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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-14 20:02:46 -0700
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+The Project Gutenberg EBook of Ao de Leve, by Manuel de Brito Camacho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Ao de Leve
+
+Author: Manuel de Brito Camacho
+
+Release Date: January 15, 2011 [EBook #34963]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AO DE LEVE ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+
+AO DE LEVE
+
+
+
+
+ _Composto e impresso na Imprensa_
+ _de Manuel Lucas Torres_
+ _Rua do Diario de Noticias, 93_
+
+
+
+
+BRITO CAMACHO
+
+
+_Ao de leve_
+
+
+
+
+1913
+Livraria Editora
+GUIMARÃES & C.ª
+68, Rua do Mundo, 70
+LISBOA
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O estudante que hontem, no Rocio, foi attingido por uma bala na
+ cabeça, já falleceu._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Como não havia de adoral-o, se era seu filho unico!
+
+Para mais, elle era o retrato vivo do pae, com todas as qualidades e
+todos os defeitos--se um filho póde ter defeitos para a mãe que o
+estremece!
+
+Ficára com elle nos braços, viuva pela maior das fatalidades, quando
+ainda não tinham seccado de todo as flores de laranjeira que lhe tinham
+posto no cabello no dia do seu casamento, e nas suas faces havia ainda
+um pouco do rubor intenso com que as haviam tingido os beijos loucos que
+elle lhe dera, já seu marido, ao voltarem da Egreja.
+
+Annos e annos chorára a sua viuvez, e mesmo quando o filho lhe extendia
+os bracitos gordos, muito risonho, as suas lagrimas não estancavam. Mas
+o sau pranto já não era só de dor; a desgraça ainda lhe escaldava a
+garganta com soluços que lhe vinham do coração, mas já lhe nimbava a
+alma a promessa d'uma felicidade remota. No filho via o marido--era como
+se dentro de um tumulo assistisse ao esplendor d'uma aurora.
+
+Se não havia de adoral-o, a pobre mãe!
+
+Quando elle lhe saiu de casa para continuar os estudos, pareceu-lhe que
+ficava viuva pela segunda vez. As suas cartas mitigariam a sua saudade,
+e ella havia de lel-as com tamanha devoção, evocal-o com tanto amor, que
+a leitura seria afinal uma conversa entre ambos, elle a enxugar-lhe os
+olhos com beijos, e ella a lavar-lhe as faces com lagrimas.
+
+Já então elle era quasi um homem, alto e desempenado, uma pennugem leve
+prenunciando um bigode negro, que seria talvez farto e provocador como o
+do pae. Muito estudioso, e, ao mesmo tempo, muito intelligente, contava
+as distincções pelos exames, nunca se rebaixando a esmolar uma
+protecção, mantendo sempre perante os mestres uma attitude que, nem por
+ser respeitosa, deixava de ser altiva. Ainda n'isso elle era como o pae,
+orgulhoso sem presumpção, delicado sem maneirismos, altivo sem arrogancias.
+
+Como não havia de adoral-o!
+
+Surprehendia-se a fazer projectos de vida em commum, quando elle
+acabasse os estudos, e fosse, para aqui ou para além, exercer a sua
+profissão. Já a deixariam livre os negocios da sua casa, que a retinham
+agora separada d'elle, a contar o tempo pelo seu amor, e a achar os
+mezes infinitamente mais compridos do que dizem os kalendarios.
+
+Talvez elle um dia casasse; mas nem assim o deixaria, humilde na casa
+alheia, fazendo-se util, sendo prestimosa, realizando quantos milagres
+fossem precisos para se tornar indispensavel. Pois se elle era a unica
+razão da sua vida, como poderia alguem roubar-lh'o sem ao mesmo tempo a
+matar?
+
+Recebia as suas cartas em dias certos, e nunca elle deixára de lhe
+escrever com a mais rigorosa pontualidade. Ás vezes eram apenas quatro
+linhas, meia duzia de palavras que ella humedecia com os olhos, para as
+enxugar com os labios.
+
+Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico,
+para mais o retrato vivo do pae, com todas as suas qualidades e
+defeitos--defeitos que para ella eram qualidades!
+
+Ora succedeu que n'aquelle dia, estando como de costume á espera do
+carteiro, viu que elle passava pela sua porta, sem entrar. Era lá
+possivel não ter carta? Provavelmente confundira-a no maço, e só daria
+por ella finda a distribuição. Viria então entregar-lh'a.
+
+Passou uma hora, passaram duas horas, passou uma eternidade, e o
+carteiro não voltou.
+
+Estaria doente? Ter-lhe-ia acontecido alguma desgraça?
+
+Distrahidamente, quasi sem intenção, pega n'um jornal. O coração deu-lhe
+um salto dentro do peito, como se a um leão dentro de uma jaula lhe
+enterrassem nas carnes uma choupa em braza.
+
+Houvera tiros, houvera espadeiradas, como n'uma batalha. Do campo tinham
+retirado muitos feridos, tendo lá ficado alguns mortos.
+
+Foi lendo, lendo tudo, devorando as columnas do jornal, á procura d'um
+nome, na ancia d'um condemnado á pena ultima, que um indulto póde salvar.
+
+Esse nome lá estava. Ferido com uma bala na cabeça, fôra levado ao
+hospital, onde os medicos verificaram o obito.
+
+Não chorou, não soluçou, não gemeu, anniquilada por completo.
+
+Quando voltou á consciencia da realidade, ainda tinha nas mãos o jornal.
+
+Serena e tragica, como se debruçada sobre uma sepultura visse lá dentro
+o proprio coração; tragica e dolorida como se lhe pezasse n'alma todo o
+soffrimento humano; morta para o amor, abrazada em odio:
+
+--Mataram o meu pobre filho! Maldito seja para sempre, na sua
+descendencia, o miseravel assassino!
+
+Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Se fores um dia ao mar,_
+ _Que a fortuna te não deixe;_
+ _Bota a rede e vae-te embora,_
+ _--Quanto mais burro mais peixe._
+
+
+Fôra creado de medico, e como a Natureza o dotára com bastante
+intelligencia e um notavel espirito de observação, aprendeu mil coisas
+com o doutor, a ponto de se julgar apto a fazer o que elle fazia. Depois
+chocava-o aquella subalternidade de moço de consultorio, as pessoas que
+entravam nem reparando n'elle, e algumas que n'elle reparavam tratando-o
+sem cortesia. Farto d'aquelle viver, reconhecendo-se talhado para mais
+altos destinos, um dia pediu contas ao patrão, e abalou sem dizer para
+onde.
+
+Mezes passados, enchia a cidade a fama de um doutor novo, que fazia
+verdadeiros milagres, havendo quem affiançasse que dera vista... a uns
+poucos de aleijados, e cegára uma meia duzia de coxos. Por acaso o
+doutor topou o milagrante collega na rua, e reconheceu n'elle o seu
+velho creado, muito correcto, muito bem posto, tal qual um intrujão com
+diploma. Ao outro dia, era um domingo, foi procural-o ao consultorio,
+curioso de saber como aquillo era feito. No largo, junto ao adro da
+Egreja, havia uma extraordinaria multidão.
+
+--Quantas pessoas calcula o dr. que estejam além?
+
+--Uns milhares.
+
+--E quantas d'essas lhe parece que serão intelligentes?
+
+--Algumas duzias.
+
+--Pois essas formam a sua clientella; o resto pertence-me.
+
+Vinha isto a proposito... a proposito... Ah! sim; a proposito da tiragem
+do jornal, que o administrador acha pequena.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _A necessidade de equilibrar o orçamento póde obrigar o governo a
+ impôr sacrificios aos funccionarios._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Era manso como um cordeiro, e leal como um velho amigo.
+
+O general montava raras vezes; mas ia todos os dias visitar o seu
+_Turco_, limpar-lhe a mangedoira, pentear-lhe a crina, passar-lhe a mão
+pelo lombo, n'uma caricia que o animal agradecia, olhando-o com ternura.
+
+Ás vezes, a caminho do tanque, encabritava-se com o impedido, dando
+saltos, como se quizesse fugir pelos campos fóra, no goso d'uma
+liberdade que não conhecia, mas que adivinhava.
+
+Lá em baixo, na varzea, as eguas pastavam tranquillamente; e os poldros,
+virgens de toda a domesticidade, pulavam como cabritos, mettendo a
+cabeça entre as mãos, e logo desatando n'uma correria doida, bebendo os
+ventos, o pescoço muito extendido, o focinho alto, as narinas muito
+abertas, respirando com estrondo. E era então que elle se encabritava
+com o impedido, firmando-se nas patas trazeiras, dando grandes sacões
+inuteis, porque a arreata era firme, e a mão que a segurava era forte.
+
+Que bom devia ser a liberdade!
+
+Por certo o tratavam bem; mas aborrecia-lhe aquella vida ociosa do
+quartel, todos os dias a mesma coisa--comendo e bebendo por toques de
+clarim, n'um automatismo de machina, com uma regularidade pendular. Mas
+era manso como um cordeiro, leal como um velho amigo,--uma creança faria
+d'elle o que quizesse. Ora succedeu que um dia foram dizer ao general
+que o seu _Turco_ tinha rebentado o impedido com uma parelha de coices.
+Não acreditou, mas entrando na cavallariça, viu o pobre diabo extendido,
+soffrendo horrivelmente.
+
+--Tu que fizeste ao cavallo!
+
+--Nada, meu general.
+
+--É mentira. Eu conheço-o muito bem. Que lhe fizeste?
+
+--Saberá V. Ex.ª que elle estava a comer a ração, e vou eu, por
+brincadeira, mexi-lhe na barriga.
+
+--Pois ahi está. Não se mexe na barriga de quem come.
+
+Era um grande philosopho, o general.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Uma sogra nem de barro á porta._
+
+
+Andava elle pelo Algarve a tratar de negocios, quando o chamaram a
+Lisboa, por telegramma, com a maxima urgencia. Não lhe diziam do que se
+tratava; mas, como era o medico quem lhe telegraphava, ficou n'um susto
+de morte, calculando que ou a mulher ou o filho se encontrasse
+gravemente doente. Pouco habituado a ser feliz, imaginou logo o peor.
+
+O primeiro comboio partia d'alli a doze horas e, como ainda pudesse
+servir-se do telegrapho, correu a pedir informações. Disseram-lhe que
+era a sogra que adoecera no mesmo dia em que elle deixára Lisboa, e que
+a doença se aggravava de momento para momento, receando-se um desenlace
+fatal. N'um grande ah! de allivio e satisfação, como precisava de
+assignar uma escriptura dahi a tres dias, foi-se deixando ficar, pedindo
+que o informassem, por via telegraphica e postal, dos progressos da doença.
+
+Receava elle, pouco habituado a ser feliz, que a doença não fosse em
+progresso, e por isso queria receber noticias amiudadas, se fosse
+possivel a toda a hora. A doente peorava a olhos vistos, e dizia o
+medico que a pneumonia degenerava em typho, sendo possivel que houvesse
+meningite á mistura. Elle tinha uma enorme confiança no doutor, que já
+lhe assistira á morte de toda a familia, e a quem elle conservára o
+partido, não para o tratar a elle, á mulher ou ao filho, mas tão sómente
+para a sogra. Rematados os seus negocios, metteu-se no primeiro comboio,
+com o coração aos baques, como quem aguarda uma sentença. Descia o
+medico a escada, quando elle a subia esbodegado, e com bagas de suor
+perlando-lhe a vasta fronte.
+
+--... Vi-a morta, meu caro amigo. Lancei mão de todos os soccorros, e
+posso dar-lhe a boa nova de que passou todo o perigo. A crise fez-se
+hoje mesmo, e agora é só questão de tempo.
+
+Subiu o resto das escadas a cambalear, como um ebrio, e atirando-se para
+cima do sophá que havia na sala de entrada, n'um abandono de quem se vê
+irremediavelmente ludibriado:
+
+--E eu que tinha tanta confiança n'esta besta do doutor!...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _A policia, ajudada pela guarda municipal, fartou-se de espancar os
+ cidadãos pacificos, realizando muitas prisões._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+A estrada, larga e poeirenta, passava junto á porta sempre aberta do
+jardim, marginada de choupos e eucalyptos.
+
+Toda a gente das aldeias proximas por alli fazia caminho, no giro da
+vida ordinaria, homens, mulheres e creanças, alguns descalços, e outros
+rotos, a maior parte sem pau nem pedra, gente pacifica como bois de
+trabalho, muito pacifica e muito humilde.
+
+Aos domingos, nos dias santos, quando havia festa n'alguma egreja do
+sitio, por alli passavam ranchos de moças garridas, em cabello, cantando
+e rindo, cada qual pelo braço do seu namorado, parando aqui e além, aos
+abraços e beijos, como numa kermesse flamenga.
+
+Pois era n'esses dias que o Pandorga, locatario do jardim, quasi
+escondido por detraz de uma parede de buxo, atirava os cães para a
+estrada, açulando-os ás canelas de quem passava. _Csi, csi_, e
+arregalava o olho, guardado no seu esconderijo, rindo muito, sem fazer
+barulho, quando os cães rasgavam as saias das raparigas ou as calças dos
+homens, e muito mais quando lhe appareciam de rojo, após a lucta,
+levando ainda nos dentes boccados de carne em sangue.
+
+Ora succedeu que um dia havia festa alli perto; como o Pandorga açulasse
+os cães--_csi, csi_--contra um bando alegre de camponezes, rapazes e
+raparigas que iam passando a cantar, pacificos como bois de trabalho,
+ouviu-se um estalo sêcco, como um rebentar de escorva, e o baque d'um
+corpo que cae, lá adeante, por detraz da parede de buxo. Soube-se depois
+que tinha morrido o Pandorga, e os cães nunca mais assaltaram as gentes
+que passavam pela estrada, larga e poeirenta, e de quando em quando
+paravam, abraçando-se e beijando-se, como n'uma kermesse de Rubens.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Hontem, na praça de touros, houve uma ligeira manifestação de
+ desagrado á Familia Real. O rei não assistia ao espectaculo._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Falava-se muito das suas valentias, embora ninguem citasse d'elle uma
+façanha authentica, com testemunhas de vista. Era volumoso, e d'ahi
+concluiam que era forte; era gabarola; muita gente acreditava que elle
+tivesse nos musculos tanta força como na lingua. Contava elle que d'uma
+vez matára um boi com um sôco, e n'um dia em que passava rente a um
+acampamento de ciganos, armados de cacetes e espingardas, como
+percebesse que lhe faziam troça, desatou aos pontapés a toda aquella
+malta, pregando com o mais atrevido no alto d'uma azinheira que estava
+longe d'alli uns poucos de metros.
+
+Os que melhor o conheciam, mofavam das suas farroncas; mas não faltava
+quem acreditasse nas proezas de Ferrabraz, intrepido até ao sacrificio
+da vida, sem lhe bulir um cabello. Ora succedeu que um dia, vindo com a
+familia a caminho do arraial, n'uma aldeia da visinhança, alguem o
+preveniu de que se preparava uma emboscada, lá adeante, n'um cotovêlo da
+estrada antes de chegar á ribeira. E vae elle então, muito volumoso,
+pallido como se todo o sangue lhe refluisse ao coração, os cabellos em
+pé, como se visse deante de si a guela escancarada d'um leão com fome,
+apalpa-se como quem procura alguma coisa, e batendo no hombro da
+companheira:
+
+--Vão lá andando, vão lá andando, que eu não me demoro; esqueceram-me os
+charutos.
+
+Não voltou, está bem de ver, e no outro dia, quando lhe contaram o
+succedido, ameaçou o céu e a terra, espumando como um javali ferido.
+
+--Se lá estivesse, rachava-os.
+
+E pregou tamanho murro no cinzeiro de barro, que o fez em boccadinhos.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Hontem o sr. Marquez de Soveral teve com El-Rei uma conferencia de
+ duas horas._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+--Franqueza, franquezinha, ó coiso, essa historia da intervenção...
+
+--Era pela certa. Hoje a politica é só de interesses, quem governa é a
+finança.
+
+--Bem sei, governa a finança; mas olha que isso de intervir sem mais nem
+menos em negocios por assim dizer caseiros...
+
+--Peço perdão; mas não se trata d'um negocio caseiro, nem mesmo d'um
+negocio exclusivamente nacional.
+
+--Hom'essa! Queres então dizer...
+
+--Quero dizer que em torno d'este negocio se formou uma atmosphera de
+interesses internacionaes...
+
+--Olha que não tens publico, e essas lerias, cá para mim...
+
+--Cumpro o dever que me impõe a minha posição, e testemunho assim,
+dizendo a verdade inteira, sem restricções, a minha sympathia pessoal...
+
+--Sim, senhor, és um artista. Vocês, os diplomatas, são como os homens
+de theatro--mesmo quando estão fóra do palco, representam.
+
+--Julgava-me com direito a maior consideração da parte...
+
+--Tambem eu julgava que me tivesses na conta de menos tolo. Não me
+conheces d'hoje nem d'hontem, para saberes que ninguem me faz o ninho
+atraz da orelha.
+
+--O que? Pois...
+
+--Qual historia!... Acreditei todas as lerias que me impingiste, com uma
+seriedade á altura das tuas prosapias...
+
+--Não o fiz por menos respeito; o uso das formulas...
+
+--É como o uso do cachimbo--faz a bocca torta. Sempre me sahiste um
+gajo!...
+
+--Espero que não fique zangado...
+
+--Peior... Essa agora não é de diplomata, é d'alarve.
+
+--Sempre amavel!...
+
+--Sempre justo. Mas falando agora de coisas serias. Tu achas que eu devo...
+
+--Ora essa! Está claro que deve. Da fama ninguem o livra, e as honras
+sem proveito...
+
+--E quanto achas tu...
+
+--Em negocio de tanta monta, nunca se pede de mais.
+
+--Pois sim, tudo tem limites. Ahi uns duzentos contitos, mais vintem,
+menos vintem... Que te parece?
+
+--Parece-me que, pedindo essa bagatela, dá provas d'uma grande
+generosidade.
+
+--Bem se vê que não és tu quem tem de esportular as massas. Pois está
+dito; faço a coisa pelos duzentos.
+
+--É como se lhes désse a elles trezentos e vinte, o que não é barro.
+
+--Quero ser generoso...
+
+--Do pão do nosso compadre...
+
+--Pois sim, canta-lhe d'essas; mas se as coisas se complicam e me põem a
+viola...
+
+--Qual põem! Chego ás vezes a imaginar que tem medo.
+
+--Tu não me digas isso outra vez, olha que te ponho os queixos á banda.
+Eu nunca tive medo. Já d'uma vez, n'uma feira, se ergueu tudo contra
+mim, sem saber quem eu era, e não arredei pé, de cacete em punho, sem
+ninguem pelo meu lado.
+
+--Bem sei, bem sei; mas se amanhã houvesse qualquer coisa, em menos de
+nada estavam alli os cavalinhos de pau, e tudo entraria na ordem.
+
+--E se me puzessem a andar antes d'elles cá chegarem?
+
+--Isso então era o diabo. Uma intervenção tardia, depois do facto
+consumado... Mas é absurdo o suppôr...
+
+--Será absurdo, será; mas, pelo sim pelo não, vou dobrar a parada. Os
+gajos repontarão?
+
+--Que tem lá que repontem?...
+
+--Está claro. Isto é como dizia o de Braga--ou comem todos, ou ha-de
+haver moralidade.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _S. M. a Rainha, acompanhada da sua dama de serviço, andou hontem
+ distribuindo esmolas no bairro de Alfama, sem se dar a conhecer._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Não queria que a conhecessem.
+
+Abalava de casa, vestida como toda a gente, sem nada que pudesse chamar
+as attenções de quem quer que fosse. Era uma creatura como qualquer
+outra, e passava, como qualquer outra, no meio da geral indifferença. Os
+que a conheciam cumprimentavam-na--bons dias, minha senhora!--e os que a
+não conheciam nem sequer davam por ella. O passo meudinho, muito
+apressado, como quem marcha para um certo fito, sem se importar com o
+resto. Entrava aqui, entrava além, fazia o bem que podia, e nem esperava
+que lhe agradecessem os miseraveis a quem extendia a mão, deixando cahir
+uma esmola. Como não se sabia quem fosse, chamavam-lhe a _Caridade_.
+Envelheceu muito, como toda a gente que teima em viver e morreu um dia,
+encarquilhada e secca, como a maior parte das velhas. Era a _Caridade
+Evangelica_.
+
+Tempos depois, nos mesmos bairros pobres entrou de apparecer uma
+creatura exotica, dando nas vistas de toda a gente, obrigando a parar
+quem passava, para a fixar com attenção. O passo largo, muito lento,
+como quem não tem pressa, e que quer por força dar nas vistas. Entrava
+aqui, entrava além, como quem passeia um reclame, e gostava que lhe
+enchessem as mãos de lagrimas agradecidas os miseraveis a quem dava
+esmola. Como não se sabia quem fosse, n'um dia que ella passava, o passo
+largo, muito lento, quasi rythmico, dois miseraveis que a viam passar,
+como quem passeia um reclame:
+
+--É a Dona Caridade?
+
+--Não; é a Exploração da Miseria.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O Principe Real faz immensos progressos nos seus estudos, causando
+ a admiração dos seus professores._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Era um prodigio, o garoto.
+
+Contava a parteira que elle olhára para traz, quando nasceu piscando um
+pouco os olhitos ramellosos, como quem pretende ver melhor. Aos tres
+mezes, já tocava com os deditos côr de rosa nos bicos, pouco salientes,
+dos peitos da ama, pondo-os em erecção, para mammar melhor. Viam todos
+que era um pequeno muito talentoso, e um boccadinho brejeirote. Aos
+noves mezes dizia--bolas!--e foi essa a sua primeira palavra. Comia
+de tudo, antes de fazer o anno, e larachava com os creados finos,
+como se fosse uma pessoa grande. Era um prodigio, o demonio do garoto,
+d'uma precocidade verdadeiramente excepcional. Um familiar da casa
+perguntava d'uma vez ao medico, a proposito do fedelho--_Naturalmente,
+um genio, doutor?_ E o doutor, encolhendo os hombros em ar de
+duvida--_Naturalmente um idiota!_
+
+Aos cinco annos já sabia tudo--quantas pernas tem um cão, quantas
+orelhas tem um burro, quantos rabos tem um gato. Era prodigioso, e cada
+dia que passava como que accrescia de muitos metros aquelle talento
+incommensuravel. Aos nove annos era um geometra como Euclides, era um
+historiador como Tacito, era um philosopho como Platão, era um pintor
+como Raphael, era um poeta como Camões, um romancista como Balzac, um
+cabo de guerra como Napoleão, um estadista como o sr. Lapin. A tal ponto
+lhe cresceu o genio, que já não havia espaço para o conter, a dentro das
+fronteiras nacionaes.
+
+Foi então que se reconheceu a necessidade de o mandar para longe, onde
+fossem mais largos os horizontes, que os genios, como os gazes quando os
+comprimem além d'um certo grau, são eminentemente explosivos.
+
+E porque era ainda muito novinho, sem experiencia do mundo, apezar do
+seu immenso talento, foi a familia com elle, e por lá ficaram
+todos--para bem de todos nós.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _«É melhor tratar d'outro oficio. O jornal ha de morrer á falta de
+ leitores, porque você terá geito para tudo, menos para jornalista.»_
+
+ (Carta anonyma).
+
+
+_Oh! la pauvre bête!..._
+
+Era na verdade, um animal perfeito. De côr acastanhada, a anca alta,
+largo dos peitos, uma estrella branca na testa, talvez demasiadamente
+sellado, a perna delgada e nervosa, a cauda farta e comprida, era um
+burro que fazia parar quem passava, admirando-o, e succedeu a mais de
+uma beata, ferida de tamanha belleza e correcção, estacar no caminho das
+suas devoções, e não poder reprimir nas arcas santas do peito esta
+exclamação blasphema:--_Benza-o Deus, como é bonito!..._
+
+Procopio então passava horas no enlevo do seu burro, afagando-lhe o
+focinho e alisando-lhe o pello, não consentindo que sobre elle poisasse
+uma mosca, ou lhe manchasse a pelle acastanhada um grãosinho de poeira.
+Era uma especie de burrolatria, um culto religioso que lhe enchia a
+alma, dando-lhe todas as satisfações espirituaes que resultam para um
+crente da adoração do seu fetiche. E porque se lhe afigurasse que o
+burro não era, como os outros burros, uma simples cavalgadura, desatou a
+alimental-o com o melhor da sua mesa, dando todas as coisas boas e raras
+que encontrava na sua despensa ou se confeccionavam na sua cozinha. Mas
+nem o burro lhe pegava nos acepipes, nem ao menos se mostrava agradecido
+aos seus disvelos e blandicias. Procopio lamentava-se da sua má sorte,
+chorava a sua desdita, sempre amigo do seu burro, sempre idolatra do seu
+idolo, sempre adorando o seu fetiche. E como quer que um dia,
+desabafando n'um peito amigo, se queixasse da ingratidão dos burros, vae
+o outro, grande philosopho, com larga experiencia da vida, aconselha-o
+assim:
+
+--A culpa é tua, Procopio, e de mais ninguem. O burro não foi feito para
+comer á tua mesa, como tu não foste feito para comer á mangedoura.
+Queres vel-o gordo, alegre, contente, a lamber-te as mãos reconhecido?
+
+E como Procopio estendesse o pescoço, a beber-lhe as palavras.
+
+--Dá-lhe palha, Procopio amigo...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _S. M. a Rainha visitou hontem o Hospital de S. José._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Estava perdida...
+
+Começava a soffrer do peito, havia annos, e como precisava de trabalhar
+sempre, trabalhar sem descanço, para não vir a fome juntar-se á doença
+encurtando-lhe a vida, o mal foi augmentando constantemente, aquelle
+terreno sendo proprio para aquella vegetação, e as circumstancias
+ajudando como n'um bom anno agricola. Que era uma constipação, tinha
+dito o medico do monte-pio, n'uma visita em automovel, a trinta... réis
+a consulta. O certo é que as dores augmentavam-lhe, como se tivesse o
+peito mettido n'uma prensa; a tosse era funda, como se lhe viesse do
+mais intimo dos pulmões; manchas de febre punham-lhe nodoas vermelhas na
+cera do rosto emmagrecido, e sentia o sangue subir-lhe á bocca, em
+golfadas, que a muito custo reprimia. Despediram-n'a da fabrica, incapaz
+de trabalhar, e como recuasse perante a morte, uma noite, a olhar as
+aguas do rio, foi á consulta no hospital, e ficou na enfermaria. Estava
+tisica.
+
+Ninguem a visitava, porque não tinha ninguem, e como fosse naturalmente
+pouco communicativa, passava os dias e as noites a sentir-se morrer aos
+boccados, amaldiçoando a sorte que a fizera pobre, e attribuindo á
+miseria o descalabro da sua vida. Por maneira que naquelle dia, á hora
+do silencio, quando acordou do seu alheiamento, e sentiu perto da sua
+cama como um _frou-frou_ de sedas, muito pallida, muito magra, quasi
+cadaverica, ergueu-se na cama como se a movesse uma mola, e fixando na
+visitante os seus grandes olhos negros, disse-lhe como na vehemencia
+d'um delirio:
+
+--Não é verdade, minha senhora, que a sociedade é infame quando a uns dá
+o superfluo, sem dar a todos o que é preciso?
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _S. M. andou hontem pelos bairros pobres distribuindo esmolas no
+ mais rigoroso incognito._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Que frio cortante, meu Deus!
+
+O sol é como um brazeiro apagado, que ainda conservasse luz nas
+cinzas--uma luz fria e baça. O vento retalha-nos a cara, e põe nas
+pobres arvores sem folhas umas tremuras de velhinho, a esconder sob os
+farrapos as carnes enregeladas.
+
+Que frio cortante. Deus do céu!
+
+A miseria é insupportavel no inverno, porque tudo se conjuga para lhe
+dar uma agudeza de expiação, um requinte de pena biblica, sem laivos de
+misericordia. Não ha fogo no lar, não ha pão no armario, não ha
+cobertores no leito, ás vezes nem leito ha.
+
+Que frio cortante. Senhor!
+
+E é então que a Opulencia desce ao antro onde agoniza o miseravel,
+pondo-lhe na mão ressequida o quanto baste para illudir a fome.
+
+Mas porque haverá no mundo esta tremenda desegualdade, se lá nos altos
+céus existe uma justiça absoluta, e se existe cá em baixo uma vulgar
+noção do que seja a equidade?
+
+Que frio cortante, meu Deus!
+
+Dá vontade de morrer, para fugir d'este inferno, e ao mesmo tempo dá
+vontade de accender uma grande fogueira, a que se aqueçam todos os
+desgraçados.
+
+Se os poderosos soubessem como se soffre no inverno! Ou não tirariam
+nada aos pobres, ou lhes restituiriam quanto lhes tiram, n'um desejo
+sincero e grande de fazer obra meritoria.
+
+Mas elles nem sonham, meu Deus! como é horrivel a miseria no inverno.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _SS. MM. foram muito acclamadas na estação do Rocio._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+--Peço desculpa a V.ª Ex.ª mas como tenho umas continhas...
+
+--Pois sim; mas eu já lhe disse que antes do fim do mez não posso
+pagar-lhe.
+
+--É verdade que disse; mas como V. Ex.ª agora tem dinheiro...
+
+--Qual dinheiro, nem qual carapuça! O sr. imagina que me morreu algum
+tio no Brazil, que apanhei a sorte grande, ou que levei alguma banca á
+gloria?
+
+--Não senhor; não imagino nada d'isso. Mas como V. Ex.ª foi encarregado
+do vivorio, acho que pode muito bem regular já as nossas contas, para eu
+me não ver envergonhado com os meus credores.
+
+--O sr. está doido, com certeza! Imagina talvez que se paga aquelle
+serviço á larga, pelo menos com certa generosidade, como seria justo que
+se fizesse?...
+
+--Como isso é feito, não sei eu; o que eu sei é que ao pé de mim estava
+um sujeito todo bem posto, de cartola, que deu apenas dois vivas, e
+abalou muito risonho esfregando as mãos, e a dizer para o
+companheiro:--_já cá cantam dois mil réis_. E toda a gente dizia por
+alli que V. Ex.ª tinha recebido um conto e duzentos mil réis para
+dirigir aquella manobra.
+
+--Sim, senhor, para dirigir aquella manobra... e para pagar áquella
+gente. Imagina que se dão vivas de graça? Pois engana-se redondamente.
+Quem menos ganha, é quem mais grita, e ha menino que recebe as massas e
+fica mudo como um peixe.
+
+--Mas V. Ex.ª bem vê que eu já tenho esperado muito, e, se o importuno
+agora, é porque me parece a occasião favoravel.
+
+--Desfavoravel, é que ella é. Em primeiro logar, eu ainda não recebi a
+téca; depois tenho que pagar á minha gente melhor que das outras vezes,
+porque elles estavam falados para não se prestarem á coisa. Isto, meu
+amigo, foi chão que deu vinha. N'outro tempo, um diabo que enrouquecia a
+dar vivas, contentava-se com dois tostões, doze vintens, e ás vezes com
+um simples habito de Christo, ou uma commenda da Conceição. Vão lá agora
+acenar-lhes com isso, a vêr quantos lhe pegam!...
+
+--De maneira que...
+
+--De maneira que o amigo terá de esperar mais algum tempo, e como
+realmente eu lhe sou grato, não quero que perca o freguez, tanto mais
+que o senhor trabalha bem. Lá me tem ámanhã, a escolher a fatiota da
+estação.
+
+--Que pagará...
+
+--Quando houver outra manifestação espontanea.
+
+Resmungava o alfaiate, descendo a escada--Que grande pulha!
+
+Dizia o vivographo, fechando a porta--Que grande idiota!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Hontem a sessão teve de ser interrompida na Camara dos Deputados,
+ por causa do chinfrim. O sr. José Luciano mostrou-se satisfeito._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Durante muito tempo, por largos annos, o seu ar recolhido e severo deu a
+muita gente a impressão d'um pensador, alheiando-se propositadamente do
+mundo para melhor se engolfar nas suas cogitações. E porque nada
+resultasse das suas locubrações d'espirito, assentou-se em que aquelle
+vasio significava profundeza. Não era talvez um philosopho, mas era um
+homem d'Estado. E assim foi trepando a escadaria ingreme da carreira
+politica, sempre solemne, sempre severo, sempre recolhido, e sempre ôco.
+Não havia duvida possivel--estava alli um prodigioso talento, uma
+organização rara d'estadista, a que só faltava ter uma ideia e produzir
+um facto. Senão quando, um irreverente que attentou n'aquella
+austeridade de manequim, n'aquelle ar funebre de cypreste, n'aquella
+fronte larga sem reverbero intellectual, um irreverente apontou-o á
+multidão, e gritou-lhe nas bochechas--é fundamentalmente estupido!
+
+Por maneira que outro dia, apoz aquelle chinfrim no parlamento, quando o
+presidente do conselho ria, como quem se banha em agua de rosas, e a
+camara inteira se põe ao fresco, dominada pelo vago presentimento de que
+fizera o jogo do governo, o pobre grande homem, antecipando a amargura
+dos seus desastres, encostado á parede, como quem soffre uma vertigem,
+deixou cahir dos labios murchos estas palavras desconsoladas--_Parece-me
+que fiz asneira!_
+
+E, pela primeira vez na vida, reconhecendo que fizera asneira, o grande
+homem se mostrou intelligente.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _A situação do rei é de cada vez mais grave. O unico remedio ainda
+ possivel é a abdicação._
+
+ (Nas entrelinhas dos jornaes).
+
+
+Era uma conspirata.
+
+Reuniam-se todas as noites fóra de portas, em casa d'um tasqueiro de boa
+reputação, homem de lettras gordas, mas de principios severos, incapaz
+de faltar á sua palavra, preferindo mil vezes a morte a uma vilania. De
+modo que para este não havia segredos, nem para a sua companheira, uma
+velhota gordunchuda que teimára em não ter filhos depois de casada,
+farta de os ter em solteira. Bem entendido, o tasqueiro não tomava parte
+nas discussões; mas quando elle entrava com o peixe frito e a caneca, de
+chinellas, com um lenço encarnado a chupar-lhe o suor da cachaceira,
+ninguem recolhia a fala ao buxo, porque se sabia que elle era incapaz de
+uma traição, ou mesmo d'uma imprudencia.
+
+Elle bem sabia do que se tratava; mas fingia não saber nada,
+correspondendo, com extremos de correcção, á penhorante confiança que
+tinham n'elle. Tratava-se de substituir um porco por um leitão, o que
+tudo vinha a dar n'uma tremenda porcaria. Mas os conspiradores
+mostravam-se encarniçados na sua ideia, crendo n'ella como nas pilulas
+Pink, ou no xarope da mãe Seigel. A unanimidade não era completa, e como
+uma noite resolvessem não sair d'alli sem assentarem em alguma coisa de
+definitivo, um d'elles lembrou que se ouvisse a opinião do tasqueiro,
+homem de lettras gordas, mas de principios severos, mais intelligente do
+que seria preciso para exercer a sua profissão, e discreto como um
+tumulo. Por maneira que quando elle entrou, o lenço encarnado a
+chupar-lhe o suor do cachaço, a travessa do peixe frito na mão esquerda,
+e na direita um formidavel cangirão, espumante de vinho verde, um dos
+conspiradores poz-lhe nitidamente a questão, e pediu o seu parecer:
+
+--Eu cá, por mim, não entendo d'essas coisas; mas sempre ouvi dizer que
+a racha sae ao madeiro, e meu avô, que andou nas guerras, e soffreu
+primeiro por causa de D. Miguel, e soffreu depois por causa de D. Pedro,
+costumava dizer á gente, quando se falava dessas coisas--creio que ha
+uns reis peores do que outros; que haja melhores, não acredito.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Diz-se que a questão politica vae ser tratada no Parlamento com
+ violencia, não se poupando ataques ao Chefe de Estado._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Se tivesse echo!...
+
+Era positivamente uma obsessão; mas queria por força uma quinta que
+tivesse echo, e não se importava pagar esse capricho a peso de dinheiro.
+Deixára a Patria muito novo, e no Brasil, á força de trabalho e
+economia, a sorte ajudando um pouco, conseguira fazer fortuna. Todas as
+noites, ao fechar da loja, consultava o livro de _razão_, e como visse
+que os negocios lhe corriam bem, ganhando sempre, tomava o chásinho com
+torradas, entretinha-se um pouco com os garotos, e ia metter-se na cama
+tranquillo e satisfeito, como um patriarcha biblico. Sonhava então com a
+sua aldeia; via-se outra vez no modesto casinhoto em que nascera;
+encontrava-se de novo com os rapazes da sua geração, e abalavam todos de
+restolhada, a caçar os ninhos ou a roubar amoras, este sem chapéu,
+aquelle sem jaqueta, e todos não lhe pesando o pé uma onça, quando o
+vinheiro se apercebia do grupo, e fazia estalar a funda ou rebentar uma
+escorva, no momento em que estes saltavam o vallado, para colherem uvas.
+O que fazia o principal encanto de seus sonhos, era a conversa com o
+echo, um echo muito perfeito que havia perto da aldeia, no sitio chamado
+das Antas. Já accordado, ainda lhe parecia que tinha realmente ouvido o
+echo--_quem está lá!_--e fechava os olhos, n'um esforço enorme de
+concentração, parecendo-lhe que talvez assim o ouvisse ainda. E então,
+principiava a obsedial-o aquella ideia do echo, que já ouvia mesmo
+acordado--_quem está lá!_--victima d'uma allucinação do ouvido. Por
+maneira que passados annos, voltando á sua terra, deitou-se a procurar
+uma quinta que tivesse _echo_, não se importando pagar o seu capricho a
+peso de dinheiro. Soube d'isso o Thomé Cantigas, e logo se poz a
+instruir o velho João, um creado que já estava na casa quando elle
+nascera, por maneira a funccionar d'echo quando lá fosse o brasileiro,
+com quem tinha a quinta ajustada. Ora succedeu então esta coisa
+curiosa:--quando o Thomé, em companhia do brasileiro, do escrivão e das
+testemunhas, para verificarem o echo, gritou com toda a força dos seus
+pulmões--Ó João!--o pobre diabo, escondido por detraz d'uma pedra,
+ouvindo aquella voz tão sua conhecida, e sentindo acordar em si quarenta
+annos de obediencia e domesticidade, o pobre diabo respondeu n'um tom
+humilde--_Meu senhor!_
+
+Imaginem agora que o rei chegava alli abaixo, perto de S. Bento,
+espectral como o principe da Dinamarca, quando nas duas camaras, que
+funccionam agora como dois bilhares, se joga a carambola politica, a
+maior parte dos parceiros esquecendo-se de dar giz no taco, picando as
+bolas ao contrario, e todos jogando pela tabella, como se não vissem a
+encarnada e fosse prohibido atirar-lhe para cima... Sim, imaginem que o
+rei chegava alli, sem ninguem dar por elle, e no mais acceso da
+balburdia, no meio encarniçado do jogo, gritava com a sua bella voz de
+barytono:--_Que é lá isso ó seus gajos?_
+
+Quantas vozes deixariam de responder como o velho creado João, ouvindo,
+lá onde estava, por detraz de uma pedra, ensaiado para o echo, a voz do
+sr. Thomé, seu patrão de tantos annos?
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Vaidade das vaidades--tudo é vaidade!_
+
+
+Viera ao mundo com a mania de que tudo andava torto, e lhe competia
+endireitar tudo. Era assim uma especie de messianismo arte nova, que lhe
+hypertrophiava a personalidade, tornando-o impertinente. Todas as
+injustiças o offendiam, todas as asneiras o irritavam, pondo-lhe os
+nervos em tal estado de vibração, que seria facil romperem-se. Mas ao
+mesmo tempo essas injustiças que o offendiam, essas asneiras que o
+irritavam, eram a propria condição da sua existencia, todo o estimulo da
+sua actividade, a sua unica razão de ser. Que um bello dia entrassem as
+coisas na bôa ordem, o bem tendo vencido o mal, o amor tendo vencido o
+odio, a justiça tendo vencido a iniquidade, o direito tendo vencido a
+força, a verdade tendo vencido a mentira, que um bello dia se realizasse
+tudo isto, e elle encontrar-se-ia como homem que se desequilibrasse no
+espaço, sem ponto de apoio, uma creatura que se visse sem ligações com o
+Universo, isolada como n'uma ilha deserta, um ser de geração espontanea,
+olhando para traz, e não adivinhando o seu passado, olhando para deante
+e reconhecendo-se sem destino. Considerava-se o ser por excellencia, a
+suprema vontade, a suprema intelligencia, a mais alta sabedoria, a mais
+extremada virtude. Tinha um calcanhar esse gigante, como o heroe da
+Iliada; mas o Páris, que pretendesse feril-o, escusava de molhar a setta
+em veneno, bastava que a molhasse em lisonja, que é uma droga pouco
+toxica e muito corrosiva. Succedeu-lhe um dia adoecer gravemente, e como
+lhe perguntassem, _in articulo mortis_, se não receava pela salvação da
+sua alma, respondeu, tartamudeando muito--_Receio que me mettam no céo.
+Que tortura não será a minha se caio na mansão dos justos._
+
+Por subscripção entre amigos, ergueram-lhe um mausoleu, coisa barata e
+modesta, e fizeram-lhe gravar na frontaria, em bronze amarello, estes
+dizeres biblicos:--_Vanitas vanitatum_, o que traduzido em portuguez
+quer simplesmente dizer:
+
+--_Ora bolas para tanta embofia!..._
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Parece vingar a interpretação que attribue ao sr. ministro das
+ finanças a qualidade de portuguez._
+
+ (Dos jornaes)
+
+
+--Contente que nem um rato, não é verdade?
+
+--Não sei porquê...
+
+--Não sabe porquê? Pois você chega ao ultimo quartel da vida sem saber
+de que terra é, e d'um momento para outro, sem trabalho nem canceiras,
+apparece cidadão d'um paiz glorioso, e guindado ás maiores culminancias
+sociaes, e ainda pergunta porque deve estar contente?
+
+--Por certo. Não sendo d'uma patria determinada, eu podia tirar muito
+proveito de todas, conforme as circumstancias.
+
+--Mas os seus direitos...
+
+--Perdão; os meus direitos são os meus interesses, dada a minha
+qualidade de homem de negocios. Ter um certo direito, significa apenas,
+no meu entender, a faculdade de realizar um certo lucro, da mesma fórma
+que ter uma certa obrigação significa uma perda. A equação da vida
+commercial faz-se com estes dois termos--ganhos e perdas.
+
+--Está muito bem; mas parece-me que sob todos os pontos de vista o amigo
+ganhou.
+
+--Isso é conforme. A operação, considerada nos seus resultados
+immediatos, e não olhando para além do momento actual, é de resultados
+vantajosos; mas...
+
+--Mas...
+
+--Mas o futuro a Deus pertence, e esta naturalização definitiva póde
+prejudicar-me muito, se ainda tiver necessidade de mudar de
+nacionalidade mais uma vez.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O principe D. Luis Filippe restituiu ao thesouro o dinheiro que lhe
+ sobejou da viagem._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Era doida pelo neto; mas, se o tivesse junto de si, n'aquelle momento,
+pregava-lhe duas bofetadas.
+
+Era aquillo um proceder de principe?
+
+Não havia memoria, na sua familia, d'alguem ter restituido fosse o que
+fosse, muito menos dinheiro.
+
+Raivosa, sentindo-se ferida no seu orgulho de raça, mordia os beiços até
+quasi sangrarem, e amarrotava nas mãos o jornal, com muita força, como
+se quizesse desfazel-o. Era de entontecer aquella vergonha.
+
+De repente acalmava-se um pouco, como se entrasse n'um banho morno.
+
+Quem sabe?
+
+Talvez aquillo não fosse verdade. Dizem tanta mentira os jornaes!... Ha
+gazeteiro que não vacilla perante a mais baixa calumnia, muitas vezes
+por interesse, algumas vezes por capricho, não raramente por maldade.
+
+E logo mandou vir todas os jornaes d'aquelle dia, absolutamente todos,
+mesmo os que ella nunca lia, por saber que sempre alguma coisa traziam
+que lhe fosse desagradavel.
+
+--Todos quantos se publicam em Lisboa, ouviste?
+
+Pois em todos elles vinha a noticia, a vergonhosa noticia d'aquelle neto
+infamante, que ficaria luzindo como uma nodoa na pureza alvissima e até
+alli immaculada dos seus pergaminhos dynasticos.
+
+Era doida pelo neto; mas se o tivesse junto de si, n'aquelle momento,
+era capaz talvez de um arrebatamento criminoso, atirando-o pela janella.
+
+Vestiu-se n'uma pressa, sem olhar para o espelho, surda ás sugestões do
+seu coquetismo de carcassa. Iria procural-o, exprobar-lhe a sua baixeza,
+que nem mesmo os poucos annos poderiam desculpar.
+
+Um principe, quando se trata de honrar as tradições dos seus maiores, é
+sempre de maior edade...
+
+Pisava o primeiro degrau da escada, quando o neto subia quasi aos
+saltos, como de costume, a estender-lhe os braços.
+
+--Ias sair, avózinha?
+
+--Ia procurar-te.
+
+--Parece que não estás contente?
+
+--E com razão.
+
+Mal entraram na sala, apanhou um jornal, ao acaso, e, apontando a
+noticiazinha da restituição, perguntou-lhe:
+
+--Isto é verdade?
+
+O garoto desatou a rir, a rir desalmadamente, a fazer-lhe cocegas.
+
+--É então mentira?
+
+--Se é mentira!... Na verdade, avózinha, sempre te julguei mais
+intelligente. Restituir dinheiro! Sei honrar as tradições da nossa casa,
+pelas quaes tenho um verdadeiro culto.
+
+Teve um grande suspiro d'allivio, como se lhe tirassem de cima um peso
+de cem arrobas. Apertou muito o neto nos braços e, tendo-o beijado
+loucamente, deixou-se cair no sophá, muito quebrada, como ao sair d'uma
+lucta.
+
+E com os olhos fechados, a respiração alta, ofegante, murmurava para não
+ser ouvida:
+
+--Estupida que eu sou! O pequeno era incapaz de semelhante infamia.
+Revejo n'elle toda a nobreza da raça.
+
+E adormeceu.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Passa hoje o primeiro anniversario deste jornal, dia propicio á
+ comemoração dos que foram nossos companheiros de lucta, e hoje
+ luctariam comnosco, se a morte os tivesse poupado._
+
+ («A Lucta»).
+
+
+Morrer, dormir, sonhar quem sabe!...
+
+A fogueira crepita no meio do bosque sagrado, e o ramalhar das folhas,
+cortando o silencio augusto d'uma noite de luar, é como a prece erguida
+aos céus por milhares de labios virginaes.
+
+Morrer, dormir!...
+
+Em volta ha uma turba alegre, como se alli fosse realizar-se um ágape
+festivo, os esponsaes d'uma nobre castellã com o pagem dos seus sonhos,
+reluzente de pedrarias, esplendido de mocidade.
+
+Dormir, sonhar!...
+
+A fogueira crepita erguendo uma chamma cónica de uma regularidade
+geometrica, e um fumozinho branco, muito tenue, muito esparso, é como um
+boccado de gaze que alli estivesse preso á chamma, tocando-lhe sem se
+inflammar.
+
+Morrer, dormir, sonhar, quem sabe!...
+
+E mal o cadaver pousa na fogueira, crepitante e rútila no meio do bosque
+sagrado, logo sobre elle se lança aquella virgem loira e meiga, que uns
+padres druidas estavam ha pouco dispondo para a viagem de que não se volta.
+
+Quem sabe!
+
+Se n'esses mundos longinquos, para onde dizem que vão as almas, se
+conserva lembrança da vida que aqui tivemos, bem sabem vocês, queridos e
+inolvidaveis mortos! que é para nós de lagrimas este dia, visto que esta
+pagina é hoje um canto do cemiterio!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _A morte perdendo a foice_
+ _Creu sua força desfeita._
+ _Disse-lhe um medico insigne:_
+ _Aqui tens esta receita._
+
+
+Chamava-se Corvo, e era alfaiate.
+
+Pouco trabalhava pelo officio, quasi sempre pelo campo, a caçar lebres
+ou perdizes, lá de longe em longe mettendo-se na jolda, e só então
+aventurando-se por aquelles mattos espessos, onde deixava metade da
+farpela, em boccados. A sua grande paixão, a sua mania de caçador era
+pelos pombos, á negaça. Abalava de casa muito cedo, o pombinho mettido
+na aljabra, o farnel mettido nos bolsos, a aguilhada ao hombro, a
+espingarda a tiracolo, e uma garrafinha de aguardente sem confecção, que
+o frio era de rachar, por aquelles dias molhados de novembro. Chegava ao
+_sitio_, circumdava os montados, n'uma extensão enorme, com a sua vista
+de lynce, e toca a fazer a choça, não fossem os pombos dar-se pressa de
+vir alli, apanhando-o desprevenido. Ás vezes não matava nada; outras
+vezes matava quantos se _faziam_; mas sempre se divertia immenso, a
+puxar a negaça e a aperrar a caçadeira, não se esquecendo nunca de
+_beijar_ a garrafinha da aguardente, que valia pelo melhor dos lumes, no
+desabrigo da choça, por aquelles dias gelados de novembro.
+
+Ora succedeu que um dia, ao voltar dos pombos, chegando a casa,
+subitamente, o Corvo sentiu-se mal, horrivelmente mal, gritando que lhe
+accudissem. N'esse mesmo dia, áquella mesma hora, por assim dizer,
+n'aquelle mesmo instante, tinha chegado o medico novo, que ainda ninguem
+tinha visto. Correram a chamal-o, n'uma afflicção, que o Corvo sentia-se
+morrer e gritava como um perdido. Vae o doutor, muito solicito, observa
+o doente, faz uma receita, enche uma seringa e crava-a n'uma nadega do
+alfaiate, que não tugiu nem mugiu.
+
+Estava morto o pobre Corvo, velho caçador de pombos, que durante largos
+annos, todas as manhãs, em dias gelados de novembro, abalava de casa
+para as montanhas, a aguilhada ao hombro e o farnel nos bolsos, sem
+nunca se esquecer da garrafinha d'aguardente, que valia por um bom fogo
+no desabrigo da choça, encostado a um sobreiro.
+
+O caso fez barulho na aldeia, e como alguem lamentasse a perda de tão
+eximio caçador:
+
+--Lá quanto a isso, perorou um mariola d'um barbeiro, não vejo razão
+para se lamentar a gente. O nosso doutor parece ser homem de boa
+pontaria. Mal disparou a seringa, logo o Corvo enrolou as azas, como se
+fosse um pombo que se _fizesse_, e apanhasse a carga em cheio.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O sr. ministro da fazenda ficou a trabalhar em sua casa._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+A ordem fôra terminante, e não admittia excepções; s. ex.ª não _estava_
+para ninguem, absolutamente ninguem.
+
+Andava a estudar um plano geral de reformas, e, como tivesse de ir
+passar uns dias na provincia, queria deixar os seus papeis arrumados,
+cada coisa no seu logar, como n'um museu ou n'uma bibliotheca.
+
+Fôra sempre uma creatura methodica, e em grande parte o seu talento, que
+ainda assim muitos negavam, era feito de trabalho e de methodo. Entrára
+na politica com uma bagagem de estudante, apenas preparado para no
+parlamento mandar uma representação para a mesa, e requerer que se desse
+a materia por discutida, a um signal do _leader_. Mas trabalhava muito,
+estudava muito, ambicioso de renome, atormentado pela obscuridade em que
+vivia, mal supportando que os outros trepassem, subissem, servindo elle
+proprio de degrau a bastantes creaturas mediocres.
+
+Um bello dia, quasi sem elle proprio saber como nem como não,
+fizeram-n'o ministro. E logo pensou n'uma larga reforma de serviços,
+remediando muitas insufficiencias, preenchendo muitas lacunas, pondo
+cobro a muitos escandalos.
+
+Lá quanto a honestidade, reconheciam-n'a os proprios inimigos.
+
+Colligira todos os elementos de que necessitava para a sua obra
+reformadora, e resolveu aproveitar aquelle dia para os classificar, em
+termos de servir-se d'elles com a maior facilidade e proveito.
+
+Estava inteiramente absorvido n'essa tarefa, quando lhe apareceu junto
+da mesa um continuo, muito vermelho, muito atrapalhado, a revirar o
+_bonet_ na mão, a querer falar, e não se atrevendo a abrir a bocca.
+
+--Que ha?
+
+--Um senhor que deseja falar a v. ex.ª
+
+--Então eu não lhe disse que não estava para ninguem?
+
+--É verdade, mas elle disse-me que se matava alli mesmo, á porta, se v.
+ex.ª não o recebesse.
+
+Mandou entrar immediatamente.
+
+--É você?...
+
+--Sou eu. Sabe que o Chico está irremediavelmente perdido?
+
+--O quê?
+
+--Talvez não dure 48 horas.
+
+--Coitado! E a familia?...
+
+--Ora ahi está. É por causa da familia que eu cá venho.
+
+--Mas que posso eu fazer?
+
+--Uma coisa muito simples--um adeantamento.
+
+--Mas se elle está a morrer!...
+
+--Por isso mesmo. Desconta pelo terço do ordenado emquanto viver.
+
+--E depois de morto?
+
+--Continua a descontar... no outro mundo.
+
+E assim se fez.--Era uma bagatela de dez contos redondos.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O sr. D. Carlos manda para o Salon dois quadros._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Era dia de assignatura.
+
+Como de costume, na sala de espera, emquanto não chegava a hora, uns
+fumavam estendidos em sophás de molas doces, e outros falavam de coisas
+varias,--as occorrencias banaes da vespera, ou os successos provaveis do
+dia seguinte. Pelas janellas, abertas de par em par, entrava uma aragem
+fresca e quasi perfumada, tanto as flôres do jardim embalsamavam o
+aposento n'aquelle dia lindo.
+
+Avistava-se ao longe o rio, d'aguas tranquillas, e lá para além da
+barra, empennachado de fumo, um navio cortava as aguas, sem estremeções,
+deixando atraz de si, como uma passadeira de rendas, um largo traço de
+espuma. N'isto abre-se uma porta ao fundo, e um homem apparece, de
+casaca, trazendo debaixo do braço, muito enrolado em papeis, qualquer
+coisa que logo se adivinhava ser um quadro com a respectiva moldura.
+
+Os que fumavam, estendidos em sophás de molas dôces, ergueram-se a
+cumprimentar, quasi envergonhados do seu _á vontade_, como n'um casino,
+e os que estavam á janella olhando para o rio, d'águas tranquillas,
+notando como corria leve um vapor que sahia a barra, empennachado de
+fumo, esses deixaram-se ficar onde estavam, baixando ligeiramente a
+cabeça, com cerimonia, nenhum d'elles sabendo quem era aquelle senhor.
+
+--Não sei se incommodo v. exas...
+
+--Ora essa! Por forma nenhuma.
+
+--V. ex.ª é...
+
+--O pintor da casa.
+
+E logo poz em cima da mesa, procurando posição conforme a luz, duas
+telasinhas de meio metro, ricamente emmolduradas, uma reproduzindo um
+trecho de paysagem alemtejana, n'um entardecer d'agosto, e outra
+representando uma commissão de sardinhas vindo cumprimentar um goraz,
+pelos seus trabalhos maritimos.
+
+--E V. ex.ª traz isto...
+
+--São os meus decretos; trago-os á assignatura.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O sr_. _D. Carlos tambem hontem não assistiu á tourada no Campo
+ Pequeno._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+--Está aqui tudo?
+
+--Creio que não falta nada.
+
+Poz a mala em cima d'uma cadeira, para não estar a dobrar-se muitas
+vezes, e foi tirando peça por peça. D'ahi a pouco estava inteiramente
+transfigurado. As suissas assentavam-lhe na perfeição, e os oculos de
+ouro, com vidros sem grau, transformaram-lhe de tal modo a physionomia,
+que ninguem, mesmo dos seus familiares, o conheceria sob aquelle
+disfarce. As calças é que lhe ficavam um boccadinho justas nas pernas, e
+o collete, se fosse um tudo nada mais comprido, dir-se-ia ter sido feito
+para elle--por medida e com prova. Pegou na bengala, de castão de prata,
+poz na cabeça um Panamá, quebrado na frente, e carregou no botão d'uma
+campainha electrica.
+
+--Se não soubesse...
+
+--De primeira ordem, não é verdade?
+
+--Uma transfiguração á Rocambole.
+
+--Obrigado pelo cumprimento; mas como tu é que me escolheste a farpela...
+
+--Limitei-me a cumprir fielmente as indicações recebidas.
+
+--De modo que não haverá perigo...
+
+--Absolutamente impossivel conhecel-o, disfarçado como está.
+
+--Pois olha, já que entrei n'este caminho, quero fazer a coisa completa.
+Has de comprar-me um bilhete de sol.
+
+Quando entrou na praça, ainda as cortesias não tinham começado. Arranjou
+um logar ao pé da musica, e poz-se a fumar um cigarro ainda por
+disfarce. Á hora marcada, com uma pontualidade fóra do costume, a função
+principiou. Estava interessado, contente e ancioso, como se pela
+primeira vez assistisse a um espectaculo ardentemente desejado.
+Surprehendia-se a gritar com toda a força, quando o _sol_ inteiro
+gritava e ainda teve o chapéu na mão, para o atirar ao redondel,
+enthusiasmadissimo com um _cambio_.
+
+No intervallo, como não sahisse o visinho da direita, pedindo-lhe fogo,
+entrou a dar-lhe conversa.
+
+--Vê-se que o amigo é amador.
+
+--Como poucos. Isto é um divertimento real.
+
+--Lá isso real...
+
+--Pois sim... Mas o rei vem aqui muitas vezes?...
+
+--Vinha muitas vezes, é o que você quer dizer...
+
+--E agora já não vem?
+
+--Acho que cortou a coleta.
+
+--Elle, afinal, tudo aborrece.
+
+--Ora ahi está. E foi exactamente por ver que aborrecia, que elle deixou
+de apparecer. Sabe o amigo uma coisa? Tenho estado a reparar que você se
+parece...
+
+Não acabou a phrase. Já o outro se tinha levantado, a fingir que alguem
+o chamava.
+
+D'ahi a pouco, no mesmo quarto em que mudára de farpela, dava-se a um
+trabalho de mil demonios para se desembaraçar das calças, muito justas
+nas pernas.
+
+--Ninguem desconfiou, é claro?
+
+--É claro que desconfiaram. Um gajo que estava sentado ao pé de mim, se
+me não safo tão depressa...
+
+--E disse-lhe alguma inconveniencia?
+
+--Lá bem inconveniencia...
+
+--O melhor, para outra vez...
+
+--O melhor para a outra vez, é não ir lá. Corto definitivamente a coleta.
+
+--E a _quadrilha_?
+
+--Lá isso fica como estava.
+
+E atirando com as suissas para cima da cama, a meia voz com despreso:
+
+--Isto é que é uma cambada!...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O sr. João Franco acompanhou o Principe Real á festa das creanças,
+ e pronunciou alli um grande discurso._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+--Muito interessante a festa, não é verdade?
+
+--Sim, foi interessante.
+
+--Muitas creanças, muitas flores, um dia lindo de sol... Aposto que
+estava a saltar-te o pé para o meio do rancho, rindo e brincando como
+todos, como se fossem todos do mesmo collegio?
+
+--Tu estás doida, avósinha? Comprehendo muito bem os deveres do meu
+cargo, e em nenhuma situação me esqueço de quem sou, e do que represento.
+
+--Bravo, meu filho! gosto de te ouvir falar assim, porque isso me prova
+que serás um dia o representante illustre dos teus illustres antepassados.
+
+--Assim o espero.
+
+--Assim o creio. E falaste ás creanças?
+
+--Não, avósinha. Ninguem me disse para lhes falar, nem eu sabia o que
+havia de dizer-lhes.
+
+--Por certo, não sabias; mas se isso fosse uma razão para não falar,
+muita gente estaria calada n'este paiz de palradores. Quem falou então?
+
+--Houve só um discurso...
+
+--Sim, está claro, falou s. ex.ª. E o que disse?
+
+--Para te falar com franqueza, avósinha, eu pouco ouvi do que elle
+disse. Mesmo na minha frente estava um garoto vestido de marinheiro,
+muito interessante, que passou todo o tempo a fazer cocegas no pescoço
+de uma senhora muito gorda, de nariz abatatado, que estava adiante
+d'elle, na fila immediata. De cada vez que o rapazinho lhe passava um
+canudinho de papel, muito delgado, pela pennugem do cachaço, atraz das
+orelhas, a velha fazia umas caretas muito exquisitas, aflicta, com medo
+de perder a linha em momento tão solemne. Não imaginas como era
+divertida a velhota. Divertida e estupida, porque nunca desconfiou do
+garoto, que se encolhia todo para não desatar ás gargalhadas. De modo
+que...
+
+--De modo que não ouviste o discurso de s. ex.ª.
+
+--Não ouvi tudo, é certo; mas alguma coisa ouvi. Por exemplo, ouvi-lhe
+dizer que n'outros tempos os povos eram dos reis, e que hoje os reis são
+dos povos. Que quer dizer isto, avósinha?
+
+--Quer dizer, meu filho, que n'outro tempo, os creados recebiam ordens
+dos patrões, e cumpriam-n'as; hoje os patrões recebem ordens dos
+creados, e cumprem-n'as.
+
+--Credo! Mas isso é o fim do mundo.
+
+--Pede a Deus que não seja o fim da dynastia.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O enterro de hontem foi uma extraordinaria affirmação da força do
+ partido republicano em Lisboa._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Estava inquieto, n'uma ancia por noticias, quando lhe foram dizer que
+estava o jantar na mesa.
+
+Que teria havido!
+
+Por certo o cortejo seria numeroso, mas aprazia-lhe acreditar que a
+manifestação, embora significativa, não fosse de molde a tornar ainda
+mais evidente o desprestigio do seu nome, já bastante desprestigiado.
+Esquecia-se de comer, e não despregava os olhos da porta, esperando
+vel-o apparecer a cada momento, portador da boa nova, dando-lhe a
+segurança de que era já outra a atmosphera da cidade, onde elle poderia
+respirar com desafogo, quando quizesse, farto de correrias fóra de
+portas, a monte como os leprosos na antiguidade, e como os criminosos
+ainda hoje, quando puderam fugir á justiça.
+
+Que teria havido!
+
+Todos lhe notavam a preoccupação na physionomia transtornada, e todos
+sabiam o que lhe dava origem, a verdadeira causa daquelle mal-estar. De
+modo que o jantar ia correndo silencioso, quasi funebre, ninguem se
+atrevendo a arriscar uma palavra banal, o mais leve dito que pudesse
+desafiar o mau humor do pobre tomate recheiado. Fazia dó, mas ao mesmo
+tempo mettia medo, como se fosse um obuz carregado de grosserias, que
+uma creança maldosa pretendesse descarregar contra um homem delicado.
+Parecia aquella ceia da Lucrecia Borgia, em Ferrara, descripta por
+Victor Hugo.
+
+De repente, abre-se a porta, e um reposteiro annuncia o homem. Estava-se
+nas fructas.
+
+--Então?...
+
+--Muito maior do que seria licito esperar. A cidade inteira, póde
+dizer-se, tomou parte na manifestação, grandiosa como nenhuma outra,
+d'essas que andam na memoria dos homens.
+
+--De modo que o prestigio d'essa creatura...
+
+--Peço desculpa; o que atravessou a cidade, por entre alas compactas de
+povo, seguido de milhares de pessoas, não foi o cadaver d'um homem...
+
+--Foi então?...
+
+--Foi o prestigio d'uma ideia.
+
+
+Ficou por instantes suspenso, como se lhe fugisse o espirito para uma
+região de trevas. Logo voltou a si, como quem acorda d'um mau sonho, e
+acabando de descascar uma laranja, voltando-se para o peniculario que
+lhe ficava mais perto:
+
+--Olha lá, ó marquez, dize aos teus collegas da cozinha que não deitem
+fóra estas cascas.
+
+No outro dia annunciava-se uma crise em todos os jornaes.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O rei, que hontem devia presidir ao conselho de ministros, partiu
+ para Biarritz, onde se encontra sua noiva._
+
+ (Telegramma de Madrid).
+
+
+Pois se elle tem vinte annos!..
+
+Queriam então vel-o amarrado ao throno, recebendo conselheiros e
+ministros, aturando reposteiros e mordomos, quando a noiva está alli, a
+algumas horas apenas da capital, chamando-o com insistencia de quem nada
+póde e tudo offerece porque tudo espera receber em troca.
+
+Pois se elle tem vinte annos apenas!...
+
+Talvez que no seu sangue toda a podridão d'uma raça; mas a mocidade é
+uma especie de azougue, capaz de fazer erguer um morto, dando-lhe uma
+vida ephemera.
+
+Pois se elle é tão novo!...
+
+Queriam então prendel-o alli, n'aquelle deserto de Madrid, aturando
+conselheiros e ministros, gente da burocracia e bugigangas heraldicas,
+quando ella está a poucas horas da capital, talvez a alongar os olhos na
+direcção da Hespanha, na esperança de vel-o surgir na sua frente,
+radiante de mocidade.
+
+Pois se elle tem vinte annos apenas!...
+
+E estranham então vel-o partir como um foguete, abandonando as redeas do
+governo, doido d'amor como um Quichote real, para ir colher em Biarritz
+as promessas d'uma felicidade sem limites prelibando uma ventura sonhada.
+
+Pois se elle é tão novo!...
+
+Depois ella é tão bella!...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Amanhã, anniversario da rainha Maria Pia, não haverá recepção no
+Paço._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+--Venho dizer-te adeus...
+
+--Para onde vaes?
+
+--Para o mar. Na terça feira cá estou, para te dar os parabens.
+Imaginavas que ia esquecer-me do teu anniversario?
+
+--É verdade, o meu anniversario... Nem me lembrava.
+
+Emquanto elle accendia um charuto, olhando distrahidamente uma
+illustração ingleza, deixava ella pender a cabeça sobre o collo mirrado,
+e evocava um tempo muito remoto, tão remoto que lhe parecia agora, na
+desolação da sua viuvez, mais phantastico do que real.
+
+O seu anniversario!
+
+O throno era pequeno para a sua magestade, mas, em summa, sempre era um
+throno e ella nascera para reinar. Na sua cabelleira loira, como a das
+virgens de Raphael, o diadema régio tinha scintillações estranhas e
+coruscantes, que ainda assim pareciam pallidas em comparação dos seus
+olhares, em que havia toda a ardencia do sol dos tropicos, e toda a
+limpidez do crystal da rocha.
+
+Tambem ella reinára!
+
+Outros imperantes se tinham curvado na sua presença, e milhares de
+cortezãos tinham solicitado a esmola d'um sorriso ou d'um olhar, que
+ella nem sempre lhes concedia, muito altiva, muito sobranceira, no
+throno, julgando-se muito perto do Olympo, e fóra do throno vendo-se
+muito acima da humanidade vulgar.
+
+O seu anniversario!
+
+Fechava os olhos para tornar mais intensa a evocação, e logo via o
+desfile do immenso e luzido cortejo--os diplomatas com os seus
+fardamentos ricos, bordados a oiro; os ministros com as suas librés de
+luxo, salpicadas de veneras; os bravos militares suffocando impetos
+guerreiros, n'uma attitude de respeitosa fidelidade, e o numero infinito
+de fidalgos e fidalgas dobrando o joelho no primeiro degrau do throno e
+babujando-lhe a mão aristocratica com a saliva do cortezanismo mais
+rasteiro e mais falso.
+
+O seu anniversario!
+
+De repente, e como se reatasse uma conversa interrompida pousando o
+charuto sobre o cinzeiro de prata, e tomando-lhe entre as mãos a face
+apergaminhada, n'uma caricia muito terna:
+
+--Não, fica certa que não me esqueço dos teus annos, e verás como sou
+gentil...
+
+--Sim, não te esqueças. E pois que desejas mostrar-te gentil para
+commigo, mais uma vez, poupa-me ao desejo e á baixeza de receber os teus
+creados de pasta.
+
+E não houve recepção.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Amanhã tem logar a abertura do congresso republicano no Porto.
+ Espera-se que o sr. D. Carlos assista hoje á tourada, no Campo
+Pequeno._
+
+ (Dos jornaes.)
+
+
+--Está doente?...
+
+--Pelo contrario, nunca me senti com tanta saude como agora. De certo,
+se estivesse doente, era natural que fizesse chamar um medico, e não o
+presidente...
+
+--Sem duvida; mas chamado tanto á pressa, com a maxima urgencia...
+
+--É que na verdade o caso é urgente. Não adivinhas do que se trata?
+
+--Por mais voltas que dê á imaginação...
+
+--Não vale a pena dar-lhe grandes voltas, porque pode transtornar-se.
+Sabes que dia é amanhã?
+
+--É domingo.
+
+--E sabes que ha tourada no Campo Pequeno?
+
+--Como não sou aficionado...
+
+--Não sabias? Pois ficas sabendo agora. Ha tourada, e trabalha o
+Fuentes. Quer isto dizer que será uma tarde cheia. Como os typos estão
+lá para o norte, a palrar, eu resolvi ir aos touros ámanhã.
+
+--Isso não pode ser! Eu não posso tomar a responsabilidade...
+
+--Tomo-a eu, deixa lá. Em não apparecendo os cabecilhas, a arraia miuda
+não abre bico!
+
+--Ahi é que está o engano. Aquella gente não se move por cordelinhos;
+pensa pela sua cabeça; tem iniciativa propria, e procede como lhe parece
+melhor.
+
+--E tu imaginas que hei de passar n'isto a vida inteira?
+
+--A vida inteira, não; mas por ora tem de ser assim.
+
+--E se eu não quizer que seja assim?
+
+--Se não quizer que seja assim...
+
+--Como será então?
+
+--Então... será peior!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O teu amor e uma cabana!_
+
+
+Fôra uma loucura aquelle amor.
+
+Tinham-se encontrado na Figueira, estava ella a banhos, e elle fôra alli
+de visita a uns parentes da Bairrada, que não via desde annos. Como se
+andassem pelo mundo á procura um do outro, apenas se viram uma manhã, na
+Praia, amaram-se doidamente, e foi milagre que não desatassem logo a
+tagarelar, tu cá, tu lá, e tomassem banho juntos.
+
+Á noite, no Casino, a indispensavel apresentação, e logo se seguiu um
+_pas de quatre_, em que os dois eram eximios. Marchou aquillo tão
+depressa, que já eram noivos quando regressaram ao Porto, onde ella
+tinha os paes e elle o emprego, um modesto emprego de despachante, que
+lhe rendia vinte mil réis por mez.
+
+Todas as noites ia falar-lhe, já recebido como da familia e sempre a
+encontrava encostada a uma pequenina mesa quadrada, um livro de versos
+na mão esquerda, marcando a pagina com o dedo, e em toda a sua gracil
+pessoinha um ar de alheiamento e de sonho, que o fazia estacar á entrada
+da sala, n'um extase de devoto.
+
+--Que languidez, Virgem Santa!
+
+Casaram, está bem de ver, e foram padrinhos aquelles parentes da
+Bairrada, que elle tinha ido visitar á Figueira, onde ella estava a
+banhos. Ninguem a ensinára a trabalhar, e como elle só tinha o seu
+ordenado de despachante, uns vinte mil réis por mez, era impossivel
+metter creada, de modo que andava tudo desarrumado, a comida era mal
+feita, nunca estava prompta a horas, e quando uma rabanada de vento
+entrava pela janella, era como redemoinho correndo ao longo d'uma
+estrada poeirenta. Mas todas as noites, quando recolhia, farto de cuspir
+no café, ia encontral-a, como n'outro tempo, encostada a uma pequenina
+mesa quadrada, um livro de versos na mão esquerda, marcando a pagina com
+o dedo. E ao vel-a assim descuidada n'um grande ar de alheiamento e de
+sonho, toda a sua gracil pessoinha como que envolvida n'uma atmosphera
+de languidez quasi morbida, estacava á entrada da sala, como n'outro
+tempo, murmurando por entre dentes:
+
+--Que desmazelo, meu Deus!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Dio del oro, del mundo signor._
+
+
+Noite de festa.
+
+Tinham-se vendido todos os logares, e ninguem dispensava o seu bilhete
+como se fosse um decimo de loteria, com probabilidades conhecidas de
+sair n'elle a sorte grande.
+
+--Compra-se uma cadeira!
+
+--Ha quem venda uma geral ou camarote?
+
+Eram vozes clamando no deserto... d'uma multidão compacta, junto ao
+_guichet_, todos sabendo que não entrariam, mas ninguem tendo a coragem
+de se ir embora.--Quem sabe? Uma familia que se enlutou á ultima hora, e
+manda vender o seu camarote; um honrado negociante que precisou de
+abalar para o Alemtejo, e manda vender o seu _fauteuil_.
+
+Era noite de festa.
+
+Havia flores por toda a parte; colchas ricas pendiam dos camarotes, em
+todas as ordens, de modo que a sala tinha assim, por virtude d'aquella
+polychromia bizarra, um aspecto singularmente phantastico, em que se
+perdiam os olhos, n'um encanto. Mulheres ricamente vestidas, largamente
+decotadas, eram como fructos de carne em papel de seda, e formavam uma
+galeria de bustos sem egual, em que tivessem collaborado todos os
+esculptores de genio.
+
+Era noite de festa.
+
+Quando se ergueu o panno, sobre as ultimas notas da orchestra, pareceu
+que um jogo habil de espelhos transferira ao palco aquellas flôres
+magnificas que havia por toda a parte, aquellas colchas ricas que
+pendiam dos camarotes, n'uma polychromia bizarra, no meio da qual se
+destacavam bustos admiraveis de mulheres, como se fossem outros tantos
+peccados irresistiveis, servidos em papel de seda pelo demo tentador.
+
+No segundo acto, quando Ella appareceu, foi como se uma corrente
+electrica, mysteriosa e divina, percorresse toda a sala, visto como
+todos se levantaram, n'um movimento egual e isochrono, para a mais
+amoravel e sincera ovação de que possa haver registo.
+
+Muito fria, muito pallida, as lagrimas gelando-se-lhe a meio das faces
+apergaminhadas, um sorriso apagando-se-lhe nos labios resequidos, avança
+para agradecer, n'um automatismo quasi de somnambula, e logo recua,
+soltando um grito, deixando-se cahir, ao desamparo, n'um _divan_, que
+para alli tinham posto.
+
+Estava morta.
+
+No escriptorio, verificando o producto da récita, n'aquella noite
+festiva em que havia flores por toda a parte, e, entre colchas d'uma
+polychromia bizarra bustos esculturaes de mulheres eram como grandes
+fructos de carne servidos em papel de seda, o emprezario commentava:
+
+--Que raio de sorte! Já estavam passados todos os bilhetes para ámanhã!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Quando o cortejo se dirigia da Egreja para o Palacio uma bomba foi
+ atirada d'uma janella, fazendo grandes estragos. Os reis nada
+ soffreram._
+
+ (Dos jornaes, em telegramma de Madrid).
+
+
+Emfim!
+
+Acabavam de ligar-se para sempre, ella radiante de belleza, elle
+radiante de felicidade, os dois sonhando mil cousas loucas, n'uma
+ebriedade d'amor que os punha fóra do mundo real.
+
+--Querida Eugenia!
+
+--Querido Affonso!
+
+Parecia-lhes pequeno o templo, para conter a sua ventura, e aquella
+multidão que os rodeava, fixando-os com muita insistencia, tinha assim
+os ares de quem espreita com inveja, e se compraz em ser incommodo. Por
+maneira que ao chegarem ao adro, ella radiante de belleza, elle radiante
+de mocidade, respiraram com muita força, e teriam caido nos braços um do
+outro, ebrios de amor, se um grito de saudação, reboando pelos ares, não
+os chamasse á realidade!
+
+Já no trem, por ahi fóra, marchando lentamente, como n'uma procissão, os
+ouvidos cerrados a tudo que não fosse o encanto dos seus proprios gestos
+intencionaes, elles architectavam mil coisas loucas na sua mente
+escandecida, e como que prelibavam o infinito prazer d'uma posse
+ardentemente desejada.
+
+N'isto ouve-se uma explosão horrivel, e um grito formidavel de terror
+sae de milhares de boccas, n'um unisono perfeito. É um momento de
+confusão indescriptivel, e nem se ouvem os gemidos dos que sofrem, nem
+se dá pelas convulsões dos que agonisam, porque a attenção dos que não
+fugiram concentra-se totalmente n'aquellas duas creanças--ella radiante
+de belleza, elle radiante de mocidade, os dois ainda ha pouco sonhando
+mil coisas loucas, n'uma ebriedade d'amor, que os punha fóra do mundo real.
+
+Estavam salvos.
+
+A commoção fôra extraordinaria, sendo milagre que um estilhaço de bomba
+não tivesse reduzido aquelle idilio esponsalicio a um noivado de
+sepulcro--como se não fosse abominavel atirar para o nada uma existencia
+que alvorece.
+
+--_Yo te probaré hoy que soy digna de ser tu mujer._
+
+Fôra realmente extraordinaria a commoção, de modo que já no leito, sob a
+luz muito baça, muito tenue d'uma lampada ao centro da alcova, tendo
+ainda nos ouvidos o estrondo d'uma bomba que rebenta, e como que vendo
+alli, no isolamento d'aquelle ninho, creaturas que estremecem nos
+paroxismos de uma morte irremediavel, elle que mostrára uma coragem
+estoica no meio do perigo, recommendando a todos _calma, mucha calma! No
+ha pasado nada_, elle sente-se agora d'uma fraqueza infantil, quasi
+covarde, anniquilado como se entrára n'uma lucta com cyclopes. E então
+muito calmo, muito resignado, como quem acceita os fados, mordendo-lhe
+os beiços que ella estendia n'uma momice cheia de graça:
+
+--_Yo te probaré mañana que soy digno de ser tu marido._
+
+E foi como se na virgindade d'aquelle leito repousassem duas creanças
+gemeas.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O governo resolveu supprimir todas as gratificações por serviços
+ extraordinarios._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Iam alli implorar a protecção de S. Ex.ª.
+
+--De que se trata então?
+
+--Somos tres chefes de familia, tres honrados servidores do Estado que
+vimos...
+
+--Está bem; mas o que desejam?
+
+--Como V. Ex.ª sabe, acabaram as gratificações, e aquelle de nós tres
+que mais ganha não chega a ganhar trinta mil réis mensaes, sujeitos a
+descontos.
+
+--Perfeitamente; mas os senhores são empregados...
+
+--Saberá V. Ex.ª que da Alfandega.
+
+--Ora é isso mesmo, da Alfandega. Eu não posso augmentar-lhes o
+ordenado, e como a verba das gratificações foi supprimida.
+
+--Se V. Ex.ª dá licença...
+
+--Como a verba das gratificações foi supprimida, e não depende de mim
+restaural-a...
+
+--Se V. Ex.ª quizesse ter a bondade de se interessar por nós, mesmo sem
+nos augmentarem os ordenados e sem restabelecerem as gratificações...
+
+--A accumulação de serviços equivale a uma gratificação...
+
+--Queira V. Ex.ª desculpar, mas tudo se arranjaria facilmente se o sr.
+conselheiro quizesse ter a bondade de nos tomar sob a sua protecção...
+
+--É que não vejo maneira...
+
+--O que nós pedimos é muito pouco, e não é preciso tiral-o ao Estado, ou
+a quem quer que seja.
+
+--Em summa, o que é que os senhores desejam?
+
+--Nós desejávamos ser nomeados... gatos da Alfandega.
+
+--Gatos da Alfandega?!!...
+
+--É verdade, sr. conselheiro, gatos da Alfandega. Isso daria uns 9$000
+réis por mez, a cada um, o que seria uma ajudasinha para a renda da casa.
+
+--Os senhores vieram aqui para se divertirem commigo?
+
+--Ó sr. conselheiro, pelo amor de Deus! Nós viemos aqui implorar a
+valiosissima protecção de V. Ex.ª, juramol-o pela bôa saude das nossas
+mulheres e dos nossos filhos...
+
+--Gatos da Alfandega! Mas então os senhores perderam o juizo?
+
+--Não, senhor conselheiro; o que nós perdemos foi a gratificação.
+
+--Ou anda tudo doido, ou eu não sei onde tenho a cabeça. Mas o que vem a
+ser isso de gatos de Alfandega?
+
+--Saberá V. Ex.ª que havendo milhões de ratos na Alfandega, sem respeito
+nenhum pelas mercadorias que alli se acham depositadas, e havendo todos
+os dias reclamações por causa dos prejuizos que estes causam, foi creada
+a corporação dos _Gatos da Alfandega_, para a sustentação da qual ha uma
+verba de proximamente trinta mil réis por mez.
+
+--Está bem; mas se essa verba é para sustentação dos gatos...
+
+--Desculpe V. Ex.ª; mas se esses empregados cumprem rigorosamente o seu
+dever, apanhando os ratos, não precisam que os sustentem, porque
+arranjam elles proprios os seus sustentos; e se alli estão só para
+receberem o ordenado, deixando os ratos em liberdade, não é justo que se
+gaste com elles um dinheirão, ao passo que honrados chefes de familia...
+
+--Pois está bem; vou informar-me do caso e prometto-lhes interessar-me
+pelos senhores.
+
+--Muito obrigado, sr. conselheiro, muito agradecido a V. Ex.ª
+
+Tinham dito a verdade os honrados chefes de familia, e porque o
+conselheiro não era homem que faltasse á sua promessa, foram os tres
+nomeados gatos da Alfandega, como poderiam ser nomeados secretarios do
+ministro, ou revisores do caminho de ferro.
+
+Os verdadeiros gatos emigraram, e uma commissão de ratos foi
+cumprimentar os tres honrados chefes de familia, quando viram as
+nomeações no _Diario do Governo_.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Deve se ao sr. Casimiro José de Lima, director da casa da moeda, o
+ monumento a Souza Martins, erecto no Campo de Sant'Anna._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Eram congressistas.
+
+Desemboccaram no Campo de Sant'Anna, vindo da Carreira dos Cavallos, e
+como se approximassem da estatua, a alguns passos de distancia, pararam
+de repente, em geito de quem examina com interesse. Um do grupo, o mais
+velho, typo acabado de sabio allemão, genero Topsius, de sobrecasaca e
+oculos d'ouro, erguendo ligeiramente o chapéu, n'um cumprimento
+respeitoso, em que havia muito de admiração, exclama com grande
+convencimento:--_Schön! Schr schön!_ E logo os outros todos, em unisono,
+como se fosse um echo alli proximo, possuidos d'aquelle arroubamento
+esthetico, que é vulgar nos homens da Allemanha, exclamaram
+tambem!--_Schr schön!_ O mais velho, erguendo os oculos d'ouro para a
+testa ampla, como a querer illuminar o pensamento, feita uma ligeira
+reverencia á estatua immovel explicou:--Ribeiro Sanches... Foi um medico
+notavel do seculo dezoito, um sabio do mais alto valor. Formado em
+Coimbra, graduado em Salamanca, visitou successivamente os hospitaes de
+Londres, Marselha, Toulon, Montpellier e Paris. Estudou com
+Boerhaave--todos se descobriram--em Leyder, durante tres annos, e a tal
+ponto se impoz á estima e á consideração do Mestre, que d'ahi a pouco
+tendo-lhe pedido a imperatriz da Russia a indicação de tres grandes
+medicos, que fossem exercer cargo de professor em Moscow, o primeiro
+nome que lhe accudiu foi o de Ribeiro Sanches. Medico dos exercitos
+imperiaes, fez a campanha da Polonia, em 1735, e ainda n'essa qualidade
+andou pelo Paiz dos Tartaros, sobre os quaes fez estudos de
+anthropologia, que muito aproveitaram ao sabio francez Buffon--e todos
+se descobriram de novo.--Viveu em Paris, com muitas difficuldades,
+sempre estudando, sempre cultivando a sciencia, produzindo trabalhos
+valiosos sobre economia, historia e medicina.
+
+Formára a sua intelligencia no estudo de Bacon e Descartes, e temperou o
+seu caracter pelos conselhos de Montaigne.
+
+Accusado de judaismo, não podia vir a Portugal, e os livros que para cá
+mandava eram uma especie de contrabando, que o marquez de Pombal fez
+passar como sendo d'um phantastico dr. João Mendes Sachetti.
+
+A Imperatriz Catharina II, da Russia, grata por a haver curado d'uma
+doença grave, era ella princeza, estabeleceu-lhe uma mezada sufficiente,
+quando elle se viu na capital da França, a braços com a miseria.
+
+E assim pôde viver e publicar o seu _Methodo de estudar a medicina_, e
+um tratado de _Conservação da saude_ dos povos, e outros muitos
+trabalhos de valia, que lhe marcaram logar distincto entre os sabios do
+seu tempo. Um grande sabio! _Ein gross gelehrt! Viel berühmht!_--E todos
+em unisono, como se fosse um echo ali perto:--_Viel berühmht!_
+
+Ia a passar uma mulhersinha, typo de mulher que esfrega, e como os visse
+embasbacados, approximou-se do grupo:
+
+--É o Sousa Martins, os senhores haviam de conhecer. Quem mandou alli
+pôr isto, foi o sr. Casimiro da Casa da Moeda--talvez os senhores tenham
+ouvido falar.
+
+Pois não conheciam um, nem tinham ouvido falar do outro, aquellas
+cavalgaduras!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Hontem a policia deitou a mão a um gatuno de onze annos, que roubou
+ um pão n'uma padaria da Baixa._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Tinha roubado um pão.
+
+A mãe dissera-lhe que fosse pedir esmola, havia muitas horas sem comer,
+e elle abalára por essas ruas, descalço e rôto, extendendo a mão a toda
+a gente. Entrava nos cafés, e ninguem lhe dava nada; entrava pelas
+lojas, descalço e rôto, e os caixeiros enxotavam-n'o como se fosse um
+cão. _Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_
+
+Ninguem lhe dava nada, e todos o maltratavam, chegando um policia a
+deitar-lhe a unha para o levar para a Correcção. Infatigavel, entrando
+agora n'um café, onde os freguezes nem ouviam o seu estribilho--_dá-me
+cincoreisinhos, meu senhor?_--entrando além n'uma loja, d'onde os
+caixeiros o enxotavam como um cão sem dono, já tinha percorrido a cidade
+inteira, extendendo a mão a toda a gente, e toda a gente olhando para
+elle com desprezo ou com enfado, e ninguem se compadecendo da sua
+miseria. E, comtudo, era nada, que elle pedia a toda a gente que
+passava, extendendo a mão suplicante.--_Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_
+
+Cançado, cheio de fome, ahi volta elle a casa, onde a mãe o aguardava,
+n'uma afflicção, chumbada ao leito, havia muitas horas sem comer. Uma
+senhora muito bem vestida, com brilhantes, carruagem brazonada, quasi
+encalhando n'elle á porta d'uma Egreja, estendeu-lhe a mão enluvada, e
+deixou cahir na sua mãosita suja, sem olhar para elle, os cincoreisinhos
+que elle andava a pedir correndo a cidade inteira, extendendo a mão a
+toda a gente que passava, entrando nos cafés, onde os freguezes eram
+surdos ao seu pedido, e entrando nas lojas, descalço e rôto, e d'onde os
+caixeiros o enxotavam, como um cão vadio.
+
+Talvez não fosse de proposito, mas os cincoreisinhos telintaram nas
+pedras da calçada, emquanto a senhora que lh'os dera, muito bem vestida,
+genuflectia á porta do templo, e cortava o rosto fresco e moreno com o
+signal da cruz.
+
+Foi então que o garoto deu com os olhos n'um cesto de verga, á porta
+d'uma padaria, cheio de pão alvo e fresco.
+
+Alli perto estava a mãe, chumbada ao leito, sofrendo horrivelmente,
+noites e noites sem dormir, havia muitas horas sem comer. Quasi nem teve
+tempo de acommodar o pão debaixo do braço, escondendo-o com uns
+frangalhos da jaqueta. O padeiro grita, o garoto foge, a policia
+apanha-o, e a multidão horroriza-se deante d'aquelle ladrão de onze
+annos, que tinha a mãe alli perto, n'uma pocilga, chumbada ao leito,
+soffrendo horrivelmente, noites e noites sem dormir, havia muitas horas
+sem comer.
+
+Na esquadra, mettido no segredo, como um facinora, o garoto dá o nome e
+a morada; mas o terror nem o deixa desafogar em lagrimas--vejam o
+cynismo do malandro!--e a vergonha faz-lhe esconder a cara--admirem a
+astucia do patife!
+
+O policia, que foi prevenir a familia, ao outro dia, encontrou extendido
+no leito, ainda quente, o cadaver d'uma mulher nova, muito sêcca, muito
+mirrada, o ar de quem passou largo tempo chumbada ao leito, ainda
+quente, soffrendo horrivelmente, muitas horas sem comer, muitas noites
+sem dormir.
+
+Já não lhe puderam dizer que era um ladrão o seu filho, aquelle garoto
+descalço e esfrangalhado, que percorrera a cidade inteira, incommodando
+toda a gente--_dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O rei podia impôr-se por um acto de abnegação e patriotismo,
+ acceitando a Republica._
+
+ (D'um jornal republicano).
+
+
+Era um povosinho pacato, que moirejava nas suas terras, sempre alegre,
+sempre satisfeito, sem recordações tristes do passado, sem apprehensões
+pelo futuro.
+
+Enlevava-se na contemplação do mar, quando elle era sereno, e como se
+esquecesse então, os olhos pregados na sua superficie espelhenta e lisa,
+os ladrões aproveitavam-se daquella especie de somno hypnotico para lhe
+aligeirarem os bolsos.
+
+Bem se importava elle com isso! Tirava da terra, quasi sem esforço, tudo
+quanto lhe era necessario, e ainda lhe ficava muito tempo para se
+enlevar como um sabeista, na contemplação dos astros, de dia piscando os
+olhos aos raios d'um sol que não queima, de noite como a querer
+enchel-os d'um luar que adormenta.
+
+Era feliz.
+
+Os outros invejavam aquella tranquillidade paradisiaca, alguns milhões
+de bananas governados consoante a rima, e com um rei côr de laranja.
+
+Succedeu, porém, que um dia, no meio d'aquelle povo pacato que moirejava
+nas suas terras, sempre alegre, sempre satisfeito, sem recordações
+tristes do passado, sem apprehensões pelo futuro, caiu uma semente de
+revolta, que logo germinou e fortificou, avassallando todos os
+espiritos. Áquella gente pacifica repugnavam os actos violentos, e só
+comprehendia que se derramasse sangue para fazer cabidela, ou então para
+evitar congestões, quando assim o entendesse a medicina.
+
+Mas havia o rei...
+
+Foi então que um patriota, inspirado como um propheta antigo, teve uma
+ideia genial, um pensamento sublime--convidar o rei a adherir.
+Elimina-se o rei e cria-se um cidadão, exclamava com muita eloquencia,
+pondo arrepios de commoção na espinha de todos os ouvintes.
+
+S. M. adheriu.
+
+Como todos os bons cidadãos quizeram sacrificar-se na presidencia da
+Republica, houve necessidade de não crear essa funcção, e isso se fez
+por consenso unanime, cada um não querendo para os outros o que não
+poderia haver para si.
+
+Alvitrou-se a anarchia, mas como viesse a reconhecer-se, ao cabo de
+longa discussão, que no relogio do tempo ainda não tinha soado essa hora
+suprema d'amor e de justiça, tratou-se de eleger um governo, como nas
+outras republicas.
+
+Um velho de aspecto venerando, com um saber só de experiencias feito,
+propoz que na constituição do governo entrassem elementos novos e aguns
+dos antigos homens de governo, já com pratica de negocios publicos.
+
+--Os cidadãos que approvam esta proposta ergam as duas mãos.
+
+Como se visse no ar uma floresta de mãos:
+
+--Approvada por unanimidade.
+
+Logo uma voz se ergue, fazendo-se ouvir em toda a vasta assembléa:
+
+--Eu voto contra. No governo só deve entrar gente nova.
+
+O homem que assim falava protestando com energia, era o cidadão que fôra
+rei, o que deu logar a esta observação do presidente.
+
+--Mas o cidadão, quando era monarcha...
+
+--Pois sim, quando era monarcha; mas agora sou contribuinte...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Parece que S. M. a Rainha não acompanhará El-Rei na sua proxima
+ viagem._
+
+
+--Confessa que te era mais agradavel ir só...
+
+--A falar a verdade...
+
+--Ao menos és franco, e a franqueza não passa por ser qualidade vulgar
+na tua nobilissima familia.
+
+--Falas-me da minha familia n'um tom de superioridade e desdem, como se
+descendesses d'alguma d'essas divindades soberbas, de que estão cheias
+as mythologias antigas. A esse respeito, minha filha, talvez seja melhor
+não adeantarmos conversa. Ha um anexim portuguez que resa assim;--_disse
+o tacho á certã, tira-te para lá não me tisnes._
+
+--Não conheço o calão dos toureiros...
+
+--Nem eu a giria dos jesuitas.
+
+--Ao menos podias ser delicado com uma senhora.
+
+--Por certo se essa senhora quizesse ser delicada commigo.
+
+--Nunca eu tivesse aqui posto os pés.
+
+--Inteiramente d'accordo. Tinha sido magnifico para os dois.
+
+--Se não fossem os filhos e...
+
+--Bem sei; se não fosse isto de pairar no alto, estar acima dos outros...
+
+--_Je m'en fiche de..._
+
+--Temos calão boulevardiano?
+
+--Se um dia perderes o logar, podes ir para Marrocos: o sultão, supponho
+eu, não terá ciumes de ti.
+
+--Nem tu saudades minhas.
+
+--Se te parece!...
+
+--Apezar de todos os pezares, minha filha, tu ainda me podias dar um
+prazer enorme, uma satisfação infinita.
+
+--Deixando-te ir em liberdade?
+
+--Não; deixando-me... viuvo.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _No congresso medico do Porto, o dr. Eduardo d'Abreu apresentou um
+ velho de 109 annos._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+--Vou dar a palavra ao illustre congressista, nosso collega, que
+apresentará á assembléa o homem mais velho do mundo.
+
+
+Quando o presidente acabou de pronunciar estas palavras, fez-se na sala,
+até então rumorosa, o silencio dos momentos augustos. Um congressista
+avançou para junto da mesa da presidencia, acompanhado d'um velhote
+rabitezo, de peitilhos bordados, endomingado como para a desobriga. Era
+o homem mais velho do mundo, como dissera o presidente. Nascido no
+seculo dezoito, atravessára todo o seculo dezenove, e alli estava muito
+fresco, bem disposto, nas felizes disposições de acompanhar o seculo
+vinte até por ahi adeante sem cansaço de maior. Estavam alli cento e
+nove annos, bonita somma feita com parcelas de tres seculos, muito
+deseguaes em valor.
+
+Tão bem conservado o velhinho!
+
+Dir-se-ia que adormecera quando ia a entrar na velhice, ao cabo de uma
+florente mocidade, e a dormir deixára de fazer annos, o bom velhote. Por
+certo aquella alma nunca fôra batida das tormentas, não experimentara
+nunca as grandes alegrias nem as grandes contrariedades, porque umas e
+outras consomem como o fogo, abbreviam a existencia,--diluindo-a em
+risos ou afogando-a em lagrimas.
+
+Tão bem conservado, o velhinho!
+
+Ha rugas na sua face; mas ellas são apenas as dobras avelludadas dos
+lagos adormecidos, d'uma paz magestosa e inalteravel.
+
+Os olhares de todos aquelles medicos convergiam para o bom do velho,
+muito rabitezo, com os seus peitilhos bordados á moda de 1820--a unica
+coisa limpa que resta das grandes aspirações d'aquella epoca, explicou o
+congressista que apresentava o phenomeno. Parecia uma evocação, um
+phantasma que surgisse da noite dos tempos para contar historias
+tragicas. Mas havia tanta candura no seu olhar curioso! tanta alegria
+infantil no seu riso mal contido, como se tivesse vergonha de não se
+mostrar grave alli, no meio de tantos senhores! Aquella seriedade tinha
+o ar de uma meninice robusta e florida.
+
+Tão bem conservado, o velhinho! Parecia vender saude...
+
+Um dos congressistas, clinico de larga nomeada, approximando-se do velhote:
+
+--E de saude, que tal?
+
+--Ó meu senhor, graças a Deus...
+
+--Mas nunca esteve doente?
+
+--Uma vez, ainda era novo, ahi por volta dos setenta annos.
+
+--E tomou muitos remedios?
+
+--Lá quanto a isso... não tomei nenhum. Eu sempre tive muito amor á vida.
+
+Tão bem conservado, o velhinho!...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Hontem, em conferencia dos delegados, foi resolvido querellar
+ d'alguns jornaes._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+A sessão estava marcada para as onze. O ultimo que entrou, saudando os
+dois que já lá estavam, teve esta observação maliciosa:
+
+--A justiça é pontual!...
+
+--E algumas vezes... justa, accrescentaram os collegas.
+
+Cada qual desembaraçou-se do sobretudo, pôz em cima da mesa um masso de
+jornaes, e assentou-se.
+
+--Ha que fazer?
+
+--Pela parte que me toca...
+
+O que assim falou, ergueu os oculos para a testa, abriu um dos jornaes
+que tinha na sua frente, e leu pausadamente:--_É fóra de duvida que o
+nosso Monarcha é dos imperantes mais honestos e mais intelligentes não
+só da Europa, mas de todo o mundo._
+
+Pousou o jornal sobre a mesa, deixou cair os oculos para os olhos, e
+attentou nos collegas, á espera.
+
+--E depois? O collega com certeza não pretende querellar d'esse
+jornalista, com certeza monarchico...
+
+--Engana-se o collega redondamente. Pretendo querellar a passagem do
+jornal, que acabo de ler, porque a encontro incursa no artigo...
+
+--Mas isso não tem pés nem cabeça, collega. Quereria então que amanhã se
+dissese que este augusto tribunal querellára d'um jornalista por ter
+elle escripto que o monarcha é honesto, é intelligente, dos mais
+honestos e intelligentes que o sol cobre?...
+
+--É como acaba de dizer.
+
+--Mas isso é uma loucura!...
+
+--Um pouco mais pequena do que lhe parece. Estamos aqui para cumprir a
+lei, e a lei, n'este ponto, é clara.
+
+--O que faria então o collega se o jornalista tem escripto que o
+monarcha é destituido de intelligencia e honestidade?
+
+--O que faria? Querellava-o com fundamento no artigo...
+
+--Mas é então o caso de ser preso por ter cão...
+
+--Não é nada d'isso. É o caso da lei prevenir as duas hypotheses--a da
+calumnia e a da troça.
+
+Concordaram os tres em que eram de troça as palavras incriminadas, e
+assim fundamentaram a sua petição de querella. Nunca mais, desde então,
+os jornalistas se atreveram a escrever aquillo a serio.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O sr. Teixeira d'Abreu foi hontem cumprimentado por uma commissão
+ de Juizes, que o procurou no seu ministerio._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Era uma commissão de juizes da provincia, que vinha apresentar os seus
+cumprimentos a s. ex.ª.
+
+Ageitou o laço da gravata, kaiserizou um pouco os bigodes, pousou a mão
+direita, levemente espalmada, sobre a pasta de marroquim, deixou cair o
+braço esquerdo ao longo do corpo, muito á vontade, e disse ao continuo
+que mandasse entrar.
+
+--Vimos apresentar a v. ex.ª as nossas homenagens, felicitando-o pela
+justa e merecida distincção que acaba de lhe ser feita.
+
+Muito grave, tendo ouvido aquella pequena fala como se fosse um acto de
+vassalagem por parte de rebeldes submettidos, pausadamente como quem
+mede as palavras:
+
+--Agradeço as felicitações que me dirigem, e tomo-as como partindo de
+toda a magistratura, aqui representada por v. exas.
+
+Ordenou que se sentassem, n'um gesto brando e attencioso, e elle proprio
+sentou-se, com muita solemnidade, não fosse desmanchar a _pose_ que
+estudára de vespera para actos officiaes.
+
+E explicou:
+
+--Desejo fazer obra util, que vinque a minha passagem pelos conselhos da
+corôa. O complexo de medidas que tenciono apresentar, subordinadas umas
+ás outras como partes integrantes d'um todo harmonico, constituirá o que
+eu chamo _A reforma da bola_.
+
+--A reforma...
+
+--Da bola. Não fazem ideia do que seja? Não admira; trata-se d'uma coisa
+inteiramente nova. Já na Universidade iniciei o meu plano reformador,
+embora n'outro campo, e com o melhor resultado.
+
+--Se V. ex.ª...
+
+--É simples. Em vez de chamar á lição pela caderneta, chamava pelo saco
+das bolas. Numero tal? Era o que dava a sorte. Assim os rapazes,
+receando cada qual que saisse a bola do seu numero, estudavam todos a
+sebenta. É engenhoso não é verdade?
+
+--Sem duvida. Qualquer que não tivesse o immenso talento de v. ex.ª
+consideraria que os rapazes, esperando cada qual que não saisse a bola
+do seu numero, nenhum pegaria na sebenta.
+
+--Pois ahi está. A bola, applicada ás coisas da justiça, espero que dará
+os melhores resultados. Assim, por exemplo, tratando-se da collocação de
+juizes e delegados... A cada comarca corresponde uma bola. Estão a
+ver?... Acaba o favoritismo; torna-se impossivel a perseguição ou a
+empenhoca.
+
+--É maravilhoso!
+
+--Pois não é?... E ao mesmo tempo é simples. Espero que a minha passagem
+pelos conselhos da corôa, curta ou demorada que seja, não resulte
+improficua para os sagrados interesses da justiça e dos seus agentes.
+
+Ergueu-se gravemente, e premiu o botão electrico. Logo appareceu o
+continuo, que acompanhou até á escada aquella commissão de juizes, que
+tinham ido apresentar os seus cumprimentos a s. ex.ª.
+
+Já na Arcada, olhando uns para os outros, como que interrogando-se:
+
+--Com que então, a bola?
+
+--Redonda e de escaravelho, levada as arrecuas até ao gabinete negro.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _O illustre deputado F. fez hontem um grande discurso, muito
+ caloroso e muito espontaneo, sendo no final cumprimentado por quasi
+ todos os seus collegas._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Passou por alli e entrou.
+
+Era um espectaculo novo para elle, uma sessão parlamentar. Vinha a
+Lisboa, muitas vezes, estando as Camaras abertas, mas em geral tinha
+muito que fazer, e não podia demorar-se por fóra de casa.
+
+O cavallo engorda só com a vista do dono, e elle sabia bem como o seu
+emmagrecia, isto é, como lhe corriam mal os negocios quando se ausentava
+por certo tempo. Mas uma vez não são vezes e elle poderia fazer á sua
+curiosidade o sacrificio das suas commodidades. Em vez de partir no
+comboio da tarde, que era rapido, partiria no comboio da noite, muito
+ronceiro, parando em todas as estações, e só chegando á sua terra a uma
+hora bastante incommoda, de madrugada.
+
+Entrou, e dirigindo-se ao primeiro porteiro que viu, entregou-lhe um
+cartão de visita para o deputado do seu circulo, pedindo uma entrada,
+para a galeria do presidente. Tinham-lhe dito que era d'alli que melhor
+poderia disfructar o espectaculo. S. ex.ª mandou o bilhete de admissão,
+e pedia desculpa de não vir, porque estava conversando com o ministro a
+respeito d'um melhoramento que tinha pedido lá para o circulo, a ponte
+de alvenaria sobre a ribeira, que no inverno, chovendo muito, estorvava
+a passagem de carros.
+
+Acabava de ler-se a acta, quando elle se installou no seu logar. Um
+deputado já velho, com oculos, mandou para a mesa uns papeis, requerendo
+que fossem publicados no _Diario_, e um dos ministros declarou-se
+habilitado a responder á interpelação que lhe tinha annunciado, na
+vespera, um illustre deputado da maioria.
+
+Pareceu-lhe aquillo pouco interessante, e já quasi se arrependia de ter
+alli ido, quando o presidente, não havendo mais quem pedisse a palavra,
+declarou que se ia entrar na ordem do dia. E logo a seguir:
+
+--Tem a palavra o sr....
+
+Era o seu deputado que tinha a palavra. Não pensou mais em ir-se embora,
+está bem de ver, e como o homem tivesse a palavra forte e o gesto largo,
+prendeu-lhe a attenção desde o começo. A Camara estava um pouco
+distraida, cada qual cochichando com o seu visinho, mas elle tinha a
+impressão que o discurso era bem alinhavado, talvez um pouco vulgar nos
+conceitos, mas bastante correcto na forma, e deduzido com certa logica e
+habilidade. Quando faltavam apenas cinco minutos para se encerrar a
+sessão, o presidente, interrompendo o orador, perguntou-lhe se desejaria
+ficar com a palavra reservada.
+
+--Vou concluir, sr. presidente; os cinco minutos de que ainda disponho,
+chegam muito bem para o que me falta dizer.
+
+Quando acabou, muitos deputados foram cumprimental-o, alguns
+apertando-lhe a mão com muita força e outros abraçando-o com
+enternecimento.
+
+Esperou-o ao pé do elevador, e mal o viu estendeu-lhe as duas mãos:
+
+--Muito bem! muito bem!
+
+Elle então explicou, modestamente, que não contava usar da palavra,
+n'aquella sessão, e que por isso não se tinha preparado.
+
+--Foi o que acudiu na ocasião; para a outra vez será melhor.
+
+Já fóra do edificio das Côrtes, atravessando o largo, um rapaz de blusa
+azul, com uns papeis nas mãos, approximou-se d'elles.
+
+--Que deseja?
+
+--São as provas do discurso; v. ex.ª manda-as á typographia, ou quer que
+vá buscal-as?
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _A continuarem as coisas assim, aos republicanos bastará um pouco de
+ audacia para fazerem a Republica._
+
+ (Dos jornaes monarchicos).
+
+
+Era um pego largo, pouco fundo, com moitas de juncos pelas barreiras que
+se esboroavam a cada instante. De cada vez que caia um pequeno torrão,
+acudiam do fundo peixes em cardume, alguns doirados, outros de prata.
+Andavam á roda do pego uns homens graves, sem instrumentos de pesca,
+varando os peixes com olhares de fogo--olhares de guloso ou de avaro.
+
+Bem se importavam os peixes que elles os olhassem assim, com uma
+insolencia quasi dolorosa, se lá da camada funda em que andavam
+apercebiam-se do minimo gesto que elles fizessem, estendendo a mão, e
+logo mergulhavam mais, pondo-se inteiramente a salvo.
+
+Alli perto, debaixo d'uma arvore frondosa, andavam creanças a brincar.
+
+Como as chamassem, n'um prompto, correram para junto daquelles homens
+graves que andavam á roda do pego, devorando com os olhos aquelles
+peixes de oiro e prata, que se viam lá em baixo, na transparencia da
+agua, e de quando em quando vindo á superficie, quando das barreiras
+caia um pequeno torrão, que os atraía em vez de os espantar.
+
+--Ganha um vintem cada um, se atirarem para o pego muita poeira e muita
+lama.
+
+Os pequenos olharam uns para os outros, como que interrogando-se, e logo
+desataram a correr, por alli fóra, rindo ás gargalhadas, deixando
+estupefactos aquelles homens graves que estavam havia muito namorando os
+peixes, varando-os com olhares de fogo--olhares de guloso ou de avaro.
+
+Já a distancia, para além da arvore debaixo da qual ha pouco brincavam,
+estacaram todos ao mesmo tempo, como se obedecessem a uma voz de
+commando. O mais ladino, apontando na direcção do pego, com um grande ar
+de superioridade desdenhosa:
+
+--Queriam pescar nas aguas turvas, os gajos...
+
+E todos riram á gargalhada.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Toda tu és formosa, amiga minha, e em ti não ha mancha._
+
+ (Cantico dos Canticos).
+
+
+Que os seus labios toquem os meus labios, dando-me o osculo da sua
+bocca, e as minhas mãos toquem os seus peitos, fragrantes como os
+balsamos mais preciosos...
+
+Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe mudou a côr
+beijando-a doidamente n'um dia em que ella andava pelas encostas,
+apascentando os gados, esbelta como a açucena...
+
+Hei de fundir os meus desejos loucos no fogo dos seus olhos negros, para
+afogar n'uma gargalheira d'ouro o seu pescoço de rola.
+
+Ella é a flor do campo, o lirio immaculado dos valles, olorosa como o
+nardo, rescendendo como um ramalhete de açafrão que alguem tivesse
+collocado entre as suas pomas virgens, appetitosas como um cacho de
+Chypre, de bagos humidos e frescos.
+
+Não a acordem no seu thalamo de flores, que ella assim é linda como a
+Sulamita, cujo coração vela emquanto ella dorme, e na volupia do seu
+sonho, perfumado de todas as essencias do Libano, percebe a voz do seu
+amado, que lhe bate á porta, a escorrer-lhe do cabello em anneis todo o
+orvalho da noite.
+
+Os seus labios são como uma fita de escarlate, mal cobrindo os seus
+dentes de marfim, e as maçãs do seu rosto, como romã partida, accendem
+fome de beijos nos proprios cedros do Libano.
+
+Que airosos são os seus passos, e que harmonioso é o seu talhe,
+similhante ás palmeiras do deserto, em torno das quaes esvoaçam pombas
+nitentes como frocos de espuma, que o vento erguesse do mar quando as
+ondas saltam como cabritos do monte, procurando as folhas verdes!
+
+Não lhe perturbeis o somno, linda como é adormecida, o leito em que
+repousa tendo o olor de um canteiro de plantas aromaticas, onde floresce
+o nardo e o açafrão, o cinamomo e a mirrha.
+
+Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe queimou as
+faces, beijando-a doidamente, n'um dia em que a apanhou no campo,
+esbelta como as açucenas...
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Ci git Piron, qui fut vien!..._
+
+
+Accumulava com o emprego burocratico... de não fazer nada, o encargo
+social... de dizer mal de todos e de tudo. Assim o tempo não lhe chegava
+para ir aqui e além, apparecendo em toda a parte, informando-se da
+ultima novidade, e commentando o ultimo escandalo. Estava convencido de
+que nascera com immensas aptidões, um enorme talento de escriptor, um
+profundo genio d'artista, e que tudo isso lhe fôra roubado, ainda no
+berço, uma noite, estava elle a dormir e a sonhar--um lindo sonho côr de
+rosa, que punha estremecimentos rithmicos nas suas carninhas de leite.
+Teria sido um philosopho como Littré, um esculptor como Miguel Angelo,
+um historiador como Mommsen, um critico como Taine, um poeta como Victor
+Hugo, um pintor como Rubens, um romancista como Balzac, se lhe não
+tivessem roubado em pequeno as immensas aptidões com que o dotára a
+Natureza.
+
+Quando se punha a escrever, emperrava-lhe a penna ao cabo de poucas
+linhas, e não havia maneira, por mais que torturasse os miolos, de
+lançar ao papel uma ideia. Quando se punha a fazer pintura,
+escorregava-lhe o pincel borrando a lona, e succedia então que tendo
+feito o desenho para uma rosa, lhe saia inevitavelmente uma couve-flôr.
+Uma unica vez conseguiu levar a cabo uma esculptura; mas succedeu que
+tendo modelado no barro um cupidinho alado, quando o passou ao gesso se
+encontrou com um kanguru. Vinham-lhe então raivas tremendas, um odio
+enorme aos que tinham um nome, aos que faziam livros ou faziam estatuas,
+affirmando de qualquer forma uma competencia superior--o talento, que
+não é commum, ou o genio que ainda é mais raro. Era a impotencia gerando
+a inveja; era a inveja transmudando-se em odio.
+
+Um dia morreu e, como não tivesse amigos, quasi ninguem o acompanhou ao
+cemiterio. Quando iam a descel-o á cova na sua mortalha de pobre, um
+bohemio que alli chegou, informando-se de quem era, disse:
+
+--Deviam fazer-lhe a cova redonda... A ultima morada d'um nulo, deve ter
+a fórma d'um zero.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _S. M. tem recebido milhares de cartas, bilhetes e telegrammas,
+ felicitando-o pelo mallogro do projectado movimento revolucionario._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Estendeu o braço e premiu o botão electrico, que ficava um pouco ao lado
+da secretaria.
+
+--Pareceu-me ouvir chamar...
+
+--Chamei, sim. Vieram cartas, bilhetes, telegrammas, não é verdade?
+
+--E todos elles...
+
+--Todos elles dizem a mesma coisa. Até parece que foram expedidos pela
+mesma pessoa ou então...
+
+--Ou então foram redigidos segundo uma formula combinada, não é isso?
+
+--Exactamente, segundo uma formula combinada.
+
+--E já os colleccionaste, conforme te disse?
+
+--De certo. Á medida que chegavam ia...
+
+--Está bem. Traze aquelles que sabes e mette-os além, n'aquella caixa.
+
+--N'aquella caixa?
+
+--Sim, n'aquella caixa. Vou lel-os de monoculo.
+
+
+Eram algumas duzias de telegrammas, vindos d'aqui e d'além, uns do norte
+outros do sul, todos com muitas felicitações, muitos protestos de
+respeito, de estima e dedicação. Parecia, na verdade, que tinham sido
+redigidos segundo uma formula combinada, tão eguaes eram os seus dizeres.
+
+
+--Prompto, já lá estão.
+
+--Olha, põe-lhes em cima aquelle folheteco que está além, n'aquelle
+_étagère_, de capa verde...
+
+--Mas é a Carta...
+
+--Pois já se vê que é. Anda, põe-a lá, e raspa-te.
+
+
+D'ahi por um quarto d'hora, pouco mais ou menos, sentado á secretaria,
+na descuidosa negligencia d'um nababo feliz, a mordicar um charuto
+fortemente aromatico, estendeu o braço e premiu o botão electrico.
+
+--Não sei se é a mim que...
+
+--É com o que está de serviço ao bispote.
+
+--Então sou eu.
+
+--Despeja aquella caixa.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _A alma das creanças que morrem sem baptismo não entra no céo._
+
+ (Crendices populares).
+
+
+No dia seguinte era o baptizado.
+
+Havia mais d'uma hora que estava a devoral-o com os olhos, debruçada
+sobre a canastrinha de verga em que elle dormia, envolto em rendas,
+muito harmonioso na minusculidade das suas formas--como se fosse uma
+esculpturazinha de Donatello, copiada de frei Angelico, em um vago
+presentimento da Renascença.
+
+Ella propria o enfaixaria, subtilizando os dedos leves, ao calçar-lhe os
+sapatinhos de seda, não fosse magoar-lhe as carninhas tenras, d'uma
+rijeza de fructa verde e sadia. Não iria com elle á Egreja, fraca ainda
+como se sentia; mas já recommendára á parteira que o não entregasse a
+ninguem, nem mesmo ao padre, receosa de que mãos pesadas tomassem
+aquelle fardozinho ligeiro, que era a melhor fibra do seu coração,
+animada do mais puro effluvio da sua alma. Sem saber como, entrou a
+philosophar sobre o baptizado, o santo sacramento do baptismo como
+ensinam os livros sagrados.
+
+Seria então um peccador, o seu filhinho.
+
+Quantas creanças por esse mundo além, morrem sem baptismo, quasi ao
+nascer, pequeninos botões de rosa, que não chegam a abrir, porque a
+aragem soprou mais forte e os lançou por terra!... O espirito d'estes
+anjinhos irá então soffrer as torturas do purgatorio, espiando uma culpa
+que não tinham, purificando-se de um mal que não fizeram?
+
+Se o seu filho morresse perderia a crença em Deus, e se pudesse
+acreditar que a alma das creanças, mortas antes de baptizadas não
+ascende directa e immediatamente á vista do Altissimo, radiosa como um
+olhar da Virgem Mãe, negaria a justiça divina, muito peor que a dos
+homens...
+
+Mas então o santo sacramento do baptismo nada mais será que uma mentira?...
+
+... Envolto em rendas, a dormir na sua canastrinha, o petiz estremeceu,
+e ella ficou suspensa na corrente dos seus pensamentos, enlevada na
+contemplação d'aquella esculptura minuscula, de formas harmoniosas, que
+dir-se-ia modelada por Donatello, a copiar Frei Angelico, n'um vago
+presentimento da Renascença.
+
+No dia seguinte lá foi o petiz a baptizar.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Um rapaz da Beira, allegando que o pae é pobre, furou a greve, pelo
+ que foi espancado á porta ferrea._
+
+ (Dos jornaes).
+
+
+Nunca fôra á escola.
+
+Os filhos da gente pobre não teem o direito de ser creanças, e os paes
+d'elle eram pobresinhos. Aos sete annos já era um valor, em linguagem de
+economistas. Fazia dó ver o garotito queimando os musculos tenrinhos
+n'um trabalho com que não podia. Mas os paes d'elle eram tão pobres!...
+
+Quando entrou nas sortes, já era orphão de mãe, e como tirasse um numero
+alto, o mais alto que havia na urna, livrou-se de ir servir o rei,
+deixando o seu velhote quasi cego e inteiramente tropego a viver da
+caridade publica. Por aquelles sitios não havia trabalhador como elle,
+sempre a lidar com a terra, de semana trabalhando para os outros, nos
+domingos trabalhando para si. Não bebia nem fumava, todos os seus ganhos
+eram para sustentar a casa, onde não faltava nada, a não ser a alegria.
+Como não ha-de ser triste o lar onde não explude um riso de mulher, onde
+não ha petizes que ponham tudo fóra dos seus logares, n'uma adoravel
+desenvoltura... Casou, e pareceu-lhe que tinha ido buscar á Egreja mais
+força, mais energia, mais saude. Quando lhe nasceu o primeiro filho, que
+foi tambem o ultimo, já o pae tinha acabado de morrer, pobre velho cego
+e tropego, que um delgado fio prendia á vida, desde que ficára viuvo.
+
+--Este não ha-de ser para ahi um animal como o pae, dizia apontando o
+filho.
+
+Aos seis annos mandou-o para a escola, e como o rapaz fosse intelligente
+e applicado, com muita facilidade aprendeu a ler, excedendo todos os
+seus condiscipulos. Ficou distincto na instrucção primaria, e como fosse
+notavel a sua queda para os estudos, matriculou-se no lyceu. Vencidos os
+preparatorios lá foi o pae leval-o a Coimbra, inchado como a rã da
+fabula, já a remirar-se no seu doutor.
+
+--Evite as occasiões; mas quando se encontrar n'ellas, não faça má figura.
+
+Foi esta a unica recommendação que lhe fez, de volta á sua aldeia,
+tendo-o installado na casa d'um conhecido com ordem de lhe abonarem o
+que fosse preciso.
+
+Outro dia á saida da missa, no adro da Egreja, falou-se de coisas graves
+em Coimbra. Vinha nos papeis...
+
+--Que foi?
+
+Um dos que estavam no grupo, explicou:
+
+--Houve lá o diabo. Sete estudantes foram expulsos, e os outros, por
+camaradagem, declararam-se em greve. Mas alguns, diz o jornal,
+abandonaram os companheiros e foram ás aulas. O seu rapaz...
+
+--O meu rapaz não foi ás aulas com certeza.
+
+Tres dias depois, como o governo mandasse fechar as escolas,
+appareceu-lhe o rapaz em casa, sem ter avisado como era costume.
+
+--Ouve lá, quantos romperam a greve?
+
+--Poucos, talvez uns quatro ou cinco.
+
+--Mas tu...
+
+--Considerei os immensos sacrificios que tem feito para me dar uma
+posição, e para lhe poupar...
+
+--Sim, para me poupares alguns dias de trabalho honrado, não achaste
+nada melhor que praticar a má acção de abandonar os collegas, victimas
+da injustiça.
+
+
+Nunca o tinham mandado á escola, mas abençoava agora a sua ignorancia,
+severo nos seus principios d'honra, intransigente na sua lealdade de
+camponio para com os seus irmãos da gleba, crendo na simplicidade do seu
+espirito que o saber deforma o caracter.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Deus fez as almas aos pares._
+
+ (Da sabedoria das nações).
+
+
+Tinham-se encontrado alli no ponto onde se bifurca a estrada.
+
+O sol descahia ao longe, por traz dos montes, n'um esbraseamento de fogo
+amortecido, e na charneca immensa havia tanta paz e doçura, como n'uma
+cathedral augusta a horas mortas da noite.
+
+Cançados, cheios de pó, via-se bem que tinham feito uma longa jornada
+por caminhos difficeis, rasgando o fato e as carnes nas silvas e pitas
+dos vallados, e magoando os pés descalços nas veredas e atalhos invios.
+
+O sol descahia ao longe, por traz dos montes, e não se avistava um casal
+na extensão quasi infinita da charneca, silenciosa como uma cathedral
+augusta a horas mortas da noite.
+
+Dir-se-ia que se procuravam sem nunca se terem visto, o acaso tendo-os
+reunido alli, no ponto onde se bifurca a estrada, cançados, cheios de
+pó, o fato rasgado, e as carnes feridas, como se tivessem atravessado um
+bosque selvagem, sob a ameaça d'um perigo. Pois que a sorte os reunia...
+
+--Seria bom ficar aqui, ficando ambos, torturada como venho de muito
+longe, sem um braço amigo a que me encoste, sem um coração amigo que por
+mim palpite!...
+
+--Juntos faremos o resto do caminho, querendo-nos muito, amando-nos
+muito, cada qual rivalizando em dar ao outro a maior porção de sonho, a
+maior somma de ventura!...
+
+Por sobre a charneca immensa pairava uma paz bemdita, e a lua muito
+pallida, como se fora um pingo de leite, deixára cahir uma luz frouxa e
+baça--tal uma lampada mortiça no silencio d'uma cathedral augusta.
+
+
+Era dia de finados.
+
+Desde que a mulher lhe morrera, havia tres mezes, nem um só dia passava
+sem que elle fosse ao cemiterio, rezar sobre a sua sepultura,
+offertar-lhe flores orvalhadas de lagrimas.
+
+Tinham-se amado tanto!
+
+Por certo não se morre de felicidade, visto que elle não tinha morrido
+no dia em que a recebera sua esposa legitima á face da santa madre
+egreja, e tambem não se morre de dôr, visto elle não ter morrido no dia
+em que lhe cerrou os olhos, colando-lhe os olhos ás palpebras, n'um
+derradeiro beijo.
+
+Era dia de finados, e como não quizesse dar em espectaculo a sua dôr, o
+cemiterio cheio de visitantes, deixou que toda a gente saisse, já quasi
+ao pôr do sol, para elle então cumprir a dolorosa missão que se impuzera
+de ir todos os dias retalhar o coração, ajoelhado sobre a pedra que
+cobria metade da sua alma, que era toda a sua felicidade.
+
+Ajoelhou, chorou, rezou e quando já tinha os olhos secos de muito haver
+chorado, e já não tinha o coração dorido de tanto que a dôr o tinha
+feito soffrer, espalhando pela sepultura o seu braçado de flores, as
+mãos postas, o chapeu debaixo do braço, os olhos erguidos ao alto,
+anniquilado como se caira sobre elle a maldição de Deus, dirigiu-se para
+a porta do cemiterio.
+
+A poucos passos andados, cruza com elle um rapaz alto, vestido de negro,
+com um grande ramo de flores na mão.
+
+Parou, e sem quasi se aperceber da sua curiosidade, poz-se a seguil-o
+com os olhos. O outro foi seguindo, o andar estugado, caminhando a
+direito sem hesitar. Como elle fizera havia instantes, sobre a mesma
+sepultura, ajoelhou, chorou, rezou e quando já não tinha mais lagrimas
+para chorar, automaticamente, como se na pedra da sepultura tivesse
+deixado colada a alma, dirigiu-se para a porta do cemiterio.
+
+--Devia tel-a amado muito, para soffrer assim!
+
+--Se amei! Daria a vida para a resuscitar, ou para ir apodrecer ao lado
+d'ella, debaixo da mesma pedra.
+
+--Era então sua mulher!..
+
+--Era simplesmente minha amante, porque tivera a infelicidade de casar
+antes de nos conhecermos.
+
+
+Havia tres mezes que a mulher morrera, que nem um só dia passava sem que
+elle fosse rezar sobre a sua sepultura, offertando-lhe flôres orvalhadas
+de lagrimas.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Não ha bella sem senão._
+
+
+Ás vezes, quando a beijava, sentia-lhe as faces quentes dos beijos que
+outro lhe dera. Parecia-lhe então absurdo, quasi inverosimil que a
+Natureza fizesse tão linda uma creatura tão perfida.--Era como se alguem
+mettesse lama das ruas n'uma urna de alabastro.
+
+Tão linda!
+
+Punha-se então a fixal-a muito, muito--como se, debruçado sobre um
+abysmo, quizesse sondar um mysterio. Pareciam feitos de treva os seus
+olhos luminosos! Brincava um sorriso leve nos seus labios sensuaes, em
+que havia o perfume intenso das violetas e o sabor casto das rosas.
+
+Tão linda!
+
+Não se acredita que haja vulcões na lua, serena e pallida, ás vezes
+escondendo-se por traz das nuvens, como se fosse uma mulher nua que
+percebesse no espaço olhos brejeiros a fital-a.
+
+Tão linda!
+
+Manchava-lhe o pescoço um fio d'ouro muito delgado suspendendo um
+Christo de marfim perfeito como se o fizera Donatello, vago e poetico
+como se o desenhára Frei Angelico.
+
+Tão linda!
+
+Mas parecia-lhe, quando a beijava, que ella tinha as faces quentes dos
+beijos que outro lhe dera.--As plantas venenosas nunca deviam ser
+bellas, attrahindo para matar--nem as mulheres bellas deviam ser
+perfidas, como se um tigre habitasse no calice branco d'um lirio, ou uma
+cobra se escondesse entre as folhas d'uma rosa!
+
+Tão linda!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Souvent femme varie_
+ _Bien fou qui s'y fie..._
+
+
+--Tontinho!
+
+--Imaginas, então, que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos,
+sem a loucura das tuas caricias! Arranca a planta pela raiz, e diz-lhe
+depois que floresça e fructifique, que erga os braços onde não circula a
+seiva, offerecendo aos reverberos d'um sol quente e luminoso as suas
+folhas mirradas, d'um amarello chlorotico, que precede a morte decisiva...
+
+--Tontinho!
+
+--Já me afizera ás fatalidades do meu destino, e habituada a olhar nas
+trevas, a cerração da minha noite parecia-me ás vezes que tinha vagos
+lampejos d'aurora, as incertas claridades d'um crepusculo. Acreditei nas
+tuas palavras, e logo senti quente o sangue que se me gelava nas veias,
+e o coração inquieto, na desenvoltura d'um passaro que apanha a gaiola
+aberta, pulsar com força desusada, no alvoroço d'uma alegria doida.
+
+--Tontinho!
+
+--Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias de matar-me
+primeiro, desembaraçando-me d'uma vida inutil, tragica na sua dôr
+recalcada, e ao mesmo tempo burlesca na sua dedicação humilde, nem
+espirrando como a lama quando a pisam na rua.
+
+--Tontinho!
+
+Dentro do caramanchão, ao fundo do jardim, a luz branca da lua era baça,
+como a flor da magnolia, e discreta como uma tia velha, ou uma _bonne_
+suissa. Mal se ouvia o ramalhar das folhas, como um cicio brando e
+perfumado, quando a brisa passava, na leveza imperceptivel d'uma
+borboleta branca, que fosse a alma errante d'uma creancinha tisica.
+
+Colleante, os braços nús, humedecendo os labios sêccos da febre em que
+toda ella ardia, mergulhou nos seus olhos castanhos os seus grandes
+olhos negros, e foi como se aquellas almas se fundissem, enlaçados
+aquelles corpos no contacto mais affectuoso e mais intimo. Não teriam
+ouvido o ramalhar das folhas, ainda que por alli tivesse passado algum
+cyclone devastador, tudo arrasando no seu caminho...
+
+Tontinhos!
+
+
+Mezes volvidos, tendo regressado sem se fazer annunciar, mal saccudido o
+pó da viagem, sentiu necessidade de ir reviver todas as venturas
+passadas no logar onde as fruira.
+
+Era uma noite de luar escasso, e tão froixamente passava a brisa, que as
+folhas não boliam nas arvores, e uma borboleta, que alli abrisse as
+azas, faria um grande ruido. Approximou-se do caramanchão, pé ante pé,
+como se tivesse medo que acordassem todos aquelles vegetaes adormecidos,
+e entrassem a gritar por soccorro, tomando-o por um ladrão ou um assassino.
+
+Lá dentro no caramanchão, a luz da lua era baça como a flor da magnolia,
+e discreta como uma velha tia, ou uma _bonne_ suissa. Pareceu-lhe que
+alguem falava, muito perto d'alli, e como se approximasse mais e mais,
+cautelosamente, quasi sem pisar o chão, não fosse denuncial-o o ruido
+d'alguma folha sêcca, subitamente, como se fossem gotas de chumbo
+fundente que lhe instillassem nos ouvidos:
+
+--Imaginas então que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos,
+sem a loucura das tuas caricias! Se te fosses, havias de levar-me
+comtigo, ou havias de matar-me primeiro, desembaraçando-me d'uma vida
+inutil.
+
+--Tontinho!
+
+
+Quando saiu, a correr como um ladrão perseguido, ou como um doido que se
+escapa, nem pensou no escandalo que causaria a sua presença alli já
+noite velha, se o jardineiro o visse. E era tão grande a sua
+perturbação, quasi a raiar pela loucura, que parou junto á porta, deante
+d'um molho de cactos, a insultal-os, parecendo-lhe que eram creaturas
+maldosas, chasqueando do seu ludibrio, em grandes risadas vermelhas.
+
+Coitadinho!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Os milagres não se discutem--ou se negam ou se acceitam._
+
+
+Chegou á porta da Egreja no momento preciso em que o sacristão, com o
+chapeo debaixo do braço, se preparava para a fechar.
+
+Levava na mão uma almotolia d'azeite, obra d'uma canada, e explicou que
+fizera aquella promessa á senhora Santa Luzia, da sua particular
+devoção, no anno passado, quando estivera mal dos olhos. Deixára um
+homem fazendo a sua obrigação, pagando-lhe meio dia, e, como a jornada
+era comprida, não pudera chegar mais cedo. Seria um grande transtorno
+ter de voltar, e só muito tarde poderia fazel-o, porque o patrão já lhe
+dissera que iria para as herdades do Sado, e era natural que por lá se
+conservasse até ao fim da temporada. De resto, poucos minutos lhe
+chegavam para cumprir a sua promessa, e como ha viver e morrer, não
+queria ser chamado á presença do Senhor sem se pôr em contas direitas
+com os santinhos. Ainda no domingo passado tinha ido levar um alqueire
+de trigo a Santo Antonio; por causa de um atalho de cabras que se tinha
+sumido, e que elle receava que fosse parar á bocca dos lobos. Felizmente
+que nem só uma cabeça se perdera, e isso fôra sem duvida um milagre do
+santo, que os lobos, na charneca onde andam, são tantos como as mães.
+
+Tanta piedade commoveu o sacristão, aliás d'uma crença muito precaria,
+como quasi toda a gente que vive muito no gremio da Egreja. Dentro em
+nada era sol posto, e elle tinha de ir á villa comprar mantimentos e dar
+informações da mulher, havia duas semanas de cama. Disse-lhe que fosse
+rezar as suas orações no altar da Santa, e que despejasse a almotolia no
+potezinho de lata, com tampa de madeira, que estava na sacristia, logo á
+entrada, lado direito, e que servia só para recolher o azeite das
+promessas, geralmente improprio para as comidas. Que em saindo fechasse
+bem a porta, e entregasse a chave á rapariguinha que lá tinha em casa,
+para acompanhar a doente, quando elle precisava sair.
+
+No dia seguinte, pela manhã, quando foi preparar a egreja para a missa
+do domingo, notou que a Senhora Santa Luzia não tinha o cordão e os
+brincos que lhe tinha offerecido um brasileiro, tambem doente dos
+olhos--o cordão por ella o ter livrado do mal, e os brincos por o ter
+livrado dos especialistas.
+
+--Foi aquelle grandissimo ladrão!
+
+Posta a policia em campo, d'ahi a pouco estava preso o indigitado
+gatuno, que o sacristão reconheceu mal o viu.
+
+Não negou estar na posse dos objectos que se dizia terem sido roubados,
+mas jurou pela salvação da sua alma que tal roubo não commettêra. E que
+só falaria na presença do sr. prior, que era um homem de muita
+santidade, e d'uma grande sabedoria. Sem saber do que se tratava,
+acompanhado do official de diligencias, foi o prior a casa do juiz.
+Então o homemzinho explicou:--A Senhora, mal eu acabei as minhas rezas,
+entrou a olhar-me com muita compaixão. Contei-lhe todas as miserias da
+minha vida, e disse-lhe como aquelle azeite que alli levava para a sua
+lampada, fôra tirado á bocca dos meus filhos. Quando acabei, subi os
+tres degraus do altar para lhe beijar a barra do vestido. Então a
+Senhora, tirando o cordão que tinha ao pescoço, e os brincos que tinha
+ás orelhas, entregou-m'os com as suas bemditas mãos, dizendo que a ella
+não lhe faziam falta aquellas coisas, e que eu podia, com o dinheiro que
+ellas me rendessem, comprar o pão e o fato para os meus filhos.
+Observei-lhe que poderiam tomar-me por ladrão, vendo-me na posse de taes
+objectos, e isso seria a minha desgraça e a minha vergonha. Vae então a
+Senhora respondeu-me:
+
+--Se duvidarem da tua innocencia, invoca a autoridade do prior. Elle é
+um crente sincero, e quando toda a gente negasse o milagre, elle o
+affirmaria como possivel.
+
+Na verdade o prior affirmou a possibilidade do milagre, e como não fosse
+possivel demonstrar que elle não se realizára, foi mandado o homem em
+paz, com os brincos e o cordão.
+
+Dizia então o sacrista, vendo partir o penitente:
+
+--Grandissimo ladrão!
+
+E olhando compassivamente o prior, n'um murmurio, por entre os dentes:
+
+--Reverendissimo burro!
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+ _Saudade! gôsto amargo de infelizes..._
+
+ (Garrett).
+
+
+--Fizeste bem em vir...
+
+Cançou de dizer estas palavras, e espalmando a mão no peito, ainda não
+havia muito opulento e agora mirrado, absorveu o ar com muita força, a
+bocca largamente aberta, como se lhe parára o coração no supremo esforço
+de fazer girar mais uma onda, talvez a ultima, de sangue arterializado.
+
+--Se soubesses como eu soffro... Brancos e delgados, muito delgados e
+muito brancos, os seus labios eram duas folhas sêccas, muito ricas de
+nervuras, frias como a neve dos polos. Eram botões de fogo, n'outro
+tempo, os seus beijos, que só por milagre não queimavam.
+
+--Havias de querer-me muito, se soubesses como eu soffro...
+
+Via-se bem que soffria immenso, a febre a queimar-lhe os pulmões, um
+suor frio e viscoso a babar-lhe a pelle, e um torniquete de ferro a
+apertar-lhe o tronco, inexoravelmente, como n'um carcere da Inquisição.
+
+--Havias de querer-me muito se soubesses como eu soffro; mas, havias de
+querer-me ainda mais, se soubesses como eu te amo...
+
+Na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica, os seus grandes
+olhos negros, muito encovados, guardavam tudo o que lhe restava de vida,
+um sopro apenas de vida, que era um bafejo da morte. Parecia-me ás
+vezes, quando se fechavam, que não tornariam a abrir-se, e punha-me
+então a espreitar, na translucidez das suas palpebras, o momento preciso
+em que se apagassem.
+
+--Custa tanto morrer, sabes?...
+
+Sentou-se no leito, a muito custo, e levando as mãos á cabeça, sem dizer
+nada, poz-se a desmanchar o cabello. Um ou outro fio de prata, muito
+raro, manchava as suas tranças d'ebano, que lhe desciam quasi aos
+calcanhares quando as deixava cahir pelas costas.
+
+--Vê como se envelhece depressa...
+
+Fez dois mólhos do cabello, e tomando um em cada mão, emmoldurou com
+elles o rosto, muito magro, d'uma pallidez cadaverica.
+
+--Lembras-te?...
+
+Pelos seus labios brancos e delgados, muito delgados e muito brancos,
+perpassou um sorriso leve de creança adormecida, e nos seus olhos
+negros, muito encovados, brilhou mais intensa aquella lucilação, que era
+tudo o que lhe restava de vida--um sopro apenas de vida, que era um
+bafejo da morte...
+
+--Doidos que nós eramos!..
+
+Revivi n'um minuto todo o poema do nosso amor, as loucuras d'um amor
+prohibido, a que não tinha faltado a dôr cruciante das paixões extremas,
+para dar ao goso uma intensidade quasi infinita. Instinctivamente, como
+n'outro tempo, collei os meus labios aos seus, e nem percebi que estavam
+gelados, folhas sêccas muito ricas de nervuras, frias como a neve dos
+polos.
+
+Durou o sonho toda a eternidade d'um segundo, talvez menos ainda. Mal
+acordei, attentando na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica;
+vendo fechados os seus grandes olhos negros, já sem brilho na
+translucidez das palpebras enrugadas, tive a impressão de me encontrar
+dentro d'um jazigo, para violar uma morta.
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Ao de Leve, by Manuel de Brito Camacho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AO DE LEVE ***
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+Produced by Pedro Saborano
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+Foundation
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+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
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+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+ Dr. Gregory B. Newby
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+Literary Archive Foundation
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+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
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+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
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+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
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+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+ <title>Ao de leve, por Brito Camacho</title>
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+ blockquote {margin: 1em; margin-left: 3em; padding: 1em;}
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+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Ao de Leve, by Manuel de Brito Camacho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Ao de Leve
+
+Author: Manuel de Brito Camacho
+
+Release Date: January 15, 2011 [EBook #34963]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AO DE LEVE ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 2em">AO DE LEVE</p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align:left;margin-left:30%;font-size:small;"><em>Composto e
+impresso na Imprensa</em> <br>
+<em>de Manuel Lucas Torres</em> <br>
+<em>Rua do Diario de Noticias, 93</em></p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<div style="border: solid 2px #000; padding: 1em;text-align:center">
+<p style="font-size: 1.4em;"><u>BRITO CAMACHO</u></p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="font-size: 4em;"><em>Ao de leve</em></p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p>1913<br>
+Livraria Editora<br>
+GUIMARÃES &amp; C.<sup>a</sup><br>
+68, Rua do Mundo, 70<br>
+LISBOA</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{5}</span> </p>
+
+
+<div id="corpo">
+<p> </p>
+<p> </p>
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O estudante que hontem, no Rocio, foi attingido por uma bala na
+ cabeça, já falleceu.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Como não havia de adoral-o, se era seu filho unico!</p>
+
+<p>Para mais, elle era o retrato vivo do pae, com todas as qualidades e todos
+os defeitos&mdash;se um filho póde ter defeitos para a mãe que o estremece!</p>
+
+<p>Ficára com elle nos braços, viuva pela maior das fatalidades, quando ainda
+não tinham seccado de todo as flores de laranjeira que lhe tinham posto no
+cabello no dia do seu casamento, e nas suas faces havia ainda um pouco do rubor
+intenso com que as haviam tingido os beijos loucos que elle lhe dera, já seu
+marido, ao voltarem da Egreja.</p>
+
+<p>Annos e annos chorára a sua viuvez, e mesmo quando o filho lhe extendia os
+bracitos gordos, muito risonho, as suas lagrimas não estancavam.<span
+class="pn">{6}</span> Mas o sau pranto já não era só de dor; a desgraça ainda
+lhe escaldava a garganta com soluços que lhe vinham do coração, mas já lhe
+nimbava a alma a promessa d'uma felicidade remota. No filho via o marido&mdash;era
+como se dentro de um tumulo assistisse ao esplendor d'uma aurora.</p>
+
+<p>Se não havia de adoral-o, a pobre mãe!</p>
+
+<p>Quando elle lhe saiu de casa para continuar os estudos, pareceu-lhe que
+ficava viuva pela segunda vez. As suas cartas mitigariam a sua saudade, e ella
+havia de lel-as com tamanha devoção, evocal-o com tanto amor, que a leitura
+seria afinal uma conversa entre ambos, elle a enxugar-lhe os olhos com beijos,
+e ella a lavar-lhe as faces com lagrimas.</p>
+
+<p>Já então elle era quasi um homem, alto e desempenado, uma pennugem leve
+prenunciando um bigode negro, que seria talvez farto e provocador como o do
+pae. Muito estudioso, e, ao mesmo tempo, muito intelligente, contava as
+distincções pelos exames, nunca se rebaixando a esmolar uma protecção, mantendo
+sempre perante os mestres uma attitude que, nem por ser respeitosa, deixava de
+ser altiva. Ainda n'isso elle era como o pae, orgulhoso sem presumpção,
+delicado sem maneirismos, altivo sem arrogancias.</p>
+
+<p>Como não havia de adoral-o!</p>
+
+<p>Surprehendia-se a fazer projectos de vida em commum, quando elle acabasse os
+estudos, e fosse, para aqui ou para além, exercer a sua profissão.<span
+class="pn">{7}</span> Já a deixariam livre os negocios da sua casa, que a
+retinham agora separada d'elle, a contar o tempo pelo seu amor, e a achar os
+mezes infinitamente mais compridos do que dizem os kalendarios.</p>
+
+<p>Talvez elle um dia casasse; mas nem assim o deixaria, humilde na casa
+alheia, fazendo-se util, sendo prestimosa, realizando quantos milagres fossem
+precisos para se tornar indispensavel. Pois se elle era a unica razão da sua
+vida, como poderia alguem roubar-lh'o sem ao mesmo tempo a matar?</p>
+
+<p>Recebia as suas cartas em dias certos, e nunca elle deixára de lhe escrever
+com a mais rigorosa pontualidade. Ás vezes eram apenas quatro linhas, meia
+duzia de palavras que ella humedecia com os olhos, para as enxugar com os
+labios.</p>
+
+<p>Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico, para
+mais o retrato vivo do pae, com todas as suas qualidades e defeitos&mdash;defeitos
+que para ella eram qualidades!</p>
+
+<p>Ora succedeu que n'aquelle dia, estando como de costume á espera do
+carteiro, viu que elle passava pela sua porta, sem entrar. Era lá possivel não
+ter carta? Provavelmente confundira-a no maço, e só daria por ella finda a
+distribuição. Viria então entregar-lh'a.</p>
+
+<p>Passou uma hora, passaram duas horas, passou uma eternidade, e o carteiro
+não voltou.</p>
+
+<p>Estaria doente? Ter-lhe-ia acontecido alguma desgraça?<span
+class="pn">{8}</span> </p>
+
+<p>Distrahidamente, quasi sem intenção, pega n'um jornal. O coração deu-lhe um
+salto dentro do peito, como se a um leão dentro de uma jaula lhe enterrassem
+nas carnes uma choupa em braza.</p>
+
+<p>Houvera tiros, houvera espadeiradas, como n'uma batalha. Do campo tinham
+retirado muitos feridos, tendo lá ficado alguns mortos.</p>
+
+<p>Foi lendo, lendo tudo, devorando as columnas do jornal, á procura d'um nome,
+na ancia d'um condemnado á pena ultima, que um indulto póde salvar.</p>
+
+<p>Esse nome lá estava. Ferido com uma bala na cabeça, fôra levado ao hospital,
+onde os medicos verificaram o obito.</p>
+
+<p>Não chorou, não soluçou, não gemeu, anniquilada por completo.</p>
+
+<p>Quando voltou á consciencia da realidade, ainda tinha nas mãos o jornal.</p>
+
+<p>Serena e tragica, como se debruçada sobre uma sepultura visse lá dentro o
+proprio coração; tragica e dolorida como se lhe pezasse n'alma todo o
+soffrimento humano; morta para o amor, abrazada em odio:</p>
+
+<p>&mdash;Mataram o meu pobre filho! Maldito seja para sempre, na sua descendencia,
+o miseravel assassino!</p>
+
+<p>Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico!<span
+class="pn">{9}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <em>Se fores um dia ao mar,</em> <br>
+ <em>Que a fortuna te não deixe;</em> <br>
+ <em>Bota a rede e vae-te embora,</em> <br>
+ <em>&mdash;Quanto mais burro mais peixe.</em> </blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Fôra creado de medico, e como a Natureza o dotára com bastante intelligencia
+e um notavel espirito de observação, aprendeu mil coisas com o doutor, a ponto
+de se julgar apto a fazer o que elle fazia. Depois chocava-o aquella
+subalternidade de moço de consultorio, as pessoas que entravam nem reparando
+n'elle, e algumas que n'elle reparavam tratando-o sem cortesia. Farto d'aquelle
+viver, reconhecendo-se talhado para mais altos destinos, um dia pediu contas ao
+patrão, e abalou sem dizer para onde.</p>
+
+<p>Mezes passados, enchia a cidade a fama de um doutor novo, que fazia
+verdadeiros milagres, havendo quem affiançasse que dera vista... a uns poucos
+de aleijados, e cegára uma meia duzia de coxos. Por acaso o doutor topou o
+milagrante collega<span class="pn">{10}</span> na rua, e reconheceu n'elle o
+seu velho creado, muito correcto, muito bem posto, tal qual um intrujão com
+diploma. Ao outro dia, era um domingo, foi procural-o ao consultorio, curioso
+de saber como aquillo era feito. No largo, junto ao adro da Egreja, havia uma
+extraordinaria multidão. </p>
+
+<p>&mdash;Quantas pessoas calcula o dr. que estejam além?</p>
+
+<p>&mdash;Uns milhares.</p>
+
+<p>&mdash;E quantas d'essas lhe parece que serão intelligentes?</p>
+
+<p>&mdash;Algumas duzias.</p>
+
+<p>&mdash;Pois essas formam a sua clientella; o resto pertence-me.</p>
+
+<p>Vinha isto a proposito... a proposito... Ah! sim; a proposito da tiragem do
+jornal, que o administrador acha pequena.<span class="pn">{11}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>A necessidade de equilibrar o orçamento póde obrigar o governo a impôr
+ sacrificios aos funccionarios.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Era manso como um cordeiro, e leal como um velho amigo.</p>
+
+<p>O general montava raras vezes; mas ia todos os dias visitar o seu
+<em>Turco</em>, limpar-lhe a mangedoira, pentear-lhe a crina, passar-lhe a mão
+pelo lombo, n'uma caricia que o animal agradecia, olhando-o com ternura.</p>
+
+<p>Ás vezes, a caminho do tanque, encabritava-se com o impedido, dando saltos,
+como se quizesse fugir pelos campos fóra, no goso d'uma liberdade que não
+conhecia, mas que adivinhava.</p>
+
+<p>Lá em baixo, na varzea, as eguas pastavam tranquillamente; e os poldros,
+virgens de toda a domesticidade, pulavam como cabritos, mettendo a cabeça entre
+as mãos, e logo desatando n'uma correria doida, bebendo os ventos, o pescoço
+muito<span class="pn">{12}</span> extendido, o focinho alto, as narinas muito
+abertas, respirando com estrondo. E era então que elle se encabritava com o
+impedido, firmando-se nas patas trazeiras, dando grandes sacões inuteis, porque
+a arreata era firme, e a mão que a segurava era forte.</p>
+
+<p>Que bom devia ser a liberdade!</p>
+
+<p>Por certo o tratavam bem; mas aborrecia-lhe aquella vida ociosa do quartel,
+todos os dias a mesma coisa&mdash;comendo e bebendo por toques de clarim, n'um
+automatismo de machina, com uma regularidade pendular. Mas era manso como um
+cordeiro, leal como um velho amigo,&mdash;uma creança faria d'elle o que quizesse.
+Ora succedeu que um dia foram dizer ao general que o seu <em>Turco</em> tinha
+rebentado o impedido com uma parelha de coices. Não acreditou, mas entrando na
+cavallariça, viu o pobre diabo extendido, soffrendo horrivelmente.</p>
+
+<p>&mdash;Tu que fizeste ao cavallo!</p>
+
+<p>&mdash;Nada, meu general.</p>
+
+<p>&mdash;É mentira. Eu conheço-o muito bem. Que lhe fizeste?</p>
+
+<p>&mdash;Saberá V. Ex.ª que elle estava a comer a ração, e vou eu, por brincadeira,
+mexi-lhe na barriga.</p>
+
+<p>&mdash;Pois ahi está. Não se mexe na barriga de quem come.</p>
+
+<p>Era um grande philosopho, o general.<span class="pn">{13}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <em>Uma sogra nem de barro á porta.</em> </blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Andava elle pelo Algarve a tratar de negocios, quando o chamaram a Lisboa,
+por telegramma, com a maxima urgencia. Não lhe diziam do que se tratava; mas,
+como era o medico quem lhe telegraphava, ficou n'um susto de morte, calculando
+que ou a mulher ou o filho se encontrasse gravemente doente. Pouco habituado a
+ser feliz, imaginou logo o peor.</p>
+
+<p>O primeiro comboio partia d'alli a doze horas e, como ainda pudesse
+servir-se do telegrapho, correu a pedir informações. Disseram-lhe que era a
+sogra que adoecera no mesmo dia em que elle deixára Lisboa, e que a doença se
+aggravava de momento para momento, receando-se um desenlace fatal. N'um grande
+ah! de allivio e satisfação, como precisava de assignar uma escriptura dahi a
+tres dias, foi-se deixando ficar, pedindo que o informassem, por via
+telegraphica e postal, dos progressos da doença.<span class="pn">{14}</span>
+</p>
+
+<p>Receava elle, pouco habituado a ser feliz, que a doença não fosse em
+progresso, e por isso queria receber noticias amiudadas, se fosse possivel a
+toda a hora. A doente peorava a olhos vistos, e dizia o medico que a pneumonia
+degenerava em typho, sendo possivel que houvesse meningite á mistura. Elle
+tinha uma enorme confiança no doutor, que já lhe assistira á morte de toda a
+familia, e a quem elle conservára o partido, não para o tratar a elle, á mulher
+ou ao filho, mas tão sómente para a sogra. Rematados os seus negocios,
+metteu-se no primeiro comboio, com o coração aos baques, como quem aguarda uma
+sentença. Descia o medico a escada, quando elle a subia esbodegado, e com bagas
+de suor perlando-lhe a vasta fronte.</p>
+
+<p>&mdash;... Vi-a morta, meu caro amigo. Lancei mão de todos os soccorros, e posso
+dar-lhe a boa nova de que passou todo o perigo. A crise fez-se hoje mesmo, e
+agora é só questão de tempo.</p>
+
+<p>Subiu o resto das escadas a cambalear, como um ebrio, e atirando-se para
+cima do sophá que havia na sala de entrada, n'um abandono de quem se vê
+irremediavelmente ludibriado:</p>
+
+<p>&mdash;E eu que tinha tanta confiança n'esta besta do doutor!...<span
+class="pn">{15}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>A policia, ajudada pela guarda municipal, fartou-se de espancar os
+ cidadãos pacificos, realizando muitas prisões.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>A estrada, larga e poeirenta, passava junto á porta sempre aberta do jardim,
+marginada de choupos e eucalyptos.</p>
+
+<p>Toda a gente das aldeias proximas por alli fazia caminho, no giro da vida
+ordinaria, homens, mulheres e creanças, alguns descalços, e outros rotos, a
+maior parte sem pau nem pedra, gente pacifica como bois de trabalho, muito
+pacifica e muito humilde.</p>
+
+<p>Aos domingos, nos dias santos, quando havia festa n'alguma egreja do sitio,
+por alli passavam ranchos de moças garridas, em cabello, cantando e rindo, cada
+qual pelo braço do seu namorado, parando aqui e além, aos abraços e beijos,
+como numa kermesse flamenga.<span class="pn">{16}</span> </p>
+
+<p>Pois era n'esses dias que o Pandorga, locatario do jardim, quasi escondido
+por detraz de uma parede de buxo, atirava os cães para a estrada, açulando-os
+ás canelas de quem passava. <em>Csi, csi</em>, e arregalava o olho, guardado no
+seu esconderijo, rindo muito, sem fazer barulho, quando os cães rasgavam as
+saias das raparigas ou as calças dos homens, e muito mais quando lhe appareciam
+de rojo, após a lucta, levando ainda nos dentes boccados de carne em sangue.
+</p>
+
+<p>Ora succedeu que um dia havia festa alli perto; como o Pandorga açulasse os
+cães&mdash;<em>csi, csi</em>&mdash;contra um bando alegre de camponezes, rapazes e
+raparigas que iam passando a cantar, pacificos como bois de trabalho, ouviu-se
+um estalo sêcco, como um rebentar de escorva, e o baque d'um corpo que cae, lá
+adeante, por detraz da parede de buxo. Soube-se depois que tinha morrido o
+Pandorga, e os cães nunca mais assaltaram as gentes que passavam pela estrada,
+larga e poeirenta, e de quando em quando paravam, abraçando-se e beijando-se,
+como n'uma kermesse de Rubens.<span class="pn">{17}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Hontem, na praça de touros, houve uma ligeira manifestação de
+ desagrado á Familia Real. O rei não assistia ao espectaculo.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Falava-se muito das suas valentias, embora ninguem citasse d'elle uma
+façanha authentica, com testemunhas de vista. Era volumoso, e d'ahi concluiam
+que era forte; era gabarola; muita gente acreditava que elle tivesse nos
+musculos tanta força como na lingua. Contava elle que d'uma vez matára um boi
+com um sôco, e n'um dia em que passava rente a um acampamento de ciganos,
+armados de cacetes e espingardas, como percebesse que lhe faziam troça, desatou
+aos pontapés a toda aquella malta, pregando com o mais atrevido no alto d'uma
+azinheira que estava longe d'alli uns poucos de metros.</p>
+
+<p>Os que melhor o conheciam, mofavam das suas farroncas; mas não faltava quem
+acreditasse nas<span class="pn">{18}</span> proezas de Ferrabraz, intrepido até
+ao sacrificio da vida, sem lhe bulir um cabello. Ora succedeu que um dia, vindo
+com a familia a caminho do arraial, n'uma aldeia da visinhança, alguem o
+preveniu de que se preparava uma emboscada, lá adeante, n'um cotovêlo da
+estrada antes de chegar á ribeira. E vae elle então, muito volumoso, pallido
+como se todo o sangue lhe refluisse ao coração, os cabellos em pé, como se
+visse deante de si a guela escancarada d'um leão com fome, apalpa-se como quem
+procura alguma coisa, e batendo no hombro da companheira:</p>
+
+<p>&mdash;Vão lá andando, vão lá andando, que eu não me demoro; esqueceram-me os
+charutos.</p>
+
+<p>Não voltou, está bem de ver, e no outro dia, quando lhe contaram o
+succedido, ameaçou o céu e a terra, espumando como um javali ferido.</p>
+
+<p>&mdash;Se lá estivesse, rachava-os.</p>
+
+<p>E pregou tamanho murro no cinzeiro de barro, que o fez em boccadinhos.<span
+class="pn">{19}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Hontem o sr. Marquez de Soveral teve com El-Rei uma conferencia de
+ duas horas.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Franqueza, franquezinha, ó coiso, essa historia da intervenção...</p>
+
+<p>&mdash;Era pela certa. Hoje a politica é só de interesses, quem governa é a
+finança.</p>
+
+<p>&mdash;Bem sei, governa a finança; mas olha que isso de intervir sem mais nem
+menos em negocios por assim dizer caseiros...</p>
+
+<p>&mdash;Peço perdão; mas não se trata d'um negocio caseiro, nem mesmo d'um negocio
+exclusivamente nacional.</p>
+
+<p>&mdash;Hom'essa! Queres então dizer...</p>
+
+<p>&mdash;Quero dizer que em torno d'este negocio se formou uma atmosphera de
+interesses internacionaes...</p>
+
+<p>&mdash;Olha que não tens publico, e essas lerias, cá para mim...<span
+class="pn">{20}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Cumpro o dever que me impõe a minha posição, e testemunho assim, dizendo a
+verdade inteira, sem restricções, a minha sympathia pessoal...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, és um artista. Vocês, os diplomatas, são como os homens de
+theatro&mdash;mesmo quando estão fóra do palco, representam.</p>
+
+<p>&mdash;Julgava-me com direito a maior consideração da parte...</p>
+
+<p>&mdash;Tambem eu julgava que me tivesses na conta de menos tolo. Não me conheces
+d'hoje nem d'hontem, para saberes que ninguem me faz o ninho atraz da orelha.
+</p>
+
+<p>&mdash;O que? Pois...</p>
+
+<p>&mdash;Qual historia!... Acreditei todas as lerias que me impingiste, com uma
+seriedade á altura das tuas prosapias...</p>
+
+<p>&mdash;Não o fiz por menos respeito; o uso das formulas...</p>
+
+<p>&mdash;É como o uso do cachimbo&mdash;faz a bocca torta. Sempre me sahiste um gajo!...
+</p>
+
+<p>&mdash;Espero que não fique zangado...</p>
+
+<p>&mdash;Peior... Essa agora não é de diplomata, é d'alarve.</p>
+
+<p>&mdash;Sempre amavel!...</p>
+
+<p>&mdash;Sempre justo. Mas falando agora de coisas serias. Tu achas que eu devo...
+</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! Está claro que deve. Da fama ninguem o livra, e as honras sem
+proveito...</p>
+
+<p>&mdash;E quanto achas tu...<span class="pn">{21}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Em negocio de tanta monta, nunca se pede de mais.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, tudo tem limites. Ahi uns duzentos contitos, mais vintem, menos
+vintem... Que te parece?</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que, pedindo essa bagatela, dá provas d'uma grande generosidade.
+</p>
+
+<p>&mdash;Bem se vê que não és tu quem tem de esportular as massas. Pois está dito;
+faço a coisa pelos duzentos.</p>
+
+<p>&mdash;É como se lhes désse a elles trezentos e vinte, o que não é barro.</p>
+
+<p>&mdash;Quero ser generoso...</p>
+
+<p>&mdash;Do pão do nosso compadre...</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, canta-lhe d'essas; mas se as coisas se complicam e me põem a
+viola...</p>
+
+<p>&mdash;Qual põem! Chego ás vezes a imaginar que tem medo.</p>
+
+<p>&mdash;Tu não me digas isso outra vez, olha que te ponho os queixos á banda. Eu
+nunca tive medo. Já d'uma vez, n'uma feira, se ergueu tudo contra mim, sem
+saber quem eu era, e não arredei pé, de cacete em punho, sem ninguem pelo meu
+lado.</p>
+
+<p>&mdash;Bem sei, bem sei; mas se amanhã houvesse qualquer coisa, em menos de nada
+estavam alli os cavalinhos de pau, e tudo entraria na ordem.</p>
+
+<p>&mdash;E se me puzessem a andar antes d'elles cá chegarem?</p>
+
+<p>&mdash;Isso então era o diabo. Uma intervenção tardia,<span
+class="pn">{22}</span> depois do facto consumado... Mas é absurdo o
+suppôr...</p>
+
+<p>&mdash;Será absurdo, será; mas, pelo sim pelo não, vou dobrar a parada. Os gajos
+repontarão?</p>
+
+<p>&mdash;Que tem lá que repontem?...</p>
+
+<p>&mdash;Está claro. Isto é como dizia o de Braga&mdash;ou comem todos, ou ha-de haver
+moralidade.<span class="pn">{23}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>S. M. a Rainha, acompanhada da sua dama de serviço, andou hontem
+ distribuindo esmolas no bairro de Alfama, sem se dar a conhecer.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Não queria que a conhecessem.</p>
+
+<p>Abalava de casa, vestida como toda a gente, sem nada que pudesse chamar as
+attenções de quem quer que fosse. Era uma creatura como qualquer outra, e
+passava, como qualquer outra, no meio da geral indifferença. Os que a conheciam
+cumprimentavam-na&mdash;bons dias, minha senhora!&mdash;e os que a não conheciam nem
+sequer davam por ella. O passo meudinho, muito apressado, como quem marcha para
+um certo fito, sem se importar com o resto. Entrava aqui, entrava além, fazia o
+bem que podia, e nem esperava que lhe agradecessem os miseraveis a quem
+extendia a mão, deixando cahir uma esmola. Como não se sabia quem fosse,
+chamavam-lhe a <em>Caridade</em>. Envelheceu<span class="pn">{24}</span> muito,
+como toda a gente que teima em viver e morreu um dia, encarquilhada e secca,
+como a maior parte das velhas. Era a <em>Caridade Evangelica</em>.</p>
+
+<p>Tempos depois, nos mesmos bairros pobres entrou de apparecer uma creatura
+exotica, dando nas vistas de toda a gente, obrigando a parar quem passava, para
+a fixar com attenção. O passo largo, muito lento, como quem não tem pressa, e
+que quer por força dar nas vistas. Entrava aqui, entrava além, como quem
+passeia um reclame, e gostava que lhe enchessem as mãos de lagrimas agradecidas
+os miseraveis a quem dava esmola. Como não se sabia quem fosse, n'um dia que
+ella passava, o passo largo, muito lento, quasi rythmico, dois miseraveis que a
+viam passar, como quem passeia um reclame:</p>
+
+<p>&mdash;É a Dona Caridade?</p>
+
+<p>&mdash;Não; é a Exploração da Miseria.<span class="pn">{25}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O Principe Real faz immensos progressos nos seus estudos, causando a
+ admiração dos seus professores.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Era um prodigio, o garoto.</p>
+
+<p>Contava a parteira que elle olhára para traz, quando nasceu piscando um
+pouco os olhitos ramellosos, como quem pretende ver melhor. Aos tres mezes, já
+tocava com os deditos côr de rosa nos bicos, pouco salientes, dos peitos da
+ama, pondo-os em erecção, para mammar melhor. Viam todos que era um pequeno
+muito talentoso, e um boccadinho brejeirote. Aos noves mezes dizia&mdash;bolas!&mdash;e
+foi essa a sua primeira palavra. Comia de tudo, antes de fazer o anno, e
+larachava com os creados finos, como se fosse uma pessoa grande. Era um
+prodigio, o demonio do garoto, d'uma precocidade verdadeiramente excepcional.
+Um familiar da casa perguntava d'uma vez ao medico, a proposito do
+fedelho&mdash;<em>Naturalmente, um genio, doutor?</em><span class="pn">{26}</span> E
+o doutor, encolhendo os hombros em ar de duvida&mdash;<em>Naturalmente um
+idiota!</em></p>
+
+<p>Aos cinco annos já sabia tudo&mdash;quantas pernas tem um cão, quantas orelhas
+tem um burro, quantos rabos tem um gato. Era prodigioso, e cada dia que passava
+como que accrescia de muitos metros aquelle talento incommensuravel. Aos nove
+annos era um geometra como Euclides, era um historiador como Tacito, era um
+philosopho como Platão, era um pintor como Raphael, era um poeta como Camões,
+um romancista como Balzac, um cabo de guerra como Napoleão, um estadista como o
+sr. Lapin. A tal ponto lhe cresceu o genio, que já não havia espaço para o
+conter, a dentro das fronteiras nacionaes.</p>
+
+<p>Foi então que se reconheceu a necessidade de o mandar para longe, onde
+fossem mais largos os horizontes, que os genios, como os gazes quando os
+comprimem além d'um certo grau, são eminentemente explosivos.</p>
+
+<p>E porque era ainda muito novinho, sem experiencia do mundo, apezar do seu
+immenso talento, foi a familia com elle, e por lá ficaram todos&mdash;para bem de
+todos nós.<span class="pn">{27}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>«É melhor tratar d'outro oficio. O jornal ha de morrer á falta de
+ leitores, porque você terá geito para tudo, menos para jornalista.»</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Carta anonyma).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p><em>Oh! la pauvre bête!...</em></p>
+
+<p>Era na verdade, um animal perfeito. De côr acastanhada, a anca alta, largo
+dos peitos, uma estrella branca na testa, talvez demasiadamente sellado, a
+perna delgada e nervosa, a cauda farta e comprida, era um burro que fazia parar
+quem passava, admirando-o, e succedeu a mais de uma beata, ferida de tamanha
+belleza e correcção, estacar no caminho das suas devoções, e não poder reprimir
+nas arcas santas do peito esta exclamação blasphema:&mdash;<em>Benza-o Deus, como é
+bonito!...</em></p>
+
+<p>Procopio então passava horas no enlevo do seu burro, afagando-lhe o focinho
+e alisando-lhe o pello, não consentindo que sobre elle poisasse uma<span
+class="pn">{28}</span> mosca, ou lhe manchasse a pelle acastanhada um grãosinho
+de poeira. Era uma especie de burrolatria, um culto religioso que lhe enchia a
+alma, dando-lhe todas as satisfações espirituaes que resultam para um crente da
+adoração do seu fetiche. E porque se lhe afigurasse que o burro não era, como
+os outros burros, uma simples cavalgadura, desatou a alimental-o com o melhor
+da sua mesa, dando todas as coisas boas e raras que encontrava na sua despensa
+ou se confeccionavam na sua cozinha. Mas nem o burro lhe pegava nos acepipes,
+nem ao menos se mostrava agradecido aos seus disvelos e blandicias. Procopio
+lamentava-se da sua má sorte, chorava a sua desdita, sempre amigo do seu burro,
+sempre idolatra do seu idolo, sempre adorando o seu fetiche. E como quer que um
+dia, desabafando n'um peito amigo, se queixasse da ingratidão dos burros, vae o
+outro, grande philosopho, com larga experiencia da vida, aconselha-o assim:</p>
+
+<p>&mdash;A culpa é tua, Procopio, e de mais ninguem. O burro não foi feito para
+comer á tua mesa, como tu não foste feito para comer á mangedoura. Queres vel-o
+gordo, alegre, contente, a lamber-te as mãos reconhecido?</p>
+
+<p>E como Procopio estendesse o pescoço, a beber-lhe as palavras.</p>
+
+<p>&mdash;Dá-lhe palha, Procopio amigo...<span class="pn">{29}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>S. M. a Rainha visitou hontem o Hospital de S. José.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Estava perdida...</p>
+
+<p>Começava a soffrer do peito, havia annos, e como precisava de trabalhar
+sempre, trabalhar sem descanço, para não vir a fome juntar-se á doença
+encurtando-lhe a vida, o mal foi augmentando constantemente, aquelle terreno
+sendo proprio para aquella vegetação, e as circumstancias ajudando como n'um
+bom anno agricola. Que era uma constipação, tinha dito o medico do monte-pio,
+n'uma visita em automovel, a trinta... réis a consulta. O certo é que as dores
+augmentavam-lhe, como se tivesse o peito mettido n'uma prensa; a tosse era
+funda, como se lhe viesse do mais intimo dos pulmões; manchas de febre
+punham-lhe nodoas vermelhas na cera do rosto emmagrecido, e sentia o sangue
+subir-lhe á bocca, em golfadas, que a muito custo reprimia. Despediram-n'a da
+fabrica,<span class="pn">{30}</span> incapaz de trabalhar, e como recuasse
+perante a morte, uma noite, a olhar as aguas do rio, foi á consulta no
+hospital, e ficou na enfermaria. Estava tisica.</p>
+
+<p>Ninguem a visitava, porque não tinha ninguem, e como fosse naturalmente
+pouco communicativa, passava os dias e as noites a sentir-se morrer aos
+boccados, amaldiçoando a sorte que a fizera pobre, e attribuindo á miseria o
+descalabro da sua vida. Por maneira que naquelle dia, á hora do silencio,
+quando acordou do seu alheiamento, e sentiu perto da sua cama como um
+<em>frou-frou</em> de sedas, muito pallida, muito magra, quasi cadaverica,
+ergueu-se na cama como se a movesse uma mola, e fixando na visitante os seus
+grandes olhos negros, disse-lhe como na vehemencia d'um delirio:</p>
+
+<p>&mdash;Não é verdade, minha senhora, que a sociedade é infame quando a uns dá o
+superfluo, sem dar a todos o que é preciso?<span class="pn">{31}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>S. M. andou hontem pelos bairros pobres distribuindo esmolas no mais
+ rigoroso incognito.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Que frio cortante, meu Deus!</p>
+
+<p>O sol é como um brazeiro apagado, que ainda conservasse luz nas cinzas&mdash;uma
+luz fria e baça. O vento retalha-nos a cara, e põe nas pobres arvores sem
+folhas umas tremuras de velhinho, a esconder sob os farrapos as carnes
+enregeladas.</p>
+
+<p>Que frio cortante. Deus do céu!</p>
+
+<p>A miseria é insupportavel no inverno, porque tudo se conjuga para lhe dar
+uma agudeza de expiação, um requinte de pena biblica, sem laivos de
+misericordia. Não ha fogo no lar, não ha pão no armario, não ha cobertores no
+leito, ás vezes nem leito ha.</p>
+
+<p>Que frio cortante. Senhor!</p>
+
+<p>E é então que a Opulencia desce ao antro onde<span class="pn">{32}</span>
+agoniza o miseravel, pondo-lhe na mão ressequida o quanto baste para illudir a
+fome.</p>
+
+<p>Mas porque haverá no mundo esta tremenda desegualdade, se lá nos altos céus
+existe uma justiça absoluta, e se existe cá em baixo uma vulgar noção do que
+seja a equidade?</p>
+
+<p>Que frio cortante, meu Deus!</p>
+
+<p>Dá vontade de morrer, para fugir d'este inferno, e ao mesmo tempo dá vontade
+de accender uma grande fogueira, a que se aqueçam todos os desgraçados.</p>
+
+<p>Se os poderosos soubessem como se soffre no inverno! Ou não tirariam nada
+aos pobres, ou lhes restituiriam quanto lhes tiram, n'um desejo sincero e
+grande de fazer obra meritoria.</p>
+
+<p>Mas elles nem sonham, meu Deus! como é horrivel a miseria no inverno.<span
+class="pn">{33}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>SS. MM. foram muito acclamadas na estação do Rocio.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Peço desculpa a V.ª Ex.ª mas como tenho umas continhas...</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim; mas eu já lhe disse que antes do fim do mez não posso pagar-lhe.
+</p>
+
+<p>&mdash;É verdade que disse; mas como V. Ex.ª agora tem dinheiro...</p>
+
+<p>&mdash;Qual dinheiro, nem qual carapuça! O sr. imagina que me morreu algum tio no
+Brazil, que apanhei a sorte grande, ou que levei alguma banca á gloria?</p>
+
+<p>&mdash;Não senhor; não imagino nada d'isso. Mas como V. Ex.ª foi encarregado do
+vivorio, acho que pode muito bem regular já as nossas contas, para eu me não
+ver envergonhado com os meus credores.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. está doido, com certeza! Imagina talvez que se paga aquelle serviço
+á larga, pelo menos<span class="pn">{34}</span> com certa generosidade, como
+seria justo que se fizesse?...</p>
+
+<p>&mdash;Como isso é feito, não sei eu; o que eu sei é que ao pé de mim estava um
+sujeito todo bem posto, de cartola, que deu apenas dois vivas, e abalou muito
+risonho esfregando as mãos, e a dizer para o companheiro:&mdash;<em>já cá cantam
+dois mil réis</em>. E toda a gente dizia por alli que V. Ex.ª tinha recebido um
+conto e duzentos mil réis para dirigir aquella manobra.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, para dirigir aquella manobra... e para pagar áquella gente.
+Imagina que se dão vivas de graça? Pois engana-se redondamente. Quem menos
+ganha, é quem mais grita, e ha menino que recebe as massas e fica mudo como um
+peixe.</p>
+
+<p>&mdash;Mas V. Ex.ª bem vê que eu já tenho esperado muito, e, se o importuno
+agora, é porque me parece a occasião favoravel.</p>
+
+<p>&mdash;Desfavoravel, é que ella é. Em primeiro logar, eu ainda não recebi a téca;
+depois tenho que pagar á minha gente melhor que das outras vezes, porque elles
+estavam falados para não se prestarem á coisa. Isto, meu amigo, foi chão que
+deu vinha. N'outro tempo, um diabo que enrouquecia a dar vivas, contentava-se
+com dois tostões, doze vintens, e ás vezes com um simples habito de Christo, ou
+uma commenda da Conceição. Vão lá agora acenar-lhes com isso, a vêr quantos lhe
+pegam!...<span class="pn">{35}</span> </p>
+
+<p>&mdash;De maneira que...</p>
+
+<p>&mdash;De maneira que o amigo terá de esperar mais algum tempo, e como realmente
+eu lhe sou grato, não quero que perca o freguez, tanto mais que o senhor
+trabalha bem. Lá me tem ámanhã, a escolher a fatiota da estação.</p>
+
+<p>&mdash;Que pagará...</p>
+
+<p>&mdash;Quando houver outra manifestação espontanea.</p>
+
+<p>Resmungava o alfaiate, descendo a escada&mdash;Que grande pulha!</p>
+
+<p>Dizia o vivographo, fechando a porta&mdash;Que grande idiota!<span
+class="pn">{36}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Hontem a sessão teve de ser interrompida na Camara dos Deputados, por
+ causa do chinfrim. O sr. José Luciano mostrou-se satisfeito.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Durante muito tempo, por largos annos, o seu ar recolhido e severo deu a
+muita gente a impressão d'um pensador, alheiando-se propositadamente do mundo
+para melhor se engolfar nas suas cogitações. E porque nada resultasse das suas
+locubrações d'espirito, assentou-se em que aquelle vasio significava
+profundeza. Não era talvez um philosopho, mas era um homem d'Estado. E assim
+foi trepando a escadaria ingreme da carreira politica, sempre solemne, sempre
+severo, sempre recolhido, e sempre ôco. Não havia duvida possivel&mdash;estava alli
+um prodigioso talento, uma organização rara d'estadista, a que só faltava ter
+uma ideia e produzir um facto. Senão quando, um irreverente que attentou
+n'aquella austeridade de manequim,<span class="pn">{37}</span> n'aquelle ar
+funebre de cypreste, n'aquella fronte larga sem reverbero intellectual, um
+irreverente apontou-o á multidão, e gritou-lhe nas bochechas&mdash;é
+fundamentalmente estupido!</p>
+
+<p>Por maneira que outro dia, apoz aquelle chinfrim no parlamento, quando o
+presidente do conselho ria, como quem se banha em agua de rosas, e a camara
+inteira se põe ao fresco, dominada pelo vago presentimento de que fizera o jogo
+do governo, o pobre grande homem, antecipando a amargura dos seus desastres,
+encostado á parede, como quem soffre uma vertigem, deixou cahir dos labios
+murchos estas palavras desconsoladas&mdash;<em>Parece-me que fiz asneira!</em></p>
+
+<p>E, pela primeira vez na vida, reconhecendo que fizera asneira, o grande
+homem se mostrou intelligente.<span class="pn">{38}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>A situação do rei é de cada vez mais grave. O unico remedio ainda
+ possivel é a abdicação.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Nas entrelinhas dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Era uma conspirata.</p>
+
+<p>Reuniam-se todas as noites fóra de portas, em casa d'um tasqueiro de boa
+reputação, homem de lettras gordas, mas de principios severos, incapaz de
+faltar á sua palavra, preferindo mil vezes a morte a uma vilania. De modo que
+para este não havia segredos, nem para a sua companheira, uma velhota
+gordunchuda que teimára em não ter filhos depois de casada, farta de os ter em
+solteira. Bem entendido, o tasqueiro não tomava parte nas discussões; mas
+quando elle entrava com o peixe frito e a caneca, de chinellas, com um lenço
+encarnado a chupar-lhe o suor da cachaceira, ninguem recolhia a fala ao buxo,
+porque se sabia que elle era incapaz de uma traição, ou mesmo d'uma
+imprudencia.<span class="pn">{39}</span> </p>
+
+<p>Elle bem sabia do que se tratava; mas fingia não saber nada, correspondendo,
+com extremos de correcção, á penhorante confiança que tinham n'elle. Tratava-se
+de substituir um porco por um leitão, o que tudo vinha a dar n'uma tremenda
+porcaria. Mas os conspiradores mostravam-se encarniçados na sua ideia, crendo
+n'ella como nas pilulas Pink, ou no xarope da mãe Seigel. A unanimidade não era
+completa, e como uma noite resolvessem não sair d'alli sem assentarem em alguma
+coisa de definitivo, um d'elles lembrou que se ouvisse a opinião do tasqueiro,
+homem de lettras gordas, mas de principios severos, mais intelligente do que
+seria preciso para exercer a sua profissão, e discreto como um tumulo. Por
+maneira que quando elle entrou, o lenço encarnado a chupar-lhe o suor do
+cachaço, a travessa do peixe frito na mão esquerda, e na direita um formidavel
+cangirão, espumante de vinho verde, um dos conspiradores poz-lhe nitidamente a
+questão, e pediu o seu parecer:</p>
+
+<p>&mdash;Eu cá, por mim, não entendo d'essas coisas; mas sempre ouvi dizer que a
+racha sae ao madeiro, e meu avô, que andou nas guerras, e soffreu primeiro por
+causa de D. Miguel, e soffreu depois por causa de D. Pedro, costumava dizer á
+gente, quando se falava dessas coisas&mdash;creio que ha uns reis peores do que
+outros; que haja melhores, não acredito.<span class="pn">{40}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Diz-se que a questão politica vae ser tratada no Parlamento com
+ violencia, não se poupando ataques ao Chefe de Estado.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Se tivesse echo!...</p>
+
+<p>Era positivamente uma obsessão; mas queria por força uma quinta que tivesse
+echo, e não se importava pagar esse capricho a peso de dinheiro. Deixára a
+Patria muito novo, e no Brasil, á força de trabalho e economia, a sorte
+ajudando um pouco, conseguira fazer fortuna. Todas as noites, ao fechar da
+loja, consultava o livro de <em>razão</em>, e como visse que os negocios lhe
+corriam bem, ganhando sempre, tomava o chásinho com torradas, entretinha-se um
+pouco com os garotos, e ia metter-se na cama tranquillo e satisfeito, como um
+patriarcha biblico. Sonhava então com a sua aldeia; via-se outra vez no modesto
+casinhoto em que nascera; encontrava-se de novo com os<span
+class="pn">{41}</span> rapazes da sua geração, e abalavam todos de restolhada,
+a caçar os ninhos ou a roubar amoras, este sem chapéu, aquelle sem jaqueta, e
+todos não lhe pesando o pé uma onça, quando o vinheiro se apercebia do grupo, e
+fazia estalar a funda ou rebentar uma escorva, no momento em que estes saltavam
+o vallado, para colherem uvas. O que fazia o principal encanto de seus sonhos,
+era a conversa com o echo, um echo muito perfeito que havia perto da aldeia, no
+sitio chamado das Antas. Já accordado, ainda lhe parecia que tinha realmente
+ouvido o echo&mdash;<em>quem está lá!</em>&mdash;e fechava os olhos, n'um esforço enorme
+de concentração, parecendo-lhe que talvez assim o ouvisse ainda. E então,
+principiava a obsedial-o aquella ideia do echo, que já ouvia mesmo
+acordado&mdash;<em>quem está lá!</em>&mdash;victima d'uma allucinação do ouvido. Por
+maneira que passados annos, voltando á sua terra, deitou-se a procurar uma
+quinta que tivesse <em>echo</em>, não se importando pagar o seu capricho a peso
+de dinheiro. Soube d'isso o Thomé Cantigas, e logo se poz a instruir o velho
+João, um creado que já estava na casa quando elle nascera, por maneira a
+funccionar d'echo quando lá fosse o brasileiro, com quem tinha a quinta
+ajustada. Ora succedeu então esta coisa curiosa:&mdash;quando o Thomé, em companhia
+do brasileiro, do escrivão e das testemunhas, para verificarem o echo, gritou
+com toda a força dos seus pulmões&mdash;Ó João!&mdash;o pobre diabo, escondido por<span
+class="pn">{42}</span> detraz d'uma pedra, ouvindo aquella voz tão sua
+conhecida, e sentindo acordar em si quarenta annos de obediencia e
+domesticidade, o pobre diabo respondeu n'um tom humilde&mdash;<em>Meu
+senhor!</em></p>
+
+<p>Imaginem agora que o rei chegava alli abaixo, perto de S. Bento, espectral
+como o principe da Dinamarca, quando nas duas camaras, que funccionam agora
+como dois bilhares, se joga a carambola politica, a maior parte dos parceiros
+esquecendo-se de dar giz no taco, picando as bolas ao contrario, e todos
+jogando pela tabella, como se não vissem a encarnada e fosse prohibido
+atirar-lhe para cima... Sim, imaginem que o rei chegava alli, sem ninguem dar
+por elle, e no mais acceso da balburdia, no meio encarniçado do jogo, gritava
+com a sua bella voz de barytono:&mdash;<em>Que é lá isso ó seus gajos?</em></p>
+
+<p>Quantas vozes deixariam de responder como o velho creado João, ouvindo, lá
+onde estava, por detraz de uma pedra, ensaiado para o echo, a voz do sr. Thomé,
+seu patrão de tantos annos?<span class="pn">{43}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Vaidade das vaidades&mdash;tudo é vaidade!</em></p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Viera ao mundo com a mania de que tudo andava torto, e lhe competia
+endireitar tudo. Era assim uma especie de messianismo arte nova, que lhe
+hypertrophiava a personalidade, tornando-o impertinente. Todas as injustiças o
+offendiam, todas as asneiras o irritavam, pondo-lhe os nervos em tal estado de
+vibração, que seria facil romperem-se. Mas ao mesmo tempo essas injustiças que
+o offendiam, essas asneiras que o irritavam, eram a propria condição da sua
+existencia, todo o estimulo da sua actividade, a sua unica razão de ser. Que um
+bello dia entrassem as coisas na bôa ordem, o bem tendo vencido o mal, o amor
+tendo vencido o odio, a justiça tendo vencido a iniquidade, o direito tendo
+vencido a força, a verdade tendo vencido a mentira, que um bello dia se
+realizasse tudo isto, e elle encontrar-se-ia como homem que se desequilibrasse
+no espaço, sem ponto de<span class="pn">{44}</span> apoio, uma creatura que se
+visse sem ligações com o Universo, isolada como n'uma ilha deserta, um ser de
+geração espontanea, olhando para traz, e não adivinhando o seu passado, olhando
+para deante e reconhecendo-se sem destino. Considerava-se o ser por
+excellencia, a suprema vontade, a suprema intelligencia, a mais alta sabedoria,
+a mais extremada virtude. Tinha um calcanhar esse gigante, como o heroe da
+Iliada; mas o Páris, que pretendesse feril-o, escusava de molhar a setta em
+veneno, bastava que a molhasse em lisonja, que é uma droga pouco toxica e muito
+corrosiva. Succedeu-lhe um dia adoecer gravemente, e como lhe perguntassem,
+<em>in articulo mortis</em>, se não receava pela salvação da sua alma,
+respondeu, tartamudeando muito&mdash;<em>Receio que me mettam no céo. Que tortura
+não será a minha se caio na mansão dos justos.</em></p>
+
+<p>Por subscripção entre amigos, ergueram-lhe um mausoleu, coisa barata e
+modesta, e fizeram-lhe gravar na frontaria, em bronze amarello, estes dizeres
+biblicos:&mdash;<em>Vanitas vanitatum</em>, o que traduzido em portuguez quer
+simplesmente dizer:</p>
+
+<p>&mdash;<em>Ora bolas para tanta embofia!...</em><span class="pn">{45}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Parece vingar a interpretação que attribue ao sr. ministro das
+ finanças a qualidade de portuguez.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes) </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Contente que nem um rato, não é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei porquê...</p>
+
+<p>&mdash;Não sabe porquê? Pois você chega ao ultimo quartel da vida sem saber de
+que terra é, e d'um momento para outro, sem trabalho nem canceiras, apparece
+cidadão d'um paiz glorioso, e guindado ás maiores culminancias sociaes, e ainda
+pergunta porque deve estar contente?</p>
+
+<p>&mdash;Por certo. Não sendo d'uma patria determinada, eu podia tirar muito
+proveito de todas, conforme as circumstancias.</p>
+
+<p>&mdash;Mas os seus direitos...</p>
+
+<p>&mdash;Perdão; os meus direitos são os meus interesses, dada a minha qualidade de
+homem de negocios. Ter um certo direito, significa apenas, no meu entender, a
+faculdade de realizar um certo<span class="pn">{46}</span> lucro, da mesma
+fórma que ter uma certa obrigação significa uma perda. A equação da vida
+commercial faz-se com estes dois termos&mdash;ganhos e perdas.</p>
+
+<p>&mdash;Está muito bem; mas parece-me que sob todos os pontos de vista o amigo
+ganhou.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é conforme. A operação, considerada nos seus resultados immediatos, e
+não olhando para além do momento actual, é de resultados vantajosos; mas...</p>
+
+<p>&mdash;Mas...</p>
+
+<p>&mdash;Mas o futuro a Deus pertence, e esta naturalização definitiva póde
+prejudicar-me muito, se ainda tiver necessidade de mudar de nacionalidade mais
+uma vez.<span class="pn">{47}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O principe D. Luis Filippe restituiu ao thesouro o dinheiro que lhe
+ sobejou da viagem.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Era doida pelo neto; mas, se o tivesse junto de si, n'aquelle momento,
+pregava-lhe duas bofetadas.</p>
+
+<p>Era aquillo um proceder de principe?</p>
+
+<p>Não havia memoria, na sua familia, d'alguem ter restituido fosse o que
+fosse, muito menos dinheiro.</p>
+
+<p>Raivosa, sentindo-se ferida no seu orgulho de raça, mordia os beiços até
+quasi sangrarem, e amarrotava nas mãos o jornal, com muita força, como se
+quizesse desfazel-o. Era de entontecer aquella vergonha.</p>
+
+<p>De repente acalmava-se um pouco, como se entrasse n'um banho morno.</p>
+
+<p>Quem sabe?</p>
+
+<p>Talvez aquillo não fosse verdade. Dizem tanta<span class="pn">{48}</span>
+mentira os jornaes!... Ha gazeteiro que não vacilla perante a mais baixa
+calumnia, muitas vezes por interesse, algumas vezes por capricho, não raramente
+por maldade.</p>
+
+<p>E logo mandou vir todas os jornaes d'aquelle dia, absolutamente todos, mesmo
+os que ella nunca lia, por saber que sempre alguma coisa traziam que lhe fosse
+desagradavel.</p>
+
+<p>&mdash;Todos quantos se publicam em Lisboa, ouviste?</p>
+
+<p>Pois em todos elles vinha a noticia, a vergonhosa noticia d'aquelle neto
+infamante, que ficaria luzindo como uma nodoa na pureza alvissima e até alli
+immaculada dos seus pergaminhos dynasticos.</p>
+
+<p>Era doida pelo neto; mas se o tivesse junto de si, n'aquelle momento, era
+capaz talvez de um arrebatamento criminoso, atirando-o pela janella.</p>
+
+<p>Vestiu-se n'uma pressa, sem olhar para o espelho, surda ás sugestões do seu
+coquetismo de carcassa. Iria procural-o, exprobar-lhe a sua baixeza, que nem
+mesmo os poucos annos poderiam desculpar.</p>
+
+<p>Um principe, quando se trata de honrar as tradições dos seus maiores, é
+sempre de maior edade...</p>
+
+<p>Pisava o primeiro degrau da escada, quando o neto subia quasi aos saltos,
+como de costume, a estender-lhe os braços.</p>
+
+<p>&mdash;Ias sair, avózinha?</p>
+
+<p>&mdash;Ia procurar-te.<span class="pn">{49}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Parece que não estás contente?</p>
+
+<p>&mdash;E com razão.</p>
+
+<p>Mal entraram na sala, apanhou um jornal, ao acaso, e, apontando a
+noticiazinha da restituição, perguntou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Isto é verdade?</p>
+
+<p>O garoto desatou a rir, a rir desalmadamente, a fazer-lhe cocegas.</p>
+
+<p>&mdash;É então mentira?</p>
+
+<p>&mdash;Se é mentira!... Na verdade, avózinha, sempre te julguei mais
+intelligente. Restituir dinheiro! Sei honrar as tradições da nossa casa, pelas
+quaes tenho um verdadeiro culto.</p>
+
+<p>Teve um grande suspiro d'allivio, como se lhe tirassem de cima um peso de
+cem arrobas. Apertou muito o neto nos braços e, tendo-o beijado loucamente,
+deixou-se cair no sophá, muito quebrada, como ao sair d'uma lucta.</p>
+
+<p>E com os olhos fechados, a respiração alta, ofegante, murmurava para não ser
+ouvida:</p>
+
+<p>&mdash;Estupida que eu sou! O pequeno era incapaz de semelhante infamia. Revejo
+n'elle toda a nobreza da raça.</p>
+
+<p>E adormeceu.<span class="pn">{50}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Passa hoje o primeiro anniversario deste jornal, dia propicio á
+ comemoração dos que foram nossos companheiros de lucta, e hoje luctariam
+ comnosco, se a morte os tivesse poupado.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(«A Lucta»).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Morrer, dormir, sonhar quem sabe!...</p>
+
+<p>A fogueira crepita no meio do bosque sagrado, e o ramalhar das folhas,
+cortando o silencio augusto d'uma noite de luar, é como a prece erguida aos
+céus por milhares de labios virginaes.</p>
+
+<p>Morrer, dormir!...</p>
+
+<p>Em volta ha uma turba alegre, como se alli fosse realizar-se um ágape
+festivo, os esponsaes d'uma nobre castellã com o pagem dos seus sonhos,
+reluzente de pedrarias, esplendido de mocidade.</p>
+
+<p>Dormir, sonhar!...</p>
+
+<p>A fogueira crepita erguendo uma chamma cónica<span class="pn">{51}</span> de
+uma regularidade geometrica, e um fumozinho branco, muito tenue, muito esparso,
+é como um boccado de gaze que alli estivesse preso á chamma, tocando-lhe sem se
+inflammar.</p>
+
+<p>Morrer, dormir, sonhar, quem sabe!...</p>
+
+<p>E mal o cadaver pousa na fogueira, crepitante e rútila no meio do bosque
+sagrado, logo sobre elle se lança aquella virgem loira e meiga, que uns padres
+druidas estavam ha pouco dispondo para a viagem de que não se volta.</p>
+
+<p>Quem sabe!</p>
+
+<p>Se n'esses mundos longinquos, para onde dizem que vão as almas, se conserva
+lembrança da vida que aqui tivemos, bem sabem vocês, queridos e inolvidaveis
+mortos! que é para nós de lagrimas este dia, visto que esta pagina é hoje um
+canto do cemiterio!<span class="pn">{52}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <em>A morte perdendo a foice</em> <br>
+ <em>Creu sua força desfeita.</em> <br>
+ <em>Disse-lhe um medico insigne:</em> <br>
+ <em>Aqui tens esta receita.</em> </blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Chamava-se Corvo, e era alfaiate.</p>
+
+<p>Pouco trabalhava pelo officio, quasi sempre pelo campo, a caçar lebres ou
+perdizes, lá de longe em longe mettendo-se na jolda, e só então aventurando-se
+por aquelles mattos espessos, onde deixava metade da farpela, em boccados. A
+sua grande paixão, a sua mania de caçador era pelos pombos, á negaça. Abalava
+de casa muito cedo, o pombinho mettido na aljabra, o farnel mettido nos bolsos,
+a aguilhada ao hombro, a espingarda a tiracolo, e uma garrafinha de aguardente
+sem confecção, que o frio era de rachar, por aquelles dias molhados de
+novembro. Chegava ao <em>sitio</em>, circumdava os montados, n'uma extensão
+enorme, com a sua vista de lynce, e toca a fazer a choça, não fossem os pombos
+dar-se pressa de vir alli,<span class="pn">{53}</span> apanhando-o
+desprevenido. Ás vezes não matava nada; outras vezes matava quantos se
+<em>faziam</em>; mas sempre se divertia immenso, a puxar a negaça e a aperrar a
+caçadeira, não se esquecendo nunca de <em>beijar</em> a garrafinha da
+aguardente, que valia pelo melhor dos lumes, no desabrigo da choça, por
+aquelles dias gelados de novembro.</p>
+
+<p>Ora succedeu que um dia, ao voltar dos pombos, chegando a casa, subitamente,
+o Corvo sentiu-se mal, horrivelmente mal, gritando que lhe accudissem. N'esse
+mesmo dia, áquella mesma hora, por assim dizer, n'aquelle mesmo instante, tinha
+chegado o medico novo, que ainda ninguem tinha visto. Correram a chamal-o,
+n'uma afflicção, que o Corvo sentia-se morrer e gritava como um perdido. Vae o
+doutor, muito solicito, observa o doente, faz uma receita, enche uma seringa e
+crava-a n'uma nadega do alfaiate, que não tugiu nem mugiu.</p>
+
+<p>Estava morto o pobre Corvo, velho caçador de pombos, que durante largos
+annos, todas as manhãs, em dias gelados de novembro, abalava de casa para as
+montanhas, a aguilhada ao hombro e o farnel nos bolsos, sem nunca se esquecer
+da garrafinha d'aguardente, que valia por um bom fogo no desabrigo da choça,
+encostado a um sobreiro.</p>
+
+<p>O caso fez barulho na aldeia, e como alguem lamentasse a perda de tão eximio
+caçador:</p>
+
+<p>&mdash;Lá quanto a isso, perorou um mariola d'um<span class="pn">{54}</span>
+barbeiro, não vejo razão para se lamentar a gente. O nosso doutor parece ser
+homem de boa pontaria. Mal disparou a seringa, logo o Corvo enrolou as azas,
+como se fosse um pombo que se <em>fizesse</em>, e apanhasse a carga em
+cheio.<span class="pn">{55}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O sr. ministro da fazenda ficou a trabalhar em sua casa.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>A ordem fôra terminante, e não admittia excepções; s. ex.ª não
+<em>estava</em> para ninguem, absolutamente ninguem.</p>
+
+<p>Andava a estudar um plano geral de reformas, e, como tivesse de ir passar
+uns dias na provincia, queria deixar os seus papeis arrumados, cada coisa no
+seu logar, como n'um museu ou n'uma bibliotheca.</p>
+
+<p>Fôra sempre uma creatura methodica, e em grande parte o seu talento, que
+ainda assim muitos negavam, era feito de trabalho e de methodo. Entrára na
+politica com uma bagagem de estudante, apenas preparado para no parlamento
+mandar uma representação para a mesa, e requerer que se desse a materia por
+discutida, a um signal do <em>leader</em>. Mas trabalhava muito, estudava
+muito, ambicioso de renome, atormentado pela obscuridade<span
+class="pn">{56}</span> em que vivia, mal supportando que os outros trepassem,
+subissem, servindo elle proprio de degrau a bastantes creaturas mediocres.</p>
+
+<p>Um bello dia, quasi sem elle proprio saber como nem como não, fizeram-n'o
+ministro. E logo pensou n'uma larga reforma de serviços, remediando muitas
+insufficiencias, preenchendo muitas lacunas, pondo cobro a muitos escandalos.
+</p>
+
+<p>Lá quanto a honestidade, reconheciam-n'a os proprios inimigos.</p>
+
+<p>Colligira todos os elementos de que necessitava para a sua obra reformadora,
+e resolveu aproveitar aquelle dia para os classificar, em termos de servir-se
+d'elles com a maior facilidade e proveito.</p>
+
+<p>Estava inteiramente absorvido n'essa tarefa, quando lhe apareceu junto da
+mesa um continuo, muito vermelho, muito atrapalhado, a revirar o <em>bonet</em>
+na mão, a querer falar, e não se atrevendo a abrir a bocca.</p>
+
+<p>&mdash;Que ha?</p>
+
+<p>&mdash;Um senhor que deseja falar a v. ex.ª</p>
+
+<p>&mdash;Então eu não lhe disse que não estava para ninguem?</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, mas elle disse-me que se matava alli mesmo, á porta, se v. ex.ª
+não o recebesse.</p>
+
+<p>Mandou entrar immediatamente.</p>
+
+<p>&mdash;É você?...</p>
+
+<p>&mdash;Sou eu. Sabe que o Chico está irremediavelmente perdido?</p>
+
+<p>&mdash;O quê?<span class="pn">{57}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Talvez não dure 48 horas.</p>
+
+<p>&mdash;Coitado! E a familia?...</p>
+
+<p>&mdash;Ora ahi está. É por causa da familia que eu cá venho.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que posso eu fazer?</p>
+
+<p>&mdash;Uma coisa muito simples&mdash;um adeantamento.</p>
+
+<p>&mdash;Mas se elle está a morrer!...</p>
+
+<p>&mdash;Por isso mesmo. Desconta pelo terço do ordenado emquanto viver.</p>
+
+<p>&mdash;E depois de morto?</p>
+
+<p>&mdash;Continua a descontar... no outro mundo.</p>
+
+<p>E assim se fez.&mdash;Era uma bagatela de dez contos redondos.<span
+class="pn">{58}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O sr. D. Carlos manda para o Salon dois quadros.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Era dia de assignatura.</p>
+
+<p>Como de costume, na sala de espera, emquanto não chegava a hora, uns fumavam
+estendidos em sophás de molas doces, e outros falavam de coisas varias,&mdash;as
+occorrencias banaes da vespera, ou os successos provaveis do dia seguinte.
+Pelas janellas, abertas de par em par, entrava uma aragem fresca e quasi
+perfumada, tanto as flôres do jardim embalsamavam o aposento n'aquelle dia
+lindo.</p>
+
+<p>Avistava-se ao longe o rio, d'aguas tranquillas, e lá para além da barra,
+empennachado de fumo, um navio cortava as aguas, sem estremeções, deixando
+atraz de si, como uma passadeira de rendas, um largo traço de espuma. N'isto
+abre-se uma porta ao fundo, e um homem apparece, de casaca, trazendo debaixo do
+braço, muito enrolado em papeis, qualquer<span class="pn">{59}</span> coisa que
+logo se adivinhava ser um quadro com a respectiva moldura.</p>
+
+<p>Os que fumavam, estendidos em sophás de molas dôces, ergueram-se a
+cumprimentar, quasi envergonhados do seu <em>á vontade</em>, como n'um casino,
+e os que estavam á janella olhando para o rio, d'águas tranquillas, notando
+como corria leve um vapor que sahia a barra, empennachado de fumo, esses
+deixaram-se ficar onde estavam, baixando ligeiramente a cabeça, com cerimonia,
+nenhum d'elles sabendo quem era aquelle senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei se incommodo v. ex.<sup>as</sup>...</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa! Por forma nenhuma.</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª é...</p>
+
+<p>&mdash;O pintor da casa.</p>
+
+<p>E logo poz em cima da mesa, procurando posição conforme a luz, duas
+telasinhas de meio metro, ricamente emmolduradas, uma reproduzindo um trecho de
+paysagem alemtejana, n'um entardecer d'agosto, e outra representando uma
+commissão de sardinhas vindo cumprimentar um goraz, pelos seus trabalhos
+maritimos.</p>
+
+<p>&mdash;E V. ex.ª traz isto...</p>
+
+<p>&mdash;São os meus decretos; trago-os á assignatura.<span class="pn">{60}</span>
+</p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O sr</em>. <em>D. Carlos tambem hontem não assistiu á tourada no Campo
+ Pequeno.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Está aqui tudo?</p>
+
+<p>&mdash;Creio que não falta nada.</p>
+
+<p>Poz a mala em cima d'uma cadeira, para não estar a dobrar-se muitas vezes, e
+foi tirando peça por peça. D'ahi a pouco estava inteiramente transfigurado. As
+suissas assentavam-lhe na perfeição, e os oculos de ouro, com vidros sem grau,
+transformaram-lhe de tal modo a physionomia, que ninguem, mesmo dos seus
+familiares, o conheceria sob aquelle disfarce. As calças é que lhe ficavam um
+boccadinho justas nas pernas, e o collete, se fosse um tudo nada mais comprido,
+dir-se-ia ter sido feito para elle&mdash;por medida e com prova. Pegou na bengala,
+de castão de prata, poz na cabeça um Panamá, quebrado na frente, e carregou no
+botão d'uma campainha electrica.<span class="pn">{61}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Se não soubesse...</p>
+
+<p>&mdash;De primeira ordem, não é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Uma transfiguração á Rocambole.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado pelo cumprimento; mas como tu é que me escolheste a farpela...
+</p>
+
+<p>&mdash;Limitei-me a cumprir fielmente as indicações recebidas.</p>
+
+<p>&mdash;De modo que não haverá perigo...</p>
+
+<p>&mdash;Absolutamente impossivel conhecel-o, disfarçado como está.</p>
+
+<p>&mdash;Pois olha, já que entrei n'este caminho, quero fazer a coisa completa. Has
+de comprar-me um bilhete de sol.</p>
+
+<p>Quando entrou na praça, ainda as cortesias não tinham começado. Arranjou um
+logar ao pé da musica, e poz-se a fumar um cigarro ainda por disfarce. Á hora
+marcada, com uma pontualidade fóra do costume, a função principiou. Estava
+interessado, contente e ancioso, como se pela primeira vez assistisse a um
+espectaculo ardentemente desejado. Surprehendia-se a gritar com toda a força,
+quando o <em>sol</em> inteiro gritava e ainda teve o chapéu na mão, para o
+atirar ao redondel, enthusiasmadissimo com um <em>cambio</em>.</p>
+
+<p>No intervallo, como não sahisse o visinho da direita, pedindo-lhe fogo,
+entrou a dar-lhe conversa.</p>
+
+<p>&mdash;Vê-se que o amigo é amador.</p>
+
+<p>&mdash;Como poucos. Isto é um divertimento real.</p>
+
+<p>&mdash;Lá isso real...<span class="pn">{62}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Pois sim... Mas o rei vem aqui muitas vezes?...</p>
+
+<p>&mdash;Vinha muitas vezes, é o que você quer dizer...</p>
+
+<p>&mdash;E agora já não vem?</p>
+
+<p>&mdash;Acho que cortou a coleta.</p>
+
+<p>&mdash;Elle, afinal, tudo aborrece.</p>
+
+<p>&mdash;Ora ahi está. E foi exactamente por ver que aborrecia, que elle deixou de
+apparecer. Sabe o amigo uma coisa? Tenho estado a reparar que você se parece...
+</p>
+
+<p>Não acabou a phrase. Já o outro se tinha levantado, a fingir que alguem o
+chamava.</p>
+
+<p>D'ahi a pouco, no mesmo quarto em que mudára de farpela, dava-se a um
+trabalho de mil demonios para se desembaraçar das calças, muito justas nas
+pernas.</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem desconfiou, é claro?</p>
+
+<p>&mdash;É claro que desconfiaram. Um gajo que estava sentado ao pé de mim, se me
+não safo tão depressa...</p>
+
+<p>&mdash;E disse-lhe alguma inconveniencia?</p>
+
+<p>&mdash;Lá bem inconveniencia...</p>
+
+<p>&mdash;O melhor, para outra vez...</p>
+
+<p>&mdash;O melhor para a outra vez, é não ir lá. Corto definitivamente a coleta.
+</p>
+
+<p>&mdash;E a <em>quadrilha</em>?</p>
+
+<p>&mdash;Lá isso fica como estava.</p>
+
+<p>E atirando com as suissas para cima da cama, a meia voz com despreso:</p>
+
+<p>&mdash;Isto é que é uma cambada!...<span class="pn">{63}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O sr. João Franco acompanhou o Principe Real á festa das creanças, e
+ pronunciou alli um grande discurso.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Muito interessante a festa, não é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, foi interessante.</p>
+
+<p>&mdash;Muitas creanças, muitas flores, um dia lindo de sol... Aposto que estava a
+saltar-te o pé para o meio do rancho, rindo e brincando como todos, como se
+fossem todos do mesmo collegio?</p>
+
+<p>&mdash;Tu estás doida, avósinha? Comprehendo muito bem os deveres do meu cargo, e
+em nenhuma situação me esqueço de quem sou, e do que represento.</p>
+
+<p>&mdash;Bravo, meu filho! gosto de te ouvir falar assim, porque isso me prova que
+serás um dia o representante illustre dos teus illustres antepassados.</p>
+
+<p>&mdash;Assim o espero.</p>
+
+<p>&mdash;Assim o creio. E falaste ás creanças?<span class="pn">{64}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Não, avósinha. Ninguem me disse para lhes falar, nem eu sabia o que havia
+de dizer-lhes.</p>
+
+<p>&mdash;Por certo, não sabias; mas se isso fosse uma razão para não falar, muita
+gente estaria calada n'este paiz de palradores. Quem falou então?</p>
+
+<p>&mdash;Houve só um discurso...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, está claro, falou s. ex.ª. E o que disse?</p>
+
+<p>&mdash;Para te falar com franqueza, avósinha, eu pouco ouvi do que elle disse.
+Mesmo na minha frente estava um garoto vestido de marinheiro, muito
+interessante, que passou todo o tempo a fazer cocegas no pescoço de uma senhora
+muito gorda, de nariz abatatado, que estava adiante d'elle, na fila immediata.
+De cada vez que o rapazinho lhe passava um canudinho de papel, muito delgado,
+pela pennugem do cachaço, atraz das orelhas, a velha fazia umas caretas muito
+exquisitas, aflicta, com medo de perder a linha em momento tão solemne. Não
+imaginas como era divertida a velhota. Divertida e estupida, porque nunca
+desconfiou do garoto, que se encolhia todo para não desatar ás gargalhadas. De
+modo que...</p>
+
+<p>&mdash;De modo que não ouviste o discurso de s. ex.ª.</p>
+
+<p>&mdash;Não ouvi tudo, é certo; mas alguma coisa ouvi. Por exemplo, ouvi-lhe dizer
+que n'outros tempos os povos eram dos reis, e que hoje os reis são dos povos.
+Que quer dizer isto, avósinha?</p>
+
+<p>&mdash;Quer dizer, meu filho, que n'outro tempo,<span class="pn">{65}</span> os
+creados recebiam ordens dos patrões, e cumpriam-n'as; hoje os patrões recebem
+ordens dos creados, e cumprem-n'as.</p>
+
+<p>&mdash;Credo! Mas isso é o fim do mundo.</p>
+
+<p>&mdash;Pede a Deus que não seja o fim da dynastia.<span class="pn">{66}</span>
+</p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O enterro de hontem foi uma extraordinaria affirmação da força do
+ partido republicano em Lisboa.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Estava inquieto, n'uma ancia por noticias, quando lhe foram dizer que estava
+o jantar na mesa.</p>
+
+<p>Que teria havido!</p>
+
+<p>Por certo o cortejo seria numeroso, mas aprazia-lhe acreditar que a
+manifestação, embora significativa, não fosse de molde a tornar ainda mais
+evidente o desprestigio do seu nome, já bastante desprestigiado. Esquecia-se de
+comer, e não despregava os olhos da porta, esperando vel-o apparecer a cada
+momento, portador da boa nova, dando-lhe a segurança de que era já outra a
+atmosphera da cidade, onde elle poderia respirar com desafogo, quando quizesse,
+farto de correrias fóra de portas, a monte como os leprosos na antiguidade, e
+como os criminosos ainda hoje, quando puderam fugir á justiça.<span
+class="pn">{67}</span> </p>
+
+<p>Que teria havido!</p>
+
+<p>Todos lhe notavam a preoccupação na physionomia transtornada, e todos sabiam
+o que lhe dava origem, a verdadeira causa daquelle mal-estar. De modo que o
+jantar ia correndo silencioso, quasi funebre, ninguem se atrevendo a arriscar
+uma palavra banal, o mais leve dito que pudesse desafiar o mau humor do pobre
+tomate recheiado. Fazia dó, mas ao mesmo tempo mettia medo, como se fosse um
+obuz carregado de grosserias, que uma creança maldosa pretendesse descarregar
+contra um homem delicado. Parecia aquella ceia da Lucrecia Borgia, em Ferrara,
+descripta por Victor Hugo.</p>
+
+<p>De repente, abre-se a porta, e um reposteiro annuncia o homem. Estava-se nas
+fructas.</p>
+
+<p>&mdash;Então?...</p>
+
+<p>&mdash;Muito maior do que seria licito esperar. A cidade inteira, póde dizer-se,
+tomou parte na manifestação, grandiosa como nenhuma outra, d'essas que andam na
+memoria dos homens.</p>
+
+<p>&mdash;De modo que o prestigio d'essa creatura...</p>
+
+<p>&mdash;Peço desculpa; o que atravessou a cidade, por entre alas compactas de
+povo, seguido de milhares de pessoas, não foi o cadaver d'um homem...</p>
+
+<p>&mdash;Foi então?...</p>
+
+<p>&mdash;Foi o prestigio d'uma ideia.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Ficou por instantes suspenso, como se lhe fugisse<span
+class="pn">{68}</span> o espirito para uma região de trevas. Logo voltou a si,
+como quem acorda d'um mau sonho, e acabando de descascar uma laranja,
+voltando-se para o peniculario que lhe ficava mais perto:</p>
+
+<p>&mdash;Olha lá, ó marquez, dize aos teus collegas da cozinha que não deitem fóra
+estas cascas.</p>
+
+<p>No outro dia annunciava-se uma crise em todos os jornaes.<span
+class="pn">{69}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O rei, que hontem devia presidir ao conselho de ministros, partiu para
+ Biarritz, onde se encontra sua noiva.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Telegramma de Madrid). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Pois se elle tem vinte annos!..</p>
+
+<p>Queriam então vel-o amarrado ao throno, recebendo conselheiros e ministros,
+aturando reposteiros e mordomos, quando a noiva está alli, a algumas horas
+apenas da capital, chamando-o com insistencia de quem nada póde e tudo offerece
+porque tudo espera receber em troca.</p>
+
+<p>Pois se elle tem vinte annos apenas!...</p>
+
+<p>Talvez que no seu sangue toda a podridão d'uma raça; mas a mocidade é uma
+especie de azougue, capaz de fazer erguer um morto, dando-lhe uma vida
+ephemera.</p>
+
+<p>Pois se elle é tão novo!...</p>
+
+<p>Queriam então prendel-o alli, n'aquelle deserto de Madrid, aturando
+conselheiros e ministros, gente<span class="pn">{70}</span> da burocracia e
+bugigangas heraldicas, quando ella está a poucas horas da capital, talvez a
+alongar os olhos na direcção da Hespanha, na esperança de vel-o surgir na sua
+frente, radiante de mocidade.</p>
+
+<p>Pois se elle tem vinte annos apenas!...</p>
+
+<p>E estranham então vel-o partir como um foguete, abandonando as redeas do
+governo, doido d'amor como um Quichote real, para ir colher em Biarritz as
+promessas d'uma felicidade sem limites prelibando uma ventura sonhada.</p>
+
+<p>Pois se elle é tão novo!...</p>
+
+<p>Depois ella é tão bella!...<span class="pn">{71}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Amanhã, anniversario da rainha Maria Pia, não haverá recepção no
+ Paço.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Venho dizer-te adeus...</p>
+
+<p>&mdash;Para onde vaes?</p>
+
+<p>&mdash;Para o mar. Na terça feira cá estou, para te dar os parabens. Imaginavas
+que ia esquecer-me do teu anniversario?</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, o meu anniversario... Nem me lembrava.</p>
+
+<p>Emquanto elle accendia um charuto, olhando distrahidamente uma illustração
+ingleza, deixava ella pender a cabeça sobre o collo mirrado, e evocava um tempo
+muito remoto, tão remoto que lhe parecia agora, na desolação da sua viuvez,
+mais phantastico do que real.</p>
+
+<p>O seu anniversario!</p>
+
+<p>O throno era pequeno para a sua magestade, mas, em summa, sempre era um
+throno e ella nascera para reinar. Na sua cabelleira loira, como a<span
+class="pn">{72}</span> das virgens de Raphael, o diadema régio tinha
+scintillações estranhas e coruscantes, que ainda assim pareciam pallidas em
+comparação dos seus olhares, em que havia toda a ardencia do sol dos tropicos,
+e toda a limpidez do crystal da rocha.</p>
+
+<p>Tambem ella reinára!</p>
+
+<p>Outros imperantes se tinham curvado na sua presença, e milhares de cortezãos
+tinham solicitado a esmola d'um sorriso ou d'um olhar, que ella nem sempre lhes
+concedia, muito altiva, muito sobranceira, no throno, julgando-se muito perto
+do Olympo, e fóra do throno vendo-se muito acima da humanidade vulgar.</p>
+
+<p>O seu anniversario!</p>
+
+<p>Fechava os olhos para tornar mais intensa a evocação, e logo via o desfile
+do immenso e luzido cortejo&mdash;os diplomatas com os seus fardamentos ricos,
+bordados a oiro; os ministros com as suas librés de luxo, salpicadas de
+veneras; os bravos militares suffocando impetos guerreiros, n'uma attitude de
+respeitosa fidelidade, e o numero infinito de fidalgos e fidalgas dobrando o
+joelho no primeiro degrau do throno e babujando-lhe a mão aristocratica com a
+saliva do cortezanismo mais rasteiro e mais falso.</p>
+
+<p>O seu anniversario!</p>
+
+<p>De repente, e como se reatasse uma conversa interrompida pousando o charuto
+sobre o cinzeiro de prata, e tomando-lhe entre as mãos a face apergaminhada,
+n'uma caricia muito terna:<span class="pn">{73}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Não, fica certa que não me esqueço dos teus annos, e verás como sou
+gentil...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, não te esqueças. E pois que desejas mostrar-te gentil para commigo,
+mais uma vez, poupa-me ao desejo e á baixeza de receber os teus creados de
+pasta.</p>
+
+<p>E não houve recepção.<span class="pn">{74}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Amanhã tem logar a abertura do congresso republicano no Porto.
+ Espera-se que o sr. D. Carlos assista hoje á tourada, no Campo
+ Pequeno.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes.) </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Está doente?...</p>
+
+<p>&mdash;Pelo contrario, nunca me senti com tanta saude como agora. De certo, se
+estivesse doente, era natural que fizesse chamar um medico, e não o
+presidente...</p>
+
+<p>&mdash;Sem duvida; mas chamado tanto á pressa, com a maxima urgencia...</p>
+
+<p>&mdash;É que na verdade o caso é urgente. Não adivinhas do que se trata?</p>
+
+<p>&mdash;Por mais voltas que dê á imaginação...</p>
+
+<p>&mdash;Não vale a pena dar-lhe grandes voltas, porque pode transtornar-se. Sabes
+que dia é amanhã?</p>
+
+<p>&mdash;É domingo.</p>
+
+<p>&mdash;E sabes que ha tourada no Campo Pequeno?<span class="pn">{75}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Como não sou aficionado...</p>
+
+<p>&mdash;Não sabias? Pois ficas sabendo agora. Ha tourada, e trabalha o Fuentes.
+Quer isto dizer que será uma tarde cheia. Como os typos estão lá para o norte,
+a palrar, eu resolvi ir aos touros ámanhã.</p>
+
+<p>&mdash;Isso não pode ser! Eu não posso tomar a responsabilidade...</p>
+
+<p>&mdash;Tomo-a eu, deixa lá. Em não apparecendo os cabecilhas, a arraia miuda não
+abre bico!</p>
+
+<p>&mdash;Ahi é que está o engano. Aquella gente não se move por cordelinhos; pensa
+pela sua cabeça; tem iniciativa propria, e procede como lhe parece melhor.</p>
+
+<p>&mdash;E tu imaginas que hei de passar n'isto a vida inteira?</p>
+
+<p>&mdash;A vida inteira, não; mas por ora tem de ser assim.</p>
+
+<p>&mdash;E se eu não quizer que seja assim?</p>
+
+<p>&mdash;Se não quizer que seja assim...</p>
+
+<p>&mdash;Como será então?</p>
+
+<p>&mdash;Então... será peior!<span class="pn">{76}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O teu amor e uma cabana!</em></p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Fôra uma loucura aquelle amor.</p>
+
+<p>Tinham-se encontrado na Figueira, estava ella a banhos, e elle fôra alli de
+visita a uns parentes da Bairrada, que não via desde annos. Como se andassem
+pelo mundo á procura um do outro, apenas se viram uma manhã, na Praia,
+amaram-se doidamente, e foi milagre que não desatassem logo a tagarelar, tu cá,
+tu lá, e tomassem banho juntos.</p>
+
+<p>Á noite, no Casino, a indispensavel apresentação, e logo se seguiu um
+<em>pas de quatre</em>, em que os dois eram eximios. Marchou aquillo tão
+depressa, que já eram noivos quando regressaram ao Porto, onde ella tinha os
+paes e elle o emprego, um modesto emprego de despachante, que lhe rendia vinte
+mil réis por mez.</p>
+
+<p>Todas as noites ia falar-lhe, já recebido como da familia e sempre a
+encontrava encostada a uma pequenina mesa quadrada, um livro de versos na<span
+class="pn">{77}</span> mão esquerda, marcando a pagina com o dedo, e em toda a
+sua gracil pessoinha um ar de alheiamento e de sonho, que o fazia estacar á
+entrada da sala, n'um extase de devoto.</p>
+
+<p>&mdash;Que languidez, Virgem Santa!</p>
+
+<p>Casaram, está bem de ver, e foram padrinhos aquelles parentes da Bairrada,
+que elle tinha ido visitar á Figueira, onde ella estava a banhos. Ninguem a
+ensinára a trabalhar, e como elle só tinha o seu ordenado de despachante, uns
+vinte mil réis por mez, era impossivel metter creada, de modo que andava tudo
+desarrumado, a comida era mal feita, nunca estava prompta a horas, e quando uma
+rabanada de vento entrava pela janella, era como redemoinho correndo ao longo
+d'uma estrada poeirenta. Mas todas as noites, quando recolhia, farto de cuspir
+no café, ia encontral-a, como n'outro tempo, encostada a uma pequenina mesa
+quadrada, um livro de versos na mão esquerda, marcando a pagina com o dedo. E
+ao vel-a assim descuidada n'um grande ar de alheiamento e de sonho, toda a sua
+gracil pessoinha como que envolvida n'uma atmosphera de languidez quasi
+morbida, estacava á entrada da sala, como n'outro tempo, murmurando por entre
+dentes:</p>
+
+<p>&mdash;Que desmazelo, meu Deus!<span class="pn">{78}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Dio del oro, del mundo signor.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Noite de festa.</p>
+
+<p>Tinham-se vendido todos os logares, e ninguem dispensava o seu bilhete como
+se fosse um decimo de loteria, com probabilidades conhecidas de sair n'elle a
+sorte grande.</p>
+
+<p>&mdash;Compra-se uma cadeira!</p>
+
+<p>&mdash;Ha quem venda uma geral ou camarote?</p>
+
+<p>Eram vozes clamando no deserto... d'uma multidão compacta, junto ao
+<em>guichet</em>, todos sabendo que não entrariam, mas ninguem tendo a coragem
+de se ir embora.&mdash;Quem sabe? Uma familia que se enlutou á ultima hora, e manda
+vender o seu camarote; um honrado negociante que precisou de abalar para o
+Alemtejo, e manda vender o seu <em>fauteuil</em>.</p>
+
+<p>Era noite de festa.</p>
+
+<p>Havia flores por toda a parte; colchas ricas pendiam dos camarotes, em todas
+as ordens, de modo que a sala tinha assim, por virtude d'aquella<span
+class="pn">{79}</span> polychromia bizarra, um aspecto singularmente
+phantastico, em que se perdiam os olhos, n'um encanto. Mulheres ricamente
+vestidas, largamente decotadas, eram como fructos de carne em papel de seda, e
+formavam uma galeria de bustos sem egual, em que tivessem collaborado todos os
+esculptores de genio.</p>
+
+<p>Era noite de festa.</p>
+
+<p>Quando se ergueu o panno, sobre as ultimas notas da orchestra, pareceu que
+um jogo habil de espelhos transferira ao palco aquellas flôres magnificas que
+havia por toda a parte, aquellas colchas ricas que pendiam dos camarotes, n'uma
+polychromia bizarra, no meio da qual se destacavam bustos admiraveis de
+mulheres, como se fossem outros tantos peccados irresistiveis, servidos em
+papel de seda pelo demo tentador.</p>
+
+<p>No segundo acto, quando Ella appareceu, foi como se uma corrente electrica,
+mysteriosa e divina, percorresse toda a sala, visto como todos se levantaram,
+n'um movimento egual e isochrono, para a mais amoravel e sincera ovação de que
+possa haver registo.</p>
+
+<p>Muito fria, muito pallida, as lagrimas gelando-se-lhe a meio das faces
+apergaminhadas, um sorriso apagando-se-lhe nos labios resequidos, avança para
+agradecer, n'um automatismo quasi de somnambula, e logo recua, soltando um
+grito, deixando-se cahir, ao desamparo, n'um <em>divan</em>, que para alli
+tinham posto.<span class="pn">{80}</span> </p>
+
+<p>Estava morta.</p>
+
+<p>No escriptorio, verificando o producto da récita, n'aquella noite festiva em
+que havia flores por toda a parte, e, entre colchas d'uma polychromia bizarra
+bustos esculturaes de mulheres eram como grandes fructos de carne servidos em
+papel de seda, o emprezario commentava:</p>
+
+<p>&mdash;Que raio de sorte! Já estavam passados todos os bilhetes para ámanhã!<span
+class="pn">{81}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Quando o cortejo se dirigia da Egreja para o Palacio uma bomba foi
+ atirada d'uma janella, fazendo grandes estragos. Os reis nada
+ soffreram.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes, em telegramma de Madrid).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Emfim!</p>
+
+<p>Acabavam de ligar-se para sempre, ella radiante de belleza, elle radiante de
+felicidade, os dois sonhando mil cousas loucas, n'uma ebriedade d'amor que os
+punha fóra do mundo real.</p>
+
+<p>&mdash;Querida Eugenia!</p>
+
+<p>&mdash;Querido Affonso!</p>
+
+<p>Parecia-lhes pequeno o templo, para conter a sua ventura, e aquella multidão
+que os rodeava, fixando-os com muita insistencia, tinha assim os ares de quem
+espreita com inveja, e se compraz em ser incommodo. Por maneira que ao chegarem
+ao adro, ella radiante de belleza, elle radiante de mocidade, respiraram com
+muita força, e<span class="pn">{82}</span> teriam caido nos braços um do outro,
+ebrios de amor, se um grito de saudação, reboando pelos ares, não os chamasse á
+realidade!</p>
+
+<p>Já no trem, por ahi fóra, marchando lentamente, como n'uma procissão, os
+ouvidos cerrados a tudo que não fosse o encanto dos seus proprios gestos
+intencionaes, elles architectavam mil coisas loucas na sua mente escandecida, e
+como que prelibavam o infinito prazer d'uma posse ardentemente desejada.</p>
+
+<p>N'isto ouve-se uma explosão horrivel, e um grito formidavel de terror sae de
+milhares de boccas, n'um unisono perfeito. É um momento de confusão
+indescriptivel, e nem se ouvem os gemidos dos que sofrem, nem se dá pelas
+convulsões dos que agonisam, porque a attenção dos que não fugiram concentra-se
+totalmente n'aquellas duas creanças&mdash;ella radiante de belleza, elle radiante de
+mocidade, os dois ainda ha pouco sonhando mil coisas loucas, n'uma ebriedade
+d'amor, que os punha fóra do mundo real.</p>
+
+<p>Estavam salvos.</p>
+
+<p>A commoção fôra extraordinaria, sendo milagre que um estilhaço de bomba não
+tivesse reduzido aquelle idilio esponsalicio a um noivado de sepulcro&mdash;como se
+não fosse abominavel atirar para o nada uma existencia que alvorece.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Yo te probaré hoy que soy digna de ser tu mujer.</em></p>
+
+<p>Fôra realmente extraordinaria a commoção, de<span class="pn">{83}</span>
+modo que já no leito, sob a luz muito baça, muito tenue d'uma lampada ao centro
+da alcova, tendo ainda nos ouvidos o estrondo d'uma bomba que rebenta, e como
+que vendo alli, no isolamento d'aquelle ninho, creaturas que estremecem nos
+paroxismos de uma morte irremediavel, elle que mostrára uma coragem estoica no
+meio do perigo, recommendando a todos <em>calma, mucha calma! No ha pasado
+nada</em>, elle sente-se agora d'uma fraqueza infantil, quasi covarde,
+anniquilado como se entrára n'uma lucta com cyclopes. E então muito calmo,
+muito resignado, como quem acceita os fados, mordendo-lhe os beiços que ella
+estendia n'uma momice cheia de graça:</p>
+
+<p>&mdash;<em>Yo te probaré mañana que soy digno de ser tu marido.</em></p>
+
+<p>E foi como se na virgindade d'aquelle leito repousassem duas creanças
+gemeas.<span class="pn">{84}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O governo resolveu supprimir todas as gratificações por serviços
+ extraordinarios.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Iam alli implorar a protecção de S. Ex.ª.</p>
+
+<p>&mdash;De que se trata então?</p>
+
+<p>&mdash;Somos tres chefes de familia, tres honrados servidores do Estado que
+vimos...</p>
+
+<p>&mdash;Está bem; mas o que desejam?</p>
+
+<p>&mdash;Como V. Ex.ª sabe, acabaram as gratificações, e aquelle de nós tres que
+mais ganha não chega a ganhar trinta mil réis mensaes, sujeitos a descontos.
+</p>
+
+<p>&mdash;Perfeitamente; mas os senhores são empregados...</p>
+
+<p>&mdash;Saberá V. Ex.ª que da Alfandega.</p>
+
+<p>&mdash;Ora é isso mesmo, da Alfandega. Eu não posso augmentar-lhes o ordenado, e
+como a verba das gratificações foi supprimida.</p>
+
+<p>&mdash;Se V. Ex.ª dá licença...<span class="pn">{85}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Como a verba das gratificações foi supprimida, e não depende de mim
+restaural-a...</p>
+
+<p>&mdash;Se V. Ex.ª quizesse ter a bondade de se interessar por nós, mesmo sem nos
+augmentarem os ordenados e sem restabelecerem as gratificações...</p>
+
+<p>&mdash;A accumulação de serviços equivale a uma gratificação...</p>
+
+<p>&mdash;Queira V. Ex.ª desculpar, mas tudo se arranjaria facilmente se o sr.
+conselheiro quizesse ter a bondade de nos tomar sob a sua protecção...</p>
+
+<p>&mdash;É que não vejo maneira...</p>
+
+<p>&mdash;O que nós pedimos é muito pouco, e não é preciso tiral-o ao Estado, ou a
+quem quer que seja.</p>
+
+<p>&mdash;Em summa, o que é que os senhores desejam?</p>
+
+<p>&mdash;Nós desejávamos ser nomeados... gatos da Alfandega.</p>
+
+<p>&mdash;Gatos da Alfandega?!!...</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, sr. conselheiro, gatos da Alfandega. Isso daria uns 9$000 réis
+por mez, a cada um, o que seria uma ajudasinha para a renda da casa.</p>
+
+<p>&mdash;Os senhores vieram aqui para se divertirem commigo?</p>
+
+<p>&mdash;Ó sr. conselheiro, pelo amor de Deus! Nós viemos aqui implorar a
+valiosissima protecção de V. Ex.ª, juramol-o pela bôa saude das nossas mulheres
+e dos nossos filhos...<span class="pn">{86}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Gatos da Alfandega! Mas então os senhores perderam o juizo?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor conselheiro; o que nós perdemos foi a gratificação.</p>
+
+<p>&mdash;Ou anda tudo doido, ou eu não sei onde tenho a cabeça. Mas o que vem a ser
+isso de gatos de Alfandega?</p>
+
+<p>&mdash;Saberá V. Ex.ª que havendo milhões de ratos na Alfandega, sem respeito
+nenhum pelas mercadorias que alli se acham depositadas, e havendo todos os dias
+reclamações por causa dos prejuizos que estes causam, foi creada a corporação
+dos <em>Gatos da Alfandega</em>, para a sustentação da qual ha uma verba de
+proximamente trinta mil réis por mez.</p>
+
+<p>&mdash;Está bem; mas se essa verba é para sustentação dos gatos...</p>
+
+<p>&mdash;Desculpe V. Ex.ª; mas se esses empregados cumprem rigorosamente o seu
+dever, apanhando os ratos, não precisam que os sustentem, porque arranjam elles
+proprios os seus sustentos; e se alli estão só para receberem o ordenado,
+deixando os ratos em liberdade, não é justo que se gaste com elles um
+dinheirão, ao passo que honrados chefes de familia...</p>
+
+<p>&mdash;Pois está bem; vou informar-me do caso e prometto-lhes interessar-me pelos
+senhores.</p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigado, sr. conselheiro, muito agradecido a V. Ex.ª</p>
+
+<p>Tinham dito a verdade os honrados chefes de<span class="pn">{87}</span>
+familia, e porque o conselheiro não era homem que faltasse á sua promessa,
+foram os tres nomeados gatos da Alfandega, como poderiam ser nomeados
+secretarios do ministro, ou revisores do caminho de ferro.</p>
+
+<p>Os verdadeiros gatos emigraram, e uma commissão de ratos foi cumprimentar os
+tres honrados chefes de familia, quando viram as nomeações no <em>Diario do
+Governo</em>.<span class="pn">{88}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Deve se ao sr. Casimiro José de Lima, director da casa da moeda, o
+ monumento a Souza Martins, erecto no Campo de Sant'Anna.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Eram congressistas.</p>
+
+<p>Desemboccaram no Campo de Sant'Anna, vindo da Carreira dos Cavallos, e como
+se approximassem da estatua, a alguns passos de distancia, pararam de repente,
+em geito de quem examina com interesse. Um do grupo, o mais velho, typo acabado
+de sabio allemão, genero Topsius, de sobrecasaca e oculos d'ouro, erguendo
+ligeiramente o chapéu, n'um cumprimento respeitoso, em que havia muito de
+admiração, exclama com grande convencimento:&mdash;<em>Schön! Schr schön!</em> E
+logo os outros todos, em unisono, como se fosse um echo alli proximo, possuidos
+d'aquelle arroubamento esthetico, que é vulgar nos homens da Allemanha,
+exclamaram tambem!&mdash;<em>Schr schön!</em><span class="pn">{89}</span> O mais
+velho, erguendo os oculos d'ouro para a testa ampla, como a querer illuminar o
+pensamento, feita uma ligeira reverencia á estatua immovel explicou:&mdash;Ribeiro
+Sanches... Foi um medico notavel do seculo dezoito, um sabio do mais alto
+valor. Formado em Coimbra, graduado em Salamanca, visitou successivamente os
+hospitaes de Londres, Marselha, Toulon, Montpellier e Paris. Estudou com
+Boerhaave&mdash;todos se descobriram&mdash;em Leyder, durante tres annos, e a tal ponto
+se impoz á estima e á consideração do Mestre, que d'ahi a pouco tendo-lhe
+pedido a imperatriz da Russia a indicação de tres grandes medicos, que fossem
+exercer cargo de professor em Moscow, o primeiro nome que lhe accudiu foi o de
+Ribeiro Sanches. Medico dos exercitos imperiaes, fez a campanha da Polonia, em
+1735, e ainda n'essa qualidade andou pelo Paiz dos Tartaros, sobre os quaes fez
+estudos de anthropologia, que muito aproveitaram ao sabio francez Buffon&mdash;e
+todos se descobriram de novo.&mdash;Viveu em Paris, com muitas difficuldades, sempre
+estudando, sempre cultivando a sciencia, produzindo trabalhos valiosos sobre
+economia, historia e medicina.</p>
+
+<p>Formára a sua intelligencia no estudo de Bacon e Descartes, e temperou o seu
+caracter pelos conselhos de Montaigne.</p>
+
+<p>Accusado de judaismo, não podia vir a Portugal, e os livros que para cá
+mandava eram uma<span class="pn">{90}</span> especie de contrabando, que o
+marquez de Pombal fez passar como sendo d'um phantastico dr. João Mendes
+Sachetti.</p>
+
+<p>A Imperatriz Catharina II, da Russia, grata por a haver curado d'uma doença
+grave, era ella princeza, estabeleceu-lhe uma mezada sufficiente, quando elle
+se viu na capital da França, a braços com a miseria.</p>
+
+<p>E assim pôde viver e publicar o seu <em>Methodo de estudar a medicina</em>,
+e um tratado de <em>Conservação da saude</em> dos povos, e outros muitos
+trabalhos de valia, que lhe marcaram logar distincto entre os sabios do seu
+tempo. Um grande sabio! <em>Ein gross gelehrt! Viel berühmht!</em>&mdash;E todos em
+unisono, como se fosse um echo ali perto:&mdash;<em>Viel berühmht!</em></p>
+
+<p>Ia a passar uma mulhersinha, typo de mulher que esfrega, e como os visse
+embasbacados, approximou-se do grupo:</p>
+
+<p>&mdash;É o Sousa Martins, os senhores haviam de conhecer. Quem mandou alli pôr
+isto, foi o sr. Casimiro da Casa da Moeda&mdash;talvez os senhores tenham ouvido
+falar.</p>
+
+<p>Pois não conheciam um, nem tinham ouvido falar do outro, aquellas
+cavalgaduras!<span class="pn">{91}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Hontem a policia deitou a mão a um gatuno de onze annos, que roubou um
+ pão n'uma padaria da Baixa.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Tinha roubado um pão.</p>
+
+<p>A mãe dissera-lhe que fosse pedir esmola, havia muitas horas sem comer, e
+elle abalára por essas ruas, descalço e rôto, extendendo a mão a toda a gente.
+Entrava nos cafés, e ninguem lhe dava nada; entrava pelas lojas, descalço e
+rôto, e os caixeiros enxotavam-n'o como se fosse um cão. <em>Dá-me
+cincoreisinhos, meu senhor?</em></p>
+
+<p>Ninguem lhe dava nada, e todos o maltratavam, chegando um policia a
+deitar-lhe a unha para o levar para a Correcção. Infatigavel, entrando agora
+n'um café, onde os freguezes nem ouviam o seu estribilho&mdash;<em>dá-me
+cincoreisinhos, meu senhor?</em>&mdash;entrando além n'uma loja, d'onde os caixeiros
+o enxotavam como um cão sem dono, já tinha percorrido a cidade inteira,
+extendendo a mão a<span class="pn">{92}</span> toda a gente, e toda a gente
+olhando para elle com desprezo ou com enfado, e ninguem se compadecendo da sua
+miseria. E, comtudo, era nada, que elle pedia a toda a gente que passava,
+extendendo a mão suplicante.&mdash;<em>Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?</em></p>
+
+<p>Cançado, cheio de fome, ahi volta elle a casa, onde a mãe o aguardava, n'uma
+afflicção, chumbada ao leito, havia muitas horas sem comer. Uma senhora muito
+bem vestida, com brilhantes, carruagem brazonada, quasi encalhando n'elle á
+porta d'uma Egreja, estendeu-lhe a mão enluvada, e deixou cahir na sua mãosita
+suja, sem olhar para elle, os cincoreisinhos que elle andava a pedir correndo a
+cidade inteira, extendendo a mão a toda a gente que passava, entrando nos
+cafés, onde os freguezes eram surdos ao seu pedido, e entrando nas lojas,
+descalço e rôto, e d'onde os caixeiros o enxotavam, como um cão vadio.</p>
+
+<p>Talvez não fosse de proposito, mas os cincoreisinhos telintaram nas pedras
+da calçada, emquanto a senhora que lh'os dera, muito bem vestida, genuflectia á
+porta do templo, e cortava o rosto fresco e moreno com o signal da cruz.</p>
+
+<p>Foi então que o garoto deu com os olhos n'um cesto de verga, á porta d'uma
+padaria, cheio de pão alvo e fresco.</p>
+
+<p>Alli perto estava a mãe, chumbada ao leito, sofrendo horrivelmente, noites e
+noites sem dormir, havia muitas horas sem comer. Quasi nem teve<span
+class="pn">{93}</span> tempo de acommodar o pão debaixo do braço, escondendo-o
+com uns frangalhos da jaqueta. O padeiro grita, o garoto foge, a policia
+apanha-o, e a multidão horroriza-se deante d'aquelle ladrão de onze annos, que
+tinha a mãe alli perto, n'uma pocilga, chumbada ao leito, soffrendo
+horrivelmente, noites e noites sem dormir, havia muitas horas sem comer.</p>
+
+<p>Na esquadra, mettido no segredo, como um facinora, o garoto dá o nome e a
+morada; mas o terror nem o deixa desafogar em lagrimas&mdash;vejam o cynismo do
+malandro!&mdash;e a vergonha faz-lhe esconder a cara&mdash;admirem a astucia do patife!
+</p>
+
+<p>O policia, que foi prevenir a familia, ao outro dia, encontrou extendido no
+leito, ainda quente, o cadaver d'uma mulher nova, muito sêcca, muito mirrada, o
+ar de quem passou largo tempo chumbada ao leito, ainda quente, soffrendo
+horrivelmente, muitas horas sem comer, muitas noites sem dormir.</p>
+
+<p>Já não lhe puderam dizer que era um ladrão o seu filho, aquelle garoto
+descalço e esfrangalhado, que percorrera a cidade inteira, incommodando toda a
+gente&mdash;<em>dá-me cincoreisinhos, meu senhor?</em><span class="pn">{94}</span>
+</p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O rei podia impôr-se por um acto de abnegação e patriotismo,
+ acceitando a Republica.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(D'um jornal republicano). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Era um povosinho pacato, que moirejava nas suas terras, sempre alegre,
+sempre satisfeito, sem recordações tristes do passado, sem apprehensões pelo
+futuro.</p>
+
+<p>Enlevava-se na contemplação do mar, quando elle era sereno, e como se
+esquecesse então, os olhos pregados na sua superficie espelhenta e lisa, os
+ladrões aproveitavam-se daquella especie de somno hypnotico para lhe
+aligeirarem os bolsos.</p>
+
+<p>Bem se importava elle com isso! Tirava da terra, quasi sem esforço, tudo
+quanto lhe era necessario, e ainda lhe ficava muito tempo para se enlevar como
+um sabeista, na contemplação dos astros, de dia piscando os olhos aos raios
+d'um sol que não queima, de noite como a querer enchel-os d'um luar que
+adormenta.<span class="pn">{95}</span> </p>
+
+<p>Era feliz.</p>
+
+<p>Os outros invejavam aquella tranquillidade paradisiaca, alguns milhões de
+bananas governados consoante a rima, e com um rei côr de laranja.</p>
+
+<p>Succedeu, porém, que um dia, no meio d'aquelle povo pacato que moirejava nas
+suas terras, sempre alegre, sempre satisfeito, sem recordações tristes do
+passado, sem apprehensões pelo futuro, caiu uma semente de revolta, que logo
+germinou e fortificou, avassallando todos os espiritos. Áquella gente pacifica
+repugnavam os actos violentos, e só comprehendia que se derramasse sangue para
+fazer cabidela, ou então para evitar congestões, quando assim o entendesse a
+medicina.</p>
+
+<p>Mas havia o rei...</p>
+
+<p>Foi então que um patriota, inspirado como um propheta antigo, teve uma ideia
+genial, um pensamento sublime&mdash;convidar o rei a adherir. Elimina-se o rei e
+cria-se um cidadão, exclamava com muita eloquencia, pondo arrepios de commoção
+na espinha de todos os ouvintes.</p>
+
+<p>S. M. adheriu.</p>
+
+<p>Como todos os bons cidadãos quizeram sacrificar-se na presidencia da
+Republica, houve necessidade de não crear essa funcção, e isso se fez por
+consenso unanime, cada um não querendo para os outros o que não poderia haver
+para si.</p>
+
+<p>Alvitrou-se a anarchia, mas como viesse a reconhecer-se, ao cabo de longa
+discussão, que no relogio do tempo ainda não tinha soado essa hora<span
+class="pn">{96}</span> suprema d'amor e de justiça, tratou-se de eleger um
+governo, como nas outras republicas.</p>
+
+<p>Um velho de aspecto venerando, com um saber só de experiencias feito, propoz
+que na constituição do governo entrassem elementos novos e aguns dos antigos
+homens de governo, já com pratica de negocios publicos.</p>
+
+<p>&mdash;Os cidadãos que approvam esta proposta ergam as duas mãos.</p>
+
+<p>Como se visse no ar uma floresta de mãos:</p>
+
+<p>&mdash;Approvada por unanimidade.</p>
+
+<p>Logo uma voz se ergue, fazendo-se ouvir em toda a vasta assembléa:</p>
+
+<p>&mdash;Eu voto contra. No governo só deve entrar gente nova.</p>
+
+<p>O homem que assim falava protestando com energia, era o cidadão que fôra
+rei, o que deu logar a esta observação do presidente.</p>
+
+<p>&mdash;Mas o cidadão, quando era monarcha...</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, quando era monarcha; mas agora sou contribuinte...<span
+class="pn">{97}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Parece que S. M. a Rainha não acompanhará El-Rei na sua proxima
+ viagem.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Confessa que te era mais agradavel ir só...</p>
+
+<p>&mdash;A falar a verdade...</p>
+
+<p>&mdash;Ao menos és franco, e a franqueza não passa por ser qualidade vulgar na
+tua nobilissima familia.</p>
+
+<p>&mdash;Falas-me da minha familia n'um tom de superioridade e desdem, como se
+descendesses d'alguma d'essas divindades soberbas, de que estão cheias as
+mythologias antigas. A esse respeito, minha filha, talvez seja melhor não
+adeantarmos conversa. Ha um anexim portuguez que resa assim;&mdash;<em>disse o tacho
+á certã, tira-te para lá não me tisnes.</em></p>
+
+<p>&mdash;Não conheço o calão dos toureiros...</p>
+
+<p>&mdash;Nem eu a giria dos jesuitas.</p>
+
+<p>&mdash;Ao menos podias ser delicado com uma senhora.<span class="pn">{98}</span>
+</p>
+
+<p>&mdash;Por certo se essa senhora quizesse ser delicada commigo.</p>
+
+<p>&mdash;Nunca eu tivesse aqui posto os pés.</p>
+
+<p>&mdash;Inteiramente d'accordo. Tinha sido magnifico para os dois.</p>
+
+<p>&mdash;Se não fossem os filhos e...</p>
+
+<p>&mdash;Bem sei; se não fosse isto de pairar no alto, estar acima dos outros...
+</p>
+
+<p>&mdash;<em>Je m'en fiche de...</em></p>
+
+<p>&mdash;Temos calão boulevardiano?</p>
+
+<p>&mdash;Se um dia perderes o logar, podes ir para Marrocos: o sultão, supponho eu,
+não terá ciumes de ti.</p>
+
+<p>&mdash;Nem tu saudades minhas.</p>
+
+<p>&mdash;Se te parece!...</p>
+
+<p>&mdash;Apezar de todos os pezares, minha filha, tu ainda me podias dar um prazer
+enorme, uma satisfação infinita.</p>
+
+<p>&mdash;Deixando-te ir em liberdade?</p>
+
+<p>&mdash;Não; deixando-me... viuvo.<span class="pn">{99}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>No congresso medico do Porto, o dr. Eduardo d'Abreu apresentou um
+ velho de 109 annos.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Vou dar a palavra ao illustre congressista, nosso collega, que apresentará
+á assembléa o homem mais velho do mundo.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Quando o presidente acabou de pronunciar estas palavras, fez-se na sala, até
+então rumorosa, o silencio dos momentos augustos. Um congressista avançou para
+junto da mesa da presidencia, acompanhado d'um velhote rabitezo, de peitilhos
+bordados, endomingado como para a desobriga. Era o homem mais velho do mundo,
+como dissera o presidente. Nascido no seculo dezoito, atravessára todo o seculo
+dezenove, e alli estava muito fresco, bem disposto, nas felizes disposições de
+acompanhar o seculo vinte até por ahi adeante sem cansaço de maior.<span
+class="pn">{100}</span> Estavam alli cento e nove annos, bonita somma feita com
+parcelas de tres seculos, muito deseguaes em valor.</p>
+
+<p>Tão bem conservado o velhinho!</p>
+
+<p>Dir-se-ia que adormecera quando ia a entrar na velhice, ao cabo de uma
+florente mocidade, e a dormir deixára de fazer annos, o bom velhote. Por certo
+aquella alma nunca fôra batida das tormentas, não experimentara nunca as
+grandes alegrias nem as grandes contrariedades, porque umas e outras consomem
+como o fogo, abbreviam a existencia,&mdash;diluindo-a em risos ou afogando-a em
+lagrimas.</p>
+
+<p>Tão bem conservado, o velhinho!</p>
+
+<p>Ha rugas na sua face; mas ellas são apenas as dobras avelludadas dos lagos
+adormecidos, d'uma paz magestosa e inalteravel.</p>
+
+<p>Os olhares de todos aquelles medicos convergiam para o bom do velho, muito
+rabitezo, com os seus peitilhos bordados á moda de 1820&mdash;a unica coisa limpa
+que resta das grandes aspirações d'aquella epoca, explicou o congressista que
+apresentava o phenomeno. Parecia uma evocação, um phantasma que surgisse da
+noite dos tempos para contar historias tragicas. Mas havia tanta candura no seu
+olhar curioso! tanta alegria infantil no seu riso mal contido, como se tivesse
+vergonha de não se mostrar grave alli, no meio de tantos senhores! Aquella
+seriedade tinha o ar de uma meninice robusta e florida.<span
+class="pn">{101}</span> </p>
+
+<p>Tão bem conservado, o velhinho! Parecia vender saude...</p>
+
+<p>Um dos congressistas, clinico de larga nomeada, approximando-se do velhote:
+</p>
+
+<p>&mdash;E de saude, que tal?</p>
+
+<p>&mdash;Ó meu senhor, graças a Deus...</p>
+
+<p>&mdash;Mas nunca esteve doente?</p>
+
+<p>&mdash;Uma vez, ainda era novo, ahi por volta dos setenta annos.</p>
+
+<p>&mdash;E tomou muitos remedios?</p>
+
+<p>&mdash;Lá quanto a isso... não tomei nenhum. Eu sempre tive muito amor á vida.
+</p>
+
+<p>Tão bem conservado, o velhinho!...<span class="pn">{102}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Hontem, em conferencia dos delegados, foi resolvido querellar d'alguns
+ jornaes.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>A sessão estava marcada para as onze. O ultimo que entrou, saudando os dois
+que já lá estavam, teve esta observação maliciosa:</p>
+
+<p>&mdash;A justiça é pontual!...</p>
+
+<p>&mdash;E algumas vezes... justa, accrescentaram os collegas.</p>
+
+<p>Cada qual desembaraçou-se do sobretudo, pôz em cima da mesa um masso de
+jornaes, e assentou-se.</p>
+
+<p>&mdash;Ha que fazer?</p>
+
+<p>&mdash;Pela parte que me toca...</p>
+
+<p>O que assim falou, ergueu os oculos para a testa, abriu um dos jornaes que
+tinha na sua frente, e leu pausadamente:&mdash;<em>É fóra de duvida que o nosso
+Monarcha é dos imperantes mais honestos e mais intelligentes não só da Europa,
+mas de todo o mundo.</em><span class="pn">{103}</span> </p>
+
+<p>Pousou o jornal sobre a mesa, deixou cair os oculos para os olhos, e
+attentou nos collegas, á espera.</p>
+
+<p>&mdash;E depois? O collega com certeza não pretende querellar d'esse jornalista,
+com certeza monarchico...</p>
+
+<p>&mdash;Engana-se o collega redondamente. Pretendo querellar a passagem do jornal,
+que acabo de ler, porque a encontro incursa no artigo...</p>
+
+<p>&mdash;Mas isso não tem pés nem cabeça, collega. Quereria então que amanhã se
+dissese que este augusto tribunal querellára d'um jornalista por ter elle
+escripto que o monarcha é honesto, é intelligente, dos mais honestos e
+intelligentes que o sol cobre?...</p>
+
+<p>&mdash;É como acaba de dizer.</p>
+
+<p>&mdash;Mas isso é uma loucura!...</p>
+
+<p>&mdash;Um pouco mais pequena do que lhe parece. Estamos aqui para cumprir a lei,
+e a lei, n'este ponto, é clara.</p>
+
+<p>&mdash;O que faria então o collega se o jornalista tem escripto que o monarcha é
+destituido de intelligencia e honestidade?</p>
+
+<p>&mdash;O que faria? Querellava-o com fundamento no artigo...</p>
+
+<p>&mdash;Mas é então o caso de ser preso por ter cão...</p>
+
+<p>&mdash;Não é nada d'isso. É o caso da lei prevenir as duas hypotheses&mdash;a da
+calumnia e a da troça.<span class="pn">{104}</span> </p>
+
+<p>Concordaram os tres em que eram de troça as palavras incriminadas, e assim
+fundamentaram a sua petição de querella. Nunca mais, desde então, os
+jornalistas se atreveram a escrever aquillo a serio.<span
+class="pn">{105}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O sr. Teixeira d'Abreu foi hontem cumprimentado por uma commissão de
+ Juizes, que o procurou no seu ministerio.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Era uma commissão de juizes da provincia, que vinha apresentar os seus
+cumprimentos a s. ex.ª.</p>
+
+<p>Ageitou o laço da gravata, kaiserizou um pouco os bigodes, pousou a mão
+direita, levemente espalmada, sobre a pasta de marroquim, deixou cair o braço
+esquerdo ao longo do corpo, muito á vontade, e disse ao continuo que mandasse
+entrar.</p>
+
+<p>&mdash;Vimos apresentar a v. ex.ª as nossas homenagens, felicitando-o pela justa
+e merecida distincção que acaba de lhe ser feita.</p>
+
+<p>Muito grave, tendo ouvido aquella pequena fala como se fosse um acto de
+vassalagem por parte de rebeldes submettidos, pausadamente como quem mede as
+palavras:<span class="pn">{106}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Agradeço as felicitações que me dirigem, e tomo-as como partindo de toda a
+magistratura, aqui representada por v. ex.<sup>as</sup>.</p>
+
+<p>Ordenou que se sentassem, n'um gesto brando e attencioso, e elle proprio
+sentou-se, com muita solemnidade, não fosse desmanchar a <em>pose</em> que
+estudára de vespera para actos officiaes.</p>
+
+<p>E explicou:</p>
+
+<p>&mdash;Desejo fazer obra util, que vinque a minha passagem pelos conselhos da
+corôa. O complexo de medidas que tenciono apresentar, subordinadas umas ás
+outras como partes integrantes d'um todo harmonico, constituirá o que eu chamo
+<em>A reforma da bola</em>.</p>
+
+<p>&mdash;A reforma...</p>
+
+<p>&mdash;Da bola. Não fazem ideia do que seja? Não admira; trata-se d'uma coisa
+inteiramente nova. Já na Universidade iniciei o meu plano reformador, embora
+n'outro campo, e com o melhor resultado.</p>
+
+<p>&mdash;Se V. ex.ª...</p>
+
+<p>&mdash;É simples. Em vez de chamar á lição pela caderneta, chamava pelo saco das
+bolas. Numero tal? Era o que dava a sorte. Assim os rapazes, receando cada qual
+que saisse a bola do seu numero, estudavam todos a sebenta. É engenhoso não é
+verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Sem duvida. Qualquer que não tivesse o immenso talento de v. ex.ª
+consideraria que os rapazes, esperando cada qual que não saisse a bola do seu
+numero, nenhum pegaria na sebenta.<span class="pn">{107}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Pois ahi está. A bola, applicada ás coisas da justiça, espero que dará os
+melhores resultados. Assim, por exemplo, tratando-se da collocação de juizes e
+delegados... A cada comarca corresponde uma bola. Estão a ver?... Acaba o
+favoritismo; torna-se impossivel a perseguição ou a empenhoca.</p>
+
+<p>&mdash;É maravilhoso!</p>
+
+<p>&mdash;Pois não é?... E ao mesmo tempo é simples. Espero que a minha passagem
+pelos conselhos da corôa, curta ou demorada que seja, não resulte improficua
+para os sagrados interesses da justiça e dos seus agentes.</p>
+
+<p>Ergueu-se gravemente, e premiu o botão electrico. Logo appareceu o continuo,
+que acompanhou até á escada aquella commissão de juizes, que tinham ido
+apresentar os seus cumprimentos a s. ex.ª.</p>
+
+<p>Já na Arcada, olhando uns para os outros, como que interrogando-se:</p>
+
+<p>&mdash;Com que então, a bola?</p>
+
+<p>&mdash;Redonda e de escaravelho, levada as arrecuas até ao gabinete negro.<span
+class="pn">{108}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>O illustre deputado F. fez hontem um grande discurso, muito caloroso e
+ muito espontaneo, sendo no final cumprimentado por quasi todos os seus
+ collegas.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Passou por alli e entrou.</p>
+
+<p>Era um espectaculo novo para elle, uma sessão parlamentar. Vinha a Lisboa,
+muitas vezes, estando as Camaras abertas, mas em geral tinha muito que fazer, e
+não podia demorar-se por fóra de casa.</p>
+
+<p>O cavallo engorda só com a vista do dono, e elle sabia bem como o seu
+emmagrecia, isto é, como lhe corriam mal os negocios quando se ausentava por
+certo tempo. Mas uma vez não são vezes e elle poderia fazer á sua curiosidade o
+sacrificio das suas commodidades. Em vez de partir no comboio da tarde, que era
+rapido, partiria no comboio da noite, muito ronceiro, parando em todas<span
+class="pn">{109}</span> as estações, e só chegando á sua terra a uma hora
+bastante incommoda, de madrugada.</p>
+
+<p>Entrou, e dirigindo-se ao primeiro porteiro que viu, entregou-lhe um cartão
+de visita para o deputado do seu circulo, pedindo uma entrada, para a galeria
+do presidente. Tinham-lhe dito que era d'alli que melhor poderia disfructar o
+espectaculo. S. ex.ª mandou o bilhete de admissão, e pedia desculpa de não vir,
+porque estava conversando com o ministro a respeito d'um melhoramento que tinha
+pedido lá para o circulo, a ponte de alvenaria sobre a ribeira, que no inverno,
+chovendo muito, estorvava a passagem de carros.</p>
+
+<p>Acabava de ler-se a acta, quando elle se installou no seu logar. Um deputado
+já velho, com oculos, mandou para a mesa uns papeis, requerendo que fossem
+publicados no <em>Diario</em>, e um dos ministros declarou-se habilitado a
+responder á interpelação que lhe tinha annunciado, na vespera, um illustre
+deputado da maioria.</p>
+
+<p>Pareceu-lhe aquillo pouco interessante, e já quasi se arrependia de ter alli
+ido, quando o presidente, não havendo mais quem pedisse a palavra, declarou que
+se ia entrar na ordem do dia. E logo a seguir:</p>
+
+<p>&mdash;Tem a palavra o sr....</p>
+
+<p>Era o seu deputado que tinha a palavra. Não pensou mais em ir-se embora,
+está bem de ver, e como o homem tivesse a palavra forte e o gesto largo,
+prendeu-lhe a attenção desde o começo.<span class="pn">{110}</span> A Camara
+estava um pouco distraida, cada qual cochichando com o seu visinho, mas elle
+tinha a impressão que o discurso era bem alinhavado, talvez um pouco vulgar nos
+conceitos, mas bastante correcto na forma, e deduzido com certa logica e
+habilidade. Quando faltavam apenas cinco minutos para se encerrar a sessão, o
+presidente, interrompendo o orador, perguntou-lhe se desejaria ficar com a
+palavra reservada.</p>
+
+<p>&mdash;Vou concluir, sr. presidente; os cinco minutos de que ainda disponho,
+chegam muito bem para o que me falta dizer.</p>
+
+<p>Quando acabou, muitos deputados foram cumprimental-o, alguns apertando-lhe a
+mão com muita força e outros abraçando-o com enternecimento.</p>
+
+<p>Esperou-o ao pé do elevador, e mal o viu estendeu-lhe as duas mãos:</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem! muito bem!</p>
+
+<p>Elle então explicou, modestamente, que não contava usar da palavra,
+n'aquella sessão, e que por isso não se tinha preparado.</p>
+
+<p>&mdash;Foi o que acudiu na ocasião; para a outra vez será melhor.</p>
+
+<p>Já fóra do edificio das Côrtes, atravessando o largo, um rapaz de blusa
+azul, com uns papeis nas mãos, approximou-se d'elles.</p>
+
+<p>&mdash;Que deseja?</p>
+
+<p>&mdash;São as provas do discurso; v. ex.ª manda-as á typographia, ou quer que vá
+buscal-as?<span class="pn">{111}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>A continuarem as coisas assim, aos republicanos bastará um pouco de
+ audacia para fazerem a Republica.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes monarchicos). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Era um pego largo, pouco fundo, com moitas de juncos pelas barreiras que se
+esboroavam a cada instante. De cada vez que caia um pequeno torrão, acudiam do
+fundo peixes em cardume, alguns doirados, outros de prata. Andavam á roda do
+pego uns homens graves, sem instrumentos de pesca, varando os peixes com
+olhares de fogo&mdash;olhares de guloso ou de avaro.</p>
+
+<p>Bem se importavam os peixes que elles os olhassem assim, com uma insolencia
+quasi dolorosa, se lá da camada funda em que andavam apercebiam-se do minimo
+gesto que elles fizessem, estendendo a mão, e logo mergulhavam mais, pondo-se
+inteiramente a salvo.</p>
+
+<p>Alli perto, debaixo d'uma arvore frondosa, andavam creanças a brincar.<span
+class="pn">{112}</span> </p>
+
+<p>Como as chamassem, n'um prompto, correram para junto daquelles homens graves
+que andavam á roda do pego, devorando com os olhos aquelles peixes de oiro e
+prata, que se viam lá em baixo, na transparencia da agua, e de quando em quando
+vindo á superficie, quando das barreiras caia um pequeno torrão, que os atraía
+em vez de os espantar.</p>
+
+<p>&mdash;Ganha um vintem cada um, se atirarem para o pego muita poeira e muita
+lama.</p>
+
+<p>Os pequenos olharam uns para os outros, como que interrogando-se, e logo
+desataram a correr, por alli fóra, rindo ás gargalhadas, deixando estupefactos
+aquelles homens graves que estavam havia muito namorando os peixes, varando-os
+com olhares de fogo&mdash;olhares de guloso ou de avaro.</p>
+
+<p>Já a distancia, para além da arvore debaixo da qual ha pouco brincavam,
+estacaram todos ao mesmo tempo, como se obedecessem a uma voz de commando. O
+mais ladino, apontando na direcção do pego, com um grande ar de superioridade
+desdenhosa:</p>
+
+<p>&mdash;Queriam pescar nas aguas turvas, os gajos...</p>
+
+<p>E todos riram á gargalhada.<span class="pn">{113}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Toda tu és formosa, amiga minha, e em ti não ha mancha.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Cantico dos Canticos).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Que os seus labios toquem os meus labios, dando-me o osculo da sua bocca, e
+as minhas mãos toquem os seus peitos, fragrantes como os balsamos mais
+preciosos...</p>
+
+<p>Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe mudou a côr
+beijando-a doidamente n'um dia em que ella andava pelas encostas, apascentando
+os gados, esbelta como a açucena...</p>
+
+<p>Hei de fundir os meus desejos loucos no fogo dos seus olhos negros, para
+afogar n'uma gargalheira d'ouro o seu pescoço de rola.</p>
+
+<p>Ella é a flor do campo, o lirio immaculado dos valles, olorosa como o nardo,
+rescendendo como um ramalhete de açafrão que alguem tivesse collocado entre as
+suas pomas virgens, appetitosas como um cacho de Chypre, de bagos humidos e
+frescos.<span class="pn">{114}</span> </p>
+
+<p>Não a acordem no seu thalamo de flores, que ella assim é linda como a
+Sulamita, cujo coração vela emquanto ella dorme, e na volupia do seu sonho,
+perfumado de todas as essencias do Libano, percebe a voz do seu amado, que lhe
+bate á porta, a escorrer-lhe do cabello em anneis todo o orvalho da noite.</p>
+
+<p>Os seus labios são como uma fita de escarlate, mal cobrindo os seus dentes
+de marfim, e as maçãs do seu rosto, como romã partida, accendem fome de beijos
+nos proprios cedros do Libano.</p>
+
+<p>Que airosos são os seus passos, e que harmonioso é o seu talhe, similhante
+ás palmeiras do deserto, em torno das quaes esvoaçam pombas nitentes como
+frocos de espuma, que o vento erguesse do mar quando as ondas saltam como
+cabritos do monte, procurando as folhas verdes!</p>
+
+<p>Não lhe perturbeis o somno, linda como é adormecida, o leito em que repousa
+tendo o olor de um canteiro de plantas aromaticas, onde floresce o nardo e o
+açafrão, o cinamomo e a mirrha.</p>
+
+<p>Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe queimou as
+faces, beijando-a doidamente, n'um dia em que a apanhou no campo, esbelta como
+as açucenas...<span class="pn">{115}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Ci git Piron, qui fut vien!...</em></p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Accumulava com o emprego burocratico... de não fazer nada, o encargo
+social... de dizer mal de todos e de tudo. Assim o tempo não lhe chegava para
+ir aqui e além, apparecendo em toda a parte, informando-se da ultima novidade,
+e commentando o ultimo escandalo. Estava convencido de que nascera com immensas
+aptidões, um enorme talento de escriptor, um profundo genio d'artista, e que
+tudo isso lhe fôra roubado, ainda no berço, uma noite, estava elle a dormir e a
+sonhar&mdash;um lindo sonho côr de rosa, que punha estremecimentos rithmicos nas
+suas carninhas de leite. Teria sido um philosopho como Littré, um esculptor
+como Miguel Angelo, um historiador como Mommsen, um critico como Taine, um
+poeta como Victor Hugo, um pintor como Rubens, um romancista como Balzac, se
+lhe não tivessem roubado em pequeno as immensas aptidões com que o dotára a
+Natureza.<span class="pn">{116}</span> </p>
+
+<p>Quando se punha a escrever, emperrava-lhe a penna ao cabo de poucas linhas,
+e não havia maneira, por mais que torturasse os miolos, de lançar ao papel uma
+ideia. Quando se punha a fazer pintura, escorregava-lhe o pincel borrando a
+lona, e succedia então que tendo feito o desenho para uma rosa, lhe saia
+inevitavelmente uma couve-flôr. Uma unica vez conseguiu levar a cabo uma
+esculptura; mas succedeu que tendo modelado no barro um cupidinho alado, quando
+o passou ao gesso se encontrou com um kanguru. Vinham-lhe então raivas
+tremendas, um odio enorme aos que tinham um nome, aos que faziam livros ou
+faziam estatuas, affirmando de qualquer forma uma competencia superior&mdash;o
+talento, que não é commum, ou o genio que ainda é mais raro. Era a impotencia
+gerando a inveja; era a inveja transmudando-se em odio.</p>
+
+<p>Um dia morreu e, como não tivesse amigos, quasi ninguem o acompanhou ao
+cemiterio. Quando iam a descel-o á cova na sua mortalha de pobre, um bohemio
+que alli chegou, informando-se de quem era, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Deviam fazer-lhe a cova redonda... A ultima morada d'um nulo, deve ter a
+fórma d'um zero.<span class="pn">{117}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>S. M. tem recebido milhares de cartas, bilhetes e telegrammas,
+ felicitando-o pelo mallogro do projectado movimento revolucionario.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Estendeu o braço e premiu o botão electrico, que ficava um pouco ao lado da
+secretaria.</p>
+
+<p>&mdash;Pareceu-me ouvir chamar...</p>
+
+<p>&mdash;Chamei, sim. Vieram cartas, bilhetes, telegrammas, não é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;E todos elles...</p>
+
+<p>&mdash;Todos elles dizem a mesma coisa. Até parece que foram expedidos pela mesma
+pessoa ou então...</p>
+
+<p>&mdash;Ou então foram redigidos segundo uma formula combinada, não é isso?</p>
+
+<p>&mdash;Exactamente, segundo uma formula combinada.</p>
+
+<p>&mdash;E já os colleccionaste, conforme te disse?</p>
+
+<p>&mdash;De certo. Á medida que chegavam ia...<span class="pn">{118}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Está bem. Traze aquelles que sabes e mette-os além, n'aquella caixa.</p>
+
+<p>&mdash;N'aquella caixa?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, n'aquella caixa. Vou lel-os de monoculo.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Eram algumas duzias de telegrammas, vindos d'aqui e d'além, uns do norte
+outros do sul, todos com muitas felicitações, muitos protestos de respeito, de
+estima e dedicação. Parecia, na verdade, que tinham sido redigidos segundo uma
+formula combinada, tão eguaes eram os seus dizeres.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Prompto, já lá estão.</p>
+
+<p>&mdash;Olha, põe-lhes em cima aquelle folheteco que está além, n'aquelle
+<em>étagère</em>, de capa verde...</p>
+
+<p>&mdash;Mas é a Carta...</p>
+
+<p>&mdash;Pois já se vê que é. Anda, põe-a lá, e raspa-te.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>D'ahi por um quarto d'hora, pouco mais ou menos, sentado á secretaria, na
+descuidosa negligencia d'um nababo feliz, a mordicar um charuto fortemente
+aromatico, estendeu o braço e premiu o botão electrico.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei se é a mim que...</p>
+
+<p>&mdash;É com o que está de serviço ao bispote.</p>
+
+<p>&mdash;Então sou eu.</p>
+
+<p>&mdash;Despeja aquella caixa.<span class="pn">{119}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>A alma das creanças que morrem sem baptismo não entra no céo.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Crendices populares). </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>No dia seguinte era o baptizado.</p>
+
+<p>Havia mais d'uma hora que estava a devoral-o com os olhos, debruçada sobre a
+canastrinha de verga em que elle dormia, envolto em rendas, muito harmonioso na
+minusculidade das suas formas&mdash;como se fosse uma esculpturazinha de Donatello,
+copiada de frei Angelico, em um vago presentimento da Renascença.</p>
+
+<p>Ella propria o enfaixaria, subtilizando os dedos leves, ao calçar-lhe os
+sapatinhos de seda, não fosse magoar-lhe as carninhas tenras, d'uma rijeza de
+fructa verde e sadia. Não iria com elle á Egreja, fraca ainda como se sentia;
+mas já recommendára á parteira que o não entregasse a ninguem, nem mesmo ao
+padre, receosa de que mãos pesadas tomassem aquelle fardozinho ligeiro, que era
+a melhor fibra do seu coração, animada do<span class="pn">{120}</span> mais
+puro effluvio da sua alma. Sem saber como, entrou a philosophar sobre o
+baptizado, o santo sacramento do baptismo como ensinam os livros sagrados.</p>
+
+<p>Seria então um peccador, o seu filhinho.</p>
+
+<p>Quantas creanças por esse mundo além, morrem sem baptismo, quasi ao nascer,
+pequeninos botões de rosa, que não chegam a abrir, porque a aragem soprou mais
+forte e os lançou por terra!... O espirito d'estes anjinhos irá então soffrer
+as torturas do purgatorio, espiando uma culpa que não tinham, purificando-se de
+um mal que não fizeram?</p>
+
+<p>Se o seu filho morresse perderia a crença em Deus, e se pudesse acreditar
+que a alma das creanças, mortas antes de baptizadas não ascende directa e
+immediatamente á vista do Altissimo, radiosa como um olhar da Virgem Mãe,
+negaria a justiça divina, muito peor que a dos homens...</p>
+
+<p>Mas então o santo sacramento do baptismo nada mais será que uma mentira?...
+</p>
+
+<p>... Envolto em rendas, a dormir na sua canastrinha, o petiz estremeceu, e
+ella ficou suspensa na corrente dos seus pensamentos, enlevada na contemplação
+d'aquella esculptura minuscula, de formas harmoniosas, que dir-se-ia modelada
+por Donatello, a copiar Frei Angelico, n'um vago presentimento da Renascença.
+</p>
+
+<p>No dia seguinte lá foi o petiz a baptizar.<span class="pn">{121}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Um rapaz da Beira, allegando que o pae é pobre, furou a greve, pelo
+ que foi espancado á porta ferrea.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Nunca fôra á escola.</p>
+
+<p>Os filhos da gente pobre não teem o direito de ser creanças, e os paes
+d'elle eram pobresinhos. Aos sete annos já era um valor, em linguagem de
+economistas. Fazia dó ver o garotito queimando os musculos tenrinhos n'um
+trabalho com que não podia. Mas os paes d'elle eram tão pobres!...</p>
+
+<p>Quando entrou nas sortes, já era orphão de mãe, e como tirasse um numero
+alto, o mais alto que havia na urna, livrou-se de ir servir o rei, deixando o
+seu velhote quasi cego e inteiramente tropego a viver da caridade publica. Por
+aquelles sitios não havia trabalhador como elle, sempre a lidar com a terra, de
+semana trabalhando para os outros, nos domingos trabalhando para si. Não bebia
+nem fumava, todos os seus ganhos eram<span class="pn">{122}</span> para
+sustentar a casa, onde não faltava nada, a não ser a alegria. Como não ha-de
+ser triste o lar onde não explude um riso de mulher, onde não ha petizes que
+ponham tudo fóra dos seus logares, n'uma adoravel desenvoltura... Casou, e
+pareceu-lhe que tinha ido buscar á Egreja mais força, mais energia, mais saude.
+Quando lhe nasceu o primeiro filho, que foi tambem o ultimo, já o pae tinha
+acabado de morrer, pobre velho cego e tropego, que um delgado fio prendia á
+vida, desde que ficára viuvo.</p>
+
+<p>&mdash;Este não ha-de ser para ahi um animal como o pae, dizia apontando o filho.
+</p>
+
+<p>Aos seis annos mandou-o para a escola, e como o rapaz fosse intelligente e
+applicado, com muita facilidade aprendeu a ler, excedendo todos os seus
+condiscipulos. Ficou distincto na instrucção primaria, e como fosse notavel a
+sua queda para os estudos, matriculou-se no lyceu. Vencidos os preparatorios lá
+foi o pae leval-o a Coimbra, inchado como a rã da fabula, já a remirar-se no
+seu doutor.</p>
+
+<p>&mdash;Evite as occasiões; mas quando se encontrar n'ellas, não faça má figura.
+</p>
+
+<p>Foi esta a unica recommendação que lhe fez, de volta á sua aldeia, tendo-o
+installado na casa d'um conhecido com ordem de lhe abonarem o que fosse
+preciso.</p>
+
+<p>Outro dia á saida da missa, no adro da Egreja, falou-se de coisas graves em
+Coimbra. Vinha nos papeis...<span class="pn">{123}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Que foi?</p>
+
+<p>Um dos que estavam no grupo, explicou:</p>
+
+<p>&mdash;Houve lá o diabo. Sete estudantes foram expulsos, e os outros, por
+camaradagem, declararam-se em greve. Mas alguns, diz o jornal, abandonaram os
+companheiros e foram ás aulas. O seu rapaz...</p>
+
+<p>&mdash;O meu rapaz não foi ás aulas com certeza.</p>
+
+<p>Tres dias depois, como o governo mandasse fechar as escolas, appareceu-lhe o
+rapaz em casa, sem ter avisado como era costume.</p>
+
+<p>&mdash;Ouve lá, quantos romperam a greve?</p>
+
+<p>&mdash;Poucos, talvez uns quatro ou cinco.</p>
+
+<p>&mdash;Mas tu...</p>
+
+<p>&mdash;Considerei os immensos sacrificios que tem feito para me dar uma posição,
+e para lhe poupar...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, para me poupares alguns dias de trabalho honrado, não achaste nada
+melhor que praticar a má acção de abandonar os collegas, victimas da injustiça.
+</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Nunca o tinham mandado á escola, mas abençoava agora a sua ignorancia,
+severo nos seus principios d'honra, intransigente na sua lealdade de camponio
+para com os seus irmãos da gleba, crendo na simplicidade do seu espirito que o
+saber deforma o caracter.<span class="pn">{124}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Deus fez as almas aos pares.</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Da sabedoria das nações).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Tinham-se encontrado alli no ponto onde se bifurca a estrada.</p>
+
+<p>O sol descahia ao longe, por traz dos montes, n'um esbraseamento de fogo
+amortecido, e na charneca immensa havia tanta paz e doçura, como n'uma
+cathedral augusta a horas mortas da noite.</p>
+
+<p>Cançados, cheios de pó, via-se bem que tinham feito uma longa jornada por
+caminhos difficeis, rasgando o fato e as carnes nas silvas e pitas dos
+vallados, e magoando os pés descalços nas veredas e atalhos invios.</p>
+
+<p>O sol descahia ao longe, por traz dos montes, e não se avistava um casal na
+extensão quasi infinita da charneca, silenciosa como uma cathedral augusta a
+horas mortas da noite.</p>
+
+<p>Dir-se-ia que se procuravam sem nunca se terem visto, o acaso tendo-os
+reunido alli, no ponto onde se bifurca a estrada, cançados, cheios de<span
+class="pn">{125}</span> pó, o fato rasgado, e as carnes feridas, como se
+tivessem atravessado um bosque selvagem, sob a ameaça d'um perigo. Pois que a
+sorte os reunia...</p>
+
+<p>&mdash;Seria bom ficar aqui, ficando ambos, torturada como venho de muito longe,
+sem um braço amigo a que me encoste, sem um coração amigo que por mim
+palpite!...</p>
+
+<p>&mdash;Juntos faremos o resto do caminho, querendo-nos muito, amando-nos muito,
+cada qual rivalizando em dar ao outro a maior porção de sonho, a maior somma de
+ventura!...</p>
+
+<p>Por sobre a charneca immensa pairava uma paz bemdita, e a lua muito pallida,
+como se fora um pingo de leite, deixára cahir uma luz frouxa e baça&mdash;tal uma
+lampada mortiça no silencio d'uma cathedral augusta.<span
+class="pn">{126}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Era dia de finados.</p>
+
+<p>Desde que a mulher lhe morrera, havia tres mezes, nem um só dia passava sem
+que elle fosse ao cemiterio, rezar sobre a sua sepultura, offertar-lhe flores
+orvalhadas de lagrimas.</p>
+
+<p>Tinham-se amado tanto!</p>
+
+<p>Por certo não se morre de felicidade, visto que elle não tinha morrido no
+dia em que a recebera sua esposa legitima á face da santa madre egreja, e
+tambem não se morre de dôr, visto elle não ter morrido no dia em que lhe cerrou
+os olhos, colando-lhe os olhos ás palpebras, n'um derradeiro beijo.</p>
+
+<p>Era dia de finados, e como não quizesse dar em espectaculo a sua dôr, o
+cemiterio cheio de visitantes, deixou que toda a gente saisse, já quasi ao pôr
+do sol, para elle então cumprir a dolorosa missão que se impuzera de ir todos
+os dias retalhar o coração, ajoelhado sobre a pedra que cobria metade da sua
+alma, que era toda a sua felicidade.</p>
+
+<p>Ajoelhou, chorou, rezou e quando já tinha os olhos secos de muito haver
+chorado, e já não tinha o coração dorido de tanto que a dôr o tinha<span
+class="pn">{127}</span> feito soffrer, espalhando pela sepultura o seu braçado
+de flores, as mãos postas, o chapeu debaixo do braço, os olhos erguidos ao
+alto, anniquilado como se caira sobre elle a maldição de Deus, dirigiu-se para
+a porta do cemiterio. </p>
+
+<p>A poucos passos andados, cruza com elle um rapaz alto, vestido de negro, com
+um grande ramo de flores na mão.</p>
+
+<p>Parou, e sem quasi se aperceber da sua curiosidade, poz-se a seguil-o com os
+olhos. O outro foi seguindo, o andar estugado, caminhando a direito sem
+hesitar. Como elle fizera havia instantes, sobre a mesma sepultura, ajoelhou,
+chorou, rezou e quando já não tinha mais lagrimas para chorar, automaticamente,
+como se na pedra da sepultura tivesse deixado colada a alma, dirigiu-se para a
+porta do cemiterio.</p>
+
+<p>&mdash;Devia tel-a amado muito, para soffrer assim!</p>
+
+<p>&mdash;Se amei! Daria a vida para a resuscitar, ou para ir apodrecer ao lado
+d'ella, debaixo da mesma pedra.</p>
+
+<p>&mdash;Era então sua mulher!..</p>
+
+<p>&mdash;Era simplesmente minha amante, porque tivera a infelicidade de casar antes
+de nos conhecermos.<span class="pn">{128}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align:center;" class="centrado">*</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Havia tres mezes que a mulher morrera, que nem um só dia passava sem que
+elle fosse rezar sobre a sua sepultura, offertando-lhe flôres orvalhadas de
+lagrimas.<span class="pn">{129}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Não ha bella sem senão.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Ás vezes, quando a beijava, sentia-lhe as faces quentes dos beijos que outro
+lhe dera. Parecia-lhe então absurdo, quasi inverosimil que a Natureza fizesse
+tão linda uma creatura tão perfida.&mdash;Era como se alguem mettesse lama das ruas
+n'uma urna de alabastro.</p>
+
+<p>Tão linda!</p>
+
+<p>Punha-se então a fixal-a muito, muito&mdash;como se, debruçado sobre um abysmo,
+quizesse sondar um mysterio. Pareciam feitos de treva os seus olhos luminosos!
+Brincava um sorriso leve nos seus labios sensuaes, em que havia o perfume
+intenso das violetas e o sabor casto das rosas.</p>
+
+<p>Tão linda!</p>
+
+<p>Não se acredita que haja vulcões na lua, serena e pallida, ás vezes
+escondendo-se por traz das nuvens, como se fosse uma mulher nua que percebesse
+no espaço olhos brejeiros a fital-a.</p>
+
+<p>Tão linda!<span class="pn">{130}</span> </p>
+
+<p>Manchava-lhe o pescoço um fio d'ouro muito delgado suspendendo um Christo de
+marfim perfeito como se o fizera Donatello, vago e poetico como se o desenhára
+Frei Angelico.</p>
+
+<p>Tão linda!</p>
+
+<p>Mas parecia-lhe, quando a beijava, que ella tinha as faces quentes dos
+beijos que outro lhe dera.&mdash;As plantas venenosas nunca deviam ser bellas,
+attrahindo para matar&mdash;nem as mulheres bellas deviam ser perfidas, como se um
+tigre habitasse no calice branco d'um lirio, ou uma cobra se escondesse entre
+as folhas d'uma rosa!</p>
+
+<p>Tão linda!<span class="pn">{131}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p class="ni"><em>Souvent femme varie</em> <br>
+ <em>Bien fou qui s'y fie...</em></p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Tontinho!</p>
+
+<p>&mdash;Imaginas, então, que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos, sem
+a loucura das tuas caricias! Arranca a planta pela raiz, e diz-lhe depois que
+floresça e fructifique, que erga os braços onde não circula a seiva,
+offerecendo aos reverberos d'um sol quente e luminoso as suas folhas mirradas,
+d'um amarello chlorotico, que precede a morte decisiva...</p>
+
+<p>&mdash;Tontinho!</p>
+
+<p>&mdash;Já me afizera ás fatalidades do meu destino, e habituada a olhar nas
+trevas, a cerração da minha noite parecia-me ás vezes que tinha vagos lampejos
+d'aurora, as incertas claridades d'um crepusculo. Acreditei nas tuas palavras,
+e logo senti quente o sangue que se me gelava nas veias, e o coração inquieto,
+na desenvoltura d'um passaro que apanha a gaiola aberta, pulsar com<span
+class="pn">{132}</span> força desusada, no alvoroço d'uma alegria doida.</p>
+
+<p>&mdash;Tontinho!</p>
+
+<p>&mdash;Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias de matar-me primeiro,
+desembaraçando-me d'uma vida inutil, tragica na sua dôr recalcada, e ao mesmo
+tempo burlesca na sua dedicação humilde, nem espirrando como a lama quando a
+pisam na rua.</p>
+
+<p>&mdash;Tontinho!</p>
+
+<p>Dentro do caramanchão, ao fundo do jardim, a luz branca da lua era baça,
+como a flor da magnolia, e discreta como uma tia velha, ou uma <em>bonne</em>
+suissa. Mal se ouvia o ramalhar das folhas, como um cicio brando e perfumado,
+quando a brisa passava, na leveza imperceptivel d'uma borboleta branca, que
+fosse a alma errante d'uma creancinha tisica.</p>
+
+<p>Colleante, os braços nús, humedecendo os labios sêccos da febre em que toda
+ella ardia, mergulhou nos seus olhos castanhos os seus grandes olhos negros, e
+foi como se aquellas almas se fundissem, enlaçados aquelles corpos no contacto
+mais affectuoso e mais intimo. Não teriam ouvido o ramalhar das folhas, ainda
+que por alli tivesse passado algum cyclone devastador, tudo arrasando no seu
+caminho...</p>
+
+<p>Tontinhos!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Mezes volvidos, tendo regressado sem se fazer<span class="pn">{133}</span>
+annunciar, mal saccudido o pó da viagem, sentiu necessidade de ir reviver todas
+as venturas passadas no logar onde as fruira.</p>
+
+<p>Era uma noite de luar escasso, e tão froixamente passava a brisa, que as
+folhas não boliam nas arvores, e uma borboleta, que alli abrisse as azas, faria
+um grande ruido. Approximou-se do caramanchão, pé ante pé, como se tivesse medo
+que acordassem todos aquelles vegetaes adormecidos, e entrassem a gritar por
+soccorro, tomando-o por um ladrão ou um assassino.</p>
+
+<p>Lá dentro no caramanchão, a luz da lua era baça como a flor da magnolia, e
+discreta como uma velha tia, ou uma <em>bonne</em> suissa. Pareceu-lhe que
+alguem falava, muito perto d'alli, e como se approximasse mais e mais,
+cautelosamente, quasi sem pisar o chão, não fosse denuncial-o o ruido d'alguma
+folha sêcca, subitamente, como se fossem gotas de chumbo fundente que lhe
+instillassem nos ouvidos:</p>
+
+<p>&mdash;Imaginas então que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos, sem a
+loucura das tuas caricias! Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias
+de matar-me primeiro, desembaraçando-me d'uma vida inutil.</p>
+
+<p>&mdash;Tontinho!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Quando saiu, a correr como um ladrão perseguido, ou como um doido que se
+escapa, nem pensou no escandalo que causaria a sua presença alli<span
+class="pn">{134}</span> já noite velha, se o jardineiro o visse. E era tão
+grande a sua perturbação, quasi a raiar pela loucura, que parou junto á porta,
+deante d'um molho de cactos, a insultal-os, parecendo-lhe que eram creaturas
+maldosas, chasqueando do seu ludibrio, em grandes risadas vermelhas.</p>
+
+<p>Coitadinho!<span class="pn">{135}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Os milagres não se discutem&mdash;ou se negam ou se acceitam.</em></p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Chegou á porta da Egreja no momento preciso em que o sacristão, com o chapeo
+debaixo do braço, se preparava para a fechar.</p>
+
+<p>Levava na mão uma almotolia d'azeite, obra d'uma canada, e explicou que
+fizera aquella promessa á senhora Santa Luzia, da sua particular devoção, no
+anno passado, quando estivera mal dos olhos. Deixára um homem fazendo a sua
+obrigação, pagando-lhe meio dia, e, como a jornada era comprida, não pudera
+chegar mais cedo. Seria um grande transtorno ter de voltar, e só muito tarde
+poderia fazel-o, porque o patrão já lhe dissera que iria para as herdades do
+Sado, e era natural que por lá se conservasse até ao fim da temporada. De
+resto, poucos minutos lhe chegavam para cumprir a sua promessa, e como ha viver
+e morrer, não queria ser chamado á presença do Senhor sem se pôr em contas
+direitas com os<span class="pn">{136}</span> santinhos. Ainda no domingo
+passado tinha ido levar um alqueire de trigo a Santo Antonio; por causa de um
+atalho de cabras que se tinha sumido, e que elle receava que fosse parar á
+bocca dos lobos. Felizmente que nem só uma cabeça se perdera, e isso fôra sem
+duvida um milagre do santo, que os lobos, na charneca onde andam, são tantos
+como as mães.</p>
+
+<p>Tanta piedade commoveu o sacristão, aliás d'uma crença muito precaria, como
+quasi toda a gente que vive muito no gremio da Egreja. Dentro em nada era sol
+posto, e elle tinha de ir á villa comprar mantimentos e dar informações da
+mulher, havia duas semanas de cama. Disse-lhe que fosse rezar as suas orações
+no altar da Santa, e que despejasse a almotolia no potezinho de lata, com tampa
+de madeira, que estava na sacristia, logo á entrada, lado direito, e que servia
+só para recolher o azeite das promessas, geralmente improprio para as comidas.
+Que em saindo fechasse bem a porta, e entregasse a chave á rapariguinha que lá
+tinha em casa, para acompanhar a doente, quando elle precisava sair.</p>
+
+<p>No dia seguinte, pela manhã, quando foi preparar a egreja para a missa do
+domingo, notou que a Senhora Santa Luzia não tinha o cordão e os brincos que
+lhe tinha offerecido um brasileiro, tambem doente dos olhos&mdash;o cordão por ella
+o ter livrado do mal, e os brincos por o ter livrado dos especialistas.<span
+class="pn">{137}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Foi aquelle grandissimo ladrão!</p>
+
+<p>Posta a policia em campo, d'ahi a pouco estava preso o indigitado gatuno,
+que o sacristão reconheceu mal o viu.</p>
+
+<p>Não negou estar na posse dos objectos que se dizia terem sido roubados, mas
+jurou pela salvação da sua alma que tal roubo não commettêra. E que só falaria
+na presença do sr. prior, que era um homem de muita santidade, e d'uma grande
+sabedoria. Sem saber do que se tratava, acompanhado do official de diligencias,
+foi o prior a casa do juiz. Então o homemzinho explicou:&mdash;A Senhora, mal eu
+acabei as minhas rezas, entrou a olhar-me com muita compaixão. Contei-lhe todas
+as miserias da minha vida, e disse-lhe como aquelle azeite que alli levava para
+a sua lampada, fôra tirado á bocca dos meus filhos. Quando acabei, subi os tres
+degraus do altar para lhe beijar a barra do vestido. Então a Senhora, tirando o
+cordão que tinha ao pescoço, e os brincos que tinha ás orelhas, entregou-m'os
+com as suas bemditas mãos, dizendo que a ella não lhe faziam falta aquellas
+coisas, e que eu podia, com o dinheiro que ellas me rendessem, comprar o pão e
+o fato para os meus filhos. Observei-lhe que poderiam tomar-me por ladrão,
+vendo-me na posse de taes objectos, e isso seria a minha desgraça e a minha
+vergonha. Vae então a Senhora respondeu-me:</p>
+
+<p>&mdash;Se duvidarem da tua innocencia, invoca a autoridade do prior. Elle é um
+crente sincero, e<span class="pn">{138}</span> quando toda a gente negasse o
+milagre, elle o affirmaria como possivel.</p>
+
+<p>Na verdade o prior affirmou a possibilidade do milagre, e como não fosse
+possivel demonstrar que elle não se realizára, foi mandado o homem em paz, com
+os brincos e o cordão.</p>
+
+<p>Dizia então o sacrista, vendo partir o penitente:</p>
+
+<p>&mdash;Grandissimo ladrão!</p>
+
+<p>E olhando compassivamente o prior, n'um murmurio, por entre os dentes:</p>
+
+<p>&mdash;Reverendissimo burro!<span class="pn">{139}</span> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+<hr style="width: 40%;">
+
+<blockquote>
+ <p><em>Saudade! gôsto amargo de infelizes...</em></p>
+
+ <p style="margin-left:2em;">(Garrett).</p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Fizeste bem em vir...</p>
+
+<p>Cançou de dizer estas palavras, e espalmando a mão no peito, ainda não havia
+muito opulento e agora mirrado, absorveu o ar com muita força, a bocca
+largamente aberta, como se lhe parára o coração no supremo esforço de fazer
+girar mais uma onda, talvez a ultima, de sangue arterializado.</p>
+
+<p>&mdash;Se soubesses como eu soffro... Brancos e delgados, muito delgados e muito
+brancos, os seus labios eram duas folhas sêccas, muito ricas de nervuras, frias
+como a neve dos polos. Eram botões de fogo, n'outro tempo, os seus beijos, que
+só por milagre não queimavam.</p>
+
+<p>&mdash;Havias de querer-me muito, se soubesses como eu soffro...</p>
+
+<p>Via-se bem que soffria immenso, a febre a queimar-lhe os pulmões, um suor
+frio e viscoso a babar-lhe a pelle, e um torniquete de ferro a apertar-lhe<span
+class="pn">{140}</span> o tronco, inexoravelmente, como n'um carcere da
+Inquisição. </p>
+
+<p>&mdash;Havias de querer-me muito se soubesses como eu soffro; mas, havias de
+querer-me ainda mais, se soubesses como eu te amo...</p>
+
+<p>Na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica, os seus grandes olhos
+negros, muito encovados, guardavam tudo o que lhe restava de vida, um sopro
+apenas de vida, que era um bafejo da morte. Parecia-me ás vezes, quando se
+fechavam, que não tornariam a abrir-se, e punha-me então a espreitar, na
+translucidez das suas palpebras, o momento preciso em que se apagassem.</p>
+
+<p>&mdash;Custa tanto morrer, sabes?...</p>
+
+<p>Sentou-se no leito, a muito custo, e levando as mãos á cabeça, sem dizer
+nada, poz-se a desmanchar o cabello. Um ou outro fio de prata, muito raro,
+manchava as suas tranças d'ebano, que lhe desciam quasi aos calcanhares quando
+as deixava cahir pelas costas.</p>
+
+<p>&mdash;Vê como se envelhece depressa...</p>
+
+<p>Fez dois mólhos do cabello, e tomando um em cada mão, emmoldurou com elles o
+rosto, muito magro, d'uma pallidez cadaverica.</p>
+
+<p>&mdash;Lembras-te?...</p>
+
+<p>Pelos seus labios brancos e delgados, muito delgados e muito brancos,
+perpassou um sorriso leve de creança adormecida, e nos seus olhos negros, muito
+encovados, brilhou mais intensa aquella lucilação, que era tudo o que lhe
+restava de vida&mdash;um<span class="pn">{141}</span> sopro apenas de vida, que era
+um bafejo da morte... </p>
+
+<p>&mdash;Doidos que nós eramos!..</p>
+
+<p>Revivi n'um minuto todo o poema do nosso amor, as loucuras d'um amor
+prohibido, a que não tinha faltado a dôr cruciante das paixões extremas, para
+dar ao goso uma intensidade quasi infinita. Instinctivamente, como n'outro
+tempo, collei os meus labios aos seus, e nem percebi que estavam gelados,
+folhas sêccas muito ricas de nervuras, frias como a neve dos polos.</p>
+
+<p>Durou o sonho toda a eternidade d'um segundo, talvez menos ainda. Mal
+acordei, attentando na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica; vendo
+fechados os seus grandes olhos negros, já sem brilho na translucidez das
+palpebras enrugadas, tive a impressão de me encontrar dentro d'um jazigo, para
+violar uma morta.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Ao de Leve, by Manuel de Brito Camacho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AO DE LEVE ***
+
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+Produced by Pedro Saborano
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+works. See paragraph 1.E below.
+
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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