terem sido organisados alguns +elementos de resistencia. + +As familias que tinham os seus empenhados nas linhas de defeza, +afflictivamente receiavam os perigos de uma grande catastrophe, pois que +ainda quando a lucta fosse coroada pela victoria, havia de interpôr-se +aos primeiros combates e aos louros do triumpho um mar de sangue portuguez. + +Que dolorosa commoção não seria a de Augusta, que torturado soffrer nas +vascas da anciedade não seria o seu, ao ouvir estrondear á distancia o +fogo que os invasores assestavam contra as linhas de defeza, onde +combatiam o pae e o irmão! Aquellas trez mulheres, a avó, a mãe e a +filha, ajoelhadas deante de uma imagem de Nossa Senhora, cerrando +convulsamente os olhos a cada detonação longinqua, dir-se-iam outros +tantos authómatos, empedrados pelo terror, se não fôra o ciciar dos +labios e o abrir e fechar nervoso das palpebras. + +Sabem como baloiça a haste do lirio, quando o sopro calido da tempestade +proxima passa esfuziando por entre a folhagem das plantas que lhe +offereciam resguardo? + +Tal era Augusta, lirio vasado em moldes de mulher, entre os dois +corações amigos, o da avó e o da mãe, que já não podiam garantir-lhe +protecção. + +Conhecera o marechal Soult que era má a fortificação da cidade e má a +guarnição, e expediu no dia 28 um emissario propondo capitulação. O +emissario, para se não arriscar á morte, serviu-se de um ardil de guerra +e disse-se incumbido de negociar a entrega do exercito francez mediante +condições favoraveis. + +Entrou o bispo em negociação, cuja má fé, por parte dos invasores, +estava manifesta na circumstancia de continuar a ser intenso o ataque +durante todo o dia. + +N'essa tarde ouviu-se subitamente grande celeuma nas ruas. +Recresceu a anciedade no presupposto de serem as avançadas francezas. + +A morgada das Chãs teve a coragem precisa para se aproximar da vidraça, +e viu um militar francez rodeado de grande turba de populares que +gritavam enfuriadamente: «_Morra o Maneta! Morra!_» + +Adivinhou-lhe o coração que era um emissario, que provavelmente ia á +bateria de S. Francisco a parlamentar com o bispo. Quasi defronte das +janellas, como augmentassem as vozes de: _Morra Loison, morra o Maneta_, +o militar francez levantou ambos os braços para desfazer o equivoco. Não +obstante, a populaça arremettia contra o cavallo em que elle vinha +montado, e a celeuma rugia temerosamente. + +A morgada correu a abraçar a filha e a neta, ajoelharam orando +fervorosamente, e longo tempo supplicaram que um raio da Providencia +illuminasse o coração do povo, para que á desgraça da invasão não +sobreviesse a furia da represalia. + +O emissario francez não era effectivamente o general Loison, mas o +general Foy; com blandicias e ameaças, escriptas por Soult, vinha propôr +a rendição, que foi recusada. + +Com este acontecimento fechou a tarde do dia 28 tempestuosa e triste, +como se o céo compartisse do luto da terra. Ás detonações do trovão +respondiam as detonações da artilharia. + + [2] Chamava-se então rua _Nova_, porque o celebre governador + da cidade. Francisco d'Almada e Mendonça, fallecido em 1804, tinha + transformado a antiga rua das Hortas n'esta nova rua, que tomou + o seu nome. + + [3] Por decreto de 11 de dezembro de 1808 toda a nação foi + obrigada a pegar em armas. + + [4] Este facto consta do relatorio do proprio barão. + + * * * * * + + +IV + +Horrores da invasão + +Durante a noite de 28 para 29 continuou tão rijo o fogo, que o inimigo +logrou forçar a bateria da Prelada. + +Grande era o pavor da cidade, e maior foi quando se soube que sua +excellencia o bispo generalissimo se havia retirado para a Serra do Pilar. + +Este facto demonstrava não só a descrença do prelado na defeza do Porto, +senão que tambem punha a descoberto a intenção de fuga, no caso de +perigo, o que realmente aconteceu. + +Não lastimemos a impiedade deshumana do pastor, que abandonava em tão +dolorosa conjunctura o rebanho indefeso, porque basta a historia a +stygmatisal-a, mas calculemos a funesta impressão que semelhante noticia +causaria nos animos desalentados dos portuenses. + +A familia do capitão Graça Strech foi seguramente uma das que mais +succumbiram n'aquella tormentosa noite. + +As trez mulheres estavam entregues ás suas orações e angustias, +inabalaveis no proposito de esperar a pé quedo a desgraça, +verdadeiramente sós, porque os criados, que foram os primeiros a dar +rebate, fugiram, durante a noite, bandeados com outros habitantes, para +Gaya. + +O capitão e o filho combatiam ás ordens do brigadeiro Victoria, na linha +do Bomfim, posto defensivo que, á hora da invasão, veiu a nobilitar-se +com esforçados prodigios de coragem por parte do intrepido brigadeiro e +dos seus. + +Umas visinhas da familia Strech, já preparadas para a fuga, instaram com +as pobres senhoras para que as acompanhassem. Segundo o seu plano, +acoitar-se-iam em Gondomar, onde diziam ter parentes lavradores. + +Augusta, lavada em lagrimas, e offegante de commoção, reagiu energicamente. + +--Se meu pae e meu irmão morrerem--dizia ella--deixemo-nos morrer +tambem, porque o viver sem elles seria peior que a morte. Se vencermos, +seremos as primeiras a abraçal-os, a agradecer-lhes por nós e pela +patria. Elles cumprem o seu dever; e nós tambem. Elles estão no seu +posto; nós estamos no nosso. O meu coração revolta-se contra a ideia de +levarmos o egoismo da nossa vida até ao esquecimento de que temos dois +soldados nas linhas de defeza. Muito obrigada, minhas amigas, mas minha +mãe e minha avó são da mesma opinião, e ficaremos todas. O perigo, se o +houver, repartido por trez será menor. Vão, não percam tempo; oxalá que +nos tornemos a vêr... + +E despediram-se, chorando e soluçando, como se se despedissem para a +eternidade. + +Ao alvorejar da manhã forçaram os francezes as baterias de Santo +Antonio, Pedral e Aguardente. + +A cavallaria inimiga, entrando a dois de fundo pelas ruas da cidade, +correu a atacar pela rectaguarda as baterias que resistiam ainda. + +Uma das que por mais tempo, e mais heroicamente resistiram, foi a do +Bomfim. + +Já quando era grande a confusão em todo o circuito, destacou o +brigadeiro Victoria para o exterior da linha a gente que lhe restava da +legião lusitana, e mais duas partidas na força total de cem homens. + +O brigadeiro, o tenente coronel Champalimaud, o ajudante da praça de +Valency, Antonio de Azevedo, e o capitão Graça Strech corriam +denodadamente de um lado a outro animando o povo, que ali confluira, e +que esperava poder fugir protegido por duas baterias, as quaes não só +defendiam a rua do Bomfim mas até as baterias de Campanhã. + +Outro tanto não aconteceu no lado esquerdo da linha, commandado pelo +brigadeiro Antonio de Lima Barreto. + +Logo pela manhã o immigo começou a atacal-o com energia; Barreto, +perdendo algumas baterias, voltou-se para os artilheiros dizendo-lhes: + +--Encravem as peças. Retirem-se. Estamos perdidos. + +Os soldados, ouvida a ignara apostrophe, metteram-lhe duas balas +no corpo, e despejaram a ultima polvora contra o inimigo. + +Quando a cavallaria franceza, forçando a bateria d'Aguardente, entrou na +cidade, as ordenanças, desamparados os postos, fugiram tumultuariamente +para a ponte pelas ruas da Sovella e nova do Almada. + +A morgada, ouvindo o estridor dos fugitivos, ainda longinquo, correu á +janella, e reconheceu á distancia as ordenanças. + +--Que é? perguntaram-lhe anciosamente a filha e a neta. + +--Não é nada; é o povo que se affez a correr e a gritar, respondeu a +morgada, tranquillisando ambas. + +Como porém a massa enorme rolasse já mais perto, ouviram-se +distinctamente vozes de: + +--São os francezes! + +--Vem ahi! + +--Fujam! fujam! + +--Á ponte! á ponte! + +--Não ha outro caminho! + +--Depressa! + +Augusta, que tinha chegado a meio da sala, recuou espavorida, e +deixou-se cair nos braços da mãe, gritando dolorosamente: + +--Ah! meu pae!... meu irmão! + +Os francezes, entrando na cidade, levaram de roldão adeante de si a onda +allucinada dos fugitivos que procuravam salvar-se. D'elles, uns tomavam +a direcção da Foz, outros, em maior numero, corriam para a Ribeira, na +ancia de atravessar para Villa Nova. Alguns passaram o rio a nado ou em +barcos. Mas o grosso da multidão, enovelando-se n'uma vertiginosa +confusão de pavor, rolou sobre a ponte, cujo taboleiro assentava, de +espaço a espaço, sobre um renque de lanchões. E as primeiras pessoas que +conseguiram transpol-a abriram, logo que se julgaram a salvo, os +alçapões da ponte--systema de defesa empregado em casos +extremos--pensando preparar assim um desastre aos francezes que as +perseguiam. + +Novos fugitivos, onda sobre onda, empurrando-se uns aos outros, cegos de +desespero, loucos de medo, iam caindo pelos alçapões ao rio, e a +dizimada cavallaria portugueza, fugindo tambem, e procurando a ponte, +maior pressão fazia ainda sobre a grande massa de povo, pisando-a, +atropellando-a, empurrando-a com os cavallos para o sorvedouro +hiante onde centenas de pessoas desappareciam, ao mesmo tempo que as +baterias de Villa Nova, vendo os francezes descer a rua de S. João, iam +metralhando a Ribeira, e augmentando involuntariamente o terror e o +morticinio. + +Diz-se que eram tantos os mortos, que, empilhados no vacuo dos alçapões, +nivelaram o pavimento da ponte, facilitando passagem aos ultimos +fugitivos por cima de rumas de cadaveres sobrepostos uns aos outros. + +Os proprios invasores se commoveram com esta horrorosa tragedia, e ainda +puderam salvar da morte algumas pessoas. + +Depois, lançando pranchas sobre os alçapões, passaram para Villa Nova, +d'onde facilmente desalojaram as nossas baterias. + +Saibamos agora qual seria a sorte do capitão Graça Strech e da sua +familia n'essas crudelissimas horas da invasão. + +Esteve o capitão ao lado do brigadeiro Victoria, na bateria do Bomfim, +até aos ultimos momentos em que a ambos, e a poucos mais, foi dado +combater pela patria. + +O que é certo, e a historia o refere, é que puderam proteger a retirada +de mais de seis mil pessoas, que se evadiram por aquelle lado da cidade. + +Abrigados os restantes valentes por um muro, que se levantava no outeiro +do Bomfim, lograram continuar o fogo com desesperado denodo. + +Foi realmente heroico esse render-se de heroes, quando, desamparados de +todo o soccorro, enviaram ao inimigo a ultima metralha que lhes restava. + +O brigadeiro Victoria, conhecendo insustentavel a posição, apertou a mão +do tenente coronel Champalimaud, do ajudante Antonio de Azevedo e do +capitão Graça Strech, dizendo-lhes com voz tremula de commoção: + +--Meus amigos, meus bravos amigos, o sacrificio da nossa vida nada +aproveitaria á patria, que está invadida. Fizemos o nosso dever; +pelejámos emquanto pudemos. Agora que cada um procure salvar a sua vida +para quando mais util possa ser á terra em que nascemos. + +Mal acabava de dizer estas palavras cahiam feridas duas pessoas +das que rodeavam o brigadeiro: o commandante dos artilheiros e o capitão +Graça Strech. + +--Que foi? perguntou Victoria. + +--Foi a ultima arcanhadura dos francezes, responderam a um tempo os dois +bravos militares. + +Era necessario retirar; por Campanhã já não podia ser. Optaram por +atravessar o Douro, que o brigadeiro e alguns officiaes conseguiram +passar defronte d'Avintes. N'esse numero porém não podemos incluir o +capitão Graça Strech. + +Ferido no peito, se bem que houvesse dissimulado a gravidade do +ferimento, conheceu que era perigoso o seu estado. Foi então que se +lembrou da filha, da esposa, da sogra, e do filho, que havia duas horas +tinha perdido de vista. + +Que seria d'ellas, pobres mulheres, entregues sem protecção aos horrores +d'aquelle dia? E o filho, que se batera como valente na bateria do +Bomfim, haveria ficado entre os muitos que lá succumbiram, e adormeceram +sobre a terra embebida no sangue de seus irmãos? + +Não sabia. + +Oh! mas era preciso que o soubesse antes que se lhe fechasse em torno a +noite escura da eternidade. Pouco lhe importava morrer; o que elle +queria era obter a certeza de que a embriaguez da victoria não tinha +desvairado os invasores ao extremo de não respeitarem fracas mulheres +indefesas. + +Ainda se restasse vigoroso o braço do filho para amparar o golpe que +fosse vibrado contra ellas! + +Não o pôde suppôr; julgou-o morto nos derradeiros momentos da refrega, +por que o não tornou a vêr. + +Atravessar o Douro era arriscado; tentar internar-se na cidade, tambem. +Todavia o primeiro meio era a morte no desespero; o segundo podia ser a +morte com a esperança. + +Abraçou-se pois a esse unico esteio que lhe restava--a esperança, de +poder abraçar os seus. + +Arrancou os vivos da farda, e, esquecido de si, e do sangue que cada vez +lhe repuxava do peito com maior intensidade, tentou descer a rua do +bomfim e bandear-se em logar azado com a turba dos que percorriam as +ruas desvairadamente. + +Do militar que fôra, arrancados os vivos e emblemas, só lhe restava a alma. + +Poucos passos andados, sentiu porém que lhe ía fugindo a vista, á medida +que empenhava as ultimas forças para adiantar caminho. + +Ainda mais uma vez enganára a coragem do soldado o coração do pae. + +Quiz andar. Fraquejaram-lhe as pernas, e Graça Strech procurou com a mão +um amparo que não encontrou. + +Após um momento de oscillação, ruiu em terra. Estava morto. + +Entretanto havia occorrido a enorme desgraça da ponte, e os invasores, +enfurecidos pela resistencia que encontraram, iam encetar as tremendas +represalias que estão na memoria de todos os portuenses. + +Infelizes os que tiveram de assistir hora a hora a esse drama de sangue +e terror que teve por bastidores os muros d'uma cidade inteira. +Infelizes os que viram despedaçar-se momento a momento nas garras dos +cannibaes os até então immaculados thesouros do seu coração. Infelizes, +finalmente, os que viram cavar-se a seus pés a sepultura ingente de +milhares de familias e não puderam enchel-a com o sangue dos que +assassinavam em nome da victoria. + +José Maria da Graça Strech pertence ao numero d'estes grandes +desgraçados, que foram muitos. + +Quando a bateria do Bomfim protegeu a fuga de seis mil pessoas, já +quando, depois das oito horas da manhã, era desesperada a situação dos +portuenses, duas senhoras, que se destacaram da multidão desorientada, +acenaram ao denodado moço que por acaso olhára na direcção que ellas +seguiam. + +Elle reconheceu-as. Eram as duas visinhas que horas antes tinham +convidado Augusta a acompanhal-as na fuga e que, arrastadas pela onda +impetuosa dos que procuravam salvação, chegaram até ao Bomfim. + +Abeirou-se o moço a falar-lhes, por um momento radioso de felicidade, +porque lhe acudira a lembrança de que as pessoas da sua familia as +haveriam acompanhado. Oh! se sua irmã, se a estremecida menina estivesse +ali, poderia fugir incolume aos horrores que elle presagiava imminentes, +attenta a vantagem do inimigo em toda a linha. + +--Ellas vieram? perguntou açodadamente José Maria. + +--Não, teimaram em ficar, respondeu confrangida uma das senhoras. + +--Oh! meu Deus! exclamou o filho do capitão Strech levando a mão ao +coração. + +--Veja se póde salval-as, salve-as por Deus, que estão sósinhas, +desampadas de criados... + +--Mas como? Como?! articulou o moço estendendo o braço para a posição do +inimigo, como se quizesse indicar que era preciso combater a todo o transe. + +--Augusta, a pobresinha, fazia dó! Oh! salve-a, salve-a, que ella +morrerá de pavor! acrescentou a outra visinha. + +--Augusta! Augusta! repetiu José Maria, perplexo, olhando para as duas +lacrimosas mulheres e para os seus companheiros d'armas que defendiam á +distancia a unica bateria que não se tinha rendido. + +E, sem se mover do sitio em que empedrára, dizia com desalento: + +--Pobresinhas! E meu pae ali, exposto á morte a todo o instante, e ellas +sem defeza, sem ninguem!... + +Então, aproveitando a opportunidade d'um momento, ordenára o coronel +Champalimaud que se désse passagem ao magote dos fugitivos que mais se +tinha adiantado. + +--Vão, vão, gritou o moço affastando com o braço as duas +mulheres--Salvem-se ao menos, e obrigado, muito obrigado. Eu verei se as +posso salvar... a ellas, a Augusta. + +O troar proximo do canhão pareceu chamal-o á realidade do perigo. + +--São elles, disse de si para comsigo, correndo na direcção da bateria, +os poucos que n'esta hora se sacrificam pela patria. E tambem hão de ter +mãe, e irmã... e estão ali, firmes, corajosos, heroicos. Oh! cobardia do +meu coração, não, não te posso, não te devo ouvir... + +E não tardou que se collocasse ao lado dos seus esforçados companheiros. + +Todavia cada vez se aproximava mais o lastimoso desfecho d'aquella +desesperada resistencia. Começava a lavrar a confusão na bateria, +fustigada por violento fogo dos francezes--indomito ataque, de que +em breve foi victima, como já dissemos, o proprio capitão Graça Strech. +Tamanha era a fumarada, que já se tornava impossivel verem-se uns aos +outros. Foi então que José Maria, involto na cerração da metralha, +conhecendo que era impossivel prolongar por mais tempo aquella proeza de +bravos patriotas, se lembrou de que nada aproveitaria á causa da patria +o sacrificio da sua vida. E soaram-lhe aos ouvidos as palavras +afflictivas das duas mulheres, e sonhou ver estenderem-se para elle os +braços tremulos d'Augusta, que pedia soccorro. + +Então, como se o coração houvesse decretado uma sentença irrevogavel, +cortou resolutamente o fumo da polvora, e affastou-se da bateria, +murmurando os nomes de sua mãe, de sua irmã, de sua avó. + +Momentos depois foi que o brigadeiro Victoria fugiu tambem, e que o +capitão Graça Strech caiu morto na rua do Bomfim. + +Trabalhoso e arriscado foi o abrir caminho por entre a multidão que, +semelhante a um grande mar, ondulava no vertiginoso fluxo e refluxo do +desespero. Algumas vezes teve de se esconder, outras de retroceder, e só +pela tarde chegou á rua nova do Almada. + +Abroquelado pela energia da coragem, e mais feliz ou mais infeliz que +seu pae, venceu todas as contrariedades, até que finalmente, escoando-se +por entre os grupos desvatrados, entrou em casa no momento em que ao +fundo da rua assomavam tropas francezas que, senhoras de toda a cidade, +continuavam o saque, as violações e a carnificina que tristemente +assignalaram esse dia memoravel nos fastos da nossa historia. + + * * * * * + + +V + +O juramento de vingança + +As casas da rua nova do Almada estavam pela maior parte desertas. + +Foi esta uma das ruas que mais lutuoso espectaculo offereceram. Os +habitantes fugiram deixando abertas as portas, de modo que, á hora em +que começou o saque, os francezes se locupletaram tranquilamente. Poucos +foram os predios que lhes deram o breve incommodo de forçar a entrada. A +este numero pertenceu, porém, a casa onde se conservou, entregue aos +seus pavores, a familia Strech. José Maria, ao entrar açodado pela +aproximação dos invasores, appellou para o ultimo recurso de defeza que +lhe restava: fechou a porta. Lembrou-se de que os francezes se +domiciliariam nos predios devolutos e de que não porfiariam em forçar +uma entrada encontrando abertas tantas portas. Não pôde imaginar n'esse +momento de suprema preoccupação que meditassem a pilhagem e a +carnificina que, passadas horas, consummaram. + +Correu, pois, a procurar a irmã, a mãe e a avó, que, ouvindo passos +apressados, e no presupposto de serem os de algum soldado francez, +romperam em gritos angustiosos, traindo d'este modo o segredo dos seus +esconderijos. + +--Augusta! Augusta! Minha mãe! Avósinha! apostrophou precipitadamente +José Maria para serenal-as e correndo pelo corredor. + +--José! José! exclamou uma voz que parecia soar das profundezas de um +tumulo. + +E logo dois braços tremulos de commoção enleiaram o moço, e uns labios +gelados de mortal frialdade lhe procuraram as faces, e um novo grito de +dolorida alegria lhe estrugiu aos ouvidos. + +E immediatamente soaram passos, que elle conheceu: a mãe e a avó, +seguindo a pobre menina que as precedera, correram ao encontro de José +Maria. + +Augusta, apertando-o contra o peito, alternando beijos e olhares por +egual frementes, porque o sangue congelado no coração parecia, acordado +de subito, correr em turbilhões ao cerebro, não lograva articular +palavra, tão violenta era a sensação que estava experimentando. + +Não assim, porém, sua mãe, que, parando como que fulminada á porta, +tivera comtudo voz para perguntar ao filho enleiado pela irmã: + +--E... teu pae? + +--Lá ficou ainda a combater com os ultimos valentes. Bem póde ser que a +Providencia o tenha salvado como a mim me salvou. O cobarde fui eu, sim, +fui eu, porque me lembrei de ti, minha irmã, e de si, minha mãe, e... + +Não pôde completar a phrase, porque de repente foi chamado á realidade +pelo estrepito que a soldadesca franceza fazia na rua. + +--Retirem-se! escondam-se! gritou elle. São os francezes, bem os vi, são +elles! Esconde-te, Augusta, minha mãe, minha avó... + +N'este momento estremeceu o predio nos alicerces como se a porta tivesse +soffrido o embate de um ariete. + +--Que é? Onde é? perguntou offegante a menina, que de novo descorára até +á lividez do cadaver. + +--São elles que forçam a porta, naturalmente... Eu fechei-a quando +entrei, sim, eu fechei-a. + +--E estava aberta! Foram os criados quando fugiram! acrescentou a avó. + +--Escondam-se, escondamo-nos todos. Viram-me decerto entrar. +Perseguem-me! tornou afflicto José Maria. + +E, após segundo estrondo, soaram no portal e na escada os passos da +soldadesca que entrava. + +Das quatro pessoas que estavam na sala, nenhuma pôde fugir; todas como +que ficaram chumbadas ao pavimento. + +E os francezes entraram vozeando, praguejando, e logo assomaram á porta +muitas cabeças cujos olhos chammejavam de cubiça e sensualidade. + +Então José Maria, como galvanisado de subito, adeantou-se para a porta, +estendendo o braço para defender as trez mulheres e, quando ia +talvez a balbuciar uma supplica, caiu desamparado, vibrando um grito e +recebendo no peito a ponta de uma bayoneta, cujo golpe fôra mais +doloroso que profundo. + +As vozes das trez mulheres, conglobadas n'uma só, soltaram uma d'essas +exclamações impossiveis de descrever, apenas comparavel ao grito +lamentoso da araponga no deserto, quando encontra vazio o ninho, porque +uma ave de rapina lhe arrebatou a prole. + +E a soldadesca entrou de roldão na sala, affastando com o pé o corpo de +José Maria, sedenta de prazer e rapina. + +Para os que suppozerem que exageramos com toques demasiado sombrios os +horrores que se succederam á invasão do Porto, vamos copiar apenas +algumas linhas da _Historia da guerra civil_, de Soriano: + +«Para cumulo de todas estas desgraças a cidade foi posta a saque, por +castigo da sua resistencia, como em casos taes se costuma praticar, +saque que começou pelas onze horas do dia, levando os vencedores a todas +as casas de habitação, a par do terror que infundiam, o roubo, a +violação e a morte, excitados de mais a mais para isto por encontrarem, +segundo alguns dizem, varios prisioneiros francezes sem olhos, com +linguas cortadas, e os membros truncados ou rasgados.» + +Alguns escriptores o dizem, em verdade; um d'elles é o sr. Claudio de +Chaby que, nos seus _Excerptos historicos_, refere: + +«No transito das ruas e praças encontraram os soldados de Soult alguns +dos seus camaradas, que nas differentes refregas tinham os nossos +aprisionado, exercendo n'elles as sevicias da mais repugnante crueza: a +uns tinham cortado a lingua, arrancado a outros os olhos ou decepado os +membros!--O effeito natural da observação de taes crueldades, junto á +tambem natural disposição de espirito dos invasores em taes +circumstancias, levou estes á pratica de vingativos e deploraveis +excessos, de _assassinato, roubo, violencia e profanação_!» + +O mais que se passou na casa da rua nova do Almada, depois que a +soldadesca entrára, não o soube exactamente José Maria que, ao cerrar da +noite, tornára a si, depois de haver perdido muito sangue pelo +golpe que recebera no peito. Foi de tempestade na terra e no céo essa +noite, como podem confirmar os poucos que se lembrarem d'ella. + +Tamanho era o temporal havia dias imminente ao Porto, que trinta navios +inglezes, carregados de vinho e outros productos, impedidos de sair das +aguas do Douro pelo mau estado da barra, caíram em poder do marechal +Soult, bem como a polvora guardada n'um vasto armazem, e 196 peças de +artilharia, recolhidas nas differentes baterias da cidade. + +Algum tempo esteve José Maria firmado sobre o braço direito, que +d'instante a instante fraquejava, procurando orientar-se e recordar-se. + +Era profundo o silencio na casa toda. + +Dir-se-ia que despertava n'um tumulo. + +Assim que pôde rememorar o que se passára até ao momento de ser ferido, +entrou de chamar em altas vozes a irmã, a mãe e a avó. + +Apenas porém respondia ás suas afflictivas exclamações o chofrar dos +aguaceiros nas vidraças. + +Ergueu-se com muito custo, atabafando o sangue com a roupa, e começou a +sondar a escuridão, procurando alguem. + +Não tardou que tropeçasse n'um obstaculo que os pés encontraram. +Curvou-se e tacteou. Encontrou vestidos de mulher. Estendeu a mão e +apalpou um rosto. Até pelo tacto conhecemos os nossos. José Maria +estremeceu como se tivesse recebido em pleno peito um novo golpe de +ferro, e rugiu d'afflicção e desespero. Não podia duvidar. Era o rosto +de sua irmã. Parecia morta! Entrou de agital-a, de chamal-a. O mesmo +silencio, a mesma immobilidade! + +--Mortal morta! rouquejava elle convulso.--Minha mãe! minha avó! + +E unicamente lhe respondia a chuva a fustigar a vidraça. + +Occorreu-lhe porém que, como se deu com elle, podia ser que sua irmã +estivesse apenas adormecida em deliquio. + +--Ella é tão delicada! apostrophou-se elle. Desmaiou talvez. +Julgaram-n'a morta. Deixaram-n'a. Mas minha mãe? E minha avó? + +Era preciso tirar-se d'aquella duvida horrivel. + +Sondando as trevas, saíu tremendo, a procurar luz. + +Momentos depois voltava cambaleante á sala e, levantando una candieiro +de latão á altura da cara, reconhecia trez cadaveres. + +.......................................................................... + +N'essa mesma noite, e a essa mesma hora, ruidosamente se banqueteavam +n'uma taberna do largo da Lapa, ebrios de vinho e victoria, alguns +soldados da divisão Delaborde. + +Comia-se, bebia-se, fumava-se, cantava-se. Era a celebração solemne d'um +dia de saque, que requeria uma noite d'orgia. Algumas vivandeiras +francezas cantavam em côro, no idioma patrio, e reclinadas aos hombros +dos soldados, uma canção marcial, cujo estribilho podia ser traduzido +d'este modo: + + Viva a França! viva a França! + Que triumpha na matança! + Rataplan! + +Um dos soldados; de olhar scintillante e fartos bigodes retorcidos, +chasqueava na sua lingua natal com uma das vivandeiras que se lhe queria +escapar dos braços: + +--Oh! Por Deus, que era bem mais bonita do que tu! + +--Quem? perguntou d'esguelha a vivandeira. + +--A portugueza que me resistiu. + +--E que tu mataste? + +--E que eu matei para que não deixasse de resistir a outro. + +--A pobre rapariga! + +--Pobre rapariga! d'aquella edade deve ter morrido pura! Tu não morres +assim, _ma petite chienne! Par Dieu!_ + +--Cruel! + +--E o caso é que quasi do mesmo golpe derrubei as duas mulheres que a +defendiam e abraçavam. Um soldado do imperador livra-se depressa ainda +que seja d'um cento de mulheres. + +--Cheiras a sangue! exclamou a vivandeira forcejando por desprender-se +dos braços do soldado. + +--Acodes pelo teu sexo! O que me não perguntas é quantos homens matei! +Por Deus! que era precisa a vingança. Estes perros d'hespanhoes, que se +chamam portuguezes, não nos queimaram a alma porque não puderam. +Atiravam-nos desesperados! E matavam os nossos emissarios! e mutilavam +os nossos irmãos! Quantos centos de francezes imaginas tu que morreram +hoje? Não se mata impunemente um francez como se mata um cão. E desde +que entrámos em Portugal quantos não teem ficado para nunca mais voltar +a França! Vingámol-os; estão vingados! _Vive l'empereur! Vive le +marechal! Vive la France!_ + +E voltando-se para outra das vivandeiras, que estava proxima, jogou-lhe +esta phrase intimativa: + +--Esta é minha; canta tu. + +E logo, por entre a vozeria, se ouviu cantar; + + Viva a França! viva a França! + Que triumpha na matança! + Rataplan! + +.......................................................................... + +Aquelles cadaveres eram os das trez senhoras da familia Strech. + +José Maria esteve contemplando-os mudo, absorto, authomatico. Dir-se-ia +que a intelligencia se lhe havia paralysado, e o coração havia +adormecido. Era um deliquio, como o que fôra consequencia do ferimento, +mas muito mais horroroso de certo, porque os olhos tinham vista para a +realidade, embora o cerebro não tivesse actividade para comprehender. + +Parecia que as trez pobres senhoras dormiam tranquillamente, se bem que +o desalinho dos vestidos e dos cabellos fosse claro indicio de lucta. + +José Maria ajoelhou-se, poisando a luz, a contemplal-as e, porque o +coração humano é tão valente ás vezes que se excede a si mesmo, resistiu +áquella dôr incomparavel e quiz ainda procurar nas ruinas do seu +pensamento o auxilio de uma ideia. + +N'aquella immensa e tenebrosa cerração era preciso um raio de luz, ainda +que fosse sinistro como os clarões sulphureos dos mysticos paineis que +representam o inferno. + +E verdadeiramente infernaes foram os horrores d'esse dia. + +Se o leitor, apesar das indicações historicas de que me tenho +soccorrido, imagina que estou phantasiando negruras para architectar um +romance tenebroso, achará no seu proprio espirito a convicção da +verdade, se se concentrar por um momento deante do tosco e funebre +quadro, allusivo á invasão dos francezes, que pende da muralha da +Ribeira, a dois passos da ponte pensil. + +Ahi, á luz das lanternas que descrevem na escuridão da noite duas zonas +luminosas, ouvindo o ruido triste do Douro que lhe rola aos pés, vendo a +pequena distancia erguerem-se ao ar, como outros tantos espectros +sombrios, as armações dos navios fundeados, ahi, dizia eu, comprehenderá +todas as angustias, hoje esquecidas, d'essa epoca de horror, traduzidas +na concisa simplicidade d'esse piedoso monumento. + +A inscripção do quadro nem por singela deixa de convidar á meditação: + + + «Pelas almas dos que falleceram na ponte do rio Douro na + entrada dos francezes no anno de 1809, um Padre Nosso e + uma Ave-Maria.» + + +Ali fui eu muita vez, pela calada da noite, como a procurar a triste +inspiração para escrever as primeiras paginas da historia da familia +Strech. Estes horrores poderão hoje parecer sinistramente romanticos, +mas uma hora só de recolhimento em face do quadro da Ribeira basta a +acordar em nós a consciencia historica d'essa epoca calamitosa. + +Para os que morreram na catastrophe da ponte pede o rotulo uma oração, +mas quantos não morreram então sem oração e sem mortalha, quantos não +agonisaram em ancias que não foram mortaes, sem a mortalha que +desejariam, e sem uma oração de que blasphemariam! + +Ó Providencia! só tu sabes o segredo de todas as maguas, só tu podes +contar as bagas de suor que ressumbram na fronte dos infelizes que tu +não matas logo, para que não morram em desespero sacrilego! + +E José Maria não morreu. + +Por um esforço intellectual, que só a Providencia podia permittir a um +soldado ferido, quando já as trevas da loucura procuravam +cingir-lhe o cerebro escandecido, conseguiu encontrar uma recordação, se +bem que a principio tibia e vaga como o diluculo que se vae alargando e +colorindo pouco a pouco até chammejar no céo. + +E tambem essa luz que se fez no espirito do pobre moço lhe queimára a +intelligencia, como se fosse labareda, mostrando-lhe as ruinas do +passado ainda fumegantes de um incendio recente. + +Eram aquellas as cinzas da sua felicidade... + +Estavam ali espalhadas pelo turbilhão da guerra, retintas de sangue, a +clamar vingança. + +E os seus beijos cariciosos e ardentes, e as suas palavras ao mesmo +passo desalentadas e calorosas não puderam, depois que inteiramente se +recordou da realidade, galvanisar os trez cadaveres, animar os trez +corações paralysados, descerrar os labios da mãe, da irmã e da avó, para +sempre mudos, para sempre adormecidos. + +--Pobresinhas!--pensava elle--deixaram-se talvez morrer por me supporem +morto! E antes eu o estivesse, que já teria soado a ultima hora da minha +triste mocidade. E mata-se assim a mãe, a dois passos do filho! E não se +respeitam os cabellos brancos da velhice! nem a belleza e a virtude que +teem duplo direito á vida! Mas, agora reparo eu, aqui estão patentes e +irrecusaveis os signaes da lucta... é que se disputavam o sacrificio da +morte... ou... suspeita horrivel! morreram talvez para defender a +virgindade de uma só! Dize-me, ó minha boa irmã, ó minha doce amiga, se +isto não é um sonho atroz da minha desvairada cabeça! Responde, Augusta, +sou eu que te peço, eu, o teu irmão, o teu José... E não fala, e não +responde! Está morta! Mataram-n'a elles, os malditos soldados d'esse +leão indomavel da Corsega para quem todo o mundo é pequeno, todo o +sangue pouco! Acaso não se saciava a tua sanha, leão, sem a vida d'estas +trez pobres mulheres, que nunca te amaldiçoaram, que nunca levantaram um +brado de justa indignação contra a tua ambição desmedida! Eu é que devia +morrer, sabes tu? Eu sim, porque fiz guerra de morte aos teus soldados, +porque as minhas mãos cheiram ainda a polvora com que os fuzilei. Eu +sim, porque a minha morte seria uma represalia; mas a morte d'estas trez +mulheres, timidas e indefesas, não foi uma represalia, foi uma +infamia... + +E, extenuado d'esta subitanea exaltação, pendeu a fronte, como se lhe +faltasse a vida para tamanha angustia, porque o sangue perdido era +copioso. Entretanto continuava a tempestade e, confundido com o +estrepito da chuva, começou-se a ouvir o toque dos clarins nos postos +dos invasores. + +José Maria pareceu despertar de subito, acordado por essa sinistra +linguagem dos acampamentos: + +--Sois vós! Podeis estar tranquillos, que a esta hora não haverá um só +braço que tenha a energia de vos acommetter no vosso glorioso descanço. +Tudo são orphãos e viuvas, que pranteiam cadaveres. Descançae, +descançae, que muita coragem vos deve ter custado o assassinio de +mulheres inoffensivas como estas! como todas! Oh! mas ámanhã a vingança +acordará terrivel, e então vos pedirá contas das vossas atrocidades e +das vossas infamias. Sim, ámanhã, nós todos, unidos por commum desgraça, +seremos um só inimigo, porque a nossa vingança é uma, mas não imagineis +que tendes a derrubar um só inimigo, porque serão muitas as cabeças a +decepar, muitos os portuguezes a vencer... Onde houver um portuguez, +haverá um soldado, porque elle pelejará por desaffrontar a memoria dos +seus parentes, dos seus amigos, d'um filho, d'uma irmã... + +E curvando-se carinhoso para o cadaver d'Augusta, e tirando-lhe +delicadamente do dedo o annel com que ella havia morrido: + +--E eu vingarei a vossa memoria, minhas santas amigas, e vingarei a tua +innocencia, minha querida irmã... Por este annel o juro, que será o meu +fiel companheiro, talvez o unico que me seja dado conservar até a hora +da morte... Beijal-o-hei antes d'entrar em combate, e elle me dará a +coragem dos valentes; elle será a minha égide protectora se a morte me +quizer arrebatar a minha vingança..... Que Deus me oiça, Augusta. Sobre +o teu annel, que nunca te desacompanhou, faço este juramento solemne, +que jámais quebrarei... + + * * * * * + + +VI + +A mariposa do acampamento + +Fôra demasiado esforço para tão melindroso estado. + +O corpo, alquebrado pela dôr physica, parecia vergar ao peso d'aquella +grande alma. + +Graça Strech caminhou em direitura á porta, vacillando a cada passo, e +deixando após si um rasto de sangue. Antes de sair, volveu ainda um +ultimo olhar aos trez cadaveres, e levantou por um instante a mão de +sobre o ferimento, apalpando o peito n'outro sitio, como para se +certificar da existencia d'alguma coisa que lá trazia occulta, e que +pareceu encontrar. + +Era o maço das cartas d'Augusta, escriptas da quinta das Chãs, e que +elle conservára no seio durante as mais perigosas refregas na bateria do +Bomfim. + +Desceu vagarosamente as escadas, amparado ao corrimão, e conseguiu a +muito custo chegar á rua. + +Uma lufada de vento, humida e fria, momentaneamente refrigerou o cerebro +d'aquelle moço, em quem as mais violentas congestões parecia +succederem-se rapidamente. + +Onde ia elle, ferido, cerrada a noite? + +A esta pergunta, que muitas vezes se fez no decurso de sua vida, nunca +pôde achar resposta satisfatoria. + +O que parece mais proximo da verdade é que, não sentindo já forças e +coragem para demorar-se ali, luctasse por arrancar-se de ao pé dos trez +cadaveres. + +Chegado ao limiar da porta, e recebendo de subito uma lufada de ar, +impregnado d'humidade, reconheceu-se, no meio da cerrada escuridão +d'aquella noite tenebrosa, inteiramente carecido d'alento para dar um +passo. + +N'essa conjunctura ouviu estrepito de cavallos. Sentiu de novo +affluir-lhe o sangue ao cerebro. Eram de certo elles, os assassinos da +sua familia, que patrulhavam a cidade invadida. Não se enganou. Os +cavallos que se aproximavam eram os d'uma ronda franceza. Graça Strech +estava porém desarmado, ferido, impossibilitado do menor esforço. A +ronda acercou-se, e um dos cavalleiros, que era um official portuguez +obrigado pelo direito de conquista ao triste mister d'interprete, +perguntou com voz tremula: + +--Quem está ahi? + +Graça Strech ficou surprehendido d'ouvir falar-lhe na lingua nacional, e +respondeu: + +--Um soldado portuguez, ferido. + +Demorou-se o official a falar á patrulha franceza, e apeando-se dois dos +cavalleiros ergueram o corpo de Graça Strech até a altura precisa para +poisal-o entre o arção da sella e o corpo do official portuguez. + +E monotamente continuou a eccoar na rua o estrepito da ronda. + +Não pareça extraordinaria esta piedade dos invasores para com os +invadidos no mesmo dia de tão sanguinosa victoria. + +O marechal Soult, que entrára no Porto na tarde d'esse dia, puzera desde +logo todos os seus cuidados em serenar os animos da população por actos +ostensivamente meritorios. + +Era este um procedimento por ventura aprendido na lição da historia +romana--o da benevola protecção aos vencidos. + +Manda porém a verdade que se diga que, mal que entrou na cidade, expediu +ordens terminantes ás tropas para que, sob pena de austera correcção +militar, respeitassem a população, e até a protegessem em caso de +conflicto. + +Assim foi que, reprimindo os abusos da soldadesca, logrou restabelecer o +socego em toda a cidade trez dias depois da invasão, procurando +insinuar-se na opinião publica, abstendo-se de impôr contribuiçoes de +guerra, nomeando pessoas idoneas para os logares vagos, e soccorrendo os +habitantes completamente privados de recursos. + +O partido anti-patriotico, subitamente creado em redor do marechal +Soult, para logo fundou um orgão jornalistico, denominado _Diario do +Porto_, porque a imprensa tem sido desde tempos immemoriaes o +respiradouro aberto a todas as paixões, justas e injustas, nobres e +mesquinhas. + +O leitor deve ficar conhecendo uma pequena amostra, sequer, da linguagem +empregada no supracitado diario. Oiçamos o falsario redactor no +supplemento ao n.º 2.º: + +«Este paiz tão bello, e tão favorecido pela natureza, parecia no passado +governo tocado de paralysia; mas, graças aos céos, que se lhe prepara um +novo futuro, que os bons conhecedores já tinham d'antemão entrevisto! +Nada terá o Principe que dizer sobre a nossa fidelidade; nos lh'a +guardamos emquanto existiu entre nós; mas uma vez que nos deixou, uma +vez que desdenhou lançar mão das redeas do governo, que largára quando +as circumstancias lh'o permittiam, renunciou todos os seus direitos, e +nada é já para os portuguezes, que deixou ao desamparo. Em uma palavra, +a casa de Bragança já não existe; aprouve aos céos que os nossos +destinos passassem a outras mãos, e foi particular predilecção da Divina +Providencia, que impera sobre o universo, o ter-nos enviado um homem +isento de paixões, e que só tem a da verdadeira gloria; que se não quer +servir da força, que o grande Napoleão lhe confiou, senão para nos +proteger e livrar-nos do monstro da anarchia, que ameaçava devorar-nos. +As palavras que elle nos dirigiu, e as promessas que nos fez[5], +desde que entrou n'esta cidade, tudo se tem cumprido á risca, +muito mais do que o poderiamos esperar, e do que as circumstancias +pareciam promettel-o: porque tardamos, pois, em congregar-nos ao redor +d'elle, a proclamal-o nosso pae e nosso libertador? Porque tardamos a +exprimir o nosso desejo de o vermos á testa d'uma nação, cujo affecto +soube tão rapidamence conquistar? O soberano de França prestará ouvidos +aos nossos clamores, e se lisonjeará de ver que desejamos para nosso rei +um logar-tenente seu, e ao mesmo tempo um grande general, que a seu +exemplo soube vencer e perdoar. Seja, pois, esta grande e interessante +comarca, já que tem experimentado os effeitos da sua clemencia, e a quem +elle tem prodigalisado os seus beneficios, seja uma das primeiras, que +se glorifique de o reconhecer e de lhe offerecer os seus braços, os seus +bens e o seu patrimonio todo.» + +Não ficaram simplesmente em louvaminhas de gazeta os salamaleques +feitos ao duque de Dalmacia. De Braga veiu ao Porto no dia 25 d'abril +uma deputação composta de trinta e seis membros do clero, nobreza e +povo, a pedir ao marechal que se dignasse fazer ver ao imperador a +necessidade de collocar um principe de sua eleição no throno que a +dynastia de Bragança deixára devoluto. + +No dia immediato entrou egualmente ao palacio do duque de Dalmacia outra +grande deputação, constituida por todas as autoridades civis, clero, +deputados, nobreza, cidadãos, corporações judiciaes e militares da +cidade do Porto, a repetir o pedido com viva instancia. + +A deputação, acompanhada desde a casa do conselho pelos officiaes do +estado-maior general, era esperada no atrio do palacio dos Carrancas +pelos ajudantes de ordens do marechal Soult. Foi o general de divisão +Quesnel, investido nas funcções de governador militar do Porto e da +provincia do Minho, quem a introduziu na sala de recepção, onde o +corregedor da comarca botou fala consoante ao estylo dos supplementos do +_Diario do Porto_. + +O marechal devia estar sorrindo interiormente da versatilidade dos +portuguezes, que lhe atiravam aos pés nuvens d'incenso, recebendo-o dias +antes nas trincheiras com nuvens de polvora. Força é assoalharmos as +nossas glorias, para sermos portuguezes, e as nossas manchas, para +sermos justos. E esta é realmente uma lamentavel nodoa que macula as +paginas da historia portugueza. Se nos não respeitámos, durante a +invasão, a boa policia de guerra, tambem a soldadesca franceza não +respeitou, na victoria, os direitos individuaes. Saldada a divida, +estavamos quites. Para a atrocidade, filha da revolução, a represalia, +irmã do triumpho. A attitude do Porto, depois de vencido, e em presença +do cavalheiroso procedimento de Soult, devia ser a da resignação +reconhecida, nunca a do servilismo infamante. Agradecer é das boas +almas; ajoelhar aos pés do usurpador é dos maus cidadãos. E nós fomos +então maus cidadãos. Ainda bem que redimimos as nossas culpas d'um dia +com a heroicidade de cinco annos, que tantos são os que vão desde a +invasão do Porto até ao regresso das nossas tropas, coroadas de loiros. + +Se o throno portuguez tinha sido abandonado pelo rei, estava porém +encimado ainda pelas armas da nação! Se não se podia amar o rei, que +fugira, devia-se defender a patria, que ficára. + +Mas, disse-o Camões, e é uma profunda verdade, que + + O fraco rei faz fraca a forte gente + +Perdoemo-nos a nós, porque nos rehabilitamos depois, e perdoemos ao rei, +que já hoje é do tumulo, e que no triste curso de sua attribulada +existencia mais inspira por vezes compaixão do que odio. + +Mas tornemo-nos a Graça Strech, que deixámos ferido em companhia da +ronda franceza. + +Fôra elle transportado a um dos muitos hospitaes de sangue que se +estabeleceram nos conventos do Porto:--o convento de S. Francisco. O +serviço cirurgico, na maior parte d'estes hospitaes improvisados, era +feito, por ordem do marechal Soult, pelas mulheres que acompanhavam o +exercito invasor. Uma d'ellas, conhecida entre os seus pela alcunha de +_lá gentille vivandière_, recebeu o ferido e, ajudada por outras, +deitou-o no catre e começou o curativo do ferimento com certo carinho, +que só a ordem do marechal Soult não explicaria cabalmente. + +É que fez impressão a Rosina a physionomia, posto que dolorosa, serena, +do soldado portuguez. Pareceu-lhe um roble que baqueára magestosamente. +Não havia a menor contração n'aquelle corpo athletico; por entre os +labios, descórados e immoveis, não se coava um gemido. Verdade era que +não era desesperado o ferimento, e que mais para recear parecia a +gravidade da prostração que a do golpe. Não obstante, o soldado, que a +espaços abria os olhos, nem uma gota d'agua pedia. + +Durante a noite a vivandeira acercou-se do catre, por muitas vezes, a +escutar. Pela madrugada sobreveiu o delirio ao abatimento, e o ferido +dizia com manifesta difficuldade algumas palavras que ella não entendia. +Como, porém, de uma das vezes o visse febrilmente apalpar o peito, +comprehendeu-o, e, tirando do forro da fardeta, que lhe tinha despido, o +maço de papeis, insinuou-lh'o entre as mãos. O ferido, conhecendo-o +provavelmente pelo tacto, abriu por algum tempo os olhos, e demorou em +Rosina o doce e apagado olhar. Talvez fosse este um acto puramente +mechanico e talvez não; a verdade, melhor que os medicos, a sabe Deus. + +A vivandeira ficou sobremodo commovida do que a ella lhe pareceu +intencional. Apiedou-se do soldado, que tinha porventura a sua mesma +idade, e parecia guardar n'aquelles papeis uma querida memoria, como +ella, como ella n'aquella madeixa de cabellos que possuia... + +Aqui entra o leitor a sentir desejos de saber a historia da madeixa. + +Rosina era a filha adoptiva d'um dos regimentos da brigada Arnaud. Por +seu pai, moribundo, um dos bravos militares do exercito francez, natural +das Ardennas, aquella vasta floresta, _Arduenna sylva_, golpeada por +quatro rios, o Semoy, o Lesse, o Ourthe e o Sure, fora confiada como +precioso deposito, no campo de batalha, á velhice d'um camarada fiel, +soldado do mesmo regimento. + +O bom velho, que penhorado acceitára tão grave legado, era só, e n'uma +época em que o exercito francez estava em continua mobilisação, achou +que o melhor meio de velar pelo destino da creança era trazel-a sempre +ao pé de si. + +Assim foi que Rosina, então de quatorze annos, estivera em pessoa, se +bem que entre a bagagem e mantimentos, na batalha de Austerlitz, em +1805. Vira por seus proprios olhos, a distancia, o imperador Alexandre e +o imperador Francisco. Nos breves instantes de repouso que n'essa +arriscada campanha tinha o exercito francez, era sempre Rosina o +assumpto das conversações do acampamento, a mariposa inquieta que +passava sorrindo de umas correias a outras, de um soldado a outro +soldado. D'essa campanha ficou até na memoria do regimento uma agudeza +da pequena vivandeira. Estavam os soldados chasqueando uma vez da +fealdade de certo camarada. + +--Que tal te parece, Rosina? perguntou um á pequena. + +--Parece-me mal, respondeu ella, porque já vi _os trez imperadores_. + +Como se sabe, é esta uma designação vulgar da batalha de Austerlitz, +onde estiveram os dois imperadores já nomeados, completando Napoleão a +trindade coroada. + +Rosina seria pois a andorinha da caserna se não fosse antes a +mariposa do acampamento. Tinha um pouco da floresta, seu berço, e um +pouco do quartel, seu ninho. Estes poucos fizeram o todo. Tinha a pureza +da vegetação virgem, a suavidade inculta da floresta, e ao mesmo passo o +destemor da vivandeira, a facilidade de morder um cartucho de polvora e +de cantar uma canção marcial. Na alma tinha os murmurios das correntes +patrias; nos olhos o brilho da polvora. + +Era, n'uma palavra, a pastora tornada vivandeira. Respeitava-a todo o +regimento e conhecia-a todo o exercito. + +Quando o seu velho protector morreu, um anno depois de Austerlitz, ella +acompanhou-o com os camaradas á sepultura, e, como limpasse furtivamente +duas lagrimas, disse-lhe um dos soldados: + +--Pois tu choras, Rosina, tu, a que viste os trez imperadores?! + +E ella, voltando-se de subito, respondeu: + +--Não choro eu, chora a França. + +Porfiaram os soldados em escolher-lhe novo protector; todos a estimavam +a ponto de querer adoptal-a. Por fim decidiu-se que Rosina cortasse o nó +gordio. Ella observou: + +--Os meus paes eram os que morreram; já não posso ter outros. Serei +portanto de hoje em deante filha do regimento. Para onde elle fôr, irei +eu; onde estiver, estarei tambem. + +E assim foi. + +Era quasi um soldado; muitas vezes dizia que a sua morte havia de +occasional-a uma bala perdida. + +Viera com o exercito a Hespanha e Portugal, com a mesma facilidade com +que iria, licenciada pelo commandante do regimento, visitar as Ardennas, +sua patria. + +Contava agora dezoito annos, e estava em todo o vigor da sua gentil +formosura. + +Gentil é a palavra; por isso lhe chamavam _lá gentille vivandière_. + +E o caso é que á sua origem e á sua formosura devia por certo as +immunidades que lhe outhorgavam os superiores. Era ella o melhor +intercessor do regimento; requerimento que ella levasse á chancellaria +militar, trazia sempre bom despacho. É que as flôres... + +Ora a historia da madeixa é muito mais breve que a historia de Rosina, e +por isso ficou para o fim. + +Seu pae, o bravo official das Ardennas, sentindo-se morrer dos graves +ferimentos que recebera, pediu ao velho camarada, no momento de +confiar-lhe a filha, que lhe entregasse aquella madeixa que elle cortára +do seu proprio cabello, para que ella possuisse sequer alguma coisa que +o tornasse lembrado. + +E como entre os cabellos alguns apparecessem já grisalhos, acrescentou o +militar moribundo: + +--Dize-lhe que alguns d'elles embranqueceram a pensar no destino d'ella... + +O soldado, com os olhos marejados de lagrimas, respondeu commovido: + +--Vá descançado, meu capitão. Emquanto Jacques Regnau tiver vida, o +paiol não ha de arder. Depois que vier a metralha da morte, o Deus dos +exercitos velará por ella... + +O soldado Jacques estava na confidencia do nascimento de Rosina. Fôra +elle que, annos antes, saltára ao jardim de uma casa da rua das +Tournelles, para receber dos braços de uma criada uma creança, cuja mãe +procurava assim occultar o segredo da sua deshonra. + +Jacques Regnau atravessou com ella nos braços o _boulevard_ da Bastilha, +e ia dizendo comsigo: + +--O caso é que ainda tenho geito para estas aventuras mysteriosas. +Suppunha-me velho e levo aqui esta creança mais como pae do que como +avô. E todavia o que decerto vem a acontecer é que eu seja o avô, e o +meu capitão o pae... + +E assim, em verdade, aconteceu, com uma unica differença. Se Rosina, no +decurso de sua vida, precisasse de nobilitar-se com um appellido, o pae, +ao invés do que acontece em todas as familias, não lhe daria o seu +appellido, mas sim o do leal camarada. Diria provavelmente: + +--Põe lá: Rosina Regnau. + +Ella porém não precisava de appellido paterno. Era a filha do regimento. +Chamava-se simplesmente Rosina, _lá gentille vivandière_. + +Esta era a enfermeira do nosso ferido. + + [5] Referencia á proclamação de Soult. + + * * * * * + + +VII + +No hospital de sangue + +Oito dias transcorridos, vamos encontrar Graça Strech, sentado no catre, +convalescente, se bem que muito debilitado ainda, a relêr algumas das +cartas que, por piedoso interesse de Rosina, pudera guardar debaixo do +travesseiro. + +Os successos de tão breve curso de tempo pequena chronica requerem. +Rosina tem sido para o soldado portuguez carinhosa enfermeira. +Chasqueam-n'a as outras mulheres, encarregadas do serviço do hospital, +de extremamente compassiva para o prisioneiro, e zombeteiramente aventam +que, a julgar pelos prolegomenos, lhes não parece impossivel que o +exercito portuguez inteiramente se deixe desarmar pelas vivandeiras +francezas. + +As almas das restantes mulheres não se levantam do nivel commum ao +femeaço que segue tropa. São grosseiras, sensuaes e malevolas. Rosina +respira melhor entre os soldados do que entre ellas. D'aqui uma certa +rivalidade apenas contida pelo respeito com que todo o exercito acata á +filha do bravo militar das Ardennas. Todavia a «gentil vivandeira», como +mariposa que é, não se demora no ambiente infeccionado em que ellas +respiram; evita-as como a pantanos miasmaticos, sem lhes dar a conhecer +que o muladar unicamente é povoado por vermes. Passa inquieta e ao mesmo +tempo cautelosa, agitando as suas azas iriadas. Atravessa o lodaçal sem +tocar-lhe. Guarda para si o nectar que vae libando nas flôres perfumadas +da sua phantasia. É mariposa! dizem. Concentra-se nos circulos +caprichosos em que doideja. Quer adejar e sorrir. Mas para esta, como +para todas as mariposas, depois do jardim, cujas flôres beijou, ha de +crepitar a chamma, que será o seu ultimo beijo. Beijo de fogo, que mata. +E chamaes felicidade a isto! Olhaes sómente á superficie; a +mariposa não é feliz porque passe adejando... + +Graça Strech fez reparo no carinho da enfermeira, mórmente comparando-o +ao desamor com que eram tratados os demais feridos. Não poria duvida em +beijar a unica mão caridosa que se estendia para elle na solidão do +mundo, se não receiasse que o odio que lhe refervia no coração contra a +França lhe envenenasse os labios. E aquella mulher era franceza. +Parecia-lhe que dos seus vestidos se exhalava ainda o cheiro da +carnagem. Por ventura o soldado que assassinára sua irmã, sua mãe e sua +avó viera adormecer tranquillo nos braços d'aquella mulher, se é que não +fôra mais d'um soldado, com as mãos ainda tintas das nodoas do crime. +Via n'ella a creança corrompida pela lascivia da soldadesca, e, ao mesmo +passo que lhe era reconhecido, tinha por ella o desprezo que se tem pelo +vicio precoce. Considerava-a uma das victimas arrastadas pelo carro +triumphal do Cesar francez. Bem podia ser que n'aquelle corpo vendido ao +prazer germinasse uma alma boa logo corrompida pela putrefação +contagiosa da caserna. Se não tivesse por mãe uma mulher devassa, uma +vivandeira, uma meretriz de soldados, que não faria mais que atirar sua +filha ao berco em que ella propria nascera, poderia encontrar um marido +honesto, ser o anjo do lar, divinisar-se no altar da familia, porque as +mães podem considerar-se as santas da religião domestica. Mas não. Graça +Strech suppunha-a a flôr do paul. Tinha para elle a belleza maculada da +vegetação dos charcos. Não sabia o que era o azul do firmamento, porque +só os lagos, de superficie crystallina, são espelho do céo. As flôres do +paul querem viver no lodo; ella queria viver no prazer. Os beijos que +recebia tresandavam ao acre do tabaco e da aguardente. Não dulcificavam; +queimavam. E assim como a gente se admira de ver uma flôr, por mais +desbotada e menos formosa que seja, á beira d'um monturo, assim elle se +admirava de que aquella mulher tivesse nos olhos um relampago de +compaixão estando habituada a viver entre soldados e concubinas. Era, a +seu juizo, o ultimo lampejo da alma que bruxoleava apagada pelo vicio. +Extincto o derradeiro clarão, ficaria apenas a lampada--o corpo. E elle +não queria gosar; queria vingar-se. O prazer da vingança, se o ha, +esse anhelava-o. Mas uma mulher corrupta não podia ser-lhe instrumento +sufficiente a sacial-o. Nenhum dos generaes que capitaneavam o exercito +invasor teria uma filha innocente, candida, formosa? decerto não; se a +tivesse, não consentiria que a soldadesca violasse as alheias. Mas se a +tinha, trouxessem-lh'a, pura como estava, bella como era, que a queria +polluir, e dizer depois ao pae exasperado: «Os teus soldados mataram +minha irmã, que tambem era virgem; eu matei tua filha, porque a +encontrei no estado de minha irmã. Ambas são mortas: isso que ahi está +já não vive.» + +A toda a hora, tudo ali lhe recordava esse horrivel drama de sangue, que +reputaria ainda sonho infernal, se a memoria de trez cadaveres o não +chamasse á realidade. Tudo eram mulheres mancommunadas com os invasores, +tudo feridos e prisioneiros, que de continuo amaldiçoavam, esporoados +pela dôr physica, a França e o Corso. A lingua que se falava era a +d'ellas, mesclada de raras palavras hespanholas para melhor se fazerem +entender dos que não tinham a illustração bastante para comprehendel-as. +Não será preciso observar que Graça Strech não desconhecia o idioma +francez. + +A principio confundiam-se-lhe no cerebro enfraquecido todas as sinistras +visualidades d'aquella tormentosa phase de sua vida. Depois, á medida +que ia cobrando forças, não só entrou de raciocinar ácerca de Rosina, +como lhe acudiu a lembrança de seu pae, cuja morte só o tempo +comprovára, e a consciencia da sua propria situação. Estava prisioneiro, +guardado á vista por sentinellas francezas, e todavia havia jurado +vingar a morte da sua familia. Esta idéa infernou-lhe as primeiras horas +de lucidez. Era impossivel despedaçar as cadeias, romper por entre as +sentinellas; não queria de modo algum expôr-se á morte que o roubaria á +vingança. E o sentir no dedo o contacto do annel, em que se coagulára +uma gota de sangue seu, ou de sua irmã, exasperava-o ao extremo de cair +prostado no leito. + +N'estes lances acudia meigamente Rosina Regnau, chamemos-lhe assim, a +soccorrel-o com notavel dedicação. Umas vezes a repellia elle com +ingratidão brutal, quando a accentuação franceza lhe coava ás entranhas +estremecimentos de raiva, outras fitava na vivandeira o olhar +amortecido como a dizer-lhe que a prostração seria passageira. Na +vespera do dia em que estamos, teve Graça Strech uma idéa que para logo +reputou auxilio providencial. Lembrou-se de que só por intervenção de +Rosina poderia evadir-se do hospital de sangue. Tratou pois de +corresponder á solicitude com que ella o distinguia, de se mostrar +reconhecido, de occultar o seu pensamento de vingança sob a mascara de +ternura. Immediatamente o dominou este proposito, e a si mesmo prometteu +nunca mais receber Rosina com intermittencias de rancor ou azedume. +Difficil era o cumprimento d'esta promessa. Não se mascára facilmente o +coração. + +Relia elle, como dissémos, as cartas de sua irmã. Umas eram queixumes de +rôla solitaria confrangida da tristeza alpestre das Chãs; outras eram +hymnos de esperança, votos de felicidade commum, vagas alegrias dos +sonhos dos quinze annos... N'umas denunciava-se a mulher; n'outras a +creança. Umas eram a lagrima; outras o sorriso. Aquellas tinham a +tristeza d'uma nuvem em céo d'abril; estas eram um raio de sol doirado +pela primavera... Ou antes, como o leitor poderá classifical-as, as +primeiras eram o presentimento da desgraça imminente, as ultimas eram o +cantico do anjo que punha os olhos no céo, sua patria. + +Vejamos: + +«_30 de novembro de 1807._--Meu irmão.--Não sabes como soffro +horrivelmente, receiosa dos perigos que virão. A avosinha tambem está +muito afflicta depois que os francezes entraram em Abrantes. Já cá +sabemos da partida da familia real, apezar de tu, grande dissimulado, +m'o não haveres dito! O padre capellão anda sempre a contar dinheiro e a +ralhar com os abegões. Isto é uma tristeza! Quem nos vale a ambas, a mim +e a avósinha, para nos tranquilisar, é o Teixeira. Eu, por mim, peço +todos os dias a Deus que não aconteça mal algum aos portuguezes...» + +«_18 de setembro de 1808._--Meu José--Graças a Deus, que se dignou ouvir +as minhas continuas orações! O Teixeira esteve hontem á noite a +contar-me tudo. Até que emfim está a patria livre outra vez, sem haver +acontecido desgraça de maior á nossa familia. Queira Deus que continue a +paz para que tu possas vir vêr-me brevemente. A noticia do +Teixeira deu-me grande alegria, meu José. Reconquisto de novo a +felicidade! Eu creio que não tenho coragem para soffrer... Dá um beijo +muito demorado á mamã e um abraço muito apertado ao papá. A avósinha diz +que venhas logo que possas. Vem, sim? Olha lá... logo que possas. O +beijo á mamã que seja muito longo, muito longo... Não te esqueças. +Tua--_Augusta_.» + +Graça Strech sentiu os olhos marejados de lagrimas ao lêr estas cartas, +especialmente a ultima. Estava alli todo o coração de sua irmã, a +alegria da avesinha, ainda tremula, que se sente desopprimida dos seus +negros receios, phantasticos uns, justificados outros. + +Abeirou-se brandamente do catre, como quem teme ser importuno, Rosina +Regnau, e com encantadora timidez perguntou: + +--Chorava? + +--Um soldado portuguez não chora nunca, respondeu Graça Strech com +doçura meiada de altivez e fingimento. + +--São menos felizes as vivandeiras francezas, contestou ella com sincera +simplicidade. + +--Por quê? + +--Porque choram ás vezes. + +--Ainda a não vi chorar!--E, como se instantaneamente deixasse +resfolegar o rancor latente no coração, acrescentou:--A polvora queima +os olhos e o coração, e Rosina é quasi um soldado... francez. + +--Olhe que se contradiz! observou ella maviosamente.--Esquece-se de que +tambem é soldado e chora... + +Graça Strech caiu em si e deu-se pressa em attenuar o mau effeito das +suas palavras: + +--Tem razão. A desgraça dá esta incoherencia aos pensamentos... + +--Julga-se então muito desgraçado? + +--Pungente ironia que só pode vir... d'ahi! retrucou sobremodo exaltado +o convalescente. Pois pergunta-se a um prisioneiro, a um ferido, a um +homem mil vezes deshonrado, se é infeliz? Onde aprendeu esse cynismo de +vivandeira? Onde havia de ser! Na taberna e no quartel. Só lá é que se +fala assim... + +E, como ella chorasse á beira do catre: + +--Sabe que eu ainda não estou inteiramente curado, Rosina? +Parece-me que deliro ás vezes! Agora delirei eu. Não... não delirei. +Conheci que era mais piedosa do que as outras mulheres... Quiz ver até +onde chegava a sua sensibilidade... Perdõe-me a experiencia... Vejo que +ainda tem lagrimas... sim... tem lagrimas... não posso duvidar... está +chorando! + +--Não seja mau para mim, soluçou Rosina Regnau. Eu tive pena de vêr o +senhor a lêr e a chorar... De mais a mais fui eu que lhe dei as cartas +para a mão no dia em que o senhor veiu e parecia pedir-m'as... Pois não +se lembra? + +--Não. E viu-as alguem? leu-as alguem? + +--Ninguem as leu, senhor. Eu pensei que se lembrava, porque o senhor, +quando lh'as dei adivinhando de certo o seu pensamento, olhou para mim... + +--Sim, talvez olhasse... eu queria as cartas... + +--Isso comprehendi eu. A gente ás vezes estima qualquer cousa que não +tem valor... Eu tambem tenho um d'esses thesouros que nada valem... +É...--E calou-se, receiosa de proseguir. + +--É? + +--A madeixasinha de meu pae, que era capitão do exercito. + +--Capitão? perguntou Graça Strech. + +--Era capitão, senhor. Para me não deixar desamparada, entregou-me ao +velho Regnau com esta madeixa que era o seu unico legado... Nada mais +tinha que me deixar...--E tirou do seio a sua reliquia, sobre a qual +foram cair duas lagrimas ardentes. + +Graça Strech, subitamente commovido, attentou na vivandeira que tinha +baixado os olhos, como se quizesse esconder o pranto. + +--Ás vezes, proseguiu ella, fico-me a contemplar este thesouro, +sobretudo se estou triste. Que mais tenho eu no mundo? Nada. Esta +madeixasinha da minha riqueza, o meu talisman, creio eu. Beijo-a e +choro. Fico melhor. É tambem a minha companhia. Estas mulheres--e +indicou as demais vivandeiras--nem sequer se lembram de que tiveram pae! +Até lhes convém pensar que o não tiveram para não sentir atormentada de +remorsos a consciencia.--Ellas querem-me mal, bem o sei. Que me importa? +Eu tenho o meu coração tranquillo. Devo a Deus o haver-me protegido com +a sua misericordia. Sou a filha do regimento, e ninguem offende uma +filha. Estima-me; estimo-os. Da guerra que ellas me fazem nem me +lembro. Pobresinhas, que não são capazes d'uma ação boa! Vivo só, +completamente só, senhor. Sou digna da compaixão de todos, acredite, +porque sou infeliz; criminosa não. Meu pae, que decerto me está ouvindo +n'esta hora, bem o sabe. É porque sou infeliz, que comprehendo as +desventuras alheias. Pareceu-me que o senhor tinha maguas secretas. +Inspirou-me sympathia. Bem sei que a minha presença lhe não deve ser +agradavel, porque emfim eu sou franceza e o senhor é portuguez. Mas que +culpa tenho eu de haver nascido longe? Foi nas Ardennas... bonita terra +d'uma vez! Ainda não vi arvores como lá! O imperador é quem manda; nós +não temos culpa nenhuma: obedecemos. Elle quer o mundo; conquiste-se o +mundo. E depois eu não tenho odio nenhum aos portuguezes. Até se o +senhor algum dia precisar do meu prestimo... Eu não valho nada... mas +verá que ha de encontrar sempre a mesma Rosina Regnau... O que eu queria +é que me tratasse bem. Não faço mal a ninguem, porque não se tira +proveito nenhum de fazer mal... O senhor foi ferido, é verdade; mas fui +eu quem o feriu?... + +--Não, Rosina, não! atalhou Graça Strech enternecido a lagrimas. Mas +feriram-me na alma, bem fundo, muito fundo... Sou um grande desgraçado. +Se lesse estes papeis, que são tambem a minha unica riqueza, veria que o +sou. Eu tenho apenas de meu estas cartas; Rosina tem apenas a sua +madeixasinha. Somos irmãos na desgraça. Eu sou filho d'um capitão +portuguez, talvez morto a esta hora; Rosina é filha de um capitão +francez, que tambem não existe. Ainda n'isto irmãos! Bem sei que não tem +culpa de haver nascido franceza. Perdoe-me, se a offendi... Offendi, que +o sei eu. Deite tudo á conta da minha arrebatada mocidade e dos meus +soffrimentos. Mas é que este abysmo cavado por Napoleão entre as duas +nações é incommensuravel, acredite. O abysmo chama o abysmo... Jámais +correu sangue impunemente... A guerra faz dos homens leões... E que +guerra esta, santo Deus!... Zomba-se de tudo--da virgindade, da honra, +da innocencia! Oh! que os seus irmãos tremam das represalias... Medonhas +devem ser... Não se opprime assim um paiz inteiro... A estrada por onde +fugiu Junot está atravancada de cadaveres, mas ainda cabe por ella +o exercito de Soult. A hora do resgate será tremenda, Rosina. Fuja, fuja +emquanto é tempo, pomba que vive entre milhafres. Fuja com a sua +innocencia. Eu comprehendo, eu acredito que é boa, e casta. Mas não +encontrará em Portugal coração que possa acceitar o seu amor, alma que +prese os thesouros da sua. E sabe por que? Porque entre um portuguez e +uma franceza medeia n'esta hora uma barreira invencivel... E essa +barreira está em pouco, mas não haverá ahi exercitos que a transponham. +É um maço de cartas, um annel, uma madeixasinha talvez. Supponha que um +homem havia ferido mortalmente seu pae... Que esse homem viesse agora +dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia sagrada; que +matára em nome da patria; que seu pae era primeiro que tudo um soldado, +e que um soldado era para elle o inimigo... Chora, Rosina! As suas +lagrimas são ainda mais eloquentes que o seu silencio... Pois supponha +que mataram meu pae, supponha que me retalharam a alma, que eu tenho +noite e dia nos ouvidos o clamor da vingança, que eu sou um homem que já +não vivo para mim, mas para os que morreram... + +E, exhausto de forças, caira sobre o travesseiro, pedindo soccorro com o +olhar, em que subitamente se apagaram os fogos da exaltação. + +Fez-se em torno do catre o lugubre silencio dos hospitaes, apenas +interrompido de espaço a espaço pelos gemidos de alguns portuguezes que +anhelavam a morte, porque só n'ella encontrariam o supremo resgate. + +Rosina, curvada para o doente, julgava amparar nos seus braços um homem +que desejava viver para vingar a morte da mulher amada. A excitação +febril do prisioneiro fazia-lh'o crer. Estava longe de suppôr que essa +mulher fosse apenas irmã, ou antes que a desgraça d'esse homem fosse +tamanha que tivesse de vingar a morte de uma familia inteira. + +Como, porém, Graça Strech lentamente parecesse recobrar alento, +inclinou-se-lhe ao ouvido e maviosamente repetiu: + +--Se algum dia precisar do auxilio da pobre vivandeira, acredite que +Rosina Regnau será sempre a mesma... + + * * * * * + + +VIII + +O anjo da liberdade + +Foi-se restabelecendo o doente. + +Meiado abril, Craça Strech julgava-se robustecido sufficientemente para +encetar a sua obra de vingança. Toda a sua attenção se concentrava na +idéa fixa da fuga. Rosina continuava a ser para elle a dedicada, a +solicita, a meiga enfermeira dos primeiros dias. Se em tão carinhosa +dedicação estava occulto o germen do amor, se era aquella a mascara da +alma apaixonada que tinha de respeitar conveniencias e circumstancias, +não tardará que o saibamos. Todavia os seus sorrisos, posto que doces, +revelavam tristeza. O coração a attraíl-a para aquelle homem, e o +destino a distancial-a! Que elle soffria, era evidente. Mas por que +soffria? Porque esse homem--suppunha-o ella--amára doidamente, com o +fogo dos primeiros amores, com a loucura dos primeiros annos, e vira +talvez correr, na hora da invasão, o sangue innocente da mulher amada. +Porque esse sangue clamava vingança, e elle esperava apenas pela hora +tremenda da represalia. Porque essas cartas que relia a toda a hora eram +outros tantos protestos contra a tyrannia dos que venceram. Fossem dizer +ao coração d'esse homem pungido pelo que ha ahi de mais excruciante na +terra: «Despe o teu luto; enflora-te. Os que te mataram eram meus +irmãos, mas quem te resuscitará serei eu. Com o sangue do cadaver, que +desceu á tumba commum, regaremos as flôres da tua felicidade futura.» +Não podia ser. Elle tivera razão quando disse: «Supponha que um homem +havia ferido mortalmente seu pae. Que esse homem viesse agora dizer-lhe, +Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia sagrada; que matára em nome +da patria...» Referia-se a uma barreira insupperavel, e falava do maço +de cartas, de um annel, de uma madeixasinha talvez. E as cartas +relia-as elle, e annel tinha um na mão esquerda, tinto de sangue, que +era talvez da pessoa cuja morte anhelava vingar. Que esperança podia, +pois, ter Rosina no seu louco amor? Mas, por outro lado, quem ha de +dizer ao coração que é loucura amar? Como havia ella, allucinada pela +paixão, de raciocinar comsigo mesma: «Tu és a pobre Regnau, a vivandeira +franceza, que acompanhas o exercito vencedor; elle é o soldado do +exercito vencido, e vencido elle mesmo. Não se póde transpôr um abysmo, +muito menos dois. Tantos são os que nos separam n'esta hora: o da +vingança e o da nacionalidade!» Isto ninguem o diz; ella não o podia +dizer. Amava, sim, mas amava sem esperança, e, o que é mais, amava com +medo. Agrestemente a tratava elle a principio. Desde o dia em que ella +lhe perguntou se chorava, e em que timidamente se abeirára do catre +antes como enfermeira do que como amante, pareceu todavia abrandar um +pouco mais o seu odio inspirado pelo nome francez. Conheceu decerto que +ella não estava ainda pervertida, e condoeu-se. Mas condoer-se não é +amar. E depois que desgraçado aquelle! Que pensaria elle fazer? Talvez +matar-se. Prefiriria morrer a combater contra a sua patria, contra o seu +nome de portuguez, contra as suas recordações. Como ella quizera +sondar-lhe a alma e arrancar-lhe o seu segredo! O que importava, +primeiro que tudo, era affastal-o da morte. Por isso o espionava Rosina, +e cada vez era maior a sua solicitude. Não tardou porém a hora em que +Graça Strech ia levantar uma ponta do véo mysterioso que occultava os +seus designios. + +Era ao entardecer. Havia na sala a penumbra crepuscular. Elle escolhera +decerto essa hora para que a physionomia lhe não traisse os sentimentos +reconditos. + +--Lembra-se, Rosina, do offerecimento que me fez? + +--Lembro, e repito-o, respondeu ella estremecendo de golpe. + +--Pois bem; é chegada a occasião de aproveital-o. Cumpre porém que +primeiro lhe diga que a minha vida fica pendente d'esta revelação. Se +ámanhã quizer denunciar-me aos meus algozes, póde fazel-o, e então +completará a vingança dos meus desabrimentos. Completará, disse +eu, porque compassivamente me tem tratado, e a compaixão é a vingança +das almas nobres. Quer-me parecer, não obstante a posse do meu segredo, +que continuará a vingar-se nobremente... O seu coração é bom, Rosina; o +meu é que não é assim. Eu sou vil, rancoroso, sanguinario. Mas, ainda +assim, em alguma hora da minha vida me é dado ouvir a voz do meu anjo da +guarda. Depois a celeuma dos maus instinctos suffoca-a. É porém esta uma +das horas em que o meu coração não é inteiramente perverso. Portanto lhe +falarei com a maxima franqueza. Eu quero sair d'aqui, Rosina, livre, +completamente livre, entenda-me bem. Só por sua intervenção o poderei +conseguir. Mas, se me presta esse serviço, quem lhe não dirá, Rosina, +que soprou no meu peito as labaredas que eu sinto escaldarem-me o sangue +quando volvo os olhos a um passado proximo, muito proximo?... Sabe que é +quasi um fratricidio que vae praticar? A voz da consciencia será a +primeira a dizer-lh'o. Não irá combater contra os seus pessoalmente, mas +irá dar mais um soldado ao exercito portuguez cerceado pela derrota... +Pense em tudo isto. Vae trair a confiança dos seus irmãos para +conquistar apenas a gratidão d'um só homem... + +A esta palavra, os olhos de Rosina, até ahi brilhantes de copiosas +lagrimas, illuminaram-se d'um clarão d'alegria. + +--Gratidão! disse?--soluçou ella. É a primeira vez que eu oiço dos seus +labios tão doce palavra... Acredite-me, sim? Eu já pensava em +auxiliar-lhe a fuga, mesmo quando ainda não era meu amigo. Tinha pena, +muita pena do senhor, e receiava que se quizesse matar para não ficar +prisioneiro. Faria por lhe dar a liberdade, ainda que m'o não +agradecesse, porque algum dia, ahi por esses acampamentos fóra, bem +podia ser que o senhor encontrasse, prostrada por uma bala perdida, a +vivandeira Rosina, e dissesse, lançando-lhe um olhar de piedade: «Bem te +reconheço! Eras a pobre Regnau. Deste-me a liberdade. Estás morta. Que +te hei de dar agora? Dar-te hei uma oração». Isto me bastaria, senhor, +que eu bem sei que não mereço mais. Mas agora o caso muda muito do que +eu havia pensado na minha tristeza. O senhor promette-me gratidão. Que +mais posso eu invejar? A memoria de meu pae me perdoará, porque +elle--disse ella com irreflectida candura--tambem amou muito, segundo +contava o velho Regnau. Gratidão é o que o ceguinho das Ardennas tem ao +seu fiel molosso. O pobresinho do Hubert anda sempre a dizer, +referindo-se ao seu cão: Não ha pessoa a quem eu seja mais grato!» Veja +o senhor como elle lhe quer, que até chama pessoa ao cão! Pois eu serei +para o senhor como o molosso para o Hubert. Ter-me-ha gratidão; viverei +feliz... E sabe o senhor que o cão do ceguinho das Ardennas o segue +sempre? Sabe o que isto quer dizer?... + +E calou-se de subito, ruborisada de pudor. + +--Não sei! observou Graça Strech sobremodo admirado da sinceridade +d'aquella confidencia. + +--Não sabe? É que eu tambem queria seguil-o ao senhor... + +--Como?! perguntou o moço aprumando-se como galvanisado por um choque +electrico. Seguir-me! Sabe bem o que diz, Rosina? Sabe que atraz de mim +caminhará sempre a morte, e atraz de si o odio francez? Sabe que isso é +renegar a sua patria, o nome de seu pae? + +--Esquece-se de que meu pae não me deixou nome? Se no céo se sabe tudo, +elle saberá que o meu coração é puro. O mais que me importa a mim? Nem +por seguir o senhor deixarei de querer cada vez mais á minha +madeixasinha. Crime era o esquecer-me d'ella, o desprezal-a, o não a +trazer commigo. Mas é que eu seguirei o senhor, e ella seguir-me-ha a +mim. E depois o senhor não me comprehendeu bem... Eu não queria deixar +de ser vivandeira... Não se quesile, não? O senhor vae combater. Eu +seguirei o exercito como até aqui, mas estarei sempre em sitio onde lhe +possa acudir, e em vez de soccorrer um soldado francez soccorrerei o +senhor se as balas o não respeitarem. O crime está só n'isso, e Deus m'o +perdoará... Eu, depois que morreu o velho Regnau, o meu segundo pae, +tenho vivido tão sósinha, tão sósinha!... O exercito é muito grande e +por isso mesmo não faz companhia. Não lhe perderei o rasto, senhor, +esteja certo. As vivandeiras estão costumadas á guerra de emboscada. +Surprehendel-o-hei quando menos o esperar. Que seja preciso affrontar +perigos, pouco importa. Rosina, a «gentil vivandeira», como por +favor me chamam, é destemida. Toda a brigada Arnaud lh'o podia +dizer... + +A admiração, o pasmo, o alheamento de Graça Strech eram cada vez +maiores. Espantava-o aquelle conjuncto de candura e coragem, aquelle +receiar e querer da vivandeira. Achava extraordinaria a creança, que +tinha innocencias d'anjo e impetos de mulher. Não sabia se mais havia de +admirar a originalidade do temperamento se a originalidade da revelação. +Começava a lêr na alma da vivandeira que o amava. Comprehendeu que ella +sabia respeitar-lhe a dôr, impondo-lhe suavemente o dever de +respeitar-lhe a sua. E tudo o que ella soffria era por ser franceza... +Tambem elle se não lembrava n'esse lance de que a mariposa procura a +chamma! + +E Rosina era a mariposa do acampamento. + +Não obstante, desconfiando ainda da clareza da sua percepção, quiz oppôr +obstaculos á resolução da vivandeira: + +--Mas não sabe que isso é impossivel, Rosina? Não sabe que se não póde +seguir ninguem através dos azares da guerra? Quem póde luctar com as +ondas sem naufragar? Não lucte, Rosina, não lucte com o que é +invencivel. Guarde essa coragem do seu bello coração para as batalhas do +mundo, que toda lhe será precisa. Deixe-me ir até onde chegam todos os +infelizes. Não sabe que ámanhã posso encontrar a bala que me mate?... +Não será ámanhã, não, porque eu ámanhã não haveria completado a minha +obra. Preciso de viver, mas a guerra é tão caprichosa! Completa a minha +obra, desejo morrer livre, quite com o mundo. Não quero que ninguem me +chore--morrerei feliz. + +--Outro tanto poderei eu dizer, atalhou com doçura a vivandeira. Mas +deixe-me ir... tambem até onde vão os infelizes. Já agora, eu, que lhe +vou abrir o seu futuro, quero saber ao menos o sitio em que o senhor +estiver. Bem pouco lhe peço, como vê. Caprichos de mulher! especialmente +caprichos de franceza... + +E, como que arrependida de haver soltado esta palavra: + +--Fui indiscreta, bem sei; perdôe-me. O seu coração precisa de esquecer +a minha nacionalidade para me não odiar... + +Era impossivel luctar por mais tempo com tão energica e ao mesmo passo +tão meiga natureza. + +Como se aproximasse gente, Graça Strech apertou-lhe silenciosamente a +mão e escondeu no lençol a face involuntariamente orvalhada de lagrimas. + +Chegára a noite triste que ao nascer das estrellas invade os hospitaes e +as prisões com o seu silencio e a sua tremula claridade. + +Graça Strech não pôde conciliar o somno. Tantos e tão extraordinarios +eram os pensamentos que se lhe baralhavam no espirito, que ora sentia +subir-lhe ao cerebro a frialdade glacial dos tumulos, ora a chamma +abrazadora da congestão. Assim esteve, sem dar tino do tempo que +passava, com os olhos fitos na sombra oscillante que uma lanterna +projectava na parede fronteira ao seu catre. + +Os gemidos d'alguns feridos compassavam-se a intervallos mais ou menos +longos, segundo a gravidade do ferimento. Duas vivandeiras, encarregadas +de ficar de véla n'aquella noite, deixaram-se adormecer com a +tranquillidade de quem está bem e não se importa de que os outros +estejam mal. + +Na rua tropeavam com interrupções os cavallos das rondas. Uma ou outra +vez ouvia-se trocar palavras entre as patrulhas que passavam e a +sentinella do hospital. Não se percebia, porém, o que diziam... + +E assim decorria a longa noite das enfermarias e dos carceres com o +lutuoso aspecto que faz d'umas e outros--cemiterios de vivos. + +A mais de meio iria a noite, quando a Graça Strech pareceu vêr entrar +cautelosamente na sala um soldado francez, que foi caminhando, cada vez +mais receioso, até se avisinhar do seu catre. + +Se obedecesse ao primeiro impeto, haveria falado, porque lhe passou no +espirito a suspeita de que Rosina o denunciára, e de que esse soldado, +que tanto se arreceiava de ser surprehendido, era um assassino +galardoado talvez pela devassidão da vivandeira. + +E bastou esse momento para a suppôr mobil d'uma infamia inaudita, a +ella, que momentos antes lhe pedia unicamente, a troco da liberdade +promettida, que a deixasse seguil-o como o fiel molosso seguia o cego +das Ardennas. + +Era, porém, corajoso de mais para succumbir aos perigos d'uma traição. + +Para logo se lhe accendeu o coração em labaredas do inferno, e se lhe +requeimou a garganta como a do tigre dos palmares quando tem sêde de +sangue. + +Era, porventura, um soldado francez que o vinha apunhalar, de noite, +suppondo-o a dormir, talvez por ciume da barregã com quem passára a +noite, ou para vingar o odio que aquelle prisioneiro nutria contra os +francezes. + +Não tinha armas, nem carecia d'ellas. Infamia por infamia. Luctaria +braço a braço, encarniçadamente, silenciosamente, até que um d'elles +ficasse prostrado. + +Sentou-se no catre, com o joelho direito levantado, em posição de melhor +se poder erguer para responder á aggressão. + +E com tão sinistro brilho lhe coriscavam os olhos, que o supposto +soldado francez, conhecendo de certo o que lhe ia na alma, impuzera +silencio com um gesto e dissera a alguns passos de distancia: + +--Sou eu. + +Graça Strech reconhecera Rosina. + +O vulto que elle suppuzera um assassino transformára-se no anjo da +liberdade. Não lhe vinha trazer a morte; vinha restituir-lhe a vida. +Como poderia elle receiar a aggressão d'aquelle soldado franzino, +gentil, cujos olhos, por meigos e luminosos, trahiriam o segredo do seu +disfarce, cujos cabellos, ennovelados a um e outro lado, denunciavam as +tranças da mulher enroladas em cachos? + +Visualidades d'imaginação doente, chimeras que o habito do soffrimento +cria, e a noite avulta. + +--Sou eu, repetiu ella cada vez mais baixinho, e aproximando-se. + +E, como se por encantamento um genio bom lhe deizasse cair ás mãos o +fardamento d'um soldado, igual ao que vestia, acrescentou: + +--Não ha tempo a perder. Vista-se e venha. + +E retrocedeu a esconder-se á porta, onde as sombras mais se condensavam, +e a levantar do chão o saco d'oleado da ambulancia, que continha o seu +trage de vivandeira. + +Não se fez esperar o prisioneiro, que logrou atravessar a sala sem ser +percebido. Nos olhos dos que dormiam havia as nuvens precursoras da +noite eterna, que nada deixam vêr para fóra do corpo. É o +recolher-se da alma que vae partir. + +As duas enfermeiras continuavam a dormir tranquillamente. + +--Venha, disse-lhe Rosina travando-lhe da mão. + +Graça Strech desceu conduzido pela vivandeira. + +Quando a sentinella deu tino de que se aproximava alguem, cumpriu a +praxe militar do--_Qui vive?_ + +Um dos soldados, que levava ao hombro a bolça da ambulancia, respondeu: +_L'empereur_;--e quando já a sentinella podia distinguir os uniformes, +acrescentou com voz firme e sã em francez. + +--Soldados da ambulancia com ordens urgentes para o quartel general. + +O soldado que respondera era, como calculam, a vivandeira das Ardennas. + +Chegados á rua, Rosina Regnau apertou convulsamente o braço de Graça +Strech e segredou-lhe: + +--Nunca se esqueça de que n'este dia, e a esta hora, lhe dei a +liberdade, roubando-a a mim mesma. + +--Nunca! respondeu elle commovido. + +E, como sentissem aproximar-se uma ronda, estugaram o passo, caminhando +sem norte. + +Por duas vezes, no aventuroso transito, os surprehenderam patrulhas +francezas. + +Era sempre Rosina quem respondia no idioma patrio, não sem que sentisse +palpitar vertiginosamente o coração receioso de ver desabar n'um momento +a felicidade sonhada. + +Insensivelmente se foram aproximando do rio Douro, a cuja margem pararam +algum tempo vacillantes no que fariam e, não obstante serem ambos +corajosos, quasi amedrontados. Só então, chamados á realidade, olharam +para dentro de si mesmos, conscientes da arriscada situação em que se +encontravam. + +Pareceu-lhes, porém, ouvir o compasso de remos na agua, e tanto bastou +para se illuminar d'um raio d'esperança a alma da vivandeira. + +Foi Graça Strech quem se aventurou a chamar o barqueiro. + +Nenhuma voz respondeu ao chamamento mas, decorrido algum tempo, viram +avisinhar-se do caes o vulto negro do barco. + +N'aquelle tempo eram tão frequentes as fugas nocturnas, dos que +presumiam mais demorada, do que foi, a occupação franceza da +cidade, que alguns barqueiros dos logares convisinhos, inteiramente +privados de recursos, se affoutavam a bordejar no Douro por horas mortas +para receber a esportula dos fugitivos. + +Graça Strech e Rosina Regnau saltaram ao barco. + +Estremeceu o barqueiro conhecendo o uniforme francez, mas Graça Strech +acudiu a serenal-o com estas palavras: + +--Somos portuguezes, amigo. O habito não faz o monge. Salva-nos, e não +te importe o mais. Afasta-nos, o mais depressa possivel, da cidade. + + * * * * * + + +IX + +Entre a vingança e o amor + +Foi o barco singrando Douro acima lentamente. + +Graça Strech lançou mão d'um remo e auxiliou o barqueiro, não sem haver +arrancado de si mesmo, com fogosa violencia, a jaqueta do uniforme francez. + +--Que peso que me fazia isto! disse elle sorrindo a Rosina. + +E voltando-se para o barqueiro: + +--Onde estará agora o resto do nosso pobre exercito, sabes? perguntou +vivamente. + +--Anda para Riba-Tamega, senhor. Desde hontem que vae para lá o inferno, +tão certo como ser hoje 19 de abril, e chamar-me eu o Tunante de +Pé-de-Moira. + +--Não sabes mais nada? + +--Eu, senhor?... tartamudeou o barqueiro relanceando um olhar de medo ao +soldado francez que ia sentado é pôpa. + +Graça Strech comprehendeu-o, e acrescentou: + +--Pódes falar. Não te disse eu que o habito não faz o monge? Aquelle +soldado francez, que tu vês ali, é uma mulher. + +--Uma mulher! repetiu o barqueiro. + +--E de mais a mais faze de conta que é... muda, disse sorrindo +maliciosamente Graça Strech. + +A esta palavra, se elle houvesse reparado, veria brilhar +extraordinariamente os olhos de Rosina Regnau, que encontrára n'esse +momento, melhor ainda, n'esse vocabulo, a chave d'um enigma que a +preocupava dolorosamente. + +--Pois então, lá vae tudo, p-a-pá-Santa Justa, tornou facetamente o +barqueiro. Os francezes pegaram hontem fogo á villa d'Amarante. Hoje de +manhã havia uma procissão de gente que vinha fugida da villa. Em +Pé-de-Moira ficaram dez pessoas. Foram ellas que contaram o que se havia +passado. + +--Quem commanda os Portugueses, sabes? + +--É o general... Ora que me não lembra agora! Elle tem assim um nome a +modo d'arvore... + +--Silveira? perguntou com anciedade Graça Strech. + +--Tal qual: Sirveira, deturpou o barqueiro. + +Aclarava-se o céo com os primeiros alvores do dia 20 d'abril. + +Rosina levava os olhos postos no arvoredo das margens, alanceada, +porventura, de vagas saudades das florestas das Ardennas. + +--Agora, á luz d'esta candeia, apostrophou o barqueiro apontando para o +sol nascente--já eu não me enganava com o sordadito... + +Rosina sorriu melancolicamente, como se entendesse o barqueiro por uma +fina intuição de mulher apaixonada, e Graça Strech perguntou em francez +pousando o remo: + +--Vae triste! É o arrependimento que chega?... + +A vivandeira respondeu energicamente com um gesto negativo, como se em +verdade fôra muda. + +--O peior--disse o barqueiro improvisamente--é que se virem de terra que +vae aqui um soldado francez, são capazes de fazer fogo contra todos nós. +Os diabos o jurem! Mas se ella não é franceza p'ra que diabo lhe fala o +senhor n'esses latins? + +--São coisas... respondeu austeramente Graça Strech.--Tens razão, +tens... no que lembraste. + +E, voltando-se para Rosina, traduziu o pensamento do barqueiro. + +--Vae ali uma manta, e a cachopa que se embrulhe n'ella, se quizer, +observou o Tunante de Pé-de-Moira, com certo orgulho alegre de tomar +parte n'uma aventura que desde logo presumiu amorosa. + +Rosina, aconselhada por Graça Strech, acceitou o offerecimento, e despiu +a fardeta. + +O Tunante, orgulhoso de poder fazer concessões, acrescentou: + +--Minha mulher tem lá por casa uns trapos, que não valem nada. Assim que +chegarmos, eu irei buscal-os. + +Inteirada do offerecimento, Rosina abriu a bolça da ambulancia e tirou +com presteza o seu corpete, saial e _bonnet_ de vivandeira, +arremessando-os ao rio. + +--Que faz? perguntou Graça Strech. + +A vivandeira encolheu os hombros, como se aquelle movimento quizesse dizer: + +--Atiro á agua o passado. + +--Porque não fala, Rosina! Ainda não ouvi a sua voz desde que entrámos +n'este barco! Quererá tomar a serio o gracejo da sua mudez, com que eu +procurei ludibriar a curiosidade do barqueiro? + +--É que, respondeu ella affectuosamente, me sinto preoccupada ao estudar +o papel que devo representar ámanhã... + +--Mas... não percebo! + +O barqueiro tinha largado os remos e deixado pender o labio inferior ao +ouvir a pronuncia de Rosina. Para elle, que tinha suas fumaças de rato +da agua, como quem diz _lobo do mar_, era aquelle um mysterio +impenetravel. Podia acaso acreditar que fosse realmente ali, em +companhia d'um portuguez, uma mulher franceza, que lançára ao rio um +fato em que brilhavam as côres sinistras da França, áquella hora em que +o sangue, o incendio, o saque, a tyrannia se erguiam como barreira entre +o povo d'um e outro paiz? + +O Tunante de Pé-de-Moira não sabia historia, e ignorava o prodigio +d'estas affinidades individuaes que se escondem entre as correntes +oppostas dos sentimentos nacionaes. São grãos d'areia perdidos no +oceano; é preciso descer ao fundo do mar para encontral-os. Outra +pessoa, que não fosse rude, não se admiraria. A historia diz que, pouco +depois da invasão, o marechal Soult se vira fechado n'um circulo de +cariciosas sympathias, e que eram rasgados os salamaleques dos que já se +presumiam aulicos de D. Nicolau I. A historia refere que semelhantemente +alguns foram os corações que se renderam á prepotencia de Junot, e que +era contra esses que se erguia tremenda a grande voz popular: «Morra +Junot, e mais quem d'elle tiver dó.»[6] Finalmente, ainda +conta a historia que Piton, um sargento do corpo de policia de Lisboa, +fora promovido a alferes, pelos grandes serviços que prestou aos +francezes, com os quaes se retirou para França ao depois.[7] + +O Tunante, se soubesse historia, não se admiraria portanto de que o +coração ainda tivesse um élo para ligar portuguezes a francezes, e, se +houvera adquirido maior conhecimento dos homens e das coisas, saberia +que primeiro se verga ao tufão das paixões a palmeira flexivel e +solitaria do deserto, que o roble secular da floresta, duas vezes +forte--porque é robusto e porque não esta só. + +A palmeira cede ao primeiro impulso, e deixa-se ir, em doce +voluptuosidade, embalada nos braços vaporosos do vendaval, que são os +primeiros, e por ventura os unicos, que se estendem para ella. + +O roble cede apenas quando o tronco está corroido pelos vermes ou +abalado pelas luctas da tempestade. + +Os aulicos de Soult e os thuriferarios de Junot tinham as entranhas +comidas pelas serpes da perfidia, e a alma vergastada pelo açoite da +cupidez. + +Rosina era a palmeira do deserto, que verga sem saber que vae ser +arrastada para longe do seu torrão natal, e que o simoun a despenhará +n'um abysmo inevitavel. + +Era o amor que a dementava a extremos de renunciar a sua patria, se bem +que a cada instante lhe pungisse no coração uma vaga saudade das +Ardennas; era finalmente um sentimento nobre que a impellia a essa +loucura, serena postoque ardente, resignada postoque dolorosa. + +A que mobil obedeceriam, porém, as damas portuguezas, que, um anno +antes, se banquetearam e valsaram, no theatro de S. Carlos, em ruidoso +sarau e na presença de Junot, com a officialidade franceza? + +Suas excellencias, as beldades da capital, eram recebidas no vestibulo +do theatro por quatro pagens, loiros e provavelmente rosados. Sahia a +esperal-as ao limiar da platéa, d'onde corria um tablado a nivelar-se +com o palco, o general Margaron, que fazia as honras da casa. Ao fundo +da scena havia trez cadeiras de braços, que se conservaram devolutas até +á chegada de Junot, e em frente o busto de Napoleão a resaltar sob +um docel armado com quatro bandeiras em que se liam os nomes de outras +tantas batalhas assignaladas: Marengo, Austerlitz, Iena e Friedland. + +Já as damas ouviam requebradas os galanteios dos officiaes de Napoleão, +quando entrou Junot á maneira d'imagem em andor, isto é ladeado por duas +das mais formosas portuguezas. Então começou o delirio da valsa, que +rodou em circulos vertiginosos pela sala, até que a meio do tablado se +abriu uma tenda de campanha, onde se serviu a ceia unicamente ás +senhoras. É de suppor que suas excellencias se volvessem galliciparlas +para melhor poderem acompanhar a eloquencia dos officiaes francezes nos +brindes. + +Os convivas do sexo masculino estavam vexados--segundo diz candidamente +o já citado José Accursio das Neves--e espreitavam dos camarotes as +viandas e as esposas, resignando-se ao exiguo prazer de respirar os +perfumes d'umas e outras. + +Em redor do edificio do theatro estavam postados quatro mil aguadeiros, +de barril ao hombro, medida preventiva ordenada por Junot, para +acudirem, em caso de maior sinistro, ao duplo incendio da lascivia e da +gula. + +Parece porém averiguado que não funccionaram por serem permittidos +dentro os escandalos. + +D'esta combustão, que afogueou o interior do theatro de S. Carlos, na +noite de 8 de junho de 1808, tambem não sabia o Tunante de Pé-de-Moira. + +Que ignorante aquelle! + +Entenda-se todavia que não veiu á tela o facto para avultar a necedade +do barqueiro, senão que para desculpar o coração e a mocidade da pobre +Rosina Regnau. E agora é tempo de reatarmos o interrompido dialogo. + +--Reparou, replicou a vivandeira a Graça Strech, que ia calada. Ia a +pensar. Bem vê que é desculpavel a concentração em quem agora renasce +para a existencia. Não creia porém que o não ouvia. Ouvia sim... Quer +uma prova? Acaba de serenar a minha alma com uma unica palavra, de +resolver um problema, como se diz em Pariz, no bairro Latino. O senhor +não precisa de pensar no futuro. Já o escolheu. Vae combater, vae +realisar o seu desejo, tão facil de realisar que lhe basta apenas +encontrar o exercito portuguez. Eu comecei a realisar o meu: era +acompanhal-o. Bem; aqui vou ao pé de si. Mas depois? mas ámanhã? mas +sempre? Procurar o exercito francez era entregar-me á morte. Seguir o +exercito portuguez era denunciar-me no primeiro momento em que me +ouvissem falar. E os resultados d'essa imprudencia facilmente se +imaginam... Seriam tambem a morte... Não, não, eu quero viver, preciso +de viver, com o senhor e como o senhor. Viverá para a sua vingança; eu +viverei para o meu... amor. Sim, pode acreditar na verdade d'esta +palavra, aqui, a esta hora, depois, de eu haver atirado ao rio o meu +fato de vivandeira... O senhor disse ao barqueiro: Faze de conta que é +muda. Pois bem, sel-o-hei d'hoje em diante sempre que tenha á volta de +mim ouvidos estranhos. Reservarei para o senhor as minhas palavras e o +meu coração; para todos os outros serei muda, idiota, louca, se tanto +for preciso. Mas deixe-me vel-o, seguil-o, falar-lhe só a si, percebe, +só a si! Não estranhe a minha fraqueza. A alma da vivandeira é como um +cartuxo de polvora: cheguem-lhe lume, e ella arderá. O senhor bem sabe +que eu sou vivandeira... + +Graça Strech queria falar. + +Ella atalhou-o: + +--Quando se enfastiar de mim, tenha a coragem de m'o dizer. Um soldado +deve ser corajoso. O ceguinho das Ardennas, quando vae a qualquer casa +onde as crianças teem medo do seu cão, manda-o embora, e elle +obedece-lhe. O senhor diga-me tambem: «Rosina Regnau, não te esqueças de +que eu sou para ti o cego das Ardennas, o pobre Hubert». Bem sabe que +quando ha guerra não é difficil a gente encontrar repouso. Ás vezes, no +caminho, sae-nos ao emcontro uma bala perdida. Quando a gente é feliz, a +bala cae-nos aos pés, mas quando só falta calar-se o coração para +morrer, a bala cae no coração. + +--Rosina! Rosina! murmurou Graça Strech, profundamente commovido. + +Ella atalhou-o de novo: + +--Sim, agora ainda sou Rosina, ainda posso sel-o. Ámanhã serei--a muda. +Serei uma sua parenta, uma louca com quem o senhor reparta piedosamente +da sua marmita. Dirão: Ali vae a louca! E eu não poderei voltar-me +sequer, porque a louca será ao mesmo passo surda e muda. Se porém o +calor da lucta não só fizer que se enfastie de mim, mas tambem que me +odeie, como a principio me odiava, então não me mande embora, +denuncie-me, entregue-me. Bastará uma palavra sua para fazer-me +emmudecer para sempre. Bem vê que se o encargo é pesado, o resgate é +facil... + +--Offende-me, Rosina, veja bem que me offende! disse elle ardentemente. +Amo-a... sim, tambem eu posso dizer-lhe que a... amo. E quem diria, +Rosina, quem o diria ha tão pouco tempo ainda! Como é feito o coração do +homem! Odeio os seus irmãos e amo-a a si... Pela primeira vez na minha +vida sinto amor por outra mulher que não fosse... + +--Cale-se, cale-se! apostrophou ella delirantemente. Não quero saber +quem amou; seja esse o segredo do seu annel. + +--Acredite, Rosina, que o amor de que este annel é recordação era o mais +puro amor que ha na terra... A pessoa a quem elle pertencia era minha +irmã, acredite, era minha irmã. + +--Sua irmã! repetiu ella incredula e ironica. Bem vê que o sentimento +que esse annel lhe inspira não é a saudade, é o enthusiasmo... + +--Oh! que não sabe como eu a amava! São d'ella tambem estas cartas.. +Póde vel-as, desenganar-se... + +--Não as entenderia. + +--É verdade. Não as entenderia. + +--E que certeza me dariam as cartas de que eram da mesma pessoa que +possuia o annel? Que sua irmã lhe escrevesse era natural... Não preciso +de provas para acredital-o... + +--Rosina! Rosina! Este annel tambem era de minha irmã, que eu vi morta, +fria, hirta, livida... Mataram-n'a, Rosina, mataram-n'a... E ella era +tão formosa, tão innocente, tão timida! Mataram-n'a os francezes, a +ella, que lhes não fazia mal nenhum, a ella, que era meiga como uma +pomba!... E não contentes com um assassinio, commetteram mais dois na +minha familia. Ao pé do cadaver d'Augusta havia outros cadaveres: o de +minha mãe e o de minha avó. Mataram-n'as os francezes, Rosina. Por isso +eu odiava este nome. O annel, cujo segredo não acredita, é um +legado de sangue... Sim, eu amo-a, mas nunca me peça mais do que eu lhe +posso dar. Nunca me peça compaixão, clemencia... Era impossivel! Sobre +este annel jurei vingar-me. Bem vê que é delgado, fino, como o dedo que +cingia. Pois elle é a unica barreira que póde haver entre mim e Rosina, +quero dizer, o unico obstaculo que lhe prohibe a plena posse do meu +coração... Viverei, sim, entre este annel e Rosina; entre a minha +vingança e o meu amor... Eu patenteei-lhe a minha alma antes de acceitar +a liberdade que me deu. Não tem de que me accusar... Comprehendo-a, +Rosina, acredite que a comprehendo. A sua alma é tão extraordinariamente +grande, tão poderosamente forte, que chega a assombrar-me a coragem do +seu amor... Eu conheço que vae raiar para mim uma nova aurora. Quizera +poder-me dar completamente ao seu amor, viver d'elle e só para elle, mas +infelizmente a aurora que vae raiar nasce tinta de sangue, e sangue... +de seus irmãos. + +Rosina tinha lagrimas nos olhos e fogo no coração. Parecia-lhe +impossivel que a saudade d'uma irmã despertasse em Graça Strech tão +dolorido enthusiasmo. Se era essa a unica recordação ligada áquelle +annel, que phenomenal, que afflictiva e ao mesmo tempo que energica não +era a alma d'esse homem! Cada vez o amava mais por que cada vez lhe +parecia maior. E todavia, entre elles, tão germanados pela impetuosidade +dos sentimentos e pela virilidade do animo, medeava uma barreira, posto +que delgada, insupperavel--o annel mysterioso. Ella quereria tirar-se +d'aquella duvida cruciante, adquirir, ainda que á custa de sacrificios, +uma convicção, embora funesta; mas que direito tinha ella a interrogal-o +mais, a duvidar, a ter ciumes? + +Cerca do meio dia abicou o barco a um reconcavo sombrio, perto de +Pé-de-Moura, onde o barqueiro saltou em terra para ir buscar o fato +promettido. Antes d'elle desembarcar, Graça Strech lançou-lhe a mão ao +braço, e disse austeramente: + +--Tens filhos? + +--Saiba v. s.ª que tenho quatro. Por elles me exponho á morte todas as +noites no rio... + +--Pois bem. Por elles me jurarás que não dirás a ninguem palavra do que +viste e ouviste aqui. + +--Juro, senhor... + +--Agora recebe todo o dinheiro que resta a um soldado. + +Uma hora depois, Graça Strech, saltando á margem, dizia a uma camponeza +que o seguia: + +--Para Amarante. + +E a camponeza, como se só tivesse sorrisos e não palavras, sorria. + +Já dissemos que era aquelle o dia 20 d'abril. + +Quizeram os francezes, depois da invasão do Porto, estender a sua +victoria pelo paiz inteiro. Immediatamente se assenhorearam de Valença e +Vianna, tentando simultaneamente passar a Traz-os-Montes, mas foram duas +vezes repellidos n'essa tentativa. + +Beliscados na sua vaidade de conquistadores, tinham mandado sobre +Amarante no dia 9 uma força, que recuou perseguida pelo general +Silveira. Appareceu porém, reforçada, no dia 15, travando combate em +Manhufe e Villa Meã durante trez dias para dar tempo a soccorrel-a os +quatro mil homens de Loison e De Laborde, que, partindo de Guimarães, +lograriam colher os portuguezes pela rectaguarda. + +A pericia do general Silveira frustrou-lhes o intento com um rapido e +habil movimento sobre Amarante. Os portuguezes occupavam a margem +esquerda do Tamega; os francezes a direita. + +O empenho do inimigo era atravessar a ponte. Desesperados pela valorosa +resistencia dos portuguezes, pegaram fogo, na noite de 18, a toda a +villa. A crueza do inimigo mais pareceu atiçar a coragem dos nossos, +cuja resistencia recrudesceu no dia immediato, apesar de reforçados os +francezes pelas brigadas de Sarrut e Marisy. + +Estas eram as evoluções das tropas inimigas, em Amarante, á hora em que +deixamos Graça Strech e Rosina Regnau em caminho do acampamento portuguez. + +Tempo depois, um poeta conterraneo, mais familiar ás armas d'Apollo que +de Marte, encarecia no seguinte soneto a gloria do general Silveira, +cuja tactica elle provavelmente estivera contemplando de sitio aonde já +não podiam chegar pelouros: + + Uma nuvem de fumo o ar povôa, + E do Tamega enluta as margens frias, + O portuguez canhão quatorze dias, + Sem descanço algum ter, fuzila e trôa. + + De um lado a outro lado a morte vôa + Por entre essas crueis artilharias, + E perdendo as antigas ousadias, + Curva ao duro francez a altiva prôa. + + Amigos hespanhoes, nação brilhante! + Eis como cá seguimos vossa esteira, + Eis nossa Saragoça, eis Amarante. + + Os olhos ponha em nós a Europa inteira, + E veja, em amplo quadro flammejante, + O Tamega, Ebro, Palafox, Silveira. + +Pena foi que Graça Strech precedesse alguns dias a gestação do soneto +escripto em honra de Silveira, porque, de contrario, se topasse o poeta +a versejar em ociosa inactividade, havel-o ia empurrado, no seu +vivissimo odio contra os francezes, para o meio da infatigavel fuzilaria +que durante quatorze dias sinistramente illuminou as aguas do Tamega. + +O que valeu foi que, se houve poetas para incensar metricamente +Silveira[8], houve tambem soldados que denodadamente pelejaram pela +patria. + +E o numero dos valentes da ponte d'Amarante ia agora ser augmentado com +um soldado que seria o primeiro a romper fogo contra o inimigo. + +Deixar lá o poeta dizer que as margens do Tamega eram _frias_ n'aquelle +tempo. Os poetas dizem tudo, e tudo podem dizer... + + [6] «Historia antiga e moderna da sempre leal e antiquissima + villa de Amarante». etc., por P. F. de A. C. de A.--1814, pag. 54. + + [7] «Historia geral da invasão dos francezes em Portugal», + por José Accurcio das Neves. Tomo I, pag. 282. + + [8] Veja-se _Elogio de Silveira_, pelo padre mestre dr. fr. + F. de S. T., e _Silveira_, poema por J. S. + + * * * * * + + +X + +A hora do resgate + +Quatorze dias durou, como dissémos, a heroica defeza da ponte d'Amarante. + +Foi aquella uma proeza que requeria desfecho condigno, o que +infelizmente não aconteceu. Reforçado o inimigo ao decimo terceiro dia +de combate, e animado pela presença do marechal Soult, preparou-se para +uma lucta decisiva, que o nevoeiro com que amanheceu o dia seguinte +viera inesperadamente coroar. + +Perdidos os nossos na cerração da metralha e da neblina, e atacadas pela +rectaguarda algumas baterias, tiveram de abrir passagem por entre uma +densa floresta d'armas, marchando em retirada para Mezão Frio e Campeã, +a tempo que o general Silveira recuava para Entre-os-Rios. + +É realmente assombrosa a historia portugueza nas paginas que dizem +respeito ás guerras peninsulares. + +São tão descommunalmente grandes os factos, que, em sua mesma simpleza, +ora se nos affiguram episodios d'Homero, exuberantes d'esforços +titanicos, ora se retingem dos toques sombrios de Dante. + +As façanhas da invasão franceza claramente revelam que ha pouco mais de +sessenta annos corria ainda nas veias dos portuguezes o sangue dos +valentes d'Ourique, Aljubarrota e Montijo. Renasciam os heroes das +cinzas dos heroes, como se a gloria fosse herança de paes a filhos. +Podia o animo portuguez desvariar se por momentos, como já anteriormente +fizemos notar, que logo despertava melhor retemperado para a +rehabilitação. Assim é que 1640 faz esquecer 1580, e que o vulto +homerico de João Pinto Ribeiro resgata a perfidia de Miguel de +Vasconcellos. + +Hoje, as batalhas que outr'ora eram campaes, volveram-se parlamentares, +isto é, falamos muito e praticamos pouco. A apostrophe «S. Jorge e +ávante!» foi substituida por est'outra: «Senhor presidente, peço a +palavra!» Ha menos soldados e mais deputados, menos regimentos e mais +commissões. Não obstante, alguma faulha resaltaria ainda das cinzas +quentes das nossas conquistas para atiçar o incendio das paixões, na +hora em que perigasse a independencia da patria. + +Aconteceria, porém, que muitos deputados, que nas côrtes de S. Bento +discursam calorosamente sobre a nossa autonomia, requereriam, dada a voz +de alarma, inspecção da junta de saude para serem considerados invalidos... + +Mas iamos nós falando dos feitos portuguezes durante as guerras +peninsulares. Estupendos foram, é certo. + +No combate da ponte d'Amarante, por exemplo, perecera gloriosamente um +official d'artilharia, muito lastimado por seus companheiros d'armas, +incluido o general Silveira, que lhe abraçou o cadaver. + +O tio do official, e a mãe, que era viuva, vestiram-se de gala, dizendo +esta nobre mulher aos dois filhos que lhe restavam, e estavam pranteando +o irmão: + +--Não choreis, filhos. Vosso irmão não morreu. Vós é que morrereis da +morte da vergonha se vos não mostrardes dignos da sua memoria. + +Este exemplo d'animo varonil em peito feminino prova que não anda +phantasia popular na lenda d'aquella Deosadeu, de Monsão, de Celinda, a +heroina de Certã, de Filippa de Vilhena, e doutras celebradas matronas +portuguezas, que deram á patria uma geração de meninas que fazem _crochet_. + +É egualmente abundante de heroismos a chronica da primeira invasão, á +parte pequenas manchas, como aquellas que dos copos dos officiaes +francezes cairam sobre o tablado do theatro de S. Carlos. + +Deixem-me citar um facto na mesma linguagem em que o historiador o +descreveu. + +«O juiz de fóra de Algozo, Jacintho d'Oliveira Castello Branco, fez-se +digno de honrosa memoria, pela sua repugnancia ás ordens do governador +intruso; por continuar debaixo d'elle a uzar do nome de S. A. R.[9] em +alguns processos; por conservar as armas reaes no pelourinho e na casa +da camara d'aquella villa; e por outras acções, egualmente sublimes e +arriscadas. Jantando em sua casa varias auctoridades portuguezas, que o +increpáram de não cumprir as ordens reiativas á contribuição de guerra, +respondeu-lhes, lançando mão a um copo, e fazendo uma saude a S. A. R. o +principe regente.» + +Não é menos avantajado em heroicidade o procedimento do juiz de fóra de +Marvão, Joaquim José de Magalhães Mexia, que, intimado para se render ao +jugo estrangeiro, fez desistencia publica perante os seus escrivães, e +foi prostrar-se diante da imagem do Senhor dos Passos da sua villa, +encostando a vara á imagem por fórma que parecia haver-lh'a depositado +nas mãos, e recolhendo-se depois a casa para vestir-se de luto. + +É pois digna de que a reproduzam na tela os melhores pintores, os +melhores poetas e os melhores historiographos--esta ingente lucta d'um +pequeno paiz, apenas soccorrido por outro, contra o gigante tresvariado +pela gloria, que firmava os pés nas planicies da Italia, e alguns annos +depois fôra visto á luz, para elle sinistra, dos incendios de Moscow, +enchendo, de sul a norte, a Europa inteira. + +Alguns talentos verdadeiramente robustos teem lançado o colorido do seu +pincel sobre esta enorme tela, nunca esgotada. Que me lembre n'este +momento, Rebello da Silva, Camillo Castello Branco, Pinheiro Chagas e +Arnaldo Gama trataram brilhantemente tão fecundo assumpto. Eu chego com +pequeno viatico, embora não venha tarde, unicamente para mostrar que +tenho seguido reverentemente o sulco que todos quatro abriram no vasto +campo da guerra peninsular. + +Reatando a narrativa. + +Graça Strech foi um dos soldados portuguezes que mais se distinguiram +nos ultimos dias da defeza da ponte d'Amarante. + +O general Silveira estimou-o desde que elle, apresentando-se, lhe disse: +«Venho bater-me como leão porque venho vingar-me»; e começou a admiral-o +horas depois da apresentação. + +Ao anoitecer do mesmo dia, fizeram reparo alguns soldados n'uma +camponeza, que parecia muda, e se bandeava com o sequito do exercito. + +--D'onde viria? perguntavam elles. + +--É minha... irmã, atalhou commovido Graça Strech. Não podia +convencel-a a que me não seguisse, porque a infeliz nem ouve nem fala. +Veiu vindo atraz de mim, receiosa de que eu morresse sem ver-me. +Pobresinha!--acrescentou com os olhos marejados de lagrimas--não faz mal +a ninguem, e é muito minha amiga. + +--Que pena a sua desgraça, que tão formosa é! observou piedosamente um +portuguez. + +--Nem se diria portugueza! exclamou outro com a affouteza que lhe dava o +não estar na presença de portuguezas. + +Graça Strech replicou: + +--Ha com effeito ali alguma coisa allemã no rosto como no nome. Os +nossos antepassados tinham sangue teutonico. Ainda nos corre nas veias o +sangue d'elles. A pobresinha estremece-me. Como não tem ouvidos nem voz, +quer estar ao pé de mim sempre que póde, como para falar pela minha +bocca e ouvir pelas minhas orelhas. Eu sou quasi a sua moleta... Tambem +a infeliz não tem ninguem mais n'este mundo, e ella de si pouco tem... + +--Infeliz! ponderaram os soldados enternecidos. + +Rosina Regnau interpretou magistralmente o seu papel. Passavam por ella +e diziam: _A muda allemã!_ e ella, apesar de entender a phrase á força +de repetida, nem sequer voltava o rosto para agradecer aquella esmola de +compaixão. + +Se não ouvia! se não falava! + +Sentava-se entre as bagagens a entrançar folhas verdes ou a desfolhar +flôres. + +Algumas vezes mettia-se por entre as arvores para se inteirar da posição +das tropas. + +Depois d'um combate, aproximava-se dos soldados, quando Graça Strech se +demorava ainda, e pousando a face na mão e fechando os olhos, perguntava +por gestos se «o irmão» estava ferido ou morrera. Os soldados, que já a +comprehendiam, acenavam-lhe negativamente. + +Assim decorriam os dias, sem que a alma da vivandeira saisse para fóra +de si mesma. + +Quem adivinhava ali que de receios, de maguas, de pensamentos, de +esperanças muito vagas... agitavam aquelle formoso cadaver que só tinha +vida nos olhos? + +Ninguem. + +E todavia ella estava pensando sempre... + +A sua ambição, o seu sonho, o seu ideial era possuir inteiramente a alma +de Graça Strech, porque ella desde o momento da fuga para ninguem mais +vivia. + +--Achou decerto--suspeitava ella--que eu não era digna de receber a +confissão do seu segredo. Quem és tu, disse elle lá comsigo, pobre +vivandeira, para comprehenderes a enormidade d'um amor que vive na +morte? Se aquelle annel fosse realmente de sua irmã, curvar-me-ia a seus +pés e beijar-lh'o-ia. Mas se elle cingiu o dedo d'outra mulher, que o +amava muito menos do que eu, arrancar-lh'o-ia da mão ainda mesmo com a +certeza de morrer esmagada pela sua colera. Cumpre pois que, por +sacrificio sobre sacrificio, eu chegue a nobilitar-me a seus olhos o +bastante para elle me convencer. N'esse dia serei sua amante; por +emquanto sou apenas o seu cão. Vamos, solitario molosso, affaga o teu +dono... + +Graça Strech passava, atirava-lhe uma flôr, e sorria... + +Ella sorria tambem. + +Guarnecidos todos os pontos do Douro, desde a retirada d'Amarante até a +acção d'Ovelha, tiveram as tropas algum descanço apenas interrompido por +escaramuças e reconhecimentos. + +Foi n'esse intervallo que Graça Strech começou a aprender a tocar +guitarra com um soldado, filho da Regua, e muito conhecido ali por +excellente musico. + +A natural aptidão de Graça Strech fez que dentro em pouco se avantajasse +ao mestre. Assim era que não desaproveitava occasião de estar +guitarreando ao lado de Rosina, que conservava na physionomia a habitual +immobilidade de linhas, como se a musica, que se lhe coava á alma, não +lhe desse nenhuma sensação, por não poder ouvil-a. + +Ás vezes, de noite, Rosina podia murmurar muito a medo, aos ouvidos de +Strech, através dos sons da guitarra: + +--José! + +Ella sabia pronunciar este nome como se de pequenina o aprendera. + +Depois olhava em redor, como para adquirir a certeza de não ser +escutada, e repetia maviosamente: + +--José! + +Elle apertava-lhe convulsamente a mão e respondia: + +--Rosina! + +E aquelle immenso amor da vivandeira, que renunciára á patria, á +liberdade e á voz, contentava-se com exhalar-se n'uma palavra, e ser +correspondido por outra. + +Ella tambem não pedia mais. Era o cão do soldado: seguia-o. + +Quando a tristeza lhe descia ao coração, a indefinida tristeza de quem +ama, consolava-se a si propria imaginando-se ainda vivandeira, porque +ouvia troar o canhão e sentia no ar o cheiro da polvora. + +Era apenas a memoria o que lhe restava do que fôra; o fato da sua +infancia sepultára-o ella no fundo das aguas... + +Entretanto proseguiam com actividade as operações d'um e outro exercito. + +A 22 d'abril entrava em Lisboa Wellesley, commandante em chefe das +forças britannicas, que desembarcaram no Porto, na Figueira, etc. As +tropas inglezas, de combinação com as portuguezas, começaram a tomar +differentes posições. Em Coimbra passaram algumas divisões nos dias 1 e +2 de maio, sendo recebidas com festas que chegaram a tocar o maximo +enthusiasmo. + +Era aquelle o hymno de esperança da patria, anciosa de liberdade. + +Avançaram as tropas alliadas até Agueda, e lograram repellir os +francezes desde as Albergarias até Oliveira d'Azemeis, onde Wellesley, +depois lord Wellington, estabelecera o quartel general. + +No dia 11, a guarda avançada do exercito anglo-luzo destroçou em Grijó +os postos avançados francezes que recuaram até Gaya e passaram o Douro, +cortando immediatamente a ponte de barcas. + +Na vespera d'esse dia atravessára Beresford o Douro na Regua com as suas +tropas, repellindo Loison para Amarante, e de Amarante para o Porto; +Loison perdera na retirada muitas peças, alguns obuzes, e cento e +dezenove carros com bagagens. + +Estava pois o flanco esquerdo do exercito francez torneado por +Beresford, o direito por Hill em Ovar, e o centro alcançado pelas +divisões Trant e Paget. + +Durante toda a noite de 11 para 12 marchou o exercito alliado sobre +Villa Nova de Gaya. + +De manhã, e impossibilitado de passar o rio, soube o coronel Watters que +um barbeiro portuense, salvo da vigilancia das patrulhas francezas, +havia atravessado n'um barco; aproveitando a conjunctura providencial, e +o barco não menos providencial que a conjunctura, passou á margem +direita, voltando á esquerda com trez grandes barcos, que pudera obter. + +Avisado Wellesley do achado miraculoso, voltou-se jubiloso para o +coronel e disse: + +--Passem as tropas que couberem nos barcos. + +Não faltaram valentes que se expuzessem aos azares da façanha, +surprehendendo os francezes que contavam repellir vantajosamente o +inimigo quando tentasse a travessia a descoberto. + +Foi, pois, o coronel Watters o Martim Moniz da reconquista do Porto. + +Percebidos os francezes da audacia heroica do exercito alliado, para +logo se desviaram em movimentos confusos, como o redemoinhar das areias +no deserto revolvidas pelo simoun. E assim como as areias tomam, +erguidas no ar, á luz do sol, irradiações prismaticas que deslumbram, +assim resplandeciam, á luz do meio dia, as armas dos francezes +baralhando-se tumultuariamente nas ondulações do terreno que medeia +entre o caes da Ribeira e o Prado do Bispo. + +E então marinhavam as tropas luzo-britannicas pelos alcantis do +Seminario, como outr'ora os cruzados pelos despenhadeiros da torre do +norte, na tomada de Lisboa, e, para que se complete o parallelo, o que +lá era Guilherme, duque de Normandia, era cá Wellesley, lord Wellington. + +E já para anciedade dos portuenses se abria manhã d'esperança, á medida +que os nossos ganhavam terreno, e mais revoluteavam as hostes francezas +nas eminencias sobranceiras ao Douro. + +Por um momento se julgou perdido o triumpho, quando a artilharia +franceza começou a varejar o Seminario. + +Mas não tardou que ao canhão da margem direita respondesse o canhão da +margem esquerda, que das alturas do Pilar vomitava torrentes de fumo +negro sobre o valle cavado pelo Douro. + +Reanimados os portuenses, entraram de preparar barcaças, que conseguiram +pôr a salvo do outro lado do rio, e que transportaram as tropas do +general Sherbrooke. + +Simultaneamente estrondeava no Porto, rolando até ao caes como o rumor +longinquo d'uma cathedral em festa, o concerto das vozes, que pregoavam +victoria, á mistura com os sons festivos dos campanarios. + +Nas janellas da cidade baixa agitavam-se lenços brancos em vertiginoso +tumultuar. + +Tambem assim accordou Lisboa, cento e sessenta e nove annos antes, na +manhã de 1 de dezembro de 1640, quando um punhado de fidalgos +portuguezes subjugava nas praças publicas, sem correr uma gotta de +sangue, o famelico leão das Hespanhas. + +Era o grito de liberdade longos dias reprimido na garganta d'um povo +inteiro. + +Era o jubilo d'uma nação, que parece apenas occupar alguns palmos de +terra no mappa da Europa, á hora em que despedaçava as gramalheiras que +por sobre os Pyreneus lhe lançára o César da França, e dizia ao vencedor +de Austerlitz: «Tu prostraste a Prussia em Iena, a Russia em Friedland; +tu levantaste sobre as baionetas dos teus exercitos os thronos de +Napoles, da Hollanda, da Westphalia, e da Hespanha, mas nós fizemos +estremecer na tua mão, ó demolidor victorioso, a alavanca com que +procuravas revolver nos alicerces o solio portuguez. Que o amigo +leopardo da Inglaterra te contrariasse, vá, porque a Inglaterra é muito +poderosa. Mas nós, pequenos como somos, fazemos suster o vôo da tua +aguia e, audazes como ella, gritamos-lhe para a amplidão que avassalla: +Basta! Pára!» + + [9] Sua Alteza Real. + + * * * * * + + +XI + +O que a vivandeira pensava + +Retiraram os francezes pelo norte de Portugal, acossados pelo exercito +anglo luso. + +No dia 17 ganharam Montalegre, no dia 18 passaram a Alhariz, e no dia 19 +entraram em Orense, depois de marchas tão violentas como trabalhosas, de +perdas consideraveis, e de perseguida vivamente a sua rectaguarda pelas +tropas alliadas. + +Na passagem pelas povoações que medeiam entre o Porto e a fronteira, +deixaram os invasores um rasto de sangue e fogo de que falam com +assombro os documentos officiaes. + +Á medida que fugiam foram espalhando a morte nas ultimas terras de +Portugal, como se quizessem atulhar de cadaveres o abysmo cavado na +gloria de Napoleão. + +N'uma carta dirigida por lord Wellington ao secretario de guerra, +escripta no quartel general de Montalegre, no dia 18, lê-se que: «O +inimigo começou a retirada, como já informei a v. s.ª, destruindo uma +grande porção dos seus canhões, e munições. Ao depois destruiu o resto +d'ambos, e grande parte da sua bagagem, sem conservar mais do que quanto +pudessem levar os soldados, e poucas mulas. Deixou ficar os doentes e +feridos; e o caminho até Montalegre está juncado de cadaveres de +cavallos, e mulas, e soldados francezes, que foram mortos pelos +camponezes, antes que a nossa guarda avançada os pudesse salvar. Esta +circumstancia é o effeito natural da maneira por que o inimigo faz a +guerra n'este paiz. Os soldados teem saqueado e morto a paizanagem, a +seu arbitrio; e eu tenho visto muitas pessoas pendentes enforcadas nas +arvores ao longo das estradas, executadas por nenhuma outra razão, que +eu possa saber, senão porque não eram amigas da invasão franceza, +nem da usurpação do seu paiz; e podia traçar-se a rota da sua retirada, +pelo fumo das aldeias a que elles lançavam fogo. Temos tomado cousa de +quinhentos prisioneiros. Em tudo, o inimigo não tem perdido menos de um +quarto do seu exercito, e toda a sua artilharia e equipagem, desde que +nós o atacámos junto ao Vouga.» + +O marechal Beresford afina pelo mesmo tom: + +«Não é possivel pintar a cruel e infame conducta do inimigo; ella póde +ser facilmente traçada pelos lamentos dos infelizes paizanos, das +mulheres e das crianças, e pelo fumo das villas, aldeias e casas +incendiadas: elle a nada perdôa: esta villa (Amarante) está inteiramente +destruida: a de Mezão Frio o está em proporção do tempo que tiveram...» + +Passavam, pois, os francezes, devastando, incendiando, matando. + +Quiz o duque de Dalmacia que o occaso da sua invasão fosse allumiado +pelas labaredas do incendio. + +Eram os ultimos lampejos d'uma victoria ephemera. Mas a voz da patria, á +hora do resgate, erguia-se mais alto que o crepitar das chammas no +pendor das serras, que os lamentos dos velhos e das crianças que +succumbiam á ultima carnificina da segunda invasão franceza. + +No Porto, governado militarmente pelo coronel Trant, grande era o +jubilo, se bem que não tão cego que sir Arthur Wellesley não houvesse +proclamado aos habitantes que os feridos e prisioneiros estavam debaixo +da sua protecção, e que seria considerado criminoso quem os offendesse. + +Em Lisboa, mal que no dia 17 se teve noticia official da restauração do +Porto, salvou o castello de S. Jorge, sendo correspondido pelos navios +de guerra inglezes surtos no Tejo; saiu bando para que a cidade se +illuminasse por trez dias, no ultimo dos quaes mandou o governo cantar +um _Te-Deum_ na Basilica de Santa Maria Maior. + +Internado o inimigo no territorio da Galliza, as operações do marechal +Victor na Extremadura hespanhola, ameaçando nova invasão de Portugal +pelo Alemtejo, obrigaram sir Wellesley e o marechal Beresford, +solicitado tambem o primeiro pela junta central de Hespanha residente em +Sevilha, a marchar com seus respectivos exercitos para o sul do reino. + +Retirou, pois, sir Wellesley, posto que a despeito do governo portuguez, +para a cidade do Porto, d'onde passou a Coimbra, Thomar, Constancia, e +Abrantes, acampando na margem direita do Tejo. O exercito portuguez +acompanhou o movimento retrogrado do exercito inglez, marchando para +Abrantes, no intuito de atacarem em commum o marechal Victor, que +estanceava nas visinhanças do Guadiana. Não se demorou, porém, o +marechal Victor n'esta posição. Avançou, com os seus 90:000 homens, para +a margem esquerda do Tejo, no intuito de o passar na ponte d'Alcantara. + +Reportemo-nos ao dia 14, dia assignalado pela brilhante defeza d'esta +ponte durante mais de seis horas. + +Eram oito da manhã quando o inimigo, em trez columnas, rompeu o ataque +por differentes pontos. + +D'uma e outra parte foi terrivel o fogo da artilharia até que, cerca do +meio dia, vendo o regimento de milicias de Idanha-a-Nova +consideravelmente dizimadas as suas fileiras, retirou em debandada, +deixando ficar no campo apenas a legião lusitana. + +Em tão desesperada conjunctiva, o coronel Mayne mandou incendiar as +minas da ponte, rompendo a explosão apenas por um lado, e ao major Grant +confiou o commando das baterias para proteger a retirada dos nossos, que +se realisou pelas trez horas da tarde. + +A cavallaria franceza vivamente perseguira então a nossa pequena +divisão, sem que todavia pudesse impedir que se acautelassem os feridos +e juntassem os dispersos. + +Ora um dos feridos na defeza da ponte d'Alcantara chamava-se José Maria +da Graça Strech. + +Quando, em logar seguro, o tiraram d'um carro, onde lhe eram +companheiros outros valentes portuguezes, a _muda alemã_, como +geralmente chamavam a Rosina Regnau, esteve a ponto de trair o segredo +do seu disfarce, vibrando um doloroso grito, o qual se apagou n'um rouco +murmurio, que é, em lances afflictivos, o supremo esforço dos que não +teem voz. + +E logo correu a encostar ao peito a cabeça do ferido, a examinar a +ferida, e a perguntar por gestos se poderia resultar perigo. + +Os soldados, condoídos de tão carinhosa dedicação, responderam logo, +desde muito costumados a prognosticar sobre ferimentos, gesticulando +negativamente. + +E a muda poz as mãos, levantando os olhos ao céo e entrou de affastar os +cabellos de Graça Strech, banhados de suor frio, para contemplar-lhe a +physionomia levemente alterada. + +Elle sorria-lhe com os olhos marejados de lagrimas e serenava-a +acenando-lhe meigamente com a mão. + +Um dos soldados, abeirando-se de Graça Strech, disse curvando-se para elle: + +--O que tu tens de valente tem ella de boa! Sois dois irmãos dignos um +do outro. + +Graça Strech encarou n'elle e meneou a cabeça; a muda ficou indifferente +a curar as feridas do irmão. + +E só depois que não podia ser vista nem ouvida de estranhos, começou, +alternando palavras com beijos, a falar-lhe tão baixinho, tão baixinho, +como se até dos ouvidos d'elle guardasse o seu segredo, e só quizesse +que a escutasse a alma... + +--Não é nada, José, meu José. Elles disseram e eu agora bem vi. Sabes +que fui vivandeira e que tambem entendo o meu pouco de feridas. Não! A +morte não te rouba d'esta vez á tua vingança e ao meu amor. + +--Rosina, minha adorada Rosina! Alma pura! Coração nobilissimo! +Obrigado. Curva-te sobre a minha bocca; queiro beijar a tua face... + +--É o primeiro beijo! murmurou ella circumvagando um olhar cauteloso.--É +o primeiro beijo que de ti recebo... Obrigada, meu Deus! + +--Sim, tu és muito melhor do que eu... Tens-me dado tantos, tantos.. +Mas--e perdoa-me, Rosina, perdoa-me--a minha alma só agora te póde +beijar livremente... + +--Ó felicidade!... Praza a Deus que se este beijo me abre a tua alma eu +a chegue a possuir inteiramente, porque o amor, meu José, é tão egoista, +tão egoista... + +--E não crês possuil-a ainda? + +--Não. Todavia tenho esperança... Virá um dia. Cala-te, que te faz +mal falar... Já não foram pequena felicidade estas palavras, por que, tu +bem sabes, eu só tenho palavras para ti e para... Deus. + +Foi longo e reparador o primeiro somno do ferido. + +Rosina Regnau velou á cabeceira da tarimba, absorta nos seus pensamentos +pela primeira vez illuminados por um raio de sol. Estava folheando o +roseo poema do primeiro beijo, decompondo em estrophes maviosas a +harmonia que da alma subira aos labios. Era a primeira gotta de orvalho +na aridez do seu destino, uma parcella de ternura em recompensa dos +thesouros que ella por tanta vez prodigalisára sobre as faces de Graça +Strech. + +O primeiro beijo! A santa loucura das almas que se amam, como diz a trova: + + Foi aqui mesmo, á tremula + Sombra do olmeiro, + --Dizia o pastor Lícidas-- + Aqui, aqui, + Que eu hontem n'estes labios + Tive o primeiro + Beijo da minha Flérida, + E endoideci![10] + +E baralhavam-se-lhe os pensamentos com a precipitação da ephemera +demencia que a felicidade dá. + +--Sim... eu começo a ser feliz. Diz-me o coração que o serei... Mais +provas! mais provas, senhor meu coração! Mostre-se digno d'aquella +enorme alma, inspire-lhe confiança para lhe recolher os segredos, e +possua-a, e juntem-se, e prendam-se, e identifiquem-se, tão unidos, tão +unidos, que nem a morte os possa separar... Sem isso não ha felicidade +completa... Sim, bem vês, pobre coração, meu pobre coração que tanto +tens soffrido, que se aquelle annel fecha ainda a saudade de um amor +redivivo, não pódes por emquanto conquistar a fortaleza que se não +renderá. Tu sabes lá como a saudade se bate entrincheirada detraz de um +tumulo! Então terás ainda muito que soffrer e que luctar, pobre doente +para quem hoje raiou o primeiro symptoma da cura, meu triste +coração tão soffredor! Mas forceja, vá, porfia, esforça-te por +arrancar-lhe o segredo... Se aquella é a ultima memoria de uma irmã +querida, alegra-te, pobre louco, porque nem a amante desluzirá a irmã, +nem a irmã desluzirá a amante. A alma d'elle é tamanha que chega para +mim e para ella. Para o que não chega é para duas amantes, que se +disputam palmo a palmo o terreno, que luctam, que combatem, que oppõem +ciume a ciume, despeito a despeito, embora uma esteja morta e outra +viva... Não, «a gentil vivandeira» não soffre competencias. Já se fez +amar d'um exercito; é preciso que se faça amar d'um homem. Pois então +perde-se tudo, a patria, a liberdade, o socego, as florestas das +Ardennas, as minhas queridas florestas das Ardennas, que talvez não mais +torne a ver, e as montanhas do Hainaut e do Luxembourg, que eu conheço +desde pequenina, e o Semoy e o Lesse e o Ourthe e o Eure, tudo, n'uma +palavra, perde-se uma vida inteira de dezoito annos, para amar um homem, +para ser a sua sombra, o seu cão, e não se ha de possuir ao menos todo o +seu coração, todos os seus pensamentos, os seus segredos todos? Quem me +diz porém que não hei de vencer? Não vi eu porventura tantas batalhas, +não as vejo ainda, e não posso tirar da incerteza da victoria um bom +agouro para o meu futuro? Dize-te, pobre Rosina, diz a ti mesma o que +são os combates que tantas vezes tens visto. Pinta um quadro para ti. +Anima-te! Olha... São duas as montanhas alcantiladas, sombrias, +enormes... Uma defronte da outra... No meio um rio sereno, e crystalino +a principio... depois vermelho de sangue. Sobre o rio uma ponte, e sobre +a ponte, como a desabarem para ella, as montanhas. E n'uma e outra os +exercitos, os uniformes variados, os kepis multicôres, as espadas +reluzentes, os cavallos pendurados das fragas, os cavalleiros pendurados +dos cavallos, as carretas suspensas na ladeira, as peças que abrem a sua +bocca de fogo para vomitar o fumo e a morte, a voz dos clarins e a voz +dos commandantes, pragas, juras, maldições, gemidos, blasphemias, +sacrilegios, e a turba ora a estreitecer, a apertar-se, a juntar-se em +pinha, ora a crescer, a alargar-se, a fazer-se onda, a trasbordar, ora a +rolar como avalanche pelo monte abaixo, ora a marinhar por elle, a +trepar, a agarrar-se, tão espessa, tão escura, tão confusa como se +fosse uma nuvem que saísse do rio, e o sol a doiral-a agora e logo +o fumo a envolvel-a, e já se desencadeiam d'um e d'outro lado ameaçando +chocar-se sobre a ponte, que corta o valle, e que afundará com elles, e +baralham-se, enovelam-se, redemoinham, e apparecem uns, e desapparecem +outros, e tombam cadaveres ao rio, e estruge no ar a grita, e corre +ensanguentada a agua, e são aquelles os que vencem, os que estão em +maior numero, e vão esmagar os outros, e arvorar a bandeira... mas rolam +de novo, precipitam-se, confundem-se, e são estes agora os que +triumpham, lá se embrenham por entre o inimigo, passam como corisco, e +assombram-n'o, fulminam-n'o, e a victoria é sua! Bem, Rosina Regnau, +assim foi em Amarante e ainda agora em Alcantara; assim póde ser para +ti. Quem te diria no hospital de sangue, quando o estavas contemplando +adormecido, tão pallido, tão mergulhado no somno, e tu te lembravas de +que eras franceza e elle portuguez, quando tu já o amavas e elle dormia, +quem te diria, ó vivandeira ignorada, que dias depois havias de seguil-o +por toda a parte, e perder a tua voz para que te não conhecessem, e +encostar ao teu peito a cabeça d'elle, que caira ferido, e recber-lhe o +primeiro beijo? Ninguem! Nem aquelle endemoninhado do Beauvier, que era +o bruxo do exercito, e andava sempre a olhar para os astros, e +adivinhava quando chovia, e a lua havia de ser cheia, aquella bonita lua +cheia da França!... Ninguem, Rosina, ninguem! Pois tambem não ha magico +na terra que saiba dizer se tu chegarás a vencer o seu coração de modo +que te julgues tão poderosa, tão senhora do mundo como o imperador, e +por feitio que sejas tão ambiciosa como elle, que não deixa palmo de +terra a ninguem!... + +Interrompeu-lhe este intimo monologo uma contração do ferido, que +balbuciou monosyllabos. + +--Sonha!--pensou ella--e quem sabe o que sonha? Estou aqui tão perto +d'elle, a vel-o, feição por feição, linha por linha, a examinal-o tanto, +que dir-se-ia querer contar-lhe um por um os seus cabellos, e sinto-lhe +o halito na minha face, e fala, e só eu o oiço, e todavia não sei de +quem são os seus pensamentos, nem o que querem dizer, o que está +recordando, o que está sonhando, finalmente! Tenho diante de mim, como +livro aberto, a sua physionomia e não posso lêr na sua alma! Sei que ha +ali um mar mysterioso, e não posso sondal-o. D'uma vez--recordou +ella--lia o meu pae Regnau os jornaes, e disse: «Fulano e sicrano foram +á pesca das ostras.» E acrescentou: «E o imperador que as tem bem boas +na Corsega!» E eu perguntei ao pae Regnau para que iam elles pescar as +ostras, tão longe, se podiam pescar outros peixes no Sena. +«Tontinha!--respondeu elle--porque das ostras é que se tiram as perolas, +e é preciso metter-se uma pessoa ao mar para pescal-as!» Bem me +ensinaste tu, pae Regnau! O mar esconde tanta coisa... que até esconde +as perolas. Aqui estou eu á beira do oceano e não as vejo... As que eu +procuro, vivem escondidas ali... + +E apontou para o coração do ferido. + +Os labios de Graça Strech pareceram descerrar um sorriso. Rosina, que, +apesar dos seus pensamentos, estava attenta ao menor movimento, ao mais +subtil perpassar d'uma sombra, estremeceu ao rebramir da tempestade +interior: + +--Sorri! pensou ella.--Havia n'este seu sorriso a melancolia de quem +está recordando a felicidade perdida... Lembra-se talvez d'uma hora em +que, rosto a rosto, juntas as mãos, sorrindo, falando, sonhando, lhes +fugia o tempo mais rapido que o pensamento... E ella, a mulher que elle +amava, era decerto formosa, muito formosa, e dizia-lhe que jámais +haveria no mundo quem viesse a amal-o como ella... E elle acreditou-a, e +por isso a ama ainda no tumulo, e jurou que, viva ou morta, lhe seria +eternamente leal, porque o coração lh'o havia dado para todo o sempre... +Ah! mas quem sabe, durante o combate, a quem ha de pertencer a victoria? +O teu quadro, Rosina Regnau, é verdadeiro. Lucta até o fim, vivandeira, +faze como os soldados que foram teus irmãos. Combate a saudade com a +esperança. Soffre, porque o soffrer é de quem lucta. Mas porfia, +conquista resignadamente esse coração onde desejas reinar, porque todo +elle é preciso para o throno da tua felicidade. + +Abriu Graça Strech os olhos e relanceou a Rosina um olhar suavemente +triste. + +--Sempre aqui!--segredou elle. + +--Aqui é o meu posto de enfermeira voluntaria. + +--Eu dormi, Rosina: dormi e sonhei... com minha irmã. Estava-a +vendo aos cinco annos, vestidinha de branco, quando a fomos levar ás +Chãs, e quando eu tinha seis... Nunca isto me esqueceu! Trepámos a uma +cadeira para descer as maçãs que o padre capellão tinha a amadurecer no +friso da sala. Augusta subiu denodadamente, mas faltou-lhe a coragem +para saltar ao chão... E começou a gritar, a gritar, de sorte que o +padre capellão a veiu surpreender com as maçãs escondidas na abada do +seu pequenino vestido... + +Sentiram-se passos. + +--Cala-te! apostrophou Rosina. Cala-te! Rosina Regnau já aqui não está. +Fica apenas a _muda allemã_. + + [10] A _invenção dos jardins_ por Gessner; tradução do sr. + Visconde de Castilho (Antonio Feliciano). + + * * * * * + + +XII + +Amor e ciume + +Foram proseguindo as operações da trabalhosa campanha de 1809 contra os +francezes. + +Depois de segundo combate na ponte d'Alcantara, a 10 de junho, +poderemos, por nos furtar a minudencias fastidiosas em romance, ir +direitos á decisiva batalha pelejada nas proximidades de Talavera de la +Reyna, em Hespanha, dirigida pessoalmente d'um lado pelo rei José, e por +lord Wellington do outro. + +Pela retirada dos imperiaes á vista do inimigo terminou esta importante +batalha, sendo todavia numerosas as perdas dos alliados, mórmente dos +inglezes. + +Meiado agosto, começou o exercito portuguez a retirar para Zara, +entrando em Portugal por Salvaterra do Extremo, dirigindo-se a Castello +Branco, d'onde os differentes corpos foram enviados a disciplinar-se, +durante o resto do anno, em determinados acantonamentos. + +Não podemos, porém, encerrar esta ligeira chronica dos feitos militares +de 1809 sem retroceder ao segundo combate da ponte d'Alcantara, a que +José Maria da Graça Strech não assistiu por estar ainda mal convalescido +do ferimento que no primeiro ataque recebera. + +Entre os feridos francezes, que ficaram prisioneiros, requeria prompto +curativo um que denunciava claros indicios de perigo. + +Rosina, mal que o viu, reconheceu-o. + +Era Bénard, por alcunha _La goutte_. + +Então lhe acudiram de tropel pungentes recordações da sua vida de +vivandeira, quando, sentada no acampamento, via _La goutte_ puxar da sua +garrafinha de vidro branco e offerecer aguardente por esta formula +inalteravel: + +--_Voulez-vous lá goutte?_ + +Esta phrase motivou aquelle cognomento, que valia tanto como dizer em +portuguez: _O pinga._ + +Bénard era um excentrico, que tinha intermittencias soturnas e +luminosas. Umas vezes lhe dava a embriaguez para se deixar cair n'uma +tristeza insociavel, outras era causa d'uma garrulice chistosa e alegre. + +Mal que se levantava, enchia a sua garrafinha de aguardente. Bebia até +ao meio, erguendo o frasco para venficar á luz se a medida era exacta, +e, certificado, acabava d'enchel-o com agua fria. + +Convém, porém, saber que Bénard classificava os seus companheiros +d'armas do seguinte modo: + + +1.º--Amigos capazes de emprestar. + +2.º--Amigos capazes de não pedir. + +3.º--Amigos capazes de não emprestar. + +4.º--Amigos capazes de pedir. + +5.°--Conhecidos. + + +Mettida a garrafinha entre a fardeta, começava o processo +inalteravelmente observado todos os dias. + +Encontrando um amigo da primeira classificação, abeirava-se d'elle e, +pondo a mão no peito, perguntava: + +--_Voulez-vous la goutte?_ + +O amigo bebia até ao meio, porque elle não consentia que fosse mais +longe. Depois, segunda dynamisação, outra vez a garrafa cheia; e, +succedendo-se as dynamisações aos amigos, pela ordem por que os tinha +classificado, acontecia que os simplesmente conhecidos bebiam agua +commum passada por uma vasilha que tivera aguardente. + +--Não merecem mais! dizia Bénard. Estes só teem pela gente um cheiro de +interesse. + +Era pois _La goutte_ uma personagem lendaria no exercito francez, e já +passava em proverbio dizer-se, quando se era mal servido: + +--Eu _sou conhecido_ do Bénard. + +Rosina Regnau, ao vel-o ferido, sentiu-se propellida a dolorosa piedade. +Estava alli _La goutte_, que ella tantas vezes vira desde a sua +infancia, e de quem tantas vezes se rira na edade em que toda a +excentricidade nos parece ridicula. + +E todavia o Bénard era um philosopho profundamente conhecedor da alma +humana. D'uma vez perguntaram-lhe: + +--Se encontrasses o imperador, como o consideravas? + +--Dava-lhe da ultima lagarada, como elle dizia. Bem se importa o +imperador commigo! Não me empresta dinheiro, porque o ganho eu; não m'o +pede, porque bem sabe como é mesquinho o _pret_ das tropas. + +Bénard trazia pendurada do pescoço a sua garrafinha. N'esse dia, como a +refrega lhe não désse tempo para offerecer _a gotta_, bebera-a elle +toda, por excepção. O resultado foi expôr-se á morte com um denodo que, +sommado, daria a embriaguez de quatro amigos. Avançou imprudentemente e +ficou prisioneiro com uma bala no peito. + +Rosina, que sempre evitava ser vista dos prisioneiros francezes, não +pôde todavia resistir a soccorrel-o, quando o seu coração por um momento +retrocedeu ao passado. Quasi involuntariamente o fez. + +O ferido, sentindo que alguem o estava curando, abriu os olhos e demorou +em Rosina um longo olhar. Foi então que ella mediu o alcance da sua +imprudencia. + +--Oh! rouquejou o ferido, sim, és tu! Eu tenho a vista embaciada, mas +ainda te conheço! Rosina Reg... + +Ella tregeitou afflictivamente implorando silencio. + +O ferido, desvairado pela embriaguez ou pela febre, não a comprehendeu. + +Graça Strech havia-se aproximado e assistia entre respeitoso e ciumento +áquelle lance. + +O ferido continuou com difficuldade. + +--Fugiste, Rosina... Pobre rapariga!.. Como lá todos te querem mal!... +Se te vissem... matavam-te... Sim, eu sou Bénard... Tinha hoje a minha +garrafinha cheia... Bebi-a toda... Tomei calor... Boa gotta!... +Aguardente de Hespanha! Vão estes perros, que não teem um palmo de +terra, e mettem-me uma bala no costellame... Irra! Boa aguardente... E +tu aqui! Entre elles!... Maldita sejas... O pobre Regnau ha de dar pulo +de cobra no outro mundo... + +Graça Strech, se bem que exhaurido de forças, estremecia em convulsões +repetidas, e tinha as faces esbraseadas por um colorido doentio. Todavia +parecia detel-o um braço invisivel; pesado como se fosse de ferro, que +lhe offegava a respiração. + +Rosina chorava abundantes lagrimas, que lhe deslisavam pelas faces +mortalmente pallidas. + +Postoque não estivesse presente, por felicidade, ninguem que pudesse +ouvir a revelação do segredo, além de Graça Strech, ella não ousava +falar. N'aquella hora, em que algumas mulheres e os convalescentes +soccorriam os feridos, a todos parecia natural que os dois irmãos, +segundo toda a gente dizia, se dedicassem ao curativo d'um soldado que +se affigurava moribundo. + +Graça Strech aproximára-se desde o principio por lhe causar estranheza +que Rosina Regnau se dispuzesse a soccorrer o prisioneiro. + +Primeiro se apiedou por conhecer n'esse acto o impulso natural de +coração de Rosina voluntariamente opprimido no captiveiro de um amor +impetuoso. Sobreviera porém o ciume quando se lembrou de que a +vivandeira habitualmente se esquivava a cuidar de feridos francezes, e +de que extremado devia ser o interesse para affoital-a á temeridade de +se deixar reconhecer. + +É bem certo que o ciume completa o amor: porque o ciume é a desconfiança +que leva o coração a sondar a profundeza do amor. Então se investiga, se +espiona, se perscruta. E se o amor é verdadeiro, é puro, é santo, assim +como se lhe mede o alcance, e se reconhece infinito, vem a convicção de +que todos os sacrificios são poucos para galardoal-o, chega o +arrependimento de se haver sido injusto, e accorda o estimulo da +consciencia para o não tornar a ser. N'essa hora é que Rosina Regnau +começou, sem o saber, a ser verdadeiramente amada. Bastou o ciume de um +momento, que as subsequentes palavras do ferido vieram serenar, para +arreigar o amor no coração do soldado portuguez. E foi á luz d'esse +relampago de ciume que elle comprehendeu a enormidade do sacrificio de +Rosina; foram as palavras do prisioneiro francez que lhe mostraram +claramente quão grande abnegação era precisa para cair, amaldiçoada pela +patria, nos braços d'um homem estranho. + +O ferido, apesar de cada vez mais se lhe embargar a voz na garganta, +proseguiu com longas pausas: + +--Tu eras muito estimada, Rosina... Todos te queriam... Quem havia de +dizer que tu... renegarias... a tua França! Eu não morro pelo +imperador... que não pede nem empresta... que paga mal... eu +morro pela... França!... Já não posso... beber... A ultima gotta queria +bebel-a pela patria... + +E, cada vez mais offegante e desvariado pela febre, acrescentou: + +--Vae buscar aguardente... Anda depressa.. que já tenho a morte aqui... + +E indicava o coração. + +--Sim... amaldiçoados... os que não morrem francezes... como tu... +Jacques Regnau! lá n'esse quartel que ninguem sabe onde fica... eu te +contarei a verdade... Vamos para a reserva... temos tempo de falar... + +E, como a cabeça do francez parecesse já desequilibrar-se, Rosina Regnau +procurou encostal-a ao peito carinhosamente. + +--Não!--apostrophou com extrema difficuldade Bénard--não! Um francez... +só morre... encostado... a outro... francez... Eh! eh!--rouquejou. + +E, procurando aprumar-se, disse com esforço grande de mais para o lance +do passamento: + +--_Vive.. lá... Fran..._ + +Não pôde concluir. A ultima syllaba embargára-lh'a a morte. + +Graça Strech estava como que fulminado pelas palavras do soldado +francez, que morrera amaldiçoando Rosina. Parecera-lhe que a voz da +providencia falava n'elle. Pela primeira vez um terror supersticioso +subjugou a coragem d'aquelle homem que tinha jurado guerra de morte á +França. E todavia expirava ali, ao pé d'elle, um francez saudando a +patria nas ultimas palavras que lhe foi dado pronunciar. + +Rosina Regnau estava tambem paralysada n'essa especie de imbecilidade +que nas grandes commoções se nos affigura ser idiotismo. + +O aço de que em parte era feita a sua alma de vivandeira vergára ao som +d'aquellas palavras horriveis; restava apenas, muito a dentro do peito, +a vibração dolorida das cordas maviosas. + +No semblante, como se a distancia e o cansaço fossem amortecendo a +maguada vibração da alma, apenas se desenhava o espasmo das supremas +afflicções que parecem suspender a vida. + +Quizera Graça Strech poder cingir nos seus braços Rosina, e despertal-a, +para a realidade do seu amor, d'aquelle excruciante alheamento. + +Vedava-lh'o a presença das pessoas que, como já dissemos, estavam +cuidando dos feridos. + +Ficaram ambos silenciosos, porventura á espera de opportunidade para +trocarem algumas fugitivas palavras. + +Ella, acordando pouco a pouco d'aquelle infernal pesadello, sentia o +doer da realidade muitas vezes peior que os sonhos maus. E a si mesma +perguntava o que ficaria pensando Graça Strech: se julgaria criminosa a +sua compaixão pelo ferido; se a presumiria demudada pela maldição do +moribundo; se acaso o effeito d'aquella imprevista scena lhe haveria +levado ao coração o aborrecimento ou o desprezo? + +Tudo suppunha, menos que o verdadeiro amor nascera n'aquella hora com o +ciume. + +Como ella desejava poder cingir Graça Strech nos seus braços, cobril-o +com os seus beijos, embora elle a repellisse com enfado ou desabrimento! + +Não valeriam ameaças. + +Ella dir-lhe-ia com a affouteza que a innocencia dá: + +--Eu bem sei que fiz mal. Mas aquelle era o Bénard, _La goutte_, que eu +conhecia, desde pequena, de o ouvir discorrer sobre o egoismo dos homens +e de o ver puxar pela sua garrafinha d'aguardente. O pae Regnau, apesar +do vicio, estimava-o muito, e até lhe chamava... philosopho. É que o pae +Regnau era dos primeiros amigos. Uma vez vendeu a ração do almoço para +que o Bénard não deixasse d'encher a sua garrafinha. O pae Regnau disse +então, bem me lembro: «Elle sem aquillo não é philosopho; e eu sem +almoço posso ser soldado.» O que valeu foi que o meu almoço chegou para +dois. Não me julgues arrependida do que fiz pelo que elle disse... Tudo +quanto elle disse bem o sabia eu... Lembrar-me da minha patria não quer +dizer que me esqueça de ti... Não. Amaldiçoam-me? Que me importa a mim +que me amaldiçoem! Abençoa-me tu, e não quero outra felicidade. Abre-me +a tua alma, de modo que eu saiba bem o que ella pensa, o que ella sente, +e não terei pena de que se me fechem as fronteiras da patria. Não me +aborreças nem me despreses... O teu primeiro beijo foi uma promessa, uma +esperança; eu acreditei-o, creei vida nova, sinto-me forte para a lucta. +_La goutte_, se me disse aquellas palavras, é porque me estimava; +estima-me, ama-me tu quanto eu desejo, que saberei esquecer as palavras +de _La goutte_. + +Graça Strech, sem attingir o que se passava na alma de Rosina, estava +ancioso de dizer-lhe: + +--Tudo quanto aquelle homem disse era verdade. Por mim perdeste tudo, +Rosina, por mim preferiste a solidão, em que ora vives, á tua immensa +familia--o exercito francez. Eu comecei por odiar-te, porque eras irmã +dos assassinos de minha irmã. Depois, ao odio, que procurava o caminho +da vingança, succedeu a gratidão, porque tu me restituias a liberdade. +Mas a realisação do meu sonho de sangue importava um enorme sacrificio +teu. Fizeste-o sem trepidar. E não contente com isso, que já era muito, +quizeste vincular a tua vida á minha, e tu, que havias renunciado á +patria, renunciaste tambem á voz com que recordavas as canções do teu +paiz natal. Começou a nascer em mim o amor misturado d'assombro. Nunca +me lançaste em rosto a minha crueza para os teus. Era a minha vingança, +e tu querias o que eu queria. Ao pé da imagem de minha irmã, que no +somno e na vigilia me apparecia, começaste tu a tomar vulto, a crescer, +de modo que eu fiquei preso entre vós ambas, porque se o sangue d'uma +clamava vingança, o sacrificio d'outra me proporcionava vingar-me. E uma +noite, no breve repousar do acampamento, sonhei que minha irmã me viera +falar e me dissera que tu eras boa, e leal, e pura. Então beijei-te. Mas +hoje, ao ouvir aquellas palavras, completei os meus pensamentos pela +certeza de que tu eras pura, e leal, e boa. Dize: Que queres de mim? +Sacrificio por sacrificio, amor por amor, dedicação por dedicação. Serei +teu, porque tu és minha. Ouve, Rosina, ouve-me bem. Tu tens sido o meu +anjo da guarda, o meu enfermeiro, e--porque não hei de dizel-o?--tens +sido para mim como o cão amigo para o cego das Ardennas. Pois bem. +D'hoje em diante as nossas almas fundir-se-hão n'uma só, viverão dos +mesmos pensamentos, e tu chorarás minha irmã como eu a choro, porque o +teu coração sentirá a saudade que eu sinto. + +Ao anoitecer veiu a carroça dos cadaveres, acompanhada pelo capellão +militar, buscar o morto. + +Rosina Regnau deteve-se a contemplal-o, esquecida de que aquelle homem +morrera amaldiçoando-a. + +Era-lhe defeso o falar. Se não fosse, haveria pedido uma oração pela +alma do soldado Bénard, de alcunha--_La goutte._ + +Graça Strech assistiu á cerimonia commovido. Um dos soldados +encarregados d'aquella triste commissão, como lhe visse carregadas as +linhas do rosto, apostrophou: + +--Pois tu, que te bates como leão contra os francezes, não assistes +impassivel aos funeraes d'um francez! + +--A morte quebra todos os odios, respondeu Graça Strech. + +Outro soldado, ao dar tino da garrafinha entalada entre a farda e a +camisa, exclamou facetamente: + +--Pena tenho eu de o não matar emquanto a garrafa estava cheia! + +--Este diabo não fazia senão beber! acrescentou outro. + +--Tambem me consta que fazia outra coisa, replicou Graça Strech. + +--O que era? + +--Enterrava os nossos mortos com mais piedade do que tu. + +--Prégas hoje de cadeira! + +--Lembro-me de que elle, pelas ultimas palavras que lhe ouvi, era tão +francez como eu sou portuguez... + +--Era? perguntou ingenuamente um dos soldados. + +--E a mim, concluiu Graça Strech, pesa-me sempre a morte d'um bom soldado. + +Quando a carroça rodou lugubremente, caminho da valla commum, onde +portuguezes e francezes iam dormir sem odios nem malquerenças o somno +eterno, Graça Strech acercou-se de Rosina, que parecia duvidar ainda do +que tinha ouvido, e segredou: + +--Devo á memoria de Bénard uma felicidade que não merecia a Deus. De +hoje em deante não haverá entre nós barreira que possa separar-nos. As +nossas almas serão uma; os nossos pensamentos um só... + +--Promettes? murmurou ella doida d'alegria. + +--Prometto. + +--Então dir-me-has tudo o que pensas, tudo o que sentes? + +--Tudo o que penso e sinto te direi. + +E o segundo beijo sellou esta promessa. + + * * * * * + + +XIII + +Como acaba a tragedia de Goethe + +Não morrem os gigantes ao segundo golpe. + +Napoleão ergueu-se no senado francez, a 4 de dezembro de 1809, e +sobrepujando com a sua voz a voz da Historia, como se lhe não andasse já +descontada a gloria com dois consecutivos revezes na peninsula iberica, +disse: «Tanto que eu appareça alem dos Pyreneus, o leopardo +recolher-se-ha amedrontado ao oceano para fugir á ignominia, á derrota e +á morte. A victoria das minhas armas será a do genio do bem sobre o do +mal: a victoria da moderação, da ordem e da moral sobre a guerra civil, +sobre a anarchia e as paixões destruidoras.» + +E, concluida a campanha de Austria pela paz de Vienna, a aguia franceza +deixou de pairar sobre o norte da Europa, e do alto do palacio imperial +de Schoenbrunn fitou o olhar ardente e profundo na orla do occidente +banhada pelo Atlantico. + +E pela terceira vez se equipava o exercito invasor, superior a oitenta +mil homens; e pela terceira vez fôra chamado um general distincto a +tomar o commando em chefe das tropas para obter melhor exito que os seus +dois antecessores. + +A eleição recaiu no marechal Massena, principe de Essling, duque de +Rivoli, cuja valentia e sciencia Napoleão conhecia desde as campanhas +d'Italia. + +Não precipitemos, porém, os acontecimentos que o anno de 1810 havia de +desdobrar sobre a Europa. Justo é reverter ao que é assumpto principal +d'este livro, mais biographia do que chronica. + +Já anteriormente dissémos que o exercito portuguez recolhera ao quartel +general de Castello Branco, e d'ahi fôra mandado, nos ultimos dias +d'agosto de 1809, para diversos acantonamentos. + +Em Castello Branco, o marechal Beresford permittiu aos soldados, +que mais se haviam distinguido, a escolha de corpo e quartel, não só +para lhes galardoar d'algum modo os serviços prestados, como para +incitar os outros a medirem-se na terceira campanha com os premiados na +segunda. José Maria da Graça Strech escolheu o regimento d'infantaria +18, que, com o 6 e 9 da mesma arma, foi mandado para Coimbra. + +Então se levantava detraz do tumulo da irmã querida, para o desgraçado +moço, a aurora do amor, que desabrochára no primeiro beijo, e que o +ciume aclarára definitivamente á beira do catre do moribundo Bénard. + +Havia-se batido como leão, açulado pelo cheiro do sangue. Mil vezes se +atirára á morte, e a morte parecia respeitar no sorriso de Rosina Regnau +a heroicidade do soldado. Dir-se-ia que a vivandeira tinha duas azas, +que, desdobradas, o abrigavam. Graça Strech acabou, como era natural, +por amar o seu anjo da guarda, quando inteiramente comprehendeu que ella +lhe dizia na triste eloquencia do silencio a que se condemnára: «Eu +tenho de guardar a tua alma; para guardal-a preciso possuil-a.» + +No seu coração calcinado pela saudade choveu pouco o orvalho +refrigerante companheiro da aurora; o amor cauterisou a ferida que +sangrava odios; ficára apenas a cicatriz, como fica voltada n'um livro a +pagina que se leu, e cuja impressão jámais se desluz na mente do leitor. + +Aconteceu a Graça Strech como ao commum da humanidade. + +O amor, que é luz, que é fogo, que é sol, vae se decompondo em +irradiações parciaes na nossa alma, á medida que a vae desenregelando, +como o verdadeiro sol n'um prisma de crystal. Verdade é, ser preciso que +tenha a alma a pureza do vidro para que lentamente se vão revezando as +côres, alternando as _nuances_, e embriagando-se ella a pequenos haustos +no banquete da felicidade. O amor que rebenta como erupção, não é amor, +é desatino. Nasceu cego: não vê. Irrompe como a lava, passa, queima, +desapparece. + +Este é o amor das almas versateis, que não se vergam ao sacrificio, e +que por isso mesmo são incapazes de metter hombros á cruz cujo peso +devera ser repartido pelos dois. Os que amam sem previamente +haver soffrido, amam apenas emquanto o amor não é soffrimento. E quem +póde desfolhar a rosa sem ferir-se no espinho? Esses amam pouco. As +lagrimas são a agua que baptisa na religião dos attribulados. A mocidade +de Graça Strech recebera esse primordial sacramento. Dera a sua vida em +holocausto á saudade. Soffrera muito, e alma que soffre assim tem de +certo a pureza dos grandes sentimentos. Por isso a luz da aurora, que +lhe alvorecia sobre o tumulo da irmã, se foi decompondo em gradações +prismasticas por feitio que elle, muito alma a dentro, pôde conhecer a +nitidez das côres, o brilho das tintas casado á transparencia do cristal. + +Desde então começou a amar como os que teem soffrido. «Tudo o que penso +e sinto te direi,» segredára elle em Alcantara. + +Estas palavras não eram apenas a promessa d'uma revelação;--eram a +promessa da felicidade. + +Os acontecimentos não permittiram que, antes de Coimbra, Rosina Regnau +pudesse affastar de si a nuvem do ciume que de ha muito lhe opprimia o +coração. + +Muito primeiro o amára ella, porque o ciume nascera parelho do amor. + +Parece que o destino porfiára em depôl-os no eden viridente de Portugal +para mandar depois a serpente a tental-os. N'aquelle jardim de Coimbra +ha sombras fadadas para o amor. Já o disse um poeta: + + Quem nunca viu Coimbra + Pela brisa embalada + Do Mondego, + Que de amorosa timbra + Na margem reclinada + Com socego, + Não sabe o que é belleza, + Ai! não conhece a filha + Dos amores, + Mais nobre que Veneza, + Mais linda que Sevilha + Sobre flôres.[11] + +Ali rememora ainda a celebrada fonte, que suspira n'uma das extremas do +campo de Santa Clara, o poema das lagrimas da formosa Castro--o +maior poema d'amor que se tem sentido em Portugal. Que phantasias que +não tem o amor em Coimbra! É velha a doidice que se respira n'aquelles +ares, porque já Faria e Sousa conta que Pedro, o principe amoroso, +confiava á agua da fonte, que n'esse tempo ia jorrar nos jardins do paço +real, os bilhetinhos namorados que a loura Ignez muito em segredo +recolhia e, em maior segredo ainda, relia. E perora Faria e Sousa: +«Tales son las astucias de los amantes». Com perdão de Faria e Sousa, +astuciosos são os escriptores que nos pintam amores fabulados de tão +acertadas contingencias, como era a da agua, sem embargo dos seixos e +hervagens, ser fiel correio do principe e da aia. + +Eu contarei singelamente o meu caso, tal como aconteceu na hora em que o +ciume de Rosina Regnau, como se já não fosse preciso para atiçar as +labaredas do amor, se acalmava na mutua confiança das almas que se possuem. + +Foi ahi por alguma copada sombra das margens do Mondego, onde, como +disse Gabriel Pereira de Castro, o rio + + ... nas voltas se mostra arrependido + De levar agua doce ao mar salgado, + +que Rosina Regnau e Graça Strech descançavam n'uma das ultimas tardes +d'agosto. + +Aproveitavam sempre as horas feriadas do serviço militar para essas +excursões, reguladas pelo toque das cornetas no quartel, porque só onde +a sombra os escondesse poderiam dialogar, os dois, sem que ouvido +estranho traísse o segredo da mudez de Rosina. + +Ahi se indemnisava ella dos longos silencios a que era constrangida, e +assim se foram estreitando os laços, que já tão cingida tinham a imagem +da felicidade n'um e n'outro coração. + +N'essa tarde Rosina Regnau intencionalmente encaminhou o dialogo para o +episodio da morte de Bérnard, e a ponto veiu recordar as palavra de +Graça Strech: «Tudo que penso e sinto te direi». + +--Ah! não sabes, disse ella subitamente exaltada pelo ardor da +vivandeira, que do cumprimento da tua promessa depende a +realisação da minha felicidade!... + +--Pois duvidas?... + +--E não duvidaste tu de mim, quando em Alcantara soccorri o pobre _La +goutte_? + +--Perdôa-me... + +--Sim, perdôo, não a ti, ao ciume, pois que para o ciume tambem peço +perdão n'este momento. Ouve-me, portanto. + +--Fala!... exclamou Graça Strech. + +--Ha uma duvida horrivel no meu espirito, que é preciso dissipar; um +obstaculo no meu caminho, que é preciso vencer. O meu amor, que começou +por dar-te a liberdade, não póde viver escravisado. Desde o primeiro +momento te amei perdidamente. Emquanto tu dormias, veláva eu, para que +as tuas palavras de soldado não fossem desmentidas pela tua physionomia +de ferido sem eu perceber a verdade. Já então--mal o pensavas!--a minha +vida dependia da tua. E vigiava-te, e estudava as mais ligeiras +alterações do teu semblante, como a mãe que observa, de noite, na +solidão silenciosa do seu quarto, o filho doente que dorme. Tu não +suspeitavas que pudesse entrar tamanha dedicação na alma d'uma +vivandeira, e razão de sobra tinhas. As mulheres com quem eu vivia eram +tão vis, que se riam do meu carinho para comtigo. E eu arrostava-lhes os +chascos, os insultos, porque bem sabia que a culpa não era d'ellas, mas +do destino que as tornou tão desgraçadas. Aspereza, injustiça, só me +doía a tua. Não bastava amar sem esperança: o meu amor era recompensado +com despreso. Tu eras nosso prisioneiro; não podias, portanto, soffrer +que a minha pronuncia te estivesse recordando a cada hora a tua +infelicidade. Quiz, porém, Deus que me ouvisses um dia com menos +indifferença, quando conheceste que eu valia um pouco mais do que as +outras. Viste que eu era boa, e quizeste-me para instrumento da tua +vingança. O que tu não suppunhas era que o teu sonho fosse a esse tempo +o meu--dar-te liberdade! que eu contasse os instantes da tua vida pelas +horas da minha! que eu quizesse ser para ti o que era o fiel molosso +para o cego da minha terra... Pois queria, juro-te, queria. Se não +pudesse restituir-te a liberdade, teria a coragem de envenenar um +remedio para que o mesmo veneno nos matasse a ambos. Acredita; +tinha. Mas sempre na tua bocca a palavra vingança! Sempre essa palavra +horrivel! Eu bem sei que todo o homem, que vê a sua patria invadida, +precisa vingar-se a si, e a ella. Mas esse annel que não mais te deixou +não era da patria... Falavas de tua irmã, tens-me falado sempre d'ella. +Comprehendo como se possa amar uma irmã, que era boa, que era pura, e +que foi morta injustamente. Todavia comprehendo tambem que se as cartas +as escreveu tua irmã, o annel póde deixar de ser d'esse anjo... + +Nos labios de Graça Strech havia o tranquillo sorriso de quem sabe com +que ardor é amado. + +Quiz falar; ella interrompeu-o. + +--Oh! por piedade, não sorrias, sem que esta duvida atroz se desfaça! +Tenho tido a coragem de saber esperar este momento solemne e para mim +decisivo. Tu sempre a pensar no teu annel, eu sempre a pensar em ti! Tão +calada, que nem voz posso ter deante d'estranhos. E que tivesse! Havia +de perguntar a alguem pela vida do homem que eu chamava irmão? Tu +sonhavas de noite, como quando ficaste ferido em Alcantara, e sorrias. +Acordavas, vias-me ao pé de ti, e acudias logo a falar de tua irmã... +Oh! se eu soubesse que tu me enganavas!... Se tu estivesses sonhando com +outra mulher que não fosse tua irmã, quando eu estava ali, sósinha, +calada, sem patria, sem amigos, amaldiçoada, a velar pelo teu somno... +Sabes o que eu faria? Vestiria o teu uniforme, José, e iria bater-me, +avançando tão imprudentemente como o infeliz Bénard, até que as balas +dos soldados da França se me cravassem no peito. Morreria pelo ingrato +como os soldados morrem pela patria, e morreria contente por morrer +amortalhada no teu uniforme... Vê, pois, bem a minha alma. Unicamente te +peço que sejas sincero, ainda que a tua sinceridade tenha de ser cruel. +Estamos a dois passos do Mondego. É-me facil procurar n'elle a maior +altura da agua, se o coração me disser que me estás enganando... Mas não +has de, mas não me deves enganar, porque pela memoria sagrada de tua +irmã te peço que sejas verdadeiro... + +E ficou anciosa, com os olhos fitos, os labios entreabertos, o seio +offegante... + +--Pela memoria de minha irmã te juro que mais uma vez te +repetirei a verdade--disse Graça Strech, cuja physionomia parecia +irradiar a luz clara e pura dos que estão fazendo uma confissão +sincera.--Tambem eu te amo doidamente, Deus o sabe! Tambem eu tive +ciumes, Rosina! Tambem eu estou costumado a soffrer. Se aquelle +moribundo d'Alcantara houvesse denunciado, por um gesto sequer, que +tinha outros direitos á tua dedicação, além dos de estar ferido e ser +francez, eu, impossibilitado de aggredir um homem meio morto, +haver-te-ia fugido para me expôr á morte que encontraria em qualquer +parte. Juro-te, pela memoria de minha irmã te juro, que isto o senti eu +ao pé do pobre Bénard, quando te vi soccorrel-o. N'esse momento forjou o +ciume as cadeias que nos teem agora aqui presos. Comecei por +aborrecer-te, é certo. Sobre este annel, que tirei do dedo de minha +pobre irmã morta, jurei vingal-a, Rosina, porque primeiro me derrubaram +a mim para que eu não pudesse defendel-a, e depois a assassinaram a +ella, a minha mãe, e a minha avó. Meu pae, que já sei ter morrido no +mesmo dia, porque houve participação official de ser reconhecido, foi +vencido pelo azar do combate, não foi assassinado. E depois era um +soldado, e um soldado em campanha ou mata ou morre. Mas as pobresinhas +que mal faziam á França? Eu accordei do deliquio motivado pelo ferimento +que recebi, sem saber o que se tinha passado. Estendi o braço e senti um +corpo; apalpei e conheci roupas de mulher. Achei uma cabeça. Tacteei-lhe +os contornos, e não me enganou a mão quando me pareceu ser aquelle o +perfil de minha irmã. Era noite, bem sabes: dentro a escuridão; a +tempestade fóra. Eu sentia vibrar a espinha dorsal como se fôra d'aço, +fria como elle. Procurei luz, quasi louco. Mal me podia suster nas +pernas. No cerebro ardia-me um vulcão; em derredor do craneo sentia a +friura do gelo. E a luz mostrou-m'as, a ellas, minha irmã, minha mãe, +minha avó, mortas, desgrenhadas, deitadas no soalho, e rodeadas das +sombras que a interposição dos moveis projectava na parede, parecendo +moverem-se, bracejar, escancarar a bocca, casquinar gargalhadas que o +vento, lá fóra, parecia rir diabolicamente por ellas. Eram horrores da +minha imaginação, eram visões da febre, porque eu n'essas horas +incomparavelmente angustiadas delirei, enlouqueci, morri em mim +mesmo para renascer n'um cadaver. E o sangue, Rosina, o sangue +d'ellas, empoçado no soalho, tão vermelho que parecia incendiar-se ao +reflexo da luz! Foi então que a Providencia me soccorreu e me permittiu +um esforço sobrehumano. Beijei minha irmã, abracei minha mãe, acariciei +minha avó, falei-lhes, não sei o que lhes disse, não me lembra, e +estremecendo do contacto das mãos de minha irmã, que pareciam de +marmore, e que do marmore tinham os veios roxos e azues, tirei-lhe +delicadamente do dedo, como se ella pudesse molestar-se,--ella, que era +tão franzina!--este annel querido, sobre o qual proferi o meu juramento +de vingança, que até hoje tenho cumprido, e que cumprirei até que +Portugal succumba ou triumphe d'uma vez. + +E como se a arrebatada eloquencia o repuzesse ainda em meio das +desgraças que historiava, pendeu ao peito de Rosina, extenuado, +descóradas as faces, revoltos os cabellos, flammejante o olhar. + +Rosina ameigou-lhe a fronte banhada de suor frio, e docemente lhe pediu +perdão de o ter compellido a avivar tão recentes e profundas dôres. + +Graça Strech estava preoccupado, como se procurasse um pensamento que +lhe entre lembrava; como se quizesse suster uma visão que se mostrava e +fugia. + +--Ah! exclamou de repente. Não, Rosina, não basta ainda. O teu amor +reanimou o meu cadaver, eu devo-te a vida; quero abrir-te a minha alma +para que a vejas bem, para que a sondes, e leias n'ella. A tua luminosa +intelligencia já te permitte comprehender muitas palavras do idioma +portuguez. Pois bem, aqui tens uma prova irrecusavel que não póde deixar +a minima duvida no teu espirito... + +E, desabotoando o uniforme, tirou o maço das cartas d'Augusta. + +--É esta--continuou, procurando--é esta, lê aqui lê bem. Foi ha dois +annos, no seu dia natalicio, que lhe mandei este annel. Vê o que o anjo +me respondia. Lê, esta é a prova, lê: «O teu annel, José, o teu annel, +que me pareceu acompanhar a tua alma, porque a tive todo o dia ao pé de +mim, não me deixará até á hora em que a amortalhadeira m'o tire do dedo. +Pedes desculpa de que seja liso, de que só tenha uma pedra!... Tontinho! +O teu coração pésa mais do que o annel, e a avósinha diz que os +anneis de muito feitio apenas são proprios das camponezas.» Vê, Rosina, +olha para este nome--Augusta--o unico de mulher que pronunciei antes do +teu... + +--José! exclamára Rosina divinisada por uma aureola de condoída doçura, +que parecia esbater-lhe o semblante no azul do céo. + +A natureza dascaía na deliciosa morbidez do anoitecer. As labaredas que +a ambos afogueavam o coração foram bastantes a seccar as lagrimas d'um e +outro. Se eu quizesse passar por um escriptor tão casto como os que uzam +adoçar o acre das situações violentas, diria que se ouvia rumorejar as +folhas, sendo os labios que rumorejavam. Essas ultimas revelações tanto +contraíram os elos da cadeia, que já não era possivel medir a distancia +interposta ás duas almas embevecidas. + +Se ali, n'aquellas paragens onde o grave Faria e Sousa achou que era +torrão azado para localisar astucias de namorados; se áquella hora, como +na tragedia de Goethe, estivesse ali Mephistopheles, bradaria com +alegria satanica: _Perdida!_ + +Bem podia ser porém que alguma voz do alto respondesse: _Salva!_ Só se +perde a mulher que não tem coração para comprehender o que é ser mãe. + + [11] Do sr. Antonio de Serpa. + + * * * * * + + +XIV + +Quanto custa ser mãe + +Em fevereiro de 1810 estacionava no valle do Mondego o exercito +commandado pelo general Wellington, repousando das passadas lides, se +bem que já apercebido para resistir aos movimentos dos francezes que de +novo ameaçavam invadir Portugal. + +Beresford activamente se dedicava a exercitar e disciplinar as tropas, e +a providenciar pelo que tocava a provisoes que se tornavam +indispensaveis para a campanha que a todo momento se esperava, e cuja +duração era imprevista. + +O rei José havia entrado em Sevilha, no primeiro dia d'esse mez, á +frente das suas tropas, e a nuvem que obscurecia o céo da Hespanha +alongava-se já para Portugal, deixando ouvir os rumores da tempestade +que lhe refervia no bojo caliginoso. + +N'esse tempo vamos nós encontrar Graça Strech na escóla militar do valle +do Mondego, se bem que muito demudado o encontremos, e mereça especial +attenção a tristeza que parece salteal-o nas horas em que o soldado se +permitte ser homem. Procuramos á roda de si, e não encontramos a «muda», +sua irmã. Inquieta-nos tão inesperada ausencia. Depois que +comprehendemos o coração da Rosina Regnau, depois que passo a passo a +acompanhámos nos lances angustiosos de sua attribulada mocidade, +habituamo-nos a estimal-a, e já agora nos é magua o deixar de vêl-a. + +Morreria acaso? + +Algumas vezes se lembrára ella, quando vivandeira do exercito francez, +de que uma bala perdida a mataria. É uma tradição de Vivandeiras, a do +pelouro esgarrado que as ha de prostrar, porque, companheiras dos +soldados, esperam do soldado a sorte. Todavia nem sempre se realisam as +contas que a phantasia lança, e não é de presumir que dos +soldados que manobram exercitando-se no valle do Mondego partisse a bala +destinada a roubar-lhe a vida. Tambem nas faces de Graça Strech não ha a +tristeza sombria das perdas irreparaveis, mas um novo reflexo de +melancolia que, a despeito de a querer concentrar, dá á physionomia um +toque de soffrimento. Procuremos tirar-nos de tão saudosa incerteza, e +saber o que se passára nos mezes que decorreram desde agosto de 1809 até +fevereiro de 1810. Pelo que vamos ouvir a Graça Strech, n'um rapido +dialogo com um companheiro d'armas, não poderemos fazer juizo seguro, +mas esse será o fio de Ariadna que depois nos guiará no labyrintho de +nossas pesquisas. + +--Tens tido noticias de tua irmã? perguntou o soldado. + +--Não tenho; nada sei da pobresinha! respondeu dolorosamente Graça Strech. + +--Deve-te custar a ausencia! Se a nós, que não eramos irmãos, tambem nos +custa! Estavamos habituados aos seus tregeitos, e o caso é que já os +entendiamos como se fossem palavras! Que pena que não falasse! Bonita +era! e tão meiga como bonita! Sempre aquelle sorriso doce para todos e +para tudo! Mas, ó Strech, se a conversa te magôa, não continúo... + +--Continúa, sim. Ás primeiras palavras rebenta a saudade; depois Deus +manda a resignação, e é o que vale. + +--Eu tambem tenho familia, Strech, tambem sei o que isso é. E depois tu +sempre deves estar com teu cuidado, porque tua irmã ia doente. + +--Começou a soffrer Trabalhos da guerra, commoções fortes, talvez +receios da nova campanha... Não sei. O que é certo é que a não julguei +com forças de andar commigo em correrias atraz dos francezes, que é +preciso enxotar pela ultima vez. Temos uma tia nossa na Allemanha. Veiu +a Portugal ha annos, e affeiçoou-se muito a minha irmã. Deu-se a +coincidencia de estar no porto da Figueira um brigue italiano, e ir a +bordo um passageiro allemão, que me pareceu homem compassivo, e que me +prometteu acompanhar a pobre muda até ao seu destino. Que havia eu de +fazer, quando a demora de minha irmã em Portugal seria a morte, e todas +as circumstancias pareciam favorecer visivelmente o meu designio +de a mandar para a Allemanha? Deixei-a ir, mais entregue a Deus do que +ao compassivo allemão. + +--E que tencionas fazer agora? + +--Agora! Quem sabe quando chegará a hora de pertencermos a nós mesmos! +Se eu morrer, ficará minha irmã entregue a sua tia; se eu sobreviver a +victoria das nossas armas--porque nós não podemos succumbir depois de +havermos triumphado duas vezes--irei buscal-a á Allemanha, e viveremos +juntos até que um de nós deixe d'existir. + +--Desculpa-me, Strech,--tornou o soldado condoído.--Mas eu também +estimava tua irmã, e por isso te perguntei por ella. Como já partiu em +dezembro, e eu tenho conhecido que andas triste, pensei que tivesses +recebido noticia de que a pobresinha ia a peior. Como felizmente não se +realisou a hypothese, desculpa-me. Olha... Estou em dizer que Deus traga +a guerra depressa para nos distrairmos. A guerra embriaga como o vinho, +e a embriaguez é bom remedio para saudades. Eu e tu, pelo que vejo, +soffremos ambos da mesma doença. Adeus, Strech. + +Este dialogo, como anteriormente disse, não é explicação cabal, nem... +verdadeira. Graça Strech via-se obrigado a enganar as pessoas que lhe +perguntavam por sua «irmã», se bem que o engano apenas se limitasse aos +motivos da partida e ao destino de Rosina. Elucidemos. + +Em dezembro de 1809 começaram a manifestar-se os symptomas da +maternidade. Esta desgraça, cujas funestas consequencias não previram na +loucura do seu amor, obrigou-os a pensar reflectidamente no futuro, +subitamente entenebrecido no horizonte que o poetico sol de Coimbra +azulejava nas tardes em que as margens do Mondego lhes enfloravam os +ardentes idyllios. O peor que ha no Paraiso é o ter porta: porque não se +abre, quando a ancia da felicidade a impelle, e porque se fecha sobre as +mais doces illusões, movida por qualquer viração que mais branda e mais +embalsamada parecia. Eu, pouco sabido em philosophias, acho a porta do +Paraiso muito peior que a serpente: uma tenta, a outra fecha. Ora a +gente poderia fugir da tentação, se encontrasse a porta aberta. +Deixamo-nos seduzir pela cascavel. Ouvimol-a. Embriagamo-nos com +as paizagens do éden, com as melodias eolias do arvoredo, com o maná que +o céo deixa cahir sobre o coração. Entretanto a serpente adianta-se. +Cinge-nos, enleia-nos. Olhamos para a porta: é-nos defesa a saída. +Estamos encarcerados. A serpente triumpha. + +Por duas ponderosas razões não podia ficar Rosina Regnau em Portugal. +Era a primeira que, inculcando-se irmã de Graça Strech, a sua deshonra +seria desaire para o irmão. A segunda estava em que o conservar-se +occulta no reino, em estado de não poder acompanhar o exercito, seria +imperdoavel n'uma epoca em que tudo que cheirasse a francez inspirava +odio, e em circumstancias em que o deixar de falar seria quasi impossivel. + +Avultou aos olhos d'um e outro, como pesadello horrivel, a necessidade +da separação. O mesmo foi verem-se inesperadamente sepultos nas ruinas +dos castellos encantados que ambos haviam architectado. E a felicidade é +como todos os edificios: leva muito tempo a construir e basta um +instante para desabar. + +Estava effectivamente a esse tempo, nas aguas da Figueira, um brigue +italiano. Concordaram ambos em aproveitar a commodidade do transporte. +Rosina energicamente rejeitou a ideia de voltar a França, duas vezes +deshonrada. Convieram, pois, em que ella esperaria em Italia, com o +filho nos braços, o termo da guerra peninsular. Depois, para sempre se +reuniriam, e viveriam enlevados na infancia da criança, que ambos +phantasiavam formosa. + +Mas, por que espesso véo de lagrimas se não filtrava este raio de +longinqua felicidade, illuminando-o e iriando-o como um reflexo de sol +moribundo através de neblina humida em tarde de tempestade! + +Era esse o arco-iris da esperança, gravado em traços multi-côres, d'um +abysmo a outro, sobre um céo plumbeo. + +--O pae Regnau,--dizia Rosina--costumava dizer que a felicidade era uma +bola de sabão. Agora vejo que é. Tudo desfeito, n'um momento! Eu +desterrada para um paiz desconhecido, sósinha com a minha desgraça e o +nosso filho! Tu, a muitas leguas de distancia, exposto á sorte dos que +combatem, mais incerta que qualquer outra! Viverei entre a esperança da +tua chegada e o receio d'uma noticia funesta. Oh! esta idéa é +horrivel! Então Deus ha de permittir que, meu filho entre no mundo +vestidinho de luto! Não não póde ser. Não te exponhas loucamente á +morte, meu amigo, não? A tua vingança já deve estar satisfeita, e depois +um soldado que é pae deve ter duas cadeias a ligal-o ao mundo: a patria +e a familia. Ora eu bem sei que tua irmã é a patria; mas lembra-te, sim, +lembra-te! de que teu filho é a tua familia... + +Acudia a serenal-a, com o coração despedaçado nas garras de desconhecido +abutre, Graça Strech. Queria ser forte, e as lagrimas a trahirem nos +olhos o esforço! Tentava enganar, e estava desilludido. Ainda não houve +maior desgraça, mais amargo calix de amargura esperado nos labios com um +sorriso... + +--Não, Rosina, não imagines desgraças que Deus não permittirá. Bem sabes +que a Providencia me tem guardado até hoje... Verdade é que tu eras o +meu anjo da guarda, e tu vaes fugir-me. Isto é, em verdade, maior que a +coragem humana! Não me arriscarei imprudentemente á morte, está certa... +Mas ás vezes, na refrega, a gente não tem tempo de evitar uma bala... +Não chores, Rosina, não chores. Foi uma loucura que eu disse. Eu não hei +de morrer. Acaso morri eu para a memoria de minha irmã? Tambem não hei +de morrer para o futuro de meu filho, para o teu amor. É forçoso +separarmo-nos; separemo-nos. Ficaremos, porém, um ao pé do outro, sempre +juntos, que já não ha distancias que nos separem, braços que nos +desunam. Tu ver-me-has pelos olhos da saudade; eu, que já estou +costumado a ver assim, ver-te-hei tambem. Conversarei no meu coração +comtigo, acompanharei meu filho desde o primeiro vagido e a primeira +lagrima... Ó Rosina, triste coisa é a vida! Nascemos soffrendo, como +devemos viver, e morremos como vivemos. E olha que a minha loucura deu +mais uma alma á desgraça... Mas eu amava-te tanto, tanto! Pobresinha de +ti, que dizias parecer-te ouvir a maldição de Bénard... Por amor de mim +te deshonraste uma vez; o meu amor duas vezes te deshonrou... Não +chores... Já estão desbotadas as rosas das tuas faces, não as desmereças +mais... Lembra-te do céo da Italia, que todos dizem ser formoso, e de +que nosso filho nascerá sob o céo d'esse bello paiz Deus ha de +protegel-o. Lá viveremos todos n'uma só felicidade... Mas não +chores, Rosina, que eu sinto despedaçar-se-me o coração... + +Foi chegado o momento da partida. + +Rosina subiu a escada de portaló amparada nos braços de Graça Strech. +Dir-se-ia um cadaver que se destinava a uma sepultura distante. + +Os passageiros que estavam no convés pareceram commovidos de tão +doloroso espectaculo. Um d'elles, que era musico napolitano, escondia +contra a harpa o rosto brilhante de lagrimas. + +Graça Strech viu-o chorar e disse de si para si: + +--O mais desgraçado é aquelle, porque já desaprendeu de consolar. + +E dirigiu-se a elle: + +--Dá-me licença que o interrogue? perguntou. + +--Da melhor vontade, respondeu o menestrel. + +--Vae só? + +--Infelizmente vou... Deixei um filho morto em Portugal. O rapaz era +fraquito, e não pôde aguentar-se. Desde que me elle morreu, fiz voto de +voltar a Italia. Mas quem póde agora ir por Hespanha com estas malditas +guerras, que nem n'este bom paiz de Portugal deixam ganhar a vida? +Juntei tudo o que podia, consegui obter uma reducção na passagem, e aqui +vou eu com a minha harpa, sem o meu filho. + +E cada vez luziam mais as lagrimas nos olhos do italiano, que parecia +não ter ainda cincoenta annos, posto lhe alvejassem já os cabellos. + +--Sente-se, senhor... + +--Pietro, acudiu elle com a celebrada vivacidade napolitana, se bem que +lhe soluçasse a voz commovidamente. + +--Estimei saber o seu nome, porque preciso archival-o no coração. Vim +aqui para lhe pedir um grande favor. Tem de ser sua companheira de +viagem aquella desgraçada rapariga franceza que ali vê... + +--Franceza! atalhou admirado o italiano. + +--Sim, franceza. É um mysterio cuja revelação iria augmentar a sua +maguada compaixão, meu bom Pietro. Olhe por ella, anime-a, que a +pobresinha é muito infeliz, e quem lh'o pede não é menos infeliz do que +ella... + +O velho aprumou-se, tirou solemnemente o seu barrete de gomos, e +disse: + +--Fique descançado, senhor. Pela memoria de meu filho lhe juro que a +tratarei a ella como se fôra elle mesmo. O meu coração até agradece á +Providencia esta inesperada companhia que me dá. _Corpo di Baccho!_ que +eu estava aqui triste, triste, que já mal podia commigo... + +--Obrigado! muito obrigado! exclamou com extraordinaria commoção Graça +Strech. + +--Vá buscal-a para aqui, tornou o italiano. A minha harpa está habituada +a chorar; eu a farei chorar mais uma vez. Quando eu vir que a minha nova +filha vae triste, eu a despertarei: _Carina!_ E o _canta-storie_ sempre +ha de saber alguma napolitana para cantar-lhe. + +Abeirou-se Graça Strech de Rosina. Ella tinha os olhos postos na +superficie do mar, immoveis e desluzidos, e deixava rolar as lagrimas +livremente pelas faces, como se já não tivesse vida para enxugal-as. + +--Rosina! apostrophou elle acordando-a, e com voz que mal se percebia. + +Ella estremeceu e fitou-lhe um olhar que se diria inconsciente. + +--Rosina! tens ali um companheiro de viagem, que me pareceu tão +desgraçado como qualquer de nós. É musico italiano. Volta a Italia +porque lhe morreu em Portugal o filho que o acompanhava. Já vês que deve +ser infeliz. Levanta-te, anda para ao pé d'elle. Anda, Rosina, minha boa +amiga, minha desgraçada irmã. Tem fé, tem animo, já que eu sinto +perdel-o... Olha... quero dizer-te uma coisa... Vou confiar-te o meu +thesouro, Rosina, o meu thesouro que tão mysterioso te pareceu, e que +tanto te fez soffrer... Guarda este annel de minha irmã... Deus sabe se +eu algum dia fiz tenção de o tirar do dedo! Que m'o tirassem depois de +morto, pouco me importava. A minha tenção era morrer com elle. Mas eu +amo-te tanto, tanto, que quero que tu o guardes. Elle já me não póde +recordar agora a minha vingança... Quando nosso filho crescer mette-lh'o +no dedo, e alguma vez lhe contaremos ambos a historia do annel mysterioso. + +Rosina olhava para Graça Strech em dolorosa suspensão. Pareceu accordar, +porém, quando sentiu na mão o contacto do annel. + +E entrou de beijal-o anciosamente, delirantemente, como se fosse +para ella uma reliquia mais valiosa do que a madeixasinha de seu pae. + +--O que eu soffri por elle, por este annel! disse ella soluçante. Agora +o levo commigo, e com elle a tua alma... Senta-te aqui, José, ao pé de +mim, não me fujas ainda, que o navio não parte por ora... Lembra-te que +esta separação póde ser eterna... + +--Eterna! repetiu estremecendo Graça Strech. + +--Não, não ha de ser, Deus ha de conservar-nos a vida que nos é mais +precisa do que nunca... Mas bem sabes que eu quero gravar bem na memoria +as tuas feições, uma por uma, todas, porque te quero ter presente a toda +a hora, contemplar a cada instante o teu retrato, tão fiel, tão fiel, +que me pareça estar-te vendo... Bem sabes que é uma illusão de que +preciso, de que depende a minha vida. Pois se eu me desalentar, se +succumbir á saudade,--e baixou timidamente a voz--quem ha de velar por +nosso filho, soccorrel-o, beijal-o, amal-o?... + +N'este momento deu a sineta de bordo signal para que descessem as +pessoas que não eram passageiros. + +Graça Strech, não tendo já forças nem coragem para levantar Rosina, fez +signal ao italiano para que se aproximasse. + +Pietro abeirou-se com a sua harpa, sentou-se ao pé de Rosina, e +relanceou a Graça Strech um olhar que parecia dizer: Póde ir. + +Rosina escondia o rosto entre as mãos, e soluçava offegante, +estrangulada a voz na garganta. + +Um dos marinheiros veiu, por ordem do capitão, lembrar a Graça Strech +que já tinha dado o signal de bota-fóra. + +--Eu vou... respondeu elle machinalmente sem poder desfitar Rosina, e +quasi sem força para mover-se. + +E, lançando a mão á corda, desceu oscillando como estonteado por uma +violenta vertigem. + +Na Occasião em que o capitão passava por deante de Pietro, o italiano +levantou-se e sorrindo cortezmente lhe disse: + +--O capitão dá-me licença que toque na minha harpa o hymno da partida? + +O capitão sorriu tambem, e Pietro, inclinando-se para Rosina, exclamou: + +--_Carina!_ A minha harpa vae ser de hoje em deante a nossa unica +consolação. É preciso atordoarmo-nos com a musica. Ahi vae a _Capuana_ +para não sentir o barulho de levantar ferro. Agora, para Napoles. + +E começou a entoar, acompanhando-se, uma canção napolitana que poderia +traduzir-se assim: + + Esta tarde na ribeira + Uma hora passeei. + Meu pensamento, occupaste-o + E tanto pensei em ti, + Que o coração lá perdi... + Tu vieste e apanhaste-o. + + Ensina-me pois agora + A desfazer a meada. + São parciaes os juizes, + E a justiça demorada. + Bem sei que perdia a causa... + Que meio? Lembra-te algum? + Tu lá tens dois corações, + E eu cá não tenho nenhum. + + Para que nos custe menos + A resolver a questão, + Expliquemo-nos. Ha males + Que ás vezes nos trazem bens. + Vamos fazer um ajuste: + Tu dás-me o teu coração. + E guarda o que lá me tens. + ............................ + +O brigue navegava já. E a musica parecia adormentar aquelles dois +desgraçados: um porque levava seu filho; o outro porque o deixava +ficar. + + * * * * * + + +XV + +A queda do gigante + +A historia da terceira invasão franceza, comquanto prenda com a nossa +narrativa, não lhe é essencial. + +Muito de leve passaremos pois pelos acontecimentos que medeiam de julho +de 1810 até agosto de 1814 e que, todavia, não podemos supprimir. +Limitar-nos-hemos, em conformidade com o nosso plano, a um simples +bosquejo não descabido em romance. + +O marechal Massena, chegado a Valhadolid, assumiu o commando do exercito +francez, que mandou reunir em Salamanca, e marchou sobre Portugal, +tomando de caminho Ciudad Rodrigo, que se rendeu depois de heroica +resistencia. Quasi volvido um mez, capitulou a praça d'Almeria; havendo +soffrido um longo cerco, e tendo sido o paiol incendiado pelo inimigo. + +O exercito alliado, em força de setenta mil homens, esperou os francezes +nas alturas do Bussaco, onde durante os dias 27 e 28 de setembro se +pelejaram duas sangrentas batalhas, sendo grande a victoria para o +exercito anglo-luzo, que galhardamente repelliu o inimigo em grande +parte dizimado. É esta uma das paginas mais brilhantes da historia +portugueza durante o longo periodo das guerras peninsulares. + +Os francezes, marchando para oeste, passaram ao Sardão, e d'ahi seguiram +para o sul; os alliados, retirando sobre Lisboa, rebateram-n'os nos +campos de Coimbra, e em Leiria. + +Amedrontado Messena á vista das linhas chamadas de Torres Vedras--sobre +as quaes o official inglez John T. Jones deixou uma circumstanciada +_Memoria_, que convém ser consultada pelos que não desdenham saber +historia patria--tomou posições á rectaguarda em Santarem e Leiria, +esperando reforço para atacar as linhas. O exercito francez, +consideravelmente derrotado, estava de mais a mais carecido de viveres. + +N'esta conjunctura e já entrado o anno de 1811, passou o marechal +Beresford ao Alemtejo para se oppôr ao inimigo, o que não impediu que +Badajoz capitulasse. Não obstante esta victoria, e um reforço de trinta +mil homens que o exercito francez recebeu, começou a retirar nos +primeiros dias de março d'esse anno, sendo atacado na retirada pelos +alliados, e entrando em territorio hespanhol no mez d'abril. Segunda vez +reforçado, atacou o exercito anglo-luzo em Fuentes d'Honor, não sendo +ahi mais feliz do que no Bussaco. No dia 11 d'esse mez retomaram os +nossos a praça d'Almeida, e pela terceira vez se viu Portugal +desopprimido do jugo francez. + +Pareciam empenhados os factos em desmentir a prophecia de Napoleão: era +a aguia da França que fugia amedrontada para o seu ninho +d'além-Pyrineus. O leopardo triumphava á sombra da cruz, que sempre foi +timbre dos guerreiros portuguezes. + +Á batalha de Fuentes d'Honor seguiu-se outra não menos cruenta--a de +Albuera, onde a victoria nos foi descontada pela perda de seis mil homens. + +A aguia franceza, a dominadora da Europa, irritada por uma série de +desastrosas derrotas, procurou ainda desferir no céo da peninsula o +arrojado vôo das suas passadas glorias. Por um momento lhe sorriu a +victoria. Substituido Messena por Marmont, o exercito francez logrou +tomar-nos a artilharia em Fuente Guinaldo, obrigando os alliados a +retirar sobre a fronteira portugueza, mais assignalados ainda na +retirada que no triumpho, porque, aguentando o peso da cavallaria +inimiga, repelliram todos os ataques, retomando a artilharia. Com a ação +de Arroyo-del-Molinos, pelejada a 18 de outubro, cuja victoria coube aos +alliados, se encerrou o anno de 1811, com muita honra para os +anglo-luzos. Não começou mal auspiciado o anno seguinte, que se +estreiou, para os alliados, com a tomada da praça de Ciudad Rodrigo, +seguindo-se-lhe a rendição de Badajoz, depois de haver soffrido os +apertos de primeiro e segundo sitio. Todavia o maior successo d'esse +anno estava reservado para a batalha de Salamanca, em que os dois +exercitos, commandados de um lado por Wellington e do outro por Marmont, +se equipararam em galhardia e pericia, cabendo a victoria--que se +reputa a mais celebre de toda a guerra peninsular--aos luso-anglos. Á +victoria de Salamanca seguiu-se a tomada de Madrid, e á tomada de Madrid +o assedio ao castello de Burgos pelos alliados, que, por desobediencia +de Ballesteros, tiveram de retirar sobre a fronteira de Portugal com +denodo egual ao que em Fuente Guinaldo os assignalou. Não remata +deshonrosamente o anno de 1812, para o exercito anglo-luso com este +revez que se póde considerar façanha. Refeitas, porém, as tropas +alliadas das perdas soffridas na retirada de Burgos, e já começado o +anno de 1813, avançaram até Victoria, onde, na manhã de 2 de junho, se +travou batalha geral, retirando o inimigo sobre Pamplona, perdendo +artilharia, caixa, bagagens, e salvando-se o rei José, que estivera +presente, em precipitada fuga. + +_Alea jacta erat._ + +A sorte de Napoleão, pelo que respeitava a ambições relativas á +peninsula, havia sido jogada na batalha de Victoria, e a aguia franceza, +em cujos olhos brilhava o olhar coruscante do Corso, pela ultima vez +cruzava, demandando a França, as cumiadas dos Pyreneus. + +No dia 1 de julho entrava o inimigo em solo francez. De nada valeu +reforçar-se, e tomar Soult o commando geral. No ultimo dia d'esse mez +ganharam os alliados a batalha chamada dos Pyreneus, rechaçando o +inimigo para dentro das suas fronteiras. Seguem-se, para honra das armas +alliadas, a tomada da praça de S. Sebastião, a batalha de Nivelle, os +combates de Bayonna, as victorias de Nive e Orthez, e, finalmente, a +triumphal entrada do exercito luso anglo em Tolosa, a 12 de abril de 1814. + +Começava, como os acontecimentos o demonstram, a empallidecer no céo da +França a estrella de Bonaparte. A lucta, desde muito travada entre a +aguia e o leopardo, lucta de morte, encarniçada, contínua, estava +chegada a ponto em que já era dado suspeitar que o pedestal de Napoleão +não era tão firme como a sua coragem. O contendor, apesar dos revézes, +era o mesmo; a fortuna principiava a falhar. A Inglaterra havia vencido, +a sorte mostrára-se rebelde, mas o conquistador da Europa,--e para o ser +faltava-lhe vencer a Inglaterra--não desesperava de reconquistar +a sua boa fortuna. Não tomou por aviso da Providencia o desastre. No +immenso taboleiro da sua ambição, em que as nações eram outras tantas +tavolas que movia a bel-prazer, pareceu-lhe aquelle um cheque sem +consequencias para o resultado da partida em que se jogavam os destinos +de povos e reis. + +Bonaparte ufanava-se de empunhar a balança em cujas conchas pesavam d'um +lado a Europa e do outro uma ambição immensa, indomavel, manifestada +desde os primeiros passos da sua carreira militar. Comtudo havia na +Europa uma nação quasi invencivel, porque o mar lhe servia de muralha, +porque os seus recursos economicos prosperavam largamente, e porque as +instituições d'esse povo, traduzindo a altivez do genio nacional, eram +muralha tanto mais para temer como a que o mar, cingindo as ilhas +britannicas, opporia a qualquer invasão. Era tudo isso, e mórmente o +regimen liberal da Inglaterra, que incommodava Bonaparte, cujo poderio +havia ultrapassado a barreira da tyrannia. O guerreiro feliz +imaginava-se senhor absoluto: era a vertigem da victoria. Havia porém um +meio de egualar a Inglaterra, como diz madame Staël: era imital-a. +Bonaparte, porém, não tinha nascido diplomata. A vista do conquistador é +incisiva, rapida, abrange de uma só vez o exercito todo por mais +espraiado que esteja; o diplomata tem de profundar, estudar, decompôr, +analysar não só os negocios englobados diante de si, mas as suas intimas +relações, as suas consequencias proximas e remotas. N'um requer-se o +olhar ardente da aguia; no outro a vista penetrante do lynce. Toda a +diplomacia de Napoleão se cifrava em preparar os acontecimentos de modo +a provocar um conflicto internacional, que tendesse a prejudicar a +Inglaterra. Haja vista o tratado secreto de Fontainebleau, em que +Portugal e a casa de Bragança eram sacrificados á velha rivalidade dos +dois paizes. Bonaparte visava sempre a vencer, não empregando a +influencia politica da sua posição, mas empregando a influencia armada +do seu exercito. Edificava sobre cadaveres, arriscando a vida dos +soldados francezes ao sabor da sua phantasia. Chegado á suprema +embriaguez da preponderancia, tanto valia para elle o sangue dos +soldados como a corôa dos reis. A sua vontade era lei. Conta-se +que uma vez um dos seus conselheiros d'estado ousou lembrar-lhe +que o codigo napoleonico era contrario á resolução que ia tomar. + +Bonaparte respondeu: + +--O codigo foi feito para salvação do povo, e, se a salvação do povo +exige outras medidas, é preciso adoptal-as. + +Estas palavras são transparentes: deixam ver a tyrannia. O povo francez +não podia ter vontade livre: vivia affrontado pela sombra de Napoleão e +encarcerado na inquisição politica de que o ministro Fouché era +claviculario. O cézar dominava tudo: a vontade do povo e a opinião da +imprensa. Os jornaes eram thuribulos que vaporavam o incenso da adulação +aos pés do throno. Os poetas estavam habituados desde o tempo do +Directorio a cantar heroides em honra do Primeiro Consul. Os +follicularios poisavam a penna, quando tentavam assumpto que esquecesse +a grandeza napoleonica, amedrontados pelo espectro da proscripção. A +visão do desterro bastava a intimidar a maior parte d'elles, senão +todos. Madame de Staël, que não trepidava deante da estatua gigantea do +imperador, teve de procurar refugio em Inglaterra. + +E comtudo, na sua origem, a corôa de Napoleão emergira, Venus da +realeza, da onda da liberdade! + +É certo, mas a estas palavras respondem cabalmente as seguintes linhas +da auctora das _Considérations sur la revolution française_, cujo +espirito era profundo de mais para se deixar cegar por despeitos. + +«Não bastava,--diz a insigne pensadora--que todos os actos de Bonaparte +tivessem o cunho de um despotismo cada vez mais audacioso; devia elle +proprio revelar o segredo do seu governo, pois que despresava a especie +humana o bastante para dizer-lh'o. No _Monitor_ do mez de Julho de 1810 +fez publicar as palavras que dirigia ao segundo filho de seu irmão Luiz +Bonaparte criança a quem o grã-ducado de Berg era destinado: _Não +esqueças nunca_, lhe diz elle, _em qualquer posição que te colloquem a +minha politica e o interesse do meu imperio, que os teus primeiros +deveres são para mim, os segundos para a França: todos os outros, +incluindo os relativos aos povos que eu pudesse confiar-te estão +depois_. Não se trata aqui de libellos, de opiniões de partido; é elle +proprio, Bonaparte, que se denunciou mais severamente do que a +posteridade ousaria fazel-o. Luiz XIV foi accusado de ter dito +intimamente: _O Estado sou eu_; e os historiadores esclarecidos +apoiaram-se com razão n'esta linguagem egoista para condemnar o caracter +do rei. Mas se este monarcha, quando collocou seu neto no throno de +Hespanha, lhe houvesse ensinado publicamente a mesma doutrina que +Bonaparte ensinava ao sobrinho, talvez que o proprio Bossuet não ousasse +antepôr os interesses dos reis aos das nações; e é um homem eleito pelo +povo, que quiz encher com o seu _eu_ gigantesco o logar reservado á +especie humana! foi n'elle que os amigos da liberdade momentaneamente +puderam ver o representante da sua causa! Muitos disseram: «É o filho da +Revolução. Sim, é, mas filho parricida: deveriam reconhecel-o?» + +Tudo isto é profundamente verdadeiro. + +A liberdade franceza ficára esmagada sob a purpura do cézar. Novo +Archimedes, levantaria com a alavanca do seu poder a Europa inteira, se +a Inglaterra consentisse em ser o ponto d'apoio. Era preciso vencer essa +unica difficuldade. Serviu-se pois de todos os meios. Na _Historia +Secreta do Gabinete de Napoleão Bonaparte_, por Lewis Goldsmith, está +manifesto o espirito faccioso do escriptor inglez, mas ainda assim ha +por vezes a eloquencia terrivel dos factos, e esses não os póde calar a +historia. Bonaparte procurou triumphar por mil maneiras differentes, +seduzindo com largas retribuições a lealdade dos jornalistas inglezes; +mandando a Inglaterra espiões, entre os quaes algumas mulheres, como +madame Bonneuil e madame Visconti; procurando sublevar a Irlanda, etc. + +Mas estava escripto no livro dos destinos que a Inglaterra fosse o +sepulchro da grandeza de Bonaparte. Lord Wellington, perseguindo a aguia +franceza desde Lisboa até Waterloo, similhante ao adversario de Macbeth, +segundo a expressão de madame de Staël, foi o Josué da historia profana +que ousou suster o curso do sol napoleonico em meio d'um longo dia de +gloria prolongado em dez annos de lucta contra a Inglaterra. + +O cartel de desafio, tantas vezes arrojado á face da nação britannica, +volveu-se na hora da decadencia em supplica dirigida ao principe regente +d'aquelle paiz. + +Estas palavras de Napoleão, escriptas em Aix, depois de Waterloo, são +claro testemunho da inconstancia das coisas terrenas: + +«Alteza real, a braços com as facções que dividem o meu paiz, e com a +inimisade das grandes potencias da Europa, puz termo á minha carreira +politica. Venho, como Themistocles, sentar-me junto ao lar do povo +britannico; abrigo-me á protecção de suas leis, a qual solicito de vossa +alteza real como o mais poderoso, o mais constante e o mais generoso dos +meus inimigos. + + «NAPOLEÃO»[12] + + +Não era porém sincera a humildade do cézar decaído. Themistocles pedia a +hospitalidade d'Artaxerxes, mas não pensava em beber a morte no veneno. +Os tropheos da Inglaterra, como os tropheus de Melciades, perturbavam o +somno do hospede desterrado. No momento de embarcar em a nau ingleza, +Napoleão repellia o general Becker que se abeirava d'elle para +despedir-se, e dizia-lhe: + +--Retire-se general. Não se diga que um francez veiu entregar-se nas +mãos do inimigo. + +Themistocles não esquecia a gloria de Melciades. + +Napoleão preferira morrer na morte lenta de todos os exilados, e +agonisára durante cinco annos n'uma possessão ingleza. + +Ahi, na triste solidão da ilha de Santa Helena, devia recordar a cada +momento a epopea da sua gloria e da sua desgraça, pensando ou dictando +as suas memorias ao general Las Cazes. Então, pelo silencio da noite, +apenas interrompido monotonamente pelo ruido do mar, refugiria de si +mesmo ao ver passar deante dos olhos o bando lutuoso das viuvas e dos +orphãos dos seus soldados, e ao adivinhar a pallida e lacrimosa figura +da moribunda de Malmaison, a formosa Josephina Beauharnais. + +É sempre no mar que se esconde o sol; Santa Helena illuminou-se com os +ultimos clarões da gloria de Bonaparte no duplo occaso da grandeza e da +vida. Orgulho de soldado: ordenou que lhe fosse mortalha o capote +que trazia na batalha de Marengo. Na sua vaidade de cézar até á morte se +queria impôr. + +Mais longe do que desejavamos nos levaram as nossas divagações, +esquecendo-nos de que o protagonista d'esta narrativa não era Bonaparte, +imperador dos francezes, mas um obscuro soldado dos exercitos que o +venceram. + +Tempo é de falarmos de Graça Strech, e de dizer que mais duas vezes fôra +ferido no decurso da campanha peninsular: uma em Salamanca, e outra em +Victoria com uma bala n'uma perna, do que lhe resultou ficar coxeando. +Fôra gravissimo este ultimo ferimento. Por mais d'uma vez os soldados +portuguezes suppozeram moribundo o seu valoroso companheiro. Ás +exaltações febris, em que o ferido precipitava palavras que os seus +camaradas não comprehendiam, succediam-se tão profundas prostrações, que +era difficil averiguar se vivia ainda. + +D'uma das vezes ouviram-lhe dizer: + +--Não! não! Não vêdes a morte?... Não quero morrer... E Rosina?... Meu +filho!... Estou aqui sósinho... Pietro tocava a sua harpa.. A muda +chorava muito... Em Coimbra, n'aquella tarde... Sim, ella era innocente +e pura... Pietro parecia triste de a vêr chorar... Que é?... São os +francezes?... Que venham... Eu vingo a memoria de minha irmã, mas não +quero morrer porque tenho um filho... + +--Um filho! exclamaram os dois soldados que piedosamente o soccorriam. + +O ferido continuou a delirar: + +--Tudo perdeu por mim... Como era grande o seu amor!... Pobresinha... +Para traz, francez; quero ir vel-a. Estás ahi? Sempre ao pé de mim! +Sim... bem me lembro... o ceguinho das Ardennas e o seu cão... Não +ouviste chorar uma creança? É meu filho... + +--O nosso tenente treslê! exclamou um dos soldados. + +Graça Strech havia, pelos seus actos de valor, chegado áquelle posto, +sendo condecorado com a Torre-Espada, com a cruz de S. Fernando +d'Hespanha, e ao depois com a medalha da guerra peninsular. + +--Pena é se morre, acrescentou outro soldado, que não ha mais +destemido militar que o nosso tenente! + +--Isso não! Animava-se com a polvora, que tambem não tem de haver no +mundo militar mais triste... + +--E mais desgraçado! Não te lembras que já a irmã era muda? + +--Muda, sim. + +A este tempo havia caído Graça Strech em lethal modorra, e retiravam-se +os dois soldados receiosos de que o tenente não resistisse ao ferimento. + +Todavia, como poderemos ver pelo capitulo seguinte, não tinha de ser +aquella a ultima hora da attribulada existencia de Graça Strech. + + [12] _Historia de Napoleão Bonaparte_, pelo dr. Caetano + Lopes de Moura, Vol. II. + + * * * * * + + +XVI + +Uma festa no Porto ha cincoenta e nove annos + +Amanheceu festivo para a cidade do Porto o dia 15 d'agosto de 1814. + +Ainda de noite começaram a povoar-se as janellas, e a animar-se as ruas +com enorme multidão. + +Ás sete horas da manhã já não havia casa que não estivesse adornada de +ricas tapeçarias, pendentes dos balcões, que competiam com as galas das +damas da cidade e da provincia debrusadas nos peitoris. + +Muitas das janellas estavam emmolduradas em grinaldas e arcos de flôres; +outras ladeadas por bandeiras; ao longo das ruas corria um verdejante +tapete de hervas aromaticas. + +Em muitos olhos brilhavam lagrimas d'alegre commoção, e em todos os +labios desabrochavam sorrisos que eram espelho do jubilo da alma. + +Que motivo havia, pois, para tamanha festa na cidade cujos habitantes, +no lento curso de cinco annos, estavam costumados ao luto e á saudade +dos que pereceram na catastrophe da ponte, nas linhas de defeza, nos +hospitaes de sangue e dos que posteriormente haviam succumbido na +demorada campanha peninsular contra os francezes? + +Não eram estranhos os jubilos d'esse dia a tão funestos acontecimentos. +Esperava-se a brigada de infantaria do Porto, composta dos regimentos 6 +e 18, que victoriosa regressava de França depois de haver pelejado com +egual denodo pela restauração d'estes reinos e de toda a peninsula. + +Os feitos da brigada de infantaria do Porto haviam soado, com assombro +dos portuguezes, em Portugal inteiro, mórmente os que praticára na +batalha da estrada de Bayona, em França, no dia 13 de dezembro do anno +anterior. + +O senado da camara tinha-se reunido nos primeiros dias d'agosto para +assentar nos festejos com que se devia celebrar o regresso das tropas. +Resolveu que se levantassem arcos de triumpho, fazendo-se outras mais +demonstrações de alegria, e encarregou da direcção dos preparativos o +vereador decano José de Sousa e Mello. + +Tratou-se, pois, com febril afan, de executar o programma dos festejos. + +Construiu-se sobre a ponte do Poço das Patas a _Porta da cidade_[13], +guarnecida com os castellos que lhe são proprios, e com as +insignias concedidas por carta regia de 13 de maio de 1813; +collocando-se na cimalha da porta a imagem de Nossa Senhora, que +entregava a seu Divino Filho uma fita com a legenda _Civitas Virginis_. + +O gosto da pintura, imitando velha cantaria, muito deu na vista das +pessoas que percorriam as ruas e estacionavam boqui-abertas em frente do +arco. + +Tambem na cimalha foi embutida uma lamina de bronze com este distico: + + + HINC GENTI HOMEN; + HINC REGNO PLURIES SALUS; + HINC EUROPAE, ORBI + PRIMA LIBERTATIS LUX NOVISSIME AFFULSIT. + + +No alto da rua nova de Santo Antonio levantou-se um arco de triumpho, de +ordem composita, firmado em quatro columnas; resaltavam dos +intercolumnios arnêzes, grévas, escudos, bandeiras e lanças entrelaçadas +com listões de murta, ramos de oliveira, palmas e louros. Nos dois +grandes pedestaes sobre que descançavam as columnas, lia-se: + + Sempre engrandeça a patria lusitana + Vosso nome immortal, claro, e subido; + E a Casa restaurada de Bragança + Tenha em thesouro seu vossa lembrança. + + _Condest._ + + Esta Cidade forte, e populosa, + Colonia antiga do poder Romano, + Cavou a sepultura temerosa + D'um gigante nas obras deshumano. + + _Affons. Afric._ + +Egualmente estavam enfloradas as cornijas, architraves e os frizos. +Sobre o portico erguia-se o escudo das armas da cidade; por cima da +balaustrada que corria ao longo do arco, havia quatro estatuas que +figuravam: + +A SAUDADE + +Mostrava um livro aberto em que se lia: _1.º e 2.º de Setembro de 1809._ +(Dias em que saíram do Porto as tropas.) No pedestal estava escripto: + + Deixando a Patria amada, e proprios lares + Se mostraram nas armas singulares. + + _Cam._ + +A ALEGRIA + +Indicava em outro livro a data: _15 d'agosto de 1814._ (Dia da entrada +das tropas.) Lia-se no pedestal: + + A Deus, ao Rei de quem a paga esperam + Fazer maior serviço não puderam. + + _Malac._ + +A VICTORIA + +Desenrolava os annaes das acçoes em que a brigada entrára. Legenda do +pedestal: + + Aonde falta o premio a quem milita + Não habita a razão, nem gente habita. + + _Dest. d'Esp._ + +A ETERNIDADE + +Tinha, entre o symbolo da serpente enroscada, os nomes dos +regimentos: _Infantaria 6 e 18._ No pedestal: + + Ajudados dos céos em mar e em terra, + Tem fechadas na mão a paz, e a guerra. + + _Malac._ + +Sobreposta a uma longa inscripção latina, rematava o grupo do arco uma +esphera armilar, sustentada por Genios que entornavam flôres. + +Nos intercolumnios posteriores correspondiam armas, espadas, tambores e +alabardas unidos com feixes de louro, ramos de carvalho e oliveira. + +Nos grandes pedestaes havia gravadas epigraphes em verso, correspondendo +os ornatos aos da frente e as estatuas da balaustrada estas quatro: + +O PORTO + +Offerecia com a mão direita uma corôa de louro e empunhava na esquerda +um ramo de carvalho, tendo no pedestal: + + Orno os heroes que a patria eternizaram + E por ella seu sangue derramaram. + + _Elp._ + +O AMOR DA PATRIA + +Offerecia com a direita um coração e apontava com a esquerda para o +peito. No pedestal: + + Meu valor, minha nobre fortaleza + Será gloria da gloria Portugueza. + + _Affons. Afric._ + +A PAZ + +Offertava com a mão direita o ramo de oliveira, e sustentava na esquerda +um feixe de palmas. No pedestal: + + Que mais ditoso fim se lhe esperava + Que este agora que merecido estava! + + _Affons. African._ + +A DOCILIDADE + +Arremessava com a mão esquerda um montão de cadeias, e com a direita +segurava uma estreita fita. No pedestal: + + O Soberano Author da redondeza + Da minha redempção deu-vos a empreza. + + _Bocag._ + +A tarja que, do outro lado, correspondia á inscripção lapidar, tinha +figurados em relevo todos os petrechos de guerra, e os Genios, que +d'esse lado sustentavam a esphera, desenrolavam uma fita em que estava +escripta uma quadra do _Condestabre._[14] + +Ahi se agrupava impaciente a multidão, não só attrahida pela +magnificencia do arco, senão tambem pelo variegado espectaculo das +tropas da guarnição, que estavam postadas em alas até ao largo de Santo +Eloy; bem como para ver pegar fogo á bateria collocada no topo da +calçada dos Clerigos e destinada a salvar com vinte e um tiros de peça a +passagem da brigada pelo arco. + +Na rua nova do Almada baralhavam-se dois formigueiros de povo: um que, +receoso do tumulto na aproximação das tropas, demandava o Campo de Santo +Ovidio; outro que, tendo visto o obelisco levantado no meio d'este +campo, ia procurar logar, na hypothese de encontral-o, junto ao arco da +rua nova de Santo Antonio. + +Era tambem sobremodo esplendoroso o obelisco n'aquelle campo. Rodeava o +pedestal uma espaçosa varanda, adornada com ricas bandeiras portuguezas. + +Sobre o pedestal, e em frente da rua nova do Almada, estava o retrato do +principe real, com a seguinte legenda escripta na almofada correspondente: + + Diga-o a Augusta Effigie contemplando: + Foi este o forte, o justo, + João, da Patria Pae, que a patria alçando + Deu pasmo a naturaes, e a estranhos susto. + + _Elp._ + +Em frente da rua da Boa Vista, resaltava o retrato da rainha, lendo-se +no pedestal: + + O louvor que se ganha pelos meios + Da virtuosa vida, este só dura, + Este de se perder não tem receios. + + _Bern._ + +E em frente da linha dos predios foi disposto o retrato da princeza, +tendo no pedestal: + + Que affavel se olharia a tua face, + Se o céo a nossos votos sempre amigo + Na fria estatua espiritos soprasse! + + _Filint._ + +Do lado da Lapa, em frente do quartel, viam-se as armas do reino e da +cidade, unidas por um listão, em que estava escripto o dia da +restauração do governo nacional + + 18 DE JUNHO DE 1808 + +lendo-se no pedestal os seguintes versos de Horacio: + + HIC DIES VERE NOBIS FASTUS ATRAS + EXIMIT CURAS. + +Todos os retratos foram collocados entre tropheus de bandeiras, e eram +cingidos pelos emblemas da paz e do heroismo... + +O bom povo portuense, na cegueira do seu jubilo, não reparava que esses +emblemas, á beira dos augustos retratos, deviam ser uma pungente ironia +se a familia real tivesse olhos para os ver atraves de enorme distancia, +e interposto o mar! + +No cimo do obelisco assentava a corôa real cingindo um manto de preciosa +bordadura. + +Pouco depois das oito horas e meia, um unisono grito de alegria +annunciou a chegada da brigada ao Alto do Senhor do Bomfim. + +Então começou o estrondear dos morteiros, o repicar dos sinos e o +alarido dos vivas. Quando as tropas chegaram ao topo da rua nova de +Santo Antonio, o enthusiasmo attingiu as raias do delirio, +tamanho era o alvoroço da multidão que saudava com brados, com os +lenços e os chapeus os dois regimentos portuenses. Durante todo o +percurso até ao Campo de Santo Ovidio as flôres, as grinaldas e os +ramos, que desciam das janellas, figuravam uma chuva iriada e espessa +que ia orvalhar de petalas as fardetas dos soldados. + +Se nos fosse dado ouvir os breves dialogos que se perdiam no borborinho +geral, de grupo a grupo iriamos recolhendo vozes, posto que variadas, +todas concernentes á festa d'esse dia. + +N'uma das janellas da rua nova do Almada chalravam as visinhas da +familia Strech, as quaes cinco annos antes tivemos occasião de conhecer +em lances que verdadeiramente contrastavam com o espectaculo a que +estamos assistindo. + +Passava o regimento de infantaria 18, e diziam ellas. + +--Vamos a ver se conhecemos o José Maria! + +--Vem tenente e condecorado! + +--Já sei. Mandou dizel-o o homem da Victorinha. + +--Deve vir muito mudado! + +--Será aquelle? + +--Aquelle, menina! Aquelle militar tem mais de vinte e cinco annos... + +--Vamos a ver se elle olha para a casa onde morou... + +--Vês? Não olha! Vae até a olhar para o chão... + +Era elle, effectivamente. + +No meio da rua dialogavam dois velhos: + +--Que pena não assistir o Trant! + +--Está doente. + +--Bem sei. + +--E elle que tanto trabalhou para esta recepção! + +No Campo de Santo Ovidio, antes da chegada das tropas: Um velho +perguntando a um sujeito que estaciona junto d'elle: + +--Falta-me a vista! Quem são aquelles que estão nas janelas do quartel? + +--É o juiz e a camara. Olhe... Não vá mexer-se agora uma cabeça? + +--Vejo, mas não distingo. + +--Pois é o José de Sousa e Mello. + +--Acho que elle tem de falar pelo senado? + +--O programma dizia que sim. + +--Esperaremos. Sempre não ter vista! Perco metade! + +Chegaram as tropas ao Campo de Santo Ovidio e, depois de formar +quadrado, fizeram continencia aos retratos da familia real, que, diga-se +em abono da verdade, não responderam. + +Os originaes estavam no Brazil; não viram. + +Em seguida o brigadeiro Carlos Ashworth, commandante da brigada, +levantou vivas ao principe regente e á rainha... + +Os retratos não se mexeram. + +Quando porém se ouviu um enthusiastico viva em honra da cidade do Porto, +a cidade respondeu delirantemente pela bocca das tropas, do povo, e pelo +acenar vertiginoso dos lenços nas janellas. + +Dada a voz de descançar armas, desceu o já nomeado vereador decano, José +de Sousa e Mello, que pouco antes viramos a uma das janellas do quartel. +O brigadeiro commandante, tendo-se apeiado, dirigiu-se para elle. Então +o camarista Mello recitou uma allocução que terminava por estas +palavras: «A camara roga a vossa excellencia queira fazer-lhe a honra, +não só de jantar hoje n'este quartel, mas de convidar em seu nome toda a +officialidade d'estes dois regimentos, mandando vossa excellencia que, +além d'isto, se distribua pelos sargentos, cabos e soldados o dinheiro +que ali se acha para lhes supprir o jantar d'hoje.» + +O brigadeiro Ashworth agradeceu amavelmente o convite, e asseverou que a +officialidade acceitaria reconhecida. + +A immensa multidão que enchia o Campo de Santo Ovidio rompeu n'este +lance em freneticos vivas e, ao som das bandas marciaes, recolheram as +tropas a quarteis, sendo seguidas por grande numero de pessoas, +parentes, amigos, e conhecidos, que esperavam lhes fosse permittido +abraçar soldados e officiaes. + +Concedidas duas horas para desafogo de saudades, cinco annos retraídas, +e gastas em ardentes expansões que as volveram momentos, foi o regimento +de infantaria 18 ouvir missa á egreja da lapa e o regimento de +infantaria 6 á egreja da Graça. Em ambos os templos houve _lausperenne_ +e _Te-Deum_. + +Cumpridos os deveres do coração e da alma, começaram os da cortezia. + +O brigadeiro Ashworth foi cumprimentar o senado á sala da +secretaria do quartel de Santo Ovidio, convenientemente preparada para a +solemnidade da recepção, recolhendo-se depois ao quartel general da rua +nova do Almada, onde, pelo meio dia, recebeu a visita dos vereadores. + +Cerca da uma hora da tarde, quando o brigadeiro já estava desembaraçado +de felicitações officiaes, annunciou-se no quartel general o tenente +Graça Strech. + +O brigadeiro acudiu a recebel-o com a maxima familiaridade, que era +testemunho de maxima consideração. + +--Vem tambem cumprimentar-me? galhofou o brigadeiro.--Ora sente-se e fale. + +--Venho solicitar um grande obsequio, respondeu o tenente. + +Razão tinham as meninas da rua nova do Almada para não reconhecer n'elle +o gentil e vigoroso José Maria dos dezeseis annos. Estava velho aos +vinte e um, velho das geadas do infortunio que requeimam as flores da +alma, e apagam nos olhos o brilho da mocidade. Tinha a magreza viril do +soldado, mas cruzavam-se na sua physionomia umas sombras espessas que á +primeira vista inculcavam que espirito e corpo haviam soffrido por +egual. Como as palreiras meninas da janella disseram, figurava ter mais +de vinte e cinco annos. + +Mas, voltando ao dialogo do tenente com o brigadeiro: + +--Que grande obsequio é esse? perguntou com affabilidade Carlos Ashworth. + +--Venho pedir dispensa de assistir hoje ao jantar. + +--Ah! meu amigo, isso não póde ser! O galardão é para todos; cumpre, +pois, que cada um receba o quinhão que lhe cabe. + +--Eu creio que já em França tive a honra de lhe dizer, meu brigadeiro, +que precisava descanço porque soffria... + +--E de me pedir a sua baixa, bem sei. D'essa vez não pude annuir ao +pedido do meu bravo tenente, porque havia recebido instrucções +particulares do senhor marechal marquez de Campo Maior para não +licenciar soldados nem officiaes. Era justo que o Porto conhecesse todos +os heroes d'esta brilhante campanha. O marechal tinha razão. Agora, meu +bom amigo, tambem não posso ser-lhe agradavel como desejava. O +tenente foi dos militares que mais se distinguiram desde Portugal a +França. As ordens do dia falaram muita vez no seu nome. Conhecem-n'o. +Seria uma affronta para o Porto que estivesse entre os seus muros, e +recuzasse o talher que lhe offerece. Isso--disse o brigadeiro +curvando-se amigavelmente para elle--são saudades, não quero saber de +quem. Tambem eu as tenho... Vamos, assista ao jantar, que eu me +empenharei por obter a sua baixa o mais breve possivel. + +E estendeu-lhe cordealmente a mão. + +O tenente Graça Strech saiu d'ali com os olhos no chão para não vêr a +casa onde nascera, e atravessou as ruas da cidade absorto na triste +concentração de quem está em terra onde não conhece ninguem. + +Ia entregue aos seus pensamentos, e assim andou ao acaso até que outro +tenente do mesmo regimento lhe bateu no hombro e disse: + +--São quasi cinco horas e meia. Vamos lá ao jantar, homem. Está marcado +para as seis. + +Effectivamente, á hora designada, reunida a officialidade no quartel de +Santo Ovidio, passou com os vereadores á sala do banquete, cuja +ornamentação era brilhante. + +A um e outro lado corriam arbustos, d'entre os quaes appareciam as armas +de Portugal e Inglaterra. A um grupo de trophéus de guerra, com +bandeiras d'uma e outra nação, que cobriam a cabeceira da mesa, fazia +_pendant_ um nublado em que se enleiava a serpente, symbolo da +eternidade, tendo escripto no centro--_Ashworth._--Guarneciam o nublado +duas bandeiras com os nomes dos dois regimentos, atadas por uma fita em +que se lia a data de maior gloria para a brigada do Porto--_13 de +dezembro de 1813_. + +No fim do banquete, ao som da banda de musica de milicias que tocava á +porta do quartel, levantaram-se enthusiasticos vivas ao principe +regente, á familia real, aos monarchas alliados, aos governadores do +reino, generaes do exercito combinado, ás tropas victoriosas, e a todas +as mais entidades que iam lembrando e mereciam a homenagem d'um calis de +vinho. + +Um só conviva correspondeu a esses ruidosos brindes com um movimento de +labios: foi Graça Strech. E á noite, quando toda a cidade se illuminava +festivamente, era profunda a escuridão na sua alma. + + [13] É fiel a descripção d'estes festejos; O auctor + encontrou-a n'um opusculo da epoca. + + [14] Poema heroico de Francisco Rodrigues Lobo. + + * * * * * + + +XVII + +Como madrugam as aves e os noivos! + +Obtida a baixa, Graça Strech poucos dias se demorou no Porto. + +Sentia-se asphyxiado na atmosphera em que respirára ao nascer. +Punham-lhe medo as sombras; as ruas affiguravam-se-lhe tristes como +avenidas de cemiterio. Duas vezes, alta noite, depois de dolorosissima +lucta comsigo mesmo, estivera, encostado á parede fronteira á casa em +que viveu os primeiros annos da vida, mergulhado em profunda meditação. + +A ultima vez fôra a ultima noite que passára no Porto. O céo era d'um +azul setinoso. O branco luar de agosto estendia ao longo da rua a sua +claridade immovel, e parecia desenhar nos muros contornos phantasticos. +Reinava na cidade o silencio imperturbavel das noites profundas. Na +janella da sala onde cinco annos antes, por noite tempestuosa, jaziam +tres cadaveres, luzia um reflexo mortiço como de lamparina que não +tardou a apagar-se. Lembrou-se Graça Strech de que devera ser egualmente +pallido o reverbero da luz que lhe tremia na mão quando contemplava os +corpos inanimados das trez senhoras. Transportou-se áquelle horrivel +espectaculo. Viu tudo. A mãe, a irmã e a avó estavam a seus olhos como +n'essa hora tremenda. Não obstante o seu grande empenho, de pergunta em +pergunta não lográra saber onde repousavam. Queria ir procurar Rosina, +de quem nada sabia tambem, mas desejava despedir-se da familia que +ficava, antes de partir para o seio da familia que o esperava. Não pôde +realisar o seu desejo. Registos parochiaes não os havia. N'aquella +immensa hecatombe da invasão, tambem as sepulturas foram invadidas sem +averiguar-se por quem. Tinha desesperado de conhecer a verdade, +e, já que não podia despedir-se do tumulo da sua familia, fôra +despedir-se do predio que ella habitára. De repente, n'uma casa proxima, +perpassou uma luz. Fez reparo. Quem velaria ainda áquella hora? +Deteve-se a examinar, e certificou se de que ali viviam, no anno de +1809, as duas visinhas que lhe falaram na bateria do Bomfim. Foi isto um +como raio de tardia esperança. Recriminou-se pelo esquecimento de não as +ter procurado logo que chegou. A desgraça havia-o desmemoriado. +Atravessára o Porto como um viajante solitario atravessaria o +Sahará--calado, pensativo, sem ver, por ter medo de olhar. Mas--os +infelizes duvidam sempre--viveriam ainda ali? Tinha razão. Quem poderia +dizer se ellas, na fuga, haveriam chegado ao seu destino, sido +attingidas pelas balas ou cahido em poder dos francezes? + +A estas perguntas, que a si proprio fazia, só poderiam responder +indagações. Pesava-lhe todavia o ter de se aproximar de pessoas cuja +conversação iria aggravar a dôr do passado. Se elle soubesse onde +repousavam as cinzas da sua familia, lá iria para falar-lhes, para +contar-lhes os extraordinarios lances da sua vida, para dizer aos frios +restos de sua irmã por que razão não levava comsigo o annel, sobre o +qual jurára vingal-a. + +Augusta, de dentro do sepulchro, responderia com o perdão implorado. + +Mas o que elle não queria era deixar entrever a sua dôr de modo que lh'a +avivassem piedosamente, porque a sociedade não dá o balsamo da compaixão +sem primeiro rasgar as feridas que a inspiram. + +O desejo vehemente venceu, porém, a natural repugnancia. A breve trecho +fez tenção de não desaproveitar as poucas horas que lhe restavam para +colhêr esclarecimentos. Resolveu-se a esperar que amanhecesse e, como a +luz parecesse brilhar com intensidade a través da janella, não se +afastou. Mal começava a raiar a claridade da madrugada, apagou-se a luz, +e cerca das cinco horas da manha viu Graça Strech abrir-se a porta. +Sairam duas mulheres de mantilha, seguidas por uma criada que levava um +açafate á cabeça. Fosse reminiscencia ou phantasia, Graça Strech cuidou +reconhecer as duas visinhas: tia e sobrinha. Tomou alento e acercou-se. +Uma das mulheres, a mais nova, voltou de repente a cabeça como se +esperasse alguem. Havendo-se enganado, achegou-se da outra e soltou +um--ai!--que mais denunciava despeito que medo. + +--Não se assuste vossa senhoria, sr.ª D. Izabel! apostrophou Graça +Strech serenando a menina que se denunciava medrosa. + +Tia e sobrinha olharam fito no desconhecido, e foi a sobrinha quem +primeiro exclamou: + +--Pois não se lembra, minha tia? Olhe bem para elle! + +--Quem é? + +--É o sr. José Maria! Eu bem dizia outro dia que era o tenente das barbas! + +--Póde lá ser o Josésinho! + +--Tem razão, minha senhora, replicou Graça Strech. Eu devo parecer-lhes +uma sombra do que fui. Mas, sombra ou realidade, o certo é que me chamo +José Maria da Graça Strech. + +--Ora uma coisa assim! Parece um velho! + +--E parece! acrescentou a menina. + +--Desgostos, minhas senhoras. + +--E muitos teve tão novo, sim, porque vêr... + +--Peço a vossa senhoria o obsequio de deixar em silencio essas tristes +recordações. Uma só quero eu avivar, e por isso lhes causei esta surpresa. + +--Mas não nos ter procurado! exclamou a velha senhora. + +--Não tomem á conta d'ingratidão o que é simplesmente embrutecimento. +Bem podia ser tambem que tivessem mudado de casa. + +--Ora! Quem tem bocca vae a Roma! exclamou a menina. Já nem queria saber +novidades da sua antiga visinha! Pois saiba que me vou casar... + +--Felicito vossa senhoria. + +--Cala-te ahi, tagarella! acudiu D. Eulalia, affastando com o braço a +sobrinha. Ha de estar admirado de nos vêr sahir ambas a esta hora. Pois +não se admire. Combinamos com as Cerqueiras e as Brochados, tudo visitas +da sua casa, sr. Strech,--e com o noivo da Izabelinha--juntarmo-nos na +primeira missa que se diz no altar do Senhor dos Passos em S. João Novo +e irmos depois almoçar todos á Fonte das Virtudes. + +Cumpre dizer que na primeira década do seculo XIX era ainda a +Fonte das Virtudes o local destinado ás comezainas das familias +burguezas do Porto. Ahi se reuniam em ruidosos convivios, deposta a +mantilha, e irmanados novos e velhos pelo mesmo apetite e pela mesma +alegria. + +O camartello das demolições municipaes tem--_avis rara!_--respeitado até +hoje esta legendaria fonte que se compõe d'um alto frontispicio, ornado +de pyramides, e firmado em bancos de pedra, que a rodeiam. Rebenta +abundantemente a agua por duas enormes carrancas em conformidade com a +esculptura de todos os chafarizes antigos. Ladeiam a fonte dois grandes +tanques, durante todo o dia, ainda hoje, frequentados por lavadeiras. +N'esses bons tempos, ficava a fonte extra muros; sahia-se para ella pela +porta a que a fonte deu nome. Ao lado da porta, na eminencia da parte +oriental, havia já então os chamados _Assentos_, actualmente Passeio das +Virtudes. + +O padre Agostinho Rebello da Costa, na sua _Descripção topographica e +historica da cidade do Porto_, impressa em 1789, escreve ácerca d'este +local: «Em toda a cidade, não ha sitio nem mais ameno, nem mais +agradavel; porque além da sua bella posição adornada de regulares +edificios, gozam os olhos d'um só golpe, vista de cidade, de mar, rio, +navios, montes, campinas, quintas e palacios. O grande paredão, que +presentemente se está fazendo, para com elle se formar uma praça +correspondente á belleza, e magnificencia d'esta agradavel situação, +será um monumento eterno do patriotico zelo que Rodrigo Antonio de Abreu +e Lima, cavalleiro professo na ordem de S. Thiago, inspector da marinha +do Douro, administrador geral dos portos seccos das trez provincias do +Norte, e actual juiz da alfandega, mostrou em obrigar o senado da camara +a fazer esta obra interessantissima á regia utilidade, e recreio publico.» + +Dito o que as historias referem ácerca da Fonte das Virtudes, reatemos o +dialogo. + +--Divirtam-se vossas senhorias, respondeu Graça Strech, que eu +perguntarei sem desvios o que desejo saber. Não me foi possivel +averiguar até hoje onde jaz a minha desventurosa familia. Vossas +senhorias sabem? + +--Casualmente nos disse o sachristão de S. Martinho de Cedofeita +que tinham ali sido enterradas, se bem que nos não pudesse designar as +sepulturas, pela grande confusão de cadaveres que n'esses tristes dias +houve. + +Isto disse D. Eulalia, acrescentando: + +--No dia seguinte o quartel general mandou ordem a todos os parochos +para que, logo que anoitecesse, fôssem levantar os corpos dentro da +circumscripção das suas freguezias. Não sabemos mais nada, sr. Strech. +Nós recolhemos ao Porto depois que os francezes retiraram. Estivemos em +Gondomar, em casa d'uns parentes nossos, porque tivemos a felicidade de +encontrar livre o caminho. O senhor bem se ha de lembrar de que nos +protegeu na bateria do Bomfim. Prouvera a Deus que a sua familia tivesse +tido a mesma sorte! Muitas vezes lhes pedimos que nos acompanhassem. Não +quizeram. Ainda tenho nos ouvidos as palavras da Augustinha: «Se meu pae +e meu irmão morrerem, deixemo-nos morrer tambem, porque o viver sem +elles seria peior que a morte.» Nunca mais me esqueceram! Vel-a assim +fazia dó, a pobre menina! + +Graça Strech estava livido. Já não tinha forças para ouvir mais. + +--Muito obrigado, minhas senhoras, disse elle. Já sei o bastante. +Felicito-me de as haver encontrado e faço votos pela ventura da sr.ª D. +Izabel. + +--Agradeço do coração, replicou a menina. O sr. Strech ha de dar-me a +honra de assistir ao meu casamento... + +--Da melhor vontade assistiria, minha senhora, se não tivesse de partir +hoje mesmo para Italia. + +--Partir?! + +D. Eulalia repetiu:--Para Italia! + +E exclamou virando-se para a sobrinha: + +--O casamento anda-te com essa cabeça á roda! Se não sou eu lembrar-me +agora por essa palavra, não dirias nada ao sr. Strech d'aquella carta +d'Italia! + +--Uma carta, apostrophou elle, sobremodo perturbado. + +--É verdade! affirmou a menina com pesar de se haver esquecido. + +D. Eulalia contou: + +--Ha quatro annos, foi em... + +--Junho, acrescentou Izabel. + +--É verdade, foi em junho, proseguiu D. Eulalia; andou o carteiro por +esta rua, para cima e para baixo, a perguntar pela familia Strech. Todos +lhe diziam que essa desgraçada familia estava no cemiterio. Até que a +final o carteiro e alguns visinhos bateram á nossa porta, porque sabiam +das nossas relações com a sua familia. A carta, que trazia o timbre de +Italia, dizia: _Sr. José Maria da Graça Strech, soldado portuguez_ (pela +orthographia conhecia-se que a pessoa que escrevia era estrangeira, +disse em parentesis D. Eulalia) _natural do Porto;--Portugal._ + +Graça Strech ouvia offegante. + +D. Eulalia proseguiu: + +--Do senhor ninguem sabia nada, mas como a carta ficaria naturalmente +perdida no correio, encarregamo-nos de mandal-a ao acaso para onde +estivesse o exercito. Era o unico meio de lhe chegar á mão, caso o +senhor estivesse vivo. Nós nada sabiamos. Perguntamos o que haviamos de +fazer. Disseram-nos que a mandassemos para Almeida, que era onde +Wellingtão--ella pronunciou assim,--tinha estabelecido o quartel +general. Para lá a mandamos, pensando que fariamos bem. Visto isso o +senhor não a recebeu? + +--Não recebi, minha senhora, respondeu Graça Strech com difficuldade. +Agradeço, porém, a vossas senhorias o cuidado que tiveram e, para não as +demorar por mais tempo, recebo as suas ordens... + +--Tambem--atalhou D. Eulalia, vão sendo horas da missa do Senhor dos +Passos. Vamos lá. Se o sr. Strech precisar d'alguma coisa, não tem senão +mandar-nos e dizer onde está, para que não se torne a perder qualquer +carta. + +Despediram-se. Ellas seguiram pela rua nova do Almada a baixo, e elle +caminhou em direcção ao Campo de Santo Ovidio. + +A menina ia perguntando ingenuamente á tia: + +--Não seria mau agouro encontrarmos o Strech na occasião em que eu ía a +pensar no meu casamento? + +--O que tu quizeres! respondeu D. Eulalia. Reza um _Credo_ ao Senhor dos +Passos e deixa-te lá d'agouros. Deus é que sabe o que ha de acontecer. + +Graça Strech caminhava machinalmente, engolphado em seus pensamentos. A +carta era de Rosina. Conjecturava elle que já devia ser mãe quando a +escrevia. Que diria ella? Coisas tristes, de certo. Os infelizes +vivem das desgraças que sonham e que soffrem. Por muitas vezes escrevera +elle para Napoles. Nunca obtivera resposta. Aquelle horrivel silencio +durava já havia quatro annos. Nem ella nem Pietro escreveram mais! O +que haveria acontecido? Que ancia que elle tinha de chegar a Italia, e, +ao mesmo passo, que receios! Não o esperariam lá novas dôres, maiores +soffrimentos? Que envelhecida mocidade aquella! + +Foi andando, andando, até que chegou ao cemiterio de Cedofeita. + +Quando viu negrejar cruzes e louzas por entre as verduras dos canteiros, +estremeceu de subito. O pensamento da morte vinha interromper os seus +dolorosos pensamentos. A sua familia estava ali, mas onde? Rosina e seu +filho onde estariam tambem, lá tão longe? O cemiterio era solitario +áquella hora, se não falarmos das aves que faziam alegre matinada nas +arvores. + +Só os noivos e as aves saudam jubilosos a manhã. + +Por isso madrugára a menina da rua nova do Almada em competencia com os +passarinhos do cemiterio de Cedofeita. + +Graça Strech atravessou por entre as campas, confiado em que o coração +adivinharia o sitio em que repousava a sua familia. Andou, percorreu as +ruas todas, e parou á beira d'uns comoros que não tinham cruz nem +lapide. Devia ser ali. As campas dos que não deixam ninguem no mundo +conservam-se abandonadas. Quando muito, porque os despojos mortaes são +da natureza, veste-as a natureza de relva e flôres silvestres. Sobre um +dos comoros floresciam hervagens, que pendiam á terra umas singelas +boninas brancas. Seria a homenagem da natureza á innocencia de sua irmã? +Não sabia. O silencio da morte guarda todos os segredos. Ajoelhou. As +avesinhas das arvores funebres continuavam a cantar, a cantar!... + +Áquella hora, n'aquelle sitio, cria-se em Deus. + +A eloquencia das campas! + +Como tudo aquillo fala suavemente d'além-tumulo! + +No ruido das festas a ideia da morte é sempre um pungente contraste. Mas +não sei que amena tristeza dulcifica a certeza do repouso eterno, nos +cemiterios, mórmente se é manhã, e as aves chilriam, e estremecem +nas hervagens as gotas d'orvalho, e um raio de sol nascente doira uma cruz! + +Graça Strech sentiu-se subitamente soccorrido por essa triste suavidade +que a vista dos tumulos infiltra aos desgraçados. + +Longo tempo esteve ali, ajoelhado, conversando com os trez comoros os +seus segredos de cinco annos. No que estava florescido, curvou-se como +se quizesse falar para dentro. Conjecturava que seria o d'Augusta. +N'essa hypothese lhe contou as suas desventuras, os seus amores, os +sacrificios de Rosina, o destino que dera ao annel, a afflictiva +incerteza em que estava, a ancia que tinha de beijar seu filho, de +encontrar Rosina... Juntou lagrimas de saudade a palavras de perdão, +queixumes de animo attribulado a hymnos de confiança em Deus... + +Não lhe havia dado tempo a sua trabalhada e desventurosa mocidade para +erguer o espirito acima das coisas terrenas das preoccupações humanas. + +Pela primeira vez subiu até onde os fulgores da divindade enchugam as +lagrimas da oração. Muito acima do mundo deve ser, porque já se não ouve +então o tumultuar da humanidade, e porque já ahi chovem os balsamos da +resignação sobre a alma angustiada. + +Ninguem diria que estava ali o soldado, o leão dos combates. Nada ali +falava de vingança, nem mesmo a supposta sepultura d'Augusta. Nada se +sabia do mundo, d'aquella porta de ferro a dentro. Todavia alguma coisa +julgou ouvir a alma de Graça Strech. Eram palavras intradusiveis que as +hervagens ciciavam, brandamente agitadas pela viração matutina. Sem +comprehender as palavras, entrou-lhe ao espirito o pensamento d'ellas. +Era a divina esperança do _post tenebras spero lucem_, de Job, e ao +mesmo tempo o _Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini_, do +salterio. + +Graça Strech interpretou assim esses fugitivos murmurios que soavam +sobre a campa da sua irmã. Trouxe do cemiterio a certeza de que depois +das trevas da vida veria luzir o sol da felicidade perpetua, e de que +não morreria sem ter tempo de narrar as obras do Senhor. + +Isto equivalia á resignada esperança de não succumbir á sua desgraça sem +saber o destino de Rosina e seu filho. + +Adquirira ali a certeza de que a alma d'Augusta abençoara do ceu a +criança cuja mãe possuia o seu annel. Levantou-se. Arrancou as +parietarias que marinhavam pelo muro proximo, e esparziu-as sobre os +trez comoros. + +--Se ahi estaes, minhas doces amigas--pensou elle--recebei o primeiro e +unico testemunho de saudade que ainda vos manda o mundo esquecido de +vós. Pedi por mim, e pela familia que me resta na terra, se Deus m'a +tiver conservado. São tambem vossos pelo coração. Adeus, abençoadas +sejaes no céu pelo conforto que me destes. + +E saíu do cemiterio, caminho do rio Douro, onde estava fundeado o navio +que n'essa tarde devia partir para um porto d'Italia. + +A essa hora, na Fonte das Virtudes, havia expansiva alegria. Um velho da +familia Cerqueira dizia a um menino da familia Brochado: + +--Vá, seu estudante, traduza-me lá a inscripção da fonte: _Fons scalet, +illustri virtutum_, etc. _Rompe aqui esta fonte..._ Vá, diga... + +--Pudera romper acolá, estando aqui o chafariz! observou grosseira e +acertadamente o menino. + +D. Izabel offerecia ao seu noivo um copinho da agua da fonte, panacea +para muitas molestias, entre as quaes as inflammações dos olhos. + +Tinha bons sentimentos: não queria marido cego. + + * * * * * + + +XVIII + +A Lenda d'Ashaverus + +Comprehende-se com que anciosa impaciencia viajaria Graça Strech. A +Italia era para elle o unico raio de sol que lhe doirava o horisonte +fechado em torno do navio. Ia ver Rosina e seu filho; agradecer a Pietro +a protecção que provavelmente a uma e outro tinha dispensado, porque +Rosina devia ser mãe havia quatro annos. A carta perdida era decerto a +boa nova da maternidade... Mas, logo o animo, vesado a tristes +phantasias, descontava esta esperança com vagos receios. Todavia a +visita ao cemiterio de Cedofeita insinuava-lhe na alma o doce calor da +fé. Queria chegar a Italia, desenganar-se. Levava ao berço do filho a +tranquillidade aprendida á beira do tumulo da irmã. A Italia! a Italia! +a terra promettida do Moyses errante! Quando appareceu em frente do +navio uma nuvem pardacenta, e a voz de _Terra_! alvoroçou a tripulação, +o coração de Graça Strech doidejou desde a alegria expansiva da criança +até á timidez receiosa da mulher. + +A Italia! O formoso sol da Italia a enxugar as lagrimas de tão longa +ausencia! A alma de Rosina Regnau a animar no desconforto, a premiar na +alegria! A alma e a voz! A liberdade do coração e da palavra! Um lar +modesto, muito modesto, pobre até, o filho a esvoaçar d'um lado para +outro, a chilriar, os cabellos loiros a brincarem-lhe em derredor da +cabeça; Rosina a viver arroubada entre os sorrisos do pae e do filho; +n'uma palavra, a felicidade que não escurece quando chega a noite; á +porta, de cabellos alvejantes, tranquillo, sentado ao sol, Pietro, o +_canta-storie_, a concertar as cordas da sua harpa, e a entoar, com a +sua voz já cançada, mas ainda sonora, a _Capuana_; fóra, o céu d'Italia, +o azul suavissimo, o sorriso da natureza, a eterna primavera +meridional! + +De repente mudava-se o quadro. + +Via uma cruz tosca, n'um cemiterio de Pescadores pendurado ao mar. +Rosina, demudada e lutuosa, chorando ao pé da cruz. Pietro, chorando ao +pé de Rosina, com a harpa silenciosa poisada diante de si. E seu filho +morto, sem o haver conhecido, sem o ter beijado sequer! + +Outras vezes sonhava com a lividez da fome nas faces de Rosina, da +criança, e de Pietro! + +A vivandeira havia levado recursos. Era a sua ração de dois annos, a +migalha do canario. Havia no 18 d'infantaria um quartel-mestre usurario. +Graça Strech fizera com elle uma transacção. O quartel-mestre ficava +recebendo durante dois annos o _prét_ por inteiro, e adiantára-lhe o +_prét_ d'um anno. Essa quantia, administrada com economia, devia durar +os dois annos. Se a campanha acabasse antes d'esse praso, o soldado +devia indemnisar o quartel-mestre, que tinha na sua mão um documento. +Mas haviam-se passado os dois annos, e outros dois. Graça Strech +escrevera muitas vezes para Napoles, como já dissémos, para obter +certeza do paradeiro de Rosina, e poder mandar mais dinheiro. De nenhum +vez obtivera resposta. Haveria acontecido alguma desgraça? Mas tambem +quem conhecia em Napoles Rosina Regnau? Bem se podiam lembrar de ir +saber ao correio. Pietro andava por fóra com a sua harpa; Rosina estava +cuidando do filho: não se lembravam. As mealhas que Pietro recolhia, e +generosamente repartia provavelmente, abastavam a alimentação dos trez. + +Em Coimbra, disséra Rosina a Graça Strech, quando elle lhe pedia que não +soffresse privações sem o avisar: + +--Se se acabar o dinheiro, eu, que posso ter voz em Italia, irei +cantando de rua em rua. Não receies por mim. Atravessei pura o exercito +francez; mãe, atravessarei destemida o povo italiano. A honra da +vivandeira é um baluarte invencivel; não deixa profanar a bandeira da +sua lealdade. + +E logo, antevendo a triste solidão da ausencia, rompeu em afflictivo +chôro. Este era o natural de Rosina: ora vivandeira, ora mulher. Logo em +principio o dissémos. + +Apesar da cega confiança que Graça Strech devia ao amor de Rosina, não +era a sua alma, quanto mais se avisinhava da Italia, estranha ao +ciume. No paiz dos amores, o ciume, _la gelosia_, respira-se com o ar. +Ciumes de que lhe ouvissem a dulcissima voz, se tivesse sido obrigada a +acompanhar com o canto os harpejos de Pietro; ciumes de que a +applaudissem, de que a vissem, de que a conhecessem. E, pensava elle, +quem ficaria olhando pela criança emquanto a mãe andasse por fóra? +Alguma mulher estranha, que não a acariciaria se chorasse, que não a +agasalharia quando tivesse frio, que lhe não responderia meigamente +quando perguntasse pela mãe... + +Chegado que fôsse a Italia, procuraria, noite e dia, sem descanço, sem +tregua, e encontral-os-ia, e diria a Rosina: «Fica tu ao pé de nosso +filho, que eu vou trabalhar», e a Pietro: «Continua a ser o guarda dos +dois, que eu velarei pela tua velhice.» + +E alternava risos com lagrimas, e agora falava e logo emmudecia, com as +mãos firmadas no bordo da amurada e os olhos cravados na nuvem do +horisonte, que se ia aclarando cada vez mais, conhecendo-se já, sobre o +azul do céo, os contornos irregulares da cidade. + +O capitão esteve-o medindo com o olhar ao lado d'um passageiro que +durante a viagem tinha conversado algumas vezes com Strech. + +--Nunca vi tamanha commoção! disse o capitão ao passageiro. Receio +d'esta alegria em homem costumado aos alvoroços de guerra. + +--Elle vinha ancioso de chegar a Italia, retrucou o passageiro. O mais +que me disse foi que, tendo feito a campanha, vinha, doente e cançado, +procurar a Italia uma irmã, de quem, pela invasão de Portugal! fôra +obrigado a separar-se. + +--Muito a deve estimar então! ponderou o maritimo. + +E, aproximando-se de Graça Strech, disse-lhe affavelmente: + +--O sr. Strech morria-se por vêr Italia. Ahi a tem agora. + +--É verdade, respondeu exaltado Graça Strech. É verdade... A ancia de +chegar... a incerteza... tudo isto... Eu não estava costumado a estas +sensações... Por que emfim tudo hoje depende para mim de Italia... Ó +senhor capitão, quanto tempo gastaremos ainda?... + +O capitão, sem responder, achegou-se do outro passageiro e segredou-lhe: + +--Eu não lhe dizia? Nunca vi tamanha commocção! Queira Deus que não vá +louco... + +Ah! o capitão entendia do mar; do coração, não. Chamava loucura áquillo! +A desvairada oscillação da alma que pende entre um longo passado de +trevas e a unica esperança que lhe entreluz no céo do porvir! É louco o +naufrago que, baldeado entre os vagalhões do oceano infrene, se abraça +com a prancha que lhe é dado alcançar, e que ou morrerá cuspido contra +os fraguedos ou fluctuará por mercê da Providencia até que surja a véla +branca, que é a bandeira da paz nas luctas com o mar? É louco o +caminheiro que se transviou ao anoitecer e sorri de alegria á estrella +da manhã, ainda que tenha de retrocecer para continuar jornada? É louco +o doente que se felicita de haver acordado d'um pesadello horrivel, +esquecendo-se de que, d'ahi a horas talvez, sobrevirá o sombrio +pesadello de que não se acorda mais--a morte? + +O coração tem as tempestades e as calmarias do mar, é certo, os +murmurios e os segredos das aguas, mas o fundo do coração não está ainda +tão estudado como o fundo do oceano. A sondagem mente muitas vezes. Quem +já logrou medir a profundeza de certas dôres? + +Tinha soado a hora do desengano ou da felicidade. + +Graça Strech estava finalmente em Italia. + +Começou desde logo a procurar, a procurar. Correu todo o reino de +Napoles--Napoleão puzera reis em toda a parte--a pedir informações d'um +velho tocador de harpa, que se chamava Pietro, d'uma rapariga franceza +chamada Rosina Regnau e d'uma creança, que devia ter quatro annos, e era +filha da rapariga franceza. Ninguem respondia. Quem em Napoles, o paiz +da musica, havia d'estremar um _sonatóre di arpa_? Acudia +afflictivamente Graça Strech a fazer o retrato do velho Pietro para +auxiliar a memoria dos interrogados. Harpistas velhos havia tantos, uns +que viviam em Napoles, outros que passavam por lá, que por fim de contas +a população lembrava-se de todos e não se lembrava de nenhum. A +declaração de chamar-se Pietro nada aproveitava. Ninguem se importa com +o nome dos menestreis das ruas, mórmente quando todos os musicos +ambulantes parece chamarem-se Pietros. Rapariga franceza ninguem dizia +tel-a visto, e depois acrescentavam que talvez lá houvesse estado, sem +fazerem reparo n'ella, porque os francezes sempre foram tão vulgares em +Italia como os italianos em França, por isso que a natureza pôz entre as +duas nações a ponte granitica dos Alpes. + +Graça Strech percorreu vertiginosamente todas as estalagens, todos os +albergues, recolheu informações particulares e officiaes, e não soube nada. + +Disseram-lhe que talvez o harpista houvesse passado, como é costume +d'elles, a outras cidades d'Italia, por isso que a concorrencia os +afugenta de Napoles. + +Acceitou o alvitre. Visitou em seguida o reino da Etruria, procurou sem +descançar, como um cão que perdeu o faro de seu dono. Uma tarde, em +Piombino um albergueiro pareceu recordar-se d'um harpista velho que ali +pernoitára havia um anno com uma criança que lhe chamava avô. Vira só o +velho e a criança. De mulher franceza que os acompanhasse, não tinha +reminiscencia. Fizera reparo nos dois, pelo contraste. O velho passára a +noite á lareira com a criança adormecida nos braços, afagando-lhe os +cabellos loiros, cobertos pelos seus cabellos brancos, sem dizer uma +palavra. Comeu pouco e bebera menos. Pela manhã saíra com a harpa e a +criança. Aqui está o que o albergueiro de Piombino dissera, +acrescentando unicamente: Quando elle sahia, perguntei-lhe que rumo +levava, porque realmente o harpista me fez pena. + +O velho respondeu: + +--Vamos correr esse reino d'Italia, á mercê de Deus. Bem vê que é +preciso trabalhar: somos duas boccas, e só temos dois braços--são os +meus que já pouco podem. + +A historia do velho e da criança fez profunda impressão no animo +attribulado de Graça Strech. Perdeu-se em conjecturas. Seria Pietro? +Haveria morrido Rosina? O estalajadeiro não soube dizer-lhe o nome do +harpista. Sobretudo, a ideia da morte de Rosina enlouqueceu-o de dôr. +Seria possivel que ella morresse sem o ver, sem o ouvir, sem lhe fallar, +ella, que tinha tanta coragem, que devia resistir energicamente á morte, +porque a morte era a separação eterna? Aquella criança seria +realmente seu filho, e viveria no mundo sem pae nem mãe, apenas confiado +á protecção do pobre harpista napolitano, cuja velhice e trabalhos em +breve o prostrariam, se era que ainda vivia a essa hora? E se elle já +tivesse morrido, que seria da criança na infantil inconsciencia dos seus +quatro annos, que tantos devia ter a ser seu filho? Morreria enregelada +no caminho, morreria de fome entre duas arvores, no meio da serra, ou +então haver-lhe-ia estalado o pequeno coração depois de haver estado a +gritar para que acudissem ao avô, que caíra ao chão e ficára esmagado +pela harpa, sem falar mais, sem responder ao seu afflictivo chamar. + +O albergueiro começou a notar extraordinaria agitação na physionomia do +hospede. Viu encovarem-se-lhes os olhos, e estremecerem-lhe os musculos +das faces cadavericas pela magreza e pela lividez. Em breve as +contracções nervosas se estenderam a todo o corpo. O caminheiro começou +a tremer, a tremer. Trouxeram roupa, cobriram-n'o. Pediram-lhe que se +deitasse; recusou. Esteve assim longo tempo, tremendo, frio como o gelo. +Depois, como o peso da roupa fosse muito, começou a córar e a suar. +Dizia palavras que ninguem entendia. Aprumou-se de subito, sacudiu a +roupa. Foi direito á sua maleta, desafivelou-a e tirou de dentro... a +guitarra. Começou a tangel-a febrilmente. A gente da pousada +entreolhava-se com pasmo. E cada vez as notas se precipitavam com maior +rapidez, até que, inesperadamente, a musica foi afrouxando, parecendo +unicamente suspirar. Viram chorar o desconhecido, circumvagar um olhar +alheiado, e arrancar da sua guitarra apenas gemidos e suspiros dolorosos. + +Tornaram a dizer-lhe que era melhor descançar. Recusou com pertinacia. + +--Peço que me deixem ficar aqui, disse elle pausadamente para que o +comprehendessem. + +Não queriam consentir; elle insistiu. + +Ouviram ainda por algum tempo suspirar a guitarra, que depois se calou. +Foram espreital-o: viram-n'o com a cabeça poisada sobre ella. Estava +assim, mas não dormia; d'instante a instante viam-n'o estremecer. Ao +romper da manhã saíu. Mal se podia aguentar a pé. Pediram-lhe que +ficasse para se restabelecer; agradeceu e partiu. Continuou, posto que +debilitado, a sua peregrinação indefessa. + +--Eu já não viveria, dizia elle ás vezes, se não tivesse ido ao +cemiterio de Cedofeita buscar esta sombra de fé que me ampara ainda! + +E lá ia, descançando uma hora, caminhando duas. + +Esteve em Turim. Perguntou, investigou, não soube nada. Como para crear +alento, que lhe permittisse seguir jornada, sentava-se nas praças +publicas a tocar na sua guitarra. O povo fazia-lhe circulo. Elle não +levantava os olhos emquanto estava tocando, excepto se ouvia falar +alguma criança. Algumas vezes lhe chamavam louco, porque lhe lançavam +dinheiro ao regaço, e elle não agradecia. Era o idiotismo da desgraça. +Estava pobre, gastára quanto levára comsigo nos primeiros tempos da +peregrinação. Se não fosse a guitarra, morreria de fome. Pouco lhe +importava a vida sem Rosina e seu filho. Se não se matava, era porque +tinha ainda um resto de fé que o amparava. + +Foi a Milão. A mesma canceira: perguntar, sempre perguntar. Inquiria +todos os harpistas: nenhum lhe soube dar noticias do velho Pietro. + +--Em Italia não estão! dizia elle. Tenho a certeza, não ha recanto que +eu não tenha batido. + +Atravessou a Suissa sem melhor resultado. + +Uma noite sonhou com as Ardennas: era a patria de Rosina. Lembrou-se de +que viveriam lá na supposição de que elle, se fosse vivo, logo atinaria, +por impulso do coração, com o esconderijo que haviam procurado. Passou a +França: foi direito ás Ardennas. Quasi se sentiu morrer diante d'aquelle +paiz de florestas. Ali havia nascido Rosina. Como ella o devia amar para +se esquecer do seu formoso ninho! Consultou todas as arvores, bateu a +todas as portas. De Rosina Regnau ninguem se lembrava; Pietro, o velho +_sonatóre_, ninguem o vira. Graça Strech esteve ali muito tempo: havia +já tanto que saíra de Portugal! Teve tentaçoes de se deixar morrer nas +Ardennas. Queria respirar ao morrer o ar que Rosina respirára ao nascer. +Chegou a pedir a Deus que lhe désse por tumulo o berço d'ella. Mas, +emquanto orava parecia fortalecer-se a sua fé. + +Resignou-se a partir. Recomeçou a caminhar. Ia no fim o anno de 1816. +Disseram-lhe no caminho que no inverno se reuniam em Pariz todos os +musicos ambulantes. Para lá foi com a sua guitarra. Effectivamente o +enxame dos _virtuosi_ enchia os cafés, as praças e as ruas. Á porta dos +theatros havia todas as noites uma nuvem d'elles. + +A este tempo reinava em França Luiz XVIII. Napoleão, não podendo +resistir á colligação das potencias alliadas, abdicou o imperio em +Fontainebleau, retirando á ilha d'Elba. + +O congresso de Vienna havia regulado os negocios da Europa; sem embargo, +Napoleão sonhava ainda com voltar a França. Em março de 1815 desembarcou +em Cannes e entrou em Pariz. Pôde ainda vencer em Charleroy e Fleurus, +mas a hora solemne de Waterloo bateu no relogio que marca a existencia +de vencedores e vencidos, e Themistocles teve de pedir hospitalidade a +Artaxerxes. + +Graça Strech ia caminhando e ouvindo as vozes do povo. Quando soube do +resultado de Waterloo, disse de si para si: + +--A Providencia é justa. A minha familia não precisava da minha +vingança, porque a Providencia se encarregou de punir o assassinio de +todas as mulheres, de todos os velhos e de todas as crianças. Ora a +justiça da Providencia não deixará de me aclarar o mysterio que eu +procuro desvendar ha tanto tempo. Deus sabe se tenho forças para mais! + +Pouco antes de chegar a Pariz viu passar uma carruagem seguida por uma +ordenança. + +Perguntou quem era. Responderam-lhe: + +--É o duque de Richelieu, ministro de Luiz XVIII. + +Elle contestou serenamente: + +--Se fosse no tempo de Napoleão, ia um esquadrão de cavallaria atraz da +carruagem. Napoleão mandava exercitos atraz de toda a gente. + +Dizia isto como um homem que se entre-lembra vagamente das coisas do +mundo. Passou a carruagem do duque de Richelieu, e elle logo se esqueceu +da França para se recordar da missão em que ia consumindo baldadamente a +vida. + +--Vamos com Deus, e com a pobre guitarra! E seguiu para Pariz. + + * * * * * + + +XIX + +A terra da promissão + +Graça Strech chegou a Pariz no inverno de 1816. + +Estavam n'essa occasião agglomeradas na capital da França as andorinhas +errantes da musica das ruas, que todos os annos saem do vasto ninho da +Italia, a percorrer a Europa inteira. De todos os _virtuosi_ que n'essa +occasião poisavam em Pariz, apenas cinco ou seis seriam francezes, e um +só era portuguez, Graça Strech. + +A guitarra, melancolicamente tangida por elle, cuja dolorosa physionomia +não era menos melancolica do que a sua guitarra, despertava geral +attenção. Acrescia a circumstancia de que esse instrumento não era dos +mais conhecidos na orchestra dos musicos ambulantes. Tudo isso concorreu +para o éxito. Graça Strech tinha sombrios alheamentos emquanto estava +tocando. Caíam-lhe em desalinho os cabellos a esconder a fronte pallida +e cadaverica. Era uma bella cabeça d'artista em que muitos pintores +fizeram reparo. Um estudante d'esculptura chegou a convidal-o para +modelar-lhe o busto. + +Graça Strech respondeu: + +--Agradeço a sua amabilidade, senhor. Mas eu sinto-me de tal modo +cançado, que não póde ser longa a minha vida. O senhor é muito moço +ainda; póde esperar. Se eu morrer em Pariz, aproveite a minha mascara. + +A imprevista sobranceria d'esta resposta causou sensação. Passou de +bocca em bocca, e os homens d'espirito começaram a olhar com certo +interesse respeitoso para o guitarrista estrangeiro. Uma noite, no café +_Evezard_, á esquina do Palais National, estavam sobremodo animadas as +mesas quando Graça Strech entrou. Encostou-se á ombreira da porta e +começou tangendo a guitarra. Como não pedia esmola, interrompia-se a +miudo para receber os óbolos que lhe davam os _habitués_ que entravam e +saíam. + +Na primeira mesa á entrada estavam oito francezes, todos rapazes mais ou +menos artistas, que se calaram a ouvir attentamente o guitarrista, tanto +mais que já o conheciam de nome. Como fixassem a vista em Graça Strech, +e falassem visivelmente a seu respeito, procurou elle ouvir, dando-se o +maximo disfarce, tudo quanto diziam. + +--É assombroso! exclamava um, cuja pallidez denunciava uma cabeça +febrilmente enthusiasta. + +--Depois da pequena da harpa que esteve o anno passado em Pariz com o +velho das barbas brancas, ainda não vi maior prodigio! acrescentou um +cuja physionomia denunciava um caracter franco e compassivo. + +--Que pequena era essa? perguntou no grupo um _commis-voyageur_. + +--Era uma pequenita que parecia um passarinho encostado a uma harpa. +Acompanhava-a um velho de cabellos brancos, a quem chamava avô, e que +lhe transportava a harpa. Impressionava o contraste. Seria difficil +dizer qual d'elles poderia melhor com a harpa, se o avô ou a neta. Elle +tinha tanto de velho como ella de pequenina. E depois que tristeza dava +o vêl-a vestidinha de preto! Perguntava-se-lhe por quem andava de +luto:--Por meu pae e por minha mãe--respondia ella com certa vivacidade +triste, que enternecia a lagrimas. Tu copiaste o grupo, pois não +copiaste, ó Maubert? + +--Copiei, respondeu o pallido rapaz que primeiro falava, e que parecia +absorto na contemplação do guitarrista. + +--Sabes então mais alguma coisa a respeito da pequena e do velho? + +--Pouco mais sei. O avô parecia empenhado em não contar nada. Nem o +encanto do mysterio lhes faltava, a elles, áquelle soberbo inverno +coberto de neves e áquella infantil primavera que parecia vegetar no +gelo do avô! Quando lhes perguntei os nomes para intitular os bustos, +respondeu-me o velho:--Queira pôr--_Pietro, sonatóre di arpa; Augusta, +sonatrice, lá piccola, nipotina mia._--Fiquei triste com a mysteriosa +singelesa da resposta. Previ um romance. Que querem? A doida da minha +phantasia! Apertei com o velho, fiz-lhe promessas para que me +contasse a sua. Não consegui nada. Lá partiram ambos para Inglaterra. + +--Olha para o guitarrista! exclamou o de mais compassiva physionomia. + +Olharam todos. Graça Strech estava sendo inconscientemente o alvo de +todas as attenções. Havia-lhe descaido o braço; subitamente a guitarra +emmudecera; os cabellos do guitarrista, longos e annelados, +acompanhavam, pendidos a um lado, a inclinação da fronte, e os olhos +brilhavam através dos cabellos com anciosa vivacidade. Era inutil +dissimular: Graça Strech estava ouvindo o que diziam na mesa proxima. + +--Escuta o que nós dizemos! ponderou o que estivera contando a historia +do velho e da criança. + +--É verdade! + +--Não se póde duvidar! + +--Lá começa a dedilhar de novo... Deu tino de que fisemos reparo. Toca +_pianissimo_ para ouvir o mais que dissermos. + +--É certo! _Che dolcemente!_ + +--Que terá elle comnosco? + +--Talvez não seja comnosco; talvez seja com o velho e a creança, +apostrophou o _habitué_-artista. + +--Ora, essa cabeça! Tu encontras romances em toda a parte. + +--Espera! tornou observando o esculptor. Ia jurar que os olhos d'este +homem são os da pequenita! Que semelhança! + +--Oh! oh! continua o romance! Esse molde de novellas é velho, Maubert! +D'esta vez o pae, que era julgado morto, não volta da Terra Santa. Corre +atraz da filha, que ao partir para o combate entregára ao avô. Tem-n'a +procurado e não sabe onde pára. És tu, Maubert, que vaes desfazer o +mysterio. A Providencia encarregou-te de dizeres: _Pára!_ ao Ashaverus +do nosso seculo! Oh! oh! + +E os outros gargalharam em côro: + +--Oh! oh! + +--És tu que vaes mostrar ao Moyses da guitarra a Terra da Promissão! +disse um. + +--Que elle nos está ouvindo é certo, porque todos repararam! exclamou o +de mais dôce semblante. E talvez seja algum desgraçado. Este mundo dos +_virtuosi_ das ruas tem tantos mysterios! Atravessam Paris no +inverno e a gente ouve-lhes a musica sem lhes vêr a alma. Alguns d'elles +parecem conversar com a harpa e com o violino: é porque teem que lhes +dizer. Decerto que não são alegrias. Póde ser alegre quem atravessa os +Alpes a pé, e dorme para ahi em qualquer canto, e vae correr a Europa +inteira unicamente fiado na agilidade dos seus dedos e na obediencia das +cordas? Creio que não. Parecem despreoccupados, parecem, porque emfim +elles teem das aves alguma coisa: as azas pelo menos. Rouba o filho a um +passarinho, que elle, com o coração despedaçado, tambem esvoaça em redor +do ninho vasio. Pensam vocês que nem ao menos lhes ha de doêr a +ausencia? _La rimembránza_, meus amigos, _la rimembránza_ chora muita +vez nas harpas d'elles. Oh! eu creio-o! E nós, apesar de nos deliciarem +os ouvidos, olhamol-os indifferentemente. No inverno dizemos: _Cá +estão!_ Quando chega a primavera exclamamos: _Lá fôram!_ + +--Tu pendes mais para o sentimentalismo, Guillibaud. Maubert prefere a +phantasia e o maravilhoso. + +--Olha! lá está ouvindo o guitarrista outra vez! + +--É notavel! Que curiosidade! + +De repente interromperam-se os commentarios. Graça Strech aproximou-se +de Maubert pedindo-lhe o obsequio de lhe dispensar dois minutos +d'attenção em particular. Havia no seu olhar, nos gestos, na voz, tão +claros indicios de grande agitação, que Maubert immediatamente se +levantou. Os outros, enquanto os dois sahiam a porta do botequim, +ficáram dizendo: + +--Este Maubert é um bibliotheca viva d'aventuras. + +--Deixa lá, observára condoídamente Guillibaud. A julgar pelo aspecto do +guitarrista, o caso afigura-se-me grave d'esta vez. Talvez seja um +romance triste... + +--Se tu não havias de vir com o teu sentimentalismo! + +--És melancholico como uma lagrima! + +--Que não seja de vinho... + +--Tens razão: as lagrimas de vinho alegram. + +--São ellas de certo que vos dão essa continada alegria! disse com +enfado Guillibaud. + +O leitor está porém impaciente de seguir Graça Strech e Maubert. +Vamos-lhes pois na piugada. + +Mal sahiram a porta, o guitarrista dirigiu-se immediatamente ao +esculptor em correcto francez: + +--Peço-lhe vivamente perdão, senhor, de o haver privado da companhia dos +seus amigos, mas o que o senhor estava dizendo era tão extraordinario +para mim... + +--Ouvia-nos então? perguntou Maubert. + +--Ouvi tudo, e incommodei-o unicamente para lhe pedir, não que me mostre +a Terra da Promissão, como jovialmente disseram os seus amigos, mas, +quasi o mesmo para mim, que me mostre os bustos do avô e da neta... + +--Oh! isso é muito facil. Estamos a dois passos do meu _atelier_. Vamos +lá--respondeu o enthusiasta Maubert. + +Foram. Graça Strech ia concentrado, e cada vez estugava mais o passo; +Maubert observava-o de esguelha e começava a achar summamente +extraordinario aquelle homem, de quem se principiava a falar. + +Era perto o _atelier_. Entraram. Graça Strech precedia Maubert, tamanha +era a sua impaciencia. + +--Aqui estão! disse o esculptor. + +Graça Strech, relanceando aos dois bustos um olhar rapido e incisivo, +vibrou um grito, ao mesmo tempo doloroso e alegre, e, apontando para o +do velho, exclamou: + +--É elle, é Pietro! + +Depois, demorando os olhos no busto da pequenita, deixou escapar outro +grito que parecia o magoado estalar de todas as cordas da alma: + +--É minha filha! Não póde deixar de ser! Ca está: _Augusta, sonatrice, +la piccola!_ Chama-se Augusta! Comprehendo tudo. Rosina morreu, sim, já +me não póde restar duvida alguma. É horrivel! Morreu! E pôde morrer sem +esperar por mim! Pobresinha! Poz á filha o nome de minha irmã. Era uma +surpreza que me queria fazer, e fez, realmente, mas que triste surpreza, +sr. Maubert, que desgraça esta! Olhe, aquella pequena é minha filha. O +senhor é artista... Veja que bonito perfil aquelle... Por isso foi que o +senhor a modelou, pois não foi? Sim, é muito bonita! Disse então que +andava vestidinha de preto? É pela mãe! Pobre Rosina! Oh! eu não +creio ainda que tu morresses, tu, que tinhas tanta coragem, tanta! Onde +está minha filha, senhor? Aquella não fala! Eu quero ver minha filha, +abraçal-a, beijal-a. Deixe-me beijal-a, sim, deixe-me enganar. Bem póde +ser que tambem a morte já m'a tenha levado, e por isso deixe saciar-se +de beijos este pobre coração ha tanto tempo opprimido. Olhe que gentil +cabeça! Que semelhança com minha irmã! É estar a vel-a, quando +brincavamos ambos e faziamos endoidecer o capelão das Chãs. Sim, o +senhor já me restituiu minha filha, mas Rosina, a minha vida, o meu +amor, que é d'ella, por que não a modelou o senhor para que eu a pudesse +beijar agora! + +E, com o busto da pequenita apertado contra o coração, pareceu oscillar. + +Maubert, que escutava commovido da enormidade d'aquella dôr, e perplexo, +porque não possuia todo o segredo d'esse homem, acudiu a amparal-o. + +--Ah! não me roube a sua obra! exclamou Graça Strech apertando o busto +cada vez mais contra o coração, que pulsava vertiginosamente. Não m'a +roube. Dou-lhe tudo, a minha guitarra, a minha vida, mas não me arranque +a felicidade que me deu. Isto não é um pedaço de gesso inanimado, que o +senhor modelou. Não, isto é minha filha, a minha querida filha, a Terra +Prometida... + +E, fazendo esforço para tirar a voz que lhe faltava, acrescentou: + +--Disse o senhor que o avô e a neta foram para Inglaterra, pois não +disse? Bem, vou atras d'elles. Por França não tornaram a passar, ninguem +mais os viu? De Inglaterra só poderiam saír embarcados. Não é provavel. +Estamos no inverno. É a estação dos musicos. Hei de encontrál-os lá. Hei +de ver minha filha, beijal-a doidamente, percebe? doidamente, e +perguntar-lhe onde é a sepultura de sua mãe. Quero ir lá com ella, e com +Pietro. Parece-me que ainda posso dar vida a Rosina! Pois ella ha de +deixar-se ficar fria e calada, sabendo que eu estou ali, apenas separado +por uma camada de terra?! Está morta? Que me importa a mim! Isso não +póde ser obstaculo para o meu amor, para este longo amor de sete annos, +que não póde acabar assim, que deve durar mais do que a vida... + +Maubert começava a receiar pelo guitarrista, que ficou sopitado em +demorada prostração. Piedosamente o soccorreu, e quando Graça Strech +tornou em si viu o esculptor curvado carinhosamente para elle. + +--Muito obrigado! disse com voz flebil Strech. Muito obrigado! Ah! aqui +está o busto de minha filha!... + +--Que é seu, observou Maubert. + +--Sim, o senhor, que é bom, que é nobre, que tem coração e talento, não +podia negar esta felicidade a um pae! + +--Agora, tornou Maubert, é partir para Londres. Para isso basta +atravessar o canal. Está prevenido? A minha bolsa d'artista tem ainda +para estas larguezas. Está á sua disposição o preciso para tão pequena +viagem. + +--Muito obrigado, senhor, e acceito. Aqui está o que eu tenho de meu: +deu-m'o, como o senhor viu, quem entrava e sahia do _Evezard_. Eu não +pedia, porque não era mendigo: era simplesmente um pae que ha dois annos +procurava por toda a parte a sua familia. Conheciam a minha pobreza: +davam-me alguma coisa, eu acceitava, porque em verdade era pobre. Agora +não, agora não sou, porque finalmente achei o rasto de minha filha! Não +encontro Rosina, porque a sepultura m'a roubou, mas ainda me parece que +a hei de resuscitar, porque o meu amor, este amor que ainda me conserva +a vida, deve realisar todos os prodigios. + +O mais que se passou entre o guitarrista e Maubert não nos importa saber. + +Graça Strech embarcou ao outro dia para Londres. O que se passaria na +sua alma é facil de adivinhar: era o que ahi ha de mais pungente doer da +saudade á mistura com o mais avido phrenesi da anciedade; era o +supplicio atroz da alma que lucta com o irreparavel no ante-gosto d'uma +felicidade orvalhada de lagrimas. + +É preciso que um coração esteja muito retemperado pelo soffrimento para +luctar, sem succumbir, com tão violentos contrastes, tão oppostos +extremos, tão desencadeadas tormentas. Elle resistiu, porque havia sete +annos que soffria o mais que podem soffrer homens. + +Chegou a Londres. + +Era, como sabemos, o inverno. + +Fluctuava pelas ruas e pelos _cafés_ uma colonia de _virtuosi_. Gastou +um dia, gastou dois, sem encontrar quem procurava. Ao terceiro, viu +muita gente reunida n'uma praça. Estavam ouvindo uma harpa. + +Logo um presentimento lhe alvoroçou o coração. Parou de subito, antes de +romper o circulo, porque uma dôr, cruciante como o queimar de um ferro +em braza, lhe atravessára o peito. Receiou morrer. Fez porém um esforço, +que devia tel-o prostrado a não ser ainda aquella a hora de avistar a +Terra da Promissão. Apartou febrilmente o grupo, relanceou por sobre as +cabeças um olhar d'aguia, e com um só grito fez emmudecer a harpa e +affastar a gente que rodeiava a harpista. + +Um homem de meia edade, que não era decerto Pietro segurava a harpa, +tangida por uma pequenita vestidinha de preto. + +Era o mesmo perfil do busto;--assim devera ser Augusta aos seis annos. +Faltava, para completar o grupo de Maubert, o original do outro busto: +faltava apenas Pietro. + +Graça Strech arrebatou nos braços a criança. Beijou-a, abraçou-a, +acariciou-a delirantemente, soffregamente, doidamente. + +E por entre beijos e abraços repetia, sorrindo e chorando: + +--Sou teu pae! Eu sou teu pae! Acredita-me, Augusta; bem sei que te +chamas Augusta. + +A criança tremia-lhe nos braços como um passarinho que se sente +comprimido, e procurava furtar as faces aos beijos ardentes do +desconhecido. + +--Pietro, filha, onde está Pietro? + +A pequenita, ouvindo pronunciar este nome, olhou attenta no guitarrista, +e respondeu com os olhos subitamente marejados de lagrimas, dando uma +suave expressão de magua ao dialecto napolitano; + +--Morreu! Elle morreu. Tu é que talvez sejas meu pae, porque dizia o avô... + +--Que dizia o avô, filha? perguntou anciosamente Graça Strech. + +--Que meu pae tinha dado a minha mãe, _mia madre poverella_, um presente +para mim, e que se elle não tivesse morrido, como nós julgavamos, tu me +conhecerias por esse presente. Se sabes o que é, então és meu +pae; dá-me muitos beijos que eu consinto. + +É o annel, filha! Ah! é o annel que eu dei a tua mãe. + +Isso mesmo! disse a criança sorrindo d'alegria. Elle aqui está... + +E tirou do seio uma saquinha, pendente do pescoço, onde guardava o annel. + +Trago-o aqui. Sou ainda muito pequinina, _padre mio_, para o trazer no +dedo. + +O povo, que tinha seguido todo este episodio, olhou-se admirado quando +viu a pequenita tirar do seio a saquinha, e mostrar o annel. + +Era que para o publico, como para Rosina, aquelle annel tinha mysterio. + +Graça Strech de novo colheu a filha nos braços, de novo a beijou com os +olhos razos de lagrimas, mas a pequenita, soltando-se com vivacidade, +disse para o homem que segurava a harpa: + +Vamos lá, Giovanni, vamos com meu pae, que não morreu! + + * * * * * + + +XX + +O manuscripto de Pietro + +Pietro morrera um anno antes, em Londres, logo depois que de Pariz +passára a Inglaterra. Acamou, no miseravel albergue em que se hospedára +com a pequenita, victima d'uma febre aguda. Ás primeiras horas de leito +conhecera que era chegado o termo da sua vida. Antes que estivesse +impossibilitado de raciocinar e falar, mandou chamar Giovanni, um antigo +conhecido, em quem depositava confiança e, não sem difficuldade, porque +já a cabeça começava a pesar para a sepultura e o cerebro a +escurentar-se com as trevas da morte, lhe disse: + +--Giovanni, tu és um homem de bem e, diga-se a verdade, inimigo de +trabalhar. Tens vivido sempre em companhia de musicos que te dão alguma +coisa porque tu lhes carregas com as harpas e os realejos. Ora, meu +amigo, é chegada a occasião de fazermos um negocio e, nota bem, o ultimo. + +--Ora deixa-te de tolices! + +--Não são tolices, Giovanni; bem vês que já me custa falar. Não posso +perder tempo. Portanto, ouve-me com attenção. A minha hora chegou e +pouco me importaria morrer se não tivesse uma neta... + +--Uma neta! Tu! Só te conheci um filho, que morreu pequeno em Portugal. + +--Isso é um segredo que te não deve importar. Essa criança que ahi está +fóra é mais minha neta do que se fosse filha de meu filho. Comprehendes +que morrendo tu, vae ella, coitadinha! ficar para ahi desamparada. Isso +é justamente o que eu não quero. Sabes que a pequena tem talento... + +--Isso tem! respondeu Giovanni. + +--Aprendeu tudo quanto eu lhe ensinei--acrescentou pausadamente +Pietro--e já sabe mais do que aprendeu. Deus nunca desampara os +desgraçados! O talento foi o patrimonio com que Deus dotou a +minha neta. Mas olha que é um capital cujo rendimento chegava bem para +nós dois! A pequenita bastava-lhe roçar com as azas pelas cordas: logo +sahia musica. Ora a nossa sociedade artistica vae dissolver-se. Da morte +não se appella. Um dos socios, o gerente, retira-se para a... +eternidade. Fica o outro, que por ser de menor edade não tem ainda +credito na praça. É preciso que tu, homem de bem, substituas o socio que +se retira, e entres apenas com a tua edade e com a tua experiencia. A +tua missão cifra-se em acompanhar a avesinha, e defendel-a das ciladas +do mundo. Nota, porém, que te corre obrigação de não traíres a confiança +que um amigo moribundo deposita em ti. Jura-me pela tua honra que serás +exacto como tens sido até hoje... + +--Juro, disse com firmeza e commoção Giovanni. + +--Muito bem. Logo que eu morra, olha tu pela pequena, que fica sendo +agora tua neta. Mas ouve ainda, Giovanni, mas ouve-me bem. Eu supponho e +e com boas razões, que o pae d'essa infeliz menina, morreu. Tudo me leva +a crêl-o. Se algum dia, porém, e Deus o permitta! o pae d'ella +apparecer, dize-lhe que te nomeie o objecto pelo qual elle ha de +reconhecer a filha: é um annel que ella traz n'uma saquinha ao pescoço. +De mim não quero que lhe digas nada, porque n'este papel, que lhe +entregarás, caso o pae da menina não tenha morrido, deixo explicado o +mais que tinha a dizer. Se elle não surgir do tumulo a reclamar a filha, +o que é provavel, entrega esse papel a Augusta, para que ella, em edade +de o entender, saiba com que amor eu a amei. Dá tempo ao tempo. Espera +que ella cresça e pense. Tens entendido, Giovanni? Agora dá-me a tua +mão. Palavra de homem de bem? + +--Palavra e juramento, disse Giovanni com profunda commoção, e muitas +lagrimas. + +E acrescentou: + +--Vae descançado, Pietro. Tua neta, pois que assim lhe chamas, não ha de +soffrer mal algum. Eu tenho sido até hoje escravo da minha fidelidade. +Tenho andado pelo mundo atraz d'esses musicos, que afinal me não pagam. +Nasci preguiçoso, é verdade, Deus me perdôe, mas tu bem sabes que me não +pegou ainda ponta de vicio. Nem bebo nem jógo. Fumar, fumo eu, +mas isso é apenas um mau habito. Tendo pão e tabaco, estou contente. +Isso, é de sobra, dar-m'o-ha a harpa de tua neta. Agradeço a esmola, e +toda a vida serei agradecido a ti e a ella. O dinheiro que juntar eu +lh'o guardarei. Comprará uns vestidinhos, concertará a harpa, comprará +outra melhor... + +--Isso não! isso nunca! interrompeu Pietro com febril exaltação. A minha +harpa nunca ella a deixará; já lh'o disse, e ella prometteu-m'o. + +--Desculpa, Pietro, eu não pensei o que disse. Emfim comprará o que +quizer, porque todo o capital será d'ella; eu serei unicamente depositario. + +--Bem! disse Pietro prostrado de commoção. Estamos tratados para a vida +e para a morte. Agora sae por algum tempo, e manda-me cá a pequena. + +Saíu Giovanni e entrou Augusta. + +O doente esteve olhando para ella mui attentamente, e exclamou: + +--Que linda és! + +A pequetita respondeu com beijos. + +--Olha lá, Augusta,--tornou Pietro--não te esqueças da recommendação do +annel. Oh! que se tu encontrasses ainda teu pae! E d'ahi póde ser. Deus +é misericordioso. Se elle escapou á guerra, bem póde acontecer que ainda +algum dia o encontres. Deus o queira, Augusta, anjo, filha. És tão +pequenina, tão pequenina, que cada vez me pareces mais um passarinho! +Emfim eu não havia de ser eterno; muito me tem deixado Deus viver para +teu amparo. Que linda, filha, que linda! Olha... chama Giovanni, e vae +ali para fóra um momento... Tu és muito minha amiga, pois não és?... Vae +filha, vae, e chama Giovanni. + +Saiu a pequenita a cumprir a ordem. + +Giovanni abeirou-se do catre e recebeu da mão do doente os papeis em que +lhe falára. + +--Não posso mais! disse Pietro. Pesa-me tanto a cabeça! Sabe Deus +com que difficuldade tenho feito tudo isto! E--acrescentou +placidamente--para o enterro já sabes que basta avisar o consul. Nós em +toda a parte somos italianos. + +Giovanni tregeitou, e o doente deixou caír contra o travesseiro o craneo +que parecia de chumbo. Nos trez dias que se seguiram não mais tornou a +falar. Entrou em estado comatoso. Teve sempre os olhos fechados até que +a morte lh'os sellou para a eternidade. + +O consulado italiano fez o enterro: só os summamente grandes e os +summamente pequenos são enterrados á custa das nações. + +Quem soube, na colonia fluctuante dos musicos das ruas, que havia de +menos uma andorinha viajeira? + +Os outros não souberam, porque, tendo por missão voar de terra em terra, +não lhes sobra tempo para se demorarem á beira d'um tumulo. + +Soube-o o consul, e sentiam-n'o Augusta e Giovanni; ninguem mais. + +A pequenita chorou muito, muito. Giovanni confortou-a como pôde. O sol, +que é a alegria de todos os passarinhos, fez o mais. + +Começaram ambos a sua peregrinação. + +A pequenita, pobresinha! só tocava n'esses dias de pungente saudade +musicas tão tristes como a alma d'ella. Ainda assim ouviam-n'a, +achavam-lhe graça, e davam-lhe dinheiro. + +O publico, em geral, reputa felizes os que convidam á felicidade. + +E, em geral, engana-se sempre. + +Augusta sonhava quasi todas as noites com o avô. Pela manhã dizia a +Giovanni: + +--Esta noite vi-o. Lá me tornou a repetir que não perdesse o annel. + +Outras vezes: + +--O avô, Giovanni, disse-me esta noite que te recommendasse que fosses +sempre muito meu amigo. + +As recommendações de Pietro, que a pequenina ouvia em sonhos, não eram +precisas. Nem Augusta perdia o annel mysterioso, nem Giovanni se +esquecia das promessas que tinha feito. + +Elle guardava a sua palavra; ella o seu annel. + +E com esses dois thesouros se propunham correr mundo. + +Giovanni pertencia ao numero dos homens-machinas que só obedecem ao +impulso do coração; ora o coração era bom, e as obras boas sahiam, +portanto. + +Nascera, como o cão de quinta, para a ociosidade, mas, como o cão de +quinta, era fiel. + +Durante o anno que acompanhou Augusta nunca deslisou um passo do caminho +do dever. + +Ella ia adiante com o seu annel no seio; elle seguia-a com a +harpa ás costas, avisando-a sempre da aproximação dos trens e dos +cavalleiros. + +Ao cabo d'um anno surgiu do tumulo Graça Strech, para nos servirmos da +phrase de Pietro. Feito o reconhecimento, Giovanni entregou-lhe a filha +e os papeis que recebera, e diziam assim: + +MANUSCRIPTO DE PIETRO + +Estas são as minhas memorias. Dito-as para serem lidas por Augusta ou +seu pae, se é que não morreu, para esclarecimento d'algum d'elles, ou de +ambos, se Deus o permittir. + +Felizmente aprendi a escrever, e fui nos primeiros annos da minha vida +empregado n'um escriptorio. Depois morreu-me meu pae: faltou-me o leme. +Desnorteei. Troquei a penna pela harpa. Ha muitos annos que o meu +abecedario é o _do-ré-mi-fá-sol-lá-si_. Ainda assim, apesar do muito que +se soffre n'esta vida errante, agradeço a Deus o inspirar-me que fosse +musico, porque tive occasião de fazer bem. + +Finou-se de saudades em viagem a _signora_ Rosina. Era um soffrer que +fazia horror! Não havia palavras que a consolassem, musica que pudesse +distraíl-a! Viajou chorando e suspirando; os olhos nunca ninguem lh'os +viu. Quasi não comeu. Acceitava, depois de muitas instancias, uma agua +de caldo apenas. Diziamos-lhe que era um crime deixar-se morrer; então +bebia. Chegámos a Napoles, e logo a _signora_ me pediu que tratasse de +arranjar albergue, porque se sentia muito doente. Em verdade estava +muito falta de forças. Quiz escrever para Portugal, e não pôde. Mal +pegava na penna descórava muito, e entrava de sentir-se agoniada. Eu, +vendo que semelhantes esforços a estavam debilitando cada vez mais, +pedia-lhe que deixasse isso para quando estivesse melhor. Comecei a +dizer-lhe que não tinha geito metter-se em casa. Depois de repetidas +instancias, annuiu em ir commigo ao anoitecer até á beira mar. Umas +vezes voltava melhor; outras vinha mais doente. No primeiro caso, +principiava a escrever. Escrevia algumas linhas, e já estava fatigada. +No segundo, passava a noite em convulsões, e era preciso não a +desamparar até pela manhã, que só então cahia em somno. Eu ia porém +instando sempre pelos passeios. Ah! mas ver a _signora_ um mez +depois que chegámos a Napoles! Que differença! Emagreceu, descórou, +fez-se velha. Não parecia a mesma! A primeira carta que recebemos de +Portugal causou-lhe tamanha impressão, que eu julguei que morresse. Tive +realmente medo. Chorou, riu, delirou. A carta não dizia porém que o +_signor_ Strech tivesse recebido as nossas. A _signora_ inquietou-se +muito com isto. + +--Está lá sem saber nada de nós! disse-me ella. E a mim que me custa +tanto escrever! + +--Escrevo eu. + +--Nada, não quero, respondeu a _signora_. Hei de eu escrever sempre; bem +póde ser que alguma carta lhe chegue ás mãos... + +--É que o exercito é muito grande, e depois anda d'um lado para outro... +disse eu prevenindo novas commoções. + +Os soffrimentos da _signora_ havel-a-iam prostrado antes de ser mãe, se +não fosse essa carta que recebeu de Portugal. Beijava-a, relia-a, +apertava-a contra o coração; só n'aquillo achava allivio. + +Desde principios de maio de 1810 que a hora da maternidade se annunciava +para breve. Quiz--porque ella tinha o presentimento da morte--escrever +uma longa carta, que devia ter chegado a Portugal em junho, e que com +certeza não foi recebida. Essa carta, cujo conteudo ignoro, era de certo +uma despedida, o ultimo adeus da _signora_. Deixou o papel ainda sobre a +mesa, e caíu contra o leito em grandes gritos. Acudi-lhe, e disse-lhe +que não a tornaria a deixar escrever mais. + +--Não me é precisa a sua licença, meu bom Pietro! respondeu ella. + +Eu estremeci. + +Logo que serenou, fechei a carta, sem lhe poisar a vista, e fui eu mesmo +deital-a ao correio. + +No dia 22 de maio, pela manhã, chamei a locandeira, que era piedosa, +porque a _signora_ me disse que n'esse dia seria mãe. + +Soffreu doze horas. A final deu á luz uma menina. Quiz ver a filha; +mostrei-lh'a. + +--Que se chame Argusta, Pietro, que se chame Augusta, recommendou a +_signora_. + +Certifiquei-a de que esse seria o nome de sua filha. + +Cobriu o rosto com o lençol, e começou a chorar e a gemer. Por mais que +lhe dissessemos, a locandeira e eu, que procurasse socegar, não o +conseguimos. De noite delirou. Falava do _signor_, Strech, d'Augusta, de +Coimbra, do mar, do annel. A febre era muita. Estáva córada como se as +faces fossem duas rosas: Eu tinha a menina nos braços; a locandeira +amparava a _signora_. + +Pela manhã adormeceu. Acordou muito fria. Estava peior. Chamou-se o +doutor, que receitou, e disse que a _signora_ corria grande perigo. +Apesar dos remedios, não aqueceu em todo o dia. Ao fim da tarde, quando +eu estava acalentando a menina para adormecel-a, a _signora_ deu de +repente um grito, sentou-se na cama, disse que não via, tornou a dar +outro grito, e cahiu morta. + +N'essa occasião chorava a criança como se adivinhasse que estava orphã. + +Fiz um enterro decente á _signora_ Rosina, adquiri, com o auxilio do +consul, o direito de a sepultar n'uma campa perpetua e mandei-lhe pôr um +singelo epitaphio que diz: «Aqui jaz Rosina Regnau.» + +Escrevi para Portugal a dar parte do triste acontecimento, que me custou +talvez mais--Deus me perdôe!--do que a morte de meu filho. + +Não recebi resposta, nem tornei a receber mais cartas. Quiz partir para +Portugal. Informei-me. A guerra continuava cada vez mais renhida. Que +havia eu de ir fazer a Portugal com uma harpa ás costas e uma criança ao +collo? Demorei-me ainda um anno em Napoles para dar tempo a crear-se a +menina. Foi uma ama dos arrabaldes quem a amamentou. + +Eu ia todos os dias vêl-a, e saber da ama se era preciso alguma coisa. +Durante esse tempo não recebi carta do _signor_ Strech. Não obstante, +continuei escrevendo sempre. Sabia-se que continuava a guerra. Não tinha +certeza de que as minhas cartas fossem entregues, e de que o _signor_ +vivesse ainda. Maguava-me tão longo silencio, porque emfim eu cada vez +ia envelhecendo mais. Ao cabo d'um anno peguei na menina e na harpa e +comecei a minha peregrinação, porque estava exhausto de recursos. Em +Napoles ha sempre muitos musicos, e a concorrencia prejudicava-me. +Alguns eram velhos, e estavam tão pobres como eu. Além d'isso, fallecera +a dona do albergue, repentinamente, e quando eu sahia entravam os +crédores. Tive pena d'aquella boa mulher que tão caridosamente tratára +da _signora_ Rosina. Como ella sabia do nosso segredo, habituei-me a +consideral-a pessoa de familia. Nunca essa honrada creatura revelára a +ninguem as máguas da mãe d'Augusta. Eu tinha a certeza. O segredo descia +com ella á sepultura. Senti os olhos rasos de lagrimas quando a vi sahir +para o cemiterio e me encontrei com os crédores que entravam. Era +preciso ganhar vida, porque eramos duas pessoas a alimentar, melhor +direi pessoa e meia. Fui andando e tocando harpa. As noites, dormia-as +com a menina ao collo. Se eu era avô! Ás vezes apertava commigo a +tristeza. Lembro-me de que uma noite em Piombino, n'um albergue onde me +recolhi, me deixei entristecer tanto, contemplando a menina adormecida +nos meus braços, lembrando-me ao mesmo tempo da _signora_ e do _signor_, +ambos mortos para ella, que, francamente o confesso, n'essa noite +envelheci dez annos. Todavia, logo que nascia o sol, nascia com elle o +grande lenitivo dos desgraçados: o trabalho. Ia tocando na minha harpa, +e vivia. Uns davam-me esmola por me ouvirem; outros por me vêr com a +menina: muita vez o conheci. + +Corri a Italia toda: vi bem a minha patria. Entretanto a menina ia +crescendo. Que espertesa que revelou desde os primeiros annos! O seu +gosto era estar a bulir nas cordas da harpa. E o caso é que ás vezes, +acaso ou não, combinava sons. Lembrei-me de que a menina podia aprender +musica. Seria o seu dote. Bem precisava ella d'algum. Tinha nascido tão +pobre, que me considerava seu avô, a mim, um musico ambulante! Com oito +mezes d'aprendizagem era um gosto ouvil-a! Parecia impossivel! +Dispensei-me de tocar, porque as mãosinhas da menina eram um prodigio! +Bastavam ellas para fazer a colheita que era sempre abundante. Comprei +roupa á menina; trazia-a uma princesasinha. Verdade é que sempre de +luto. Todo o meu fim era obrigal-a a perguntar-me porque vestia de +preto. Queria gravar-lhe bem na memoria os soffrimentos de seus paes, +que extraordinarios foram em verdade. E se fores tu, Augusta, que leias +este papel, e não teu pae, como muitas vezes acredito que serás, mais +uma vez te peço que conserves sempre viva em teu coração a memoria +d'esses dois grandes desgraçados, que mais o foram por tua causa. +Mas que talento o d'essa criança! Ainda outro dia, em Pariz, um rapaz +esculptor pediu o meu consentimento para nos modelar a ambos em gesso. +Não foi por minha causa, não. Eu não tenho orgulho senão de ser avô da +menina... Avô! Sim, pelo coração não posso deixar de o ser. O verdadeiro +avô não lhe quereria mais. Mas o tal esculptor encantou-se com a menina. +Quem se não ha de encantar? Modelou-a. Foi a primeira estatua levantada +em honra da pequenina harpista. A mim modelou-me de certo pelo +contraste. Deu-lhe graça vêr a cabeça d'um velho ao pé do rosto d'uma +criança. E que formoso rosto, _sangue di Christo_! Como eu gostei de ver +a menina assim retratada! Mal diria eu que um mez depois havia de soar a +hora de me separar d'ella. Não me custa deixar o mundo, onde se soffre +tanto; custa-me deixal-a a ella, porque a amo muito. Não quero, porém, +ser ingrato para com Deus. Grande mercê me fez em me não levar quando a +menina era mais pequenina. Egora sinto-me sem forças. Ha muitos dias que +estou doente. Não tenho querido acamar para não entristecer a menina. +Mas hoje, a tal ponto receio por mim, que vou mandar chamar o meu velho +conhecido Giovanni para lhe fazer as minhas ultimas disposições. + +Dizem todas respeito á menina. + +Giovanni ficará depositario d'ella, que é o meu thesouro. Giovanni é +preguiçoso, mas um verdadeiro homem de bem. Muitas vezes tive occasião +de o reconhecer. Eu não podia fazer melhor eleição. A minha harpa, que +lego á menina, ganhará para os dois, e Giovanni será incapaz de guardar +para si o que pertencer á menina. + +Morro n'esta certeza. Giovanni é mais fiel do que um cão. + +Estão, pois, saldadas as minhas contas com o mundo, com a _signora_ e o +_signor_. Fiz quanto pude, e me mandava o coração. Da justica de Deus +não me arreceio. Deus bem vê a minha alma. + +Torno a repetir que escrevo este documento para que Augusta melhor +comprehenda um dia como eu a amei, ou para que seu pae, se Deus o +resuscitar, porque em verdade o supponho morto, veja que não trahi a +confiança que depositou n'um desconhecido. Se eu morresse em Napoles, +quereria ser enterrado ao pé da _signora_. Não fui o seu guarda +em vida? Continuaria a sel-o depois de morto. Como de certo morro aqui, +porque a minha doença é grave, apenas tenho a pedir que rezem um _Padre +Nosso_ pela minha alma, quando abrirem este documento, que fica em poder +de Giovanni. + +_Fechado em Londres aos 25 de novembro de 1815:_ + + PIETRO. + + * * * * * + + +XXI + +Epilogo + +Estava escripto no livro dos destinos que não houvesse felicidade +completa para Graça Strech. Encontrava o coração da filha como +verdejante oasis no immenso deserto que a morte de Rosina lhe estendia +deante dos olhos. Era uma gota d'agua para matar uma sêde d'amor que o +requeimou durante sete annos; um só raio de sol que se coava á negridão +em que o destino o havia enclausurado; uma unica flôr a alegrar o +caminho interposto á velhice precoce e á valla que o esperava algures. + +Entre lagrimas e sorrisos apertou contra o coração esphacelado o +corpinho flexivel da criança; tinha a filha nos braços e sentia nas mãos +a friagem da terra que cobria a campa da mãe; irradiava-lhe uma aurora +contra o rosto, e os clarões cambiantes espelhavam-se no pranto que lhe +sulcava as faces. + +Devia remoçar, e sentia-se velho. + +Parecia abrir-se-lhe a porta do paraizo e, em vez de transpôl-a, pedia á +criança que o acompanhasse ao cemiterio de Napoles, onde Rosina jazia. + +Giovanni julgou importuna a sua presença, e balbuciou soluçando umas +palavras de despedida. + +Graça Strech travou-lhe da mão e disse: + +--Giovanni, tu eras o guarda de minha filha; sê agora o companheiro da +filha e do pae. + +Giovanni correu a beijar a menina com lagrimas d'alegria nos olhos; era +quasi o cão a festejar o dono. + +Partiram. + +Ao passar em Pariz, Graça Strech foi com a criança procurar o esculptor +Maubert. Entrou no _atelier_ e disse ao artista: + +--Aqui tem o original do seu busto, senhor: é minha filha. Falta o nobre +Pietro: roubou-o a morte. Eu não quiz atravessar a França sem lhe vir +agradecer o serviço que me prestou. Não encontraria minha filha, +se o senhor me não ensinasse o caminho. Que Deus lhe torne em alegrias o +que a mim me deu em consolação. O senhor receberá o premio da sua +benevolencia para commigo lá onde os bons e os desgraçados são +remunerados condignamente. + +Seguiram para Italia. Graça Strech estava ancioso de chegar a Napoles, +onde se demoraram oito dias, visitando de manhã e de tarde o _Campo +Santo_. O que elle confidenciou junto á lousa de Rosina Regnau ninguem o +ouviu, nem é dado avental-o, porque ha dôres que só se comprehendem +quando se experimentam. Os labios do pae, ajoelhado á beira da campa, +ciciavam de todas as vezes palavras inintelligiveis; a filha, ajoelhada +ao pé do pae, tinha as mãos postas, e denotava doloroso recolhimento. +Não rezava, porque ninguem a tinha ensinado a rezar. A falta das mães é +tamanha que até Deus a sente! Giovanni completava o grupo, posto o +joelho em terra, e alternando olhares respeitosos entre o pae, a filha e +a campa. + +Ao cabo d'oito dias a menina mostrava-se doente. Graça Strech tremeu da +tristeza da criança, e perguntou-lhe o que tinha. + +--Faz-me medo estar no cemiterio! respondeu Augusta chorando. + +--Tens razão, filha, disse Graça Strech. Mas o que havemos nós de fazer +agora no mundo todos trez? + +--Eu toco a minha harpa, tornou com vivacidade a pequenita. O papá toque +a sua guitarra. Giovanni vae comnosco. + +Graça Strech não teve animo de recusar. + +--Voltemos então a França, alvitrou elle. Eu vi a sepultura de tua mãe; +quero agora vêr o seu berço. Iremos ás Ardennas. + +--Mas as Ardennas não são tão tristes como o cemiterio, pois não? +perguntou ingenuamente Augusta. + +--Não são, filha, não são. Para tua mãe eram o paraizo d'onde eu a +expulsei. + +Foram musicando. Notavam-se entre todos os _virtuosi_, além da maguada +sympathia que filha e pae inspiravam, pela melancolia do seu repertorio. +A guitarra d'elle e a harpa d'ella falavam a linguagem da saudade. Se o +publico as ouvisse no _Campo Santo_ de Napoles, á beira d'um cómoro, +devia comprehendel-as. Estiveram nas Ardennas, onde os camponezes +sahiam em ranchos a ouvil-os. Alguns d'elles, vendo o guitarrista +esquecido a olhar para o cimo das montanhas, com o braço paralysado, +diziam entre si: + +--Aquelle homem não tem a razão clara! + +Passando-se depois a Pariz, encetaram o viver errante dos passaros. +Graça Strech tirava do amor com que idolatrava a filha as forças com que +vivia, e tinha desvairamentos nervosos se se demorava a contemplar-lhe +as faces pallidas, da meiga pallidez da irmã, e os olhos fundos e +brilhantes. + +Quedava-se a olhar n'ella com a fronte banhada de suor frio. + +--O papá gosta tanto de me vêr! exclamava a menina ao mesmo passo +carinhosa e amedrontada da sombria physionomia do pae. + +--Gosto, filha. É que eu sou pae e desgraçado! Se tu morresses, +enlouquecia. + +--Eu não morro. O papá não diga isso, que me faz medo. Deixe-se de estar +a pensar, papá! atalhava a menina. Ó Giovanni, traz a harpa; não estou +contente senão quando a tenho ao pé de mim! O papá não ralhe, porque eu +sou muito sua amiga tambem. + +Decorreram os annos. O botão de rosa fez-se flôr. Flôr melancolica como +as que pendem aos sarcophagos. + +Graça Strech procurava suavisar quanto lhe era possivel a sua continua +peregrinação. A menina, tomada de febril impaciencia, dizia ao pae que +havia de morrer no caminho tocando harpa. E acrescentava: + +--Bem diz o papá: nós somos como os passaros. Elles tambem só parecem +alegres quando voam! + +No inverno de 1824--tinha Augusta quatorze annos--começou a soffrer do +peito. + +Estavam de novo em Londres. + +Augusta queixava-se de dôres vagas; e tossia. + +--Fujamos de Londres! disse Graça Strech fitando a filha com atormentado +semblante. + +Em França os soffrimentos continuaram, se bem que a menina, para não +desalentar o pae, procurasse animar-se d'uma alegria que por bastante +transparente deixava entrever o disfarce. + +Seguiram para Italia. Enflorava-se a formosa do Mediterraneo com as +galas da primavera de 1825. + +Caminho de Florença nos ultimos dias de março, colhera-os ao entardecer +a tempestade no caminho. Tiveram de estugar o passo para recolher-se no +albergue de Pistoja. A menina chegou anciada, e afogueada das faces. +Deitou-se logo. O pae, atordoado como ebrio, não a desamparou em toda a +noite. Pela manhã, Giovanni foi poisar a harpa ao pé do catre. Augusta +reprehendeu-o. Disse que no dia seguinte tocaria. Veiu o outro dia, +vieram muitos, e a menina nem queria erguer-se nem ver a sua harpa. + +--Então já não és como os passaros? perguntou o pae com voz que mal +podia romper através das lagrimas. + +Augusta viu chorar o pae, e disse para Giovanni: + +--Os passaros tambem cantam no ninho: vai buscar a harpa. + +Tirou alguns sons, e não pôde continuar. + +D'ahi a trez dias chamou de novo Giovanni e disse-lhe: + +--Hoje estou boa; vae buscar a harpa. + +O pae quiz illudir-se ainda: sorriu. + +A menina vibrou as primeiras modulações e deixou pender os braços. + +Acudiu o pae a chamal-a. Não respondeu. Giovanni agitou-a docemente e +conheceu que estava morta. + +A avesinha não pôde completar o seu cantico de despedida. + +Desde essa hora Graça Strech affigurava-se idiota. Unicamente pareceu +illuminar-se-lhe por instantes a razão quando disse a Giovanni: + +--Meu bom amigo, meu fiel amigo, não tenho mais que te dar: péga n'essa +harpa e deixa-me viver em paz. Adeus, até á hora do resgate. + +Giovanni quiz falar. Elle não consentiu; afastou-o com um gesto. + +E deixou-se ficar dois dias com a cabeça apoiada nas mãos. + +Levavam-lhe de comer: recusava. + +O dono do albergue entrou a inquietar-se e acabou por ir a Florença +avisar o consul portuguez. Chamado Graça Strech ao consulado, muito +laconicamente respondeu ás perguntas que lhe fizeram. O consul reputou a +sua tristeza nostalgia, aggravada pela impossibilidade de se transportar +á patria. Deu-lhe um passaporte para Portugal. Graça Strech nem +agradeceu nem rejeitou. Ao outro dia foi o consul a bordo para o +recommendar ao capitão. Faltava Graça Strech. Mandou procural-o ao +albergue. Encontraram-n'o sentado com a cabeça firmada nas mãos. +Deixou-se conduzir ao navio. Subiu á coberta, e sentou-se n'um banco, na +mesma posição. O navio largou; elle não ergueu os olhos. + +Passados mezes via-se nas ruas do Porto um estranho homem; andava +arrimado a um bordão, porque coxeava. Alguem, por caridade, o vestira: +trazia sobrecasaca abotoada e chapeu alto amolgado. Realçava sobre esta +pobreza a medalha de prata da guerra peninsular em competencia com um +annel de ouro que brilhava na mão esquerda. Como o vissem apanhar do +chão pontas de cigarros, e manipular um longo rolo de tabaco, +perguntavam-lhe por que não vendia o annel. + +Respondia sempre: + +--Porque este annel tem mysterio. + +E, surdo a outras perguntas, começava tangendo maviosamente a guitarra +que trazia sobraçada. Se alguem lhe dava esmola, recebia-a; jámais a +implorou. Decorridos mais alguns mezes appareceu acompanhado por um cão, +e de tal modo se estimavam, cão e homem, que o cão parecia escutar +attento o guitarrista, e o guitarrista defendia energicamente o seu +companheiro quando era açulado pelo rapazio. + +Onde encontrára o guitarrista o cão? + +É que o primeiro tivera de pedir hospitalidade ao segundo. + +N'um quintal da rua das Fontainhas, logo á entrada, descendo do Jardim +de S. Lazaro, ha ainda hoje um casebre, que n'esse tempo pertencia a +duas pobres mulheres, donas do cão. Ali piedosamente receberam o +guitarrista, que na primeira noite de hospedagem fôra mordido pelo +animal, que dava pelo nome de _Janota_, e se rebellara contra todos os +affagos do hospede. Indignou-se o guitarrista da feresa do seu +companheiro, e lembrou-se d'um facto semelhante que em Portugal +occorrera durante a primeira invasão franceza. Em Abrantes, em 1807, um +official portuguez poupou a vida de Junot; sem embargo, fôra, dias +depois, fuzilado, não sei a que pretexto, por ordem do mesmo Junot. + +O guitarrista, applicando ao caso esta recordação da sua +mocidade, começou a dar ao cão o nome do general francez. + +Ao cabo d'algum tempo de convivencia, o nome não tinha razão de ser, +porque homem e cão viviam em boa camaradagem; todavia subsistiu. As +proprias donas do casebre se habituaram a dizer _Junot_ em vez de +_Janota_. Em tamanha pobresa permaneceu o guitarrista até novembro de +1857, epoca em que o meu amigo, o sr. Antonio Martins Leorne, teve +casualmente occasião de falar-lhe. + +Passava na Batalha quando o guitarrista, sentado nas escadas da egreja +de Santo Ildefonso, estava sendo chasqueado por trez estudantes do +seminario episcopal. Movido de indignação, subiu as escadas, e ameaçou +os seminaristas com denuncial-os ao prelado. Os rapazes debandaram +amedrontados, e o guitarrista levantou-se para agradecer ao sr. Leorne. +Pelas breves palavras que trocaram, conheceu este cavalheiro que estava +ali um lucido espirito e um nobre coração esmagados pela desgraça. Tanto +bastou para começar a protejel-o, até que no mez de novembro d'esse anno +conseguiu que fosse admittido no hospital dos Entrevados de Cima de +Villa. O guitarrista acceitou reconhecido. Mas, quando lhe foi imposta a +condição de usar o vestuario dos asylados, reagiu tenazmente. Só puderam +convencel-o a transigir repetidas instancias do sr. Leorne. + +Durante a sua estada no hospital de Cima de Villa, grato á protecção +recebida, abriu-se em frequentes confidencias com o seu protector. +Algumas vezes lhe escreveu, assignando-se Graça Strech, se bem que os +registos de admissão e obito o nomeiem Conceição Graça. + +Bem póde ser que o infeliz, talvez por melindre que nos não é dado +perscrutar, negasse ao escripturario o verdadeiro appellido de sua +familia, e facilmente se comprehende que o registo de obito foi modelado +pelo registo de entrada no hospital. + +O leitor, antes de eu ter denunciado o nome do estranho guitarrista, já +o havia conhecido de certo, confrontando-o com a personagem que apparece +nas primeiras paginas d'este livro, e achando-os em tudo semelhantes. + +Graça Strech falleceu no hospital dos Entrevados de Cima de Villa a 20 +de maio de 1850. Antes de expirar, entregou ao seu protector, que +lhe assistiu aos ultimos momentos, a medalha da guerra peninsular, com +que fôra condecorado, e que o sr. Leorne ainda hoje possue[15]. +O annel mysterioso, por expressa recommendação do moribundo, +desceu com o cadaver á sepultura. Outra piedosa pessoa, a quem o sr. +Leorne revelára as qualidades e soffrimentos de Graça Strech, se +encarregou de fazer-lhe os funeraes na capella do Prado do Repouso, +reservando para si a guitarra que elle por tão longos annos dedilhára. + +Aqui podia terminar a biographia de José Maria da Graça Strech, mas, +para que fique mais completa, concluiremos copiando textualmenle as +unicas palavras que até hoje falavam d'elle: + + +_João José Duarte Machado, capellão director do cemiterio do Prado do +Repouso, n'esta cidade do Porto:_ + +«Certifico que no livro quarto do registo dos obitos e enterramentos dos +adultos, a folhas trezentas setenta e sete, verso, se acha o assento +seguinte: + +«José Maria da Conceição Graça, filho de Francisco Pinto Graça, e de +Maria da Gloria, natural do Porto, edade sessenta e seis annos, estado +solteiro, profissão mendigo, morador que foi no Hospital de Cima de +Villa, dos Entrevados, falleceu de molestia não denominada pelas nove +horas da noute do dia vinte de maio de mil oitocentos cincoenta e nove; +depois de se lhe rezarem os responsos do costume foi sepultado pelas +oito horas da noute do dia vinte e um do dito mez n'este cemiterio +publico--Prado do Repouso--no canteiro numero tres, sepultura dois mil +trezentos e seis, de que se fez este termo que assigno com o reverendo +capellão. Eu Antonio José Antunes Barbosa, director, o subscrevi. +_Antonio José Antunes Barbosa_, director. _Francisco Alves da Soledade_, +capellão. + +«Não contém mais o dito assento, ao qual me reporto. Porto e Cemiterio +do Prado do Repouso, nove de setembro de mil oitocentos setenta e tres. + + «JOÃO JOSÉ DUARTE MACHADO.» + + «Capellão director.» + + +FIM + + [15] Em 1873. + + + + +INDICE + + +Prologo da 3.ª edição 5 + I--O Desgraça 7 + II--Na quinta das Chãs 10 + III--Pomba que presente sangue 19 + IV--Horrores da invasão 28 + V--O juramento da vingança 38 + VI--A mariposa do acampamento 47 + VII--No hospital de sangue 55 + VIII--O anjo da liberdade 63 + IX--Entre a vingança e o amor 72 + X--A hora do resgate 82 + XI--O que a vivandeira pensava 90 + XII--Amor e ciume 101 + XIII--Como acaba a tragedia de Goethe 109 + XIV--Quanto custa ser mãe 118 + XV--A queda do gigante 127 + XVI--Uma festa no Porto ha cincoenta e nove annos 136 + XVII--Como madrugam as aves e os noivos! 146 +XVIII--A lenda d'Ashaverus 155 + XIX--A terra da promissão 165 + XX--O manuscripto de Pietro 174 + XXI--Epilogo 184 + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Annel Mysterioso, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ANNEL MYSTERIOSO *** + +***** This file should be named 33749-8.txt or 33749-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/3/7/4/33749/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Lisboa: Empresa da Historia de Portugal, 1904."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + text-decoration: none; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;} + h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 2em;} + h2 {text-align: center; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 2em; font-size: small; text-indent: -2em;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + #corpo p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + #corpo blockquote p {text-indent: 0;} + #corpo p.assin {text-indent: 0; text-align: right; margin-right: 2em;} + p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;} + #corpo .ilustracao p {text-align: center; font-size: small;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: 0.7em; + color: gray; + margin-left: 2em; + margin-right: 2em; + } + #corpo .rodape p {text-indent: 0;} + .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;} + .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;} + .ntransc {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + .cap:first-letter {float: left; clear: left; margin: -0.2em 0.1em 0 0; margin-top: 0%; + padding: 0; line-height: .75em; font-size: 300%; text-align: justify;} + .cap {text-align: justify;} + .sc {text-transform: uppercase;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of O Annel Mysterioso, by Alberto Pimentel + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Annel Mysterioso + Scenas da Guerra Peninsular + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: September 17, 2010 [EBook #33749] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ANNEL MYSTERIOSO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div class="ntransc"> +<p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1904.</p> + +<p>Foi mantida a grafia usada na edição original de 1904, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e +que por isso não foram assinalados.</p> +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_1">{1}</a></span></p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p class="centrado" style="font-size: 1.5em;">O ANNEL MYSTERIOSO</p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pn"><a name="pag_2">{2}</a><br><a name="pag_3">{3}</a></span></p> + +<div style="text-align: center"> + +<p style="font-size: 1.2em;">NOVA COLLECÇÃO PORTUGUEZA</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">II</p> + +<p style="font-size: 2.2em;">O ANEL MYSTERIOSO</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">SCENAS DA GUERRA PENINSULAR</p> + +<p style="font-size: 1em;">ROMANCE ORIGINAL DE</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">3.ª EDIÇÃO, ILLUSTRADA, REVISTA PELO AUCTOR</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> + +E<small>MPREZA DA</small> H<small>ISTORIA DE</small> P<small>ORTUGAL</small><br> + +<small><i>Sociedade Editora</i><br> + +LIVRARIA MODERNA<br> + +Rua Augusta, 95<br> + +TYPOGRAPHIA<br> + +45, Rua Ivens, 47</small><br> + +1904</p> + +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_4">{4}</a><br><a name="pag_5">{5}</a></span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div id="corpo"> + +<h2>PROLOGO DA 3.ª EDIÇÃO</h2> + +<div class='cap'>E<span class="sc">ste</span> é um dos romances da minha mocidade. Foi +publicado pelos editores da <i>Bibliotheca Universal</i>, de Lisboa, em +1873. Precederam-n'o os <i>Idyllios +á beira d'agua</i>, (1870), a minha primeira tentativa +no romance, e <i>O testamento de sangue</i>, escripto +aos vinte e trez annos.</div> + +<p>Estas datas desculpam hoje, aos meus proprios +olhos, tudo quanto ha de hesitante e incorrecto em +todas as trez novellas, que foram as primicias litterarias +de um rapaz educado n'uma terra essencialmente +commercial, avessa a idealidades romanescas +e ao convivio e apreço de escriptores, bons ou simplesmente +toleraveis.</p> + +<p>Pelo que especialmente respeita ao <i>Annel mysterioso</i>, +se quando agora o reli me não descontentou a +acção dramatica, achei-lhe comtudo algum excesso +de floração declamatoria, que é um defeito peculiar +a todos os estreantes.</p> + +<p>A grande arte de escrever está na ponderada sobriedade +da expressão, no equilibrio estavel entre a +phrase e o pensamento.</p> + +<p>Fóra d'isto ha rhetoricos, mas não ha escriptores.</p> + +<p>Se eu, no decorrer dos annos, consegui aproximar-me +d'este requisito essencial, não perdi de todo +o meu tempo. Mas, ainda n'esse caso, é defensavel a +reimpressão de uma novella, que póde fornecer elementos +de confronto entre duas épocas da vida de +um escriptor.<span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span></p> + +<p>Como quer que seja, o <i>Anel mysterioso</i> agradou +quando foi publicado em 1873. A breve trecho sahiu +a segunda edicção. E os mesmos editores me convidaram +a escrever logo em seguida outro romance, +que foi <i>A Porta do Paraizo</i>.<sup><a href="#nota1" name="m_nota1">[1]</a></sup></p> + +<p>Ambos estes livros me abriram caminho entre o +publico de Lisboa.</p> + +<p>O exito da <i>Porta do Paraizo</i> explica-se facilmente +pelo interesse que inspirava ainda então o reinado +de D. Pedro V.</p> + +<p>Quanto ao <i>Annel mysterioso</i>, que não é senão a +biographia de uma celebridade das ruas do Porto, +parece que foi o entrecho commovente que no espirito +dos leitores lisbonenses suppriu a falta de conhecimento +directo do protagonista.</p> + +<p>Quando eu escrevia este romance, muitas pessoas +d'aquella cidade se lembravam ainda de ter visto frequentes +vezes o <i>Desgraça</i>.</p> + +<p>Uma d'essas pessoas era Camillo Castello Branco, +que, seis annos depois da publicação do <i>Anel mysterioso</i>, +dizia a pag. 296 do livro <i>Sentimentalismo e +historia</i>: «A um canto (do botequim da <i>Aguia d'ouro</i>) +estava um velho de semblante livido, muito desgraçado, +com um chapeu enorme de sêda d'um azulado +decrepito, com um grande cigarro no canto da +bocca. Ao lado, sobre um mocho, via-se uma guitarra +com manchas gordurosas de suor que punham brilhos, +e aos pés um cão d'agua com o felpo encarvoado, +cheio de torçidas, encaroçado, dormia, e acordava +de salto, apanhando com muita furia, no ar, as +moscas que lhe picavam as orelhas. Era o José das +Desgraças, o legendario mendigo, que morreu de saudades +do seu cão, aggravadas pela fome».</p> + +<p>Esta referencia authentíca hoje o retrato de uma +individualidade popular, cujos contemporaneos +dormem, como ella, o somno eterno da morte.</p> + +<p>Lisboa, 10 de abril de 1903.</p> + +<p> </p> + +<p class="assin"><i>Alberto Pimentel.</i></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota1" name="nota1">[1]</a></sup> +A quarta edicção, luxuosa, d'este romance, foi por nós publicada em 1900.</p> + +<p class="assin">(Nota dos editores.)</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pn"><a name="pag_7">{7}</a></span></p> + +<h1>O ANNEL MYSTERIOSO</h1> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>I</h2> + +<h2>O Desgraça</h2> + +<div class='cap'>E<span class="sc">ntre</span> os typos populares, que pouco a pouco +vão rolando a sepulturas ignoradas, deixando +após si o rasto de uma vida sobremodo +accidentada de peripecias quasi sempre sombrias—rasto +que só um ou outro escriptor se compraz +em prucurar desde a cadeia ao degredo, do albergue +ao cemiterio—avulta na tradição portuense um homem +que por longo tempo ahi foi o alvo das assuadas +do rapazio e dos chascos dos frequentadores de +botequim. Uns chamavam-lhe o <i>José das Desgraças</i>, +outros simplesmente o <i>Desgraça</i>.</div> + +<p>Parece dever inferir-se de tão lutuosa alcunha que +a população da cidade lhe conhecia a biographia +exuberante de lastimosos lances. Tal não ha. Quando +elle passava coxeando arrimado ao seu bordão, +sobraçada a guitarra inseparavel, de velho chapéo +alto amassado, sobrecasaca abotoada, pendente a medalha +de prata da guerra peninsular, annel d'ouro na +mão esquerda, na bocca o enorme cigarro que elle +proprio manipulava com pontas de charuto, seguido +do cão fiel, que se chamava <i>Junot</i>, por motivos que +mais tarde desvelaremos, o gentio das ruas ou sorria +alvarmente da pittoresca pobresa do excentrico mendigo, +ou rompia em apostrophes de <i>Ó Desgraça! +Ó Desgraça!</i> que elle parecia não ouvir ou despresar +em sua imperturbavel serenidade.<span class="pn"><a name="pag_8">{8}</a></span></p> + +<p>E a populaça, sem sequer suspeitar da tenebrosa +origem do cognomento, quedava-se a ouvil-o, calmadas +as arruaças com que era saudado, quando elle, +sentado á porta de um café, especialmente o do Jardim +de S. Lazaro, começava a tanger melancolicamente +a sua guitarra, na qual executava operas completas, +queimando o seu enorme rolo de tabaco e +contemplando, de cabeça inclinada, o cão que parecia +escutal-o attentamente...</p> + +<p>Depois, quando a mão caía extenuada sobre as +cordas silenciosas, affigurava-se, tão alheado ficava, +que estava rememorando maguas intimas, segredos +da sua vida obscura, sem que parecesse dar tento +das esmolas que lhe atiravam ao regaço os que entravam +ou saíam a porta do botequim.</p> + +<p>Ás vezes, como se não houvesse conseguido linimentar +com a musica as recordações dolorosas acordadas +no imo peito, voltava a tanger na guitarra uns +dulcissimos arpejos que finalmente lhe serenavam a +alma tempestuosamente alanceada, chorando por +elle, que não tinha lagrimas.</p> + +<p>Restituido á realidade da sua resignada nobresa, +erguia-se firmado no bordão, sobraçava a guitarra, e +continuava a peregrinação, vagueando pelas ruas da +cidade, sem todavia dirigir-se aos transeuntes e recebendo +impassivel os óbolos que jámais solicitava. +E o cão, o leal companheiro de infortunio, seguia +egualmente resignado seu dono, e quasi sempre indifferente +ás provocações do rapazio que se divertia em +apedrejal-o e açulal-o.</p> + +<p>Frequentemente intervinha o <i>Desgraça</i> ameaçando +com o bordão os perseguidores do seu dedicado +companheiro; mas como o inquieto rapazio conhecesse +que a velhice lhe desnervava o braço, entrava +de levantar celeuma atroadora, em que, ainda assim, +quasi sempre se distinguiam vozes de «Morra o <i>Desgraça</i> +e o <i>Junot</i>! Vende o annel e não andes a pedir!»</p> + +<p>Estranho homem devia de ser esse, que parecia +guardar grande mysterio, e tinha por unico amigo, +entre uma população inteira, que o apupava, o cão +fiel, e por consolação unica a sua guitarra, e por unica +protecção a piedade dos seus conterraneos, que +elle não implorava.</p> + +<p>O povo não suspeitava sequer que a biographia<span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span> +d'aquelle homem justificasse o appellido. Quando o +<i>Desgraça</i> fazia chorar a guitarra entre os dedos, e o +cão denunciava comprehender a guitarra, como que +ligeiramente se commovia a turba acatasolada, mas +d'ahi a pouco, quando estrondeavam os apupos, era +o cão o unico espectador que mostrava lêr na physionomia +do velho o mysterio de uma vida tormentosa.</p> + +<p>Ria a gentalha torpe d'aquella intima convivencia +de homem e cão. E todavia não saía d'entre a arraia +miuda o mais desgraçado dos populares a dizer ao +pensativo guitarrista: «O teu cão sente e não fala; +eu falarei por elle. Soffres decerto muito e precisas +consolação. Eu sou tambem muito infeliz, muito mais +do que tu, porque não tenho guitarra nem cão. Deixa-me +pois compartir do teu cão e da tua guitarra, +que eu te darei o que tu não tens, dois ouvidos que +te escutem, uma voz que te responda.»</p> + +<p>Não. A desgraça é tão infeliz, que se ri da desgraça; +é ella que se desauctorisa a si mesma. Só lhe falavam +para chasqueal-o, para lhe cuspir na face a +zombaria que elle, absorto no seu continuo cogitar, +deixava resvalar aos pés.</p> + +<p>E todavia aquelle homem era um grande desgraçado, +que só tinha no mundo a sua guitarra, o seu +cão, e as suas recordações. O annel, que trazia na +mão esquerda, podia matar-lhe talvez um dia de fome, +mas não haveria miseria que lh'o arrancasse do +dedo, porque as suas recordações estavam n'aquelle +annel.<span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>II</h2> + +<h2>Na quinta das Chãs</h2> + +<p>Na noite de 17 de fevereiro de 1809, a morgada +viuva da quinta das Chãs conferenciava gravemente +com o seu capellão n'uma das salas terreas do solar, +a duas leguas de Braga, sobranceiro á aldeia de Carvalho +d'Éste. A morgada, senhora de uns sessenta +annos, deixava entrever nas sombras da physionomia +a tempestade que lhe agitava a alma; o capellão, passeando +de um para outro lado, enviesava á morgada +olhares investigadores, que para logo revelariam perfidia +e cupidez.</p> + +<p>—É preciso partir, padre capellão, dizia afflictivamente +a morgada. Se os francezes logram atravessar +o rio Minho, estarão brevemente em Braga. A mim +pouco me importaria a vida se não fosse Augusta, +que a esta hora está dormindo na serenidade da +sua innocencia. Tomára que chegasse o Teixeira +para contar o que se passou. Diga o que disser, padre +capellão, é preciso pensar maduramente. Meu genro +fez-me depositária de um thesouro, que eu hoje quero +salvar de todos os perigos, custe o que custar, +porque se me affigura que já estimo mais Augusta +do que aos seus proprios paes, e a seu irmão. Recebi +minha neta aos 5 annos, porque á luz da consciencia +conheci que melhor poderia eu sustentar uma +criança, apesar das hypothecas da minha casa, do que +um pobre capitão do exercito poderia sustentar dois +filhos. O padre capellão administrava as propriedades. +Que me restava a mim para não morrer de aborrecimento +durante o dia? Augusta, a criança que me +tinha sido confiada. Era ella a minha unica distracção, +o meu unico amor; ha dez annos que este tecto +lhe abriga a innocencia, e ha dez annos que eu abençôo +a resolução de a chamar para amparo da minha +velhice. Olhe que os annos tornam a gente egoista,<span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span> +padre capellão; a abnegação é só apanagio da mocidade. +Não pense que me bastava a unica distracção +do voltarete; é sempre a mesma cousa! Quando eu +<i>peço licença</i> o padre capellão <i>prefere</i>, e o Teixeira +dá-lhe <i>codilho</i>. Tambem é boa embirração a sua de +<i>preferir</i> sem jogo. Nem que tivesse vontade de fazer +mal... E o dia, estes longos dias da provincia, que +não teem fim! Era morrer de fastio. Augusta trouxe-me +cuidados e variedade. A principio com as suas +exigencias de criança; agora com as suas ingenuidades +de donzella. Vi, anno a anno, desabotoar a flôr. +A flôr, disse bem, porque Augusta é realmente uma +rosa... de quinze annos. E é que eu a estimo como +seu jardineiro que sou. Instantemente lhe pedi que +se deitasse para que não ouvisse dizer ao Teixeira +as proezas que os senhores francezes teem feito lá +para esse rio Minho. Mas, padre capellão, o que é +certo é que eu já haveria partido para o Porto, se +n'esta occasião estivesse prevenida com recursos. O +padre capellão bem sabe...</p> + +<p>—Sei, sei, senhora morgada, que a occasião é má +para todos.</p> + +<p>—Se os caseiros pudessem pagar o resto das rendas...</p> + +<p>—A senhora morgada devia conhecer o que é +guerra sobre guerra. Tivemos esse excommungado +Junot, mais as suas aves de rapina, a comer-nos os +olhos da cara. Nem as egrejas respeitou, o maldito! +A senhora morgada ainda fala em pedir o resto das +rendas aos caseiros! E para quê? Para fugir para o +Porto, para casa de seu genro, para abandonar as +suas propriedades!</p> + +<p>—O padre capellão velará por ellas. É que eu bem +sei os sustos que curti aqui durante a primeira invasão. +Se no Porto não estivesse a soldadesca do Taranco, +teria fugido para lá.</p> + +<p>—E que teima essa de me querer confiar as suas +propriedades, capacitado como estou de que a senhora +morgada suppõe que lh'as administro mal! +Administro mal, administro, porque não forço os caseiros +a pagarem o resto das rendas para vossa senhoria +o ir gastar no Porto com a familia de seu +genro. Depois de uma guerra e em vesperas de outra +é que a senhora morgada fala em pagar!</p> + +<p>—Pagar é um dever, padre capellão, e quanto mais<span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span> +nos apressamos a fazer o que devemos tanto maior +é o repouso do espirito. Bem sei que são más as circumstancias, +mas é que tambem esta pobre gente se +importa pouco com o calendario, e acha que todo o +tempo é tempo. É que tambem não imaginam que +se esconda a pobresa detraz de pergaminhos e genealogias. +Pois esconde, se esconde! Sabe o padre capellão +que eu falei no resto das rendas porque n'esta +occasião não ha dinheiro em casa. Ninguem melhor +o sabe, porque lhe passam os negocios pela mão. O +que é certo é que eu sinto ameaços de pobresa...</p> + +<p>—Nem tanto ao mar, senhora morgada...</p> + +<p>—Se presinto! Vivo modestamente n'estas solitarias +Chãs, encantada nas graças d'Augusta, cerrando +ouvidos ao bulicio da cidade que está proxima. Não +posso fazer despezas extraordinarias, é preciso não +largar a brida da mão para costear as indispensaveis.</p> + +<p>—Os chás não são indispensaveis, senhora morgada...</p> + +<p>—Magôa-me a sua ironia, padre capellão! Tanto +mais que sabe como é limitado o serviço da nossa +mesa de jogo. E depois queria que eu fechasse as +minhas portas na face do velho Teixeira, amigo leal +da nossa casa desde a mocidade de meu marido? Sabe +o padre capellão como o morgado deixou as propriedades +sobrecarregadas de hypothecas. Mal tenho +podido rehabilitar o casal, apesar de todas as economias +e da maxima abstenção d'obras de beneficencia...</p> + +<p>—Maxima abstenção!...</p> + +<p>—É injusto, padre capellão! Refere-se talvez á +Augusta... Não sabe que é filha de minha filha, casada +por inclinação com um honrado militar do exercito +portuguez, a quem não basta unicamente a sua +immaculada honradez para ser feliz! Era-me impossivel +soccorrer a mãe; soccorri a filha. Eu não podia +ir mais longe, senão teria ido. Sempre contrariedades! +Sempre o padre capellão a annunciar-me algum +novo desastre! Ah! mas d'esta vez creia que não +haverá desastre nem contrariedade que me véde o +tirar dos hombros uma enorme responsabilidade, levando +Augusta para a companhia dos seus, e minha +tambem, porque ella é minha, e muito minha, pelo +sangue e pelo coração... Em ultimo caso, recorrerei +ao emprestimo...<span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span></p> + +<p>—Outro?</p> + +<p>—É minha filha e meus netos que eu prejudico; +o padre capellão, não. Todavia, como é para bem +d'elles, elles m'o perdoarão. O padre capellão por +sua propria mão recebe os juros das quantias que +tem desembolçado, e creio que as propriedades que +conservo fartamente abastarão ao pagamento do capital, +no momento em que queira usar dos seus direitos +de crédor.</p> + +<p>—Eu não quero...</p> + +<p>—Deixe-me figurar a peior hypothese, e evidenciar-lhe +que lhe não causam detrimento os seus desembolços.</p> + +<p>—Falando francamente, senhora morgada, sou a +dizer-lhe que o juro é pequeno...</p> + +<p>—Augmente-o como lhe apraza. Não é meu costume +questionar cinco réis ao padre capellão.</p> + +<p>—Eu sou tão pobre como a senhora morgada, tartamudeou +o reverendo com um frouxo de tosse que +denunciava estar providencialmente entalado com o +osso da mentira.</p> + +<p>A morgada gesticulou de incredulidade e enfado.</p> + +<p>—Eu sou tão pobre como a senhora morgada, reatou +o capellão ajudando-se a engulir a falsidade +com um sorvo de rapé—e é á custa de trabalho que +tenho recolhido escassas mealhas ao canto da gaveta. +De inverno arrosto as neves da madrugada para +saír aos campos a espionar os trabalhadores no interesse +de vossa senhoria. No verão aguento as calmas +do meio dia para os estimular ao trabalho. As horas +feriadas de canceiras externas passo-as á banca a fazer +a escripturação ou no quarto a rezar as minhas +orações. Tenho envelhecido ao serviço de vossa senhoria, +e o magro peculio do pobre padre ao trabalho +o devo. E o mais é que já vou achando ser horas +de descançar... Vejo porém que não seria facil encontrar +quem com zelosa dedicação governasse a +casa alheia, e, se me é canceira o dirigil-a a despeito +da velhice, tambem me é consolação o ouvir dizer-me +a consciencia que devo trabalhar por não ver +quem facilmente me substitua. Digam embora o senhor +seu genro e a senhora sua filha o que quizerem, +e me consta que dizem: a verdade é esta...</p> + +<p>—Convenho, padre capellão, e é por conhecer a +sua desinteressada—a morgada deu a esta palavra<span class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span> +uma inflexão sensivelmente ironica—desinteressada +dedicação, que tenho batido á sua porta sempre que +a necessidade me obriga a incommodar alguem. Se +lhe pedia agora para passar aviso aos caseiros, era +porque não queria importunal-o com repetidas mercês...</p> + +<p>—Nunca me incommodaram as ordens de vossa +senhoria, atalhou o padre, curvando-se respeitosamente +a meio da sala.</p> + +<p>—Eu é que a mim mesma me incommodo com a +ideia de incommodal-o, posto que eu não seja dos +devedores que mais devem aborrecer por egoistas...</p> + +<p>—Creio que já tive a honra de dizer á senhora +morgada que a occasião é má para todos.—E proseguiu +mirando ao alvo que elle queria attingir: Era +porém grande a quantia que vossa senhoria desejava?</p> + +<p>—A sufficiente para me transportar ao Porto com +a menina, e para não tornar pesada a hospedagem +que minha filha haja de dar-me. É preciso partir, padre +capellão, se os francezes não forem repellidos na +fronteira. Entrarão por esse Minho dentro furiosos, e +eu não respondo só pela minha vida, que já pouco +vale, mas tambem pela de Augusta, que me foi confiada +em deposito. Que valeria a minha presença +aqui? Os criados fugiriam decerto, e a edade do padre +capellão não lhe permittiria defender duas mulheres, +ambas timidas, uma porque é velha, e outra +porque é nova. Além de maior segurança que offerece +o Porto, como grande cidade que é, Augusta +poderá d'ali seguir melhor a sorte de seu pae e seu +irmão nos combates. Não estará para aqui anciosa +sem receber noticias que a tranquillisem. Aqui, quando +ha guerra, apenas se sabe que ha guerra, e mais +nada. O padre capellão offereceu-se para ficar; desappareceram +todas as difficuldades. Sem o seu offerecimento eu não poderia deixar desamparado o solar +de meus avós. Teria de luctar angustiosamente +entre o amor d'Augusta e o respeito á memoria de +meus paes e meu marido. Se os invasores entrarem, +respeitarão porventura a sua velhice e as suas vestes, +padre capellão, se é que elles respeitam alguma +cousa...</p> + +<p>O padre capellão, julgando haver já simulado a +precisa resistencia á partida da morgada, apostrophou +de golpe:<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span></p> + +<p>—Mas, voltando ao caso, senhora morgada, ponhamos +os pontos nos i i. Quanto desejava vossa senhoria?</p> + +<p>—Eu... cem moedas talvez.</p> + +<p>—Cem moedas é muito, senhora morgada, e eu +não estou prevenido.</p> + +<p>—Pois veja o padre capellão se póde obter essa +quantia, que eu cederei a qualquer exigencia de +juro.</p> + +<p>—Menos de 15 por cento não será possivel, senhora +morgada...</p> + +<p>—Pagarei os 15 por cento; trate o padre capellão +de negociar sem demora as cem moedas.</p> + +<p>—Hum! rouquejou o padre. Veremos. Póde ser +que se abra alguma porta ao homem honrado que só +em grande estreiteza deixa d'abrir a sua. Ámanhã falaremos, +senhora morgada. Vou fazer as minhas rezas +emquanto não chega o palrador do Teixeira com +noticias dos francezes...</p> + +<p>E saíu da sala em direcção ao seu quarto.</p> + +<p>A morgada, vendo-se só, pareceu respirar com sofreguidão, +como o encarcerado que conquista a liberdade +e, como elle, pareceu conversar comsigo +mesma:</p> + +<p>—Que alma de marmore a d'este homem! É um +inimigo que tenho de portas a dentro e que conservo +porque me não permitte o animo nem a edade +travar lucta com tão arteiro contendor, que apara todos +os golpes na batina com beatitude irritante.</p> + +<p>Depois levantou-se, agitou a campainha, e esperou +com os olhos fitos na porta que apparecesse a +criada.</p> + +<p>—A menina dorme? perguntou.</p> + +<p>—Dorme, senhora morgada.</p> + +<p>—Accende o candieiro e abre a mesa. Quando bater +o sr. Teixeira, manda entrar.</p> + +<p>Palavras não eram ditas, resoou a aldrava do portão.</p> + +<p>Momentos depois entrava á sala o velho Teixeira, +fidalgo retirado das pompas da côrte por conselho +da consciencia que o advertia de que estava a empobrecer +d'um dia a outro. N'aquelles tempos que precederam +a retirada da familia real para o Brazil, as +tentações de Lisboa eram tantas, e tão dispendiosas, +que não admirava que um cortezão immolasse a celebradas<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span> +damarias o seu opulento morgado do Minho. +Alguma coisa salvára porém o velho aulico do muito +que na côrte consumira. Trouxera de lá a palaciana +compostura que realça até mesmo na decadencia. +Maneiras e palavras, pesadas com fina discreção, estavam +desculpando a cada passo as sombras que por +mais d'uma vez denunciavam não ser impeccavelmente +crystalina a reputação das açafatas da rainha D. Maria I.</p> + +<p>Entrou o fidalgo e logo correu a morgada a perguntar-lhe +anciosamente:</p> + +<p>—Que noticias nos traz vossa senhoria?</p> + +<p>—Boas, senhora morgada, se póde haver boas noticias +quando a tempestade, que se descondensa n'um +ponto, ameaça n'outro.</p> + +<p>—Inda bem! inda bem! apostrophou a morgada +relanceando um olhar d'alegria á porta do quarto onde +estava descançando a neta.</p> + +<p>O padre capellão, sem se dar o incommodo de +desculpar a ligeireza com que alinhavara as suas orações, +appareceu mordido de curiosidade.</p> + +<p>—E o caso é que pensei que das indagações já +não sobrava tempo para o nosso voltarete!—disse o +Teixeira sentando-se a um gesto da morgada.—Venho +tarde, e porei por desculpa da demora o bom +empenho que tinha em poder satisfazer a justa anciedade +de vossa senhoria.</p> + +<p>—Não obstante serem boas as informações, supplico-lhe +que não aggrave as côres do quadro, dado +que entre por ahi de improviso a minha neta, que se +recolheu aos seus quartos, por ordem minha, para +não ser testemunha auricular da narrativa no caso +de que fosse lugubre.</p> + +<p>—Os francezes foram repellidos heroicamente, +disse o fidalgo baixando a voz.</p> + +<p>—Vamos a isso! atalhou o padre capellão fungando +uma pitada.</p> + +<p>O fidalgo proseguiu:</p> + +<p>—Os francezes não ousaram metter-se ao Minho, +que vae de monte a monte, com a agua que tem caído, +por se arreceiarem da cheia. Trouxeram por terra +os barcos que puderam obter na Guardia, e puzeram-n'os +a nado no Tamuge.</p> + +<p>—Que artes teem os malditosl exclamou o capellão<span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span> +lembrando-se de que não haveria thesouro que +resistisse á astucia franceza.</p> + +<p>—Deixe ouvir... observou a morgada.</p> + +<p>—Eram vinte e tantos os barcos, que pretendiam +abicar á praia do Camarido. Trez separaram-se, ao +descer o rio, e chegando primeiro á praia, os soldados +desembarcaram. Os outros barcos tiveram que +luctar, e muito, contra a maré que lhes era adversa. +Isto durou toda a noite. Só hontem de madrugada +foi que o Champalimaud percebeu claramente a tentativa +do inimigo, e que mandou fazer fogo de fuzilaria. +Um dos barcos foi a pique; outro despedaçou-o +o mar. Os francezes dos trez primeiros barcos refugiaram-se +no Camarido. Estes desastres deram alento +aos paisanos, que se embarcaram para atacar o +inimigo no rio, protegidos pela artilharia da Areia +Grossa e da Insua, e pelos soldados do 21. Os francezes, +contrariados pela correnteza das aguas e pela +resistencia dos nossos, retrocederam para a margem +direita do Minho, desesperando d'atravessal-o. Então +bateram os nossos a matta do Camarido, encontrando +dentro mais de trinta francezes, um dos quaes +consta ser capitão e haver declarado o nome do general +em chefe de todo o exercito. Chama-se Soult +o general...</p> + +<p>—Elles tambem escolhem-n'os pelos nomes! interrompeu +o padre para quem toda a prosodia era difficil, +incluindo a latina e a... portugueza.</p> + +<p>—Os paisanos, segundo se dizia em Braga, fizeram +proezas, continuou placidamente o fidalgo. Até +as mulheres acudiram com fouces roçadouras e forcados.</p> + +<p>—Nunca as mãos lhes dôam... observou impudentemente +o capellão</p> + +<p>—Pelo meio dia atacaram os francezes Villa Nova +da Cerveira, sendo ainda repellidos brilhantemente +pelos nossos, tropa e povo. Mas, senhora morgada, o +que mais dava que falar era a coragem de trez rapazes +de Valença, que se arrojaram a ir encravar um +morteiro, que os francezes tratavam de assestar contra +a praça. Isto é o que se sabe desde manhã; o que +já se terá passado pertence a Deus e aos que estão +em armas.</p> + +<p>—Mas que lhe parece a vossa senhoria: entrarão +ou não entrarão? perguntou a morgada.<span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span></p> + +<p>—Para que nos havemos de illudir com mentirosas +esperanças? Os invasores são poderosos e por +mais d'uma parte poderão entrar, ao passo que os +nossos, divididos para guarnecerem as fronteiras, perdem +muito de sua força n'essa mesma divisão.</p> + +<p>—Com que então não se fala por ora em guerra! +disse de improviso a morgada ouvindo abrir a porta +do quarto d'Augusta.</p> + +<p>O fidalgo já não teve tempo de responder porque +sentiu na sala os passos da menina.</p> + +<p>—Então não ha guerra? exclamou Augusta com +graciosa innocencia.</p> + +<p>—Não ha, não ha, respondeu amavelmente o fidalgo; +a não ser a do nosso voltarete.</p> + +<p>E continuou, convidando a morgada a sentar-se:</p> + +<p>—Permitta-me vossa senhoria, senhora morgada +que eu continue a assestar a bateria dos codilhos +contra a muralha de <i>preferencias</i> do nosso reverendo. +Então, padre capellão, quer sentar-se?... Em que +estava pensando tão absorto?</p> + +<p>—Estava pensando que se não puderem entrar +pelo litoral, poderão entrar por Chaves, porque o castello +está desmantelado, disse o capellão com a maxima +impudencia ou com a maxima velhacaria.</p> + +<p>—O quê?! perguntaram todos a um tempo, incluindo +Augusta, que pareceu fulminada de raio.</p> + +<p>—Ah! sim... isto é quando elles entrarem. Vamos +lá fazer a partida.<span class="pn"><a name="pag_19">{19}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>III</h2> + +<h2>Pomba que presente sangue</h2> + + +<p>A morgada das Chãs passou agitadamente essa noite, +e do inquieto cogitar na solidão do seu quarto +resultou levantar-se decidida a partir n'esse dia com +a neta.</p> + +<p>O padre capellão negociou as cem moedas... comsigo +mesmo, dizendo que as obtivera d'um proprietario +mediante o desconto dos juros d'um semestre +adiantado.</p> + +<p>Partiu a morgada, de manhã, para o Porto, acompanhada +por Augusta, depois de haver entregado as +chaves da sua casa ao capellão, que tinha nos labios +um sorriso de alvar alegria. Tambem a morgada estava +radiosa do duplo jubilo de poder respirar desopprimida +da sombra d'aquelle homem, e de ir collocar +sob o amparo paternal a neta querida do seu +coração. Nas faces d'Augusta havia egualmente um +reflexo d'intimo contentamento, não só porque a +aproximavam dos paes, mas porque a levavam para +os braços do irmão, a quem ternamente estremecia, +e com o qual permutava cartas diarias perfumadas +das mais suaves fragrancias do amor de familia.</p> + +<p>A menina contava quinze annos, como já sabemos; +o irmão, que se chamava José Maria, tinha dezeseis. +Estas duas creanças eram filhas do capitão do exercito +Graça Strech, que em 1809 morava á rua nova +do Almada<sup><a href="#nota2" name="m_nota2">[2]</a></sup>. O appellido Strech inculca á primeira +vista procedencia estrangeira, e realmente é d'origem +germanica. O pae do capitão Graça, allemão de +nascimento, fôra capitão de navios, e tivera por ultimo +um modesto estabelecimento commercial em Cima +do Muro. Os dois filhos de Graça Strech nasceram +porem á rua Direita, na casa que divide a rua +de Santo Ildefonso da rua de Santo André, e onde +elle morára durante os annos de 1793 e 1794.</p> + +<p>Augusta era tudo o que se póde imaginar de graciosamente +feminil na época em que nos é dado conhecel-a. +O pintor que quizesse retratal-a facilmente +lançaria á tela os cabellos loiros, naturalmente annelados; +os olhos d'um azul suavissimo como os mais +formosos horizontes; as faces d'uma brancura levemente +rosada; a estatura <i>mignonne</i>,—tudo quanto +póde haver de mais correcto e dôce em figura de +mulher. Mas a difficuldade estaria seguramente em +reproduzir no retrato a meiga morbidez dos lirios +que se abrem ao desabrochar da manhã. E n'ella +brotava a mulher das graças da creança, como um lirio +á luz da aurora.</p> + +<p>José Maria era uma organisação inteiramente opposta +á de sua irmã. Dir-se-ia que ella havia nascido +para rosa, e elle para roble; ella para succumbir, e +elle para luctar. Desenhavam-se no seu corpo de dezeseis +annos os contornos athleticos d'um spartano. +Olhos vivos, e pretos como os cabellos; talhe esbelto, +maneiras sacudidas e ageis. Pois que elle era a +força e Augusta a brandura, affigurava-se providencial +essa disparidade de constituições, e até de genios, +para que a flôr pudesse ser protegida pela sombra +do roble.</p> + +<p>Quando a morgada das Chãs chegou ao Porto, entrou-se +de profundo arrependimento por ter feito +vingar a sua resolução. Em casa da familia Strech +era grande a tristeza. O pae e o irmão<sup><a href="#nota3" name="m_nota3">[3]</a></sup> estavam +no exercito, e portanto a tristeza provinha da anciedade +com que o azar dos combates alvoroça sempre +as familias dos militares.</p> + +<p>—Eu trouxe Augusta, dizia a morgada, chorando, +á filha, para que, se houvesse de correr perigos, não +ficasse o meu coração atormentado de medonha responsabilidade; +porque mais facilmente saberia aqui +noticias do pae e do irmão do que nas Chãs; e porque<span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span> +finalmente o Porto offerecia maiores garantias +e segurança do que qualquer outra terra.</p> + +<p>De feito, a cidade do Porto era julgada inexpugnavel, +e a ella se acolhera grande parte da população +do Minho, á medida que os acontecimentos da guerra +se iam desdobrando.</p> + +<p>Tratemos de saber quaes foram.</p> + +<p>Os francezes, impossibilitados de seguir o caminho +do litoral, que lhes tinha sido ordenado, marcharam +para Traz-os-Montes no proposito de entrar em Portugal +pelo valle do Tamega. No dia 8 de março estavam +as avançadas francezas á vista de Chaves, que +no dia 10 foi sitiada, rendendo-se no dia 12. O marechal +Soult, vendo-se impossibilitado de guardar os +prisioneiros, despediu as milicias e as ordenanças, +que estavam dentro da praça, depois de lhes exigir +juramento de que nunca mais pegariam em armas. +As praças da tropa de linha convidou-as a bandearem-se +no seu exercito; ellas unanimemente aceitaram +com o proposito de desertar, como aconteceu.</p> + +<p>O sonho de Soult era tomar o Porto, e para o realisar tinha nada menos que dois caminhos: o que vae +a Villa Real e o que vae a Braga. O marechal preferiu +o segundo, por ser o menos accidentado. Chegado +que fosse a Braga, só encontraria no caminho do +Porto a difficuldade da passagem do Ave em Santo +Thyrso. Seguiu, pois, o exercito francez para as alturas de Barroso no dia 14. O general Bernardim +Freire d'Andrade, tendo noticia de que os piquetes +francezes escaramuçavam na Portella de Avado e em +Villarelho da Raia com as avançadas do general Silveira, commandadas pelo coronel Magalhães Pizarro, +tomou desde logo todas as medidas possiveis para +salvar o Porto, repartindo as suas pequenas forças +por Salamonde, Ruivães, Salto e Ponte do Cavez, +guarnecendo a raia, e mandando occupar Amarante +o brigadeiro Victoria, a cujas ordens militavam o capitão Graça Strech e seu filho.</p> + +<p>No dia 15 foi Freire de Andrade insultado pela população +de S. Gens, quando voltava de visitar os postos +entre Braga e Ruivães. O fim a que avisava o general +portuguez era retardar a marcha do inimigo +sobre Braga, quanto lhe fosse possivel, para dar tempo a que d'aquella cidade saíssem para a defeza do +Porto as munições e o laboratorio. Depois de haver<span class="pn"><a name="pag_22">{22}</a></span> +expedido ordem ao brigadeiro Victoria para se internar +no Porto, recolheu-se Freire d'Andrade no dia +17 a Braga, encontrando por todo o caminho vestigios +da grandissima exaltação popular, que se levantára +mal que soou a noticia da aproximação dos +francezes. Dado o signal de rebate, o povo do Minho +saíu em turbamulta a esperar o inimigo em Carvalho +d'Éste, e outros logares convisinhos, armado de +chuços, fouces roçadouras, e mais instrumentos proprios +do seu uso.</p> + +<p>Em Carvalho d'Éste houve brodio geral, constante +de pão e vinho, a expensas d'alguns particulares patriotas, +o que não obstou a que um dos membros da +sordida junta de segurança apresentasse o rol das +despezas. Procedendo-se a uma collecta geral, que +foi voluntariamente paga, ficou o povo duplamente +esfomeado, porque a contribuição parece que só +aproveitou á junta de segurança.</p> + +<p>Avisinharam-se, finalmente, os francezes da cidade +de Braga, e conhecendo Freire d'Andrade, no dia 17 +em que ali entrou, que era impossivel qualquer defeza, +mandou retirar pela estrada do Porto, resolvido +a embargar denodadamente o passo ao inimigo n'essa +marcha.</p> + +<p>Todavia o povo, suppondo-o traidor por não se +haver empenhado em acção geral com os invasores, +saíu-lhe ao encontro em Carapoa, e já ahi seria morto +se lhe não valesse Antonio Berardo da Silva, commandante de uma brigada de ordenanças.</p> + +<p>Removido o inesperado perigo, seguiu o general +seu caminho, mas encontrando-o as ordenanças de +Tabosa, prenderam-n'o e conduziram-n'o a Braga, +onde, chegado que foi é prisão do Aljube, a populaça +desenfreada o arremessou pelas escadas abaixo, +acabando de matal-o ás chuçadas.</p> + +<p>Subsequentemente foram tambem immolados á sanha +popular, em Braga, o quartel-mestre general de +Bernardim Freire, Custodio Gomes Villas Boas, o +corregedor da cidade, Bernardo José de Passos, e +outros; e em Santo Thyrso, D. João Correa de Sá e +Manoel Ferreira Sarmento.</p> + +<p>No mesmo dia da morte do general Bernardim +Freire de Andrade tomavam os francezes posição em +frente de Carvalho d'Éste, sendo repellidos no primeiro +ataque.<span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p> + +<p>O barão d'Eben commandava as nossas tropas, com +as quaes se havia bandeado a gente das aldeias convisinhas. +Entre a populaça contavam-se os criados +da quinta das Chãs que desampararam o padre capellão, +sempre prompto a castigal-os, e odiado por +elles.</p> + +<p>Pelas onze horas da noite chegaram, para reforçar +o posto, a legião de Salamonde e duas companhias +do regimento de Vianna. Soldados e povo estavam +famelicos. Durante a noite um magote de populares, +engrossado pelos criados da morgada, bateu ao portão +da quinta. Ao primeiro chamamento não respondeu +ninguem; ao segundo assomou a uma das janellas +a cabeça silicosa do padre capellão.</p> + +<p>—Pão e vinho! gritou a turba.</p> + +<p>—Não está cá a senhora morgada, tartamudeou o +reverendo.</p> + +<p>—É o mesmo; abra a porta, contestou o gentio.</p> + +<p>Como porém a impaciencia da turba fosse muita, +a populaça metteu a porta dentro a tempo que o padre +atravessava o pateo de lampeão em punho.</p> + +<p>Um dos populares vibrou-lhe uma chuçada que o +prostrou, e logo outro, que era criado da casa, +acrescentou:—Vamos á <i>burra</i> do padreca; no que +fôr da senhora morgada não se toca.</p> + +<p>No dia seguinte atacou o inimigo novamente Carvalho +d'Éste, e no dia 20 voltou ao ataque, apparecendo +em grande força.</p> + +<p>Parece que a Providencia havia aconselhado a morgada +das Chãs a fugir de um ponto onde a lucta foi +mais renhida, porque, posto que os populares a respeitassem, +o inimigo caiu no dia 20 em forte columna +sobre Carvalho d'Éste, empenhando-se ataque +geral, e sendo desesperada a posição dos nossos, que +fugiram em grande confusão, acossados muito de +perto pela cavallaria franceza.</p> + +<p>No pateo da quinta das Chãs tinham os nossos +quinze barris de polvora que, não podendo ser salvos, +por estar muito proximo o inimigo, foram incendiados +por ordem do barão d'Eben, perecendo oito +homens na execução d'esse serviço.<sup><a href="#nota4" name="m_nota4">[4]</a></sup> As chammas, +enleiando-se pelos alpendres encostados ao edificio, +acabaram por envolvel-o, e, horas depois dos francezes<span class="pn"><a name="pag_24">{24}</a></span> +entrarem em Braga, e a tempo que o povo enfuriado +matava os presos encarcerados no Aljube, ardia, +chammejando como fornalha enorme, o solar das +Chãs, a duas leguas de distancia da cidade invadida.</p> + +<p>A noticia da tomada de Braga só se soube no Porto +no dia 22, quer dizer, quarenta e oito horas depois.</p> + +<p>Havia dias que o brigadeiro Victoria se tinha internado +n'esta ultima cidade com as suas forças, por +ordem do agora fallecido Bernardim Freire de Andrade. +Como já sabemos, o capitão Graça Strech e +seu filho militavam ás ordens deste brigadeiro. Portanto, +teve Augusta occasião de abraçar o irmão e o +pae, que procuraram serenar com palavras de carinho +e conforto os receios do angustiado coração da +menina.</p> + +<p>A morgada, quando soube que os francezes tinham +rompido por Carvalho d'Éste sobre Braga, apesar de +ignorar os pormenores da lucta, a morte do capellão +e o incendio do solar, agradeceu ao anjo da guarda +a inspiração da resolução tomada.</p> + +<p>N'esse mesmo dia foi o Porto theatro de lastimosas +scenas.</p> + +<p>Conhecida a derrota de Braga, dirigiu-se a populaça +á cadeia da Relação, reclamando a entrega dos +presos da Inconfidencia, e arrancando para fóra dos +muros do carcere o brigadeiro Luiz d'Oliveira e mais +quatorze infelizes, que foram arrastados pelas ruas +até Villa Nova de Gaya, d'onde a gentalha ensanguentada +os precipitou, do Caes da Bica, á corrente +do Douro, por haverem sido condemnados á morte +pelo tribunal popular constituido na <i>Porta do Olival</i>.</p> + +<p>Só o bispo, D. Antonio José de Castro, poderia, +por muito respeitado que era, conter a furia dos cannibaes +das ruas, mas, provavelmente para não incorrer +no desagrado da canalha contrariando-lhe os +brutaes instinctos, deixou-a espostejar á vontade os +presos da Inconfiencia.</p> + +<p>Sua excellencia reverendissima é que se não arriscou +a ser conceituado de jacobino.</p> + +<p>Quando a turba descia com os presos a calçada +dos Clerigos, ouvia-se na rua Nova do Almada a celeuma +das victimas e dos algozes.</p> + +<p>Augusta, tremula de horror, acolheu-se nos bracos +do irmão, que obtivera licença para sair por alguns<span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span> +momentos do seu posto na linha de defesa, e poz as +mãos supplicando a Deus que a tirasse do mundo +onde os homens se estavam despedaçando como feras +no sertão.</p> + +<p>Só as caricias de José Maria lograram aquietal-a, +quando a vozeria soava mais longe, porque já a multidão +havia enveredado pela rua das Flores, caminho +da Ribeira.</p> + +<p>A mãe e a avó pareciam agonisar abraçadas em +estreito amplexo.</p> + +<p>O marechal Soult, senhor de Braga, podia recuperar +as suas communicações com Tuy ou marchar sobre +o Porto, mas, como era natural, attenta a importancia +d'esta cidade e a fama das suas riquezas, optou +pelo segundo dos caminhos a tomar, porque melhor +realisaria assim o seu sonho de conquistador.</p> + +<p>Ouçamos o sr. Soriano historiando o roteiro que +o marechal Soult seguiu de Braga ao Porto: «Deixando +portanto em Braga a divisão do general Heudelet, +para lhe defender a rectaguarda contra as incursões +do general portuguez, José Antonio Botelho +de Sousa e Vasconcellos, que commandava as forças +da divisão da raia, entre os rios Lima e Minho, dividiu +o seu exercito em trez columnas, a primeira marchou +pela estrada de Guimarães a S. Justo, com ordem +de forçar a passagem do Ave de Cima e occupar +o campo do lado de Pombeiro; a segunda, commandada +pelo proprio Soult em pessoa, marchou logo +direita á Barca da Trofa; e a terceira, deixando Barcellos, +para onde de Braga tinha sido mandada, tomou +a estrada da ponte do Ave. A passagem d'este +rio foi fortemente disputada pelos portuguezes, sendo +a columna da esquerda obrigada a bater-se renhidamente +em Guimarães, Pombeiro, Negrellos, e sobretudo +n'este ultimo ponto, onde morreu o bravo +general Jardon, cuja falta muito sentida foi pela totalidade +do exercito inimigo. A marcha da columna do +centro foi interrompida na Barca da Trofa, por se +ter n'ella cortado a ponte do Ave; mas Soult, vendo +o grande cumulo das nossas forças ali, forçou a passagem +em S. Justo, ganhando a margem opposta. +Desde então facil lhe foi a columna da direita fazer +o mesmo, ficando assim vencida a passagem do Ave +em todos os pontos, e portanto aberto inteiramente +o caminho em direitura para a cidade do Porto, a<span class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span> +cujos entrincheiramentos o exercito francez chegou +no dia 27 de março.»</p> + +<p>Na tarde d'esse mesmo dia a guarda avançada do +inimigo, acampado em S. Mamede de Infesta, adeantou-se +até um quarto de legua das baterias do Porto.</p> + +<p>Ouviu-se na cidade o fogo indicativo da aproximação +dos francezes. Para logo se espalhou o terror, +não obstante terem sido organisados alguns elementos +de resistencia.</p> + +<p>As familias que tinham os seus empenhados nas +linhas de defeza, afflictivamente receiavam os perigos +de uma grande catastrophe, pois que ainda quando +a lucta fosse coroada pela victoria, havia de interpôr-se +aos primeiros combates e aos louros do triumpho +um mar de sangue portuguez.</p> + +<p>Que dolorosa commoção não seria a de Augusta, +que torturado soffrer nas vascas da anciedade não seria +o seu, ao ouvir estrondear á distancia o fogo que os +invasores assestavam contra as linhas de defeza, onde +combatiam o pae e o irmão! Aquellas trez mulheres, +a avó, a mãe e a filha, ajoelhadas deante de +uma imagem de Nossa Senhora, cerrando convulsamente +os olhos a cada detonação longinqua, dir-se-iam +outros tantos authómatos, empedrados pelo terror, +se não fôra o ciciar dos labios e o abrir e fechar +nervoso das palpebras.</p> + +<p>Sabem como baloiça a haste do lirio, quando o sopro +calido da tempestade proxima passa esfuziando +por entre a folhagem das plantas que lhe offereciam +resguardo?</p> + +<p>Tal era Augusta, lirio vasado em moldes de mulher, +entre os dois corações amigos, o da avó e o da +mãe, que já não podiam garantir-lhe protecção.</p> + +<p>Conhecera o marechal Soult que era má a fortificação +da cidade e má a guarnição, e expediu no dia +28 um emissario propondo capitulação. O emissario, +para se não arriscar á morte, serviu-se de um ardil +de guerra e disse-se incumbido de negociar a entrega +do exercito francez mediante condições favoraveis.</p> + +<p>Entrou o bispo em negociação, cuja má fé, por +parte dos invasores, estava manifesta na circumstancia +de continuar a ser intenso o ataque durante todo +o dia.</p> + +<p>N'essa tarde ouviu-se subitamente grande celeuma<span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span> +nas ruas. Recresceu a anciedade no presupposto de +serem as avançadas francezas.</p> + +<p>A morgada das Chãs teve a coragem precisa para +se aproximar da vidraça, e viu um militar francez rodeado +de grande turba de populares que gritavam +enfuriadamente: «<i>Morra o Maneta! Morra!</i>»</p> + +<p>Adivinhou-lhe o coração que era um emissario, +que provavelmente ia á bateria de S. Francisco a +parlamentar com o bispo. Quasi defronte das janellas, +como augmentassem as vozes de: <i>Morra Loison, +morra o Maneta</i>, o militar francez levantou ambos +os braços para desfazer o equivoco. Não obstante, +a populaça arremettia contra o cavallo em que +elle vinha montado, e a celeuma rugia temerosamente.</p> + +<p>A morgada correu a abraçar a filha e a neta, ajoelharam +orando fervorosamente, e longo tempo supplicaram +que um raio da Providencia illuminasse o +coração do povo, para que á desgraça da invasão não +sobreviesse a furia da represalia.</p> + +<p>O emissario francez não era effectivamente o general +Loison, mas o general Foy; com blandicias e +ameaças, escriptas por Soult, vinha propôr a rendição, +que foi recusada.</p> + +<p>Com este acontecimento fechou a tarde do dia 28 +tempestuosa e triste, como se o céo compartisse do +luto da terra. Ás detonações do trovão respondiam +as detonações da artilharia.<span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota2" name="nota2">[2]</a></sup> +Chamava-se então rua <i>Nova</i>, porque o celebre governador +da cidade. Francisco d'Almada e Mendonça, fallecido em 1804, tinha +transformado a antiga rua das Hortas n'esta nova rua, que +tomou o seu nome.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota3" name="nota3">[3]</a></sup> +Por decreto de 11 de dezembro de 1808 toda a nação foi +obrigada a pegar em armas.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota4" name="nota4">[4]</a></sup> +Este facto consta do relatorio do proprio barão.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>IV</h2> + +<h2>Horrores da invasão</h2> + +<p>Durante a noite de 28 para 29 continuou tão rijo o +fogo, que o inimigo logrou forçar a bateria da Prelada.</p> + +<p>Grande era o pavor da cidade, e maior foi quando +se soube que sua excellencia o bispo generalissimo +se havia retirado para a Serra do Pilar.</p> + +<p>Este facto demonstrava não só a descrença do prelado +na defeza do Porto, senão que tambem punha +a descoberto a intenção de fuga, no caso de perigo, +o que realmente aconteceu.</p> + +<p>Não lastimemos a impiedade deshumana do pastor, +que abandonava em tão dolorosa conjunctura o +rebanho indefeso, porque basta a historia a stygmatisal-a, +mas calculemos a funesta impressão que semelhante +noticia causaria nos animos desalentados +dos portuenses.</p> + +<p>A familia do capitão Graça Strech foi seguramente +uma das que mais succumbiram n'aquella tormentosa +noite.</p> + +<p>As trez mulheres estavam entregues ás suas orações +e angustias, inabalaveis no proposito de esperar +a pé quedo a desgraça, verdadeiramente sós, porque +os criados, que foram os primeiros a dar rebate, fugiram, +durante a noite, bandeados com outros habitantes, +para Gaya.</p> + +<p>O capitão e o filho combatiam ás ordens do brigadeiro +Victoria, na linha do Bomfim, posto defensivo +que, á hora da invasão, veiu a nobilitar-se com esforçados +prodigios de coragem por parte do intrepido +brigadeiro e dos seus.</p> + +<p>Umas visinhas da familia Strech, já preparadas +para a fuga, instaram com as pobres senhoras para +que as acompanhassem. Segundo o seu plano, acoitar-se-iam +em Gondomar, onde diziam ter parentes +lavradores.<span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span></p> + +<p>Augusta, lavada em lagrimas, e offegante de commoção, +reagiu energicamente.</p> + +<p>—Se meu pae e meu irmão morrerem—dizia ella—deixemo-nos morrer tambem, porque o viver sem +elles seria peior que a morte. Se vencermos, seremos +as primeiras a abraçal-os, a agradecer-lhes por nós e +pela patria. Elles cumprem o seu dever; e nós tambem. +Elles estão no seu posto; nós estamos no nosso. +O meu coração revolta-se contra a ideia de levarmos +o egoismo da nossa vida até ao esquecimento +de que temos dois soldados nas linhas de defeza. +Muito obrigada, minhas amigas, mas minha mãe e +minha avó são da mesma opinião, e ficaremos todas. +O perigo, se o houver, repartido por trez será menor. +Vão, não percam tempo; oxalá que nos tornemos +a vêr...</p> + +<p>E despediram-se, chorando e soluçando, como se +se despedissem para a eternidade.</p> + +<p>Ao alvorejar da manhã forçaram os francezes as +baterias de Santo Antonio, Pedral e Aguardente.</p> + +<p>A cavallaria inimiga, entrando a dois de fundo pelas +ruas da cidade, correu a atacar pela rectaguarda +as baterias que resistiam ainda.</p> + +<p>Uma das que por mais tempo, e mais heroicamente +resistiram, foi a do Bomfim.</p> + +<p>Já quando era grande a confusão em todo o circuito, +destacou o brigadeiro Victoria para o exterior +da linha a gente que lhe restava da legião lusitana, +e mais duas partidas na força total de cem homens.</p> + +<p>O brigadeiro, o tenente coronel Champalimaud, o +ajudante da praça de Valency, Antonio de Azevedo, +e o capitão Graça Strech corriam denodadamente de +um lado a outro animando o povo, que ali confluira, +e que esperava poder fugir protegido por duas baterias, +as quaes não só defendiam a rua do Bomfim +mas até as baterias de Campanhã.</p> + +<p>Outro tanto não aconteceu no lado esquerdo da +linha, commandado pelo brigadeiro Antonio de Lima +Barreto.</p> + +<p>Logo pela manhã o immigo começou a atacal-o +com energia; Barreto, perdendo algumas baterias, +voltou-se para os artilheiros dizendo-lhes:</p> + +<p>—Encravem as peças. Retirem-se. Estamos perdidos.</p> + +<p>Os soldados, ouvida a ignara apostrophe, metteram-lhe<span class="pn"><a name="pag_30">{30}</a></span> +duas balas no corpo, e despejaram a ultima +polvora contra o inimigo.</p> + +<p>Quando a cavallaria franceza, forçando a bateria +d'Aguardente, entrou na cidade, as ordenanças, desamparados +os postos, fugiram tumultuariamente para +a ponte pelas ruas da Sovella e nova do Almada.</p> + +<p>A morgada, ouvindo o estridor dos fugitivos, ainda +longinquo, correu á janella, e reconheceu á distancia as ordenanças.</p> + +<p>—Que é? perguntaram-lhe anciosamente a filha e +a neta.</p> + +<p>—Não é nada; é o povo que se affez a correr e a +gritar, respondeu a morgada, tranquillisando ambas.</p> + +<p>Como porém a massa enorme rolasse já mais perto, +ouviram-se distinctamente vozes de:</p> + +<p>—São os francezes!</p> + +<p>—Vem ahi!</p> + +<p>—Fujam! fujam!</p> + +<p>—Á ponte! á ponte!</p> + +<p>—Não ha outro caminho!</p> + +<p>—Depressa!</p> + +<p>Augusta, que tinha chegado a meio da sala, recuou +espavorida, e deixou-se cair nos braços da mãe, +gritando dolorosamente:</p> + +<p>—Ah! meu pae!... meu irmão!</p> + +<p>Os francezes, entrando na cidade, levaram de roldão +adeante de si a onda allucinada dos fugitivos que +procuravam salvar-se. D'elles, uns tomavam a direcção +da Foz, outros, em maior numero, corriam para +a Ribeira, na ancia de atravessar para Villa Nova. Alguns +passaram o rio a nado ou em barcos. Mas o +grosso da multidão, enovelando-se n'uma vertiginosa +confusão de pavor, rolou sobre a ponte, cujo taboleiro +assentava, de espaço a espaço, sobre um renque +de lanchões. E as primeiras pessoas que conseguiram +transpol-a abriram, logo que se julgaram a +salvo, os alçapões da ponte—systema de defesa empregado +em casos extremos—pensando preparar assim +um desastre aos francezes que as perseguiam.</p> + +<p>Novos fugitivos, onda sobre onda, empurrando-se +uns aos outros, cegos de desespero, loucos de medo, +iam caindo pelos alçapões ao rio, e a dizimada cavallaria +portugueza, fugindo tambem, e procurando +a ponte, maior pressão fazia ainda sobre a grande +massa de povo, pisando-a, atropellando-a, empurrando-a<span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span> +com os cavallos para o sorvedouro hiante onde +centenas de pessoas desappareciam, ao mesmo tempo +que as baterias de Villa Nova, vendo os francezes +descer a rua de S. João, iam metralhando a Ribeira, +e augmentando involuntariamente o terror e o +morticinio.</p> + +<p>Diz-se que eram tantos os mortos, que, empilhados +no vacuo dos alçapões, nivelaram o pavimento +da ponte, facilitando passagem aos ultimos fugitivos +por cima de rumas de cadaveres sobrepostos uns aos +outros.</p> + +<p>Os proprios invasores se commoveram com esta +horrorosa tragedia, e ainda puderam salvar da morte +algumas pessoas.</p> + +<p>Depois, lançando pranchas sobre os alçapões, passaram +para Villa Nova, d'onde facilmente desalojaram +as nossas baterias.</p> + +<p>Saibamos agora qual seria a sorte do capitão Graça +Strech e da sua familia n'essas crudelissimas horas +da invasão.</p> + +<p>Esteve o capitão ao lado do brigadeiro Victoria, +na bateria do Bomfim, até aos ultimos momentos em +que a ambos, e a poucos mais, foi dado combater +pela patria.</p> + +<p>O que é certo, e a historia o refere, é que puderam +proteger a retirada de mais de seis mil pessoas, +que se evadiram por aquelle lado da cidade.</p> + +<p>Abrigados os restantes valentes por um muro, que +se levantava no outeiro do Bomfim, lograram continuar +o fogo com desesperado denodo.</p> + +<p>Foi realmente heroico esse render-se de heroes, +quando, desamparados de todo o soccorro, enviaram +ao inimigo a ultima metralha que lhes restava.</p> + +<p>O brigadeiro Victoria, conhecendo insustentavel a +posição, apertou a mão do tenente coronel Champalimaud, +do ajudante Antonio de Azevedo e do capitão +Graça Strech, dizendo-lhes com voz tremula de +commoção:</p> + +<p>—Meus amigos, meus bravos amigos, o sacrificio +da nossa vida nada aproveitaria á patria, que está invadida. +Fizemos o nosso dever; pelejámos emquanto +pudemos. Agora que cada um procure salvar a sua +vida para quando mais util possa ser á terra em que +nascemos.</p> + +<p>Mal acabava de dizer estas palavras cahiam feridas<span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span> +duas pessoas das que rodeavam o brigadeiro: +o commandante dos artilheiros e o capitão Graça +Strech.</p> + +<p>—Que foi? perguntou Victoria.</p> + +<p>—Foi a ultima arcanhadura dos francezes, responderam +a um tempo os dois bravos militares.</p> + +<p>Era necessario retirar; por Campanhã já não podia +ser. Optaram por atravessar o Douro, que o brigadeiro +e alguns officiaes conseguiram passar defronte +d'Avintes. N'esse numero porém não podemos +incluir o capitão Graça Strech.</p> + +<p>Ferido no peito, se bem que houvesse dissimulado +a gravidade do ferimento, conheceu que era perigoso +o seu estado. Foi então que se lembrou da filha, da +esposa, da sogra, e do filho, que havia duas horas tinha +perdido de vista.</p> + +<p>Que seria d'ellas, pobres mulheres, entregues sem +protecção aos horrores d'aquelle dia? E o filho, que +se batera como valente na bateria do Bomfim, haveria +ficado entre os muitos que lá succumbiram, e +adormeceram sobre a terra embebida no sangue de +seus irmãos?</p> + +<p>Não sabia.</p> + +<p>Oh! mas era preciso que o soubesse antes que se +lhe fechasse em torno a noite escura da eternidade. +Pouco lhe importava morrer; o que elle queria era +obter a certeza de que a embriaguez da victoria não +tinha desvairado os invasores ao extremo de não respeitarem +fracas mulheres indefesas.</p> + +<p>Ainda se restasse vigoroso o braço do filho para +amparar o golpe que fosse vibrado contra ellas!</p> + +<p>Não o pôde suppôr; julgou-o morto nos derradeiros +momentos da refrega, por que o não tornou a +vêr.</p> + +<p>Atravessar o Douro era arriscado; tentar internar-se +na cidade, tambem. Todavia o primeiro meio era +a morte no desespero; o segundo podia ser a morte +com a esperança.</p> + +<p>Abraçou-se pois a esse unico esteio que lhe restava—a +esperança, de poder abraçar os seus.</p> + +<p>Arrancou os vivos da farda, e, esquecido de si, e +do sangue que cada vez lhe repuxava do peito com +maior intensidade, tentou descer a rua do bomfim e +bandear-se em logar azado com a turba dos que percorriam +as ruas desvairadamente.<span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a><br><a name="pag_34">{34}</a><br><a name="pag_35">{35}</a></span></p> + +<div class="ilustracao"> +<p><img src="images/pag_33.png" border="0" alt="Ilustração"></p> +<p>Quando elle passava coxeando... (<i>pag. 7</i>)</p> +</div> + +<p>Do militar que fôra, arrancados os vivos e emblemas, +só lhe restava a alma.</p> + +<p>Poucos passos andados, sentiu porém que lhe ía +fugindo a vista, á medida que empenhava as ultimas +forças para adiantar caminho.</p> + +<p>Ainda mais uma vez enganára a coragem do soldado +o coração do pae.</p> + +<p>Quiz andar. Fraquejaram-lhe as pernas, e Graça +Strech procurou com a mão um amparo que não encontrou.</p> + +<p>Após um momento de oscillação, ruiu em terra. +Estava morto.</p> + +<p>Entretanto havia occorrido a enorme desgraça da +ponte, e os invasores, enfurecidos pela resistencia +que encontraram, iam encetar as tremendas represalias +que estão na memoria de todos os portuenses.</p> + +<p>Infelizes os que tiveram de assistir hora a hora a +esse drama de sangue e terror que teve por bastidores +os muros d'uma cidade inteira. Infelizes os que +viram despedaçar-se momento a momento nas garras +dos cannibaes os até então immaculados thesouros do +seu coração. Infelizes, finalmente, os que viram cavar-se +a seus pés a sepultura ingente de milhares de +familias e não puderam enchel-a com o sangue dos +que assassinavam em nome da victoria.</p> + +<p>José Maria da Graça Strech pertence ao numero +d'estes grandes desgraçados, que foram muitos.</p> + +<p>Quando a bateria do Bomfim protegeu a fuga de +seis mil pessoas, já quando, depois das oito horas da +manhã, era desesperada a situação dos portuenses, +duas senhoras, que se destacaram da multidão desorientada, +acenaram ao denodado moço que por acaso +olhára na direcção que ellas seguiam.</p> + +<p>Elle reconheceu-as. Eram as duas visinhas que horas +antes tinham convidado Augusta a acompanhal-as +na fuga e que, arrastadas pela onda impetuosa dos +que procuravam salvação, chegaram até ao Bomfim.</p> + +<p>Abeirou-se o moço a falar-lhes, por um momento +radioso de felicidade, porque lhe acudira a lembrança +de que as pessoas da sua familia as haveriam acompanhado. +Oh! se sua irmã, se a estremecida menina +estivesse ali, poderia fugir incolume aos horrores que +elle presagiava imminentes, attenta a vantagem do +inimigo em toda a linha.<span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span></p> + +<p>—Ellas vieram? perguntou açodadamente José +Maria.</p> + +<p>—Não, teimaram em ficar, respondeu confrangida +uma das senhoras.</p> + +<p>—Oh! meu Deus! exclamou o filho do capitão +Strech levando a mão ao coração.</p> + +<p>—Veja se póde salval-as, salve-as por Deus, que +estão sósinhas, desampadas de criados...</p> + +<p>—Mas como? Como?! articulou o moço estendendo +o braço para a posição do inimigo, como se quizesse +indicar que era preciso combater a todo o +transe.</p> + +<p>—Augusta, a pobresinha, fazia dó! Oh! salve-a, +salve-a, que ella morrerá de pavor! acrescentou a +outra visinha.</p> + +<p>—Augusta! Augusta! repetiu José Maria, perplexo, +olhando para as duas lacrimosas mulheres e para +os seus companheiros d'armas que defendiam á distancia +a unica bateria que não se tinha rendido.</p> + +<p>E, sem se mover do sitio em que empedrára, dizia +com desalento:</p> + +<p>—Pobresinhas! E meu pae ali, exposto á morte a +todo o instante, e ellas sem defeza, sem ninguem!...</p> + +<p>Então, aproveitando a opportunidade d'um momento, +ordenára o coronel Champalimaud que se +désse passagem ao magote dos fugitivos que mais se +tinha adiantado.</p> + +<p>—Vão, vão, gritou o moço affastando com o braço +as duas mulheres—Salvem-se ao menos, e obrigado, +muito obrigado. Eu verei se as posso salvar... +a ellas, a Augusta.</p> + +<p>O troar proximo do canhão pareceu chamal-o á realidade +do perigo.</p> + +<p>—São elles, disse de si para comsigo, correndo na +direcção da bateria, os poucos que n'esta hora se sacrificam +pela patria. E tambem hão de ter mãe, e irmã... +e estão ali, firmes, corajosos, heroicos. Oh! +cobardia do meu coração, não, não te posso, não te +devo ouvir...</p> + +<p>E não tardou que se collocasse ao lado dos seus +esforçados companheiros.</p> + +<p>Todavia cada vez se aproximava mais o lastimoso +desfecho d'aquella desesperada resistencia. Começava +a lavrar a confusão na bateria, fustigada por violento +fogo dos francezes—indomito ataque, de que<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span> +em breve foi victima, como já dissemos, o proprio +capitão Graça Strech. Tamanha era a fumarada, que +já se tornava impossivel verem-se uns aos outros. +Foi então que José Maria, involto na cerração da metralha, +conhecendo que era impossivel prolongar por +mais tempo aquella proeza de bravos patriotas, se +lembrou de que nada aproveitaria á causa da patria +o sacrificio da sua vida. E soaram-lhe aos ouvidos as +palavras afflictivas das duas mulheres, e sonhou ver estenderem-se +para elle os braços tremulos d'Augusta, +que pedia soccorro.</p> + +<p>Então, como se o coração houvesse decretado +uma sentença irrevogavel, cortou resolutamente o +fumo da polvora, e affastou-se da bateria, murmurando +os nomes de sua mãe, de sua irmã, de sua avó.</p> + +<p>Momentos depois foi que o brigadeiro Victoria fugiu +tambem, e que o capitão Graça Strech caiu morto +na rua do Bomfim.</p> + +<p>Trabalhoso e arriscado foi o abrir caminho por +entre a multidão que, semelhante a um grande mar, +ondulava no vertiginoso fluxo e refluxo do desespero. +Algumas vezes teve de se esconder, outras de +retroceder, e só pela tarde chegou á rua nova do Almada.</p> + +<p>Abroquelado pela energia da coragem, e mais feliz +ou mais infeliz que seu pae, venceu todas as contrariedades, +até que finalmente, escoando-se por entre +os grupos desvatrados, entrou em casa no momento +em que ao fundo da rua assomavam tropas francezas +que, senhoras de toda a cidade, continuavam o saque, +as violações e a carnificina que tristemente assignalaram +esse dia memoravel nos fastos da nossa +historia.<span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>V</h2> + +<h2>O juramento de vingança</h2> + +<p>As casas da rua nova do Almada estavam pela +maior parte desertas.</p> + +<p>Foi esta uma das ruas que mais lutuoso espectaculo +offereceram. Os habitantes fugiram deixando +abertas as portas, de modo que, á hora em que começou +o saque, os francezes se locupletaram tranquilamente. +Poucos foram os predios que lhes deram +o breve incommodo de forçar a entrada. A este +numero pertenceu, porém, a casa onde se conservou, +entregue aos seus pavores, a familia Strech. José Maria, +ao entrar açodado pela aproximação dos invasores, +appellou para o ultimo recurso de defeza que +lhe restava: fechou a porta. Lembrou-se de que os +francezes se domiciliariam nos predios devolutos e +de que não porfiariam em forçar uma entrada encontrando abertas tantas portas. Não pôde imaginar +n'esse momento de suprema preoccupação que meditassem +a pilhagem e a carnificina que, passadas horas, +consummaram.</p> + +<p>Correu, pois, a procurar a irmã, a mãe e a avó, +que, ouvindo passos apressados, e no presupposto de +serem os de algum soldado francez, romperam em +gritos angustiosos, traindo d'este modo o segredo dos +seus esconderijos.</p> + +<p>—Augusta! Augusta! Minha mãe! Avósinha! apostrophou +precipitadamente José Maria para serenal-as +e correndo pelo corredor.</p> + +<p>—José! José! exclamou uma voz que parecia soar +das profundezas de um tumulo.</p> + +<p>E logo dois braços tremulos de commoção enleiaram +o moço, e uns labios gelados de mortal frialdade +lhe procuraram as faces, e um novo grito de dolorida alegria lhe estrugiu aos ouvidos.</p> + +<p>E immediatamente soaram passos, que elle conheceu:<span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span> +a mãe e a avó, seguindo a pobre menina que as +precedera, correram ao encontro de José Maria.</p> + +<p>Augusta, apertando-o contra o peito, alternando +beijos e olhares por egual frementes, porque o sangue +congelado no coração parecia, acordado de subito, +correr em turbilhões ao cerebro, não lograva +articular palavra, tão violenta era a sensação que estava +experimentando.</p> + +<p>Não assim, porém, sua mãe, que, parando como +que fulminada á porta, tivera comtudo voz para perguntar ao filho enleiado pela irmã:</p> + +<p>—E... teu pae?</p> + +<p>—Lá ficou ainda a combater com os ultimos valentes. +Bem póde ser que a Providencia o tenha salvado +como a mim me salvou. O cobarde fui eu, sim, +fui eu, porque me lembrei de ti, minha irmã, e de si, +minha mãe, e...</p> + +<p>Não pôde completar a phrase, porque de repente +foi chamado á realidade pelo estrepito que a soldadesca +franceza fazia na rua.</p> + +<p>—Retirem-se! escondam-se! gritou elle. São os +francezes, bem os vi, são elles! Esconde-te, Augusta, +minha mãe, minha avó...</p> + +<p>N'este momento estremeceu o predio nos alicerces +como se a porta tivesse soffrido o embate de um +ariete.</p> + +<p>—Que é? Onde é? perguntou offegante a menina, +que de novo descorára até á lividez do cadaver.</p> + +<p>—São elles que forçam a porta, naturalmente... +Eu fechei-a quando entrei, sim, eu fechei-a.</p> + +<p>—E estava aberta! Foram os criados quando fugiram! +acrescentou a avó.</p> + +<p>—Escondam-se, escondamo-nos todos. Viram-me +decerto entrar. Perseguem-me! tornou afflicto José +Maria.</p> + +<p>E, após segundo estrondo, soaram no portal e na +escada os passos da soldadesca que entrava.</p> + +<p>Das quatro pessoas que estavam na sala, nenhuma +pôde fugir; todas como que ficaram chumbadas ao +pavimento.</p> + +<p>E os francezes entraram vozeando, praguejando, e +logo assomaram á porta muitas cabeças cujos olhos +chammejavam de cubiça e sensualidade.</p> + +<p>Então José Maria, como galvanisado de subito, +adeantou-se para a porta, estendendo o braço para<span class="pn"><a name="pag_40">{40}</a></span> +defender as trez mulheres e, quando ia talvez a balbuciar +uma supplica, caiu desamparado, vibrando um +grito e recebendo no peito a ponta de uma bayoneta, +cujo golpe fôra mais doloroso que profundo.</p> + +<p>As vozes das trez mulheres, conglobadas n'uma só, +soltaram uma d'essas exclamações impossiveis de +descrever, apenas comparavel ao grito lamentoso da +araponga no deserto, quando encontra vazio o ninho, +porque uma ave de rapina lhe arrebatou a prole.</p> + +<p>E a soldadesca entrou de roldão na sala, affastando +com o pé o corpo de José Maria, sedenta de prazer +e rapina.</p> + +<p>Para os que suppozerem que exageramos com +toques demasiado sombrios os horrores que se succederam +á invasão do Porto, vamos copiar apenas +algumas linhas da <i>Historia da guerra civil</i>, de Soriano:</p> + +<p>«Para cumulo de todas estas desgraças a cidade +foi posta a saque, por castigo da sua resistencia, como +em casos taes se costuma praticar, saque que +começou pelas onze horas do dia, levando os vencedores +a todas as casas de habitação, a par do terror +que infundiam, o roubo, a violação e a morte, excitados +de mais a mais para isto por encontrarem, segundo +alguns dizem, varios prisioneiros francezes +sem olhos, com linguas cortadas, e os membros truncados +ou rasgados.»</p> + +<p>Alguns escriptores o dizem, em verdade; um d'elles +é o sr. Claudio de Chaby que, nos seus <i>Excerptos +historicos</i>, refere:</p> + +<p>«No transito das ruas e praças encontraram os soldados +de Soult alguns dos seus camaradas, que nas +differentes refregas tinham os nossos aprisionado, +exercendo n'elles as sevicias da mais repugnante +crueza: a uns tinham cortado a lingua, arrancado a +outros os olhos ou decepado os membros!—O effeito +natural da observação de taes crueldades, junto á +tambem natural disposição de espirito dos invasores +em taes circumstancias, levou estes á pratica de vingativos +e deploraveis excessos, de <i>assassinato, roubo, +violencia e profanação</i>!»</p> + +<p>O mais que se passou na casa da rua nova do Almada, +depois que a soldadesca entrára, não o soube exactamente +José Maria que, ao cerrar da noite, tornára +a si, depois de haver perdido muito sangue pelo<span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span> +golpe que recebera no peito. Foi de tempestade na +terra e no céo essa noite, como podem confirmar os +poucos que se lembrarem d'ella.</p> + +<p>Tamanho era o temporal havia dias imminente ao +Porto, que trinta navios inglezes, carregados de vinho +e outros productos, impedidos de sair das aguas +do Douro pelo mau estado da barra, caíram em poder +do marechal Soult, bem como a polvora guardada +n'um vasto armazem, e 196 peças de artilharia, +recolhidas nas differentes baterias da cidade.</p> + +<p>Algum tempo esteve José Maria firmado sobre o +braço direito, que d'instante a instante fraquejava, +procurando orientar-se e recordar-se.</p> + +<p>Era profundo o silencio na casa toda.</p> + +<p>Dir-se-ia que despertava n'um tumulo.</p> + +<p>Assim que pôde rememorar o que se passára até +ao momento de ser ferido, entrou de chamar em altas +vozes a irmã, a mãe e a avó.</p> + +<p>Apenas porém respondia ás suas afflictivas exclamações +o chofrar dos aguaceiros nas vidraças.</p> + +<p>Ergueu-se com muito custo, atabafando o sangue +com a roupa, e começou a sondar a escuridão, procurando +alguem.</p> + +<p>Não tardou que tropeçasse n'um obstaculo que os +pés encontraram. Curvou-se e tacteou. Encontrou +vestidos de mulher. Estendeu a mão e apalpou um +rosto. Até pelo tacto conhecemos os nossos. José +Maria estremeceu como se tivesse recebido em pleno +peito um novo golpe de ferro, e rugiu d'afflicção +e desespero. Não podia duvidar. Era o rosto de sua +irmã. Parecia morta! Entrou de agital-a, de chamal-a. +O mesmo silencio, a mesma immobilidade!</p> + +<p>—Mortal morta! rouquejava elle convulso.—Minha +mãe! minha avó!</p> + +<p>E unicamente lhe respondia a chuva a fustigar a +vidraça.</p> + +<p>Occorreu-lhe porém que, como se deu com elle, +podia ser que sua irmã estivesse apenas adormecida +em deliquio.</p> + +<p>—Ella é tão delicada! apostrophou-se elle. Desmaiou +talvez. Julgaram-n'a morta. Deixaram-n'a. +Mas minha mãe? E minha avó?</p> + +<p>Era preciso tirar-se d'aquella duvida horrivel.</p> + +<p>Sondando as trevas, saíu tremendo, a procurar +luz.<span class="pn"><a name="pag_42">{42}</a></span></p> + +<p>Momentos depois voltava cambaleante á sala e, levantando +una candieiro de latão á altura da cara, reconhecia +trez cadaveres.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>N'essa mesma noite, e a essa mesma hora, ruidosamente +se banqueteavam n'uma taberna do largo da +Lapa, ebrios de vinho e victoria, alguns soldados da +divisão Delaborde.</p> + +<p>Comia-se, bebia-se, fumava-se, cantava-se. Era a +celebração solemne d'um dia de saque, que requeria +uma noite d'orgia. Algumas vivandeiras francezas +cantavam em côro, no idioma patrio, e reclinadas +aos hombros dos soldados, uma canção marcial, cujo +estribilho podia ser traduzido d'este modo:</p> + +<blockquote> +<p>Viva a França! viva a França!<br> +Que triumpha na matança!<br> + Rataplan!</p> +</blockquote> + +<p>Um dos soldados; de olhar scintillante e fartos bigodes +retorcidos, chasqueava na sua lingua natal com +uma das vivandeiras que se lhe queria escapar dos +braços:</p> + +<p>—Oh! Por Deus, que era bem mais bonita do +que tu!</p> + +<p>—Quem? perguntou d'esguelha a vivandeira.</p> + +<p>—A portugueza que me resistiu.</p> + +<p>—E que tu mataste?</p> + +<p>—E que eu matei para que não deixasse de resistir +a outro.</p> + +<p>—A pobre rapariga!</p> + +<p>—Pobre rapariga! d'aquella edade deve ter morrido +pura! Tu não morres assim, <i>ma petite chienne! +Par Dieu!</i></p> + +<p>—Cruel!</p> + +<p>—E o caso é que quasi do mesmo golpe derrubei +as duas mulheres que a defendiam e abraçavam. Um +soldado do imperador livra-se depressa ainda que seja +d'um cento de mulheres.</p> + +<p>—Cheiras a sangue! exclamou a vivandeira forcejando +por desprender-se dos braços do soldado.</p> + +<p>—Acodes pelo teu sexo! O que me não perguntas +é quantos homens matei! Por Deus! que era precisa +a vingança. Estes perros d'hespanhoes, que se chamam +portuguezes, não nos queimaram a alma porque<span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span> +não puderam. Atiravam-nos desesperados! E +matavam os nossos emissarios! e mutilavam os nossos +irmãos! Quantos centos de francezes imaginas +tu que morreram hoje? Não se mata impunemente +um francez como se mata um cão. E desde que entrámos +em Portugal quantos não teem ficado para +nunca mais voltar a França! Vingámol-os; estão vingados! +<i>Vive l'empereur! Vive le marechal! Vive la +France!</i></p> + +<p>E voltando-se para outra das vivandeiras, que estava +proxima, jogou-lhe esta phrase intimativa:</p> + +<p>—Esta é minha; canta tu.</p> + +<p>E logo, por entre a vozeria, se ouviu cantar;</p> + +<blockquote> +<p>Viva a França! viva a França!<br> +Que triumpha na matança!<br> + Rataplan!</p> +</blockquote> + +<hr class="dotted"> + +<p>Aquelles cadaveres eram os das trez senhoras da +familia Strech.</p> + +<p>José Maria esteve contemplando-os mudo, absorto, +authomatico. Dir-se-ia que a intelligencia se lhe +havia paralysado, e o coração havia adormecido. Era +um deliquio, como o que fôra consequencia do ferimento, +mas muito mais horroroso de certo, porque +os olhos tinham vista para a realidade, embora o cerebro +não tivesse actividade para comprehender.</p> + +<p>Parecia que as trez pobres senhoras dormiam tranquillamente, +se bem que o desalinho dos vestidos e +dos cabellos fosse claro indicio de lucta.</p> + +<p>José Maria ajoelhou-se, poisando a luz, a contemplal-as +e, porque o coração humano é tão valente ás +vezes que se excede a si mesmo, resistiu áquella dôr +incomparavel e quiz ainda procurar nas ruinas do +seu pensamento o auxilio de uma ideia.</p> + +<p>N'aquella immensa e tenebrosa cerração era preciso +um raio de luz, ainda que fosse sinistro como os +clarões sulphureos dos mysticos paineis que representam +o inferno.</p> + +<p>E verdadeiramente infernaes foram os horrores +d'esse dia.</p> + +<p>Se o leitor, apesar das indicações historicas de que +me tenho soccorrido, imagina que estou phantasiando +negruras para architectar um romance tenebroso,<span class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span> +achará no seu proprio espirito a convicção da verdade, +se se concentrar por um momento deante do tosco +e funebre quadro, allusivo á invasão dos francezes, +que pende da muralha da Ribeira, a dois passos +da ponte pensil.</p> + +<p>Ahi, á luz das lanternas que descrevem na escuridão +da noite duas zonas luminosas, ouvindo o ruido +triste do Douro que lhe rola aos pés, vendo a pequena +distancia erguerem-se ao ar, como outros tantos +espectros sombrios, as armações dos navios fundeados, +ahi, dizia eu, comprehenderá todas as angustias, +hoje esquecidas, d'essa epoca de horror, traduzidas +na concisa simplicidade d'esse piedoso monumento.</p> + +<p>A inscripção do quadro nem por singela deixa de +convidar á meditação:</p> + +<p class="ni" style="margin:1em; border: solid 2px #000; padding: 1em;">«Pelas almas dos que falleceram na ponte do +rio Douro na entrada dos francezes no anno +de 1809, um Padre Nosso e uma Ave-Maria.»</p> + +<p>Ali fui eu muita vez, pela calada da noite, como a +procurar a triste inspiração para escrever as primeiras +paginas da historia da familia Strech. Estes horrores +poderão hoje parecer sinistramente romanticos, +mas uma hora só de recolhimento em face do quadro +da Ribeira basta a acordar em nós a consciencia +historica d'essa epoca calamitosa.</p> + +<p>Para os que morreram na catastrophe da ponte +pede o rotulo uma oração, mas quantos não morreram +então sem oração e sem mortalha, quantos não +agonisaram em ancias que não foram mortaes, sem +a mortalha que desejariam, e sem uma oração de que +blasphemariam!</p> + +<p>Ó Providencia! só tu sabes o segredo de todas as +maguas, só tu podes contar as bagas de suor que +ressumbram na fronte dos infelizes que tu não matas +logo, para que não morram em desespero sacrilego!</p> + +<p>E José Maria não morreu.</p> + +<p>Por um esforço intellectual, que só a Providencia +podia permittir a um soldado ferido, quando já as<span class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span> +trevas da loucura procuravam cingir-lhe o cerebro +escandecido, conseguiu encontrar uma recordação, +se bem que a principio tibia e vaga como o diluculo +que se vae alargando e colorindo pouco a pouco até +chammejar no céo.</p> + +<p>E tambem essa luz que se fez no espirito do pobre +moço lhe queimára a intelligencia, como se fosse +labareda, mostrando-lhe as ruinas do passado ainda +fumegantes de um incendio recente.</p> + +<p>Eram aquellas as cinzas da sua felicidade...</p> + +<p>Estavam ali espalhadas pelo turbilhão da guerra, +retintas de sangue, a clamar vingança.</p> + +<p>E os seus beijos cariciosos e ardentes, e as suas +palavras ao mesmo passo desalentadas e calorosas +não puderam, depois que inteiramente se recordou +da realidade, galvanisar os trez cadaveres, animar os +trez corações paralysados, descerrar os labios da mãe, +da irmã e da avó, para sempre mudos, para sempre +adormecidos.</p> + +<p>—Pobresinhas!—pensava elle—deixaram-se talvez +morrer por me supporem morto! E antes eu o +estivesse, que já teria soado a ultima hora da minha +triste mocidade. E mata-se assim a mãe, a dois passos +do filho! E não se respeitam os cabellos brancos +da velhice! nem a belleza e a virtude que teem duplo +direito á vida! Mas, agora reparo eu, aqui estão +patentes e irrecusaveis os signaes da lucta... é que se +disputavam o sacrificio da morte... ou... suspeita horrivel! +morreram talvez para defender a virgindade de +uma só! Dize-me, ó minha boa irmã, ó minha doce +amiga, se isto não é um sonho atroz da minha desvairada +cabeça! Responde, Augusta, sou eu que te +peço, eu, o teu irmão, o teu José... E não fala, e não +responde! Está morta! Mataram-n'a elles, os malditos +soldados d'esse leão indomavel da Corsega para +quem todo o mundo é pequeno, todo o sangue pouco! +Acaso não se saciava a tua sanha, leão, sem a +vida d'estas trez pobres mulheres, que nunca te +amaldiçoaram, que nunca levantaram um brado de +justa indignação contra a tua ambição desmedida! +Eu é que devia morrer, sabes tu? Eu sim, porque +fiz guerra de morte aos teus soldados, porque as minhas +mãos cheiram ainda a polvora com que os fuzilei. +Eu sim, porque a minha morte seria uma represalia; +mas a morte d'estas trez mulheres, timidas<span class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span> +e indefesas, não foi uma represalia, foi uma infamia...</p> + +<p>E, extenuado d'esta subitanea exaltação, pendeu a +fronte, como se lhe faltasse a vida para tamanha angustia, +porque o sangue perdido era copioso. Entretanto +continuava a tempestade e, confundido com o +estrepito da chuva, começou-se a ouvir o toque dos +clarins nos postos dos invasores.</p> + +<p>José Maria pareceu despertar de subito, acordado +por essa sinistra linguagem dos acampamentos:</p> + +<p>—Sois vós! Podeis estar tranquillos, que a esta +hora não haverá um só braço que tenha a energia +de vos acommetter no vosso glorioso descanço. Tudo +são orphãos e viuvas, que pranteiam cadaveres. +Descançae, descançae, que muita coragem vos deve +ter custado o assassinio de mulheres inoffensivas +como estas! como todas! Oh! mas ámanhã a vingança +acordará terrivel, e então vos pedirá contas +das vossas atrocidades e das vossas infamias. Sim, +ámanhã, nós todos, unidos por commum desgraça, +seremos um só inimigo, porque a nossa vingança +é uma, mas não imagineis que tendes a derrubar um +só inimigo, porque serão muitas as cabeças a decepar, +muitos os portuguezes a vencer... Onde houver +um portuguez, haverá um soldado, porque elle pelejará +por desaffrontar a memoria dos seus parentes, +dos seus amigos, d'um filho, d'uma irmã...</p> + +<p>E curvando-se carinhoso para o cadaver d'Augusta, +e tirando-lhe delicadamente do dedo o annel com +que ella havia morrido:</p> + +<p>—E eu vingarei a vossa memoria, minhas santas +amigas, e vingarei a tua innocencia, minha querida irmã... +Por este annel o juro, que será o meu fiel +companheiro, talvez o unico que me seja dado conservar +até a hora da morte... Beijal-o-hei antes +d'entrar em combate, e elle me dará a coragem dos +valentes; elle será a minha égide protectora se a +morte me quizer arrebatar a minha vingança..... Que +Deus me oiça, Augusta. Sobre o teu annel, que nunca te desacompanhou, faço este juramento solemne, +que jámais quebrarei...<span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>VI</h2> + +<h2>A mariposa do acampamento</h2> + +<p>Fôra demasiado esforço para tão melindroso estado.</p> + +<p>O corpo, alquebrado pela dôr physica, parecia vergar +ao peso d'aquella grande alma.</p> + +<p>Graça Strech caminhou em direitura á porta, vacillando +a cada passo, e deixando após si um rasto +de sangue. Antes de sair, volveu ainda um ultimo +olhar aos trez cadaveres, e levantou por um instante +a mão de sobre o ferimento, apalpando o peito n'outro +sitio, como para se certificar da existencia d'alguma +coisa que lá trazia occulta, e que pareceu encontrar.</p> + +<p>Era o maço das cartas d'Augusta, escriptas da quinta +das Chãs, e que elle conservára no seio durante as +mais perigosas refregas na bateria do Bomfim.</p> + +<p>Desceu vagarosamente as escadas, amparado ao +corrimão, e conseguiu a muito custo chegar á rua.</p> + +<p>Uma lufada de vento, humida e fria, momentaneamente +refrigerou o cerebro d'aquelle moço, em quem +as mais violentas congestões parecia succederem-se +rapidamente.</p> + +<p>Onde ia elle, ferido, cerrada a noite?</p> + +<p>A esta pergunta, que muitas vezes se fez no decurso +de sua vida, nunca pôde achar resposta satisfatoria.</p> + +<p>O que parece mais proximo da verdade é que, não +sentindo já forças e coragem para demorar-se ali, +luctasse por arrancar-se de ao pé dos trez cadaveres.</p> + +<p>Chegado ao limiar da porta, e recebendo de subito +uma lufada de ar, impregnado d'humidade, reconheceu-se, +no meio da cerrada escuridão d'aquella +noite tenebrosa, inteiramente carecido d'alento para +dar um passo.</p> + +<p>N'essa conjunctura ouviu estrepito de cavallos. Sentiu +de novo affluir-lhe o sangue ao cerebro. Eram de +certo elles, os assassinos da sua familia, que patrulhavam<span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span> +a cidade invadida. Não se enganou. Os cavallos +que se aproximavam eram os d'uma ronda franceza. +Graça Strech estava porém desarmado, ferido, +impossibilitado do menor esforço. A ronda acercou-se, +e um dos cavalleiros, que era um official portuguez +obrigado pelo direito de conquista ao triste mister +d'interprete, perguntou com voz tremula:</p> + +<p>—Quem está ahi?</p> + +<p>Graça Strech ficou surprehendido d'ouvir falar-lhe +na lingua nacional, e respondeu:</p> + +<p>—Um soldado portuguez, ferido.</p> + +<p>Demorou-se o official a falar á patrulha franceza, e +apeando-se dois dos cavalleiros ergueram o corpo de +Graça Strech até a altura precisa para poisal-o entre +o arção da sella e o corpo do official portuguez.</p> + +<p>E monotamente continuou a eccoar na rua o estrepito +da ronda.</p> + +<p>Não pareça extraordinaria esta piedade dos invasores +para com os invadidos no mesmo dia de tão sanguinosa +victoria.</p> + +<p>O marechal Soult, que entrára no Porto na tarde +d'esse dia, puzera desde logo todos os seus cuidados +em serenar os animos da população por actos ostensivamente +meritorios.</p> + +<p>Era este um procedimento por ventura aprendido +na lição da historia romana—o da benevola protecção +aos vencidos.</p> + +<p>Manda porém a verdade que se diga que, mal que +entrou na cidade, expediu ordens terminantes ás tropas +para que, sob pena de austera correcção militar, +respeitassem a população, e até a protegessem em +caso de conflicto.</p> + +<p>Assim foi que, reprimindo os abusos da soldadesca, +logrou restabelecer o socego em toda a cidade trez +dias depois da invasão, procurando insinuar-se na opinião +publica, abstendo-se de impôr contribuiçoes de +guerra, nomeando pessoas idoneas para os logares vagos, +e soccorrendo os habitantes completamente privados +de recursos.</p> + +<p>O partido anti-patriotico, subitamente creado em +redor do marechal Soult, para logo fundou um orgão +jornalistico, denominado <i>Diario do Porto</i>, porque a +imprensa tem sido desde tempos immemoriaes o respiradouro +aberto a todas as paixões, justas e injustas, +nobres e mesquinhas.<span class="pn"><a name="pag_49">{49}</a></span></p> + +<p>O leitor deve ficar conhecendo uma pequena amostra, +sequer, da linguagem empregada no supracitado +diario. Oiçamos o falsario redactor no supplemento +ao n.º 2.º:</p> + +<p>«Este paiz tão bello, e tão favorecido pela natureza, +parecia no passado governo tocado de paralysia; +mas, graças aos céos, que se lhe prepara um novo futuro, que +os bons conhecedores já tinham d'antemão +entrevisto! Nada terá o Principe que dizer sobre a +nossa fidelidade; nos lh'a guardamos emquanto existiu +entre nós; mas uma vez que nos deixou, uma vez +que desdenhou lançar mão das redeas do governo, +que largára quando as circumstancias lh'o permittiam, +renunciou todos os seus direitos, e nada é já +para os portuguezes, que deixou ao desamparo. Em +uma palavra, a casa de Bragança já não existe; aprouve +aos céos que os nossos destinos passassem a outras +mãos, e foi particular predilecção da Divina Providencia, +que impera sobre o universo, o ter-nos enviado +um homem isento de paixões, e que só tem a +da verdadeira gloria; que se não quer servir da força, +que o grande Napoleão lhe confiou, senão para +nos proteger e livrar-nos do monstro da anarchia, que +ameaçava devorar-nos. As palavras que elle nos dirigiu, +e as promessas que nos fez<sup><a href="#nota5" name="m_nota5">[5]</a></sup>, desde que entrou +n'esta cidade, tudo se tem cumprido á risca, +muito mais do que o poderiamos esperar, e do que +as circumstancias pareciam promettel-o: porque tardamos, +pois, em congregar-nos ao redor d'elle, a proclamal-o +nosso pae e nosso libertador? Porque tardamos +a exprimir o nosso desejo de o vermos á testa +d'uma nação, cujo affecto soube tão rapidamence conquistar? +O soberano de França prestará ouvidos aos +nossos clamores, e se lisonjeará de ver que desejamos +para nosso rei um logar-tenente seu, e ao mesmo +tempo um grande general, que a seu exemplo soube +vencer e perdoar. Seja, pois, esta grande e interessante +comarca, já que tem experimentado os effeitos da +sua clemencia, e a quem elle tem prodigalisado os +seus beneficios, seja uma das primeiras, que se glorifique +de o reconhecer e de lhe offerecer os seus +braços, os seus bens e o seu patrimonio todo.»</p> + +<p>Não ficaram simplesmente em louvaminhas de gazeta<span class="pn"><a name="pag_50">{50}</a></span> +os salamaleques feitos ao duque de Dalmacia. De +Braga veiu ao Porto no dia 25 d'abril uma deputação +composta de trinta e seis membros do clero, nobreza +e povo, a pedir ao marechal que se dignasse fazer ver +ao imperador a necessidade de collocar um principe +de sua eleição no throno que a dynastia de Bragança +deixára devoluto.</p> + +<p>No dia immediato entrou egualmente ao palacio do +duque de Dalmacia outra grande deputação, constituida +por todas as autoridades civis, clero, deputados, +nobreza, cidadãos, corporações judiciaes e militares +da cidade do Porto, a repetir o pedido com viva instancia.</p> + +<p>A deputação, acompanhada desde a casa do conselho +pelos officiaes do estado-maior general, era esperada no +atrio do palacio dos Carrancas pelos ajudantes de +ordens do marechal Soult. Foi o general de divisão +Quesnel, investido nas funcções de governador +militar do Porto e da provincia do Minho, quem a introduziu +na sala de recepção, onde o corregedor da +comarca botou fala consoante ao estylo dos supplementos +do <i>Diario do Porto</i>.</p> + +<p>O marechal devia estar sorrindo interiormente da +versatilidade dos portuguezes, que lhe atiravam aos +pés nuvens d'incenso, recebendo-o dias antes nas +trincheiras com nuvens de polvora. Força é assoalharmos +as nossas glorias, para sermos portuguezes, e as +nossas manchas, para sermos justos. E esta é realmente +uma lamentavel nodoa que macula as paginas +da historia portugueza. Se nos não respeitámos, durante +a invasão, a boa policia de guerra, tambem a +soldadesca franceza não respeitou, na victoria, os direitos +individuaes. Saldada a divida, estavamos quites. Para a atrocidade, filha da revolução, a represalia, +irmã do triumpho. A attitude do Porto, depois +de vencido, e em presença do cavalheiroso procedimento +de Soult, devia ser a da resignação reconhecida, +nunca a do servilismo infamante. Agradecer é das +boas almas; ajoelhar aos pés do usurpador é dos +maus cidadãos. E nós fomos então maus cidadãos. +Ainda bem que redimimos as nossas culpas d'um dia +com a heroicidade de cinco annos, que tantos são +os que vão desde a invasão do Porto até ao regresso +das nossas tropas, coroadas de loiros.</p> + +<p>Se o throno portuguez tinha sido abandonado pelo<span class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span> +rei, estava porém encimado ainda pelas armas da nação! +Se não se podia amar o rei, que fugira, devia-se +defender a patria, que ficára.</p> + +<p>Mas, disse-o Camões, e é uma profunda verdade, +que</p> + +<blockquote> +<p>O fraco rei faz fraca a forte gente</p> +</blockquote> + +<p>Perdoemo-nos a nós, porque nos rehabilitamos depois, +e perdoemos ao rei, que já hoje é do tumulo, e +que no triste curso de sua attribulada existencia mais +inspira por vezes compaixão do que odio.</p> + +<p>Mas tornemo-nos a Graça Strech, que deixámos +ferido em companhia da ronda franceza.</p> + +<p>Fôra elle transportado a um dos muitos hospitaes +de sangue que se estabeleceram nos conventos do +Porto:—o convento de S. Francisco. O serviço cirurgico, +na maior parte d'estes hospitaes improvisados, +era feito, por ordem do marechal Soult, pelas mulheres +que acompanhavam o exercito invasor. Uma +d'ellas, conhecida entre os seus pela alcunha de <i>lá +gentille vivandière</i>, recebeu o ferido e, ajudada por +outras, deitou-o no catre e começou o curativo do +ferimento com certo carinho, que só a ordem do marechal +Soult não explicaria cabalmente.</p> + +<p>É que fez impressão a Rosina a physionomia, posto +que dolorosa, serena, do soldado portuguez. Pareceu-lhe +um roble que baqueára magestosamente. +Não havia a menor contração n'aquelle corpo athletico; +por entre os labios, descórados e immoveis, não +se coava um gemido. Verdade era que não era desesperado +o ferimento, e que mais para recear parecia +a gravidade da prostração que a do golpe. Não obstante, +o soldado, que a espaços abria os olhos, nem +uma gota d'agua pedia.</p> + +<p>Durante a noite a vivandeira acercou-se do catre, +por muitas vezes, a escutar. Pela madrugada sobreveiu +o delirio ao abatimento, e o ferido dizia com +manifesta difficuldade algumas palavras que ella +não entendia. Como, porém, de uma das vezes o +visse febrilmente apalpar o peito, comprehendeu-o, +e, tirando do forro da fardeta, que lhe tinha despido, +o maço de papeis, insinuou-lh'o entre as mãos. O ferido, +conhecendo-o provavelmente pelo tacto, abriu +por algum tempo os olhos, e demorou em Rosina o +doce e apagado olhar. Talvez fosse este um acto puramente<span class="pn"><a name="pag_52">{52}</a></span> +mechanico e talvez não; a verdade, melhor +que os medicos, a sabe Deus.</p> + +<p>A vivandeira ficou sobremodo commovida do que +a ella lhe pareceu intencional. Apiedou-se do soldado, +que tinha porventura a sua mesma idade, e parecia +guardar n'aquelles papeis uma querida memoria, como +ella, como ella n'aquella madeixa de cabellos que +possuia...</p> + +<p>Aqui entra o leitor a sentir desejos de saber a historia +da madeixa.</p> + +<p>Rosina era a filha adoptiva d'um dos regimentos +da brigada Arnaud. Por seu pai, moribundo, um dos +bravos militares do exercito francez, natural das Ardennas, +aquella vasta floresta, <i>Arduenna sylva</i>, golpeada +por quatro rios, o Semoy, o Lesse, o Ourthe +e o Sure, fora confiada como precioso deposito, no +campo de batalha, á velhice d'um camarada fiel, soldado +do mesmo regimento.</p> + +<p>O bom velho, que penhorado acceitára tão grave +legado, era só, e n'uma época em que o exercito +francez estava em continua mobilisação, achou que +o melhor meio de velar pelo destino da creança era +trazel-a sempre ao pé de si.</p> + +<p>Assim foi que Rosina, então de quatorze annos, +estivera em pessoa, se bem que entre a bagagem e +mantimentos, na batalha de Austerlitz, em 1805. Vira +por seus proprios olhos, a distancia, o imperador +Alexandre e o imperador Francisco. Nos breves instantes +de repouso que n'essa arriscada campanha tinha +o exercito francez, era sempre Rosina o assumpto +das conversações do acampamento, a mariposa +inquieta que passava sorrindo de umas correias a outras, +de um soldado a outro soldado. D'essa campanha +ficou até na memoria do regimento uma agudeza +da pequena vivandeira. Estavam os soldados chasqueando +uma vez da fealdade de certo camarada.</p> + +<p>—Que tal te parece, Rosina? perguntou um á pequena.</p> + +<p>—Parece-me mal, respondeu ella, porque já vi <i>os +trez imperadores</i>.</p> + +<p>Como se sabe, é esta uma designação vulgar da +batalha de Austerlitz, onde estiveram os dois imperadores +já nomeados, completando Napoleão a trindade +coroada.</p> + +<p>Rosina seria pois a andorinha da caserna se não<span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span> +fosse antes a mariposa do acampamento. Tinha um +pouco da floresta, seu berço, e um pouco do quartel, +seu ninho. Estes poucos fizeram o todo. Tinha a +pureza da vegetação virgem, a suavidade inculta da +floresta, e ao mesmo passo o destemor da vivandeira, +a facilidade de morder um cartucho de polvora e +de cantar uma canção marcial. Na alma tinha os murmurios +das correntes patrias; nos olhos o brilho da +polvora.</p> + +<p>Era, n'uma palavra, a pastora tornada vivandeira. +Respeitava-a todo o regimento e conhecia-a todo o +exercito.</p> + +<p>Quando o seu velho protector morreu, um anno +depois de Austerlitz, ella acompanhou-o com os camaradas +á sepultura, e, como limpasse furtivamente +duas lagrimas, disse-lhe um dos soldados:</p> + +<p>—Pois tu choras, Rosina, tu, a que viste os trez +imperadores?!</p> + +<p>E ella, voltando-se de subito, respondeu:</p> + +<p>—Não choro eu, chora a França.</p> + +<p>Porfiaram os soldados em escolher-lhe novo protector; +todos a estimavam a ponto de querer adoptal-a. +Por fim decidiu-se que Rosina cortasse o nó +gordio. Ella observou:</p> + +<p>—Os meus paes eram os que morreram; já não +posso ter outros. Serei portanto de hoje em deante +filha do regimento. Para onde elle fôr, irei eu; onde +estiver, estarei tambem.</p> + +<p>E assim foi.</p> + +<p>Era quasi um soldado; muitas vezes dizia que a +sua morte havia de occasional-a uma bala perdida.</p> + +<p>Viera com o exercito a Hespanha e Portugal, com +a mesma facilidade com que iria, licenciada pelo +commandante do regimento, visitar as Ardennas, sua +patria.</p> + +<p>Contava agora dezoito annos, e estava em todo o +vigor da sua gentil formosura.</p> + +<p>Gentil é a palavra; por isso lhe chamavam <i>lá gentille +vivandière</i>.</p> + +<p>E o caso é que á sua origem e á sua formosura +devia por certo as immunidades que lhe outhorgavam +os superiores. Era ella o melhor intercessor do +regimento; requerimento que ella levasse á chancellaria +militar, trazia sempre bom despacho. É que as flôres...<span class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span> + +<p>Ora a historia da madeixa é muito mais breve que +a historia de Rosina, e por isso ficou para o fim.</p> + +<p>Seu pae, o bravo official das Ardennas, sentindo-se +morrer dos graves ferimentos que recebera, pediu +ao velho camarada, no momento de confiar-lhe a filha, +que lhe entregasse aquella madeixa que elle cortára +do seu proprio cabello, para que ella possuisse +sequer alguma coisa que o tornasse lembrado.</p> + +<p>E como entre os cabellos alguns apparecessem já +grisalhos, acrescentou o militar moribundo:</p> + +<p>—Dize-lhe que alguns d'elles embranqueceram a +pensar no destino d'ella...</p> + +<p>O soldado, com os olhos marejados de lagrimas, +respondeu commovido:</p> + +<p>—Vá descançado, meu capitão. Emquanto Jacques +Regnau tiver vida, o paiol não ha de arder. Depois +que vier a metralha da morte, o Deus dos exercitos +velará por ella...</p> + +<p>O soldado Jacques estava na confidencia do nascimento +de Rosina. Fôra elle que, annos antes, saltára +ao jardim de uma casa da rua das Tournelles, para +receber dos braços de uma criada uma creança, cuja +mãe procurava assim occultar o segredo da sua +deshonra.</p> + +<p>Jacques Regnau atravessou com ella nos braços o +<i>boulevard</i> da Bastilha, e ia dizendo comsigo:</p> + +<p>—O caso é que ainda tenho geito para estas aventuras +mysteriosas. Suppunha-me velho e levo aqui +esta creança mais como pae do que como avô. E todavia +o que decerto vem a acontecer é que eu seja o +avô, e o meu capitão o pae...</p> + +<p>E assim, em verdade, aconteceu, com uma unica +differença. Se Rosina, no decurso de sua vida, precisasse +de nobilitar-se com um appellido, o pae, ao invés +do que acontece em todas as familias, não lhe +daria o seu appellido, mas sim o do leal camarada. +Diria provavelmente:</p> + +<p>—Põe lá: Rosina Regnau.</p> + +<p>Ella porém não precisava de appellido paterno. +Era a filha do regimento. Chamava-se simplesmente +Rosina, <i>lá gentille vivandière</i>.</p> + +<p>Esta era a enfermeira do nosso ferido.<span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota5" name="nota5">[5]</a></sup> +Referencia á proclamação de Soult.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>VII</h2> + +<h2>No hospital de sangue</h2> + +<p>Oito dias transcorridos, vamos encontrar Graça +Strech, sentado no catre, convalescente, se bem que +muito debilitado ainda, a relêr algumas das cartas +que, por piedoso interesse de Rosina, pudera guardar +debaixo do travesseiro.</p> + +<p>Os successos de tão breve curso de tempo pequena +chronica requerem. Rosina tem sido para o soldado +portuguez carinhosa enfermeira. Chasqueam-n'a +as outras mulheres, encarregadas do serviço do hospital, +de extremamente compassiva para o prisioneiro, +e zombeteiramente aventam que, a julgar pelos +prolegomenos, lhes não parece impossivel que o +exercito portuguez inteiramente se deixe desarmar +pelas vivandeiras francezas.</p> + +<p>As almas das restantes mulheres não se levantam +do nivel commum ao femeaço que segue tropa. São +grosseiras, sensuaes e malevolas. Rosina respira melhor +entre os soldados do que entre ellas. D'aqui +uma certa rivalidade apenas contida pelo respeito +com que todo o exercito acata á filha do bravo militar +das Ardennas. Todavia a «gentil vivandeira», +como mariposa que é, não se demora no ambiente +infeccionado em que ellas respiram; evita-as como a +pantanos miasmaticos, sem lhes dar a conhecer que +o muladar unicamente é povoado por vermes. Passa +inquieta e ao mesmo tempo cautelosa, agitando as +suas azas iriadas. Atravessa o lodaçal sem tocar-lhe. +Guarda para si o nectar que vae libando nas flôres +perfumadas da sua phantasia. É mariposa! dizem. +Concentra-se nos circulos caprichosos em que doideja. +Quer adejar e sorrir. Mas para esta, como para +todas as mariposas, depois do jardim, cujas flôres +beijou, ha de crepitar a chamma, que será o seu ultimo +beijo. Beijo de fogo, que mata. E chamaes felicidade<span class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span> +a isto! Olhaes sómente á superficie; a mariposa +não é feliz porque passe adejando...</p> + +<p>Graça Strech fez reparo no carinho da enfermeira, +mórmente comparando-o ao desamor com que eram +tratados os demais feridos. Não poria duvida em beijar +a unica mão caridosa que se estendia para elle +na solidão do mundo, se não receiasse que o odio +que lhe refervia no coração contra a França lhe envenenasse +os labios. E aquella mulher era franceza. +Parecia-lhe que dos seus vestidos se exhalava ainda +o cheiro da carnagem. Por ventura o soldado que +assassinára sua irmã, sua mãe e sua avó viera adormecer +tranquillo nos braços d'aquella mulher, se é que +não fôra mais d'um soldado, com as mãos ainda tintas +das nodoas do crime. Via n'ella a creança corrompida +pela lascivia da soldadesca, e, ao mesmo passo +que lhe era reconhecido, tinha por ella o desprezo +que se tem pelo vicio precoce. Considerava-a uma +das victimas arrastadas pelo carro triumphal do Cesar +francez. Bem podia ser que n'aquelle corpo vendido +ao prazer germinasse uma alma boa logo corrompida +pela putrefação contagiosa da caserna. Se +não tivesse por mãe uma mulher devassa, uma vivandeira, +uma meretriz de soldados, que não faria mais +que atirar sua filha ao berco em que ella propria nascera, +poderia encontrar um marido honesto, ser o +anjo do lar, divinisar-se no altar da familia, porque +as mães podem considerar-se as santas da religião +domestica. Mas não. Graça Strech suppunha-a a flôr +do paul. Tinha para elle a belleza maculada da vegetação +dos charcos. Não sabia o que era o azul do firmamento, +porque só os lagos, de superficie crystallina, +são espelho do céo. As flôres do paul querem +viver no lodo; ella queria viver no prazer. Os beijos +que recebia tresandavam ao acre do tabaco e da +aguardente. Não dulcificavam; queimavam. E assim +como a gente se admira de ver uma flôr, por mais +desbotada e menos formosa que seja, á beira d'um +monturo, assim elle se admirava de que aquella mulher +tivesse nos olhos um relampago de compaixão +estando habituada a viver entre soldados e concubinas. +Era, a seu juizo, o ultimo lampejo da alma que +bruxoleava apagada pelo vicio. Extincto o derradeiro +clarão, ficaria apenas a lampada—o corpo. E elle +não queria gosar; queria vingar-se. O prazer da vingança,<span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span> +se o ha, esse anhelava-o. Mas uma mulher corrupta +não podia ser-lhe instrumento sufficiente a sacial-o. +Nenhum dos generaes que capitaneavam o +exercito invasor teria uma filha innocente, candida, +formosa? decerto não; se a tivesse, não consentiria +que a soldadesca violasse as alheias. Mas se +a tinha, trouxessem-lh'a, pura como estava, bella +como era, que a queria polluir, e dizer depois ao pae +exasperado: «Os teus soldados mataram minha irmã, +que tambem era virgem; eu matei tua filha, porque +a encontrei no estado de minha irmã. Ambas são +mortas: isso que ahi está já não vive.»</p> + +<p>A toda a hora, tudo ali lhe recordava esse horrivel +drama de sangue, que reputaria ainda sonho infernal, +se a memoria de trez cadaveres o não chamasse á +realidade. Tudo eram mulheres mancommunadas com +os invasores, tudo feridos e prisioneiros, que de continuo +amaldiçoavam, esporoados pela dôr physica, a +França e o Corso. A lingua que se falava era a d'ellas, +mesclada de raras palavras hespanholas para melhor +se fazerem entender dos que não tinham a illustração +bastante para comprehendel-as. Não será preciso +observar que Graça Strech não desconhecia o +idioma francez.</p> + +<p>A principio confundiam-se-lhe no cerebro enfraquecido +todas as sinistras visualidades d'aquella tormentosa +phase de sua vida. Depois, á medida que ia +cobrando forças, não só entrou de raciocinar ácerca +de Rosina, como lhe acudiu a lembrança de seu pae, +cuja morte só o tempo comprovára, e a consciencia +da sua propria situação. Estava prisioneiro, guardado +á vista por sentinellas francezas, e todavia havia jurado +vingar a morte da sua familia. Esta idéa infernou-lhe +as primeiras horas de lucidez. Era impossivel +despedaçar as cadeias, romper por entre as sentinellas; +não queria de modo algum expôr-se á morte +que o roubaria á vingança. E o sentir no dedo o contacto +do annel, em que se coagulára uma gota de +sangue seu, ou de sua irmã, exasperava-o ao extremo +de cair prostado no leito.</p> + +<p>N'estes lances acudia meigamente Rosina Regnau, +chamemos-lhe assim, a soccorrel-o com notavel dedicação. +Umas vezes a repellia elle com ingratidão +brutal, quando a accentuação franceza lhe coava ás +entranhas estremecimentos de raiva, outras fitava na<span class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span> +vivandeira o olhar amortecido como a dizer-lhe que +a prostração seria passageira. Na vespera do dia em +que estamos, teve Graça Strech uma idéa que para +logo reputou auxilio providencial. Lembrou-se de +que só por intervenção de Rosina poderia evadir-se +do hospital de sangue. Tratou pois de corresponder +á solicitude com que ella o distinguia, de se mostrar +reconhecido, de occultar o seu pensamento de vingança +sob a mascara de ternura. Immediatamente o +dominou este proposito, e a si mesmo prometteu +nunca mais receber Rosina com intermittencias de +rancor ou azedume. Difficil era o cumprimento d'esta +promessa. Não se mascára facilmente o coração.</p> + +<p>Relia elle, como dissémos, as cartas de sua irmã. +Umas eram queixumes de rôla solitaria confrangida +da tristeza alpestre das Chãs; outras eram hymnos +de esperança, votos de felicidade commum, vagas +alegrias dos sonhos dos quinze annos... N'umas denunciava-se +a mulher; n'outras a creança. Umas eram +a lagrima; outras o sorriso. Aquellas tinham a tristeza +d'uma nuvem em céo d'abril; estas eram um raio +de sol doirado pela primavera... Ou antes, como o +leitor poderá classifical-as, as primeiras eram o presentimento +da desgraça imminente, as ultimas eram +o cantico do anjo que punha os olhos no céo, sua +patria.</p> + +<p>Vejamos:</p> + +<p>«<i>30 de novembro de 1807.</i>—Meu irmão.—Não sabes +como soffro horrivelmente, receiosa dos perigos +que virão. A avosinha tambem está muito afflicta depois +que os francezes entraram em Abrantes. Já cá +sabemos da partida da familia real, apezar de tu, +grande dissimulado, m'o não haveres dito! O padre +capellão anda sempre a contar dinheiro e a ralhar +com os abegões. Isto é uma tristeza! Quem nos vale +a ambas, a mim e a avósinha, para nos tranquilisar, +é o Teixeira. Eu, por mim, peço todos os dias a Deus +que não aconteça mal algum aos portuguezes...»</p> + +<p>«<i>18 de setembro de 1808.</i>—Meu José—Graças a +Deus, que se dignou ouvir as minhas continuas orações! +O Teixeira esteve hontem á noite a contar-me +tudo. Até que emfim está a patria livre outra vez, +sem haver acontecido desgraça de maior á nossa familia. +Queira Deus que continue a paz para que tu +possas vir vêr-me brevemente. A noticia do Teixeira<span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span> +deu-me grande alegria, meu José. Reconquisto de +novo a felicidade! Eu creio que não tenho coragem +para soffrer... Dá um beijo muito demorado á mamã +e um abraço muito apertado ao papá. A avósinha +diz que venhas logo que possas. Vem, sim? Olha lá... +logo que possas. O beijo á mamã que seja muito +longo, muito longo... Não te esqueças. Tua—<i>Augusta</i>.»</p> + +<p>Graça Strech sentiu os olhos marejados de lagrimas +ao lêr estas cartas, especialmente a ultima. Estava +alli todo o coração de sua irmã, a alegria da +avesinha, ainda tremula, que se sente desopprimida +dos seus negros receios, phantasticos uns, justificados +outros.</p> + +<p>Abeirou-se brandamente do catre, como quem teme +ser importuno, Rosina Regnau, e com encantadora +timidez perguntou:</p> + +<p>—Chorava?</p> + +<p>—Um soldado portuguez não chora nunca, respondeu +Graça Strech com doçura meiada de altivez +e fingimento.</p> + +<p>—São menos felizes as vivandeiras francezas, contestou +ella com sincera simplicidade.</p> + +<p>—Por quê?</p> + +<p>—Porque choram ás vezes.</p> + +<p>—Ainda a não vi chorar!—E, como se instantaneamente +deixasse resfolegar o rancor latente no coração, +acrescentou:—A polvora queima os olhos e +o coração, e Rosina é quasi um soldado... francez.</p> + +<p>—Olhe que se contradiz! observou ella maviosamente.—Esquece-se +de que tambem é soldado e +chora...</p> + +<p>Graça Strech caiu em si e deu-se pressa em attenuar o mau effeito das suas palavras:</p> + +<p>—Tem razão. A desgraça dá esta incoherencia aos +pensamentos...</p> + +<p>—Julga-se então muito desgraçado?</p> + +<p>—Pungente ironia que só pode vir... d'ahi! retrucou +sobremodo exaltado o convalescente. Pois pergunta-se +a um prisioneiro, a um ferido, a um homem +mil vezes deshonrado, se é infeliz? Onde aprendeu +esse cynismo de vivandeira? Onde havia de ser! Na +taberna e no quartel. Só lá é que se fala assim...</p> + +<p>E, como ella chorasse á beira do catre:</p> + +<p>—Sabe que eu ainda não estou inteiramente curado,<span class="pn"><a name="pag_60">{60}</a></span> +Rosina? Parece-me que deliro ás vezes! Agora +delirei eu. Não... não delirei. Conheci que era mais +piedosa do que as outras mulheres... Quiz ver até +onde chegava a sua sensibilidade... Perdõe-me a experiencia... +Vejo que ainda tem lagrimas... sim... tem +lagrimas... não posso duvidar... está chorando!</p> + +<p>—Não seja mau para mim, soluçou Rosina Regnau. +Eu tive pena de vêr o senhor a lêr e a chorar... +De mais a mais fui eu que lhe dei as cartas para +a mão no dia em que o senhor veiu e parecia pedir-m'as... +Pois não se lembra?</p> + +<p>—Não. E viu-as alguem? leu-as alguem?</p> + +<p>—Ninguem as leu, senhor. Eu pensei que se lembrava, +porque o senhor, quando lh'as dei adivinhando +de certo o seu pensamento, olhou para mim...</p> + +<p>—Sim, talvez olhasse... eu queria as cartas...</p> + +<p>—Isso comprehendi eu. A gente ás vezes estima +qualquer cousa que não tem valor... Eu tambem tenho +um d'esses thesouros que nada valem... É...—E +calou-se, receiosa de proseguir.</p> + +<p>—É?</p> + +<p>—A madeixasinha de meu pae, que era capitão do +exercito.</p> + +<p>—Capitão? perguntou Graça Strech.</p> + +<p>—Era capitão, senhor. Para me não deixar desamparada, +entregou-me ao velho Regnau com esta +madeixa que era o seu unico legado... Nada mais tinha +que me deixar...—E tirou do seio a sua reliquia, +sobre a qual foram cair duas lagrimas ardentes.</p> + +<p>Graça Strech, subitamente commovido, attentou +na vivandeira que tinha baixado os olhos, como se +quizesse esconder o pranto.</p> + +<p>—Ás vezes, proseguiu ella, fico-me a contemplar +este thesouro, sobretudo se estou triste. Que mais +tenho eu no mundo? Nada. Esta madeixasinha da +minha riqueza, o meu talisman, creio eu. Beijo-a e +choro. Fico melhor. É tambem a minha companhia. +Estas mulheres—e indicou as demais vivandeiras—nem +sequer se lembram de que tiveram pae! Até +lhes convém pensar que o não tiveram para não sentir +atormentada de remorsos a consciencia.—Ellas +querem-me mal, bem o sei. Que me importa? Eu tenho +o meu coração tranquillo. Devo a Deus o haver-me +protegido com a sua misericordia. Sou a filha do +regimento, e ninguem offende uma filha. Estima-me;<span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span> +estimo-os. Da guerra que ellas me fazem nem +me lembro. Pobresinhas, que não são capazes d'uma +ação boa! Vivo só, completamente só, senhor. Sou +digna da compaixão de todos, acredite, porque sou +infeliz; criminosa não. Meu pae, que decerto me está +ouvindo n'esta hora, bem o sabe. É porque sou infeliz, +que comprehendo as desventuras alheias. Pareceu-me +que o senhor tinha maguas secretas. Inspirou-me +sympathia. Bem sei que a minha presença lhe não +deve ser agradavel, porque emfim eu sou franceza e +o senhor é portuguez. Mas que culpa tenho eu de +haver nascido longe? Foi nas Ardennas... bonita terra +d'uma vez! Ainda não vi arvores como lá! O imperador +é quem manda; nós não temos culpa nenhuma: +obedecemos. Elle quer o mundo; conquiste-se o +mundo. E depois eu não tenho odio nenhum aos +portuguezes. Até se o senhor algum dia precisar do +meu prestimo... Eu não valho nada... mas verá que +ha de encontrar sempre a mesma Rosina Regnau... +O que eu queria é que me tratasse bem. Não faço +mal a ninguem, porque não se tira proveito nenhum +de fazer mal... O senhor foi ferido, é verdade; mas +fui eu quem o feriu?...</p> + +<p>—Não, Rosina, não! atalhou Graça Strech enternecido +a lagrimas. Mas feriram-me na alma, bem +fundo, muito fundo... Sou um grande desgraçado. Se +lesse estes papeis, que são tambem a minha unica +riqueza, veria que o sou. Eu tenho apenas de meu +estas cartas; Rosina tem apenas a sua madeixasinha. +Somos irmãos na desgraça. Eu sou filho d'um capitão +portuguez, talvez morto a esta hora; Rosina é filha +de um capitão francez, que tambem não existe. +Ainda n'isto irmãos! Bem sei que não tem culpa de +haver nascido franceza. Perdoe-me, se a offendi... +Offendi, que o sei eu. Deite tudo á conta da minha +arrebatada mocidade e dos meus soffrimentos. Mas +é que este abysmo cavado por Napoleão entre as +duas nações é incommensuravel, acredite. O abysmo +chama o abysmo... Jámais correu sangue impunemente... +A guerra faz dos homens leões... E que guerra +esta, santo Deus!... Zomba-se de tudo—da virgindade, +da honra, da innocencia! Oh! que os seus +irmãos tremam das represalias... Medonhas devem +ser... Não se opprime assim um paiz inteiro... A estrada +por onde fugiu Junot está atravancada de cadaveres,<span class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span> +mas ainda cabe por ella o exercito de Soult. +A hora do resgate será tremenda, Rosina. Fuja, fuja +emquanto é tempo, pomba que vive entre milhafres. +Fuja com a sua innocencia. Eu comprehendo, eu +acredito que é boa, e casta. Mas não encontrará em +Portugal coração que possa acceitar o seu amor, alma +que prese os thesouros da sua. E sabe por que? +Porque entre um portuguez e uma franceza medeia +n'esta hora uma barreira invencivel... E essa barreira +está em pouco, mas não haverá ahi exercitos que +a transponham. É um maço de cartas, um annel, +uma madeixasinha talvez. Supponha que um homem +havia ferido mortalmente seu pae... Que esse homem +viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo +essa reliquia sagrada; que matára em nome da patria; +que seu pae era primeiro que tudo um soldado, +e que um soldado era para elle o inimigo... Chora, +Rosina! As suas lagrimas são ainda mais eloquentes +que o seu silencio... Pois supponha que mataram meu +pae, supponha que me retalharam a alma, que eu tenho +noite e dia nos ouvidos o clamor da vingança, +que eu sou um homem que já não vivo para mim, +mas para os que morreram...</p> + +<p>E, exhausto de forças, caira sobre o travesseiro, +pedindo soccorro com o olhar, em que subitamente +se apagaram os fogos da exaltação.</p> + +<p>Fez-se em torno do catre o lugubre silencio dos +hospitaes, apenas interrompido de espaço a espaço +pelos gemidos de alguns portuguezes que anhelavam +a morte, porque só n'ella encontrariam o supremo +resgate.</p> + +<p>Rosina, curvada para o doente, julgava amparar nos +seus braços um homem que desejava viver para +vingar a morte da mulher amada. A excitação febril +do prisioneiro fazia-lh'o crer. Estava longe de suppôr +que essa mulher fosse apenas irmã, ou antes que +a desgraça d'esse homem fosse tamanha que tivesse +de vingar a morte de uma familia inteira.</p> + +<p>Como, porém, Graça Strech lentamente parecesse +recobrar alento, inclinou-se-lhe ao ouvido e maviosamente +repetiu:</p> + +<p>—Se algum dia precisar do auxilio da pobre vivandeira, +acredite que Rosina Regnau será sempre a +mesma...<span class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>VIII</h2> + +<h2>O anjo da liberdade</h2> + +<p>Foi-se restabelecendo o doente.</p> + +<p>Meiado abril, Craça Strech julgava-se robustecido +sufficientemente para encetar a sua obra de vingança. +Toda a sua attenção se concentrava na idéa fixa +da fuga. Rosina continuava a ser para elle a dedicada, +a solicita, a meiga enfermeira dos primeiros dias. Se +em tão carinhosa dedicação estava occulto o germen +do amor, se era aquella a mascara da alma apaixonada +que tinha de respeitar conveniencias e circumstancias, +não tardará que o saibamos. Todavia os +seus sorrisos, posto que doces, revelavam tristeza. +O coração a attraíl-a para aquelle homem, e o destino +a distancial-a! Que elle soffria, era evidente. Mas +por que soffria? Porque esse homem—suppunha-o +ella—amára doidamente, com o fogo dos primeiros +amores, com a loucura dos primeiros annos, e vira +talvez correr, na hora da invasão, o sangue innocente +da mulher amada. Porque esse sangue clamava vingança, +e elle esperava apenas pela hora tremenda da +represalia. Porque essas cartas que relia a toda a +hora eram outros tantos protestos contra a tyrannia +dos que venceram. Fossem dizer ao coração d'esse +homem pungido pelo que ha ahi de mais excruciante +na terra: «Despe o teu luto; enflora-te. Os que te +mataram eram meus irmãos, mas quem te resuscitará +serei eu. Com o sangue do cadaver, que desceu á +tumba commum, regaremos as flôres da tua felicidade +futura.» Não podia ser. Elle tivera razão quando +disse: «Supponha que um homem havia ferido mortalmente +seu pae. Que esse homem viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia +sagrada; que matára em nome da patria...» Referia-se +a uma barreira insupperavel, e falava do maço de +cartas, de um annel, de uma madeixasinha talvez. E<span class="pn"><a name="pag_64">{64}</a></span> +as cartas relia-as elle, e annel tinha um na mão esquerda, +tinto de sangue, que era talvez da pessoa +cuja morte anhelava vingar. Que esperança podia, +pois, ter Rosina no seu louco amor? Mas, por outro +lado, quem ha de dizer ao coração que é loucura +amar? Como havia ella, allucinada pela paixão, de +raciocinar comsigo mesma: «Tu és a pobre Regnau, +a vivandeira franceza, que acompanhas o exercito +vencedor; elle é o soldado do exercito vencido, e +vencido elle mesmo. Não se póde transpôr um abysmo, +muito menos dois. Tantos são os que nos separam +n'esta hora: o da vingança e o da nacionalidade!» +Isto ninguem o diz; ella não o podia dizer. +Amava, sim, mas amava sem esperança, e, o que é +mais, amava com medo. Agrestemente a tratava elle +a principio. Desde o dia em que ella lhe perguntou +se chorava, e em que timidamente se abeirára do catre +antes como enfermeira do que como amante, pareceu +todavia abrandar um pouco mais o seu odio +inspirado pelo nome francez. Conheceu decerto que +ella não estava ainda pervertida, e condoeu-se. Mas +condoer-se não é amar. E depois que desgraçado +aquelle! Que pensaria elle fazer? Talvez matar-se. +Prefiriria morrer a combater contra a sua patria, contra +o seu nome de portuguez, contra as suas recordações. +Como ella quizera sondar-lhe a alma e arrancar-lhe +o seu segredo! O que importava, primeiro que tudo, +era affastal-o da morte. Por isso o espionava Rosina, +e cada vez era maior a sua solicitude. Não tardou porém a hora em que Graça Strech ia levantar +uma ponta do véo mysterioso que occultava os seus +designios.</p> + +<p>Era ao entardecer. Havia na sala a penumbra crepuscular. +Elle escolhera decerto essa hora para que +a physionomia lhe não traisse os sentimentos reconditos.</p> + +<p>—Lembra-se, Rosina, do offerecimento que me +fez?</p> + +<p>—Lembro, e repito-o, respondeu ella estremecendo de golpe.</p> + +<p>—Pois bem; é chegada a occasião de aproveital-o. +Cumpre porém que primeiro lhe diga que a minha +vida fica pendente d'esta revelação. Se ámanhã quizer +denunciar-me aos meus algozes, póde fazel-o, e +então completará a vingança dos meus desabrimentos.<span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span> +Completará, disse eu, porque compassivamente +me tem tratado, e a compaixão é a vingança das almas +nobres. Quer-me parecer, não obstante a posse +do meu segredo, que continuará a vingar-se nobremente... +O seu coração é bom, Rosina; o meu é que +não é assim. Eu sou vil, rancoroso, sanguinario. Mas, +ainda assim, em alguma hora da minha vida me é +dado ouvir a voz do meu anjo da guarda. Depois a +celeuma dos maus instinctos suffoca-a. É porém esta +uma das horas em que o meu coração não é inteiramente +perverso. Portanto lhe falarei com a maxima +franqueza. Eu quero sair d'aqui, Rosina, livre, completamente +livre, entenda-me bem. Só por sua intervenção +o poderei conseguir. Mas, se me presta esse +serviço, quem lhe não dirá, Rosina, que soprou no +meu peito as labaredas que eu sinto escaldarem-me +o sangue quando volvo os olhos a um passado proximo, +muito proximo?... Sabe que é quasi um fratricidio +que vae praticar? A voz da consciencia será a +primeira a dizer-lh'o. Não irá combater contra os +seus pessoalmente, mas irá dar mais um soldado ao +exercito portuguez cerceado pela derrota... Pense +em tudo isto. Vae trair a confiança dos seus irmãos +para conquistar apenas a gratidão d'um só homem...</p> + +<p>A esta palavra, os olhos de Rosina, até ahi brilhantes +de copiosas lagrimas, illuminaram-se d'um clarão +d'alegria.</p> + +<p>—Gratidão! disse?—soluçou ella. É a primeira +vez que eu oiço dos seus labios tão doce palavra... +Acredite-me, sim? Eu já pensava em auxiliar-lhe a +fuga, mesmo quando ainda não era meu amigo. Tinha +pena, muita pena do senhor, e receiava que se +quizesse matar para não ficar prisioneiro. Faria por +lhe dar a liberdade, ainda que m'o não agradecesse, +porque algum dia, ahi por esses acampamentos +fóra, bem podia ser que o senhor encontrasse, prostrada +por uma bala perdida, a vivandeira Rosina, e +dissesse, lançando-lhe um olhar de piedade: «Bem te +reconheço! Eras a pobre Regnau. Deste-me a liberdade. +Estás morta. Que te hei de dar agora? Dar-te hei +uma oração». Isto me bastaria, senhor, que eu bem +sei que não mereço mais. Mas agora o caso muda +muito do que eu havia pensado na minha tristeza. O +senhor promette-me gratidão. Que mais posso eu<span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a></span> +invejar? A memoria de meu pae me perdoará, porque +elle—disse ella com irreflectida candura—tambem +amou muito, segundo contava o velho Regnau. +Gratidão é o que o ceguinho das Ardennas tem ao +seu fiel molosso. O pobresinho do Hubert anda sempre +a dizer, referindo-se ao seu cão: Não ha pessoa +a quem eu seja mais grato!» Veja o senhor como elle +lhe quer, que até chama pessoa ao cão! Pois eu serei +para o senhor como o molosso para o Hubert. +Ter-me-ha gratidão; viverei feliz... E sabe o senhor +que o cão do ceguinho das Ardennas o segue sempre? +Sabe o que isto quer dizer?...</p> + +<p>E calou-se de subito, ruborisada de pudor.</p> + +<p>—Não sei! observou Graça Strech sobremodo +admirado da sinceridade d'aquella confidencia.</p> + +<p>—Não sabe? É que eu tambem queria seguil-o ao +senhor...</p> + +<p>—Como?! perguntou o moço aprumando-se como +galvanisado por um choque electrico. Seguir-me! Sabe +bem o que diz, Rosina? Sabe que atraz de mim +caminhará sempre a morte, e atraz de si o odio francez? +Sabe que isso é renegar a sua patria, o nome +de seu pae?</p> + +<p>—Esquece-se de que meu pae não me deixou nome? +Se no céo se sabe tudo, elle saberá que o meu +coração é puro. O mais que me importa a mim? Nem +por seguir o senhor deixarei de querer cada vez mais +á minha madeixasinha. Crime era o esquecer-me +d'ella, o desprezal-a, o não a trazer commigo. Mas é +que eu seguirei o senhor, e ella seguir-me-ha a mim. +E depois o senhor não me comprehendeu bem... Eu +não queria deixar de ser vivandeira... Não se quesile, +não? O senhor vae combater. Eu seguirei o exercito +como até aqui, mas estarei sempre em sitio onde lhe +possa acudir, e em vez de soccorrer um soldado francez +soccorrerei o senhor se as balas o não respeitarem. +O crime está só n'isso, e Deus m'o perdoará... +Eu, depois que morreu o velho Regnau, o meu segundo +pae, tenho vivido tão sósinha, tão sósinha!... +O exercito é muito grande e por isso mesmo não faz +companhia. Não lhe perderei o rasto, senhor, esteja +certo. As vivandeiras estão costumadas á guerra de +emboscada. Surprehendel-o-hei quando menos o esperar. +Que seja preciso affrontar perigos, pouco importa. +Rosina, a «gentil vivandeira», como por favor<span class="pn"><a name="pag_67">{67}</a></span> +me chamam, é destemida. Toda a brigada Arnaud +lh'o podia dizer...</p> + +<p>A admiração, o pasmo, o alheamento de Graça +Strech eram cada vez maiores. Espantava-o aquelle +conjuncto de candura e coragem, aquelle receiar e +querer da vivandeira. Achava extraordinaria a creança, que +tinha innocencias d'anjo e impetos de mulher. +Não sabia se mais havia de admirar a originalidade +do temperamento se a originalidade da revelação. +Começava a lêr na alma da vivandeira que o +amava. Comprehendeu que ella sabia respeitar-lhe a +dôr, impondo-lhe suavemente o dever de respeitar-lhe +a sua. E tudo o que ella soffria era por ser franceza... +Tambem elle se não lembrava n'esse lance de +que a mariposa procura a chamma!</p> + +<p>E Rosina era a mariposa do acampamento.</p> + +<p>Não obstante, desconfiando ainda da clareza da sua +percepção, quiz oppôr obstaculos á resolução da vivandeira:</p> + +<p>—Mas não sabe que isso é impossivel, Rosina? Não +sabe que se não póde seguir ninguem através dos +azares da guerra? Quem póde luctar com as ondas +sem naufragar? Não lucte, Rosina, não lucte com o +que é invencivel. Guarde essa coragem do seu bello +coração para as batalhas do mundo, que toda lhe será +precisa. Deixe-me ir até onde chegam todos os infelizes. +Não sabe que ámanhã posso encontrar a bala +que me mate?... Não será ámanhã, não, porque eu +ámanhã não haveria completado a minha obra. Preciso +de viver, mas a guerra é tão caprichosa! Completa +a minha obra, desejo morrer livre, quite com +o mundo. Não quero que ninguem me chore—morrerei +feliz.</p> + +<p>—Outro tanto poderei eu dizer, atalhou com doçura +a vivandeira. Mas deixe-me ir... tambem até onde +vão os infelizes. Já agora, eu, que lhe vou abrir o +seu futuro, quero saber ao menos o sitio em que o +senhor estiver. Bem pouco lhe peço, como vê. Caprichos +de mulher! especialmente caprichos de franceza...</p> + +<p>E, como que arrependida de haver soltado esta palavra:</p> + +<p>—Fui indiscreta, bem sei; perdôe-me. O seu coração +precisa de esquecer a minha nacionalidade para +me não odiar...<span class="pn"><a name="pag_68">{68}</a></span></p> + +<p>Era impossivel luctar por mais tempo com tão +energica e ao mesmo passo tão meiga natureza.</p> + +<p>Como se aproximasse gente, Graça Strech apertou-lhe +silenciosamente a mão e escondeu no lençol +a face involuntariamente orvalhada de lagrimas.</p> + +<p>Chegára a noite triste que ao nascer das estrellas +invade os hospitaes e as prisões com o seu silencio e +a sua tremula claridade.</p> + +<p>Graça Strech não pôde conciliar o somno. Tantos +e tão extraordinarios eram os pensamentos que se +lhe baralhavam no espirito, que ora sentia subir-lhe +ao cerebro a frialdade glacial dos tumulos, ora a +chamma abrazadora da congestão. Assim esteve, sem +dar tino do tempo que passava, com os olhos fitos +na sombra oscillante que uma lanterna projectava na +parede fronteira ao seu catre.</p> + +<p>Os gemidos d'alguns feridos compassavam-se a intervallos +mais ou menos longos, segundo a gravidade +do ferimento. Duas vivandeiras, encarregadas de ficar +de véla n'aquella noite, deixaram-se adormecer +com a tranquillidade de quem está bem e não se importa +de que os outros estejam mal.</p> + +<p>Na rua tropeavam com interrupções os cavallos das +rondas. Uma ou outra vez ouvia-se trocar palavras +entre as patrulhas que passavam e a sentinella do +hospital. Não se percebia, porém, o que diziam...</p> + +<p>E assim decorria a longa noite das enfermarias e +dos carceres com o lutuoso aspecto que faz d'umas +e outros—cemiterios de vivos.</p> + +<p>A mais de meio iria a noite, quando a Graça Strech +pareceu vêr entrar cautelosamente na sala um soldado +francez, que foi caminhando, cada vez mais receioso, +até se avisinhar do seu catre.</p> + +<p>Se obedecesse ao primeiro impeto, haveria falado, +porque lhe passou no espirito a suspeita de que Rosina +o denunciára, e de que esse soldado, que tanto +se arreceiava de ser surprehendido, era um assassino +galardoado talvez pela devassidão da vivandeira.</p> + +<p>E bastou esse momento para a suppôr mobil d'uma +infamia inaudita, a ella, que momentos antes lhe pedia +unicamente, a troco da liberdade promettida, que +a deixasse seguil-o como o fiel molosso seguia o cego +das Ardennas.</p> + +<p>Era, porém, corajoso de mais para succumbir aos +perigos d'uma traição.<span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span></p> + +<p>Para logo se lhe accendeu o coração em labaredas +do inferno, e se lhe requeimou a garganta como a +do tigre dos palmares quando tem sêde de sangue.</p> + +<p>Era, porventura, um soldado francez que o vinha +apunhalar, de noite, suppondo-o a dormir, talvez por +ciume da barregã com quem passára a noite, ou para +vingar o odio que aquelle prisioneiro nutria contra +os francezes.</p> + +<p>Não tinha armas, nem carecia d'ellas. Infamia por +infamia. Luctaria braço a braço, encarniçadamente, +silenciosamente, até que um d'elles ficasse prostrado.</p> + +<p>Sentou-se no catre, com o joelho direito levantado, +em posição de melhor se poder erguer para responder +á aggressão.</p> + +<p>E com tão sinistro brilho lhe coriscavam os olhos, +que o supposto soldado francez, conhecendo de certo +o que lhe ia na alma, impuzera silencio com um +gesto e dissera a alguns passos de distancia:</p> + +<p>—Sou eu.</p> + +<p>Graça Strech reconhecera Rosina.</p> + +<p>O vulto que elle suppuzera um assassino transformára-se +no anjo da liberdade. Não lhe vinha trazer +a morte; vinha restituir-lhe a vida. Como poderia elle +receiar a aggressão d'aquelle soldado franzino, gentil, +cujos olhos, por meigos e luminosos, trahiriam o +segredo do seu disfarce, cujos cabellos, ennovelados +a um e outro lado, denunciavam as tranças da mulher +enroladas em cachos?</p> + +<p>Visualidades d'imaginação doente, chimeras que o +habito do soffrimento cria, e a noite avulta.</p> + +<p>—Sou eu, repetiu ella cada vez mais baixinho, e +aproximando-se.</p> + +<p>E, como se por encantamento um genio bom lhe +deizasse cair ás mãos o fardamento d'um soldado, +igual ao que vestia, acrescentou:</p> + +<p>—Não ha tempo a perder. Vista-se e venha.</p> + +<p>E retrocedeu a esconder-se á porta, onde as sombras +mais se condensavam, e a levantar do chão o +saco d'oleado da ambulancia, que continha o seu +trage de vivandeira.</p> + +<p>Não se fez esperar o prisioneiro, que logrou atravessar +a sala sem ser percebido. Nos olhos dos que +dormiam havia as nuvens precursoras da noite eterna,<span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span> +que nada deixam vêr para fóra do corpo. É o recolher-se +da alma que vae partir.</p> + +<p>As duas enfermeiras continuavam a dormir tranquillamente.</p> + +<p>—Venha, disse-lhe Rosina travando-lhe da mão.</p> + +<p>Graça Strech desceu conduzido pela vivandeira.</p> + +<p>Quando a sentinella deu tino de que se aproximava +alguem, cumpriu a praxe militar do—<i>Qui vive?</i></p> + +<p>Um dos soldados, que levava ao hombro a bolça +da ambulancia, respondeu: <i>L'empereur</i>;—e quando +já a sentinella podia distinguir os uniformes, acrescentou +com voz firme e sã em francez.</p> + +<p>—Soldados da ambulancia com ordens urgentes +para o quartel general.</p> + +<p>O soldado que respondera era, como calculam, a +vivandeira das Ardennas.</p> + +<p>Chegados á rua, Rosina Regnau apertou convulsamente +o braço de Graça Strech e segredou-lhe:</p> + +<p>—Nunca se esqueça de que n'este dia, e a esta +hora, lhe dei a liberdade, roubando-a a mim mesma.</p> + +<p>—Nunca! respondeu elle commovido.</p> + +<p>E, como sentissem aproximar-se uma ronda, estugaram +o passo, caminhando sem norte.</p> + +<p>Por duas vezes, no aventuroso transito, os surprehenderam +patrulhas francezas.</p> + +<p>Era sempre Rosina quem respondia no idioma patrio, +não sem que sentisse palpitar vertiginosamente +o coração receioso de ver desabar n'um momento a +felicidade sonhada.</p> + +<p>Insensivelmente se foram aproximando do rio Douro, +a cuja margem pararam algum tempo vacillantes +no que fariam e, não obstante serem ambos corajosos, +quasi amedrontados. Só então, chamados á realidade, +olharam para dentro de si mesmos, conscientes +da arriscada situação em que se encontravam.</p> + +<p>Pareceu-lhes, porém, ouvir o compasso de remos +na agua, e tanto bastou para se illuminar d'um raio +d'esperança a alma da vivandeira.</p> + +<p>Foi Graça Strech quem se aventurou a chamar o +barqueiro.</p> + +<p>Nenhuma voz respondeu ao chamamento mas, decorrido +algum tempo, viram avisinhar-se do caes o +vulto negro do barco.</p> + +<p>N'aquelle tempo eram tão frequentes as fugas nocturnas, +dos que presumiam mais demorada, do que<span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span> +foi, a occupação franceza da cidade, que alguns barqueiros +dos logares convisinhos, inteiramente privados +de recursos, se affoutavam a bordejar no Douro +por horas mortas para receber a esportula dos fugitivos.</p> + +<p>Graça Strech e Rosina Regnau saltaram ao barco.</p> + +<p>Estremeceu o barqueiro conhecendo o uniforme francez, +mas Graça Strech acudiu a serenal-o com estas +palavras:</p> + +<p>—Somos portuguezes, amigo. O habito não faz o +monge. Salva-nos, e não te importe o mais. Afasta-nos, +o mais depressa possivel, da cidade.<span class="pn"><a name="pag_72">{72}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>IX</h2> + +<h2>Entre a vingança e o amor</h2> + +<p>Foi o barco singrando Douro acima lentamente.</p> + +<p>Graça Strech lançou mão d'um remo e auxiliou o +barqueiro, não sem haver arrancado de si mesmo, +com fogosa violencia, a jaqueta do uniforme francez.</p> + +<p>—Que peso que me fazia isto! disse elle sorrindo +a Rosina.</p> + +<p>E voltando-se para o barqueiro:</p> + +<p>—Onde estará agora o resto do nosso pobre exercito, +sabes? perguntou vivamente.</p> + +<p>—Anda para Riba-Tamega, senhor. Desde hontem +que vae para lá o inferno, tão certo como ser +hoje 19 de abril, e chamar-me eu o Tunante de Pé-de-Moira.</p> + +<p>—Não sabes mais nada?</p> + +<p>—Eu, senhor?... tartamudeou o barqueiro relanceando +um olhar de medo ao soldado francez que ia +sentado é pôpa.</p> + +<p>Graça Strech comprehendeu-o, e acrescentou:</p> + +<p>—Pódes falar. Não te disse eu que o habito não +faz o monge? Aquelle soldado francez, que tu vês +ali, é uma mulher.</p> + +<p>—Uma mulher! repetiu o barqueiro.</p> + +<p>—E de mais a mais faze de conta que é... muda, +disse sorrindo maliciosamente Graça Strech.</p> + +<p>A esta palavra, se elle houvesse reparado, veria +brilhar extraordinariamente os olhos de Rosina Regnau, +que encontrára n'esse momento, melhor ainda, +n'esse vocabulo, a chave d'um enigma que a preocupava +dolorosamente.</p> + +<p>—Pois então, lá vae tudo, p-a-pá-Santa Justa, tornou +facetamente o barqueiro. Os francezes pegaram +hontem fogo á villa d'Amarante. Hoje de manhã havia +uma procissão de gente que vinha fugida da villa.<span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span> +Em Pé-de-Moira ficaram dez pessoas. Foram ellas +que contaram o que se havia passado.</p> + +<p>—Quem commanda os Portugueses, sabes?</p> + +<p>—É o general... Ora que me não lembra agora! +Elle tem assim um nome a modo d'arvore...</p> + +<p>—Silveira? perguntou com anciedade Graça +Strech.</p> + +<p>—Tal qual: Sirveira, deturpou o barqueiro.</p> + +<p>Aclarava-se o céo com os primeiros alvores do dia +20 d'abril.</p> + +<p>Rosina levava os olhos postos no arvoredo das margens, +alanceada, porventura, de vagas saudades das +florestas das Ardennas.</p> + +<p>—Agora, á luz d'esta candeia, apostrophou o barqueiro +apontando para o sol nascente—já eu não +me enganava com o sordadito...</p> + +<p>Rosina sorriu melancolicamente, como se entendesse +o barqueiro por uma fina intuição de mulher +apaixonada, e Graça Strech perguntou em francez +pousando o remo:</p> + +<p>—Vae triste! É o arrependimento que chega?...</p> + +<p>A vivandeira respondeu energicamente com um +gesto negativo, como se em verdade fôra muda.</p> + +<p>—O peior—disse o barqueiro improvisamente—é +que se virem de terra que vae aqui um soldado francez, +são capazes de fazer fogo contra todos nós. Os +diabos o jurem! Mas se ella não é franceza p'ra que +diabo lhe fala o senhor n'esses latins?</p> + +<p>—São coisas... respondeu austeramente Graça +Strech.—Tens razão, tens... no que lembraste.</p> + +<p>E, voltando-se para Rosina, traduziu o pensamento +do barqueiro.</p> + +<p>—Vae ali uma manta, e a cachopa que se embrulhe +n'ella, se quizer, observou o Tunante de Pé-de-Moira, +com certo orgulho alegre de tomar parte n'uma +aventura que desde logo presumiu amorosa.</p> + +<p>Rosina, aconselhada por Graça Strech, acceitou o +offerecimento, e despiu a fardeta.</p> + +<p>O Tunante, orgulhoso de poder fazer concessões, +acrescentou:</p> + +<p>—Minha mulher tem lá por casa uns trapos, que +não valem nada. Assim que chegarmos, eu irei buscal-os.</p> + +<p>Inteirada do offerecimento, Rosina abriu a bolça +da ambulancia e tirou com presteza o seu corpete,<span class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span> +saial e <i>bonnet</i> de vivandeira, arremessando-os ao +rio.</p> + +<p>—Que faz? perguntou Graça Strech.</p> + +<p>A vivandeira encolheu os hombros, como se aquelle +movimento quizesse dizer:</p> + +<p>—Atiro á agua o passado.</p> + +<p>—Porque não fala, Rosina! Ainda não ouvi a sua +voz desde que entrámos n'este barco! Quererá tomar +a serio o gracejo da sua mudez, com que eu procurei +ludibriar a curiosidade do barqueiro?</p> + +<p>—É que, respondeu ella affectuosamente, me sinto +preoccupada ao estudar o papel que devo representar +ámanhã...</p> + +<p>—Mas... não percebo!</p> + +<p>O barqueiro tinha largado os remos e deixado pender +o labio inferior ao ouvir a pronuncia de Rosina. +Para elle, que tinha suas fumaças de rato da agua, +como quem diz <i>lobo do mar</i>, era aquelle um mysterio +impenetravel. Podia acaso acreditar que fosse +realmente ali, em companhia d'um portuguez, uma +mulher franceza, que lançára ao rio um fato em que +brilhavam as côres sinistras da França, áquella hora +em que o sangue, o incendio, o saque, a tyrannia se +erguiam como barreira entre o povo d'um e outro +paiz?</p> + +<p>O Tunante de Pé-de-Moira não sabia historia, e +ignorava o prodigio d'estas affinidades individuaes +que se escondem entre as correntes oppostas dos +sentimentos nacionaes. São grãos d'areia perdidos no +oceano; é preciso descer ao fundo do mar para encontral-os. +Outra pessoa, que não fosse rude, não se +admiraria. A historia diz que, pouco depois da invasão, +o marechal Soult se vira fechado n'um circulo +de cariciosas sympathias, e que eram rasgados os salamaleques +dos que já se presumiam aulicos de D. +Nicolau I. A historia refere que semelhantemente alguns +foram os corações que se renderam á prepotencia +de Junot, e que era contra esses que se erguia +tremenda a grande voz popular: «Morra Junot, e mais +quem d'elle tiver dó.»<sup><a href="#nota6" name="m_nota6">[6]</a></sup> Finalmente, ainda conta a +historia que Piton, um sargento do corpo de policia +de Lisboa, fora promovido a alferes, pelos grandes<span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span> +serviços que prestou aos francezes, com os quaes +se retirou para França ao depois.<sup><a href="#nota7" name="m_nota7">[7]</a></sup></p> + +<p>O Tunante, se soubesse historia, não se admiraria +portanto de que o coração ainda tivesse um élo para +ligar portuguezes a francezes, e, se houvera adquirido +maior conhecimento dos homens e das coisas, +saberia que primeiro se verga ao tufão das paixões a +palmeira flexivel e solitaria do deserto, que o roble +secular da floresta, duas vezes forte—porque é robusto +e porque não esta só.</p> + +<p>A palmeira cede ao primeiro impulso, e deixa-se +ir, em doce voluptuosidade, embalada nos braços vaporosos +do vendaval, que são os primeiros, e por +ventura os unicos, que se estendem para ella.</p> + +<p>O roble cede apenas quando o tronco está corroido +pelos vermes ou abalado pelas luctas da tempestade.</p> + +<p>Os aulicos de Soult e os thuriferarios de Junot tinham +as entranhas comidas pelas serpes da perfidia, +e a alma vergastada pelo açoite da cupidez.</p> + +<p>Rosina era a palmeira do deserto, que verga sem +saber que vae ser arrastada para longe do seu torrão +natal, e que o simoun a despenhará n'um abysmo +inevitavel.</p> + +<p>Era o amor que a dementava a extremos de renunciar +a sua patria, se bem que a cada instante lhe +pungisse no coração uma vaga saudade das Ardennas; +era finalmente um sentimento nobre que a impellia +a essa loucura, serena postoque ardente, resignada +postoque dolorosa.</p> + +<p>A que mobil obedeceriam, porém, as damas portuguezas, +que, um anno antes, se banquetearam e +valsaram, no theatro de S. Carlos, em ruidoso sarau +e na presença de Junot, com a officialidade franceza?</p> + +<p>Suas excellencias, as beldades da capital, eram recebidas +no vestibulo do theatro por quatro pagens, +loiros e provavelmente rosados. Sahia a esperal-as +ao limiar da platéa, d'onde corria um tablado a nivelar-se +com o palco, o general Margaron, que fazia +as honras da casa. Ao fundo da scena havia trez cadeiras +de braços, que se conservaram devolutas até +á chegada de Junot, e em frente o busto de Napoleão<span class="pn"><a name="pag_76">{76}</a></span> +a resaltar sob um docel armado com quatro bandeiras +em que se liam os nomes de outras tantas batalhas +assignaladas: Marengo, Austerlitz, Iena e Friedland.</p> + +<p>Já as damas ouviam requebradas os galanteios dos +officiaes de Napoleão, quando entrou Junot á maneira +d'imagem em andor, isto é ladeado por duas +das mais formosas portuguezas. Então começou o +delirio da valsa, que rodou em circulos vertiginosos +pela sala, até que a meio do tablado se abriu uma +tenda de campanha, onde se serviu a ceia unicamente +ás senhoras. É de suppor que suas excellencias se +volvessem galliciparlas para melhor poderem acompanhar +a eloquencia dos officiaes francezes nos brindes.</p> + +<p>Os convivas do sexo masculino estavam vexados—segundo +diz candidamente o já citado José Accursio +das Neves—e espreitavam dos camarotes as viandas +e as esposas, resignando-se ao exiguo prazer de respirar +os perfumes d'umas e outras.</p> + +<p>Em redor do edificio do theatro estavam postados +quatro mil aguadeiros, de barril ao hombro, medida +preventiva ordenada por Junot, para acudirem, em +caso de maior sinistro, ao duplo incendio da lascivia +e da gula.</p> + +<p>Parece porém averiguado que não funccionaram +por serem permittidos dentro os escandalos.</p> + +<p>D'esta combustão, que afogueou o interior do theatro +de S. Carlos, na noite de 8 de junho de 1808, +tambem não sabia o Tunante de Pé-de-Moira.</p> + +<p>Que ignorante aquelle!</p> + +<p>Entenda-se todavia que não veiu á tela o facto para +avultar a necedade do barqueiro, senão que para +desculpar o coração e a mocidade da pobre Rosina +Regnau. E agora é tempo de reatarmos o interrompido +dialogo.</p> + +<p>—Reparou, replicou a vivandeira a Graça Strech, +que ia calada. Ia a pensar. Bem vê que é desculpavel +a concentração em quem agora renasce para a existencia. +Não creia porém que o não ouvia. Ouvia sim... +Quer uma prova? Acaba de serenar a minha alma +com uma unica palavra, de resolver um problema, +como se diz em Pariz, no bairro Latino. O senhor +não precisa de pensar no futuro. Já o escolheu. Vae +combater, vae realisar o seu desejo, tão facil de realisar<span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span> +que lhe basta apenas encontrar o exercito portuguez. +Eu comecei a realisar o meu: era acompanhal-o. +Bem; aqui vou ao pé de si. Mas depois? mas +ámanhã? mas sempre? Procurar o exercito francez +era entregar-me á morte. Seguir o exercito portuguez +era denunciar-me no primeiro momento em que me +ouvissem falar. E os resultados d'essa imprudencia +facilmente se imaginam... Seriam tambem a morte... +Não, não, eu quero viver, preciso de viver, com +o senhor e como o senhor. Viverá para a sua vingança; +eu viverei para o meu... amor. Sim, pode +acreditar na verdade d'esta palavra, aqui, a esta hora, +depois, de eu haver atirado ao rio o meu fato de vivandeira... +O senhor disse ao barqueiro: Faze de +conta que é muda. Pois bem, sel-o-hei d'hoje em +diante sempre que tenha á volta de mim ouvidos estranhos. +Reservarei para o senhor as minhas palavras +e o meu coração; para todos os outros serei +muda, idiota, louca, se tanto for preciso. Mas deixe-me +vel-o, seguil-o, falar-lhe só a si, percebe, só a si! +Não estranhe a minha fraqueza. A alma da vivandeira +é como um cartuxo de polvora: cheguem-lhe +lume, e ella arderá. O senhor bem sabe que eu sou +vivandeira...</p> + +<p>Graça Strech queria falar.</p> + +<p>Ella atalhou-o:</p> + +<p>—Quando se enfastiar de mim, tenha a coragem +de m'o dizer. Um soldado deve ser corajoso. O ceguinho +das Ardennas, quando vae a qualquer casa +onde as crianças teem medo do seu cão, manda-o +embora, e elle obedece-lhe. O senhor diga-me tambem: +«Rosina Regnau, não te esqueças de que eu +sou para ti o cego das Ardennas, o pobre Hubert». +Bem sabe que quando ha guerra não é difficil a gente +encontrar repouso. Ás vezes, no caminho, sae-nos ao +emcontro uma bala perdida. Quando a gente é feliz, a +bala cae-nos aos pés, mas quando só falta calar-se o +coração para morrer, a bala cae no coração.</p> + +<p>—Rosina! Rosina! murmurou Graça Strech, profundamente +commovido.</p> + +<p>Ella atalhou-o de novo:</p> + +<p>—Sim, agora ainda sou Rosina, ainda posso sel-o. +Ámanhã serei—a muda. Serei uma sua parenta, uma +louca com quem o senhor reparta piedosamente da +sua marmita. Dirão: Ali vae a louca! E eu não poderei<span class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span> +voltar-me sequer, porque a louca será ao mesmo +passo surda e muda. Se porém o calor da lucta +não só fizer que se enfastie de mim, mas tambem +que me odeie, como a principio me odiava, então +não me mande embora, denuncie-me, entregue-me. +Bastará uma palavra sua para fazer-me emmudecer +para sempre. Bem vê que se o encargo é pesado, o +resgate é facil...</p> + +<p>—Offende-me, Rosina, veja bem que me offende! +disse elle ardentemente. Amo-a... sim, tambem eu +posso dizer-lhe que a... amo. E quem diria, Rosina, +quem o diria ha tão pouco tempo ainda! Como é +feito o coração do homem! Odeio os seus irmãos e +amo-a a si... Pela primeira vez na minha vida sinto +amor por outra mulher que não fosse...</p> + +<p>—Cale-se, cale-se! apostrophou ella delirantemente. +Não quero saber quem amou; seja esse o segredo +do seu annel.</p> + +<p>—Acredite, Rosina, que o amor de que este annel +é recordação era o mais puro amor que ha na terra... +A pessoa a quem elle pertencia era minha irmã, acredite, +era minha irmã.</p> + +<p>—Sua irmã! repetiu ella incredula e ironica. Bem +vê que o sentimento que esse annel lhe inspira não +é a saudade, é o enthusiasmo...</p> + +<p>—Oh! que não sabe como eu a amava! São d'ella +tambem estas cartas... Póde vel-as, desenganar-se...</p> + +<p>—Não as entenderia.</p> + +<p>—É verdade. Não as entenderia.</p> + +<p>—E que certeza me dariam as cartas de que eram +da mesma pessoa que possuia o annel? Que sua irmã +lhe escrevesse era natural... Não preciso de provas +para acredital-o...</p> + +<p>—Rosina! Rosina! Este annel tambem era de minha +irmã, que eu vi morta, fria, hirta, livida... Mataram-n'a, +Rosina, mataram-n'a... E ella era tão formosa, +tão innocente, tão timida! Mataram-n'a os +francezes, a ella, que lhes não fazia mal nenhum, a +ella, que era meiga como uma pomba!... E não contentes +com um assassinio, commetteram mais dois +na minha familia. Ao pé do cadaver d'Augusta havia +outros cadaveres: o de minha mãe e o de minha avó. +Mataram-n'as os francezes, Rosina. Por isso eu odiava +este nome. O annel, cujo segredo não acredita, é<span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span> +um legado de sangue... Sim, eu amo-a, mas nunca +me peça mais do que eu lhe posso dar. Nunca me +peça compaixão, clemencia... Era impossivel! Sobre +este annel jurei vingar-me. Bem vê que é delgado, +fino, como o dedo que cingia. Pois elle é a unica +barreira que póde haver entre mim e Rosina, quero +dizer, o unico obstaculo que lhe prohibe a plena +posse do meu coração... Viverei, sim, entre este annel +e Rosina; entre a minha vingança e o meu amor... +Eu patenteei-lhe a minha alma antes de acceitar a +liberdade que me deu. Não tem de que me accusar... +Comprehendo-a, Rosina, acredite que a comprehendo. +A sua alma é tão extraordinariamente grande, tão +poderosamente forte, que chega a assombrar-me a +coragem do seu amor... Eu conheço que vae raiar +para mim uma nova aurora. Quizera poder-me dar +completamente ao seu amor, viver d'elle e só para +elle, mas infelizmente a aurora que vae raiar nasce +tinta de sangue, e sangue... de seus irmãos.</p> + +<p>Rosina tinha lagrimas nos olhos e fogo no coração. +Parecia-lhe impossivel que a saudade d'uma +irmã despertasse em Graça Strech tão dolorido enthusiasmo. +Se era essa a unica recordação ligada +áquelle annel, que phenomenal, que afflictiva e ao +mesmo tempo que energica não era a alma d'esse +homem! Cada vez o amava mais por que cada vez +lhe parecia maior. E todavia, entre elles, tão germanados +pela impetuosidade dos sentimentos e pela virilidade +do animo, medeava uma barreira, posto que +delgada, insupperavel—o annel mysterioso. Ella quereria +tirar-se d'aquella duvida cruciante, adquirir, +ainda que á custa de sacrificios, uma convicção, embora +funesta; mas que direito tinha ella a interrogal-o +mais, a duvidar, a ter ciumes?</p> + +<p>Cerca do meio dia abicou o barco a um reconcavo +sombrio, perto de Pé-de-Moura, onde o barqueiro +saltou em terra para ir buscar o fato promettido. Antes +d'elle desembarcar, Graça Strech lançou-lhe a +mão ao braço, e disse austeramente:</p> + +<p>—Tens filhos?</p> + +<p>—Saiba v. s.ª que tenho quatro. Por elles me exponho +á morte todas as noites no rio...</p> + +<p>—Pois bem. Por elles me jurarás que não dirás a +ninguem palavra do que viste e ouviste aqui.</p> + +<p>—Juro, senhor...<span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span></p> + +<p>—Agora recebe todo o dinheiro que resta a um +soldado.</p> + +<p>Uma hora depois, Graça Strech, saltando á margem, +dizia a uma camponeza que o seguia:</p> + +<p>—Para Amarante.</p> + +<p>E a camponeza, como se só tivesse sorrisos e não +palavras, sorria.</p> + +<p>Já dissemos que era aquelle o dia 20 d'abril.</p> + +<p>Quizeram os francezes, depois da invasão do Porto, +estender a sua victoria pelo paiz inteiro. Immediatamente +se assenhorearam de Valença e Vianna, +tentando simultaneamente passar a Traz-os-Montes, +mas foram duas vezes repellidos n'essa tentativa.</p> + +<p>Beliscados na sua vaidade de conquistadores, tinham +mandado sobre Amarante no dia 9 uma força, +que recuou perseguida pelo general Silveira. Appareceu +porém, reforçada, no dia 15, travando combate +em Manhufe e Villa Meã durante trez dias para dar +tempo a soccorrel-a os quatro mil homens de Loison +e De Laborde, que, partindo de Guimarães, lograriam +colher os portuguezes pela rectaguarda.</p> + +<p>A pericia do general Silveira frustrou-lhes o intento +com um rapido e habil movimento sobre Amarante. +Os portuguezes occupavam a margem esquerda +do Tamega; os francezes a direita.</p> + +<p>O empenho do inimigo era atravessar a ponte. +Desesperados pela valorosa resistencia dos portuguezes, +pegaram fogo, na noite de 18, a toda a villa. A +crueza do inimigo mais pareceu atiçar a coragem dos +nossos, cuja resistencia recrudesceu no dia immediato, +apesar de reforçados os francezes pelas brigadas +de Sarrut e Marisy.</p> + +<p>Estas eram as evoluções das tropas inimigas, em +Amarante, á hora em que deixamos Graça Strech e Rosina +Regnau em caminho do acampamento portuguez.</p> + +<p>Tempo depois, um poeta conterraneo, mais familiar +ás armas d'Apollo que de Marte, encarecia no +seguinte soneto a gloria do general Silveira, cuja tactica +elle provavelmente estivera contemplando de sitio +aonde já não podiam chegar pelouros:</p> + +<blockquote> +<p>Uma nuvem de fumo o ar povôa,<br> +E do Tamega enluta as margens frias,<br> +O portuguez canhão quatorze dias,<br> +Sem descanço algum ter, fuzila e trôa.<span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span></p> + +<p>De um lado a outro lado a morte vôa<br> +Por entre essas crueis artilharias,<br> +E perdendo as antigas ousadias,<br> +Curva ao duro francez a altiva prôa.</p> + +<p>Amigos hespanhoes, nação brilhante!<br> +Eis como cá seguimos vossa esteira,<br> +Eis nossa Saragoça, eis Amarante.</p> + +<p>Os olhos ponha em nós a Europa inteira,<br> +E veja, em amplo quadro flammejante,<br> +O Tamega, Ebro, Palafox, Silveira.</p> +</blockquote> + +<p>Pena foi que Graça Strech precedesse alguns dias +a gestação do soneto escripto em honra de Silveira, +porque, de contrario, se topasse o poeta a versejar +em ociosa inactividade, havel-o ia empurrado, no seu +vivissimo odio contra os francezes, para o meio da +infatigavel fuzilaria que durante quatorze dias sinistramente +illuminou as aguas do Tamega.</p> + +<p>O que valeu foi que, se houve poetas para incensar +metricamente Silveira<sup><a href="#nota8" name="m_nota8">[8]</a></sup>, houve tambem soldados +que denodadamente pelejaram pela patria.</p> + +<p>E o numero dos valentes da ponte d'Amarante ia +agora ser augmentado com um soldado que seria o +primeiro a romper fogo contra o inimigo.</p> + +<p>Deixar lá o poeta dizer que as margens do Tamega +eram <i>frias</i> n'aquelle tempo. Os poetas dizem +tudo, e tudo podem dizer...<span class="pn"><a name="pag_82">{82}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota6" name="nota6">[6]</a></sup> +«Historia antiga e moderna da sempre leal e antiquissima villa +de Amarante». etc., por P. F. de A. C. de A.—1814, pag. 54.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota7" name="nota7">[7]</a></sup> +«Historia geral da invasão dos francezes em Portugal», por +José Accurcio das Neves. Tomo <small>I</small>, pag. 282.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota8" name="nota8">[8]</a></sup> +Veja-se <i>Elogio de Silveira</i>, pelo padre mestre dr. fr. F. +de S. T., e <i>Silveira</i>, poema por J. S.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>X</h2> + +<h2>A hora do resgate</h2> + +<p>Quatorze dias durou, como dissémos, a heroica +defeza da ponte d'Amarante.</p> + +<p>Foi aquella uma proeza que requeria desfecho condigno, o que infelizmente não aconteceu. Reforçado +o inimigo ao decimo terceiro dia de combate, e animado +pela presença do marechal Soult, preparou-se +para uma lucta decisiva, que o nevoeiro com que +amanheceu o dia seguinte viera inesperadamente coroar.</p> + +<p>Perdidos os nossos na cerração da metralha e da +neblina, e atacadas pela rectaguarda algumas baterias, +tiveram de abrir passagem por entre uma densa +floresta d'armas, marchando em retirada para Mezão +Frio e Campeã, a tempo que o general Silveira recuava +para Entre-os-Rios.</p> + +<p>É realmente assombrosa a historia portugueza nas +paginas que dizem respeito ás guerras peninsulares.</p> + +<p>São tão descommunalmente grandes os factos, que, +em sua mesma simpleza, ora se nos affiguram episodios +d'Homero, exuberantes d'esforços titanicos, ora +se retingem dos toques sombrios de Dante.</p> + +<p>As façanhas da invasão franceza claramente revelam +que ha pouco mais de sessenta annos corria ainda +nas veias dos portuguezes o sangue dos valentes +d'Ourique, Aljubarrota e Montijo. Renasciam os heroes +das cinzas dos heroes, como se a gloria fosse herança +de paes a filhos. Podia o animo portuguez desvariar +se por momentos, como já anteriormente fizemos +notar, que logo despertava melhor retemperado +para a rehabilitação. Assim é que 1640 faz esquecer +1580, e que o vulto homerico de João Pinto Ribeiro +resgata a perfidia de Miguel de Vasconcellos.</p> + +<p>Hoje, as batalhas que outr'ora eram campaes, volveram-se +parlamentares, isto é, falamos muito e praticamos<span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span> +pouco. A apostrophe «S. Jorge e ávante!» foi +substituida por est'outra: «Senhor presidente, peço a +palavra!» Ha menos soldados e mais deputados, menos +regimentos e mais commissões. Não obstante, alguma +faulha resaltaria ainda das cinzas quentes das +nossas conquistas para atiçar o incendio das paixões, +na hora em que perigasse a independencia da patria.</p> + +<p>Aconteceria, porém, que muitos deputados, que nas +côrtes de S. Bento discursam calorosamente sobre a +nossa autonomia, requereriam, dada a voz de alarma, +inspecção da junta de saude para serem considerados +invalidos...</p> + +<p>Mas iamos nós falando dos feitos portuguezes durante +as guerras peninsulares. Estupendos foram, é +certo.</p> + +<p>No combate da ponte d'Amarante, por exemplo, +perecera gloriosamente um official d'artilharia, muito +lastimado por seus companheiros d'armas, incluido +o general Silveira, que lhe abraçou o cadaver.</p> + +<p>O tio do official, e a mãe, que era viuva, vestiram-se +de gala, dizendo esta nobre mulher aos dois filhos +que lhe restavam, e estavam pranteando o irmão:</p> + +<p>—Não choreis, filhos. Vosso irmão não morreu. +Vós é que morrereis da morte da vergonha se vos +não mostrardes dignos da sua memoria.</p> + +<p>Este exemplo d'animo varonil em peito feminino +prova que não anda phantasia popular na lenda d'aquella +Deosadeu, de Monsão, de Celinda, a heroina +de Certã, de Filippa de Vilhena, e doutras celebradas +matronas portuguezas, que deram á patria +uma geração de meninas que fazem <i>crochet</i>.</p> + +<p>É egualmente abundante de heroismos a chronica +da primeira invasão, á parte pequenas manchas, como +aquellas que dos copos dos officiaes francezes cairam +sobre o tablado do theatro de S. Carlos.</p> + +<p>Deixem-me citar um facto na mesma linguagem +em que o historiador o descreveu.</p> + +<p>«O juiz de fóra de Algozo, Jacintho d'Oliveira Castello +Branco, fez-se digno de honrosa memoria, pela +sua repugnancia ás ordens do governador intruso; +por continuar debaixo d'elle a uzar do nome de S. +A. R.<sup><a href="#nota9" name="m_nota9">[9]</a></sup> em alguns processos; por conservar as armas<span class="pn"><a name="pag_84">{84}</a></span> +reaes no pelourinho e na casa da camara d'aquella +villa; e por outras acções, egualmente sublimes e arriscadas. +Jantando em sua casa varias auctoridades +portuguezas, que o increpáram de não cumprir as +ordens reiativas á contribuição de guerra, respondeu-lhes, +lançando mão a um copo, e fazendo uma saude +a S. A. R. o principe regente.»</p> + +<p>Não é menos avantajado em heroicidade o procedimento +do juiz de fóra de Marvão, Joaquim José de +Magalhães Mexia, que, intimado para se render ao +jugo estrangeiro, fez desistencia publica perante os +seus escrivães, e foi prostrar-se diante da imagem do +Senhor dos Passos da sua villa, encostando a vara á +imagem por fórma que parecia haver-lh'a depositado +nas mãos, e recolhendo-se depois a casa para vestir-se +de luto.</p> + +<p>É pois digna de que a reproduzam na tela os melhores +pintores, os melhores poetas e os melhores +historiographos—esta ingente lucta d'um pequeno +paiz, apenas soccorrido por outro, contra o gigante +tresvariado pela gloria, que firmava os pés nas planicies +da Italia, e alguns annos depois fôra visto á +luz, para elle sinistra, dos incendios de Moscow, enchendo, +de sul a norte, a Europa inteira.</p> + +<p>Alguns talentos verdadeiramente robustos teem +lançado o colorido do seu pincel sobre esta enorme +tela, nunca esgotada. Que me lembre n'este momento, +Rebello da Silva, Camillo Castello Branco, Pinheiro +Chagas e Arnaldo Gama trataram brilhantemente tão +fecundo assumpto. Eu chego com pequeno viatico, +embora não venha tarde, unicamente para mostrar que +tenho seguido reverentemente o sulco que todos quatro +abriram no vasto campo da guerra peninsular.</p> + +<p>Reatando a narrativa.</p> + +<p>Graça Strech foi um dos soldados portuguezes que +mais se distinguiram nos ultimos dias da defeza da +ponte d'Amarante.</p> + +<p>O general Silveira estimou-o desde que elle, apresentando-se, +lhe disse: «Venho bater-me como leão +porque venho vingar-me»; e começou a admiral-o +horas depois da apresentação.</p> + +<p>Ao anoitecer do mesmo dia, fizeram reparo alguns +soldados n'uma camponeza, que parecia muda, e se +bandeava com o sequito do exercito.</p> + +<p>—D'onde viria? perguntavam elles.<span class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span></p> + +<p>—É minha... irmã, atalhou commovido Graça +Strech. Não podia convencel-a a que me não seguisse, +porque a infeliz nem ouve nem fala. Veiu vindo +atraz de mim, receiosa de que eu morresse sem ver-me. +Pobresinha!—acrescentou com os olhos marejados +de lagrimas—não faz mal a ninguem, e é muito +minha amiga.</p> + +<p>—Que pena a sua desgraça, que tão formosa é! +observou piedosamente um portuguez.</p> + +<p>—Nem se diria portugueza! exclamou outro com +a affouteza que lhe dava o não estar na presença de +portuguezas.</p> + +<p>Graça Strech replicou:</p> + +<p>—Ha com effeito ali alguma coisa allemã no rosto +como no nome. Os nossos antepassados tinham sangue +teutonico. Ainda nos corre nas veias o sangue +d'elles. A pobresinha estremece-me. Como não tem +ouvidos nem voz, quer estar ao pé de mim sempre +que póde, como para falar pela minha bocca e ouvir +pelas minhas orelhas. Eu sou quasi a sua moleta... +Tambem a infeliz não tem ninguem mais n'este mundo, +e ella de si pouco tem...</p> + +<p>—Infeliz! ponderaram os soldados enternecidos.</p> + +<p>Rosina Regnau interpretou magistralmente o seu +papel. Passavam por ella e diziam: <i>A muda allemã!</i> +e ella, apesar de entender a phrase á força de repetida, +nem sequer voltava o rosto para agradecer +aquella esmola de compaixão.</p> + +<p>Se não ouvia! se não falava!</p> + +<p>Sentava-se entre as bagagens a entrançar folhas +verdes ou a desfolhar flôres.</p> + +<p>Algumas vezes mettia-se por entre as arvores para +se inteirar da posição das tropas.</p> + +<p>Depois d'um combate, aproximava-se dos soldados, +quando Graça Strech se demorava ainda, e pousando +a face na mão e fechando os olhos, perguntava por +gestos se «o irmão» estava ferido ou morrera. Os +soldados, que já a comprehendiam, acenavam-lhe +negativamente.</p> + +<p>Assim decorriam os dias, sem que a alma da vivandeira +saisse para fóra de si mesma.</p> + +<p>Quem adivinhava ali que de receios, de maguas, de +pensamentos, de esperanças muito vagas... agitavam +aquelle formoso cadaver que só tinha vida nos +olhos?<span class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span></p> + +<p>Ninguem.</p> + +<p>E todavia ella estava pensando sempre...</p> + +<p>A sua ambição, o seu sonho, o seu ideial era possuir +inteiramente a alma de Graça Strech, porque +ella desde o momento da fuga para ninguem mais +vivia.</p> + +<p>—Achou decerto—suspeitava ella—que eu não +era digna de receber a confissão do seu segredo. +Quem és tu, disse elle lá comsigo, pobre vivandeira, +para comprehenderes a enormidade d'um amor que +vive na morte? Se aquelle annel fosse realmente de +sua irmã, curvar-me-ia a seus pés e beijar-lh'o-ia. +Mas se elle cingiu o dedo d'outra mulher, que o +amava muito menos do que eu, arrancar-lh'o-ia da +mão ainda mesmo com a certeza de morrer esmagada +pela sua colera. Cumpre pois que, por sacrificio +sobre sacrificio, eu chegue a nobilitar-me a seus olhos +o bastante para elle me convencer. N'esse dia serei +sua amante; por emquanto sou apenas o seu cão. +Vamos, solitario molosso, affaga o teu dono...</p> + +<p>Graça Strech passava, atirava-lhe uma flôr, e sorria...</p> + +<p>Ella sorria tambem.</p> + +<p>Guarnecidos todos os pontos do Douro, desde a +retirada d'Amarante até a acção d'Ovelha, tiveram as +tropas algum descanço apenas interrompido por escaramuças +e reconhecimentos.</p> + +<p>Foi n'esse intervallo que Graça Strech começou a +aprender a tocar guitarra com um soldado, filho da +Regua, e muito conhecido ali por excellente musico.</p> + +<p>A natural aptidão de Graça Strech fez que dentro +em pouco se avantajasse ao mestre. Assim era que +não desaproveitava occasião de estar guitarreando +ao lado de Rosina, que conservava na physionomia a +habitual immobilidade de linhas, como se a musica, +que se lhe coava á alma, não lhe desse nenhuma +sensação, por não poder ouvil-a.</p> + +<p>Ás vezes, de noite, Rosina podia murmurar muito +a medo, aos ouvidos de Strech, através dos sons da +guitarra:</p> + +<p>—José!</p> + +<p>Ella sabia pronunciar este nome como se de pequenina +o aprendera.</p> + +<p>Depois olhava em redor, como para adquirir a certeza +de não ser escutada, e repetia maviosamente:<span class="pn"><a name="pag_87">{87}</a></span></p> + +<p>—José!</p> + +<p>Elle apertava-lhe convulsamente a mão e respondia:</p> + +<p>—Rosina!</p> + +<p>E aquelle immenso amor da vivandeira, que renunciára +á patria, á liberdade e á voz, contentava-se com +exhalar-se n'uma palavra, e ser correspondido por +outra.</p> + +<p>Ella tambem não pedia mais. Era o cão do soldado: +seguia-o.</p> + +<p>Quando a tristeza lhe descia ao coração, a indefinida +tristeza de quem ama, consolava-se a si propria +imaginando-se ainda vivandeira, porque ouvia troar +o canhão e sentia no ar o cheiro da polvora.</p> + +<p>Era apenas a memoria o que lhe restava do que +fôra; o fato da sua infancia sepultára-o ella no fundo +das aguas...</p> + +<p>Entretanto proseguiam com actividade as operações +d'um e outro exercito.</p> + +<p>A 22 d'abril entrava em Lisboa Wellesley, commandante +em chefe das forças britannicas, que desembarcaram +no Porto, na Figueira, etc. As tropas inglezas, +de combinação com as portuguezas, começaram +a tomar differentes posições. Em Coimbra passaram +algumas divisões nos dias 1 e 2 de maio, sendo +recebidas com festas que chegaram a tocar o maximo +enthusiasmo.</p> + +<p>Era aquelle o hymno de esperança da patria, anciosa +de liberdade.</p> + +<p>Avançaram as tropas alliadas até Agueda, e lograram +repellir os francezes desde as Albergarias até +Oliveira d'Azemeis, onde Wellesley, depois lord Wellington, +estabelecera o quartel general.</p> + +<p>No dia 11, a guarda avançada do exercito anglo-luzo +destroçou em Grijó os postos avançados francezes +que recuaram até Gaya e passaram o Douro, +cortando immediatamente a ponte de barcas.</p> + +<p>Na vespera d'esse dia atravessára Beresford o Douro +na Regua com as suas tropas, repellindo Loison +para Amarante, e de Amarante para o Porto; Loison +perdera na retirada muitas peças, alguns obuzes, +e cento e dezenove carros com bagagens.</p> + +<p>Estava pois o flanco esquerdo do exercito francez +torneado por Beresford, o direito por Hill em Ovar, +e o centro alcançado pelas divisões Trant e Paget.<span class="pn"><a name="pag_88">{88}</a></span></p> + +<p>Durante toda a noite de 11 para 12 marchou o exercito +alliado sobre Villa Nova de Gaya.</p> + +<p>De manhã, e impossibilitado de passar o rio, soube +o coronel Watters que um barbeiro portuense, salvo +da vigilancia das patrulhas francezas, havia atravessado +n'um barco; aproveitando a conjunctura providencial, +e o barco não menos providencial que a conjunctura, +passou á margem direita, voltando á esquerda +com trez grandes barcos, que pudera obter.</p> + +<p>Avisado Wellesley do achado miraculoso, voltou-se +jubiloso para o coronel e disse:</p> + +<p>—Passem as tropas que couberem nos barcos.</p> + +<p>Não faltaram valentes que se expuzessem aos azares +da façanha, surprehendendo os francezes que +contavam repellir vantajosamente o inimigo quando +tentasse a travessia a descoberto.</p> + +<p>Foi, pois, o coronel Watters o Martim Moniz da +reconquista do Porto.</p> + +<p>Percebidos os francezes da audacia heroica do +exercito alliado, para logo se desviaram em movimentos +confusos, como o redemoinhar das areias no +deserto revolvidas pelo simoun. E assim como as +areias tomam, erguidas no ar, á luz do sol, irradiações +prismaticas que deslumbram, assim resplandeciam, +á luz do meio dia, as armas dos francezes baralhando-se tumultuariamente nas ondulações do terreno +que medeia entre o caes da Ribeira e o Prado +do Bispo.</p> + +<p>E então marinhavam as tropas luzo-britannicas pelos +alcantis do Seminario, como outr'ora os cruzados +pelos despenhadeiros da torre do norte, na tomada +de Lisboa, e, para que se complete o parallelo, o que +lá era Guilherme, duque de Normandia, era cá Wellesley, +lord Wellington.</p> + +<p>E já para anciedade dos portuenses se abria manhã +d'esperança, á medida que os nossos ganhavam +terreno, e mais revoluteavam as hostes francezas nas +eminencias sobranceiras ao Douro.</p> + +<p>Por um momento se julgou perdido o triumpho, +quando a artilharia franceza começou a varejar o Seminario.</p> + +<p>Mas não tardou que ao canhão da margem direita +respondesse o canhão da margem esquerda, que das +alturas do Pilar vomitava torrentes de fumo negro +sobre o valle cavado pelo Douro.<span class="pn"><a name="pag_89">{89}</a></span></p> + +<p>Reanimados os portuenses, entraram de preparar +barcaças, que conseguiram pôr a salvo do outro lado +do rio, e que transportaram as tropas do general Sherbrooke.</p> + +<p>Simultaneamente estrondeava no Porto, rolando +até ao caes como o rumor longinquo d'uma cathedral +em festa, o concerto das vozes, que pregoavam +victoria, á mistura com os sons festivos dos campanarios.</p> + +<p>Nas janellas da cidade baixa agitavam-se lenços +brancos em vertiginoso tumultuar.</p> + +<p>Tambem assim accordou Lisboa, cento e sessenta +e nove annos antes, na manhã de 1 de dezembro de +1640, quando um punhado de fidalgos portuguezes +subjugava nas praças publicas, sem correr uma gotta +de sangue, o famelico leão das Hespanhas.</p> + +<p>Era o grito de liberdade longos dias reprimido na +garganta d'um povo inteiro.</p> + +<p>Era o jubilo d'uma nação, que parece apenas occupar +alguns palmos de terra no mappa da Europa, +á hora em que despedaçava as gramalheiras que por +sobre os Pyreneus lhe lançára o César da França, e +dizia ao vencedor de Austerlitz: «Tu prostraste a +Prussia em Iena, a Russia em Friedland; tu levantaste +sobre as baionetas dos teus exercitos os thronos +de Napoles, da Hollanda, da Westphalia, e da +Hespanha, mas nós fizemos estremecer na tua mão, +ó demolidor victorioso, a alavanca com que procuravas +revolver nos alicerces o solio portuguez. Que o +amigo leopardo da Inglaterra te contrariasse, vá, +porque a Inglaterra é muito poderosa. Mas nós, pequenos +como somos, fazemos suster o vôo da tua +aguia e, audazes como ella, gritamos-lhe para a amplidão +que avassalla: Basta! Pára!»<span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota9" name="nota9">[9]</a></sup> +Sua Alteza Real.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>XI</h2> + +<h2>O que a vivandeira pensava</h2> + +<p>Retiraram os francezes pelo norte de Portugal, +acossados pelo exercito anglo luso.</p> + +<p>No dia 17 ganharam Montalegre, no dia 18 passaram +a Alhariz, e no dia 19 entraram em Orense, depois +de marchas tão violentas como trabalhosas, de +perdas consideraveis, e de perseguida vivamente a +sua rectaguarda pelas tropas alliadas.</p> + +<p>Na passagem pelas povoações que medeiam entre +o Porto e a fronteira, deixaram os invasores um rasto +de sangue e fogo de que falam com assombro os documentos +officiaes.</p> + +<p>Á medida que fugiam foram espalhando a morte +nas ultimas terras de Portugal, como se quizessem +atulhar de cadaveres o abysmo cavado na gloria de +Napoleão.</p> + +<p>N'uma carta dirigida por lord Wellington ao secretario +de guerra, escripta no quartel general de +Montalegre, no dia 18, lê-se que: «O inimigo começou +a retirada, como já informei a v. s.ª, destruindo +uma grande porção dos seus canhões, e munições. +Ao depois destruiu o resto d'ambos, e grande parte +da sua bagagem, sem conservar mais do que quanto +pudessem levar os soldados, e poucas mulas. Deixou +ficar os doentes e feridos; e o caminho até Montalegre +está juncado de cadaveres de cavallos, e mulas, +e soldados francezes, que foram mortos pelos camponezes, +antes que a nossa guarda avançada os pudesse +salvar. Esta circumstancia é o effeito natural +da maneira por que o inimigo faz a guerra n'este +paiz. Os soldados teem saqueado e morto a paizanagem, +a seu arbitrio; e eu tenho visto muitas pessoas +pendentes enforcadas nas arvores ao longo das estradas, +executadas por nenhuma outra razão, que eu<span class="pn"><a name="pag_91">{91}</a></span> +possa saber, senão porque não eram amigas da invasão +franceza, nem da usurpação do seu paiz; e podia +traçar-se a rota da sua retirada, pelo fumo das aldeias +a que elles lançavam fogo. Temos tomado cousa +de quinhentos prisioneiros. Em tudo, o inimigo +não tem perdido menos de um quarto do seu exercito, +e toda a sua artilharia e equipagem, desde que +nós o atacámos junto ao Vouga.»</p> + +<p>O marechal Beresford afina pelo mesmo tom:</p> + +<p>«Não é possivel pintar a cruel e infame conducta +do inimigo; ella póde ser facilmente traçada pelos +lamentos dos infelizes paizanos, das mulheres e das +crianças, e pelo fumo das villas, aldeias e casas incendiadas: +elle a nada perdôa: esta villa (Amarante) +está inteiramente destruida: a de Mezão Frio o está +em proporção do tempo que tiveram...»</p> + +<p>Passavam, pois, os francezes, devastando, incendiando, +matando.</p> + +<p>Quiz o duque de Dalmacia que o occaso da sua invasão +fosse allumiado pelas labaredas do incendio.</p> + +<p>Eram os ultimos lampejos d'uma victoria ephemera. +Mas a voz da patria, á hora do resgate, erguia-se +mais alto que o crepitar das chammas no pendor +das serras, que os lamentos dos velhos e das crianças +que succumbiam á ultima carnificina da segunda +invasão franceza.</p> + +<p>No Porto, governado militarmente pelo coronel +Trant, grande era o jubilo, se bem que não tão cego +que sir Arthur Wellesley não houvesse proclamado +aos habitantes que os feridos e prisioneiros estavam +debaixo da sua protecção, e que seria considerado +criminoso quem os offendesse.</p> + +<p>Em Lisboa, mal que no dia 17 se teve noticia official +da restauração do Porto, salvou o castello de S. +Jorge, sendo correspondido pelos navios de guerra +inglezes surtos no Tejo; saiu bando para que a cidade +se illuminasse por trez dias, no ultimo dos quaes +mandou o governo cantar um <i>Te-Deum</i> na Basilica +de Santa Maria Maior.</p> + +<p>Internado o inimigo no territorio da Galliza, as +operações do marechal Victor na Extremadura hespanhola, +ameaçando nova invasão de Portugal pelo +Alemtejo, obrigaram sir Wellesley e o marechal Beresford, +solicitado tambem o primeiro pela junta +central de Hespanha residente em Sevilha, a marchar<span class="pn"><a name="pag_92">{92}</a></span> +com seus respectivos exercitos para o sul do +reino.</p> + +<p>Retirou, pois, sir Wellesley, posto que a despeito +do governo portuguez, para a cidade do Porto, d'onde +passou a Coimbra, Thomar, Constancia, e Abrantes, +acampando na margem direita do Tejo. O exercito +portuguez acompanhou o movimento retrogrado +do exercito inglez, marchando para Abrantes, no intuito +de atacarem em commum o marechal Victor, +que estanceava nas visinhanças do Guadiana. Não se +demorou, porém, o marechal Victor n'esta posição. +Avançou, com os seus 90:000 homens, para a margem +esquerda do Tejo, no intuito de o passar na ponte +d'Alcantara.</p> + +<p>Reportemo-nos ao dia 14, dia assignalado pela brilhante +defeza d'esta ponte durante mais de seis horas.</p> + +<p>Eram oito da manhã quando o inimigo, em trez +columnas, rompeu o ataque por differentes pontos.</p> + +<p>D'uma e outra parte foi terrivel o fogo da artilharia +até que, cerca do meio dia, vendo o regimento +de milicias de Idanha-a-Nova consideravelmente dizimadas +as suas fileiras, retirou em debandada, deixando +ficar no campo apenas a legião lusitana.</p> + +<p>Em tão desesperada conjunctiva, o coronel Mayne +mandou incendiar as minas da ponte, rompendo a +explosão apenas por um lado, e ao major Grant confiou +o commando das baterias para proteger a retirada +dos nossos, que se realisou pelas trez horas da +tarde.</p> + +<p>A cavallaria franceza vivamente perseguira então +a nossa pequena divisão, sem que todavia pudesse +impedir que se acautelassem os feridos e juntassem +os dispersos.</p> + +<p>Ora um dos feridos na defeza da ponte d'Alcantara +chamava-se José Maria da Graça Strech.</p> + +<p>Quando, em logar seguro, o tiraram d'um carro, +onde lhe eram companheiros outros valentes portuguezes, +a <i>muda alemã</i>, como geralmente chamavam +a Rosina Regnau, esteve a ponto de trair o segredo +do seu disfarce, vibrando um doloroso grito, o qual +se apagou n'um rouco murmurio, que é, em lances +afflictivos, o supremo esforço dos que não teem +voz.</p> + +<p>E logo correu a encostar ao peito a cabeça do ferido,<span class="pn"><a name="pag_93">{93}</a></span> +a examinar a ferida, e a perguntar por gestos +se poderia resultar perigo.</p> + +<p>Os soldados, condoídos de tão carinhosa dedicação, +responderam logo, desde muito costumados a +prognosticar sobre ferimentos, gesticulando negativamente.</p> + +<p>E a muda poz as mãos, levantando os olhos ao céo +e entrou de affastar os cabellos de Graça Strech, banhados +de suor frio, para contemplar-lhe a physionomia +levemente alterada.</p> + +<p>Elle sorria-lhe com os olhos marejados de lagrimas +e serenava-a acenando-lhe meigamente com a +mão.</p> + +<p>Um dos soldados, abeirando-se de Graça Strech, +disse curvando-se para elle:</p> + +<p>—O que tu tens de valente tem ella de boa! Sois +dois irmãos dignos um do outro.</p> + +<p>Graça Strech encarou n'elle e meneou a cabeça; a +muda ficou indifferente a curar as feridas do irmão.</p> + +<p>E só depois que não podia ser vista nem ouvida +de estranhos, começou, alternando palavras com beijos, +a falar-lhe tão baixinho, tão baixinho, como se +até dos ouvidos d'elle guardasse o seu segredo, e só +quizesse que a escutasse a alma...</p> + +<p>—Não é nada, José, meu José. Elles disseram e eu +agora bem vi. Sabes que fui vivandeira e que tambem +entendo o meu pouco de feridas. Não! A morte +não te rouba d'esta vez á tua vingança e ao meu +amor.</p> + +<p>—Rosina, minha adorada Rosina! Alma pura! Coração +nobilissimo! Obrigado. Curva-te sobre a minha +bocca; queiro beijar a tua face...</p> + +<p>—É o primeiro beijo! murmurou ella circumvagando +um olhar cauteloso.—É o primeiro beijo que +de ti recebo... Obrigada, meu Deus!</p> + +<p>—Sim, tu és muito melhor do que eu... Tens-me +dado tantos, tantos... Mas—e perdoa-me, Rosina, +perdoa-me—a minha alma só agora te póde beijar +livremente...</p> + +<p>—Ó felicidade!... Praza a Deus que se este beijo +me abre a tua alma eu a chegue a possuir inteiramente, +porque o amor, meu José, é tão egoista, tão +egoista...</p> + +<p>—E não crês possuil-a ainda?</p> + +<p>—Não. Todavia tenho esperança... Virá um dia.<span class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span> +Cala-te, que te faz mal falar... Já não foram pequena +felicidade estas palavras, por que, tu bem sabes, eu +só tenho palavras para ti e para... Deus.</p> + +<p>Foi longo e reparador o primeiro somno do ferido.</p> + +<p>Rosina Regnau velou á cabeceira da tarimba, absorta +nos seus pensamentos pela primeira vez illuminados +por um raio de sol. Estava folheando o roseo +poema do primeiro beijo, decompondo em estrophes +maviosas a harmonia que da alma subira aos +labios. Era a primeira gotta de orvalho na aridez do +seu destino, uma parcella de ternura em recompensa +dos thesouros que ella por tanta vez prodigalisára +sobre as faces de Graça Strech.</p> + +<p>O primeiro beijo! A santa loucura das almas que +se amam, como diz a trova:</p> + +<blockquote> +<p>Foi aqui mesmo, á tremula<br> + Sombra do olmeiro,<br> +—Dizia o pastor Lícidas—<br> + Aqui, aqui,<br> +Que eu hontem n'estes labios<br> + Tive o primeiro<br> +Beijo da minha Flérida,<br> + E endoideci!<sup><a href="#nota10" name="m_nota10">[10]</a></sup></p> +</blockquote> + +<p>E baralhavam-se-lhe os pensamentos com a precipitação da ephemera demencia que a felicidade dá.</p> + +<p>—Sim... eu começo a ser feliz. Diz-me o coração +que o serei... Mais provas! mais provas, senhor meu +coração! Mostre-se digno d'aquella enorme alma, +inspire-lhe confiança para lhe recolher os segredos, +e possua-a, e juntem-se, e prendam-se, e identifiquem-se, +tão unidos, tão unidos, que nem a morte os possa +separar... Sem isso não ha felicidade completa... Sim, +bem vês, pobre coração, meu pobre coração que +tanto tens soffrido, que se aquelle annel fecha ainda +a saudade de um amor redivivo, não pódes por emquanto +conquistar a fortaleza que se não renderá. Tu +sabes lá como a saudade se bate entrincheirada detraz +de um tumulo! Então terás ainda muito que soffrer +e que luctar, pobre doente para quem hoje raiou +o primeiro symptoma da cura, meu triste coração<span class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span> +tão soffredor! Mas forceja, vá, porfia, esforça-te +por arrancar-lhe o segredo... Se aquella é a ultima +memoria de uma irmã querida, alegra-te, pobre +louco, porque nem a amante desluzirá a irmã, +nem a irmã desluzirá a amante. A alma d'elle é tamanha +que chega para mim e para ella. Para o que não +chega é para duas amantes, que se disputam palmo +a palmo o terreno, que luctam, que combatem, que +oppõem ciume a ciume, despeito a despeito, embora +uma esteja morta e outra viva... Não, «a gentil vivandeira» +não soffre competencias. Já se fez amar +d'um exercito; é preciso que se faça amar d'um homem. +Pois então perde-se tudo, a patria, a liberdade, +o socego, as florestas das Ardennas, as minhas queridas +florestas das Ardennas, que talvez não mais +torne a ver, e as montanhas do Hainaut e do Luxembourg, +que eu conheço desde pequenina, e o Semoy +e o Lesse e o Ourthe e o Eure, tudo, n'uma palavra, +perde-se uma vida inteira de dezoito annos, para amar +um homem, para ser a sua sombra, o seu cão, e não +se ha de possuir ao menos todo o seu coração, todos +os seus pensamentos, os seus segredos todos? Quem +me diz porém que não hei de vencer? Não vi eu porventura +tantas batalhas, não as vejo ainda, e não posso +tirar da incerteza da victoria um bom agouro para o +meu futuro? Dize-te, pobre Rosina, diz a ti mesma o +que são os combates que tantas vezes tens visto. Pinta +um quadro para ti. Anima-te! Olha... São duas as +montanhas alcantiladas, sombrias, enormes... Uma +defronte da outra... No meio um rio sereno, e crystalino +a principio... depois vermelho de sangue. Sobre +o rio uma ponte, e sobre a ponte, como a desabarem +para ella, as montanhas. E n'uma e outra os +exercitos, os uniformes variados, os kepis multicôres, +as espadas reluzentes, os cavallos pendurados das fragas, +os cavalleiros pendurados dos cavallos, as carretas +suspensas na ladeira, as peças que abrem a sua +bocca de fogo para vomitar o fumo e a morte, a voz +dos clarins e a voz dos commandantes, pragas, juras, +maldições, gemidos, blasphemias, sacrilegios, e a turba +ora a estreitecer, a apertar-se, a juntar-se em pinha, +ora a crescer, a alargar-se, a fazer-se onda, a +trasbordar, ora a rolar como avalanche pelo monte +abaixo, ora a marinhar por elle, a trepar, a agarrar-se, tão espessa, tão escura, tão confusa como se fosse<span class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span> +uma nuvem que saísse do rio, e o sol a doiral-a agora +e logo o fumo a envolvel-a, e já se desencadeiam +d'um e d'outro lado ameaçando chocar-se sobre a +ponte, que corta o valle, e que afundará com elles, e +baralham-se, enovelam-se, redemoinham, e apparecem +uns, e desapparecem outros, e tombam cadaveres +ao rio, e estruge no ar a grita, e corre ensanguentada +a agua, e são aquelles os que vencem, os que estão +em maior numero, e vão esmagar os outros, e arvorar +a bandeira... mas rolam de novo, precipitam-se, +confundem-se, e são estes agora os que triumpham, +lá se embrenham por entre o inimigo, passam como +corisco, e assombram-n'o, fulminam-n'o, e a victoria +é sua! Bem, Rosina Regnau, assim foi em Amarante +e ainda agora em Alcantara; assim póde ser para ti. +Quem te diria no hospital de sangue, quando o estavas +contemplando adormecido, tão pallido, tão mergulhado +no somno, e tu te lembravas de que eras +franceza e elle portuguez, quando tu já o amavas e +elle dormia, quem te diria, ó vivandeira ignorada, +que dias depois havias de seguil-o por toda a parte, +e perder a tua voz para que te não conhecessem, e +encostar ao teu peito a cabeça d'elle, que caira ferido, +e recber-lhe o primeiro beijo? Ninguem! Nem aquelle +endemoninhado do Beauvier, que era o bruxo do exercito, +e andava sempre a olhar para os astros, e adivinhava +quando chovia, e a lua havia de ser cheia, +aquella bonita lua cheia da França!... Ninguem, Rosina, +ninguem! Pois tambem não ha magico na terra +que saiba dizer se tu chegarás a vencer o seu coração +de modo que te julgues tão poderosa, tão senhora +do mundo como o imperador, e por feitio que sejas +tão ambiciosa como elle, que não deixa palmo de +terra a ninguem!...</p> + +<p>Interrompeu-lhe este intimo monologo uma contração +do ferido, que balbuciou monosyllabos.</p> + +<p>—Sonha!—pensou ella—e quem sabe o que sonha? +Estou aqui tão perto d'elle, a vel-o, feição por +feição, linha por linha, a examinal-o tanto, que dir-se-ia +querer contar-lhe um por um os seus cabellos, +e sinto-lhe o halito na minha face, e fala, e só eu o +oiço, e todavia não sei de quem são os seus pensamentos, +nem o que querem dizer, o que está recordando, +o que está sonhando, finalmente! Tenho diante +de mim, como livro aberto, a sua physionomia e<span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a><br><a name="pag_98">{98}</a><br><a name="pag_99">{99}</a></span> +não posso lêr na sua alma! Sei que ha ali um mar +mysterioso, e não posso sondal-o. D'uma vez—recordou +ella—lia o meu pae Regnau os jornaes, e disse: +«Fulano e sicrano foram á pesca das ostras.» E +acrescentou: «E o imperador que as tem bem boas +na Corsega!» E eu perguntei ao pae Regnau para +que iam elles pescar as ostras, tão longe, se podiam +pescar outros peixes no Sena. «Tontinha!—respondeu +elle—porque das ostras é que se tiram as perolas, +e é preciso metter-se uma pessoa ao mar para +pescal-as!» Bem me ensinaste tu, pae Regnau! O mar +esconde tanta coisa... que até esconde as perolas. +Aqui estou eu á beira do oceano e não as vejo... As +que eu procuro, vivem escondidas ali...</p> + +<div class="ilustracao"> +<p><img src="images/pag_97.png" border="0" alt="Ilustração"></p> +<p>Caiu desamparado, vibrando um grito... (<i>pag. 40</i>)</p> +</div> + +<p>E apontou para o coração do ferido.</p> + +<p>Os labios de Graça Strech pareceram descerrar um +sorriso. Rosina, que, apesar dos seus pensamentos, +estava attenta ao menor movimento, ao mais subtil +perpassar d'uma sombra, estremeceu ao rebramir da +tempestade interior:</p> + +<p>—Sorri! pensou ella.—Havia n'este seu sorriso a +melancolia de quem está recordando a felicidade +perdida... Lembra-se talvez d'uma hora em que, +rosto a rosto, juntas as mãos, sorrindo, falando, sonhando, +lhes fugia o tempo mais rapido que o pensamento... +E ella, a mulher que elle amava, era decerto +formosa, muito formosa, e dizia-lhe que jámais +haveria no mundo quem viesse a amal-o como ella... +E elle acreditou-a, e por isso a ama ainda no tumulo, +e jurou que, viva ou morta, lhe seria eternamente leal, +porque o coração lh'o havia dado para todo o sempre... +Ah! mas quem sabe, durante o combate, a +quem ha de pertencer a victoria? O teu quadro, Rosina +Regnau, é verdadeiro. Lucta até o fim, vivandeira, +faze como os soldados que foram teus irmãos. +Combate a saudade com a esperança. Soffre, porque +o soffrer é de quem lucta. Mas porfia, conquista resignadamente +esse coração onde desejas reinar, porque +todo elle é preciso para o throno da tua felicidade.</p> + +<p>Abriu Graça Strech os olhos e relanceou a Rosina +um olhar suavemente triste.</p> + +<p>—Sempre aqui!—segredou elle.</p> + +<p>—Aqui é o meu posto de enfermeira voluntaria.</p> + +<p>—Eu dormi, Rosina: dormi e sonhei... com minha<span class="pn"><a name="pag_100">{100}</a></span> +irmã. Estava-a vendo aos cinco annos, vestidinha +de branco, quando a fomos levar ás Chãs, e quando +eu tinha seis... Nunca isto me esqueceu! Trepámos +a uma cadeira para descer as maçãs que o padre capellão +tinha a amadurecer no friso da sala. Augusta +subiu denodadamente, mas faltou-lhe a coragem para +saltar ao chão... E começou a gritar, a gritar, de +sorte que o padre capellão a veiu surpreender com as +maçãs escondidas na abada do seu pequenino vestido...</p> + +<p>Sentiram-se passos.</p> + +<p>—Cala-te! apostrophou Rosina. Cala-te! Rosina +Regnau já aqui não está. Fica apenas a <i>muda allemã</i>.<span class="pn"><a name="pag_101">{101}</a></span></p> + + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota10" name="nota10">[10]</a></sup> +A <i>invenção dos jardins</i> por Gessner; tradução do sr. +Visconde de Castilho (Antonio Feliciano).</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>XII</h2> + +<h2>Amor e ciume</h2> + +<p>Foram proseguindo as operações da trabalhosa +campanha de 1809 contra os francezes.</p> + +<p>Depois de segundo combate na ponte d'Alcantara, +a 10 de junho, poderemos, por nos furtar a minudencias +fastidiosas em romance, ir direitos á decisiva batalha +pelejada nas proximidades de Talavera de la +Reyna, em Hespanha, dirigida pessoalmente d'um lado +pelo rei José, e por lord Wellington do outro.</p> + +<p>Pela retirada dos imperiaes á vista do inimigo terminou esta importante batalha, sendo todavia numerosas +as perdas dos alliados, mórmente dos inglezes.</p> + +<p>Meiado agosto, começou o exercito portuguez a +retirar para Zara, entrando em Portugal por Salvaterra +do Extremo, dirigindo-se a Castello Branco, +d'onde os differentes corpos foram enviados a disciplinar-se, durante o resto do anno, em determinados +acantonamentos.</p> + +<p>Não podemos, porém, encerrar esta ligeira chronica +dos feitos militares de 1809 sem retroceder ao +segundo combate da ponte d'Alcantara, a que José +Maria da Graça Strech não assistiu por estar ainda +mal convalescido do ferimento que no primeiro ataque +recebera.</p> + +<p>Entre os feridos francezes, que ficaram prisioneiros, +requeria prompto curativo um que denunciava +claros indicios de perigo.</p> + +<p>Rosina, mal que o viu, reconheceu-o.</p> + +<p>Era Bénard, por alcunha <i>La goutte</i>.</p> + +<p>Então lhe acudiram de tropel pungentes recordações +da sua vida de vivandeira, quando, sentada no +acampamento, via <i>La goutte</i> puxar da sua garrafinha +de vidro branco e offerecer aguardente por esta formula +inalteravel:</p> + +<p>—<i>Voulez-vous lá goutte?</i><span class="pn"><a name="pag_102">{102}</a></span></p> + +<p>Esta phrase motivou aquelle cognomento, que valia +tanto como dizer em portuguez: <i>O pinga.</i></p> + +<p>Bénard era um excentrico, que tinha intermittencias +soturnas e luminosas. Umas vezes lhe dava a embriaguez +para se deixar cair n'uma tristeza insociavel, outras era +causa d'uma garrulice chistosa e alegre.</p> + +<p>Mal que se levantava, enchia a sua garrafinha de +aguardente. Bebia até ao meio, erguendo o frasco +para venficar á luz se a medida era exacta, e, certificado, +acabava d'enchel-o com agua fria.</p> + +<p>Convém, porém, saber que Bénard classificava os +seus companheiros d'armas do seguinte modo:</p> + +<p> </p> + +<p>1.º—Amigos capazes de emprestar.</p> +<p>2.º—Amigos capazes de não pedir.</p> +<p>3.º—Amigos capazes de não emprestar.</p> +<p>4.º—Amigos capazes de pedir.</p> +<p>5.°—Conhecidos.</p> + +<p> </p> + +<p>Mettida a garrafinha entre a fardeta, começava o +processo inalteravelmente observado todos os dias.</p> + +<p>Encontrando um amigo da primeira classificação, +abeirava-se d'elle e, pondo a mão no peito, perguntava:</p> + +<p>—<i>Voulez-vous la goutte?</i></p> + +<p>O amigo bebia até ao meio, porque elle não consentia +que fosse mais longe. Depois, segunda dynamisação, +outra vez a garrafa cheia; e, succedendo-se +as dynamisações aos amigos, pela ordem por que os +tinha classificado, acontecia que os simplesmente conhecidos +bebiam agua commum passada por uma vasilha +que tivera aguardente.</p> + +<p>—Não merecem mais! dizia Bénard. Estes só teem +pela gente um cheiro de interesse.</p> + +<p>Era pois <i>La goutte</i> uma personagem lendaria no +exercito francez, e já passava em proverbio dizer-se, +quando se era mal servido:</p> + +<p>—Eu <i>sou conhecido</i> do Bénard.</p> + +<p>Rosina Regnau, ao vel-o ferido, sentiu-se propellida +a dolorosa piedade. Estava alli <i>La goutte</i>, que ella +tantas vezes vira desde a sua infancia, e de quem +tantas vezes se rira na edade em que toda a excentricidade +nos parece ridicula.</p> + +<p>E todavia o Bénard era um philosopho profundamente +conhecedor da alma humana. D'uma vez perguntaram-lhe:<span class="pn"><a name="pag_103">{103}</a></span></p> + +<p>—Se encontrasses o imperador, como o consideravas?</p> + +<p>—Dava-lhe da ultima lagarada, como elle dizia. +Bem se importa o imperador commigo! Não me +empresta dinheiro, porque o ganho eu; não m'o pede, +porque bem sabe como é mesquinho o <i>pret</i> das +tropas.</p> + +<p>Bénard trazia pendurada do pescoço a sua garrafinha. +N'esse dia, como a refrega lhe não désse tempo +para offerecer <i>a gotta</i>, bebera-a elle toda, por excepção. +O resultado foi expôr-se á morte com um denodo +que, sommado, daria a embriaguez de quatro +amigos. Avançou imprudentemente e ficou prisioneiro +com uma bala no peito.</p> + +<p>Rosina, que sempre evitava ser vista dos prisioneiros +francezes, não pôde todavia resistir a soccorrel-o, +quando o seu coração por um momento retrocedeu +ao passado. Quasi involuntariamente o fez.</p> + +<p>O ferido, sentindo que alguem o estava curando, +abriu os olhos e demorou em Rosina um longo olhar. +Foi então que ella mediu o alcance da sua imprudencia.</p> + +<p>—Oh! rouquejou o ferido, sim, és tu! Eu tenho +a vista embaciada, mas ainda te conheço! Rosina +Reg...</p> + +<p>Ella tregeitou afflictivamente implorando silencio.</p> + +<p>O ferido, desvairado pela embriaguez ou pela febre, +não a comprehendeu.</p> + +<p>Graça Strech havia-se aproximado e assistia entre +respeitoso e ciumento áquelle lance.</p> + +<p>O ferido continuou com difficuldade.</p> + +<p>—Fugiste, Rosina... Pobre rapariga!.. Como lá +todos te querem mal!... Se te vissem... matavam-te... +Sim, eu sou Bénard... Tinha hoje a minha garrafinha +cheia... Bebi-a toda... Tomei calor... Boa gotta!... +Aguardente de Hespanha! Vão estes perros, que não +teem um palmo de terra, e mettem-me uma bala no +costellame... Irra! Boa aguardente... E tu aqui! Entre +elles!... Maldita sejas... O pobre Regnau ha de dar +pulo de cobra no outro mundo...</p> + +<p>Graça Strech, se bem que exhaurido de forças, estremecia +em convulsões repetidas, e tinha as faces +esbraseadas por um colorido doentio. Todavia parecia +detel-o um braço invisivel; pesado como se fosse +de ferro, que lhe offegava a respiração.<span class="pn"><a name="pag_104">{104}</a></span></p> + +<p>Rosina chorava abundantes lagrimas, que lhe deslisavam +pelas faces mortalmente pallidas.</p> + +<p>Postoque não estivesse presente, por felicidade, +ninguem que pudesse ouvir a revelação do segredo, +além de Graça Strech, ella não ousava falar. N'aquella +hora, em que algumas mulheres e os convalescentes +soccorriam os feridos, a todos parecia natural que os +dois irmãos, segundo toda a gente dizia, se dedicassem +ao curativo d'um soldado que se affigurava moribundo.</p> + +<p>Graça Strech aproximára-se desde o principio por +lhe causar estranheza que Rosina Regnau se dispuzesse +a soccorrer o prisioneiro.</p> + +<p>Primeiro se apiedou por conhecer n'esse acto o impulso +natural de coração de Rosina voluntariamente +opprimido no captiveiro de um amor impetuoso. Sobreviera +porém o ciume quando se lembrou de que +a vivandeira habitualmente se esquivava a cuidar de +feridos francezes, e de que extremado devia ser o interesse +para affoital-a á temeridade de se deixar reconhecer.</p> + +<p>É bem certo que o ciume completa o amor: porque +o ciume é a desconfiança que leva o coração a +sondar a profundeza do amor. Então se investiga, se +espiona, se perscruta. E se o amor é verdadeiro, é puro, +é santo, assim como se lhe mede o alcance, e se +reconhece infinito, vem a convicção de que todos os +sacrificios são poucos para galardoal-o, chega o arrependimento +de se haver sido injusto, e accorda o +estimulo da consciencia para o não tornar a ser. +N'essa hora é que Rosina Regnau começou, sem o +saber, a ser verdadeiramente amada. Bastou o ciume +de um momento, que as subsequentes palavras do +ferido vieram serenar, para arreigar o amor no coração +do soldado portuguez. E foi á luz d'esse relampago +de ciume que elle comprehendeu a enormidade +do sacrificio de Rosina; foram as palavras do prisioneiro +francez que lhe mostraram claramente quão +grande abnegação era precisa para cair, amaldiçoada +pela patria, nos braços d'um homem estranho.</p> + +<p>O ferido, apesar de cada vez mais se lhe embargar +a voz na garganta, proseguiu com longas pausas:</p> + +<p>—Tu eras muito estimada, Rosina... Todos te +queriam... Quem havia de dizer que tu... renegarias... +a tua França! Eu não morro pelo imperador...<span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span> +que não pede nem empresta... que paga +mal... eu morro pela... França!... Já não posso... +beber... A ultima gotta queria bebel-a pela patria...</p> + +<p>E, cada vez mais offegante e desvariado pela febre, +acrescentou:</p> + +<p>—Vae buscar aguardente... Anda depressa.. que +já tenho a morte aqui...</p> + +<p>E indicava o coração.</p> + +<p>—Sim... amaldiçoados... os que não morrem francezes... +como tu... Jacques Regnau! lá n'esse quartel +que ninguem sabe onde fica... eu te contarei a verdade... +Vamos para a reserva... temos tempo de falar...</p> + +<p>E, como a cabeça do francez parecesse já desequilibrar-se, +Rosina Regnau procurou encostal-a ao peito +carinhosamente.</p> + +<p>—Não!—apostrophou com extrema difficuldade +Bénard—não! Um francez... só morre... encostado... +a outro... francez... Eh! eh!—rouquejou.</p> + +<p>E, procurando aprumar-se, disse com esforço +grande de mais para o lance do passamento:</p> + +<p>—<i>Vive.. lá... Fran...</i></p> + +<p>Não pôde concluir. A ultima syllaba embargára-lh'a +a morte.</p> + +<p>Graça Strech estava como que fulminado pelas palavras +do soldado francez, que morrera amaldiçoando +Rosina. Parecera-lhe que a voz da providencia falava +n'elle. Pela primeira vez um terror supersticioso subjugou +a coragem d'aquelle homem que tinha jurado +guerra de morte á França. E todavia expirava ali, ao +pé d'elle, um francez saudando a patria nas ultimas +palavras que lhe foi dado pronunciar.</p> + +<p>Rosina Regnau estava tambem paralysada n'essa +especie de imbecilidade que nas grandes commoções +se nos affigura ser idiotismo.</p> + +<p>O aço de que em parte era feita a sua alma de vivandeira +vergára ao som d'aquellas palavras horriveis; +restava apenas, muito a dentro do peito, a vibração +dolorida das cordas maviosas.</p> + +<p>No semblante, como se a distancia e o cansaço +fossem amortecendo a maguada vibração da alma, +apenas se desenhava o espasmo das supremas afflicções +que parecem suspender a vida.</p> + +<p>Quizera Graça Strech poder cingir nos seus braços +Rosina, e despertal-a, para a realidade do seu amor, +d'aquelle excruciante alheamento.<span class="pn"><a name="pag_106">{106}</a></span></p> + +<p>Vedava-lh'o a presença das pessoas que, como já +dissemos, estavam cuidando dos feridos.</p> + +<p>Ficaram ambos silenciosos, porventura á espera de +opportunidade para trocarem algumas fugitivas palavras.</p> + +<p>Ella, acordando pouco a pouco d'aquelle infernal +pesadello, sentia o doer da realidade muitas vezes +peior que os sonhos maus. E a si mesma perguntava +o que ficaria pensando Graça Strech: se julgaria criminosa +a sua compaixão pelo ferido; se a presumiria +demudada pela maldição do moribundo; se acaso o +effeito d'aquella imprevista scena lhe haveria levado +ao coração o aborrecimento ou o desprezo?</p> + +<p>Tudo suppunha, menos que o verdadeiro amor +nascera n'aquella hora com o ciume.</p> + +<p>Como ella desejava poder cingir Graça Strech nos +seus braços, cobril-o com os seus beijos, embora elle +a repellisse com enfado ou desabrimento!</p> + +<p>Não valeriam ameaças.</p> + +<p>Ella dir-lhe-ia com a affouteza que a innocencia +dá:</p> + +<p>—Eu bem sei que fiz mal. Mas aquelle era o Bénard, +<i>La goutte</i>, que eu conhecia, desde pequena, de +o ouvir discorrer sobre o egoismo dos homens e de +o ver puxar pela sua garrafinha d'aguardente. O pae +Regnau, apesar do vicio, estimava-o muito, e até lhe +chamava... philosopho. É que o pae Regnau era +dos primeiros amigos. Uma vez vendeu a ração do +almoço para que o Bénard não deixasse d'encher a +sua garrafinha. O pae Regnau disse então, bem me +lembro: «Elle sem aquillo não é philosopho; e eu +sem almoço posso ser soldado.» O que valeu foi que +o meu almoço chegou para dois. Não me julgues arrependida +do que fiz pelo que elle disse... Tudo +quanto elle disse bem o sabia eu... Lembrar-me da +minha patria não quer dizer que me esqueça de ti... +Não. Amaldiçoam-me? Que me importa a mim que +me amaldiçoem! Abençoa-me tu, e não quero outra +felicidade. Abre-me a tua alma, de modo que eu saiba +bem o que ella pensa, o que ella sente, e não terei +pena de que se me fechem as fronteiras da patria. +Não me aborreças nem me despreses... O teu primeiro +beijo foi uma promessa, uma esperança; eu +acreditei-o, creei vida nova, sinto-me forte para a +lucta. <i>La goutte</i>, se me disse aquellas palavras, é porque<span class="pn"><a name="pag_107">{107}</a></span> +me estimava; estima-me, ama-me tu quanto eu +desejo, que saberei esquecer as palavras de <i>La goutte</i>.</p> + +<p>Graça Strech, sem attingir o que se passava na +alma de Rosina, estava ancioso de dizer-lhe:</p> + +<p>—Tudo quanto aquelle homem disse era verdade. +Por mim perdeste tudo, Rosina, por mim preferiste +a solidão, em que ora vives, á tua immensa familia—o +exercito francez. Eu comecei por odiar-te, porque +eras irmã dos assassinos de minha irmã. Depois, +ao odio, que procurava o caminho da vingança, succedeu +a gratidão, porque tu me restituias a liberdade. +Mas a realisação do meu sonho de sangue importava +um enorme sacrificio teu. Fizeste-o sem trepidar. +E não contente com isso, que já era muito, +quizeste vincular a tua vida á minha, e tu, que havias +renunciado á patria, renunciaste tambem á voz com +que recordavas as canções do teu paiz natal. Começou a nascer em mim o amor misturado d'assombro. +Nunca me lançaste em rosto a minha crueza para os +teus. Era a minha vingança, e tu querias o que eu +queria. Ao pé da imagem de minha irmã, que no +somno e na vigilia me apparecia, começaste tu a tomar +vulto, a crescer, de modo que eu fiquei preso +entre vós ambas, porque se o sangue d'uma clamava +vingança, o sacrificio d'outra me proporcionava vingar-me. +E uma noite, no breve repousar do acampamento, +sonhei que minha irmã me viera falar e me +dissera que tu eras boa, e leal, e pura. Então beijei-te. +Mas hoje, ao ouvir aquellas palavras, completei +os meus pensamentos pela certeza de que tu eras +pura, e leal, e boa. Dize: Que queres de mim? Sacrificio +por sacrificio, amor por amor, dedicação por +dedicação. Serei teu, porque tu és minha. Ouve, Rosina, +ouve-me bem. Tu tens sido o meu anjo da guarda, +o meu enfermeiro, e—porque não hei de dizel-o?—tens +sido para mim como o cão amigo para o cego +das Ardennas. Pois bem. D'hoje em diante as nossas +almas fundir-se-hão n'uma só, viverão dos mesmos +pensamentos, e tu chorarás minha irmã como eu a +choro, porque o teu coração sentirá a saudade que +eu sinto.</p> + +<p>Ao anoitecer veiu a carroça dos cadaveres, acompanhada +pelo capellão militar, buscar o morto.</p> + +<p>Rosina Regnau deteve-se a contemplal-o, esquecida +de que aquelle homem morrera amaldiçoando-a.<span class="pn"><a name="pag_108">{108}</a></span></p> + +<p>Era-lhe defeso o falar. Se não fosse, haveria pedido +uma oração pela alma do soldado Bénard, de alcunha—<i>La goutte.</i></p> + +<p>Graça Strech assistiu á cerimonia commovido. Um +dos soldados encarregados d'aquella triste commissão, +como lhe visse carregadas as linhas do rosto, +apostrophou:</p> + +<p>—Pois tu, que te bates como leão contra os francezes, +não assistes impassivel aos funeraes d'um francez!</p> + +<p>—A morte quebra todos os odios, respondeu Graça +Strech.</p> + +<p>Outro soldado, ao dar tino da garrafinha entalada +entre a farda e a camisa, exclamou facetamente:</p> + +<p>—Pena tenho eu de o não matar emquanto a garrafa +estava cheia!</p> + +<p>—Este diabo não fazia senão beber! acrescentou +outro.</p> + +<p>—Tambem me consta que fazia outra coisa, replicou +Graça Strech.</p> + +<p>—O que era?</p> + +<p>—Enterrava os nossos mortos com mais piedade +do que tu.</p> + +<p>—Prégas hoje de cadeira!</p> + +<p>—Lembro-me de que elle, pelas ultimas palavras +que lhe ouvi, era tão francez como eu sou portuguez...</p> + +<p>—Era? perguntou ingenuamente um dos soldados.</p> + +<p>—E a mim, concluiu Graça Strech, pesa-me sempre +a morte d'um bom soldado.</p> + +<p>Quando a carroça rodou lugubremente, caminho +da valla commum, onde portuguezes e francezes iam +dormir sem odios nem malquerenças o somno eterno, +Graça Strech acercou-se de Rosina, que parecia +duvidar ainda do que tinha ouvido, e segredou:</p> + +<p>—Devo á memoria de Bénard uma felicidade que +não merecia a Deus. De hoje em deante não haverá +entre nós barreira que possa separar-nos. As nossas +almas serão uma; os nossos pensamentos um só...</p> + +<p>—Promettes? murmurou ella doida d'alegria.</p> + +<p>—Prometto.</p> + +<p>—Então dir-me-has tudo o que pensas, tudo o que +sentes?</p> + +<p>—Tudo o que penso e sinto te direi.</p> + +<p>E o segundo beijo sellou esta promessa.<span class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + + + +<h2>XIII</h2> + +<h2>Como acaba a tragedia de Goethe</h2> + +<p>Não morrem os gigantes ao segundo golpe.</p> + +<p>Napoleão ergueu-se no senado francez, a 4 de dezembro +de 1809, e sobrepujando com a sua voz a voz +da Historia, como se lhe não andasse já descontada a +gloria com dois consecutivos revezes na peninsula +iberica, disse: «Tanto que eu appareça alem dos Pyreneus, o leopardo recolher-se-ha amedrontado ao +oceano para fugir á ignominia, á derrota e á morte. +A victoria das minhas armas será a do genio do bem +sobre o do mal: a victoria da moderação, da ordem +e da moral sobre a guerra civil, sobre a anarchia e as +paixões destruidoras.»</p> + +<p>E, concluida a campanha de Austria pela paz de +Vienna, a aguia franceza deixou de pairar sobre o +norte da Europa, e do alto do palacio imperial de +Schoenbrunn fitou o olhar ardente e profundo na orla +do occidente banhada pelo Atlantico.</p> + +<p>E pela terceira vez se equipava o exercito invasor, +superior a oitenta mil homens; e pela terceira vez +fôra chamado um general distincto a tomar o commando +em chefe das tropas para obter melhor exito +que os seus dois antecessores.</p> + +<p>A eleição recaiu no marechal Massena, principe de +Essling, duque de Rivoli, cuja valentia e sciencia Napoleão +conhecia desde as campanhas d'Italia.</p> + +<p>Não precipitemos, porém, os acontecimentos que o +anno de 1810 havia de desdobrar sobre a Europa. +Justo é reverter ao que é assumpto principal d'este +livro, mais biographia do que chronica.</p> + +<p>Já anteriormente dissémos que o exercito portuguez +recolhera ao quartel general de Castello Branco, +e d'ahi fôra mandado, nos ultimos dias d'agosto de +1809, para diversos acantonamentos.</p> + +<p>Em Castello Branco, o marechal Beresford permittiu<span class="pn"><a name="pag_110">{110}</a></span> +aos soldados, que mais se haviam distinguido, a +escolha de corpo e quartel, não só para lhes galardoar +d'algum modo os serviços prestados, como para +incitar os outros a medirem-se na terceira campanha +com os premiados na segunda. José Maria da Graça +Strech escolheu o regimento d'infantaria 18, que, com +o 6 e 9 da mesma arma, foi mandado para Coimbra.</p> + +<p>Então se levantava detraz do tumulo da irmã querida, +para o desgraçado moço, a aurora do amor, que +desabrochára no primeiro beijo, e que o ciume aclarára +definitivamente á beira do catre do moribundo +Bénard.</p> + +<p>Havia-se batido como leão, açulado pelo cheiro do +sangue. Mil vezes se atirára á morte, e a morte parecia +respeitar no sorriso de Rosina Regnau a heroicidade +do soldado. Dir-se-ia que a vivandeira tinha duas +azas, que, desdobradas, o abrigavam. Graça Strech +acabou, como era natural, por amar o seu anjo da +guarda, quando inteiramente comprehendeu que ella +lhe dizia na triste eloquencia do silencio a que se condemnára: +«Eu tenho de guardar a tua alma; para +guardal-a preciso possuil-a.»</p> + +<p>No seu coração calcinado pela saudade choveu +pouco o orvalho refrigerante companheiro da aurora; +o amor cauterisou a ferida que sangrava odios; ficára +apenas a cicatriz, como fica voltada n'um livro a pagina que se leu, e cuja impressão jámais se desluz na +mente do leitor.</p> + +<p>Aconteceu a Graça Strech como ao commum da +humanidade.</p> + +<p>O amor, que é luz, que é fogo, que é sol, vae se decompondo em irradiações parciaes na nossa alma, á +medida que a vae desenregelando, como o verdadeiro +sol n'um prisma de crystal. Verdade é, ser preciso +que tenha a alma a pureza do vidro para que lentamente +se vão revezando as côres, alternando as <i>nuances</i>, e embriagando-se ella a pequenos haustos no +banquete da felicidade. O amor que rebenta como +erupção, não é amor, é desatino. Nasceu cego: não +vê. Irrompe como a lava, passa, queima, desapparece.</p> + +<p>Este é o amor das almas versateis, que não se vergam +ao sacrificio, e que por isso mesmo são incapazes de metter hombros á cruz cujo peso devera ser +repartido pelos dois. Os que amam sem previamente<span class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span> +haver soffrido, amam apenas emquanto o amor não +é soffrimento. E quem póde desfolhar a rosa sem ferir-se +no espinho? Esses amam pouco. As lagrimas +são a agua que baptisa na religião dos attribulados. +A mocidade de Graça Strech recebera esse primordial +sacramento. Dera a sua vida em holocausto á saudade. +Soffrera muito, e alma que soffre assim tem de +certo a pureza dos grandes sentimentos. Por isso a +luz da aurora, que lhe alvorecia sobre o tumulo da +irmã, se foi decompondo em gradações prismasticas +por feitio que elle, muito alma a dentro, pôde conhecer +a nitidez das côres, o brilho das tintas casado á +transparencia do cristal.</p> + +<p>Desde então começou a amar como os que teem +soffrido. «Tudo o que penso e sinto te direi,» segredára +elle em Alcantara.</p> + +<p>Estas palavras não eram apenas a promessa d'uma +revelação;—eram a promessa da felicidade.</p> + +<p>Os acontecimentos não permittiram que, antes de +Coimbra, Rosina Regnau pudesse affastar de si a nuvem +do ciume que de ha muito lhe opprimia o coração.</p> + +<p>Muito primeiro o amára ella, porque o ciume nascera +parelho do amor.</p> + +<p>Parece que o destino porfiára em depôl-os no eden +viridente de Portugal para mandar depois a serpente +a tental-os. N'aquelle jardim de Coimbra ha sombras +fadadas para o amor. Já o disse um poeta:</p> + +<blockquote> +<p>Quem nunca viu Coimbra<br> +Pela brisa embalada<br> + Do Mondego,<br> +Que de amorosa timbra<br> +Na margem reclinada<br> + Com socego,<br> +Não sabe o que é belleza,<br> +Ai! não conhece a filha<br> + Dos amores,<br> +Mais nobre que Veneza,<br> +Mais linda que Sevilha<br> + Sobre flôres.<sup><a href="#nota11" name="m_nota11">[11]</a></sup></p> +</blockquote> + +<p>Ali rememora ainda a celebrada fonte, que suspira +n'uma das extremas do campo de Santa Clara, o poema<span class="pn"><a name="pag_112">{112}</a></span> +das lagrimas da formosa Castro—o maior poema +d'amor que se tem sentido em Portugal. Que +phantasias que não tem o amor em Coimbra! É velha +a doidice que se respira n'aquelles ares, porque +já Faria e Sousa conta que Pedro, o principe amoroso, +confiava á agua da fonte, que n'esse tempo ia +jorrar nos jardins do paço real, os bilhetinhos namorados +que a loura Ignez muito em segredo recolhia +e, em maior segredo ainda, relia. E perora Faria e +Sousa: «Tales son las astucias de los amantes». Com +perdão de Faria e Sousa, astuciosos são os escriptores +que nos pintam amores fabulados de tão acertadas +contingencias, como era a da agua, sem embargo +dos seixos e hervagens, ser fiel correio do principe +e da aia.</p> + +<p>Eu contarei singelamente o meu caso, tal como +aconteceu na hora em que o ciume de Rosina Regnau, +como se já não fosse preciso para atiçar as labaredas +do amor, se acalmava na mutua confiança +das almas que se possuem.</p> + +<p>Foi ahi por alguma copada sombra das margens +do Mondego, onde, como disse Gabriel Pereira de +Castro, o rio</p> + +<blockquote> +<p>... nas voltas se mostra arrependido<br> +De levar agua doce ao mar salgado,</p> +</blockquote> + +<p class="ni">que Rosina Regnau e Graça Strech descançavam +n'uma das ultimas tardes d'agosto.</p> + +<p>Aproveitavam sempre as horas feriadas do serviço +militar para essas excursões, reguladas pelo toque +das cornetas no quartel, porque só onde a sombra +os escondesse poderiam dialogar, os dois, sem que +ouvido estranho traísse o segredo da mudez de Rosina.</p> + +<p>Ahi se indemnisava ella dos longos silencios a que +era constrangida, e assim se foram estreitando os laços, +que já tão cingida tinham a imagem da felicidade +n'um e n'outro coração.</p> + +<p>N'essa tarde Rosina Regnau intencionalmente encaminhou +o dialogo para o episodio da morte de Bérnard, +e a ponto veiu recordar as palavra de Graça +Strech: «Tudo que penso e sinto te direi».</p> + +<p>—Ah! não sabes, disse ella subitamente exaltada +pelo ardor da vivandeira, que do cumprimento da<span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span> +tua promessa depende a realisação da minha felicidade!...</p> + +<p>—Pois duvidas?...</p> + +<p>—E não duvidaste tu de mim, quando em Alcantara +soccorri o pobre <i>La goutte</i>?</p> + +<p>—Perdôa-me...</p> + +<p>—Sim, perdôo, não a ti, ao ciume, pois que para +o ciume tambem peço perdão n'este momento. Ouve-me, portanto.</p> + +<p>—Fala!... exclamou Graça Strech.</p> + +<p>—Ha uma duvida horrivel no meu espirito, que é +preciso dissipar; um obstaculo no meu caminho, que +é preciso vencer. O meu amor, que começou por +dar-te a liberdade, não póde viver escravisado. Desde +o primeiro momento te amei perdidamente. Emquanto +tu dormias, veláva eu, para que as tuas palavras +de soldado não fossem desmentidas pela tua +physionomia de ferido sem eu perceber a verdade. +Já então—mal o pensavas!—a minha vida dependia +da tua. E vigiava-te, e estudava as mais ligeiras alterações +do teu semblante, como a mãe que observa, +de noite, na solidão silenciosa do seu quarto, o filho +doente que dorme. Tu não suspeitavas que pudesse +entrar tamanha dedicação na alma d'uma vivandeira, +e razão de sobra tinhas. As mulheres com quem eu +vivia eram tão vis, que se riam do meu carinho para +comtigo. E eu arrostava-lhes os chascos, os insultos, +porque bem sabia que a culpa não era d'ellas, mas +do destino que as tornou tão desgraçadas. Aspereza, +injustiça, só me doía a tua. Não bastava amar sem +esperança: o meu amor era recompensado com despreso. +Tu eras nosso prisioneiro; não podias, portanto, +soffrer que a minha pronuncia te estivesse recordando +a cada hora a tua infelicidade. Quiz, porém, +Deus que me ouvisses um dia com menos indifferença, +quando conheceste que eu valia um pouco +mais do que as outras. Viste que eu era boa, e quizeste-me +para instrumento da tua vingança. O que +tu não suppunhas era que o teu sonho fosse a esse +tempo o meu—dar-te liberdade! que eu contasse os +instantes da tua vida pelas horas da minha! que eu +quizesse ser para ti o que era o fiel molosso para o +cego da minha terra... Pois queria, juro-te, queria. +Se não pudesse restituir-te a liberdade, teria a coragem +de envenenar um remedio para que o mesmo<span class="pn"><a name="pag_114">{114}</a></span> +veneno nos matasse a ambos. Acredita; tinha. Mas +sempre na tua bocca a palavra vingança! Sempre +essa palavra horrivel! Eu bem sei que todo o homem, +que vê a sua patria invadida, precisa vingar-se +a si, e a ella. Mas esse annel que não mais te deixou +não era da patria... Falavas de tua irmã, tens-me falado +sempre d'ella. Comprehendo como se possa +amar uma irmã, que era boa, que era pura, e que foi +morta injustamente. Todavia comprehendo tambem +que se as cartas as escreveu tua irmã, o annel póde +deixar de ser d'esse anjo...</p> + +<p>Nos labios de Graça Strech havia o tranquillo sorriso +de quem sabe com que ardor é amado.</p> + +<p>Quiz falar; ella interrompeu-o.</p> + +<p>—Oh! por piedade, não sorrias, sem que esta duvida +atroz se desfaça! Tenho tido a coragem de saber +esperar este momento solemne e para mim decisivo. +Tu sempre a pensar no teu annel, eu sempre +a pensar em ti! Tão calada, que nem voz posso ter +deante d'estranhos. E que tivesse! Havia de perguntar +a alguem pela vida do homem que eu chamava +irmão? Tu sonhavas de noite, como quando ficaste +ferido em Alcantara, e sorrias. Acordavas, vias-me +ao pé de ti, e acudias logo a falar de tua irmã... Oh! +se eu soubesse que tu me enganavas!... Se tu estivesses +sonhando com outra mulher que não fosse +tua irmã, quando eu estava ali, sósinha, calada, sem +patria, sem amigos, amaldiçoada, a velar pelo teu +somno... Sabes o que eu faria? Vestiria o teu uniforme, +José, e iria bater-me, avançando tão imprudentemente +como o infeliz Bénard, até que as balas +dos soldados da França se me cravassem no peito. +Morreria pelo ingrato como os soldados morrem pela +patria, e morreria contente por morrer amortalhada +no teu uniforme... Vê, pois, bem a minha alma. Unicamente +te peço que sejas sincero, ainda que a tua +sinceridade tenha de ser cruel. Estamos a dois passos +do Mondego. É-me facil procurar n'elle a maior +altura da agua, se o coração me disser que me estás +enganando... Mas não has de, mas não me deves enganar, +porque pela memoria sagrada de tua irmã te +peço que sejas verdadeiro...</p> + +<p>E ficou anciosa, com os olhos fitos, os labios entreabertos, +o seio offegante...</p> + +<p>—Pela memoria de minha irmã te juro que mais<span class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span> +uma vez te repetirei a verdade—disse Graça Strech, +cuja physionomia parecia irradiar a luz clara e pura +dos que estão fazendo uma confissão sincera.—Tambem +eu te amo doidamente, Deus o sabe! Tambem +eu tive ciumes, Rosina! Tambem eu estou costumado +a soffrer. Se aquelle moribundo d'Alcantara houvesse +denunciado, por um gesto sequer, que tinha outros +direitos á tua dedicação, além dos de estar ferido e +ser francez, eu, impossibilitado de aggredir um homem +meio morto, haver-te-ia fugido para me expôr +á morte que encontraria em qualquer parte. Juro-te, +pela memoria de minha irmã te juro, que isto o senti +eu ao pé do pobre Bénard, quando te vi soccorrel-o. +N'esse momento forjou o ciume as cadeias que nos +teem agora aqui presos. Comecei por aborrecer-te, é +certo. Sobre este annel, que tirei do dedo de minha +pobre irmã morta, jurei vingal-a, Rosina, porque primeiro +me derrubaram a mim para que eu não pudesse +defendel-a, e depois a assassinaram a ella, a +minha mãe, e a minha avó. Meu pae, que já sei ter +morrido no mesmo dia, porque houve participação +official de ser reconhecido, foi vencido pelo azar do +combate, não foi assassinado. E depois era um soldado, +e um soldado em campanha ou mata ou morre. +Mas as pobresinhas que mal faziam á França? Eu +accordei do deliquio motivado pelo ferimento que recebi, +sem saber o que se tinha passado. Estendi o +braço e senti um corpo; apalpei e conheci roupas de +mulher. Achei uma cabeça. Tacteei-lhe os contornos, +e não me enganou a mão quando me pareceu ser +aquelle o perfil de minha irmã. Era noite, bem sabes: +dentro a escuridão; a tempestade fóra. Eu sentia +vibrar a espinha dorsal como se fôra d'aço, fria +como elle. Procurei luz, quasi louco. Mal me podia +suster nas pernas. No cerebro ardia-me um vulcão; +em derredor do craneo sentia a friura do gelo. E a luz +mostrou-m'as, a ellas, minha irmã, minha mãe, minha +avó, mortas, desgrenhadas, deitadas no soalho, e rodeadas das +sombras que a interposição dos moveis projectava +na parede, parecendo moverem-se, bracejar, +escancarar a bocca, casquinar gargalhadas que o +vento, lá fóra, parecia rir diabolicamente por ellas. +Eram horrores da minha imaginação, eram visões da +febre, porque eu n'essas horas incomparavelmente +angustiadas delirei, enlouqueci, morri em mim mesmo<span class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span> +para renascer n'um cadaver. E o sangue, Rosina, o +sangue d'ellas, empoçado no soalho, tão vermelho +que parecia incendiar-se ao reflexo da luz! Foi então +que a Providencia me soccorreu e me permittiu +um esforço sobrehumano. Beijei minha irmã, abracei +minha mãe, acariciei minha avó, falei-lhes, não +sei o que lhes disse, não me lembra, e estremecendo +do contacto das mãos de minha irmã, que pareciam +de marmore, e que do marmore tinham os veios roxos +e azues, tirei-lhe delicadamente do dedo, como +se ella pudesse molestar-se,—ella, que era tão franzina!—este +annel querido, sobre o qual proferi o meu +juramento de vingança, que até hoje tenho cumprido, +e que cumprirei até que Portugal succumba ou triumphe +d'uma vez.</p> + +<p>E como se a arrebatada eloquencia o repuzesse +ainda em meio das desgraças que historiava, pendeu +ao peito de Rosina, extenuado, descóradas as faces, +revoltos os cabellos, flammejante o olhar.</p> + +<p>Rosina ameigou-lhe a fronte banhada de suor frio, +e docemente lhe pediu perdão de o ter compellido a +avivar tão recentes e profundas dôres.</p> + +<p>Graça Strech estava preoccupado, como se procurasse +um pensamento que lhe entre lembrava; como +se quizesse suster uma visão que se mostrava e fugia.</p> + +<p>—Ah! exclamou de repente. Não, Rosina, não basta +ainda. O teu amor reanimou o meu cadaver, eu devo-te +a vida; quero abrir-te a minha alma para que a +vejas bem, para que a sondes, e leias n'ella. A tua luminosa +intelligencia já te permitte comprehender muitas +palavras do idioma portuguez. Pois bem, aqui +tens uma prova irrecusavel que não póde deixar a +minima duvida no teu espirito...</p> + +<p>E, desabotoando o uniforme, tirou o maço das cartas +d'Augusta.</p> + +<p>—É esta—continuou, procurando—é esta, lê aqui +lê bem. Foi ha dois annos, no seu dia natalicio, que +lhe mandei este annel. Vê o que o anjo me respondia. +Lê, esta é a prova, lê: «O teu annel, José, o teu +annel, que me pareceu acompanhar a tua alma, porque +a tive todo o dia ao pé de mim, não me deixará +até á hora em que a amortalhadeira m'o tire do dedo. +Pedes desculpa de que seja liso, de que só tenha uma +pedra!... Tontinho! O teu coração pésa mais do que<span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span> +o annel, e a avósinha diz que os anneis de muito feitio +apenas são proprios das camponezas.» Vê, Rosina, +olha para este nome—Augusta—o unico de mulher +que pronunciei antes do teu...</p> + +<p>—José! exclamára Rosina divinisada por uma aureola +de condoída doçura, que parecia esbater-lhe o +semblante no azul do céo.</p> + +<p>A natureza dascaía na deliciosa morbidez do anoitecer. +As labaredas que a ambos afogueavam o coração +foram bastantes a seccar as lagrimas d'um e outro. +Se eu quizesse passar por um escriptor tão casto +como os que uzam adoçar o acre das situações violentas, +diria que se ouvia rumorejar as folhas, sendo +os labios que rumorejavam. Essas ultimas revelações +tanto contraíram os elos da cadeia, que já não era +possivel medir a distancia interposta ás duas almas +embevecidas.</p> + +<p>Se ali, n'aquellas paragens onde o grave Faria e +Sousa achou que era torrão azado para localisar astucias +de namorados; se áquella hora, como na tragedia +de Goethe, estivesse ali Mephistopheles, bradaria +com alegria satanica: <i>Perdida!</i></p> + +<p>Bem podia ser porém que alguma voz do alto respondesse: +<i>Salva!</i> Só se perde a mulher que não tem +coração para comprehender o que é ser mãe.<span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota11" name="nota11">[11]</a></sup> +Do sr. Antonio de Serpa.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>XIV</h2> + +<h2>Quanto custa ser mãe</h2> + +<p>Em fevereiro de 1810 estacionava no valle do Mondego +o exercito commandado pelo general Wellington, +repousando das passadas lides, se bem que já +apercebido para resistir aos movimentos dos francezes +que de novo ameaçavam invadir Portugal.</p> + +<p>Beresford activamente se dedicava a exercitar e +disciplinar as tropas, e a providenciar pelo que tocava +a provisoes que se tornavam indispensaveis para +a campanha que a todo momento se esperava, e cuja +duração era imprevista.</p> + +<p>O rei José havia entrado em Sevilha, no primeiro +dia d'esse mez, á frente das suas tropas, e a nuvem +que obscurecia o céo da Hespanha alongava-se já +para Portugal, deixando ouvir os rumores da tempestade +que lhe refervia no bojo caliginoso.</p> + +<p>N'esse tempo vamos nós encontrar Graça Strech +na escóla militar do valle do Mondego, se bem que +muito demudado o encontremos, e mereça especial +attenção a tristeza que parece salteal-o nas horas em +que o soldado se permitte ser homem. Procuramos á +roda de si, e não encontramos a «muda», sua irmã. +Inquieta-nos tão inesperada ausencia. Depois que +comprehendemos o coração da Rosina Regnau, depois +que passo a passo a acompanhámos nos lances +angustiosos de sua attribulada mocidade, habituamo-nos +a estimal-a, e já agora nos é magua o deixar de +vêl-a.</p> + +<p>Morreria acaso?</p> + +<p>Algumas vezes se lembrára ella, quando vivandeira +do exercito francez, de que uma bala perdida a mataria. +É uma tradição de Vivandeiras, a do pelouro +esgarrado que as ha de prostrar, porque, companheiras +dos soldados, esperam do soldado a sorte. Todavia +nem sempre se realisam as contas que a phantasia<span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span> +lança, e não é de presumir que dos soldados que +manobram exercitando-se no valle do Mondego partisse +a bala destinada a roubar-lhe a vida. Tambem +nas faces de Graça Strech não ha a tristeza sombria +das perdas irreparaveis, mas um novo reflexo de melancolia +que, a despeito de a querer concentrar, dá +á physionomia um toque de soffrimento. Procuremos +tirar-nos de tão saudosa incerteza, e saber o que se +passára nos mezes que decorreram desde agosto de +1809 até fevereiro de 1810. Pelo que vamos ouvir a +Graça Strech, n'um rapido dialogo com um companheiro +d'armas, não poderemos fazer juizo seguro, +mas esse será o fio de Ariadna que depois nos guiará +no labyrintho de nossas pesquisas.</p> + +<p>—Tens tido noticias de tua irmã? perguntou o soldado.</p> + +<p>—Não tenho; nada sei da pobresinha! respondeu +dolorosamente Graça Strech.</p> + +<p>—Deve-te custar a ausencia! Se a nós, que não +eramos irmãos, tambem nos custa! Estavamos habituados +aos seus tregeitos, e o caso é que já os entendiamos +como se fossem palavras! Que pena que +não falasse! Bonita era! e tão meiga como bonita! +Sempre aquelle sorriso doce para todos e para tudo! +Mas, ó Strech, se a conversa te magôa, não continúo...</p> + +<p>—Continúa, sim. Ás primeiras palavras rebenta a +saudade; depois Deus manda a resignação, e é o que +vale.</p> + +<p>—Eu tambem tenho familia, Strech, tambem sei o +que isso é. E depois tu sempre deves estar com teu +cuidado, porque tua irmã ia doente.</p> + +<p>—Começou a soffrer Trabalhos da guerra, commoções +fortes, talvez receios da nova campanha... +Não sei. O que é certo é que a não julguei com forças +de andar commigo em correrias atraz dos francezes, +que é preciso enxotar pela ultima vez. Temos +uma tia nossa na Allemanha. Veiu a Portugal ha annos, +e affeiçoou-se muito a minha irmã. Deu-se a +coincidencia de estar no porto da Figueira um brigue +italiano, e ir a bordo um passageiro allemão, que me +pareceu homem compassivo, e que me prometteu +acompanhar a pobre muda até ao seu destino. Que +havia eu de fazer, quando a demora de minha irmã +em Portugal seria a morte, e todas as circumstancias<span class="pn"><a name="pag_120">{120}</a></span> +pareciam favorecer visivelmente o meu designio de a +mandar para a Allemanha? Deixei-a ir, mais entregue +a Deus do que ao compassivo allemão.</p> + +<p>—E que tencionas fazer agora?</p> + +<p>—Agora! Quem sabe quando chegará a hora de +pertencermos a nós mesmos! Se eu morrer, ficará +minha irmã entregue a sua tia; se eu sobreviver a +victoria das nossas armas—porque nós não podemos +succumbir depois de havermos triumphado duas vezes—irei +buscal-a á Allemanha, e viveremos juntos +até que um de nós deixe d'existir.</p> + +<p>—Desculpa-me, Strech,—tornou o soldado condoído.—Mas +eu também estimava tua irmã, e por +isso te perguntei por ella. Como já partiu em dezembro, +e eu tenho conhecido que andas triste, pensei +que tivesses recebido noticia de que a pobresinha +ia a peior. Como felizmente não se realisou a hypothese, +desculpa-me. Olha... Estou em dizer que +Deus traga a guerra depressa para nos distrairmos. +A guerra embriaga como o vinho, e a embriaguez +é bom remedio para saudades. Eu e tu, pelo que +vejo, soffremos ambos da mesma doença. Adeus, +Strech.</p> + +<p>Este dialogo, como anteriormente disse, não é explicação +cabal, nem... verdadeira. Graça Strech via-se +obrigado a enganar as pessoas que lhe perguntavam +por sua «irmã», se bem que o engano apenas se +limitasse aos motivos da partida e ao destino de Rosina. +Elucidemos.</p> + +<p>Em dezembro de 1809 começaram a manifestar-se +os symptomas da maternidade. Esta desgraça, cujas +funestas consequencias não previram na loucura do +seu amor, obrigou-os a pensar reflectidamente no futuro, +subitamente entenebrecido no horizonte que o +poetico sol de Coimbra azulejava nas tardes em que +as margens do Mondego lhes enfloravam os ardentes +idyllios. O peor que ha no Paraiso é o ter porta: porque +não se abre, quando a ancia da felicidade a impelle, +e porque se fecha sobre as mais doces illusões, movida +por qualquer viração que mais branda e mais +embalsamada parecia. Eu, pouco sabido em philosophias, +acho a porta do Paraiso muito peior que a +serpente: uma tenta, a outra fecha. Ora a gente poderia +fugir da tentação, se encontrasse a porta aberta. +Deixamo-nos seduzir pela cascavel. Ouvimol-a. Embriagamo-nos<span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span> +com as paizagens do éden, com as +melodias eolias do arvoredo, com o maná que o céo +deixa cahir sobre o coração. Entretanto a serpente +adianta-se. Cinge-nos, enleia-nos. Olhamos para a +porta: é-nos defesa a saída. Estamos encarcerados. A +serpente triumpha.</p> + +<p>Por duas ponderosas razões não podia ficar Rosina +Regnau em Portugal. Era a primeira que, inculcando-se +irmã de Graça Strech, a sua deshonra seria +desaire para o irmão. A segunda estava em que o +conservar-se occulta no reino, em estado de não poder +acompanhar o exercito, seria imperdoavel n'uma +epoca em que tudo que cheirasse a francez inspirava +odio, e em circumstancias em que o deixar de falar +seria quasi impossivel.</p> + +<p>Avultou aos olhos d'um e outro, como pesadello +horrivel, a necessidade da separação. O mesmo foi +verem-se inesperadamente sepultos nas ruinas dos +castellos encantados que ambos haviam architectado. +E a felicidade é como todos os edificios: leva muito +tempo a construir e basta um instante para desabar.</p> + +<p>Estava effectivamente a esse tempo, nas aguas da +Figueira, um brigue italiano. Concordaram ambos +em aproveitar a commodidade do transporte. Rosina +energicamente rejeitou a ideia de voltar a França, +duas vezes deshonrada. Convieram, pois, em que ella +esperaria em Italia, com o filho nos braços, o termo +da guerra peninsular. Depois, para sempre se reuniriam, +e viveriam enlevados na infancia da criança, +que ambos phantasiavam formosa.</p> + +<p>Mas, por que espesso véo de lagrimas se não filtrava +este raio de longinqua felicidade, illuminando-o +e iriando-o como um reflexo de sol moribundo através +de neblina humida em tarde de tempestade!</p> + +<p>Era esse o arco-iris da esperança, gravado em traços +multi-côres, d'um abysmo a outro, sobre um céo +plumbeo.</p> + +<p>—O pae Regnau,—dizia Rosina—costumava dizer +que a felicidade era uma bola de sabão. Agora vejo +que é. Tudo desfeito, n'um momento! Eu desterrada +para um paiz desconhecido, sósinha com a minha +desgraça e o nosso filho! Tu, a muitas leguas de distancia, +exposto á sorte dos que combatem, mais incerta +que qualquer outra! Viverei entre a esperança +da tua chegada e o receio d'uma noticia funesta. Oh!<span class="pn"><a name="pag_122">{122}</a></span> +esta idéa é horrivel! Então Deus ha de permittir que, +meu filho entre no mundo vestidinho de luto! Não +não póde ser. Não te exponhas loucamente á morte, +meu amigo, não? A tua vingança já deve estar satisfeita, +e depois um soldado que é pae deve ter duas +cadeias a ligal-o ao mundo: a patria e a familia. Ora +eu bem sei que tua irmã é a patria; mas lembra-te, +sim, lembra-te! de que teu filho é a tua familia...</p> + +<p>Acudia a serenal-a, com o coração despedaçado +nas garras de desconhecido abutre, Graça Strech. +Queria ser forte, e as lagrimas a trahirem nos olhos +o esforço! Tentava enganar, e estava desilludido. +Ainda não houve maior desgraça, mais amargo calix +de amargura esperado nos labios com um sorriso...</p> + +<p>—Não, Rosina, não imagines desgraças que Deus +não permittirá. Bem sabes que a Providencia me tem +guardado até hoje... Verdade é que tu eras o meu +anjo da guarda, e tu vaes fugir-me. Isto é, em verdade, +maior que a coragem humana! Não me arriscarei +imprudentemente á morte, está certa... Mas ás vezes, +na refrega, a gente não tem tempo de evitar uma +bala... Não chores, Rosina, não chores. Foi uma +loucura que eu disse. Eu não hei de morrer. Acaso +morri eu para a memoria de minha irmã? Tambem +não hei de morrer para o futuro de meu filho, para +o teu amor. É forçoso separarmo-nos; separemo-nos. +Ficaremos, porém, um ao pé do outro, sempre +juntos, que já não ha distancias que nos separem, +braços que nos desunam. Tu ver-me-has pelos olhos +da saudade; eu, que já estou costumado a ver assim, +ver-te-hei tambem. Conversarei no meu coração +comtigo, acompanharei meu filho desde o primeiro +vagido e a primeira lagrima... Ó Rosina, triste coisa +é a vida! Nascemos soffrendo, como devemos viver, +e morremos como vivemos. E olha que a minha loucura +deu mais uma alma á desgraça... Mas eu amava-te +tanto, tanto! Pobresinha de ti, que dizias parecer-te +ouvir a maldição de Bénard... Por amor de +mim te deshonraste uma vez; o meu amor duas vezes +te deshonrou... Não chores... Já estão desbotadas +as rosas das tuas faces, não as desmereças +mais... Lembra-te do céo da Italia, que todos dizem +ser formoso, e de que nosso filho nascerá sob o céo +d'esse bello paiz Deus ha de protegel-o. Lá viveremos<span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span> +todos n'uma só felicidade... Mas não chores, +Rosina, que eu sinto despedaçar-se-me o coração...</p> + +<p>Foi chegado o momento da partida.</p> + +<p>Rosina subiu a escada de portaló amparada nos +braços de Graça Strech. Dir-se-ia um cadaver que +se destinava a uma sepultura distante.</p> + +<p>Os passageiros que estavam no convés pareceram +commovidos de tão doloroso espectaculo. Um d'elles, +que era musico napolitano, escondia contra a +harpa o rosto brilhante de lagrimas.</p> + +<p>Graça Strech viu-o chorar e disse de si para si:</p> + +<p>—O mais desgraçado é aquelle, porque já desaprendeu +de consolar.</p> + +<p>E dirigiu-se a elle:</p> + +<p>—Dá-me licença que o interrogue? perguntou.</p> + +<p>—Da melhor vontade, respondeu o menestrel.</p> + +<p>—Vae só?</p> + +<p>—Infelizmente vou... Deixei um filho morto em +Portugal. O rapaz era fraquito, e não pôde aguentar-se. +Desde que me elle morreu, fiz voto de voltar a +Italia. Mas quem póde agora ir por Hespanha com +estas malditas guerras, que nem n'este bom paiz de +Portugal deixam ganhar a vida? Juntei tudo o que podia, +consegui obter uma reducção na passagem, e +aqui vou eu com a minha harpa, sem o meu filho.</p> + +<p>E cada vez luziam mais as lagrimas nos olhos do +italiano, que parecia não ter ainda cincoenta annos, +posto lhe alvejassem já os cabellos.</p> + +<p>—Sente-se, senhor...</p> + +<p>—Pietro, acudiu elle com a celebrada vivacidade +napolitana, se bem que lhe soluçasse a voz commovidamente.</p> + +<p>—Estimei saber o seu nome, porque preciso archival-o +no coração. Vim aqui para lhe pedir um +grande favor. Tem de ser sua companheira de viagem +aquella desgraçada rapariga franceza que ali +vê...</p> + +<p>—Franceza! atalhou admirado o italiano.</p> + +<p>—Sim, franceza. É um mysterio cuja revelação +iria augmentar a sua maguada compaixão, meu bom +Pietro. Olhe por ella, anime-a, que a pobresinha é +muito infeliz, e quem lh'o pede não é menos infeliz +do que ella...</p> + +<p>O velho aprumou-se, tirou solemnemente o seu +barrete de gomos, e disse:<span class="pn"><a name="pag_124">{124}</a></span></p> + +<p>—Fique descançado, senhor. Pela memoria de +meu filho lhe juro que a tratarei a ella como se fôra +elle mesmo. O meu coração até agradece á Providencia +esta inesperada companhia que me dá. <i>Corpo +di Baccho!</i> que eu estava aqui triste, triste, que já +mal podia commigo...</p> + +<p>—Obrigado! muito obrigado! exclamou com extraordinaria +commoção Graça Strech.</p> + +<p>—Vá buscal-a para aqui, tornou o italiano. A minha +harpa está habituada a chorar; eu a farei chorar +mais uma vez. Quando eu vir que a minha nova filha +vae triste, eu a despertarei: <i>Carina!</i> E o <i>canta-storie</i> +sempre ha de saber alguma napolitana para +cantar-lhe.</p> + +<p>Abeirou-se Graça Strech de Rosina. Ella tinha os +olhos postos na superficie do mar, immoveis e desluzidos, +e deixava rolar as lagrimas livremente pelas +faces, como se já não tivesse vida para enxugal-as.</p> + +<p>—Rosina! apostrophou elle acordando-a, e com +voz que mal se percebia.</p> + +<p>Ella estremeceu e fitou-lhe um olhar que se diria +inconsciente.</p> + +<p>—Rosina! tens ali um companheiro de viagem, +que me pareceu tão desgraçado como qualquer de +nós. É musico italiano. Volta a Italia porque lhe +morreu em Portugal o filho que o acompanhava. Já +vês que deve ser infeliz. Levanta-te, anda para ao pé +d'elle. Anda, Rosina, minha boa amiga, minha desgraçada +irmã. Tem fé, tem animo, já que eu sinto +perdel-o... Olha... quero dizer-te uma coisa... Vou +confiar-te o meu thesouro, Rosina, o meu thesouro +que tão mysterioso te pareceu, e que tanto te fez +soffrer... Guarda este annel de minha irmã... Deus +sabe se eu algum dia fiz tenção de o tirar do dedo! +Que m'o tirassem depois de morto, pouco me importava. +A minha tenção era morrer com elle. Mas +eu amo-te tanto, tanto, que quero que tu o guardes. +Elle já me não póde recordar agora a minha vingança... +Quando nosso filho crescer mette-lh'o no dedo, +e alguma vez lhe contaremos ambos a historia do +annel mysterioso.</p> + +<p>Rosina olhava para Graça Strech em dolorosa suspensão. +Pareceu accordar, porém, quando sentiu na +mão o contacto do annel.</p> + +<p>E entrou de beijal-o anciosamente, delirantemente,<span class="pn"><a name="pag_125">{125}</a></span> +como se fosse para ella uma reliquia mais valiosa do +que a madeixasinha de seu pae.</p> + +<p>—O que eu soffri por elle, por este annel! disse +ella soluçante. Agora o levo commigo, e com elle a +tua alma... Senta-te aqui, José, ao pé de mim, não +me fujas ainda, que o navio não parte por ora... +Lembra-te que esta separação póde ser eterna...</p> + +<p>—Eterna! repetiu estremecendo Graça Strech.</p> + +<p>—Não, não ha de ser, Deus ha de conservar-nos a +vida que nos é mais precisa do que nunca... Mas +bem sabes que eu quero gravar bem na memoria as +tuas feições, uma por uma, todas, porque te quero +ter presente a toda a hora, contemplar a cada instante +o teu retrato, tão fiel, tão fiel, que me pareça +estar-te vendo... Bem sabes que é uma illusão de que +preciso, de que depende a minha vida. Pois se eu me +desalentar, se succumbir á saudade,—e baixou timidamente +a voz—quem ha de velar por nosso filho, +soccorrel-o, beijal-o, amal-o?...</p> + +<p>N'este momento deu a sineta de bordo signal para +que descessem as pessoas que não eram passageiros.</p> + +<p>Graça Strech, não tendo já forças nem coragem +para levantar Rosina, fez signal ao italiano para que +se aproximasse.</p> + +<p>Pietro abeirou-se com a sua harpa, sentou-se ao pé +de Rosina, e relanceou a Graça Strech um olhar que +parecia dizer: Póde ir.</p> + +<p>Rosina escondia o rosto entre as mãos, e soluçava +offegante, estrangulada a voz na garganta.</p> + +<p>Um dos marinheiros veiu, por ordem do capitão, +lembrar a Graça Strech que já tinha dado o signal de +bota-fóra.</p> + +<p>—Eu vou... respondeu elle machinalmente sem +poder desfitar Rosina, e quasi sem força para mover-se.</p> + +<p>E, lançando a mão á corda, desceu oscillando como +estonteado por uma violenta vertigem.</p> + +<p>Na Occasião em que o capitão passava por deante +de Pietro, o italiano levantou-se e sorrindo cortezmente +lhe disse:</p> + +<p>—O capitão dá-me licença que toque na minha +harpa o hymno da partida?</p> + +<p>O capitão sorriu tambem, e Pietro, inclinando-se +para Rosina, exclamou:</p> + +<p>—<i>Carina!</i> A minha harpa vae ser de hoje em<span class="pn"><a name="pag_126">{126}</a></span> +deante a nossa unica consolação. É preciso atordoarmo-nos com a musica. Ahi vae a <i>Capuana</i> para não +sentir o barulho de levantar ferro. Agora, para Napoles.</p> + +<p>E começou a entoar, acompanhando-se, uma canção +napolitana que poderia traduzir-se assim:</p> + +<blockquote> +<p>Esta tarde na ribeira<br> +Uma hora passeei.<br> +Meu pensamento, occupaste-o<br> +E tanto pensei em ti,<br> +Que o coração lá perdi...<br> +Tu vieste e apanhaste-o.</p> + +<p>Ensina-me pois agora<br> +A desfazer a meada.<br> +São parciaes os juizes,<br> +E a justiça demorada.<br> +Bem sei que perdia a causa...<br> +Que meio? Lembra-te algum?<br> +Tu lá tens dois corações,<br> +E eu cá não tenho nenhum.</p> + +<p>Para que nos custe menos<br> +A resolver a questão,<br> +Expliquemo-nos. Ha males<br> +Que ás vezes nos trazem bens.<br> +Vamos fazer um ajuste:<br> +Tu dás-me o teu coração.<br> +E guarda o que lá me tens.<br> +............................</p> +</blockquote> + +<p>O brigue navegava já. E a musica parecia adormentar +aquelles dois desgraçados: um porque levava +seu filho; o outro porque o deixava ficar.<span class="pn"><a name="pag_127">{127}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>XV</h2> + +<h2>A queda do gigante</h2> + +<p>A historia da terceira invasão franceza, comquanto +prenda com a nossa narrativa, não lhe é essencial.</p> + +<p>Muito de leve passaremos pois pelos acontecimentos +que medeiam de julho de 1810 até agosto de 1814 +e que, todavia, não podemos supprimir. Limitar-nos-hemos, +em conformidade com o nosso plano, a um +simples bosquejo não descabido em romance.</p> + +<p>O marechal Massena, chegado a Valhadolid, assumiu +o commando do exercito francez, que mandou reunir +em Salamanca, e marchou sobre Portugal, tomando +de caminho Ciudad Rodrigo, que se rendeu +depois de heroica resistencia. Quasi volvido um mez, +capitulou a praça d'Almeria; havendo soffrido um +longo cerco, e tendo sido o paiol incendiado pelo inimigo.</p> + +<p>O exercito alliado, em força de setenta mil homens, +esperou os francezes nas alturas do Bussaco, onde +durante os dias 27 e 28 de setembro se pelejaram +duas sangrentas batalhas, sendo grande a victoria +para o exercito anglo-luzo, que galhardamente +repelliu o inimigo em grande parte dizimado. É esta +uma das paginas mais brilhantes da historia portugueza +durante o longo periodo das guerras peninsulares.</p> + +<p>Os francezes, marchando para oeste, passaram ao +Sardão, e d'ahi seguiram para o sul; os alliados, retirando +sobre Lisboa, rebateram-n'os nos campos de +Coimbra, e em Leiria.</p> + +<p>Amedrontado Messena á vista das linhas chamadas +de Torres Vedras—sobre as quaes o official inglez +John T. Jones deixou uma circumstanciada <i>Memoria</i>, +que convém ser consultada pelos que não desdenham +saber historia patria—tomou posições á rectaguarda +em Santarem e Leiria, esperando reforço para atacar<span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span> +as linhas. O exercito francez, consideravelmente derrotado, +estava de mais a mais carecido de viveres.</p> + +<p>N'esta conjunctura e já entrado o anno de 1811, +passou o marechal Beresford ao Alemtejo para se +oppôr ao inimigo, o que não impediu que Badajoz +capitulasse. Não obstante esta victoria, e um reforço +de trinta mil homens que o exercito francez recebeu, +começou a retirar nos primeiros dias de março d'esse +anno, sendo atacado na retirada pelos alliados, e entrando +em territorio hespanhol no mez d'abril. Segunda +vez reforçado, atacou o exercito anglo-luzo em +Fuentes d'Honor, não sendo ahi mais feliz do que no +Bussaco. No dia 11 d'esse mez retomaram os nossos +a praça d'Almeida, e pela terceira vez se viu Portugal +desopprimido do jugo francez.</p> + +<p>Pareciam empenhados os factos em desmentir a +prophecia de Napoleão: era a aguia da França que +fugia amedrontada para o seu ninho d'além-Pyrineus. +O leopardo triumphava á sombra da cruz, que +sempre foi timbre dos guerreiros portuguezes.</p> + +<p>Á batalha de Fuentes d'Honor seguiu-se outra não +menos cruenta—a de Albuera, onde a victoria nos +foi descontada pela perda de seis mil homens.</p> + +<p>A aguia franceza, a dominadora da Europa, irritada +por uma série de desastrosas derrotas, procurou +ainda desferir no céo da peninsula o arrojado +vôo das suas passadas glorias. Por um momento +lhe sorriu a victoria. Substituido Messena +por Marmont, o exercito francez logrou tomar-nos +a artilharia em Fuente Guinaldo, obrigando os alliados +a retirar sobre a fronteira portugueza, mais assignalados +ainda na retirada que no triumpho, porque, +aguentando o peso da cavallaria inimiga, repelliram +todos os ataques, retomando a artilharia. Com +a ação de Arroyo-del-Molinos, pelejada a 18 de outubro, +cuja victoria coube aos alliados, se encerrou o +anno de 1811, com muita honra para os anglo-luzos. +Não começou mal auspiciado o anno seguinte, que +se estreiou, para os alliados, com a tomada da praça +de Ciudad Rodrigo, seguindo-se-lhe a rendição de +Badajoz, depois de haver soffrido os apertos de primeiro +e segundo sitio. Todavia o maior successo +d'esse anno estava reservado para a batalha de Salamanca, +em que os dois exercitos, commandados de +um lado por Wellington e do outro por Marmont, se<span class="pn"><a name="pag_129">{129}</a></span> +equipararam em galhardia e pericia, cabendo a victoria—que +se reputa a mais celebre de toda a guerra +peninsular—aos luso-anglos. Á victoria de Salamanca +seguiu-se a tomada de Madrid, e á tomada de Madrid +o assedio ao castello de Burgos pelos alliados, +que, por desobediencia de Ballesteros, tiveram de retirar +sobre a fronteira de Portugal com denodo egual +ao que em Fuente Guinaldo os assignalou. Não remata +deshonrosamente o anno de 1812, para o exercito +anglo-luso com este revez que se póde considerar +façanha. Refeitas, porém, as tropas alliadas das +perdas soffridas na retirada de Burgos, e já começado +o anno de 1813, avançaram até Victoria, onde, +na manhã de 2 de junho, se travou batalha geral, +retirando o inimigo sobre Pamplona, perdendo artilharia, +caixa, bagagens, e salvando-se o rei José, que +estivera presente, em precipitada fuga.</p> + +<p><i>Alea jacta erat.</i></p> + +<p>A sorte de Napoleão, pelo que respeitava a ambições +relativas á peninsula, havia sido jogada na batalha +de Victoria, e a aguia franceza, em cujos olhos +brilhava o olhar coruscante do Corso, pela ultima +vez cruzava, demandando a França, as cumiadas dos +Pyreneus.</p> + +<p>No dia 1 de julho entrava o inimigo em solo francez. +De nada valeu reforçar-se, e tomar Soult o commando +geral. No ultimo dia d'esse mez ganharam os +alliados a batalha chamada dos Pyreneus, rechaçando +o inimigo para dentro das suas fronteiras. Seguem-se, +para honra das armas alliadas, a tomada da praça +de S. Sebastião, a batalha de Nivelle, os combates de +Bayonna, as victorias de Nive e Orthez, e, finalmente, +a triumphal entrada do exercito luso anglo em +Tolosa, a 12 de abril de 1814.</p> + +<p>Começava, como os acontecimentos o demonstram, +a empallidecer no céo da França a estrella de Bonaparte. +A lucta, desde muito travada entre a aguia e +o leopardo, lucta de morte, encarniçada, contínua, +estava chegada a ponto em que já era dado suspeitar +que o pedestal de Napoleão não era tão firme como +a sua coragem. O contendor, apesar dos revézes, +era o mesmo; a fortuna principiava a falhar. A Inglaterra +havia vencido, a sorte mostrára-se rebelde, +mas o conquistador da Europa,—e para o ser faltava-lhe +vencer a Inglaterra—não desesperava de reconquistar<span class="pn"><a name="pag_130">{130}</a></span> +a sua boa fortuna. Não tomou por aviso +da Providencia o desastre. No immenso taboleiro da +sua ambição, em que as nações eram outras tantas +tavolas que movia a bel-prazer, pareceu-lhe aquelle +um cheque sem consequencias para o resultado da +partida em que se jogavam os destinos de povos e +reis.</p> + +<p>Bonaparte ufanava-se de empunhar a balança em +cujas conchas pesavam d'um lado a Europa e do outro +uma ambição immensa, indomavel, manifestada +desde os primeiros passos da sua carreira militar. +Comtudo havia na Europa uma nação quasi invencivel, +porque o mar lhe servia de muralha, porque os +seus recursos economicos prosperavam largamente, +e porque as instituições d'esse povo, traduzindo a +altivez do genio nacional, eram muralha tanto mais +para temer como a que o mar, cingindo as ilhas britannicas, +opporia a qualquer invasão. Era tudo isso, +e mórmente o regimen liberal da Inglaterra, que incommodava +Bonaparte, cujo poderio havia ultrapassado +a barreira da tyrannia. O guerreiro feliz imaginava-se +senhor absoluto: era a vertigem da victoria. +Havia porém um meio de egualar a Inglaterra, como +diz madame Staël: era imital-a. Bonaparte, porém, +não tinha nascido diplomata. A vista do conquistador +é incisiva, rapida, abrange de uma só vez o exercito +todo por mais espraiado que esteja; o diplomata tem +de profundar, estudar, decompôr, analysar não só os +negocios englobados diante de si, mas as suas intimas +relações, as suas consequencias proximas e remotas. +N'um requer-se o olhar ardente da aguia; no +outro a vista penetrante do lynce. Toda a diplomacia +de Napoleão se cifrava em preparar os acontecimentos +de modo a provocar um conflicto internacional, +que tendesse a prejudicar a Inglaterra. Haja vista +o tratado secreto de Fontainebleau, em que Portugal +e a casa de Bragança eram sacrificados á velha rivalidade +dos dois paizes. Bonaparte visava sempre a +vencer, não empregando a influencia politica da sua +posição, mas empregando a influencia armada do seu +exercito. Edificava sobre cadaveres, arriscando a vida +dos soldados francezes ao sabor da sua phantasia. +Chegado á suprema embriaguez da preponderancia, +tanto valia para elle o sangue dos soldados como a +corôa dos reis. A sua vontade era lei. Conta-se que<span class="pn"><a name="pag_131">{131}</a></span> +uma vez um dos seus conselheiros d'estado ousou +lembrar-lhe que o codigo napoleonico era contrario +á resolução que ia tomar.</p> + +<p>Bonaparte respondeu:</p> + +<p>—O codigo foi feito para salvação do povo, e, se +a salvação do povo exige outras medidas, é preciso +adoptal-as.</p> + +<p>Estas palavras são transparentes: deixam ver a tyrannia. +O povo francez não podia ter vontade livre: +vivia affrontado pela sombra de Napoleão e encarcerado +na inquisição politica de que o ministro Fouché +era claviculario. O cézar dominava tudo: a vontade +do povo e a opinião da imprensa. Os jornaes +eram thuribulos que vaporavam o incenso da adulação +aos pés do throno. Os poetas estavam habituados +desde o tempo do Directorio a cantar heroides +em honra do Primeiro Consul. Os follicularios poisavam +a penna, quando tentavam assumpto que esquecesse +a grandeza napoleonica, amedrontados pelo +espectro da proscripção. A visão do desterro bastava +a intimidar a maior parte d'elles, senão todos. Madame +de Staël, que não trepidava deante da estatua gigantea +do imperador, teve de procurar refugio em +Inglaterra.</p> + +<p>E comtudo, na sua origem, a corôa de Napoleão +emergira, Venus da realeza, da onda da liberdade!</p> + +<p>É certo, mas a estas palavras respondem cabalmente +as seguintes linhas da auctora das <i>Considérations sur la revolution française</i>, cujo espirito era profundo +de mais para se deixar cegar por despeitos.</p> + +<p>«Não bastava,—diz a insigne pensadora—que todos +os actos de Bonaparte tivessem o cunho de um +despotismo cada vez mais audacioso; devia elle proprio +revelar o segredo do seu governo, pois que despresava +a especie humana o bastante para dizer-lh'o. +No <i>Monitor</i> do mez de Julho de 1810 fez publicar as +palavras que dirigia ao segundo filho de seu irmão +Luiz Bonaparte criança a quem o grã-ducado de +Berg era destinado: <i>Não esqueças nunca</i>, lhe diz elle, +<i>em qualquer posição que te colloquem a minha politica +e o interesse do meu imperio, que os teus primeiros deveres +são para mim, os segundos para a França: todos os +outros, incluindo os relativos aos povos que eu pudesse +confiar-te estão depois</i>. Não se trata aqui de libellos, +de opiniões de partido; é elle proprio, Bonaparte,<span class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span> +que se denunciou mais severamente do que a posteridade +ousaria fazel-o. Luiz XIV foi accusado de +ter dito intimamente: <i>O Estado sou eu</i>; e os historiadores +esclarecidos apoiaram-se com razão n'esta +linguagem egoista para condemnar o caracter do rei. +Mas se este monarcha, quando collocou seu neto no +throno de Hespanha, lhe houvesse ensinado publicamente +a mesma doutrina que Bonaparte ensinava ao +sobrinho, talvez que o proprio Bossuet não ousasse +antepôr os interesses dos reis aos das nações; e é um +homem eleito pelo povo, que quiz encher com o seu +<i>eu</i> gigantesco o logar reservado á especie humana! +foi n'elle que os amigos da liberdade momentaneamente +puderam ver o representante da sua causa! +Muitos disseram: «É o filho da Revolução. Sim, é, +mas filho parricida: deveriam reconhecel-o?»</p> + +<p>Tudo isto é profundamente verdadeiro.</p> + +<p>A liberdade franceza ficára esmagada sob a purpura +do cézar. Novo Archimedes, levantaria com a alavanca +do seu poder a Europa inteira, se a Inglaterra +consentisse em ser o ponto d'apoio. Era preciso vencer +essa unica difficuldade. Serviu-se pois de todos os +meios. Na <i>Historia Secreta do Gabinete de Napoleão +Bonaparte</i>, por Lewis Goldsmith, está manifesto o espirito +faccioso do escriptor inglez, mas ainda assim +ha por vezes a eloquencia terrivel dos factos, e esses +não os póde calar a historia. Bonaparte procurou +triumphar por mil maneiras differentes, seduzindo com +largas retribuições a lealdade dos jornalistas inglezes; +mandando a Inglaterra espiões, entre os quaes algumas +mulheres, como madame Bonneuil e madame +Visconti; procurando sublevar a Irlanda, etc.</p> + +<p>Mas estava escripto no livro dos destinos que a Inglaterra +fosse o sepulchro da grandeza de Bonaparte. +Lord Wellington, perseguindo a aguia franceza desde +Lisboa até Waterloo, similhante ao adversario de +Macbeth, segundo a expressão de madame de Staël, +foi o Josué da historia profana que ousou suster o +curso do sol napoleonico em meio d'um longo dia de +gloria prolongado em dez annos de lucta contra a Inglaterra.</p> + +<p>O cartel de desafio, tantas vezes arrojado á face da +nação britannica, volveu-se na hora da decadencia +em supplica dirigida ao principe regente d'aquelle +paiz.<span class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span></p> + +<p>Estas palavras de Napoleão, escriptas em Aix, depois +de Waterloo, são claro testemunho da inconstancia +das coisas terrenas:</p> + +<p>«Alteza real, a braços com as facções que dividem +o meu paiz, e com a inimisade das grandes potencias +da Europa, puz termo á minha carreira politica. Venho, +como Themistocles, sentar-me junto ao lar do +povo britannico; abrigo-me á protecção de suas leis, +a qual solicito de vossa alteza real como o mais poderoso, +o mais constante e o mais generoso dos meus +inimigos.</p> + +<p class="assin">«N<small>APOLEÃO</small>»<sup><a href="#nota12" name="m_nota12">[12]</a></sup></p> + +<p> </p> + +<p>Não era porém sincera a humildade do cézar decaído. +Themistocles pedia a hospitalidade d'Artaxerxes, +mas não pensava em beber a morte no veneno. Os +tropheos da Inglaterra, como os tropheus de Melciades, +perturbavam o somno do hospede desterrado. No +momento de embarcar em a nau ingleza, Napoleão +repellia o general Becker que se abeirava d'elle para +despedir-se, e dizia-lhe:</p> + +<p>—Retire-se general. Não se diga que um francez +veiu entregar-se nas mãos do inimigo.</p> + +<p>Themistocles não esquecia a gloria de Melciades.</p> + +<p>Napoleão preferira morrer na morte lenta de todos +os exilados, e agonisára durante cinco annos +n'uma possessão ingleza.</p> + +<p>Ahi, na triste solidão da ilha de Santa Helena, devia +recordar a cada momento a epopea da sua gloria +e da sua desgraça, pensando ou dictando as suas memorias +ao general Las Cazes. Então, pelo silencio +da noite, apenas interrompido monotonamente pelo +ruido do mar, refugiria de si mesmo ao ver passar +deante dos olhos o bando lutuoso das viuvas e dos +orphãos dos seus soldados, e ao adivinhar a pallida e +lacrimosa figura da moribunda de Malmaison, a formosa +Josephina Beauharnais.</p> + +<p>É sempre no mar que se esconde o sol; Santa +Helena illuminou-se com os ultimos clarões da gloria +de Bonaparte no duplo occaso da grandeza e da +vida. Orgulho de soldado: ordenou que lhe fosse<span class="pn"><a name="pag_134">{134}</a></span> +mortalha o capote que trazia na batalha de Marengo. +Na sua vaidade de cézar até á morte se queria impôr.</p> + +<p>Mais longe do que desejavamos nos levaram as +nossas divagações, esquecendo-nos de que o protagonista +d'esta narrativa não era Bonaparte, imperador +dos francezes, mas um obscuro soldado dos +exercitos que o venceram.</p> + +<p>Tempo é de falarmos de Graça Strech, e de dizer +que mais duas vezes fôra ferido no decurso da campanha +peninsular: uma em Salamanca, e outra em +Victoria com uma bala n'uma perna, do que lhe resultou +ficar coxeando. Fôra gravissimo este ultimo +ferimento. Por mais d'uma vez os soldados portuguezes +suppozeram moribundo o seu valoroso companheiro. +Ás exaltações febris, em que o ferido +precipitava palavras que os seus camaradas não comprehendiam, +succediam-se tão profundas prostrações, +que era difficil averiguar se vivia ainda.</p> + +<p>D'uma das vezes ouviram-lhe dizer:</p> + +<p>—Não! não! Não vêdes a morte?... Não quero +morrer... E Rosina?... Meu filho!... Estou aqui +sósinho... Pietro tocava a sua harpa.. A muda chorava +muito... Em Coimbra, n'aquella tarde... Sim, +ella era innocente e pura... Pietro parecia triste de +a vêr chorar... Que é?... São os francezes?... Que +venham... Eu vingo a memoria de minha irmã, mas +não quero morrer porque tenho um filho...</p> + +<p>—Um filho! exclamaram os dois soldados que +piedosamente o soccorriam.</p> + +<p>O ferido continuou a delirar:</p> + +<p>—Tudo perdeu por mim... Como era grande o +seu amor!... Pobresinha... Para traz, francez; quero +ir vel-a. Estás ahi? Sempre ao pé de mim! Sim... +bem me lembro... o ceguinho das Ardennas e o +seu cão... Não ouviste chorar uma creança? É meu +filho...</p> + +<p>—O nosso tenente treslê! exclamou um dos soldados.</p> + +<p>Graça Strech havia, pelos seus actos de valor, +chegado áquelle posto, sendo condecorado com a +Torre-Espada, com a cruz de S. Fernando d'Hespanha, +e ao depois com a medalha da guerra peninsular.</p> + +<p>—Pena é se morre, acrescentou outro soldado,<span class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span> +que não ha mais destemido militar que o nosso tenente!</p> + +<p>—Isso não! Animava-se com a polvora, que tambem +não tem de haver no mundo militar mais triste...</p> + +<p>—E mais desgraçado! Não te lembras que já a +irmã era muda?</p> + +<p>—Muda, sim.</p> + +<p>A este tempo havia caído Graça Strech em lethal +modorra, e retiravam-se os dois soldados receiosos +de que o tenente não resistisse ao ferimento.</p> + +<p>Todavia, como poderemos ver pelo capitulo seguinte, +não tinha de ser aquella a ultima hora da attribulada +existencia de Graça Strech.<span class="pn"><a name="pag_136">{136}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota12" name="nota12">[12]</a></sup> +<i>Historia de Napoleão Bonaparte</i>, pelo dr. Caetano Lopes +de Moura, Vol. II.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>XVI</h2> + +<h2>Uma festa no Porto +ha cincoenta e nove annos</h2> + +<p>Amanheceu festivo para a cidade do Porto o dia +15 d'agosto de 1814.</p> + +<p>Ainda de noite começaram a povoar-se as janellas, +e a animar-se as ruas com enorme multidão.</p> + +<p>Ás sete horas da manhã já não havia casa que não +estivesse adornada de ricas tapeçarias, pendentes dos +balcões, que competiam com as galas das damas da +cidade e da provincia debrusadas nos peitoris.</p> + +<p>Muitas das janellas estavam emmolduradas em grinaldas +e arcos de flôres; outras ladeadas por bandeiras; +ao longo das ruas corria um verdejante tapete +de hervas aromaticas.</p> + +<p>Em muitos olhos brilhavam lagrimas d'alegre commoção, +e em todos os labios desabrochavam sorrisos +que eram espelho do jubilo da alma.</p> + +<p>Que motivo havia, pois, para tamanha festa na cidade +cujos habitantes, no lento curso de cinco annos, +estavam costumados ao luto e á saudade dos que +pereceram na catastrophe da ponte, nas linhas de defeza, +nos hospitaes de sangue e dos que posteriormente +haviam succumbido na demorada campanha +peninsular contra os francezes?</p> + +<p>Não eram estranhos os jubilos d'esse dia a tão funestos +acontecimentos. Esperava-se a brigada de infantaria +do Porto, composta dos regimentos 6 e 18, +que victoriosa regressava de França depois de haver +pelejado com egual denodo pela restauração d'estes +reinos e de toda a peninsula.</p> + +<p>Os feitos da brigada de infantaria do Porto haviam +soado, com assombro dos portuguezes, em Portugal +inteiro, mórmente os que praticára na batalha da estrada +de Bayona, em França, no dia 13 de dezembro +do anno anterior.<span class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span></p> + +<p>O senado da camara tinha-se reunido nos primeiros +dias d'agosto para assentar nos festejos com que +se devia celebrar o regresso das tropas. Resolveu +que se levantassem arcos de triumpho, fazendo-se +outras mais demonstrações de alegria, e encarregou +da direcção dos preparativos o vereador decano +José de Sousa e Mello.</p> + +<p>Tratou-se, pois, com febril afan, de executar o programma +dos festejos.</p> + +<p>Construiu-se sobre a ponte do Poço das Patas a +<i>Porta da cidade</i><sup><a href="#nota13" name="m_nota13">[13]</a></sup>, guarnecida com os castellos que +lhe são proprios, e com as insignias concedidas por +carta regia de 13 de maio de 1813; collocando-se na +cimalha da porta a imagem de Nossa Senhora, que +entregava a seu Divino Filho uma fita com a legenda +<i>Civitas Virginis</i>.</p> + +<p>O gosto da pintura, imitando velha cantaria, muito +deu na vista das pessoas que percorriam as ruas e +estacionavam boqui-abertas em frente do arco.</p> + +<p>Tambem na cimalha foi embutida uma lamina de +bronze com este distico:</p> + +<p> </p> + +<p class="centrado"><small>HINC GENTI HOMEN;<br> +HINC REGNO PLURIES SALUS;<br> +HINC</small> E<small>UROPAE,</small> O<small>RBI</small><br> +P<small>RIMA LIBERTATIS LUX NOVISSIME AFFULSIT.</small></p> + +<p> </p> + +<p>No alto da rua nova de Santo Antonio levantou-se +um arco de triumpho, de ordem composita, firmado +em quatro columnas; resaltavam dos intercolumnios +arnêzes, grévas, escudos, bandeiras e lanças entrelaçadas +com listões de murta, ramos de oliveira, palmas +e louros. Nos dois grandes pedestaes sobre que +descançavam as columnas, lia-se:</p> + +<blockquote> +<p>Sempre engrandeça a patria lusitana<br> +Vosso nome immortal, claro, e subido;<br> +E a Casa restaurada de Bragança<br> +Tenha em thesouro seu vossa lembrança.</p> + +<p class="assin"><i>Condest.</i><span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span></p> + +<p>Esta Cidade forte, e populosa,<br> +Colonia antiga do poder Romano,<br> +Cavou a sepultura temerosa<br> +D'um gigante nas obras deshumano.</p> + +<p class="assin"><i>Affons. Afric.</i></p> +</blockquote> + +<p>Egualmente estavam enfloradas as cornijas, architraves +e os frizos. Sobre o portico erguia-se o escudo +das armas da cidade; por cima da balaustrada +que corria ao longo do arco, havia quatro estatuas +que figuravam:</p> + +<p class="centrado">A SAUDADE</p> + +<p>Mostrava um livro aberto em que se lia: <i>1.º e 2.º +de Setembro de 1809.</i> (Dias em que saíram do Porto +as tropas.) No pedestal estava escripto:</p> + +<blockquote> +<p>Deixando a Patria amada, e proprios lares<br> +Se mostraram nas armas singulares.</p> + +<p class="assin"><i>Cam.</i></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">A ALEGRIA</p> + +<p>Indicava em outro livro a data: <i>15 d'agosto de 1814.</i> +(Dia da entrada das tropas.) Lia-se no pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>A Deus, ao Rei de quem a paga esperam<br> +Fazer maior serviço não puderam.</p> + +<p class="assin"><i>Malac.</i></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">A VICTORIA</p> + +<p>Desenrolava os annaes das acçoes em que a brigada entrára. Legenda do pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>Aonde falta o premio a quem milita<br> +Não habita a razão, nem gente habita.</p> + +<p class="assin"><i>Dest. d'Esp.</i></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">A ETERNIDADE</p> + +<p>Tinha, entre o symbolo da serpente enroscada, os<span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span> +nomes dos regimentos: <i>Infantaria 6 e 18.</i> No pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>Ajudados dos céos em mar e em terra,<br> +Tem fechadas na mão a paz, e a guerra.</p> + +<p class="assin"><i>Malac.</i></p> +</blockquote> + +<p>Sobreposta a uma longa inscripção latina, rematava +o grupo do arco uma esphera armilar, sustentada +por Genios que entornavam flôres.</p> + +<p>Nos intercolumnios posteriores correspondiam armas, +espadas, tambores e alabardas unidos com feixes +de louro, ramos de carvalho e oliveira.</p> + +<p>Nos grandes pedestaes havia gravadas epigraphes +em verso, correspondendo os ornatos aos da frente +e as estatuas da balaustrada estas quatro:</p> + +<p class="centrado">O PORTO</p> + +<p>Offerecia com a mão direita uma corôa de louro e +empunhava na esquerda um ramo de carvalho, tendo +no pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>Orno os heroes que a patria eternizaram<br> +E por ella seu sangue derramaram.</p> + +<p class="assin"><i>Elp.</i></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">O AMOR DA PATRIA</p> + +<p>Offerecia com a direita um coração e apontava +com a esquerda para o peito. No pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>Meu valor, minha nobre fortaleza<br> +Será gloria da gloria Portugueza.</p> + +<p class="assin"><i>Affons. Afric.</i></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">A PAZ</p> + +<p>Offertava com a mão direita o ramo de oliveira, e +sustentava na esquerda um feixe de palmas. No pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>Que mais ditoso fim se lhe esperava<br> +Que este agora que merecido estava!</p> + +<p class="assin"><i>Affons. African.</i><span class="pn"><a name="pag_140">{140}</a></span></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">A DOCILIDADE</p> + +<p>Arremessava com a mão esquerda um montão de +cadeias, e com a direita segurava uma estreita fita. +No pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>O Soberano Author da redondeza<br> +Da minha redempção deu-vos a empreza.</p> + +<p class="assin"><i>Bocag.</i></p> +</blockquote> + +<p>A tarja que, do outro lado, correspondia á inscripção +lapidar, tinha figurados em relevo todos os petrechos +de guerra, e os Genios, que d'esse lado sustentavam +a esphera, desenrolavam uma fita em que +estava escripta uma quadra do <i>Condestabre.</i><sup><a href="#nota14" name="m_nota14">[14]</a></sup></p> + +<p>Ahi se agrupava impaciente a multidão, não só attrahida +pela magnificencia do arco, senão tambem +pelo variegado espectaculo das tropas da guarnição, +que estavam postadas em alas até ao largo de Santo +Eloy; bem como para ver pegar fogo á bateria collocada +no topo da calçada dos Clerigos e destinada +a salvar com vinte e um tiros de peça a passagem da +brigada pelo arco.</p> + +<p>Na rua nova do Almada baralhavam-se dois formigueiros +de povo: um que, receoso do tumulto na aproximação +das tropas, demandava o Campo de Santo +Ovidio; outro que, tendo visto o obelisco levantado +no meio d'este campo, ia procurar logar, na hypothese +de encontral-o, junto ao arco da rua nova de +Santo Antonio.</p> + +<p>Era tambem sobremodo esplendoroso o obelisco +n'aquelle campo. Rodeava o pedestal uma espaçosa +varanda, adornada com ricas bandeiras portuguezas.</p> + +<p>Sobre o pedestal, e em frente da rua nova do Almada, +estava o retrato do principe real, com a +seguinte legenda escripta na almofada correspondente:</p> + +<blockquote> +<p>Diga-o a Augusta Effigie contemplando:<br> + Foi este o forte, o justo,<br> +João, da Patria Pae, que a patria alçando<br> +Deu pasmo a naturaes, e a estranhos susto.</p> + +<p class="assin"><i>Elp.</i><span class="pn"><a name="pag_141">{141}</a></span></p> +</blockquote> + +<p>Em frente da rua da Boa Vista, resaltava o retrato +da rainha, lendo-se no pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>O louvor que se ganha pelos meios<br> +Da virtuosa vida, este só dura,<br> +Este de se perder não tem receios.</p> + +<p class="assin"><i>Bern.</i></p> +</blockquote> + +<p>E em frente da linha dos predios foi disposto o retrato +da princeza, tendo no pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>Que affavel se olharia a tua face,<br> +Se o céo a nossos votos sempre amigo<br> +Na fria estatua espiritos soprasse!</p> + +<p class="assin"><i>Filint.</i></p> +</blockquote> + +<p>Do lado da Lapa, em frente do quartel, viam-se +as armas do reino e da cidade, unidas por um listão, +em que estava escripto o dia da restauração do governo +nacional</p> + +<p class="centrado">18 DE JUNHO DE 1808</p> + +<p class="ni">lendo-se no pedestal os seguintes versos de Horacio:</p> + +<p class="centrado"><small>HIC DIES VERE NOBIS FASTUS ATRAS<br> +EXIMIT CURAS.</small></p> + +<p>Todos os retratos foram collocados entre tropheus +de bandeiras, e eram cingidos pelos emblemas +da paz e do heroismo...</p> + +<p>O bom povo portuense, na cegueira do seu jubilo, +não reparava que esses emblemas, á beira dos augustos +retratos, deviam ser uma pungente ironia se a familia +real tivesse olhos para os ver atraves de enorme +distancia, e interposto o mar!</p> + +<p>No cimo do obelisco assentava a corôa real cingindo +um manto de preciosa bordadura.</p> + +<p>Pouco depois das oito horas e meia, um unisono +grito de alegria annunciou a chegada da brigada ao +Alto do Senhor do Bomfim.</p> + +<p>Então começou o estrondear dos morteiros, o repicar +dos sinos e o alarido dos vivas. Quando as tropas +chegaram ao topo da rua nova de Santo Antonio, +o enthusiasmo attingiu as raias do delirio, tamanho<span class="pn"><a name="pag_142">{142}</a></span> +era o alvoroço da multidão que saudava com brados, +com os lenços e os chapeus os dois regimentos portuenses. +Durante todo o percurso até ao Campo de +Santo Ovidio as flôres, as grinaldas e os ramos, que +desciam das janellas, figuravam uma chuva iriada e +espessa que ia orvalhar de petalas as fardetas dos +soldados.</p> + +<p>Se nos fosse dado ouvir os breves dialogos que se +perdiam no borborinho geral, de grupo a grupo iriamos +recolhendo vozes, posto que variadas, todas concernentes +á festa d'esse dia.</p> + +<p>N'uma das janellas da rua nova do Almada chalravam +as visinhas da familia Strech, as quaes cinco annos +antes tivemos occasião de conhecer em lances +que verdadeiramente contrastavam com o espectaculo +a que estamos assistindo.</p> + +<p>Passava o regimento de infantaria 18, e diziam ellas.</p> + +<p>—Vamos a ver se conhecemos o José Maria!</p> + +<p>—Vem tenente e condecorado!</p> + +<p>—Já sei. Mandou dizel-o o homem da Victorinha.</p> + +<p>—Deve vir muito mudado!</p> + +<p>—Será aquelle?</p> + +<p>—Aquelle, menina! Aquelle militar tem mais de +vinte e cinco annos...</p> + +<p>—Vamos a ver se elle olha para a casa onde morou...</p> + +<p>—Vês? Não olha! Vae até a olhar para o chão...</p> + +<p>Era elle, effectivamente.</p> + +<p>No meio da rua dialogavam dois velhos:</p> + +<p>—Que pena não assistir o Trant!</p> + +<p>—Está doente.</p> + +<p>—Bem sei.</p> + +<p>—E elle que tanto trabalhou para esta recepção!</p> + +<p>No Campo de Santo Ovidio, antes da chegada das +tropas: Um velho perguntando a um sujeito que estaciona +junto d'elle:</p> + +<p>—Falta-me a vista! Quem são aquelles que estão +nas janelas do quartel?</p> + +<p>—É o juiz e a camara. Olhe... Não vá mexer-se +agora uma cabeça?</p> + +<p>—Vejo, mas não distingo.</p> + +<p>—Pois é o José de Sousa e Mello.</p> + +<p>—Acho que elle tem de falar pelo senado?</p> + +<p>—O programma dizia que sim.<span class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span></p> + +<p>—Esperaremos. Sempre não ter vista! Perco metade!</p> + +<p>Chegaram as tropas ao Campo de Santo Ovidio e, +depois de formar quadrado, fizeram continencia aos +retratos da familia real, que, diga-se em abono da +verdade, não responderam.</p> + +<p>Os originaes estavam no Brazil; não viram.</p> + +<p>Em seguida o brigadeiro Carlos Ashworth, commandante +da brigada, levantou vivas ao principe regente +e á rainha...</p> + +<p>Os retratos não se mexeram.</p> + +<p>Quando porém se ouviu um enthusiastico viva em +honra da cidade do Porto, a cidade respondeu delirantemente +pela bocca das tropas, do povo, e pelo +acenar vertiginoso dos lenços nas janellas.</p> + +<p>Dada a voz de descançar armas, desceu o já nomeado +vereador decano, José de Sousa e Mello, que pouco +antes viramos a uma das janellas do quartel. O +brigadeiro commandante, tendo-se apeiado, dirigiu-se +para elle. Então o camarista Mello recitou uma allocução +que terminava por estas palavras: «A camara +roga a vossa excellencia queira fazer-lhe a honra, não +só de jantar hoje n'este quartel, mas de convidar em +seu nome toda a officialidade d'estes dois regimentos, +mandando vossa excellencia que, além d'isto, se distribua +pelos sargentos, cabos e soldados o dinheiro +que ali se acha para lhes supprir o jantar d'hoje.»</p> + +<p>O brigadeiro Ashworth agradeceu amavelmente o +convite, e asseverou que a officialidade acceitaria reconhecida.</p> + +<p>A immensa multidão que enchia o Campo de Santo +Ovidio rompeu n'este lance em freneticos vivas e, ao +som das bandas marciaes, recolheram as tropas a +quarteis, sendo seguidas por grande numero de pessoas, +parentes, amigos, e conhecidos, que esperavam +lhes fosse permittido abraçar soldados e officiaes.</p> + +<p>Concedidas duas horas para desafogo de saudades, +cinco annos retraídas, e gastas em ardentes expansões +que as volveram momentos, foi o regimento de +infantaria 18 ouvir missa á egreja da lapa e o regimento +de infantaria 6 á egreja da Graça. Em ambos +os templos houve <i>lausperenne</i> e <i>Te-Deum</i>.</p> + +<p>Cumpridos os deveres do coração e da alma, começaram +os da cortezia.</p> + +<p>O brigadeiro Ashworth foi cumprimentar o senado<span class="pn"><a name="pag_144">{144}</a></span> +á sala da secretaria do quartel de Santo Ovidio, convenientemente +preparada para a solemnidade da recepção, +recolhendo-se depois ao quartel general da +rua nova do Almada, onde, pelo meio dia, recebeu a +visita dos vereadores.</p> + +<p>Cerca da uma hora da tarde, quando o brigadeiro +já estava desembaraçado de felicitações officiaes, annunciou-se +no quartel general o tenente Graça Strech.</p> + +<p>O brigadeiro acudiu a recebel-o com a maxima familiaridade, +que era testemunho de maxima consideração.</p> + +<p>—Vem tambem cumprimentar-me? galhofou o brigadeiro.—Ora +sente-se e fale.</p> + +<p>—Venho solicitar um grande obsequio, respondeu +o tenente.</p> + +<p>Razão tinham as meninas da rua nova do Almada +para não reconhecer n'elle o gentil e vigoroso José +Maria dos dezeseis annos. Estava velho aos vinte e +um, velho das geadas do infortunio que requeimam +as flores da alma, e apagam nos olhos o brilho da +mocidade. Tinha a magreza viril do soldado, mas +cruzavam-se na sua physionomia umas sombras espessas +que á primeira vista inculcavam que espirito +e corpo haviam soffrido por egual. Como as palreiras +meninas da janella disseram, figurava ter mais de +vinte e cinco annos.</p> + +<p>Mas, voltando ao dialogo do tenente com o brigadeiro:</p> + +<p>—Que grande obsequio é esse? perguntou com +affabilidade Carlos Ashworth.</p> + +<p>—Venho pedir dispensa de assistir hoje ao jantar.</p> + +<p>—Ah! meu amigo, isso não póde ser! O galardão +é para todos; cumpre, pois, que cada um receba o +quinhão que lhe cabe.</p> + +<p>—Eu creio que já em França tive a honra de lhe +dizer, meu brigadeiro, que precisava descanço porque soffria...</p> + +<p>—E de me pedir a sua baixa, bem sei. D'essa vez +não pude annuir ao pedido do meu bravo tenente, +porque havia recebido instrucções particulares do +senhor marechal marquez de Campo Maior para não +licenciar soldados nem officiaes. Era justo que o +Porto conhecesse todos os heroes d'esta brilhante +campanha. O marechal tinha razão. Agora, meu bom +amigo, tambem não posso ser-lhe agradavel como<span class="pn"><a name="pag_145">{145}</a></span> +desejava. O tenente foi dos militares que mais se distinguiram +desde Portugal a França. As ordens do dia +falaram muita vez no seu nome. Conhecem-n'o. Seria +uma affronta para o Porto que estivesse entre os +seus muros, e recuzasse o talher que lhe offerece. +Isso—disse o brigadeiro curvando-se amigavelmente +para elle—são saudades, não quero saber de quem. +Tambem eu as tenho... Vamos, assista ao jantar, +que eu me empenharei por obter a sua baixa o mais +breve possivel.</p> + +<p>E estendeu-lhe cordealmente a mão.</p> + +<p>O tenente Graça Strech saiu d'ali com os olhos no +chão para não vêr a casa onde nascera, e atravessou +as ruas da cidade absorto na triste concentração de +quem está em terra onde não conhece ninguem.</p> + +<p>Ia entregue aos seus pensamentos, e assim andou +ao acaso até que outro tenente do mesmo regimento +lhe bateu no hombro e disse:</p> + +<p>—São quasi cinco horas e meia. Vamos lá ao jantar, +homem. Está marcado para as seis.</p> + +<p>Effectivamente, á hora designada, reunida a officialidade +no quartel de Santo Ovidio, passou com os +vereadores á sala do banquete, cuja ornamentação +era brilhante.</p> + +<p>A um e outro lado corriam arbustos, d'entre os +quaes appareciam as armas de Portugal e Inglaterra. +A um grupo de trophéus de guerra, com bandeiras d'uma +e outra nação, que cobriam a cabeceira da +mesa, fazia <i>pendant</i> um nublado em que se enleiava +a serpente, symbolo da eternidade, tendo escripto no +centro—<i>Ashworth.</i>—Guarneciam o nublado duas +bandeiras com os nomes dos dois regimentos, atadas +por uma fita em que se lia a data de maior gloria +para a brigada do Porto—<i>13 de dezembro de 1813</i>.</p> + +<p>No fim do banquete, ao som da banda de musica +de milicias que tocava á porta do quartel, levantaram-se +enthusiasticos vivas ao principe regente, á familia +real, aos monarchas alliados, aos governadores +do reino, generaes do exercito combinado, ás tropas +victoriosas, e a todas as mais entidades que iam lembrando +e mereciam a homenagem d'um calis de vinho.</p> + +<p>Um só conviva correspondeu a esses ruidosos brindes +com um movimento de labios: foi Graça Strech. +E á noite, quando toda a cidade se illuminava festivamente, +era profunda a escuridão na sua alma.<span class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota13" name="nota13">[13]</a></sup> +É fiel a descripção d'estes festejos; O auctor encontrou-a +n'um opusculo da epoca.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota14" name="nota14">[14]</a></sup> +Poema heroico de Francisco Rodrigues Lobo.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + + + +<h2>XVII</h2> + +<h2>Como madrugam as aves +e os noivos!</h2> + +<p>Obtida a baixa, Graça Strech poucos dias se demorou +no Porto.</p> + +<p>Sentia-se asphyxiado na atmosphera em que respirára +ao nascer. Punham-lhe medo as sombras; as +ruas affiguravam-se-lhe tristes como avenidas de cemiterio. +Duas vezes, alta noite, depois de dolorosissima +lucta comsigo mesmo, estivera, encostado á parede +fronteira á casa em que viveu os primeiros annos +da vida, mergulhado em profunda meditação.</p> + +<p>A ultima vez fôra a ultima noite que passára no +Porto. O céo era d'um azul setinoso. O branco luar de +agosto estendia ao longo da rua a sua claridade immovel, +e parecia desenhar nos muros contornos phantasticos. +Reinava na cidade o silencio imperturbavel +das noites profundas. Na janella da sala onde cinco +annos antes, por noite tempestuosa, jaziam tres cadaveres, +luzia um reflexo mortiço como de lamparina +que não tardou a apagar-se. Lembrou-se Graça +Strech de que devera ser egualmente pallido o reverbero +da luz que lhe tremia na mão quando contemplava +os corpos inanimados das trez senhoras. Transportou-se áquelle horrivel espectaculo. Viu tudo. A +mãe, a irmã e a avó estavam a seus olhos como +n'essa hora tremenda. Não obstante o seu grande empenho, de pergunta em pergunta não lográra saber +onde repousavam. Queria ir procurar Rosina, de +quem nada sabia tambem, mas desejava despedir-se +da familia que ficava, antes de partir para o seio da +familia que o esperava. Não pôde realisar o seu desejo. +Registos parochiaes não os havia. N'aquella +immensa hecatombe da invasão, tambem as sepulturas +foram invadidas sem averiguar-se por quem. Tinha<span class="pn"><a name="pag_147">{147}</a></span> +desesperado de conhecer a verdade, e, já que +não podia despedir-se do tumulo da sua familia, +fôra despedir-se do predio que ella habitára. +De repente, n'uma casa proxima, perpassou uma +luz. Fez reparo. Quem velaria ainda áquella hora? +Deteve-se a examinar, e certificou se de que ali +viviam, no anno de 1809, as duas visinhas que +lhe falaram na bateria do Bomfim. Foi isto um como +raio de tardia esperança. Recriminou-se pelo esquecimento +de não as ter procurado logo que chegou. A +desgraça havia-o desmemoriado. Atravessára o Porto +como um viajante solitario atravessaria o Sahará—calado, +pensativo, sem ver, por ter medo de olhar. +Mas—os infelizes duvidam sempre—viveriam ainda +ali? Tinha razão. Quem poderia dizer se ellas, na +fuga, haveriam chegado ao seu destino, sido attingidas +pelas balas ou cahido em poder dos francezes?</p> + +<p>A estas perguntas, que a si proprio fazia, só poderiam +responder indagações. Pesava-lhe todavia +o ter de se aproximar de pessoas cuja conversação +iria aggravar a dôr do passado. Se elle soubesse +onde repousavam as cinzas da sua familia, lá +iria para falar-lhes, para contar-lhes os extraordinarios +lances da sua vida, para dizer aos frios restos de +sua irmã por que razão não levava comsigo o annel, +sobre o qual jurára vingal-a.</p> + +<p>Augusta, de dentro do sepulchro, responderia com +o perdão implorado.</p> + +<p>Mas o que elle não queria era deixar entrever a sua +dôr de modo que lh'a avivassem piedosamente, porque a sociedade não dá o balsamo da compaixão sem +primeiro rasgar as feridas que a inspiram.</p> + +<p>O desejo vehemente venceu, porém, a natural repugnancia. +A breve trecho fez tenção de não desaproveitar +as poucas horas que lhe restavam para colhêr esclarecimentos. +Resolveu-se a esperar que amanhecesse +e, como a luz parecesse brilhar com intensidade +a través da janella, não se afastou. Mal começava a +raiar a claridade da madrugada, apagou-se a luz, e +cerca das cinco horas da manha viu Graça Strech +abrir-se a porta. Sairam duas mulheres de mantilha, +seguidas por uma criada que levava um açafate á cabeça. +Fosse reminiscencia ou phantasia, Graça Strech +cuidou reconhecer as duas visinhas: tia e sobrinha. +Tomou alento e acercou-se. Uma das mulheres, a<span class="pn"><a name="pag_148">{148}</a></span> +mais nova, voltou de repente a cabeça como se esperasse +alguem. Havendo-se enganado, achegou-se +da outra e soltou um—ai!—que mais denunciava +despeito que medo.</p> + +<p>—Não se assuste vossa senhoria, sr.ª D. Izabel! +apostrophou Graça Strech serenando a menina que +se denunciava medrosa.</p> + +<p>Tia e sobrinha olharam fito no desconhecido, e foi +a sobrinha quem primeiro exclamou:</p> + +<p>—Pois não se lembra, minha tia? Olhe bem para +elle!</p> + +<p>—Quem é?</p> + +<p>—É o sr. José Maria! Eu bem dizia outro dia que +era o tenente das barbas!</p> + +<p>—Póde lá ser o Josésinho!</p> + +<p>—Tem razão, minha senhora, replicou Graça +Strech. Eu devo parecer-lhes uma sombra do que +fui. Mas, sombra ou realidade, o certo é que me chamo +José Maria da Graça Strech.</p> + +<p>—Ora uma coisa assim! Parece um velho!</p> + +<p>—E parece! acrescentou a menina.</p> + +<p>—Desgostos, minhas senhoras.</p> + +<p>—E muitos teve tão novo, sim, porque vêr...</p> + +<p>—Peço a vossa senhoria o obsequio de deixar em +silencio essas tristes recordações. Uma só quero eu +avivar, e por isso lhes causei esta surpresa.</p> + +<p>—Mas não nos ter procurado! exclamou a velha +senhora.</p> + +<p>—Não tomem á conta d'ingratidão o que é simplesmente +embrutecimento. Bem podia ser tambem +que tivessem mudado de casa.</p> + +<p>—Ora! Quem tem bocca vae a Roma! exclamou +a menina. Já nem queria saber novidades da sua antiga +visinha! Pois saiba que me vou casar...</p> + +<p>—Felicito vossa senhoria.</p> + +<p>—Cala-te ahi, tagarella! acudiu D. Eulalia, affastando +com o braço a sobrinha. Ha de estar admirado +de nos vêr sahir ambas a esta hora. Pois não se admire. +Combinamos com as Cerqueiras e as Brochados, +tudo visitas da sua casa, sr. Strech,—e com o +noivo da Izabelinha—juntarmo-nos na primeira missa +que se diz no altar do Senhor dos Passos em S. João +Novo e irmos depois almoçar todos á Fonte das Virtudes.</p> + +<p>Cumpre dizer que na primeira década do seculo<span class="pn"><a name="pag_149">{149}</a></span> +<small>XIX</small> era ainda a Fonte das Virtudes o local destinado +ás comezainas das familias burguezas do Porto. Ahi +se reuniam em ruidosos convivios, deposta a mantilha, +e irmanados novos e velhos pelo mesmo apetite +e pela mesma alegria.</p> + +<p>O camartello das demolições municipaes tem—<i>avis +rara!</i>—respeitado até hoje esta legendaria fonte +que se compõe d'um alto frontispicio, ornado de pyramides, +e firmado em bancos de pedra, que a rodeiam. +Rebenta abundantemente a agua por duas +enormes carrancas em conformidade com a esculptura +de todos os chafarizes antigos. Ladeiam a fonte +dois grandes tanques, durante todo o dia, ainda +hoje, frequentados por lavadeiras. N'esses bons tempos, +ficava a fonte extra muros; sahia-se para ella +pela porta a que a fonte deu nome. Ao lado da porta, +na eminencia da parte oriental, havia já então os +chamados <i>Assentos</i>, actualmente Passeio das Virtudes.</p> + +<p>O padre Agostinho Rebello da Costa, na sua <i>Descripção topographica e historica da cidade do Porto</i>, +impressa em 1789, escreve ácerca d'este local: «Em +toda a cidade, não ha sitio nem mais ameno, nem +mais agradavel; porque além da sua bella posição +adornada de regulares edificios, gozam os olhos d'um +só golpe, vista de cidade, de mar, rio, navios, montes, +campinas, quintas e palacios. O grande paredão, +que presentemente se está fazendo, para com elle se +formar uma praça correspondente á belleza, e magnificencia +d'esta agradavel situação, será um monumento +eterno do patriotico zelo que Rodrigo Antonio +de Abreu e Lima, cavalleiro professo na ordem +de S. Thiago, inspector da marinha do Douro, administrador +geral dos portos seccos das trez provincias +do Norte, e actual juiz da alfandega, mostrou em +obrigar o senado da camara a fazer esta obra interessantissima +á regia utilidade, e recreio publico.»</p> + +<p>Dito o que as historias referem ácerca da Fonte +das Virtudes, reatemos o dialogo.</p> + +<p>—Divirtam-se vossas senhorias, respondeu Graça +Strech, que eu perguntarei sem desvios o que desejo +saber. Não me foi possivel averiguar até hoje onde +jaz a minha desventurosa familia. Vossas senhorias +sabem?</p> + +<p>—Casualmente nos disse o sachristão de S. Martinho<span class="pn"><a name="pag_150">{150}</a></span> +de Cedofeita que tinham ali sido enterradas, se +bem que nos não pudesse designar as sepulturas, +pela grande confusão de cadaveres que n'esses tristes +dias houve.</p> + +<p>Isto disse D. Eulalia, acrescentando:</p> + +<p>—No dia seguinte o quartel general mandou ordem +a todos os parochos para que, logo que anoitecesse, +fôssem levantar os corpos dentro da circumscripção +das suas freguezias. Não sabemos mais nada, +sr. Strech. Nós recolhemos ao Porto depois que os +francezes retiraram. Estivemos em Gondomar, em +casa d'uns parentes nossos, porque tivemos a felicidade +de encontrar livre o caminho. O senhor bem se +ha de lembrar de que nos protegeu na bateria do +Bomfim. Prouvera a Deus que a sua familia tivesse +tido a mesma sorte! Muitas vezes lhes pedimos que +nos acompanhassem. Não quizeram. Ainda tenho +nos ouvidos as palavras da Augustinha: «Se meu +pae e meu irmão morrerem, deixemo-nos morrer +tambem, porque o viver sem elles seria peior que a +morte.» Nunca mais me esqueceram! Vel-a assim fazia +dó, a pobre menina!</p> + +<p>Graça Strech estava livido. Já não tinha forças para +ouvir mais.</p> + +<p>—Muito obrigado, minhas senhoras, disse elle. Já +sei o bastante. Felicito-me de as haver encontrado +e faço votos pela ventura da sr.ª D. Izabel.</p> + +<p>—Agradeço do coração, replicou a menina. O sr. +Strech ha de dar-me a honra de assistir ao meu casamento...</p> + +<p>—Da melhor vontade assistiria, minha senhora, se +não tivesse de partir hoje mesmo para Italia.</p> + +<p>—Partir?!</p> + +<p>D. Eulalia repetiu:—Para Italia!</p> + +<p>E exclamou virando-se para a sobrinha:</p> + +<p>—O casamento anda-te com essa cabeça á roda! +Se não sou eu lembrar-me agora por essa palavra, +não dirias nada ao sr. Strech d'aquella carta d'Italia!</p> + +<p>—Uma carta, apostrophou elle, sobremodo perturbado.</p> + +<p>—É verdade! affirmou a menina com pesar de se +haver esquecido.</p> + +<p>D. Eulalia contou:</p> + +<p>—Ha quatro annos, foi em...</p> + +<p>—Junho, acrescentou Izabel.<span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span></p> + +<p>—É verdade, foi em junho, proseguiu D. Eulalia; +andou o carteiro por esta rua, para cima e para baixo, +a perguntar pela familia Strech. Todos lhe diziam +que essa desgraçada familia estava no cemiterio. Até +que a final o carteiro e alguns visinhos bateram á +nossa porta, porque sabiam das nossas relações com +a sua familia. A carta, que trazia o timbre de Italia, +dizia: <i>Sr. José Maria da Graça Strech, soldado portuguez</i> +(pela orthographia conhecia-se que a pessoa +que escrevia era estrangeira, disse em parentesis D. +Eulalia) <i>natural do Porto;—Portugal.</i></p> + +<p>Graça Strech ouvia offegante.</p> + +<p>D. Eulalia proseguiu:</p> + +<p>—Do senhor ninguem sabia nada, mas como a carta +ficaria naturalmente perdida no correio, encarregamo-nos +de mandal-a ao acaso para onde estivesse o exercito. +Era o unico meio de lhe chegar á mão, caso o +senhor estivesse vivo. Nós nada sabiamos. Perguntamos +o que haviamos de fazer. Disseram-nos que a +mandassemos para Almeida, que era onde Wellingtão—ella +pronunciou assim,—tinha estabelecido o quartel +general. Para lá a mandamos, pensando que fariamos +bem. Visto isso o senhor não a recebeu?</p> + +<p>—Não recebi, minha senhora, respondeu Graça +Strech com difficuldade. Agradeço, porém, a vossas +senhorias o cuidado que tiveram e, para não as demorar +por mais tempo, recebo as suas ordens...</p> + +<p>—Tambem—atalhou D. Eulalia, vão sendo horas +da missa do Senhor dos Passos. Vamos lá. Se o sr. +Strech precisar d'alguma coisa, não tem senão mandar-nos +e dizer onde está, para que não se torne a +perder qualquer carta.</p> + +<p>Despediram-se. Ellas seguiram pela rua nova do +Almada a baixo, e elle caminhou em direcção ao +Campo de Santo Ovidio.</p> + +<p>A menina ia perguntando ingenuamente á tia:</p> + +<p>—Não seria mau agouro encontrarmos o Strech +na occasião em que eu ía a pensar no meu casamento?</p> + +<p>—O que tu quizeres! respondeu D. Eulalia. Reza +um <i>Credo</i> ao Senhor dos Passos e deixa-te lá d'agouros. +Deus é que sabe o que ha de acontecer.</p> + +<p>Graça Strech caminhava machinalmente, engolphado +em seus pensamentos. A carta era de Rosina. +Conjecturava elle que já devia ser mãe quando a escrevia.<span class="pn"><a name="pag_152">{152}</a></span> +Que diria ella? Coisas tristes, de certo. Os infelizes +vivem das desgraças que sonham e que soffrem. +Por muitas vezes escrevera elle para Napoles. Nunca +obtivera resposta. Aquelle horrivel silencio durava já +havia quatro annos. Nem ella nem Pietro escreveram +mais! O que haveria acontecido? Que ancia que elle +tinha de chegar a Italia, e, ao mesmo passo, que receios! +Não o esperariam lá novas dôres, maiores soffrimentos? +Que envelhecida mocidade aquella!</p> + +<p>Foi andando, andando, até que chegou ao cemiterio +de Cedofeita.</p> + +<p>Quando viu negrejar cruzes e louzas por entre as +verduras dos canteiros, estremeceu de subito. O pensamento +da morte vinha interromper os seus dolorosos +pensamentos. A sua familia estava ali, mas onde? +Rosina e seu filho onde estariam tambem, lá tão longe? +O cemiterio era solitario áquella hora, se não falarmos +das aves que faziam alegre matinada nas arvores.</p> + +<p>Só os noivos e as aves saudam jubilosos a manhã.</p> + +<p>Por isso madrugára a menina da rua nova do Almada +em competencia com os passarinhos do cemiterio +de Cedofeita.</p> + +<p>Graça Strech atravessou por entre as campas, confiado +em que o coração adivinharia o sitio em que +repousava a sua familia. Andou, percorreu as ruas todas, +e parou á beira d'uns comoros que não tinham +cruz nem lapide. Devia ser ali. As campas dos que +não deixam ninguem no mundo conservam-se abandonadas. +Quando muito, porque os despojos mortaes +são da natureza, veste-as a natureza de relva e flôres +silvestres. Sobre um dos comoros floresciam hervagens, +que pendiam á terra umas singelas boninas +brancas. Seria a homenagem da natureza á innocencia +de sua irmã? Não sabia. O silencio da morte guarda +todos os segredos. Ajoelhou. As avesinhas das arvores +funebres continuavam a cantar, a cantar!...</p> + +<p>Áquella hora, n'aquelle sitio, cria-se em Deus.</p> + +<p>A eloquencia das campas!</p> + +<p>Como tudo aquillo fala suavemente d'além-tumulo!</p> + +<p>No ruido das festas a ideia da morte é sempre um +pungente contraste. Mas não sei que amena tristeza +dulcifica a certeza do repouso eterno, nos cemiterios, +mórmente se é manhã, e as aves chilriam, e estremecem<span class="pn"><a name="pag_153">{153}</a></span> +nas hervagens as gotas d'orvalho, e um raio de +sol nascente doira uma cruz!</p> + +<p>Graça Strech sentiu-se subitamente soccorrido por +essa triste suavidade que a vista dos tumulos infiltra +aos desgraçados.</p> + +<p>Longo tempo esteve ali, ajoelhado, conversando +com os trez comoros os seus segredos de cinco annos. +No que estava florescido, curvou-se como se quizesse +falar para dentro. Conjecturava que seria o d'Augusta. +N'essa hypothese lhe contou as suas desventuras, +os seus amores, os sacrificios de Rosina, o destino +que dera ao annel, a afflictiva incerteza em que +estava, a ancia que tinha de beijar seu filho, de encontrar Rosina... Juntou lagrimas de saudade a palavras +de perdão, queixumes de animo attribulado a +hymnos de confiança em Deus...</p> + +<p>Não lhe havia dado tempo a sua trabalhada e desventurosa +mocidade para erguer o espirito acima das +coisas terrenas das preoccupações humanas.</p> + +<p>Pela primeira vez subiu até onde os fulgores da divindade +enchugam as lagrimas da oração. Muito acima +do mundo deve ser, porque já se não ouve então +o tumultuar da humanidade, e porque já ahi chovem +os balsamos da resignação sobre a alma angustiada.</p> + +<p>Ninguem diria que estava ali o soldado, o leão dos +combates. Nada ali falava de vingança, nem mesmo +a supposta sepultura d'Augusta. Nada se sabia do +mundo, d'aquella porta de ferro a dentro. Todavia +alguma coisa julgou ouvir a alma de Graça Strech. +Eram palavras intradusiveis que as hervagens ciciavam, +brandamente agitadas pela viração matutina. +Sem comprehender as palavras, entrou-lhe ao espirito +o pensamento d'ellas. Era a divina esperança do +<i>post tenebras spero lucem</i>, de Job, e ao mesmo tempo +o <i>Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini</i>, +do salterio.</p> + +<p>Graça Strech interpretou assim esses fugitivos murmurios +que soavam sobre a campa da sua irmã. +Trouxe do cemiterio a certeza de que depois das +trevas da vida veria luzir o sol da felicidade perpetua, +e de que não morreria sem ter tempo de narrar as +obras do Senhor.</p> + +<p>Isto equivalia á resignada esperança de não succumbir +á sua desgraça sem saber o destino de Rosina +e seu filho.<span class="pn"><a name="pag_154">{154}</a></span></p> + +<p>Adquirira ali a certeza de que a alma d'Augusta +abençoara do ceu a criança cuja mãe possuia o seu +annel. Levantou-se. Arrancou as parietarias que marinhavam +pelo muro proximo, e esparziu-as sobre os +trez comoros.</p> + +<p>—Se ahi estaes, minhas doces amigas—pensou +elle—recebei o primeiro e unico testemunho de saudade +que ainda vos manda o mundo esquecido de +vós. Pedi por mim, e pela familia que me resta na +terra, se Deus m'a tiver conservado. São tambem +vossos pelo coração. Adeus, abençoadas sejaes no céu +pelo conforto que me destes.</p> + +<p>E saíu do cemiterio, caminho do rio Douro, onde +estava fundeado o navio que n'essa tarde devia partir +para um porto d'Italia.</p> + +<p>A essa hora, na Fonte das Virtudes, havia expansiva +alegria. Um velho da familia Cerqueira dizia a +um menino da familia Brochado:</p> + +<p>—Vá, seu estudante, traduza-me lá a inscripção +da fonte: <i>Fons scalet, illustri virtutum</i>, etc. <i>Rompe +aqui esta fonte...</i> Vá, diga...</p> + +<p>—Pudera romper acolá, estando aqui o chafariz! +observou grosseira e acertadamente o menino.</p> + +<p>D. Izabel offerecia ao seu noivo um copinho da +agua da fonte, panacea para muitas molestias, entre +as quaes as inflammações dos olhos.</p> + +<p>Tinha bons sentimentos: não queria marido cego.<span class="pn"><a name="pag_155">{155}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>XVIII</h2> + +<h2>A Lenda d'Ashaverus</h2> + +<p>Comprehende-se com que anciosa impaciencia viajaria +Graça Strech. A Italia era para elle o unico raio +de sol que lhe doirava o horisonte fechado em torno +do navio. Ia ver Rosina e seu filho; agradecer a Pietro +a protecção que provavelmente a uma e outro tinha +dispensado, porque Rosina devia ser mãe havia +quatro annos. A carta perdida era decerto a boa nova +da maternidade... Mas, logo o animo, vesado a tristes +phantasias, descontava esta esperança com vagos +receios. Todavia a visita ao cemiterio de Cedofeita +insinuava-lhe na alma o doce calor da fé. Queria chegar +a Italia, desenganar-se. Levava ao berço do filho +a tranquillidade aprendida á beira do tumulo da irmã. +A Italia! a Italia! a terra promettida do Moyses errante! +Quando appareceu em frente do navio uma nuvem +pardacenta, e a voz de <i>Terra</i>! alvoroçou a tripulação, +o coração de Graça Strech doidejou desde +a alegria expansiva da criança até á timidez receiosa +da mulher.</p> + +<p>A Italia! O formoso sol da Italia a enxugar as lagrimas +de tão longa ausencia! A alma de Rosina Regnau a animar no desconforto, a premiar na alegria! +A alma e a voz! A liberdade do coração e da palavra! +Um lar modesto, muito modesto, pobre até, o filho +a esvoaçar d'um lado para outro, a chilriar, os cabellos +loiros a brincarem-lhe em derredor da cabeça; +Rosina a viver arroubada entre os sorrisos do pae e +do filho; n'uma palavra, a felicidade que não escurece +quando chega a noite; á porta, de cabellos alvejantes, +tranquillo, sentado ao sol, Pietro, o <i>canta-storie</i>, a concertar +as cordas da sua harpa, e a entoar, com a sua +voz já cançada, mas ainda sonora, a <i>Capuana</i>; fóra, +o céu d'Italia, o azul suavissimo, o sorriso da natureza, +a eterna primavera meridional!<span class="pn"><a name="pag_156">{156}</a></span></p> + +<p>De repente mudava-se o quadro.</p> + +<p>Via uma cruz tosca, n'um cemiterio de Pescadores +pendurado ao mar. Rosina, demudada e lutuosa, chorando +ao pé da cruz. Pietro, chorando ao pé de Rosina, +com a harpa silenciosa poisada diante de si. E +seu filho morto, sem o haver conhecido, sem o ter +beijado sequer!</p> + +<p>Outras vezes sonhava com a lividez da fome nas +faces de Rosina, da criança, e de Pietro!</p> + +<p>A vivandeira havia levado recursos. Era a sua ração +de dois annos, a migalha do canario. Havia no 18 +d'infantaria um quartel-mestre usurario. Graça Strech +fizera com elle uma transacção. O quartel-mestre ficava +recebendo durante dois annos o <i>prét</i> por inteiro, +e adiantára-lhe o <i>prét</i> d'um anno. Essa quantia, +administrada com economia, devia durar os dois +annos. Se a campanha acabasse antes d'esse praso, o +soldado devia indemnisar o quartel-mestre, que tinha +na sua mão um documento. Mas haviam-se passado +os dois annos, e outros dois. Graça Strech escrevera +muitas vezes para Napoles, como já dissémos, para +obter certeza do paradeiro de Rosina, e poder mandar +mais dinheiro. De nenhum vez obtivera resposta. +Haveria acontecido alguma desgraça? Mas tambem +quem conhecia em Napoles Rosina Regnau? Bem +se podiam lembrar de ir saber ao correio. Pietro andava +por fóra com a sua harpa; Rosina estava cuidando +do filho: não se lembravam. As mealhas que +Pietro recolhia, e generosamente repartia provavelmente, +abastavam a alimentação dos trez.</p> + +<p>Em Coimbra, disséra Rosina a Graça Strech, quando +elle lhe pedia que não soffresse privações sem o +avisar:</p> + +<p>—Se se acabar o dinheiro, eu, que posso ter voz +em Italia, irei cantando de rua em rua. Não receies +por mim. Atravessei pura o exercito francez; mãe, +atravessarei destemida o povo italiano. A honra da +vivandeira é um baluarte invencivel; não deixa profanar +a bandeira da sua lealdade.</p> + +<p>E logo, antevendo a triste solidão da ausencia, +rompeu em afflictivo chôro. Este era o natural de +Rosina: ora vivandeira, ora mulher. Logo em principio +o dissémos.</p> + +<p>Apesar da cega confiança que Graça Strech devia +ao amor de Rosina, não era a sua alma, quanto mais<span class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span> +se avisinhava da Italia, estranha ao ciume. No paiz +dos amores, o ciume, <i>la gelosia</i>, respira-se com o ar. +Ciumes de que lhe ouvissem a dulcissima voz, se tivesse +sido obrigada a acompanhar com o canto os +harpejos de Pietro; ciumes de que a applaudissem, +de que a vissem, de que a conhecessem. E, pensava +elle, quem ficaria olhando pela criança emquanto a +mãe andasse por fóra? Alguma mulher estranha, que +não a acariciaria se chorasse, que não a agasalharia +quando tivesse frio, que lhe não responderia meigamente +quando perguntasse pela mãe...</p> + +<p>Chegado que fôsse a Italia, procuraria, noite e dia, +sem descanço, sem tregua, e encontral-os-ia, e diria +a Rosina: «Fica tu ao pé de nosso filho, que eu vou +trabalhar», e a Pietro: «Continua a ser o guarda dos +dois, que eu velarei pela tua velhice.»</p> + +<p>E alternava risos com lagrimas, e agora falava e +logo emmudecia, com as mãos firmadas no bordo da +amurada e os olhos cravados na nuvem do horisonte, +que se ia aclarando cada vez mais, conhecendo-se +já, sobre o azul do céo, os contornos irregulares da +cidade.</p> + +<p>O capitão esteve-o medindo com o olhar ao lado +d'um passageiro que durante a viagem tinha conversado +algumas vezes com Strech.</p> + +<p>—Nunca vi tamanha commoção! disse o capitão +ao passageiro. Receio d'esta alegria em homem costumado +aos alvoroços de guerra.</p> + +<p>—Elle vinha ancioso de chegar a Italia, retrucou +o passageiro. O mais que me disse foi que, tendo +feito a campanha, vinha, doente e cançado, procurar +a Italia uma irmã, de quem, pela invasão de Portugal! +fôra obrigado a separar-se.</p> + +<p>—Muito a deve estimar então! ponderou o maritimo.</p> + +<p>E, aproximando-se de Graça Strech, disse-lhe affavelmente:</p> + +<p>—O sr. Strech morria-se por vêr Italia. Ahi a tem +agora.</p> + +<p>—É verdade, respondeu exaltado Graça Strech. +É verdade... A ancia de chegar... a incerteza... +tudo isto... Eu não estava costumado a estas sensações... +Por que emfim tudo hoje depende para mim +de Italia... Ó senhor capitão, quanto tempo gastaremos +ainda?...<span class="pn"><a name="pag_158">{158}</a></span></p> + +<p>O capitão, sem responder, achegou-se do outro +passageiro e segredou-lhe:</p> + +<p>—Eu não lhe dizia? Nunca vi tamanha commocção! +Queira Deus que não vá louco...</p> + +<p>Ah! o capitão entendia do mar; do coração, não. +Chamava loucura áquillo! A desvairada oscillação da +alma que pende entre um longo passado de trevas e +a unica esperança que lhe entreluz no céo do porvir! +É louco o naufrago que, baldeado entre os vagalhões +do oceano infrene, se abraça com a prancha +que lhe é dado alcançar, e que ou morrerá cuspido +contra os fraguedos ou fluctuará por mercê da +Providencia até que surja a véla branca, que é a bandeira +da paz nas luctas com o mar? É louco o caminheiro que se transviou ao anoitecer e sorri de +alegria á estrella da manhã, ainda que tenha de retrocecer +para continuar jornada? É louco o doente +que se felicita de haver acordado d'um pesadello +horrivel, esquecendo-se de que, d'ahi a horas talvez, +sobrevirá o sombrio pesadello de que não se acorda +mais—a morte?</p> + +<p>O coração tem as tempestades e as calmarias do +mar, é certo, os murmurios e os segredos das aguas, +mas o fundo do coração não está ainda tão estudado +como o fundo do oceano. A sondagem mente muitas +vezes. Quem já logrou medir a profundeza de certas +dôres?</p> + +<p>Tinha soado a hora do desengano ou da felicidade.</p> + +<p>Graça Strech estava finalmente em Italia.</p> + +<p>Começou desde logo a procurar, a procurar. Correu +todo o reino de Napoles—Napoleão puzera reis +em toda a parte—a pedir informações d'um velho tocador +de harpa, que se chamava Pietro, d'uma rapariga +franceza chamada Rosina Regnau e d'uma creança, +que devia ter quatro annos, e era filha da rapariga +franceza. Ninguem respondia. Quem em Napoles, +o paiz da musica, havia d'estremar um <i>sonatóre +di arpa</i>? Acudia afflictivamente Graça Strech a fazer +o retrato do velho Pietro para auxiliar a memoria dos +interrogados. Harpistas velhos havia tantos, uns que +viviam em Napoles, outros que passavam por lá, que +por fim de contas a população lembrava-se de todos +e não se lembrava de nenhum. A declaração de chamar-se +Pietro nada aproveitava. Ninguem se importa +com o nome dos menestreis das ruas, mórmente<span class="pn"><a name="pag_159">{159}</a></span> +quando todos os musicos ambulantes parece chamarem-se +Pietros. Rapariga franceza ninguem dizia tel-a +visto, e depois acrescentavam que talvez lá houvesse +estado, sem fazerem reparo n'ella, porque os francezes +sempre foram tão vulgares em Italia como os italianos +em França, por isso que a natureza pôz entre +as duas nações a ponte granitica dos Alpes.</p> + +<p>Graça Strech percorreu vertiginosamente todas as +estalagens, todos os albergues, recolheu informações +particulares e officiaes, e não soube nada.</p> + +<p>Disseram-lhe que talvez o harpista houvesse passado, +como é costume d'elles, a outras cidades d'Italia, +por isso que a concorrencia os afugenta de Napoles.</p> + +<p>Acceitou o alvitre. Visitou em seguida o reino da +Etruria, procurou sem descançar, como um cão que +perdeu o faro de seu dono. Uma tarde, em Piombino +um albergueiro pareceu recordar-se d'um harpista +velho que ali pernoitára havia um anno com uma +criança que lhe chamava avô. Vira só o velho e a +criança. De mulher franceza que os acompanhasse, +não tinha reminiscencia. Fizera reparo nos dois, pelo +contraste. O velho passára a noite á lareira com a +criança adormecida nos braços, afagando-lhe os cabellos +loiros, cobertos pelos seus cabellos brancos, +sem dizer uma palavra. Comeu pouco e bebera menos. +Pela manhã saíra com a harpa e a criança. Aqui +está o que o albergueiro de Piombino dissera, acrescentando unicamente: Quando elle sahia, perguntei-lhe +que rumo levava, porque realmente o harpista me +fez pena.</p> + +<p>O velho respondeu:</p> + +<p>—Vamos correr esse reino d'Italia, á mercê de +Deus. Bem vê que é preciso trabalhar: somos duas +boccas, e só temos dois braços—são os meus que já +pouco podem.</p> + +<p>A historia do velho e da criança fez profunda impressão +no animo attribulado de Graça Strech. Perdeu-se +em conjecturas. Seria Pietro? Haveria morrido +Rosina? O estalajadeiro não soube dizer-lhe o nome +do harpista. Sobretudo, a ideia da morte de Rosina +enlouqueceu-o de dôr. Seria possivel que ella morresse +sem o ver, sem o ouvir, sem lhe fallar, ella, que +tinha tanta coragem, que devia resistir energicamente +á morte, porque a morte era a separação eterna?<span class="pn"><a name="pag_160">{160}</a></span> +Aquella criança seria realmente seu filho, e viveria +no mundo sem pae nem mãe, apenas confiado á protecção +do pobre harpista napolitano, cuja velhice e +trabalhos em breve o prostrariam, se era que ainda +vivia a essa hora? E se elle já tivesse morrido, que +seria da criança na infantil inconsciencia dos seus +quatro annos, que tantos devia ter a ser seu filho? +Morreria enregelada no caminho, morreria de fome +entre duas arvores, no meio da serra, ou então haver-lhe-ia +estalado o pequeno coração depois de haver +estado a gritar para que acudissem ao avô, +que caíra ao chão e ficára esmagado pela harpa, +sem falar mais, sem responder ao seu afflictivo chamar.</p> + +<p>O albergueiro começou a notar extraordinaria agitação +na physionomia do hospede. Viu encovarem-se-lhes +os olhos, e estremecerem-lhe os musculos das +faces cadavericas pela magreza e pela lividez. Em +breve as contracções nervosas se estenderam a todo +o corpo. O caminheiro começou a tremer, a tremer. +Trouxeram roupa, cobriram-n'o. Pediram-lhe que se +deitasse; recusou. Esteve assim longo tempo, tremendo, +frio como o gelo. Depois, como o peso da +roupa fosse muito, começou a córar e a suar. Dizia +palavras que ninguem entendia. Aprumou-se de subito, +sacudiu a roupa. Foi direito á sua maleta, desafivelou-a +e tirou de dentro... a guitarra. Começou +a tangel-a febrilmente. A gente da pousada entreolhava-se +com pasmo. E cada vez as notas se precipitavam +com maior rapidez, até que, inesperadamente, +a musica foi afrouxando, parecendo unicamente +suspirar. Viram chorar o desconhecido, circumvagar +um olhar alheiado, e arrancar da sua guitarra apenas +gemidos e suspiros dolorosos.</p> + +<p>Tornaram a dizer-lhe que era melhor descançar. +Recusou com pertinacia.</p> + +<p>—Peço que me deixem ficar aqui, disse elle pausadamente para que o comprehendessem.</p> + +<p>Não queriam consentir; elle insistiu.</p> + +<p>Ouviram ainda por algum tempo suspirar a guitarra, +que depois se calou. Foram espreital-o: viram-n'o +com a cabeça poisada sobre ella. Estava assim, mas +não dormia; d'instante a instante viam-n'o estremecer. +Ao romper da manhã saíu. Mal se podia aguentar +a pé. Pediram-lhe que ficasse para se restabelecer;<span class="pn"><a name="pag_161">{161}</a><br><a name="pag_162">{162}</a><br><a name="pag_163">{163}</a></span> +agradeceu e partiu. Continuou, posto que debilitado, +a sua peregrinação indefessa.</p> + +<div class="ilustracao"> +<p><img src="images/pag_161.png" border="0" alt="Ilustração"></p> +<p>O povo, que tinha seguido todo este episodio... (<i>pag. 173</i>)</p> +</div> + +<p>—Eu já não viveria, dizia elle ás vezes, se não tivesse +ido ao cemiterio de Cedofeita buscar esta sombra +de fé que me ampara ainda!</p> + +<p>E lá ia, descançando uma hora, caminhando duas.</p> + +<p>Esteve em Turim. Perguntou, investigou, não soube +nada. Como para crear alento, que lhe permittisse +seguir jornada, sentava-se nas praças publicas a tocar +na sua guitarra. O povo fazia-lhe circulo. Elle não levantava +os olhos emquanto estava tocando, excepto +se ouvia falar alguma criança. Algumas vezes lhe chamavam +louco, porque lhe lançavam dinheiro ao regaço, +e elle não agradecia. Era o idiotismo da desgraça. +Estava pobre, gastára quanto levára comsigo nos +primeiros tempos da peregrinação. Se não fosse a +guitarra, morreria de fome. Pouco lhe importava a +vida sem Rosina e seu filho. Se não se matava, era +porque tinha ainda um resto de fé que o amparava.</p> + +<p>Foi a Milão. A mesma canceira: perguntar, sempre +perguntar. Inquiria todos os harpistas: nenhum lhe +soube dar noticias do velho Pietro.</p> + +<p>—Em Italia não estão! dizia elle. Tenho a certeza, +não ha recanto que eu não tenha batido.</p> + +<p>Atravessou a Suissa sem melhor resultado.</p> + +<p>Uma noite sonhou com as Ardennas: era a patria +de Rosina. Lembrou-se de que viveriam lá na supposição +de que elle, se fosse vivo, logo atinaria, por impulso +do coração, com o esconderijo que haviam procurado. +Passou a França: foi direito ás Ardennas. +Quasi se sentiu morrer diante d'aquelle paiz de florestas. +Ali havia nascido Rosina. Como ella o devia +amar para se esquecer do seu formoso ninho! Consultou +todas as arvores, bateu a todas as portas. De Rosina +Regnau ninguem se lembrava; Pietro, o velho <i>sonatóre</i>, +ninguem o vira. Graça Strech esteve ali muito +tempo: havia já tanto que saíra de Portugal! Teve +tentaçoes de se deixar morrer nas Ardennas. Queria +respirar ao morrer o ar que Rosina respirára ao +nascer. Chegou a pedir a Deus que lhe désse por tumulo +o berço d'ella. Mas, emquanto orava parecia fortalecer-se +a sua fé.</p> + +<p>Resignou-se a partir. Recomeçou a caminhar. Ia +no fim o anno de 1816. Disseram-lhe no caminho que +no inverno se reuniam em Pariz todos os musicos<span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span> +ambulantes. Para lá foi com a sua guitarra. Effectivamente +o enxame dos <i>virtuosi</i> enchia os cafés, as +praças e as ruas. Á porta dos theatros havia todas +as noites uma nuvem d'elles.</p> + +<p>A este tempo reinava em França Luiz XVIII. Napoleão, +não podendo resistir á colligação das potencias +alliadas, abdicou o imperio em Fontainebleau, +retirando á ilha d'Elba.</p> + +<p>O congresso de Vienna havia regulado os negocios +da Europa; sem embargo, Napoleão sonhava ainda +com voltar a França. Em março de 1815 desembarcou +em Cannes e entrou em Pariz. Pôde ainda vencer +em Charleroy e Fleurus, mas a hora solemne de +Waterloo bateu no relogio que marca a existencia +de vencedores e vencidos, e Themistocles teve de +pedir hospitalidade a Artaxerxes.</p> + +<p>Graça Strech ia caminhando e ouvindo as vozes +do povo. Quando soube do resultado de Waterloo, +disse de si para si:</p> + +<p>—A Providencia é justa. A minha familia não +precisava da minha vingança, porque a Providencia +se encarregou de punir o assassinio de todas as mulheres, +de todos os velhos e de todas as crianças. Ora +a justiça da Providencia não deixará de me aclarar +o mysterio que eu procuro desvendar ha tanto tempo. +Deus sabe se tenho forças para mais!</p> + +<p>Pouco antes de chegar a Pariz viu passar uma carruagem +seguida por uma ordenança.</p> + +<p>Perguntou quem era. Responderam-lhe:</p> + +<p>—É o duque de Richelieu, ministro de Luiz XVIII.</p> + +<p>Elle contestou serenamente:</p> + +<p>—Se fosse no tempo de Napoleão, ia um esquadrão +de cavallaria atraz da carruagem. Napoleão +mandava exercitos atraz de toda a gente.</p> + +<p>Dizia isto como um homem que se entre-lembra +vagamente das coisas do mundo. Passou a carruagem +do duque de Richelieu, e elle logo se esqueceu da +França para se recordar da missão em que ia consumindo +baldadamente a vida.</p> + +<p>—Vamos com Deus, e com a pobre guitarra! E +seguiu para Pariz.<span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>XIX</h2> + +<h2>A terra da promissão</h2> + +<p>Graça Strech chegou a Pariz no inverno de 1816.</p> + +<p>Estavam n'essa occasião agglomeradas na capital +da França as andorinhas errantes da musica das +ruas, que todos os annos saem do vasto ninho da +Italia, a percorrer a Europa inteira. De todos os <i>virtuosi</i> +que n'essa occasião poisavam em Pariz, apenas +cinco ou seis seriam francezes, e um só era portuguez, +Graça Strech.</p> + +<p>A guitarra, melancolicamente tangida por elle, +cuja dolorosa physionomia não era menos melancolica +do que a sua guitarra, despertava geral attenção. +Acrescia a circumstancia de que esse instrumento +não era dos mais conhecidos na orchestra dos musicos +ambulantes. Tudo isso concorreu para o éxito. +Graça Strech tinha sombrios alheamentos emquanto +estava tocando. Caíam-lhe em desalinho os cabellos +a esconder a fronte pallida e cadaverica. Era uma +bella cabeça d'artista em que muitos pintores fizeram +reparo. Um estudante d'esculptura chegou a +convidal-o para modelar-lhe o busto.</p> + +<p>Graça Strech respondeu:</p> + +<p>—Agradeço a sua amabilidade, senhor. Mas eu +sinto-me de tal modo cançado, que não póde ser +longa a minha vida. O senhor é muito moço ainda; +póde esperar. Se eu morrer em Pariz, aproveite a +minha mascara.</p> + +<p>A imprevista sobranceria d'esta resposta causou +sensação. Passou de bocca em bocca, e os homens +d'espirito começaram a olhar com certo interesse +respeitoso para o guitarrista estrangeiro. Uma noite, +no café <i>Evezard</i>, á esquina do Palais National, estavam +sobremodo animadas as mesas quando Graça +Strech entrou. Encostou-se á ombreira da porta e +começou tangendo a guitarra. Como não pedia esmola,<span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a></span> +interrompia-se a miudo para receber os óbolos +que lhe davam os <i>habitués</i> que entravam e saíam.</p> + +<p>Na primeira mesa á entrada estavam oito francezes, +todos rapazes mais ou menos artistas, que se +calaram a ouvir attentamente o guitarrista, tanto +mais que já o conheciam de nome. Como fixassem +a vista em Graça Strech, e falassem visivelmente a +seu respeito, procurou elle ouvir, dando-se o maximo +disfarce, tudo quanto diziam.</p> + +<p>—É assombroso! exclamava um, cuja pallidez denunciava +uma cabeça febrilmente enthusiasta.</p> + +<p>—Depois da pequena da harpa que esteve o anno +passado em Pariz com o velho das barbas brancas, +ainda não vi maior prodigio! acrescentou um cuja +physionomia denunciava um caracter franco e compassivo.</p> + +<p>—Que pequena era essa? perguntou no grupo um +<i>commis-voyageur</i>.</p> + +<p>—Era uma pequenita que parecia um passarinho +encostado a uma harpa. Acompanhava-a um velho +de cabellos brancos, a quem chamava avô, e que lhe +transportava a harpa. Impressionava o contraste. Seria +difficil dizer qual d'elles poderia melhor com a +harpa, se o avô ou a neta. Elle tinha tanto de velho +como ella de pequenina. E depois que tristeza dava +o vêl-a vestidinha de preto! Perguntava-se-lhe por +quem andava de luto:—Por meu pae e por minha +mãe—respondia ella com certa vivacidade triste, que +enternecia a lagrimas. Tu copiaste o grupo, pois não +copiaste, ó Maubert?</p> + +<p>—Copiei, respondeu o pallido rapaz que primeiro +falava, e que parecia absorto na contemplação do +guitarrista.</p> + +<p>—Sabes então mais alguma coisa a respeito da pequena +e do velho?</p> + +<p>—Pouco mais sei. O avô parecia empenhado em +não contar nada. Nem o encanto do mysterio lhes +faltava, a elles, áquelle soberbo inverno coberto de +neves e áquella infantil primavera que parecia vegetar +no gelo do avô! Quando lhes perguntei os nomes +para intitular os bustos, respondeu-me o velho:—Queira +pôr—<i>Pietro, sonatóre di arpa; Augusta, sonatrice, +lá piccola, nipotina mia.</i>—Fiquei triste com +a mysteriosa singelesa da resposta. Previ um romance. +Que querem? A doida da minha phantasia! Apertei<span class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span> +com o velho, fiz-lhe promessas para que me contasse +a sua. Não consegui nada. Lá partiram ambos +para Inglaterra.</p> + +<p>—Olha para o guitarrista! exclamou o de mais +compassiva physionomia.</p> + +<p>Olharam todos. Graça Strech estava sendo inconscientemente +o alvo de todas as attenções. Havia-lhe +descaido o braço; subitamente a guitarra emmudecera; +os cabellos do guitarrista, longos e annelados, +acompanhavam, pendidos a um lado, a inclinação da +fronte, e os olhos brilhavam através dos cabellos +com anciosa vivacidade. Era inutil dissimular: Graça +Strech estava ouvindo o que diziam na mesa proxima.</p> + +<p>—Escuta o que nós dizemos! ponderou o que estivera +contando a historia do velho e da criança.</p> + +<p>—É verdade!</p> + +<p>—Não se póde duvidar!</p> + +<p>—Lá começa a dedilhar de novo... Deu tino de +que fisemos reparo. Toca <i>pianissimo</i> para ouvir o +mais que dissermos.</p> + +<p>—É certo! <i>Che dolcemente!</i></p> + +<p>—Que terá elle comnosco?</p> + +<p>—Talvez não seja comnosco; talvez seja com o +velho e a creança, apostrophou o <i>habitué</i>-artista.</p> + +<p>—Ora, essa cabeça! Tu encontras romances em +toda a parte.</p> + +<p>—Espera! tornou observando o esculptor. Ia jurar +que os olhos d'este homem são os da pequenita! +Que semelhança!</p> + +<p>—Oh! oh! continua o romance! Esse molde de +novellas é velho, Maubert! D'esta vez o pae, que era +julgado morto, não volta da Terra Santa. Corre atraz +da filha, que ao partir para o combate entregára ao +avô. Tem-n'a procurado e não sabe onde pára. És +tu, Maubert, que vaes desfazer o mysterio. A Providencia +encarregou-te de dizeres: <i>Pára!</i> ao Ashaverus +do nosso seculo! Oh! oh!</p> + +<p>E os outros gargalharam em côro:</p> + +<p>—Oh! oh!</p> + +<p>—És tu que vaes mostrar ao Moyses da guitarra a +Terra da Promissão! disse um.</p> + +<p>—Que elle nos está ouvindo é certo, porque todos +repararam! exclamou o de mais dôce semblante. E +talvez seja algum desgraçado. Este mundo dos <i>virtuosi</i><span class="pn"><a name="pag_168">{168}</a></span> +das ruas tem tantos mysterios! Atravessam Paris +no inverno e a gente ouve-lhes a musica sem lhes +vêr a alma. Alguns d'elles parecem conversar com a +harpa e com o violino: é porque teem que lhes dizer. +Decerto que não são alegrias. Póde ser alegre +quem atravessa os Alpes a pé, e dorme para ahi em +qualquer canto, e vae correr a Europa inteira unicamente +fiado na agilidade dos seus dedos e na obediencia +das cordas? Creio que não. Parecem despreoccupados, +parecem, porque emfim elles teem +das aves alguma coisa: as azas pelo menos. Rouba o +filho a um passarinho, que elle, com o coração despedaçado, +tambem esvoaça em redor do ninho vasio. +Pensam vocês que nem ao menos lhes ha de +doêr a ausencia? <i>La rimembránza</i>, meus amigos, <i>la +rimembránza</i> chora muita vez nas harpas d'elles. Oh! +eu creio-o! E nós, apesar de nos deliciarem os ouvidos, +olhamol-os indifferentemente. No inverno dizemos: +<i>Cá estão!</i> Quando chega a primavera exclamamos: +<i>Lá fôram!</i></p> + +<p>—Tu pendes mais para o sentimentalismo, Guillibaud. +Maubert prefere a phantasia e o maravilhoso.</p> + +<p>—Olha! lá está ouvindo o guitarrista outra vez!</p> + +<p>—É notavel! Que curiosidade!</p> + +<p>De repente interromperam-se os commentarios. +Graça Strech aproximou-se de Maubert pedindo-lhe +o obsequio de lhe dispensar dois minutos d'attenção +em particular. Havia no seu olhar, nos gestos, na +voz, tão claros indicios de grande agitação, que Maubert immediatamente se levantou. Os outros, enquanto +os dois sahiam a porta do botequim, ficáram +dizendo:</p> + +<p>—Este Maubert é um bibliotheca viva d'aventuras.</p> + +<p>—Deixa lá, observára condoídamente Guillibaud. +A julgar pelo aspecto do guitarrista, o caso afigura-se-me grave d'esta vez. Talvez seja um romance +triste...</p> + +<p>—Se tu não havias de vir com o teu sentimentalismo!</p> + +<p>—És melancholico como uma lagrima!</p> + +<p>—Que não seja de vinho...</p> + +<p>—Tens razão: as lagrimas de vinho alegram.</p> + +<p>—São ellas de certo que vos dão essa continada +alegria! disse com enfado Guillibaud.<span class="pn"><a name="pag_169">{169}</a></span></p> + +<p>O leitor está porém impaciente de seguir Graça +Strech e Maubert. Vamos-lhes pois na piugada.</p> + +<p>Mal sahiram a porta, o guitarrista dirigiu-se immediatamente +ao esculptor em correcto francez:</p> + +<p>—Peço-lhe vivamente perdão, senhor, de o haver +privado da companhia dos seus amigos, mas o que o +senhor estava dizendo era tão extraordinario para +mim...</p> + +<p>—Ouvia-nos então? perguntou Maubert.</p> + +<p>—Ouvi tudo, e incommodei-o unicamente para +lhe pedir, não que me mostre a Terra da Promissão, +como jovialmente disseram os seus amigos, mas, quasi +o mesmo para mim, que me mostre os bustos do avô +e da neta...</p> + +<p>—Oh! isso é muito facil. Estamos a dois passos do +meu <i>atelier</i>. Vamos lá—respondeu o enthusiasta Maubert.</p> + +<p>Foram. Graça Strech ia concentrado, e cada vez +estugava mais o passo; Maubert observava-o de esguelha e começava a achar summamente extraordinario +aquelle homem, de quem se principiava a +falar.</p> + +<p>Era perto o <i>atelier</i>. Entraram. Graça Strech precedia +Maubert, tamanha era a sua impaciencia.</p> + +<p>—Aqui estão! disse o esculptor.</p> + +<p>Graça Strech, relanceando aos dois bustos um olhar +rapido e incisivo, vibrou um grito, ao mesmo tempo +doloroso e alegre, e, apontando para o do velho, exclamou:</p> + +<p>—É elle, é Pietro!</p> + +<p>Depois, demorando os olhos no busto da pequenita, +deixou escapar outro grito que parecia o magoado +estalar de todas as cordas da alma:</p> + +<p>—É minha filha! Não póde deixar de ser! Ca está: +<i>Augusta, sonatrice, la piccola!</i> Chama-se Augusta! +Comprehendo tudo. Rosina morreu, sim, já me não +póde restar duvida alguma. É horrivel! Morreu! E +pôde morrer sem esperar por mim! Pobresinha! Poz +á filha o nome de minha irmã. Era uma surpreza que +me queria fazer, e fez, realmente, mas que triste surpreza, +sr. Maubert, que desgraça esta! Olhe, aquella +pequena é minha filha. O senhor é artista... Veja +que bonito perfil aquelle... Por isso foi que o senhor +a modelou, pois não foi? Sim, é muito bonita! Disse +então que andava vestidinha de preto? É pela mãe!<span class="pn"><a name="pag_170">{170}</a></span> +Pobre Rosina! Oh! eu não creio ainda que tu morresses, +tu, que tinhas tanta coragem, tanta! Onde +está minha filha, senhor? Aquella não fala! Eu quero +ver minha filha, abraçal-a, beijal-a. Deixe-me beijal-a, +sim, deixe-me enganar. Bem póde ser que tambem a +morte já m'a tenha levado, e por isso deixe saciar-se +de beijos este pobre coração ha tanto tempo opprimido. +Olhe que gentil cabeça! Que semelhança com +minha irmã! É estar a vel-a, quando brincavamos +ambos e faziamos endoidecer o capelão das Chãs. +Sim, o senhor já me restituiu minha filha, mas Rosina, +a minha vida, o meu amor, que é d'ella, por que +não a modelou o senhor para que eu a pudesse beijar +agora!</p> + +<p>E, com o busto da pequenita apertado contra o +coração, pareceu oscillar.</p> + +<p>Maubert, que escutava commovido da enormidade +d'aquella dôr, e perplexo, porque não possuia todo o +segredo d'esse homem, acudiu a amparal-o.</p> + +<p>—Ah! não me roube a sua obra! exclamou Graça +Strech apertando o busto cada vez mais contra o coração, +que pulsava vertiginosamente. Não m'a roube. +Dou-lhe tudo, a minha guitarra, a minha vida, mas +não me arranque a felicidade que me deu. Isto não +é um pedaço de gesso inanimado, que o senhor modelou. +Não, isto é minha filha, a minha querida filha, +a Terra Prometida...</p> + +<p>E, fazendo esforço para tirar a voz que lhe faltava, +acrescentou:</p> + +<p>—Disse o senhor que o avô e a neta foram para +Inglaterra, pois não disse? Bem, vou atras d'elles. Por +França não tornaram a passar, ninguem mais os viu? +De Inglaterra só poderiam saír embarcados. Não é +provavel. Estamos no inverno. É a estação dos musicos. +Hei de encontrál-os lá. Hei de ver minha filha, +beijal-a doidamente, percebe? doidamente, e perguntar-lhe +onde é a sepultura de sua mãe. Quero ir lá +com ella, e com Pietro. Parece-me que ainda posso +dar vida a Rosina! Pois ella ha de deixar-se ficar fria +e calada, sabendo que eu estou ali, apenas separado +por uma camada de terra?! Está morta? Que me importa +a mim! Isso não póde ser obstaculo para o meu +amor, para este longo amor de sete annos, que não +póde acabar assim, que deve durar mais do que a +vida...<span class="pn"><a name="pag_171">{171}</a></span></p> + +<p>Maubert começava a receiar pelo guitarrista, que +ficou sopitado em demorada prostração. Piedosamente +o soccorreu, e quando Graça Strech tornou em si +viu o esculptor curvado carinhosamente para elle.</p> + +<p>—Muito obrigado! disse com voz flebil Strech. +Muito obrigado! Ah! aqui está o busto de minha filha!...</p> + +<p>—Que é seu, observou Maubert.</p> + +<p>—Sim, o senhor, que é bom, que é nobre, que tem +coração e talento, não podia negar esta felicidade a +um pae!</p> + +<p>—Agora, tornou Maubert, é partir para Londres. +Para isso basta atravessar o canal. Está prevenido? +A minha bolsa d'artista tem ainda para estas larguezas. +Está á sua disposição o preciso para tão pequena +viagem.</p> + +<p>—Muito obrigado, senhor, e acceito. Aqui está o +que eu tenho de meu: deu-m'o, como o senhor viu, +quem entrava e sahia do <i>Evezard</i>. Eu não pedia, porque +não era mendigo: era simplesmente um pae que +ha dois annos procurava por toda a parte a sua familia. +Conheciam a minha pobreza: davam-me alguma +coisa, eu acceitava, porque em verdade era pobre. +Agora não, agora não sou, porque finalmente achei o +rasto de minha filha! Não encontro Rosina, porque a +sepultura m'a roubou, mas ainda me parece que a hei +de resuscitar, porque o meu amor, este amor que +ainda me conserva a vida, deve realisar todos os prodigios.</p> + +<p>O mais que se passou entre o guitarrista e Maubert +não nos importa saber.</p> + +<p>Graça Strech embarcou ao outro dia para Londres. +O que se passaria na sua alma é facil de adivinhar: +era o que ahi ha de mais pungente doer da saudade +á mistura com o mais avido phrenesi da anciedade; +era o supplicio atroz da alma que lucta com o irreparavel +no ante-gosto d'uma felicidade orvalhada de +lagrimas.</p> + +<p>É preciso que um coração esteja muito retemperado pelo soffrimento para luctar, sem succumbir, +com tão violentos contrastes, tão oppostos extremos, +tão desencadeadas tormentas. Elle resistiu, porque +havia sete annos que soffria o mais que podem soffrer +homens.</p> + +<p>Chegou a Londres.<span class="pn"><a name="pag_172">{172}</a></span></p> + +<p>Era, como sabemos, o inverno.</p> + +<p>Fluctuava pelas ruas e pelos <i>cafés</i> uma colonia de +<i>virtuosi</i>. Gastou um dia, gastou dois, sem encontrar +quem procurava. Ao terceiro, viu muita gente reunida +n'uma praça. Estavam ouvindo uma harpa.</p> + +<p>Logo um presentimento lhe alvoroçou o coração. +Parou de subito, antes de romper o circulo, porque +uma dôr, cruciante como o queimar de um ferro em +braza, lhe atravessára o peito. Receiou morrer. Fez +porém um esforço, que devia tel-o prostrado a não +ser ainda aquella a hora de avistar a Terra da Promissão. +Apartou febrilmente o grupo, relanceou por +sobre as cabeças um olhar d'aguia, e com um só grito +fez emmudecer a harpa e affastar a gente que rodeiava +a harpista.</p> + +<p>Um homem de meia edade, que não era decerto +Pietro segurava a harpa, tangida por uma pequenita +vestidinha de preto.</p> + +<p>Era o mesmo perfil do busto;—assim devera ser +Augusta aos seis annos. Faltava, para completar o +grupo de Maubert, o original do outro busto: faltava +apenas Pietro.</p> + +<p>Graça Strech arrebatou nos braços a criança. Beijou-a, +abraçou-a, acariciou-a delirantemente, soffregamente, +doidamente.</p> + +<p>E por entre beijos e abraços repetia, sorrindo e +chorando:</p> + +<p>—Sou teu pae! Eu sou teu pae! Acredita-me, Augusta; +bem sei que te chamas Augusta.</p> + +<p>A criança tremia-lhe nos braços como um passarinho +que se sente comprimido, e procurava furtar +as faces aos beijos ardentes do desconhecido.</p> + +<p>—Pietro, filha, onde está Pietro?</p> + +<p>A pequenita, ouvindo pronunciar este nome, olhou +attenta no guitarrista, e respondeu com os olhos subitamente +marejados de lagrimas, dando uma suave +expressão de magua ao dialecto napolitano;</p> + +<p>—Morreu! Elle morreu. Tu é que talvez sejas meu +pae, porque dizia o avô...</p> + +<p>—Que dizia o avô, filha? perguntou anciosamente +Graça Strech.</p> + +<p>—Que meu pae tinha dado a minha mãe, <i>mia madre +poverella</i>, um presente para mim, e que se elle +não tivesse morrido, como nós julgavamos, tu me +conhecerias por esse presente. Se sabes o que é, então<span class="pn"><a name="pag_173">{173}</a></span> +és meu pae; dá-me muitos beijos que eu consinto.</p> + +<p>É o annel, filha! Ah! é o annel que eu dei a tua mãe.</p> + +<p>Isso mesmo! disse a criança sorrindo d'alegria. +Elle aqui está...</p> + +<p>E tirou do seio uma saquinha, pendente do pescoço, +onde guardava o annel.</p> + +<p>Trago-o aqui. Sou ainda muito pequinina, <i>padre +mio</i>, para o trazer no dedo.</p> + +<p>O povo, que tinha seguido todo este episodio, +olhou-se admirado quando viu a pequenita tirar do +seio a saquinha, e mostrar o annel.</p> + +<p>Era que para o publico, como para Rosina, aquelle +annel tinha mysterio.</p> + +<p>Graça Strech de novo colheu a filha nos braços, +de novo a beijou com os olhos razos de lagrimas, +mas a pequenita, soltando-se com vivacidade, disse +para o homem que segurava a harpa:</p> + +<p>Vamos lá, Giovanni, vamos com meu pae, que +não morreu!<span class="pn"><a name="pag_174">{174}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>XX</h2> + +<h2>O manuscripto de Pietro</h2> + +<p>Pietro morrera um anno antes, em Londres, logo +depois que de Pariz passára a Inglaterra. Acamou, +no miseravel albergue em que se hospedára com a +pequenita, victima d'uma febre aguda. Ás primeiras +horas de leito conhecera que era chegado o termo +da sua vida. Antes que estivesse impossibilitado de +raciocinar e falar, mandou chamar Giovanni, um antigo +conhecido, em quem depositava confiança e, não +sem difficuldade, porque já a cabeça começava a pesar +para a sepultura e o cerebro a escurentar-se com +as trevas da morte, lhe disse:</p> + +<p>—Giovanni, tu és um homem de bem e, diga-se a +verdade, inimigo de trabalhar. Tens vivido sempre +em companhia de musicos que te dão alguma coisa +porque tu lhes carregas com as harpas e os realejos. +Ora, meu amigo, é chegada a occasião de fazermos +um negocio e, nota bem, o ultimo.</p> + +<p>—Ora deixa-te de tolices!</p> + +<p>—Não são tolices, Giovanni; bem vês que já me +custa falar. Não posso perder tempo. Portanto, ouve-me +com attenção. A minha hora chegou e pouco me +importaria morrer se não tivesse uma neta...</p> + +<p>—Uma neta! Tu! Só te conheci um filho, que +morreu pequeno em Portugal.</p> + +<p>—Isso é um segredo que te não deve importar. +Essa criança que ahi está fóra é mais minha neta do +que se fosse filha de meu filho. Comprehendes que +morrendo tu, vae ella, coitadinha! ficar para ahi +desamparada. Isso é justamente o que eu não quero. +Sabes que a pequena tem talento...</p> + +<p>—Isso tem! respondeu Giovanni.</p> + +<p>—Aprendeu tudo quanto eu lhe ensinei—acrescentou +pausadamente Pietro—e já sabe mais do que +aprendeu. Deus nunca desampara os desgraçados! O<span class="pn"><a name="pag_175">{175}</a></span> +talento foi o patrimonio com que Deus dotou a minha +neta. Mas olha que é um capital cujo rendimento +chegava bem para nós dois! A pequenita bastava-lhe +roçar com as azas pelas cordas: logo sahia musica. +Ora a nossa sociedade artistica vae dissolver-se. Da +morte não se appella. Um dos socios, o gerente, retira-se +para a... eternidade. Fica o outro, que por ser de +menor edade não tem ainda credito na praça. É preciso +que tu, homem de bem, substituas o socio que +se retira, e entres apenas com a tua edade e com a +tua experiencia. A tua missão cifra-se em acompanhar +a avesinha, e defendel-a das ciladas do mundo. +Nota, porém, que te corre obrigação de não traíres a +confiança que um amigo moribundo deposita em ti. +Jura-me pela tua honra que serás exacto como tens +sido até hoje...</p> + +<p>—Juro, disse com firmeza e commoção Giovanni.</p> + +<p>—Muito bem. Logo que eu morra, olha tu pela +pequena, que fica sendo agora tua neta. Mas ouve +ainda, Giovanni, mas ouve-me bem. Eu supponho e +e com boas razões, que o pae d'essa infeliz menina, +morreu. Tudo me leva a crêl-o. Se algum dia, porém, +e Deus o permitta! o pae d'ella apparecer, dize-lhe +que te nomeie o objecto pelo qual elle ha de reconhecer +a filha: é um annel que ella traz n'uma saquinha +ao pescoço. De mim não quero que lhe digas +nada, porque n'este papel, que lhe entregarás, caso +o pae da menina não tenha morrido, deixo explicado +o mais que tinha a dizer. Se elle não surgir do tumulo +a reclamar a filha, o que é provavel, entrega +esse papel a Augusta, para que ella, em edade de o +entender, saiba com que amor eu a amei. Dá tempo +ao tempo. Espera que ella cresça e pense. Tens entendido, Giovanni? Agora dá-me a tua mão. Palavra +de homem de bem?</p> + +<p>—Palavra e juramento, disse Giovanni com profunda +commoção, e muitas lagrimas.</p> + +<p>E acrescentou:</p> + +<p>—Vae descançado, Pietro. Tua neta, pois que assim +lhe chamas, não ha de soffrer mal algum. Eu tenho +sido até hoje escravo da minha fidelidade. Tenho andado +pelo mundo atraz d'esses musicos, que afinal +me não pagam. Nasci preguiçoso, é verdade, Deus +me perdôe, mas tu bem sabes que me não pegou +ainda ponta de vicio. Nem bebo nem jógo. Fumar,<span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a></span> +fumo eu, mas isso é apenas um mau habito. Tendo +pão e tabaco, estou contente. Isso, é de sobra, dar-m'o-ha +a harpa de tua neta. Agradeço a esmola, e +toda a vida serei agradecido a ti e a ella. O dinheiro +que juntar eu lh'o guardarei. Comprará uns vestidinhos, +concertará a harpa, comprará outra melhor...</p> + +<p>—Isso não! isso nunca! interrompeu Pietro com +febril exaltação. A minha harpa nunca ella a deixará; +já lh'o disse, e ella prometteu-m'o.</p> + +<p>—Desculpa, Pietro, eu não pensei o que disse. +Emfim comprará o que quizer, porque todo o capital +será d'ella; eu serei unicamente depositario.</p> + +<p>—Bem! disse Pietro prostrado de commoção. Estamos +tratados para a vida e para a morte. Agora sae +por algum tempo, e manda-me cá a pequena.</p> + +<p>Saíu Giovanni e entrou Augusta.</p> + +<p>O doente esteve olhando para ella mui attentamente, +e exclamou:</p> + +<p>—Que linda és!</p> + +<p>A pequetita respondeu com beijos.</p> + +<p>—Olha lá, Augusta,—tornou Pietro—não te esqueças +da recommendação do annel. Oh! que se tu +encontrasses ainda teu pae! E d'ahi póde ser. Deus é +misericordioso. Se elle escapou á guerra, bem póde +acontecer que ainda algum dia o encontres. Deus o +queira, Augusta, anjo, filha. És tão pequenina, tão +pequenina, que cada vez me pareces mais um passarinho! +Emfim eu não havia de ser eterno; muito me +tem deixado Deus viver para teu amparo. Que linda, +filha, que linda! Olha... chama Giovanni, e vae ali +para fóra um momento... Tu és muito minha amiga, +pois não és?... Vae filha, vae, e chama Giovanni.</p> + +<p>Saiu a pequenita a cumprir a ordem.</p> + +<p>Giovanni abeirou-se do catre e recebeu da mão do +doente os papeis em que lhe falára.</p> + +<p>—Não posso mais! disse Pietro. Pesa-me tanto a +cabeça! Sabe Deus com que difficuldade tenho feito +tudo isto! E—acrescentou placidamente—para o enterro +já sabes que basta avisar o consul. Nós em toda +a parte somos italianos.</p> + +<p>Giovanni tregeitou, e o doente deixou caír contra o +travesseiro o craneo que parecia de chumbo. Nos trez +dias que se seguiram não mais tornou a falar. Entrou +em estado comatoso. Teve sempre os olhos fechados +até que a morte lh'os sellou para a eternidade.<span class="pn"><a name="pag_177">{177}</a></span></p> + +<p>O consulado italiano fez o enterro: só os summamente grandes e os summamente pequenos são enterrados +á custa das nações.</p> + +<p>Quem soube, na colonia fluctuante dos musicos +das ruas, que havia de menos uma andorinha viajeira?</p> + +<p>Os outros não souberam, porque, tendo por missão +voar de terra em terra, não lhes sobra tempo para se +demorarem á beira d'um tumulo.</p> + +<p>Soube-o o consul, e sentiam-n'o Augusta e Giovanni; +ninguem mais.</p> + +<p>A pequenita chorou muito, muito. Giovanni confortou-a +como pôde. O sol, que é a alegria de todos +os passarinhos, fez o mais.</p> + +<p>Começaram ambos a sua peregrinação.</p> + +<p>A pequenita, pobresinha! só tocava n'esses dias de +pungente saudade musicas tão tristes como a alma +d'ella. Ainda assim ouviam-n'a, achavam-lhe graça, e +davam-lhe dinheiro.</p> + +<p>O publico, em geral, reputa felizes os que convidam +á felicidade.</p> + +<p>E, em geral, engana-se sempre.</p> + +<p>Augusta sonhava quasi todas as noites com o avô. +Pela manhã dizia a Giovanni:</p> + +<p>—Esta noite vi-o. Lá me tornou a repetir que não +perdesse o annel.</p> + +<p>Outras vezes:</p> + +<p>—O avô, Giovanni, disse-me esta noite que te recommendasse +que fosses sempre muito meu amigo.</p> + +<p>As recommendações de Pietro, que a pequenina +ouvia em sonhos, não eram precisas. Nem Augusta +perdia o annel mysterioso, nem Giovanni se esquecia +das promessas que tinha feito.</p> + +<p>Elle guardava a sua palavra; ella o seu annel.</p> + +<p>E com esses dois thesouros se propunham correr +mundo.</p> + +<p>Giovanni pertencia ao numero dos homens-machinas +que só obedecem ao impulso do coração; ora +o coração era bom, e as obras boas sahiam, portanto.</p> + +<p>Nascera, como o cão de quinta, para a ociosidade, +mas, como o cão de quinta, era fiel.</p> + +<p>Durante o anno que acompanhou Augusta nunca +deslisou um passo do caminho do dever.</p> + +<p>Ella ia adiante com o seu annel no seio; elle seguia-a<span class="pn"><a name="pag_178">{178}</a></span> +com a harpa ás costas, avisando-a sempre da +aproximação dos trens e dos cavalleiros.</p> + +<p>Ao cabo d'um anno surgiu do tumulo Graça Strech, +para nos servirmos da phrase de Pietro. Feito o reconhecimento, +Giovanni entregou-lhe a filha e os papeis +que recebera, e diziam assim:</p> + + +<p class="centrado">MANUSCRIPTO DE PIETRO</p> + +<p>Estas são as minhas memorias. Dito-as para serem +lidas por Augusta ou seu pae, se é que não morreu, +para esclarecimento d'algum d'elles, ou de ambos, +se Deus o permittir.</p> + +<p>Felizmente aprendi a escrever, e fui nos primeiros +annos da minha vida empregado n'um escriptorio. +Depois morreu-me meu pae: faltou-me o leme. Desnorteei. +Troquei a penna pela harpa. Ha muitos annos +que o meu abecedario é o <i>do-ré-mi-fá-sol-lá-si</i>. +Ainda assim, apesar do muito que se soffre n'esta +vida errante, agradeço a Deus o inspirar-me que fosse +musico, porque tive occasião de fazer bem.</p> + +<p>Finou-se de saudades em viagem a <i>signora</i> Rosina. +Era um soffrer que fazia horror! Não havia palavras +que a consolassem, musica que pudesse distraíl-a! +Viajou chorando e suspirando; os olhos nunca ninguem +lh'os viu. Quasi não comeu. Acceitava, depois +de muitas instancias, uma agua de caldo apenas. Diziamos-lhe que era um crime deixar-se morrer; então +bebia. Chegámos a Napoles, e logo a <i>signora</i> me pediu +que tratasse de arranjar albergue, porque se sentia +muito doente. Em verdade estava muito falta de +forças. Quiz escrever para Portugal, e não pôde. Mal +pegava na penna descórava muito, e entrava de sentir-se +agoniada. Eu, vendo que semelhantes esforços +a estavam debilitando cada vez mais, pedia-lhe que +deixasse isso para quando estivesse melhor. Comecei a +dizer-lhe que não tinha geito metter-se em casa. Depois +de repetidas instancias, annuiu em ir commigo +ao anoitecer até á beira mar. Umas vezes voltava melhor; +outras vinha mais doente. No primeiro caso, +principiava a escrever. Escrevia algumas linhas, e já +estava fatigada. No segundo, passava a noite em convulsões, +e era preciso não a desamparar até pela manhã, +que só então cahia em somno. Eu ia porém instando +sempre pelos passeios. Ah! mas ver a <i>signora</i><span class="pn"><a name="pag_179">{179}</a></span> +um mez depois que chegámos a Napoles! Que differença! +Emagreceu, descórou, fez-se velha. Não parecia +a mesma! A primeira carta que recebemos de +Portugal causou-lhe tamanha impressão, que eu julguei +que morresse. Tive realmente medo. Chorou, +riu, delirou. A carta não dizia porém que o <i>signor</i> +Strech tivesse recebido as nossas. A <i>signora</i> inquietou-se +muito com isto.</p> + +<p>—Está lá sem saber nada de nós! disse-me ella. +E a mim que me custa tanto escrever!</p> + +<p>—Escrevo eu.</p> + +<p>—Nada, não quero, respondeu a <i>signora</i>. Hei de +eu escrever sempre; bem póde ser que alguma carta +lhe chegue ás mãos...</p> + +<p>—É que o exercito é muito grande, e depois anda +d'um lado para outro... disse eu prevenindo novas +commoções.</p> + +<p>Os soffrimentos da <i>signora</i> havel-a-iam prostrado +antes de ser mãe, se não fosse essa carta que recebeu +de Portugal. Beijava-a, relia-a, apertava-a contra +o coração; só n'aquillo achava allivio.</p> + +<p>Desde principios de maio de 1810 que a hora da +maternidade se annunciava para breve. Quiz—porque +ella tinha o presentimento da morte—escrever uma +longa carta, que devia ter chegado a Portugal em junho, +e que com certeza não foi recebida. Essa carta, +cujo conteudo ignoro, era de certo uma despedida, o +ultimo adeus da <i>signora</i>. Deixou o papel ainda sobre +a mesa, e caíu contra o leito em grandes gritos. Acudi-lhe, +e disse-lhe que não a tornaria a deixar escrever +mais.</p> + +<p>—Não me é precisa a sua licença, meu bom Pietro! +respondeu ella.</p> + +<p>Eu estremeci.</p> + +<p>Logo que serenou, fechei a carta, sem lhe poisar +a vista, e fui eu mesmo deital-a ao correio.</p> + +<p>No dia 22 de maio, pela manhã, chamei a locandeira, +que era piedosa, porque a <i>signora</i> me disse +que n'esse dia seria mãe.</p> + +<p>Soffreu doze horas. A final deu á luz uma menina. +Quiz ver a filha; mostrei-lh'a.</p> + +<p>—Que se chame Argusta, Pietro, que se chame +Augusta, recommendou a <i>signora</i>.</p> + +<p>Certifiquei-a de que esse seria o nome de sua filha.<span class="pn"><a name="pag_180">{180}</a></span></p> + +<p>Cobriu o rosto com o lençol, e começou a chorar +e a gemer. Por mais que lhe dissessemos, a locandeira +e eu, que procurasse socegar, não o conseguimos. +De noite delirou. Falava do <i>signor</i>, Strech, +d'Augusta, de Coimbra, do mar, do annel. A febre era +muita. Estáva córada como se as faces fossem duas +rosas: Eu tinha a menina nos braços; a locandeira +amparava a <i>signora</i>.</p> + +<p>Pela manhã adormeceu. Acordou muito fria. Estava +peior. Chamou-se o doutor, que receitou, e disse +que a <i>signora</i> corria grande perigo. Apesar dos remedios, +não aqueceu em todo o dia. Ao fim da tarde, +quando eu estava acalentando a menina para adormecel-a, +a <i>signora</i> deu de repente um grito, sentou-se +na cama, disse que não via, tornou a dar outro +grito, e cahiu morta.</p> + +<p>N'essa occasião chorava a criança como se adivinhasse +que estava orphã.</p> + +<p>Fiz um enterro decente á <i>signora</i> Rosina, adquiri, +com o auxilio do consul, o direito de a sepultar n'uma +campa perpetua e mandei-lhe pôr um singelo epitaphio +que diz: «Aqui jaz Rosina Regnau.»</p> + +<p>Escrevi para Portugal a dar parte do triste acontecimento, +que me custou talvez mais—Deus me +perdôe!—do que a morte de meu filho.</p> + +<p>Não recebi resposta, nem tornei a receber mais +cartas. Quiz partir para Portugal. Informei-me. A +guerra continuava cada vez mais renhida. Que havia +eu de ir fazer a Portugal com uma harpa ás costas e +uma criança ao collo? Demorei-me ainda um anno +em Napoles para dar tempo a crear-se a menina. Foi +uma ama dos arrabaldes quem a amamentou.</p> + +<p>Eu ia todos os dias vêl-a, e saber da ama se era +preciso alguma coisa. Durante esse tempo não recebi +carta do <i>signor</i> Strech. Não obstante, continuei escrevendo +sempre. Sabia-se que continuava a guerra. +Não tinha certeza de que as minhas cartas fossem +entregues, e de que o <i>signor</i> vivesse ainda. Maguava-me +tão longo silencio, porque emfim eu cada vez +ia envelhecendo mais. Ao cabo d'um anno peguei na +menina e na harpa e comecei a minha peregrinação, +porque estava exhausto de recursos. Em Napoles ha +sempre muitos musicos, e a concorrencia prejudicava-me. +Alguns eram velhos, e estavam tão pobres +como eu. Além d'isso, fallecera a dona do albergue,<span class="pn"><a name="pag_181">{181}</a></span> +repentinamente, e quando eu sahia entravam os crédores. +Tive pena d'aquella boa mulher que tão caridosamente +tratára da <i>signora</i> Rosina. Como ella sabia +do nosso segredo, habituei-me a consideral-a +pessoa de familia. Nunca essa honrada creatura revelára +a ninguem as máguas da mãe d'Augusta. Eu +tinha a certeza. O segredo descia com ella á sepultura. +Senti os olhos rasos de lagrimas quando a vi +sahir para o cemiterio e me encontrei com os crédores +que entravam. Era preciso ganhar vida, porque +eramos duas pessoas a alimentar, melhor direi pessoa +e meia. Fui andando e tocando harpa. As noites, +dormia-as com a menina ao collo. Se eu era avô! +Ás vezes apertava commigo a tristeza. Lembro-me +de que uma noite em Piombino, n'um albergue onde +me recolhi, me deixei entristecer tanto, contemplando +a menina adormecida nos meus braços, lembrando-me +ao mesmo tempo da <i>signora</i> e do <i>signor</i>, ambos +mortos para ella, que, francamente o confesso, +n'essa noite envelheci dez annos. Todavia, logo que +nascia o sol, nascia com elle o grande lenitivo dos +desgraçados: o trabalho. Ia tocando na minha harpa, +e vivia. Uns davam-me esmola por me ouvirem; outros +por me vêr com a menina: muita vez o conheci.</p> + +<p>Corri a Italia toda: vi bem a minha patria. Entretanto +a menina ia crescendo. Que espertesa que revelou +desde os primeiros annos! O seu gosto era estar +a bulir nas cordas da harpa. E o caso é que ás +vezes, acaso ou não, combinava sons. Lembrei-me +de que a menina podia aprender musica. Seria o seu +dote. Bem precisava ella d'algum. Tinha nascido tão +pobre, que me considerava seu avô, a mim, um musico +ambulante! Com oito mezes d'aprendizagem era +um gosto ouvil-a! Parecia impossivel! Dispensei-me +de tocar, porque as mãosinhas da menina eram um +prodigio! Bastavam ellas para fazer a colheita que era +sempre abundante. Comprei roupa á menina; trazia-a +uma princesasinha. Verdade é que sempre de luto. Todo +o meu fim era obrigal-a a perguntar-me porque vestia +de preto. Queria gravar-lhe bem na memoria os +soffrimentos de seus paes, que extraordinarios foram +em verdade. E se fores tu, Augusta, que leias este +papel, e não teu pae, como muitas vezes acredito +que serás, mais uma vez te peço que conserves sempre +viva em teu coração a memoria d'esses dois grandes<span class="pn"><a name="pag_182">{182}</a></span> +desgraçados, que mais o foram por tua causa. +Mas que talento o d'essa criança! Ainda outro dia, +em Pariz, um rapaz esculptor pediu o meu consentimento +para nos modelar a ambos em gesso. Não foi +por minha causa, não. Eu não tenho orgulho senão +de ser avô da menina... Avô! Sim, pelo coração não +posso deixar de o ser. O verdadeiro avô não lhe quereria +mais. Mas o tal esculptor encantou-se com a +menina. Quem se não ha de encantar? Modelou-a. +Foi a primeira estatua levantada em honra da pequenina +harpista. A mim modelou-me de certo pelo contraste. +Deu-lhe graça vêr a cabeça d'um velho ao pé +do rosto d'uma criança. E que formoso rosto, <i>sangue +di Christo</i>! Como eu gostei de ver a menina assim +retratada! Mal diria eu que um mez depois havia +de soar a hora de me separar d'ella. Não me custa +deixar o mundo, onde se soffre tanto; custa-me deixal-a +a ella, porque a amo muito. Não quero, porém, +ser ingrato para com Deus. Grande mercê me fez em +me não levar quando a menina era mais pequenina. +Egora sinto-me sem forças. Ha muitos dias que estou +doente. Não tenho querido acamar para não entristecer +a menina. Mas hoje, a tal ponto receio por mim, +que vou mandar chamar o meu velho conhecido Giovanni +para lhe fazer as minhas ultimas disposições.</p> + +<p>Dizem todas respeito á menina.</p> + +<p>Giovanni ficará depositario d'ella, que é o meu thesouro. +Giovanni é preguiçoso, mas um verdadeiro homem +de bem. Muitas vezes tive occasião de o reconhecer. +Eu não podia fazer melhor eleição. A minha +harpa, que lego á menina, ganhará para os dois, e +Giovanni será incapaz de guardar para si o que pertencer +á menina.</p> + +<p>Morro n'esta certeza. Giovanni é mais fiel do que +um cão.</p> + +<p>Estão, pois, saldadas as minhas contas com o mundo, +com a <i>signora</i> e o <i>signor</i>. Fiz quanto pude, e me +mandava o coração. Da justica de Deus não me arreceio. +Deus bem vê a minha alma.</p> + +<p>Torno a repetir que escrevo este documento para +que Augusta melhor comprehenda um dia como eu a +amei, ou para que seu pae, se Deus o resuscitar, porque +em verdade o supponho morto, veja que não +trahi a confiança que depositou n'um desconhecido. +Se eu morresse em Napoles, quereria ser enterrado<span class="pn"><a name="pag_183">{183}</a></span> +ao pé da <i>signora</i>. Não fui o seu guarda em vida? Continuaria +a sel-o depois de morto. Como de certo +morro aqui, porque a minha doença é grave, apenas +tenho a pedir que rezem um <i>Padre Nosso</i> pela minha +alma, quando abrirem este documento, que fica +em poder de Giovanni.</p> + +<p><i>Fechado em Londres aos 25 de novembro de 1815:</i></p> + +<p> </p> + +<p class="assin">P<small>IETRO</small>.<span class="pn"><a name="pag_184">{184}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>XXI</h2> + +<h2>Epilogo</h2> + +<p>Estava escripto no livro dos destinos que não houvesse +felicidade completa para Graça Strech. Encontrava +o coração da filha como verdejante oasis no +immenso deserto que a morte de Rosina lhe estendia +deante dos olhos. Era uma gota d'agua para matar +uma sêde d'amor que o requeimou durante sete annos; +um só raio de sol que se coava á negridão em +que o destino o havia enclausurado; uma unica flôr +a alegrar o caminho interposto á velhice precoce e +á valla que o esperava algures.</p> + +<p>Entre lagrimas e sorrisos apertou contra o coração +esphacelado o corpinho flexivel da criança; tinha a +filha nos braços e sentia nas mãos a friagem da terra +que cobria a campa da mãe; irradiava-lhe uma aurora +contra o rosto, e os clarões cambiantes espelhavam-se +no pranto que lhe sulcava as faces.</p> + +<p>Devia remoçar, e sentia-se velho.</p> + +<p>Parecia abrir-se-lhe a porta do paraizo e, em vez +de transpôl-a, pedia á criança que o acompanhasse +ao cemiterio de Napoles, onde Rosina jazia.</p> + +<p>Giovanni julgou importuna a sua presença, e balbuciou +soluçando umas palavras de despedida.</p> + +<p>Graça Strech travou-lhe da mão e disse:</p> + +<p>—Giovanni, tu eras o guarda de minha filha; sê +agora o companheiro da filha e do pae.</p> + +<p>Giovanni correu a beijar a menina com lagrimas +d'alegria nos olhos; era quasi o cão a festejar o dono.</p> + +<p>Partiram.</p> + +<p>Ao passar em Pariz, Graça Strech foi com a criança +procurar o esculptor Maubert. Entrou no <i>atelier</i> e +disse ao artista:</p> + +<p>—Aqui tem o original do seu busto, senhor: é minha +filha. Falta o nobre Pietro: roubou-o a morte. +Eu não quiz atravessar a França sem lhe vir agradecer<span class="pn"><a name="pag_185">{185}</a></span> +o serviço que me prestou. Não encontraria minha +filha, se o senhor me não ensinasse o caminho. +Que Deus lhe torne em alegrias o que a mim me +deu em consolação. O senhor receberá o premio da +sua benevolencia para commigo lá onde os bons e os +desgraçados são remunerados condignamente.</p> + +<p>Seguiram para Italia. Graça Strech estava ancioso +de chegar a Napoles, onde se demoraram oito dias, +visitando de manhã e de tarde o <i>Campo Santo</i>. O +que elle confidenciou junto á lousa de Rosina Regnau +ninguem o ouviu, nem é dado avental-o, porque +ha dôres que só se comprehendem quando se +experimentam. Os labios do pae, ajoelhado á beira +da campa, ciciavam de todas as vezes palavras inintelligiveis; +a filha, ajoelhada ao pé do pae, tinha as +mãos postas, e denotava doloroso recolhimento. Não +rezava, porque ninguem a tinha ensinado a rezar. A +falta das mães é tamanha que até Deus a sente! Giovanni +completava o grupo, posto o joelho em terra, +e alternando olhares respeitosos entre o pae, a filha +e a campa.</p> + +<p>Ao cabo d'oito dias a menina mostrava-se doente. +Graça Strech tremeu da tristeza da criança, e perguntou-lhe +o que tinha.</p> + +<p>—Faz-me medo estar no cemiterio! respondeu Augusta +chorando.</p> + +<p>—Tens razão, filha, disse Graça Strech. Mas o que +havemos nós de fazer agora no mundo todos trez?</p> + +<p>—Eu toco a minha harpa, tornou com vivacidade +a pequenita. O papá toque a sua guitarra. Giovanni +vae comnosco.</p> + +<p>Graça Strech não teve animo de recusar.</p> + +<p>—Voltemos então a França, alvitrou elle. Eu vi a +sepultura de tua mãe; quero agora vêr o seu berço. +Iremos ás Ardennas.</p> + +<p>—Mas as Ardennas não são tão tristes como o cemiterio, +pois não? perguntou ingenuamente Augusta.</p> + +<p>—Não são, filha, não são. Para tua mãe eram o paraizo +d'onde eu a expulsei.</p> + +<p>Foram musicando. Notavam-se entre todos os <i>virtuosi</i>, +além da maguada sympathia que filha e pae inspiravam, +pela melancolia do seu repertorio. A guitarra +d'elle e a harpa d'ella falavam a linguagem da +saudade. Se o publico as ouvisse no <i>Campo Santo</i> +de Napoles, á beira d'um cómoro, devia comprehendel-as.<span class="pn"><a name="pag_186">{186}</a></span> +Estiveram nas Ardennas, onde os camponezes +sahiam em ranchos a ouvil-os. Alguns d'elles, vendo +o guitarrista esquecido a olhar para o cimo das montanhas, +com o braço paralysado, diziam entre si:</p> + +<p>—Aquelle homem não tem a razão clara!</p> + +<p>Passando-se depois a Pariz, encetaram o viver errante dos passaros. Graça Strech tirava do amor com +que idolatrava a filha as forças com que vivia, e tinha +desvairamentos nervosos se se demorava a contemplar-lhe +as faces pallidas, da meiga pallidez da +irmã, e os olhos fundos e brilhantes.</p> + +<p>Quedava-se a olhar n'ella com a fronte banhada de +suor frio.</p> + +<p>—O papá gosta tanto de me vêr! exclamava a menina +ao mesmo passo carinhosa e amedrontada da +sombria physionomia do pae.</p> + +<p>—Gosto, filha. É que eu sou pae e desgraçado! Se +tu morresses, enlouquecia.</p> + +<p>—Eu não morro. O papá não diga isso, que me +faz medo. Deixe-se de estar a pensar, papá! atalhava +a menina. Ó Giovanni, traz a harpa; não estou contente +senão quando a tenho ao pé de mim! O papá +não ralhe, porque eu sou muito sua amiga tambem.</p> + +<p>Decorreram os annos. O botão de rosa fez-se flôr. +Flôr melancolica como as que pendem aos sarcophagos.</p> + +<p>Graça Strech procurava suavisar quanto lhe era +possivel a sua continua peregrinação. A menina, tomada +de febril impaciencia, dizia ao pae que havia +de morrer no caminho tocando harpa. E acrescentava:</p> + +<p>—Bem diz o papá: nós somos como os passaros. +Elles tambem só parecem alegres quando voam!</p> + +<p>No inverno de 1824—tinha Augusta quatorze annos—começou a soffrer do peito.</p> + +<p>Estavam de novo em Londres.</p> + +<p>Augusta queixava-se de dôres vagas; e tossia.</p> + +<p>—Fujamos de Londres! disse Graça Strech fitando +a filha com atormentado semblante.</p> + +<p>Em França os soffrimentos continuaram, se bem +que a menina, para não desalentar o pae, procurasse +animar-se d'uma alegria que por bastante transparente +deixava entrever o disfarce.</p> + +<p>Seguiram para Italia. Enflorava-se a formosa do +Mediterraneo com as galas da primavera de 1825.<span class="pn"><a name="pag_187">{187}</a></span></p> + +<p>Caminho de Florença nos ultimos dias de março, +colhera-os ao entardecer a tempestade no caminho. +Tiveram de estugar o passo para recolher-se no albergue +de Pistoja. A menina chegou anciada, e afogueada +das faces. Deitou-se logo. O pae, atordoado +como ebrio, não a desamparou em toda a noite. Pela +manhã, Giovanni foi poisar a harpa ao pé do catre. +Augusta reprehendeu-o. Disse que no dia seguinte +tocaria. Veiu o outro dia, vieram muitos, e a menina +nem queria erguer-se nem ver a sua harpa.</p> + +<p>—Então já não és como os passaros? perguntou o +pae com voz que mal podia romper através das lagrimas.</p> + +<p>Augusta viu chorar o pae, e disse para Giovanni:</p> + +<p>—Os passaros tambem cantam no ninho: vai buscar +a harpa.</p> + +<p>Tirou alguns sons, e não pôde continuar.</p> + +<p>D'ahi a trez dias chamou de novo Giovanni e disse-lhe:</p> + +<p>—Hoje estou boa; vae buscar a harpa.</p> + +<p>O pae quiz illudir-se ainda: sorriu.</p> + +<p>A menina vibrou as primeiras modulações e deixou +pender os braços.</p> + +<p>Acudiu o pae a chamal-a. Não respondeu. Giovanni +agitou-a docemente e conheceu que estava morta.</p> + +<p>A avesinha não pôde completar o seu cantico de +despedida.</p> + +<p>Desde essa hora Graça Strech affigurava-se idiota. +Unicamente pareceu illuminar-se-lhe por instantes a +razão quando disse a Giovanni:</p> + +<p>—Meu bom amigo, meu fiel amigo, não tenho mais +que te dar: péga n'essa harpa e deixa-me viver em +paz. Adeus, até á hora do resgate.</p> + +<p>Giovanni quiz falar. Elle não consentiu; afastou-o +com um gesto.</p> + +<p>E deixou-se ficar dois dias com a cabeça apoiada +nas mãos.</p> + +<p>Levavam-lhe de comer: recusava.</p> + +<p>O dono do albergue entrou a inquietar-se e acabou +por ir a Florença avisar o consul portuguez. Chamado +Graça Strech ao consulado, muito laconicamente +respondeu ás perguntas que lhe fizeram. O consul reputou a sua tristeza nostalgia, aggravada pela impossibilidade +de se transportar á patria. Deu-lhe um passaporte +para Portugal. Graça Strech nem agradeceu<span class="pn"><a name="pag_188">{188}</a></span> +nem rejeitou. Ao outro dia foi o consul a bordo para +o recommendar ao capitão. Faltava Graça Strech. +Mandou procural-o ao albergue. Encontraram-n'o sentado +com a cabeça firmada nas mãos. Deixou-se conduzir +ao navio. Subiu á coberta, e sentou-se n'um +banco, na mesma posição. O navio largou; elle não +ergueu os olhos.</p> + +<p>Passados mezes via-se nas ruas do Porto um estranho +homem; andava arrimado a um bordão, porque +coxeava. Alguem, por caridade, o vestira: trazia sobrecasaca +abotoada e chapeu alto amolgado. Realçava +sobre esta pobreza a medalha de prata da guerra peninsular +em competencia com um annel de ouro que +brilhava na mão esquerda. Como o vissem apanhar +do chão pontas de cigarros, e manipular um longo +rolo de tabaco, perguntavam-lhe por que não vendia +o annel.</p> + +<p>Respondia sempre:</p> + +<p>—Porque este annel tem mysterio.</p> + +<p>E, surdo a outras perguntas, começava tangendo +maviosamente a guitarra que trazia sobraçada. Se alguem lhe dava esmola, recebia-a; jámais a implorou. +Decorridos mais alguns mezes appareceu acompanhado +por um cão, e de tal modo se estimavam, cão +e homem, que o cão parecia escutar attento o guitarrista, +e o guitarrista defendia energicamente o seu +companheiro quando era açulado pelo rapazio.</p> + +<p>Onde encontrára o guitarrista o cão?</p> + +<p>É que o primeiro tivera de pedir hospitalidade ao +segundo.</p> + +<p>N'um quintal da rua das Fontainhas, logo á entrada, +descendo do Jardim de S. Lazaro, ha ainda +hoje um casebre, que n'esse tempo pertencia a duas +pobres mulheres, donas do cão. Ali piedosamente +receberam o guitarrista, que na primeira noite de +hospedagem fôra mordido pelo animal, que dava +pelo nome de <i>Janota</i>, e se rebellara contra todos os +affagos do hospede. Indignou-se o guitarrista da feresa +do seu companheiro, e lembrou-se d'um facto +semelhante que em Portugal occorrera durante a +primeira invasão franceza. Em Abrantes, em 1807, +um official portuguez poupou a vida de Junot; sem +embargo, fôra, dias depois, fuzilado, não sei a que +pretexto, por ordem do mesmo Junot.</p> + +<p>O guitarrista, applicando ao caso esta recordação<span class="pn"><a name="pag_189">{189}</a></span> +da sua mocidade, começou a dar ao cão o nome do +general francez.</p> + +<p>Ao cabo d'algum tempo de convivencia, o nome +não tinha razão de ser, porque homem e cão viviam +em boa camaradagem; todavia subsistiu. As proprias +donas do casebre se habituaram a dizer <i>Junot</i> em +vez de <i>Janota</i>. Em tamanha pobresa permaneceu o +guitarrista até novembro de 1857, epoca em que o +meu amigo, o sr. Antonio Martins Leorne, teve casualmente +occasião de falar-lhe.</p> + +<p>Passava na Batalha quando o guitarrista, sentado +nas escadas da egreja de Santo Ildefonso, estava +sendo chasqueado por trez estudantes do seminario +episcopal. Movido de indignação, subiu as escadas, +e ameaçou os seminaristas com denuncial-os ao prelado. +Os rapazes debandaram amedrontados, e o +guitarrista levantou-se para agradecer ao sr. Leorne. +Pelas breves palavras que trocaram, conheceu este +cavalheiro que estava ali um lucido espirito e um +nobre coração esmagados pela desgraça. Tanto bastou +para começar a protejel-o, até que no mez de +novembro d'esse anno conseguiu que fosse admittido +no hospital dos Entrevados de Cima de Villa. O guitarrista +acceitou reconhecido. Mas, quando lhe foi imposta +a condição de usar o vestuario dos asylados, +reagiu tenazmente. Só puderam convencel-o a transigir +repetidas instancias do sr. Leorne.</p> + +<p>Durante a sua estada no hospital de Cima de Villa, +grato á protecção recebida, abriu-se em frequentes +confidencias com o seu protector. Algumas vezes +lhe escreveu, assignando-se Graça Strech, se bem +que os registos de admissão e obito o nomeiem Conceição +Graça.</p> + +<p>Bem póde ser que o infeliz, talvez por melindre +que nos não é dado perscrutar, negasse ao escripturario +o verdadeiro appellido de sua familia, e facilmente +se comprehende que o registo de obito foi +modelado pelo registo de entrada no hospital.</p> + +<p>O leitor, antes de eu ter denunciado o nome do +estranho guitarrista, já o havia conhecido de certo, +confrontando-o com a personagem que apparece nas +primeiras paginas d'este livro, e achando-os em tudo +semelhantes.</p> + +<p>Graça Strech falleceu no hospital dos Entrevados +de Cima de Villa a 20 de maio de 1850. Antes de expirar,<span class="pn"><a name="pag_190">{190}</a></span> +entregou ao seu protector, que lhe assistiu aos +ultimos momentos, a medalha da guerra peninsular, +com que fôra condecorado, e que o sr. Leorne ainda +hoje possue<sup><a href="#nota15" name="m_nota15">[15]</a></sup>. O annel mysterioso, por expressa recommendação do moribundo, desceu com o cadaver á +sepultura. Outra piedosa pessoa, a quem o sr. Leorne +revelára as qualidades e soffrimentos de Graça Strech, +se encarregou de fazer-lhe os funeraes na capella do +Prado do Repouso, reservando para si a guitarra +que elle por tão longos annos dedilhára.</p> + +<p>Aqui podia terminar a biographia de José Maria da +Graça Strech, mas, para que fique mais completa, +concluiremos copiando textualmenle as unicas palavras +que até hoje falavam d'elle:</p> + +<p> </p> + +<p class="sinopse"><i>João José Duarte Machado, capellão director do cemiterio do Prado do Repouso, n'esta cidade do Porto:</i></p> + +<p>«Certifico que no livro quarto do registo dos obitos +e enterramentos dos adultos, a folhas trezentas +setenta e sete, verso, se acha o assento seguinte:</p> + +<p>«José Maria da Conceição Graça, filho de Francisco +Pinto Graça, e de Maria da Gloria, natural do +Porto, edade sessenta e seis annos, estado solteiro, +profissão mendigo, morador que foi no Hospital de +Cima de Villa, dos Entrevados, falleceu de molestia +não denominada pelas nove horas da noute do dia +vinte de maio de mil oitocentos cincoenta e nove; +depois de se lhe rezarem os responsos do costume +foi sepultado pelas oito horas da noute do dia vinte +e um do dito mez n'este cemiterio publico—Prado +do Repouso—no canteiro numero tres, sepultura +dois mil trezentos e seis, de que se fez este termo +que assigno com o reverendo capellão. Eu Antonio +José Antunes Barbosa, director, o subscrevi. <i>Antonio +José Antunes Barbosa</i>, director. <i>Francisco Alves da +Soledade</i>, capellão.</p> + +<p>«Não contém mais o dito assento, ao qual me reporto. +Porto e Cemiterio do Prado do Repouso, nove +de setembro de mil oitocentos setenta e tres.</p> + +<p class="assin">«J<small>OÃO</small> J<small>OSÉ</small> D<small>UARTE</small> M<small>ACHADO</small>.»</p> + +<p class="assin">«Capellão director.»</p> + +<p> </p> + +<p class="centrado"><big>FIM</big></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota15" name="nota15">[15]</a></sup> +Em 1873.</p> +</div> + +</div> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_191">{191}</a></span></p> + +<h2>INDICE</h2> + + +<table align="center" summary="Indice"> +<tr><td colspan="2">Prologo da 3.ª edição</td><td><a href="#pag_5">5</a></td></tr> + +<tr><td align="right">I—</td><td>O Desgraça</td><td><a href="#pag_7">7</a></td></tr> + +<tr><td align="right">II—</td><td>Na quinta das Chãs</td><td><a href="#pag_10">10</a></td></tr> + +<tr><td align="right">III—</td><td>Pomba que presente sangue</td><td><a href="#pag_19">19</a></td></tr> + +<tr><td align="right">IV—</td><td>Horrores da invasão</td><td><a href="#pag_28">28</a></td></tr> + +<tr><td align="right">V—</td><td>O juramento da vingança</td><td><a href="#pag_38">38</a></td></tr> + +<tr><td align="right">VI—</td><td>A mariposa do acampamento</td><td><a href="#pag_47">47</a></td></tr> + +<tr><td align="right">VII—</td><td>No hospital de sangue</td><td><a href="#pag_55">55</a></td></tr> + +<tr><td align="right">VIII—</td><td>O anjo da liberdade</td><td><a href="#pag_63">63</a></td></tr> + +<tr><td align="right">IX—</td><td>Entre a vingança e o amor</td><td><a href="#pag_72">72</a></td></tr> + +<tr><td align="right">X—</td><td>A hora do resgate</td><td><a href="#pag_82">82</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XI—</td><td>O que a vivandeira pensava</td><td><a href="#pag_90">90</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XII—</td><td>Amor e ciume</td><td><a href="#pag_101">101</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XIII—</td><td>Como acaba a tragedia de Goethe</td><td><a href="#pag_109">109</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XIV—</td><td>Quanto custa ser mãe</td><td><a href="#pag_118">118</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XV—</td><td>A queda do gigante</td><td><a href="#pag_127">127</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XVI—</td><td>Uma festa no Porto ha cincoenta e +nove annos</td><td><a href="#pag_136">136</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XVII—</td><td>Como madrugam as aves e os noivos!</td><td><a href="#pag_146">146</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XVIII—</td><td>A lenda d'Ashaverus</td><td><a href="#pag_155">155</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XIX—</td><td>A terra da promissão</td><td><a href="#pag_165">165</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XX—</td><td>O manuscripto de Pietro</td><td><a href="#pag_174">174</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XXI—</td><td>Epilogo</td><td><a href="#pag_184">184</a></td></tr> +</table> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Annel Mysterioso, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ANNEL MYSTERIOSO *** + +***** This file should be named 33749-h.htm or 33749-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/3/7/4/33749/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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