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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:02:46 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Ao de Leve + +Author: Manuel de Brito Camacho + +Release Date: January 15, 2011 [EBook #34963] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AO DE LEVE *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + +AO DE LEVE + + + + + _Composto e impresso na Imprensa_ + _de Manuel Lucas Torres_ + _Rua do Diario de Noticias, 93_ + + + + +BRITO CAMACHO + + +_Ao de leve_ + + + + +1913 +Livraria Editora +GUIMARÃES & C.ª +68, Rua do Mundo, 70 +LISBOA + + + + * * * * * + + _O estudante que hontem, no Rocio, foi attingido por uma bala na + cabeça, já falleceu._ + + (Dos jornaes). + + +Como não havia de adoral-o, se era seu filho unico! + +Para mais, elle era o retrato vivo do pae, com todas as qualidades e +todos os defeitos--se um filho póde ter defeitos para a mãe que o +estremece! + +Ficára com elle nos braços, viuva pela maior das fatalidades, quando +ainda não tinham seccado de todo as flores de laranjeira que lhe tinham +posto no cabello no dia do seu casamento, e nas suas faces havia ainda +um pouco do rubor intenso com que as haviam tingido os beijos loucos que +elle lhe dera, já seu marido, ao voltarem da Egreja. + +Annos e annos chorára a sua viuvez, e mesmo quando o filho lhe extendia +os bracitos gordos, muito risonho, as suas lagrimas não estancavam. Mas +o sau pranto já não era só de dor; a desgraça ainda lhe escaldava a +garganta com soluços que lhe vinham do coração, mas já lhe nimbava a +alma a promessa d'uma felicidade remota. No filho via o marido--era como +se dentro de um tumulo assistisse ao esplendor d'uma aurora. + +Se não havia de adoral-o, a pobre mãe! + +Quando elle lhe saiu de casa para continuar os estudos, pareceu-lhe que +ficava viuva pela segunda vez. As suas cartas mitigariam a sua saudade, +e ella havia de lel-as com tamanha devoção, evocal-o com tanto amor, que +a leitura seria afinal uma conversa entre ambos, elle a enxugar-lhe os +olhos com beijos, e ella a lavar-lhe as faces com lagrimas. + +Já então elle era quasi um homem, alto e desempenado, uma pennugem leve +prenunciando um bigode negro, que seria talvez farto e provocador como o +do pae. Muito estudioso, e, ao mesmo tempo, muito intelligente, contava +as distincções pelos exames, nunca se rebaixando a esmolar uma +protecção, mantendo sempre perante os mestres uma attitude que, nem por +ser respeitosa, deixava de ser altiva. Ainda n'isso elle era como o pae, +orgulhoso sem presumpção, delicado sem maneirismos, altivo sem arrogancias. + +Como não havia de adoral-o! + +Surprehendia-se a fazer projectos de vida em commum, quando elle +acabasse os estudos, e fosse, para aqui ou para além, exercer a sua +profissão. Já a deixariam livre os negocios da sua casa, que a retinham +agora separada d'elle, a contar o tempo pelo seu amor, e a achar os +mezes infinitamente mais compridos do que dizem os kalendarios. + +Talvez elle um dia casasse; mas nem assim o deixaria, humilde na casa +alheia, fazendo-se util, sendo prestimosa, realizando quantos milagres +fossem precisos para se tornar indispensavel. Pois se elle era a unica +razão da sua vida, como poderia alguem roubar-lh'o sem ao mesmo tempo a +matar? + +Recebia as suas cartas em dias certos, e nunca elle deixára de lhe +escrever com a mais rigorosa pontualidade. Ás vezes eram apenas quatro +linhas, meia duzia de palavras que ella humedecia com os olhos, para as +enxugar com os labios. + +Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico, +para mais o retrato vivo do pae, com todas as suas qualidades e +defeitos--defeitos que para ella eram qualidades! + +Ora succedeu que n'aquelle dia, estando como de costume á espera do +carteiro, viu que elle passava pela sua porta, sem entrar. Era lá +possivel não ter carta? Provavelmente confundira-a no maço, e só daria +por ella finda a distribuição. Viria então entregar-lh'a. + +Passou uma hora, passaram duas horas, passou uma eternidade, e o +carteiro não voltou. + +Estaria doente? Ter-lhe-ia acontecido alguma desgraça? + +Distrahidamente, quasi sem intenção, pega n'um jornal. O coração deu-lhe +um salto dentro do peito, como se a um leão dentro de uma jaula lhe +enterrassem nas carnes uma choupa em braza. + +Houvera tiros, houvera espadeiradas, como n'uma batalha. Do campo tinham +retirado muitos feridos, tendo lá ficado alguns mortos. + +Foi lendo, lendo tudo, devorando as columnas do jornal, á procura d'um +nome, na ancia d'um condemnado á pena ultima, que um indulto póde salvar. + +Esse nome lá estava. Ferido com uma bala na cabeça, fôra levado ao +hospital, onde os medicos verificaram o obito. + +Não chorou, não soluçou, não gemeu, anniquilada por completo. + +Quando voltou á consciencia da realidade, ainda tinha nas mãos o jornal. + +Serena e tragica, como se debruçada sobre uma sepultura visse lá dentro +o proprio coração; tragica e dolorida como se lhe pezasse n'alma todo o +soffrimento humano; morta para o amor, abrazada em odio: + +--Mataram o meu pobre filho! Maldito seja para sempre, na sua +descendencia, o miseravel assassino! + +Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico! + + + + + * * * * * + + _Se fores um dia ao mar,_ + _Que a fortuna te não deixe;_ + _Bota a rede e vae-te embora,_ + _--Quanto mais burro mais peixe._ + + +Fôra creado de medico, e como a Natureza o dotára com bastante +intelligencia e um notavel espirito de observação, aprendeu mil coisas +com o doutor, a ponto de se julgar apto a fazer o que elle fazia. Depois +chocava-o aquella subalternidade de moço de consultorio, as pessoas que +entravam nem reparando n'elle, e algumas que n'elle reparavam tratando-o +sem cortesia. Farto d'aquelle viver, reconhecendo-se talhado para mais +altos destinos, um dia pediu contas ao patrão, e abalou sem dizer para +onde. + +Mezes passados, enchia a cidade a fama de um doutor novo, que fazia +verdadeiros milagres, havendo quem affiançasse que dera vista... a uns +poucos de aleijados, e cegára uma meia duzia de coxos. Por acaso o +doutor topou o milagrante collega na rua, e reconheceu n'elle o seu +velho creado, muito correcto, muito bem posto, tal qual um intrujão com +diploma. Ao outro dia, era um domingo, foi procural-o ao consultorio, +curioso de saber como aquillo era feito. No largo, junto ao adro da +Egreja, havia uma extraordinaria multidão. + +--Quantas pessoas calcula o dr. que estejam além? + +--Uns milhares. + +--E quantas d'essas lhe parece que serão intelligentes? + +--Algumas duzias. + +--Pois essas formam a sua clientella; o resto pertence-me. + +Vinha isto a proposito... a proposito... Ah! sim; a proposito da tiragem +do jornal, que o administrador acha pequena. + + + + + * * * * * + + _A necessidade de equilibrar o orçamento póde obrigar o governo a + impôr sacrificios aos funccionarios._ + + (Dos jornaes). + + +Era manso como um cordeiro, e leal como um velho amigo. + +O general montava raras vezes; mas ia todos os dias visitar o seu +_Turco_, limpar-lhe a mangedoira, pentear-lhe a crina, passar-lhe a mão +pelo lombo, n'uma caricia que o animal agradecia, olhando-o com ternura. + +Ás vezes, a caminho do tanque, encabritava-se com o impedido, dando +saltos, como se quizesse fugir pelos campos fóra, no goso d'uma +liberdade que não conhecia, mas que adivinhava. + +Lá em baixo, na varzea, as eguas pastavam tranquillamente; e os poldros, +virgens de toda a domesticidade, pulavam como cabritos, mettendo a +cabeça entre as mãos, e logo desatando n'uma correria doida, bebendo os +ventos, o pescoço muito extendido, o focinho alto, as narinas muito +abertas, respirando com estrondo. E era então que elle se encabritava +com o impedido, firmando-se nas patas trazeiras, dando grandes sacões +inuteis, porque a arreata era firme, e a mão que a segurava era forte. + +Que bom devia ser a liberdade! + +Por certo o tratavam bem; mas aborrecia-lhe aquella vida ociosa do +quartel, todos os dias a mesma coisa--comendo e bebendo por toques de +clarim, n'um automatismo de machina, com uma regularidade pendular. Mas +era manso como um cordeiro, leal como um velho amigo,--uma creança faria +d'elle o que quizesse. Ora succedeu que um dia foram dizer ao general +que o seu _Turco_ tinha rebentado o impedido com uma parelha de coices. +Não acreditou, mas entrando na cavallariça, viu o pobre diabo extendido, +soffrendo horrivelmente. + +--Tu que fizeste ao cavallo! + +--Nada, meu general. + +--É mentira. Eu conheço-o muito bem. Que lhe fizeste? + +--Saberá V. Ex.ª que elle estava a comer a ração, e vou eu, por +brincadeira, mexi-lhe na barriga. + +--Pois ahi está. Não se mexe na barriga de quem come. + +Era um grande philosopho, o general. + + + + + * * * * * + + _Uma sogra nem de barro á porta._ + + +Andava elle pelo Algarve a tratar de negocios, quando o chamaram a +Lisboa, por telegramma, com a maxima urgencia. Não lhe diziam do que se +tratava; mas, como era o medico quem lhe telegraphava, ficou n'um susto +de morte, calculando que ou a mulher ou o filho se encontrasse +gravemente doente. Pouco habituado a ser feliz, imaginou logo o peor. + +O primeiro comboio partia d'alli a doze horas e, como ainda pudesse +servir-se do telegrapho, correu a pedir informações. Disseram-lhe que +era a sogra que adoecera no mesmo dia em que elle deixára Lisboa, e que +a doença se aggravava de momento para momento, receando-se um desenlace +fatal. N'um grande ah! de allivio e satisfação, como precisava de +assignar uma escriptura dahi a tres dias, foi-se deixando ficar, pedindo +que o informassem, por via telegraphica e postal, dos progressos da doença. + +Receava elle, pouco habituado a ser feliz, que a doença não fosse em +progresso, e por isso queria receber noticias amiudadas, se fosse +possivel a toda a hora. A doente peorava a olhos vistos, e dizia o +medico que a pneumonia degenerava em typho, sendo possivel que houvesse +meningite á mistura. Elle tinha uma enorme confiança no doutor, que já +lhe assistira á morte de toda a familia, e a quem elle conservára o +partido, não para o tratar a elle, á mulher ou ao filho, mas tão sómente +para a sogra. Rematados os seus negocios, metteu-se no primeiro comboio, +com o coração aos baques, como quem aguarda uma sentença. Descia o +medico a escada, quando elle a subia esbodegado, e com bagas de suor +perlando-lhe a vasta fronte. + +--... Vi-a morta, meu caro amigo. Lancei mão de todos os soccorros, e +posso dar-lhe a boa nova de que passou todo o perigo. A crise fez-se +hoje mesmo, e agora é só questão de tempo. + +Subiu o resto das escadas a cambalear, como um ebrio, e atirando-se para +cima do sophá que havia na sala de entrada, n'um abandono de quem se vê +irremediavelmente ludibriado: + +--E eu que tinha tanta confiança n'esta besta do doutor!... + + + + + * * * * * + + _A policia, ajudada pela guarda municipal, fartou-se de espancar os + cidadãos pacificos, realizando muitas prisões._ + + (Dos jornaes). + + +A estrada, larga e poeirenta, passava junto á porta sempre aberta do +jardim, marginada de choupos e eucalyptos. + +Toda a gente das aldeias proximas por alli fazia caminho, no giro da +vida ordinaria, homens, mulheres e creanças, alguns descalços, e outros +rotos, a maior parte sem pau nem pedra, gente pacifica como bois de +trabalho, muito pacifica e muito humilde. + +Aos domingos, nos dias santos, quando havia festa n'alguma egreja do +sitio, por alli passavam ranchos de moças garridas, em cabello, cantando +e rindo, cada qual pelo braço do seu namorado, parando aqui e além, aos +abraços e beijos, como numa kermesse flamenga. + +Pois era n'esses dias que o Pandorga, locatario do jardim, quasi +escondido por detraz de uma parede de buxo, atirava os cães para a +estrada, açulando-os ás canelas de quem passava. _Csi, csi_, e +arregalava o olho, guardado no seu esconderijo, rindo muito, sem fazer +barulho, quando os cães rasgavam as saias das raparigas ou as calças dos +homens, e muito mais quando lhe appareciam de rojo, após a lucta, +levando ainda nos dentes boccados de carne em sangue. + +Ora succedeu que um dia havia festa alli perto; como o Pandorga açulasse +os cães--_csi, csi_--contra um bando alegre de camponezes, rapazes e +raparigas que iam passando a cantar, pacificos como bois de trabalho, +ouviu-se um estalo sêcco, como um rebentar de escorva, e o baque d'um +corpo que cae, lá adeante, por detraz da parede de buxo. Soube-se depois +que tinha morrido o Pandorga, e os cães nunca mais assaltaram as gentes +que passavam pela estrada, larga e poeirenta, e de quando em quando +paravam, abraçando-se e beijando-se, como n'uma kermesse de Rubens. + + + + + * * * * * + + _Hontem, na praça de touros, houve uma ligeira manifestação de + desagrado á Familia Real. O rei não assistia ao espectaculo._ + + (Dos jornaes). + + +Falava-se muito das suas valentias, embora ninguem citasse d'elle uma +façanha authentica, com testemunhas de vista. Era volumoso, e d'ahi +concluiam que era forte; era gabarola; muita gente acreditava que elle +tivesse nos musculos tanta força como na lingua. Contava elle que d'uma +vez matára um boi com um sôco, e n'um dia em que passava rente a um +acampamento de ciganos, armados de cacetes e espingardas, como +percebesse que lhe faziam troça, desatou aos pontapés a toda aquella +malta, pregando com o mais atrevido no alto d'uma azinheira que estava +longe d'alli uns poucos de metros. + +Os que melhor o conheciam, mofavam das suas farroncas; mas não faltava +quem acreditasse nas proezas de Ferrabraz, intrepido até ao sacrificio +da vida, sem lhe bulir um cabello. Ora succedeu que um dia, vindo com a +familia a caminho do arraial, n'uma aldeia da visinhança, alguem o +preveniu de que se preparava uma emboscada, lá adeante, n'um cotovêlo da +estrada antes de chegar á ribeira. E vae elle então, muito volumoso, +pallido como se todo o sangue lhe refluisse ao coração, os cabellos em +pé, como se visse deante de si a guela escancarada d'um leão com fome, +apalpa-se como quem procura alguma coisa, e batendo no hombro da +companheira: + +--Vão lá andando, vão lá andando, que eu não me demoro; esqueceram-me os +charutos. + +Não voltou, está bem de ver, e no outro dia, quando lhe contaram o +succedido, ameaçou o céu e a terra, espumando como um javali ferido. + +--Se lá estivesse, rachava-os. + +E pregou tamanho murro no cinzeiro de barro, que o fez em boccadinhos. + + + + + * * * * * + + _Hontem o sr. Marquez de Soveral teve com El-Rei uma conferencia de + duas horas._ + + (Dos jornaes). + + +--Franqueza, franquezinha, ó coiso, essa historia da intervenção... + +--Era pela certa. Hoje a politica é só de interesses, quem governa é a +finança. + +--Bem sei, governa a finança; mas olha que isso de intervir sem mais nem +menos em negocios por assim dizer caseiros... + +--Peço perdão; mas não se trata d'um negocio caseiro, nem mesmo d'um +negocio exclusivamente nacional. + +--Hom'essa! Queres então dizer... + +--Quero dizer que em torno d'este negocio se formou uma atmosphera de +interesses internacionaes... + +--Olha que não tens publico, e essas lerias, cá para mim... + +--Cumpro o dever que me impõe a minha posição, e testemunho assim, +dizendo a verdade inteira, sem restricções, a minha sympathia pessoal... + +--Sim, senhor, és um artista. Vocês, os diplomatas, são como os homens +de theatro--mesmo quando estão fóra do palco, representam. + +--Julgava-me com direito a maior consideração da parte... + +--Tambem eu julgava que me tivesses na conta de menos tolo. Não me +conheces d'hoje nem d'hontem, para saberes que ninguem me faz o ninho +atraz da orelha. + +--O que? Pois... + +--Qual historia!... Acreditei todas as lerias que me impingiste, com uma +seriedade á altura das tuas prosapias... + +--Não o fiz por menos respeito; o uso das formulas... + +--É como o uso do cachimbo--faz a bocca torta. Sempre me sahiste um +gajo!... + +--Espero que não fique zangado... + +--Peior... Essa agora não é de diplomata, é d'alarve. + +--Sempre amavel!... + +--Sempre justo. Mas falando agora de coisas serias. Tu achas que eu devo... + +--Ora essa! Está claro que deve. Da fama ninguem o livra, e as honras +sem proveito... + +--E quanto achas tu... + +--Em negocio de tanta monta, nunca se pede de mais. + +--Pois sim, tudo tem limites. Ahi uns duzentos contitos, mais vintem, +menos vintem... Que te parece? + +--Parece-me que, pedindo essa bagatela, dá provas d'uma grande +generosidade. + +--Bem se vê que não és tu quem tem de esportular as massas. Pois está +dito; faço a coisa pelos duzentos. + +--É como se lhes désse a elles trezentos e vinte, o que não é barro. + +--Quero ser generoso... + +--Do pão do nosso compadre... + +--Pois sim, canta-lhe d'essas; mas se as coisas se complicam e me põem a +viola... + +--Qual põem! Chego ás vezes a imaginar que tem medo. + +--Tu não me digas isso outra vez, olha que te ponho os queixos á banda. +Eu nunca tive medo. Já d'uma vez, n'uma feira, se ergueu tudo contra +mim, sem saber quem eu era, e não arredei pé, de cacete em punho, sem +ninguem pelo meu lado. + +--Bem sei, bem sei; mas se amanhã houvesse qualquer coisa, em menos de +nada estavam alli os cavalinhos de pau, e tudo entraria na ordem. + +--E se me puzessem a andar antes d'elles cá chegarem? + +--Isso então era o diabo. Uma intervenção tardia, depois do facto +consumado... Mas é absurdo o suppôr... + +--Será absurdo, será; mas, pelo sim pelo não, vou dobrar a parada. Os +gajos repontarão? + +--Que tem lá que repontem?... + +--Está claro. Isto é como dizia o de Braga--ou comem todos, ou ha-de +haver moralidade. + + + + + * * * * * + + _S. M. a Rainha, acompanhada da sua dama de serviço, andou hontem + distribuindo esmolas no bairro de Alfama, sem se dar a conhecer._ + + (Dos jornaes). + + +Não queria que a conhecessem. + +Abalava de casa, vestida como toda a gente, sem nada que pudesse chamar +as attenções de quem quer que fosse. Era uma creatura como qualquer +outra, e passava, como qualquer outra, no meio da geral indifferença. Os +que a conheciam cumprimentavam-na--bons dias, minha senhora!--e os que a +não conheciam nem sequer davam por ella. O passo meudinho, muito +apressado, como quem marcha para um certo fito, sem se importar com o +resto. Entrava aqui, entrava além, fazia o bem que podia, e nem esperava +que lhe agradecessem os miseraveis a quem extendia a mão, deixando cahir +uma esmola. Como não se sabia quem fosse, chamavam-lhe a _Caridade_. +Envelheceu muito, como toda a gente que teima em viver e morreu um dia, +encarquilhada e secca, como a maior parte das velhas. Era a _Caridade +Evangelica_. + +Tempos depois, nos mesmos bairros pobres entrou de apparecer uma +creatura exotica, dando nas vistas de toda a gente, obrigando a parar +quem passava, para a fixar com attenção. O passo largo, muito lento, +como quem não tem pressa, e que quer por força dar nas vistas. Entrava +aqui, entrava além, como quem passeia um reclame, e gostava que lhe +enchessem as mãos de lagrimas agradecidas os miseraveis a quem dava +esmola. Como não se sabia quem fosse, n'um dia que ella passava, o passo +largo, muito lento, quasi rythmico, dois miseraveis que a viam passar, +como quem passeia um reclame: + +--É a Dona Caridade? + +--Não; é a Exploração da Miseria. + + + + + * * * * * + + _O Principe Real faz immensos progressos nos seus estudos, causando + a admiração dos seus professores._ + + (Dos jornaes). + + +Era um prodigio, o garoto. + +Contava a parteira que elle olhára para traz, quando nasceu piscando um +pouco os olhitos ramellosos, como quem pretende ver melhor. Aos tres +mezes, já tocava com os deditos côr de rosa nos bicos, pouco salientes, +dos peitos da ama, pondo-os em erecção, para mammar melhor. Viam todos +que era um pequeno muito talentoso, e um boccadinho brejeirote. Aos +noves mezes dizia--bolas!--e foi essa a sua primeira palavra. Comia +de tudo, antes de fazer o anno, e larachava com os creados finos, +como se fosse uma pessoa grande. Era um prodigio, o demonio do garoto, +d'uma precocidade verdadeiramente excepcional. Um familiar da casa +perguntava d'uma vez ao medico, a proposito do fedelho--_Naturalmente, +um genio, doutor?_ E o doutor, encolhendo os hombros em ar de +duvida--_Naturalmente um idiota!_ + +Aos cinco annos já sabia tudo--quantas pernas tem um cão, quantas +orelhas tem um burro, quantos rabos tem um gato. Era prodigioso, e cada +dia que passava como que accrescia de muitos metros aquelle talento +incommensuravel. Aos nove annos era um geometra como Euclides, era um +historiador como Tacito, era um philosopho como Platão, era um pintor +como Raphael, era um poeta como Camões, um romancista como Balzac, um +cabo de guerra como Napoleão, um estadista como o sr. Lapin. A tal ponto +lhe cresceu o genio, que já não havia espaço para o conter, a dentro das +fronteiras nacionaes. + +Foi então que se reconheceu a necessidade de o mandar para longe, onde +fossem mais largos os horizontes, que os genios, como os gazes quando os +comprimem além d'um certo grau, são eminentemente explosivos. + +E porque era ainda muito novinho, sem experiencia do mundo, apezar do +seu immenso talento, foi a familia com elle, e por lá ficaram +todos--para bem de todos nós. + + + + + * * * * * + + _«É melhor tratar d'outro oficio. O jornal ha de morrer á falta de + leitores, porque você terá geito para tudo, menos para jornalista.»_ + + (Carta anonyma). + + +_Oh! la pauvre bête!..._ + +Era na verdade, um animal perfeito. De côr acastanhada, a anca alta, +largo dos peitos, uma estrella branca na testa, talvez demasiadamente +sellado, a perna delgada e nervosa, a cauda farta e comprida, era um +burro que fazia parar quem passava, admirando-o, e succedeu a mais de +uma beata, ferida de tamanha belleza e correcção, estacar no caminho das +suas devoções, e não poder reprimir nas arcas santas do peito esta +exclamação blasphema:--_Benza-o Deus, como é bonito!..._ + +Procopio então passava horas no enlevo do seu burro, afagando-lhe o +focinho e alisando-lhe o pello, não consentindo que sobre elle poisasse +uma mosca, ou lhe manchasse a pelle acastanhada um grãosinho de poeira. +Era uma especie de burrolatria, um culto religioso que lhe enchia a +alma, dando-lhe todas as satisfações espirituaes que resultam para um +crente da adoração do seu fetiche. E porque se lhe afigurasse que o +burro não era, como os outros burros, uma simples cavalgadura, desatou a +alimental-o com o melhor da sua mesa, dando todas as coisas boas e raras +que encontrava na sua despensa ou se confeccionavam na sua cozinha. Mas +nem o burro lhe pegava nos acepipes, nem ao menos se mostrava agradecido +aos seus disvelos e blandicias. Procopio lamentava-se da sua má sorte, +chorava a sua desdita, sempre amigo do seu burro, sempre idolatra do seu +idolo, sempre adorando o seu fetiche. E como quer que um dia, +desabafando n'um peito amigo, se queixasse da ingratidão dos burros, vae +o outro, grande philosopho, com larga experiencia da vida, aconselha-o +assim: + +--A culpa é tua, Procopio, e de mais ninguem. O burro não foi feito para +comer á tua mesa, como tu não foste feito para comer á mangedoura. +Queres vel-o gordo, alegre, contente, a lamber-te as mãos reconhecido? + +E como Procopio estendesse o pescoço, a beber-lhe as palavras. + +--Dá-lhe palha, Procopio amigo... + + + + + * * * * * + + _S. M. a Rainha visitou hontem o Hospital de S. José._ + + (Dos jornaes). + + +Estava perdida... + +Começava a soffrer do peito, havia annos, e como precisava de trabalhar +sempre, trabalhar sem descanço, para não vir a fome juntar-se á doença +encurtando-lhe a vida, o mal foi augmentando constantemente, aquelle +terreno sendo proprio para aquella vegetação, e as circumstancias +ajudando como n'um bom anno agricola. Que era uma constipação, tinha +dito o medico do monte-pio, n'uma visita em automovel, a trinta... réis +a consulta. O certo é que as dores augmentavam-lhe, como se tivesse o +peito mettido n'uma prensa; a tosse era funda, como se lhe viesse do +mais intimo dos pulmões; manchas de febre punham-lhe nodoas vermelhas na +cera do rosto emmagrecido, e sentia o sangue subir-lhe á bocca, em +golfadas, que a muito custo reprimia. Despediram-n'a da fabrica, incapaz +de trabalhar, e como recuasse perante a morte, uma noite, a olhar as +aguas do rio, foi á consulta no hospital, e ficou na enfermaria. Estava +tisica. + +Ninguem a visitava, porque não tinha ninguem, e como fosse naturalmente +pouco communicativa, passava os dias e as noites a sentir-se morrer aos +boccados, amaldiçoando a sorte que a fizera pobre, e attribuindo á +miseria o descalabro da sua vida. Por maneira que naquelle dia, á hora +do silencio, quando acordou do seu alheiamento, e sentiu perto da sua +cama como um _frou-frou_ de sedas, muito pallida, muito magra, quasi +cadaverica, ergueu-se na cama como se a movesse uma mola, e fixando na +visitante os seus grandes olhos negros, disse-lhe como na vehemencia +d'um delirio: + +--Não é verdade, minha senhora, que a sociedade é infame quando a uns dá +o superfluo, sem dar a todos o que é preciso? + + + + + * * * * * + + _S. M. andou hontem pelos bairros pobres distribuindo esmolas no + mais rigoroso incognito._ + + (Dos jornaes). + + +Que frio cortante, meu Deus! + +O sol é como um brazeiro apagado, que ainda conservasse luz nas +cinzas--uma luz fria e baça. O vento retalha-nos a cara, e põe nas +pobres arvores sem folhas umas tremuras de velhinho, a esconder sob os +farrapos as carnes enregeladas. + +Que frio cortante. Deus do céu! + +A miseria é insupportavel no inverno, porque tudo se conjuga para lhe +dar uma agudeza de expiação, um requinte de pena biblica, sem laivos de +misericordia. Não ha fogo no lar, não ha pão no armario, não ha +cobertores no leito, ás vezes nem leito ha. + +Que frio cortante. Senhor! + +E é então que a Opulencia desce ao antro onde agoniza o miseravel, +pondo-lhe na mão ressequida o quanto baste para illudir a fome. + +Mas porque haverá no mundo esta tremenda desegualdade, se lá nos altos +céus existe uma justiça absoluta, e se existe cá em baixo uma vulgar +noção do que seja a equidade? + +Que frio cortante, meu Deus! + +Dá vontade de morrer, para fugir d'este inferno, e ao mesmo tempo dá +vontade de accender uma grande fogueira, a que se aqueçam todos os +desgraçados. + +Se os poderosos soubessem como se soffre no inverno! Ou não tirariam +nada aos pobres, ou lhes restituiriam quanto lhes tiram, n'um desejo +sincero e grande de fazer obra meritoria. + +Mas elles nem sonham, meu Deus! como é horrivel a miseria no inverno. + + + + + * * * * * + + _SS. MM. foram muito acclamadas na estação do Rocio._ + + (Dos jornaes). + + +--Peço desculpa a V.ª Ex.ª mas como tenho umas continhas... + +--Pois sim; mas eu já lhe disse que antes do fim do mez não posso +pagar-lhe. + +--É verdade que disse; mas como V. Ex.ª agora tem dinheiro... + +--Qual dinheiro, nem qual carapuça! O sr. imagina que me morreu algum +tio no Brazil, que apanhei a sorte grande, ou que levei alguma banca á +gloria? + +--Não senhor; não imagino nada d'isso. Mas como V. Ex.ª foi encarregado +do vivorio, acho que pode muito bem regular já as nossas contas, para eu +me não ver envergonhado com os meus credores. + +--O sr. está doido, com certeza! Imagina talvez que se paga aquelle +serviço á larga, pelo menos com certa generosidade, como seria justo que +se fizesse?... + +--Como isso é feito, não sei eu; o que eu sei é que ao pé de mim estava +um sujeito todo bem posto, de cartola, que deu apenas dois vivas, e +abalou muito risonho esfregando as mãos, e a dizer para o +companheiro:--_já cá cantam dois mil réis_. E toda a gente dizia por +alli que V. Ex.ª tinha recebido um conto e duzentos mil réis para +dirigir aquella manobra. + +--Sim, senhor, para dirigir aquella manobra... e para pagar áquella +gente. Imagina que se dão vivas de graça? Pois engana-se redondamente. +Quem menos ganha, é quem mais grita, e ha menino que recebe as massas e +fica mudo como um peixe. + +--Mas V. Ex.ª bem vê que eu já tenho esperado muito, e, se o importuno +agora, é porque me parece a occasião favoravel. + +--Desfavoravel, é que ella é. Em primeiro logar, eu ainda não recebi a +téca; depois tenho que pagar á minha gente melhor que das outras vezes, +porque elles estavam falados para não se prestarem á coisa. Isto, meu +amigo, foi chão que deu vinha. N'outro tempo, um diabo que enrouquecia a +dar vivas, contentava-se com dois tostões, doze vintens, e ás vezes com +um simples habito de Christo, ou uma commenda da Conceição. Vão lá agora +acenar-lhes com isso, a vêr quantos lhe pegam!... + +--De maneira que... + +--De maneira que o amigo terá de esperar mais algum tempo, e como +realmente eu lhe sou grato, não quero que perca o freguez, tanto mais +que o senhor trabalha bem. Lá me tem ámanhã, a escolher a fatiota da +estação. + +--Que pagará... + +--Quando houver outra manifestação espontanea. + +Resmungava o alfaiate, descendo a escada--Que grande pulha! + +Dizia o vivographo, fechando a porta--Que grande idiota! + + + + + * * * * * + + _Hontem a sessão teve de ser interrompida na Camara dos Deputados, + por causa do chinfrim. O sr. José Luciano mostrou-se satisfeito._ + + (Dos jornaes). + + +Durante muito tempo, por largos annos, o seu ar recolhido e severo deu a +muita gente a impressão d'um pensador, alheiando-se propositadamente do +mundo para melhor se engolfar nas suas cogitações. E porque nada +resultasse das suas locubrações d'espirito, assentou-se em que aquelle +vasio significava profundeza. Não era talvez um philosopho, mas era um +homem d'Estado. E assim foi trepando a escadaria ingreme da carreira +politica, sempre solemne, sempre severo, sempre recolhido, e sempre ôco. +Não havia duvida possivel--estava alli um prodigioso talento, uma +organização rara d'estadista, a que só faltava ter uma ideia e produzir +um facto. Senão quando, um irreverente que attentou n'aquella +austeridade de manequim, n'aquelle ar funebre de cypreste, n'aquella +fronte larga sem reverbero intellectual, um irreverente apontou-o á +multidão, e gritou-lhe nas bochechas--é fundamentalmente estupido! + +Por maneira que outro dia, apoz aquelle chinfrim no parlamento, quando o +presidente do conselho ria, como quem se banha em agua de rosas, e a +camara inteira se põe ao fresco, dominada pelo vago presentimento de que +fizera o jogo do governo, o pobre grande homem, antecipando a amargura +dos seus desastres, encostado á parede, como quem soffre uma vertigem, +deixou cahir dos labios murchos estas palavras desconsoladas--_Parece-me +que fiz asneira!_ + +E, pela primeira vez na vida, reconhecendo que fizera asneira, o grande +homem se mostrou intelligente. + + + + + * * * * * + + _A situação do rei é de cada vez mais grave. O unico remedio ainda + possivel é a abdicação._ + + (Nas entrelinhas dos jornaes). + + +Era uma conspirata. + +Reuniam-se todas as noites fóra de portas, em casa d'um tasqueiro de boa +reputação, homem de lettras gordas, mas de principios severos, incapaz +de faltar á sua palavra, preferindo mil vezes a morte a uma vilania. De +modo que para este não havia segredos, nem para a sua companheira, uma +velhota gordunchuda que teimára em não ter filhos depois de casada, +farta de os ter em solteira. Bem entendido, o tasqueiro não tomava parte +nas discussões; mas quando elle entrava com o peixe frito e a caneca, de +chinellas, com um lenço encarnado a chupar-lhe o suor da cachaceira, +ninguem recolhia a fala ao buxo, porque se sabia que elle era incapaz de +uma traição, ou mesmo d'uma imprudencia. + +Elle bem sabia do que se tratava; mas fingia não saber nada, +correspondendo, com extremos de correcção, á penhorante confiança que +tinham n'elle. Tratava-se de substituir um porco por um leitão, o que +tudo vinha a dar n'uma tremenda porcaria. Mas os conspiradores +mostravam-se encarniçados na sua ideia, crendo n'ella como nas pilulas +Pink, ou no xarope da mãe Seigel. A unanimidade não era completa, e como +uma noite resolvessem não sair d'alli sem assentarem em alguma coisa de +definitivo, um d'elles lembrou que se ouvisse a opinião do tasqueiro, +homem de lettras gordas, mas de principios severos, mais intelligente do +que seria preciso para exercer a sua profissão, e discreto como um +tumulo. Por maneira que quando elle entrou, o lenço encarnado a +chupar-lhe o suor do cachaço, a travessa do peixe frito na mão esquerda, +e na direita um formidavel cangirão, espumante de vinho verde, um dos +conspiradores poz-lhe nitidamente a questão, e pediu o seu parecer: + +--Eu cá, por mim, não entendo d'essas coisas; mas sempre ouvi dizer que +a racha sae ao madeiro, e meu avô, que andou nas guerras, e soffreu +primeiro por causa de D. Miguel, e soffreu depois por causa de D. Pedro, +costumava dizer á gente, quando se falava dessas coisas--creio que ha +uns reis peores do que outros; que haja melhores, não acredito. + + + + + * * * * * + + _Diz-se que a questão politica vae ser tratada no Parlamento com + violencia, não se poupando ataques ao Chefe de Estado._ + + (Dos jornaes). + + +Se tivesse echo!... + +Era positivamente uma obsessão; mas queria por força uma quinta que +tivesse echo, e não se importava pagar esse capricho a peso de dinheiro. +Deixára a Patria muito novo, e no Brasil, á força de trabalho e +economia, a sorte ajudando um pouco, conseguira fazer fortuna. Todas as +noites, ao fechar da loja, consultava o livro de _razão_, e como visse +que os negocios lhe corriam bem, ganhando sempre, tomava o chásinho com +torradas, entretinha-se um pouco com os garotos, e ia metter-se na cama +tranquillo e satisfeito, como um patriarcha biblico. Sonhava então com a +sua aldeia; via-se outra vez no modesto casinhoto em que nascera; +encontrava-se de novo com os rapazes da sua geração, e abalavam todos de +restolhada, a caçar os ninhos ou a roubar amoras, este sem chapéu, +aquelle sem jaqueta, e todos não lhe pesando o pé uma onça, quando o +vinheiro se apercebia do grupo, e fazia estalar a funda ou rebentar uma +escorva, no momento em que estes saltavam o vallado, para colherem uvas. +O que fazia o principal encanto de seus sonhos, era a conversa com o +echo, um echo muito perfeito que havia perto da aldeia, no sitio chamado +das Antas. Já accordado, ainda lhe parecia que tinha realmente ouvido o +echo--_quem está lá!_--e fechava os olhos, n'um esforço enorme de +concentração, parecendo-lhe que talvez assim o ouvisse ainda. E então, +principiava a obsedial-o aquella ideia do echo, que já ouvia mesmo +acordado--_quem está lá!_--victima d'uma allucinação do ouvido. Por +maneira que passados annos, voltando á sua terra, deitou-se a procurar +uma quinta que tivesse _echo_, não se importando pagar o seu capricho a +peso de dinheiro. Soube d'isso o Thomé Cantigas, e logo se poz a +instruir o velho João, um creado que já estava na casa quando elle +nascera, por maneira a funccionar d'echo quando lá fosse o brasileiro, +com quem tinha a quinta ajustada. Ora succedeu então esta coisa +curiosa:--quando o Thomé, em companhia do brasileiro, do escrivão e das +testemunhas, para verificarem o echo, gritou com toda a força dos seus +pulmões--Ó João!--o pobre diabo, escondido por detraz d'uma pedra, +ouvindo aquella voz tão sua conhecida, e sentindo acordar em si quarenta +annos de obediencia e domesticidade, o pobre diabo respondeu n'um tom +humilde--_Meu senhor!_ + +Imaginem agora que o rei chegava alli abaixo, perto de S. Bento, +espectral como o principe da Dinamarca, quando nas duas camaras, que +funccionam agora como dois bilhares, se joga a carambola politica, a +maior parte dos parceiros esquecendo-se de dar giz no taco, picando as +bolas ao contrario, e todos jogando pela tabella, como se não vissem a +encarnada e fosse prohibido atirar-lhe para cima... Sim, imaginem que o +rei chegava alli, sem ninguem dar por elle, e no mais acceso da +balburdia, no meio encarniçado do jogo, gritava com a sua bella voz de +barytono:--_Que é lá isso ó seus gajos?_ + +Quantas vozes deixariam de responder como o velho creado João, ouvindo, +lá onde estava, por detraz de uma pedra, ensaiado para o echo, a voz do +sr. Thomé, seu patrão de tantos annos? + + + + + * * * * * + + _Vaidade das vaidades--tudo é vaidade!_ + + +Viera ao mundo com a mania de que tudo andava torto, e lhe competia +endireitar tudo. Era assim uma especie de messianismo arte nova, que lhe +hypertrophiava a personalidade, tornando-o impertinente. Todas as +injustiças o offendiam, todas as asneiras o irritavam, pondo-lhe os +nervos em tal estado de vibração, que seria facil romperem-se. Mas ao +mesmo tempo essas injustiças que o offendiam, essas asneiras que o +irritavam, eram a propria condição da sua existencia, todo o estimulo da +sua actividade, a sua unica razão de ser. Que um bello dia entrassem as +coisas na bôa ordem, o bem tendo vencido o mal, o amor tendo vencido o +odio, a justiça tendo vencido a iniquidade, o direito tendo vencido a +força, a verdade tendo vencido a mentira, que um bello dia se realizasse +tudo isto, e elle encontrar-se-ia como homem que se desequilibrasse no +espaço, sem ponto de apoio, uma creatura que se visse sem ligações com o +Universo, isolada como n'uma ilha deserta, um ser de geração espontanea, +olhando para traz, e não adivinhando o seu passado, olhando para deante +e reconhecendo-se sem destino. Considerava-se o ser por excellencia, a +suprema vontade, a suprema intelligencia, a mais alta sabedoria, a mais +extremada virtude. Tinha um calcanhar esse gigante, como o heroe da +Iliada; mas o Páris, que pretendesse feril-o, escusava de molhar a setta +em veneno, bastava que a molhasse em lisonja, que é uma droga pouco +toxica e muito corrosiva. Succedeu-lhe um dia adoecer gravemente, e como +lhe perguntassem, _in articulo mortis_, se não receava pela salvação da +sua alma, respondeu, tartamudeando muito--_Receio que me mettam no céo. +Que tortura não será a minha se caio na mansão dos justos._ + +Por subscripção entre amigos, ergueram-lhe um mausoleu, coisa barata e +modesta, e fizeram-lhe gravar na frontaria, em bronze amarello, estes +dizeres biblicos:--_Vanitas vanitatum_, o que traduzido em portuguez +quer simplesmente dizer: + +--_Ora bolas para tanta embofia!..._ + + + + + * * * * * + + _Parece vingar a interpretação que attribue ao sr. ministro das + finanças a qualidade de portuguez._ + + (Dos jornaes) + + +--Contente que nem um rato, não é verdade? + +--Não sei porquê... + +--Não sabe porquê? Pois você chega ao ultimo quartel da vida sem saber +de que terra é, e d'um momento para outro, sem trabalho nem canceiras, +apparece cidadão d'um paiz glorioso, e guindado ás maiores culminancias +sociaes, e ainda pergunta porque deve estar contente? + +--Por certo. Não sendo d'uma patria determinada, eu podia tirar muito +proveito de todas, conforme as circumstancias. + +--Mas os seus direitos... + +--Perdão; os meus direitos são os meus interesses, dada a minha +qualidade de homem de negocios. Ter um certo direito, significa apenas, +no meu entender, a faculdade de realizar um certo lucro, da mesma fórma +que ter uma certa obrigação significa uma perda. A equação da vida +commercial faz-se com estes dois termos--ganhos e perdas. + +--Está muito bem; mas parece-me que sob todos os pontos de vista o amigo +ganhou. + +--Isso é conforme. A operação, considerada nos seus resultados +immediatos, e não olhando para além do momento actual, é de resultados +vantajosos; mas... + +--Mas... + +--Mas o futuro a Deus pertence, e esta naturalização definitiva póde +prejudicar-me muito, se ainda tiver necessidade de mudar de +nacionalidade mais uma vez. + + + + + * * * * * + + _O principe D. Luis Filippe restituiu ao thesouro o dinheiro que lhe + sobejou da viagem._ + + (Dos jornaes). + + +Era doida pelo neto; mas, se o tivesse junto de si, n'aquelle momento, +pregava-lhe duas bofetadas. + +Era aquillo um proceder de principe? + +Não havia memoria, na sua familia, d'alguem ter restituido fosse o que +fosse, muito menos dinheiro. + +Raivosa, sentindo-se ferida no seu orgulho de raça, mordia os beiços até +quasi sangrarem, e amarrotava nas mãos o jornal, com muita força, como +se quizesse desfazel-o. Era de entontecer aquella vergonha. + +De repente acalmava-se um pouco, como se entrasse n'um banho morno. + +Quem sabe? + +Talvez aquillo não fosse verdade. Dizem tanta mentira os jornaes!... Ha +gazeteiro que não vacilla perante a mais baixa calumnia, muitas vezes +por interesse, algumas vezes por capricho, não raramente por maldade. + +E logo mandou vir todas os jornaes d'aquelle dia, absolutamente todos, +mesmo os que ella nunca lia, por saber que sempre alguma coisa traziam +que lhe fosse desagradavel. + +--Todos quantos se publicam em Lisboa, ouviste? + +Pois em todos elles vinha a noticia, a vergonhosa noticia d'aquelle neto +infamante, que ficaria luzindo como uma nodoa na pureza alvissima e até +alli immaculada dos seus pergaminhos dynasticos. + +Era doida pelo neto; mas se o tivesse junto de si, n'aquelle momento, +era capaz talvez de um arrebatamento criminoso, atirando-o pela janella. + +Vestiu-se n'uma pressa, sem olhar para o espelho, surda ás sugestões do +seu coquetismo de carcassa. Iria procural-o, exprobar-lhe a sua baixeza, +que nem mesmo os poucos annos poderiam desculpar. + +Um principe, quando se trata de honrar as tradições dos seus maiores, é +sempre de maior edade... + +Pisava o primeiro degrau da escada, quando o neto subia quasi aos +saltos, como de costume, a estender-lhe os braços. + +--Ias sair, avózinha? + +--Ia procurar-te. + +--Parece que não estás contente? + +--E com razão. + +Mal entraram na sala, apanhou um jornal, ao acaso, e, apontando a +noticiazinha da restituição, perguntou-lhe: + +--Isto é verdade? + +O garoto desatou a rir, a rir desalmadamente, a fazer-lhe cocegas. + +--É então mentira? + +--Se é mentira!... Na verdade, avózinha, sempre te julguei mais +intelligente. Restituir dinheiro! Sei honrar as tradições da nossa casa, +pelas quaes tenho um verdadeiro culto. + +Teve um grande suspiro d'allivio, como se lhe tirassem de cima um peso +de cem arrobas. Apertou muito o neto nos braços e, tendo-o beijado +loucamente, deixou-se cair no sophá, muito quebrada, como ao sair d'uma +lucta. + +E com os olhos fechados, a respiração alta, ofegante, murmurava para não +ser ouvida: + +--Estupida que eu sou! O pequeno era incapaz de semelhante infamia. +Revejo n'elle toda a nobreza da raça. + +E adormeceu. + + + + + * * * * * + + _Passa hoje o primeiro anniversario deste jornal, dia propicio á + comemoração dos que foram nossos companheiros de lucta, e hoje + luctariam comnosco, se a morte os tivesse poupado._ + + («A Lucta»). + + +Morrer, dormir, sonhar quem sabe!... + +A fogueira crepita no meio do bosque sagrado, e o ramalhar das folhas, +cortando o silencio augusto d'uma noite de luar, é como a prece erguida +aos céus por milhares de labios virginaes. + +Morrer, dormir!... + +Em volta ha uma turba alegre, como se alli fosse realizar-se um ágape +festivo, os esponsaes d'uma nobre castellã com o pagem dos seus sonhos, +reluzente de pedrarias, esplendido de mocidade. + +Dormir, sonhar!... + +A fogueira crepita erguendo uma chamma cónica de uma regularidade +geometrica, e um fumozinho branco, muito tenue, muito esparso, é como um +boccado de gaze que alli estivesse preso á chamma, tocando-lhe sem se +inflammar. + +Morrer, dormir, sonhar, quem sabe!... + +E mal o cadaver pousa na fogueira, crepitante e rútila no meio do bosque +sagrado, logo sobre elle se lança aquella virgem loira e meiga, que uns +padres druidas estavam ha pouco dispondo para a viagem de que não se volta. + +Quem sabe! + +Se n'esses mundos longinquos, para onde dizem que vão as almas, se +conserva lembrança da vida que aqui tivemos, bem sabem vocês, queridos e +inolvidaveis mortos! que é para nós de lagrimas este dia, visto que esta +pagina é hoje um canto do cemiterio! + + + + + * * * * * + + _A morte perdendo a foice_ + _Creu sua força desfeita._ + _Disse-lhe um medico insigne:_ + _Aqui tens esta receita._ + + +Chamava-se Corvo, e era alfaiate. + +Pouco trabalhava pelo officio, quasi sempre pelo campo, a caçar lebres +ou perdizes, lá de longe em longe mettendo-se na jolda, e só então +aventurando-se por aquelles mattos espessos, onde deixava metade da +farpela, em boccados. A sua grande paixão, a sua mania de caçador era +pelos pombos, á negaça. Abalava de casa muito cedo, o pombinho mettido +na aljabra, o farnel mettido nos bolsos, a aguilhada ao hombro, a +espingarda a tiracolo, e uma garrafinha de aguardente sem confecção, que +o frio era de rachar, por aquelles dias molhados de novembro. Chegava ao +_sitio_, circumdava os montados, n'uma extensão enorme, com a sua vista +de lynce, e toca a fazer a choça, não fossem os pombos dar-se pressa de +vir alli, apanhando-o desprevenido. Ás vezes não matava nada; outras +vezes matava quantos se _faziam_; mas sempre se divertia immenso, a +puxar a negaça e a aperrar a caçadeira, não se esquecendo nunca de +_beijar_ a garrafinha da aguardente, que valia pelo melhor dos lumes, no +desabrigo da choça, por aquelles dias gelados de novembro. + +Ora succedeu que um dia, ao voltar dos pombos, chegando a casa, +subitamente, o Corvo sentiu-se mal, horrivelmente mal, gritando que lhe +accudissem. N'esse mesmo dia, áquella mesma hora, por assim dizer, +n'aquelle mesmo instante, tinha chegado o medico novo, que ainda ninguem +tinha visto. Correram a chamal-o, n'uma afflicção, que o Corvo sentia-se +morrer e gritava como um perdido. Vae o doutor, muito solicito, observa +o doente, faz uma receita, enche uma seringa e crava-a n'uma nadega do +alfaiate, que não tugiu nem mugiu. + +Estava morto o pobre Corvo, velho caçador de pombos, que durante largos +annos, todas as manhãs, em dias gelados de novembro, abalava de casa +para as montanhas, a aguilhada ao hombro e o farnel nos bolsos, sem +nunca se esquecer da garrafinha d'aguardente, que valia por um bom fogo +no desabrigo da choça, encostado a um sobreiro. + +O caso fez barulho na aldeia, e como alguem lamentasse a perda de tão +eximio caçador: + +--Lá quanto a isso, perorou um mariola d'um barbeiro, não vejo razão +para se lamentar a gente. O nosso doutor parece ser homem de boa +pontaria. Mal disparou a seringa, logo o Corvo enrolou as azas, como se +fosse um pombo que se _fizesse_, e apanhasse a carga em cheio. + + + + + * * * * * + + _O sr. ministro da fazenda ficou a trabalhar em sua casa._ + + (Dos jornaes). + + +A ordem fôra terminante, e não admittia excepções; s. ex.ª não _estava_ +para ninguem, absolutamente ninguem. + +Andava a estudar um plano geral de reformas, e, como tivesse de ir +passar uns dias na provincia, queria deixar os seus papeis arrumados, +cada coisa no seu logar, como n'um museu ou n'uma bibliotheca. + +Fôra sempre uma creatura methodica, e em grande parte o seu talento, que +ainda assim muitos negavam, era feito de trabalho e de methodo. Entrára +na politica com uma bagagem de estudante, apenas preparado para no +parlamento mandar uma representação para a mesa, e requerer que se desse +a materia por discutida, a um signal do _leader_. Mas trabalhava muito, +estudava muito, ambicioso de renome, atormentado pela obscuridade em que +vivia, mal supportando que os outros trepassem, subissem, servindo elle +proprio de degrau a bastantes creaturas mediocres. + +Um bello dia, quasi sem elle proprio saber como nem como não, +fizeram-n'o ministro. E logo pensou n'uma larga reforma de serviços, +remediando muitas insufficiencias, preenchendo muitas lacunas, pondo +cobro a muitos escandalos. + +Lá quanto a honestidade, reconheciam-n'a os proprios inimigos. + +Colligira todos os elementos de que necessitava para a sua obra +reformadora, e resolveu aproveitar aquelle dia para os classificar, em +termos de servir-se d'elles com a maior facilidade e proveito. + +Estava inteiramente absorvido n'essa tarefa, quando lhe apareceu junto +da mesa um continuo, muito vermelho, muito atrapalhado, a revirar o +_bonet_ na mão, a querer falar, e não se atrevendo a abrir a bocca. + +--Que ha? + +--Um senhor que deseja falar a v. ex.ª + +--Então eu não lhe disse que não estava para ninguem? + +--É verdade, mas elle disse-me que se matava alli mesmo, á porta, se v. +ex.ª não o recebesse. + +Mandou entrar immediatamente. + +--É você?... + +--Sou eu. Sabe que o Chico está irremediavelmente perdido? + +--O quê? + +--Talvez não dure 48 horas. + +--Coitado! E a familia?... + +--Ora ahi está. É por causa da familia que eu cá venho. + +--Mas que posso eu fazer? + +--Uma coisa muito simples--um adeantamento. + +--Mas se elle está a morrer!... + +--Por isso mesmo. Desconta pelo terço do ordenado emquanto viver. + +--E depois de morto? + +--Continua a descontar... no outro mundo. + +E assim se fez.--Era uma bagatela de dez contos redondos. + + + + + * * * * * + + _O sr. D. Carlos manda para o Salon dois quadros._ + + (Dos jornaes). + + +Era dia de assignatura. + +Como de costume, na sala de espera, emquanto não chegava a hora, uns +fumavam estendidos em sophás de molas doces, e outros falavam de coisas +varias,--as occorrencias banaes da vespera, ou os successos provaveis do +dia seguinte. Pelas janellas, abertas de par em par, entrava uma aragem +fresca e quasi perfumada, tanto as flôres do jardim embalsamavam o +aposento n'aquelle dia lindo. + +Avistava-se ao longe o rio, d'aguas tranquillas, e lá para além da +barra, empennachado de fumo, um navio cortava as aguas, sem estremeções, +deixando atraz de si, como uma passadeira de rendas, um largo traço de +espuma. N'isto abre-se uma porta ao fundo, e um homem apparece, de +casaca, trazendo debaixo do braço, muito enrolado em papeis, qualquer +coisa que logo se adivinhava ser um quadro com a respectiva moldura. + +Os que fumavam, estendidos em sophás de molas dôces, ergueram-se a +cumprimentar, quasi envergonhados do seu _á vontade_, como n'um casino, +e os que estavam á janella olhando para o rio, d'águas tranquillas, +notando como corria leve um vapor que sahia a barra, empennachado de +fumo, esses deixaram-se ficar onde estavam, baixando ligeiramente a +cabeça, com cerimonia, nenhum d'elles sabendo quem era aquelle senhor. + +--Não sei se incommodo v. exas... + +--Ora essa! Por forma nenhuma. + +--V. ex.ª é... + +--O pintor da casa. + +E logo poz em cima da mesa, procurando posição conforme a luz, duas +telasinhas de meio metro, ricamente emmolduradas, uma reproduzindo um +trecho de paysagem alemtejana, n'um entardecer d'agosto, e outra +representando uma commissão de sardinhas vindo cumprimentar um goraz, +pelos seus trabalhos maritimos. + +--E V. ex.ª traz isto... + +--São os meus decretos; trago-os á assignatura. + + + + + * * * * * + + _O sr_. _D. Carlos tambem hontem não assistiu á tourada no Campo + Pequeno._ + + (Dos jornaes). + + +--Está aqui tudo? + +--Creio que não falta nada. + +Poz a mala em cima d'uma cadeira, para não estar a dobrar-se muitas +vezes, e foi tirando peça por peça. D'ahi a pouco estava inteiramente +transfigurado. As suissas assentavam-lhe na perfeição, e os oculos de +ouro, com vidros sem grau, transformaram-lhe de tal modo a physionomia, +que ninguem, mesmo dos seus familiares, o conheceria sob aquelle +disfarce. As calças é que lhe ficavam um boccadinho justas nas pernas, e +o collete, se fosse um tudo nada mais comprido, dir-se-ia ter sido feito +para elle--por medida e com prova. Pegou na bengala, de castão de prata, +poz na cabeça um Panamá, quebrado na frente, e carregou no botão d'uma +campainha electrica. + +--Se não soubesse... + +--De primeira ordem, não é verdade? + +--Uma transfiguração á Rocambole. + +--Obrigado pelo cumprimento; mas como tu é que me escolheste a farpela... + +--Limitei-me a cumprir fielmente as indicações recebidas. + +--De modo que não haverá perigo... + +--Absolutamente impossivel conhecel-o, disfarçado como está. + +--Pois olha, já que entrei n'este caminho, quero fazer a coisa completa. +Has de comprar-me um bilhete de sol. + +Quando entrou na praça, ainda as cortesias não tinham começado. Arranjou +um logar ao pé da musica, e poz-se a fumar um cigarro ainda por +disfarce. Á hora marcada, com uma pontualidade fóra do costume, a função +principiou. Estava interessado, contente e ancioso, como se pela +primeira vez assistisse a um espectaculo ardentemente desejado. +Surprehendia-se a gritar com toda a força, quando o _sol_ inteiro +gritava e ainda teve o chapéu na mão, para o atirar ao redondel, +enthusiasmadissimo com um _cambio_. + +No intervallo, como não sahisse o visinho da direita, pedindo-lhe fogo, +entrou a dar-lhe conversa. + +--Vê-se que o amigo é amador. + +--Como poucos. Isto é um divertimento real. + +--Lá isso real... + +--Pois sim... Mas o rei vem aqui muitas vezes?... + +--Vinha muitas vezes, é o que você quer dizer... + +--E agora já não vem? + +--Acho que cortou a coleta. + +--Elle, afinal, tudo aborrece. + +--Ora ahi está. E foi exactamente por ver que aborrecia, que elle deixou +de apparecer. Sabe o amigo uma coisa? Tenho estado a reparar que você se +parece... + +Não acabou a phrase. Já o outro se tinha levantado, a fingir que alguem +o chamava. + +D'ahi a pouco, no mesmo quarto em que mudára de farpela, dava-se a um +trabalho de mil demonios para se desembaraçar das calças, muito justas +nas pernas. + +--Ninguem desconfiou, é claro? + +--É claro que desconfiaram. Um gajo que estava sentado ao pé de mim, se +me não safo tão depressa... + +--E disse-lhe alguma inconveniencia? + +--Lá bem inconveniencia... + +--O melhor, para outra vez... + +--O melhor para a outra vez, é não ir lá. Corto definitivamente a coleta. + +--E a _quadrilha_? + +--Lá isso fica como estava. + +E atirando com as suissas para cima da cama, a meia voz com despreso: + +--Isto é que é uma cambada!... + + + + + * * * * * + + _O sr. João Franco acompanhou o Principe Real á festa das creanças, + e pronunciou alli um grande discurso._ + + (Dos jornaes). + + +--Muito interessante a festa, não é verdade? + +--Sim, foi interessante. + +--Muitas creanças, muitas flores, um dia lindo de sol... Aposto que +estava a saltar-te o pé para o meio do rancho, rindo e brincando como +todos, como se fossem todos do mesmo collegio? + +--Tu estás doida, avósinha? Comprehendo muito bem os deveres do meu +cargo, e em nenhuma situação me esqueço de quem sou, e do que represento. + +--Bravo, meu filho! gosto de te ouvir falar assim, porque isso me prova +que serás um dia o representante illustre dos teus illustres antepassados. + +--Assim o espero. + +--Assim o creio. E falaste ás creanças? + +--Não, avósinha. Ninguem me disse para lhes falar, nem eu sabia o que +havia de dizer-lhes. + +--Por certo, não sabias; mas se isso fosse uma razão para não falar, +muita gente estaria calada n'este paiz de palradores. Quem falou então? + +--Houve só um discurso... + +--Sim, está claro, falou s. ex.ª. E o que disse? + +--Para te falar com franqueza, avósinha, eu pouco ouvi do que elle +disse. Mesmo na minha frente estava um garoto vestido de marinheiro, +muito interessante, que passou todo o tempo a fazer cocegas no pescoço +de uma senhora muito gorda, de nariz abatatado, que estava adiante +d'elle, na fila immediata. De cada vez que o rapazinho lhe passava um +canudinho de papel, muito delgado, pela pennugem do cachaço, atraz das +orelhas, a velha fazia umas caretas muito exquisitas, aflicta, com medo +de perder a linha em momento tão solemne. Não imaginas como era +divertida a velhota. Divertida e estupida, porque nunca desconfiou do +garoto, que se encolhia todo para não desatar ás gargalhadas. De modo +que... + +--De modo que não ouviste o discurso de s. ex.ª. + +--Não ouvi tudo, é certo; mas alguma coisa ouvi. Por exemplo, ouvi-lhe +dizer que n'outros tempos os povos eram dos reis, e que hoje os reis são +dos povos. Que quer dizer isto, avósinha? + +--Quer dizer, meu filho, que n'outro tempo, os creados recebiam ordens +dos patrões, e cumpriam-n'as; hoje os patrões recebem ordens dos +creados, e cumprem-n'as. + +--Credo! Mas isso é o fim do mundo. + +--Pede a Deus que não seja o fim da dynastia. + + + + + * * * * * + + _O enterro de hontem foi uma extraordinaria affirmação da força do + partido republicano em Lisboa._ + + (Dos jornaes). + + +Estava inquieto, n'uma ancia por noticias, quando lhe foram dizer que +estava o jantar na mesa. + +Que teria havido! + +Por certo o cortejo seria numeroso, mas aprazia-lhe acreditar que a +manifestação, embora significativa, não fosse de molde a tornar ainda +mais evidente o desprestigio do seu nome, já bastante desprestigiado. +Esquecia-se de comer, e não despregava os olhos da porta, esperando +vel-o apparecer a cada momento, portador da boa nova, dando-lhe a +segurança de que era já outra a atmosphera da cidade, onde elle poderia +respirar com desafogo, quando quizesse, farto de correrias fóra de +portas, a monte como os leprosos na antiguidade, e como os criminosos +ainda hoje, quando puderam fugir á justiça. + +Que teria havido! + +Todos lhe notavam a preoccupação na physionomia transtornada, e todos +sabiam o que lhe dava origem, a verdadeira causa daquelle mal-estar. De +modo que o jantar ia correndo silencioso, quasi funebre, ninguem se +atrevendo a arriscar uma palavra banal, o mais leve dito que pudesse +desafiar o mau humor do pobre tomate recheiado. Fazia dó, mas ao mesmo +tempo mettia medo, como se fosse um obuz carregado de grosserias, que +uma creança maldosa pretendesse descarregar contra um homem delicado. +Parecia aquella ceia da Lucrecia Borgia, em Ferrara, descripta por +Victor Hugo. + +De repente, abre-se a porta, e um reposteiro annuncia o homem. Estava-se +nas fructas. + +--Então?... + +--Muito maior do que seria licito esperar. A cidade inteira, póde +dizer-se, tomou parte na manifestação, grandiosa como nenhuma outra, +d'essas que andam na memoria dos homens. + +--De modo que o prestigio d'essa creatura... + +--Peço desculpa; o que atravessou a cidade, por entre alas compactas de +povo, seguido de milhares de pessoas, não foi o cadaver d'um homem... + +--Foi então?... + +--Foi o prestigio d'uma ideia. + + +Ficou por instantes suspenso, como se lhe fugisse o espirito para uma +região de trevas. Logo voltou a si, como quem acorda d'um mau sonho, e +acabando de descascar uma laranja, voltando-se para o peniculario que +lhe ficava mais perto: + +--Olha lá, ó marquez, dize aos teus collegas da cozinha que não deitem +fóra estas cascas. + +No outro dia annunciava-se uma crise em todos os jornaes. + + + + + * * * * * + + _O rei, que hontem devia presidir ao conselho de ministros, partiu + para Biarritz, onde se encontra sua noiva._ + + (Telegramma de Madrid). + + +Pois se elle tem vinte annos!.. + +Queriam então vel-o amarrado ao throno, recebendo conselheiros e +ministros, aturando reposteiros e mordomos, quando a noiva está alli, a +algumas horas apenas da capital, chamando-o com insistencia de quem nada +póde e tudo offerece porque tudo espera receber em troca. + +Pois se elle tem vinte annos apenas!... + +Talvez que no seu sangue toda a podridão d'uma raça; mas a mocidade é +uma especie de azougue, capaz de fazer erguer um morto, dando-lhe uma +vida ephemera. + +Pois se elle é tão novo!... + +Queriam então prendel-o alli, n'aquelle deserto de Madrid, aturando +conselheiros e ministros, gente da burocracia e bugigangas heraldicas, +quando ella está a poucas horas da capital, talvez a alongar os olhos na +direcção da Hespanha, na esperança de vel-o surgir na sua frente, +radiante de mocidade. + +Pois se elle tem vinte annos apenas!... + +E estranham então vel-o partir como um foguete, abandonando as redeas do +governo, doido d'amor como um Quichote real, para ir colher em Biarritz +as promessas d'uma felicidade sem limites prelibando uma ventura sonhada. + +Pois se elle é tão novo!... + +Depois ella é tão bella!... + + + + + * * * * * + + _Amanhã, anniversario da rainha Maria Pia, não haverá recepção no +Paço._ + + (Dos jornaes). + + +--Venho dizer-te adeus... + +--Para onde vaes? + +--Para o mar. Na terça feira cá estou, para te dar os parabens. +Imaginavas que ia esquecer-me do teu anniversario? + +--É verdade, o meu anniversario... Nem me lembrava. + +Emquanto elle accendia um charuto, olhando distrahidamente uma +illustração ingleza, deixava ella pender a cabeça sobre o collo mirrado, +e evocava um tempo muito remoto, tão remoto que lhe parecia agora, na +desolação da sua viuvez, mais phantastico do que real. + +O seu anniversario! + +O throno era pequeno para a sua magestade, mas, em summa, sempre era um +throno e ella nascera para reinar. Na sua cabelleira loira, como a das +virgens de Raphael, o diadema régio tinha scintillações estranhas e +coruscantes, que ainda assim pareciam pallidas em comparação dos seus +olhares, em que havia toda a ardencia do sol dos tropicos, e toda a +limpidez do crystal da rocha. + +Tambem ella reinára! + +Outros imperantes se tinham curvado na sua presença, e milhares de +cortezãos tinham solicitado a esmola d'um sorriso ou d'um olhar, que +ella nem sempre lhes concedia, muito altiva, muito sobranceira, no +throno, julgando-se muito perto do Olympo, e fóra do throno vendo-se +muito acima da humanidade vulgar. + +O seu anniversario! + +Fechava os olhos para tornar mais intensa a evocação, e logo via o +desfile do immenso e luzido cortejo--os diplomatas com os seus +fardamentos ricos, bordados a oiro; os ministros com as suas librés de +luxo, salpicadas de veneras; os bravos militares suffocando impetos +guerreiros, n'uma attitude de respeitosa fidelidade, e o numero infinito +de fidalgos e fidalgas dobrando o joelho no primeiro degrau do throno e +babujando-lhe a mão aristocratica com a saliva do cortezanismo mais +rasteiro e mais falso. + +O seu anniversario! + +De repente, e como se reatasse uma conversa interrompida pousando o +charuto sobre o cinzeiro de prata, e tomando-lhe entre as mãos a face +apergaminhada, n'uma caricia muito terna: + +--Não, fica certa que não me esqueço dos teus annos, e verás como sou +gentil... + +--Sim, não te esqueças. E pois que desejas mostrar-te gentil para +commigo, mais uma vez, poupa-me ao desejo e á baixeza de receber os teus +creados de pasta. + +E não houve recepção. + + + + + * * * * * + + _Amanhã tem logar a abertura do congresso republicano no Porto. + Espera-se que o sr. D. Carlos assista hoje á tourada, no Campo +Pequeno._ + + (Dos jornaes.) + + +--Está doente?... + +--Pelo contrario, nunca me senti com tanta saude como agora. De certo, +se estivesse doente, era natural que fizesse chamar um medico, e não o +presidente... + +--Sem duvida; mas chamado tanto á pressa, com a maxima urgencia... + +--É que na verdade o caso é urgente. Não adivinhas do que se trata? + +--Por mais voltas que dê á imaginação... + +--Não vale a pena dar-lhe grandes voltas, porque pode transtornar-se. +Sabes que dia é amanhã? + +--É domingo. + +--E sabes que ha tourada no Campo Pequeno? + +--Como não sou aficionado... + +--Não sabias? Pois ficas sabendo agora. Ha tourada, e trabalha o +Fuentes. Quer isto dizer que será uma tarde cheia. Como os typos estão +lá para o norte, a palrar, eu resolvi ir aos touros ámanhã. + +--Isso não pode ser! Eu não posso tomar a responsabilidade... + +--Tomo-a eu, deixa lá. Em não apparecendo os cabecilhas, a arraia miuda +não abre bico! + +--Ahi é que está o engano. Aquella gente não se move por cordelinhos; +pensa pela sua cabeça; tem iniciativa propria, e procede como lhe parece +melhor. + +--E tu imaginas que hei de passar n'isto a vida inteira? + +--A vida inteira, não; mas por ora tem de ser assim. + +--E se eu não quizer que seja assim? + +--Se não quizer que seja assim... + +--Como será então? + +--Então... será peior! + + + + + * * * * * + + _O teu amor e uma cabana!_ + + +Fôra uma loucura aquelle amor. + +Tinham-se encontrado na Figueira, estava ella a banhos, e elle fôra alli +de visita a uns parentes da Bairrada, que não via desde annos. Como se +andassem pelo mundo á procura um do outro, apenas se viram uma manhã, na +Praia, amaram-se doidamente, e foi milagre que não desatassem logo a +tagarelar, tu cá, tu lá, e tomassem banho juntos. + +Á noite, no Casino, a indispensavel apresentação, e logo se seguiu um +_pas de quatre_, em que os dois eram eximios. Marchou aquillo tão +depressa, que já eram noivos quando regressaram ao Porto, onde ella +tinha os paes e elle o emprego, um modesto emprego de despachante, que +lhe rendia vinte mil réis por mez. + +Todas as noites ia falar-lhe, já recebido como da familia e sempre a +encontrava encostada a uma pequenina mesa quadrada, um livro de versos +na mão esquerda, marcando a pagina com o dedo, e em toda a sua gracil +pessoinha um ar de alheiamento e de sonho, que o fazia estacar á entrada +da sala, n'um extase de devoto. + +--Que languidez, Virgem Santa! + +Casaram, está bem de ver, e foram padrinhos aquelles parentes da +Bairrada, que elle tinha ido visitar á Figueira, onde ella estava a +banhos. Ninguem a ensinára a trabalhar, e como elle só tinha o seu +ordenado de despachante, uns vinte mil réis por mez, era impossivel +metter creada, de modo que andava tudo desarrumado, a comida era mal +feita, nunca estava prompta a horas, e quando uma rabanada de vento +entrava pela janella, era como redemoinho correndo ao longo d'uma +estrada poeirenta. Mas todas as noites, quando recolhia, farto de cuspir +no café, ia encontral-a, como n'outro tempo, encostada a uma pequenina +mesa quadrada, um livro de versos na mão esquerda, marcando a pagina com +o dedo. E ao vel-a assim descuidada n'um grande ar de alheiamento e de +sonho, toda a sua gracil pessoinha como que envolvida n'uma atmosphera +de languidez quasi morbida, estacava á entrada da sala, como n'outro +tempo, murmurando por entre dentes: + +--Que desmazelo, meu Deus! + + + + + * * * * * + + _Dio del oro, del mundo signor._ + + +Noite de festa. + +Tinham-se vendido todos os logares, e ninguem dispensava o seu bilhete +como se fosse um decimo de loteria, com probabilidades conhecidas de +sair n'elle a sorte grande. + +--Compra-se uma cadeira! + +--Ha quem venda uma geral ou camarote? + +Eram vozes clamando no deserto... d'uma multidão compacta, junto ao +_guichet_, todos sabendo que não entrariam, mas ninguem tendo a coragem +de se ir embora.--Quem sabe? Uma familia que se enlutou á ultima hora, e +manda vender o seu camarote; um honrado negociante que precisou de +abalar para o Alemtejo, e manda vender o seu _fauteuil_. + +Era noite de festa. + +Havia flores por toda a parte; colchas ricas pendiam dos camarotes, em +todas as ordens, de modo que a sala tinha assim, por virtude d'aquella +polychromia bizarra, um aspecto singularmente phantastico, em que se +perdiam os olhos, n'um encanto. Mulheres ricamente vestidas, largamente +decotadas, eram como fructos de carne em papel de seda, e formavam uma +galeria de bustos sem egual, em que tivessem collaborado todos os +esculptores de genio. + +Era noite de festa. + +Quando se ergueu o panno, sobre as ultimas notas da orchestra, pareceu +que um jogo habil de espelhos transferira ao palco aquellas flôres +magnificas que havia por toda a parte, aquellas colchas ricas que +pendiam dos camarotes, n'uma polychromia bizarra, no meio da qual se +destacavam bustos admiraveis de mulheres, como se fossem outros tantos +peccados irresistiveis, servidos em papel de seda pelo demo tentador. + +No segundo acto, quando Ella appareceu, foi como se uma corrente +electrica, mysteriosa e divina, percorresse toda a sala, visto como +todos se levantaram, n'um movimento egual e isochrono, para a mais +amoravel e sincera ovação de que possa haver registo. + +Muito fria, muito pallida, as lagrimas gelando-se-lhe a meio das faces +apergaminhadas, um sorriso apagando-se-lhe nos labios resequidos, avança +para agradecer, n'um automatismo quasi de somnambula, e logo recua, +soltando um grito, deixando-se cahir, ao desamparo, n'um _divan_, que +para alli tinham posto. + +Estava morta. + +No escriptorio, verificando o producto da récita, n'aquella noite +festiva em que havia flores por toda a parte, e, entre colchas d'uma +polychromia bizarra bustos esculturaes de mulheres eram como grandes +fructos de carne servidos em papel de seda, o emprezario commentava: + +--Que raio de sorte! Já estavam passados todos os bilhetes para ámanhã! + + + + + * * * * * + + _Quando o cortejo se dirigia da Egreja para o Palacio uma bomba foi + atirada d'uma janella, fazendo grandes estragos. Os reis nada + soffreram._ + + (Dos jornaes, em telegramma de Madrid). + + +Emfim! + +Acabavam de ligar-se para sempre, ella radiante de belleza, elle +radiante de felicidade, os dois sonhando mil cousas loucas, n'uma +ebriedade d'amor que os punha fóra do mundo real. + +--Querida Eugenia! + +--Querido Affonso! + +Parecia-lhes pequeno o templo, para conter a sua ventura, e aquella +multidão que os rodeava, fixando-os com muita insistencia, tinha assim +os ares de quem espreita com inveja, e se compraz em ser incommodo. Por +maneira que ao chegarem ao adro, ella radiante de belleza, elle radiante +de mocidade, respiraram com muita força, e teriam caido nos braços um do +outro, ebrios de amor, se um grito de saudação, reboando pelos ares, não +os chamasse á realidade! + +Já no trem, por ahi fóra, marchando lentamente, como n'uma procissão, os +ouvidos cerrados a tudo que não fosse o encanto dos seus proprios gestos +intencionaes, elles architectavam mil coisas loucas na sua mente +escandecida, e como que prelibavam o infinito prazer d'uma posse +ardentemente desejada. + +N'isto ouve-se uma explosão horrivel, e um grito formidavel de terror +sae de milhares de boccas, n'um unisono perfeito. É um momento de +confusão indescriptivel, e nem se ouvem os gemidos dos que sofrem, nem +se dá pelas convulsões dos que agonisam, porque a attenção dos que não +fugiram concentra-se totalmente n'aquellas duas creanças--ella radiante +de belleza, elle radiante de mocidade, os dois ainda ha pouco sonhando +mil coisas loucas, n'uma ebriedade d'amor, que os punha fóra do mundo real. + +Estavam salvos. + +A commoção fôra extraordinaria, sendo milagre que um estilhaço de bomba +não tivesse reduzido aquelle idilio esponsalicio a um noivado de +sepulcro--como se não fosse abominavel atirar para o nada uma existencia +que alvorece. + +--_Yo te probaré hoy que soy digna de ser tu mujer._ + +Fôra realmente extraordinaria a commoção, de modo que já no leito, sob a +luz muito baça, muito tenue d'uma lampada ao centro da alcova, tendo +ainda nos ouvidos o estrondo d'uma bomba que rebenta, e como que vendo +alli, no isolamento d'aquelle ninho, creaturas que estremecem nos +paroxismos de uma morte irremediavel, elle que mostrára uma coragem +estoica no meio do perigo, recommendando a todos _calma, mucha calma! No +ha pasado nada_, elle sente-se agora d'uma fraqueza infantil, quasi +covarde, anniquilado como se entrára n'uma lucta com cyclopes. E então +muito calmo, muito resignado, como quem acceita os fados, mordendo-lhe +os beiços que ella estendia n'uma momice cheia de graça: + +--_Yo te probaré mañana que soy digno de ser tu marido._ + +E foi como se na virgindade d'aquelle leito repousassem duas creanças +gemeas. + + + + + * * * * * + + _O governo resolveu supprimir todas as gratificações por serviços + extraordinarios._ + + (Dos jornaes). + + +Iam alli implorar a protecção de S. Ex.ª. + +--De que se trata então? + +--Somos tres chefes de familia, tres honrados servidores do Estado que +vimos... + +--Está bem; mas o que desejam? + +--Como V. Ex.ª sabe, acabaram as gratificações, e aquelle de nós tres +que mais ganha não chega a ganhar trinta mil réis mensaes, sujeitos a +descontos. + +--Perfeitamente; mas os senhores são empregados... + +--Saberá V. Ex.ª que da Alfandega. + +--Ora é isso mesmo, da Alfandega. Eu não posso augmentar-lhes o +ordenado, e como a verba das gratificações foi supprimida. + +--Se V. Ex.ª dá licença... + +--Como a verba das gratificações foi supprimida, e não depende de mim +restaural-a... + +--Se V. Ex.ª quizesse ter a bondade de se interessar por nós, mesmo sem +nos augmentarem os ordenados e sem restabelecerem as gratificações... + +--A accumulação de serviços equivale a uma gratificação... + +--Queira V. Ex.ª desculpar, mas tudo se arranjaria facilmente se o sr. +conselheiro quizesse ter a bondade de nos tomar sob a sua protecção... + +--É que não vejo maneira... + +--O que nós pedimos é muito pouco, e não é preciso tiral-o ao Estado, ou +a quem quer que seja. + +--Em summa, o que é que os senhores desejam? + +--Nós desejávamos ser nomeados... gatos da Alfandega. + +--Gatos da Alfandega?!!... + +--É verdade, sr. conselheiro, gatos da Alfandega. Isso daria uns 9$000 +réis por mez, a cada um, o que seria uma ajudasinha para a renda da casa. + +--Os senhores vieram aqui para se divertirem commigo? + +--Ó sr. conselheiro, pelo amor de Deus! Nós viemos aqui implorar a +valiosissima protecção de V. Ex.ª, juramol-o pela bôa saude das nossas +mulheres e dos nossos filhos... + +--Gatos da Alfandega! Mas então os senhores perderam o juizo? + +--Não, senhor conselheiro; o que nós perdemos foi a gratificação. + +--Ou anda tudo doido, ou eu não sei onde tenho a cabeça. Mas o que vem a +ser isso de gatos de Alfandega? + +--Saberá V. Ex.ª que havendo milhões de ratos na Alfandega, sem respeito +nenhum pelas mercadorias que alli se acham depositadas, e havendo todos +os dias reclamações por causa dos prejuizos que estes causam, foi creada +a corporação dos _Gatos da Alfandega_, para a sustentação da qual ha uma +verba de proximamente trinta mil réis por mez. + +--Está bem; mas se essa verba é para sustentação dos gatos... + +--Desculpe V. Ex.ª; mas se esses empregados cumprem rigorosamente o seu +dever, apanhando os ratos, não precisam que os sustentem, porque +arranjam elles proprios os seus sustentos; e se alli estão só para +receberem o ordenado, deixando os ratos em liberdade, não é justo que se +gaste com elles um dinheirão, ao passo que honrados chefes de familia... + +--Pois está bem; vou informar-me do caso e prometto-lhes interessar-me +pelos senhores. + +--Muito obrigado, sr. conselheiro, muito agradecido a V. Ex.ª + +Tinham dito a verdade os honrados chefes de familia, e porque o +conselheiro não era homem que faltasse á sua promessa, foram os tres +nomeados gatos da Alfandega, como poderiam ser nomeados secretarios do +ministro, ou revisores do caminho de ferro. + +Os verdadeiros gatos emigraram, e uma commissão de ratos foi +cumprimentar os tres honrados chefes de familia, quando viram as +nomeações no _Diario do Governo_. + + + + + * * * * * + + _Deve se ao sr. Casimiro José de Lima, director da casa da moeda, o + monumento a Souza Martins, erecto no Campo de Sant'Anna._ + + (Dos jornaes). + + +Eram congressistas. + +Desemboccaram no Campo de Sant'Anna, vindo da Carreira dos Cavallos, e +como se approximassem da estatua, a alguns passos de distancia, pararam +de repente, em geito de quem examina com interesse. Um do grupo, o mais +velho, typo acabado de sabio allemão, genero Topsius, de sobrecasaca e +oculos d'ouro, erguendo ligeiramente o chapéu, n'um cumprimento +respeitoso, em que havia muito de admiração, exclama com grande +convencimento:--_Schön! Schr schön!_ E logo os outros todos, em unisono, +como se fosse um echo alli proximo, possuidos d'aquelle arroubamento +esthetico, que é vulgar nos homens da Allemanha, exclamaram +tambem!--_Schr schön!_ O mais velho, erguendo os oculos d'ouro para a +testa ampla, como a querer illuminar o pensamento, feita uma ligeira +reverencia á estatua immovel explicou:--Ribeiro Sanches... Foi um medico +notavel do seculo dezoito, um sabio do mais alto valor. Formado em +Coimbra, graduado em Salamanca, visitou successivamente os hospitaes de +Londres, Marselha, Toulon, Montpellier e Paris. Estudou com +Boerhaave--todos se descobriram--em Leyder, durante tres annos, e a tal +ponto se impoz á estima e á consideração do Mestre, que d'ahi a pouco +tendo-lhe pedido a imperatriz da Russia a indicação de tres grandes +medicos, que fossem exercer cargo de professor em Moscow, o primeiro +nome que lhe accudiu foi o de Ribeiro Sanches. Medico dos exercitos +imperiaes, fez a campanha da Polonia, em 1735, e ainda n'essa qualidade +andou pelo Paiz dos Tartaros, sobre os quaes fez estudos de +anthropologia, que muito aproveitaram ao sabio francez Buffon--e todos +se descobriram de novo.--Viveu em Paris, com muitas difficuldades, +sempre estudando, sempre cultivando a sciencia, produzindo trabalhos +valiosos sobre economia, historia e medicina. + +Formára a sua intelligencia no estudo de Bacon e Descartes, e temperou o +seu caracter pelos conselhos de Montaigne. + +Accusado de judaismo, não podia vir a Portugal, e os livros que para cá +mandava eram uma especie de contrabando, que o marquez de Pombal fez +passar como sendo d'um phantastico dr. João Mendes Sachetti. + +A Imperatriz Catharina II, da Russia, grata por a haver curado d'uma +doença grave, era ella princeza, estabeleceu-lhe uma mezada sufficiente, +quando elle se viu na capital da França, a braços com a miseria. + +E assim pôde viver e publicar o seu _Methodo de estudar a medicina_, e +um tratado de _Conservação da saude_ dos povos, e outros muitos +trabalhos de valia, que lhe marcaram logar distincto entre os sabios do +seu tempo. Um grande sabio! _Ein gross gelehrt! Viel berühmht!_--E todos +em unisono, como se fosse um echo ali perto:--_Viel berühmht!_ + +Ia a passar uma mulhersinha, typo de mulher que esfrega, e como os visse +embasbacados, approximou-se do grupo: + +--É o Sousa Martins, os senhores haviam de conhecer. Quem mandou alli +pôr isto, foi o sr. Casimiro da Casa da Moeda--talvez os senhores tenham +ouvido falar. + +Pois não conheciam um, nem tinham ouvido falar do outro, aquellas +cavalgaduras! + + + + + * * * * * + + _Hontem a policia deitou a mão a um gatuno de onze annos, que roubou + um pão n'uma padaria da Baixa._ + + (Dos jornaes). + + +Tinha roubado um pão. + +A mãe dissera-lhe que fosse pedir esmola, havia muitas horas sem comer, +e elle abalára por essas ruas, descalço e rôto, extendendo a mão a toda +a gente. Entrava nos cafés, e ninguem lhe dava nada; entrava pelas +lojas, descalço e rôto, e os caixeiros enxotavam-n'o como se fosse um +cão. _Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_ + +Ninguem lhe dava nada, e todos o maltratavam, chegando um policia a +deitar-lhe a unha para o levar para a Correcção. Infatigavel, entrando +agora n'um café, onde os freguezes nem ouviam o seu estribilho--_dá-me +cincoreisinhos, meu senhor?_--entrando além n'uma loja, d'onde os +caixeiros o enxotavam como um cão sem dono, já tinha percorrido a cidade +inteira, extendendo a mão a toda a gente, e toda a gente olhando para +elle com desprezo ou com enfado, e ninguem se compadecendo da sua +miseria. E, comtudo, era nada, que elle pedia a toda a gente que +passava, extendendo a mão suplicante.--_Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_ + +Cançado, cheio de fome, ahi volta elle a casa, onde a mãe o aguardava, +n'uma afflicção, chumbada ao leito, havia muitas horas sem comer. Uma +senhora muito bem vestida, com brilhantes, carruagem brazonada, quasi +encalhando n'elle á porta d'uma Egreja, estendeu-lhe a mão enluvada, e +deixou cahir na sua mãosita suja, sem olhar para elle, os cincoreisinhos +que elle andava a pedir correndo a cidade inteira, extendendo a mão a +toda a gente que passava, entrando nos cafés, onde os freguezes eram +surdos ao seu pedido, e entrando nas lojas, descalço e rôto, e d'onde os +caixeiros o enxotavam, como um cão vadio. + +Talvez não fosse de proposito, mas os cincoreisinhos telintaram nas +pedras da calçada, emquanto a senhora que lh'os dera, muito bem vestida, +genuflectia á porta do templo, e cortava o rosto fresco e moreno com o +signal da cruz. + +Foi então que o garoto deu com os olhos n'um cesto de verga, á porta +d'uma padaria, cheio de pão alvo e fresco. + +Alli perto estava a mãe, chumbada ao leito, sofrendo horrivelmente, +noites e noites sem dormir, havia muitas horas sem comer. Quasi nem teve +tempo de acommodar o pão debaixo do braço, escondendo-o com uns +frangalhos da jaqueta. O padeiro grita, o garoto foge, a policia +apanha-o, e a multidão horroriza-se deante d'aquelle ladrão de onze +annos, que tinha a mãe alli perto, n'uma pocilga, chumbada ao leito, +soffrendo horrivelmente, noites e noites sem dormir, havia muitas horas +sem comer. + +Na esquadra, mettido no segredo, como um facinora, o garoto dá o nome e +a morada; mas o terror nem o deixa desafogar em lagrimas--vejam o +cynismo do malandro!--e a vergonha faz-lhe esconder a cara--admirem a +astucia do patife! + +O policia, que foi prevenir a familia, ao outro dia, encontrou extendido +no leito, ainda quente, o cadaver d'uma mulher nova, muito sêcca, muito +mirrada, o ar de quem passou largo tempo chumbada ao leito, ainda +quente, soffrendo horrivelmente, muitas horas sem comer, muitas noites +sem dormir. + +Já não lhe puderam dizer que era um ladrão o seu filho, aquelle garoto +descalço e esfrangalhado, que percorrera a cidade inteira, incommodando +toda a gente--_dá-me cincoreisinhos, meu senhor?_ + + + + + * * * * * + + _O rei podia impôr-se por um acto de abnegação e patriotismo, + acceitando a Republica._ + + (D'um jornal republicano). + + +Era um povosinho pacato, que moirejava nas suas terras, sempre alegre, +sempre satisfeito, sem recordações tristes do passado, sem apprehensões +pelo futuro. + +Enlevava-se na contemplação do mar, quando elle era sereno, e como se +esquecesse então, os olhos pregados na sua superficie espelhenta e lisa, +os ladrões aproveitavam-se daquella especie de somno hypnotico para lhe +aligeirarem os bolsos. + +Bem se importava elle com isso! Tirava da terra, quasi sem esforço, tudo +quanto lhe era necessario, e ainda lhe ficava muito tempo para se +enlevar como um sabeista, na contemplação dos astros, de dia piscando os +olhos aos raios d'um sol que não queima, de noite como a querer +enchel-os d'um luar que adormenta. + +Era feliz. + +Os outros invejavam aquella tranquillidade paradisiaca, alguns milhões +de bananas governados consoante a rima, e com um rei côr de laranja. + +Succedeu, porém, que um dia, no meio d'aquelle povo pacato que moirejava +nas suas terras, sempre alegre, sempre satisfeito, sem recordações +tristes do passado, sem apprehensões pelo futuro, caiu uma semente de +revolta, que logo germinou e fortificou, avassallando todos os +espiritos. Áquella gente pacifica repugnavam os actos violentos, e só +comprehendia que se derramasse sangue para fazer cabidela, ou então para +evitar congestões, quando assim o entendesse a medicina. + +Mas havia o rei... + +Foi então que um patriota, inspirado como um propheta antigo, teve uma +ideia genial, um pensamento sublime--convidar o rei a adherir. +Elimina-se o rei e cria-se um cidadão, exclamava com muita eloquencia, +pondo arrepios de commoção na espinha de todos os ouvintes. + +S. M. adheriu. + +Como todos os bons cidadãos quizeram sacrificar-se na presidencia da +Republica, houve necessidade de não crear essa funcção, e isso se fez +por consenso unanime, cada um não querendo para os outros o que não +poderia haver para si. + +Alvitrou-se a anarchia, mas como viesse a reconhecer-se, ao cabo de +longa discussão, que no relogio do tempo ainda não tinha soado essa hora +suprema d'amor e de justiça, tratou-se de eleger um governo, como nas +outras republicas. + +Um velho de aspecto venerando, com um saber só de experiencias feito, +propoz que na constituição do governo entrassem elementos novos e aguns +dos antigos homens de governo, já com pratica de negocios publicos. + +--Os cidadãos que approvam esta proposta ergam as duas mãos. + +Como se visse no ar uma floresta de mãos: + +--Approvada por unanimidade. + +Logo uma voz se ergue, fazendo-se ouvir em toda a vasta assembléa: + +--Eu voto contra. No governo só deve entrar gente nova. + +O homem que assim falava protestando com energia, era o cidadão que fôra +rei, o que deu logar a esta observação do presidente. + +--Mas o cidadão, quando era monarcha... + +--Pois sim, quando era monarcha; mas agora sou contribuinte... + + + + + * * * * * + + _Parece que S. M. a Rainha não acompanhará El-Rei na sua proxima + viagem._ + + +--Confessa que te era mais agradavel ir só... + +--A falar a verdade... + +--Ao menos és franco, e a franqueza não passa por ser qualidade vulgar +na tua nobilissima familia. + +--Falas-me da minha familia n'um tom de superioridade e desdem, como se +descendesses d'alguma d'essas divindades soberbas, de que estão cheias +as mythologias antigas. A esse respeito, minha filha, talvez seja melhor +não adeantarmos conversa. Ha um anexim portuguez que resa assim;--_disse +o tacho á certã, tira-te para lá não me tisnes._ + +--Não conheço o calão dos toureiros... + +--Nem eu a giria dos jesuitas. + +--Ao menos podias ser delicado com uma senhora. + +--Por certo se essa senhora quizesse ser delicada commigo. + +--Nunca eu tivesse aqui posto os pés. + +--Inteiramente d'accordo. Tinha sido magnifico para os dois. + +--Se não fossem os filhos e... + +--Bem sei; se não fosse isto de pairar no alto, estar acima dos outros... + +--_Je m'en fiche de..._ + +--Temos calão boulevardiano? + +--Se um dia perderes o logar, podes ir para Marrocos: o sultão, supponho +eu, não terá ciumes de ti. + +--Nem tu saudades minhas. + +--Se te parece!... + +--Apezar de todos os pezares, minha filha, tu ainda me podias dar um +prazer enorme, uma satisfação infinita. + +--Deixando-te ir em liberdade? + +--Não; deixando-me... viuvo. + + + + + * * * * * + + _No congresso medico do Porto, o dr. Eduardo d'Abreu apresentou um + velho de 109 annos._ + + (Dos jornaes). + + +--Vou dar a palavra ao illustre congressista, nosso collega, que +apresentará á assembléa o homem mais velho do mundo. + + +Quando o presidente acabou de pronunciar estas palavras, fez-se na sala, +até então rumorosa, o silencio dos momentos augustos. Um congressista +avançou para junto da mesa da presidencia, acompanhado d'um velhote +rabitezo, de peitilhos bordados, endomingado como para a desobriga. Era +o homem mais velho do mundo, como dissera o presidente. Nascido no +seculo dezoito, atravessára todo o seculo dezenove, e alli estava muito +fresco, bem disposto, nas felizes disposições de acompanhar o seculo +vinte até por ahi adeante sem cansaço de maior. Estavam alli cento e +nove annos, bonita somma feita com parcelas de tres seculos, muito +deseguaes em valor. + +Tão bem conservado o velhinho! + +Dir-se-ia que adormecera quando ia a entrar na velhice, ao cabo de uma +florente mocidade, e a dormir deixára de fazer annos, o bom velhote. Por +certo aquella alma nunca fôra batida das tormentas, não experimentara +nunca as grandes alegrias nem as grandes contrariedades, porque umas e +outras consomem como o fogo, abbreviam a existencia,--diluindo-a em +risos ou afogando-a em lagrimas. + +Tão bem conservado, o velhinho! + +Ha rugas na sua face; mas ellas são apenas as dobras avelludadas dos +lagos adormecidos, d'uma paz magestosa e inalteravel. + +Os olhares de todos aquelles medicos convergiam para o bom do velho, +muito rabitezo, com os seus peitilhos bordados á moda de 1820--a unica +coisa limpa que resta das grandes aspirações d'aquella epoca, explicou o +congressista que apresentava o phenomeno. Parecia uma evocação, um +phantasma que surgisse da noite dos tempos para contar historias +tragicas. Mas havia tanta candura no seu olhar curioso! tanta alegria +infantil no seu riso mal contido, como se tivesse vergonha de não se +mostrar grave alli, no meio de tantos senhores! Aquella seriedade tinha +o ar de uma meninice robusta e florida. + +Tão bem conservado, o velhinho! Parecia vender saude... + +Um dos congressistas, clinico de larga nomeada, approximando-se do velhote: + +--E de saude, que tal? + +--Ó meu senhor, graças a Deus... + +--Mas nunca esteve doente? + +--Uma vez, ainda era novo, ahi por volta dos setenta annos. + +--E tomou muitos remedios? + +--Lá quanto a isso... não tomei nenhum. Eu sempre tive muito amor á vida. + +Tão bem conservado, o velhinho!... + + + + + * * * * * + + _Hontem, em conferencia dos delegados, foi resolvido querellar + d'alguns jornaes._ + + (Dos jornaes). + + +A sessão estava marcada para as onze. O ultimo que entrou, saudando os +dois que já lá estavam, teve esta observação maliciosa: + +--A justiça é pontual!... + +--E algumas vezes... justa, accrescentaram os collegas. + +Cada qual desembaraçou-se do sobretudo, pôz em cima da mesa um masso de +jornaes, e assentou-se. + +--Ha que fazer? + +--Pela parte que me toca... + +O que assim falou, ergueu os oculos para a testa, abriu um dos jornaes +que tinha na sua frente, e leu pausadamente:--_É fóra de duvida que o +nosso Monarcha é dos imperantes mais honestos e mais intelligentes não +só da Europa, mas de todo o mundo._ + +Pousou o jornal sobre a mesa, deixou cair os oculos para os olhos, e +attentou nos collegas, á espera. + +--E depois? O collega com certeza não pretende querellar d'esse +jornalista, com certeza monarchico... + +--Engana-se o collega redondamente. Pretendo querellar a passagem do +jornal, que acabo de ler, porque a encontro incursa no artigo... + +--Mas isso não tem pés nem cabeça, collega. Quereria então que amanhã se +dissese que este augusto tribunal querellára d'um jornalista por ter +elle escripto que o monarcha é honesto, é intelligente, dos mais +honestos e intelligentes que o sol cobre?... + +--É como acaba de dizer. + +--Mas isso é uma loucura!... + +--Um pouco mais pequena do que lhe parece. Estamos aqui para cumprir a +lei, e a lei, n'este ponto, é clara. + +--O que faria então o collega se o jornalista tem escripto que o +monarcha é destituido de intelligencia e honestidade? + +--O que faria? Querellava-o com fundamento no artigo... + +--Mas é então o caso de ser preso por ter cão... + +--Não é nada d'isso. É o caso da lei prevenir as duas hypotheses--a da +calumnia e a da troça. + +Concordaram os tres em que eram de troça as palavras incriminadas, e +assim fundamentaram a sua petição de querella. Nunca mais, desde então, +os jornalistas se atreveram a escrever aquillo a serio. + + + + + * * * * * + + _O sr. Teixeira d'Abreu foi hontem cumprimentado por uma commissão + de Juizes, que o procurou no seu ministerio._ + + (Dos jornaes). + + +Era uma commissão de juizes da provincia, que vinha apresentar os seus +cumprimentos a s. ex.ª. + +Ageitou o laço da gravata, kaiserizou um pouco os bigodes, pousou a mão +direita, levemente espalmada, sobre a pasta de marroquim, deixou cair o +braço esquerdo ao longo do corpo, muito á vontade, e disse ao continuo +que mandasse entrar. + +--Vimos apresentar a v. ex.ª as nossas homenagens, felicitando-o pela +justa e merecida distincção que acaba de lhe ser feita. + +Muito grave, tendo ouvido aquella pequena fala como se fosse um acto de +vassalagem por parte de rebeldes submettidos, pausadamente como quem +mede as palavras: + +--Agradeço as felicitações que me dirigem, e tomo-as como partindo de +toda a magistratura, aqui representada por v. exas. + +Ordenou que se sentassem, n'um gesto brando e attencioso, e elle proprio +sentou-se, com muita solemnidade, não fosse desmanchar a _pose_ que +estudára de vespera para actos officiaes. + +E explicou: + +--Desejo fazer obra util, que vinque a minha passagem pelos conselhos da +corôa. O complexo de medidas que tenciono apresentar, subordinadas umas +ás outras como partes integrantes d'um todo harmonico, constituirá o que +eu chamo _A reforma da bola_. + +--A reforma... + +--Da bola. Não fazem ideia do que seja? Não admira; trata-se d'uma coisa +inteiramente nova. Já na Universidade iniciei o meu plano reformador, +embora n'outro campo, e com o melhor resultado. + +--Se V. ex.ª... + +--É simples. Em vez de chamar á lição pela caderneta, chamava pelo saco +das bolas. Numero tal? Era o que dava a sorte. Assim os rapazes, +receando cada qual que saisse a bola do seu numero, estudavam todos a +sebenta. É engenhoso não é verdade? + +--Sem duvida. Qualquer que não tivesse o immenso talento de v. ex.ª +consideraria que os rapazes, esperando cada qual que não saisse a bola +do seu numero, nenhum pegaria na sebenta. + +--Pois ahi está. A bola, applicada ás coisas da justiça, espero que dará +os melhores resultados. Assim, por exemplo, tratando-se da collocação de +juizes e delegados... A cada comarca corresponde uma bola. Estão a +ver?... Acaba o favoritismo; torna-se impossivel a perseguição ou a +empenhoca. + +--É maravilhoso! + +--Pois não é?... E ao mesmo tempo é simples. Espero que a minha passagem +pelos conselhos da corôa, curta ou demorada que seja, não resulte +improficua para os sagrados interesses da justiça e dos seus agentes. + +Ergueu-se gravemente, e premiu o botão electrico. Logo appareceu o +continuo, que acompanhou até á escada aquella commissão de juizes, que +tinham ido apresentar os seus cumprimentos a s. ex.ª. + +Já na Arcada, olhando uns para os outros, como que interrogando-se: + +--Com que então, a bola? + +--Redonda e de escaravelho, levada as arrecuas até ao gabinete negro. + + + + + * * * * * + + _O illustre deputado F. fez hontem um grande discurso, muito + caloroso e muito espontaneo, sendo no final cumprimentado por quasi + todos os seus collegas._ + + (Dos jornaes). + + +Passou por alli e entrou. + +Era um espectaculo novo para elle, uma sessão parlamentar. Vinha a +Lisboa, muitas vezes, estando as Camaras abertas, mas em geral tinha +muito que fazer, e não podia demorar-se por fóra de casa. + +O cavallo engorda só com a vista do dono, e elle sabia bem como o seu +emmagrecia, isto é, como lhe corriam mal os negocios quando se ausentava +por certo tempo. Mas uma vez não são vezes e elle poderia fazer á sua +curiosidade o sacrificio das suas commodidades. Em vez de partir no +comboio da tarde, que era rapido, partiria no comboio da noite, muito +ronceiro, parando em todas as estações, e só chegando á sua terra a uma +hora bastante incommoda, de madrugada. + +Entrou, e dirigindo-se ao primeiro porteiro que viu, entregou-lhe um +cartão de visita para o deputado do seu circulo, pedindo uma entrada, +para a galeria do presidente. Tinham-lhe dito que era d'alli que melhor +poderia disfructar o espectaculo. S. ex.ª mandou o bilhete de admissão, +e pedia desculpa de não vir, porque estava conversando com o ministro a +respeito d'um melhoramento que tinha pedido lá para o circulo, a ponte +de alvenaria sobre a ribeira, que no inverno, chovendo muito, estorvava +a passagem de carros. + +Acabava de ler-se a acta, quando elle se installou no seu logar. Um +deputado já velho, com oculos, mandou para a mesa uns papeis, requerendo +que fossem publicados no _Diario_, e um dos ministros declarou-se +habilitado a responder á interpelação que lhe tinha annunciado, na +vespera, um illustre deputado da maioria. + +Pareceu-lhe aquillo pouco interessante, e já quasi se arrependia de ter +alli ido, quando o presidente, não havendo mais quem pedisse a palavra, +declarou que se ia entrar na ordem do dia. E logo a seguir: + +--Tem a palavra o sr.... + +Era o seu deputado que tinha a palavra. Não pensou mais em ir-se embora, +está bem de ver, e como o homem tivesse a palavra forte e o gesto largo, +prendeu-lhe a attenção desde o começo. A Camara estava um pouco +distraida, cada qual cochichando com o seu visinho, mas elle tinha a +impressão que o discurso era bem alinhavado, talvez um pouco vulgar nos +conceitos, mas bastante correcto na forma, e deduzido com certa logica e +habilidade. Quando faltavam apenas cinco minutos para se encerrar a +sessão, o presidente, interrompendo o orador, perguntou-lhe se desejaria +ficar com a palavra reservada. + +--Vou concluir, sr. presidente; os cinco minutos de que ainda disponho, +chegam muito bem para o que me falta dizer. + +Quando acabou, muitos deputados foram cumprimental-o, alguns +apertando-lhe a mão com muita força e outros abraçando-o com +enternecimento. + +Esperou-o ao pé do elevador, e mal o viu estendeu-lhe as duas mãos: + +--Muito bem! muito bem! + +Elle então explicou, modestamente, que não contava usar da palavra, +n'aquella sessão, e que por isso não se tinha preparado. + +--Foi o que acudiu na ocasião; para a outra vez será melhor. + +Já fóra do edificio das Côrtes, atravessando o largo, um rapaz de blusa +azul, com uns papeis nas mãos, approximou-se d'elles. + +--Que deseja? + +--São as provas do discurso; v. ex.ª manda-as á typographia, ou quer que +vá buscal-as? + + + + + * * * * * + + _A continuarem as coisas assim, aos republicanos bastará um pouco de + audacia para fazerem a Republica._ + + (Dos jornaes monarchicos). + + +Era um pego largo, pouco fundo, com moitas de juncos pelas barreiras que +se esboroavam a cada instante. De cada vez que caia um pequeno torrão, +acudiam do fundo peixes em cardume, alguns doirados, outros de prata. +Andavam á roda do pego uns homens graves, sem instrumentos de pesca, +varando os peixes com olhares de fogo--olhares de guloso ou de avaro. + +Bem se importavam os peixes que elles os olhassem assim, com uma +insolencia quasi dolorosa, se lá da camada funda em que andavam +apercebiam-se do minimo gesto que elles fizessem, estendendo a mão, e +logo mergulhavam mais, pondo-se inteiramente a salvo. + +Alli perto, debaixo d'uma arvore frondosa, andavam creanças a brincar. + +Como as chamassem, n'um prompto, correram para junto daquelles homens +graves que andavam á roda do pego, devorando com os olhos aquelles +peixes de oiro e prata, que se viam lá em baixo, na transparencia da +agua, e de quando em quando vindo á superficie, quando das barreiras +caia um pequeno torrão, que os atraía em vez de os espantar. + +--Ganha um vintem cada um, se atirarem para o pego muita poeira e muita +lama. + +Os pequenos olharam uns para os outros, como que interrogando-se, e logo +desataram a correr, por alli fóra, rindo ás gargalhadas, deixando +estupefactos aquelles homens graves que estavam havia muito namorando os +peixes, varando-os com olhares de fogo--olhares de guloso ou de avaro. + +Já a distancia, para além da arvore debaixo da qual ha pouco brincavam, +estacaram todos ao mesmo tempo, como se obedecessem a uma voz de +commando. O mais ladino, apontando na direcção do pego, com um grande ar +de superioridade desdenhosa: + +--Queriam pescar nas aguas turvas, os gajos... + +E todos riram á gargalhada. + + + + + * * * * * + + _Toda tu és formosa, amiga minha, e em ti não ha mancha._ + + (Cantico dos Canticos). + + +Que os seus labios toquem os meus labios, dando-me o osculo da sua +bocca, e as minhas mãos toquem os seus peitos, fragrantes como os +balsamos mais preciosos... + +Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe mudou a côr +beijando-a doidamente n'um dia em que ella andava pelas encostas, +apascentando os gados, esbelta como a açucena... + +Hei de fundir os meus desejos loucos no fogo dos seus olhos negros, para +afogar n'uma gargalheira d'ouro o seu pescoço de rola. + +Ella é a flor do campo, o lirio immaculado dos valles, olorosa como o +nardo, rescendendo como um ramalhete de açafrão que alguem tivesse +collocado entre as suas pomas virgens, appetitosas como um cacho de +Chypre, de bagos humidos e frescos. + +Não a acordem no seu thalamo de flores, que ella assim é linda como a +Sulamita, cujo coração vela emquanto ella dorme, e na volupia do seu +sonho, perfumado de todas as essencias do Libano, percebe a voz do seu +amado, que lhe bate á porta, a escorrer-lhe do cabello em anneis todo o +orvalho da noite. + +Os seus labios são como uma fita de escarlate, mal cobrindo os seus +dentes de marfim, e as maçãs do seu rosto, como romã partida, accendem +fome de beijos nos proprios cedros do Libano. + +Que airosos são os seus passos, e que harmonioso é o seu talhe, +similhante ás palmeiras do deserto, em torno das quaes esvoaçam pombas +nitentes como frocos de espuma, que o vento erguesse do mar quando as +ondas saltam como cabritos do monte, procurando as folhas verdes! + +Não lhe perturbeis o somno, linda como é adormecida, o leito em que +repousa tendo o olor de um canteiro de plantas aromaticas, onde floresce +o nardo e o açafrão, o cinamomo e a mirrha. + +Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe queimou as +faces, beijando-a doidamente, n'um dia em que a apanhou no campo, +esbelta como as açucenas... + + + + + * * * * * + + _Ci git Piron, qui fut vien!..._ + + +Accumulava com o emprego burocratico... de não fazer nada, o encargo +social... de dizer mal de todos e de tudo. Assim o tempo não lhe chegava +para ir aqui e além, apparecendo em toda a parte, informando-se da +ultima novidade, e commentando o ultimo escandalo. Estava convencido de +que nascera com immensas aptidões, um enorme talento de escriptor, um +profundo genio d'artista, e que tudo isso lhe fôra roubado, ainda no +berço, uma noite, estava elle a dormir e a sonhar--um lindo sonho côr de +rosa, que punha estremecimentos rithmicos nas suas carninhas de leite. +Teria sido um philosopho como Littré, um esculptor como Miguel Angelo, +um historiador como Mommsen, um critico como Taine, um poeta como Victor +Hugo, um pintor como Rubens, um romancista como Balzac, se lhe não +tivessem roubado em pequeno as immensas aptidões com que o dotára a +Natureza. + +Quando se punha a escrever, emperrava-lhe a penna ao cabo de poucas +linhas, e não havia maneira, por mais que torturasse os miolos, de +lançar ao papel uma ideia. Quando se punha a fazer pintura, +escorregava-lhe o pincel borrando a lona, e succedia então que tendo +feito o desenho para uma rosa, lhe saia inevitavelmente uma couve-flôr. +Uma unica vez conseguiu levar a cabo uma esculptura; mas succedeu que +tendo modelado no barro um cupidinho alado, quando o passou ao gesso se +encontrou com um kanguru. Vinham-lhe então raivas tremendas, um odio +enorme aos que tinham um nome, aos que faziam livros ou faziam estatuas, +affirmando de qualquer forma uma competencia superior--o talento, que +não é commum, ou o genio que ainda é mais raro. Era a impotencia gerando +a inveja; era a inveja transmudando-se em odio. + +Um dia morreu e, como não tivesse amigos, quasi ninguem o acompanhou ao +cemiterio. Quando iam a descel-o á cova na sua mortalha de pobre, um +bohemio que alli chegou, informando-se de quem era, disse: + +--Deviam fazer-lhe a cova redonda... A ultima morada d'um nulo, deve ter +a fórma d'um zero. + + + + + * * * * * + + _S. M. tem recebido milhares de cartas, bilhetes e telegrammas, + felicitando-o pelo mallogro do projectado movimento revolucionario._ + + (Dos jornaes). + + +Estendeu o braço e premiu o botão electrico, que ficava um pouco ao lado +da secretaria. + +--Pareceu-me ouvir chamar... + +--Chamei, sim. Vieram cartas, bilhetes, telegrammas, não é verdade? + +--E todos elles... + +--Todos elles dizem a mesma coisa. Até parece que foram expedidos pela +mesma pessoa ou então... + +--Ou então foram redigidos segundo uma formula combinada, não é isso? + +--Exactamente, segundo uma formula combinada. + +--E já os colleccionaste, conforme te disse? + +--De certo. Á medida que chegavam ia... + +--Está bem. Traze aquelles que sabes e mette-os além, n'aquella caixa. + +--N'aquella caixa? + +--Sim, n'aquella caixa. Vou lel-os de monoculo. + + +Eram algumas duzias de telegrammas, vindos d'aqui e d'além, uns do norte +outros do sul, todos com muitas felicitações, muitos protestos de +respeito, de estima e dedicação. Parecia, na verdade, que tinham sido +redigidos segundo uma formula combinada, tão eguaes eram os seus dizeres. + + +--Prompto, já lá estão. + +--Olha, põe-lhes em cima aquelle folheteco que está além, n'aquelle +_étagère_, de capa verde... + +--Mas é a Carta... + +--Pois já se vê que é. Anda, põe-a lá, e raspa-te. + + +D'ahi por um quarto d'hora, pouco mais ou menos, sentado á secretaria, +na descuidosa negligencia d'um nababo feliz, a mordicar um charuto +fortemente aromatico, estendeu o braço e premiu o botão electrico. + +--Não sei se é a mim que... + +--É com o que está de serviço ao bispote. + +--Então sou eu. + +--Despeja aquella caixa. + + + + + * * * * * + + _A alma das creanças que morrem sem baptismo não entra no céo._ + + (Crendices populares). + + +No dia seguinte era o baptizado. + +Havia mais d'uma hora que estava a devoral-o com os olhos, debruçada +sobre a canastrinha de verga em que elle dormia, envolto em rendas, +muito harmonioso na minusculidade das suas formas--como se fosse uma +esculpturazinha de Donatello, copiada de frei Angelico, em um vago +presentimento da Renascença. + +Ella propria o enfaixaria, subtilizando os dedos leves, ao calçar-lhe os +sapatinhos de seda, não fosse magoar-lhe as carninhas tenras, d'uma +rijeza de fructa verde e sadia. Não iria com elle á Egreja, fraca ainda +como se sentia; mas já recommendára á parteira que o não entregasse a +ninguem, nem mesmo ao padre, receosa de que mãos pesadas tomassem +aquelle fardozinho ligeiro, que era a melhor fibra do seu coração, +animada do mais puro effluvio da sua alma. Sem saber como, entrou a +philosophar sobre o baptizado, o santo sacramento do baptismo como +ensinam os livros sagrados. + +Seria então um peccador, o seu filhinho. + +Quantas creanças por esse mundo além, morrem sem baptismo, quasi ao +nascer, pequeninos botões de rosa, que não chegam a abrir, porque a +aragem soprou mais forte e os lançou por terra!... O espirito d'estes +anjinhos irá então soffrer as torturas do purgatorio, espiando uma culpa +que não tinham, purificando-se de um mal que não fizeram? + +Se o seu filho morresse perderia a crença em Deus, e se pudesse +acreditar que a alma das creanças, mortas antes de baptizadas não +ascende directa e immediatamente á vista do Altissimo, radiosa como um +olhar da Virgem Mãe, negaria a justiça divina, muito peor que a dos +homens... + +Mas então o santo sacramento do baptismo nada mais será que uma mentira?... + +... Envolto em rendas, a dormir na sua canastrinha, o petiz estremeceu, +e ella ficou suspensa na corrente dos seus pensamentos, enlevada na +contemplação d'aquella esculptura minuscula, de formas harmoniosas, que +dir-se-ia modelada por Donatello, a copiar Frei Angelico, n'um vago +presentimento da Renascença. + +No dia seguinte lá foi o petiz a baptizar. + + + + + * * * * * + + _Um rapaz da Beira, allegando que o pae é pobre, furou a greve, pelo + que foi espancado á porta ferrea._ + + (Dos jornaes). + + +Nunca fôra á escola. + +Os filhos da gente pobre não teem o direito de ser creanças, e os paes +d'elle eram pobresinhos. Aos sete annos já era um valor, em linguagem de +economistas. Fazia dó ver o garotito queimando os musculos tenrinhos +n'um trabalho com que não podia. Mas os paes d'elle eram tão pobres!... + +Quando entrou nas sortes, já era orphão de mãe, e como tirasse um numero +alto, o mais alto que havia na urna, livrou-se de ir servir o rei, +deixando o seu velhote quasi cego e inteiramente tropego a viver da +caridade publica. Por aquelles sitios não havia trabalhador como elle, +sempre a lidar com a terra, de semana trabalhando para os outros, nos +domingos trabalhando para si. Não bebia nem fumava, todos os seus ganhos +eram para sustentar a casa, onde não faltava nada, a não ser a alegria. +Como não ha-de ser triste o lar onde não explude um riso de mulher, onde +não ha petizes que ponham tudo fóra dos seus logares, n'uma adoravel +desenvoltura... Casou, e pareceu-lhe que tinha ido buscar á Egreja mais +força, mais energia, mais saude. Quando lhe nasceu o primeiro filho, que +foi tambem o ultimo, já o pae tinha acabado de morrer, pobre velho cego +e tropego, que um delgado fio prendia á vida, desde que ficára viuvo. + +--Este não ha-de ser para ahi um animal como o pae, dizia apontando o +filho. + +Aos seis annos mandou-o para a escola, e como o rapaz fosse intelligente +e applicado, com muita facilidade aprendeu a ler, excedendo todos os +seus condiscipulos. Ficou distincto na instrucção primaria, e como fosse +notavel a sua queda para os estudos, matriculou-se no lyceu. Vencidos os +preparatorios lá foi o pae leval-o a Coimbra, inchado como a rã da +fabula, já a remirar-se no seu doutor. + +--Evite as occasiões; mas quando se encontrar n'ellas, não faça má figura. + +Foi esta a unica recommendação que lhe fez, de volta á sua aldeia, +tendo-o installado na casa d'um conhecido com ordem de lhe abonarem o +que fosse preciso. + +Outro dia á saida da missa, no adro da Egreja, falou-se de coisas graves +em Coimbra. Vinha nos papeis... + +--Que foi? + +Um dos que estavam no grupo, explicou: + +--Houve lá o diabo. Sete estudantes foram expulsos, e os outros, por +camaradagem, declararam-se em greve. Mas alguns, diz o jornal, +abandonaram os companheiros e foram ás aulas. O seu rapaz... + +--O meu rapaz não foi ás aulas com certeza. + +Tres dias depois, como o governo mandasse fechar as escolas, +appareceu-lhe o rapaz em casa, sem ter avisado como era costume. + +--Ouve lá, quantos romperam a greve? + +--Poucos, talvez uns quatro ou cinco. + +--Mas tu... + +--Considerei os immensos sacrificios que tem feito para me dar uma +posição, e para lhe poupar... + +--Sim, para me poupares alguns dias de trabalho honrado, não achaste +nada melhor que praticar a má acção de abandonar os collegas, victimas +da injustiça. + + +Nunca o tinham mandado á escola, mas abençoava agora a sua ignorancia, +severo nos seus principios d'honra, intransigente na sua lealdade de +camponio para com os seus irmãos da gleba, crendo na simplicidade do seu +espirito que o saber deforma o caracter. + + + + + * * * * * + + _Deus fez as almas aos pares._ + + (Da sabedoria das nações). + + +Tinham-se encontrado alli no ponto onde se bifurca a estrada. + +O sol descahia ao longe, por traz dos montes, n'um esbraseamento de fogo +amortecido, e na charneca immensa havia tanta paz e doçura, como n'uma +cathedral augusta a horas mortas da noite. + +Cançados, cheios de pó, via-se bem que tinham feito uma longa jornada +por caminhos difficeis, rasgando o fato e as carnes nas silvas e pitas +dos vallados, e magoando os pés descalços nas veredas e atalhos invios. + +O sol descahia ao longe, por traz dos montes, e não se avistava um casal +na extensão quasi infinita da charneca, silenciosa como uma cathedral +augusta a horas mortas da noite. + +Dir-se-ia que se procuravam sem nunca se terem visto, o acaso tendo-os +reunido alli, no ponto onde se bifurca a estrada, cançados, cheios de +pó, o fato rasgado, e as carnes feridas, como se tivessem atravessado um +bosque selvagem, sob a ameaça d'um perigo. Pois que a sorte os reunia... + +--Seria bom ficar aqui, ficando ambos, torturada como venho de muito +longe, sem um braço amigo a que me encoste, sem um coração amigo que por +mim palpite!... + +--Juntos faremos o resto do caminho, querendo-nos muito, amando-nos +muito, cada qual rivalizando em dar ao outro a maior porção de sonho, a +maior somma de ventura!... + +Por sobre a charneca immensa pairava uma paz bemdita, e a lua muito +pallida, como se fora um pingo de leite, deixára cahir uma luz frouxa e +baça--tal uma lampada mortiça no silencio d'uma cathedral augusta. + + +Era dia de finados. + +Desde que a mulher lhe morrera, havia tres mezes, nem um só dia passava +sem que elle fosse ao cemiterio, rezar sobre a sua sepultura, +offertar-lhe flores orvalhadas de lagrimas. + +Tinham-se amado tanto! + +Por certo não se morre de felicidade, visto que elle não tinha morrido +no dia em que a recebera sua esposa legitima á face da santa madre +egreja, e tambem não se morre de dôr, visto elle não ter morrido no dia +em que lhe cerrou os olhos, colando-lhe os olhos ás palpebras, n'um +derradeiro beijo. + +Era dia de finados, e como não quizesse dar em espectaculo a sua dôr, o +cemiterio cheio de visitantes, deixou que toda a gente saisse, já quasi +ao pôr do sol, para elle então cumprir a dolorosa missão que se impuzera +de ir todos os dias retalhar o coração, ajoelhado sobre a pedra que +cobria metade da sua alma, que era toda a sua felicidade. + +Ajoelhou, chorou, rezou e quando já tinha os olhos secos de muito haver +chorado, e já não tinha o coração dorido de tanto que a dôr o tinha +feito soffrer, espalhando pela sepultura o seu braçado de flores, as +mãos postas, o chapeu debaixo do braço, os olhos erguidos ao alto, +anniquilado como se caira sobre elle a maldição de Deus, dirigiu-se para +a porta do cemiterio. + +A poucos passos andados, cruza com elle um rapaz alto, vestido de negro, +com um grande ramo de flores na mão. + +Parou, e sem quasi se aperceber da sua curiosidade, poz-se a seguil-o +com os olhos. O outro foi seguindo, o andar estugado, caminhando a +direito sem hesitar. Como elle fizera havia instantes, sobre a mesma +sepultura, ajoelhou, chorou, rezou e quando já não tinha mais lagrimas +para chorar, automaticamente, como se na pedra da sepultura tivesse +deixado colada a alma, dirigiu-se para a porta do cemiterio. + +--Devia tel-a amado muito, para soffrer assim! + +--Se amei! Daria a vida para a resuscitar, ou para ir apodrecer ao lado +d'ella, debaixo da mesma pedra. + +--Era então sua mulher!.. + +--Era simplesmente minha amante, porque tivera a infelicidade de casar +antes de nos conhecermos. + + +Havia tres mezes que a mulher morrera, que nem um só dia passava sem que +elle fosse rezar sobre a sua sepultura, offertando-lhe flôres orvalhadas +de lagrimas. + + + + + * * * * * + + _Não ha bella sem senão._ + + +Ás vezes, quando a beijava, sentia-lhe as faces quentes dos beijos que +outro lhe dera. Parecia-lhe então absurdo, quasi inverosimil que a +Natureza fizesse tão linda uma creatura tão perfida.--Era como se alguem +mettesse lama das ruas n'uma urna de alabastro. + +Tão linda! + +Punha-se então a fixal-a muito, muito--como se, debruçado sobre um +abysmo, quizesse sondar um mysterio. Pareciam feitos de treva os seus +olhos luminosos! Brincava um sorriso leve nos seus labios sensuaes, em +que havia o perfume intenso das violetas e o sabor casto das rosas. + +Tão linda! + +Não se acredita que haja vulcões na lua, serena e pallida, ás vezes +escondendo-se por traz das nuvens, como se fosse uma mulher nua que +percebesse no espaço olhos brejeiros a fital-a. + +Tão linda! + +Manchava-lhe o pescoço um fio d'ouro muito delgado suspendendo um +Christo de marfim perfeito como se o fizera Donatello, vago e poetico +como se o desenhára Frei Angelico. + +Tão linda! + +Mas parecia-lhe, quando a beijava, que ella tinha as faces quentes dos +beijos que outro lhe dera.--As plantas venenosas nunca deviam ser +bellas, attrahindo para matar--nem as mulheres bellas deviam ser +perfidas, como se um tigre habitasse no calice branco d'um lirio, ou uma +cobra se escondesse entre as folhas d'uma rosa! + +Tão linda! + + + + + * * * * * + + _Souvent femme varie_ + _Bien fou qui s'y fie..._ + + +--Tontinho! + +--Imaginas, então, que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos, +sem a loucura das tuas caricias! Arranca a planta pela raiz, e diz-lhe +depois que floresça e fructifique, que erga os braços onde não circula a +seiva, offerecendo aos reverberos d'um sol quente e luminoso as suas +folhas mirradas, d'um amarello chlorotico, que precede a morte decisiva... + +--Tontinho! + +--Já me afizera ás fatalidades do meu destino, e habituada a olhar nas +trevas, a cerração da minha noite parecia-me ás vezes que tinha vagos +lampejos d'aurora, as incertas claridades d'um crepusculo. Acreditei nas +tuas palavras, e logo senti quente o sangue que se me gelava nas veias, +e o coração inquieto, na desenvoltura d'um passaro que apanha a gaiola +aberta, pulsar com força desusada, no alvoroço d'uma alegria doida. + +--Tontinho! + +--Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias de matar-me +primeiro, desembaraçando-me d'uma vida inutil, tragica na sua dôr +recalcada, e ao mesmo tempo burlesca na sua dedicação humilde, nem +espirrando como a lama quando a pisam na rua. + +--Tontinho! + +Dentro do caramanchão, ao fundo do jardim, a luz branca da lua era baça, +como a flor da magnolia, e discreta como uma tia velha, ou uma _bonne_ +suissa. Mal se ouvia o ramalhar das folhas, como um cicio brando e +perfumado, quando a brisa passava, na leveza imperceptivel d'uma +borboleta branca, que fosse a alma errante d'uma creancinha tisica. + +Colleante, os braços nús, humedecendo os labios sêccos da febre em que +toda ella ardia, mergulhou nos seus olhos castanhos os seus grandes +olhos negros, e foi como se aquellas almas se fundissem, enlaçados +aquelles corpos no contacto mais affectuoso e mais intimo. Não teriam +ouvido o ramalhar das folhas, ainda que por alli tivesse passado algum +cyclone devastador, tudo arrasando no seu caminho... + +Tontinhos! + + +Mezes volvidos, tendo regressado sem se fazer annunciar, mal saccudido o +pó da viagem, sentiu necessidade de ir reviver todas as venturas +passadas no logar onde as fruira. + +Era uma noite de luar escasso, e tão froixamente passava a brisa, que as +folhas não boliam nas arvores, e uma borboleta, que alli abrisse as +azas, faria um grande ruido. Approximou-se do caramanchão, pé ante pé, +como se tivesse medo que acordassem todos aquelles vegetaes adormecidos, +e entrassem a gritar por soccorro, tomando-o por um ladrão ou um assassino. + +Lá dentro no caramanchão, a luz da lua era baça como a flor da magnolia, +e discreta como uma velha tia, ou uma _bonne_ suissa. Pareceu-lhe que +alguem falava, muito perto d'alli, e como se approximasse mais e mais, +cautelosamente, quasi sem pisar o chão, não fosse denuncial-o o ruido +d'alguma folha sêcca, subitamente, como se fossem gotas de chumbo +fundente que lhe instillassem nos ouvidos: + +--Imaginas então que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos, +sem a loucura das tuas caricias! Se te fosses, havias de levar-me +comtigo, ou havias de matar-me primeiro, desembaraçando-me d'uma vida +inutil. + +--Tontinho! + + +Quando saiu, a correr como um ladrão perseguido, ou como um doido que se +escapa, nem pensou no escandalo que causaria a sua presença alli já +noite velha, se o jardineiro o visse. E era tão grande a sua +perturbação, quasi a raiar pela loucura, que parou junto á porta, deante +d'um molho de cactos, a insultal-os, parecendo-lhe que eram creaturas +maldosas, chasqueando do seu ludibrio, em grandes risadas vermelhas. + +Coitadinho! + + + + + * * * * * + + _Os milagres não se discutem--ou se negam ou se acceitam._ + + +Chegou á porta da Egreja no momento preciso em que o sacristão, com o +chapeo debaixo do braço, se preparava para a fechar. + +Levava na mão uma almotolia d'azeite, obra d'uma canada, e explicou que +fizera aquella promessa á senhora Santa Luzia, da sua particular +devoção, no anno passado, quando estivera mal dos olhos. Deixára um +homem fazendo a sua obrigação, pagando-lhe meio dia, e, como a jornada +era comprida, não pudera chegar mais cedo. Seria um grande transtorno +ter de voltar, e só muito tarde poderia fazel-o, porque o patrão já lhe +dissera que iria para as herdades do Sado, e era natural que por lá se +conservasse até ao fim da temporada. De resto, poucos minutos lhe +chegavam para cumprir a sua promessa, e como ha viver e morrer, não +queria ser chamado á presença do Senhor sem se pôr em contas direitas +com os santinhos. Ainda no domingo passado tinha ido levar um alqueire +de trigo a Santo Antonio; por causa de um atalho de cabras que se tinha +sumido, e que elle receava que fosse parar á bocca dos lobos. Felizmente +que nem só uma cabeça se perdera, e isso fôra sem duvida um milagre do +santo, que os lobos, na charneca onde andam, são tantos como as mães. + +Tanta piedade commoveu o sacristão, aliás d'uma crença muito precaria, +como quasi toda a gente que vive muito no gremio da Egreja. Dentro em +nada era sol posto, e elle tinha de ir á villa comprar mantimentos e dar +informações da mulher, havia duas semanas de cama. Disse-lhe que fosse +rezar as suas orações no altar da Santa, e que despejasse a almotolia no +potezinho de lata, com tampa de madeira, que estava na sacristia, logo á +entrada, lado direito, e que servia só para recolher o azeite das +promessas, geralmente improprio para as comidas. Que em saindo fechasse +bem a porta, e entregasse a chave á rapariguinha que lá tinha em casa, +para acompanhar a doente, quando elle precisava sair. + +No dia seguinte, pela manhã, quando foi preparar a egreja para a missa +do domingo, notou que a Senhora Santa Luzia não tinha o cordão e os +brincos que lhe tinha offerecido um brasileiro, tambem doente dos +olhos--o cordão por ella o ter livrado do mal, e os brincos por o ter +livrado dos especialistas. + +--Foi aquelle grandissimo ladrão! + +Posta a policia em campo, d'ahi a pouco estava preso o indigitado +gatuno, que o sacristão reconheceu mal o viu. + +Não negou estar na posse dos objectos que se dizia terem sido roubados, +mas jurou pela salvação da sua alma que tal roubo não commettêra. E que +só falaria na presença do sr. prior, que era um homem de muita +santidade, e d'uma grande sabedoria. Sem saber do que se tratava, +acompanhado do official de diligencias, foi o prior a casa do juiz. +Então o homemzinho explicou:--A Senhora, mal eu acabei as minhas rezas, +entrou a olhar-me com muita compaixão. Contei-lhe todas as miserias da +minha vida, e disse-lhe como aquelle azeite que alli levava para a sua +lampada, fôra tirado á bocca dos meus filhos. Quando acabei, subi os +tres degraus do altar para lhe beijar a barra do vestido. Então a +Senhora, tirando o cordão que tinha ao pescoço, e os brincos que tinha +ás orelhas, entregou-m'os com as suas bemditas mãos, dizendo que a ella +não lhe faziam falta aquellas coisas, e que eu podia, com o dinheiro que +ellas me rendessem, comprar o pão e o fato para os meus filhos. +Observei-lhe que poderiam tomar-me por ladrão, vendo-me na posse de taes +objectos, e isso seria a minha desgraça e a minha vergonha. Vae então a +Senhora respondeu-me: + +--Se duvidarem da tua innocencia, invoca a autoridade do prior. Elle é +um crente sincero, e quando toda a gente negasse o milagre, elle o +affirmaria como possivel. + +Na verdade o prior affirmou a possibilidade do milagre, e como não fosse +possivel demonstrar que elle não se realizára, foi mandado o homem em +paz, com os brincos e o cordão. + +Dizia então o sacrista, vendo partir o penitente: + +--Grandissimo ladrão! + +E olhando compassivamente o prior, n'um murmurio, por entre os dentes: + +--Reverendissimo burro! + + + + + * * * * * + + _Saudade! gôsto amargo de infelizes..._ + + (Garrett). + + +--Fizeste bem em vir... + +Cançou de dizer estas palavras, e espalmando a mão no peito, ainda não +havia muito opulento e agora mirrado, absorveu o ar com muita força, a +bocca largamente aberta, como se lhe parára o coração no supremo esforço +de fazer girar mais uma onda, talvez a ultima, de sangue arterializado. + +--Se soubesses como eu soffro... Brancos e delgados, muito delgados e +muito brancos, os seus labios eram duas folhas sêccas, muito ricas de +nervuras, frias como a neve dos polos. Eram botões de fogo, n'outro +tempo, os seus beijos, que só por milagre não queimavam. + +--Havias de querer-me muito, se soubesses como eu soffro... + +Via-se bem que soffria immenso, a febre a queimar-lhe os pulmões, um +suor frio e viscoso a babar-lhe a pelle, e um torniquete de ferro a +apertar-lhe o tronco, inexoravelmente, como n'um carcere da Inquisição. + +--Havias de querer-me muito se soubesses como eu soffro; mas, havias de +querer-me ainda mais, se soubesses como eu te amo... + +Na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica, os seus grandes +olhos negros, muito encovados, guardavam tudo o que lhe restava de vida, +um sopro apenas de vida, que era um bafejo da morte. Parecia-me ás +vezes, quando se fechavam, que não tornariam a abrir-se, e punha-me +então a espreitar, na translucidez das suas palpebras, o momento preciso +em que se apagassem. + +--Custa tanto morrer, sabes?... + +Sentou-se no leito, a muito custo, e levando as mãos á cabeça, sem dizer +nada, poz-se a desmanchar o cabello. Um ou outro fio de prata, muito +raro, manchava as suas tranças d'ebano, que lhe desciam quasi aos +calcanhares quando as deixava cahir pelas costas. + +--Vê como se envelhece depressa... + +Fez dois mólhos do cabello, e tomando um em cada mão, emmoldurou com +elles o rosto, muito magro, d'uma pallidez cadaverica. + +--Lembras-te?... + +Pelos seus labios brancos e delgados, muito delgados e muito brancos, +perpassou um sorriso leve de creança adormecida, e nos seus olhos +negros, muito encovados, brilhou mais intensa aquella lucilação, que era +tudo o que lhe restava de vida--um sopro apenas de vida, que era um +bafejo da morte... + +--Doidos que nós eramos!.. + +Revivi n'um minuto todo o poema do nosso amor, as loucuras d'um amor +prohibido, a que não tinha faltado a dôr cruciante das paixões extremas, +para dar ao goso uma intensidade quasi infinita. Instinctivamente, como +n'outro tempo, collei os meus labios aos seus, e nem percebi que estavam +gelados, folhas sêccas muito ricas de nervuras, frias como a neve dos +polos. + +Durou o sonho toda a eternidade d'um segundo, talvez menos ainda. Mal +acordei, attentando na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica; +vendo fechados os seus grandes olhos negros, já sem brilho na +translucidez das palpebras enrugadas, tive a impressão de me encontrar +dentro d'um jazigo, para violar uma morta. + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Ao de Leve, by Manuel de Brito Camacho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AO DE LEVE *** + +***** This file should be named 34963-8.txt or 34963-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/9/6/34963/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/34963-8.zip b/34963-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b4b09b6 --- /dev/null +++ b/34963-8.zip diff --git a/34963-h.zip b/34963-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..33088b2 --- /dev/null +++ b/34963-h.zip diff --git a/34963-h/34963-h.htm b/34963-h/34963-h.htm new file mode 100644 index 0000000..92ed9a2 --- /dev/null +++ b/34963-h/34963-h.htm @@ -0,0 +1,3962 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Ao de leve, por Brito Camacho</title> + <meta name="Author" content="Camacho, Brito"> + <meta name="Edition" content="Lisboa: Livraria Editora Guimarães, 1913"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 93%; + font-size: 7pt; + text-align: right; + color: gray; + } + blockquote {margin: 1em; margin-left: 3em; padding: 1em;} + .capa p {margin: 0;} + #corpo p.centrado{text-align: center; text-indent: 0;} + #corpo p.ni{text-indent: 0;} + #corpo p {text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1 {text-align: center; margin-top: 5em; margin-bottom: 2em;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Ao de Leve, by Manuel de Brito Camacho + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Ao de Leve + +Author: Manuel de Brito Camacho + +Release Date: January 15, 2011 [EBook #34963] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AO DE LEVE *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;font-size: 2em">AO DE LEVE</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:left;margin-left:30%;font-size:small;"><em>Composto e +impresso na Imprensa</em> <br> +<em>de Manuel Lucas Torres</em> <br> +<em>Rua do Diario de Noticias, 93</em></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="border: solid 2px #000; padding: 1em;text-align:center"> +<p style="font-size: 1.4em;"><u>BRITO CAMACHO</u></p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 4em;"><em>Ao de leve</em></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>1913<br> +Livraria Editora<br> +GUIMARÃES & C.<sup>a</sup><br> +68, Rua do Mundo, 70<br> +LISBOA</p> +</div> + +<p><span class="pn">{5}</span> </p> + + +<div id="corpo"> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O estudante que hontem, no Rocio, foi attingido por uma bala na + cabeça, já falleceu.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Como não havia de adoral-o, se era seu filho unico!</p> + +<p>Para mais, elle era o retrato vivo do pae, com todas as qualidades e todos +os defeitos—se um filho póde ter defeitos para a mãe que o estremece!</p> + +<p>Ficára com elle nos braços, viuva pela maior das fatalidades, quando ainda +não tinham seccado de todo as flores de laranjeira que lhe tinham posto no +cabello no dia do seu casamento, e nas suas faces havia ainda um pouco do rubor +intenso com que as haviam tingido os beijos loucos que elle lhe dera, já seu +marido, ao voltarem da Egreja.</p> + +<p>Annos e annos chorára a sua viuvez, e mesmo quando o filho lhe extendia os +bracitos gordos, muito risonho, as suas lagrimas não estancavam.<span +class="pn">{6}</span> Mas o sau pranto já não era só de dor; a desgraça ainda +lhe escaldava a garganta com soluços que lhe vinham do coração, mas já lhe +nimbava a alma a promessa d'uma felicidade remota. No filho via o marido—era +como se dentro de um tumulo assistisse ao esplendor d'uma aurora.</p> + +<p>Se não havia de adoral-o, a pobre mãe!</p> + +<p>Quando elle lhe saiu de casa para continuar os estudos, pareceu-lhe que +ficava viuva pela segunda vez. As suas cartas mitigariam a sua saudade, e ella +havia de lel-as com tamanha devoção, evocal-o com tanto amor, que a leitura +seria afinal uma conversa entre ambos, elle a enxugar-lhe os olhos com beijos, +e ella a lavar-lhe as faces com lagrimas.</p> + +<p>Já então elle era quasi um homem, alto e desempenado, uma pennugem leve +prenunciando um bigode negro, que seria talvez farto e provocador como o do +pae. Muito estudioso, e, ao mesmo tempo, muito intelligente, contava as +distincções pelos exames, nunca se rebaixando a esmolar uma protecção, mantendo +sempre perante os mestres uma attitude que, nem por ser respeitosa, deixava de +ser altiva. Ainda n'isso elle era como o pae, orgulhoso sem presumpção, +delicado sem maneirismos, altivo sem arrogancias.</p> + +<p>Como não havia de adoral-o!</p> + +<p>Surprehendia-se a fazer projectos de vida em commum, quando elle acabasse os +estudos, e fosse, para aqui ou para além, exercer a sua profissão.<span +class="pn">{7}</span> Já a deixariam livre os negocios da sua casa, que a +retinham agora separada d'elle, a contar o tempo pelo seu amor, e a achar os +mezes infinitamente mais compridos do que dizem os kalendarios.</p> + +<p>Talvez elle um dia casasse; mas nem assim o deixaria, humilde na casa +alheia, fazendo-se util, sendo prestimosa, realizando quantos milagres fossem +precisos para se tornar indispensavel. Pois se elle era a unica razão da sua +vida, como poderia alguem roubar-lh'o sem ao mesmo tempo a matar?</p> + +<p>Recebia as suas cartas em dias certos, e nunca elle deixára de lhe escrever +com a mais rigorosa pontualidade. Ás vezes eram apenas quatro linhas, meia +duzia de palavras que ella humedecia com os olhos, para as enxugar com os +labios.</p> + +<p>Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico, para +mais o retrato vivo do pae, com todas as suas qualidades e defeitos—defeitos +que para ella eram qualidades!</p> + +<p>Ora succedeu que n'aquelle dia, estando como de costume á espera do +carteiro, viu que elle passava pela sua porta, sem entrar. Era lá possivel não +ter carta? Provavelmente confundira-a no maço, e só daria por ella finda a +distribuição. Viria então entregar-lh'a.</p> + +<p>Passou uma hora, passaram duas horas, passou uma eternidade, e o carteiro +não voltou.</p> + +<p>Estaria doente? Ter-lhe-ia acontecido alguma desgraça?<span +class="pn">{8}</span> </p> + +<p>Distrahidamente, quasi sem intenção, pega n'um jornal. O coração deu-lhe um +salto dentro do peito, como se a um leão dentro de uma jaula lhe enterrassem +nas carnes uma choupa em braza.</p> + +<p>Houvera tiros, houvera espadeiradas, como n'uma batalha. Do campo tinham +retirado muitos feridos, tendo lá ficado alguns mortos.</p> + +<p>Foi lendo, lendo tudo, devorando as columnas do jornal, á procura d'um nome, +na ancia d'um condemnado á pena ultima, que um indulto póde salvar.</p> + +<p>Esse nome lá estava. Ferido com uma bala na cabeça, fôra levado ao hospital, +onde os medicos verificaram o obito.</p> + +<p>Não chorou, não soluçou, não gemeu, anniquilada por completo.</p> + +<p>Quando voltou á consciencia da realidade, ainda tinha nas mãos o jornal.</p> + +<p>Serena e tragica, como se debruçada sobre uma sepultura visse lá dentro o +proprio coração; tragica e dolorida como se lhe pezasse n'alma todo o +soffrimento humano; morta para o amor, abrazada em odio:</p> + +<p>—Mataram o meu pobre filho! Maldito seja para sempre, na sua descendencia, +o miseravel assassino!</p> + +<p>Como não havia de adoral-o, a pobre mãe, se elle era o seu filho unico!<span +class="pn">{9}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <em>Se fores um dia ao mar,</em> <br> + <em>Que a fortuna te não deixe;</em> <br> + <em>Bota a rede e vae-te embora,</em> <br> + <em>—Quanto mais burro mais peixe.</em> </blockquote> + +<p> </p> + +<p>Fôra creado de medico, e como a Natureza o dotára com bastante intelligencia +e um notavel espirito de observação, aprendeu mil coisas com o doutor, a ponto +de se julgar apto a fazer o que elle fazia. Depois chocava-o aquella +subalternidade de moço de consultorio, as pessoas que entravam nem reparando +n'elle, e algumas que n'elle reparavam tratando-o sem cortesia. Farto d'aquelle +viver, reconhecendo-se talhado para mais altos destinos, um dia pediu contas ao +patrão, e abalou sem dizer para onde.</p> + +<p>Mezes passados, enchia a cidade a fama de um doutor novo, que fazia +verdadeiros milagres, havendo quem affiançasse que dera vista... a uns poucos +de aleijados, e cegára uma meia duzia de coxos. Por acaso o doutor topou o +milagrante collega<span class="pn">{10}</span> na rua, e reconheceu n'elle o +seu velho creado, muito correcto, muito bem posto, tal qual um intrujão com +diploma. Ao outro dia, era um domingo, foi procural-o ao consultorio, curioso +de saber como aquillo era feito. No largo, junto ao adro da Egreja, havia uma +extraordinaria multidão. </p> + +<p>—Quantas pessoas calcula o dr. que estejam além?</p> + +<p>—Uns milhares.</p> + +<p>—E quantas d'essas lhe parece que serão intelligentes?</p> + +<p>—Algumas duzias.</p> + +<p>—Pois essas formam a sua clientella; o resto pertence-me.</p> + +<p>Vinha isto a proposito... a proposito... Ah! sim; a proposito da tiragem do +jornal, que o administrador acha pequena.<span class="pn">{11}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>A necessidade de equilibrar o orçamento póde obrigar o governo a impôr + sacrificios aos funccionarios.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Era manso como um cordeiro, e leal como um velho amigo.</p> + +<p>O general montava raras vezes; mas ia todos os dias visitar o seu +<em>Turco</em>, limpar-lhe a mangedoira, pentear-lhe a crina, passar-lhe a mão +pelo lombo, n'uma caricia que o animal agradecia, olhando-o com ternura.</p> + +<p>Ás vezes, a caminho do tanque, encabritava-se com o impedido, dando saltos, +como se quizesse fugir pelos campos fóra, no goso d'uma liberdade que não +conhecia, mas que adivinhava.</p> + +<p>Lá em baixo, na varzea, as eguas pastavam tranquillamente; e os poldros, +virgens de toda a domesticidade, pulavam como cabritos, mettendo a cabeça entre +as mãos, e logo desatando n'uma correria doida, bebendo os ventos, o pescoço +muito<span class="pn">{12}</span> extendido, o focinho alto, as narinas muito +abertas, respirando com estrondo. E era então que elle se encabritava com o +impedido, firmando-se nas patas trazeiras, dando grandes sacões inuteis, porque +a arreata era firme, e a mão que a segurava era forte.</p> + +<p>Que bom devia ser a liberdade!</p> + +<p>Por certo o tratavam bem; mas aborrecia-lhe aquella vida ociosa do quartel, +todos os dias a mesma coisa—comendo e bebendo por toques de clarim, n'um +automatismo de machina, com uma regularidade pendular. Mas era manso como um +cordeiro, leal como um velho amigo,—uma creança faria d'elle o que quizesse. +Ora succedeu que um dia foram dizer ao general que o seu <em>Turco</em> tinha +rebentado o impedido com uma parelha de coices. Não acreditou, mas entrando na +cavallariça, viu o pobre diabo extendido, soffrendo horrivelmente.</p> + +<p>—Tu que fizeste ao cavallo!</p> + +<p>—Nada, meu general.</p> + +<p>—É mentira. Eu conheço-o muito bem. Que lhe fizeste?</p> + +<p>—Saberá V. Ex.ª que elle estava a comer a ração, e vou eu, por brincadeira, +mexi-lhe na barriga.</p> + +<p>—Pois ahi está. Não se mexe na barriga de quem come.</p> + +<p>Era um grande philosopho, o general.<span class="pn">{13}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <em>Uma sogra nem de barro á porta.</em> </blockquote> + +<p> </p> + +<p>Andava elle pelo Algarve a tratar de negocios, quando o chamaram a Lisboa, +por telegramma, com a maxima urgencia. Não lhe diziam do que se tratava; mas, +como era o medico quem lhe telegraphava, ficou n'um susto de morte, calculando +que ou a mulher ou o filho se encontrasse gravemente doente. Pouco habituado a +ser feliz, imaginou logo o peor.</p> + +<p>O primeiro comboio partia d'alli a doze horas e, como ainda pudesse +servir-se do telegrapho, correu a pedir informações. Disseram-lhe que era a +sogra que adoecera no mesmo dia em que elle deixára Lisboa, e que a doença se +aggravava de momento para momento, receando-se um desenlace fatal. N'um grande +ah! de allivio e satisfação, como precisava de assignar uma escriptura dahi a +tres dias, foi-se deixando ficar, pedindo que o informassem, por via +telegraphica e postal, dos progressos da doença.<span class="pn">{14}</span> +</p> + +<p>Receava elle, pouco habituado a ser feliz, que a doença não fosse em +progresso, e por isso queria receber noticias amiudadas, se fosse possivel a +toda a hora. A doente peorava a olhos vistos, e dizia o medico que a pneumonia +degenerava em typho, sendo possivel que houvesse meningite á mistura. Elle +tinha uma enorme confiança no doutor, que já lhe assistira á morte de toda a +familia, e a quem elle conservára o partido, não para o tratar a elle, á mulher +ou ao filho, mas tão sómente para a sogra. Rematados os seus negocios, +metteu-se no primeiro comboio, com o coração aos baques, como quem aguarda uma +sentença. Descia o medico a escada, quando elle a subia esbodegado, e com bagas +de suor perlando-lhe a vasta fronte.</p> + +<p>—... Vi-a morta, meu caro amigo. Lancei mão de todos os soccorros, e posso +dar-lhe a boa nova de que passou todo o perigo. A crise fez-se hoje mesmo, e +agora é só questão de tempo.</p> + +<p>Subiu o resto das escadas a cambalear, como um ebrio, e atirando-se para +cima do sophá que havia na sala de entrada, n'um abandono de quem se vê +irremediavelmente ludibriado:</p> + +<p>—E eu que tinha tanta confiança n'esta besta do doutor!...<span +class="pn">{15}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>A policia, ajudada pela guarda municipal, fartou-se de espancar os + cidadãos pacificos, realizando muitas prisões.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>A estrada, larga e poeirenta, passava junto á porta sempre aberta do jardim, +marginada de choupos e eucalyptos.</p> + +<p>Toda a gente das aldeias proximas por alli fazia caminho, no giro da vida +ordinaria, homens, mulheres e creanças, alguns descalços, e outros rotos, a +maior parte sem pau nem pedra, gente pacifica como bois de trabalho, muito +pacifica e muito humilde.</p> + +<p>Aos domingos, nos dias santos, quando havia festa n'alguma egreja do sitio, +por alli passavam ranchos de moças garridas, em cabello, cantando e rindo, cada +qual pelo braço do seu namorado, parando aqui e além, aos abraços e beijos, +como numa kermesse flamenga.<span class="pn">{16}</span> </p> + +<p>Pois era n'esses dias que o Pandorga, locatario do jardim, quasi escondido +por detraz de uma parede de buxo, atirava os cães para a estrada, açulando-os +ás canelas de quem passava. <em>Csi, csi</em>, e arregalava o olho, guardado no +seu esconderijo, rindo muito, sem fazer barulho, quando os cães rasgavam as +saias das raparigas ou as calças dos homens, e muito mais quando lhe appareciam +de rojo, após a lucta, levando ainda nos dentes boccados de carne em sangue. +</p> + +<p>Ora succedeu que um dia havia festa alli perto; como o Pandorga açulasse os +cães—<em>csi, csi</em>—contra um bando alegre de camponezes, rapazes e +raparigas que iam passando a cantar, pacificos como bois de trabalho, ouviu-se +um estalo sêcco, como um rebentar de escorva, e o baque d'um corpo que cae, lá +adeante, por detraz da parede de buxo. Soube-se depois que tinha morrido o +Pandorga, e os cães nunca mais assaltaram as gentes que passavam pela estrada, +larga e poeirenta, e de quando em quando paravam, abraçando-se e beijando-se, +como n'uma kermesse de Rubens.<span class="pn">{17}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Hontem, na praça de touros, houve uma ligeira manifestação de + desagrado á Familia Real. O rei não assistia ao espectaculo.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Falava-se muito das suas valentias, embora ninguem citasse d'elle uma +façanha authentica, com testemunhas de vista. Era volumoso, e d'ahi concluiam +que era forte; era gabarola; muita gente acreditava que elle tivesse nos +musculos tanta força como na lingua. Contava elle que d'uma vez matára um boi +com um sôco, e n'um dia em que passava rente a um acampamento de ciganos, +armados de cacetes e espingardas, como percebesse que lhe faziam troça, desatou +aos pontapés a toda aquella malta, pregando com o mais atrevido no alto d'uma +azinheira que estava longe d'alli uns poucos de metros.</p> + +<p>Os que melhor o conheciam, mofavam das suas farroncas; mas não faltava quem +acreditasse nas<span class="pn">{18}</span> proezas de Ferrabraz, intrepido até +ao sacrificio da vida, sem lhe bulir um cabello. Ora succedeu que um dia, vindo +com a familia a caminho do arraial, n'uma aldeia da visinhança, alguem o +preveniu de que se preparava uma emboscada, lá adeante, n'um cotovêlo da +estrada antes de chegar á ribeira. E vae elle então, muito volumoso, pallido +como se todo o sangue lhe refluisse ao coração, os cabellos em pé, como se +visse deante de si a guela escancarada d'um leão com fome, apalpa-se como quem +procura alguma coisa, e batendo no hombro da companheira:</p> + +<p>—Vão lá andando, vão lá andando, que eu não me demoro; esqueceram-me os +charutos.</p> + +<p>Não voltou, está bem de ver, e no outro dia, quando lhe contaram o +succedido, ameaçou o céu e a terra, espumando como um javali ferido.</p> + +<p>—Se lá estivesse, rachava-os.</p> + +<p>E pregou tamanho murro no cinzeiro de barro, que o fez em boccadinhos.<span +class="pn">{19}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Hontem o sr. Marquez de Soveral teve com El-Rei uma conferencia de + duas horas.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>—Franqueza, franquezinha, ó coiso, essa historia da intervenção...</p> + +<p>—Era pela certa. Hoje a politica é só de interesses, quem governa é a +finança.</p> + +<p>—Bem sei, governa a finança; mas olha que isso de intervir sem mais nem +menos em negocios por assim dizer caseiros...</p> + +<p>—Peço perdão; mas não se trata d'um negocio caseiro, nem mesmo d'um negocio +exclusivamente nacional.</p> + +<p>—Hom'essa! Queres então dizer...</p> + +<p>—Quero dizer que em torno d'este negocio se formou uma atmosphera de +interesses internacionaes...</p> + +<p>—Olha que não tens publico, e essas lerias, cá para mim...<span +class="pn">{20}</span> </p> + +<p>—Cumpro o dever que me impõe a minha posição, e testemunho assim, dizendo a +verdade inteira, sem restricções, a minha sympathia pessoal...</p> + +<p>—Sim, senhor, és um artista. Vocês, os diplomatas, são como os homens de +theatro—mesmo quando estão fóra do palco, representam.</p> + +<p>—Julgava-me com direito a maior consideração da parte...</p> + +<p>—Tambem eu julgava que me tivesses na conta de menos tolo. Não me conheces +d'hoje nem d'hontem, para saberes que ninguem me faz o ninho atraz da orelha. +</p> + +<p>—O que? Pois...</p> + +<p>—Qual historia!... Acreditei todas as lerias que me impingiste, com uma +seriedade á altura das tuas prosapias...</p> + +<p>—Não o fiz por menos respeito; o uso das formulas...</p> + +<p>—É como o uso do cachimbo—faz a bocca torta. Sempre me sahiste um gajo!... +</p> + +<p>—Espero que não fique zangado...</p> + +<p>—Peior... Essa agora não é de diplomata, é d'alarve.</p> + +<p>—Sempre amavel!...</p> + +<p>—Sempre justo. Mas falando agora de coisas serias. Tu achas que eu devo... +</p> + +<p>—Ora essa! Está claro que deve. Da fama ninguem o livra, e as honras sem +proveito...</p> + +<p>—E quanto achas tu...<span class="pn">{21}</span> </p> + +<p>—Em negocio de tanta monta, nunca se pede de mais.</p> + +<p>—Pois sim, tudo tem limites. Ahi uns duzentos contitos, mais vintem, menos +vintem... Que te parece?</p> + +<p>—Parece-me que, pedindo essa bagatela, dá provas d'uma grande generosidade. +</p> + +<p>—Bem se vê que não és tu quem tem de esportular as massas. Pois está dito; +faço a coisa pelos duzentos.</p> + +<p>—É como se lhes désse a elles trezentos e vinte, o que não é barro.</p> + +<p>—Quero ser generoso...</p> + +<p>—Do pão do nosso compadre...</p> + +<p>—Pois sim, canta-lhe d'essas; mas se as coisas se complicam e me põem a +viola...</p> + +<p>—Qual põem! Chego ás vezes a imaginar que tem medo.</p> + +<p>—Tu não me digas isso outra vez, olha que te ponho os queixos á banda. Eu +nunca tive medo. Já d'uma vez, n'uma feira, se ergueu tudo contra mim, sem +saber quem eu era, e não arredei pé, de cacete em punho, sem ninguem pelo meu +lado.</p> + +<p>—Bem sei, bem sei; mas se amanhã houvesse qualquer coisa, em menos de nada +estavam alli os cavalinhos de pau, e tudo entraria na ordem.</p> + +<p>—E se me puzessem a andar antes d'elles cá chegarem?</p> + +<p>—Isso então era o diabo. Uma intervenção tardia,<span +class="pn">{22}</span> depois do facto consumado... Mas é absurdo o +suppôr...</p> + +<p>—Será absurdo, será; mas, pelo sim pelo não, vou dobrar a parada. Os gajos +repontarão?</p> + +<p>—Que tem lá que repontem?...</p> + +<p>—Está claro. Isto é como dizia o de Braga—ou comem todos, ou ha-de haver +moralidade.<span class="pn">{23}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>S. M. a Rainha, acompanhada da sua dama de serviço, andou hontem + distribuindo esmolas no bairro de Alfama, sem se dar a conhecer.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Não queria que a conhecessem.</p> + +<p>Abalava de casa, vestida como toda a gente, sem nada que pudesse chamar as +attenções de quem quer que fosse. Era uma creatura como qualquer outra, e +passava, como qualquer outra, no meio da geral indifferença. Os que a conheciam +cumprimentavam-na—bons dias, minha senhora!—e os que a não conheciam nem +sequer davam por ella. O passo meudinho, muito apressado, como quem marcha para +um certo fito, sem se importar com o resto. Entrava aqui, entrava além, fazia o +bem que podia, e nem esperava que lhe agradecessem os miseraveis a quem +extendia a mão, deixando cahir uma esmola. Como não se sabia quem fosse, +chamavam-lhe a <em>Caridade</em>. Envelheceu<span class="pn">{24}</span> muito, +como toda a gente que teima em viver e morreu um dia, encarquilhada e secca, +como a maior parte das velhas. Era a <em>Caridade Evangelica</em>.</p> + +<p>Tempos depois, nos mesmos bairros pobres entrou de apparecer uma creatura +exotica, dando nas vistas de toda a gente, obrigando a parar quem passava, para +a fixar com attenção. O passo largo, muito lento, como quem não tem pressa, e +que quer por força dar nas vistas. Entrava aqui, entrava além, como quem +passeia um reclame, e gostava que lhe enchessem as mãos de lagrimas agradecidas +os miseraveis a quem dava esmola. Como não se sabia quem fosse, n'um dia que +ella passava, o passo largo, muito lento, quasi rythmico, dois miseraveis que a +viam passar, como quem passeia um reclame:</p> + +<p>—É a Dona Caridade?</p> + +<p>—Não; é a Exploração da Miseria.<span class="pn">{25}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O Principe Real faz immensos progressos nos seus estudos, causando a + admiração dos seus professores.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Era um prodigio, o garoto.</p> + +<p>Contava a parteira que elle olhára para traz, quando nasceu piscando um +pouco os olhitos ramellosos, como quem pretende ver melhor. Aos tres mezes, já +tocava com os deditos côr de rosa nos bicos, pouco salientes, dos peitos da +ama, pondo-os em erecção, para mammar melhor. Viam todos que era um pequeno +muito talentoso, e um boccadinho brejeirote. Aos noves mezes dizia—bolas!—e +foi essa a sua primeira palavra. Comia de tudo, antes de fazer o anno, e +larachava com os creados finos, como se fosse uma pessoa grande. Era um +prodigio, o demonio do garoto, d'uma precocidade verdadeiramente excepcional. +Um familiar da casa perguntava d'uma vez ao medico, a proposito do +fedelho—<em>Naturalmente, um genio, doutor?</em><span class="pn">{26}</span> E +o doutor, encolhendo os hombros em ar de duvida—<em>Naturalmente um +idiota!</em></p> + +<p>Aos cinco annos já sabia tudo—quantas pernas tem um cão, quantas orelhas +tem um burro, quantos rabos tem um gato. Era prodigioso, e cada dia que passava +como que accrescia de muitos metros aquelle talento incommensuravel. Aos nove +annos era um geometra como Euclides, era um historiador como Tacito, era um +philosopho como Platão, era um pintor como Raphael, era um poeta como Camões, +um romancista como Balzac, um cabo de guerra como Napoleão, um estadista como o +sr. Lapin. A tal ponto lhe cresceu o genio, que já não havia espaço para o +conter, a dentro das fronteiras nacionaes.</p> + +<p>Foi então que se reconheceu a necessidade de o mandar para longe, onde +fossem mais largos os horizontes, que os genios, como os gazes quando os +comprimem além d'um certo grau, são eminentemente explosivos.</p> + +<p>E porque era ainda muito novinho, sem experiencia do mundo, apezar do seu +immenso talento, foi a familia com elle, e por lá ficaram todos—para bem de +todos nós.<span class="pn">{27}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>«É melhor tratar d'outro oficio. O jornal ha de morrer á falta de + leitores, porque você terá geito para tudo, menos para jornalista.»</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Carta anonyma).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p><em>Oh! la pauvre bête!...</em></p> + +<p>Era na verdade, um animal perfeito. De côr acastanhada, a anca alta, largo +dos peitos, uma estrella branca na testa, talvez demasiadamente sellado, a +perna delgada e nervosa, a cauda farta e comprida, era um burro que fazia parar +quem passava, admirando-o, e succedeu a mais de uma beata, ferida de tamanha +belleza e correcção, estacar no caminho das suas devoções, e não poder reprimir +nas arcas santas do peito esta exclamação blasphema:—<em>Benza-o Deus, como é +bonito!...</em></p> + +<p>Procopio então passava horas no enlevo do seu burro, afagando-lhe o focinho +e alisando-lhe o pello, não consentindo que sobre elle poisasse uma<span +class="pn">{28}</span> mosca, ou lhe manchasse a pelle acastanhada um grãosinho +de poeira. Era uma especie de burrolatria, um culto religioso que lhe enchia a +alma, dando-lhe todas as satisfações espirituaes que resultam para um crente da +adoração do seu fetiche. E porque se lhe afigurasse que o burro não era, como +os outros burros, uma simples cavalgadura, desatou a alimental-o com o melhor +da sua mesa, dando todas as coisas boas e raras que encontrava na sua despensa +ou se confeccionavam na sua cozinha. Mas nem o burro lhe pegava nos acepipes, +nem ao menos se mostrava agradecido aos seus disvelos e blandicias. Procopio +lamentava-se da sua má sorte, chorava a sua desdita, sempre amigo do seu burro, +sempre idolatra do seu idolo, sempre adorando o seu fetiche. E como quer que um +dia, desabafando n'um peito amigo, se queixasse da ingratidão dos burros, vae o +outro, grande philosopho, com larga experiencia da vida, aconselha-o assim:</p> + +<p>—A culpa é tua, Procopio, e de mais ninguem. O burro não foi feito para +comer á tua mesa, como tu não foste feito para comer á mangedoura. Queres vel-o +gordo, alegre, contente, a lamber-te as mãos reconhecido?</p> + +<p>E como Procopio estendesse o pescoço, a beber-lhe as palavras.</p> + +<p>—Dá-lhe palha, Procopio amigo...<span class="pn">{29}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>S. M. a Rainha visitou hontem o Hospital de S. José.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Estava perdida...</p> + +<p>Começava a soffrer do peito, havia annos, e como precisava de trabalhar +sempre, trabalhar sem descanço, para não vir a fome juntar-se á doença +encurtando-lhe a vida, o mal foi augmentando constantemente, aquelle terreno +sendo proprio para aquella vegetação, e as circumstancias ajudando como n'um +bom anno agricola. Que era uma constipação, tinha dito o medico do monte-pio, +n'uma visita em automovel, a trinta... réis a consulta. O certo é que as dores +augmentavam-lhe, como se tivesse o peito mettido n'uma prensa; a tosse era +funda, como se lhe viesse do mais intimo dos pulmões; manchas de febre +punham-lhe nodoas vermelhas na cera do rosto emmagrecido, e sentia o sangue +subir-lhe á bocca, em golfadas, que a muito custo reprimia. Despediram-n'a da +fabrica,<span class="pn">{30}</span> incapaz de trabalhar, e como recuasse +perante a morte, uma noite, a olhar as aguas do rio, foi á consulta no +hospital, e ficou na enfermaria. Estava tisica.</p> + +<p>Ninguem a visitava, porque não tinha ninguem, e como fosse naturalmente +pouco communicativa, passava os dias e as noites a sentir-se morrer aos +boccados, amaldiçoando a sorte que a fizera pobre, e attribuindo á miseria o +descalabro da sua vida. Por maneira que naquelle dia, á hora do silencio, +quando acordou do seu alheiamento, e sentiu perto da sua cama como um +<em>frou-frou</em> de sedas, muito pallida, muito magra, quasi cadaverica, +ergueu-se na cama como se a movesse uma mola, e fixando na visitante os seus +grandes olhos negros, disse-lhe como na vehemencia d'um delirio:</p> + +<p>—Não é verdade, minha senhora, que a sociedade é infame quando a uns dá o +superfluo, sem dar a todos o que é preciso?<span class="pn">{31}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>S. M. andou hontem pelos bairros pobres distribuindo esmolas no mais + rigoroso incognito.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Que frio cortante, meu Deus!</p> + +<p>O sol é como um brazeiro apagado, que ainda conservasse luz nas cinzas—uma +luz fria e baça. O vento retalha-nos a cara, e põe nas pobres arvores sem +folhas umas tremuras de velhinho, a esconder sob os farrapos as carnes +enregeladas.</p> + +<p>Que frio cortante. Deus do céu!</p> + +<p>A miseria é insupportavel no inverno, porque tudo se conjuga para lhe dar +uma agudeza de expiação, um requinte de pena biblica, sem laivos de +misericordia. Não ha fogo no lar, não ha pão no armario, não ha cobertores no +leito, ás vezes nem leito ha.</p> + +<p>Que frio cortante. Senhor!</p> + +<p>E é então que a Opulencia desce ao antro onde<span class="pn">{32}</span> +agoniza o miseravel, pondo-lhe na mão ressequida o quanto baste para illudir a +fome.</p> + +<p>Mas porque haverá no mundo esta tremenda desegualdade, se lá nos altos céus +existe uma justiça absoluta, e se existe cá em baixo uma vulgar noção do que +seja a equidade?</p> + +<p>Que frio cortante, meu Deus!</p> + +<p>Dá vontade de morrer, para fugir d'este inferno, e ao mesmo tempo dá vontade +de accender uma grande fogueira, a que se aqueçam todos os desgraçados.</p> + +<p>Se os poderosos soubessem como se soffre no inverno! Ou não tirariam nada +aos pobres, ou lhes restituiriam quanto lhes tiram, n'um desejo sincero e +grande de fazer obra meritoria.</p> + +<p>Mas elles nem sonham, meu Deus! como é horrivel a miseria no inverno.<span +class="pn">{33}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>SS. MM. foram muito acclamadas na estação do Rocio.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>—Peço desculpa a V.ª Ex.ª mas como tenho umas continhas...</p> + +<p>—Pois sim; mas eu já lhe disse que antes do fim do mez não posso pagar-lhe. +</p> + +<p>—É verdade que disse; mas como V. Ex.ª agora tem dinheiro...</p> + +<p>—Qual dinheiro, nem qual carapuça! O sr. imagina que me morreu algum tio no +Brazil, que apanhei a sorte grande, ou que levei alguma banca á gloria?</p> + +<p>—Não senhor; não imagino nada d'isso. Mas como V. Ex.ª foi encarregado do +vivorio, acho que pode muito bem regular já as nossas contas, para eu me não +ver envergonhado com os meus credores.</p> + +<p>—O sr. está doido, com certeza! Imagina talvez que se paga aquelle serviço +á larga, pelo menos<span class="pn">{34}</span> com certa generosidade, como +seria justo que se fizesse?...</p> + +<p>—Como isso é feito, não sei eu; o que eu sei é que ao pé de mim estava um +sujeito todo bem posto, de cartola, que deu apenas dois vivas, e abalou muito +risonho esfregando as mãos, e a dizer para o companheiro:—<em>já cá cantam +dois mil réis</em>. E toda a gente dizia por alli que V. Ex.ª tinha recebido um +conto e duzentos mil réis para dirigir aquella manobra.</p> + +<p>—Sim, senhor, para dirigir aquella manobra... e para pagar áquella gente. +Imagina que se dão vivas de graça? Pois engana-se redondamente. Quem menos +ganha, é quem mais grita, e ha menino que recebe as massas e fica mudo como um +peixe.</p> + +<p>—Mas V. Ex.ª bem vê que eu já tenho esperado muito, e, se o importuno +agora, é porque me parece a occasião favoravel.</p> + +<p>—Desfavoravel, é que ella é. Em primeiro logar, eu ainda não recebi a téca; +depois tenho que pagar á minha gente melhor que das outras vezes, porque elles +estavam falados para não se prestarem á coisa. Isto, meu amigo, foi chão que +deu vinha. N'outro tempo, um diabo que enrouquecia a dar vivas, contentava-se +com dois tostões, doze vintens, e ás vezes com um simples habito de Christo, ou +uma commenda da Conceição. Vão lá agora acenar-lhes com isso, a vêr quantos lhe +pegam!...<span class="pn">{35}</span> </p> + +<p>—De maneira que...</p> + +<p>—De maneira que o amigo terá de esperar mais algum tempo, e como realmente +eu lhe sou grato, não quero que perca o freguez, tanto mais que o senhor +trabalha bem. Lá me tem ámanhã, a escolher a fatiota da estação.</p> + +<p>—Que pagará...</p> + +<p>—Quando houver outra manifestação espontanea.</p> + +<p>Resmungava o alfaiate, descendo a escada—Que grande pulha!</p> + +<p>Dizia o vivographo, fechando a porta—Que grande idiota!<span +class="pn">{36}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Hontem a sessão teve de ser interrompida na Camara dos Deputados, por + causa do chinfrim. O sr. José Luciano mostrou-se satisfeito.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Durante muito tempo, por largos annos, o seu ar recolhido e severo deu a +muita gente a impressão d'um pensador, alheiando-se propositadamente do mundo +para melhor se engolfar nas suas cogitações. E porque nada resultasse das suas +locubrações d'espirito, assentou-se em que aquelle vasio significava +profundeza. Não era talvez um philosopho, mas era um homem d'Estado. E assim +foi trepando a escadaria ingreme da carreira politica, sempre solemne, sempre +severo, sempre recolhido, e sempre ôco. Não havia duvida possivel—estava alli +um prodigioso talento, uma organização rara d'estadista, a que só faltava ter +uma ideia e produzir um facto. Senão quando, um irreverente que attentou +n'aquella austeridade de manequim,<span class="pn">{37}</span> n'aquelle ar +funebre de cypreste, n'aquella fronte larga sem reverbero intellectual, um +irreverente apontou-o á multidão, e gritou-lhe nas bochechas—é +fundamentalmente estupido!</p> + +<p>Por maneira que outro dia, apoz aquelle chinfrim no parlamento, quando o +presidente do conselho ria, como quem se banha em agua de rosas, e a camara +inteira se põe ao fresco, dominada pelo vago presentimento de que fizera o jogo +do governo, o pobre grande homem, antecipando a amargura dos seus desastres, +encostado á parede, como quem soffre uma vertigem, deixou cahir dos labios +murchos estas palavras desconsoladas—<em>Parece-me que fiz asneira!</em></p> + +<p>E, pela primeira vez na vida, reconhecendo que fizera asneira, o grande +homem se mostrou intelligente.<span class="pn">{38}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>A situação do rei é de cada vez mais grave. O unico remedio ainda + possivel é a abdicação.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Nas entrelinhas dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Era uma conspirata.</p> + +<p>Reuniam-se todas as noites fóra de portas, em casa d'um tasqueiro de boa +reputação, homem de lettras gordas, mas de principios severos, incapaz de +faltar á sua palavra, preferindo mil vezes a morte a uma vilania. De modo que +para este não havia segredos, nem para a sua companheira, uma velhota +gordunchuda que teimára em não ter filhos depois de casada, farta de os ter em +solteira. Bem entendido, o tasqueiro não tomava parte nas discussões; mas +quando elle entrava com o peixe frito e a caneca, de chinellas, com um lenço +encarnado a chupar-lhe o suor da cachaceira, ninguem recolhia a fala ao buxo, +porque se sabia que elle era incapaz de uma traição, ou mesmo d'uma +imprudencia.<span class="pn">{39}</span> </p> + +<p>Elle bem sabia do que se tratava; mas fingia não saber nada, correspondendo, +com extremos de correcção, á penhorante confiança que tinham n'elle. Tratava-se +de substituir um porco por um leitão, o que tudo vinha a dar n'uma tremenda +porcaria. Mas os conspiradores mostravam-se encarniçados na sua ideia, crendo +n'ella como nas pilulas Pink, ou no xarope da mãe Seigel. A unanimidade não era +completa, e como uma noite resolvessem não sair d'alli sem assentarem em alguma +coisa de definitivo, um d'elles lembrou que se ouvisse a opinião do tasqueiro, +homem de lettras gordas, mas de principios severos, mais intelligente do que +seria preciso para exercer a sua profissão, e discreto como um tumulo. Por +maneira que quando elle entrou, o lenço encarnado a chupar-lhe o suor do +cachaço, a travessa do peixe frito na mão esquerda, e na direita um formidavel +cangirão, espumante de vinho verde, um dos conspiradores poz-lhe nitidamente a +questão, e pediu o seu parecer:</p> + +<p>—Eu cá, por mim, não entendo d'essas coisas; mas sempre ouvi dizer que a +racha sae ao madeiro, e meu avô, que andou nas guerras, e soffreu primeiro por +causa de D. Miguel, e soffreu depois por causa de D. Pedro, costumava dizer á +gente, quando se falava dessas coisas—creio que ha uns reis peores do que +outros; que haja melhores, não acredito.<span class="pn">{40}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Diz-se que a questão politica vae ser tratada no Parlamento com + violencia, não se poupando ataques ao Chefe de Estado.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Se tivesse echo!...</p> + +<p>Era positivamente uma obsessão; mas queria por força uma quinta que tivesse +echo, e não se importava pagar esse capricho a peso de dinheiro. Deixára a +Patria muito novo, e no Brasil, á força de trabalho e economia, a sorte +ajudando um pouco, conseguira fazer fortuna. Todas as noites, ao fechar da +loja, consultava o livro de <em>razão</em>, e como visse que os negocios lhe +corriam bem, ganhando sempre, tomava o chásinho com torradas, entretinha-se um +pouco com os garotos, e ia metter-se na cama tranquillo e satisfeito, como um +patriarcha biblico. Sonhava então com a sua aldeia; via-se outra vez no modesto +casinhoto em que nascera; encontrava-se de novo com os<span +class="pn">{41}</span> rapazes da sua geração, e abalavam todos de restolhada, +a caçar os ninhos ou a roubar amoras, este sem chapéu, aquelle sem jaqueta, e +todos não lhe pesando o pé uma onça, quando o vinheiro se apercebia do grupo, e +fazia estalar a funda ou rebentar uma escorva, no momento em que estes saltavam +o vallado, para colherem uvas. O que fazia o principal encanto de seus sonhos, +era a conversa com o echo, um echo muito perfeito que havia perto da aldeia, no +sitio chamado das Antas. Já accordado, ainda lhe parecia que tinha realmente +ouvido o echo—<em>quem está lá!</em>—e fechava os olhos, n'um esforço enorme +de concentração, parecendo-lhe que talvez assim o ouvisse ainda. E então, +principiava a obsedial-o aquella ideia do echo, que já ouvia mesmo +acordado—<em>quem está lá!</em>—victima d'uma allucinação do ouvido. Por +maneira que passados annos, voltando á sua terra, deitou-se a procurar uma +quinta que tivesse <em>echo</em>, não se importando pagar o seu capricho a peso +de dinheiro. Soube d'isso o Thomé Cantigas, e logo se poz a instruir o velho +João, um creado que já estava na casa quando elle nascera, por maneira a +funccionar d'echo quando lá fosse o brasileiro, com quem tinha a quinta +ajustada. Ora succedeu então esta coisa curiosa:—quando o Thomé, em companhia +do brasileiro, do escrivão e das testemunhas, para verificarem o echo, gritou +com toda a força dos seus pulmões—Ó João!—o pobre diabo, escondido por<span +class="pn">{42}</span> detraz d'uma pedra, ouvindo aquella voz tão sua +conhecida, e sentindo acordar em si quarenta annos de obediencia e +domesticidade, o pobre diabo respondeu n'um tom humilde—<em>Meu +senhor!</em></p> + +<p>Imaginem agora que o rei chegava alli abaixo, perto de S. Bento, espectral +como o principe da Dinamarca, quando nas duas camaras, que funccionam agora +como dois bilhares, se joga a carambola politica, a maior parte dos parceiros +esquecendo-se de dar giz no taco, picando as bolas ao contrario, e todos +jogando pela tabella, como se não vissem a encarnada e fosse prohibido +atirar-lhe para cima... Sim, imaginem que o rei chegava alli, sem ninguem dar +por elle, e no mais acceso da balburdia, no meio encarniçado do jogo, gritava +com a sua bella voz de barytono:—<em>Que é lá isso ó seus gajos?</em></p> + +<p>Quantas vozes deixariam de responder como o velho creado João, ouvindo, lá +onde estava, por detraz de uma pedra, ensaiado para o echo, a voz do sr. Thomé, +seu patrão de tantos annos?<span class="pn">{43}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Vaidade das vaidades—tudo é vaidade!</em></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Viera ao mundo com a mania de que tudo andava torto, e lhe competia +endireitar tudo. Era assim uma especie de messianismo arte nova, que lhe +hypertrophiava a personalidade, tornando-o impertinente. Todas as injustiças o +offendiam, todas as asneiras o irritavam, pondo-lhe os nervos em tal estado de +vibração, que seria facil romperem-se. Mas ao mesmo tempo essas injustiças que +o offendiam, essas asneiras que o irritavam, eram a propria condição da sua +existencia, todo o estimulo da sua actividade, a sua unica razão de ser. Que um +bello dia entrassem as coisas na bôa ordem, o bem tendo vencido o mal, o amor +tendo vencido o odio, a justiça tendo vencido a iniquidade, o direito tendo +vencido a força, a verdade tendo vencido a mentira, que um bello dia se +realizasse tudo isto, e elle encontrar-se-ia como homem que se desequilibrasse +no espaço, sem ponto de<span class="pn">{44}</span> apoio, uma creatura que se +visse sem ligações com o Universo, isolada como n'uma ilha deserta, um ser de +geração espontanea, olhando para traz, e não adivinhando o seu passado, olhando +para deante e reconhecendo-se sem destino. Considerava-se o ser por +excellencia, a suprema vontade, a suprema intelligencia, a mais alta sabedoria, +a mais extremada virtude. Tinha um calcanhar esse gigante, como o heroe da +Iliada; mas o Páris, que pretendesse feril-o, escusava de molhar a setta em +veneno, bastava que a molhasse em lisonja, que é uma droga pouco toxica e muito +corrosiva. Succedeu-lhe um dia adoecer gravemente, e como lhe perguntassem, +<em>in articulo mortis</em>, se não receava pela salvação da sua alma, +respondeu, tartamudeando muito—<em>Receio que me mettam no céo. Que tortura +não será a minha se caio na mansão dos justos.</em></p> + +<p>Por subscripção entre amigos, ergueram-lhe um mausoleu, coisa barata e +modesta, e fizeram-lhe gravar na frontaria, em bronze amarello, estes dizeres +biblicos:—<em>Vanitas vanitatum</em>, o que traduzido em portuguez quer +simplesmente dizer:</p> + +<p>—<em>Ora bolas para tanta embofia!...</em><span class="pn">{45}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Parece vingar a interpretação que attribue ao sr. ministro das + finanças a qualidade de portuguez.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes) </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>—Contente que nem um rato, não é verdade?</p> + +<p>—Não sei porquê...</p> + +<p>—Não sabe porquê? Pois você chega ao ultimo quartel da vida sem saber de +que terra é, e d'um momento para outro, sem trabalho nem canceiras, apparece +cidadão d'um paiz glorioso, e guindado ás maiores culminancias sociaes, e ainda +pergunta porque deve estar contente?</p> + +<p>—Por certo. Não sendo d'uma patria determinada, eu podia tirar muito +proveito de todas, conforme as circumstancias.</p> + +<p>—Mas os seus direitos...</p> + +<p>—Perdão; os meus direitos são os meus interesses, dada a minha qualidade de +homem de negocios. Ter um certo direito, significa apenas, no meu entender, a +faculdade de realizar um certo<span class="pn">{46}</span> lucro, da mesma +fórma que ter uma certa obrigação significa uma perda. A equação da vida +commercial faz-se com estes dois termos—ganhos e perdas.</p> + +<p>—Está muito bem; mas parece-me que sob todos os pontos de vista o amigo +ganhou.</p> + +<p>—Isso é conforme. A operação, considerada nos seus resultados immediatos, e +não olhando para além do momento actual, é de resultados vantajosos; mas...</p> + +<p>—Mas...</p> + +<p>—Mas o futuro a Deus pertence, e esta naturalização definitiva póde +prejudicar-me muito, se ainda tiver necessidade de mudar de nacionalidade mais +uma vez.<span class="pn">{47}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O principe D. Luis Filippe restituiu ao thesouro o dinheiro que lhe + sobejou da viagem.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Era doida pelo neto; mas, se o tivesse junto de si, n'aquelle momento, +pregava-lhe duas bofetadas.</p> + +<p>Era aquillo um proceder de principe?</p> + +<p>Não havia memoria, na sua familia, d'alguem ter restituido fosse o que +fosse, muito menos dinheiro.</p> + +<p>Raivosa, sentindo-se ferida no seu orgulho de raça, mordia os beiços até +quasi sangrarem, e amarrotava nas mãos o jornal, com muita força, como se +quizesse desfazel-o. Era de entontecer aquella vergonha.</p> + +<p>De repente acalmava-se um pouco, como se entrasse n'um banho morno.</p> + +<p>Quem sabe?</p> + +<p>Talvez aquillo não fosse verdade. Dizem tanta<span class="pn">{48}</span> +mentira os jornaes!... Ha gazeteiro que não vacilla perante a mais baixa +calumnia, muitas vezes por interesse, algumas vezes por capricho, não raramente +por maldade.</p> + +<p>E logo mandou vir todas os jornaes d'aquelle dia, absolutamente todos, mesmo +os que ella nunca lia, por saber que sempre alguma coisa traziam que lhe fosse +desagradavel.</p> + +<p>—Todos quantos se publicam em Lisboa, ouviste?</p> + +<p>Pois em todos elles vinha a noticia, a vergonhosa noticia d'aquelle neto +infamante, que ficaria luzindo como uma nodoa na pureza alvissima e até alli +immaculada dos seus pergaminhos dynasticos.</p> + +<p>Era doida pelo neto; mas se o tivesse junto de si, n'aquelle momento, era +capaz talvez de um arrebatamento criminoso, atirando-o pela janella.</p> + +<p>Vestiu-se n'uma pressa, sem olhar para o espelho, surda ás sugestões do seu +coquetismo de carcassa. Iria procural-o, exprobar-lhe a sua baixeza, que nem +mesmo os poucos annos poderiam desculpar.</p> + +<p>Um principe, quando se trata de honrar as tradições dos seus maiores, é +sempre de maior edade...</p> + +<p>Pisava o primeiro degrau da escada, quando o neto subia quasi aos saltos, +como de costume, a estender-lhe os braços.</p> + +<p>—Ias sair, avózinha?</p> + +<p>—Ia procurar-te.<span class="pn">{49}</span> </p> + +<p>—Parece que não estás contente?</p> + +<p>—E com razão.</p> + +<p>Mal entraram na sala, apanhou um jornal, ao acaso, e, apontando a +noticiazinha da restituição, perguntou-lhe:</p> + +<p>—Isto é verdade?</p> + +<p>O garoto desatou a rir, a rir desalmadamente, a fazer-lhe cocegas.</p> + +<p>—É então mentira?</p> + +<p>—Se é mentira!... Na verdade, avózinha, sempre te julguei mais +intelligente. Restituir dinheiro! Sei honrar as tradições da nossa casa, pelas +quaes tenho um verdadeiro culto.</p> + +<p>Teve um grande suspiro d'allivio, como se lhe tirassem de cima um peso de +cem arrobas. Apertou muito o neto nos braços e, tendo-o beijado loucamente, +deixou-se cair no sophá, muito quebrada, como ao sair d'uma lucta.</p> + +<p>E com os olhos fechados, a respiração alta, ofegante, murmurava para não ser +ouvida:</p> + +<p>—Estupida que eu sou! O pequeno era incapaz de semelhante infamia. Revejo +n'elle toda a nobreza da raça.</p> + +<p>E adormeceu.<span class="pn">{50}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Passa hoje o primeiro anniversario deste jornal, dia propicio á + comemoração dos que foram nossos companheiros de lucta, e hoje luctariam + comnosco, se a morte os tivesse poupado.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(«A Lucta»).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Morrer, dormir, sonhar quem sabe!...</p> + +<p>A fogueira crepita no meio do bosque sagrado, e o ramalhar das folhas, +cortando o silencio augusto d'uma noite de luar, é como a prece erguida aos +céus por milhares de labios virginaes.</p> + +<p>Morrer, dormir!...</p> + +<p>Em volta ha uma turba alegre, como se alli fosse realizar-se um ágape +festivo, os esponsaes d'uma nobre castellã com o pagem dos seus sonhos, +reluzente de pedrarias, esplendido de mocidade.</p> + +<p>Dormir, sonhar!...</p> + +<p>A fogueira crepita erguendo uma chamma cónica<span class="pn">{51}</span> de +uma regularidade geometrica, e um fumozinho branco, muito tenue, muito esparso, +é como um boccado de gaze que alli estivesse preso á chamma, tocando-lhe sem se +inflammar.</p> + +<p>Morrer, dormir, sonhar, quem sabe!...</p> + +<p>E mal o cadaver pousa na fogueira, crepitante e rútila no meio do bosque +sagrado, logo sobre elle se lança aquella virgem loira e meiga, que uns padres +druidas estavam ha pouco dispondo para a viagem de que não se volta.</p> + +<p>Quem sabe!</p> + +<p>Se n'esses mundos longinquos, para onde dizem que vão as almas, se conserva +lembrança da vida que aqui tivemos, bem sabem vocês, queridos e inolvidaveis +mortos! que é para nós de lagrimas este dia, visto que esta pagina é hoje um +canto do cemiterio!<span class="pn">{52}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <em>A morte perdendo a foice</em> <br> + <em>Creu sua força desfeita.</em> <br> + <em>Disse-lhe um medico insigne:</em> <br> + <em>Aqui tens esta receita.</em> </blockquote> + +<p> </p> + +<p>Chamava-se Corvo, e era alfaiate.</p> + +<p>Pouco trabalhava pelo officio, quasi sempre pelo campo, a caçar lebres ou +perdizes, lá de longe em longe mettendo-se na jolda, e só então aventurando-se +por aquelles mattos espessos, onde deixava metade da farpela, em boccados. A +sua grande paixão, a sua mania de caçador era pelos pombos, á negaça. Abalava +de casa muito cedo, o pombinho mettido na aljabra, o farnel mettido nos bolsos, +a aguilhada ao hombro, a espingarda a tiracolo, e uma garrafinha de aguardente +sem confecção, que o frio era de rachar, por aquelles dias molhados de +novembro. Chegava ao <em>sitio</em>, circumdava os montados, n'uma extensão +enorme, com a sua vista de lynce, e toca a fazer a choça, não fossem os pombos +dar-se pressa de vir alli,<span class="pn">{53}</span> apanhando-o +desprevenido. Ás vezes não matava nada; outras vezes matava quantos se +<em>faziam</em>; mas sempre se divertia immenso, a puxar a negaça e a aperrar a +caçadeira, não se esquecendo nunca de <em>beijar</em> a garrafinha da +aguardente, que valia pelo melhor dos lumes, no desabrigo da choça, por +aquelles dias gelados de novembro.</p> + +<p>Ora succedeu que um dia, ao voltar dos pombos, chegando a casa, subitamente, +o Corvo sentiu-se mal, horrivelmente mal, gritando que lhe accudissem. N'esse +mesmo dia, áquella mesma hora, por assim dizer, n'aquelle mesmo instante, tinha +chegado o medico novo, que ainda ninguem tinha visto. Correram a chamal-o, +n'uma afflicção, que o Corvo sentia-se morrer e gritava como um perdido. Vae o +doutor, muito solicito, observa o doente, faz uma receita, enche uma seringa e +crava-a n'uma nadega do alfaiate, que não tugiu nem mugiu.</p> + +<p>Estava morto o pobre Corvo, velho caçador de pombos, que durante largos +annos, todas as manhãs, em dias gelados de novembro, abalava de casa para as +montanhas, a aguilhada ao hombro e o farnel nos bolsos, sem nunca se esquecer +da garrafinha d'aguardente, que valia por um bom fogo no desabrigo da choça, +encostado a um sobreiro.</p> + +<p>O caso fez barulho na aldeia, e como alguem lamentasse a perda de tão eximio +caçador:</p> + +<p>—Lá quanto a isso, perorou um mariola d'um<span class="pn">{54}</span> +barbeiro, não vejo razão para se lamentar a gente. O nosso doutor parece ser +homem de boa pontaria. Mal disparou a seringa, logo o Corvo enrolou as azas, +como se fosse um pombo que se <em>fizesse</em>, e apanhasse a carga em +cheio.<span class="pn">{55}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O sr. ministro da fazenda ficou a trabalhar em sua casa.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>A ordem fôra terminante, e não admittia excepções; s. ex.ª não +<em>estava</em> para ninguem, absolutamente ninguem.</p> + +<p>Andava a estudar um plano geral de reformas, e, como tivesse de ir passar +uns dias na provincia, queria deixar os seus papeis arrumados, cada coisa no +seu logar, como n'um museu ou n'uma bibliotheca.</p> + +<p>Fôra sempre uma creatura methodica, e em grande parte o seu talento, que +ainda assim muitos negavam, era feito de trabalho e de methodo. Entrára na +politica com uma bagagem de estudante, apenas preparado para no parlamento +mandar uma representação para a mesa, e requerer que se desse a materia por +discutida, a um signal do <em>leader</em>. Mas trabalhava muito, estudava +muito, ambicioso de renome, atormentado pela obscuridade<span +class="pn">{56}</span> em que vivia, mal supportando que os outros trepassem, +subissem, servindo elle proprio de degrau a bastantes creaturas mediocres.</p> + +<p>Um bello dia, quasi sem elle proprio saber como nem como não, fizeram-n'o +ministro. E logo pensou n'uma larga reforma de serviços, remediando muitas +insufficiencias, preenchendo muitas lacunas, pondo cobro a muitos escandalos. +</p> + +<p>Lá quanto a honestidade, reconheciam-n'a os proprios inimigos.</p> + +<p>Colligira todos os elementos de que necessitava para a sua obra reformadora, +e resolveu aproveitar aquelle dia para os classificar, em termos de servir-se +d'elles com a maior facilidade e proveito.</p> + +<p>Estava inteiramente absorvido n'essa tarefa, quando lhe apareceu junto da +mesa um continuo, muito vermelho, muito atrapalhado, a revirar o <em>bonet</em> +na mão, a querer falar, e não se atrevendo a abrir a bocca.</p> + +<p>—Que ha?</p> + +<p>—Um senhor que deseja falar a v. ex.ª</p> + +<p>—Então eu não lhe disse que não estava para ninguem?</p> + +<p>—É verdade, mas elle disse-me que se matava alli mesmo, á porta, se v. ex.ª +não o recebesse.</p> + +<p>Mandou entrar immediatamente.</p> + +<p>—É você?...</p> + +<p>—Sou eu. Sabe que o Chico está irremediavelmente perdido?</p> + +<p>—O quê?<span class="pn">{57}</span> </p> + +<p>—Talvez não dure 48 horas.</p> + +<p>—Coitado! E a familia?...</p> + +<p>—Ora ahi está. É por causa da familia que eu cá venho.</p> + +<p>—Mas que posso eu fazer?</p> + +<p>—Uma coisa muito simples—um adeantamento.</p> + +<p>—Mas se elle está a morrer!...</p> + +<p>—Por isso mesmo. Desconta pelo terço do ordenado emquanto viver.</p> + +<p>—E depois de morto?</p> + +<p>—Continua a descontar... no outro mundo.</p> + +<p>E assim se fez.—Era uma bagatela de dez contos redondos.<span +class="pn">{58}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O sr. D. Carlos manda para o Salon dois quadros.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Era dia de assignatura.</p> + +<p>Como de costume, na sala de espera, emquanto não chegava a hora, uns fumavam +estendidos em sophás de molas doces, e outros falavam de coisas varias,—as +occorrencias banaes da vespera, ou os successos provaveis do dia seguinte. +Pelas janellas, abertas de par em par, entrava uma aragem fresca e quasi +perfumada, tanto as flôres do jardim embalsamavam o aposento n'aquelle dia +lindo.</p> + +<p>Avistava-se ao longe o rio, d'aguas tranquillas, e lá para além da barra, +empennachado de fumo, um navio cortava as aguas, sem estremeções, deixando +atraz de si, como uma passadeira de rendas, um largo traço de espuma. N'isto +abre-se uma porta ao fundo, e um homem apparece, de casaca, trazendo debaixo do +braço, muito enrolado em papeis, qualquer<span class="pn">{59}</span> coisa que +logo se adivinhava ser um quadro com a respectiva moldura.</p> + +<p>Os que fumavam, estendidos em sophás de molas dôces, ergueram-se a +cumprimentar, quasi envergonhados do seu <em>á vontade</em>, como n'um casino, +e os que estavam á janella olhando para o rio, d'águas tranquillas, notando +como corria leve um vapor que sahia a barra, empennachado de fumo, esses +deixaram-se ficar onde estavam, baixando ligeiramente a cabeça, com cerimonia, +nenhum d'elles sabendo quem era aquelle senhor.</p> + +<p>—Não sei se incommodo v. ex.<sup>as</sup>...</p> + +<p>—Ora essa! Por forma nenhuma.</p> + +<p>—V. ex.ª é...</p> + +<p>—O pintor da casa.</p> + +<p>E logo poz em cima da mesa, procurando posição conforme a luz, duas +telasinhas de meio metro, ricamente emmolduradas, uma reproduzindo um trecho de +paysagem alemtejana, n'um entardecer d'agosto, e outra representando uma +commissão de sardinhas vindo cumprimentar um goraz, pelos seus trabalhos +maritimos.</p> + +<p>—E V. ex.ª traz isto...</p> + +<p>—São os meus decretos; trago-os á assignatura.<span class="pn">{60}</span> +</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O sr</em>. <em>D. Carlos tambem hontem não assistiu á tourada no Campo + Pequeno.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>—Está aqui tudo?</p> + +<p>—Creio que não falta nada.</p> + +<p>Poz a mala em cima d'uma cadeira, para não estar a dobrar-se muitas vezes, e +foi tirando peça por peça. D'ahi a pouco estava inteiramente transfigurado. As +suissas assentavam-lhe na perfeição, e os oculos de ouro, com vidros sem grau, +transformaram-lhe de tal modo a physionomia, que ninguem, mesmo dos seus +familiares, o conheceria sob aquelle disfarce. As calças é que lhe ficavam um +boccadinho justas nas pernas, e o collete, se fosse um tudo nada mais comprido, +dir-se-ia ter sido feito para elle—por medida e com prova. Pegou na bengala, +de castão de prata, poz na cabeça um Panamá, quebrado na frente, e carregou no +botão d'uma campainha electrica.<span class="pn">{61}</span> </p> + +<p>—Se não soubesse...</p> + +<p>—De primeira ordem, não é verdade?</p> + +<p>—Uma transfiguração á Rocambole.</p> + +<p>—Obrigado pelo cumprimento; mas como tu é que me escolheste a farpela... +</p> + +<p>—Limitei-me a cumprir fielmente as indicações recebidas.</p> + +<p>—De modo que não haverá perigo...</p> + +<p>—Absolutamente impossivel conhecel-o, disfarçado como está.</p> + +<p>—Pois olha, já que entrei n'este caminho, quero fazer a coisa completa. Has +de comprar-me um bilhete de sol.</p> + +<p>Quando entrou na praça, ainda as cortesias não tinham começado. Arranjou um +logar ao pé da musica, e poz-se a fumar um cigarro ainda por disfarce. Á hora +marcada, com uma pontualidade fóra do costume, a função principiou. Estava +interessado, contente e ancioso, como se pela primeira vez assistisse a um +espectaculo ardentemente desejado. Surprehendia-se a gritar com toda a força, +quando o <em>sol</em> inteiro gritava e ainda teve o chapéu na mão, para o +atirar ao redondel, enthusiasmadissimo com um <em>cambio</em>.</p> + +<p>No intervallo, como não sahisse o visinho da direita, pedindo-lhe fogo, +entrou a dar-lhe conversa.</p> + +<p>—Vê-se que o amigo é amador.</p> + +<p>—Como poucos. Isto é um divertimento real.</p> + +<p>—Lá isso real...<span class="pn">{62}</span> </p> + +<p>—Pois sim... Mas o rei vem aqui muitas vezes?...</p> + +<p>—Vinha muitas vezes, é o que você quer dizer...</p> + +<p>—E agora já não vem?</p> + +<p>—Acho que cortou a coleta.</p> + +<p>—Elle, afinal, tudo aborrece.</p> + +<p>—Ora ahi está. E foi exactamente por ver que aborrecia, que elle deixou de +apparecer. Sabe o amigo uma coisa? Tenho estado a reparar que você se parece... +</p> + +<p>Não acabou a phrase. Já o outro se tinha levantado, a fingir que alguem o +chamava.</p> + +<p>D'ahi a pouco, no mesmo quarto em que mudára de farpela, dava-se a um +trabalho de mil demonios para se desembaraçar das calças, muito justas nas +pernas.</p> + +<p>—Ninguem desconfiou, é claro?</p> + +<p>—É claro que desconfiaram. Um gajo que estava sentado ao pé de mim, se me +não safo tão depressa...</p> + +<p>—E disse-lhe alguma inconveniencia?</p> + +<p>—Lá bem inconveniencia...</p> + +<p>—O melhor, para outra vez...</p> + +<p>—O melhor para a outra vez, é não ir lá. Corto definitivamente a coleta. +</p> + +<p>—E a <em>quadrilha</em>?</p> + +<p>—Lá isso fica como estava.</p> + +<p>E atirando com as suissas para cima da cama, a meia voz com despreso:</p> + +<p>—Isto é que é uma cambada!...<span class="pn">{63}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O sr. João Franco acompanhou o Principe Real á festa das creanças, e + pronunciou alli um grande discurso.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>—Muito interessante a festa, não é verdade?</p> + +<p>—Sim, foi interessante.</p> + +<p>—Muitas creanças, muitas flores, um dia lindo de sol... Aposto que estava a +saltar-te o pé para o meio do rancho, rindo e brincando como todos, como se +fossem todos do mesmo collegio?</p> + +<p>—Tu estás doida, avósinha? Comprehendo muito bem os deveres do meu cargo, e +em nenhuma situação me esqueço de quem sou, e do que represento.</p> + +<p>—Bravo, meu filho! gosto de te ouvir falar assim, porque isso me prova que +serás um dia o representante illustre dos teus illustres antepassados.</p> + +<p>—Assim o espero.</p> + +<p>—Assim o creio. E falaste ás creanças?<span class="pn">{64}</span> </p> + +<p>—Não, avósinha. Ninguem me disse para lhes falar, nem eu sabia o que havia +de dizer-lhes.</p> + +<p>—Por certo, não sabias; mas se isso fosse uma razão para não falar, muita +gente estaria calada n'este paiz de palradores. Quem falou então?</p> + +<p>—Houve só um discurso...</p> + +<p>—Sim, está claro, falou s. ex.ª. E o que disse?</p> + +<p>—Para te falar com franqueza, avósinha, eu pouco ouvi do que elle disse. +Mesmo na minha frente estava um garoto vestido de marinheiro, muito +interessante, que passou todo o tempo a fazer cocegas no pescoço de uma senhora +muito gorda, de nariz abatatado, que estava adiante d'elle, na fila immediata. +De cada vez que o rapazinho lhe passava um canudinho de papel, muito delgado, +pela pennugem do cachaço, atraz das orelhas, a velha fazia umas caretas muito +exquisitas, aflicta, com medo de perder a linha em momento tão solemne. Não +imaginas como era divertida a velhota. Divertida e estupida, porque nunca +desconfiou do garoto, que se encolhia todo para não desatar ás gargalhadas. De +modo que...</p> + +<p>—De modo que não ouviste o discurso de s. ex.ª.</p> + +<p>—Não ouvi tudo, é certo; mas alguma coisa ouvi. Por exemplo, ouvi-lhe dizer +que n'outros tempos os povos eram dos reis, e que hoje os reis são dos povos. +Que quer dizer isto, avósinha?</p> + +<p>—Quer dizer, meu filho, que n'outro tempo,<span class="pn">{65}</span> os +creados recebiam ordens dos patrões, e cumpriam-n'as; hoje os patrões recebem +ordens dos creados, e cumprem-n'as.</p> + +<p>—Credo! Mas isso é o fim do mundo.</p> + +<p>—Pede a Deus que não seja o fim da dynastia.<span class="pn">{66}</span> +</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O enterro de hontem foi uma extraordinaria affirmação da força do + partido republicano em Lisboa.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Estava inquieto, n'uma ancia por noticias, quando lhe foram dizer que estava +o jantar na mesa.</p> + +<p>Que teria havido!</p> + +<p>Por certo o cortejo seria numeroso, mas aprazia-lhe acreditar que a +manifestação, embora significativa, não fosse de molde a tornar ainda mais +evidente o desprestigio do seu nome, já bastante desprestigiado. Esquecia-se de +comer, e não despregava os olhos da porta, esperando vel-o apparecer a cada +momento, portador da boa nova, dando-lhe a segurança de que era já outra a +atmosphera da cidade, onde elle poderia respirar com desafogo, quando quizesse, +farto de correrias fóra de portas, a monte como os leprosos na antiguidade, e +como os criminosos ainda hoje, quando puderam fugir á justiça.<span +class="pn">{67}</span> </p> + +<p>Que teria havido!</p> + +<p>Todos lhe notavam a preoccupação na physionomia transtornada, e todos sabiam +o que lhe dava origem, a verdadeira causa daquelle mal-estar. De modo que o +jantar ia correndo silencioso, quasi funebre, ninguem se atrevendo a arriscar +uma palavra banal, o mais leve dito que pudesse desafiar o mau humor do pobre +tomate recheiado. Fazia dó, mas ao mesmo tempo mettia medo, como se fosse um +obuz carregado de grosserias, que uma creança maldosa pretendesse descarregar +contra um homem delicado. Parecia aquella ceia da Lucrecia Borgia, em Ferrara, +descripta por Victor Hugo.</p> + +<p>De repente, abre-se a porta, e um reposteiro annuncia o homem. Estava-se nas +fructas.</p> + +<p>—Então?...</p> + +<p>—Muito maior do que seria licito esperar. A cidade inteira, póde dizer-se, +tomou parte na manifestação, grandiosa como nenhuma outra, d'essas que andam na +memoria dos homens.</p> + +<p>—De modo que o prestigio d'essa creatura...</p> + +<p>—Peço desculpa; o que atravessou a cidade, por entre alas compactas de +povo, seguido de milhares de pessoas, não foi o cadaver d'um homem...</p> + +<p>—Foi então?...</p> + +<p>—Foi o prestigio d'uma ideia.</p> + +<p> </p> + +<p>Ficou por instantes suspenso, como se lhe fugisse<span +class="pn">{68}</span> o espirito para uma região de trevas. Logo voltou a si, +como quem acorda d'um mau sonho, e acabando de descascar uma laranja, +voltando-se para o peniculario que lhe ficava mais perto:</p> + +<p>—Olha lá, ó marquez, dize aos teus collegas da cozinha que não deitem fóra +estas cascas.</p> + +<p>No outro dia annunciava-se uma crise em todos os jornaes.<span +class="pn">{69}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O rei, que hontem devia presidir ao conselho de ministros, partiu para + Biarritz, onde se encontra sua noiva.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Telegramma de Madrid). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Pois se elle tem vinte annos!..</p> + +<p>Queriam então vel-o amarrado ao throno, recebendo conselheiros e ministros, +aturando reposteiros e mordomos, quando a noiva está alli, a algumas horas +apenas da capital, chamando-o com insistencia de quem nada póde e tudo offerece +porque tudo espera receber em troca.</p> + +<p>Pois se elle tem vinte annos apenas!...</p> + +<p>Talvez que no seu sangue toda a podridão d'uma raça; mas a mocidade é uma +especie de azougue, capaz de fazer erguer um morto, dando-lhe uma vida +ephemera.</p> + +<p>Pois se elle é tão novo!...</p> + +<p>Queriam então prendel-o alli, n'aquelle deserto de Madrid, aturando +conselheiros e ministros, gente<span class="pn">{70}</span> da burocracia e +bugigangas heraldicas, quando ella está a poucas horas da capital, talvez a +alongar os olhos na direcção da Hespanha, na esperança de vel-o surgir na sua +frente, radiante de mocidade.</p> + +<p>Pois se elle tem vinte annos apenas!...</p> + +<p>E estranham então vel-o partir como um foguete, abandonando as redeas do +governo, doido d'amor como um Quichote real, para ir colher em Biarritz as +promessas d'uma felicidade sem limites prelibando uma ventura sonhada.</p> + +<p>Pois se elle é tão novo!...</p> + +<p>Depois ella é tão bella!...<span class="pn">{71}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Amanhã, anniversario da rainha Maria Pia, não haverá recepção no + Paço.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>—Venho dizer-te adeus...</p> + +<p>—Para onde vaes?</p> + +<p>—Para o mar. Na terça feira cá estou, para te dar os parabens. Imaginavas +que ia esquecer-me do teu anniversario?</p> + +<p>—É verdade, o meu anniversario... Nem me lembrava.</p> + +<p>Emquanto elle accendia um charuto, olhando distrahidamente uma illustração +ingleza, deixava ella pender a cabeça sobre o collo mirrado, e evocava um tempo +muito remoto, tão remoto que lhe parecia agora, na desolação da sua viuvez, +mais phantastico do que real.</p> + +<p>O seu anniversario!</p> + +<p>O throno era pequeno para a sua magestade, mas, em summa, sempre era um +throno e ella nascera para reinar. Na sua cabelleira loira, como a<span +class="pn">{72}</span> das virgens de Raphael, o diadema régio tinha +scintillações estranhas e coruscantes, que ainda assim pareciam pallidas em +comparação dos seus olhares, em que havia toda a ardencia do sol dos tropicos, +e toda a limpidez do crystal da rocha.</p> + +<p>Tambem ella reinára!</p> + +<p>Outros imperantes se tinham curvado na sua presença, e milhares de cortezãos +tinham solicitado a esmola d'um sorriso ou d'um olhar, que ella nem sempre lhes +concedia, muito altiva, muito sobranceira, no throno, julgando-se muito perto +do Olympo, e fóra do throno vendo-se muito acima da humanidade vulgar.</p> + +<p>O seu anniversario!</p> + +<p>Fechava os olhos para tornar mais intensa a evocação, e logo via o desfile +do immenso e luzido cortejo—os diplomatas com os seus fardamentos ricos, +bordados a oiro; os ministros com as suas librés de luxo, salpicadas de +veneras; os bravos militares suffocando impetos guerreiros, n'uma attitude de +respeitosa fidelidade, e o numero infinito de fidalgos e fidalgas dobrando o +joelho no primeiro degrau do throno e babujando-lhe a mão aristocratica com a +saliva do cortezanismo mais rasteiro e mais falso.</p> + +<p>O seu anniversario!</p> + +<p>De repente, e como se reatasse uma conversa interrompida pousando o charuto +sobre o cinzeiro de prata, e tomando-lhe entre as mãos a face apergaminhada, +n'uma caricia muito terna:<span class="pn">{73}</span> </p> + +<p>—Não, fica certa que não me esqueço dos teus annos, e verás como sou +gentil...</p> + +<p>—Sim, não te esqueças. E pois que desejas mostrar-te gentil para commigo, +mais uma vez, poupa-me ao desejo e á baixeza de receber os teus creados de +pasta.</p> + +<p>E não houve recepção.<span class="pn">{74}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Amanhã tem logar a abertura do congresso republicano no Porto. + Espera-se que o sr. D. Carlos assista hoje á tourada, no Campo + Pequeno.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes.) </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>—Está doente?...</p> + +<p>—Pelo contrario, nunca me senti com tanta saude como agora. De certo, se +estivesse doente, era natural que fizesse chamar um medico, e não o +presidente...</p> + +<p>—Sem duvida; mas chamado tanto á pressa, com a maxima urgencia...</p> + +<p>—É que na verdade o caso é urgente. Não adivinhas do que se trata?</p> + +<p>—Por mais voltas que dê á imaginação...</p> + +<p>—Não vale a pena dar-lhe grandes voltas, porque pode transtornar-se. Sabes +que dia é amanhã?</p> + +<p>—É domingo.</p> + +<p>—E sabes que ha tourada no Campo Pequeno?<span class="pn">{75}</span> </p> + +<p>—Como não sou aficionado...</p> + +<p>—Não sabias? Pois ficas sabendo agora. Ha tourada, e trabalha o Fuentes. +Quer isto dizer que será uma tarde cheia. Como os typos estão lá para o norte, +a palrar, eu resolvi ir aos touros ámanhã.</p> + +<p>—Isso não pode ser! Eu não posso tomar a responsabilidade...</p> + +<p>—Tomo-a eu, deixa lá. Em não apparecendo os cabecilhas, a arraia miuda não +abre bico!</p> + +<p>—Ahi é que está o engano. Aquella gente não se move por cordelinhos; pensa +pela sua cabeça; tem iniciativa propria, e procede como lhe parece melhor.</p> + +<p>—E tu imaginas que hei de passar n'isto a vida inteira?</p> + +<p>—A vida inteira, não; mas por ora tem de ser assim.</p> + +<p>—E se eu não quizer que seja assim?</p> + +<p>—Se não quizer que seja assim...</p> + +<p>—Como será então?</p> + +<p>—Então... será peior!<span class="pn">{76}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O teu amor e uma cabana!</em></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Fôra uma loucura aquelle amor.</p> + +<p>Tinham-se encontrado na Figueira, estava ella a banhos, e elle fôra alli de +visita a uns parentes da Bairrada, que não via desde annos. Como se andassem +pelo mundo á procura um do outro, apenas se viram uma manhã, na Praia, +amaram-se doidamente, e foi milagre que não desatassem logo a tagarelar, tu cá, +tu lá, e tomassem banho juntos.</p> + +<p>Á noite, no Casino, a indispensavel apresentação, e logo se seguiu um +<em>pas de quatre</em>, em que os dois eram eximios. Marchou aquillo tão +depressa, que já eram noivos quando regressaram ao Porto, onde ella tinha os +paes e elle o emprego, um modesto emprego de despachante, que lhe rendia vinte +mil réis por mez.</p> + +<p>Todas as noites ia falar-lhe, já recebido como da familia e sempre a +encontrava encostada a uma pequenina mesa quadrada, um livro de versos na<span +class="pn">{77}</span> mão esquerda, marcando a pagina com o dedo, e em toda a +sua gracil pessoinha um ar de alheiamento e de sonho, que o fazia estacar á +entrada da sala, n'um extase de devoto.</p> + +<p>—Que languidez, Virgem Santa!</p> + +<p>Casaram, está bem de ver, e foram padrinhos aquelles parentes da Bairrada, +que elle tinha ido visitar á Figueira, onde ella estava a banhos. Ninguem a +ensinára a trabalhar, e como elle só tinha o seu ordenado de despachante, uns +vinte mil réis por mez, era impossivel metter creada, de modo que andava tudo +desarrumado, a comida era mal feita, nunca estava prompta a horas, e quando uma +rabanada de vento entrava pela janella, era como redemoinho correndo ao longo +d'uma estrada poeirenta. Mas todas as noites, quando recolhia, farto de cuspir +no café, ia encontral-a, como n'outro tempo, encostada a uma pequenina mesa +quadrada, um livro de versos na mão esquerda, marcando a pagina com o dedo. E +ao vel-a assim descuidada n'um grande ar de alheiamento e de sonho, toda a sua +gracil pessoinha como que envolvida n'uma atmosphera de languidez quasi +morbida, estacava á entrada da sala, como n'outro tempo, murmurando por entre +dentes:</p> + +<p>—Que desmazelo, meu Deus!<span class="pn">{78}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Dio del oro, del mundo signor.</em></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Noite de festa.</p> + +<p>Tinham-se vendido todos os logares, e ninguem dispensava o seu bilhete como +se fosse um decimo de loteria, com probabilidades conhecidas de sair n'elle a +sorte grande.</p> + +<p>—Compra-se uma cadeira!</p> + +<p>—Ha quem venda uma geral ou camarote?</p> + +<p>Eram vozes clamando no deserto... d'uma multidão compacta, junto ao +<em>guichet</em>, todos sabendo que não entrariam, mas ninguem tendo a coragem +de se ir embora.—Quem sabe? Uma familia que se enlutou á ultima hora, e manda +vender o seu camarote; um honrado negociante que precisou de abalar para o +Alemtejo, e manda vender o seu <em>fauteuil</em>.</p> + +<p>Era noite de festa.</p> + +<p>Havia flores por toda a parte; colchas ricas pendiam dos camarotes, em todas +as ordens, de modo que a sala tinha assim, por virtude d'aquella<span +class="pn">{79}</span> polychromia bizarra, um aspecto singularmente +phantastico, em que se perdiam os olhos, n'um encanto. Mulheres ricamente +vestidas, largamente decotadas, eram como fructos de carne em papel de seda, e +formavam uma galeria de bustos sem egual, em que tivessem collaborado todos os +esculptores de genio.</p> + +<p>Era noite de festa.</p> + +<p>Quando se ergueu o panno, sobre as ultimas notas da orchestra, pareceu que +um jogo habil de espelhos transferira ao palco aquellas flôres magnificas que +havia por toda a parte, aquellas colchas ricas que pendiam dos camarotes, n'uma +polychromia bizarra, no meio da qual se destacavam bustos admiraveis de +mulheres, como se fossem outros tantos peccados irresistiveis, servidos em +papel de seda pelo demo tentador.</p> + +<p>No segundo acto, quando Ella appareceu, foi como se uma corrente electrica, +mysteriosa e divina, percorresse toda a sala, visto como todos se levantaram, +n'um movimento egual e isochrono, para a mais amoravel e sincera ovação de que +possa haver registo.</p> + +<p>Muito fria, muito pallida, as lagrimas gelando-se-lhe a meio das faces +apergaminhadas, um sorriso apagando-se-lhe nos labios resequidos, avança para +agradecer, n'um automatismo quasi de somnambula, e logo recua, soltando um +grito, deixando-se cahir, ao desamparo, n'um <em>divan</em>, que para alli +tinham posto.<span class="pn">{80}</span> </p> + +<p>Estava morta.</p> + +<p>No escriptorio, verificando o producto da récita, n'aquella noite festiva em +que havia flores por toda a parte, e, entre colchas d'uma polychromia bizarra +bustos esculturaes de mulheres eram como grandes fructos de carne servidos em +papel de seda, o emprezario commentava:</p> + +<p>—Que raio de sorte! Já estavam passados todos os bilhetes para ámanhã!<span +class="pn">{81}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Quando o cortejo se dirigia da Egreja para o Palacio uma bomba foi + atirada d'uma janella, fazendo grandes estragos. Os reis nada + soffreram.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes, em telegramma de Madrid).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Emfim!</p> + +<p>Acabavam de ligar-se para sempre, ella radiante de belleza, elle radiante de +felicidade, os dois sonhando mil cousas loucas, n'uma ebriedade d'amor que os +punha fóra do mundo real.</p> + +<p>—Querida Eugenia!</p> + +<p>—Querido Affonso!</p> + +<p>Parecia-lhes pequeno o templo, para conter a sua ventura, e aquella multidão +que os rodeava, fixando-os com muita insistencia, tinha assim os ares de quem +espreita com inveja, e se compraz em ser incommodo. Por maneira que ao chegarem +ao adro, ella radiante de belleza, elle radiante de mocidade, respiraram com +muita força, e<span class="pn">{82}</span> teriam caido nos braços um do outro, +ebrios de amor, se um grito de saudação, reboando pelos ares, não os chamasse á +realidade!</p> + +<p>Já no trem, por ahi fóra, marchando lentamente, como n'uma procissão, os +ouvidos cerrados a tudo que não fosse o encanto dos seus proprios gestos +intencionaes, elles architectavam mil coisas loucas na sua mente escandecida, e +como que prelibavam o infinito prazer d'uma posse ardentemente desejada.</p> + +<p>N'isto ouve-se uma explosão horrivel, e um grito formidavel de terror sae de +milhares de boccas, n'um unisono perfeito. É um momento de confusão +indescriptivel, e nem se ouvem os gemidos dos que sofrem, nem se dá pelas +convulsões dos que agonisam, porque a attenção dos que não fugiram concentra-se +totalmente n'aquellas duas creanças—ella radiante de belleza, elle radiante de +mocidade, os dois ainda ha pouco sonhando mil coisas loucas, n'uma ebriedade +d'amor, que os punha fóra do mundo real.</p> + +<p>Estavam salvos.</p> + +<p>A commoção fôra extraordinaria, sendo milagre que um estilhaço de bomba não +tivesse reduzido aquelle idilio esponsalicio a um noivado de sepulcro—como se +não fosse abominavel atirar para o nada uma existencia que alvorece.</p> + +<p>—<em>Yo te probaré hoy que soy digna de ser tu mujer.</em></p> + +<p>Fôra realmente extraordinaria a commoção, de<span class="pn">{83}</span> +modo que já no leito, sob a luz muito baça, muito tenue d'uma lampada ao centro +da alcova, tendo ainda nos ouvidos o estrondo d'uma bomba que rebenta, e como +que vendo alli, no isolamento d'aquelle ninho, creaturas que estremecem nos +paroxismos de uma morte irremediavel, elle que mostrára uma coragem estoica no +meio do perigo, recommendando a todos <em>calma, mucha calma! No ha pasado +nada</em>, elle sente-se agora d'uma fraqueza infantil, quasi covarde, +anniquilado como se entrára n'uma lucta com cyclopes. E então muito calmo, +muito resignado, como quem acceita os fados, mordendo-lhe os beiços que ella +estendia n'uma momice cheia de graça:</p> + +<p>—<em>Yo te probaré mañana que soy digno de ser tu marido.</em></p> + +<p>E foi como se na virgindade d'aquelle leito repousassem duas creanças +gemeas.<span class="pn">{84}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O governo resolveu supprimir todas as gratificações por serviços + extraordinarios.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Iam alli implorar a protecção de S. Ex.ª.</p> + +<p>—De que se trata então?</p> + +<p>—Somos tres chefes de familia, tres honrados servidores do Estado que +vimos...</p> + +<p>—Está bem; mas o que desejam?</p> + +<p>—Como V. Ex.ª sabe, acabaram as gratificações, e aquelle de nós tres que +mais ganha não chega a ganhar trinta mil réis mensaes, sujeitos a descontos. +</p> + +<p>—Perfeitamente; mas os senhores são empregados...</p> + +<p>—Saberá V. Ex.ª que da Alfandega.</p> + +<p>—Ora é isso mesmo, da Alfandega. Eu não posso augmentar-lhes o ordenado, e +como a verba das gratificações foi supprimida.</p> + +<p>—Se V. Ex.ª dá licença...<span class="pn">{85}</span> </p> + +<p>—Como a verba das gratificações foi supprimida, e não depende de mim +restaural-a...</p> + +<p>—Se V. Ex.ª quizesse ter a bondade de se interessar por nós, mesmo sem nos +augmentarem os ordenados e sem restabelecerem as gratificações...</p> + +<p>—A accumulação de serviços equivale a uma gratificação...</p> + +<p>—Queira V. Ex.ª desculpar, mas tudo se arranjaria facilmente se o sr. +conselheiro quizesse ter a bondade de nos tomar sob a sua protecção...</p> + +<p>—É que não vejo maneira...</p> + +<p>—O que nós pedimos é muito pouco, e não é preciso tiral-o ao Estado, ou a +quem quer que seja.</p> + +<p>—Em summa, o que é que os senhores desejam?</p> + +<p>—Nós desejávamos ser nomeados... gatos da Alfandega.</p> + +<p>—Gatos da Alfandega?!!...</p> + +<p>—É verdade, sr. conselheiro, gatos da Alfandega. Isso daria uns 9$000 réis +por mez, a cada um, o que seria uma ajudasinha para a renda da casa.</p> + +<p>—Os senhores vieram aqui para se divertirem commigo?</p> + +<p>—Ó sr. conselheiro, pelo amor de Deus! Nós viemos aqui implorar a +valiosissima protecção de V. Ex.ª, juramol-o pela bôa saude das nossas mulheres +e dos nossos filhos...<span class="pn">{86}</span> </p> + +<p>—Gatos da Alfandega! Mas então os senhores perderam o juizo?</p> + +<p>—Não, senhor conselheiro; o que nós perdemos foi a gratificação.</p> + +<p>—Ou anda tudo doido, ou eu não sei onde tenho a cabeça. Mas o que vem a ser +isso de gatos de Alfandega?</p> + +<p>—Saberá V. Ex.ª que havendo milhões de ratos na Alfandega, sem respeito +nenhum pelas mercadorias que alli se acham depositadas, e havendo todos os dias +reclamações por causa dos prejuizos que estes causam, foi creada a corporação +dos <em>Gatos da Alfandega</em>, para a sustentação da qual ha uma verba de +proximamente trinta mil réis por mez.</p> + +<p>—Está bem; mas se essa verba é para sustentação dos gatos...</p> + +<p>—Desculpe V. Ex.ª; mas se esses empregados cumprem rigorosamente o seu +dever, apanhando os ratos, não precisam que os sustentem, porque arranjam elles +proprios os seus sustentos; e se alli estão só para receberem o ordenado, +deixando os ratos em liberdade, não é justo que se gaste com elles um +dinheirão, ao passo que honrados chefes de familia...</p> + +<p>—Pois está bem; vou informar-me do caso e prometto-lhes interessar-me pelos +senhores.</p> + +<p>—Muito obrigado, sr. conselheiro, muito agradecido a V. Ex.ª</p> + +<p>Tinham dito a verdade os honrados chefes de<span class="pn">{87}</span> +familia, e porque o conselheiro não era homem que faltasse á sua promessa, +foram os tres nomeados gatos da Alfandega, como poderiam ser nomeados +secretarios do ministro, ou revisores do caminho de ferro.</p> + +<p>Os verdadeiros gatos emigraram, e uma commissão de ratos foi cumprimentar os +tres honrados chefes de familia, quando viram as nomeações no <em>Diario do +Governo</em>.<span class="pn">{88}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Deve se ao sr. Casimiro José de Lima, director da casa da moeda, o + monumento a Souza Martins, erecto no Campo de Sant'Anna.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Eram congressistas.</p> + +<p>Desemboccaram no Campo de Sant'Anna, vindo da Carreira dos Cavallos, e como +se approximassem da estatua, a alguns passos de distancia, pararam de repente, +em geito de quem examina com interesse. Um do grupo, o mais velho, typo acabado +de sabio allemão, genero Topsius, de sobrecasaca e oculos d'ouro, erguendo +ligeiramente o chapéu, n'um cumprimento respeitoso, em que havia muito de +admiração, exclama com grande convencimento:—<em>Schön! Schr schön!</em> E +logo os outros todos, em unisono, como se fosse um echo alli proximo, possuidos +d'aquelle arroubamento esthetico, que é vulgar nos homens da Allemanha, +exclamaram tambem!—<em>Schr schön!</em><span class="pn">{89}</span> O mais +velho, erguendo os oculos d'ouro para a testa ampla, como a querer illuminar o +pensamento, feita uma ligeira reverencia á estatua immovel explicou:—Ribeiro +Sanches... Foi um medico notavel do seculo dezoito, um sabio do mais alto +valor. Formado em Coimbra, graduado em Salamanca, visitou successivamente os +hospitaes de Londres, Marselha, Toulon, Montpellier e Paris. Estudou com +Boerhaave—todos se descobriram—em Leyder, durante tres annos, e a tal ponto +se impoz á estima e á consideração do Mestre, que d'ahi a pouco tendo-lhe +pedido a imperatriz da Russia a indicação de tres grandes medicos, que fossem +exercer cargo de professor em Moscow, o primeiro nome que lhe accudiu foi o de +Ribeiro Sanches. Medico dos exercitos imperiaes, fez a campanha da Polonia, em +1735, e ainda n'essa qualidade andou pelo Paiz dos Tartaros, sobre os quaes fez +estudos de anthropologia, que muito aproveitaram ao sabio francez Buffon—e +todos se descobriram de novo.—Viveu em Paris, com muitas difficuldades, sempre +estudando, sempre cultivando a sciencia, produzindo trabalhos valiosos sobre +economia, historia e medicina.</p> + +<p>Formára a sua intelligencia no estudo de Bacon e Descartes, e temperou o seu +caracter pelos conselhos de Montaigne.</p> + +<p>Accusado de judaismo, não podia vir a Portugal, e os livros que para cá +mandava eram uma<span class="pn">{90}</span> especie de contrabando, que o +marquez de Pombal fez passar como sendo d'um phantastico dr. João Mendes +Sachetti.</p> + +<p>A Imperatriz Catharina II, da Russia, grata por a haver curado d'uma doença +grave, era ella princeza, estabeleceu-lhe uma mezada sufficiente, quando elle +se viu na capital da França, a braços com a miseria.</p> + +<p>E assim pôde viver e publicar o seu <em>Methodo de estudar a medicina</em>, +e um tratado de <em>Conservação da saude</em> dos povos, e outros muitos +trabalhos de valia, que lhe marcaram logar distincto entre os sabios do seu +tempo. Um grande sabio! <em>Ein gross gelehrt! Viel berühmht!</em>—E todos em +unisono, como se fosse um echo ali perto:—<em>Viel berühmht!</em></p> + +<p>Ia a passar uma mulhersinha, typo de mulher que esfrega, e como os visse +embasbacados, approximou-se do grupo:</p> + +<p>—É o Sousa Martins, os senhores haviam de conhecer. Quem mandou alli pôr +isto, foi o sr. Casimiro da Casa da Moeda—talvez os senhores tenham ouvido +falar.</p> + +<p>Pois não conheciam um, nem tinham ouvido falar do outro, aquellas +cavalgaduras!<span class="pn">{91}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Hontem a policia deitou a mão a um gatuno de onze annos, que roubou um + pão n'uma padaria da Baixa.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Tinha roubado um pão.</p> + +<p>A mãe dissera-lhe que fosse pedir esmola, havia muitas horas sem comer, e +elle abalára por essas ruas, descalço e rôto, extendendo a mão a toda a gente. +Entrava nos cafés, e ninguem lhe dava nada; entrava pelas lojas, descalço e +rôto, e os caixeiros enxotavam-n'o como se fosse um cão. <em>Dá-me +cincoreisinhos, meu senhor?</em></p> + +<p>Ninguem lhe dava nada, e todos o maltratavam, chegando um policia a +deitar-lhe a unha para o levar para a Correcção. Infatigavel, entrando agora +n'um café, onde os freguezes nem ouviam o seu estribilho—<em>dá-me +cincoreisinhos, meu senhor?</em>—entrando além n'uma loja, d'onde os caixeiros +o enxotavam como um cão sem dono, já tinha percorrido a cidade inteira, +extendendo a mão a<span class="pn">{92}</span> toda a gente, e toda a gente +olhando para elle com desprezo ou com enfado, e ninguem se compadecendo da sua +miseria. E, comtudo, era nada, que elle pedia a toda a gente que passava, +extendendo a mão suplicante.—<em>Dá-me cincoreisinhos, meu senhor?</em></p> + +<p>Cançado, cheio de fome, ahi volta elle a casa, onde a mãe o aguardava, n'uma +afflicção, chumbada ao leito, havia muitas horas sem comer. Uma senhora muito +bem vestida, com brilhantes, carruagem brazonada, quasi encalhando n'elle á +porta d'uma Egreja, estendeu-lhe a mão enluvada, e deixou cahir na sua mãosita +suja, sem olhar para elle, os cincoreisinhos que elle andava a pedir correndo a +cidade inteira, extendendo a mão a toda a gente que passava, entrando nos +cafés, onde os freguezes eram surdos ao seu pedido, e entrando nas lojas, +descalço e rôto, e d'onde os caixeiros o enxotavam, como um cão vadio.</p> + +<p>Talvez não fosse de proposito, mas os cincoreisinhos telintaram nas pedras +da calçada, emquanto a senhora que lh'os dera, muito bem vestida, genuflectia á +porta do templo, e cortava o rosto fresco e moreno com o signal da cruz.</p> + +<p>Foi então que o garoto deu com os olhos n'um cesto de verga, á porta d'uma +padaria, cheio de pão alvo e fresco.</p> + +<p>Alli perto estava a mãe, chumbada ao leito, sofrendo horrivelmente, noites e +noites sem dormir, havia muitas horas sem comer. Quasi nem teve<span +class="pn">{93}</span> tempo de acommodar o pão debaixo do braço, escondendo-o +com uns frangalhos da jaqueta. O padeiro grita, o garoto foge, a policia +apanha-o, e a multidão horroriza-se deante d'aquelle ladrão de onze annos, que +tinha a mãe alli perto, n'uma pocilga, chumbada ao leito, soffrendo +horrivelmente, noites e noites sem dormir, havia muitas horas sem comer.</p> + +<p>Na esquadra, mettido no segredo, como um facinora, o garoto dá o nome e a +morada; mas o terror nem o deixa desafogar em lagrimas—vejam o cynismo do +malandro!—e a vergonha faz-lhe esconder a cara—admirem a astucia do patife! +</p> + +<p>O policia, que foi prevenir a familia, ao outro dia, encontrou extendido no +leito, ainda quente, o cadaver d'uma mulher nova, muito sêcca, muito mirrada, o +ar de quem passou largo tempo chumbada ao leito, ainda quente, soffrendo +horrivelmente, muitas horas sem comer, muitas noites sem dormir.</p> + +<p>Já não lhe puderam dizer que era um ladrão o seu filho, aquelle garoto +descalço e esfrangalhado, que percorrera a cidade inteira, incommodando toda a +gente—<em>dá-me cincoreisinhos, meu senhor?</em><span class="pn">{94}</span> +</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O rei podia impôr-se por um acto de abnegação e patriotismo, + acceitando a Republica.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(D'um jornal republicano). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Era um povosinho pacato, que moirejava nas suas terras, sempre alegre, +sempre satisfeito, sem recordações tristes do passado, sem apprehensões pelo +futuro.</p> + +<p>Enlevava-se na contemplação do mar, quando elle era sereno, e como se +esquecesse então, os olhos pregados na sua superficie espelhenta e lisa, os +ladrões aproveitavam-se daquella especie de somno hypnotico para lhe +aligeirarem os bolsos.</p> + +<p>Bem se importava elle com isso! Tirava da terra, quasi sem esforço, tudo +quanto lhe era necessario, e ainda lhe ficava muito tempo para se enlevar como +um sabeista, na contemplação dos astros, de dia piscando os olhos aos raios +d'um sol que não queima, de noite como a querer enchel-os d'um luar que +adormenta.<span class="pn">{95}</span> </p> + +<p>Era feliz.</p> + +<p>Os outros invejavam aquella tranquillidade paradisiaca, alguns milhões de +bananas governados consoante a rima, e com um rei côr de laranja.</p> + +<p>Succedeu, porém, que um dia, no meio d'aquelle povo pacato que moirejava nas +suas terras, sempre alegre, sempre satisfeito, sem recordações tristes do +passado, sem apprehensões pelo futuro, caiu uma semente de revolta, que logo +germinou e fortificou, avassallando todos os espiritos. Áquella gente pacifica +repugnavam os actos violentos, e só comprehendia que se derramasse sangue para +fazer cabidela, ou então para evitar congestões, quando assim o entendesse a +medicina.</p> + +<p>Mas havia o rei...</p> + +<p>Foi então que um patriota, inspirado como um propheta antigo, teve uma ideia +genial, um pensamento sublime—convidar o rei a adherir. Elimina-se o rei e +cria-se um cidadão, exclamava com muita eloquencia, pondo arrepios de commoção +na espinha de todos os ouvintes.</p> + +<p>S. M. adheriu.</p> + +<p>Como todos os bons cidadãos quizeram sacrificar-se na presidencia da +Republica, houve necessidade de não crear essa funcção, e isso se fez por +consenso unanime, cada um não querendo para os outros o que não poderia haver +para si.</p> + +<p>Alvitrou-se a anarchia, mas como viesse a reconhecer-se, ao cabo de longa +discussão, que no relogio do tempo ainda não tinha soado essa hora<span +class="pn">{96}</span> suprema d'amor e de justiça, tratou-se de eleger um +governo, como nas outras republicas.</p> + +<p>Um velho de aspecto venerando, com um saber só de experiencias feito, propoz +que na constituição do governo entrassem elementos novos e aguns dos antigos +homens de governo, já com pratica de negocios publicos.</p> + +<p>—Os cidadãos que approvam esta proposta ergam as duas mãos.</p> + +<p>Como se visse no ar uma floresta de mãos:</p> + +<p>—Approvada por unanimidade.</p> + +<p>Logo uma voz se ergue, fazendo-se ouvir em toda a vasta assembléa:</p> + +<p>—Eu voto contra. No governo só deve entrar gente nova.</p> + +<p>O homem que assim falava protestando com energia, era o cidadão que fôra +rei, o que deu logar a esta observação do presidente.</p> + +<p>—Mas o cidadão, quando era monarcha...</p> + +<p>—Pois sim, quando era monarcha; mas agora sou contribuinte...<span +class="pn">{97}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Parece que S. M. a Rainha não acompanhará El-Rei na sua proxima + viagem.</em></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>—Confessa que te era mais agradavel ir só...</p> + +<p>—A falar a verdade...</p> + +<p>—Ao menos és franco, e a franqueza não passa por ser qualidade vulgar na +tua nobilissima familia.</p> + +<p>—Falas-me da minha familia n'um tom de superioridade e desdem, como se +descendesses d'alguma d'essas divindades soberbas, de que estão cheias as +mythologias antigas. A esse respeito, minha filha, talvez seja melhor não +adeantarmos conversa. Ha um anexim portuguez que resa assim;—<em>disse o tacho +á certã, tira-te para lá não me tisnes.</em></p> + +<p>—Não conheço o calão dos toureiros...</p> + +<p>—Nem eu a giria dos jesuitas.</p> + +<p>—Ao menos podias ser delicado com uma senhora.<span class="pn">{98}</span> +</p> + +<p>—Por certo se essa senhora quizesse ser delicada commigo.</p> + +<p>—Nunca eu tivesse aqui posto os pés.</p> + +<p>—Inteiramente d'accordo. Tinha sido magnifico para os dois.</p> + +<p>—Se não fossem os filhos e...</p> + +<p>—Bem sei; se não fosse isto de pairar no alto, estar acima dos outros... +</p> + +<p>—<em>Je m'en fiche de...</em></p> + +<p>—Temos calão boulevardiano?</p> + +<p>—Se um dia perderes o logar, podes ir para Marrocos: o sultão, supponho eu, +não terá ciumes de ti.</p> + +<p>—Nem tu saudades minhas.</p> + +<p>—Se te parece!...</p> + +<p>—Apezar de todos os pezares, minha filha, tu ainda me podias dar um prazer +enorme, uma satisfação infinita.</p> + +<p>—Deixando-te ir em liberdade?</p> + +<p>—Não; deixando-me... viuvo.<span class="pn">{99}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>No congresso medico do Porto, o dr. Eduardo d'Abreu apresentou um + velho de 109 annos.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>—Vou dar a palavra ao illustre congressista, nosso collega, que apresentará +á assembléa o homem mais velho do mundo.</p> + +<p> </p> + +<p>Quando o presidente acabou de pronunciar estas palavras, fez-se na sala, até +então rumorosa, o silencio dos momentos augustos. Um congressista avançou para +junto da mesa da presidencia, acompanhado d'um velhote rabitezo, de peitilhos +bordados, endomingado como para a desobriga. Era o homem mais velho do mundo, +como dissera o presidente. Nascido no seculo dezoito, atravessára todo o seculo +dezenove, e alli estava muito fresco, bem disposto, nas felizes disposições de +acompanhar o seculo vinte até por ahi adeante sem cansaço de maior.<span +class="pn">{100}</span> Estavam alli cento e nove annos, bonita somma feita com +parcelas de tres seculos, muito deseguaes em valor.</p> + +<p>Tão bem conservado o velhinho!</p> + +<p>Dir-se-ia que adormecera quando ia a entrar na velhice, ao cabo de uma +florente mocidade, e a dormir deixára de fazer annos, o bom velhote. Por certo +aquella alma nunca fôra batida das tormentas, não experimentara nunca as +grandes alegrias nem as grandes contrariedades, porque umas e outras consomem +como o fogo, abbreviam a existencia,—diluindo-a em risos ou afogando-a em +lagrimas.</p> + +<p>Tão bem conservado, o velhinho!</p> + +<p>Ha rugas na sua face; mas ellas são apenas as dobras avelludadas dos lagos +adormecidos, d'uma paz magestosa e inalteravel.</p> + +<p>Os olhares de todos aquelles medicos convergiam para o bom do velho, muito +rabitezo, com os seus peitilhos bordados á moda de 1820—a unica coisa limpa +que resta das grandes aspirações d'aquella epoca, explicou o congressista que +apresentava o phenomeno. Parecia uma evocação, um phantasma que surgisse da +noite dos tempos para contar historias tragicas. Mas havia tanta candura no seu +olhar curioso! tanta alegria infantil no seu riso mal contido, como se tivesse +vergonha de não se mostrar grave alli, no meio de tantos senhores! Aquella +seriedade tinha o ar de uma meninice robusta e florida.<span +class="pn">{101}</span> </p> + +<p>Tão bem conservado, o velhinho! Parecia vender saude...</p> + +<p>Um dos congressistas, clinico de larga nomeada, approximando-se do velhote: +</p> + +<p>—E de saude, que tal?</p> + +<p>—Ó meu senhor, graças a Deus...</p> + +<p>—Mas nunca esteve doente?</p> + +<p>—Uma vez, ainda era novo, ahi por volta dos setenta annos.</p> + +<p>—E tomou muitos remedios?</p> + +<p>—Lá quanto a isso... não tomei nenhum. Eu sempre tive muito amor á vida. +</p> + +<p>Tão bem conservado, o velhinho!...<span class="pn">{102}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Hontem, em conferencia dos delegados, foi resolvido querellar d'alguns + jornaes.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>A sessão estava marcada para as onze. O ultimo que entrou, saudando os dois +que já lá estavam, teve esta observação maliciosa:</p> + +<p>—A justiça é pontual!...</p> + +<p>—E algumas vezes... justa, accrescentaram os collegas.</p> + +<p>Cada qual desembaraçou-se do sobretudo, pôz em cima da mesa um masso de +jornaes, e assentou-se.</p> + +<p>—Ha que fazer?</p> + +<p>—Pela parte que me toca...</p> + +<p>O que assim falou, ergueu os oculos para a testa, abriu um dos jornaes que +tinha na sua frente, e leu pausadamente:—<em>É fóra de duvida que o nosso +Monarcha é dos imperantes mais honestos e mais intelligentes não só da Europa, +mas de todo o mundo.</em><span class="pn">{103}</span> </p> + +<p>Pousou o jornal sobre a mesa, deixou cair os oculos para os olhos, e +attentou nos collegas, á espera.</p> + +<p>—E depois? O collega com certeza não pretende querellar d'esse jornalista, +com certeza monarchico...</p> + +<p>—Engana-se o collega redondamente. Pretendo querellar a passagem do jornal, +que acabo de ler, porque a encontro incursa no artigo...</p> + +<p>—Mas isso não tem pés nem cabeça, collega. Quereria então que amanhã se +dissese que este augusto tribunal querellára d'um jornalista por ter elle +escripto que o monarcha é honesto, é intelligente, dos mais honestos e +intelligentes que o sol cobre?...</p> + +<p>—É como acaba de dizer.</p> + +<p>—Mas isso é uma loucura!...</p> + +<p>—Um pouco mais pequena do que lhe parece. Estamos aqui para cumprir a lei, +e a lei, n'este ponto, é clara.</p> + +<p>—O que faria então o collega se o jornalista tem escripto que o monarcha é +destituido de intelligencia e honestidade?</p> + +<p>—O que faria? Querellava-o com fundamento no artigo...</p> + +<p>—Mas é então o caso de ser preso por ter cão...</p> + +<p>—Não é nada d'isso. É o caso da lei prevenir as duas hypotheses—a da +calumnia e a da troça.<span class="pn">{104}</span> </p> + +<p>Concordaram os tres em que eram de troça as palavras incriminadas, e assim +fundamentaram a sua petição de querella. Nunca mais, desde então, os +jornalistas se atreveram a escrever aquillo a serio.<span +class="pn">{105}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O sr. Teixeira d'Abreu foi hontem cumprimentado por uma commissão de + Juizes, que o procurou no seu ministerio.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Era uma commissão de juizes da provincia, que vinha apresentar os seus +cumprimentos a s. ex.ª.</p> + +<p>Ageitou o laço da gravata, kaiserizou um pouco os bigodes, pousou a mão +direita, levemente espalmada, sobre a pasta de marroquim, deixou cair o braço +esquerdo ao longo do corpo, muito á vontade, e disse ao continuo que mandasse +entrar.</p> + +<p>—Vimos apresentar a v. ex.ª as nossas homenagens, felicitando-o pela justa +e merecida distincção que acaba de lhe ser feita.</p> + +<p>Muito grave, tendo ouvido aquella pequena fala como se fosse um acto de +vassalagem por parte de rebeldes submettidos, pausadamente como quem mede as +palavras:<span class="pn">{106}</span> </p> + +<p>—Agradeço as felicitações que me dirigem, e tomo-as como partindo de toda a +magistratura, aqui representada por v. ex.<sup>as</sup>.</p> + +<p>Ordenou que se sentassem, n'um gesto brando e attencioso, e elle proprio +sentou-se, com muita solemnidade, não fosse desmanchar a <em>pose</em> que +estudára de vespera para actos officiaes.</p> + +<p>E explicou:</p> + +<p>—Desejo fazer obra util, que vinque a minha passagem pelos conselhos da +corôa. O complexo de medidas que tenciono apresentar, subordinadas umas ás +outras como partes integrantes d'um todo harmonico, constituirá o que eu chamo +<em>A reforma da bola</em>.</p> + +<p>—A reforma...</p> + +<p>—Da bola. Não fazem ideia do que seja? Não admira; trata-se d'uma coisa +inteiramente nova. Já na Universidade iniciei o meu plano reformador, embora +n'outro campo, e com o melhor resultado.</p> + +<p>—Se V. ex.ª...</p> + +<p>—É simples. Em vez de chamar á lição pela caderneta, chamava pelo saco das +bolas. Numero tal? Era o que dava a sorte. Assim os rapazes, receando cada qual +que saisse a bola do seu numero, estudavam todos a sebenta. É engenhoso não é +verdade?</p> + +<p>—Sem duvida. Qualquer que não tivesse o immenso talento de v. ex.ª +consideraria que os rapazes, esperando cada qual que não saisse a bola do seu +numero, nenhum pegaria na sebenta.<span class="pn">{107}</span> </p> + +<p>—Pois ahi está. A bola, applicada ás coisas da justiça, espero que dará os +melhores resultados. Assim, por exemplo, tratando-se da collocação de juizes e +delegados... A cada comarca corresponde uma bola. Estão a ver?... Acaba o +favoritismo; torna-se impossivel a perseguição ou a empenhoca.</p> + +<p>—É maravilhoso!</p> + +<p>—Pois não é?... E ao mesmo tempo é simples. Espero que a minha passagem +pelos conselhos da corôa, curta ou demorada que seja, não resulte improficua +para os sagrados interesses da justiça e dos seus agentes.</p> + +<p>Ergueu-se gravemente, e premiu o botão electrico. Logo appareceu o continuo, +que acompanhou até á escada aquella commissão de juizes, que tinham ido +apresentar os seus cumprimentos a s. ex.ª.</p> + +<p>Já na Arcada, olhando uns para os outros, como que interrogando-se:</p> + +<p>—Com que então, a bola?</p> + +<p>—Redonda e de escaravelho, levada as arrecuas até ao gabinete negro.<span +class="pn">{108}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>O illustre deputado F. fez hontem um grande discurso, muito caloroso e + muito espontaneo, sendo no final cumprimentado por quasi todos os seus + collegas.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Passou por alli e entrou.</p> + +<p>Era um espectaculo novo para elle, uma sessão parlamentar. Vinha a Lisboa, +muitas vezes, estando as Camaras abertas, mas em geral tinha muito que fazer, e +não podia demorar-se por fóra de casa.</p> + +<p>O cavallo engorda só com a vista do dono, e elle sabia bem como o seu +emmagrecia, isto é, como lhe corriam mal os negocios quando se ausentava por +certo tempo. Mas uma vez não são vezes e elle poderia fazer á sua curiosidade o +sacrificio das suas commodidades. Em vez de partir no comboio da tarde, que era +rapido, partiria no comboio da noite, muito ronceiro, parando em todas<span +class="pn">{109}</span> as estações, e só chegando á sua terra a uma hora +bastante incommoda, de madrugada.</p> + +<p>Entrou, e dirigindo-se ao primeiro porteiro que viu, entregou-lhe um cartão +de visita para o deputado do seu circulo, pedindo uma entrada, para a galeria +do presidente. Tinham-lhe dito que era d'alli que melhor poderia disfructar o +espectaculo. S. ex.ª mandou o bilhete de admissão, e pedia desculpa de não vir, +porque estava conversando com o ministro a respeito d'um melhoramento que tinha +pedido lá para o circulo, a ponte de alvenaria sobre a ribeira, que no inverno, +chovendo muito, estorvava a passagem de carros.</p> + +<p>Acabava de ler-se a acta, quando elle se installou no seu logar. Um deputado +já velho, com oculos, mandou para a mesa uns papeis, requerendo que fossem +publicados no <em>Diario</em>, e um dos ministros declarou-se habilitado a +responder á interpelação que lhe tinha annunciado, na vespera, um illustre +deputado da maioria.</p> + +<p>Pareceu-lhe aquillo pouco interessante, e já quasi se arrependia de ter alli +ido, quando o presidente, não havendo mais quem pedisse a palavra, declarou que +se ia entrar na ordem do dia. E logo a seguir:</p> + +<p>—Tem a palavra o sr....</p> + +<p>Era o seu deputado que tinha a palavra. Não pensou mais em ir-se embora, +está bem de ver, e como o homem tivesse a palavra forte e o gesto largo, +prendeu-lhe a attenção desde o começo.<span class="pn">{110}</span> A Camara +estava um pouco distraida, cada qual cochichando com o seu visinho, mas elle +tinha a impressão que o discurso era bem alinhavado, talvez um pouco vulgar nos +conceitos, mas bastante correcto na forma, e deduzido com certa logica e +habilidade. Quando faltavam apenas cinco minutos para se encerrar a sessão, o +presidente, interrompendo o orador, perguntou-lhe se desejaria ficar com a +palavra reservada.</p> + +<p>—Vou concluir, sr. presidente; os cinco minutos de que ainda disponho, +chegam muito bem para o que me falta dizer.</p> + +<p>Quando acabou, muitos deputados foram cumprimental-o, alguns apertando-lhe a +mão com muita força e outros abraçando-o com enternecimento.</p> + +<p>Esperou-o ao pé do elevador, e mal o viu estendeu-lhe as duas mãos:</p> + +<p>—Muito bem! muito bem!</p> + +<p>Elle então explicou, modestamente, que não contava usar da palavra, +n'aquella sessão, e que por isso não se tinha preparado.</p> + +<p>—Foi o que acudiu na ocasião; para a outra vez será melhor.</p> + +<p>Já fóra do edificio das Côrtes, atravessando o largo, um rapaz de blusa +azul, com uns papeis nas mãos, approximou-se d'elles.</p> + +<p>—Que deseja?</p> + +<p>—São as provas do discurso; v. ex.ª manda-as á typographia, ou quer que vá +buscal-as?<span class="pn">{111}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>A continuarem as coisas assim, aos republicanos bastará um pouco de + audacia para fazerem a Republica.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes monarchicos). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Era um pego largo, pouco fundo, com moitas de juncos pelas barreiras que se +esboroavam a cada instante. De cada vez que caia um pequeno torrão, acudiam do +fundo peixes em cardume, alguns doirados, outros de prata. Andavam á roda do +pego uns homens graves, sem instrumentos de pesca, varando os peixes com +olhares de fogo—olhares de guloso ou de avaro.</p> + +<p>Bem se importavam os peixes que elles os olhassem assim, com uma insolencia +quasi dolorosa, se lá da camada funda em que andavam apercebiam-se do minimo +gesto que elles fizessem, estendendo a mão, e logo mergulhavam mais, pondo-se +inteiramente a salvo.</p> + +<p>Alli perto, debaixo d'uma arvore frondosa, andavam creanças a brincar.<span +class="pn">{112}</span> </p> + +<p>Como as chamassem, n'um prompto, correram para junto daquelles homens graves +que andavam á roda do pego, devorando com os olhos aquelles peixes de oiro e +prata, que se viam lá em baixo, na transparencia da agua, e de quando em quando +vindo á superficie, quando das barreiras caia um pequeno torrão, que os atraía +em vez de os espantar.</p> + +<p>—Ganha um vintem cada um, se atirarem para o pego muita poeira e muita +lama.</p> + +<p>Os pequenos olharam uns para os outros, como que interrogando-se, e logo +desataram a correr, por alli fóra, rindo ás gargalhadas, deixando estupefactos +aquelles homens graves que estavam havia muito namorando os peixes, varando-os +com olhares de fogo—olhares de guloso ou de avaro.</p> + +<p>Já a distancia, para além da arvore debaixo da qual ha pouco brincavam, +estacaram todos ao mesmo tempo, como se obedecessem a uma voz de commando. O +mais ladino, apontando na direcção do pego, com um grande ar de superioridade +desdenhosa:</p> + +<p>—Queriam pescar nas aguas turvas, os gajos...</p> + +<p>E todos riram á gargalhada.<span class="pn">{113}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Toda tu és formosa, amiga minha, e em ti não ha mancha.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Cantico dos Canticos).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Que os seus labios toquem os meus labios, dando-me o osculo da sua bocca, e +as minhas mãos toquem os seus peitos, fragrantes como os balsamos mais +preciosos...</p> + +<p>Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe mudou a côr +beijando-a doidamente n'um dia em que ella andava pelas encostas, apascentando +os gados, esbelta como a açucena...</p> + +<p>Hei de fundir os meus desejos loucos no fogo dos seus olhos negros, para +afogar n'uma gargalheira d'ouro o seu pescoço de rola.</p> + +<p>Ella é a flor do campo, o lirio immaculado dos valles, olorosa como o nardo, +rescendendo como um ramalhete de açafrão que alguem tivesse collocado entre as +suas pomas virgens, appetitosas como um cacho de Chypre, de bagos humidos e +frescos.<span class="pn">{114}</span> </p> + +<p>Não a acordem no seu thalamo de flores, que ella assim é linda como a +Sulamita, cujo coração vela emquanto ella dorme, e na volupia do seu sonho, +perfumado de todas as essencias do Libano, percebe a voz do seu amado, que lhe +bate á porta, a escorrer-lhe do cabello em anneis todo o orvalho da noite.</p> + +<p>Os seus labios são como uma fita de escarlate, mal cobrindo os seus dentes +de marfim, e as maçãs do seu rosto, como romã partida, accendem fome de beijos +nos proprios cedros do Libano.</p> + +<p>Que airosos são os seus passos, e que harmonioso é o seu talhe, similhante +ás palmeiras do deserto, em torno das quaes esvoaçam pombas nitentes como +frocos de espuma, que o vento erguesse do mar quando as ondas saltam como +cabritos do monte, procurando as folhas verdes!</p> + +<p>Não lhe perturbeis o somno, linda como é adormecida, o leito em que repousa +tendo o olor de um canteiro de plantas aromaticas, onde floresce o nardo e o +açafrão, o cinamomo e a mirrha.</p> + +<p>Bem me importa que ella seja trigueira, se foi o sol que lhe queimou as +faces, beijando-a doidamente, n'um dia em que a apanhou no campo, esbelta como +as açucenas...<span class="pn">{115}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Ci git Piron, qui fut vien!...</em></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Accumulava com o emprego burocratico... de não fazer nada, o encargo +social... de dizer mal de todos e de tudo. Assim o tempo não lhe chegava para +ir aqui e além, apparecendo em toda a parte, informando-se da ultima novidade, +e commentando o ultimo escandalo. Estava convencido de que nascera com immensas +aptidões, um enorme talento de escriptor, um profundo genio d'artista, e que +tudo isso lhe fôra roubado, ainda no berço, uma noite, estava elle a dormir e a +sonhar—um lindo sonho côr de rosa, que punha estremecimentos rithmicos nas +suas carninhas de leite. Teria sido um philosopho como Littré, um esculptor +como Miguel Angelo, um historiador como Mommsen, um critico como Taine, um +poeta como Victor Hugo, um pintor como Rubens, um romancista como Balzac, se +lhe não tivessem roubado em pequeno as immensas aptidões com que o dotára a +Natureza.<span class="pn">{116}</span> </p> + +<p>Quando se punha a escrever, emperrava-lhe a penna ao cabo de poucas linhas, +e não havia maneira, por mais que torturasse os miolos, de lançar ao papel uma +ideia. Quando se punha a fazer pintura, escorregava-lhe o pincel borrando a +lona, e succedia então que tendo feito o desenho para uma rosa, lhe saia +inevitavelmente uma couve-flôr. Uma unica vez conseguiu levar a cabo uma +esculptura; mas succedeu que tendo modelado no barro um cupidinho alado, quando +o passou ao gesso se encontrou com um kanguru. Vinham-lhe então raivas +tremendas, um odio enorme aos que tinham um nome, aos que faziam livros ou +faziam estatuas, affirmando de qualquer forma uma competencia superior—o +talento, que não é commum, ou o genio que ainda é mais raro. Era a impotencia +gerando a inveja; era a inveja transmudando-se em odio.</p> + +<p>Um dia morreu e, como não tivesse amigos, quasi ninguem o acompanhou ao +cemiterio. Quando iam a descel-o á cova na sua mortalha de pobre, um bohemio +que alli chegou, informando-se de quem era, disse:</p> + +<p>—Deviam fazer-lhe a cova redonda... A ultima morada d'um nulo, deve ter a +fórma d'um zero.<span class="pn">{117}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>S. M. tem recebido milhares de cartas, bilhetes e telegrammas, + felicitando-o pelo mallogro do projectado movimento revolucionario.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Estendeu o braço e premiu o botão electrico, que ficava um pouco ao lado da +secretaria.</p> + +<p>—Pareceu-me ouvir chamar...</p> + +<p>—Chamei, sim. Vieram cartas, bilhetes, telegrammas, não é verdade?</p> + +<p>—E todos elles...</p> + +<p>—Todos elles dizem a mesma coisa. Até parece que foram expedidos pela mesma +pessoa ou então...</p> + +<p>—Ou então foram redigidos segundo uma formula combinada, não é isso?</p> + +<p>—Exactamente, segundo uma formula combinada.</p> + +<p>—E já os colleccionaste, conforme te disse?</p> + +<p>—De certo. Á medida que chegavam ia...<span class="pn">{118}</span> </p> + +<p>—Está bem. Traze aquelles que sabes e mette-os além, n'aquella caixa.</p> + +<p>—N'aquella caixa?</p> + +<p>—Sim, n'aquella caixa. Vou lel-os de monoculo.</p> + +<p> </p> + +<p>Eram algumas duzias de telegrammas, vindos d'aqui e d'além, uns do norte +outros do sul, todos com muitas felicitações, muitos protestos de respeito, de +estima e dedicação. Parecia, na verdade, que tinham sido redigidos segundo uma +formula combinada, tão eguaes eram os seus dizeres.</p> + +<p> </p> + +<p>—Prompto, já lá estão.</p> + +<p>—Olha, põe-lhes em cima aquelle folheteco que está além, n'aquelle +<em>étagère</em>, de capa verde...</p> + +<p>—Mas é a Carta...</p> + +<p>—Pois já se vê que é. Anda, põe-a lá, e raspa-te.</p> + +<p> </p> + +<p>D'ahi por um quarto d'hora, pouco mais ou menos, sentado á secretaria, na +descuidosa negligencia d'um nababo feliz, a mordicar um charuto fortemente +aromatico, estendeu o braço e premiu o botão electrico.</p> + +<p>—Não sei se é a mim que...</p> + +<p>—É com o que está de serviço ao bispote.</p> + +<p>—Então sou eu.</p> + +<p>—Despeja aquella caixa.<span class="pn">{119}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>A alma das creanças que morrem sem baptismo não entra no céo.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Crendices populares). </p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>No dia seguinte era o baptizado.</p> + +<p>Havia mais d'uma hora que estava a devoral-o com os olhos, debruçada sobre a +canastrinha de verga em que elle dormia, envolto em rendas, muito harmonioso na +minusculidade das suas formas—como se fosse uma esculpturazinha de Donatello, +copiada de frei Angelico, em um vago presentimento da Renascença.</p> + +<p>Ella propria o enfaixaria, subtilizando os dedos leves, ao calçar-lhe os +sapatinhos de seda, não fosse magoar-lhe as carninhas tenras, d'uma rijeza de +fructa verde e sadia. Não iria com elle á Egreja, fraca ainda como se sentia; +mas já recommendára á parteira que o não entregasse a ninguem, nem mesmo ao +padre, receosa de que mãos pesadas tomassem aquelle fardozinho ligeiro, que era +a melhor fibra do seu coração, animada do<span class="pn">{120}</span> mais +puro effluvio da sua alma. Sem saber como, entrou a philosophar sobre o +baptizado, o santo sacramento do baptismo como ensinam os livros sagrados.</p> + +<p>Seria então um peccador, o seu filhinho.</p> + +<p>Quantas creanças por esse mundo além, morrem sem baptismo, quasi ao nascer, +pequeninos botões de rosa, que não chegam a abrir, porque a aragem soprou mais +forte e os lançou por terra!... O espirito d'estes anjinhos irá então soffrer +as torturas do purgatorio, espiando uma culpa que não tinham, purificando-se de +um mal que não fizeram?</p> + +<p>Se o seu filho morresse perderia a crença em Deus, e se pudesse acreditar +que a alma das creanças, mortas antes de baptizadas não ascende directa e +immediatamente á vista do Altissimo, radiosa como um olhar da Virgem Mãe, +negaria a justiça divina, muito peor que a dos homens...</p> + +<p>Mas então o santo sacramento do baptismo nada mais será que uma mentira?... +</p> + +<p>... Envolto em rendas, a dormir na sua canastrinha, o petiz estremeceu, e +ella ficou suspensa na corrente dos seus pensamentos, enlevada na contemplação +d'aquella esculptura minuscula, de formas harmoniosas, que dir-se-ia modelada +por Donatello, a copiar Frei Angelico, n'um vago presentimento da Renascença. +</p> + +<p>No dia seguinte lá foi o petiz a baptizar.<span class="pn">{121}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Um rapaz da Beira, allegando que o pae é pobre, furou a greve, pelo + que foi espancado á porta ferrea.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Dos jornaes).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Nunca fôra á escola.</p> + +<p>Os filhos da gente pobre não teem o direito de ser creanças, e os paes +d'elle eram pobresinhos. Aos sete annos já era um valor, em linguagem de +economistas. Fazia dó ver o garotito queimando os musculos tenrinhos n'um +trabalho com que não podia. Mas os paes d'elle eram tão pobres!...</p> + +<p>Quando entrou nas sortes, já era orphão de mãe, e como tirasse um numero +alto, o mais alto que havia na urna, livrou-se de ir servir o rei, deixando o +seu velhote quasi cego e inteiramente tropego a viver da caridade publica. Por +aquelles sitios não havia trabalhador como elle, sempre a lidar com a terra, de +semana trabalhando para os outros, nos domingos trabalhando para si. Não bebia +nem fumava, todos os seus ganhos eram<span class="pn">{122}</span> para +sustentar a casa, onde não faltava nada, a não ser a alegria. Como não ha-de +ser triste o lar onde não explude um riso de mulher, onde não ha petizes que +ponham tudo fóra dos seus logares, n'uma adoravel desenvoltura... Casou, e +pareceu-lhe que tinha ido buscar á Egreja mais força, mais energia, mais saude. +Quando lhe nasceu o primeiro filho, que foi tambem o ultimo, já o pae tinha +acabado de morrer, pobre velho cego e tropego, que um delgado fio prendia á +vida, desde que ficára viuvo.</p> + +<p>—Este não ha-de ser para ahi um animal como o pae, dizia apontando o filho. +</p> + +<p>Aos seis annos mandou-o para a escola, e como o rapaz fosse intelligente e +applicado, com muita facilidade aprendeu a ler, excedendo todos os seus +condiscipulos. Ficou distincto na instrucção primaria, e como fosse notavel a +sua queda para os estudos, matriculou-se no lyceu. Vencidos os preparatorios lá +foi o pae leval-o a Coimbra, inchado como a rã da fabula, já a remirar-se no +seu doutor.</p> + +<p>—Evite as occasiões; mas quando se encontrar n'ellas, não faça má figura. +</p> + +<p>Foi esta a unica recommendação que lhe fez, de volta á sua aldeia, tendo-o +installado na casa d'um conhecido com ordem de lhe abonarem o que fosse +preciso.</p> + +<p>Outro dia á saida da missa, no adro da Egreja, falou-se de coisas graves em +Coimbra. Vinha nos papeis...<span class="pn">{123}</span> </p> + +<p>—Que foi?</p> + +<p>Um dos que estavam no grupo, explicou:</p> + +<p>—Houve lá o diabo. Sete estudantes foram expulsos, e os outros, por +camaradagem, declararam-se em greve. Mas alguns, diz o jornal, abandonaram os +companheiros e foram ás aulas. O seu rapaz...</p> + +<p>—O meu rapaz não foi ás aulas com certeza.</p> + +<p>Tres dias depois, como o governo mandasse fechar as escolas, appareceu-lhe o +rapaz em casa, sem ter avisado como era costume.</p> + +<p>—Ouve lá, quantos romperam a greve?</p> + +<p>—Poucos, talvez uns quatro ou cinco.</p> + +<p>—Mas tu...</p> + +<p>—Considerei os immensos sacrificios que tem feito para me dar uma posição, +e para lhe poupar...</p> + +<p>—Sim, para me poupares alguns dias de trabalho honrado, não achaste nada +melhor que praticar a má acção de abandonar os collegas, victimas da injustiça. +</p> + +<p> </p> + +<p>Nunca o tinham mandado á escola, mas abençoava agora a sua ignorancia, +severo nos seus principios d'honra, intransigente na sua lealdade de camponio +para com os seus irmãos da gleba, crendo na simplicidade do seu espirito que o +saber deforma o caracter.<span class="pn">{124}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Deus fez as almas aos pares.</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Da sabedoria das nações).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Tinham-se encontrado alli no ponto onde se bifurca a estrada.</p> + +<p>O sol descahia ao longe, por traz dos montes, n'um esbraseamento de fogo +amortecido, e na charneca immensa havia tanta paz e doçura, como n'uma +cathedral augusta a horas mortas da noite.</p> + +<p>Cançados, cheios de pó, via-se bem que tinham feito uma longa jornada por +caminhos difficeis, rasgando o fato e as carnes nas silvas e pitas dos +vallados, e magoando os pés descalços nas veredas e atalhos invios.</p> + +<p>O sol descahia ao longe, por traz dos montes, e não se avistava um casal na +extensão quasi infinita da charneca, silenciosa como uma cathedral augusta a +horas mortas da noite.</p> + +<p>Dir-se-ia que se procuravam sem nunca se terem visto, o acaso tendo-os +reunido alli, no ponto onde se bifurca a estrada, cançados, cheios de<span +class="pn">{125}</span> pó, o fato rasgado, e as carnes feridas, como se +tivessem atravessado um bosque selvagem, sob a ameaça d'um perigo. Pois que a +sorte os reunia...</p> + +<p>—Seria bom ficar aqui, ficando ambos, torturada como venho de muito longe, +sem um braço amigo a que me encoste, sem um coração amigo que por mim +palpite!...</p> + +<p>—Juntos faremos o resto do caminho, querendo-nos muito, amando-nos muito, +cada qual rivalizando em dar ao outro a maior porção de sonho, a maior somma de +ventura!...</p> + +<p>Por sobre a charneca immensa pairava uma paz bemdita, e a lua muito pallida, +como se fora um pingo de leite, deixára cahir uma luz frouxa e baça—tal uma +lampada mortiça no silencio d'uma cathedral augusta.<span +class="pn">{126}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Era dia de finados.</p> + +<p>Desde que a mulher lhe morrera, havia tres mezes, nem um só dia passava sem +que elle fosse ao cemiterio, rezar sobre a sua sepultura, offertar-lhe flores +orvalhadas de lagrimas.</p> + +<p>Tinham-se amado tanto!</p> + +<p>Por certo não se morre de felicidade, visto que elle não tinha morrido no +dia em que a recebera sua esposa legitima á face da santa madre egreja, e +tambem não se morre de dôr, visto elle não ter morrido no dia em que lhe cerrou +os olhos, colando-lhe os olhos ás palpebras, n'um derradeiro beijo.</p> + +<p>Era dia de finados, e como não quizesse dar em espectaculo a sua dôr, o +cemiterio cheio de visitantes, deixou que toda a gente saisse, já quasi ao pôr +do sol, para elle então cumprir a dolorosa missão que se impuzera de ir todos +os dias retalhar o coração, ajoelhado sobre a pedra que cobria metade da sua +alma, que era toda a sua felicidade.</p> + +<p>Ajoelhou, chorou, rezou e quando já tinha os olhos secos de muito haver +chorado, e já não tinha o coração dorido de tanto que a dôr o tinha<span +class="pn">{127}</span> feito soffrer, espalhando pela sepultura o seu braçado +de flores, as mãos postas, o chapeu debaixo do braço, os olhos erguidos ao +alto, anniquilado como se caira sobre elle a maldição de Deus, dirigiu-se para +a porta do cemiterio. </p> + +<p>A poucos passos andados, cruza com elle um rapaz alto, vestido de negro, com +um grande ramo de flores na mão.</p> + +<p>Parou, e sem quasi se aperceber da sua curiosidade, poz-se a seguil-o com os +olhos. O outro foi seguindo, o andar estugado, caminhando a direito sem +hesitar. Como elle fizera havia instantes, sobre a mesma sepultura, ajoelhou, +chorou, rezou e quando já não tinha mais lagrimas para chorar, automaticamente, +como se na pedra da sepultura tivesse deixado colada a alma, dirigiu-se para a +porta do cemiterio.</p> + +<p>—Devia tel-a amado muito, para soffrer assim!</p> + +<p>—Se amei! Daria a vida para a resuscitar, ou para ir apodrecer ao lado +d'ella, debaixo da mesma pedra.</p> + +<p>—Era então sua mulher!..</p> + +<p>—Era simplesmente minha amante, porque tivera a infelicidade de casar antes +de nos conhecermos.<span class="pn">{128}</span> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;" class="centrado">*</p> + +<p> </p> + +<p>Havia tres mezes que a mulher morrera, que nem um só dia passava sem que +elle fosse rezar sobre a sua sepultura, offertando-lhe flôres orvalhadas de +lagrimas.<span class="pn">{129}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Não ha bella sem senão.</em></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Ás vezes, quando a beijava, sentia-lhe as faces quentes dos beijos que outro +lhe dera. Parecia-lhe então absurdo, quasi inverosimil que a Natureza fizesse +tão linda uma creatura tão perfida.—Era como se alguem mettesse lama das ruas +n'uma urna de alabastro.</p> + +<p>Tão linda!</p> + +<p>Punha-se então a fixal-a muito, muito—como se, debruçado sobre um abysmo, +quizesse sondar um mysterio. Pareciam feitos de treva os seus olhos luminosos! +Brincava um sorriso leve nos seus labios sensuaes, em que havia o perfume +intenso das violetas e o sabor casto das rosas.</p> + +<p>Tão linda!</p> + +<p>Não se acredita que haja vulcões na lua, serena e pallida, ás vezes +escondendo-se por traz das nuvens, como se fosse uma mulher nua que percebesse +no espaço olhos brejeiros a fital-a.</p> + +<p>Tão linda!<span class="pn">{130}</span> </p> + +<p>Manchava-lhe o pescoço um fio d'ouro muito delgado suspendendo um Christo de +marfim perfeito como se o fizera Donatello, vago e poetico como se o desenhára +Frei Angelico.</p> + +<p>Tão linda!</p> + +<p>Mas parecia-lhe, quando a beijava, que ella tinha as faces quentes dos +beijos que outro lhe dera.—As plantas venenosas nunca deviam ser bellas, +attrahindo para matar—nem as mulheres bellas deviam ser perfidas, como se um +tigre habitasse no calice branco d'um lirio, ou uma cobra se escondesse entre +as folhas d'uma rosa!</p> + +<p>Tão linda!<span class="pn">{131}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p class="ni"><em>Souvent femme varie</em> <br> + <em>Bien fou qui s'y fie...</em></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>—Tontinho!</p> + +<p>—Imaginas, então, que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos, sem +a loucura das tuas caricias! Arranca a planta pela raiz, e diz-lhe depois que +floresça e fructifique, que erga os braços onde não circula a seiva, +offerecendo aos reverberos d'um sol quente e luminoso as suas folhas mirradas, +d'um amarello chlorotico, que precede a morte decisiva...</p> + +<p>—Tontinho!</p> + +<p>—Já me afizera ás fatalidades do meu destino, e habituada a olhar nas +trevas, a cerração da minha noite parecia-me ás vezes que tinha vagos lampejos +d'aurora, as incertas claridades d'um crepusculo. Acreditei nas tuas palavras, +e logo senti quente o sangue que se me gelava nas veias, e o coração inquieto, +na desenvoltura d'um passaro que apanha a gaiola aberta, pulsar com<span +class="pn">{132}</span> força desusada, no alvoroço d'uma alegria doida.</p> + +<p>—Tontinho!</p> + +<p>—Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias de matar-me primeiro, +desembaraçando-me d'uma vida inutil, tragica na sua dôr recalcada, e ao mesmo +tempo burlesca na sua dedicação humilde, nem espirrando como a lama quando a +pisam na rua.</p> + +<p>—Tontinho!</p> + +<p>Dentro do caramanchão, ao fundo do jardim, a luz branca da lua era baça, +como a flor da magnolia, e discreta como uma tia velha, ou uma <em>bonne</em> +suissa. Mal se ouvia o ramalhar das folhas, como um cicio brando e perfumado, +quando a brisa passava, na leveza imperceptivel d'uma borboleta branca, que +fosse a alma errante d'uma creancinha tisica.</p> + +<p>Colleante, os braços nús, humedecendo os labios sêccos da febre em que toda +ella ardia, mergulhou nos seus olhos castanhos os seus grandes olhos negros, e +foi como se aquellas almas se fundissem, enlaçados aquelles corpos no contacto +mais affectuoso e mais intimo. Não teriam ouvido o ramalhar das folhas, ainda +que por alli tivesse passado algum cyclone devastador, tudo arrasando no seu +caminho...</p> + +<p>Tontinhos!</p> + +<p> </p> + +<p>Mezes volvidos, tendo regressado sem se fazer<span class="pn">{133}</span> +annunciar, mal saccudido o pó da viagem, sentiu necessidade de ir reviver todas +as venturas passadas no logar onde as fruira.</p> + +<p>Era uma noite de luar escasso, e tão froixamente passava a brisa, que as +folhas não boliam nas arvores, e uma borboleta, que alli abrisse as azas, faria +um grande ruido. Approximou-se do caramanchão, pé ante pé, como se tivesse medo +que acordassem todos aquelles vegetaes adormecidos, e entrassem a gritar por +soccorro, tomando-o por um ladrão ou um assassino.</p> + +<p>Lá dentro no caramanchão, a luz da lua era baça como a flor da magnolia, e +discreta como uma velha tia, ou uma <em>bonne</em> suissa. Pareceu-lhe que +alguem falava, muito perto d'alli, e como se approximasse mais e mais, +cautelosamente, quasi sem pisar o chão, não fosse denuncial-o o ruido d'alguma +folha sêcca, subitamente, como se fossem gotas de chumbo fundente que lhe +instillassem nos ouvidos:</p> + +<p>—Imaginas então que eu poderia viver sem ti, privada dos teus beijos, sem a +loucura das tuas caricias! Se te fosses, havias de levar-me comtigo, ou havias +de matar-me primeiro, desembaraçando-me d'uma vida inutil.</p> + +<p>—Tontinho!</p> + +<p> </p> + +<p>Quando saiu, a correr como um ladrão perseguido, ou como um doido que se +escapa, nem pensou no escandalo que causaria a sua presença alli<span +class="pn">{134}</span> já noite velha, se o jardineiro o visse. E era tão +grande a sua perturbação, quasi a raiar pela loucura, que parou junto á porta, +deante d'um molho de cactos, a insultal-os, parecendo-lhe que eram creaturas +maldosas, chasqueando do seu ludibrio, em grandes risadas vermelhas.</p> + +<p>Coitadinho!<span class="pn">{135}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Os milagres não se discutem—ou se negam ou se acceitam.</em></p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Chegou á porta da Egreja no momento preciso em que o sacristão, com o chapeo +debaixo do braço, se preparava para a fechar.</p> + +<p>Levava na mão uma almotolia d'azeite, obra d'uma canada, e explicou que +fizera aquella promessa á senhora Santa Luzia, da sua particular devoção, no +anno passado, quando estivera mal dos olhos. Deixára um homem fazendo a sua +obrigação, pagando-lhe meio dia, e, como a jornada era comprida, não pudera +chegar mais cedo. Seria um grande transtorno ter de voltar, e só muito tarde +poderia fazel-o, porque o patrão já lhe dissera que iria para as herdades do +Sado, e era natural que por lá se conservasse até ao fim da temporada. De +resto, poucos minutos lhe chegavam para cumprir a sua promessa, e como ha viver +e morrer, não queria ser chamado á presença do Senhor sem se pôr em contas +direitas com os<span class="pn">{136}</span> santinhos. Ainda no domingo +passado tinha ido levar um alqueire de trigo a Santo Antonio; por causa de um +atalho de cabras que se tinha sumido, e que elle receava que fosse parar á +bocca dos lobos. Felizmente que nem só uma cabeça se perdera, e isso fôra sem +duvida um milagre do santo, que os lobos, na charneca onde andam, são tantos +como as mães.</p> + +<p>Tanta piedade commoveu o sacristão, aliás d'uma crença muito precaria, como +quasi toda a gente que vive muito no gremio da Egreja. Dentro em nada era sol +posto, e elle tinha de ir á villa comprar mantimentos e dar informações da +mulher, havia duas semanas de cama. Disse-lhe que fosse rezar as suas orações +no altar da Santa, e que despejasse a almotolia no potezinho de lata, com tampa +de madeira, que estava na sacristia, logo á entrada, lado direito, e que servia +só para recolher o azeite das promessas, geralmente improprio para as comidas. +Que em saindo fechasse bem a porta, e entregasse a chave á rapariguinha que lá +tinha em casa, para acompanhar a doente, quando elle precisava sair.</p> + +<p>No dia seguinte, pela manhã, quando foi preparar a egreja para a missa do +domingo, notou que a Senhora Santa Luzia não tinha o cordão e os brincos que +lhe tinha offerecido um brasileiro, tambem doente dos olhos—o cordão por ella +o ter livrado do mal, e os brincos por o ter livrado dos especialistas.<span +class="pn">{137}</span> </p> + +<p>—Foi aquelle grandissimo ladrão!</p> + +<p>Posta a policia em campo, d'ahi a pouco estava preso o indigitado gatuno, +que o sacristão reconheceu mal o viu.</p> + +<p>Não negou estar na posse dos objectos que se dizia terem sido roubados, mas +jurou pela salvação da sua alma que tal roubo não commettêra. E que só falaria +na presença do sr. prior, que era um homem de muita santidade, e d'uma grande +sabedoria. Sem saber do que se tratava, acompanhado do official de diligencias, +foi o prior a casa do juiz. Então o homemzinho explicou:—A Senhora, mal eu +acabei as minhas rezas, entrou a olhar-me com muita compaixão. Contei-lhe todas +as miserias da minha vida, e disse-lhe como aquelle azeite que alli levava para +a sua lampada, fôra tirado á bocca dos meus filhos. Quando acabei, subi os tres +degraus do altar para lhe beijar a barra do vestido. Então a Senhora, tirando o +cordão que tinha ao pescoço, e os brincos que tinha ás orelhas, entregou-m'os +com as suas bemditas mãos, dizendo que a ella não lhe faziam falta aquellas +coisas, e que eu podia, com o dinheiro que ellas me rendessem, comprar o pão e +o fato para os meus filhos. Observei-lhe que poderiam tomar-me por ladrão, +vendo-me na posse de taes objectos, e isso seria a minha desgraça e a minha +vergonha. Vae então a Senhora respondeu-me:</p> + +<p>—Se duvidarem da tua innocencia, invoca a autoridade do prior. Elle é um +crente sincero, e<span class="pn">{138}</span> quando toda a gente negasse o +milagre, elle o affirmaria como possivel.</p> + +<p>Na verdade o prior affirmou a possibilidade do milagre, e como não fosse +possivel demonstrar que elle não se realizára, foi mandado o homem em paz, com +os brincos e o cordão.</p> + +<p>Dizia então o sacrista, vendo partir o penitente:</p> + +<p>—Grandissimo ladrão!</p> + +<p>E olhando compassivamente o prior, n'um murmurio, por entre os dentes:</p> + +<p>—Reverendissimo burro!<span class="pn">{139}</span> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +<hr style="width: 40%;"> + +<blockquote> + <p><em>Saudade! gôsto amargo de infelizes...</em></p> + + <p style="margin-left:2em;">(Garrett).</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p>—Fizeste bem em vir...</p> + +<p>Cançou de dizer estas palavras, e espalmando a mão no peito, ainda não havia +muito opulento e agora mirrado, absorveu o ar com muita força, a bocca +largamente aberta, como se lhe parára o coração no supremo esforço de fazer +girar mais uma onda, talvez a ultima, de sangue arterializado.</p> + +<p>—Se soubesses como eu soffro... Brancos e delgados, muito delgados e muito +brancos, os seus labios eram duas folhas sêccas, muito ricas de nervuras, frias +como a neve dos polos. Eram botões de fogo, n'outro tempo, os seus beijos, que +só por milagre não queimavam.</p> + +<p>—Havias de querer-me muito, se soubesses como eu soffro...</p> + +<p>Via-se bem que soffria immenso, a febre a queimar-lhe os pulmões, um suor +frio e viscoso a babar-lhe a pelle, e um torniquete de ferro a apertar-lhe<span +class="pn">{140}</span> o tronco, inexoravelmente, como n'um carcere da +Inquisição. </p> + +<p>—Havias de querer-me muito se soubesses como eu soffro; mas, havias de +querer-me ainda mais, se soubesses como eu te amo...</p> + +<p>Na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica, os seus grandes olhos +negros, muito encovados, guardavam tudo o que lhe restava de vida, um sopro +apenas de vida, que era um bafejo da morte. Parecia-me ás vezes, quando se +fechavam, que não tornariam a abrir-se, e punha-me então a espreitar, na +translucidez das suas palpebras, o momento preciso em que se apagassem.</p> + +<p>—Custa tanto morrer, sabes?...</p> + +<p>Sentou-se no leito, a muito custo, e levando as mãos á cabeça, sem dizer +nada, poz-se a desmanchar o cabello. Um ou outro fio de prata, muito raro, +manchava as suas tranças d'ebano, que lhe desciam quasi aos calcanhares quando +as deixava cahir pelas costas.</p> + +<p>—Vê como se envelhece depressa...</p> + +<p>Fez dois mólhos do cabello, e tomando um em cada mão, emmoldurou com elles o +rosto, muito magro, d'uma pallidez cadaverica.</p> + +<p>—Lembras-te?...</p> + +<p>Pelos seus labios brancos e delgados, muito delgados e muito brancos, +perpassou um sorriso leve de creança adormecida, e nos seus olhos negros, muito +encovados, brilhou mais intensa aquella lucilação, que era tudo o que lhe +restava de vida—um<span class="pn">{141}</span> sopro apenas de vida, que era +um bafejo da morte... </p> + +<p>—Doidos que nós eramos!..</p> + +<p>Revivi n'um minuto todo o poema do nosso amor, as loucuras d'um amor +prohibido, a que não tinha faltado a dôr cruciante das paixões extremas, para +dar ao goso uma intensidade quasi infinita. Instinctivamente, como n'outro +tempo, collei os meus labios aos seus, e nem percebi que estavam gelados, +folhas sêccas muito ricas de nervuras, frias como a neve dos polos.</p> + +<p>Durou o sonho toda a eternidade d'um segundo, talvez menos ainda. Mal +acordei, attentando na magreza do seu rosto, d'uma pallidez cadaverica; vendo +fechados os seus grandes olhos negros, já sem brilho na translucidez das +palpebras enrugadas, tive a impressão de me encontrar dentro d'um jazigo, para +violar uma morta.</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Ao de Leve, by Manuel de Brito Camacho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AO DE LEVE *** + +***** This file should be named 34963-h.htm or 34963-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/4/9/6/34963/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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