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+ <title>Os Netos de Camillo, por Alberto Pimentel</title>
+ <meta name="Author" content="Alberto Pimentel">
+ <meta name="Edition" content="Lisboa: Empresa da Historia de Portugal, 1901.">
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+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Os netos de Camillo, by Alberto Pimentel
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Os netos de Camillo
+
+Author: Alberto Pimentel
+
+Release Date: September 17, 2010 [EBook #33752]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: UTF-8
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS NETOS DE CAMILLO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<div class="ntransc">
+<p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1901.</p>
+
+<p>Foi mantida a grafia usada na edição original de 1901, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e
+que por isso não foram assinalados.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.4em;"><em>ALBERTO PIMENTEL</em></p>
+
+<p style="font-size: 2.5em;"><em>Os Netos&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;de Camillo</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LISBOA<br>
+EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL<br>
+<small>Sociedade editora<br>
+LIVRARIA MODERNA<br>
+<em>R. Augusta, 91</em><br>
+TYPOGRAPHIA<br>
+<em>35, R. Ivens, 37</em></small><br>
+MDCCCCI</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">OS NETOS DE CAMILLO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="imagem_full">
+<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/camillo.jpg"></p>
+
+<p>CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
+
+<p><em>(Copia de um retrato a crayon que pertence aos netos do grande
+escriptor)</em></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;">
+<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p style="font-size: 2.5em;">OS NETOS DE CAMILLO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote style="margin-left: 40%;">
+ <p>Das flôres surgirão pomos?...<br>
+ Se Deus regar os arbustos!</p>
+
+ <p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;T<small>OMAZ</small> R<small>IBEIRO</small>.</p>
+</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>LISBOA<br>
+EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL<br>
+<small>Sociedade editora<br>
+LIVRARIA MODERNA<br>
+<em>R. Augusta, 91</em><br>
+TYPOGRAPHIA<br>
+<em>35, R. Ivens, 37</em></small><br>
+MDCCCCI</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="imagem_full">
+<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/anna.jpg"></p>
+
+<p>D. ANNA ROSA CORREIA</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn"><a name="pag_5">{5}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1>OS NETOS DE CAMILLO</h1>
+
+<p>Fui hontem, 20 de agosto, a S. Miguel de Seide fazer uma romagem de
+saudade.</p>
+
+<p>Quando Camillo era vivo, sempre que eu vim a Santo Thyrso não deixei nunca
+de visitar o grande romancista na sua melancolica Thebaida.</p>
+
+<p>Agora que elle é morto e repousa longe, no cemiterio da Lapa, fui em
+peregrinação devota contemplar o tumulo em que viveu e agonisou: a casa
+solitaria de Seide, onde cada pedra parece ser um epitaphio que chora
+resignadamente por elle no silencio e na mudez de uma aldea minhôta.</p>
+
+<p>Esta casa, a que o proprio Camillo chamou «o albergue arruinado de S. Miguel
+de Seide», é uma reliquia historica, um monumento nacional, como a casa de
+Shakspeare em Stratford-sur-Avon ou como a casa de Goethe em Francfort.</p>
+
+<p>É ou deve ser.<span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span></p>
+
+<p>Para mim tem o que quer que seja de venerando, como um castello
+desmantelado, onde a nossa gente tivesse ganho outr'ora cem victorias
+gloriosas, de que eu proprio houvesse sido testemunha...</p>
+
+<p>Sahi de Santo Thyrso ao amanhecer e almocei em Landim.</p>
+
+<p>Devo ao sr. Adriano Trêpa, meu presado amigo, a honra de acompanhar-me.</p>
+
+<p>Vi de passagem <a name="antigo" id="antigo" href="#L2599">a cêrca do antigo
+mosteiro de Landim</a>, hoje propriedade da familia Leal e Sousa.</p>
+
+<p>Um filho do dono da casa, o sr. Manuel Vicente Leal, que ia a sahir n'esse
+momento, retrocedeu de bom grado para nos servir amavelmente de cicerone.</p>
+
+<p>Eu, quando viajo, não gosto de fazer prevenções, nem aos outros, nem a mim
+proprio. Sou o viajante mais despreoccupado que pode haver; entrego-me
+inteiramente ao acaso, e sempre me tenho dado bem com isso.</p>
+
+<p>A cêrca do mosteiro está transformada; poucos vestigios restam ainda do
+tempo dos frades. Ha trechos de buxo em algumas ruas, e «o jogo da bola», que
+era vulgar nos conventos do sexo masculino, subsiste menos mal conservado.</p>
+
+<p>As freiras, se cultivavam este jogo, era no plural...</p>
+
+<p>Já posteriores á extincção das ordens religiosas, vi carvalheiras enormes,
+medindo de circumferencia mais de quarenta palmos. Uma d'ellas fôra lascada por
+um raio, de alto a baixo. Vi tambem, digna de<span class="pn"><a
+name="pag_7">{7}</a></span> menção, uma rua de australias, arvores cujo cerne
+imita o pau preto e é, por isso, madeira apreciada.</p>
+
+<p>Conversando com o sr. Manuel Vicente, perguntei-lhe se Camillo teria
+phantasiado muito a respeito do <em>Cego de Landim</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Nada, absolutamente. Camillo ainda não disse tudo. O «cego» era um
+perverso homem.</p>
+
+<p>&mdash;E onde morava aqui?</p>
+
+<p>&mdash;N'uma casa por detraz d'aquella capella.</p>
+
+<p>Indicou-me a capella de S. Braz, onde todos os annos se realiza uma pomposa
+festa, com arraial e feira.</p>
+
+<p>Tambem o sr. Manuel Vicente me indicou o antigo collegio de Landim, em que
+foram educados muitos rapazes do Minho, que hoje são honra e brilho da sua
+provincia.</p>
+
+<p>O sr. Trêpa e eu fomos almoçar á estalagem do Rodrigues, n'uma varanda
+envidraçada, que dava sobre campos emplumados de basto arvoredo.</p>
+
+<p>Notei que Landim é uma terra abundante de alfaiates. Só á porta de uma casa,
+vi sete trabalhando ao ar livre; fizeram-me lembrar a historia dos sete
+alfaiates lendarios, que foram precisos para matar uma aranha.</p>
+
+<p>Mal acabamos de almoçar, partimos para Seide, onde chegamos perto das dez
+horas da manhã. O sol tinha já descoberto; a nevoa, que havia sido intensa,
+dissipara-se completamente.<span class="pn"><a name="pag_8">{8}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Os meus olhos esperavam avidamente o momento de avistar a casa que fôra de
+Camillo.</p>
+
+<p>Tomados de um instinctivo respeito, iamos ambos calados, o sr. Trêpa e
+eu.</p>
+
+<p>De repente, surgiu-nos o portão ensombrado por duas grandes acácias, que
+pendem sobre elle.</p>
+
+<p>&mdash;É ali! disse eu.</p>
+
+<p>&mdash;É ali! repetiu o sr. Adriano Trêpa.</p>
+
+<p>E, passando respeitosamente por deante do portão, que dá para o largo da
+egreja parochial, dirigimo-nos á casa onde actualmente residem os netos de
+Camillo, a dois passos de distancia.</p>
+
+<p>Toda a gente se lembra ainda da deploravel questão que, a meu pezar,
+sustentei com o visconde de S. Miguel de Seide, segundo-genito de Camillo,
+sobre a existencia de uma filha natural do grande romancista, casada no
+Porto.</p>
+
+<p>Tive receio de que a recordação d'essa acerba polemica estivesse ainda muito
+viva no espirito da sr.ª D. Anna Rosa Corrêa.</p>
+
+<p>Adoptei por isso a precaução de apresentar-me sob o nome que primeiro me
+lembrou, ao solicitar o obsequio de ser recebido como admirador fervoroso de
+Camillo.</p>
+
+<p>Acolheu-me gentilmente a dona da casa, que immediatamente chamou alguns de
+seus filhos, não todos,<span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span> porque
+dois d'elles, Camillo e Manuel, tinham sahido pela manhã.</p>
+
+<p>Notei que por vezes a sr.ª D. Anna Corrêa, mãe d'aquellas creanças herdeiras
+de um nome glorioso e de pouco mais, me observava com certa curiosidade.</p>
+
+<p>Soube comtudo manter-se n'uma discreta reserva, não arriscando duvida alguma
+sobre a minha identidade.</p>
+
+<p>Fingiu acreditar que eu era «um Araujo» admirador de Camillo, desejoso de
+conhecer os netos do grande romancista e de visitar a casa onde elle morreu.</p>
+
+<p>Apresentou-me Flora, sua filha mais velha, quinze annos de idade, alta e
+elegante como um pinheiro novo, de uma simplicidade de maneiras ao mesmo passo
+graciosa e senhoril; e Rachel, quatro annos mais nova, cujo vago olhar revela
+morbidez e melancolia.</p>
+
+<p>&mdash;Esta menina, disse-me a sr.ª D. Anna Corrêa, era a predilecta da
+avó.</p>
+
+<p>&mdash;Aventuro-me a conjecturar, respondi eu, que o nome de Rachel foi
+escolhido por Camillo.</p>
+
+<p>&mdash;Isso mesmo... confirmou a minha amavel interlocutora esboçando um
+sorriso. Nós queriamos que se chamasse Anna, como a sr.ª viscondessa, mas o sr.
+visconde (Camillo) oppoz-se, dizendo que esse nome era infeliz na familia.
+Referia-se á sr.ª viscondessa e a mim...</p>
+
+<p>&mdash;Rachel, observei eu, exprimia na vida de Camillo a saudade do
+passado. Com esse nome foi designada<span class="pn"><a
+name="pag_10">{10}</a></span> a sr.ª D. Anna Placido em muitos dos versos
+amorosos que ella lhe inspirou.</p>
+
+<p>&mdash;Exactamente. É verdade.</p>
+
+<p>Apresentou-me depois os restantes filhos que estavam em casa: Nuno e Simão,
+em cujas physionomias, doces e intelligentes, prevalece um accentuado typo de
+familia.</p>
+
+<p>&mdash;Simão, observei eu, tambem foi um nome intencionalmente escolhido.</p>
+
+<p>A sr.ª D. Anna confirmou com um gesto.</p>
+
+<p>&mdash;É o do protogonista do <em>Amôr de perdição</em>, acrescentei. Oxalá
+que este menino seja mais feliz.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Como eu tivesse insistido no desejo de vêr o pequeno Camillo, por saber que
+era o neto querido do avô, foram procural-o emquanto conversavamos a respeito
+de seus irmãos.</p>
+
+<p>E iamos já a sahir em visita á casa onde o grande Camillo morreu, quando
+appareceu o joven Camillo, denunciando um certo ar de extranheza no olhar
+suavemente penetrante e perspicaz.</p>
+
+<p>&mdash;Este menino, disse-me a sr.ª D. Anna, nasceu a 16 de maio de 1888, no
+mesmo dia em que o avô fazia annos. Nos <em>Amores de Camillo</em> vem esta
+observação, que é exacta.</p>
+
+<p>Procurei mostrar-me indifferente á citação do meu livro, comquanto me fosse
+agradavel a certeza de que<span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span> a
+sr.ª D. Anna Corrêa o conhecia e indicava como fonte auctorisada em minudencias
+biographicas.</p>
+
+<p>A physionomia do pequeno Camillo é, em verdade, a mais expressiva entre
+todos os netos do grande romancista.</p>
+
+<p>Essa creança revela uma luminosa precocidade de intelligencia. Não sendo
+robusto, como nenhum dos seus irmãos o é tambem, parece mais debil e menos
+expansivo que elles. Tem o que quer que seja de gravidade prematura quando
+escuta enconchando a mão sobre a orelha direita, porque padece de dureza de
+ouvido, como seu irmão Nuno. Tudo faz esperar que elle seja o continuador da
+gloria literaria do avô. Esta convicção parece estar arreigada no espirito de
+toda a familia, que a recebeu do grande romancista, o qual dizia muitas vezes
+ao pequeno Camillo:</p>
+
+<p>&mdash;Se eu tornar a vêr, vou comtigo para Coimbra.</p>
+
+<p>Apezar dos escassos recursos de que a sr.ª D. Anna Corrêa dispõe, julgou seu
+dever não se poupar aos maiores sacrificios para iniciar convenientemente a
+educação d'este filho.</p>
+
+<p>O pequeno Camillo estuda em Braga, onde vae cursar agora o terceiro anno do
+curso geral dos lyceus.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>As terras de Seide não podem abastar ao sustento e educação de tão numerosa
+prole. Dariam regular passadio para uma ou duas pessoas, apenas. Mas para<span
+class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span> educar tantas creanças não chegam.
+De mais a mais estão oneradas com um pezado fôro de setenta razas de milho alvo
+e centeio, pago annualmente ao abbade, e com os juros de uma hypotheca á
+Misericórdia de Villa Nova de Famalicão. São terras sêccas e por isso pouco
+fecundas: apenas alli tem maior valor a casa de habitação, que foi mandada
+construir pelo visconde de S. Miguel de Seide, e que é muito superior em
+capacidade e aspecto áquella em que o grande romancista viveu e morreu.</p>
+
+<p>A hypotheca abrange tambem este ultimo predio.</p>
+
+<p>A pensão que foi votada pelo parlamento a Camillo Castello Branco, cessou
+com a morte de seu filho Jorge.</p>
+
+<p>Portanto os descendentes de Camillo, se lhes não acudir o Estado, como deve,
+terão de luctar com as maiores difficuldades para receber educação condigna do
+nome illustre que representam.</p>
+
+<p>&mdash;Ver-me-hei na necessidade, dizia-me a sr.ª D. Anna, de mandar este
+menino (Camillo) para o commercio no Porto ou em Braga, bem como os outros.</p>
+
+<p>E o seu rosto, macerado pelos desgostos e trabalhos da vida, que a
+envelheceram prematuramente, cobria-se de uma espessa nuvem de melancolicas
+apprehensões.</p>
+
+<div class="imagem_full">
+<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/flora.jpg"></p>
+
+<p>FLORA</p>
+</div>
+
+<p>&mdash;Tenho feito quanto tenho podido, continuou a sr.ª D. Anna, a bem
+d'estes meninos, mas não poderei aguentar por muito mais tempo tão difficil
+esforço. Flora fez exame de instrucção primaria. Nenhum dos outros irmãos é
+analphabeto. Manuel, que não lhe<span class="pn"><a
+name="pag_13">{13}</a></span> posso apresentar, está em Landim a dar lição; só
+recolhe á noite. Nenhum dos meus filhos tem repugnancia pela instrucção, nem é
+preciso chamal-os para irem á escola, sendo Camillo o mais madrugador e
+estudioso de todos. Triste de mim, se tiver de lhes dar um destino que não seja
+o das letras. Mas não posso... não posso.</p>
+
+<p>Não foi como consolação banal que lhe respondi:</p>
+
+<p>&mdash;Não desespere, minha senhora. Portugal é prodigo em conceder pensões,
+e este acho eu que será o menor defeito de toda a nossa administração publica,
+porque mais vale evitar que alguns portuguezes morram á fome, do que dar um
+triste exemplo de ingratidão nacional. Todos nós sabemos que esta ou aquella
+pensão é, entre muitas outras, mais explicavel pela generosidade do que pela
+justiça. Mas a que se conceder á memoria de Camillo, na pessoa de seus netos,
+pelo menos até á maioridade d'elles, alem de poder ser a mais parcimoniosa de
+todas, será a mais justa entre as que a si mesmas se justificam plenamente.
+Camillo é um d'estes escriptores que representam uma nacionalidade: a sua obra
+é a alma de um povo.</p>
+
+<p>A sr.ª D. Anna enxugou uma lagrima nos seus olhos de um azul muito claro,
+tão quebrados pelo soffrimento como o poderiam ser por uma longa vigilia.</p>
+
+<p>Quantas noites, em verdade, não desvelará esta boa creatura a pensar no
+incerto futuro de seis filhos, entregues ao seu heroismo maternal, unica força
+que parece vitalisar-lhe o corpo depauperado pela anemia<span class="pn"><a
+name="pag_14">{14}</a></span> e envelhecido prematuramente por uma vasta serie
+de inconfessaveis desgostos!</p>
+
+<p>Depositária de um nome illustre, e de uma das mais solidas glorias
+literarias do nosso tempo, que deverá restituir intacta a seus filhos depois de
+os ter preparado de modo a saberem continual-a dignamente, a sua missão é
+espinhosa e agra, sobretudo se a patria a desamparar, o que seria um crime
+affrontoso, e uma ingratidão odiosa.</p>
+
+<p>Os netos de Camillo, vivendo n'um affastado rincão do Minho, entre dois
+campos hypothecados, não téem a espreital-os a <em>reportagem</em> dos jornaes,
+a vigilancia dos Argus de botequim, nem a attenção dos centros literarios e
+aristocraticos. Os montes que os rodeiam, não deixam vel-os de longe;
+especialmente de Lisboa. É preciso lembral-os, pol-os deante dos olhos da
+patria, e esse é o unico intuito que inspirou a publicação d'este opusculo.</p>
+
+<p>Dilemma inilludivel: Deixar ao abandono seis creanças, que hão de perpetuar
+uma geração illustre, ou protegel-as com uma exigua mealha, que abastará ás
+modestas necessidades de pessoas educadas na vida aldeã, no trato simples de
+camponezes, e sobriamente habituadas ao caldo verde do Minho.</p>
+
+<p>Quem deixará sossobrar em tão fragil batel seis creanças desprotegidas,
+podendo facilmente salval-as, e com ellas uma das mais authenticas e genuinas
+glorias nacionaes?</p>
+
+<p>Ninguem. A consciencia publica é o ultimo alento que morre nos povos que se
+deixaram enfermar de<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span>
+leviandades e desacertos continuados. Nós somos um povo doente d'essa pécha.
+Mas a consciencia ainda reage por vezes, brada, impõe-se, faz-se ouvir e
+attender.</p>
+
+<p>Entreguemos, pois, esta demanda á consciencia publica.</p>
+
+<p>O unico dos netos de Camillo que eu não pude vêr em S. Miguel de Seide, foi
+Manuel, o mais novo, nascido em 1893.</p>
+
+<p>O seu nome tambem obedeceu a uma propositada escolha: era o do pae do grande
+romancista.</p>
+
+<p>A julgar pelo retrato, parece ser o mais alegre de todos elles, privilegio
+que a sua edade, aliás, explica.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Acompanhados pela sr.ª D. Anna Corrêa, dirigimo-nos, o sr. Adriano Trêpa e
+eu, para a casa onde morreu Camillo, a qual está actualmente deshabitada, com
+excepção do pavimento terreo, que é residencia do caseiro.</p>
+
+<p>Aberto o portão, entramos na sombra de uma latada de alvaroco, cujos cachos
+brancos pendiam vagamente doirados por tenues raios de sol, que as folhas
+verdes coavam.</p>
+
+<p>Olhei logo para um recanto, á esquerda, onde eu sabia existir <a
+name="monumento" id="monumento" href="#L2597">o monumento commemorativo da
+visita de Castilho, «o principe da lyra portugueza», a S. Miguel de Seide, em
+julho de 1866</a>.<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span></p>
+
+<p>Castilho, que partira de Lisboa acompanhado por seu filho Eugenio, tinha
+alli, n'aquelle torrão do Minho, uma côrte de letrados, verdadeira <em>côrte
+n'aldeia</em>, a render-lhe homenagem: compunham-n'a Camillo, Anna Placido,
+Thomaz Ribeiro e Vieira de Castro.</p>
+
+<p><a name="inscrip" id="inscrip" href="#L2587">A inscripção está quasi
+apagada, como já se apagou tambem a vida das pessoas a quem ella se
+referia.</a> Cresceram hervagens e ramos que sombriamente afogaram o
+monumentosinho. Parece um tumulo esquecido na solidão de um cemiterio.</p>
+
+<p>Recordei então <a name="dedicat" id="dedicat" href="#L2589">a dedicatória da
+<em>Maria Moysés</em> a Thomaz Ribeiro</a>.</p>
+
+<p>Quando eu estava olhando para aquella pedra triste, visinha silenciosa de
+uma casa não menos triste, assomou ao portão um individuo, que desconheci, um
+velho rijo, de physionomia agradavel, cujo trajo me denunciou logo o camponez
+polido.</p>
+
+<p>A sr.ª D. Anna Corrêa apresentou-m'o, pois que o sr. Trêpa já o conhecia:
+era o sr. Francisco Corrêa de Carvalho, dedicado amigo de Camillo, quasi
+familiar na casa de Seide, e proximo visinho.</p>
+
+<p>Como notasse que eu estava olhando para o monumento, o sr. Carvalho, muito
+expansivo, contou logo que um dia, nos ultimos annos da vida de Camillo, parára
+um trem ao portão, o que deu rebate de uma visita inesperada, facto que de
+longe a longe acontecia.</p>
+
+<p>Camillo preparou-se para receber algum amigo; mas não apparecia ninguem.
+Sahiram varias pessoas, entre ellas o sr. Carvalho, a averiguar o
+extraordinario<span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span> caso da
+carruagem, que parecia ter vindo vasia e parado ali sem destino.</p>
+
+<p>Então descobriram o vulto de um homem junto ao monumento, e voltado para
+elle. Aproximando-se cautelosamente, pé ante pé, reconheceram n'esse extranho
+visitante, Thomaz Ribeiro, que chorava, abraçando-se com a pedra.</p>
+
+<p>Chorava memorias do passado, memorias de si mesmo, da sua mocidade
+longinqua, de Castilho morto, de Vieira de Castro duas vezes morto, primeiro no
+tribunal, depois no tumulo; do filho de Castilho, apodrecido n'um leito, e de
+Camillo, ali tão proximo, crucificado no Calvario de todas as dores reaes e
+imaginarias que lhe attribularam incessantemente a existencia.</p>
+
+<p>Fiz reparo em que o sr. Carvalho, chamando de parte o sr. Trêpa, trocára com
+elle algumas palavras.</p>
+
+<p>Tive depois a explicação d'este incidente; e o leitor tel-a-ha tambem, a seu
+tempo.</p>
+
+<p>Mas, rapidamente, o sr. Carvalho voltou a falar comigo ácerca do monumento,
+e do facto que elle memorava: a visita de Castilho a Seide.</p>
+
+<p>&mdash;Fez-se aqui, dizia-me o sr. Carvalho, uma linda illuminação. Vieram
+cantadores, entre os quaes se distinguiram o <em>Gallego</em> e a <em>Rosa
+Cantadeira</em>. Castilho mostrou-se admirado com os improvisos do
+<em>Gallego</em>, sempre espontâneos e, por via de regra, muito maliciosos.
+«Quero, dizia Castilho, que me descrevam a cara d'este homem; que pena tenho de
+o não vêr! Mas calculo que a sua physionomia ha de ter tanta<span class="pn"><a
+name="pag_18">{18}</a></span> expressão como a de um actor comico. Por força!»
+Nunca mais, concluia o sr. Carvalho, poderei <a name="esquecer" id="esquecer"
+href="#L2583">esquecer essa noite de festa, que foi talvez a unica noite feliz
+n'esta casa</a>.</p>
+
+<p>Emquanto o sr. Carvalho discursava com a verbosidade ardente de um rapaz,
+poisei os olhos sobre a <em>acacia do Jorge</em>, de cujas amplas frondes cahia
+uma sombra profunda e saudosa.</p>
+
+<p>E fui repetindo, irreflectidamente, os versos de Camillo:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Quando a acacia do Jorge ainda outra vez inflore,<br>
+ Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei.</p>
+</blockquote>
+
+<p>A sr.ª D. Anna Corrêa, encostada n'esse momento ao mainel da escada, que
+iamos subir, disse com maviosa expressão de tristeza:</p>
+
+<p>&mdash;Tantas vezes tem já florido, depois que elle morreu!</p>
+
+<p>Eu completei mentalmente o seu pensamento: «E ainda não voltou...»</p>
+
+<p>Noticiei á sr.ª D. Anna que um poeta da moderna geração, dos melhores, se
+não o melhor, havia recentemente cantado <em>A acacia do Jorge</em> em quadras
+maviosas, de que brotavam lagrimas em fio, melancolicamente, como gotas d'agua
+cahindo tristes de uma fonte solitaria.</p>
+
+<p>Posso agora completar essa informação, reproduzindo integralmente a poesia
+de Affonso Lopes Vieira:<span class="pn"><a name="pag_19">{19}</a></span></p>
+
+<blockquote>
+ <p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A ACACIA DO JORGE</p>
+
+ <p>Camillo! como acreditar, como hei de<br>
+ Entender estes versos que deixaste?<br>
+ Floriu a Acacia em S. Miguel de Seide,<br>
+ Cada anno te espera,&mdash;e não voltaste!</p>
+
+ <p>Já tantas vezes deu a sombra amiga,<br>
+ Que tu gostavas tanto de gozar...<br>
+ Florida, tem um ar de festa antiga<br>
+ Na esperança de te vêr voltar!</p>
+
+ <p>Voltar? A velha arvore que cance!...<br>
+ Por fim ha de ruir, n'uma amargura.<br>
+ Prepáras lá um ultimo romance?<br>
+ Suprema indiscreção! Genio e loucura!</p>
+
+ <p>Dolorosa novella desmanchada,<br>
+ E que nos deixe pallidos e absortos,<br>
+ Onde nos digas, grande camarada,<br>
+ O gordo amor de brazileiros mortos!</p>
+
+ <p>Os Amorosos, que se vão chorando<br>
+ Á porta do convento, e amortalhar-se...<br>
+ Com habitos de terra aconchegando<br>
+ Os esqueletos de ossos a chocar-se...</p>
+
+ <p>Um romance da cova, com morgados<br>
+ Que o além desbastou; com almas finas<br>
+ De mysticas de Amor, lindas Meninas<br>
+ Em mosteiros chorando, abandonados!</p>
+
+ <p>E a descomposta, lugubre risada<br>
+ De romantica bocca, que era a tua,<br>
+ N'esses reinos da Morte gargalhada<br>
+ Sobre defuntos namorando á lua!<span class="pn"><a
+ name="pag_20">{20}</a></span></p>
+
+ <p>E toda a vã e toda a derradeira<br>
+ Esperança do cabo da viagem;<br>
+ Com descriptivos, á tua maneira,<br>
+ D'esse Minho da Morte da paisagem...</p>
+
+ <p>Ó Acacia! é já tempo: desesperas?<br>
+ Não te ponhas florida, põe-te aos ais!...<br>
+ Nunca mais voltará esse que esperas,<br>
+ Ouves bem este horror? Jámais! Jámais!</p>
+
+ <p>E os versos d'elle, onde a saudade existe,<br>
+ Que á despedida te gritou tambem,<br>
+ Ah! não são mais que uma mentira triste:<br>
+ Como tudo, a final, que nos faz bem.</p>
+
+ <p>Poetas! perguntae ao pensamento<br>
+ Que mais chimeras e desgraças forge?<br>
+ Antes te séque um raio, ou parta o vento!<br>
+ Ó Acacia do Jorge...</p>
+</blockquote>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Fomos subindo vagarosamente os degraus da escada de pedra, sobre a qual
+pende, chorosa, a farta ramagem da acacia. O caseiro tinha aberto as portas.
+Entrámos. Todos nós, os homens, nos descobrimos a um tempo, respeitosamente.</p>
+
+<p>A lembrança do que eu vira ali ha dezeseis annos aclarava-se no meu espirito
+com uma grande nitidez de saudade rediviva.</p>
+
+<p>Eu ia dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Era aqui a casa de jantar.<span class="pn"><a
+name="pag_21">{21}</a></span></p>
+
+<div class="imagem_full">
+<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/camillo_jr.jpg"></p>
+
+<p>CAMILLO</p>
+</div>
+
+<p>A sr.ª D. Anna Corrêa confirmava.</p>
+
+<p>Passámos depois á sala em que estivera o bilhar e onde Camillo costumava
+receber as suas visitas de maior cerimonia.</p>
+
+<p>A sr.ª D. Anna disse, indicando o vão de uma janella:</p>
+
+<p>&mdash;Foi aqui que se matou, sentado na cadeira de baloiço.</p>
+
+<p>E, longamente, a sr.ª D. Anna reconstituiu todo esse rapido drama de
+desespero atroz.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. visconde (Camillo) estava vivendo comnosco, no outro predio,
+onde habitava o melhor quarto do segundo andar. Mas sempre que tinha visitas,
+vinha aqui recebel-as. Foi o que aconteceu n'esse dia, quando chegou de Aveiro
+o medico Edmundo Machado, que já tambem falleceu. O sr. visconde parecia
+tranquillo antes do medico chegar.</p>
+
+<p>O sr. Carvalho interrompeu, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Na vespera tinha andado a passeiar pelo meu braço ali no largo, em
+frente da egreja. Como começasse a soprar uma aragem fresca, o sr. visconde
+disse-me: «Vamos embora, que tenho medo de uma pneumonia.» Ainda na vespera do
+suicidio temia tanto a morte!</p>
+
+<p>&mdash;É verdade! confirmou a sr.ª D. Anna Corrêa. Perguntou o sr. visconde
+ao medico se quereria encarregar-se de o tratar da cegueira em Aveiro. O doutor
+respondeu que seria melhor ir primeiro tomar as aguas do Gerez. O sr. visconde
+viu certamente n'estas palavras o artificio de uma dilação para evitar<span
+class="pn"><a name="pag_22">{22}</a></span> um desengano. Momentos depois o
+medico despediu-se, e a sr.ª viscondessa e o sr. Carvalho acompanharam-n'o até
+á escada. Ouviu-se então a detonação de um tiro. Retrocederam todos. O sr.
+visconde estava prostrado na cadeira, arquejando. Não se lhe viu, no primeiro
+momento, ferimento algum. Foi só algum tempo depois que uma gotinha de sangue
+aflorou no sitio onde a bala entrára, sobre a tempora.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. visconde, perguntei eu, trazia sempre comsigo o rewolver?</p>
+
+<p>&mdash;Sempre; já o levára a Lisboa, onde um dia o experimentou, disparando
+para o tecto. Mas o filho (Nuno) tinha substituido as balas por uns projecteis
+inoffensivos, não sei de quê. O sr. visconde percebeu isto. Todavia não largára
+mais o rewolver, nem consentia que lh'o tirassem.</p>
+
+<p>&mdash;De tanto o apalpar, observou o sr. Carvalho, já tinha a coronha
+poída.</p>
+
+<p>A sr.ª D. Anna Corrêa concluiu a sua dolorosa narrativa dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Estavamos longe de imaginar que tivesse adquirido balas verdadeiras.
+Todos suppunhamos o rewolver vasio. Foi uma surpreza terrivel.</p>
+
+<p>E todos nós, depois d'esta rapida reconstituição do drama de Seide, nos
+demorámos ali, concentrados e silenciosos, por alguns momentos, como se
+vissemos ainda Camillo, prostrado e arquejante, na sua cadeira de baloiço,
+morrendo.<span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Subimos depois ao segundo andar.</p>
+
+<p>Eram ahi o escriptorio do romancista e os quartos de cama.</p>
+
+<p>No escriptorio, por onde agora a luz golphava livremente, restavam do antigo
+mobiliario duas cadeiras de estofo, escanceladas e poentas.</p>
+
+<p>A nudez da sala, que o auctor de cem romances aquecera outr'ora com a
+irradiação vulcanica do proprio cerebro, gelou-me de tristeza. Dava a impressão
+de uma forja apagada. O tempo havia esfriado o rescaldo do ultimo livro. A
+officina parecia dormir tambem o somno da morte, que prostrára o valoroso
+artifice.</p>
+
+<p>Os aposentos de Camillo, alcova e saleta, estavam igualmente desnudados de
+mobilia; apenas na parede havia pendentes alguns <em>croquis</em> do Jorge, e
+dois quadrinhos de que eu me lembrava ainda perfeitamente.</p>
+
+<p>Tenho em Lisboa uma pasta cheia de desenhos, que o Jorge me deu ha dezeseis
+annos. Por isso, mais do que aos seus <em>croquis</em>, prestei attenção aos
+dois modestos quadrinhos, que durante longo tempo deram os bons dias e as boas
+noites a Camillo, velando a seu lado, como companheiros fieis e amigos
+intimos.</p>
+
+<p>São duas lithographias, que ninguem compraria n'um leilão, se ignorasse que
+ellas tinham pertencido a Camillo e ornado o seu quarto de cama.</p>
+
+<p>Uma é o retrato de Theophile Gautier, que foi o<span class="pn"><a
+name="pag_24">{24}</a></span> chefe do estado-maior no exercito do general
+Victor Hugo, durante as campanhas incruentas do romantismo.</p>
+
+<p>A sua <em>toilette</em> caracterisa nitidamente essa época literaria, em que
+os neóphytos revolucionarios procuravam desafiar a opinião publica e <em>épater
+le bourgeois</em> exhibindo fatos alarmantes pelo exagero da côr e do córte.</p>
+
+<p>Primeiro que tudo, falemos da cabelleira romantica, essa floresta de
+cabellos cahidos sobre os hombros, que denunciava á primeira vista os literatos
+e os pintores.</p>
+
+<p>Agora, em nossos dias, muitos pintores e alguns poetas téem querido
+resuscital-a por amor da celebridade; mas, ai d'elles! fazem lembrar os
+mascarados que no carnaval moderno se vestem de pagens de Luiz XIV ou de
+cortezãos de Luiz XV.</p>
+
+<p>Deslocados do seu meio e do seu tempo, apenas conseguem dar uma falsa noção
+historica: são parcellas que sobrevivem a uma addição que se apagou.</p>
+
+<p>A cabelleira, como ornato capillar, efemina ridiculamente os homens de
+hoje.</p>
+
+<p>Como caracteristica d'uma época, passou com essa época: é uma recordação
+archeologica, que assenta melhor no muzeu do Carmo do que n'uma cabeça
+humana.</p>
+
+<p>Theophile Gautier, que era então um rapaz, a quem o bigode pennujava ainda,
+veste casaco de alamares&mdash;esse casaco-broquel, que defendia os corações
+romanticos.<span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span></p>
+
+<p>O romantismo foi uma seita aguerrida, propensa a brigas e reptos. Por isso,
+talvez, adoptou o casaco de alamares, que tinha o que quer que fosse de aspecto
+militar, de lamina protegendo o peito de um couraceiro.</p>
+
+<p>No pescoço, um lenço de seda preta, alto como o gorjal de um cavalleiro
+antigo.</p>
+
+<p>Honrado lenço de seda, que durante tanto tempo adornaste o pescoço de nossos
+pais! tu tinhas uma eloquencia clamante e solemne. Davas ao pescoço humano uma
+attitude erecta e firme, como a de um busto de marmore ou de um granadeiro em
+formatura.</p>
+
+<p>Dir-se-ia que os pescoços, grossos e aprumados, tinham então musculos de
+aço, a envergadura de uma aguia ou de um cysne. Precisavam uma encadernação
+condigna, forte e austera.</p>
+
+<p>Depois vieram as gravatas multicores e multiformes, dando a impressão de
+fitas garridas para adorno de damas.</p>
+
+<p>E a Academia Real das Sciencias decidirá, porque é muito capaz d'isso, se
+foram os pescoços que adelgaçaram por amor das gravatas, se foram as gravatas
+que adelgaçaram por amor dos pescoços.</p>
+
+<p>O outro retrato é de Alphonse Karr, tambem então em plena mocidade. Tem buço
+e «mosca», levemente esboçados; e usa apenas meia cabelleira. Mas o effeito da
+<em>toileite</em> compensa, como excentricidade de <em>pose</em>, a deficiencia
+da cabelladura.</p>
+
+<p>Karr veste camisa de trabalho, desafogada no pescoço,<span class="pn"><a
+name="pag_26">{26}</a></span> e sobre ella um amplo gabinardo, que tanto
+poderia servir a um pescador ou um jardineiro, como a um escriptor em
+actividade&mdash;porque tudo isso foi o auctor das <em>Guépes</em>, sendo elle
+proprio uma obra em trez volumes.</p>
+
+<p>Tambem não sei se a Academia Real das Sciencias quererá dar parecer sobre o
+facto, em que fiz reparo, de Theophile Gautier ter sobrancelhas desenhadas em
+arco e Alphonse Karr sobrancelhas colleadas em til.</p>
+
+<p>Pode ser que das ponderações da Academia a este respeito venha a fazer-se
+nova e difinitiva luz sobre a apreciação critica de Gautier e Karr.</p>
+
+<p>Ha muito a esperar da Academia, tanto mais que ella ainda não fez nada.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Da saleta de Camillo passámos ao quarto de cama da viscondessa de Correia
+Botelho, igualmente desmobilado.</p>
+
+<p><a name="essa" id="essa" href="#L2581">Foi ali que essa linda mulher, de
+fórmas esculpturaes</a>, envelheceu e expirou.</p>
+
+<p>D. Anna Augusta Placido falleceu repentinamente da ruptura de um aneurysma,
+no dia 20 de setembro de 1895 pela manhã.</p>
+
+<p>Tinha accordado bem disposta e, a breve trecho, veio a morte
+surprehendel-a.</p>
+
+<p>Após algumas golphadas de sangue, cahiu exanime na almofada do leito.<span
+class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span></p>
+
+<p>Morreu corajosamente, rodeada pelos netos.</p>
+
+<p>Ella, que teve uns olhos cheios de brilho e de magia, estava quasi cega
+quando morreu.</p>
+
+<p>Já não podia lêr, nem escrever.</p>
+
+<p>Eu ignorava esta circumstancia, que me foi agora communicada em Seide.</p>
+
+<p>Extranho destino o d'essas duas almas, Anna Placido e Camillo, que o amor
+reuniu, que a convivencia torturou, e que a desgraça da cegueira feriu
+implacavelmente na velhice, para que ambos exgotassem até ás fezes o mesmo
+calix de amargura.</p>
+
+<p>Aqui terminou a nossa visita á casa deshabitada de Seide, rodeada de
+«pinheiraes gementes», mais triste agora do que nunca.</p>
+
+<p>Por vezes o sr. Carvalho aligeirou a melancolia que nos acabrunhava ali,
+evocando alguma recordação anecdotica da vida de Camillo.</p>
+
+<p>Quando sahiamos o portão da quinta, dizia-nos o sr. Carvalho:</p>
+
+<p>&mdash;Um dia, Camillo, vindo do Porto, preveniu o chefe da estação de Villa
+Nova de que esperava brevemente a visita de um «bacharel» e pediu-lhe que o
+guiasse para S. Miguel de Seide. Sempre que chegava um comboio, o chefe da
+estação perguntava: «Vem ahi algum sr. doutor, que deseje ir para Seide?»
+Ninguem respondia. Até que finalmente appareceu o «bacharel» annunciado: era um
+burro que Camillo Castello Branco tinha comprado no Porto.<span class="pn"><a
+name="pag_28">{28}</a></span></p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Como voltassemos á casa do Nuno, para nos despedirmos dos netos do grande
+romancista, pois que só o pequeno Camillo nos tinha acompanhado, aproveitei o
+caminho para fazer algumas perguntas á sr.ª D. Anna.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. visconde de Corrêa Botelho não reservou para si alguns livros e
+manuscriptos, quando vendeu a bibliotheca?</p>
+
+<p>Obtive esta resposta:</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor. Mas a sr.ª viscondessa recommendou-me muitas vezes que
+os não mostrasse a ninguem antes de entregal-os aos netos.</p>
+
+<p>Fiquei, confesso, um pouco contrariado, mas não tinha que replicar.</p>
+
+<p>Perguntei á sr.ª D. Anna por um antigo criado de Camillo, que eu conhecêra
+na Povoa de Varzim e do qual o grande romancista me disse n'aquella praia:
+«Manoel Canniço é a unica pessoa que manda na minha casa. Assumiu a dictadura e
+não sabe governar d'outro modo: dava um bom ministro... constitucional.»</p>
+
+<p>Poucas horas depois sahiamos, Camillo e eu, para ir dar um passeio.</p>
+
+<p>O Manoel Canniço appareceu-nos na escada e interpellou seu amo
+dizendo-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;V. Ex.ª vai sem paletot?</p>
+
+<p>Camillo respondeu passivamente:<span class="pn"><a
+name="pag_29">{29}</a></span></p>
+
+<div class="imagem_full">
+<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/nuno.jpg"></p>
+
+<p>NUNO</p>
+</div>
+
+<p>&mdash;A tarde está quente, e nós demoramo-nos pouco.</p>
+
+<p>Manoel Canniço, em plena dictadura, replicou:</p>
+
+<p>&mdash;V. Ex.ª vai vestir o paletot; queira esperar, que vou buscal-o.</p>
+
+<p>Camillo encolheu os hombros, sorrindo. E ambos esperámos que o paletot
+chegasse.</p>
+
+<p>Andámos visitando os cafés e as roletas. Quando recolhiamos a casa, passámos
+por uma taberna onde estavam zangarreando viola. Camillo parou, olhou para
+dentro da tasca, e disse-me: «Quem toca é o Manoel Canniço. Por isso é que eu o
+soffro.»</p>
+
+<p>Segundo me contou a sr.ª D. Anna Correia, Manoel Canniço fôra para o Brazil,
+onde se demorára alguns annos; regressou outro dia, mais pobre do que tinha
+ido.</p>
+
+<p>Voltando á casa do Nuno, tornei a falar na necessidade de, com o auxilio do
+Estado, serem convenientemente educados os netos de Camillo.</p>
+
+<p>E de repente ataquei um assumpto novo:</p>
+
+<p>&mdash;Estes meninos téem uma tia no Porto, bem casada, supponho eu.</p>
+
+<p>A sr.ª D. Anna respondeu promptamente:</p>
+
+<p>&mdash;Téem, é certo, mas as nossas relações estão cortadas.</p>
+
+<p>Não pude então reprimir uma expansão que me desafogou o animo:</p>
+
+<p>&mdash;V. Ex.ª está pois convencida de que estes meninos téem uma tia no
+Porto?</p>
+
+<p>&mdash;Estou, sim, senhor.<span class="pn"><a
+name="pag_30">{30}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Tambem eu, minha senhora.</p>
+
+<p>O sr. Carvalho interveio na conversação, pondo-se a pé e dizendo com grande
+hombridade:</p>
+
+<p>&mdash;Negal-o foi uma loucura.</p>
+
+<p>Achei que era chegado então o momento opportuno de arrancar a mascara que me
+constrangia.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, minha senhora, disse eu, desde que não corro o risco de ter
+que contrariar a opinião de V. Ex.ª em sua propria casa, devo declarar-lhe o
+meu verdadeiro nome: eu sou Alberto Pimentel. E agora peço mil perdões a V.
+Ex.ª por ter usado de um disfarce, que me foi imposto pelo respeito e
+consideração que devia a V. Ex.ª Eu não podia, na sua presença, ter uma opinião
+que, sobre tão melindroso negocio de familia, lhe causasse desgosto.</p>
+
+<p>O sr. Carvalho sorria triumphalmente. A sr.ª D. Anna respondeu com
+indulgente cortezia, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Eu tinha-o suspeitado desde que V. entrou. <a name="Nuno" id="Nuno"
+href="#L2573">Em 1892 o Nuno, estando nós na Povoa, mostrou-me V. no <em>Café
+Chinez</em>;</a> no dia seguinte tornámos a vêl-o de tarde, no Passeio Alegre.
+E o Nuno dizia-me então: «Não haver aqui um homem, amigo de ambos, que pudesse
+reconciliar-nos!» O que é certo é que eu tinha fixado a physionomia de V. e mal
+podia acreditar n'uma tão completa similhança entre a pessoa que eu vira na
+Povoa e a pessoa que hoje me visitava com nome differente.</p>
+
+<p>O sr. Carvalho, de pé, no meio da sala, continuava a sorrir triumphalmente,
+esperando a occasião de dizer:<span class="pn"><a
+name="pag_31">{31}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;A mim tambem não me enganou V. Logo que o vi, perguntei ao sr. Trêpa:
+«Este não é o Alberto Pimentel?»</p>
+
+<p>E o sr. Adriano Trêpa confirmou:</p>
+
+<p>&mdash;Foi o que elle me disse ao ouvido, agarrando-me pelo braço.</p>
+
+<p>&mdash;O que lhe respondi eu? insistiu o sr. Carvalho.</p>
+
+<p>&mdash;Que tinha a certeza de que não era outra pessoa.</p>
+
+<p>O sr. Carvalho explicou que me conhecia de S. Miguel de Seide, e que, na
+Povoa de Varzim, viera esperar-me á estação com o Nuno no anno em que eu ali
+fôra visitar Camillo.</p>
+
+<p>A sr.ª D. Anna Corrêa disse então como se quizesse apresentar-me
+officialmente o sr. Carvalho:</p>
+
+<p>&mdash;É um nosso velho amigo, que o sr. visconde (Camillo) estimava
+muito.</p>
+
+<p>E, sorrindo, acrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;É o «José Fistula» do <em>Eusebio Macario</em>...</p>
+
+<p>O sr. Carvalho atalhou jovialmente:</p>
+
+<p>&mdash;Com a differença de que não sei tocar guitarra, nem cantar o
+<em>Fado</em>. Camillo brincava comigo; mas era meu amigo a valer, e eu
+adorava-o.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>É certo que o genial romancista, na vida aldeã de Seide, se entretinha
+familiarmente com a gente do campo. Não me refiro ao sr. Carvalho, que é
+um<span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span> camponez relativamente
+illustrado. Mas ainda outro dia vi em Santo Thyrso um velho jornaleiro que anda
+hoje pedindo esmola, e que recita perlengas mythologicas e polyglottas
+leccionadas por Camillo. Chama-se João de Seide e deve ter perto de setenta
+annos. Repete inconscientemente, como um phonographo, o que lhe ensinára o
+grande romancista em horas de bom humor. Por exemplo:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Jupiter era um deus omnipotente no Olympo. Venus era sua filha e mãe de
+Cupido, deus do amor. Um dia Jupiter escamou-se com Vulcano, deu-lhe um pontapé
+no trazeiro, e deixou-lh'o ao lado.</p>
+<hr style="width: 10%;">
+
+<p>Em francez, <em>bonne nuit</em> é boa noite; e <em>bon soir</em>, boa
+tarde.</p>
+
+<p>Em inglez, <em>good night</em> é boa noite.</p>
+<hr style="width: 10%;">
+
+<p>O verbo ser conjuga-se assim em francez</p>
+
+<p>Je suis<br>
+Tu es<br>
+Il est<br>
+Nous sommes<br>
+Vous êtes<br>
+Ils sont<span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span></p>
+<hr style="width: 10%;">
+
+<p>A China tem mais habitantes do que a Russia, mas a Russia é maior em
+territorio.</p>
+<hr style="width: 10%;">
+
+<p>Em Villa Nova de Famalicão, onde uma das novas ruas tem o nome de Camillo,
+ha um botequim conhecido pelo <em>Café do Gato</em>.</p>
+
+<p>«Gato» é o appellido do seu proprietario, um velho rijo e são, ainda com
+filhos pequenos.</p>
+
+<p>Era o botequim habitual de Camillo quando passava em Famalicão.</p>
+
+<p>Ali se entretinha o grande escriptor chalaçando com o velho Gato, cuja
+rusticidade de trato eu pude aferir pelo dialogo que se travou, na minha
+presença, entre elle e um cavalheiro de Famalicão, ao entrarmos ultimamente
+n'aquelle botequim com outros cavalheiros de Santo Thyrso.</p>
+
+<p>&mdash;Ó Gato, venha vêr o que estes srs. querem tomar.</p>
+
+<p>Resposta d'elle:</p>
+
+<p>&mdash;Não é preciso. Peça de lá, que eu sirvo de cá.</p>
+
+<p>É de notar que esta resposta agreste, no trato da gente rustica do Minho,
+não exclue bondade de caracter. Não vá suppôr-se que o proprietario do café de
+Famalicão seja um «gato bravo» da bocca para dentro.</p>
+
+<p>Mas o caso vem a proposito para mostrar que<span class="pn"><a
+name="pag_34">{34}</a></span> n'estas e outras rusticidades se recreava Camillo
+emquanto a cegueira o não isolou em Seide na treva e no desespero.</p>
+
+<p>O grande escriptor tinha um vocabulario pittorescamente ironico para
+exprimir os ridiculos e desleixos da vida campestre.</p>
+
+<p>Assim era que, segundo vejo n'um jornal minhôto, designava pelo nome
+bucolico de <em>boninas</em> as stratificações fecaes que matizam e embalsamam
+os caminhos nas villas e aldeias do Minho.</p>
+
+<p>Tem verdadeira graça pastoril: boninas!</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Reatemos a narrativa no ponto em que a deixámos: o motivo do meu
+disfarce.</p>
+
+<p>A sr.ª D. Anna asseverou mais uma vez que Nuno Castello Branco tinha
+desgosto de haver provocado a questão a que me constrangeu logo depois da morte
+de seu pae; mas que fôra arrastado a isso por despeitos de familia, em
+consequencia de sua irmã ter mandado depôr uma corôa, com palavras de filial
+saudade, sobre o féretro de Camillo.</p>
+
+<p>O sr. Carvalho, por sua vez, acrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Quando o Nuno foi levar ao Porto o manuscripto do <em>Protesto</em>,
+disse-lhe eu: «Não faças isso, Nuno, que é uma loucura. Vaes contradizer a
+verdade. E olha que chega para todos vós a gloria de teu pae.»</p>
+
+<p>&mdash;Mas o Nuno, insistiu a sr.ª D. Anna, estava arrependido<span
+class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span> e não tinha odio nenhum a V. E a
+sr.ª viscondessa sempre, n'outras occasiões, se lhe mostrou muito affeiçoada,
+falando de V. com especial estima.</p>
+
+<p>Certifiquei a sr.ª D. Anna de que eu procurei, quanto pude, evitar essa
+deploravel questão e poupar pessoalmente o meu adversario. Houve apenas uma
+insinuação que me feriu: a de que eu, por um vil interesse, o dinheiro,
+defendia a causa da filha de Camillo, quando é certo que eu nunca tivera
+intelligencias com o marido d'esta illustre senhora, e que até o não conheço.
+Mas essa mesma insinuação ficava esquecida, como se nunca houvesse existido,
+desde o momento em que eu tinha a certeza de que Nuno Castello Branco se
+arrependêra de a ter escripto.</p>
+
+<p>No decurso da conversação vi-me rodeado pelos netos de Camillo, como se eu
+fosse já um familiar d'aquella casa. Principiei a sentir-me estimado ali, o que
+me recompensou largamente de quantos desgostos a questão do <em>Protesto</em>
+me causou.</p>
+
+<p>Considero esse dia como um dos mais felizes da minha vida.</p>
+
+<p>O pequeno Camillo viera sentar-se no sophá, a meu lado, interessando-se
+muito, com a mão enconchada sobre a orelha direita, pela nossa conversação.</p>
+
+<p>A sr.ª D. Anna Corrêa tivera a encantadora bondade de dizer-me:</p>
+
+<p>&mdash;Apesar da recommendação da sr.ª viscondessa quanto aos livros do sr.
+visconde, eu quero mostral-os a V.: é a maior prova de estima que posso
+dar-lhe. Tenho a certeza que se a sr.ª viscondessa fosse viva,<span
+class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span> procederia do mesmo modo. Tambem
+ella faria esta excepção.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>D'ali a pouco subimos ao segundo andar para vêr o que resta da bibliotheca
+de Camillo: uns duzentos volumes talvez, repartidos por duas estantes
+envidraçadas. Algumas obras manuscriptas, poucas: lembro-me de ter visto uma
+genealogia em varios tomos. Entre os livros encontrei dois meus: <em>A Jornada
+dos Seculos</em> e a <em>Flor de myosótis</em>.</p>
+
+<p>Depois entramos no quarto em que Camillo dormia quando alli se demorava
+temporadas.</p>
+
+<p>É um amplo compartimento, cheio de luz, com largas janellas que deixam
+espraiar-se o olhar por cima dos pinheiraes até alcançar o cume de montes
+longinquos.</p>
+
+<p>Quando Camillo habitava aquelle quarto, já estava cego. Mas se não podia
+contemplar o panorama, cheio da placidez e melancolia que caracteriza os bastos
+pinheiraes tranquillos, devia sentir o calor do sol que invadia o aposento.</p>
+
+<p>A alma de Camillo teria certamente n'essas horas bem menos placidez que a
+floresta dormente.</p>
+
+<p>Abundam n'esse quarto os retratos de familia, muitas recordações de um
+passado a que o amor deu momentos de felicidade e seculos de amargura.</p>
+
+<p>Havia ali, em todo aquelle segundo andar, um bello nucleo de muzeu
+camilliano.<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span></p>
+
+<div class="imagem_full">
+<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/rachel.jpg"></p>
+
+<p>RACHEL</p>
+</div>
+
+<p>Foi n'esse mesmo andar que <a name="Jorge" id="Jorge" href="#L2613">Jorge
+Castello Branco, o infeliz primogenito de Camillo</a>, passou os ultimos tempos
+da sua curta existencia.</p>
+
+<p>Contou a sr.ª D. Anna Corrêa que elle tinha horror a vêr os criados da casa.
+Postas as refeições sobre a mesa, os criados sahiam; e o Jorge entrava depois.
+Algumas noites prestava-se a tocar piano&mdash;esse piano que era de sua mãe e
+que ella havia levado para a Cadea da Relação do Porto&mdash;mas exigia que
+ninguem estivesse presente. A musica foi uma das muitas aptidões artisticas do
+Jorge. Eu já disse algures que elle, em noites de luar, se empoleirava nas
+arvores de Seide a tocar flauta.</p>
+
+<p>Queria viver isolado no seio da propria familia. Não consentia que lhe
+fizessem limpeza no quarto. Se alguem se quizesse aproximar, cuspia-lhe.</p>
+
+<p>No dia 2 de setembro de 1900, o Jorge não se levantou para ir almoçar. A
+porta do seu quarto estava fechada por dentro, como era costume.</p>
+
+<p>A sr.ª D. Anna Corrêa chamou-o:</p>
+
+<p>&mdash;Sr. Jorge, são horas do almoço.</p>
+
+<p>Elle respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Já vou.</p>
+
+<p>Mas passou tempo sem que se levantasse.</p>
+
+<p>Tornaram a chamal-o.</p>
+
+<p>&mdash;Já vou, repetiu elle.</p>
+
+<p>Mas, como não apparecesse, a sr.ª D. Anna resolveu entrar no quarto pela
+janella, o que foi empreza difficil.</p>
+
+<p>Achou o Jorge doente, apathico, n'um estado gastrico<span class="pn"><a
+name="pag_38">{38}</a></span> que, n'esse momento, lhe pareceu não offerecer
+maior gravidade.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>D'aqui por deante, a narrativa da sr.ª D. Anna Corrêa conforma-se
+inteiramente com a versão que o sr. José de Azevedo e Menezes, da illustre casa
+do Vinhal, em Famalicão, me communicou n'uma carta, por mim já publicada.</p>
+
+<p>Vou reproduzil-a, para que não fique perdida na volumosa collecção de uma
+folha diaria:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Em resposta á estimada carta de v. &nbsp;&nbsp;&nbsp;, tenho a dizer-lhe que o infeliz
+Jorge de Castello Branco falleceu em casa de D. Anna Corrêa, a companheira do
+Nuno, no dia 10 do corrente mez, ás 6 horas da tarde, e enterrou-se no dia 12,
+assistindo alguns visinhos.</p>
+
+<p>«Tratou-o nos ultimos quinze dias de vida o medico Dias de Sá, de Landim,
+que logo previu o desenlace fatal.</p>
+
+<p>«No dia 2 d'este mez o Jorge sentiu-se mal do estomago, talvez por ter
+debicado as primeiras uvas e pêras do quintal da casa. Um ligeiro laxante
+deu-lhe melhoras, que infelizmente se não mantiveram, cahindo com desmaios e
+não podendo conciliar o somno.</p>
+
+<p>«A final veiu a paralysia cerebral que o matou sem agonia. De vez em quando
+gemia e invocava a<span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span> Deus!
+Durante um desmaio na manhã do dia em que morreu, foi ungido.</p>
+
+<p>«Não se lhe notou á hora da morte o intervallo lucido, que ás vezes apparece
+nas doenças mentaes.</p>
+
+<p>«Tinha, porém, amor á vida, esperando obter melhoras dos remedios, que só
+tomava nos caldos e leite pela mão da sua desvelada enfermeira D. Anna Corrêa,
+que foi para o infeliz louco uma carinhosa mãe.</p>
+
+<p>«Fui visitar essa bondosa mulher, e fiquei agradavelmente impressionado da
+sua apresentação e do bom senso, que mostrou em alguns pontos da nossa
+conversa. A rudeza da sua origem poliu-se no trabalho e soffrimento, que lhe
+deram os desgraçados com quem viveu. A mulher só se engrandece pela bondade,
+que é a sua belleza moral.</p>
+
+<p>«O grande desejo de D. Anna é educar bem os seus filhos, mas como poderá
+desempenhar-se d'esta nobre tarefa sem recursos? É urgente abrir uma campanha a
+favor d'ella, para que lhe acuda o governo ou as almas bemfazejas. Inicie v. na
+imprensa periodica esta nobilissima missão. Os dois filhos mais velhos são
+intelligentes, principalmente o Camillo, que eu fixei com attenção e
+descobri-lhe traços physionomicos do glorioso avô. O rapaz é triste e
+concentrado e quer ser Padre... Até n'isto se parece com o grande escriptor,
+que no verdor dos annos pensou em se prender á Egreja. A sua ultima assignatura
+foi no assento do baptismo d'este seu neto e afilhado,<span class="pn"><a
+name="pag_40">{40}</a></span> feita em casa de Nuno e sobre um piano, por lhe
+ficar mais a geito.</p>
+
+<p>«Ao sahir da casa de D. Anna Corrêa olhei para a outra proxima, aonde viveu
+e morreu o incomparavel prosador portuguez. Está agora mal pintada de amarello
+e triste como a tragedia que a fechou. N'aquelle gabinete de Camillo
+apagaram-se os ultimos lampejos da sua conversa encantadora, esmaltada sempre
+de ironias, cortantes como o nordeste.</p>
+
+<p>«Que tristeza e que lição para todos nós! Creia-me sempre</p>
+
+<p class="assin">De V. etc.</p>
+
+<p class="assin"><em>José de Azevedo e Meneses.</em></p>
+
+<p><small>S/C do Vinhal, 16-9-900.</small>»</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Os jornaes do norte do paiz, noticiando a morte de Jorge Castello Branco,
+logo fizeram sentir que, tendo cessado com a sua vida a pensão, os netos de
+Camillo ficavam quasi reduzidos á miseria.</p>
+
+<p>Dizia o correspondente de Famalicão para <em>O Commercio do Porto</em>:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«FAMALICÃO, 12.&mdash;Em S. Miguel de Seide sepultou-se hoje Jorge Castello
+Branco, ultimo filho do finado romancista Camillo Castello Branco.<span
+class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span></p>
+
+<p>«De ha muito que o seu viver era o de um verdadeiro louco, temendo todos e
+passando os dias n'um aposento sem o convivio de pessoa alguma. O seu
+fallecimenio foi um verdadeiro desastre para seis netos do grande romancista,
+pois que a pensão que o governo dava ao finado custeava tambem a educação das
+creanças, que agora ficam ao desamparo.&mdash;(<em>M. G.</em>)»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Escrevia o <em>Lusitano</em>, de Famalicão, no mesmo dia 12:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Acaba de fallecer em Seide o filho mais velho de Camillo Castello Branco, o
+pobre louco tão amado pelo immortal auctor do <em>Amor de Perdição</em> e
+tantas outras joias que hão de fulgurar seculos em fóra, na litteratura
+nacional.</p>
+
+<p>«Ha muito que o Jorge, doido, doido desde tenra idade, fugia completamente
+do convivio social.</p>
+
+<p>«Vimol-o ha semanas, pela ultima vez que veio á villa, causando immensa pena
+a precocidade da sua velhice e, mais nos commovemos ao attentarmos no seu
+perfil, que muito se parecia com o de seu pae.</p>
+
+<p>«Como é sabido, o filho mais novo de Camillo deixou bastantes filhos na
+miseria, servindo-lhes de amparo a pensão que o governo dava ao Jorge.</p>
+
+<p>«Morto este, ficam os netos de Camillo sem recursos de qualidade alguma.</p>
+
+<p>«Pois quando mais não seja se não para honrar a memoria de Camillo, deve o
+governo continuar a<span class="pn"><a name="pag_42">{42}</a></span> dar a seus
+netos a pequena quantia que deu ao Jorge durante alguns annos.</p>
+
+<p>«O pequeno Camillo Castello Branco e seus irmãos não devem ficar ao
+desamparo.</p>
+
+<p>«Quem sabe até se, educados os netos do genial <em>Solitario de Seide</em>,
+algum d'elles não será ainda muito util ás letras patrias, continuando a
+honral-as como honradas foram mais de meio seculo por seu avô o querido
+Mestre?»</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>A pensão ao primogenito de Camillo havia sido concedida por um decreto
+depois sanccionado pelo parlamento nos seguintes termos:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Artigo 1.º É approvado o decreto de 23 de maio de 1889, pelo qual, em
+reconhecimento publico dos relevantissimos serviços prestados ás letras patrias
+pelo visconde de Correia Botelho (Camillo Castello Branco), é concedida a seu
+filho Jorge Camillo Castello Branco a pensão annual e vitalicia de 1:000$000
+réis.</p>
+
+<p>«§ unico. A pensão de que trata esta lei é isenta do pagamento de quaesquer
+impostos, e será abonada desde a data do decreto que a concedeu, ao visconde de
+Correia Botelho, em quanto vivo fôr.</p>
+
+<p>Art. 2.º Fica revogada a legislação contraria a esta.»<span class="pn"><a
+name="pag_43">{43}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Os filhos do visconde de S. Miguel de Seide, netos de Camillo, aos quaes
+faltou o amparo da pensão que o tio recebia, são, pela ordem chronologica do
+nascimento:</p>
+
+<p>Flora, nascida a 11 de janeiro de 1886.</p>
+
+<p>Camillo, nascido a 16 de março de 1888, no mesmo dia e mez em que nasceu o
+avô, que era seu padrinho.</p>
+
+<p>Nuno Placido, nascido a 4 de março de 1889.</p>
+
+<p>Rachel, nascida a 21 de fevereiro de 1890.</p>
+
+<p>Simão, nascido a 6 de julho de 1891.</p>
+
+<p>Manuel, nascido a 23 de abril de 1893.</p>
+
+<p>Um motivo especial, que logo referirei, leva-me a fazer duas transcripções
+do jornal de Famalicão, <em>O Lusitano</em>, apezar de em qualquer d'ellas se
+encontrar o meu nome acompanhado de adjectivos que eu considero apenas um
+amavel cumprimento de quem os escreveu.</p>
+
+<p>Agradeço-os, mas declino-os por immerecidos.</p>
+
+<p>Não me assiste, porém, o direito de mutilar as transcripções.</p>
+
+<p>Dizia <em>O Lusitano</em> no seu numero de 29 de agosto do corrente anno:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Noticiámos, ligeiramente, a semana passada, a estada, em S. Miguel de
+Seide, de visita aos netos de Camillo, do illustre escriptor sr. Alberto
+Pimentel.</p>
+
+<p>«Não conhecemos as impressões, que a sua ex.ª resultaram da volta, passados
+tantos annos, á casa do grande escriptor seu amigo. Mas não nos seria
+desagradavel<span class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span> saber se o nosso
+estimado confrade do <em>Popular</em> tomou, ou não, a resolução de contar no
+jornal, que redige, como é justo que o governo tome a iniciativa de proteger,
+de algum modo, os malaventurados netos do grandioso estylista.</p>
+
+<p>«Tem-nos contado pessoas, que privam com a familia de Seide, que ha, entre
+aquellas seis creanças, uma&mdash;o Camillo&mdash;possuidora de intelligencia
+rara.</p>
+
+<p>«Se assim é, não faz pena que a falta de recursos constitua embaraço ao
+aproveitamento d'aquelle rapaz?</p>
+
+<p>«Não ha duas opiniões divergentes sobre a justiça de continuar, em favor dos
+descendentes do eminente romancista, o subsidio, que este primeiro aproveitou e
+que se extinguiu pela morte do Jorge. Vão os rendimentos do Estado, dia a dia,
+para applicações muito menos comprehensiveis.</p>
+
+<p>«O sr. Alberto Pimentel, que foi á casa de Seide, decerto viu o que aquillo
+é, comparativamente com outros tempos.</p>
+
+<p>«Ponha, por conseguinte, s. ex.ª todo o enorme merecimento da sua penna e
+das suas relações ao serviço d'esta causa. É o maior testemunho de amizade que
+póde prestar á memoria do extraordinario escriptor. E evita que se reedite
+aquella tão conhecida e fustigante phrase de Garrett, que constitue, com
+motivo, um castigo severissimo á contumaz ingratidão do nosso meio.»<span
+class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="imagem_full">
+<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/simao.jpg"></p>
+
+<p>SIMÃO</p>
+</div>
+
+<p>Eu tinha necessidade de commentar esta transcripção para explicar o meu
+procedimento.</p>
+
+<p>Se, immediatamente á minha visita á familia de Seide, não publiquei no
+<em>Popular</em> as impressões que ali recebêra ao observar de perto a vida dos
+netos de Camillo e, portanto, a justiça da sua causa, foi porque logo fiz
+tenção de me occupar do assumpto com maior desenvolvimento do que aquelle que
+poderia dar-lhe n'um ou dois artigos de jornal.</p>
+
+<p>Desobrigo-me agora do compromisso que tomei comigo mesmo.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Poucos dias depois de ter lido a noticia do <em>Lusitano</em>, acima
+transcripta, recebi do sr. Rodrigo Terroso, jornalista distincto e
+escrivão-notario na comarca de Famalicão, uma carta relativa ás impressões que
+eu teria trazido de Seide e ao que eu estaria disposto a fazer em favor da
+pensão.</p>
+
+<p>Respondi na volta do correio, e o teor da minha resposta resalta da seguinte
+noticia que <em>O Lusitano</em> publicou no dia 3 de setembro:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Ao director politico d'esta folha que acompanhou, particularmente, perante
+o sr. Alberto Pimentel o pedido feito aqui ha oito dias em favor dos netos de
+Camillo, respondeu, de prompto, o apreciavel escriptor e jornalista com uma
+carta, que é a promessa solemne de intervir no sentido rogado.<span
+class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span></p>
+
+<p>«... fui expressamente a Seide para me orientar na questão da pensão aos
+netos de Camillo.</p>
+
+<p>«Na proxima legislatura trabalharei por conseguil-o, no que espero ter o
+auxilio de Antonio e José de Azevedo.</p>
+
+<p>«Não farei parte do parlamento, mas envidarei os maiores esforços possiveis
+junto do parlamento e do governo.»</p>
+
+<p>«É solemnissima a promessa. Fiamos de que será cumprida. Sobre dar-se com o
+sr. Alberto Pimentel a circumstancia de haver sido dos amigos mais sisudos de
+Camillo, accresce que o distincto escriptor lisbonense conhece, ao presente, em
+pessoa, a justiça da causa, que tanto tem merecido as nossas sympathias. E
+dizemos assim porque ainda ninguem a advogou com tão fervente empenho como nós,
+que fomos, até, o primeiro a patrocinal-a. Consta isso de correspondencias que
+o <em>Primeiro de Janeiro</em> publicou logo a seguir á morte do Jorge, sem
+falar no pedido directo que, immediatamente, apresentamos ao sr. conselheiro
+Antonio de Azevedo, sobrinho de Camillo, muito apreciado por este. E que o
+notavel homem publico trabalhou n'esse sentido, mais seu irmão sr. conselheiro
+José de Azevedo, disse-o, poucos dias decorridos, um telegramma para o
+<em>Diario da Tarde</em>, confirmado, simultaneamente, por algumas gazetas de
+Lisboa.</p>
+
+<p>«O sr. Alberto Pimentel affiança-nos a intervenção d'estes dois auxilios.
+Pois é caso para nos julgarmos felizes com a felicidade certa dos netos de
+Camillo.<span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span></p>
+
+<p><em>P. S.</em>&mdash;<em>O Regenerador</em> refere-se, sobre o mesmo motivo,
+a uma carta antiga do sr. José de Menezes ao sr. Alberto Pimentel. Era o sr.
+Menezes um dos amigos de Camillo. Não sabiamos que tinha intervindo. Fel-o e
+procedeu cavalheirosamente. Está na reconhecida correcção de s. ex.ª».</p>
+
+<p>Trabalhemos todos&mdash;todos os que veneramos a memoria de
+Camillo&mdash;sem excepção de ninguem, no empenho de vencer esta causa santa,
+que a Justiça inspira e que o Patriotismo recommenda.</p>
+
+<p>É uma divida nacional, que tem de ser paga. Somos todos devedores;
+honremo-nos pagando.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>A Sr.ª D. Anna Corrêa cumulou-me de amaveis deferencias logo que o meu
+disfarce cahiu. Uma d'ellas, a que mais encantado me deixou, foi a gentileza de
+me obzequiar com os dois quadrinhos, os retratos de Gautier e Karr, que estavam
+na saleta contigua á alcova de Camillo.</p>
+
+<p>Se bem que um pouco damnificados pela acção do tempo, como se póde vêr na
+reproducção, elles representam para mim um valor inestimavel.</p>
+
+<p>Fil-os authenticar com a seguinte declaração, que mandei imprimir e collar
+no tampo da moldura:</p>
+
+<p>«E<small>STE QUADRO ESTAVA NO QUARTO DE</small>»<br>
+«<small>CAMA DE</small> C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small>
+B<small>RANCO EM</small>»<span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span><br>
+«S. M<small>IGUEL DE</small> S<small>EIDE</small>. F<small>OI-ME DADO ALI
+PELOS</small>»<br>
+«<small>SEUS HERDEIROS, A 20 DE AGOSTO DE 1901,</small>»<br>
+«<small>NA PRESENÇA DO SR.</small> A<small>DRIANO DE</small>
+S<small>OUZA</small>»<br>
+«T<small>REPA, DE</small> S<small>ANTO</small> T<small>HYRSO, E</small>
+F<small>RANCISCO</small>»<br>
+«C<small>ORRÊA DE</small> C<small>ARVALHO, DE</small>
+S<small>EIDE</small>.&mdash;A<small>LBER-</small>»<br>
+«<small>TO</small> P<small>IMENTEL</small>.»</p>
+
+<p>Foi o sr. Carvalho que, trepado a um banco, os despendurou da parede,
+fronteira ás janellas.</p>
+
+<p>Mais nua ficou ainda desde essa hora a casa solitaria de S. Miguel de
+Seide.</p>
+
+<p>Aqui tenho eu, deante dos olhos, esses dois velhos companheiros de Camillo,
+seus camaradas e seus hospedes, Gautier e Karr, com os quaes conversarei
+longamente sobre a vida e a morte d'esse que foi nosso commum amigo e que elles
+tão de perto viram soffrer e sonhar&mdash;por tantos dias e tantas noites.</p>
+
+<p>Da parede onde estavam enthronisados só podiam avistar todo um horisonte de
+pinheiros a esbater-se, ao longe, na vertente de uma vasta corda de montes.</p>
+
+<p>Coitados! a principio devia custar-lhes muito terem que trocar Pariz pelo
+Minho, o bulicio pelo silencio, os <em>boulevards</em> pelos pinheiraes, a
+capital do mundo pela aldeia erma e profunda.</p>
+
+<p>Mas o campo, como o oceano, é uma solidão apenas repulsiva nos primeiros
+tempos de uma iniciação forçada; depois identifica-se tanto com a nossa alma,
+penetra-a de uma tão saudavel tranquilidade e doçura, que se torna quasi uma
+religião: não ha meio<span class="pn"><a name="pag_49">{49}</a></span> de
+arrancar o camponez ao seu tugurio e o marinheiro ao seu beliche.</p>
+
+<p>Agora, saudosos da Thebaida de Seide e do grande espirito que a povoava,
+virão constrangidos, Gautier e Karr, defrontar-se, através da minha janella,
+com as trapeiras d'esta revôlta casaria de Lisboa, cahotica e asymetrica, que
+apenas deixa ver escassos retalhos de céu azul na claridade limpida do ar.</p>
+
+<p>Sou eu o primeiro a lamental-os, mas nem por isso os guardarei com menor
+vigilancia; altas personagens de que me constituiram carcereiro, saberei
+amal-as, mas saberei tambem garantir a sua posse&mdash;como a de dois
+inestimaveis valores que vieram enriquecer o meu thesouro camilliano.</p>
+
+<p>Devo ainda á sr.ª D. Anna Corrêa a gentil prodigalidade de outra offerta: o
+retrato de Manoel Pinheiro Alves, primeiro marido da viscondessa de Corrêa
+Botelho.</p>
+
+<p>Quando publiquei <em>Os amores de Camillo</em>, muito desejei eu obter este
+retrato; mas n'essa occasião faltava-me a certeza de que o meu pedido não seria
+uma inconveniencia irritante.</p>
+
+<p>Confessei-o agora á sr.ª D. Anna Corrêa, que espontaneamente me offereceu um
+exemplar em photographia. No album de Seide havia dois, tirados em Pariz, no
+tempo de Napoleão III, casa Mayer &amp; Pierson, boulevard des Capucines, 3.</p>
+
+<p>Incluirei esse retrato n'uma segunda edição d'<em>Os amores de Camillo</em>,
+se algum dia a fizer. Aqui não é<span class="pn"><a
+name="pag_50">{50}</a></span> o seu logar proprio. Mas quero dar uma rapida
+impressão da pessoa de Manuel Pinheiro Alves: alto, magro, face glabra, olhos
+pequenos e fundos, escasso cabello penteado sobre a orelha direita; vestindo
+correctamente de preto, sobrecasaca comprida, gravata em laço.
+<em>Toilette</em> de velho, harmonisando com a physionomia; mas de velho que,
+por amor de uma mulher, quer apurar o vestir.</p>
+
+<p>Tem o aspecto grave de ser o pai de D. Anna Placido, não o marido.</p>
+
+<p>Tambem agora fiquei sabendo que Manuel Pinheiro Alves nascêra perto de S.
+Miguel de Seide.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Quando voltámos á casa de Camillo, para eu receber os dois quadrinhos, parei
+um momento, ao sahir, no topo da escada de pedra.</p>
+
+<p>Corri os olhos pelo vasto pinheiral circumjacente, que fecha o horisonte
+n'uma faxa verde-negra. Tive n'esse momento a nitida comprehensão do que seriam
+ali as longas noites de inverno, ouvindo gemer os pinheiros na solidão profunda
+de uma aldêa minhota.</p>
+
+<p>&mdash;Pobre Camillo! disse eu, como se estivesse pensando alto. As suas
+noites aqui deviam ser horriveis!</p>
+
+<p>O sr. Francisco Corrêa de Carvalho replicou:</p>
+
+<p>&mdash;As tardes, as tardes de Camillo é que eram<span class="pn"><a
+name="pag_51">{51}</a></span> ainda mais agitadas e tormentosas do que as
+noites. Depois de jantar, soffria muito; excitava-se, tinha desesperos,
+frenesis, que nos amarguravam tambem a nós.</p>
+
+<p>É facil a explicação d'este phenomeno pathologico.</p>
+
+<p>As crises visceraes, dolorosas, são vulgares nos tabeticos. Ou vem com as
+<em>dores fulgurantes</em> (Camillo teve-as) ou independentemente d'ellas.
+Chegam a ser de violencia extrema, por vezes. E, entre essas crises visceraes,
+a gastralgia é frequente.</p>
+
+<p>O trabalho da digestão provocaria as torturas gastralgicas.</p>
+
+<p>Após elle, quando em socego o estomago, a crise desapparecia, dando treguas
+ao pobre Camillo.</p>
+
+<p>Eis aqui, pois, mais um pormenor do ingente drama de amargura que matou o
+grande romancista.</p>
+
+<p>Voltei agora a Seide, depois de dezeseis annos de ausencia.</p>
+
+<p>Estive ali no mez de agosto de 1885.</p>
+
+<p>O opusculo <em>Uma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de
+Seide</em> recorda esse facto.</p>
+
+<p>Em agosto de 1901, repetida a jornada, já não encontrei nenhuma das pessoas
+que em 1885 povoavam a casa de Seide: Camillo, D. Anna Placido, Jorge e Nuno
+Castello Branco.</p>
+
+<p>Dir-se-ia que um desastre enorme victimára de um só golpe uma familia
+inteira.</p>
+
+<p>É que a fatalidade de certos destinos iguala-os<span class="pn"><a
+name="pag_52">{52}</a></span> na vida e na morte, regulando as suas horas por
+uma unica ampulheta.</p>
+
+<p>Os desgraçados que nasceram sob a mesma sina chamam uns pelos outros.</p>
+
+<p>Fui achar uma segunda geração, uma ninhada de creanças intelligentes e
+meigas, que se encontram, desprotegidas, á beira de um abysmo insondavel.</p>
+
+<p>O seu dia de amanhã não é mais seguro do que a salvação incerta do naufrago
+que, em pleno oceano, espera, sobre uma tabua fluctuante, um acaso
+providencial, a passagem de um navio que o possa descobrir entre montões de
+espuma.</p>
+
+<p>Uma debil creatura, precocemente envelhecida, e já cansada de soffrer, é
+hoje a garantia unica do futuro d'essas creanças, que não téem mais ninguem no
+mundo além de sua mãe, nem melhor patrimonio que alguns palmos de terra sêcca e
+hypothecada.</p>
+
+<p>Seu avô honrou a patria de um modo excepcionalmente grande, com a fulguração
+de um talento literario, que póde fazer inveja aos extrangeiros.</p>
+
+<p>Honre-se a patria a si mesma adoptando-lhe os netos, perfilhando-os
+amoravelmente, salvando-os da miseria e do abandono, premiando n'elles a gloria
+do avô immortal.</p>
+
+<div class="imagem_full">
+<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/manuel.jpg"></p>
+
+<p>MANUEL</p>
+</div>
+
+<p>Cada dia, cada mez, cada anno que passa, complica, por sacrificios
+exhaustivos, a situação da familia de Seide. Os netos de Camillo téem já visto
+florescer muitas vezes a acacia do Jorge e chamado em vão pela alma do avô, que
+não voltou ainda com as auras de abril. Tornemos realidade o que parece haver
+sido<span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span> prophecia do grande
+espirito de Camillo: que todas essas creanças invoquem de novo o nome do que
+prometteu voltar. E elle voltará para acudir-lhes. Quando a acacia «outra vez
+inflore», o paiz terá feito justiça, e Camillo terá voltado para junto dos
+netos, assistindo-lhes em espirito, agasalhando-os com a gloria do seu nome.</p>
+
+<p>Corações justos, corações bons, auxiliai esta santa cruzada: a de despertar
+a patria adormecida.</p>
+
+<p><a name="Leitores" id="Leitores" href="#L2606">Leitores de cem romances, que
+uma só penna escreveu</a>, agradecei aos netos as lagrimas e os sorrisos com
+que o avô tem preenchido deleitosamente muitas horas da vossa vida, desde o
+<em>Anathema</em>, uma estreia, até aos <em>Vulcões de lama</em>, a ultima
+novella, raio de sol poente que não tardou a apagar-se.</p>
+
+<p>Se quizerdes fazer isso, estará feito tudo.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><small>Santo Thyrso&mdash;Lisboa.<br>
+Agosto a setembro de 1901.</small></p>
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p>
+
+<h1>NOTAS</h1>
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span></p>
+
+<h4>P<small>AGINA</small> 6</h4>
+
+<h5><a name="L2599" id="L2599" href="#antigo">«... a cêrca do antigo mosteiro
+de Landim.»</a></h5>
+
+<p>Este mosteiro era de conegos regrantes de Santo Agostinho. Dizem-n'o fundado
+por Dom Gonçalo Rodrigues Palmeiro, senhor do couto da Palmeira.</p>
+
+<p>Na inquirição que o Cardeal D. Henrique mandou fazer sobre mosteiros de
+Entre-Douro-e-Minho, o de <em>Landim</em> é designado como sendo a de Nossa
+Senhora de <em>Namdim</em>.</p>
+
+<p>O conde D. Pedro, em seu <em>Nobiliario</em>, tambem diz <em>Namdim</em>.</p>
+
+<h4>P<small>AG</small>. 15</h4>
+
+<h5><a name="L2597" id="L2597" href="#monumento">«o monumento commemorativo da
+visita de Castilho, «principe da lyra portugueza», a S. Miguel de Seide, em
+julho de 1866.»</a></h5>
+
+<p>As relações de amizade entre Camillo e Castilho começaram em 1854, no Porto.
+Foi nesse anno e n'aquella cidade que pela primeira vez se encontraram os dois
+em casa do Sr. Antonio Bernardo Ferreira, que então morava na rua da Boavista
+(casa da familia Garrett) e que organisou em honra de Castilho um sarau
+literario. Camillo recitou versos de <em>Um Livro</em>.</p>
+
+<p>N'uma carta particular, enviada para Lisboa, dizia Castilho,<span
+class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span> relatando o que se passára naquelle
+sarau: «Camillo Castello-Branco, poeta e prosador de elevado merito, etc.»</p>
+
+<p>Julio de Castilho, publicando trechos d'esta carta, commenta a referencia a
+Camillo dizendo que <em>essa amizade</em>, então começada no Porto, ficou
+cimentada para sempre. (<em>O Instituto</em>, de Coimbra, n.º 9, vol. 48.º)</p>
+
+<p>Foi Camillo, guia dos meus primeiros passos na vida literaria, quem me
+ensinou a amar Castilho.</p>
+
+<p>Costumavam outr'ora as criadas velhas contar ás creanças da casa lindas
+historias de reis e principes encantados.</p>
+
+<p>Camillo, que foi de algum modo o meu <em>niñero</em> espiritual, falava-me
+muitas vezes de um grande principe das letras, rei das canções lhe chamou
+Herculano, protector de poetas, amador da natureza, acariciador das creanças e
+propugnador da felicidade do povo pela instrucção e pela agricultura.</p>
+
+<p>Era Castilho, rei das canções, principe das letras, cego como ¼dipo, o
+famoso rei de Thebas.</p>
+
+<p>E assim como ¼dipo encontrava o braço de sua filha Antigone para guial-o
+carinhosamente na cegueira, Castilho tinha nos braços de seus filhos outros
+tantos bordões amorosos que o ajudavam a firmar os passos incertos e
+vacillantes.</p>
+
+<p>Recebi, pois, de Camillo o amor a Castilho, e de quanto elle o amava dá
+eterno testemunho esta encantadora dedicatoria do romance <em>Agulha em
+palheiro</em>:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="centrado"><em>Ao poeta das creanças, das flores, do amor,<br>
+da melancholia e dos desgraçados,<br>
+ao illustrissimo e excellentissimo senhor<br>
+Antonio Feliciano de Castilho,<br>
+honra da patria<br>
+honra dos que o prezam, e amam a patria<br>
+&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;offerece<br>
+o amigo, o respeitador, o discipulo mais devedor<br>
+Camillo Castello Branco</em></p>
+
+<p>&nbsp;<span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span></p>
+
+<p>Em outro livro, <em>No Bom Jesus do Monte</em>, cita Castilho a par de
+Lamartine e Victor Hugo, como sendo um nome que dá «á humanidade orgulho de o
+proferir».</p>
+
+<p>Durante a <em>Questão Coimbrã</em>, nas <em>Vaidades irritadas e
+irritantes</em> vem á estacada quebrar lanças pela gloria de Castilho, e
+escreve: «... o mais enthusiasta admirador de Castilho, se algum houve que mais
+que eu lhe devesse e o amasse...»</p>
+
+<p>Foi assim que Camillo amou Castilho; foi assim que eu aprendi com Camillo a
+amar Castilho.</p>
+
+<h4>P<small>AG</small>. 16</h4>
+
+<h5><a name="L2589" id="L2589" href="#dedicat">«a dedicatoria da <em>Maria
+Moysés</em> a Thomaz Ribeiro.»</a></h5>
+
+<p>Diz o texto d'essa dedicatoria:</p>
+
+<blockquote>
+ <p class="centrado">A</p>
+
+ <p class="centrado">THOMAZ RIBEIRO</p>
+
+ <p>«São passados dez annos depois que vieste aqui. Foi hontem; e a pedra onde
+ gravei o teu nome está denegrida como a dos tumulos antigos. Debaixo d'ella
+ estão dez annos da nossa vida. Jazem ali os homens que então eramos. Estou
+ vendo Castilho encostado ao frizo da columna tosca; estou ouvindo os teus
+ versos recitados em nome de meus filhos... Ah! é verdade... tu não os
+ recitaste porque tinhas lagrimas na voz e no rosto. Que faria de ti a
+ politica, meu querido, meu poeta da patria e da alma:</p>
+
+ <p>«S. Miguel de Seide, novembro de 1876.»</p>
+</blockquote>
+
+<h4>P<small>AG</small>. 16</h4>
+
+<h5><a name="L2587" id="L2587" href="#inscrip">«A inscripção está quasi
+apagada, como já se apagou tambem a vida das pessoas a quem ella se
+referia.»</a></h5>
+
+<p>O modesto monumento, de que fiz mais larga menção<span class="pn"><a
+name="pag_60">{60}</a></span> no opusculo <em>Uma visita ao primeiro romancista
+portuguez em S. Miguel de Seide</em>, Porto, 1885, falla-me saudosamente de
+seis pessoas, cuja memoria conservo muito viva entre as mais gratas lembranças
+do passado.</p>
+
+<p>D'essas seis pessoas, as ultimas a morrer foram Eugenio de Castilho,
+fallecido a 8 de janeiro de 1900, e Thomaz Ribeiro, a 6 de fevereiro de
+1901.</p>
+
+<p>Embora tenha de fazer uma annotaçao talvez demasiadamente longa&mdash;o que
+não sei se é proprio do teor das annotações&mdash;não posso ter mão em mim que
+não complete, para o meu espirito, a historia do monumento de Seide com as
+recordações que me são suggeridas pelos nomes de Eugenio de Castilho e Thomaz
+Ribeiro.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Uma coisa vos confessarei eu, sr. Dom Leonardo...</p>
+
+<p>Lembram-se? Vem nos <em>Logares selectos</em>, do padre Cardoso: é um
+excerpto da <em>Côrte na aldeia</em>, de Rodrigues Lobo&mdash;dois livros bons,
+cada qual no seu genero; bons como se faziam d'antes.</p>
+
+<p>Pois, já que a phrase me lembrou, adopto-a, mas cito ao menos a origem, o
+que nem sempre se faz agora.</p>
+
+<p>Os tempos são outros; d'isso é que me queixo.</p>
+
+<p>Uma coisa vos confessarei eu, srs. Dons Leonardos de hoje em dia, e é que me
+vou ralando de saudades pelos homens que conheci outr'ora, com os quaes convivi
+e troquei impressões, que os não ha melhores, nem tão bons, como foram
+esses.<span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span></p>
+
+<div class="imagem_full">
+<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/acacia.jpg"></p>
+
+<p>A ACACIA DO JORGE</p>
+</div>
+
+<p>Não quero dizer que todos agora sejam portuguezes de ruim panno; ha
+excepções, mas tão raras, que pode a gente gritar quando as encontra&mdash;Lá
+vem um!</p>
+
+<p>Digo e redigo, porque d'isso estou convencido até á medula dos ossos, que os
+homens que eu tratei na mocidade me parecem semideuses se os comparo com os de
+hoje.</p>
+
+<p>Doia-se quem doer, que me importam pouco essas coisas: até faz bem á gente
+sentir morder-lhe uma pontinha de malquerença&mdash;é como o frio de janeiro,
+que arripia, mas provoca a necessidade de reagir contra elle.</p>
+
+<p>Eu venho de um tempo em que se dizia haver «elogio mutuo». Não era elogio,
+mas justiça. As cotações, especialmente no mercado das letras, andavam menos
+falsificadas. Ninguém chegava ao pé de um homem, de punhal na mão, com o
+intuito de assassinal-o, para o glorificar depois de morto.</p>
+
+<p>Garrett estava no tumulo. Herculano fizera-se solitario em Val-de-Lobos.
+Castilho vivia em Lisboa e abria as suas portas a todos quantos mostravam
+paixão pelas letras. D'aqui veio o dizer-se que tinha Castilho uma côrte. Não a
+procurava elle; procuravam-n'o, sim, todos, velhos e novos, que desejavam
+encontrar uma atmosphera literaria em que podessem respirar á vontade.</p>
+
+<p>Mas a differença do tempo estava principalmente n'isto, que não era pouco:
+ninguem, em casa de Castilho, nem dos seus, nem dos extranhos, se julgava maior
+que elle.</p>
+
+<p>Por isso o respeitavam, medindo-lhe a grandeza, que fazia lembrar a das
+estatuas, porque sendo vista de perto tomava ainda maior vulto.</p>
+
+<p>Era deliciosa essa casa de Castilho, onde a boa conversação literaria teve
+um templo, como não ha, nem póde haver outro. Não decorria ali uma hora sem que
+se tivesse lucrado alguma coisa: aprendia-se sempre. Eram tantos e tão bons os
+de casa e os de fóra, que nunca se apagava o<span class="pn"><a
+name="pag_62">{62}</a></span> lume para as refeições do espirito. Mesa posta
+para os <em>gourmets</em> da intellectualidade; porta aberta para todos os que
+chegavam, fossem gregos ou troyanos.</p>
+
+<p>Conheci Castilho na rua do Sol ao Rato, onde recebia na sua enorme
+bibliotheca, uma vasta sala, que os melhores auctores de todos os paizes e de
+todos os seculos povoavam de alto a baixo. Fazia respeito aquillo: era uma
+cidade, um emporio de celebridades consagradas.</p>
+
+<p>Castilho, coroado de cans, dava a impressão de ser um patriarcha das letras.
+Cego como Homero, via tudo o que queria vêr; jámais houve um cego que visse
+tanto. Até lia mentalmente os titulos dos livros que o rodeiavam. Aqui está o
+meu Bernardes, dizia elle: ia á estante, punha o dedo indicador n'um livro, e
+tirava a obra de Bernardes que desejava citar. Parecia ter os olhos fechados
+para, concentrado, reforçar por um momento a visão, que depois se tornava mais
+aguda e perspicaz.</p>
+
+<p>Os seus olhos faziam lembrar os de D. João I: raça de escol, que já vinha
+apurada de longe.</p>
+
+<p>Julio foi sempre o braço direito do pai, a sua luneta, o seu bordão, o seu
+<em>alter ego</em>. O pai adorava-o; elle adorava o pai. Não podiam viver um
+sem o outro; eram como dois gemeos, duas existencias que se fundiam n'uma
+só.</p>
+
+<p>Augusto, official de marinha, andava quasi sempre embarcado por longinquos
+mares. Raro apparecia em Lisboa; mas Castilho lembrava-o muitas vezes n'um
+impeto de saudade paternal, que é a mais funda, a mais incisiva, a mais cruel
+de todas as saudades.</p>
+
+<p>Ida de Castilho, com os seus bellos olhos pretos que pareciam estrellas, era
+a gracilidade da mulher franzina a sorrir por entre clarões de intelligencia
+vivacissima.</p>
+
+<p>Eugenio, o filho mais novo de Castilho, era, em razão da sua idade, o que
+tinha menos auctoridade literaria na familia, mas nascera poeta ali, n'aquella
+familia de escolhidos, como se nasce escocez na Escocia.<span class="pn"><a
+name="pag_63">{63}</a></span></p>
+
+<p>Foi este rapaz velho, porque a doença o envelheceu precocemente, que morreu
+outro dia, em Sete Rios, mais longe do mundo que de Lisboa.</p>
+
+<p>Poucos se lembravam d'elle já: tinha esquecido, tinha passado, era um morto
+que vivia longe dos vivos.</p>
+
+<p>O seu periodo de maior actividade foi de 1868 a 1869. Conheci-o então, como
+conheci Antonio Feliciano e Julio de Castilho: por cartas que o correio trazia
+e levava, do norte para o sul, do sul para o norte. Só alguns annos depois nos
+avistámos, os Castilhos e eu, na rua do Sol ao Rato. Mas eramos já amigos
+velhos, todos nós, quando nos encontrámos frente a frente.</p>
+
+<p>Aqui tenho eu uma prova d'isso, n'esta meia duzia de paginas publicadas em
+1868 por Eugenio de Castilho, e intituladas <em>Patria, contra a Iberia</em>,
+poema em bons alexandrinos, que eram os da casa, a melhor officina de
+alexandrinos que tem havido até hoje em Portugal.</p>
+
+<p>Na dedicatoria, do punho do auctor, escreveu elle: «Ao seu amicissimo...»
+Nunca nos tinhamos visto então, mas eramos já tão casados na amisade, que
+nenhum de nós estranhou o superlativo.</p>
+
+<p>Eugenio tinha n'esse tempo 21 annos, e desabrochavam n'elle os talentos
+literarios, que são morgado de Castilhos. Eram flores que conheciam o terreno e
+o clima em que nasciam: medravam á vontade.</p>
+
+<p>Quanto á factura artistica, o poema <em>Patria</em> trazia a marca da
+fabrica: Castilho &amp; Filhos. Não havia firma mais acreditada nem então, nem
+agora.</p>
+
+<p>Passo hoje pela vista, devorado de saudades, aquelle poema de 1868, e
+transplanto para aqui alguns casaes de alexandrinos, que me parecem ainda
+casaes de rouxinoes a namorarem-se nos bosques umbrosos de Portugal:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Vês além um telhado ao pé d'aquelle olmeiro?<br>
+ alli nasceu meu pae; alli amou primeiro.<span class="pn"><a
+ name="pag_64">{64}</a></span></p>
+
+ <p>Quando eu era pequeno, ia, ás vezes, sósinho<br>
+ aos loireiros do val á busca de algum ninho.</p>
+
+ <p>Sob este parreiral tão verde e tão fragrante<br>
+ beijei apaixonado a minha terna amante.</p>
+
+ <p>Costumava ir de tarde ao moinho da serra<br>
+ vêr como o sol transpunha as montanhas da terra.</p>
+
+ <p>Quanta vez, ao voltar da caça, eu me sentava<br>
+ ao pé d'essa cascata a ver-lhe a espuma brava.</p>
+
+ <p>Os troncos da azinhaga, as silvas e as paschoinhas<br>
+ ouviram-me cantar ás vezes trovas minhas.</p>
+
+ <p>Era-me gosto á noite o rouxinol saudoso<br>
+ dizendo á beira d'agua o seu canto amoroso.</p>
+
+ <p>Sentado n'uma penha occulto entre o salgueiro<br>
+ poetava a ouvir do rio o murmurar palreiro.</p>
+
+ <p>Ao canto do quintal da casa onde eu morava<br>
+ uma anágua plantara, e flores que eu regava.</p>
+
+ <p>Conheço a minha terra; e cada pedra ou planta<br>
+ me saúda ao passar. Toda a Patria me encanta.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Não são, de certo, estes os soberbos alexandrinos do pae Castilho, tão
+cheios, tão sonoros, tão variados na riqueza das vogaes, como elle, legislador
+maximo em versificação, praticava e recommendava; mas téem o ar de familia, o
+cunho da officina, que nos entremostram o artifice mais novo da casa posto a
+trabalhar, por desenfado, com a ferramenta do mestre.</p>
+
+<p>Junte-se a tudo isto, que é já sobeja valia, o perfume ingenuo e nobre da
+mocidade, o pulsar de um coração candido e fidalgo, que se educava entre lyras
+de poetas e brazões de aristocracia literaria.</p>
+
+<p>Tudo então fazia suppor que teria uma larga carreira<span class="pn"><a
+name="pag_65">{65}</a></span> esse moço tão bem estreado, e tanto se sumiu elle
+depois nas trevas que as contrariedades da vida adensaram&mdash;a doença
+principalmente.</p>
+
+<p>Foi tambem por 1868 que Eugenio de Castilho tentou a publicação da <em>Folha
+dos curiosos</em>, um dos quaes curiosos fui eu.</p>
+
+<p>N'essa tentativa ia ainda um exemplo paterno, porque não deve esquecer a
+ninguem que Antonio Feliciano de Castilho redigiu por algum tempo, com
+inexcedivel brilho, a <em>Revista universal lisbonense</em>.</p>
+
+<p>Digo inexcedivel brilho, e fico pesaroso de não encontrar melhor locução.
+Não me satisfaz esta, que é deficiente. Tudo quanto Castilho ali deixou, é
+primoroso&mdash;até o noticiario.</p>
+
+<p>Se vingar algum dia a ideia de fundar uma escola de jornalistas, o
+professor, sabendo do seu officio, tem que ensinar a fazer noticiario pelo teor
+de Castilho.</p>
+
+<p>Que adoraveis locaes, que gentileza e graça no dizer, que malicia, que
+ironia e que pureza castiça de linguagem!</p>
+
+<p>Os senhores conhecem Castilho poeta, prosador, traductor e pedagogo? Pois
+não conhecem Castilho todo, acreditem. Falta-lhes ainda conhecer Castilho
+jornalista a brincar com a penna sobre assumptos de reportagem, a enramilhetar
+locaes que parecem <em>bouquets</em>; Castilho a sorrir de si mesmo por ter
+descido áquella futilidade e a tornal-a grandiosa para não ter que
+envergonhar-se de vêr n'um espelho o pretor a curar de coisas minimas.</p>
+
+<p>Pois, srs. Dons Leonardos, em verdade vos digo que foram grandes homens
+esses que eu conheci n'outro tempo, que conheci e amei, e que vós sois muito
+mais pequenos que elles.</p>
+
+<p>Este mesmo Eugenio de Castilho, fallecido ha quasi um anno, não chegou a ser
+grande, porque lhe faltou apenas a validez; o talento, não.<span class="pn"><a
+name="pag_66">{66}</a></span></p>
+
+<p>Mas, no breve momento em que se demorou nas letras, honrou, como vergontea,
+a arvore gloriosa dos Castilhos, florindo como poeta, que promettia futuro.</p>
+
+<p>Hoje dorme o somno eterno na terra da <em>Patria</em>, que elle amava tanto,
+e se os mortos pensassem, julgar-se-ia certamente feliz por ter encontrado
+descanso aos seus tormentos na mesma terra em que o pae nasceu e amou
+primeiro.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>
+*&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Tinha eu treze annos, quando um quintanista de direito, Manuel do Nascimento
+de Azevedo Coutinho, natural de Sinfães, passando pelo Porto, recitou em casa
+de meu pai trechos de um poema que, segundo a sua propria informação, estava
+causando o maior enthusiasmo em Coimbra.</p>
+
+<p>Os estudantes sabiam-n'o de cór, e até o doutor Férrer, dando descanço ás
+Ordenações e ao Digesto, repetia estrophes aos rapazes quando os encontrava á
+tarde no Penedo da Saudade.</p>
+
+<p>Era o cumulo do enthusiasmo coimbrão.</p>
+
+<p>O quintanista Nascimento, um duriense de olhos pretos, vendo-se
+comprehendido por um grupo de senhoras que o escutavam, ia procurando na
+memoria excerptos do poema e recitava-os contente de espalhar em torno de si,
+como um perfume de rosas, a inspiração delicada do poeta que toda a academia já
+tinha sagrado em Coimbra com a agua lustral do Mondego.</p>
+
+<p>Esse poema era o <em>D. Jayme</em>, de Thomaz Ribeiro.</p>
+
+<p>A cada novo trecho cresciam os applausos; a impressão tornava-se geral no
+auditorio.</p>
+
+<p>E o quintanista Nascimento, com a vivaz reminiscencia<span class="pn"><a
+name="pag_67">{67}</a></span> de todos os moços, saltava de um canto a outro do
+poema recordando estrophes:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Um dia... quando, não sei;<br>
+ fui vêr as gastas ruinas<br>
+ d'um velhissimo castello<br>
+ que ao desamparo encontrei,<br>
+ mas que, apesar de esquecido<br>
+ na solidão, era bello.</p>
+
+ <p>Achei-o todo vestido<br>
+ de tenaz era viçosa;<br>
+ e ornado de verde brilho,<br>
+ lembrou-me um velho casquilho<br>
+ que espera noiva formosa.</p>
+</blockquote>
+
+<p>De vez em quando, os parceiros do voltarete de meu pai poisavam as cartas, e
+escutavam attentos:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Que triste vida na choça,<br>
+ que funda melancolia,<br>
+ que rostos tão macerados,<br>
+ que suspiros abafados<br>
+ cada noite e cada dia!</p>
+
+ <p>noites de eterna vigilia,<br>
+ dias curtos para a lida,<br>
+ recordações da opulencia,<br>
+ amarguras da indigencia...<br>
+ que vida, Jesus! que vida!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Eu recolhia todos os trechos n'um enlevo d'alma, que foi o primeiro goso
+literario da minha vida e, quando n'essa noite me deitei, reconstituia
+mentalmente versos, estrophes inteiras, ancioso de poder lêr todo o poema, para
+decoral-o todo.</p>
+
+<p>No dia seguinte, meu pae, recolhendo de ver os seus doentes, trazia debaxo
+do braço um livro de capa amarella.<span class="pn"><a
+name="pag_68">{68}</a></span></p>
+
+<p>Tinha comprado o poema, suggestionado pela recitação da vespera.</p>
+
+<p>Então, como um faminto que se lança vorazmente sobre um manjar inesperado,
+eu, quando os outros acabavam de lêr, devorava pagina a pagina, canto a canto,
+lendo e decorando, com a mesma facilidade com que hoje vou esquecendo...</p>
+
+<p>Annos depois&mdash;não foram muitos&mdash;quando Castilho protegeu as minhas
+estreas literarias com o prestigio do seu nome, Thomaz Ribeiro escreveu-me
+algumas cartas que religiosamente conservo entre montões de outras suas
+escriptas de toda a parte.</p>
+
+<p>Depois, em Lisboa, muitas vezes Thomaz Ribeiro me disse que possuia um
+retrato meu aos dezeseis annos.</p>
+
+<p>Certamente lh'o offereci, mas não me lembro quando, e não conservo hoje
+nenhum exemplar d'essa photographia.</p>
+
+<p>Quando foi que eu vi pela primeira vez o auctor do <em>D. Jayme</em>? D'isso
+me lembro muito bem. Foi no Porto, no escriptorio do <em>Primeiro de
+Janeiro</em>, cuja redacção permanente era então apenas constituida por duas
+pessoas, Francisco Gomes Moniz e eu.</p>
+
+<p>Nós dois faziamos tudo, menos o artigo de fundo, que ia de Lisboa, e era
+escripto por Latino Coelho.</p>
+
+<p>Thomaz Ribeiro, tendo chegado ao Porto e entrado na casa Moré, disse ao
+gerente da casa, o illustre José Gomes Monteiro, que me queria visitar.</p>
+
+<p>Monteiro, que me estremecia, ficou contentissimo, poz logo o seu chapeu e
+subiu, apesar de velho e doente, a rua de Santo Antonio, depois a ingreme
+escada da redacção, para me levar Thomaz Ribeiro.</p>
+
+<p>Foi um dos dias felizes da minha vida literaria.</p>
+
+<p>Desde então mantive com Thomaz Ribeiro as mais cordeaes relações de mutua
+estima.</p>
+
+<p>As amizades velhas são como o cimento solidificado: não quebram
+facilmente.<span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span></p>
+
+<div class="imagem_full">
+<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/gautier.jpg"></p>
+
+<p>Retrato de <small>THEOPHILE GAUTIER</small> que pertenceu a Camillo</p>
+</div>
+
+<p>Quando elle partiu para o Brasil, a <em>Mala da Europa</em> quiz dar um
+numero commemorativo, que chegasse ao Rio de Janeiro no mesmo paquete que o
+auctor do <em>D. Jayme</em>. Por doença de um dos seus redactores effectivos, o
+proprietario do periodico, Delfim Monteiro Guimarães, já hoje fallecido,
+precisava de quem lhe fizesse rapidissimamente a maior parte d'esse numero.
+Procurou-me, e pediu-me que me encarregasse eu d'essa ardua tarefa&mdash;ardua
+pela estreiteza do tempo.</p>
+
+<p>Como se tratava de Thomaz Ribeiro, não tive animo de recusar e, durante
+quarenta e oito horas, trabalhei afanosamente, tomando café para espertar-me,
+conseguindo não faltar ao encargo que acceitei e á palavra que tinha dado.</p>
+
+<p>Eu sou a pessoa menos competente para escrever um artigo de critica
+literaria a respeito da obra de Thomaz Ribeiro.</p>
+
+<p>Vejo-o sempre, apaixonadamente, através de agradaveis recordações da minha
+mocidade.</p>
+
+<p>Não sei, não posso vel-o de outro modo.</p>
+
+<p>Dou-me, portanto, como suspeito.</p>
+
+<p>Mas creio que, para a apreciação de um escriptor ou de um artista, os
+criticos téem menos auctoridade do que o publico.</p>
+
+<p>Se esse escriptor ou esse artista conquistou a opinião geral, se recebeu uma
+consagração nacional, a sua reputação é inabalavel, a despeito do voto adverso
+dos criticos.</p>
+
+<p>Ora Thomaz Ribeiro, cujos poemas foram discutidos, tornou-se o mais popular
+poeta do seu tempo. Teve a opinião publica fechada na mão; dominou-a
+completamente. E, ainda ultimamente, os que queriam ser-lhe desagradaveis
+repetindo versos seus, justificavam, sem querer, a sua popularidade e, sem
+querer, a propagavam.</p>
+
+<p>Portugal ficará sendo eternamente o&mdash;jardim da Europa<span
+class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span> á beira mar plantado&mdash;verso
+que tem servido para todos e para tudo que, em bem e mal, se escreve a respeito
+do nosso paiz.</p>
+
+<p>A «Conversação preambular» do <em>D. Jayme</em>, escripta por Castilho, foi
+tida como exageradamente encomiastica para o auctor do poema, e é realmente
+discutivel em algumas das suas affirmações.</p>
+
+<p>Mas o enthusiasmo que alvoroçou o espirito reflectido de Castilho adduz mais
+uma prova da enorme sensação causada pelo <em>D. Jayme</em>, até nos julgadores
+de maior competencia profissional.</p>
+
+<p>Apparecia um poema verdadeiramente nacional, portuguez pelo assumpto, pelos
+affectos, pela paisagem, pela dicção, pondo de mais a mais em evidencia a
+riqueza de metros, de harmonia, de malleabilidade e de côr que possuia a lingua
+portugueza.</p>
+
+<p>Sahia inteiramente dos moldes dos poemas antigos, fugindo á oitava-rima, e
+dos moldes da revolução romantica, fugindo ao verso branco.</p>
+
+<p>Era o poema lyrico moderno, o romance metrificado, escripto ao sabor
+portuguez sobre a vida portugueza, com matiz popular de tradições e costumes
+nossos, com vocabulos colhidos no diccionario da provincia&mdash;<em>fogaça,
+campeiro, velleiro</em>&mdash;com toda a alma de um povo a cantar á flôr dos
+versos e o caracter nacional sobresaindo em alto relevo no caracter do
+protogonista:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Entrei, raivando vinganças,<br>
+ Sahi, jurando perdão.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Comprehende-se que este poema causasse enthusiasmo em todas as regiões do
+mundo onde palpitava o sangue e o sentimento portuguez: assim aconteceu, não só
+em Portugal, mas tambem no Brazil e na India.</p>
+
+<p>Do <em>D. Jayme</em> nasceram logo outros poemas: Em Lisboa,<span
+class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span> <em>Roberto ou a dominação dos
+agiotas</em>, por Manuel Roussado, uma parodia; no Brazil, <em>Leonor</em>,
+imitação flagrante.</p>
+
+<p>Trinta annos depois, quando Thomaz Ribeiro foi ao Brazil como ministro de
+Portugal, ainda lá encontrou o rescaldo do antigo enthusiasmo; e a sua escolha
+foi julgada a mais opportuna para reatar as relações que um ligeiro conflicto
+tinha interrompido entre os dois paizes irmãos.</p>
+
+<p>Na India portugueza, onde anteriormente estivera como secreterio geral do
+governo da provincia, Thomaz Ribeiro foi encontrar admiradores por toda a
+parte.</p>
+
+<p>Tenho deante de mim um romance indiano, <em>Beatriz ou os mysterios da
+ultima revolta em Goa</em>, escripto por Fernando de Goa (certamente
+pseudonymo) e publicado em Lisboa no anno de 1885.</p>
+
+<p>No 2.º volume, encontro, entre outras referencias a Thomaz Ribeiro, este
+periodo:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«O secretario, aproveitando este ensejo, affastou-se d'ali, metteu-se na
+machila e fez-se transportar a Caranzalem, a fim de fazer as suas visitas ás
+familias das suas relações que ali se achavam a banhos, e entreter parte da
+noite n'uma ou n'outra casa, onde suspiravam pela sua chegada, para terem o
+prazer de ouvir uma conversação animada, cheia de atticismo, de poesia, e ao
+mesmo tempo recamada das mais brilhantes e conceituosas phrases.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A praia de Caranzalem, proxima do Mandovi, n'uma linda enseada a quatro
+kilometros da capital, é o balneario aristocratico da India portugueza, é
+Cascaes do Oriente.</p>
+
+<p>Em todo o reino de Portugal, na India, no Brazil, em toda a parte onde se
+falla a lingua portugueza, Thomaz Ribeiro, por ser o auctor do <em>D.
+Jayme</em>, encontrava um fervoroso culto de enthusiasmo e adoração.</p>
+
+<p>Era uma justa retribuição da consciencia publica aos<span class="pn"><a
+name="pag_72">{72}</a></span> sentimentos patrioticos do poeta, que
+dedicadamente amou o seu paiz, cantando-lhe as bellezas e as glorias, no
+Occidente e no Oriente, e que, no territorio portuguez, se algum rincão
+distinguiu com especial affecto, foi o seu districto natal, Vizeu, e em Vizeu a
+aldeia garrida onde nascêra, Parada de Gonta:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Que fresca aldeia formosa<br>
+ Nas margens do meu Pavia!</p>
+</blockquote>
+
+<p>Morreu na terra da patria, e n'isso lhe fez Deus a vontade:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>meu vergado pomar d'um rico outomno,<br>
+ sê meu berço final no ultimo somno.</p>
+</blockquote>
+
+<p>O romantismo, vocabulo que eu apenas acceito convencionalmente como
+expressão chronologica para designar determinada época literaria, e não como
+caracterisação psychologica d'um estado d'alma, que é commum a todas as
+gerações, e, portanto, eterno; o «periodo romantico», ia dizendo, teve ao menos
+de grande e nobre o seu amor ao paiz, affirmado solemnemente na celebração das
+glorias e das tradições portuguezas, desde Alexandre Herculano até Thomaz
+Ribeiro.</p>
+
+<p>Hoje é moda rir de tudo, em prosa e verso, especialmente do paiz.</p>
+
+<p>Literariamente, ainda falta encarar o auctor do <em>D. Jayme</em> sob outro
+ponto de vista: como recitador.</p>
+
+<p>Trez homens conheci eu incomparaveis no primor com que sabiam dizer versos:
+Castilho, Thomaz Ribeiro e Gonçalves Crespo.</p>
+
+<p>Quanto a Thomaz Ribeiro, sempre me ha de lembrar o que se passou uma vez,
+sendo elle ministro do reino, na commissão de instrucção secundaria da camara
+dos deputados.</p>
+
+<p>Discutia-se um projecto de reforma do respectivo ensino.</p>
+
+<p>Apenas dois membros da commissão se oppunham tenazmente<span class="pn"><a
+name="pag_73">{73}</a></span> á resurreiçao do exame de madureza: eram o sr.
+José Borges de Faria e eu.</p>
+
+<p>N'essa reunião nocturna, que se effectuou no edificio do governo civil para
+maior commodidade de todos, a discussão corrêra violenta e azeda.</p>
+
+<p>Nada se tinha resolvido ainda, quando foi servido o chá, que veiu da casa
+Ferrari.</p>
+
+<p>Então, durante essa pausa obrigada, não sei quem se lembrou de pedir a
+Thomaz Ribeiro que recitasse <em>O tear da rainha</em>.</p>
+
+<p>Elle annuiu promptamente, e tanta impressão causou em todos nós, que fomos
+pedindo mais versos.</p>
+
+<p>Assim acabou n'uma doce calma aquella reunião, que tinha corrido agitada.</p>
+
+<p>O projecto chegou a ir ao parlamento, fazendo os dois dissidentes declaração
+de voto, mas a reforma não teve execução.</p>
+
+<p>Tambem a titulo de simples recordação lembrarei que sendo Thomaz Ribeiro
+ministro da marinha&mdash;primeira pasta que geriu&mdash;fui eu que, a seu
+pedido, entabolei negociações com a livraria Chardron, do Porto, para a
+acquisição da propriedade das suas obras.</p>
+
+<p>Quando se escreve de um amigo não ha meio de coordenar as memorias
+agradaveis que elle nos deixou; os factos acodem em tropel amontoando-se numa
+agglomeração confusa, que exigeria longo tempo e grande esforço de serenidade
+para ser dominada.</p>
+
+<p>Não é, poucos mezes depois da morte d'esse amigo, que semelhante tentativa
+pode fazer-se para conseguir restabelecer a ordem onde tudo é ainda desordem da
+saudade.</p>
+
+<p>Por isso não o consegui eu, nem sequer o tentei.<span class="pn"><a
+name="pag_74">{74}</a></span></p>
+
+<h4>P<small>AG</small>. 18</h4>
+
+<h5><a name="L2583" id="L2583" href="#esquecer">«... esquecer essa noite de
+festa, que foi talvez a unica noite feliz n'esta casa.»</a></h5>
+
+<p>D. Anna Placido escrevendo, embora sob um pseudonymo masculino, a respeito
+da morte de Vieira de Castro em Africa, recordava a noite de 15 de julho de
+1866, quando dizia:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Era noite de festa. Na pequena aldea de *** ouviam-se cantos festivos; e a
+voz das aldeãs competia com as rabecas e os clarinetes.</p>
+
+<p>«Passava-se isto em uma casa de campo. As seis janellas da frontaria
+jorravam luz, e a porta da entrada por onde se subia por larga escadaria de
+pedra, estava afestoada de rosas e hortensias».</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Era o sarau campestre, o serão minhoto, em honra de Castilho, na quinta de
+Seide.</p>
+
+<h4>P<small>AG</small>. 26</h4>
+
+<h5><a name="L2581" id="L2581" href="#essa">«Foi ali que essa linda mulher, de
+formas esculpturaes...»</a></h5>
+
+<p>A proposito de D. Anna Placido, referirei um pormenor que me foi contado
+recentemente.</p>
+
+<p>O seu casamento com o grande escriptor esteve para realizar-se em Santo
+Thyrso, aonde ambos chegaram a ir para esse fim. Ali se demoraram dois dias, á
+espera que o conego Alves Mendes viesse do Porto com os documentos que eram
+necessarios. Só o abbade de Santo Thyrso, reverendo Joaquim Augusto da Fonseca
+Pedrosa, estava na<span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span> posse
+d'este segredo; ninguem mais, n'aquella villa, o sabia. Mas houve demora na
+camara ecclesiastica do Porto, e o conego Alves Mendes não pôde obter os papeis
+tão depressa como desejava. Por este motivo, Camillo e D. Anna Placido
+retiraram de Santo Thyrso. O casamento veio a celebrar-se no Porto, como já tem
+sido dito.</p>
+
+<h4>P<small>AG</small>. 30</h4>
+
+<h5><a name="L2573" id="L2573" href="#Nuno">«Em 1892 o Nuno, estando nós na
+Povoa, mostrou-me V. no <em>Café Chinez</em>.»</a></h5>
+
+<p>Foi n'esse anno, e na Povoa, que eu vi o visconde de S. Miguel de Seide pela
+ultima vez, quando já a questão do <em>Protesto</em> nos tinha inimistado.</p>
+
+<p>N'essa occasião eu não pensava ali senão em vencer, como candidato, uma das
+mais renhidas e ruidosas eleições que tem havido n'este paiz. Deu brado aquella
+briga eleitoral da Povoa de Varzim em 1892! Se não fossem as minhas canceiras e
+preoccupações politicas, dada a boa disposição do visconde de S. Miguel de
+Seide como agora sei, certamente nos haveriamos reconciliado ali n'aquella
+época. Mas eu andava em correrias, em comicios, em conferencias, em combinações
+eleitoraes: não chegava para as encommendas. Forte cegueira! Até me parece
+agora impossivel que eu fosse então o mesmo homem que hoje sou!</p>
+
+<p>O que é certo é que venci com o povo&mdash;a grande classe dos
+pescadores&mdash;coisa que raras vezes terá acontecido em Portugal. Quem vence,
+por via de regra, são os influentes, os galopins, o carneiro e as batatas.
+D'aquella vez venceu o povo, que me quiz fazer deputado, e fez. Assim o povo
+pensasse sempre em tudo o mais, e outro gallo lhe cantaria.<span class="pn"><a
+name="pag_76">{76}</a></span></p>
+
+<p>Eu andei então muito descomposto nas gazetas, mas tambem andei muito cantado
+nas ruas.</p>
+
+<p>Os pescadores e as pescadeiras improvisaram então um cancioneiro eleitoral
+em meu favor. Ahi vão amostras do panno, que elles espontaneamente souberam
+tecer com toda a ingenua rudeza dos seus processos poeticos:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;Boa vai ella!<br>
+ Ora viva o Pimentella.<br>
+ Que dá o seu coração<br>
+ P'ra vencer a eleição.</p>
+
+ <p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;Boa vai ella!<br>
+ Ora viva a <em>piscaria</em>.<br>
+ Vai toda votar em barda<br>
+ Pela nossa melhoria.</p>
+
+ <p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;Boa vai ella!<br>
+ Ora viva o Albertinho,<br>
+ Que vai como deputado<br>
+ Cá pelo nosso povinho.</p>
+</blockquote>
+
+<p>Eram tão carinhosos para mim os pescadores, que até me tratavam pelo
+diminutivo, meiguice que eu já não estava costumado a receber ha muito tempo. O
+povo ama ainda pelo systema antigo, e eu era o seu candidato contra a vontade
+de muitas influencias poderosas e colligadas.</p>
+
+<p>N'esta roda-viva de uma eleição disputadissima, renhidissima, eu pensava
+menos no visconde de S. Miguel de Seide do que na urna e nos votos.</p>
+
+<p>Se não estivesse tão preoccupado e ralado, se tivesse tempo para me demorar
+nos botequins, certamente se teria ageitado alguma occasião de me congraçar com
+o visconde de S. Miguel de Seide, pois que elle o desejava, e eu não o
+recusaria.<span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span></p>
+
+<div class="imagem_full">
+<p><img width="100%" alt="Ilustração" src="images/karr.jpg"></p>
+
+<p>Retrato de <small>ALPHONSE KARR</small> que pertenceu a Camillo</p>
+</div>
+
+<h4>P<small>AG</small>. 37</h4>
+
+<h5><a name="L2613" id="L2613" href="#Jorge">«... Jorge Castello Branco, o
+infeliz primogenito de Camillo.»</a></h5>
+
+<p>Apezar de ser o primogenito, foi baptisado, quando já tinha quasi dois annos
+de idade, no mesmo dia que seu irmão Nuno, a 6 de janeiro de 1865.</p>
+
+<p>Se o leitor folheou alguma vez <em>Os amores de Camillo</em>, lá deve ter
+encontrado, a pag. 344, a noticia d'este duplo baptisado que se effectuou no
+Porto.</p>
+
+<p>Mas Antonio de Azevedo contou-me ultimamente um pormenor, que é
+interessante.</p>
+
+<p>Ao jantar d'esse dia, em casa de Camillo na rua do Almada, assistiram as
+mesmas pessoas que tinham ido á egreja; Custodio José Vieira, notavel
+jurisconsulto; o Bastos, do <em>Nacional</em>; Antonio de Azevedo; e um
+procurador portuense, cujo nome não lembra.</p>
+
+<p>Durante o jantar apenas se bebeu champagne e cognac.</p>
+
+<p>Seguiu-se um serão alegre, cheio de engraçados episodios e imprevistos
+sainetes.</p>
+
+<p>D. Anna Placido tocou piano.</p>
+
+<p>Camillo tocava trombone no canno de uma bota.</p>
+
+<p>E o Bastos do <em>Nacional</em>, que era um homem alto, forte e rosado,
+dançava com Custodio José Vieira, que era muito pequeno e muito feio.</p>
+
+<p>O procurador, conscio da sua desigualdade de cotação intellectual,
+conservou-se mero espectador.</p>
+
+<p>Não parece que se está ouvindo um trecho das <em>Alegres comadres de
+Windsor</em>, que Nicolai compoz sobre a peça de Shakspeare, ou aquella scena
+de Puccini, em que os socios da bohemia folgam em commum n'uma chorea
+improvisada?<span class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span></p>
+
+<p>Quem poderia vêr então em Camillo o futuro solitario e suicida de S. Miguel
+de Seide!</p>
+
+<h4>P<small>AG</small>. 53</h4>
+
+<h5><a name="L2606" id="L2606" href="#Leitores">«Leitores de cem romances, que
+uma só penna escreveu».</a></h5>
+
+<p>Todo o trabalho literario de Camillo pesou unicamente sobre elle. Não temos
+em Portugal o systema de um escriptor tomar como auxiliares outros escriptores
+menos reputados. Usa-se isso em França; entre nós, não.</p>
+
+<p>Apenas, em duas obras de theatro, trabalhou Camillo com um collaborador, que
+foi Ernesto Biester.</p>
+
+<p>Fizeram em commum o drama <em>Vingança</em> (Veja <em>Esboços de apreciações
+literarias</em>, pag. 85 e <em>Revista contemporanea de Portugal e Brazil</em>,
+vol. <small>IV</small>, pag. 313); e o drama <em>Penitencia</em>, em 6 actos e
+um prologo (Veja <em>Dic. Bib.</em> de Innocencio, vol. <small>IX</small>, pag.
+176).</p>
+
+<p>Vi representar este ultimo drama no theatro de S. João, do Porto, pela
+companhia do antigo Theatro Normal.</p>
+
+<h4><small>NOTA FINAL</small></h4>
+
+<p>O retrato de Camillo, que publicamos agora, é copia photographica de um a
+<em>crayon</em> que vimos na casa dos netos do grande romancista em S. Miguel
+de Seide.</p>
+
+<p>Na sala de entrada ha trez retratos de Camillo. Só este desconheciamos, e
+fez-nos impressão, porque, a distancia, suppozemos que fosse de Guilherme
+Braga.</p>
+
+<p>A sr.ª D. Anna Corrêa desfez o nosso equivoco.</p>
+
+<p>O retrato a <em>crayon</em> é de 1876 e está assignado, mas deve por sua vez
+ser copia de outro retrato, tirado aproximadamente<span class="pn"><a
+name="pag_79">{79}</a></span> em 1857, quando Camillo usava ainda o cabello
+levantado sobre a fronte.</p>
+
+<p>Comtudo não é o mesmo retrato de 1857 que foi publicado ultimamente, com
+outros de differentes epocas, no n.º 8-9 da <em>Illustração moderna</em>, do
+Porto.</p>
+
+<p>Tambem não é o de 1850, que ainda recentemente foi mais uma vez reprodusido
+na revista portuense <em>Sombra e luz</em> (n.º 2).</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Preço 400 réis</p>
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+End of the Project Gutenberg EBook of Os netos de Camillo, by Alberto Pimentel
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+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS NETOS DE CAMILLO ***
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+***** This file should be named 33752-h.htm or 33752-h.zip *****
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+Produced by Pedro Saborano
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+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+
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+
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+
+1.F.
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+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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