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diff --git a/33752-h/33752-h.htm b/33752-h/33752-h.htm new file mode 100644 index 0000000..7e07a77 --- /dev/null +++ b/33752-h/33752-h.htm @@ -0,0 +1,2981 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>Os Netos de Camillo, por Alberto Pimentel</title> + <meta name="Author" content="Alberto Pimentel"> + <meta name="Edition" content="Lisboa: Empresa da Historia de Portugal, 1901."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + text-decoration: none; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;} + h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 2em;} + h2 {text-align: center; margin-top: 3em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + #corpo p.centrado {margin: 0; text-indent: 0; text-align: center;} + #corpo p.assin {margin: 0; text-align: right; margin-right: 2em;} + #corpo .imagem_full {} + #corpo .imagem_full p {text-indent: 0; font-size: small;text-align: center;} + .imagem_full p {text-indent: 0; font-size: small;text-align: center;} + #corpo blockquote p {text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000; } + blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: 0.7em; + color: gray; + margin-left: 2em; + margin-right: 2em; + } + .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;} + .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;} + .ntransc {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Os netos de Camillo, by Alberto Pimentel + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Os netos de Camillo + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: September 17, 2010 [EBook #33752] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: UTF-8 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS NETOS DE CAMILLO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<div class="ntransc"> +<p><b>Notas de transcrição:</b></p> + +<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1901.</p> + +<p>Foi mantida a grafia usada na edição original de 1901, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e +que por isso não foram assinalados.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.4em;"><em>ALBERTO PIMENTEL</em></p> + +<p style="font-size: 2.5em;"><em>Os Netos <br> + de Camillo</em></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> +EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL<br> +<small>Sociedade editora<br> +LIVRARIA MODERNA<br> +<em>R. Augusta, 91</em><br> +TYPOGRAPHIA<br> +<em>35, R. Ivens, 37</em></small><br> +MDCCCCI</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 2em;">OS NETOS DE CAMILLO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/camillo.jpg"></p> + +<p>CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> + +<p><em>(Copia de um retrato a crayon que pertence aos netos do grande +escriptor)</em></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> +<hr style="width: 30%;"> + +<p style="font-size: 2.5em;">OS NETOS DE CAMILLO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote style="margin-left: 40%;"> + <p>Das flôres surgirão pomos?...<br> + Se Deus regar os arbustos!</p> + + <p> T<small>OMAZ</small> R<small>IBEIRO</small>.</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> +EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL<br> +<small>Sociedade editora<br> +LIVRARIA MODERNA<br> +<em>R. Augusta, 91</em><br> +TYPOGRAPHIA<br> +<em>35, R. Ivens, 37</em></small><br> +MDCCCCI</p> + +<p> </p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/anna.jpg"></p> + +<p>D. ANNA ROSA CORREIA</p> +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_5">{5}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1>OS NETOS DE CAMILLO</h1> + +<p>Fui hontem, 20 de agosto, a S. Miguel de Seide fazer uma romagem de +saudade.</p> + +<p>Quando Camillo era vivo, sempre que eu vim a Santo Thyrso não deixei nunca +de visitar o grande romancista na sua melancolica Thebaida.</p> + +<p>Agora que elle é morto e repousa longe, no cemiterio da Lapa, fui em +peregrinação devota contemplar o tumulo em que viveu e agonisou: a casa +solitaria de Seide, onde cada pedra parece ser um epitaphio que chora +resignadamente por elle no silencio e na mudez de uma aldea minhôta.</p> + +<p>Esta casa, a que o proprio Camillo chamou «o albergue arruinado de S. Miguel +de Seide», é uma reliquia historica, um monumento nacional, como a casa de +Shakspeare em Stratford-sur-Avon ou como a casa de Goethe em Francfort.</p> + +<p>É ou deve ser.<span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span></p> + +<p>Para mim tem o que quer que seja de venerando, como um castello +desmantelado, onde a nossa gente tivesse ganho outr'ora cem victorias +gloriosas, de que eu proprio houvesse sido testemunha...</p> + +<p>Sahi de Santo Thyrso ao amanhecer e almocei em Landim.</p> + +<p>Devo ao sr. Adriano Trêpa, meu presado amigo, a honra de acompanhar-me.</p> + +<p>Vi de passagem <a name="antigo" id="antigo" href="#L2599">a cêrca do antigo +mosteiro de Landim</a>, hoje propriedade da familia Leal e Sousa.</p> + +<p>Um filho do dono da casa, o sr. Manuel Vicente Leal, que ia a sahir n'esse +momento, retrocedeu de bom grado para nos servir amavelmente de cicerone.</p> + +<p>Eu, quando viajo, não gosto de fazer prevenções, nem aos outros, nem a mim +proprio. Sou o viajante mais despreoccupado que pode haver; entrego-me +inteiramente ao acaso, e sempre me tenho dado bem com isso.</p> + +<p>A cêrca do mosteiro está transformada; poucos vestigios restam ainda do +tempo dos frades. Ha trechos de buxo em algumas ruas, e «o jogo da bola», que +era vulgar nos conventos do sexo masculino, subsiste menos mal conservado.</p> + +<p>As freiras, se cultivavam este jogo, era no plural...</p> + +<p>Já posteriores á extincção das ordens religiosas, vi carvalheiras enormes, +medindo de circumferencia mais de quarenta palmos. Uma d'ellas fôra lascada por +um raio, de alto a baixo. Vi tambem, digna de<span class="pn"><a +name="pag_7">{7}</a></span> menção, uma rua de australias, arvores cujo cerne +imita o pau preto e é, por isso, madeira apreciada.</p> + +<p>Conversando com o sr. Manuel Vicente, perguntei-lhe se Camillo teria +phantasiado muito a respeito do <em>Cego de Landim</em>.</p> + +<p>—Nada, absolutamente. Camillo ainda não disse tudo. O «cego» era um +perverso homem.</p> + +<p>—E onde morava aqui?</p> + +<p>—N'uma casa por detraz d'aquella capella.</p> + +<p>Indicou-me a capella de S. Braz, onde todos os annos se realiza uma pomposa +festa, com arraial e feira.</p> + +<p>Tambem o sr. Manuel Vicente me indicou o antigo collegio de Landim, em que +foram educados muitos rapazes do Minho, que hoje são honra e brilho da sua +provincia.</p> + +<p>O sr. Trêpa e eu fomos almoçar á estalagem do Rodrigues, n'uma varanda +envidraçada, que dava sobre campos emplumados de basto arvoredo.</p> + +<p>Notei que Landim é uma terra abundante de alfaiates. Só á porta de uma casa, +vi sete trabalhando ao ar livre; fizeram-me lembrar a historia dos sete +alfaiates lendarios, que foram precisos para matar uma aranha.</p> + +<p>Mal acabamos de almoçar, partimos para Seide, onde chegamos perto das dez +horas da manhã. O sol tinha já descoberto; a nevoa, que havia sido intensa, +dissipara-se completamente.<span class="pn"><a name="pag_8">{8}</a></span></p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Os meus olhos esperavam avidamente o momento de avistar a casa que fôra de +Camillo.</p> + +<p>Tomados de um instinctivo respeito, iamos ambos calados, o sr. Trêpa e +eu.</p> + +<p>De repente, surgiu-nos o portão ensombrado por duas grandes acácias, que +pendem sobre elle.</p> + +<p>—É ali! disse eu.</p> + +<p>—É ali! repetiu o sr. Adriano Trêpa.</p> + +<p>E, passando respeitosamente por deante do portão, que dá para o largo da +egreja parochial, dirigimo-nos á casa onde actualmente residem os netos de +Camillo, a dois passos de distancia.</p> + +<p>Toda a gente se lembra ainda da deploravel questão que, a meu pezar, +sustentei com o visconde de S. Miguel de Seide, segundo-genito de Camillo, +sobre a existencia de uma filha natural do grande romancista, casada no +Porto.</p> + +<p>Tive receio de que a recordação d'essa acerba polemica estivesse ainda muito +viva no espirito da sr.ª D. Anna Rosa Corrêa.</p> + +<p>Adoptei por isso a precaução de apresentar-me sob o nome que primeiro me +lembrou, ao solicitar o obsequio de ser recebido como admirador fervoroso de +Camillo.</p> + +<p>Acolheu-me gentilmente a dona da casa, que immediatamente chamou alguns de +seus filhos, não todos,<span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span> porque +dois d'elles, Camillo e Manuel, tinham sahido pela manhã.</p> + +<p>Notei que por vezes a sr.ª D. Anna Corrêa, mãe d'aquellas creanças herdeiras +de um nome glorioso e de pouco mais, me observava com certa curiosidade.</p> + +<p>Soube comtudo manter-se n'uma discreta reserva, não arriscando duvida alguma +sobre a minha identidade.</p> + +<p>Fingiu acreditar que eu era «um Araujo» admirador de Camillo, desejoso de +conhecer os netos do grande romancista e de visitar a casa onde elle morreu.</p> + +<p>Apresentou-me Flora, sua filha mais velha, quinze annos de idade, alta e +elegante como um pinheiro novo, de uma simplicidade de maneiras ao mesmo passo +graciosa e senhoril; e Rachel, quatro annos mais nova, cujo vago olhar revela +morbidez e melancolia.</p> + +<p>—Esta menina, disse-me a sr.ª D. Anna Corrêa, era a predilecta da +avó.</p> + +<p>—Aventuro-me a conjecturar, respondi eu, que o nome de Rachel foi +escolhido por Camillo.</p> + +<p>—Isso mesmo... confirmou a minha amavel interlocutora esboçando um +sorriso. Nós queriamos que se chamasse Anna, como a sr.ª viscondessa, mas o sr. +visconde (Camillo) oppoz-se, dizendo que esse nome era infeliz na familia. +Referia-se á sr.ª viscondessa e a mim...</p> + +<p>—Rachel, observei eu, exprimia na vida de Camillo a saudade do +passado. Com esse nome foi designada<span class="pn"><a +name="pag_10">{10}</a></span> a sr.ª D. Anna Placido em muitos dos versos +amorosos que ella lhe inspirou.</p> + +<p>—Exactamente. É verdade.</p> + +<p>Apresentou-me depois os restantes filhos que estavam em casa: Nuno e Simão, +em cujas physionomias, doces e intelligentes, prevalece um accentuado typo de +familia.</p> + +<p>—Simão, observei eu, tambem foi um nome intencionalmente escolhido.</p> + +<p>A sr.ª D. Anna confirmou com um gesto.</p> + +<p>—É o do protogonista do <em>Amôr de perdição</em>, acrescentei. Oxalá +que este menino seja mais feliz.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Como eu tivesse insistido no desejo de vêr o pequeno Camillo, por saber que +era o neto querido do avô, foram procural-o emquanto conversavamos a respeito +de seus irmãos.</p> + +<p>E iamos já a sahir em visita á casa onde o grande Camillo morreu, quando +appareceu o joven Camillo, denunciando um certo ar de extranheza no olhar +suavemente penetrante e perspicaz.</p> + +<p>—Este menino, disse-me a sr.ª D. Anna, nasceu a 16 de maio de 1888, no +mesmo dia em que o avô fazia annos. Nos <em>Amores de Camillo</em> vem esta +observação, que é exacta.</p> + +<p>Procurei mostrar-me indifferente á citação do meu livro, comquanto me fosse +agradavel a certeza de que<span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span> a +sr.ª D. Anna Corrêa o conhecia e indicava como fonte auctorisada em minudencias +biographicas.</p> + +<p>A physionomia do pequeno Camillo é, em verdade, a mais expressiva entre +todos os netos do grande romancista.</p> + +<p>Essa creança revela uma luminosa precocidade de intelligencia. Não sendo +robusto, como nenhum dos seus irmãos o é tambem, parece mais debil e menos +expansivo que elles. Tem o que quer que seja de gravidade prematura quando +escuta enconchando a mão sobre a orelha direita, porque padece de dureza de +ouvido, como seu irmão Nuno. Tudo faz esperar que elle seja o continuador da +gloria literaria do avô. Esta convicção parece estar arreigada no espirito de +toda a familia, que a recebeu do grande romancista, o qual dizia muitas vezes +ao pequeno Camillo:</p> + +<p>—Se eu tornar a vêr, vou comtigo para Coimbra.</p> + +<p>Apezar dos escassos recursos de que a sr.ª D. Anna Corrêa dispõe, julgou seu +dever não se poupar aos maiores sacrificios para iniciar convenientemente a +educação d'este filho.</p> + +<p>O pequeno Camillo estuda em Braga, onde vae cursar agora o terceiro anno do +curso geral dos lyceus.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>As terras de Seide não podem abastar ao sustento e educação de tão numerosa +prole. Dariam regular passadio para uma ou duas pessoas, apenas. Mas para<span +class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span> educar tantas creanças não chegam. +De mais a mais estão oneradas com um pezado fôro de setenta razas de milho alvo +e centeio, pago annualmente ao abbade, e com os juros de uma hypotheca á +Misericórdia de Villa Nova de Famalicão. São terras sêccas e por isso pouco +fecundas: apenas alli tem maior valor a casa de habitação, que foi mandada +construir pelo visconde de S. Miguel de Seide, e que é muito superior em +capacidade e aspecto áquella em que o grande romancista viveu e morreu.</p> + +<p>A hypotheca abrange tambem este ultimo predio.</p> + +<p>A pensão que foi votada pelo parlamento a Camillo Castello Branco, cessou +com a morte de seu filho Jorge.</p> + +<p>Portanto os descendentes de Camillo, se lhes não acudir o Estado, como deve, +terão de luctar com as maiores difficuldades para receber educação condigna do +nome illustre que representam.</p> + +<p>—Ver-me-hei na necessidade, dizia-me a sr.ª D. Anna, de mandar este +menino (Camillo) para o commercio no Porto ou em Braga, bem como os outros.</p> + +<p>E o seu rosto, macerado pelos desgostos e trabalhos da vida, que a +envelheceram prematuramente, cobria-se de uma espessa nuvem de melancolicas +apprehensões.</p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/flora.jpg"></p> + +<p>FLORA</p> +</div> + +<p>—Tenho feito quanto tenho podido, continuou a sr.ª D. Anna, a bem +d'estes meninos, mas não poderei aguentar por muito mais tempo tão difficil +esforço. Flora fez exame de instrucção primaria. Nenhum dos outros irmãos é +analphabeto. Manuel, que não lhe<span class="pn"><a +name="pag_13">{13}</a></span> posso apresentar, está em Landim a dar lição; só +recolhe á noite. Nenhum dos meus filhos tem repugnancia pela instrucção, nem é +preciso chamal-os para irem á escola, sendo Camillo o mais madrugador e +estudioso de todos. Triste de mim, se tiver de lhes dar um destino que não seja +o das letras. Mas não posso... não posso.</p> + +<p>Não foi como consolação banal que lhe respondi:</p> + +<p>—Não desespere, minha senhora. Portugal é prodigo em conceder pensões, +e este acho eu que será o menor defeito de toda a nossa administração publica, +porque mais vale evitar que alguns portuguezes morram á fome, do que dar um +triste exemplo de ingratidão nacional. Todos nós sabemos que esta ou aquella +pensão é, entre muitas outras, mais explicavel pela generosidade do que pela +justiça. Mas a que se conceder á memoria de Camillo, na pessoa de seus netos, +pelo menos até á maioridade d'elles, alem de poder ser a mais parcimoniosa de +todas, será a mais justa entre as que a si mesmas se justificam plenamente. +Camillo é um d'estes escriptores que representam uma nacionalidade: a sua obra +é a alma de um povo.</p> + +<p>A sr.ª D. Anna enxugou uma lagrima nos seus olhos de um azul muito claro, +tão quebrados pelo soffrimento como o poderiam ser por uma longa vigilia.</p> + +<p>Quantas noites, em verdade, não desvelará esta boa creatura a pensar no +incerto futuro de seis filhos, entregues ao seu heroismo maternal, unica força +que parece vitalisar-lhe o corpo depauperado pela anemia<span class="pn"><a +name="pag_14">{14}</a></span> e envelhecido prematuramente por uma vasta serie +de inconfessaveis desgostos!</p> + +<p>Depositária de um nome illustre, e de uma das mais solidas glorias +literarias do nosso tempo, que deverá restituir intacta a seus filhos depois de +os ter preparado de modo a saberem continual-a dignamente, a sua missão é +espinhosa e agra, sobretudo se a patria a desamparar, o que seria um crime +affrontoso, e uma ingratidão odiosa.</p> + +<p>Os netos de Camillo, vivendo n'um affastado rincão do Minho, entre dois +campos hypothecados, não téem a espreital-os a <em>reportagem</em> dos jornaes, +a vigilancia dos Argus de botequim, nem a attenção dos centros literarios e +aristocraticos. Os montes que os rodeiam, não deixam vel-os de longe; +especialmente de Lisboa. É preciso lembral-os, pol-os deante dos olhos da +patria, e esse é o unico intuito que inspirou a publicação d'este opusculo.</p> + +<p>Dilemma inilludivel: Deixar ao abandono seis creanças, que hão de perpetuar +uma geração illustre, ou protegel-as com uma exigua mealha, que abastará ás +modestas necessidades de pessoas educadas na vida aldeã, no trato simples de +camponezes, e sobriamente habituadas ao caldo verde do Minho.</p> + +<p>Quem deixará sossobrar em tão fragil batel seis creanças desprotegidas, +podendo facilmente salval-as, e com ellas uma das mais authenticas e genuinas +glorias nacionaes?</p> + +<p>Ninguem. A consciencia publica é o ultimo alento que morre nos povos que se +deixaram enfermar de<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span> +leviandades e desacertos continuados. Nós somos um povo doente d'essa pécha. +Mas a consciencia ainda reage por vezes, brada, impõe-se, faz-se ouvir e +attender.</p> + +<p>Entreguemos, pois, esta demanda á consciencia publica.</p> + +<p>O unico dos netos de Camillo que eu não pude vêr em S. Miguel de Seide, foi +Manuel, o mais novo, nascido em 1893.</p> + +<p>O seu nome tambem obedeceu a uma propositada escolha: era o do pae do grande +romancista.</p> + +<p>A julgar pelo retrato, parece ser o mais alegre de todos elles, privilegio +que a sua edade, aliás, explica.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Acompanhados pela sr.ª D. Anna Corrêa, dirigimo-nos, o sr. Adriano Trêpa e +eu, para a casa onde morreu Camillo, a qual está actualmente deshabitada, com +excepção do pavimento terreo, que é residencia do caseiro.</p> + +<p>Aberto o portão, entramos na sombra de uma latada de alvaroco, cujos cachos +brancos pendiam vagamente doirados por tenues raios de sol, que as folhas +verdes coavam.</p> + +<p>Olhei logo para um recanto, á esquerda, onde eu sabia existir <a +name="monumento" id="monumento" href="#L2597">o monumento commemorativo da +visita de Castilho, «o principe da lyra portugueza», a S. Miguel de Seide, em +julho de 1866</a>.<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span></p> + +<p>Castilho, que partira de Lisboa acompanhado por seu filho Eugenio, tinha +alli, n'aquelle torrão do Minho, uma côrte de letrados, verdadeira <em>côrte +n'aldeia</em>, a render-lhe homenagem: compunham-n'a Camillo, Anna Placido, +Thomaz Ribeiro e Vieira de Castro.</p> + +<p><a name="inscrip" id="inscrip" href="#L2587">A inscripção está quasi +apagada, como já se apagou tambem a vida das pessoas a quem ella se +referia.</a> Cresceram hervagens e ramos que sombriamente afogaram o +monumentosinho. Parece um tumulo esquecido na solidão de um cemiterio.</p> + +<p>Recordei então <a name="dedicat" id="dedicat" href="#L2589">a dedicatória da +<em>Maria Moysés</em> a Thomaz Ribeiro</a>.</p> + +<p>Quando eu estava olhando para aquella pedra triste, visinha silenciosa de +uma casa não menos triste, assomou ao portão um individuo, que desconheci, um +velho rijo, de physionomia agradavel, cujo trajo me denunciou logo o camponez +polido.</p> + +<p>A sr.ª D. Anna Corrêa apresentou-m'o, pois que o sr. Trêpa já o conhecia: +era o sr. Francisco Corrêa de Carvalho, dedicado amigo de Camillo, quasi +familiar na casa de Seide, e proximo visinho.</p> + +<p>Como notasse que eu estava olhando para o monumento, o sr. Carvalho, muito +expansivo, contou logo que um dia, nos ultimos annos da vida de Camillo, parára +um trem ao portão, o que deu rebate de uma visita inesperada, facto que de +longe a longe acontecia.</p> + +<p>Camillo preparou-se para receber algum amigo; mas não apparecia ninguem. +Sahiram varias pessoas, entre ellas o sr. Carvalho, a averiguar o +extraordinario<span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span> caso da +carruagem, que parecia ter vindo vasia e parado ali sem destino.</p> + +<p>Então descobriram o vulto de um homem junto ao monumento, e voltado para +elle. Aproximando-se cautelosamente, pé ante pé, reconheceram n'esse extranho +visitante, Thomaz Ribeiro, que chorava, abraçando-se com a pedra.</p> + +<p>Chorava memorias do passado, memorias de si mesmo, da sua mocidade +longinqua, de Castilho morto, de Vieira de Castro duas vezes morto, primeiro no +tribunal, depois no tumulo; do filho de Castilho, apodrecido n'um leito, e de +Camillo, ali tão proximo, crucificado no Calvario de todas as dores reaes e +imaginarias que lhe attribularam incessantemente a existencia.</p> + +<p>Fiz reparo em que o sr. Carvalho, chamando de parte o sr. Trêpa, trocára com +elle algumas palavras.</p> + +<p>Tive depois a explicação d'este incidente; e o leitor tel-a-ha tambem, a seu +tempo.</p> + +<p>Mas, rapidamente, o sr. Carvalho voltou a falar comigo ácerca do monumento, +e do facto que elle memorava: a visita de Castilho a Seide.</p> + +<p>—Fez-se aqui, dizia-me o sr. Carvalho, uma linda illuminação. Vieram +cantadores, entre os quaes se distinguiram o <em>Gallego</em> e a <em>Rosa +Cantadeira</em>. Castilho mostrou-se admirado com os improvisos do +<em>Gallego</em>, sempre espontâneos e, por via de regra, muito maliciosos. +«Quero, dizia Castilho, que me descrevam a cara d'este homem; que pena tenho de +o não vêr! Mas calculo que a sua physionomia ha de ter tanta<span class="pn"><a +name="pag_18">{18}</a></span> expressão como a de um actor comico. Por força!» +Nunca mais, concluia o sr. Carvalho, poderei <a name="esquecer" id="esquecer" +href="#L2583">esquecer essa noite de festa, que foi talvez a unica noite feliz +n'esta casa</a>.</p> + +<p>Emquanto o sr. Carvalho discursava com a verbosidade ardente de um rapaz, +poisei os olhos sobre a <em>acacia do Jorge</em>, de cujas amplas frondes cahia +uma sombra profunda e saudosa.</p> + +<p>E fui repetindo, irreflectidamente, os versos de Camillo:</p> + +<blockquote> + <p>Quando a acacia do Jorge ainda outra vez inflore,<br> + Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei.</p> +</blockquote> + +<p>A sr.ª D. Anna Corrêa, encostada n'esse momento ao mainel da escada, que +iamos subir, disse com maviosa expressão de tristeza:</p> + +<p>—Tantas vezes tem já florido, depois que elle morreu!</p> + +<p>Eu completei mentalmente o seu pensamento: «E ainda não voltou...»</p> + +<p>Noticiei á sr.ª D. Anna que um poeta da moderna geração, dos melhores, se +não o melhor, havia recentemente cantado <em>A acacia do Jorge</em> em quadras +maviosas, de que brotavam lagrimas em fio, melancolicamente, como gotas d'agua +cahindo tristes de uma fonte solitaria.</p> + +<p>Posso agora completar essa informação, reproduzindo integralmente a poesia +de Affonso Lopes Vieira:<span class="pn"><a name="pag_19">{19}</a></span></p> + +<blockquote> + <p> A ACACIA DO JORGE</p> + + <p>Camillo! como acreditar, como hei de<br> + Entender estes versos que deixaste?<br> + Floriu a Acacia em S. Miguel de Seide,<br> + Cada anno te espera,—e não voltaste!</p> + + <p>Já tantas vezes deu a sombra amiga,<br> + Que tu gostavas tanto de gozar...<br> + Florida, tem um ar de festa antiga<br> + Na esperança de te vêr voltar!</p> + + <p>Voltar? A velha arvore que cance!...<br> + Por fim ha de ruir, n'uma amargura.<br> + Prepáras lá um ultimo romance?<br> + Suprema indiscreção! Genio e loucura!</p> + + <p>Dolorosa novella desmanchada,<br> + E que nos deixe pallidos e absortos,<br> + Onde nos digas, grande camarada,<br> + O gordo amor de brazileiros mortos!</p> + + <p>Os Amorosos, que se vão chorando<br> + Á porta do convento, e amortalhar-se...<br> + Com habitos de terra aconchegando<br> + Os esqueletos de ossos a chocar-se...</p> + + <p>Um romance da cova, com morgados<br> + Que o além desbastou; com almas finas<br> + De mysticas de Amor, lindas Meninas<br> + Em mosteiros chorando, abandonados!</p> + + <p>E a descomposta, lugubre risada<br> + De romantica bocca, que era a tua,<br> + N'esses reinos da Morte gargalhada<br> + Sobre defuntos namorando á lua!<span class="pn"><a + name="pag_20">{20}</a></span></p> + + <p>E toda a vã e toda a derradeira<br> + Esperança do cabo da viagem;<br> + Com descriptivos, á tua maneira,<br> + D'esse Minho da Morte da paisagem...</p> + + <p>Ó Acacia! é já tempo: desesperas?<br> + Não te ponhas florida, põe-te aos ais!...<br> + Nunca mais voltará esse que esperas,<br> + Ouves bem este horror? Jámais! Jámais!</p> + + <p>E os versos d'elle, onde a saudade existe,<br> + Que á despedida te gritou tambem,<br> + Ah! não são mais que uma mentira triste:<br> + Como tudo, a final, que nos faz bem.</p> + + <p>Poetas! perguntae ao pensamento<br> + Que mais chimeras e desgraças forge?<br> + Antes te séque um raio, ou parta o vento!<br> + Ó Acacia do Jorge...</p> +</blockquote> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Fomos subindo vagarosamente os degraus da escada de pedra, sobre a qual +pende, chorosa, a farta ramagem da acacia. O caseiro tinha aberto as portas. +Entrámos. Todos nós, os homens, nos descobrimos a um tempo, respeitosamente.</p> + +<p>A lembrança do que eu vira ali ha dezeseis annos aclarava-se no meu espirito +com uma grande nitidez de saudade rediviva.</p> + +<p>Eu ia dizendo:</p> + +<p>—Era aqui a casa de jantar.<span class="pn"><a +name="pag_21">{21}</a></span></p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/camillo_jr.jpg"></p> + +<p>CAMILLO</p> +</div> + +<p>A sr.ª D. Anna Corrêa confirmava.</p> + +<p>Passámos depois á sala em que estivera o bilhar e onde Camillo costumava +receber as suas visitas de maior cerimonia.</p> + +<p>A sr.ª D. Anna disse, indicando o vão de uma janella:</p> + +<p>—Foi aqui que se matou, sentado na cadeira de baloiço.</p> + +<p>E, longamente, a sr.ª D. Anna reconstituiu todo esse rapido drama de +desespero atroz.</p> + +<p>—O sr. visconde (Camillo) estava vivendo comnosco, no outro predio, +onde habitava o melhor quarto do segundo andar. Mas sempre que tinha visitas, +vinha aqui recebel-as. Foi o que aconteceu n'esse dia, quando chegou de Aveiro +o medico Edmundo Machado, que já tambem falleceu. O sr. visconde parecia +tranquillo antes do medico chegar.</p> + +<p>O sr. Carvalho interrompeu, dizendo:</p> + +<p>—Na vespera tinha andado a passeiar pelo meu braço ali no largo, em +frente da egreja. Como começasse a soprar uma aragem fresca, o sr. visconde +disse-me: «Vamos embora, que tenho medo de uma pneumonia.» Ainda na vespera do +suicidio temia tanto a morte!</p> + +<p>—É verdade! confirmou a sr.ª D. Anna Corrêa. Perguntou o sr. visconde +ao medico se quereria encarregar-se de o tratar da cegueira em Aveiro. O doutor +respondeu que seria melhor ir primeiro tomar as aguas do Gerez. O sr. visconde +viu certamente n'estas palavras o artificio de uma dilação para evitar<span +class="pn"><a name="pag_22">{22}</a></span> um desengano. Momentos depois o +medico despediu-se, e a sr.ª viscondessa e o sr. Carvalho acompanharam-n'o até +á escada. Ouviu-se então a detonação de um tiro. Retrocederam todos. O sr. +visconde estava prostrado na cadeira, arquejando. Não se lhe viu, no primeiro +momento, ferimento algum. Foi só algum tempo depois que uma gotinha de sangue +aflorou no sitio onde a bala entrára, sobre a tempora.</p> + +<p>—O sr. visconde, perguntei eu, trazia sempre comsigo o rewolver?</p> + +<p>—Sempre; já o levára a Lisboa, onde um dia o experimentou, disparando +para o tecto. Mas o filho (Nuno) tinha substituido as balas por uns projecteis +inoffensivos, não sei de quê. O sr. visconde percebeu isto. Todavia não largára +mais o rewolver, nem consentia que lh'o tirassem.</p> + +<p>—De tanto o apalpar, observou o sr. Carvalho, já tinha a coronha +poída.</p> + +<p>A sr.ª D. Anna Corrêa concluiu a sua dolorosa narrativa dizendo:</p> + +<p>—Estavamos longe de imaginar que tivesse adquirido balas verdadeiras. +Todos suppunhamos o rewolver vasio. Foi uma surpreza terrivel.</p> + +<p>E todos nós, depois d'esta rapida reconstituição do drama de Seide, nos +demorámos ali, concentrados e silenciosos, por alguns momentos, como se +vissemos ainda Camillo, prostrado e arquejante, na sua cadeira de baloiço, +morrendo.<span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Subimos depois ao segundo andar.</p> + +<p>Eram ahi o escriptorio do romancista e os quartos de cama.</p> + +<p>No escriptorio, por onde agora a luz golphava livremente, restavam do antigo +mobiliario duas cadeiras de estofo, escanceladas e poentas.</p> + +<p>A nudez da sala, que o auctor de cem romances aquecera outr'ora com a +irradiação vulcanica do proprio cerebro, gelou-me de tristeza. Dava a impressão +de uma forja apagada. O tempo havia esfriado o rescaldo do ultimo livro. A +officina parecia dormir tambem o somno da morte, que prostrára o valoroso +artifice.</p> + +<p>Os aposentos de Camillo, alcova e saleta, estavam igualmente desnudados de +mobilia; apenas na parede havia pendentes alguns <em>croquis</em> do Jorge, e +dois quadrinhos de que eu me lembrava ainda perfeitamente.</p> + +<p>Tenho em Lisboa uma pasta cheia de desenhos, que o Jorge me deu ha dezeseis +annos. Por isso, mais do que aos seus <em>croquis</em>, prestei attenção aos +dois modestos quadrinhos, que durante longo tempo deram os bons dias e as boas +noites a Camillo, velando a seu lado, como companheiros fieis e amigos +intimos.</p> + +<p>São duas lithographias, que ninguem compraria n'um leilão, se ignorasse que +ellas tinham pertencido a Camillo e ornado o seu quarto de cama.</p> + +<p>Uma é o retrato de Theophile Gautier, que foi o<span class="pn"><a +name="pag_24">{24}</a></span> chefe do estado-maior no exercito do general +Victor Hugo, durante as campanhas incruentas do romantismo.</p> + +<p>A sua <em>toilette</em> caracterisa nitidamente essa época literaria, em que +os neóphytos revolucionarios procuravam desafiar a opinião publica e <em>épater +le bourgeois</em> exhibindo fatos alarmantes pelo exagero da côr e do córte.</p> + +<p>Primeiro que tudo, falemos da cabelleira romantica, essa floresta de +cabellos cahidos sobre os hombros, que denunciava á primeira vista os literatos +e os pintores.</p> + +<p>Agora, em nossos dias, muitos pintores e alguns poetas téem querido +resuscital-a por amor da celebridade; mas, ai d'elles! fazem lembrar os +mascarados que no carnaval moderno se vestem de pagens de Luiz XIV ou de +cortezãos de Luiz XV.</p> + +<p>Deslocados do seu meio e do seu tempo, apenas conseguem dar uma falsa noção +historica: são parcellas que sobrevivem a uma addição que se apagou.</p> + +<p>A cabelleira, como ornato capillar, efemina ridiculamente os homens de +hoje.</p> + +<p>Como caracteristica d'uma época, passou com essa época: é uma recordação +archeologica, que assenta melhor no muzeu do Carmo do que n'uma cabeça +humana.</p> + +<p>Theophile Gautier, que era então um rapaz, a quem o bigode pennujava ainda, +veste casaco de alamares—esse casaco-broquel, que defendia os corações +romanticos.<span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span></p> + +<p>O romantismo foi uma seita aguerrida, propensa a brigas e reptos. Por isso, +talvez, adoptou o casaco de alamares, que tinha o que quer que fosse de aspecto +militar, de lamina protegendo o peito de um couraceiro.</p> + +<p>No pescoço, um lenço de seda preta, alto como o gorjal de um cavalleiro +antigo.</p> + +<p>Honrado lenço de seda, que durante tanto tempo adornaste o pescoço de nossos +pais! tu tinhas uma eloquencia clamante e solemne. Davas ao pescoço humano uma +attitude erecta e firme, como a de um busto de marmore ou de um granadeiro em +formatura.</p> + +<p>Dir-se-ia que os pescoços, grossos e aprumados, tinham então musculos de +aço, a envergadura de uma aguia ou de um cysne. Precisavam uma encadernação +condigna, forte e austera.</p> + +<p>Depois vieram as gravatas multicores e multiformes, dando a impressão de +fitas garridas para adorno de damas.</p> + +<p>E a Academia Real das Sciencias decidirá, porque é muito capaz d'isso, se +foram os pescoços que adelgaçaram por amor das gravatas, se foram as gravatas +que adelgaçaram por amor dos pescoços.</p> + +<p>O outro retrato é de Alphonse Karr, tambem então em plena mocidade. Tem buço +e «mosca», levemente esboçados; e usa apenas meia cabelleira. Mas o effeito da +<em>toileite</em> compensa, como excentricidade de <em>pose</em>, a deficiencia +da cabelladura.</p> + +<p>Karr veste camisa de trabalho, desafogada no pescoço,<span class="pn"><a +name="pag_26">{26}</a></span> e sobre ella um amplo gabinardo, que tanto +poderia servir a um pescador ou um jardineiro, como a um escriptor em +actividade—porque tudo isso foi o auctor das <em>Guépes</em>, sendo elle +proprio uma obra em trez volumes.</p> + +<p>Tambem não sei se a Academia Real das Sciencias quererá dar parecer sobre o +facto, em que fiz reparo, de Theophile Gautier ter sobrancelhas desenhadas em +arco e Alphonse Karr sobrancelhas colleadas em til.</p> + +<p>Pode ser que das ponderações da Academia a este respeito venha a fazer-se +nova e difinitiva luz sobre a apreciação critica de Gautier e Karr.</p> + +<p>Ha muito a esperar da Academia, tanto mais que ella ainda não fez nada.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Da saleta de Camillo passámos ao quarto de cama da viscondessa de Correia +Botelho, igualmente desmobilado.</p> + +<p><a name="essa" id="essa" href="#L2581">Foi ali que essa linda mulher, de +fórmas esculpturaes</a>, envelheceu e expirou.</p> + +<p>D. Anna Augusta Placido falleceu repentinamente da ruptura de um aneurysma, +no dia 20 de setembro de 1895 pela manhã.</p> + +<p>Tinha accordado bem disposta e, a breve trecho, veio a morte +surprehendel-a.</p> + +<p>Após algumas golphadas de sangue, cahiu exanime na almofada do leito.<span +class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span></p> + +<p>Morreu corajosamente, rodeada pelos netos.</p> + +<p>Ella, que teve uns olhos cheios de brilho e de magia, estava quasi cega +quando morreu.</p> + +<p>Já não podia lêr, nem escrever.</p> + +<p>Eu ignorava esta circumstancia, que me foi agora communicada em Seide.</p> + +<p>Extranho destino o d'essas duas almas, Anna Placido e Camillo, que o amor +reuniu, que a convivencia torturou, e que a desgraça da cegueira feriu +implacavelmente na velhice, para que ambos exgotassem até ás fezes o mesmo +calix de amargura.</p> + +<p>Aqui terminou a nossa visita á casa deshabitada de Seide, rodeada de +«pinheiraes gementes», mais triste agora do que nunca.</p> + +<p>Por vezes o sr. Carvalho aligeirou a melancolia que nos acabrunhava ali, +evocando alguma recordação anecdotica da vida de Camillo.</p> + +<p>Quando sahiamos o portão da quinta, dizia-nos o sr. Carvalho:</p> + +<p>—Um dia, Camillo, vindo do Porto, preveniu o chefe da estação de Villa +Nova de que esperava brevemente a visita de um «bacharel» e pediu-lhe que o +guiasse para S. Miguel de Seide. Sempre que chegava um comboio, o chefe da +estação perguntava: «Vem ahi algum sr. doutor, que deseje ir para Seide?» +Ninguem respondia. Até que finalmente appareceu o «bacharel» annunciado: era um +burro que Camillo Castello Branco tinha comprado no Porto.<span class="pn"><a +name="pag_28">{28}</a></span></p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Como voltassemos á casa do Nuno, para nos despedirmos dos netos do grande +romancista, pois que só o pequeno Camillo nos tinha acompanhado, aproveitei o +caminho para fazer algumas perguntas á sr.ª D. Anna.</p> + +<p>—O sr. visconde de Corrêa Botelho não reservou para si alguns livros e +manuscriptos, quando vendeu a bibliotheca?</p> + +<p>Obtive esta resposta:</p> + +<p>—Sim, senhor. Mas a sr.ª viscondessa recommendou-me muitas vezes que +os não mostrasse a ninguem antes de entregal-os aos netos.</p> + +<p>Fiquei, confesso, um pouco contrariado, mas não tinha que replicar.</p> + +<p>Perguntei á sr.ª D. Anna por um antigo criado de Camillo, que eu conhecêra +na Povoa de Varzim e do qual o grande romancista me disse n'aquella praia: +«Manoel Canniço é a unica pessoa que manda na minha casa. Assumiu a dictadura e +não sabe governar d'outro modo: dava um bom ministro... constitucional.»</p> + +<p>Poucas horas depois sahiamos, Camillo e eu, para ir dar um passeio.</p> + +<p>O Manoel Canniço appareceu-nos na escada e interpellou seu amo +dizendo-lhe:</p> + +<p>—V. Ex.ª vai sem paletot?</p> + +<p>Camillo respondeu passivamente:<span class="pn"><a +name="pag_29">{29}</a></span></p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/nuno.jpg"></p> + +<p>NUNO</p> +</div> + +<p>—A tarde está quente, e nós demoramo-nos pouco.</p> + +<p>Manoel Canniço, em plena dictadura, replicou:</p> + +<p>—V. Ex.ª vai vestir o paletot; queira esperar, que vou buscal-o.</p> + +<p>Camillo encolheu os hombros, sorrindo. E ambos esperámos que o paletot +chegasse.</p> + +<p>Andámos visitando os cafés e as roletas. Quando recolhiamos a casa, passámos +por uma taberna onde estavam zangarreando viola. Camillo parou, olhou para +dentro da tasca, e disse-me: «Quem toca é o Manoel Canniço. Por isso é que eu o +soffro.»</p> + +<p>Segundo me contou a sr.ª D. Anna Correia, Manoel Canniço fôra para o Brazil, +onde se demorára alguns annos; regressou outro dia, mais pobre do que tinha +ido.</p> + +<p>Voltando á casa do Nuno, tornei a falar na necessidade de, com o auxilio do +Estado, serem convenientemente educados os netos de Camillo.</p> + +<p>E de repente ataquei um assumpto novo:</p> + +<p>—Estes meninos téem uma tia no Porto, bem casada, supponho eu.</p> + +<p>A sr.ª D. Anna respondeu promptamente:</p> + +<p>—Téem, é certo, mas as nossas relações estão cortadas.</p> + +<p>Não pude então reprimir uma expansão que me desafogou o animo:</p> + +<p>—V. Ex.ª está pois convencida de que estes meninos téem uma tia no +Porto?</p> + +<p>—Estou, sim, senhor.<span class="pn"><a +name="pag_30">{30}</a></span></p> + +<p>—Tambem eu, minha senhora.</p> + +<p>O sr. Carvalho interveio na conversação, pondo-se a pé e dizendo com grande +hombridade:</p> + +<p>—Negal-o foi uma loucura.</p> + +<p>Achei que era chegado então o momento opportuno de arrancar a mascara que me +constrangia.</p> + +<p>—Pois bem, minha senhora, disse eu, desde que não corro o risco de ter +que contrariar a opinião de V. Ex.ª em sua propria casa, devo declarar-lhe o +meu verdadeiro nome: eu sou Alberto Pimentel. E agora peço mil perdões a V. +Ex.ª por ter usado de um disfarce, que me foi imposto pelo respeito e +consideração que devia a V. Ex.ª Eu não podia, na sua presença, ter uma opinião +que, sobre tão melindroso negocio de familia, lhe causasse desgosto.</p> + +<p>O sr. Carvalho sorria triumphalmente. A sr.ª D. Anna respondeu com +indulgente cortezia, dizendo:</p> + +<p>—Eu tinha-o suspeitado desde que V. entrou. <a name="Nuno" id="Nuno" +href="#L2573">Em 1892 o Nuno, estando nós na Povoa, mostrou-me V. no <em>Café +Chinez</em>;</a> no dia seguinte tornámos a vêl-o de tarde, no Passeio Alegre. +E o Nuno dizia-me então: «Não haver aqui um homem, amigo de ambos, que pudesse +reconciliar-nos!» O que é certo é que eu tinha fixado a physionomia de V. e mal +podia acreditar n'uma tão completa similhança entre a pessoa que eu vira na +Povoa e a pessoa que hoje me visitava com nome differente.</p> + +<p>O sr. Carvalho, de pé, no meio da sala, continuava a sorrir triumphalmente, +esperando a occasião de dizer:<span class="pn"><a +name="pag_31">{31}</a></span></p> + +<p>—A mim tambem não me enganou V. Logo que o vi, perguntei ao sr. Trêpa: +«Este não é o Alberto Pimentel?»</p> + +<p>E o sr. Adriano Trêpa confirmou:</p> + +<p>—Foi o que elle me disse ao ouvido, agarrando-me pelo braço.</p> + +<p>—O que lhe respondi eu? insistiu o sr. Carvalho.</p> + +<p>—Que tinha a certeza de que não era outra pessoa.</p> + +<p>O sr. Carvalho explicou que me conhecia de S. Miguel de Seide, e que, na +Povoa de Varzim, viera esperar-me á estação com o Nuno no anno em que eu ali +fôra visitar Camillo.</p> + +<p>A sr.ª D. Anna Corrêa disse então como se quizesse apresentar-me +officialmente o sr. Carvalho:</p> + +<p>—É um nosso velho amigo, que o sr. visconde (Camillo) estimava +muito.</p> + +<p>E, sorrindo, acrescentou:</p> + +<p>—É o «José Fistula» do <em>Eusebio Macario</em>...</p> + +<p>O sr. Carvalho atalhou jovialmente:</p> + +<p>—Com a differença de que não sei tocar guitarra, nem cantar o +<em>Fado</em>. Camillo brincava comigo; mas era meu amigo a valer, e eu +adorava-o.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>É certo que o genial romancista, na vida aldeã de Seide, se entretinha +familiarmente com a gente do campo. Não me refiro ao sr. Carvalho, que é +um<span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span> camponez relativamente +illustrado. Mas ainda outro dia vi em Santo Thyrso um velho jornaleiro que anda +hoje pedindo esmola, e que recita perlengas mythologicas e polyglottas +leccionadas por Camillo. Chama-se João de Seide e deve ter perto de setenta +annos. Repete inconscientemente, como um phonographo, o que lhe ensinára o +grande romancista em horas de bom humor. Por exemplo:</p> + +<p> </p> + +<p>Jupiter era um deus omnipotente no Olympo. Venus era sua filha e mãe de +Cupido, deus do amor. Um dia Jupiter escamou-se com Vulcano, deu-lhe um pontapé +no trazeiro, e deixou-lh'o ao lado.</p> +<hr style="width: 10%;"> + +<p>Em francez, <em>bonne nuit</em> é boa noite; e <em>bon soir</em>, boa +tarde.</p> + +<p>Em inglez, <em>good night</em> é boa noite.</p> +<hr style="width: 10%;"> + +<p>O verbo ser conjuga-se assim em francez</p> + +<p>Je suis<br> +Tu es<br> +Il est<br> +Nous sommes<br> +Vous êtes<br> +Ils sont<span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span></p> +<hr style="width: 10%;"> + +<p>A China tem mais habitantes do que a Russia, mas a Russia é maior em +territorio.</p> +<hr style="width: 10%;"> + +<p>Em Villa Nova de Famalicão, onde uma das novas ruas tem o nome de Camillo, +ha um botequim conhecido pelo <em>Café do Gato</em>.</p> + +<p>«Gato» é o appellido do seu proprietario, um velho rijo e são, ainda com +filhos pequenos.</p> + +<p>Era o botequim habitual de Camillo quando passava em Famalicão.</p> + +<p>Ali se entretinha o grande escriptor chalaçando com o velho Gato, cuja +rusticidade de trato eu pude aferir pelo dialogo que se travou, na minha +presença, entre elle e um cavalheiro de Famalicão, ao entrarmos ultimamente +n'aquelle botequim com outros cavalheiros de Santo Thyrso.</p> + +<p>—Ó Gato, venha vêr o que estes srs. querem tomar.</p> + +<p>Resposta d'elle:</p> + +<p>—Não é preciso. Peça de lá, que eu sirvo de cá.</p> + +<p>É de notar que esta resposta agreste, no trato da gente rustica do Minho, +não exclue bondade de caracter. Não vá suppôr-se que o proprietario do café de +Famalicão seja um «gato bravo» da bocca para dentro.</p> + +<p>Mas o caso vem a proposito para mostrar que<span class="pn"><a +name="pag_34">{34}</a></span> n'estas e outras rusticidades se recreava Camillo +emquanto a cegueira o não isolou em Seide na treva e no desespero.</p> + +<p>O grande escriptor tinha um vocabulario pittorescamente ironico para +exprimir os ridiculos e desleixos da vida campestre.</p> + +<p>Assim era que, segundo vejo n'um jornal minhôto, designava pelo nome +bucolico de <em>boninas</em> as stratificações fecaes que matizam e embalsamam +os caminhos nas villas e aldeias do Minho.</p> + +<p>Tem verdadeira graça pastoril: boninas!</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Reatemos a narrativa no ponto em que a deixámos: o motivo do meu +disfarce.</p> + +<p>A sr.ª D. Anna asseverou mais uma vez que Nuno Castello Branco tinha +desgosto de haver provocado a questão a que me constrangeu logo depois da morte +de seu pae; mas que fôra arrastado a isso por despeitos de familia, em +consequencia de sua irmã ter mandado depôr uma corôa, com palavras de filial +saudade, sobre o féretro de Camillo.</p> + +<p>O sr. Carvalho, por sua vez, acrescentou:</p> + +<p>—Quando o Nuno foi levar ao Porto o manuscripto do <em>Protesto</em>, +disse-lhe eu: «Não faças isso, Nuno, que é uma loucura. Vaes contradizer a +verdade. E olha que chega para todos vós a gloria de teu pae.»</p> + +<p>—Mas o Nuno, insistiu a sr.ª D. Anna, estava arrependido<span +class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span> e não tinha odio nenhum a V. E a +sr.ª viscondessa sempre, n'outras occasiões, se lhe mostrou muito affeiçoada, +falando de V. com especial estima.</p> + +<p>Certifiquei a sr.ª D. Anna de que eu procurei, quanto pude, evitar essa +deploravel questão e poupar pessoalmente o meu adversario. Houve apenas uma +insinuação que me feriu: a de que eu, por um vil interesse, o dinheiro, +defendia a causa da filha de Camillo, quando é certo que eu nunca tivera +intelligencias com o marido d'esta illustre senhora, e que até o não conheço. +Mas essa mesma insinuação ficava esquecida, como se nunca houvesse existido, +desde o momento em que eu tinha a certeza de que Nuno Castello Branco se +arrependêra de a ter escripto.</p> + +<p>No decurso da conversação vi-me rodeado pelos netos de Camillo, como se eu +fosse já um familiar d'aquella casa. Principiei a sentir-me estimado ali, o que +me recompensou largamente de quantos desgostos a questão do <em>Protesto</em> +me causou.</p> + +<p>Considero esse dia como um dos mais felizes da minha vida.</p> + +<p>O pequeno Camillo viera sentar-se no sophá, a meu lado, interessando-se +muito, com a mão enconchada sobre a orelha direita, pela nossa conversação.</p> + +<p>A sr.ª D. Anna Corrêa tivera a encantadora bondade de dizer-me:</p> + +<p>—Apesar da recommendação da sr.ª viscondessa quanto aos livros do sr. +visconde, eu quero mostral-os a V.: é a maior prova de estima que posso +dar-lhe. Tenho a certeza que se a sr.ª viscondessa fosse viva,<span +class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span> procederia do mesmo modo. Tambem +ella faria esta excepção.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>D'ali a pouco subimos ao segundo andar para vêr o que resta da bibliotheca +de Camillo: uns duzentos volumes talvez, repartidos por duas estantes +envidraçadas. Algumas obras manuscriptas, poucas: lembro-me de ter visto uma +genealogia em varios tomos. Entre os livros encontrei dois meus: <em>A Jornada +dos Seculos</em> e a <em>Flor de myosótis</em>.</p> + +<p>Depois entramos no quarto em que Camillo dormia quando alli se demorava +temporadas.</p> + +<p>É um amplo compartimento, cheio de luz, com largas janellas que deixam +espraiar-se o olhar por cima dos pinheiraes até alcançar o cume de montes +longinquos.</p> + +<p>Quando Camillo habitava aquelle quarto, já estava cego. Mas se não podia +contemplar o panorama, cheio da placidez e melancolia que caracteriza os bastos +pinheiraes tranquillos, devia sentir o calor do sol que invadia o aposento.</p> + +<p>A alma de Camillo teria certamente n'essas horas bem menos placidez que a +floresta dormente.</p> + +<p>Abundam n'esse quarto os retratos de familia, muitas recordações de um +passado a que o amor deu momentos de felicidade e seculos de amargura.</p> + +<p>Havia ali, em todo aquelle segundo andar, um bello nucleo de muzeu +camilliano.<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span></p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/rachel.jpg"></p> + +<p>RACHEL</p> +</div> + +<p>Foi n'esse mesmo andar que <a name="Jorge" id="Jorge" href="#L2613">Jorge +Castello Branco, o infeliz primogenito de Camillo</a>, passou os ultimos tempos +da sua curta existencia.</p> + +<p>Contou a sr.ª D. Anna Corrêa que elle tinha horror a vêr os criados da casa. +Postas as refeições sobre a mesa, os criados sahiam; e o Jorge entrava depois. +Algumas noites prestava-se a tocar piano—esse piano que era de sua mãe e +que ella havia levado para a Cadea da Relação do Porto—mas exigia que +ninguem estivesse presente. A musica foi uma das muitas aptidões artisticas do +Jorge. Eu já disse algures que elle, em noites de luar, se empoleirava nas +arvores de Seide a tocar flauta.</p> + +<p>Queria viver isolado no seio da propria familia. Não consentia que lhe +fizessem limpeza no quarto. Se alguem se quizesse aproximar, cuspia-lhe.</p> + +<p>No dia 2 de setembro de 1900, o Jorge não se levantou para ir almoçar. A +porta do seu quarto estava fechada por dentro, como era costume.</p> + +<p>A sr.ª D. Anna Corrêa chamou-o:</p> + +<p>—Sr. Jorge, são horas do almoço.</p> + +<p>Elle respondeu:</p> + +<p>—Já vou.</p> + +<p>Mas passou tempo sem que se levantasse.</p> + +<p>Tornaram a chamal-o.</p> + +<p>—Já vou, repetiu elle.</p> + +<p>Mas, como não apparecesse, a sr.ª D. Anna resolveu entrar no quarto pela +janella, o que foi empreza difficil.</p> + +<p>Achou o Jorge doente, apathico, n'um estado gastrico<span class="pn"><a +name="pag_38">{38}</a></span> que, n'esse momento, lhe pareceu não offerecer +maior gravidade.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>D'aqui por deante, a narrativa da sr.ª D. Anna Corrêa conforma-se +inteiramente com a versão que o sr. José de Azevedo e Menezes, da illustre casa +do Vinhal, em Famalicão, me communicou n'uma carta, por mim já publicada.</p> + +<p>Vou reproduzil-a, para que não fique perdida na volumosa collecção de uma +folha diaria:</p> + +<p> </p> + +<p>«Em resposta á estimada carta de v. , tenho a dizer-lhe que o infeliz +Jorge de Castello Branco falleceu em casa de D. Anna Corrêa, a companheira do +Nuno, no dia 10 do corrente mez, ás 6 horas da tarde, e enterrou-se no dia 12, +assistindo alguns visinhos.</p> + +<p>«Tratou-o nos ultimos quinze dias de vida o medico Dias de Sá, de Landim, +que logo previu o desenlace fatal.</p> + +<p>«No dia 2 d'este mez o Jorge sentiu-se mal do estomago, talvez por ter +debicado as primeiras uvas e pêras do quintal da casa. Um ligeiro laxante +deu-lhe melhoras, que infelizmente se não mantiveram, cahindo com desmaios e +não podendo conciliar o somno.</p> + +<p>«A final veiu a paralysia cerebral que o matou sem agonia. De vez em quando +gemia e invocava a<span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span> Deus! +Durante um desmaio na manhã do dia em que morreu, foi ungido.</p> + +<p>«Não se lhe notou á hora da morte o intervallo lucido, que ás vezes apparece +nas doenças mentaes.</p> + +<p>«Tinha, porém, amor á vida, esperando obter melhoras dos remedios, que só +tomava nos caldos e leite pela mão da sua desvelada enfermeira D. Anna Corrêa, +que foi para o infeliz louco uma carinhosa mãe.</p> + +<p>«Fui visitar essa bondosa mulher, e fiquei agradavelmente impressionado da +sua apresentação e do bom senso, que mostrou em alguns pontos da nossa +conversa. A rudeza da sua origem poliu-se no trabalho e soffrimento, que lhe +deram os desgraçados com quem viveu. A mulher só se engrandece pela bondade, +que é a sua belleza moral.</p> + +<p>«O grande desejo de D. Anna é educar bem os seus filhos, mas como poderá +desempenhar-se d'esta nobre tarefa sem recursos? É urgente abrir uma campanha a +favor d'ella, para que lhe acuda o governo ou as almas bemfazejas. Inicie v. na +imprensa periodica esta nobilissima missão. Os dois filhos mais velhos são +intelligentes, principalmente o Camillo, que eu fixei com attenção e +descobri-lhe traços physionomicos do glorioso avô. O rapaz é triste e +concentrado e quer ser Padre... Até n'isto se parece com o grande escriptor, +que no verdor dos annos pensou em se prender á Egreja. A sua ultima assignatura +foi no assento do baptismo d'este seu neto e afilhado,<span class="pn"><a +name="pag_40">{40}</a></span> feita em casa de Nuno e sobre um piano, por lhe +ficar mais a geito.</p> + +<p>«Ao sahir da casa de D. Anna Corrêa olhei para a outra proxima, aonde viveu +e morreu o incomparavel prosador portuguez. Está agora mal pintada de amarello +e triste como a tragedia que a fechou. N'aquelle gabinete de Camillo +apagaram-se os ultimos lampejos da sua conversa encantadora, esmaltada sempre +de ironias, cortantes como o nordeste.</p> + +<p>«Que tristeza e que lição para todos nós! Creia-me sempre</p> + +<p class="assin">De V. etc.</p> + +<p class="assin"><em>José de Azevedo e Meneses.</em></p> + +<p><small>S/C do Vinhal, 16-9-900.</small>»</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Os jornaes do norte do paiz, noticiando a morte de Jorge Castello Branco, +logo fizeram sentir que, tendo cessado com a sua vida a pensão, os netos de +Camillo ficavam quasi reduzidos á miseria.</p> + +<p>Dizia o correspondente de Famalicão para <em>O Commercio do Porto</em>:</p> + +<p> </p> + +<p>«FAMALICÃO, 12.—Em S. Miguel de Seide sepultou-se hoje Jorge Castello +Branco, ultimo filho do finado romancista Camillo Castello Branco.<span +class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span></p> + +<p>«De ha muito que o seu viver era o de um verdadeiro louco, temendo todos e +passando os dias n'um aposento sem o convivio de pessoa alguma. O seu +fallecimenio foi um verdadeiro desastre para seis netos do grande romancista, +pois que a pensão que o governo dava ao finado custeava tambem a educação das +creanças, que agora ficam ao desamparo.—(<em>M. G.</em>)»</p> + +<p> </p> + +<p>Escrevia o <em>Lusitano</em>, de Famalicão, no mesmo dia 12:</p> + +<p> </p> + +<p>«Acaba de fallecer em Seide o filho mais velho de Camillo Castello Branco, o +pobre louco tão amado pelo immortal auctor do <em>Amor de Perdição</em> e +tantas outras joias que hão de fulgurar seculos em fóra, na litteratura +nacional.</p> + +<p>«Ha muito que o Jorge, doido, doido desde tenra idade, fugia completamente +do convivio social.</p> + +<p>«Vimol-o ha semanas, pela ultima vez que veio á villa, causando immensa pena +a precocidade da sua velhice e, mais nos commovemos ao attentarmos no seu +perfil, que muito se parecia com o de seu pae.</p> + +<p>«Como é sabido, o filho mais novo de Camillo deixou bastantes filhos na +miseria, servindo-lhes de amparo a pensão que o governo dava ao Jorge.</p> + +<p>«Morto este, ficam os netos de Camillo sem recursos de qualidade alguma.</p> + +<p>«Pois quando mais não seja se não para honrar a memoria de Camillo, deve o +governo continuar a<span class="pn"><a name="pag_42">{42}</a></span> dar a seus +netos a pequena quantia que deu ao Jorge durante alguns annos.</p> + +<p>«O pequeno Camillo Castello Branco e seus irmãos não devem ficar ao +desamparo.</p> + +<p>«Quem sabe até se, educados os netos do genial <em>Solitario de Seide</em>, +algum d'elles não será ainda muito util ás letras patrias, continuando a +honral-as como honradas foram mais de meio seculo por seu avô o querido +Mestre?»</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>A pensão ao primogenito de Camillo havia sido concedida por um decreto +depois sanccionado pelo parlamento nos seguintes termos:</p> + +<p> </p> + +<p>«Artigo 1.º É approvado o decreto de 23 de maio de 1889, pelo qual, em +reconhecimento publico dos relevantissimos serviços prestados ás letras patrias +pelo visconde de Correia Botelho (Camillo Castello Branco), é concedida a seu +filho Jorge Camillo Castello Branco a pensão annual e vitalicia de 1:000$000 +réis.</p> + +<p>«§ unico. A pensão de que trata esta lei é isenta do pagamento de quaesquer +impostos, e será abonada desde a data do decreto que a concedeu, ao visconde de +Correia Botelho, em quanto vivo fôr.</p> + +<p>Art. 2.º Fica revogada a legislação contraria a esta.»<span class="pn"><a +name="pag_43">{43}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p>Os filhos do visconde de S. Miguel de Seide, netos de Camillo, aos quaes +faltou o amparo da pensão que o tio recebia, são, pela ordem chronologica do +nascimento:</p> + +<p>Flora, nascida a 11 de janeiro de 1886.</p> + +<p>Camillo, nascido a 16 de março de 1888, no mesmo dia e mez em que nasceu o +avô, que era seu padrinho.</p> + +<p>Nuno Placido, nascido a 4 de março de 1889.</p> + +<p>Rachel, nascida a 21 de fevereiro de 1890.</p> + +<p>Simão, nascido a 6 de julho de 1891.</p> + +<p>Manuel, nascido a 23 de abril de 1893.</p> + +<p>Um motivo especial, que logo referirei, leva-me a fazer duas transcripções +do jornal de Famalicão, <em>O Lusitano</em>, apezar de em qualquer d'ellas se +encontrar o meu nome acompanhado de adjectivos que eu considero apenas um +amavel cumprimento de quem os escreveu.</p> + +<p>Agradeço-os, mas declino-os por immerecidos.</p> + +<p>Não me assiste, porém, o direito de mutilar as transcripções.</p> + +<p>Dizia <em>O Lusitano</em> no seu numero de 29 de agosto do corrente anno:</p> + +<p> </p> + +<p>«Noticiámos, ligeiramente, a semana passada, a estada, em S. Miguel de +Seide, de visita aos netos de Camillo, do illustre escriptor sr. Alberto +Pimentel.</p> + +<p>«Não conhecemos as impressões, que a sua ex.ª resultaram da volta, passados +tantos annos, á casa do grande escriptor seu amigo. Mas não nos seria +desagradavel<span class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span> saber se o nosso +estimado confrade do <em>Popular</em> tomou, ou não, a resolução de contar no +jornal, que redige, como é justo que o governo tome a iniciativa de proteger, +de algum modo, os malaventurados netos do grandioso estylista.</p> + +<p>«Tem-nos contado pessoas, que privam com a familia de Seide, que ha, entre +aquellas seis creanças, uma—o Camillo—possuidora de intelligencia +rara.</p> + +<p>«Se assim é, não faz pena que a falta de recursos constitua embaraço ao +aproveitamento d'aquelle rapaz?</p> + +<p>«Não ha duas opiniões divergentes sobre a justiça de continuar, em favor dos +descendentes do eminente romancista, o subsidio, que este primeiro aproveitou e +que se extinguiu pela morte do Jorge. Vão os rendimentos do Estado, dia a dia, +para applicações muito menos comprehensiveis.</p> + +<p>«O sr. Alberto Pimentel, que foi á casa de Seide, decerto viu o que aquillo +é, comparativamente com outros tempos.</p> + +<p>«Ponha, por conseguinte, s. ex.ª todo o enorme merecimento da sua penna e +das suas relações ao serviço d'esta causa. É o maior testemunho de amizade que +póde prestar á memoria do extraordinario escriptor. E evita que se reedite +aquella tão conhecida e fustigante phrase de Garrett, que constitue, com +motivo, um castigo severissimo á contumaz ingratidão do nosso meio.»<span +class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span></p> + +<p> </p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/simao.jpg"></p> + +<p>SIMÃO</p> +</div> + +<p>Eu tinha necessidade de commentar esta transcripção para explicar o meu +procedimento.</p> + +<p>Se, immediatamente á minha visita á familia de Seide, não publiquei no +<em>Popular</em> as impressões que ali recebêra ao observar de perto a vida dos +netos de Camillo e, portanto, a justiça da sua causa, foi porque logo fiz +tenção de me occupar do assumpto com maior desenvolvimento do que aquelle que +poderia dar-lhe n'um ou dois artigos de jornal.</p> + +<p>Desobrigo-me agora do compromisso que tomei comigo mesmo.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Poucos dias depois de ter lido a noticia do <em>Lusitano</em>, acima +transcripta, recebi do sr. Rodrigo Terroso, jornalista distincto e +escrivão-notario na comarca de Famalicão, uma carta relativa ás impressões que +eu teria trazido de Seide e ao que eu estaria disposto a fazer em favor da +pensão.</p> + +<p>Respondi na volta do correio, e o teor da minha resposta resalta da seguinte +noticia que <em>O Lusitano</em> publicou no dia 3 de setembro:</p> + +<p> </p> + +<p>«Ao director politico d'esta folha que acompanhou, particularmente, perante +o sr. Alberto Pimentel o pedido feito aqui ha oito dias em favor dos netos de +Camillo, respondeu, de prompto, o apreciavel escriptor e jornalista com uma +carta, que é a promessa solemne de intervir no sentido rogado.<span +class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span></p> + +<p>«... fui expressamente a Seide para me orientar na questão da pensão aos +netos de Camillo.</p> + +<p>«Na proxima legislatura trabalharei por conseguil-o, no que espero ter o +auxilio de Antonio e José de Azevedo.</p> + +<p>«Não farei parte do parlamento, mas envidarei os maiores esforços possiveis +junto do parlamento e do governo.»</p> + +<p>«É solemnissima a promessa. Fiamos de que será cumprida. Sobre dar-se com o +sr. Alberto Pimentel a circumstancia de haver sido dos amigos mais sisudos de +Camillo, accresce que o distincto escriptor lisbonense conhece, ao presente, em +pessoa, a justiça da causa, que tanto tem merecido as nossas sympathias. E +dizemos assim porque ainda ninguem a advogou com tão fervente empenho como nós, +que fomos, até, o primeiro a patrocinal-a. Consta isso de correspondencias que +o <em>Primeiro de Janeiro</em> publicou logo a seguir á morte do Jorge, sem +falar no pedido directo que, immediatamente, apresentamos ao sr. conselheiro +Antonio de Azevedo, sobrinho de Camillo, muito apreciado por este. E que o +notavel homem publico trabalhou n'esse sentido, mais seu irmão sr. conselheiro +José de Azevedo, disse-o, poucos dias decorridos, um telegramma para o +<em>Diario da Tarde</em>, confirmado, simultaneamente, por algumas gazetas de +Lisboa.</p> + +<p>«O sr. Alberto Pimentel affiança-nos a intervenção d'estes dois auxilios. +Pois é caso para nos julgarmos felizes com a felicidade certa dos netos de +Camillo.<span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span></p> + +<p><em>P. S.</em>—<em>O Regenerador</em> refere-se, sobre o mesmo motivo, +a uma carta antiga do sr. José de Menezes ao sr. Alberto Pimentel. Era o sr. +Menezes um dos amigos de Camillo. Não sabiamos que tinha intervindo. Fel-o e +procedeu cavalheirosamente. Está na reconhecida correcção de s. ex.ª».</p> + +<p>Trabalhemos todos—todos os que veneramos a memoria de +Camillo—sem excepção de ninguem, no empenho de vencer esta causa santa, +que a Justiça inspira e que o Patriotismo recommenda.</p> + +<p>É uma divida nacional, que tem de ser paga. Somos todos devedores; +honremo-nos pagando.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>A Sr.ª D. Anna Corrêa cumulou-me de amaveis deferencias logo que o meu +disfarce cahiu. Uma d'ellas, a que mais encantado me deixou, foi a gentileza de +me obzequiar com os dois quadrinhos, os retratos de Gautier e Karr, que estavam +na saleta contigua á alcova de Camillo.</p> + +<p>Se bem que um pouco damnificados pela acção do tempo, como se póde vêr na +reproducção, elles representam para mim um valor inestimavel.</p> + +<p>Fil-os authenticar com a seguinte declaração, que mandei imprimir e collar +no tampo da moldura:</p> + +<p>«E<small>STE QUADRO ESTAVA NO QUARTO DE</small>»<br> +«<small>CAMA DE</small> C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small> +B<small>RANCO EM</small>»<span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span><br> +«S. M<small>IGUEL DE</small> S<small>EIDE</small>. F<small>OI-ME DADO ALI +PELOS</small>»<br> +«<small>SEUS HERDEIROS, A 20 DE AGOSTO DE 1901,</small>»<br> +«<small>NA PRESENÇA DO SR.</small> A<small>DRIANO DE</small> +S<small>OUZA</small>»<br> +«T<small>REPA, DE</small> S<small>ANTO</small> T<small>HYRSO, E</small> +F<small>RANCISCO</small>»<br> +«C<small>ORRÊA DE</small> C<small>ARVALHO, DE</small> +S<small>EIDE</small>.—A<small>LBER-</small>»<br> +«<small>TO</small> P<small>IMENTEL</small>.»</p> + +<p>Foi o sr. Carvalho que, trepado a um banco, os despendurou da parede, +fronteira ás janellas.</p> + +<p>Mais nua ficou ainda desde essa hora a casa solitaria de S. Miguel de +Seide.</p> + +<p>Aqui tenho eu, deante dos olhos, esses dois velhos companheiros de Camillo, +seus camaradas e seus hospedes, Gautier e Karr, com os quaes conversarei +longamente sobre a vida e a morte d'esse que foi nosso commum amigo e que elles +tão de perto viram soffrer e sonhar—por tantos dias e tantas noites.</p> + +<p>Da parede onde estavam enthronisados só podiam avistar todo um horisonte de +pinheiros a esbater-se, ao longe, na vertente de uma vasta corda de montes.</p> + +<p>Coitados! a principio devia custar-lhes muito terem que trocar Pariz pelo +Minho, o bulicio pelo silencio, os <em>boulevards</em> pelos pinheiraes, a +capital do mundo pela aldeia erma e profunda.</p> + +<p>Mas o campo, como o oceano, é uma solidão apenas repulsiva nos primeiros +tempos de uma iniciação forçada; depois identifica-se tanto com a nossa alma, +penetra-a de uma tão saudavel tranquilidade e doçura, que se torna quasi uma +religião: não ha meio<span class="pn"><a name="pag_49">{49}</a></span> de +arrancar o camponez ao seu tugurio e o marinheiro ao seu beliche.</p> + +<p>Agora, saudosos da Thebaida de Seide e do grande espirito que a povoava, +virão constrangidos, Gautier e Karr, defrontar-se, através da minha janella, +com as trapeiras d'esta revôlta casaria de Lisboa, cahotica e asymetrica, que +apenas deixa ver escassos retalhos de céu azul na claridade limpida do ar.</p> + +<p>Sou eu o primeiro a lamental-os, mas nem por isso os guardarei com menor +vigilancia; altas personagens de que me constituiram carcereiro, saberei +amal-as, mas saberei tambem garantir a sua posse—como a de dois +inestimaveis valores que vieram enriquecer o meu thesouro camilliano.</p> + +<p>Devo ainda á sr.ª D. Anna Corrêa a gentil prodigalidade de outra offerta: o +retrato de Manoel Pinheiro Alves, primeiro marido da viscondessa de Corrêa +Botelho.</p> + +<p>Quando publiquei <em>Os amores de Camillo</em>, muito desejei eu obter este +retrato; mas n'essa occasião faltava-me a certeza de que o meu pedido não seria +uma inconveniencia irritante.</p> + +<p>Confessei-o agora á sr.ª D. Anna Corrêa, que espontaneamente me offereceu um +exemplar em photographia. No album de Seide havia dois, tirados em Pariz, no +tempo de Napoleão III, casa Mayer & Pierson, boulevard des Capucines, 3.</p> + +<p>Incluirei esse retrato n'uma segunda edição d'<em>Os amores de Camillo</em>, +se algum dia a fizer. Aqui não é<span class="pn"><a +name="pag_50">{50}</a></span> o seu logar proprio. Mas quero dar uma rapida +impressão da pessoa de Manuel Pinheiro Alves: alto, magro, face glabra, olhos +pequenos e fundos, escasso cabello penteado sobre a orelha direita; vestindo +correctamente de preto, sobrecasaca comprida, gravata em laço. +<em>Toilette</em> de velho, harmonisando com a physionomia; mas de velho que, +por amor de uma mulher, quer apurar o vestir.</p> + +<p>Tem o aspecto grave de ser o pai de D. Anna Placido, não o marido.</p> + +<p>Tambem agora fiquei sabendo que Manuel Pinheiro Alves nascêra perto de S. +Miguel de Seide.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Quando voltámos á casa de Camillo, para eu receber os dois quadrinhos, parei +um momento, ao sahir, no topo da escada de pedra.</p> + +<p>Corri os olhos pelo vasto pinheiral circumjacente, que fecha o horisonte +n'uma faxa verde-negra. Tive n'esse momento a nitida comprehensão do que seriam +ali as longas noites de inverno, ouvindo gemer os pinheiros na solidão profunda +de uma aldêa minhota.</p> + +<p>—Pobre Camillo! disse eu, como se estivesse pensando alto. As suas +noites aqui deviam ser horriveis!</p> + +<p>O sr. Francisco Corrêa de Carvalho replicou:</p> + +<p>—As tardes, as tardes de Camillo é que eram<span class="pn"><a +name="pag_51">{51}</a></span> ainda mais agitadas e tormentosas do que as +noites. Depois de jantar, soffria muito; excitava-se, tinha desesperos, +frenesis, que nos amarguravam tambem a nós.</p> + +<p>É facil a explicação d'este phenomeno pathologico.</p> + +<p>As crises visceraes, dolorosas, são vulgares nos tabeticos. Ou vem com as +<em>dores fulgurantes</em> (Camillo teve-as) ou independentemente d'ellas. +Chegam a ser de violencia extrema, por vezes. E, entre essas crises visceraes, +a gastralgia é frequente.</p> + +<p>O trabalho da digestão provocaria as torturas gastralgicas.</p> + +<p>Após elle, quando em socego o estomago, a crise desapparecia, dando treguas +ao pobre Camillo.</p> + +<p>Eis aqui, pois, mais um pormenor do ingente drama de amargura que matou o +grande romancista.</p> + +<p>Voltei agora a Seide, depois de dezeseis annos de ausencia.</p> + +<p>Estive ali no mez de agosto de 1885.</p> + +<p>O opusculo <em>Uma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de +Seide</em> recorda esse facto.</p> + +<p>Em agosto de 1901, repetida a jornada, já não encontrei nenhuma das pessoas +que em 1885 povoavam a casa de Seide: Camillo, D. Anna Placido, Jorge e Nuno +Castello Branco.</p> + +<p>Dir-se-ia que um desastre enorme victimára de um só golpe uma familia +inteira.</p> + +<p>É que a fatalidade de certos destinos iguala-os<span class="pn"><a +name="pag_52">{52}</a></span> na vida e na morte, regulando as suas horas por +uma unica ampulheta.</p> + +<p>Os desgraçados que nasceram sob a mesma sina chamam uns pelos outros.</p> + +<p>Fui achar uma segunda geração, uma ninhada de creanças intelligentes e +meigas, que se encontram, desprotegidas, á beira de um abysmo insondavel.</p> + +<p>O seu dia de amanhã não é mais seguro do que a salvação incerta do naufrago +que, em pleno oceano, espera, sobre uma tabua fluctuante, um acaso +providencial, a passagem de um navio que o possa descobrir entre montões de +espuma.</p> + +<p>Uma debil creatura, precocemente envelhecida, e já cansada de soffrer, é +hoje a garantia unica do futuro d'essas creanças, que não téem mais ninguem no +mundo além de sua mãe, nem melhor patrimonio que alguns palmos de terra sêcca e +hypothecada.</p> + +<p>Seu avô honrou a patria de um modo excepcionalmente grande, com a fulguração +de um talento literario, que póde fazer inveja aos extrangeiros.</p> + +<p>Honre-se a patria a si mesma adoptando-lhe os netos, perfilhando-os +amoravelmente, salvando-os da miseria e do abandono, premiando n'elles a gloria +do avô immortal.</p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/manuel.jpg"></p> + +<p>MANUEL</p> +</div> + +<p>Cada dia, cada mez, cada anno que passa, complica, por sacrificios +exhaustivos, a situação da familia de Seide. Os netos de Camillo téem já visto +florescer muitas vezes a acacia do Jorge e chamado em vão pela alma do avô, que +não voltou ainda com as auras de abril. Tornemos realidade o que parece haver +sido<span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span> prophecia do grande +espirito de Camillo: que todas essas creanças invoquem de novo o nome do que +prometteu voltar. E elle voltará para acudir-lhes. Quando a acacia «outra vez +inflore», o paiz terá feito justiça, e Camillo terá voltado para junto dos +netos, assistindo-lhes em espirito, agasalhando-os com a gloria do seu nome.</p> + +<p>Corações justos, corações bons, auxiliai esta santa cruzada: a de despertar +a patria adormecida.</p> + +<p><a name="Leitores" id="Leitores" href="#L2606">Leitores de cem romances, que +uma só penna escreveu</a>, agradecei aos netos as lagrimas e os sorrisos com +que o avô tem preenchido deleitosamente muitas horas da vossa vida, desde o +<em>Anathema</em>, uma estreia, até aos <em>Vulcões de lama</em>, a ultima +novella, raio de sol poente que não tardou a apagar-se.</p> + +<p>Se quizerdes fazer isso, estará feito tudo.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><small>Santo Thyrso—Lisboa.<br> +Agosto a setembro de 1901.</small></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p> + +<h1>NOTAS</h1> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span></p> + +<h4>P<small>AGINA</small> 6</h4> + +<h5><a name="L2599" id="L2599" href="#antigo">«... a cêrca do antigo mosteiro +de Landim.»</a></h5> + +<p>Este mosteiro era de conegos regrantes de Santo Agostinho. Dizem-n'o fundado +por Dom Gonçalo Rodrigues Palmeiro, senhor do couto da Palmeira.</p> + +<p>Na inquirição que o Cardeal D. Henrique mandou fazer sobre mosteiros de +Entre-Douro-e-Minho, o de <em>Landim</em> é designado como sendo a de Nossa +Senhora de <em>Namdim</em>.</p> + +<p>O conde D. Pedro, em seu <em>Nobiliario</em>, tambem diz <em>Namdim</em>.</p> + +<h4>P<small>AG</small>. 15</h4> + +<h5><a name="L2597" id="L2597" href="#monumento">«o monumento commemorativo da +visita de Castilho, «principe da lyra portugueza», a S. Miguel de Seide, em +julho de 1866.»</a></h5> + +<p>As relações de amizade entre Camillo e Castilho começaram em 1854, no Porto. +Foi nesse anno e n'aquella cidade que pela primeira vez se encontraram os dois +em casa do Sr. Antonio Bernardo Ferreira, que então morava na rua da Boavista +(casa da familia Garrett) e que organisou em honra de Castilho um sarau +literario. Camillo recitou versos de <em>Um Livro</em>.</p> + +<p>N'uma carta particular, enviada para Lisboa, dizia Castilho,<span +class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span> relatando o que se passára naquelle +sarau: «Camillo Castello-Branco, poeta e prosador de elevado merito, etc.»</p> + +<p>Julio de Castilho, publicando trechos d'esta carta, commenta a referencia a +Camillo dizendo que <em>essa amizade</em>, então começada no Porto, ficou +cimentada para sempre. (<em>O Instituto</em>, de Coimbra, n.º 9, vol. 48.º)</p> + +<p>Foi Camillo, guia dos meus primeiros passos na vida literaria, quem me +ensinou a amar Castilho.</p> + +<p>Costumavam outr'ora as criadas velhas contar ás creanças da casa lindas +historias de reis e principes encantados.</p> + +<p>Camillo, que foi de algum modo o meu <em>niñero</em> espiritual, falava-me +muitas vezes de um grande principe das letras, rei das canções lhe chamou +Herculano, protector de poetas, amador da natureza, acariciador das creanças e +propugnador da felicidade do povo pela instrucção e pela agricultura.</p> + +<p>Era Castilho, rei das canções, principe das letras, cego como ¼dipo, o +famoso rei de Thebas.</p> + +<p>E assim como ¼dipo encontrava o braço de sua filha Antigone para guial-o +carinhosamente na cegueira, Castilho tinha nos braços de seus filhos outros +tantos bordões amorosos que o ajudavam a firmar os passos incertos e +vacillantes.</p> + +<p>Recebi, pois, de Camillo o amor a Castilho, e de quanto elle o amava dá +eterno testemunho esta encantadora dedicatoria do romance <em>Agulha em +palheiro</em>:</p> + +<p> </p> + +<p class="centrado"><em>Ao poeta das creanças, das flores, do amor,<br> +da melancholia e dos desgraçados,<br> +ao illustrissimo e excellentissimo senhor<br> +Antonio Feliciano de Castilho,<br> +honra da patria<br> +honra dos que o prezam, e amam a patria<br> + offerece<br> +o amigo, o respeitador, o discipulo mais devedor<br> +Camillo Castello Branco</em></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span></p> + +<p>Em outro livro, <em>No Bom Jesus do Monte</em>, cita Castilho a par de +Lamartine e Victor Hugo, como sendo um nome que dá «á humanidade orgulho de o +proferir».</p> + +<p>Durante a <em>Questão Coimbrã</em>, nas <em>Vaidades irritadas e +irritantes</em> vem á estacada quebrar lanças pela gloria de Castilho, e +escreve: «... o mais enthusiasta admirador de Castilho, se algum houve que mais +que eu lhe devesse e o amasse...»</p> + +<p>Foi assim que Camillo amou Castilho; foi assim que eu aprendi com Camillo a +amar Castilho.</p> + +<h4>P<small>AG</small>. 16</h4> + +<h5><a name="L2589" id="L2589" href="#dedicat">«a dedicatoria da <em>Maria +Moysés</em> a Thomaz Ribeiro.»</a></h5> + +<p>Diz o texto d'essa dedicatoria:</p> + +<blockquote> + <p class="centrado">A</p> + + <p class="centrado">THOMAZ RIBEIRO</p> + + <p>«São passados dez annos depois que vieste aqui. Foi hontem; e a pedra onde + gravei o teu nome está denegrida como a dos tumulos antigos. Debaixo d'ella + estão dez annos da nossa vida. Jazem ali os homens que então eramos. Estou + vendo Castilho encostado ao frizo da columna tosca; estou ouvindo os teus + versos recitados em nome de meus filhos... Ah! é verdade... tu não os + recitaste porque tinhas lagrimas na voz e no rosto. Que faria de ti a + politica, meu querido, meu poeta da patria e da alma:</p> + + <p>«S. Miguel de Seide, novembro de 1876.»</p> +</blockquote> + +<h4>P<small>AG</small>. 16</h4> + +<h5><a name="L2587" id="L2587" href="#inscrip">«A inscripção está quasi +apagada, como já se apagou tambem a vida das pessoas a quem ella se +referia.»</a></h5> + +<p>O modesto monumento, de que fiz mais larga menção<span class="pn"><a +name="pag_60">{60}</a></span> no opusculo <em>Uma visita ao primeiro romancista +portuguez em S. Miguel de Seide</em>, Porto, 1885, falla-me saudosamente de +seis pessoas, cuja memoria conservo muito viva entre as mais gratas lembranças +do passado.</p> + +<p>D'essas seis pessoas, as ultimas a morrer foram Eugenio de Castilho, +fallecido a 8 de janeiro de 1900, e Thomaz Ribeiro, a 6 de fevereiro de +1901.</p> + +<p>Embora tenha de fazer uma annotaçao talvez demasiadamente longa—o que +não sei se é proprio do teor das annotações—não posso ter mão em mim que +não complete, para o meu espirito, a historia do monumento de Seide com as +recordações que me são suggeridas pelos nomes de Eugenio de Castilho e Thomaz +Ribeiro.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Uma coisa vos confessarei eu, sr. Dom Leonardo...</p> + +<p>Lembram-se? Vem nos <em>Logares selectos</em>, do padre Cardoso: é um +excerpto da <em>Côrte na aldeia</em>, de Rodrigues Lobo—dois livros bons, +cada qual no seu genero; bons como se faziam d'antes.</p> + +<p>Pois, já que a phrase me lembrou, adopto-a, mas cito ao menos a origem, o +que nem sempre se faz agora.</p> + +<p>Os tempos são outros; d'isso é que me queixo.</p> + +<p>Uma coisa vos confessarei eu, srs. Dons Leonardos de hoje em dia, e é que me +vou ralando de saudades pelos homens que conheci outr'ora, com os quaes convivi +e troquei impressões, que os não ha melhores, nem tão bons, como foram +esses.<span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span></p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/acacia.jpg"></p> + +<p>A ACACIA DO JORGE</p> +</div> + +<p>Não quero dizer que todos agora sejam portuguezes de ruim panno; ha +excepções, mas tão raras, que pode a gente gritar quando as encontra—Lá +vem um!</p> + +<p>Digo e redigo, porque d'isso estou convencido até á medula dos ossos, que os +homens que eu tratei na mocidade me parecem semideuses se os comparo com os de +hoje.</p> + +<p>Doia-se quem doer, que me importam pouco essas coisas: até faz bem á gente +sentir morder-lhe uma pontinha de malquerença—é como o frio de janeiro, +que arripia, mas provoca a necessidade de reagir contra elle.</p> + +<p>Eu venho de um tempo em que se dizia haver «elogio mutuo». Não era elogio, +mas justiça. As cotações, especialmente no mercado das letras, andavam menos +falsificadas. Ninguém chegava ao pé de um homem, de punhal na mão, com o +intuito de assassinal-o, para o glorificar depois de morto.</p> + +<p>Garrett estava no tumulo. Herculano fizera-se solitario em Val-de-Lobos. +Castilho vivia em Lisboa e abria as suas portas a todos quantos mostravam +paixão pelas letras. D'aqui veio o dizer-se que tinha Castilho uma côrte. Não a +procurava elle; procuravam-n'o, sim, todos, velhos e novos, que desejavam +encontrar uma atmosphera literaria em que podessem respirar á vontade.</p> + +<p>Mas a differença do tempo estava principalmente n'isto, que não era pouco: +ninguem, em casa de Castilho, nem dos seus, nem dos extranhos, se julgava maior +que elle.</p> + +<p>Por isso o respeitavam, medindo-lhe a grandeza, que fazia lembrar a das +estatuas, porque sendo vista de perto tomava ainda maior vulto.</p> + +<p>Era deliciosa essa casa de Castilho, onde a boa conversação literaria teve +um templo, como não ha, nem póde haver outro. Não decorria ali uma hora sem que +se tivesse lucrado alguma coisa: aprendia-se sempre. Eram tantos e tão bons os +de casa e os de fóra, que nunca se apagava o<span class="pn"><a +name="pag_62">{62}</a></span> lume para as refeições do espirito. Mesa posta +para os <em>gourmets</em> da intellectualidade; porta aberta para todos os que +chegavam, fossem gregos ou troyanos.</p> + +<p>Conheci Castilho na rua do Sol ao Rato, onde recebia na sua enorme +bibliotheca, uma vasta sala, que os melhores auctores de todos os paizes e de +todos os seculos povoavam de alto a baixo. Fazia respeito aquillo: era uma +cidade, um emporio de celebridades consagradas.</p> + +<p>Castilho, coroado de cans, dava a impressão de ser um patriarcha das letras. +Cego como Homero, via tudo o que queria vêr; jámais houve um cego que visse +tanto. Até lia mentalmente os titulos dos livros que o rodeiavam. Aqui está o +meu Bernardes, dizia elle: ia á estante, punha o dedo indicador n'um livro, e +tirava a obra de Bernardes que desejava citar. Parecia ter os olhos fechados +para, concentrado, reforçar por um momento a visão, que depois se tornava mais +aguda e perspicaz.</p> + +<p>Os seus olhos faziam lembrar os de D. João I: raça de escol, que já vinha +apurada de longe.</p> + +<p>Julio foi sempre o braço direito do pai, a sua luneta, o seu bordão, o seu +<em>alter ego</em>. O pai adorava-o; elle adorava o pai. Não podiam viver um +sem o outro; eram como dois gemeos, duas existencias que se fundiam n'uma +só.</p> + +<p>Augusto, official de marinha, andava quasi sempre embarcado por longinquos +mares. Raro apparecia em Lisboa; mas Castilho lembrava-o muitas vezes n'um +impeto de saudade paternal, que é a mais funda, a mais incisiva, a mais cruel +de todas as saudades.</p> + +<p>Ida de Castilho, com os seus bellos olhos pretos que pareciam estrellas, era +a gracilidade da mulher franzina a sorrir por entre clarões de intelligencia +vivacissima.</p> + +<p>Eugenio, o filho mais novo de Castilho, era, em razão da sua idade, o que +tinha menos auctoridade literaria na familia, mas nascera poeta ali, n'aquella +familia de escolhidos, como se nasce escocez na Escocia.<span class="pn"><a +name="pag_63">{63}</a></span></p> + +<p>Foi este rapaz velho, porque a doença o envelheceu precocemente, que morreu +outro dia, em Sete Rios, mais longe do mundo que de Lisboa.</p> + +<p>Poucos se lembravam d'elle já: tinha esquecido, tinha passado, era um morto +que vivia longe dos vivos.</p> + +<p>O seu periodo de maior actividade foi de 1868 a 1869. Conheci-o então, como +conheci Antonio Feliciano e Julio de Castilho: por cartas que o correio trazia +e levava, do norte para o sul, do sul para o norte. Só alguns annos depois nos +avistámos, os Castilhos e eu, na rua do Sol ao Rato. Mas eramos já amigos +velhos, todos nós, quando nos encontrámos frente a frente.</p> + +<p>Aqui tenho eu uma prova d'isso, n'esta meia duzia de paginas publicadas em +1868 por Eugenio de Castilho, e intituladas <em>Patria, contra a Iberia</em>, +poema em bons alexandrinos, que eram os da casa, a melhor officina de +alexandrinos que tem havido até hoje em Portugal.</p> + +<p>Na dedicatoria, do punho do auctor, escreveu elle: «Ao seu amicissimo...» +Nunca nos tinhamos visto então, mas eramos já tão casados na amisade, que +nenhum de nós estranhou o superlativo.</p> + +<p>Eugenio tinha n'esse tempo 21 annos, e desabrochavam n'elle os talentos +literarios, que são morgado de Castilhos. Eram flores que conheciam o terreno e +o clima em que nasciam: medravam á vontade.</p> + +<p>Quanto á factura artistica, o poema <em>Patria</em> trazia a marca da +fabrica: Castilho & Filhos. Não havia firma mais acreditada nem então, nem +agora.</p> + +<p>Passo hoje pela vista, devorado de saudades, aquelle poema de 1868, e +transplanto para aqui alguns casaes de alexandrinos, que me parecem ainda +casaes de rouxinoes a namorarem-se nos bosques umbrosos de Portugal:</p> + +<blockquote> + <p>Vês além um telhado ao pé d'aquelle olmeiro?<br> + alli nasceu meu pae; alli amou primeiro.<span class="pn"><a + name="pag_64">{64}</a></span></p> + + <p>Quando eu era pequeno, ia, ás vezes, sósinho<br> + aos loireiros do val á busca de algum ninho.</p> + + <p>Sob este parreiral tão verde e tão fragrante<br> + beijei apaixonado a minha terna amante.</p> + + <p>Costumava ir de tarde ao moinho da serra<br> + vêr como o sol transpunha as montanhas da terra.</p> + + <p>Quanta vez, ao voltar da caça, eu me sentava<br> + ao pé d'essa cascata a ver-lhe a espuma brava.</p> + + <p>Os troncos da azinhaga, as silvas e as paschoinhas<br> + ouviram-me cantar ás vezes trovas minhas.</p> + + <p>Era-me gosto á noite o rouxinol saudoso<br> + dizendo á beira d'agua o seu canto amoroso.</p> + + <p>Sentado n'uma penha occulto entre o salgueiro<br> + poetava a ouvir do rio o murmurar palreiro.</p> + + <p>Ao canto do quintal da casa onde eu morava<br> + uma anágua plantara, e flores que eu regava.</p> + + <p>Conheço a minha terra; e cada pedra ou planta<br> + me saúda ao passar. Toda a Patria me encanta.</p> +</blockquote> + +<p>Não são, de certo, estes os soberbos alexandrinos do pae Castilho, tão +cheios, tão sonoros, tão variados na riqueza das vogaes, como elle, legislador +maximo em versificação, praticava e recommendava; mas téem o ar de familia, o +cunho da officina, que nos entremostram o artifice mais novo da casa posto a +trabalhar, por desenfado, com a ferramenta do mestre.</p> + +<p>Junte-se a tudo isto, que é já sobeja valia, o perfume ingenuo e nobre da +mocidade, o pulsar de um coração candido e fidalgo, que se educava entre lyras +de poetas e brazões de aristocracia literaria.</p> + +<p>Tudo então fazia suppor que teria uma larga carreira<span class="pn"><a +name="pag_65">{65}</a></span> esse moço tão bem estreado, e tanto se sumiu elle +depois nas trevas que as contrariedades da vida adensaram—a doença +principalmente.</p> + +<p>Foi tambem por 1868 que Eugenio de Castilho tentou a publicação da <em>Folha +dos curiosos</em>, um dos quaes curiosos fui eu.</p> + +<p>N'essa tentativa ia ainda um exemplo paterno, porque não deve esquecer a +ninguem que Antonio Feliciano de Castilho redigiu por algum tempo, com +inexcedivel brilho, a <em>Revista universal lisbonense</em>.</p> + +<p>Digo inexcedivel brilho, e fico pesaroso de não encontrar melhor locução. +Não me satisfaz esta, que é deficiente. Tudo quanto Castilho ali deixou, é +primoroso—até o noticiario.</p> + +<p>Se vingar algum dia a ideia de fundar uma escola de jornalistas, o +professor, sabendo do seu officio, tem que ensinar a fazer noticiario pelo teor +de Castilho.</p> + +<p>Que adoraveis locaes, que gentileza e graça no dizer, que malicia, que +ironia e que pureza castiça de linguagem!</p> + +<p>Os senhores conhecem Castilho poeta, prosador, traductor e pedagogo? Pois +não conhecem Castilho todo, acreditem. Falta-lhes ainda conhecer Castilho +jornalista a brincar com a penna sobre assumptos de reportagem, a enramilhetar +locaes que parecem <em>bouquets</em>; Castilho a sorrir de si mesmo por ter +descido áquella futilidade e a tornal-a grandiosa para não ter que +envergonhar-se de vêr n'um espelho o pretor a curar de coisas minimas.</p> + +<p>Pois, srs. Dons Leonardos, em verdade vos digo que foram grandes homens +esses que eu conheci n'outro tempo, que conheci e amei, e que vós sois muito +mais pequenos que elles.</p> + +<p>Este mesmo Eugenio de Castilho, fallecido ha quasi um anno, não chegou a ser +grande, porque lhe faltou apenas a validez; o talento, não.<span class="pn"><a +name="pag_66">{66}</a></span></p> + +<p>Mas, no breve momento em que se demorou nas letras, honrou, como vergontea, +a arvore gloriosa dos Castilhos, florindo como poeta, que promettia futuro.</p> + +<p>Hoje dorme o somno eterno na terra da <em>Patria</em>, que elle amava tanto, +e se os mortos pensassem, julgar-se-ia certamente feliz por ter encontrado +descanso aos seus tormentos na mesma terra em que o pae nasceu e amou +primeiro.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Tinha eu treze annos, quando um quintanista de direito, Manuel do Nascimento +de Azevedo Coutinho, natural de Sinfães, passando pelo Porto, recitou em casa +de meu pai trechos de um poema que, segundo a sua propria informação, estava +causando o maior enthusiasmo em Coimbra.</p> + +<p>Os estudantes sabiam-n'o de cór, e até o doutor Férrer, dando descanço ás +Ordenações e ao Digesto, repetia estrophes aos rapazes quando os encontrava á +tarde no Penedo da Saudade.</p> + +<p>Era o cumulo do enthusiasmo coimbrão.</p> + +<p>O quintanista Nascimento, um duriense de olhos pretos, vendo-se +comprehendido por um grupo de senhoras que o escutavam, ia procurando na +memoria excerptos do poema e recitava-os contente de espalhar em torno de si, +como um perfume de rosas, a inspiração delicada do poeta que toda a academia já +tinha sagrado em Coimbra com a agua lustral do Mondego.</p> + +<p>Esse poema era o <em>D. Jayme</em>, de Thomaz Ribeiro.</p> + +<p>A cada novo trecho cresciam os applausos; a impressão tornava-se geral no +auditorio.</p> + +<p>E o quintanista Nascimento, com a vivaz reminiscencia<span class="pn"><a +name="pag_67">{67}</a></span> de todos os moços, saltava de um canto a outro do +poema recordando estrophes:</p> + +<blockquote> + <p>Um dia... quando, não sei;<br> + fui vêr as gastas ruinas<br> + d'um velhissimo castello<br> + que ao desamparo encontrei,<br> + mas que, apesar de esquecido<br> + na solidão, era bello.</p> + + <p>Achei-o todo vestido<br> + de tenaz era viçosa;<br> + e ornado de verde brilho,<br> + lembrou-me um velho casquilho<br> + que espera noiva formosa.</p> +</blockquote> + +<p>De vez em quando, os parceiros do voltarete de meu pai poisavam as cartas, e +escutavam attentos:</p> + +<blockquote> + <p>Que triste vida na choça,<br> + que funda melancolia,<br> + que rostos tão macerados,<br> + que suspiros abafados<br> + cada noite e cada dia!</p> + + <p>noites de eterna vigilia,<br> + dias curtos para a lida,<br> + recordações da opulencia,<br> + amarguras da indigencia...<br> + que vida, Jesus! que vida!</p> +</blockquote> + +<p>Eu recolhia todos os trechos n'um enlevo d'alma, que foi o primeiro goso +literario da minha vida e, quando n'essa noite me deitei, reconstituia +mentalmente versos, estrophes inteiras, ancioso de poder lêr todo o poema, para +decoral-o todo.</p> + +<p>No dia seguinte, meu pae, recolhendo de ver os seus doentes, trazia debaxo +do braço um livro de capa amarella.<span class="pn"><a +name="pag_68">{68}</a></span></p> + +<p>Tinha comprado o poema, suggestionado pela recitação da vespera.</p> + +<p>Então, como um faminto que se lança vorazmente sobre um manjar inesperado, +eu, quando os outros acabavam de lêr, devorava pagina a pagina, canto a canto, +lendo e decorando, com a mesma facilidade com que hoje vou esquecendo...</p> + +<p>Annos depois—não foram muitos—quando Castilho protegeu as minhas +estreas literarias com o prestigio do seu nome, Thomaz Ribeiro escreveu-me +algumas cartas que religiosamente conservo entre montões de outras suas +escriptas de toda a parte.</p> + +<p>Depois, em Lisboa, muitas vezes Thomaz Ribeiro me disse que possuia um +retrato meu aos dezeseis annos.</p> + +<p>Certamente lh'o offereci, mas não me lembro quando, e não conservo hoje +nenhum exemplar d'essa photographia.</p> + +<p>Quando foi que eu vi pela primeira vez o auctor do <em>D. Jayme</em>? D'isso +me lembro muito bem. Foi no Porto, no escriptorio do <em>Primeiro de +Janeiro</em>, cuja redacção permanente era então apenas constituida por duas +pessoas, Francisco Gomes Moniz e eu.</p> + +<p>Nós dois faziamos tudo, menos o artigo de fundo, que ia de Lisboa, e era +escripto por Latino Coelho.</p> + +<p>Thomaz Ribeiro, tendo chegado ao Porto e entrado na casa Moré, disse ao +gerente da casa, o illustre José Gomes Monteiro, que me queria visitar.</p> + +<p>Monteiro, que me estremecia, ficou contentissimo, poz logo o seu chapeu e +subiu, apesar de velho e doente, a rua de Santo Antonio, depois a ingreme +escada da redacção, para me levar Thomaz Ribeiro.</p> + +<p>Foi um dos dias felizes da minha vida literaria.</p> + +<p>Desde então mantive com Thomaz Ribeiro as mais cordeaes relações de mutua +estima.</p> + +<p>As amizades velhas são como o cimento solidificado: não quebram +facilmente.<span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span></p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/gautier.jpg"></p> + +<p>Retrato de <small>THEOPHILE GAUTIER</small> que pertenceu a Camillo</p> +</div> + +<p>Quando elle partiu para o Brasil, a <em>Mala da Europa</em> quiz dar um +numero commemorativo, que chegasse ao Rio de Janeiro no mesmo paquete que o +auctor do <em>D. Jayme</em>. Por doença de um dos seus redactores effectivos, o +proprietario do periodico, Delfim Monteiro Guimarães, já hoje fallecido, +precisava de quem lhe fizesse rapidissimamente a maior parte d'esse numero. +Procurou-me, e pediu-me que me encarregasse eu d'essa ardua tarefa—ardua +pela estreiteza do tempo.</p> + +<p>Como se tratava de Thomaz Ribeiro, não tive animo de recusar e, durante +quarenta e oito horas, trabalhei afanosamente, tomando café para espertar-me, +conseguindo não faltar ao encargo que acceitei e á palavra que tinha dado.</p> + +<p>Eu sou a pessoa menos competente para escrever um artigo de critica +literaria a respeito da obra de Thomaz Ribeiro.</p> + +<p>Vejo-o sempre, apaixonadamente, através de agradaveis recordações da minha +mocidade.</p> + +<p>Não sei, não posso vel-o de outro modo.</p> + +<p>Dou-me, portanto, como suspeito.</p> + +<p>Mas creio que, para a apreciação de um escriptor ou de um artista, os +criticos téem menos auctoridade do que o publico.</p> + +<p>Se esse escriptor ou esse artista conquistou a opinião geral, se recebeu uma +consagração nacional, a sua reputação é inabalavel, a despeito do voto adverso +dos criticos.</p> + +<p>Ora Thomaz Ribeiro, cujos poemas foram discutidos, tornou-se o mais popular +poeta do seu tempo. Teve a opinião publica fechada na mão; dominou-a +completamente. E, ainda ultimamente, os que queriam ser-lhe desagradaveis +repetindo versos seus, justificavam, sem querer, a sua popularidade e, sem +querer, a propagavam.</p> + +<p>Portugal ficará sendo eternamente o—jardim da Europa<span +class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span> á beira mar plantado—verso +que tem servido para todos e para tudo que, em bem e mal, se escreve a respeito +do nosso paiz.</p> + +<p>A «Conversação preambular» do <em>D. Jayme</em>, escripta por Castilho, foi +tida como exageradamente encomiastica para o auctor do poema, e é realmente +discutivel em algumas das suas affirmações.</p> + +<p>Mas o enthusiasmo que alvoroçou o espirito reflectido de Castilho adduz mais +uma prova da enorme sensação causada pelo <em>D. Jayme</em>, até nos julgadores +de maior competencia profissional.</p> + +<p>Apparecia um poema verdadeiramente nacional, portuguez pelo assumpto, pelos +affectos, pela paisagem, pela dicção, pondo de mais a mais em evidencia a +riqueza de metros, de harmonia, de malleabilidade e de côr que possuia a lingua +portugueza.</p> + +<p>Sahia inteiramente dos moldes dos poemas antigos, fugindo á oitava-rima, e +dos moldes da revolução romantica, fugindo ao verso branco.</p> + +<p>Era o poema lyrico moderno, o romance metrificado, escripto ao sabor +portuguez sobre a vida portugueza, com matiz popular de tradições e costumes +nossos, com vocabulos colhidos no diccionario da provincia—<em>fogaça, +campeiro, velleiro</em>—com toda a alma de um povo a cantar á flôr dos +versos e o caracter nacional sobresaindo em alto relevo no caracter do +protogonista:</p> + +<blockquote> + <p>Entrei, raivando vinganças,<br> + Sahi, jurando perdão.</p> +</blockquote> + +<p>Comprehende-se que este poema causasse enthusiasmo em todas as regiões do +mundo onde palpitava o sangue e o sentimento portuguez: assim aconteceu, não só +em Portugal, mas tambem no Brazil e na India.</p> + +<p>Do <em>D. Jayme</em> nasceram logo outros poemas: Em Lisboa,<span +class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span> <em>Roberto ou a dominação dos +agiotas</em>, por Manuel Roussado, uma parodia; no Brazil, <em>Leonor</em>, +imitação flagrante.</p> + +<p>Trinta annos depois, quando Thomaz Ribeiro foi ao Brazil como ministro de +Portugal, ainda lá encontrou o rescaldo do antigo enthusiasmo; e a sua escolha +foi julgada a mais opportuna para reatar as relações que um ligeiro conflicto +tinha interrompido entre os dois paizes irmãos.</p> + +<p>Na India portugueza, onde anteriormente estivera como secreterio geral do +governo da provincia, Thomaz Ribeiro foi encontrar admiradores por toda a +parte.</p> + +<p>Tenho deante de mim um romance indiano, <em>Beatriz ou os mysterios da +ultima revolta em Goa</em>, escripto por Fernando de Goa (certamente +pseudonymo) e publicado em Lisboa no anno de 1885.</p> + +<p>No 2.º volume, encontro, entre outras referencias a Thomaz Ribeiro, este +periodo:</p> + +<p> </p> + +<p>«O secretario, aproveitando este ensejo, affastou-se d'ali, metteu-se na +machila e fez-se transportar a Caranzalem, a fim de fazer as suas visitas ás +familias das suas relações que ali se achavam a banhos, e entreter parte da +noite n'uma ou n'outra casa, onde suspiravam pela sua chegada, para terem o +prazer de ouvir uma conversação animada, cheia de atticismo, de poesia, e ao +mesmo tempo recamada das mais brilhantes e conceituosas phrases.»</p> + +<p> </p> + +<p>A praia de Caranzalem, proxima do Mandovi, n'uma linda enseada a quatro +kilometros da capital, é o balneario aristocratico da India portugueza, é +Cascaes do Oriente.</p> + +<p>Em todo o reino de Portugal, na India, no Brazil, em toda a parte onde se +falla a lingua portugueza, Thomaz Ribeiro, por ser o auctor do <em>D. +Jayme</em>, encontrava um fervoroso culto de enthusiasmo e adoração.</p> + +<p>Era uma justa retribuição da consciencia publica aos<span class="pn"><a +name="pag_72">{72}</a></span> sentimentos patrioticos do poeta, que +dedicadamente amou o seu paiz, cantando-lhe as bellezas e as glorias, no +Occidente e no Oriente, e que, no territorio portuguez, se algum rincão +distinguiu com especial affecto, foi o seu districto natal, Vizeu, e em Vizeu a +aldeia garrida onde nascêra, Parada de Gonta:</p> + +<blockquote> + <p>Que fresca aldeia formosa<br> + Nas margens do meu Pavia!</p> +</blockquote> + +<p>Morreu na terra da patria, e n'isso lhe fez Deus a vontade:</p> + +<blockquote> + <p>meu vergado pomar d'um rico outomno,<br> + sê meu berço final no ultimo somno.</p> +</blockquote> + +<p>O romantismo, vocabulo que eu apenas acceito convencionalmente como +expressão chronologica para designar determinada época literaria, e não como +caracterisação psychologica d'um estado d'alma, que é commum a todas as +gerações, e, portanto, eterno; o «periodo romantico», ia dizendo, teve ao menos +de grande e nobre o seu amor ao paiz, affirmado solemnemente na celebração das +glorias e das tradições portuguezas, desde Alexandre Herculano até Thomaz +Ribeiro.</p> + +<p>Hoje é moda rir de tudo, em prosa e verso, especialmente do paiz.</p> + +<p>Literariamente, ainda falta encarar o auctor do <em>D. Jayme</em> sob outro +ponto de vista: como recitador.</p> + +<p>Trez homens conheci eu incomparaveis no primor com que sabiam dizer versos: +Castilho, Thomaz Ribeiro e Gonçalves Crespo.</p> + +<p>Quanto a Thomaz Ribeiro, sempre me ha de lembrar o que se passou uma vez, +sendo elle ministro do reino, na commissão de instrucção secundaria da camara +dos deputados.</p> + +<p>Discutia-se um projecto de reforma do respectivo ensino.</p> + +<p>Apenas dois membros da commissão se oppunham tenazmente<span class="pn"><a +name="pag_73">{73}</a></span> á resurreiçao do exame de madureza: eram o sr. +José Borges de Faria e eu.</p> + +<p>N'essa reunião nocturna, que se effectuou no edificio do governo civil para +maior commodidade de todos, a discussão corrêra violenta e azeda.</p> + +<p>Nada se tinha resolvido ainda, quando foi servido o chá, que veiu da casa +Ferrari.</p> + +<p>Então, durante essa pausa obrigada, não sei quem se lembrou de pedir a +Thomaz Ribeiro que recitasse <em>O tear da rainha</em>.</p> + +<p>Elle annuiu promptamente, e tanta impressão causou em todos nós, que fomos +pedindo mais versos.</p> + +<p>Assim acabou n'uma doce calma aquella reunião, que tinha corrido agitada.</p> + +<p>O projecto chegou a ir ao parlamento, fazendo os dois dissidentes declaração +de voto, mas a reforma não teve execução.</p> + +<p>Tambem a titulo de simples recordação lembrarei que sendo Thomaz Ribeiro +ministro da marinha—primeira pasta que geriu—fui eu que, a seu +pedido, entabolei negociações com a livraria Chardron, do Porto, para a +acquisição da propriedade das suas obras.</p> + +<p>Quando se escreve de um amigo não ha meio de coordenar as memorias +agradaveis que elle nos deixou; os factos acodem em tropel amontoando-se numa +agglomeração confusa, que exigeria longo tempo e grande esforço de serenidade +para ser dominada.</p> + +<p>Não é, poucos mezes depois da morte d'esse amigo, que semelhante tentativa +pode fazer-se para conseguir restabelecer a ordem onde tudo é ainda desordem da +saudade.</p> + +<p>Por isso não o consegui eu, nem sequer o tentei.<span class="pn"><a +name="pag_74">{74}</a></span></p> + +<h4>P<small>AG</small>. 18</h4> + +<h5><a name="L2583" id="L2583" href="#esquecer">«... esquecer essa noite de +festa, que foi talvez a unica noite feliz n'esta casa.»</a></h5> + +<p>D. Anna Placido escrevendo, embora sob um pseudonymo masculino, a respeito +da morte de Vieira de Castro em Africa, recordava a noite de 15 de julho de +1866, quando dizia:</p> + +<p> </p> + +<p>«Era noite de festa. Na pequena aldea de *** ouviam-se cantos festivos; e a +voz das aldeãs competia com as rabecas e os clarinetes.</p> + +<p>«Passava-se isto em uma casa de campo. As seis janellas da frontaria +jorravam luz, e a porta da entrada por onde se subia por larga escadaria de +pedra, estava afestoada de rosas e hortensias».</p> + +<p> </p> + +<p>Era o sarau campestre, o serão minhoto, em honra de Castilho, na quinta de +Seide.</p> + +<h4>P<small>AG</small>. 26</h4> + +<h5><a name="L2581" id="L2581" href="#essa">«Foi ali que essa linda mulher, de +formas esculpturaes...»</a></h5> + +<p>A proposito de D. Anna Placido, referirei um pormenor que me foi contado +recentemente.</p> + +<p>O seu casamento com o grande escriptor esteve para realizar-se em Santo +Thyrso, aonde ambos chegaram a ir para esse fim. Ali se demoraram dois dias, á +espera que o conego Alves Mendes viesse do Porto com os documentos que eram +necessarios. Só o abbade de Santo Thyrso, reverendo Joaquim Augusto da Fonseca +Pedrosa, estava na<span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span> posse +d'este segredo; ninguem mais, n'aquella villa, o sabia. Mas houve demora na +camara ecclesiastica do Porto, e o conego Alves Mendes não pôde obter os papeis +tão depressa como desejava. Por este motivo, Camillo e D. Anna Placido +retiraram de Santo Thyrso. O casamento veio a celebrar-se no Porto, como já tem +sido dito.</p> + +<h4>P<small>AG</small>. 30</h4> + +<h5><a name="L2573" id="L2573" href="#Nuno">«Em 1892 o Nuno, estando nós na +Povoa, mostrou-me V. no <em>Café Chinez</em>.»</a></h5> + +<p>Foi n'esse anno, e na Povoa, que eu vi o visconde de S. Miguel de Seide pela +ultima vez, quando já a questão do <em>Protesto</em> nos tinha inimistado.</p> + +<p>N'essa occasião eu não pensava ali senão em vencer, como candidato, uma das +mais renhidas e ruidosas eleições que tem havido n'este paiz. Deu brado aquella +briga eleitoral da Povoa de Varzim em 1892! Se não fossem as minhas canceiras e +preoccupações politicas, dada a boa disposição do visconde de S. Miguel de +Seide como agora sei, certamente nos haveriamos reconciliado ali n'aquella +época. Mas eu andava em correrias, em comicios, em conferencias, em combinações +eleitoraes: não chegava para as encommendas. Forte cegueira! Até me parece +agora impossivel que eu fosse então o mesmo homem que hoje sou!</p> + +<p>O que é certo é que venci com o povo—a grande classe dos +pescadores—coisa que raras vezes terá acontecido em Portugal. Quem vence, +por via de regra, são os influentes, os galopins, o carneiro e as batatas. +D'aquella vez venceu o povo, que me quiz fazer deputado, e fez. Assim o povo +pensasse sempre em tudo o mais, e outro gallo lhe cantaria.<span class="pn"><a +name="pag_76">{76}</a></span></p> + +<p>Eu andei então muito descomposto nas gazetas, mas tambem andei muito cantado +nas ruas.</p> + +<p>Os pescadores e as pescadeiras improvisaram então um cancioneiro eleitoral +em meu favor. Ahi vão amostras do panno, que elles espontaneamente souberam +tecer com toda a ingenua rudeza dos seus processos poeticos:</p> + +<blockquote> + <p> Boa vai ella!<br> + Ora viva o Pimentella.<br> + Que dá o seu coração<br> + P'ra vencer a eleição.</p> + + <p> Boa vai ella!<br> + Ora viva a <em>piscaria</em>.<br> + Vai toda votar em barda<br> + Pela nossa melhoria.</p> + + <p> Boa vai ella!<br> + Ora viva o Albertinho,<br> + Que vai como deputado<br> + Cá pelo nosso povinho.</p> +</blockquote> + +<p>Eram tão carinhosos para mim os pescadores, que até me tratavam pelo +diminutivo, meiguice que eu já não estava costumado a receber ha muito tempo. O +povo ama ainda pelo systema antigo, e eu era o seu candidato contra a vontade +de muitas influencias poderosas e colligadas.</p> + +<p>N'esta roda-viva de uma eleição disputadissima, renhidissima, eu pensava +menos no visconde de S. Miguel de Seide do que na urna e nos votos.</p> + +<p>Se não estivesse tão preoccupado e ralado, se tivesse tempo para me demorar +nos botequins, certamente se teria ageitado alguma occasião de me congraçar com +o visconde de S. Miguel de Seide, pois que elle o desejava, e eu não o +recusaria.<span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span></p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/karr.jpg"></p> + +<p>Retrato de <small>ALPHONSE KARR</small> que pertenceu a Camillo</p> +</div> + +<h4>P<small>AG</small>. 37</h4> + +<h5><a name="L2613" id="L2613" href="#Jorge">«... Jorge Castello Branco, o +infeliz primogenito de Camillo.»</a></h5> + +<p>Apezar de ser o primogenito, foi baptisado, quando já tinha quasi dois annos +de idade, no mesmo dia que seu irmão Nuno, a 6 de janeiro de 1865.</p> + +<p>Se o leitor folheou alguma vez <em>Os amores de Camillo</em>, lá deve ter +encontrado, a pag. 344, a noticia d'este duplo baptisado que se effectuou no +Porto.</p> + +<p>Mas Antonio de Azevedo contou-me ultimamente um pormenor, que é +interessante.</p> + +<p>Ao jantar d'esse dia, em casa de Camillo na rua do Almada, assistiram as +mesmas pessoas que tinham ido á egreja; Custodio José Vieira, notavel +jurisconsulto; o Bastos, do <em>Nacional</em>; Antonio de Azevedo; e um +procurador portuense, cujo nome não lembra.</p> + +<p>Durante o jantar apenas se bebeu champagne e cognac.</p> + +<p>Seguiu-se um serão alegre, cheio de engraçados episodios e imprevistos +sainetes.</p> + +<p>D. Anna Placido tocou piano.</p> + +<p>Camillo tocava trombone no canno de uma bota.</p> + +<p>E o Bastos do <em>Nacional</em>, que era um homem alto, forte e rosado, +dançava com Custodio José Vieira, que era muito pequeno e muito feio.</p> + +<p>O procurador, conscio da sua desigualdade de cotação intellectual, +conservou-se mero espectador.</p> + +<p>Não parece que se está ouvindo um trecho das <em>Alegres comadres de +Windsor</em>, que Nicolai compoz sobre a peça de Shakspeare, ou aquella scena +de Puccini, em que os socios da bohemia folgam em commum n'uma chorea +improvisada?<span class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span></p> + +<p>Quem poderia vêr então em Camillo o futuro solitario e suicida de S. Miguel +de Seide!</p> + +<h4>P<small>AG</small>. 53</h4> + +<h5><a name="L2606" id="L2606" href="#Leitores">«Leitores de cem romances, que +uma só penna escreveu».</a></h5> + +<p>Todo o trabalho literario de Camillo pesou unicamente sobre elle. Não temos +em Portugal o systema de um escriptor tomar como auxiliares outros escriptores +menos reputados. Usa-se isso em França; entre nós, não.</p> + +<p>Apenas, em duas obras de theatro, trabalhou Camillo com um collaborador, que +foi Ernesto Biester.</p> + +<p>Fizeram em commum o drama <em>Vingança</em> (Veja <em>Esboços de apreciações +literarias</em>, pag. 85 e <em>Revista contemporanea de Portugal e Brazil</em>, +vol. <small>IV</small>, pag. 313); e o drama <em>Penitencia</em>, em 6 actos e +um prologo (Veja <em>Dic. Bib.</em> de Innocencio, vol. <small>IX</small>, pag. +176).</p> + +<p>Vi representar este ultimo drama no theatro de S. João, do Porto, pela +companhia do antigo Theatro Normal.</p> + +<h4><small>NOTA FINAL</small></h4> + +<p>O retrato de Camillo, que publicamos agora, é copia photographica de um a +<em>crayon</em> que vimos na casa dos netos do grande romancista em S. Miguel +de Seide.</p> + +<p>Na sala de entrada ha trez retratos de Camillo. Só este desconheciamos, e +fez-nos impressão, porque, a distancia, suppozemos que fosse de Guilherme +Braga.</p> + +<p>A sr.ª D. Anna Corrêa desfez o nosso equivoco.</p> + +<p>O retrato a <em>crayon</em> é de 1876 e está assignado, mas deve por sua vez +ser copia de outro retrato, tirado aproximadamente<span class="pn"><a +name="pag_79">{79}</a></span> em 1857, quando Camillo usava ainda o cabello +levantado sobre a fronte.</p> + +<p>Comtudo não é o mesmo retrato de 1857 que foi publicado ultimamente, com +outros de differentes epocas, no n.º 8-9 da <em>Illustração moderna</em>, do +Porto.</p> + +<p>Tambem não é o de 1850, que ainda recentemente foi mais uma vez reprodusido +na revista portuense <em>Sombra e luz</em> (n.º 2).</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Preço 400 réis</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Os netos de Camillo, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS NETOS DE CAMILLO *** + +***** This file should be named 33752-h.htm or 33752-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/3/7/5/33752/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/33752-h/images/acacia.jpg b/33752-h/images/acacia.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a621126 --- /dev/null +++ b/33752-h/images/acacia.jpg diff --git a/33752-h/images/anna.jpg b/33752-h/images/anna.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..50249ab --- /dev/null +++ b/33752-h/images/anna.jpg diff --git a/33752-h/images/camillo.jpg b/33752-h/images/camillo.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..2433d32 --- /dev/null +++ b/33752-h/images/camillo.jpg diff --git a/33752-h/images/camillo_jr.jpg b/33752-h/images/camillo_jr.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..56c083d --- /dev/null +++ b/33752-h/images/camillo_jr.jpg diff --git a/33752-h/images/flora.jpg b/33752-h/images/flora.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..249c66f --- /dev/null +++ b/33752-h/images/flora.jpg diff --git a/33752-h/images/gautier.jpg b/33752-h/images/gautier.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..dcbbf71 --- /dev/null +++ b/33752-h/images/gautier.jpg diff --git a/33752-h/images/karr.jpg b/33752-h/images/karr.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..9566c12 --- /dev/null +++ b/33752-h/images/karr.jpg diff --git a/33752-h/images/manuel.jpg b/33752-h/images/manuel.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..caaa5cf --- /dev/null +++ b/33752-h/images/manuel.jpg diff --git a/33752-h/images/nuno.jpg b/33752-h/images/nuno.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b891f53 --- /dev/null +++ b/33752-h/images/nuno.jpg diff --git a/33752-h/images/rachel.jpg b/33752-h/images/rachel.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..0ce964a --- /dev/null +++ b/33752-h/images/rachel.jpg diff --git a/33752-h/images/simao.jpg b/33752-h/images/simao.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..84b75ab --- /dev/null +++ b/33752-h/images/simao.jpg |
