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+<head>
+ <title>O Annel Mysterioso, por Alberto Pimentel</title>
+ <meta name="Author" content="Alberto Pimentel">
+ <meta name="Edition" content="3ª Edição. Lisboa: Empresa da Historia de Portugal, 1904.">
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+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of O Annel Mysterioso, by Alberto Pimentel
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Annel Mysterioso
+ Scenas da Guerra Peninsular
+
+Author: Alberto Pimentel
+
+Release Date: September 17, 2010 [EBook #33749]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ANNEL MYSTERIOSO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="ntransc">
+<p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1904.</p>
+
+<p>Foi mantida a grafia usada na edição original de 1904, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e
+que por isso não foram assinalados.</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_1">{1}</a></span></p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado" style="font-size: 1.5em;">O ANNEL MYSTERIOSO</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_2">{2}</a><br><a name="pag_3">{3}</a></span></p>
+
+<div style="text-align: center">
+
+<p style="font-size: 1.2em;">NOVA COLLECÇÃO PORTUGUEZA</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">II</p>
+
+<p style="font-size: 2.2em;">O ANEL MYSTERIOSO</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">SCENAS DA GUERRA PENINSULAR</p>
+
+<p style="font-size: 1em;">ROMANCE ORIGINAL DE</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">ALBERTO PIMENTEL</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">3.ª EDIÇÃO, ILLUSTRADA, REVISTA PELO AUCTOR</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LISBOA<br>
+
+E<small>MPREZA DA</small> H<small>ISTORIA DE</small> P<small>ORTUGAL</small><br>
+
+<small><i>Sociedade Editora</i><br>
+
+LIVRARIA MODERNA<br>
+
+Rua Augusta, 95<br>
+
+TYPOGRAPHIA<br>
+
+45, Rua Ivens, 47</small><br>
+
+1904</p>
+
+</div>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_4">{4}</a><br><a name="pag_5">{5}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+
+<h2>PROLOGO DA 3.ª EDIÇÃO</h2>
+
+<div class='cap'>E<span class="sc">ste</span> é um dos romances da minha mocidade. Foi
+publicado pelos editores da <i>Bibliotheca Universal</i>, de Lisboa, em
+1873. Precederam-n'o os <i>Idyllios
+á beira d'agua</i>, (1870), a minha primeira tentativa
+no romance, e <i>O testamento de sangue</i>, escripto
+aos vinte e trez annos.</div>
+
+<p>Estas datas desculpam hoje, aos meus proprios
+olhos, tudo quanto ha de hesitante e incorrecto em
+todas as trez novellas, que foram as primicias litterarias
+de um rapaz educado n'uma terra essencialmente
+commercial, avessa a idealidades romanescas
+e ao convivio e apreço de escriptores, bons ou simplesmente
+toleraveis.</p>
+
+<p>Pelo que especialmente respeita ao <i>Annel mysterioso</i>,
+se quando agora o reli me não descontentou a
+acção dramatica, achei-lhe comtudo algum excesso
+de floração declamatoria, que é um defeito peculiar
+a todos os estreantes.</p>
+
+<p>A grande arte de escrever está na ponderada sobriedade
+da expressão, no equilibrio estavel entre a
+phrase e o pensamento.</p>
+
+<p>Fóra d'isto ha rhetoricos, mas não ha escriptores.</p>
+
+<p>Se eu, no decorrer dos annos, consegui aproximar-me
+d'este requisito essencial, não perdi de todo
+o meu tempo. Mas, ainda n'esse caso, é defensavel a
+reimpressão de uma novella, que póde fornecer elementos
+de confronto entre duas épocas da vida de
+um escriptor.<span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span></p>
+
+<p>Como quer que seja, o <i>Anel mysterioso</i> agradou
+quando foi publicado em 1873. A breve trecho sahiu
+a segunda edicção. E os mesmos editores me convidaram
+a escrever logo em seguida outro romance,
+que foi <i>A Porta do Paraizo</i>.<sup><a href="#nota1" name="m_nota1">[1]</a></sup></p>
+
+<p>Ambos estes livros me abriram caminho entre o
+publico de Lisboa.</p>
+
+<p>O exito da <i>Porta do Paraizo</i> explica-se facilmente
+pelo interesse que inspirava ainda então o reinado
+de D. Pedro V.</p>
+
+<p>Quanto ao <i>Annel mysterioso</i>, que não é senão a
+biographia de uma celebridade das ruas do Porto,
+parece que foi o entrecho commovente que no espirito
+dos leitores lisbonenses suppriu a falta de conhecimento
+directo do protagonista.</p>
+
+<p>Quando eu escrevia este romance, muitas pessoas
+d'aquella cidade se lembravam ainda de ter visto frequentes
+vezes o <i>Desgraça</i>.</p>
+
+<p>Uma d'essas pessoas era Camillo Castello Branco,
+que, seis annos depois da publicação do <i>Anel mysterioso</i>,
+dizia a pag. 296 do livro <i>Sentimentalismo e
+historia</i>: «A um canto (do botequim da <i>Aguia d'ouro</i>)
+estava um velho de semblante livido, muito desgraçado,
+com um chapeu enorme de sêda d'um azulado
+decrepito, com um grande cigarro no canto da
+bocca. Ao lado, sobre um mocho, via-se uma guitarra
+com manchas gordurosas de suor que punham brilhos,
+e aos pés um cão d'agua com o felpo encarvoado,
+cheio de torçidas, encaroçado, dormia, e acordava
+de salto, apanhando com muita furia, no ar, as
+moscas que lhe picavam as orelhas. Era o José das
+Desgraças, o legendario mendigo, que morreu de saudades
+do seu cão, aggravadas pela fome».</p>
+
+<p>Esta referencia authentíca hoje o retrato de uma
+individualidade popular, cujos contemporaneos
+dormem, como ella, o somno eterno da morte.</p>
+
+<p>Lisboa, 10 de abril de 1903.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="assin"><i>Alberto Pimentel.</i></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota1" name="nota1">[1]</a></sup>
+A quarta edicção, luxuosa, d'este romance, foi por nós publicada em 1900.</p>
+
+<p class="assin">(Nota dos editores.)</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_7">{7}</a></span></p>
+
+<h1>O ANNEL MYSTERIOSO</h1>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<h2>I</h2>
+
+<h2>O Desgraça</h2>
+
+<div class='cap'>E<span class="sc">ntre</span> os typos populares, que pouco a pouco
+vão rolando a sepulturas ignoradas, deixando
+após si o rasto de uma vida sobremodo
+accidentada de peripecias quasi sempre sombrias&mdash;rasto
+que só um ou outro escriptor se compraz
+em prucurar desde a cadeia ao degredo, do albergue
+ao cemiterio&mdash;avulta na tradição portuense um homem
+que por longo tempo ahi foi o alvo das assuadas
+do rapazio e dos chascos dos frequentadores de
+botequim. Uns chamavam-lhe o <i>José das Desgraças</i>,
+outros simplesmente o <i>Desgraça</i>.</div>
+
+<p>Parece dever inferir-se de tão lutuosa alcunha que
+a população da cidade lhe conhecia a biographia
+exuberante de lastimosos lances. Tal não ha. Quando
+elle passava coxeando arrimado ao seu bordão,
+sobraçada a guitarra inseparavel, de velho chapéo
+alto amassado, sobrecasaca abotoada, pendente a medalha
+de prata da guerra peninsular, annel d'ouro na
+mão esquerda, na bocca o enorme cigarro que elle
+proprio manipulava com pontas de charuto, seguido
+do cão fiel, que se chamava <i>Junot</i>, por motivos que
+mais tarde desvelaremos, o gentio das ruas ou sorria
+alvarmente da pittoresca pobresa do excentrico mendigo,
+ou rompia em apostrophes de <i>Ó Desgraça!
+Ó Desgraça!</i> que elle parecia não ouvir ou despresar
+em sua imperturbavel serenidade.<span class="pn"><a name="pag_8">{8}</a></span></p>
+
+<p>E a populaça, sem sequer suspeitar da tenebrosa
+origem do cognomento, quedava-se a ouvil-o, calmadas
+as arruaças com que era saudado, quando elle,
+sentado á porta de um café, especialmente o do Jardim
+de S. Lazaro, começava a tanger melancolicamente
+a sua guitarra, na qual executava operas completas,
+queimando o seu enorme rolo de tabaco e
+contemplando, de cabeça inclinada, o cão que parecia
+escutal-o attentamente...</p>
+
+<p>Depois, quando a mão caía extenuada sobre as
+cordas silenciosas, affigurava-se, tão alheado ficava,
+que estava rememorando maguas intimas, segredos
+da sua vida obscura, sem que parecesse dar tento
+das esmolas que lhe atiravam ao regaço os que entravam
+ou saíam a porta do botequim.</p>
+
+<p>Ás vezes, como se não houvesse conseguido linimentar
+com a musica as recordações dolorosas acordadas
+no imo peito, voltava a tanger na guitarra uns
+dulcissimos arpejos que finalmente lhe serenavam a
+alma tempestuosamente alanceada, chorando por
+elle, que não tinha lagrimas.</p>
+
+<p>Restituido á realidade da sua resignada nobresa,
+erguia-se firmado no bordão, sobraçava a guitarra, e
+continuava a peregrinação, vagueando pelas ruas da
+cidade, sem todavia dirigir-se aos transeuntes e recebendo
+impassivel os óbolos que jámais solicitava.
+E o cão, o leal companheiro de infortunio, seguia
+egualmente resignado seu dono, e quasi sempre indifferente
+ás provocações do rapazio que se divertia em
+apedrejal-o e açulal-o.</p>
+
+<p>Frequentemente intervinha o <i>Desgraça</i> ameaçando
+com o bordão os perseguidores do seu dedicado
+companheiro; mas como o inquieto rapazio conhecesse
+que a velhice lhe desnervava o braço, entrava
+de levantar celeuma atroadora, em que, ainda assim,
+quasi sempre se distinguiam vozes de «Morra o <i>Desgraça</i>
+e o <i>Junot</i>! Vende o annel e não andes a pedir!»</p>
+
+<p>Estranho homem devia de ser esse, que parecia
+guardar grande mysterio, e tinha por unico amigo,
+entre uma população inteira, que o apupava, o cão
+fiel, e por consolação unica a sua guitarra, e por unica
+protecção a piedade dos seus conterraneos, que
+elle não implorava.</p>
+
+<p>O povo não suspeitava sequer que a biographia<span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span>
+d'aquelle homem justificasse o appellido. Quando o
+<i>Desgraça</i> fazia chorar a guitarra entre os dedos, e o
+cão denunciava comprehender a guitarra, como que
+ligeiramente se commovia a turba acatasolada, mas
+d'ahi a pouco, quando estrondeavam os apupos, era
+o cão o unico espectador que mostrava lêr na physionomia
+do velho o mysterio de uma vida tormentosa.</p>
+
+<p>Ria a gentalha torpe d'aquella intima convivencia
+de homem e cão. E todavia não saía d'entre a arraia
+miuda o mais desgraçado dos populares a dizer ao
+pensativo guitarrista: «O teu cão sente e não fala;
+eu falarei por elle. Soffres decerto muito e precisas
+consolação. Eu sou tambem muito infeliz, muito mais
+do que tu, porque não tenho guitarra nem cão. Deixa-me
+pois compartir do teu cão e da tua guitarra,
+que eu te darei o que tu não tens, dois ouvidos que
+te escutem, uma voz que te responda.»</p>
+
+<p>Não. A desgraça é tão infeliz, que se ri da desgraça;
+é ella que se desauctorisa a si mesma. Só lhe falavam
+para chasqueal-o, para lhe cuspir na face a
+zombaria que elle, absorto no seu continuo cogitar,
+deixava resvalar aos pés.</p>
+
+<p>E todavia aquelle homem era um grande desgraçado,
+que só tinha no mundo a sua guitarra, o seu
+cão, e as suas recordações. O annel, que trazia na
+mão esquerda, podia matar-lhe talvez um dia de fome,
+mas não haveria miseria que lh'o arrancasse do
+dedo, porque as suas recordações estavam n'aquelle
+annel.<span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span></p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<h2>II</h2>
+
+<h2>Na quinta das Chãs</h2>
+
+<p>Na noite de 17 de fevereiro de 1809, a morgada
+viuva da quinta das Chãs conferenciava gravemente
+com o seu capellão n'uma das salas terreas do solar,
+a duas leguas de Braga, sobranceiro á aldeia de Carvalho
+d'Éste. A morgada, senhora de uns sessenta
+annos, deixava entrever nas sombras da physionomia
+a tempestade que lhe agitava a alma; o capellão, passeando
+de um para outro lado, enviesava á morgada
+olhares investigadores, que para logo revelariam perfidia
+e cupidez.</p>
+
+<p>&mdash;É preciso partir, padre capellão, dizia afflictivamente
+a morgada. Se os francezes logram atravessar
+o rio Minho, estarão brevemente em Braga. A mim
+pouco me importaria a vida se não fosse Augusta,
+que a esta hora está dormindo na serenidade da
+sua innocencia. Tomára que chegasse o Teixeira
+para contar o que se passou. Diga o que disser, padre
+capellão, é preciso pensar maduramente. Meu genro
+fez-me depositária de um thesouro, que eu hoje quero
+salvar de todos os perigos, custe o que custar,
+porque se me affigura que já estimo mais Augusta
+do que aos seus proprios paes, e a seu irmão. Recebi
+minha neta aos 5 annos, porque á luz da consciencia
+conheci que melhor poderia eu sustentar uma
+criança, apesar das hypothecas da minha casa, do que
+um pobre capitão do exercito poderia sustentar dois
+filhos. O padre capellão administrava as propriedades.
+Que me restava a mim para não morrer de aborrecimento
+durante o dia? Augusta, a criança que me
+tinha sido confiada. Era ella a minha unica distracção,
+o meu unico amor; ha dez annos que este tecto
+lhe abriga a innocencia, e ha dez annos que eu abençôo
+a resolução de a chamar para amparo da minha
+velhice. Olhe que os annos tornam a gente egoista,<span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span>
+padre capellão; a abnegação é só apanagio da mocidade.
+Não pense que me bastava a unica distracção
+do voltarete; é sempre a mesma cousa! Quando eu
+<i>peço licença</i> o padre capellão <i>prefere</i>, e o Teixeira
+dá-lhe <i>codilho</i>. Tambem é boa embirração a sua de
+<i>preferir</i> sem jogo. Nem que tivesse vontade de fazer
+mal... E o dia, estes longos dias da provincia, que
+não teem fim! Era morrer de fastio. Augusta trouxe-me
+cuidados e variedade. A principio com as suas
+exigencias de criança; agora com as suas ingenuidades
+de donzella. Vi, anno a anno, desabotoar a flôr.
+A flôr, disse bem, porque Augusta é realmente uma
+rosa... de quinze annos. E é que eu a estimo como
+seu jardineiro que sou. Instantemente lhe pedi que
+se deitasse para que não ouvisse dizer ao Teixeira
+as proezas que os senhores francezes teem feito lá
+para esse rio Minho. Mas, padre capellão, o que é
+certo é que eu já haveria partido para o Porto, se
+n'esta occasião estivesse prevenida com recursos. O
+padre capellão bem sabe...</p>
+
+<p>&mdash;Sei, sei, senhora morgada, que a occasião é má
+para todos.</p>
+
+<p>&mdash;Se os caseiros pudessem pagar o resto das rendas...</p>
+
+<p>&mdash;A senhora morgada devia conhecer o que é
+guerra sobre guerra. Tivemos esse excommungado
+Junot, mais as suas aves de rapina, a comer-nos os
+olhos da cara. Nem as egrejas respeitou, o maldito!
+A senhora morgada ainda fala em pedir o resto das
+rendas aos caseiros! E para quê? Para fugir para o
+Porto, para casa de seu genro, para abandonar as
+suas propriedades!</p>
+
+<p>&mdash;O padre capellão velará por ellas. É que eu bem
+sei os sustos que curti aqui durante a primeira invasão.
+Se no Porto não estivesse a soldadesca do Taranco,
+teria fugido para lá.</p>
+
+<p>&mdash;E que teima essa de me querer confiar as suas
+propriedades, capacitado como estou de que a senhora
+morgada suppõe que lh'as administro mal!
+Administro mal, administro, porque não forço os caseiros
+a pagarem o resto das rendas para vossa senhoria
+o ir gastar no Porto com a familia de seu
+genro. Depois de uma guerra e em vesperas de outra
+é que a senhora morgada fala em pagar!</p>
+
+<p>&mdash;Pagar é um dever, padre capellão, e quanto mais<span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span>
+nos apressamos a fazer o que devemos tanto maior
+é o repouso do espirito. Bem sei que são más as circumstancias,
+mas é que tambem esta pobre gente se
+importa pouco com o calendario, e acha que todo o
+tempo é tempo. É que tambem não imaginam que
+se esconda a pobresa detraz de pergaminhos e genealogias.
+Pois esconde, se esconde! Sabe o padre capellão
+que eu falei no resto das rendas porque n'esta
+occasião não ha dinheiro em casa. Ninguem melhor
+o sabe, porque lhe passam os negocios pela mão. O
+que é certo é que eu sinto ameaços de pobresa...</p>
+
+<p>&mdash;Nem tanto ao mar, senhora morgada...</p>
+
+<p>&mdash;Se presinto! Vivo modestamente n'estas solitarias
+Chãs, encantada nas graças d'Augusta, cerrando
+ouvidos ao bulicio da cidade que está proxima. Não
+posso fazer despezas extraordinarias, é preciso não
+largar a brida da mão para costear as indispensaveis.</p>
+
+<p>&mdash;Os chás não são indispensaveis, senhora morgada...</p>
+
+<p>&mdash;Magôa-me a sua ironia, padre capellão! Tanto
+mais que sabe como é limitado o serviço da nossa
+mesa de jogo. E depois queria que eu fechasse as
+minhas portas na face do velho Teixeira, amigo leal
+da nossa casa desde a mocidade de meu marido? Sabe
+o padre capellão como o morgado deixou as propriedades
+sobrecarregadas de hypothecas. Mal tenho
+podido rehabilitar o casal, apesar de todas as economias
+e da maxima abstenção d'obras de beneficencia...</p>
+
+<p>&mdash;Maxima abstenção!...</p>
+
+<p>&mdash;É injusto, padre capellão! Refere-se talvez á
+Augusta... Não sabe que é filha de minha filha, casada
+por inclinação com um honrado militar do exercito
+portuguez, a quem não basta unicamente a sua
+immaculada honradez para ser feliz! Era-me impossivel
+soccorrer a mãe; soccorri a filha. Eu não podia
+ir mais longe, senão teria ido. Sempre contrariedades!
+Sempre o padre capellão a annunciar-me algum
+novo desastre! Ah! mas d'esta vez creia que não
+haverá desastre nem contrariedade que me véde o
+tirar dos hombros uma enorme responsabilidade, levando
+Augusta para a companhia dos seus, e minha
+tambem, porque ella é minha, e muito minha, pelo
+sangue e pelo coração... Em ultimo caso, recorrerei
+ao emprestimo...<span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Outro?</p>
+
+<p>&mdash;É minha filha e meus netos que eu prejudico;
+o padre capellão, não. Todavia, como é para bem
+d'elles, elles m'o perdoarão. O padre capellão por
+sua propria mão recebe os juros das quantias que
+tem desembolçado, e creio que as propriedades que
+conservo fartamente abastarão ao pagamento do capital,
+no momento em que queira usar dos seus direitos
+de crédor.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não quero...</p>
+
+<p>&mdash;Deixe-me figurar a peior hypothese, e evidenciar-lhe
+que lhe não causam detrimento os seus desembolços.</p>
+
+<p>&mdash;Falando francamente, senhora morgada, sou a
+dizer-lhe que o juro é pequeno...</p>
+
+<p>&mdash;Augmente-o como lhe apraza. Não é meu costume
+questionar cinco réis ao padre capellão.</p>
+
+<p>&mdash;Eu sou tão pobre como a senhora morgada, tartamudeou
+o reverendo com um frouxo de tosse que
+denunciava estar providencialmente entalado com o
+osso da mentira.</p>
+
+<p>A morgada gesticulou de incredulidade e enfado.</p>
+
+<p>&mdash;Eu sou tão pobre como a senhora morgada, reatou
+o capellão ajudando-se a engulir a falsidade
+com um sorvo de rapé&mdash;e é á custa de trabalho que
+tenho recolhido escassas mealhas ao canto da gaveta.
+De inverno arrosto as neves da madrugada para
+saír aos campos a espionar os trabalhadores no interesse
+de vossa senhoria. No verão aguento as calmas
+do meio dia para os estimular ao trabalho. As horas
+feriadas de canceiras externas passo-as á banca a fazer
+a escripturação ou no quarto a rezar as minhas
+orações. Tenho envelhecido ao serviço de vossa senhoria,
+e o magro peculio do pobre padre ao trabalho
+o devo. E o mais é que já vou achando ser horas
+de descançar... Vejo porém que não seria facil encontrar
+quem com zelosa dedicação governasse a
+casa alheia, e, se me é canceira o dirigil-a a despeito
+da velhice, tambem me é consolação o ouvir dizer-me
+a consciencia que devo trabalhar por não ver
+quem facilmente me substitua. Digam embora o senhor
+seu genro e a senhora sua filha o que quizerem,
+e me consta que dizem: a verdade é esta...</p>
+
+<p>&mdash;Convenho, padre capellão, e é por conhecer a
+sua desinteressada&mdash;a morgada deu a esta palavra<span class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span>
+uma inflexão sensivelmente ironica&mdash;desinteressada
+dedicação, que tenho batido á sua porta sempre que
+a necessidade me obriga a incommodar alguem. Se
+lhe pedia agora para passar aviso aos caseiros, era
+porque não queria importunal-o com repetidas mercês...</p>
+
+<p>&mdash;Nunca me incommodaram as ordens de vossa
+senhoria, atalhou o padre, curvando-se respeitosamente
+a meio da sala.</p>
+
+<p>&mdash;Eu é que a mim mesma me incommodo com a
+ideia de incommodal-o, posto que eu não seja dos
+devedores que mais devem aborrecer por egoistas...</p>
+
+<p>&mdash;Creio que já tive a honra de dizer á senhora
+morgada que a occasião é má para todos.&mdash;E proseguiu
+mirando ao alvo que elle queria attingir: Era
+porém grande a quantia que vossa senhoria desejava?</p>
+
+<p>&mdash;A sufficiente para me transportar ao Porto com
+a menina, e para não tornar pesada a hospedagem
+que minha filha haja de dar-me. É preciso partir, padre
+capellão, se os francezes não forem repellidos na
+fronteira. Entrarão por esse Minho dentro furiosos, e
+eu não respondo só pela minha vida, que já pouco
+vale, mas tambem pela de Augusta, que me foi confiada
+em deposito. Que valeria a minha presença
+aqui? Os criados fugiriam decerto, e a edade do padre
+capellão não lhe permittiria defender duas mulheres,
+ambas timidas, uma porque é velha, e outra
+porque é nova. Além de maior segurança que offerece
+o Porto, como grande cidade que é, Augusta
+poderá d'ali seguir melhor a sorte de seu pae e seu
+irmão nos combates. Não estará para aqui anciosa
+sem receber noticias que a tranquillisem. Aqui, quando
+ha guerra, apenas se sabe que ha guerra, e mais
+nada. O padre capellão offereceu-se para ficar; desappareceram
+todas as difficuldades. Sem o seu offerecimento eu não poderia deixar desamparado o solar
+de meus avós. Teria de luctar angustiosamente
+entre o amor d'Augusta e o respeito á memoria de
+meus paes e meu marido. Se os invasores entrarem,
+respeitarão porventura a sua velhice e as suas vestes,
+padre capellão, se é que elles respeitam alguma
+cousa...</p>
+
+<p>O padre capellão, julgando haver já simulado a
+precisa resistencia á partida da morgada, apostrophou
+de golpe:<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Mas, voltando ao caso, senhora morgada, ponhamos
+os pontos nos i i. Quanto desejava vossa senhoria?</p>
+
+<p>&mdash;Eu... cem moedas talvez.</p>
+
+<p>&mdash;Cem moedas é muito, senhora morgada, e eu
+não estou prevenido.</p>
+
+<p>&mdash;Pois veja o padre capellão se póde obter essa
+quantia, que eu cederei a qualquer exigencia de
+juro.</p>
+
+<p>&mdash;Menos de 15 por cento não será possivel, senhora
+morgada...</p>
+
+<p>&mdash;Pagarei os 15 por cento; trate o padre capellão
+de negociar sem demora as cem moedas.</p>
+
+<p>&mdash;Hum! rouquejou o padre. Veremos. Póde ser
+que se abra alguma porta ao homem honrado que só
+em grande estreiteza deixa d'abrir a sua. Ámanhã falaremos,
+senhora morgada. Vou fazer as minhas rezas
+emquanto não chega o palrador do Teixeira com
+noticias dos francezes...</p>
+
+<p>E saíu da sala em direcção ao seu quarto.</p>
+
+<p>A morgada, vendo-se só, pareceu respirar com sofreguidão,
+como o encarcerado que conquista a liberdade
+e, como elle, pareceu conversar comsigo
+mesma:</p>
+
+<p>&mdash;Que alma de marmore a d'este homem! É um
+inimigo que tenho de portas a dentro e que conservo
+porque me não permitte o animo nem a edade
+travar lucta com tão arteiro contendor, que apara todos
+os golpes na batina com beatitude irritante.</p>
+
+<p>Depois levantou-se, agitou a campainha, e esperou
+com os olhos fitos na porta que apparecesse a
+criada.</p>
+
+<p>&mdash;A menina dorme? perguntou.</p>
+
+<p>&mdash;Dorme, senhora morgada.</p>
+
+<p>&mdash;Accende o candieiro e abre a mesa. Quando bater
+o sr. Teixeira, manda entrar.</p>
+
+<p>Palavras não eram ditas, resoou a aldrava do portão.</p>
+
+<p>Momentos depois entrava á sala o velho Teixeira,
+fidalgo retirado das pompas da côrte por conselho
+da consciencia que o advertia de que estava a empobrecer
+d'um dia a outro. N'aquelles tempos que precederam
+a retirada da familia real para o Brazil, as
+tentações de Lisboa eram tantas, e tão dispendiosas,
+que não admirava que um cortezão immolasse a celebradas<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span>
+damarias o seu opulento morgado do Minho.
+Alguma coisa salvára porém o velho aulico do muito
+que na côrte consumira. Trouxera de lá a palaciana
+compostura que realça até mesmo na decadencia.
+Maneiras e palavras, pesadas com fina discreção, estavam
+desculpando a cada passo as sombras que por
+mais d'uma vez denunciavam não ser impeccavelmente
+crystalina a reputação das açafatas da rainha D. Maria I.</p>
+
+<p>Entrou o fidalgo e logo correu a morgada a perguntar-lhe
+anciosamente:</p>
+
+<p>&mdash;Que noticias nos traz vossa senhoria?</p>
+
+<p>&mdash;Boas, senhora morgada, se póde haver boas noticias
+quando a tempestade, que se descondensa n'um
+ponto, ameaça n'outro.</p>
+
+<p>&mdash;Inda bem! inda bem! apostrophou a morgada
+relanceando um olhar d'alegria á porta do quarto onde
+estava descançando a neta.</p>
+
+<p>O padre capellão, sem se dar o incommodo de
+desculpar a ligeireza com que alinhavara as suas orações,
+appareceu mordido de curiosidade.</p>
+
+<p>&mdash;E o caso é que pensei que das indagações já
+não sobrava tempo para o nosso voltarete!&mdash;disse o
+Teixeira sentando-se a um gesto da morgada.&mdash;Venho
+tarde, e porei por desculpa da demora o bom
+empenho que tinha em poder satisfazer a justa anciedade
+de vossa senhoria.</p>
+
+<p>&mdash;Não obstante serem boas as informações, supplico-lhe
+que não aggrave as côres do quadro, dado
+que entre por ahi de improviso a minha neta, que se
+recolheu aos seus quartos, por ordem minha, para
+não ser testemunha auricular da narrativa no caso
+de que fosse lugubre.</p>
+
+<p>&mdash;Os francezes foram repellidos heroicamente,
+disse o fidalgo baixando a voz.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos a isso! atalhou o padre capellão fungando
+uma pitada.</p>
+
+<p>O fidalgo proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Os francezes não ousaram metter-se ao Minho,
+que vae de monte a monte, com a agua que tem caído,
+por se arreceiarem da cheia. Trouxeram por terra
+os barcos que puderam obter na Guardia, e puzeram-n'os
+a nado no Tamuge.</p>
+
+<p>&mdash;Que artes teem os malditosl exclamou o capellão<span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span>
+lembrando-se de que não haveria thesouro que
+resistisse á astucia franceza.</p>
+
+<p>&mdash;Deixe ouvir... observou a morgada.</p>
+
+<p>&mdash;Eram vinte e tantos os barcos, que pretendiam
+abicar á praia do Camarido. Trez separaram-se, ao
+descer o rio, e chegando primeiro á praia, os soldados
+desembarcaram. Os outros barcos tiveram que
+luctar, e muito, contra a maré que lhes era adversa.
+Isto durou toda a noite. Só hontem de madrugada
+foi que o Champalimaud percebeu claramente a tentativa
+do inimigo, e que mandou fazer fogo de fuzilaria.
+Um dos barcos foi a pique; outro despedaçou-o
+o mar. Os francezes dos trez primeiros barcos refugiaram-se
+no Camarido. Estes desastres deram alento
+aos paisanos, que se embarcaram para atacar o
+inimigo no rio, protegidos pela artilharia da Areia
+Grossa e da Insua, e pelos soldados do 21. Os francezes,
+contrariados pela correnteza das aguas e pela
+resistencia dos nossos, retrocederam para a margem
+direita do Minho, desesperando d'atravessal-o. Então
+bateram os nossos a matta do Camarido, encontrando
+dentro mais de trinta francezes, um dos quaes
+consta ser capitão e haver declarado o nome do general
+em chefe de todo o exercito. Chama-se Soult
+o general...</p>
+
+<p>&mdash;Elles tambem escolhem-n'os pelos nomes! interrompeu
+o padre para quem toda a prosodia era difficil,
+incluindo a latina e a... portugueza.</p>
+
+<p>&mdash;Os paisanos, segundo se dizia em Braga, fizeram
+proezas, continuou placidamente o fidalgo. Até
+as mulheres acudiram com fouces roçadouras e forcados.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca as mãos lhes dôam... observou impudentemente
+o capellão</p>
+
+<p>&mdash;Pelo meio dia atacaram os francezes Villa Nova
+da Cerveira, sendo ainda repellidos brilhantemente
+pelos nossos, tropa e povo. Mas, senhora morgada, o
+que mais dava que falar era a coragem de trez rapazes
+de Valença, que se arrojaram a ir encravar um
+morteiro, que os francezes tratavam de assestar contra
+a praça. Isto é o que se sabe desde manhã; o que
+já se terá passado pertence a Deus e aos que estão
+em armas.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que lhe parece a vossa senhoria: entrarão
+ou não entrarão? perguntou a morgada.<span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Para que nos havemos de illudir com mentirosas
+esperanças? Os invasores são poderosos e por
+mais d'uma parte poderão entrar, ao passo que os
+nossos, divididos para guarnecerem as fronteiras, perdem
+muito de sua força n'essa mesma divisão.</p>
+
+<p>&mdash;Com que então não se fala por ora em guerra!
+disse de improviso a morgada ouvindo abrir a porta
+do quarto d'Augusta.</p>
+
+<p>O fidalgo já não teve tempo de responder porque
+sentiu na sala os passos da menina.</p>
+
+<p>&mdash;Então não ha guerra? exclamou Augusta com
+graciosa innocencia.</p>
+
+<p>&mdash;Não ha, não ha, respondeu amavelmente o fidalgo;
+a não ser a do nosso voltarete.</p>
+
+<p>E continuou, convidando a morgada a sentar-se:</p>
+
+<p>&mdash;Permitta-me vossa senhoria, senhora morgada
+que eu continue a assestar a bateria dos codilhos
+contra a muralha de <i>preferencias</i> do nosso reverendo.
+Então, padre capellão, quer sentar-se?... Em que
+estava pensando tão absorto?</p>
+
+<p>&mdash;Estava pensando que se não puderem entrar
+pelo litoral, poderão entrar por Chaves, porque o castello
+está desmantelado, disse o capellão com a maxima
+impudencia ou com a maxima velhacaria.</p>
+
+<p>&mdash;O quê?! perguntaram todos a um tempo, incluindo
+Augusta, que pareceu fulminada de raio.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim... isto é quando elles entrarem. Vamos
+lá fazer a partida.<span class="pn"><a name="pag_19">{19}</a></span></p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+
+<h2>III</h2>
+
+<h2>Pomba que presente sangue</h2>
+
+
+<p>A morgada das Chãs passou agitadamente essa noite,
+e do inquieto cogitar na solidão do seu quarto
+resultou levantar-se decidida a partir n'esse dia com
+a neta.</p>
+
+<p>O padre capellão negociou as cem moedas... comsigo
+mesmo, dizendo que as obtivera d'um proprietario
+mediante o desconto dos juros d'um semestre
+adiantado.</p>
+
+<p>Partiu a morgada, de manhã, para o Porto, acompanhada
+por Augusta, depois de haver entregado as
+chaves da sua casa ao capellão, que tinha nos labios
+um sorriso de alvar alegria. Tambem a morgada estava
+radiosa do duplo jubilo de poder respirar desopprimida
+da sombra d'aquelle homem, e de ir collocar
+sob o amparo paternal a neta querida do seu
+coração. Nas faces d'Augusta havia egualmente um
+reflexo d'intimo contentamento, não só porque a
+aproximavam dos paes, mas porque a levavam para
+os braços do irmão, a quem ternamente estremecia,
+e com o qual permutava cartas diarias perfumadas
+das mais suaves fragrancias do amor de familia.</p>
+
+<p>A menina contava quinze annos, como já sabemos;
+o irmão, que se chamava José Maria, tinha dezeseis.
+Estas duas creanças eram filhas do capitão do exercito
+Graça Strech, que em 1809 morava á rua nova
+do Almada<sup><a href="#nota2" name="m_nota2">[2]</a></sup>. O appellido Strech inculca á primeira
+vista procedencia estrangeira, e realmente é d'origem
+germanica. O pae do capitão Graça, allemão de
+nascimento, fôra capitão de navios, e tivera por ultimo
+um modesto estabelecimento commercial em Cima
+do Muro. Os dois filhos de Graça Strech nasceram
+porem á rua Direita, na casa que divide a rua
+de Santo Ildefonso da rua de Santo André, e onde
+elle morára durante os annos de 1793 e 1794.</p>
+
+<p>Augusta era tudo o que se póde imaginar de graciosamente
+feminil na época em que nos é dado conhecel-a.
+O pintor que quizesse retratal-a facilmente
+lançaria á tela os cabellos loiros, naturalmente annelados;
+os olhos d'um azul suavissimo como os mais
+formosos horizontes; as faces d'uma brancura levemente
+rosada; a estatura <i>mignonne</i>,&mdash;tudo quanto
+póde haver de mais correcto e dôce em figura de
+mulher. Mas a difficuldade estaria seguramente em
+reproduzir no retrato a meiga morbidez dos lirios
+que se abrem ao desabrochar da manhã. E n'ella
+brotava a mulher das graças da creança, como um lirio
+á luz da aurora.</p>
+
+<p>José Maria era uma organisação inteiramente opposta
+á de sua irmã. Dir-se-ia que ella havia nascido
+para rosa, e elle para roble; ella para succumbir, e
+elle para luctar. Desenhavam-se no seu corpo de dezeseis
+annos os contornos athleticos d'um spartano.
+Olhos vivos, e pretos como os cabellos; talhe esbelto,
+maneiras sacudidas e ageis. Pois que elle era a
+força e Augusta a brandura, affigurava-se providencial
+essa disparidade de constituições, e até de genios,
+para que a flôr pudesse ser protegida pela sombra
+do roble.</p>
+
+<p>Quando a morgada das Chãs chegou ao Porto, entrou-se
+de profundo arrependimento por ter feito
+vingar a sua resolução. Em casa da familia Strech
+era grande a tristeza. O pae e o irmão<sup><a href="#nota3" name="m_nota3">[3]</a></sup> estavam
+no exercito, e portanto a tristeza provinha da anciedade
+com que o azar dos combates alvoroça sempre
+as familias dos militares.</p>
+
+<p>&mdash;Eu trouxe Augusta, dizia a morgada, chorando,
+á filha, para que, se houvesse de correr perigos, não
+ficasse o meu coração atormentado de medonha responsabilidade;
+porque mais facilmente saberia aqui
+noticias do pae e do irmão do que nas Chãs; e porque<span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span>
+finalmente o Porto offerecia maiores garantias
+e segurança do que qualquer outra terra.</p>
+
+<p>De feito, a cidade do Porto era julgada inexpugnavel,
+e a ella se acolhera grande parte da população
+do Minho, á medida que os acontecimentos da guerra
+se iam desdobrando.</p>
+
+<p>Tratemos de saber quaes foram.</p>
+
+<p>Os francezes, impossibilitados de seguir o caminho
+do litoral, que lhes tinha sido ordenado, marcharam
+para Traz-os-Montes no proposito de entrar em Portugal
+pelo valle do Tamega. No dia 8 de março estavam
+as avançadas francezas á vista de Chaves, que
+no dia 10 foi sitiada, rendendo-se no dia 12. O marechal
+Soult, vendo-se impossibilitado de guardar os
+prisioneiros, despediu as milicias e as ordenanças,
+que estavam dentro da praça, depois de lhes exigir
+juramento de que nunca mais pegariam em armas.
+As praças da tropa de linha convidou-as a bandearem-se
+no seu exercito; ellas unanimemente aceitaram
+com o proposito de desertar, como aconteceu.</p>
+
+<p>O sonho de Soult era tomar o Porto, e para o realisar tinha nada menos que dois caminhos: o que vae
+a Villa Real e o que vae a Braga. O marechal preferiu
+o segundo, por ser o menos accidentado. Chegado
+que fosse a Braga, só encontraria no caminho do
+Porto a difficuldade da passagem do Ave em Santo
+Thyrso. Seguiu, pois, o exercito francez para as alturas de Barroso no dia 14. O general Bernardim
+Freire d'Andrade, tendo noticia de que os piquetes
+francezes escaramuçavam na Portella de Avado e em
+Villarelho da Raia com as avançadas do general Silveira, commandadas pelo coronel Magalhães Pizarro,
+tomou desde logo todas as medidas possiveis para
+salvar o Porto, repartindo as suas pequenas forças
+por Salamonde, Ruivães, Salto e Ponte do Cavez,
+guarnecendo a raia, e mandando occupar Amarante
+o brigadeiro Victoria, a cujas ordens militavam o capitão Graça Strech e seu filho.</p>
+
+<p>No dia 15 foi Freire de Andrade insultado pela população
+de S. Gens, quando voltava de visitar os postos
+entre Braga e Ruivães. O fim a que avisava o general
+portuguez era retardar a marcha do inimigo
+sobre Braga, quanto lhe fosse possivel, para dar tempo a que d'aquella cidade saíssem para a defeza do
+Porto as munições e o laboratorio. Depois de haver<span class="pn"><a name="pag_22">{22}</a></span>
+expedido ordem ao brigadeiro Victoria para se internar
+no Porto, recolheu-se Freire d'Andrade no dia
+17 a Braga, encontrando por todo o caminho vestigios
+da grandissima exaltação popular, que se levantára
+mal que soou a noticia da aproximação dos
+francezes. Dado o signal de rebate, o povo do Minho
+saíu em turbamulta a esperar o inimigo em Carvalho
+d'Éste, e outros logares convisinhos, armado de
+chuços, fouces roçadouras, e mais instrumentos proprios
+do seu uso.</p>
+
+<p>Em Carvalho d'Éste houve brodio geral, constante
+de pão e vinho, a expensas d'alguns particulares patriotas,
+o que não obstou a que um dos membros da
+sordida junta de segurança apresentasse o rol das
+despezas. Procedendo-se a uma collecta geral, que
+foi voluntariamente paga, ficou o povo duplamente
+esfomeado, porque a contribuição parece que só
+aproveitou á junta de segurança.</p>
+
+<p>Avisinharam-se, finalmente, os francezes da cidade
+de Braga, e conhecendo Freire d'Andrade, no dia 17
+em que ali entrou, que era impossivel qualquer defeza,
+mandou retirar pela estrada do Porto, resolvido
+a embargar denodadamente o passo ao inimigo n'essa
+marcha.</p>
+
+<p>Todavia o povo, suppondo-o traidor por não se
+haver empenhado em acção geral com os invasores,
+saíu-lhe ao encontro em Carapoa, e já ahi seria morto
+se lhe não valesse Antonio Berardo da Silva, commandante de uma brigada de ordenanças.</p>
+
+<p>Removido o inesperado perigo, seguiu o general
+seu caminho, mas encontrando-o as ordenanças de
+Tabosa, prenderam-n'o e conduziram-n'o a Braga,
+onde, chegado que foi é prisão do Aljube, a populaça
+desenfreada o arremessou pelas escadas abaixo,
+acabando de matal-o ás chuçadas.</p>
+
+<p>Subsequentemente foram tambem immolados á sanha
+popular, em Braga, o quartel-mestre general de
+Bernardim Freire, Custodio Gomes Villas Boas, o
+corregedor da cidade, Bernardo José de Passos, e
+outros; e em Santo Thyrso, D. João Correa de Sá e
+Manoel Ferreira Sarmento.</p>
+
+<p>No mesmo dia da morte do general Bernardim
+Freire de Andrade tomavam os francezes posição em
+frente de Carvalho d'Éste, sendo repellidos no primeiro
+ataque.<span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p>
+
+<p>O barão d'Eben commandava as nossas tropas, com
+as quaes se havia bandeado a gente das aldeias convisinhas.
+Entre a populaça contavam-se os criados
+da quinta das Chãs que desampararam o padre capellão,
+sempre prompto a castigal-os, e odiado por
+elles.</p>
+
+<p>Pelas onze horas da noite chegaram, para reforçar
+o posto, a legião de Salamonde e duas companhias
+do regimento de Vianna. Soldados e povo estavam
+famelicos. Durante a noite um magote de populares,
+engrossado pelos criados da morgada, bateu ao portão
+da quinta. Ao primeiro chamamento não respondeu
+ninguem; ao segundo assomou a uma das janellas
+a cabeça silicosa do padre capellão.</p>
+
+<p>&mdash;Pão e vinho! gritou a turba.</p>
+
+<p>&mdash;Não está cá a senhora morgada, tartamudeou o
+reverendo.</p>
+
+<p>&mdash;É o mesmo; abra a porta, contestou o gentio.</p>
+
+<p>Como porém a impaciencia da turba fosse muita,
+a populaça metteu a porta dentro a tempo que o padre
+atravessava o pateo de lampeão em punho.</p>
+
+<p>Um dos populares vibrou-lhe uma chuçada que o
+prostrou, e logo outro, que era criado da casa,
+acrescentou:&mdash;Vamos á <i>burra</i> do padreca; no que
+fôr da senhora morgada não se toca.</p>
+
+<p>No dia seguinte atacou o inimigo novamente Carvalho
+d'Éste, e no dia 20 voltou ao ataque, apparecendo
+em grande força.</p>
+
+<p>Parece que a Providencia havia aconselhado a morgada
+das Chãs a fugir de um ponto onde a lucta foi
+mais renhida, porque, posto que os populares a respeitassem,
+o inimigo caiu no dia 20 em forte columna
+sobre Carvalho d'Éste, empenhando-se ataque
+geral, e sendo desesperada a posição dos nossos, que
+fugiram em grande confusão, acossados muito de
+perto pela cavallaria franceza.</p>
+
+<p>No pateo da quinta das Chãs tinham os nossos
+quinze barris de polvora que, não podendo ser salvos,
+por estar muito proximo o inimigo, foram incendiados
+por ordem do barão d'Eben, perecendo oito
+homens na execução d'esse serviço.<sup><a href="#nota4" name="m_nota4">[4]</a></sup> As chammas,
+enleiando-se pelos alpendres encostados ao edificio,
+acabaram por envolvel-o, e, horas depois dos francezes<span class="pn"><a name="pag_24">{24}</a></span>
+entrarem em Braga, e a tempo que o povo enfuriado
+matava os presos encarcerados no Aljube, ardia,
+chammejando como fornalha enorme, o solar das
+Chãs, a duas leguas de distancia da cidade invadida.</p>
+
+<p>A noticia da tomada de Braga só se soube no Porto
+no dia 22, quer dizer, quarenta e oito horas depois.</p>
+
+<p>Havia dias que o brigadeiro Victoria se tinha internado
+n'esta ultima cidade com as suas forças, por
+ordem do agora fallecido Bernardim Freire de Andrade.
+Como já sabemos, o capitão Graça Strech e
+seu filho militavam ás ordens deste brigadeiro. Portanto,
+teve Augusta occasião de abraçar o irmão e o
+pae, que procuraram serenar com palavras de carinho
+e conforto os receios do angustiado coração da
+menina.</p>
+
+<p>A morgada, quando soube que os francezes tinham
+rompido por Carvalho d'Éste sobre Braga, apesar de
+ignorar os pormenores da lucta, a morte do capellão
+e o incendio do solar, agradeceu ao anjo da guarda
+a inspiração da resolução tomada.</p>
+
+<p>N'esse mesmo dia foi o Porto theatro de lastimosas
+scenas.</p>
+
+<p>Conhecida a derrota de Braga, dirigiu-se a populaça
+á cadeia da Relação, reclamando a entrega dos
+presos da Inconfidencia, e arrancando para fóra dos
+muros do carcere o brigadeiro Luiz d'Oliveira e mais
+quatorze infelizes, que foram arrastados pelas ruas
+até Villa Nova de Gaya, d'onde a gentalha ensanguentada
+os precipitou, do Caes da Bica, á corrente
+do Douro, por haverem sido condemnados á morte
+pelo tribunal popular constituido na <i>Porta do Olival</i>.</p>
+
+<p>Só o bispo, D. Antonio José de Castro, poderia,
+por muito respeitado que era, conter a furia dos cannibaes
+das ruas, mas, provavelmente para não incorrer
+no desagrado da canalha contrariando-lhe os
+brutaes instinctos, deixou-a espostejar á vontade os
+presos da Inconfiencia.</p>
+
+<p>Sua excellencia reverendissima é que se não arriscou
+a ser conceituado de jacobino.</p>
+
+<p>Quando a turba descia com os presos a calçada
+dos Clerigos, ouvia-se na rua Nova do Almada a celeuma
+das victimas e dos algozes.</p>
+
+<p>Augusta, tremula de horror, acolheu-se nos bracos
+do irmão, que obtivera licença para sair por alguns<span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span>
+momentos do seu posto na linha de defesa, e poz as
+mãos supplicando a Deus que a tirasse do mundo
+onde os homens se estavam despedaçando como feras
+no sertão.</p>
+
+<p>Só as caricias de José Maria lograram aquietal-a,
+quando a vozeria soava mais longe, porque já a multidão
+havia enveredado pela rua das Flores, caminho
+da Ribeira.</p>
+
+<p>A mãe e a avó pareciam agonisar abraçadas em
+estreito amplexo.</p>
+
+<p>O marechal Soult, senhor de Braga, podia recuperar
+as suas communicações com Tuy ou marchar sobre
+o Porto, mas, como era natural, attenta a importancia
+d'esta cidade e a fama das suas riquezas, optou
+pelo segundo dos caminhos a tomar, porque melhor
+realisaria assim o seu sonho de conquistador.</p>
+
+<p>Ouçamos o sr. Soriano historiando o roteiro que
+o marechal Soult seguiu de Braga ao Porto: «Deixando
+portanto em Braga a divisão do general Heudelet,
+para lhe defender a rectaguarda contra as incursões
+do general portuguez, José Antonio Botelho
+de Sousa e Vasconcellos, que commandava as forças
+da divisão da raia, entre os rios Lima e Minho, dividiu
+o seu exercito em trez columnas, a primeira marchou
+pela estrada de Guimarães a S. Justo, com ordem
+de forçar a passagem do Ave de Cima e occupar
+o campo do lado de Pombeiro; a segunda, commandada
+pelo proprio Soult em pessoa, marchou logo
+direita á Barca da Trofa; e a terceira, deixando Barcellos,
+para onde de Braga tinha sido mandada, tomou
+a estrada da ponte do Ave. A passagem d'este
+rio foi fortemente disputada pelos portuguezes, sendo
+a columna da esquerda obrigada a bater-se renhidamente
+em Guimarães, Pombeiro, Negrellos, e sobretudo
+n'este ultimo ponto, onde morreu o bravo
+general Jardon, cuja falta muito sentida foi pela totalidade
+do exercito inimigo. A marcha da columna do
+centro foi interrompida na Barca da Trofa, por se
+ter n'ella cortado a ponte do Ave; mas Soult, vendo
+o grande cumulo das nossas forças ali, forçou a passagem
+em S. Justo, ganhando a margem opposta.
+Desde então facil lhe foi a columna da direita fazer
+o mesmo, ficando assim vencida a passagem do Ave
+em todos os pontos, e portanto aberto inteiramente
+o caminho em direitura para a cidade do Porto, a<span class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span>
+cujos entrincheiramentos o exercito francez chegou
+no dia 27 de março.»</p>
+
+<p>Na tarde d'esse mesmo dia a guarda avançada do
+inimigo, acampado em S. Mamede de Infesta, adeantou-se
+até um quarto de legua das baterias do Porto.</p>
+
+<p>Ouviu-se na cidade o fogo indicativo da aproximação
+dos francezes. Para logo se espalhou o terror,
+não obstante terem sido organisados alguns elementos
+de resistencia.</p>
+
+<p>As familias que tinham os seus empenhados nas
+linhas de defeza, afflictivamente receiavam os perigos
+de uma grande catastrophe, pois que ainda quando
+a lucta fosse coroada pela victoria, havia de interpôr-se
+aos primeiros combates e aos louros do triumpho
+um mar de sangue portuguez.</p>
+
+<p>Que dolorosa commoção não seria a de Augusta,
+que torturado soffrer nas vascas da anciedade não seria
+o seu, ao ouvir estrondear á distancia o fogo que os
+invasores assestavam contra as linhas de defeza, onde
+combatiam o pae e o irmão! Aquellas trez mulheres,
+a avó, a mãe e a filha, ajoelhadas deante de
+uma imagem de Nossa Senhora, cerrando convulsamente
+os olhos a cada detonação longinqua, dir-se-iam
+outros tantos authómatos, empedrados pelo terror,
+se não fôra o ciciar dos labios e o abrir e fechar
+nervoso das palpebras.</p>
+
+<p>Sabem como baloiça a haste do lirio, quando o sopro
+calido da tempestade proxima passa esfuziando
+por entre a folhagem das plantas que lhe offereciam
+resguardo?</p>
+
+<p>Tal era Augusta, lirio vasado em moldes de mulher,
+entre os dois corações amigos, o da avó e o da
+mãe, que já não podiam garantir-lhe protecção.</p>
+
+<p>Conhecera o marechal Soult que era má a fortificação
+da cidade e má a guarnição, e expediu no dia
+28 um emissario propondo capitulação. O emissario,
+para se não arriscar á morte, serviu-se de um ardil
+de guerra e disse-se incumbido de negociar a entrega
+do exercito francez mediante condições favoraveis.</p>
+
+<p>Entrou o bispo em negociação, cuja má fé, por
+parte dos invasores, estava manifesta na circumstancia
+de continuar a ser intenso o ataque durante todo
+o dia.</p>
+
+<p>N'essa tarde ouviu-se subitamente grande celeuma<span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span>
+nas ruas. Recresceu a anciedade no presupposto de
+serem as avançadas francezas.</p>
+
+<p>A morgada das Chãs teve a coragem precisa para
+se aproximar da vidraça, e viu um militar francez rodeado
+de grande turba de populares que gritavam
+enfuriadamente: «<i>Morra o Maneta! Morra!</i>»</p>
+
+<p>Adivinhou-lhe o coração que era um emissario,
+que provavelmente ia á bateria de S. Francisco a
+parlamentar com o bispo. Quasi defronte das janellas,
+como augmentassem as vozes de: <i>Morra Loison,
+morra o Maneta</i>, o militar francez levantou ambos
+os braços para desfazer o equivoco. Não obstante,
+a populaça arremettia contra o cavallo em que
+elle vinha montado, e a celeuma rugia temerosamente.</p>
+
+<p>A morgada correu a abraçar a filha e a neta, ajoelharam
+orando fervorosamente, e longo tempo supplicaram
+que um raio da Providencia illuminasse o
+coração do povo, para que á desgraça da invasão não
+sobreviesse a furia da represalia.</p>
+
+<p>O emissario francez não era effectivamente o general
+Loison, mas o general Foy; com blandicias e
+ameaças, escriptas por Soult, vinha propôr a rendição,
+que foi recusada.</p>
+
+<p>Com este acontecimento fechou a tarde do dia 28
+tempestuosa e triste, como se o céo compartisse do
+luto da terra. Ás detonações do trovão respondiam
+as detonações da artilharia.<span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota2" name="nota2">[2]</a></sup>
+Chamava-se então rua <i>Nova</i>, porque o celebre governador
+da cidade. Francisco d'Almada e Mendonça, fallecido em 1804, tinha
+transformado a antiga rua das Hortas n'esta nova rua, que
+tomou o seu nome.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota3" name="nota3">[3]</a></sup>
+Por decreto de 11 de dezembro de 1808 toda a nação foi
+obrigada a pegar em armas.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota4" name="nota4">[4]</a></sup>
+Este facto consta do relatorio do proprio barão.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+
+<h2>IV</h2>
+
+<h2>Horrores da invasão</h2>
+
+<p>Durante a noite de 28 para 29 continuou tão rijo o
+fogo, que o inimigo logrou forçar a bateria da Prelada.</p>
+
+<p>Grande era o pavor da cidade, e maior foi quando
+se soube que sua excellencia o bispo generalissimo
+se havia retirado para a Serra do Pilar.</p>
+
+<p>Este facto demonstrava não só a descrença do prelado
+na defeza do Porto, senão que tambem punha
+a descoberto a intenção de fuga, no caso de perigo,
+o que realmente aconteceu.</p>
+
+<p>Não lastimemos a impiedade deshumana do pastor,
+que abandonava em tão dolorosa conjunctura o
+rebanho indefeso, porque basta a historia a stygmatisal-a,
+mas calculemos a funesta impressão que semelhante
+noticia causaria nos animos desalentados
+dos portuenses.</p>
+
+<p>A familia do capitão Graça Strech foi seguramente
+uma das que mais succumbiram n'aquella tormentosa
+noite.</p>
+
+<p>As trez mulheres estavam entregues ás suas orações
+e angustias, inabalaveis no proposito de esperar
+a pé quedo a desgraça, verdadeiramente sós, porque
+os criados, que foram os primeiros a dar rebate, fugiram,
+durante a noite, bandeados com outros habitantes,
+para Gaya.</p>
+
+<p>O capitão e o filho combatiam ás ordens do brigadeiro
+Victoria, na linha do Bomfim, posto defensivo
+que, á hora da invasão, veiu a nobilitar-se com esforçados
+prodigios de coragem por parte do intrepido
+brigadeiro e dos seus.</p>
+
+<p>Umas visinhas da familia Strech, já preparadas
+para a fuga, instaram com as pobres senhoras para
+que as acompanhassem. Segundo o seu plano, acoitar-se-iam
+em Gondomar, onde diziam ter parentes
+lavradores.<span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span></p>
+
+<p>Augusta, lavada em lagrimas, e offegante de commoção,
+reagiu energicamente.</p>
+
+<p>&mdash;Se meu pae e meu irmão morrerem&mdash;dizia ella&mdash;deixemo-nos morrer tambem, porque o viver sem
+elles seria peior que a morte. Se vencermos, seremos
+as primeiras a abraçal-os, a agradecer-lhes por nós e
+pela patria. Elles cumprem o seu dever; e nós tambem.
+Elles estão no seu posto; nós estamos no nosso.
+O meu coração revolta-se contra a ideia de levarmos
+o egoismo da nossa vida até ao esquecimento
+de que temos dois soldados nas linhas de defeza.
+Muito obrigada, minhas amigas, mas minha mãe e
+minha avó são da mesma opinião, e ficaremos todas.
+O perigo, se o houver, repartido por trez será menor.
+Vão, não percam tempo; oxalá que nos tornemos
+a vêr...</p>
+
+<p>E despediram-se, chorando e soluçando, como se
+se despedissem para a eternidade.</p>
+
+<p>Ao alvorejar da manhã forçaram os francezes as
+baterias de Santo Antonio, Pedral e Aguardente.</p>
+
+<p>A cavallaria inimiga, entrando a dois de fundo pelas
+ruas da cidade, correu a atacar pela rectaguarda
+as baterias que resistiam ainda.</p>
+
+<p>Uma das que por mais tempo, e mais heroicamente
+resistiram, foi a do Bomfim.</p>
+
+<p>Já quando era grande a confusão em todo o circuito,
+destacou o brigadeiro Victoria para o exterior
+da linha a gente que lhe restava da legião lusitana,
+e mais duas partidas na força total de cem homens.</p>
+
+<p>O brigadeiro, o tenente coronel Champalimaud, o
+ajudante da praça de Valency, Antonio de Azevedo,
+e o capitão Graça Strech corriam denodadamente de
+um lado a outro animando o povo, que ali confluira,
+e que esperava poder fugir protegido por duas baterias,
+as quaes não só defendiam a rua do Bomfim
+mas até as baterias de Campanhã.</p>
+
+<p>Outro tanto não aconteceu no lado esquerdo da
+linha, commandado pelo brigadeiro Antonio de Lima
+Barreto.</p>
+
+<p>Logo pela manhã o immigo começou a atacal-o
+com energia; Barreto, perdendo algumas baterias,
+voltou-se para os artilheiros dizendo-lhes:</p>
+
+<p>&mdash;Encravem as peças. Retirem-se. Estamos perdidos.</p>
+
+<p>Os soldados, ouvida a ignara apostrophe, metteram-lhe<span class="pn"><a name="pag_30">{30}</a></span>
+duas balas no corpo, e despejaram a ultima
+polvora contra o inimigo.</p>
+
+<p>Quando a cavallaria franceza, forçando a bateria
+d'Aguardente, entrou na cidade, as ordenanças, desamparados
+os postos, fugiram tumultuariamente para
+a ponte pelas ruas da Sovella e nova do Almada.</p>
+
+<p>A morgada, ouvindo o estridor dos fugitivos, ainda
+longinquo, correu á janella, e reconheceu á distancia as ordenanças.</p>
+
+<p>&mdash;Que é? perguntaram-lhe anciosamente a filha e
+a neta.</p>
+
+<p>&mdash;Não é nada; é o povo que se affez a correr e a
+gritar, respondeu a morgada, tranquillisando ambas.</p>
+
+<p>Como porém a massa enorme rolasse já mais perto,
+ouviram-se distinctamente vozes de:</p>
+
+<p>&mdash;São os francezes!</p>
+
+<p>&mdash;Vem ahi!</p>
+
+<p>&mdash;Fujam! fujam!</p>
+
+<p>&mdash;Á ponte! á ponte!</p>
+
+<p>&mdash;Não ha outro caminho!</p>
+
+<p>&mdash;Depressa!</p>
+
+<p>Augusta, que tinha chegado a meio da sala, recuou
+espavorida, e deixou-se cair nos braços da mãe,
+gritando dolorosamente:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! meu pae!... meu irmão!</p>
+
+<p>Os francezes, entrando na cidade, levaram de roldão
+adeante de si a onda allucinada dos fugitivos que
+procuravam salvar-se. D'elles, uns tomavam a direcção
+da Foz, outros, em maior numero, corriam para
+a Ribeira, na ancia de atravessar para Villa Nova. Alguns
+passaram o rio a nado ou em barcos. Mas o
+grosso da multidão, enovelando-se n'uma vertiginosa
+confusão de pavor, rolou sobre a ponte, cujo taboleiro
+assentava, de espaço a espaço, sobre um renque
+de lanchões. E as primeiras pessoas que conseguiram
+transpol-a abriram, logo que se julgaram a
+salvo, os alçapões da ponte&mdash;systema de defesa empregado
+em casos extremos&mdash;pensando preparar assim
+um desastre aos francezes que as perseguiam.</p>
+
+<p>Novos fugitivos, onda sobre onda, empurrando-se
+uns aos outros, cegos de desespero, loucos de medo,
+iam caindo pelos alçapões ao rio, e a dizimada cavallaria
+portugueza, fugindo tambem, e procurando
+a ponte, maior pressão fazia ainda sobre a grande
+massa de povo, pisando-a, atropellando-a, empurrando-a<span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span>
+com os cavallos para o sorvedouro hiante onde
+centenas de pessoas desappareciam, ao mesmo tempo
+que as baterias de Villa Nova, vendo os francezes
+descer a rua de S. João, iam metralhando a Ribeira,
+e augmentando involuntariamente o terror e o
+morticinio.</p>
+
+<p>Diz-se que eram tantos os mortos, que, empilhados
+no vacuo dos alçapões, nivelaram o pavimento
+da ponte, facilitando passagem aos ultimos fugitivos
+por cima de rumas de cadaveres sobrepostos uns aos
+outros.</p>
+
+<p>Os proprios invasores se commoveram com esta
+horrorosa tragedia, e ainda puderam salvar da morte
+algumas pessoas.</p>
+
+<p>Depois, lançando pranchas sobre os alçapões, passaram
+para Villa Nova, d'onde facilmente desalojaram
+as nossas baterias.</p>
+
+<p>Saibamos agora qual seria a sorte do capitão Graça
+Strech e da sua familia n'essas crudelissimas horas
+da invasão.</p>
+
+<p>Esteve o capitão ao lado do brigadeiro Victoria,
+na bateria do Bomfim, até aos ultimos momentos em
+que a ambos, e a poucos mais, foi dado combater
+pela patria.</p>
+
+<p>O que é certo, e a historia o refere, é que puderam
+proteger a retirada de mais de seis mil pessoas,
+que se evadiram por aquelle lado da cidade.</p>
+
+<p>Abrigados os restantes valentes por um muro, que
+se levantava no outeiro do Bomfim, lograram continuar
+o fogo com desesperado denodo.</p>
+
+<p>Foi realmente heroico esse render-se de heroes,
+quando, desamparados de todo o soccorro, enviaram
+ao inimigo a ultima metralha que lhes restava.</p>
+
+<p>O brigadeiro Victoria, conhecendo insustentavel a
+posição, apertou a mão do tenente coronel Champalimaud,
+do ajudante Antonio de Azevedo e do capitão
+Graça Strech, dizendo-lhes com voz tremula de
+commoção:</p>
+
+<p>&mdash;Meus amigos, meus bravos amigos, o sacrificio
+da nossa vida nada aproveitaria á patria, que está invadida.
+Fizemos o nosso dever; pelejámos emquanto
+pudemos. Agora que cada um procure salvar a sua
+vida para quando mais util possa ser á terra em que
+nascemos.</p>
+
+<p>Mal acabava de dizer estas palavras cahiam feridas<span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span>
+duas pessoas das que rodeavam o brigadeiro:
+o commandante dos artilheiros e o capitão Graça
+Strech.</p>
+
+<p>&mdash;Que foi? perguntou Victoria.</p>
+
+<p>&mdash;Foi a ultima arcanhadura dos francezes, responderam
+a um tempo os dois bravos militares.</p>
+
+<p>Era necessario retirar; por Campanhã já não podia
+ser. Optaram por atravessar o Douro, que o brigadeiro
+e alguns officiaes conseguiram passar defronte
+d'Avintes. N'esse numero porém não podemos
+incluir o capitão Graça Strech.</p>
+
+<p>Ferido no peito, se bem que houvesse dissimulado
+a gravidade do ferimento, conheceu que era perigoso
+o seu estado. Foi então que se lembrou da filha, da
+esposa, da sogra, e do filho, que havia duas horas tinha
+perdido de vista.</p>
+
+<p>Que seria d'ellas, pobres mulheres, entregues sem
+protecção aos horrores d'aquelle dia? E o filho, que
+se batera como valente na bateria do Bomfim, haveria
+ficado entre os muitos que lá succumbiram, e
+adormeceram sobre a terra embebida no sangue de
+seus irmãos?</p>
+
+<p>Não sabia.</p>
+
+<p>Oh! mas era preciso que o soubesse antes que se
+lhe fechasse em torno a noite escura da eternidade.
+Pouco lhe importava morrer; o que elle queria era
+obter a certeza de que a embriaguez da victoria não
+tinha desvairado os invasores ao extremo de não respeitarem
+fracas mulheres indefesas.</p>
+
+<p>Ainda se restasse vigoroso o braço do filho para
+amparar o golpe que fosse vibrado contra ellas!</p>
+
+<p>Não o pôde suppôr; julgou-o morto nos derradeiros
+momentos da refrega, por que o não tornou a
+vêr.</p>
+
+<p>Atravessar o Douro era arriscado; tentar internar-se
+na cidade, tambem. Todavia o primeiro meio era
+a morte no desespero; o segundo podia ser a morte
+com a esperança.</p>
+
+<p>Abraçou-se pois a esse unico esteio que lhe restava&mdash;a
+esperança, de poder abraçar os seus.</p>
+
+<p>Arrancou os vivos da farda, e, esquecido de si, e
+do sangue que cada vez lhe repuxava do peito com
+maior intensidade, tentou descer a rua do bomfim e
+bandear-se em logar azado com a turba dos que percorriam
+as ruas desvairadamente.<span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a><br><a name="pag_34">{34}</a><br><a name="pag_35">{35}</a></span></p>
+
+<div class="ilustracao">
+<p><img src="images/pag_33.png" border="0" alt="Ilustração"></p>
+<p>Quando elle passava coxeando... (<i>pag. 7</i>)</p>
+</div>
+
+<p>Do militar que fôra, arrancados os vivos e emblemas,
+só lhe restava a alma.</p>
+
+<p>Poucos passos andados, sentiu porém que lhe ía
+fugindo a vista, á medida que empenhava as ultimas
+forças para adiantar caminho.</p>
+
+<p>Ainda mais uma vez enganára a coragem do soldado
+o coração do pae.</p>
+
+<p>Quiz andar. Fraquejaram-lhe as pernas, e Graça
+Strech procurou com a mão um amparo que não encontrou.</p>
+
+<p>Após um momento de oscillação, ruiu em terra.
+Estava morto.</p>
+
+<p>Entretanto havia occorrido a enorme desgraça da
+ponte, e os invasores, enfurecidos pela resistencia
+que encontraram, iam encetar as tremendas represalias
+que estão na memoria de todos os portuenses.</p>
+
+<p>Infelizes os que tiveram de assistir hora a hora a
+esse drama de sangue e terror que teve por bastidores
+os muros d'uma cidade inteira. Infelizes os que
+viram despedaçar-se momento a momento nas garras
+dos cannibaes os até então immaculados thesouros do
+seu coração. Infelizes, finalmente, os que viram cavar-se
+a seus pés a sepultura ingente de milhares de
+familias e não puderam enchel-a com o sangue dos
+que assassinavam em nome da victoria.</p>
+
+<p>José Maria da Graça Strech pertence ao numero
+d'estes grandes desgraçados, que foram muitos.</p>
+
+<p>Quando a bateria do Bomfim protegeu a fuga de
+seis mil pessoas, já quando, depois das oito horas da
+manhã, era desesperada a situação dos portuenses,
+duas senhoras, que se destacaram da multidão desorientada,
+acenaram ao denodado moço que por acaso
+olhára na direcção que ellas seguiam.</p>
+
+<p>Elle reconheceu-as. Eram as duas visinhas que horas
+antes tinham convidado Augusta a acompanhal-as
+na fuga e que, arrastadas pela onda impetuosa dos
+que procuravam salvação, chegaram até ao Bomfim.</p>
+
+<p>Abeirou-se o moço a falar-lhes, por um momento
+radioso de felicidade, porque lhe acudira a lembrança
+de que as pessoas da sua familia as haveriam acompanhado.
+Oh! se sua irmã, se a estremecida menina
+estivesse ali, poderia fugir incolume aos horrores que
+elle presagiava imminentes, attenta a vantagem do
+inimigo em toda a linha.<span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ellas vieram? perguntou açodadamente José
+Maria.</p>
+
+<p>&mdash;Não, teimaram em ficar, respondeu confrangida
+uma das senhoras.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! meu Deus! exclamou o filho do capitão
+Strech levando a mão ao coração.</p>
+
+<p>&mdash;Veja se póde salval-as, salve-as por Deus, que
+estão sósinhas, desampadas de criados...</p>
+
+<p>&mdash;Mas como? Como?! articulou o moço estendendo
+o braço para a posição do inimigo, como se quizesse
+indicar que era preciso combater a todo o
+transe.</p>
+
+<p>&mdash;Augusta, a pobresinha, fazia dó! Oh! salve-a,
+salve-a, que ella morrerá de pavor! acrescentou a
+outra visinha.</p>
+
+<p>&mdash;Augusta! Augusta! repetiu José Maria, perplexo,
+olhando para as duas lacrimosas mulheres e para
+os seus companheiros d'armas que defendiam á distancia
+a unica bateria que não se tinha rendido.</p>
+
+<p>E, sem se mover do sitio em que empedrára, dizia
+com desalento:</p>
+
+<p>&mdash;Pobresinhas! E meu pae ali, exposto á morte a
+todo o instante, e ellas sem defeza, sem ninguem!...</p>
+
+<p>Então, aproveitando a opportunidade d'um momento,
+ordenára o coronel Champalimaud que se
+désse passagem ao magote dos fugitivos que mais se
+tinha adiantado.</p>
+
+<p>&mdash;Vão, vão, gritou o moço affastando com o braço
+as duas mulheres&mdash;Salvem-se ao menos, e obrigado,
+muito obrigado. Eu verei se as posso salvar...
+a ellas, a Augusta.</p>
+
+<p>O troar proximo do canhão pareceu chamal-o á realidade
+do perigo.</p>
+
+<p>&mdash;São elles, disse de si para comsigo, correndo na
+direcção da bateria, os poucos que n'esta hora se sacrificam
+pela patria. E tambem hão de ter mãe, e irmã...
+e estão ali, firmes, corajosos, heroicos. Oh!
+cobardia do meu coração, não, não te posso, não te
+devo ouvir...</p>
+
+<p>E não tardou que se collocasse ao lado dos seus
+esforçados companheiros.</p>
+
+<p>Todavia cada vez se aproximava mais o lastimoso
+desfecho d'aquella desesperada resistencia. Começava
+a lavrar a confusão na bateria, fustigada por violento
+fogo dos francezes&mdash;indomito ataque, de que<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span>
+em breve foi victima, como já dissemos, o proprio
+capitão Graça Strech. Tamanha era a fumarada, que
+já se tornava impossivel verem-se uns aos outros.
+Foi então que José Maria, involto na cerração da metralha,
+conhecendo que era impossivel prolongar por
+mais tempo aquella proeza de bravos patriotas, se
+lembrou de que nada aproveitaria á causa da patria
+o sacrificio da sua vida. E soaram-lhe aos ouvidos as
+palavras afflictivas das duas mulheres, e sonhou ver estenderem-se
+para elle os braços tremulos d'Augusta,
+que pedia soccorro.</p>
+
+<p>Então, como se o coração houvesse decretado
+uma sentença irrevogavel, cortou resolutamente o
+fumo da polvora, e affastou-se da bateria, murmurando
+os nomes de sua mãe, de sua irmã, de sua avó.</p>
+
+<p>Momentos depois foi que o brigadeiro Victoria fugiu
+tambem, e que o capitão Graça Strech caiu morto
+na rua do Bomfim.</p>
+
+<p>Trabalhoso e arriscado foi o abrir caminho por
+entre a multidão que, semelhante a um grande mar,
+ondulava no vertiginoso fluxo e refluxo do desespero.
+Algumas vezes teve de se esconder, outras de
+retroceder, e só pela tarde chegou á rua nova do Almada.</p>
+
+<p>Abroquelado pela energia da coragem, e mais feliz
+ou mais infeliz que seu pae, venceu todas as contrariedades,
+até que finalmente, escoando-se por entre
+os grupos desvatrados, entrou em casa no momento
+em que ao fundo da rua assomavam tropas francezas
+que, senhoras de toda a cidade, continuavam o saque,
+as violações e a carnificina que tristemente assignalaram
+esse dia memoravel nos fastos da nossa
+historia.<span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a></span></p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<h2>V</h2>
+
+<h2>O juramento de vingança</h2>
+
+<p>As casas da rua nova do Almada estavam pela
+maior parte desertas.</p>
+
+<p>Foi esta uma das ruas que mais lutuoso espectaculo
+offereceram. Os habitantes fugiram deixando
+abertas as portas, de modo que, á hora em que começou
+o saque, os francezes se locupletaram tranquilamente.
+Poucos foram os predios que lhes deram
+o breve incommodo de forçar a entrada. A este
+numero pertenceu, porém, a casa onde se conservou,
+entregue aos seus pavores, a familia Strech. José Maria,
+ao entrar açodado pela aproximação dos invasores,
+appellou para o ultimo recurso de defeza que
+lhe restava: fechou a porta. Lembrou-se de que os
+francezes se domiciliariam nos predios devolutos e
+de que não porfiariam em forçar uma entrada encontrando abertas tantas portas. Não pôde imaginar
+n'esse momento de suprema preoccupação que meditassem
+a pilhagem e a carnificina que, passadas horas,
+consummaram.</p>
+
+<p>Correu, pois, a procurar a irmã, a mãe e a avó,
+que, ouvindo passos apressados, e no presupposto de
+serem os de algum soldado francez, romperam em
+gritos angustiosos, traindo d'este modo o segredo dos
+seus esconderijos.</p>
+
+<p>&mdash;Augusta! Augusta! Minha mãe! Avósinha! apostrophou
+precipitadamente José Maria para serenal-as
+e correndo pelo corredor.</p>
+
+<p>&mdash;José! José! exclamou uma voz que parecia soar
+das profundezas de um tumulo.</p>
+
+<p>E logo dois braços tremulos de commoção enleiaram
+o moço, e uns labios gelados de mortal frialdade
+lhe procuraram as faces, e um novo grito de dolorida alegria lhe estrugiu aos ouvidos.</p>
+
+<p>E immediatamente soaram passos, que elle conheceu:<span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span>
+a mãe e a avó, seguindo a pobre menina que as
+precedera, correram ao encontro de José Maria.</p>
+
+<p>Augusta, apertando-o contra o peito, alternando
+beijos e olhares por egual frementes, porque o sangue
+congelado no coração parecia, acordado de subito,
+correr em turbilhões ao cerebro, não lograva
+articular palavra, tão violenta era a sensação que estava
+experimentando.</p>
+
+<p>Não assim, porém, sua mãe, que, parando como
+que fulminada á porta, tivera comtudo voz para perguntar ao filho enleiado pela irmã:</p>
+
+<p>&mdash;E... teu pae?</p>
+
+<p>&mdash;Lá ficou ainda a combater com os ultimos valentes.
+Bem póde ser que a Providencia o tenha salvado
+como a mim me salvou. O cobarde fui eu, sim,
+fui eu, porque me lembrei de ti, minha irmã, e de si,
+minha mãe, e...</p>
+
+<p>Não pôde completar a phrase, porque de repente
+foi chamado á realidade pelo estrepito que a soldadesca
+franceza fazia na rua.</p>
+
+<p>&mdash;Retirem-se! escondam-se! gritou elle. São os
+francezes, bem os vi, são elles! Esconde-te, Augusta,
+minha mãe, minha avó...</p>
+
+<p>N'este momento estremeceu o predio nos alicerces
+como se a porta tivesse soffrido o embate de um
+ariete.</p>
+
+<p>&mdash;Que é? Onde é? perguntou offegante a menina,
+que de novo descorára até á lividez do cadaver.</p>
+
+<p>&mdash;São elles que forçam a porta, naturalmente...
+Eu fechei-a quando entrei, sim, eu fechei-a.</p>
+
+<p>&mdash;E estava aberta! Foram os criados quando fugiram!
+acrescentou a avó.</p>
+
+<p>&mdash;Escondam-se, escondamo-nos todos. Viram-me
+decerto entrar. Perseguem-me! tornou afflicto José
+Maria.</p>
+
+<p>E, após segundo estrondo, soaram no portal e na
+escada os passos da soldadesca que entrava.</p>
+
+<p>Das quatro pessoas que estavam na sala, nenhuma
+pôde fugir; todas como que ficaram chumbadas ao
+pavimento.</p>
+
+<p>E os francezes entraram vozeando, praguejando, e
+logo assomaram á porta muitas cabeças cujos olhos
+chammejavam de cubiça e sensualidade.</p>
+
+<p>Então José Maria, como galvanisado de subito,
+adeantou-se para a porta, estendendo o braço para<span class="pn"><a name="pag_40">{40}</a></span>
+defender as trez mulheres e, quando ia talvez a balbuciar
+uma supplica, caiu desamparado, vibrando um
+grito e recebendo no peito a ponta de uma bayoneta,
+cujo golpe fôra mais doloroso que profundo.</p>
+
+<p>As vozes das trez mulheres, conglobadas n'uma só,
+soltaram uma d'essas exclamações impossiveis de
+descrever, apenas comparavel ao grito lamentoso da
+araponga no deserto, quando encontra vazio o ninho,
+porque uma ave de rapina lhe arrebatou a prole.</p>
+
+<p>E a soldadesca entrou de roldão na sala, affastando
+com o pé o corpo de José Maria, sedenta de prazer
+e rapina.</p>
+
+<p>Para os que suppozerem que exageramos com
+toques demasiado sombrios os horrores que se succederam
+á invasão do Porto, vamos copiar apenas
+algumas linhas da <i>Historia da guerra civil</i>, de Soriano:</p>
+
+<p>«Para cumulo de todas estas desgraças a cidade
+foi posta a saque, por castigo da sua resistencia, como
+em casos taes se costuma praticar, saque que
+começou pelas onze horas do dia, levando os vencedores
+a todas as casas de habitação, a par do terror
+que infundiam, o roubo, a violação e a morte, excitados
+de mais a mais para isto por encontrarem, segundo
+alguns dizem, varios prisioneiros francezes
+sem olhos, com linguas cortadas, e os membros truncados
+ou rasgados.»</p>
+
+<p>Alguns escriptores o dizem, em verdade; um d'elles
+é o sr. Claudio de Chaby que, nos seus <i>Excerptos
+historicos</i>, refere:</p>
+
+<p>«No transito das ruas e praças encontraram os soldados
+de Soult alguns dos seus camaradas, que nas
+differentes refregas tinham os nossos aprisionado,
+exercendo n'elles as sevicias da mais repugnante
+crueza: a uns tinham cortado a lingua, arrancado a
+outros os olhos ou decepado os membros!&mdash;O effeito
+natural da observação de taes crueldades, junto á
+tambem natural disposição de espirito dos invasores
+em taes circumstancias, levou estes á pratica de vingativos
+e deploraveis excessos, de <i>assassinato, roubo,
+violencia e profanação</i>!»</p>
+
+<p>O mais que se passou na casa da rua nova do Almada,
+depois que a soldadesca entrára, não o soube exactamente
+José Maria que, ao cerrar da noite, tornára
+a si, depois de haver perdido muito sangue pelo<span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span>
+golpe que recebera no peito. Foi de tempestade na
+terra e no céo essa noite, como podem confirmar os
+poucos que se lembrarem d'ella.</p>
+
+<p>Tamanho era o temporal havia dias imminente ao
+Porto, que trinta navios inglezes, carregados de vinho
+e outros productos, impedidos de sair das aguas
+do Douro pelo mau estado da barra, caíram em poder
+do marechal Soult, bem como a polvora guardada
+n'um vasto armazem, e 196 peças de artilharia,
+recolhidas nas differentes baterias da cidade.</p>
+
+<p>Algum tempo esteve José Maria firmado sobre o
+braço direito, que d'instante a instante fraquejava,
+procurando orientar-se e recordar-se.</p>
+
+<p>Era profundo o silencio na casa toda.</p>
+
+<p>Dir-se-ia que despertava n'um tumulo.</p>
+
+<p>Assim que pôde rememorar o que se passára até
+ao momento de ser ferido, entrou de chamar em altas
+vozes a irmã, a mãe e a avó.</p>
+
+<p>Apenas porém respondia ás suas afflictivas exclamações
+o chofrar dos aguaceiros nas vidraças.</p>
+
+<p>Ergueu-se com muito custo, atabafando o sangue
+com a roupa, e começou a sondar a escuridão, procurando
+alguem.</p>
+
+<p>Não tardou que tropeçasse n'um obstaculo que os
+pés encontraram. Curvou-se e tacteou. Encontrou
+vestidos de mulher. Estendeu a mão e apalpou um
+rosto. Até pelo tacto conhecemos os nossos. José
+Maria estremeceu como se tivesse recebido em pleno
+peito um novo golpe de ferro, e rugiu d'afflicção
+e desespero. Não podia duvidar. Era o rosto de sua
+irmã. Parecia morta! Entrou de agital-a, de chamal-a.
+O mesmo silencio, a mesma immobilidade!</p>
+
+<p>&mdash;Mortal morta! rouquejava elle convulso.&mdash;Minha
+mãe! minha avó!</p>
+
+<p>E unicamente lhe respondia a chuva a fustigar a
+vidraça.</p>
+
+<p>Occorreu-lhe porém que, como se deu com elle,
+podia ser que sua irmã estivesse apenas adormecida
+em deliquio.</p>
+
+<p>&mdash;Ella é tão delicada! apostrophou-se elle. Desmaiou
+talvez. Julgaram-n'a morta. Deixaram-n'a.
+Mas minha mãe? E minha avó?</p>
+
+<p>Era preciso tirar-se d'aquella duvida horrivel.</p>
+
+<p>Sondando as trevas, saíu tremendo, a procurar
+luz.<span class="pn"><a name="pag_42">{42}</a></span></p>
+
+<p>Momentos depois voltava cambaleante á sala e, levantando
+una candieiro de latão á altura da cara, reconhecia
+trez cadaveres.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>N'essa mesma noite, e a essa mesma hora, ruidosamente
+se banqueteavam n'uma taberna do largo da
+Lapa, ebrios de vinho e victoria, alguns soldados da
+divisão Delaborde.</p>
+
+<p>Comia-se, bebia-se, fumava-se, cantava-se. Era a
+celebração solemne d'um dia de saque, que requeria
+uma noite d'orgia. Algumas vivandeiras francezas
+cantavam em côro, no idioma patrio, e reclinadas
+aos hombros dos soldados, uma canção marcial, cujo
+estribilho podia ser traduzido d'este modo:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Viva a França! viva a França!<br>
+Que triumpha na matança!<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Rataplan!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Um dos soldados; de olhar scintillante e fartos bigodes
+retorcidos, chasqueava na sua lingua natal com
+uma das vivandeiras que se lhe queria escapar dos
+braços:</p>
+
+<p>&mdash;Oh! Por Deus, que era bem mais bonita do
+que tu!</p>
+
+<p>&mdash;Quem? perguntou d'esguelha a vivandeira.</p>
+
+<p>&mdash;A portugueza que me resistiu.</p>
+
+<p>&mdash;E que tu mataste?</p>
+
+<p>&mdash;E que eu matei para que não deixasse de resistir
+a outro.</p>
+
+<p>&mdash;A pobre rapariga!</p>
+
+<p>&mdash;Pobre rapariga! d'aquella edade deve ter morrido
+pura! Tu não morres assim, <i>ma petite chienne!
+Par Dieu!</i></p>
+
+<p>&mdash;Cruel!</p>
+
+<p>&mdash;E o caso é que quasi do mesmo golpe derrubei
+as duas mulheres que a defendiam e abraçavam. Um
+soldado do imperador livra-se depressa ainda que seja
+d'um cento de mulheres.</p>
+
+<p>&mdash;Cheiras a sangue! exclamou a vivandeira forcejando
+por desprender-se dos braços do soldado.</p>
+
+<p>&mdash;Acodes pelo teu sexo! O que me não perguntas
+é quantos homens matei! Por Deus! que era precisa
+a vingança. Estes perros d'hespanhoes, que se chamam
+portuguezes, não nos queimaram a alma porque<span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span>
+não puderam. Atiravam-nos desesperados! E
+matavam os nossos emissarios! e mutilavam os nossos
+irmãos! Quantos centos de francezes imaginas
+tu que morreram hoje? Não se mata impunemente
+um francez como se mata um cão. E desde que entrámos
+em Portugal quantos não teem ficado para
+nunca mais voltar a França! Vingámol-os; estão vingados!
+<i>Vive l'empereur! Vive le marechal! Vive la
+France!</i></p>
+
+<p>E voltando-se para outra das vivandeiras, que estava
+proxima, jogou-lhe esta phrase intimativa:</p>
+
+<p>&mdash;Esta é minha; canta tu.</p>
+
+<p>E logo, por entre a vozeria, se ouviu cantar;</p>
+
+<blockquote>
+<p>Viva a França! viva a França!<br>
+Que triumpha na matança!<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Rataplan!</p>
+</blockquote>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Aquelles cadaveres eram os das trez senhoras da
+familia Strech.</p>
+
+<p>José Maria esteve contemplando-os mudo, absorto,
+authomatico. Dir-se-ia que a intelligencia se lhe
+havia paralysado, e o coração havia adormecido. Era
+um deliquio, como o que fôra consequencia do ferimento,
+mas muito mais horroroso de certo, porque
+os olhos tinham vista para a realidade, embora o cerebro
+não tivesse actividade para comprehender.</p>
+
+<p>Parecia que as trez pobres senhoras dormiam tranquillamente,
+se bem que o desalinho dos vestidos e
+dos cabellos fosse claro indicio de lucta.</p>
+
+<p>José Maria ajoelhou-se, poisando a luz, a contemplal-as
+e, porque o coração humano é tão valente ás
+vezes que se excede a si mesmo, resistiu áquella dôr
+incomparavel e quiz ainda procurar nas ruinas do
+seu pensamento o auxilio de uma ideia.</p>
+
+<p>N'aquella immensa e tenebrosa cerração era preciso
+um raio de luz, ainda que fosse sinistro como os
+clarões sulphureos dos mysticos paineis que representam
+o inferno.</p>
+
+<p>E verdadeiramente infernaes foram os horrores
+d'esse dia.</p>
+
+<p>Se o leitor, apesar das indicações historicas de que
+me tenho soccorrido, imagina que estou phantasiando
+negruras para architectar um romance tenebroso,<span class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span>
+achará no seu proprio espirito a convicção da verdade,
+se se concentrar por um momento deante do tosco
+e funebre quadro, allusivo á invasão dos francezes,
+que pende da muralha da Ribeira, a dois passos
+da ponte pensil.</p>
+
+<p>Ahi, á luz das lanternas que descrevem na escuridão
+da noite duas zonas luminosas, ouvindo o ruido
+triste do Douro que lhe rola aos pés, vendo a pequena
+distancia erguerem-se ao ar, como outros tantos
+espectros sombrios, as armações dos navios fundeados,
+ahi, dizia eu, comprehenderá todas as angustias,
+hoje esquecidas, d'essa epoca de horror, traduzidas
+na concisa simplicidade d'esse piedoso monumento.</p>
+
+<p>A inscripção do quadro nem por singela deixa de
+convidar á meditação:</p>
+
+<p class="ni" style="margin:1em; border: solid 2px #000; padding: 1em;">«Pelas almas dos que falleceram na ponte do
+rio Douro na entrada dos francezes no anno
+de 1809, um Padre Nosso e uma Ave-Maria.»</p>
+
+<p>Ali fui eu muita vez, pela calada da noite, como a
+procurar a triste inspiração para escrever as primeiras
+paginas da historia da familia Strech. Estes horrores
+poderão hoje parecer sinistramente romanticos,
+mas uma hora só de recolhimento em face do quadro
+da Ribeira basta a acordar em nós a consciencia
+historica d'essa epoca calamitosa.</p>
+
+<p>Para os que morreram na catastrophe da ponte
+pede o rotulo uma oração, mas quantos não morreram
+então sem oração e sem mortalha, quantos não
+agonisaram em ancias que não foram mortaes, sem
+a mortalha que desejariam, e sem uma oração de que
+blasphemariam!</p>
+
+<p>Ó Providencia! só tu sabes o segredo de todas as
+maguas, só tu podes contar as bagas de suor que
+ressumbram na fronte dos infelizes que tu não matas
+logo, para que não morram em desespero sacrilego!</p>
+
+<p>E José Maria não morreu.</p>
+
+<p>Por um esforço intellectual, que só a Providencia
+podia permittir a um soldado ferido, quando já as<span class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span>
+trevas da loucura procuravam cingir-lhe o cerebro
+escandecido, conseguiu encontrar uma recordação,
+se bem que a principio tibia e vaga como o diluculo
+que se vae alargando e colorindo pouco a pouco até
+chammejar no céo.</p>
+
+<p>E tambem essa luz que se fez no espirito do pobre
+moço lhe queimára a intelligencia, como se fosse
+labareda, mostrando-lhe as ruinas do passado ainda
+fumegantes de um incendio recente.</p>
+
+<p>Eram aquellas as cinzas da sua felicidade...</p>
+
+<p>Estavam ali espalhadas pelo turbilhão da guerra,
+retintas de sangue, a clamar vingança.</p>
+
+<p>E os seus beijos cariciosos e ardentes, e as suas
+palavras ao mesmo passo desalentadas e calorosas
+não puderam, depois que inteiramente se recordou
+da realidade, galvanisar os trez cadaveres, animar os
+trez corações paralysados, descerrar os labios da mãe,
+da irmã e da avó, para sempre mudos, para sempre
+adormecidos.</p>
+
+<p>&mdash;Pobresinhas!&mdash;pensava elle&mdash;deixaram-se talvez
+morrer por me supporem morto! E antes eu o
+estivesse, que já teria soado a ultima hora da minha
+triste mocidade. E mata-se assim a mãe, a dois passos
+do filho! E não se respeitam os cabellos brancos
+da velhice! nem a belleza e a virtude que teem duplo
+direito á vida! Mas, agora reparo eu, aqui estão
+patentes e irrecusaveis os signaes da lucta... é que se
+disputavam o sacrificio da morte... ou... suspeita horrivel!
+morreram talvez para defender a virgindade de
+uma só! Dize-me, ó minha boa irmã, ó minha doce
+amiga, se isto não é um sonho atroz da minha desvairada
+cabeça! Responde, Augusta, sou eu que te
+peço, eu, o teu irmão, o teu José... E não fala, e não
+responde! Está morta! Mataram-n'a elles, os malditos
+soldados d'esse leão indomavel da Corsega para
+quem todo o mundo é pequeno, todo o sangue pouco!
+Acaso não se saciava a tua sanha, leão, sem a
+vida d'estas trez pobres mulheres, que nunca te
+amaldiçoaram, que nunca levantaram um brado de
+justa indignação contra a tua ambição desmedida!
+Eu é que devia morrer, sabes tu? Eu sim, porque
+fiz guerra de morte aos teus soldados, porque as minhas
+mãos cheiram ainda a polvora com que os fuzilei.
+Eu sim, porque a minha morte seria uma represalia;
+mas a morte d'estas trez mulheres, timidas<span class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span>
+e indefesas, não foi uma represalia, foi uma infamia...</p>
+
+<p>E, extenuado d'esta subitanea exaltação, pendeu a
+fronte, como se lhe faltasse a vida para tamanha angustia,
+porque o sangue perdido era copioso. Entretanto
+continuava a tempestade e, confundido com o
+estrepito da chuva, começou-se a ouvir o toque dos
+clarins nos postos dos invasores.</p>
+
+<p>José Maria pareceu despertar de subito, acordado
+por essa sinistra linguagem dos acampamentos:</p>
+
+<p>&mdash;Sois vós! Podeis estar tranquillos, que a esta
+hora não haverá um só braço que tenha a energia
+de vos acommetter no vosso glorioso descanço. Tudo
+são orphãos e viuvas, que pranteiam cadaveres.
+Descançae, descançae, que muita coragem vos deve
+ter custado o assassinio de mulheres inoffensivas
+como estas! como todas! Oh! mas ámanhã a vingança
+acordará terrivel, e então vos pedirá contas
+das vossas atrocidades e das vossas infamias. Sim,
+ámanhã, nós todos, unidos por commum desgraça,
+seremos um só inimigo, porque a nossa vingança
+é uma, mas não imagineis que tendes a derrubar um
+só inimigo, porque serão muitas as cabeças a decepar,
+muitos os portuguezes a vencer... Onde houver
+um portuguez, haverá um soldado, porque elle pelejará
+por desaffrontar a memoria dos seus parentes,
+dos seus amigos, d'um filho, d'uma irmã...</p>
+
+<p>E curvando-se carinhoso para o cadaver d'Augusta,
+e tirando-lhe delicadamente do dedo o annel com
+que ella havia morrido:</p>
+
+<p>&mdash;E eu vingarei a vossa memoria, minhas santas
+amigas, e vingarei a tua innocencia, minha querida irmã...
+Por este annel o juro, que será o meu fiel
+companheiro, talvez o unico que me seja dado conservar
+até a hora da morte... Beijal-o-hei antes
+d'entrar em combate, e elle me dará a coragem dos
+valentes; elle será a minha égide protectora se a
+morte me quizer arrebatar a minha vingança..... Que
+Deus me oiça, Augusta. Sobre o teu annel, que nunca te desacompanhou, faço este juramento solemne,
+que jámais quebrarei...<span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span></p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<h2>VI</h2>
+
+<h2>A mariposa do acampamento</h2>
+
+<p>Fôra demasiado esforço para tão melindroso estado.</p>
+
+<p>O corpo, alquebrado pela dôr physica, parecia vergar
+ao peso d'aquella grande alma.</p>
+
+<p>Graça Strech caminhou em direitura á porta, vacillando
+a cada passo, e deixando após si um rasto
+de sangue. Antes de sair, volveu ainda um ultimo
+olhar aos trez cadaveres, e levantou por um instante
+a mão de sobre o ferimento, apalpando o peito n'outro
+sitio, como para se certificar da existencia d'alguma
+coisa que lá trazia occulta, e que pareceu encontrar.</p>
+
+<p>Era o maço das cartas d'Augusta, escriptas da quinta
+das Chãs, e que elle conservára no seio durante as
+mais perigosas refregas na bateria do Bomfim.</p>
+
+<p>Desceu vagarosamente as escadas, amparado ao
+corrimão, e conseguiu a muito custo chegar á rua.</p>
+
+<p>Uma lufada de vento, humida e fria, momentaneamente
+refrigerou o cerebro d'aquelle moço, em quem
+as mais violentas congestões parecia succederem-se
+rapidamente.</p>
+
+<p>Onde ia elle, ferido, cerrada a noite?</p>
+
+<p>A esta pergunta, que muitas vezes se fez no decurso
+de sua vida, nunca pôde achar resposta satisfatoria.</p>
+
+<p>O que parece mais proximo da verdade é que, não
+sentindo já forças e coragem para demorar-se ali,
+luctasse por arrancar-se de ao pé dos trez cadaveres.</p>
+
+<p>Chegado ao limiar da porta, e recebendo de subito
+uma lufada de ar, impregnado d'humidade, reconheceu-se,
+no meio da cerrada escuridão d'aquella
+noite tenebrosa, inteiramente carecido d'alento para
+dar um passo.</p>
+
+<p>N'essa conjunctura ouviu estrepito de cavallos. Sentiu
+de novo affluir-lhe o sangue ao cerebro. Eram de
+certo elles, os assassinos da sua familia, que patrulhavam<span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span>
+a cidade invadida. Não se enganou. Os cavallos
+que se aproximavam eram os d'uma ronda franceza.
+Graça Strech estava porém desarmado, ferido,
+impossibilitado do menor esforço. A ronda acercou-se,
+e um dos cavalleiros, que era um official portuguez
+obrigado pelo direito de conquista ao triste mister
+d'interprete, perguntou com voz tremula:</p>
+
+<p>&mdash;Quem está ahi?</p>
+
+<p>Graça Strech ficou surprehendido d'ouvir falar-lhe
+na lingua nacional, e respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Um soldado portuguez, ferido.</p>
+
+<p>Demorou-se o official a falar á patrulha franceza, e
+apeando-se dois dos cavalleiros ergueram o corpo de
+Graça Strech até a altura precisa para poisal-o entre
+o arção da sella e o corpo do official portuguez.</p>
+
+<p>E monotamente continuou a eccoar na rua o estrepito
+da ronda.</p>
+
+<p>Não pareça extraordinaria esta piedade dos invasores
+para com os invadidos no mesmo dia de tão sanguinosa
+victoria.</p>
+
+<p>O marechal Soult, que entrára no Porto na tarde
+d'esse dia, puzera desde logo todos os seus cuidados
+em serenar os animos da população por actos ostensivamente
+meritorios.</p>
+
+<p>Era este um procedimento por ventura aprendido
+na lição da historia romana&mdash;o da benevola protecção
+aos vencidos.</p>
+
+<p>Manda porém a verdade que se diga que, mal que
+entrou na cidade, expediu ordens terminantes ás tropas
+para que, sob pena de austera correcção militar,
+respeitassem a população, e até a protegessem em
+caso de conflicto.</p>
+
+<p>Assim foi que, reprimindo os abusos da soldadesca,
+logrou restabelecer o socego em toda a cidade trez
+dias depois da invasão, procurando insinuar-se na opinião
+publica, abstendo-se de impôr contribuiçoes de
+guerra, nomeando pessoas idoneas para os logares vagos,
+e soccorrendo os habitantes completamente privados
+de recursos.</p>
+
+<p>O partido anti-patriotico, subitamente creado em
+redor do marechal Soult, para logo fundou um orgão
+jornalistico, denominado <i>Diario do Porto</i>, porque a
+imprensa tem sido desde tempos immemoriaes o respiradouro
+aberto a todas as paixões, justas e injustas,
+nobres e mesquinhas.<span class="pn"><a name="pag_49">{49}</a></span></p>
+
+<p>O leitor deve ficar conhecendo uma pequena amostra,
+sequer, da linguagem empregada no supracitado
+diario. Oiçamos o falsario redactor no supplemento
+ao n.º 2.º:</p>
+
+<p>«Este paiz tão bello, e tão favorecido pela natureza,
+parecia no passado governo tocado de paralysia;
+mas, graças aos céos, que se lhe prepara um novo futuro, que
+os bons conhecedores já tinham d'antemão
+entrevisto! Nada terá o Principe que dizer sobre a
+nossa fidelidade; nos lh'a guardamos emquanto existiu
+entre nós; mas uma vez que nos deixou, uma vez
+que desdenhou lançar mão das redeas do governo,
+que largára quando as circumstancias lh'o permittiam,
+renunciou todos os seus direitos, e nada é já
+para os portuguezes, que deixou ao desamparo. Em
+uma palavra, a casa de Bragança já não existe; aprouve
+aos céos que os nossos destinos passassem a outras
+mãos, e foi particular predilecção da Divina Providencia,
+que impera sobre o universo, o ter-nos enviado
+um homem isento de paixões, e que só tem a
+da verdadeira gloria; que se não quer servir da força,
+que o grande Napoleão lhe confiou, senão para
+nos proteger e livrar-nos do monstro da anarchia, que
+ameaçava devorar-nos. As palavras que elle nos dirigiu,
+e as promessas que nos fez<sup><a href="#nota5" name="m_nota5">[5]</a></sup>, desde que entrou
+n'esta cidade, tudo se tem cumprido á risca,
+muito mais do que o poderiamos esperar, e do que
+as circumstancias pareciam promettel-o: porque tardamos,
+pois, em congregar-nos ao redor d'elle, a proclamal-o
+nosso pae e nosso libertador? Porque tardamos
+a exprimir o nosso desejo de o vermos á testa
+d'uma nação, cujo affecto soube tão rapidamence conquistar?
+O soberano de França prestará ouvidos aos
+nossos clamores, e se lisonjeará de ver que desejamos
+para nosso rei um logar-tenente seu, e ao mesmo
+tempo um grande general, que a seu exemplo soube
+vencer e perdoar. Seja, pois, esta grande e interessante
+comarca, já que tem experimentado os effeitos da
+sua clemencia, e a quem elle tem prodigalisado os
+seus beneficios, seja uma das primeiras, que se glorifique
+de o reconhecer e de lhe offerecer os seus
+braços, os seus bens e o seu patrimonio todo.»</p>
+
+<p>Não ficaram simplesmente em louvaminhas de gazeta<span class="pn"><a name="pag_50">{50}</a></span>
+os salamaleques feitos ao duque de Dalmacia. De
+Braga veiu ao Porto no dia 25 d'abril uma deputação
+composta de trinta e seis membros do clero, nobreza
+e povo, a pedir ao marechal que se dignasse fazer ver
+ao imperador a necessidade de collocar um principe
+de sua eleição no throno que a dynastia de Bragança
+deixára devoluto.</p>
+
+<p>No dia immediato entrou egualmente ao palacio do
+duque de Dalmacia outra grande deputação, constituida
+por todas as autoridades civis, clero, deputados,
+nobreza, cidadãos, corporações judiciaes e militares
+da cidade do Porto, a repetir o pedido com viva instancia.</p>
+
+<p>A deputação, acompanhada desde a casa do conselho
+pelos officiaes do estado-maior general, era esperada no
+atrio do palacio dos Carrancas pelos ajudantes de
+ordens do marechal Soult. Foi o general de divisão
+Quesnel, investido nas funcções de governador
+militar do Porto e da provincia do Minho, quem a introduziu
+na sala de recepção, onde o corregedor da
+comarca botou fala consoante ao estylo dos supplementos
+do <i>Diario do Porto</i>.</p>
+
+<p>O marechal devia estar sorrindo interiormente da
+versatilidade dos portuguezes, que lhe atiravam aos
+pés nuvens d'incenso, recebendo-o dias antes nas
+trincheiras com nuvens de polvora. Força é assoalharmos
+as nossas glorias, para sermos portuguezes, e as
+nossas manchas, para sermos justos. E esta é realmente
+uma lamentavel nodoa que macula as paginas
+da historia portugueza. Se nos não respeitámos, durante
+a invasão, a boa policia de guerra, tambem a
+soldadesca franceza não respeitou, na victoria, os direitos
+individuaes. Saldada a divida, estavamos quites. Para a atrocidade, filha da revolução, a represalia,
+irmã do triumpho. A attitude do Porto, depois
+de vencido, e em presença do cavalheiroso procedimento
+de Soult, devia ser a da resignação reconhecida,
+nunca a do servilismo infamante. Agradecer é das
+boas almas; ajoelhar aos pés do usurpador é dos
+maus cidadãos. E nós fomos então maus cidadãos.
+Ainda bem que redimimos as nossas culpas d'um dia
+com a heroicidade de cinco annos, que tantos são
+os que vão desde a invasão do Porto até ao regresso
+das nossas tropas, coroadas de loiros.</p>
+
+<p>Se o throno portuguez tinha sido abandonado pelo<span class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span>
+rei, estava porém encimado ainda pelas armas da nação!
+Se não se podia amar o rei, que fugira, devia-se
+defender a patria, que ficára.</p>
+
+<p>Mas, disse-o Camões, e é uma profunda verdade,
+que</p>
+
+<blockquote>
+<p>O fraco rei faz fraca a forte gente</p>
+</blockquote>
+
+<p>Perdoemo-nos a nós, porque nos rehabilitamos depois,
+e perdoemos ao rei, que já hoje é do tumulo, e
+que no triste curso de sua attribulada existencia mais
+inspira por vezes compaixão do que odio.</p>
+
+<p>Mas tornemo-nos a Graça Strech, que deixámos
+ferido em companhia da ronda franceza.</p>
+
+<p>Fôra elle transportado a um dos muitos hospitaes
+de sangue que se estabeleceram nos conventos do
+Porto:&mdash;o convento de S. Francisco. O serviço cirurgico,
+na maior parte d'estes hospitaes improvisados,
+era feito, por ordem do marechal Soult, pelas mulheres
+que acompanhavam o exercito invasor. Uma
+d'ellas, conhecida entre os seus pela alcunha de <i>lá
+gentille vivandière</i>, recebeu o ferido e, ajudada por
+outras, deitou-o no catre e começou o curativo do
+ferimento com certo carinho, que só a ordem do marechal
+Soult não explicaria cabalmente.</p>
+
+<p>É que fez impressão a Rosina a physionomia, posto
+que dolorosa, serena, do soldado portuguez. Pareceu-lhe
+um roble que baqueára magestosamente.
+Não havia a menor contração n'aquelle corpo athletico;
+por entre os labios, descórados e immoveis, não
+se coava um gemido. Verdade era que não era desesperado
+o ferimento, e que mais para recear parecia
+a gravidade da prostração que a do golpe. Não obstante,
+o soldado, que a espaços abria os olhos, nem
+uma gota d'agua pedia.</p>
+
+<p>Durante a noite a vivandeira acercou-se do catre,
+por muitas vezes, a escutar. Pela madrugada sobreveiu
+o delirio ao abatimento, e o ferido dizia com
+manifesta difficuldade algumas palavras que ella
+não entendia. Como, porém, de uma das vezes o
+visse febrilmente apalpar o peito, comprehendeu-o,
+e, tirando do forro da fardeta, que lhe tinha despido,
+o maço de papeis, insinuou-lh'o entre as mãos. O ferido,
+conhecendo-o provavelmente pelo tacto, abriu
+por algum tempo os olhos, e demorou em Rosina o
+doce e apagado olhar. Talvez fosse este um acto puramente<span class="pn"><a name="pag_52">{52}</a></span>
+mechanico e talvez não; a verdade, melhor
+que os medicos, a sabe Deus.</p>
+
+<p>A vivandeira ficou sobremodo commovida do que
+a ella lhe pareceu intencional. Apiedou-se do soldado,
+que tinha porventura a sua mesma idade, e parecia
+guardar n'aquelles papeis uma querida memoria, como
+ella, como ella n'aquella madeixa de cabellos que
+possuia...</p>
+
+<p>Aqui entra o leitor a sentir desejos de saber a historia
+da madeixa.</p>
+
+<p>Rosina era a filha adoptiva d'um dos regimentos
+da brigada Arnaud. Por seu pai, moribundo, um dos
+bravos militares do exercito francez, natural das Ardennas,
+aquella vasta floresta, <i>Arduenna sylva</i>, golpeada
+por quatro rios, o Semoy, o Lesse, o Ourthe
+e o Sure, fora confiada como precioso deposito, no
+campo de batalha, á velhice d'um camarada fiel, soldado
+do mesmo regimento.</p>
+
+<p>O bom velho, que penhorado acceitára tão grave
+legado, era só, e n'uma época em que o exercito
+francez estava em continua mobilisação, achou que
+o melhor meio de velar pelo destino da creança era
+trazel-a sempre ao pé de si.</p>
+
+<p>Assim foi que Rosina, então de quatorze annos,
+estivera em pessoa, se bem que entre a bagagem e
+mantimentos, na batalha de Austerlitz, em 1805. Vira
+por seus proprios olhos, a distancia, o imperador
+Alexandre e o imperador Francisco. Nos breves instantes
+de repouso que n'essa arriscada campanha tinha
+o exercito francez, era sempre Rosina o assumpto
+das conversações do acampamento, a mariposa
+inquieta que passava sorrindo de umas correias a outras,
+de um soldado a outro soldado. D'essa campanha
+ficou até na memoria do regimento uma agudeza
+da pequena vivandeira. Estavam os soldados chasqueando
+uma vez da fealdade de certo camarada.</p>
+
+<p>&mdash;Que tal te parece, Rosina? perguntou um á pequena.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me mal, respondeu ella, porque já vi <i>os
+trez imperadores</i>.</p>
+
+<p>Como se sabe, é esta uma designação vulgar da
+batalha de Austerlitz, onde estiveram os dois imperadores
+já nomeados, completando Napoleão a trindade
+coroada.</p>
+
+<p>Rosina seria pois a andorinha da caserna se não<span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span>
+fosse antes a mariposa do acampamento. Tinha um
+pouco da floresta, seu berço, e um pouco do quartel,
+seu ninho. Estes poucos fizeram o todo. Tinha a
+pureza da vegetação virgem, a suavidade inculta da
+floresta, e ao mesmo passo o destemor da vivandeira,
+a facilidade de morder um cartucho de polvora e
+de cantar uma canção marcial. Na alma tinha os murmurios
+das correntes patrias; nos olhos o brilho da
+polvora.</p>
+
+<p>Era, n'uma palavra, a pastora tornada vivandeira.
+Respeitava-a todo o regimento e conhecia-a todo o
+exercito.</p>
+
+<p>Quando o seu velho protector morreu, um anno
+depois de Austerlitz, ella acompanhou-o com os camaradas
+á sepultura, e, como limpasse furtivamente
+duas lagrimas, disse-lhe um dos soldados:</p>
+
+<p>&mdash;Pois tu choras, Rosina, tu, a que viste os trez
+imperadores?!</p>
+
+<p>E ella, voltando-se de subito, respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Não choro eu, chora a França.</p>
+
+<p>Porfiaram os soldados em escolher-lhe novo protector;
+todos a estimavam a ponto de querer adoptal-a.
+Por fim decidiu-se que Rosina cortasse o nó
+gordio. Ella observou:</p>
+
+<p>&mdash;Os meus paes eram os que morreram; já não
+posso ter outros. Serei portanto de hoje em deante
+filha do regimento. Para onde elle fôr, irei eu; onde
+estiver, estarei tambem.</p>
+
+<p>E assim foi.</p>
+
+<p>Era quasi um soldado; muitas vezes dizia que a
+sua morte havia de occasional-a uma bala perdida.</p>
+
+<p>Viera com o exercito a Hespanha e Portugal, com
+a mesma facilidade com que iria, licenciada pelo
+commandante do regimento, visitar as Ardennas, sua
+patria.</p>
+
+<p>Contava agora dezoito annos, e estava em todo o
+vigor da sua gentil formosura.</p>
+
+<p>Gentil é a palavra; por isso lhe chamavam <i>lá gentille
+vivandière</i>.</p>
+
+<p>E o caso é que á sua origem e á sua formosura
+devia por certo as immunidades que lhe outhorgavam
+os superiores. Era ella o melhor intercessor do
+regimento; requerimento que ella levasse á chancellaria
+militar, trazia sempre bom despacho. É que as flôres...<span class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span>
+
+<p>Ora a historia da madeixa é muito mais breve que
+a historia de Rosina, e por isso ficou para o fim.</p>
+
+<p>Seu pae, o bravo official das Ardennas, sentindo-se
+morrer dos graves ferimentos que recebera, pediu
+ao velho camarada, no momento de confiar-lhe a filha,
+que lhe entregasse aquella madeixa que elle cortára
+do seu proprio cabello, para que ella possuisse
+sequer alguma coisa que o tornasse lembrado.</p>
+
+<p>E como entre os cabellos alguns apparecessem já
+grisalhos, acrescentou o militar moribundo:</p>
+
+<p>&mdash;Dize-lhe que alguns d'elles embranqueceram a
+pensar no destino d'ella...</p>
+
+<p>O soldado, com os olhos marejados de lagrimas,
+respondeu commovido:</p>
+
+<p>&mdash;Vá descançado, meu capitão. Emquanto Jacques
+Regnau tiver vida, o paiol não ha de arder. Depois
+que vier a metralha da morte, o Deus dos exercitos
+velará por ella...</p>
+
+<p>O soldado Jacques estava na confidencia do nascimento
+de Rosina. Fôra elle que, annos antes, saltára
+ao jardim de uma casa da rua das Tournelles, para
+receber dos braços de uma criada uma creança, cuja
+mãe procurava assim occultar o segredo da sua
+deshonra.</p>
+
+<p>Jacques Regnau atravessou com ella nos braços o
+<i>boulevard</i> da Bastilha, e ia dizendo comsigo:</p>
+
+<p>&mdash;O caso é que ainda tenho geito para estas aventuras
+mysteriosas. Suppunha-me velho e levo aqui
+esta creança mais como pae do que como avô. E todavia
+o que decerto vem a acontecer é que eu seja o
+avô, e o meu capitão o pae...</p>
+
+<p>E assim, em verdade, aconteceu, com uma unica
+differença. Se Rosina, no decurso de sua vida, precisasse
+de nobilitar-se com um appellido, o pae, ao invés
+do que acontece em todas as familias, não lhe
+daria o seu appellido, mas sim o do leal camarada.
+Diria provavelmente:</p>
+
+<p>&mdash;Põe lá: Rosina Regnau.</p>
+
+<p>Ella porém não precisava de appellido paterno.
+Era a filha do regimento. Chamava-se simplesmente
+Rosina, <i>lá gentille vivandière</i>.</p>
+
+<p>Esta era a enfermeira do nosso ferido.<span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota5" name="nota5">[5]</a></sup>
+Referencia á proclamação de Soult.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+
+<h2>VII</h2>
+
+<h2>No hospital de sangue</h2>
+
+<p>Oito dias transcorridos, vamos encontrar Graça
+Strech, sentado no catre, convalescente, se bem que
+muito debilitado ainda, a relêr algumas das cartas
+que, por piedoso interesse de Rosina, pudera guardar
+debaixo do travesseiro.</p>
+
+<p>Os successos de tão breve curso de tempo pequena
+chronica requerem. Rosina tem sido para o soldado
+portuguez carinhosa enfermeira. Chasqueam-n'a
+as outras mulheres, encarregadas do serviço do hospital,
+de extremamente compassiva para o prisioneiro,
+e zombeteiramente aventam que, a julgar pelos
+prolegomenos, lhes não parece impossivel que o
+exercito portuguez inteiramente se deixe desarmar
+pelas vivandeiras francezas.</p>
+
+<p>As almas das restantes mulheres não se levantam
+do nivel commum ao femeaço que segue tropa. São
+grosseiras, sensuaes e malevolas. Rosina respira melhor
+entre os soldados do que entre ellas. D'aqui
+uma certa rivalidade apenas contida pelo respeito
+com que todo o exercito acata á filha do bravo militar
+das Ardennas. Todavia a «gentil vivandeira»,
+como mariposa que é, não se demora no ambiente
+infeccionado em que ellas respiram; evita-as como a
+pantanos miasmaticos, sem lhes dar a conhecer que
+o muladar unicamente é povoado por vermes. Passa
+inquieta e ao mesmo tempo cautelosa, agitando as
+suas azas iriadas. Atravessa o lodaçal sem tocar-lhe.
+Guarda para si o nectar que vae libando nas flôres
+perfumadas da sua phantasia. É mariposa! dizem.
+Concentra-se nos circulos caprichosos em que doideja.
+Quer adejar e sorrir. Mas para esta, como para
+todas as mariposas, depois do jardim, cujas flôres
+beijou, ha de crepitar a chamma, que será o seu ultimo
+beijo. Beijo de fogo, que mata. E chamaes felicidade<span class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span>
+a isto! Olhaes sómente á superficie; a mariposa
+não é feliz porque passe adejando...</p>
+
+<p>Graça Strech fez reparo no carinho da enfermeira,
+mórmente comparando-o ao desamor com que eram
+tratados os demais feridos. Não poria duvida em beijar
+a unica mão caridosa que se estendia para elle
+na solidão do mundo, se não receiasse que o odio
+que lhe refervia no coração contra a França lhe envenenasse
+os labios. E aquella mulher era franceza.
+Parecia-lhe que dos seus vestidos se exhalava ainda
+o cheiro da carnagem. Por ventura o soldado que
+assassinára sua irmã, sua mãe e sua avó viera adormecer
+tranquillo nos braços d'aquella mulher, se é que
+não fôra mais d'um soldado, com as mãos ainda tintas
+das nodoas do crime. Via n'ella a creança corrompida
+pela lascivia da soldadesca, e, ao mesmo passo
+que lhe era reconhecido, tinha por ella o desprezo
+que se tem pelo vicio precoce. Considerava-a uma
+das victimas arrastadas pelo carro triumphal do Cesar
+francez. Bem podia ser que n'aquelle corpo vendido
+ao prazer germinasse uma alma boa logo corrompida
+pela putrefação contagiosa da caserna. Se
+não tivesse por mãe uma mulher devassa, uma vivandeira,
+uma meretriz de soldados, que não faria mais
+que atirar sua filha ao berco em que ella propria nascera,
+poderia encontrar um marido honesto, ser o
+anjo do lar, divinisar-se no altar da familia, porque
+as mães podem considerar-se as santas da religião
+domestica. Mas não. Graça Strech suppunha-a a flôr
+do paul. Tinha para elle a belleza maculada da vegetação
+dos charcos. Não sabia o que era o azul do firmamento,
+porque só os lagos, de superficie crystallina,
+são espelho do céo. As flôres do paul querem
+viver no lodo; ella queria viver no prazer. Os beijos
+que recebia tresandavam ao acre do tabaco e da
+aguardente. Não dulcificavam; queimavam. E assim
+como a gente se admira de ver uma flôr, por mais
+desbotada e menos formosa que seja, á beira d'um
+monturo, assim elle se admirava de que aquella mulher
+tivesse nos olhos um relampago de compaixão
+estando habituada a viver entre soldados e concubinas.
+Era, a seu juizo, o ultimo lampejo da alma que
+bruxoleava apagada pelo vicio. Extincto o derradeiro
+clarão, ficaria apenas a lampada&mdash;o corpo. E elle
+não queria gosar; queria vingar-se. O prazer da vingança,<span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span>
+se o ha, esse anhelava-o. Mas uma mulher corrupta
+não podia ser-lhe instrumento sufficiente a sacial-o.
+Nenhum dos generaes que capitaneavam o
+exercito invasor teria uma filha innocente, candida,
+formosa? decerto não; se a tivesse, não consentiria
+que a soldadesca violasse as alheias. Mas se
+a tinha, trouxessem-lh'a, pura como estava, bella
+como era, que a queria polluir, e dizer depois ao pae
+exasperado: «Os teus soldados mataram minha irmã,
+que tambem era virgem; eu matei tua filha, porque
+a encontrei no estado de minha irmã. Ambas são
+mortas: isso que ahi está já não vive.»</p>
+
+<p>A toda a hora, tudo ali lhe recordava esse horrivel
+drama de sangue, que reputaria ainda sonho infernal,
+se a memoria de trez cadaveres o não chamasse á
+realidade. Tudo eram mulheres mancommunadas com
+os invasores, tudo feridos e prisioneiros, que de continuo
+amaldiçoavam, esporoados pela dôr physica, a
+França e o Corso. A lingua que se falava era a d'ellas,
+mesclada de raras palavras hespanholas para melhor
+se fazerem entender dos que não tinham a illustração
+bastante para comprehendel-as. Não será preciso
+observar que Graça Strech não desconhecia o
+idioma francez.</p>
+
+<p>A principio confundiam-se-lhe no cerebro enfraquecido
+todas as sinistras visualidades d'aquella tormentosa
+phase de sua vida. Depois, á medida que ia
+cobrando forças, não só entrou de raciocinar ácerca
+de Rosina, como lhe acudiu a lembrança de seu pae,
+cuja morte só o tempo comprovára, e a consciencia
+da sua propria situação. Estava prisioneiro, guardado
+á vista por sentinellas francezas, e todavia havia jurado
+vingar a morte da sua familia. Esta idéa infernou-lhe
+as primeiras horas de lucidez. Era impossivel
+despedaçar as cadeias, romper por entre as sentinellas;
+não queria de modo algum expôr-se á morte
+que o roubaria á vingança. E o sentir no dedo o contacto
+do annel, em que se coagulára uma gota de
+sangue seu, ou de sua irmã, exasperava-o ao extremo
+de cair prostado no leito.</p>
+
+<p>N'estes lances acudia meigamente Rosina Regnau,
+chamemos-lhe assim, a soccorrel-o com notavel dedicação.
+Umas vezes a repellia elle com ingratidão
+brutal, quando a accentuação franceza lhe coava ás
+entranhas estremecimentos de raiva, outras fitava na<span class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span>
+vivandeira o olhar amortecido como a dizer-lhe que
+a prostração seria passageira. Na vespera do dia em
+que estamos, teve Graça Strech uma idéa que para
+logo reputou auxilio providencial. Lembrou-se de
+que só por intervenção de Rosina poderia evadir-se
+do hospital de sangue. Tratou pois de corresponder
+á solicitude com que ella o distinguia, de se mostrar
+reconhecido, de occultar o seu pensamento de vingança
+sob a mascara de ternura. Immediatamente o
+dominou este proposito, e a si mesmo prometteu
+nunca mais receber Rosina com intermittencias de
+rancor ou azedume. Difficil era o cumprimento d'esta
+promessa. Não se mascára facilmente o coração.</p>
+
+<p>Relia elle, como dissémos, as cartas de sua irmã.
+Umas eram queixumes de rôla solitaria confrangida
+da tristeza alpestre das Chãs; outras eram hymnos
+de esperança, votos de felicidade commum, vagas
+alegrias dos sonhos dos quinze annos... N'umas denunciava-se
+a mulher; n'outras a creança. Umas eram
+a lagrima; outras o sorriso. Aquellas tinham a tristeza
+d'uma nuvem em céo d'abril; estas eram um raio
+de sol doirado pela primavera... Ou antes, como o
+leitor poderá classifical-as, as primeiras eram o presentimento
+da desgraça imminente, as ultimas eram
+o cantico do anjo que punha os olhos no céo, sua
+patria.</p>
+
+<p>Vejamos:</p>
+
+<p>«<i>30 de novembro de 1807.</i>&mdash;Meu irmão.&mdash;Não sabes
+como soffro horrivelmente, receiosa dos perigos
+que virão. A avosinha tambem está muito afflicta depois
+que os francezes entraram em Abrantes. Já cá
+sabemos da partida da familia real, apezar de tu,
+grande dissimulado, m'o não haveres dito! O padre
+capellão anda sempre a contar dinheiro e a ralhar
+com os abegões. Isto é uma tristeza! Quem nos vale
+a ambas, a mim e a avósinha, para nos tranquilisar,
+é o Teixeira. Eu, por mim, peço todos os dias a Deus
+que não aconteça mal algum aos portuguezes...»</p>
+
+<p>«<i>18 de setembro de 1808.</i>&mdash;Meu José&mdash;Graças a
+Deus, que se dignou ouvir as minhas continuas orações!
+O Teixeira esteve hontem á noite a contar-me
+tudo. Até que emfim está a patria livre outra vez,
+sem haver acontecido desgraça de maior á nossa familia.
+Queira Deus que continue a paz para que tu
+possas vir vêr-me brevemente. A noticia do Teixeira<span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span>
+deu-me grande alegria, meu José. Reconquisto de
+novo a felicidade! Eu creio que não tenho coragem
+para soffrer... Dá um beijo muito demorado á mamã
+e um abraço muito apertado ao papá. A avósinha
+diz que venhas logo que possas. Vem, sim? Olha lá...
+logo que possas. O beijo á mamã que seja muito
+longo, muito longo... Não te esqueças. Tua&mdash;<i>Augusta</i>.»</p>
+
+<p>Graça Strech sentiu os olhos marejados de lagrimas
+ao lêr estas cartas, especialmente a ultima. Estava
+alli todo o coração de sua irmã, a alegria da
+avesinha, ainda tremula, que se sente desopprimida
+dos seus negros receios, phantasticos uns, justificados
+outros.</p>
+
+<p>Abeirou-se brandamente do catre, como quem teme
+ser importuno, Rosina Regnau, e com encantadora
+timidez perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Chorava?</p>
+
+<p>&mdash;Um soldado portuguez não chora nunca, respondeu
+Graça Strech com doçura meiada de altivez
+e fingimento.</p>
+
+<p>&mdash;São menos felizes as vivandeiras francezas, contestou
+ella com sincera simplicidade.</p>
+
+<p>&mdash;Por quê?</p>
+
+<p>&mdash;Porque choram ás vezes.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda a não vi chorar!&mdash;E, como se instantaneamente
+deixasse resfolegar o rancor latente no coração,
+acrescentou:&mdash;A polvora queima os olhos e
+o coração, e Rosina é quasi um soldado... francez.</p>
+
+<p>&mdash;Olhe que se contradiz! observou ella maviosamente.&mdash;Esquece-se
+de que tambem é soldado e
+chora...</p>
+
+<p>Graça Strech caiu em si e deu-se pressa em attenuar o mau effeito das suas palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Tem razão. A desgraça dá esta incoherencia aos
+pensamentos...</p>
+
+<p>&mdash;Julga-se então muito desgraçado?</p>
+
+<p>&mdash;Pungente ironia que só pode vir... d'ahi! retrucou
+sobremodo exaltado o convalescente. Pois pergunta-se
+a um prisioneiro, a um ferido, a um homem
+mil vezes deshonrado, se é infeliz? Onde aprendeu
+esse cynismo de vivandeira? Onde havia de ser! Na
+taberna e no quartel. Só lá é que se fala assim...</p>
+
+<p>E, como ella chorasse á beira do catre:</p>
+
+<p>&mdash;Sabe que eu ainda não estou inteiramente curado,<span class="pn"><a name="pag_60">{60}</a></span>
+Rosina? Parece-me que deliro ás vezes! Agora
+delirei eu. Não... não delirei. Conheci que era mais
+piedosa do que as outras mulheres... Quiz ver até
+onde chegava a sua sensibilidade... Perdõe-me a experiencia...
+Vejo que ainda tem lagrimas... sim... tem
+lagrimas... não posso duvidar... está chorando!</p>
+
+<p>&mdash;Não seja mau para mim, soluçou Rosina Regnau.
+Eu tive pena de vêr o senhor a lêr e a chorar...
+De mais a mais fui eu que lhe dei as cartas para
+a mão no dia em que o senhor veiu e parecia pedir-m'as...
+Pois não se lembra?</p>
+
+<p>&mdash;Não. E viu-as alguem? leu-as alguem?</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem as leu, senhor. Eu pensei que se lembrava,
+porque o senhor, quando lh'as dei adivinhando
+de certo o seu pensamento, olhou para mim...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, talvez olhasse... eu queria as cartas...</p>
+
+<p>&mdash;Isso comprehendi eu. A gente ás vezes estima
+qualquer cousa que não tem valor... Eu tambem tenho
+um d'esses thesouros que nada valem... É...&mdash;E
+calou-se, receiosa de proseguir.</p>
+
+<p>&mdash;É?</p>
+
+<p>&mdash;A madeixasinha de meu pae, que era capitão do
+exercito.</p>
+
+<p>&mdash;Capitão? perguntou Graça Strech.</p>
+
+<p>&mdash;Era capitão, senhor. Para me não deixar desamparada,
+entregou-me ao velho Regnau com esta
+madeixa que era o seu unico legado... Nada mais tinha
+que me deixar...&mdash;E tirou do seio a sua reliquia,
+sobre a qual foram cair duas lagrimas ardentes.</p>
+
+<p>Graça Strech, subitamente commovido, attentou
+na vivandeira que tinha baixado os olhos, como se
+quizesse esconder o pranto.</p>
+
+<p>&mdash;Ás vezes, proseguiu ella, fico-me a contemplar
+este thesouro, sobretudo se estou triste. Que mais
+tenho eu no mundo? Nada. Esta madeixasinha da
+minha riqueza, o meu talisman, creio eu. Beijo-a e
+choro. Fico melhor. É tambem a minha companhia.
+Estas mulheres&mdash;e indicou as demais vivandeiras&mdash;nem
+sequer se lembram de que tiveram pae! Até
+lhes convém pensar que o não tiveram para não sentir
+atormentada de remorsos a consciencia.&mdash;Ellas
+querem-me mal, bem o sei. Que me importa? Eu tenho
+o meu coração tranquillo. Devo a Deus o haver-me
+protegido com a sua misericordia. Sou a filha do
+regimento, e ninguem offende uma filha. Estima-me;<span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span>
+estimo-os. Da guerra que ellas me fazem nem
+me lembro. Pobresinhas, que não são capazes d'uma
+ação boa! Vivo só, completamente só, senhor. Sou
+digna da compaixão de todos, acredite, porque sou
+infeliz; criminosa não. Meu pae, que decerto me está
+ouvindo n'esta hora, bem o sabe. É porque sou infeliz,
+que comprehendo as desventuras alheias. Pareceu-me
+que o senhor tinha maguas secretas. Inspirou-me
+sympathia. Bem sei que a minha presença lhe não
+deve ser agradavel, porque emfim eu sou franceza e
+o senhor é portuguez. Mas que culpa tenho eu de
+haver nascido longe? Foi nas Ardennas... bonita terra
+d'uma vez! Ainda não vi arvores como lá! O imperador
+é quem manda; nós não temos culpa nenhuma:
+obedecemos. Elle quer o mundo; conquiste-se o
+mundo. E depois eu não tenho odio nenhum aos
+portuguezes. Até se o senhor algum dia precisar do
+meu prestimo... Eu não valho nada... mas verá que
+ha de encontrar sempre a mesma Rosina Regnau...
+O que eu queria é que me tratasse bem. Não faço
+mal a ninguem, porque não se tira proveito nenhum
+de fazer mal... O senhor foi ferido, é verdade; mas
+fui eu quem o feriu?...</p>
+
+<p>&mdash;Não, Rosina, não! atalhou Graça Strech enternecido
+a lagrimas. Mas feriram-me na alma, bem
+fundo, muito fundo... Sou um grande desgraçado. Se
+lesse estes papeis, que são tambem a minha unica
+riqueza, veria que o sou. Eu tenho apenas de meu
+estas cartas; Rosina tem apenas a sua madeixasinha.
+Somos irmãos na desgraça. Eu sou filho d'um capitão
+portuguez, talvez morto a esta hora; Rosina é filha
+de um capitão francez, que tambem não existe.
+Ainda n'isto irmãos! Bem sei que não tem culpa de
+haver nascido franceza. Perdoe-me, se a offendi...
+Offendi, que o sei eu. Deite tudo á conta da minha
+arrebatada mocidade e dos meus soffrimentos. Mas
+é que este abysmo cavado por Napoleão entre as
+duas nações é incommensuravel, acredite. O abysmo
+chama o abysmo... Jámais correu sangue impunemente...
+A guerra faz dos homens leões... E que guerra
+esta, santo Deus!... Zomba-se de tudo&mdash;da virgindade,
+da honra, da innocencia! Oh! que os seus
+irmãos tremam das represalias... Medonhas devem
+ser... Não se opprime assim um paiz inteiro... A estrada
+por onde fugiu Junot está atravancada de cadaveres,<span class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span>
+mas ainda cabe por ella o exercito de Soult.
+A hora do resgate será tremenda, Rosina. Fuja, fuja
+emquanto é tempo, pomba que vive entre milhafres.
+Fuja com a sua innocencia. Eu comprehendo, eu
+acredito que é boa, e casta. Mas não encontrará em
+Portugal coração que possa acceitar o seu amor, alma
+que prese os thesouros da sua. E sabe por que?
+Porque entre um portuguez e uma franceza medeia
+n'esta hora uma barreira invencivel... E essa barreira
+está em pouco, mas não haverá ahi exercitos que
+a transponham. É um maço de cartas, um annel,
+uma madeixasinha talvez. Supponha que um homem
+havia ferido mortalmente seu pae... Que esse homem
+viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo
+essa reliquia sagrada; que matára em nome da patria;
+que seu pae era primeiro que tudo um soldado,
+e que um soldado era para elle o inimigo... Chora,
+Rosina! As suas lagrimas são ainda mais eloquentes
+que o seu silencio... Pois supponha que mataram meu
+pae, supponha que me retalharam a alma, que eu tenho
+noite e dia nos ouvidos o clamor da vingança,
+que eu sou um homem que já não vivo para mim,
+mas para os que morreram...</p>
+
+<p>E, exhausto de forças, caira sobre o travesseiro,
+pedindo soccorro com o olhar, em que subitamente
+se apagaram os fogos da exaltação.</p>
+
+<p>Fez-se em torno do catre o lugubre silencio dos
+hospitaes, apenas interrompido de espaço a espaço
+pelos gemidos de alguns portuguezes que anhelavam
+a morte, porque só n'ella encontrariam o supremo
+resgate.</p>
+
+<p>Rosina, curvada para o doente, julgava amparar nos
+seus braços um homem que desejava viver para
+vingar a morte da mulher amada. A excitação febril
+do prisioneiro fazia-lh'o crer. Estava longe de suppôr
+que essa mulher fosse apenas irmã, ou antes que
+a desgraça d'esse homem fosse tamanha que tivesse
+de vingar a morte de uma familia inteira.</p>
+
+<p>Como, porém, Graça Strech lentamente parecesse
+recobrar alento, inclinou-se-lhe ao ouvido e maviosamente
+repetiu:</p>
+
+<p>&mdash;Se algum dia precisar do auxilio da pobre vivandeira,
+acredite que Rosina Regnau será sempre a
+mesma...<span class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span></p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<h2>VIII</h2>
+
+<h2>O anjo da liberdade</h2>
+
+<p>Foi-se restabelecendo o doente.</p>
+
+<p>Meiado abril, Craça Strech julgava-se robustecido
+sufficientemente para encetar a sua obra de vingança.
+Toda a sua attenção se concentrava na idéa fixa
+da fuga. Rosina continuava a ser para elle a dedicada,
+a solicita, a meiga enfermeira dos primeiros dias. Se
+em tão carinhosa dedicação estava occulto o germen
+do amor, se era aquella a mascara da alma apaixonada
+que tinha de respeitar conveniencias e circumstancias,
+não tardará que o saibamos. Todavia os
+seus sorrisos, posto que doces, revelavam tristeza.
+O coração a attraíl-a para aquelle homem, e o destino
+a distancial-a! Que elle soffria, era evidente. Mas
+por que soffria? Porque esse homem&mdash;suppunha-o
+ella&mdash;amára doidamente, com o fogo dos primeiros
+amores, com a loucura dos primeiros annos, e vira
+talvez correr, na hora da invasão, o sangue innocente
+da mulher amada. Porque esse sangue clamava vingança,
+e elle esperava apenas pela hora tremenda da
+represalia. Porque essas cartas que relia a toda a
+hora eram outros tantos protestos contra a tyrannia
+dos que venceram. Fossem dizer ao coração d'esse
+homem pungido pelo que ha ahi de mais excruciante
+na terra: «Despe o teu luto; enflora-te. Os que te
+mataram eram meus irmãos, mas quem te resuscitará
+serei eu. Com o sangue do cadaver, que desceu á
+tumba commum, regaremos as flôres da tua felicidade
+futura.» Não podia ser. Elle tivera razão quando
+disse: «Supponha que um homem havia ferido mortalmente
+seu pae. Que esse homem viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia
+sagrada; que matára em nome da patria...» Referia-se
+a uma barreira insupperavel, e falava do maço de
+cartas, de um annel, de uma madeixasinha talvez. E<span class="pn"><a name="pag_64">{64}</a></span>
+as cartas relia-as elle, e annel tinha um na mão esquerda,
+tinto de sangue, que era talvez da pessoa
+cuja morte anhelava vingar. Que esperança podia,
+pois, ter Rosina no seu louco amor? Mas, por outro
+lado, quem ha de dizer ao coração que é loucura
+amar? Como havia ella, allucinada pela paixão, de
+raciocinar comsigo mesma: «Tu és a pobre Regnau,
+a vivandeira franceza, que acompanhas o exercito
+vencedor; elle é o soldado do exercito vencido, e
+vencido elle mesmo. Não se póde transpôr um abysmo,
+muito menos dois. Tantos são os que nos separam
+n'esta hora: o da vingança e o da nacionalidade!»
+Isto ninguem o diz; ella não o podia dizer.
+Amava, sim, mas amava sem esperança, e, o que é
+mais, amava com medo. Agrestemente a tratava elle
+a principio. Desde o dia em que ella lhe perguntou
+se chorava, e em que timidamente se abeirára do catre
+antes como enfermeira do que como amante, pareceu
+todavia abrandar um pouco mais o seu odio
+inspirado pelo nome francez. Conheceu decerto que
+ella não estava ainda pervertida, e condoeu-se. Mas
+condoer-se não é amar. E depois que desgraçado
+aquelle! Que pensaria elle fazer? Talvez matar-se.
+Prefiriria morrer a combater contra a sua patria, contra
+o seu nome de portuguez, contra as suas recordações.
+Como ella quizera sondar-lhe a alma e arrancar-lhe
+o seu segredo! O que importava, primeiro que tudo,
+era affastal-o da morte. Por isso o espionava Rosina,
+e cada vez era maior a sua solicitude. Não tardou porém a hora em que Graça Strech ia levantar
+uma ponta do véo mysterioso que occultava os seus
+designios.</p>
+
+<p>Era ao entardecer. Havia na sala a penumbra crepuscular.
+Elle escolhera decerto essa hora para que
+a physionomia lhe não traisse os sentimentos reconditos.</p>
+
+<p>&mdash;Lembra-se, Rosina, do offerecimento que me
+fez?</p>
+
+<p>&mdash;Lembro, e repito-o, respondeu ella estremecendo de golpe.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem; é chegada a occasião de aproveital-o.
+Cumpre porém que primeiro lhe diga que a minha
+vida fica pendente d'esta revelação. Se ámanhã quizer
+denunciar-me aos meus algozes, póde fazel-o, e
+então completará a vingança dos meus desabrimentos.<span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span>
+Completará, disse eu, porque compassivamente
+me tem tratado, e a compaixão é a vingança das almas
+nobres. Quer-me parecer, não obstante a posse
+do meu segredo, que continuará a vingar-se nobremente...
+O seu coração é bom, Rosina; o meu é que
+não é assim. Eu sou vil, rancoroso, sanguinario. Mas,
+ainda assim, em alguma hora da minha vida me é
+dado ouvir a voz do meu anjo da guarda. Depois a
+celeuma dos maus instinctos suffoca-a. É porém esta
+uma das horas em que o meu coração não é inteiramente
+perverso. Portanto lhe falarei com a maxima
+franqueza. Eu quero sair d'aqui, Rosina, livre, completamente
+livre, entenda-me bem. Só por sua intervenção
+o poderei conseguir. Mas, se me presta esse
+serviço, quem lhe não dirá, Rosina, que soprou no
+meu peito as labaredas que eu sinto escaldarem-me
+o sangue quando volvo os olhos a um passado proximo,
+muito proximo?... Sabe que é quasi um fratricidio
+que vae praticar? A voz da consciencia será a
+primeira a dizer-lh'o. Não irá combater contra os
+seus pessoalmente, mas irá dar mais um soldado ao
+exercito portuguez cerceado pela derrota... Pense
+em tudo isto. Vae trair a confiança dos seus irmãos
+para conquistar apenas a gratidão d'um só homem...</p>
+
+<p>A esta palavra, os olhos de Rosina, até ahi brilhantes
+de copiosas lagrimas, illuminaram-se d'um clarão
+d'alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Gratidão! disse?&mdash;soluçou ella. É a primeira
+vez que eu oiço dos seus labios tão doce palavra...
+Acredite-me, sim? Eu já pensava em auxiliar-lhe a
+fuga, mesmo quando ainda não era meu amigo. Tinha
+pena, muita pena do senhor, e receiava que se
+quizesse matar para não ficar prisioneiro. Faria por
+lhe dar a liberdade, ainda que m'o não agradecesse,
+porque algum dia, ahi por esses acampamentos
+fóra, bem podia ser que o senhor encontrasse, prostrada
+por uma bala perdida, a vivandeira Rosina, e
+dissesse, lançando-lhe um olhar de piedade: «Bem te
+reconheço! Eras a pobre Regnau. Deste-me a liberdade.
+Estás morta. Que te hei de dar agora? Dar-te hei
+uma oração». Isto me bastaria, senhor, que eu bem
+sei que não mereço mais. Mas agora o caso muda
+muito do que eu havia pensado na minha tristeza. O
+senhor promette-me gratidão. Que mais posso eu<span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a></span>
+invejar? A memoria de meu pae me perdoará, porque
+elle&mdash;disse ella com irreflectida candura&mdash;tambem
+amou muito, segundo contava o velho Regnau.
+Gratidão é o que o ceguinho das Ardennas tem ao
+seu fiel molosso. O pobresinho do Hubert anda sempre
+a dizer, referindo-se ao seu cão: Não ha pessoa
+a quem eu seja mais grato!» Veja o senhor como elle
+lhe quer, que até chama pessoa ao cão! Pois eu serei
+para o senhor como o molosso para o Hubert.
+Ter-me-ha gratidão; viverei feliz... E sabe o senhor
+que o cão do ceguinho das Ardennas o segue sempre?
+Sabe o que isto quer dizer?...</p>
+
+<p>E calou-se de subito, ruborisada de pudor.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei! observou Graça Strech sobremodo
+admirado da sinceridade d'aquella confidencia.</p>
+
+<p>&mdash;Não sabe? É que eu tambem queria seguil-o ao
+senhor...</p>
+
+<p>&mdash;Como?! perguntou o moço aprumando-se como
+galvanisado por um choque electrico. Seguir-me! Sabe
+bem o que diz, Rosina? Sabe que atraz de mim
+caminhará sempre a morte, e atraz de si o odio francez?
+Sabe que isso é renegar a sua patria, o nome
+de seu pae?</p>
+
+<p>&mdash;Esquece-se de que meu pae não me deixou nome?
+Se no céo se sabe tudo, elle saberá que o meu
+coração é puro. O mais que me importa a mim? Nem
+por seguir o senhor deixarei de querer cada vez mais
+á minha madeixasinha. Crime era o esquecer-me
+d'ella, o desprezal-a, o não a trazer commigo. Mas é
+que eu seguirei o senhor, e ella seguir-me-ha a mim.
+E depois o senhor não me comprehendeu bem... Eu
+não queria deixar de ser vivandeira... Não se quesile,
+não? O senhor vae combater. Eu seguirei o exercito
+como até aqui, mas estarei sempre em sitio onde lhe
+possa acudir, e em vez de soccorrer um soldado francez
+soccorrerei o senhor se as balas o não respeitarem.
+O crime está só n'isso, e Deus m'o perdoará...
+Eu, depois que morreu o velho Regnau, o meu segundo
+pae, tenho vivido tão sósinha, tão sósinha!...
+O exercito é muito grande e por isso mesmo não faz
+companhia. Não lhe perderei o rasto, senhor, esteja
+certo. As vivandeiras estão costumadas á guerra de
+emboscada. Surprehendel-o-hei quando menos o esperar.
+Que seja preciso affrontar perigos, pouco importa.
+Rosina, a «gentil vivandeira», como por favor<span class="pn"><a name="pag_67">{67}</a></span>
+me chamam, é destemida. Toda a brigada Arnaud
+lh'o podia dizer...</p>
+
+<p>A admiração, o pasmo, o alheamento de Graça
+Strech eram cada vez maiores. Espantava-o aquelle
+conjuncto de candura e coragem, aquelle receiar e
+querer da vivandeira. Achava extraordinaria a creança, que
+tinha innocencias d'anjo e impetos de mulher.
+Não sabia se mais havia de admirar a originalidade
+do temperamento se a originalidade da revelação.
+Começava a lêr na alma da vivandeira que o
+amava. Comprehendeu que ella sabia respeitar-lhe a
+dôr, impondo-lhe suavemente o dever de respeitar-lhe
+a sua. E tudo o que ella soffria era por ser franceza...
+Tambem elle se não lembrava n'esse lance de
+que a mariposa procura a chamma!</p>
+
+<p>E Rosina era a mariposa do acampamento.</p>
+
+<p>Não obstante, desconfiando ainda da clareza da sua
+percepção, quiz oppôr obstaculos á resolução da vivandeira:</p>
+
+<p>&mdash;Mas não sabe que isso é impossivel, Rosina? Não
+sabe que se não póde seguir ninguem através dos
+azares da guerra? Quem póde luctar com as ondas
+sem naufragar? Não lucte, Rosina, não lucte com o
+que é invencivel. Guarde essa coragem do seu bello
+coração para as batalhas do mundo, que toda lhe será
+precisa. Deixe-me ir até onde chegam todos os infelizes.
+Não sabe que ámanhã posso encontrar a bala
+que me mate?... Não será ámanhã, não, porque eu
+ámanhã não haveria completado a minha obra. Preciso
+de viver, mas a guerra é tão caprichosa! Completa
+a minha obra, desejo morrer livre, quite com
+o mundo. Não quero que ninguem me chore&mdash;morrerei
+feliz.</p>
+
+<p>&mdash;Outro tanto poderei eu dizer, atalhou com doçura
+a vivandeira. Mas deixe-me ir... tambem até onde
+vão os infelizes. Já agora, eu, que lhe vou abrir o
+seu futuro, quero saber ao menos o sitio em que o
+senhor estiver. Bem pouco lhe peço, como vê. Caprichos
+de mulher! especialmente caprichos de franceza...</p>
+
+<p>E, como que arrependida de haver soltado esta palavra:</p>
+
+<p>&mdash;Fui indiscreta, bem sei; perdôe-me. O seu coração
+precisa de esquecer a minha nacionalidade para
+me não odiar...<span class="pn"><a name="pag_68">{68}</a></span></p>
+
+<p>Era impossivel luctar por mais tempo com tão
+energica e ao mesmo passo tão meiga natureza.</p>
+
+<p>Como se aproximasse gente, Graça Strech apertou-lhe
+silenciosamente a mão e escondeu no lençol
+a face involuntariamente orvalhada de lagrimas.</p>
+
+<p>Chegára a noite triste que ao nascer das estrellas
+invade os hospitaes e as prisões com o seu silencio e
+a sua tremula claridade.</p>
+
+<p>Graça Strech não pôde conciliar o somno. Tantos
+e tão extraordinarios eram os pensamentos que se
+lhe baralhavam no espirito, que ora sentia subir-lhe
+ao cerebro a frialdade glacial dos tumulos, ora a
+chamma abrazadora da congestão. Assim esteve, sem
+dar tino do tempo que passava, com os olhos fitos
+na sombra oscillante que uma lanterna projectava na
+parede fronteira ao seu catre.</p>
+
+<p>Os gemidos d'alguns feridos compassavam-se a intervallos
+mais ou menos longos, segundo a gravidade
+do ferimento. Duas vivandeiras, encarregadas de ficar
+de véla n'aquella noite, deixaram-se adormecer
+com a tranquillidade de quem está bem e não se importa
+de que os outros estejam mal.</p>
+
+<p>Na rua tropeavam com interrupções os cavallos das
+rondas. Uma ou outra vez ouvia-se trocar palavras
+entre as patrulhas que passavam e a sentinella do
+hospital. Não se percebia, porém, o que diziam...</p>
+
+<p>E assim decorria a longa noite das enfermarias e
+dos carceres com o lutuoso aspecto que faz d'umas
+e outros&mdash;cemiterios de vivos.</p>
+
+<p>A mais de meio iria a noite, quando a Graça Strech
+pareceu vêr entrar cautelosamente na sala um soldado
+francez, que foi caminhando, cada vez mais receioso,
+até se avisinhar do seu catre.</p>
+
+<p>Se obedecesse ao primeiro impeto, haveria falado,
+porque lhe passou no espirito a suspeita de que Rosina
+o denunciára, e de que esse soldado, que tanto
+se arreceiava de ser surprehendido, era um assassino
+galardoado talvez pela devassidão da vivandeira.</p>
+
+<p>E bastou esse momento para a suppôr mobil d'uma
+infamia inaudita, a ella, que momentos antes lhe pedia
+unicamente, a troco da liberdade promettida, que
+a deixasse seguil-o como o fiel molosso seguia o cego
+das Ardennas.</p>
+
+<p>Era, porém, corajoso de mais para succumbir aos
+perigos d'uma traição.<span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span></p>
+
+<p>Para logo se lhe accendeu o coração em labaredas
+do inferno, e se lhe requeimou a garganta como a
+do tigre dos palmares quando tem sêde de sangue.</p>
+
+<p>Era, porventura, um soldado francez que o vinha
+apunhalar, de noite, suppondo-o a dormir, talvez por
+ciume da barregã com quem passára a noite, ou para
+vingar o odio que aquelle prisioneiro nutria contra
+os francezes.</p>
+
+<p>Não tinha armas, nem carecia d'ellas. Infamia por
+infamia. Luctaria braço a braço, encarniçadamente,
+silenciosamente, até que um d'elles ficasse prostrado.</p>
+
+<p>Sentou-se no catre, com o joelho direito levantado,
+em posição de melhor se poder erguer para responder
+á aggressão.</p>
+
+<p>E com tão sinistro brilho lhe coriscavam os olhos,
+que o supposto soldado francez, conhecendo de certo
+o que lhe ia na alma, impuzera silencio com um
+gesto e dissera a alguns passos de distancia:</p>
+
+<p>&mdash;Sou eu.</p>
+
+<p>Graça Strech reconhecera Rosina.</p>
+
+<p>O vulto que elle suppuzera um assassino transformára-se
+no anjo da liberdade. Não lhe vinha trazer
+a morte; vinha restituir-lhe a vida. Como poderia elle
+receiar a aggressão d'aquelle soldado franzino, gentil,
+cujos olhos, por meigos e luminosos, trahiriam o
+segredo do seu disfarce, cujos cabellos, ennovelados
+a um e outro lado, denunciavam as tranças da mulher
+enroladas em cachos?</p>
+
+<p>Visualidades d'imaginação doente, chimeras que o
+habito do soffrimento cria, e a noite avulta.</p>
+
+<p>&mdash;Sou eu, repetiu ella cada vez mais baixinho, e
+aproximando-se.</p>
+
+<p>E, como se por encantamento um genio bom lhe
+deizasse cair ás mãos o fardamento d'um soldado,
+igual ao que vestia, acrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Não ha tempo a perder. Vista-se e venha.</p>
+
+<p>E retrocedeu a esconder-se á porta, onde as sombras
+mais se condensavam, e a levantar do chão o
+saco d'oleado da ambulancia, que continha o seu
+trage de vivandeira.</p>
+
+<p>Não se fez esperar o prisioneiro, que logrou atravessar
+a sala sem ser percebido. Nos olhos dos que
+dormiam havia as nuvens precursoras da noite eterna,<span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span>
+que nada deixam vêr para fóra do corpo. É o recolher-se
+da alma que vae partir.</p>
+
+<p>As duas enfermeiras continuavam a dormir tranquillamente.</p>
+
+<p>&mdash;Venha, disse-lhe Rosina travando-lhe da mão.</p>
+
+<p>Graça Strech desceu conduzido pela vivandeira.</p>
+
+<p>Quando a sentinella deu tino de que se aproximava
+alguem, cumpriu a praxe militar do&mdash;<i>Qui vive?</i></p>
+
+<p>Um dos soldados, que levava ao hombro a bolça
+da ambulancia, respondeu: <i>L'empereur</i>;&mdash;e quando
+já a sentinella podia distinguir os uniformes, acrescentou
+com voz firme e sã em francez.</p>
+
+<p>&mdash;Soldados da ambulancia com ordens urgentes
+para o quartel general.</p>
+
+<p>O soldado que respondera era, como calculam, a
+vivandeira das Ardennas.</p>
+
+<p>Chegados á rua, Rosina Regnau apertou convulsamente
+o braço de Graça Strech e segredou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Nunca se esqueça de que n'este dia, e a esta
+hora, lhe dei a liberdade, roubando-a a mim mesma.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca! respondeu elle commovido.</p>
+
+<p>E, como sentissem aproximar-se uma ronda, estugaram
+o passo, caminhando sem norte.</p>
+
+<p>Por duas vezes, no aventuroso transito, os surprehenderam
+patrulhas francezas.</p>
+
+<p>Era sempre Rosina quem respondia no idioma patrio,
+não sem que sentisse palpitar vertiginosamente
+o coração receioso de ver desabar n'um momento a
+felicidade sonhada.</p>
+
+<p>Insensivelmente se foram aproximando do rio Douro,
+a cuja margem pararam algum tempo vacillantes
+no que fariam e, não obstante serem ambos corajosos,
+quasi amedrontados. Só então, chamados á realidade,
+olharam para dentro de si mesmos, conscientes
+da arriscada situação em que se encontravam.</p>
+
+<p>Pareceu-lhes, porém, ouvir o compasso de remos
+na agua, e tanto bastou para se illuminar d'um raio
+d'esperança a alma da vivandeira.</p>
+
+<p>Foi Graça Strech quem se aventurou a chamar o
+barqueiro.</p>
+
+<p>Nenhuma voz respondeu ao chamamento mas, decorrido
+algum tempo, viram avisinhar-se do caes o
+vulto negro do barco.</p>
+
+<p>N'aquelle tempo eram tão frequentes as fugas nocturnas,
+dos que presumiam mais demorada, do que<span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span>
+foi, a occupação franceza da cidade, que alguns barqueiros
+dos logares convisinhos, inteiramente privados
+de recursos, se affoutavam a bordejar no Douro
+por horas mortas para receber a esportula dos fugitivos.</p>
+
+<p>Graça Strech e Rosina Regnau saltaram ao barco.</p>
+
+<p>Estremeceu o barqueiro conhecendo o uniforme francez,
+mas Graça Strech acudiu a serenal-o com estas
+palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Somos portuguezes, amigo. O habito não faz o
+monge. Salva-nos, e não te importe o mais. Afasta-nos,
+o mais depressa possivel, da cidade.<span class="pn"><a name="pag_72">{72}</a></span></p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<h2>IX</h2>
+
+<h2>Entre a vingança e o amor</h2>
+
+<p>Foi o barco singrando Douro acima lentamente.</p>
+
+<p>Graça Strech lançou mão d'um remo e auxiliou o
+barqueiro, não sem haver arrancado de si mesmo,
+com fogosa violencia, a jaqueta do uniforme francez.</p>
+
+<p>&mdash;Que peso que me fazia isto! disse elle sorrindo
+a Rosina.</p>
+
+<p>E voltando-se para o barqueiro:</p>
+
+<p>&mdash;Onde estará agora o resto do nosso pobre exercito,
+sabes? perguntou vivamente.</p>
+
+<p>&mdash;Anda para Riba-Tamega, senhor. Desde hontem
+que vae para lá o inferno, tão certo como ser
+hoje 19 de abril, e chamar-me eu o Tunante de Pé-de-Moira.</p>
+
+<p>&mdash;Não sabes mais nada?</p>
+
+<p>&mdash;Eu, senhor?... tartamudeou o barqueiro relanceando
+um olhar de medo ao soldado francez que ia
+sentado é pôpa.</p>
+
+<p>Graça Strech comprehendeu-o, e acrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Pódes falar. Não te disse eu que o habito não
+faz o monge? Aquelle soldado francez, que tu vês
+ali, é uma mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Uma mulher! repetiu o barqueiro.</p>
+
+<p>&mdash;E de mais a mais faze de conta que é... muda,
+disse sorrindo maliciosamente Graça Strech.</p>
+
+<p>A esta palavra, se elle houvesse reparado, veria
+brilhar extraordinariamente os olhos de Rosina Regnau,
+que encontrára n'esse momento, melhor ainda,
+n'esse vocabulo, a chave d'um enigma que a preocupava
+dolorosamente.</p>
+
+<p>&mdash;Pois então, lá vae tudo, p-a-pá-Santa Justa, tornou
+facetamente o barqueiro. Os francezes pegaram
+hontem fogo á villa d'Amarante. Hoje de manhã havia
+uma procissão de gente que vinha fugida da villa.<span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span>
+Em Pé-de-Moira ficaram dez pessoas. Foram ellas
+que contaram o que se havia passado.</p>
+
+<p>&mdash;Quem commanda os Portugueses, sabes?</p>
+
+<p>&mdash;É o general... Ora que me não lembra agora!
+Elle tem assim um nome a modo d'arvore...</p>
+
+<p>&mdash;Silveira? perguntou com anciedade Graça
+Strech.</p>
+
+<p>&mdash;Tal qual: Sirveira, deturpou o barqueiro.</p>
+
+<p>Aclarava-se o céo com os primeiros alvores do dia
+20 d'abril.</p>
+
+<p>Rosina levava os olhos postos no arvoredo das margens,
+alanceada, porventura, de vagas saudades das
+florestas das Ardennas.</p>
+
+<p>&mdash;Agora, á luz d'esta candeia, apostrophou o barqueiro
+apontando para o sol nascente&mdash;já eu não
+me enganava com o sordadito...</p>
+
+<p>Rosina sorriu melancolicamente, como se entendesse
+o barqueiro por uma fina intuição de mulher
+apaixonada, e Graça Strech perguntou em francez
+pousando o remo:</p>
+
+<p>&mdash;Vae triste! É o arrependimento que chega?...</p>
+
+<p>A vivandeira respondeu energicamente com um
+gesto negativo, como se em verdade fôra muda.</p>
+
+<p>&mdash;O peior&mdash;disse o barqueiro improvisamente&mdash;é
+que se virem de terra que vae aqui um soldado francez,
+são capazes de fazer fogo contra todos nós. Os
+diabos o jurem! Mas se ella não é franceza p'ra que
+diabo lhe fala o senhor n'esses latins?</p>
+
+<p>&mdash;São coisas... respondeu austeramente Graça
+Strech.&mdash;Tens razão, tens... no que lembraste.</p>
+
+<p>E, voltando-se para Rosina, traduziu o pensamento
+do barqueiro.</p>
+
+<p>&mdash;Vae ali uma manta, e a cachopa que se embrulhe
+n'ella, se quizer, observou o Tunante de Pé-de-Moira,
+com certo orgulho alegre de tomar parte n'uma
+aventura que desde logo presumiu amorosa.</p>
+
+<p>Rosina, aconselhada por Graça Strech, acceitou o
+offerecimento, e despiu a fardeta.</p>
+
+<p>O Tunante, orgulhoso de poder fazer concessões,
+acrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Minha mulher tem lá por casa uns trapos, que
+não valem nada. Assim que chegarmos, eu irei buscal-os.</p>
+
+<p>Inteirada do offerecimento, Rosina abriu a bolça
+da ambulancia e tirou com presteza o seu corpete,<span class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span>
+saial e <i>bonnet</i> de vivandeira, arremessando-os ao
+rio.</p>
+
+<p>&mdash;Que faz? perguntou Graça Strech.</p>
+
+<p>A vivandeira encolheu os hombros, como se aquelle
+movimento quizesse dizer:</p>
+
+<p>&mdash;Atiro á agua o passado.</p>
+
+<p>&mdash;Porque não fala, Rosina! Ainda não ouvi a sua
+voz desde que entrámos n'este barco! Quererá tomar
+a serio o gracejo da sua mudez, com que eu procurei
+ludibriar a curiosidade do barqueiro?</p>
+
+<p>&mdash;É que, respondeu ella affectuosamente, me sinto
+preoccupada ao estudar o papel que devo representar
+ámanhã...</p>
+
+<p>&mdash;Mas... não percebo!</p>
+
+<p>O barqueiro tinha largado os remos e deixado pender
+o labio inferior ao ouvir a pronuncia de Rosina.
+Para elle, que tinha suas fumaças de rato da agua,
+como quem diz <i>lobo do mar</i>, era aquelle um mysterio
+impenetravel. Podia acaso acreditar que fosse
+realmente ali, em companhia d'um portuguez, uma
+mulher franceza, que lançára ao rio um fato em que
+brilhavam as côres sinistras da França, áquella hora
+em que o sangue, o incendio, o saque, a tyrannia se
+erguiam como barreira entre o povo d'um e outro
+paiz?</p>
+
+<p>O Tunante de Pé-de-Moira não sabia historia, e
+ignorava o prodigio d'estas affinidades individuaes
+que se escondem entre as correntes oppostas dos
+sentimentos nacionaes. São grãos d'areia perdidos no
+oceano; é preciso descer ao fundo do mar para encontral-os.
+Outra pessoa, que não fosse rude, não se
+admiraria. A historia diz que, pouco depois da invasão,
+o marechal Soult se vira fechado n'um circulo
+de cariciosas sympathias, e que eram rasgados os salamaleques
+dos que já se presumiam aulicos de D.
+Nicolau I. A historia refere que semelhantemente alguns
+foram os corações que se renderam á prepotencia
+de Junot, e que era contra esses que se erguia
+tremenda a grande voz popular: «Morra Junot, e mais
+quem d'elle tiver dó.»<sup><a href="#nota6" name="m_nota6">[6]</a></sup> Finalmente, ainda conta a
+historia que Piton, um sargento do corpo de policia
+de Lisboa, fora promovido a alferes, pelos grandes<span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span>
+serviços que prestou aos francezes, com os quaes
+se retirou para França ao depois.<sup><a href="#nota7" name="m_nota7">[7]</a></sup></p>
+
+<p>O Tunante, se soubesse historia, não se admiraria
+portanto de que o coração ainda tivesse um élo para
+ligar portuguezes a francezes, e, se houvera adquirido
+maior conhecimento dos homens e das coisas,
+saberia que primeiro se verga ao tufão das paixões a
+palmeira flexivel e solitaria do deserto, que o roble
+secular da floresta, duas vezes forte&mdash;porque é robusto
+e porque não esta só.</p>
+
+<p>A palmeira cede ao primeiro impulso, e deixa-se
+ir, em doce voluptuosidade, embalada nos braços vaporosos
+do vendaval, que são os primeiros, e por
+ventura os unicos, que se estendem para ella.</p>
+
+<p>O roble cede apenas quando o tronco está corroido
+pelos vermes ou abalado pelas luctas da tempestade.</p>
+
+<p>Os aulicos de Soult e os thuriferarios de Junot tinham
+as entranhas comidas pelas serpes da perfidia,
+e a alma vergastada pelo açoite da cupidez.</p>
+
+<p>Rosina era a palmeira do deserto, que verga sem
+saber que vae ser arrastada para longe do seu torrão
+natal, e que o simoun a despenhará n'um abysmo
+inevitavel.</p>
+
+<p>Era o amor que a dementava a extremos de renunciar
+a sua patria, se bem que a cada instante lhe
+pungisse no coração uma vaga saudade das Ardennas;
+era finalmente um sentimento nobre que a impellia
+a essa loucura, serena postoque ardente, resignada
+postoque dolorosa.</p>
+
+<p>A que mobil obedeceriam, porém, as damas portuguezas,
+que, um anno antes, se banquetearam e
+valsaram, no theatro de S. Carlos, em ruidoso sarau
+e na presença de Junot, com a officialidade franceza?</p>
+
+<p>Suas excellencias, as beldades da capital, eram recebidas
+no vestibulo do theatro por quatro pagens,
+loiros e provavelmente rosados. Sahia a esperal-as
+ao limiar da platéa, d'onde corria um tablado a nivelar-se
+com o palco, o general Margaron, que fazia
+as honras da casa. Ao fundo da scena havia trez cadeiras
+de braços, que se conservaram devolutas até
+á chegada de Junot, e em frente o busto de Napoleão<span class="pn"><a name="pag_76">{76}</a></span>
+a resaltar sob um docel armado com quatro bandeiras
+em que se liam os nomes de outras tantas batalhas
+assignaladas: Marengo, Austerlitz, Iena e Friedland.</p>
+
+<p>Já as damas ouviam requebradas os galanteios dos
+officiaes de Napoleão, quando entrou Junot á maneira
+d'imagem em andor, isto é ladeado por duas
+das mais formosas portuguezas. Então começou o
+delirio da valsa, que rodou em circulos vertiginosos
+pela sala, até que a meio do tablado se abriu uma
+tenda de campanha, onde se serviu a ceia unicamente
+ás senhoras. É de suppor que suas excellencias se
+volvessem galliciparlas para melhor poderem acompanhar
+a eloquencia dos officiaes francezes nos brindes.</p>
+
+<p>Os convivas do sexo masculino estavam vexados&mdash;segundo
+diz candidamente o já citado José Accursio
+das Neves&mdash;e espreitavam dos camarotes as viandas
+e as esposas, resignando-se ao exiguo prazer de respirar
+os perfumes d'umas e outras.</p>
+
+<p>Em redor do edificio do theatro estavam postados
+quatro mil aguadeiros, de barril ao hombro, medida
+preventiva ordenada por Junot, para acudirem, em
+caso de maior sinistro, ao duplo incendio da lascivia
+e da gula.</p>
+
+<p>Parece porém averiguado que não funccionaram
+por serem permittidos dentro os escandalos.</p>
+
+<p>D'esta combustão, que afogueou o interior do theatro
+de S. Carlos, na noite de 8 de junho de 1808,
+tambem não sabia o Tunante de Pé-de-Moira.</p>
+
+<p>Que ignorante aquelle!</p>
+
+<p>Entenda-se todavia que não veiu á tela o facto para
+avultar a necedade do barqueiro, senão que para
+desculpar o coração e a mocidade da pobre Rosina
+Regnau. E agora é tempo de reatarmos o interrompido
+dialogo.</p>
+
+<p>&mdash;Reparou, replicou a vivandeira a Graça Strech,
+que ia calada. Ia a pensar. Bem vê que é desculpavel
+a concentração em quem agora renasce para a existencia.
+Não creia porém que o não ouvia. Ouvia sim...
+Quer uma prova? Acaba de serenar a minha alma
+com uma unica palavra, de resolver um problema,
+como se diz em Pariz, no bairro Latino. O senhor
+não precisa de pensar no futuro. Já o escolheu. Vae
+combater, vae realisar o seu desejo, tão facil de realisar<span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span>
+que lhe basta apenas encontrar o exercito portuguez.
+Eu comecei a realisar o meu: era acompanhal-o.
+Bem; aqui vou ao pé de si. Mas depois? mas
+ámanhã? mas sempre? Procurar o exercito francez
+era entregar-me á morte. Seguir o exercito portuguez
+era denunciar-me no primeiro momento em que me
+ouvissem falar. E os resultados d'essa imprudencia
+facilmente se imaginam... Seriam tambem a morte...
+Não, não, eu quero viver, preciso de viver, com
+o senhor e como o senhor. Viverá para a sua vingança;
+eu viverei para o meu... amor. Sim, pode
+acreditar na verdade d'esta palavra, aqui, a esta hora,
+depois, de eu haver atirado ao rio o meu fato de vivandeira...
+O senhor disse ao barqueiro: Faze de
+conta que é muda. Pois bem, sel-o-hei d'hoje em
+diante sempre que tenha á volta de mim ouvidos estranhos.
+Reservarei para o senhor as minhas palavras
+e o meu coração; para todos os outros serei
+muda, idiota, louca, se tanto for preciso. Mas deixe-me
+vel-o, seguil-o, falar-lhe só a si, percebe, só a si!
+Não estranhe a minha fraqueza. A alma da vivandeira
+é como um cartuxo de polvora: cheguem-lhe
+lume, e ella arderá. O senhor bem sabe que eu sou
+vivandeira...</p>
+
+<p>Graça Strech queria falar.</p>
+
+<p>Ella atalhou-o:</p>
+
+<p>&mdash;Quando se enfastiar de mim, tenha a coragem
+de m'o dizer. Um soldado deve ser corajoso. O ceguinho
+das Ardennas, quando vae a qualquer casa
+onde as crianças teem medo do seu cão, manda-o
+embora, e elle obedece-lhe. O senhor diga-me tambem:
+«Rosina Regnau, não te esqueças de que eu
+sou para ti o cego das Ardennas, o pobre Hubert».
+Bem sabe que quando ha guerra não é difficil a gente
+encontrar repouso. Ás vezes, no caminho, sae-nos ao
+emcontro uma bala perdida. Quando a gente é feliz, a
+bala cae-nos aos pés, mas quando só falta calar-se o
+coração para morrer, a bala cae no coração.</p>
+
+<p>&mdash;Rosina! Rosina! murmurou Graça Strech, profundamente
+commovido.</p>
+
+<p>Ella atalhou-o de novo:</p>
+
+<p>&mdash;Sim, agora ainda sou Rosina, ainda posso sel-o.
+Ámanhã serei&mdash;a muda. Serei uma sua parenta, uma
+louca com quem o senhor reparta piedosamente da
+sua marmita. Dirão: Ali vae a louca! E eu não poderei<span class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span>
+voltar-me sequer, porque a louca será ao mesmo
+passo surda e muda. Se porém o calor da lucta
+não só fizer que se enfastie de mim, mas tambem
+que me odeie, como a principio me odiava, então
+não me mande embora, denuncie-me, entregue-me.
+Bastará uma palavra sua para fazer-me emmudecer
+para sempre. Bem vê que se o encargo é pesado, o
+resgate é facil...</p>
+
+<p>&mdash;Offende-me, Rosina, veja bem que me offende!
+disse elle ardentemente. Amo-a... sim, tambem eu
+posso dizer-lhe que a... amo. E quem diria, Rosina,
+quem o diria ha tão pouco tempo ainda! Como é
+feito o coração do homem! Odeio os seus irmãos e
+amo-a a si... Pela primeira vez na minha vida sinto
+amor por outra mulher que não fosse...</p>
+
+<p>&mdash;Cale-se, cale-se! apostrophou ella delirantemente.
+Não quero saber quem amou; seja esse o segredo
+do seu annel.</p>
+
+<p>&mdash;Acredite, Rosina, que o amor de que este annel
+é recordação era o mais puro amor que ha na terra...
+A pessoa a quem elle pertencia era minha irmã, acredite,
+era minha irmã.</p>
+
+<p>&mdash;Sua irmã! repetiu ella incredula e ironica. Bem
+vê que o sentimento que esse annel lhe inspira não
+é a saudade, é o enthusiasmo...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! que não sabe como eu a amava! São d'ella
+tambem estas cartas... Póde vel-as, desenganar-se...</p>
+
+<p>&mdash;Não as entenderia.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade. Não as entenderia.</p>
+
+<p>&mdash;E que certeza me dariam as cartas de que eram
+da mesma pessoa que possuia o annel? Que sua irmã
+lhe escrevesse era natural... Não preciso de provas
+para acredital-o...</p>
+
+<p>&mdash;Rosina! Rosina! Este annel tambem era de minha
+irmã, que eu vi morta, fria, hirta, livida... Mataram-n'a,
+Rosina, mataram-n'a... E ella era tão formosa,
+tão innocente, tão timida! Mataram-n'a os
+francezes, a ella, que lhes não fazia mal nenhum, a
+ella, que era meiga como uma pomba!... E não contentes
+com um assassinio, commetteram mais dois
+na minha familia. Ao pé do cadaver d'Augusta havia
+outros cadaveres: o de minha mãe e o de minha avó.
+Mataram-n'as os francezes, Rosina. Por isso eu odiava
+este nome. O annel, cujo segredo não acredita, é<span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span>
+um legado de sangue... Sim, eu amo-a, mas nunca
+me peça mais do que eu lhe posso dar. Nunca me
+peça compaixão, clemencia... Era impossivel! Sobre
+este annel jurei vingar-me. Bem vê que é delgado,
+fino, como o dedo que cingia. Pois elle é a unica
+barreira que póde haver entre mim e Rosina, quero
+dizer, o unico obstaculo que lhe prohibe a plena
+posse do meu coração... Viverei, sim, entre este annel
+e Rosina; entre a minha vingança e o meu amor...
+Eu patenteei-lhe a minha alma antes de acceitar a
+liberdade que me deu. Não tem de que me accusar...
+Comprehendo-a, Rosina, acredite que a comprehendo.
+A sua alma é tão extraordinariamente grande, tão
+poderosamente forte, que chega a assombrar-me a
+coragem do seu amor... Eu conheço que vae raiar
+para mim uma nova aurora. Quizera poder-me dar
+completamente ao seu amor, viver d'elle e só para
+elle, mas infelizmente a aurora que vae raiar nasce
+tinta de sangue, e sangue... de seus irmãos.</p>
+
+<p>Rosina tinha lagrimas nos olhos e fogo no coração.
+Parecia-lhe impossivel que a saudade d'uma
+irmã despertasse em Graça Strech tão dolorido enthusiasmo.
+Se era essa a unica recordação ligada
+áquelle annel, que phenomenal, que afflictiva e ao
+mesmo tempo que energica não era a alma d'esse
+homem! Cada vez o amava mais por que cada vez
+lhe parecia maior. E todavia, entre elles, tão germanados
+pela impetuosidade dos sentimentos e pela virilidade
+do animo, medeava uma barreira, posto que
+delgada, insupperavel&mdash;o annel mysterioso. Ella quereria
+tirar-se d'aquella duvida cruciante, adquirir,
+ainda que á custa de sacrificios, uma convicção, embora
+funesta; mas que direito tinha ella a interrogal-o
+mais, a duvidar, a ter ciumes?</p>
+
+<p>Cerca do meio dia abicou o barco a um reconcavo
+sombrio, perto de Pé-de-Moura, onde o barqueiro
+saltou em terra para ir buscar o fato promettido. Antes
+d'elle desembarcar, Graça Strech lançou-lhe a
+mão ao braço, e disse austeramente:</p>
+
+<p>&mdash;Tens filhos?</p>
+
+<p>&mdash;Saiba v. s.ª que tenho quatro. Por elles me exponho
+á morte todas as noites no rio...</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem. Por elles me jurarás que não dirás a
+ninguem palavra do que viste e ouviste aqui.</p>
+
+<p>&mdash;Juro, senhor...<span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Agora recebe todo o dinheiro que resta a um
+soldado.</p>
+
+<p>Uma hora depois, Graça Strech, saltando á margem,
+dizia a uma camponeza que o seguia:</p>
+
+<p>&mdash;Para Amarante.</p>
+
+<p>E a camponeza, como se só tivesse sorrisos e não
+palavras, sorria.</p>
+
+<p>Já dissemos que era aquelle o dia 20 d'abril.</p>
+
+<p>Quizeram os francezes, depois da invasão do Porto,
+estender a sua victoria pelo paiz inteiro. Immediatamente
+se assenhorearam de Valença e Vianna,
+tentando simultaneamente passar a Traz-os-Montes,
+mas foram duas vezes repellidos n'essa tentativa.</p>
+
+<p>Beliscados na sua vaidade de conquistadores, tinham
+mandado sobre Amarante no dia 9 uma força,
+que recuou perseguida pelo general Silveira. Appareceu
+porém, reforçada, no dia 15, travando combate
+em Manhufe e Villa Meã durante trez dias para dar
+tempo a soccorrel-a os quatro mil homens de Loison
+e De Laborde, que, partindo de Guimarães, lograriam
+colher os portuguezes pela rectaguarda.</p>
+
+<p>A pericia do general Silveira frustrou-lhes o intento
+com um rapido e habil movimento sobre Amarante.
+Os portuguezes occupavam a margem esquerda
+do Tamega; os francezes a direita.</p>
+
+<p>O empenho do inimigo era atravessar a ponte.
+Desesperados pela valorosa resistencia dos portuguezes,
+pegaram fogo, na noite de 18, a toda a villa. A
+crueza do inimigo mais pareceu atiçar a coragem dos
+nossos, cuja resistencia recrudesceu no dia immediato,
+apesar de reforçados os francezes pelas brigadas
+de Sarrut e Marisy.</p>
+
+<p>Estas eram as evoluções das tropas inimigas, em
+Amarante, á hora em que deixamos Graça Strech e Rosina
+Regnau em caminho do acampamento portuguez.</p>
+
+<p>Tempo depois, um poeta conterraneo, mais familiar
+ás armas d'Apollo que de Marte, encarecia no
+seguinte soneto a gloria do general Silveira, cuja tactica
+elle provavelmente estivera contemplando de sitio
+aonde já não podiam chegar pelouros:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Uma nuvem de fumo o ar povôa,<br>
+E do Tamega enluta as margens frias,<br>
+O portuguez canhão quatorze dias,<br>
+Sem descanço algum ter, fuzila e trôa.<span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span></p>
+
+<p>De um lado a outro lado a morte vôa<br>
+Por entre essas crueis artilharias,<br>
+E perdendo as antigas ousadias,<br>
+Curva ao duro francez a altiva prôa.</p>
+
+<p>Amigos hespanhoes, nação brilhante!<br>
+Eis como cá seguimos vossa esteira,<br>
+Eis nossa Saragoça, eis Amarante.</p>
+
+<p>Os olhos ponha em nós a Europa inteira,<br>
+E veja, em amplo quadro flammejante,<br>
+O Tamega, Ebro, Palafox, Silveira.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Pena foi que Graça Strech precedesse alguns dias
+a gestação do soneto escripto em honra de Silveira,
+porque, de contrario, se topasse o poeta a versejar
+em ociosa inactividade, havel-o ia empurrado, no seu
+vivissimo odio contra os francezes, para o meio da
+infatigavel fuzilaria que durante quatorze dias sinistramente
+illuminou as aguas do Tamega.</p>
+
+<p>O que valeu foi que, se houve poetas para incensar
+metricamente Silveira<sup><a href="#nota8" name="m_nota8">[8]</a></sup>, houve tambem soldados
+que denodadamente pelejaram pela patria.</p>
+
+<p>E o numero dos valentes da ponte d'Amarante ia
+agora ser augmentado com um soldado que seria o
+primeiro a romper fogo contra o inimigo.</p>
+
+<p>Deixar lá o poeta dizer que as margens do Tamega
+eram <i>frias</i> n'aquelle tempo. Os poetas dizem
+tudo, e tudo podem dizer...<span class="pn"><a name="pag_82">{82}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota6" name="nota6">[6]</a></sup>
+«Historia antiga e moderna da sempre leal e antiquissima villa
+de Amarante». etc., por P. F. de A. C. de A.&mdash;1814, pag. 54.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota7" name="nota7">[7]</a></sup>
+«Historia geral da invasão dos francezes em Portugal», por
+José Accurcio das Neves. Tomo <small>I</small>, pag. 282.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota8" name="nota8">[8]</a></sup>
+Veja-se <i>Elogio de Silveira</i>, pelo padre mestre dr. fr. F.
+de S. T., e <i>Silveira</i>, poema por J. S.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<h2>X</h2>
+
+<h2>A hora do resgate</h2>
+
+<p>Quatorze dias durou, como dissémos, a heroica
+defeza da ponte d'Amarante.</p>
+
+<p>Foi aquella uma proeza que requeria desfecho condigno, o que infelizmente não aconteceu. Reforçado
+o inimigo ao decimo terceiro dia de combate, e animado
+pela presença do marechal Soult, preparou-se
+para uma lucta decisiva, que o nevoeiro com que
+amanheceu o dia seguinte viera inesperadamente coroar.</p>
+
+<p>Perdidos os nossos na cerração da metralha e da
+neblina, e atacadas pela rectaguarda algumas baterias,
+tiveram de abrir passagem por entre uma densa
+floresta d'armas, marchando em retirada para Mezão
+Frio e Campeã, a tempo que o general Silveira recuava
+para Entre-os-Rios.</p>
+
+<p>É realmente assombrosa a historia portugueza nas
+paginas que dizem respeito ás guerras peninsulares.</p>
+
+<p>São tão descommunalmente grandes os factos, que,
+em sua mesma simpleza, ora se nos affiguram episodios
+d'Homero, exuberantes d'esforços titanicos, ora
+se retingem dos toques sombrios de Dante.</p>
+
+<p>As façanhas da invasão franceza claramente revelam
+que ha pouco mais de sessenta annos corria ainda
+nas veias dos portuguezes o sangue dos valentes
+d'Ourique, Aljubarrota e Montijo. Renasciam os heroes
+das cinzas dos heroes, como se a gloria fosse herança
+de paes a filhos. Podia o animo portuguez desvariar
+se por momentos, como já anteriormente fizemos
+notar, que logo despertava melhor retemperado
+para a rehabilitação. Assim é que 1640 faz esquecer
+1580, e que o vulto homerico de João Pinto Ribeiro
+resgata a perfidia de Miguel de Vasconcellos.</p>
+
+<p>Hoje, as batalhas que outr'ora eram campaes, volveram-se
+parlamentares, isto é, falamos muito e praticamos<span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span>
+pouco. A apostrophe «S. Jorge e ávante!» foi
+substituida por est'outra: «Senhor presidente, peço a
+palavra!» Ha menos soldados e mais deputados, menos
+regimentos e mais commissões. Não obstante, alguma
+faulha resaltaria ainda das cinzas quentes das
+nossas conquistas para atiçar o incendio das paixões,
+na hora em que perigasse a independencia da patria.</p>
+
+<p>Aconteceria, porém, que muitos deputados, que nas
+côrtes de S. Bento discursam calorosamente sobre a
+nossa autonomia, requereriam, dada a voz de alarma,
+inspecção da junta de saude para serem considerados
+invalidos...</p>
+
+<p>Mas iamos nós falando dos feitos portuguezes durante
+as guerras peninsulares. Estupendos foram, é
+certo.</p>
+
+<p>No combate da ponte d'Amarante, por exemplo,
+perecera gloriosamente um official d'artilharia, muito
+lastimado por seus companheiros d'armas, incluido
+o general Silveira, que lhe abraçou o cadaver.</p>
+
+<p>O tio do official, e a mãe, que era viuva, vestiram-se
+de gala, dizendo esta nobre mulher aos dois filhos
+que lhe restavam, e estavam pranteando o irmão:</p>
+
+<p>&mdash;Não choreis, filhos. Vosso irmão não morreu.
+Vós é que morrereis da morte da vergonha se vos
+não mostrardes dignos da sua memoria.</p>
+
+<p>Este exemplo d'animo varonil em peito feminino
+prova que não anda phantasia popular na lenda d'aquella
+Deosadeu, de Monsão, de Celinda, a heroina
+de Certã, de Filippa de Vilhena, e doutras celebradas
+matronas portuguezas, que deram á patria
+uma geração de meninas que fazem <i>crochet</i>.</p>
+
+<p>É egualmente abundante de heroismos a chronica
+da primeira invasão, á parte pequenas manchas, como
+aquellas que dos copos dos officiaes francezes cairam
+sobre o tablado do theatro de S. Carlos.</p>
+
+<p>Deixem-me citar um facto na mesma linguagem
+em que o historiador o descreveu.</p>
+
+<p>«O juiz de fóra de Algozo, Jacintho d'Oliveira Castello
+Branco, fez-se digno de honrosa memoria, pela
+sua repugnancia ás ordens do governador intruso;
+por continuar debaixo d'elle a uzar do nome de S.
+A. R.<sup><a href="#nota9" name="m_nota9">[9]</a></sup> em alguns processos; por conservar as armas<span class="pn"><a name="pag_84">{84}</a></span>
+reaes no pelourinho e na casa da camara d'aquella
+villa; e por outras acções, egualmente sublimes e arriscadas.
+Jantando em sua casa varias auctoridades
+portuguezas, que o increpáram de não cumprir as
+ordens reiativas á contribuição de guerra, respondeu-lhes,
+lançando mão a um copo, e fazendo uma saude
+a S. A. R. o principe regente.»</p>
+
+<p>Não é menos avantajado em heroicidade o procedimento
+do juiz de fóra de Marvão, Joaquim José de
+Magalhães Mexia, que, intimado para se render ao
+jugo estrangeiro, fez desistencia publica perante os
+seus escrivães, e foi prostrar-se diante da imagem do
+Senhor dos Passos da sua villa, encostando a vara á
+imagem por fórma que parecia haver-lh'a depositado
+nas mãos, e recolhendo-se depois a casa para vestir-se
+de luto.</p>
+
+<p>É pois digna de que a reproduzam na tela os melhores
+pintores, os melhores poetas e os melhores
+historiographos&mdash;esta ingente lucta d'um pequeno
+paiz, apenas soccorrido por outro, contra o gigante
+tresvariado pela gloria, que firmava os pés nas planicies
+da Italia, e alguns annos depois fôra visto á
+luz, para elle sinistra, dos incendios de Moscow, enchendo,
+de sul a norte, a Europa inteira.</p>
+
+<p>Alguns talentos verdadeiramente robustos teem
+lançado o colorido do seu pincel sobre esta enorme
+tela, nunca esgotada. Que me lembre n'este momento,
+Rebello da Silva, Camillo Castello Branco, Pinheiro
+Chagas e Arnaldo Gama trataram brilhantemente tão
+fecundo assumpto. Eu chego com pequeno viatico,
+embora não venha tarde, unicamente para mostrar que
+tenho seguido reverentemente o sulco que todos quatro
+abriram no vasto campo da guerra peninsular.</p>
+
+<p>Reatando a narrativa.</p>
+
+<p>Graça Strech foi um dos soldados portuguezes que
+mais se distinguiram nos ultimos dias da defeza da
+ponte d'Amarante.</p>
+
+<p>O general Silveira estimou-o desde que elle, apresentando-se,
+lhe disse: «Venho bater-me como leão
+porque venho vingar-me»; e começou a admiral-o
+horas depois da apresentação.</p>
+
+<p>Ao anoitecer do mesmo dia, fizeram reparo alguns
+soldados n'uma camponeza, que parecia muda, e se
+bandeava com o sequito do exercito.</p>
+
+<p>&mdash;D'onde viria? perguntavam elles.<span class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;É minha... irmã, atalhou commovido Graça
+Strech. Não podia convencel-a a que me não seguisse,
+porque a infeliz nem ouve nem fala. Veiu vindo
+atraz de mim, receiosa de que eu morresse sem ver-me.
+Pobresinha!&mdash;acrescentou com os olhos marejados
+de lagrimas&mdash;não faz mal a ninguem, e é muito
+minha amiga.</p>
+
+<p>&mdash;Que pena a sua desgraça, que tão formosa é!
+observou piedosamente um portuguez.</p>
+
+<p>&mdash;Nem se diria portugueza! exclamou outro com
+a affouteza que lhe dava o não estar na presença de
+portuguezas.</p>
+
+<p>Graça Strech replicou:</p>
+
+<p>&mdash;Ha com effeito ali alguma coisa allemã no rosto
+como no nome. Os nossos antepassados tinham sangue
+teutonico. Ainda nos corre nas veias o sangue
+d'elles. A pobresinha estremece-me. Como não tem
+ouvidos nem voz, quer estar ao pé de mim sempre
+que póde, como para falar pela minha bocca e ouvir
+pelas minhas orelhas. Eu sou quasi a sua moleta...
+Tambem a infeliz não tem ninguem mais n'este mundo,
+e ella de si pouco tem...</p>
+
+<p>&mdash;Infeliz! ponderaram os soldados enternecidos.</p>
+
+<p>Rosina Regnau interpretou magistralmente o seu
+papel. Passavam por ella e diziam: <i>A muda allemã!</i>
+e ella, apesar de entender a phrase á força de repetida,
+nem sequer voltava o rosto para agradecer
+aquella esmola de compaixão.</p>
+
+<p>Se não ouvia! se não falava!</p>
+
+<p>Sentava-se entre as bagagens a entrançar folhas
+verdes ou a desfolhar flôres.</p>
+
+<p>Algumas vezes mettia-se por entre as arvores para
+se inteirar da posição das tropas.</p>
+
+<p>Depois d'um combate, aproximava-se dos soldados,
+quando Graça Strech se demorava ainda, e pousando
+a face na mão e fechando os olhos, perguntava por
+gestos se «o irmão» estava ferido ou morrera. Os
+soldados, que já a comprehendiam, acenavam-lhe
+negativamente.</p>
+
+<p>Assim decorriam os dias, sem que a alma da vivandeira
+saisse para fóra de si mesma.</p>
+
+<p>Quem adivinhava ali que de receios, de maguas, de
+pensamentos, de esperanças muito vagas... agitavam
+aquelle formoso cadaver que só tinha vida nos
+olhos?<span class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span></p>
+
+<p>Ninguem.</p>
+
+<p>E todavia ella estava pensando sempre...</p>
+
+<p>A sua ambição, o seu sonho, o seu ideial era possuir
+inteiramente a alma de Graça Strech, porque
+ella desde o momento da fuga para ninguem mais
+vivia.</p>
+
+<p>&mdash;Achou decerto&mdash;suspeitava ella&mdash;que eu não
+era digna de receber a confissão do seu segredo.
+Quem és tu, disse elle lá comsigo, pobre vivandeira,
+para comprehenderes a enormidade d'um amor que
+vive na morte? Se aquelle annel fosse realmente de
+sua irmã, curvar-me-ia a seus pés e beijar-lh'o-ia.
+Mas se elle cingiu o dedo d'outra mulher, que o
+amava muito menos do que eu, arrancar-lh'o-ia da
+mão ainda mesmo com a certeza de morrer esmagada
+pela sua colera. Cumpre pois que, por sacrificio
+sobre sacrificio, eu chegue a nobilitar-me a seus olhos
+o bastante para elle me convencer. N'esse dia serei
+sua amante; por emquanto sou apenas o seu cão.
+Vamos, solitario molosso, affaga o teu dono...</p>
+
+<p>Graça Strech passava, atirava-lhe uma flôr, e sorria...</p>
+
+<p>Ella sorria tambem.</p>
+
+<p>Guarnecidos todos os pontos do Douro, desde a
+retirada d'Amarante até a acção d'Ovelha, tiveram as
+tropas algum descanço apenas interrompido por escaramuças
+e reconhecimentos.</p>
+
+<p>Foi n'esse intervallo que Graça Strech começou a
+aprender a tocar guitarra com um soldado, filho da
+Regua, e muito conhecido ali por excellente musico.</p>
+
+<p>A natural aptidão de Graça Strech fez que dentro
+em pouco se avantajasse ao mestre. Assim era que
+não desaproveitava occasião de estar guitarreando
+ao lado de Rosina, que conservava na physionomia a
+habitual immobilidade de linhas, como se a musica,
+que se lhe coava á alma, não lhe desse nenhuma
+sensação, por não poder ouvil-a.</p>
+
+<p>Ás vezes, de noite, Rosina podia murmurar muito
+a medo, aos ouvidos de Strech, através dos sons da
+guitarra:</p>
+
+<p>&mdash;José!</p>
+
+<p>Ella sabia pronunciar este nome como se de pequenina
+o aprendera.</p>
+
+<p>Depois olhava em redor, como para adquirir a certeza
+de não ser escutada, e repetia maviosamente:<span class="pn"><a name="pag_87">{87}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;José!</p>
+
+<p>Elle apertava-lhe convulsamente a mão e respondia:</p>
+
+<p>&mdash;Rosina!</p>
+
+<p>E aquelle immenso amor da vivandeira, que renunciára
+á patria, á liberdade e á voz, contentava-se com
+exhalar-se n'uma palavra, e ser correspondido por
+outra.</p>
+
+<p>Ella tambem não pedia mais. Era o cão do soldado:
+seguia-o.</p>
+
+<p>Quando a tristeza lhe descia ao coração, a indefinida
+tristeza de quem ama, consolava-se a si propria
+imaginando-se ainda vivandeira, porque ouvia troar
+o canhão e sentia no ar o cheiro da polvora.</p>
+
+<p>Era apenas a memoria o que lhe restava do que
+fôra; o fato da sua infancia sepultára-o ella no fundo
+das aguas...</p>
+
+<p>Entretanto proseguiam com actividade as operações
+d'um e outro exercito.</p>
+
+<p>A 22 d'abril entrava em Lisboa Wellesley, commandante
+em chefe das forças britannicas, que desembarcaram
+no Porto, na Figueira, etc. As tropas inglezas,
+de combinação com as portuguezas, começaram
+a tomar differentes posições. Em Coimbra passaram
+algumas divisões nos dias 1 e 2 de maio, sendo
+recebidas com festas que chegaram a tocar o maximo
+enthusiasmo.</p>
+
+<p>Era aquelle o hymno de esperança da patria, anciosa
+de liberdade.</p>
+
+<p>Avançaram as tropas alliadas até Agueda, e lograram
+repellir os francezes desde as Albergarias até
+Oliveira d'Azemeis, onde Wellesley, depois lord Wellington,
+estabelecera o quartel general.</p>
+
+<p>No dia 11, a guarda avançada do exercito anglo-luzo
+destroçou em Grijó os postos avançados francezes
+que recuaram até Gaya e passaram o Douro,
+cortando immediatamente a ponte de barcas.</p>
+
+<p>Na vespera d'esse dia atravessára Beresford o Douro
+na Regua com as suas tropas, repellindo Loison
+para Amarante, e de Amarante para o Porto; Loison
+perdera na retirada muitas peças, alguns obuzes,
+e cento e dezenove carros com bagagens.</p>
+
+<p>Estava pois o flanco esquerdo do exercito francez
+torneado por Beresford, o direito por Hill em Ovar,
+e o centro alcançado pelas divisões Trant e Paget.<span class="pn"><a name="pag_88">{88}</a></span></p>
+
+<p>Durante toda a noite de 11 para 12 marchou o exercito
+alliado sobre Villa Nova de Gaya.</p>
+
+<p>De manhã, e impossibilitado de passar o rio, soube
+o coronel Watters que um barbeiro portuense, salvo
+da vigilancia das patrulhas francezas, havia atravessado
+n'um barco; aproveitando a conjunctura providencial,
+e o barco não menos providencial que a conjunctura,
+passou á margem direita, voltando á esquerda
+com trez grandes barcos, que pudera obter.</p>
+
+<p>Avisado Wellesley do achado miraculoso, voltou-se
+jubiloso para o coronel e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Passem as tropas que couberem nos barcos.</p>
+
+<p>Não faltaram valentes que se expuzessem aos azares
+da façanha, surprehendendo os francezes que
+contavam repellir vantajosamente o inimigo quando
+tentasse a travessia a descoberto.</p>
+
+<p>Foi, pois, o coronel Watters o Martim Moniz da
+reconquista do Porto.</p>
+
+<p>Percebidos os francezes da audacia heroica do
+exercito alliado, para logo se desviaram em movimentos
+confusos, como o redemoinhar das areias no
+deserto revolvidas pelo simoun. E assim como as
+areias tomam, erguidas no ar, á luz do sol, irradiações
+prismaticas que deslumbram, assim resplandeciam,
+á luz do meio dia, as armas dos francezes baralhando-se tumultuariamente nas ondulações do terreno
+que medeia entre o caes da Ribeira e o Prado
+do Bispo.</p>
+
+<p>E então marinhavam as tropas luzo-britannicas pelos
+alcantis do Seminario, como outr'ora os cruzados
+pelos despenhadeiros da torre do norte, na tomada
+de Lisboa, e, para que se complete o parallelo, o que
+lá era Guilherme, duque de Normandia, era cá Wellesley,
+lord Wellington.</p>
+
+<p>E já para anciedade dos portuenses se abria manhã
+d'esperança, á medida que os nossos ganhavam
+terreno, e mais revoluteavam as hostes francezas nas
+eminencias sobranceiras ao Douro.</p>
+
+<p>Por um momento se julgou perdido o triumpho,
+quando a artilharia franceza começou a varejar o Seminario.</p>
+
+<p>Mas não tardou que ao canhão da margem direita
+respondesse o canhão da margem esquerda, que das
+alturas do Pilar vomitava torrentes de fumo negro
+sobre o valle cavado pelo Douro.<span class="pn"><a name="pag_89">{89}</a></span></p>
+
+<p>Reanimados os portuenses, entraram de preparar
+barcaças, que conseguiram pôr a salvo do outro lado
+do rio, e que transportaram as tropas do general Sherbrooke.</p>
+
+<p>Simultaneamente estrondeava no Porto, rolando
+até ao caes como o rumor longinquo d'uma cathedral
+em festa, o concerto das vozes, que pregoavam
+victoria, á mistura com os sons festivos dos campanarios.</p>
+
+<p>Nas janellas da cidade baixa agitavam-se lenços
+brancos em vertiginoso tumultuar.</p>
+
+<p>Tambem assim accordou Lisboa, cento e sessenta
+e nove annos antes, na manhã de 1 de dezembro de
+1640, quando um punhado de fidalgos portuguezes
+subjugava nas praças publicas, sem correr uma gotta
+de sangue, o famelico leão das Hespanhas.</p>
+
+<p>Era o grito de liberdade longos dias reprimido na
+garganta d'um povo inteiro.</p>
+
+<p>Era o jubilo d'uma nação, que parece apenas occupar
+alguns palmos de terra no mappa da Europa,
+á hora em que despedaçava as gramalheiras que por
+sobre os Pyreneus lhe lançára o César da França, e
+dizia ao vencedor de Austerlitz: «Tu prostraste a
+Prussia em Iena, a Russia em Friedland; tu levantaste
+sobre as baionetas dos teus exercitos os thronos
+de Napoles, da Hollanda, da Westphalia, e da
+Hespanha, mas nós fizemos estremecer na tua mão,
+ó demolidor victorioso, a alavanca com que procuravas
+revolver nos alicerces o solio portuguez. Que o
+amigo leopardo da Inglaterra te contrariasse, vá,
+porque a Inglaterra é muito poderosa. Mas nós, pequenos
+como somos, fazemos suster o vôo da tua
+aguia e, audazes como ella, gritamos-lhe para a amplidão
+que avassalla: Basta! Pára!»<span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota9" name="nota9">[9]</a></sup>
+Sua Alteza Real.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+
+<h2>XI</h2>
+
+<h2>O que a vivandeira pensava</h2>
+
+<p>Retiraram os francezes pelo norte de Portugal,
+acossados pelo exercito anglo luso.</p>
+
+<p>No dia 17 ganharam Montalegre, no dia 18 passaram
+a Alhariz, e no dia 19 entraram em Orense, depois
+de marchas tão violentas como trabalhosas, de
+perdas consideraveis, e de perseguida vivamente a
+sua rectaguarda pelas tropas alliadas.</p>
+
+<p>Na passagem pelas povoações que medeiam entre
+o Porto e a fronteira, deixaram os invasores um rasto
+de sangue e fogo de que falam com assombro os documentos
+officiaes.</p>
+
+<p>Á medida que fugiam foram espalhando a morte
+nas ultimas terras de Portugal, como se quizessem
+atulhar de cadaveres o abysmo cavado na gloria de
+Napoleão.</p>
+
+<p>N'uma carta dirigida por lord Wellington ao secretario
+de guerra, escripta no quartel general de
+Montalegre, no dia 18, lê-se que: «O inimigo começou
+a retirada, como já informei a v. s.ª, destruindo
+uma grande porção dos seus canhões, e munições.
+Ao depois destruiu o resto d'ambos, e grande parte
+da sua bagagem, sem conservar mais do que quanto
+pudessem levar os soldados, e poucas mulas. Deixou
+ficar os doentes e feridos; e o caminho até Montalegre
+está juncado de cadaveres de cavallos, e mulas,
+e soldados francezes, que foram mortos pelos camponezes,
+antes que a nossa guarda avançada os pudesse
+salvar. Esta circumstancia é o effeito natural
+da maneira por que o inimigo faz a guerra n'este
+paiz. Os soldados teem saqueado e morto a paizanagem,
+a seu arbitrio; e eu tenho visto muitas pessoas
+pendentes enforcadas nas arvores ao longo das estradas,
+executadas por nenhuma outra razão, que eu<span class="pn"><a name="pag_91">{91}</a></span>
+possa saber, senão porque não eram amigas da invasão
+franceza, nem da usurpação do seu paiz; e podia
+traçar-se a rota da sua retirada, pelo fumo das aldeias
+a que elles lançavam fogo. Temos tomado cousa
+de quinhentos prisioneiros. Em tudo, o inimigo
+não tem perdido menos de um quarto do seu exercito,
+e toda a sua artilharia e equipagem, desde que
+nós o atacámos junto ao Vouga.»</p>
+
+<p>O marechal Beresford afina pelo mesmo tom:</p>
+
+<p>«Não é possivel pintar a cruel e infame conducta
+do inimigo; ella póde ser facilmente traçada pelos
+lamentos dos infelizes paizanos, das mulheres e das
+crianças, e pelo fumo das villas, aldeias e casas incendiadas:
+elle a nada perdôa: esta villa (Amarante)
+está inteiramente destruida: a de Mezão Frio o está
+em proporção do tempo que tiveram...»</p>
+
+<p>Passavam, pois, os francezes, devastando, incendiando,
+matando.</p>
+
+<p>Quiz o duque de Dalmacia que o occaso da sua invasão
+fosse allumiado pelas labaredas do incendio.</p>
+
+<p>Eram os ultimos lampejos d'uma victoria ephemera.
+Mas a voz da patria, á hora do resgate, erguia-se
+mais alto que o crepitar das chammas no pendor
+das serras, que os lamentos dos velhos e das crianças
+que succumbiam á ultima carnificina da segunda
+invasão franceza.</p>
+
+<p>No Porto, governado militarmente pelo coronel
+Trant, grande era o jubilo, se bem que não tão cego
+que sir Arthur Wellesley não houvesse proclamado
+aos habitantes que os feridos e prisioneiros estavam
+debaixo da sua protecção, e que seria considerado
+criminoso quem os offendesse.</p>
+
+<p>Em Lisboa, mal que no dia 17 se teve noticia official
+da restauração do Porto, salvou o castello de S.
+Jorge, sendo correspondido pelos navios de guerra
+inglezes surtos no Tejo; saiu bando para que a cidade
+se illuminasse por trez dias, no ultimo dos quaes
+mandou o governo cantar um <i>Te-Deum</i> na Basilica
+de Santa Maria Maior.</p>
+
+<p>Internado o inimigo no territorio da Galliza, as
+operações do marechal Victor na Extremadura hespanhola,
+ameaçando nova invasão de Portugal pelo
+Alemtejo, obrigaram sir Wellesley e o marechal Beresford,
+solicitado tambem o primeiro pela junta
+central de Hespanha residente em Sevilha, a marchar<span class="pn"><a name="pag_92">{92}</a></span>
+com seus respectivos exercitos para o sul do
+reino.</p>
+
+<p>Retirou, pois, sir Wellesley, posto que a despeito
+do governo portuguez, para a cidade do Porto, d'onde
+passou a Coimbra, Thomar, Constancia, e Abrantes,
+acampando na margem direita do Tejo. O exercito
+portuguez acompanhou o movimento retrogrado
+do exercito inglez, marchando para Abrantes, no intuito
+de atacarem em commum o marechal Victor,
+que estanceava nas visinhanças do Guadiana. Não se
+demorou, porém, o marechal Victor n'esta posição.
+Avançou, com os seus 90:000 homens, para a margem
+esquerda do Tejo, no intuito de o passar na ponte
+d'Alcantara.</p>
+
+<p>Reportemo-nos ao dia 14, dia assignalado pela brilhante
+defeza d'esta ponte durante mais de seis horas.</p>
+
+<p>Eram oito da manhã quando o inimigo, em trez
+columnas, rompeu o ataque por differentes pontos.</p>
+
+<p>D'uma e outra parte foi terrivel o fogo da artilharia
+até que, cerca do meio dia, vendo o regimento
+de milicias de Idanha-a-Nova consideravelmente dizimadas
+as suas fileiras, retirou em debandada, deixando
+ficar no campo apenas a legião lusitana.</p>
+
+<p>Em tão desesperada conjunctiva, o coronel Mayne
+mandou incendiar as minas da ponte, rompendo a
+explosão apenas por um lado, e ao major Grant confiou
+o commando das baterias para proteger a retirada
+dos nossos, que se realisou pelas trez horas da
+tarde.</p>
+
+<p>A cavallaria franceza vivamente perseguira então
+a nossa pequena divisão, sem que todavia pudesse
+impedir que se acautelassem os feridos e juntassem
+os dispersos.</p>
+
+<p>Ora um dos feridos na defeza da ponte d'Alcantara
+chamava-se José Maria da Graça Strech.</p>
+
+<p>Quando, em logar seguro, o tiraram d'um carro,
+onde lhe eram companheiros outros valentes portuguezes,
+a <i>muda alemã</i>, como geralmente chamavam
+a Rosina Regnau, esteve a ponto de trair o segredo
+do seu disfarce, vibrando um doloroso grito, o qual
+se apagou n'um rouco murmurio, que é, em lances
+afflictivos, o supremo esforço dos que não teem
+voz.</p>
+
+<p>E logo correu a encostar ao peito a cabeça do ferido,<span class="pn"><a name="pag_93">{93}</a></span>
+a examinar a ferida, e a perguntar por gestos
+se poderia resultar perigo.</p>
+
+<p>Os soldados, condoídos de tão carinhosa dedicação,
+responderam logo, desde muito costumados a
+prognosticar sobre ferimentos, gesticulando negativamente.</p>
+
+<p>E a muda poz as mãos, levantando os olhos ao céo
+e entrou de affastar os cabellos de Graça Strech, banhados
+de suor frio, para contemplar-lhe a physionomia
+levemente alterada.</p>
+
+<p>Elle sorria-lhe com os olhos marejados de lagrimas
+e serenava-a acenando-lhe meigamente com a
+mão.</p>
+
+<p>Um dos soldados, abeirando-se de Graça Strech,
+disse curvando-se para elle:</p>
+
+<p>&mdash;O que tu tens de valente tem ella de boa! Sois
+dois irmãos dignos um do outro.</p>
+
+<p>Graça Strech encarou n'elle e meneou a cabeça; a
+muda ficou indifferente a curar as feridas do irmão.</p>
+
+<p>E só depois que não podia ser vista nem ouvida
+de estranhos, começou, alternando palavras com beijos,
+a falar-lhe tão baixinho, tão baixinho, como se
+até dos ouvidos d'elle guardasse o seu segredo, e só
+quizesse que a escutasse a alma...</p>
+
+<p>&mdash;Não é nada, José, meu José. Elles disseram e eu
+agora bem vi. Sabes que fui vivandeira e que tambem
+entendo o meu pouco de feridas. Não! A morte
+não te rouba d'esta vez á tua vingança e ao meu
+amor.</p>
+
+<p>&mdash;Rosina, minha adorada Rosina! Alma pura! Coração
+nobilissimo! Obrigado. Curva-te sobre a minha
+bocca; queiro beijar a tua face...</p>
+
+<p>&mdash;É o primeiro beijo! murmurou ella circumvagando
+um olhar cauteloso.&mdash;É o primeiro beijo que
+de ti recebo... Obrigada, meu Deus!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, tu és muito melhor do que eu... Tens-me
+dado tantos, tantos... Mas&mdash;e perdoa-me, Rosina,
+perdoa-me&mdash;a minha alma só agora te póde beijar
+livremente...</p>
+
+<p>&mdash;Ó felicidade!... Praza a Deus que se este beijo
+me abre a tua alma eu a chegue a possuir inteiramente,
+porque o amor, meu José, é tão egoista, tão
+egoista...</p>
+
+<p>&mdash;E não crês possuil-a ainda?</p>
+
+<p>&mdash;Não. Todavia tenho esperança... Virá um dia.<span class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span>
+Cala-te, que te faz mal falar... Já não foram pequena
+felicidade estas palavras, por que, tu bem sabes, eu
+só tenho palavras para ti e para... Deus.</p>
+
+<p>Foi longo e reparador o primeiro somno do ferido.</p>
+
+<p>Rosina Regnau velou á cabeceira da tarimba, absorta
+nos seus pensamentos pela primeira vez illuminados
+por um raio de sol. Estava folheando o roseo
+poema do primeiro beijo, decompondo em estrophes
+maviosas a harmonia que da alma subira aos
+labios. Era a primeira gotta de orvalho na aridez do
+seu destino, uma parcella de ternura em recompensa
+dos thesouros que ella por tanta vez prodigalisára
+sobre as faces de Graça Strech.</p>
+
+<p>O primeiro beijo! A santa loucura das almas que
+se amam, como diz a trova:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Foi aqui mesmo, á tremula<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Sombra do olmeiro,<br>
+&mdash;Dizia o pastor Lícidas&mdash;<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Aqui, aqui,<br>
+Que eu hontem n'estes labios<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tive o primeiro<br>
+Beijo da minha Flérida,<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E endoideci!<sup><a href="#nota10" name="m_nota10">[10]</a></sup></p>
+</blockquote>
+
+<p>E baralhavam-se-lhe os pensamentos com a precipitação da ephemera demencia que a felicidade dá.</p>
+
+<p>&mdash;Sim... eu começo a ser feliz. Diz-me o coração
+que o serei... Mais provas! mais provas, senhor meu
+coração! Mostre-se digno d'aquella enorme alma,
+inspire-lhe confiança para lhe recolher os segredos,
+e possua-a, e juntem-se, e prendam-se, e identifiquem-se,
+tão unidos, tão unidos, que nem a morte os possa
+separar... Sem isso não ha felicidade completa... Sim,
+bem vês, pobre coração, meu pobre coração que
+tanto tens soffrido, que se aquelle annel fecha ainda
+a saudade de um amor redivivo, não pódes por emquanto
+conquistar a fortaleza que se não renderá. Tu
+sabes lá como a saudade se bate entrincheirada detraz
+de um tumulo! Então terás ainda muito que soffrer
+e que luctar, pobre doente para quem hoje raiou
+o primeiro symptoma da cura, meu triste coração<span class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span>
+tão soffredor! Mas forceja, vá, porfia, esforça-te
+por arrancar-lhe o segredo... Se aquella é a ultima
+memoria de uma irmã querida, alegra-te, pobre
+louco, porque nem a amante desluzirá a irmã,
+nem a irmã desluzirá a amante. A alma d'elle é tamanha
+que chega para mim e para ella. Para o que não
+chega é para duas amantes, que se disputam palmo
+a palmo o terreno, que luctam, que combatem, que
+oppõem ciume a ciume, despeito a despeito, embora
+uma esteja morta e outra viva... Não, «a gentil vivandeira»
+não soffre competencias. Já se fez amar
+d'um exercito; é preciso que se faça amar d'um homem.
+Pois então perde-se tudo, a patria, a liberdade,
+o socego, as florestas das Ardennas, as minhas queridas
+florestas das Ardennas, que talvez não mais
+torne a ver, e as montanhas do Hainaut e do Luxembourg,
+que eu conheço desde pequenina, e o Semoy
+e o Lesse e o Ourthe e o Eure, tudo, n'uma palavra,
+perde-se uma vida inteira de dezoito annos, para amar
+um homem, para ser a sua sombra, o seu cão, e não
+se ha de possuir ao menos todo o seu coração, todos
+os seus pensamentos, os seus segredos todos? Quem
+me diz porém que não hei de vencer? Não vi eu porventura
+tantas batalhas, não as vejo ainda, e não posso
+tirar da incerteza da victoria um bom agouro para o
+meu futuro? Dize-te, pobre Rosina, diz a ti mesma o
+que são os combates que tantas vezes tens visto. Pinta
+um quadro para ti. Anima-te! Olha... São duas as
+montanhas alcantiladas, sombrias, enormes... Uma
+defronte da outra... No meio um rio sereno, e crystalino
+a principio... depois vermelho de sangue. Sobre
+o rio uma ponte, e sobre a ponte, como a desabarem
+para ella, as montanhas. E n'uma e outra os
+exercitos, os uniformes variados, os kepis multicôres,
+as espadas reluzentes, os cavallos pendurados das fragas,
+os cavalleiros pendurados dos cavallos, as carretas
+suspensas na ladeira, as peças que abrem a sua
+bocca de fogo para vomitar o fumo e a morte, a voz
+dos clarins e a voz dos commandantes, pragas, juras,
+maldições, gemidos, blasphemias, sacrilegios, e a turba
+ora a estreitecer, a apertar-se, a juntar-se em pinha,
+ora a crescer, a alargar-se, a fazer-se onda, a
+trasbordar, ora a rolar como avalanche pelo monte
+abaixo, ora a marinhar por elle, a trepar, a agarrar-se, tão espessa, tão escura, tão confusa como se fosse<span class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span>
+uma nuvem que saísse do rio, e o sol a doiral-a agora
+e logo o fumo a envolvel-a, e já se desencadeiam
+d'um e d'outro lado ameaçando chocar-se sobre a
+ponte, que corta o valle, e que afundará com elles, e
+baralham-se, enovelam-se, redemoinham, e apparecem
+uns, e desapparecem outros, e tombam cadaveres
+ao rio, e estruge no ar a grita, e corre ensanguentada
+a agua, e são aquelles os que vencem, os que estão
+em maior numero, e vão esmagar os outros, e arvorar
+a bandeira... mas rolam de novo, precipitam-se,
+confundem-se, e são estes agora os que triumpham,
+lá se embrenham por entre o inimigo, passam como
+corisco, e assombram-n'o, fulminam-n'o, e a victoria
+é sua! Bem, Rosina Regnau, assim foi em Amarante
+e ainda agora em Alcantara; assim póde ser para ti.
+Quem te diria no hospital de sangue, quando o estavas
+contemplando adormecido, tão pallido, tão mergulhado
+no somno, e tu te lembravas de que eras
+franceza e elle portuguez, quando tu já o amavas e
+elle dormia, quem te diria, ó vivandeira ignorada,
+que dias depois havias de seguil-o por toda a parte,
+e perder a tua voz para que te não conhecessem, e
+encostar ao teu peito a cabeça d'elle, que caira ferido,
+e recber-lhe o primeiro beijo? Ninguem! Nem aquelle
+endemoninhado do Beauvier, que era o bruxo do exercito,
+e andava sempre a olhar para os astros, e adivinhava
+quando chovia, e a lua havia de ser cheia,
+aquella bonita lua cheia da França!... Ninguem, Rosina,
+ninguem! Pois tambem não ha magico na terra
+que saiba dizer se tu chegarás a vencer o seu coração
+de modo que te julgues tão poderosa, tão senhora
+do mundo como o imperador, e por feitio que sejas
+tão ambiciosa como elle, que não deixa palmo de
+terra a ninguem!...</p>
+
+<p>Interrompeu-lhe este intimo monologo uma contração
+do ferido, que balbuciou monosyllabos.</p>
+
+<p>&mdash;Sonha!&mdash;pensou ella&mdash;e quem sabe o que sonha?
+Estou aqui tão perto d'elle, a vel-o, feição por
+feição, linha por linha, a examinal-o tanto, que dir-se-ia
+querer contar-lhe um por um os seus cabellos,
+e sinto-lhe o halito na minha face, e fala, e só eu o
+oiço, e todavia não sei de quem são os seus pensamentos,
+nem o que querem dizer, o que está recordando,
+o que está sonhando, finalmente! Tenho diante
+de mim, como livro aberto, a sua physionomia e<span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a><br><a name="pag_98">{98}</a><br><a name="pag_99">{99}</a></span>
+não posso lêr na sua alma! Sei que ha ali um mar
+mysterioso, e não posso sondal-o. D'uma vez&mdash;recordou
+ella&mdash;lia o meu pae Regnau os jornaes, e disse:
+«Fulano e sicrano foram á pesca das ostras.» E
+acrescentou: «E o imperador que as tem bem boas
+na Corsega!» E eu perguntei ao pae Regnau para
+que iam elles pescar as ostras, tão longe, se podiam
+pescar outros peixes no Sena. «Tontinha!&mdash;respondeu
+elle&mdash;porque das ostras é que se tiram as perolas,
+e é preciso metter-se uma pessoa ao mar para
+pescal-as!» Bem me ensinaste tu, pae Regnau! O mar
+esconde tanta coisa... que até esconde as perolas.
+Aqui estou eu á beira do oceano e não as vejo... As
+que eu procuro, vivem escondidas ali...</p>
+
+<div class="ilustracao">
+<p><img src="images/pag_97.png" border="0" alt="Ilustração"></p>
+<p>Caiu desamparado, vibrando um grito... (<i>pag. 40</i>)</p>
+</div>
+
+<p>E apontou para o coração do ferido.</p>
+
+<p>Os labios de Graça Strech pareceram descerrar um
+sorriso. Rosina, que, apesar dos seus pensamentos,
+estava attenta ao menor movimento, ao mais subtil
+perpassar d'uma sombra, estremeceu ao rebramir da
+tempestade interior:</p>
+
+<p>&mdash;Sorri! pensou ella.&mdash;Havia n'este seu sorriso a
+melancolia de quem está recordando a felicidade
+perdida... Lembra-se talvez d'uma hora em que,
+rosto a rosto, juntas as mãos, sorrindo, falando, sonhando,
+lhes fugia o tempo mais rapido que o pensamento...
+E ella, a mulher que elle amava, era decerto
+formosa, muito formosa, e dizia-lhe que jámais
+haveria no mundo quem viesse a amal-o como ella...
+E elle acreditou-a, e por isso a ama ainda no tumulo,
+e jurou que, viva ou morta, lhe seria eternamente leal,
+porque o coração lh'o havia dado para todo o sempre...
+Ah! mas quem sabe, durante o combate, a
+quem ha de pertencer a victoria? O teu quadro, Rosina
+Regnau, é verdadeiro. Lucta até o fim, vivandeira,
+faze como os soldados que foram teus irmãos.
+Combate a saudade com a esperança. Soffre, porque
+o soffrer é de quem lucta. Mas porfia, conquista resignadamente
+esse coração onde desejas reinar, porque
+todo elle é preciso para o throno da tua felicidade.</p>
+
+<p>Abriu Graça Strech os olhos e relanceou a Rosina
+um olhar suavemente triste.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre aqui!&mdash;segredou elle.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui é o meu posto de enfermeira voluntaria.</p>
+
+<p>&mdash;Eu dormi, Rosina: dormi e sonhei... com minha<span class="pn"><a name="pag_100">{100}</a></span>
+irmã. Estava-a vendo aos cinco annos, vestidinha
+de branco, quando a fomos levar ás Chãs, e quando
+eu tinha seis... Nunca isto me esqueceu! Trepámos
+a uma cadeira para descer as maçãs que o padre capellão
+tinha a amadurecer no friso da sala. Augusta
+subiu denodadamente, mas faltou-lhe a coragem para
+saltar ao chão... E começou a gritar, a gritar, de
+sorte que o padre capellão a veiu surpreender com as
+maçãs escondidas na abada do seu pequenino vestido...</p>
+
+<p>Sentiram-se passos.</p>
+
+<p>&mdash;Cala-te! apostrophou Rosina. Cala-te! Rosina
+Regnau já aqui não está. Fica apenas a <i>muda allemã</i>.<span class="pn"><a name="pag_101">{101}</a></span></p>
+
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota10" name="nota10">[10]</a></sup>
+A <i>invenção dos jardins</i> por Gessner; tradução do sr.
+Visconde de Castilho (Antonio Feliciano).</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+
+<h2>XII</h2>
+
+<h2>Amor e ciume</h2>
+
+<p>Foram proseguindo as operações da trabalhosa
+campanha de 1809 contra os francezes.</p>
+
+<p>Depois de segundo combate na ponte d'Alcantara,
+a 10 de junho, poderemos, por nos furtar a minudencias
+fastidiosas em romance, ir direitos á decisiva batalha
+pelejada nas proximidades de Talavera de la
+Reyna, em Hespanha, dirigida pessoalmente d'um lado
+pelo rei José, e por lord Wellington do outro.</p>
+
+<p>Pela retirada dos imperiaes á vista do inimigo terminou esta importante batalha, sendo todavia numerosas
+as perdas dos alliados, mórmente dos inglezes.</p>
+
+<p>Meiado agosto, começou o exercito portuguez a
+retirar para Zara, entrando em Portugal por Salvaterra
+do Extremo, dirigindo-se a Castello Branco,
+d'onde os differentes corpos foram enviados a disciplinar-se, durante o resto do anno, em determinados
+acantonamentos.</p>
+
+<p>Não podemos, porém, encerrar esta ligeira chronica
+dos feitos militares de 1809 sem retroceder ao
+segundo combate da ponte d'Alcantara, a que José
+Maria da Graça Strech não assistiu por estar ainda
+mal convalescido do ferimento que no primeiro ataque
+recebera.</p>
+
+<p>Entre os feridos francezes, que ficaram prisioneiros,
+requeria prompto curativo um que denunciava
+claros indicios de perigo.</p>
+
+<p>Rosina, mal que o viu, reconheceu-o.</p>
+
+<p>Era Bénard, por alcunha <i>La goutte</i>.</p>
+
+<p>Então lhe acudiram de tropel pungentes recordações
+da sua vida de vivandeira, quando, sentada no
+acampamento, via <i>La goutte</i> puxar da sua garrafinha
+de vidro branco e offerecer aguardente por esta formula
+inalteravel:</p>
+
+<p>&mdash;<i>Voulez-vous lá goutte?</i><span class="pn"><a name="pag_102">{102}</a></span></p>
+
+<p>Esta phrase motivou aquelle cognomento, que valia
+tanto como dizer em portuguez: <i>O pinga.</i></p>
+
+<p>Bénard era um excentrico, que tinha intermittencias
+soturnas e luminosas. Umas vezes lhe dava a embriaguez
+para se deixar cair n'uma tristeza insociavel, outras era
+causa d'uma garrulice chistosa e alegre.</p>
+
+<p>Mal que se levantava, enchia a sua garrafinha de
+aguardente. Bebia até ao meio, erguendo o frasco
+para venficar á luz se a medida era exacta, e, certificado,
+acabava d'enchel-o com agua fria.</p>
+
+<p>Convém, porém, saber que Bénard classificava os
+seus companheiros d'armas do seguinte modo:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>1.º&mdash;Amigos capazes de emprestar.</p>
+<p>2.º&mdash;Amigos capazes de não pedir.</p>
+<p>3.º&mdash;Amigos capazes de não emprestar.</p>
+<p>4.º&mdash;Amigos capazes de pedir.</p>
+<p>5.°&mdash;Conhecidos.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Mettida a garrafinha entre a fardeta, começava o
+processo inalteravelmente observado todos os dias.</p>
+
+<p>Encontrando um amigo da primeira classificação,
+abeirava-se d'elle e, pondo a mão no peito, perguntava:</p>
+
+<p>&mdash;<i>Voulez-vous la goutte?</i></p>
+
+<p>O amigo bebia até ao meio, porque elle não consentia
+que fosse mais longe. Depois, segunda dynamisação,
+outra vez a garrafa cheia; e, succedendo-se
+as dynamisações aos amigos, pela ordem por que os
+tinha classificado, acontecia que os simplesmente conhecidos
+bebiam agua commum passada por uma vasilha
+que tivera aguardente.</p>
+
+<p>&mdash;Não merecem mais! dizia Bénard. Estes só teem
+pela gente um cheiro de interesse.</p>
+
+<p>Era pois <i>La goutte</i> uma personagem lendaria no
+exercito francez, e já passava em proverbio dizer-se,
+quando se era mal servido:</p>
+
+<p>&mdash;Eu <i>sou conhecido</i> do Bénard.</p>
+
+<p>Rosina Regnau, ao vel-o ferido, sentiu-se propellida
+a dolorosa piedade. Estava alli <i>La goutte</i>, que ella
+tantas vezes vira desde a sua infancia, e de quem
+tantas vezes se rira na edade em que toda a excentricidade
+nos parece ridicula.</p>
+
+<p>E todavia o Bénard era um philosopho profundamente
+conhecedor da alma humana. D'uma vez perguntaram-lhe:<span class="pn"><a name="pag_103">{103}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Se encontrasses o imperador, como o consideravas?</p>
+
+<p>&mdash;Dava-lhe da ultima lagarada, como elle dizia.
+Bem se importa o imperador commigo! Não me
+empresta dinheiro, porque o ganho eu; não m'o pede,
+porque bem sabe como é mesquinho o <i>pret</i> das
+tropas.</p>
+
+<p>Bénard trazia pendurada do pescoço a sua garrafinha.
+N'esse dia, como a refrega lhe não désse tempo
+para offerecer <i>a gotta</i>, bebera-a elle toda, por excepção.
+O resultado foi expôr-se á morte com um denodo
+que, sommado, daria a embriaguez de quatro
+amigos. Avançou imprudentemente e ficou prisioneiro
+com uma bala no peito.</p>
+
+<p>Rosina, que sempre evitava ser vista dos prisioneiros
+francezes, não pôde todavia resistir a soccorrel-o,
+quando o seu coração por um momento retrocedeu
+ao passado. Quasi involuntariamente o fez.</p>
+
+<p>O ferido, sentindo que alguem o estava curando,
+abriu os olhos e demorou em Rosina um longo olhar.
+Foi então que ella mediu o alcance da sua imprudencia.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! rouquejou o ferido, sim, és tu! Eu tenho
+a vista embaciada, mas ainda te conheço! Rosina
+Reg...</p>
+
+<p>Ella tregeitou afflictivamente implorando silencio.</p>
+
+<p>O ferido, desvairado pela embriaguez ou pela febre,
+não a comprehendeu.</p>
+
+<p>Graça Strech havia-se aproximado e assistia entre
+respeitoso e ciumento áquelle lance.</p>
+
+<p>O ferido continuou com difficuldade.</p>
+
+<p>&mdash;Fugiste, Rosina... Pobre rapariga!.. Como lá
+todos te querem mal!... Se te vissem... matavam-te...
+Sim, eu sou Bénard... Tinha hoje a minha garrafinha
+cheia... Bebi-a toda... Tomei calor... Boa gotta!...
+Aguardente de Hespanha! Vão estes perros, que não
+teem um palmo de terra, e mettem-me uma bala no
+costellame... Irra! Boa aguardente... E tu aqui! Entre
+elles!... Maldita sejas... O pobre Regnau ha de dar
+pulo de cobra no outro mundo...</p>
+
+<p>Graça Strech, se bem que exhaurido de forças, estremecia
+em convulsões repetidas, e tinha as faces
+esbraseadas por um colorido doentio. Todavia parecia
+detel-o um braço invisivel; pesado como se fosse
+de ferro, que lhe offegava a respiração.<span class="pn"><a name="pag_104">{104}</a></span></p>
+
+<p>Rosina chorava abundantes lagrimas, que lhe deslisavam
+pelas faces mortalmente pallidas.</p>
+
+<p>Postoque não estivesse presente, por felicidade,
+ninguem que pudesse ouvir a revelação do segredo,
+além de Graça Strech, ella não ousava falar. N'aquella
+hora, em que algumas mulheres e os convalescentes
+soccorriam os feridos, a todos parecia natural que os
+dois irmãos, segundo toda a gente dizia, se dedicassem
+ao curativo d'um soldado que se affigurava moribundo.</p>
+
+<p>Graça Strech aproximára-se desde o principio por
+lhe causar estranheza que Rosina Regnau se dispuzesse
+a soccorrer o prisioneiro.</p>
+
+<p>Primeiro se apiedou por conhecer n'esse acto o impulso
+natural de coração de Rosina voluntariamente
+opprimido no captiveiro de um amor impetuoso. Sobreviera
+porém o ciume quando se lembrou de que
+a vivandeira habitualmente se esquivava a cuidar de
+feridos francezes, e de que extremado devia ser o interesse
+para affoital-a á temeridade de se deixar reconhecer.</p>
+
+<p>É bem certo que o ciume completa o amor: porque
+o ciume é a desconfiança que leva o coração a
+sondar a profundeza do amor. Então se investiga, se
+espiona, se perscruta. E se o amor é verdadeiro, é puro,
+é santo, assim como se lhe mede o alcance, e se
+reconhece infinito, vem a convicção de que todos os
+sacrificios são poucos para galardoal-o, chega o arrependimento
+de se haver sido injusto, e accorda o
+estimulo da consciencia para o não tornar a ser.
+N'essa hora é que Rosina Regnau começou, sem o
+saber, a ser verdadeiramente amada. Bastou o ciume
+de um momento, que as subsequentes palavras do
+ferido vieram serenar, para arreigar o amor no coração
+do soldado portuguez. E foi á luz d'esse relampago
+de ciume que elle comprehendeu a enormidade
+do sacrificio de Rosina; foram as palavras do prisioneiro
+francez que lhe mostraram claramente quão
+grande abnegação era precisa para cair, amaldiçoada
+pela patria, nos braços d'um homem estranho.</p>
+
+<p>O ferido, apesar de cada vez mais se lhe embargar
+a voz na garganta, proseguiu com longas pausas:</p>
+
+<p>&mdash;Tu eras muito estimada, Rosina... Todos te
+queriam... Quem havia de dizer que tu... renegarias...
+a tua França! Eu não morro pelo imperador...<span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span>
+que não pede nem empresta... que paga
+mal... eu morro pela... França!... Já não posso...
+beber... A ultima gotta queria bebel-a pela patria...</p>
+
+<p>E, cada vez mais offegante e desvariado pela febre,
+acrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Vae buscar aguardente... Anda depressa.. que
+já tenho a morte aqui...</p>
+
+<p>E indicava o coração.</p>
+
+<p>&mdash;Sim... amaldiçoados... os que não morrem francezes...
+como tu... Jacques Regnau! lá n'esse quartel
+que ninguem sabe onde fica... eu te contarei a verdade...
+Vamos para a reserva... temos tempo de falar...</p>
+
+<p>E, como a cabeça do francez parecesse já desequilibrar-se,
+Rosina Regnau procurou encostal-a ao peito
+carinhosamente.</p>
+
+<p>&mdash;Não!&mdash;apostrophou com extrema difficuldade
+Bénard&mdash;não! Um francez... só morre... encostado...
+a outro... francez... Eh! eh!&mdash;rouquejou.</p>
+
+<p>E, procurando aprumar-se, disse com esforço
+grande de mais para o lance do passamento:</p>
+
+<p>&mdash;<i>Vive.. lá... Fran...</i></p>
+
+<p>Não pôde concluir. A ultima syllaba embargára-lh'a
+a morte.</p>
+
+<p>Graça Strech estava como que fulminado pelas palavras
+do soldado francez, que morrera amaldiçoando
+Rosina. Parecera-lhe que a voz da providencia falava
+n'elle. Pela primeira vez um terror supersticioso subjugou
+a coragem d'aquelle homem que tinha jurado
+guerra de morte á França. E todavia expirava ali, ao
+pé d'elle, um francez saudando a patria nas ultimas
+palavras que lhe foi dado pronunciar.</p>
+
+<p>Rosina Regnau estava tambem paralysada n'essa
+especie de imbecilidade que nas grandes commoções
+se nos affigura ser idiotismo.</p>
+
+<p>O aço de que em parte era feita a sua alma de vivandeira
+vergára ao som d'aquellas palavras horriveis;
+restava apenas, muito a dentro do peito, a vibração
+dolorida das cordas maviosas.</p>
+
+<p>No semblante, como se a distancia e o cansaço
+fossem amortecendo a maguada vibração da alma,
+apenas se desenhava o espasmo das supremas afflicções
+que parecem suspender a vida.</p>
+
+<p>Quizera Graça Strech poder cingir nos seus braços
+Rosina, e despertal-a, para a realidade do seu amor,
+d'aquelle excruciante alheamento.<span class="pn"><a name="pag_106">{106}</a></span></p>
+
+<p>Vedava-lh'o a presença das pessoas que, como já
+dissemos, estavam cuidando dos feridos.</p>
+
+<p>Ficaram ambos silenciosos, porventura á espera de
+opportunidade para trocarem algumas fugitivas palavras.</p>
+
+<p>Ella, acordando pouco a pouco d'aquelle infernal
+pesadello, sentia o doer da realidade muitas vezes
+peior que os sonhos maus. E a si mesma perguntava
+o que ficaria pensando Graça Strech: se julgaria criminosa
+a sua compaixão pelo ferido; se a presumiria
+demudada pela maldição do moribundo; se acaso o
+effeito d'aquella imprevista scena lhe haveria levado
+ao coração o aborrecimento ou o desprezo?</p>
+
+<p>Tudo suppunha, menos que o verdadeiro amor
+nascera n'aquella hora com o ciume.</p>
+
+<p>Como ella desejava poder cingir Graça Strech nos
+seus braços, cobril-o com os seus beijos, embora elle
+a repellisse com enfado ou desabrimento!</p>
+
+<p>Não valeriam ameaças.</p>
+
+<p>Ella dir-lhe-ia com a affouteza que a innocencia
+dá:</p>
+
+<p>&mdash;Eu bem sei que fiz mal. Mas aquelle era o Bénard,
+<i>La goutte</i>, que eu conhecia, desde pequena, de
+o ouvir discorrer sobre o egoismo dos homens e de
+o ver puxar pela sua garrafinha d'aguardente. O pae
+Regnau, apesar do vicio, estimava-o muito, e até lhe
+chamava... philosopho. É que o pae Regnau era
+dos primeiros amigos. Uma vez vendeu a ração do
+almoço para que o Bénard não deixasse d'encher a
+sua garrafinha. O pae Regnau disse então, bem me
+lembro: «Elle sem aquillo não é philosopho; e eu
+sem almoço posso ser soldado.» O que valeu foi que
+o meu almoço chegou para dois. Não me julgues arrependida
+do que fiz pelo que elle disse... Tudo
+quanto elle disse bem o sabia eu... Lembrar-me da
+minha patria não quer dizer que me esqueça de ti...
+Não. Amaldiçoam-me? Que me importa a mim que
+me amaldiçoem! Abençoa-me tu, e não quero outra
+felicidade. Abre-me a tua alma, de modo que eu saiba
+bem o que ella pensa, o que ella sente, e não terei
+pena de que se me fechem as fronteiras da patria.
+Não me aborreças nem me despreses... O teu primeiro
+beijo foi uma promessa, uma esperança; eu
+acreditei-o, creei vida nova, sinto-me forte para a
+lucta. <i>La goutte</i>, se me disse aquellas palavras, é porque<span class="pn"><a name="pag_107">{107}</a></span>
+me estimava; estima-me, ama-me tu quanto eu
+desejo, que saberei esquecer as palavras de <i>La goutte</i>.</p>
+
+<p>Graça Strech, sem attingir o que se passava na
+alma de Rosina, estava ancioso de dizer-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Tudo quanto aquelle homem disse era verdade.
+Por mim perdeste tudo, Rosina, por mim preferiste
+a solidão, em que ora vives, á tua immensa familia&mdash;o
+exercito francez. Eu comecei por odiar-te, porque
+eras irmã dos assassinos de minha irmã. Depois,
+ao odio, que procurava o caminho da vingança, succedeu
+a gratidão, porque tu me restituias a liberdade.
+Mas a realisação do meu sonho de sangue importava
+um enorme sacrificio teu. Fizeste-o sem trepidar.
+E não contente com isso, que já era muito,
+quizeste vincular a tua vida á minha, e tu, que havias
+renunciado á patria, renunciaste tambem á voz com
+que recordavas as canções do teu paiz natal. Começou a nascer em mim o amor misturado d'assombro.
+Nunca me lançaste em rosto a minha crueza para os
+teus. Era a minha vingança, e tu querias o que eu
+queria. Ao pé da imagem de minha irmã, que no
+somno e na vigilia me apparecia, começaste tu a tomar
+vulto, a crescer, de modo que eu fiquei preso
+entre vós ambas, porque se o sangue d'uma clamava
+vingança, o sacrificio d'outra me proporcionava vingar-me.
+E uma noite, no breve repousar do acampamento,
+sonhei que minha irmã me viera falar e me
+dissera que tu eras boa, e leal, e pura. Então beijei-te.
+Mas hoje, ao ouvir aquellas palavras, completei
+os meus pensamentos pela certeza de que tu eras
+pura, e leal, e boa. Dize: Que queres de mim? Sacrificio
+por sacrificio, amor por amor, dedicação por
+dedicação. Serei teu, porque tu és minha. Ouve, Rosina,
+ouve-me bem. Tu tens sido o meu anjo da guarda,
+o meu enfermeiro, e&mdash;porque não hei de dizel-o?&mdash;tens
+sido para mim como o cão amigo para o cego
+das Ardennas. Pois bem. D'hoje em diante as nossas
+almas fundir-se-hão n'uma só, viverão dos mesmos
+pensamentos, e tu chorarás minha irmã como eu a
+choro, porque o teu coração sentirá a saudade que
+eu sinto.</p>
+
+<p>Ao anoitecer veiu a carroça dos cadaveres, acompanhada
+pelo capellão militar, buscar o morto.</p>
+
+<p>Rosina Regnau deteve-se a contemplal-o, esquecida
+de que aquelle homem morrera amaldiçoando-a.<span class="pn"><a name="pag_108">{108}</a></span></p>
+
+<p>Era-lhe defeso o falar. Se não fosse, haveria pedido
+uma oração pela alma do soldado Bénard, de alcunha&mdash;<i>La goutte.</i></p>
+
+<p>Graça Strech assistiu á cerimonia commovido. Um
+dos soldados encarregados d'aquella triste commissão,
+como lhe visse carregadas as linhas do rosto,
+apostrophou:</p>
+
+<p>&mdash;Pois tu, que te bates como leão contra os francezes,
+não assistes impassivel aos funeraes d'um francez!</p>
+
+<p>&mdash;A morte quebra todos os odios, respondeu Graça
+Strech.</p>
+
+<p>Outro soldado, ao dar tino da garrafinha entalada
+entre a farda e a camisa, exclamou facetamente:</p>
+
+<p>&mdash;Pena tenho eu de o não matar emquanto a garrafa
+estava cheia!</p>
+
+<p>&mdash;Este diabo não fazia senão beber! acrescentou
+outro.</p>
+
+<p>&mdash;Tambem me consta que fazia outra coisa, replicou
+Graça Strech.</p>
+
+<p>&mdash;O que era?</p>
+
+<p>&mdash;Enterrava os nossos mortos com mais piedade
+do que tu.</p>
+
+<p>&mdash;Prégas hoje de cadeira!</p>
+
+<p>&mdash;Lembro-me de que elle, pelas ultimas palavras
+que lhe ouvi, era tão francez como eu sou portuguez...</p>
+
+<p>&mdash;Era? perguntou ingenuamente um dos soldados.</p>
+
+<p>&mdash;E a mim, concluiu Graça Strech, pesa-me sempre
+a morte d'um bom soldado.</p>
+
+<p>Quando a carroça rodou lugubremente, caminho
+da valla commum, onde portuguezes e francezes iam
+dormir sem odios nem malquerenças o somno eterno,
+Graça Strech acercou-se de Rosina, que parecia
+duvidar ainda do que tinha ouvido, e segredou:</p>
+
+<p>&mdash;Devo á memoria de Bénard uma felicidade que
+não merecia a Deus. De hoje em deante não haverá
+entre nós barreira que possa separar-nos. As nossas
+almas serão uma; os nossos pensamentos um só...</p>
+
+<p>&mdash;Promettes? murmurou ella doida d'alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Prometto.</p>
+
+<p>&mdash;Então dir-me-has tudo o que pensas, tudo o que
+sentes?</p>
+
+<p>&mdash;Tudo o que penso e sinto te direi.</p>
+
+<p>E o segundo beijo sellou esta promessa.<span class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span></p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+
+
+<h2>XIII</h2>
+
+<h2>Como acaba a tragedia de Goethe</h2>
+
+<p>Não morrem os gigantes ao segundo golpe.</p>
+
+<p>Napoleão ergueu-se no senado francez, a 4 de dezembro
+de 1809, e sobrepujando com a sua voz a voz
+da Historia, como se lhe não andasse já descontada a
+gloria com dois consecutivos revezes na peninsula
+iberica, disse: «Tanto que eu appareça alem dos Pyreneus, o leopardo recolher-se-ha amedrontado ao
+oceano para fugir á ignominia, á derrota e á morte.
+A victoria das minhas armas será a do genio do bem
+sobre o do mal: a victoria da moderação, da ordem
+e da moral sobre a guerra civil, sobre a anarchia e as
+paixões destruidoras.»</p>
+
+<p>E, concluida a campanha de Austria pela paz de
+Vienna, a aguia franceza deixou de pairar sobre o
+norte da Europa, e do alto do palacio imperial de
+Schoenbrunn fitou o olhar ardente e profundo na orla
+do occidente banhada pelo Atlantico.</p>
+
+<p>E pela terceira vez se equipava o exercito invasor,
+superior a oitenta mil homens; e pela terceira vez
+fôra chamado um general distincto a tomar o commando
+em chefe das tropas para obter melhor exito
+que os seus dois antecessores.</p>
+
+<p>A eleição recaiu no marechal Massena, principe de
+Essling, duque de Rivoli, cuja valentia e sciencia Napoleão
+conhecia desde as campanhas d'Italia.</p>
+
+<p>Não precipitemos, porém, os acontecimentos que o
+anno de 1810 havia de desdobrar sobre a Europa.
+Justo é reverter ao que é assumpto principal d'este
+livro, mais biographia do que chronica.</p>
+
+<p>Já anteriormente dissémos que o exercito portuguez
+recolhera ao quartel general de Castello Branco,
+e d'ahi fôra mandado, nos ultimos dias d'agosto de
+1809, para diversos acantonamentos.</p>
+
+<p>Em Castello Branco, o marechal Beresford permittiu<span class="pn"><a name="pag_110">{110}</a></span>
+aos soldados, que mais se haviam distinguido, a
+escolha de corpo e quartel, não só para lhes galardoar
+d'algum modo os serviços prestados, como para
+incitar os outros a medirem-se na terceira campanha
+com os premiados na segunda. José Maria da Graça
+Strech escolheu o regimento d'infantaria 18, que, com
+o 6 e 9 da mesma arma, foi mandado para Coimbra.</p>
+
+<p>Então se levantava detraz do tumulo da irmã querida,
+para o desgraçado moço, a aurora do amor, que
+desabrochára no primeiro beijo, e que o ciume aclarára
+definitivamente á beira do catre do moribundo
+Bénard.</p>
+
+<p>Havia-se batido como leão, açulado pelo cheiro do
+sangue. Mil vezes se atirára á morte, e a morte parecia
+respeitar no sorriso de Rosina Regnau a heroicidade
+do soldado. Dir-se-ia que a vivandeira tinha duas
+azas, que, desdobradas, o abrigavam. Graça Strech
+acabou, como era natural, por amar o seu anjo da
+guarda, quando inteiramente comprehendeu que ella
+lhe dizia na triste eloquencia do silencio a que se condemnára:
+«Eu tenho de guardar a tua alma; para
+guardal-a preciso possuil-a.»</p>
+
+<p>No seu coração calcinado pela saudade choveu
+pouco o orvalho refrigerante companheiro da aurora;
+o amor cauterisou a ferida que sangrava odios; ficára
+apenas a cicatriz, como fica voltada n'um livro a pagina que se leu, e cuja impressão jámais se desluz na
+mente do leitor.</p>
+
+<p>Aconteceu a Graça Strech como ao commum da
+humanidade.</p>
+
+<p>O amor, que é luz, que é fogo, que é sol, vae se decompondo em irradiações parciaes na nossa alma, á
+medida que a vae desenregelando, como o verdadeiro
+sol n'um prisma de crystal. Verdade é, ser preciso
+que tenha a alma a pureza do vidro para que lentamente
+se vão revezando as côres, alternando as <i>nuances</i>, e embriagando-se ella a pequenos haustos no
+banquete da felicidade. O amor que rebenta como
+erupção, não é amor, é desatino. Nasceu cego: não
+vê. Irrompe como a lava, passa, queima, desapparece.</p>
+
+<p>Este é o amor das almas versateis, que não se vergam
+ao sacrificio, e que por isso mesmo são incapazes de metter hombros á cruz cujo peso devera ser
+repartido pelos dois. Os que amam sem previamente<span class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span>
+haver soffrido, amam apenas emquanto o amor não
+é soffrimento. E quem póde desfolhar a rosa sem ferir-se
+no espinho? Esses amam pouco. As lagrimas
+são a agua que baptisa na religião dos attribulados.
+A mocidade de Graça Strech recebera esse primordial
+sacramento. Dera a sua vida em holocausto á saudade.
+Soffrera muito, e alma que soffre assim tem de
+certo a pureza dos grandes sentimentos. Por isso a
+luz da aurora, que lhe alvorecia sobre o tumulo da
+irmã, se foi decompondo em gradações prismasticas
+por feitio que elle, muito alma a dentro, pôde conhecer
+a nitidez das côres, o brilho das tintas casado á
+transparencia do cristal.</p>
+
+<p>Desde então começou a amar como os que teem
+soffrido. «Tudo o que penso e sinto te direi,» segredára
+elle em Alcantara.</p>
+
+<p>Estas palavras não eram apenas a promessa d'uma
+revelação;&mdash;eram a promessa da felicidade.</p>
+
+<p>Os acontecimentos não permittiram que, antes de
+Coimbra, Rosina Regnau pudesse affastar de si a nuvem
+do ciume que de ha muito lhe opprimia o coração.</p>
+
+<p>Muito primeiro o amára ella, porque o ciume nascera
+parelho do amor.</p>
+
+<p>Parece que o destino porfiára em depôl-os no eden
+viridente de Portugal para mandar depois a serpente
+a tental-os. N'aquelle jardim de Coimbra ha sombras
+fadadas para o amor. Já o disse um poeta:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Quem nunca viu Coimbra<br>
+Pela brisa embalada<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;Do Mondego,<br>
+Que de amorosa timbra<br>
+Na margem reclinada<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;Com socego,<br>
+Não sabe o que é belleza,<br>
+Ai! não conhece a filha<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;Dos amores,<br>
+Mais nobre que Veneza,<br>
+Mais linda que Sevilha<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;Sobre flôres.<sup><a href="#nota11" name="m_nota11">[11]</a></sup></p>
+</blockquote>
+
+<p>Ali rememora ainda a celebrada fonte, que suspira
+n'uma das extremas do campo de Santa Clara, o poema<span class="pn"><a name="pag_112">{112}</a></span>
+das lagrimas da formosa Castro&mdash;o maior poema
+d'amor que se tem sentido em Portugal. Que
+phantasias que não tem o amor em Coimbra! É velha
+a doidice que se respira n'aquelles ares, porque
+já Faria e Sousa conta que Pedro, o principe amoroso,
+confiava á agua da fonte, que n'esse tempo ia
+jorrar nos jardins do paço real, os bilhetinhos namorados
+que a loura Ignez muito em segredo recolhia
+e, em maior segredo ainda, relia. E perora Faria e
+Sousa: «Tales son las astucias de los amantes». Com
+perdão de Faria e Sousa, astuciosos são os escriptores
+que nos pintam amores fabulados de tão acertadas
+contingencias, como era a da agua, sem embargo
+dos seixos e hervagens, ser fiel correio do principe
+e da aia.</p>
+
+<p>Eu contarei singelamente o meu caso, tal como
+aconteceu na hora em que o ciume de Rosina Regnau,
+como se já não fosse preciso para atiçar as labaredas
+do amor, se acalmava na mutua confiança
+das almas que se possuem.</p>
+
+<p>Foi ahi por alguma copada sombra das margens
+do Mondego, onde, como disse Gabriel Pereira de
+Castro, o rio</p>
+
+<blockquote>
+<p>... nas voltas se mostra arrependido<br>
+De levar agua doce ao mar salgado,</p>
+</blockquote>
+
+<p class="ni">que Rosina Regnau e Graça Strech descançavam
+n'uma das ultimas tardes d'agosto.</p>
+
+<p>Aproveitavam sempre as horas feriadas do serviço
+militar para essas excursões, reguladas pelo toque
+das cornetas no quartel, porque só onde a sombra
+os escondesse poderiam dialogar, os dois, sem que
+ouvido estranho traísse o segredo da mudez de Rosina.</p>
+
+<p>Ahi se indemnisava ella dos longos silencios a que
+era constrangida, e assim se foram estreitando os laços,
+que já tão cingida tinham a imagem da felicidade
+n'um e n'outro coração.</p>
+
+<p>N'essa tarde Rosina Regnau intencionalmente encaminhou
+o dialogo para o episodio da morte de Bérnard,
+e a ponto veiu recordar as palavra de Graça
+Strech: «Tudo que penso e sinto te direi».</p>
+
+<p>&mdash;Ah! não sabes, disse ella subitamente exaltada
+pelo ardor da vivandeira, que do cumprimento da<span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span>
+tua promessa depende a realisação da minha felicidade!...</p>
+
+<p>&mdash;Pois duvidas?...</p>
+
+<p>&mdash;E não duvidaste tu de mim, quando em Alcantara
+soccorri o pobre <i>La goutte</i>?</p>
+
+<p>&mdash;Perdôa-me...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, perdôo, não a ti, ao ciume, pois que para
+o ciume tambem peço perdão n'este momento. Ouve-me, portanto.</p>
+
+<p>&mdash;Fala!... exclamou Graça Strech.</p>
+
+<p>&mdash;Ha uma duvida horrivel no meu espirito, que é
+preciso dissipar; um obstaculo no meu caminho, que
+é preciso vencer. O meu amor, que começou por
+dar-te a liberdade, não póde viver escravisado. Desde
+o primeiro momento te amei perdidamente. Emquanto
+tu dormias, veláva eu, para que as tuas palavras
+de soldado não fossem desmentidas pela tua
+physionomia de ferido sem eu perceber a verdade.
+Já então&mdash;mal o pensavas!&mdash;a minha vida dependia
+da tua. E vigiava-te, e estudava as mais ligeiras alterações
+do teu semblante, como a mãe que observa,
+de noite, na solidão silenciosa do seu quarto, o filho
+doente que dorme. Tu não suspeitavas que pudesse
+entrar tamanha dedicação na alma d'uma vivandeira,
+e razão de sobra tinhas. As mulheres com quem eu
+vivia eram tão vis, que se riam do meu carinho para
+comtigo. E eu arrostava-lhes os chascos, os insultos,
+porque bem sabia que a culpa não era d'ellas, mas
+do destino que as tornou tão desgraçadas. Aspereza,
+injustiça, só me doía a tua. Não bastava amar sem
+esperança: o meu amor era recompensado com despreso.
+Tu eras nosso prisioneiro; não podias, portanto,
+soffrer que a minha pronuncia te estivesse recordando
+a cada hora a tua infelicidade. Quiz, porém,
+Deus que me ouvisses um dia com menos indifferença,
+quando conheceste que eu valia um pouco
+mais do que as outras. Viste que eu era boa, e quizeste-me
+para instrumento da tua vingança. O que
+tu não suppunhas era que o teu sonho fosse a esse
+tempo o meu&mdash;dar-te liberdade! que eu contasse os
+instantes da tua vida pelas horas da minha! que eu
+quizesse ser para ti o que era o fiel molosso para o
+cego da minha terra... Pois queria, juro-te, queria.
+Se não pudesse restituir-te a liberdade, teria a coragem
+de envenenar um remedio para que o mesmo<span class="pn"><a name="pag_114">{114}</a></span>
+veneno nos matasse a ambos. Acredita; tinha. Mas
+sempre na tua bocca a palavra vingança! Sempre
+essa palavra horrivel! Eu bem sei que todo o homem,
+que vê a sua patria invadida, precisa vingar-se
+a si, e a ella. Mas esse annel que não mais te deixou
+não era da patria... Falavas de tua irmã, tens-me falado
+sempre d'ella. Comprehendo como se possa
+amar uma irmã, que era boa, que era pura, e que foi
+morta injustamente. Todavia comprehendo tambem
+que se as cartas as escreveu tua irmã, o annel póde
+deixar de ser d'esse anjo...</p>
+
+<p>Nos labios de Graça Strech havia o tranquillo sorriso
+de quem sabe com que ardor é amado.</p>
+
+<p>Quiz falar; ella interrompeu-o.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! por piedade, não sorrias, sem que esta duvida
+atroz se desfaça! Tenho tido a coragem de saber
+esperar este momento solemne e para mim decisivo.
+Tu sempre a pensar no teu annel, eu sempre
+a pensar em ti! Tão calada, que nem voz posso ter
+deante d'estranhos. E que tivesse! Havia de perguntar
+a alguem pela vida do homem que eu chamava
+irmão? Tu sonhavas de noite, como quando ficaste
+ferido em Alcantara, e sorrias. Acordavas, vias-me
+ao pé de ti, e acudias logo a falar de tua irmã... Oh!
+se eu soubesse que tu me enganavas!... Se tu estivesses
+sonhando com outra mulher que não fosse
+tua irmã, quando eu estava ali, sósinha, calada, sem
+patria, sem amigos, amaldiçoada, a velar pelo teu
+somno... Sabes o que eu faria? Vestiria o teu uniforme,
+José, e iria bater-me, avançando tão imprudentemente
+como o infeliz Bénard, até que as balas
+dos soldados da França se me cravassem no peito.
+Morreria pelo ingrato como os soldados morrem pela
+patria, e morreria contente por morrer amortalhada
+no teu uniforme... Vê, pois, bem a minha alma. Unicamente
+te peço que sejas sincero, ainda que a tua
+sinceridade tenha de ser cruel. Estamos a dois passos
+do Mondego. É-me facil procurar n'elle a maior
+altura da agua, se o coração me disser que me estás
+enganando... Mas não has de, mas não me deves enganar,
+porque pela memoria sagrada de tua irmã te
+peço que sejas verdadeiro...</p>
+
+<p>E ficou anciosa, com os olhos fitos, os labios entreabertos,
+o seio offegante...</p>
+
+<p>&mdash;Pela memoria de minha irmã te juro que mais<span class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span>
+uma vez te repetirei a verdade&mdash;disse Graça Strech,
+cuja physionomia parecia irradiar a luz clara e pura
+dos que estão fazendo uma confissão sincera.&mdash;Tambem
+eu te amo doidamente, Deus o sabe! Tambem
+eu tive ciumes, Rosina! Tambem eu estou costumado
+a soffrer. Se aquelle moribundo d'Alcantara houvesse
+denunciado, por um gesto sequer, que tinha outros
+direitos á tua dedicação, além dos de estar ferido e
+ser francez, eu, impossibilitado de aggredir um homem
+meio morto, haver-te-ia fugido para me expôr
+á morte que encontraria em qualquer parte. Juro-te,
+pela memoria de minha irmã te juro, que isto o senti
+eu ao pé do pobre Bénard, quando te vi soccorrel-o.
+N'esse momento forjou o ciume as cadeias que nos
+teem agora aqui presos. Comecei por aborrecer-te, é
+certo. Sobre este annel, que tirei do dedo de minha
+pobre irmã morta, jurei vingal-a, Rosina, porque primeiro
+me derrubaram a mim para que eu não pudesse
+defendel-a, e depois a assassinaram a ella, a
+minha mãe, e a minha avó. Meu pae, que já sei ter
+morrido no mesmo dia, porque houve participação
+official de ser reconhecido, foi vencido pelo azar do
+combate, não foi assassinado. E depois era um soldado,
+e um soldado em campanha ou mata ou morre.
+Mas as pobresinhas que mal faziam á França? Eu
+accordei do deliquio motivado pelo ferimento que recebi,
+sem saber o que se tinha passado. Estendi o
+braço e senti um corpo; apalpei e conheci roupas de
+mulher. Achei uma cabeça. Tacteei-lhe os contornos,
+e não me enganou a mão quando me pareceu ser
+aquelle o perfil de minha irmã. Era noite, bem sabes:
+dentro a escuridão; a tempestade fóra. Eu sentia
+vibrar a espinha dorsal como se fôra d'aço, fria
+como elle. Procurei luz, quasi louco. Mal me podia
+suster nas pernas. No cerebro ardia-me um vulcão;
+em derredor do craneo sentia a friura do gelo. E a luz
+mostrou-m'as, a ellas, minha irmã, minha mãe, minha
+avó, mortas, desgrenhadas, deitadas no soalho, e rodeadas das
+sombras que a interposição dos moveis projectava
+na parede, parecendo moverem-se, bracejar,
+escancarar a bocca, casquinar gargalhadas que o
+vento, lá fóra, parecia rir diabolicamente por ellas.
+Eram horrores da minha imaginação, eram visões da
+febre, porque eu n'essas horas incomparavelmente
+angustiadas delirei, enlouqueci, morri em mim mesmo<span class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span>
+para renascer n'um cadaver. E o sangue, Rosina, o
+sangue d'ellas, empoçado no soalho, tão vermelho
+que parecia incendiar-se ao reflexo da luz! Foi então
+que a Providencia me soccorreu e me permittiu
+um esforço sobrehumano. Beijei minha irmã, abracei
+minha mãe, acariciei minha avó, falei-lhes, não
+sei o que lhes disse, não me lembra, e estremecendo
+do contacto das mãos de minha irmã, que pareciam
+de marmore, e que do marmore tinham os veios roxos
+e azues, tirei-lhe delicadamente do dedo, como
+se ella pudesse molestar-se,&mdash;ella, que era tão franzina!&mdash;este
+annel querido, sobre o qual proferi o meu
+juramento de vingança, que até hoje tenho cumprido,
+e que cumprirei até que Portugal succumba ou triumphe
+d'uma vez.</p>
+
+<p>E como se a arrebatada eloquencia o repuzesse
+ainda em meio das desgraças que historiava, pendeu
+ao peito de Rosina, extenuado, descóradas as faces,
+revoltos os cabellos, flammejante o olhar.</p>
+
+<p>Rosina ameigou-lhe a fronte banhada de suor frio,
+e docemente lhe pediu perdão de o ter compellido a
+avivar tão recentes e profundas dôres.</p>
+
+<p>Graça Strech estava preoccupado, como se procurasse
+um pensamento que lhe entre lembrava; como
+se quizesse suster uma visão que se mostrava e fugia.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! exclamou de repente. Não, Rosina, não basta
+ainda. O teu amor reanimou o meu cadaver, eu devo-te
+a vida; quero abrir-te a minha alma para que a
+vejas bem, para que a sondes, e leias n'ella. A tua luminosa
+intelligencia já te permitte comprehender muitas
+palavras do idioma portuguez. Pois bem, aqui
+tens uma prova irrecusavel que não póde deixar a
+minima duvida no teu espirito...</p>
+
+<p>E, desabotoando o uniforme, tirou o maço das cartas
+d'Augusta.</p>
+
+<p>&mdash;É esta&mdash;continuou, procurando&mdash;é esta, lê aqui
+lê bem. Foi ha dois annos, no seu dia natalicio, que
+lhe mandei este annel. Vê o que o anjo me respondia.
+Lê, esta é a prova, lê: «O teu annel, José, o teu
+annel, que me pareceu acompanhar a tua alma, porque
+a tive todo o dia ao pé de mim, não me deixará
+até á hora em que a amortalhadeira m'o tire do dedo.
+Pedes desculpa de que seja liso, de que só tenha uma
+pedra!... Tontinho! O teu coração pésa mais do que<span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span>
+o annel, e a avósinha diz que os anneis de muito feitio
+apenas são proprios das camponezas.» Vê, Rosina,
+olha para este nome&mdash;Augusta&mdash;o unico de mulher
+que pronunciei antes do teu...</p>
+
+<p>&mdash;José! exclamára Rosina divinisada por uma aureola
+de condoída doçura, que parecia esbater-lhe o
+semblante no azul do céo.</p>
+
+<p>A natureza dascaía na deliciosa morbidez do anoitecer.
+As labaredas que a ambos afogueavam o coração
+foram bastantes a seccar as lagrimas d'um e outro.
+Se eu quizesse passar por um escriptor tão casto
+como os que uzam adoçar o acre das situações violentas,
+diria que se ouvia rumorejar as folhas, sendo
+os labios que rumorejavam. Essas ultimas revelações
+tanto contraíram os elos da cadeia, que já não era
+possivel medir a distancia interposta ás duas almas
+embevecidas.</p>
+
+<p>Se ali, n'aquellas paragens onde o grave Faria e
+Sousa achou que era torrão azado para localisar astucias
+de namorados; se áquella hora, como na tragedia
+de Goethe, estivesse ali Mephistopheles, bradaria
+com alegria satanica: <i>Perdida!</i></p>
+
+<p>Bem podia ser porém que alguma voz do alto respondesse:
+<i>Salva!</i> Só se perde a mulher que não tem
+coração para comprehender o que é ser mãe.<span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota11" name="nota11">[11]</a></sup>
+Do sr. Antonio de Serpa.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<h2>XIV</h2>
+
+<h2>Quanto custa ser mãe</h2>
+
+<p>Em fevereiro de 1810 estacionava no valle do Mondego
+o exercito commandado pelo general Wellington,
+repousando das passadas lides, se bem que já
+apercebido para resistir aos movimentos dos francezes
+que de novo ameaçavam invadir Portugal.</p>
+
+<p>Beresford activamente se dedicava a exercitar e
+disciplinar as tropas, e a providenciar pelo que tocava
+a provisoes que se tornavam indispensaveis para
+a campanha que a todo momento se esperava, e cuja
+duração era imprevista.</p>
+
+<p>O rei José havia entrado em Sevilha, no primeiro
+dia d'esse mez, á frente das suas tropas, e a nuvem
+que obscurecia o céo da Hespanha alongava-se já
+para Portugal, deixando ouvir os rumores da tempestade
+que lhe refervia no bojo caliginoso.</p>
+
+<p>N'esse tempo vamos nós encontrar Graça Strech
+na escóla militar do valle do Mondego, se bem que
+muito demudado o encontremos, e mereça especial
+attenção a tristeza que parece salteal-o nas horas em
+que o soldado se permitte ser homem. Procuramos á
+roda de si, e não encontramos a «muda», sua irmã.
+Inquieta-nos tão inesperada ausencia. Depois que
+comprehendemos o coração da Rosina Regnau, depois
+que passo a passo a acompanhámos nos lances
+angustiosos de sua attribulada mocidade, habituamo-nos
+a estimal-a, e já agora nos é magua o deixar de
+vêl-a.</p>
+
+<p>Morreria acaso?</p>
+
+<p>Algumas vezes se lembrára ella, quando vivandeira
+do exercito francez, de que uma bala perdida a mataria.
+É uma tradição de Vivandeiras, a do pelouro
+esgarrado que as ha de prostrar, porque, companheiras
+dos soldados, esperam do soldado a sorte. Todavia
+nem sempre se realisam as contas que a phantasia<span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span>
+lança, e não é de presumir que dos soldados que
+manobram exercitando-se no valle do Mondego partisse
+a bala destinada a roubar-lhe a vida. Tambem
+nas faces de Graça Strech não ha a tristeza sombria
+das perdas irreparaveis, mas um novo reflexo de melancolia
+que, a despeito de a querer concentrar, dá
+á physionomia um toque de soffrimento. Procuremos
+tirar-nos de tão saudosa incerteza, e saber o que se
+passára nos mezes que decorreram desde agosto de
+1809 até fevereiro de 1810. Pelo que vamos ouvir a
+Graça Strech, n'um rapido dialogo com um companheiro
+d'armas, não poderemos fazer juizo seguro,
+mas esse será o fio de Ariadna que depois nos guiará
+no labyrintho de nossas pesquisas.</p>
+
+<p>&mdash;Tens tido noticias de tua irmã? perguntou o soldado.</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho; nada sei da pobresinha! respondeu
+dolorosamente Graça Strech.</p>
+
+<p>&mdash;Deve-te custar a ausencia! Se a nós, que não
+eramos irmãos, tambem nos custa! Estavamos habituados
+aos seus tregeitos, e o caso é que já os entendiamos
+como se fossem palavras! Que pena que
+não falasse! Bonita era! e tão meiga como bonita!
+Sempre aquelle sorriso doce para todos e para tudo!
+Mas, ó Strech, se a conversa te magôa, não continúo...</p>
+
+<p>&mdash;Continúa, sim. Ás primeiras palavras rebenta a
+saudade; depois Deus manda a resignação, e é o que
+vale.</p>
+
+<p>&mdash;Eu tambem tenho familia, Strech, tambem sei o
+que isso é. E depois tu sempre deves estar com teu
+cuidado, porque tua irmã ia doente.</p>
+
+<p>&mdash;Começou a soffrer Trabalhos da guerra, commoções
+fortes, talvez receios da nova campanha...
+Não sei. O que é certo é que a não julguei com forças
+de andar commigo em correrias atraz dos francezes,
+que é preciso enxotar pela ultima vez. Temos
+uma tia nossa na Allemanha. Veiu a Portugal ha annos,
+e affeiçoou-se muito a minha irmã. Deu-se a
+coincidencia de estar no porto da Figueira um brigue
+italiano, e ir a bordo um passageiro allemão, que me
+pareceu homem compassivo, e que me prometteu
+acompanhar a pobre muda até ao seu destino. Que
+havia eu de fazer, quando a demora de minha irmã
+em Portugal seria a morte, e todas as circumstancias<span class="pn"><a name="pag_120">{120}</a></span>
+pareciam favorecer visivelmente o meu designio de a
+mandar para a Allemanha? Deixei-a ir, mais entregue
+a Deus do que ao compassivo allemão.</p>
+
+<p>&mdash;E que tencionas fazer agora?</p>
+
+<p>&mdash;Agora! Quem sabe quando chegará a hora de
+pertencermos a nós mesmos! Se eu morrer, ficará
+minha irmã entregue a sua tia; se eu sobreviver a
+victoria das nossas armas&mdash;porque nós não podemos
+succumbir depois de havermos triumphado duas vezes&mdash;irei
+buscal-a á Allemanha, e viveremos juntos
+até que um de nós deixe d'existir.</p>
+
+<p>&mdash;Desculpa-me, Strech,&mdash;tornou o soldado condoído.&mdash;Mas
+eu também estimava tua irmã, e por
+isso te perguntei por ella. Como já partiu em dezembro,
+e eu tenho conhecido que andas triste, pensei
+que tivesses recebido noticia de que a pobresinha
+ia a peior. Como felizmente não se realisou a hypothese,
+desculpa-me. Olha... Estou em dizer que
+Deus traga a guerra depressa para nos distrairmos.
+A guerra embriaga como o vinho, e a embriaguez
+é bom remedio para saudades. Eu e tu, pelo que
+vejo, soffremos ambos da mesma doença. Adeus,
+Strech.</p>
+
+<p>Este dialogo, como anteriormente disse, não é explicação
+cabal, nem... verdadeira. Graça Strech via-se
+obrigado a enganar as pessoas que lhe perguntavam
+por sua «irmã», se bem que o engano apenas se
+limitasse aos motivos da partida e ao destino de Rosina.
+Elucidemos.</p>
+
+<p>Em dezembro de 1809 começaram a manifestar-se
+os symptomas da maternidade. Esta desgraça, cujas
+funestas consequencias não previram na loucura do
+seu amor, obrigou-os a pensar reflectidamente no futuro,
+subitamente entenebrecido no horizonte que o
+poetico sol de Coimbra azulejava nas tardes em que
+as margens do Mondego lhes enfloravam os ardentes
+idyllios. O peor que ha no Paraiso é o ter porta: porque
+não se abre, quando a ancia da felicidade a impelle,
+e porque se fecha sobre as mais doces illusões, movida
+por qualquer viração que mais branda e mais
+embalsamada parecia. Eu, pouco sabido em philosophias,
+acho a porta do Paraiso muito peior que a
+serpente: uma tenta, a outra fecha. Ora a gente poderia
+fugir da tentação, se encontrasse a porta aberta.
+Deixamo-nos seduzir pela cascavel. Ouvimol-a. Embriagamo-nos<span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span>
+com as paizagens do éden, com as
+melodias eolias do arvoredo, com o maná que o céo
+deixa cahir sobre o coração. Entretanto a serpente
+adianta-se. Cinge-nos, enleia-nos. Olhamos para a
+porta: é-nos defesa a saída. Estamos encarcerados. A
+serpente triumpha.</p>
+
+<p>Por duas ponderosas razões não podia ficar Rosina
+Regnau em Portugal. Era a primeira que, inculcando-se
+irmã de Graça Strech, a sua deshonra seria
+desaire para o irmão. A segunda estava em que o
+conservar-se occulta no reino, em estado de não poder
+acompanhar o exercito, seria imperdoavel n'uma
+epoca em que tudo que cheirasse a francez inspirava
+odio, e em circumstancias em que o deixar de falar
+seria quasi impossivel.</p>
+
+<p>Avultou aos olhos d'um e outro, como pesadello
+horrivel, a necessidade da separação. O mesmo foi
+verem-se inesperadamente sepultos nas ruinas dos
+castellos encantados que ambos haviam architectado.
+E a felicidade é como todos os edificios: leva muito
+tempo a construir e basta um instante para desabar.</p>
+
+<p>Estava effectivamente a esse tempo, nas aguas da
+Figueira, um brigue italiano. Concordaram ambos
+em aproveitar a commodidade do transporte. Rosina
+energicamente rejeitou a ideia de voltar a França,
+duas vezes deshonrada. Convieram, pois, em que ella
+esperaria em Italia, com o filho nos braços, o termo
+da guerra peninsular. Depois, para sempre se reuniriam,
+e viveriam enlevados na infancia da criança,
+que ambos phantasiavam formosa.</p>
+
+<p>Mas, por que espesso véo de lagrimas se não filtrava
+este raio de longinqua felicidade, illuminando-o
+e iriando-o como um reflexo de sol moribundo através
+de neblina humida em tarde de tempestade!</p>
+
+<p>Era esse o arco-iris da esperança, gravado em traços
+multi-côres, d'um abysmo a outro, sobre um céo
+plumbeo.</p>
+
+<p>&mdash;O pae Regnau,&mdash;dizia Rosina&mdash;costumava dizer
+que a felicidade era uma bola de sabão. Agora vejo
+que é. Tudo desfeito, n'um momento! Eu desterrada
+para um paiz desconhecido, sósinha com a minha
+desgraça e o nosso filho! Tu, a muitas leguas de distancia,
+exposto á sorte dos que combatem, mais incerta
+que qualquer outra! Viverei entre a esperança
+da tua chegada e o receio d'uma noticia funesta. Oh!<span class="pn"><a name="pag_122">{122}</a></span>
+esta idéa é horrivel! Então Deus ha de permittir que,
+meu filho entre no mundo vestidinho de luto! Não
+não póde ser. Não te exponhas loucamente á morte,
+meu amigo, não? A tua vingança já deve estar satisfeita,
+e depois um soldado que é pae deve ter duas
+cadeias a ligal-o ao mundo: a patria e a familia. Ora
+eu bem sei que tua irmã é a patria; mas lembra-te,
+sim, lembra-te! de que teu filho é a tua familia...</p>
+
+<p>Acudia a serenal-a, com o coração despedaçado
+nas garras de desconhecido abutre, Graça Strech.
+Queria ser forte, e as lagrimas a trahirem nos olhos
+o esforço! Tentava enganar, e estava desilludido.
+Ainda não houve maior desgraça, mais amargo calix
+de amargura esperado nos labios com um sorriso...</p>
+
+<p>&mdash;Não, Rosina, não imagines desgraças que Deus
+não permittirá. Bem sabes que a Providencia me tem
+guardado até hoje... Verdade é que tu eras o meu
+anjo da guarda, e tu vaes fugir-me. Isto é, em verdade,
+maior que a coragem humana! Não me arriscarei
+imprudentemente á morte, está certa... Mas ás vezes,
+na refrega, a gente não tem tempo de evitar uma
+bala... Não chores, Rosina, não chores. Foi uma
+loucura que eu disse. Eu não hei de morrer. Acaso
+morri eu para a memoria de minha irmã? Tambem
+não hei de morrer para o futuro de meu filho, para
+o teu amor. É forçoso separarmo-nos; separemo-nos.
+Ficaremos, porém, um ao pé do outro, sempre
+juntos, que já não ha distancias que nos separem,
+braços que nos desunam. Tu ver-me-has pelos olhos
+da saudade; eu, que já estou costumado a ver assim,
+ver-te-hei tambem. Conversarei no meu coração
+comtigo, acompanharei meu filho desde o primeiro
+vagido e a primeira lagrima... Ó Rosina, triste coisa
+é a vida! Nascemos soffrendo, como devemos viver,
+e morremos como vivemos. E olha que a minha loucura
+deu mais uma alma á desgraça... Mas eu amava-te
+tanto, tanto! Pobresinha de ti, que dizias parecer-te
+ouvir a maldição de Bénard... Por amor de
+mim te deshonraste uma vez; o meu amor duas vezes
+te deshonrou... Não chores... Já estão desbotadas
+as rosas das tuas faces, não as desmereças
+mais... Lembra-te do céo da Italia, que todos dizem
+ser formoso, e de que nosso filho nascerá sob o céo
+d'esse bello paiz Deus ha de protegel-o. Lá viveremos<span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span>
+todos n'uma só felicidade... Mas não chores,
+Rosina, que eu sinto despedaçar-se-me o coração...</p>
+
+<p>Foi chegado o momento da partida.</p>
+
+<p>Rosina subiu a escada de portaló amparada nos
+braços de Graça Strech. Dir-se-ia um cadaver que
+se destinava a uma sepultura distante.</p>
+
+<p>Os passageiros que estavam no convés pareceram
+commovidos de tão doloroso espectaculo. Um d'elles,
+que era musico napolitano, escondia contra a
+harpa o rosto brilhante de lagrimas.</p>
+
+<p>Graça Strech viu-o chorar e disse de si para si:</p>
+
+<p>&mdash;O mais desgraçado é aquelle, porque já desaprendeu
+de consolar.</p>
+
+<p>E dirigiu-se a elle:</p>
+
+<p>&mdash;Dá-me licença que o interrogue? perguntou.</p>
+
+<p>&mdash;Da melhor vontade, respondeu o menestrel.</p>
+
+<p>&mdash;Vae só?</p>
+
+<p>&mdash;Infelizmente vou... Deixei um filho morto em
+Portugal. O rapaz era fraquito, e não pôde aguentar-se.
+Desde que me elle morreu, fiz voto de voltar a
+Italia. Mas quem póde agora ir por Hespanha com
+estas malditas guerras, que nem n'este bom paiz de
+Portugal deixam ganhar a vida? Juntei tudo o que podia,
+consegui obter uma reducção na passagem, e
+aqui vou eu com a minha harpa, sem o meu filho.</p>
+
+<p>E cada vez luziam mais as lagrimas nos olhos do
+italiano, que parecia não ter ainda cincoenta annos,
+posto lhe alvejassem já os cabellos.</p>
+
+<p>&mdash;Sente-se, senhor...</p>
+
+<p>&mdash;Pietro, acudiu elle com a celebrada vivacidade
+napolitana, se bem que lhe soluçasse a voz commovidamente.</p>
+
+<p>&mdash;Estimei saber o seu nome, porque preciso archival-o
+no coração. Vim aqui para lhe pedir um
+grande favor. Tem de ser sua companheira de viagem
+aquella desgraçada rapariga franceza que ali
+vê...</p>
+
+<p>&mdash;Franceza! atalhou admirado o italiano.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, franceza. É um mysterio cuja revelação
+iria augmentar a sua maguada compaixão, meu bom
+Pietro. Olhe por ella, anime-a, que a pobresinha é
+muito infeliz, e quem lh'o pede não é menos infeliz
+do que ella...</p>
+
+<p>O velho aprumou-se, tirou solemnemente o seu
+barrete de gomos, e disse:<span class="pn"><a name="pag_124">{124}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Fique descançado, senhor. Pela memoria de
+meu filho lhe juro que a tratarei a ella como se fôra
+elle mesmo. O meu coração até agradece á Providencia
+esta inesperada companhia que me dá. <i>Corpo
+di Baccho!</i> que eu estava aqui triste, triste, que já
+mal podia commigo...</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado! muito obrigado! exclamou com extraordinaria
+commoção Graça Strech.</p>
+
+<p>&mdash;Vá buscal-a para aqui, tornou o italiano. A minha
+harpa está habituada a chorar; eu a farei chorar
+mais uma vez. Quando eu vir que a minha nova filha
+vae triste, eu a despertarei: <i>Carina!</i> E o <i>canta-storie</i>
+sempre ha de saber alguma napolitana para
+cantar-lhe.</p>
+
+<p>Abeirou-se Graça Strech de Rosina. Ella tinha os
+olhos postos na superficie do mar, immoveis e desluzidos,
+e deixava rolar as lagrimas livremente pelas
+faces, como se já não tivesse vida para enxugal-as.</p>
+
+<p>&mdash;Rosina! apostrophou elle acordando-a, e com
+voz que mal se percebia.</p>
+
+<p>Ella estremeceu e fitou-lhe um olhar que se diria
+inconsciente.</p>
+
+<p>&mdash;Rosina! tens ali um companheiro de viagem,
+que me pareceu tão desgraçado como qualquer de
+nós. É musico italiano. Volta a Italia porque lhe
+morreu em Portugal o filho que o acompanhava. Já
+vês que deve ser infeliz. Levanta-te, anda para ao pé
+d'elle. Anda, Rosina, minha boa amiga, minha desgraçada
+irmã. Tem fé, tem animo, já que eu sinto
+perdel-o... Olha... quero dizer-te uma coisa... Vou
+confiar-te o meu thesouro, Rosina, o meu thesouro
+que tão mysterioso te pareceu, e que tanto te fez
+soffrer... Guarda este annel de minha irmã... Deus
+sabe se eu algum dia fiz tenção de o tirar do dedo!
+Que m'o tirassem depois de morto, pouco me importava.
+A minha tenção era morrer com elle. Mas
+eu amo-te tanto, tanto, que quero que tu o guardes.
+Elle já me não póde recordar agora a minha vingança...
+Quando nosso filho crescer mette-lh'o no dedo,
+e alguma vez lhe contaremos ambos a historia do
+annel mysterioso.</p>
+
+<p>Rosina olhava para Graça Strech em dolorosa suspensão.
+Pareceu accordar, porém, quando sentiu na
+mão o contacto do annel.</p>
+
+<p>E entrou de beijal-o anciosamente, delirantemente,<span class="pn"><a name="pag_125">{125}</a></span>
+como se fosse para ella uma reliquia mais valiosa do
+que a madeixasinha de seu pae.</p>
+
+<p>&mdash;O que eu soffri por elle, por este annel! disse
+ella soluçante. Agora o levo commigo, e com elle a
+tua alma... Senta-te aqui, José, ao pé de mim, não
+me fujas ainda, que o navio não parte por ora...
+Lembra-te que esta separação póde ser eterna...</p>
+
+<p>&mdash;Eterna! repetiu estremecendo Graça Strech.</p>
+
+<p>&mdash;Não, não ha de ser, Deus ha de conservar-nos a
+vida que nos é mais precisa do que nunca... Mas
+bem sabes que eu quero gravar bem na memoria as
+tuas feições, uma por uma, todas, porque te quero
+ter presente a toda a hora, contemplar a cada instante
+o teu retrato, tão fiel, tão fiel, que me pareça
+estar-te vendo... Bem sabes que é uma illusão de que
+preciso, de que depende a minha vida. Pois se eu me
+desalentar, se succumbir á saudade,&mdash;e baixou timidamente
+a voz&mdash;quem ha de velar por nosso filho,
+soccorrel-o, beijal-o, amal-o?...</p>
+
+<p>N'este momento deu a sineta de bordo signal para
+que descessem as pessoas que não eram passageiros.</p>
+
+<p>Graça Strech, não tendo já forças nem coragem
+para levantar Rosina, fez signal ao italiano para que
+se aproximasse.</p>
+
+<p>Pietro abeirou-se com a sua harpa, sentou-se ao pé
+de Rosina, e relanceou a Graça Strech um olhar que
+parecia dizer: Póde ir.</p>
+
+<p>Rosina escondia o rosto entre as mãos, e soluçava
+offegante, estrangulada a voz na garganta.</p>
+
+<p>Um dos marinheiros veiu, por ordem do capitão,
+lembrar a Graça Strech que já tinha dado o signal de
+bota-fóra.</p>
+
+<p>&mdash;Eu vou... respondeu elle machinalmente sem
+poder desfitar Rosina, e quasi sem força para mover-se.</p>
+
+<p>E, lançando a mão á corda, desceu oscillando como
+estonteado por uma violenta vertigem.</p>
+
+<p>Na Occasião em que o capitão passava por deante
+de Pietro, o italiano levantou-se e sorrindo cortezmente
+lhe disse:</p>
+
+<p>&mdash;O capitão dá-me licença que toque na minha
+harpa o hymno da partida?</p>
+
+<p>O capitão sorriu tambem, e Pietro, inclinando-se
+para Rosina, exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;<i>Carina!</i> A minha harpa vae ser de hoje em<span class="pn"><a name="pag_126">{126}</a></span>
+deante a nossa unica consolação. É preciso atordoarmo-nos com a musica. Ahi vae a <i>Capuana</i> para não
+sentir o barulho de levantar ferro. Agora, para Napoles.</p>
+
+<p>E começou a entoar, acompanhando-se, uma canção
+napolitana que poderia traduzir-se assim:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Esta tarde na ribeira<br>
+Uma hora passeei.<br>
+Meu pensamento, occupaste-o<br>
+E tanto pensei em ti,<br>
+Que o coração lá perdi...<br>
+Tu vieste e apanhaste-o.</p>
+
+<p>Ensina-me pois agora<br>
+A desfazer a meada.<br>
+São parciaes os juizes,<br>
+E a justiça demorada.<br>
+Bem sei que perdia a causa...<br>
+Que meio? Lembra-te algum?<br>
+Tu lá tens dois corações,<br>
+E eu cá não tenho nenhum.</p>
+
+<p>Para que nos custe menos<br>
+A resolver a questão,<br>
+Expliquemo-nos. Ha males<br>
+Que ás vezes nos trazem bens.<br>
+Vamos fazer um ajuste:<br>
+Tu dás-me o teu coração.<br>
+E guarda o que lá me tens.<br>
+............................</p>
+</blockquote>
+
+<p>O brigue navegava já. E a musica parecia adormentar
+aquelles dois desgraçados: um porque levava
+seu filho; o outro porque o deixava ficar.<span class="pn"><a name="pag_127">{127}</a></span></p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<h2>XV</h2>
+
+<h2>A queda do gigante</h2>
+
+<p>A historia da terceira invasão franceza, comquanto
+prenda com a nossa narrativa, não lhe é essencial.</p>
+
+<p>Muito de leve passaremos pois pelos acontecimentos
+que medeiam de julho de 1810 até agosto de 1814
+e que, todavia, não podemos supprimir. Limitar-nos-hemos,
+em conformidade com o nosso plano, a um
+simples bosquejo não descabido em romance.</p>
+
+<p>O marechal Massena, chegado a Valhadolid, assumiu
+o commando do exercito francez, que mandou reunir
+em Salamanca, e marchou sobre Portugal, tomando
+de caminho Ciudad Rodrigo, que se rendeu
+depois de heroica resistencia. Quasi volvido um mez,
+capitulou a praça d'Almeria; havendo soffrido um
+longo cerco, e tendo sido o paiol incendiado pelo inimigo.</p>
+
+<p>O exercito alliado, em força de setenta mil homens,
+esperou os francezes nas alturas do Bussaco, onde
+durante os dias 27 e 28 de setembro se pelejaram
+duas sangrentas batalhas, sendo grande a victoria
+para o exercito anglo-luzo, que galhardamente
+repelliu o inimigo em grande parte dizimado. É esta
+uma das paginas mais brilhantes da historia portugueza
+durante o longo periodo das guerras peninsulares.</p>
+
+<p>Os francezes, marchando para oeste, passaram ao
+Sardão, e d'ahi seguiram para o sul; os alliados, retirando
+sobre Lisboa, rebateram-n'os nos campos de
+Coimbra, e em Leiria.</p>
+
+<p>Amedrontado Messena á vista das linhas chamadas
+de Torres Vedras&mdash;sobre as quaes o official inglez
+John T. Jones deixou uma circumstanciada <i>Memoria</i>,
+que convém ser consultada pelos que não desdenham
+saber historia patria&mdash;tomou posições á rectaguarda
+em Santarem e Leiria, esperando reforço para atacar<span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span>
+as linhas. O exercito francez, consideravelmente derrotado,
+estava de mais a mais carecido de viveres.</p>
+
+<p>N'esta conjunctura e já entrado o anno de 1811,
+passou o marechal Beresford ao Alemtejo para se
+oppôr ao inimigo, o que não impediu que Badajoz
+capitulasse. Não obstante esta victoria, e um reforço
+de trinta mil homens que o exercito francez recebeu,
+começou a retirar nos primeiros dias de março d'esse
+anno, sendo atacado na retirada pelos alliados, e entrando
+em territorio hespanhol no mez d'abril. Segunda
+vez reforçado, atacou o exercito anglo-luzo em
+Fuentes d'Honor, não sendo ahi mais feliz do que no
+Bussaco. No dia 11 d'esse mez retomaram os nossos
+a praça d'Almeida, e pela terceira vez se viu Portugal
+desopprimido do jugo francez.</p>
+
+<p>Pareciam empenhados os factos em desmentir a
+prophecia de Napoleão: era a aguia da França que
+fugia amedrontada para o seu ninho d'além-Pyrineus.
+O leopardo triumphava á sombra da cruz, que
+sempre foi timbre dos guerreiros portuguezes.</p>
+
+<p>Á batalha de Fuentes d'Honor seguiu-se outra não
+menos cruenta&mdash;a de Albuera, onde a victoria nos
+foi descontada pela perda de seis mil homens.</p>
+
+<p>A aguia franceza, a dominadora da Europa, irritada
+por uma série de desastrosas derrotas, procurou
+ainda desferir no céo da peninsula o arrojado
+vôo das suas passadas glorias. Por um momento
+lhe sorriu a victoria. Substituido Messena
+por Marmont, o exercito francez logrou tomar-nos
+a artilharia em Fuente Guinaldo, obrigando os alliados
+a retirar sobre a fronteira portugueza, mais assignalados
+ainda na retirada que no triumpho, porque,
+aguentando o peso da cavallaria inimiga, repelliram
+todos os ataques, retomando a artilharia. Com
+a ação de Arroyo-del-Molinos, pelejada a 18 de outubro,
+cuja victoria coube aos alliados, se encerrou o
+anno de 1811, com muita honra para os anglo-luzos.
+Não começou mal auspiciado o anno seguinte, que
+se estreiou, para os alliados, com a tomada da praça
+de Ciudad Rodrigo, seguindo-se-lhe a rendição de
+Badajoz, depois de haver soffrido os apertos de primeiro
+e segundo sitio. Todavia o maior successo
+d'esse anno estava reservado para a batalha de Salamanca,
+em que os dois exercitos, commandados de
+um lado por Wellington e do outro por Marmont, se<span class="pn"><a name="pag_129">{129}</a></span>
+equipararam em galhardia e pericia, cabendo a victoria&mdash;que
+se reputa a mais celebre de toda a guerra
+peninsular&mdash;aos luso-anglos. Á victoria de Salamanca
+seguiu-se a tomada de Madrid, e á tomada de Madrid
+o assedio ao castello de Burgos pelos alliados,
+que, por desobediencia de Ballesteros, tiveram de retirar
+sobre a fronteira de Portugal com denodo egual
+ao que em Fuente Guinaldo os assignalou. Não remata
+deshonrosamente o anno de 1812, para o exercito
+anglo-luso com este revez que se póde considerar
+façanha. Refeitas, porém, as tropas alliadas das
+perdas soffridas na retirada de Burgos, e já começado
+o anno de 1813, avançaram até Victoria, onde,
+na manhã de 2 de junho, se travou batalha geral,
+retirando o inimigo sobre Pamplona, perdendo artilharia,
+caixa, bagagens, e salvando-se o rei José, que
+estivera presente, em precipitada fuga.</p>
+
+<p><i>Alea jacta erat.</i></p>
+
+<p>A sorte de Napoleão, pelo que respeitava a ambições
+relativas á peninsula, havia sido jogada na batalha
+de Victoria, e a aguia franceza, em cujos olhos
+brilhava o olhar coruscante do Corso, pela ultima
+vez cruzava, demandando a França, as cumiadas dos
+Pyreneus.</p>
+
+<p>No dia 1 de julho entrava o inimigo em solo francez.
+De nada valeu reforçar-se, e tomar Soult o commando
+geral. No ultimo dia d'esse mez ganharam os
+alliados a batalha chamada dos Pyreneus, rechaçando
+o inimigo para dentro das suas fronteiras. Seguem-se,
+para honra das armas alliadas, a tomada da praça
+de S. Sebastião, a batalha de Nivelle, os combates de
+Bayonna, as victorias de Nive e Orthez, e, finalmente,
+a triumphal entrada do exercito luso anglo em
+Tolosa, a 12 de abril de 1814.</p>
+
+<p>Começava, como os acontecimentos o demonstram,
+a empallidecer no céo da França a estrella de Bonaparte.
+A lucta, desde muito travada entre a aguia e
+o leopardo, lucta de morte, encarniçada, contínua,
+estava chegada a ponto em que já era dado suspeitar
+que o pedestal de Napoleão não era tão firme como
+a sua coragem. O contendor, apesar dos revézes,
+era o mesmo; a fortuna principiava a falhar. A Inglaterra
+havia vencido, a sorte mostrára-se rebelde,
+mas o conquistador da Europa,&mdash;e para o ser faltava-lhe
+vencer a Inglaterra&mdash;não desesperava de reconquistar<span class="pn"><a name="pag_130">{130}</a></span>
+a sua boa fortuna. Não tomou por aviso
+da Providencia o desastre. No immenso taboleiro da
+sua ambição, em que as nações eram outras tantas
+tavolas que movia a bel-prazer, pareceu-lhe aquelle
+um cheque sem consequencias para o resultado da
+partida em que se jogavam os destinos de povos e
+reis.</p>
+
+<p>Bonaparte ufanava-se de empunhar a balança em
+cujas conchas pesavam d'um lado a Europa e do outro
+uma ambição immensa, indomavel, manifestada
+desde os primeiros passos da sua carreira militar.
+Comtudo havia na Europa uma nação quasi invencivel,
+porque o mar lhe servia de muralha, porque os
+seus recursos economicos prosperavam largamente,
+e porque as instituições d'esse povo, traduzindo a
+altivez do genio nacional, eram muralha tanto mais
+para temer como a que o mar, cingindo as ilhas britannicas,
+opporia a qualquer invasão. Era tudo isso,
+e mórmente o regimen liberal da Inglaterra, que incommodava
+Bonaparte, cujo poderio havia ultrapassado
+a barreira da tyrannia. O guerreiro feliz imaginava-se
+senhor absoluto: era a vertigem da victoria.
+Havia porém um meio de egualar a Inglaterra, como
+diz madame Staël: era imital-a. Bonaparte, porém,
+não tinha nascido diplomata. A vista do conquistador
+é incisiva, rapida, abrange de uma só vez o exercito
+todo por mais espraiado que esteja; o diplomata tem
+de profundar, estudar, decompôr, analysar não só os
+negocios englobados diante de si, mas as suas intimas
+relações, as suas consequencias proximas e remotas.
+N'um requer-se o olhar ardente da aguia; no
+outro a vista penetrante do lynce. Toda a diplomacia
+de Napoleão se cifrava em preparar os acontecimentos
+de modo a provocar um conflicto internacional,
+que tendesse a prejudicar a Inglaterra. Haja vista
+o tratado secreto de Fontainebleau, em que Portugal
+e a casa de Bragança eram sacrificados á velha rivalidade
+dos dois paizes. Bonaparte visava sempre a
+vencer, não empregando a influencia politica da sua
+posição, mas empregando a influencia armada do seu
+exercito. Edificava sobre cadaveres, arriscando a vida
+dos soldados francezes ao sabor da sua phantasia.
+Chegado á suprema embriaguez da preponderancia,
+tanto valia para elle o sangue dos soldados como a
+corôa dos reis. A sua vontade era lei. Conta-se que<span class="pn"><a name="pag_131">{131}</a></span>
+uma vez um dos seus conselheiros d'estado ousou
+lembrar-lhe que o codigo napoleonico era contrario
+á resolução que ia tomar.</p>
+
+<p>Bonaparte respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;O codigo foi feito para salvação do povo, e, se
+a salvação do povo exige outras medidas, é preciso
+adoptal-as.</p>
+
+<p>Estas palavras são transparentes: deixam ver a tyrannia.
+O povo francez não podia ter vontade livre:
+vivia affrontado pela sombra de Napoleão e encarcerado
+na inquisição politica de que o ministro Fouché
+era claviculario. O cézar dominava tudo: a vontade
+do povo e a opinião da imprensa. Os jornaes
+eram thuribulos que vaporavam o incenso da adulação
+aos pés do throno. Os poetas estavam habituados
+desde o tempo do Directorio a cantar heroides
+em honra do Primeiro Consul. Os follicularios poisavam
+a penna, quando tentavam assumpto que esquecesse
+a grandeza napoleonica, amedrontados pelo
+espectro da proscripção. A visão do desterro bastava
+a intimidar a maior parte d'elles, senão todos. Madame
+de Staël, que não trepidava deante da estatua gigantea
+do imperador, teve de procurar refugio em
+Inglaterra.</p>
+
+<p>E comtudo, na sua origem, a corôa de Napoleão
+emergira, Venus da realeza, da onda da liberdade!</p>
+
+<p>É certo, mas a estas palavras respondem cabalmente
+as seguintes linhas da auctora das <i>Considérations sur la revolution française</i>, cujo espirito era profundo
+de mais para se deixar cegar por despeitos.</p>
+
+<p>«Não bastava,&mdash;diz a insigne pensadora&mdash;que todos
+os actos de Bonaparte tivessem o cunho de um
+despotismo cada vez mais audacioso; devia elle proprio
+revelar o segredo do seu governo, pois que despresava
+a especie humana o bastante para dizer-lh'o.
+No <i>Monitor</i> do mez de Julho de 1810 fez publicar as
+palavras que dirigia ao segundo filho de seu irmão
+Luiz Bonaparte criança a quem o grã-ducado de
+Berg era destinado: <i>Não esqueças nunca</i>, lhe diz elle,
+<i>em qualquer posição que te colloquem a minha politica
+e o interesse do meu imperio, que os teus primeiros deveres
+são para mim, os segundos para a França: todos os
+outros, incluindo os relativos aos povos que eu pudesse
+confiar-te estão depois</i>. Não se trata aqui de libellos,
+de opiniões de partido; é elle proprio, Bonaparte,<span class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span>
+que se denunciou mais severamente do que a posteridade
+ousaria fazel-o. Luiz XIV foi accusado de
+ter dito intimamente: <i>O Estado sou eu</i>; e os historiadores
+esclarecidos apoiaram-se com razão n'esta
+linguagem egoista para condemnar o caracter do rei.
+Mas se este monarcha, quando collocou seu neto no
+throno de Hespanha, lhe houvesse ensinado publicamente
+a mesma doutrina que Bonaparte ensinava ao
+sobrinho, talvez que o proprio Bossuet não ousasse
+antepôr os interesses dos reis aos das nações; e é um
+homem eleito pelo povo, que quiz encher com o seu
+<i>eu</i> gigantesco o logar reservado á especie humana!
+foi n'elle que os amigos da liberdade momentaneamente
+puderam ver o representante da sua causa!
+Muitos disseram: «É o filho da Revolução. Sim, é,
+mas filho parricida: deveriam reconhecel-o?»</p>
+
+<p>Tudo isto é profundamente verdadeiro.</p>
+
+<p>A liberdade franceza ficára esmagada sob a purpura
+do cézar. Novo Archimedes, levantaria com a alavanca
+do seu poder a Europa inteira, se a Inglaterra
+consentisse em ser o ponto d'apoio. Era preciso vencer
+essa unica difficuldade. Serviu-se pois de todos os
+meios. Na <i>Historia Secreta do Gabinete de Napoleão
+Bonaparte</i>, por Lewis Goldsmith, está manifesto o espirito
+faccioso do escriptor inglez, mas ainda assim
+ha por vezes a eloquencia terrivel dos factos, e esses
+não os póde calar a historia. Bonaparte procurou
+triumphar por mil maneiras differentes, seduzindo com
+largas retribuições a lealdade dos jornalistas inglezes;
+mandando a Inglaterra espiões, entre os quaes algumas
+mulheres, como madame Bonneuil e madame
+Visconti; procurando sublevar a Irlanda, etc.</p>
+
+<p>Mas estava escripto no livro dos destinos que a Inglaterra
+fosse o sepulchro da grandeza de Bonaparte.
+Lord Wellington, perseguindo a aguia franceza desde
+Lisboa até Waterloo, similhante ao adversario de
+Macbeth, segundo a expressão de madame de Staël,
+foi o Josué da historia profana que ousou suster o
+curso do sol napoleonico em meio d'um longo dia de
+gloria prolongado em dez annos de lucta contra a Inglaterra.</p>
+
+<p>O cartel de desafio, tantas vezes arrojado á face da
+nação britannica, volveu-se na hora da decadencia
+em supplica dirigida ao principe regente d'aquelle
+paiz.<span class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span></p>
+
+<p>Estas palavras de Napoleão, escriptas em Aix, depois
+de Waterloo, são claro testemunho da inconstancia
+das coisas terrenas:</p>
+
+<p>«Alteza real, a braços com as facções que dividem
+o meu paiz, e com a inimisade das grandes potencias
+da Europa, puz termo á minha carreira politica. Venho,
+como Themistocles, sentar-me junto ao lar do
+povo britannico; abrigo-me á protecção de suas leis,
+a qual solicito de vossa alteza real como o mais poderoso,
+o mais constante e o mais generoso dos meus
+inimigos.</p>
+
+<p class="assin">«N<small>APOLEÃO</small>»<sup><a href="#nota12" name="m_nota12">[12]</a></sup></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Não era porém sincera a humildade do cézar decaído.
+Themistocles pedia a hospitalidade d'Artaxerxes,
+mas não pensava em beber a morte no veneno. Os
+tropheos da Inglaterra, como os tropheus de Melciades,
+perturbavam o somno do hospede desterrado. No
+momento de embarcar em a nau ingleza, Napoleão
+repellia o general Becker que se abeirava d'elle para
+despedir-se, e dizia-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Retire-se general. Não se diga que um francez
+veiu entregar-se nas mãos do inimigo.</p>
+
+<p>Themistocles não esquecia a gloria de Melciades.</p>
+
+<p>Napoleão preferira morrer na morte lenta de todos
+os exilados, e agonisára durante cinco annos
+n'uma possessão ingleza.</p>
+
+<p>Ahi, na triste solidão da ilha de Santa Helena, devia
+recordar a cada momento a epopea da sua gloria
+e da sua desgraça, pensando ou dictando as suas memorias
+ao general Las Cazes. Então, pelo silencio
+da noite, apenas interrompido monotonamente pelo
+ruido do mar, refugiria de si mesmo ao ver passar
+deante dos olhos o bando lutuoso das viuvas e dos
+orphãos dos seus soldados, e ao adivinhar a pallida e
+lacrimosa figura da moribunda de Malmaison, a formosa
+Josephina Beauharnais.</p>
+
+<p>É sempre no mar que se esconde o sol; Santa
+Helena illuminou-se com os ultimos clarões da gloria
+de Bonaparte no duplo occaso da grandeza e da
+vida. Orgulho de soldado: ordenou que lhe fosse<span class="pn"><a name="pag_134">{134}</a></span>
+mortalha o capote que trazia na batalha de Marengo.
+Na sua vaidade de cézar até á morte se queria impôr.</p>
+
+<p>Mais longe do que desejavamos nos levaram as
+nossas divagações, esquecendo-nos de que o protagonista
+d'esta narrativa não era Bonaparte, imperador
+dos francezes, mas um obscuro soldado dos
+exercitos que o venceram.</p>
+
+<p>Tempo é de falarmos de Graça Strech, e de dizer
+que mais duas vezes fôra ferido no decurso da campanha
+peninsular: uma em Salamanca, e outra em
+Victoria com uma bala n'uma perna, do que lhe resultou
+ficar coxeando. Fôra gravissimo este ultimo
+ferimento. Por mais d'uma vez os soldados portuguezes
+suppozeram moribundo o seu valoroso companheiro.
+Ás exaltações febris, em que o ferido
+precipitava palavras que os seus camaradas não comprehendiam,
+succediam-se tão profundas prostrações,
+que era difficil averiguar se vivia ainda.</p>
+
+<p>D'uma das vezes ouviram-lhe dizer:</p>
+
+<p>&mdash;Não! não! Não vêdes a morte?... Não quero
+morrer... E Rosina?... Meu filho!... Estou aqui
+sósinho... Pietro tocava a sua harpa.. A muda chorava
+muito... Em Coimbra, n'aquella tarde... Sim,
+ella era innocente e pura... Pietro parecia triste de
+a vêr chorar... Que é?... São os francezes?... Que
+venham... Eu vingo a memoria de minha irmã, mas
+não quero morrer porque tenho um filho...</p>
+
+<p>&mdash;Um filho! exclamaram os dois soldados que
+piedosamente o soccorriam.</p>
+
+<p>O ferido continuou a delirar:</p>
+
+<p>&mdash;Tudo perdeu por mim... Como era grande o
+seu amor!... Pobresinha... Para traz, francez; quero
+ir vel-a. Estás ahi? Sempre ao pé de mim! Sim...
+bem me lembro... o ceguinho das Ardennas e o
+seu cão... Não ouviste chorar uma creança? É meu
+filho...</p>
+
+<p>&mdash;O nosso tenente treslê! exclamou um dos soldados.</p>
+
+<p>Graça Strech havia, pelos seus actos de valor,
+chegado áquelle posto, sendo condecorado com a
+Torre-Espada, com a cruz de S. Fernando d'Hespanha,
+e ao depois com a medalha da guerra peninsular.</p>
+
+<p>&mdash;Pena é se morre, acrescentou outro soldado,<span class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span>
+que não ha mais destemido militar que o nosso tenente!</p>
+
+<p>&mdash;Isso não! Animava-se com a polvora, que tambem
+não tem de haver no mundo militar mais triste...</p>
+
+<p>&mdash;E mais desgraçado! Não te lembras que já a
+irmã era muda?</p>
+
+<p>&mdash;Muda, sim.</p>
+
+<p>A este tempo havia caído Graça Strech em lethal
+modorra, e retiravam-se os dois soldados receiosos
+de que o tenente não resistisse ao ferimento.</p>
+
+<p>Todavia, como poderemos ver pelo capitulo seguinte,
+não tinha de ser aquella a ultima hora da attribulada
+existencia de Graça Strech.<span class="pn"><a name="pag_136">{136}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota12" name="nota12">[12]</a></sup>
+<i>Historia de Napoleão Bonaparte</i>, pelo dr. Caetano Lopes
+de Moura, Vol. II.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<h2>XVI</h2>
+
+<h2>Uma festa no Porto
+ha cincoenta e nove annos</h2>
+
+<p>Amanheceu festivo para a cidade do Porto o dia
+15 d'agosto de 1814.</p>
+
+<p>Ainda de noite começaram a povoar-se as janellas,
+e a animar-se as ruas com enorme multidão.</p>
+
+<p>Ás sete horas da manhã já não havia casa que não
+estivesse adornada de ricas tapeçarias, pendentes dos
+balcões, que competiam com as galas das damas da
+cidade e da provincia debrusadas nos peitoris.</p>
+
+<p>Muitas das janellas estavam emmolduradas em grinaldas
+e arcos de flôres; outras ladeadas por bandeiras;
+ao longo das ruas corria um verdejante tapete
+de hervas aromaticas.</p>
+
+<p>Em muitos olhos brilhavam lagrimas d'alegre commoção,
+e em todos os labios desabrochavam sorrisos
+que eram espelho do jubilo da alma.</p>
+
+<p>Que motivo havia, pois, para tamanha festa na cidade
+cujos habitantes, no lento curso de cinco annos,
+estavam costumados ao luto e á saudade dos que
+pereceram na catastrophe da ponte, nas linhas de defeza,
+nos hospitaes de sangue e dos que posteriormente
+haviam succumbido na demorada campanha
+peninsular contra os francezes?</p>
+
+<p>Não eram estranhos os jubilos d'esse dia a tão funestos
+acontecimentos. Esperava-se a brigada de infantaria
+do Porto, composta dos regimentos 6 e 18,
+que victoriosa regressava de França depois de haver
+pelejado com egual denodo pela restauração d'estes
+reinos e de toda a peninsula.</p>
+
+<p>Os feitos da brigada de infantaria do Porto haviam
+soado, com assombro dos portuguezes, em Portugal
+inteiro, mórmente os que praticára na batalha da estrada
+de Bayona, em França, no dia 13 de dezembro
+do anno anterior.<span class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span></p>
+
+<p>O senado da camara tinha-se reunido nos primeiros
+dias d'agosto para assentar nos festejos com que
+se devia celebrar o regresso das tropas. Resolveu
+que se levantassem arcos de triumpho, fazendo-se
+outras mais demonstrações de alegria, e encarregou
+da direcção dos preparativos o vereador decano
+José de Sousa e Mello.</p>
+
+<p>Tratou-se, pois, com febril afan, de executar o programma
+dos festejos.</p>
+
+<p>Construiu-se sobre a ponte do Poço das Patas a
+<i>Porta da cidade</i><sup><a href="#nota13" name="m_nota13">[13]</a></sup>, guarnecida com os castellos que
+lhe são proprios, e com as insignias concedidas por
+carta regia de 13 de maio de 1813; collocando-se na
+cimalha da porta a imagem de Nossa Senhora, que
+entregava a seu Divino Filho uma fita com a legenda
+<i>Civitas Virginis</i>.</p>
+
+<p>O gosto da pintura, imitando velha cantaria, muito
+deu na vista das pessoas que percorriam as ruas e
+estacionavam boqui-abertas em frente do arco.</p>
+
+<p>Tambem na cimalha foi embutida uma lamina de
+bronze com este distico:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado"><small>HINC GENTI HOMEN;<br>
+HINC REGNO PLURIES SALUS;<br>
+HINC</small> E<small>UROPAE,</small> O<small>RBI</small><br>
+P<small>RIMA LIBERTATIS LUX NOVISSIME AFFULSIT.</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>No alto da rua nova de Santo Antonio levantou-se
+um arco de triumpho, de ordem composita, firmado
+em quatro columnas; resaltavam dos intercolumnios
+arnêzes, grévas, escudos, bandeiras e lanças entrelaçadas
+com listões de murta, ramos de oliveira, palmas
+e louros. Nos dois grandes pedestaes sobre que
+descançavam as columnas, lia-se:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Sempre engrandeça a patria lusitana<br>
+Vosso nome immortal, claro, e subido;<br>
+E a Casa restaurada de Bragança<br>
+Tenha em thesouro seu vossa lembrança.</p>
+
+<p class="assin"><i>Condest.</i><span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span></p>
+
+<p>Esta Cidade forte, e populosa,<br>
+Colonia antiga do poder Romano,<br>
+Cavou a sepultura temerosa<br>
+D'um gigante nas obras deshumano.</p>
+
+<p class="assin"><i>Affons. Afric.</i></p>
+</blockquote>
+
+<p>Egualmente estavam enfloradas as cornijas, architraves
+e os frizos. Sobre o portico erguia-se o escudo
+das armas da cidade; por cima da balaustrada
+que corria ao longo do arco, havia quatro estatuas
+que figuravam:</p>
+
+<p class="centrado">A SAUDADE</p>
+
+<p>Mostrava um livro aberto em que se lia: <i>1.º e 2.º
+de Setembro de 1809.</i> (Dias em que saíram do Porto
+as tropas.) No pedestal estava escripto:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Deixando a Patria amada, e proprios lares<br>
+Se mostraram nas armas singulares.</p>
+
+<p class="assin"><i>Cam.</i></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">A ALEGRIA</p>
+
+<p>Indicava em outro livro a data: <i>15 d'agosto de 1814.</i>
+(Dia da entrada das tropas.) Lia-se no pedestal:</p>
+
+<blockquote>
+<p>A Deus, ao Rei de quem a paga esperam<br>
+Fazer maior serviço não puderam.</p>
+
+<p class="assin"><i>Malac.</i></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">A VICTORIA</p>
+
+<p>Desenrolava os annaes das acçoes em que a brigada entrára. Legenda do pedestal:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Aonde falta o premio a quem milita<br>
+Não habita a razão, nem gente habita.</p>
+
+<p class="assin"><i>Dest. d'Esp.</i></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">A ETERNIDADE</p>
+
+<p>Tinha, entre o symbolo da serpente enroscada, os<span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span>
+nomes dos regimentos: <i>Infantaria 6 e 18.</i> No pedestal:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Ajudados dos céos em mar e em terra,<br>
+Tem fechadas na mão a paz, e a guerra.</p>
+
+<p class="assin"><i>Malac.</i></p>
+</blockquote>
+
+<p>Sobreposta a uma longa inscripção latina, rematava
+o grupo do arco uma esphera armilar, sustentada
+por Genios que entornavam flôres.</p>
+
+<p>Nos intercolumnios posteriores correspondiam armas,
+espadas, tambores e alabardas unidos com feixes
+de louro, ramos de carvalho e oliveira.</p>
+
+<p>Nos grandes pedestaes havia gravadas epigraphes
+em verso, correspondendo os ornatos aos da frente
+e as estatuas da balaustrada estas quatro:</p>
+
+<p class="centrado">O PORTO</p>
+
+<p>Offerecia com a mão direita uma corôa de louro e
+empunhava na esquerda um ramo de carvalho, tendo
+no pedestal:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Orno os heroes que a patria eternizaram<br>
+E por ella seu sangue derramaram.</p>
+
+<p class="assin"><i>Elp.</i></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">O AMOR DA PATRIA</p>
+
+<p>Offerecia com a direita um coração e apontava
+com a esquerda para o peito. No pedestal:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Meu valor, minha nobre fortaleza<br>
+Será gloria da gloria Portugueza.</p>
+
+<p class="assin"><i>Affons. Afric.</i></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">A PAZ</p>
+
+<p>Offertava com a mão direita o ramo de oliveira, e
+sustentava na esquerda um feixe de palmas. No pedestal:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Que mais ditoso fim se lhe esperava<br>
+Que este agora que merecido estava!</p>
+
+<p class="assin"><i>Affons. African.</i><span class="pn"><a name="pag_140">{140}</a></span></p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">A DOCILIDADE</p>
+
+<p>Arremessava com a mão esquerda um montão de
+cadeias, e com a direita segurava uma estreita fita.
+No pedestal:</p>
+
+<blockquote>
+<p>O Soberano Author da redondeza<br>
+Da minha redempção deu-vos a empreza.</p>
+
+<p class="assin"><i>Bocag.</i></p>
+</blockquote>
+
+<p>A tarja que, do outro lado, correspondia á inscripção
+lapidar, tinha figurados em relevo todos os petrechos
+de guerra, e os Genios, que d'esse lado sustentavam
+a esphera, desenrolavam uma fita em que
+estava escripta uma quadra do <i>Condestabre.</i><sup><a href="#nota14" name="m_nota14">[14]</a></sup></p>
+
+<p>Ahi se agrupava impaciente a multidão, não só attrahida
+pela magnificencia do arco, senão tambem
+pelo variegado espectaculo das tropas da guarnição,
+que estavam postadas em alas até ao largo de Santo
+Eloy; bem como para ver pegar fogo á bateria collocada
+no topo da calçada dos Clerigos e destinada
+a salvar com vinte e um tiros de peça a passagem da
+brigada pelo arco.</p>
+
+<p>Na rua nova do Almada baralhavam-se dois formigueiros
+de povo: um que, receoso do tumulto na aproximação
+das tropas, demandava o Campo de Santo
+Ovidio; outro que, tendo visto o obelisco levantado
+no meio d'este campo, ia procurar logar, na hypothese
+de encontral-o, junto ao arco da rua nova de
+Santo Antonio.</p>
+
+<p>Era tambem sobremodo esplendoroso o obelisco
+n'aquelle campo. Rodeava o pedestal uma espaçosa
+varanda, adornada com ricas bandeiras portuguezas.</p>
+
+<p>Sobre o pedestal, e em frente da rua nova do Almada,
+estava o retrato do principe real, com a
+seguinte legenda escripta na almofada correspondente:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Diga-o a Augusta Effigie contemplando:<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Foi este o forte, o justo,<br>
+João, da Patria Pae, que a patria alçando<br>
+Deu pasmo a naturaes, e a estranhos susto.</p>
+
+<p class="assin"><i>Elp.</i><span class="pn"><a name="pag_141">{141}</a></span></p>
+</blockquote>
+
+<p>Em frente da rua da Boa Vista, resaltava o retrato
+da rainha, lendo-se no pedestal:</p>
+
+<blockquote>
+<p>O louvor que se ganha pelos meios<br>
+Da virtuosa vida, este só dura,<br>
+Este de se perder não tem receios.</p>
+
+<p class="assin"><i>Bern.</i></p>
+</blockquote>
+
+<p>E em frente da linha dos predios foi disposto o retrato
+da princeza, tendo no pedestal:</p>
+
+<blockquote>
+<p>Que affavel se olharia a tua face,<br>
+Se o céo a nossos votos sempre amigo<br>
+Na fria estatua espiritos soprasse!</p>
+
+<p class="assin"><i>Filint.</i></p>
+</blockquote>
+
+<p>Do lado da Lapa, em frente do quartel, viam-se
+as armas do reino e da cidade, unidas por um listão,
+em que estava escripto o dia da restauração do governo
+nacional</p>
+
+<p class="centrado">18 DE JUNHO DE 1808</p>
+
+<p class="ni">lendo-se no pedestal os seguintes versos de Horacio:</p>
+
+<p class="centrado"><small>HIC DIES VERE NOBIS FASTUS ATRAS<br>
+EXIMIT CURAS.</small></p>
+
+<p>Todos os retratos foram collocados entre tropheus
+de bandeiras, e eram cingidos pelos emblemas
+da paz e do heroismo...</p>
+
+<p>O bom povo portuense, na cegueira do seu jubilo,
+não reparava que esses emblemas, á beira dos augustos
+retratos, deviam ser uma pungente ironia se a familia
+real tivesse olhos para os ver atraves de enorme
+distancia, e interposto o mar!</p>
+
+<p>No cimo do obelisco assentava a corôa real cingindo
+um manto de preciosa bordadura.</p>
+
+<p>Pouco depois das oito horas e meia, um unisono
+grito de alegria annunciou a chegada da brigada ao
+Alto do Senhor do Bomfim.</p>
+
+<p>Então começou o estrondear dos morteiros, o repicar
+dos sinos e o alarido dos vivas. Quando as tropas
+chegaram ao topo da rua nova de Santo Antonio,
+o enthusiasmo attingiu as raias do delirio, tamanho<span class="pn"><a name="pag_142">{142}</a></span>
+era o alvoroço da multidão que saudava com brados,
+com os lenços e os chapeus os dois regimentos portuenses.
+Durante todo o percurso até ao Campo de
+Santo Ovidio as flôres, as grinaldas e os ramos, que
+desciam das janellas, figuravam uma chuva iriada e
+espessa que ia orvalhar de petalas as fardetas dos
+soldados.</p>
+
+<p>Se nos fosse dado ouvir os breves dialogos que se
+perdiam no borborinho geral, de grupo a grupo iriamos
+recolhendo vozes, posto que variadas, todas concernentes
+á festa d'esse dia.</p>
+
+<p>N'uma das janellas da rua nova do Almada chalravam
+as visinhas da familia Strech, as quaes cinco annos
+antes tivemos occasião de conhecer em lances
+que verdadeiramente contrastavam com o espectaculo
+a que estamos assistindo.</p>
+
+<p>Passava o regimento de infantaria 18, e diziam ellas.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos a ver se conhecemos o José Maria!</p>
+
+<p>&mdash;Vem tenente e condecorado!</p>
+
+<p>&mdash;Já sei. Mandou dizel-o o homem da Victorinha.</p>
+
+<p>&mdash;Deve vir muito mudado!</p>
+
+<p>&mdash;Será aquelle?</p>
+
+<p>&mdash;Aquelle, menina! Aquelle militar tem mais de
+vinte e cinco annos...</p>
+
+<p>&mdash;Vamos a ver se elle olha para a casa onde morou...</p>
+
+<p>&mdash;Vês? Não olha! Vae até a olhar para o chão...</p>
+
+<p>Era elle, effectivamente.</p>
+
+<p>No meio da rua dialogavam dois velhos:</p>
+
+<p>&mdash;Que pena não assistir o Trant!</p>
+
+<p>&mdash;Está doente.</p>
+
+<p>&mdash;Bem sei.</p>
+
+<p>&mdash;E elle que tanto trabalhou para esta recepção!</p>
+
+<p>No Campo de Santo Ovidio, antes da chegada das
+tropas: Um velho perguntando a um sujeito que estaciona
+junto d'elle:</p>
+
+<p>&mdash;Falta-me a vista! Quem são aquelles que estão
+nas janelas do quartel?</p>
+
+<p>&mdash;É o juiz e a camara. Olhe... Não vá mexer-se
+agora uma cabeça?</p>
+
+<p>&mdash;Vejo, mas não distingo.</p>
+
+<p>&mdash;Pois é o José de Sousa e Mello.</p>
+
+<p>&mdash;Acho que elle tem de falar pelo senado?</p>
+
+<p>&mdash;O programma dizia que sim.<span class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Esperaremos. Sempre não ter vista! Perco metade!</p>
+
+<p>Chegaram as tropas ao Campo de Santo Ovidio e,
+depois de formar quadrado, fizeram continencia aos
+retratos da familia real, que, diga-se em abono da
+verdade, não responderam.</p>
+
+<p>Os originaes estavam no Brazil; não viram.</p>
+
+<p>Em seguida o brigadeiro Carlos Ashworth, commandante
+da brigada, levantou vivas ao principe regente
+e á rainha...</p>
+
+<p>Os retratos não se mexeram.</p>
+
+<p>Quando porém se ouviu um enthusiastico viva em
+honra da cidade do Porto, a cidade respondeu delirantemente
+pela bocca das tropas, do povo, e pelo
+acenar vertiginoso dos lenços nas janellas.</p>
+
+<p>Dada a voz de descançar armas, desceu o já nomeado
+vereador decano, José de Sousa e Mello, que pouco
+antes viramos a uma das janellas do quartel. O
+brigadeiro commandante, tendo-se apeiado, dirigiu-se
+para elle. Então o camarista Mello recitou uma allocução
+que terminava por estas palavras: «A camara
+roga a vossa excellencia queira fazer-lhe a honra, não
+só de jantar hoje n'este quartel, mas de convidar em
+seu nome toda a officialidade d'estes dois regimentos,
+mandando vossa excellencia que, além d'isto, se distribua
+pelos sargentos, cabos e soldados o dinheiro
+que ali se acha para lhes supprir o jantar d'hoje.»</p>
+
+<p>O brigadeiro Ashworth agradeceu amavelmente o
+convite, e asseverou que a officialidade acceitaria reconhecida.</p>
+
+<p>A immensa multidão que enchia o Campo de Santo
+Ovidio rompeu n'este lance em freneticos vivas e, ao
+som das bandas marciaes, recolheram as tropas a
+quarteis, sendo seguidas por grande numero de pessoas,
+parentes, amigos, e conhecidos, que esperavam
+lhes fosse permittido abraçar soldados e officiaes.</p>
+
+<p>Concedidas duas horas para desafogo de saudades,
+cinco annos retraídas, e gastas em ardentes expansões
+que as volveram momentos, foi o regimento de
+infantaria 18 ouvir missa á egreja da lapa e o regimento
+de infantaria 6 á egreja da Graça. Em ambos
+os templos houve <i>lausperenne</i> e <i>Te-Deum</i>.</p>
+
+<p>Cumpridos os deveres do coração e da alma, começaram
+os da cortezia.</p>
+
+<p>O brigadeiro Ashworth foi cumprimentar o senado<span class="pn"><a name="pag_144">{144}</a></span>
+á sala da secretaria do quartel de Santo Ovidio, convenientemente
+preparada para a solemnidade da recepção,
+recolhendo-se depois ao quartel general da
+rua nova do Almada, onde, pelo meio dia, recebeu a
+visita dos vereadores.</p>
+
+<p>Cerca da uma hora da tarde, quando o brigadeiro
+já estava desembaraçado de felicitações officiaes, annunciou-se
+no quartel general o tenente Graça Strech.</p>
+
+<p>O brigadeiro acudiu a recebel-o com a maxima familiaridade,
+que era testemunho de maxima consideração.</p>
+
+<p>&mdash;Vem tambem cumprimentar-me? galhofou o brigadeiro.&mdash;Ora
+sente-se e fale.</p>
+
+<p>&mdash;Venho solicitar um grande obsequio, respondeu
+o tenente.</p>
+
+<p>Razão tinham as meninas da rua nova do Almada
+para não reconhecer n'elle o gentil e vigoroso José
+Maria dos dezeseis annos. Estava velho aos vinte e
+um, velho das geadas do infortunio que requeimam
+as flores da alma, e apagam nos olhos o brilho da
+mocidade. Tinha a magreza viril do soldado, mas
+cruzavam-se na sua physionomia umas sombras espessas
+que á primeira vista inculcavam que espirito
+e corpo haviam soffrido por egual. Como as palreiras
+meninas da janella disseram, figurava ter mais de
+vinte e cinco annos.</p>
+
+<p>Mas, voltando ao dialogo do tenente com o brigadeiro:</p>
+
+<p>&mdash;Que grande obsequio é esse? perguntou com
+affabilidade Carlos Ashworth.</p>
+
+<p>&mdash;Venho pedir dispensa de assistir hoje ao jantar.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! meu amigo, isso não póde ser! O galardão
+é para todos; cumpre, pois, que cada um receba o
+quinhão que lhe cabe.</p>
+
+<p>&mdash;Eu creio que já em França tive a honra de lhe
+dizer, meu brigadeiro, que precisava descanço porque soffria...</p>
+
+<p>&mdash;E de me pedir a sua baixa, bem sei. D'essa vez
+não pude annuir ao pedido do meu bravo tenente,
+porque havia recebido instrucções particulares do
+senhor marechal marquez de Campo Maior para não
+licenciar soldados nem officiaes. Era justo que o
+Porto conhecesse todos os heroes d'esta brilhante
+campanha. O marechal tinha razão. Agora, meu bom
+amigo, tambem não posso ser-lhe agradavel como<span class="pn"><a name="pag_145">{145}</a></span>
+desejava. O tenente foi dos militares que mais se distinguiram
+desde Portugal a França. As ordens do dia
+falaram muita vez no seu nome. Conhecem-n'o. Seria
+uma affronta para o Porto que estivesse entre os
+seus muros, e recuzasse o talher que lhe offerece.
+Isso&mdash;disse o brigadeiro curvando-se amigavelmente
+para elle&mdash;são saudades, não quero saber de quem.
+Tambem eu as tenho... Vamos, assista ao jantar,
+que eu me empenharei por obter a sua baixa o mais
+breve possivel.</p>
+
+<p>E estendeu-lhe cordealmente a mão.</p>
+
+<p>O tenente Graça Strech saiu d'ali com os olhos no
+chão para não vêr a casa onde nascera, e atravessou
+as ruas da cidade absorto na triste concentração de
+quem está em terra onde não conhece ninguem.</p>
+
+<p>Ia entregue aos seus pensamentos, e assim andou
+ao acaso até que outro tenente do mesmo regimento
+lhe bateu no hombro e disse:</p>
+
+<p>&mdash;São quasi cinco horas e meia. Vamos lá ao jantar,
+homem. Está marcado para as seis.</p>
+
+<p>Effectivamente, á hora designada, reunida a officialidade
+no quartel de Santo Ovidio, passou com os
+vereadores á sala do banquete, cuja ornamentação
+era brilhante.</p>
+
+<p>A um e outro lado corriam arbustos, d'entre os
+quaes appareciam as armas de Portugal e Inglaterra.
+A um grupo de trophéus de guerra, com bandeiras d'uma
+e outra nação, que cobriam a cabeceira da
+mesa, fazia <i>pendant</i> um nublado em que se enleiava
+a serpente, symbolo da eternidade, tendo escripto no
+centro&mdash;<i>Ashworth.</i>&mdash;Guarneciam o nublado duas
+bandeiras com os nomes dos dois regimentos, atadas
+por uma fita em que se lia a data de maior gloria
+para a brigada do Porto&mdash;<i>13 de dezembro de 1813</i>.</p>
+
+<p>No fim do banquete, ao som da banda de musica
+de milicias que tocava á porta do quartel, levantaram-se
+enthusiasticos vivas ao principe regente, á familia
+real, aos monarchas alliados, aos governadores
+do reino, generaes do exercito combinado, ás tropas
+victoriosas, e a todas as mais entidades que iam lembrando
+e mereciam a homenagem d'um calis de vinho.</p>
+
+<p>Um só conviva correspondeu a esses ruidosos brindes
+com um movimento de labios: foi Graça Strech.
+E á noite, quando toda a cidade se illuminava festivamente,
+era profunda a escuridão na sua alma.<span class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota13" name="nota13">[13]</a></sup>
+É fiel a descripção d'estes festejos; O auctor encontrou-a
+n'um opusculo da epoca.</p>
+
+<p><sup><a href="#m_nota14" name="nota14">[14]</a></sup>
+Poema heroico de Francisco Rodrigues Lobo.</p>
+</div>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+
+
+<h2>XVII</h2>
+
+<h2>Como madrugam as aves
+e os noivos!</h2>
+
+<p>Obtida a baixa, Graça Strech poucos dias se demorou
+no Porto.</p>
+
+<p>Sentia-se asphyxiado na atmosphera em que respirára
+ao nascer. Punham-lhe medo as sombras; as
+ruas affiguravam-se-lhe tristes como avenidas de cemiterio.
+Duas vezes, alta noite, depois de dolorosissima
+lucta comsigo mesmo, estivera, encostado á parede
+fronteira á casa em que viveu os primeiros annos
+da vida, mergulhado em profunda meditação.</p>
+
+<p>A ultima vez fôra a ultima noite que passára no
+Porto. O céo era d'um azul setinoso. O branco luar de
+agosto estendia ao longo da rua a sua claridade immovel,
+e parecia desenhar nos muros contornos phantasticos.
+Reinava na cidade o silencio imperturbavel
+das noites profundas. Na janella da sala onde cinco
+annos antes, por noite tempestuosa, jaziam tres cadaveres,
+luzia um reflexo mortiço como de lamparina
+que não tardou a apagar-se. Lembrou-se Graça
+Strech de que devera ser egualmente pallido o reverbero
+da luz que lhe tremia na mão quando contemplava
+os corpos inanimados das trez senhoras. Transportou-se áquelle horrivel espectaculo. Viu tudo. A
+mãe, a irmã e a avó estavam a seus olhos como
+n'essa hora tremenda. Não obstante o seu grande empenho, de pergunta em pergunta não lográra saber
+onde repousavam. Queria ir procurar Rosina, de
+quem nada sabia tambem, mas desejava despedir-se
+da familia que ficava, antes de partir para o seio da
+familia que o esperava. Não pôde realisar o seu desejo.
+Registos parochiaes não os havia. N'aquella
+immensa hecatombe da invasão, tambem as sepulturas
+foram invadidas sem averiguar-se por quem. Tinha<span class="pn"><a name="pag_147">{147}</a></span>
+desesperado de conhecer a verdade, e, já que
+não podia despedir-se do tumulo da sua familia,
+fôra despedir-se do predio que ella habitára.
+De repente, n'uma casa proxima, perpassou uma
+luz. Fez reparo. Quem velaria ainda áquella hora?
+Deteve-se a examinar, e certificou se de que ali
+viviam, no anno de 1809, as duas visinhas que
+lhe falaram na bateria do Bomfim. Foi isto um como
+raio de tardia esperança. Recriminou-se pelo esquecimento
+de não as ter procurado logo que chegou. A
+desgraça havia-o desmemoriado. Atravessára o Porto
+como um viajante solitario atravessaria o Sahará&mdash;calado,
+pensativo, sem ver, por ter medo de olhar.
+Mas&mdash;os infelizes duvidam sempre&mdash;viveriam ainda
+ali? Tinha razão. Quem poderia dizer se ellas, na
+fuga, haveriam chegado ao seu destino, sido attingidas
+pelas balas ou cahido em poder dos francezes?</p>
+
+<p>A estas perguntas, que a si proprio fazia, só poderiam
+responder indagações. Pesava-lhe todavia
+o ter de se aproximar de pessoas cuja conversação
+iria aggravar a dôr do passado. Se elle soubesse
+onde repousavam as cinzas da sua familia, lá
+iria para falar-lhes, para contar-lhes os extraordinarios
+lances da sua vida, para dizer aos frios restos de
+sua irmã por que razão não levava comsigo o annel,
+sobre o qual jurára vingal-a.</p>
+
+<p>Augusta, de dentro do sepulchro, responderia com
+o perdão implorado.</p>
+
+<p>Mas o que elle não queria era deixar entrever a sua
+dôr de modo que lh'a avivassem piedosamente, porque a sociedade não dá o balsamo da compaixão sem
+primeiro rasgar as feridas que a inspiram.</p>
+
+<p>O desejo vehemente venceu, porém, a natural repugnancia.
+A breve trecho fez tenção de não desaproveitar
+as poucas horas que lhe restavam para colhêr esclarecimentos.
+Resolveu-se a esperar que amanhecesse
+e, como a luz parecesse brilhar com intensidade
+a través da janella, não se afastou. Mal começava a
+raiar a claridade da madrugada, apagou-se a luz, e
+cerca das cinco horas da manha viu Graça Strech
+abrir-se a porta. Sairam duas mulheres de mantilha,
+seguidas por uma criada que levava um açafate á cabeça.
+Fosse reminiscencia ou phantasia, Graça Strech
+cuidou reconhecer as duas visinhas: tia e sobrinha.
+Tomou alento e acercou-se. Uma das mulheres, a<span class="pn"><a name="pag_148">{148}</a></span>
+mais nova, voltou de repente a cabeça como se esperasse
+alguem. Havendo-se enganado, achegou-se
+da outra e soltou um&mdash;ai!&mdash;que mais denunciava
+despeito que medo.</p>
+
+<p>&mdash;Não se assuste vossa senhoria, sr.ª D. Izabel!
+apostrophou Graça Strech serenando a menina que
+se denunciava medrosa.</p>
+
+<p>Tia e sobrinha olharam fito no desconhecido, e foi
+a sobrinha quem primeiro exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Pois não se lembra, minha tia? Olhe bem para
+elle!</p>
+
+<p>&mdash;Quem é?</p>
+
+<p>&mdash;É o sr. José Maria! Eu bem dizia outro dia que
+era o tenente das barbas!</p>
+
+<p>&mdash;Póde lá ser o Josésinho!</p>
+
+<p>&mdash;Tem razão, minha senhora, replicou Graça
+Strech. Eu devo parecer-lhes uma sombra do que
+fui. Mas, sombra ou realidade, o certo é que me chamo
+José Maria da Graça Strech.</p>
+
+<p>&mdash;Ora uma coisa assim! Parece um velho!</p>
+
+<p>&mdash;E parece! acrescentou a menina.</p>
+
+<p>&mdash;Desgostos, minhas senhoras.</p>
+
+<p>&mdash;E muitos teve tão novo, sim, porque vêr...</p>
+
+<p>&mdash;Peço a vossa senhoria o obsequio de deixar em
+silencio essas tristes recordações. Uma só quero eu
+avivar, e por isso lhes causei esta surpresa.</p>
+
+<p>&mdash;Mas não nos ter procurado! exclamou a velha
+senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Não tomem á conta d'ingratidão o que é simplesmente
+embrutecimento. Bem podia ser tambem
+que tivessem mudado de casa.</p>
+
+<p>&mdash;Ora! Quem tem bocca vae a Roma! exclamou
+a menina. Já nem queria saber novidades da sua antiga
+visinha! Pois saiba que me vou casar...</p>
+
+<p>&mdash;Felicito vossa senhoria.</p>
+
+<p>&mdash;Cala-te ahi, tagarella! acudiu D. Eulalia, affastando
+com o braço a sobrinha. Ha de estar admirado
+de nos vêr sahir ambas a esta hora. Pois não se admire.
+Combinamos com as Cerqueiras e as Brochados,
+tudo visitas da sua casa, sr. Strech,&mdash;e com o
+noivo da Izabelinha&mdash;juntarmo-nos na primeira missa
+que se diz no altar do Senhor dos Passos em S. João
+Novo e irmos depois almoçar todos á Fonte das Virtudes.</p>
+
+<p>Cumpre dizer que na primeira década do seculo<span class="pn"><a name="pag_149">{149}</a></span>
+<small>XIX</small> era ainda a Fonte das Virtudes o local destinado
+ás comezainas das familias burguezas do Porto. Ahi
+se reuniam em ruidosos convivios, deposta a mantilha,
+e irmanados novos e velhos pelo mesmo apetite
+e pela mesma alegria.</p>
+
+<p>O camartello das demolições municipaes tem&mdash;<i>avis
+rara!</i>&mdash;respeitado até hoje esta legendaria fonte
+que se compõe d'um alto frontispicio, ornado de pyramides,
+e firmado em bancos de pedra, que a rodeiam.
+Rebenta abundantemente a agua por duas
+enormes carrancas em conformidade com a esculptura
+de todos os chafarizes antigos. Ladeiam a fonte
+dois grandes tanques, durante todo o dia, ainda
+hoje, frequentados por lavadeiras. N'esses bons tempos,
+ficava a fonte extra muros; sahia-se para ella
+pela porta a que a fonte deu nome. Ao lado da porta,
+na eminencia da parte oriental, havia já então os
+chamados <i>Assentos</i>, actualmente Passeio das Virtudes.</p>
+
+<p>O padre Agostinho Rebello da Costa, na sua <i>Descripção topographica e historica da cidade do Porto</i>,
+impressa em 1789, escreve ácerca d'este local: «Em
+toda a cidade, não ha sitio nem mais ameno, nem
+mais agradavel; porque além da sua bella posição
+adornada de regulares edificios, gozam os olhos d'um
+só golpe, vista de cidade, de mar, rio, navios, montes,
+campinas, quintas e palacios. O grande paredão,
+que presentemente se está fazendo, para com elle se
+formar uma praça correspondente á belleza, e magnificencia
+d'esta agradavel situação, será um monumento
+eterno do patriotico zelo que Rodrigo Antonio
+de Abreu e Lima, cavalleiro professo na ordem
+de S. Thiago, inspector da marinha do Douro, administrador
+geral dos portos seccos das trez provincias
+do Norte, e actual juiz da alfandega, mostrou em
+obrigar o senado da camara a fazer esta obra interessantissima
+á regia utilidade, e recreio publico.»</p>
+
+<p>Dito o que as historias referem ácerca da Fonte
+das Virtudes, reatemos o dialogo.</p>
+
+<p>&mdash;Divirtam-se vossas senhorias, respondeu Graça
+Strech, que eu perguntarei sem desvios o que desejo
+saber. Não me foi possivel averiguar até hoje onde
+jaz a minha desventurosa familia. Vossas senhorias
+sabem?</p>
+
+<p>&mdash;Casualmente nos disse o sachristão de S. Martinho<span class="pn"><a name="pag_150">{150}</a></span>
+de Cedofeita que tinham ali sido enterradas, se
+bem que nos não pudesse designar as sepulturas,
+pela grande confusão de cadaveres que n'esses tristes
+dias houve.</p>
+
+<p>Isto disse D. Eulalia, acrescentando:</p>
+
+<p>&mdash;No dia seguinte o quartel general mandou ordem
+a todos os parochos para que, logo que anoitecesse,
+fôssem levantar os corpos dentro da circumscripção
+das suas freguezias. Não sabemos mais nada,
+sr. Strech. Nós recolhemos ao Porto depois que os
+francezes retiraram. Estivemos em Gondomar, em
+casa d'uns parentes nossos, porque tivemos a felicidade
+de encontrar livre o caminho. O senhor bem se
+ha de lembrar de que nos protegeu na bateria do
+Bomfim. Prouvera a Deus que a sua familia tivesse
+tido a mesma sorte! Muitas vezes lhes pedimos que
+nos acompanhassem. Não quizeram. Ainda tenho
+nos ouvidos as palavras da Augustinha: «Se meu
+pae e meu irmão morrerem, deixemo-nos morrer
+tambem, porque o viver sem elles seria peior que a
+morte.» Nunca mais me esqueceram! Vel-a assim fazia
+dó, a pobre menina!</p>
+
+<p>Graça Strech estava livido. Já não tinha forças para
+ouvir mais.</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigado, minhas senhoras, disse elle. Já
+sei o bastante. Felicito-me de as haver encontrado
+e faço votos pela ventura da sr.ª D. Izabel.</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço do coração, replicou a menina. O sr.
+Strech ha de dar-me a honra de assistir ao meu casamento...</p>
+
+<p>&mdash;Da melhor vontade assistiria, minha senhora, se
+não tivesse de partir hoje mesmo para Italia.</p>
+
+<p>&mdash;Partir?!</p>
+
+<p>D. Eulalia repetiu:&mdash;Para Italia!</p>
+
+<p>E exclamou virando-se para a sobrinha:</p>
+
+<p>&mdash;O casamento anda-te com essa cabeça á roda!
+Se não sou eu lembrar-me agora por essa palavra,
+não dirias nada ao sr. Strech d'aquella carta d'Italia!</p>
+
+<p>&mdash;Uma carta, apostrophou elle, sobremodo perturbado.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade! affirmou a menina com pesar de se
+haver esquecido.</p>
+
+<p>D. Eulalia contou:</p>
+
+<p>&mdash;Ha quatro annos, foi em...</p>
+
+<p>&mdash;Junho, acrescentou Izabel.<span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;É verdade, foi em junho, proseguiu D. Eulalia;
+andou o carteiro por esta rua, para cima e para baixo,
+a perguntar pela familia Strech. Todos lhe diziam
+que essa desgraçada familia estava no cemiterio. Até
+que a final o carteiro e alguns visinhos bateram á
+nossa porta, porque sabiam das nossas relações com
+a sua familia. A carta, que trazia o timbre de Italia,
+dizia: <i>Sr. José Maria da Graça Strech, soldado portuguez</i>
+(pela orthographia conhecia-se que a pessoa
+que escrevia era estrangeira, disse em parentesis D.
+Eulalia) <i>natural do Porto;&mdash;Portugal.</i></p>
+
+<p>Graça Strech ouvia offegante.</p>
+
+<p>D. Eulalia proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Do senhor ninguem sabia nada, mas como a carta
+ficaria naturalmente perdida no correio, encarregamo-nos
+de mandal-a ao acaso para onde estivesse o exercito.
+Era o unico meio de lhe chegar á mão, caso o
+senhor estivesse vivo. Nós nada sabiamos. Perguntamos
+o que haviamos de fazer. Disseram-nos que a
+mandassemos para Almeida, que era onde Wellingtão&mdash;ella
+pronunciou assim,&mdash;tinha estabelecido o quartel
+general. Para lá a mandamos, pensando que fariamos
+bem. Visto isso o senhor não a recebeu?</p>
+
+<p>&mdash;Não recebi, minha senhora, respondeu Graça
+Strech com difficuldade. Agradeço, porém, a vossas
+senhorias o cuidado que tiveram e, para não as demorar
+por mais tempo, recebo as suas ordens...</p>
+
+<p>&mdash;Tambem&mdash;atalhou D. Eulalia, vão sendo horas
+da missa do Senhor dos Passos. Vamos lá. Se o sr.
+Strech precisar d'alguma coisa, não tem senão mandar-nos
+e dizer onde está, para que não se torne a
+perder qualquer carta.</p>
+
+<p>Despediram-se. Ellas seguiram pela rua nova do
+Almada a baixo, e elle caminhou em direcção ao
+Campo de Santo Ovidio.</p>
+
+<p>A menina ia perguntando ingenuamente á tia:</p>
+
+<p>&mdash;Não seria mau agouro encontrarmos o Strech
+na occasião em que eu ía a pensar no meu casamento?</p>
+
+<p>&mdash;O que tu quizeres! respondeu D. Eulalia. Reza
+um <i>Credo</i> ao Senhor dos Passos e deixa-te lá d'agouros.
+Deus é que sabe o que ha de acontecer.</p>
+
+<p>Graça Strech caminhava machinalmente, engolphado
+em seus pensamentos. A carta era de Rosina.
+Conjecturava elle que já devia ser mãe quando a escrevia.<span class="pn"><a name="pag_152">{152}</a></span>
+Que diria ella? Coisas tristes, de certo. Os infelizes
+vivem das desgraças que sonham e que soffrem.
+Por muitas vezes escrevera elle para Napoles. Nunca
+obtivera resposta. Aquelle horrivel silencio durava já
+havia quatro annos. Nem ella nem Pietro escreveram
+mais! O que haveria acontecido? Que ancia que elle
+tinha de chegar a Italia, e, ao mesmo passo, que receios!
+Não o esperariam lá novas dôres, maiores soffrimentos?
+Que envelhecida mocidade aquella!</p>
+
+<p>Foi andando, andando, até que chegou ao cemiterio
+de Cedofeita.</p>
+
+<p>Quando viu negrejar cruzes e louzas por entre as
+verduras dos canteiros, estremeceu de subito. O pensamento
+da morte vinha interromper os seus dolorosos
+pensamentos. A sua familia estava ali, mas onde?
+Rosina e seu filho onde estariam tambem, lá tão longe?
+O cemiterio era solitario áquella hora, se não falarmos
+das aves que faziam alegre matinada nas arvores.</p>
+
+<p>Só os noivos e as aves saudam jubilosos a manhã.</p>
+
+<p>Por isso madrugára a menina da rua nova do Almada
+em competencia com os passarinhos do cemiterio
+de Cedofeita.</p>
+
+<p>Graça Strech atravessou por entre as campas, confiado
+em que o coração adivinharia o sitio em que
+repousava a sua familia. Andou, percorreu as ruas todas,
+e parou á beira d'uns comoros que não tinham
+cruz nem lapide. Devia ser ali. As campas dos que
+não deixam ninguem no mundo conservam-se abandonadas.
+Quando muito, porque os despojos mortaes
+são da natureza, veste-as a natureza de relva e flôres
+silvestres. Sobre um dos comoros floresciam hervagens,
+que pendiam á terra umas singelas boninas
+brancas. Seria a homenagem da natureza á innocencia
+de sua irmã? Não sabia. O silencio da morte guarda
+todos os segredos. Ajoelhou. As avesinhas das arvores
+funebres continuavam a cantar, a cantar!...</p>
+
+<p>Áquella hora, n'aquelle sitio, cria-se em Deus.</p>
+
+<p>A eloquencia das campas!</p>
+
+<p>Como tudo aquillo fala suavemente d'além-tumulo!</p>
+
+<p>No ruido das festas a ideia da morte é sempre um
+pungente contraste. Mas não sei que amena tristeza
+dulcifica a certeza do repouso eterno, nos cemiterios,
+mórmente se é manhã, e as aves chilriam, e estremecem<span class="pn"><a name="pag_153">{153}</a></span>
+nas hervagens as gotas d'orvalho, e um raio de
+sol nascente doira uma cruz!</p>
+
+<p>Graça Strech sentiu-se subitamente soccorrido por
+essa triste suavidade que a vista dos tumulos infiltra
+aos desgraçados.</p>
+
+<p>Longo tempo esteve ali, ajoelhado, conversando
+com os trez comoros os seus segredos de cinco annos.
+No que estava florescido, curvou-se como se quizesse
+falar para dentro. Conjecturava que seria o d'Augusta.
+N'essa hypothese lhe contou as suas desventuras,
+os seus amores, os sacrificios de Rosina, o destino
+que dera ao annel, a afflictiva incerteza em que
+estava, a ancia que tinha de beijar seu filho, de encontrar Rosina... Juntou lagrimas de saudade a palavras
+de perdão, queixumes de animo attribulado a
+hymnos de confiança em Deus...</p>
+
+<p>Não lhe havia dado tempo a sua trabalhada e desventurosa
+mocidade para erguer o espirito acima das
+coisas terrenas das preoccupações humanas.</p>
+
+<p>Pela primeira vez subiu até onde os fulgores da divindade
+enchugam as lagrimas da oração. Muito acima
+do mundo deve ser, porque já se não ouve então
+o tumultuar da humanidade, e porque já ahi chovem
+os balsamos da resignação sobre a alma angustiada.</p>
+
+<p>Ninguem diria que estava ali o soldado, o leão dos
+combates. Nada ali falava de vingança, nem mesmo
+a supposta sepultura d'Augusta. Nada se sabia do
+mundo, d'aquella porta de ferro a dentro. Todavia
+alguma coisa julgou ouvir a alma de Graça Strech.
+Eram palavras intradusiveis que as hervagens ciciavam,
+brandamente agitadas pela viração matutina.
+Sem comprehender as palavras, entrou-lhe ao espirito
+o pensamento d'ellas. Era a divina esperança do
+<i>post tenebras spero lucem</i>, de Job, e ao mesmo tempo
+o <i>Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini</i>,
+do salterio.</p>
+
+<p>Graça Strech interpretou assim esses fugitivos murmurios
+que soavam sobre a campa da sua irmã.
+Trouxe do cemiterio a certeza de que depois das
+trevas da vida veria luzir o sol da felicidade perpetua,
+e de que não morreria sem ter tempo de narrar as
+obras do Senhor.</p>
+
+<p>Isto equivalia á resignada esperança de não succumbir
+á sua desgraça sem saber o destino de Rosina
+e seu filho.<span class="pn"><a name="pag_154">{154}</a></span></p>
+
+<p>Adquirira ali a certeza de que a alma d'Augusta
+abençoara do ceu a criança cuja mãe possuia o seu
+annel. Levantou-se. Arrancou as parietarias que marinhavam
+pelo muro proximo, e esparziu-as sobre os
+trez comoros.</p>
+
+<p>&mdash;Se ahi estaes, minhas doces amigas&mdash;pensou
+elle&mdash;recebei o primeiro e unico testemunho de saudade
+que ainda vos manda o mundo esquecido de
+vós. Pedi por mim, e pela familia que me resta na
+terra, se Deus m'a tiver conservado. São tambem
+vossos pelo coração. Adeus, abençoadas sejaes no céu
+pelo conforto que me destes.</p>
+
+<p>E saíu do cemiterio, caminho do rio Douro, onde
+estava fundeado o navio que n'essa tarde devia partir
+para um porto d'Italia.</p>
+
+<p>A essa hora, na Fonte das Virtudes, havia expansiva
+alegria. Um velho da familia Cerqueira dizia a
+um menino da familia Brochado:</p>
+
+<p>&mdash;Vá, seu estudante, traduza-me lá a inscripção
+da fonte: <i>Fons scalet, illustri virtutum</i>, etc. <i>Rompe
+aqui esta fonte...</i> Vá, diga...</p>
+
+<p>&mdash;Pudera romper acolá, estando aqui o chafariz!
+observou grosseira e acertadamente o menino.</p>
+
+<p>D. Izabel offerecia ao seu noivo um copinho da
+agua da fonte, panacea para muitas molestias, entre
+as quaes as inflammações dos olhos.</p>
+
+<p>Tinha bons sentimentos: não queria marido cego.<span class="pn"><a name="pag_155">{155}</a></span></p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+
+<h2>XVIII</h2>
+
+<h2>A Lenda d'Ashaverus</h2>
+
+<p>Comprehende-se com que anciosa impaciencia viajaria
+Graça Strech. A Italia era para elle o unico raio
+de sol que lhe doirava o horisonte fechado em torno
+do navio. Ia ver Rosina e seu filho; agradecer a Pietro
+a protecção que provavelmente a uma e outro tinha
+dispensado, porque Rosina devia ser mãe havia
+quatro annos. A carta perdida era decerto a boa nova
+da maternidade... Mas, logo o animo, vesado a tristes
+phantasias, descontava esta esperança com vagos
+receios. Todavia a visita ao cemiterio de Cedofeita
+insinuava-lhe na alma o doce calor da fé. Queria chegar
+a Italia, desenganar-se. Levava ao berço do filho
+a tranquillidade aprendida á beira do tumulo da irmã.
+A Italia! a Italia! a terra promettida do Moyses errante!
+Quando appareceu em frente do navio uma nuvem
+pardacenta, e a voz de <i>Terra</i>! alvoroçou a tripulação,
+o coração de Graça Strech doidejou desde
+a alegria expansiva da criança até á timidez receiosa
+da mulher.</p>
+
+<p>A Italia! O formoso sol da Italia a enxugar as lagrimas
+de tão longa ausencia! A alma de Rosina Regnau a animar no desconforto, a premiar na alegria!
+A alma e a voz! A liberdade do coração e da palavra!
+Um lar modesto, muito modesto, pobre até, o filho
+a esvoaçar d'um lado para outro, a chilriar, os cabellos
+loiros a brincarem-lhe em derredor da cabeça;
+Rosina a viver arroubada entre os sorrisos do pae e
+do filho; n'uma palavra, a felicidade que não escurece
+quando chega a noite; á porta, de cabellos alvejantes,
+tranquillo, sentado ao sol, Pietro, o <i>canta-storie</i>, a concertar
+as cordas da sua harpa, e a entoar, com a sua
+voz já cançada, mas ainda sonora, a <i>Capuana</i>; fóra,
+o céu d'Italia, o azul suavissimo, o sorriso da natureza,
+a eterna primavera meridional!<span class="pn"><a name="pag_156">{156}</a></span></p>
+
+<p>De repente mudava-se o quadro.</p>
+
+<p>Via uma cruz tosca, n'um cemiterio de Pescadores
+pendurado ao mar. Rosina, demudada e lutuosa, chorando
+ao pé da cruz. Pietro, chorando ao pé de Rosina,
+com a harpa silenciosa poisada diante de si. E
+seu filho morto, sem o haver conhecido, sem o ter
+beijado sequer!</p>
+
+<p>Outras vezes sonhava com a lividez da fome nas
+faces de Rosina, da criança, e de Pietro!</p>
+
+<p>A vivandeira havia levado recursos. Era a sua ração
+de dois annos, a migalha do canario. Havia no 18
+d'infantaria um quartel-mestre usurario. Graça Strech
+fizera com elle uma transacção. O quartel-mestre ficava
+recebendo durante dois annos o <i>prét</i> por inteiro,
+e adiantára-lhe o <i>prét</i> d'um anno. Essa quantia,
+administrada com economia, devia durar os dois
+annos. Se a campanha acabasse antes d'esse praso, o
+soldado devia indemnisar o quartel-mestre, que tinha
+na sua mão um documento. Mas haviam-se passado
+os dois annos, e outros dois. Graça Strech escrevera
+muitas vezes para Napoles, como já dissémos, para
+obter certeza do paradeiro de Rosina, e poder mandar
+mais dinheiro. De nenhum vez obtivera resposta.
+Haveria acontecido alguma desgraça? Mas tambem
+quem conhecia em Napoles Rosina Regnau? Bem
+se podiam lembrar de ir saber ao correio. Pietro andava
+por fóra com a sua harpa; Rosina estava cuidando
+do filho: não se lembravam. As mealhas que
+Pietro recolhia, e generosamente repartia provavelmente,
+abastavam a alimentação dos trez.</p>
+
+<p>Em Coimbra, disséra Rosina a Graça Strech, quando
+elle lhe pedia que não soffresse privações sem o
+avisar:</p>
+
+<p>&mdash;Se se acabar o dinheiro, eu, que posso ter voz
+em Italia, irei cantando de rua em rua. Não receies
+por mim. Atravessei pura o exercito francez; mãe,
+atravessarei destemida o povo italiano. A honra da
+vivandeira é um baluarte invencivel; não deixa profanar
+a bandeira da sua lealdade.</p>
+
+<p>E logo, antevendo a triste solidão da ausencia,
+rompeu em afflictivo chôro. Este era o natural de
+Rosina: ora vivandeira, ora mulher. Logo em principio
+o dissémos.</p>
+
+<p>Apesar da cega confiança que Graça Strech devia
+ao amor de Rosina, não era a sua alma, quanto mais<span class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span>
+se avisinhava da Italia, estranha ao ciume. No paiz
+dos amores, o ciume, <i>la gelosia</i>, respira-se com o ar.
+Ciumes de que lhe ouvissem a dulcissima voz, se tivesse
+sido obrigada a acompanhar com o canto os
+harpejos de Pietro; ciumes de que a applaudissem,
+de que a vissem, de que a conhecessem. E, pensava
+elle, quem ficaria olhando pela criança emquanto a
+mãe andasse por fóra? Alguma mulher estranha, que
+não a acariciaria se chorasse, que não a agasalharia
+quando tivesse frio, que lhe não responderia meigamente
+quando perguntasse pela mãe...</p>
+
+<p>Chegado que fôsse a Italia, procuraria, noite e dia,
+sem descanço, sem tregua, e encontral-os-ia, e diria
+a Rosina: «Fica tu ao pé de nosso filho, que eu vou
+trabalhar», e a Pietro: «Continua a ser o guarda dos
+dois, que eu velarei pela tua velhice.»</p>
+
+<p>E alternava risos com lagrimas, e agora falava e
+logo emmudecia, com as mãos firmadas no bordo da
+amurada e os olhos cravados na nuvem do horisonte,
+que se ia aclarando cada vez mais, conhecendo-se
+já, sobre o azul do céo, os contornos irregulares da
+cidade.</p>
+
+<p>O capitão esteve-o medindo com o olhar ao lado
+d'um passageiro que durante a viagem tinha conversado
+algumas vezes com Strech.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca vi tamanha commoção! disse o capitão
+ao passageiro. Receio d'esta alegria em homem costumado
+aos alvoroços de guerra.</p>
+
+<p>&mdash;Elle vinha ancioso de chegar a Italia, retrucou
+o passageiro. O mais que me disse foi que, tendo
+feito a campanha, vinha, doente e cançado, procurar
+a Italia uma irmã, de quem, pela invasão de Portugal!
+fôra obrigado a separar-se.</p>
+
+<p>&mdash;Muito a deve estimar então! ponderou o maritimo.</p>
+
+<p>E, aproximando-se de Graça Strech, disse-lhe affavelmente:</p>
+
+<p>&mdash;O sr. Strech morria-se por vêr Italia. Ahi a tem
+agora.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, respondeu exaltado Graça Strech.
+É verdade... A ancia de chegar... a incerteza...
+tudo isto... Eu não estava costumado a estas sensações...
+Por que emfim tudo hoje depende para mim
+de Italia... Ó senhor capitão, quanto tempo gastaremos
+ainda?...<span class="pn"><a name="pag_158">{158}</a></span></p>
+
+<p>O capitão, sem responder, achegou-se do outro
+passageiro e segredou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Eu não lhe dizia? Nunca vi tamanha commocção!
+Queira Deus que não vá louco...</p>
+
+<p>Ah! o capitão entendia do mar; do coração, não.
+Chamava loucura áquillo! A desvairada oscillação da
+alma que pende entre um longo passado de trevas e
+a unica esperança que lhe entreluz no céo do porvir!
+É louco o naufrago que, baldeado entre os vagalhões
+do oceano infrene, se abraça com a prancha
+que lhe é dado alcançar, e que ou morrerá cuspido
+contra os fraguedos ou fluctuará por mercê da
+Providencia até que surja a véla branca, que é a bandeira
+da paz nas luctas com o mar? É louco o caminheiro que se transviou ao anoitecer e sorri de
+alegria á estrella da manhã, ainda que tenha de retrocecer
+para continuar jornada? É louco o doente
+que se felicita de haver acordado d'um pesadello
+horrivel, esquecendo-se de que, d'ahi a horas talvez,
+sobrevirá o sombrio pesadello de que não se acorda
+mais&mdash;a morte?</p>
+
+<p>O coração tem as tempestades e as calmarias do
+mar, é certo, os murmurios e os segredos das aguas,
+mas o fundo do coração não está ainda tão estudado
+como o fundo do oceano. A sondagem mente muitas
+vezes. Quem já logrou medir a profundeza de certas
+dôres?</p>
+
+<p>Tinha soado a hora do desengano ou da felicidade.</p>
+
+<p>Graça Strech estava finalmente em Italia.</p>
+
+<p>Começou desde logo a procurar, a procurar. Correu
+todo o reino de Napoles&mdash;Napoleão puzera reis
+em toda a parte&mdash;a pedir informações d'um velho tocador
+de harpa, que se chamava Pietro, d'uma rapariga
+franceza chamada Rosina Regnau e d'uma creança,
+que devia ter quatro annos, e era filha da rapariga
+franceza. Ninguem respondia. Quem em Napoles,
+o paiz da musica, havia d'estremar um <i>sonatóre
+di arpa</i>? Acudia afflictivamente Graça Strech a fazer
+o retrato do velho Pietro para auxiliar a memoria dos
+interrogados. Harpistas velhos havia tantos, uns que
+viviam em Napoles, outros que passavam por lá, que
+por fim de contas a população lembrava-se de todos
+e não se lembrava de nenhum. A declaração de chamar-se
+Pietro nada aproveitava. Ninguem se importa
+com o nome dos menestreis das ruas, mórmente<span class="pn"><a name="pag_159">{159}</a></span>
+quando todos os musicos ambulantes parece chamarem-se
+Pietros. Rapariga franceza ninguem dizia tel-a
+visto, e depois acrescentavam que talvez lá houvesse
+estado, sem fazerem reparo n'ella, porque os francezes
+sempre foram tão vulgares em Italia como os italianos
+em França, por isso que a natureza pôz entre
+as duas nações a ponte granitica dos Alpes.</p>
+
+<p>Graça Strech percorreu vertiginosamente todas as
+estalagens, todos os albergues, recolheu informações
+particulares e officiaes, e não soube nada.</p>
+
+<p>Disseram-lhe que talvez o harpista houvesse passado,
+como é costume d'elles, a outras cidades d'Italia,
+por isso que a concorrencia os afugenta de Napoles.</p>
+
+<p>Acceitou o alvitre. Visitou em seguida o reino da
+Etruria, procurou sem descançar, como um cão que
+perdeu o faro de seu dono. Uma tarde, em Piombino
+um albergueiro pareceu recordar-se d'um harpista
+velho que ali pernoitára havia um anno com uma
+criança que lhe chamava avô. Vira só o velho e a
+criança. De mulher franceza que os acompanhasse,
+não tinha reminiscencia. Fizera reparo nos dois, pelo
+contraste. O velho passára a noite á lareira com a
+criança adormecida nos braços, afagando-lhe os cabellos
+loiros, cobertos pelos seus cabellos brancos,
+sem dizer uma palavra. Comeu pouco e bebera menos.
+Pela manhã saíra com a harpa e a criança. Aqui
+está o que o albergueiro de Piombino dissera, acrescentando unicamente: Quando elle sahia, perguntei-lhe
+que rumo levava, porque realmente o harpista me
+fez pena.</p>
+
+<p>O velho respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Vamos correr esse reino d'Italia, á mercê de
+Deus. Bem vê que é preciso trabalhar: somos duas
+boccas, e só temos dois braços&mdash;são os meus que já
+pouco podem.</p>
+
+<p>A historia do velho e da criança fez profunda impressão
+no animo attribulado de Graça Strech. Perdeu-se
+em conjecturas. Seria Pietro? Haveria morrido
+Rosina? O estalajadeiro não soube dizer-lhe o nome
+do harpista. Sobretudo, a ideia da morte de Rosina
+enlouqueceu-o de dôr. Seria possivel que ella morresse
+sem o ver, sem o ouvir, sem lhe fallar, ella, que
+tinha tanta coragem, que devia resistir energicamente
+á morte, porque a morte era a separação eterna?<span class="pn"><a name="pag_160">{160}</a></span>
+Aquella criança seria realmente seu filho, e viveria
+no mundo sem pae nem mãe, apenas confiado á protecção
+do pobre harpista napolitano, cuja velhice e
+trabalhos em breve o prostrariam, se era que ainda
+vivia a essa hora? E se elle já tivesse morrido, que
+seria da criança na infantil inconsciencia dos seus
+quatro annos, que tantos devia ter a ser seu filho?
+Morreria enregelada no caminho, morreria de fome
+entre duas arvores, no meio da serra, ou então haver-lhe-ia
+estalado o pequeno coração depois de haver
+estado a gritar para que acudissem ao avô,
+que caíra ao chão e ficára esmagado pela harpa,
+sem falar mais, sem responder ao seu afflictivo chamar.</p>
+
+<p>O albergueiro começou a notar extraordinaria agitação
+na physionomia do hospede. Viu encovarem-se-lhes
+os olhos, e estremecerem-lhe os musculos das
+faces cadavericas pela magreza e pela lividez. Em
+breve as contracções nervosas se estenderam a todo
+o corpo. O caminheiro começou a tremer, a tremer.
+Trouxeram roupa, cobriram-n'o. Pediram-lhe que se
+deitasse; recusou. Esteve assim longo tempo, tremendo,
+frio como o gelo. Depois, como o peso da
+roupa fosse muito, começou a córar e a suar. Dizia
+palavras que ninguem entendia. Aprumou-se de subito,
+sacudiu a roupa. Foi direito á sua maleta, desafivelou-a
+e tirou de dentro... a guitarra. Começou
+a tangel-a febrilmente. A gente da pousada entreolhava-se
+com pasmo. E cada vez as notas se precipitavam
+com maior rapidez, até que, inesperadamente,
+a musica foi afrouxando, parecendo unicamente
+suspirar. Viram chorar o desconhecido, circumvagar
+um olhar alheiado, e arrancar da sua guitarra apenas
+gemidos e suspiros dolorosos.</p>
+
+<p>Tornaram a dizer-lhe que era melhor descançar.
+Recusou com pertinacia.</p>
+
+<p>&mdash;Peço que me deixem ficar aqui, disse elle pausadamente para que o comprehendessem.</p>
+
+<p>Não queriam consentir; elle insistiu.</p>
+
+<p>Ouviram ainda por algum tempo suspirar a guitarra,
+que depois se calou. Foram espreital-o: viram-n'o
+com a cabeça poisada sobre ella. Estava assim, mas
+não dormia; d'instante a instante viam-n'o estremecer.
+Ao romper da manhã saíu. Mal se podia aguentar
+a pé. Pediram-lhe que ficasse para se restabelecer;<span class="pn"><a name="pag_161">{161}</a><br><a name="pag_162">{162}</a><br><a name="pag_163">{163}</a></span>
+agradeceu e partiu. Continuou, posto que debilitado,
+a sua peregrinação indefessa.</p>
+
+<div class="ilustracao">
+<p><img src="images/pag_161.png" border="0" alt="Ilustração"></p>
+<p>O povo, que tinha seguido todo este episodio... (<i>pag. 173</i>)</p>
+</div>
+
+<p>&mdash;Eu já não viveria, dizia elle ás vezes, se não tivesse
+ido ao cemiterio de Cedofeita buscar esta sombra
+de fé que me ampara ainda!</p>
+
+<p>E lá ia, descançando uma hora, caminhando duas.</p>
+
+<p>Esteve em Turim. Perguntou, investigou, não soube
+nada. Como para crear alento, que lhe permittisse
+seguir jornada, sentava-se nas praças publicas a tocar
+na sua guitarra. O povo fazia-lhe circulo. Elle não levantava
+os olhos emquanto estava tocando, excepto
+se ouvia falar alguma criança. Algumas vezes lhe chamavam
+louco, porque lhe lançavam dinheiro ao regaço,
+e elle não agradecia. Era o idiotismo da desgraça.
+Estava pobre, gastára quanto levára comsigo nos
+primeiros tempos da peregrinação. Se não fosse a
+guitarra, morreria de fome. Pouco lhe importava a
+vida sem Rosina e seu filho. Se não se matava, era
+porque tinha ainda um resto de fé que o amparava.</p>
+
+<p>Foi a Milão. A mesma canceira: perguntar, sempre
+perguntar. Inquiria todos os harpistas: nenhum lhe
+soube dar noticias do velho Pietro.</p>
+
+<p>&mdash;Em Italia não estão! dizia elle. Tenho a certeza,
+não ha recanto que eu não tenha batido.</p>
+
+<p>Atravessou a Suissa sem melhor resultado.</p>
+
+<p>Uma noite sonhou com as Ardennas: era a patria
+de Rosina. Lembrou-se de que viveriam lá na supposição
+de que elle, se fosse vivo, logo atinaria, por impulso
+do coração, com o esconderijo que haviam procurado.
+Passou a França: foi direito ás Ardennas.
+Quasi se sentiu morrer diante d'aquelle paiz de florestas.
+Ali havia nascido Rosina. Como ella o devia
+amar para se esquecer do seu formoso ninho! Consultou
+todas as arvores, bateu a todas as portas. De Rosina
+Regnau ninguem se lembrava; Pietro, o velho <i>sonatóre</i>,
+ninguem o vira. Graça Strech esteve ali muito
+tempo: havia já tanto que saíra de Portugal! Teve
+tentaçoes de se deixar morrer nas Ardennas. Queria
+respirar ao morrer o ar que Rosina respirára ao
+nascer. Chegou a pedir a Deus que lhe désse por tumulo
+o berço d'ella. Mas, emquanto orava parecia fortalecer-se
+a sua fé.</p>
+
+<p>Resignou-se a partir. Recomeçou a caminhar. Ia
+no fim o anno de 1816. Disseram-lhe no caminho que
+no inverno se reuniam em Pariz todos os musicos<span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span>
+ambulantes. Para lá foi com a sua guitarra. Effectivamente
+o enxame dos <i>virtuosi</i> enchia os cafés, as
+praças e as ruas. Á porta dos theatros havia todas
+as noites uma nuvem d'elles.</p>
+
+<p>A este tempo reinava em França Luiz XVIII. Napoleão,
+não podendo resistir á colligação das potencias
+alliadas, abdicou o imperio em Fontainebleau,
+retirando á ilha d'Elba.</p>
+
+<p>O congresso de Vienna havia regulado os negocios
+da Europa; sem embargo, Napoleão sonhava ainda
+com voltar a França. Em março de 1815 desembarcou
+em Cannes e entrou em Pariz. Pôde ainda vencer
+em Charleroy e Fleurus, mas a hora solemne de
+Waterloo bateu no relogio que marca a existencia
+de vencedores e vencidos, e Themistocles teve de
+pedir hospitalidade a Artaxerxes.</p>
+
+<p>Graça Strech ia caminhando e ouvindo as vozes
+do povo. Quando soube do resultado de Waterloo,
+disse de si para si:</p>
+
+<p>&mdash;A Providencia é justa. A minha familia não
+precisava da minha vingança, porque a Providencia
+se encarregou de punir o assassinio de todas as mulheres,
+de todos os velhos e de todas as crianças. Ora
+a justiça da Providencia não deixará de me aclarar
+o mysterio que eu procuro desvendar ha tanto tempo.
+Deus sabe se tenho forças para mais!</p>
+
+<p>Pouco antes de chegar a Pariz viu passar uma carruagem
+seguida por uma ordenança.</p>
+
+<p>Perguntou quem era. Responderam-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;É o duque de Richelieu, ministro de Luiz XVIII.</p>
+
+<p>Elle contestou serenamente:</p>
+
+<p>&mdash;Se fosse no tempo de Napoleão, ia um esquadrão
+de cavallaria atraz da carruagem. Napoleão
+mandava exercitos atraz de toda a gente.</p>
+
+<p>Dizia isto como um homem que se entre-lembra
+vagamente das coisas do mundo. Passou a carruagem
+do duque de Richelieu, e elle logo se esqueceu da
+França para se recordar da missão em que ia consumindo
+baldadamente a vida.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos com Deus, e com a pobre guitarra! E
+seguiu para Pariz.<span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span></p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+<h2>XIX</h2>
+
+<h2>A terra da promissão</h2>
+
+<p>Graça Strech chegou a Pariz no inverno de 1816.</p>
+
+<p>Estavam n'essa occasião agglomeradas na capital
+da França as andorinhas errantes da musica das
+ruas, que todos os annos saem do vasto ninho da
+Italia, a percorrer a Europa inteira. De todos os <i>virtuosi</i>
+que n'essa occasião poisavam em Pariz, apenas
+cinco ou seis seriam francezes, e um só era portuguez,
+Graça Strech.</p>
+
+<p>A guitarra, melancolicamente tangida por elle,
+cuja dolorosa physionomia não era menos melancolica
+do que a sua guitarra, despertava geral attenção.
+Acrescia a circumstancia de que esse instrumento
+não era dos mais conhecidos na orchestra dos musicos
+ambulantes. Tudo isso concorreu para o éxito.
+Graça Strech tinha sombrios alheamentos emquanto
+estava tocando. Caíam-lhe em desalinho os cabellos
+a esconder a fronte pallida e cadaverica. Era uma
+bella cabeça d'artista em que muitos pintores fizeram
+reparo. Um estudante d'esculptura chegou a
+convidal-o para modelar-lhe o busto.</p>
+
+<p>Graça Strech respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço a sua amabilidade, senhor. Mas eu
+sinto-me de tal modo cançado, que não póde ser
+longa a minha vida. O senhor é muito moço ainda;
+póde esperar. Se eu morrer em Pariz, aproveite a
+minha mascara.</p>
+
+<p>A imprevista sobranceria d'esta resposta causou
+sensação. Passou de bocca em bocca, e os homens
+d'espirito começaram a olhar com certo interesse
+respeitoso para o guitarrista estrangeiro. Uma noite,
+no café <i>Evezard</i>, á esquina do Palais National, estavam
+sobremodo animadas as mesas quando Graça
+Strech entrou. Encostou-se á ombreira da porta e
+começou tangendo a guitarra. Como não pedia esmola,<span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a></span>
+interrompia-se a miudo para receber os óbolos
+que lhe davam os <i>habitués</i> que entravam e saíam.</p>
+
+<p>Na primeira mesa á entrada estavam oito francezes,
+todos rapazes mais ou menos artistas, que se
+calaram a ouvir attentamente o guitarrista, tanto
+mais que já o conheciam de nome. Como fixassem
+a vista em Graça Strech, e falassem visivelmente a
+seu respeito, procurou elle ouvir, dando-se o maximo
+disfarce, tudo quanto diziam.</p>
+
+<p>&mdash;É assombroso! exclamava um, cuja pallidez denunciava
+uma cabeça febrilmente enthusiasta.</p>
+
+<p>&mdash;Depois da pequena da harpa que esteve o anno
+passado em Pariz com o velho das barbas brancas,
+ainda não vi maior prodigio! acrescentou um cuja
+physionomia denunciava um caracter franco e compassivo.</p>
+
+<p>&mdash;Que pequena era essa? perguntou no grupo um
+<i>commis-voyageur</i>.</p>
+
+<p>&mdash;Era uma pequenita que parecia um passarinho
+encostado a uma harpa. Acompanhava-a um velho
+de cabellos brancos, a quem chamava avô, e que lhe
+transportava a harpa. Impressionava o contraste. Seria
+difficil dizer qual d'elles poderia melhor com a
+harpa, se o avô ou a neta. Elle tinha tanto de velho
+como ella de pequenina. E depois que tristeza dava
+o vêl-a vestidinha de preto! Perguntava-se-lhe por
+quem andava de luto:&mdash;Por meu pae e por minha
+mãe&mdash;respondia ella com certa vivacidade triste, que
+enternecia a lagrimas. Tu copiaste o grupo, pois não
+copiaste, ó Maubert?</p>
+
+<p>&mdash;Copiei, respondeu o pallido rapaz que primeiro
+falava, e que parecia absorto na contemplação do
+guitarrista.</p>
+
+<p>&mdash;Sabes então mais alguma coisa a respeito da pequena
+e do velho?</p>
+
+<p>&mdash;Pouco mais sei. O avô parecia empenhado em
+não contar nada. Nem o encanto do mysterio lhes
+faltava, a elles, áquelle soberbo inverno coberto de
+neves e áquella infantil primavera que parecia vegetar
+no gelo do avô! Quando lhes perguntei os nomes
+para intitular os bustos, respondeu-me o velho:&mdash;Queira
+pôr&mdash;<i>Pietro, sonatóre di arpa; Augusta, sonatrice,
+lá piccola, nipotina mia.</i>&mdash;Fiquei triste com
+a mysteriosa singelesa da resposta. Previ um romance.
+Que querem? A doida da minha phantasia! Apertei<span class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span>
+com o velho, fiz-lhe promessas para que me contasse
+a sua. Não consegui nada. Lá partiram ambos
+para Inglaterra.</p>
+
+<p>&mdash;Olha para o guitarrista! exclamou o de mais
+compassiva physionomia.</p>
+
+<p>Olharam todos. Graça Strech estava sendo inconscientemente
+o alvo de todas as attenções. Havia-lhe
+descaido o braço; subitamente a guitarra emmudecera;
+os cabellos do guitarrista, longos e annelados,
+acompanhavam, pendidos a um lado, a inclinação da
+fronte, e os olhos brilhavam através dos cabellos
+com anciosa vivacidade. Era inutil dissimular: Graça
+Strech estava ouvindo o que diziam na mesa proxima.</p>
+
+<p>&mdash;Escuta o que nós dizemos! ponderou o que estivera
+contando a historia do velho e da criança.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade!</p>
+
+<p>&mdash;Não se póde duvidar!</p>
+
+<p>&mdash;Lá começa a dedilhar de novo... Deu tino de
+que fisemos reparo. Toca <i>pianissimo</i> para ouvir o
+mais que dissermos.</p>
+
+<p>&mdash;É certo! <i>Che dolcemente!</i></p>
+
+<p>&mdash;Que terá elle comnosco?</p>
+
+<p>&mdash;Talvez não seja comnosco; talvez seja com o
+velho e a creança, apostrophou o <i>habitué</i>-artista.</p>
+
+<p>&mdash;Ora, essa cabeça! Tu encontras romances em
+toda a parte.</p>
+
+<p>&mdash;Espera! tornou observando o esculptor. Ia jurar
+que os olhos d'este homem são os da pequenita!
+Que semelhança!</p>
+
+<p>&mdash;Oh! oh! continua o romance! Esse molde de
+novellas é velho, Maubert! D'esta vez o pae, que era
+julgado morto, não volta da Terra Santa. Corre atraz
+da filha, que ao partir para o combate entregára ao
+avô. Tem-n'a procurado e não sabe onde pára. És
+tu, Maubert, que vaes desfazer o mysterio. A Providencia
+encarregou-te de dizeres: <i>Pára!</i> ao Ashaverus
+do nosso seculo! Oh! oh!</p>
+
+<p>E os outros gargalharam em côro:</p>
+
+<p>&mdash;Oh! oh!</p>
+
+<p>&mdash;És tu que vaes mostrar ao Moyses da guitarra a
+Terra da Promissão! disse um.</p>
+
+<p>&mdash;Que elle nos está ouvindo é certo, porque todos
+repararam! exclamou o de mais dôce semblante. E
+talvez seja algum desgraçado. Este mundo dos <i>virtuosi</i><span class="pn"><a name="pag_168">{168}</a></span>
+das ruas tem tantos mysterios! Atravessam Paris
+no inverno e a gente ouve-lhes a musica sem lhes
+vêr a alma. Alguns d'elles parecem conversar com a
+harpa e com o violino: é porque teem que lhes dizer.
+Decerto que não são alegrias. Póde ser alegre
+quem atravessa os Alpes a pé, e dorme para ahi em
+qualquer canto, e vae correr a Europa inteira unicamente
+fiado na agilidade dos seus dedos e na obediencia
+das cordas? Creio que não. Parecem despreoccupados,
+parecem, porque emfim elles teem
+das aves alguma coisa: as azas pelo menos. Rouba o
+filho a um passarinho, que elle, com o coração despedaçado,
+tambem esvoaça em redor do ninho vasio.
+Pensam vocês que nem ao menos lhes ha de
+doêr a ausencia? <i>La rimembránza</i>, meus amigos, <i>la
+rimembránza</i> chora muita vez nas harpas d'elles. Oh!
+eu creio-o! E nós, apesar de nos deliciarem os ouvidos,
+olhamol-os indifferentemente. No inverno dizemos:
+<i>Cá estão!</i> Quando chega a primavera exclamamos:
+<i>Lá fôram!</i></p>
+
+<p>&mdash;Tu pendes mais para o sentimentalismo, Guillibaud.
+Maubert prefere a phantasia e o maravilhoso.</p>
+
+<p>&mdash;Olha! lá está ouvindo o guitarrista outra vez!</p>
+
+<p>&mdash;É notavel! Que curiosidade!</p>
+
+<p>De repente interromperam-se os commentarios.
+Graça Strech aproximou-se de Maubert pedindo-lhe
+o obsequio de lhe dispensar dois minutos d'attenção
+em particular. Havia no seu olhar, nos gestos, na
+voz, tão claros indicios de grande agitação, que Maubert immediatamente se levantou. Os outros, enquanto
+os dois sahiam a porta do botequim, ficáram
+dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Este Maubert é um bibliotheca viva d'aventuras.</p>
+
+<p>&mdash;Deixa lá, observára condoídamente Guillibaud.
+A julgar pelo aspecto do guitarrista, o caso afigura-se-me grave d'esta vez. Talvez seja um romance
+triste...</p>
+
+<p>&mdash;Se tu não havias de vir com o teu sentimentalismo!</p>
+
+<p>&mdash;És melancholico como uma lagrima!</p>
+
+<p>&mdash;Que não seja de vinho...</p>
+
+<p>&mdash;Tens razão: as lagrimas de vinho alegram.</p>
+
+<p>&mdash;São ellas de certo que vos dão essa continada
+alegria! disse com enfado Guillibaud.<span class="pn"><a name="pag_169">{169}</a></span></p>
+
+<p>O leitor está porém impaciente de seguir Graça
+Strech e Maubert. Vamos-lhes pois na piugada.</p>
+
+<p>Mal sahiram a porta, o guitarrista dirigiu-se immediatamente
+ao esculptor em correcto francez:</p>
+
+<p>&mdash;Peço-lhe vivamente perdão, senhor, de o haver
+privado da companhia dos seus amigos, mas o que o
+senhor estava dizendo era tão extraordinario para
+mim...</p>
+
+<p>&mdash;Ouvia-nos então? perguntou Maubert.</p>
+
+<p>&mdash;Ouvi tudo, e incommodei-o unicamente para
+lhe pedir, não que me mostre a Terra da Promissão,
+como jovialmente disseram os seus amigos, mas, quasi
+o mesmo para mim, que me mostre os bustos do avô
+e da neta...</p>
+
+<p>&mdash;Oh! isso é muito facil. Estamos a dois passos do
+meu <i>atelier</i>. Vamos lá&mdash;respondeu o enthusiasta Maubert.</p>
+
+<p>Foram. Graça Strech ia concentrado, e cada vez
+estugava mais o passo; Maubert observava-o de esguelha e começava a achar summamente extraordinario
+aquelle homem, de quem se principiava a
+falar.</p>
+
+<p>Era perto o <i>atelier</i>. Entraram. Graça Strech precedia
+Maubert, tamanha era a sua impaciencia.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui estão! disse o esculptor.</p>
+
+<p>Graça Strech, relanceando aos dois bustos um olhar
+rapido e incisivo, vibrou um grito, ao mesmo tempo
+doloroso e alegre, e, apontando para o do velho, exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;É elle, é Pietro!</p>
+
+<p>Depois, demorando os olhos no busto da pequenita,
+deixou escapar outro grito que parecia o magoado
+estalar de todas as cordas da alma:</p>
+
+<p>&mdash;É minha filha! Não póde deixar de ser! Ca está:
+<i>Augusta, sonatrice, la piccola!</i> Chama-se Augusta!
+Comprehendo tudo. Rosina morreu, sim, já me não
+póde restar duvida alguma. É horrivel! Morreu! E
+pôde morrer sem esperar por mim! Pobresinha! Poz
+á filha o nome de minha irmã. Era uma surpreza que
+me queria fazer, e fez, realmente, mas que triste surpreza,
+sr. Maubert, que desgraça esta! Olhe, aquella
+pequena é minha filha. O senhor é artista... Veja
+que bonito perfil aquelle... Por isso foi que o senhor
+a modelou, pois não foi? Sim, é muito bonita! Disse
+então que andava vestidinha de preto? É pela mãe!<span class="pn"><a name="pag_170">{170}</a></span>
+Pobre Rosina! Oh! eu não creio ainda que tu morresses,
+tu, que tinhas tanta coragem, tanta! Onde
+está minha filha, senhor? Aquella não fala! Eu quero
+ver minha filha, abraçal-a, beijal-a. Deixe-me beijal-a,
+sim, deixe-me enganar. Bem póde ser que tambem a
+morte já m'a tenha levado, e por isso deixe saciar-se
+de beijos este pobre coração ha tanto tempo opprimido.
+Olhe que gentil cabeça! Que semelhança com
+minha irmã! É estar a vel-a, quando brincavamos
+ambos e faziamos endoidecer o capelão das Chãs.
+Sim, o senhor já me restituiu minha filha, mas Rosina,
+a minha vida, o meu amor, que é d'ella, por que
+não a modelou o senhor para que eu a pudesse beijar
+agora!</p>
+
+<p>E, com o busto da pequenita apertado contra o
+coração, pareceu oscillar.</p>
+
+<p>Maubert, que escutava commovido da enormidade
+d'aquella dôr, e perplexo, porque não possuia todo o
+segredo d'esse homem, acudiu a amparal-o.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! não me roube a sua obra! exclamou Graça
+Strech apertando o busto cada vez mais contra o coração,
+que pulsava vertiginosamente. Não m'a roube.
+Dou-lhe tudo, a minha guitarra, a minha vida, mas
+não me arranque a felicidade que me deu. Isto não
+é um pedaço de gesso inanimado, que o senhor modelou.
+Não, isto é minha filha, a minha querida filha,
+a Terra Prometida...</p>
+
+<p>E, fazendo esforço para tirar a voz que lhe faltava,
+acrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Disse o senhor que o avô e a neta foram para
+Inglaterra, pois não disse? Bem, vou atras d'elles. Por
+França não tornaram a passar, ninguem mais os viu?
+De Inglaterra só poderiam saír embarcados. Não é
+provavel. Estamos no inverno. É a estação dos musicos.
+Hei de encontrál-os lá. Hei de ver minha filha,
+beijal-a doidamente, percebe? doidamente, e perguntar-lhe
+onde é a sepultura de sua mãe. Quero ir lá
+com ella, e com Pietro. Parece-me que ainda posso
+dar vida a Rosina! Pois ella ha de deixar-se ficar fria
+e calada, sabendo que eu estou ali, apenas separado
+por uma camada de terra?! Está morta? Que me importa
+a mim! Isso não póde ser obstaculo para o meu
+amor, para este longo amor de sete annos, que não
+póde acabar assim, que deve durar mais do que a
+vida...<span class="pn"><a name="pag_171">{171}</a></span></p>
+
+<p>Maubert começava a receiar pelo guitarrista, que
+ficou sopitado em demorada prostração. Piedosamente
+o soccorreu, e quando Graça Strech tornou em si
+viu o esculptor curvado carinhosamente para elle.</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigado! disse com voz flebil Strech.
+Muito obrigado! Ah! aqui está o busto de minha filha!...</p>
+
+<p>&mdash;Que é seu, observou Maubert.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, o senhor, que é bom, que é nobre, que tem
+coração e talento, não podia negar esta felicidade a
+um pae!</p>
+
+<p>&mdash;Agora, tornou Maubert, é partir para Londres.
+Para isso basta atravessar o canal. Está prevenido?
+A minha bolsa d'artista tem ainda para estas larguezas.
+Está á sua disposição o preciso para tão pequena
+viagem.</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigado, senhor, e acceito. Aqui está o
+que eu tenho de meu: deu-m'o, como o senhor viu,
+quem entrava e sahia do <i>Evezard</i>. Eu não pedia, porque
+não era mendigo: era simplesmente um pae que
+ha dois annos procurava por toda a parte a sua familia.
+Conheciam a minha pobreza: davam-me alguma
+coisa, eu acceitava, porque em verdade era pobre.
+Agora não, agora não sou, porque finalmente achei o
+rasto de minha filha! Não encontro Rosina, porque a
+sepultura m'a roubou, mas ainda me parece que a hei
+de resuscitar, porque o meu amor, este amor que
+ainda me conserva a vida, deve realisar todos os prodigios.</p>
+
+<p>O mais que se passou entre o guitarrista e Maubert
+não nos importa saber.</p>
+
+<p>Graça Strech embarcou ao outro dia para Londres.
+O que se passaria na sua alma é facil de adivinhar:
+era o que ahi ha de mais pungente doer da saudade
+á mistura com o mais avido phrenesi da anciedade;
+era o supplicio atroz da alma que lucta com o irreparavel
+no ante-gosto d'uma felicidade orvalhada de
+lagrimas.</p>
+
+<p>É preciso que um coração esteja muito retemperado pelo soffrimento para luctar, sem succumbir,
+com tão violentos contrastes, tão oppostos extremos,
+tão desencadeadas tormentas. Elle resistiu, porque
+havia sete annos que soffria o mais que podem soffrer
+homens.</p>
+
+<p>Chegou a Londres.<span class="pn"><a name="pag_172">{172}</a></span></p>
+
+<p>Era, como sabemos, o inverno.</p>
+
+<p>Fluctuava pelas ruas e pelos <i>cafés</i> uma colonia de
+<i>virtuosi</i>. Gastou um dia, gastou dois, sem encontrar
+quem procurava. Ao terceiro, viu muita gente reunida
+n'uma praça. Estavam ouvindo uma harpa.</p>
+
+<p>Logo um presentimento lhe alvoroçou o coração.
+Parou de subito, antes de romper o circulo, porque
+uma dôr, cruciante como o queimar de um ferro em
+braza, lhe atravessára o peito. Receiou morrer. Fez
+porém um esforço, que devia tel-o prostrado a não
+ser ainda aquella a hora de avistar a Terra da Promissão.
+Apartou febrilmente o grupo, relanceou por
+sobre as cabeças um olhar d'aguia, e com um só grito
+fez emmudecer a harpa e affastar a gente que rodeiava
+a harpista.</p>
+
+<p>Um homem de meia edade, que não era decerto
+Pietro segurava a harpa, tangida por uma pequenita
+vestidinha de preto.</p>
+
+<p>Era o mesmo perfil do busto;&mdash;assim devera ser
+Augusta aos seis annos. Faltava, para completar o
+grupo de Maubert, o original do outro busto: faltava
+apenas Pietro.</p>
+
+<p>Graça Strech arrebatou nos braços a criança. Beijou-a,
+abraçou-a, acariciou-a delirantemente, soffregamente,
+doidamente.</p>
+
+<p>E por entre beijos e abraços repetia, sorrindo e
+chorando:</p>
+
+<p>&mdash;Sou teu pae! Eu sou teu pae! Acredita-me, Augusta;
+bem sei que te chamas Augusta.</p>
+
+<p>A criança tremia-lhe nos braços como um passarinho
+que se sente comprimido, e procurava furtar
+as faces aos beijos ardentes do desconhecido.</p>
+
+<p>&mdash;Pietro, filha, onde está Pietro?</p>
+
+<p>A pequenita, ouvindo pronunciar este nome, olhou
+attenta no guitarrista, e respondeu com os olhos subitamente
+marejados de lagrimas, dando uma suave
+expressão de magua ao dialecto napolitano;</p>
+
+<p>&mdash;Morreu! Elle morreu. Tu é que talvez sejas meu
+pae, porque dizia o avô...</p>
+
+<p>&mdash;Que dizia o avô, filha? perguntou anciosamente
+Graça Strech.</p>
+
+<p>&mdash;Que meu pae tinha dado a minha mãe, <i>mia madre
+poverella</i>, um presente para mim, e que se elle
+não tivesse morrido, como nós julgavamos, tu me
+conhecerias por esse presente. Se sabes o que é, então<span class="pn"><a name="pag_173">{173}</a></span>
+és meu pae; dá-me muitos beijos que eu consinto.</p>
+
+<p>É o annel, filha! Ah! é o annel que eu dei a tua mãe.</p>
+
+<p>Isso mesmo! disse a criança sorrindo d'alegria.
+Elle aqui está...</p>
+
+<p>E tirou do seio uma saquinha, pendente do pescoço,
+onde guardava o annel.</p>
+
+<p>Trago-o aqui. Sou ainda muito pequinina, <i>padre
+mio</i>, para o trazer no dedo.</p>
+
+<p>O povo, que tinha seguido todo este episodio,
+olhou-se admirado quando viu a pequenita tirar do
+seio a saquinha, e mostrar o annel.</p>
+
+<p>Era que para o publico, como para Rosina, aquelle
+annel tinha mysterio.</p>
+
+<p>Graça Strech de novo colheu a filha nos braços,
+de novo a beijou com os olhos razos de lagrimas,
+mas a pequenita, soltando-se com vivacidade, disse
+para o homem que segurava a harpa:</p>
+
+<p>Vamos lá, Giovanni, vamos com meu pae, que
+não morreu!<span class="pn"><a name="pag_174">{174}</a></span></p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+
+<h2>XX</h2>
+
+<h2>O manuscripto de Pietro</h2>
+
+<p>Pietro morrera um anno antes, em Londres, logo
+depois que de Pariz passára a Inglaterra. Acamou,
+no miseravel albergue em que se hospedára com a
+pequenita, victima d'uma febre aguda. Ás primeiras
+horas de leito conhecera que era chegado o termo
+da sua vida. Antes que estivesse impossibilitado de
+raciocinar e falar, mandou chamar Giovanni, um antigo
+conhecido, em quem depositava confiança e, não
+sem difficuldade, porque já a cabeça começava a pesar
+para a sepultura e o cerebro a escurentar-se com
+as trevas da morte, lhe disse:</p>
+
+<p>&mdash;Giovanni, tu és um homem de bem e, diga-se a
+verdade, inimigo de trabalhar. Tens vivido sempre
+em companhia de musicos que te dão alguma coisa
+porque tu lhes carregas com as harpas e os realejos.
+Ora, meu amigo, é chegada a occasião de fazermos
+um negocio e, nota bem, o ultimo.</p>
+
+<p>&mdash;Ora deixa-te de tolices!</p>
+
+<p>&mdash;Não são tolices, Giovanni; bem vês que já me
+custa falar. Não posso perder tempo. Portanto, ouve-me
+com attenção. A minha hora chegou e pouco me
+importaria morrer se não tivesse uma neta...</p>
+
+<p>&mdash;Uma neta! Tu! Só te conheci um filho, que
+morreu pequeno em Portugal.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é um segredo que te não deve importar.
+Essa criança que ahi está fóra é mais minha neta do
+que se fosse filha de meu filho. Comprehendes que
+morrendo tu, vae ella, coitadinha! ficar para ahi
+desamparada. Isso é justamente o que eu não quero.
+Sabes que a pequena tem talento...</p>
+
+<p>&mdash;Isso tem! respondeu Giovanni.</p>
+
+<p>&mdash;Aprendeu tudo quanto eu lhe ensinei&mdash;acrescentou
+pausadamente Pietro&mdash;e já sabe mais do que
+aprendeu. Deus nunca desampara os desgraçados! O<span class="pn"><a name="pag_175">{175}</a></span>
+talento foi o patrimonio com que Deus dotou a minha
+neta. Mas olha que é um capital cujo rendimento
+chegava bem para nós dois! A pequenita bastava-lhe
+roçar com as azas pelas cordas: logo sahia musica.
+Ora a nossa sociedade artistica vae dissolver-se. Da
+morte não se appella. Um dos socios, o gerente, retira-se
+para a... eternidade. Fica o outro, que por ser de
+menor edade não tem ainda credito na praça. É preciso
+que tu, homem de bem, substituas o socio que
+se retira, e entres apenas com a tua edade e com a
+tua experiencia. A tua missão cifra-se em acompanhar
+a avesinha, e defendel-a das ciladas do mundo.
+Nota, porém, que te corre obrigação de não traíres a
+confiança que um amigo moribundo deposita em ti.
+Jura-me pela tua honra que serás exacto como tens
+sido até hoje...</p>
+
+<p>&mdash;Juro, disse com firmeza e commoção Giovanni.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem. Logo que eu morra, olha tu pela
+pequena, que fica sendo agora tua neta. Mas ouve
+ainda, Giovanni, mas ouve-me bem. Eu supponho e
+e com boas razões, que o pae d'essa infeliz menina,
+morreu. Tudo me leva a crêl-o. Se algum dia, porém,
+e Deus o permitta! o pae d'ella apparecer, dize-lhe
+que te nomeie o objecto pelo qual elle ha de reconhecer
+a filha: é um annel que ella traz n'uma saquinha
+ao pescoço. De mim não quero que lhe digas
+nada, porque n'este papel, que lhe entregarás, caso
+o pae da menina não tenha morrido, deixo explicado
+o mais que tinha a dizer. Se elle não surgir do tumulo
+a reclamar a filha, o que é provavel, entrega
+esse papel a Augusta, para que ella, em edade de o
+entender, saiba com que amor eu a amei. Dá tempo
+ao tempo. Espera que ella cresça e pense. Tens entendido, Giovanni? Agora dá-me a tua mão. Palavra
+de homem de bem?</p>
+
+<p>&mdash;Palavra e juramento, disse Giovanni com profunda
+commoção, e muitas lagrimas.</p>
+
+<p>E acrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Vae descançado, Pietro. Tua neta, pois que assim
+lhe chamas, não ha de soffrer mal algum. Eu tenho
+sido até hoje escravo da minha fidelidade. Tenho andado
+pelo mundo atraz d'esses musicos, que afinal
+me não pagam. Nasci preguiçoso, é verdade, Deus
+me perdôe, mas tu bem sabes que me não pegou
+ainda ponta de vicio. Nem bebo nem jógo. Fumar,<span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a></span>
+fumo eu, mas isso é apenas um mau habito. Tendo
+pão e tabaco, estou contente. Isso, é de sobra, dar-m'o-ha
+a harpa de tua neta. Agradeço a esmola, e
+toda a vida serei agradecido a ti e a ella. O dinheiro
+que juntar eu lh'o guardarei. Comprará uns vestidinhos,
+concertará a harpa, comprará outra melhor...</p>
+
+<p>&mdash;Isso não! isso nunca! interrompeu Pietro com
+febril exaltação. A minha harpa nunca ella a deixará;
+já lh'o disse, e ella prometteu-m'o.</p>
+
+<p>&mdash;Desculpa, Pietro, eu não pensei o que disse.
+Emfim comprará o que quizer, porque todo o capital
+será d'ella; eu serei unicamente depositario.</p>
+
+<p>&mdash;Bem! disse Pietro prostrado de commoção. Estamos
+tratados para a vida e para a morte. Agora sae
+por algum tempo, e manda-me cá a pequena.</p>
+
+<p>Saíu Giovanni e entrou Augusta.</p>
+
+<p>O doente esteve olhando para ella mui attentamente,
+e exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Que linda és!</p>
+
+<p>A pequetita respondeu com beijos.</p>
+
+<p>&mdash;Olha lá, Augusta,&mdash;tornou Pietro&mdash;não te esqueças
+da recommendação do annel. Oh! que se tu
+encontrasses ainda teu pae! E d'ahi póde ser. Deus é
+misericordioso. Se elle escapou á guerra, bem póde
+acontecer que ainda algum dia o encontres. Deus o
+queira, Augusta, anjo, filha. És tão pequenina, tão
+pequenina, que cada vez me pareces mais um passarinho!
+Emfim eu não havia de ser eterno; muito me
+tem deixado Deus viver para teu amparo. Que linda,
+filha, que linda! Olha... chama Giovanni, e vae ali
+para fóra um momento... Tu és muito minha amiga,
+pois não és?... Vae filha, vae, e chama Giovanni.</p>
+
+<p>Saiu a pequenita a cumprir a ordem.</p>
+
+<p>Giovanni abeirou-se do catre e recebeu da mão do
+doente os papeis em que lhe falára.</p>
+
+<p>&mdash;Não posso mais! disse Pietro. Pesa-me tanto a
+cabeça! Sabe Deus com que difficuldade tenho feito
+tudo isto! E&mdash;acrescentou placidamente&mdash;para o enterro
+já sabes que basta avisar o consul. Nós em toda
+a parte somos italianos.</p>
+
+<p>Giovanni tregeitou, e o doente deixou caír contra o
+travesseiro o craneo que parecia de chumbo. Nos trez
+dias que se seguiram não mais tornou a falar. Entrou
+em estado comatoso. Teve sempre os olhos fechados
+até que a morte lh'os sellou para a eternidade.<span class="pn"><a name="pag_177">{177}</a></span></p>
+
+<p>O consulado italiano fez o enterro: só os summamente grandes e os summamente pequenos são enterrados
+á custa das nações.</p>
+
+<p>Quem soube, na colonia fluctuante dos musicos
+das ruas, que havia de menos uma andorinha viajeira?</p>
+
+<p>Os outros não souberam, porque, tendo por missão
+voar de terra em terra, não lhes sobra tempo para se
+demorarem á beira d'um tumulo.</p>
+
+<p>Soube-o o consul, e sentiam-n'o Augusta e Giovanni;
+ninguem mais.</p>
+
+<p>A pequenita chorou muito, muito. Giovanni confortou-a
+como pôde. O sol, que é a alegria de todos
+os passarinhos, fez o mais.</p>
+
+<p>Começaram ambos a sua peregrinação.</p>
+
+<p>A pequenita, pobresinha! só tocava n'esses dias de
+pungente saudade musicas tão tristes como a alma
+d'ella. Ainda assim ouviam-n'a, achavam-lhe graça, e
+davam-lhe dinheiro.</p>
+
+<p>O publico, em geral, reputa felizes os que convidam
+á felicidade.</p>
+
+<p>E, em geral, engana-se sempre.</p>
+
+<p>Augusta sonhava quasi todas as noites com o avô.
+Pela manhã dizia a Giovanni:</p>
+
+<p>&mdash;Esta noite vi-o. Lá me tornou a repetir que não
+perdesse o annel.</p>
+
+<p>Outras vezes:</p>
+
+<p>&mdash;O avô, Giovanni, disse-me esta noite que te recommendasse
+que fosses sempre muito meu amigo.</p>
+
+<p>As recommendações de Pietro, que a pequenina
+ouvia em sonhos, não eram precisas. Nem Augusta
+perdia o annel mysterioso, nem Giovanni se esquecia
+das promessas que tinha feito.</p>
+
+<p>Elle guardava a sua palavra; ella o seu annel.</p>
+
+<p>E com esses dois thesouros se propunham correr
+mundo.</p>
+
+<p>Giovanni pertencia ao numero dos homens-machinas
+que só obedecem ao impulso do coração; ora
+o coração era bom, e as obras boas sahiam, portanto.</p>
+
+<p>Nascera, como o cão de quinta, para a ociosidade,
+mas, como o cão de quinta, era fiel.</p>
+
+<p>Durante o anno que acompanhou Augusta nunca
+deslisou um passo do caminho do dever.</p>
+
+<p>Ella ia adiante com o seu annel no seio; elle seguia-a<span class="pn"><a name="pag_178">{178}</a></span>
+com a harpa ás costas, avisando-a sempre da
+aproximação dos trens e dos cavalleiros.</p>
+
+<p>Ao cabo d'um anno surgiu do tumulo Graça Strech,
+para nos servirmos da phrase de Pietro. Feito o reconhecimento,
+Giovanni entregou-lhe a filha e os papeis
+que recebera, e diziam assim:</p>
+
+
+<p class="centrado">MANUSCRIPTO DE PIETRO</p>
+
+<p>Estas são as minhas memorias. Dito-as para serem
+lidas por Augusta ou seu pae, se é que não morreu,
+para esclarecimento d'algum d'elles, ou de ambos,
+se Deus o permittir.</p>
+
+<p>Felizmente aprendi a escrever, e fui nos primeiros
+annos da minha vida empregado n'um escriptorio.
+Depois morreu-me meu pae: faltou-me o leme. Desnorteei.
+Troquei a penna pela harpa. Ha muitos annos
+que o meu abecedario é o <i>do-ré-mi-fá-sol-lá-si</i>.
+Ainda assim, apesar do muito que se soffre n'esta
+vida errante, agradeço a Deus o inspirar-me que fosse
+musico, porque tive occasião de fazer bem.</p>
+
+<p>Finou-se de saudades em viagem a <i>signora</i> Rosina.
+Era um soffrer que fazia horror! Não havia palavras
+que a consolassem, musica que pudesse distraíl-a!
+Viajou chorando e suspirando; os olhos nunca ninguem
+lh'os viu. Quasi não comeu. Acceitava, depois
+de muitas instancias, uma agua de caldo apenas. Diziamos-lhe que era um crime deixar-se morrer; então
+bebia. Chegámos a Napoles, e logo a <i>signora</i> me pediu
+que tratasse de arranjar albergue, porque se sentia
+muito doente. Em verdade estava muito falta de
+forças. Quiz escrever para Portugal, e não pôde. Mal
+pegava na penna descórava muito, e entrava de sentir-se
+agoniada. Eu, vendo que semelhantes esforços
+a estavam debilitando cada vez mais, pedia-lhe que
+deixasse isso para quando estivesse melhor. Comecei a
+dizer-lhe que não tinha geito metter-se em casa. Depois
+de repetidas instancias, annuiu em ir commigo
+ao anoitecer até á beira mar. Umas vezes voltava melhor;
+outras vinha mais doente. No primeiro caso,
+principiava a escrever. Escrevia algumas linhas, e já
+estava fatigada. No segundo, passava a noite em convulsões,
+e era preciso não a desamparar até pela manhã,
+que só então cahia em somno. Eu ia porém instando
+sempre pelos passeios. Ah! mas ver a <i>signora</i><span class="pn"><a name="pag_179">{179}</a></span>
+um mez depois que chegámos a Napoles! Que differença!
+Emagreceu, descórou, fez-se velha. Não parecia
+a mesma! A primeira carta que recebemos de
+Portugal causou-lhe tamanha impressão, que eu julguei
+que morresse. Tive realmente medo. Chorou,
+riu, delirou. A carta não dizia porém que o <i>signor</i>
+Strech tivesse recebido as nossas. A <i>signora</i> inquietou-se
+muito com isto.</p>
+
+<p>&mdash;Está lá sem saber nada de nós! disse-me ella.
+E a mim que me custa tanto escrever!</p>
+
+<p>&mdash;Escrevo eu.</p>
+
+<p>&mdash;Nada, não quero, respondeu a <i>signora</i>. Hei de
+eu escrever sempre; bem póde ser que alguma carta
+lhe chegue ás mãos...</p>
+
+<p>&mdash;É que o exercito é muito grande, e depois anda
+d'um lado para outro... disse eu prevenindo novas
+commoções.</p>
+
+<p>Os soffrimentos da <i>signora</i> havel-a-iam prostrado
+antes de ser mãe, se não fosse essa carta que recebeu
+de Portugal. Beijava-a, relia-a, apertava-a contra
+o coração; só n'aquillo achava allivio.</p>
+
+<p>Desde principios de maio de 1810 que a hora da
+maternidade se annunciava para breve. Quiz&mdash;porque
+ella tinha o presentimento da morte&mdash;escrever uma
+longa carta, que devia ter chegado a Portugal em junho,
+e que com certeza não foi recebida. Essa carta,
+cujo conteudo ignoro, era de certo uma despedida, o
+ultimo adeus da <i>signora</i>. Deixou o papel ainda sobre
+a mesa, e caíu contra o leito em grandes gritos. Acudi-lhe,
+e disse-lhe que não a tornaria a deixar escrever
+mais.</p>
+
+<p>&mdash;Não me é precisa a sua licença, meu bom Pietro!
+respondeu ella.</p>
+
+<p>Eu estremeci.</p>
+
+<p>Logo que serenou, fechei a carta, sem lhe poisar
+a vista, e fui eu mesmo deital-a ao correio.</p>
+
+<p>No dia 22 de maio, pela manhã, chamei a locandeira,
+que era piedosa, porque a <i>signora</i> me disse
+que n'esse dia seria mãe.</p>
+
+<p>Soffreu doze horas. A final deu á luz uma menina.
+Quiz ver a filha; mostrei-lh'a.</p>
+
+<p>&mdash;Que se chame Argusta, Pietro, que se chame
+Augusta, recommendou a <i>signora</i>.</p>
+
+<p>Certifiquei-a de que esse seria o nome de sua filha.<span class="pn"><a name="pag_180">{180}</a></span></p>
+
+<p>Cobriu o rosto com o lençol, e começou a chorar
+e a gemer. Por mais que lhe dissessemos, a locandeira
+e eu, que procurasse socegar, não o conseguimos.
+De noite delirou. Falava do <i>signor</i>, Strech,
+d'Augusta, de Coimbra, do mar, do annel. A febre era
+muita. Estáva córada como se as faces fossem duas
+rosas: Eu tinha a menina nos braços; a locandeira
+amparava a <i>signora</i>.</p>
+
+<p>Pela manhã adormeceu. Acordou muito fria. Estava
+peior. Chamou-se o doutor, que receitou, e disse
+que a <i>signora</i> corria grande perigo. Apesar dos remedios,
+não aqueceu em todo o dia. Ao fim da tarde,
+quando eu estava acalentando a menina para adormecel-a,
+a <i>signora</i> deu de repente um grito, sentou-se
+na cama, disse que não via, tornou a dar outro
+grito, e cahiu morta.</p>
+
+<p>N'essa occasião chorava a criança como se adivinhasse
+que estava orphã.</p>
+
+<p>Fiz um enterro decente á <i>signora</i> Rosina, adquiri,
+com o auxilio do consul, o direito de a sepultar n'uma
+campa perpetua e mandei-lhe pôr um singelo epitaphio
+que diz: «Aqui jaz Rosina Regnau.»</p>
+
+<p>Escrevi para Portugal a dar parte do triste acontecimento,
+que me custou talvez mais&mdash;Deus me
+perdôe!&mdash;do que a morte de meu filho.</p>
+
+<p>Não recebi resposta, nem tornei a receber mais
+cartas. Quiz partir para Portugal. Informei-me. A
+guerra continuava cada vez mais renhida. Que havia
+eu de ir fazer a Portugal com uma harpa ás costas e
+uma criança ao collo? Demorei-me ainda um anno
+em Napoles para dar tempo a crear-se a menina. Foi
+uma ama dos arrabaldes quem a amamentou.</p>
+
+<p>Eu ia todos os dias vêl-a, e saber da ama se era
+preciso alguma coisa. Durante esse tempo não recebi
+carta do <i>signor</i> Strech. Não obstante, continuei escrevendo
+sempre. Sabia-se que continuava a guerra.
+Não tinha certeza de que as minhas cartas fossem
+entregues, e de que o <i>signor</i> vivesse ainda. Maguava-me
+tão longo silencio, porque emfim eu cada vez
+ia envelhecendo mais. Ao cabo d'um anno peguei na
+menina e na harpa e comecei a minha peregrinação,
+porque estava exhausto de recursos. Em Napoles ha
+sempre muitos musicos, e a concorrencia prejudicava-me.
+Alguns eram velhos, e estavam tão pobres
+como eu. Além d'isso, fallecera a dona do albergue,<span class="pn"><a name="pag_181">{181}</a></span>
+repentinamente, e quando eu sahia entravam os crédores.
+Tive pena d'aquella boa mulher que tão caridosamente
+tratára da <i>signora</i> Rosina. Como ella sabia
+do nosso segredo, habituei-me a consideral-a
+pessoa de familia. Nunca essa honrada creatura revelára
+a ninguem as máguas da mãe d'Augusta. Eu
+tinha a certeza. O segredo descia com ella á sepultura.
+Senti os olhos rasos de lagrimas quando a vi
+sahir para o cemiterio e me encontrei com os crédores
+que entravam. Era preciso ganhar vida, porque
+eramos duas pessoas a alimentar, melhor direi pessoa
+e meia. Fui andando e tocando harpa. As noites,
+dormia-as com a menina ao collo. Se eu era avô!
+Ás vezes apertava commigo a tristeza. Lembro-me
+de que uma noite em Piombino, n'um albergue onde
+me recolhi, me deixei entristecer tanto, contemplando
+a menina adormecida nos meus braços, lembrando-me
+ao mesmo tempo da <i>signora</i> e do <i>signor</i>, ambos
+mortos para ella, que, francamente o confesso,
+n'essa noite envelheci dez annos. Todavia, logo que
+nascia o sol, nascia com elle o grande lenitivo dos
+desgraçados: o trabalho. Ia tocando na minha harpa,
+e vivia. Uns davam-me esmola por me ouvirem; outros
+por me vêr com a menina: muita vez o conheci.</p>
+
+<p>Corri a Italia toda: vi bem a minha patria. Entretanto
+a menina ia crescendo. Que espertesa que revelou
+desde os primeiros annos! O seu gosto era estar
+a bulir nas cordas da harpa. E o caso é que ás
+vezes, acaso ou não, combinava sons. Lembrei-me
+de que a menina podia aprender musica. Seria o seu
+dote. Bem precisava ella d'algum. Tinha nascido tão
+pobre, que me considerava seu avô, a mim, um musico
+ambulante! Com oito mezes d'aprendizagem era
+um gosto ouvil-a! Parecia impossivel! Dispensei-me
+de tocar, porque as mãosinhas da menina eram um
+prodigio! Bastavam ellas para fazer a colheita que era
+sempre abundante. Comprei roupa á menina; trazia-a
+uma princesasinha. Verdade é que sempre de luto. Todo
+o meu fim era obrigal-a a perguntar-me porque vestia
+de preto. Queria gravar-lhe bem na memoria os
+soffrimentos de seus paes, que extraordinarios foram
+em verdade. E se fores tu, Augusta, que leias este
+papel, e não teu pae, como muitas vezes acredito
+que serás, mais uma vez te peço que conserves sempre
+viva em teu coração a memoria d'esses dois grandes<span class="pn"><a name="pag_182">{182}</a></span>
+desgraçados, que mais o foram por tua causa.
+Mas que talento o d'essa criança! Ainda outro dia,
+em Pariz, um rapaz esculptor pediu o meu consentimento
+para nos modelar a ambos em gesso. Não foi
+por minha causa, não. Eu não tenho orgulho senão
+de ser avô da menina... Avô! Sim, pelo coração não
+posso deixar de o ser. O verdadeiro avô não lhe quereria
+mais. Mas o tal esculptor encantou-se com a
+menina. Quem se não ha de encantar? Modelou-a.
+Foi a primeira estatua levantada em honra da pequenina
+harpista. A mim modelou-me de certo pelo contraste.
+Deu-lhe graça vêr a cabeça d'um velho ao pé
+do rosto d'uma criança. E que formoso rosto, <i>sangue
+di Christo</i>! Como eu gostei de ver a menina assim
+retratada! Mal diria eu que um mez depois havia
+de soar a hora de me separar d'ella. Não me custa
+deixar o mundo, onde se soffre tanto; custa-me deixal-a
+a ella, porque a amo muito. Não quero, porém,
+ser ingrato para com Deus. Grande mercê me fez em
+me não levar quando a menina era mais pequenina.
+Egora sinto-me sem forças. Ha muitos dias que estou
+doente. Não tenho querido acamar para não entristecer
+a menina. Mas hoje, a tal ponto receio por mim,
+que vou mandar chamar o meu velho conhecido Giovanni
+para lhe fazer as minhas ultimas disposições.</p>
+
+<p>Dizem todas respeito á menina.</p>
+
+<p>Giovanni ficará depositario d'ella, que é o meu thesouro.
+Giovanni é preguiçoso, mas um verdadeiro homem
+de bem. Muitas vezes tive occasião de o reconhecer.
+Eu não podia fazer melhor eleição. A minha
+harpa, que lego á menina, ganhará para os dois, e
+Giovanni será incapaz de guardar para si o que pertencer
+á menina.</p>
+
+<p>Morro n'esta certeza. Giovanni é mais fiel do que
+um cão.</p>
+
+<p>Estão, pois, saldadas as minhas contas com o mundo,
+com a <i>signora</i> e o <i>signor</i>. Fiz quanto pude, e me
+mandava o coração. Da justica de Deus não me arreceio.
+Deus bem vê a minha alma.</p>
+
+<p>Torno a repetir que escrevo este documento para
+que Augusta melhor comprehenda um dia como eu a
+amei, ou para que seu pae, se Deus o resuscitar, porque
+em verdade o supponho morto, veja que não
+trahi a confiança que depositou n'um desconhecido.
+Se eu morresse em Napoles, quereria ser enterrado<span class="pn"><a name="pag_183">{183}</a></span>
+ao pé da <i>signora</i>. Não fui o seu guarda em vida? Continuaria
+a sel-o depois de morto. Como de certo
+morro aqui, porque a minha doença é grave, apenas
+tenho a pedir que rezem um <i>Padre Nosso</i> pela minha
+alma, quando abrirem este documento, que fica
+em poder de Giovanni.</p>
+
+<p><i>Fechado em Londres aos 25 de novembro de 1815:</i></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="assin">P<small>IETRO</small>.<span class="pn"><a name="pag_184">{184}</a></span></p>
+
+<hr style="width: 20%;">
+
+
+<h2>XXI</h2>
+
+<h2>Epilogo</h2>
+
+<p>Estava escripto no livro dos destinos que não houvesse
+felicidade completa para Graça Strech. Encontrava
+o coração da filha como verdejante oasis no
+immenso deserto que a morte de Rosina lhe estendia
+deante dos olhos. Era uma gota d'agua para matar
+uma sêde d'amor que o requeimou durante sete annos;
+um só raio de sol que se coava á negridão em
+que o destino o havia enclausurado; uma unica flôr
+a alegrar o caminho interposto á velhice precoce e
+á valla que o esperava algures.</p>
+
+<p>Entre lagrimas e sorrisos apertou contra o coração
+esphacelado o corpinho flexivel da criança; tinha a
+filha nos braços e sentia nas mãos a friagem da terra
+que cobria a campa da mãe; irradiava-lhe uma aurora
+contra o rosto, e os clarões cambiantes espelhavam-se
+no pranto que lhe sulcava as faces.</p>
+
+<p>Devia remoçar, e sentia-se velho.</p>
+
+<p>Parecia abrir-se-lhe a porta do paraizo e, em vez
+de transpôl-a, pedia á criança que o acompanhasse
+ao cemiterio de Napoles, onde Rosina jazia.</p>
+
+<p>Giovanni julgou importuna a sua presença, e balbuciou
+soluçando umas palavras de despedida.</p>
+
+<p>Graça Strech travou-lhe da mão e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Giovanni, tu eras o guarda de minha filha; sê
+agora o companheiro da filha e do pae.</p>
+
+<p>Giovanni correu a beijar a menina com lagrimas
+d'alegria nos olhos; era quasi o cão a festejar o dono.</p>
+
+<p>Partiram.</p>
+
+<p>Ao passar em Pariz, Graça Strech foi com a criança
+procurar o esculptor Maubert. Entrou no <i>atelier</i> e
+disse ao artista:</p>
+
+<p>&mdash;Aqui tem o original do seu busto, senhor: é minha
+filha. Falta o nobre Pietro: roubou-o a morte.
+Eu não quiz atravessar a França sem lhe vir agradecer<span class="pn"><a name="pag_185">{185}</a></span>
+o serviço que me prestou. Não encontraria minha
+filha, se o senhor me não ensinasse o caminho.
+Que Deus lhe torne em alegrias o que a mim me
+deu em consolação. O senhor receberá o premio da
+sua benevolencia para commigo lá onde os bons e os
+desgraçados são remunerados condignamente.</p>
+
+<p>Seguiram para Italia. Graça Strech estava ancioso
+de chegar a Napoles, onde se demoraram oito dias,
+visitando de manhã e de tarde o <i>Campo Santo</i>. O
+que elle confidenciou junto á lousa de Rosina Regnau
+ninguem o ouviu, nem é dado avental-o, porque
+ha dôres que só se comprehendem quando se
+experimentam. Os labios do pae, ajoelhado á beira
+da campa, ciciavam de todas as vezes palavras inintelligiveis;
+a filha, ajoelhada ao pé do pae, tinha as
+mãos postas, e denotava doloroso recolhimento. Não
+rezava, porque ninguem a tinha ensinado a rezar. A
+falta das mães é tamanha que até Deus a sente! Giovanni
+completava o grupo, posto o joelho em terra,
+e alternando olhares respeitosos entre o pae, a filha
+e a campa.</p>
+
+<p>Ao cabo d'oito dias a menina mostrava-se doente.
+Graça Strech tremeu da tristeza da criança, e perguntou-lhe
+o que tinha.</p>
+
+<p>&mdash;Faz-me medo estar no cemiterio! respondeu Augusta
+chorando.</p>
+
+<p>&mdash;Tens razão, filha, disse Graça Strech. Mas o que
+havemos nós de fazer agora no mundo todos trez?</p>
+
+<p>&mdash;Eu toco a minha harpa, tornou com vivacidade
+a pequenita. O papá toque a sua guitarra. Giovanni
+vae comnosco.</p>
+
+<p>Graça Strech não teve animo de recusar.</p>
+
+<p>&mdash;Voltemos então a França, alvitrou elle. Eu vi a
+sepultura de tua mãe; quero agora vêr o seu berço.
+Iremos ás Ardennas.</p>
+
+<p>&mdash;Mas as Ardennas não são tão tristes como o cemiterio,
+pois não? perguntou ingenuamente Augusta.</p>
+
+<p>&mdash;Não são, filha, não são. Para tua mãe eram o paraizo
+d'onde eu a expulsei.</p>
+
+<p>Foram musicando. Notavam-se entre todos os <i>virtuosi</i>,
+além da maguada sympathia que filha e pae inspiravam,
+pela melancolia do seu repertorio. A guitarra
+d'elle e a harpa d'ella falavam a linguagem da
+saudade. Se o publico as ouvisse no <i>Campo Santo</i>
+de Napoles, á beira d'um cómoro, devia comprehendel-as.<span class="pn"><a name="pag_186">{186}</a></span>
+Estiveram nas Ardennas, onde os camponezes
+sahiam em ranchos a ouvil-os. Alguns d'elles, vendo
+o guitarrista esquecido a olhar para o cimo das montanhas,
+com o braço paralysado, diziam entre si:</p>
+
+<p>&mdash;Aquelle homem não tem a razão clara!</p>
+
+<p>Passando-se depois a Pariz, encetaram o viver errante dos passaros. Graça Strech tirava do amor com
+que idolatrava a filha as forças com que vivia, e tinha
+desvairamentos nervosos se se demorava a contemplar-lhe
+as faces pallidas, da meiga pallidez da
+irmã, e os olhos fundos e brilhantes.</p>
+
+<p>Quedava-se a olhar n'ella com a fronte banhada de
+suor frio.</p>
+
+<p>&mdash;O papá gosta tanto de me vêr! exclamava a menina
+ao mesmo passo carinhosa e amedrontada da
+sombria physionomia do pae.</p>
+
+<p>&mdash;Gosto, filha. É que eu sou pae e desgraçado! Se
+tu morresses, enlouquecia.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não morro. O papá não diga isso, que me
+faz medo. Deixe-se de estar a pensar, papá! atalhava
+a menina. Ó Giovanni, traz a harpa; não estou contente
+senão quando a tenho ao pé de mim! O papá
+não ralhe, porque eu sou muito sua amiga tambem.</p>
+
+<p>Decorreram os annos. O botão de rosa fez-se flôr.
+Flôr melancolica como as que pendem aos sarcophagos.</p>
+
+<p>Graça Strech procurava suavisar quanto lhe era
+possivel a sua continua peregrinação. A menina, tomada
+de febril impaciencia, dizia ao pae que havia
+de morrer no caminho tocando harpa. E acrescentava:</p>
+
+<p>&mdash;Bem diz o papá: nós somos como os passaros.
+Elles tambem só parecem alegres quando voam!</p>
+
+<p>No inverno de 1824&mdash;tinha Augusta quatorze annos&mdash;começou a soffrer do peito.</p>
+
+<p>Estavam de novo em Londres.</p>
+
+<p>Augusta queixava-se de dôres vagas; e tossia.</p>
+
+<p>&mdash;Fujamos de Londres! disse Graça Strech fitando
+a filha com atormentado semblante.</p>
+
+<p>Em França os soffrimentos continuaram, se bem
+que a menina, para não desalentar o pae, procurasse
+animar-se d'uma alegria que por bastante transparente
+deixava entrever o disfarce.</p>
+
+<p>Seguiram para Italia. Enflorava-se a formosa do
+Mediterraneo com as galas da primavera de 1825.<span class="pn"><a name="pag_187">{187}</a></span></p>
+
+<p>Caminho de Florença nos ultimos dias de março,
+colhera-os ao entardecer a tempestade no caminho.
+Tiveram de estugar o passo para recolher-se no albergue
+de Pistoja. A menina chegou anciada, e afogueada
+das faces. Deitou-se logo. O pae, atordoado
+como ebrio, não a desamparou em toda a noite. Pela
+manhã, Giovanni foi poisar a harpa ao pé do catre.
+Augusta reprehendeu-o. Disse que no dia seguinte
+tocaria. Veiu o outro dia, vieram muitos, e a menina
+nem queria erguer-se nem ver a sua harpa.</p>
+
+<p>&mdash;Então já não és como os passaros? perguntou o
+pae com voz que mal podia romper através das lagrimas.</p>
+
+<p>Augusta viu chorar o pae, e disse para Giovanni:</p>
+
+<p>&mdash;Os passaros tambem cantam no ninho: vai buscar
+a harpa.</p>
+
+<p>Tirou alguns sons, e não pôde continuar.</p>
+
+<p>D'ahi a trez dias chamou de novo Giovanni e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Hoje estou boa; vae buscar a harpa.</p>
+
+<p>O pae quiz illudir-se ainda: sorriu.</p>
+
+<p>A menina vibrou as primeiras modulações e deixou
+pender os braços.</p>
+
+<p>Acudiu o pae a chamal-a. Não respondeu. Giovanni
+agitou-a docemente e conheceu que estava morta.</p>
+
+<p>A avesinha não pôde completar o seu cantico de
+despedida.</p>
+
+<p>Desde essa hora Graça Strech affigurava-se idiota.
+Unicamente pareceu illuminar-se-lhe por instantes a
+razão quando disse a Giovanni:</p>
+
+<p>&mdash;Meu bom amigo, meu fiel amigo, não tenho mais
+que te dar: péga n'essa harpa e deixa-me viver em
+paz. Adeus, até á hora do resgate.</p>
+
+<p>Giovanni quiz falar. Elle não consentiu; afastou-o
+com um gesto.</p>
+
+<p>E deixou-se ficar dois dias com a cabeça apoiada
+nas mãos.</p>
+
+<p>Levavam-lhe de comer: recusava.</p>
+
+<p>O dono do albergue entrou a inquietar-se e acabou
+por ir a Florença avisar o consul portuguez. Chamado
+Graça Strech ao consulado, muito laconicamente
+respondeu ás perguntas que lhe fizeram. O consul reputou a sua tristeza nostalgia, aggravada pela impossibilidade
+de se transportar á patria. Deu-lhe um passaporte
+para Portugal. Graça Strech nem agradeceu<span class="pn"><a name="pag_188">{188}</a></span>
+nem rejeitou. Ao outro dia foi o consul a bordo para
+o recommendar ao capitão. Faltava Graça Strech.
+Mandou procural-o ao albergue. Encontraram-n'o sentado
+com a cabeça firmada nas mãos. Deixou-se conduzir
+ao navio. Subiu á coberta, e sentou-se n'um
+banco, na mesma posição. O navio largou; elle não
+ergueu os olhos.</p>
+
+<p>Passados mezes via-se nas ruas do Porto um estranho
+homem; andava arrimado a um bordão, porque
+coxeava. Alguem, por caridade, o vestira: trazia sobrecasaca
+abotoada e chapeu alto amolgado. Realçava
+sobre esta pobreza a medalha de prata da guerra peninsular
+em competencia com um annel de ouro que
+brilhava na mão esquerda. Como o vissem apanhar
+do chão pontas de cigarros, e manipular um longo
+rolo de tabaco, perguntavam-lhe por que não vendia
+o annel.</p>
+
+<p>Respondia sempre:</p>
+
+<p>&mdash;Porque este annel tem mysterio.</p>
+
+<p>E, surdo a outras perguntas, começava tangendo
+maviosamente a guitarra que trazia sobraçada. Se alguem lhe dava esmola, recebia-a; jámais a implorou.
+Decorridos mais alguns mezes appareceu acompanhado
+por um cão, e de tal modo se estimavam, cão
+e homem, que o cão parecia escutar attento o guitarrista,
+e o guitarrista defendia energicamente o seu
+companheiro quando era açulado pelo rapazio.</p>
+
+<p>Onde encontrára o guitarrista o cão?</p>
+
+<p>É que o primeiro tivera de pedir hospitalidade ao
+segundo.</p>
+
+<p>N'um quintal da rua das Fontainhas, logo á entrada,
+descendo do Jardim de S. Lazaro, ha ainda
+hoje um casebre, que n'esse tempo pertencia a duas
+pobres mulheres, donas do cão. Ali piedosamente
+receberam o guitarrista, que na primeira noite de
+hospedagem fôra mordido pelo animal, que dava
+pelo nome de <i>Janota</i>, e se rebellara contra todos os
+affagos do hospede. Indignou-se o guitarrista da feresa
+do seu companheiro, e lembrou-se d'um facto
+semelhante que em Portugal occorrera durante a
+primeira invasão franceza. Em Abrantes, em 1807,
+um official portuguez poupou a vida de Junot; sem
+embargo, fôra, dias depois, fuzilado, não sei a que
+pretexto, por ordem do mesmo Junot.</p>
+
+<p>O guitarrista, applicando ao caso esta recordação<span class="pn"><a name="pag_189">{189}</a></span>
+da sua mocidade, começou a dar ao cão o nome do
+general francez.</p>
+
+<p>Ao cabo d'algum tempo de convivencia, o nome
+não tinha razão de ser, porque homem e cão viviam
+em boa camaradagem; todavia subsistiu. As proprias
+donas do casebre se habituaram a dizer <i>Junot</i> em
+vez de <i>Janota</i>. Em tamanha pobresa permaneceu o
+guitarrista até novembro de 1857, epoca em que o
+meu amigo, o sr. Antonio Martins Leorne, teve casualmente
+occasião de falar-lhe.</p>
+
+<p>Passava na Batalha quando o guitarrista, sentado
+nas escadas da egreja de Santo Ildefonso, estava
+sendo chasqueado por trez estudantes do seminario
+episcopal. Movido de indignação, subiu as escadas,
+e ameaçou os seminaristas com denuncial-os ao prelado.
+Os rapazes debandaram amedrontados, e o
+guitarrista levantou-se para agradecer ao sr. Leorne.
+Pelas breves palavras que trocaram, conheceu este
+cavalheiro que estava ali um lucido espirito e um
+nobre coração esmagados pela desgraça. Tanto bastou
+para começar a protejel-o, até que no mez de
+novembro d'esse anno conseguiu que fosse admittido
+no hospital dos Entrevados de Cima de Villa. O guitarrista
+acceitou reconhecido. Mas, quando lhe foi imposta
+a condição de usar o vestuario dos asylados,
+reagiu tenazmente. Só puderam convencel-o a transigir
+repetidas instancias do sr. Leorne.</p>
+
+<p>Durante a sua estada no hospital de Cima de Villa,
+grato á protecção recebida, abriu-se em frequentes
+confidencias com o seu protector. Algumas vezes
+lhe escreveu, assignando-se Graça Strech, se bem
+que os registos de admissão e obito o nomeiem Conceição
+Graça.</p>
+
+<p>Bem póde ser que o infeliz, talvez por melindre
+que nos não é dado perscrutar, negasse ao escripturario
+o verdadeiro appellido de sua familia, e facilmente
+se comprehende que o registo de obito foi
+modelado pelo registo de entrada no hospital.</p>
+
+<p>O leitor, antes de eu ter denunciado o nome do
+estranho guitarrista, já o havia conhecido de certo,
+confrontando-o com a personagem que apparece nas
+primeiras paginas d'este livro, e achando-os em tudo
+semelhantes.</p>
+
+<p>Graça Strech falleceu no hospital dos Entrevados
+de Cima de Villa a 20 de maio de 1850. Antes de expirar,<span class="pn"><a name="pag_190">{190}</a></span>
+entregou ao seu protector, que lhe assistiu aos
+ultimos momentos, a medalha da guerra peninsular,
+com que fôra condecorado, e que o sr. Leorne ainda
+hoje possue<sup><a href="#nota15" name="m_nota15">[15]</a></sup>. O annel mysterioso, por expressa recommendação do moribundo, desceu com o cadaver á
+sepultura. Outra piedosa pessoa, a quem o sr. Leorne
+revelára as qualidades e soffrimentos de Graça Strech,
+se encarregou de fazer-lhe os funeraes na capella do
+Prado do Repouso, reservando para si a guitarra
+que elle por tão longos annos dedilhára.</p>
+
+<p>Aqui podia terminar a biographia de José Maria da
+Graça Strech, mas, para que fique mais completa,
+concluiremos copiando textualmenle as unicas palavras
+que até hoje falavam d'elle:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="sinopse"><i>João José Duarte Machado, capellão director do cemiterio do Prado do Repouso, n'esta cidade do Porto:</i></p>
+
+<p>«Certifico que no livro quarto do registo dos obitos
+e enterramentos dos adultos, a folhas trezentas
+setenta e sete, verso, se acha o assento seguinte:</p>
+
+<p>«José Maria da Conceição Graça, filho de Francisco
+Pinto Graça, e de Maria da Gloria, natural do
+Porto, edade sessenta e seis annos, estado solteiro,
+profissão mendigo, morador que foi no Hospital de
+Cima de Villa, dos Entrevados, falleceu de molestia
+não denominada pelas nove horas da noute do dia
+vinte de maio de mil oitocentos cincoenta e nove;
+depois de se lhe rezarem os responsos do costume
+foi sepultado pelas oito horas da noute do dia vinte
+e um do dito mez n'este cemiterio publico&mdash;Prado
+do Repouso&mdash;no canteiro numero tres, sepultura
+dois mil trezentos e seis, de que se fez este termo
+que assigno com o reverendo capellão. Eu Antonio
+José Antunes Barbosa, director, o subscrevi. <i>Antonio
+José Antunes Barbosa</i>, director. <i>Francisco Alves da
+Soledade</i>, capellão.</p>
+
+<p>«Não contém mais o dito assento, ao qual me reporto.
+Porto e Cemiterio do Prado do Repouso, nove
+de setembro de mil oitocentos setenta e tres.</p>
+
+<p class="assin">«J<small>OÃO</small> J<small>OSÉ</small> D<small>UARTE</small> M<small>ACHADO</small>.»</p>
+
+<p class="assin">«Capellão director.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado"><big>FIM</big></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#m_nota15" name="nota15">[15]</a></sup>
+Em 1873.</p>
+</div>
+
+</div>
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a name="pag_191">{191}</a></span></p>
+
+<h2>INDICE</h2>
+
+
+<table align="center" summary="Indice">
+<tr><td colspan="2">Prologo da 3.ª edição</td><td><a href="#pag_5">5</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">I&mdash;</td><td>O Desgraça</td><td><a href="#pag_7">7</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">II&mdash;</td><td>Na quinta das Chãs</td><td><a href="#pag_10">10</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">III&mdash;</td><td>Pomba que presente sangue</td><td><a href="#pag_19">19</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">IV&mdash;</td><td>Horrores da invasão</td><td><a href="#pag_28">28</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">V&mdash;</td><td>O juramento da vingança</td><td><a href="#pag_38">38</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">VI&mdash;</td><td>A mariposa do acampamento</td><td><a href="#pag_47">47</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">VII&mdash;</td><td>No hospital de sangue</td><td><a href="#pag_55">55</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">VIII&mdash;</td><td>O anjo da liberdade</td><td><a href="#pag_63">63</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">IX&mdash;</td><td>Entre a vingança e o amor</td><td><a href="#pag_72">72</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">X&mdash;</td><td>A hora do resgate</td><td><a href="#pag_82">82</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">XI&mdash;</td><td>O que a vivandeira pensava</td><td><a href="#pag_90">90</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">XII&mdash;</td><td>Amor e ciume</td><td><a href="#pag_101">101</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">XIII&mdash;</td><td>Como acaba a tragedia de Goethe</td><td><a href="#pag_109">109</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">XIV&mdash;</td><td>Quanto custa ser mãe</td><td><a href="#pag_118">118</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">XV&mdash;</td><td>A queda do gigante</td><td><a href="#pag_127">127</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">XVI&mdash;</td><td>Uma festa no Porto ha cincoenta e
+nove annos</td><td><a href="#pag_136">136</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">XVII&mdash;</td><td>Como madrugam as aves e os noivos!</td><td><a href="#pag_146">146</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">XVIII&mdash;</td><td>A lenda d'Ashaverus</td><td><a href="#pag_155">155</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">XIX&mdash;</td><td>A terra da promissão</td><td><a href="#pag_165">165</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">XX&mdash;</td><td>O manuscripto de Pietro</td><td><a href="#pag_174">174</a></td></tr>
+
+<tr><td align="right">XXI&mdash;</td><td>Epilogo</td><td><a href="#pag_184">184</a></td></tr>
+</table>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Annel Mysterioso, by Alberto Pimentel
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ANNEL MYSTERIOSO ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano
+
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+
+
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+
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+
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+Literary Archive Foundation
+
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+spread public support and donations to carry out its mission of
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
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+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
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+
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+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+
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