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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:00:07 -0700 |
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Lisboa: Empresa da Historia de Portugal, 1904."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + text-decoration: none; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;} + h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 2em;} + h2 {text-align: center; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 2em; font-size: small; text-indent: -2em;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + #corpo p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + #corpo blockquote p {text-indent: 0;} + #corpo p.assin {text-indent: 0; text-align: right; margin-right: 2em;} + p.centrado {text-indent: 0; text-align: center;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;} + #corpo .ilustracao p {text-align: center; font-size: small;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: 0.7em; + color: gray; + margin-left: 2em; + margin-right: 2em; + } + #corpo .rodape p {text-indent: 0;} + .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;} + .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;} + .ntransc {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + .cap:first-letter {float: left; clear: left; margin: -0.2em 0.1em 0 0; margin-top: 0%; + padding: 0; line-height: .75em; font-size: 300%; text-align: justify;} + .cap {text-align: justify;} + .sc {text-transform: uppercase;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of O Annel Mysterioso, by Alberto Pimentel + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Annel Mysterioso + Scenas da Guerra Peninsular + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: September 17, 2010 [EBook #33749] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ANNEL MYSTERIOSO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div class="ntransc"> +<p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1904.</p> + +<p>Foi mantida a grafia usada na edição original de 1904, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e +que por isso não foram assinalados.</p> +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_1">{1}</a></span></p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p class="centrado" style="font-size: 1.5em;">O ANNEL MYSTERIOSO</p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pn"><a name="pag_2">{2}</a><br><a name="pag_3">{3}</a></span></p> + +<div style="text-align: center"> + +<p style="font-size: 1.2em;">NOVA COLLECÇÃO PORTUGUEZA</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">II</p> + +<p style="font-size: 2.2em;">O ANEL MYSTERIOSO</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">SCENAS DA GUERRA PENINSULAR</p> + +<p style="font-size: 1em;">ROMANCE ORIGINAL DE</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">ALBERTO PIMENTEL</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">3.ª EDIÇÃO, ILLUSTRADA, REVISTA PELO AUCTOR</p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> + +E<small>MPREZA DA</small> H<small>ISTORIA DE</small> P<small>ORTUGAL</small><br> + +<small><i>Sociedade Editora</i><br> + +LIVRARIA MODERNA<br> + +Rua Augusta, 95<br> + +TYPOGRAPHIA<br> + +45, Rua Ivens, 47</small><br> + +1904</p> + +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_4">{4}</a><br><a name="pag_5">{5}</a></span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div id="corpo"> + +<h2>PROLOGO DA 3.ª EDIÇÃO</h2> + +<div class='cap'>E<span class="sc">ste</span> é um dos romances da minha mocidade. Foi +publicado pelos editores da <i>Bibliotheca Universal</i>, de Lisboa, em +1873. Precederam-n'o os <i>Idyllios +á beira d'agua</i>, (1870), a minha primeira tentativa +no romance, e <i>O testamento de sangue</i>, escripto +aos vinte e trez annos.</div> + +<p>Estas datas desculpam hoje, aos meus proprios +olhos, tudo quanto ha de hesitante e incorrecto em +todas as trez novellas, que foram as primicias litterarias +de um rapaz educado n'uma terra essencialmente +commercial, avessa a idealidades romanescas +e ao convivio e apreço de escriptores, bons ou simplesmente +toleraveis.</p> + +<p>Pelo que especialmente respeita ao <i>Annel mysterioso</i>, +se quando agora o reli me não descontentou a +acção dramatica, achei-lhe comtudo algum excesso +de floração declamatoria, que é um defeito peculiar +a todos os estreantes.</p> + +<p>A grande arte de escrever está na ponderada sobriedade +da expressão, no equilibrio estavel entre a +phrase e o pensamento.</p> + +<p>Fóra d'isto ha rhetoricos, mas não ha escriptores.</p> + +<p>Se eu, no decorrer dos annos, consegui aproximar-me +d'este requisito essencial, não perdi de todo +o meu tempo. Mas, ainda n'esse caso, é defensavel a +reimpressão de uma novella, que póde fornecer elementos +de confronto entre duas épocas da vida de +um escriptor.<span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span></p> + +<p>Como quer que seja, o <i>Anel mysterioso</i> agradou +quando foi publicado em 1873. A breve trecho sahiu +a segunda edicção. E os mesmos editores me convidaram +a escrever logo em seguida outro romance, +que foi <i>A Porta do Paraizo</i>.<sup><a href="#nota1" name="m_nota1">[1]</a></sup></p> + +<p>Ambos estes livros me abriram caminho entre o +publico de Lisboa.</p> + +<p>O exito da <i>Porta do Paraizo</i> explica-se facilmente +pelo interesse que inspirava ainda então o reinado +de D. Pedro V.</p> + +<p>Quanto ao <i>Annel mysterioso</i>, que não é senão a +biographia de uma celebridade das ruas do Porto, +parece que foi o entrecho commovente que no espirito +dos leitores lisbonenses suppriu a falta de conhecimento +directo do protagonista.</p> + +<p>Quando eu escrevia este romance, muitas pessoas +d'aquella cidade se lembravam ainda de ter visto frequentes +vezes o <i>Desgraça</i>.</p> + +<p>Uma d'essas pessoas era Camillo Castello Branco, +que, seis annos depois da publicação do <i>Anel mysterioso</i>, +dizia a pag. 296 do livro <i>Sentimentalismo e +historia</i>: «A um canto (do botequim da <i>Aguia d'ouro</i>) +estava um velho de semblante livido, muito desgraçado, +com um chapeu enorme de sêda d'um azulado +decrepito, com um grande cigarro no canto da +bocca. Ao lado, sobre um mocho, via-se uma guitarra +com manchas gordurosas de suor que punham brilhos, +e aos pés um cão d'agua com o felpo encarvoado, +cheio de torçidas, encaroçado, dormia, e acordava +de salto, apanhando com muita furia, no ar, as +moscas que lhe picavam as orelhas. Era o José das +Desgraças, o legendario mendigo, que morreu de saudades +do seu cão, aggravadas pela fome».</p> + +<p>Esta referencia authentíca hoje o retrato de uma +individualidade popular, cujos contemporaneos +dormem, como ella, o somno eterno da morte.</p> + +<p>Lisboa, 10 de abril de 1903.</p> + +<p> </p> + +<p class="assin"><i>Alberto Pimentel.</i></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota1" name="nota1">[1]</a></sup> +A quarta edicção, luxuosa, d'este romance, foi por nós publicada em 1900.</p> + +<p class="assin">(Nota dos editores.)</p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p><span class="pn"><a name="pag_7">{7}</a></span></p> + +<h1>O ANNEL MYSTERIOSO</h1> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>I</h2> + +<h2>O Desgraça</h2> + +<div class='cap'>E<span class="sc">ntre</span> os typos populares, que pouco a pouco +vão rolando a sepulturas ignoradas, deixando +após si o rasto de uma vida sobremodo +accidentada de peripecias quasi sempre sombrias—rasto +que só um ou outro escriptor se compraz +em prucurar desde a cadeia ao degredo, do albergue +ao cemiterio—avulta na tradição portuense um homem +que por longo tempo ahi foi o alvo das assuadas +do rapazio e dos chascos dos frequentadores de +botequim. Uns chamavam-lhe o <i>José das Desgraças</i>, +outros simplesmente o <i>Desgraça</i>.</div> + +<p>Parece dever inferir-se de tão lutuosa alcunha que +a população da cidade lhe conhecia a biographia +exuberante de lastimosos lances. Tal não ha. Quando +elle passava coxeando arrimado ao seu bordão, +sobraçada a guitarra inseparavel, de velho chapéo +alto amassado, sobrecasaca abotoada, pendente a medalha +de prata da guerra peninsular, annel d'ouro na +mão esquerda, na bocca o enorme cigarro que elle +proprio manipulava com pontas de charuto, seguido +do cão fiel, que se chamava <i>Junot</i>, por motivos que +mais tarde desvelaremos, o gentio das ruas ou sorria +alvarmente da pittoresca pobresa do excentrico mendigo, +ou rompia em apostrophes de <i>Ó Desgraça! +Ó Desgraça!</i> que elle parecia não ouvir ou despresar +em sua imperturbavel serenidade.<span class="pn"><a name="pag_8">{8}</a></span></p> + +<p>E a populaça, sem sequer suspeitar da tenebrosa +origem do cognomento, quedava-se a ouvil-o, calmadas +as arruaças com que era saudado, quando elle, +sentado á porta de um café, especialmente o do Jardim +de S. Lazaro, começava a tanger melancolicamente +a sua guitarra, na qual executava operas completas, +queimando o seu enorme rolo de tabaco e +contemplando, de cabeça inclinada, o cão que parecia +escutal-o attentamente...</p> + +<p>Depois, quando a mão caía extenuada sobre as +cordas silenciosas, affigurava-se, tão alheado ficava, +que estava rememorando maguas intimas, segredos +da sua vida obscura, sem que parecesse dar tento +das esmolas que lhe atiravam ao regaço os que entravam +ou saíam a porta do botequim.</p> + +<p>Ás vezes, como se não houvesse conseguido linimentar +com a musica as recordações dolorosas acordadas +no imo peito, voltava a tanger na guitarra uns +dulcissimos arpejos que finalmente lhe serenavam a +alma tempestuosamente alanceada, chorando por +elle, que não tinha lagrimas.</p> + +<p>Restituido á realidade da sua resignada nobresa, +erguia-se firmado no bordão, sobraçava a guitarra, e +continuava a peregrinação, vagueando pelas ruas da +cidade, sem todavia dirigir-se aos transeuntes e recebendo +impassivel os óbolos que jámais solicitava. +E o cão, o leal companheiro de infortunio, seguia +egualmente resignado seu dono, e quasi sempre indifferente +ás provocações do rapazio que se divertia em +apedrejal-o e açulal-o.</p> + +<p>Frequentemente intervinha o <i>Desgraça</i> ameaçando +com o bordão os perseguidores do seu dedicado +companheiro; mas como o inquieto rapazio conhecesse +que a velhice lhe desnervava o braço, entrava +de levantar celeuma atroadora, em que, ainda assim, +quasi sempre se distinguiam vozes de «Morra o <i>Desgraça</i> +e o <i>Junot</i>! Vende o annel e não andes a pedir!»</p> + +<p>Estranho homem devia de ser esse, que parecia +guardar grande mysterio, e tinha por unico amigo, +entre uma população inteira, que o apupava, o cão +fiel, e por consolação unica a sua guitarra, e por unica +protecção a piedade dos seus conterraneos, que +elle não implorava.</p> + +<p>O povo não suspeitava sequer que a biographia<span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span> +d'aquelle homem justificasse o appellido. Quando o +<i>Desgraça</i> fazia chorar a guitarra entre os dedos, e o +cão denunciava comprehender a guitarra, como que +ligeiramente se commovia a turba acatasolada, mas +d'ahi a pouco, quando estrondeavam os apupos, era +o cão o unico espectador que mostrava lêr na physionomia +do velho o mysterio de uma vida tormentosa.</p> + +<p>Ria a gentalha torpe d'aquella intima convivencia +de homem e cão. E todavia não saía d'entre a arraia +miuda o mais desgraçado dos populares a dizer ao +pensativo guitarrista: «O teu cão sente e não fala; +eu falarei por elle. Soffres decerto muito e precisas +consolação. Eu sou tambem muito infeliz, muito mais +do que tu, porque não tenho guitarra nem cão. Deixa-me +pois compartir do teu cão e da tua guitarra, +que eu te darei o que tu não tens, dois ouvidos que +te escutem, uma voz que te responda.»</p> + +<p>Não. A desgraça é tão infeliz, que se ri da desgraça; +é ella que se desauctorisa a si mesma. Só lhe falavam +para chasqueal-o, para lhe cuspir na face a +zombaria que elle, absorto no seu continuo cogitar, +deixava resvalar aos pés.</p> + +<p>E todavia aquelle homem era um grande desgraçado, +que só tinha no mundo a sua guitarra, o seu +cão, e as suas recordações. O annel, que trazia na +mão esquerda, podia matar-lhe talvez um dia de fome, +mas não haveria miseria que lh'o arrancasse do +dedo, porque as suas recordações estavam n'aquelle +annel.<span class="pn"><a name="pag_10">{10}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>II</h2> + +<h2>Na quinta das Chãs</h2> + +<p>Na noite de 17 de fevereiro de 1809, a morgada +viuva da quinta das Chãs conferenciava gravemente +com o seu capellão n'uma das salas terreas do solar, +a duas leguas de Braga, sobranceiro á aldeia de Carvalho +d'Éste. A morgada, senhora de uns sessenta +annos, deixava entrever nas sombras da physionomia +a tempestade que lhe agitava a alma; o capellão, passeando +de um para outro lado, enviesava á morgada +olhares investigadores, que para logo revelariam perfidia +e cupidez.</p> + +<p>—É preciso partir, padre capellão, dizia afflictivamente +a morgada. Se os francezes logram atravessar +o rio Minho, estarão brevemente em Braga. A mim +pouco me importaria a vida se não fosse Augusta, +que a esta hora está dormindo na serenidade da +sua innocencia. Tomára que chegasse o Teixeira +para contar o que se passou. Diga o que disser, padre +capellão, é preciso pensar maduramente. Meu genro +fez-me depositária de um thesouro, que eu hoje quero +salvar de todos os perigos, custe o que custar, +porque se me affigura que já estimo mais Augusta +do que aos seus proprios paes, e a seu irmão. Recebi +minha neta aos 5 annos, porque á luz da consciencia +conheci que melhor poderia eu sustentar uma +criança, apesar das hypothecas da minha casa, do que +um pobre capitão do exercito poderia sustentar dois +filhos. O padre capellão administrava as propriedades. +Que me restava a mim para não morrer de aborrecimento +durante o dia? Augusta, a criança que me +tinha sido confiada. Era ella a minha unica distracção, +o meu unico amor; ha dez annos que este tecto +lhe abriga a innocencia, e ha dez annos que eu abençôo +a resolução de a chamar para amparo da minha +velhice. Olhe que os annos tornam a gente egoista,<span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span> +padre capellão; a abnegação é só apanagio da mocidade. +Não pense que me bastava a unica distracção +do voltarete; é sempre a mesma cousa! Quando eu +<i>peço licença</i> o padre capellão <i>prefere</i>, e o Teixeira +dá-lhe <i>codilho</i>. Tambem é boa embirração a sua de +<i>preferir</i> sem jogo. Nem que tivesse vontade de fazer +mal... E o dia, estes longos dias da provincia, que +não teem fim! Era morrer de fastio. Augusta trouxe-me +cuidados e variedade. A principio com as suas +exigencias de criança; agora com as suas ingenuidades +de donzella. Vi, anno a anno, desabotoar a flôr. +A flôr, disse bem, porque Augusta é realmente uma +rosa... de quinze annos. E é que eu a estimo como +seu jardineiro que sou. Instantemente lhe pedi que +se deitasse para que não ouvisse dizer ao Teixeira +as proezas que os senhores francezes teem feito lá +para esse rio Minho. Mas, padre capellão, o que é +certo é que eu já haveria partido para o Porto, se +n'esta occasião estivesse prevenida com recursos. O +padre capellão bem sabe...</p> + +<p>—Sei, sei, senhora morgada, que a occasião é má +para todos.</p> + +<p>—Se os caseiros pudessem pagar o resto das rendas...</p> + +<p>—A senhora morgada devia conhecer o que é +guerra sobre guerra. Tivemos esse excommungado +Junot, mais as suas aves de rapina, a comer-nos os +olhos da cara. Nem as egrejas respeitou, o maldito! +A senhora morgada ainda fala em pedir o resto das +rendas aos caseiros! E para quê? Para fugir para o +Porto, para casa de seu genro, para abandonar as +suas propriedades!</p> + +<p>—O padre capellão velará por ellas. É que eu bem +sei os sustos que curti aqui durante a primeira invasão. +Se no Porto não estivesse a soldadesca do Taranco, +teria fugido para lá.</p> + +<p>—E que teima essa de me querer confiar as suas +propriedades, capacitado como estou de que a senhora +morgada suppõe que lh'as administro mal! +Administro mal, administro, porque não forço os caseiros +a pagarem o resto das rendas para vossa senhoria +o ir gastar no Porto com a familia de seu +genro. Depois de uma guerra e em vesperas de outra +é que a senhora morgada fala em pagar!</p> + +<p>—Pagar é um dever, padre capellão, e quanto mais<span class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span> +nos apressamos a fazer o que devemos tanto maior +é o repouso do espirito. Bem sei que são más as circumstancias, +mas é que tambem esta pobre gente se +importa pouco com o calendario, e acha que todo o +tempo é tempo. É que tambem não imaginam que +se esconda a pobresa detraz de pergaminhos e genealogias. +Pois esconde, se esconde! Sabe o padre capellão +que eu falei no resto das rendas porque n'esta +occasião não ha dinheiro em casa. Ninguem melhor +o sabe, porque lhe passam os negocios pela mão. O +que é certo é que eu sinto ameaços de pobresa...</p> + +<p>—Nem tanto ao mar, senhora morgada...</p> + +<p>—Se presinto! Vivo modestamente n'estas solitarias +Chãs, encantada nas graças d'Augusta, cerrando +ouvidos ao bulicio da cidade que está proxima. Não +posso fazer despezas extraordinarias, é preciso não +largar a brida da mão para costear as indispensaveis.</p> + +<p>—Os chás não são indispensaveis, senhora morgada...</p> + +<p>—Magôa-me a sua ironia, padre capellão! Tanto +mais que sabe como é limitado o serviço da nossa +mesa de jogo. E depois queria que eu fechasse as +minhas portas na face do velho Teixeira, amigo leal +da nossa casa desde a mocidade de meu marido? Sabe +o padre capellão como o morgado deixou as propriedades +sobrecarregadas de hypothecas. Mal tenho +podido rehabilitar o casal, apesar de todas as economias +e da maxima abstenção d'obras de beneficencia...</p> + +<p>—Maxima abstenção!...</p> + +<p>—É injusto, padre capellão! Refere-se talvez á +Augusta... Não sabe que é filha de minha filha, casada +por inclinação com um honrado militar do exercito +portuguez, a quem não basta unicamente a sua +immaculada honradez para ser feliz! Era-me impossivel +soccorrer a mãe; soccorri a filha. Eu não podia +ir mais longe, senão teria ido. Sempre contrariedades! +Sempre o padre capellão a annunciar-me algum +novo desastre! Ah! mas d'esta vez creia que não +haverá desastre nem contrariedade que me véde o +tirar dos hombros uma enorme responsabilidade, levando +Augusta para a companhia dos seus, e minha +tambem, porque ella é minha, e muito minha, pelo +sangue e pelo coração... Em ultimo caso, recorrerei +ao emprestimo...<span class="pn"><a name="pag_13">{13}</a></span></p> + +<p>—Outro?</p> + +<p>—É minha filha e meus netos que eu prejudico; +o padre capellão, não. Todavia, como é para bem +d'elles, elles m'o perdoarão. O padre capellão por +sua propria mão recebe os juros das quantias que +tem desembolçado, e creio que as propriedades que +conservo fartamente abastarão ao pagamento do capital, +no momento em que queira usar dos seus direitos +de crédor.</p> + +<p>—Eu não quero...</p> + +<p>—Deixe-me figurar a peior hypothese, e evidenciar-lhe +que lhe não causam detrimento os seus desembolços.</p> + +<p>—Falando francamente, senhora morgada, sou a +dizer-lhe que o juro é pequeno...</p> + +<p>—Augmente-o como lhe apraza. Não é meu costume +questionar cinco réis ao padre capellão.</p> + +<p>—Eu sou tão pobre como a senhora morgada, tartamudeou +o reverendo com um frouxo de tosse que +denunciava estar providencialmente entalado com o +osso da mentira.</p> + +<p>A morgada gesticulou de incredulidade e enfado.</p> + +<p>—Eu sou tão pobre como a senhora morgada, reatou +o capellão ajudando-se a engulir a falsidade +com um sorvo de rapé—e é á custa de trabalho que +tenho recolhido escassas mealhas ao canto da gaveta. +De inverno arrosto as neves da madrugada para +saír aos campos a espionar os trabalhadores no interesse +de vossa senhoria. No verão aguento as calmas +do meio dia para os estimular ao trabalho. As horas +feriadas de canceiras externas passo-as á banca a fazer +a escripturação ou no quarto a rezar as minhas +orações. Tenho envelhecido ao serviço de vossa senhoria, +e o magro peculio do pobre padre ao trabalho +o devo. E o mais é que já vou achando ser horas +de descançar... Vejo porém que não seria facil encontrar +quem com zelosa dedicação governasse a +casa alheia, e, se me é canceira o dirigil-a a despeito +da velhice, tambem me é consolação o ouvir dizer-me +a consciencia que devo trabalhar por não ver +quem facilmente me substitua. Digam embora o senhor +seu genro e a senhora sua filha o que quizerem, +e me consta que dizem: a verdade é esta...</p> + +<p>—Convenho, padre capellão, e é por conhecer a +sua desinteressada—a morgada deu a esta palavra<span class="pn"><a name="pag_14">{14}</a></span> +uma inflexão sensivelmente ironica—desinteressada +dedicação, que tenho batido á sua porta sempre que +a necessidade me obriga a incommodar alguem. Se +lhe pedia agora para passar aviso aos caseiros, era +porque não queria importunal-o com repetidas mercês...</p> + +<p>—Nunca me incommodaram as ordens de vossa +senhoria, atalhou o padre, curvando-se respeitosamente +a meio da sala.</p> + +<p>—Eu é que a mim mesma me incommodo com a +ideia de incommodal-o, posto que eu não seja dos +devedores que mais devem aborrecer por egoistas...</p> + +<p>—Creio que já tive a honra de dizer á senhora +morgada que a occasião é má para todos.—E proseguiu +mirando ao alvo que elle queria attingir: Era +porém grande a quantia que vossa senhoria desejava?</p> + +<p>—A sufficiente para me transportar ao Porto com +a menina, e para não tornar pesada a hospedagem +que minha filha haja de dar-me. É preciso partir, padre +capellão, se os francezes não forem repellidos na +fronteira. Entrarão por esse Minho dentro furiosos, e +eu não respondo só pela minha vida, que já pouco +vale, mas tambem pela de Augusta, que me foi confiada +em deposito. Que valeria a minha presença +aqui? Os criados fugiriam decerto, e a edade do padre +capellão não lhe permittiria defender duas mulheres, +ambas timidas, uma porque é velha, e outra +porque é nova. Além de maior segurança que offerece +o Porto, como grande cidade que é, Augusta +poderá d'ali seguir melhor a sorte de seu pae e seu +irmão nos combates. Não estará para aqui anciosa +sem receber noticias que a tranquillisem. Aqui, quando +ha guerra, apenas se sabe que ha guerra, e mais +nada. O padre capellão offereceu-se para ficar; desappareceram +todas as difficuldades. Sem o seu offerecimento eu não poderia deixar desamparado o solar +de meus avós. Teria de luctar angustiosamente +entre o amor d'Augusta e o respeito á memoria de +meus paes e meu marido. Se os invasores entrarem, +respeitarão porventura a sua velhice e as suas vestes, +padre capellão, se é que elles respeitam alguma +cousa...</p> + +<p>O padre capellão, julgando haver já simulado a +precisa resistencia á partida da morgada, apostrophou +de golpe:<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span></p> + +<p>—Mas, voltando ao caso, senhora morgada, ponhamos +os pontos nos i i. Quanto desejava vossa senhoria?</p> + +<p>—Eu... cem moedas talvez.</p> + +<p>—Cem moedas é muito, senhora morgada, e eu +não estou prevenido.</p> + +<p>—Pois veja o padre capellão se póde obter essa +quantia, que eu cederei a qualquer exigencia de +juro.</p> + +<p>—Menos de 15 por cento não será possivel, senhora +morgada...</p> + +<p>—Pagarei os 15 por cento; trate o padre capellão +de negociar sem demora as cem moedas.</p> + +<p>—Hum! rouquejou o padre. Veremos. Póde ser +que se abra alguma porta ao homem honrado que só +em grande estreiteza deixa d'abrir a sua. Ámanhã falaremos, +senhora morgada. Vou fazer as minhas rezas +emquanto não chega o palrador do Teixeira com +noticias dos francezes...</p> + +<p>E saíu da sala em direcção ao seu quarto.</p> + +<p>A morgada, vendo-se só, pareceu respirar com sofreguidão, +como o encarcerado que conquista a liberdade +e, como elle, pareceu conversar comsigo +mesma:</p> + +<p>—Que alma de marmore a d'este homem! É um +inimigo que tenho de portas a dentro e que conservo +porque me não permitte o animo nem a edade +travar lucta com tão arteiro contendor, que apara todos +os golpes na batina com beatitude irritante.</p> + +<p>Depois levantou-se, agitou a campainha, e esperou +com os olhos fitos na porta que apparecesse a +criada.</p> + +<p>—A menina dorme? perguntou.</p> + +<p>—Dorme, senhora morgada.</p> + +<p>—Accende o candieiro e abre a mesa. Quando bater +o sr. Teixeira, manda entrar.</p> + +<p>Palavras não eram ditas, resoou a aldrava do portão.</p> + +<p>Momentos depois entrava á sala o velho Teixeira, +fidalgo retirado das pompas da côrte por conselho +da consciencia que o advertia de que estava a empobrecer +d'um dia a outro. N'aquelles tempos que precederam +a retirada da familia real para o Brazil, as +tentações de Lisboa eram tantas, e tão dispendiosas, +que não admirava que um cortezão immolasse a celebradas<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span> +damarias o seu opulento morgado do Minho. +Alguma coisa salvára porém o velho aulico do muito +que na côrte consumira. Trouxera de lá a palaciana +compostura que realça até mesmo na decadencia. +Maneiras e palavras, pesadas com fina discreção, estavam +desculpando a cada passo as sombras que por +mais d'uma vez denunciavam não ser impeccavelmente +crystalina a reputação das açafatas da rainha D. Maria I.</p> + +<p>Entrou o fidalgo e logo correu a morgada a perguntar-lhe +anciosamente:</p> + +<p>—Que noticias nos traz vossa senhoria?</p> + +<p>—Boas, senhora morgada, se póde haver boas noticias +quando a tempestade, que se descondensa n'um +ponto, ameaça n'outro.</p> + +<p>—Inda bem! inda bem! apostrophou a morgada +relanceando um olhar d'alegria á porta do quarto onde +estava descançando a neta.</p> + +<p>O padre capellão, sem se dar o incommodo de +desculpar a ligeireza com que alinhavara as suas orações, +appareceu mordido de curiosidade.</p> + +<p>—E o caso é que pensei que das indagações já +não sobrava tempo para o nosso voltarete!—disse o +Teixeira sentando-se a um gesto da morgada.—Venho +tarde, e porei por desculpa da demora o bom +empenho que tinha em poder satisfazer a justa anciedade +de vossa senhoria.</p> + +<p>—Não obstante serem boas as informações, supplico-lhe +que não aggrave as côres do quadro, dado +que entre por ahi de improviso a minha neta, que se +recolheu aos seus quartos, por ordem minha, para +não ser testemunha auricular da narrativa no caso +de que fosse lugubre.</p> + +<p>—Os francezes foram repellidos heroicamente, +disse o fidalgo baixando a voz.</p> + +<p>—Vamos a isso! atalhou o padre capellão fungando +uma pitada.</p> + +<p>O fidalgo proseguiu:</p> + +<p>—Os francezes não ousaram metter-se ao Minho, +que vae de monte a monte, com a agua que tem caído, +por se arreceiarem da cheia. Trouxeram por terra +os barcos que puderam obter na Guardia, e puzeram-n'os +a nado no Tamuge.</p> + +<p>—Que artes teem os malditosl exclamou o capellão<span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span> +lembrando-se de que não haveria thesouro que +resistisse á astucia franceza.</p> + +<p>—Deixe ouvir... observou a morgada.</p> + +<p>—Eram vinte e tantos os barcos, que pretendiam +abicar á praia do Camarido. Trez separaram-se, ao +descer o rio, e chegando primeiro á praia, os soldados +desembarcaram. Os outros barcos tiveram que +luctar, e muito, contra a maré que lhes era adversa. +Isto durou toda a noite. Só hontem de madrugada +foi que o Champalimaud percebeu claramente a tentativa +do inimigo, e que mandou fazer fogo de fuzilaria. +Um dos barcos foi a pique; outro despedaçou-o +o mar. Os francezes dos trez primeiros barcos refugiaram-se +no Camarido. Estes desastres deram alento +aos paisanos, que se embarcaram para atacar o +inimigo no rio, protegidos pela artilharia da Areia +Grossa e da Insua, e pelos soldados do 21. Os francezes, +contrariados pela correnteza das aguas e pela +resistencia dos nossos, retrocederam para a margem +direita do Minho, desesperando d'atravessal-o. Então +bateram os nossos a matta do Camarido, encontrando +dentro mais de trinta francezes, um dos quaes +consta ser capitão e haver declarado o nome do general +em chefe de todo o exercito. Chama-se Soult +o general...</p> + +<p>—Elles tambem escolhem-n'os pelos nomes! interrompeu +o padre para quem toda a prosodia era difficil, +incluindo a latina e a... portugueza.</p> + +<p>—Os paisanos, segundo se dizia em Braga, fizeram +proezas, continuou placidamente o fidalgo. Até +as mulheres acudiram com fouces roçadouras e forcados.</p> + +<p>—Nunca as mãos lhes dôam... observou impudentemente +o capellão</p> + +<p>—Pelo meio dia atacaram os francezes Villa Nova +da Cerveira, sendo ainda repellidos brilhantemente +pelos nossos, tropa e povo. Mas, senhora morgada, o +que mais dava que falar era a coragem de trez rapazes +de Valença, que se arrojaram a ir encravar um +morteiro, que os francezes tratavam de assestar contra +a praça. Isto é o que se sabe desde manhã; o que +já se terá passado pertence a Deus e aos que estão +em armas.</p> + +<p>—Mas que lhe parece a vossa senhoria: entrarão +ou não entrarão? perguntou a morgada.<span class="pn"><a name="pag_18">{18}</a></span></p> + +<p>—Para que nos havemos de illudir com mentirosas +esperanças? Os invasores são poderosos e por +mais d'uma parte poderão entrar, ao passo que os +nossos, divididos para guarnecerem as fronteiras, perdem +muito de sua força n'essa mesma divisão.</p> + +<p>—Com que então não se fala por ora em guerra! +disse de improviso a morgada ouvindo abrir a porta +do quarto d'Augusta.</p> + +<p>O fidalgo já não teve tempo de responder porque +sentiu na sala os passos da menina.</p> + +<p>—Então não ha guerra? exclamou Augusta com +graciosa innocencia.</p> + +<p>—Não ha, não ha, respondeu amavelmente o fidalgo; +a não ser a do nosso voltarete.</p> + +<p>E continuou, convidando a morgada a sentar-se:</p> + +<p>—Permitta-me vossa senhoria, senhora morgada +que eu continue a assestar a bateria dos codilhos +contra a muralha de <i>preferencias</i> do nosso reverendo. +Então, padre capellão, quer sentar-se?... Em que +estava pensando tão absorto?</p> + +<p>—Estava pensando que se não puderem entrar +pelo litoral, poderão entrar por Chaves, porque o castello +está desmantelado, disse o capellão com a maxima +impudencia ou com a maxima velhacaria.</p> + +<p>—O quê?! perguntaram todos a um tempo, incluindo +Augusta, que pareceu fulminada de raio.</p> + +<p>—Ah! sim... isto é quando elles entrarem. Vamos +lá fazer a partida.<span class="pn"><a name="pag_19">{19}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>III</h2> + +<h2>Pomba que presente sangue</h2> + + +<p>A morgada das Chãs passou agitadamente essa noite, +e do inquieto cogitar na solidão do seu quarto +resultou levantar-se decidida a partir n'esse dia com +a neta.</p> + +<p>O padre capellão negociou as cem moedas... comsigo +mesmo, dizendo que as obtivera d'um proprietario +mediante o desconto dos juros d'um semestre +adiantado.</p> + +<p>Partiu a morgada, de manhã, para o Porto, acompanhada +por Augusta, depois de haver entregado as +chaves da sua casa ao capellão, que tinha nos labios +um sorriso de alvar alegria. Tambem a morgada estava +radiosa do duplo jubilo de poder respirar desopprimida +da sombra d'aquelle homem, e de ir collocar +sob o amparo paternal a neta querida do seu +coração. Nas faces d'Augusta havia egualmente um +reflexo d'intimo contentamento, não só porque a +aproximavam dos paes, mas porque a levavam para +os braços do irmão, a quem ternamente estremecia, +e com o qual permutava cartas diarias perfumadas +das mais suaves fragrancias do amor de familia.</p> + +<p>A menina contava quinze annos, como já sabemos; +o irmão, que se chamava José Maria, tinha dezeseis. +Estas duas creanças eram filhas do capitão do exercito +Graça Strech, que em 1809 morava á rua nova +do Almada<sup><a href="#nota2" name="m_nota2">[2]</a></sup>. O appellido Strech inculca á primeira +vista procedencia estrangeira, e realmente é d'origem +germanica. O pae do capitão Graça, allemão de +nascimento, fôra capitão de navios, e tivera por ultimo +um modesto estabelecimento commercial em Cima +do Muro. Os dois filhos de Graça Strech nasceram +porem á rua Direita, na casa que divide a rua +de Santo Ildefonso da rua de Santo André, e onde +elle morára durante os annos de 1793 e 1794.</p> + +<p>Augusta era tudo o que se póde imaginar de graciosamente +feminil na época em que nos é dado conhecel-a. +O pintor que quizesse retratal-a facilmente +lançaria á tela os cabellos loiros, naturalmente annelados; +os olhos d'um azul suavissimo como os mais +formosos horizontes; as faces d'uma brancura levemente +rosada; a estatura <i>mignonne</i>,—tudo quanto +póde haver de mais correcto e dôce em figura de +mulher. Mas a difficuldade estaria seguramente em +reproduzir no retrato a meiga morbidez dos lirios +que se abrem ao desabrochar da manhã. E n'ella +brotava a mulher das graças da creança, como um lirio +á luz da aurora.</p> + +<p>José Maria era uma organisação inteiramente opposta +á de sua irmã. Dir-se-ia que ella havia nascido +para rosa, e elle para roble; ella para succumbir, e +elle para luctar. Desenhavam-se no seu corpo de dezeseis +annos os contornos athleticos d'um spartano. +Olhos vivos, e pretos como os cabellos; talhe esbelto, +maneiras sacudidas e ageis. Pois que elle era a +força e Augusta a brandura, affigurava-se providencial +essa disparidade de constituições, e até de genios, +para que a flôr pudesse ser protegida pela sombra +do roble.</p> + +<p>Quando a morgada das Chãs chegou ao Porto, entrou-se +de profundo arrependimento por ter feito +vingar a sua resolução. Em casa da familia Strech +era grande a tristeza. O pae e o irmão<sup><a href="#nota3" name="m_nota3">[3]</a></sup> estavam +no exercito, e portanto a tristeza provinha da anciedade +com que o azar dos combates alvoroça sempre +as familias dos militares.</p> + +<p>—Eu trouxe Augusta, dizia a morgada, chorando, +á filha, para que, se houvesse de correr perigos, não +ficasse o meu coração atormentado de medonha responsabilidade; +porque mais facilmente saberia aqui +noticias do pae e do irmão do que nas Chãs; e porque<span class="pn"><a name="pag_21">{21}</a></span> +finalmente o Porto offerecia maiores garantias +e segurança do que qualquer outra terra.</p> + +<p>De feito, a cidade do Porto era julgada inexpugnavel, +e a ella se acolhera grande parte da população +do Minho, á medida que os acontecimentos da guerra +se iam desdobrando.</p> + +<p>Tratemos de saber quaes foram.</p> + +<p>Os francezes, impossibilitados de seguir o caminho +do litoral, que lhes tinha sido ordenado, marcharam +para Traz-os-Montes no proposito de entrar em Portugal +pelo valle do Tamega. No dia 8 de março estavam +as avançadas francezas á vista de Chaves, que +no dia 10 foi sitiada, rendendo-se no dia 12. O marechal +Soult, vendo-se impossibilitado de guardar os +prisioneiros, despediu as milicias e as ordenanças, +que estavam dentro da praça, depois de lhes exigir +juramento de que nunca mais pegariam em armas. +As praças da tropa de linha convidou-as a bandearem-se +no seu exercito; ellas unanimemente aceitaram +com o proposito de desertar, como aconteceu.</p> + +<p>O sonho de Soult era tomar o Porto, e para o realisar tinha nada menos que dois caminhos: o que vae +a Villa Real e o que vae a Braga. O marechal preferiu +o segundo, por ser o menos accidentado. Chegado +que fosse a Braga, só encontraria no caminho do +Porto a difficuldade da passagem do Ave em Santo +Thyrso. Seguiu, pois, o exercito francez para as alturas de Barroso no dia 14. O general Bernardim +Freire d'Andrade, tendo noticia de que os piquetes +francezes escaramuçavam na Portella de Avado e em +Villarelho da Raia com as avançadas do general Silveira, commandadas pelo coronel Magalhães Pizarro, +tomou desde logo todas as medidas possiveis para +salvar o Porto, repartindo as suas pequenas forças +por Salamonde, Ruivães, Salto e Ponte do Cavez, +guarnecendo a raia, e mandando occupar Amarante +o brigadeiro Victoria, a cujas ordens militavam o capitão Graça Strech e seu filho.</p> + +<p>No dia 15 foi Freire de Andrade insultado pela população +de S. Gens, quando voltava de visitar os postos +entre Braga e Ruivães. O fim a que avisava o general +portuguez era retardar a marcha do inimigo +sobre Braga, quanto lhe fosse possivel, para dar tempo a que d'aquella cidade saíssem para a defeza do +Porto as munições e o laboratorio. Depois de haver<span class="pn"><a name="pag_22">{22}</a></span> +expedido ordem ao brigadeiro Victoria para se internar +no Porto, recolheu-se Freire d'Andrade no dia +17 a Braga, encontrando por todo o caminho vestigios +da grandissima exaltação popular, que se levantára +mal que soou a noticia da aproximação dos +francezes. Dado o signal de rebate, o povo do Minho +saíu em turbamulta a esperar o inimigo em Carvalho +d'Éste, e outros logares convisinhos, armado de +chuços, fouces roçadouras, e mais instrumentos proprios +do seu uso.</p> + +<p>Em Carvalho d'Éste houve brodio geral, constante +de pão e vinho, a expensas d'alguns particulares patriotas, +o que não obstou a que um dos membros da +sordida junta de segurança apresentasse o rol das +despezas. Procedendo-se a uma collecta geral, que +foi voluntariamente paga, ficou o povo duplamente +esfomeado, porque a contribuição parece que só +aproveitou á junta de segurança.</p> + +<p>Avisinharam-se, finalmente, os francezes da cidade +de Braga, e conhecendo Freire d'Andrade, no dia 17 +em que ali entrou, que era impossivel qualquer defeza, +mandou retirar pela estrada do Porto, resolvido +a embargar denodadamente o passo ao inimigo n'essa +marcha.</p> + +<p>Todavia o povo, suppondo-o traidor por não se +haver empenhado em acção geral com os invasores, +saíu-lhe ao encontro em Carapoa, e já ahi seria morto +se lhe não valesse Antonio Berardo da Silva, commandante de uma brigada de ordenanças.</p> + +<p>Removido o inesperado perigo, seguiu o general +seu caminho, mas encontrando-o as ordenanças de +Tabosa, prenderam-n'o e conduziram-n'o a Braga, +onde, chegado que foi é prisão do Aljube, a populaça +desenfreada o arremessou pelas escadas abaixo, +acabando de matal-o ás chuçadas.</p> + +<p>Subsequentemente foram tambem immolados á sanha +popular, em Braga, o quartel-mestre general de +Bernardim Freire, Custodio Gomes Villas Boas, o +corregedor da cidade, Bernardo José de Passos, e +outros; e em Santo Thyrso, D. João Correa de Sá e +Manoel Ferreira Sarmento.</p> + +<p>No mesmo dia da morte do general Bernardim +Freire de Andrade tomavam os francezes posição em +frente de Carvalho d'Éste, sendo repellidos no primeiro +ataque.<span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p> + +<p>O barão d'Eben commandava as nossas tropas, com +as quaes se havia bandeado a gente das aldeias convisinhas. +Entre a populaça contavam-se os criados +da quinta das Chãs que desampararam o padre capellão, +sempre prompto a castigal-os, e odiado por +elles.</p> + +<p>Pelas onze horas da noite chegaram, para reforçar +o posto, a legião de Salamonde e duas companhias +do regimento de Vianna. Soldados e povo estavam +famelicos. Durante a noite um magote de populares, +engrossado pelos criados da morgada, bateu ao portão +da quinta. Ao primeiro chamamento não respondeu +ninguem; ao segundo assomou a uma das janellas +a cabeça silicosa do padre capellão.</p> + +<p>—Pão e vinho! gritou a turba.</p> + +<p>—Não está cá a senhora morgada, tartamudeou o +reverendo.</p> + +<p>—É o mesmo; abra a porta, contestou o gentio.</p> + +<p>Como porém a impaciencia da turba fosse muita, +a populaça metteu a porta dentro a tempo que o padre +atravessava o pateo de lampeão em punho.</p> + +<p>Um dos populares vibrou-lhe uma chuçada que o +prostrou, e logo outro, que era criado da casa, +acrescentou:—Vamos á <i>burra</i> do padreca; no que +fôr da senhora morgada não se toca.</p> + +<p>No dia seguinte atacou o inimigo novamente Carvalho +d'Éste, e no dia 20 voltou ao ataque, apparecendo +em grande força.</p> + +<p>Parece que a Providencia havia aconselhado a morgada +das Chãs a fugir de um ponto onde a lucta foi +mais renhida, porque, posto que os populares a respeitassem, +o inimigo caiu no dia 20 em forte columna +sobre Carvalho d'Éste, empenhando-se ataque +geral, e sendo desesperada a posição dos nossos, que +fugiram em grande confusão, acossados muito de +perto pela cavallaria franceza.</p> + +<p>No pateo da quinta das Chãs tinham os nossos +quinze barris de polvora que, não podendo ser salvos, +por estar muito proximo o inimigo, foram incendiados +por ordem do barão d'Eben, perecendo oito +homens na execução d'esse serviço.<sup><a href="#nota4" name="m_nota4">[4]</a></sup> As chammas, +enleiando-se pelos alpendres encostados ao edificio, +acabaram por envolvel-o, e, horas depois dos francezes<span class="pn"><a name="pag_24">{24}</a></span> +entrarem em Braga, e a tempo que o povo enfuriado +matava os presos encarcerados no Aljube, ardia, +chammejando como fornalha enorme, o solar das +Chãs, a duas leguas de distancia da cidade invadida.</p> + +<p>A noticia da tomada de Braga só se soube no Porto +no dia 22, quer dizer, quarenta e oito horas depois.</p> + +<p>Havia dias que o brigadeiro Victoria se tinha internado +n'esta ultima cidade com as suas forças, por +ordem do agora fallecido Bernardim Freire de Andrade. +Como já sabemos, o capitão Graça Strech e +seu filho militavam ás ordens deste brigadeiro. Portanto, +teve Augusta occasião de abraçar o irmão e o +pae, que procuraram serenar com palavras de carinho +e conforto os receios do angustiado coração da +menina.</p> + +<p>A morgada, quando soube que os francezes tinham +rompido por Carvalho d'Éste sobre Braga, apesar de +ignorar os pormenores da lucta, a morte do capellão +e o incendio do solar, agradeceu ao anjo da guarda +a inspiração da resolução tomada.</p> + +<p>N'esse mesmo dia foi o Porto theatro de lastimosas +scenas.</p> + +<p>Conhecida a derrota de Braga, dirigiu-se a populaça +á cadeia da Relação, reclamando a entrega dos +presos da Inconfidencia, e arrancando para fóra dos +muros do carcere o brigadeiro Luiz d'Oliveira e mais +quatorze infelizes, que foram arrastados pelas ruas +até Villa Nova de Gaya, d'onde a gentalha ensanguentada +os precipitou, do Caes da Bica, á corrente +do Douro, por haverem sido condemnados á morte +pelo tribunal popular constituido na <i>Porta do Olival</i>.</p> + +<p>Só o bispo, D. Antonio José de Castro, poderia, +por muito respeitado que era, conter a furia dos cannibaes +das ruas, mas, provavelmente para não incorrer +no desagrado da canalha contrariando-lhe os +brutaes instinctos, deixou-a espostejar á vontade os +presos da Inconfiencia.</p> + +<p>Sua excellencia reverendissima é que se não arriscou +a ser conceituado de jacobino.</p> + +<p>Quando a turba descia com os presos a calçada +dos Clerigos, ouvia-se na rua Nova do Almada a celeuma +das victimas e dos algozes.</p> + +<p>Augusta, tremula de horror, acolheu-se nos bracos +do irmão, que obtivera licença para sair por alguns<span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span> +momentos do seu posto na linha de defesa, e poz as +mãos supplicando a Deus que a tirasse do mundo +onde os homens se estavam despedaçando como feras +no sertão.</p> + +<p>Só as caricias de José Maria lograram aquietal-a, +quando a vozeria soava mais longe, porque já a multidão +havia enveredado pela rua das Flores, caminho +da Ribeira.</p> + +<p>A mãe e a avó pareciam agonisar abraçadas em +estreito amplexo.</p> + +<p>O marechal Soult, senhor de Braga, podia recuperar +as suas communicações com Tuy ou marchar sobre +o Porto, mas, como era natural, attenta a importancia +d'esta cidade e a fama das suas riquezas, optou +pelo segundo dos caminhos a tomar, porque melhor +realisaria assim o seu sonho de conquistador.</p> + +<p>Ouçamos o sr. Soriano historiando o roteiro que +o marechal Soult seguiu de Braga ao Porto: «Deixando +portanto em Braga a divisão do general Heudelet, +para lhe defender a rectaguarda contra as incursões +do general portuguez, José Antonio Botelho +de Sousa e Vasconcellos, que commandava as forças +da divisão da raia, entre os rios Lima e Minho, dividiu +o seu exercito em trez columnas, a primeira marchou +pela estrada de Guimarães a S. Justo, com ordem +de forçar a passagem do Ave de Cima e occupar +o campo do lado de Pombeiro; a segunda, commandada +pelo proprio Soult em pessoa, marchou logo +direita á Barca da Trofa; e a terceira, deixando Barcellos, +para onde de Braga tinha sido mandada, tomou +a estrada da ponte do Ave. A passagem d'este +rio foi fortemente disputada pelos portuguezes, sendo +a columna da esquerda obrigada a bater-se renhidamente +em Guimarães, Pombeiro, Negrellos, e sobretudo +n'este ultimo ponto, onde morreu o bravo +general Jardon, cuja falta muito sentida foi pela totalidade +do exercito inimigo. A marcha da columna do +centro foi interrompida na Barca da Trofa, por se +ter n'ella cortado a ponte do Ave; mas Soult, vendo +o grande cumulo das nossas forças ali, forçou a passagem +em S. Justo, ganhando a margem opposta. +Desde então facil lhe foi a columna da direita fazer +o mesmo, ficando assim vencida a passagem do Ave +em todos os pontos, e portanto aberto inteiramente +o caminho em direitura para a cidade do Porto, a<span class="pn"><a name="pag_26">{26}</a></span> +cujos entrincheiramentos o exercito francez chegou +no dia 27 de março.»</p> + +<p>Na tarde d'esse mesmo dia a guarda avançada do +inimigo, acampado em S. Mamede de Infesta, adeantou-se +até um quarto de legua das baterias do Porto.</p> + +<p>Ouviu-se na cidade o fogo indicativo da aproximação +dos francezes. Para logo se espalhou o terror, +não obstante terem sido organisados alguns elementos +de resistencia.</p> + +<p>As familias que tinham os seus empenhados nas +linhas de defeza, afflictivamente receiavam os perigos +de uma grande catastrophe, pois que ainda quando +a lucta fosse coroada pela victoria, havia de interpôr-se +aos primeiros combates e aos louros do triumpho +um mar de sangue portuguez.</p> + +<p>Que dolorosa commoção não seria a de Augusta, +que torturado soffrer nas vascas da anciedade não seria +o seu, ao ouvir estrondear á distancia o fogo que os +invasores assestavam contra as linhas de defeza, onde +combatiam o pae e o irmão! Aquellas trez mulheres, +a avó, a mãe e a filha, ajoelhadas deante de +uma imagem de Nossa Senhora, cerrando convulsamente +os olhos a cada detonação longinqua, dir-se-iam +outros tantos authómatos, empedrados pelo terror, +se não fôra o ciciar dos labios e o abrir e fechar +nervoso das palpebras.</p> + +<p>Sabem como baloiça a haste do lirio, quando o sopro +calido da tempestade proxima passa esfuziando +por entre a folhagem das plantas que lhe offereciam +resguardo?</p> + +<p>Tal era Augusta, lirio vasado em moldes de mulher, +entre os dois corações amigos, o da avó e o da +mãe, que já não podiam garantir-lhe protecção.</p> + +<p>Conhecera o marechal Soult que era má a fortificação +da cidade e má a guarnição, e expediu no dia +28 um emissario propondo capitulação. O emissario, +para se não arriscar á morte, serviu-se de um ardil +de guerra e disse-se incumbido de negociar a entrega +do exercito francez mediante condições favoraveis.</p> + +<p>Entrou o bispo em negociação, cuja má fé, por +parte dos invasores, estava manifesta na circumstancia +de continuar a ser intenso o ataque durante todo +o dia.</p> + +<p>N'essa tarde ouviu-se subitamente grande celeuma<span class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span> +nas ruas. Recresceu a anciedade no presupposto de +serem as avançadas francezas.</p> + +<p>A morgada das Chãs teve a coragem precisa para +se aproximar da vidraça, e viu um militar francez rodeado +de grande turba de populares que gritavam +enfuriadamente: «<i>Morra o Maneta! Morra!</i>»</p> + +<p>Adivinhou-lhe o coração que era um emissario, +que provavelmente ia á bateria de S. Francisco a +parlamentar com o bispo. Quasi defronte das janellas, +como augmentassem as vozes de: <i>Morra Loison, +morra o Maneta</i>, o militar francez levantou ambos +os braços para desfazer o equivoco. Não obstante, +a populaça arremettia contra o cavallo em que +elle vinha montado, e a celeuma rugia temerosamente.</p> + +<p>A morgada correu a abraçar a filha e a neta, ajoelharam +orando fervorosamente, e longo tempo supplicaram +que um raio da Providencia illuminasse o +coração do povo, para que á desgraça da invasão não +sobreviesse a furia da represalia.</p> + +<p>O emissario francez não era effectivamente o general +Loison, mas o general Foy; com blandicias e +ameaças, escriptas por Soult, vinha propôr a rendição, +que foi recusada.</p> + +<p>Com este acontecimento fechou a tarde do dia 28 +tempestuosa e triste, como se o céo compartisse do +luto da terra. Ás detonações do trovão respondiam +as detonações da artilharia.<span class="pn"><a name="pag_28">{28}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota2" name="nota2">[2]</a></sup> +Chamava-se então rua <i>Nova</i>, porque o celebre governador +da cidade. Francisco d'Almada e Mendonça, fallecido em 1804, tinha +transformado a antiga rua das Hortas n'esta nova rua, que +tomou o seu nome.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota3" name="nota3">[3]</a></sup> +Por decreto de 11 de dezembro de 1808 toda a nação foi +obrigada a pegar em armas.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota4" name="nota4">[4]</a></sup> +Este facto consta do relatorio do proprio barão.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>IV</h2> + +<h2>Horrores da invasão</h2> + +<p>Durante a noite de 28 para 29 continuou tão rijo o +fogo, que o inimigo logrou forçar a bateria da Prelada.</p> + +<p>Grande era o pavor da cidade, e maior foi quando +se soube que sua excellencia o bispo generalissimo +se havia retirado para a Serra do Pilar.</p> + +<p>Este facto demonstrava não só a descrença do prelado +na defeza do Porto, senão que tambem punha +a descoberto a intenção de fuga, no caso de perigo, +o que realmente aconteceu.</p> + +<p>Não lastimemos a impiedade deshumana do pastor, +que abandonava em tão dolorosa conjunctura o +rebanho indefeso, porque basta a historia a stygmatisal-a, +mas calculemos a funesta impressão que semelhante +noticia causaria nos animos desalentados +dos portuenses.</p> + +<p>A familia do capitão Graça Strech foi seguramente +uma das que mais succumbiram n'aquella tormentosa +noite.</p> + +<p>As trez mulheres estavam entregues ás suas orações +e angustias, inabalaveis no proposito de esperar +a pé quedo a desgraça, verdadeiramente sós, porque +os criados, que foram os primeiros a dar rebate, fugiram, +durante a noite, bandeados com outros habitantes, +para Gaya.</p> + +<p>O capitão e o filho combatiam ás ordens do brigadeiro +Victoria, na linha do Bomfim, posto defensivo +que, á hora da invasão, veiu a nobilitar-se com esforçados +prodigios de coragem por parte do intrepido +brigadeiro e dos seus.</p> + +<p>Umas visinhas da familia Strech, já preparadas +para a fuga, instaram com as pobres senhoras para +que as acompanhassem. Segundo o seu plano, acoitar-se-iam +em Gondomar, onde diziam ter parentes +lavradores.<span class="pn"><a name="pag_29">{29}</a></span></p> + +<p>Augusta, lavada em lagrimas, e offegante de commoção, +reagiu energicamente.</p> + +<p>—Se meu pae e meu irmão morrerem—dizia ella—deixemo-nos morrer tambem, porque o viver sem +elles seria peior que a morte. Se vencermos, seremos +as primeiras a abraçal-os, a agradecer-lhes por nós e +pela patria. Elles cumprem o seu dever; e nós tambem. +Elles estão no seu posto; nós estamos no nosso. +O meu coração revolta-se contra a ideia de levarmos +o egoismo da nossa vida até ao esquecimento +de que temos dois soldados nas linhas de defeza. +Muito obrigada, minhas amigas, mas minha mãe e +minha avó são da mesma opinião, e ficaremos todas. +O perigo, se o houver, repartido por trez será menor. +Vão, não percam tempo; oxalá que nos tornemos +a vêr...</p> + +<p>E despediram-se, chorando e soluçando, como se +se despedissem para a eternidade.</p> + +<p>Ao alvorejar da manhã forçaram os francezes as +baterias de Santo Antonio, Pedral e Aguardente.</p> + +<p>A cavallaria inimiga, entrando a dois de fundo pelas +ruas da cidade, correu a atacar pela rectaguarda +as baterias que resistiam ainda.</p> + +<p>Uma das que por mais tempo, e mais heroicamente +resistiram, foi a do Bomfim.</p> + +<p>Já quando era grande a confusão em todo o circuito, +destacou o brigadeiro Victoria para o exterior +da linha a gente que lhe restava da legião lusitana, +e mais duas partidas na força total de cem homens.</p> + +<p>O brigadeiro, o tenente coronel Champalimaud, o +ajudante da praça de Valency, Antonio de Azevedo, +e o capitão Graça Strech corriam denodadamente de +um lado a outro animando o povo, que ali confluira, +e que esperava poder fugir protegido por duas baterias, +as quaes não só defendiam a rua do Bomfim +mas até as baterias de Campanhã.</p> + +<p>Outro tanto não aconteceu no lado esquerdo da +linha, commandado pelo brigadeiro Antonio de Lima +Barreto.</p> + +<p>Logo pela manhã o immigo começou a atacal-o +com energia; Barreto, perdendo algumas baterias, +voltou-se para os artilheiros dizendo-lhes:</p> + +<p>—Encravem as peças. Retirem-se. Estamos perdidos.</p> + +<p>Os soldados, ouvida a ignara apostrophe, metteram-lhe<span class="pn"><a name="pag_30">{30}</a></span> +duas balas no corpo, e despejaram a ultima +polvora contra o inimigo.</p> + +<p>Quando a cavallaria franceza, forçando a bateria +d'Aguardente, entrou na cidade, as ordenanças, desamparados +os postos, fugiram tumultuariamente para +a ponte pelas ruas da Sovella e nova do Almada.</p> + +<p>A morgada, ouvindo o estridor dos fugitivos, ainda +longinquo, correu á janella, e reconheceu á distancia as ordenanças.</p> + +<p>—Que é? perguntaram-lhe anciosamente a filha e +a neta.</p> + +<p>—Não é nada; é o povo que se affez a correr e a +gritar, respondeu a morgada, tranquillisando ambas.</p> + +<p>Como porém a massa enorme rolasse já mais perto, +ouviram-se distinctamente vozes de:</p> + +<p>—São os francezes!</p> + +<p>—Vem ahi!</p> + +<p>—Fujam! fujam!</p> + +<p>—Á ponte! á ponte!</p> + +<p>—Não ha outro caminho!</p> + +<p>—Depressa!</p> + +<p>Augusta, que tinha chegado a meio da sala, recuou +espavorida, e deixou-se cair nos braços da mãe, +gritando dolorosamente:</p> + +<p>—Ah! meu pae!... meu irmão!</p> + +<p>Os francezes, entrando na cidade, levaram de roldão +adeante de si a onda allucinada dos fugitivos que +procuravam salvar-se. D'elles, uns tomavam a direcção +da Foz, outros, em maior numero, corriam para +a Ribeira, na ancia de atravessar para Villa Nova. Alguns +passaram o rio a nado ou em barcos. Mas o +grosso da multidão, enovelando-se n'uma vertiginosa +confusão de pavor, rolou sobre a ponte, cujo taboleiro +assentava, de espaço a espaço, sobre um renque +de lanchões. E as primeiras pessoas que conseguiram +transpol-a abriram, logo que se julgaram a +salvo, os alçapões da ponte—systema de defesa empregado +em casos extremos—pensando preparar assim +um desastre aos francezes que as perseguiam.</p> + +<p>Novos fugitivos, onda sobre onda, empurrando-se +uns aos outros, cegos de desespero, loucos de medo, +iam caindo pelos alçapões ao rio, e a dizimada cavallaria +portugueza, fugindo tambem, e procurando +a ponte, maior pressão fazia ainda sobre a grande +massa de povo, pisando-a, atropellando-a, empurrando-a<span class="pn"><a name="pag_31">{31}</a></span> +com os cavallos para o sorvedouro hiante onde +centenas de pessoas desappareciam, ao mesmo tempo +que as baterias de Villa Nova, vendo os francezes +descer a rua de S. João, iam metralhando a Ribeira, +e augmentando involuntariamente o terror e o +morticinio.</p> + +<p>Diz-se que eram tantos os mortos, que, empilhados +no vacuo dos alçapões, nivelaram o pavimento +da ponte, facilitando passagem aos ultimos fugitivos +por cima de rumas de cadaveres sobrepostos uns aos +outros.</p> + +<p>Os proprios invasores se commoveram com esta +horrorosa tragedia, e ainda puderam salvar da morte +algumas pessoas.</p> + +<p>Depois, lançando pranchas sobre os alçapões, passaram +para Villa Nova, d'onde facilmente desalojaram +as nossas baterias.</p> + +<p>Saibamos agora qual seria a sorte do capitão Graça +Strech e da sua familia n'essas crudelissimas horas +da invasão.</p> + +<p>Esteve o capitão ao lado do brigadeiro Victoria, +na bateria do Bomfim, até aos ultimos momentos em +que a ambos, e a poucos mais, foi dado combater +pela patria.</p> + +<p>O que é certo, e a historia o refere, é que puderam +proteger a retirada de mais de seis mil pessoas, +que se evadiram por aquelle lado da cidade.</p> + +<p>Abrigados os restantes valentes por um muro, que +se levantava no outeiro do Bomfim, lograram continuar +o fogo com desesperado denodo.</p> + +<p>Foi realmente heroico esse render-se de heroes, +quando, desamparados de todo o soccorro, enviaram +ao inimigo a ultima metralha que lhes restava.</p> + +<p>O brigadeiro Victoria, conhecendo insustentavel a +posição, apertou a mão do tenente coronel Champalimaud, +do ajudante Antonio de Azevedo e do capitão +Graça Strech, dizendo-lhes com voz tremula de +commoção:</p> + +<p>—Meus amigos, meus bravos amigos, o sacrificio +da nossa vida nada aproveitaria á patria, que está invadida. +Fizemos o nosso dever; pelejámos emquanto +pudemos. Agora que cada um procure salvar a sua +vida para quando mais util possa ser á terra em que +nascemos.</p> + +<p>Mal acabava de dizer estas palavras cahiam feridas<span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span> +duas pessoas das que rodeavam o brigadeiro: +o commandante dos artilheiros e o capitão Graça +Strech.</p> + +<p>—Que foi? perguntou Victoria.</p> + +<p>—Foi a ultima arcanhadura dos francezes, responderam +a um tempo os dois bravos militares.</p> + +<p>Era necessario retirar; por Campanhã já não podia +ser. Optaram por atravessar o Douro, que o brigadeiro +e alguns officiaes conseguiram passar defronte +d'Avintes. N'esse numero porém não podemos +incluir o capitão Graça Strech.</p> + +<p>Ferido no peito, se bem que houvesse dissimulado +a gravidade do ferimento, conheceu que era perigoso +o seu estado. Foi então que se lembrou da filha, da +esposa, da sogra, e do filho, que havia duas horas tinha +perdido de vista.</p> + +<p>Que seria d'ellas, pobres mulheres, entregues sem +protecção aos horrores d'aquelle dia? E o filho, que +se batera como valente na bateria do Bomfim, haveria +ficado entre os muitos que lá succumbiram, e +adormeceram sobre a terra embebida no sangue de +seus irmãos?</p> + +<p>Não sabia.</p> + +<p>Oh! mas era preciso que o soubesse antes que se +lhe fechasse em torno a noite escura da eternidade. +Pouco lhe importava morrer; o que elle queria era +obter a certeza de que a embriaguez da victoria não +tinha desvairado os invasores ao extremo de não respeitarem +fracas mulheres indefesas.</p> + +<p>Ainda se restasse vigoroso o braço do filho para +amparar o golpe que fosse vibrado contra ellas!</p> + +<p>Não o pôde suppôr; julgou-o morto nos derradeiros +momentos da refrega, por que o não tornou a +vêr.</p> + +<p>Atravessar o Douro era arriscado; tentar internar-se +na cidade, tambem. Todavia o primeiro meio era +a morte no desespero; o segundo podia ser a morte +com a esperança.</p> + +<p>Abraçou-se pois a esse unico esteio que lhe restava—a +esperança, de poder abraçar os seus.</p> + +<p>Arrancou os vivos da farda, e, esquecido de si, e +do sangue que cada vez lhe repuxava do peito com +maior intensidade, tentou descer a rua do bomfim e +bandear-se em logar azado com a turba dos que percorriam +as ruas desvairadamente.<span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a><br><a name="pag_34">{34}</a><br><a name="pag_35">{35}</a></span></p> + +<div class="ilustracao"> +<p><img src="images/pag_33.png" border="0" alt="Ilustração"></p> +<p>Quando elle passava coxeando... (<i>pag. 7</i>)</p> +</div> + +<p>Do militar que fôra, arrancados os vivos e emblemas, +só lhe restava a alma.</p> + +<p>Poucos passos andados, sentiu porém que lhe ía +fugindo a vista, á medida que empenhava as ultimas +forças para adiantar caminho.</p> + +<p>Ainda mais uma vez enganára a coragem do soldado +o coração do pae.</p> + +<p>Quiz andar. Fraquejaram-lhe as pernas, e Graça +Strech procurou com a mão um amparo que não encontrou.</p> + +<p>Após um momento de oscillação, ruiu em terra. +Estava morto.</p> + +<p>Entretanto havia occorrido a enorme desgraça da +ponte, e os invasores, enfurecidos pela resistencia +que encontraram, iam encetar as tremendas represalias +que estão na memoria de todos os portuenses.</p> + +<p>Infelizes os que tiveram de assistir hora a hora a +esse drama de sangue e terror que teve por bastidores +os muros d'uma cidade inteira. Infelizes os que +viram despedaçar-se momento a momento nas garras +dos cannibaes os até então immaculados thesouros do +seu coração. Infelizes, finalmente, os que viram cavar-se +a seus pés a sepultura ingente de milhares de +familias e não puderam enchel-a com o sangue dos +que assassinavam em nome da victoria.</p> + +<p>José Maria da Graça Strech pertence ao numero +d'estes grandes desgraçados, que foram muitos.</p> + +<p>Quando a bateria do Bomfim protegeu a fuga de +seis mil pessoas, já quando, depois das oito horas da +manhã, era desesperada a situação dos portuenses, +duas senhoras, que se destacaram da multidão desorientada, +acenaram ao denodado moço que por acaso +olhára na direcção que ellas seguiam.</p> + +<p>Elle reconheceu-as. Eram as duas visinhas que horas +antes tinham convidado Augusta a acompanhal-as +na fuga e que, arrastadas pela onda impetuosa dos +que procuravam salvação, chegaram até ao Bomfim.</p> + +<p>Abeirou-se o moço a falar-lhes, por um momento +radioso de felicidade, porque lhe acudira a lembrança +de que as pessoas da sua familia as haveriam acompanhado. +Oh! se sua irmã, se a estremecida menina +estivesse ali, poderia fugir incolume aos horrores que +elle presagiava imminentes, attenta a vantagem do +inimigo em toda a linha.<span class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span></p> + +<p>—Ellas vieram? perguntou açodadamente José +Maria.</p> + +<p>—Não, teimaram em ficar, respondeu confrangida +uma das senhoras.</p> + +<p>—Oh! meu Deus! exclamou o filho do capitão +Strech levando a mão ao coração.</p> + +<p>—Veja se póde salval-as, salve-as por Deus, que +estão sósinhas, desampadas de criados...</p> + +<p>—Mas como? Como?! articulou o moço estendendo +o braço para a posição do inimigo, como se quizesse +indicar que era preciso combater a todo o +transe.</p> + +<p>—Augusta, a pobresinha, fazia dó! Oh! salve-a, +salve-a, que ella morrerá de pavor! acrescentou a +outra visinha.</p> + +<p>—Augusta! Augusta! repetiu José Maria, perplexo, +olhando para as duas lacrimosas mulheres e para +os seus companheiros d'armas que defendiam á distancia +a unica bateria que não se tinha rendido.</p> + +<p>E, sem se mover do sitio em que empedrára, dizia +com desalento:</p> + +<p>—Pobresinhas! E meu pae ali, exposto á morte a +todo o instante, e ellas sem defeza, sem ninguem!...</p> + +<p>Então, aproveitando a opportunidade d'um momento, +ordenára o coronel Champalimaud que se +désse passagem ao magote dos fugitivos que mais se +tinha adiantado.</p> + +<p>—Vão, vão, gritou o moço affastando com o braço +as duas mulheres—Salvem-se ao menos, e obrigado, +muito obrigado. Eu verei se as posso salvar... +a ellas, a Augusta.</p> + +<p>O troar proximo do canhão pareceu chamal-o á realidade +do perigo.</p> + +<p>—São elles, disse de si para comsigo, correndo na +direcção da bateria, os poucos que n'esta hora se sacrificam +pela patria. E tambem hão de ter mãe, e irmã... +e estão ali, firmes, corajosos, heroicos. Oh! +cobardia do meu coração, não, não te posso, não te +devo ouvir...</p> + +<p>E não tardou que se collocasse ao lado dos seus +esforçados companheiros.</p> + +<p>Todavia cada vez se aproximava mais o lastimoso +desfecho d'aquella desesperada resistencia. Começava +a lavrar a confusão na bateria, fustigada por violento +fogo dos francezes—indomito ataque, de que<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span> +em breve foi victima, como já dissemos, o proprio +capitão Graça Strech. Tamanha era a fumarada, que +já se tornava impossivel verem-se uns aos outros. +Foi então que José Maria, involto na cerração da metralha, +conhecendo que era impossivel prolongar por +mais tempo aquella proeza de bravos patriotas, se +lembrou de que nada aproveitaria á causa da patria +o sacrificio da sua vida. E soaram-lhe aos ouvidos as +palavras afflictivas das duas mulheres, e sonhou ver estenderem-se +para elle os braços tremulos d'Augusta, +que pedia soccorro.</p> + +<p>Então, como se o coração houvesse decretado +uma sentença irrevogavel, cortou resolutamente o +fumo da polvora, e affastou-se da bateria, murmurando +os nomes de sua mãe, de sua irmã, de sua avó.</p> + +<p>Momentos depois foi que o brigadeiro Victoria fugiu +tambem, e que o capitão Graça Strech caiu morto +na rua do Bomfim.</p> + +<p>Trabalhoso e arriscado foi o abrir caminho por +entre a multidão que, semelhante a um grande mar, +ondulava no vertiginoso fluxo e refluxo do desespero. +Algumas vezes teve de se esconder, outras de +retroceder, e só pela tarde chegou á rua nova do Almada.</p> + +<p>Abroquelado pela energia da coragem, e mais feliz +ou mais infeliz que seu pae, venceu todas as contrariedades, +até que finalmente, escoando-se por entre +os grupos desvatrados, entrou em casa no momento +em que ao fundo da rua assomavam tropas francezas +que, senhoras de toda a cidade, continuavam o saque, +as violações e a carnificina que tristemente assignalaram +esse dia memoravel nos fastos da nossa +historia.<span class="pn"><a name="pag_38">{38}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>V</h2> + +<h2>O juramento de vingança</h2> + +<p>As casas da rua nova do Almada estavam pela +maior parte desertas.</p> + +<p>Foi esta uma das ruas que mais lutuoso espectaculo +offereceram. Os habitantes fugiram deixando +abertas as portas, de modo que, á hora em que começou +o saque, os francezes se locupletaram tranquilamente. +Poucos foram os predios que lhes deram +o breve incommodo de forçar a entrada. A este +numero pertenceu, porém, a casa onde se conservou, +entregue aos seus pavores, a familia Strech. José Maria, +ao entrar açodado pela aproximação dos invasores, +appellou para o ultimo recurso de defeza que +lhe restava: fechou a porta. Lembrou-se de que os +francezes se domiciliariam nos predios devolutos e +de que não porfiariam em forçar uma entrada encontrando abertas tantas portas. Não pôde imaginar +n'esse momento de suprema preoccupação que meditassem +a pilhagem e a carnificina que, passadas horas, +consummaram.</p> + +<p>Correu, pois, a procurar a irmã, a mãe e a avó, +que, ouvindo passos apressados, e no presupposto de +serem os de algum soldado francez, romperam em +gritos angustiosos, traindo d'este modo o segredo dos +seus esconderijos.</p> + +<p>—Augusta! Augusta! Minha mãe! Avósinha! apostrophou +precipitadamente José Maria para serenal-as +e correndo pelo corredor.</p> + +<p>—José! José! exclamou uma voz que parecia soar +das profundezas de um tumulo.</p> + +<p>E logo dois braços tremulos de commoção enleiaram +o moço, e uns labios gelados de mortal frialdade +lhe procuraram as faces, e um novo grito de dolorida alegria lhe estrugiu aos ouvidos.</p> + +<p>E immediatamente soaram passos, que elle conheceu:<span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span> +a mãe e a avó, seguindo a pobre menina que as +precedera, correram ao encontro de José Maria.</p> + +<p>Augusta, apertando-o contra o peito, alternando +beijos e olhares por egual frementes, porque o sangue +congelado no coração parecia, acordado de subito, +correr em turbilhões ao cerebro, não lograva +articular palavra, tão violenta era a sensação que estava +experimentando.</p> + +<p>Não assim, porém, sua mãe, que, parando como +que fulminada á porta, tivera comtudo voz para perguntar ao filho enleiado pela irmã:</p> + +<p>—E... teu pae?</p> + +<p>—Lá ficou ainda a combater com os ultimos valentes. +Bem póde ser que a Providencia o tenha salvado +como a mim me salvou. O cobarde fui eu, sim, +fui eu, porque me lembrei de ti, minha irmã, e de si, +minha mãe, e...</p> + +<p>Não pôde completar a phrase, porque de repente +foi chamado á realidade pelo estrepito que a soldadesca +franceza fazia na rua.</p> + +<p>—Retirem-se! escondam-se! gritou elle. São os +francezes, bem os vi, são elles! Esconde-te, Augusta, +minha mãe, minha avó...</p> + +<p>N'este momento estremeceu o predio nos alicerces +como se a porta tivesse soffrido o embate de um +ariete.</p> + +<p>—Que é? Onde é? perguntou offegante a menina, +que de novo descorára até á lividez do cadaver.</p> + +<p>—São elles que forçam a porta, naturalmente... +Eu fechei-a quando entrei, sim, eu fechei-a.</p> + +<p>—E estava aberta! Foram os criados quando fugiram! +acrescentou a avó.</p> + +<p>—Escondam-se, escondamo-nos todos. Viram-me +decerto entrar. Perseguem-me! tornou afflicto José +Maria.</p> + +<p>E, após segundo estrondo, soaram no portal e na +escada os passos da soldadesca que entrava.</p> + +<p>Das quatro pessoas que estavam na sala, nenhuma +pôde fugir; todas como que ficaram chumbadas ao +pavimento.</p> + +<p>E os francezes entraram vozeando, praguejando, e +logo assomaram á porta muitas cabeças cujos olhos +chammejavam de cubiça e sensualidade.</p> + +<p>Então José Maria, como galvanisado de subito, +adeantou-se para a porta, estendendo o braço para<span class="pn"><a name="pag_40">{40}</a></span> +defender as trez mulheres e, quando ia talvez a balbuciar +uma supplica, caiu desamparado, vibrando um +grito e recebendo no peito a ponta de uma bayoneta, +cujo golpe fôra mais doloroso que profundo.</p> + +<p>As vozes das trez mulheres, conglobadas n'uma só, +soltaram uma d'essas exclamações impossiveis de +descrever, apenas comparavel ao grito lamentoso da +araponga no deserto, quando encontra vazio o ninho, +porque uma ave de rapina lhe arrebatou a prole.</p> + +<p>E a soldadesca entrou de roldão na sala, affastando +com o pé o corpo de José Maria, sedenta de prazer +e rapina.</p> + +<p>Para os que suppozerem que exageramos com +toques demasiado sombrios os horrores que se succederam +á invasão do Porto, vamos copiar apenas +algumas linhas da <i>Historia da guerra civil</i>, de Soriano:</p> + +<p>«Para cumulo de todas estas desgraças a cidade +foi posta a saque, por castigo da sua resistencia, como +em casos taes se costuma praticar, saque que +começou pelas onze horas do dia, levando os vencedores +a todas as casas de habitação, a par do terror +que infundiam, o roubo, a violação e a morte, excitados +de mais a mais para isto por encontrarem, segundo +alguns dizem, varios prisioneiros francezes +sem olhos, com linguas cortadas, e os membros truncados +ou rasgados.»</p> + +<p>Alguns escriptores o dizem, em verdade; um d'elles +é o sr. Claudio de Chaby que, nos seus <i>Excerptos +historicos</i>, refere:</p> + +<p>«No transito das ruas e praças encontraram os soldados +de Soult alguns dos seus camaradas, que nas +differentes refregas tinham os nossos aprisionado, +exercendo n'elles as sevicias da mais repugnante +crueza: a uns tinham cortado a lingua, arrancado a +outros os olhos ou decepado os membros!—O effeito +natural da observação de taes crueldades, junto á +tambem natural disposição de espirito dos invasores +em taes circumstancias, levou estes á pratica de vingativos +e deploraveis excessos, de <i>assassinato, roubo, +violencia e profanação</i>!»</p> + +<p>O mais que se passou na casa da rua nova do Almada, +depois que a soldadesca entrára, não o soube exactamente +José Maria que, ao cerrar da noite, tornára +a si, depois de haver perdido muito sangue pelo<span class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span> +golpe que recebera no peito. Foi de tempestade na +terra e no céo essa noite, como podem confirmar os +poucos que se lembrarem d'ella.</p> + +<p>Tamanho era o temporal havia dias imminente ao +Porto, que trinta navios inglezes, carregados de vinho +e outros productos, impedidos de sair das aguas +do Douro pelo mau estado da barra, caíram em poder +do marechal Soult, bem como a polvora guardada +n'um vasto armazem, e 196 peças de artilharia, +recolhidas nas differentes baterias da cidade.</p> + +<p>Algum tempo esteve José Maria firmado sobre o +braço direito, que d'instante a instante fraquejava, +procurando orientar-se e recordar-se.</p> + +<p>Era profundo o silencio na casa toda.</p> + +<p>Dir-se-ia que despertava n'um tumulo.</p> + +<p>Assim que pôde rememorar o que se passára até +ao momento de ser ferido, entrou de chamar em altas +vozes a irmã, a mãe e a avó.</p> + +<p>Apenas porém respondia ás suas afflictivas exclamações +o chofrar dos aguaceiros nas vidraças.</p> + +<p>Ergueu-se com muito custo, atabafando o sangue +com a roupa, e começou a sondar a escuridão, procurando +alguem.</p> + +<p>Não tardou que tropeçasse n'um obstaculo que os +pés encontraram. Curvou-se e tacteou. Encontrou +vestidos de mulher. Estendeu a mão e apalpou um +rosto. Até pelo tacto conhecemos os nossos. José +Maria estremeceu como se tivesse recebido em pleno +peito um novo golpe de ferro, e rugiu d'afflicção +e desespero. Não podia duvidar. Era o rosto de sua +irmã. Parecia morta! Entrou de agital-a, de chamal-a. +O mesmo silencio, a mesma immobilidade!</p> + +<p>—Mortal morta! rouquejava elle convulso.—Minha +mãe! minha avó!</p> + +<p>E unicamente lhe respondia a chuva a fustigar a +vidraça.</p> + +<p>Occorreu-lhe porém que, como se deu com elle, +podia ser que sua irmã estivesse apenas adormecida +em deliquio.</p> + +<p>—Ella é tão delicada! apostrophou-se elle. Desmaiou +talvez. Julgaram-n'a morta. Deixaram-n'a. +Mas minha mãe? E minha avó?</p> + +<p>Era preciso tirar-se d'aquella duvida horrivel.</p> + +<p>Sondando as trevas, saíu tremendo, a procurar +luz.<span class="pn"><a name="pag_42">{42}</a></span></p> + +<p>Momentos depois voltava cambaleante á sala e, levantando +una candieiro de latão á altura da cara, reconhecia +trez cadaveres.</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>N'essa mesma noite, e a essa mesma hora, ruidosamente +se banqueteavam n'uma taberna do largo da +Lapa, ebrios de vinho e victoria, alguns soldados da +divisão Delaborde.</p> + +<p>Comia-se, bebia-se, fumava-se, cantava-se. Era a +celebração solemne d'um dia de saque, que requeria +uma noite d'orgia. Algumas vivandeiras francezas +cantavam em côro, no idioma patrio, e reclinadas +aos hombros dos soldados, uma canção marcial, cujo +estribilho podia ser traduzido d'este modo:</p> + +<blockquote> +<p>Viva a França! viva a França!<br> +Que triumpha na matança!<br> + Rataplan!</p> +</blockquote> + +<p>Um dos soldados; de olhar scintillante e fartos bigodes +retorcidos, chasqueava na sua lingua natal com +uma das vivandeiras que se lhe queria escapar dos +braços:</p> + +<p>—Oh! Por Deus, que era bem mais bonita do +que tu!</p> + +<p>—Quem? perguntou d'esguelha a vivandeira.</p> + +<p>—A portugueza que me resistiu.</p> + +<p>—E que tu mataste?</p> + +<p>—E que eu matei para que não deixasse de resistir +a outro.</p> + +<p>—A pobre rapariga!</p> + +<p>—Pobre rapariga! d'aquella edade deve ter morrido +pura! Tu não morres assim, <i>ma petite chienne! +Par Dieu!</i></p> + +<p>—Cruel!</p> + +<p>—E o caso é que quasi do mesmo golpe derrubei +as duas mulheres que a defendiam e abraçavam. Um +soldado do imperador livra-se depressa ainda que seja +d'um cento de mulheres.</p> + +<p>—Cheiras a sangue! exclamou a vivandeira forcejando +por desprender-se dos braços do soldado.</p> + +<p>—Acodes pelo teu sexo! O que me não perguntas +é quantos homens matei! Por Deus! que era precisa +a vingança. Estes perros d'hespanhoes, que se chamam +portuguezes, não nos queimaram a alma porque<span class="pn"><a name="pag_43">{43}</a></span> +não puderam. Atiravam-nos desesperados! E +matavam os nossos emissarios! e mutilavam os nossos +irmãos! Quantos centos de francezes imaginas +tu que morreram hoje? Não se mata impunemente +um francez como se mata um cão. E desde que entrámos +em Portugal quantos não teem ficado para +nunca mais voltar a França! Vingámol-os; estão vingados! +<i>Vive l'empereur! Vive le marechal! Vive la +France!</i></p> + +<p>E voltando-se para outra das vivandeiras, que estava +proxima, jogou-lhe esta phrase intimativa:</p> + +<p>—Esta é minha; canta tu.</p> + +<p>E logo, por entre a vozeria, se ouviu cantar;</p> + +<blockquote> +<p>Viva a França! viva a França!<br> +Que triumpha na matança!<br> + Rataplan!</p> +</blockquote> + +<hr class="dotted"> + +<p>Aquelles cadaveres eram os das trez senhoras da +familia Strech.</p> + +<p>José Maria esteve contemplando-os mudo, absorto, +authomatico. Dir-se-ia que a intelligencia se lhe +havia paralysado, e o coração havia adormecido. Era +um deliquio, como o que fôra consequencia do ferimento, +mas muito mais horroroso de certo, porque +os olhos tinham vista para a realidade, embora o cerebro +não tivesse actividade para comprehender.</p> + +<p>Parecia que as trez pobres senhoras dormiam tranquillamente, +se bem que o desalinho dos vestidos e +dos cabellos fosse claro indicio de lucta.</p> + +<p>José Maria ajoelhou-se, poisando a luz, a contemplal-as +e, porque o coração humano é tão valente ás +vezes que se excede a si mesmo, resistiu áquella dôr +incomparavel e quiz ainda procurar nas ruinas do +seu pensamento o auxilio de uma ideia.</p> + +<p>N'aquella immensa e tenebrosa cerração era preciso +um raio de luz, ainda que fosse sinistro como os +clarões sulphureos dos mysticos paineis que representam +o inferno.</p> + +<p>E verdadeiramente infernaes foram os horrores +d'esse dia.</p> + +<p>Se o leitor, apesar das indicações historicas de que +me tenho soccorrido, imagina que estou phantasiando +negruras para architectar um romance tenebroso,<span class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span> +achará no seu proprio espirito a convicção da verdade, +se se concentrar por um momento deante do tosco +e funebre quadro, allusivo á invasão dos francezes, +que pende da muralha da Ribeira, a dois passos +da ponte pensil.</p> + +<p>Ahi, á luz das lanternas que descrevem na escuridão +da noite duas zonas luminosas, ouvindo o ruido +triste do Douro que lhe rola aos pés, vendo a pequena +distancia erguerem-se ao ar, como outros tantos +espectros sombrios, as armações dos navios fundeados, +ahi, dizia eu, comprehenderá todas as angustias, +hoje esquecidas, d'essa epoca de horror, traduzidas +na concisa simplicidade d'esse piedoso monumento.</p> + +<p>A inscripção do quadro nem por singela deixa de +convidar á meditação:</p> + +<p class="ni" style="margin:1em; border: solid 2px #000; padding: 1em;">«Pelas almas dos que falleceram na ponte do +rio Douro na entrada dos francezes no anno +de 1809, um Padre Nosso e uma Ave-Maria.»</p> + +<p>Ali fui eu muita vez, pela calada da noite, como a +procurar a triste inspiração para escrever as primeiras +paginas da historia da familia Strech. Estes horrores +poderão hoje parecer sinistramente romanticos, +mas uma hora só de recolhimento em face do quadro +da Ribeira basta a acordar em nós a consciencia +historica d'essa epoca calamitosa.</p> + +<p>Para os que morreram na catastrophe da ponte +pede o rotulo uma oração, mas quantos não morreram +então sem oração e sem mortalha, quantos não +agonisaram em ancias que não foram mortaes, sem +a mortalha que desejariam, e sem uma oração de que +blasphemariam!</p> + +<p>Ó Providencia! só tu sabes o segredo de todas as +maguas, só tu podes contar as bagas de suor que +ressumbram na fronte dos infelizes que tu não matas +logo, para que não morram em desespero sacrilego!</p> + +<p>E José Maria não morreu.</p> + +<p>Por um esforço intellectual, que só a Providencia +podia permittir a um soldado ferido, quando já as<span class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span> +trevas da loucura procuravam cingir-lhe o cerebro +escandecido, conseguiu encontrar uma recordação, +se bem que a principio tibia e vaga como o diluculo +que se vae alargando e colorindo pouco a pouco até +chammejar no céo.</p> + +<p>E tambem essa luz que se fez no espirito do pobre +moço lhe queimára a intelligencia, como se fosse +labareda, mostrando-lhe as ruinas do passado ainda +fumegantes de um incendio recente.</p> + +<p>Eram aquellas as cinzas da sua felicidade...</p> + +<p>Estavam ali espalhadas pelo turbilhão da guerra, +retintas de sangue, a clamar vingança.</p> + +<p>E os seus beijos cariciosos e ardentes, e as suas +palavras ao mesmo passo desalentadas e calorosas +não puderam, depois que inteiramente se recordou +da realidade, galvanisar os trez cadaveres, animar os +trez corações paralysados, descerrar os labios da mãe, +da irmã e da avó, para sempre mudos, para sempre +adormecidos.</p> + +<p>—Pobresinhas!—pensava elle—deixaram-se talvez +morrer por me supporem morto! E antes eu o +estivesse, que já teria soado a ultima hora da minha +triste mocidade. E mata-se assim a mãe, a dois passos +do filho! E não se respeitam os cabellos brancos +da velhice! nem a belleza e a virtude que teem duplo +direito á vida! Mas, agora reparo eu, aqui estão +patentes e irrecusaveis os signaes da lucta... é que se +disputavam o sacrificio da morte... ou... suspeita horrivel! +morreram talvez para defender a virgindade de +uma só! Dize-me, ó minha boa irmã, ó minha doce +amiga, se isto não é um sonho atroz da minha desvairada +cabeça! Responde, Augusta, sou eu que te +peço, eu, o teu irmão, o teu José... E não fala, e não +responde! Está morta! Mataram-n'a elles, os malditos +soldados d'esse leão indomavel da Corsega para +quem todo o mundo é pequeno, todo o sangue pouco! +Acaso não se saciava a tua sanha, leão, sem a +vida d'estas trez pobres mulheres, que nunca te +amaldiçoaram, que nunca levantaram um brado de +justa indignação contra a tua ambição desmedida! +Eu é que devia morrer, sabes tu? Eu sim, porque +fiz guerra de morte aos teus soldados, porque as minhas +mãos cheiram ainda a polvora com que os fuzilei. +Eu sim, porque a minha morte seria uma represalia; +mas a morte d'estas trez mulheres, timidas<span class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span> +e indefesas, não foi uma represalia, foi uma infamia...</p> + +<p>E, extenuado d'esta subitanea exaltação, pendeu a +fronte, como se lhe faltasse a vida para tamanha angustia, +porque o sangue perdido era copioso. Entretanto +continuava a tempestade e, confundido com o +estrepito da chuva, começou-se a ouvir o toque dos +clarins nos postos dos invasores.</p> + +<p>José Maria pareceu despertar de subito, acordado +por essa sinistra linguagem dos acampamentos:</p> + +<p>—Sois vós! Podeis estar tranquillos, que a esta +hora não haverá um só braço que tenha a energia +de vos acommetter no vosso glorioso descanço. Tudo +são orphãos e viuvas, que pranteiam cadaveres. +Descançae, descançae, que muita coragem vos deve +ter custado o assassinio de mulheres inoffensivas +como estas! como todas! Oh! mas ámanhã a vingança +acordará terrivel, e então vos pedirá contas +das vossas atrocidades e das vossas infamias. Sim, +ámanhã, nós todos, unidos por commum desgraça, +seremos um só inimigo, porque a nossa vingança +é uma, mas não imagineis que tendes a derrubar um +só inimigo, porque serão muitas as cabeças a decepar, +muitos os portuguezes a vencer... Onde houver +um portuguez, haverá um soldado, porque elle pelejará +por desaffrontar a memoria dos seus parentes, +dos seus amigos, d'um filho, d'uma irmã...</p> + +<p>E curvando-se carinhoso para o cadaver d'Augusta, +e tirando-lhe delicadamente do dedo o annel com +que ella havia morrido:</p> + +<p>—E eu vingarei a vossa memoria, minhas santas +amigas, e vingarei a tua innocencia, minha querida irmã... +Por este annel o juro, que será o meu fiel +companheiro, talvez o unico que me seja dado conservar +até a hora da morte... Beijal-o-hei antes +d'entrar em combate, e elle me dará a coragem dos +valentes; elle será a minha égide protectora se a +morte me quizer arrebatar a minha vingança..... Que +Deus me oiça, Augusta. Sobre o teu annel, que nunca te desacompanhou, faço este juramento solemne, +que jámais quebrarei...<span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>VI</h2> + +<h2>A mariposa do acampamento</h2> + +<p>Fôra demasiado esforço para tão melindroso estado.</p> + +<p>O corpo, alquebrado pela dôr physica, parecia vergar +ao peso d'aquella grande alma.</p> + +<p>Graça Strech caminhou em direitura á porta, vacillando +a cada passo, e deixando após si um rasto +de sangue. Antes de sair, volveu ainda um ultimo +olhar aos trez cadaveres, e levantou por um instante +a mão de sobre o ferimento, apalpando o peito n'outro +sitio, como para se certificar da existencia d'alguma +coisa que lá trazia occulta, e que pareceu encontrar.</p> + +<p>Era o maço das cartas d'Augusta, escriptas da quinta +das Chãs, e que elle conservára no seio durante as +mais perigosas refregas na bateria do Bomfim.</p> + +<p>Desceu vagarosamente as escadas, amparado ao +corrimão, e conseguiu a muito custo chegar á rua.</p> + +<p>Uma lufada de vento, humida e fria, momentaneamente +refrigerou o cerebro d'aquelle moço, em quem +as mais violentas congestões parecia succederem-se +rapidamente.</p> + +<p>Onde ia elle, ferido, cerrada a noite?</p> + +<p>A esta pergunta, que muitas vezes se fez no decurso +de sua vida, nunca pôde achar resposta satisfatoria.</p> + +<p>O que parece mais proximo da verdade é que, não +sentindo já forças e coragem para demorar-se ali, +luctasse por arrancar-se de ao pé dos trez cadaveres.</p> + +<p>Chegado ao limiar da porta, e recebendo de subito +uma lufada de ar, impregnado d'humidade, reconheceu-se, +no meio da cerrada escuridão d'aquella +noite tenebrosa, inteiramente carecido d'alento para +dar um passo.</p> + +<p>N'essa conjunctura ouviu estrepito de cavallos. Sentiu +de novo affluir-lhe o sangue ao cerebro. Eram de +certo elles, os assassinos da sua familia, que patrulhavam<span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span> +a cidade invadida. Não se enganou. Os cavallos +que se aproximavam eram os d'uma ronda franceza. +Graça Strech estava porém desarmado, ferido, +impossibilitado do menor esforço. A ronda acercou-se, +e um dos cavalleiros, que era um official portuguez +obrigado pelo direito de conquista ao triste mister +d'interprete, perguntou com voz tremula:</p> + +<p>—Quem está ahi?</p> + +<p>Graça Strech ficou surprehendido d'ouvir falar-lhe +na lingua nacional, e respondeu:</p> + +<p>—Um soldado portuguez, ferido.</p> + +<p>Demorou-se o official a falar á patrulha franceza, e +apeando-se dois dos cavalleiros ergueram o corpo de +Graça Strech até a altura precisa para poisal-o entre +o arção da sella e o corpo do official portuguez.</p> + +<p>E monotamente continuou a eccoar na rua o estrepito +da ronda.</p> + +<p>Não pareça extraordinaria esta piedade dos invasores +para com os invadidos no mesmo dia de tão sanguinosa +victoria.</p> + +<p>O marechal Soult, que entrára no Porto na tarde +d'esse dia, puzera desde logo todos os seus cuidados +em serenar os animos da população por actos ostensivamente +meritorios.</p> + +<p>Era este um procedimento por ventura aprendido +na lição da historia romana—o da benevola protecção +aos vencidos.</p> + +<p>Manda porém a verdade que se diga que, mal que +entrou na cidade, expediu ordens terminantes ás tropas +para que, sob pena de austera correcção militar, +respeitassem a população, e até a protegessem em +caso de conflicto.</p> + +<p>Assim foi que, reprimindo os abusos da soldadesca, +logrou restabelecer o socego em toda a cidade trez +dias depois da invasão, procurando insinuar-se na opinião +publica, abstendo-se de impôr contribuiçoes de +guerra, nomeando pessoas idoneas para os logares vagos, +e soccorrendo os habitantes completamente privados +de recursos.</p> + +<p>O partido anti-patriotico, subitamente creado em +redor do marechal Soult, para logo fundou um orgão +jornalistico, denominado <i>Diario do Porto</i>, porque a +imprensa tem sido desde tempos immemoriaes o respiradouro +aberto a todas as paixões, justas e injustas, +nobres e mesquinhas.<span class="pn"><a name="pag_49">{49}</a></span></p> + +<p>O leitor deve ficar conhecendo uma pequena amostra, +sequer, da linguagem empregada no supracitado +diario. Oiçamos o falsario redactor no supplemento +ao n.º 2.º:</p> + +<p>«Este paiz tão bello, e tão favorecido pela natureza, +parecia no passado governo tocado de paralysia; +mas, graças aos céos, que se lhe prepara um novo futuro, que +os bons conhecedores já tinham d'antemão +entrevisto! Nada terá o Principe que dizer sobre a +nossa fidelidade; nos lh'a guardamos emquanto existiu +entre nós; mas uma vez que nos deixou, uma vez +que desdenhou lançar mão das redeas do governo, +que largára quando as circumstancias lh'o permittiam, +renunciou todos os seus direitos, e nada é já +para os portuguezes, que deixou ao desamparo. Em +uma palavra, a casa de Bragança já não existe; aprouve +aos céos que os nossos destinos passassem a outras +mãos, e foi particular predilecção da Divina Providencia, +que impera sobre o universo, o ter-nos enviado +um homem isento de paixões, e que só tem a +da verdadeira gloria; que se não quer servir da força, +que o grande Napoleão lhe confiou, senão para +nos proteger e livrar-nos do monstro da anarchia, que +ameaçava devorar-nos. As palavras que elle nos dirigiu, +e as promessas que nos fez<sup><a href="#nota5" name="m_nota5">[5]</a></sup>, desde que entrou +n'esta cidade, tudo se tem cumprido á risca, +muito mais do que o poderiamos esperar, e do que +as circumstancias pareciam promettel-o: porque tardamos, +pois, em congregar-nos ao redor d'elle, a proclamal-o +nosso pae e nosso libertador? Porque tardamos +a exprimir o nosso desejo de o vermos á testa +d'uma nação, cujo affecto soube tão rapidamence conquistar? +O soberano de França prestará ouvidos aos +nossos clamores, e se lisonjeará de ver que desejamos +para nosso rei um logar-tenente seu, e ao mesmo +tempo um grande general, que a seu exemplo soube +vencer e perdoar. Seja, pois, esta grande e interessante +comarca, já que tem experimentado os effeitos da +sua clemencia, e a quem elle tem prodigalisado os +seus beneficios, seja uma das primeiras, que se glorifique +de o reconhecer e de lhe offerecer os seus +braços, os seus bens e o seu patrimonio todo.»</p> + +<p>Não ficaram simplesmente em louvaminhas de gazeta<span class="pn"><a name="pag_50">{50}</a></span> +os salamaleques feitos ao duque de Dalmacia. De +Braga veiu ao Porto no dia 25 d'abril uma deputação +composta de trinta e seis membros do clero, nobreza +e povo, a pedir ao marechal que se dignasse fazer ver +ao imperador a necessidade de collocar um principe +de sua eleição no throno que a dynastia de Bragança +deixára devoluto.</p> + +<p>No dia immediato entrou egualmente ao palacio do +duque de Dalmacia outra grande deputação, constituida +por todas as autoridades civis, clero, deputados, +nobreza, cidadãos, corporações judiciaes e militares +da cidade do Porto, a repetir o pedido com viva instancia.</p> + +<p>A deputação, acompanhada desde a casa do conselho +pelos officiaes do estado-maior general, era esperada no +atrio do palacio dos Carrancas pelos ajudantes de +ordens do marechal Soult. Foi o general de divisão +Quesnel, investido nas funcções de governador +militar do Porto e da provincia do Minho, quem a introduziu +na sala de recepção, onde o corregedor da +comarca botou fala consoante ao estylo dos supplementos +do <i>Diario do Porto</i>.</p> + +<p>O marechal devia estar sorrindo interiormente da +versatilidade dos portuguezes, que lhe atiravam aos +pés nuvens d'incenso, recebendo-o dias antes nas +trincheiras com nuvens de polvora. Força é assoalharmos +as nossas glorias, para sermos portuguezes, e as +nossas manchas, para sermos justos. E esta é realmente +uma lamentavel nodoa que macula as paginas +da historia portugueza. Se nos não respeitámos, durante +a invasão, a boa policia de guerra, tambem a +soldadesca franceza não respeitou, na victoria, os direitos +individuaes. Saldada a divida, estavamos quites. Para a atrocidade, filha da revolução, a represalia, +irmã do triumpho. A attitude do Porto, depois +de vencido, e em presença do cavalheiroso procedimento +de Soult, devia ser a da resignação reconhecida, +nunca a do servilismo infamante. Agradecer é das +boas almas; ajoelhar aos pés do usurpador é dos +maus cidadãos. E nós fomos então maus cidadãos. +Ainda bem que redimimos as nossas culpas d'um dia +com a heroicidade de cinco annos, que tantos são +os que vão desde a invasão do Porto até ao regresso +das nossas tropas, coroadas de loiros.</p> + +<p>Se o throno portuguez tinha sido abandonado pelo<span class="pn"><a name="pag_51">{51}</a></span> +rei, estava porém encimado ainda pelas armas da nação! +Se não se podia amar o rei, que fugira, devia-se +defender a patria, que ficára.</p> + +<p>Mas, disse-o Camões, e é uma profunda verdade, +que</p> + +<blockquote> +<p>O fraco rei faz fraca a forte gente</p> +</blockquote> + +<p>Perdoemo-nos a nós, porque nos rehabilitamos depois, +e perdoemos ao rei, que já hoje é do tumulo, e +que no triste curso de sua attribulada existencia mais +inspira por vezes compaixão do que odio.</p> + +<p>Mas tornemo-nos a Graça Strech, que deixámos +ferido em companhia da ronda franceza.</p> + +<p>Fôra elle transportado a um dos muitos hospitaes +de sangue que se estabeleceram nos conventos do +Porto:—o convento de S. Francisco. O serviço cirurgico, +na maior parte d'estes hospitaes improvisados, +era feito, por ordem do marechal Soult, pelas mulheres +que acompanhavam o exercito invasor. Uma +d'ellas, conhecida entre os seus pela alcunha de <i>lá +gentille vivandière</i>, recebeu o ferido e, ajudada por +outras, deitou-o no catre e começou o curativo do +ferimento com certo carinho, que só a ordem do marechal +Soult não explicaria cabalmente.</p> + +<p>É que fez impressão a Rosina a physionomia, posto +que dolorosa, serena, do soldado portuguez. Pareceu-lhe +um roble que baqueára magestosamente. +Não havia a menor contração n'aquelle corpo athletico; +por entre os labios, descórados e immoveis, não +se coava um gemido. Verdade era que não era desesperado +o ferimento, e que mais para recear parecia +a gravidade da prostração que a do golpe. Não obstante, +o soldado, que a espaços abria os olhos, nem +uma gota d'agua pedia.</p> + +<p>Durante a noite a vivandeira acercou-se do catre, +por muitas vezes, a escutar. Pela madrugada sobreveiu +o delirio ao abatimento, e o ferido dizia com +manifesta difficuldade algumas palavras que ella +não entendia. Como, porém, de uma das vezes o +visse febrilmente apalpar o peito, comprehendeu-o, +e, tirando do forro da fardeta, que lhe tinha despido, +o maço de papeis, insinuou-lh'o entre as mãos. O ferido, +conhecendo-o provavelmente pelo tacto, abriu +por algum tempo os olhos, e demorou em Rosina o +doce e apagado olhar. Talvez fosse este um acto puramente<span class="pn"><a name="pag_52">{52}</a></span> +mechanico e talvez não; a verdade, melhor +que os medicos, a sabe Deus.</p> + +<p>A vivandeira ficou sobremodo commovida do que +a ella lhe pareceu intencional. Apiedou-se do soldado, +que tinha porventura a sua mesma idade, e parecia +guardar n'aquelles papeis uma querida memoria, como +ella, como ella n'aquella madeixa de cabellos que +possuia...</p> + +<p>Aqui entra o leitor a sentir desejos de saber a historia +da madeixa.</p> + +<p>Rosina era a filha adoptiva d'um dos regimentos +da brigada Arnaud. Por seu pai, moribundo, um dos +bravos militares do exercito francez, natural das Ardennas, +aquella vasta floresta, <i>Arduenna sylva</i>, golpeada +por quatro rios, o Semoy, o Lesse, o Ourthe +e o Sure, fora confiada como precioso deposito, no +campo de batalha, á velhice d'um camarada fiel, soldado +do mesmo regimento.</p> + +<p>O bom velho, que penhorado acceitára tão grave +legado, era só, e n'uma época em que o exercito +francez estava em continua mobilisação, achou que +o melhor meio de velar pelo destino da creança era +trazel-a sempre ao pé de si.</p> + +<p>Assim foi que Rosina, então de quatorze annos, +estivera em pessoa, se bem que entre a bagagem e +mantimentos, na batalha de Austerlitz, em 1805. Vira +por seus proprios olhos, a distancia, o imperador +Alexandre e o imperador Francisco. Nos breves instantes +de repouso que n'essa arriscada campanha tinha +o exercito francez, era sempre Rosina o assumpto +das conversações do acampamento, a mariposa +inquieta que passava sorrindo de umas correias a outras, +de um soldado a outro soldado. D'essa campanha +ficou até na memoria do regimento uma agudeza +da pequena vivandeira. Estavam os soldados chasqueando +uma vez da fealdade de certo camarada.</p> + +<p>—Que tal te parece, Rosina? perguntou um á pequena.</p> + +<p>—Parece-me mal, respondeu ella, porque já vi <i>os +trez imperadores</i>.</p> + +<p>Como se sabe, é esta uma designação vulgar da +batalha de Austerlitz, onde estiveram os dois imperadores +já nomeados, completando Napoleão a trindade +coroada.</p> + +<p>Rosina seria pois a andorinha da caserna se não<span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span> +fosse antes a mariposa do acampamento. Tinha um +pouco da floresta, seu berço, e um pouco do quartel, +seu ninho. Estes poucos fizeram o todo. Tinha a +pureza da vegetação virgem, a suavidade inculta da +floresta, e ao mesmo passo o destemor da vivandeira, +a facilidade de morder um cartucho de polvora e +de cantar uma canção marcial. Na alma tinha os murmurios +das correntes patrias; nos olhos o brilho da +polvora.</p> + +<p>Era, n'uma palavra, a pastora tornada vivandeira. +Respeitava-a todo o regimento e conhecia-a todo o +exercito.</p> + +<p>Quando o seu velho protector morreu, um anno +depois de Austerlitz, ella acompanhou-o com os camaradas +á sepultura, e, como limpasse furtivamente +duas lagrimas, disse-lhe um dos soldados:</p> + +<p>—Pois tu choras, Rosina, tu, a que viste os trez +imperadores?!</p> + +<p>E ella, voltando-se de subito, respondeu:</p> + +<p>—Não choro eu, chora a França.</p> + +<p>Porfiaram os soldados em escolher-lhe novo protector; +todos a estimavam a ponto de querer adoptal-a. +Por fim decidiu-se que Rosina cortasse o nó +gordio. Ella observou:</p> + +<p>—Os meus paes eram os que morreram; já não +posso ter outros. Serei portanto de hoje em deante +filha do regimento. Para onde elle fôr, irei eu; onde +estiver, estarei tambem.</p> + +<p>E assim foi.</p> + +<p>Era quasi um soldado; muitas vezes dizia que a +sua morte havia de occasional-a uma bala perdida.</p> + +<p>Viera com o exercito a Hespanha e Portugal, com +a mesma facilidade com que iria, licenciada pelo +commandante do regimento, visitar as Ardennas, sua +patria.</p> + +<p>Contava agora dezoito annos, e estava em todo o +vigor da sua gentil formosura.</p> + +<p>Gentil é a palavra; por isso lhe chamavam <i>lá gentille +vivandière</i>.</p> + +<p>E o caso é que á sua origem e á sua formosura +devia por certo as immunidades que lhe outhorgavam +os superiores. Era ella o melhor intercessor do +regimento; requerimento que ella levasse á chancellaria +militar, trazia sempre bom despacho. É que as flôres...<span class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span> + +<p>Ora a historia da madeixa é muito mais breve que +a historia de Rosina, e por isso ficou para o fim.</p> + +<p>Seu pae, o bravo official das Ardennas, sentindo-se +morrer dos graves ferimentos que recebera, pediu +ao velho camarada, no momento de confiar-lhe a filha, +que lhe entregasse aquella madeixa que elle cortára +do seu proprio cabello, para que ella possuisse +sequer alguma coisa que o tornasse lembrado.</p> + +<p>E como entre os cabellos alguns apparecessem já +grisalhos, acrescentou o militar moribundo:</p> + +<p>—Dize-lhe que alguns d'elles embranqueceram a +pensar no destino d'ella...</p> + +<p>O soldado, com os olhos marejados de lagrimas, +respondeu commovido:</p> + +<p>—Vá descançado, meu capitão. Emquanto Jacques +Regnau tiver vida, o paiol não ha de arder. Depois +que vier a metralha da morte, o Deus dos exercitos +velará por ella...</p> + +<p>O soldado Jacques estava na confidencia do nascimento +de Rosina. Fôra elle que, annos antes, saltára +ao jardim de uma casa da rua das Tournelles, para +receber dos braços de uma criada uma creança, cuja +mãe procurava assim occultar o segredo da sua +deshonra.</p> + +<p>Jacques Regnau atravessou com ella nos braços o +<i>boulevard</i> da Bastilha, e ia dizendo comsigo:</p> + +<p>—O caso é que ainda tenho geito para estas aventuras +mysteriosas. Suppunha-me velho e levo aqui +esta creança mais como pae do que como avô. E todavia +o que decerto vem a acontecer é que eu seja o +avô, e o meu capitão o pae...</p> + +<p>E assim, em verdade, aconteceu, com uma unica +differença. Se Rosina, no decurso de sua vida, precisasse +de nobilitar-se com um appellido, o pae, ao invés +do que acontece em todas as familias, não lhe +daria o seu appellido, mas sim o do leal camarada. +Diria provavelmente:</p> + +<p>—Põe lá: Rosina Regnau.</p> + +<p>Ella porém não precisava de appellido paterno. +Era a filha do regimento. Chamava-se simplesmente +Rosina, <i>lá gentille vivandière</i>.</p> + +<p>Esta era a enfermeira do nosso ferido.<span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota5" name="nota5">[5]</a></sup> +Referencia á proclamação de Soult.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>VII</h2> + +<h2>No hospital de sangue</h2> + +<p>Oito dias transcorridos, vamos encontrar Graça +Strech, sentado no catre, convalescente, se bem que +muito debilitado ainda, a relêr algumas das cartas +que, por piedoso interesse de Rosina, pudera guardar +debaixo do travesseiro.</p> + +<p>Os successos de tão breve curso de tempo pequena +chronica requerem. Rosina tem sido para o soldado +portuguez carinhosa enfermeira. Chasqueam-n'a +as outras mulheres, encarregadas do serviço do hospital, +de extremamente compassiva para o prisioneiro, +e zombeteiramente aventam que, a julgar pelos +prolegomenos, lhes não parece impossivel que o +exercito portuguez inteiramente se deixe desarmar +pelas vivandeiras francezas.</p> + +<p>As almas das restantes mulheres não se levantam +do nivel commum ao femeaço que segue tropa. São +grosseiras, sensuaes e malevolas. Rosina respira melhor +entre os soldados do que entre ellas. D'aqui +uma certa rivalidade apenas contida pelo respeito +com que todo o exercito acata á filha do bravo militar +das Ardennas. Todavia a «gentil vivandeira», +como mariposa que é, não se demora no ambiente +infeccionado em que ellas respiram; evita-as como a +pantanos miasmaticos, sem lhes dar a conhecer que +o muladar unicamente é povoado por vermes. Passa +inquieta e ao mesmo tempo cautelosa, agitando as +suas azas iriadas. Atravessa o lodaçal sem tocar-lhe. +Guarda para si o nectar que vae libando nas flôres +perfumadas da sua phantasia. É mariposa! dizem. +Concentra-se nos circulos caprichosos em que doideja. +Quer adejar e sorrir. Mas para esta, como para +todas as mariposas, depois do jardim, cujas flôres +beijou, ha de crepitar a chamma, que será o seu ultimo +beijo. Beijo de fogo, que mata. E chamaes felicidade<span class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span> +a isto! Olhaes sómente á superficie; a mariposa +não é feliz porque passe adejando...</p> + +<p>Graça Strech fez reparo no carinho da enfermeira, +mórmente comparando-o ao desamor com que eram +tratados os demais feridos. Não poria duvida em beijar +a unica mão caridosa que se estendia para elle +na solidão do mundo, se não receiasse que o odio +que lhe refervia no coração contra a França lhe envenenasse +os labios. E aquella mulher era franceza. +Parecia-lhe que dos seus vestidos se exhalava ainda +o cheiro da carnagem. Por ventura o soldado que +assassinára sua irmã, sua mãe e sua avó viera adormecer +tranquillo nos braços d'aquella mulher, se é que +não fôra mais d'um soldado, com as mãos ainda tintas +das nodoas do crime. Via n'ella a creança corrompida +pela lascivia da soldadesca, e, ao mesmo passo +que lhe era reconhecido, tinha por ella o desprezo +que se tem pelo vicio precoce. Considerava-a uma +das victimas arrastadas pelo carro triumphal do Cesar +francez. Bem podia ser que n'aquelle corpo vendido +ao prazer germinasse uma alma boa logo corrompida +pela putrefação contagiosa da caserna. Se +não tivesse por mãe uma mulher devassa, uma vivandeira, +uma meretriz de soldados, que não faria mais +que atirar sua filha ao berco em que ella propria nascera, +poderia encontrar um marido honesto, ser o +anjo do lar, divinisar-se no altar da familia, porque +as mães podem considerar-se as santas da religião +domestica. Mas não. Graça Strech suppunha-a a flôr +do paul. Tinha para elle a belleza maculada da vegetação +dos charcos. Não sabia o que era o azul do firmamento, +porque só os lagos, de superficie crystallina, +são espelho do céo. As flôres do paul querem +viver no lodo; ella queria viver no prazer. Os beijos +que recebia tresandavam ao acre do tabaco e da +aguardente. Não dulcificavam; queimavam. E assim +como a gente se admira de ver uma flôr, por mais +desbotada e menos formosa que seja, á beira d'um +monturo, assim elle se admirava de que aquella mulher +tivesse nos olhos um relampago de compaixão +estando habituada a viver entre soldados e concubinas. +Era, a seu juizo, o ultimo lampejo da alma que +bruxoleava apagada pelo vicio. Extincto o derradeiro +clarão, ficaria apenas a lampada—o corpo. E elle +não queria gosar; queria vingar-se. O prazer da vingança,<span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span> +se o ha, esse anhelava-o. Mas uma mulher corrupta +não podia ser-lhe instrumento sufficiente a sacial-o. +Nenhum dos generaes que capitaneavam o +exercito invasor teria uma filha innocente, candida, +formosa? decerto não; se a tivesse, não consentiria +que a soldadesca violasse as alheias. Mas se +a tinha, trouxessem-lh'a, pura como estava, bella +como era, que a queria polluir, e dizer depois ao pae +exasperado: «Os teus soldados mataram minha irmã, +que tambem era virgem; eu matei tua filha, porque +a encontrei no estado de minha irmã. Ambas são +mortas: isso que ahi está já não vive.»</p> + +<p>A toda a hora, tudo ali lhe recordava esse horrivel +drama de sangue, que reputaria ainda sonho infernal, +se a memoria de trez cadaveres o não chamasse á +realidade. Tudo eram mulheres mancommunadas com +os invasores, tudo feridos e prisioneiros, que de continuo +amaldiçoavam, esporoados pela dôr physica, a +França e o Corso. A lingua que se falava era a d'ellas, +mesclada de raras palavras hespanholas para melhor +se fazerem entender dos que não tinham a illustração +bastante para comprehendel-as. Não será preciso +observar que Graça Strech não desconhecia o +idioma francez.</p> + +<p>A principio confundiam-se-lhe no cerebro enfraquecido +todas as sinistras visualidades d'aquella tormentosa +phase de sua vida. Depois, á medida que ia +cobrando forças, não só entrou de raciocinar ácerca +de Rosina, como lhe acudiu a lembrança de seu pae, +cuja morte só o tempo comprovára, e a consciencia +da sua propria situação. Estava prisioneiro, guardado +á vista por sentinellas francezas, e todavia havia jurado +vingar a morte da sua familia. Esta idéa infernou-lhe +as primeiras horas de lucidez. Era impossivel +despedaçar as cadeias, romper por entre as sentinellas; +não queria de modo algum expôr-se á morte +que o roubaria á vingança. E o sentir no dedo o contacto +do annel, em que se coagulára uma gota de +sangue seu, ou de sua irmã, exasperava-o ao extremo +de cair prostado no leito.</p> + +<p>N'estes lances acudia meigamente Rosina Regnau, +chamemos-lhe assim, a soccorrel-o com notavel dedicação. +Umas vezes a repellia elle com ingratidão +brutal, quando a accentuação franceza lhe coava ás +entranhas estremecimentos de raiva, outras fitava na<span class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span> +vivandeira o olhar amortecido como a dizer-lhe que +a prostração seria passageira. Na vespera do dia em +que estamos, teve Graça Strech uma idéa que para +logo reputou auxilio providencial. Lembrou-se de +que só por intervenção de Rosina poderia evadir-se +do hospital de sangue. Tratou pois de corresponder +á solicitude com que ella o distinguia, de se mostrar +reconhecido, de occultar o seu pensamento de vingança +sob a mascara de ternura. Immediatamente o +dominou este proposito, e a si mesmo prometteu +nunca mais receber Rosina com intermittencias de +rancor ou azedume. Difficil era o cumprimento d'esta +promessa. Não se mascára facilmente o coração.</p> + +<p>Relia elle, como dissémos, as cartas de sua irmã. +Umas eram queixumes de rôla solitaria confrangida +da tristeza alpestre das Chãs; outras eram hymnos +de esperança, votos de felicidade commum, vagas +alegrias dos sonhos dos quinze annos... N'umas denunciava-se +a mulher; n'outras a creança. Umas eram +a lagrima; outras o sorriso. Aquellas tinham a tristeza +d'uma nuvem em céo d'abril; estas eram um raio +de sol doirado pela primavera... Ou antes, como o +leitor poderá classifical-as, as primeiras eram o presentimento +da desgraça imminente, as ultimas eram +o cantico do anjo que punha os olhos no céo, sua +patria.</p> + +<p>Vejamos:</p> + +<p>«<i>30 de novembro de 1807.</i>—Meu irmão.—Não sabes +como soffro horrivelmente, receiosa dos perigos +que virão. A avosinha tambem está muito afflicta depois +que os francezes entraram em Abrantes. Já cá +sabemos da partida da familia real, apezar de tu, +grande dissimulado, m'o não haveres dito! O padre +capellão anda sempre a contar dinheiro e a ralhar +com os abegões. Isto é uma tristeza! Quem nos vale +a ambas, a mim e a avósinha, para nos tranquilisar, +é o Teixeira. Eu, por mim, peço todos os dias a Deus +que não aconteça mal algum aos portuguezes...»</p> + +<p>«<i>18 de setembro de 1808.</i>—Meu José—Graças a +Deus, que se dignou ouvir as minhas continuas orações! +O Teixeira esteve hontem á noite a contar-me +tudo. Até que emfim está a patria livre outra vez, +sem haver acontecido desgraça de maior á nossa familia. +Queira Deus que continue a paz para que tu +possas vir vêr-me brevemente. A noticia do Teixeira<span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span> +deu-me grande alegria, meu José. Reconquisto de +novo a felicidade! Eu creio que não tenho coragem +para soffrer... Dá um beijo muito demorado á mamã +e um abraço muito apertado ao papá. A avósinha +diz que venhas logo que possas. Vem, sim? Olha lá... +logo que possas. O beijo á mamã que seja muito +longo, muito longo... Não te esqueças. Tua—<i>Augusta</i>.»</p> + +<p>Graça Strech sentiu os olhos marejados de lagrimas +ao lêr estas cartas, especialmente a ultima. Estava +alli todo o coração de sua irmã, a alegria da +avesinha, ainda tremula, que se sente desopprimida +dos seus negros receios, phantasticos uns, justificados +outros.</p> + +<p>Abeirou-se brandamente do catre, como quem teme +ser importuno, Rosina Regnau, e com encantadora +timidez perguntou:</p> + +<p>—Chorava?</p> + +<p>—Um soldado portuguez não chora nunca, respondeu +Graça Strech com doçura meiada de altivez +e fingimento.</p> + +<p>—São menos felizes as vivandeiras francezas, contestou +ella com sincera simplicidade.</p> + +<p>—Por quê?</p> + +<p>—Porque choram ás vezes.</p> + +<p>—Ainda a não vi chorar!—E, como se instantaneamente +deixasse resfolegar o rancor latente no coração, +acrescentou:—A polvora queima os olhos e +o coração, e Rosina é quasi um soldado... francez.</p> + +<p>—Olhe que se contradiz! observou ella maviosamente.—Esquece-se +de que tambem é soldado e +chora...</p> + +<p>Graça Strech caiu em si e deu-se pressa em attenuar o mau effeito das suas palavras:</p> + +<p>—Tem razão. A desgraça dá esta incoherencia aos +pensamentos...</p> + +<p>—Julga-se então muito desgraçado?</p> + +<p>—Pungente ironia que só pode vir... d'ahi! retrucou +sobremodo exaltado o convalescente. Pois pergunta-se +a um prisioneiro, a um ferido, a um homem +mil vezes deshonrado, se é infeliz? Onde aprendeu +esse cynismo de vivandeira? Onde havia de ser! Na +taberna e no quartel. Só lá é que se fala assim...</p> + +<p>E, como ella chorasse á beira do catre:</p> + +<p>—Sabe que eu ainda não estou inteiramente curado,<span class="pn"><a name="pag_60">{60}</a></span> +Rosina? Parece-me que deliro ás vezes! Agora +delirei eu. Não... não delirei. Conheci que era mais +piedosa do que as outras mulheres... Quiz ver até +onde chegava a sua sensibilidade... Perdõe-me a experiencia... +Vejo que ainda tem lagrimas... sim... tem +lagrimas... não posso duvidar... está chorando!</p> + +<p>—Não seja mau para mim, soluçou Rosina Regnau. +Eu tive pena de vêr o senhor a lêr e a chorar... +De mais a mais fui eu que lhe dei as cartas para +a mão no dia em que o senhor veiu e parecia pedir-m'as... +Pois não se lembra?</p> + +<p>—Não. E viu-as alguem? leu-as alguem?</p> + +<p>—Ninguem as leu, senhor. Eu pensei que se lembrava, +porque o senhor, quando lh'as dei adivinhando +de certo o seu pensamento, olhou para mim...</p> + +<p>—Sim, talvez olhasse... eu queria as cartas...</p> + +<p>—Isso comprehendi eu. A gente ás vezes estima +qualquer cousa que não tem valor... Eu tambem tenho +um d'esses thesouros que nada valem... É...—E +calou-se, receiosa de proseguir.</p> + +<p>—É?</p> + +<p>—A madeixasinha de meu pae, que era capitão do +exercito.</p> + +<p>—Capitão? perguntou Graça Strech.</p> + +<p>—Era capitão, senhor. Para me não deixar desamparada, +entregou-me ao velho Regnau com esta +madeixa que era o seu unico legado... Nada mais tinha +que me deixar...—E tirou do seio a sua reliquia, +sobre a qual foram cair duas lagrimas ardentes.</p> + +<p>Graça Strech, subitamente commovido, attentou +na vivandeira que tinha baixado os olhos, como se +quizesse esconder o pranto.</p> + +<p>—Ás vezes, proseguiu ella, fico-me a contemplar +este thesouro, sobretudo se estou triste. Que mais +tenho eu no mundo? Nada. Esta madeixasinha da +minha riqueza, o meu talisman, creio eu. Beijo-a e +choro. Fico melhor. É tambem a minha companhia. +Estas mulheres—e indicou as demais vivandeiras—nem +sequer se lembram de que tiveram pae! Até +lhes convém pensar que o não tiveram para não sentir +atormentada de remorsos a consciencia.—Ellas +querem-me mal, bem o sei. Que me importa? Eu tenho +o meu coração tranquillo. Devo a Deus o haver-me +protegido com a sua misericordia. Sou a filha do +regimento, e ninguem offende uma filha. Estima-me;<span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span> +estimo-os. Da guerra que ellas me fazem nem +me lembro. Pobresinhas, que não são capazes d'uma +ação boa! Vivo só, completamente só, senhor. Sou +digna da compaixão de todos, acredite, porque sou +infeliz; criminosa não. Meu pae, que decerto me está +ouvindo n'esta hora, bem o sabe. É porque sou infeliz, +que comprehendo as desventuras alheias. Pareceu-me +que o senhor tinha maguas secretas. Inspirou-me +sympathia. Bem sei que a minha presença lhe não +deve ser agradavel, porque emfim eu sou franceza e +o senhor é portuguez. Mas que culpa tenho eu de +haver nascido longe? Foi nas Ardennas... bonita terra +d'uma vez! Ainda não vi arvores como lá! O imperador +é quem manda; nós não temos culpa nenhuma: +obedecemos. Elle quer o mundo; conquiste-se o +mundo. E depois eu não tenho odio nenhum aos +portuguezes. Até se o senhor algum dia precisar do +meu prestimo... Eu não valho nada... mas verá que +ha de encontrar sempre a mesma Rosina Regnau... +O que eu queria é que me tratasse bem. Não faço +mal a ninguem, porque não se tira proveito nenhum +de fazer mal... O senhor foi ferido, é verdade; mas +fui eu quem o feriu?...</p> + +<p>—Não, Rosina, não! atalhou Graça Strech enternecido +a lagrimas. Mas feriram-me na alma, bem +fundo, muito fundo... Sou um grande desgraçado. Se +lesse estes papeis, que são tambem a minha unica +riqueza, veria que o sou. Eu tenho apenas de meu +estas cartas; Rosina tem apenas a sua madeixasinha. +Somos irmãos na desgraça. Eu sou filho d'um capitão +portuguez, talvez morto a esta hora; Rosina é filha +de um capitão francez, que tambem não existe. +Ainda n'isto irmãos! Bem sei que não tem culpa de +haver nascido franceza. Perdoe-me, se a offendi... +Offendi, que o sei eu. Deite tudo á conta da minha +arrebatada mocidade e dos meus soffrimentos. Mas +é que este abysmo cavado por Napoleão entre as +duas nações é incommensuravel, acredite. O abysmo +chama o abysmo... Jámais correu sangue impunemente... +A guerra faz dos homens leões... E que guerra +esta, santo Deus!... Zomba-se de tudo—da virgindade, +da honra, da innocencia! Oh! que os seus +irmãos tremam das represalias... Medonhas devem +ser... Não se opprime assim um paiz inteiro... A estrada +por onde fugiu Junot está atravancada de cadaveres,<span class="pn"><a name="pag_62">{62}</a></span> +mas ainda cabe por ella o exercito de Soult. +A hora do resgate será tremenda, Rosina. Fuja, fuja +emquanto é tempo, pomba que vive entre milhafres. +Fuja com a sua innocencia. Eu comprehendo, eu +acredito que é boa, e casta. Mas não encontrará em +Portugal coração que possa acceitar o seu amor, alma +que prese os thesouros da sua. E sabe por que? +Porque entre um portuguez e uma franceza medeia +n'esta hora uma barreira invencivel... E essa barreira +está em pouco, mas não haverá ahi exercitos que +a transponham. É um maço de cartas, um annel, +uma madeixasinha talvez. Supponha que um homem +havia ferido mortalmente seu pae... Que esse homem +viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo +essa reliquia sagrada; que matára em nome da patria; +que seu pae era primeiro que tudo um soldado, +e que um soldado era para elle o inimigo... Chora, +Rosina! As suas lagrimas são ainda mais eloquentes +que o seu silencio... Pois supponha que mataram meu +pae, supponha que me retalharam a alma, que eu tenho +noite e dia nos ouvidos o clamor da vingança, +que eu sou um homem que já não vivo para mim, +mas para os que morreram...</p> + +<p>E, exhausto de forças, caira sobre o travesseiro, +pedindo soccorro com o olhar, em que subitamente +se apagaram os fogos da exaltação.</p> + +<p>Fez-se em torno do catre o lugubre silencio dos +hospitaes, apenas interrompido de espaço a espaço +pelos gemidos de alguns portuguezes que anhelavam +a morte, porque só n'ella encontrariam o supremo +resgate.</p> + +<p>Rosina, curvada para o doente, julgava amparar nos +seus braços um homem que desejava viver para +vingar a morte da mulher amada. A excitação febril +do prisioneiro fazia-lh'o crer. Estava longe de suppôr +que essa mulher fosse apenas irmã, ou antes que +a desgraça d'esse homem fosse tamanha que tivesse +de vingar a morte de uma familia inteira.</p> + +<p>Como, porém, Graça Strech lentamente parecesse +recobrar alento, inclinou-se-lhe ao ouvido e maviosamente +repetiu:</p> + +<p>—Se algum dia precisar do auxilio da pobre vivandeira, +acredite que Rosina Regnau será sempre a +mesma...<span class="pn"><a name="pag_63">{63}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>VIII</h2> + +<h2>O anjo da liberdade</h2> + +<p>Foi-se restabelecendo o doente.</p> + +<p>Meiado abril, Craça Strech julgava-se robustecido +sufficientemente para encetar a sua obra de vingança. +Toda a sua attenção se concentrava na idéa fixa +da fuga. Rosina continuava a ser para elle a dedicada, +a solicita, a meiga enfermeira dos primeiros dias. Se +em tão carinhosa dedicação estava occulto o germen +do amor, se era aquella a mascara da alma apaixonada +que tinha de respeitar conveniencias e circumstancias, +não tardará que o saibamos. Todavia os +seus sorrisos, posto que doces, revelavam tristeza. +O coração a attraíl-a para aquelle homem, e o destino +a distancial-a! Que elle soffria, era evidente. Mas +por que soffria? Porque esse homem—suppunha-o +ella—amára doidamente, com o fogo dos primeiros +amores, com a loucura dos primeiros annos, e vira +talvez correr, na hora da invasão, o sangue innocente +da mulher amada. Porque esse sangue clamava vingança, +e elle esperava apenas pela hora tremenda da +represalia. Porque essas cartas que relia a toda a +hora eram outros tantos protestos contra a tyrannia +dos que venceram. Fossem dizer ao coração d'esse +homem pungido pelo que ha ahi de mais excruciante +na terra: «Despe o teu luto; enflora-te. Os que te +mataram eram meus irmãos, mas quem te resuscitará +serei eu. Com o sangue do cadaver, que desceu á +tumba commum, regaremos as flôres da tua felicidade +futura.» Não podia ser. Elle tivera razão quando +disse: «Supponha que um homem havia ferido mortalmente +seu pae. Que esse homem viesse agora dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia +sagrada; que matára em nome da patria...» Referia-se +a uma barreira insupperavel, e falava do maço de +cartas, de um annel, de uma madeixasinha talvez. E<span class="pn"><a name="pag_64">{64}</a></span> +as cartas relia-as elle, e annel tinha um na mão esquerda, +tinto de sangue, que era talvez da pessoa +cuja morte anhelava vingar. Que esperança podia, +pois, ter Rosina no seu louco amor? Mas, por outro +lado, quem ha de dizer ao coração que é loucura +amar? Como havia ella, allucinada pela paixão, de +raciocinar comsigo mesma: «Tu és a pobre Regnau, +a vivandeira franceza, que acompanhas o exercito +vencedor; elle é o soldado do exercito vencido, e +vencido elle mesmo. Não se póde transpôr um abysmo, +muito menos dois. Tantos são os que nos separam +n'esta hora: o da vingança e o da nacionalidade!» +Isto ninguem o diz; ella não o podia dizer. +Amava, sim, mas amava sem esperança, e, o que é +mais, amava com medo. Agrestemente a tratava elle +a principio. Desde o dia em que ella lhe perguntou +se chorava, e em que timidamente se abeirára do catre +antes como enfermeira do que como amante, pareceu +todavia abrandar um pouco mais o seu odio +inspirado pelo nome francez. Conheceu decerto que +ella não estava ainda pervertida, e condoeu-se. Mas +condoer-se não é amar. E depois que desgraçado +aquelle! Que pensaria elle fazer? Talvez matar-se. +Prefiriria morrer a combater contra a sua patria, contra +o seu nome de portuguez, contra as suas recordações. +Como ella quizera sondar-lhe a alma e arrancar-lhe +o seu segredo! O que importava, primeiro que tudo, +era affastal-o da morte. Por isso o espionava Rosina, +e cada vez era maior a sua solicitude. Não tardou porém a hora em que Graça Strech ia levantar +uma ponta do véo mysterioso que occultava os seus +designios.</p> + +<p>Era ao entardecer. Havia na sala a penumbra crepuscular. +Elle escolhera decerto essa hora para que +a physionomia lhe não traisse os sentimentos reconditos.</p> + +<p>—Lembra-se, Rosina, do offerecimento que me +fez?</p> + +<p>—Lembro, e repito-o, respondeu ella estremecendo de golpe.</p> + +<p>—Pois bem; é chegada a occasião de aproveital-o. +Cumpre porém que primeiro lhe diga que a minha +vida fica pendente d'esta revelação. Se ámanhã quizer +denunciar-me aos meus algozes, póde fazel-o, e +então completará a vingança dos meus desabrimentos.<span class="pn"><a name="pag_65">{65}</a></span> +Completará, disse eu, porque compassivamente +me tem tratado, e a compaixão é a vingança das almas +nobres. Quer-me parecer, não obstante a posse +do meu segredo, que continuará a vingar-se nobremente... +O seu coração é bom, Rosina; o meu é que +não é assim. Eu sou vil, rancoroso, sanguinario. Mas, +ainda assim, em alguma hora da minha vida me é +dado ouvir a voz do meu anjo da guarda. Depois a +celeuma dos maus instinctos suffoca-a. É porém esta +uma das horas em que o meu coração não é inteiramente +perverso. Portanto lhe falarei com a maxima +franqueza. Eu quero sair d'aqui, Rosina, livre, completamente +livre, entenda-me bem. Só por sua intervenção +o poderei conseguir. Mas, se me presta esse +serviço, quem lhe não dirá, Rosina, que soprou no +meu peito as labaredas que eu sinto escaldarem-me +o sangue quando volvo os olhos a um passado proximo, +muito proximo?... Sabe que é quasi um fratricidio +que vae praticar? A voz da consciencia será a +primeira a dizer-lh'o. Não irá combater contra os +seus pessoalmente, mas irá dar mais um soldado ao +exercito portuguez cerceado pela derrota... Pense +em tudo isto. Vae trair a confiança dos seus irmãos +para conquistar apenas a gratidão d'um só homem...</p> + +<p>A esta palavra, os olhos de Rosina, até ahi brilhantes +de copiosas lagrimas, illuminaram-se d'um clarão +d'alegria.</p> + +<p>—Gratidão! disse?—soluçou ella. É a primeira +vez que eu oiço dos seus labios tão doce palavra... +Acredite-me, sim? Eu já pensava em auxiliar-lhe a +fuga, mesmo quando ainda não era meu amigo. Tinha +pena, muita pena do senhor, e receiava que se +quizesse matar para não ficar prisioneiro. Faria por +lhe dar a liberdade, ainda que m'o não agradecesse, +porque algum dia, ahi por esses acampamentos +fóra, bem podia ser que o senhor encontrasse, prostrada +por uma bala perdida, a vivandeira Rosina, e +dissesse, lançando-lhe um olhar de piedade: «Bem te +reconheço! Eras a pobre Regnau. Deste-me a liberdade. +Estás morta. Que te hei de dar agora? Dar-te hei +uma oração». Isto me bastaria, senhor, que eu bem +sei que não mereço mais. Mas agora o caso muda +muito do que eu havia pensado na minha tristeza. O +senhor promette-me gratidão. Que mais posso eu<span class="pn"><a name="pag_66">{66}</a></span> +invejar? A memoria de meu pae me perdoará, porque +elle—disse ella com irreflectida candura—tambem +amou muito, segundo contava o velho Regnau. +Gratidão é o que o ceguinho das Ardennas tem ao +seu fiel molosso. O pobresinho do Hubert anda sempre +a dizer, referindo-se ao seu cão: Não ha pessoa +a quem eu seja mais grato!» Veja o senhor como elle +lhe quer, que até chama pessoa ao cão! Pois eu serei +para o senhor como o molosso para o Hubert. +Ter-me-ha gratidão; viverei feliz... E sabe o senhor +que o cão do ceguinho das Ardennas o segue sempre? +Sabe o que isto quer dizer?...</p> + +<p>E calou-se de subito, ruborisada de pudor.</p> + +<p>—Não sei! observou Graça Strech sobremodo +admirado da sinceridade d'aquella confidencia.</p> + +<p>—Não sabe? É que eu tambem queria seguil-o ao +senhor...</p> + +<p>—Como?! perguntou o moço aprumando-se como +galvanisado por um choque electrico. Seguir-me! Sabe +bem o que diz, Rosina? Sabe que atraz de mim +caminhará sempre a morte, e atraz de si o odio francez? +Sabe que isso é renegar a sua patria, o nome +de seu pae?</p> + +<p>—Esquece-se de que meu pae não me deixou nome? +Se no céo se sabe tudo, elle saberá que o meu +coração é puro. O mais que me importa a mim? Nem +por seguir o senhor deixarei de querer cada vez mais +á minha madeixasinha. Crime era o esquecer-me +d'ella, o desprezal-a, o não a trazer commigo. Mas é +que eu seguirei o senhor, e ella seguir-me-ha a mim. +E depois o senhor não me comprehendeu bem... Eu +não queria deixar de ser vivandeira... Não se quesile, +não? O senhor vae combater. Eu seguirei o exercito +como até aqui, mas estarei sempre em sitio onde lhe +possa acudir, e em vez de soccorrer um soldado francez +soccorrerei o senhor se as balas o não respeitarem. +O crime está só n'isso, e Deus m'o perdoará... +Eu, depois que morreu o velho Regnau, o meu segundo +pae, tenho vivido tão sósinha, tão sósinha!... +O exercito é muito grande e por isso mesmo não faz +companhia. Não lhe perderei o rasto, senhor, esteja +certo. As vivandeiras estão costumadas á guerra de +emboscada. Surprehendel-o-hei quando menos o esperar. +Que seja preciso affrontar perigos, pouco importa. +Rosina, a «gentil vivandeira», como por favor<span class="pn"><a name="pag_67">{67}</a></span> +me chamam, é destemida. Toda a brigada Arnaud +lh'o podia dizer...</p> + +<p>A admiração, o pasmo, o alheamento de Graça +Strech eram cada vez maiores. Espantava-o aquelle +conjuncto de candura e coragem, aquelle receiar e +querer da vivandeira. Achava extraordinaria a creança, que +tinha innocencias d'anjo e impetos de mulher. +Não sabia se mais havia de admirar a originalidade +do temperamento se a originalidade da revelação. +Começava a lêr na alma da vivandeira que o +amava. Comprehendeu que ella sabia respeitar-lhe a +dôr, impondo-lhe suavemente o dever de respeitar-lhe +a sua. E tudo o que ella soffria era por ser franceza... +Tambem elle se não lembrava n'esse lance de +que a mariposa procura a chamma!</p> + +<p>E Rosina era a mariposa do acampamento.</p> + +<p>Não obstante, desconfiando ainda da clareza da sua +percepção, quiz oppôr obstaculos á resolução da vivandeira:</p> + +<p>—Mas não sabe que isso é impossivel, Rosina? Não +sabe que se não póde seguir ninguem através dos +azares da guerra? Quem póde luctar com as ondas +sem naufragar? Não lucte, Rosina, não lucte com o +que é invencivel. Guarde essa coragem do seu bello +coração para as batalhas do mundo, que toda lhe será +precisa. Deixe-me ir até onde chegam todos os infelizes. +Não sabe que ámanhã posso encontrar a bala +que me mate?... Não será ámanhã, não, porque eu +ámanhã não haveria completado a minha obra. Preciso +de viver, mas a guerra é tão caprichosa! Completa +a minha obra, desejo morrer livre, quite com +o mundo. Não quero que ninguem me chore—morrerei +feliz.</p> + +<p>—Outro tanto poderei eu dizer, atalhou com doçura +a vivandeira. Mas deixe-me ir... tambem até onde +vão os infelizes. Já agora, eu, que lhe vou abrir o +seu futuro, quero saber ao menos o sitio em que o +senhor estiver. Bem pouco lhe peço, como vê. Caprichos +de mulher! especialmente caprichos de franceza...</p> + +<p>E, como que arrependida de haver soltado esta palavra:</p> + +<p>—Fui indiscreta, bem sei; perdôe-me. O seu coração +precisa de esquecer a minha nacionalidade para +me não odiar...<span class="pn"><a name="pag_68">{68}</a></span></p> + +<p>Era impossivel luctar por mais tempo com tão +energica e ao mesmo passo tão meiga natureza.</p> + +<p>Como se aproximasse gente, Graça Strech apertou-lhe +silenciosamente a mão e escondeu no lençol +a face involuntariamente orvalhada de lagrimas.</p> + +<p>Chegára a noite triste que ao nascer das estrellas +invade os hospitaes e as prisões com o seu silencio e +a sua tremula claridade.</p> + +<p>Graça Strech não pôde conciliar o somno. Tantos +e tão extraordinarios eram os pensamentos que se +lhe baralhavam no espirito, que ora sentia subir-lhe +ao cerebro a frialdade glacial dos tumulos, ora a +chamma abrazadora da congestão. Assim esteve, sem +dar tino do tempo que passava, com os olhos fitos +na sombra oscillante que uma lanterna projectava na +parede fronteira ao seu catre.</p> + +<p>Os gemidos d'alguns feridos compassavam-se a intervallos +mais ou menos longos, segundo a gravidade +do ferimento. Duas vivandeiras, encarregadas de ficar +de véla n'aquella noite, deixaram-se adormecer +com a tranquillidade de quem está bem e não se importa +de que os outros estejam mal.</p> + +<p>Na rua tropeavam com interrupções os cavallos das +rondas. Uma ou outra vez ouvia-se trocar palavras +entre as patrulhas que passavam e a sentinella do +hospital. Não se percebia, porém, o que diziam...</p> + +<p>E assim decorria a longa noite das enfermarias e +dos carceres com o lutuoso aspecto que faz d'umas +e outros—cemiterios de vivos.</p> + +<p>A mais de meio iria a noite, quando a Graça Strech +pareceu vêr entrar cautelosamente na sala um soldado +francez, que foi caminhando, cada vez mais receioso, +até se avisinhar do seu catre.</p> + +<p>Se obedecesse ao primeiro impeto, haveria falado, +porque lhe passou no espirito a suspeita de que Rosina +o denunciára, e de que esse soldado, que tanto +se arreceiava de ser surprehendido, era um assassino +galardoado talvez pela devassidão da vivandeira.</p> + +<p>E bastou esse momento para a suppôr mobil d'uma +infamia inaudita, a ella, que momentos antes lhe pedia +unicamente, a troco da liberdade promettida, que +a deixasse seguil-o como o fiel molosso seguia o cego +das Ardennas.</p> + +<p>Era, porém, corajoso de mais para succumbir aos +perigos d'uma traição.<span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span></p> + +<p>Para logo se lhe accendeu o coração em labaredas +do inferno, e se lhe requeimou a garganta como a +do tigre dos palmares quando tem sêde de sangue.</p> + +<p>Era, porventura, um soldado francez que o vinha +apunhalar, de noite, suppondo-o a dormir, talvez por +ciume da barregã com quem passára a noite, ou para +vingar o odio que aquelle prisioneiro nutria contra +os francezes.</p> + +<p>Não tinha armas, nem carecia d'ellas. Infamia por +infamia. Luctaria braço a braço, encarniçadamente, +silenciosamente, até que um d'elles ficasse prostrado.</p> + +<p>Sentou-se no catre, com o joelho direito levantado, +em posição de melhor se poder erguer para responder +á aggressão.</p> + +<p>E com tão sinistro brilho lhe coriscavam os olhos, +que o supposto soldado francez, conhecendo de certo +o que lhe ia na alma, impuzera silencio com um +gesto e dissera a alguns passos de distancia:</p> + +<p>—Sou eu.</p> + +<p>Graça Strech reconhecera Rosina.</p> + +<p>O vulto que elle suppuzera um assassino transformára-se +no anjo da liberdade. Não lhe vinha trazer +a morte; vinha restituir-lhe a vida. Como poderia elle +receiar a aggressão d'aquelle soldado franzino, gentil, +cujos olhos, por meigos e luminosos, trahiriam o +segredo do seu disfarce, cujos cabellos, ennovelados +a um e outro lado, denunciavam as tranças da mulher +enroladas em cachos?</p> + +<p>Visualidades d'imaginação doente, chimeras que o +habito do soffrimento cria, e a noite avulta.</p> + +<p>—Sou eu, repetiu ella cada vez mais baixinho, e +aproximando-se.</p> + +<p>E, como se por encantamento um genio bom lhe +deizasse cair ás mãos o fardamento d'um soldado, +igual ao que vestia, acrescentou:</p> + +<p>—Não ha tempo a perder. Vista-se e venha.</p> + +<p>E retrocedeu a esconder-se á porta, onde as sombras +mais se condensavam, e a levantar do chão o +saco d'oleado da ambulancia, que continha o seu +trage de vivandeira.</p> + +<p>Não se fez esperar o prisioneiro, que logrou atravessar +a sala sem ser percebido. Nos olhos dos que +dormiam havia as nuvens precursoras da noite eterna,<span class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span> +que nada deixam vêr para fóra do corpo. É o recolher-se +da alma que vae partir.</p> + +<p>As duas enfermeiras continuavam a dormir tranquillamente.</p> + +<p>—Venha, disse-lhe Rosina travando-lhe da mão.</p> + +<p>Graça Strech desceu conduzido pela vivandeira.</p> + +<p>Quando a sentinella deu tino de que se aproximava +alguem, cumpriu a praxe militar do—<i>Qui vive?</i></p> + +<p>Um dos soldados, que levava ao hombro a bolça +da ambulancia, respondeu: <i>L'empereur</i>;—e quando +já a sentinella podia distinguir os uniformes, acrescentou +com voz firme e sã em francez.</p> + +<p>—Soldados da ambulancia com ordens urgentes +para o quartel general.</p> + +<p>O soldado que respondera era, como calculam, a +vivandeira das Ardennas.</p> + +<p>Chegados á rua, Rosina Regnau apertou convulsamente +o braço de Graça Strech e segredou-lhe:</p> + +<p>—Nunca se esqueça de que n'este dia, e a esta +hora, lhe dei a liberdade, roubando-a a mim mesma.</p> + +<p>—Nunca! respondeu elle commovido.</p> + +<p>E, como sentissem aproximar-se uma ronda, estugaram +o passo, caminhando sem norte.</p> + +<p>Por duas vezes, no aventuroso transito, os surprehenderam +patrulhas francezas.</p> + +<p>Era sempre Rosina quem respondia no idioma patrio, +não sem que sentisse palpitar vertiginosamente +o coração receioso de ver desabar n'um momento a +felicidade sonhada.</p> + +<p>Insensivelmente se foram aproximando do rio Douro, +a cuja margem pararam algum tempo vacillantes +no que fariam e, não obstante serem ambos corajosos, +quasi amedrontados. Só então, chamados á realidade, +olharam para dentro de si mesmos, conscientes +da arriscada situação em que se encontravam.</p> + +<p>Pareceu-lhes, porém, ouvir o compasso de remos +na agua, e tanto bastou para se illuminar d'um raio +d'esperança a alma da vivandeira.</p> + +<p>Foi Graça Strech quem se aventurou a chamar o +barqueiro.</p> + +<p>Nenhuma voz respondeu ao chamamento mas, decorrido +algum tempo, viram avisinhar-se do caes o +vulto negro do barco.</p> + +<p>N'aquelle tempo eram tão frequentes as fugas nocturnas, +dos que presumiam mais demorada, do que<span class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span> +foi, a occupação franceza da cidade, que alguns barqueiros +dos logares convisinhos, inteiramente privados +de recursos, se affoutavam a bordejar no Douro +por horas mortas para receber a esportula dos fugitivos.</p> + +<p>Graça Strech e Rosina Regnau saltaram ao barco.</p> + +<p>Estremeceu o barqueiro conhecendo o uniforme francez, +mas Graça Strech acudiu a serenal-o com estas +palavras:</p> + +<p>—Somos portuguezes, amigo. O habito não faz o +monge. Salva-nos, e não te importe o mais. Afasta-nos, +o mais depressa possivel, da cidade.<span class="pn"><a name="pag_72">{72}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>IX</h2> + +<h2>Entre a vingança e o amor</h2> + +<p>Foi o barco singrando Douro acima lentamente.</p> + +<p>Graça Strech lançou mão d'um remo e auxiliou o +barqueiro, não sem haver arrancado de si mesmo, +com fogosa violencia, a jaqueta do uniforme francez.</p> + +<p>—Que peso que me fazia isto! disse elle sorrindo +a Rosina.</p> + +<p>E voltando-se para o barqueiro:</p> + +<p>—Onde estará agora o resto do nosso pobre exercito, +sabes? perguntou vivamente.</p> + +<p>—Anda para Riba-Tamega, senhor. Desde hontem +que vae para lá o inferno, tão certo como ser +hoje 19 de abril, e chamar-me eu o Tunante de Pé-de-Moira.</p> + +<p>—Não sabes mais nada?</p> + +<p>—Eu, senhor?... tartamudeou o barqueiro relanceando +um olhar de medo ao soldado francez que ia +sentado é pôpa.</p> + +<p>Graça Strech comprehendeu-o, e acrescentou:</p> + +<p>—Pódes falar. Não te disse eu que o habito não +faz o monge? Aquelle soldado francez, que tu vês +ali, é uma mulher.</p> + +<p>—Uma mulher! repetiu o barqueiro.</p> + +<p>—E de mais a mais faze de conta que é... muda, +disse sorrindo maliciosamente Graça Strech.</p> + +<p>A esta palavra, se elle houvesse reparado, veria +brilhar extraordinariamente os olhos de Rosina Regnau, +que encontrára n'esse momento, melhor ainda, +n'esse vocabulo, a chave d'um enigma que a preocupava +dolorosamente.</p> + +<p>—Pois então, lá vae tudo, p-a-pá-Santa Justa, tornou +facetamente o barqueiro. Os francezes pegaram +hontem fogo á villa d'Amarante. Hoje de manhã havia +uma procissão de gente que vinha fugida da villa.<span class="pn"><a name="pag_73">{73}</a></span> +Em Pé-de-Moira ficaram dez pessoas. Foram ellas +que contaram o que se havia passado.</p> + +<p>—Quem commanda os Portugueses, sabes?</p> + +<p>—É o general... Ora que me não lembra agora! +Elle tem assim um nome a modo d'arvore...</p> + +<p>—Silveira? perguntou com anciedade Graça +Strech.</p> + +<p>—Tal qual: Sirveira, deturpou o barqueiro.</p> + +<p>Aclarava-se o céo com os primeiros alvores do dia +20 d'abril.</p> + +<p>Rosina levava os olhos postos no arvoredo das margens, +alanceada, porventura, de vagas saudades das +florestas das Ardennas.</p> + +<p>—Agora, á luz d'esta candeia, apostrophou o barqueiro +apontando para o sol nascente—já eu não +me enganava com o sordadito...</p> + +<p>Rosina sorriu melancolicamente, como se entendesse +o barqueiro por uma fina intuição de mulher +apaixonada, e Graça Strech perguntou em francez +pousando o remo:</p> + +<p>—Vae triste! É o arrependimento que chega?...</p> + +<p>A vivandeira respondeu energicamente com um +gesto negativo, como se em verdade fôra muda.</p> + +<p>—O peior—disse o barqueiro improvisamente—é +que se virem de terra que vae aqui um soldado francez, +são capazes de fazer fogo contra todos nós. Os +diabos o jurem! Mas se ella não é franceza p'ra que +diabo lhe fala o senhor n'esses latins?</p> + +<p>—São coisas... respondeu austeramente Graça +Strech.—Tens razão, tens... no que lembraste.</p> + +<p>E, voltando-se para Rosina, traduziu o pensamento +do barqueiro.</p> + +<p>—Vae ali uma manta, e a cachopa que se embrulhe +n'ella, se quizer, observou o Tunante de Pé-de-Moira, +com certo orgulho alegre de tomar parte n'uma +aventura que desde logo presumiu amorosa.</p> + +<p>Rosina, aconselhada por Graça Strech, acceitou o +offerecimento, e despiu a fardeta.</p> + +<p>O Tunante, orgulhoso de poder fazer concessões, +acrescentou:</p> + +<p>—Minha mulher tem lá por casa uns trapos, que +não valem nada. Assim que chegarmos, eu irei buscal-os.</p> + +<p>Inteirada do offerecimento, Rosina abriu a bolça +da ambulancia e tirou com presteza o seu corpete,<span class="pn"><a name="pag_74">{74}</a></span> +saial e <i>bonnet</i> de vivandeira, arremessando-os ao +rio.</p> + +<p>—Que faz? perguntou Graça Strech.</p> + +<p>A vivandeira encolheu os hombros, como se aquelle +movimento quizesse dizer:</p> + +<p>—Atiro á agua o passado.</p> + +<p>—Porque não fala, Rosina! Ainda não ouvi a sua +voz desde que entrámos n'este barco! Quererá tomar +a serio o gracejo da sua mudez, com que eu procurei +ludibriar a curiosidade do barqueiro?</p> + +<p>—É que, respondeu ella affectuosamente, me sinto +preoccupada ao estudar o papel que devo representar +ámanhã...</p> + +<p>—Mas... não percebo!</p> + +<p>O barqueiro tinha largado os remos e deixado pender +o labio inferior ao ouvir a pronuncia de Rosina. +Para elle, que tinha suas fumaças de rato da agua, +como quem diz <i>lobo do mar</i>, era aquelle um mysterio +impenetravel. Podia acaso acreditar que fosse +realmente ali, em companhia d'um portuguez, uma +mulher franceza, que lançára ao rio um fato em que +brilhavam as côres sinistras da França, áquella hora +em que o sangue, o incendio, o saque, a tyrannia se +erguiam como barreira entre o povo d'um e outro +paiz?</p> + +<p>O Tunante de Pé-de-Moira não sabia historia, e +ignorava o prodigio d'estas affinidades individuaes +que se escondem entre as correntes oppostas dos +sentimentos nacionaes. São grãos d'areia perdidos no +oceano; é preciso descer ao fundo do mar para encontral-os. +Outra pessoa, que não fosse rude, não se +admiraria. A historia diz que, pouco depois da invasão, +o marechal Soult se vira fechado n'um circulo +de cariciosas sympathias, e que eram rasgados os salamaleques +dos que já se presumiam aulicos de D. +Nicolau I. A historia refere que semelhantemente alguns +foram os corações que se renderam á prepotencia +de Junot, e que era contra esses que se erguia +tremenda a grande voz popular: «Morra Junot, e mais +quem d'elle tiver dó.»<sup><a href="#nota6" name="m_nota6">[6]</a></sup> Finalmente, ainda conta a +historia que Piton, um sargento do corpo de policia +de Lisboa, fora promovido a alferes, pelos grandes<span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span> +serviços que prestou aos francezes, com os quaes +se retirou para França ao depois.<sup><a href="#nota7" name="m_nota7">[7]</a></sup></p> + +<p>O Tunante, se soubesse historia, não se admiraria +portanto de que o coração ainda tivesse um élo para +ligar portuguezes a francezes, e, se houvera adquirido +maior conhecimento dos homens e das coisas, +saberia que primeiro se verga ao tufão das paixões a +palmeira flexivel e solitaria do deserto, que o roble +secular da floresta, duas vezes forte—porque é robusto +e porque não esta só.</p> + +<p>A palmeira cede ao primeiro impulso, e deixa-se +ir, em doce voluptuosidade, embalada nos braços vaporosos +do vendaval, que são os primeiros, e por +ventura os unicos, que se estendem para ella.</p> + +<p>O roble cede apenas quando o tronco está corroido +pelos vermes ou abalado pelas luctas da tempestade.</p> + +<p>Os aulicos de Soult e os thuriferarios de Junot tinham +as entranhas comidas pelas serpes da perfidia, +e a alma vergastada pelo açoite da cupidez.</p> + +<p>Rosina era a palmeira do deserto, que verga sem +saber que vae ser arrastada para longe do seu torrão +natal, e que o simoun a despenhará n'um abysmo +inevitavel.</p> + +<p>Era o amor que a dementava a extremos de renunciar +a sua patria, se bem que a cada instante lhe +pungisse no coração uma vaga saudade das Ardennas; +era finalmente um sentimento nobre que a impellia +a essa loucura, serena postoque ardente, resignada +postoque dolorosa.</p> + +<p>A que mobil obedeceriam, porém, as damas portuguezas, +que, um anno antes, se banquetearam e +valsaram, no theatro de S. Carlos, em ruidoso sarau +e na presença de Junot, com a officialidade franceza?</p> + +<p>Suas excellencias, as beldades da capital, eram recebidas +no vestibulo do theatro por quatro pagens, +loiros e provavelmente rosados. Sahia a esperal-as +ao limiar da platéa, d'onde corria um tablado a nivelar-se +com o palco, o general Margaron, que fazia +as honras da casa. Ao fundo da scena havia trez cadeiras +de braços, que se conservaram devolutas até +á chegada de Junot, e em frente o busto de Napoleão<span class="pn"><a name="pag_76">{76}</a></span> +a resaltar sob um docel armado com quatro bandeiras +em que se liam os nomes de outras tantas batalhas +assignaladas: Marengo, Austerlitz, Iena e Friedland.</p> + +<p>Já as damas ouviam requebradas os galanteios dos +officiaes de Napoleão, quando entrou Junot á maneira +d'imagem em andor, isto é ladeado por duas +das mais formosas portuguezas. Então começou o +delirio da valsa, que rodou em circulos vertiginosos +pela sala, até que a meio do tablado se abriu uma +tenda de campanha, onde se serviu a ceia unicamente +ás senhoras. É de suppor que suas excellencias se +volvessem galliciparlas para melhor poderem acompanhar +a eloquencia dos officiaes francezes nos brindes.</p> + +<p>Os convivas do sexo masculino estavam vexados—segundo +diz candidamente o já citado José Accursio +das Neves—e espreitavam dos camarotes as viandas +e as esposas, resignando-se ao exiguo prazer de respirar +os perfumes d'umas e outras.</p> + +<p>Em redor do edificio do theatro estavam postados +quatro mil aguadeiros, de barril ao hombro, medida +preventiva ordenada por Junot, para acudirem, em +caso de maior sinistro, ao duplo incendio da lascivia +e da gula.</p> + +<p>Parece porém averiguado que não funccionaram +por serem permittidos dentro os escandalos.</p> + +<p>D'esta combustão, que afogueou o interior do theatro +de S. Carlos, na noite de 8 de junho de 1808, +tambem não sabia o Tunante de Pé-de-Moira.</p> + +<p>Que ignorante aquelle!</p> + +<p>Entenda-se todavia que não veiu á tela o facto para +avultar a necedade do barqueiro, senão que para +desculpar o coração e a mocidade da pobre Rosina +Regnau. E agora é tempo de reatarmos o interrompido +dialogo.</p> + +<p>—Reparou, replicou a vivandeira a Graça Strech, +que ia calada. Ia a pensar. Bem vê que é desculpavel +a concentração em quem agora renasce para a existencia. +Não creia porém que o não ouvia. Ouvia sim... +Quer uma prova? Acaba de serenar a minha alma +com uma unica palavra, de resolver um problema, +como se diz em Pariz, no bairro Latino. O senhor +não precisa de pensar no futuro. Já o escolheu. Vae +combater, vae realisar o seu desejo, tão facil de realisar<span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span> +que lhe basta apenas encontrar o exercito portuguez. +Eu comecei a realisar o meu: era acompanhal-o. +Bem; aqui vou ao pé de si. Mas depois? mas +ámanhã? mas sempre? Procurar o exercito francez +era entregar-me á morte. Seguir o exercito portuguez +era denunciar-me no primeiro momento em que me +ouvissem falar. E os resultados d'essa imprudencia +facilmente se imaginam... Seriam tambem a morte... +Não, não, eu quero viver, preciso de viver, com +o senhor e como o senhor. Viverá para a sua vingança; +eu viverei para o meu... amor. Sim, pode +acreditar na verdade d'esta palavra, aqui, a esta hora, +depois, de eu haver atirado ao rio o meu fato de vivandeira... +O senhor disse ao barqueiro: Faze de +conta que é muda. Pois bem, sel-o-hei d'hoje em +diante sempre que tenha á volta de mim ouvidos estranhos. +Reservarei para o senhor as minhas palavras +e o meu coração; para todos os outros serei +muda, idiota, louca, se tanto for preciso. Mas deixe-me +vel-o, seguil-o, falar-lhe só a si, percebe, só a si! +Não estranhe a minha fraqueza. A alma da vivandeira +é como um cartuxo de polvora: cheguem-lhe +lume, e ella arderá. O senhor bem sabe que eu sou +vivandeira...</p> + +<p>Graça Strech queria falar.</p> + +<p>Ella atalhou-o:</p> + +<p>—Quando se enfastiar de mim, tenha a coragem +de m'o dizer. Um soldado deve ser corajoso. O ceguinho +das Ardennas, quando vae a qualquer casa +onde as crianças teem medo do seu cão, manda-o +embora, e elle obedece-lhe. O senhor diga-me tambem: +«Rosina Regnau, não te esqueças de que eu +sou para ti o cego das Ardennas, o pobre Hubert». +Bem sabe que quando ha guerra não é difficil a gente +encontrar repouso. Ás vezes, no caminho, sae-nos ao +emcontro uma bala perdida. Quando a gente é feliz, a +bala cae-nos aos pés, mas quando só falta calar-se o +coração para morrer, a bala cae no coração.</p> + +<p>—Rosina! Rosina! murmurou Graça Strech, profundamente +commovido.</p> + +<p>Ella atalhou-o de novo:</p> + +<p>—Sim, agora ainda sou Rosina, ainda posso sel-o. +Ámanhã serei—a muda. Serei uma sua parenta, uma +louca com quem o senhor reparta piedosamente da +sua marmita. Dirão: Ali vae a louca! E eu não poderei<span class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span> +voltar-me sequer, porque a louca será ao mesmo +passo surda e muda. Se porém o calor da lucta +não só fizer que se enfastie de mim, mas tambem +que me odeie, como a principio me odiava, então +não me mande embora, denuncie-me, entregue-me. +Bastará uma palavra sua para fazer-me emmudecer +para sempre. Bem vê que se o encargo é pesado, o +resgate é facil...</p> + +<p>—Offende-me, Rosina, veja bem que me offende! +disse elle ardentemente. Amo-a... sim, tambem eu +posso dizer-lhe que a... amo. E quem diria, Rosina, +quem o diria ha tão pouco tempo ainda! Como é +feito o coração do homem! Odeio os seus irmãos e +amo-a a si... Pela primeira vez na minha vida sinto +amor por outra mulher que não fosse...</p> + +<p>—Cale-se, cale-se! apostrophou ella delirantemente. +Não quero saber quem amou; seja esse o segredo +do seu annel.</p> + +<p>—Acredite, Rosina, que o amor de que este annel +é recordação era o mais puro amor que ha na terra... +A pessoa a quem elle pertencia era minha irmã, acredite, +era minha irmã.</p> + +<p>—Sua irmã! repetiu ella incredula e ironica. Bem +vê que o sentimento que esse annel lhe inspira não +é a saudade, é o enthusiasmo...</p> + +<p>—Oh! que não sabe como eu a amava! São d'ella +tambem estas cartas... Póde vel-as, desenganar-se...</p> + +<p>—Não as entenderia.</p> + +<p>—É verdade. Não as entenderia.</p> + +<p>—E que certeza me dariam as cartas de que eram +da mesma pessoa que possuia o annel? Que sua irmã +lhe escrevesse era natural... Não preciso de provas +para acredital-o...</p> + +<p>—Rosina! Rosina! Este annel tambem era de minha +irmã, que eu vi morta, fria, hirta, livida... Mataram-n'a, +Rosina, mataram-n'a... E ella era tão formosa, +tão innocente, tão timida! Mataram-n'a os +francezes, a ella, que lhes não fazia mal nenhum, a +ella, que era meiga como uma pomba!... E não contentes +com um assassinio, commetteram mais dois +na minha familia. Ao pé do cadaver d'Augusta havia +outros cadaveres: o de minha mãe e o de minha avó. +Mataram-n'as os francezes, Rosina. Por isso eu odiava +este nome. O annel, cujo segredo não acredita, é<span class="pn"><a name="pag_79">{79}</a></span> +um legado de sangue... Sim, eu amo-a, mas nunca +me peça mais do que eu lhe posso dar. Nunca me +peça compaixão, clemencia... Era impossivel! Sobre +este annel jurei vingar-me. Bem vê que é delgado, +fino, como o dedo que cingia. Pois elle é a unica +barreira que póde haver entre mim e Rosina, quero +dizer, o unico obstaculo que lhe prohibe a plena +posse do meu coração... Viverei, sim, entre este annel +e Rosina; entre a minha vingança e o meu amor... +Eu patenteei-lhe a minha alma antes de acceitar a +liberdade que me deu. Não tem de que me accusar... +Comprehendo-a, Rosina, acredite que a comprehendo. +A sua alma é tão extraordinariamente grande, tão +poderosamente forte, que chega a assombrar-me a +coragem do seu amor... Eu conheço que vae raiar +para mim uma nova aurora. Quizera poder-me dar +completamente ao seu amor, viver d'elle e só para +elle, mas infelizmente a aurora que vae raiar nasce +tinta de sangue, e sangue... de seus irmãos.</p> + +<p>Rosina tinha lagrimas nos olhos e fogo no coração. +Parecia-lhe impossivel que a saudade d'uma +irmã despertasse em Graça Strech tão dolorido enthusiasmo. +Se era essa a unica recordação ligada +áquelle annel, que phenomenal, que afflictiva e ao +mesmo tempo que energica não era a alma d'esse +homem! Cada vez o amava mais por que cada vez +lhe parecia maior. E todavia, entre elles, tão germanados +pela impetuosidade dos sentimentos e pela virilidade +do animo, medeava uma barreira, posto que +delgada, insupperavel—o annel mysterioso. Ella quereria +tirar-se d'aquella duvida cruciante, adquirir, +ainda que á custa de sacrificios, uma convicção, embora +funesta; mas que direito tinha ella a interrogal-o +mais, a duvidar, a ter ciumes?</p> + +<p>Cerca do meio dia abicou o barco a um reconcavo +sombrio, perto de Pé-de-Moura, onde o barqueiro +saltou em terra para ir buscar o fato promettido. Antes +d'elle desembarcar, Graça Strech lançou-lhe a +mão ao braço, e disse austeramente:</p> + +<p>—Tens filhos?</p> + +<p>—Saiba v. s.ª que tenho quatro. Por elles me exponho +á morte todas as noites no rio...</p> + +<p>—Pois bem. Por elles me jurarás que não dirás a +ninguem palavra do que viste e ouviste aqui.</p> + +<p>—Juro, senhor...<span class="pn"><a name="pag_80">{80}</a></span></p> + +<p>—Agora recebe todo o dinheiro que resta a um +soldado.</p> + +<p>Uma hora depois, Graça Strech, saltando á margem, +dizia a uma camponeza que o seguia:</p> + +<p>—Para Amarante.</p> + +<p>E a camponeza, como se só tivesse sorrisos e não +palavras, sorria.</p> + +<p>Já dissemos que era aquelle o dia 20 d'abril.</p> + +<p>Quizeram os francezes, depois da invasão do Porto, +estender a sua victoria pelo paiz inteiro. Immediatamente +se assenhorearam de Valença e Vianna, +tentando simultaneamente passar a Traz-os-Montes, +mas foram duas vezes repellidos n'essa tentativa.</p> + +<p>Beliscados na sua vaidade de conquistadores, tinham +mandado sobre Amarante no dia 9 uma força, +que recuou perseguida pelo general Silveira. Appareceu +porém, reforçada, no dia 15, travando combate +em Manhufe e Villa Meã durante trez dias para dar +tempo a soccorrel-a os quatro mil homens de Loison +e De Laborde, que, partindo de Guimarães, lograriam +colher os portuguezes pela rectaguarda.</p> + +<p>A pericia do general Silveira frustrou-lhes o intento +com um rapido e habil movimento sobre Amarante. +Os portuguezes occupavam a margem esquerda +do Tamega; os francezes a direita.</p> + +<p>O empenho do inimigo era atravessar a ponte. +Desesperados pela valorosa resistencia dos portuguezes, +pegaram fogo, na noite de 18, a toda a villa. A +crueza do inimigo mais pareceu atiçar a coragem dos +nossos, cuja resistencia recrudesceu no dia immediato, +apesar de reforçados os francezes pelas brigadas +de Sarrut e Marisy.</p> + +<p>Estas eram as evoluções das tropas inimigas, em +Amarante, á hora em que deixamos Graça Strech e Rosina +Regnau em caminho do acampamento portuguez.</p> + +<p>Tempo depois, um poeta conterraneo, mais familiar +ás armas d'Apollo que de Marte, encarecia no +seguinte soneto a gloria do general Silveira, cuja tactica +elle provavelmente estivera contemplando de sitio +aonde já não podiam chegar pelouros:</p> + +<blockquote> +<p>Uma nuvem de fumo o ar povôa,<br> +E do Tamega enluta as margens frias,<br> +O portuguez canhão quatorze dias,<br> +Sem descanço algum ter, fuzila e trôa.<span class="pn"><a name="pag_81">{81}</a></span></p> + +<p>De um lado a outro lado a morte vôa<br> +Por entre essas crueis artilharias,<br> +E perdendo as antigas ousadias,<br> +Curva ao duro francez a altiva prôa.</p> + +<p>Amigos hespanhoes, nação brilhante!<br> +Eis como cá seguimos vossa esteira,<br> +Eis nossa Saragoça, eis Amarante.</p> + +<p>Os olhos ponha em nós a Europa inteira,<br> +E veja, em amplo quadro flammejante,<br> +O Tamega, Ebro, Palafox, Silveira.</p> +</blockquote> + +<p>Pena foi que Graça Strech precedesse alguns dias +a gestação do soneto escripto em honra de Silveira, +porque, de contrario, se topasse o poeta a versejar +em ociosa inactividade, havel-o ia empurrado, no seu +vivissimo odio contra os francezes, para o meio da +infatigavel fuzilaria que durante quatorze dias sinistramente +illuminou as aguas do Tamega.</p> + +<p>O que valeu foi que, se houve poetas para incensar +metricamente Silveira<sup><a href="#nota8" name="m_nota8">[8]</a></sup>, houve tambem soldados +que denodadamente pelejaram pela patria.</p> + +<p>E o numero dos valentes da ponte d'Amarante ia +agora ser augmentado com um soldado que seria o +primeiro a romper fogo contra o inimigo.</p> + +<p>Deixar lá o poeta dizer que as margens do Tamega +eram <i>frias</i> n'aquelle tempo. Os poetas dizem +tudo, e tudo podem dizer...<span class="pn"><a name="pag_82">{82}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota6" name="nota6">[6]</a></sup> +«Historia antiga e moderna da sempre leal e antiquissima villa +de Amarante». etc., por P. F. de A. C. de A.—1814, pag. 54.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota7" name="nota7">[7]</a></sup> +«Historia geral da invasão dos francezes em Portugal», por +José Accurcio das Neves. Tomo <small>I</small>, pag. 282.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota8" name="nota8">[8]</a></sup> +Veja-se <i>Elogio de Silveira</i>, pelo padre mestre dr. fr. F. +de S. T., e <i>Silveira</i>, poema por J. S.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>X</h2> + +<h2>A hora do resgate</h2> + +<p>Quatorze dias durou, como dissémos, a heroica +defeza da ponte d'Amarante.</p> + +<p>Foi aquella uma proeza que requeria desfecho condigno, o que infelizmente não aconteceu. Reforçado +o inimigo ao decimo terceiro dia de combate, e animado +pela presença do marechal Soult, preparou-se +para uma lucta decisiva, que o nevoeiro com que +amanheceu o dia seguinte viera inesperadamente coroar.</p> + +<p>Perdidos os nossos na cerração da metralha e da +neblina, e atacadas pela rectaguarda algumas baterias, +tiveram de abrir passagem por entre uma densa +floresta d'armas, marchando em retirada para Mezão +Frio e Campeã, a tempo que o general Silveira recuava +para Entre-os-Rios.</p> + +<p>É realmente assombrosa a historia portugueza nas +paginas que dizem respeito ás guerras peninsulares.</p> + +<p>São tão descommunalmente grandes os factos, que, +em sua mesma simpleza, ora se nos affiguram episodios +d'Homero, exuberantes d'esforços titanicos, ora +se retingem dos toques sombrios de Dante.</p> + +<p>As façanhas da invasão franceza claramente revelam +que ha pouco mais de sessenta annos corria ainda +nas veias dos portuguezes o sangue dos valentes +d'Ourique, Aljubarrota e Montijo. Renasciam os heroes +das cinzas dos heroes, como se a gloria fosse herança +de paes a filhos. Podia o animo portuguez desvariar +se por momentos, como já anteriormente fizemos +notar, que logo despertava melhor retemperado +para a rehabilitação. Assim é que 1640 faz esquecer +1580, e que o vulto homerico de João Pinto Ribeiro +resgata a perfidia de Miguel de Vasconcellos.</p> + +<p>Hoje, as batalhas que outr'ora eram campaes, volveram-se +parlamentares, isto é, falamos muito e praticamos<span class="pn"><a name="pag_83">{83}</a></span> +pouco. A apostrophe «S. Jorge e ávante!» foi +substituida por est'outra: «Senhor presidente, peço a +palavra!» Ha menos soldados e mais deputados, menos +regimentos e mais commissões. Não obstante, alguma +faulha resaltaria ainda das cinzas quentes das +nossas conquistas para atiçar o incendio das paixões, +na hora em que perigasse a independencia da patria.</p> + +<p>Aconteceria, porém, que muitos deputados, que nas +côrtes de S. Bento discursam calorosamente sobre a +nossa autonomia, requereriam, dada a voz de alarma, +inspecção da junta de saude para serem considerados +invalidos...</p> + +<p>Mas iamos nós falando dos feitos portuguezes durante +as guerras peninsulares. Estupendos foram, é +certo.</p> + +<p>No combate da ponte d'Amarante, por exemplo, +perecera gloriosamente um official d'artilharia, muito +lastimado por seus companheiros d'armas, incluido +o general Silveira, que lhe abraçou o cadaver.</p> + +<p>O tio do official, e a mãe, que era viuva, vestiram-se +de gala, dizendo esta nobre mulher aos dois filhos +que lhe restavam, e estavam pranteando o irmão:</p> + +<p>—Não choreis, filhos. Vosso irmão não morreu. +Vós é que morrereis da morte da vergonha se vos +não mostrardes dignos da sua memoria.</p> + +<p>Este exemplo d'animo varonil em peito feminino +prova que não anda phantasia popular na lenda d'aquella +Deosadeu, de Monsão, de Celinda, a heroina +de Certã, de Filippa de Vilhena, e doutras celebradas +matronas portuguezas, que deram á patria +uma geração de meninas que fazem <i>crochet</i>.</p> + +<p>É egualmente abundante de heroismos a chronica +da primeira invasão, á parte pequenas manchas, como +aquellas que dos copos dos officiaes francezes cairam +sobre o tablado do theatro de S. Carlos.</p> + +<p>Deixem-me citar um facto na mesma linguagem +em que o historiador o descreveu.</p> + +<p>«O juiz de fóra de Algozo, Jacintho d'Oliveira Castello +Branco, fez-se digno de honrosa memoria, pela +sua repugnancia ás ordens do governador intruso; +por continuar debaixo d'elle a uzar do nome de S. +A. R.<sup><a href="#nota9" name="m_nota9">[9]</a></sup> em alguns processos; por conservar as armas<span class="pn"><a name="pag_84">{84}</a></span> +reaes no pelourinho e na casa da camara d'aquella +villa; e por outras acções, egualmente sublimes e arriscadas. +Jantando em sua casa varias auctoridades +portuguezas, que o increpáram de não cumprir as +ordens reiativas á contribuição de guerra, respondeu-lhes, +lançando mão a um copo, e fazendo uma saude +a S. A. R. o principe regente.»</p> + +<p>Não é menos avantajado em heroicidade o procedimento +do juiz de fóra de Marvão, Joaquim José de +Magalhães Mexia, que, intimado para se render ao +jugo estrangeiro, fez desistencia publica perante os +seus escrivães, e foi prostrar-se diante da imagem do +Senhor dos Passos da sua villa, encostando a vara á +imagem por fórma que parecia haver-lh'a depositado +nas mãos, e recolhendo-se depois a casa para vestir-se +de luto.</p> + +<p>É pois digna de que a reproduzam na tela os melhores +pintores, os melhores poetas e os melhores +historiographos—esta ingente lucta d'um pequeno +paiz, apenas soccorrido por outro, contra o gigante +tresvariado pela gloria, que firmava os pés nas planicies +da Italia, e alguns annos depois fôra visto á +luz, para elle sinistra, dos incendios de Moscow, enchendo, +de sul a norte, a Europa inteira.</p> + +<p>Alguns talentos verdadeiramente robustos teem +lançado o colorido do seu pincel sobre esta enorme +tela, nunca esgotada. Que me lembre n'este momento, +Rebello da Silva, Camillo Castello Branco, Pinheiro +Chagas e Arnaldo Gama trataram brilhantemente tão +fecundo assumpto. Eu chego com pequeno viatico, +embora não venha tarde, unicamente para mostrar que +tenho seguido reverentemente o sulco que todos quatro +abriram no vasto campo da guerra peninsular.</p> + +<p>Reatando a narrativa.</p> + +<p>Graça Strech foi um dos soldados portuguezes que +mais se distinguiram nos ultimos dias da defeza da +ponte d'Amarante.</p> + +<p>O general Silveira estimou-o desde que elle, apresentando-se, +lhe disse: «Venho bater-me como leão +porque venho vingar-me»; e começou a admiral-o +horas depois da apresentação.</p> + +<p>Ao anoitecer do mesmo dia, fizeram reparo alguns +soldados n'uma camponeza, que parecia muda, e se +bandeava com o sequito do exercito.</p> + +<p>—D'onde viria? perguntavam elles.<span class="pn"><a name="pag_85">{85}</a></span></p> + +<p>—É minha... irmã, atalhou commovido Graça +Strech. Não podia convencel-a a que me não seguisse, +porque a infeliz nem ouve nem fala. Veiu vindo +atraz de mim, receiosa de que eu morresse sem ver-me. +Pobresinha!—acrescentou com os olhos marejados +de lagrimas—não faz mal a ninguem, e é muito +minha amiga.</p> + +<p>—Que pena a sua desgraça, que tão formosa é! +observou piedosamente um portuguez.</p> + +<p>—Nem se diria portugueza! exclamou outro com +a affouteza que lhe dava o não estar na presença de +portuguezas.</p> + +<p>Graça Strech replicou:</p> + +<p>—Ha com effeito ali alguma coisa allemã no rosto +como no nome. Os nossos antepassados tinham sangue +teutonico. Ainda nos corre nas veias o sangue +d'elles. A pobresinha estremece-me. Como não tem +ouvidos nem voz, quer estar ao pé de mim sempre +que póde, como para falar pela minha bocca e ouvir +pelas minhas orelhas. Eu sou quasi a sua moleta... +Tambem a infeliz não tem ninguem mais n'este mundo, +e ella de si pouco tem...</p> + +<p>—Infeliz! ponderaram os soldados enternecidos.</p> + +<p>Rosina Regnau interpretou magistralmente o seu +papel. Passavam por ella e diziam: <i>A muda allemã!</i> +e ella, apesar de entender a phrase á força de repetida, +nem sequer voltava o rosto para agradecer +aquella esmola de compaixão.</p> + +<p>Se não ouvia! se não falava!</p> + +<p>Sentava-se entre as bagagens a entrançar folhas +verdes ou a desfolhar flôres.</p> + +<p>Algumas vezes mettia-se por entre as arvores para +se inteirar da posição das tropas.</p> + +<p>Depois d'um combate, aproximava-se dos soldados, +quando Graça Strech se demorava ainda, e pousando +a face na mão e fechando os olhos, perguntava por +gestos se «o irmão» estava ferido ou morrera. Os +soldados, que já a comprehendiam, acenavam-lhe +negativamente.</p> + +<p>Assim decorriam os dias, sem que a alma da vivandeira +saisse para fóra de si mesma.</p> + +<p>Quem adivinhava ali que de receios, de maguas, de +pensamentos, de esperanças muito vagas... agitavam +aquelle formoso cadaver que só tinha vida nos +olhos?<span class="pn"><a name="pag_86">{86}</a></span></p> + +<p>Ninguem.</p> + +<p>E todavia ella estava pensando sempre...</p> + +<p>A sua ambição, o seu sonho, o seu ideial era possuir +inteiramente a alma de Graça Strech, porque +ella desde o momento da fuga para ninguem mais +vivia.</p> + +<p>—Achou decerto—suspeitava ella—que eu não +era digna de receber a confissão do seu segredo. +Quem és tu, disse elle lá comsigo, pobre vivandeira, +para comprehenderes a enormidade d'um amor que +vive na morte? Se aquelle annel fosse realmente de +sua irmã, curvar-me-ia a seus pés e beijar-lh'o-ia. +Mas se elle cingiu o dedo d'outra mulher, que o +amava muito menos do que eu, arrancar-lh'o-ia da +mão ainda mesmo com a certeza de morrer esmagada +pela sua colera. Cumpre pois que, por sacrificio +sobre sacrificio, eu chegue a nobilitar-me a seus olhos +o bastante para elle me convencer. N'esse dia serei +sua amante; por emquanto sou apenas o seu cão. +Vamos, solitario molosso, affaga o teu dono...</p> + +<p>Graça Strech passava, atirava-lhe uma flôr, e sorria...</p> + +<p>Ella sorria tambem.</p> + +<p>Guarnecidos todos os pontos do Douro, desde a +retirada d'Amarante até a acção d'Ovelha, tiveram as +tropas algum descanço apenas interrompido por escaramuças +e reconhecimentos.</p> + +<p>Foi n'esse intervallo que Graça Strech começou a +aprender a tocar guitarra com um soldado, filho da +Regua, e muito conhecido ali por excellente musico.</p> + +<p>A natural aptidão de Graça Strech fez que dentro +em pouco se avantajasse ao mestre. Assim era que +não desaproveitava occasião de estar guitarreando +ao lado de Rosina, que conservava na physionomia a +habitual immobilidade de linhas, como se a musica, +que se lhe coava á alma, não lhe desse nenhuma +sensação, por não poder ouvil-a.</p> + +<p>Ás vezes, de noite, Rosina podia murmurar muito +a medo, aos ouvidos de Strech, através dos sons da +guitarra:</p> + +<p>—José!</p> + +<p>Ella sabia pronunciar este nome como se de pequenina +o aprendera.</p> + +<p>Depois olhava em redor, como para adquirir a certeza +de não ser escutada, e repetia maviosamente:<span class="pn"><a name="pag_87">{87}</a></span></p> + +<p>—José!</p> + +<p>Elle apertava-lhe convulsamente a mão e respondia:</p> + +<p>—Rosina!</p> + +<p>E aquelle immenso amor da vivandeira, que renunciára +á patria, á liberdade e á voz, contentava-se com +exhalar-se n'uma palavra, e ser correspondido por +outra.</p> + +<p>Ella tambem não pedia mais. Era o cão do soldado: +seguia-o.</p> + +<p>Quando a tristeza lhe descia ao coração, a indefinida +tristeza de quem ama, consolava-se a si propria +imaginando-se ainda vivandeira, porque ouvia troar +o canhão e sentia no ar o cheiro da polvora.</p> + +<p>Era apenas a memoria o que lhe restava do que +fôra; o fato da sua infancia sepultára-o ella no fundo +das aguas...</p> + +<p>Entretanto proseguiam com actividade as operações +d'um e outro exercito.</p> + +<p>A 22 d'abril entrava em Lisboa Wellesley, commandante +em chefe das forças britannicas, que desembarcaram +no Porto, na Figueira, etc. As tropas inglezas, +de combinação com as portuguezas, começaram +a tomar differentes posições. Em Coimbra passaram +algumas divisões nos dias 1 e 2 de maio, sendo +recebidas com festas que chegaram a tocar o maximo +enthusiasmo.</p> + +<p>Era aquelle o hymno de esperança da patria, anciosa +de liberdade.</p> + +<p>Avançaram as tropas alliadas até Agueda, e lograram +repellir os francezes desde as Albergarias até +Oliveira d'Azemeis, onde Wellesley, depois lord Wellington, +estabelecera o quartel general.</p> + +<p>No dia 11, a guarda avançada do exercito anglo-luzo +destroçou em Grijó os postos avançados francezes +que recuaram até Gaya e passaram o Douro, +cortando immediatamente a ponte de barcas.</p> + +<p>Na vespera d'esse dia atravessára Beresford o Douro +na Regua com as suas tropas, repellindo Loison +para Amarante, e de Amarante para o Porto; Loison +perdera na retirada muitas peças, alguns obuzes, +e cento e dezenove carros com bagagens.</p> + +<p>Estava pois o flanco esquerdo do exercito francez +torneado por Beresford, o direito por Hill em Ovar, +e o centro alcançado pelas divisões Trant e Paget.<span class="pn"><a name="pag_88">{88}</a></span></p> + +<p>Durante toda a noite de 11 para 12 marchou o exercito +alliado sobre Villa Nova de Gaya.</p> + +<p>De manhã, e impossibilitado de passar o rio, soube +o coronel Watters que um barbeiro portuense, salvo +da vigilancia das patrulhas francezas, havia atravessado +n'um barco; aproveitando a conjunctura providencial, +e o barco não menos providencial que a conjunctura, +passou á margem direita, voltando á esquerda +com trez grandes barcos, que pudera obter.</p> + +<p>Avisado Wellesley do achado miraculoso, voltou-se +jubiloso para o coronel e disse:</p> + +<p>—Passem as tropas que couberem nos barcos.</p> + +<p>Não faltaram valentes que se expuzessem aos azares +da façanha, surprehendendo os francezes que +contavam repellir vantajosamente o inimigo quando +tentasse a travessia a descoberto.</p> + +<p>Foi, pois, o coronel Watters o Martim Moniz da +reconquista do Porto.</p> + +<p>Percebidos os francezes da audacia heroica do +exercito alliado, para logo se desviaram em movimentos +confusos, como o redemoinhar das areias no +deserto revolvidas pelo simoun. E assim como as +areias tomam, erguidas no ar, á luz do sol, irradiações +prismaticas que deslumbram, assim resplandeciam, +á luz do meio dia, as armas dos francezes baralhando-se tumultuariamente nas ondulações do terreno +que medeia entre o caes da Ribeira e o Prado +do Bispo.</p> + +<p>E então marinhavam as tropas luzo-britannicas pelos +alcantis do Seminario, como outr'ora os cruzados +pelos despenhadeiros da torre do norte, na tomada +de Lisboa, e, para que se complete o parallelo, o que +lá era Guilherme, duque de Normandia, era cá Wellesley, +lord Wellington.</p> + +<p>E já para anciedade dos portuenses se abria manhã +d'esperança, á medida que os nossos ganhavam +terreno, e mais revoluteavam as hostes francezas nas +eminencias sobranceiras ao Douro.</p> + +<p>Por um momento se julgou perdido o triumpho, +quando a artilharia franceza começou a varejar o Seminario.</p> + +<p>Mas não tardou que ao canhão da margem direita +respondesse o canhão da margem esquerda, que das +alturas do Pilar vomitava torrentes de fumo negro +sobre o valle cavado pelo Douro.<span class="pn"><a name="pag_89">{89}</a></span></p> + +<p>Reanimados os portuenses, entraram de preparar +barcaças, que conseguiram pôr a salvo do outro lado +do rio, e que transportaram as tropas do general Sherbrooke.</p> + +<p>Simultaneamente estrondeava no Porto, rolando +até ao caes como o rumor longinquo d'uma cathedral +em festa, o concerto das vozes, que pregoavam +victoria, á mistura com os sons festivos dos campanarios.</p> + +<p>Nas janellas da cidade baixa agitavam-se lenços +brancos em vertiginoso tumultuar.</p> + +<p>Tambem assim accordou Lisboa, cento e sessenta +e nove annos antes, na manhã de 1 de dezembro de +1640, quando um punhado de fidalgos portuguezes +subjugava nas praças publicas, sem correr uma gotta +de sangue, o famelico leão das Hespanhas.</p> + +<p>Era o grito de liberdade longos dias reprimido na +garganta d'um povo inteiro.</p> + +<p>Era o jubilo d'uma nação, que parece apenas occupar +alguns palmos de terra no mappa da Europa, +á hora em que despedaçava as gramalheiras que por +sobre os Pyreneus lhe lançára o César da França, e +dizia ao vencedor de Austerlitz: «Tu prostraste a +Prussia em Iena, a Russia em Friedland; tu levantaste +sobre as baionetas dos teus exercitos os thronos +de Napoles, da Hollanda, da Westphalia, e da +Hespanha, mas nós fizemos estremecer na tua mão, +ó demolidor victorioso, a alavanca com que procuravas +revolver nos alicerces o solio portuguez. Que o +amigo leopardo da Inglaterra te contrariasse, vá, +porque a Inglaterra é muito poderosa. Mas nós, pequenos +como somos, fazemos suster o vôo da tua +aguia e, audazes como ella, gritamos-lhe para a amplidão +que avassalla: Basta! Pára!»<span class="pn"><a name="pag_90">{90}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota9" name="nota9">[9]</a></sup> +Sua Alteza Real.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>XI</h2> + +<h2>O que a vivandeira pensava</h2> + +<p>Retiraram os francezes pelo norte de Portugal, +acossados pelo exercito anglo luso.</p> + +<p>No dia 17 ganharam Montalegre, no dia 18 passaram +a Alhariz, e no dia 19 entraram em Orense, depois +de marchas tão violentas como trabalhosas, de +perdas consideraveis, e de perseguida vivamente a +sua rectaguarda pelas tropas alliadas.</p> + +<p>Na passagem pelas povoações que medeiam entre +o Porto e a fronteira, deixaram os invasores um rasto +de sangue e fogo de que falam com assombro os documentos +officiaes.</p> + +<p>Á medida que fugiam foram espalhando a morte +nas ultimas terras de Portugal, como se quizessem +atulhar de cadaveres o abysmo cavado na gloria de +Napoleão.</p> + +<p>N'uma carta dirigida por lord Wellington ao secretario +de guerra, escripta no quartel general de +Montalegre, no dia 18, lê-se que: «O inimigo começou +a retirada, como já informei a v. s.ª, destruindo +uma grande porção dos seus canhões, e munições. +Ao depois destruiu o resto d'ambos, e grande parte +da sua bagagem, sem conservar mais do que quanto +pudessem levar os soldados, e poucas mulas. Deixou +ficar os doentes e feridos; e o caminho até Montalegre +está juncado de cadaveres de cavallos, e mulas, +e soldados francezes, que foram mortos pelos camponezes, +antes que a nossa guarda avançada os pudesse +salvar. Esta circumstancia é o effeito natural +da maneira por que o inimigo faz a guerra n'este +paiz. Os soldados teem saqueado e morto a paizanagem, +a seu arbitrio; e eu tenho visto muitas pessoas +pendentes enforcadas nas arvores ao longo das estradas, +executadas por nenhuma outra razão, que eu<span class="pn"><a name="pag_91">{91}</a></span> +possa saber, senão porque não eram amigas da invasão +franceza, nem da usurpação do seu paiz; e podia +traçar-se a rota da sua retirada, pelo fumo das aldeias +a que elles lançavam fogo. Temos tomado cousa +de quinhentos prisioneiros. Em tudo, o inimigo +não tem perdido menos de um quarto do seu exercito, +e toda a sua artilharia e equipagem, desde que +nós o atacámos junto ao Vouga.»</p> + +<p>O marechal Beresford afina pelo mesmo tom:</p> + +<p>«Não é possivel pintar a cruel e infame conducta +do inimigo; ella póde ser facilmente traçada pelos +lamentos dos infelizes paizanos, das mulheres e das +crianças, e pelo fumo das villas, aldeias e casas incendiadas: +elle a nada perdôa: esta villa (Amarante) +está inteiramente destruida: a de Mezão Frio o está +em proporção do tempo que tiveram...»</p> + +<p>Passavam, pois, os francezes, devastando, incendiando, +matando.</p> + +<p>Quiz o duque de Dalmacia que o occaso da sua invasão +fosse allumiado pelas labaredas do incendio.</p> + +<p>Eram os ultimos lampejos d'uma victoria ephemera. +Mas a voz da patria, á hora do resgate, erguia-se +mais alto que o crepitar das chammas no pendor +das serras, que os lamentos dos velhos e das crianças +que succumbiam á ultima carnificina da segunda +invasão franceza.</p> + +<p>No Porto, governado militarmente pelo coronel +Trant, grande era o jubilo, se bem que não tão cego +que sir Arthur Wellesley não houvesse proclamado +aos habitantes que os feridos e prisioneiros estavam +debaixo da sua protecção, e que seria considerado +criminoso quem os offendesse.</p> + +<p>Em Lisboa, mal que no dia 17 se teve noticia official +da restauração do Porto, salvou o castello de S. +Jorge, sendo correspondido pelos navios de guerra +inglezes surtos no Tejo; saiu bando para que a cidade +se illuminasse por trez dias, no ultimo dos quaes +mandou o governo cantar um <i>Te-Deum</i> na Basilica +de Santa Maria Maior.</p> + +<p>Internado o inimigo no territorio da Galliza, as +operações do marechal Victor na Extremadura hespanhola, +ameaçando nova invasão de Portugal pelo +Alemtejo, obrigaram sir Wellesley e o marechal Beresford, +solicitado tambem o primeiro pela junta +central de Hespanha residente em Sevilha, a marchar<span class="pn"><a name="pag_92">{92}</a></span> +com seus respectivos exercitos para o sul do +reino.</p> + +<p>Retirou, pois, sir Wellesley, posto que a despeito +do governo portuguez, para a cidade do Porto, d'onde +passou a Coimbra, Thomar, Constancia, e Abrantes, +acampando na margem direita do Tejo. O exercito +portuguez acompanhou o movimento retrogrado +do exercito inglez, marchando para Abrantes, no intuito +de atacarem em commum o marechal Victor, +que estanceava nas visinhanças do Guadiana. Não se +demorou, porém, o marechal Victor n'esta posição. +Avançou, com os seus 90:000 homens, para a margem +esquerda do Tejo, no intuito de o passar na ponte +d'Alcantara.</p> + +<p>Reportemo-nos ao dia 14, dia assignalado pela brilhante +defeza d'esta ponte durante mais de seis horas.</p> + +<p>Eram oito da manhã quando o inimigo, em trez +columnas, rompeu o ataque por differentes pontos.</p> + +<p>D'uma e outra parte foi terrivel o fogo da artilharia +até que, cerca do meio dia, vendo o regimento +de milicias de Idanha-a-Nova consideravelmente dizimadas +as suas fileiras, retirou em debandada, deixando +ficar no campo apenas a legião lusitana.</p> + +<p>Em tão desesperada conjunctiva, o coronel Mayne +mandou incendiar as minas da ponte, rompendo a +explosão apenas por um lado, e ao major Grant confiou +o commando das baterias para proteger a retirada +dos nossos, que se realisou pelas trez horas da +tarde.</p> + +<p>A cavallaria franceza vivamente perseguira então +a nossa pequena divisão, sem que todavia pudesse +impedir que se acautelassem os feridos e juntassem +os dispersos.</p> + +<p>Ora um dos feridos na defeza da ponte d'Alcantara +chamava-se José Maria da Graça Strech.</p> + +<p>Quando, em logar seguro, o tiraram d'um carro, +onde lhe eram companheiros outros valentes portuguezes, +a <i>muda alemã</i>, como geralmente chamavam +a Rosina Regnau, esteve a ponto de trair o segredo +do seu disfarce, vibrando um doloroso grito, o qual +se apagou n'um rouco murmurio, que é, em lances +afflictivos, o supremo esforço dos que não teem +voz.</p> + +<p>E logo correu a encostar ao peito a cabeça do ferido,<span class="pn"><a name="pag_93">{93}</a></span> +a examinar a ferida, e a perguntar por gestos +se poderia resultar perigo.</p> + +<p>Os soldados, condoídos de tão carinhosa dedicação, +responderam logo, desde muito costumados a +prognosticar sobre ferimentos, gesticulando negativamente.</p> + +<p>E a muda poz as mãos, levantando os olhos ao céo +e entrou de affastar os cabellos de Graça Strech, banhados +de suor frio, para contemplar-lhe a physionomia +levemente alterada.</p> + +<p>Elle sorria-lhe com os olhos marejados de lagrimas +e serenava-a acenando-lhe meigamente com a +mão.</p> + +<p>Um dos soldados, abeirando-se de Graça Strech, +disse curvando-se para elle:</p> + +<p>—O que tu tens de valente tem ella de boa! Sois +dois irmãos dignos um do outro.</p> + +<p>Graça Strech encarou n'elle e meneou a cabeça; a +muda ficou indifferente a curar as feridas do irmão.</p> + +<p>E só depois que não podia ser vista nem ouvida +de estranhos, começou, alternando palavras com beijos, +a falar-lhe tão baixinho, tão baixinho, como se +até dos ouvidos d'elle guardasse o seu segredo, e só +quizesse que a escutasse a alma...</p> + +<p>—Não é nada, José, meu José. Elles disseram e eu +agora bem vi. Sabes que fui vivandeira e que tambem +entendo o meu pouco de feridas. Não! A morte +não te rouba d'esta vez á tua vingança e ao meu +amor.</p> + +<p>—Rosina, minha adorada Rosina! Alma pura! Coração +nobilissimo! Obrigado. Curva-te sobre a minha +bocca; queiro beijar a tua face...</p> + +<p>—É o primeiro beijo! murmurou ella circumvagando +um olhar cauteloso.—É o primeiro beijo que +de ti recebo... Obrigada, meu Deus!</p> + +<p>—Sim, tu és muito melhor do que eu... Tens-me +dado tantos, tantos... Mas—e perdoa-me, Rosina, +perdoa-me—a minha alma só agora te póde beijar +livremente...</p> + +<p>—Ó felicidade!... Praza a Deus que se este beijo +me abre a tua alma eu a chegue a possuir inteiramente, +porque o amor, meu José, é tão egoista, tão +egoista...</p> + +<p>—E não crês possuil-a ainda?</p> + +<p>—Não. Todavia tenho esperança... Virá um dia.<span class="pn"><a name="pag_94">{94}</a></span> +Cala-te, que te faz mal falar... Já não foram pequena +felicidade estas palavras, por que, tu bem sabes, eu +só tenho palavras para ti e para... Deus.</p> + +<p>Foi longo e reparador o primeiro somno do ferido.</p> + +<p>Rosina Regnau velou á cabeceira da tarimba, absorta +nos seus pensamentos pela primeira vez illuminados +por um raio de sol. Estava folheando o roseo +poema do primeiro beijo, decompondo em estrophes +maviosas a harmonia que da alma subira aos +labios. Era a primeira gotta de orvalho na aridez do +seu destino, uma parcella de ternura em recompensa +dos thesouros que ella por tanta vez prodigalisára +sobre as faces de Graça Strech.</p> + +<p>O primeiro beijo! A santa loucura das almas que +se amam, como diz a trova:</p> + +<blockquote> +<p>Foi aqui mesmo, á tremula<br> + Sombra do olmeiro,<br> +—Dizia o pastor Lícidas—<br> + Aqui, aqui,<br> +Que eu hontem n'estes labios<br> + Tive o primeiro<br> +Beijo da minha Flérida,<br> + E endoideci!<sup><a href="#nota10" name="m_nota10">[10]</a></sup></p> +</blockquote> + +<p>E baralhavam-se-lhe os pensamentos com a precipitação da ephemera demencia que a felicidade dá.</p> + +<p>—Sim... eu começo a ser feliz. Diz-me o coração +que o serei... Mais provas! mais provas, senhor meu +coração! Mostre-se digno d'aquella enorme alma, +inspire-lhe confiança para lhe recolher os segredos, +e possua-a, e juntem-se, e prendam-se, e identifiquem-se, +tão unidos, tão unidos, que nem a morte os possa +separar... Sem isso não ha felicidade completa... Sim, +bem vês, pobre coração, meu pobre coração que +tanto tens soffrido, que se aquelle annel fecha ainda +a saudade de um amor redivivo, não pódes por emquanto +conquistar a fortaleza que se não renderá. Tu +sabes lá como a saudade se bate entrincheirada detraz +de um tumulo! Então terás ainda muito que soffrer +e que luctar, pobre doente para quem hoje raiou +o primeiro symptoma da cura, meu triste coração<span class="pn"><a name="pag_95">{95}</a></span> +tão soffredor! Mas forceja, vá, porfia, esforça-te +por arrancar-lhe o segredo... Se aquella é a ultima +memoria de uma irmã querida, alegra-te, pobre +louco, porque nem a amante desluzirá a irmã, +nem a irmã desluzirá a amante. A alma d'elle é tamanha +que chega para mim e para ella. Para o que não +chega é para duas amantes, que se disputam palmo +a palmo o terreno, que luctam, que combatem, que +oppõem ciume a ciume, despeito a despeito, embora +uma esteja morta e outra viva... Não, «a gentil vivandeira» +não soffre competencias. Já se fez amar +d'um exercito; é preciso que se faça amar d'um homem. +Pois então perde-se tudo, a patria, a liberdade, +o socego, as florestas das Ardennas, as minhas queridas +florestas das Ardennas, que talvez não mais +torne a ver, e as montanhas do Hainaut e do Luxembourg, +que eu conheço desde pequenina, e o Semoy +e o Lesse e o Ourthe e o Eure, tudo, n'uma palavra, +perde-se uma vida inteira de dezoito annos, para amar +um homem, para ser a sua sombra, o seu cão, e não +se ha de possuir ao menos todo o seu coração, todos +os seus pensamentos, os seus segredos todos? Quem +me diz porém que não hei de vencer? Não vi eu porventura +tantas batalhas, não as vejo ainda, e não posso +tirar da incerteza da victoria um bom agouro para o +meu futuro? Dize-te, pobre Rosina, diz a ti mesma o +que são os combates que tantas vezes tens visto. Pinta +um quadro para ti. Anima-te! Olha... São duas as +montanhas alcantiladas, sombrias, enormes... Uma +defronte da outra... No meio um rio sereno, e crystalino +a principio... depois vermelho de sangue. Sobre +o rio uma ponte, e sobre a ponte, como a desabarem +para ella, as montanhas. E n'uma e outra os +exercitos, os uniformes variados, os kepis multicôres, +as espadas reluzentes, os cavallos pendurados das fragas, +os cavalleiros pendurados dos cavallos, as carretas +suspensas na ladeira, as peças que abrem a sua +bocca de fogo para vomitar o fumo e a morte, a voz +dos clarins e a voz dos commandantes, pragas, juras, +maldições, gemidos, blasphemias, sacrilegios, e a turba +ora a estreitecer, a apertar-se, a juntar-se em pinha, +ora a crescer, a alargar-se, a fazer-se onda, a +trasbordar, ora a rolar como avalanche pelo monte +abaixo, ora a marinhar por elle, a trepar, a agarrar-se, tão espessa, tão escura, tão confusa como se fosse<span class="pn"><a name="pag_96">{96}</a></span> +uma nuvem que saísse do rio, e o sol a doiral-a agora +e logo o fumo a envolvel-a, e já se desencadeiam +d'um e d'outro lado ameaçando chocar-se sobre a +ponte, que corta o valle, e que afundará com elles, e +baralham-se, enovelam-se, redemoinham, e apparecem +uns, e desapparecem outros, e tombam cadaveres +ao rio, e estruge no ar a grita, e corre ensanguentada +a agua, e são aquelles os que vencem, os que estão +em maior numero, e vão esmagar os outros, e arvorar +a bandeira... mas rolam de novo, precipitam-se, +confundem-se, e são estes agora os que triumpham, +lá se embrenham por entre o inimigo, passam como +corisco, e assombram-n'o, fulminam-n'o, e a victoria +é sua! Bem, Rosina Regnau, assim foi em Amarante +e ainda agora em Alcantara; assim póde ser para ti. +Quem te diria no hospital de sangue, quando o estavas +contemplando adormecido, tão pallido, tão mergulhado +no somno, e tu te lembravas de que eras +franceza e elle portuguez, quando tu já o amavas e +elle dormia, quem te diria, ó vivandeira ignorada, +que dias depois havias de seguil-o por toda a parte, +e perder a tua voz para que te não conhecessem, e +encostar ao teu peito a cabeça d'elle, que caira ferido, +e recber-lhe o primeiro beijo? Ninguem! Nem aquelle +endemoninhado do Beauvier, que era o bruxo do exercito, +e andava sempre a olhar para os astros, e adivinhava +quando chovia, e a lua havia de ser cheia, +aquella bonita lua cheia da França!... Ninguem, Rosina, +ninguem! Pois tambem não ha magico na terra +que saiba dizer se tu chegarás a vencer o seu coração +de modo que te julgues tão poderosa, tão senhora +do mundo como o imperador, e por feitio que sejas +tão ambiciosa como elle, que não deixa palmo de +terra a ninguem!...</p> + +<p>Interrompeu-lhe este intimo monologo uma contração +do ferido, que balbuciou monosyllabos.</p> + +<p>—Sonha!—pensou ella—e quem sabe o que sonha? +Estou aqui tão perto d'elle, a vel-o, feição por +feição, linha por linha, a examinal-o tanto, que dir-se-ia +querer contar-lhe um por um os seus cabellos, +e sinto-lhe o halito na minha face, e fala, e só eu o +oiço, e todavia não sei de quem são os seus pensamentos, +nem o que querem dizer, o que está recordando, +o que está sonhando, finalmente! Tenho diante +de mim, como livro aberto, a sua physionomia e<span class="pn"><a name="pag_97">{97}</a><br><a name="pag_98">{98}</a><br><a name="pag_99">{99}</a></span> +não posso lêr na sua alma! Sei que ha ali um mar +mysterioso, e não posso sondal-o. D'uma vez—recordou +ella—lia o meu pae Regnau os jornaes, e disse: +«Fulano e sicrano foram á pesca das ostras.» E +acrescentou: «E o imperador que as tem bem boas +na Corsega!» E eu perguntei ao pae Regnau para +que iam elles pescar as ostras, tão longe, se podiam +pescar outros peixes no Sena. «Tontinha!—respondeu +elle—porque das ostras é que se tiram as perolas, +e é preciso metter-se uma pessoa ao mar para +pescal-as!» Bem me ensinaste tu, pae Regnau! O mar +esconde tanta coisa... que até esconde as perolas. +Aqui estou eu á beira do oceano e não as vejo... As +que eu procuro, vivem escondidas ali...</p> + +<div class="ilustracao"> +<p><img src="images/pag_97.png" border="0" alt="Ilustração"></p> +<p>Caiu desamparado, vibrando um grito... (<i>pag. 40</i>)</p> +</div> + +<p>E apontou para o coração do ferido.</p> + +<p>Os labios de Graça Strech pareceram descerrar um +sorriso. Rosina, que, apesar dos seus pensamentos, +estava attenta ao menor movimento, ao mais subtil +perpassar d'uma sombra, estremeceu ao rebramir da +tempestade interior:</p> + +<p>—Sorri! pensou ella.—Havia n'este seu sorriso a +melancolia de quem está recordando a felicidade +perdida... Lembra-se talvez d'uma hora em que, +rosto a rosto, juntas as mãos, sorrindo, falando, sonhando, +lhes fugia o tempo mais rapido que o pensamento... +E ella, a mulher que elle amava, era decerto +formosa, muito formosa, e dizia-lhe que jámais +haveria no mundo quem viesse a amal-o como ella... +E elle acreditou-a, e por isso a ama ainda no tumulo, +e jurou que, viva ou morta, lhe seria eternamente leal, +porque o coração lh'o havia dado para todo o sempre... +Ah! mas quem sabe, durante o combate, a +quem ha de pertencer a victoria? O teu quadro, Rosina +Regnau, é verdadeiro. Lucta até o fim, vivandeira, +faze como os soldados que foram teus irmãos. +Combate a saudade com a esperança. Soffre, porque +o soffrer é de quem lucta. Mas porfia, conquista resignadamente +esse coração onde desejas reinar, porque +todo elle é preciso para o throno da tua felicidade.</p> + +<p>Abriu Graça Strech os olhos e relanceou a Rosina +um olhar suavemente triste.</p> + +<p>—Sempre aqui!—segredou elle.</p> + +<p>—Aqui é o meu posto de enfermeira voluntaria.</p> + +<p>—Eu dormi, Rosina: dormi e sonhei... com minha<span class="pn"><a name="pag_100">{100}</a></span> +irmã. Estava-a vendo aos cinco annos, vestidinha +de branco, quando a fomos levar ás Chãs, e quando +eu tinha seis... Nunca isto me esqueceu! Trepámos +a uma cadeira para descer as maçãs que o padre capellão +tinha a amadurecer no friso da sala. Augusta +subiu denodadamente, mas faltou-lhe a coragem para +saltar ao chão... E começou a gritar, a gritar, de +sorte que o padre capellão a veiu surpreender com as +maçãs escondidas na abada do seu pequenino vestido...</p> + +<p>Sentiram-se passos.</p> + +<p>—Cala-te! apostrophou Rosina. Cala-te! Rosina +Regnau já aqui não está. Fica apenas a <i>muda allemã</i>.<span class="pn"><a name="pag_101">{101}</a></span></p> + + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota10" name="nota10">[10]</a></sup> +A <i>invenção dos jardins</i> por Gessner; tradução do sr. +Visconde de Castilho (Antonio Feliciano).</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>XII</h2> + +<h2>Amor e ciume</h2> + +<p>Foram proseguindo as operações da trabalhosa +campanha de 1809 contra os francezes.</p> + +<p>Depois de segundo combate na ponte d'Alcantara, +a 10 de junho, poderemos, por nos furtar a minudencias +fastidiosas em romance, ir direitos á decisiva batalha +pelejada nas proximidades de Talavera de la +Reyna, em Hespanha, dirigida pessoalmente d'um lado +pelo rei José, e por lord Wellington do outro.</p> + +<p>Pela retirada dos imperiaes á vista do inimigo terminou esta importante batalha, sendo todavia numerosas +as perdas dos alliados, mórmente dos inglezes.</p> + +<p>Meiado agosto, começou o exercito portuguez a +retirar para Zara, entrando em Portugal por Salvaterra +do Extremo, dirigindo-se a Castello Branco, +d'onde os differentes corpos foram enviados a disciplinar-se, durante o resto do anno, em determinados +acantonamentos.</p> + +<p>Não podemos, porém, encerrar esta ligeira chronica +dos feitos militares de 1809 sem retroceder ao +segundo combate da ponte d'Alcantara, a que José +Maria da Graça Strech não assistiu por estar ainda +mal convalescido do ferimento que no primeiro ataque +recebera.</p> + +<p>Entre os feridos francezes, que ficaram prisioneiros, +requeria prompto curativo um que denunciava +claros indicios de perigo.</p> + +<p>Rosina, mal que o viu, reconheceu-o.</p> + +<p>Era Bénard, por alcunha <i>La goutte</i>.</p> + +<p>Então lhe acudiram de tropel pungentes recordações +da sua vida de vivandeira, quando, sentada no +acampamento, via <i>La goutte</i> puxar da sua garrafinha +de vidro branco e offerecer aguardente por esta formula +inalteravel:</p> + +<p>—<i>Voulez-vous lá goutte?</i><span class="pn"><a name="pag_102">{102}</a></span></p> + +<p>Esta phrase motivou aquelle cognomento, que valia +tanto como dizer em portuguez: <i>O pinga.</i></p> + +<p>Bénard era um excentrico, que tinha intermittencias +soturnas e luminosas. Umas vezes lhe dava a embriaguez +para se deixar cair n'uma tristeza insociavel, outras era +causa d'uma garrulice chistosa e alegre.</p> + +<p>Mal que se levantava, enchia a sua garrafinha de +aguardente. Bebia até ao meio, erguendo o frasco +para venficar á luz se a medida era exacta, e, certificado, +acabava d'enchel-o com agua fria.</p> + +<p>Convém, porém, saber que Bénard classificava os +seus companheiros d'armas do seguinte modo:</p> + +<p> </p> + +<p>1.º—Amigos capazes de emprestar.</p> +<p>2.º—Amigos capazes de não pedir.</p> +<p>3.º—Amigos capazes de não emprestar.</p> +<p>4.º—Amigos capazes de pedir.</p> +<p>5.°—Conhecidos.</p> + +<p> </p> + +<p>Mettida a garrafinha entre a fardeta, começava o +processo inalteravelmente observado todos os dias.</p> + +<p>Encontrando um amigo da primeira classificação, +abeirava-se d'elle e, pondo a mão no peito, perguntava:</p> + +<p>—<i>Voulez-vous la goutte?</i></p> + +<p>O amigo bebia até ao meio, porque elle não consentia +que fosse mais longe. Depois, segunda dynamisação, +outra vez a garrafa cheia; e, succedendo-se +as dynamisações aos amigos, pela ordem por que os +tinha classificado, acontecia que os simplesmente conhecidos +bebiam agua commum passada por uma vasilha +que tivera aguardente.</p> + +<p>—Não merecem mais! dizia Bénard. Estes só teem +pela gente um cheiro de interesse.</p> + +<p>Era pois <i>La goutte</i> uma personagem lendaria no +exercito francez, e já passava em proverbio dizer-se, +quando se era mal servido:</p> + +<p>—Eu <i>sou conhecido</i> do Bénard.</p> + +<p>Rosina Regnau, ao vel-o ferido, sentiu-se propellida +a dolorosa piedade. Estava alli <i>La goutte</i>, que ella +tantas vezes vira desde a sua infancia, e de quem +tantas vezes se rira na edade em que toda a excentricidade +nos parece ridicula.</p> + +<p>E todavia o Bénard era um philosopho profundamente +conhecedor da alma humana. D'uma vez perguntaram-lhe:<span class="pn"><a name="pag_103">{103}</a></span></p> + +<p>—Se encontrasses o imperador, como o consideravas?</p> + +<p>—Dava-lhe da ultima lagarada, como elle dizia. +Bem se importa o imperador commigo! Não me +empresta dinheiro, porque o ganho eu; não m'o pede, +porque bem sabe como é mesquinho o <i>pret</i> das +tropas.</p> + +<p>Bénard trazia pendurada do pescoço a sua garrafinha. +N'esse dia, como a refrega lhe não désse tempo +para offerecer <i>a gotta</i>, bebera-a elle toda, por excepção. +O resultado foi expôr-se á morte com um denodo +que, sommado, daria a embriaguez de quatro +amigos. Avançou imprudentemente e ficou prisioneiro +com uma bala no peito.</p> + +<p>Rosina, que sempre evitava ser vista dos prisioneiros +francezes, não pôde todavia resistir a soccorrel-o, +quando o seu coração por um momento retrocedeu +ao passado. Quasi involuntariamente o fez.</p> + +<p>O ferido, sentindo que alguem o estava curando, +abriu os olhos e demorou em Rosina um longo olhar. +Foi então que ella mediu o alcance da sua imprudencia.</p> + +<p>—Oh! rouquejou o ferido, sim, és tu! Eu tenho +a vista embaciada, mas ainda te conheço! Rosina +Reg...</p> + +<p>Ella tregeitou afflictivamente implorando silencio.</p> + +<p>O ferido, desvairado pela embriaguez ou pela febre, +não a comprehendeu.</p> + +<p>Graça Strech havia-se aproximado e assistia entre +respeitoso e ciumento áquelle lance.</p> + +<p>O ferido continuou com difficuldade.</p> + +<p>—Fugiste, Rosina... Pobre rapariga!.. Como lá +todos te querem mal!... Se te vissem... matavam-te... +Sim, eu sou Bénard... Tinha hoje a minha garrafinha +cheia... Bebi-a toda... Tomei calor... Boa gotta!... +Aguardente de Hespanha! Vão estes perros, que não +teem um palmo de terra, e mettem-me uma bala no +costellame... Irra! Boa aguardente... E tu aqui! Entre +elles!... Maldita sejas... O pobre Regnau ha de dar +pulo de cobra no outro mundo...</p> + +<p>Graça Strech, se bem que exhaurido de forças, estremecia +em convulsões repetidas, e tinha as faces +esbraseadas por um colorido doentio. Todavia parecia +detel-o um braço invisivel; pesado como se fosse +de ferro, que lhe offegava a respiração.<span class="pn"><a name="pag_104">{104}</a></span></p> + +<p>Rosina chorava abundantes lagrimas, que lhe deslisavam +pelas faces mortalmente pallidas.</p> + +<p>Postoque não estivesse presente, por felicidade, +ninguem que pudesse ouvir a revelação do segredo, +além de Graça Strech, ella não ousava falar. N'aquella +hora, em que algumas mulheres e os convalescentes +soccorriam os feridos, a todos parecia natural que os +dois irmãos, segundo toda a gente dizia, se dedicassem +ao curativo d'um soldado que se affigurava moribundo.</p> + +<p>Graça Strech aproximára-se desde o principio por +lhe causar estranheza que Rosina Regnau se dispuzesse +a soccorrer o prisioneiro.</p> + +<p>Primeiro se apiedou por conhecer n'esse acto o impulso +natural de coração de Rosina voluntariamente +opprimido no captiveiro de um amor impetuoso. Sobreviera +porém o ciume quando se lembrou de que +a vivandeira habitualmente se esquivava a cuidar de +feridos francezes, e de que extremado devia ser o interesse +para affoital-a á temeridade de se deixar reconhecer.</p> + +<p>É bem certo que o ciume completa o amor: porque +o ciume é a desconfiança que leva o coração a +sondar a profundeza do amor. Então se investiga, se +espiona, se perscruta. E se o amor é verdadeiro, é puro, +é santo, assim como se lhe mede o alcance, e se +reconhece infinito, vem a convicção de que todos os +sacrificios são poucos para galardoal-o, chega o arrependimento +de se haver sido injusto, e accorda o +estimulo da consciencia para o não tornar a ser. +N'essa hora é que Rosina Regnau começou, sem o +saber, a ser verdadeiramente amada. Bastou o ciume +de um momento, que as subsequentes palavras do +ferido vieram serenar, para arreigar o amor no coração +do soldado portuguez. E foi á luz d'esse relampago +de ciume que elle comprehendeu a enormidade +do sacrificio de Rosina; foram as palavras do prisioneiro +francez que lhe mostraram claramente quão +grande abnegação era precisa para cair, amaldiçoada +pela patria, nos braços d'um homem estranho.</p> + +<p>O ferido, apesar de cada vez mais se lhe embargar +a voz na garganta, proseguiu com longas pausas:</p> + +<p>—Tu eras muito estimada, Rosina... Todos te +queriam... Quem havia de dizer que tu... renegarias... +a tua França! Eu não morro pelo imperador...<span class="pn"><a name="pag_105">{105}</a></span> +que não pede nem empresta... que paga +mal... eu morro pela... França!... Já não posso... +beber... A ultima gotta queria bebel-a pela patria...</p> + +<p>E, cada vez mais offegante e desvariado pela febre, +acrescentou:</p> + +<p>—Vae buscar aguardente... Anda depressa.. que +já tenho a morte aqui...</p> + +<p>E indicava o coração.</p> + +<p>—Sim... amaldiçoados... os que não morrem francezes... +como tu... Jacques Regnau! lá n'esse quartel +que ninguem sabe onde fica... eu te contarei a verdade... +Vamos para a reserva... temos tempo de falar...</p> + +<p>E, como a cabeça do francez parecesse já desequilibrar-se, +Rosina Regnau procurou encostal-a ao peito +carinhosamente.</p> + +<p>—Não!—apostrophou com extrema difficuldade +Bénard—não! Um francez... só morre... encostado... +a outro... francez... Eh! eh!—rouquejou.</p> + +<p>E, procurando aprumar-se, disse com esforço +grande de mais para o lance do passamento:</p> + +<p>—<i>Vive.. lá... Fran...</i></p> + +<p>Não pôde concluir. A ultima syllaba embargára-lh'a +a morte.</p> + +<p>Graça Strech estava como que fulminado pelas palavras +do soldado francez, que morrera amaldiçoando +Rosina. Parecera-lhe que a voz da providencia falava +n'elle. Pela primeira vez um terror supersticioso subjugou +a coragem d'aquelle homem que tinha jurado +guerra de morte á França. E todavia expirava ali, ao +pé d'elle, um francez saudando a patria nas ultimas +palavras que lhe foi dado pronunciar.</p> + +<p>Rosina Regnau estava tambem paralysada n'essa +especie de imbecilidade que nas grandes commoções +se nos affigura ser idiotismo.</p> + +<p>O aço de que em parte era feita a sua alma de vivandeira +vergára ao som d'aquellas palavras horriveis; +restava apenas, muito a dentro do peito, a vibração +dolorida das cordas maviosas.</p> + +<p>No semblante, como se a distancia e o cansaço +fossem amortecendo a maguada vibração da alma, +apenas se desenhava o espasmo das supremas afflicções +que parecem suspender a vida.</p> + +<p>Quizera Graça Strech poder cingir nos seus braços +Rosina, e despertal-a, para a realidade do seu amor, +d'aquelle excruciante alheamento.<span class="pn"><a name="pag_106">{106}</a></span></p> + +<p>Vedava-lh'o a presença das pessoas que, como já +dissemos, estavam cuidando dos feridos.</p> + +<p>Ficaram ambos silenciosos, porventura á espera de +opportunidade para trocarem algumas fugitivas palavras.</p> + +<p>Ella, acordando pouco a pouco d'aquelle infernal +pesadello, sentia o doer da realidade muitas vezes +peior que os sonhos maus. E a si mesma perguntava +o que ficaria pensando Graça Strech: se julgaria criminosa +a sua compaixão pelo ferido; se a presumiria +demudada pela maldição do moribundo; se acaso o +effeito d'aquella imprevista scena lhe haveria levado +ao coração o aborrecimento ou o desprezo?</p> + +<p>Tudo suppunha, menos que o verdadeiro amor +nascera n'aquella hora com o ciume.</p> + +<p>Como ella desejava poder cingir Graça Strech nos +seus braços, cobril-o com os seus beijos, embora elle +a repellisse com enfado ou desabrimento!</p> + +<p>Não valeriam ameaças.</p> + +<p>Ella dir-lhe-ia com a affouteza que a innocencia +dá:</p> + +<p>—Eu bem sei que fiz mal. Mas aquelle era o Bénard, +<i>La goutte</i>, que eu conhecia, desde pequena, de +o ouvir discorrer sobre o egoismo dos homens e de +o ver puxar pela sua garrafinha d'aguardente. O pae +Regnau, apesar do vicio, estimava-o muito, e até lhe +chamava... philosopho. É que o pae Regnau era +dos primeiros amigos. Uma vez vendeu a ração do +almoço para que o Bénard não deixasse d'encher a +sua garrafinha. O pae Regnau disse então, bem me +lembro: «Elle sem aquillo não é philosopho; e eu +sem almoço posso ser soldado.» O que valeu foi que +o meu almoço chegou para dois. Não me julgues arrependida +do que fiz pelo que elle disse... Tudo +quanto elle disse bem o sabia eu... Lembrar-me da +minha patria não quer dizer que me esqueça de ti... +Não. Amaldiçoam-me? Que me importa a mim que +me amaldiçoem! Abençoa-me tu, e não quero outra +felicidade. Abre-me a tua alma, de modo que eu saiba +bem o que ella pensa, o que ella sente, e não terei +pena de que se me fechem as fronteiras da patria. +Não me aborreças nem me despreses... O teu primeiro +beijo foi uma promessa, uma esperança; eu +acreditei-o, creei vida nova, sinto-me forte para a +lucta. <i>La goutte</i>, se me disse aquellas palavras, é porque<span class="pn"><a name="pag_107">{107}</a></span> +me estimava; estima-me, ama-me tu quanto eu +desejo, que saberei esquecer as palavras de <i>La goutte</i>.</p> + +<p>Graça Strech, sem attingir o que se passava na +alma de Rosina, estava ancioso de dizer-lhe:</p> + +<p>—Tudo quanto aquelle homem disse era verdade. +Por mim perdeste tudo, Rosina, por mim preferiste +a solidão, em que ora vives, á tua immensa familia—o +exercito francez. Eu comecei por odiar-te, porque +eras irmã dos assassinos de minha irmã. Depois, +ao odio, que procurava o caminho da vingança, succedeu +a gratidão, porque tu me restituias a liberdade. +Mas a realisação do meu sonho de sangue importava +um enorme sacrificio teu. Fizeste-o sem trepidar. +E não contente com isso, que já era muito, +quizeste vincular a tua vida á minha, e tu, que havias +renunciado á patria, renunciaste tambem á voz com +que recordavas as canções do teu paiz natal. Começou a nascer em mim o amor misturado d'assombro. +Nunca me lançaste em rosto a minha crueza para os +teus. Era a minha vingança, e tu querias o que eu +queria. Ao pé da imagem de minha irmã, que no +somno e na vigilia me apparecia, começaste tu a tomar +vulto, a crescer, de modo que eu fiquei preso +entre vós ambas, porque se o sangue d'uma clamava +vingança, o sacrificio d'outra me proporcionava vingar-me. +E uma noite, no breve repousar do acampamento, +sonhei que minha irmã me viera falar e me +dissera que tu eras boa, e leal, e pura. Então beijei-te. +Mas hoje, ao ouvir aquellas palavras, completei +os meus pensamentos pela certeza de que tu eras +pura, e leal, e boa. Dize: Que queres de mim? Sacrificio +por sacrificio, amor por amor, dedicação por +dedicação. Serei teu, porque tu és minha. Ouve, Rosina, +ouve-me bem. Tu tens sido o meu anjo da guarda, +o meu enfermeiro, e—porque não hei de dizel-o?—tens +sido para mim como o cão amigo para o cego +das Ardennas. Pois bem. D'hoje em diante as nossas +almas fundir-se-hão n'uma só, viverão dos mesmos +pensamentos, e tu chorarás minha irmã como eu a +choro, porque o teu coração sentirá a saudade que +eu sinto.</p> + +<p>Ao anoitecer veiu a carroça dos cadaveres, acompanhada +pelo capellão militar, buscar o morto.</p> + +<p>Rosina Regnau deteve-se a contemplal-o, esquecida +de que aquelle homem morrera amaldiçoando-a.<span class="pn"><a name="pag_108">{108}</a></span></p> + +<p>Era-lhe defeso o falar. Se não fosse, haveria pedido +uma oração pela alma do soldado Bénard, de alcunha—<i>La goutte.</i></p> + +<p>Graça Strech assistiu á cerimonia commovido. Um +dos soldados encarregados d'aquella triste commissão, +como lhe visse carregadas as linhas do rosto, +apostrophou:</p> + +<p>—Pois tu, que te bates como leão contra os francezes, +não assistes impassivel aos funeraes d'um francez!</p> + +<p>—A morte quebra todos os odios, respondeu Graça +Strech.</p> + +<p>Outro soldado, ao dar tino da garrafinha entalada +entre a farda e a camisa, exclamou facetamente:</p> + +<p>—Pena tenho eu de o não matar emquanto a garrafa +estava cheia!</p> + +<p>—Este diabo não fazia senão beber! acrescentou +outro.</p> + +<p>—Tambem me consta que fazia outra coisa, replicou +Graça Strech.</p> + +<p>—O que era?</p> + +<p>—Enterrava os nossos mortos com mais piedade +do que tu.</p> + +<p>—Prégas hoje de cadeira!</p> + +<p>—Lembro-me de que elle, pelas ultimas palavras +que lhe ouvi, era tão francez como eu sou portuguez...</p> + +<p>—Era? perguntou ingenuamente um dos soldados.</p> + +<p>—E a mim, concluiu Graça Strech, pesa-me sempre +a morte d'um bom soldado.</p> + +<p>Quando a carroça rodou lugubremente, caminho +da valla commum, onde portuguezes e francezes iam +dormir sem odios nem malquerenças o somno eterno, +Graça Strech acercou-se de Rosina, que parecia +duvidar ainda do que tinha ouvido, e segredou:</p> + +<p>—Devo á memoria de Bénard uma felicidade que +não merecia a Deus. De hoje em deante não haverá +entre nós barreira que possa separar-nos. As nossas +almas serão uma; os nossos pensamentos um só...</p> + +<p>—Promettes? murmurou ella doida d'alegria.</p> + +<p>—Prometto.</p> + +<p>—Então dir-me-has tudo o que pensas, tudo o que +sentes?</p> + +<p>—Tudo o que penso e sinto te direi.</p> + +<p>E o segundo beijo sellou esta promessa.<span class="pn"><a name="pag_109">{109}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + + + +<h2>XIII</h2> + +<h2>Como acaba a tragedia de Goethe</h2> + +<p>Não morrem os gigantes ao segundo golpe.</p> + +<p>Napoleão ergueu-se no senado francez, a 4 de dezembro +de 1809, e sobrepujando com a sua voz a voz +da Historia, como se lhe não andasse já descontada a +gloria com dois consecutivos revezes na peninsula +iberica, disse: «Tanto que eu appareça alem dos Pyreneus, o leopardo recolher-se-ha amedrontado ao +oceano para fugir á ignominia, á derrota e á morte. +A victoria das minhas armas será a do genio do bem +sobre o do mal: a victoria da moderação, da ordem +e da moral sobre a guerra civil, sobre a anarchia e as +paixões destruidoras.»</p> + +<p>E, concluida a campanha de Austria pela paz de +Vienna, a aguia franceza deixou de pairar sobre o +norte da Europa, e do alto do palacio imperial de +Schoenbrunn fitou o olhar ardente e profundo na orla +do occidente banhada pelo Atlantico.</p> + +<p>E pela terceira vez se equipava o exercito invasor, +superior a oitenta mil homens; e pela terceira vez +fôra chamado um general distincto a tomar o commando +em chefe das tropas para obter melhor exito +que os seus dois antecessores.</p> + +<p>A eleição recaiu no marechal Massena, principe de +Essling, duque de Rivoli, cuja valentia e sciencia Napoleão +conhecia desde as campanhas d'Italia.</p> + +<p>Não precipitemos, porém, os acontecimentos que o +anno de 1810 havia de desdobrar sobre a Europa. +Justo é reverter ao que é assumpto principal d'este +livro, mais biographia do que chronica.</p> + +<p>Já anteriormente dissémos que o exercito portuguez +recolhera ao quartel general de Castello Branco, +e d'ahi fôra mandado, nos ultimos dias d'agosto de +1809, para diversos acantonamentos.</p> + +<p>Em Castello Branco, o marechal Beresford permittiu<span class="pn"><a name="pag_110">{110}</a></span> +aos soldados, que mais se haviam distinguido, a +escolha de corpo e quartel, não só para lhes galardoar +d'algum modo os serviços prestados, como para +incitar os outros a medirem-se na terceira campanha +com os premiados na segunda. José Maria da Graça +Strech escolheu o regimento d'infantaria 18, que, com +o 6 e 9 da mesma arma, foi mandado para Coimbra.</p> + +<p>Então se levantava detraz do tumulo da irmã querida, +para o desgraçado moço, a aurora do amor, que +desabrochára no primeiro beijo, e que o ciume aclarára +definitivamente á beira do catre do moribundo +Bénard.</p> + +<p>Havia-se batido como leão, açulado pelo cheiro do +sangue. Mil vezes se atirára á morte, e a morte parecia +respeitar no sorriso de Rosina Regnau a heroicidade +do soldado. Dir-se-ia que a vivandeira tinha duas +azas, que, desdobradas, o abrigavam. Graça Strech +acabou, como era natural, por amar o seu anjo da +guarda, quando inteiramente comprehendeu que ella +lhe dizia na triste eloquencia do silencio a que se condemnára: +«Eu tenho de guardar a tua alma; para +guardal-a preciso possuil-a.»</p> + +<p>No seu coração calcinado pela saudade choveu +pouco o orvalho refrigerante companheiro da aurora; +o amor cauterisou a ferida que sangrava odios; ficára +apenas a cicatriz, como fica voltada n'um livro a pagina que se leu, e cuja impressão jámais se desluz na +mente do leitor.</p> + +<p>Aconteceu a Graça Strech como ao commum da +humanidade.</p> + +<p>O amor, que é luz, que é fogo, que é sol, vae se decompondo em irradiações parciaes na nossa alma, á +medida que a vae desenregelando, como o verdadeiro +sol n'um prisma de crystal. Verdade é, ser preciso +que tenha a alma a pureza do vidro para que lentamente +se vão revezando as côres, alternando as <i>nuances</i>, e embriagando-se ella a pequenos haustos no +banquete da felicidade. O amor que rebenta como +erupção, não é amor, é desatino. Nasceu cego: não +vê. Irrompe como a lava, passa, queima, desapparece.</p> + +<p>Este é o amor das almas versateis, que não se vergam +ao sacrificio, e que por isso mesmo são incapazes de metter hombros á cruz cujo peso devera ser +repartido pelos dois. Os que amam sem previamente<span class="pn"><a name="pag_111">{111}</a></span> +haver soffrido, amam apenas emquanto o amor não +é soffrimento. E quem póde desfolhar a rosa sem ferir-se +no espinho? Esses amam pouco. As lagrimas +são a agua que baptisa na religião dos attribulados. +A mocidade de Graça Strech recebera esse primordial +sacramento. Dera a sua vida em holocausto á saudade. +Soffrera muito, e alma que soffre assim tem de +certo a pureza dos grandes sentimentos. Por isso a +luz da aurora, que lhe alvorecia sobre o tumulo da +irmã, se foi decompondo em gradações prismasticas +por feitio que elle, muito alma a dentro, pôde conhecer +a nitidez das côres, o brilho das tintas casado á +transparencia do cristal.</p> + +<p>Desde então começou a amar como os que teem +soffrido. «Tudo o que penso e sinto te direi,» segredára +elle em Alcantara.</p> + +<p>Estas palavras não eram apenas a promessa d'uma +revelação;—eram a promessa da felicidade.</p> + +<p>Os acontecimentos não permittiram que, antes de +Coimbra, Rosina Regnau pudesse affastar de si a nuvem +do ciume que de ha muito lhe opprimia o coração.</p> + +<p>Muito primeiro o amára ella, porque o ciume nascera +parelho do amor.</p> + +<p>Parece que o destino porfiára em depôl-os no eden +viridente de Portugal para mandar depois a serpente +a tental-os. N'aquelle jardim de Coimbra ha sombras +fadadas para o amor. Já o disse um poeta:</p> + +<blockquote> +<p>Quem nunca viu Coimbra<br> +Pela brisa embalada<br> + Do Mondego,<br> +Que de amorosa timbra<br> +Na margem reclinada<br> + Com socego,<br> +Não sabe o que é belleza,<br> +Ai! não conhece a filha<br> + Dos amores,<br> +Mais nobre que Veneza,<br> +Mais linda que Sevilha<br> + Sobre flôres.<sup><a href="#nota11" name="m_nota11">[11]</a></sup></p> +</blockquote> + +<p>Ali rememora ainda a celebrada fonte, que suspira +n'uma das extremas do campo de Santa Clara, o poema<span class="pn"><a name="pag_112">{112}</a></span> +das lagrimas da formosa Castro—o maior poema +d'amor que se tem sentido em Portugal. Que +phantasias que não tem o amor em Coimbra! É velha +a doidice que se respira n'aquelles ares, porque +já Faria e Sousa conta que Pedro, o principe amoroso, +confiava á agua da fonte, que n'esse tempo ia +jorrar nos jardins do paço real, os bilhetinhos namorados +que a loura Ignez muito em segredo recolhia +e, em maior segredo ainda, relia. E perora Faria e +Sousa: «Tales son las astucias de los amantes». Com +perdão de Faria e Sousa, astuciosos são os escriptores +que nos pintam amores fabulados de tão acertadas +contingencias, como era a da agua, sem embargo +dos seixos e hervagens, ser fiel correio do principe +e da aia.</p> + +<p>Eu contarei singelamente o meu caso, tal como +aconteceu na hora em que o ciume de Rosina Regnau, +como se já não fosse preciso para atiçar as labaredas +do amor, se acalmava na mutua confiança +das almas que se possuem.</p> + +<p>Foi ahi por alguma copada sombra das margens +do Mondego, onde, como disse Gabriel Pereira de +Castro, o rio</p> + +<blockquote> +<p>... nas voltas se mostra arrependido<br> +De levar agua doce ao mar salgado,</p> +</blockquote> + +<p class="ni">que Rosina Regnau e Graça Strech descançavam +n'uma das ultimas tardes d'agosto.</p> + +<p>Aproveitavam sempre as horas feriadas do serviço +militar para essas excursões, reguladas pelo toque +das cornetas no quartel, porque só onde a sombra +os escondesse poderiam dialogar, os dois, sem que +ouvido estranho traísse o segredo da mudez de Rosina.</p> + +<p>Ahi se indemnisava ella dos longos silencios a que +era constrangida, e assim se foram estreitando os laços, +que já tão cingida tinham a imagem da felicidade +n'um e n'outro coração.</p> + +<p>N'essa tarde Rosina Regnau intencionalmente encaminhou +o dialogo para o episodio da morte de Bérnard, +e a ponto veiu recordar as palavra de Graça +Strech: «Tudo que penso e sinto te direi».</p> + +<p>—Ah! não sabes, disse ella subitamente exaltada +pelo ardor da vivandeira, que do cumprimento da<span class="pn"><a name="pag_113">{113}</a></span> +tua promessa depende a realisação da minha felicidade!...</p> + +<p>—Pois duvidas?...</p> + +<p>—E não duvidaste tu de mim, quando em Alcantara +soccorri o pobre <i>La goutte</i>?</p> + +<p>—Perdôa-me...</p> + +<p>—Sim, perdôo, não a ti, ao ciume, pois que para +o ciume tambem peço perdão n'este momento. Ouve-me, portanto.</p> + +<p>—Fala!... exclamou Graça Strech.</p> + +<p>—Ha uma duvida horrivel no meu espirito, que é +preciso dissipar; um obstaculo no meu caminho, que +é preciso vencer. O meu amor, que começou por +dar-te a liberdade, não póde viver escravisado. Desde +o primeiro momento te amei perdidamente. Emquanto +tu dormias, veláva eu, para que as tuas palavras +de soldado não fossem desmentidas pela tua +physionomia de ferido sem eu perceber a verdade. +Já então—mal o pensavas!—a minha vida dependia +da tua. E vigiava-te, e estudava as mais ligeiras alterações +do teu semblante, como a mãe que observa, +de noite, na solidão silenciosa do seu quarto, o filho +doente que dorme. Tu não suspeitavas que pudesse +entrar tamanha dedicação na alma d'uma vivandeira, +e razão de sobra tinhas. As mulheres com quem eu +vivia eram tão vis, que se riam do meu carinho para +comtigo. E eu arrostava-lhes os chascos, os insultos, +porque bem sabia que a culpa não era d'ellas, mas +do destino que as tornou tão desgraçadas. Aspereza, +injustiça, só me doía a tua. Não bastava amar sem +esperança: o meu amor era recompensado com despreso. +Tu eras nosso prisioneiro; não podias, portanto, +soffrer que a minha pronuncia te estivesse recordando +a cada hora a tua infelicidade. Quiz, porém, +Deus que me ouvisses um dia com menos indifferença, +quando conheceste que eu valia um pouco +mais do que as outras. Viste que eu era boa, e quizeste-me +para instrumento da tua vingança. O que +tu não suppunhas era que o teu sonho fosse a esse +tempo o meu—dar-te liberdade! que eu contasse os +instantes da tua vida pelas horas da minha! que eu +quizesse ser para ti o que era o fiel molosso para o +cego da minha terra... Pois queria, juro-te, queria. +Se não pudesse restituir-te a liberdade, teria a coragem +de envenenar um remedio para que o mesmo<span class="pn"><a name="pag_114">{114}</a></span> +veneno nos matasse a ambos. Acredita; tinha. Mas +sempre na tua bocca a palavra vingança! Sempre +essa palavra horrivel! Eu bem sei que todo o homem, +que vê a sua patria invadida, precisa vingar-se +a si, e a ella. Mas esse annel que não mais te deixou +não era da patria... Falavas de tua irmã, tens-me falado +sempre d'ella. Comprehendo como se possa +amar uma irmã, que era boa, que era pura, e que foi +morta injustamente. Todavia comprehendo tambem +que se as cartas as escreveu tua irmã, o annel póde +deixar de ser d'esse anjo...</p> + +<p>Nos labios de Graça Strech havia o tranquillo sorriso +de quem sabe com que ardor é amado.</p> + +<p>Quiz falar; ella interrompeu-o.</p> + +<p>—Oh! por piedade, não sorrias, sem que esta duvida +atroz se desfaça! Tenho tido a coragem de saber +esperar este momento solemne e para mim decisivo. +Tu sempre a pensar no teu annel, eu sempre +a pensar em ti! Tão calada, que nem voz posso ter +deante d'estranhos. E que tivesse! Havia de perguntar +a alguem pela vida do homem que eu chamava +irmão? Tu sonhavas de noite, como quando ficaste +ferido em Alcantara, e sorrias. Acordavas, vias-me +ao pé de ti, e acudias logo a falar de tua irmã... Oh! +se eu soubesse que tu me enganavas!... Se tu estivesses +sonhando com outra mulher que não fosse +tua irmã, quando eu estava ali, sósinha, calada, sem +patria, sem amigos, amaldiçoada, a velar pelo teu +somno... Sabes o que eu faria? Vestiria o teu uniforme, +José, e iria bater-me, avançando tão imprudentemente +como o infeliz Bénard, até que as balas +dos soldados da França se me cravassem no peito. +Morreria pelo ingrato como os soldados morrem pela +patria, e morreria contente por morrer amortalhada +no teu uniforme... Vê, pois, bem a minha alma. Unicamente +te peço que sejas sincero, ainda que a tua +sinceridade tenha de ser cruel. Estamos a dois passos +do Mondego. É-me facil procurar n'elle a maior +altura da agua, se o coração me disser que me estás +enganando... Mas não has de, mas não me deves enganar, +porque pela memoria sagrada de tua irmã te +peço que sejas verdadeiro...</p> + +<p>E ficou anciosa, com os olhos fitos, os labios entreabertos, +o seio offegante...</p> + +<p>—Pela memoria de minha irmã te juro que mais<span class="pn"><a name="pag_115">{115}</a></span> +uma vez te repetirei a verdade—disse Graça Strech, +cuja physionomia parecia irradiar a luz clara e pura +dos que estão fazendo uma confissão sincera.—Tambem +eu te amo doidamente, Deus o sabe! Tambem +eu tive ciumes, Rosina! Tambem eu estou costumado +a soffrer. Se aquelle moribundo d'Alcantara houvesse +denunciado, por um gesto sequer, que tinha outros +direitos á tua dedicação, além dos de estar ferido e +ser francez, eu, impossibilitado de aggredir um homem +meio morto, haver-te-ia fugido para me expôr +á morte que encontraria em qualquer parte. Juro-te, +pela memoria de minha irmã te juro, que isto o senti +eu ao pé do pobre Bénard, quando te vi soccorrel-o. +N'esse momento forjou o ciume as cadeias que nos +teem agora aqui presos. Comecei por aborrecer-te, é +certo. Sobre este annel, que tirei do dedo de minha +pobre irmã morta, jurei vingal-a, Rosina, porque primeiro +me derrubaram a mim para que eu não pudesse +defendel-a, e depois a assassinaram a ella, a +minha mãe, e a minha avó. Meu pae, que já sei ter +morrido no mesmo dia, porque houve participação +official de ser reconhecido, foi vencido pelo azar do +combate, não foi assassinado. E depois era um soldado, +e um soldado em campanha ou mata ou morre. +Mas as pobresinhas que mal faziam á França? Eu +accordei do deliquio motivado pelo ferimento que recebi, +sem saber o que se tinha passado. Estendi o +braço e senti um corpo; apalpei e conheci roupas de +mulher. Achei uma cabeça. Tacteei-lhe os contornos, +e não me enganou a mão quando me pareceu ser +aquelle o perfil de minha irmã. Era noite, bem sabes: +dentro a escuridão; a tempestade fóra. Eu sentia +vibrar a espinha dorsal como se fôra d'aço, fria +como elle. Procurei luz, quasi louco. Mal me podia +suster nas pernas. No cerebro ardia-me um vulcão; +em derredor do craneo sentia a friura do gelo. E a luz +mostrou-m'as, a ellas, minha irmã, minha mãe, minha +avó, mortas, desgrenhadas, deitadas no soalho, e rodeadas das +sombras que a interposição dos moveis projectava +na parede, parecendo moverem-se, bracejar, +escancarar a bocca, casquinar gargalhadas que o +vento, lá fóra, parecia rir diabolicamente por ellas. +Eram horrores da minha imaginação, eram visões da +febre, porque eu n'essas horas incomparavelmente +angustiadas delirei, enlouqueci, morri em mim mesmo<span class="pn"><a name="pag_116">{116}</a></span> +para renascer n'um cadaver. E o sangue, Rosina, o +sangue d'ellas, empoçado no soalho, tão vermelho +que parecia incendiar-se ao reflexo da luz! Foi então +que a Providencia me soccorreu e me permittiu +um esforço sobrehumano. Beijei minha irmã, abracei +minha mãe, acariciei minha avó, falei-lhes, não +sei o que lhes disse, não me lembra, e estremecendo +do contacto das mãos de minha irmã, que pareciam +de marmore, e que do marmore tinham os veios roxos +e azues, tirei-lhe delicadamente do dedo, como +se ella pudesse molestar-se,—ella, que era tão franzina!—este +annel querido, sobre o qual proferi o meu +juramento de vingança, que até hoje tenho cumprido, +e que cumprirei até que Portugal succumba ou triumphe +d'uma vez.</p> + +<p>E como se a arrebatada eloquencia o repuzesse +ainda em meio das desgraças que historiava, pendeu +ao peito de Rosina, extenuado, descóradas as faces, +revoltos os cabellos, flammejante o olhar.</p> + +<p>Rosina ameigou-lhe a fronte banhada de suor frio, +e docemente lhe pediu perdão de o ter compellido a +avivar tão recentes e profundas dôres.</p> + +<p>Graça Strech estava preoccupado, como se procurasse +um pensamento que lhe entre lembrava; como +se quizesse suster uma visão que se mostrava e fugia.</p> + +<p>—Ah! exclamou de repente. Não, Rosina, não basta +ainda. O teu amor reanimou o meu cadaver, eu devo-te +a vida; quero abrir-te a minha alma para que a +vejas bem, para que a sondes, e leias n'ella. A tua luminosa +intelligencia já te permitte comprehender muitas +palavras do idioma portuguez. Pois bem, aqui +tens uma prova irrecusavel que não póde deixar a +minima duvida no teu espirito...</p> + +<p>E, desabotoando o uniforme, tirou o maço das cartas +d'Augusta.</p> + +<p>—É esta—continuou, procurando—é esta, lê aqui +lê bem. Foi ha dois annos, no seu dia natalicio, que +lhe mandei este annel. Vê o que o anjo me respondia. +Lê, esta é a prova, lê: «O teu annel, José, o teu +annel, que me pareceu acompanhar a tua alma, porque +a tive todo o dia ao pé de mim, não me deixará +até á hora em que a amortalhadeira m'o tire do dedo. +Pedes desculpa de que seja liso, de que só tenha uma +pedra!... Tontinho! O teu coração pésa mais do que<span class="pn"><a name="pag_117">{117}</a></span> +o annel, e a avósinha diz que os anneis de muito feitio +apenas são proprios das camponezas.» Vê, Rosina, +olha para este nome—Augusta—o unico de mulher +que pronunciei antes do teu...</p> + +<p>—José! exclamára Rosina divinisada por uma aureola +de condoída doçura, que parecia esbater-lhe o +semblante no azul do céo.</p> + +<p>A natureza dascaía na deliciosa morbidez do anoitecer. +As labaredas que a ambos afogueavam o coração +foram bastantes a seccar as lagrimas d'um e outro. +Se eu quizesse passar por um escriptor tão casto +como os que uzam adoçar o acre das situações violentas, +diria que se ouvia rumorejar as folhas, sendo +os labios que rumorejavam. Essas ultimas revelações +tanto contraíram os elos da cadeia, que já não era +possivel medir a distancia interposta ás duas almas +embevecidas.</p> + +<p>Se ali, n'aquellas paragens onde o grave Faria e +Sousa achou que era torrão azado para localisar astucias +de namorados; se áquella hora, como na tragedia +de Goethe, estivesse ali Mephistopheles, bradaria +com alegria satanica: <i>Perdida!</i></p> + +<p>Bem podia ser porém que alguma voz do alto respondesse: +<i>Salva!</i> Só se perde a mulher que não tem +coração para comprehender o que é ser mãe.<span class="pn"><a name="pag_118">{118}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota11" name="nota11">[11]</a></sup> +Do sr. Antonio de Serpa.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>XIV</h2> + +<h2>Quanto custa ser mãe</h2> + +<p>Em fevereiro de 1810 estacionava no valle do Mondego +o exercito commandado pelo general Wellington, +repousando das passadas lides, se bem que já +apercebido para resistir aos movimentos dos francezes +que de novo ameaçavam invadir Portugal.</p> + +<p>Beresford activamente se dedicava a exercitar e +disciplinar as tropas, e a providenciar pelo que tocava +a provisoes que se tornavam indispensaveis para +a campanha que a todo momento se esperava, e cuja +duração era imprevista.</p> + +<p>O rei José havia entrado em Sevilha, no primeiro +dia d'esse mez, á frente das suas tropas, e a nuvem +que obscurecia o céo da Hespanha alongava-se já +para Portugal, deixando ouvir os rumores da tempestade +que lhe refervia no bojo caliginoso.</p> + +<p>N'esse tempo vamos nós encontrar Graça Strech +na escóla militar do valle do Mondego, se bem que +muito demudado o encontremos, e mereça especial +attenção a tristeza que parece salteal-o nas horas em +que o soldado se permitte ser homem. Procuramos á +roda de si, e não encontramos a «muda», sua irmã. +Inquieta-nos tão inesperada ausencia. Depois que +comprehendemos o coração da Rosina Regnau, depois +que passo a passo a acompanhámos nos lances +angustiosos de sua attribulada mocidade, habituamo-nos +a estimal-a, e já agora nos é magua o deixar de +vêl-a.</p> + +<p>Morreria acaso?</p> + +<p>Algumas vezes se lembrára ella, quando vivandeira +do exercito francez, de que uma bala perdida a mataria. +É uma tradição de Vivandeiras, a do pelouro +esgarrado que as ha de prostrar, porque, companheiras +dos soldados, esperam do soldado a sorte. Todavia +nem sempre se realisam as contas que a phantasia<span class="pn"><a name="pag_119">{119}</a></span> +lança, e não é de presumir que dos soldados que +manobram exercitando-se no valle do Mondego partisse +a bala destinada a roubar-lhe a vida. Tambem +nas faces de Graça Strech não ha a tristeza sombria +das perdas irreparaveis, mas um novo reflexo de melancolia +que, a despeito de a querer concentrar, dá +á physionomia um toque de soffrimento. Procuremos +tirar-nos de tão saudosa incerteza, e saber o que se +passára nos mezes que decorreram desde agosto de +1809 até fevereiro de 1810. Pelo que vamos ouvir a +Graça Strech, n'um rapido dialogo com um companheiro +d'armas, não poderemos fazer juizo seguro, +mas esse será o fio de Ariadna que depois nos guiará +no labyrintho de nossas pesquisas.</p> + +<p>—Tens tido noticias de tua irmã? perguntou o soldado.</p> + +<p>—Não tenho; nada sei da pobresinha! respondeu +dolorosamente Graça Strech.</p> + +<p>—Deve-te custar a ausencia! Se a nós, que não +eramos irmãos, tambem nos custa! Estavamos habituados +aos seus tregeitos, e o caso é que já os entendiamos +como se fossem palavras! Que pena que +não falasse! Bonita era! e tão meiga como bonita! +Sempre aquelle sorriso doce para todos e para tudo! +Mas, ó Strech, se a conversa te magôa, não continúo...</p> + +<p>—Continúa, sim. Ás primeiras palavras rebenta a +saudade; depois Deus manda a resignação, e é o que +vale.</p> + +<p>—Eu tambem tenho familia, Strech, tambem sei o +que isso é. E depois tu sempre deves estar com teu +cuidado, porque tua irmã ia doente.</p> + +<p>—Começou a soffrer Trabalhos da guerra, commoções +fortes, talvez receios da nova campanha... +Não sei. O que é certo é que a não julguei com forças +de andar commigo em correrias atraz dos francezes, +que é preciso enxotar pela ultima vez. Temos +uma tia nossa na Allemanha. Veiu a Portugal ha annos, +e affeiçoou-se muito a minha irmã. Deu-se a +coincidencia de estar no porto da Figueira um brigue +italiano, e ir a bordo um passageiro allemão, que me +pareceu homem compassivo, e que me prometteu +acompanhar a pobre muda até ao seu destino. Que +havia eu de fazer, quando a demora de minha irmã +em Portugal seria a morte, e todas as circumstancias<span class="pn"><a name="pag_120">{120}</a></span> +pareciam favorecer visivelmente o meu designio de a +mandar para a Allemanha? Deixei-a ir, mais entregue +a Deus do que ao compassivo allemão.</p> + +<p>—E que tencionas fazer agora?</p> + +<p>—Agora! Quem sabe quando chegará a hora de +pertencermos a nós mesmos! Se eu morrer, ficará +minha irmã entregue a sua tia; se eu sobreviver a +victoria das nossas armas—porque nós não podemos +succumbir depois de havermos triumphado duas vezes—irei +buscal-a á Allemanha, e viveremos juntos +até que um de nós deixe d'existir.</p> + +<p>—Desculpa-me, Strech,—tornou o soldado condoído.—Mas +eu também estimava tua irmã, e por +isso te perguntei por ella. Como já partiu em dezembro, +e eu tenho conhecido que andas triste, pensei +que tivesses recebido noticia de que a pobresinha +ia a peior. Como felizmente não se realisou a hypothese, +desculpa-me. Olha... Estou em dizer que +Deus traga a guerra depressa para nos distrairmos. +A guerra embriaga como o vinho, e a embriaguez +é bom remedio para saudades. Eu e tu, pelo que +vejo, soffremos ambos da mesma doença. Adeus, +Strech.</p> + +<p>Este dialogo, como anteriormente disse, não é explicação +cabal, nem... verdadeira. Graça Strech via-se +obrigado a enganar as pessoas que lhe perguntavam +por sua «irmã», se bem que o engano apenas se +limitasse aos motivos da partida e ao destino de Rosina. +Elucidemos.</p> + +<p>Em dezembro de 1809 começaram a manifestar-se +os symptomas da maternidade. Esta desgraça, cujas +funestas consequencias não previram na loucura do +seu amor, obrigou-os a pensar reflectidamente no futuro, +subitamente entenebrecido no horizonte que o +poetico sol de Coimbra azulejava nas tardes em que +as margens do Mondego lhes enfloravam os ardentes +idyllios. O peor que ha no Paraiso é o ter porta: porque +não se abre, quando a ancia da felicidade a impelle, +e porque se fecha sobre as mais doces illusões, movida +por qualquer viração que mais branda e mais +embalsamada parecia. Eu, pouco sabido em philosophias, +acho a porta do Paraiso muito peior que a +serpente: uma tenta, a outra fecha. Ora a gente poderia +fugir da tentação, se encontrasse a porta aberta. +Deixamo-nos seduzir pela cascavel. Ouvimol-a. Embriagamo-nos<span class="pn"><a name="pag_121">{121}</a></span> +com as paizagens do éden, com as +melodias eolias do arvoredo, com o maná que o céo +deixa cahir sobre o coração. Entretanto a serpente +adianta-se. Cinge-nos, enleia-nos. Olhamos para a +porta: é-nos defesa a saída. Estamos encarcerados. A +serpente triumpha.</p> + +<p>Por duas ponderosas razões não podia ficar Rosina +Regnau em Portugal. Era a primeira que, inculcando-se +irmã de Graça Strech, a sua deshonra seria +desaire para o irmão. A segunda estava em que o +conservar-se occulta no reino, em estado de não poder +acompanhar o exercito, seria imperdoavel n'uma +epoca em que tudo que cheirasse a francez inspirava +odio, e em circumstancias em que o deixar de falar +seria quasi impossivel.</p> + +<p>Avultou aos olhos d'um e outro, como pesadello +horrivel, a necessidade da separação. O mesmo foi +verem-se inesperadamente sepultos nas ruinas dos +castellos encantados que ambos haviam architectado. +E a felicidade é como todos os edificios: leva muito +tempo a construir e basta um instante para desabar.</p> + +<p>Estava effectivamente a esse tempo, nas aguas da +Figueira, um brigue italiano. Concordaram ambos +em aproveitar a commodidade do transporte. Rosina +energicamente rejeitou a ideia de voltar a França, +duas vezes deshonrada. Convieram, pois, em que ella +esperaria em Italia, com o filho nos braços, o termo +da guerra peninsular. Depois, para sempre se reuniriam, +e viveriam enlevados na infancia da criança, +que ambos phantasiavam formosa.</p> + +<p>Mas, por que espesso véo de lagrimas se não filtrava +este raio de longinqua felicidade, illuminando-o +e iriando-o como um reflexo de sol moribundo através +de neblina humida em tarde de tempestade!</p> + +<p>Era esse o arco-iris da esperança, gravado em traços +multi-côres, d'um abysmo a outro, sobre um céo +plumbeo.</p> + +<p>—O pae Regnau,—dizia Rosina—costumava dizer +que a felicidade era uma bola de sabão. Agora vejo +que é. Tudo desfeito, n'um momento! Eu desterrada +para um paiz desconhecido, sósinha com a minha +desgraça e o nosso filho! Tu, a muitas leguas de distancia, +exposto á sorte dos que combatem, mais incerta +que qualquer outra! Viverei entre a esperança +da tua chegada e o receio d'uma noticia funesta. Oh!<span class="pn"><a name="pag_122">{122}</a></span> +esta idéa é horrivel! Então Deus ha de permittir que, +meu filho entre no mundo vestidinho de luto! Não +não póde ser. Não te exponhas loucamente á morte, +meu amigo, não? A tua vingança já deve estar satisfeita, +e depois um soldado que é pae deve ter duas +cadeias a ligal-o ao mundo: a patria e a familia. Ora +eu bem sei que tua irmã é a patria; mas lembra-te, +sim, lembra-te! de que teu filho é a tua familia...</p> + +<p>Acudia a serenal-a, com o coração despedaçado +nas garras de desconhecido abutre, Graça Strech. +Queria ser forte, e as lagrimas a trahirem nos olhos +o esforço! Tentava enganar, e estava desilludido. +Ainda não houve maior desgraça, mais amargo calix +de amargura esperado nos labios com um sorriso...</p> + +<p>—Não, Rosina, não imagines desgraças que Deus +não permittirá. Bem sabes que a Providencia me tem +guardado até hoje... Verdade é que tu eras o meu +anjo da guarda, e tu vaes fugir-me. Isto é, em verdade, +maior que a coragem humana! Não me arriscarei +imprudentemente á morte, está certa... Mas ás vezes, +na refrega, a gente não tem tempo de evitar uma +bala... Não chores, Rosina, não chores. Foi uma +loucura que eu disse. Eu não hei de morrer. Acaso +morri eu para a memoria de minha irmã? Tambem +não hei de morrer para o futuro de meu filho, para +o teu amor. É forçoso separarmo-nos; separemo-nos. +Ficaremos, porém, um ao pé do outro, sempre +juntos, que já não ha distancias que nos separem, +braços que nos desunam. Tu ver-me-has pelos olhos +da saudade; eu, que já estou costumado a ver assim, +ver-te-hei tambem. Conversarei no meu coração +comtigo, acompanharei meu filho desde o primeiro +vagido e a primeira lagrima... Ó Rosina, triste coisa +é a vida! Nascemos soffrendo, como devemos viver, +e morremos como vivemos. E olha que a minha loucura +deu mais uma alma á desgraça... Mas eu amava-te +tanto, tanto! Pobresinha de ti, que dizias parecer-te +ouvir a maldição de Bénard... Por amor de +mim te deshonraste uma vez; o meu amor duas vezes +te deshonrou... Não chores... Já estão desbotadas +as rosas das tuas faces, não as desmereças +mais... Lembra-te do céo da Italia, que todos dizem +ser formoso, e de que nosso filho nascerá sob o céo +d'esse bello paiz Deus ha de protegel-o. Lá viveremos<span class="pn"><a name="pag_123">{123}</a></span> +todos n'uma só felicidade... Mas não chores, +Rosina, que eu sinto despedaçar-se-me o coração...</p> + +<p>Foi chegado o momento da partida.</p> + +<p>Rosina subiu a escada de portaló amparada nos +braços de Graça Strech. Dir-se-ia um cadaver que +se destinava a uma sepultura distante.</p> + +<p>Os passageiros que estavam no convés pareceram +commovidos de tão doloroso espectaculo. Um d'elles, +que era musico napolitano, escondia contra a +harpa o rosto brilhante de lagrimas.</p> + +<p>Graça Strech viu-o chorar e disse de si para si:</p> + +<p>—O mais desgraçado é aquelle, porque já desaprendeu +de consolar.</p> + +<p>E dirigiu-se a elle:</p> + +<p>—Dá-me licença que o interrogue? perguntou.</p> + +<p>—Da melhor vontade, respondeu o menestrel.</p> + +<p>—Vae só?</p> + +<p>—Infelizmente vou... Deixei um filho morto em +Portugal. O rapaz era fraquito, e não pôde aguentar-se. +Desde que me elle morreu, fiz voto de voltar a +Italia. Mas quem póde agora ir por Hespanha com +estas malditas guerras, que nem n'este bom paiz de +Portugal deixam ganhar a vida? Juntei tudo o que podia, +consegui obter uma reducção na passagem, e +aqui vou eu com a minha harpa, sem o meu filho.</p> + +<p>E cada vez luziam mais as lagrimas nos olhos do +italiano, que parecia não ter ainda cincoenta annos, +posto lhe alvejassem já os cabellos.</p> + +<p>—Sente-se, senhor...</p> + +<p>—Pietro, acudiu elle com a celebrada vivacidade +napolitana, se bem que lhe soluçasse a voz commovidamente.</p> + +<p>—Estimei saber o seu nome, porque preciso archival-o +no coração. Vim aqui para lhe pedir um +grande favor. Tem de ser sua companheira de viagem +aquella desgraçada rapariga franceza que ali +vê...</p> + +<p>—Franceza! atalhou admirado o italiano.</p> + +<p>—Sim, franceza. É um mysterio cuja revelação +iria augmentar a sua maguada compaixão, meu bom +Pietro. Olhe por ella, anime-a, que a pobresinha é +muito infeliz, e quem lh'o pede não é menos infeliz +do que ella...</p> + +<p>O velho aprumou-se, tirou solemnemente o seu +barrete de gomos, e disse:<span class="pn"><a name="pag_124">{124}</a></span></p> + +<p>—Fique descançado, senhor. Pela memoria de +meu filho lhe juro que a tratarei a ella como se fôra +elle mesmo. O meu coração até agradece á Providencia +esta inesperada companhia que me dá. <i>Corpo +di Baccho!</i> que eu estava aqui triste, triste, que já +mal podia commigo...</p> + +<p>—Obrigado! muito obrigado! exclamou com extraordinaria +commoção Graça Strech.</p> + +<p>—Vá buscal-a para aqui, tornou o italiano. A minha +harpa está habituada a chorar; eu a farei chorar +mais uma vez. Quando eu vir que a minha nova filha +vae triste, eu a despertarei: <i>Carina!</i> E o <i>canta-storie</i> +sempre ha de saber alguma napolitana para +cantar-lhe.</p> + +<p>Abeirou-se Graça Strech de Rosina. Ella tinha os +olhos postos na superficie do mar, immoveis e desluzidos, +e deixava rolar as lagrimas livremente pelas +faces, como se já não tivesse vida para enxugal-as.</p> + +<p>—Rosina! apostrophou elle acordando-a, e com +voz que mal se percebia.</p> + +<p>Ella estremeceu e fitou-lhe um olhar que se diria +inconsciente.</p> + +<p>—Rosina! tens ali um companheiro de viagem, +que me pareceu tão desgraçado como qualquer de +nós. É musico italiano. Volta a Italia porque lhe +morreu em Portugal o filho que o acompanhava. Já +vês que deve ser infeliz. Levanta-te, anda para ao pé +d'elle. Anda, Rosina, minha boa amiga, minha desgraçada +irmã. Tem fé, tem animo, já que eu sinto +perdel-o... Olha... quero dizer-te uma coisa... Vou +confiar-te o meu thesouro, Rosina, o meu thesouro +que tão mysterioso te pareceu, e que tanto te fez +soffrer... Guarda este annel de minha irmã... Deus +sabe se eu algum dia fiz tenção de o tirar do dedo! +Que m'o tirassem depois de morto, pouco me importava. +A minha tenção era morrer com elle. Mas +eu amo-te tanto, tanto, que quero que tu o guardes. +Elle já me não póde recordar agora a minha vingança... +Quando nosso filho crescer mette-lh'o no dedo, +e alguma vez lhe contaremos ambos a historia do +annel mysterioso.</p> + +<p>Rosina olhava para Graça Strech em dolorosa suspensão. +Pareceu accordar, porém, quando sentiu na +mão o contacto do annel.</p> + +<p>E entrou de beijal-o anciosamente, delirantemente,<span class="pn"><a name="pag_125">{125}</a></span> +como se fosse para ella uma reliquia mais valiosa do +que a madeixasinha de seu pae.</p> + +<p>—O que eu soffri por elle, por este annel! disse +ella soluçante. Agora o levo commigo, e com elle a +tua alma... Senta-te aqui, José, ao pé de mim, não +me fujas ainda, que o navio não parte por ora... +Lembra-te que esta separação póde ser eterna...</p> + +<p>—Eterna! repetiu estremecendo Graça Strech.</p> + +<p>—Não, não ha de ser, Deus ha de conservar-nos a +vida que nos é mais precisa do que nunca... Mas +bem sabes que eu quero gravar bem na memoria as +tuas feições, uma por uma, todas, porque te quero +ter presente a toda a hora, contemplar a cada instante +o teu retrato, tão fiel, tão fiel, que me pareça +estar-te vendo... Bem sabes que é uma illusão de que +preciso, de que depende a minha vida. Pois se eu me +desalentar, se succumbir á saudade,—e baixou timidamente +a voz—quem ha de velar por nosso filho, +soccorrel-o, beijal-o, amal-o?...</p> + +<p>N'este momento deu a sineta de bordo signal para +que descessem as pessoas que não eram passageiros.</p> + +<p>Graça Strech, não tendo já forças nem coragem +para levantar Rosina, fez signal ao italiano para que +se aproximasse.</p> + +<p>Pietro abeirou-se com a sua harpa, sentou-se ao pé +de Rosina, e relanceou a Graça Strech um olhar que +parecia dizer: Póde ir.</p> + +<p>Rosina escondia o rosto entre as mãos, e soluçava +offegante, estrangulada a voz na garganta.</p> + +<p>Um dos marinheiros veiu, por ordem do capitão, +lembrar a Graça Strech que já tinha dado o signal de +bota-fóra.</p> + +<p>—Eu vou... respondeu elle machinalmente sem +poder desfitar Rosina, e quasi sem força para mover-se.</p> + +<p>E, lançando a mão á corda, desceu oscillando como +estonteado por uma violenta vertigem.</p> + +<p>Na Occasião em que o capitão passava por deante +de Pietro, o italiano levantou-se e sorrindo cortezmente +lhe disse:</p> + +<p>—O capitão dá-me licença que toque na minha +harpa o hymno da partida?</p> + +<p>O capitão sorriu tambem, e Pietro, inclinando-se +para Rosina, exclamou:</p> + +<p>—<i>Carina!</i> A minha harpa vae ser de hoje em<span class="pn"><a name="pag_126">{126}</a></span> +deante a nossa unica consolação. É preciso atordoarmo-nos com a musica. Ahi vae a <i>Capuana</i> para não +sentir o barulho de levantar ferro. Agora, para Napoles.</p> + +<p>E começou a entoar, acompanhando-se, uma canção +napolitana que poderia traduzir-se assim:</p> + +<blockquote> +<p>Esta tarde na ribeira<br> +Uma hora passeei.<br> +Meu pensamento, occupaste-o<br> +E tanto pensei em ti,<br> +Que o coração lá perdi...<br> +Tu vieste e apanhaste-o.</p> + +<p>Ensina-me pois agora<br> +A desfazer a meada.<br> +São parciaes os juizes,<br> +E a justiça demorada.<br> +Bem sei que perdia a causa...<br> +Que meio? Lembra-te algum?<br> +Tu lá tens dois corações,<br> +E eu cá não tenho nenhum.</p> + +<p>Para que nos custe menos<br> +A resolver a questão,<br> +Expliquemo-nos. Ha males<br> +Que ás vezes nos trazem bens.<br> +Vamos fazer um ajuste:<br> +Tu dás-me o teu coração.<br> +E guarda o que lá me tens.<br> +............................</p> +</blockquote> + +<p>O brigue navegava já. E a musica parecia adormentar +aquelles dois desgraçados: um porque levava +seu filho; o outro porque o deixava ficar.<span class="pn"><a name="pag_127">{127}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>XV</h2> + +<h2>A queda do gigante</h2> + +<p>A historia da terceira invasão franceza, comquanto +prenda com a nossa narrativa, não lhe é essencial.</p> + +<p>Muito de leve passaremos pois pelos acontecimentos +que medeiam de julho de 1810 até agosto de 1814 +e que, todavia, não podemos supprimir. Limitar-nos-hemos, +em conformidade com o nosso plano, a um +simples bosquejo não descabido em romance.</p> + +<p>O marechal Massena, chegado a Valhadolid, assumiu +o commando do exercito francez, que mandou reunir +em Salamanca, e marchou sobre Portugal, tomando +de caminho Ciudad Rodrigo, que se rendeu +depois de heroica resistencia. Quasi volvido um mez, +capitulou a praça d'Almeria; havendo soffrido um +longo cerco, e tendo sido o paiol incendiado pelo inimigo.</p> + +<p>O exercito alliado, em força de setenta mil homens, +esperou os francezes nas alturas do Bussaco, onde +durante os dias 27 e 28 de setembro se pelejaram +duas sangrentas batalhas, sendo grande a victoria +para o exercito anglo-luzo, que galhardamente +repelliu o inimigo em grande parte dizimado. É esta +uma das paginas mais brilhantes da historia portugueza +durante o longo periodo das guerras peninsulares.</p> + +<p>Os francezes, marchando para oeste, passaram ao +Sardão, e d'ahi seguiram para o sul; os alliados, retirando +sobre Lisboa, rebateram-n'os nos campos de +Coimbra, e em Leiria.</p> + +<p>Amedrontado Messena á vista das linhas chamadas +de Torres Vedras—sobre as quaes o official inglez +John T. Jones deixou uma circumstanciada <i>Memoria</i>, +que convém ser consultada pelos que não desdenham +saber historia patria—tomou posições á rectaguarda +em Santarem e Leiria, esperando reforço para atacar<span class="pn"><a name="pag_128">{128}</a></span> +as linhas. O exercito francez, consideravelmente derrotado, +estava de mais a mais carecido de viveres.</p> + +<p>N'esta conjunctura e já entrado o anno de 1811, +passou o marechal Beresford ao Alemtejo para se +oppôr ao inimigo, o que não impediu que Badajoz +capitulasse. Não obstante esta victoria, e um reforço +de trinta mil homens que o exercito francez recebeu, +começou a retirar nos primeiros dias de março d'esse +anno, sendo atacado na retirada pelos alliados, e entrando +em territorio hespanhol no mez d'abril. Segunda +vez reforçado, atacou o exercito anglo-luzo em +Fuentes d'Honor, não sendo ahi mais feliz do que no +Bussaco. No dia 11 d'esse mez retomaram os nossos +a praça d'Almeida, e pela terceira vez se viu Portugal +desopprimido do jugo francez.</p> + +<p>Pareciam empenhados os factos em desmentir a +prophecia de Napoleão: era a aguia da França que +fugia amedrontada para o seu ninho d'além-Pyrineus. +O leopardo triumphava á sombra da cruz, que +sempre foi timbre dos guerreiros portuguezes.</p> + +<p>Á batalha de Fuentes d'Honor seguiu-se outra não +menos cruenta—a de Albuera, onde a victoria nos +foi descontada pela perda de seis mil homens.</p> + +<p>A aguia franceza, a dominadora da Europa, irritada +por uma série de desastrosas derrotas, procurou +ainda desferir no céo da peninsula o arrojado +vôo das suas passadas glorias. Por um momento +lhe sorriu a victoria. Substituido Messena +por Marmont, o exercito francez logrou tomar-nos +a artilharia em Fuente Guinaldo, obrigando os alliados +a retirar sobre a fronteira portugueza, mais assignalados +ainda na retirada que no triumpho, porque, +aguentando o peso da cavallaria inimiga, repelliram +todos os ataques, retomando a artilharia. Com +a ação de Arroyo-del-Molinos, pelejada a 18 de outubro, +cuja victoria coube aos alliados, se encerrou o +anno de 1811, com muita honra para os anglo-luzos. +Não começou mal auspiciado o anno seguinte, que +se estreiou, para os alliados, com a tomada da praça +de Ciudad Rodrigo, seguindo-se-lhe a rendição de +Badajoz, depois de haver soffrido os apertos de primeiro +e segundo sitio. Todavia o maior successo +d'esse anno estava reservado para a batalha de Salamanca, +em que os dois exercitos, commandados de +um lado por Wellington e do outro por Marmont, se<span class="pn"><a name="pag_129">{129}</a></span> +equipararam em galhardia e pericia, cabendo a victoria—que +se reputa a mais celebre de toda a guerra +peninsular—aos luso-anglos. Á victoria de Salamanca +seguiu-se a tomada de Madrid, e á tomada de Madrid +o assedio ao castello de Burgos pelos alliados, +que, por desobediencia de Ballesteros, tiveram de retirar +sobre a fronteira de Portugal com denodo egual +ao que em Fuente Guinaldo os assignalou. Não remata +deshonrosamente o anno de 1812, para o exercito +anglo-luso com este revez que se póde considerar +façanha. Refeitas, porém, as tropas alliadas das +perdas soffridas na retirada de Burgos, e já começado +o anno de 1813, avançaram até Victoria, onde, +na manhã de 2 de junho, se travou batalha geral, +retirando o inimigo sobre Pamplona, perdendo artilharia, +caixa, bagagens, e salvando-se o rei José, que +estivera presente, em precipitada fuga.</p> + +<p><i>Alea jacta erat.</i></p> + +<p>A sorte de Napoleão, pelo que respeitava a ambições +relativas á peninsula, havia sido jogada na batalha +de Victoria, e a aguia franceza, em cujos olhos +brilhava o olhar coruscante do Corso, pela ultima +vez cruzava, demandando a França, as cumiadas dos +Pyreneus.</p> + +<p>No dia 1 de julho entrava o inimigo em solo francez. +De nada valeu reforçar-se, e tomar Soult o commando +geral. No ultimo dia d'esse mez ganharam os +alliados a batalha chamada dos Pyreneus, rechaçando +o inimigo para dentro das suas fronteiras. Seguem-se, +para honra das armas alliadas, a tomada da praça +de S. Sebastião, a batalha de Nivelle, os combates de +Bayonna, as victorias de Nive e Orthez, e, finalmente, +a triumphal entrada do exercito luso anglo em +Tolosa, a 12 de abril de 1814.</p> + +<p>Começava, como os acontecimentos o demonstram, +a empallidecer no céo da França a estrella de Bonaparte. +A lucta, desde muito travada entre a aguia e +o leopardo, lucta de morte, encarniçada, contínua, +estava chegada a ponto em que já era dado suspeitar +que o pedestal de Napoleão não era tão firme como +a sua coragem. O contendor, apesar dos revézes, +era o mesmo; a fortuna principiava a falhar. A Inglaterra +havia vencido, a sorte mostrára-se rebelde, +mas o conquistador da Europa,—e para o ser faltava-lhe +vencer a Inglaterra—não desesperava de reconquistar<span class="pn"><a name="pag_130">{130}</a></span> +a sua boa fortuna. Não tomou por aviso +da Providencia o desastre. No immenso taboleiro da +sua ambição, em que as nações eram outras tantas +tavolas que movia a bel-prazer, pareceu-lhe aquelle +um cheque sem consequencias para o resultado da +partida em que se jogavam os destinos de povos e +reis.</p> + +<p>Bonaparte ufanava-se de empunhar a balança em +cujas conchas pesavam d'um lado a Europa e do outro +uma ambição immensa, indomavel, manifestada +desde os primeiros passos da sua carreira militar. +Comtudo havia na Europa uma nação quasi invencivel, +porque o mar lhe servia de muralha, porque os +seus recursos economicos prosperavam largamente, +e porque as instituições d'esse povo, traduzindo a +altivez do genio nacional, eram muralha tanto mais +para temer como a que o mar, cingindo as ilhas britannicas, +opporia a qualquer invasão. Era tudo isso, +e mórmente o regimen liberal da Inglaterra, que incommodava +Bonaparte, cujo poderio havia ultrapassado +a barreira da tyrannia. O guerreiro feliz imaginava-se +senhor absoluto: era a vertigem da victoria. +Havia porém um meio de egualar a Inglaterra, como +diz madame Staël: era imital-a. Bonaparte, porém, +não tinha nascido diplomata. A vista do conquistador +é incisiva, rapida, abrange de uma só vez o exercito +todo por mais espraiado que esteja; o diplomata tem +de profundar, estudar, decompôr, analysar não só os +negocios englobados diante de si, mas as suas intimas +relações, as suas consequencias proximas e remotas. +N'um requer-se o olhar ardente da aguia; no +outro a vista penetrante do lynce. Toda a diplomacia +de Napoleão se cifrava em preparar os acontecimentos +de modo a provocar um conflicto internacional, +que tendesse a prejudicar a Inglaterra. Haja vista +o tratado secreto de Fontainebleau, em que Portugal +e a casa de Bragança eram sacrificados á velha rivalidade +dos dois paizes. Bonaparte visava sempre a +vencer, não empregando a influencia politica da sua +posição, mas empregando a influencia armada do seu +exercito. Edificava sobre cadaveres, arriscando a vida +dos soldados francezes ao sabor da sua phantasia. +Chegado á suprema embriaguez da preponderancia, +tanto valia para elle o sangue dos soldados como a +corôa dos reis. A sua vontade era lei. Conta-se que<span class="pn"><a name="pag_131">{131}</a></span> +uma vez um dos seus conselheiros d'estado ousou +lembrar-lhe que o codigo napoleonico era contrario +á resolução que ia tomar.</p> + +<p>Bonaparte respondeu:</p> + +<p>—O codigo foi feito para salvação do povo, e, se +a salvação do povo exige outras medidas, é preciso +adoptal-as.</p> + +<p>Estas palavras são transparentes: deixam ver a tyrannia. +O povo francez não podia ter vontade livre: +vivia affrontado pela sombra de Napoleão e encarcerado +na inquisição politica de que o ministro Fouché +era claviculario. O cézar dominava tudo: a vontade +do povo e a opinião da imprensa. Os jornaes +eram thuribulos que vaporavam o incenso da adulação +aos pés do throno. Os poetas estavam habituados +desde o tempo do Directorio a cantar heroides +em honra do Primeiro Consul. Os follicularios poisavam +a penna, quando tentavam assumpto que esquecesse +a grandeza napoleonica, amedrontados pelo +espectro da proscripção. A visão do desterro bastava +a intimidar a maior parte d'elles, senão todos. Madame +de Staël, que não trepidava deante da estatua gigantea +do imperador, teve de procurar refugio em +Inglaterra.</p> + +<p>E comtudo, na sua origem, a corôa de Napoleão +emergira, Venus da realeza, da onda da liberdade!</p> + +<p>É certo, mas a estas palavras respondem cabalmente +as seguintes linhas da auctora das <i>Considérations sur la revolution française</i>, cujo espirito era profundo +de mais para se deixar cegar por despeitos.</p> + +<p>«Não bastava,—diz a insigne pensadora—que todos +os actos de Bonaparte tivessem o cunho de um +despotismo cada vez mais audacioso; devia elle proprio +revelar o segredo do seu governo, pois que despresava +a especie humana o bastante para dizer-lh'o. +No <i>Monitor</i> do mez de Julho de 1810 fez publicar as +palavras que dirigia ao segundo filho de seu irmão +Luiz Bonaparte criança a quem o grã-ducado de +Berg era destinado: <i>Não esqueças nunca</i>, lhe diz elle, +<i>em qualquer posição que te colloquem a minha politica +e o interesse do meu imperio, que os teus primeiros deveres +são para mim, os segundos para a França: todos os +outros, incluindo os relativos aos povos que eu pudesse +confiar-te estão depois</i>. Não se trata aqui de libellos, +de opiniões de partido; é elle proprio, Bonaparte,<span class="pn"><a name="pag_132">{132}</a></span> +que se denunciou mais severamente do que a posteridade +ousaria fazel-o. Luiz XIV foi accusado de +ter dito intimamente: <i>O Estado sou eu</i>; e os historiadores +esclarecidos apoiaram-se com razão n'esta +linguagem egoista para condemnar o caracter do rei. +Mas se este monarcha, quando collocou seu neto no +throno de Hespanha, lhe houvesse ensinado publicamente +a mesma doutrina que Bonaparte ensinava ao +sobrinho, talvez que o proprio Bossuet não ousasse +antepôr os interesses dos reis aos das nações; e é um +homem eleito pelo povo, que quiz encher com o seu +<i>eu</i> gigantesco o logar reservado á especie humana! +foi n'elle que os amigos da liberdade momentaneamente +puderam ver o representante da sua causa! +Muitos disseram: «É o filho da Revolução. Sim, é, +mas filho parricida: deveriam reconhecel-o?»</p> + +<p>Tudo isto é profundamente verdadeiro.</p> + +<p>A liberdade franceza ficára esmagada sob a purpura +do cézar. Novo Archimedes, levantaria com a alavanca +do seu poder a Europa inteira, se a Inglaterra +consentisse em ser o ponto d'apoio. Era preciso vencer +essa unica difficuldade. Serviu-se pois de todos os +meios. Na <i>Historia Secreta do Gabinete de Napoleão +Bonaparte</i>, por Lewis Goldsmith, está manifesto o espirito +faccioso do escriptor inglez, mas ainda assim +ha por vezes a eloquencia terrivel dos factos, e esses +não os póde calar a historia. Bonaparte procurou +triumphar por mil maneiras differentes, seduzindo com +largas retribuições a lealdade dos jornalistas inglezes; +mandando a Inglaterra espiões, entre os quaes algumas +mulheres, como madame Bonneuil e madame +Visconti; procurando sublevar a Irlanda, etc.</p> + +<p>Mas estava escripto no livro dos destinos que a Inglaterra +fosse o sepulchro da grandeza de Bonaparte. +Lord Wellington, perseguindo a aguia franceza desde +Lisboa até Waterloo, similhante ao adversario de +Macbeth, segundo a expressão de madame de Staël, +foi o Josué da historia profana que ousou suster o +curso do sol napoleonico em meio d'um longo dia de +gloria prolongado em dez annos de lucta contra a Inglaterra.</p> + +<p>O cartel de desafio, tantas vezes arrojado á face da +nação britannica, volveu-se na hora da decadencia +em supplica dirigida ao principe regente d'aquelle +paiz.<span class="pn"><a name="pag_133">{133}</a></span></p> + +<p>Estas palavras de Napoleão, escriptas em Aix, depois +de Waterloo, são claro testemunho da inconstancia +das coisas terrenas:</p> + +<p>«Alteza real, a braços com as facções que dividem +o meu paiz, e com a inimisade das grandes potencias +da Europa, puz termo á minha carreira politica. Venho, +como Themistocles, sentar-me junto ao lar do +povo britannico; abrigo-me á protecção de suas leis, +a qual solicito de vossa alteza real como o mais poderoso, +o mais constante e o mais generoso dos meus +inimigos.</p> + +<p class="assin">«N<small>APOLEÃO</small>»<sup><a href="#nota12" name="m_nota12">[12]</a></sup></p> + +<p> </p> + +<p>Não era porém sincera a humildade do cézar decaído. +Themistocles pedia a hospitalidade d'Artaxerxes, +mas não pensava em beber a morte no veneno. Os +tropheos da Inglaterra, como os tropheus de Melciades, +perturbavam o somno do hospede desterrado. No +momento de embarcar em a nau ingleza, Napoleão +repellia o general Becker que se abeirava d'elle para +despedir-se, e dizia-lhe:</p> + +<p>—Retire-se general. Não se diga que um francez +veiu entregar-se nas mãos do inimigo.</p> + +<p>Themistocles não esquecia a gloria de Melciades.</p> + +<p>Napoleão preferira morrer na morte lenta de todos +os exilados, e agonisára durante cinco annos +n'uma possessão ingleza.</p> + +<p>Ahi, na triste solidão da ilha de Santa Helena, devia +recordar a cada momento a epopea da sua gloria +e da sua desgraça, pensando ou dictando as suas memorias +ao general Las Cazes. Então, pelo silencio +da noite, apenas interrompido monotonamente pelo +ruido do mar, refugiria de si mesmo ao ver passar +deante dos olhos o bando lutuoso das viuvas e dos +orphãos dos seus soldados, e ao adivinhar a pallida e +lacrimosa figura da moribunda de Malmaison, a formosa +Josephina Beauharnais.</p> + +<p>É sempre no mar que se esconde o sol; Santa +Helena illuminou-se com os ultimos clarões da gloria +de Bonaparte no duplo occaso da grandeza e da +vida. Orgulho de soldado: ordenou que lhe fosse<span class="pn"><a name="pag_134">{134}</a></span> +mortalha o capote que trazia na batalha de Marengo. +Na sua vaidade de cézar até á morte se queria impôr.</p> + +<p>Mais longe do que desejavamos nos levaram as +nossas divagações, esquecendo-nos de que o protagonista +d'esta narrativa não era Bonaparte, imperador +dos francezes, mas um obscuro soldado dos +exercitos que o venceram.</p> + +<p>Tempo é de falarmos de Graça Strech, e de dizer +que mais duas vezes fôra ferido no decurso da campanha +peninsular: uma em Salamanca, e outra em +Victoria com uma bala n'uma perna, do que lhe resultou +ficar coxeando. Fôra gravissimo este ultimo +ferimento. Por mais d'uma vez os soldados portuguezes +suppozeram moribundo o seu valoroso companheiro. +Ás exaltações febris, em que o ferido +precipitava palavras que os seus camaradas não comprehendiam, +succediam-se tão profundas prostrações, +que era difficil averiguar se vivia ainda.</p> + +<p>D'uma das vezes ouviram-lhe dizer:</p> + +<p>—Não! não! Não vêdes a morte?... Não quero +morrer... E Rosina?... Meu filho!... Estou aqui +sósinho... Pietro tocava a sua harpa.. A muda chorava +muito... Em Coimbra, n'aquella tarde... Sim, +ella era innocente e pura... Pietro parecia triste de +a vêr chorar... Que é?... São os francezes?... Que +venham... Eu vingo a memoria de minha irmã, mas +não quero morrer porque tenho um filho...</p> + +<p>—Um filho! exclamaram os dois soldados que +piedosamente o soccorriam.</p> + +<p>O ferido continuou a delirar:</p> + +<p>—Tudo perdeu por mim... Como era grande o +seu amor!... Pobresinha... Para traz, francez; quero +ir vel-a. Estás ahi? Sempre ao pé de mim! Sim... +bem me lembro... o ceguinho das Ardennas e o +seu cão... Não ouviste chorar uma creança? É meu +filho...</p> + +<p>—O nosso tenente treslê! exclamou um dos soldados.</p> + +<p>Graça Strech havia, pelos seus actos de valor, +chegado áquelle posto, sendo condecorado com a +Torre-Espada, com a cruz de S. Fernando d'Hespanha, +e ao depois com a medalha da guerra peninsular.</p> + +<p>—Pena é se morre, acrescentou outro soldado,<span class="pn"><a name="pag_135">{135}</a></span> +que não ha mais destemido militar que o nosso tenente!</p> + +<p>—Isso não! Animava-se com a polvora, que tambem +não tem de haver no mundo militar mais triste...</p> + +<p>—E mais desgraçado! Não te lembras que já a +irmã era muda?</p> + +<p>—Muda, sim.</p> + +<p>A este tempo havia caído Graça Strech em lethal +modorra, e retiravam-se os dois soldados receiosos +de que o tenente não resistisse ao ferimento.</p> + +<p>Todavia, como poderemos ver pelo capitulo seguinte, +não tinha de ser aquella a ultima hora da attribulada +existencia de Graça Strech.<span class="pn"><a name="pag_136">{136}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota12" name="nota12">[12]</a></sup> +<i>Historia de Napoleão Bonaparte</i>, pelo dr. Caetano Lopes +de Moura, Vol. II.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>XVI</h2> + +<h2>Uma festa no Porto +ha cincoenta e nove annos</h2> + +<p>Amanheceu festivo para a cidade do Porto o dia +15 d'agosto de 1814.</p> + +<p>Ainda de noite começaram a povoar-se as janellas, +e a animar-se as ruas com enorme multidão.</p> + +<p>Ás sete horas da manhã já não havia casa que não +estivesse adornada de ricas tapeçarias, pendentes dos +balcões, que competiam com as galas das damas da +cidade e da provincia debrusadas nos peitoris.</p> + +<p>Muitas das janellas estavam emmolduradas em grinaldas +e arcos de flôres; outras ladeadas por bandeiras; +ao longo das ruas corria um verdejante tapete +de hervas aromaticas.</p> + +<p>Em muitos olhos brilhavam lagrimas d'alegre commoção, +e em todos os labios desabrochavam sorrisos +que eram espelho do jubilo da alma.</p> + +<p>Que motivo havia, pois, para tamanha festa na cidade +cujos habitantes, no lento curso de cinco annos, +estavam costumados ao luto e á saudade dos que +pereceram na catastrophe da ponte, nas linhas de defeza, +nos hospitaes de sangue e dos que posteriormente +haviam succumbido na demorada campanha +peninsular contra os francezes?</p> + +<p>Não eram estranhos os jubilos d'esse dia a tão funestos +acontecimentos. Esperava-se a brigada de infantaria +do Porto, composta dos regimentos 6 e 18, +que victoriosa regressava de França depois de haver +pelejado com egual denodo pela restauração d'estes +reinos e de toda a peninsula.</p> + +<p>Os feitos da brigada de infantaria do Porto haviam +soado, com assombro dos portuguezes, em Portugal +inteiro, mórmente os que praticára na batalha da estrada +de Bayona, em França, no dia 13 de dezembro +do anno anterior.<span class="pn"><a name="pag_137">{137}</a></span></p> + +<p>O senado da camara tinha-se reunido nos primeiros +dias d'agosto para assentar nos festejos com que +se devia celebrar o regresso das tropas. Resolveu +que se levantassem arcos de triumpho, fazendo-se +outras mais demonstrações de alegria, e encarregou +da direcção dos preparativos o vereador decano +José de Sousa e Mello.</p> + +<p>Tratou-se, pois, com febril afan, de executar o programma +dos festejos.</p> + +<p>Construiu-se sobre a ponte do Poço das Patas a +<i>Porta da cidade</i><sup><a href="#nota13" name="m_nota13">[13]</a></sup>, guarnecida com os castellos que +lhe são proprios, e com as insignias concedidas por +carta regia de 13 de maio de 1813; collocando-se na +cimalha da porta a imagem de Nossa Senhora, que +entregava a seu Divino Filho uma fita com a legenda +<i>Civitas Virginis</i>.</p> + +<p>O gosto da pintura, imitando velha cantaria, muito +deu na vista das pessoas que percorriam as ruas e +estacionavam boqui-abertas em frente do arco.</p> + +<p>Tambem na cimalha foi embutida uma lamina de +bronze com este distico:</p> + +<p> </p> + +<p class="centrado"><small>HINC GENTI HOMEN;<br> +HINC REGNO PLURIES SALUS;<br> +HINC</small> E<small>UROPAE,</small> O<small>RBI</small><br> +P<small>RIMA LIBERTATIS LUX NOVISSIME AFFULSIT.</small></p> + +<p> </p> + +<p>No alto da rua nova de Santo Antonio levantou-se +um arco de triumpho, de ordem composita, firmado +em quatro columnas; resaltavam dos intercolumnios +arnêzes, grévas, escudos, bandeiras e lanças entrelaçadas +com listões de murta, ramos de oliveira, palmas +e louros. Nos dois grandes pedestaes sobre que +descançavam as columnas, lia-se:</p> + +<blockquote> +<p>Sempre engrandeça a patria lusitana<br> +Vosso nome immortal, claro, e subido;<br> +E a Casa restaurada de Bragança<br> +Tenha em thesouro seu vossa lembrança.</p> + +<p class="assin"><i>Condest.</i><span class="pn"><a name="pag_138">{138}</a></span></p> + +<p>Esta Cidade forte, e populosa,<br> +Colonia antiga do poder Romano,<br> +Cavou a sepultura temerosa<br> +D'um gigante nas obras deshumano.</p> + +<p class="assin"><i>Affons. Afric.</i></p> +</blockquote> + +<p>Egualmente estavam enfloradas as cornijas, architraves +e os frizos. Sobre o portico erguia-se o escudo +das armas da cidade; por cima da balaustrada +que corria ao longo do arco, havia quatro estatuas +que figuravam:</p> + +<p class="centrado">A SAUDADE</p> + +<p>Mostrava um livro aberto em que se lia: <i>1.º e 2.º +de Setembro de 1809.</i> (Dias em que saíram do Porto +as tropas.) No pedestal estava escripto:</p> + +<blockquote> +<p>Deixando a Patria amada, e proprios lares<br> +Se mostraram nas armas singulares.</p> + +<p class="assin"><i>Cam.</i></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">A ALEGRIA</p> + +<p>Indicava em outro livro a data: <i>15 d'agosto de 1814.</i> +(Dia da entrada das tropas.) Lia-se no pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>A Deus, ao Rei de quem a paga esperam<br> +Fazer maior serviço não puderam.</p> + +<p class="assin"><i>Malac.</i></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">A VICTORIA</p> + +<p>Desenrolava os annaes das acçoes em que a brigada entrára. Legenda do pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>Aonde falta o premio a quem milita<br> +Não habita a razão, nem gente habita.</p> + +<p class="assin"><i>Dest. d'Esp.</i></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">A ETERNIDADE</p> + +<p>Tinha, entre o symbolo da serpente enroscada, os<span class="pn"><a name="pag_139">{139}</a></span> +nomes dos regimentos: <i>Infantaria 6 e 18.</i> No pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>Ajudados dos céos em mar e em terra,<br> +Tem fechadas na mão a paz, e a guerra.</p> + +<p class="assin"><i>Malac.</i></p> +</blockquote> + +<p>Sobreposta a uma longa inscripção latina, rematava +o grupo do arco uma esphera armilar, sustentada +por Genios que entornavam flôres.</p> + +<p>Nos intercolumnios posteriores correspondiam armas, +espadas, tambores e alabardas unidos com feixes +de louro, ramos de carvalho e oliveira.</p> + +<p>Nos grandes pedestaes havia gravadas epigraphes +em verso, correspondendo os ornatos aos da frente +e as estatuas da balaustrada estas quatro:</p> + +<p class="centrado">O PORTO</p> + +<p>Offerecia com a mão direita uma corôa de louro e +empunhava na esquerda um ramo de carvalho, tendo +no pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>Orno os heroes que a patria eternizaram<br> +E por ella seu sangue derramaram.</p> + +<p class="assin"><i>Elp.</i></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">O AMOR DA PATRIA</p> + +<p>Offerecia com a direita um coração e apontava +com a esquerda para o peito. No pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>Meu valor, minha nobre fortaleza<br> +Será gloria da gloria Portugueza.</p> + +<p class="assin"><i>Affons. Afric.</i></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">A PAZ</p> + +<p>Offertava com a mão direita o ramo de oliveira, e +sustentava na esquerda um feixe de palmas. No pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>Que mais ditoso fim se lhe esperava<br> +Que este agora que merecido estava!</p> + +<p class="assin"><i>Affons. African.</i><span class="pn"><a name="pag_140">{140}</a></span></p> +</blockquote> + +<p class="centrado">A DOCILIDADE</p> + +<p>Arremessava com a mão esquerda um montão de +cadeias, e com a direita segurava uma estreita fita. +No pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>O Soberano Author da redondeza<br> +Da minha redempção deu-vos a empreza.</p> + +<p class="assin"><i>Bocag.</i></p> +</blockquote> + +<p>A tarja que, do outro lado, correspondia á inscripção +lapidar, tinha figurados em relevo todos os petrechos +de guerra, e os Genios, que d'esse lado sustentavam +a esphera, desenrolavam uma fita em que +estava escripta uma quadra do <i>Condestabre.</i><sup><a href="#nota14" name="m_nota14">[14]</a></sup></p> + +<p>Ahi se agrupava impaciente a multidão, não só attrahida +pela magnificencia do arco, senão tambem +pelo variegado espectaculo das tropas da guarnição, +que estavam postadas em alas até ao largo de Santo +Eloy; bem como para ver pegar fogo á bateria collocada +no topo da calçada dos Clerigos e destinada +a salvar com vinte e um tiros de peça a passagem da +brigada pelo arco.</p> + +<p>Na rua nova do Almada baralhavam-se dois formigueiros +de povo: um que, receoso do tumulto na aproximação +das tropas, demandava o Campo de Santo +Ovidio; outro que, tendo visto o obelisco levantado +no meio d'este campo, ia procurar logar, na hypothese +de encontral-o, junto ao arco da rua nova de +Santo Antonio.</p> + +<p>Era tambem sobremodo esplendoroso o obelisco +n'aquelle campo. Rodeava o pedestal uma espaçosa +varanda, adornada com ricas bandeiras portuguezas.</p> + +<p>Sobre o pedestal, e em frente da rua nova do Almada, +estava o retrato do principe real, com a +seguinte legenda escripta na almofada correspondente:</p> + +<blockquote> +<p>Diga-o a Augusta Effigie contemplando:<br> + Foi este o forte, o justo,<br> +João, da Patria Pae, que a patria alçando<br> +Deu pasmo a naturaes, e a estranhos susto.</p> + +<p class="assin"><i>Elp.</i><span class="pn"><a name="pag_141">{141}</a></span></p> +</blockquote> + +<p>Em frente da rua da Boa Vista, resaltava o retrato +da rainha, lendo-se no pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>O louvor que se ganha pelos meios<br> +Da virtuosa vida, este só dura,<br> +Este de se perder não tem receios.</p> + +<p class="assin"><i>Bern.</i></p> +</blockquote> + +<p>E em frente da linha dos predios foi disposto o retrato +da princeza, tendo no pedestal:</p> + +<blockquote> +<p>Que affavel se olharia a tua face,<br> +Se o céo a nossos votos sempre amigo<br> +Na fria estatua espiritos soprasse!</p> + +<p class="assin"><i>Filint.</i></p> +</blockquote> + +<p>Do lado da Lapa, em frente do quartel, viam-se +as armas do reino e da cidade, unidas por um listão, +em que estava escripto o dia da restauração do governo +nacional</p> + +<p class="centrado">18 DE JUNHO DE 1808</p> + +<p class="ni">lendo-se no pedestal os seguintes versos de Horacio:</p> + +<p class="centrado"><small>HIC DIES VERE NOBIS FASTUS ATRAS<br> +EXIMIT CURAS.</small></p> + +<p>Todos os retratos foram collocados entre tropheus +de bandeiras, e eram cingidos pelos emblemas +da paz e do heroismo...</p> + +<p>O bom povo portuense, na cegueira do seu jubilo, +não reparava que esses emblemas, á beira dos augustos +retratos, deviam ser uma pungente ironia se a familia +real tivesse olhos para os ver atraves de enorme +distancia, e interposto o mar!</p> + +<p>No cimo do obelisco assentava a corôa real cingindo +um manto de preciosa bordadura.</p> + +<p>Pouco depois das oito horas e meia, um unisono +grito de alegria annunciou a chegada da brigada ao +Alto do Senhor do Bomfim.</p> + +<p>Então começou o estrondear dos morteiros, o repicar +dos sinos e o alarido dos vivas. Quando as tropas +chegaram ao topo da rua nova de Santo Antonio, +o enthusiasmo attingiu as raias do delirio, tamanho<span class="pn"><a name="pag_142">{142}</a></span> +era o alvoroço da multidão que saudava com brados, +com os lenços e os chapeus os dois regimentos portuenses. +Durante todo o percurso até ao Campo de +Santo Ovidio as flôres, as grinaldas e os ramos, que +desciam das janellas, figuravam uma chuva iriada e +espessa que ia orvalhar de petalas as fardetas dos +soldados.</p> + +<p>Se nos fosse dado ouvir os breves dialogos que se +perdiam no borborinho geral, de grupo a grupo iriamos +recolhendo vozes, posto que variadas, todas concernentes +á festa d'esse dia.</p> + +<p>N'uma das janellas da rua nova do Almada chalravam +as visinhas da familia Strech, as quaes cinco annos +antes tivemos occasião de conhecer em lances +que verdadeiramente contrastavam com o espectaculo +a que estamos assistindo.</p> + +<p>Passava o regimento de infantaria 18, e diziam ellas.</p> + +<p>—Vamos a ver se conhecemos o José Maria!</p> + +<p>—Vem tenente e condecorado!</p> + +<p>—Já sei. Mandou dizel-o o homem da Victorinha.</p> + +<p>—Deve vir muito mudado!</p> + +<p>—Será aquelle?</p> + +<p>—Aquelle, menina! Aquelle militar tem mais de +vinte e cinco annos...</p> + +<p>—Vamos a ver se elle olha para a casa onde morou...</p> + +<p>—Vês? Não olha! Vae até a olhar para o chão...</p> + +<p>Era elle, effectivamente.</p> + +<p>No meio da rua dialogavam dois velhos:</p> + +<p>—Que pena não assistir o Trant!</p> + +<p>—Está doente.</p> + +<p>—Bem sei.</p> + +<p>—E elle que tanto trabalhou para esta recepção!</p> + +<p>No Campo de Santo Ovidio, antes da chegada das +tropas: Um velho perguntando a um sujeito que estaciona +junto d'elle:</p> + +<p>—Falta-me a vista! Quem são aquelles que estão +nas janelas do quartel?</p> + +<p>—É o juiz e a camara. Olhe... Não vá mexer-se +agora uma cabeça?</p> + +<p>—Vejo, mas não distingo.</p> + +<p>—Pois é o José de Sousa e Mello.</p> + +<p>—Acho que elle tem de falar pelo senado?</p> + +<p>—O programma dizia que sim.<span class="pn"><a name="pag_143">{143}</a></span></p> + +<p>—Esperaremos. Sempre não ter vista! Perco metade!</p> + +<p>Chegaram as tropas ao Campo de Santo Ovidio e, +depois de formar quadrado, fizeram continencia aos +retratos da familia real, que, diga-se em abono da +verdade, não responderam.</p> + +<p>Os originaes estavam no Brazil; não viram.</p> + +<p>Em seguida o brigadeiro Carlos Ashworth, commandante +da brigada, levantou vivas ao principe regente +e á rainha...</p> + +<p>Os retratos não se mexeram.</p> + +<p>Quando porém se ouviu um enthusiastico viva em +honra da cidade do Porto, a cidade respondeu delirantemente +pela bocca das tropas, do povo, e pelo +acenar vertiginoso dos lenços nas janellas.</p> + +<p>Dada a voz de descançar armas, desceu o já nomeado +vereador decano, José de Sousa e Mello, que pouco +antes viramos a uma das janellas do quartel. O +brigadeiro commandante, tendo-se apeiado, dirigiu-se +para elle. Então o camarista Mello recitou uma allocução +que terminava por estas palavras: «A camara +roga a vossa excellencia queira fazer-lhe a honra, não +só de jantar hoje n'este quartel, mas de convidar em +seu nome toda a officialidade d'estes dois regimentos, +mandando vossa excellencia que, além d'isto, se distribua +pelos sargentos, cabos e soldados o dinheiro +que ali se acha para lhes supprir o jantar d'hoje.»</p> + +<p>O brigadeiro Ashworth agradeceu amavelmente o +convite, e asseverou que a officialidade acceitaria reconhecida.</p> + +<p>A immensa multidão que enchia o Campo de Santo +Ovidio rompeu n'este lance em freneticos vivas e, ao +som das bandas marciaes, recolheram as tropas a +quarteis, sendo seguidas por grande numero de pessoas, +parentes, amigos, e conhecidos, que esperavam +lhes fosse permittido abraçar soldados e officiaes.</p> + +<p>Concedidas duas horas para desafogo de saudades, +cinco annos retraídas, e gastas em ardentes expansões +que as volveram momentos, foi o regimento de +infantaria 18 ouvir missa á egreja da lapa e o regimento +de infantaria 6 á egreja da Graça. Em ambos +os templos houve <i>lausperenne</i> e <i>Te-Deum</i>.</p> + +<p>Cumpridos os deveres do coração e da alma, começaram +os da cortezia.</p> + +<p>O brigadeiro Ashworth foi cumprimentar o senado<span class="pn"><a name="pag_144">{144}</a></span> +á sala da secretaria do quartel de Santo Ovidio, convenientemente +preparada para a solemnidade da recepção, +recolhendo-se depois ao quartel general da +rua nova do Almada, onde, pelo meio dia, recebeu a +visita dos vereadores.</p> + +<p>Cerca da uma hora da tarde, quando o brigadeiro +já estava desembaraçado de felicitações officiaes, annunciou-se +no quartel general o tenente Graça Strech.</p> + +<p>O brigadeiro acudiu a recebel-o com a maxima familiaridade, +que era testemunho de maxima consideração.</p> + +<p>—Vem tambem cumprimentar-me? galhofou o brigadeiro.—Ora +sente-se e fale.</p> + +<p>—Venho solicitar um grande obsequio, respondeu +o tenente.</p> + +<p>Razão tinham as meninas da rua nova do Almada +para não reconhecer n'elle o gentil e vigoroso José +Maria dos dezeseis annos. Estava velho aos vinte e +um, velho das geadas do infortunio que requeimam +as flores da alma, e apagam nos olhos o brilho da +mocidade. Tinha a magreza viril do soldado, mas +cruzavam-se na sua physionomia umas sombras espessas +que á primeira vista inculcavam que espirito +e corpo haviam soffrido por egual. Como as palreiras +meninas da janella disseram, figurava ter mais de +vinte e cinco annos.</p> + +<p>Mas, voltando ao dialogo do tenente com o brigadeiro:</p> + +<p>—Que grande obsequio é esse? perguntou com +affabilidade Carlos Ashworth.</p> + +<p>—Venho pedir dispensa de assistir hoje ao jantar.</p> + +<p>—Ah! meu amigo, isso não póde ser! O galardão +é para todos; cumpre, pois, que cada um receba o +quinhão que lhe cabe.</p> + +<p>—Eu creio que já em França tive a honra de lhe +dizer, meu brigadeiro, que precisava descanço porque soffria...</p> + +<p>—E de me pedir a sua baixa, bem sei. D'essa vez +não pude annuir ao pedido do meu bravo tenente, +porque havia recebido instrucções particulares do +senhor marechal marquez de Campo Maior para não +licenciar soldados nem officiaes. Era justo que o +Porto conhecesse todos os heroes d'esta brilhante +campanha. O marechal tinha razão. Agora, meu bom +amigo, tambem não posso ser-lhe agradavel como<span class="pn"><a name="pag_145">{145}</a></span> +desejava. O tenente foi dos militares que mais se distinguiram +desde Portugal a França. As ordens do dia +falaram muita vez no seu nome. Conhecem-n'o. Seria +uma affronta para o Porto que estivesse entre os +seus muros, e recuzasse o talher que lhe offerece. +Isso—disse o brigadeiro curvando-se amigavelmente +para elle—são saudades, não quero saber de quem. +Tambem eu as tenho... Vamos, assista ao jantar, +que eu me empenharei por obter a sua baixa o mais +breve possivel.</p> + +<p>E estendeu-lhe cordealmente a mão.</p> + +<p>O tenente Graça Strech saiu d'ali com os olhos no +chão para não vêr a casa onde nascera, e atravessou +as ruas da cidade absorto na triste concentração de +quem está em terra onde não conhece ninguem.</p> + +<p>Ia entregue aos seus pensamentos, e assim andou +ao acaso até que outro tenente do mesmo regimento +lhe bateu no hombro e disse:</p> + +<p>—São quasi cinco horas e meia. Vamos lá ao jantar, +homem. Está marcado para as seis.</p> + +<p>Effectivamente, á hora designada, reunida a officialidade +no quartel de Santo Ovidio, passou com os +vereadores á sala do banquete, cuja ornamentação +era brilhante.</p> + +<p>A um e outro lado corriam arbustos, d'entre os +quaes appareciam as armas de Portugal e Inglaterra. +A um grupo de trophéus de guerra, com bandeiras d'uma +e outra nação, que cobriam a cabeceira da +mesa, fazia <i>pendant</i> um nublado em que se enleiava +a serpente, symbolo da eternidade, tendo escripto no +centro—<i>Ashworth.</i>—Guarneciam o nublado duas +bandeiras com os nomes dos dois regimentos, atadas +por uma fita em que se lia a data de maior gloria +para a brigada do Porto—<i>13 de dezembro de 1813</i>.</p> + +<p>No fim do banquete, ao som da banda de musica +de milicias que tocava á porta do quartel, levantaram-se +enthusiasticos vivas ao principe regente, á familia +real, aos monarchas alliados, aos governadores +do reino, generaes do exercito combinado, ás tropas +victoriosas, e a todas as mais entidades que iam lembrando +e mereciam a homenagem d'um calis de vinho.</p> + +<p>Um só conviva correspondeu a esses ruidosos brindes +com um movimento de labios: foi Graça Strech. +E á noite, quando toda a cidade se illuminava festivamente, +era profunda a escuridão na sua alma.<span class="pn"><a name="pag_146">{146}</a></span></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota13" name="nota13">[13]</a></sup> +É fiel a descripção d'estes festejos; O auctor encontrou-a +n'um opusculo da epoca.</p> + +<p><sup><a href="#m_nota14" name="nota14">[14]</a></sup> +Poema heroico de Francisco Rodrigues Lobo.</p> +</div> + +<hr style="width: 20%;"> + + + +<h2>XVII</h2> + +<h2>Como madrugam as aves +e os noivos!</h2> + +<p>Obtida a baixa, Graça Strech poucos dias se demorou +no Porto.</p> + +<p>Sentia-se asphyxiado na atmosphera em que respirára +ao nascer. Punham-lhe medo as sombras; as +ruas affiguravam-se-lhe tristes como avenidas de cemiterio. +Duas vezes, alta noite, depois de dolorosissima +lucta comsigo mesmo, estivera, encostado á parede +fronteira á casa em que viveu os primeiros annos +da vida, mergulhado em profunda meditação.</p> + +<p>A ultima vez fôra a ultima noite que passára no +Porto. O céo era d'um azul setinoso. O branco luar de +agosto estendia ao longo da rua a sua claridade immovel, +e parecia desenhar nos muros contornos phantasticos. +Reinava na cidade o silencio imperturbavel +das noites profundas. Na janella da sala onde cinco +annos antes, por noite tempestuosa, jaziam tres cadaveres, +luzia um reflexo mortiço como de lamparina +que não tardou a apagar-se. Lembrou-se Graça +Strech de que devera ser egualmente pallido o reverbero +da luz que lhe tremia na mão quando contemplava +os corpos inanimados das trez senhoras. Transportou-se áquelle horrivel espectaculo. Viu tudo. A +mãe, a irmã e a avó estavam a seus olhos como +n'essa hora tremenda. Não obstante o seu grande empenho, de pergunta em pergunta não lográra saber +onde repousavam. Queria ir procurar Rosina, de +quem nada sabia tambem, mas desejava despedir-se +da familia que ficava, antes de partir para o seio da +familia que o esperava. Não pôde realisar o seu desejo. +Registos parochiaes não os havia. N'aquella +immensa hecatombe da invasão, tambem as sepulturas +foram invadidas sem averiguar-se por quem. Tinha<span class="pn"><a name="pag_147">{147}</a></span> +desesperado de conhecer a verdade, e, já que +não podia despedir-se do tumulo da sua familia, +fôra despedir-se do predio que ella habitára. +De repente, n'uma casa proxima, perpassou uma +luz. Fez reparo. Quem velaria ainda áquella hora? +Deteve-se a examinar, e certificou se de que ali +viviam, no anno de 1809, as duas visinhas que +lhe falaram na bateria do Bomfim. Foi isto um como +raio de tardia esperança. Recriminou-se pelo esquecimento +de não as ter procurado logo que chegou. A +desgraça havia-o desmemoriado. Atravessára o Porto +como um viajante solitario atravessaria o Sahará—calado, +pensativo, sem ver, por ter medo de olhar. +Mas—os infelizes duvidam sempre—viveriam ainda +ali? Tinha razão. Quem poderia dizer se ellas, na +fuga, haveriam chegado ao seu destino, sido attingidas +pelas balas ou cahido em poder dos francezes?</p> + +<p>A estas perguntas, que a si proprio fazia, só poderiam +responder indagações. Pesava-lhe todavia +o ter de se aproximar de pessoas cuja conversação +iria aggravar a dôr do passado. Se elle soubesse +onde repousavam as cinzas da sua familia, lá +iria para falar-lhes, para contar-lhes os extraordinarios +lances da sua vida, para dizer aos frios restos de +sua irmã por que razão não levava comsigo o annel, +sobre o qual jurára vingal-a.</p> + +<p>Augusta, de dentro do sepulchro, responderia com +o perdão implorado.</p> + +<p>Mas o que elle não queria era deixar entrever a sua +dôr de modo que lh'a avivassem piedosamente, porque a sociedade não dá o balsamo da compaixão sem +primeiro rasgar as feridas que a inspiram.</p> + +<p>O desejo vehemente venceu, porém, a natural repugnancia. +A breve trecho fez tenção de não desaproveitar +as poucas horas que lhe restavam para colhêr esclarecimentos. +Resolveu-se a esperar que amanhecesse +e, como a luz parecesse brilhar com intensidade +a través da janella, não se afastou. Mal começava a +raiar a claridade da madrugada, apagou-se a luz, e +cerca das cinco horas da manha viu Graça Strech +abrir-se a porta. Sairam duas mulheres de mantilha, +seguidas por uma criada que levava um açafate á cabeça. +Fosse reminiscencia ou phantasia, Graça Strech +cuidou reconhecer as duas visinhas: tia e sobrinha. +Tomou alento e acercou-se. Uma das mulheres, a<span class="pn"><a name="pag_148">{148}</a></span> +mais nova, voltou de repente a cabeça como se esperasse +alguem. Havendo-se enganado, achegou-se +da outra e soltou um—ai!—que mais denunciava +despeito que medo.</p> + +<p>—Não se assuste vossa senhoria, sr.ª D. Izabel! +apostrophou Graça Strech serenando a menina que +se denunciava medrosa.</p> + +<p>Tia e sobrinha olharam fito no desconhecido, e foi +a sobrinha quem primeiro exclamou:</p> + +<p>—Pois não se lembra, minha tia? Olhe bem para +elle!</p> + +<p>—Quem é?</p> + +<p>—É o sr. José Maria! Eu bem dizia outro dia que +era o tenente das barbas!</p> + +<p>—Póde lá ser o Josésinho!</p> + +<p>—Tem razão, minha senhora, replicou Graça +Strech. Eu devo parecer-lhes uma sombra do que +fui. Mas, sombra ou realidade, o certo é que me chamo +José Maria da Graça Strech.</p> + +<p>—Ora uma coisa assim! Parece um velho!</p> + +<p>—E parece! acrescentou a menina.</p> + +<p>—Desgostos, minhas senhoras.</p> + +<p>—E muitos teve tão novo, sim, porque vêr...</p> + +<p>—Peço a vossa senhoria o obsequio de deixar em +silencio essas tristes recordações. Uma só quero eu +avivar, e por isso lhes causei esta surpresa.</p> + +<p>—Mas não nos ter procurado! exclamou a velha +senhora.</p> + +<p>—Não tomem á conta d'ingratidão o que é simplesmente +embrutecimento. Bem podia ser tambem +que tivessem mudado de casa.</p> + +<p>—Ora! Quem tem bocca vae a Roma! exclamou +a menina. Já nem queria saber novidades da sua antiga +visinha! Pois saiba que me vou casar...</p> + +<p>—Felicito vossa senhoria.</p> + +<p>—Cala-te ahi, tagarella! acudiu D. Eulalia, affastando +com o braço a sobrinha. Ha de estar admirado +de nos vêr sahir ambas a esta hora. Pois não se admire. +Combinamos com as Cerqueiras e as Brochados, +tudo visitas da sua casa, sr. Strech,—e com o +noivo da Izabelinha—juntarmo-nos na primeira missa +que se diz no altar do Senhor dos Passos em S. João +Novo e irmos depois almoçar todos á Fonte das Virtudes.</p> + +<p>Cumpre dizer que na primeira década do seculo<span class="pn"><a name="pag_149">{149}</a></span> +<small>XIX</small> era ainda a Fonte das Virtudes o local destinado +ás comezainas das familias burguezas do Porto. Ahi +se reuniam em ruidosos convivios, deposta a mantilha, +e irmanados novos e velhos pelo mesmo apetite +e pela mesma alegria.</p> + +<p>O camartello das demolições municipaes tem—<i>avis +rara!</i>—respeitado até hoje esta legendaria fonte +que se compõe d'um alto frontispicio, ornado de pyramides, +e firmado em bancos de pedra, que a rodeiam. +Rebenta abundantemente a agua por duas +enormes carrancas em conformidade com a esculptura +de todos os chafarizes antigos. Ladeiam a fonte +dois grandes tanques, durante todo o dia, ainda +hoje, frequentados por lavadeiras. N'esses bons tempos, +ficava a fonte extra muros; sahia-se para ella +pela porta a que a fonte deu nome. Ao lado da porta, +na eminencia da parte oriental, havia já então os +chamados <i>Assentos</i>, actualmente Passeio das Virtudes.</p> + +<p>O padre Agostinho Rebello da Costa, na sua <i>Descripção topographica e historica da cidade do Porto</i>, +impressa em 1789, escreve ácerca d'este local: «Em +toda a cidade, não ha sitio nem mais ameno, nem +mais agradavel; porque além da sua bella posição +adornada de regulares edificios, gozam os olhos d'um +só golpe, vista de cidade, de mar, rio, navios, montes, +campinas, quintas e palacios. O grande paredão, +que presentemente se está fazendo, para com elle se +formar uma praça correspondente á belleza, e magnificencia +d'esta agradavel situação, será um monumento +eterno do patriotico zelo que Rodrigo Antonio +de Abreu e Lima, cavalleiro professo na ordem +de S. Thiago, inspector da marinha do Douro, administrador +geral dos portos seccos das trez provincias +do Norte, e actual juiz da alfandega, mostrou em +obrigar o senado da camara a fazer esta obra interessantissima +á regia utilidade, e recreio publico.»</p> + +<p>Dito o que as historias referem ácerca da Fonte +das Virtudes, reatemos o dialogo.</p> + +<p>—Divirtam-se vossas senhorias, respondeu Graça +Strech, que eu perguntarei sem desvios o que desejo +saber. Não me foi possivel averiguar até hoje onde +jaz a minha desventurosa familia. Vossas senhorias +sabem?</p> + +<p>—Casualmente nos disse o sachristão de S. Martinho<span class="pn"><a name="pag_150">{150}</a></span> +de Cedofeita que tinham ali sido enterradas, se +bem que nos não pudesse designar as sepulturas, +pela grande confusão de cadaveres que n'esses tristes +dias houve.</p> + +<p>Isto disse D. Eulalia, acrescentando:</p> + +<p>—No dia seguinte o quartel general mandou ordem +a todos os parochos para que, logo que anoitecesse, +fôssem levantar os corpos dentro da circumscripção +das suas freguezias. Não sabemos mais nada, +sr. Strech. Nós recolhemos ao Porto depois que os +francezes retiraram. Estivemos em Gondomar, em +casa d'uns parentes nossos, porque tivemos a felicidade +de encontrar livre o caminho. O senhor bem se +ha de lembrar de que nos protegeu na bateria do +Bomfim. Prouvera a Deus que a sua familia tivesse +tido a mesma sorte! Muitas vezes lhes pedimos que +nos acompanhassem. Não quizeram. Ainda tenho +nos ouvidos as palavras da Augustinha: «Se meu +pae e meu irmão morrerem, deixemo-nos morrer +tambem, porque o viver sem elles seria peior que a +morte.» Nunca mais me esqueceram! Vel-a assim fazia +dó, a pobre menina!</p> + +<p>Graça Strech estava livido. Já não tinha forças para +ouvir mais.</p> + +<p>—Muito obrigado, minhas senhoras, disse elle. Já +sei o bastante. Felicito-me de as haver encontrado +e faço votos pela ventura da sr.ª D. Izabel.</p> + +<p>—Agradeço do coração, replicou a menina. O sr. +Strech ha de dar-me a honra de assistir ao meu casamento...</p> + +<p>—Da melhor vontade assistiria, minha senhora, se +não tivesse de partir hoje mesmo para Italia.</p> + +<p>—Partir?!</p> + +<p>D. Eulalia repetiu:—Para Italia!</p> + +<p>E exclamou virando-se para a sobrinha:</p> + +<p>—O casamento anda-te com essa cabeça á roda! +Se não sou eu lembrar-me agora por essa palavra, +não dirias nada ao sr. Strech d'aquella carta d'Italia!</p> + +<p>—Uma carta, apostrophou elle, sobremodo perturbado.</p> + +<p>—É verdade! affirmou a menina com pesar de se +haver esquecido.</p> + +<p>D. Eulalia contou:</p> + +<p>—Ha quatro annos, foi em...</p> + +<p>—Junho, acrescentou Izabel.<span class="pn"><a name="pag_151">{151}</a></span></p> + +<p>—É verdade, foi em junho, proseguiu D. Eulalia; +andou o carteiro por esta rua, para cima e para baixo, +a perguntar pela familia Strech. Todos lhe diziam +que essa desgraçada familia estava no cemiterio. Até +que a final o carteiro e alguns visinhos bateram á +nossa porta, porque sabiam das nossas relações com +a sua familia. A carta, que trazia o timbre de Italia, +dizia: <i>Sr. José Maria da Graça Strech, soldado portuguez</i> +(pela orthographia conhecia-se que a pessoa +que escrevia era estrangeira, disse em parentesis D. +Eulalia) <i>natural do Porto;—Portugal.</i></p> + +<p>Graça Strech ouvia offegante.</p> + +<p>D. Eulalia proseguiu:</p> + +<p>—Do senhor ninguem sabia nada, mas como a carta +ficaria naturalmente perdida no correio, encarregamo-nos +de mandal-a ao acaso para onde estivesse o exercito. +Era o unico meio de lhe chegar á mão, caso o +senhor estivesse vivo. Nós nada sabiamos. Perguntamos +o que haviamos de fazer. Disseram-nos que a +mandassemos para Almeida, que era onde Wellingtão—ella +pronunciou assim,—tinha estabelecido o quartel +general. Para lá a mandamos, pensando que fariamos +bem. Visto isso o senhor não a recebeu?</p> + +<p>—Não recebi, minha senhora, respondeu Graça +Strech com difficuldade. Agradeço, porém, a vossas +senhorias o cuidado que tiveram e, para não as demorar +por mais tempo, recebo as suas ordens...</p> + +<p>—Tambem—atalhou D. Eulalia, vão sendo horas +da missa do Senhor dos Passos. Vamos lá. Se o sr. +Strech precisar d'alguma coisa, não tem senão mandar-nos +e dizer onde está, para que não se torne a +perder qualquer carta.</p> + +<p>Despediram-se. Ellas seguiram pela rua nova do +Almada a baixo, e elle caminhou em direcção ao +Campo de Santo Ovidio.</p> + +<p>A menina ia perguntando ingenuamente á tia:</p> + +<p>—Não seria mau agouro encontrarmos o Strech +na occasião em que eu ía a pensar no meu casamento?</p> + +<p>—O que tu quizeres! respondeu D. Eulalia. Reza +um <i>Credo</i> ao Senhor dos Passos e deixa-te lá d'agouros. +Deus é que sabe o que ha de acontecer.</p> + +<p>Graça Strech caminhava machinalmente, engolphado +em seus pensamentos. A carta era de Rosina. +Conjecturava elle que já devia ser mãe quando a escrevia.<span class="pn"><a name="pag_152">{152}</a></span> +Que diria ella? Coisas tristes, de certo. Os infelizes +vivem das desgraças que sonham e que soffrem. +Por muitas vezes escrevera elle para Napoles. Nunca +obtivera resposta. Aquelle horrivel silencio durava já +havia quatro annos. Nem ella nem Pietro escreveram +mais! O que haveria acontecido? Que ancia que elle +tinha de chegar a Italia, e, ao mesmo passo, que receios! +Não o esperariam lá novas dôres, maiores soffrimentos? +Que envelhecida mocidade aquella!</p> + +<p>Foi andando, andando, até que chegou ao cemiterio +de Cedofeita.</p> + +<p>Quando viu negrejar cruzes e louzas por entre as +verduras dos canteiros, estremeceu de subito. O pensamento +da morte vinha interromper os seus dolorosos +pensamentos. A sua familia estava ali, mas onde? +Rosina e seu filho onde estariam tambem, lá tão longe? +O cemiterio era solitario áquella hora, se não falarmos +das aves que faziam alegre matinada nas arvores.</p> + +<p>Só os noivos e as aves saudam jubilosos a manhã.</p> + +<p>Por isso madrugára a menina da rua nova do Almada +em competencia com os passarinhos do cemiterio +de Cedofeita.</p> + +<p>Graça Strech atravessou por entre as campas, confiado +em que o coração adivinharia o sitio em que +repousava a sua familia. Andou, percorreu as ruas todas, +e parou á beira d'uns comoros que não tinham +cruz nem lapide. Devia ser ali. As campas dos que +não deixam ninguem no mundo conservam-se abandonadas. +Quando muito, porque os despojos mortaes +são da natureza, veste-as a natureza de relva e flôres +silvestres. Sobre um dos comoros floresciam hervagens, +que pendiam á terra umas singelas boninas +brancas. Seria a homenagem da natureza á innocencia +de sua irmã? Não sabia. O silencio da morte guarda +todos os segredos. Ajoelhou. As avesinhas das arvores +funebres continuavam a cantar, a cantar!...</p> + +<p>Áquella hora, n'aquelle sitio, cria-se em Deus.</p> + +<p>A eloquencia das campas!</p> + +<p>Como tudo aquillo fala suavemente d'além-tumulo!</p> + +<p>No ruido das festas a ideia da morte é sempre um +pungente contraste. Mas não sei que amena tristeza +dulcifica a certeza do repouso eterno, nos cemiterios, +mórmente se é manhã, e as aves chilriam, e estremecem<span class="pn"><a name="pag_153">{153}</a></span> +nas hervagens as gotas d'orvalho, e um raio de +sol nascente doira uma cruz!</p> + +<p>Graça Strech sentiu-se subitamente soccorrido por +essa triste suavidade que a vista dos tumulos infiltra +aos desgraçados.</p> + +<p>Longo tempo esteve ali, ajoelhado, conversando +com os trez comoros os seus segredos de cinco annos. +No que estava florescido, curvou-se como se quizesse +falar para dentro. Conjecturava que seria o d'Augusta. +N'essa hypothese lhe contou as suas desventuras, +os seus amores, os sacrificios de Rosina, o destino +que dera ao annel, a afflictiva incerteza em que +estava, a ancia que tinha de beijar seu filho, de encontrar Rosina... Juntou lagrimas de saudade a palavras +de perdão, queixumes de animo attribulado a +hymnos de confiança em Deus...</p> + +<p>Não lhe havia dado tempo a sua trabalhada e desventurosa +mocidade para erguer o espirito acima das +coisas terrenas das preoccupações humanas.</p> + +<p>Pela primeira vez subiu até onde os fulgores da divindade +enchugam as lagrimas da oração. Muito acima +do mundo deve ser, porque já se não ouve então +o tumultuar da humanidade, e porque já ahi chovem +os balsamos da resignação sobre a alma angustiada.</p> + +<p>Ninguem diria que estava ali o soldado, o leão dos +combates. Nada ali falava de vingança, nem mesmo +a supposta sepultura d'Augusta. Nada se sabia do +mundo, d'aquella porta de ferro a dentro. Todavia +alguma coisa julgou ouvir a alma de Graça Strech. +Eram palavras intradusiveis que as hervagens ciciavam, +brandamente agitadas pela viração matutina. +Sem comprehender as palavras, entrou-lhe ao espirito +o pensamento d'ellas. Era a divina esperança do +<i>post tenebras spero lucem</i>, de Job, e ao mesmo tempo +o <i>Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini</i>, +do salterio.</p> + +<p>Graça Strech interpretou assim esses fugitivos murmurios +que soavam sobre a campa da sua irmã. +Trouxe do cemiterio a certeza de que depois das +trevas da vida veria luzir o sol da felicidade perpetua, +e de que não morreria sem ter tempo de narrar as +obras do Senhor.</p> + +<p>Isto equivalia á resignada esperança de não succumbir +á sua desgraça sem saber o destino de Rosina +e seu filho.<span class="pn"><a name="pag_154">{154}</a></span></p> + +<p>Adquirira ali a certeza de que a alma d'Augusta +abençoara do ceu a criança cuja mãe possuia o seu +annel. Levantou-se. Arrancou as parietarias que marinhavam +pelo muro proximo, e esparziu-as sobre os +trez comoros.</p> + +<p>—Se ahi estaes, minhas doces amigas—pensou +elle—recebei o primeiro e unico testemunho de saudade +que ainda vos manda o mundo esquecido de +vós. Pedi por mim, e pela familia que me resta na +terra, se Deus m'a tiver conservado. São tambem +vossos pelo coração. Adeus, abençoadas sejaes no céu +pelo conforto que me destes.</p> + +<p>E saíu do cemiterio, caminho do rio Douro, onde +estava fundeado o navio que n'essa tarde devia partir +para um porto d'Italia.</p> + +<p>A essa hora, na Fonte das Virtudes, havia expansiva +alegria. Um velho da familia Cerqueira dizia a +um menino da familia Brochado:</p> + +<p>—Vá, seu estudante, traduza-me lá a inscripção +da fonte: <i>Fons scalet, illustri virtutum</i>, etc. <i>Rompe +aqui esta fonte...</i> Vá, diga...</p> + +<p>—Pudera romper acolá, estando aqui o chafariz! +observou grosseira e acertadamente o menino.</p> + +<p>D. Izabel offerecia ao seu noivo um copinho da +agua da fonte, panacea para muitas molestias, entre +as quaes as inflammações dos olhos.</p> + +<p>Tinha bons sentimentos: não queria marido cego.<span class="pn"><a name="pag_155">{155}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>XVIII</h2> + +<h2>A Lenda d'Ashaverus</h2> + +<p>Comprehende-se com que anciosa impaciencia viajaria +Graça Strech. A Italia era para elle o unico raio +de sol que lhe doirava o horisonte fechado em torno +do navio. Ia ver Rosina e seu filho; agradecer a Pietro +a protecção que provavelmente a uma e outro tinha +dispensado, porque Rosina devia ser mãe havia +quatro annos. A carta perdida era decerto a boa nova +da maternidade... Mas, logo o animo, vesado a tristes +phantasias, descontava esta esperança com vagos +receios. Todavia a visita ao cemiterio de Cedofeita +insinuava-lhe na alma o doce calor da fé. Queria chegar +a Italia, desenganar-se. Levava ao berço do filho +a tranquillidade aprendida á beira do tumulo da irmã. +A Italia! a Italia! a terra promettida do Moyses errante! +Quando appareceu em frente do navio uma nuvem +pardacenta, e a voz de <i>Terra</i>! alvoroçou a tripulação, +o coração de Graça Strech doidejou desde +a alegria expansiva da criança até á timidez receiosa +da mulher.</p> + +<p>A Italia! O formoso sol da Italia a enxugar as lagrimas +de tão longa ausencia! A alma de Rosina Regnau a animar no desconforto, a premiar na alegria! +A alma e a voz! A liberdade do coração e da palavra! +Um lar modesto, muito modesto, pobre até, o filho +a esvoaçar d'um lado para outro, a chilriar, os cabellos +loiros a brincarem-lhe em derredor da cabeça; +Rosina a viver arroubada entre os sorrisos do pae e +do filho; n'uma palavra, a felicidade que não escurece +quando chega a noite; á porta, de cabellos alvejantes, +tranquillo, sentado ao sol, Pietro, o <i>canta-storie</i>, a concertar +as cordas da sua harpa, e a entoar, com a sua +voz já cançada, mas ainda sonora, a <i>Capuana</i>; fóra, +o céu d'Italia, o azul suavissimo, o sorriso da natureza, +a eterna primavera meridional!<span class="pn"><a name="pag_156">{156}</a></span></p> + +<p>De repente mudava-se o quadro.</p> + +<p>Via uma cruz tosca, n'um cemiterio de Pescadores +pendurado ao mar. Rosina, demudada e lutuosa, chorando +ao pé da cruz. Pietro, chorando ao pé de Rosina, +com a harpa silenciosa poisada diante de si. E +seu filho morto, sem o haver conhecido, sem o ter +beijado sequer!</p> + +<p>Outras vezes sonhava com a lividez da fome nas +faces de Rosina, da criança, e de Pietro!</p> + +<p>A vivandeira havia levado recursos. Era a sua ração +de dois annos, a migalha do canario. Havia no 18 +d'infantaria um quartel-mestre usurario. Graça Strech +fizera com elle uma transacção. O quartel-mestre ficava +recebendo durante dois annos o <i>prét</i> por inteiro, +e adiantára-lhe o <i>prét</i> d'um anno. Essa quantia, +administrada com economia, devia durar os dois +annos. Se a campanha acabasse antes d'esse praso, o +soldado devia indemnisar o quartel-mestre, que tinha +na sua mão um documento. Mas haviam-se passado +os dois annos, e outros dois. Graça Strech escrevera +muitas vezes para Napoles, como já dissémos, para +obter certeza do paradeiro de Rosina, e poder mandar +mais dinheiro. De nenhum vez obtivera resposta. +Haveria acontecido alguma desgraça? Mas tambem +quem conhecia em Napoles Rosina Regnau? Bem +se podiam lembrar de ir saber ao correio. Pietro andava +por fóra com a sua harpa; Rosina estava cuidando +do filho: não se lembravam. As mealhas que +Pietro recolhia, e generosamente repartia provavelmente, +abastavam a alimentação dos trez.</p> + +<p>Em Coimbra, disséra Rosina a Graça Strech, quando +elle lhe pedia que não soffresse privações sem o +avisar:</p> + +<p>—Se se acabar o dinheiro, eu, que posso ter voz +em Italia, irei cantando de rua em rua. Não receies +por mim. Atravessei pura o exercito francez; mãe, +atravessarei destemida o povo italiano. A honra da +vivandeira é um baluarte invencivel; não deixa profanar +a bandeira da sua lealdade.</p> + +<p>E logo, antevendo a triste solidão da ausencia, +rompeu em afflictivo chôro. Este era o natural de +Rosina: ora vivandeira, ora mulher. Logo em principio +o dissémos.</p> + +<p>Apesar da cega confiança que Graça Strech devia +ao amor de Rosina, não era a sua alma, quanto mais<span class="pn"><a name="pag_157">{157}</a></span> +se avisinhava da Italia, estranha ao ciume. No paiz +dos amores, o ciume, <i>la gelosia</i>, respira-se com o ar. +Ciumes de que lhe ouvissem a dulcissima voz, se tivesse +sido obrigada a acompanhar com o canto os +harpejos de Pietro; ciumes de que a applaudissem, +de que a vissem, de que a conhecessem. E, pensava +elle, quem ficaria olhando pela criança emquanto a +mãe andasse por fóra? Alguma mulher estranha, que +não a acariciaria se chorasse, que não a agasalharia +quando tivesse frio, que lhe não responderia meigamente +quando perguntasse pela mãe...</p> + +<p>Chegado que fôsse a Italia, procuraria, noite e dia, +sem descanço, sem tregua, e encontral-os-ia, e diria +a Rosina: «Fica tu ao pé de nosso filho, que eu vou +trabalhar», e a Pietro: «Continua a ser o guarda dos +dois, que eu velarei pela tua velhice.»</p> + +<p>E alternava risos com lagrimas, e agora falava e +logo emmudecia, com as mãos firmadas no bordo da +amurada e os olhos cravados na nuvem do horisonte, +que se ia aclarando cada vez mais, conhecendo-se +já, sobre o azul do céo, os contornos irregulares da +cidade.</p> + +<p>O capitão esteve-o medindo com o olhar ao lado +d'um passageiro que durante a viagem tinha conversado +algumas vezes com Strech.</p> + +<p>—Nunca vi tamanha commoção! disse o capitão +ao passageiro. Receio d'esta alegria em homem costumado +aos alvoroços de guerra.</p> + +<p>—Elle vinha ancioso de chegar a Italia, retrucou +o passageiro. O mais que me disse foi que, tendo +feito a campanha, vinha, doente e cançado, procurar +a Italia uma irmã, de quem, pela invasão de Portugal! +fôra obrigado a separar-se.</p> + +<p>—Muito a deve estimar então! ponderou o maritimo.</p> + +<p>E, aproximando-se de Graça Strech, disse-lhe affavelmente:</p> + +<p>—O sr. Strech morria-se por vêr Italia. Ahi a tem +agora.</p> + +<p>—É verdade, respondeu exaltado Graça Strech. +É verdade... A ancia de chegar... a incerteza... +tudo isto... Eu não estava costumado a estas sensações... +Por que emfim tudo hoje depende para mim +de Italia... Ó senhor capitão, quanto tempo gastaremos +ainda?...<span class="pn"><a name="pag_158">{158}</a></span></p> + +<p>O capitão, sem responder, achegou-se do outro +passageiro e segredou-lhe:</p> + +<p>—Eu não lhe dizia? Nunca vi tamanha commocção! +Queira Deus que não vá louco...</p> + +<p>Ah! o capitão entendia do mar; do coração, não. +Chamava loucura áquillo! A desvairada oscillação da +alma que pende entre um longo passado de trevas e +a unica esperança que lhe entreluz no céo do porvir! +É louco o naufrago que, baldeado entre os vagalhões +do oceano infrene, se abraça com a prancha +que lhe é dado alcançar, e que ou morrerá cuspido +contra os fraguedos ou fluctuará por mercê da +Providencia até que surja a véla branca, que é a bandeira +da paz nas luctas com o mar? É louco o caminheiro que se transviou ao anoitecer e sorri de +alegria á estrella da manhã, ainda que tenha de retrocecer +para continuar jornada? É louco o doente +que se felicita de haver acordado d'um pesadello +horrivel, esquecendo-se de que, d'ahi a horas talvez, +sobrevirá o sombrio pesadello de que não se acorda +mais—a morte?</p> + +<p>O coração tem as tempestades e as calmarias do +mar, é certo, os murmurios e os segredos das aguas, +mas o fundo do coração não está ainda tão estudado +como o fundo do oceano. A sondagem mente muitas +vezes. Quem já logrou medir a profundeza de certas +dôres?</p> + +<p>Tinha soado a hora do desengano ou da felicidade.</p> + +<p>Graça Strech estava finalmente em Italia.</p> + +<p>Começou desde logo a procurar, a procurar. Correu +todo o reino de Napoles—Napoleão puzera reis +em toda a parte—a pedir informações d'um velho tocador +de harpa, que se chamava Pietro, d'uma rapariga +franceza chamada Rosina Regnau e d'uma creança, +que devia ter quatro annos, e era filha da rapariga +franceza. Ninguem respondia. Quem em Napoles, +o paiz da musica, havia d'estremar um <i>sonatóre +di arpa</i>? Acudia afflictivamente Graça Strech a fazer +o retrato do velho Pietro para auxiliar a memoria dos +interrogados. Harpistas velhos havia tantos, uns que +viviam em Napoles, outros que passavam por lá, que +por fim de contas a população lembrava-se de todos +e não se lembrava de nenhum. A declaração de chamar-se +Pietro nada aproveitava. Ninguem se importa +com o nome dos menestreis das ruas, mórmente<span class="pn"><a name="pag_159">{159}</a></span> +quando todos os musicos ambulantes parece chamarem-se +Pietros. Rapariga franceza ninguem dizia tel-a +visto, e depois acrescentavam que talvez lá houvesse +estado, sem fazerem reparo n'ella, porque os francezes +sempre foram tão vulgares em Italia como os italianos +em França, por isso que a natureza pôz entre +as duas nações a ponte granitica dos Alpes.</p> + +<p>Graça Strech percorreu vertiginosamente todas as +estalagens, todos os albergues, recolheu informações +particulares e officiaes, e não soube nada.</p> + +<p>Disseram-lhe que talvez o harpista houvesse passado, +como é costume d'elles, a outras cidades d'Italia, +por isso que a concorrencia os afugenta de Napoles.</p> + +<p>Acceitou o alvitre. Visitou em seguida o reino da +Etruria, procurou sem descançar, como um cão que +perdeu o faro de seu dono. Uma tarde, em Piombino +um albergueiro pareceu recordar-se d'um harpista +velho que ali pernoitára havia um anno com uma +criança que lhe chamava avô. Vira só o velho e a +criança. De mulher franceza que os acompanhasse, +não tinha reminiscencia. Fizera reparo nos dois, pelo +contraste. O velho passára a noite á lareira com a +criança adormecida nos braços, afagando-lhe os cabellos +loiros, cobertos pelos seus cabellos brancos, +sem dizer uma palavra. Comeu pouco e bebera menos. +Pela manhã saíra com a harpa e a criança. Aqui +está o que o albergueiro de Piombino dissera, acrescentando unicamente: Quando elle sahia, perguntei-lhe +que rumo levava, porque realmente o harpista me +fez pena.</p> + +<p>O velho respondeu:</p> + +<p>—Vamos correr esse reino d'Italia, á mercê de +Deus. Bem vê que é preciso trabalhar: somos duas +boccas, e só temos dois braços—são os meus que já +pouco podem.</p> + +<p>A historia do velho e da criança fez profunda impressão +no animo attribulado de Graça Strech. Perdeu-se +em conjecturas. Seria Pietro? Haveria morrido +Rosina? O estalajadeiro não soube dizer-lhe o nome +do harpista. Sobretudo, a ideia da morte de Rosina +enlouqueceu-o de dôr. Seria possivel que ella morresse +sem o ver, sem o ouvir, sem lhe fallar, ella, que +tinha tanta coragem, que devia resistir energicamente +á morte, porque a morte era a separação eterna?<span class="pn"><a name="pag_160">{160}</a></span> +Aquella criança seria realmente seu filho, e viveria +no mundo sem pae nem mãe, apenas confiado á protecção +do pobre harpista napolitano, cuja velhice e +trabalhos em breve o prostrariam, se era que ainda +vivia a essa hora? E se elle já tivesse morrido, que +seria da criança na infantil inconsciencia dos seus +quatro annos, que tantos devia ter a ser seu filho? +Morreria enregelada no caminho, morreria de fome +entre duas arvores, no meio da serra, ou então haver-lhe-ia +estalado o pequeno coração depois de haver +estado a gritar para que acudissem ao avô, +que caíra ao chão e ficára esmagado pela harpa, +sem falar mais, sem responder ao seu afflictivo chamar.</p> + +<p>O albergueiro começou a notar extraordinaria agitação +na physionomia do hospede. Viu encovarem-se-lhes +os olhos, e estremecerem-lhe os musculos das +faces cadavericas pela magreza e pela lividez. Em +breve as contracções nervosas se estenderam a todo +o corpo. O caminheiro começou a tremer, a tremer. +Trouxeram roupa, cobriram-n'o. Pediram-lhe que se +deitasse; recusou. Esteve assim longo tempo, tremendo, +frio como o gelo. Depois, como o peso da +roupa fosse muito, começou a córar e a suar. Dizia +palavras que ninguem entendia. Aprumou-se de subito, +sacudiu a roupa. Foi direito á sua maleta, desafivelou-a +e tirou de dentro... a guitarra. Começou +a tangel-a febrilmente. A gente da pousada entreolhava-se +com pasmo. E cada vez as notas se precipitavam +com maior rapidez, até que, inesperadamente, +a musica foi afrouxando, parecendo unicamente +suspirar. Viram chorar o desconhecido, circumvagar +um olhar alheiado, e arrancar da sua guitarra apenas +gemidos e suspiros dolorosos.</p> + +<p>Tornaram a dizer-lhe que era melhor descançar. +Recusou com pertinacia.</p> + +<p>—Peço que me deixem ficar aqui, disse elle pausadamente para que o comprehendessem.</p> + +<p>Não queriam consentir; elle insistiu.</p> + +<p>Ouviram ainda por algum tempo suspirar a guitarra, +que depois se calou. Foram espreital-o: viram-n'o +com a cabeça poisada sobre ella. Estava assim, mas +não dormia; d'instante a instante viam-n'o estremecer. +Ao romper da manhã saíu. Mal se podia aguentar +a pé. Pediram-lhe que ficasse para se restabelecer;<span class="pn"><a name="pag_161">{161}</a><br><a name="pag_162">{162}</a><br><a name="pag_163">{163}</a></span> +agradeceu e partiu. Continuou, posto que debilitado, +a sua peregrinação indefessa.</p> + +<div class="ilustracao"> +<p><img src="images/pag_161.png" border="0" alt="Ilustração"></p> +<p>O povo, que tinha seguido todo este episodio... (<i>pag. 173</i>)</p> +</div> + +<p>—Eu já não viveria, dizia elle ás vezes, se não tivesse +ido ao cemiterio de Cedofeita buscar esta sombra +de fé que me ampara ainda!</p> + +<p>E lá ia, descançando uma hora, caminhando duas.</p> + +<p>Esteve em Turim. Perguntou, investigou, não soube +nada. Como para crear alento, que lhe permittisse +seguir jornada, sentava-se nas praças publicas a tocar +na sua guitarra. O povo fazia-lhe circulo. Elle não levantava +os olhos emquanto estava tocando, excepto +se ouvia falar alguma criança. Algumas vezes lhe chamavam +louco, porque lhe lançavam dinheiro ao regaço, +e elle não agradecia. Era o idiotismo da desgraça. +Estava pobre, gastára quanto levára comsigo nos +primeiros tempos da peregrinação. Se não fosse a +guitarra, morreria de fome. Pouco lhe importava a +vida sem Rosina e seu filho. Se não se matava, era +porque tinha ainda um resto de fé que o amparava.</p> + +<p>Foi a Milão. A mesma canceira: perguntar, sempre +perguntar. Inquiria todos os harpistas: nenhum lhe +soube dar noticias do velho Pietro.</p> + +<p>—Em Italia não estão! dizia elle. Tenho a certeza, +não ha recanto que eu não tenha batido.</p> + +<p>Atravessou a Suissa sem melhor resultado.</p> + +<p>Uma noite sonhou com as Ardennas: era a patria +de Rosina. Lembrou-se de que viveriam lá na supposição +de que elle, se fosse vivo, logo atinaria, por impulso +do coração, com o esconderijo que haviam procurado. +Passou a França: foi direito ás Ardennas. +Quasi se sentiu morrer diante d'aquelle paiz de florestas. +Ali havia nascido Rosina. Como ella o devia +amar para se esquecer do seu formoso ninho! Consultou +todas as arvores, bateu a todas as portas. De Rosina +Regnau ninguem se lembrava; Pietro, o velho <i>sonatóre</i>, +ninguem o vira. Graça Strech esteve ali muito +tempo: havia já tanto que saíra de Portugal! Teve +tentaçoes de se deixar morrer nas Ardennas. Queria +respirar ao morrer o ar que Rosina respirára ao +nascer. Chegou a pedir a Deus que lhe désse por tumulo +o berço d'ella. Mas, emquanto orava parecia fortalecer-se +a sua fé.</p> + +<p>Resignou-se a partir. Recomeçou a caminhar. Ia +no fim o anno de 1816. Disseram-lhe no caminho que +no inverno se reuniam em Pariz todos os musicos<span class="pn"><a name="pag_164">{164}</a></span> +ambulantes. Para lá foi com a sua guitarra. Effectivamente +o enxame dos <i>virtuosi</i> enchia os cafés, as +praças e as ruas. Á porta dos theatros havia todas +as noites uma nuvem d'elles.</p> + +<p>A este tempo reinava em França Luiz XVIII. Napoleão, +não podendo resistir á colligação das potencias +alliadas, abdicou o imperio em Fontainebleau, +retirando á ilha d'Elba.</p> + +<p>O congresso de Vienna havia regulado os negocios +da Europa; sem embargo, Napoleão sonhava ainda +com voltar a França. Em março de 1815 desembarcou +em Cannes e entrou em Pariz. Pôde ainda vencer +em Charleroy e Fleurus, mas a hora solemne de +Waterloo bateu no relogio que marca a existencia +de vencedores e vencidos, e Themistocles teve de +pedir hospitalidade a Artaxerxes.</p> + +<p>Graça Strech ia caminhando e ouvindo as vozes +do povo. Quando soube do resultado de Waterloo, +disse de si para si:</p> + +<p>—A Providencia é justa. A minha familia não +precisava da minha vingança, porque a Providencia +se encarregou de punir o assassinio de todas as mulheres, +de todos os velhos e de todas as crianças. Ora +a justiça da Providencia não deixará de me aclarar +o mysterio que eu procuro desvendar ha tanto tempo. +Deus sabe se tenho forças para mais!</p> + +<p>Pouco antes de chegar a Pariz viu passar uma carruagem +seguida por uma ordenança.</p> + +<p>Perguntou quem era. Responderam-lhe:</p> + +<p>—É o duque de Richelieu, ministro de Luiz XVIII.</p> + +<p>Elle contestou serenamente:</p> + +<p>—Se fosse no tempo de Napoleão, ia um esquadrão +de cavallaria atraz da carruagem. Napoleão +mandava exercitos atraz de toda a gente.</p> + +<p>Dizia isto como um homem que se entre-lembra +vagamente das coisas do mundo. Passou a carruagem +do duque de Richelieu, e elle logo se esqueceu da +França para se recordar da missão em que ia consumindo +baldadamente a vida.</p> + +<p>—Vamos com Deus, e com a pobre guitarra! E +seguiu para Pariz.<span class="pn"><a name="pag_165">{165}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + +<h2>XIX</h2> + +<h2>A terra da promissão</h2> + +<p>Graça Strech chegou a Pariz no inverno de 1816.</p> + +<p>Estavam n'essa occasião agglomeradas na capital +da França as andorinhas errantes da musica das +ruas, que todos os annos saem do vasto ninho da +Italia, a percorrer a Europa inteira. De todos os <i>virtuosi</i> +que n'essa occasião poisavam em Pariz, apenas +cinco ou seis seriam francezes, e um só era portuguez, +Graça Strech.</p> + +<p>A guitarra, melancolicamente tangida por elle, +cuja dolorosa physionomia não era menos melancolica +do que a sua guitarra, despertava geral attenção. +Acrescia a circumstancia de que esse instrumento +não era dos mais conhecidos na orchestra dos musicos +ambulantes. Tudo isso concorreu para o éxito. +Graça Strech tinha sombrios alheamentos emquanto +estava tocando. Caíam-lhe em desalinho os cabellos +a esconder a fronte pallida e cadaverica. Era uma +bella cabeça d'artista em que muitos pintores fizeram +reparo. Um estudante d'esculptura chegou a +convidal-o para modelar-lhe o busto.</p> + +<p>Graça Strech respondeu:</p> + +<p>—Agradeço a sua amabilidade, senhor. Mas eu +sinto-me de tal modo cançado, que não póde ser +longa a minha vida. O senhor é muito moço ainda; +póde esperar. Se eu morrer em Pariz, aproveite a +minha mascara.</p> + +<p>A imprevista sobranceria d'esta resposta causou +sensação. Passou de bocca em bocca, e os homens +d'espirito começaram a olhar com certo interesse +respeitoso para o guitarrista estrangeiro. Uma noite, +no café <i>Evezard</i>, á esquina do Palais National, estavam +sobremodo animadas as mesas quando Graça +Strech entrou. Encostou-se á ombreira da porta e +começou tangendo a guitarra. Como não pedia esmola,<span class="pn"><a name="pag_166">{166}</a></span> +interrompia-se a miudo para receber os óbolos +que lhe davam os <i>habitués</i> que entravam e saíam.</p> + +<p>Na primeira mesa á entrada estavam oito francezes, +todos rapazes mais ou menos artistas, que se +calaram a ouvir attentamente o guitarrista, tanto +mais que já o conheciam de nome. Como fixassem +a vista em Graça Strech, e falassem visivelmente a +seu respeito, procurou elle ouvir, dando-se o maximo +disfarce, tudo quanto diziam.</p> + +<p>—É assombroso! exclamava um, cuja pallidez denunciava +uma cabeça febrilmente enthusiasta.</p> + +<p>—Depois da pequena da harpa que esteve o anno +passado em Pariz com o velho das barbas brancas, +ainda não vi maior prodigio! acrescentou um cuja +physionomia denunciava um caracter franco e compassivo.</p> + +<p>—Que pequena era essa? perguntou no grupo um +<i>commis-voyageur</i>.</p> + +<p>—Era uma pequenita que parecia um passarinho +encostado a uma harpa. Acompanhava-a um velho +de cabellos brancos, a quem chamava avô, e que lhe +transportava a harpa. Impressionava o contraste. Seria +difficil dizer qual d'elles poderia melhor com a +harpa, se o avô ou a neta. Elle tinha tanto de velho +como ella de pequenina. E depois que tristeza dava +o vêl-a vestidinha de preto! Perguntava-se-lhe por +quem andava de luto:—Por meu pae e por minha +mãe—respondia ella com certa vivacidade triste, que +enternecia a lagrimas. Tu copiaste o grupo, pois não +copiaste, ó Maubert?</p> + +<p>—Copiei, respondeu o pallido rapaz que primeiro +falava, e que parecia absorto na contemplação do +guitarrista.</p> + +<p>—Sabes então mais alguma coisa a respeito da pequena +e do velho?</p> + +<p>—Pouco mais sei. O avô parecia empenhado em +não contar nada. Nem o encanto do mysterio lhes +faltava, a elles, áquelle soberbo inverno coberto de +neves e áquella infantil primavera que parecia vegetar +no gelo do avô! Quando lhes perguntei os nomes +para intitular os bustos, respondeu-me o velho:—Queira +pôr—<i>Pietro, sonatóre di arpa; Augusta, sonatrice, +lá piccola, nipotina mia.</i>—Fiquei triste com +a mysteriosa singelesa da resposta. Previ um romance. +Que querem? A doida da minha phantasia! Apertei<span class="pn"><a name="pag_167">{167}</a></span> +com o velho, fiz-lhe promessas para que me contasse +a sua. Não consegui nada. Lá partiram ambos +para Inglaterra.</p> + +<p>—Olha para o guitarrista! exclamou o de mais +compassiva physionomia.</p> + +<p>Olharam todos. Graça Strech estava sendo inconscientemente +o alvo de todas as attenções. Havia-lhe +descaido o braço; subitamente a guitarra emmudecera; +os cabellos do guitarrista, longos e annelados, +acompanhavam, pendidos a um lado, a inclinação da +fronte, e os olhos brilhavam através dos cabellos +com anciosa vivacidade. Era inutil dissimular: Graça +Strech estava ouvindo o que diziam na mesa proxima.</p> + +<p>—Escuta o que nós dizemos! ponderou o que estivera +contando a historia do velho e da criança.</p> + +<p>—É verdade!</p> + +<p>—Não se póde duvidar!</p> + +<p>—Lá começa a dedilhar de novo... Deu tino de +que fisemos reparo. Toca <i>pianissimo</i> para ouvir o +mais que dissermos.</p> + +<p>—É certo! <i>Che dolcemente!</i></p> + +<p>—Que terá elle comnosco?</p> + +<p>—Talvez não seja comnosco; talvez seja com o +velho e a creança, apostrophou o <i>habitué</i>-artista.</p> + +<p>—Ora, essa cabeça! Tu encontras romances em +toda a parte.</p> + +<p>—Espera! tornou observando o esculptor. Ia jurar +que os olhos d'este homem são os da pequenita! +Que semelhança!</p> + +<p>—Oh! oh! continua o romance! Esse molde de +novellas é velho, Maubert! D'esta vez o pae, que era +julgado morto, não volta da Terra Santa. Corre atraz +da filha, que ao partir para o combate entregára ao +avô. Tem-n'a procurado e não sabe onde pára. És +tu, Maubert, que vaes desfazer o mysterio. A Providencia +encarregou-te de dizeres: <i>Pára!</i> ao Ashaverus +do nosso seculo! Oh! oh!</p> + +<p>E os outros gargalharam em côro:</p> + +<p>—Oh! oh!</p> + +<p>—És tu que vaes mostrar ao Moyses da guitarra a +Terra da Promissão! disse um.</p> + +<p>—Que elle nos está ouvindo é certo, porque todos +repararam! exclamou o de mais dôce semblante. E +talvez seja algum desgraçado. Este mundo dos <i>virtuosi</i><span class="pn"><a name="pag_168">{168}</a></span> +das ruas tem tantos mysterios! Atravessam Paris +no inverno e a gente ouve-lhes a musica sem lhes +vêr a alma. Alguns d'elles parecem conversar com a +harpa e com o violino: é porque teem que lhes dizer. +Decerto que não são alegrias. Póde ser alegre +quem atravessa os Alpes a pé, e dorme para ahi em +qualquer canto, e vae correr a Europa inteira unicamente +fiado na agilidade dos seus dedos e na obediencia +das cordas? Creio que não. Parecem despreoccupados, +parecem, porque emfim elles teem +das aves alguma coisa: as azas pelo menos. Rouba o +filho a um passarinho, que elle, com o coração despedaçado, +tambem esvoaça em redor do ninho vasio. +Pensam vocês que nem ao menos lhes ha de +doêr a ausencia? <i>La rimembránza</i>, meus amigos, <i>la +rimembránza</i> chora muita vez nas harpas d'elles. Oh! +eu creio-o! E nós, apesar de nos deliciarem os ouvidos, +olhamol-os indifferentemente. No inverno dizemos: +<i>Cá estão!</i> Quando chega a primavera exclamamos: +<i>Lá fôram!</i></p> + +<p>—Tu pendes mais para o sentimentalismo, Guillibaud. +Maubert prefere a phantasia e o maravilhoso.</p> + +<p>—Olha! lá está ouvindo o guitarrista outra vez!</p> + +<p>—É notavel! Que curiosidade!</p> + +<p>De repente interromperam-se os commentarios. +Graça Strech aproximou-se de Maubert pedindo-lhe +o obsequio de lhe dispensar dois minutos d'attenção +em particular. Havia no seu olhar, nos gestos, na +voz, tão claros indicios de grande agitação, que Maubert immediatamente se levantou. Os outros, enquanto +os dois sahiam a porta do botequim, ficáram +dizendo:</p> + +<p>—Este Maubert é um bibliotheca viva d'aventuras.</p> + +<p>—Deixa lá, observára condoídamente Guillibaud. +A julgar pelo aspecto do guitarrista, o caso afigura-se-me grave d'esta vez. Talvez seja um romance +triste...</p> + +<p>—Se tu não havias de vir com o teu sentimentalismo!</p> + +<p>—És melancholico como uma lagrima!</p> + +<p>—Que não seja de vinho...</p> + +<p>—Tens razão: as lagrimas de vinho alegram.</p> + +<p>—São ellas de certo que vos dão essa continada +alegria! disse com enfado Guillibaud.<span class="pn"><a name="pag_169">{169}</a></span></p> + +<p>O leitor está porém impaciente de seguir Graça +Strech e Maubert. Vamos-lhes pois na piugada.</p> + +<p>Mal sahiram a porta, o guitarrista dirigiu-se immediatamente +ao esculptor em correcto francez:</p> + +<p>—Peço-lhe vivamente perdão, senhor, de o haver +privado da companhia dos seus amigos, mas o que o +senhor estava dizendo era tão extraordinario para +mim...</p> + +<p>—Ouvia-nos então? perguntou Maubert.</p> + +<p>—Ouvi tudo, e incommodei-o unicamente para +lhe pedir, não que me mostre a Terra da Promissão, +como jovialmente disseram os seus amigos, mas, quasi +o mesmo para mim, que me mostre os bustos do avô +e da neta...</p> + +<p>—Oh! isso é muito facil. Estamos a dois passos do +meu <i>atelier</i>. Vamos lá—respondeu o enthusiasta Maubert.</p> + +<p>Foram. Graça Strech ia concentrado, e cada vez +estugava mais o passo; Maubert observava-o de esguelha e começava a achar summamente extraordinario +aquelle homem, de quem se principiava a +falar.</p> + +<p>Era perto o <i>atelier</i>. Entraram. Graça Strech precedia +Maubert, tamanha era a sua impaciencia.</p> + +<p>—Aqui estão! disse o esculptor.</p> + +<p>Graça Strech, relanceando aos dois bustos um olhar +rapido e incisivo, vibrou um grito, ao mesmo tempo +doloroso e alegre, e, apontando para o do velho, exclamou:</p> + +<p>—É elle, é Pietro!</p> + +<p>Depois, demorando os olhos no busto da pequenita, +deixou escapar outro grito que parecia o magoado +estalar de todas as cordas da alma:</p> + +<p>—É minha filha! Não póde deixar de ser! Ca está: +<i>Augusta, sonatrice, la piccola!</i> Chama-se Augusta! +Comprehendo tudo. Rosina morreu, sim, já me não +póde restar duvida alguma. É horrivel! Morreu! E +pôde morrer sem esperar por mim! Pobresinha! Poz +á filha o nome de minha irmã. Era uma surpreza que +me queria fazer, e fez, realmente, mas que triste surpreza, +sr. Maubert, que desgraça esta! Olhe, aquella +pequena é minha filha. O senhor é artista... Veja +que bonito perfil aquelle... Por isso foi que o senhor +a modelou, pois não foi? Sim, é muito bonita! Disse +então que andava vestidinha de preto? É pela mãe!<span class="pn"><a name="pag_170">{170}</a></span> +Pobre Rosina! Oh! eu não creio ainda que tu morresses, +tu, que tinhas tanta coragem, tanta! Onde +está minha filha, senhor? Aquella não fala! Eu quero +ver minha filha, abraçal-a, beijal-a. Deixe-me beijal-a, +sim, deixe-me enganar. Bem póde ser que tambem a +morte já m'a tenha levado, e por isso deixe saciar-se +de beijos este pobre coração ha tanto tempo opprimido. +Olhe que gentil cabeça! Que semelhança com +minha irmã! É estar a vel-a, quando brincavamos +ambos e faziamos endoidecer o capelão das Chãs. +Sim, o senhor já me restituiu minha filha, mas Rosina, +a minha vida, o meu amor, que é d'ella, por que +não a modelou o senhor para que eu a pudesse beijar +agora!</p> + +<p>E, com o busto da pequenita apertado contra o +coração, pareceu oscillar.</p> + +<p>Maubert, que escutava commovido da enormidade +d'aquella dôr, e perplexo, porque não possuia todo o +segredo d'esse homem, acudiu a amparal-o.</p> + +<p>—Ah! não me roube a sua obra! exclamou Graça +Strech apertando o busto cada vez mais contra o coração, +que pulsava vertiginosamente. Não m'a roube. +Dou-lhe tudo, a minha guitarra, a minha vida, mas +não me arranque a felicidade que me deu. Isto não +é um pedaço de gesso inanimado, que o senhor modelou. +Não, isto é minha filha, a minha querida filha, +a Terra Prometida...</p> + +<p>E, fazendo esforço para tirar a voz que lhe faltava, +acrescentou:</p> + +<p>—Disse o senhor que o avô e a neta foram para +Inglaterra, pois não disse? Bem, vou atras d'elles. Por +França não tornaram a passar, ninguem mais os viu? +De Inglaterra só poderiam saír embarcados. Não é +provavel. Estamos no inverno. É a estação dos musicos. +Hei de encontrál-os lá. Hei de ver minha filha, +beijal-a doidamente, percebe? doidamente, e perguntar-lhe +onde é a sepultura de sua mãe. Quero ir lá +com ella, e com Pietro. Parece-me que ainda posso +dar vida a Rosina! Pois ella ha de deixar-se ficar fria +e calada, sabendo que eu estou ali, apenas separado +por uma camada de terra?! Está morta? Que me importa +a mim! Isso não póde ser obstaculo para o meu +amor, para este longo amor de sete annos, que não +póde acabar assim, que deve durar mais do que a +vida...<span class="pn"><a name="pag_171">{171}</a></span></p> + +<p>Maubert começava a receiar pelo guitarrista, que +ficou sopitado em demorada prostração. Piedosamente +o soccorreu, e quando Graça Strech tornou em si +viu o esculptor curvado carinhosamente para elle.</p> + +<p>—Muito obrigado! disse com voz flebil Strech. +Muito obrigado! Ah! aqui está o busto de minha filha!...</p> + +<p>—Que é seu, observou Maubert.</p> + +<p>—Sim, o senhor, que é bom, que é nobre, que tem +coração e talento, não podia negar esta felicidade a +um pae!</p> + +<p>—Agora, tornou Maubert, é partir para Londres. +Para isso basta atravessar o canal. Está prevenido? +A minha bolsa d'artista tem ainda para estas larguezas. +Está á sua disposição o preciso para tão pequena +viagem.</p> + +<p>—Muito obrigado, senhor, e acceito. Aqui está o +que eu tenho de meu: deu-m'o, como o senhor viu, +quem entrava e sahia do <i>Evezard</i>. Eu não pedia, porque +não era mendigo: era simplesmente um pae que +ha dois annos procurava por toda a parte a sua familia. +Conheciam a minha pobreza: davam-me alguma +coisa, eu acceitava, porque em verdade era pobre. +Agora não, agora não sou, porque finalmente achei o +rasto de minha filha! Não encontro Rosina, porque a +sepultura m'a roubou, mas ainda me parece que a hei +de resuscitar, porque o meu amor, este amor que +ainda me conserva a vida, deve realisar todos os prodigios.</p> + +<p>O mais que se passou entre o guitarrista e Maubert +não nos importa saber.</p> + +<p>Graça Strech embarcou ao outro dia para Londres. +O que se passaria na sua alma é facil de adivinhar: +era o que ahi ha de mais pungente doer da saudade +á mistura com o mais avido phrenesi da anciedade; +era o supplicio atroz da alma que lucta com o irreparavel +no ante-gosto d'uma felicidade orvalhada de +lagrimas.</p> + +<p>É preciso que um coração esteja muito retemperado pelo soffrimento para luctar, sem succumbir, +com tão violentos contrastes, tão oppostos extremos, +tão desencadeadas tormentas. Elle resistiu, porque +havia sete annos que soffria o mais que podem soffrer +homens.</p> + +<p>Chegou a Londres.<span class="pn"><a name="pag_172">{172}</a></span></p> + +<p>Era, como sabemos, o inverno.</p> + +<p>Fluctuava pelas ruas e pelos <i>cafés</i> uma colonia de +<i>virtuosi</i>. Gastou um dia, gastou dois, sem encontrar +quem procurava. Ao terceiro, viu muita gente reunida +n'uma praça. Estavam ouvindo uma harpa.</p> + +<p>Logo um presentimento lhe alvoroçou o coração. +Parou de subito, antes de romper o circulo, porque +uma dôr, cruciante como o queimar de um ferro em +braza, lhe atravessára o peito. Receiou morrer. Fez +porém um esforço, que devia tel-o prostrado a não +ser ainda aquella a hora de avistar a Terra da Promissão. +Apartou febrilmente o grupo, relanceou por +sobre as cabeças um olhar d'aguia, e com um só grito +fez emmudecer a harpa e affastar a gente que rodeiava +a harpista.</p> + +<p>Um homem de meia edade, que não era decerto +Pietro segurava a harpa, tangida por uma pequenita +vestidinha de preto.</p> + +<p>Era o mesmo perfil do busto;—assim devera ser +Augusta aos seis annos. Faltava, para completar o +grupo de Maubert, o original do outro busto: faltava +apenas Pietro.</p> + +<p>Graça Strech arrebatou nos braços a criança. Beijou-a, +abraçou-a, acariciou-a delirantemente, soffregamente, +doidamente.</p> + +<p>E por entre beijos e abraços repetia, sorrindo e +chorando:</p> + +<p>—Sou teu pae! Eu sou teu pae! Acredita-me, Augusta; +bem sei que te chamas Augusta.</p> + +<p>A criança tremia-lhe nos braços como um passarinho +que se sente comprimido, e procurava furtar +as faces aos beijos ardentes do desconhecido.</p> + +<p>—Pietro, filha, onde está Pietro?</p> + +<p>A pequenita, ouvindo pronunciar este nome, olhou +attenta no guitarrista, e respondeu com os olhos subitamente +marejados de lagrimas, dando uma suave +expressão de magua ao dialecto napolitano;</p> + +<p>—Morreu! Elle morreu. Tu é que talvez sejas meu +pae, porque dizia o avô...</p> + +<p>—Que dizia o avô, filha? perguntou anciosamente +Graça Strech.</p> + +<p>—Que meu pae tinha dado a minha mãe, <i>mia madre +poverella</i>, um presente para mim, e que se elle +não tivesse morrido, como nós julgavamos, tu me +conhecerias por esse presente. Se sabes o que é, então<span class="pn"><a name="pag_173">{173}</a></span> +és meu pae; dá-me muitos beijos que eu consinto.</p> + +<p>É o annel, filha! Ah! é o annel que eu dei a tua mãe.</p> + +<p>Isso mesmo! disse a criança sorrindo d'alegria. +Elle aqui está...</p> + +<p>E tirou do seio uma saquinha, pendente do pescoço, +onde guardava o annel.</p> + +<p>Trago-o aqui. Sou ainda muito pequinina, <i>padre +mio</i>, para o trazer no dedo.</p> + +<p>O povo, que tinha seguido todo este episodio, +olhou-se admirado quando viu a pequenita tirar do +seio a saquinha, e mostrar o annel.</p> + +<p>Era que para o publico, como para Rosina, aquelle +annel tinha mysterio.</p> + +<p>Graça Strech de novo colheu a filha nos braços, +de novo a beijou com os olhos razos de lagrimas, +mas a pequenita, soltando-se com vivacidade, disse +para o homem que segurava a harpa:</p> + +<p>Vamos lá, Giovanni, vamos com meu pae, que +não morreu!<span class="pn"><a name="pag_174">{174}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>XX</h2> + +<h2>O manuscripto de Pietro</h2> + +<p>Pietro morrera um anno antes, em Londres, logo +depois que de Pariz passára a Inglaterra. Acamou, +no miseravel albergue em que se hospedára com a +pequenita, victima d'uma febre aguda. Ás primeiras +horas de leito conhecera que era chegado o termo +da sua vida. Antes que estivesse impossibilitado de +raciocinar e falar, mandou chamar Giovanni, um antigo +conhecido, em quem depositava confiança e, não +sem difficuldade, porque já a cabeça começava a pesar +para a sepultura e o cerebro a escurentar-se com +as trevas da morte, lhe disse:</p> + +<p>—Giovanni, tu és um homem de bem e, diga-se a +verdade, inimigo de trabalhar. Tens vivido sempre +em companhia de musicos que te dão alguma coisa +porque tu lhes carregas com as harpas e os realejos. +Ora, meu amigo, é chegada a occasião de fazermos +um negocio e, nota bem, o ultimo.</p> + +<p>—Ora deixa-te de tolices!</p> + +<p>—Não são tolices, Giovanni; bem vês que já me +custa falar. Não posso perder tempo. Portanto, ouve-me +com attenção. A minha hora chegou e pouco me +importaria morrer se não tivesse uma neta...</p> + +<p>—Uma neta! Tu! Só te conheci um filho, que +morreu pequeno em Portugal.</p> + +<p>—Isso é um segredo que te não deve importar. +Essa criança que ahi está fóra é mais minha neta do +que se fosse filha de meu filho. Comprehendes que +morrendo tu, vae ella, coitadinha! ficar para ahi +desamparada. Isso é justamente o que eu não quero. +Sabes que a pequena tem talento...</p> + +<p>—Isso tem! respondeu Giovanni.</p> + +<p>—Aprendeu tudo quanto eu lhe ensinei—acrescentou +pausadamente Pietro—e já sabe mais do que +aprendeu. Deus nunca desampara os desgraçados! O<span class="pn"><a name="pag_175">{175}</a></span> +talento foi o patrimonio com que Deus dotou a minha +neta. Mas olha que é um capital cujo rendimento +chegava bem para nós dois! A pequenita bastava-lhe +roçar com as azas pelas cordas: logo sahia musica. +Ora a nossa sociedade artistica vae dissolver-se. Da +morte não se appella. Um dos socios, o gerente, retira-se +para a... eternidade. Fica o outro, que por ser de +menor edade não tem ainda credito na praça. É preciso +que tu, homem de bem, substituas o socio que +se retira, e entres apenas com a tua edade e com a +tua experiencia. A tua missão cifra-se em acompanhar +a avesinha, e defendel-a das ciladas do mundo. +Nota, porém, que te corre obrigação de não traíres a +confiança que um amigo moribundo deposita em ti. +Jura-me pela tua honra que serás exacto como tens +sido até hoje...</p> + +<p>—Juro, disse com firmeza e commoção Giovanni.</p> + +<p>—Muito bem. Logo que eu morra, olha tu pela +pequena, que fica sendo agora tua neta. Mas ouve +ainda, Giovanni, mas ouve-me bem. Eu supponho e +e com boas razões, que o pae d'essa infeliz menina, +morreu. Tudo me leva a crêl-o. Se algum dia, porém, +e Deus o permitta! o pae d'ella apparecer, dize-lhe +que te nomeie o objecto pelo qual elle ha de reconhecer +a filha: é um annel que ella traz n'uma saquinha +ao pescoço. De mim não quero que lhe digas +nada, porque n'este papel, que lhe entregarás, caso +o pae da menina não tenha morrido, deixo explicado +o mais que tinha a dizer. Se elle não surgir do tumulo +a reclamar a filha, o que é provavel, entrega +esse papel a Augusta, para que ella, em edade de o +entender, saiba com que amor eu a amei. Dá tempo +ao tempo. Espera que ella cresça e pense. Tens entendido, Giovanni? Agora dá-me a tua mão. Palavra +de homem de bem?</p> + +<p>—Palavra e juramento, disse Giovanni com profunda +commoção, e muitas lagrimas.</p> + +<p>E acrescentou:</p> + +<p>—Vae descançado, Pietro. Tua neta, pois que assim +lhe chamas, não ha de soffrer mal algum. Eu tenho +sido até hoje escravo da minha fidelidade. Tenho andado +pelo mundo atraz d'esses musicos, que afinal +me não pagam. Nasci preguiçoso, é verdade, Deus +me perdôe, mas tu bem sabes que me não pegou +ainda ponta de vicio. Nem bebo nem jógo. Fumar,<span class="pn"><a name="pag_176">{176}</a></span> +fumo eu, mas isso é apenas um mau habito. Tendo +pão e tabaco, estou contente. Isso, é de sobra, dar-m'o-ha +a harpa de tua neta. Agradeço a esmola, e +toda a vida serei agradecido a ti e a ella. O dinheiro +que juntar eu lh'o guardarei. Comprará uns vestidinhos, +concertará a harpa, comprará outra melhor...</p> + +<p>—Isso não! isso nunca! interrompeu Pietro com +febril exaltação. A minha harpa nunca ella a deixará; +já lh'o disse, e ella prometteu-m'o.</p> + +<p>—Desculpa, Pietro, eu não pensei o que disse. +Emfim comprará o que quizer, porque todo o capital +será d'ella; eu serei unicamente depositario.</p> + +<p>—Bem! disse Pietro prostrado de commoção. Estamos +tratados para a vida e para a morte. Agora sae +por algum tempo, e manda-me cá a pequena.</p> + +<p>Saíu Giovanni e entrou Augusta.</p> + +<p>O doente esteve olhando para ella mui attentamente, +e exclamou:</p> + +<p>—Que linda és!</p> + +<p>A pequetita respondeu com beijos.</p> + +<p>—Olha lá, Augusta,—tornou Pietro—não te esqueças +da recommendação do annel. Oh! que se tu +encontrasses ainda teu pae! E d'ahi póde ser. Deus é +misericordioso. Se elle escapou á guerra, bem póde +acontecer que ainda algum dia o encontres. Deus o +queira, Augusta, anjo, filha. És tão pequenina, tão +pequenina, que cada vez me pareces mais um passarinho! +Emfim eu não havia de ser eterno; muito me +tem deixado Deus viver para teu amparo. Que linda, +filha, que linda! Olha... chama Giovanni, e vae ali +para fóra um momento... Tu és muito minha amiga, +pois não és?... Vae filha, vae, e chama Giovanni.</p> + +<p>Saiu a pequenita a cumprir a ordem.</p> + +<p>Giovanni abeirou-se do catre e recebeu da mão do +doente os papeis em que lhe falára.</p> + +<p>—Não posso mais! disse Pietro. Pesa-me tanto a +cabeça! Sabe Deus com que difficuldade tenho feito +tudo isto! E—acrescentou placidamente—para o enterro +já sabes que basta avisar o consul. Nós em toda +a parte somos italianos.</p> + +<p>Giovanni tregeitou, e o doente deixou caír contra o +travesseiro o craneo que parecia de chumbo. Nos trez +dias que se seguiram não mais tornou a falar. Entrou +em estado comatoso. Teve sempre os olhos fechados +até que a morte lh'os sellou para a eternidade.<span class="pn"><a name="pag_177">{177}</a></span></p> + +<p>O consulado italiano fez o enterro: só os summamente grandes e os summamente pequenos são enterrados +á custa das nações.</p> + +<p>Quem soube, na colonia fluctuante dos musicos +das ruas, que havia de menos uma andorinha viajeira?</p> + +<p>Os outros não souberam, porque, tendo por missão +voar de terra em terra, não lhes sobra tempo para se +demorarem á beira d'um tumulo.</p> + +<p>Soube-o o consul, e sentiam-n'o Augusta e Giovanni; +ninguem mais.</p> + +<p>A pequenita chorou muito, muito. Giovanni confortou-a +como pôde. O sol, que é a alegria de todos +os passarinhos, fez o mais.</p> + +<p>Começaram ambos a sua peregrinação.</p> + +<p>A pequenita, pobresinha! só tocava n'esses dias de +pungente saudade musicas tão tristes como a alma +d'ella. Ainda assim ouviam-n'a, achavam-lhe graça, e +davam-lhe dinheiro.</p> + +<p>O publico, em geral, reputa felizes os que convidam +á felicidade.</p> + +<p>E, em geral, engana-se sempre.</p> + +<p>Augusta sonhava quasi todas as noites com o avô. +Pela manhã dizia a Giovanni:</p> + +<p>—Esta noite vi-o. Lá me tornou a repetir que não +perdesse o annel.</p> + +<p>Outras vezes:</p> + +<p>—O avô, Giovanni, disse-me esta noite que te recommendasse +que fosses sempre muito meu amigo.</p> + +<p>As recommendações de Pietro, que a pequenina +ouvia em sonhos, não eram precisas. Nem Augusta +perdia o annel mysterioso, nem Giovanni se esquecia +das promessas que tinha feito.</p> + +<p>Elle guardava a sua palavra; ella o seu annel.</p> + +<p>E com esses dois thesouros se propunham correr +mundo.</p> + +<p>Giovanni pertencia ao numero dos homens-machinas +que só obedecem ao impulso do coração; ora +o coração era bom, e as obras boas sahiam, portanto.</p> + +<p>Nascera, como o cão de quinta, para a ociosidade, +mas, como o cão de quinta, era fiel.</p> + +<p>Durante o anno que acompanhou Augusta nunca +deslisou um passo do caminho do dever.</p> + +<p>Ella ia adiante com o seu annel no seio; elle seguia-a<span class="pn"><a name="pag_178">{178}</a></span> +com a harpa ás costas, avisando-a sempre da +aproximação dos trens e dos cavalleiros.</p> + +<p>Ao cabo d'um anno surgiu do tumulo Graça Strech, +para nos servirmos da phrase de Pietro. Feito o reconhecimento, +Giovanni entregou-lhe a filha e os papeis +que recebera, e diziam assim:</p> + + +<p class="centrado">MANUSCRIPTO DE PIETRO</p> + +<p>Estas são as minhas memorias. Dito-as para serem +lidas por Augusta ou seu pae, se é que não morreu, +para esclarecimento d'algum d'elles, ou de ambos, +se Deus o permittir.</p> + +<p>Felizmente aprendi a escrever, e fui nos primeiros +annos da minha vida empregado n'um escriptorio. +Depois morreu-me meu pae: faltou-me o leme. Desnorteei. +Troquei a penna pela harpa. Ha muitos annos +que o meu abecedario é o <i>do-ré-mi-fá-sol-lá-si</i>. +Ainda assim, apesar do muito que se soffre n'esta +vida errante, agradeço a Deus o inspirar-me que fosse +musico, porque tive occasião de fazer bem.</p> + +<p>Finou-se de saudades em viagem a <i>signora</i> Rosina. +Era um soffrer que fazia horror! Não havia palavras +que a consolassem, musica que pudesse distraíl-a! +Viajou chorando e suspirando; os olhos nunca ninguem +lh'os viu. Quasi não comeu. Acceitava, depois +de muitas instancias, uma agua de caldo apenas. Diziamos-lhe que era um crime deixar-se morrer; então +bebia. Chegámos a Napoles, e logo a <i>signora</i> me pediu +que tratasse de arranjar albergue, porque se sentia +muito doente. Em verdade estava muito falta de +forças. Quiz escrever para Portugal, e não pôde. Mal +pegava na penna descórava muito, e entrava de sentir-se +agoniada. Eu, vendo que semelhantes esforços +a estavam debilitando cada vez mais, pedia-lhe que +deixasse isso para quando estivesse melhor. Comecei a +dizer-lhe que não tinha geito metter-se em casa. Depois +de repetidas instancias, annuiu em ir commigo +ao anoitecer até á beira mar. Umas vezes voltava melhor; +outras vinha mais doente. No primeiro caso, +principiava a escrever. Escrevia algumas linhas, e já +estava fatigada. No segundo, passava a noite em convulsões, +e era preciso não a desamparar até pela manhã, +que só então cahia em somno. Eu ia porém instando +sempre pelos passeios. Ah! mas ver a <i>signora</i><span class="pn"><a name="pag_179">{179}</a></span> +um mez depois que chegámos a Napoles! Que differença! +Emagreceu, descórou, fez-se velha. Não parecia +a mesma! A primeira carta que recebemos de +Portugal causou-lhe tamanha impressão, que eu julguei +que morresse. Tive realmente medo. Chorou, +riu, delirou. A carta não dizia porém que o <i>signor</i> +Strech tivesse recebido as nossas. A <i>signora</i> inquietou-se +muito com isto.</p> + +<p>—Está lá sem saber nada de nós! disse-me ella. +E a mim que me custa tanto escrever!</p> + +<p>—Escrevo eu.</p> + +<p>—Nada, não quero, respondeu a <i>signora</i>. Hei de +eu escrever sempre; bem póde ser que alguma carta +lhe chegue ás mãos...</p> + +<p>—É que o exercito é muito grande, e depois anda +d'um lado para outro... disse eu prevenindo novas +commoções.</p> + +<p>Os soffrimentos da <i>signora</i> havel-a-iam prostrado +antes de ser mãe, se não fosse essa carta que recebeu +de Portugal. Beijava-a, relia-a, apertava-a contra +o coração; só n'aquillo achava allivio.</p> + +<p>Desde principios de maio de 1810 que a hora da +maternidade se annunciava para breve. Quiz—porque +ella tinha o presentimento da morte—escrever uma +longa carta, que devia ter chegado a Portugal em junho, +e que com certeza não foi recebida. Essa carta, +cujo conteudo ignoro, era de certo uma despedida, o +ultimo adeus da <i>signora</i>. Deixou o papel ainda sobre +a mesa, e caíu contra o leito em grandes gritos. Acudi-lhe, +e disse-lhe que não a tornaria a deixar escrever +mais.</p> + +<p>—Não me é precisa a sua licença, meu bom Pietro! +respondeu ella.</p> + +<p>Eu estremeci.</p> + +<p>Logo que serenou, fechei a carta, sem lhe poisar +a vista, e fui eu mesmo deital-a ao correio.</p> + +<p>No dia 22 de maio, pela manhã, chamei a locandeira, +que era piedosa, porque a <i>signora</i> me disse +que n'esse dia seria mãe.</p> + +<p>Soffreu doze horas. A final deu á luz uma menina. +Quiz ver a filha; mostrei-lh'a.</p> + +<p>—Que se chame Argusta, Pietro, que se chame +Augusta, recommendou a <i>signora</i>.</p> + +<p>Certifiquei-a de que esse seria o nome de sua filha.<span class="pn"><a name="pag_180">{180}</a></span></p> + +<p>Cobriu o rosto com o lençol, e começou a chorar +e a gemer. Por mais que lhe dissessemos, a locandeira +e eu, que procurasse socegar, não o conseguimos. +De noite delirou. Falava do <i>signor</i>, Strech, +d'Augusta, de Coimbra, do mar, do annel. A febre era +muita. Estáva córada como se as faces fossem duas +rosas: Eu tinha a menina nos braços; a locandeira +amparava a <i>signora</i>.</p> + +<p>Pela manhã adormeceu. Acordou muito fria. Estava +peior. Chamou-se o doutor, que receitou, e disse +que a <i>signora</i> corria grande perigo. Apesar dos remedios, +não aqueceu em todo o dia. Ao fim da tarde, +quando eu estava acalentando a menina para adormecel-a, +a <i>signora</i> deu de repente um grito, sentou-se +na cama, disse que não via, tornou a dar outro +grito, e cahiu morta.</p> + +<p>N'essa occasião chorava a criança como se adivinhasse +que estava orphã.</p> + +<p>Fiz um enterro decente á <i>signora</i> Rosina, adquiri, +com o auxilio do consul, o direito de a sepultar n'uma +campa perpetua e mandei-lhe pôr um singelo epitaphio +que diz: «Aqui jaz Rosina Regnau.»</p> + +<p>Escrevi para Portugal a dar parte do triste acontecimento, +que me custou talvez mais—Deus me +perdôe!—do que a morte de meu filho.</p> + +<p>Não recebi resposta, nem tornei a receber mais +cartas. Quiz partir para Portugal. Informei-me. A +guerra continuava cada vez mais renhida. Que havia +eu de ir fazer a Portugal com uma harpa ás costas e +uma criança ao collo? Demorei-me ainda um anno +em Napoles para dar tempo a crear-se a menina. Foi +uma ama dos arrabaldes quem a amamentou.</p> + +<p>Eu ia todos os dias vêl-a, e saber da ama se era +preciso alguma coisa. Durante esse tempo não recebi +carta do <i>signor</i> Strech. Não obstante, continuei escrevendo +sempre. Sabia-se que continuava a guerra. +Não tinha certeza de que as minhas cartas fossem +entregues, e de que o <i>signor</i> vivesse ainda. Maguava-me +tão longo silencio, porque emfim eu cada vez +ia envelhecendo mais. Ao cabo d'um anno peguei na +menina e na harpa e comecei a minha peregrinação, +porque estava exhausto de recursos. Em Napoles ha +sempre muitos musicos, e a concorrencia prejudicava-me. +Alguns eram velhos, e estavam tão pobres +como eu. Além d'isso, fallecera a dona do albergue,<span class="pn"><a name="pag_181">{181}</a></span> +repentinamente, e quando eu sahia entravam os crédores. +Tive pena d'aquella boa mulher que tão caridosamente +tratára da <i>signora</i> Rosina. Como ella sabia +do nosso segredo, habituei-me a consideral-a +pessoa de familia. Nunca essa honrada creatura revelára +a ninguem as máguas da mãe d'Augusta. Eu +tinha a certeza. O segredo descia com ella á sepultura. +Senti os olhos rasos de lagrimas quando a vi +sahir para o cemiterio e me encontrei com os crédores +que entravam. Era preciso ganhar vida, porque +eramos duas pessoas a alimentar, melhor direi pessoa +e meia. Fui andando e tocando harpa. As noites, +dormia-as com a menina ao collo. Se eu era avô! +Ás vezes apertava commigo a tristeza. Lembro-me +de que uma noite em Piombino, n'um albergue onde +me recolhi, me deixei entristecer tanto, contemplando +a menina adormecida nos meus braços, lembrando-me +ao mesmo tempo da <i>signora</i> e do <i>signor</i>, ambos +mortos para ella, que, francamente o confesso, +n'essa noite envelheci dez annos. Todavia, logo que +nascia o sol, nascia com elle o grande lenitivo dos +desgraçados: o trabalho. Ia tocando na minha harpa, +e vivia. Uns davam-me esmola por me ouvirem; outros +por me vêr com a menina: muita vez o conheci.</p> + +<p>Corri a Italia toda: vi bem a minha patria. Entretanto +a menina ia crescendo. Que espertesa que revelou +desde os primeiros annos! O seu gosto era estar +a bulir nas cordas da harpa. E o caso é que ás +vezes, acaso ou não, combinava sons. Lembrei-me +de que a menina podia aprender musica. Seria o seu +dote. Bem precisava ella d'algum. Tinha nascido tão +pobre, que me considerava seu avô, a mim, um musico +ambulante! Com oito mezes d'aprendizagem era +um gosto ouvil-a! Parecia impossivel! Dispensei-me +de tocar, porque as mãosinhas da menina eram um +prodigio! Bastavam ellas para fazer a colheita que era +sempre abundante. Comprei roupa á menina; trazia-a +uma princesasinha. Verdade é que sempre de luto. Todo +o meu fim era obrigal-a a perguntar-me porque vestia +de preto. Queria gravar-lhe bem na memoria os +soffrimentos de seus paes, que extraordinarios foram +em verdade. E se fores tu, Augusta, que leias este +papel, e não teu pae, como muitas vezes acredito +que serás, mais uma vez te peço que conserves sempre +viva em teu coração a memoria d'esses dois grandes<span class="pn"><a name="pag_182">{182}</a></span> +desgraçados, que mais o foram por tua causa. +Mas que talento o d'essa criança! Ainda outro dia, +em Pariz, um rapaz esculptor pediu o meu consentimento +para nos modelar a ambos em gesso. Não foi +por minha causa, não. Eu não tenho orgulho senão +de ser avô da menina... Avô! Sim, pelo coração não +posso deixar de o ser. O verdadeiro avô não lhe quereria +mais. Mas o tal esculptor encantou-se com a +menina. Quem se não ha de encantar? Modelou-a. +Foi a primeira estatua levantada em honra da pequenina +harpista. A mim modelou-me de certo pelo contraste. +Deu-lhe graça vêr a cabeça d'um velho ao pé +do rosto d'uma criança. E que formoso rosto, <i>sangue +di Christo</i>! Como eu gostei de ver a menina assim +retratada! Mal diria eu que um mez depois havia +de soar a hora de me separar d'ella. Não me custa +deixar o mundo, onde se soffre tanto; custa-me deixal-a +a ella, porque a amo muito. Não quero, porém, +ser ingrato para com Deus. Grande mercê me fez em +me não levar quando a menina era mais pequenina. +Egora sinto-me sem forças. Ha muitos dias que estou +doente. Não tenho querido acamar para não entristecer +a menina. Mas hoje, a tal ponto receio por mim, +que vou mandar chamar o meu velho conhecido Giovanni +para lhe fazer as minhas ultimas disposições.</p> + +<p>Dizem todas respeito á menina.</p> + +<p>Giovanni ficará depositario d'ella, que é o meu thesouro. +Giovanni é preguiçoso, mas um verdadeiro homem +de bem. Muitas vezes tive occasião de o reconhecer. +Eu não podia fazer melhor eleição. A minha +harpa, que lego á menina, ganhará para os dois, e +Giovanni será incapaz de guardar para si o que pertencer +á menina.</p> + +<p>Morro n'esta certeza. Giovanni é mais fiel do que +um cão.</p> + +<p>Estão, pois, saldadas as minhas contas com o mundo, +com a <i>signora</i> e o <i>signor</i>. Fiz quanto pude, e me +mandava o coração. Da justica de Deus não me arreceio. +Deus bem vê a minha alma.</p> + +<p>Torno a repetir que escrevo este documento para +que Augusta melhor comprehenda um dia como eu a +amei, ou para que seu pae, se Deus o resuscitar, porque +em verdade o supponho morto, veja que não +trahi a confiança que depositou n'um desconhecido. +Se eu morresse em Napoles, quereria ser enterrado<span class="pn"><a name="pag_183">{183}</a></span> +ao pé da <i>signora</i>. Não fui o seu guarda em vida? Continuaria +a sel-o depois de morto. Como de certo +morro aqui, porque a minha doença é grave, apenas +tenho a pedir que rezem um <i>Padre Nosso</i> pela minha +alma, quando abrirem este documento, que fica +em poder de Giovanni.</p> + +<p><i>Fechado em Londres aos 25 de novembro de 1815:</i></p> + +<p> </p> + +<p class="assin">P<small>IETRO</small>.<span class="pn"><a name="pag_184">{184}</a></span></p> + +<hr style="width: 20%;"> + + +<h2>XXI</h2> + +<h2>Epilogo</h2> + +<p>Estava escripto no livro dos destinos que não houvesse +felicidade completa para Graça Strech. Encontrava +o coração da filha como verdejante oasis no +immenso deserto que a morte de Rosina lhe estendia +deante dos olhos. Era uma gota d'agua para matar +uma sêde d'amor que o requeimou durante sete annos; +um só raio de sol que se coava á negridão em +que o destino o havia enclausurado; uma unica flôr +a alegrar o caminho interposto á velhice precoce e +á valla que o esperava algures.</p> + +<p>Entre lagrimas e sorrisos apertou contra o coração +esphacelado o corpinho flexivel da criança; tinha a +filha nos braços e sentia nas mãos a friagem da terra +que cobria a campa da mãe; irradiava-lhe uma aurora +contra o rosto, e os clarões cambiantes espelhavam-se +no pranto que lhe sulcava as faces.</p> + +<p>Devia remoçar, e sentia-se velho.</p> + +<p>Parecia abrir-se-lhe a porta do paraizo e, em vez +de transpôl-a, pedia á criança que o acompanhasse +ao cemiterio de Napoles, onde Rosina jazia.</p> + +<p>Giovanni julgou importuna a sua presença, e balbuciou +soluçando umas palavras de despedida.</p> + +<p>Graça Strech travou-lhe da mão e disse:</p> + +<p>—Giovanni, tu eras o guarda de minha filha; sê +agora o companheiro da filha e do pae.</p> + +<p>Giovanni correu a beijar a menina com lagrimas +d'alegria nos olhos; era quasi o cão a festejar o dono.</p> + +<p>Partiram.</p> + +<p>Ao passar em Pariz, Graça Strech foi com a criança +procurar o esculptor Maubert. Entrou no <i>atelier</i> e +disse ao artista:</p> + +<p>—Aqui tem o original do seu busto, senhor: é minha +filha. Falta o nobre Pietro: roubou-o a morte. +Eu não quiz atravessar a França sem lhe vir agradecer<span class="pn"><a name="pag_185">{185}</a></span> +o serviço que me prestou. Não encontraria minha +filha, se o senhor me não ensinasse o caminho. +Que Deus lhe torne em alegrias o que a mim me +deu em consolação. O senhor receberá o premio da +sua benevolencia para commigo lá onde os bons e os +desgraçados são remunerados condignamente.</p> + +<p>Seguiram para Italia. Graça Strech estava ancioso +de chegar a Napoles, onde se demoraram oito dias, +visitando de manhã e de tarde o <i>Campo Santo</i>. O +que elle confidenciou junto á lousa de Rosina Regnau +ninguem o ouviu, nem é dado avental-o, porque +ha dôres que só se comprehendem quando se +experimentam. Os labios do pae, ajoelhado á beira +da campa, ciciavam de todas as vezes palavras inintelligiveis; +a filha, ajoelhada ao pé do pae, tinha as +mãos postas, e denotava doloroso recolhimento. Não +rezava, porque ninguem a tinha ensinado a rezar. A +falta das mães é tamanha que até Deus a sente! Giovanni +completava o grupo, posto o joelho em terra, +e alternando olhares respeitosos entre o pae, a filha +e a campa.</p> + +<p>Ao cabo d'oito dias a menina mostrava-se doente. +Graça Strech tremeu da tristeza da criança, e perguntou-lhe +o que tinha.</p> + +<p>—Faz-me medo estar no cemiterio! respondeu Augusta +chorando.</p> + +<p>—Tens razão, filha, disse Graça Strech. Mas o que +havemos nós de fazer agora no mundo todos trez?</p> + +<p>—Eu toco a minha harpa, tornou com vivacidade +a pequenita. O papá toque a sua guitarra. Giovanni +vae comnosco.</p> + +<p>Graça Strech não teve animo de recusar.</p> + +<p>—Voltemos então a França, alvitrou elle. Eu vi a +sepultura de tua mãe; quero agora vêr o seu berço. +Iremos ás Ardennas.</p> + +<p>—Mas as Ardennas não são tão tristes como o cemiterio, +pois não? perguntou ingenuamente Augusta.</p> + +<p>—Não são, filha, não são. Para tua mãe eram o paraizo +d'onde eu a expulsei.</p> + +<p>Foram musicando. Notavam-se entre todos os <i>virtuosi</i>, +além da maguada sympathia que filha e pae inspiravam, +pela melancolia do seu repertorio. A guitarra +d'elle e a harpa d'ella falavam a linguagem da +saudade. Se o publico as ouvisse no <i>Campo Santo</i> +de Napoles, á beira d'um cómoro, devia comprehendel-as.<span class="pn"><a name="pag_186">{186}</a></span> +Estiveram nas Ardennas, onde os camponezes +sahiam em ranchos a ouvil-os. Alguns d'elles, vendo +o guitarrista esquecido a olhar para o cimo das montanhas, +com o braço paralysado, diziam entre si:</p> + +<p>—Aquelle homem não tem a razão clara!</p> + +<p>Passando-se depois a Pariz, encetaram o viver errante dos passaros. Graça Strech tirava do amor com +que idolatrava a filha as forças com que vivia, e tinha +desvairamentos nervosos se se demorava a contemplar-lhe +as faces pallidas, da meiga pallidez da +irmã, e os olhos fundos e brilhantes.</p> + +<p>Quedava-se a olhar n'ella com a fronte banhada de +suor frio.</p> + +<p>—O papá gosta tanto de me vêr! exclamava a menina +ao mesmo passo carinhosa e amedrontada da +sombria physionomia do pae.</p> + +<p>—Gosto, filha. É que eu sou pae e desgraçado! Se +tu morresses, enlouquecia.</p> + +<p>—Eu não morro. O papá não diga isso, que me +faz medo. Deixe-se de estar a pensar, papá! atalhava +a menina. Ó Giovanni, traz a harpa; não estou contente +senão quando a tenho ao pé de mim! O papá +não ralhe, porque eu sou muito sua amiga tambem.</p> + +<p>Decorreram os annos. O botão de rosa fez-se flôr. +Flôr melancolica como as que pendem aos sarcophagos.</p> + +<p>Graça Strech procurava suavisar quanto lhe era +possivel a sua continua peregrinação. A menina, tomada +de febril impaciencia, dizia ao pae que havia +de morrer no caminho tocando harpa. E acrescentava:</p> + +<p>—Bem diz o papá: nós somos como os passaros. +Elles tambem só parecem alegres quando voam!</p> + +<p>No inverno de 1824—tinha Augusta quatorze annos—começou a soffrer do peito.</p> + +<p>Estavam de novo em Londres.</p> + +<p>Augusta queixava-se de dôres vagas; e tossia.</p> + +<p>—Fujamos de Londres! disse Graça Strech fitando +a filha com atormentado semblante.</p> + +<p>Em França os soffrimentos continuaram, se bem +que a menina, para não desalentar o pae, procurasse +animar-se d'uma alegria que por bastante transparente +deixava entrever o disfarce.</p> + +<p>Seguiram para Italia. Enflorava-se a formosa do +Mediterraneo com as galas da primavera de 1825.<span class="pn"><a name="pag_187">{187}</a></span></p> + +<p>Caminho de Florença nos ultimos dias de março, +colhera-os ao entardecer a tempestade no caminho. +Tiveram de estugar o passo para recolher-se no albergue +de Pistoja. A menina chegou anciada, e afogueada +das faces. Deitou-se logo. O pae, atordoado +como ebrio, não a desamparou em toda a noite. Pela +manhã, Giovanni foi poisar a harpa ao pé do catre. +Augusta reprehendeu-o. Disse que no dia seguinte +tocaria. Veiu o outro dia, vieram muitos, e a menina +nem queria erguer-se nem ver a sua harpa.</p> + +<p>—Então já não és como os passaros? perguntou o +pae com voz que mal podia romper através das lagrimas.</p> + +<p>Augusta viu chorar o pae, e disse para Giovanni:</p> + +<p>—Os passaros tambem cantam no ninho: vai buscar +a harpa.</p> + +<p>Tirou alguns sons, e não pôde continuar.</p> + +<p>D'ahi a trez dias chamou de novo Giovanni e disse-lhe:</p> + +<p>—Hoje estou boa; vae buscar a harpa.</p> + +<p>O pae quiz illudir-se ainda: sorriu.</p> + +<p>A menina vibrou as primeiras modulações e deixou +pender os braços.</p> + +<p>Acudiu o pae a chamal-a. Não respondeu. Giovanni +agitou-a docemente e conheceu que estava morta.</p> + +<p>A avesinha não pôde completar o seu cantico de +despedida.</p> + +<p>Desde essa hora Graça Strech affigurava-se idiota. +Unicamente pareceu illuminar-se-lhe por instantes a +razão quando disse a Giovanni:</p> + +<p>—Meu bom amigo, meu fiel amigo, não tenho mais +que te dar: péga n'essa harpa e deixa-me viver em +paz. Adeus, até á hora do resgate.</p> + +<p>Giovanni quiz falar. Elle não consentiu; afastou-o +com um gesto.</p> + +<p>E deixou-se ficar dois dias com a cabeça apoiada +nas mãos.</p> + +<p>Levavam-lhe de comer: recusava.</p> + +<p>O dono do albergue entrou a inquietar-se e acabou +por ir a Florença avisar o consul portuguez. Chamado +Graça Strech ao consulado, muito laconicamente +respondeu ás perguntas que lhe fizeram. O consul reputou a sua tristeza nostalgia, aggravada pela impossibilidade +de se transportar á patria. Deu-lhe um passaporte +para Portugal. Graça Strech nem agradeceu<span class="pn"><a name="pag_188">{188}</a></span> +nem rejeitou. Ao outro dia foi o consul a bordo para +o recommendar ao capitão. Faltava Graça Strech. +Mandou procural-o ao albergue. Encontraram-n'o sentado +com a cabeça firmada nas mãos. Deixou-se conduzir +ao navio. Subiu á coberta, e sentou-se n'um +banco, na mesma posição. O navio largou; elle não +ergueu os olhos.</p> + +<p>Passados mezes via-se nas ruas do Porto um estranho +homem; andava arrimado a um bordão, porque +coxeava. Alguem, por caridade, o vestira: trazia sobrecasaca +abotoada e chapeu alto amolgado. Realçava +sobre esta pobreza a medalha de prata da guerra peninsular +em competencia com um annel de ouro que +brilhava na mão esquerda. Como o vissem apanhar +do chão pontas de cigarros, e manipular um longo +rolo de tabaco, perguntavam-lhe por que não vendia +o annel.</p> + +<p>Respondia sempre:</p> + +<p>—Porque este annel tem mysterio.</p> + +<p>E, surdo a outras perguntas, começava tangendo +maviosamente a guitarra que trazia sobraçada. Se alguem lhe dava esmola, recebia-a; jámais a implorou. +Decorridos mais alguns mezes appareceu acompanhado +por um cão, e de tal modo se estimavam, cão +e homem, que o cão parecia escutar attento o guitarrista, +e o guitarrista defendia energicamente o seu +companheiro quando era açulado pelo rapazio.</p> + +<p>Onde encontrára o guitarrista o cão?</p> + +<p>É que o primeiro tivera de pedir hospitalidade ao +segundo.</p> + +<p>N'um quintal da rua das Fontainhas, logo á entrada, +descendo do Jardim de S. Lazaro, ha ainda +hoje um casebre, que n'esse tempo pertencia a duas +pobres mulheres, donas do cão. Ali piedosamente +receberam o guitarrista, que na primeira noite de +hospedagem fôra mordido pelo animal, que dava +pelo nome de <i>Janota</i>, e se rebellara contra todos os +affagos do hospede. Indignou-se o guitarrista da feresa +do seu companheiro, e lembrou-se d'um facto +semelhante que em Portugal occorrera durante a +primeira invasão franceza. Em Abrantes, em 1807, +um official portuguez poupou a vida de Junot; sem +embargo, fôra, dias depois, fuzilado, não sei a que +pretexto, por ordem do mesmo Junot.</p> + +<p>O guitarrista, applicando ao caso esta recordação<span class="pn"><a name="pag_189">{189}</a></span> +da sua mocidade, começou a dar ao cão o nome do +general francez.</p> + +<p>Ao cabo d'algum tempo de convivencia, o nome +não tinha razão de ser, porque homem e cão viviam +em boa camaradagem; todavia subsistiu. As proprias +donas do casebre se habituaram a dizer <i>Junot</i> em +vez de <i>Janota</i>. Em tamanha pobresa permaneceu o +guitarrista até novembro de 1857, epoca em que o +meu amigo, o sr. Antonio Martins Leorne, teve casualmente +occasião de falar-lhe.</p> + +<p>Passava na Batalha quando o guitarrista, sentado +nas escadas da egreja de Santo Ildefonso, estava +sendo chasqueado por trez estudantes do seminario +episcopal. Movido de indignação, subiu as escadas, +e ameaçou os seminaristas com denuncial-os ao prelado. +Os rapazes debandaram amedrontados, e o +guitarrista levantou-se para agradecer ao sr. Leorne. +Pelas breves palavras que trocaram, conheceu este +cavalheiro que estava ali um lucido espirito e um +nobre coração esmagados pela desgraça. Tanto bastou +para começar a protejel-o, até que no mez de +novembro d'esse anno conseguiu que fosse admittido +no hospital dos Entrevados de Cima de Villa. O guitarrista +acceitou reconhecido. Mas, quando lhe foi imposta +a condição de usar o vestuario dos asylados, +reagiu tenazmente. Só puderam convencel-o a transigir +repetidas instancias do sr. Leorne.</p> + +<p>Durante a sua estada no hospital de Cima de Villa, +grato á protecção recebida, abriu-se em frequentes +confidencias com o seu protector. Algumas vezes +lhe escreveu, assignando-se Graça Strech, se bem +que os registos de admissão e obito o nomeiem Conceição +Graça.</p> + +<p>Bem póde ser que o infeliz, talvez por melindre +que nos não é dado perscrutar, negasse ao escripturario +o verdadeiro appellido de sua familia, e facilmente +se comprehende que o registo de obito foi +modelado pelo registo de entrada no hospital.</p> + +<p>O leitor, antes de eu ter denunciado o nome do +estranho guitarrista, já o havia conhecido de certo, +confrontando-o com a personagem que apparece nas +primeiras paginas d'este livro, e achando-os em tudo +semelhantes.</p> + +<p>Graça Strech falleceu no hospital dos Entrevados +de Cima de Villa a 20 de maio de 1850. Antes de expirar,<span class="pn"><a name="pag_190">{190}</a></span> +entregou ao seu protector, que lhe assistiu aos +ultimos momentos, a medalha da guerra peninsular, +com que fôra condecorado, e que o sr. Leorne ainda +hoje possue<sup><a href="#nota15" name="m_nota15">[15]</a></sup>. O annel mysterioso, por expressa recommendação do moribundo, desceu com o cadaver á +sepultura. Outra piedosa pessoa, a quem o sr. Leorne +revelára as qualidades e soffrimentos de Graça Strech, +se encarregou de fazer-lhe os funeraes na capella do +Prado do Repouso, reservando para si a guitarra +que elle por tão longos annos dedilhára.</p> + +<p>Aqui podia terminar a biographia de José Maria da +Graça Strech, mas, para que fique mais completa, +concluiremos copiando textualmenle as unicas palavras +que até hoje falavam d'elle:</p> + +<p> </p> + +<p class="sinopse"><i>João José Duarte Machado, capellão director do cemiterio do Prado do Repouso, n'esta cidade do Porto:</i></p> + +<p>«Certifico que no livro quarto do registo dos obitos +e enterramentos dos adultos, a folhas trezentas +setenta e sete, verso, se acha o assento seguinte:</p> + +<p>«José Maria da Conceição Graça, filho de Francisco +Pinto Graça, e de Maria da Gloria, natural do +Porto, edade sessenta e seis annos, estado solteiro, +profissão mendigo, morador que foi no Hospital de +Cima de Villa, dos Entrevados, falleceu de molestia +não denominada pelas nove horas da noute do dia +vinte de maio de mil oitocentos cincoenta e nove; +depois de se lhe rezarem os responsos do costume +foi sepultado pelas oito horas da noute do dia vinte +e um do dito mez n'este cemiterio publico—Prado +do Repouso—no canteiro numero tres, sepultura +dois mil trezentos e seis, de que se fez este termo +que assigno com o reverendo capellão. Eu Antonio +José Antunes Barbosa, director, o subscrevi. <i>Antonio +José Antunes Barbosa</i>, director. <i>Francisco Alves da +Soledade</i>, capellão.</p> + +<p>«Não contém mais o dito assento, ao qual me reporto. +Porto e Cemiterio do Prado do Repouso, nove +de setembro de mil oitocentos setenta e tres.</p> + +<p class="assin">«J<small>OÃO</small> J<small>OSÉ</small> D<small>UARTE</small> M<small>ACHADO</small>.»</p> + +<p class="assin">«Capellão director.»</p> + +<p> </p> + +<p class="centrado"><big>FIM</big></p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a href="#m_nota15" name="nota15">[15]</a></sup> +Em 1873.</p> +</div> + +</div> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_191">{191}</a></span></p> + +<h2>INDICE</h2> + + +<table align="center" summary="Indice"> +<tr><td colspan="2">Prologo da 3.ª edição</td><td><a href="#pag_5">5</a></td></tr> + +<tr><td align="right">I—</td><td>O Desgraça</td><td><a href="#pag_7">7</a></td></tr> + +<tr><td align="right">II—</td><td>Na quinta das Chãs</td><td><a href="#pag_10">10</a></td></tr> + +<tr><td align="right">III—</td><td>Pomba que presente sangue</td><td><a href="#pag_19">19</a></td></tr> + +<tr><td align="right">IV—</td><td>Horrores da invasão</td><td><a href="#pag_28">28</a></td></tr> + +<tr><td align="right">V—</td><td>O juramento da vingança</td><td><a href="#pag_38">38</a></td></tr> + +<tr><td align="right">VI—</td><td>A mariposa do acampamento</td><td><a href="#pag_47">47</a></td></tr> + +<tr><td align="right">VII—</td><td>No hospital de sangue</td><td><a href="#pag_55">55</a></td></tr> + +<tr><td align="right">VIII—</td><td>O anjo da liberdade</td><td><a href="#pag_63">63</a></td></tr> + +<tr><td align="right">IX—</td><td>Entre a vingança e o amor</td><td><a href="#pag_72">72</a></td></tr> + +<tr><td align="right">X—</td><td>A hora do resgate</td><td><a href="#pag_82">82</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XI—</td><td>O que a vivandeira pensava</td><td><a href="#pag_90">90</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XII—</td><td>Amor e ciume</td><td><a href="#pag_101">101</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XIII—</td><td>Como acaba a tragedia de Goethe</td><td><a href="#pag_109">109</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XIV—</td><td>Quanto custa ser mãe</td><td><a href="#pag_118">118</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XV—</td><td>A queda do gigante</td><td><a href="#pag_127">127</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XVI—</td><td>Uma festa no Porto ha cincoenta e +nove annos</td><td><a href="#pag_136">136</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XVII—</td><td>Como madrugam as aves e os noivos!</td><td><a href="#pag_146">146</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XVIII—</td><td>A lenda d'Ashaverus</td><td><a href="#pag_155">155</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XIX—</td><td>A terra da promissão</td><td><a href="#pag_165">165</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XX—</td><td>O manuscripto de Pietro</td><td><a href="#pag_174">174</a></td></tr> + +<tr><td align="right">XXI—</td><td>Epilogo</td><td><a href="#pag_184">184</a></td></tr> +</table> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Annel Mysterioso, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ANNEL MYSTERIOSO *** + +***** This file should be named 33749-h.htm or 33749-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/3/3/7/4/33749/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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