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If you are not located in the United States, you -will have to check the laws of the country where you are located before -using this eBook. - -Title: A Mãe - -Author: Maximo Gorki - -Translators: Serge Persky - Augusto de Lacerda - -Release Date: April 3, 2022 [eBook #67767] - -Language: Portuguese - -Produced by: Pedro Saborano and the Online Distributed Proofreading Team - at https://www.pgdp.net (This book was produced from - scanned images of public domain material from the Google - Books project.) - -*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A MÃE *** - - - - - - MAXIMO GORKI - - A MÃE - - Romance traduzido do manuscripto - por S. PERSKY - - - VERSÃO PORTUGUEZA DE AUGUSTO DE LACERDA - - - 1907 - - ANTIGA CASA BERTRAND - José Bastos & C.ᵃ - - 73, RUA GARRETT, 75 - LISBOA - - - - -PREFÁCIO - - -_A Mãe_ não é uma obra de pura imaginação. É, antes de tudo, uma -pintura exacta--poderia até dizer-se uma vista cinematographica--do -movimento revolucionario na Russia. Este bello livro introduz na -litteratura russa typos que faltavam n’ella quasi por completo: os -revolucionarios operarios e camponezes, cujo papel tem sido tão -importante nas ultimas tempestades politicas do paiz dos tsars. - -Graças aos escriptores que se teem succedido de Tourguenev a Leão -Tolstoi, o revoltado sahido da classe intellectualmente cultivada é -mais ou menos conhecido. - -Por que motivo não havia ainda um retrato completo do seu irmão oriundo -das obscuras camadas do povo? Principalmente porque os revolucionarios -d’esta categoria são de recente data. - -Prepararam-se durante muito tempo nas mysteriosas profundezas das -massas, recrutando-se em silencio, multiplicando-se pouco a pouco, até -ao dia em que, na sequencia dos acontecimentos de que a Russia acaba de -ser o theatro, os viram surgir de chofre por toda a parte, tanto nas -aldeias as mais reconditas da provincia, como nas grandes cidades. - -O povo desperta do seu somno secular, como de sobresalto, e este -despertar abre uma era nova na historia do movimento da libertação -russa. Entre os intellectuaes e os illettrados, até hoje distanciados -uns dos outros, forma-se um laço solido, e um mesmo ideal inflamma o -exercito dos que marcham á conquista da liberdade. - -Descrever esta nova fase da revolução russa, evocar os heroes obscuros -que se votaram á grande tarefa da emancipação, analisar nas suas -manifestações as mais variadas, e até as mais inesperadas, esta -resurreição da consciencia popular,--eis o que Maximo Gorki se propoz -nas paginas que ides lêr. Tarefa ardua como poucas, mas de molde -a tentar a alma ardente do auctor. Raras vezes Gorki attingiu tal -acuidade de observação, uma variedade mais completa no descriptivo, -uma tão perfeita certeza d’analyse psichologica. Mais do que nunca, -foi o homem identificado com a sua obra. Filho do povo, ascendendo das -mais sordidas camadas sociaes, revolucionario unicamente dedicado ao -seu puro ideal de justiça (sempre protestou contra a violencia, viesse -ella d’onde viesse) Gorki tinha, mais do que outrem, os requisitos para -escrever esta pagina tragica da historia contemporanea. - -No personagem tão profundamente humano da mãe, Gorki mostra como -uma mulher cheia de doçura e de timidez, espancada pelo pae, pelo -marido, esmagada impiedosamente pela sorte, immersa na ignorancia e no -desbragamento, vae adquirindo pouco a pouco a consciencia da sua misera -situação, se alevanta sob a influencia do seu filho, até tornar-se como -elle revolucionaria enthusiastica, sacrificando por fim as suas mais -queridas affeições, a propria vida mesmo, á causa do povo. - -Em torno da mãe e do filho--os dois heroes principaes--agita-se -um amontoado de outros personagens. D’uma parte, os amigos: um -russo-menor--alma d’abnegação e de commovente simplicidade,--raparigas -sacrificando felicidade e riqueza para soffrerem a prisão e as -provações de toda a especie; operarios robustos e safados reclamando, -com o direito á vida, algumas liberdades; camponezes que, depois de -seculos de cega submissão, se recusam finalmente a considerar os -representantes das auctoridades como enviados do céo. D’outra parte, os -inimigos: officiaes de policia, guardas e espiões, instrumentos doceis -do poder. Toda esta gente, tão estranha e tão viva, estas luctas, -estes julgamentos, estes martyrios, episodios d’uma guerra cruel e -sem clemencia movida contra os apostolos do ideal novo, tudo isto é a -realidade, a realidade de hontem, de hoje, de ámanhã, tudo isto existe -e existirá, emquanto na Russia durar a lucta libertadora. - -De muitas paginas d’este livro emana uma emmoção profunda. - -No decurso de uma conversa com os seus companheiros, André, o -russo-menor, exclama: - ---Que importam os meus soffrimentos, as minhas desgraças! Quando penso -em que um dia a patria será livre, o meu coração dilata-se de jubilo... -tenho vontade de chorar, tão feliz me sinto! - -E quando Pavel diz, falando de um seu amigo desgraçado mas sempre bem -disposto d’espirito: - ---Sabes? aquelles que mais riem são aquelles cujo coração soffre -incessantemente. - -Um companheiro responde: - ---Qual historia! Se assim fôsse, toda a Russia morreria de riso! - - * * * * * - -O principe Ouroussof, antigo ministro adjunto do Interior, na Russia, -conta nas suas _Memorias_ que a rainha da Rumania, falando-lhe dos -escriptores russos contemporaneos, collocava a muito alto a obra de -Gorki, que ella conhecia perfeitamente. «Sabe captar a attenção do -leitor, declarava ella, e introduziu processos absolutamente novos na -litteratura moderna.» - -Carmen Sylva alludia provavelmente ao dom que Gorki possue de fascinar -o leitor com o poder das scenas que descreve. Taes são, n’este -romance, a morte do revolucionario Iégor, a prisão do camponez Rybine, -a audiencia do tribunal a que comparecem Pavel e os seus amigos, a -scena final em que as mãos dos guardas espancam a pobre mãe. Quantas -passagens poderiamos citar ainda! Por exemplo, aquella em que Sophia -toca uma symphonia de Grieg. O auctor não diz o nome d’aquelle trecho, -mas qualquer musico o reconhecerá immediatamente pela rapida e -flagrante descripção que d’elle faz Gorki. - - * * * * * - -O governo russo entendeu dever apprehender _A Mãe_ em todo o imperio. -Poucos dias depois da apparição da obra, a policia fazia buscas em -todas as livrarias tanto de S. Petersburgo como da provincia. Chegou -muito tarde e só poude apprehender poucos exemplares, por estar já -vendida a parte maxima de uma larga edição. - -Ao mesmo tempo, as auctoridades entregavam aos tribunaes Gorki e o seu -editor, sob a accusação de «excitação á revolta» e de «achincalhamento -das coisas santas», crimes que ellas dizem existirem n’este romance. -Segundo a lei russa, sob os culpados impende a pena de trez a cinco -annos de prisão ou de exilio na Siberia. - -Ha trez annos somente, Gorki foi encarcerado na fortaleza de S. Pedro -e S. Paulo, por motivos analogos. - -A opinião publica sentiu-se abalada em todo o mundo: de todos os paizes -civilisados affluiram petições colossaes, reclamando a libertação do -mestre. Gorki foi posto em liberdade. - -Soffrendo do peito, o auctor da _Mãe_ está desde ha muitos mezes em -Capri. Regressará em breve ao seu paiz. - -A prisão estará esperando novamente um dos melhores filhos da Russia? - - * * * * * - - París, novembro, 1907. - - S. PERSKY - - - - - A Mãe - - - - - PRIMEIRA PARTE - - - - -I - - -Todos os dias, na atmosphera esfumaçada e grave do bairro operario, -o apito da fabrica lançava aos ares o seu grito estridulo. Então, -creaturas toscas, com os musculos ainda fatigados, sahiam rapidamente -das pequenas casas pardacentas e corriam como baratas assustadas. Na -fria meia-luz, iam pela rua estreita em direcção aos altos muros da -fabrica que os esperava implacavel e cujos inumeros olhos quadrados, -amarellos e viscosos illuminavam a calçada lamacenta. A lama estalava -sob os seus pés. Vozes estremunhadas resoavam com roucas exclamações; -pragas cortavam o ar; e uma onda de ruidos vagos acolhia os operarios: -a pesada traquinada das maquinas, o regougar do vapor. Sombrias e mal -encaradas como sentinellas, as altas chaminés negras prefilavam-se -acima do bairro, semelhantes a grossos bastões. - -Á tarde, quando o sol ia no poente, os seus raios vermelhos illuminavam -as vidraças das casarias, a officina vomitava das suas entranhas de -pedra todas as escorias humanas, e os operarios enegrecidos pelo fumo, -espalhavam-se novamente pelas ruas, deixando atraz de si exhalações -lentas da gordura das maquinas; os seus dentes esfaimados reluziam. -Então havia na sua voz animação e até alegria: os trabalhos forçados -tinham concluido por algumas horas; em casa aguardava-os a refeição e o -descanço. - -A fabrica absorvia o dia, as maquinas sugavam nos musculos dos homens -todas as forças de que ellas precisavam. O dia fôra riscado do computo -da vida, sem deixar vestigios; o homem tinha dado mais um passo para -o tumulo, sem d’isso se aperceber; mas podia entregar-se ao goso do -descanço, aos prazeres da sordida taverna, e estava satisfeito. - -Nos dias santificados, dormia-se até quasi ás dez horas da manhã; -depois a gente séria e casada vestia o seu melhor fato e ia á missa, -censurando aos novos a sua indifferença em materia religiosa. Ao -regressarem da egreja, comiam tortas de massa, e deitavam-se de novo -até á tarde. - -A fadiga accumulada durante longos annos tirava o appetite; para -poderem comer, era preciso beberem muito, excitarem o estomago -preguiçoso com a ardencia do alcool. - -Pela tarde, passeavam indolentemente pelas ruas; os que possuiam capas -de borracha punham-nas, ainda que o tempo estivesse secco; os que -tinham um guarda-chuva, com elle sahiam, ainda que fizesse sol. Não é -dado a toda a gente possuir um impermeavel ou um guarda-chuva, mas cada -qual ambiciona superiorisar-se ao seu visinho, seja de que maneira fôr. - -Quando se formavam grupos, conversava-se acerca da fabrica, das -maquinas, dizia-se mal dos contramestres. As palavras e os pensamentos -não se referiam a mais do que a coisas relacionadas ao trabalho. A -intelligencia desastrada e impotente lançava apenas umas scentelhas -isoladas, um tenue clarão na monotonia dos dias. Ao voltarem para -casa os maridos buscavam questões para discutirem com as mulheres, -batendo-lhes muitas vezes, sem pouparem as suas forças. Os novos -ficavam na taverna ou organisavam pequenas reuniões em casa d’um ou -d’outro, tocavam harmonio, cantavam canções estupidas e ignobeis, -dançavam, contavam historias obscenas e bebiam em excesso. Extenuados -pelo trabalho, estes homens embriagavam-se facilmente, e em cada peito -desenvolvia-se uma excitação doentia, incompreensivel que precisava de -encontrar sahida. Então, pelo mais futil pretexto, atiravam-se uns aos -outros como animaes selvagens. Havia contendas sangrentas. - -Nas relações dos operarios entre si, dominava este mesmo sentimento -d’animosidade encubada; inveterara-se n’elles, tanto como a fadiga -dos musculos. Estes seres nasciam com a doença da alma, herança de -seus paes; e como uma sombra negra acompanhava-os até ao tumulo, -impellindo-os á realisação de actos repellentes pela sua inutil -crueldade. - -Nos dias santificados, os novos regressavam tarde a casa, com os fatos -esfarrapados, cobertos de lama e de poeira; com as caras esmurradas, -gabavam-se dos murros que tinham dado nos companheiros; as injurias -soffridas encolerisavam-nos ou faziam-nos chorar; eram lastimaveis na -sua embriaguez, desgraçados e repugnantes. Por vezes, os paes levavam -para casa os filhos que haviam encontrado a cahir de bêbedos na rua ou -na taverna; as injurias e os murros choviam nos rapazes embrutecidos -ou excitados pela aguardente; depois mettiam-nos na cama com tal ou -qual precaução, e pela manhã accordavam-nos, apenas o silvo do apito da -fabrica cortava os ares. - -Embora repreendessem os rapazes e lhes batessem, a sua embriaguez e as -suas contendas eram coisas naturaes para a familia; quando os paes -eram ainda novos tinham bebido tambem e entrado em desordens, sendo -egualmente castigados pelos paes e pelas mães. A vida decorria sempre -assim; continuava a decorrer, não se sabia até onde, regular e lenta -como um rio lodoso. - -Appareciam por vezes no bairro creaturas estranhas, que a principio -despertavam a attenção, simplesmente porque eram desconhecidas; -mas dentro em pouco habituavam-se a ellas, e acabavam por passar -despercebidas. Das suas conversas concluia-se que a vida do operario -era em toda a parte a mesma coisa. E desde que era assim, para que -falar sobre tal assumpto? - -Havia porem alguns que diziam coisas novas para o bairro. Não -discutiam com elles, não prestavam mais do que uma attenção incredula -ás suas palavras extravagantes, que excitavam n’uns uma irritação -cega, n’outros uma especie d’inquietação, ao passo que outros ainda -sentiam-se perturbados por uma vaga esperança, e desatavam a beber -ainda mais que de costume para afastarem tal impressão. - -Se o recemchegado apresentava algum traço caracteristico -extraordinario, os moradores do bairro punham-no em rigorosa -quarentena, tratavam-no com instinctiva repulsão, como se receassem -vel-o trazer para a existencia de todos o que quer que fosse -perturbador do rame-rame penoso, mas tranquillo. Acostumados a serem -opprimidos pela vida, aquella gente considerava todas as transformações -possiveis como proprias somente a tornarem o seu jugo ainda mais pezado. - -Resignados, faziam o vacuo em torno d’aquelles que pronunciavam -palavras estranhas. Então estes desappareciam não se sabe para onde; -se ficavam na fabrica, viviam á parte, não conseguindo confundir-se na -multidão uniforme dos operarios. - -Depois de ter vivido assim uns cincoenta annos, o homem morria. - - - - -II - - -D’esta maneira vivia o serralheiro Mikhaíl Vlassof, homem sombrio, -de pequeninos olhos desconfiados e maus, protegidos por espessas -sobrancelhas. Era o melhor serralheiro da fabrica e o hercules do -bairro. Tinha porem modos grosseiros para o chefe; por isto ganhava -pouco; todos os domingos sovava algum; todos o temiam e ninguem o -estimava. Por varias vezes, haviam tentado dar-lhe uma tareia, mas -nunca conseguiram. Quando Vlassof previa uma agressão, agarrava n’uma -pedra, n’uma taboa, n’um bocado de ferro, e, solidamente firme nas -pernas abertas, esperava em silencio o inimigo. - -Com a cara coberta, desde as orelhas até ao pescoço d’uma barba negra, -as suas mãos pelludas despertavam um terror geral. Principalmente -tinham medo dos seus olhos penetrantes que atravessavam o proximo como -pontas d’aço; quando lhe encontravam o olhar, sentiam-se em presença -d’uma força selvagem, inaccessivel ao terror, prestes ao ataque -impiedoso. - ---Eh lá! Vá d’aqui, canalha! dizia elle roucamente. - -Na espessa tez do seu rosto, os dentes amarellos brilhavam ferozes. Os -seus adversarios recuavam, invectivando-o. - ---Canalha! gritava elle ainda, e os seus olhos disparavam sarcasmos -acerados como sovelas. Depois, erguendo a cabeça com ares provocadores, -seguia os seus inimigos, berrando de quando em quando: - ---Então! quem quer morrer? - -Ninguem queria. - -Falava pouco. A sua expressão favorita era: «canalha». Qualificava -assim os chefes da fabrica e da policia; empregava o mesmo epitheto -quando se dirigia á mulher. - ---Ó canalha, não vês que as minhas calças estão rôtas? - -Quando o seu filho Pavel tinha quatorze annos, Vlassof sentiu ainda uma -vez o desejo de levantal-o ao ar pelos cabellos. Mas Pavel, deitando a -mão a um martello, disse resumidamente: - ---Não me toques! - ---O quê? perguntou o pae, encaminhando-se para o pequeno de fôrmas -esbeltas e delicadas. Dir-se-ia uma sombra cahindo sobre uma betula. - ---Basta! exclamou Pavel. Não te deixarei continuar... - -E agitou o martello, abrindo desmedidamente os grandes olhos negros. - -O pae olhou para elle, pôz as mãos pelludas atraz nas costas, e disse -em ar de troça: - ---Está bem... - -Depois accrescentou com um profundo sorriso: - ---Ah! canalha! - -Logo declarou á mulher: - ---Nunca me peças mais dinheiro para os sustentar, a ti e ao Pavel. - ---Vaes gastar tudo na bebida? ousou ella perguntar. - -Deu um murro na meza, exclamando: - ---Que tens tu com isso, canalha? Vou arranjar uma amante! - -Não a arranjou; mas a partir d’aquelle dia até á morte, durante cerca -de dois annos, nunca mais olhou para o filho nem lhe dirigiu palavra. - -Tinha um cão tão forte e pelludo como elle. Todas as manhãs o animal o -acompanhava até á porta da fabrica, onde o esperava á tarde. Nos dias -santificados, Vlassof ia para a taverna. Andava sem dizer palavra, e -como se procurasse o que quer que fosse, lançando olhares furtivos aos -que passavam. Durante todo o dia, o cão seguia-o, com a espessa cauda -descahida. Quando Vlassof, bêbedo, entrava em casa, ceava e dava de -comer ao cão no seu proprio prato. Nunca batia no animal, assim como -não lhe ralhava nem o acariciava. Depois da refeição, se a mulher não -conseguia levantar a meza no momento opportuno, atirava com a louça -ao chão, punha na sua frente uma garrafa de aguardente e, com as -costas contra a parede, com a bôca muito aberta e os olhos fechados, -cantava em voz roufenha uma canção melancólica. Os sons discordantes -baralhavam-se-lhe no bigode, do qual cahiam migalhas de pão; os seus -dedos grossos alizavam os pellos da barba. As palavras da canção eram -incompreensiveis, arrastadas, a melodia recordava os urros dos lobos no -inverno. Cantava emquanto durava a aguardente; depois estirava-se no -banco ou encostava a cabeça á meza e dormia assim até que o apito da -fabrica o chamava. O cão deitava-se ao seu lado. - -Morreu d’uma hernia, apoz longa agonia. Durante cinco dias, enegrecido -pelo soffrimento, agitou-se incessantemente no leito, com as palpebras -cerradas, com a bôca em contorsões. De quando emquando, dizia para a -mulher: - ---Dá-me arsenico. Envenena-me! Ella chamou o medico, que receitou -cataplasmas, informando de que seria indispensavel uma operação, e de -que era preciso levar o doente para o hospital immediatamente. - ---Vae para o diabo, canalha! Morro bem, sósinho! respondeu elle. - -Quando o medico sahiu, a mulher lavada em lagrimas, quiz resolvel-o a -submetter-se á operação; Milkhaíl declarou-lhe ameaçando-a de punho -cerrado: - ---Não experimento. Se eu ficasse bom, haverias de pagal-o caro! - -Uma manhã, morreu, emquanto o apito da fabrica chamava os operarios ao -trabalho. Deitaram-no no caixão; tinha o sobrolho franzido e a bôca -aberta. Foi levado á ultima morada pela mulher, pelo filho, pelo cão, -e por Danilo Vessoftchikof, velho ladrão e bêbedo expulso da fabrica, -e por alguns miseraveis do bairro. A mulher chorou um pouco. Pavel -tinha os olhos sêccos. Os que encontraram o prestito funebre pararam e -persignaram-se, dizendo: - ---Com certeza que Pélagué está satisfeita com a morte do marido. - -Alguem emendou: - ---Não morreu: rebentou. - -Depois do caixão descer á terra, os que o acompanharam voltaram para -casa; o cão ficou deitado na terra humida, farejando por muito tempo. -Decorridos alguns dias, mataram-no; não se soube quem. - - - - -III - - -Certo domingo, uns quinze dias depois da morte do pae, Pavel entrou em -casa embriagado. Parou cambaleando na primeira divisão, e gritou para a -mãe, dando um murro na meza, como fazia Mikhaíl: - ---A ceia! - -Pélagué approximou-se, assentou-se ao seu lado; enlaçando-o com -os braços, puxou para o peito a cabeça do filho. Elle repelliu-a, -pondo-lhe o braço no hombro, e disse: - ---Depressa, mamã! - ---Patetinha! respondeu ella com voz triste e carinhosa. - ---Tambem quero fumar! Dá-me o cachimbo do pae... rosnou, movendo a -custo a lingua rebelde. - -Era a primeira vez que se embriagava. - -O alcool tinha enfraquecido o seu corpo, mas não lhe extinguira a -consciencia; perguntava a si proprio: - ---Estou bêbedo?... Estarei bêbedo? - -As caricias da mãe vexavam-no; estava commovido pela tristeza do olhar -d’ella. Tinha vontade de chorar; e para vencer este desejo fingiu-se -ainda mais embriagado. - -E a mãe acariciava-lhe os cabellos em desordem e cobertos de suor, -dizendo suavemente: - ---Não devias ter feito isso... - -Pavel começava a sentir nauseas. - -A seguir aos vomitos, foi levado para a cama pela mãe, que lhe collocou -uma toalha humida na fronte pálida. Repoz-se um pouco; mas tudo lhe -andava á roda; as palpebras pezavam-lhe; tinha na bôca um gôsto -repugnante e amargo; olhava para o rosto da mãe e tinha pensamentos sem -nexo. - ---É ainda cedo para mim... Os outros bebem sem ficarem doentes; eu -tenho nauseas. - -A doce voz da mãe chegava-lhe aos ouvidos como se viesse de muito longe: - ---Como poderás sustentar-me, se te entregas á bebida? - -Respondeu, fechando os olhos: - ---Todos bebem... - -Pélagué suspirou profundamente. O filho tinha razão. Ella bem sabia -que os homens não encontrariam outro sitio senão a taverna para se -divertirem, que não tinham outro prazer senão o alcool. No entretanto, -retorquiu: - ---Tu não precisas de beber! O teu pae bebeu á farta por ti; e bastante -me atormentou... Deves ter piedade da tua mãe. - -Ouvindo estas palavras melancólicas e resignadas, Pavel pensou na -existencia silenciosa e apagada d’aquella mulher, esperando sempre os -espancamentos do marido. Nos ultimos tempos, Pavel pouco se demorava em -casa, para não ver o pae; desprezava um tanto a mãe; regressando ao seu -estado normal, examinava-a. - -Era alta e levemente corcovada; o seu corpo pesado, abatido -por incessante trabalho e por maus tratos, movia-se sem ruido, -obliquamente, como se ella receasse topar n’alguma cousa. O largo rosto -oval, sulcado de rugas e ligeiramente empapuçado, tinha a dar-lhe -brilho uns olhos negros, de uma expressão triste e inquieta como o -de quasi todas as mulheres do bairro. Na testa uma cicatriz profunda -fazia-lhe subir um pouco o sobrolho direito; parecia tambem que a -orelha direita estava mais acima do que a outra, o que dava ao rosto -um ar receoso. Tinha no cabello espesso e negro madeixas grisalhas -semelhantes a nodoas resultantes de violentas pancadas. Toda ella -transpirava suavidade, uma resignação dolorosa. - -E ao longo das faces corriam-lhe lentamente as lagrimas. - ---Olha! não chores! supplicou Pavel em voz baixa. Dá-me de beber! - ---Vou buscar agua gelada... - -Quando voltou, elle dormia. Ficou immovel por um instante, retendo a -respiração; a bilha tremia-lhe nas mãos, os pedaços de gelo tintilavam -dentro. Depois de collocal-a na meza, Pélagué ajoelhou diante das -imagens santas e orou silenciosamente. Os vidros das janellas tremiam -sob as ondas sonoras da vida obscura e alcoolica do exterior. Nas -trevas e na humidade d’aquella noite d’outomno, ouviam-se os rangidos -de um harmonio; alguem cantava de guella aberta; passavam nas ruas -palavras abjectas e obscenas; vozes de mulheres vibravam, assustadiças -ou irritadas. - - * * * * * - -Na pequena habitação de Vlassof, a vida decorria uniforme, mas mais -tranquilla e em paz do que outrora, distinguindo-se assim da existencia -geral do bairro. A casa era situada na extremidade da rua direita, no -cimo d’um pequeno alto, nos baixos do qual havia um pantano. - -A cozinha occupava o terço da habitação; um delgado tabique, que não -chegava ao tecto, separava-a de um pequeno quarto onde dormia a mãe. -O resto formava uma casa quadrada, com duas janellas; a um canto, a -cama de Pavel, no outro, dois bancos e uma meza. Algumas cadeiras, uma -comoda onde guardavam a roupa, um pequenino espelho, uma mala para o -fato, um relogio e duas imagens de santos, era tudo. - -Pavel tentava viver como os outros. Fazia quanto era proprio a um -rapaz; comprou um harmonio, uma camisa de peitilho engomado, uma -gravata vistosa, galochas e capa de borracha, e uma bengala. Na -apparencia assemelhava-se a todos os adolescentes da sua idade. Ia ás -reuniões, aprendia a dançar a quadrilha e a polka; ao domingo entrava -em casa embriagado. Nas manhãs seguintes, doia-lhe a cabeça, a febre -consumia-o, o seu rosto estava palido e desfigurado. - -Um dia, a mãe perguntou-lhe: - ---E então, divertiste-te hontem á noute? - -Respondeu com sombria irritação: - ---Aborreci-me atrozmente! Os meus companheiros são umas maquinas!... -Prefiro ir á pesca ou comprar uma espingarda. - -Trabalhava com zelo; nunca era multado, nem gazeteava. Andava -taciturno. Os seus olhos azues, grandes como os da mãe, tinham uma -expressão de descontentamento. Não comprou a espingarda nem foi á -pesca; mas abandonou o caminho que seguiam os companheiros, frequentava -cada vez menos as reuniões, e, embora continuasse a sahir ao domingo, -voltava para casa em seu juizo. Pélagué observava-o sem dizer palavra -e via o rosto moreno de Pavel tornar-se dia a dia mais magro, o olhar -sempre mais grave e os labios cerrarem se com aspera severidade. -Parecia soffrer de qualquer doença ou de qualquer colera misteriosa. -Antigamente, os companheiros visitavam-no, mas como elle deixara de -permanecer em casa, não voltavam. A mãe via com prazer que o filho não -imitava os rapazes da fabrica; mas quando notou aquella obstinação -em afastar-se da torrente obscura da vida monotona, a sua alma foi -invadida por vaga inquietação. - -Pavel trazia livros para casa; a principio, tentava lel-os a occultas. -Por vezes, copiava alguns trechos n’um pedaço de papel. - ---Não andas bem, meu filho? perguntou-lhe uma vez Pélagué. - ---Vou bem, vou! respondeu. - ---Estás tão magro! suspirou ella. - -Ficou silencioso. - -Falavam pouco, e apenas se viam. Pela manhã, o rapaz tomava em silencio -o chá e ia para o trabalho; ao meio-dia vinha jantar; á meza não -trocavam mais do que palavras insignificantes; depois desapparecia até -á tarde. Findo o dia, lavava-se cuidadosamente, ceava e lia os seus -livros. Ao domingo, sahia de manhãsinha e só voltava á noite. A mãe -sabia que elle passeava na cidade, que ia ao theatro; mas da cidade -ninguem vinha vêl-o. Parecia-lhe que, quantos mais dias passavam, menos -o seu filho lhe dirigia a palavra; e ao mesmo tempo notava que dia a -dia maior era o numero de termos novos, incomprehensiveis para ella, e -que Pavel empregava em substituição das expressões grosseiras, outrora -habituaes no seu falar. - -Passára a ligar mais cuidado ao asseio do seu corpo e do seu fato; -movia-se com mais ligeireza e facilidade; tornou-se mais simples -na apparencia, mais docil; preoccupava-se de sua mãe. Tratava-a de -uma maneira nova; ás vezes, varria o sobrado do quarto, fazia elle -mesmo a sua cama, ao domingo; em geral, sem frases, sem ostentação, -diligenciava auxiliar a mãe no trabalho caseiro. Ninguem fazia isto lá -no bairro... - -Um dia, trouxe comsigo um quadro que pendurou na parede e que -representava trez personagens tendo impressas nas feições a resolução, -a coragem. - ---É o Christo ressuscitado dirigindo-se a Emmaús! explicou. - -O quadro agradou a Pélagué; ella pensou porem: - ---Respeitas o Christo e não vaes á egreja... - -Depois vieram mais quadros adornar as paredes, o numero de livros -augmentou na prateleira ali collocada por um marceneiro, companheiro de -Pavel. O quarto ia tomando um aspecto agradavel. - -O rapaz dizia a miudo «a sr.ᵃ» quando se dirigia á mãe, a quem tambem -chamava «mamã». Era até mais prodigo em palavras, embora breves. - ---Mãe, não fique em cuidado, peço-lhe; esta noite venho tarde. - -E ao ouvil-o assim, ella sentia que se passava o que quer que fosse -forte e serio, que lhe agradava. - -Mas a sua anciedade augmentava dia a dia, e como não entrava em -explicações com Pavel, adquiria o presentimento de alguma coisa -extraordinaria que lhe apertava o coração. Pensava até: - ---Os outros vivem como creaturas humanas, mas elle é como um frade... -Tão grave!... Não é proprio da sua idade... - -Perguntava a si mesma: - ---Terá uma amiga? - -Mas para ser amado pelas pequenas, é preciso dinheiro, e elle -entregava-lhe quasi toda a feria. - -Assim se passaram semanas, mezes, quasi dois annos, n’uma vida -extravagante, cheia de pesares, de vagos receios cada vez maiores. - - - - -IV - - -Uma noite, á ceia, Pavel, tendo fechado as cortinas das janellas, -assentou-se a um canto e pôz-se a lêr, depois de ter pendurado na -parede, por cima da cabeça, uma lampada de metal. - -A mãe tinha acabado o serviço da cozinha; approximou-se d’elle. Pavel -ergueu a fronte e fixou-a com olhar interrogador. - ---Não é nada... mesmo nada! disse ella rapidamente. - -E afastou-se, pestanejando, a modos confuza. Mas depois de ter ficado -immovel por um instante, no meio da cozinha, lavou as mãos e voltou, -pensativa, preoccupada. - ---Olha: queria perguntar-te o que andas sempre a lêr... declarou com -simpleza. - -Elle pôz o livro nos joelhos. - ---Assenta-te, mamã. - -Pélagué sentou-se pesadamente ao seu lado, apurou o ouvido, na -espectativa de alguma coisa grave. - -Sem olhar para ella, a meia voz, muito rudemente, Pavel falou. - ---Leio livros prohibidos. Prohibem a sua leitura porque dizem a verdade -da nossa vida, da vida do povo. São impressos ás escondidas, e se os -encontrassem em minha casa, eu seria prezo... prezo por ter querido -saber a verdade. Percebeste? - -Ella sentiu de subito a respiração oppressa, e fixou o olhar esgazeado -no filho, que lhe pareceu outro, um estranho. Tinha outra voz, mais -grossa, mais cava, mais sonora. Com os dedos adelgaçados torcia as -sedosas guias do bigode e para ella descia o olhar enigmatico. Pélagué -teve medo, por elle. - ---Para que é isso, Pavel? - -Elle ergueu a cabeça, observou-a e respondeu tranquillamente: - ---Quero saber a verdade. - -A sua voz era em tom baixo, mas firme; brilhava-lhe no olhar um desejo -obstinado. Pélagué comprehendeu que o filho se consagrára para sempre -ao que quer que fôsse misterioso e terrivel. Tudo lhe parecera sempre -inevitavel; estava acostumada a submetter-se sem reflectir; por isto -começou de chorar baixinho, sem encontrar palavras no seu coração -confrangido pela angustia e pela dôr. - ---Não chores! disse-lhe Pavel, carinhosamente--e á mãe parecia que -elle lhe dizia um adeus--reflecte! Que vida a nossa! Tu tens quarenta -annos, e, francamente, podes dizer que tenhas vivido? O pae batia-te... -compreendo agora que era o seu pezar da vida o que elle desabafava -assim nas pancadas que te dava... o pezar da vida que o opprimia, e -que elle nem mesmo sabia d’onde lhe vinha. Trabalhou durante trinta -annos; começou quando o edificio da fabrica não tinha mais do que dois -predios, e hoje tem sete! As fabricas desenvolvem-se e nós morremos -trabalhando para ellas... - -Pélagué ouvia-o, com receio e ao mesmo tempo com avidez. Os bellos -olhos azues do rapaz luziam; com o peito apoiado á mesa, approximou-se -da mãe, e tocando quasi no seu rosto banhado de lagrimas, dizia-lhe o -seu primeiro discurso sobre a verdade, tal como elle a compreendia. -Com a ingenuidade da juventude e com o ardor d’um collegial orgulhoso -dos seus conhecimentos e sinceramente convicto de importancia d’elles, -falava de tudo que lhe parecia tão evidente, falava tanto para se -avaliar a si mesmo como para convencer sua mãe. Detinha-se por vezes -quando lhe faltavam as palavras, e então via o rosto inquieto no qual -brilhavam aquelles bons olhos velados pelas lagrimas, cheios de terror, -de preplexidade. Apiedou-se de sua mãe e novamente falou d’ella. - ---Que alegrias tens tu conhecido? perguntou. Que tiveste no passado que -fosse bom? - -Ella meneou a cabeça tristemente; invadia-a um sentimento novo, -desconhecido ainda, doloroso e alegre ao mesmo tempo, que lhe -acariciava deliciosamente o coração dolorido. Pela primeira vez, -falavam-lhe d’ella e da sua propria existencia; vagos pensares, -adormecidos havia muito, despertavam no seu ser, reanimavam os -sentimentos extinctos com um vago descontentamento, as recordações, as -saudades da sua mocidade longinqua. - -Falou da sua vida, dos seus amigos, de todo o passado; mas, como os -outros, não sabia mais do que lamentar-se; ninguem explicava o motivo -da sua vida tão penosa e ardua. E agora, com o filho sentado a seu -lado, tudo quanto os olhos de Pavel, o seu rosto, as suas palavras -lhe diziam, tudo lhe falava captivantemente ao coração, enchendo-a de -altivez: era o seu filho quem compreendera a vida da mãe e quem lhe -apresentava a verdade sobre os soffrimentos, quem a lamentava. - -Em geral, não ha quem lamente as mães. - -Ella bem o sabia. Não compreendia que Pavel não falava d’ella só, mas -tudo o que elle dissera da vida feminina era a verdade, verdade nua e -crua. Eis porque lhe parecia que no seu peito se agitava um sem-numero -de sensações que a aqueciam como desconhecida caricia. - ---O que queres tu fazer? perguntou-lhe, interrompendo-a. - ---Aprender e depois ensinar aos outros. Devemos aprender, sim, devemos -saber, devemos compreender a razão porque a vida nos é tão penosa. - -Era consolador para a mãe ver os olhos azues do seu filho, sempre serio -e severo, brilharem ternamente, illuminando n’elle o que quer que fosse -raro. Um sorriso de satisfação pairou nos labios de Pélagué, embora -houvesse ainda lagrimas nas rugas das suas faces. - -Um duplo sentimento dividiu o seu ser: era uma irmã do filho que queria -a felicidade de todos os homens, que os lastimava a todos e que via a -dôr da vida; e ao mesmo tempo não podia esquecer que elle era um rapaz, -que não falava como os seus companheiros, que resolvera entrar sósinho -em lucta contra a vida rotineira que ella e os outros tinham. - -Sentiu desejos de dizer-lhe: - ---Meu querido! o que podes tu fazer? Esmagar-te-ão. E morrerás! - -Mas temeu deixar de admirar o rapaz que de subito se lhe revelara, tão -intelligente, tão transformado... - -Pavel via o sorriso nos labios da mãe, a attenção que ella lhe -prestava, o amor expandindo-se-lhe no olhar; julgou ter-lhe feito -compreender a verdade que elle tinha descoberto, e o juvenil orgulho -da força da sua palavra exhaltava a sua mesma fé. Cheio d’excitação, -falava sempre, ora rindo, ora franzindo o sobrolho; por momentos o odio -transparecia na sua voz, e quando Pélagué lhe ouvia estes tons rudes, -meneava timidamente a cabeça, perguntando baixinho: - ---E tens a certeza de que isso é assim? - ---Tenho! respondia elle com a voz forte e firme. - -E falava-lhe dos que queriam o bem do povo, dos que semeavam a verdade -e que por isto eram perseguidos como feras, mettidos em prisões, -exilados para o degredo pelos inimigos da vida. - ---Tenho visto d’estas creaturas! exclamava com ardor. São as melhores -almas deste mundo! - -Estes seres excitavam o terror da mãe, que tinha vontade de perguntar -ainda: - ---E tens a certeza de que isso é assim? - -Mas não se atrevia, preferindo ouvir exhaltar creaturas que ella não -compreendia e que tinham ensinado ao seu filho uma maneira de pensar e -de falar tão perigosa para elle. - ---Pouco falta para nascer o dia. Se tu te deitasses, se dormisses... É -preciso ires para o trabalho ámanhã. - ---Vou deitar-me, vou, concordou. - -E abeirando-se d’ella, perguntou-lhe: - ---Compreendeste-me? - ---Sim! suspirou a mãe. - -De novo lhe rebentáram as lagrimas, e acrescentou entre soluços: - ---Morrerás!... - -Elle ergueu-se e entrou de passear pelo quarto. - ---Bem! Sabes agora o que faço, aonde vou! Disse-te tudo! Supplico-te, -mãe, que se me amas, não me detenhas! - ---Meu querido filho! exclamou ella. Teria sido melhor nada me haveres -dito! - -Pavel pegou-lhe na mão, apertando-a fortemente entre as suas. - -Ella ficára impressionada por aquella palavra «mãe» pronunciada com -ardor juvenil, e por aquelle aperto de mão tão novo e raro. - ---Nada farei para te contrariar, disse em tom saccudido. Recommendo-te -apenas: toma cuidado! toma cuidado! - -E sem bem saber em que elle devia tomar cuidado, accrescentou -tristemente: - ---Estás cada vez mais magro. - -E envolvendo n’um olhar caricioso o corpo robusto e harmonico do filho, -disse em voz baixa: - ---Que Deus esteja comtigo! Vive como quizeres, não te impedirei! Só -te peço uma coisa: não fales levianamente. É conveniente desconfiar -dos mais, que mutuamente se odeiam! Vivem d’avidez, vivem d’inveja! -Todos se sentem felizes quando fazem mal. Quando quizeres accusal-os, -julgal-os, odiar-te-ão, levar-te-ão á morte! - -De pé, no limiar da porta, Pavel ouvia estas palavras dolorosas, ás -quaes respondeu sorrindo: - ---O proximo é mao, sim. Mas quando aprendi que havia na terra uma -verdade, o proximo pareceu-me melhor. - -Sorriu ainda e continuou: - ---Eu mesmo nem sei como isto me veio. Na minha infancia, tinha medo -de todos e de tudo... Quando cresci, comecei a odiar, a uns pela sua -covardia; a outros... nem sei porquê. Mas agora já não acontece o -mesmo: creio que tenho piedade d’elles. Não comprehendo como, mas o meu -coração tornou-se mais terno quando soube que havia uma verdade para os -homens e que elles não são todos culpados da ignominia da sua vida. - -Calou-se por um instante, como para escutar o que quer que fosse dentro -d’elle, e depois concluiu pensativo: - ---É assim que a verdade transpira! - -Ella, tendo-lhe lançado um olhar rapido, murmurou: - ---Transformaste-te d’uma maneira perigosa! Meu Deus! - -Quando elle adormeceu, Pélagué levantou-se cautelosamente e -approximou-se-lhe do leito. O rosto moreno, de feições severas e -obstinadas desenhava-se distinctamente sobre o travesseiro branco. -Com as mãos juntas no peito, com os pés descalços, em camisa, a mãe -permanecia immovel; os seus labios moviam-se em silencio, e de seus -olhos desciam lentamente fartas e tôrvas lagrimas. - - - - -V - - -A vida recomeçou para elles; novamente se encontravam proximos e -afastados. - -Uma vez, n’um dia santo, no meio da semana, Pavel disse á mãe, quando -ia sahir: - ---No sabbado ha de vir gente cá a casa. - ---Que gente? - ---Gente d’aqui... e gente da cidade. - ---Da cidade...? repetiu a mãe, meneando a cabeça. E desatou a chorar. - ---Porque choras, mamã?! exclamou Pavel contrariado. Porquê? - -Respondeu com froixa voz, limpando as lagrimas: - ---Não sei... Porque sim. - -Elle deu alguns passos pelo quarto, e parando deante d’ella: - ---Tens medo? - ---Tenho! confessou. Essa gente da cidade... sabe-se lá quem é! - -Inclinou-se para ella e disse com a voz irritada, como o pae: - ---É por causa d’esse medo que todos nós morremos! E os que mandam em -nós aproveitam-se d’esse medo e ainda mais nos amedrontam. Comprehenda -de uma vez para sempre: emquanto houver medo, apodreceremos como as -bétulas nos pantanos. - -Afastou-se, exclamando: - ---Deixal-o! Nós nos reuniremos cá em casa... - -A mãe atalhou, chorando: - ---Não me queiras mal! Como não hei de eu ter medo? Passei entre sustos -toda a minha vida... tenho a alma cheia d’elles. - -Pavel retorquiu a meia voz, mas brandamente: - ---Desculpe. Não tenho outro meio ao meu alcance. E sahiu. - -Durante trez dias, Pélagué tremia: o coração parecia-lhe parar -quando pensava em que gente extranha entraria em sua casa. Não podia -fantasial-os, mas afiguravam se-lhe terriveis. Eram elles quem -apontaram ao seu filho o caminho que elle seguia agora... - -No sabbado á tarde, Pavel voltou da fabrica, lavou-se, mudou de fato e -saíu, dizendo sem olhar para a mãe: - ---Se alguem vier, dize que não me demoro, que me esperem. E não tenhas -medo, se fazes favor... São pessoas como as outras. - -Ella deixou-se cahir sobre o banco. O filho contemplou-a franzindo o -sobrolho, e propoz--Talvez seja melhor saíres; an? - -Ella offendeu-se. Disse que não com a cabeça, murmurando: - ---Seria o mesmo. Para que sairia eu? - -Estava-se no fim de novembro. Durante o dia tinha caído na terra gelada -um nevão fino e secco, que Pavel triturava sob seus passos. Ás vidraças -apegavam-se espessas trevas. A mãe, desalentada, ia esperando, com os -olhos fixos na porta. - -Parecia-lhe que, na obscuridade, creaturas silenciosas, de trajos não -vulgares, se dirigiam para a casa, vindos de pontos varios, que se -adiantavam occultando-se, corcovados, e olhando para um e outro lado. -Junto da porta, encostado á parede, havia já alguem. - -Ouviu-se um assobio que vibrou no silencio como um fio, melodioso -e triste; errava no deserto da noite, approximava-se... De subito, -calou-se mesmo junto á janella, como se tivesse penetrado atravez da -parede. - -Soou o ruido de passos; Pélagué ergueu-se trémula, com os olhos -dilatados. - -Abriu-se a porta. Appareceu primeiro uma cabeçôrra com um boné de -pelles, depois um corpo acurvado que se esgueirou lentamente, que se -endireitou, que levantou o braço direito vagarosamente, arrancando do -peito em suspiro ruidoso: - ---Boa noite. - -Pélagué cumprimentou em silencio. - ---O Pavel ainda não veio? - -O homem tirou com vagar um casaco de pelles, levantou um pé, saccudiu -com o boné a neve que lhe cobria as botas, atirou depois com o boné -para um canto e entrou no quarto bamboleando-se nas suas altas pernas. -Approximou-se d’uma cadeira, examinou-a como, para certificar-se de que -era sólida, assentou-se por fim e pôz-se a bocejar, tapando a bôca com -a mão. Tinha a cabeça redonda e o cabello cortado á escovinha, a barba -feita, e grosso bigode de guias compridas e pendentes. Depois de ter -examinado o quarto com os grandes olhos bojudos e acinzentados, cruzou -as pernas e perguntou balouçando-se na cadeira: - ---O casebre pertence-lhes ou é alugado? - -Pélagué, sentada em frente delle, respondeu: - ---Alugamol-o. - ---Não é grande coisa! observou o homem. - ---O Pavel não se demora; queira esperar, disse froixamente. - ---É o que estou fazendo! replicou tranquillamente. - -A sua tranquillidade, a sua voz suave, a simpleza da sua fisionomia -deram coragem a Pélagué. Elle contemplava-a com olhar franco, com um -ar bondoso; no fundo dos seus olhos transparentes luzia um brilho -alegre, e havia um tanto de divertido e de simpatico n’aquella creatura -angulosa e acurvada como n’um poleiro feito das proprias pernas. Trazia -vestidas calças pretas, cujas extremidades estavam mettidas quasi -dentro das botas; em vez de casaco, bluza azul. Pélagué tinha vontade -de perguntar-lhe quem elle era, d’onde vinha, se conhecia o seu filho -de ha muito tempo, quando, de chofre, elle moveu-se e perguntou: - ---Ó tiasinha, quem foi que lhe abriu essa brécha na testa? - -Falava meigamente e sorria com o olhar. Mas a pergunta irritou-a. -Mordeu os labios, e apóz curto silencio, perguntou com fria delicadeza: - ---E o que tem o tiosinho com isso? - -Elle voltou-se de todo. - ---Ah! não se zangue. Se lhe fiz esta pergunta, foi porque a minha mãe -adoptiva tinha tambem uma brécha na testa, exactamente como a sr.ᵃ. -Uma sova que lhe deu o marido, com uma fôrma de botas. Era sapateiro. -Ella era lavadeira. Tinha-me adoptado já, quando, por sua desgraça, -encontrou aquelle bêbedo não sei onde. O patife batia-lhe; digo-lhe só -isto! Eu tinha tanto medo d’elle, que a pelle estalava-me. - -Pélagué sentiu-se desarmada perante aquella franqueza, e pensou de si -para si que talvez Pavel não ficasse contente, se ella fosse menos -delicada para com aquelle original. Por isso disse com um sorriso -envergonhado: - ---Eu não me zango... O sr. é que me deixou surpreza com a pergunta. Foi -um presente do meu marido, que Deus tenha! O sr. não é tartaro? - -O homem mexeu as pernas, e teve um sorriso tão aberto, que até as -orelhas pareciam chegar-lhe á nuca. Depois disse gravemente: - ---Ainda não... ainda não sou tartaro. - ---É que não fala exactamente como um russo! explicou ella sorrindo, -porque lhe compreendera o gracejo. - ---A minha lingua vale mais do que o russo! exclamou com um meneio -importante. Sou russo-menor, da cidade de Kanief. - ---E ha muito tempo que está por cá? - ---Vivi na cidade, perto de um anno, e ha um mez que vim aqui para a -fabrica. Travei conhecimento com excellentes pessôas... o seu filho... -e mais alguns... não muitos. Quero fixar-me por cá, accrescentou, -torcendo o bigode. - -Estava agradando a Pélagué que, para agradecer o elogio feito ao filho, -lhe perguntou: - ---Quer chá? - ---O quê? sósinho? observou, encolhendo os hombros. Faça o offerecimento -quando estivermos todos juntos. - -Ouviram-se passos outra vez, a porta abriu-se de chofre; Pélagué -levantou-se. Com grande espanto seu, quem entrou na cosinha foi uma -rapariga, de vestido leve e pobre, baixa, com cara de camponeza. A -recemchegada, cujos cabellos eram loiros e espessos, perguntou: - ---Ainda venho a tempo? - ---Ah! vem! respondeu o russo-menor, que permanecia no quarto. Veio a pé? - ---Podera! A sr.ᵃ é a mãe do Pavel Mikhaílovitch? Bôa noite! Eu -chamo-me Natacha. - ---E o seu pae? perguntou Pélagué. - ---Vassilievna. E a sr.ᵃ? - ---Pélagué Milovna. - ---Bello! Estamos apresentados! - ---Sim, estamos... concordou Pélagué, com um ligeiro suspiro. - -E sorrindo observou a rapariga. - -O russo-menor perguntou: - ---Faz frio? - ---Se faz! e muito, lá pelos campos; uma ventania!... - -Tinha a voz pastosa, clara; a bôca era pequena e redonda; e toda ella -era gorducha e cheia de frescura. Depois de tirar a capa, esfregou -energicamente as faces coradas com as mãosinhas avermelhadas pelo -frio; e, passeando pelo quarto com passos rapidos, batia no sobrado com -os tacões. - ---Não tem galochas de borracha! pensou Pélagué. - ---Que frio! E arrastando muito as palavras: Estou entorpecida! gelada! - ---Vou já, já, preparar o samovar! disse rapidamente a dona da casa. - -E saíu para a cozinha. - -Dir-se-ia que conhecia aquella rapariga de ha muito tempo e que a -estimava como sua filha. Estava satisfeita por vêl-a; vindo-lhe á ideia -os olhos pardos e piscos do russo-menor, sorriu satisfeita tambem; -prestou attenção á conversa. - ---Porque está triste, André? perguntou a rapariga. - ---Porque sim! A viuva tem um olhar bondoso e lembra-me que talvez seja -como o da minha mãe... Penso muito na minha mãe, sabe? Parece-me sempre -que ella vive. - ---Ouvi-lhe dizer que ella tinha morrido... - ---Não! Falava da minha mãe adoptiva, e agora falo da minha verdadeira -mãe. Imagino que ella pede esmola, algures, em Kief e que bebe -aguardente... - ---Porquê? - ---Sei lá! E que quando está embriagada, os policias a esbofeteiam. - ---Pobre homem! pensou Pélagué, suspirando. - -Natacha passou a falar rapidamente, a meia-voz. Depois, tornou a -ouvir-se a voz sonora do russo-menor: - ---É ainda nova! não tem experiencia! Todos teem mãe, e apesar d’isso -quantas creaturas más!... É difficil dar á luz, mas é muito mais -difficil ensinar o bem ao homem. - ---Isso! isso! exclamou lá de dentro Pélagué. - -Desejava poder responder que ella, por exemplo, se consideraria feliz -ensinando o bem a seu filho, mas que não sabia d’essas coisas; a porta -porem abriu-se vagarosamente dando entrada a Vessoftchikof, filho do -velho ladrão Danilo, o misantropo celebre em todo o bairro. Mantinha-se -sempre afastado dos outros, que por este facto chasqueavam d’elle. -Pélagué perguntou admirada: - ---O que é que tu queres? - -Fitou n’ella os olhos pardos, limpou com a palma da mão a cara bexigosa -e de maçãs salientes, e, sem responder ao cumprimento de Pélagué, -perguntou em tom cavo. - ---O Pavel está em casa? - ---Não. - -Relanceou a vista pelo quarto e entrou, dizendo: - ---Boa noite, companheiros. - ---Tambem este!... Será possivel? pensou ella hostilmente. - -E mais se admirou vendo Natacha estender a mão ao recemchegado com modo -alegre e amigavel. - -Vieram em seguida dois rapazes, duas creanças quasi. A dona da casa -conhecia um d’elles: era o sobrinho de Fédor Sizof, velho operario -da fabrica; tinha feições d’arguto, fronte elevada e cabellos -encaracolados. O outro, de cabello corredio, era-lhe desconhecido, mas -não a assustava, parecia modesto. - -Afinal Pavel chegou, acompanhado de dois amigos, que ella reconheceu -logo: eram dois operarios tambem da fabrica. - -Amavelmente, o filho disse-lhe: - ---Preparaste o chá? obrigado! - ---Queres que vá comprar aguardente? perguntou, não sabendo como -exprimir-lhe o seu reconhecimento pelo que quer que fosse que ella -ainda não compreendia. - ---Não. Não é preciso! respondeu, tirando a capa, e sorrindo -bondosamente para a mãe. - -De subito, veio-lhe á idéa de que o filho tinha exagerado -propositadamente o perigo da reunião para brincar com ella. - ---É então esta a tal gente perigosa? - ---Esta mesma! disse Pavel entrando no quarto. - ---Ah! e seguiu-o com o olhar caricioso. - -Mas, no seu intimo: - ---E elle é a mesma creança!... - - - - -VI - - -Quando a agua do samovar entrou em ebolição levou-o para o quarto. As -visitas estavam sentadas em de redor da meza; Natacha tinha nas mãos um -livro e ficára n’uma quina da mesa sob a luz da candeia. - ---Para compreender por que as creaturas vivem tão mal... dizia Natacha - ---... e porque são tão más... interveio o russo-menor. - ---... é preciso ver primeiro como começaram a viver... - ---Então, meus filhos, então!... murmurou Pélagué, preparando o chá. - -Calaram-se todos. - ---O que diz, mamã? perguntou Pavel franzindo o sobrolho. - ---Eu? - -Vendo todos os olhares cravados n’ella, explicou, embaraçada: - ---Falava comigo mesmo... Dizia: então!... - -Natacha desatou a rir assim como Pavel; o russo-menor exclamou: - ---Obrigado, mãesinha, obrigado pelo chá! - ---Ainda não o bebeu e já agradece?! replicou ella. - -E, olhando para o filho: - ---Não os incommodo? - -Foi Natacha quem respondeu: - ---Como pode incommodar os seus hospedes, se é a dona da casa? - -E n’um tom infantil e lamentoso: - ---Boa alma! dê-me chá depressa! Estou a tremer com frio... tenho os pés -gelados... - ---É para já! é para já! - -Depois de ter bebido, Natacha suspirou á larga, atirou a trança para -as costas e abriu um livro volumoso, illustrado e de capa amarella. -Pélagué enchia os copos, deligenciando não os fazer retenir, e, com -toda a attenção de que era capaz o seu cerebro pouco acostumado a -trabalhar, escutava a leitura que a rapariga fazia com a sua voz -harmoniosa, que se misturava ao murmurio da agua a ferver no samovar, -semelhante a longinqua canção. - -No quarto desenrolava-se tremente, como uma fita de côres magnificas, -a historia simples e clara dos selvagens que viviam nas cavernas e -atacavam com pedras os animaes. Era uma como lenda; por varias vezes, -Pélagué olhava de soslaio para o filho, desejava saber o que haveria -n’aquella historia de selvagens que a tornasse leitura prohibida. Mas -a bréve trecho deixou de escutar e, sem que dessem por tal, começou a -observar os seus hospedes. - -Pavel estava sentado junto de Natacha; era bello entre todos os outros. -A rapariga, inclinada sobre o livro, levantava a miudo os cabellos -finos e encaracolados que lhe cahiam para a testa. Por vezes, sacudia -a cabeça, e, com um olhar amigo, accrescentava algumas observações, -abaixando a voz. O russo-menor tinha encostado o peito ao canto da -meza, torcia o bigode, cujas guias deligenciava vêr, mettendo um olho -por outro. Vessoftchikof, estava sentado n’uma cadeira, empertigado -como um manequim, com as mãos nos joelhos; o seu rosto bexigoso, sem -sobrolhos e de bigode muito raro, era immovel como uma mascara. - -Sem desviar o olhar, contemplava obstinadamente a sua fisionomia -reflectida no cobre brilhante do samovar; dir-se-ia que nem respirava. -O pequeno Fédia escutava a leitura, movendo os beiços, repetindo -para si as palavras do livro; o seu companheiro, o dos cabellos -encaracolados, curvava-se, com os cotovellos nos joelhos, e sorria -pensativamente, tendo a cara apoiada nas mãos. Um dos rapazes vindos -com Pavel era ruivo e delgado; os olhos verdes tinham expressão alegre; -parecia desejoso de dizer alguma coisa e fazia gestos de impaciencia; o -outro, de cabellos loiros e curtos, passava a mão pela cabeça olhando -para o sobrado, o que não permittia ver-se-lhe o rosto. - -O quarto estava quente, n’uma temperatura especialmente agradavel -n’aquella noite. No meio do murmurio da voz de Natacha, misturada á -canção tremula do samovar, Pélagué recordava as noites tumultuosas da -sua mocidade, as palavras grosseiras dos rapazes que cheiravam mal -a alcool, os seus gracejos cinicos. Perante taes recordações, o seu -coração humilhado confrangia-se compadecido d’ella propria. - -Reviveu em pensamento o dia em que o marido pedira a sua mão. Foi -durante uma reunião, á noite; elle detivera-a n’um corredor obscuro, -obrigava-a á viva força a encostar-se á parede, dizendo-lhe n’um tom -cavo e irritado: - ---Queres casar comigo? - -Ella sentira-se ultrajada; molestavam-na aquelles dedos grosseiros -apertando-lhe os seios, aquella respiração offegante que lhe enviava ao -rosto um hálito quente e humido. Tentou libertar-se d’aquelle abraço, -fugir-lhe... - ---Aonde vaes? urrou elle. Responde primeiro! - -Ficara silenciosa, cheia de vergonha e de colera. - ---Não te finjas embaraçada, pateta! Conheço-as, a todas! No teu intimo, -estás satisfeitissima. - -Porque alguem tivesse aberto uma porta, elle largara a rapariga, sem -grande pressa, dizendo: - ---No domingo mandarei pedir a tua mão. - -Cumpriu. - -Pélagué fechou os olhos e suspirou longamente. - ---Não preciso saber como os homens viveram, mas sim como se deve viver! -exclamou de subito Vessoftchikof num tom de surdo aborrecimento. - ---Tem razão! concordou o rapaz de cabello ruivo, erguendo-se. - ---Não estou d’acôrdo! disse Fédia. Se queremos caminhar para a frente, -devemos saber tudo! - ---Exacto! opinou o outro, a meia voz. - -Veio em seguida uma discussão animada. Pélagué não comprehendia por -que todos elles gritavam, com os rostos cheios de excitação. Mas -ninguem estava irritado; nem mesmo se ouviam as palavras concludentes e -obscenas ás quaes ella estava acostumada. - ---Não se sentem á vontade na presença da pequena... pensou. - -Sentia-se encantada pela fisionomia grave de Natacha, que parecia tomar -conta em todos, como se fossem creanças para ella. - ---Basta, companheiros! basta! disse de subito. - -E todos se calaram, volvendo para ella o olhar. - ---Os que affirmam que devemos saber tudo affirmam uma verdade. Devemos -illuminar-nos a nós mesmos com a chamma da razão, para que as creaturas -obscuras nos vejam; devemos responder a tudo com honestidade, com -verdade. É preciso conhecer toda a verdade e toda a mentira. - -O russo-menor meneava a cabeça ao rythmo das palavras de Natacha. -Vessoftchikof, o rapaz ruivo e o operario que viera com Pavel formavam -um grupo distincto; desagradavam a Pélagué, sem que ella soubesse -porquê. - -Quando Natacha concluiu, Pavel ergueu-se e perguntou tranquillamente: - ---O que queremos nós ser? Apenas creaturas que comem e bebem? Não! -queremos ser homens. Devemos mostrar aos que nos exploram e nos fecham -os olhos, que vemos tudo, que não somos idiotas, nem brutos, que não -queremos só comer, mas tambem viver como é proprio dos homens. Devemos -mostrar aos inimigos que a vida de degredo que elles nos arranjaram não -impede que possamos medir-nos com elles pela intelligencia e excedel-os -pelo espirito... - -Pélagué ouvia, estremecendo de orgulho por ser o seu filho quem assim -falava. - ---Ha muita gente farta, mas ninguem entre ella que seja honesto! disse -o russo-menor. Construamos uma ponte que atravesse o pantano da nossa -vida infecta e que nos conduza ao reino futuro da bondade sincera, eis -a nossa tarefa, companheiros! - ---Em tempo de guerra não se limpam armas! replicou soturnamente -Vessoftchikof. - ---Aliás fazem-nos os ossos n’um feixe, antes da batalha! exclamou -alegremente o russo-menor. - -Tinha passado meia noite quando o grupo dispersou. - -O rapaz ruivo e Vessoftchikof foram os primeiros a saír, o que não -agradou a Pélagué. - ---Como vão apressados! pensou, cumprimentando-os. - ---Acompanha-me, André? perguntou Natacha. - ---Ora essa! - -Emquanto Natacha se vestia na cosinha, Pélagué disse-lhe: - ---Tem umas meias tão finas, com um tempo d’estes!... Se me dá licença, -hei de fazer-lhe um par, de lã. - ---Obrigado, mas as meias de lã arranham a pelle! respondeu, rindo. - -Descanse, que, feitas por mim, não arranharão. - -Natacha observou-a com os olhos semi-cerrados, e este olhar fixo -embaraçou-a. - ---Desculpe se é tolice, mas creia ser de bôa vontade! - ---Sim. A sr.ᵃ é bôa! exclamou Natacha a meia voz, apertando-lhe a mão. - ---Bôa noite, mãesinha! disse o russo-menor encarando n’ella; saíu, -depois de beijal-a, acompanhando Natacha. - -Pélagué olhou para o filho que no limiar da porta do quarto, sorria. - ---Porque sorris? perguntou, como envergonhada. - ---Ora! porque estou contente. - ---Sou velha e tôla, bem sei, mas compreendo aquillo que fica bem. - ---E tem razão. Vá deitar-se, vá, que são horas. - ---E tu tambem deves ir. Eu é n’um instante. - -Á roda da meza d’onde retirava os copos, sentia-se feliz: tudo se tinha -passado sem novidade e terminado em paz. - ---Tiveste uma bôa idéa, meu filho: é uma bella gente. O russo-menor... -acho-o interessante. E a rapariga... Ah! que intelligente que é! Quem é -ella? - ---Professora de primeiras lettras, respondeu resumidamente, passeando -ao comprimento do quarto. - ---Por isso é tão pobre! Que mal vestida!... - -Vae apanhar um frio!... Onde vivem os paes? - -Em Moscou. - -E Pavel, parando junto da mãe, disse em voz baixa e gravemente: - ---O pae é muito rico, negociante de ferro, e possue varios -estabelecimentos. Expulsou-a porque ella entrou neste caminho... Foi -educada no luxo, toda a familia a amimava, dando-lhe quanto queria... E -n’este momento é obrigada a andar a pé, sósinha, sete kilometros. - -Estes pormenores impressionaram Pélagué. No meio do quarto, olhava para -o filho sem dizer palavra, os sobrolhos erguidos n’uma expressão de -assombro. - -Depois perguntou a meia voz: - ---Vae para a cidade? - ---Vae. - ---Ah! e não tem medo? - ---Não, não tem medo! respondeu, sorrindo. - ---Não tem?!... Poderia passar a noite cá em casa... Dormiria comigo. - ---Impossivel. Vêl-a iam saír ámanhã pela manhã; e devemos evitar -isso... Ella primeiro ainda. - -Pélagué caíu em si, e tendo olhado para a janella, passeando, disse -meigamente: - ---Não percebo o que possa haver perigoso, e que torne prohibidas estas -coisas. Que mal pode haver? Ella não sentia absoluta convicção e -desejava obter do filho uma resposta negativa. Elle fitou-a, sereno, e -respondeu com firmeza: - ---Não fazemos nem faremos mal algum. Todavia, sabe que é a prisão o que -nos espera. - -As mãos de Pélagué tremeram. Foi com a voz enfraquecida que perguntou: - ---Talvez... Queira Deus que tal não succeda! - -Pavel, carinhoso, mas resoluto: - ---Não! não quero enganar-te! O que te disse ha de succeder. - -Acrescentou, sorrindo: - ---Olha: vae deitar-te! Estás fatigada! Bôa noite! - -Sósinha, a mãe approximou-se da janella e olhou para a rua. O vento -passava, varrendo a neve dos telhados das casinhas adormecidas, batendo -contra as paredes, murmurando não se sabe o quê, e baixando á terra -para fazer correr ao longo das ruas nuvens brancas de flócos seccos. - ---Jesus Christo, tende piedade de nós! supplicou baixinho. - -As lagrimas accumulavam-se-lhe, a espectativa da desgraça da qual o -filho falava com tanta tranquilidade e certeza, agitava-se dentro -d’ella como uma borboleta nocturna. Perante os seus olhos desenrolou-se -uma planicie coberta de gelo. O vento levando os flócos de neve, -redemoinhava assobiando. No meio da planicie, um pequenino perfil de -rapariga caminhava, solitario e vacillante. O vento enrolava-se-lhe nas -pernas, enchia-lhe as saias, atirava-lhe ao rosto flócos aggressivos. -O caminho era difficil para aquelles pequeninos pés que se enterravam -na neve. Fazia frio e as trevas eram de metter medo. A rapariga -inclinava-se para a frente como debil haste sacudida pelo sopro rapido -do vento do outomno. - -Á sua direita, no pantano, uma floresta erguia a sua sombra compacta -onde as bétulas e os frageis pinheiros tremiam e gemiam tristemente. - -Muito ao longe, na sua frente, scintillavam as luzes da cidade. - ---Senhor! tende piedade de nós! disse ainda a pobre mãe, tremendo de -frio e de medo. - - - - -VII - - -Os dias succediam-se; como as contas de um rosario, addiccionavam-se -em semanas e em mezes. Todos os sabbados, os companheiros reuniam-se -em casa de Pavel; e cada sessão era como um degrau da longa escadaria -em suave declive que conduzia a muito distante, não se sabia aonde, -elevando lentamente os que por ella subiam, e da qual se não via o fim. - -Novas caras appareciam constantemente. O pequeno quarto dos Vlassof -ia-se tornando apertado. Natacha continuava a comparecer, transida de -frio, fatigada, mas sempre alegre e bem disposta. Pélagué tinha-lhe -feito as taes meias que ella propria lhe calçou. A principio, Natacha -tinha rido, depois calou-se, e, reflectindo por um momento: - ---Tive uma creada, disse baixinho, que tambem me era -extraordinariamente dedicada! Olhe, Pélagué Nilovna é muito para pensar -este caso: o povo que tem uma vida tão ardua, tão cheia de humilhações, -possue mais coração, mais bondade do que os outros! - -Tinha erguido o braço, designando um ponto muito afastado d’ali. - ---E a menina?--disse-lhe a mãe de Pavel--que sacrificou seus paes e o -resto... - -Não chegou a concluir o seu pensamento, suspirou e calou-se olhando -para Natacha. Sentia-se-lhe reconhecida, sem bem saber de quê, e -deixara-se ficar sentada no chão, diante da rapariga, que sorria -pensativa, com a cabeça descaída para o peito. - ---Sacrifiquei os meus paes... tinha repetido Natacha. Mas não é isto -o peor. O meu pae é tão estupido e ordinario, o meu irmão tambem, e -demais costuma beber! A minha irmã mais velha é uma desgraçada, causa -compaixão. Casou com um homem muito mais idoso do que ella, muito rico, -mas avarento e repugnante. De quem eu tenho mais saudades é da mamã! - ---Coitadinha! lamentou a mãe de Pavel, com um triste movimento de -cabeça. - -A rapariga endireitou-se de subito e exclamou: - ---Ah! não! Ha momentos em que a minha alegria, a minha felicidade não -tem limites! - -O seu rosto empallideceu, e saíam chispas de seus olhos azues. Pondo a -mão no hombro de Pélagué, disse em voz profunda, n’um tom que parecia -vindo do coração: - ---Se soubesse... se podesse compreender a obra brilhante e enorme que -estamos realisando!... Havia de sentil-a! - -Uma impressão, não muito afastada da inveja, apoderou-se do coração de -Pélagué, que disse tristemente, erguendo-se: - ---Estou muito velha para essas coisas... sou ignorante... estou muito -velha... - -... Pavel falava muito, discutia cada vez com maior ardor, e emagrecia. -Pélagué julgava notar que, quando elle conversava com Natacha ou para -ella olhava demoradamente, o seu olhar severo se tornava suave, que -a sua voz vibrava com mais carinho, que elle se revelava ainda mais -simples. - ---Deus o queira!... pensava. Sorria á ideia de que Natacha podesse vir -a ser sua nora. - -Quando, nas reuniões, a discussão tomava mais calor, o russo-menor -levantava-se, e bamboleando como o badalo d’um sino, soltava com a -sua voz sonora palavras claras e simples que faziam voltar o socego. -O taciturno Vessoftchikof levava constantemente os companheiros a -actos mal definidos; era sempre elle e Samoílof, o rapaz ruivo, quem -esquentava as discussões. Tinham por partidario Ivan Boukine, o rapaz -de cabeça redondinha, de sobrolhos brancos, e que parecia deslavado -como o sol. Jacob Somof, sempre modesto, asseado e bem penteado, falava -pouco e breve, em voz baixa e grave. Como Fédia Mazine, o adolescente -de fronte alta, era sempre da opinião de Pavel e do russo-menor. - -Por vezes, em logar de Natacha, era Nicolao Ivanovitch quem vinha da -cidade. Usava occulos e tinha barbicha loira. Natural d’uma provincia -distante, as inflexões da sua voz eram especiaes e cantantes, falando -quasi sempre sobre themas simples, a vida em familia, as creanças, -o commercio, a policia, o preço da carne e do pão, emfim a vida de -todos os dias. E em tudo descobria êrros, confusão, coisas estupidas, -divertidas ás vezes, mas sempre prejudiciaes para os homens. Parecia -a Pélagué que Nicolao Ivanovitch viera de longe, d’outro paiz onde a -existencia era facil e honesta, e que ali, onde ella vivia tudo lhe -desagradava. Era de côr amarelenta; pequenas rugas lhe circumdavam -os olhos, a voz era grossa, e tinha as mãos sempre quentes. Quando -cumprimentava a mãe de Pavel, agarrava-lhe a mão por completo com os -dedos vigorosos, e tal aperto era como um consolo para a alma d’ella. - -Da cidade vinham ainda outras pessôas, por exemplo uma rapariga -esbelta, de olhos grandes e rosto magro e pallido. Chamavam-lhe -Sachenka. Havia o que quer que fosse masculo nos seus gestos e no -andar; franzia os sobr’olhos negros como irritada; quando falava, as -delicadas narinas estremeciam. - -Foi ella que um dia disse primeiro que os outros: - ---Nós, socialistas... - -Quando Pélagué ouviu esta palavra, olhou para a rapariga com mudo -terror. - -Sabia que os socialistas tinham assassinado um tzar. Fôra durante a -sua mocidade; dissera-se então que os proprietarios ruraes, indignados -contra o imperador por ter libertado os servos, haviam jurado não -cortar os cabellos emquanto elle não fosse morto. Por isso não podia -compreender a rasão por que o seu filho e a companheira se tinham feito -socialistas. - -Quando todos se retiraram, perguntou a Pavel: - ---Pavloucha, é verdade que és socialista? - ---É! respondeu firme e franco como sempre. - -Pélagué deu um profundo suspiro e disse, baixando os olhos: - ---Parece-te bem, meu filho?... Elles são contra o tzar... já mataram -um!... - -Pavel entrou de passear pelo quarto, passando a mão pela cara, até que -respondeu com um sorriso: - ---Nós não precisamos d’isso! - -Falou-lhe muito tempo a serio. Ella chorava e reflectia. Depois, a -terrivel palavra foi repetida cada vez mais a miudo, e tornou-se tão -familiar aos ouvidos de Pélagué como um amontoado d’outros termos -incompreensiveis para ella. Mas Sachenka não lhe agradava; quando a -via, sentia-se pouco á vontade, anciosa... - -Uma noite, disse ao russo-menor, com um tregeito de mal-estar: - ---É muito rispida a Sachenka! Está sempre a mandar: façam isto! façam -aquillo! - -O russo-menor riu ruidosamente. - ---É a pura verdade! nem mais nem menos! Não é assim, Pavel? - -E, piscando o olho, disse em tom escarninho: - ---A nobreza! - -Pavel replicou seccamente: - ---É uma rapariga decidida! - -E ficou-se com ar de mal disposto. - ---Não ha duvida tambem! concordou o russo-menor. Ha apenas uma -differença: não compreende que é ella quem deve e que somos nós que -queremos e podemos. - -Pélagué notara tambem que a severidade de Sachenka caía mais em -particular sobre Pavel a quem por vezes chegava a repreender. Elle -sorria, ficava silencioso, e contemplava a rapariga com o olhar suave -que outrora tinha para Natacha. E isto não agradava a Pélagué. - -Reuniam-se duas vezes por semana; e quando a mãe de Pavel via a -attenção apaixonada com que os novos escutavam as falas do filho e do -russo-menor, as interessantes narrativas de Natacha, de Sachenka, de -Nicolao Ivanovitch e dos outros que vinham da cidade, esquecia as suas -inquietações, e recordando-se dos fastidiosos dias da sua mocidade, -meneava tristemente a cabeça. - -Muitas vezes, Pélagué ficava surpreendida dos accessos de alegria -ruidosa que os atacavam de subito. O facto dava-se geralmente quando -tinham lido nos jornaes noticias da classe operaria estrangeira. Era -uma alegria estravagante, como infantil; riam todos com um riso limpido -e muito alegre, e batiam amigavelmente no hombro do companheiro mais -proximo. - ---Teem trabalhado a valer, os nossos companheiros allemães! annunciava -qualquer d’elles, como embriagado de extasi. - ---Vivam os nossos companheiros italianos! gritava outra voz. - -E quando enviavam estas exclamações ao longe, aos amigos desconhecidos, -pareciam convencidos de que elles os ouviam e participavam do seu -enthusiasmo. - -O russo-menor, cheio de um amor que abrangia a todos os seres, -declarava: - ---Deveriamos escrever-lhes, não acham, para que saibam que teem na -Russia, tão distante, amigos, operarios que professam a mesma religião -que elles, companheiros que teem o mesmo fim, e rejubilam com as suas -victorias... - -E, com o sorriso nos labios, falava-se durante muito tempo dos -francezes, dos inglezes, dos suecos, como de entes queridos, em cujas -felicidades e soffrimentos se tomava parte. - -No pequeno quarto nascia assim o sentimento do parentesco espiritual, -unindo os operarios de aquella terra da qual elles eram ao mesmo tempo -os senhores e os escravos. Esta confraternidade, que lhes dava uma só -alma, impressionava Pélagué, e embora ella lhe fosse inaccessivel, -fazia-a elevar se sob a influencia d’aquella força alegre, triunfante, -embriagadora e cheia de mocidade, acariciadora e cheia de esperanças. - ---No meio de tudo, como os srs. são! disse ella um dia ao russo-menor. -Para os srs., todos são companheiros: os judeus, os armenios, os -austriacos... Falam d’elles como se falassem de amigos, entristecem-se -e alegram-se com o mundo inteiro! - ---Sim, mãesinha! exclamou elle. O mundo é nosso! o mundo é dos -operarios! Para nós não ha nações, nem raças! ha somente companheiros -e... inimigos. Todos os operarios são nossos amigos; todos os ricos, -todos os que teem auctoridade, são nossos inimigos. Quando se olha -para a terra com bons olhos, quando se vê quanto nós, os operarios, -somos numerosos, que poder espiritual nós representamos, sente-se o -coração invadido pela alegria e pela felicidade, como na celebração de -uma festa solemne. O francez e o allemão teem o mesmo sentimento, e -os italianos tambem rejubilam. Somos todos nascidos da mesma mãe, da -grande, da invencivel idéa da fraternidade operaria, em todos os paizes -da terra. Desenvolve-se, aquece-nos com o seu calor, é o segundo sol -no ceo da justiça; e este ceo está no coração do operario. Qualquer -que elle seja, seja qual fôr o seu nome, o socialista é nosso irmão em -espirito, agora e para sempre, por todos os seculos dos seculos! - -Esta exuberancia infantil, esta fé luminosa e inabalavel manifestava-se -de mais em mais no pequeno grupo, n’uma força crescente. - -E quando Pélagué via esta alegria, sentia instinctivamente que na -verdade viera ao mundo o que quer que fosse grande e resplendente, como -um sol semelhante ao que via no ceo. - -Ás vezes, cantavam, alegremente e a plenos pulmões, canções familiares; -por outras, aprendiam novas canções, tambem melodiosas, mas com musica -melancólica e fóra do vulgar. Então, abaixavam a voz, as fisionomias -tornavam-se graves, pensativas, como ao som de um hymno religioso. Os -rostos tornavam-se pallidos, os que cantavam animavam-se, e sentia-se -que uma grande força se occultava sob as palavras sonoras. - -Uma d’aquellas canções principalmente perturbava e inquietava Pélagué. -Não traduzia os gemidos, as preplexidades da alma ultrajada que vagueia -solitaria nos atalhos obscuros das incertezas dolorosas nem dos gritos -da alma incolor e informe assaltada pela miseria, embrutecida pelo -medo. Não repetia os languidos suspiros do ser avido de espaço, nem -os gritos de provocação da audacia fogosa prestes a destruir o mal e -o bem, indifferentemente. O cego sentimento da vingança e do odio, -capaz de aniquilar tudo, impotente para crear, não apparecia então; não -havia em taes canções qualquer vestigio do antigo mundo, do mundo dos -escravos. - -As palavras rispidas, a melodia austera não agradavam a Pélagué, mas -havia n’aquellas canções uma como força immensa que abafava o som e -as palavras, despertando no coração o presentimento de alguma coisa -grandiosa para o pensamento. Pélagué via isto nos rostos, no olhar dos -novos, e, cedendo áquelle poder misterioso, escutava sempre a canção, -duplamente attenta, com inquietação profunda. - ---Já é tempo de a cantarmos pelas ruas! dizia o sombrio Vessoftchikof, -em principios da primavera. - -Quando o pae mais uma vez foi prezo, declarou tranquillamente: - ---Agora poderiamos reunirmo-nos em minha casa... - -Quasi todas as tardes, depois do trabalho, um ou outro dos -companheiros ia a casa de Pavel; liam juntos, copiavam trechos das -brochuras. Andavam preoccupados e nem já tinham tempo de se lavarem. -Ceavam juntos e tomavam o seu chá sem pôrem de lado os livros; e as -suas conversas cada vez se tornavam mais incompreensiveis para Pélagué. - ---Precisamos de um jornal! repetia Pavel, a miude. - -A vida tornava-se febril e agitada; dirigiam-se uns aos outros com mais -celeridade, era com mais rapidez que passavam d’um livro a outro, como -abelhas voando de flôr para flôr. - ---Começa-se a falar de nós! disse uma noite Vessoftchikof. -Provavelmente, acabamos por ser presos, dentro em pouco. - ---Quem não quer ser lobo não lhe veste a pelle! observou o russo-menor. - -Cada vez agradava mais a Pélagué. Quando elle lhe chamava mãesinha, -parecia-lhe que uma suave mão de creança lhe afagava o rosto. Ao -domingo, se Pavel tinha que fazer, era elle quem rachava a lenha; um -dia appareceu carregado com uma grande taboa, pegou na ferramenta e -substituiu com habilidade um degrau pôdre da porta d’entrada; doutra -vez, recompoz a varanda que ameaçava ruina. Emquanto trabalhava, -assobiava musicas melancólicas. - -Pélagué disse um dia ao filho: - ---Se nós fizessemos do russo-menor nosso hospede? Seria mais commodo -para ambos, que não precisariamos de andar sempre a correr de casa d’um -para casa do outro. - ---Para que ha de ir arranjar mais esse trabalho? perguntou Pavel, -encolhendo os hombros. - ---Ora! Durante toda a minha vida tenho sido atormentada com trabalho -sem saber para quê; posso perfeitamente fazer isto hoje em favor de tão -bom homem. - ---Faça o que quizer! Se elle acceitar, dar-me-á satisfação. - -E o russo-menor passou a viver com elles. - - - - -VIII - - -A pequena casa na extrema do bairro despertava a attenção: as suas -paredes já tinham sido como que atravessadas por olhares suspeitosos. -As azas do rumor publico agitavam-se por cima della; tentava-se -descobrir o misterio que ali se occultava. Á noite, havia quem fosse -espreitar pela janella; por vezes, alguem havia que batesse na vidraça, -fugindo logo. - -Certo dia, na rua, o taverneiro Bégountzef fez parar a mãe de Pavel. -Era um bonito velhote que tinha sempre um lenço de seda preta á roda do -pescoço vermelho e enrugado. O nariz brilhante e agudo era adornado por -lunetas de aro d’escama de peixe, o que lhe tinha grangeado a alcunha -de «Olhos d’osso». - -Sem tomar a respiração nem esperar resposta, surpreendera Pélagué com -uma torrente de palavras sêccas e vivissimas: - ---Como vae, Pélagué Nilovna? E o seu filho? Ainda não acha tempo de -o casar? O rapaz já está afinal na devida idade para ter uma mulher. -Quando os paes casam cedo os filhos ficam mais tranquillos. O homem -que vive em familia tem mais saude, tanto de corpo como de espirito, -conserva-se como um cogumello em vinagre. No seu logar, eu já o tinha -casado. Os tempos que vão correndo exigem que abramos os olhos no que -respeita ao ente humano; ha quem se entregue a uma vida a seu modo, -deixando-se arrastar a toda a casta d’acções censuraveis. Já se não -vêem os rapazes no templo de Deus; afastam-se dos logares publicos, mas -reunem-se ás escondidas pelos cantos, a cochichar. Porque andam elles a -cochichar? se me permitte a pergunta. Porque se occultam? O que é que -um homem não póde dizer em publico, na taverna, por exemplo? Misterios! -Mas o logar dos misterios é a nossa santa egreja apostolica! Todos -os outros misterios, realisados a occultas, vem da desorientação do -espirito. Muitos bons dias lhe desejo. - -E tirou o boné com um gesto pretencioso, agitou-o no ar, e foi-se, -deixando Pélagué immersa na perplexidade. - -D’outra vez, Maria Korsounova, visinha dos Vlassof, viuva d’um -ferreiro, e que vendia comestiveis na fabrica, disse a Pélagué ao -encontral-a no mercado: - ---Não percas de vista o teu filho, Pélagué! - ---Porquê? - ---Correm uns boatos a seu respeito... segredou com ares misteriosos. -Coisas feias! Diz-se que está organisando uma especie de corporação, no -genero dos flagelantes. Chama-se a isto uma seita. Fustigar-se-ão uns -aos outros como os flagelantes. - ---Não digas mais tolices, Maria! - ---Vae ralhar com elle que é quem as faz, e não comigo, que te dou parte -do caso! replicou a vendedeira. - -Pélagué contou a conversa ao filho, que encolheu os hombros sem -responder. Quanto ao russo-menor, desatou a rir, com as suas -gargalhadas benevolas. - ---As raparigas tambem estão zangadas! Sois todos aptos para vos -tornardes bons maridos, trabalhaes bem, não bebeis... e nem olhaes para -ellas! Diz-se que da cidade vem visitar-vos pessoas de má reputação... - ---Já cá faltava! exclamou Pavel, fazendo uma cara de nojo. - ---N’um pantano tudo cheira a pôdre! disse André suspirando. Seria -melhor, mãesinha, que explicasse a essas patetinhas o que é o -casamento. Talvez não ficassem com a mesma pressa de caír na asneira! - ---Ah! exclamou Pélagué. Ellas bem sabem, mas como hão de passar sem -casarem? - ---Falta-lhes a compreensão, aliás achariam outra coisa em que se -occuparem! disse Pavel. - -Ella dirigiu o olhar para o rosto irritado do filho, balbuciando: - ---É a vós que cabe ensinal-as! Convidem para isso as mais intelligentes. - ---Impossivel! respondeu Pavel, seccamente. - ---Se tu experimentasses!... arriscou André. - -Depois de um silencio, Pavel respondeu: - ---Começariam a passear aos pares, alguns acabariam por casar, e prompto! - -Pélagué caíu em meditações. A austeridade monacal do filho atordoava-a. -Via que elle era obedecido pelos companheiros, até pelos mais velhos, -como o russo-menor, mas parecia-lhe que todos o temiam e que não -gostavam da frieza dos seus modos. - -Uma vez que ella estava na cama e Pavel e André ainda liam, apurou o -ouvido ás suas palavras que lhe chegavam atravez do tabique. - ---Gosto da Natacha, sabes? disse de repente o russo-menor, a meia voz. - ---Sim, sei. - -Pavel não respondera logo. - -Pélagué ouviu o russo-menor levantar-se, vagaroso, e começar a passear -pelo quarto, com os pés descalsos. Assobiou uma triste canção; depois -tornou a falar: - ---Ella terá notado?... - -Pavel ficou silencioso. - ---Que te parece? perguntou de novo o companheiro, baixando a voz. - ---Tem notado! respondeu Pavel. E é por isso que já não vem. - -André voltou a passear, assobiando; até que: - ---E se eu lho dissesse?... - ---O quê? - ---Que... - ---Para quê? - -Pélagué ouviu André rir. - ---Eu cá, sim, parece-me que quando se ama uma rapariga, devemos -dizer-lho, se não é o mesmo que nada!... - -Pavel fechou o livro com ruido e perguntou: - ---E que resultado esperas? - -Estiveram calados durante alguns minutos. - ---E então? perguntou André. - ---É preciso ver claramente o que se quer... disse emfim Pavel com -vagar. Supponhamos que ella tambem te ama. Não creio. Mas supponhamos. -Casam. É uma união interessante, na verdade, a d’uma rapariga com um -operario!... Vem os filhos... serás obrigado a trabalhar sósinho... e -muito. A vossa vida será a de toda a gente, luctareis para ter com que -vos sustentardes, para terdes casa onde viver com os filhos. E afinal -ambos ficareis perdidos para a obra. - -Houve um silencio, até que Pavel concluiu: - ---Deixa-te d’isso, André! Cala-te. Não a perturbes. - ---Mas Nicolao Ivanovitch prégava a necessidade de viver a vida -integral, com todas as forças da alma e do corpo... Lembras-te? - ---Prégava, mas não para nós. Como atingirias tu a integridade? Não -existe para ti. Quando se ama o futuro, temos que renunciar a tudo no -presente, a tudo, irmão! - ---É custoso! replicou André em voz abafada. - ---E como poderia não ser assim? reflecte! - -Houve novo silencio. Ouvia-se apenas a pendula do relogio, -compassadamente, dividindo o tempo em segundos. - -O russo-menor disse: - ---Metade do coração ama; a outra odeia... E é isto coração, an? - ---E como poderia não ser assim? - -Seguiu-se o folhear d’um livro: por certo Pavel voltava á leitura. -Pélagué permanecia deitada com os olhos fechados, sem se atrever a -fazer nem um movimento. Sentia-se profundamente apiedada de André, -mas ainda mais do seu filho. Dizia comsigo: «Meu querido filho... meu -martyr! meu sacrificado!» - -De subito, André perguntou: - ---Devo então calar-me, não é isso? - ---É o mais honesto, André... - ---Bem! entrarei n’esse caminho! decidiu o outro. - -Mas accrescentou tristemente, decorrido um instante: - ---Has de soffrer, Pavel, quando chegar a tua vez. - ---Chegou. Já soffro... e cruelmente. - ---Tu tambem? - -Lá fóra o vento soprava em torno da casa. - ---Não tem nenhuma graça isto!... disse André lentamente. - -Pélagué metteu a cabeça debaixo da roupa para poder chorar. - -Na manhã seguinte, André pareceu-lhe como fisicamente amesquinhado, -e sentiu-o mais proximo do seu coração. Como sempre, o filho tinha o -porte secco, silencioso, rigido. Até então ella tratava o russo-menor -por André Onissimovitch; d’aquelle dia em diante, sem querer, sem dar -por tal, disse-lhe: - ---Deve concertar as suas botas, meu André, senão tem frio nos pés. - ---Hei de comprar outras, quando receber a féria. - -Depois desatou a rir e perguntou-lhe de chofre, pondo-lhe no hombro a -sua pesada mão: - ---Talvez a senhora seja a minha verdadeira mãe, mas que não queira -confessal-o, porque me ache muito feio! Será assim? - -Sem falar, ella deu-lhe uma pancadinha na mão. Desejaria dizer-lhe -palavras carinhosas, mas o coração confrangia-se apiedado, e a sua -lingua recusava-se a obedecer-lhe... - - - - -IX - - -No bairro começavam a occupar-se dos socialistas que espalhavam por -toda a parte folhas de papel escriptas a tinta azul. Eram papeis -que falavam malevolamente dos regulamentos impostos aos operarios, -das gréves de Petersburgo e da Russia meridional; exhortavam os -trabalhadores a formarem uma liga e a luctarem na defeza dos seus -interesses. - -As pessoas de certa idade que occupavam bons logares na fabrica, -irritavam-se e diziam: - ---Seria conveniente dar uma sova mestra n’estes agitadores! - -E levavam os papeis aos seus chefes. - -Os rapazes, enthusiasmados com taes escriptos, exclamavam ardentemente: - ---O que elles dizem é a verdade! - -A maioria dos operarios, alquebrados pelo trabalho, indifferentes a -tudo, pensavam indolentemente: - ---Aquillo não dá nada. - -No entanto as folhas volantes interessavam a todos e, quando não -appareciam, diziam uns para os outros: - ---Hoje não ha; deixaram de publical-as... - -Mas quando, á segunda-feira, reappareciam, os operarios de novo se -agitavam ruidosamente. - -Na fabrica e na taverna eram vistas umas pessoas que ninguem conhecia. -Interrogavam, examinavam, farejavam, e impressionavam a todos com a sua -prudencia suspeita. - -Pélagué sabia que toda aquella agitação era obra do seu filho. Via-os -cercarem-no, elle porém não era só, o que tornava o caso menos -perigoso. E o orgulho de ter tal filho juntava-se n’ella á anciedade -que o futuro lhe inspirava: eram os trabalhos misteriosos do rapaz a -misturarem-se como um limpido ribeiro á torrente lamacenta da vida... - -Uma tarde, Maria Korsounova bateu á vidraça e, quando Pélagué a -entreabriu, a visinha cochichou: - ---Que te dizia eu, Pélagué? Prepara-te! Os teus passarinhos acabaram de -rir! Esta noite hão de vir fazer uma busca em tua casa, na de Mazine e -na de Vessoftchikof. - -Não ouviu mais do que as primeiras palavras; as ultimas fundiram-se -n’um rumor vago e melancolico. - -Os labios espessos de Maria vibravam com rapidez, o seu nariz carnudo -dilatava-se, os olhos tornavam-se piscos, e moviam-se vagamente para um -e outro lado, como em procura de alguem na rua. - ---E olha que eu não sei nada, nada te disse, minha querida, nem mesmo -te vi ainda hoje... Percebes? - -Desappareceu. - -Pélagué fechou a janella e deixou-se caír n’uma cadeira, com a cabeça -como vasia, sem forças. Mas a consciencia do perigo que ameaçava o -seu filho fêl-a erguer de subito; vestiu-se á pressa, envolveu a -cabeça n’um chale e correu a casa de Fédia Mazine, que estava doente. -Quando entrou, viu-o sentado junto da janella, a lêr, e como que -acalentando com a mão esquerda a direita, cujo pollegar se mantinha -afastado dos outros dedos. Ao ouvir a má nova, elle pôz-se logo de pé, -empallidecendo. - ---Que historia esta!... E eu com um abcesso n’este dedo! resmungou. - ---Que devemos fazer? perguntou Pélagué alimpando tremulamente o suor do -rosto. - ---Espere... não tenha medo! respondeu passando pelos cabellos -encaracolados a mão válida. - ---Mas se o senhor é o primeiro a ter medo!... - ---Eu? - -Córou de repente, e disse a sorrir, com embaraço: - ---Sim, é verdade, c’os demonios! Precisamos de prevenir o Pavel. Vou -mandar-lhe alguem... Volte para casa... Isto não ha de ser nada. Então! -ninguem ha de bater-nos! - -Apenas chegou a casa, Pélagué reuniu em monte os livros, metteu-os -debaixo do braço e pôz-se á busca de um canto onde occultal-os. Olhou -para o fogão, para o forno, para o canudo do samovar e até para o -barril cheio d’agua. Dizia comsigo que Pavel largaria d’ali a pouco o -trabalho e voltaria para casa; elle porem demorava-se. Por fim, vencida -de cansaço, sentou-se n’um banco da cosinha, escondeu os livros debaixo -da saia e ficou immovel até que apparecessem o filho e André. - ---Já sabem?! disse sem se levantar, apenas os viu. - ---Já sabemos! respondeu Pavel com sorriso calmo. Tens medo? - ---Tenho, muito! - ---Não deves ter medo. Não serviria de nada. Nem sequer preparaste o -samovar?! - -Ella ergueu-se, e, mostrando os livros, explicou, embaraçadamente: - ---Era por causa delles... - -O russo-menor e Pavel desataram a rir, o que a tranquillisou em parte. -Depois, o filho pegou em alguns dos volumes e saíu para ir escondel-os -no pateo; André dispoz-se a accender o samovar, e foi dizendo: - ---Nada ha terrivel n’isto; o que faz envergonhar uma pessoa é pensar -que haja quem se occupe d’estas coisas. Hão de vir por ahi uns homens -vestidos de cinzento, com um sabre á cinta, esporas nos calcanhares, -e rebuscarão por toda a parte. Espreitam para debaixo das camas, e do -fogão; se ha adega, descem á adega; se ha sotão, sobem ao sotão. As -teias d’aranha caem-lhes nos focinhos, e elles espinoteiam. Enfadam-se, -envergonham-se, e por isto fingem-se muito maos e mostram-se furiosos -contra a gente. O seu emprego é porco, e elles bem o sabem. Uma vez, -foram dar busca á minha casa, não encontraram coisa alguma e... elles -ahi vão! D’outra vez, levaram-me comsigo. Metteram-me depois na cadeia, -onde estive quatro mezes. De tempos a tempos, iam buscar-me e faziam-me -atravessar as ruas no meio de uma escolta de soldados. Perguntavam-me -toda a casta de coisas. Não são creaturas intelligentes, não sabem -falar com criterio. Depois diziam aos soldados que me levassem outra -vez para a cadeia. E aqui está como fazem de nós gato sapato. Emfim, -teem que ganhar os seus ordenados!... Acabaram por pôr-me na rua. E -prompto! - ---Que maneira de falar, meu André! exclamou Pélagué mal-disposta. - -Ajoelhado em frente do samovar, o russo-menor soprava com toda a força -pelo canudo; levantou a cabeça, mostrando a cara avermelhada pelo -esforço e perguntou alisando com as duas mãos o bigode: - ---Como é então que eu falo? - ---Como se nunca o tivessem offendido. - -Elle ergueu-se, approximou-se de Pélagué, e, tendo abanado a cabeça, -disse, sorrindo: - ---Ha por acaso alguem n’este mundo que não tenha sido offendido? É -que tanto me ultrajaram já, que me cansei de encolerisar-me. Que -fazer, se os mais não podem proceder d’outra maneira? Os ultrages -incommodam-me muito, impedem-me de realisar a minha obra... mas não os -podemos evitar, e, se pensamos n’isso, perdemos o nosso tempo. A vida -é assim! D’antes zangava-me contra essa gente; depois, quando me veio -a reflexão, vi que todos elles tinham o coração despedaçado. Cada qual -tem medo de ser o primeiro a atacar. A vida é assim, mãesinha! - -As palavras soltavam-se-lhe tranquillamente e faziam extinguir-se a -anciedade de Pélagué. Os olhos polpudos d’elle sorriam, luminosos -e tristes; todo o seu corpo era flexivel, elastico, embora como -desengonçado. - -Ella suspirou e disse com calor: - ---Deus o faça feliz, meu André! - -O russo-menor voltou para o samovar, ajoelhou-se outra vez e murmurou: - ---Se me derem a felicidade, não a recusarei; mas não a peço e nunca -irei buscal-a. - -E pôz-se a assobiar. - -Pavel voltou do pateo. - ---Não encontrarão coisa alguma! affirmou, convencido. - -Começou a lavar-se. Depois accrescentou, limpando cuidadosamente as -mãos: - ---Se lhes mostrar que tem medo, mamã, dirão que alguma coisa ha para -despertar desconfiança. E nós nada fizemos ainda... nada! Bem o sabe, -nada queremos que seja mao; a verdade e a justiça estão do nosso lado, -trabalharemos por ellas toda a vida: eis o nosso crime! Porque havemos -de tremer? - ---Terei coragem, Pavel! prometteu. - -Mas logo disse, angustiada: - ---Se ao menos «elles» viessem depressa! - -«Elles» porem não vieram n’aquella noite. - -No dia seguinte, prevendo que Pavel e André iriam chasquear dos seus -terrores, foi a primeira a rir-se de si mesma. - - - - -X - - -«Elles» chegaram quando menos os esperavam, quasi um mez depois. -Vessoftchikof, André e Pavel estavam reunidos e falavam do seu -jornal. Era tarde, perto da meia noite. Pélagué já estava deitada, ia -adormecendo e ouvia-lhes vagamente as vozes receosas e em tom baixo. -André levantou-se de chofre, atravessou a cosinha nos bicos dos pés -e fechou de mansinho a porta apoz elle. No corredor ouviu-se o ruido -d’uma celha que tombára. André disse em voz alta: - ---Oiçam: é o ruido de esporas, na rua! - -Pélagué levantou-se de salto, pegou n’uma saia, tremula; mas Pavel -appareceu no limiar e disse-lhe tranquillamente: - ---Fique deitada... Não está bôa... - -Ouviu-se depois um deslisar furtivo sob o telheiro. - -Pavel approximou-se da porta, e batendo nella com a mão, perguntou: - ---Quem está ahi? - -Rapido como um relampago, um corpo d’homem alto surgiu entre os -umbraes; e outro ainda. Os dois guardas repelliram o rapaz, puxando-o -depois para entre elles. Uma voz grave e irritada disse: - ---Não é quem esperavas, un? - -Quem falava era um official ainda novo, alto e magro, de bigode preto. -Fédiakine, agente da policia do bairro, dirigiu-se para a cama de -Pélagué; levando a mão ao boné, em continencia, indicou com a outra a -mulher, dizendo com um olhar terrivel: - ---A mãe é esta, meu Senhor! - -Depois, apontando para Pavel: - ---E o filho é aquelle! - ---Pavel Vlassof? perguntou o official, franzindo os olhos. - -O rapaz respondeu affirmativamente com a cabeça. - -Passando a mão pelo bigode, o official informou: - ---Venho fazer uma busca em tua casa... A velha que se levante! Quem -está ali? - -E, tendo olhado para o quarto, entrou n’elle a passos largos. - -Ouviram-no perguntar: - ---O seu nome? - -Outros dois personagens appareceram ainda: o velho fundidor Tvériakof e -o seu inquilino, o fogueiro Rybine, um homem de cabelleira negra e de -bom porte. Tinham sido trazidos pela policia como testemunhas: - -Rybine disse com voz grossa e possante: - ---Boa noite, Pélagué! - -Ella vestia-se, e, para se dar coragem, murmurava: - ---Esta agora! Virem de noite!... quando uma pessôa está na cama!... - -O quarto parecia pequeno e por elle se espalhara um cheiro activo a -graxa. Os dois guardas e o commissario de policia do bairro, Riskine, -tiravam da estante os livros com ruido, e empilhavam-nos diante do -official. Os outros davam pancadas nas paredes, olhavam para debaixo -das cadeiras; um trepou com custo ao cano do fogão. O russo-menor e -Vessoftchikof, unidos um ao outro, conservavam-se a um canto; o rosto -bexigoso do segundo estava coberto de manchas vermelhas, e os seus -olhinhos pardos não podiam desfitar-se do official. André retorcia -o bigode, e quando Pélagué entrou no quarto, fez-lhe com a cabeça um -movimento amigavel. - -Para occultar o terror, mexia-se não de lado, como de costume, mas com -o peito deitado para a frente, o que lhe dava um aspecto d’importancia -affectada e risivel. Andava ruidosamente e as palpebras tremiam-lhe. - -O official ia pegando rapidamente nos livros com as pontas dos dedos -brancos e delgados, folheava-os, saccudia-os, e rapidamente atirava-os -para o lado. Alguns volumes caíram no chão. Todos estavam callados; não -se ouvia mais do que o respirar dos guardas esbofados, o tintilar das -suas esporas; de quando em quando um d’elles perguntava: - ---Já viste aqui? - -Pélagué collocou-se junto do filho, encostada á parede; como elle, -cruzou os braços no peito e quiz observar o official. As pernas -vacillaram-lhe, um nevoeiro toldava-lhe a vista. - -De subito, a voz de Vessoftchikof soltou-se concludente: - ---Para que serve deitar os livros ao chão? - -Pélagué estremeceu. Tvériakof abanou a cabeça como lhe tivessem batido -na nuca; Rybine resmungou e fitou attentamente o audacioso. - -O official franziu os olhos e cravou-os no rosto bexigoso e immovel do -rapaz... Depois os seus dedos folhearam o livro com mais rapidez. - -De quando em quando, os olhos pardos de Vessoftchikof abriam-se tanto -que dir-se-ia elle estar soffrendo atrozmente e prestes a gritar, -furioso e impotente contra a dôr. - ---Soldado! exclamou de subito. Apanha os livros! - -Os guardas voltaram-se para elle, e olharam depois para o official. -Este levantou a cabeça, e olhando rapidamente de soslaio para o rapaz, -ordenou por entre dentes: - ---Vá lá, apanhem os livros. - -Um dos guardas abaixou-se, e observando furtivamente Vessoftchikof -poz-se a apanhar os livros esfarrapados. - ---Teria feito melhor estando calado... disse baixinho Pélagué para o -filho. - -Elle encolheu os hombros. O russo-menor estendeu o pescoço. - ---Que cochichar é esse? Façam favor de estar calados! Quem é que lê -aqui a Biblia? - ---Eu! respondeu Pavel. - ---Ah!... E de quem são estes livros? - ---Meus. - ---Está bem!... commentou o official apoiando-se ás costas da cadeira. - -Fez estalar os nós dos seus dedos finos e brancos, estendeu as pernas -debaixo da meza, cofiou o bigode, e perguntou a Vessoftchikof: - ---És tu que te chamas André Nakhodka? - ---Sou eu! respondeu o bexigoso avançando. - -O russo-menor deitou-lhe a mão a um hombro e obrigou-o a recuar. - ---Enganou-se! o André sou eu. - -O official levantou a mão, e ameaçando Vessoftchikof com o dedo -indicador erguido: - ---Toma cuidado!... - -Começou a remexer nos seus papeis. - -A noite luminosa e clara olhava indifferentemente pela janella. Alguem -ia e vinha em frente da casa e a neve estalava sob os seus passos. - ---Já foste perseguido por delictos politicos, Nakhodka? perguntou o -official. - ---Já: em Rostof e em Saratof... Com a differença de que ali as -auctoridades não me tratavam por «tu.» - -O official franziu o olho direito, esfregou-o e disse depois, mostrando -os dentitos: - ---N’esse caso, Nakhodka, conhece talvez... Sim... deve conhecer -os scelerados que espalham pela fabrica folhetos e proclamações -prohibidas?... - -O russo-menor teve um estremecimento, ia dizer o que quer que fosse -com um sorriso aberto, quando se ouviu de novo a excitante voz de -Vessoftchikof: - ---É a primeira vez que vemos scelerados! - -Houve um instante de silencio. - -O rosto de Pélagué tornou-se pálido até na cicatriz, emquanto o -sobrolho direito lhe era repuxado para cima. A barba negra de Rybine -entrou de tremer de uma maneira estupenda; baixou a cabeça e passou a -mão vagarosamente pelo bigode. - ---Ponham fóra d’aqui essa besta! ordenou o official. - -Dois guardas agarraram o rapaz por debaixo dos braços e arrastaram-no -para a cosinha. Quando lá chegou, conseguiu parar, e apegando-se ao -chão com toda a força de que os seus pés eram susceptiveis, gritou: - ---Esperem! Quero pôr a minha capa! - -O commissario de policia, que estivera a rebuscar no pateo, appareceu -dizendo: - ---Nada encontrámos. Vimos todos os cantos. - ---Está claro! exclamou o official ironicamente. Já o esperava! Estamos -a contas com homens já muito experientes. - -Pélagué ouviu aquella voz fraca, tremula e imperiosa; e ao observar -aquelle rosto amarellento sentia estar ali um inimigo, um inimigo -implacavel, com o coração cheio de desprezo pelo povo. D’antes -poucas pessoas assim ella tinha visto, e nos ultimos annos chegára a -esquecer-se de que ellas existiam. - ---É a estes que nós causamos inquietações!... pensava. - ---Senhor André Onissimof Nakhodha, filho de pae incognito, está preso! - ---Porquê? perguntou tranquillo. - ---Depois lhe direi! respondeu o official com malevola delicadeza. - -E voltando-se para Pélagué, berrou-lhe: - ---Sabes ler e escrever? - ---Não! interveiu Pavel. - ---Não falo comtigo! disse o official com severidade. Responde, velha, -sabes ler e escrever? - -Invadida de um sentimento de instinctivo odio contra aquelle homem, -Pélagué aproximou-se de súbito, muito trémula, como se tivesse caído -n’um rio gelado; a cicatriz fez-se escarlate, e o sobrolho baixou-lhe. - ---Não grite! exclamou, estendendo o braço para o official. É ainda -novo, não sabe o que seja o soffrimento... - ---Socegue, mamã... interrompeu Pavel. - ---É melhor uma pessoa abafar o coração e calar-se! aconselhou André. - ---Espera, Pavel! exclamou ainda Pélagué, n’um arranco para a meza. -Porque é que o sr. anda prendendo a gente? - ---Isso não é da sua conta. Cale-se! berrou o official, erguendo-se. -Tragam cá o Vessoftchikof. - -E pôz-se a ler um papel que collocara á altura do rosto. - -Trouxeram o rapaz. - ---Tira o boné! disse-lhe o official, interrompendo a leitura. - -Rybine approximou-se de Pélagué e dando-lhe um encontrão: - ---Não se apoquente, tiasinha! - ---Como hei-de eu tirar o boné, se tenho as mãos agarradas? - -O official atirou com o auto para cima da meza, dizendo simplesmente: - ---Assignem! - -Pélagué viu os assistentes assignarem o documento, a sua excitação -desapparecera, faltava-lhe a coragem; affluiam-lhe aos olhos amargas -lagrimas de humilhação e de consciencia da sua fraqueza. Durante -os vinte annos da sua vida de casada, tinha chorado lagrimas como -aquellas; mas esquecera-lhe o ardor quasi por completo desde que -enviuvára. O official olhou para ella e commentou com uma expansão -desdenhosa: - ---Foi cedo para tanto alarde, minha prenda! Creia que é capaz de ficar -sem lagrimas... para o futuro. - -Respondeu-lhe, outra vez irritada: - ---Ás mães nunca faltam as lagrimas!... Se tem mãe, ella deve saber -isto, com certeza! - -O official metteu rapidamente os seus papeis na carteira, que era nova -e de feixos brilhantes; e dirigindo-se ao commissario de policia: - ---Todos elles denotam uma independencia revoltante! - ---Que insolencia! murmurou o commissario. - ---A caminho! ordenou o official. - ---Até á vista, André! até á vista, Nicolao! disse Pavel apertando -calorosamente a mão dos companheiros. - ---Está claro... até á vista! repetiu o official com ironia. - -Sem dizer palavra, Vessoftchikof apertava a mão de Pélagué entre -os seus dedos curtos. Respirava a custo; o pescoço robusto estava -congestionado, os olhos brilhavam-lhe de raiva. André sorria e meneava -a cabeça; disse algumas palavras a Pélagué, que fez o signal da cruz -sobre elle, respondendo-lhe: - ---Deus conhece os justos! - -Emfim o bando de homens de capotes cinzentos desappareceu dobrando a -esquina da casa, com um tintilar de esporas. Rybine foi o ultimo a -saír; com o seu negro olhar prescrutou Pavel; em tom meio abstracto -disse: - ---Adeus, an...? - -E foi-se, sem pressas, tossindo, de cabeça baixa. - -Com as mãos cruzadas nas costas, Pavel entrou de passear de um para -outro lado, por entre as trouxas de roupa e os livros espalhados no -chão, até que perguntou em tom sombrio: - ---Viste como é? - -Sem deixar de olhar para a desordem em que ficára o quarto, ella disse -baixinho, afflicta: - ---Prender-te-ão tambem... tambem, a ti! Para que foi tão grosseiro o -Vessoftchikof? - ---Teve medo, provavelmente!... respondeu Pavel tambem em voz baixa. Não -se deve falar áquella gente... nada se consegue d’elles! são incapazes -de compreender... - ---Vieram! prenderam-no! levaram-no! murmurou, com os braços erguidos. - -Só lhe restava o filho. O coração de Pélagué começou a pulsar mais -vagaroso; o seu pensamento immobilisava-se perante um facto que ella -não podia admittir como real. - ---Faz pouco de nós, aquelle homem amarello: ameaça-nos... e... - ---Basta, mãe! disse de repente Pavel com decisão. Anda cá, arrumemos -tudo isto. - -Tinha dito aquelle «mãe» e tratara-a por tu como era seu costume -quando se tornava mais communicativo. Ella approximou-se, encarou-o e -perguntou em voz baixa: - ---Humilharam-te? - ---Sim! Custou-me muito! Preferia ir com elles. - -Pareceu a Pélagué que elle tinha os olhos lacrimosos; e para o consolar -d’aquelle desgosto que ella vagamente adivinhava, disse, suspirando: - ---Tem paciencia... um dia virá em que tambem sejas preso! - ---Bem sei... respondeu. - -Decorridos uns instantes, ella accrescentou com tristeza: - ---Como és cruel, meu filho! Se ao menos me tranquillisasses... Mas não! -se eu digo coisas terriveis, o que tu me respondes é peor ainda! - -Elle olhou de relance, approximou-se, e baixando a voz: - ---Não sei que responder-lhe, mamã. Não posso mentir. Tem que -acostumar-se... - -Pélagué suspirou e calou-se; depois, estremecendo: - ---Será verdade? Dizem que elles torturam os presos, que lhes retalham o -corpo em tiras, e lhes quebram os ossos... Quando penso n’isto, tenho -medo, Pavel, meu querido filho! - ---Torturam a alma e não o corpo. É ainda mais doloroso do que a tortura -tocarem-nos na alma com as mãos emporcalhadas! - - - - -XI - - -Soube-se na manhã seguinte que Boukine, Samoílof, Somof e mais cinco -pessoas tambem tinham sido presos. Á noite, Fédia Mazine veio de -corrida: haviam feito uma busca em sua casa; estava radiante por isso, -e considerava-se como um heroe. - ---Tiveste medo, Fédia? perguntou Pélagué. - -Empallideceu, encovou-se-lhe o rosto, as narinas estremeceram-lhe. - ---Tive medo de que o official me batesse! Tinha barba negra e era -forte; os dedos cabelludos; usava lunetas de vidros pretos; parecia que -lhe faltavam os olhos. Gritou, batendo com o pé: «Faço-te apodrecer na -cadeia!» Em mim nunca ninguem bateu, nem o meu pae, nem a minha mãe, -porque eu era filho unico, e elles queriam-me muito. Toda a gente tem -levado pancada; eu, nunca. - -Fechou por um instante os olhos avermelhados e apertou os beiços; com -um gesto rapido, atirou para traz com os cabellos e disse, encarando em -Pavel: - ---Se alguem me bater, enterro-me n’elle como uma navalha, retalho-o com -os dentes. É preferivel que me estendam de vez! - ---Tão magrito e fraco!... exclamou Pélagué. Como poderias luctar? - ---Pois luctarei! respondeu em voz baixa. - -Quando elle saiu, ella disse para o filho: - ---Será esmagado primeiro do que os outros. - -Pavel não respondeu. - -Minutos depois, a porta da cosinha abriu-se devagar, e Rybine entrou. - ---Bôa noite! disse, sorrindo. Sou eu outra vez. Hontem á noite, -obrigaram-me a cá vir; hoje venho por minha conta. - -Apertou com vigor a mão de Pavel, e pondo a mão no hombro de Pélagué: - ---Dás-me chá? - -Pavel observou em silencio o amplo rosto atrigueirado do seu visitante, -a sua espessa barba negra e os seus olhos intelligentes. Havia um tanto -de gravidade no seu olhar tranquillo; todo o aspecto do recemchegado, -de athletica corpolencia, inspirava simpathia pela sua decidida firmeza. - -A mãe foi á cosinha preparar o samovar. - -Rybine sentou-se, afagou o bigode, e, encostando-se á meza, envolveu -Pavel n’um olhar. - ---Com que então... Assim começou, como se reatasse o fio de uma -conversa. Devo falar-te abertamente. Observei-te por muito tempo antes -de vir á tua casa. Somos quasi visinhos, via que recebias muita gente e -que ninguem se embriagava nem fazia escandalos. Isto dava nas vistas. -Quando alguem se porta bem, é logo notado, vê-se logo quem é. Eu -proprio chamo as attenções para a minha pessoa porque vivo á parte, sem -praticar porcarias. - -Falava vagarosamente, com ripanso; tinha inflexões que inspiravam -confiança. - ---Com que então, toda a gente fala de ti. O meu senhorio chama-te -«herético» porque não vaes á egreja. Eu tambem lá não vou. Depois -appareceram essas fôlhas, esses papeis... A idéa foi tua? - ---Foi! respondeu Pavel sem desviar o olhar da fisionomia de Rybine, que -tambem o fitava. - ---Ora vamos! exclamou Pélagué, sobresaltada, e saíndo da cosinha. Não -foste só tu... - -Pavel sorriu. Rybine tambem. - ---Ah!... murmurou este. - -A velha fungou e saíu, um tanto irritada por não terem prestado -attenção ás suas palavras. - ---Era uma bôa idéa. Perturbam o povo. Quantas foram ao todo? Umas -dezenove, não? - ---Isso mesmo. - ---Então li-as todas! Bem... bem... Ha por lá coisas incompreensiveis, -superfluas. Quando o homem fala muito, acontece-lhe falar para nada. - -Sorriu; tinha os dentes brancos e sãos. - ---Depois, a busca que fizeram em tua casa... Foi o que me dispoz a teu -favor. Tu, o russo-menor e Vessofchikof mostraram-se muito... muito... - -Como não encontrava a palavra, calou-se, olhou pela janella, e bateu -com um dedo na mesa: - ---Mostraram-se decididos. Foi como se dissessem: «Faça a sua obra, -Excellencia, que nós faremos a nossa!» O russo-menor tambem é um rapaz -como se quer. Ás vezes, na fabrica, quando o ouvia falar, pensava: -«Este não é para se deixar esborrachar, não! Só a morte poderá -vencel-o. Tem um bigode, o typo!» Não acha, Pavel? - ---Acho! respondeu, movendo a cabeça affirmativamente. - ---Ora bem... Tenho quarenta annos, o dobro da tua edade; tenho visto -vinte vezes mais do que tu. Fui soldado durante mais de trez annos; -fui casado duas vezes; morreu-me a primeira mulher; deixei a segunda. -Estive no Caucaso, vi os Doukhobors... Não souberam vencer a vida, -irmão! oh! não souberam! - -Pélagué escutava avidamente estas palavras; era-lhe agradavel vêr um -homem de edade respeitavel procurar o filho como para confessar-se. -Achava, porém, que Pavel o tratava com demasiada seccura, e para -destruir esta impressão, perguntou a Rybine: - ---Talvez tenhas vontade de comer alguma coisa, Mikhaíl Ivanovitch? - ---Não, obrigado. Já ceei. Com que então, Pavel, pensas que a vida não -vae por bom caminho? - -O rapaz levantou-se e passeando, com as mãos atraz nas costas: - ---Qual! Por magnifico caminho! E tanto assim que elle o trouxe até mim, -agora que tem a sua alma francamente aberta. N’este caminho, a vida -une-nos, pouco a pouco, a todos nós que trabalhamos incessantemente; e -tempo virá em que ha de unir-nos a todos! As coisas acham-se dispostas -de uma maneira injusta e penosa para nós; mas é a propria vida que nos -abre os olhos, descobrindo-nos o que encerra amargo; é ella propria que -mostra ao homem como lhe deve dirigir a norma. - ---É verdade! Mas espera! É preciso renovar o homem. N’isto creio eu! -Quando se apanha sarna, a gente toma banhos, lava-se, veste-se com -asseio e fica bom, não é assim? Mas se a sarna ataca o coração, podemos -por acaso arrancar-lhe a pelle, ainda que ficasse sangrando? podemos -laval-o, vestil-o de novo? an? Então, como purificar o homem por -dentro? O quê? - -Pavel falou calorosamente de Deus, do imperador, das auctoridades, da -fabrica, da resistencia que os trabalhadores do estrangeiro oppunham -áquelles que queriam limitar os seus direitos. Rybine sorria por vezes; -depois batia com o dedo na meza, como para pontuar o discurso de -Pavel, sem comtudo deixar de dizer de quando em quando: - ---É isso mesmo! - -Todavia, commentou a meia voz com um sorrisinho: - ---Ah! és ainda novo. Não conheces o proximo! - -Pavel, de pé diante d’elle, explicou gravemente: - ---Não falemos de novos nem de velhos! Vejamos antes qual é a melhor -opinião. - ---Portanto, em tua opinião até se teem servido de Deus para nos -enganarem? Concordo. Tambem creio em que a nossa religião é nociva e -erronea. - -Pélagué interveiu. Quando o filho falava de Deus, das coisas sagradas -e queridas que se ligavam á fé que ella tinha no seu Creador, tentava -sempre encontrar o olhar de Pavel para pedir-lhe tacitamente que não -lhe despedaçasse o coração com palavras de incredulidade, cortantes e -aceradas. Ella porém sentia que, apezar de mostrar-se sceptico, o seu -filho era crente; e isto tranquilisava-a. - ---Como poderia eu compreender os seus pensamentos? dizia a si mesma. - -Pensava que devia ser desagradavel e ultrajante para Rybine, um homem -d’idade, ouvir taes palavras de Pavel. Mas quando Rybine dirigira -aquella pergunta perdeu, de todo a paciencia. - ---Sêde mais prudentes falando de Deus! disse resumidamente, mas com -obstinação. Façam o que quizerem, mas... - -E tendo tomado a respiração, continuou com mais vigor: - ---Mas em que me hei de apoiar, no meio dos meus desgostos, eu que estou -velha, se me tirarem o meu Deus? - -Os olhos encheram se-lhe de lagrimas. Com as mãos trémulas, continuou -lavando a loiça. - ---Não nos compreendeu, mamã! disse Pavel com suavidade. - ---Desculpe-nos! accrescentou Rybine em tom vagaroso, lançando um olhar -risonho a Pavel. Esquecia-me de que estás muito velha para ser ainda -tempo de te cortarem as verrugas!... - ---Eu não falava, de maneira alguma, do Deus bom e misericordioso no -qual a mãe acredita, mas sim d’aquelle com que os padres nos ameaçam -como se fosse um flagello, e em nome do qual exigem que a grande -maioria dos homens se submetta á vontade malevola d’alguns. - ---Exactamente! Isso é que é! exclamou Rybine, batendo com o dedo na -meza. Transformaram-nos até Deus. Os nossos inimigos lançam mão de -tudo quanto lhes sirva para abater-nos. Recordo-te, Pélagué, que Deus -creou o homem á sua imagem e semelhança e portanto parece-se com o -homem, visto que o homem se parece com Elle. Nós, porém, não nos -assemelhamos a Deus, mas sim aos animaes selvagens... Na egreja, o que -nos mostram, em logar de Deus, é um espantalho. É mister transformar -Deus, purifical-o! Revestiram-no de mentira e de calumnia, mutilaram o -seu rosto para matarem a nossa alma... - -Falava baixo, mas com espantosa nitidez; cada uma das suas palavras era -para Pélagué um golpe doloroso. Sentiu-se assustada por aquella grande -cara taciturna enquadrada n’uma barba negra, e o brilho sombrio dos -seus olhos tornava-se-lhe insupportavel. - ---Ah! Prefiro ir-me embora! disse, sacudindo a cabeça. Não tenho -coragem de ouvir taes coisas... Não posso! - -E fugiu para a cosinha, emquanto Rybine dizia: - ---Vês, Pavel? Não é pela cabeça, mas sim pelo coração que se deve -começar. O coração é um logar da alma humana no qual não brota mais do -que... - ---Do que a razão! acabou Pavel com firmeza. Será só a razão que -libertará o homem! - ---A razão não dá o poder! replicou Rybine, vibrante e obstinado. É o -coração que dá a força e não o cerebro! - -Pélagué despira-se e deitara-se sem haver resado. Tinha frio e -sentia-se pouco bem. Rybine, que lhe parecera tão sensato, tão -correcto, ao principio, excitava-lhe uma reservada hostilidade. - ---Herético! agitador! pensava, prestando o ouvido á voz sonora que saía -com facilidade d’aquelle peito amplo e forte. Para que veio elle cá?!... - -E Rybine ia dizendo, tranquillo e firme: - ---Um logar santo não póde ficar vasio. O logar onde Deus vive dentro de -nós é atacado; se Elle caír da alma, ficará uma chaga! Ora ahi está! É -preciso inventar uma fé nova, Pavel. É preciso crear um Deus justo para -todos, um Deus que não seja nem juiz, nem guerreiro, mas sim o amigo -dos homens. - ---E que outra coisa foi Jesus?! exclamou Pavel. - ---Espera!... Jesus não era firme d’espirito... «Affastem de mim este -calice...» disse elle. E reconhecia o poder do Cezar. Deus não pode -reconhecer uma auctoridade humana reinando sobre os homens, porque elle -é que é a omnipotencia! Elle não dividiu a sua alma n’uma parte divina -e em outra humana, e visto que confirmou a sua divindade, não carece de -coisa alguma humana. Jesus reconheceu tambem como legitimos o commercio -e o casamento. Foi injustamente que condemnou a figueira. Que culpa -tinha ella da sua esterilidade? Não é por sua culpa que a alma não dá -bons frutos. Fui eu que semeei n’ella o mal? - -As duas vozes vibravam sem interrupção no quarto, como se se arrojassem -uma á outra, combatendo-se em lucta animada e apaixonada. Pavel ia e -vinha, a passos largos, e o sobrado rangia sob os seus pés. Quando -falava, todos os sons se fundiam no ruido da sua voz; quando Rybine -replicava, calmo, tranquilo, ouvia-se o tic-tac da pendula do relogio -e o sêcco estalido da neve que roçava com as suas garras agudas nas -paredes da casa. - ---Vou falar-te como authentico fogueiro que sou: Deus parece-se com o -fogo. É isto, sim! Não consolida coisa alguma, não o pode. Queima e -funde, illuminando. Illumina as egrejas, mas não as constroe. Vive no -coração. Disse se: «Deus é o Verbo»; e o Verbo é o espirito. - ---A razão! emendou Pavel, obstinado. - ---Isso! Portanto, Deus está no coração, e na razão, e não na egreja. -E eis d’onde vem as desgraças, as dores, os infortunios do homem: é -que todos nós somos arrancados de nós mesmos! O coração é repellido -pela razão, e a razão foi-se! O homem não é uno. Deus une o homem em -um todo, em um globo. Deus creou sempre coisas redondas: a terra, as -estrellas; tudo o que é visivel, o que é agudo, foi o homem quem o fez. -Quanto á egreja, é o tumulo de Deus e do homem. - -Pélagué adormeceu, não tendo ouvido saír Rybine. - -Elle voltou a apparecer muitas vezes. Quando qualquer companheiro -de Pavel estava em casa d’este, o fogueiro sentava-se a um canto e -continha-se em silencio; de tempos a tempos, dizia: - ---Isso! Exactamente! - -Uma vez, espraiou o seu negro olhar pelos assistentes, e disse, nada -satisfeito: - ---Deve-se falar do que é; o que será não sabemos nós. Quando o povo -fôr livre, elle proprio verá o que tiver de melhor a fazer. Já lhe -metteram na cabeça muitas coisas que elle não queria! Basta! Elle que -se examine! Talvez elle repilla tudo, toda a vida e todas as sciencias; -talvez veja que tudo lhe é hostil, como por exemplo: Deus e a egreja. -Dêem-lhe para a mão todos os livros, e elle responderá. Mas para isto, -seria necessario que elle compreendesse que quanto mais apertada é a -colleira, mais penoso é o trabalho. - -Quando Pavel e Rybine estavam a sós, punham-se logo a discutir, -tranquillamente, por muito tempo. A velha escutava-os inquieta, -seguia-os com o olhar silencioso, deligenciando compreender. Por -vezes, parecia-lhe que ambos tinham cegado. Nas trevas, entre as -paredes do pequeno quarto, os dois vagueavam d’um para outro lado, -como em busca d’uma saída ou d’uma luz; agarravam-se a tudo com as -suas mãos vigorosas, mas inhabeis; agitavam, revolviam tudo, deixando -caír por terra coisas que depois espezinhavam. Esbarravam em tudo, -tateavam e repelliam tudo, sem pressas, sem perderem a esperança nem -a fé. Tinham-na acostumado a ouvir uma palavras terriveis pela sua -simplicidade e audacia; estas palavras já não a opprimiam com a mesma -violencia. Rybine não era simpático á velha, mas a repulsão, que a -principio lhe inspirára, tinha desapparecido. - -Uma vez por semana, Pélagué ia á cadeia levar roupa e livros a -André; um dia obteve licença de vêl-o; e ao voltar para casa, contou -enternecidamente: - ---Continúa sendo o mesmo. Amavel para com todos. Todos brincam com -elle. Parece que tem sempre o coração em festa. Custa-lhe a vida, -soffre, mas não quer dal-o a perceber. - ---E é assim que devem fazer todos! replicou Rybine. Todos nós estamos -envolvidos em desgostos como n’uma segunda pelle... Respiramos -desgostos... vestimo-nos de desgostos... Não temos de que nos gabar. -Nem toda a gente tem os olhos furados, e muitos ha que os fecham de -motu-proprio... Quando se é parvo, então sim, não ha remedio senão -esperar o soffrimento... - - - - -XII - - -A velha casa parda dos Vlassof attraía de mais em mais as attenções do -bairro. Ás vezes um operario apparecia por lá, e depois de ter olhado -para todos os lados, cautelosamente, dizia a Pavel: - ---Irmão, tu que lês nos livros, deves conhecer as leis. Portanto, -explica-me. - -E contava qualquer arbitrariedade da polícia ou da administração da -fabrica. Nos casos complicados, Pavel remettia o consulente, com duas -palavras de recommendação, a um advogado dos seus amigos, e, quando -podia, elle proprio dava conselhos. - -Pouco a pouco, os frequentadores do bairro foram nutrindo um sentimento -de respeito por aquelle rapaz tão commedido, que falava de tudo com -simplicidade e afoiteza, que raras vezes ria, que encarava e escutava -todos os assuntos com attenção, mettendo-se na embrulhada de qualquer -negocio particular e descobrindo sempre o fio que ligava as creaturas -umas ás outras por milhares de nós tenazes. - -Pélagué via ampliar-se a influencia do seu filho, começava a aprender o -sentido dos trabalhos de Pavel, e quando o compreendia, invadia-a uma -alegria infantil. - -Pavel tornou-se maior na opinião publica por occasião da historia do -«_kopeck_[1] do pantano». - -Um grande pantano com pinheiros e bétulas cercava a fabrica como -um fosso infecto. No verão, vinham d’elle exhalações amarellentas, -opacas, de mistura com nuvens de mosquitos que se espalhavam no bairro -produzindo febres. O pantano pertencia á fabrica; o novo director, -querendo tirar partido d’elle, concebeu o projecto de esgotal-o, -extraíndo-lhe ao mesmo tempo o nateiro. Esta operação, disse aos -operarios, tornaria salobras as circumvisinhanças e melhoraria as -condições de vida a todos; portanto ordenou que fosse descontado um -kopeck por cada rublo, nas ferias, quantia que seria destinada ao -saneamento do pantano. - -Nos operarios houve uma agitação; irritava-os principalmente o facto de -não reverter para os empregados o imposto. - -No sabbado em que foi publicada a decisão do director, Pavel estava -doente e não fôra trabalhar; nada sabia. Na manhã seguinte, depois da -missa, o fundidor Sizof, um bom velho, o serralheiro Makhotine, homem -alto, muito irrascivel, foram a casa d’elle para lhe dizer o que se -passava. - ---Os mais velhos d’entre nós reuniram-se, disse rudemente Sizof; -discutimos; os nossos companheiros mandaram-nos cá para te -perguntarmos--visto seres um homem de espirito lucido--se ha alguma lei -que permitta ao director extinguir os mosquitos á nossa custa. - ---Nota, accrescentou Makhotine, revolvendo os olhos, que ha quatro -annos aquelles ladrões nos apanharam dinheiro para construirem um -estabelecimento de banhos... Que é d’elle? - -Pavel explicou que o imposto era injusto, que a fabrica tiraria uma -grande vantagem do projecto. Assim, os dois operarios retiraram-se com -ares de poucos amigos. Depois de os haver acompanhado até á porta, -Pélagué disse sorrindo: - ---Vem então os velhos a tua casa aprender comtigo, Pavel!... - -Sem responder, o rapaz sentou-se e começou de escrever, preoccupado. -Decorridos instantes: - ---Peço-te que vás immediatamente á cidade e entregues este bilhete... - ---É coisa arriscada? - ---Sim. É para onde imprimem o nosso jornal. Esta historia do kopeck -deve apparecer, sem falta, no proximo numero. - ---Está bem! está bem! respondeu ella, vestindo-se á pressa. Eu vou. - -Era o primeiro recado importante de que o filho a encarregava. -Sentia-se feliz por vêr que elle lhe dizia francamente do que se -tratava, e por poder ser-lhe util na sua obra. - ---Compreendo, Pavel! Vou n’um momento. Como se chama elle? Iégor -Ivanovitch, não?... - -Regressou de noite, já tarde, fatigada, mas satisfeita. - ---Vi a Sachenka. Manda-te recommendações. Como é divertido o Iégor! -sempre de brincadeira!... - ---Muito folgo com que elle seja do teu agrado. - ---Que simpleza de gente! São tão simpaticas as pessoas simples!... E -olha que todos elles te estimam muito. - -Na segunda-feira, Pavel não poude ir á fabrica, doia-lhe a cabeça. Mas -ao meio dia, Fédia Mazine appareceu-lhe, em grande excitação, radiante: -participou esbofado: - ---Toda a fabrica está em revolta! Mandaram-me vir á tua procura. Sizof -e Makhotine dizem que tu explicarás a coisa melhor do que os outros. Se -visses o que por lá vae! - -Pavel vestiu-se sem dizer palavra. - ---As mulheres estão reunidas e fazem uma gralhada!... - ---Vou ter com ellas! disse Pélagué. Tu não estás bom, talvez seja -perigoso... Os outros para que servem, então? Eu irei falar com elles... - ---Vamos! disse Pavel simplesmente. - -Saíram rapidamente, em silencio. Pélagué, offegante e commovida, -presentia o que quer que fosse grave. Á entrada da fabrica, uma -multidão de mulheres berrava e discutia. Pélagué via que todos os -rostos estavam voltados para o mesmo lado, para a parede das forjas. -Ali, Sizof, Makhotine, Valof e mais cinco operarios influentes e idosos -tinham trepado para um montão de velha ferragem. - ---Ahi vem o Vlassof! gritou alguem. - ---Vlassof! Tragam-no cá! - -Levaram Pavel, de roldão. Pélagué ficou só. - ---Silencio! ordenaram muitas vozes a um tempo. - -Proximo de Pélagué ouviu-se a voz monotona de Rybine: - ---Não é pelo kopeck que se deve mostrar resistencia, mas sim pelo -principio da justiça. Não é o kopeck o que nos custa, não é mais -redondo do que os outros, mas é para nós mais pesado: ha n’elle mais -sangue humano do que só em um rublo do director! - -Estas palavras caíam sobre a multidão com energia e provocavam ardentes -exclamações. - ---É verdade! Bravo, Rybine! - ---Silencio, seus diabos! - ---Tens razão, fogueiro! - ---Olhem o Vlassof! - -As vozes confundiram-se n’um turbilhão tumultuoso, abafando o ruido -surdo das maquinas e os suspiros do vapor. De toda a parte corria gente -que começava a discutir, agitando os braços, excitando-se mutuamente -com palavras febris e causticas. A irritação que dormia nos peitos -fatigados, despertava; escapava dos labios e tomava o vôo, triunfante. -Ao de cima da multidão pairava uma nuvem de poeira e ferrugem; os -rostos cobertos de suor estavam em fogo, a pelle das faces vertia -lagrimas negras. No fundo sombrio das fisionomias, brilhavam os olhos e -os dentes. - -Afinal, Pavel appareceu ao lado de Sizof e de Makhotine; ouviram-no -gritar: - ---Companheiros! - -Pélagué viu que o filho estava palido e que os seus labios tremiam; -involuntariamente, quiz avançar, abrindo caminho, á força; mas -disseram-lhe com mao modo: - ---Ó velha, deixa-te estar! - -Empurraram-na. Mas não desanimou, com os hombros e os cotovellos -afastava toda a gente e approximava-se do filho, pouco a pouco, -impellida pelo desejo de ir ficar a seu lado. - -Pavel, depois de haver soltado frases a que costumava dar um sentido -profundo, sentiu as guellas apertadas pelo espasmo resultante da grande -alegria de combater. Invadiu-o o desejo de entregar-se á força da sua -crença, de arrojar áquella gente o seu coração consumido pelo ardente -sonho da justiça. - ---Companheiros! repetiu, dando a esta palavra todo o enthusiasmo e -vigor. Somos nós que construimos as egrejas e as fabricas, que fundimos -o dinheiro, que forjamos os grilhões... Somos nós a força viva que -nutre e diverte o mundo inteiro, desde que nascemos até á morte... - ---Isso! isso! exclamou Rybine. - ---Sempre e em toda a parte, somos os primeiros no trabalho, emquanto -nos atiram para os ultimos logares na vida. Quem se preoccupa de nós? -quem nos quer bem? quem nos considera como homens? Ninguem! - ---Ninguem! repetiu uma voz como se fosse um écco. - -Senhor de si, Pavel passou a falar com mais simplicidade e mais calmo. -A multidão avançava lentamente para elle, como um corpo sombrio de mil -cabeças. Olhava para o rapaz com centenas de olhos attentos, respirava -as suas palavras. O ruido decrescia. - ---Não teremos melhor quinhão emquanto não nos sentirmos solidarios, -emquanto não formarmos uma unica familia de amigos, estreitamente -ligados pelo mesmo desejo--o de luctarmos pelos nossos direitos. - ---Entra no assumpto! disse uma voz perto de Pélagué. - ---Não o interrompam! Calem-se! replicaram de varios pontos. - -Quasi todas aquellas caras tinham uma expressão de incredulidade soez; -poucos olhares estavam fixados em Pavel com gravidade. - ---É um socialista, mas não tem nada de tolo! disse um. - ---É um revolucionario! accudiu outro. - ---Fala com tezura! afirmou um operario, forte e vesgo, dando um -empurrão em Pélagué. - ---Companheiros! Chegou o momento de resistirmos á força ávida que vive -do nosso trabalho; chegou o momento de nos defendermos. Deve cada qual -compreender que ninguem virá em nosso auxilio, se não nós mesmos. Um -por todos, todos por um--deverá ser a nossa lei, se quizermos vencer o -inimigo. - ---Elle diz a verdade, irmãos! exclamou Makhotine. Escutem a verdade! - -E com um gesto largo, ergueu o punho cerrado. - ---É indispensavel mandar chamar o director, immediatamente! continuou -Pavel. É preciso perguntar-lhe... - -De subito, dir-se-ia que um furacão caíra sobre todo o povo. Toda -aquella massa de gente ondeou como o oceano sob uma rajada; dezenas de -vozes berraram a um tempo: - ---Venha o director! - ---Elle que s’explique! - ---Vão buscal-o! - ---Mandemos-lhe delegados! - ---Não! - -Tendo conseguido chegar á frente, Pélagué olhava para o filho, -sentindo-se dominada por elle. Estava replecta de orgulho: o seu Pavel, -no meio dos velhos operarios mais queridos, sendo escutado e apoiado -por toda a gente!... Admirava o seu sangue-frio, a sua simplicidade e o -seu falar sem fastio e sem pragas, como era o dos outros. - -As exclamações, os gritos de revolta, as invectivas choviam como -saraivada grossa em telhados de zinco. Pavel encarava na multidão, e -parecia procurar o que quer que fosse entre os grupos. - ---Delegados! - ---Fale o Sizof! - ---O Vlassof! - ---O Rybine, que tem uns dentes terriveis! - -Afinal, escolheram Pavel, Sizof e Rybine para parlamentarios, e -iam mandar chamar o director, quando de chofre se ouviram algumas -hesitantes exclamações: - ---Vem ahi, sem ser chamado... - ---O director... - ---Ah!... Ah!... - -A multidão abriu caminho a um figurão alto, sêcco, de rosto comprido, e -barba em bico. - ---Com licença! dizia, afastando o povo com um movimento ligeiro, mas -sem lhe tocar. Tinha os olhos semi-cerrados, e, como experiente em -lidar com os homens, ia observando as fisionomias dos operarios. - -Estes inclinavam-se, tiravam o boné, cumprimentando-o. Elle não -respondia a estas demonstrações de respeito, semeava o silencio e o -constrangimento por onde ia passando; sentia-se já, sob os sorrisos -contrafeitos e o tom abafado das palavras, o como arrependimento da -creança, conscia de ter feito uma tolice. - -O director passou em frente de Pélagué, lançou-lhe um olhar severo e -parou junto do montão de ferragem. De cima, alguem estendeu-lhe a mão: -não a acceitou. Com um movimento vigoroso e agil, subiu, ficou á frente -e perguntou em tom frio e auctoritario: - ---Que significa esta reunião? Porque abandonaram o trabalho? - -O silencio foi completo por alguns instantes. As cabeças dos operarios -balouçavam como espigas. Sizof agitou o boné, encolheu os hombros e -baixou a cabeça. - ---Respondam! berrou o director. - -Pavel abeirou-se a elle e disse-lhe em voz alta, apontando para Sizof e -Rybine: - ---Nós trez fômos encarregados pelos nossos companheiros de exigir que -reconsiderasse na sua resolução relativamente ao desconto do kopeck. - ---Porquê? perguntou o director sem olhar para Pavel. - ---Porque reputamos injusto este imposto! replicou com voz sonora. - ---Portanto, não vêem no meu projecto senão o desejo de explorar os -operarios, e não o cuidado de melhorar a sua existencia, não é verdade? - ---Exacto! - ---E o sr. tambem? perguntou, dirigindo-se a Rybine. - ---Somos todos da mesma opinião. - ---E o sr.? perguntou ainda, voltando-se para Sizof. - ---Eu cá... tambem lhe peço que não nos tire o nosso kopeck. - -Depois, baixando outra vez a cabeça, Sizof sorriu contrafeito. - -O director passou vagarosamente o olhar pela multidão e encolheu os -hombros. Em seguida olhou perscrutadoramente para Pavel, e disse: - ---O sr. é, segundo creio, um homem instruido. Não compreende todas as -vantagens da minha medida? - -Pavel respondeu distinctamente: - ---Ninguem deixaria de compreendel-as, se a fabrica exgotasse o pantano -á sua custa. - ---A fabrica não trata de filantropias! replicou. Ordeno-lhes, a todos, -que voltem immediatamente para o trabalho. - -E preparou-se para descer, tateando cautelosamente os ferros com a -ponta da bota, sem olhar para ninguem. - -Ouviu-se um rumor de desapprovação. - ---Que é isso? perguntou o director, parando. - -Calaram-se todos; apenas, a distancia, replicou uma unica voz: - ---Trabalha, tu! - ---Se dentro de um quarto d’hora não voltarem para o trabalho, -multal-os-ei, a todos! declarou seccamente. - -E seguiu o seu caminho por entre a multidão, emquanto atraz d’elle se -ia levantando um surdo murmurio. Quanto mais elle se afastava, mais o -ruido se tornava intenso. - ---Vão lá falar-lhe! - ---São então estes os nossos direitos! Estupor de sorte! - -Dirigiam-se a Pavel, gritando: - ---Olá! jurisconsulto! que devemos fazer agora? - ---Emquanto se tratou de falar, falaste; mas elle appareceu e mudaram os -ventos! - ---Então, Vlassof! O que fazemos? - -As perguntas eram cada vez mais insistentes. Pavel respondeu emfim: - ---Companheiros, proponho que abandoneis o trabalho até que o director -renuncie ao injusto desconto. - -Ergueram-se logo frases irritadas: - ---Julgas que somos parvos? - ---É o que se deve fazer! - ---A gréve?! - ---Por causa de um kopeck?! - ---Pois façamos gréve! - ---Vamos todos para o olho da rua! - ---E quem trabalharia? - ---Encontrariam outros operarios! - ---Onde? Traidores?! - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[1] _Kopeck_, moeda de cobre, a centesima parte do rublo. O seu valor -approximado é de cinco réis. - - - - -XIII - - -Pavel desceu e collocou-se ao lado da mãe. Em volta delles, todos -começaram a falar ruidosamente, a discutir, a agitarem-se, gritando. - ---Não se fará a gréve! disse Rybine approximando-se de Pavel: o povo -embora seja sovina em se tratando de dinheiro, é muito poltrão. Não -encontrarás mais de trezentos que tenham opinião igual á tua. Não se -pode revolver semelhante esterco só com uma forquilha. - -Pavel ficou silencioso. Perante elle, a multidão com a sua enorme -cara negra movia-se e observava-o como se elle lhe tivesse feito uma -exigencia. O seu coração pulsava violento. Parecia-lhe que as suas -palavras tinham desapparecido, sem deixarem vestigios naquelles homens, -taes como gottas de chuva tenue, esparsas em terreno gretado por uma -longa estiagem. Uns após outros, os operarios approximaram-se d’elle, -felicitaram-no pelo seu discurso, mas duvidavam do exito da gréve, e -lamentavam que o povo não compreendesse nem a sua força nem os seus -interesses. - -O sentimento de desillusão apoderava-se de Pavel, que tambem já não -acreditava na sua força. Doía-lhe a cabeça, sentia-se como vasio! -D’antes, nos momentos em que elle fantasiava o triunfo da verdade -que tão querida lhe era, o enthusiasmo de que se enchia o seu coração -dava-lhe vontade de chorar. E agora, tendo exprimido a sua fé diante do -povo, apparecera-lhe mais pálida, impotente, incapaz de tocar no que -quer que fosse. Accusava-se, a si proprio; tinha a impressão de haver -adornado o seu sonho com vestimentas informes, sombrias, e miseras, e -que por isto ninguem lhe descobrira a belleza. - -Voltou para casa triste e fatigado. A mãe e Sizof seguiam-no. - ---Falas bem, dizia Rybine, mas não chegas ao coração. É o que é! -Precisa-se lançar a faísca até ao fundo dos corações. Não será pela -razão que os captarás. É calçado muito fino e muito apertado para o -povo; não lhe serve nos pés. E ainda que servisse, o sapato ficaria -acalcanhado em pouco tempo! - -Sizof dizia a Pélagué: - ---Chegou o momento de nós, os velhos, irmos a caminho do cemiterio! -Levanta-se um povo novo. Como temos vivido? Arrastando-nos de joelhos, -constantemente curvados para a terra. E hoje não se sabe ao certo se -ha consciencia do que se faz ou se o caminho novo é mais errado do que -o nosso... Em todo o caso, os de hoje não se parecem comnosco. Vejam -lá: os novos falando ao director como de igual para igual!... Ah! se -o meu filho fosse vivo!... Até á vista, Pavel Mikhaílovitch... És um -bello rapaz, tomas a defesa do povo... Queira Deus que encontres o bom -caminho, a bôa saída... Deus queira! - -E foi-se. - ---Pois! que todos morram! resmungou Rybine. Já agora, não sois homens, -sois uma argamassa, bôa apenas para tapar as fendas das paredes! -Reparaste, Pavel, nos que mais gritaram para que tu fosses designado -como nosso delegado? Eram os que dizem que tu és um revolucionario, um -perturbador. Ora ahi tens! Pensaram que serias expulso da fabrica; era -isto o que elles queriam. - ---Sob o seu ponto de vista, teem razão. - ---Os lobos tambem teem as suas razões quando se despedaçam uns aos -outros. - -Rybine estava rabugento, a voz tremia-lhe. - ---Os homens não teem confiança na palavra nua e crua... É preciso -mergulhal-a no sangue... - -Durante o dia todo, Pavel sentiu-se desgraçado, como se tivesse perdido -alguma coisa e presentisse a sua propria perda sem compreender no que -ella consistiria. - -De noite, quando a mãe já dormia e elle ainda estava lendo na cama, a -policia voltou para revolver raivosamente em toda a casa, no pateo e no -sotão. O official amarellento portou-se, como da primeira vez, d’uma -maneira impliquenta e offensiva, sentindo prazer em melindrar Pavel e a -mãe. Assentada a um canto, Pélagué mantinha-se em silencio, com o olhar -fixo no rosto do filho. Este tentava occultar a perturbação, mas quando -o official ria, os dedos do rapaz tinham movimentos não vulgares; a -mãe percebia quanto elle estava soffrendo por não poder responder á -letra aos gracejos do officialsito. Sentia-se menos assustada do que -na primeira busca, mas era maior o seu odio por aquelles visitantes -nouturnos, vestidos de cinzento, de esporas tintilantes. - -Pavel conseguiu dizer-lhe baixinho: - ---Vão levar-me. - -Baixando a cabeça ella respondeu: - ---Percebo... - -Compreendia: iam mettel-o na cadeia pelas frases que elle dirigira aos -operarios. Mas estes tinham-nas apoiado, e todos iriam tomar a defeza -de Pavel, que só por pouco tempo ficaria preso. - -Tinha vontade de chorar, de abraçar o filho; mas ao seu lado o -official observava-a com olhar malevolo, os labios tremiam-lhe assim -como o bigode, e Pélagué sentiu que aquelle homem esperava com alegria -que ella se desfizesse em lagrimas, em supplicas, em lamentações. -Reunindo todas as suas forças, falando o menos possivel, apertou a mão -do filho e disse em voz baixa, retendo a respiração: - ---Até á vista, Pavel. Levas comtigo tudo que precisas? - ---Levo. Não te dê cuidado. - ---O Senhor vá comtigo. - -Quando o levaram, a mãe deixou-se caír n’um banco e soluçou docemente -com as palpebras abaixadas. Encostada á parede, como seu marido fazia -outrora, torturada pela angustia e pelo sentimento da sua impotencia -em semelhante transe, chorou durante muito tempo, fazendo passar ás -lagrimas a dôr do seu coração ferido. Via na sua frente, como se fosse -uma mancha immovel, uma fisionomia amarella, de bigode delgado, olhos -semi-cerrados, aspecto feliz. No seu peito contorciam-se, como em negro -torvelinho, o desespero e a colera contra quem roubava um filho a sua -mãe, só porque elle procurava a verdade. - -Estava frio: as gottas de chuva batiam nas vidraças, ao longo das -paredes deslisava o que quer que fosse; dir-se-ia que nas trevas, -silhuetas pardas, de grandes caras sem olhos, e de braços compridos, -rondavam, espiando. E as suas esporas tintilavam fracamente. - ---Seria melhor que me tivessem levado tambem! pensou. - -O apito da fabrica vibrou, na sua ordem de começar o trabalho. -N’aquella manhã, foi um apito vago, e hesitante. A porta abriu-se, -Rybine entrou. Approximou-se de Pélagué, e limpando as gottas de chuva -que se lhe haviam espalhado pela barba: - ---Levaram-no? - ---Sim. Malditos! - ---Bonita coisa! A mim, revistaram-me, rebuscaram tudo... -Injuriaram-me... mas afinal não me prenderam. Com que então, levaram o -Pavel?! O director deu o signal, a policia obedeceu, e aqui está como -se prende um homem! Entendem-se bem uns aos outros, como os gatunos nas -feiras. Uns encarregam-se de ordenhar o povo, emquanto outros o seguram -pelo focinho. - ---Devem tomar a defeza do Pavel! exclamou ella, erguendo-se. Foi por -causa de todos que elle se comprometteu. - ---Mas quem deve tomar essa defeza? - ---Todos vós! - ---Que idéa! Não conte com isso! Foram precisos milhares de annos para -reunir a sua força. Cravaram-nos um sem numero de pregos no coração... -Como seria possivel ajuntarem-nos de subito? Necessitamos primeiro de -arrancar os nossos espinhos de ferro... São estes espinhos que impedem -os nossos corações de reunirem-se n’uma massa compacta. - -E com um risinho, foi-se lentamente. As suas palavras crueis e -desesperadas tinham augmentado o desgosto de Pélagué. - ---Podem matal-o, tortural-o... - -E imaginou o corpo do filho crivado de pancadas, despedaçado, -ensanguentado; e, como uma camada d’argila gelada, suffocava-a o medo -caído no seu coração. A luz fazia-lhe mal aos olhos. - -Não accendeu o fogão, não preparou o jantar, não tomou o chá; só muito -tarde, á noite, comeu um pouco de pão. Quando se deitou, reconheceu -que nunca na sua vida se sentira tão humilhada, tão isolada, como nua. -Nos ultimos annos, acostumara-se a viver na constante espectativa do -que quer que fosse importante, feliz. Em torno d’ella, a gente nova -movia-se, ruidosa e decidida, dominada pelo seu filho de rosto grave, -seu filho, o senhor e o creador d’aquella vida cheia d’inquietação, mas -bôa. E n’aquelle momento em que já não o via, tudo tinha desapparecido. - - - - -XIV - - -O dia decorreu lentamente, seguido de uma noite sem somno. O dia -seguinte pareceu-lhe ainda mais comprido. Esperava não sabia o quê, mas -ninguem veio. Caíu a tarde, depois a noite. A chuva glacial tombava -roçando pelas paredes, o vento soprava pela chaminé, o madeiramento -da casa rangia. Ouvia-se apenas a melodia melancólica e dolorosa das -gottas d’agua caíndo do telhado, como lagrimas. Parecia que toda a casa -vacilava e que uma surda angustia gelava o ambiente. - -Bateram de manso á vidraça. Pélagué estava acostumada a este -signal; não se assustou; estremeceu como se lhe tivessem despertado -bondosamente, o coração. Vaga esperança fêl-a levantar-se de prompto. -Atirando um chale para os hombros, abriu a porta. Samoílof entrou, -seguido d’outra pessoa que occultava a cara na gola erguida da capa; -tinha o boné descaído para os olhos. - ---Viemos accordal-a? perguntou Samoílof sem mais cumprimentos. - -Fóra do costume, o seu ar não era tranquillo. - ---Não; eu não estava a dormir. - -E olhou inquiridoramente para os recemchegados. - -Com um suspiro abafado e profundo, o companheiro de Samoílof tirou o -boné e estendeu a Pélagué a mão forte e de dedos grossos. - ---Bôa noite, mãesinha! Não me reconheceu? disse-lhe amigavelmente como -a um velho conhecimento. - ---Ora?! exclamou ella com alegria. Iégor Ivanovitch! o sr.?! - ---Eu, sim! - -Tinha o cabello comprido como um menino de côro. Illuminava-lhe a -fisionomia um sorriso de bondade; os seus olhitos pardos fitavam-se em -Pélagué com expressão carinhosa. Assemelhava-se a um samovar no seu -corpito redondo, no pescoço grosso e nos braços curtos. A pelle da cara -reluzia; no seu peito parecia pesar e rostilhar alguma coisa... - ---Vão para aquelle quarto; eu vou vestir-me! propôz ella. - ---Temos que dizer-lhe! respondeu Samoílof, preoccupado e olhando-a de -soslaio. - -Iégor passou para a divisão do lado, dizendo: - ---Mãesinha, esta manhã um dos nossos amigos saíu da cadeia, onde esteve -trez mezes e onze dias. Viu por lá o russo-menor e Pavel que lhe envia -muitas recommendações; o seu filho pede-lhe que não se apoquente por -causa d’elle, e manda-lhe dizer que no caminho que elle escolheu, a -cadeia é o logar que serve para o descanço; assim o resolveram as -nossas auctoridades sempre interessadas pelo nosso bem-estar... Vamos -agora ao que importa: Sabe quantas pessoas foram presas hontem? - ---Não. Pavel não foi o unico? - ---Foi o quadragesimo nono... declarou Iégor tranquillamente. E -espera-se que ainda sejam presos uns dez... Entre outros este -cavalheiro aqui presente. - ---Eu mesmo! disse Samoílof, sombrio. - -Pélagué respirava mais facilmente. - ---Não está então sosinho!... - -Quando acabou de vestir-se, passou ao outro quarto, sorrindo, bem -disposta. - ---Não os conservarão presos por muito tempo se elles são muitos. - ---Diz bem! E se conseguirmos torcer o jogo dos nossos adversarios, não -terão adiantado mais do que d’antes. Se deixarmos de propagar agora os -nossos folhetos, os patifes da policia notarão o caso, e perceberão -que a propaganda era feita pelo Pavel e pelos companheiros, agora seus -companheiros na cadeia. - ---Como? não percebo... - ---Nada mais simples, mãesinha. Ás vezes a gente da policia chega a -raciocinar com acerto... Repare: emquanto o Pavel era livre appareciam -os folhetos; mettido na cadeia, desappareceram. Logo era elle quem os -espalhava. - ---Percebo!... murmurou ella tristemente. Que fazer? Ah! Deus do ceo! - -A voz de Samoílof veiu da cosinha: - ---Diabos me levem! Prenderam quasi todos os nossos! É preciso continuar -a trabalhar como d’antes, não só pela nossa causa, mas tambem para -salvar os companheiros. - ---E ninguem para trabalhar!... suspirou Iégor. Temos folhetos -magnificos... Fui eu mesmo que os fiz. Mas como introduzil-os na -fabrica? Eu cá não sei: - ---Agora, toda a gente é revistada á entrada... explicou Samoílof. - -Pélagué adivinhava que lhe queriam alguma coisa. - ---Então que fazer? perguntou vivamente. - -Samoílof parou e perguntou: - ---Pélagué Nilovna, conhece a vendedeira Korsounova? - ---Conheço. Porquê? - ---Fale-lhe. Talvez que ella se encarregue dos nossos folhetos. - -Ella ergueu logo o braço n’um movimento negativo: - ---Ah! não! É uma tagarella! Não! Saber-se-ia logo que fui eu... que foi -coisa vinda da nossa casa... Não! - -E de subito, illuminada por uma idéa repentina, exclamou com alegria: - ---Dêem-me os folhetos! Dêem-mos! Eu acharei um meio... Deixem isso por -minha conta! Pedirei á Maria que me tome ao seu serviço. Tenho que -trabalhar, se quizer comer. Levarei tambem os jantares á fabrica, aos -operarios... Deixem isso por minha conta. - -Com as mãos unidas no peito, affirmava que saberia proceder sem que a -descobrissem, e concluiu com uma exclamação triunfante: - ---Ah! Hão de ver que mesmo com Pavel na cadeia, a sua mão os attinge! - -Todos trez se sentiam de novo animosos. Iégor sorria, esfregando -rapidamente as mãos, dizendo: - ---Bravo, mãesinha! Se soubesse como isso lhe fica bem! como é para -enthusiasmar! - ---Se fôr bem succedida, sentir-me-ei tão feliz na cadeia como se -estivesse sentado n’uma cadeira estofada! declarou Samoílof, rindo: - ---É um thesouro, mãesinha! exclamou Iégor roufenhamente. - -Pélagué sorriu. Era simples: se conseguisse introduzir na fabrica os -folhetos, diriam que não era Pavel quem os distribuia. Sentindo-se -capaz de desempenhar-se de tal compromisso, Pélagué estremecia jubilosa. - ---Quando fôr visitar o Pavel, diga-lhe que elle tem uma boa mãe! - ---Hei de vêl-o mesmo antes do dia da visita! prometteu Samoílof, -sorrindo. - ---Diga-lhe abertamente que hei de fazer quanto fôr necessario. Que elle -o fique sabendo! - ---E se o Samoílof não fôr preso, como ha de sabel-o o Pavel? perguntou -Iégor. - ---Paciencia! Temos que nos resignar! - -E ambos entraram de rir. Quando ella compreendeu a sua tolice, riu -tambem, mas um tanto contrafeita. - ---Quando olhamos para os nossos, não vemos bem os que lhe ficam por -detraz... murmurou ella, a justificar-se. - ---É natural! concordou Iégor. A proposito de Pavel: não se inquiete nem -se entristeça. Ha de saír da cadeia ainda melhor do que quando para lá -entrou. Por lá descansa-se, ha tempo para adquirir instrucção, o que -não nos acontece quando estamos á solta. Estive preso tres vezes, sem -grande vontade, mas o meu coração e a minha razão aproveitaram sempre... - ---Custa-lhe respirar... disse Pélagué olhando para elle affectuosamente. - ---Por motivos especiaes... respondeu levantando um dedo para o ar. - ---Portanto, está combinado, mãesinha. Ámanhã trazemos-lhe o que sabe, e -outra vez entrará em movimento a roda que aniquila as trevas seculares. -Viva a liberdade da palavra, mãesinha! e viva o coração materno! Até -ámanhã! - ---Até ámanhã! disse tambem Samoílof apertando com força a mão de -Pélagué. Eu não posso dizer palavra d’isso tudo á minha mãe. - -Quando elles saíram, Pélagué fechou a porta e ajoelhando-se no meio do -quarto, pôz-se a resar, ao ruido da chuva. Rezou sem soltar dos labios -uma só palavra; era como um pensamento muito longo e intenso; rezou -por todos aquelles que Pavel associára á sua vida. Via os passar entre -ella e as imagens dos santos; eram simples, tão extraordinariamente -approximados uns dos outros, e tão isolados na vida. - -Logo muito cedo, foi a casa de Maria Korsounova. - -A ruidosa vendedeira, com o fato engordurado como sempre, acolheu-a -compassivamente: - ---Aborreces-te? perguntou, batendo-lhe com a mão no hombro. Consola-te! -Agarraram-no, levaram-no? Grande coisa! Que mal ha n’isso? D’antes -mettiam uma pessôa na cadeia, quando roubava; agora é quando se diz -a verdade. Pavel disse naturalmente coisas que não se devem dizer. -Mas foi para defender os companheiros, e isto toda a gente o percebe. -Não tenhas medo. Todos sabem que elle é um bello rapaz... embora não -o digam. Eu queria ir a tua casa, mas não tive tempo. Estou sempre a -cosinhar, esgótto o meu artigo, e afinal estou certa de que virei a -morrer pobre. Os amantes arruinam-me! os sacripantas! Comem! comem!... -parecem baratas a devorar um pão. Apenas tenho uns dez rublos, -apparece-me um d’esses hereticos e rouba-mos! É isto! Má coisa ser -mulher! que estupida vida! É difficil viver só, e ainda mais viver -acompanhada! - ---Pois olha eu vim pedir-te que me acceites como ajudante... disse -Pélagué, pondo um dique á catadupa das palavras. - ---O quê?! - -Mas quando a sua amiga lhe expoz todo o seu pensamento, meneou a cabeça -em signal de approvação. - ---Está dito. Lembras-te quantas vezes me déste esconderijo quando o -meu marido andava á minha procura? Pois serei eu agora que te furtarei -á miseria. Cada qual deve correr em teu auxilio porque o teu filho -está soffrendo por causa de todos. É um bom rapaz! toda a gente o -diz; e todos o lastimam. Eu, cá por mim, penso que estas prisões não -trazem nenhum bem á fabrica. Se soubesses o que por lá se diz!... Os -chefes imaginam que não ha de ir longe o homem que elles morderam no -calcanhar. Mas por cada um que elles atacam, ha cem que se revoltam. -Deve-se ter cuidado quando se quizer tocar no povo, porque elle vae -aturando por muito tempo, mas, n’um bello dia, estoira! - - - - -XV - - -Os operarios logo notaram a velha. Alguns dirigiram-se a ella -amigavelmente: - ---Encontraste trabalho, Pélagué? - -E consolavam-na, affirmando-lhe que Pavel seria posto em liberdade -dentro em breve, pois tinha este direito. Outros commoviam o seu -coração dolorido com prudentes palavras de compaixão; outros ainda -invectivavam abertamente o director e a policia e despertavam n’ella um -ecco sincero. Havia tambem quem para ella olhasse com certa satisfação -malevola; Isaías Gorbof, operario apontador, disse por entre dentes: - ---Se eu governasse, mandava enforcar o teu filho, para lhe ensinar a -não desnortear o povo. - -Estas palavras gelaram-na mortalmente. Não respondeu, lançou apenas um -olhar áquelle rosto coberto de sardas, e baixou a fronte, suspirando. - -Percebia que havia no ar certa agitação; os operarios ajuntavam-se -em pequenos grupos, discutiam a meia voz, mas animadamente; os -contramestres, desconfiados, rondavam por toda a parte; de vez em -quando, ouviam-se invectivas, risos irritados. - -Viu então dois guardas da policia levarem Samoílof. Uns cem operarios -seguiram-no, injuriando ou troçando dos guardas. - ---Vaes dar um passeio, amigo? gritou alguem. - ---Honra seja ao nosso companheiro! disse outro. Dão-lhe uma escolta!... - -E resoou uma saraivada de pragas. - ---Ao que parece, é menos rendoso agarrar os ladrões! berrou muito -irritado o vesgo. Mettem-se com a gente de bem! - ---Se ao menos, isto fosse de noite! Mas qual! Esta canalha não tem -vergonha da luz do dia! - -Os guardas iam andando depressa e com ar carrancudo, buscando não verem -nada, nem ouvirem os insultos que de toda a parte lhes atiravam. Trez -operarios avançaram para elles, com uma barra de ferro, gritando: - ---Cuidado, peccadores! - -Quando passou diante de Pélagué, Samoílof abanou a cabeça, rindo e -dizendo: - ---Vão arrastando um humilde servo de Deus!... - -Ella ficou silenciosa e curvou-se profundamente commovida pelo -espectaculo d’aquelles rapazes honrados, intelligentes e modestos que -iam para a cadeia com o sorriso nos labios. Sem dar por tal, começava -a consagrar-lhes um compadecido amor de mãe. E era-lhe agradavel ouvir -as frases de censura para os directores, porque n’ellas sentia a -influencia do filho. - -Quando saíu da fabrica, passou o dia em casa de Maria, ajudando-a, -dando attenção á sua tagarellice. Só tarde voltou para a sua casa -vasia, fria, hostil. Por muito tempo vagueou de um canto para o outro, -sem saber que fazer nem onde sentar-se. Estava inquieta vendo que Iégor -ainda não viéra, como promettera. - -Lá fóra, caíam pesados flócos pardos d’uma neve de outomno. Collavam-se -aos vidros, deslisavam sem ruido e derretiam-se deixando rastos -humidos. Pélagué pensava em Pavel. - -Porque batessem cautelosamente á porta, accorreu logo a puxar pelo -ferrolho: era Sachenka. Pélagué não a via desde muito tempo; chamou-lhe -logo a attenção a gordura da rapariga. - ---Bôa noite! Tem estado muito longe d’aqui? - ---Não. Na cadeia! respondeu, sorrindo. Ao mesmo tempo com o Nicolao -Ivanovitch. Lembra-se d’elle? - ---Como havia d’esquecel-o? O Iégor disse-me que o tinham posto em -liberdade, mas de si não me falou, nem elle, nem ninguem. - ---E para que serviria isso? Deixe-me despir antes que o Iégor venha. - ---Está toda molhada! - ---Trouxe os folhetos... - ---Dê cá! dê cá! - ---Prompto! - -Entreabriu a capa, saccudiu-a e logo caíram no chão pacotes de folhetos. - -Pélagué apanhava-os, rindo. - ---E eu, que ao vêl-a tão roliça, imaginei que tivesse casado e -esperasse um menino! Ah! mas que quantidade que trouxe! E veio a pé? - ---Vim. - -A rapariga estava outra vez magra e esbelta. Pélagué notou-lhe até as -faces um tanto encovadas, e que os olhos bem rasgados eram assombreados -por fundas olheiras. - ---Pozeram-na na rua, e em logar de ir repoisar, faz uma caminhada de -sete kilometros com tudo isto em cima de si!... - ---Assim era preciso. Diga-me: como está o Pavel Mikaílovitch? Não lhe -custou muito?... - -Falava sem olhar para Pélagué, abaixando a cabeça para arranjar o -cabello com os dedos tremulos. - ---Não! respondeu Pélagué. Oh! Aquelle não se traírá! - ---Tem uma saude de ferro, não é verdade? perguntou ainda em voz baixa e -ligeiramente tremelitante. - ---Nunca esteve doente. Mas como está tremendo!... Espere; vou tratar do -chá; tambem tenho uma compota de framboezas... - ---Não será máo! disse Sachenka com um leve sorriso. Mas para que ha-de -ter esse trabalho? É tarde; deixe que seja eu quem faça o chá. - ---Mas está tão fatigada!... replicou em tom de censura; e pôz-se a -accender o samovar. - -Sachenka seguiu-a até á cosinha, sentou-se n’um banco e enclavinhando -os dedos em cima da cabeça: - ---Estou fatigada, estou. Apezar de tudo, a prisão esgota. Que maldita -inacção! Não ha coisa mais penosa! Fica-se para ali uma semana, um mez, -sem nada que fazer... Ha quem conte comnosco para receber instrucção, -sabemos que podemos dar-lha... e vemo-nos metidos n’uma jaula como -animaes ferozes!... É de resequir o coração! - ---E quem vos recompensará?... suspirou Pélagué. Mas logo accrescentou: -Ninguem, se não Deus! Tambem... a sr.ᵃ não acredita n’elle, -naturalmente... - ---Não! - ---E eu não acredito em si nem nos outros! exclamou, animando-se de -subito. - -Alimpando ao avental as mãos sujas de carvão, continuou com convicção -profunda: - ---Não compreendeis a nossa crença... Como pode alguem dedicar-se a -semelhante vida sem acreditar em Deus? - -Sob o telheiro ouviram-se passos e o resmungar d’alguem. Pélagué -estremeceu; a rapariga poz-se logo de pé e disse baixinho: - ---Não abra! Se fôr a policia, diga que não me conhece... que bati a -esta porta por engano... que entrei aqui por acaso, que desmaiei e que -a sr.ᵃ me despiu para pôr-me á vontade, encontrando então em mim os -folhetos. Percebe? - ---E para que hei de dizer isso? perguntou enternecida. - ---Espere!... Parece-me que é o Iégor... - -Era elle, a escorrer agua, estafado. - ---Ah! o samovar está prompto!... exclamou. É o que ha de melhor n’este -mundo, mãesinha! Já cá está, Sachenka? - -Enchia a cosinha com os sons gutturaes da sua voz; tirou vagarosamente -o casacão e continuou: - ---Ora ahi tem, mãesinha, uma rapariga muito desagradavel para as -auctoridades! Como um dos carcereiros a tivesse insultado, declarou -terminantemente que se deixaria morrer de fome, se elle não lhe pedisse -desculpa. E durante oito dias não comeu coisa alguma, estando em riscos -de abalar d’esta para melhor. É bonito, não acha? E o que me diz á -minha barriguinha? - -Saccudiu o ventre postiço, feito de massos de folhetos e passou ao -quarto, fechando a porta. - ---O quê? Pois esteve oito dias sem comer? perguntou Pélagué, admirada. - ---Se era indispensavel que elle me pedisse desculpa!... respondeu, com -uma tremura d’hombros friorenta. - -Esta tranquillidade e esta obstinação austeras levaram ao animo de -Pélagué o que quer que fosse semelhante a uma censura. «Ah! é assim, é -assim!...» pensou. - -E perguntou ainda: - ---E se tivesse morrido? - ---Estaria morta, naturalmente. Afinal, o homem acabou por pedir -desculpa. Ninguem deve perdoar os ultrajes. - ---Sim... Mas nós, as mulheres, somos ultrajadas durante toda a nossa -vida... - ---Prompto! Já larguei a carga! informou Iégor, apparecendo. O samovar -está prompto? Se me dá licença... - -Pegou n’elle e passando-o para o quarto: - ---O meu papá bebia pelo menos vinte copos de chá por dia; por isso -passou n’este mundo setenta e trez annos socegadamente e sem nunca -estar doente. Pesava mais de cem kilos e era sacristão da aldeia de -Vosskressensky... - ---É filho do tio Ivan? perguntou Pélagué. - ---Sim, sr.ᵃ. Como o sabe? - ---É que eu tambem sou de Vosskressensky! - ---Então somos da mesma terra! Que nome era o seu, em rapariga? - ---Séréguine... Eramos visinhos... - ---É a filha do Nile, o côxo? Não conheci eu outro figurão! Quantas -vezes elle me puxou as orelhas! - -Estavam de pé e riam no meio das perguntas. Sachenka olhando para elle -a sorrir, ia preparando o chá. O ruido da loiça chamou Pélagué aos seus -deveres. - ---Desculpem. Começo o tagarellar e esqueço-os. É tão agradavel -encontrar um patricio... - ---Eu é que peço desculpa de me servir primeiro... disse Sachenka. Mas -já são onze horas e ainda tenho muito que andar. - ---Para ir para onde? para a cidade?! - ---Sim, para a cidade. - ---Mas chove, é noite, está cansada. Deixe-se ficar. O Iégor dorme na -cosinha, e nós, as duas, aqui. - ---Não! Tenho forçosamente que partir. - ---É verdade, patricio: é forçoso que esta menina desappareça. -Conhecem-na por cá. E se ámanhã a vissem na rua, seria mao. - ---E vae-se embora sósinha! - ---Vae! disse Iégor com um risinho. - -A rapariga deitou ainda mais chá, pegou n’um pedaço de pão de centeio, -salgou-o e entrou de comel-o, olhando pensativamente para Pélagué. - ---Admira-me como é capaz de ir sósinha. E a Natacha tambem... Eu cá não -era. Tenho um medo!... - ---Mas olhe que ella tambem tem medo. Não é verdade, Sachenka? - ---É. - -Pélagué lançou-lhe um olhar, murmurando: - ---Como são corajosas! - -Depois de ter tomado o chá, Sachenka apertou a mão a Iégor sem dizer -palavra e passou á cosinha seguida pela velha. - ---Se vir o Pavel, dê-lhe muitas recommendações minhas. - -Tinha já a mão no fecho da porta, quando, voltando-se rapidamente, -perguntou: - ---Deixa-me beijal-a? - -Sem responder, Pélagué abraçou-a effusivamente. - ---Obrigada! disse a rapariga, a meia voz. - -E saíu, meneando a cabeça. - -Ao voltar ao quarto, a velha olhou com anciedade para o lado da -janella. Nas trevas espessas e humidas caíam lentamente flocos de neve -meio derretidos. - -Vermelho e suando, Iégor sentara-se, com as pernas afastadas e soprando -ruidosamente ao chá. Sentia-se satisfeito. - -A velha sentou-se tambem, e olhando tristemente para elle: - ---Pobre Sachenka!... Como chegará ella ao fim do caminho?... - ---Cançada! A cadeia serviu-lhe de provação... Era d’antes mais -robusta... Depois, não foi educada como nós, á bruta... Parece-me que -já tem os pulmões atacados. - ---Quem é ella? - ---Filha d’um proprietario rural. O pae é riquissimo e... canalhissimo. -Naturalmente, mãesinha, já sabe que elles se amam deveras e que querem -casar. - ---Quem? - ---O Pavel e ella. É isto! Mas afinal não o conseguem. Quando elle está -em liberdade, está ella na cadeia, e _vice-versa_. - ---Não sabia, não... Pavel nunca fala da sua pessoa. - -E ainda mais se apiedou da rapariga. - ---O sr. devia tel-a acompanhado! lembrou com certa hostilidade -involuntaria. - ---Impossivel! respondeu tranquillamente. Tenho uma caterva de coisas -que fazer por cá, e para dar conta de tudo hei de andar o dia inteiro. -É uma occupação muito desagradavel quando somos asthmaticos. - ---Que bella rapariga! exclamava, pensando vagamente no que Iégor lhe -dissera. - -Vexava-a ter sabido aquella noticia por outrem e não pelo seu filho; -mordeu os beiços fortemente e abaixou as palpebras. - ---Sim! disse Iégor. Noto que ella lhe causa piedade. Faz mal! se -começa a ter piedade dos revoltados não lhe chega o coração para -todos. Francamente, ninguem tem boa vida... Ha tempos, um dos meus -companheiros regressou do exilio; quando chegou a Nijni, a mulher e o -filho esperavam-no em Smolensk, e quando elle chegou a Smolensk, já -elles estavam presos em Moscou. Agora é a mulher que vae exilada para a -Siberia. Eu tambem tive mulher, tambem, e era uma excellente creatura, -mas cinco annos d’esta vida bastaram para a atirar para a cova. - -Bebeu d’um trago o seu copo de chá e continuou a discorrer. Contou os -annos e mezes que passara preso, e no exilio, as suas catastrophes, -a fome na Siberia, os massacres nas prisões... A velha ouvia-o -attentamente, admirando-se da simplicidade tranquilla com que elle -descrevia aquelle viver cheio de perseguições e de torturas. - ---Bem! Vamos agora ao nosso negocio... - -A voz transformou-se-lhe, a phisionomia tornou-se grave. Perguntou como -imaginava ella poder introduzir na fabrica os folhetos, e Pélagué ficou -surpreendida ao perceber que elle conhecia a fundo todos os meios para -chegar ao desejado fim. - -Depois de combinarem tudo, voltaram a falar da sua aldeia; emquanto -Iégor gracejava, a velha ia percorrendo em pensamento o passado, -que lhe parecia semelhante a um pantano com monotonos monticulos, e -com faias, pinheirinhos e bétulas brancas balouçando mansamente ao -vento nas pequeninas collinas. As bétulas cresciam muito de vagar, e -depois de terem vivido cinco ou seis annos n’aquelle sólo pútrido e -movediço, caíam e decompunham-se... A velha considerava este quadro com -indifinivel e misteriosa magoa. Na sua frente ergueu-se uma silhueta -de rapariga de feições accentuadas e cheias de obstinação. Ia, sob os -flocos de néve, fatigada e solitaria... E o seu filho estava encerrado -n’uma pequena casa, cuja janella tinha grades de ferro... Talvez -áquella hora elle não dormisse; pensava, por certo. Mas não estaria -pensando em sua mãe, porque havia alguem que lhe era mais querido... -Como uma nuvem de variegadas côres e informe, avançavam para ella os -dolorosos pensamentos, invadindo-lhe a alma com violencia. - ---Deve estar cançada, mãesinha! Vamo-nos deitar! disse Iégor, sorrindo. - -Desejou-lhe uma boa noite, e passou á cosinha, caminhando d’esguelha, -com precaução, com o coração cheio de ardente amargura. - -Na manhã seguinte, ao tomar o chá, Iégor disse-lhe: - ---E se a apanharem, e lhe perguntarem onde adquiriu os folhetos, o que -responde? - ---«Isso não é da sua conta!»... Aqui está o que eu respondo. - ---Por esse ajuste é que elles não estão! O importante para elles é isso -mesmo, e sobre o assumpto hão-de interrogal-a demoradamente. - ---Não direi uma palavra! - ---Mettem-na na cadeia! - ---Que m’importa! Graças a Deus, terei ao menos servido para alguma -coisa! A quem faço eu falta? A ninguem. E segundo dizem, já não -torturam os presos... - ---Hum!... Não a torturarão. Mas uma boa mulher como a sr.ᵃ deve ter -cuidado em si. - ---Não me parece que seja comsigo que possam aprender isso. Depois de -ter dado alguns passos, em silencio, Iégor approximou-se d’ella. - ---É custoso, patricia! sinto que ha-de custar-lhe muito! - ---Todos estamos sujeitos!... Talvez seja mais facil para os que teem uma -compreensão clara... Emfim, eu não compreendo bem, mas alguma coisa sei -do que quer a nossa boa gente. - ---E desde que o sabe, mãesinha, é util a todos, a todos! - -Pelo meio-dia, Pélagué, tranquilla e importante, metteu um masso de -folhetos no seio. Vendo a destreza com que ella os occultava, Iégor deu -um estalido com a lingua e exclamou satisfeito: - ---_Sehr gut!_ como dizem os allemães ao esvasiarem um barril de -cerveja. A litteratura não a transformou: continua sendo uma mulher -como se quer! Os deuses protegem a sua empreza! - -Meia hora depois, com o mesmo sangue-frio e acurvada ao peso da comida -que levava para os operarios, Pélagué chegava á porta da fabrica. Dois -guardas, irritados pela troça dos operarios com quem trocavam doestos, -apalpavam sem ceremonias todos os que entravam no pateo. Um agente de -policia passeava não distante d’alli, bem como um homem de olhar vago, -pernas curtas, e cara vermelhaça. A velha observou este, de soslaio, -emquanto passava o fardo para o outro hombro; advinhava que elle era um -espião. - -Um rapagão de cabellos encaracolados, com o boné para a nunca, gritava -aos guardas que o revistavam: - ---Procurem na cabeça e nas algibeiras, seus diabos! - -Um dos guardas respondeu: - ---Não és cara para teres na cabeça o que quer que seja... a não ser -piôlhos! - ---Pois n’esse caso, catem-nos, que é trabalho digno de vós! - -O espião lançou-lhe um máo olhar, e escarrou para o chão. - ---Deixem-me passar! pediu Pélagué. Não vêem que a minha carga é pesada? -Trago o corpo quebrado... - ---Vá! vá! pode passar mas não grite tanto! respondeu o guarda com máo -modo. - -Chegando ao seu logar, Pélagué pôz no chão as panelas da sopa e olhou -em volta, limpando o suor. - -Dois serralheiros, os irmãos Goussef, vieram logo; o mais velho, -Vassili, perguntou-lhe em voz retumbante, franzindo o sobrolho: - ---Temos hoje empadas? - ---Ámanhã! respondeu logo. - -Eram as palavras convencionadas. A fisionomia dos dois homens abriu-se. -Incapaz de subjugar-se, Ivan exclamou: - ---Ah! como tu és bôa! - -Vassili agachou-se, observando uma das panelas, e ao mesmo tempo um -massinho de folhetos deslisou-lhe para o peito. - ---Ó Ivan, para que havemos de ir comer a casa? Jantemos aqui! E metteu -os folhetos nos canos das botas. Deve-se proteger a nova vendedeira. - ---Dizes bem! E desatou a rir. - -Pélagué apregoava de quando em quando, continuando a olhar -prudentemente em volta: - ---Quem quer sopa? aletria quente! carne assada! - -Pouco a pouco, ia tirando do seio mais folhetos, entregando-os -cautelosamente aos dois irmãos. Sempre que isto acontecia, parecia-lhe -ver de subito na frente o rosto do official da guarda, como uma nódoa -amarella, semelhante á luz d’um fósforo n’um quarto escuro. E, em -pensamento, ella atirava-lhe estas palavras, repassadas de satisfação: - ---Chucha, tiosinho! - -E ao passar mais folhetos, pensava ainda: - ---Anda! chucha mais estes! - -Quando os operarios se approximavam, de prato na mão, Ivan Goussef ria -com estrondo; Pélagué suspendia a faina de passar os folhetos, deitava -nos pratos sopa de hervas ou de aletria, emquanto Vassili lhe dirigia -gracejos. - ---Olhem que é muito habil, a tia Pélagué! - ---A miseria até nos ensina a apanhar ratos... disse em tom sorna um -fogueiro. Tiraram-lhe aquelle que lhe dava o pão... Canalhas! Pois -venham de lá tres kopecks d’aletria. Coragem, boa velha! Tudo ha de -acabar em bem! - ---Obrigado por essa consolação! respondeu ella sorrindo. - -Ao que elle retorquiu afastando-se: - ---Não me custa nada!... - ---Mas não vejo a quem ella aproveite! replicou um ferreiro, rindo. - -E acrescentou, encolhendo os hombros: - ---É isto a vida, rapazes! Ninguem a quem dirigir com proveito palavras -de consolação... ninguem é digno d’ellas... não achas? - -Vassili ergueu-se, abotoando cautelosamente o casacão: - ---A comida estava quente, e, apezar d’isto, estou com frio. - -Afastou-se, assim como o irmão, assobiando. - -Pélagué continuava apregoando, sorrindo amavel: - ---Sopa quente! Aletria! Sopa d’hervas! - -Ia pensando em que contaria ao filho a sua primeira experiencia. A -cara amarellenta do official, irritado e estupefacto, apparecia-lhe -constantemente ao espirito; o bigode negro movia-se confusamente, e -sob o labio superior, contraído por uma expressão de colera, brilhava -o marfim dos seus dentes cerrados. Como um passarinho, no coração da -velha adejava e trinava uma alegria intensa. E continuava dizendo em -pensamento: - ---Chucha! chucha ainda mais folhetos!... - - - - -XVI - - -Durante todo o dia um sentimento novo para ella lhe ameigou a alma. -Á noite, concluido o seu trabalho, e quando estava tomando o chá, o -tropel de um cavallo soou sob a janella, e ouviu-se uma voz conhecida. -Pélagué levantou-se, rapida, e correu á cosinha para abrir a porta: -alguem avançava a passos largos. Sentiu-se perturbada, encostou-se ao -umbral e empurrou a porta com o pé. - ---Boa noite, mãesinha! E duas mãos magras e compridas poisaram-lhe nos -hombros. - -Invadiu-a o desgosto da desillusão e ao mesmo tempo a alegria de tornar -a ver o recemchegado, André. E estes dois sentimentos fundiram-se em -immensa onda ardente que a arrebatou, atirando-a de encontro ao peito -do russo-menor. - -Este abraçou-a com força; as mãos tremiam-lhe. Pélagué chorava -brandamente, sem falar emquanto André lhe acariciava os cabellos, -dizendo-lhe com a sua voz sempre cantante: - ---Não chore, mãesinha, não fatigue o seu coração! Dou-lhe a minha -palavra d’honra que em breve elle será posto em liberdade. Não teem -nenhuma prova contra elle, os companheiros não deram com a lingua nos -dentes. - -E envolvendo com os seus grandes braços os hombros de Pélagué levou-a -para a maior divisão da casa; ella apertava-se contra elle com o -movimento rapido e assustadiço d’um esquilo; depois aspirou com -soffreguidão as palavras de André. - ---O Pavel manda-lhe muitas recommendações. Está de saude e satisfeito -quanto é possivel. Na cadeia não se vive á larga. Foram presas mais -de cem pessoas, aqui e na cidade; mettem aos trez e aos quatro em -cada cella. Nada ha a dizer da direcção da cadeia; não são maos; são -apenas coagidos: os diabos da policia dão-lhes tanto que fazer!... Por -consequencia a severidade é pouca. Dizem-nos constantemente: «Estejam -mais socegadinhos, senhores, não nos dêem semsaborias!...» Assim, as -coisas vão ás mil maravilhas. Podiamos falar uns com os outros, trocar -os nossos livros, dividir a nossa comida. Que encantadora cadeia! É -velha e suja, mas suave e levesinha. Os criminosos de direito commum -eram tambem uma boa gente; prestavam-nos muitos serviços. Deram-me a -liberdade e ao Boukine e ainda a mais quatro, porque os logares não -chegavam. E dentro em breve hão de pôr na rua o Pavel. É mais do que -certo. O Vessoftchikof é que ha de ficar por lá mais tempo, porque -estão muito irritados contra elle. Insulta toda a gente, a todo o -momento. Os guardas não o podem ver. Ha de acabar por ser julgado, -se não lhe derem uma sova. O Pavel deligenceia socegal-o: «Cala-te, -Nicolao; para que servem os teus insultos? Não consegues que elles se -façam melhores!» Ao que responde aos berros: «Hei de arrancar da terra -estas chagas!» O Pavel porta-se muito bem: é firme e ao mesmo tempo -commedido com todos. Affianço-lhe que dentro em pouco pôem-no na rua. - ---Dentro em pouco!... repetiu ella, sorrindo. Ah! sim! dentro em pouco! - ---Verá! Vamos ao chásinho! O que tem feito n’estes ultimos tempos? - -André comtemplava-a risonho, muito proximo do coração d’ella. Na -profundeza azul dos seus olhos redondos brilhava uma como estrella de -amor e de tristeza. - ---Quero-lhe muito, André! exclamou com um longo suspiro; e ficou-se -olhando para o rosto magro d’elle, coberto de pellos. - ---Um poucochinho já me bastaria. Sei que me estima, sim. Tem uma grande -alma, pode estimar a todos. - ---Não! Quero-lhe muito em especial. Se o André tivesse mãe, haveriam de -invejar-lhe tal filho. - -Elle meneou a cabeça, esfregou vigorosamente as mãos, e disse a -meia-voz: - ---Eu tambem tenho mãe... tambem... algures... - ---Sabe o que eu fiz hoje? - -E, com a voz tremula pela satisfação, contou vivamente como tinha -conseguido metter os folhetos na fabrica. - -A principio, elle esbogalhou os olhos, surprezo; depois bateu na testa -com o dedo e exclamou, cheio de alegria: - ---Oh! mas isso é serio! o Pavel vae ficar radiante! Muito bem, -mãesinha! Isso é tão util para o Pavel, como para os que foram presos -com elle! - -Fazia estalar os nós dos dedos, satisfeitissimo, assobiava, -balouçava-se na cadeira. A sua alegria eccoava poderosamente na alma de -Pélagué. - ---Meu querido André, quando penso na minha vida!... Ai! Meu Deus! Para -que tenho eu vivido? Para trabalhar e levar pancada! Não via mais -ninguem senão o meu marido; não conhecia mais nada do que o medo. Não -vi como o Pavel cresceu... nem mesmo sei se o amava emquanto o meu -marido era d’este mundo. Todos os meus pensamentos, todos os meus -cuidados, pertenciam a uma coisa unica: alimentar aquelle animal -selvagem, para que andasse satisfeito e cheio, para que não se zangasse -e me poupasse á pancada, uma vez ao menos. Mas não me recordo de que -elle compreendesse isto. Batia-me com tal violencia, que parecia -estar castigando não a sua mulher, mas sim aquella contra quem andava -irritado. Assim vivi vinte annos. Do que fui antes de casar nem já me -lembro. Quando tento recordar-me, nada vejo: é como se estivesse cega. -Com o Iégor Ivanovitch--somos da mesma aldeia--conversei ultimamente -e a respeito d’estes e d’aquelles... recordava-me das casas, revia as -pessoas, mas não me lembrava da maneira como viviam, o que diziam, o -que lhes acontecera. Lembro-me dos incendios, de dois incendios... O -meu marido tanto me bateu, que de mim saccudiu todas as recordações. A -minha alma era hermeticamente fechada; tornou-se depois cega e muda. - -Resfolegou demoradamente, como um peixe fora d’agua; curvou-se para a -frente, e continuou: - ---Quando elle morreu, agarrei-me ao meu filho, que começou a -preoccupar-se com essas coisas... Foi então que tive compaixão d’elle. -«Como hei-de viver sósinha, se elle morrer?» perguntava a mim mesma. -Quantos receios! quantas angustias! O meu coração despedaçava-se, -quando eu pensava na sorte do Pavel! - -Calou-se por instantes, meneou a cabeça, e continuou: - ---É impuro o nosso amor, o das mulheres! Amamos aquillo de que -precisamos... Quando o vejo pensar em sua mãe... Que falta lhe faz -ella? E aquelles que soffrem pelo povo, que são mettidos na cadeia ou -mandados para a Siberia, que morrem ou são enforcados por lá... essas -raparigas que andam sósinhas de noite por cima da neve, da lama, e á -chuva, que andam sete kilometros para virem ver-nos... o que é que as -leva a isto? É o amor, mas um amor puro! Teem a fé... a fé...! Eu não -sei amar assim; amo o que me diz respeito, o que me é próximo!... - ---Tem razão! Todos amam o que lhes fica ao alcance, mas, para uma -grande alma como a sua, do longe faz-se perto. Pode amar muito, porque -tem um grande amor materno. - ---Deus queira! Sinto que ha-de ser bom viver assim. Por exemplo, -estimo-o, André, talvez mais do que o Pavel... Elle é tão reservado! -Olhe: quer casar com a Sachenka e nunca me disse uma palavra, a mim, -sua mãe! - ---Não é verdade! Sei que não é verdade! Ama-a, e ella tambem o ama. -Quanto a casarem, não. Ella quereria, mas o Pavel... - ---Ah!... exclamou ficando a olhar tristemente para André. É isso! -Deve-se renunciar a si mesmo. - ---O Pavel é um homem extraordinario! Um caracter de ferro. - ---E agora... preso! Mas a minha alma transformou-se, abriu os olhos, -vê. Emquanto houver ricos, poderosos, o povo não obterá justiça, nem -alegria, nada! Não é isto, André? - -Elle levantara-se pensativo. - ---É isso mesmo! Havia em Kertch um rapaz judeu que fazia versos, e que -uma vez disse assim: - - Podem assassinar os innocentes, - Que a força da verdade os resuscita! - -Elle mesmo foi assassinado pela policia, em Kertch, mas isso que -importancia teve? Conhecia a verdade e semeára-a no coração dos homens. -Ah! Pélagué! A sr.ᵃ é tambem uma creatura condemnada á morte... -Resuscitou. O poeta sabia o que dizia. - ---Falo, falo, e sinto-me, e não creio nos meus ouvidos. Hoje penso em -todos. Não compreendo talvez muito bem isso em que andam mettidos... -mas todos sinto proximo de mim, e desejo a felicidade de todos, a sua -principalmente, meu André! - -Elle approximou-se dizendo: - ---Obrigado. Não falemos mais de mim. - -E pegando-lhe na mão, apertou-a com força e voltou o rosto para o lado. - -Fatigada pela commoção, Pélagué começou de lavar a loiça vagarosamente, -emquanto o russo-menor, passeando pelo quarto, ia falando. - ---Mãesinha, deve tratar de amansar o Vessoftchikof! o pae está com elle -na mesma cadeia; é um velhote repellente. Quando o filho o vê, pela -janella, insulta-o. Não é bonito! O rapaz é bom, gosta dos cães, dos -ratos, de todos os seres, menos dos homens! Ora veja até que ponto pode -ser corrompida uma alma humana! - ---A mãe desappareceu, sem dar novas nem mandados. O pae é um bêbedo... -disse Pélagué, pensativa. - -Quando André foi deitar-se, fez-lhe no peito o signal da cruz, sem que -elle désse por isso. Meia hora depois, perguntava, baixinho: - ---Já dorme, André? - ---Não. Porque? - ---Nada. Boa noite. - ---Obrigado, obrigado! respondeu, reconhecido. - - - - -XVII - - -Quando no dia seguinte ella chegou á porta da fabrica, carregada com o -seu fardo, os guardas detiveram-na rudemente, mandaram-na pôr no chão -tudo o que trazia e examinaram-na attentamente. - ---Olhem que a sôpa arrefece! disse, tranquilla, emquanto a apalpavam -sem ceremonia. - ---Cala-te! - -O outro disse, dando levemente com o hombro no camarada. - ---Se eu te affirmo que os atiram cá para dentro por cima do muro!... - -O velho Sizof foi o primeiro a approximar-se d’ella, perguntando-lhe em -voz baixa: - ---Ouviste? - ---O quê? - ---Os folhetos tornaram a apparecer. As prisões e as buscas não serviram -para nada. O meu sobrinho Mazine está preso, o teu filho tambem, e -afinal os folhetos continuam a ser distribuidos. - -E concluiu, passando a mão pela barba: - ---O caso não está nas prisões, mas sim nos pensamentos. E os -pensamentos não são coisa que se agarre como quem apanha pulgas. Porque -não vens tu á nossa casa? É aborrecido tomar o chá sósinha. - -Agradeceu. Apregoando sempre, ia activando o movimento cheio de -animação que havia na fabrica. Os operarios pareciam contentes; -formavam-se grupos, as vozes eram excitadas; pairava no ar um como -sopro d’audacia. Ora d’um canto, ora d’outro, partiam exclamações -approvativas, gracejos pesados e até ameaças. A figura avantajada do -Goussef apparecia aqui e ali; o irmão seguia-o, rindo. Um mestre -marceneiro chamado Vavilof e o apontador Isaías passaram diante de -Pélagué sem se apressarem. Este ultimo disse vivamente: - ---Olha, Ivan Ivanovitch: riem, andam satisfeitos, embora o caso possa -trazer a destruição do imperio, como disse o sr. director. O necessario -não é mondar, mas sim semear. - -Vavilof, com os braços cruzados nas costas, apertava fortemente os -dedos. - ---Imprimam tudo o que quizerem, cães do diabo! mas não se mettam em -falar da minha pessoa! - -Vassili Goussef approximou-se de Pélagué. - ---Dá cá de comer. O que tu vendes é bom. - -Depois, baixaram a voz: - --- Vê, mãesinha, que o nosso fim está conseguido! - -Ella disse que sim com a cabeça. Sentia-se feliz por lhe falar em -segredo aquella creatura que tinha tão má fama no bairro; e ao notar a -efervescencia que ia pela fabrica, dizia a si mesma, satisfeita: - ---E pensar que se não fosse eu!... - -Trez operarios pararam perto d’ella; um disse, a meia voz: - ---Não encontrei... - ---Se conseguissemos lêl-o!... Eu nem mesmo sei soletrar; mas percebo -que elle é util. - -O terceiro, olhou em volta, e depois propôz: - ---Vamos para o pé dos fornos de fundição; eu mesmo o leio. - ---Os folhetos vão fazendo o seu effeito!... cochichou Goussef a Pélagué. - -Ella voltou para casa, satisfeitissima, pois tinha visto com os seus -olhos que as proclamações attingiam o fim desejado. - ---Os operarios lamentavam-se de serem ignorantes. Quando eu era -rapariga, sabia ler, mas depois esqueci tudo. - ---É tornar a aprender! disse André. - ---Na minha idade! Isso até dava vontade de rir! - -Mas André pegou n’um livro e perguntou, apontando para uma lettra.: - ---Que é isto? - ---Um R! respondeu, rindo. - ---E isto? - ---Um A. - -E depois de compreender que o sorriso d’elle nada tinha humilhante nem -ironico: - ---Pensa, na verdade, eu instruir-me, André? - ---E porque não? Tentemos. Já que uma vez aprendeu, ser-lhe-á agora -facil. Se o conseguirmos, tanto melhor; se não, paciencia. - -E a lição continuou. - -Dedicando-se com toda a boa vontade; mexendo os sobrolhos, procurava -recordar-se das letras esquecidas; tanto se mergulhára no estudo, que -não se lembrava de nada mais; os seus olhos fatigaram-se dentro em -pouco, e n’elles se accumularam as lagrimas que o cansaço provocava. - ---Aprendo a ler! exclamou, soluçando... na hora em que só devia pensar -na morte. - ---Não chore! Ha milhares de creaturas que podiam instruir-se ainda -mais, e todavia vegetam como brutos, embora se gabem de que vivem -bem... E o que ha na sua existencia que seja bom? Sempre a mesma -vida: trabalhar e comer. De vez em quando, fazem filhos: a principio -acham-lhes graça, mas quando elles começam tambem a comer, entram de -embirrar com elles, e dizem-lhes: «Vejam lá se crescem depressa, seus -comilões, e se começam a trabalhar!» Nunca a sua alma é animada por -uma alegria, por um pensamento que dê jubilo ao coração. Uns mendigam -sempre, como os pobres, os outros fazem-se ladrões. Inventaram-se leis -infames, entregaram a guarda do povo a umas creaturas a quem disseram: -«Obriguem a que respeitem as nossas leis, que nos permittem sugar o -sangue humano.» Se o homem não cede quando o comprimem, mettem-lhe á -força, nos miolos, preceitos que brigam com a razão. - -Encostado á meza, fitava o olhar em Pélagué, continuando: - ---Mas os outros, como o seu filho, são homens que libertam o corpo e o -cerebro. E a mãesinha tambem se consagrou a esse trabalho, dentro das -suas forças. - ---Eu?! - ---Sim. É como a chuva. Cada gotinha vae alimentar um grão de trigo. E -quando souber lêr... - -Levantou-se; e a rir: - ---O Pavel é que ha de ficar espantado, quando voltar!... - ---Ah! meu André! Tudo é facil emquanto se é novo; mas quando se é -velha... - -Á noite, o russo-menor saíu. Pélagué foi fazer meia, mas, de subito, -fechando-se bem por dentro, tirou da estante um livro, encostou-se á -meza, acurvou-se sobre elle, e os seus labios começaram a mover-se... -Quando vinha da rua algum ruido, fechava o livro, a tremer, e punha o -ouvido á escuta. E ficava-se a soletrar, mentalmente: - ---L... A... V... I... A... - - - - -XVIII - - -Bateram á porta. Foi pôr o livro na estante. - ---Quem é? - ---Eu. - -Rybine entrou. Tendo trocado os cumprimentos, alizou a barba -demoradamente, olhou para o quarto, e disse: - ---D’antes deixavas entrar toda a gente, sem perguntares quem era... -Estás sosinha? - ---Estou. - ---Julguei que estivesses com o André. Vi-o hoje. A cadeia não corrompe -o homem. O que corrompe mais do que tudo é a estupidez. - -Passou ao quarto e sentou-se. - ---Venho dizer-te alguma coisa. Tive uma idéa... - -A sua gravidade e o seu ar misterioso sobresaltaram Pélagué, que se -sentara diante d’elle. - ---Tudo custa dinheiro! começou. Ninguem nasce nem morre gratuitamente. -Ora os folhetos tambem custam dinheiro. Sabes d’onde elle vem para -pagar os folhetos? - ---Não sei. - ---Nem eu. Em segundo logar: quem os compõe? - ---Sabios... - ---Gente que está acima de nós. Portanto são os grandes que compõem os -folhetos. Ora se os folhetos são contra elles, que interesse teem elles -em publical-os, gastando para isso o seu dinheiro? - -Pélagué fechou os olhos; e ao reabril-os: - ---O que pensas? Dize! - ---Ah! exclamou, movendo-se na cadeira como um urso. Senti tambem um -calafrio quando me veio este pensamento!... - ---O que ha então? Soubeste alguma coisa? - ---É tudo um embuste! Entendo que é um embuste! Eu compreendo a -verdade, e não quero entender-me com os ricos. Quando precisam de nós, -atiram-nos para a frente, para que os nossos corpos lhes sirvam de -ponte. - -Estas palavras acerbas confrangiam o coração da pobre velha. - ---Ó Senhor! exclamava angustiada. E o Pavel que não compreendeu nada -d’isso? Pois dar-se-á o caso de que todos aquelles, que vinham da -cidade, fossem...? - -As fisionomias graves de Nicolao Ivanovitch, de Iégor, de Sachenka, -appareceram-lhe na frente. - ---Não! não!... Não posso acreditar. São creaturas animadas só pela sua -consciencia, sem más intensões... - ---Não é para esses que devemos olhar, mas para mais alto. Os que -mais se nos approximam sabem naturalmente tanto como nós. Crêem que -procedem bem... amam a verdade. Mas talvez que por de traz d’elles haja -outros que não pensem da mesma maneira. O homem não trabalha contra si -proprio, não tendo para isso fortes razões. - -E accrescentou, com a tacanha certeza do camponio, eivado de uma -incredulidade secular: - ---Das mãos dos grandes e dos illustrados nunca nos virá coisa bôa! - ---O que resolves, então? - ---Que não devemos alliar-nos aos que estão acima de nós! Ora aqui está! - -Tornou a calar-se, como se se dobrasse sobre si mesmo. - ---Vou pôr-me a caminho. Desejava ter-me reunido aos companheiros e -trabalhar com elles. Sirvo para isso; sou teimoso, e não muito parvo; -sei lêr e escrever. E principalmente percebo o que se deve dizer a essa -gente... Vou pôr-me a caminho; é o que devo fazer, já que não posso -acreditar. Vou sósinho por essas cidades e aldeias a sublevar o povo, a -quem cumpre correr á conquista da sua liberdade. Se souber compreender, -encontrará para isso uma saída. Tentarei fazel-o compreender que em -ninguem deve ter esperança senão n’elle proprio. - -Ella teve piedade de Rybine, a sua sorte assustava-a; parecera-lhe -sempre antipathico; e n’aquelle momento sentia-o mais perto d’ella, -mais familiar. - ---O Pavel vae por um caminho... e elle vae por outro. O Pavel terá -menos trabalho... murmurou involuntariamente, accrescentando: Serás -preso! - -Rybine olhou para ella e replicou: - ---Mas soltar-me-ão! - ---A gente do campo será a primeira a entregar-te... e poderás ficar -preso por muito tempo... - ---Acabarei por vir para a rua, e voltarei á mesma. Quanto aos -camponios, entregar-me-ão duas ou trez vezes, mas hão de acabar por -compreender que farão melhor escutando-me. Dir-lhes-ei: «Não acreditem -em mim: oiçam-me apenas!» E se me ouvirem, acabarão por acreditar-me. - ---Vaes morrer!... disse tristemente a velha, meneando a cabeça. - -Elle fitou-a com um olhar cheio de interrogação. O seu corpo vigoroso -estava inclinado para a frente; as mãos apoiavam-se na cadeira; o seu -rosto moreno empallidecera, enquadrado na barba negra. - ---Sabe o que Jesus disse do grão de trigo? «Não morrerá, mas -resuscitará em uma nova espiga!» O homem é um grão de verdade... E eu -ainda não estou ás portas da morte... - -Levantou-se, vagaroso. - ---Vou ate á taverna. Quando o André voltar, repete-lhe o que eu te -disse? - ---Sim. - -Passaram á cosinha e trocaram algumas frases curtas, sem olharem um -para o outro. - ---Adeus... - ---Adeus... Quando recebes a tua feria? - ---Já a recebi. - ---E quando partes? - ---Amanhã de manhãsinha. Adeus! - -Curvou-se, e saíu um pouco assustado, como contra vontade. Durante uns -momentos, a velha ficou á porta prestando o ouvido ao andar que se -afastava... Depois foi até ao quarto e pôz-se a olhar pela janella. -Densas trevas se apegavam ás vidraças, parecendo esperar o que quer que -fosse que podesse tragar as suas fauces insondaveis. - ---Vivo de noite! pensou. Sempre de noite! - -André chegou d’ali a pouco, animado, alegre. Quando a velha lhe falou -de Rybine, exclamou: - ---Parte?! Pois que vá! que vá espalhar pelas aldeias a verdade, e -accordar o povo. Era-lhe difficil ficar comnosco. Tem na cabeça umas -idéas especiaes, que não lhe deixam adoptar as nossas. - ---Falou dos ricos, dos nobres, dos illustrados. Parece haver no caso -alguma coisa torta!... disse ella prudentemente. Oxalá não sejamos -enganados!... - ---Isso dá-lhe cuidado, mãesinha? Ah! o dinheiro! não é? Vamos vivendo -por conta d’outrem. O Nicolao Ivanovitch ganha setenta e cinco -rublos por mez, e entrega-me cincoenta. Os outros fazem o mesmo. Os -estudantes, que passam privações, cotisam-se tambem, e conseguem -mandar-nos pequenas quantias, accumuladas kopeck a kopeck. É isto! Ha -homens para tudo: uns enganam-nos, outros não nos deixam avançar; mas -ha os melhores, os que nos acompanham no caminho da victoria! - -E esfregando as mãos: - ---Mas o triunfo ainda vem longe, ainda! Emquanto não chega, vamos -organisar um primeiro de maiosinho! Ha de ser divertido! - -As suas palavras e a sua animação tranquillisaram Pélagué. Elle, -passeando a passos largos continuava: - ---Se soubesse que extraordinaria sensação eu tenho ás vezes!... -Parece-me que por toda a parte por onde vou, os homens são -companheiros, incendidos na mesma fé, que todos são bons. Todos se -compreendem sem precisarem de falar, ninguem offende o proximo. Vive-se -em bôa harmonia, cada alma canta a sua canção, e, como regatos, todas -as canções se reunem em um unico rio, que vae avançando, majestoso e -grave, para o mar onde brilham os clarões da vida livre. E digo com os -meus botões que isto ha de realisar se, que isto não póde deixar de -ser, se nós quizermos que seja! E então o meu coração transborda de -alegria; tenho vontade de chorar, tal é a minha felicidade! - -A velha nem se movia, para não o interromper. Escutara-o sempre mais -attentamente do que aos seus companheiros porque elle falava com mais -simplicidade, e as suas palavras iam mais fundo á alma. O Pavel tambem -era para a frente que olhava, mas mantinha-se solitario e nunca dizia -o que via. Parecia a Pélagué que André olhava sempre para o futuro -com o coração: a lenda do triunfo de todas as creaturas surgia sempre -nos seus discursos. E aos olhos de Pélagué aquella brilhante lenda -illuminava lhe a compreensão da vida e do trabalho a que o filho e os -seus companheiros se tinham entregado. - ---É humilhante isto! exclamou elle de subito. Não se póde acreditar no -homem. Precisamos até de temel-o e de odial-o. O homem desdobra se, a -vida parte-o em dois. Como seria possivel amar somente? Como perdoar -áquelle que se arroja sobre vós, como um animal selvagem? Impossivel! -Não falo por mim. Supportaria todos os ultrages; mas não quero ter -connivencia com os oppressores; não quero que se sirvam dos meus -costados para aprenderem a bater nos outros. - -Uma expressão de frieza accudiu ao seu olhar, a voz tornou-se-lhe mais -firme. - ---Não devo perdoar o que seja mao, ainda quando não me prejudique. Não -sou só eu na terra. Admittamos que hoje me deixo insultar sem responder -ao insulto; hei de rir talvez, porque não me senti ferido; mas ámanhã -o insultador, que experimentou em mim a sua força, vae tirar a pelle a -outro. Por isto não devemos considerar toda a gente da mesma maneira; -convem reprimir o coração, vêr quem são os inimigos e quem são os -amigos. É justo, embora não seja divertido! - -Sem saber porquê, Pélagué pensou em Sachenka e no official. Disse com -um suspiro: - ---Como se ha de fazer pão com trigo que não foi semeado? - ---Esse é o mal! - -No espirito da velha desenhava-se a figura de seu marido, semelhante a -uma grande pedra coberta de musgo. Fantasiou André casado com Natacha, -e o seu filho casado com Sachenka. - -O russo-menor e Pélagué tiveram muitas conversas d’este genero. Elle -conseguira metter-se outra vez na fabrica, e entregava todo o seu -dinheiro a Pélagué, que o acceitava naturalmente, como se fosse de -Pavel. - -Ás vezes, com um sorriso no olhar, André propunha-lhe: - ---Se nós aprendessemos a contar?... - -Ella recusava; o sorriso d’André acanhava-a. Pensava, um tanto vexada: -«Se tu ris, para que havemos de falar n’isso?» - -Elle notou que a velha era mais frequente em pedir-lhe a significação -de certas palavras; percebia que ella ia-se instruindo ás escondidas, e -por isto deixou de insistir em ensinal-a. - ---Vae-me faltando a vista, meu André; sinto-a cançada... disse-lhe, um -dia. Gostava muito de usar uns oculos. - ---Está dito! No domingo vamos ambos á cidade consultar um doutor que eu -conheço, e compraremos depois os oculos. - - - - -XIX - - -Já por trez vezes ella sollicitara licença para ver o filho, recebendo -sempre a negativa benevola do chefe dos guardas, um velho de cabellos -brancos, faces escarlates e nariz comprido. - ---D’aqui a uma semana, mulhersinha. Antes, não! Para a semana veremos. -Hoje é impossivel. - ---É muito delicado! contava ella a André. Sempre a sorrir!... Não me -parece bem. Quando se é chefe, não se deve levar assim as coisas de -brincadeira. - ---Sim, sim... São amaveis, sorriem muito... Se lhes dizem: «Vê aquelle -homem intelligente e honrado? É perigoso para nós: enforque-o!» Elles -sorriem, enforcam-no, e depois continuam a sorrir. - ---Aquelle que veio cá fazer a busca era mais simples, valia mais: -via-se logo que era um canalha! - ---Dir-se-ia que não são homens mas sim martellos, ferramentas, para nos -talharem por forma a ficarmos ao gosto do governo. Elles proprios foram -accomodados á mão que nos dirige... - -...A final, Pélagué obteve a ambicionada licença. No domingo, entrou -na secretaria da cadeia e sentou-se modestamente a um canto. Havia -mais visitas n’aquella casa acanhada e suja, de tecto baixo. Não era -a primeira vez que se encontravam ali: conheciam-se uns aos outros. A -conversa ia-se arrastando lentamente, a meia voz. - ---Sabe? dizia uma mulherona já de alguma idade, e que tinha uma -malêta nos joelhos. Esta manhã, á primeira missa, o mestre-capella da -catedral, esteve outra vez quasi a arrancar uma orelha a um menino de -côro. - -Um homem de meia idade, com o uniforme de soldado reformado, tossiu -ruidosamente e replicou: - ---Os taes meninos de côro são uns garotos!... - -Um homemsinho calvo, de pernas curtas, braços compridos, a maxilla -proeminente, passeava d’um lado para o outro, com ares de preocupado. -Sem parar dizia: - ---A vida está cada vez mais cara; e é por isto que os homens nunca -foram tão maos! A carne de vacca de primeira qualidade custa a quatorze -kopecks o arratel, o pão dois kopecks e meio... - -De quando em quando, entravam prisioneiros, vestidos de cinzento, com -grossos sapatos de coiro. Um d’elles trazia uma corrente no pé. Parecia -que os visitantes estavam acostumados havia muito áquelle espectaculo. -O coração de Pélagué tremia d’impaciencia; olhava perplexa para tudo o -que a cercava. - -A seu lado estava uma velhinha com as faces enrugadas e com os olhos -amortecidos. Prestava attenção á conversa, estendia o pescoço delgado e -fugia a olhar para os assistentes, com uma expressão de irascibilidade. - ---Quem tem a sr.ᵃ aqui? perguntou-lhe Pélagué com doçura. - ---O meu filho, que é estudante! E a sr.ᵃ? - ---Tambem o meu filho, operario. - ---Como se chama elle? - ---Vlassof. - ---Não conheço. Está cá ha muito tempo? - ---Ha sete semanas. - ---E o meu ha dez mezes! - -E Pélagué, julgou perceber-lhe no tom da voz, o que quer que fosse -parecido com o orgulho. - -Uma senhora alta, vestida de preto, de rosto comprido e pallido, disse -vagarosamente: - ---D’aqui a pouco mettem na cadeia todas as pessoas de bem. Já não as -podem aturar. - ---Sim, sim! replicou o velho calvo. A paciencia vae faltando. Toda a -gente se zanga e clama, e tudo vae augmentando de preço. É por isto -que as pessoas vão diminuindo de valor. E não apparece nenhuma voz -conciliadora... - -A conversa generalisou-se e animou se. Cada qual formulava a sua -opinião acerca da vida, mas todos falavam a meia voz; e Pélagué sentia -n’aquellas palavras o que quer que fosse estranho. Em sua casa, -falava-se d’outra maneira, d’uma maneira mais compreensivel, mais -natural, mais aberta. - -Um guarda, de grande barba grisalha, gritou: - ---A Vlassof! - -Mediu-a com o olhar e disse: - ---Vem! - -E foi andando, arrastando os pés. A vontade de Pélagué era empurral-o -para que elle andasse mais depressa. Afinal, n’um pequenito quarto, -encontrou-se com Pavel, que lhe estendeu a mão, sorrindo. - -Ella agarrou-a, rindo muito, e dizendo: - ---Bons dias! bons dias! - ---Olá, mulher! exclamou o guarda. Afastem-se um pouco um do outro. É do -regulamento. - -E bocejou. - -Pavel pediu á mãe noticias da sua saude, da sua casa. Ella esperava -outras perguntas, procurava-as até, no olhar do filho, mas não as -encontrou. Como sempre, elle apresentava-se tranquillo; apenas um pouco -mais pallido; os seus olhos pareciam maiores. - ---A Sachenka manda-te recommendações. - -As palpebras de Pavel estremeceram e abaixaram. O seu rosto -dulcificou-se e brilhou com um sorriso. - ---Pôr-te-ão em breve na rua? perguntou, irritada de subito. Por que -foi que te prenderam? Sim porque afinal os taes folhetos voltaram a -apparecer. - -Os olhos de Pavel tiveram um lampejo d’alegria. - ---Serio?! - ---É proíbido falar d’essas coisas! observou o guarda, indolente. Só se -pode falar d’assuntos de familia. - ---Ora essa! Então isto não é assunto de familia? perguntou ella. - ---Sei lá! O que digo é que é proibido. Falem da comida, da bebida, da -roupa lavada, e de mais nada! elucidou, continuando como indifferente. - ---Está bem! Falemos da nossa casa, mamã? O que é que tu fazes? - ---Levo comida aos operarios, comida e outras coisas! respondeu com -audacia. - -Deteve-se e explicou melhor, depois de resfolegar: - ---Sopa, carne assada, tudo o que Maria costuma cosinhar, e... toda a -especie de alimento. - -Pavel compreendera. O rosto contraíu-se-lhe n’uma gargalhada abafada. -Depois, carinhosamente: - ---Minha querida mãe... Muito bem! muito bem! Sinto-me feliz, sabendo -que tens tão bom emprego, que não te aborreces. Não é verdade que não -te aborreces? - ---E sabes? Revistaram-me toda quando os taes folhetos tornaram a -apparecer! informou um tanto fanfarrona. - ---Outra vez?! exclamou o guarda. Já lhes disse que é proíbido. Priva-se -um homem da sua liberdade, para que elle não saiba do que vae lá por -fóra, e vens tu, mulher, e começas a tagarelar!... Compreendam que o -que é proíbido é proíbido! - ---Está bem! não se fala mais n’essas coisas, mamã. O Matvé Ivanovitch é -um bom homem: não devemos fazel-o zangar. Damo-nos bem um com o outro. -É por acaso que elle assiste hoje ás entrevistas dos presos com os -visitantes. Quem costuma assistir é o director. E o Matvé Ivanovitch -receia que tu digas coisas... superfluas. - ---Acabou o tempo da visita! disse o guarda, tendo consultado o seu -relogio. - ---Obrigado, mamã! muito obrigado, querida mãesinha! Não te dê cuidado, -que dentro em pouco serei posto em liberdade. - -Abraçou-a com effusão; ella começou a chorar. - ---Separem-se! ordenou o guarda; e, reconduzindo Pélagué, ia-lhe -dizendo, resmungando: - ---Não chore... Está aqui está na rua! Vão dar a liberdade a muitos... -os logares são poucos... não cabem todos... - -Em casa, ella disse ao russo-menor: - ---Falei-lhe... com geito... percebeu-me muito bem. - -E acrescentou com um suspiro: - ---Percebeu-me, sim, se não, não me abraçava com tanta gana! Foi a -primeira vez... - ---Ah! todos desejam isto ou aquillo, mas as mães não desejam senão -affagos! - - - - -XX - - -Uma noite, estando Pélagué a fazer meia e André lendo em voz-alta a -historia da revolta dos escravos romanos, alguem bateu violentamente á -porta. O russo-menor foi abrir, e Vessoftchikof entrou, com um embrulho -debaixo do braço, o boné descaído para os olhos, e todo elle enlameado -até aos joelhos. - ---Passando na rua, vi luz cá dentro e bati á porta para a cumprimentar. -Saí da cadeia agora mesmo! - -E apertando a mão de Pélagué: - ---O Pavel recommenda-se muito. - -Deixando-se caír n’uma cadeira, hesitantemente olhou em volta, como de -costume desconfiado. - -A sua cabeça angulosa e rapada e os seus olhitos tornavam no antipatico -a Pélagué, o que não impedia que estivesse gostando de vel-o e que lhe -dissésse, affectuosa: - ---Emagreceste!... Ó André, vamos fazer-lhe o chá! - ---Já cá estou preparando o samovar! respondeu da cosinha o russo-menor. - ---E então como vae o Pavel? Vieram outros para a rua comtigo? - -Vessoftchikof respondeu abaixando a cabeça: - ---O Pavel continúa preso... Encheu-se de paciencia... Para a rua vim só -eu. - -E levantando o olhar, continuou vagaroso e com os dentes cerrados: - ---É que eu disse-lhes: «Deixem-me ir embora, que já estou farto! senão -mato o primeiro que puder, e suicido-me depois!» Ora!... foi logo! E -fizeram bem, porque eu cumpria o que promettera! - ---Sim, sim, creio!... balbuciou ella, afastando-se, com as palpebras -tremulas, como sempre lhe acontecia quando fitava aquelle rosto -bexigoso. - ---E como vae o Fédia Mazine? perguntou da cosinha André. Continúa -fazendo versos? - ---Continúa! Quer dizer... não o percebo bem. Parece um pintasilgo: -mettem-no na gaiola, e canta. O que sei é que não tenho nenhuma vontade -de ir para casa. - ---E tens razão. Vaes encontral-a vasia, o fogão apagado, tudo muito -frio... - -Vessoftchikof calou-se, cerrou os olhos, depois, tirando da algibeira -um masso de cigarros, começou a fumar, muito descansadamente. Com o -olhar ia seguindo as nuvens de fumo que se esvaía por cima da sua -cabeça; e de subito, rindo esganiçadamente como o uivar d’um cão: - ---Sim, muito frio... Naturalmente, o chão está, cheio de baratas -geladas, os ratos devem estar tambem mortos de fome... Pélagué -Nilovna, dás licença que eu durma cá em casa? - ---Está dito! respondeu logo. Sentia-se pouco á vontade; por isto não -disse mais. - -Foi elle que murmurou em tom abatido: - ---Estamos agora no tempo em que os filhos teem vergonha dos paes. - ---O quê? perguntou ella, estremecendo. - ---Não te apouquentes, que não falo de ti. Tu nunca envergonharás o -Pavel. Eu é que me envergonho do meu pae... Não quero voltar para casa -d’elle. Já não tenho pae, nem casa. Estou sob a vigilancia da policia, -agora, se não ter-me-iam mandado para a Siberia. Creio que um homem, -que não se poupasse a trabalhos, teria muito que fazer na Siberia... -Daria a liberdade aos exilados, ajudal-os-ia a fugir... - -Graças ao seu coração sensivel, a velha percebia que o rapaz estava -soffrendo, mas a sua dôr não lhe provocava a compaixão. - ---Dizes bem. Sendo assim, seria melhor teres ido... André veio da -cosinha. - ---Que estás tu para ahi a cantar, homem? - -A velha ergueu-se. - ---Vou arranjar alguma coisa para comer. - -Vessoftchikof olhou fixamente para o russo-menor e respondeu com -firmeza: - ---Digo que é preciso matar umas pessôas!... - ---Ih!... E para quê? perguntou, tranquillo. - ---Para que deixem de existir! - ---Tens então o direito de transformar os vivos em cadaveres? - ---Tenho! - ---E onde foste buscal-o? - ---Foram os homens que mo deram! - -O russo-menor, alto, magro, parou no meio do quarto, bamboleando -o corpo; com as mãos nas algibeiras, observava dos pés á cabeça o -bexigoso. Este, sentado e envolto n’uma nuvem de fumo, tinha n’aquelle -momento o rosto palido salpicado de manchas vermelhas. - ---Foram os homens que mo deram! repetiu, de punho cerrado. Desde que me -dão pontapés, tenho o direito de responder, atirando-me aos focinhos, -aos olhos... Se não me tocarem, eu não toco em ninguem. Deixem-me -viver como quero, que eu viverei quieto, sem incommodar os mais. Juro! -Supponhamos que quero viver n’uma floresta, construir uma cabana n’uma -ravina, na margem d’um regato... e viver ali, sósinho... - ---Pois faz isso! respondeu, encolhendo os hombros. - ---Agora? Não! É impossivel! Estou ligado estreitamente aos homens -até á morte! Ligaram o meu coração com o odio, prenderam-me a elles -com o mal. É um laço muito solido. Odeio-os, e vá por onde fôr não -os deixarei viver tranquillos. Incommodam-me, e eu incommodal-os-ei. -Respondo por mim, só por mim; não posso responder por mais ninguem. E -se o meu pae é um ladrão... - ---Ah! exclamou repreensivamente André, em voz baixa, approximando-se. - ---Ainda acabo por arrancar a cabeça ao Isaías Gorbof, verás! - ---E porquê? - ---Porque anda a espiar-me. Foi por causa d’elle que o meu pae se -perdeu, é com elle que o meu pae conta para entrar para a policia -secreta! - ---Olhem o grande mal! Mas quem te censura, a ti, pela vida do teu pae? -Isso é para os tolos! - ---Para os tolos e para os não tolos! Olha: tu és intelligente, o Pavel -tambem. Dize lá: teem por mim consideração igual á que teem pelo Fédia -Mazine ou pelo Samoílof, ou um pelo outro? Não mintas, que não te -acreditaria. Atiram-me para o canto! - ---Tens a tua alma doente, amigo! respondeu André, affectuosamente, -sentando-se ao lado d’elle. - ---A vossa tambem soffre. Mas imaginam que as suas ulceras são mais -nobres do que as minhas. Procedemos uns para os outros como canalhas! é -o que te digo! O que respondes a isto, an? - -Fitou o olhar penetrante em André e esperou, com os dentes á mostra. -O seu rosto palido estava impassivel; apenas lhe tremiam os labios -grossos como se tivessem sido queimados e contraídos por algum liquido -caustico. - ---Nada te responderei! disse André acariciando o olhar hostil de -Vessoftchikof com o sorriso luminoso e triste dos seus olhos azues. Sei -demais que querer discutir com alguem, cujo coração está sangrando, é o -mesmo que irrital-o. Sei, irmão. - ---Não se pode discutir comigo; não sei discutir! resmungou, abaixando -os olhos. - ---Estou certo de que todos nós caminhámos como tu agora, com os pés -descalços por cima de vidros partidos; que todos nós respirámos essas -mesmas evaporações de horas sombrias... - ---Não podes dizer coisa alguma que me socegue. Nada! A minha alma uiva -como um lobo! - ---Nem tenho tal intuito. O que sei é que isso ha de passar. Talvez não -muito depressa; mas ha-de passar. - -E pôz-se a rir, batendo no hombro do rapaz: - ---É uma doença de creanças, no genero da escarlatina, irmão. Todos nós -fomos atacados do mesmo mal, com maior ou menor violencia, conforme -eramos fortes ou fracos. Ataca a gente da nossa condição, quando nos -encontramos sósinhos, quando não compreendemos ainda a vida, quando -não vemos o logar que nos foi destinado. Parece-nos que somos o unico -homem n’este mundo e que ninguem se importa comnosco, a não ser para -nos devorar. Mais tarde, quando vires que ha tambem boas almas -n’outros peitos alem do teu, consolar-te-ás... e envergonhar-te-ás de -ter acreditado que só tu davas a nota afinada, e de ter querido trepar -ao campanario sendo o teu sino tão pequeno, que ninguem o ouve na -bimbalhada dos dias de festa. Perceberás então que és uma voz apenas -perceptivel, mas necessaria, no côro poderoso e magnifico da verdade. -Compreendes o que eu quero dizer? - ---Compreendo... compreendo... Mas não te acredito! - ---Tambem eu não queria acreditar... - -O bexigoso pôz-se então a rir com a bôca aberta até ás orelhas. - ---Que é isso? - ---Pensava que seria um grande parvo aquelle que te insultasse. - ---E porque hão-de insultar-me? perguntou ainda André, encolhendo os -hombros. - ---Sei lá! O que digo é que o homem que te tiver insultado, ha-de ficar -depois com uma linda cara de parvo! - ---Era a isso que querias chegar!... commentou, rindo. - -Ouviu-se a voz de Pélagué: - ---Venha, André! venha buscar o samovar. - -A sós, Vessoftchikof olhou em volta; estendeu a perna, observou -as botas grossas; acurvou-se, palpando a barriga da perna; depois -observou attentamente a palma e as costas da mão pelluda; levantou-a, e -ergueu-se. - -Quando André trazia o samovar, o bexigoso, diante do espelho, acolheu-o -com estas palavras: - ---Ha quanto tempo eu não via o meu focinha!... Estou feio como o diabo! - ---Que te faz isso? - ---A Sachenka diz que o rosto é o espelho da alma... - ---Qual historia! Tem o nariz de gancho, as faces agudas como bicos de -tezoura, e todavia a sua alma é pura como uma estrella!... - -Sentaram-se para tomarem o chá e comerem. Vessoftchikof deitou a -mão a uma grande batata, salgou um pedaço de pão e começou a comer -tranquillamente, vagarosamente, como um lobo. - ---E como vão as coisas por cá? perguntou com a bôca cheia. - -E, tendo ouvido as informações d’André: - ---Tudo isso vae de vagar! É preciso ir mais de pressa. - ---A vida não é um cavallo: não a fazemos andar ás chicotadas. - -Mas o bexigoso meneava a cabeça, obstinado. - ---Vae devagar... vae... Eu não tenho grande paciencia... Que é preciso -que eu faça? - ---Devemos aprender a ensinar os outros. É este o nosso dever! - ---E quando entraremos em lucta? - ---Ignoro. Segundo a minha opinião, antes de pegarmos em armas, -deveremos armar o nosso cerebro. - ---O rapaz ficou silencioso, voltando a comer. Sem que elle percebesse, -a velha observava-lhe o rosto picado das bexigas, tentando descobrir -n’elle alguma coisa que a reconciliasse com aquelle caracter -aggressivo; mas ao encontrar-lhe o olhar penetrante, ficava na mesma e -movia os sobrolhos, desanimada. - -No seu intimo, os dois moradores do velho pardieiro sentiam-se como -apertados, pouco á vontade, e lançavam de quando em quando olhares -furtivos para o hospede. - -Até que este ergueu-se. - ---Não me saberia mal deitar-me. Estive encarcerado por muito tempo, -puzeram-me na rua de repente... vim por ahi adiante... Estou cançado. - -Quando elle foi para a cosinha, a velha cochichou a André: - ---Tem uns pensamentos terriveis!... - ---Não é um rapaz docil, não. Mas ha de passar-lhe. Eu tambem era assim. -Quando o coração não aquece a valer, junta-se n’elle muita gordura... -Vá deitar-se, mãesinha, que eu ainda vou ler um pouco. - -André ouviu-a resar n’um murmurio. Emquanto elle ia lendo, um tanto -febrilmente, a pendula do relogio oscilava em cadencia, nas vidraças o -vento gemia. - -A velha murmurava: - ---Ó Senhor! quanta gente por este mundo, queixando-se conforme os seus -males! Onde estão os felizes? - ---Ha-os, sim; e dentro em breve serão em grande numero! ah! muito -grande! respondeu elle. - - - - -XXI - - -A vida ia decorrendo rapida, de dias variados. Cada qual trazia novas -a Pélagué, que não se perturbava com ellas. Cada vez eram mais os -desconhecidos que vinham á noite conversar com André, e que, sempre -desconfiados e cautelosos, se retiravam no meio das trevas, com a gola -do casaco levantada, a pala do bonet sobre os olhos. - -Para Pélagué todos aquelles rostos, novos ou velhos, fundiam-se em um -só rosto magro, calmo e decidido, de olhar profundo, carinhoso e severo -ao mesmo tempo, como o de Jesus a caminho de Emmaús. - -Contava-os e imaginava-os cercando Pavel, como para tornal-o menos -visivel aos seus inimigos. - -Uma noite, uma rapariga esperta, de cabello encaracolado, chegou da -cidade, com um embrulho para André; e, ao saír, disse para Pélagué com -um olhar brilhante e cheio d’alegria: - ---Até á vista, companheira! - ---Até á vista. - ---E foi á janella para vêr a sua «companheira» pela rua abaixo, em -passinhos meudos, fresca como uma flôr de primavera, ligeira como uma -borboleta. - ---«Companheira»!... Ah! minha queridinha! Deus te dê um bom companheiro -por toda a vida. - -Notava por vezes nos que vinham da cidade aspectos variegados que lhe -despertavam a simpatia; mas o que principalmente a impressionava era -a sua simplicidade, o seu bello e tão generoso esquecimento de si -proprios. - -Compreendia já muitas coisas que os visitantes discutiam; sentia, que -de facto, elles tinham descoberto a verdadeira origem da desgraça -dos homens, e ia-se acostumando a approvar as suas opiniões. Mas não -acreditava que elles podessem transformar a existencia á sua maneira, -nem que tivessem a sufficiente força de attraír a si todos os operarios. - -Regularmente, continuava levando folhetos para a fabrica, com o -sentimento do dever cumprido; imaginava toda a especie de astucias; -e os guardas, acostumados a vél-a, nem já lhe prestavam attenção. -Todavia, revistavam-na por vezes, mas sempre nos dias seguintes a ter -havido distribuição de folhetos. Quando não os levava, Pélagué sabia -fazer-se notada, excitar a curiosidade dos guardas, que a detinham, -ficando afinal com caras de tolos. - -Vessoftchikof não tornou a ser acceite na fabrica; metteu-se como -operario n’uma estancia de madeira, e de manhã á noite guiava os -carretos de traves, lenha, taboas. Os cavallos que puxavam a carroça -iam como ás cegas, em risco de atropellarem quem passava, de irem de -encontro ás outras carroças; o rapaz era perseguido por uma chuva -de doestos e de imprecações. Sem levantar a cabeça, sem responder, -assobiava estridentemente, e chicoteava, nos intervallos, resmungando: - ---Toma! toma!... - -Sempre que havia reuniões em casa de André para a leitura d’um folheto -ou do ultimo numero d’um jornal estrangeiro, Vessoftchikof apparecia, -sentava-se e escutava sem dizer palavra, durante uma ou duas horas. -Concluida a leitura, os novos discutiam; elle porem não entrava na -conversa, e era o ultimo a saír. - -A sós com André, falava então com o seu modo sórna. - ---Quem é o mais culpado de todos? - ---Aquelle que foi o primeiro a dizer: «Isto é meu!» Mas como já morreu -ha milhares d’annos, não vale a pena zangarmo-nos com elle! respondia -André, gracejando. - ---Mas os ricos e os poderosos? e os que os defendem? teem razão? - -O russo-menor apertava a cabeça entre as mãos, retorcia o bigode e -falava durante muito tempo acerca da vida dos homens, com palavras -simples e claras. - -Elle porém volvia: - ---Não! Ha de haver culpados! Existem! Digo-te que é preciso revolvermos -a vida toda, sem piedade, como um campo coberto de más hervas!... - ---Foi o que o Isaías disse uma vez, falando do sr.... observou Pélagué. - ---O Isaías? - ---Sim. Que mau homem! Espia toda a gente... Vem até espreitar ás nossas -janellas. - ---Ás suas janellas?... - -Ella estava já deitada e não lhe podia vêr a cara. Mas percebeu que -tinha falado de mais, quando André disse, em tom conciliador: - ---Pouco importa que elle venha espreitar-nos. Não tem que fazer a essa -hora: passeia. - ---Qual! exclamou o rapaz! Ora ahi tens o culpado? - ---Culpado de quê? de ser parvo? - -Mas o bexigoso não respondeu e saíu. - -Pélagué não dormia. - ---Tenho medo d’elle! exclamou. Parece um fogão levado ao rubro: não dá -calor, mas queima. - ---Sim... é um garôto irascivel. Nunca lhe fale do Isaías, mãesinha. -Esse tal Isaias é em verdade um espião... Pagam-lhe até para isso. - ---Que admira? O seu melhor amigo é um agente de policia! - ---O Vessoftchikof ainda acaba por torcer-lhe o pescoço! Veja que -sentimentos os que mandam na nossa vida fazem nascer nas camadas -inferiores. O que succederá quando aquelles que se parecem com este -rapaz tiveram a consciencia da sua situação humilhante e perderem a -paciencia? O ceu raiar-se-á de sangue, e a terra cobrir-se-á d’espuma, -como se a tivesse invadido um musgo vermelho. - ---É terrivel, meu André! - ---Os nossos inimigos não terão o que merecem. Todavia, mãesinha, cada -gottinha do seu sangue terá sido lavado préviamente pelos lagos de -lagrimas que o povo chorou. - -E accrescentou, rindo: - ---É justo, mas não é consolador! - - - - -XXII - - -Um domingo, quando a velha, voltando da mercearia, abriu a porta e -appareceu no limiar, foi invadida por subita alegria, pois ouvira lá -para o interior da casa, a voz de Pavel. - ---Cá está elle! gritou André. - -Pélagué notou a rapidez com que o filho se voltou para ella e o brilho -que lhe assomou ao rosto. - ---Eis-te afinal na nossa casa! murmurou. - -Pavel avançou, muito palido, com pequeninas lagrimas bailando-lhe nos -olhos, com os labios tremulos. Em silencio, os dois contemplavam-se. - ---Obrigado, mamã! exclamou por fim, apertando-lhe a mão que estremecia. -Obrigado, minha querida mãe! - -Commovida por aquellas palavras, ella acariciava-lhe os cabellos, e -reprimindo as pulsações do coração, disse com doçura: - ---Deus seja comtigo! O que me agradeces? - ---O teu auxilio na nossa grande obra! Obrigado! É uma honra enorme para -o homem poder dizer que sua mãe tambem é sua parenta pelo espirito. - -Não respondeu, aspirando, soffrega, as palavras do filho, -contemplando-o, como em extasi perante aquelle rosto que lhe parecia -tão luminoso. - ---Eu calava-me, mamã, porque percebia que certas coisas da minha vida -te impressionavam; tinha piedade da tua alma, e nada podia fazer que -lhe fosse agradavel. Imaginava que nunca te juntarias a nós, que nunca -seguirias as nossas opiniões, que continuarias a supportar tudo, em -silencio, como o tinhas feito em toda a tua vida. E isto custava-me -muito. - ---O André deu-me a compreender tantas coisas!... observou, desejando -chamar André ao sentimento do filho. - ---Contou-me tudo o que tu fazias! disse, rindo. - ---O Iégor tambem. Somos da mesma aldeia. Olha o André quiz ensinar-me a -ler. - ---E tu tiveste vergonha e pozeste-te a estudar sósinha, ás escondidas. - ---Espreitou-me, então! notou, contrafeita. Mas que é d’elle? Foi-se -d’aqui, para nos deixar á vontade. Chama-o, que elle... não tem mãe. - ---André! Onde estás tu? - ---Aqui. Vou rachar lenha. - ---Tens tempo. Anda cá. - ---Lá vou. - -Não veio logo; e á porta, observou, dando importancia ao caso: - ---É preciso dizer a Vessoftchikof que traga lenha, que já ha pouca. -Vê como a cadeia fez bem ao Pavel? Em logar de punir os revoltados, o -governo engorda-os. - ---Ainda não comeste!... Vamos jantar, Pavel! propoz ella. - ---Não. O guarda vigilante informou-me hontem de que tinham resolvido -pôr-me em liberdade, e logo perdi a vontade de comer. A primeira pessoa -que encontrei por cá foi o velho Sizof. Apenas me viu, atravessou a rua -para me falar. Aconselhei-o a ser mais prudente, porque eu estou sob -a vigilancia da policia. «Que tem isso?» foi a sua resposta. E sabes -o que me perguntou acerca do sobrinho? «O Fédor tem-se portado bem -na cadeia?» E eu: O que entende por isso de portar-se bem? «Ora!... -não dar com a lingua nos dentes a respeito dos companheiros!» Quando -lhe disse que elle era um bom rapaz e intelligente, passou a mão pela -barba, e disse com altivez: «Nós, os Sizof, não temos patifes na -familia!» - ---Não tem nada de tolo, esse velho. E o Fédia vem para a rua por estes -dias? - ---Provavelmente. Creio mesmo em que virão todos. Não ha provas contra -nós. Apenas o depoimento do Isaías... Mas o que pode elle saber? - ---Sentemo-nos! disse Pélagué, servindo o jantar. - -Comendo, André referiu-se a Rybine. Quando acabou de contar o que se -tinha passado, Pavel murmurou, com muito pezar: - ---Se eu cá estivesse, não o teria deixado partir assim. O que leva na -sua alma? Um sentimento de revolta e umas idéas embrulhadas... - ---Ora! disse André, sorrindo. Quando um homem tem quarenta annos e -luctou durante muito tempo contra as dúvidas e as hesitações da sua -alma, é difficil transformal-o. - -Discutiam, empregando termos que a velha não compreendia, até ao fim do -jantar, embora por vezes falassem mais a claro. - ---Devemos continuar no nosso caminho, sem nos desviarmos d’elle nem uma -linha! exclamou Pavel com firmeza. - ---E esbarrarmos no caminho com dezenas de milhões de homens que nos -consideram seus inimigos. - -Pélagué poude concluir que Pavel não gostava dos camponezes, ao passo -que André os defendia, entendendo ser preciso ensinar-lhes o bem. -Compreendia melhor André. Sempre que elle dizia qualquer coisa a Pavel, -prestava muita attenção, deixando mesmo de respirar, esperando com -impaciencia a resposta do filho, para ver se o russo-menor o teria -offendido. Mas os dois continuavam discutindo sem se zangarem. - -De quando em quando, perguntava: - ---É assim, Pavel? - -E elle respondia, sorrindo: - ---É. - ---Com que então o senhor, dizia André, em tom de malicia, comeu bem, -não mastigou bastante e ficou embatocado?... - ---Não digas tolices! - ---Eu. Estou mais serio do que n’um enterro! - -E a velha ria... - - - - -XXIII - - -Approximara-se a primavera, ia-se derretendo a neve, descobrindo a lama -e o suor engordorado das chaminés da fabrica, que ella havia occultado -sob a sua camada branca. - -Dia a dia, a lama tornava-se mais aggressivamente apparente, todo o -bairro parecia immundo e envolto em farrapos. O sol mostrava-se mais -a miude, e os regatos ainda indecisos começavam a dirigir-se para o -pantano. Ao meio-dia, a canção cariciosa das esperanças primaveris -palpitava pairando sobre o bairro. - -Andavam em preparação as festas do primeiro de maio. - -Pela fabrica e pelo bairro todo tinham sido espalhados muitos folhetos, -explicando a significação d’aquellas festas. Até a gente nova, que nada -tinha de commum com os socialistas, dizia ao lêl-os: - ---É preciso tratar d’isso! - -Vessoftchikof resmungava com o seu sorriso sorna: - ---E não é cedo. O jogo das escondidas dura ha muito tempo! - -Fédia Mazine rejubilava. Tinha emagrecido e o nervosismo dos seus -gestos e das suas palavras lembravam uma cotovia que estivesse mettida -n’uma gaiola. Acompanhava-o sempre Jacob Somof, rapaz taciturno, muito -grave apezar de novo, e que trabalhava então na cidade. Samoílof, cujos -cabellos e barba pareciam terem-se avermelhado ainda mais na cadeia, -Vassili, Goussef, Boukine, Dragounof e outros julgavam indispensavel -munirem-se de armas; mas Pavel, o russo-menor, Somof e os seus amigos -não eram da mesma opinião. Iégor chegou então, como sempre fatigado, -offegante, e coberto de suor. Disse de brincadeira: - ---A transformação da organisação actual é uma grande obra, -companheiros, mas para que ella caminhe mais facilmente é necessario... -que eu compre um par de sapatos para a minha pessoa! - -E mostrou as botas rotas e que mettiam agua. - ---As minhas galochas estão na mesma, tambem muito doentes; todos -os dias molho os pés. Não quero descer ao seio da terra sem ter -renegado do velho mundo, d’uma maneira bem publica e visivel. Eis -porque, regeitando a moção do companheiro Samílof relativamente a uma -demonstração de força armada, proponho que me calcem com um bom par -de valentes botas, porque estou convencido de que serão mais uteis ao -triumpho da nossa causa do que a maior das sarrafuscas! - -Pavel disse uma vez, falando de Iégor: - ---Sabes, André, aquelles que mais riem, são aquelles cujo coração mais -soffre. - -Depois de um curto silencio, o outro respondeu: - ---Qual historia! Se assim fosse, toda a Russia morreria de riso! - -Natacha appareceu tambem; estivera na cadeia, n’outra cidade, mas não -mudara d’aspecto. Pélagué notou que, quando ella estava presente, o -russo-menor ficava mais alegre, brincava com todos, com uma malicia -sem maldade que provoca as gargalhadas da rapariga, e que, quando ella -se ia embora, elle entrava de assobiar tristemente as suas innumeras -canções, passeando pela casa, arrastando os pés. - -Sachenka vinha a miude, sempre apressada, tornando-se dia a dia mais -acre, mais angulosa. - -Uma vez que Pavel tinha saído para acompanhal-a, sem fechar a porta -apoz si, Pélagué ouviu-lhes estas phrases: - ---É o sr. que levará a bandeira? - ---Sou. - ---É caso resolvido? - ---É o meu direito! - ---Não seria possivel...? - ---O quê? - ---...deixar que fosse outro...? - ---Não! - ---Reflicta. O sr. tem tanta influencia... estimam-no tanto... Aqui -os chefes são o André e o sr. Quantas coisas poderão fazer, estando -livres!... Reflicta. São capazes de exilal-o... para muito longe e por -muitos annos!... - -Estas palavras, cujo sentimento Pélagué estava entrevendo, caíam-lhe no -coração como pingos d’agua gelada. - ---Não! estou decidido. Não renunciarei por coisa alguma n’este mundo! - ---Ainda que eu lhe pedisse...? - -Pavel interrompeu-a rapidamente, tendo na voz uma severidade especial: - ---Não deve falar assim. No que está pensando? - ---Sou uma creatura humana!... murmurou, defendendo-se. - ---Uma excellente e meiga creatura! disse elle em voz baixa e como se -lhe custasse respirar. Uma creatura que me é querida... muito querida! -E é por isto mesmo que não deve falar assim! - ---Adeus! - -E pelo ruido dos seus passos, a velha percebeu que ella ia correndo. -Compreendeu que nova desgraça a ameaçava, e no cerebro cravou-se como -um prego esta interrogação: «O que será preciso fazer?» - -Ao entrar na cosinha, Pavel avançou para André que lhe perguntou: - ---E aquelle desgraçado do Isaías? - ---Devemos aconselhal-o a que renuncie á espionagem. - ---Denunciará aquelles que tal lhe aconselharem. - ---Que pensas fazer, Pavel? perguntou-lhe a mãe, desviando o olhar. - ---Quando? agora? - ---Não: no primeiro de maio. - ---Ah! quero levar a nossa bandeira. Pôr-me-ei á frente do cortejo, com -a bandeira em punho. Naturalmente mettem-me outra vez na cadeia. - -Os olhos de Pélagué tornaram-se como candentes, a bôca foi-lhe invadida -por uma secura febril. O filho pegou-lhe na mão e ameigou-a: - ---Assim é preciso, mãe. A honra está n’isto mesmo. - ---Eu não disse nada... balbuciou. - ---Deverias regosijar-te, em vez de entristeceres-te. - ---Eu não disse nada... Não me opporei... Se tenho pena de ti, é -natural... e fica comigo... - -Pavel afastou-se, e ella ouviu-o resmungar palavras acerbas: - ---Ha affeições que impedem o homem de viver! - -Receando que elle dissesse peor, exclamou vivamente: - ---Não fales assim, Pavel! Compreendo. Tens que fazer o que tencionas, -por causa dos companheiros. - ---Não! Por minha propria causa! Poderia proceder d’outra forma, mas não -quero! Hei-de ir! - -André parou no limiar; parecia mettido n’uma moldura: era mais alto -do que a porta e curvava os joelhos caricatamente, com um dos hombros -encostados a um umbral, e com a cabeça e o outro hombro estendido para -a frente. - ---Seria melhor que o sr. tagarellasse menos! - -Parecia um lagarto semi-occulto na fenda d’um rochedo. - -A velha tinha vontade de chorar, mas, não querendo que Pavel a -surpreendesse, disse de repente: - ---Ah!... ia-me esquecendo... - -E retirou-se, rapida. Sob o alpendre, encostou a cabeça á parede, e deu -livre curso a todo o seu pranto. As palavras dos dois amigos chegavam -até lá. - ---Divertes-te em atormental-a! dizia André. - ---Não tens o direito de falar-me assim! - ---Não seria um bom companheiro, se me calasse ao ouvir as tuas -estupidas cabriolices! Para que respondeste tão rudemente á tua mãe? - ---Deve-se falar sempre com firmeza, seja a quem fôr! - ---Á tua propria mãe? - ---A todos! Dispenso qualquer amor ou amisade que me detenham no meu -caminho. - ---Que heroe! Á Sachenka é que devias falar assim. - ---Foi o que fiz. - ---Com essa rispidez? Não creio! Havias de falar-lhe com uma voz -carinhosa, terna... É como se estivesse a ouvir-te! Guardas o teu -heroísmo para quando a tua mãe está presente. Pois fica sabendo, -animal, que o teu heroísmo não vale nada! - -Pélagué receou que a discussão se azedasse; limpou rapidamente as -lagrimas e appareceu, dizendo: - ---Oh! que frio que faz! E é isto a primavera!... - -E, nos arranjos domesticos, deu alguns passos pela casa, voltando de -novo á cosinha. - -Apóz um silencio, André approximou-se de Pavel. - ---Percebeste-a?... Tem mais coração do que tu. - ---Querem chá? perguntou a velha. - -E sem esperar resposta, accrescentou logo: - ---É que estou transida de frio. - -Pavel dirigiu-se a ella, com um sorriso a tremer-lhe nos labios. - ---Perdôa, mãe... Sou ainda uma creança... um garôto... - -Ella estreitou-o a si. - ---Não me ralhes mais. Não me digas mais nada. Deus seja comtigo, -filho! Segue lá a tua vida, mas não bulas no meu coração. Como não -haveria de uma mãe ter piedade do seu filho? Tenho piedade de todos... - ---Está bem, mamã. Perdôa. Fiz mal. - -E afastando-se, enleado: - ---Nunca mais o esquecerei, palavra d’honra! - -Passando á cosinha, Pélagué disse a André, que se conservara á porta: - ---Não ralhe com elle. Bem sei que o André é mais velho, mas... - -Elle não se moveu, e pôz-se a berrar comicamente: - ---Ora! ora! ora! Ralho... e até lhe chego, se calhar! - -A velha apertou-lhe a mão commovida. - ---Meu bom amigo!... - -André entrou na cosinha, e, continuando no mesmo tom ironico: - ---Desapparece, Pavel, se não queres que eu te torça o pescoço. Por -emquanto, não, porque estou arranjando o samovar! Oh! que pessimo -carvão! Está molhado, com mil diabos! - -Calou-se. Quando a viu perto de si, foi dizendo, baixinho, todo -entretido no seu trabalho: - ---Não tenha medo, mãesinha, que não lhe tocarei nem com um dedo! Sou -simplorio como um nabo cosido. E gosto muito d’elle. Olha tu é que -não deves dar ouvidos ao teu heroe! Anda como se tivesse estreado um -collete garrido: com o peito espetado, empurrando em toda a gente para -que lhe vejam bem o collete... É bonito, lá isso é; mas para que diabo -empurra elle o proximo? - -Pavel disse de lá: - ---Ainda estás resmungando? E approximou-se logo. - -André, sempre sentado no chão, tinha posto entre as pernas o samovar e -contemplava-o. Pélagué, encostada á porta, fixava o olhar na nuca e no -farto pescoço do russo-menor. Elle então deitou o corpo para traz, com -as mãos apoiadas no chão, e, depois de ter observado a mãe e o filho: - ---Em verdade, olhem que são muito boa gente! - -Pavel abaixou-se para lhe pegar n’um braço. - ---Não puxes por mim, que me fazes caír! - ---Para que se zangam? perguntou ella tristemente. Não seria melhor que -se abraçassem? - ---Queres?... murmurou Pavel. - ---Porque não? - -Pavel ajoelhou-se e os dois homens abraçaram-se, unindo-se n’uma só -alma, animada da mais quente amisade. - -Pélagué chorava; era porem um pranto sem amargor. Enxugando os olhos, -balbuciou: - ---As mulheres gostam de chorar... de tristeza... e de alegria... - -André afastou o amigo, e esfregando os olhos: - ---Basta! basta! Que diabo de carvão! Tenho os olhos cheios d’elle! - -Pavel sentara-se junto da janella, e murmurou: - ---Lagrimas como estas não devem envergonhar. - ---Sim! Acabámos de viver uns momentos de uma boa vida, humana, replecta -de amor! exclamou André. - -Ao que a mãe observou: - ---Tudo está mudado! O pezar é outro... outra é a alegria... já nem -sei... já não sei o que me faz viver... faltam-me as palavras... - ---Tudo está mudado. E assim é que deve ser! acudiu André. E sabe -porquê? Porque se desenvolve na vida um coração novo, mãesinha. -Os corações estão todos elles despedaçados pela diversidade dos -interesses, roídos pela cega avareza, mordidos pela inveja, cobertos -de chagas e de feridas purulentas... de mentira, de covardia. Os -homens são uns doentes, que teem medo de viver... perdidos como -em um nevoeiro... conhecendo apenas a sua propria dor. Mas eis que -apparece um homem que illumina a vida com o fogo da razão e que -grita: «Eh! pobres insectos perdidos! Chegou o tempo de compreender -que tendes todos os mesmos interesses e o mesmo direito á vida e ao -desenvolvimento!» O homem que clama está isolado, sente-se triste e -tem frio sósinho. E ao seu chamamento, todos os corações se reunem, -formando um coração immenso, forte, sensivel como um sino de prata. E -este sino diz assim: «Uni-vos, homens de todos os paízes, formae uma -unica familia! A mãe da vida é a affeição e não o odio!» Irmãos, eu -oiço este sino! - ---E eu tambem! disse Pavel. - ---Deitado, de pé, vá para onde fôr, oiço-o e sinto-me feliz. Eu sei: -a terra está farta de supportar a injustiça e a dôr; éccôa como se -quizesse responder, saúdando o novo sol que desponta no peito do homem! - -Pavel ergueu um braço, ia falar; mas a mãe deteve-o, e disse baixinho: - ---Não o interrompa. - ---Sabem? ha ainda muitas dores reservadas aos homens; ainda muito -sangue lhes será arrancado por mãos ávidas. Mas tudo isto, toda a -minha dor e todo o meu sangue, nada são perante o que já possuo no meu -cerebro, na minha medula, nos meus ossos! Já sou rico como uma estrella -é rica em scintillações. Supportarei tudo, porque tenho em mim uma -alegria, que ninguem nem coisa alguma matará, e que é a minha força! - -E até á meia noite, a conversa proseguiu, harmonica e sincera, acerca -da vida, dos homens, do futuro. - - - - -XXIV - - -De manhã muito cedo, apenas André e Pavel tinham sido, Maria Korsounova -bateu á janella com estrondo. - ---O Isaías foi assassinado! Vamos ver! - -Pélagué estremeceu: o nome de assassino atravessou-lhe o peito como uma -flécha. - ---Quem o matou? - ---O assassino fugiu! - -Tendo posto um chale, á pressa, Pélagué foi ter com ella á rua. - ---Naturalmente começam outra vez a fazer buscas. Ainda bem que a tua -gente não saíu de casa áquella hora. Posso tesmunhar. Á meia noite -passei eu por aqui, olhei pela janella e vi-os a todos trez sentados á -meza. - ---Mas, Maria, porque haveriam de accusal-os? perguntou aterrorisada. - ---O assassino é forçosamente dos vossos! Todos sabem que o Isaías os -espionava... - -Pélagué parou, offegante, com a mão no peito. - ---Que é isso? Não tenhas medo. O Isaías não merecia outra coisa. Vamos -depressa, que não chegamos a tempo. - -A pobre velha caminhava sem mesmo perguntar a si propria para que ia -ver o cadaver; tremia pensando em Vessoftchikof: «Conseguiu o seu fim!» - -Não distante da fabrica, sobre o entulho d’uma casa recentemente -destruida por um incendio, grande ajuntamento de povo murmurava como -uma nuvem de bezouros, e movia-se levantando em poeira a cinza com -os seus passos. Já lá estavam muitas mulheres, ainda mais creanças, -lojistas, os moços da taverna proxima, agentes de policia, o guarda -Pétline, um guarda velho, de barbas brancas como prata, e com o peito -coberto de medalhas. - -Isaías estava meio deitado no chão; tinha as costas apoiadas a uma -trave enegrecida pelo fogo, a cabeça descaída para o ombro direito. -Conservava a mão direita na algibeira das calças; os dedos da esquerda -desappareciam contraídos sob a terra fôfa. - -Pélagué olhou para o rosto do morto. Um dos olhos tinha-o elle fixado -no boné posto entre as pernas estendidas, a boca entreaberta n’uma como -expressão d’assombro; a barbicha ruiva pendia. O corpo magro, com a -cabeça ponteaguda, e o rosto ossudo coberto de manchas avermelhadas, -parecia diminuido, comprimido pela morte. - -Ella então benzeu-se suspirando. Em vida, aquelle homem fôra-lhe -antipatico; morto, fazia-lhe dó. - ---Não tem sangue! disse alguem. Talvez o prostrassem aos murros. - ---Talvez ainda esteja vivo. - ---Vão-se d’aqui! berrou o guarda. - ---O medico já veio, e disse que elle estava morto! - ---Fecharam a boca a um denunciador... Foi bem feito! - -O guarda afastou as mulheres que o cercavam e perguntou ameaçadoramente: - ---Quem é que falou? - -Muitos recuaram; outros deitaram a fugir. Ouviram-se risos escarninhos. - -Pélagué voltou para casa. - ---Ninguem tem dó d’elle!... ia pensando. - ---E o perfil macisso do bexigoso erguia-se na sua frente; os seus olhos -tinham um brilho frio e rude; a sua mão direita balouçava, como se -estivesse ferida. - -Quando André e Pavel entraram para o jantar, perguntou-lhes logo: - ---E então? Não está ninguem preso por causa do Isaías? - ---Não ouvi nada... respondeu o russo-menor. - -Ella notou que os dois vinham sombrios e reservados. - ---Não falam do Vessoftchikof?... avançou. - -O filho encarou-a com severidade e respondeu, accentuando muito as -palavras: - ---Não! Ninguem pensa n’elle. Está ausente. Hontem ao meio dia, partiu a -caminho da ribeira e ainda não voltou... Tirei informações... - ---Deus seja louvado! exclamou ella com um suspiro d’alivio. - -Ao jantar, Pavel deixou caír de repente a colher no prato e disse: - ---Não entendo isto! - ---O quê? perguntou André, até ali triste e silencioso. - ---Admitto que matem um animal feroz, uma ave de rapina... Julgo-me -capaz de matar um homem que se tornasse uma fera para os seus -semelhantes. Mas como ha quem possa levantar a mão para assassinar uma -creatura miseravel e repugnante? - -André encolheu os hombros, e depois: - ---Elle era tão nocivo com uma fera. - ---Sei... - ---Nós tambem esborrachamos o mosquito que nos suga um pouco de sangue... - ---Sim, é verdade. Não é esse o meu ponto de vista. Digo que é -repugnante! - ---Que se ha de fazer? e encolheu outra vez os hombros. - ---Poderias matar uma creatura d’aquellas? perguntou Pavel depois de -curta pausa. - ---O russo-menor fitou-o, lançou um rapido olhar a Pélagué, e respondeu -tristemente mas com firmeza: - ---Se se tratasse de mim só, não tocaria em ninguem. Pelos companheiros, -pela nossa causa, faria tudo. Mataria até meu proprio filho, se preciso -fosse! - ---Oh!... suspirou Pélagué. - -Elle sorriu, concluindo: - ---Impossivel proceder d’outra maneira! É a vida que assim o quer! - -Como se obedecesse a um impulso intimo, André ergueu-se de repente. - ---Que se ha de fazer? É-se obrigado a odiar o homem, para que venha -mais cedo o tempo de admiral-o sem reservas. Temos que destruir -aquelle que obsta ao curso da existencia, que vende os outros para -adquirir honrarias ou o descanso. Se encontramos no caminho dos justos -um Judas que nos espera para nos traír, eu proprio seria um traidor, -se não o anniquilasse. É crime? É contra o direito? E os outros, os -nossos senhores, com que direito se servem de soldados e carrascos, -de casas publicas e de prisões, do degredo e de tanta coisa infame -para protegerem a sua segurança e o seu bem-estar? Os nossos senhores -assassinam-nos ás centenas, aos milhares; isto dá-me o direito de -levantar a mão e de deixal-a caír na cabeça d’um inimigo, d’aquelle -que mais se approximou de mim e que mais me prejudica na vida. Sei que -o sangue dos meus inimigos não cria, que é esteril... Desapparece sem -deixar vestigios, porque está podre; ao passo que quando o nosso rega -a terra como uma chuva compacta, a verdade desenvolve-se exhuberante! -Tambem o sei! Mas se vir que é indispensavel matar, matarei e -revindicarei a responsabilidade do meu crime. Não falo senão de mim. O -meu peccado morrerá comigo, não maculará o futuro com uma unica nódoa, -não manchará ninguem, ninguem senão eu! - -Cheia de tristeza e de inquietação, Pélagué sentia que elle tinha como -que uma mola partida no seu espirito, e que soffria. Não a inquietava -já o caso do assassinio: não tendo sido Vessoftchikof, nenhum outro -companheiro de Pavel o seria, por certo. - -André proseguia: - ---Tempo virá em que os homens se admirarão uns aos outros, em que -cada qual brilhará como uma estrella, em que escutará a voz do seu -semelhante, como se fosse uma musica. Haverá na terra homens ricos, -grandes pela sua liberdade, tendo todos o coração aberto, purificado -de qualquer ambição ou interesse. A vida será então um culto prestado -ao homem; a sua imagem será exhaltada porque para os homens livres -todas as alturas são accessiveis. Viver-se-á então na liberdade e na -egualdade, pela belleza; os melhores serão os que mais souberem abarcar -o mundo no seu coração, os que mais o amarem! E por esta vida assim, -estou prompto a tudo. Arrancaria o coração a mim proprio, e pizal-o-ia, -com os meus pés! - -O seu rosto tremia; as suas feições tinham uma excitação luminosa; uma -a uma, as lagrimas deslisavam-lhe pelas faces. - -Pavel levantou a cabeça e contemplou-o. Pélagué sentia-se inquieta, com -um vago e terrivel presentimento. - ---O que tens, André? perguntou Pavel, a meia-voz. - -Elle esticou o corpo, e fitando a velha: - ---Eu vi... eu sei... - -Pélagué levantou-se, correu a elle, pegou-lhe nas mãos. - ---Socega, André! meu filho!... socega!... murmurava. - ---Esperem!... Quero dizer-lhes como a coisa foi... - ---Não! não! accudiu ella, com os olhos razos d’agua. - -Pavel approximou-se d’elle, com as mãos trémulas e muito pálido, e -segredou-lhe: - ---A minha mãe receia que tivesses sido tu... - -Ella porem ouviu, e disse: - ---Não receio, não. Sei que não foi elle. Ainda que tivesse sido, não -acreditaria. - ---Oiçam... pediu André, sem os fitar e buscando libertar as mãos que -Pélagué não abandonava. Não fui eu... mas poderia ter evitado o crime. - ---Cala-te, André! exclamou Pavel, pondo-lhe a mão no hombro, como para -fazer cessar a tremura que lhe abalava todo o corpo. - -O russo-menor explicou então: - ---A coisa foi assim: quando nos deixaste, ficamos á esquina, eu e o -Dragounof. O Isaías appareceu de repente... e conservou-se afastado... -Troçava de nós, observando-nos... Dragounof disse-me: «Não vês! -Anda-me a espiar todas as noites. Ainda venho a dar-lhe uma lição!» -E afastou-se para entrar em casa, ao que julguei... Então o Isaías -chegou-se a mim... - -Suspirou: - ---Ninguem me insultou mais rélesmente do que aquelle cão! - -Sem falar, Pélegué fôra conseguindo puxal-o para junto da meza até -obrigal-o a sentar-se. - ---Disse-me que todos nós eramos conhecidos da policia, que tinha os -olhos em nós, e que antes do primeiro de maio estariamos servidos!... -Não respondi, limitei-me a rir-me, mas cá por dentro começava a ferver. -Disse-me depois que eu era um rapaz intelligente, que não deveria -metter-me a taes caminhos... - ---Percebo!... murmurou Pavel. - ---Isso! Acabou por dizer-me que seria melhor eu entrar ao serviço da -policia... - -E de punho cerrado erguido: - ---Que alma infame a d’aquelle homem! Mais valia que me houvesse -esbofeteado! ter-me-ia custado menos! e talvez fosse melhor para elle. -Perdi a paciencia quando assim me cuspiu no coração a sua saliva -infecta! Dei-lhe um muro em pleno rosto, e retirei-me. Ouvi uma voz -atraz de mim: «Fizeste muito bem!» Era Dragounof, que por certo tinha -ficado occulto na esquina. Não olhei para traz, apezar de sentir, de -compreender a possibilidade... Ouvi depois um ruido, mas não fiz caso. -Eu ia tão tranquillo como se tivesse acabado de esmagar um sapo. Quando -cheguei á fabrica, dizia toda a gente: «Mataram o Isaías! Não quiz -acreditar. A minha mão é que teve a culpa... Não sou senhor d’ella... -Não me faz soffrer, não... mas dir-se-ia que a sinto retraída agora... - -Lançou á mão um olhar rapido e exclamou: - ---Não conseguirei nunca laval-a d’esta mancha! - ---Tenhas tu bem puro o teu coração!... disse Pélagué chorando. - ---Não me accuso, não! declarou elle com energia. Mas é repugnante... -Não é agradavel ter esta lama cá dentro no peito! - ---Que pensas fazer? - ---O que quero fazer? - -E depois de reflectir, de cabeça baixa, ergueu-a e respondeu com amargo -sorriso: - ---Não tenho medo de dizer que fui eu... mas tenho vergonha do que fiz! -Não! não posso dizel-o! Tenho vergonha! - ---Não te percebo bem! exclamou Pavel, encolhendo os hombros. Não foste -tu quem matou; e ainda que... - ---Irmão, apezar de tudo, era um homem. O assassinio é coisa repugnante. -Saber que alguem assassina, e não o impedir... é talvez uma covardia -infame! - ---Continúo sem perceber! - -Ouviu-se o apito da fabrica. André deixou tombar a cabeça para o -hombro, escutando aquelle auctoritario chamamento e disse: - ---Não quero ir trabalhar. - ---Nem eu! - ---Quero ir tomar um banho! - -Vestiu-se á pressa e saíu. - -Pélagué seguiu-o com um olhar de compaixão; depois abriu-se com o filho. - -Podes dizer o que quizer, Pavel. Sei que é peccado matar um homem, mas -n’este caso não encontro culpa em ninguem. Lembro-me de que o Isaías me -ameaçou uma vez com a forca para ti... Eu não lhe queria mal, nem me -alegro por elle ter morrido... Tinha apenas dó d’elle... E agora... nem -mesmo isso já sinto... - ---Ahi tens o que é a vida, mãe! - - - - -XXV - - -Alguem acabava de chegar sob o alpendre. Mãe e filho entreolharam-se, -estremecendo. - -A porta abriu-se e deu entrada a Rybine. Trazia vestida uma capa curta, -de pelles, toda manchada de alcatrão, e nos pés sapatos de canhamo; do -cinto pendiam-lhe grosseiras luvas de lã preta; na cabeça um boné de -pelles. - ---Como vão de saúde? Puzeram-te na rua, Pavel? E tu, Pélagué, como vaes? - ---Ah! és tu? muito estimo ver-te! - ---Olha que vens mesmo lindo! disse Pavel. - -Rybine respondeu, tirando vagarosamente a capa: - ---Sim. Fiz-me camponez. Tu e os teus vão-se transformando pouco a pouco -em senhores; eu ando para traz. - -E passando ao quarto, lançou o olhar em roda. - ---Não teem mais mobilia do que d’antes. Os livros é que augmentaram. -São o melhor bem que se pode possuir hoje. Como vão as coisas por cá? -Conta-me. - -Sentou-se abrindo muito as pernas, apoiou as palmas das mãos nos -joelhos, parecendo satisfeito na espectativa da resposta de Pavel. - ---Vão bem. - ---Muito me alegro! muito me alegro! - ---Queres chá? perguntou a dona da casa. - ---Pudera! e um copinho de aguardente... e se me offerecessem de comer, -tambem não recusaria. Estou contente por tornar a vêl-os! - ---E como vae? - ---Bem. Parei em Eguildiévo. Conhecem? É uma bella villa, com duas -feiras por anno e mais de dois mil habitantes. Má gente. Não ha -terras para cultivar; arrendam-nas, mas são de má qualidade. Entrei -como assalariado ao serviço de um explorador do povo; não faltam -d’estas sanguesugas; são como as moscas á roda de um cadaver. Fazemos -carvão, extraímos alcatrão das bétulas. Trabalho duas vezes mais do -que trabalhava aqui, e ganho quatro vezes menos. Ao serviço d’esta -sanguesuga somos sete, todos lá da terra, menos eu. Sabem ler e -escrever. Um delles, chamado Jéfim, é muito bulhento... - ---E fala muito com elles? - ---Está claro. Levei comigo todos os meus folhetos. Tenho trinta e -quatro. Mas prefiro servir-me da Bíblia: encontra-se lá tudo o que se -quer, e é um livro permittido, publicado pelo Santo-Synodo, e no qual -se pode crer. - -Piscou o olho, malicioso, e continuou: - ---O peor é que não basta. Vim cá buscar leitura. Como vamos fazer uma -entrega d’alcatrão, o tal Jéfim e eu, combinámos a patuscada de passar -por tua casa... Dá cá livros antes que elle appareça... É inutil que -elle fique sabendo... - -Pélagué observava-o; parecia-lhe que ao largar a capa, largara tambem -qualquer coisa da sua pessôa: estava menos grave do que d’antes, e -havia no seu olhar mais astucia. - ---Mamã, vae buscar os livros. Dize que vão para o campo, que logo sabem -o que te hão de dar. - ---Irei apenas o samovar esteja pronto. - ---Quero livros proíbidos e bem incisivos. Distribuil-os-ei ás -escondidas. E se o padre ou alguem da policia os descobrir, imaginarão -que os mestres-escolas é que fazem a propaganda. De mim ninguem -suspeitará. - -Satisfeito por este achado, desatou a rir. - ---Olha sabes? disse Pélagué. Tens assim o aspecto de um urso, e afinal -és uma raposa! - -Pavel ergueu-se, em tom de censura: - ---Dar-lhe-emos os livros que deseja, mas o que pensa fazer não lhe fica -bem. - ---E porquê? - ---Porque se deve responder sempre pelo que se faz. - ---Não percebo o que dizes! - ---Acha bem que os mestres-escolas sejam mettidos na cadeia como -suspeitos de fazerem propaganda? - ---Então? que tem isso? Essa é boa! Os livros são coisa que lhes dizem -respeito, a elles; portanto elles que tenham a responsabilidade! - -Pélagué interveio, mostrando-se da opinião de Rybine, ao que Pavel -objectou: - ---Se qualquer de nós, o André por exemplo, praticasse uma infracção da -lei e me mettessem na cadeia, a mim, o que diria a minha mãe? - ---Ah! ah! É um caso melindroso!... exclamou Rybine. Mas assumindo uns -ares doutoraes: - ---Ainda és muito ingenuo, irmão! Não nos devemos preoccupar com casos -de honra, quando trabalhamos por uma causa secreta. Reflecte: quem -primeiro caírá na cadeia será a pessoa a quem forem encontrados os -livros, e não o mestre. Depois, o texto dos livros auctorisados que -os mestres distribuem é o mesmo dos livros proíbidos, com simples -differenças de palavras e com menos coisas verdadeiras do que os -nossos. Portanto os mestres teem o mesmo fim que eu, mas servem-se de -rodeios, ao passo que eu vou por caminho direito; e assim, aos olhos -das auctoridades, somos igualmente culpados; não achas? Em terceiro -logar, que tenho eu a ver com os mestres-escolas? Não procederia da -mesma maneira com um camponez. O mestre-escola é um filho de padre; -a mestra uma filha de proprietario; não sei porque se põem a querer -levantar o povo. Eu, camponez, não posso conhecer os seus pensamentos -de pessôas instruidas. Sei o que faço, mas ignoro o que elles querem. -Durante milhares d’annos, os grandes eram verdadeiros senhores e -tiravam a pelle do povo; de repente accordam e começam a abrir os olhos -ás suas victimas. Nunca tive predilecção por contos de fadas, e este -é um d’elles. Para mim, a gente rica e instruida, seja qual fôr, fica -afastada de nós. No inverno, quando atravessamos os campos e vemos ao -longe alguma coisa a mexer, perguntamos a nós mesmos: será uma raposa, -um lobo, um cão? Sabe-se lá o que é! - -E, passando a mão pela barba: - ---Não tenho tempo para delicadezas. O momento é grave. Trabalhe cada -qual, segundo a sua consciencia... Todas as aves teem o seu canto -especial. - ---Mas ha ricos que se sacrificam pelo povo, que passam toda a vida na -cadeia... observou a velha, recordando-se de pessoas amigas. - ---Com esses o caso é outro. Quando o homem do povo enriquece, -acotovella-se com os senhores. Estes, quando empobrecem, tornam-se -amigo do povo. Quando a algibeira está vasia, a alma torna-se pura, á -força. - -Ergueu-se e continuou, sombriamente: - ---Durante cinco annos, desacostumei-me do campo, andando errante de -fabrica em fabrica. Quando para lá voltei e vi o que se passava, -disse comigo que não podia viver como vivem os camponezes. Percebes? -Parecia-me impossivel. Por cá não se conhece a fome, nem a muita -humilhação. Mas na aldeia a fome segue o homem como uma sombra -durante toda a vida, sem nunca lhe dar a esperança de obter pão que -chegue. A fome devorou as almas, apagou as feições humanas; não se -vive: apodrece-se irremediavelmente na miseria. E as auctoridades -vigiam, cuidadosas; como os corvos, espreitam, não se dê o caso de -que o camponez tenha um bocado de pão a mais. Quando o descobrem, -arrancam-lho da mão, e ainda lhe dão com elle na cara! - -Encostado á mesa, de pé, falando muito perto de Pavel, proseguiu: - ---Julguei que não poderia supportar semelhante vida. Todavia, -dominei-me. Disse com os meus botões: «Não devo consentir que a minha -alma me faça partidas! Ficarei aqui, e, não podendo dar pão aos -camponezes, farei a zaragata!» - -Com a fronte coberta de suor, exclamou: - ---Dá-me livros que não deixem mais em descanso aquelles que os lerem. -Ajuda-me! É preciso metter ouriços dentro da cabeça d’aquella gente. -Dize aos que escrevem folhetos para os da cidade, que os escrevam -tambem para os do campo. Que os escrevam de maneira a regar o campo de -agua a ferver, para que os cultivadores, depois de lel-os, caminhem -para a morte sem protestarem! - -As frases vigorosas de Rybine impressionavam Pélagué. Havia n’aquelle -homem o que quer que fosse que lhe recordava o marido: um e outro -mostravam os dentes e arregaçavam as mangas, com a mesma irritação -impaciente. Ao menos, Rybine falava. - ---Sim! é indispensavel! disse Pavel. É indispensavel organisar um -jornal para o campo. Dê-nos o assumpto, narre-nos os factos, e nós lhe -daremos um jornal. - -Ao que Rybine respondeu. - ---Está dito! Mas escrevam com simplicidade, para que até os vitellos os -entendam! - - - - -XXVI - - -Pélagué tinha saído. Pouco depois alguem entrava. - ---É o Jéfim! informou Rybine. Entra! Anda cá. Este homem, que vês aqui, -chama-se Pavel. Foi d’elle que eu te falei. - -Jéfim era um rapagão de cara ampla, cabellos ruivos, olhos pardos, -robusto e bem talhado, trajando uma capa curta. Avançou até Pavel, de -boné na mão e olhar baixo. - ---Ora viva! resmungou, apertando a mão de Pavel, e tendo percorrido o -quarto com o olhar, demorando-o na estante dos livros, poz-se a alisar -com a mão os cabellos asperos. - ---Já os viu! exclamou Rybine. - -Jéfim foi ver os livros mais de perto. - ---Ih! quantos ha por cá! E naturalmente lê-os muito. No campo, não -temos tempo... - ---E pouca vontade, não? perguntou Pavel. - ---Ao contrario! Hoje somos obrigados a pensar, se não, não nos resta -mais do que deitarmo-nos e esperarmos a morte. Como o povo não quer -morrer, poz-se a trabalhar com o cerebro. «Geologia?...» O que é isto? - -Pavel explicou. - ---Não precisamos d’isso! concluiu Jéfim pondo o livro no seu logar. - -Rybine commentou: - ---O camponez não tem curiosidade de saber d’onde veio a terra, mas -sim como foi distribuida, como os proprietarios a arrancaram de sob o -dominio do povo. Que ella se mova ou não, que importa! comtanto que dê -de comer! - ---«Historia da escravatura!» Isto é com a gente? - ---Aqui tem um acerca da servidão. - ---É já muito velho. - ---Possue algumas terras? - ---Somos trez irmãos, e temos quatro hectares... terreno de areia fina. -Coisa fresca, para limpar metaes! mas para cultivar o trigo... Eu cá -libertei-me da terra. Não sustenta o homem, antes o traz manietado. Ha -quatro annos que me alugo como manufactor... Para o outomno vou para a -tropa. - -O Mikhaíl diz-me que não vá, porque obrigam os soldados a baterem no -povo. Mas vou, por força! É tempo de acabar com isto. Que lhe parece? - ---É tempo, é... respondeu Pavel, sorrindo. Mas o difficil está em saber -falar aos soldados. - ---Aprende-se! - ---Mas se o apanham em flagrante, podem fuzilal-o. - ---Sim... não me perdoarão... respondeu tranquillamente, voltando a vêr -os livros. - ---Vamos ao chásinho, companheiro, que temos que abalar! disse Rybine. - -André entrou muito vermelho, encalorado e taciturno. Apertou a mão de -Jéfim, sem falar, assentou-se ao lado de Rybine, e, depois d’olhar para -elle, sorriu. - ---Pareces triste, homem! Porquê? perguntou aquelle dando-lhe uma -palmada no joelho. - ---Porque sim! - -Jéfim, observava attentamente André, até que disse: - ---Os trabalhadores das cidades e villas são magrizellas, teem os ossos -a romper a pelle. Nós cá, os do campo, somos mais roliços... - -Rybine completou: - ---O camponez tem mais firmeza nas pernas. Sente a terra debaixo dos -pés, ainda que não lhe pertença. Mas o operario é como um passaro: não -tem patria, nem lar; um dia aqui, outro dia ali. - -Pélagué entrou. Jéfim tinha-se approximado de Pavel a quem pediu: - ---Poderia dar-me um livro? - ---Da melhor vontade. - -O jubilo brilhou-lhe no olhar. - ---Eu restituo depois. Obrigado! Hoje, os livros são tão precisos como á -noite uma candeia. - -Rybine tinha posto a capa. - ---Vamos, que são horas. - ---Olha: já tenho que ler! exclamou Jéfim, mostrando-lhe o livro, com um -sorriso muito aberto. - -Quando elles saíram, Pavel dirigiu-se a André. - ---Que me dizes áquelles diabos? - ---Parecem nuvens á hora do crepusculo: grossos, sombrios, arrastando-se -lentamente... - ---Tenho pena de que não chegasses mais cedo. Terias observado um -coração, tu, que estás sempre a falar de coração. Rybine disse das -suas... Não soube que responder-lhe. A minha mãe tem razão: aquelle -homem traz em si uma força terrivel! - ---Conheço isso! Essa gente do campo anda envenenada! Quando se -revoltarem, derrubarão tudo, sem distincção. Querem a terra -absolutamente sua, e arrancarão tudo o que a cobre. - -Falava de vagar; percebia-se que pensava n’outra coisa. Pélagué -disse-lhe com blandicia: - ---Deves espairecer, André! - ---Deixe, mãesinha, deixe... Embora eu não quizesse tel-o feito, a acção -foi abominavel! - -E voltando ao assumpto da conversa: - ---O nosso camponez queimará tudo, como se tivesse havido uma peste, -para que todos os vestigios das suas humilhações vôem com as cinzas. - ---E levantar-se-á depois contra nós... continuou Pavel. - ---O nosso dever é não lho consentir, reprimindo-o! Somos nós quem se -encontra mais perto d’elle. Acreditar-nos-á... seguir-nos-á! - ---Sabes? O Rybine pediu-me que fizessemos um jornal para os camponezes. - ---Apoiado! É tratar d’isso. - -E depois de commentar as ultimas palavras de Rybine, ergueu-se, dizendo: - ---Vou dar um passeio ao campo. - ---Depois do banho? Olha que faz muito vento... Vaes arranjar uma -irritação na pelle! accudiu Pélagué. - ---Deixal-o! Quero saír. - -Vestiu-se e foi-se sem dizer palavra. - ---Soffre! suspirou a velha. - ---Tens um bello coração, mamã! - ---Oxalá assim seja! Se ao menos podesse ajudal-os!... se eu soubesse!... - ---Não te dê cuidado: has-de saber. - -O russo-menor voltou tarde; estava fatigado; deitou-se logo, dizendo: - ---Parece-me que andei uns dez kilometros... - ---Isso vae melhor? - ---Não sei... Não faças barulho... Deixa-me dormir. - -Pouco depois, Vessoftchikof appareceu, sujo, esfarrapado e de mao-humor -como sempre. - ---Não sabes quem matou o Isaías? - ---Não! respondeu Pavel. - ---Até que houve um homem que não achou antipatico esse feito! E eu que -me preparava para torcer-lhe o pescoço!... - ---Não digas essas coisas, companheiro! - -Pélagué interveio: - ---És bom e tens sempre palavras tão crueis!... Para quê? - -Era-lhe então agradavel tornar a vêl-o; o seu rosto bexigoso chegava -até a parecer-lhe bonito; sentia mais piedade por elle. - ---Eu não sirvo para nada, senão para taes emprezas! Pergunto -constantemente qual é o meu logar. Não o encontro. Se é preciso -falar... não sei... Vejo tudo, sinto todas as humilhações dos homens, e -não posso exprimil-as. Tenho uma alma muda. Irmãos, dêem-me um trabalho -penoso, seja qual fôr. Não posso viver assim, sem fazer nada em favor -da nossa causa. - -Pavel pegou-lhe n’uma das mãos. - ---Havemos de pensar em ti, descansa. - ---André disse lá da cama: - ---Ensinar-te-ei a conhecer as letras d’imprensa, e serás um dos nossos -compositores; queres? - ---Se me ensinares, dar-te-ei de presente uma navalha. - ---Vae para o diabo mais a tua navalha! - ---Uma navalha bôa! insistia. - -André e Pavel riram á larga. Elle parou no meio do quarto, perguntando: - ---Estão a rir-se de mim? - ---Então de quem? - -E o russo-menor saltou da cama. - ---Se fossemos dar um passeio pelo campo? A noite está bôa, ha luar. -Vamos? - ---Pois vamos! apoiou Pavel. - ---E eu tambem vou. Gosto de ouvir rir o André! - ---E eu gosto que me promettas presentes! - - - - -XXVII - - -...Os dias decorriam com tal rapidez que não deixavam que Pélagué -pensasse no primeiro de maio. Só á noite quando se deitava, fatigada -dos trabalhos e preoccupações, é que o seu coração se confrangia, e o -seu cerebro a fazia monologar: - ---Se ao menos já tivesse passado!... - -Todas as noites as folhas impressas convidando os operarios a -festejarem o primeiro de maio eram colladas até á porta das estações -policiaes; todas as manhãs appareciam tambem na fabrica. Os policias -percorriam o bairro logo de manhãsinha e arrancavam das paredes os -pequenos cartazes côr de violeta; mas pelo meio dia elles tornavam a -apparecer espalhados pelo chão. Da cidade vieram policias da secreta -que ás esquinas espiavam os menores movimentos dos operarios que iam e -vinham, animados, alegres, pelas ruas. - -Era um prazer disfructar a impotencia da policia; até a gente de idade -dizia, sorrindo: - ---Tem graça isto! - -Pavel e André quasi não dormiam. Regressavam a casa, palidos, -fatigados, pouco antes do apito da fabrica soltar a sua estridula -chamada. Pélagué sabia que elles organisavam reuniões na floresta, no -pantano; não ignorava que a policia trabalhava para abafar o movimento, -chegando até a prender alguns operarios; compreendia que todas as -noites o filho e André se arriscavam a serem presos, e chegava a pensar -que talvez isto fosse melhor. - -Em volta do assassinio de Isaías tinha-se feito um silencio -extraordinario. A policia interrogou a principio umas dez pessoas; -depois desinteressou-se do assunto. - -Um dia, Maria Korsounova, que vivia em paz com a policia como com toda -a gente, dizia: - ---É lá possivel encontrar o criminoso!... N’aquella manhã mais de cem -pessoas viram o Isaías, e pelo menos noventa tel-o-iam esganado de bôa -vontade. - -...André transformava-se a olhos visto. As faces tinham-se-lhe -encovado; as palpebras descaíam-lhe cerrando-lhe os olhos; sorria -menos; das narinas descia-lhe uma ruga até ao canto dos labios. -Todavia entusiasmava-se mais, falando do futuro, da festa luminosa e -deslumbrante do triunfo da liberdade e da razão. - -Falando de Isaías, declarou: - ---Quanto mais penso n’elle, mais dó me causa. Não queria que o -matassem, não! não queria! - ---Acaba com isso! disse Pavel. - -Pélagué acrescentou: - ---Houve quem topasse n’um tronco pôdre, que se desfez em pó. - -...Chegou emfim o dia tão impacientemente desejado: o primeiro de maio. - -Como de costume, o apito da fabrica fez-se ouvir auctoritario, -implacavel. Pélagué levantou-se d’um salto e foi accender o samovar, -que ficára preparado de vespera. - ---Ouves, Pavel? Chamam por nós... disse André. - ---E nós levantamo-nos! respondeu Pavel alegremente. - ---Já faz sol... e as nuvens vão-se embora. Seriam de mais, hoje! - -Ao vêl-o perto de si, a velha supplicou-lhe: - ---Meu André, não te afastes d’elle! - ---Está dito! Andaremos sempre juntos. Descanse. - ---Que estão a dizer? perguntou Pavel. - ---Nada. É a mãe que quer que eu me lave mais que de costume, porque as -raparigas hoje vão olhar muito para mim! - -Pélagué pensava: «Elles agora estão de brincadeira; mas o que -acontecerá ao meio dia?» - -Á meza, tomando o chá, André contou: - ---Quando eu era um garoto de dez annos, tive um dia a ambição de -apanhar um raio de sol com o meu copo. Parti o copo, cortei a mão, e -levei pancada. Saí depois para o pateo, e como o sol se reflectisse -n’uma poça d’agua, saltei n’ella aos pulos. Levei mais pancada porque -fiquei coberto de lama. Berrei para o sol: «Isto não faz mal! seu diabo -ruivo! isto não faz mal!» E deitei-lhe a lingua de fóra, por vingança. - ---Porque lhe chamavas diabo ruivo? - ---Defronte de nós morava um ferreiro de cara vermelhaça e barba ruiva; -era um rapagão sempre alegre; e eu achava que o sol se parecia com elle. - -Pélagué exclamou: - ---Ora esta! Pois não seria melhor que falassem do que vão fazer? - ---Está tudo organisado! replicou o filho. - ---No caso de sermos presos, mãesinha, o Nicolao Ivanovitch virá -dizer-lhe o que tem a fazer, auxiliando-a em tudo. - -O apito da fabrica tinha tocado de novo, mas dir-se-ia já menos firme, -como receoso. - -Pavel aventou: - ---Se fossemos para a rua?... - ---Não. Deixa-te estar em casa até á hora... aconselhou André. Para que -has de atrahír a attenção da policia, que te conhece perfeitamente? - -...Fédia Mazine entrou radiante. - ---O povo já se mexe... Pelas ruas, as caras andam severas como -machados. Vessoftchikof, Vassili Goussef e Samoílof estão á porta da -fabrica e falam aos operarios... Muitos já voltam para casa. Vamos! são -dez horas. - ---Vamos! disse Pavel, resoluto. - -Pélagué exclamou: - ---Arde de impaciencia, como uma vela ao vento! - -Levantou-se e passou logo á cosinha para vestir-se. - ---Que vae fazer, mãe? - ---Arranjar-me para ir tambem! - -André lançou um olhar a Pavel, puxando pelo bigode. Rapidamente, elle -foi ter com a mãe. - ---Não falarei comtigo, nem tu comigo. Está combinado? - ---Está combinado! Deus os acompanhe! - - - - -XXVIII - - -Quando na rua ella ia ouvindo o murmurio das vozes, quando via por toda -a parte, nas janellas, ás portas das casas, grupos que seguiam com o -olhar André e Pavel, o coração ora parecia brilhar-lhe, ora toldar-se -de uma nuvem opaca. - -Ouviam-se frases soltas: - ---Ali vem os commandantes do exercito! - ---Sabemos lá quem são os commandantes?!... - ---Isto não foi por mal. - ---Se a policia os agarra, estão perdidos! - ---Isso agarra ella! - -Um grito agudo, de mulher, partiu d’uma janella. - ---Estás doido? És pae de familia!... Elles são solteiros! - -Ao passarem defronte da casa de um tal Zossimof, operario inhabilitado -que vivia d’uma pensão da fabrica, elle chegou á janella e berrou: - ---Ó Pavel, olha que te cortam a cabeça, como a um salteador! - -André e Pavel pareciam não ver, não ouvir nada. Caminhavam, calmos, sem -pressa, falando em voz alta de varios assuntos. - -Encontrando Mironof, homem d’idade, modesto, respeitado pela vida -exemplar que levava: - ---Tambem não trabalha hoje, Danilo Mironof? perguntou Pavel. - ---A minha mulher está com as dôres do parto... e depois... anda uma -coisa no ar... Dizem que os srs. querem fazer escandalo, partir os -vidros da fabrica... - ---Não somos uns bebados! exclamou Pavel. - -André explicou: - ---Atravessaremos apenas as ruas, levando bandeiras e cantando o hymno -da liberdade. Oiça o nosso hymno, que elle lhe ensinará as nossas -crenças. - ---Já as conheço... - -E vendo Pélagué: - ---Tambem tu? - ---Devemos caminhar com a verdade, mesmo á beira da cova. - ---É isso! Aqui está porque dizem que tu levas folhetos proíbidos para a -fabrica. - ---E quem o diz? perguntou Pavel. - ---Toda a gente. Adeus... adeus... Não façam algum disparate. - -Pélagué poz-se a rir baixinho: envaidecia-a que assim falassem d’ella. -O filho disse-lhe: - ---Mettem-te na cadeia, mamã. - ---Quem me dera! - -Á esquina d’uma pequena praça, á entrada de uma rua estreita, umas cem -pessoas cercavam Vessoftchikof, que discursava. - ---Espremem-nos para nos tirarem o sangue, como espremeriam um limão -para lhe tirarem o succo. - ---É verdade! responderam algumas vozes que se confundiram depois no -confuso ruido. - ---Faz o que pode, o pobre rapaz! disse André. Vou ajudal-o. - -Approximou-se do grupo, abaixou-se, penetrou n’elle como um -sacca-rôlhas e começou: - ---Companheiros! Dizem que ha na terra toda a especie de povos: judeus e -allemães, francezes, inglezes, tartaros. Mas não creio que assim seja. -Ha só duas raças, dois povos irreconciliaveis: os ricos e os pobres. Os -vestuarios são differentes, as linguas tambem; mas quando se vê como -os senhores tratam o povo, compreende-se que elles são verdadeiros -carrascos para os miseraveis, uma especie de espinha atravessada na -garganta. - -Rebentou uma gargalhada. - -O ajuntamento augmentou; os ouvintes estendiam o pescoço, punham-se nos -bicos dos pés. - ---No estrangeiro, os operarios já compreenderam esta simples verdade. E -hoje todos confraternisam n’este luminoso dia primeiro de maio. Deixam -o trabalho, e saem para a rua, para se verem, para medirem a sua grande -força. Hoje formam um coração unico, porque todos os corações têem a -consciencia da força do povo operario, porque a amisade os une, estando -cada qual disposto a sacrificar a vida luctando pela felicidade de -todos, pela liberdade, pela justiça a todos! - ---A policia! gritou alguem. - -Dez guardas a cavallo voltaram a esquina proxima e dirigiram-se para o -ajuntamento, de chicote no ar, e intimando: - ---Nada de ajuntamentos! - ---Girem! - ---Que conversas eram essas? - ---Quem falava? - -As fisionomias annuviaram-se: todos davam passagem aos cavallos; alguns -treparam a uns tapumes. - -Depois veio a troça. - ---Olhem: montaram uns porcos a cavallo, e elles grunhem: «Nós tambem -damos ordens!» - -André ficou sósinho no meio da rua. Dois cavallos avançaram para elle, -ao mesmo tempo que Pélagué o agarrava, dizendo-lhe: - ---Prometteste não abandonar o Pavel, e vens expôr-te assim!... - -...Chegaram afinal á grande praça, ao centro da qual se erguia a -egreja. No largo havia umas quinhentas pessoas, movendo-se impacientes. - ---Mitia! supplicava uma voz feminina. Tem cuidado em ti! - ---Deixa-me em paz! - -A voz amiga e grave de Sizof dizia, calma e persuasiva: - ---Não! não devemos abandonar os rapazes. Teem mais juizo do que nós, e -mais audacia. Quem foi que se metteu no caso do kopeck para o pantano? -Foram elles. Não nos esqueçamos. Estiveram na cadeia por causa d’isso, -mas todos nós aproveitámos da sua coragem! - -O rugido do apito da fabrica supplantou o ruido das conversas. A -multidão estremeceu; muitos empallideceram. - ---Companheiros! gritou Pavel. - -A seu lado, a mãe tremia. Decorridos instantes, quando tudo caíra em -silencio: - ---Irmãos! Chegou a hora de renegarmos d’esta vida cheia d’aridez, de -trevas e de odio, esta vida de oppressão em que não ha um logar para -nós, em que não somos homens! Companheiros! resolvemos declarar hoje, -abertamente, quem somos, desfraldando a nossa bandeira, a bandeira da -razão, da verdade, da liberdade! - -Um pao de bandeira comprido e branco for levantado ao ar, tremulando -n’elle, como uma ave vermelha, a bandeira do povo operario. - -Pavel estendeu o braço, gritando: - ---Viva o povo operario! - -Centenares de vozes lhe responderam em unisono. - ---Viva o nosso partido, companheiros! Viva a liberdade do povo russo! - -Mazine, Samoílof, os dois Goussef tinham-se postado junto de Pavel; -Vessoftchikof ia empurrando quem lhe impedia o caminho até elle. -Pélagué, trémula, com os olhos cheios de lagrimas, agarrou-lhe -novamente n’uma das mãos, balbuciando: - ---Sim!... é a verdade!... meus amigos! - -Elle contemplava a bandeira, rugindo palavras vagas, e com a outra mão -estendida para o símbolo da liberdade. Depois abraçou-se a Pélagué, -rindo. - ---Companheiros! começou então André, dominando o sussurro com a sua -voz meiga, potente e cantante. Erguemo-nos em honra d’um novo Deus, -do Deus da luz e da verdade, da razão e da bondade! Partimos para a -cruzada, companheiros, e o caminho será comprido e difficil. O fim está -distante, e os espinhos estão proximo. Queremos ao nosso lado os que -vejam o fim e creiam no bom exito; os outros não, porque só os esperam -o pezar e o soffrimento. Entrae nas fileiras, companheiros! Viva o -primeiro de maio, a festa da humanidade livre! - -Pavel ergueu a bandeira. - ---_Reneguemos do velho mundo!_ cantou Fédia Mazine com voz sonora. - -A resposta veio logo como uma enorme vaga potente: - ---_Saccudamos a poeira dos pés!_ - -Pélagué, com um sorriso ardente, via por cima da cabeça de Fédia, o -filho e a bandeira. No meio das vozes mais proximas que entoavam o -hymno, chegava-lhe aos ouvidos a de André: - - Ergue-te, ergue-te, ó povo operario! - Revoltae-vos, esfomeados!... - -E o povo corria, apertava-se, avançando para a bandeira, proseguindo no -hymno, que em voz baixa tinha sido aprendido em casa. - - Corramos para aquelles que soffrem... - -Um rosto de mulher, meio jubiloso e meio assustado, surgiu ao lado de -Pélagué. - ---Mitia, onde vaes? - -E a velha respondeu: - ---Deixe-o lá! Não lhe dê cuidado! Eu tambem tinha mêdo, d’antes. O meu -está á frente de todos. Aquelle que tem na mão a bandeira é o meu filho! - -A outra porem continuava: - ---Ó desgraçado! que fazes? Os soldados estão ali adiante! - ---Não se assuste! Isto é uma missão sagrada! Até Jesus não teria -existido, se não houvesse homens que morreram por sua causa! - -Sizof appareceu perto d’ella, agitando no ar o boné, ao compasso do -hymno: - ---Isto é que é bem ás claras! ãn? Inventaram um hymno que é mesmo -lindo! ãn? - - O tzar quer soldados na tropa: - Vossos filhos lhes daes... - ---Não teem medo de nada! exclamou Sizof. O meu filho está na cova... -Foi a fabrica que o matou! - - Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido! - -A multidão, allucinada, nem olhava para traz de si, com os olhos fitos -na bandeira vermelha, que balouçava ao vento. - ---Bello côro! bravo, rapaz! berrava um entusiasta; e invadido por um -sentimento, que não sabia exprimir, desatou a rogar pragas. - -D’uma janella partiu uma voz de canna rachada: - ---Hereticos! Revoltarem-se contra Sua Majestade o Imperador! contra o -tzar! - -Mas o hymno continuava, firme, altivo. - -Pélagué, que no meio dos encontrões, fôra sendo empurrada para distante -do centro do grande ajuntamento, ouvia então frases soltas: - ---Perto da escola está uma companhia de soldados, e outra na fabrica... - ---O governador já chegou... - ---O quê? é verdade? - ---Vi-o com os meus olhos! - ---Ainda bem! Começam a ter medo de nós! Já nos mandam soldados, e o -governador. - -As vozes do côro foram enfraquecendo; dir-se-ia um movimento de recúo. -Alguns iam-se calando. Aqui e ali havia quem tentasse animar de novo o -hymno moribundo. - - Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido! - Ao inimigo, ó gente esfaimada! - -Pélagué não podia ver o que se passava no centro; abrindo á força -caminho, notou que a multidão tendia a dispersar, de cabeça baixa, -sobrolhos franzidos, com as narinas contrafeitas. Ouviam-se já alguns -assobios trocistas. - ---Companheiros! gritava Pavel. Os soldados são homens como nós. Não -nos farão mal. Porque haviam de fazel-o? Porque levamos a liberdade a -todos? Mas precisam tambem da nossa verdade. Não compreendem ainda, mas -tempo virá, e muito em breve, em que entrarão nas nossas fileiras, em -que já não marcharão sob o estandarte dos gatunos e dos assassinos, mas -sim á sombra da nossa bandeira da liberdade e do bem! E para que elles -compreendam mais depressa a nossa liberdade, caminhemos para a frente! -Ávante! companheiros! ávante! - -A sua voz era firme, mas o rebanho dispersava. - - - - -XXIX - - -Pélagué distinguiu á entrada da rua um como pequeno muro, cinzento -baixo, composto de seres humanos sem fisionomia e que tapavam a saída -da praça. - -Era este muro que infundia o receio em toda aquella gente. - ---Companheiros! continuava Pavel. A vida inteira está na nossa frente! -Não temos outro caminho! Cantemos! P’rá frente! - -Respondeu-lhe um silencio esmagador. A bandeira ergueu-se, balouçou, -e agitando-se por sobre as cabeças, apontou para o muro cinzento dos -soldados. Pélagué estremeceu, fechou os olhos e suspirou: apenas quatro -pessôas se tinham destacado da multidão e avançavam: Pavel, André, -Samoílof e Mazine. - -Ouviu-se a voz trémula de Fédia, cantando: - ---«_Sois as victimas prostradas!..._» - ---_Na grande lucta fatal!_ continuaram duas vozes como dois suspiros -abafados. - -E uma voz de commando chegou aos ouvidos de alguns: - ---Cruzar baionetas! - -O muro cinzento agitou-se, as baionetas fuzilaram no ar, na direcção da -bandeira. - ---Marche! - ---Ahi veem elles! exclamou um vesgo que estivera proximo de Pélagué; e -mettendo as mãos nas algibeiras, afastou-se com grandes pernadas. - -Os soldados avançavam em fila, de baioneta calada. Pélagué -approximou-se do filho, com as mãos no peito e viu André collocar-se na -frente d’elle, como para protegel-o. - ---Ao meu lado, companheiro! ordenou Pavel. - -Com as mãos nas costas, André cantava, de cabeça erguida, avançando -sempre. Pavel deu-lhe um encontrão com o hombro, exclamando: - ---Aqui! ao meu lado! Não tens o direito de ir á minha frente! O -primeiro deve ser o porta-bandeira! - ---Dis... per... sae!... gritava um officialsito com voz aguda, de sabre -no ar, marchando sem dobrar os joelhos e batendo com os tacões, raivoso. - -A seu lado, um pouco atraz, marchava pesadamente um homem muito alto -de farto bigode branco, com uma grande capa cinzenta, debruada de -vermelho, e as amplas calças listradas de amarello. Como o russo-menor, -caminhava com as mãos nas costas. Tinha os olhos cravados em Pavel. - -Os da bandeira e os soldados iam-se approximando; estes, no seu -caminho, iam fazendo dispersar a multidão sem lhe tocar. - ---Salve-se quem puder! - ---Vem, Vlassof! - ---Para traz, Pavel! - ---Dá cá a bandeira, Pavel! dizia Vessoftchikof. Eu a escondo. - -E deitou-lhe a mão. - ---Deixa! berrou Pavel. - -O bexigoso retirou logo a mão, como se se tivesse queimado. O hymno -cessára de todo. Os rapazes pararam, envolvendo Pavel n’um circulo, que -elle acabou por transpor. - -Sob a bandeira haveria, quando muito, uns vinte homens; mas firmes. - ---Tenente, prenda aquelle! ordenou o velho alto apontando para Pavel. - -O officialsito accorreu logo, e agarrou no pao da bandeira. - ---Dá cá isso! - ---Não! Abaixo os oppressores do povo! - -A bandeira tremia; inclinava-se ora para a direita, ora para a -esquerda, ficando depois erecta. Vessoftchikof passou pela frente de -Pélagué, com o braço erguido, de punho cerrado, e com uma rapidez que -ella não lhe conheceu. - ---Agarrem todos! berrou o velho, batendo com o pé. - -Alguns soldados avançaram, um d’elles com a coronha no ar; a bandeira -estremeceu, baixou e desappareceu no grupo cinzento. - -Pélagué soltou um grito, um rugido que não tinha nada de humano. Aos -ouvidos chegou-lhe a voz do filho: - ---Até á vista, mãe! até á vista! - -«Está vivo! não se esqueceu de mim!» taes foram os seus dois rapidos -pensamentos. - -Poz-se nos bicos dos pés e conseguiu ver a cara de André. - ---Meus filhos, meus queridos filhos! André! Pavel! - -E elles iam dizendo: - ---Até á vista, companheiros! - -Algumas vozes lhes responderam, mas não em unisono; vinham das -janellas, dos telhados, não se sabia d’onde. - - - - -XXX - - -Alguem deu um empurrão em Pélagué. Atravez do nevoeiro que lhe toldava -os olhos, viu diante d’ella o officialsito, que lhe gritou: - ---Vae-te d’aqui, velha! - -Mediu-o com o olhar d’alto a baixo, viu-lhe aos pés o pao da bandeira -partido em dois; a um dos pedaços estava preso um resto da bandeira. -Abaixou-se para apanhal-o. O official arrancou-lho das mãos, lançou-o -para distante, e ordenou de novo: - ---Vae-te, velha! - -Do meio dos soldados partiu o estribilho: - ---_Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido!_ - -O official retrocedeu, rapido, e esganiçou-se, ordenando: - ---Façam-os calar! Krainof... - -Vacilante, Pélagué apanhou outra vez o destroço da bandeira. A -dez passos d’ella formára-se novo ajuntamento. Urravam, grunhiam, -assobiavam, recuando lentamente, e dispersando para os pateos visinhos. - ---Vae para o diabo! berrou um soldado, empurrando Pélagué para cima do -passeio. - -Para não caír, porque os joelhos vergavam, ella caminhava apoiada ao -destroço da bandeira, ouvindo sempre atraz de si os soldados. Até que -estes passaram-lhe á frente. - -Parou. Á entrada da rua, um cordão de tropa impedia a passagem para a -praça, que ficára deserta. Quiz voltar para traz, mas sem saber o que -fazia, continuou para a frente; metteu-se por uma ruasinha estreita. -Parou de novo. Ao longe, o povo susurrava. - -A ruasita quebrava perto d’ella para a esquerda. N’um grupo compacto -discutia-se. - ---Não é por insolencia que elles affrontam as baionetas, irmãos! - ---Viram, ãn! Os soldados a marcharem sobre elles, e elles impassiveis! -sem medo! - ---Que valente é o Pavel Vlassof! - ---E o russo-menor! - ---Meus amigos! boa gente! exclamou ella, avançando. - ---Olhem: traz na mão o resto da bandeira! - ---Cala-te! ordenou uma voz severa. - -Ella estendeu o braço, com um gesto largo. - ---Escutem, em nome de Jesus! Sois todos dos nossos, gente sincera. -Abride os olhos... olhae sem receio... O que se passou? Os nossos -filhos levantam-se, pacificamente... Os nossos filhos, o nosso sangue, -levantam-se em nome da verdade, abrem lealmente um caminho novo, -largo, direito, destinado a todos... Por todos vós, pelos vossos -filhos, empreendem uma cruzada... dirigindo-se para um mundo cheio de -encanto. Em nome de todos e pelo nome de Christo, caminham contra todas -as coisas por meio das quaes os maos, os mentirosos, os rapinantes, -nos prendem, nos estrangulam prisioneiros. Meus amigos! é pelo povo, -pelo mundo inteiro, por todos os opprimidos que os nossos filhos se -sublevaram. Não os abandoneis, não os renegueis, não deixeis os vossos -filhos seguirem sósinhos a sua estrella. Tende piedade de vós mesmos... -amae-os... compreendei aquelles corações juvenis... tende confiança -n’elles. - -Fatigada, avergou. Alguem amparou-a. - ---É Deus que a inspira! disse um d’elles. É Deus que a inspira, amigos! -Escutem-na! - -Outro lamentou-a: - ---Ah! está-se matando! - ---Não se está matando, não, idiota! A nós é que fére, fica sabendo! - -A mesma voz aguda e anciosa tornou a fazer-se ouvir: - ---Christãos! O meu Mitia... A sua alma é pura... O que fez elle? Seguiu -os seus companheiros muito queridos. Fez bem. Por que abandonaes os -nossos filhos? Que mal fizeram elles? - -Sizof disse a Pélagué: - ---Volta para casa... Vae... Estás arrazada! - -Passando depois pelo auditorio o olhar severo: - ---O meu filho Matwei foi esmagado, na fabrica, bem sabeis. Mas se -vivesse, eu proprio o teria mandado entrar nas fileiras d’aquelles... -Ter-lhe-ia dito. «Vae com elles, vae, porque defendem uma causa justa, -uma causa santa!» É um velho quem lhes está falando. Conhecem-me todos. -Ha trinta e nove annos que trabalho aqui... ha cincoenta e sete que -vivo n’este mundo. O meu sobrinho, um bello rapaz, intelligente e -honrado, foi preso hoje outra vez. Ia tambem á frente de todos com o -Vlassof, ao lado da bandeira. - -E pegando na mão de Pélagué: - ---Esta mulher disse a verdade. Os nossos querem viver com honra, -segundo o que manda a razão; e nós... nós abandonamol-os! Vae para -casa, minha velha, vae! - ---Meus amigos, a vida é para os nossos filhos! é para elles a terra! -disse ella passando pela multidão o olhar toldado de lagrimas. - ---Vae, Pélagué, vae... Toma o teu arrimo! - -E deu-lhe o destroço da bandeira. - -Olhavam para a velha com respeitosa tristeza; seguiu-a um murmurio de -compaixão. Sem falar, Sizof abria-lhe caminho; e o povo afastava-se sem -protesto, obedecendo a uma força inexplicavel, trocando em voz baixa -breves palavras de lamento. - -Ao chegar á porta de casa, Pélagué voltou-se para elles, e disse com -muito reconhecimento: - ---Obrigada a todos! - -E accrescentou: - ---Nosso Senhor Jesus Christo não teria vindo ao mundo, se os homens não -morressem pela sua gloria! - -A multidão olhou para ella em silencio. - -Quando Pélagué entrou em casa acompanhada por Sizof, houve ainda na rua -algumas frases em que a reflexão dominava... Depois todos dispersaram, -vagarosos. - - - - - SEGUNDA PARTE - - - - -I - - -...O resto do dia passou n’um nevoeiro entrecortado de recordações, -n’uma fadiga extrema que opprimia corpo e alma. Como uma sombra -pardacenta, o officialsito saltitava sob os olhares da velha, e em -negro redemoinho movediço luziam o rosto bronzeado de Pavel e os olhos -risonhos de André... - -A velha ia e vinha pelo quarto, sentava-se junto da janella, olhava -para a rua, tornava a levantar-se e franzia o sobrolho; sentia-se -estremecer, relanceava os olhares em torno; e com a cabeça esvaída, -procurava o que quer que fôsse, sem mesmo saber o que queria... -Bebeu agua sem acalmar a sêde, sem extinguir no coração o ardente -brazeiro de angustia e de humilhação que toda a consumia. Aquelle -dia apresentava-se-lhe dividido em duas partes. A primeira tinha uma -significação, um conteúdo, mas a segunda era como se se evaporasse, era -um vacuo absoluto. Pélagué não encontrava resposta á pergunta tremente -de perplexidade que a si propria apresentava: - ---Que havia de fazer... agora?... - -Maria Korsounova appareceu então. Poz-se a gesticular com força, -gritou, chorou, bateu o pé, alvitrou e prometteu qualquer coisa, -ameaçou quem quer que fôsse. Mas tudo aquillo não conseguiu -impressionar sequer a outra. - ---Ah! dizia a voz destemperada de Maria, assim como assim, o povo -mexeu-se d’esta vez... Ahi a teem em revolta, toda a fabrica! - ---É verdade, é, respondeu baixinho Pélagué, meneando a cabeça. E com o -olhar fito, considerava quão longe ficára o passado e tudo o que d’ella -se afastára com André e com Pavel. Não podia chorar. Tinha o coração -confrangido mas arido; os labios seccos tambem, como a garganta. -Tremiam-lhe as mãos e tinha arrepios gélidos pelas costas. Mas -subsistia n’ella uma scentelha de colera, fixa, cravada no coração qual -agulha. E a tal intimo instigamento respondia ella com uma promessa de -fria reflexão: - ---Esperem um pouco!... - -E então, tossindo ruidosamente, franzia as sobrancelhas. - -Pela noite, veio a policia. Recebeu-os sem admiração nem temor. -Entraram pela casa dentro fazendo muita bulha, com ares satisfeitos. O -official de pelle amarellada disse, mostrando os dentes: - ---Então como vae isso? É esta a terceira vez que nos encontramos, an? - -Ella ficou-se em silencio e passou a lingua pelos beiços para -humedecel-os. Entrou então o official a falar muito, em tom de pessoa -fina. E Pélagué percebia que elle falava pela satisfação de se ouvir -a si proprio. Mas as palavras nem lhe chegavam aos ouvidos nem a -impressionavam. No entretanto, quando o official lhe disse: - ---Tu propria tens culpas, porque não soubeste inspirar a teu filho o -respeito a Deus e ao Imperador... - -Respondeu sem o fitar: - ---Os nossos filhos é que são os nossos juizes... Elles hão de -condemnar-nos, e com toda a razão, visto que os deixámos seguir tal -caminho... - ---O quê? gritou o official, fala mais alto! - ---Digo que os nossos juizes são os nossos filhos! repetiu com um -suspiro. - -O outro poz-se então a discorrer em voz rapida e irritada, mas as -frases precipitavam-se e não commoviam a velha. - -Citada como testemunha, Maria Korsounova ficára de pé ao lado de -Pélagué, para quem nem olhava. Quando o official lhe fazia qualquer -pergunta, inclinava-se logo muito baixo e respondia em voz monotona: - ---Não sei, Excellencia! Sou uma pobre mulher ignorante, só trato do meu -negocio... Graças á minha estupidez, nada sei... - ---Cala-te d’ahi! ordenou o official retorcendo os bigodes com violencia. - ---A mulher inclinou-se, e logo, fazendo-lhe um gesto de provocação que -elle não viu, murmurou: - ---Toma, guarda lá este! - -Mandaram-lhe que revistasse a velha. Pestanejou primeiro; depois fitou -o official, com os olhos muito abertos. E declarou com voz submissa: - ---Mas eu não sei fazer isso, Excellencia! - -O official bateu o pé, zangado. - ---Está bem... Desabotoa-te, Pélagué, disse Maria. E muito córada, -passou a revolver e a apalpar o fato da outra, commentando baixinho: - ---Ein? que corja! - ---O que é? gritou o official desabridamente, e insinuou o olhar, -desconfiado, pela abertura por onde Maria se desempenhava da tarefa. - ---Nada, Excellencia, não é nada; coisas que só nós usamos... murmurou -Korsounova timidamente. - -Ao ordenar-lhe o official que assignasse o auto de investigação, -Pélagué traçou estas palavras n’uma calligrafia desconforme, em grandes -letras garrafaes: - -«Pélagué Nilovna Vlassof, viuva d’um operario». - ---Que escreveste tu ali? Porque escreveste aquillo? prorompeu o -official, de sobrecenho carregado e em tom de desdem; e accrescentou -com um riso de mofa: Que selvagens! - -Retiraram-se os guardas. A mãe foi pôr-se deante da janella. Com os -braços cruzados no peito; para ali ficou muito tempo, olhando sem vêr. - -Desfranzira as sobrancelhas, e comprimia os labios. Ao mesmo tempo, -apertava as maxillas de encontro uma á outra, com tal força, que -dentro em pouco ficou com dôr de dentes. Acabára-se o petroleo do -candieiro, a luz ia a sumir-se, crepitando. Soprou-a de vez e ficou ás -escuras. A colera e a humilhação de havia pouco desappareciam n’ella; -agora era uma nuvem negra e fria de angustia e de louco terror, que -toda a penetrava, que lhe enchia o peito, difficultando-lhe o pulsar -do coração. E immovel permaneceu, até sentir cansados os olhos e as -pernas. Ouviu então sob a janella, Maria parar e gritar-lhe com voz -avinhada: - ---Pélagué! Estás a dormir? Minha pobre Pélagué!... Dorme, dorme! Todos -estão soffrendo os mesmos enxovalhos,--ouves?--todos! - -Deitou-se sobre a cama, sem se despir, e caíu em somno profundo, como -quem rola para um precipicio. - -Em sonhos, viu-se junto do montículo de saibro amarello que ficava -para lá do pantano, no caminho que conduzia á cidade. Ali, no cume da -encosta, que dava accesso ás pedreiras d’onde se extraía a areia, -Pavel cantava em voz doce, mas com uma voz que era a mesma de André: - - Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido... - -Pélagué passou por diante do monticulo e contemplou seu filho, ao mesmo -tempo que levava a mão á fronte. Destacava-se nitidamente o perfil do -rapaz no fundo azul do ceu. Mas a mãe sentia vergonha em approximar-se -d’elle, pois que estava gravida. E levava ao colo, outra criança. -Proseguiu no seu caminho. Pelos campos, havia outras creanças a brincar -com uma bolla; eram muitas, as creanças, e a bolla era vermelha. O -pequenito que tinha nos braços queria ir brincar com os outros e -entrou a fazer grande berreiro. Deu-lhe de mammar e voltou pelo mesmo -caminho. O monticulo estava já então occupado por muitos soldados que -lhe apontavam as baionetas. Deitou a fugir em direcção a uma egreja -edificada em meio dos campos, uma egreja muito branca, altissima e de -levissima construcção, como se fôsse formada de nuvens. Lá dentro, -cantavam-se responsos; o caixão era grande, preto, hermeticamente -fechado. Padre e acolyto, vestiam alvas d’immaculada brancura, e -entoavam: «Christo ressuscitou d’entre os mortos...» - -O acolyto agitou o turíbulo e, ao avistar Pélagué, sorriu-lhe. Tinha -os cabellos ruivos e uns modos prazenteiros, assim como Samoílof. Da -cupula caía raios de sol em verdadeiras toalhas. E, no côro, crianças -repetiam a meia-voz: - -«Christo ressuscitou d’entre os mortos»... - ---Prendam-nos! gritou subitamente o padre, estacando a meio da egreja. -A alva que vestia tinha desapparecido e no rosto surgia-lhe um bigode -grisalho e espesso. Todos se puzeram em fuga, até mesmo o acolyto, que -atirára para longe o turíbulo e apertava a cabeça entre as mãos, como -o russo-menor costumava fazer. A mãe deixou caír a criança sob os pés -dos fieis que se afastavam evitando-a, com olhares de temor para o -pequenino corpo nu. Ella caíra de joelhos e gritava: - ---Não abandonem a criança! Salvem-na... - -E, de mãos atraz nas costas, com um sorriso nos labios, o russo-menor -proseguia cantando: - ---«Christo ressuscitou d’entre os mortos!...» - -Pélagué abaixou-se, agarrou na criança, pôl-a n’um carrinho ao lado do -qual Vessoftchikof ia caminhando vagarosamente. Este ria, dizendo: - ---Sempre me deram um trabalhão!... - -Percorriam uma rua muito suja. Pelas janellas, havia gente que -assobiava, gritava, gesticulava. - ---O dia estava claro, brilhava o sol com ardor; não havia uma nesga de -sombra, em parte alguma. - ---Cante, cante, tiasinha! disia o russo-menor. É a vida, isto! - ---E ia cantando sempre, dominando tudo com a sua boa voz sonora e -jovial. A mãe seguia-o, lamentando-se. - ---Porque está elle a mangar comigo? - -N’isto, recuou; mas logo se sentiu despenhar para um grande abysmo sem -fim, que escachoava com estrondo... - -Accordou em sobresalto, toda a tremer, banhada de suores; apurou o -ouvido, perscrutando-se. Estupefacta, sentiu vasio o proprio peito. -Parecia-lhe que mão desconhecida, ferrenha, lhe esquadrinhára o seio e, -tendo-se-lhe apoderado do coração, lho estava a apertar brandamente, -como em cruel brinquedo. O silvo da fabrica uivava teimosamente. Pelo -som, calculou que fôsse já a segunda chamada. - -Reinava a desordem no quarto; livros e fatos jaziam de mistura, no -sobrado emporcalhado; tudo em confusão. - -Levantou-se, cuidou dos arranjos, sem se lavar, sem mesmo rezar. Na -cosinha, encontrou um pao que ainda conservava amarrado um farrapo -encarnado; pegou n’elle e, irritada, esteve para atiral-o para debaixo -do fogão; mas, suspirando, tirou e dobrou cuidadosamente o pedaço de -panno vermelho e meteu-o na algibeira. Em seguida, procedeu a uma -grande lavagem ao sobrado e á janella. Acabou de vestir-se, arranjou o -samovar e depois foi sentar-se ao pé da janella da cosinha, a repetir a -si mesma a pergunta da vespera: - ---Que se ha de fazer? - -Mas lembrou-se que ainda não tinha orado; postou-se por alguns momentos -diante das imagens santas, e depois tornou a sentar-se. No logar do -coração tinha um vacuo. O proprio pendulo do relogio, ordinariamente -tão agil, dir-se-ia ter afroixado o seu tic-tac precipitado. As moscas -zumbiam hesitantes e debatiam-se estonteadas de encontro ás vidraças... - -Reinava em todo o bairro um silencio singular; parecia que toda aquella -gente, que na vespera tanto gritára pelas ruas, se tivesse escondido em -suas casas para reflectir em silencio n’aquelle extraordinario dia. - -De subito, Pélagué recordou-se de uma scena que presenciára uma vez, -quando era rapariga: no velho parque dos senhores Zoussailof havia -um vasto tanque todo esmaltado de nenufares. Por ali passára em um -dia d’outono nevoento e triste; a meio da laguna, um barco jazia, -como que estatico na agua tranquilla e sombria, salpicada de folhas -amarellecidas. E d’esta embarcação sem remos nem remadores, solitaria e -immovel na agua opaca, entre folhas mortas, provinha funda melancolia, -um pezar mysterioso. Pélagué permanecera ali muito tempo, procurando -adivinhar quem impellira a canoa para longe da margem e porquê... -Afigurava-se-lhe agora ser ella mesma igual á barquinha que outr’ora -a levára a pensar n’algum esquife á espera do cadaver. N’esse mesmo -dia, á noite, viera a saber-se que a esposa do intendente se havia -afogado,--uma mulhersinha de modos saccudidos, os cabellos pretos -sempre em desalinho... - -Passou a mão pelos olhos, como para expulsar taes recordações, mas logo -o pensamento indeciso e horrorisado lhe deslisou brandamente para as -impressões da vespera, dominadoras. Com os olhos apegados á chavena -de chá, que lhe arrefecia na frente, conservou-se longamente immovel, -sentindo nascer-lhe na alma o desejo de falar com quem quer que fôsse, -sincero e intelligente, para lhe perguntar innumeras coisas. - -E, como de proposito para realisar o seu desejo Nicolao Ivanovitch -appareceu pela volta da tarde. Ao vêl-o, apoderou-se d’ella brusca -inquietação. Com voz sumida, disse sem responder aos cumprimentos de -Nicolao: - ---Ah! tiosinho; fez mal em vir até aqui! É uma imprudencia; se o vêem, -prendem-no! - -Depois de lhe ter apertado a mão com energia, Nicolao Ivanovitch -segurou melhor os oculos no nariz, e ao ouvido d’ella, explicou-lhe -rapidamente, em voz baixa: - ---É que nós tinhamos combinado, o André, o Pavel e eu, que se os -prendessem, eu havia de vir buscal-a logo no dia seguinte, para a levar -para a cidade. Vieram cá fazer alguma busca? - ---Vieram; revolveram tudo; até me apalparam. Essa gente não tem -consciencia nem pudor! - ---E porque o haviam de ter? retorquiu Nicolao com um encolher -d’hombros; e logo lhe expoz as razões por que era conveniente que ella -passasse a residir na cidade. - -A outra escutava aquella voz amiga, cheia de sollicitude, fitava -aquelle rosto de resignado sorriso e sentia-se admirada da confiança -que tal homem lhe inspirava. - ---Uma vez que o Pavel assim decidiu, e se não o incommodo... disse. - ---Não pense n’isso, interrompeu elle logo. Vivo sósinho, minha irmã só -raramente apparece... - ---Mas é que eu quero trabalhar, quero ganhar o meu sustento! - ---Pois se quer trabalhar, ha de se lhe encontrar trabalho, descanse! - -Para ella, a idéa do trabalho relacionava-se indissoluvelmente com a -especie de actividade a que se entregavam seu filho, André e os mais -companheiros. Approximou-se de Nicolao e perguntou-lhe fitando-o muito: - ---Parece-lhe?... - ---Pois está claro! A casa não é grande, e quando a gente vive só... - ---Não lhe falo d’isso, falo-lhe da nossa grande empreza... explicou em -voz baixa. - ---E soltou um suspiro triste, melindrada por não ter sido compreendida. -Nicolao ergueu-se e, franzindo os olhos myopes n’um sorriso, declarou -em tom de gravidade: - ---Pois para a grande causa, tambem ha-de ter que fazer, se quizer... - -Uma idéa simples e clara formára-se subitamente no espirito d’ella. -Já uma vez conseguira auxiliar Pavel; talvez o conseguisse de novo. -Quanto mais gente houvesse a trabalhar por tal causa, tanto mais clara -se tornaria aos olhos de toda a gente a razão que a Pavel assistia em -defendel-a. E ao mesmo tempo que analisava a fisionomia bondosa de -Nicolao Ivanovitch, esperava ella que este lhe falasse compassivamente -de Pavel, de André e d’ella propria. Mas o outro limitou-se a -acrescentar, acariciando a barba, como que absorto: - ---Veja se póde saber pelo Pavel, quando lhe falar, as moradas d’esses -camponezes que pediram jornaes... - ---Já as sei! exclamou ella alegremente. Sei perfeitamente quem elles -são e onde moram. Dê-me o jornal que eu mesma lh’o levo. Eu mesma irei -procural-os e farei o que me mandar... Ninguem será capaz de suppôr -que levo commigo livros proíbidos. Deus seja louvado, bastantes kilos -d’elles metti na fabrica! - -Era como um súbito desejo de partir, de ir ao acaso, fôsse para onde -fôsse, pelas estradas sem fim, por bosques e aldeias, com o cajado na -mão e a alcofa ao hombro. - ---Não encarregue mais ninguem d’esse serviço, peço-lh’o, meu amigo, -disse ella. Irei a toda a parte onde julgar preciso. Não tenha medo, -que não me perderei, seja em que provincia fôr. De verão e de inverno, -caminharei sem descanso... até morrer! Tornar-me-ei um apóstolo por -amor da verdade. Não será digno de inveja o meu destino? Que bella -vida, a do viandante! Vaguear pelo mundo, sem se possuir nada e sem se -ter necessidade de coisa alguma, a não ser do pão de todos os dias; não -humilhar ninguem; percorrer a terra, tranquillamente e sem que ninguem -nos conheça!... Tambem eu quero viver assim!... E hei de encontrar -Pavel, hei de encontrar André, hei de chegar até onde elles estiverem... - -Mas aqui entristeceu ao ver-se já, em pensamentos, sem lar, errante, a -mendigar em nome de Deus pelas portas das cabanas... - -Nicolao agarrou-lhe meigamente na mão e affagou-lh’a ao calor das suas. - ---Havemos de falar n’isso mais tarde! declarou, olhando para o relogio. -É perigosa a tarefa de que quer encarregar-se... pense bem! - ---Meu bom amigo! exclamou ella. Para que serve pensar? Pois se os -nossos filhos, a parte mais pura do nosso proprio sangue, parcellas dos -nossos proprios corações, os que mais do que tudo nos são queridos, -sacrificam vida e liberdade e morrem sem contemplação por si mesmos, o -que não hei de eu de fazer, eu, que sou mãe? - -Nicolao fez-se pallido. - ---Sabe que é a primeira vez que oiço falar d’essa maneira?... - ---Que sei eu dizer! murmurou ella, sacudindo desconsoladamente a -cabeça. E os braços penderam-lhe n’um gesto de desalento. Se eu -encontrasse palavras que exprimissem o que sente o meu coração de -mãe!... - -E ergueu-se, impellida pelo ardor que n’ella se concentrava e lhe -excitava no cerebro frases candentes de revolta. - ---... Muitos haviam de chorar... até os malvados, os entes sem -consciencia... - -Nicolao ergueu-se e tornou a ver as horas. - ---Pois então, fica combinado, vem para minha casa, para a cidade! - -Ella abanou a cabeça, sem uma palavra. - ---Quando ha de ser? continuou Nicolao. O mais depressa possivel. E -accrescentou com meiguice: - ---Vou ficar em cuidado por sua causa, palavra! - -Pélagué ergueu para elle um olhar admirado: que interesse podia ella -inspirar áquelle homem? O outro permanecia de cabeça baixa, com um -sorriso de constrangimento, myope e um tanto corcovado, no seu modesto -fato preto. - ---Tem dinheiro em casa? perguntou sem a fitar. - ---Não. - -Com vivacidade, tirou logo da algibeira uma bolsa, abriu-a e -apresentou-lh’a. - ---Ahi tem, tire, se faz favor... - -A pobre mãe esboçou involuntario sorriso e, com um meneio de cabeça, -observou: - ---Como tudo está mudado! O proprio dinheiro já não tem valor para -vocês. Ha por ahi gente capaz de tudo para o possuir, que chega até -a perder a propria alma... e para vocês não passa d’uns bocados de -papel... d’umas rodelas de cobre... Chega-se a imaginar que se vocês o -têm é só por caridade para com os outros! - ---O dinheiro é na verdade desagradavel e incommodo, retorquiu Nicolao -Ivanovitch, rindo. É por igual coisa enfadonha pedil-o ou dal-o!... - -Tomou lhe novamente da mão, apertou-lh’a fortemente. - ---Venha o mais depressa que possa, sim? repetiu. - -E, como das outras vezes, foi-se sem fazer ruido. Ao despedir-se -d’elle, Pélagué pensava: - ---É tão bom homem!... Comtudo não teve uma palavra de compaixão... - -E não chegou a perceber bem se tal facto lhe era desagradavel ou se lhe -causava simples admiração. - - - - -II - - -Quatro dias apóz a visita de Nicolao, punha-se Pélagué a caminho, em -direcção a casa d’elle. Quando o carro que a transportava e ás duas -malas, atravessou o burgo e rodou em pleno campo, voltou-se para -traz ainda uma vez e sentiu n’esse instante que era para sempre que -abandonava aquelle logar onde decorrera a quadra mais sombria e penosa -da sua vida, onde outra existencia começara, periodo replecto de novos -desgostos e de novas alegrias, em que os dias voavam velozes. - -Semelhante a immensa aranha d’um vermelho escuro, estendia-se a -fabrica ao longo do solo sujo de fuligem, erguendo muito ao alto na -atmosphera, as enormes chaminés. Em torno, amontoavam-se os casinhotos -do operariado. Pardacentos e mesquinhos, formavam grupo compacto á -beira do charco e pareciam entreolhar-se lastimosamente pelas suas -janellinhas sem brilho. A meio d’elles erguia-se a igreja, de côr -vermelha como a fabrica, com o seu campanario, que parecia menos -elevado do que as chaminés da fabrica. - -A pobre mulher suspirou, desapertou a gargantilha do vestido, que a -incommodava. Ia triste, mas de uma tristeza arida como a poeira d’uma -tarde d’estio. - ---Para diante! resmungava o carroceiro, puxando pelas redeas. Era -manco, de idade imprecisa, com uns olhos sem côr definida e uns raros -cabellos de tom sujo. Bamboleando-se todo, caminhava ao lado do -vehiculo, demonstrando claramente que o fim da viagem, qualquer que -elle fosse, se lhe tornava totalmente indifferente. - ---Para diante! repetia com uma voz sem timbre, atirando por maneira -caricata com as pernas cambadas, calçadas de grossas botas cheias de -lama. A passageira, essa, vagueiava o olhar em torno. A desolação da -planicie era tão profunda como a da sua alma... - -O cavallo, saccudindo lamentosamente a cabeça, enterrava as patas pela -areia profunda, que rangia, froixamente requentada pelo sol. A carroça, -em mau estado e com os eixos mal azeitados, chiava a cada volta das -rodas. A todos estes ruidos vinha juntar-se a poeira. - -Morava Nicolao Ivanovitch no extremo da cidade, n’um pequeno pavilhão -pintado de verde, encostado a um sombrio predio de dois andares, a caír -de vetustez, em rua solitaria. Á frente do pavilhão, havia um jardim, -de fórma que pelas janellas dos trez quartos mettiam-se as frescas -ramadas de algumas acacias, lilazes e um ou outro alamosinho prateado. -Os quartos eram aceiados e silenciosos; sombras mudas e recortadas, -tremiam sem cessar nos sobrados; pelas paredes havia prateleiras -carregadas de livros e alguns retratos de pessoas de modos graves e -ponderados. - ---Parece-lhe que lhe ha de agradar isto? perguntou Nicolao, -introduzindo a sua hospede n’um quarto com uma janella para o jardim e -outra para o pateo coberta por espessa relva. E, n’este como nos outros -quartos, guarneciam as paredes varias estantes carregadas de livros. - ---Antes queria ficar na cosinha. - -Falava assim porque lhe parecia ver em Nicolao o receio de qualquer -coisa. Elle dissuadiu-a de tal proposito, mas com uns modos de -constrangimento, e logo que ella renunciou a ir habitar na cosinha, -tornou a mostrar-se satisfeito. - -Reinava em toda a casa particular atmosfera: era agradavel respirar -ali, mas as vozes instinctivamente faziam-se menos ruidosas; não se -sentia o desejo de falar alto, nem de perturbar a beatifica meditação -das personagens que do alto das suas molduras olhavam concentradamente. - ---Estas plantas precisam de ser regadas, disse ella depois de tatear a -terra dos vasos. - ---Sim, sim, concordou o dono da casa, um tanto confuso. Bem vê, gosto -muito de flôres, mas não tenho tempo para tratar d’ellas. - -Notava Pélagué que, mesmo em sua casa, bastante confortavel aliás, -Nicolao movia-se com prudencia, sem fazer bulha, como que estranho e a -mil leguas de tudo o que o cercava. Ia pôr a cara mesmo em cima do que -queria vêr; compunha os oculos com os dedos afusados da mão direita, -assestando, por assim dizer, uma interrogação muda, a cada objecto que -considerava. Dir-se-ia que fizera a viagem com a sua hospede e que tudo -n’aquella casa lhe era desconhecido. Então, ao vêl-o assim distraído, -Pélagué entrou a sentir-se inteiramente á vontade na sua nova habitação. - -Precedida de Nicolao, percorria a casa, notando de memoria o logar -de cada objecto e interrogando o seu amigo sobre os seus habitos de -vida, ao que este dava respostas embaraçadas, como alguem que tivesse -a consciencia de não proceder como deveria, mas que não tivesse outro -expediente a tomar. - -Regadas as plantas e reunidas em um só monte as musicas esparsas sobre -o piano, deu com o samovar. - ---Tem de ser limpo, observou. - -Nicolao passou um dos dedos pelo metal embaciado pela sujidade e, -pondo-o mesmo diante do nariz, observou-o com attenção. Isto fel-a rir -com gosto. - -Quando se encontrou na cama, e depois de ter recordado as peripecias -de tal dia, Pélagué deitou a cabeça fóra da roupa e poz-se a olhar -em volta. Era a primeira vez na sua vida que se via em casa de um -estranho. Não se sentia perturbada com esta idéa. Sollícitamente, -pensou no seu hospedeiro; a si propria prometteu amenisar-lhe a -existencia com um pouco de carinhosa affeição. Impressionavam-na a -timidez, o feitio desgeitoso e ridiculo de Nicolao, a expressão a um -tempo ingenua e séria dos seus olhos claros. E logo o pensamento lhe -vôou para o filho; reviveu mentalmente os episodios do dia primeiro de -maio. Esta lembrança causava-lhe uma dôr particular, como particular -fôra aquelle dia: era um soffrimento que não abatia a cabeça para o -solo como a pancada d’um malho, mas que torturava o coração com mil -picadas e excitava surda colera, fazendo altear-se o dorso corcovado da -velha. - ---Como é triste ter filhos para os ver partir por esse mundo fóra!... -pensava. E apurava o ouvido, escutando os ruidos, desconhecidos para -ella, da vida nocturna da cidade, que lhe chegavam amortecidos e -atenuados pela janella aberta, por entre as folhagens do jardim, vindos -de longe, a morrerem suavemente dentro do quarto. - -Pela manhã, cedo, procedeu á limpeza do samovar e accendeu-lhe o lume; -guardou toda a loiça sem fazer barulho; depois, foi sentar-se na -cosinha e esperou que o seu hospedeiro accordasse. Houve um ruido de -tosse e appareceu Nicolao com os oculos na mão. - -Tendo correspondido aos bons dias que este lhe dirigiu, Pélagué levou o -samovar para a casa de jantar, emquanto Nicolao se lavava, espalhando a -agua pelo sobrado, deixando caír a todo o momento o sabonete, a escova, -resmungando de continuo contra si proprio. - -Ao almoço, Nicolao participou-lhe: - ---É bem triste a minha occupação na administração da provincia: -emprego-me em observar como é que a nossa gente do campo se arruina... - -E repetiu com um sorriso contrafeito: - ---Sim, observo, é o verdadeiro termo. Essa pobre gente morre de fome, -ainda novos, lá vão para a cova, roidos pela miseria; as creanças -nascem fracas e enfesadas, caem aos centos, como as moscas, quando -chega o inverno... Sabemos tudo isso perfeitamente... conhecemos as -causas d’essa calamidade e afinal, depois de as termos analisado, -recebemos o nosso ordenado... e ficamos por aqui. - ---Mas o senhor o que é? perguntou Pélagué. Foi estudante? - ---Nada; era mestre-escola rural... Meu pae é director d’uma fabrica -em Viatka; e eu fiz-me professor. Mais tarde, por ter distribuido uns -livros pelos habitantes do logar, atiraram commigo para uma enxovia. -Depois, fui empregado de livraria Ali, parece que tambem commetti -qualquer imprudencia, porque fui outra vez preso: então mandaram-me -para a provincia d’Arkhangel... Por lá tive tambem os meus desaguisados -com o governo local e fui recambiado lá para as margens do mar Branco, -para um logarejo onde vivi cinco annos... - -E dizendo isto, a voz resoava-lhe calma e suave na tranquilidade -d’aquelle quarto claro, inundado de sol. - -Frequentes vezes tinha a sua interlocutora ouvido historias do genero -d’aquella; mas nunca pudera compreender porque era que quem as contava -o fazia com tal placidez, sem que nunca formulasse, por tantos -soffrimentos, uma accusação contra ninguem, como se aquillo devesse -fatalmente acontecer a todos... - ---Sabe que chega hoje minha irmã, annunciou elle. - ---É casada? - ---Viuva. O marido foi exilado para a Siberia. De lá conseguiu fugir, -mas no caminho apanhou um resfriamento e morreu no estrangeiro, ha de -haver dois annos. - ---Sua irmã é mais nova do que o senhor? - ---Não, tem mais seis annos do que eu... Devo-lhe muitos favores... Ha -de ouvil-a tocar n’aquelle piano, que é mesmo d’ella... de mais, ha -aqui muita coisa que lhe pertence... Os livros, esses, são meus... - ---E onde mora? - ---Em toda a parte! respondeu elle, sorrindo. Onde quer que seja precisa -uma creatura decidida, lá a encontrarão... - ---Então tambem trabalha pela nossa causa? - ---Está claro! - -Dito isto, saíu em direcção á sua repartição e a velha ficou-se a -pensar n’aquella causa commum que de dia para dia tornava os homens tão -frios e obstinados. Parecia-lhe estar em frente de altissima montanha, -em plena escuridão. - -Por volta do meio dia veio uma senhora alta e elegante, vestida de -preto. Aberta a porta, a recemchegada atirou para o chão uma malinha -amarella e tomou com vivacidade uma das mãos de Pélagué, interrogando: - ---A senhora é a mãe do Pavel Vlassof, não é? - ---Sou eu, sim, senhora! declarou Pélagué, constrangida pela elegancia -da dama. - ---Pois a senhora é tal qual eu a tinha imaginado! Meu irmão mandou-me -dizer que vinha viver para casa d’elle! Somos amigos velhos, seu filho -e eu... Falava-me tanto de si! - -A voz era baça; exprimia-se com lentidão, mas tinha gestos rapidos e -saccudidos. Brilhava-lhe nos grandes olhos cinzentos um franco sorriso -de mocidade. Algumas rugasinhas delicadas sulcavam-lhe já as fontes, -e por cima das orelhas bem feitas ondeava um ou outro cabello branco, -como prata. - ---Venho com fome! declarou. Não desgostava de tomar uma chavena de -café... - ---Vou preparar-lho immediatamente, disse a outra; e, ao tirar uma -cafeteira do armário, inquiriu em voz baixa: - ---Então sempre é certo que o Pavel lhe falava de mim? - ---Com certeza, e até muitas vezes! - -E a irmã de Nicolao tirou da algibeira uma carteirinha, tomou de -um cigarro e accendeu-o. Percorrendo o quarto a grandes passadas, -proseguiu: - ---Está em cuidados por causa d’elle? - -Pélagué sorria, fitando a chamma azulada da lampada de espirito de -vinho, a crepitar sob a cafeteira. O constrangimento de havia pouco -desapparecera na sinceridade da sua satisfação. - -«Fala então muito em mim, o meu filho!» pensava. - -E proseguiu: - ---Pergunta-me se estou em cuidado?... Com certeza, é bem triste o que -se passa... Mas antigamente era peor ainda... Agora, como sei que elle -não está só... - -Fixou o olhar no rosto da sua nova conhecida. - ---Como se chama, minha senhora? perguntou. - ---Sofia. - -Passou a examinal-a melhor. Havia n’aquella mulher o que quer que fôsse -de audácia, demasiada confiança em si própria e excessiva precipitação. -O seu falar era por demais imperioso. - ---O que é importante é que os companheiros não vão ficar muito tempo -na cadeia, e que sejam julgados depressa. Quando o Pavel estiver na -Siberia, nós o faremos fugir... Ninguem póde passar sem elle, aqui... - -Sofia procurava com a vista onde deitar a ponta do cigarro; por fim -enterrou-a n’um dos vasos de flôres. - ---Olhe que assim a planta morre! observou a velha machinalmente. - ---Queira perdoar! disse Sofia. É isso o que o Nicolao me está sempre a -repetir... - -E retirando do vaso a ponta de cigarro, atirou-a pela janella. - ---Sou eu que lhe peço desculpa. Falei sem reflectir. Não é a mim que -compete repreendel-a. - ---E porque não?... Se eu sou uma estouvada! redarguiu Sofia serenamente -e com um encolher de hombros. O café está pronto? Muito obrigada! -Então, só uma chavena? Não se serve? - -E, collocando-lhe as mãos nos hombros, puxou-a para si, fitou-a e -perguntou-lhe em tom de admirada: - ---Estará por acaso a fazer cerimonia? - -A outra respondeu com um sorriso: - ---Ainda hontem cheguei aqui, e já hoje me parece que estou em minha -casa e que conheço a senhora ha muitos annos... Nada receio; digo o -que me vem á cabeça; faço observações... - ---E está muito bem! exclamou Sofia com entusiasmo. - ---Nem sei onde tenho a cabeça! Nem já me conheço! continuou Pélagué. -Antigamente, a gente estudava as pessoas por dentro e por fóra primeiro -que lhes falasse com o coração nas mãos; agora, não, parece que nada se -receia, dizem-se de repente coisas que d’antes nem mesmo nos atreviamos -a pensar... e que de coisas! - -Sofia accendeu outro cigarro; pousára o olhar cinzento na sua -interlocutora, cariciosamente. - ---Disse ha pouco que se ha de arranjar a fuga do Pavel... Mas como vae -elle viver depois? - -Era esta pergunta que importunava Pélagué e que conseguira emfim -formular. - ---É coisa facil! respondeu Sofia, servindo-se outra vez de café. Ha de -viver como vive grande numero de evadidos... Olhe, agora acabo eu de ir -buscar um d’elles, que acompanhei até ao estrangeiro. É tambem um homem -valioso; é operario no sul; foi condemnado a cinco annos de degredo, -mas só cumpriu trez annos e meio. É por este motivo que me vê tão bem -vestida. Julgava que era o meu trajo habitual? Não; detesto os farrapos -e os enfeites... A humanidade é de origem humilde; deve trajar com -humildade,--vestuario bem feito mas simples... - -Pélagué, abanando a cabeça, disse em voz baixa: - ---Ah! esse primeiro de maio é que me pôz as idéas em confusão! Não -me sinto bem; chega-me a parecer que vou por duas estradas, ao mesmo -tempo... tão depressa julgo que compreendo tudo, tão depressa me -vejo cercada de nevoeiros... A senhora, por exemplo... Vejo que é -uma senhora fina... e a senhora tambem trabalha pela nossa causa... -conhece o Pavel... e diz que o tem em grande conta... Não sei como -agradecer-lhe... - ---Não, os agradecimentos são para si, disse Sofia, rindo. - ---Para mim?! Não fui eu que lhe ensinei essas coisas todas! respondeu -a mãe com um suspiro. Dizia-lhe eu então, continuou: umas vezes, tudo -isto me parece simples, outras, nem essa mesma simplicidade eu posso -compreender... Assim, agora, encontro-me com o espirito socegado, -d’aqui a instantes, já sinto medo por me vêr tão socegada. Toda a minha -vida tenho passado em meio de inquietações... e agora, que ha motivo -para receios, já quasi não sinto medo... Porque é isto? Não sei!... - -Pensativamente, Sofia respondeu: - ---Ha de vir um dia em que tudo compreenderá!... Parece-me tempo de -abandonar todos estes esplendores de vestuario... - -Collocou a ponta do cigarro no pires, e saccudindo a cabeça, fez rolar -sobre os hombros, em madeixas espessas, os doirados cabellos. Depois -saíu... - -A outra seguiu-a com a vista, suspirou, olhou em torno e começou -a arrumar a loiça, com a cabeça vasia de idéas, prostrada por uma -somnolencia que a amodorrava. - - - - -III - - -Pelas quatro da tarde, Nicolao estava de volta. Ao jantar, Sofia -contou, rindo, o seu encontro com o forçado evadido; falou do terror -d’esse homem, sempre a vêr espiões em todos os cantos, e dos modos -exquisitos do evadido... No tom de voz em que falava alguma coisa fazia -lembrar á velha Pélagué a fanfarronada d’um operario que terminou uma -tarefa difficil e que d’ella se gaba. - -Vestia agora Sofia um roupão cinzento, leve e adejante que lhe cahia -dos hombros até aos pés em pregas harmoniosas, vaporoso e simples. - -Este novo trajo fazia-a parecer mais alta, ao passo que o olhar se lhe -annuviára e os movimentos se lhe tornavam mais serenos. - ---É preciso que trates d’outro negocio, Sofia! disse Nicolao, terminado -o jantar. Como sabes, ha idéa de editar um jornal para a gente dos -campos... mas, graças ás ultimas prisões effectuadas, os laços que nos -uniam a esses camponezes, quebraram-se. Só Pélagué sabe como poderemos -rehaver o homem que se encarrega da distribuição do jornal... Parte com -ella... o mais cêdo que possas... - ---Está bem, disse Sofia, recomeçando a fumar. Está combinado, mãesinha? - ---Porque não? Pois, vamos! - ---E é longe? - ---Oitenta kilometros, pouco mais ou menos. - ---Optimamente!... Agora vou tocar um bocado de piano... Está disposta -para um pouco de musica? - ---Nada me pergunte, faça de conta que não estou aqui, respondeu ella. -E foi sentar-se para um canto do canapé coberto de uma capa de linho. -Notava ella que os dois irmãos, sem parecerem ligar-lhe importancia, a -intromettiam todavia, e a meude, na conversação. - ---Ouve isto, Nicolao; é de Grieg. Trouxe hoje a musica. Fecha a janella! - -Abriu a partitura e acariciou as teclas de mansinho, com a mão -esquerda. As cordas entraram a vibrar em accordes indolentes e pesados. - -Houve primeiro um profundo suspiro, depois outra nota veio juntar-se -ás primeiras, n’uma forte e tremente amplidão de som. A mão direita -entrou então em resonancias claras, em gritos parecidos com os de uma -ave assustada; balanceou-se depois, em cadencia, imitando o palpitar -das azas no fundo sombrio das notas graves, que cantavam, harmoniosas e -compassadas, quaes vagas batidas pela tempestade. Em resposta á canção, -vinham logo caudaes de accordes soturnos, chorando com dôr, suffocando -queixumes, implorações, gemidos, tudo fundido n’um rythmo de angustia. -Por vezes, como n’um impulso de desespero, a melodia soluçava, -desfallecida; mas logo recaía, rastejando, hesitante, sob a torrente -espessa e cascadeante das notas cavas, e afogava-se, sumia-se, para de -novo reaparecer por entre o ribombar igual e monotono; tomava alento, -então vibrava e dissolvia-se por fim n’um poderoso martelar de notas -humidas que toda a salpicavam, e ficava a suspirar sem cansaço, com a -mesma força e a mesma resignação... - -Ao principio, a música não impressionou Pélagué; não a compreendia; -era para ella como um cáos de sonoridades. O ouvido não lhe permittia -distinguir a melodia na palpitação complexa d’aquella alluvião de -notas. Meio somnolenta, fitava Nicolao, sentado no outro extremo do -canapé, com as pernas dobradas por debaixo do corpo; considerava tambem -o severo perfil de Sophia, de cabeça inclinada, sob o velo espesso dos -seus cabellos d’oiro. Ia pôr-se o sol. Um raio tremulo nimbou primeiro -a cabeça, o hombro da pianista; depois, deslisando para o teclado, -brincou-lhe entre os dedos. Toda a sala estava cheia d’aquella melodia, -e o coração da mãe despertava emfim, sem que ella mesma o percebesse. -Succediam-se, entretanto, trez notas vibrantes como a voz de Fédia -Mazine, regularmente e sustentando-se mutuamente á mesma altura, taes -trez peixes de prata fluctuando n’um regato, scintillando por entre a -torrente dos sons... - -De vez em quando, outra nota mais vinha juntar-se ás primeiras, e, -todas ao mesmo tempo, entravam a cantar uma canção ingenua, triste -e acalentadora. E Pélagué começava a poder seguil-as, esperando que -voltassem, não escutando outra coisa, abstraíndo-as do cáos inquietador -da harmonia geral, que pouco a pouco ia deixando de ouvir... - -E subitamente, das negruras remotas do seu passado, veio-lhe a -recordação d’uma humilhação esquecida havia muito, mas que ressuscitava -agora com nitidez cruel. - -De uma vez, o marido voltára-lhe para casa tardíssimo e completamente -embriagado. Puxára-a pelo braço, atirára-a da cama e enchera-a de -pontapés, regougando: - ---Vae-te d’aqui, canalha, que não te posso aturar!... Vae-te! - -Para se esquivar aos maus tratos, tomára precipitadamente nos braços -o filho, que então tinha dois annos, e, firmando-se nos joelhos, -protegia-se com o corpinho do innocente, como se fôsse um escudo. O -pequeno chorava, barafustava, com medo, nu, e quentinho do berço. - ---Vae-te d’aqui! rugia Mikhaíl. - -Ella saltára da cama, descalça, correra á cosinha; então, atirando uma -camisola para os hombros e embrulhando a criança n’um chale, sem uma -palavra, sem um queixume nem uma exortação, com os pés no lagedo, saíra -para a rua. Era em maio, a noite ia fresca; a frigida terra da calçada -collava-se-lhe aos pés, penetrando-a toda, regelando-a. - -A criança chorava sempre e debatia-se. Desnudára o seio, conchegou a -si o pequeno; e, instigada pelo medo, lá se foi pelas ruas escuras, -cantando baixinho para adormecer o filho. Ia despontar o dia; Pélagué -toda se envergonhava com a ideia de ser encontrada n’aquelle estado. -Desceu até á margem do pantano, sentou-se no chão debaixo de compacto -bosque de álamos... E para ali esteve muito tempo, disfarçada -na treva, com os olhos esgazeados fitos na escuridão, a cantar -timidamente para embalar o filho e o coração ultrajado. Subito, uma -ave negra, silenciosa, esvoaçára-lhe por sobre a cabeça e sulcára o -ceu, accordando-a. E a tremer de frio, erguera-se e lá voltára para -casa, a arrostar com o seu habitual terror das sevicias e das injurias -incessantes... - -Pela ultima vez, ecoou um accorde sonoro, mas de indifferença e frieza, -que n’um suspiro se immobilisou no ambiente. - -Voltou-se Sophia e a meia voz perguntou ao irmão: - ---Gostas? - ---Muito! respondeu, estremecendo como se saísse d’um sonho; muito!... - -Os dedos de Sophia desfiaram então um harpejo suave e harmonioso. - -No intimo do seu peito, Pélagué escutava ainda o echo debil e tremente -das suas recordações. O seu desejo era que a musica proseguisse. E um -pensamento germinava n’ella: - ---Ora aqui está uma gente que vive socegada... o irmão, a irmã... muito -amigos... Entretêem-se com a musica... Não dizem palavradas, não bebem -aguardente, não questionam por qualquer futilidade... nem pensam sequer -em offender-se um ao outro, como se faz entre toda a gente de baixa -extracção... - -Sophia, entretanto, fumava um cigarro. Fumava muito, quasi sem descanso. - ---Era este o trecho favorito do pobre Kostia! disse, aspirando com -força uma fumaça, e assentou de novo a mão, n’um debil accorde triste. -Como eu gostava de lh’o tocar! Era tão intelligente! Nada havia que não -compreendesse... O espirito d’elle era accessivel a tudo. - ---É do marido que fala, pensou a hospede. E sorriu. - ---Quanta felicidade elle me trouxe! continuou Sophia em voz baixa, ao -passo que acompanhava os seus pensamentos com leves accordes repetidos. -Como elle sabia viver bem!... Sempre alegre, de uma alegria infantil, -cheia de vida, que todo o illuminava... - ---Infantil! repetiu a mãe comsigo mesma. - ---É verdade, disse Nicolao, revolvendo a barbicha, uma alma de -illuminado! - -Sophia atirou fóra o cigarro ainda acceso, voltou-se para Pélagué, -perguntou: - ---Esta bulha não a incommoda? - ---Já lhe disse que não se importe comigo, respondeu ella com um ligeiro -despeito que não poude disfarçar. Eu nada percebo d’isso... Estou aqui -quieta, a escutar e a pensar... - ---Não, senhora, é preciso que compreenda! replicou Sophia. Uma mulher, -principalmente quando está triste, não póde deixar de compreender a -musica... - -E pulsou as teclas com força. Resoou um grito violento, como se a -alguem acabassem de dar uma d’estas noticias terriveis, das que ferem -em pleno coração e arrancam um dolorido queixume. Entraram então a -vibrar umas vozes frescas que, logo, horrorisadas e desconcertadas -fugiram velozmente, não se sabia para onde; de novo, ecoou uma outra -voz sonora e irritada, abafando todo o conjunto... Era com certeza -uma desgraça, mas desgraça que incitava coleras, não gemidos. Depois -outra voz energica mas reconfortante entrou a entoar uma canção bonita -e simples cheia de persuasão, de incitamento. Surdamente, em tom de -melindre, as vozes dos graves murmuravam... - -Sofia tocou por muito tempo ainda. Pélagué sentia-se perturbada. Todo -o seu desejo era perguntar o que significava tal musica, que assim -fazia germinar n’ella imagens indistinctas, sentimentos, pensamentos -mutaveis sem cessar. O pezar e a angustia cediam o logar perante -as scintillações d’uma serena alegria; dir-se-ia que um bando de -invisiveis passarinhos redemoinhasse pela sala, acariciando as almas -com o perpassar das delicadas azas, contando gravemente alguma coisa -que provocasse instinctivamente o curso do pensamento com palavras -incompreensiveis, acalentando os corações com esperanças vagas, -enchendo-os de força e de vigor. - -E Pélagué sentia o ardente desejo de dizer o que quer que fôsse meigo -aos seus companheiros. Sorria ternamente, enebriada por aquella música. - -Procurou com a vista o que poderia fazer; ergueu-se, e nos bicos dos -pés, foi para a cosinha dispôr o samovar. - -Mas o desejo de se tornar util não se lhe extinguiu, continuava a -pulsar-lhe no coração com obstinada regularidade; serviu depois o chá -com um sorriso de embaraço e de commoção, com a alma banhada em tepidos -effluvios de sollitude que ella partilhava por igual entre si e os seus -companheiros. - ---Nós cá, gente do povo, explicou, sentimos tudo, mas é nos -difficil exprimil-o, não podemos formar senão ideias incertas; e -envergonhamo-nos de não podermos dizer o que se sente. E quantas vezes, -para falar com consciencia, a gente não se zanga com as proprias -ideias e com aquelles que nol-as suggerem! Entramos a irritar-nos e -afugentamol-as! Em que agitações se passa esta vida! É ella que por -todos os lados nos assalta e nos magoa. Era tão bom descansar!... mas -os pensamentos não deixam á alma um só momento de repouso e ordenam-lhe -que veja, que oiça. - -Nicolao escutava-a, com approvações de cabeça; limpava os óculos -com movimentos saccudidos; Sofia encarava fixamente aquella mulher, -esquecida do cigarro, que se apagára. Continuava sentada ao piano, e -de vez em quando afagava o teclado. Accordes muito brandos acompanhavam -assim as considerações da anciã, a qual se deu pressa em revestir os -seus pensamentos intimos com palavras da mais simples sinceridade. - ---Agora, posso falar um pouco de mim propria e dos meus... porque -já compreendo a vida, e comecei a conhecel-a quando pude comparar. -D’antes, não tinha pontos de comparação. Na nossa classe, todos levam -vida igual. Hoje, que vejo como vivem os outros, lembro-me de como -eu vivi e custa-me muito o recordal-o... Emfim, é impossivel voltar -atraz; e mesmo quando o pudessemos fazer, não encontrariamos uma nova -mocidade... - -Baixou a voz; proseguiu: - ---Talvez eu esteja dizendo coisas insensatas ou nescias, pois que o -senhor e sua irmã devem conhecer tudo isto... mas vejam que é de mim -que estou falando e que falo a quem teve a bondade de me chamar para o -seu lado. - -Tremiam-lhe na voz lagrimas de grata felicidade; fitou-os a ambos com -um olhar muito risonho e continuou: - ---Queria abrir-lhes a minh’alma para que vissem todo o bem que lhes -quero. - ---Mas nós bem vêmos! disse Nicolao com bondade. E sentimo-nos felizes -por têl-a na nossa companhia. - ---Sabem o que isto me parece? interrogou ella, sempre com voz sumida, -risonha, parece que foi um tesoiro que eu achei, que estou rica, que -posso presentear toda a gente... Isto é talvez um effeito da minha -tolice... - ---Não diga tal! interrompeu com gravidade Sofia. - -Não era para acalmar de pronto aquella sêde de expansão; continuou -portanto Pélagué a falar-lhes de tudo o que para ella era novo e lhe -parecia de inapreciavel importancia. Contou-lhes a sua miserrima vida -cheia de humilhações e resignado soffrer; por vezes, interrompia-se; -julgava ter-se afastado de si mesma e estar falando de si como o faria -de qualquer outra... - -Sem rancor, em termos correntios e nos lábios sorriso de piedade, -desenrolou em presença de Nicolao e da irmã a monotona e lugubre -história dos seus tristes dias, enumerado os maus tratos infligidos -pelo marido, intimamente admirada, ella própria, da futilidade -dos pretextos que os provocavam, admirada por não ter sabido -esquivar-se-lhes... - -Attentos e silenciosos, Nicolao e Sofia escutavam-na; sentiam-se -esmagados pela significação profunda d’aquella historia, d’aquelle -ente humano tratado como um animal e que passára tanto tempo sem -sentir a injustiça da sua condição, sem um murmurio. Eram milhares de -vidas a falar pela bocca d’aquella mulher. Tudo n’esta existencia era -banal e indifferente, mas havia pelo mundo innumeravel quantidade de -creaturas avergadas áquelle modo de vida... E, avantajando-se mais e -mais nos seus raciocínios, aquella história assumia as proporções d’um -símbolo... Nicolao, com os cotovellos sobre a mesa, a cabeça entre as -mãos, quedava-se immovel, considerando a sua hospede por detraz do -vidro dos óculos, com os olhos piscando de attenção. Sofia, reclinada -no espaldar da cadeira, sentia-se estremecer, murmurava de quando em -quando o que quer que fôsse, abanando a cabeça negativamente. Deixára -de fumar; o seu rosto parecia agora mais magro ainda, e mais pálido. - ---Um dia, começou ella, em voz baixa, senti-me muito infeliz; -parecia-me que toda a minha vida nada mais era do que um delírio de -febre. Estava eu então no desterro, n’uma miseravel povoação da -provincia, onde nada tinha a fazer, ninguem em quem pensar, a não ser -em mim propria... Para occupar este ocio, puz-me a fazer a conta das -minhas infelicidades, recordando-as todas: ficára de mal com meu pae, -a quem estimava, fôra expulsa do collegio por lêr livros proíbidos; em -seguida, fôra a prisão, a traição d’um companheiro a quem muito queria, -a captura de meu marido, outra vez a prisão e o degredo, a morte -d’elle... E então parecia-me que a mais desgraçada creatura de toda a -terra era eu... Mas todos os meus males justapostos e decuplicados, não -chegam a valer um mez da sua vida, pobre mulher... não! Essa tortura de -todos os dias durante annos e annos... Onde vão os pobres buscar essa -força contra o soffrimento? - ---Acabam por se habituar! respondeu ella, suspirando. - ---E julgava eu conhecer o mundo! disse Nicolao, pensativo. E afinal, -quando não se trata só de impressões fragmentadas, quando não é já um -livro que nos fala, mas uma creatura em pessôa, como é horrivel! E -os pormenores são tambem horrorosos, os proprios nadas, cada um dos -segundos que formam um anno inteiro!... - -E a conversa proseguia em voz baixinha. Mergulhada nas suas -recordações, Pélagué extraía do crepúsculo sombrio do seu passado -todas as injúrias mesquinhas e habituaes; ia compondo negro quadro de -mudo horror immenso, em que sossobrava a sua juventude de mulher. De -repente, exclamou: - ---Ai, e eu aqui a palrar!... São horas de nos irmos deitar! É -impossivel contar tudo! - -Nicolao inclinou-se diante d’ella mais do que costumava e apertou-lhe -com mais força a mão. Sofia acompanhou-a á porta do quarto, e ali, -parando, murmurou: - ---Durma bem!... Boa noite! - -Era caloroso o seu falar; envolvia n’um meigo olhar de caricia o rosto -de Pélagué... Esta agarrou-lhe em uma das mãos e, apertando-a nas suas, -respondeu: - ---Quanto lhes agradeço! - - - - -IV - - -Quatro dias depois, apresentavam-se a Nicolao as duas mulheres -pobremente vestidas de saias de chita já usadas, de cajados na mão e -alforge ao hombro. Este trajo tornava Sofia mais baixa e dava-lhe á -fisionomia uma expressão de austeridade. - ---Parece que passas a vida a jornadear de convento em convento! -disse-lhe o irmão. - -E ao despedir-se d’ella, apertou-lhe a mão com energia. Mais uma vez, -notou a velha esta simplicidade e esta calma. Decididamente, não -eram pródigos de beijos nem de demonstrações de estima, e comtudo, -mostravam-se tão sinceros um para o outro, tão sollicitos para com os -estranhos! Porque nos meios onde Pélagué vivera, todos se beijavam -muito, todos se animavam com bonitas palavras, o que não impedia que se -mordessem como cães damnados. - -Atravessaram as viandantes a cidade, alcançaram o campo e tomaram a -vasta estrada bem calcetada, orlada de velhas bétulas. - ---Não estará cansada? inquiriu a mais idosa. - ---Julga que não estou costumada a andar? Pois engana-se... - -Jovialmente, por entre risadinhas, como se tratasse de travessuras -de criança, Sofia entrou de contar os seus feitos de revolucionária. -Vivera já com um nome supposto, servindo-se para isso d’um passaporte -falsificado; disfarçára-se para fugir aos espiões, transportára -para diversas cidades muitos quintaes de brochuras proíbidas. Tinha -arranjado a fuga a muitos companheiros exilados, acompanhára-os ao -estrangeiro. De uma vez, montára na sua própria casa uma imprensa -clandestina; e quando os gendarmes, sob denuncia do delicto, tinham -vindo proceder ás buscas, disfarçara-se ella de criada, minutos antes -d’elles chegarem e saíra, cruzando-se com os inquisidores já no limiar -do predio. Sem uma capa, com uma simples mantilha pela cabeça e de -amotolia de petroleo em punho, percorrera de outra vez a cidade de -extremo a extremo, sob um frio rigoroso, em pleno inverno. D’outra -occasião, porque se tivesse dirigido a casa de uns correligionarios, -n’uma cidade distante, ia a subir a escada quando percebeu que havia lá -policia, varejando. Era tarde para saír do prédio; bateu portanto com o -maior atrevimento, no andar de baixo. Entrou em casa de gente que não -conhecia, de mala na mão, e tratou de pôr a claro o acontecido. - ---Os senhores podem denunciar-me se quizerem, mas não os julgo capazes -d’isso declarára ella convictamente. - -Atrapalhadissimos, não fecharam os olhos toda aquella noite, julgando -a todo o momento que lhes vinham bater á porta. Comtudo, não a -denunciaram e, chegada a manhã, mangaram, como ella, com a polícia. -Tambem lhe acontecera vestir-se de irmã da caridade e fazer viagem -no mesmo compartimento e no mesmo assento do vagon em que ia um -espião encarregado de lhe seguir a pista, o qual, para fazer valer a -sua esperteza, se lhe puzera a contar como era que procedia em tal -diligencia. Estava certo o homem de que Sofia ia n’aquelle comboio, em -segunda classe: e a cada nova paragem, descia e commentava regressando -para o pé da pseudo religiosa: - ---Não a vejo... Provavelmente vae a dormir. É que essa gente tambem -cansa... Levam uma vida tão dura... tal qual a nossa! - -A outra ria com estas historias, olhava para Sofia com affecto. Alta -e magra, a joven senhora caminhava com passo leve mas firme; tinha os -pés fortes e bem feitos. Na maneira de andar, no falar, no proprio -timbre da voz, decidida se bem que um pouco baça, em toda a sua figura -esbelta, transparecia uma como bôa saude moral, uma audacia alegre, um -desejo de ar e de espaço, e os seus olhares para tudo se dirigiam com -uma expressão de juvenil contentamento. - ---Olhe aquelle pinheiro tão bonito! exclamou, mostrando uma arvore á -sua companheira, que parou para vêl-a. Mas o pinheiro, afinal, não era -nem maior nem mais folhudo que os outros. - ---É verdade, bonita arvore! repetiu, risonha. - ---Olhe uma cotovia! - -E os olhos pardos de Sofia brilharam de satisfação. Ás vezes, com -movimentos flexuosos, baixava-se, apanhava uma flôr e acariciava-lhe -amorosamente as petalas tremulas com o ligeiro contacto dos seus dedos -afusados e ageis. E trauteava canções meigas. - -Pelo caminho, cruzavam-se com peões ou campónios empoleirados nas suas -carroçadas, que lhes diziam: - ---A paz seja comvosco! - -Brilhava um lindo sol primaveril; todo o vasto azul resplandecia; -aos dois lados da estrada, estendiam-se densas florestas de madeiras -resinosas, herdades de um verde muito vivo; cantavam passaros, o ar -tepido e perfumado acariciava brandamente as faces. - -Tudo contribuia para approximar Pélagué d’aquella mulher de alma e de -olhos tão limpidos; e involuntariamente, chegava-se mais para ella, -esforçando-se por igualar a sua andadura pela d’ella. Comtudo, ás -vezes, destacava-se das frases de Sofia uma expressão demasiado viva, -demasiado sonora, que a Pélagué se afigurava superflua. Então, era -tomada de inquietação: - ---Estou vendo que não vae agradar ao Rybine... - -Mas um instante depois, Sofia voltava a falar com simplicidade, -cordialmente, e ella de novo a olhava com ternura. - ---Como é nova ainda! suspirou. - ---Ora! olhe que já tenho trinta e dois! - -A outra riu. - ---Não é isso que quero dizer... Á primeira vista parece ter mais -idade... mas quando se repara nos seus olhos, quando a ouvimos falar, -fica-se muito admirado, parece uma menina... A sua vida é desasocegada, -penosa, cheia de perigos... e todavia, tem o coração alegre... - ---Não vejo em que a minha vida seja penosa, nem posso imaginar outra -mais interessante e melhor do que esta... - ---E quem ha de recompensal-a dos seus trabalhos? - ---Se já estamos recompensados! respondeu Sofia, em tom que á outra -pareceu denunciar fundo orgulho. Arranjámos uma existencia que nos -satisfaz; que mais havemos de desejar? - -A mãe olhou para ella furtivamente e baixou a cabeça, repetindo a si -mesma: - ---Não vae gostar nada d’ella, o Rybine... - -Aspirando a plenos pulmões o ar tepido, as duas mulheres caminhavam em -passo lento mas firme. A Pélagué parecia-lhe que andava em romaria. -Lembrava-lhe aquillo a sua meninice e a pura felicidade que a animava -quando, nos dias de festa, partia da aldeia em direcção a algum -mosteiro, onde houvesse uma imagem milagrosa. - -De vez em quando, Sofia entoava com a sua voz novas canções em que se -falava de amôr e do Ceu; outras vezes, punha-se de subito a declamar -estrofes celebres que celebravam os campos e as florestas, o Volga; e a -outra escutava-a, prazenteira, meneando, sem dar por isso, a cabeça ao -rythmo do verso, cuja melodia a enfeitiçava. - -N’aquelle coração, tudo era paz, carinho e doçura, como n’um velho -jardinsinho, n’uma tarde de estio. - - - - -V - - -Ao terceiro dia, ao chegarem a uma aldeia, perguntou a mais velha das -duas a um trabalhador do campo onde ficava a fabrica do alcatrão. E -logo tiveram de descer por estreito atalho ingreme e agreste, qual -escada, onde as velhas raízes formavam degraus. Avistaram d’ali uma -clareirasinha circular atapetada de aparas de lenha e de carvão e onde, -aqui e ali, havia poças de alcatrão. - ---Eis-nos chegadas! disse a velha, olhando em volta com desconfiança. - -Junto a uma choça feita com estacas e algumas ramadas, jantavam -quatro operarios, em torno d’uma mesa feita com trez táboas em bruto -estendidas sobre umas estacas cravadas no solo. Eram elles: Rybine, -muito sujo, com a camisa aberta no peito, Jéfim e mais dois rapazes. -Rybine foi o primeiro que avistou as duas mulheres; quedou-se á espera, -em silencio, formando pala com a mão, para abrigar os olhos. - ---Viva, irmão Mikhaíl! gritou-lhe de longe Pélagué. - -Levantou-se então e veio-lhes ao encontro, mas sem se apressar. Ao -reconhecer quem lhe falava, deteve-se a acamar a barba. - ---Andamos em romaria! disse ella, approximando-se mais. E fiz um rodeio -para vir vêr-te. Esta minha amiga veio comigo; chama-se Anna... - -Contente com o seu achado, olhou de soslaio para Sofia. Esta permaneceu -séria e impassivel. - ---Vivam lá, respondeu Rybine com um sorriso contrafeito. Apertou-lhe a -mão, cumprimentou Sofia e accrescentou: - ---É inutil mentir; não estamos na cidade; aqui não são precisas -mentiras. Aqui só ha gente séria, todos nos conhecemos uns aos outros. - -Jéfim, á mesa, onde continuava sentado, examinava com attenção as -recemvindas; segredou o que quer que fôsse aos seus commensaes. - -Ao approximarem-se as duas, levantou-se, cumprimentou sem dizer uma -palavra. Os outros dois deixaram-se ficar, como se não tivessem dado -pelas viandantes. - ---Vive-se aqui como presidiarios! proseguiu Rybine, batendo -familiarmente no hombro da sua conhecida. Ninguem vem vêr-nos, o patrão -não está na aldeia, a mulher d’elle lá está no hospital e eu sou agora -aqui uma especie de gerente... Sentem-se. Tomam chá? Ó Jéfim, vae -buscar o leite! - -Vagarosamente, Jéfim encaminhou-se para a choupana, emquanto as duas -se desembaraçavam dos alforges. Um dos camponezes, um grande latagão -magro, levantára-se para as ajudar. O outro, atarracado e coberto -de farrapos, acotovelado sobre a mesa, olhava pensativo para ellas, -coçando a cabeça e trauteando baixinho. Aromas suffocantes de alcatrão -fresco casavam-se com o cheiro das folhagens apodrecidas, provocando -tonturas. - ---Este chama-se Jacob, disse Rybine, apresentando o mais alto dos dois -operarios; aquelle é o Ignaty... E então o teu filho? - ---Está na cadeia! gemeu a mãe. - ---Outra vez! exclamou Rybine. Ao que parece deu-se bem por lá... - -Ignaty deixára de cantarolar. Jacob tomou o cajado das mãos de Pélagué. - ---Senta-te, tiasinha! - ---E a senhora sente-se tambem, disse Rybine, dirigindo-se a Sofia. - -Sem uma palavra, esta tomou assento em cima d’um fardo e poz-se a -examinar Rybine. - ---E quando foi elle preso? perguntou este; e acrescentou com um abanar -de cabeça: Não tens sorte nenhuma, Pélagué! - ---Que importa! - ---Então, já te vaes costumando? - ---Não, mas cheguei ao convencimento de que as coisas não pódem ir -d’outra fórma! - ---Ora ahi está! disse Rybine. Conta, então... - -Jéfim trouxe uma infusa de leite; o outro tomou de sobre a mesa uma -tigella, laviscou-a com um pouco d’agua e depois de a encher de leite, -empurrou-a para o logar de Sofia. Ia e vinha sem ruido, com precaução. -Depois da mãe ter finalisado a sua curta narrativa, todos ficaram -calados. Ignaty, que continuava á mesa, fazia gravuras nas taboas com -as unhas. Jéfim encostava-se ao hombro de Rybine. Jacob, de braços -cruzados no peito, baixava a cabeça. Sofia continuava a analysar as -caras d’aquelles campónios. - ---Pois está visto! declarou Rybine, arrastando muito as sylabas. -Decidiram-se a proceder ás claras... - ---Elles que viessem para cá com uma fantochada d’essas, declarou Jéfim, -que os moujiks dariam cabo d’elles!... - ---Disseste que o Pavel vae ser julgado? perguntou Rybine. - ---Sim, é coisa decidida, respondeu a mãe. - ---E que pena póde elle apanhar... não sabes? - ---Ou as galés ou o degredo para a Siberia, por toda a vida! respondeu, -baixando a voz. - -Os outros trez operarios fitaram-na simultaneamente. - -Rybine proseguiu: - ---E quando elle se metteu n’esse negocio, sabia o que o esperava? - ---Não sei... provavelmente. - ---Sim, sabia-o! affirmou Sofia com decisão. - -Calaram-se todos e ficaram-se como estaticos, mergulhados em um mesmo -pensamento consolador. - ---Ora ahi está! continuou Rybine em tom de severa gravidade. Tambem -eu creio que o soubesse. É um homem sério; não se mette levianamente -n’essas coisas. Vejam lá companheiros. Sabia que o podiam espetar n’uma -baioneta ou que lhe davam as honras d’um presidio, e atirou-se para a -frente ainda assim! Era preciso que se atirasse--atirou-se! E se lhe -tivessem posto a propria mãe no caminho, passava-lhe por cima... não é -isto Pélagué? - ---Com certeza... murmurou a mãe com estremecimento. - -E depois de ter circumvagado o olhar em torno, soltou do peito profundo -suspiro. Sofia afagou-lhe com meiguice uma das mãos e teve para Rybine -um olhar de descontentamento. - ---Aquillo é que é um homem? declarou elle a meia voz, fixando os -sombrios olhos nos companheiros. E novamente todos se quedaram -silenciosos. Pendiam da atmosfera tenues resteas de sol, como fitas -d’oiro. Perto d’ali grasnava um corvo. Os olhares de Pélagué vagueavam, -impressionada com as recordações do primero de maio, com a lembrança de -Pavel e de André. Pelo solo, na clareira exigua onde estavam, jaziam -barricas escangalhadas que tinham servido a alcatrão, madeiros sem -casca e com a fibra a desfiar-se; fluctuavam ao vento as aparas, em -longas fitas. Os carvalhos e as bétulas perfilavam-se em fila compacta; -por todos os lados, ganhavam insensivelmente o espaço da clareira como -para apagar, aniquilar todos aquelles destroços, toda aquella immundice -que os ultrajava, e, alliados no seu silencio, immoveis, projectavam no -solo as suas sombras negras e tragicas. - -De subito, Jacob afastou-se da arvore a que se encostava, deu um passo -e logo parou para interrogar com voz forte e desabrida, abanando a -cabeça: - ---E é contra gente d’essa que nos vão mandar a combater, o Jéfim e eu? - ---Pois contra quem pensavas? retorquiu Rybine em tom frio. Andam a -esganar-nos com as nossas proprias mãos... É o cumulo! - ---Pois assim como assim, prefiro ser soldado! declarou Jéfim com voz -indecisa. - ---E quem te péga? exclamou Ignaty. Pois vae! E, fitando Jéfim, -acrescentou a rir: - ---Em todo o caso, quando me apontares a espingarda, aponta á cabeça, -não me deixes estropiado... mata-me de vez!... - ---Já me disseste isso! gritou Jéfim com desabrimento. - ---Escutem, companheiros! proseguiu Rybine; e ergueu o braço n’um gesto -lento. Olhem para esta mulher!--e apontava para Pélagué.--O filho está -perdido; provavelmente... - ---Porque dizes isso? perguntou a mãe, angustiada. - ---Porque assim é preciso! Pois haviam os teus cabellos de embranquecer -em vão e o teu coração de soffrer inutilmente?... Tu ainda não -morreste, não é verdade?... Trouxeste livros? - -A mãe lançou-lhe furtivo olhar e confirmou apóz um silencio: - ---Trago. - ---Ora ainda bem! disse Rybine, dando uma palmada na mesa. Percebi-o -logo mal te vi. E para que terias tu vindo, a não ser para isso? Vejam -lá vocês, o filho desappareceu-nos das fileiras, e ahi temos a mãe no -logar d’elle! - -Ergueu-se e poz-se a gritar com voz cava e gestos ameaçadores: - ---Essa canalha não sabe o que anda a semear por ahi, ás cegas! Hão -de ver, quando nós estivermos mais fortes, quando entrarmos a ceifar -n’essas hervas malditas! Hão de ver! - -A estas palavras, toda se assustou Pélagué; olhou para Rybine, achou-o -muito mudado, muito magro; já não tinha a barba cuidada como d’antes, -mas emaranhada; distinguiam-se-lhe perfeitamente as saliencias dos -malares. No branco azulado dos olhos corriam-lhe laivos sanguineos, -como de quem anda mal dormido. O nariz afilára-se-lhe, mais carlaginoso -e adunco, qual bico de ave de rapina. Pelo cós da camisa, desabotoado, -d’antes sempre sujo de tintas e alcatrão, viam-se-lhe as claviculas -mirradas e o denso velo do peito. Toda a pessoa d’este homem respirava -alguma coisa mais soturna e melancólica do que o fôra até então. O -brilho dos exaltados olhos illuminava-lhe o rosto sombreado por uma -expressão de soffrimento e de rancor, que relampejava em purpureos -clarões. - ---No outro dia, continuou elle, o governador do districto manda-me -chamar e pergunta-me: - -«--Que fôste tu dizer ao padre, grande garoto?--E porque é que eu -sou garoto? Ganho o meu sustento com o meu trabalho, não faço mal a -ninguem,» respondi-lhe eu. Pôz-se logo a berrar e deu-me um murro em -cheio na cara... e mandou-me para o calaboiço por trez dias. Ah! assim -é que vocês sabem falar ao povo? Está bem! Mas não esperem pelo perdão, -excommungados! Se não fôr eu, outro ha de lavar a injuria, em vocês -ou nos filhos de vocês... lembrem-se bem! Andaram a lavrar no peito do -povo com as garras de ferro da avidez e da cubiça e n’elle semearam a -maldade... Pois seremos sem piedade, malditos! Ahi tem! - -Espumava de furor; na voz tinha impetuosidades que amedrontavam Pélagué. - ---E afinal que tinha eu dito ao padre? proseguiu mais calmo. Á saída -d’uma reunião, estava elle na rua n’um grupo de camponeos e dizia-lhes -que os homens eram um rebanho e que precisavam sempre d’um pastor... -ahi está! E eu disse-lhe por brincadeira: «Se fizessem a raposa chefe -da floresta, pennas havia de haver muitas, mas passaros, nem um!» O -padre olhou-me de revez e entrou a dizer que o povo devia soffrer, -resignar-se e orar a Deus com mais frequencia, para que elle lhe desse -forças para tudo supportar. E eu respondi-lhe: «O povo reza muito; -provavelmente Deus é que não tem tempo para escutal-o. Se nem o ouve!» -Ora ahi está! Elle então perguntou-me quaes eram as minhas orações. E -eu respondi-lhe: «Não aprendi senão uma só na minha vida; é a do povo -inteiro:» Deus, ensina-me a trabalhar para os nossos senhores, a comer -pedras, a escarrar sangue! O padre não me deixou acabar... A senhora é -da nobreza, ao que vejo? perguntou bruscamente Rybine, interrompendo a -narrativa e voltando-se para Sophia. - ---Porque julga isso? disse ella com um sobresalto de surpreza. - ---Ora, porquê... disse Rybine. É sorte sua, nasceu assim, ahi está! A -senhora imagina que póde disfarçar o seu peccado de fidalguia só porque -tapou a cabeça com um lenço de chita? O padre conhece-se bem, mesmo -quando não traz corôa... Agora acaba a senhora de pôr o cotovello na -mesa, que estava molhada e a senhora fez uma carêta... E olhe que tem -as costas muito aprumadas para uma operaria... - -Receando que elle offendesse Sofia com aquella maneira de falar, -aquelles ditos e aquella graça pesada, Pélagué interveio com viveza e -severamente: - ---É minha amiga esta senhora. É uma excellente mulher... Foi a -trabalhar por nós e pela nossa causa que fez os cabellos brancos... Não -sejas tão desabrido com ella... - -Rybine soltou um suspiro mal contido. - ---Então eu disse-lhe alguma coisa injuriosa? - -Sofia olhou para elle e perguntou seccamente: - ---Tinha alguma coisa a communicar-me? - ---Eu? Ah, sim! Ahi tem: nós temos cá um homem que chegou ha dias; é -primo do Jacob, está doente, está tisico, mas é esperto e percebe muita -coisa. Posso mandar chamal-o? - ---Porque não? retorquiu Sofia. - -Rybine fitou-a franzindo as palpebras e ordenou em voz baixa: - ---Jéfim, vae a casa do homem... diz-lhe que venha cá á noite. - -Jéfim dirigiu-se á choupana, poz o boné e sem uma palavra, sem mesmo -olhar para quem estava, sumiu-se pelo bosque, a passo socegado. Rybine -meneou a cabeça e, apontando para elle, disse surdamente: - ---Soffre muito!... É teimoso... Dentro em pouco vae ser soldado... E o -Jacob tambem... O Jacob diz que não póde, que não vae para o regimento. -O Jéfim tambem não póde, mas diz que quer ir, custe o que custar... -Teve uma idéa... Lembrou-se que poderá levar aos soldados pruridos de -liberdade... Eu cá, a minha opinião é que não se póde arrombar uma -parede dando-lhe com a cabeça. E elles, mettem-lhes uma espingarda na -mão e abalam por ahi fóra. Para onde vão? Não percebem que marcham -contra si mesmos... Anda a soffrer, o Jéfim. E o Ignaty ainda mais lhe -revolve o punhal na ferida. Parece-me inutil... - ---Qual historia! replicou Ignaty com indignação, sem fitar o seu -contendor. Lá no regimento se encarregam de o converter, e ha de acabar -por fazer fogo, como os outros! - ---Não, não creio! replicou o outro, pensativo. Mas, seja como fôr, mais -vale evitar isso... A Russia é grande... Como podem elles descobrir um -homem? É preciso arranjar um passaporte e fugir de aldeia em aldeia. - ---São essas as minhas tenções! declarou Ignaty, batendo na perna com -uma acha. Uma vez que está resolvido combater-se, é preciso marchar sem -hesitação. - -A conversa cessou. Voltavam pelo ar, atarefadas, as abelhas e as -vespas, esmaltando o silencio com os seus zunidos. Os passarinhos -chilreavam; de longe, vinha uma canção n’uma toada que vagueava por -sobre os campos. Depois de curto silencio, proseguiu Rybine: - ---É preciso trabalhar, companheiros... Ou talvez prefiram descançar... -Lá dentro da choupana ha camas a lastro. Ó Jacob, vae-lhes arranjar -folhas bem sêccas... E tu, dá cá os livros, tiasinha! Onde estão? - -Sofia e Pélagué abriram os alforges. Rybine inclinou-se a espreitar e -disse, satisfeito: - ---Ahi está... Mas que grande quantidade trouxeram! Ora venham vêr! -Ha muito tempo que trabalha n’este negocio, a senhora? acrescentou, -falando com Sofia. - ---Ha doze annos. - ---Então, como se chama? - ---Chamo-me Anna Ivanovna. Porquê? - ---Cá por coisas. E já esteve presa provavelmente? - ---Já estive. - ---Bem vês! disse Pélagué, baixo e em tom de censura. E tu que a -trataste mal... - -Ficou calado um momento. Depois, tomando um pacote de livros, respondeu: - ---Não se zangue! Campónio e fidalgo são como o alcatrão e a agua, não -ha maneira de os misturar, não se dão... - ---Não sou fidalga; sou uma creatura que pensa, que soffre e geme! -contestou Sofia. - ---É possivel! disse Rybine. Vou esconder tudo isto. - -Ignaty e Jacob approximaram-se d’elle, de mãos estendidas. - ---Dá-nos alguns! disse Ignaty. - ---São todos iguaes? perguntou Rybine a Sofia. - ---Nem todos. Vem tambem um jornal... - ---Ah! - -Os tres homens precipitaram-se para a cabana. - ---É exaltado, este rapaz! observou Pélagué, baixando a voz e -seguindo-os com olhar pensativo. - ---É verdade, disse Sofia no mesmo tom. Nunca vi uma cara como -aquella... Dir-se-ia um martyr heroico!... Vamos lá tambem; estou -curiosa por ver o effeito do jornal. - ---Mas não se zangue com elle... supplicou brandamente a outra. - ---Que bom coração é o seu, Pélagué! - -Ao ver surgir as duas mulheres á porta da choupana, Ignaty levantou a -cabeça e lançou-lhes rapido olhar; depois, enterrando os dedos pelos -cabellos annelados, curvou-se de novo sobre o jornal, que desdobrára -nos joelhos. Rybine, de pé, apresentava o periodico á luz d’uma restea, -que penetrava na choupana por uma greta do tecto; ia deslocando pouco -a pouco o jornal sob o feixe de luz, á medida que ia lendo e lia por -bocca pequena. Jacob, ajoelhado, firmava o peito de encontro á borda -d’uma cama e lia tambem. - -Pélagué viu que a Sofia não passava despercebido o enthusiasmo dos -trez por aquellas palavras de verdade. O rosto illuminou-se-lhe n’um -sorriso. Devagarinho, foi para um canto da choça e sentou-se. Sofia, em -silencio, passou-lhe o braço pelos hombros. - ---Tio Mikhaíl! Olhe que nos insultam, n’este papel, a nós, camponezes! -proferiu Jacob a meia voz, sem se mexer. Rybine voltou-se para elle e -disse, risonho: - ---É porque nos estimam. Aquelles que nos amam podem dizer-nos tudo o -que quizerem sem que nos irritemos. - -Ignaty respirou ruidosamente, ergueu a cabeça e poz-se a rir; em -seguida, fechou os olhos, dizendo: - ---Está aqui escripto: «O homem dos campos deixou de ser uma creatura -humana.» E é bem verdade; já o não é! - -Perpassou pelo seu rosto ingenuo e franco uma expressão de aviltamento. - ---Este sabio das duzias! continuou, referindo-se ao articulista. Eu -queria vêr-te na minha pelle! Fizesses-te tu fino! Então é que se havia -de vêr o que tu eras! - ---Vou descansar um bocado, disse Pélagué a Sofia. Sinto-me um pouco -fatigada e este cheiro do alcatrão faz-me dôres de cabeça. Vem? - ---Ainda não. - -Pélagué estendeu-se na cama e d’ahi a pouco dormitava. Sofia, sentada á -cabeceira, continuava observando os leitores, ao passo que ia enxotando -com sollicitude os zangãos e as vespas que vinham adejar em volta do -rosto da companheira. Pélagué, com os olhos meio cerrados, percebia-o e -taes attenções impressionavam-na. - -Rybine approximou-se, perguntou: - ---Está a dormir? - ---Está. - -Elle calou-se um pedaço, attentou no sereno rosto da anciã e com um -suspiro proseguiu baixinho: - ---É talvez esta a primeira que tenha seguido o filho pelo mesmo -caminho!... a primeira! - ---Vamo-nos embora, não a incommodemos, propoz Sofia. - ---Temos de ir trabalhar. Eu preferia ficar a conversar comsigo, mas é -forçoso deixar isso para a noite. Vamos, camaradas! - -Saíram os trez homens, deixando Sofia na choupana. Pélagué pensava: - ---Deus seja louvado! fizeram as pazes!... Entendem-se um com o outro!... - -E adormeceu socegadamente, aspirando o ar perfumado da floresta. - - - - -VI - - -Á noitinha, voltaram os quatro operarios, satisfeitos por verem -terminado o seu dia. Ao ruido das vozes, Pélagué, accordou, veio á -porta da cabana, risonha, bocejando. - ---Vocês a trabalharem e eu a dormir como uma fidalga! disse, fitando-os -affectuosamente a todos. - ---Não faz mal, nós perdoamos-te, disse Rybine. - -Mostrava-se mais socegado do que ao jantar; o cansaço dissipára o seu -excesso de agitação. - ---Ignaty! ordenou. Arranja a ceia. Cada um trata da casa, por sua vez. -Hoje é ao Ignaty que compete dar-nos de comer e de beber... Ora ahi -está! - ---De bom grado cedia hoje a minha vez a outro qualquer, declarou -Ignaty. E, emquanto procurava distinguir a conversa, começou a apanhar -aparas, afim de accender o lume. - ---As visitas são sempre interessantes para toda a gente! confirmou -Jéfim, sentando-se ao lado de Sofia. - ---Eu te ajudo, Ignaty! disse Jacob. - -Penetrou na choça e de lá trouxe um pão redondo. Partiu-o em fatias. - ---Schiu! murmurou Jéfim, oiço tossir... - -Rybine apurou o ouvido e disse: - ---É elle que chega. - -E, voltado para Sofia, explicou: - ---Vae ouvir uma testemunha. A minha vontade era poder leval-o a essas -cidades, pôl-o em exposição por essas praças, e o povo que fôsse -ouvil-o... Diz sempre o mesmo, mas é digno de ser ouvido!... - -Silencio e escuridão tornavam-se mais profundos; as vozes ecoavam com -mais suavidade. Sofia e Pélagué seguiam com o olhar os camponezes a -moverem-se pesadamente, mas de vagar, com singular prudencia. - -Do bosque surgiu um homem corcovado, de alta estatura, caminhando -apoiado com todo o seu peso a uma bengala. Ouvia-se-lhe o ruido da -respiração rouca. - ---Ahi vem o Savely! exclamou Jacob. - ---Aqui me têm! disse o homem, parando, saccudido por um accesso de -tosse. - -Vestia um sobretudo usado que lhe cahia até aos pés; de sob o chapeu -redondo e muito velho, saíam-lhe em madeixas ténues uns cabellos -amarellentos e asperos. Cobria-lhe o rosto ossudo e pallido uma barba -loira; a bocca aberta, os olhos com um brilho de febre, nas orbitas -profundamente cavadas, como no fundo de sombrias cavernas. - -Apresentado a Sofia, perguntou: - ---Segundo parece, trouxe livros para o povo lêr? - ---Sim, senhor. - ---Agradeço-lh’o... pelo povo. O povo não pode ainda compreender o livro -da verdade... ainda não póde agradecer-lhe como merece; mas eu que o -compreendi já, agradeço-lhe em nome do povo. - -Respirava com avidez, absorvendo o ar em pequenas golfadas repetidas. -Falava a espaços. - -Os dedos descarnados das diafanas mãos, perpassava-os pelo peito, -tentando abotoar o sobretudo. - ---Póde ser-lhe doentio, para si, este passeio tão tarde, pela -floresta... Ha muita humidade e suffoca-se, ali! fez notar Sofia. - ---Para mim já nada ha salubre ou doentio! respondeu, offegante. Só a -morte será bemvinda. - -Era doloroso ouvir falar aquelle homem, tanto mais que toda a sua -pessoa provocava dó, uma compaixão infinita mas improficua. Agachou-se -sobre uma barrica, dobrando os joelhos com precaução, como se receasse -que se quebrassem; depois, enxugou a fronte, coberta de suor. Tinha os -cabellos seccos e sem viço. - -O lume começava a atear-se. Ao clarão das chammas tudo se deslocou; as -sombras, lambidas pelas labaredas, fugiam assustadas pela floresta. Por -cima do brazeiro appareceu por instantes a cara redonda d’Ignaty, a -soprar. Depois, apagado o lume, ficou persistente o cheiro do fumo, e o -silencio e as trevas apoderaram-se de novo da clareira, como se viessem -apurar o ouvido para o falar rouco do doente. - ---Mas ainda posso ser util ao povo... Sim, como o testemunho d’um -enorme crime! Olhem para mim! Tenho vinte e oito annos e ando a -morrer... Ha dez annos, levantava nos hombros, sem me custar, até -duzentos kilos... Pensava eu então que com uma saude d’aquellas, havia -de levar setenta annos para chegar á cova, direito e sem tropeçar... E -afinal vivi dez... e não posso ir mais longe. - ---Ahi têm a canção d’este homem! disse Rybine com voz rancorosa. - -Reaccendeu-se mais viva a fogueira; de novo as sombras debandaram, -para se sumirem nas chammas, agitando-se em torno do brazeiro n’uma -dansa silenciosa e hostil. Sob a mordedura do lume, os velhos troncos -estralejavam e gemiam. A folhagem susurrava em segredo, agitada por uma -corrente d’ar quente. Vivas e folgazãs, as linguas de fogo purpureas e -doiradas brincavam, abraçavam-se, erguiam-se, despedindo faíscas. Voou -uma folha em braza. No ceu, as estrellas sorriam para as scentelhas, -attraíndo-as a si. - ---Não é só minha esta canção; ha milhares de creaturas que tambem a -cantam, mas só para si! E cantam-na só para si porque não compreendem -que as suas miseraveis existencias são uma lição salutar para o povo... -Quantos seres minados ou estropiados pelo trabalho e pela cadeia, não -morrem para ahi de fome, sem um queixume!... É preciso gritar bem alto, -companheiros, é preciso gritar! - -E Savely entrou a tossir, todo curvado e tremulo. - -Jacob poz na mesa uma caneca de _koass_[2] e atirou para o lado um -molho de cebolas, e disse ao enfermo: - ---Anda, Savely, trouxe leite para ti. - -O outro abanou negativamente a cabeça; mas Jacob agarrou-o por debaixo -dos braços e fêl-o sentar á mesa. - ---Oiçam, disse Sofia a Rybine, em voz baixa e em tom de censura, para -que o obrigaram a vir? Póde morrer d’um momento para o outro. - ---É certo, replicou Rybine. Mas mais vale morrer rodeado de amigos; -ser-lhe-á menos doloroso do que na solidão. Tem soffrido muito na sua -vida; pois que soffra ainda mais um pouco para servir de aviso aos -homens... Que lhe póde fazer isso? Ali está! - ---Chega a parecer que se desinteressa d’elle com horror pelos seus -soffrimentos, exclamou Sofia. - -Rybine lançou-lhe rapido olhar e respondeu com modos sombrios: - ---Só os fidalgos é que se recreiam com o espectaculo do Christo a gemer -na sua cruz; mas nós outros, nós queremos estudar os homens ao vivo e -gostavamos que a senhora tambem apprendesse a conhecel-os... - -O enfermo retomou a palavra: - ---Destroe-se um homem com o trabalho, dá-se cabo d’elle com a prisão... -e porquê? O nosso patrão--era na fabrica Nefédof que eu trabalhava á -doida--o nosso patrão deu a uma cançonetista uma grande bacia de mãos e -mais uma bacia de cama tudo de oiro... E foi em tal vaso que ficaram as -nossas forças, as nossas vidas... as minhas e as de milhares d’outros. -Ahi têem para que ellas serviram! - ---O homem foi creado á imagem e semelhança de Deus! disse Jéfim, -sorrindo--e ahi está o emprego que lhe dão... não vae mal! - ---É necessario gritar isso! exclamou Rybine com violenta palmada na -mesa. - ---Não devemos supportal-o! accrescentou Jacob mais baixo. - -Ignaty limitou-se a sorrir. - -Notava a velha que os trez operarios falavam pouco, mas escutavam com -uma attenção insaciavel d’almas sequiosas. De cada vez que Rybine abria -a bocca, fitavam-no, copiavam-lhe os menores movimentos. As frases -de Savely, porém, provocavam-lhes singulares tregeitos de enfado. -Dir-se-ia não sentirem dó algum do enfermo. - -E Pélagué inclinando-se ao ouvido de Sofia, perguntou baixinho: - ---É certo o que elle conta? - -Sofia respondeu em voz muito alta: - ---É certo, sim senhora! Os jornaes falaram do caso; foi em Moscou que -isso se deu. - ---E esse homem não foi castigado! disse Rybine com ódio. Devia ter sido -punido; precisava que o levassem a uma praça publica e ali cortal-o aos -bocados, atirando aos caes essa carne immunda! Grandes castigos se hão -de vêr, quando o povo se levantar! - ---Que frio que faz! disse o tisico. - -Ajudou-o Jacob a levantar e a chegar-se para o lume. - -A fogueira ardia em clarão uniforme e vivo. Sombras imprecisas -erravam em torno, contemplando surprezas o brinquedo das labaredas. -Savely, sentou-se n’um cepo e offereceu ao calor as mãos seccas e -transparentes. Rybine designou-o com um gesto do mento, e disse para -Sofia: - ---Sabe mais do que um livro! Eu é que o conheço... Quando uma máquina -arranca um braço ou mata um homem, compreende-se; é sempre do homem a -culpa. Mas sugar o sangue d’um homem e atira-lo depois á margem como -uma coisa pôdre, isso é que não se explica. - ---Sim... pronunciou com lentidão Ignaty, não se explica... Um chefe de -districto conheci eu, que obrigava a gente do campo a cumprimentar-lhe -o cavallo, quando o levavam a passeio pela aldeia, e que punha a ferros -quem desobedecesse. Para que lhe servia aquillo?... É o que tambem não -se explica! - -Depois de comerem, fizeram roda junto á fogueira. Diante d’elles -o lume ardia, devorando rapidamente a lenha; por detraz, ceu e -floresta envolviam-se na treva. O estropiado fixava no lume os olhos -esgazeados, tossia sem descanso, com grandes arrepios. Parecia que do -peito lhe saíam pedaços da propria vida, solertes em abandonar aquelle -corpo esqualido. Dansavam-lhe no rosto reflexos do fogo sem que lhe -colorissem a pelle fenecida. Só os olhos scintillavam n’uma coruscação -azulada, bruxuleante. - ---Talvez preferisses abrigar-te na cabana, an, Savely? lembrou Jacob, -inclinando-se-lhe no hombro. - ---Para quê? respondeu esforçadamente. Quero ficar aqui. Já não tenho -muito tempo a viver entre os homens... Não, não tenho para muito tempo. - -Vagueiou o olhar em volta, ficou um bocado calado e proseguiu, com um -sorriso palido: - ---Sinto-me bem entre vocês. Estou-os vendo e estou a pensar que talvez -sejam vocês que hão de vingar todos os que foram maltratados... o povo -inteiro! - -Ninguem lhe respondeu. E d’ahi a pouco, a cabeça pendia-lhe para o -peito e entrou a dormitar. Rybine considerou-o demoradamente e disse -meio em segredo: - ---É sempre assim quando vem visitar-nos; senta-se para ahi e conta -sempre a mesma coisa. - ---Aborrece ouvil-o repetir-se! murmurou Ignaty. Bastava ouvir uma vez -essa historia para não a esquecer e elle sempre a moêl-a! - ---É que para elle, n’essa historia, tudo se resume, a sua vida inteira, -compreende-o bem! justificou Rybine, soturno. E da mesma sorte a vida -de toda uma legião de seres. Ouvi-lhe essa historia dezenas de vezes -já, e, ainda assim, acontece-me ter certas dúvidas. Ha horas de bondade -em que a gente se recusa a crêr na vilania do homem, ou na sua loucura, -e em que se sente compaixão por todos, ricos e pobres... porque o rico -tambem é um transviado do bom caminho. A um cega-o a fome, ao outro, o -dinheiro... E então, a gente pensa: - -«Homens, meus irmãos! Desentorpeçam esses raciocinios, reflictam com -lealdade, reflictam bem». - -O doente oscilou estremunhado, abriu os olhos e deitou-se sobre a -terra. Sem ruido, Jacob levantou-se, foi á cabana buscar um pequeno -agasalho de pelles, e estendeu-lho por cima. Depois, retomou o seu -logar ao lado de Sofia. - -Ás vozes dos homens misturavam-se o surdo crepitar da lenha e o -murmurio das labaredas; e aquelle lume, qual rosto rubicundo, parecia -sorrir-se com malicia para os sombrios vultos que lhe faziam circulo. - -Falou então Sofia da lucta dos povos em prol do direito á vida e -á liberdade, dos remotos combates dos rusticos da Allemanha, dos -infortunios dos irlandezes, dos feitos do operariado francez. - -Sob a floresta, revestida de veludos, na pequena rotunda limitada -pelos majestaticos arvoredos, sob a abobada do negro firmamento, -perante a risonha lareira, em meio d’aquelle grupo de sombras hostis e -assombradas, ressuscitavam os acontecimentos que haviam revolucionado o -mundo dos saciados, dos entes tresloucados pela cubiça; desfilavam uns -após outros, os povos da terra, sangrentos, esgottados em mil combates; -celebravam-se os nomes dos heroes da liberdade e da justiça... - -Aquella debil voz de mulher ecoava mansamente, como se viesse do -passado; instigava esperanças, inspirava confianças. O auditorio -escutava religiosamente aquella melopeia, a vasta historia dos seus -irmãos espirituaes. Todos fitavam o rosto pálido e magro da narradora, -correspondiam com sorrisos ao sorrir dos olhos cinzentos. E com mais -viva luz brilhava para elles a sagrada causa da humanidade; nos seus -peitos medrava mais e mais o sentimento do parentesco moral com os seus -irmãos do mundo inteiro; um novo coração nascia para elles na propria -terra e ardiam no desejo de tudo compreenderem, de tudo resumirem -n’elle. - ---Ha de chegar o dia em que os povos todos levantarão cabeça, bradando: -«Basta! não queremos continuar n’esta vida!» proclamou Sofia com voz -sonora, e então ha de desabar o ficticio poder d’aquelles que só na -avidez encontram a sua força, a terra fugir-lhes-á debaixo dos pés e -ficarão sem saber em que apoiar-se. - ---É o que ha de acontecer! affirmou Rybine, de cabeça baixa. Que -ninguem poupe as suas forças e tudo vae de vencida! - -Pélagué escutava, arregalando muito as sobrancelhas e com um sorriso -de surpreza nervosa. Estava a ver que tudo o que nas maneiras de -Sofia lhe parecia insolito, a sua audacia, a sua extrema vivacidade, -tudo desapparecera, como submerso no fluxo regular e entusiástico -das suas palavras. A noite silenciosa, o revolutear do lume, a -fisionomia da joven oradora, interessavam-na; mas o que a deleitava -principalmente era a absorta attenção dos campónios. Permaneciam -immoveis, esforçando-se por não perturbarem fôsse com o que fôsse o -desenvolvimento sereno do discurso; dir-se-ia n’elles um receio de -quebrarem o fio luminoso que os ligava ao mundo. De tempos a tempos, um -d’elles collocava com precaução uma nova acha no lume; e dispersava com -a mão as faúlhas e o fumo, para que não incommodassem Sofia. - -Ao romper da aurora, Sofia calou-se, fatigada, e attentou, sorrindo, -nos rostos pensativos e tranquilisados que a cercavam. - ---É tempo de partirmos, disse a velha. - ---Vamos! respondeu Sofia com expressão de cansaço. - -Um dos operarios suspirou ruidosamente. - ---É pena que se vão! declarou Rybine com desacostumada meiguice. A -senhora fala tão bem! Grande coisa é ligar as creaturas pela sorte -commum! Quando a gente pensa que ha milhões de sêres a quererem o mesmo -que nós queremos, o coração torna-se bom... E ha tanta força na bondade! - ---E quando se procede com bondade, pagam-nos com a violencia! protestou -Jéfim n’uma risadinha e pondo-se de pé com presteza. É bom que ellas se -vão, tio Mikhaíl, antes que sejam vistas... Quando os livros estiverem -distribuidos pelo povo, as autoridades hão de indagar d’onde vieram... -E póde alguem lembrar-se das peregrinas e denunciál-as... - ---Obrigado pelo incommodo, mãe! disse Rybine interrompendo Jéfim. -Sempre que olho para ti me lembro do Pavel... Fizeste bem em seguir-lhe -o exemplo... - -Inteiramente apaziguado agora, esboçava franco e amigavel sorriso. -Fazia fresco; no emtanto, conservava-se de blusa, o cós entreaberto, -o peito á mostra. Pélagué attentou-lhe no robusto corpo e aconselhou, -sollicita: - ---Devias agasalhar-te, faz frio. - ---Se eu estou tão quente cá por dentro! objectou. - -De pé, junto do fogo, os trez rapazes conversavam baixo; aos pés -d’elles, dormia o doente, embrulhado nas pelles. Branqueava-se o ceu, -fundiam-se as sombras. Tremula, a folhagem aguardava o sol. - ---Está bem, adeus! disse Rybine, apertando a mão de Sofia. Como hei de -perguntar por si, na cidade? - ---Basta que me procures, responde Pélagué. - -Lentamente, em um só grupo, vieram os operarios apertar a mão de Sofia -com expressões desastradas, de affecto. Em cada um d’elles transparecia -secreta gratidão e amisade, e tal sentimento, novo como era para -elles, desconcertava-os. Com os olhos prazenteiros e amortecidos pela -insomnia, consideravam Sofia, firmando-se ora n’um pé, ora no outro. - ---Querem beber uma gota de leite antes de partirem? offereceu Jacob. - ---Ainda ficou algum? interrogou Jéfim. - ---Um pouco. - -Mas Ignaty, confuso, declarou, coçando a cabeça: - ---Não ha; eu entornei-o. - -E todos os trez se puzeram a rir. - -Falavam no leite, mas Pélagué percebia que pensavam em coisa bem -diversa; que ambicionavam para Sofia e para si propria todas as -felicidades possiveis, mas sem poderem expressar-se. Sofia estava -visivelmente commovida, e a sua perturbação era tal, que apenas -conseguiu dizer em tom de voz humilde: - ---Obrigada, companheiros! - -Entreolharam-se, como se este tratamento os tivesse feito cambalear de -prazer. - -Ouviu-se um accesso de voz rouca do enfermo. No lume extinguiam-se os -brazidos. - -Até mais vêr! disseram os campónios a meia voz; e os adeuses -melancolicos de todos acompanharam por muito tempo as duas mulheres. - -Vagarosamente estas embrenharam-se por um atalho da floresta, á -claridade da aurora. - -Entraram a falar de Rybine, do doente, dos operarios, que sabiam -conservar tão attencioso silencio e que haviam exprimido sentimentos -de reconhecida amisade por fórma desgeitosa mas eloquente, dispensando -ás duas mulheres mil cuidados. Entraram no campo. O sol vinha-lhes ao -encontro. Invisivel ainda, o astro abrira no céu um leque diáfano de -purpureos raios; pela herva scintillavam gotas de rócio em multicolores -lumes de alegria viva e primaveril. Despertavam os passaros e animavam -a aurora com gritos joviaes. - -Com o seu grasnar pressuroso, corpulentos corvos voavam para longe, -agitando pesadamente as azas; pelos campos semeados já desde o -outono, outros corvos de lustrosa plumagem, saltitavam, tagarelando -em vozes ritmadas; perto, andava um verdelhão a assobiar, inquieto. -Desanuviavam-se os longes e acolhiam o sol, apagando as sombras -nouturnas das cumieiras. - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[2] Bebida em uso entre o povo da Russia, obtida pela fermentação de um -cosimento de farinha de cevada.--N. do T. - - - - -VII - - -A existencia de Pélagué decorria em singular socego que por vezes -a surpreendia. Tinha o filho na cadeia, sabia que o esperava duro -castigo; de cada vez que n’isso pensava, apresentavam-se-lhe, mau grado -seu, á memoria as imagens de André, de Fédia e d’outros,--toda uma -larga série de caras conhecidas. - -Resumindo para si todos os que da sua sorte compartilhavam, a figura -de Pavel avantajava-se aos olhos de Pélagué e quando pensava no filho, -os seus pensamentos alastravam, dirigiam-se para todos os lados, sem -que ella desse por tal. Era uma dispersão em mil lampejos desiguaes que -tudo interessavam, que tudo pretendia e tudo reuniam em um mesmo quadro -e assim impediam a mãe de se concentrar no desgosto que experimentava -por não ter Pavel junto, de si e no terror que lhe inspirava a sorte do -filho. - -Pouco depois partiu Sofia. Cinco dias mais tarde, voltava ella -desenvolta e alegre, para desaparecer de novo algumas horas passadas. -Então só a tornou a vêr ao fim de quinze dias. - -Dir-se-ia percorrer a existencia em circulos cada vez maiores. Vinham -assim de vez em quando a casa do irmão para lhe encher a casa de -valorosa decisão e de musica. - -Tornára-se agradavel a musica a Pélagué, quasi indispensavel mesmo. -Sentia-a correr-lhe no peito, penetrar-lhe no coração, fazendo brotar -catadupas de pensamentos rápidos e intensivos, e desabrochar expressões -suaves e bellas, suggeridas pela força das melodias. - -Difficilmente se resignava, porém, ao desleixo de Sofia, que atirava -para todos os cantos os objectos que lhe pertenciam, e as pontas e a -cinza dos cigarros; mais lhe custava a habituar-se á sua maneira de -falar tão decidida. Era por demais flagrante o contraste com a pesada -tranquilidade de Nicolao, com a gravidade benevola e constante das -suas palavas. Ao entendimento de Pélagué, Sofia não passava d’uma -rapariguita com vontade de passar por pessôa de juizo e que olhava -ainda para as pessôas como para brinquedos engraçados. Falava muito -da santidade do trabalho e augmentava nesciamente a tarefa da pobre -mulher com o seu desmazelo; discorria sobre a liberdade e, comtudo, -era visivel incommodo que a todos proporcionava com a sua irritavel -impaciencia, com as suas incessantes discussões e o seu proposito de -se collocar acima dos outros. Muitas contradicções se davam n’ella; -Pélagué tratava-a com prudencia constante, mas sem o sentimento -caloroso que nutria por Nicolao. - -Sempre meticuloso, este levava dia por dia a mesma vida monotona -e regrada; almoçava ás oito horas, lia o seu jornal em voz alta, -commentando as noticias mais importantes. Pélagué descobria n’elle -affinidades de caracter com André. Como acontecia com o russo-menor, -o seu hospedeiro nunca falava dos homens com rancor; considerava-os -a todos culpados da má organisação da existencia. Mas a fé n’uma -vida nova não era n’elle tão fervorosa como em André, nem mesmo tão -idealmente luminosa. Tinha um modo de falar pausado, uma voz de -juiz integerrimo e rigoroso; até quando fazia qualquer narrativa de -horrores, esboçava sempre um sorriso compassivo; mas nos olhos tinha um -clarão sinistro. Quando reparava n’aquelle olhar, Pélagué compreendia -que não era homem para perdoar; e, sentindo quão mortificadora se lhe -devia tornar tal severidade, tinha pena d’elle. E affeiçoava-se-lhe -cada vez mais. - -Ás nove horas, ia elle para a repartição; a velha arranjava os quartos, -preparava o jantar, lavava-se, mudava de vestuario; depois, sentava-se -no quarto e punha-se a vêr as estampas dos livros. Applicando toda -a sua attenção, ainda podia ler um bocado; mas, ao cabo d’algumas -páginas, ficava cansada e perdia o sentido ao que lia. Em compensação, -as gravuras distraíam-na muito, qual a uma criança: desenrolavam-lhe -diante da vista um mundo novo, maravilhoso, compreensivel, no emtanto, -e quasi tangivel. Via cidades immensas com magnificos edificios, -máquinas, navios, monumentos, riquezas incalculaveis amontoadas pelos -homens, a par das criações da natureza, n’uma diversidade que a -confundia. - -Alargava-se a vida até o infinito, patenteando-lhe em cada dia coisas -colossaes, desconhecidas, portentosas; e pela abundancia das suas -riquezas, o variegado das suas bellezas, exaltava mais e mais aquella -alma sedenta que despertava. Gostava ella principalmente de folhear -um livro de zoologia; e bem que tal obra estivesse escripta em lingua -estrangeira, eram as suas illustrações as que mais nítida representação -lhe davam da riqueza, da belleza e da immensidade da terra. - ---Como a terra é grande! disse um dia a Nicolao. - ---É; e apesar d’isso a humanidade vive apertada... - -O que sobretudo a enternecia eram os insectos, particularmente as -borboletas; percorria, surpreza, os desenhos que as representavam e -dizia: - ---Que belleza! não é verdade, Nicolao? Quantas d’estas perfeições -existem por toda a parte! Mas vivem occultas aos nossos olhos, passam -ao nosso alcance sem repararmos n’ellas. Cada qual corre á sua vida, -nada sabe, nada admira, porque não ha tempo nem vontade para isso. -Quanto prazer poderiamos disfructar, se todos soubessem como a terra -é rica e que de coisas admiraveis ella encerra! E é tudo para todos e -cada um para tudo... não é assim? - ---Sim, com effeito... respondia Nicolao, sorrindo. E trazia-lhe mais -livros. - -Á noite, havia visitas muitas vezes; entre ellas, Aleixo Vassilief, -um bello homem de rosto claro, barba preta, taciturno e grave; Romão -Pétrof, este de cara redonda e avermelhada, que fazia constantemente -estalar os beiços n’um gesto de lastima; Ivan Danilof, baixo e magro, -barba em bico, e uma vozinha fina, agressiva, berrante e acerada como -um estilete; Iégor, que de tudo gracejava, de si, dos companheiros e da -doença que o ia minando. A meude, vinha gente que Pélagué não conhecia, -de povoações distantes e tinham longas conferencias com Nicolau, sempre -sobre o mesmo assunto: a liberdade e os operarios de todas as nações. -Discutiam acaloradamente, gesticulavam com força, bebia-se muito chá. -Ao ruído da vozearia, Nicolao compunha ás vezes umas proclamações que -passava a lêr aos consocios e ali mesmo eram copiadas em caracteres -d’imprensa. Ella recolhia cuidadosamente os fragmentos dos rascunhos e -queimava-os. - -Emquanto ia servindo o chá, admirava ella o ardor com que os -companheiros falavam da vida e da sorte do operário e do campónio, -da maneira mais vantajosa e rápida de semear entre o proletariado a -idéa da verdade e da liberdade, educando-lhe o espirito. Muitas vezes, -divergiam as opiniões, zangavam-se, accusavam-se uns aos outros, -injuriavam-se, mas logo voltavam a discutir. - -Mas ella sentia bem que conhecia melhor do que todos aquelles -palradores, a vida do operario; que avaliava com mais nitidez a -enormidade da tarefa que elles se propunham, o que lhe permittia tratar -os visitantes com a condescendencia um tanto melancólica d’uma pessôa -de idade madura a ver crianças a brincarem de marido e mulher sem -compreenderem o lado trágico da situação. - -Mau grado seu, comparava-lhes os discursos com os de seu filho, com os -de André, e percebia agora differenças que d’antes não podia avaliar. -Gritava-se mais ali do que lá no sitio, ao que lhe parecia. E concluia: - ---É que sabem mais, falam mais de rijo... - -A maior parte das vezes, porém, notava ella que todos aquelles homens -parecia que se exaltavam de proposito uns aos outros, que eram -ficticias as suas exaltações; cada qual pretendia demonstrar aos -collegas que andava mais perto da verdade do que elles e que mais -presava esta verdade do que qualquer d’elles. Os outros vexavam-se e, a -seu turno, para provarem como conheciam bem tal verdade, questionavam -com desabrimento e rudeza. Cada qual, tudo era querer subir mais alto -do que os mais e isto causava-lhe pungente tristeza. Agitava então os -supercilios, divagando pela assistencia olhares de súpplica, e pensava: - -«Já se esqueceram do Pavel e dos companheiros!... Já não pensam -n’elles.» - -Escutava sempre attenta as discussões, que, naturalmente não -compreendia; procurava descobrir os sentimentos sob aquelle fluxo de -palavras. Percebeu então que nas reuniões do seu bairro, quando se -falava do bem, todos o acceitavam integro e completo, ao passo que -ali, tudo se fragmentava, tudo se dividia; além, os sentimentos tinham -mais força e convicção; aqui, era o domínio das idéas radicaes que -retalhavam tudo em bocados. Aqui, falava-se mais da destruição do velho -mundo; além, sonhava-se um mundo novo, e era por isso que os discursos -do seu filho e de André lhe eram mais compreensiveis, mais ao seu -alcance. - -Surdo descontentamento para com os homens se lhe introduzia -furtivamente no coração, trazendo-a inquieta; nascia n’ella a -desconfiança, sentia desejos de compreender tudo, e o mais depressa -possivel, para falar tambem do mundo com palavras dictadas pela sua -alma. - -Notava igualmente Pélagué, quando vinha algum companheiro operario, -que Nicolao o recebia com uma semceremonia singular; dava ao rosto uma -expressão de bonhomia e falava por maneira diversa do costume, se não -com mais grosseria, pelo menos com maior liberdade. - ---É que faz o possivel para descer ao nivel d’elles, pensava. - -Mas esta razão não a satisfazia, pois que o operario claramente se -sentia constrangido, com a intelligencia como que oppressa, e não -chegava a expressar-se tão simples e livremente como com ella, por -exemplo, mulher da sua condição. Um dia, n’um momento em que Nicolao se -ausentára da sala, perguntou a um d’elles: - ---Porque estás tu tão contrafeito? Olha que não és um menino a fazer -exame. - -O homem abriu-se n’um franco sorriso. - ---É a falta de habito... Assim como assim... não é cá da nossa classe! - -E ficou-se cabisbaixo. - ---Não quer dizer nada, replicou ella. Pois se elle é tão boa pessoa... - -O operario volveu para ella o olhar, sorriram um para o outro e nada -acrescentaram. - -Ás vezes, apparecia por lá Sachenka. - -Nunca se demorava, falava sempre apressadamente, sem se rir. E quando -se retirava, perguntava invariavelmente a Pélagué: - ---Como está o Pavel? Passa bem? - ---Sim, senhora; graças a Deus! Está bom, bem disposto. - ---Cumprimentos da minha parte! concluia a rapariga, e desapparecia. - -Umas vezes por outras, queixava-se-lhe a pobre mãe por conservarem -preso o Pavel tanto tempo, sem se fixar data para o julgamento. -Sachenka calava-se, frazindo o sobrolho; tremiam-lhe os labios e os -dedos agitavam-se-lhe nervosamente. - -A mãe de Pavel tinha impetos de lhe dizer: - ---Minha querida, eu sei que o amava... sim, bem o sei! - -Mas não se atrevia: os ares serios da rapariga, a sua bocca franzida, -a recusa do seu falar pareciam repudiar de antemão qualquer meiguice. -Limitava-se a sorrir e a apertar a mão que lhe estendiam, dizendo -comsigo: - -«Pobre pequena!...» - -Um dia, appareceu-lhe Natacha. Muito satisfeita com vêr que Pélagué a -beijava affectuosamente, annunciou-lhe, em voz sumida, e entre outras -coisas: - ---Morreu minha mãe... morreu, a minha pobre mamã! - -E, limpando os olhos, em rapido gesto: - ---Que pena tenho!... Ainda não tinha feito cincoenta annos... Podia -viver muito mais tempo. Mas, quando penso em tudo o que vejo, chego a -pensar que a morte lhe ha de ser mais leve do que a vida! Vivia sempre -só, estranha a todos; não era precisa a ninguem; meu pae tinha-a feito -timida com os seus continuos ralhos... Pode-se por ventura dizer que -era viver aquillo? Só vive quem espera alguma coisa bôa; mas ella, ella -nada tinha a esperar, a não ser os maus tratos! - ---É bem certo o que diz, Natacha! declarou a outra depois de reflectir. -Para viver é preciso que se espere alguma coisa. Nada esperar é viver? - -Affagou com mimo a mão da rapariga e perguntou-lhe: - ---E agora, vive sósinha? - ---Vivo, respondeu Natacha. - -Calou-se Pélagué um instante; depois, concluiu com um sorriso: - ---Que importa! Quando se tem uma alma bôa, nunca se está só, sempre se -está acompanhada... Natacha foi residir, na qualidade de professora, -para um districto onde havia uma fabrica de fiação. Pélagué ia de vez -em quando levar-lhe livros proíbidos, proclamações, jornaes. Estava já -encartada n’este officio. Varias vezes em cada mez, vestida de irmã da -caridade, de vendedeira de rendas ou de retrozaria, de burgueza ricaça -ou de peregrina, lá se ia pela provincia fóra, a pé, de caminho de -ferro, n’uma carroça, alforge ao hombro ou de mala na mão. Nos hoteis -ou nas estalagens, nos vapores, assim como nos comboios, a sua attitude -era sempre calma e simples; com os desconhecidos, era a primeira a -dirigir-lhes a palavra, e captava irresistiveis simpatias com o seu -falar afavel, a sua tranquilidade de mulher que muito viu e aprendeu. - -Agradava-lhe conversar com os infelizes e informar-se das suas opiniões -sobre o mundo, dos seus infortunios e perplexidades. Enchia-se-lhe -o coração de alegria sempre que observava n’estes interlocutores -aquelle vivo descontentamento que, embora proteste contra os golpes -da adversidade, ardentemente busca solução para os grandes problemas -da humanidade. Mais vasto sempre e mais variado, desenrolava-se aos -seus olhos o panorama da vida com todas as suas luctas. Em tudo e por -toda a parte ella encontrava a tendencia cínica do homem para enganar -o homem, para roubal-o, para tirar d’elle o maior proveito possivel. E -tambem via a abundancia por toda a terra, ao passo que o povo jazia na -miseria, vegetando a bem dizer esfomeado, no meio das incommensuraveis -riquezas. - -Das cidades, via os templos a abarrotar d’oiro e prata inuteis a Deus, -emquanto fóra, nos adros, os necessitados tiritavam na vã espectativa -d’uma esmola que não vinha. Aquelle espectaculo era-lhe já conhecido: -as igrejas opulentas, as vestes bordadas dos padres, as mansardas -dos pobres e os seus ascorosos farrapos; mas n’esse tempo tudo lhe -parecia natural, pois que no presente considerava tal estado de coisas -offensivo para os pobres, aos quaes, ella bem o sabia, a religião é -mais necessaria que aos ricos. - -Mercê das imagens de Jesus, das narrativas que ouvira, Pélagué sabia -que Elle era um amigo para os miseraveis, que Elle se vestia sem -ostentação; e nas igrejas, onde os pobres vinham a Elle para serem -consolados, ia encontral-O opprimido em arrebiques d’oiro e de sedas, -desdenhosamente insolentes em face de tanta privação. - -E as palavras de Rybine voltavam-lhe á memoria: - ---Até de Deus se serviram para nos ludibriarem! Disfarçaram-no com -embustes e calumnias para nos assassinarem a alma... - -Sem que desse por tal, Pélagué rezava agora menos, mas pensava mais em -Jesus, nas creaturas que não falavam d’Elle que nem mesmo o conheciam, -segundo parecia, mas que viviam segundo o Seu evangelho e, como Elle, -consideravam a terra o reino dos pobres, queriam distribuir em partes -iguaes entre os homens todas as riquezas. Reflectia muito em todas -estas coisas, aprofundando-as, comparando-as com tudo o que via, e -estes pensamentos tomavam corpo, revestiam a fórma luminosa de oração, -derramando uma claridade igual na escuridão do mundo, na vida e na -humanidade. E afigurava-se á bôa mulher que o proprio Christo, a quem -sempre venerára com vago amôr, com um sentimento complexo em que o medo -se alliava estreitamente á esperança, á ternura e á dôr, que o proprio -Christo se approximava mais d’ella, que se transformára, que lhe era -mais visivel, n’uma serenidade mais satisfeita. Agora, via os seus -olhos sorrirem-lhe tranquillos com uma viva claridade interior, como se -tivesse verdadeiramente ressuscitado, lavado e reanimado pelo sangue -candente que por Seu amor generosamente derramam aquelles que teem a -sabedoria de nunca O nomear. D’estas viagens voltava, portanto, feliz e -animada, porque muito vira e ouvira, e satisfeita com a missão cumprida. - ---É agradavel jornadear para um lado e outro e vêr tantas coisas, disse -ella uma noite a Nicolao. Fica a gente percebendo como esta vida está -arranjada. O povo é escorraçado, atirado á margem, refervendo na sua -humilhação e perguntando a si mesmo: «Porque me põem de parte? Porque -tenho fome, quando ha de tudo em abundancia? Porque sou eu estupido, -ignorante, quando ha tanta intelligencia por toda a parte? E onde está -Elle, esse Deus de misericordia, para o qual não ha ricos nem pobres, e -de quem todos são bem amados?» Pouco a pouco, o povo revolta-se contra -a sua existencia; o povo sente que ha de aniquilal-o a injustiça, se -não tratar do seu bem estar. - -E experimentava, cada vez com mais frequencia, a necessidade de falar, -ella mesma, na linguagem que era a sua, das injustiças da vida; e, por -vezes, era-lhe difficil resistir... - -Quando a encontrava a folhear os desenhos, Nicolao contava-lhe coisas -surpreendentes. Impressionava-a a audacia dos problemas que o homem se -propunha; perguntava, incredula: - ---Pois isso é possivel? - -E Nicolao descrevia-lhe um futuro de sonho, com uma confiança -inabalavel nas suas profecias. - ---Os desejos do homem não conhecem limite, a sua força é inesgottavel! -affirmava elle. Comtudo, o mundo só muito lentamente se enriquece em -dons do espirito, pois que, para serem independentes, os homens são -obrigados a juntar dinheiro, e não sciencia. Quando tiverem banido a -avidez, libertar-se-ão da escravatura do trabalho obrigatorio. - -Pélagué era raro que compreendesse o sentido das palavras de Nicolao, -no emtanto, pungia sensivelmente a fé tranquilla que as dictava. - ---Ha muito poucos homens livres n’esta terra; é o que faz o infortúnio -da humanidade! dizia elle. - -Com effeito, Pélagué conhecia pessôas que se haviam libertado dos -rancores e da cubiça; e pensava que se o número d’essas pessôas -avolumasse, o rosto sombrio e horrivel da existencia havia de tornar-se -mais benevolo e simples, melhor e mais luminoso. - ---O homem é obrigado a ser cruel contra sua vontade! dizia tristemente -Nicolao. - -Ella acquiescia com um aceno de cabeça e lembrava-se do russo-menor. - - - - -VIII - - -Um dia, Nicolao, por hábito tão pontual, chegou da repartição muito -mais tarde do que o costume. Em vez de tirar o sobretudo, disse com -vivacidade, a esfregar as mãos: - ---Sabe, Pélagué? Fugiu hoje da cadeia um dos nossos companheiros, á -hora das visitas!... Mas não consegui saber quem seja. - -Ella sentiu-se cambalear, tomada de commoção; deixou-se caír n’uma -cadeira e mal poude balbuciar, em segredo: - ---Será o Pavel, talvez? - ---Talvez! respondeu Nicolao, encolhendo os hombros. Mas como havemos de -o ajudar a esconder-se? onde estará elle? Tenho andado a passear por -essas ruas, a ver se o encontrava. É uma tolice, mas é forçoso fazer -qualquer coisa! Eu torno a saír. - ---Tambem eu saio! declarou a mãe de Pavel. - ---Então, vá a casa do Iégor; talvez elle saiba alguma coisa... -aconselhou Nicolao. E saíu. - -Ella atirou para a cabeça um lenço, e foi-se nas peugadas de Nicolao, -nadando em esperança. Levava a vista turvada; o coração batia-lhe em -fortes pulsações que quasi a obrigavam a correr. Voava ao encontro -d’uma possibilidade, de cabeça baixa, sem nada vêr em torno. «Talvez já -esteja em casa do Iégor!» Este pensamento instigava-lhe o passo. Fazia -calor; Pélagué ia offegante. Na escada de Iégor parou, sem forças para -ir mais longe. Voltou-se então e soltou um grito de espanto: tinha-lhe -parecido vêr na soleira da porta Vessoftchikof, de mãos nas algibeiras -e um sorrisinho nos labios, a olhar para ella. Mas, quando tornou a -abrir os olhos, não viu ninguem. - ---Foi allucinação! concluia pela escada acima, apurando sempre o -ouvido. Do páteo veio um ruido abafado de passos pachorrentos. -Deteve-se a meio da escada, foi á janella e olhou: outra vez distinguiu -uma cara bexigosa a sorrir para ella. - ---O Vessoftchikof! foi elle! exclamou, descendo a correr-lhe ao -encontro, mas com o coração confrangido por aquella decepção. - ---Não! sobe! sobe! disse-lhe elle debaixo, a meia voz, apontando para o -andar superior. - -Obedeceu; entrou pelo quarto de Iégor, a quem encontrou estendido do -canapé. Segredou, esbaforida: - ---O Vessoftchikof fugiu da cadeia! - -O outro ergueu a cabeça e n’uma voz áspera: - ---O picado das bexigas? - ---Sim, esse!... E vem para aqui! - ---Está muito bem! Mas eu é que não estou para me levantar a recebel-o. - -O fugitivo entrou n’este comenos. Fechou bem a porta no ferrolho, tirou -o boné e poz-se a rir devagarinho. - ---Se não te tivesse visto, não me restava mais que voltar para a -prisão! Não conheço ninguem na cidade... Se tivesse ido lá para o -bairro, prendiam-me logo! Eu dizia com os meus botões, emquanto ia -andando: «Palerma! para que fugiste?» Quando n’isto, vejo cá a tiasinha -a correr. Puz-me logo no seu encalço! - ---E como pudeste fugir? perguntou Pélagué. - -O rapaz sentou-se desastradamente na beira do canapé e disse com -embaraço, encolhendo os hombros: - ---Não sei... Foi a occasião que se offereceu. - -Andava a passear no pateo... Os presos de crimes communs atiraram-se á -bordoada a um carcereiro, um que foi da policia e que expulsaram por -causa d’um roubo... É um que espia dá partes e torna a vida de toda a -gente um inferno... Então, houve barafunda; os vigias tiveram medo, -uns apitavam, outros corriam... Eis senão quando, vejo a grade aberta. -Approximei-me, vejo um largo, a cidade... Foi uma atracção!... E saí -sem pressa nenhuma, como se estivesse sonhando... Dei alguns passos e -caí em mim. Para onde havia de ir?... Entretanto, as portas da cadeia -tinham se tornado a fechar... Não me sentia bem; tinha saudades dos -companheiros... emfim, aquillo era estupido; eu não fazia idéa de -fugir... - ---Hum! resmungou Iégor. Pois, meu caro senhor, devia ter voltado para -traz, bater á porta e pedir delicadamente que o deixassem entrar: -«Queiram perdoar, foi momento de distracção...» - ---Sim, continuou Vessoftchikof, rindo, isso tambem era tolice, bem -vejo. Mas ainda assim, andei mal com os companheiros. Não digo nada a -ninguem e ponho-me ao fresco... Na rua, encontrei um enterro. Puz-me -atraz do caixão--era uma criança--e lá fui de cabeça baixa, sem olhar -para ninguem. Estive um bocado no cemiterio, de toitiço ao vento, e -então veio-me uma idéa... - ---Uma só? observou Iégor, e com um suspiro accrescentou: Parece-me que -não lhe havia de faltar logar. - -O bexigoso poz-se a rir, sem se zangar. - ---Oh! já não tenho a cabeça tão vazia como d’antes... E tu, Iégor, -continuas sempre doente? - ---Faz-se o que se póde! respondeu o outro, saccudido por accesso de -tosse. Continua! - ---D’ali fui ao museu. Passei por lá vi, as collecções, mas sempre a -pensar: «Para onde hei de eu ir, agora?» Estava furioso comigo mesmo -e tinha uma fome horrorosa!... Voltei para a rua, puz-me a caminhar. -Sentia-me envergonhado com aquillo! Percebi que os policias olhavam com -attenção para quem passava... E dizia com os meus botões! «Bom! graças -ao meu focinho, estou aqui, estou nas mãos da justiça!...» N’isto, vejo -cá a velhota a correr. Passou-me ao lado; afastei-me para a deixar -passar, voltei-me e segui-lhe no encalço... E mais nada! - ---E eu que nem sequer dei por ti! notou ella em tom pezaroso. Examinava -attentamente Vessoftchikof; achava-o mudado, mas para melhor. - ---Os companheiros estão em cuidado, com certeza, sem saberem onde -paro! proseguiu elle, coçando a cabeça. - ---E dos guardas da cadeia, não tens saudades? Olha que elles tambem -devem estar n’um cuidado!... observou Iégor. - -Em seguida abriu a bocca e, movendo muito os beiços, como se quizesse -absorver todo o ar, exclamou: - ---Basta de brincadeiras! É preciso tratar de te esconder, o que é coisa -agradavel de fazer, mas não muito facil de conseguir... Se eu pudesse -levantar-me!... Teve uma crise de soffocação e poz-se a esfregar o -peito, em debeis movimentos. - ---Estas bem doente, Iégor! disse o fugitivo. - -Pélagué, a esta observação, suspirou e relanceou um olhar de -inquietação pelo modesto quarto. - ---Isso é comigo! declarou Iégor. Ó mãesinha, não esteja com cerimonias, -peça-lhe noticias do seu Pavel. - -A cara do bexigoso abriu-se outra vez em franco sorriso. - ---O Pavel? Está bom, está de saúde. Elle é uma especie de presidente -lá da rapaziada. É sempre elle que fala com as autoridades, em nome da -gente; é elle quem manda!... Nós temos-lhe respeito... E com razão! - -A mãe bebia as palavras do rapaz; por vezes, lançava um olhar furtivo -para o rosto macerado e entumecido de Iégor. Este, com a fisionomia -estática, qual mascara desprovida d’expressão, e com uma apparencia -singular de nullidade, só pelos olhos vivia, em scintillações de -espírito. - ---Se me dessem alguma coisa de comer... Palavra que tenho muita fome! -exclamou de subito o bexigoso. - ---Ó mãesinha, disse Iégor, n’aquella prateleira está um pedaço de pão; -dê-lho. Vá depois ao corredor e bata á sua esquerda, na segunda porta. -Ha de vir abrir-lhe uma mulher; diga-lhe que venha cá e que traga tudo -o que possuir com respeito a comestiveis. - ---Para que ha de ella trazer tudo!? protestou Vessoftchikof. - ---Ah, não se assuste, que não ha de ser grande coisa... talvez até não -seja nada! - -Pélagué obedeceu, bateu á porta indicada e, apurando o ouvido, pensava -com tristeza: «Está mesmo a morrer...» - ---Quem está ahi? perguntaram de dentro. - ---Venho da parte do senhor Iégor, respondeu baixo. Pede-lhe que vá a -casa d’elle. - ---Lá vou! responderam. - -Pélagué esperou um instante e tornou a bater. - -A porta abriu-se de brusco e appareceu uma mulher ainda nova, muito -alta e que usava oculos. Vinha a alisar a manga do vestido, amarrotada. -Seccamente perguntou: - ---Que deseja? - ---Foi o senhor Iégor que me mandou... - ---Ah! vamos lá!... Mas eu conheço a senhora! exclamou. Como passou?... -É que faz aqui muito escuro... - -Pélagué fitou-a e lembrou-se de tel-a visto uma vez ou duas, em casa de -Nicolao. - -«Por toda a parte ha gente nossa!» pensou. - -A mulher deixava livre o caminho, por fórma que Pélagué fôsse adiante. - ---Está então muito mal? inquiriu. - ---Muito mal; está deitado. Pede-lhe que lhe leve alguma coisa de -comer... - ---Ora! é inutil... - -Ao penetrarem as duas mulheres no quarto de Iégor, este debatia-se em -doloroso estertor. - ---Lioudmila, disse por fim. Esse rapaz saíu agora da cadeia sem licença -da auctoridade. Já é ser descortez! Antes de mais nada, dá-lhe de -comer e esconde-o em qualquer parte, por um dia ou dois. - -Lioudmila fez um signal d’assentimento e, ao passo que fitava -attentamente o rosto do enfermo, dizia com certa severidade: - ---Iégor, porque não me chamou logo que chegaram as suas visitas? -E já vejo que por duas vezes se esqueceu de tomar o remedio! É um -desmazelo!... Pois se é o primeiro a dizer que se sente respirar melhor -quando o toma!... Venha para minha casa, camarada!... Não tarda que -venham buscar o Iégor para o levarem para o hospital. - ---É então forçoso ir para o hospital? perguntou o enfermo. - ---De certo. Lá irei ter comsigo. - ---O quê? lá, tambem?... - ---Não diga tolices! - -E emquanto falava, compuzera no peito do doente a manta que o cobria, -observára fixamente Vessoftchikof e medira com o olhar a altura do -remedio no frasco. A voz d’ella era monotona e grave, mas sonora; os -movimentos amplos, o rosto branco, com umas sobrancelhas muito pretas, -que quasi se reuniam na base do nariz. Tal fisionomia não agradou a -Pélagué, que a ficou julgando arrogante; os olhos não tinham brilho e -nunca sorriam; o tom da voz era imperioso. - ---Vamo-nos d’aqui! continuou ella. Eu já volto. A senhora dê ao Iégor -uma colher de sopa d’este remedio... Não consinta que fale. - -E saíu levando comsigo o bexigoso. - ---Que mulher extraordinaria! disse Iégor com um suspiro. Que admiravel -creatura!... Para casa d’ella é que você devia ter ido, mãesinha. Ella -trabalha muito... Até anda esfalfada! - ---Não fales! Olha, bebe antes isto! supplicou Pélagué com meiguice. - -Elle ingeriu o remedio e continuou, fechando um dos olhos: - ---Que me importa! Que fale ou que não fale, sempre tenho de morrer. - -Olhou para a velha, ao mesmo tempo que os labios se lhe entreabriam -lentamente n’um sorriso. Ella tinha curvado a cabeça; agudo sentimento -de dó lhe fazia derramar lagrimas. - ---Não chore, mãesinha; é natural... O prazer da vida traz comsigo a -necessidade da morte... - -Ella pousou-lhe a mão na cabeça e, em voz baixa: - ---Cala-te, sim? - -O doente fechou os olhos como se estivesse a escutar o estertor dentro -do peito. Teimosamente, objectou: - ---Estúpida coisa o estar calado, mãesinha!... Que ganho eu com -isso?--uns minutos mais d’esta agonia e o ficar sem o prazer de palrar -um bocado com uma santa mulher como você... Não creio que no outro -mundo haja tão bôa gente como n’este... - -Ella interrompeu-o, agitada: - ---Olha que vem ahi já aquella senhora, e depois ralha comigo se te ouve -falar... - ---Não é senhora nenhuma; é uma revolucionaria, uma companheira, -um coração admiravel!... De toda a maneira, ha-de ralhar comsigo, -mãesinha! Está sempre a ralhar com toda a gente! - -E Iégor poz-se a contar a historia da sua visinha, lentamente, com um -articular custoso dos labios. Só os olhos sorriam. Inquieta, Pélagué -dizia comsigo, notando a maceração d’aquelle rosto banhado de suor: - ---Vae-me morrer aqui! - -Voltou Lioudmila. Fechou cuidadosamente a porta e disse para a velha: - ---É absolutamente necessario que aquelle seu amigo se disfarce e se vá -embora; vá já arranjar-lhe outro fato e traga-lho aqui! Que pena que -a Sofia esteja ausente! É a sua especialidade, dar esconderijo a quem -foge! - ---Ella chega ámanhã, annunciou a outra, deitando o seu lenço para os -hombros. - -Sempre que a encarregavam de qualquer missão, era idéa fixa sua -desempenhar-se d’ella bem e depressa. Sollícita e preoccupada, -franzindo as sobrancelhas, perguntou ainda: - ---Como o havemos de vestir? Que lhe parece? - ---Pouco importa: como elle sae de noite... - ---É muito peor que de dia: anda menos gente pelas ruas, é-se mais -facilmente notado, e como o Vessoftchikof não é muito esperto... - -Iégor soltou uma gargalhada rouca: - ---Como você é fina, mãesinha! - ---Posso ir vêr-te ao hospital? perguntou ella. - -O doente acenou com a cabeça, tossindo muito. Lioudmila fitava na velha -os seus grandes olhos pretos. - ---Quer que lhe fiquemos de guarda, cada uma por sua vez? propoz. Sim? -Está bem!... Mas agora, vá, vá depressa. - -Agarrou Pélagué por um braço em gesto amigavel mas autoritario, fêl-a -saír para o corredor e ali disse-lhe baixinho: - ---Não se zangue por eu a despedir assim... Não é bonito, bem sei; mas -faz-lhe tanto mal falar!... E eu tenho esperança... - -Esta explicação commoveu Pélagué. Murmurou: - ---Não diga isso!... Não é bonito! Mas a senhora é um anjo!... Até mais -vêr; eu cá me vou. - ---Cuidado com os espiões! recommendou a outra em segredo. E levando as -mãos ao rosto, passando-as depois pelas fontes, com uma tremulencia -nos labios, tomou uns ares de maior bondade. - ---Sim, esteja descansada, respondeu Pélagué com uma pontinha de orgulho. - -Ao chegar á grade da entrada, parou um instante como a arranjar a -mantilha e lançou em torno um olhar vigilante, mas que passaria -despercebido de qualquer. Sabia bem distinguir, e sem se enganar, os -espiões d’entre o povo. O andar propositadamente descuidado, a placidez -affectada dos movimentos, a expressão de cansaço e de tedio que fazia -transparecer, o brilhar timido, confuso e mal dissimulado dos olhos, -movediços e desagradavelmente esquadrinhadores, eram outros tantos -disfarces que se lhe haviam tornado familiares. - -D’esta vez, porém, não enxergou cara alguma conhecida. Então, sem -pressa, tomou pela rua adiante, e subiu para um carro de praça, que -mandou seguir para o mercado. Ali comprou o fato para o fugitivo, -não sem regatear ferozmente, desfazendo-se em pragas contra o bebado -do marido, a quem tinha de vestir de novo quasi todos os mezes. Esta -mentira não fez impressão alguma ao adelo, mas causou-lhe muita -satisfação por a ter inventado; tinha ido a pensar pelo caminho que a -policia havia de suspeitar que o fugitivo se disfarçaria e não deixaria -de proceder a um inquerito no mercado. Feito isto, Pélagué voltou a -casa de Iégor e foi acompanhar o bexigoso ao termo da cidade. Cada um -tomou por passeio opposto e a velha, satisfeita, divertia-se immenso a -vêr o rapagão a andar no seu passo pesado, cabeça baixa, atrapalhado -com a comprida roda d’um sobretudo amarello e atirando para traz o -chapeu, que lhe ia sempre a escorregar para os olhos. N’uma rua deserta -veio-lhes Sachenka ao encontro, e Pélagué voltou para casa depois de se -despedir de Vessoftchikof com um aceno de cabeça. - -Mas pensava com tristeza: - ---Pois sim, mas o Pavel está na cadeia... e o André tambem. - - - - -IX - - -Foi recebida por Nicolao com um grito de mal contida inquietação. - ---Sabe? O Iégor está muito mal! Levaram-no para o hospital; a Lioudmila -veio cá pedir que fôsse ter com ella. - ---Ao hospital? - -Nicolao, depois de ter ajustado os oculos, em movimento nervoso, -ajudou-a a vestir um casaco, apertou-lhe a mão entre as suas, seccas e -febris, e, em voz trémula: - ---Sim! Leve este embrulho comsigo. O Vessoftchikof ficou em segurança? - ---Sim, tudo vae pelo melhor... - ---Tambem hei de ir vêr o Iégor... - -Pelagué estava tão cansada, que sentia a cabeça a andar-lhe á roda; a -inquietação de Nicolao dava-lhe a presentir um drama. - ---Vae morrer!... Vae morrer! dizia comsigo; e esta sombria idéa -martelava-lhe no cerebro. - -Mas quando entrou no quartosinho alegre e muito aceiado do hospital e -viu o Iégor a rir de manso, sentado em meio d’um montão de almofadas -brancas, socegou de pronto. Parou á porta a sorrir-lhe e ouviu o doente -dizer ao medico: - ---O remedio, é uma reforma! - ---Não diga tolices, Iégor! obtemperou o doutor em tom appreensivo. - ---E eu, que sou revolucionario, detesto as reformas!... - -Certamente, o medico tomou a mão do doente e collocou-lha sobre o -joelho; em seguida, levantou-se, poz-se a puxar pelas barbas, emquanto -ia apalpando com um dedo os entumecimentos do rosto de Iégor. - -Pélagué conhecia bem o doutor por ser um dos melhores camaradas de -Nicolao. Approximou-se de Iégor, que, ao vel-o, lhe deitou a lingua de -fóra. O medico voltou-se. - ---Ah, é vocemecê?... Viva!... Sente-se. Que traz ahi? - ---Livros, parece-me. - ---Não póde ler declarou, o medico. - ---Quer que eu fique parvo de todo! choramigou Iégor. - ---Cala-te! ordenou. E poz-se a escrever qualquer coisa na carteira. - -Do peito do doente exalavam-se breves suspiros forçados, de mistura com -saliva, n’um estertor, violento; tinha o rosto coberto de camarinhas -de suor, que elle enxugava de vez em quando, erguendo muito devagar as -pesadas mãos, quasi inconscientes. A singular immobilidade das faces -inchadissimas descompunha a expressão de bonhomia da sua ampla cara, -onde as feições haviam desapparecido sob uma mascara cadaverica; e só -os olhos, profundamente cavados entre os inchaços, conservavam um olhar -puro e sorriam com condescendencia. - ---An?! Esta sciencia!... Já não posso mais... Deito-me, doutor? -perguntou elle. - ---Não! respondeu com brevidade o medico. - ---Então deito-me quando tu te fôres embora! - ---Não lh’o consinta, mulhersinha. Arranje-lhe as almofadas. E tome -muito cuidado, não o deixe falar, peço-lhe; faz-lhe muito mal. - -Pélagué fez um aceno. O medico saíu em passinhos rapidos. Iégor deitou -a cabeça para traz, fechou os olhos e ficou sem movimento; só os dedos -se lhe agitavam um pouco. Das paredes brancas da cellasinha exalava-se -um frio secco e uma tristeza velada e pálida. Pela alta janella -divisavam-se os cumes ondulados das tilias; por entre a folhagem -poeirenta e sombría destacavam-se vivamente manchas amarellas: eram as -frias primicias do outomno, que chegava... - ---Vem para mim a morte, devagar, como que sem vontade! disse Iégor, sem -bulir e sem abrir os olhos. Parece que tem pena de mim!... Pois se eu -era um bom rapaz, de bom genio!... - ---Cala-te, Iégor! supplicou Pélagué, afagando-lhe a mão ternamente. - ---Espere um pouco, mãesinha, eu vou-me calar... - -E, offegante, continuou com esforço immenso a articular palavras -entrecortadas de longas pausas: - ---Gosto muito que vocemecê esteja comnosco, mãesinha... É-me muito -agradavel ver a sua fisionomia, os seus olhos tão vivos, a sua -candura... Quando a vejo, pergunto a mim mesmo: «Como irá ella acabar?» -E fico triste, a pensar que a espera a cadeia, ou o degredo, toda a -especie d’abominações... como os outros... Não tem medo da prisão? - ---Não! respondeu ella com simplicidade. - ---Está claro!... E, comtudo, a prisão... é nojenta coisa... foi ella -que me matou... Porque, para falar com franqueza, eu não tenho vontade -de morrer. - -Ella sentiu desejo de responder: «Talvez não morras ainda,» mas -calou-se e ficou a olhar para elle. - ---Podia ainda fazer alguma coisa pelo bem do povo... Mas quando a gente -já não póde trabalhar, é impossivel viver, é uma estupidez! - -Á memoria da velha accudiram então estas palavras de André: «Isso é -verdade, mas não é consolador!» Suspirou. Sentia-se fatigadissima e -com fome. O murmurar monotono e rouco do doente resoava triste pelo -quarto, como que rastejando, impotente, por sobre a lisura das paredes. -A folhagem das tilias fazia pensar em nuvens que tivessem descido -á terra, e impressionava pelo seus tons carregados e melancolicos. -Tudo, em volta, se congelava singularmente em tristonha immobilidade, -n’aquella desconfortante espectativa da morte. - ---Como me sinto mal! disse Iégor. E calou-se, fechando os olhos. - ---Dorme! aconselhou ella. Talvez te faça bem. - -Apurou por alguns instantes o ouvido para a respiração do doente e -relanceou o olhar em torno de si. Invadida por glacial tristeza, entrou -a dormitar. - -... Despertou-a um ruido de vestidos roçagantes. Estremeceu ao ver -Iégor accordado, com os olhos muito abertos. - ---Deixei-me dormir... desculpa! disse em voz baixa. - ---E tu, tambem, perdôa-me! replicou elle igualmente n’um murmurio. - -Pela janella, entrava o crepusculo; um frio nevoento opprimia a vista; -tudo se fundia em singular opacidade; o rosto do doente tomava tons -mais sombrios. - -De novo se ouviu um roçagar de saias e logo depois a voz de Lioudmila, -dizendo: - ---Então, aqui ás escuras, a tagarelar?... Onde fica o botão da luz? - -E de subito, uma claridade branca e desagradavel innundou o quarto. -Lioudmila estava de pé, alta, toda vestida de negro. - -Iégor teve um grande estremecimento por todo o corpo e levou a mão ao -peito. - ---O que é? exclamou Lioudmila, correndo para elle. - -Fixou na velha um olhar demorado; parecia ter os olhos enormes, com um -brilho estranho. - ---Espera... balbuciou o enfermo. - -Abriu muito a bocca, ergueu a cabeça e estendeu o braço para diante. -Pélagué tomou-lhe a mão com cuidado extremo e fitou-o, contendo a -propria respiração. Em movimento convulso e vigoroso, elle projectou a -cabeça para traz e disse em alta voz: - ---Deixei de existir... está acabado... - -Percorreu-lhe o corpo ligeira contracção, a cabeça rolou-lhe lentamente -no hombro, e, nos seus olhos esgazeados, a luz da lampada collocada por -sobre o leito, espelhou-se com um reflexo frio... - ---Meu amigo!... murmurou Pélagué. - -Lentamente, Lioudmila afastou-se do leito; parou junto da janella a -olhar para fóra e disse n’uma voz singular e sonora, que Pélagué nunca -lhe tinha ouvido: - ---Morreu... - -Ella inclinou-se, apoiou-se á mesinha de cabeceira e entrou de -balbuciar com a voz a tremer: - ---Morreu... socegadamente... corajosamente... sem um queixume... - -E de repente, como se lhe tivessem dado uma pancada na cabeça, -deixou-se caír de joelhos, sem forças tapou o rosto com as mãos, e -desatou em soluços abafados. - -Depois de ter cruzado os braços pesados do morto, sobre o peito e de -lhe ageitar nas almofadas a cabeça, extraordinariamente quente, Pélagué -avisinhou-se de Lioudmila, curvou-se para ella e afagou-lhe docemente -os espessos cabellos, ao mesmo tempo que enxugava as proprias lagrimas. -Esta ultima voltou com lentidão para ella os olhos dilatados, febris e -balbuciou por entre os labios trémulos: - ---Havia muito que o conhecia... Estivemos juntos no degredo, estivemos -nas mesmas prisões... Ás vezes, aquella tortura era insupportavel, -horrorosa; muitos d’entre nós perdiam o animo e alguns endoideciam... - -Comprimiu-lhe a garganta um espasmo violento; dominou-se com esforço, e -em seguida, avisinhando do rosto da velha o seu rosto, a que uma nevoa -de ternura dolorida dava desconhecida suavidade que o rejuvenescia, -proseguiu em rapido murmúrio, com um soluçar sem lagrimas: - ---E elle, elle sempre, sempre, andava alegre; nunca se cansava de -gracejar, de rir, occultando corajosamente o seu soffrer, esforçando-se -por reanimar os fracos... era tão bom, tão sensivel, tão meigo!... Na -Siberia, a inacção em que se vive, deprava o espirito e faz nascer -maus instinctos. Como elle os sabia combater!... Que companheiro -aquelle era; se soubesse! a sua vida particular foi árdua, dolorosa... -mas--sei-o bem--nunca ninguem o ouviu queixar... ninguem, nunca! Assim, -eu, que era sua intima amiga, devo muito ao seu coração e recebi do -seu espirito tudo o que podia dar-me; vivia triste, solitário e, no -emtanto, nunca elle me pediu nada em paga, nem carinhos, nem disvelos... - -Foi até junto do morto, curvou-se e beijou-lhe a mão. - ---Companheiro, meu querido e amado companheiro, disse ella n’uma voz -sumida e cheia de desconsolo, agradeço-te de toda a minha alma... -Adeus! Trabalharei, como tu fizeste... sem me cansar... sem duvidar... -toda a minha vida... pelos que soffrem... Adeus! - -Todo o corpo lhe foi saccudido por violentos soluços e, offegante, a -cabeça descaíu-lhe sobre o leito, aos pés de Iégor. - -Derramava Pélagué bastas lagrimas que lhe queimavam as faces. -Procurava retel-as, pois o seu desejo era consolar Lioudmila com um -affago especial e animador, falar-lhe do morto com boas palavras -repassadas de amor e de tristeza. Por entre o pranto, distinguia o -rosto entumecido do defuncto, os olhos fechados, os labios negros, -confrangidos em leve sorrisos... Reinava um silencio profundo em meio -d’aquella claridade que opprimia. - -O medico entrou em passinhos apressados, como sempre; parou bruscamente -a meio do quarto, enterrou em rapido gesto as mãos pelas algibeiras e -perguntou com voz nervosa e sonora: - ---Ha muito tempo? - -Ninguem lhe respondeu. Bamboleou-se nas pernas e approximou-se de -Iégor, enxugando o suor da testa; apertou a mão do morto e afastou-se -novamente. - ---Não é para admirar... em vista do estado do coração... Isto já devia -ter acontecido ha seis mezes... pelo menos... Sim, com certeza!... - -Mas aquelle tom agudo da voz em que a placidez era forçada e a -sonoridade fóra de proposito, logo se lhe velou. Encostou-se á parede e -poz-se a passar os dedos rapidamente pela barba, olhando alternadamente -para as duas mulheres e para o morto, com os olhinhos piscos. - ---Mais um!... concluiu brandamente. - -Lioudmila ergueu-se e foi abrir a janella. Pélagué como que accordou -áquelle ruido e olhou em torno, com um gemido. E um instante depois, -o doutor, ella e Lioudmila encontravam-se reunidos no vão da janella, -apertados uns contra os outros, a contemplarem o aspecto sombrio -d’aquella noite de outono. Por cima do arvoredo, scintillavam as -estrellas e pareciam recuar, perdendo-se no negro infinito dos ceus. -Lioudmila envolveu o braço de Pélagué com o seu e descansou-lhe a -cabeça no hombro, sem uma palavra. O medico limpava a luneta com o -lenço. Fóra, os ruidos nouturnos da cidade morriam, abafados, o fresco -da noite regelava as faces e agitava os cabellos. Lioudmila sentia -arrepios; e as lagrimas escorriam-lhe pelo rosto. Nos corredores -do hospital, vagueavam ruidos amortecidos, assustados, passadas -pressurosas, gemidos, murmurios desconsolados. Immoveis, á janella, os -trez sondavam as trevas, em silencio. - -Pélagué sentiu que era ali de mais e, depois de soltar com brandura -o braço do da joven senhora, dirigiu-se para a porta, não sem que se -inclinasse, ao passar, perante o morto. - ---Vae-se embora? perguntou baixo o medico, sem se voltar. - ---Vou. - -Pela rua fóra, ia pensando em Lioudmila. «Nem ao menos sabe chorar!» -dizia ella comsigo, recordando-se da parcimonia das suas lagrimas. - -E as ultimas palavras de Iégor voltavam-lhe á memoria; faziam-na -suspirar. Caminhando a passo vagaroso, revia em mente os olhos vivos de -Iégor, os seus gracejos, as suas opiniões sobre a vida. - ---Para a gente proba, a existencia é penosa e a morte leve... Como -morrerei eu? - -Em seguida, o pensamento representou-lhe Lioudmila e o doutor de pé, -junto da janella, n’aquelle quarto muito branco e cruamente illuminado, -os olhos embaciados de Iégor; e, invadida por um sentimento oppressor, -de compaixão, suspirou profundamente e entrou a caminhar mais depressa, -impellida por vago presentimento... - -«É preciso marchar para a frente!» pensou sob o impulso de coragem -valorosa e contristada, que lhe subia do coração. - - - - -X - - -O dia seguinte passou-o Pélagué a dispôr tudo para o enterro de -Iégor. Á noite, quando tomava o chá, com Nicolao e Sofia, appareceu -Sachenka, animada e expansiva, o que era para admirar. Vinha com as -faces córadas, os olhos brilhantes, e Pélagué percebeu que ella trazia -qualquer esperança risonha. Este radiante estado de espírito veio -fazer uma irrupção barulhenta e tumultuosa no curso melancolico das -recordações, mas sem o distraír era como uma viva claridade que tivesse -brilhado de súbito n’aquellas trevas e que vinha incommodar a pequena -reunião. Nicolao, pensativo, bateu na mesa: - ---Acho-a mudada hoje, Sachenka!... - ---Deveras! Póde ser! respondeu com uma risadinha de contentamento. - -Pélagué lançou-lhe um mudo olhar de censura. Sofia fez notar, -accentuando as palavras: - ---Estavamos falando do Iégor. - ---Que bello homem! não é verdade? exclamou Sachenka. Sempre tinha -prontos nos labios um sorriso e um gracejo... Trabalhava tão bem! Era o -artista da revolução; possuia em alto grao a idéa revoluccionaria, como -um verdadeiro mestre! Com que simplicidade mas ao mesmo tempo com que -veemencia elle sabia descrever-nos o homem--o homem falso, perverso e -violento! Muito lhe devo eu! - -Dizia isto a meia voz, com um sorriso de reflexão, mas que não lhe -extinguia no olhar o brilho de alegria que era bem visivel e que nenhum -dos trez compreendia. É que nos acontece ás vezes sentirmos prazer -com um pezar, fazermos d’elle um brinquedo torturante que nos roe -o coração. Mas Nicolao, Sofia e Pélagué, esses, não queriam deixar -que se dissipasse a sua tristeza, nem abandonal-a aos sentimentos -despreoccupados que Sachenka viera ali trazer; sem d’isso terem -consciencia, defendiam o seu melancolico direito de se acolherem -á dôr, e tentavam fazer entrar a recemchegada no circulo das suas -preoccupações. - -E, afinal, está morto! insistiu Sofia, fitando-a com attenção. - -Ella vagueou pelos presentes interrogador olhar e baixou a fronte. - ---Está morto?... repetiu em voz alta. Custa-me conformar-me com este -facto. - -Entrou a passear a todo o comprimento da sala, e em seguida, estacando -de súbito, proseguiu em tom singular: - ---Mas que significa isso: «Está morto?» O que foi que morreu? A minha -estima pelo Iégor, a minha affeição por esse camarada, a memoria do que -a sua intelligencia praticou, tudo isso morreu? A opinião que eu tinha -d’elle--a d’um homem valente e leal--ficou por ventura aniquilada? -Morreu tudo isso? Para mim, tudo isso, a melhor parte d’elle proprio, -nunca ha de morrer, sei-o bem! Parece-me que ha sempre pressa de mais -em se dizer que um homem morreu! Se os seus labios morreram, as suas -palavras estão vivas no coração dos que as escutaram. - -Muito commovida, tornou a sentar-se, encostou-se á mesa e continuou com -mais brandura: - ---Talvez sejam tolices o que digo, mas olhem, camaradas: creio na -immortalidade da gente de bem! - ---Teve alguma novidade? Está tão alegre! perguntou-lhe Sofia, amavel. - ---Tive! respondeu Sachenka, confirmando a resposta com um aceno. -Uma novidade muito agradavel, ao que julgo. Falei toda a noite com -o Vessoftchikof. Antigamente não gostava d’elle; achava-o muito -grosseiro, muito ignorante, o que realmente era verdade. Havia n’elle -um mau humor, uma irritação indefinida e continua para com todos; -estava sempre a antepôr-se a tudo com uma insistencia que chegava a -aborrecer, sempre a falar de si mesmo... Aquelle homem tinha o que quer -que fôsse de maldade, que enervava. - -Interrompeu-se para sorrir e relanceou em torno um olhar radiante: - ---E agora, não: fala já dos seus «companheiros». E se ouvissem como -elle pronuncia esta palavra! Com uma veneração tão terna, com tanta -meiguice, que ninguem o póde intimar! Caíu em si, sabe a força de que -dispõe, sabe o que lhe falta... e hoje, o que sente sobre todas as -coisas é o verdadeiro sentimento de camaradagem, uma immensa dedicação, -capaz de ir ao encontro das maiores provações. - -Escutava-a Pélagué, encantada com a alegria d’aquella rapariga, por -hábito tão triste. Mas, ao mesmo tempo, no recondito do seu coração -brotava secreto pensamento de inveja: «E o Pavel, que faz elle no meio -de tudo isto?» - ---Só pensa nos camaradas, continuava Sachenka; e sabem o que elle me -persuadiu que fizesse? Que arranjasse uma fuga geral dos presos... É -verdade! Diz que é facil. - -Sofia ergueu a cabeça e, em tom de animação: - ---E que lhe parece, Sachenka? É uma boa idéa. - -A chavena de Pélagué entrou a tremer-lhe na mão; pousou-a sobre a meza. -Sachenka ficou-se um instante calada, de sobrolho franzido, reprimindo -o entusiasmo; depois, muito séria mas com um sorriso radiante, -respondeu com alguma hesitação: - ---Certo é que se as coisas são realmente como elle diz, devemos -tentar... é o nosso dever. - -Córou, deixou-se caír n’uma cadeira e nada mais acrescentou. - -A mãe de Pavel esboçou um sorriso de muita meiguice, dizendo comsigo: -«Querida! Querida da minha alma!» Sofia sorriu tambem; Nicolao soltou -uma gargalhadinha, e attentou na rapariga, bondosamente. Então, ella -ergueu a fronte, olhou em torno com severidade, e, pallida, com os -olhos a faiscar, disse seccamente: - ---Riem-se... Percebo porque é. Pensam que sou pessoalmente interessada -no resultado da evasão, não é isto? - ---Mas porquê, Sachenka? interrogou Sofia hypocritamente. - -E, levantando-se d’onde estava, foi pôr-se ao lado d’ella. Pélagué -achou a pergunta futil e humilhante para Sachenka e assim lho fez -sentir com um olhar. - ---Mas, então, não quero tratar de nada! exclamou Sachenka. Não -quero tomar parte na discussão, desde o momento que consideram este -projecto... - ---Cale-se, Sachenka! disse Nicolao sem se exaltar. - -A mãe de Pavel foi para a rapariga e afagou-lhe brandamente os -cabellos. Sachenka agarrou-lhe logo a mão e voltando para ella o rosto, -onde o sangue affluira, fitou-a, confusa. Sofia arrastou uma cadeira, -sentou-se ao lado de Sachenka, passou-lhe o braço em volta da cinta e -disse-lhe, ao passo que a fitava com curiosidade: - ---Que caracter singular o seu! - ---Sim, parece-me que disse tolice... mas é que eu gosto das coisas -claras... - -Nicolao interrompeu-a para dizer em tom sério e preoccupado: - ---Se a evasão é possivel, trate-se d’isso, não temos que hesitar!... -Mas antes de mais nada, é preciso saber se os companheiros encarcerados -estarão d’accordo. - -Sachenka curvou a fronte. - ---Como se elles pudessem recusar! disse Pélagué, suspirando. O que eu -não creio é que isso se possa fazer! - -Todos ficaram calados. - ---Deixem me falar com o Vessoftchikof, disse Sofia. - -E Sachenka annunciou em voz baixa: - ---Bem! amanhã lhe digo onde e quando póde encontral-o. - -Nicolao approximou-se da velha, que estava lavando as chavenas. - ---Vocemecê vae depois d’amanhã á cadeia; é preciso fazer chegar um -bilhete ás mãos do Pavel. Compreende? É preciso que a gente saiba... - ---Compreendo. Compreendo! interrompeu ella com vivacidade. Eu me -encarrego de lho entregar. - ---Vou-me embora! declarou Sachenka e, tendo distribuido pelos -companheiros vigorosos apertos de mão, foi-se, sem mais uma palavra. - -Poisou Sofia a mão no hombro de Pélagué e a sorrir: - ---Queria ter uma filha como esta, Pélagué? - ---Meu Deus! Se eu pudesse vel-os casados, ainda que não fôsse senão um -dia! exclamou a bôa mulher quasi a chorar. - ---Sim, a felicidade de cada um consiste em ser-se um bocadinho feliz... -Quando essa felicidade é demasiada, tambem é de qualidade inferior. - -E Sofia foi para o piano tocar uma musica triste. - - - - -XI - - -Na manhã seguinte, apinhavam-se ao portão de ferro do hospital -algumas duzias de homens e de mulheres, á espera que saísse o enterro -do companheiro. Pelo meio d’elles, cautelosamente, giravam varios -espiões, escutando cada exclamação, retendo de memoria rostos, gestos -e palavras; no passeio fronteiro, estava um grupo de policias, de -revolvers á cinta. A imprudencia dos primeiros e os risos irónicos dos -segundos, a fazerem alarde da força, irritavam o povo. - -Uns disfarçavam a ira que os possuia e gracejavam; outros, ficavam-se -cabisbaixos, olhando para o chão, para não verem aquelle apparato -ultrajante; outros ainda, incapazes de conter o seu furor, zombavam -dos poderes públicos e do seu medo de gente que por armas só tinha o -dom da fala. Um ceu de outono, de azul muito pallido, illuminava a rua -calcetada a seixos redondos, semeada de folhas mortas, que as lufadas -erguiam em remoinhos diante dos pés dos transeuntes. - -Entre a multidão, estava Pélagué. Ia contando as caras conhecidas e -pensava tristemente: - ---Não são bastantes!... não são bastantes! - -O portão rodou nos gonzos. Trouxeram para a rua a tampa do caixão, -enfeitada com corôas de fitas encarnadas. Silenciosos, os homens -tiraram a um tempo os seus chapeus: dir-se-ia uma revoada de passaros -pretos que se tivesse levantado das cabeças. Um official da policia, de -avantajada estatura, de grossos bigodes escuros atravessados n’um rosto -vermelhaço, cercado de policias e soldados, precipitou-se por entre -o povo, empurrando todos sem cerimonia, e gritou com voz roufenha e -autoritaria: - ---Tenham a bondade de tirar as fitas! - -N’um prompto viu-se rodeado de homens e mulheres, em circulo compacto, -falando todos á uma, gesticulando, empurrando-se uns aos outros. -Perante o olhar turvado de Pélagué, agitaram-se em confusão rostos -lividos e excitados, com os beiços a tremer de ira; e pelas faces d’uma -mulher corriam pesadas lagrimas d’humilhação. - ---Abaixo a prepotencia! gritou uma voz juvenil que se sumiu, -desacompanhada, no borborinho da discussão. - -Pélagué sentia referver-lhe a amargura; voltou-se para o seu visinho, -rapaz pobremente vestido, e disse-lhe: - ---Até não nos deixam enterrar um camarada, como entendermos!... - -Augmentava a hostilidade, a tampa do esquife vacillava por sobre as -cabeças, as fitas agitadas pelo vento envolviam os rostos e as cabeças; -ouvia-se-lhes o crepitar nervoso e secco da seda. - -Pélagué, tomada de terror gelido por uma desordem possivel, dirigia aos -que lhe ficavam proximos e a meia voz, frases rapidas: - ---Que importa!... Uma vez que tem de ser... tirem-se as fitas... é -melhor ceder... Para que serve resistir? - -Resoou uma voz aspera e sonora, que dominou o tumulto: - ---Queremos que nos deixem acompanhar á sua ultima morada um companheiro -que vocês martyrisaram! - -Alguem,--alguma rapariga com certeza--poz-se a entoar n’uma voz aguda e -fina: - - E vós caístes, victimas, na lucta... - ---Façam favor de tirar as fitas! Jakovlef! corta essas fitas! - -Ouviu-se o tinido d’uma espada a saír d’uma bainha. Pélagué fechou os -olhos, na espectativa d’um grito. Mas tudo socegou; o povo rosnava, -mostrava os dentes como os lobos perseguidos. Depois, de cabeça baixa, -em silencio, esmagados sob o sentimento da impotencia, puzeram-se a -caminho, fazendo ecoar pela rua o ruido dos passos. - -Á frente, a tampa do caixão despojada dos seus ornatos, com as corôas -esfrangalhadas, lá ia erguida no ar; depois, vinham os agentes de -policia, balançando-se d’um e outro lado, em cima dos cavallos. Pélagué -seguia pelo passeio; não podia enxergar o caixão, devido á muita gente -que o cercava; augmentava sem cessar o número dos manifestantes, -que occupavam já toda a largura do calcetamento. Atraz da multidão, -alteavam-se tambem os vultos uniformes e cinzentos dos guardas de -cavalaria; de cada lado, polícias, com a mão nos copos das espadas; -e, por toda a parte, divisava Pélagué caras de espiões com os agudos -olhares a prescrutarem as fisionomias. - ---_Adeus, companheiro, adeus!_ cantaram suavemente duas vozes bonitas. - ---Silencio! gritou alguem. Calem-se, amigos! Calem-se por emquanto! - -Havia n’esta exclamação uma rudeza tão suggestiva de ameaçador -conselho, que o povo calou-se. O canto funebre ficou interrompido, -e o ruido das vozes socegou; só se ouviam agora passos amortecidos, -n’um tropel que se elevava muito alto, que se perdia na transparencia -do ceu, agitando a atmosfera, assim como o ecco do primeiro trovão -de tempestade ainda longinqua. O vento, cada vez mais frio, atirava -aos rostos, com animosidade, poeira e lama entumecia os vestidos, -entorpecia as pernas, vergastava os peitos... - -Aquelle funeral silencioso, sem um sacerdote, sem um cantico, -aquellas fisionomias oppressas e carrancudas, aquelle ruido de passos -energicos, tudo provocava em Pélagué pungente angustia; o pensamento -redemoinhava-lhe indeciso, revestindo de frases tristes as suas -impressões: - ---Ah! que não sois bastantes... luctadores da liberdade, não sois -bastantes! E comtudo teem-vos medo! - -Afigurava-se-lhe não ser aquelle mesmo Iégor seu conhecido que ia -a enterrar, mas sim uma coisa habitual, que lhe fôsse intima e -indispensavel. Dominava-a um sentimento de violenta revolta: não -estava d’accordo com aquella gente. Pensava: - ---Sei-o bem: Iégor não cria em Deus, como estes tambem não crêem... - -Mas não conseguia concluir a sua idéa e suspirava, como a querer -desembaraçar a alma de pesado fardo: - ---Ó Senhor! Senhor!... Jesus!... Será possivel que tambem eu vá a -enterrar assim?... - -Chegaram ao cemiterio. Depois de muitas voltas por entre os sepulcros, -parou o cortejo n’um vasto espaço livre, semeado de cruzinhas brancas. -A multidão agrupou-se em torno d’uma cova e estabeleceu-se silencio. E -este austero silencio dos vivos, entre tumulos, presagiava alguma coisa -terrivel que sobresaltava o coração de Pélagué. Immobilisou-se então -na espectativa. O vento uivava por entre as cruzes; em cima do caixão -adejavam tristemente flôres murchas. - -A gente da policia, vigilante, tinha-se alinhado, seguindo com os -olhares os movimentes do chefe. Então, um rapaz alto, pallido, com a -cabeça descoberta, negras sobrancelhas e comprido cabello negro, foi -postar-se junto do coval. No mesmo instante, ouvia-se a voz roufenha do -official da policia. - ---Meus senhores!... - ---Companheiros! começou o rapaz com voz sonora. - ---Perdão! gritou o official. Tenho a declarar-lhes que não consinto -discursos. - ---Limitar-me-ei a dizer algumas palavras, observou socegadamente o -orador: «Companheiros! Juremos sobre a sepultura do nosso mestre e -amigo nunca esquecermos os seus ensinamentos, juremos trabalhar cada -qual toda a nossa vida e sem descanso, para destruir a origem de todos -os infortunios da nossa patria, a forca damninha que a opprime, a -autocracia!» - ---Prendam-no! gritou o official. - -Mas logo teve a voz coberta por uma explosão de gritos: - ---Morra a autocracia! - -Afastando a multidão, ás cotovelladas, os polícias atiraram-se para o -orador, a quem o povo formava estreito circulo, emquanto elle bradava: - ---Viva a liberdade! É por ella que devemos viver e morrer! - -Pélagué foi arrebatada para longe. Transida de terror, agarrou-se a -uma cruz e fechou os olhos, á espera do golpe que havia de feril-a. -Ensurdecia-a um turbilhão impetuoso de sons discordantes; sentia -faltar-lhe o solo debaixo dos pés; opprimiam-lhe a respiração o vento e -o medo. Os apitos da policia rasgavam o ar; resoavam vozes roucas, de -commando; mulheres soltavam gritos nervosos; estralejavam madeiras das -divisorias de covaes; no terreno, secco, resoava lugubremente o pesado -tropel de toda aquella gente. Durou isto muito tempo. - -Pélagué não podia conservar por maior espaço os olhos fechados; era -demasiado lancinante o seu horror. Olhou em volta, e soltando uma -exclamação entrou a correr, de braços estendidos. Não longe, em -estreito carreiro, entre tumulos, estavam os policias cercando o rapaz -de cabello preto e defendendo-se dos ataques da populaça. Scintillavam -pelo ar com brancos e frios reflexos, as laminas desembainhadas; -elevavam-se acima das cabeças e caíam rapidamente. Bengalas, destroços -dos tapumes surgiam, para logo desapparecerem; em selvagem torvelinho, -cruzavam-se os gritos da multidão amotinada; de vez emquando, -divisava-se o rosto pallido do rapaz; com voz forte que dominava a -tempestade das iras, bradava: - ---Camaradas! Para que serve sacrificarem-se inutilmente? - -Acabaram por lhe obedecer. Atiraram para longe os cacetes e uns apóz -outros, foram-se afastando. Pélagué continuava a caminhar, arrastada -por força invencivel. Viu Nicolao, com o chapeu para a nuca, a repellir -os manifestantes, cegos de colera; ouviu-o dirigindo-lhes censuras: - ---Endoideceram?... Soceguem! - -Pareceu-lhe que trazia uma das mãos toda ensanguentada. - ---Vá-se d’aqui Nicolao! gritou, atirando-se-lhe ao encontro. - ---Onde vae a correr? Olhe que lhe fazem mal! - -Sentiu-se agarrar por um hombro. Voltou-se. Era Sofia, sem chapeu, os -cabellos em desalinho, sustendo nos braços um rapaz, quasi uma criança, -que limpava á mão o rosto tumefacto e balbuciava com os beiços a tremer: - ---Deixem-me... não é nada! - ---Veja se trata d’elle. Leve-o para nossa casa. - -Aqui tem um lenço... amarre-lhe a cabeça! disse Sofia rapidamente. - -E introduzindo entre as mãos de Pélagué a mão do rapaz, deitou a -correr, com um ultimo conselho: - ---Vão se depressa, se não são presos! - -Os manifestantes precipitavam-se por todas as saídas do cemitério; -atraz d’elles, os polícias marchavam pesadamente por entre as -sepulturas. Embaraçados com as compridas abas das fardetas, praguejavam -e brandiam as espadas. O rapaz seguia-os de longe, com a vista. - ---Vamos, depressa! disse-lhe Pélagué com brandura. E limpou-lhe o rosto. - -O pequeno lançou um escarro de sangue e ciciou: - ---Não lhe dê cuidado... não sinto nada. O polícia bateu-me com o punho -da espada, na cara e na cabeça... E eu dei-lhe com o meu pau... Sempre -apanhou uma sova!... Até uivava! - ---Depressa! instava Pélagué, dirigindo-se rapida, para uma pequena -aberta do muro do cemitério. - -Pareceu-lhe distinguir para além do muro dois policias á espreita, -disfarçados com a verdura e que os esperavam, para lhes saltarem em -cima á pancada, tão depressa elles apparecessem. Mas depois de ter -empurrado a portinha com precaução, espraiou a vista pelo campo, todo -envolvido no tecido pardacento d’aquelle crepusculo outonal. O silencio -e a quietação que n’elle reinavam tranquillisaram-na de súbito. - ---Espere, deixe-me ligar-lhe a cabeça, propôz. - ---Não senhora; não tenho que me envergonhar das minhas feridas. - -Pélagué pensou-o summariamente. - -Aquelle sangue fresco e vermelho apiedou-a immenso; ao sentir-lhe com -os dedos a quente humidade, toda a percorreu um estremecimento de -terror. Em seguida, conduziu o ferido pelo braço, pelo campo fóra, sem -proferir uma palavra. Elle libertou os lábios da ligadura para dizer -alegremente: - ---Para que vae a puxar por mim, camarada? Eu posso bem caminhar sósinho! - -Mas Pélagué sentia-o cambaliar, o andar vacillava-lhe. A voz ia-lhe -enfraquecendo emquanto falava, interrogando-a sem esperar as respostas. - ---Chamo-me Ivan, sou funileiro... e a senhora quem é? Eramos trez no -club do Iégor... trez funileiros; ao todo, eramos onze! Gostavamos -muito d’elle. - -Na rua mais proxima, Pélagué tomou um trem e para elle fez subir Ivan, -segredando-lhe: - ---Agora, cale-se. - -E para mais segurança, puxou-lhe outra vez a ligadura para a bocca. -Elle levou logo a mão á cara, mas não conseguiu libertar os lábios; -o braço recaíu inerte sobre os joelhos. Ainda assim, continuava a -murmurar atravez do lenço: - ---Nunca me esquecerei d’estas pancadas, amiguinhos da policia!... -Antes do Iégor, era um estudante que nos dirigia... Ensinava-nos -economia politica... Era muito rigoroso, muito aborrecido... Afinal, -prenderam-no. - -Ella passou-lhe o braço em volta e descansou no seio a cabeça do -rapaz. De súbito, sentiu que lhe pesava mais, ao mesmo tempo que se -tinha calado. Transida de medo, Pélagué olhava para todos os lados; -parecia-lhe ver a cada esquina um polícia, pronto a agarrar Ivan e a -matal-o. - -O cocheiro voltou-se na almofada, com um sorriso: - ---Bebeu, an? - ---É verdade, até caír! respondeu ella, suspirando. - ---É teu filho? - ---É, sim. É sapateiro... Eu sou cosinheira... - ---Ah, sim! É duro officio! - -Descarregou uma chicotada no cavallo e logo tornou a voltar-se. Baixou -a voz. - ---Sabes? Houve ha pouco grande desordem no cemitério. Era o -enterro d’um d’esses políticos, d’essa gente que está contra a -autoridade... que tem questões com a polícia. Havia amigos do defunto -no acompanhamento... Elles então puzeram-se a gritar: «Morram as -autoridades, que arruinam o povo»!? A polícia bateu-lhes. Dizem que -alguns ficaram mortos... Mas a policia tambem apanhou pancada. - -Calou-se o cocheiro, abanou a cabeça com ares de desconsolo e proseguiu -n’um tom de voz estranho: - ---Assim se vão incommodar os mortos... accordar os cadaveres que dormem! - -O trem ia aos salavancos pela calçada, chiando muito; a cabeça de Ivan -rolava suavemente no peito da sua enfermeira. O cocheiro, virado para -elles, continuou, pensativo: - ---Anda a agitação entre o povo... As desordens parece que se levantam -debaixo dos pés... É verdade! Esta noite veio a polícia a casa d’uns -visinhos. Fizeram lá não sei o quê até pela manhã e depois, quando se -foram, levaram preso um que é ferreiro. Dizem que uma noite d’estas vão -leval-o ali á beira no rio e afogam-no em segredo. E todavia, era um -homem intelligente, aquelle ferreiro. - ---Como se chama elle? perguntou a velha. - ---O ferreiro? Chama-se Savyl, mas tem um outro nome: Evetchenko. -É muito mocinho ainda, mas já compreendia muitíssimas coisas, e é -proíbido compreendel-as, ao que parece... - -Ás vezes, apparecia lá pelas estações de carroagens e dizia-nos: «Que -vida que vocês levam cocheiros!» - ---É verdade, respondiamos-lhe nós, o nosso officio é peor que o dos -cães!» - ---Pára ahi! ordenou Pélagué. - -O sobresalto produzido fez então que Ivan voltasse a si. Entrou a gemer -devagarinho. - ---Esse rapaz está muito doente, observou o cocheiro. - -Vacillante, Ivan atravessou o páteo, custando-lhe collocar um pé -adiante do outro. - ---Não é nada, dizia. Ando perfeitamente... - - - - -XII - - -Sofia já estava de volta. Atarefada e mexendo-se muito, recebeu a -velha, de cigarro na bocca. Deitou o ferido n’um canapé e ligou-lhe com -perícia a cabeça, ao mesmo tempo que ia dando ordens. O fumo do cigarro -obrigava-a a piscar os olhos: - ---Doutor, ahi os tem. Sente-se fatigada, Pélagué? Teve muito medo, -não é assim? Está bem, descanse agora um bocado... Nicolao vae-lhe já -buscar o chá e um copo de Porto. - -Emocionada por taes acontecimentos, Pélagué respirava com difficuldade -e resentia-se de uma dolorosa sensação de picada no seio. - ---Não se importem commigo, murmurou. - -E toda a sua pessôa, transida de medo, supplicava um affago, um pouco -de attenção... Nicolao veio do quarto contiguo. Trazia a mão ligada. -Atraz d’elle entrou o médico, com os cabellos desgrenhados, como um -ouriço. Correu para Ivan, curvou-se a examinal-o e pediu: - ---Agua, muita agua! Pannos de linho limpos! Algodão em rama! - -Já Pélagué se dirigia á cosinha, mas Nicolao travou-lhe do braço e -disse-lhe affectuosamente, levando-a para a casa de jantar: - ---Não é comsigo que elle fala, é com a Sofia. A minha querida amiga -passou por bastantes commoções, não é verdade? - -Aquelle falar apiedado respondeu ella com um soluço mal contido e -exclamou: - ---Ah! que horrivel coisa!... A espadeirarem o povo... a espadeirarem! - ---Eu tambem lá estava, disse Nicolao, com um aceno confirmativo de -cabeça. E encheu um copo de vinho quente. Dos dois lados houve egual -exaltação... Mas não tenha receio; a polícia aggrediu só com a parte -mais larga das espadas; só uma pessoa ficou ferida gravemente, ao que -me parece... e essa vi-a eu caír ao pé de mim... Puxei-a até para fóra -da batalha. - -A fisionomia e a voz com que Nicolao lhe falava, a claridade e o calor -que reinavam no aposento, socegaram os nervos de Pélagué. Dispensou ao -seu hospedeiro um olhar de reconhecimento e perguntou-lhe: - ---Tambem ficou ferido? - ---Sim, e creio que por culpa minha... Sem querer, rocei com a mão não -sei por quê e fiquei com a pelle arrancada. Beba o seu vinho... Faz -frio e vocemecê tem um fato tão leve!... - -Ella estendeu as mãos para o copo e reparou que tinha os dedos cheios -de sangue coagulado. Em gesto instinctivo, deixou caír os braços sobre -os joelhos. Tinha a saia húmida. Esgazeou os olhos, com as sobrancelhas -muito erguidas, examinou furtivamente os dedos. A cabeça andava-lhe á -roda, uma idéa martelava-lhe no cérebro: - ---Ahi está, ahi está o que espera o Pavel um dia! - -Voltou o médico. Vinha em mangas de camisa e estas arregaçadas. A uma -interrogação muda de Nicolao, respondeu com a sua vozinha delgada: - ---A ferida do rosto é insignificante, mas houve fractura do craneo, -que tambem não é muito grave... O rapazola é valente, mas ainda assim -perdeu muito sangue. Vamos leval-o para o hospital. - ---Para quê? Póde ficar aqui! accudiu Nicolao. - ---Hoje e ámanhã talvez, mas depois era preferivel que se tratasse no -hospital, não tenho tempo para visitas. Encarregas-te do relatório do -que se passou no cemitério? - ---Bem entendido! respondeu Nicolao. - -Pélagué levantou-se então sem fazer bulha e dirigia-se para a cosinha. - ---Onde vae? exclamou Nicolao alvoroçado. Deixe lá a Sofia governar-se -sósinha! - -Com um olhar e um sorriso involuntário, singular, respondeu a tremer: - ---Estou toda suja de sangue... Estou toda suja de sangue! - -E ao mudar de roupa, no seu quarto, mais uma vez ficou a meditar na -serenidade d’aquella gente, n’aquella faculdade de que dispunham de -não demorar muito tempo o pensamento no horror dos acontecimentos. -Esta reflexão fêl-a caír em si, vencendo o sentimento de terror de que -estava possuida. Quando voltou ao quarto onde jazia o ferido, Sofia, -curvada sobre este, dizia-lhe: - ---Que tolice, camarada! - ---Mas eu vou incommodal-os! observou elle em voz debil. - ---Cale-se; é o melhor que tem a fazer. - -Pélagué parou por detraz d’ella e pousou-lhe a mão no hombro; fitou -depois, sorrindo, o rosto muito branco do ferido e pôz-se a contar o -medo que lhe tinha causado o seu accesso de delírio, no trem. Ivan -escutava-a com os olhos a arder em febre; fazia estalar os beiços e -exclamava de vez em quando, como que envergonhado: - ---Oh, que tolo que eu sou! - ---Bem, agora vamos deixal-o, declarou Sofia compondo-lhe as roupas que -o cobriam. Descanse! - -E as duas mulheres passaram para a casa de jantar, onde, com Nicolao e -o médico, por muito tempo conversaram baixinho sobre os acontecimentos -d’esse dia. Já o drama era tratado como coisa remota, já se falava -do futuro com tranquillidade; preparava-se a tarefa de ámanhã. Se os -rostos exprimiam a fadiga, os pensamentos latejavam vivos. O doutor -mexia-se nervosamente na cadeira, esforçando-se por velar a voz, que -tinha aguda e esganiçada: - ---Ora, a propaganda!... Não basta; os operários têem razão: é -necessario exercer a agitação em terreno mais vasto. Creiam que os -operários têem razão! - -Nicolao acrescentou com ar desconsolado: - ---Por toda a parte se queixam da insufficiencia dos livros e ainda não -conseguimos montar uma bôa imprensa... A Lioudmila está esgotada de -forças, vae nos caír doente, se não lhe arranjarmos collaboradores. - ---E o Vessoftchikof? perguntou Sofia. - ---Esse não póde residir na cidade. Ha de entrar para o serviço da nova -imprensa... mas falta-nos ainda alguem... - ---E se eu pudesse servir? propôz a velha com brandura. - -Os trez fitaram-na um momento. - ---É uma bôa idéa! exclamou Sofia de repente. - ---Não; é muito difficil para você, creia, Pélagué, contestou Nicolao -com secura. Era preciso que fôsse viver para fóra da cidade, que não -pensasse mais em ver o Pavel, e em geral... - -Ella replicou, suspirando: - ---Olhe que não faria grande falta ao Pavel... e pela minha parte, -tambem essas visitas me partem o coração. É proibido falar seja do que -fôr! Até pareço uma idiota aos olhos do meu filho! Estão ali mesmo, -sempre a espiar-nos! - -Os recentes acontecimentos haviam-na fatigado, e agora, quando se lhe -apresentava ensejo de afastar a idéa dos dramas da cidade, era quando -se agarrava a esse assunto com todas as forças. - -Mas Nicolao mudou o curso da conversa. - ---Em que pensas? perguntou elle ao doutor. - -Este, mal humorado, respondeu: - ---Somos poucos! Aqui tens em que penso... É absolutamente necessario -trabalhar com mais energia. É necessario decidir o André e o Pavel a -evadirem-se; são dois trabalhadores preciosos de mais para estarem na -inacção. - -Nicolao franziu o sobrolho, meneou a cabeça em ar de dúvida e lançou um -rápido olhar para a mãe de Pavel. Percebeu que se constrangiam em falar -do filho diante d’ella e foi para o seu quarto, levemente irritada -contra quem tão pouco se preoccupava com os seus desejos. - -Deitou-se e, de olhos abertos, embalada pelo ciciar das vozes, -sentiu-se tomada de inquietação. Parecia-lhe incompreensivel o dia que -acabava de decorrer, cheio de allusões ameaçadoras; mas porque este -genero de reflexão lhe fôsse penoso, afastou-as do cérebro e entrou -de pensar no seu filho. Queria vel-o em liberdade e, ao mesmo tempo, -tal idéa assustava-a; sentia que tudo se lhe agitava em torno; a -situação tornava-se cada vez mais tensa, andavam imminentes violentas -collisões. A paciencia do povo dera logar a enervada espectativa; -crescia visivelmente a irritação publica, ouviam-se com frequencia -frases rancorosas, de toda a parte soprava um hálito novo, um vento -d’excitação. As proclamações eram discutidas animadamente no mercado, -nas lojas, entre a criadagem e os artifices; cada prisão que na -cidade se effectuasse despertava ecos tímidos, mas inconscientemente -simpaticos e as suas causas eram commentadas. Pélagué ouvia agora com -mais frequencia a gente do povo pronunciar as palavras que outrora a -amedrontavam tanto: «socialistas, política, revolta». Taes palavras -eram repetidas com ironia, mas esta ironia não chegava a disfarçar o -fim principal, que era o de se informarem das opiniões; com colera, -mas sob esta colera transparecia o medo, e todos andavam pensativos, -entre alternativas de esperança e de ameaça... Em vastos circulos, -lentamente, ia-se propagando a agitação na vida sombria e estagnada do -povo; despertava o pensamento adormecido; os acontecimentos diarios -já não eram tratados com o socego habitual e a antiga placidez dos -fortes. Pélagué notava tudo isto mais distinctamente do que os -seus companheiros, pois que melhor do que elles conhecia o aspecto -desconsolador da vida, d’ella vivia mais proxima e n’ella divisava -simtomas de reflexão e de irritação, uma sêde vaga de alguma coisa -nova, o que a regosijava e assustava-a um tempo. Regosijava-se porque -tudo considerava obra de seu filho; assustava-se porque sabia que elle, -mal saísse da cadeia, logo iria collocar-se no posto mais perigoso, á -frente dos companheiros... e que ali havia de morrer. - -Sentia muitas vezes Pélagué agitarem-lhe o espirito os grandes ideaes -indispensaveis á humanidade e experimentava o desejo de falar da -verdade, mas quasi nunca conseguia realisar o seu desejo. N’esta mudez -forçada, os seus secretos pensamentos acabrunhavam-na. Por vezes, a -imagem do filho tomava a seus olhos as proporções giganteas d’um heroe -de lenda; n’elle resumia todas as maximas fortes e leaes que ouvira, -todos os seus affectos, todas as coisas grandes e luminosas que o seu -espirito abraçava. Contemplava-o então com mudo entusiasmo; ufana, -enternecida, nadando em esperança, dizia comsigo: - ---Tudo ha de ir bem!... tudo! - -O seu amor materno exaltava-se, comprimia-lhe o coração até -fazel-o sangrar, mas impedia que n’elle o amor pela humanidade se -desenvolvesse, chegando a destruil-o de todo; e no logar d’este grande -sentimento só ficava uma minúscula idéa fixa a palpitar timidamente nas -cinzas frias da inquietação: - ---Vae morrer... Vae morrer!... - -Adormeceu tardíssimo em profundo somno, mas accordou logo muito cedo, -com o corpo dorido e a cabeça pesada. - - - - -XIV - - -Ao meio dia, já Pélagué estava na secretaria da cadeia. Com turvo -olhar, examinava o rosto barbudo de Pavel, que se lhe sentára em -frente, á espera do momento em que poderia passar-lhe o bilhete que -apertava fortemente na mão. - ---Estou de saúde, e outros tambem, dizia Pavel a meia voz. E tu? como -vaes? - ---Muito bem. Morreu o Iégor! respondeu maquinalmente. - ---Palavra?! exclamou Pavel; e baixou a cabeça. - ---Vinha a policia no enterro, houve uma desordem, e foi um homem preso, -continuou ella com simplicidade. - -O sub-director da cadeia deu com a bocca um estalo, aborrecido, e -levantou-se a resmungar: - ---Não falem n’essas coisas! É proíbido, já devem sabel-o. Não se -consente que se fale de política... Oh, Deus poderoso! - -Ella ergueu-se igualmente e em voz d’innocencia desculpou-se: - ---Eu não falava de política, falava da desordem. E o certo é que elles -bateram uns nos outros. Até um ficou com a cabeça aberta! - ---Não faz mal, queira calar-se! Quer dizer: não profira uma palavra que -não lhe diga pessoalmente respeito, a si, á sua familia ou á sua casa. - -E para confirmar melhor as suas explicações, sentou-se á secretária e -acrescentou n’um tom de cansaço e de enfado, ao mesmo tempo que punha -em ordem uns documentos: - ---Depois, eu é que sou responsavel. - -Pélagué lançou-lhe furtivo olhar e introduziu rapidamente o bilhete na -mão de Pavel. Depois, suspirou com allivio: - ---Nem eu sei de que hei de falar... - -Pavel sorriu. - ---Nem eu tão pouco. - ---Então para que serve vir fazer visitas? observou, irritado, o -funccionario. Se não sabem de que hão de falar, não venham, não nos -incommodem! - ---Quando vaes responder? perguntou a mãe apóz curto silencio. - ---O procurador esteve ahi um dia d’estes; disse que era para breve. - -Trocaram ainda umas frases banaes. A mãe via que o seu Pavel a fitava -amorosamente. - -Não mudara; mostrava-se, como sempre, calmo e ponderado; unicamente, a -barba que lhe crescera vigorosamente, o fazia mais velho; e tinha os -pulsos mais brancos. Pélagué quiz causar-lhe prazer dando-lhe noticias -de Vessoftchikof. Então, sem mudar de voz, no mesmo tom em que lhe -falava de bagatellas, continuou: - ---Vi o teu afilhado... - -Pavel fitou-a com o ar interrogador. E logo para evocar o rosto -bexigoso do fugitivo, ella cravou o indicador em diversos pontos da -cara. - ---Vae bem, o teu rapaz; é robusto, desembaraçado... Vae ter emprego -d’aqui a pouco... Lembras-te? estava sempre a exigir que lhe dessem -trabalho pesado. - -Pavel tinha compreendido. Abanou a cabeça e respondeu com os olhos -illuminados por um alegre sorriso: - ---Ora essa!... se me lembro!... - ---Pois ahi tens! disse ella com satisfação. - -Sentia-se contente comsigo mesma e alegre com a alegria do filho. Ao -retirar-se, apertou-lhe elle a mão vigorosamente: - ---Obrigado, mamã! - -Como o vapor da embriaguez, uma sensação de extase subiu á cabeça da -mãe; sentia o coração do filho mais perto do seu; não teve forças para -lhe responder com frases e contentou-se com apertar-lhe tambem a mão, -sem uma palavra mais. - -Em casa, encontrou Sachenka, pois tinha esta por costume visital-os nos -dias em que Pélagué ia á cadeia. Nunca a interrogava ácerca de Pavel; -se Pélagué, de motu-proprio, não falava do filho, Sachenka ficava-se -a olhar fixamente para ella, e era tudo. Mas n’esse dia, acolheu-a com -uma interrogação de desasocego: - ---E então, que faz elle? - ---Está bom. - ---Deu-lhe o bilhete? - ---Com certeza. - ---E leu-o? - ---Está visto que não. Como podia elle lêl-o? - ---É verdade!... Esquecia-me!... emendou com lentidão a rapariga. -Esperemos mais uma semana... E que lhe parece? Estará d’accordo? E -olhou fito para a mãe de Pavel. - ---Sim... não sei... creio que sim! respondeu. Porque não havia elle de -se evadir? Perigo, não ha nenhum... - -Sachenka concordou com um aceno e perguntou com seccura: - ---Não sabe dizer-me o que é que se póde dar a comer ao doente? Diz que -tem fome... - ---Póde comer de tudo... de tudo! Eu mesma lá vou. - -E encaminhou-se para a cosinha. Sachenka seguiu-a vagarosamente. - -Pélagué foi ao fogão buscar uma cassarola. - ---Escute! murmurou a rapariga. - -Fez se pálida, os olhos dilataram-se-lhe n’uma angustia e com os beiços -trémulos, segredou de enfiada: - ---Queria perguntar-lhe... Eu bem sei: elle não ha de querer. Mas -convença-o, diga-lhe que precisamos d’elle, que não podemos passar sem -elle, que tenho medo que elle caia doente n’essa prisão... que tenho -muito medo! Bem vê: nem ainda está fixado o dia do julgamento!... - -Falava com difficuldade e tal esforço toda a inteiriçava; não se -atrevia a fitar a mãe de Pavel; a voz saía-lhe desigual como corda -que se puxa de mais, e logo se quebra. Com as palpebras cerradas -mollemente, mordia os beiços e ouviam-se-lhe estalar as articulações -dos dedos, enclavinhados. - -Pélagué, ficou emocionada ao ver aquelle accesso de exaltação, mas -compreendeu. Commovida, cheia de tristeza, abraçou-a e respondeu baixo: - ---Minha filha: elle não dá ouvidos senão a si mesmo... A mais ninguem! - -Permaneceram um instante em silencio, estreitamente enlaçadas. Depois, -Sachenka soltou-se-lhe dos braços suavemente e disse enleada: - ---Sim... tem razão! São tolices minhas... são os meus nervos! - -E fazendo-se de repente muito séria, concluiu simplesmente: - ---Mas agora me lembro: é preciso levar de comer ao doente! - -D’ahi a pouco, sentada á cabeceira de Ivan, perguntava a este em tom de -amigavel sollicitude: - ---Doe-lhe muito a cabeça? - ---Não, não muito... Mas vejo e oiço tudo vagamente... sinto-me fraco! -respondeu Ivan confuso e puxando a roupa até o queixo. Pestanejava -de contínuo, como se a luz se lhe tornasse demasiado forte. E porque -notasse que o rapaz não se resolvia a comer na presença d’ella, -Sachenka levantou-se e saíu do quarto. - -Ivan sentou-se na cama, seguindo-a com a vista; e, piscando o olho: - ---É tão bonita!... - -Ivan tinha uns olhos claros e espertos, dentes pequenos e muito iguaes, -a voz estava ainda na mudança da puberdade. - ---Que idade tem? perguntou-lhe Pélagué pensativa. - ---Dezesete annos. - ---Onde vivem seus paes? - ---No campo. Ha sete annos que vivo aqui; abandonei a aldeia ao saír do -collegio... E a senhora, camarada, qual é o seu nome? - -O ouvir tratar-se assim divertia sempre Pélagué, e sensibilisava-a. -Muito risonha, retorquiu: - ---Que precisão tem de o saber? - -Calou-se um instante o rapaz, confuso, e explicou: - ---É que um estudante do nosso grémio... quer dizer do grémio que nos -fazia as leituras, falou-nos da mãe de Pavel Vlassof, sabe? aquelle -que organisou a manifestação do primeiro de maio... o revolucionario -Vlassof. - -Ella confirmou com a cabeça e apurou o ouvido. - ---Foi elle o primeiro a desfraldar a bandeira do nosso partido! -declarou com emfase o rapaz, e esta exclamação de orgulho ecoou no -coração da mãe. Eu não estava no grupo... Tinhamos tenção de fazer -uma manifestação tambem aqui, mas fomos mal succedidos: eramos muito -poucos! Mas este anno ha de ser outra coisa... Verá! - -Offegava, emocionado, comprazendo-se á idéa de futuros acontecimentos. -Agitando a colher, proseguiu: - ---Falava eu então da mãe de Vlassof... Ao que parece, entrou tambem -para o partido depois da prisão do filho... Dizem que essa velha é -extraordinaria! - -Pélagué teve um franco sorriso: sentia-se a um tempo lisonjeada e -constrangida. Ia dizer-lhe que a mãe de Pavel era ella; mas conteve-se -e pensou com tristeza e um pouco de ironia: - ---Que velha tola que eu sou! - -E de repente, dominando a sensibilidade que a dominava, curvou-se para -o rapaz: - ---Vamos, coma! Coma que mais depressa se ha de curar para proseguir -nos nossos trabalhos! A causa do povo precisa de braços juvenis e -robustos, de corações puros, de espíritos leaes! São essas forças que -lhe dão vida; é por ellas que hão de ser vencidas toda a maldade e toda -a infamia!... - -Abriu-se a porta, deixando penetrar o fresco húmido do outono. Entrou -Sofia, alegre, com as faces muito córadas. - ---Os espiões andam a perseguir-me como os janotas arruinados perseguem -uma herdeira rica, palavra d’honra! Tenho de me ir embora d’aqui. - ---E então, Ivan, como vae?... Bem?... Pélagué, que diz o Pavel?... A -Sachenka está cá? - -Accendia um cigarro e ia fazendo todas estas perguntas sem esperar -as respostas. Afagava no entretanto a velha e o rapaz com a caricia -do seu olhar pardacento. Pélagué considerava a recemchegada, rindo -interiormente e pensava: - -«E eis como eu tambem me transformei em creatura humana... e n’uma bôa -creatura, até!» - -Inclinando-se de novo para Ivan, disse-lhe: - ---Cure-se depressa, rapazinho! - -E passou á casa de jantar, onde estava Sofia a dizer a Sachenka: - ---Ella já preparou trezentos exemplares!... Mata-se a trabalhar... Que -heroísmo o d’ella! Sabe Sachenka, que é uma verdadeira felicidade viver -entre gente assim, ser seu camarada, trabalhar com elles!... - ---É certo! respondeu a rapariga. - -E á noite, Sofia annunciou: - ---Mãe Pélagué, precisamos que faça uma nova excursão pelo campo. - ---Com muito gosto. Quando é a partida? - ---Dentro de trez dias... Está por isso? - ---Certamente! - ---Mas não ha de ir a pé, aconselhou Nicolao. - -Alugam-se cavallos de posta e toma outro caminho: pelo districto de -Nikolsky... - -Aqui, calou-se; tomára uns modos sombrios que não condiziam com a sua -expressão habitual; as suas feições tão calmas tiveram uma contracção -singular de fealdade. - ---É uma volta muito grande! fez notar a velha. E os cavallos custam -caro. - ---É preciso que saibam, proseguiu Nicolao. Sou geralmente contrario a -estas viagens. Ha agitação lá para esses lados... ha pouco, fizeram-se -por lá prisões, foi encarcerado um mestre escola... É bom ser-se -prudente... Mais valia esperar um pouco... - ---Ora! redarguiu Pélagué a rir. Se é certo o que dizem: que não se -tortura ninguem n’essas prisões... - - -Sofia, que tamborilava sobre a mesa, observou: - ---Mas é importantissimo para nós que a distribuição dos folhetos e dos -manifestos se faça sem interrupção... Não tem medo de lá ir, Pélagué? -perguntou bruscamente. - -Sentiu-se melindrada. - ---Tive eu alguma vez medo? Mesmo da primeira vez não me senti nada -assustada... e a senhora... - -Baixou a cabeça sem terminar a frase. É que sempre que lhe perguntavam -se ella tinha medo, se podia fazer uma coisa ou outra, se isto ou -aquillo era facil para ella, presentia que precisavam de si para alguma -coisa, que tratavam de se descartar d’ella, e que a tratavam por fórma -diversa da que usavam entre elles. - -Quando tinham vindo os dias dos acontecimentos mais consideraveis, -haviam-na ao principio assustado um pouco a rapidez dos incidentes e a -repetição das emoções, mas logo, instigada pelo exemplo e sob o impulso -das idéas que a dominavam, o seu coração transbordára do immenso -desejo de se tornar tambem util. Era este o seu estado de espirito -n’esse dia, e a pergunta de Sofia tornou-se-lhe assim, pois, tanto mais -desagradavel. - ---É inutil perguntar se tenho medo... ou outra qualquer coisa -d’este genero, proseguiu ella. Porque havia de ter medo?... Os que -possuem alguma coisa é que teem medo. E eu que tenho? O meu filho, -unicamente... Tinha medo por elle... Tinha medo que o torturassem e que -me fizessem outro tanto. Mas desde o momento que não ha torturas, que -me importa o resto? - ---Não está zangada comigo?! exclamou Sofia. - ---Não... Somente noto que nunca pergunta aos outros se têm medo... - -Nicolao tirou com vivacidade os óculos, tornou a pôl-os e olhou de fito -para a irmã. O silencio contrafeito que se estabeleceu agitou a alma -de Pélagué. Levantou-se constrangida; ia falar, mas Sofia, pegando-lhe -brandamente em uma das mãos, disse baixinho: - ---Desculpe... Nunca mais lho pergunto. - -Esta promessa fez rir a anciã. E instantes depois, todos trez -conversavam affectuosamente mas preoccupados, sobre a nova jornada ao -campo. - - - - -XV - - -Logo ao nascer da aurora, lá ia a velha na carrinhola, em fortes -solavancos pelas estradas enlameadas pelas chuvas do outono. Soprava -húmido vento; a lama voava em mil respingos; o postilhão, sentado -á beira do carro, virado para Pélagué, ia a lamentar-se n’uma voz -anasalada e filosófica: - ---Tinha eu dito áquelle meu irmão: façamos partilhas! E começámos a -fazer partilhas... - -Mas de repente fustigou o cavallo da mão com valente chicotada e gritou -furioso: - ---Queres andar, ou não, estuporado animal? - -Os nédios corvos d’outono saltitavam com gravidade pelos campos nús; -o vento vinha-lhes ao encontro, assobiando; elles então apresentavam -o flanco ao vento, que lhes arrepiava as pennas e os obrigava a -cambalear, e elles cediam á força da brisa e deitavam a voar com um -palpitar indolente das azas. - ---Finalmente prejudicou-me, e eu vi que não havia nada a fazer com -elle, concluiu o postilhão. - -As palavras do homem resoavam como n’um sonho, aos ouvidos de Pélagué; -no seu coração germinava um pensamento muito diverso, a sua memoria -fazia-lhe desfilar na frente a longa série dos acontecimentos passados -nos ultimos annos. Outrora, a vida, para ella, era como uma coisa -criada não se sabia onde, muito longe, não se sabia por quem, nem -porquê, e, agora, um numero consideravel de coisas se faziam á sua -vista e com o seu próprio auxílio. E um vago sentimento se apoderava -d’ella: era perplexidade e suave tristeza, contentamento e desconfiança -de si mesma... - -Em torno d’ella, tudo se deslocava com lento movimento; no ceu, vogavam -pesadamente as nuvens pardacentas, correndo para passarem umas adiante -das outras; aos dois lados do caminho, fugiam as arvores encharcadas, -com os cumes desnudados a baloiçarem; os campos estendiam-se em -circulos regulares; monticulos adiantavam-se-lhe ao encontro, depois, -ficavam para traz. Dir-se-ia que aquelle dia turvado ia a correr para -alguma coisa longinqua, indispensavel. - -A voz nasal do postilhão, o tintilar dos guisos, o assobiar húmido -e o perpassar do vento, tudo se fundia em uma torrente sinuosa e -palpitante, que corria por cima dos campos com força uniforme e que -suggestionava os espíritos. - ---O rico até no ceu acha o espaço pouco!... É sempre assim! Meu irmão -entrou a chicanar... as autoridades protegem-no! continuava o cocheiro, -sentado sempre no rebordo do vehículo. - -Chegados ao termo da viagem, desatrelou os cavallos e disse á velha -n’um tom desesperado: - ---Bem me podias dar cinco kopecks para beber uma pinga. - -E como ella acquiescesse ao pedido, o homem declarou no mesmo tom, -fazendo tenir as duas pequenas moedas no concavo da mão: - ---Pois vou comprar uns trez kopecks d’aguardente e dois de pão!... - -Pela tarde, chegou Pélagué, esfalfada e transida á importante villa de -Nikolsky. Dirigiu-se á hospedaria, pediu chá e, tendo occultado debaixo -d’um banco a sua pesada mala de mão, foi sentar-se ao pé da janella, -a olhar para o largosinho, revestido d’um tapete amarellado de herva -calcada, e para o edificio da administração da communa, um casarão -pardacento e triste, com os telhados a caír. Sentado nos degraus da -entrada, estava um campónio calvo, de barbas compridas, a fumar o seu -cachimbo. - -Corriam as nuvens em massas sombrias; amontoavam-se umas sobre outras. -Reinava silencio; tudo respirava um tédio de mau humor; dir-se-ia que a -existencia inteira se tinha occultado não se sabia onde, silenciosa. - -De repente, appareceu um official inferior de cossacos, a galope; -sopeou o alazão que montava, em frente da entrada da administração e -gritou o que quer que fôsse para o campónio, agitando o chicote no -ar. Os seus gritos atravessavam as vidraças, mas Pélagué não podia -distinguir as palavras. O campónio levantou-se, estendeu a mão para -o horizonte; o official inferior saltou para o chão, cambaleou um -pouco, atirou as rédeas ao homem; depois, firmando-se pesadamente na -balaustrada, subiu os degraus e sumiu-se no interior do edificio. - -Fez-se novo silencio. Por duas vezes o alazão bateu com o casco no -solo empapaçado. Uma rapariguinha, de olhos cariciosos e rosto muito -redondo, com uma pequena trança loira caída no hombro, entrou na sala -onde Pélagué estava. De bocca franzida, trazia sobre os dois braços -estendidos uma enorme bandeja de bordas já gastas, carregada de louça. -Cumprimentou com a cabeça. - ---Viva, minha lindinha! disse-lhe Pélagué amoravelmente. - ---Viva! - -Quando dispunha sobre a mesa pratos e chavenas, a pequena annunciou de -chofre, muito animada: - ---Apanharam agora mesmo um ladrão... Vão trazel-o para aqui. - ---Que vem a ser esse ladrão? - ---Não sei. - ---Que fez elle? - ---Não sei; só ouvi dizer que tinham apanhado um ladrão! Foi o guarda -que saíu a correr da administração para ir buscar o commissário. Ia a -gritar: «Está agarrado, tragam-no para cá!» - -Pélagué olhou pela janella e viu que vários camponezes se approximavam. -Uns caminhavam devagar, com todo o socego; outros, corriam e vinham a -abotoar as suas capas de pelles mesmo a andar. Pararam todos em frente -do casarão e dirigiram os olhares para a esquerda. Mas conservavam-se -todos em singular silencio. - -A rapariguinha olhou tambem para a rua e saíu da sala, batendo -ruidosamente com a porta. Pélagué estremeceu. Occultou o melhor que -poude a mala debaixo do banco, cobriu a cabeça com um lenço e veio -fóra, a passo rápido, reprimindo o incompreensivel desejo de fugir que -toda inteira a assaltava. - -Ao chegar ao poial da entrada da estalagem, sentiu nos olhos e no peito -um friosinho agudo; suffocou, teve as pernas dormentes: a meio do largo -caminhava Rybine com as mãos amarradas nas costas, escoltado por dois -guardas. Silenciosa, a multidão dos campónios estava á espera, em volta -da escadaria da administração. - -Atordoada, sem compreender bem o que via, Pélagué não desfitava Rybine. -Este vinha a falar, pois que Pélagué lhe ouvia o som da voz, mas as -palavras voavam indecisas, sem que tivessem éco no vácuo fremente e -obscuro do seu espirito. - -Voltou a si e respirou melhor. Um campónio de barba loira estava a -fitar n’ella attentamente os olhos azues. Ella tossiu, esfregou o peito -com as mãos trémulas de terror e perguntou com esforço: - ---Que se passa? - ---Veja vocemecê mesma, redarguiu o camponez, voltando-se de novo para -ella. Outro rústico approximou-se do primeiro e postou-se lado a lado. - -Os guardas fizeram alto em frente da populaça sem cessar crescente, mas -que permanecia muda. De súbito, a voz de Rybine resoou com inergia: - ---Teem ouvido falar d’esses papeis em que se escreve toda a verdade a -respeito da nossa vida de campónios?... Pois bem: foi por causa d’esses -papeis que me prenderam! Fui eu que os distribui pelo povo! - -A multidão cercou então o preso. Este apparentava voz calma, -reflectida, e isto aliviou Pélagué da oppressão em que se sentia. - ---Estás ouvindo? perguntou o segundo camponez ao dos olhos azues, -dando-lhe com o cotovelo. - -Este, sem responder, ergueu a cabeça e de novo fitou a velha. O outro -fez o mesmo. Era mais novo que o primeiro e tinha uma cara chupada, -coberta de sardas, de barbinhas pretas. Os dois afastaram-se um pouco. - ---Teem medo! disse Pélagué comsigo. - -E augmentou de attenção. Da soleira da estalagem distinguia -perfeitamente o rosto sujo e tumefacto de Rybine, divisava-lhe o brilho -do olhar; desejava que elle tambem a visse; pôz-se nos bicos dos pés, -de pescoço estendido. - -Varios populares attentavam n’ella com modos frios, desconfiados, sem -proferir uma palavra. Só nas primeiras filas do ajuntamento é que se -notava um susurro continuado de conversações. - ---Camponezes, meus irmãos, proseguiu Rybine com voz máscula e firme, -tenham confiança n’esses escriptos! É para a morte talvez, que -eu caminho por causa d’elles! Fui espancado, torturado, quizeram -obrigar-me a dizer d’onde elles provinham... Pois que continuem a -espancar-me--tudo supportarei!... Porque n’esses papeis encontra-se a -verdade, e a verdade é para ser por nós mais presada do que o pão!... -do que a própria vida! - ---Para que diz elle aquillo? perguntou um dos dois campónios. - -O dos olhos azues respondeu com lentidão: - ---Que lhe importa, a elle? A gente não morre duas vezes... E agora que -já está condemnado... - -Os trabalhadores continuavam mudos, relanceando olhares furtivos e mal -humorados; a todos parecia acabrunhar o que quer que fosse invisivel -mas esmagador. - -O official inferior appareceu n’isto na balaustrada da administração. -Titubeante e em voz avinhada, regougou: - ---Que vem a ser toda esta gente? Quem está para ahi a falar? - -Precipitou-se para o largo, agarrou e saccudiu Rybine pelos cabellos, -gritando: - ---És tu que estás a falar, filho d’uma cadella... és tu? - -Fez-se agitação entre o povo, que entrou a murmurar. Presa de violenta -angustia, a cabeça de Pélagué descaíu sobre o peito. Um dos campónios -suspirou com ruido. E de novo resoou a voz de Rybine: - ---Pois bem, bôa gente, escutem!... - ---Cala-te! - -E o sargento deu-lhe um murro sobre o ouvido. Rybine cambaleou, depois, -ergueu os hombros. - ---Amarram as mãos a uma pessôa para a martirisarem á vontade! - ---Guardas, levem-no! Olá! toca a dispersar! E, aos saltos na frente -de Rybine, como um cão preso pela trela diante d’um naco de carne, o -sargento atirava-lhe murros á cara, ao ventre e ao peito. - ---Não lhe batas! gritou uma voz entre o povo. - ---Para que lhe bates? perguntou outro. - ---Vamo-nos embora! disse o dos olhos azues para o companheiro, abanando -a cabeça. E, de seu vagar atravessaram o largo, emquanto Pélagué os -acompanhava com um olhar de simpatia. - -Suspirou então, mais aliviada. O sargento accudiu outra vez, em pesado -passo, á balaustrada e entrou a gritar, furioso, brandindo o punho: - ---Tragam-no para aqui, já lhes disse. - ---Não! replicou uma voz sonora. (A velha percebeu que era a do camponez -dos olhos azues.) Não devemos consentir! Se o deixam entrar ali, vae -ser espancado até o matarem! E depois não faltará quem diga que a culpa -foi nossa, que fomos nós que o matámos!... Não devemos consentir! - ---Camponezes! gritou Rybine. Não vêem a vida que levam? Não vêem como -são explorados, ludibriados, e que lhes tiram o sangue?... Tudo repousa -em vós; vós sois a principal força da terra... toda a sua força!... E -quaes são as vossas regalias? Unicamente a de morrer á fome! - -De subito, os camponezes proromperam em gritos, interrompendo se uns -aos outros: - ---O homem tem razão! - ---Chamem o commissário da policia rural! Onde está? - ---O sargento foi chamal-o! - ---Ora adeus! O sargento está bêbedo! - ---Não é a nós que compete chamar as auctoridades! - ---Fala, que não deixamos que te batam! - ---O que foi que tu fizeste, an? - ---Desamarrem-lhe os pulsos. - ---Não, não, meus irmãos! - ---Porque não? Que importancia tem isso? - ---Pensem bem no que fazem! - ---Doem-me os pulsos! disse Rybine, dominando o tumulto com a sua voz -sonora e espaçada. Meus irmãos! descansem que não fujo!... Eu não posso -fugir á verdade, pois que ella vive em mim! - -Algumas pessôas separaram-se do ajuntamento e foram-se afastando com -meneios de cabeça; alguns riam... Mas sem cessar, gente exaltada, mal -vestida por terem envergado os fatos á pressa, vinha chegando de todos -os lados. Fervilhavam em volta de Rybine qual negra escuma. De pé, no -meio d’elles, tal um cruzeiro em meio da floresta, o preso ergueu os -braços acima da cabeça e gritou: - ---Obrigado, obrigado, bôa gente! Sim! devemos desligar as nossas mãos -mutuamente! Quem nos havia de ajudar, se nós não nos ajudassemos uns -aos outros? - -Ergueu novamente uma das mãos, toda ensanguentada: - ---Vêem o meu sangue? É pela verdade que o derramo! - -Pélagué desceu o poial. Mas do nivel do largo, já Rybine lhe não era -visivel; tornou pois a subir os degraus. Tinha o peito em fogo mas -dentro d’elle sentia palpitar alguma coisa de vaga alegria... - ---Camponezes! Busquem esses folhetos, leiam-nos. Não acreditem nas -autoridades e nos padres, que andam a dizer-lhes que são ímpios e -herejes aquelles que vos trazem a verdade!... A verdade vae sempre -fazendo o seu caminho silencioso pela terra, e no seio do povo encontra -abrigo. Para essas autoridades ella é peor que o ferro e que o fogo. -A verdade é a nossa melhor amiga; para a autoridade é uma inimiga -declarada.--ahi teem porque ella se esconde. - -De novo resoaram entre a multidão varias exclamações. - ---Irmãos, escutem! - ---Ai, pobre homem, estás perdido! - ---Quem te denunciou? - ---Foi o padre, respondeu um dos guardas. - -Dois dos camponezes vomitaram logo uma chuva de impropérios. - ---Cuidado, camaradas! advertiu uma voz. - - - - -XVI - - -É que vinha chegando o commissário da polícia rural. - -Era um homem alto e robusto, cara redonda. Trazia o bonné inclinado -para a orelha; uma das guias do bigode vinha retorcida para cima, -a outra pendia-lhe do canto da bocca, o que lhe dava uma expressão -contorcida á cara, já de si desfigurada por um sorriso parado e -estúpido. Na mão esquerda tinha uma pequena espada e balançava o braço -direito ao ritmo dos passos. Fazia bulha, com o andar, pesado e firme. -A populaça afastava-se na sua passagem. As fisionomias tomavam um -aspecto de triste acabrunhamento. - -O tumulto socegára, desapparecera como se se tivesse sumido pela terra. -Pélagué sentiu estremecer-lhe em repuxões nervosos a pelle da fronte; -offuscava-lhe a vista uma como névoa de calor. Novamente teve vontade -de ir misturar-se áquella gente; inclinou-se porém, e ficou immovel, em -angustiosa espectativa. - ---Que temos? perguntou o commissário, parando diante de Rybine e -medindo-o dos pés á cabeça. Porque é que este homem não tem as mãos -amarradas? Porquê? Amarrem-lhas! - -Tinha a voz aguda e sonora, mas sem timbre. - ---Elle tinha as mãos amarradas... mas o povo desamarrou-lhas! respondeu -um guarda. - ---O quê? O povo? Que povo? - -Percorreu com a vista o semi-círculo que o cercava e proseguiu na sua -voz branca e uniforme: - ---Quem vem a ser aqui o povo? - -Tocou com o punho da espada o peito do camponez de olhos azues: - ---És tu que és o povo, Tchoumakof? E quem mais? És tu, Michine? - -E deu um puxão nas barbas d’outro camponez. - ---Vamos a dispersar, canalha!... Senão, comigo se hão de haver...! - -Não demonstrava no tom em que falava nem irritação nem ameaça, como tão -pouco na fisionomia. Exprimia-se com uma tranquillidade completa e ia -distribuindo as pancadas em gestos firmes e iguaes. Diante d’elle, os -grupos recuavam, baixavam-se as cabeças, desviavam-se os rostos. - ---Então, por que esperam? perguntou aos guardas. Amarrem-no! - -E depois de uma chuva de insultos cínicos, virou-se de novo para Rybine: - ---Olá, tu! Mãos atraz das costas! - ---Não quero ser amarrado! replicou Rybine. Eu não fujo... não me -defendo... Para que serve amarrarem-me? - ---O quê?! exclamou o commissário, indo para elle. - ---Já bastante martirisastes o povo, feras! continuou Rybine, erguendo a -voz. Tambem vocês dentro em pouco hão de ter os seus dias de sangue! - -O commissário parou-lhe na frente de chofre e pôz-se a miral-o, ao -mesmo tempo que repuxava o bigode. Depois, recuou um passo e disse em -tom de espanto e n’uma voz sibilante: - ---Ah, filho d’um cão!... Que significam essas palavras? - -E bruscamente, com toda a força, descarregou uma punhada no rosto de -Rybine. - ---Não se destroe a verdade a murros! gritou este, crescendo para elle. -E tu não tens o direito de me bater! - ---Eu não tenho o direito?! berrou o commissário, destacando muito as -palavras. - -E novamente atirou o braço para attingir o rosto de Rybine. Este -baixou-se, por fórma que o commissário, com o impulso, esteve a ponto -de caír. D’entre o ajuntamento alguem fungou com ruido. Furioso, Rybine -repetiu: - ---Já te disse que não tens o direito de me bater, grande diabo! - -O commissário olhou em torno. Os homens, silenciosos e de má catadura, -rodeavam-no em compacto círculo. - ---Nikita! chamou. Olá, Nikita! - -Um campónio baixote e atarracado, vestido de um curto casacão de -pelles, saíu do grupo. Vinha de olhos fitos no chão, com a enorme -cabeça baixa e os cabellos desgrenhados. - ---Nikita! ordenou o commissário com a maior tranquillidade e retorcendo -o bigode. Dá-lhe uma bofetada bôa! - -O homem deu um passo para diante, parou em frente de Rybine e ergueu -a cabeça. Rybine, á queima roupa, bombardeou-o com estas palavras -sinceras e duras: - ---Vejam vocês, bôa gente, como este bruto vos esmaga com a vossa -própria mão!... Vejam bem... e reflictam. - -Lentamente, o homem ergueu o braço e contundiu Rybine na cabeça, mas -levemente. - ---Assim é que eu te mandei fazer, canalha? gritou o outro, -esganiçando-se. - ---Eh, Nikita! disse alguem próximo. Não te esqueças de que Deus te está -vendo! - ---Bate-lhe, já t’o disse! gritou o commissário, empurrando o camponez. - -Este afastou-se um passo e respondeu com frieza, de cabeça baixa: - ---Não, senhor! não estou para mais! - ---Como? - -Contraíu-se o rosto da autoridade. Bateu o pé e precipitou-se sobre -Rybine, rogando pragas. A pancada resoou em surdo choque. Rybine -cambaleou, agitou o braço; em segundo assalto, prostrou-o o commissário -no solo e, aos pulos em volta d’elle, entrou a dar-lhe pontapés na -cabeça, pelo peito, nas ilhargas. - -A multidão, soltando gritos hostis, pôz-se em movimento e cresceu para -o commissário, mas este deu um salto para o lado e desembaínhou a arma. - ---Ah, é assim? Revoltam-se? Ah, é isso? - -Tremeu-lhe a voz, tornou-se mais aguda e passou a saír-lhe da garganta -em guinchos, como se se tivesse quebrado. E ao mesmo tempo que perdia -a voz, sentia-se perder todo o prestigio. Com a cabeça encolhida nos -hombros, o dorso recurvado e relanceando em torno o olhar amortecido, -entrou a recuar, tateando cautamente o solo atraz de si. Amedrontado, -rouquejava, ao mesmo tempo que ia cedendo: - ---Muito bem... Fiquem com elle... Eu vou-me embora!... Mas, depois? -Fiquem bem sabendo: esse homem é um criminoso político, combate contra -o nosso tzar, anda a fomentar revoltas! Compreendem? É contra Sua -Magestade o Imperador... e vocês defendem-no! Sabem que ficam sendo -rebeldes? - -Immovel, o olhar de estátua, sem idéas nem acção, como n’um pesadello, -Pélagué succumbia ao peso do terror e da sua piedade. Semelhantes -ás vibrações d’um sino enorme, susurravam-lhe aos ouvidos os gritos -irritados da plebe. Tudo lhe redemoinhava dentro da cabeça, a voz -tremente do commissário, mil ruidos confusos... - ---Se é criminoso, seja julgado! - ---E não massacrado! - ---Tenha dó d’elle, Excellencia! - ---Pois está claro! Não tem direito de bater-lhe! - ---Se isto são maneiras de proceder! D’essa fórma, começam todos para -ahi a bater na gente! O que será então! - ---Que brutos! que carrascos! - -Dividia-se o povo em dois grupos: uns rodeavam o commissário, gritavam, -exortavam-no, os outros, menos numerosos, permaneciam junto do ferido e -discorriam em voz baixa e com ares de abatimento. Ergueram-no do chão -alguns homens. Os guardas dispunham-se a ligal-o de novo. - ---Esperem ahi, seus diabos! gritaram-lhes. - -Rybine limpou a lama e o sangue que lhe empastavam a cara e, -silencioso, olhou em torno. Deu então com a vista no rosto de Pélagué. -Esta estremeceu, adiantou todo o corpo para elle, fez instinctivo -gesto. Elle desviou os olhos. Mas, alguns instantes mais tarde, voltava -o olhar do preso a fixar-se n’ella. Afigurou-se á pobre mulher que -Rybine se endireitava na sua direcção, que erguia a cabeça para ella, -com um movimento convulso das ensanguentadas faces. - ---Reconheceu-me!... É possivel que me tenha reconhecido?!... - -E, vibrante de uma pungente satisfação angustiada, fez-lhe um -signal com a cabeça. Mas logo reparou no homem dos olhos azues, que -se encontrava junto de Rybine e que a fitava. Dispertou n’ella a -consciencia do perigo. - ---Que estou eu a fazer?... Podem prender-me tambem. - -O homem segredou algumas palavras a Rybine; este abanou a cabeça e -disse nervosamente mas por fórma distincta e valorosa: - ---Que importa? se eu não estou sósinho no mundo!... A verdade nunca -poderá ser encarcerada! O povo ha de lembrar-se de mim por toda a parte -onde passei... Ahi está! O ninho foi destruido, mas que mal vae n’isso, -se dentro d’elle já não estavam nem amigos, nem camaradas? - -É para mim que está a falar! pensou Pélagué. - ---O povo saberá construir outros ninhos, em prol da eterna verdade, e -ha-de chegar o dia em que as águias voarão livremente... em que o povo -será libertado! - -Trouxe uma mulher um balde d’agua e, desfazendo-se em lamentações, -entrou de lavar o rosto do preso. A vózinha chorosa e fina da mulher -confundia-se com a de Rybine e não deixava que Pélagué entendesse o que -elle dizia. Precedido do commissário de polícia, avançava um grupo de -camponezes. Alguem ordenou: - ---Um carro para levar o preso para a cidade! Olá, a quem toca fornecer -o carro? - -Em seguida, o commissário gritou n’uma voz transtornada e como vexado: - ---Eu posso bater-te, entendes? mas tu não me pódes fazer outro tanto, -tu é que não tens esse direito, idiota! - ---Ah! E quem és tu então? Deus de misericordia! replicou Rybine. - -Algumas exclamações abafadas cobriram a resposta. - ---Não discuta, tiosinho! Olhe que é um chefe! - ---Não se zangue mais, Excellencia! - ---Cala-te d’ahi, meu original! - ---Vão-te já levar para a cidade!... - ---Lá, ha mais respeito pela lei! - -Os gritos da populaça tornavam-se mais conciliadores, supplicantes; -conjugavam-se em indistincta vozearia, lamentosa, mas sem qualquer -nota em que se traduzisse uma esperança. Os guardas agarraram Rybine -pelos braços, conduziram-no pela escadaria da administração e com elle -penetraram no edificio. Lentamente, a multidão foi-se escoando. Pélagué -notou que o homem dos olhos azues se dirigia para o seu lado e a -observava de soslaio. Tremiam-lhe as pernas; desconsoladora sensação de -impotencia e de isolamento lhe alanceava a alma, causando-lhe nauseas. - ---Não devo ir-me embora! pensou. Não o devo fazer! - -Reteve-se vigorosamente á balaustrada e ficou esperando. - -Em pé, no cimo da escadaria da administração, o commissário -discursava com grandes gestos, repreensivo, e na sua voz outra vez -incaracteristica de indifferença: - ---Imbecis! Filhos de cães! Não compreendem nada e vão metter-se n’um -negocio d’estes!... n’um negócio d’Estado! Idiotas! Vocês deviam -agradecer-me a minha bondade, deviam inclinar-se diante de mim, até ao -chão! Se eu quizesse, iam todos para as galés! - -Escutavam-no uns vinte campónios, de chapeu na mão. - -Caía a noite; vinham descendo as brumas... - -Então o homem dos olhos azues approximou-se de Pélagué e commentou com -um suspiro: - ---Que cantiga aquella, an? - ---É verdade! respondeu, baixo. - -Elle fitou-a com um modo decidido; perguntou: - ---Em que se emprega? - ---Compro rendas ás mulheres que as fabricam... e pannos tambem. - -O campónio afagou de vagar a barba; depois, disse em tom de -contrariedade e a olhar na direcção da villa: - ---Não temos nada d’isso lá em casa... - -A velha examinou-o da cabeça aos pés e ficou-se esperando instante -opportuno para voltar ao interior da hospedaria. Era bello e pensativo -o rosto do homem; nos olhos tinha uma nuvem de melancolia. Alto e -espadaúdo, vestia uma blusa muita remendada, uma camisa limpa, de -chita, umas calças côr de castanha, de grosseiro panno e trazia os pés -nús n’umas alpercatas de canhamo. - -Sem saber porquê, soltou Pélagué um suspiro como de alivio. E de -súbito, obedecendo a um instincto mais prompto do que o seu raciocínio, -perguntou-lhe em um impulso que a ella mesma surpreendeu: - ---Posso passar a noite em tua casa? - -E logo sentiu os músculos, o corpo inteiro retesarem-se n’um espasmo. -Atravessaram-lhe rapidamente o cérebro idéas cruciantes: - ---Vou perder Nicolao!... Não mais tornarei a ver o Pavel... por muito -tempo... E hão de espancar-me tambem! - -O homem, sem precipitação alguma, olhos no chão, respondeu, emquanto -cruzava sobre o peito a gola da blusa: - ---Passar a noite? Sim... porque não? O peor é que a minha cabana não é -grande coisa! - ---Tambem, eu não estou habituada a mimos! respondeu ella. - ---Está bem! acquiesceu o campónio, medindo-a por seu turno com olhar -perscrutador. - -Á claridade do crepúsculo, os olhos do homem tinham um brilho frio; o -rosto tornára-se-lhe muito pálido. E logo, Pélagué, baixo: - ---Então, vou já comtigo... Has-de trazer-me a mala. - ---Está dito. - -Encolheu os hombros, cruzou outra vez a blusa e segredou: - ---Ora, veja: lá vem a procissão! - -Rybine surgira no topo da escadaria. Trazia de novo as mãos amarradas, -e a cabeça e a cara embrulhadas em qualquer coisa pardacenta. A sua voz -vibrou na frialdade do crepúsculo: - ---Até mais ver, bôa gente! Busquem a verdade, conservem-na; creiam -n’aquelles que vos trazem as bôas palavras... Não poupem quantas forças -tenham, em prol da verdade! - ---Cala-te, cão! gritou o commissário. Guarda, faz andar esses cavallos! - ---...Pois que teem a perder? Que existencia é a vossa? - -Pôz-se o carro em andamento. Sentado entre dois guardas, Rybine ainda -gritou cavamente: - ---...Porque morrem de fome? Trabalhem por obter a liberdade... É ella -que lhes ha-de dar pão e justiça!... Bôa gente, adeus! - -O ruído precipitado das rodas e das patas dos cavallos, as invectivas -do commissário de policia confundiam-se com a sua voz, entrecortando-a -e abafando-lha. - -Pélagué voltou para dentro de casa; sentou-se á mesa, perto do samovar, -agarrou n’um pedaço de pão, examinou-o e tornou a pôl-o lentamente no -prato. Não tinha vontade de comer, bem que experimentasse na bocca do -estomago uma desagradavel sensação que lhe esgotava as forças, que lhe -expulsava o sangue do coração e lhe fazia andar a cabeça á roda. - ---Elle deu por mim! dizia ella comsigo, tristemente, no sentimento -da sua fraqueza, para poder reagir. Deu por mim... Adivinhou, com -certeza!... - -E não podia ir mais longe o seu pensamento: fundia-se n’uma prostração -dolorosa, n’uma sensação viscosa de enjôo... - -O silencio timido, como que acoitado para além das vidraças e que -succedera ao borborinho, provava que em toda a villa os habitantes -haviam voltado ao antigo torpor medroso e subserviente, e isto mais lhe -acirrava a sensação de isolamento em que se debatia, enchendo-lhe o -espirito de obscuridade pardacenta e penetrante como cinza. - -A rapariguinha abriu a porta e do limiar perguntou: - ---Quer que lhe traga uma _omelette_? - ---Não... Já não tenho vontade... Esta gritaria fez-me um mal!... - -A pequenita foi até junto da mesa e pôz-se a narrar animadamente, mas -em voz baixa: - ---Como elle lhe bateu com força, o commissário!... Eu estava mesmo -ao pé d’elle; vi tudo... Até quebrou os dentes todos do homem!... E -quando o homem escarrava, o sangue vinha muito grosso, muito grosso -e escuro!... Nem se lhe viam os olhos!... O sargento está cá. Está -embriagado de todo e não faz senão pedir vinho. Diz elle que era uma -quadrilha inteira e que aquelle das barbas era o chefe. Apanharam trez, -mas um fugiu... E tambem prenderam um mestre escola que andava com -elles!... Elles não crêem em Deus e aconselham o povo a roubar todas as -igrejas. Aqui está o que elles fazem! Havia homens que tinham dó do tal -das barbas, mas outros diziam que se devia dar cabo d’elle!... Sempre -ha homens muito maus cá no nosso sítio! - -Pélagué escutava attenta esta rápida e entrecortada narrativa; esperava -distraír assim o seu desasocego e dissipar a oppressora angustia da -espectativa. A pequena encantada com tão bôa ouvinte, tagarelava sempre -com crescente animação, comendo as palavras: - ---O papá diz que tudo isto vem da falta de generos, tudo! Ha já dois -annos que a terra não produz nada... e toda a gente anda sem saber o -que ha de fazer. É por isso que apparecem agora homens como aquelle. É -uma desgraça! Vão para as reuniões gritar e bater uns nos outros!... -Ainda no outro dia, quando venderam as terras do Vassioukof, porque não -pagava o fôro, deu uma bofetada no _staroste_.[3] «Ahi teem o fôro!» -disse-lhe o Vassioukof. - -Resoaram pesados passos para além da porta. - -Pélagué ergueu-se com as mãos apoiadas na mesa. O camponez dos olhos -azues entrou e sem tirar o bonné: - ---Onde tem a sua bagagem? - -Ergueu a mala sem esforço algum. E observou: - ---Está vazia!... Maria, acompanha esta viajante a minha casa. - -E saíu sem olhar para ninguem. - ---Vae passar a noite á villa? inquiriu a pequena. - ---Vou, sim! Eu negoceio em rendas e quero ir fazer as minhas compras. - ---Não ha de encontral-as por cá. Em Tinekof e em Darino, ahi é que as -fazem, mas cá na terra, não! explicou Maria. - ---Pois ámanhã lá irei... - -Pagou o chá e deu trez kopecks á pequena, que ficou contentissima. Já -na rua, propôz esta, emquanto ia chapinhando com os pés descalços pela -terra húmida: - ---Se a senhora quer, eu vou muito depressa a Darino, digo ás mulheres -que lhe tragam cá as rendas... As mulheres vêem e a senhora não precisa -fazer a viagem... Olhe que sempre são doze kilometros! - ---Não, minha lindinha, não é preciso, respondeu, continuando a caminhar -ao lado da pequena. - -Acalmára-a o ar fresco da tardinha. Lentamente, formava vaga resolução -confusa, mas que a satisfazia. - -Tal idéa ia germinando com força e, para lhe abreviar a definitiva -fixidez, Pélagué ia sem cessar perguntando a si mesma: - ---Que fazer?... Proceder aberta, francamente?... - -Tinha caído completamente a noite, húmida e glacial. Brilhavam as -janellas das cabanas com avermelhadas, baças, immoveis claridades. -O gado fazia ouvir no silencio mugidos de indolencia. Aqui e ali, -distinguiam-se breves exclamações. Esmagadora melancolia envolvia todo -o logar. - ---É aqui! disse a rapariguinha. Sempre escolheu muito má casa! Este -camponez é tão pobre!... - -E ás apalpadelas, procurou a porta abriu-a e gritou com voz esperta: - ---Tatiana, aqui está a sua hóspede! - -E logo deitou a correr. A sua vozinha vibrou ainda na escuridão: - ---Adeus! - - -NOTAS DE RODAPÉ: - -[3] O _staroste_ é o chefe d’um _mir_, ou communa rural autónoma. - -N. do T. - - - - -XVII - - -Pélagué deteve-se no limiar a examinar o interior, abrigando os olhos -sob a mão em pala. Era pequena e acanhada a choupana, mas de um aceio -que logo saltava á vista. Uma mulher nova appareceu por detraz do -fogão, cumprimentou em silencio e desappareceu de novo. A um canto, -sentado a uma banca, sobre a qual havia um candieiro acceso, o dono -da casa tamborilava com os dedos na madeira. Fitava demoradamente a -recemchegada. - ---Entre! disse-lhe ao cabo de alguns momentos. Tatiana, vae chamar o -Pedro, depressa! - -A mulher saíu rapidamente sem mesmo dispensar um simples olhar á -viajante. Esta sentou-se n’um banco, em frente do aldeão e divagou -a vista pelo aposento. Não via a sua mala. Reinava grave silencio -na cabana; só o candieiro fazia ouvir um leve crepitar da chamma. -A fisionomia d’aquelle homem, preoccupada e um tanto carrancuda, -vacillava á luz mortiça, com feições mal definidas. - ---Então: Fala... Avia-te!... - ---E onde está a minha mala? perguntou logo Pélagué em voz alta e com -severidade, sem ter bem consciencia do motivo por que assim falava. - -O campónio encolheu os hombros. Pensativo, respondeu: - ---Deixa estar que não está perdida! - -E acrescentou friamente e em voz baixa: - ---Eu disse diante da pequena que a mala estava vazia. Cá tinha as -minhas razões. Ao contrário, você traz ali coisas bem pesadas... - ---E então? - -Levantou-se, approximou-se d’ella, curvou-se e inquiriu, baixando ainda -mais a voz: - ---Conhece aquelle homem de ha pouco? - -Pélagué estremeceu, mas declarou com firmeza: - ---Conheço! - -Estas simples respostas parecia-lhe que a acalentavam interiormente, -illuminando tudo em volta com a luz d’um heroísmo. - -Sorriu-se o campónio. - ---Eu bem a vi fazer-lhe um signal... E elle respondeu-lhe... -Perguntei-lhe ao ouvido se conhecia a mulher que estava á porta da -hospedaria... - ---E elle? interrogou com anciedade. - ---Elle disse só isto: «Somos em grande número...» Sim, foi isto que -elle disse: «Somos em grande número...» - -Perscrutava com olhar interrogador a sua hóspede. - -Sorriu outra vez e proseguiu: - ---É uma grande força, aquelle homem!... Tem muita coragem; diz o que -pensa! Batem-lhe, injuriam-no, mas não cede! - -Com o escutar aquelle falar ingenuo, com o ver aquellas feições -grosseiras e aquelles olhos francos e claros, ia-se tranquillisando -pouco a pouco Pélagué. O seu acabrunhamento e os seus receios -dissipavam-se para dar logar a uma compaixão intensa e profunda para -com Rybine. Foi assim que, com súbita e amarga ira, que não poude -reprimir, ella exclamou em tom de lamento: - ---Aquelles monstros! Aquelles bandidos! - -E entrou a soluçar. - -O campónio deu alguns passos, abanando a cabeça com pezar. - ---É verdade!... O governo tem andado a arranjar temiveis inimigos! - -E de repente, voltando para junto d’ella, segredou: - ---Escute. Supponho que traz jornaes na mala... É certo? - ---É! respondeu Pélagué simplesmente. E limpava as lagrimas. - ---Era para elle que os trazia. - -O dono da casa carregou os sobrolhos, juntou na mão toda a barba em -punhado e ficou-se calado, a olhar para um canto. - ---Nós tambem recebemos um... e folhetos, livros... Eu cá não sou muito -instruido, mas tenho um amigo que o é. E minha mulher tambem me lê -essas coisas. - -Calou-se de novo, pôz-se a pensar; depois perguntou: - ---E agora que vae fazer a tudo isso, á sua mala? - -A velha fitou-o, e, em tom de instigação: - ---Deixo-lha cá! - -O outro não pareceu surpreso, não protestou; apenas repetiu: - ---Deixa-a cá? - -Mas n’isto estendeu o pescoço para a porta, apurou o ouvido. - ---Vem ahi gente, segredou. - ---Quem? - ---Gente nossa, provavelmente... - -Entrou a mulher, seguida do campónio sardento. Este atirou o bonné para -um canto, foi até junto do dono da casa e disse-lhe: - ---E então? - -O outro meneou a cabeça affirmativamente. - ---Ó, Stépane! lembrou a mulher. Talvez a nossa viajante tenha vontade -de comer. - ---Não, muito obrigada, minha querida senhora. - -Voltou-se o segundo camponez para ella e em voz rápida, um tanto -quebrada pela commoção: - ---Permitta que eu mesmo me apresente. Chamo-me Pedro Rabinine, por -alcunha o _Sovela_. Percebo alguma coisa d’esses negocios... Sei ler e -escrever e não sou um imbecil, para falar assim... - -Apertou a mão que Pélagué lhe estendera, saccudiu-lha, emquanto ia -dizendo a Stépane: - ---Ora vê tu lá, Stépane! A esposa do nosso senhor e amo é uma bôa -senhora, pois não é? E apezar d’isso, ella diz que todas estas coisas -são tolices, extravagancias!... que são estudantes e garotos que se -divertem a alvoroçar o povo. Mas não vimos nós dois, ainda agora, ser -preso um homem de bem? E agora estás vendo esta mulher que já não é -criança nenhuma e que tambem não me parece que seja fidalga, e que está -do nosso lado... Não se offenda! Como se chama? - -Falava rápido, mas com voz distincta, quasi sem tomar folego; o queixo -tremia-lhe nervosamente e com os olhos franzidos, perscrutava o rosto -e toda a pessôa de Pélagué. Andrajoso, os cabellos em desalinho, -dava a pensar que acabasse d’alguma lucta em que tivesse vencido o -seu adversário e que o dominasse a alacre excitação d’uma victória. -Agradou-se d’elle Pélagué por amor de tal vivacidade e principalmente -por têl-o ouvido falar com simplicidade e franqueza desde o começo. -Correspondeu com amigavel olhar ás suas bôas palavras. O outro -saccudiu-lhe outra vez a mão e pôz-se a rir, n’um risinho secco e -meigo, muito accentuado. - ---É negocio de seriedade, bem vês, Stépane. É coisa que a todos dá -honra! Eu bem te dizia que o povo começava a fazer obra pelas suas -mãos... A fidalga, essa, não quer dizer a verdade, porque isso ia -prejudical-a. Mas o povo quer ir para a frente, está decidido a isso, -sem lhe importarem perdas nem prejuizos, estás entendendo? Pois se elle -leva má vida, se não tem senão prejuizos de todos os lados, se elle não -sabe para onde se ha de voltar, pois que não houve outra coisa senão -«Prende! Mata!» - ---Bem vejo! approvou o outro, abanando a cabeça. E acrescentou: - ---Está em cuidado por causa da mala. - ---Não se inquiete, está tudo em ordem, tiasinha! A sua mala foi para -minha casa. Ha bocado, quando o Stépane me falou a seu respeito e -me disse que tambem era cá dos nossos, que conhecia aquelle homem, -disse-lhe eu: «Toma cuidado, Stépane! Nada de dar á lingua! Olha que -é coisa séria!» Mas vocemecê, ainda agora, tiasinha, logo adivinhou -tambem que a gente estava do seu lado. É que as caras da gente honrada -conhecem-se n’um pronto, porque ellas não são muitas por essas ruas, -ah, não!... A sua mala foi para minha casa! - -Sentou-se-lhe ao lado e alvitrou com uma sollicitação em cada olhar: - ---E se quer despejal-a, com todo o gosto a ajudamos... Precisam-se -livros por cá. - ---Quer dar-nos tudo! declarou Stépane. - ---Está muito bem, tiasinha! Deixe, que havemos de saber empregal-os bem. - -E bruscamente, levantou-se, entrou a rir. Depois, passeando a passos -largos pela cabana, satisfeito: - ---É o que se póde chamar um caso de pasmar... ainda que bem simples, -afinal! Parte-se a corda n’um sítio e concerta-se n’outro. E a coisa -assim não vae mal... Olhe que é muito bom, esse periódico, tiasinha; -faz effeito, abre os olhos ao povo. Está visto que não agrada aos -nossos senhores! Trabalho eu agora na casa d’um proprietário, a -sete kilometros d’aqui; sou marceneiro... A mulher d’elle é boa -creatura, forçoso é concordar; dá-nos livros... alguns bastante -estúpidos. Vamo-os lendo e vamo-nos instruindo... Ficamos-lhe em geral -reconhecidos. Mas quando eu lhe mostrei o tal jornal, zangou-se e -disse: «Deixe isso, Pedro. Os que o escrevem não passam d’uns garotos -e d’uns tolos, e com isso vocemecê não arranja senão desgostos... a -cadeia e a Sibéria. Aqui tem o que lhe póde acontecer se continuar a -ler esses papeis.» - -Apóz um instante de reflexão, perguntou: - ---Diga-me: aquelle outro... o homem... é da sua familia? - ---Não, respondeu Pélagué. - -Pedro pôz-se a rir só comsigo, muito satisfeito, sem que os outros -soubessem porquê. Afigurou-se a Pélagué uma injustiça falar de Rybine -como de qualquer estranho. - ---Não é da minha familia, explicou; mas ha muito que o conhecia... -Respeito-o como se fôsse meu irmão... - -Mas não achava a expressão que buscára. Tal deficiencia tornava-se-lhe -dolorosa; e não poude conter o pranto. Na choupana reinava melancolico -silencio. Pedro inclinou a cabeça sobre o hombro; dir-se-ia que -escutava o que quer que fôsse. Reclinado sobre um dos cotovellos, -Stépane tamborilava. A mulher d’este, encostada ao fogão, conservava-se -na sombra. Pélagué sentia-lhe o olhar fito e, por vezes, olhava tambem -para ella, entrevia-lhe o rosto redondo, de pelle escura, nariz -direito, o mento talhado em angulo e com uma expressão de attenta -vigilancia nos olhos esverdinhados. - ---É portanto, um amigo! concluiu Pedro. É um homem de valor, por certo! -Tem-se em grande conta e assim devem todos fazer. Aquillo é que é um -homem! não é assim, Tatiana?... Que dizes? - ---É casado? interrompeu Tatiana. E franziu com força os labios delgados -da sua bocca meuda. - ---É viuvo, respondeu a velha com tristeza. - ---Por isso tem tanta coragem! declarou Tatiana em tom profundo e grave. -Um homem casado não se portava assim; tinha medo! - ---E então eu, não sou casado? E no entretanto... observou Pedro. - ---Basta! disse a mulher sem o fitar e com uma contorção de altivez nos -labios. Que fazes tu? Falas muito e lês um livro de tempos a tempos! -Não é por andares aos segredinhos com o Stépane, pelos cantos, que o -povo é mais feliz. - ---Mas é que ha muito bôa gente que me dá attenção! contestou, -offendido, o campónio. Fazes mal em falar-me d’essa maneira! Eu sou -como uma espécie de fermento... - -Stépane olhava para sua mulher, sem uma palavra. Por fim, baixou a -cabeça. - ---Para que se casa a gente do campo? perguntou ella. Porque precisam de -quem trabalhe, dizem elles. Para trabalhar em quê? - ---Então tu não tens bastante em que te entretenhas? interrompeu -Stépane, já zangado. - ---E para que serve esse trabalho? O povo continúa a viver na miseria! -Nascem os filhos e nem sequer ha tempo para tratar d’elles, porque o -trabalho urge, o trabalho, que nem nos dá o pão! - -E dito isto, foi sentar-se ao lado de Pélagué. N’uma obstinação que não -lhe dava á voz nem tristeza nem lagrimas, proseguiu: - ---Eu tive dois... Um morreu escaldado pelo samovar, tinha dois annos; -o outro nasceu morto... sempre por causa do maldito trabalho! Que -felicidade me trouxe então o casamento? O que acho é que a gente do -campo faz mal em casar: ficam de mãos amarradas, e ahi está! Se se -conservassem livres, haviam de combater abertamente em prol da verdade, -como esse homem que tu conheces... Não tenho razão, mãesinha? - ---Tens! declarou. Sim, minha querida; d’outra fórma não se podem vencer -as contrariedades da vida. - ---E a senhora, tem marido? - ---Já morreu. Tenho um filho... - ---Onde está elle? Vive comsigo? - ---Está na cadeia! - -E no seu coração, um pacifico orgulho temperava a tristeza de que taes -palavras vinham sempre acompanhadas. - ---É já a segunda vez que o encarceram por ter compreendido a verdade -divina e por andar a semeal-a, abertamente, sem se poupar a fadigas!... -O meu filho é moço, é bello rapaz e é intelligente! Foi d’elle a -idéa de fundar um jornal; foi graças a elle que o Rybine se prestou -a distribuil-o, havendo a notar que o Rybine tem duas vezes a idade -d’elle! Vão julgal-o dentro em pouco, por tudo isso. Mas depois, -quando o meu filho estiver na Sibéria, fugirá e voltará a continuar na -campanha. - ---Temos já muita gente e o número augmenta sempre! Todos estão -decididos a luctar até á morte, pela liberdade, pela verdade! - -Então, pôz de lado toda a prudencia. Não citou nomes, mas contou tudo -o que sabia do trabalho minaz a que se andava procedendo em favor do -povo. E ao entrar n’este assumpto tão caro ao seu espirito, punha nas -palavras toda a energia, todo o excesso do amor que tão tarde brotára -n’ella sob os repetidos golpes da adversidade. - -A voz affluia-lhe igual; accudiam-lhe agora as palavras com tranquilla -facilidade, e quaes pérolas multicolores e irisadas, enfiava-as com -rapidez no sólido fio do seu desejo de purificar a alma de toda a -lama e de todo o sangue d’aquelle dia. Os aldeões como que tinham -criado raizes nos sítios em que as suas primeiras palavras os haviam -encontrado. Immobilisados, fitavam-na em grave compostura. Chegava a -ouvir a respiração arquejante da mulher que se lhe sentava ao lado; e a -attenção do auditório fortificava-lhe a crença nas coisas que dizia e -promettia. - ---Todos os que se sentem esmagar pela injustiça e pela miseria, o povo -inteiro, devem correr ao encontro dos que por elle morrem nas prisões -ou nos cadafalsos. Não teem esses nenhum interesse pessoal em jogo. -Explicam qual é o caminho que conduz á felicidade de todos, mas dizem -abertamente quão difficil é esse caminho! Não constrangem ninguem, mas -quando tomamos logar nas suas fileiras, nunca mais os abandonamos, pois -vemos que teem razão, que esse caminho é o verdadeiro, e que não ha -outro. - -Era grato ao coração da anciã realisar finalmente o seu desejo: ella -própria falava agora ao povo, acerca da verdade! - ---Com taes amigos, póde o povo marchar sem receio: elles não cruzarão -os braços sem que o povo se tenha conjugado n’uma só alma, sem que -tenha bradado com uma voz unica: «Sou eu o supremo senhor; eu mesmo -farei as leis, iguaes para todos!» - -Fatigada por fim, calou-se Pélagué. Tinha a serena certeza de que as -suas palavras não se extinguiriam sem deixar vestigios. Os camponezes -continuavam a fital-a, como se ainda a escutassem. Pedro cruzára os -braços no peito e cerrára as palpebras, com um sorriso a brincar-lhe -nas faces sardentas. Com o cotovello na meza, Stépane inclinára-se, -adiantando todo o corpo, de pescoço estendido. Velava-lhe o rosto -uma névoa, um aspecto de maior sisudez. Sentada junto d’ella, com os -cotovellos firmados nos joelhos, Tatiana fitava os bicos dos sapatos. - ---Ah! ahi está! balbuciou Pedro. - -E sentou-se n’um banco, com precaução, a abanar a cabeça. - -Stépane endireitou lentamente o tronco, lançou rápido olhar a sua -mulher e estendeu o braço, como se quizesse alcançar alguma coisa. - ---Com effeito, começou elle, meditativo, quem quizer metter hombros á -empreza, é para se lhe entregar de toda a alma! - -Pedro interveio aqui, timidamente: - ---Está claro... e sem olhar para traz! - ---O negócio vae a bom caminho! continuou Stépane. - ---E em todo o mundo!... disse ainda Pedro. - - - - -XVIII - - -Recostada e com a cabeça reclinada na parede, escutava Pélagué as -reflexões dos dois homens. - -Tatiana levantou-se, olhou em roda, tornou a sentar-se. Com um brilho -metálico nas pupillas verdes, lançou olhares de desprezo aos dois. - ---Vê-se que tem sido muito infeliz! disse de súbito, voltando-se para -Pélagué. - ---É verdade! - ---A senhora fala bem... As suas palavras vão direitas ao coração. -Quando a gente a escuta, pensa: «Meu Deus! quem pudesse vêr, ainda -que não fôsse senão uma vez, gente tão bôa, viver vida tão bella!» -Como vivemos nós, aqui? Como uns carneiros! Eu sei ler e escrever... e -leio livros... reflicto muito; ás vezes, tenho idéas que nem me deixam -dormir de noite. E qual é o resultado de tudo isto? Se não reflicto, -soffro, e soffro em vão; se reflicto, é a mesma coisa! De mais, tudo -é baldado! Assim, esta gente do campo: trabalham, esfalfavam-se por -amor d’um pedaço de pão... e nunca possuem nada!... E é isso o que os -irrita; entram a beber, a bater uns nos outros... e lá vão outra vez -para o trabalho. E o que se apura d’ahi? Nada. - -Falava assim, deixando transparecer a ironia no olhar e na voz grave e -ampla, detendo-se por vezes, como para cortar as frases, tal a linha -com que estivesse costurando. Os homens nada objectaram. - -O vento rufava nas vidraças, susurrava no colmo do tecto, e por -momentos, soprava em brandas lufadas pela chaminé. Uivava um cão. Raras -gottas de chuva vinham, como a custo, fustigar a janella. Oscillava a -luz do candieiro, empallidecia e recomeçava de subito a brilhar, viva e -igual. - ---E aqui está para que vivem os homens! E é curioso: persuado-me de que -já sabia tudo isto! Todavia, nunca tinha ouvido nada parecido; nunca -tinha tido idéas d’este genero... nunca! - ---Tratemos de cear, Tatiana, e de apagar o lume! interrompeu Stépane -com voz abatida e vagarosa. Essa gente ha de pensar: «Os Tchoumakof -tiveram o lume acceso até muito tarde!» Para nós, isso não teria -importancia, mas é por causa da nossa visita. Talvez seja imprudente... - -A mulher logo se levantou, dando-se pressa em obedecer. - ---É certo! confirmou Pedro, com um sorriso. É preciso ter cuidado, -agora! Quando se tiver feito nova distribuição do jornal... - ---Não é por mim que falo, declarou Stépane, mesmo se me prenderem, a -desgraça não será grande! A vida d’um campónio nenhum valor tem. - -Experimentou Pélagué súbita compaixão por aquelle homem. E era mais -viva do que pouco antes a sua simpatia por elle. Agora, que já tinha -falado, sentia-se desajoujada do peso ignobil dos acontecimentos d’esse -dia; sentia-se contente comsigo mesma e cheia d’um sentimento de -benevolencia. - ---Não deve falar assim! disse ella. O homem nunca deve medir-se pelo -valor que lhe attribuem aquelles que só o julgam por apparencias -e d’elle só pretendem o sangue. Aprecie-se a si mesmo, na sua -consciencia, não para os seus inimigos, mas para os seus amigos! - ---E onde estão esses amigos?! exclamou o camponez. Nunca os vi! - ---Mas se eu te digo que ha amigos do povo! - ---Haverá, mas não aqui; e essa é que é a desgraça! contestou Stépane, -pensativo. - ---Pois bem! n’esse caso, é preciso que os criem. - -Reflectiu o outro e respondeu em voz baixa: - ---Sim... era o que se precisava. - ---Vamos para a mesa! propôz Tatiana. - -Durante a ceia, Pedro, a quem as exortações de Pélagué pareciam ter -preoccupado, voltou a falar com animação: - ---Sabe, tiasinha? Olhe que é bom que se vá d’aqui cedo, para não ser -notada. Vá á aldeia proxima; não vá á cidade; e tome uma carruagem. - ---Para quê? objectou o outro homem. Se eu próprio a levo comigo! - ---Nada d’isso! Se acontecesse alguma coisa, não faltaria quem indagasse -se tinha passado a noite em tua casa...--«E para onde foi ella?» - ---«Levei-a á aldeia próxima».--Ah, foste tu? Pois vaes para a -cadeia!...» Percebeste? E para que ha de a gente ter pressa de ir para -a cadeia? Cada coisa a seu tempo!... Mas se tu declarares que ella -dormiu cá em casa, que alugou carro e que tornou a ir-se embora, não te -pódem fazer nada. Ninguem é responsavel pelo que fazem os viajantes. Se -passam tantos cá pelo sitio!... - ---Já aprendeste a ter medo, Pedro? perguntou Tatiana, irónica. - ---É bom aprender de tudo! respondeu, dando uma punhada no joelho. É -bom saber ter coragem e é bom tambem saber ter medo! Lembras-te como -o escrivão lá do tribunal andou a incommodar e a perseguir o Baguanof -por causa d’aquelle periodico? Pois agora, o Baguanof nem por todo -o dinheiro do mundo tocaria sequer n’um d’esses papeis! Creia, bôa -mulher: para mim, é coisa facil imaginar bôas artimanhas; todos o -sabem cá no sitio. Sou capaz de distribuir livros e folhetos como -ninguem... tantos quantos quizer! A nossa gente é pouco instruida -e muito medrosa, é certo; todavia, a vida vae tão dura, que o homem -sempre se vê obrigado a abrir os olhos e a informar-se do que se passa. -E o livro responde-lhe francamente: «Muitas vezes, mais percebe o -ignorante do que o homem instruido... principalmente se o instruido fôr -um d’esses que abarrotam de fartura. Conheço bem o sitio e sei vêr com -olhos de vêr! Póde uma pessoa ir arranjando a vida, mas com esperteza -e muita habilidade, para não ir á forca logo d’uma assentada! As -autoridades tambem percebem que as coisas vão mudadas, que o camponez -anda sorumbático, pouco ri e é de poucas amabilidades... É que, em -geral, passava-se bem sem as taes autoridades!... Ainda ultimamente, -em Smoliakovo--um logarejosito perto d’aqui--vieram os homens para -cobrar uns impostos. Os camponezes então foram a correr buscar cacetes. -«Ah, bestas! Vocês revoltam-se contra o tzar!» gritou o commissário. -E estava lá um rústico, um chamado Spivakine, que respondeu: «Vá você -para o diabo com o seu tzar! Que vem a ser esse tzar que nos leva até á -ultima camisa do corpo?» Ora aqui tem em que as coisas param, tiasinha. -Escusado é dizer que o Spivakine foi preso e atirado para uma enxovia. -Mas ficaram as palavras d’elle, e até as crianças já as repetem. -Ficaram vivas, a bradar, essas palavras! - -Nem comia: falava, falava sempre, em murmurio rapido; os olhos, pretos -e astuciosos, brilhavam-lhe, muito vivos. E importunava largamente -Pélagué com mil observaçõesinhas sobre a vida do sitio, como se -estivesse a despejar um sacco de moedas de cobre. - -Por duas vezes lhe disse Stépane: - ---Anda, come! - -Elle agarrava n’um pedaço de pão, n’uma colher, e espraiava-se de novo -em considerações, falando, falando, como um pintasilgo a cantar. -Terminada a ceia, finalmente, levantou-se de brusco, declarando: - ---É tempo de voltar para casa! - -Approximou-se de Pélagué e saccudiu-lhe a mão: - ---Adeus, tiasinha! Talvez nunca mais nos tornemos a ver... Sempre lhe -quero dizer que tive muito prazer em travar relações comsigo e em -ouvil-a falar... sim, senhora, muito prazer! Tem mais alguma coisa na -mala alem dos livros? Um chale de lã? Está muito bem... um chale de lã, -ouves, Stépane? Elle já lhe traz outra vez a sua mala. Vamos, Stépane! -Adeus! Passe bem! - -Assim que os dois saíram, Tatiana tratou de preparar cama para a velha; -foi acima do fogão e ao sotão buscar umas roupas e dispôl-as sobre o -banco. - ---É um rapaz desembaraçado! observou Pélagué. - -A outra respondeu, interrompendo a tarefa para lhe lançar um olhar -furtivo: - ---É muito leviano! Faz muita bulha, muita bulha, mas não passa d’ali! - ---E seu marido? perguntou Pélagué. - ---É um bom homem. Não bebe, e damo-nos muito bem. O unico defeito -d’elle é ser de caracter fraco. - -Soergueu-se e proseguiu após um silencio: - ---De que se precisa agora? De sublevar o povo, é claro! Todos pensam -n’isso... mas cada um para seu lado! E o que é necessário é que se fale -n’isso bem alto; é forçoso que appareça alguem decidido a fazel-o. - -Sentou-se e perguntou sem transição: - ---A senhora disse que até já ha meninas finas e ricas a tratarem d’este -negocio, e que vão fazer leituras politicas aos operários... E ellas -não teem medo? não sentem repugnancia? - -E depois de ouvir attentamente a resposta de Pélagué, soltou profundo -suspiro e continuou, com as palpebras cerradas e movendo devagarinho a -cabeça: - ---Já li uma vez n’um livro que a vida não faz sentido. O que isto -queria dizer percebi eu logo á primeira! Como se eu não soubesse o -que é essa vida: a gente tem umas idéas, mas umas idéas desapegadas -umas das outras, e que andam a vaguear como carneiros estúpidos sem -pastor... Vagueiam, vagueiam... E não ha nada, não ha ninguem que as -reuna... porque a gente não sabe o que ha de fazer para isso! Ora aqui -está o que é uma vida que não faz sentido! A minha vontade era fugir -para longe d’ella, sem mesmo olhar para traz!... Muito infeliz é a -gente quando começa a perceber um poucochinho!... - -Esta magua, via-a Pélagué bem no brilho verde dos olhos da mulher, -n’aquelle rosto magro; ouvia-a vibrar n’aquella voz. Pretendeu -consolal-a, acalmal-a: - ---Mas a minha querida amiga compreende o que é necessário fazer-se... - -Tatiana interrompeu-a brandamente: - ---Mas se o que se precisa é saber-se como fazel-o!... Tem a sua cama -pronta... deite-se! - -E dirigiu-se para o fogão, grave e concentrada. Pélagué deitou-se sem -se despir. Tinha dôres nos ossos, quebrados de fadiga. Soltou um gemido -debil. Tatiana apagou o candieiro. E assim que as trevas reinaram -dentro da choupana, resoou novamente a sua voz grave e igual: - ---A senhora não reza... Eu tambem não acredito em Deus nem em milagres. -Tudo isso foi inventado para nos metter medo, porque sabem que sômos -estupidos! - -Pélagué, no seu leito improvisado, agitou-se, inquieta. Fitavam-na -pela janella as trevas infinitas e, por entre o silencio, attritos, -ruidos furtivos mal perceptiveis, perpassavam em torno. Com voz timida, -murmurou: - ---Pelo que respeita a Deus, não sei que dizer... Mas creio em Jesus -Christo e creio nas suas palavras: - -«Amar o proximo como a nós mesmos...» sim, eu creio n’isto! - -E de súbito, exclamou, perplexa: - ---Mas se Deus existe, porque nos abandonou? Porque não nos protege com -o seu poder misericordioso? Porque consente que a humanidade se divida -em duas castas? Porque consente o soffrimento humano, as torturas, as -humilhações, a maldade e as ferocidades de toda a especie? - -Tatiana não respondeu. No escuro, Pélagué podia divisar-lhe o contorno -vago do perfil erecto, que se desenhava em cinzento, no fundo negro do -fogão. E assim se conservava, immovel. Muito angustiada, Pélagué cerrou -as palpebras. - -De súbito, vibrou uma voz fria e dolorida: - ---Nunca perdoarei a morte dos meus filhos! Nem a Deus nem aos homens! -Nunca! - -A anciã sentou-se no leito, condoída da intensidade d’aquella paixão. -Lembrou com meiguice: - ---A senhora é nova; ainda ha de ter filhos... - -Apóz um silencio, a outra segredou: - ---Não! O medico disse que nunca mais poderia têl-os. - -Passou um rato a correr pelo chão. Um estalido secco e forte rasgou a -immobilidade do silencio, e de novo se ficaram ouvindo distinctamente -os mesmos attritos e o murmurio da chuva sobre o colmo, que, dir-se-ia, -dedos finos e trémulos acariciavam. As bategas caíam tristemente sobre -a terra e ritmavam o curso da longa noite d’outono. - -Mergulhada em pesada somnolencia, Pélagué ouviu uns passos ecoarem -surdamente da parte de fóra e em seguida, no corredor. Abriu-se -devagarinho a porta, e ouviu-se uma exclamação abafada: - ---Estás já deitada, Tatiana? - ---Não. - ---«Ella» está a dormir? - ---Sim, parece-me que sim... - -Brilhou uma claridade, que tremeluziu e logo se afogou nas trevas. O -campónio approximou-se do leito da velha e compôz a capa de pelles que -lhe cobria as pernas. Esta attenção impressionou profundamente Pélagué. -Fechou de novo os olhos e sorriu. Stépane, sem fazer bulha, despiu-se e -trepou para o sotão. - -Pélagué, immovel, prestava attento ouvido ás variantes preguiçosas do -silencio somnolento. - -Na sua frente, nas trevas, via desenhar-se o rosto ensanguentado de -Rybine. - -Chegou-lhe então aos ouvidos um leve murmurio que vinha do sotão: - ---Tu bem vês. Attenta n’essa gente que anda a trabalhar pelo bem de -todos! Gente idosa, até, e que passou por mil desgostos e depois de -moirejar toda uma vida! Chegou-lhes a sua occasião de descansar, mas -bem vês como se aproveitam d’ella!... E tu, Stépane, estás ainda novo, -és intelligente... e nada fazes! - -Respondeu a voz grossa do homem: - ---A gente não póde metter-se n’uma coisa d’essas sem pensar! Espera um -pouco, que aquella canção já eu conheço ha muito! - -Sumiram se as vozes, mas depois recomeçaram. Dizia Stépane: - ---Aqui está o que deve fazer-se: primeiro, é preciso falar com cada -homem em particular. Assim, por exemplo: com o Alécha Makof. É -instruido, valente e anda ha muito, zangado contra as autoridades. -Com o Sergio Chorine, tambem... É homem de juizo. Com o Kniazef, que -é honrado e homem decidido! E para começar é bastante!... Depois, -quando já tiver-mos um partidosinho, veremos... É preciso saber a -direcção d’esta mulher, para chegarmos á fala com a gente a quem ella -se referiu... Agarro no machado e vou-me de passeio até á cidade. -Se te perguntarem, dizes que fui ganhar uns cobres como rachador de -lenha. É bom tomarmos as nossas precauções. Tem a velha razão quando -diz que cada qual é que dá a si o seu proprio valor... E quando se -trata d’uma coisa d’estas, bom é que a gente dê a si grande preço, se -se quizer metter na coisa!... Olha aquelle campónio, aquelle Rybine! -Não era capaz de dobrar nem diante de Deus, quanto mais diante d’um -commissário!... Aguenta-se firme, como se estivesse enterrado no chão -até aos joelhos! E aquelle Nikita, an? Teve vergonha o homem!... E foi -milagre que tal succedesse... Ah! se o povo entra no movimento á uma, -muita gente ha de ir atraz d’elle! - ---Pois sim! Vêem espancar um homem e ficam para ali, de braços cruzados! - ---Não te exaltes, mulher! Olha, diz antes assim: «Deus seja louvado, -que não foram vocês mesmos que o tosaram!» Pois se elles tanta vez -obrigam o povo a bater nos presos! E o povo obedece! Lá no intimo, -talvez chore de compaixão, mas vae batendo!... Não se atrevem a -recusar-se áquella barbaridade, com medo de tambem apanharem para -baixo! Ha ordem para um homem ser o que quizer: um porco, um lobo... -mas não um homem--é proíbido! E quem desobedecer, livram-se logo d’elle -com a maior facilidade! Nada!... É preciso arranjar as coisas de fórma -a reunir muita gente e revoltar-se tudo ao mesmo tempo! - -Discorreu ainda por largo espaço. Umas vezes, falava tão baixinho, que -Pélagué quasi não compreendia; outras, erguia a voz, grossa e sonora. A -mulher então recommendava: - ---Devagar! Vaes accordal-a! - -Adormeceu profundamente a anciã. Foi como uma nuvem de oppressão que o -somno se precipitou sobre ella, a envolveu e a arrebatou. - -Despertou-a Tatiana quando a aurora, pardacenta, entrava a mirar com -gélidas pupillas as janellas da choupana. Por sobre a aldeia, no -silencio frio, a voz bronzea do sino planára e ia a morrer. - ---Fiz-lhe uma gôta de chá; beba-o, se não logo no carro, vae ter frio. - -Emquanto alisava as barbas desgrenhadas, Stépane, todo alvoraçado, -informava-se onde havia de procurar a sua hospede, na cidade. E parecia -a Pélagué o rosto do campónio mais definido, mais simpatico do que na -vespera. Ao tomar o chá, exclamou elle alegremente: - ---Como tudo isto é singular! - -O quê? perguntou Tatiana. - ---Este nosso encontro. É coisa tão simples, afinal!... - ---Na causa do povo tudo é d’uma simplicidade extraordinaria! disse -Pélagué pensativa e em tom de grande convicção. - -Despediram-se então marido e mulher, sem gastar muitas palavras, antes -manifestando com mil cuidados e attenções, sincera sollicitude. - -Já no carro, Pélagué pensava n’aquelle campónio e na sua maneira de -trabalhar com prudencia, como uma toupeira, sem ruido e sem descanso. E -continuava a ouvir a voz da mulher, descontente; revia o brilho secco -e febril dos seus grandes olhos verdes. Quantos annos vivesse, tantos -aquella paixão vingativa e feroz de mãe que chora os seus filhos, havia -de viver-lhe na memoria. - -Lembrou-se depois de Rybine, do seu rosto, do seu sangue, d’aquelle -ardente olhar, das frases que lhe ouvira e, de novo, o coração -confrangeu-se-lhe no amargo sentimento da sua impotencia contra as -féras. E em todo o percurso até á cidade, viu de contínuo, desenhado no -fundo tristonho d’aquelle dia pardacento, o perfil robusto de Rybine, -com a sua barba preta, a camisa em farrapos, mãos amarradas nas costas, -os cabellos desgrenhados, a fisionomia illuminada pela colera e pela -fé na sua missão. Pensava tambem nas innumeraveis aldeias e logarejos -onde o povo esperava em segredo a vinda da propaganda de verdade; nos -milhares de creaturas que trabalhavam silenciosas toda a sua vida sem -saber porquê, sem uma esperança... - -Quando reflectia no resultado da sua viagem, sentia no intimo um -contentamento meigo e irrequieto e decidia não mais pensar em Stépane -nem na mulher. - -Avistou de longe os campanários e telhados da cidade, e grata sensação -lhe reanimou o espirito inquieto, e lh’o tranquillisou: desfilavam-lhe -pela memoria as fisionomias cheias de preoccupação de todos os que -dia a dia iam ateando o fogo sagrado do pensamento e o espalhavam em -scentelhas pelo mundo. E a alma d’aquella mãe transbordava da serena -ambição de dar a todas aquellas creaturas toda a energia e todo o seu -amor de mãe. - - - - -XIX - - -Veio abrir-lhe Nicolao, despenteado, com um livro na mão. - ---Já?! exclamou alegremente. Está bem!... Estou mais contente agora! - -Piscava os olhos, amigavelmente, por detraz dos oculos. Ajudou Pélagué -a tirar a capa e disse-lhe, fitando-a affectuosamente: - ---Sabe? Vieram cá fazer uma busca esta noite. Eu perguntava a mim -proprio porquê. Receei que lhe tivesse acontecido alguma coisa... Mas -deixaram-me em paz, e logo soceguei: se a tivessem prendido, não me -deixavam assim com certeza! - -Levou-a para a casa de jantar. Pelo caminho, ia contando animadamente: - ---Ainda assim, fui despedido da repartição. Pouco desgosto me dá... -Estava já farto da estatistica do gado cavallar que não existe nas -herdades!... Tenho mais que fazer! - -Attentando-se no aspecto da sala, dir-se-ia que mãos vigorosas, em -estupido accesso de furia, haviam saccudido pela parte de fóra as -paredes da casa, até tudo ficar em completa desordem. Os retratos -jaziam pelo chão, os reposteiros e sanefas arrancados, pendiam em -farrapos; em determinado sitio uma taboa do sobrado fôra levantada, o -peitoril da janella, arrombado; ao pé do fogão, cinzas espalhadas. - -Na mesa, ao lado do samovar sem lume, estava loiça suja, presunto e -queijo em cima d’um pedaço de papel, nacos de pão, livros e carvão, -Pélagué sorriu. Nicolao mostrou-se confundido. - ---Fui eu que completei a desordem... mas não faz mal. Parece-me que -voltam cá hoje, e tanto que nem ainda comi nada. E então fêz boa viagem? - -Esta pergunta como que a magoou pesadamente em pleno peito: de novo a -imagem de Rybine se ergueu na sua memoria; sentiu-se culpada por não -ter falado d’elle logo ao chegar. Approximou-se de Nicolao e entrou a -contar-lhe tudo, deligenciando permanecer calma e não omittir pormenor -algum. - ---Foi preso! - -Nicolao teve um sobresalto. - ---Preso! Mas como? - -Ella com um gesto, fêl-o calar e proseguiu, como se, face a face, -o rosto da propria justiça se encontrasse na sua frente e a ella -estivesse reclamando contra o supplício a que assistira. Nicolao, -reclinado na cadeira escutava-a, fazia-se pallido e mordia os beiços. -A certa altura, lentamente, tirou os oculos, pousou-os na meza, -passou a mão pela cara, como se estivesse a limpal-a d’uma invisivel -teia d’aranha. As feições accentuaram-se-lhe, as maçãs do rosto -tornaram-se-lhe singularmente salientes, palpitaram-lhe as narinas. Era -a primeira vez que Pélagué o via n’aquella excitação, o que não deixou -de a assustar. - -Quando acabou a narrativa, viu-o levantar-se em silencio e pôr-se a -caminhar em grandes passadas, de punhos cerrados nas algibeiras. Por -fim, murmurou, comprimindo os dentes: - ---Deve ser um homem extraordinario!... Que heroismo! E vae soffrer -n’uma prisão como soffrem todos os que a elle se assemelham! - -Depois, parou em frente da sua narradora; ajuntou com voz vibrante: - ---Evidentemente todos esses commissarios, esses officiaes, não passam -d’uns instrumentos, d’uns cacetes de que sabe servir-se um patife -intelligente, um domesticador de animaes! Mas urge dar cabo do animal, -para o castigar de se ter deixado transformar em féra! Eu cá, matava-o -logo, esse cão damnado! - -Enterrava mais profundamente os punhos nas algibeiras, tentando, mas -de balde, reprimir aquella commoção de que Pélagué tambem se resentia. -Tinha os olhos contraídos como laminas de facas. Entrou de novo a -passear e ao mesmo tempo ia dizendo com frio rancor: - ---Ora vejam que coisa horrivel! Uma meia duzia d’homens espancam, -suffocam e opprimem toda a gente, para defenderem o funesto poderio de -que gozam sobre o povo! A ferocidade recrudesce, a crueldade torna-se -lei universal! É para meditar!... Uns batem e procedem como bestas, -porque estão certos da impunidade, porque os morde o desejo voluptuoso -de torturar, como a repugnante volupia dos escravos a quem se permittia -que manifestassem os instinctos servis e os habitos besteaes, em toda a -sua hediondez! Os outros envenena-os a vingança, e ainda os terceiros, -bestificados sob os maus tratados, tornam-se cegos, tornam-se mudos!... -E assim pervertem o povo, um povo inteiro! - -Deteve-se novamente, agarrou a cabeça entre as mãos. - ---É para bestialisar, mesmo sem se querer, essa vida feroz! concluiu em -voz baixa. - -Depois, dominou-se. Brilhava-lhe agora no olhar uma expressão decidida. -E foi quasi com tranquillidade que fitou a velha, cujo rosto as -lagrimas inundavam. - ---Não temos tempo a perder, Pélagué. Onde está a sua mala? - ---Na cosinha. - ---Está a casa cercada de espiões, não é possivel passar para fóra tal -quantidade de impressos, sob pena de sermos vistos... Não sei onde os -hei de occultar... Parece-me que a policia ha de voltar esta noite... -Não quero que seja presa. Ainda que muito nos custe, vamos queimar tudo -isso. - ---O quê? perguntou ella. - ---O que está dentro da mala. - -Foi então que ella compreendeu e, por grande que fôsse a sua tristeza, -a ufania do bom exito da sua viagem fez-lhe aflorar ao rosto um sorriso. - ---Mas a mala não tem nada! Nem uma folha de papel! declarou, -animando-se gradualmente. - -E, narrou a continuação das suas aventuras. Nicolao ouviu-a primeiro -com inquietação, depois com surpresa. Por fim, interrompeu-a para -exclamar: - ---É simplesmente maravilhoso! Tem uma sorte espantosa! - -Entrou a mover-se d’um lado para o outro, pasmado, e foi apertar-lhe a -mão. - ---Chega a commover-me pela confiança que tem no povo! Que bella alma a -sua!... Amo-a como nunca amei minha propria mãe! - -Ella tomou-o nos braços e por entre soluços de contentamento, -approximou dos seus labios a cabeça de Nicolao. - ---Talvez me tivesse exprimido nesciamente, ha pouco! murmurou, -commovido e desconcertado pela novidade do sentimento que experimentava. - -Pélagué, convencida de que Nicolao se sentia profundamente feliz, -seguia-o com um olhar em que transparecia affectuosa curiosidade; -queria compreender por que se mostrára tão apaixonadamente vibrante. - ---Em geral, tudo corre ás mil maravilhas! declarou elle, a esfregar as -mãos, com um risinho caricioso. Sabe? Passei singularmente bem estes -ultimos dias. Estive sempre com operarios; fiz-lhes umas leituras, -conversámos, deram-me ensejo a que os observasse... Juntei no meu -coração sensações admiraveis, tão puras e sãs!... Que bella gente! -Tão francos, tão claros como os dias de maio! Falo dos operarios mais -novos; são robustos, são sensiveis, teem sede de compreender tudo!... - -Ao vêl-os, adquire-se a certeza de que a Russia ha de vir a ser a mais -brilhante democracia do mundo! - -Erguera o braço como para firmar um juramento. Passado um instante, -continuou: - ---Como sabe, eu era funccionario n’uma repartição do estado. Foi ali -que o meu feitio se azedou: no meio de algarismos e de papelada. Um -anno d’aquella vida bastou para me deturpar o caracter. Porque eu -estava habituado a viver entre o povo e quando me separo d’elle, -sinto-me pouco á vontade. Sempre propendi com todas as minhas forças -para a vida popular. E agora já posso viver de novo em liberdade, -confraternisar com os operarios, ensinar-lhes o que sei! Compreende? -Assim, estarei junto do proprio berço do ideal que vem surgindo, junto -da propria energia creadora nascente. É o que me parece admiravelmente -simples e bello e tambem terrivelmente excitante! Torna-se um homem -mais novo, mais decidido, mais calmo, e disfructa de uma existencia -integra! - -Aqui, riu, expansivo. E d’aquelle contentamento partilhava Pélagué. - ---E depois, que creatura excessivamente bôa a senhora é! declarou elle -ainda. Tem em si uma força tão poderosa e tão seductora! Attrae a si as -almas com tal persuasão! Sabe descrever tão completamente as pessoas! -Sabe vêl-as tão bem! - ---Vejo a sua existencia e compreendo-o, meu amigo! - ---Todos a estimam... E que maravilhosa coisa é estimar uma creatura -humana!... É tão bom! Se soubesse! - ---É o meu amigo que sabe ressuscitar os entes humanos d’entre os -mortos! murmurou a anciã com calor, acariciando-lhe a mão. Meu amigo, -quanto mais penso, mais vejo quanto ha a fazer e de quanta paciencia -precisamos! E o que eu quero é que não perca a coragem. Oiça o resto... -A mulher, ia eu dizendo, a mulher do tal camponez... - -Nicolao sentára-se ao lado d’ella. Tinha desviado o rosto prazenteiro, -e passava a mão devagar pelos cabellos. Mas d’ahi a pouco tornava a -dirigir o olhar para Pélagué, escutando avidamente a narrativa. - ---Que sorte admiravel! exclamou. Com effeito, era muito possivel que -fôsse presa... Mas não! O que parece é que essa gente do campo tambem -se vae mexendo. Não é para admirar, afinal! E essa tal mulher, parece -que a estou vendo d’aqui. Sim, compreendo esse coração accêso em ira. E -tem razão em dizer que uma dôr tão profunda jamais se extinguirá!... -Precisavamos de quem se occupasse especialmente de animar essa gente do -campo!... Gente! Muita gente! É o que nos falta e por toda a parte! A -vida exige milhares de braços! - ---Para isso era necessario que o Pavel estivesse em liberdade... e o -André tambem, aventou ella em voz baixa. - -Elle lançou-lhe rapido olhar e curvou a cabeça. - ---Olhe, sabe? Vou dizer-lhe a verdade, ainda que lhe custe: conheço -bem o Pavel e estou certo de que vae recusar-se a fugir. O que elle -pretende é ser julgado, quer exibir-se em todo o seu prestigio... e não -renuncia a isso. É trabalho escusado!... Depois, fugirá da Sibéria... - -A mãe de Pavel murmurou: - ---Que se ha de fazer?... Elle sabe melhor do que eu o que deve decidir. - -Nicolao ergueu-se de chofre, novamente tomado de contentamento. -Inclinou-se para ella e disse: - ---Graças a si, passei hoje instantes melhores... os melhores da minha -vida, talvez!... Obrigado! Dê-me um abraço! - -E apertaram-se, silenciosos. - ---Como isto é bom! exclamou elle baixo. - -Pélagué deixára caír os braços e sorria em estos de felicidade. - ---Hum! murmurou Nicolao, fitando-a muito por detraz dos seus -oculos. Ainda se esse tal camponez não tardasse em vir!... Porque -é absolutamente preciso escrever um artigosinho ácerca do Rybine e -distribuil-o pelas aldeias, o que não pode prejudicar o Rybine, visto -que elle trabalha abertamente, por si mesmo, e que a causa do povo -tem tudo a ganhar. Vou escrevel-o agora mesmo. A Lioudmila imprime-o -ámanhã... Sim, mas como se hão de expedir os fasciculos? - ---Irei eu leva-los. - ---Não, obrigado! exclamou Nicolao com vivacidade. Não crê que o -Vessoftchikof pudesse tomar esse encargo? - ---Quer que lhe fale n’isso? - ---Experimente e ensine-lhe como elle se ha de haver n’esse negocio. - ---E eu então, que faço? - ---Não lhe dê isso cuidado! - -E pôz-se a escrever. Emquanto desembaraçava a mesa das loiças e dos -outros objectos, Pélagué não tirava a vista d’elle, seguindo a penna, -que lhe tremia na mão e traçava no papel longas séries de palavras. -Por vezes, um arrepio perpassava pela nuca do mancebo; outras vezes, -projectava elle a cabeça para traz e ficava-se de olhos fechados. -Pélagué sentiu-se emocionada. - ---Castigue-os! murmurou. Não os poupe, áquelles assassinos! - ---Aqui está! Está pronto! disse elle, levantando-se. Esconda este -papel comsigo. Mas olhe que se a policia vem, hão de tambem querer -revistal-a... - ---Leve-os o diabo! respondeu com o maior socego. - -Á noite, veio o doutor. - ---Porque anda a autoridade tão agitada? inquiriu elle, passeando pelo -quarto. A noite passada fizeram-se sete buscas!... Onde está o doente? - ---Foi-se embora hontem! respondeu Nicolao. É sabbado hoje e não podia -faltar á sessão de leitura, compreendes? - ---É uma estupidez ir para uma conferencia quando se tem a cabeça aberta! - ---Foi o que eu tentei demonstrar-lhe; mas nada consegui! - ---Era a vontade de ir fazer-se valente diante dos camaradas, disse -Pélagué; de lhes mostrar que tambem já derramou o seu sangue pela -grande causa! - -O doutor lançou-lhe um olhar, tomou uns ares de ferocidade e exclamou -com os dentes cerrados: - ---Que sanguinárias creaturas vocês são! - ---Pois então, meu amigo, já nada tens a fazer aqui, e nós esperamos -umas visitas. Vae-te embora! Pélagué, dê-lhe o papel. - ---Outra vez! exclamou o medico. - ---Vá! Toma e leva isto á imprensa. - ---Está dito; lá o levarei. Mais nada? - ---Sim... Está ali um espião defronte da casa. - ---Já o vi. E em minha casa tambem. Bem, até mais vêr! Até á vista, -mulher cruel! Sabem, meus amigos? A desordem do cemitério veio mesmo a -calhar, positivamente! Não se fala n’outra coisa em toda a cidade. Isto -impressiona o povo e obriga-o a reflectir. O teu artigo a esse respeito -estava muito bom e foi publicado em bella occasião. Eu sempre fui de -opinião que uma bôa desordem era mais util do que uma má concordia... - ---Está bom, vae-te! - ---Estás hoje pouco amavel, homem! A sua mão, tiasinha! O pequeno andou -como um pateta. Não sabes onde elle mora? - -Nicolao deu-lhe o endereço. - ---É preciso ir a casa d’elle amanhã... É um bello rapaz, não é verdade? - ---É verdade!... Excellente coração! - ---É preciso não o perder de vista, que elle não é tolo! disse o medico, -ao saír. É justamente essa rapaziada que ha de formar o verdadeiro -proletariado instruido, e occupar os nossos logares, quando nós nos -fôrmos para o sitio onde não ha, segundo creio, differenças de castas... - ---Sempre estás um tagarella! - ---Sinto-me contente; por isso dou á lingua!... Cá vou, cá vou... Então, -sempre contas ir para a cadeia? Desejo que descanses bem por lá. - ---Obrigado, mas não me sinto cansado. - -Pélagué escutava-os satisfeita por vêr os cuidados, em que ambos -estavam, no ferido. - -Logo que saíu o médico, Nicolao e Pélagué sentaram-se á mesa e ficaram -esperando as suas visitas nouturnas. Por muito tempo, em voz baixa, -Nicolau esteve falando dos companheiros que viviam no exilio, dos -que tinham fugido e continuavam trabalhando com nomes suppostos. As -paredes nuas do aposento reflectiam-lhe o som abafado da voz, como -se duvidassem d’aquellas singulares historias de heroes modestos e -desinteressados, que haviam sacrificado todas as suas forças á grande -obra do rejuvenescimento humano. Pélagué, mergulhada n’uma sombra de -agradavel tepidez, sentia o coração encher-se-lhe de amôr por aquelles -desconhecidos, que á sua imaginação se resumiam n’um sêr unico e -immenso, dotado de máscula e inexgotavel força. Lentamente, mas sem -nunca parar, tal sêr extraordinario caminhava pela terra, arrancando -o bolor secular da mentira, descobrindo aos olhos do homem a verdade -simples e positiva da vida, a qual a todos promettia libertar da -avidez, do odio e da falsidade, trez monstros que haviam subjugado pelo -horror o mundo inteiro. Esta visualidade gerava no intimo de Pélagué -impressão identica á resentida n’outros tempos, quando ella, ajoelhada -perante as imagens pias, terminava com uma oração de reconhecimento o -seu dia, que lhe ficava assim parecendo menos árduo do que os outros. -Agora, que o seu passado ia longe, este sentimento ampliava-se, -fazia-se mais luminoso e mais jovial, penetrava mais fundo na sua alma, -robustecia-se e exaltava-se mais e mais. - ---A policia não vem! exclamou Nicolao, interrompendo o fio das suas -narrativas. - -Ella fitou-o um instante e após curto silencio: - ---Que vão para o inferno! - ---Está claro!... Vocemecê deve estar fatigada a valer, precisa de -deitar-se. É robusta, ainda assim todos estes cuidados, todas estas -inquietações... supporta-as admiravelmente. Só os cabellos é que lhe -enbranqueceram muito depressa... Vá descansar, vá... - -Apertaram-se as mãos e separaram-se. - - - - -XX - - -Adormecera Pélagué, rápida e socegadamente, quando, de manhãsinha, a -despertaram umas pancadas violentas na porta da cosinha. E succediam-se -com teimosia. Ainda fazia escuro. Vestiu-se á pressa, correu a -perguntar, atravez da porta: - ---Quem está ahi? - ---Eu! respondeu voz desconhecida. - ---Quem? - ---Abra! Abra! murmurou a mesma voz, agora sumida e supplicante. - -Pélagué puxou o ferrolho e empurrou a porta: E entrou Ignaty, a -exclamar alegremente: - ---Ah! não me enganei! Cheguei a bom porto! - -Vinha coberto de lama até á cintura, o rosto desfigurado, fundas -olheiras, e do bonné saíam-lhe em desordem os cabellos annellados. - ---Grande desgraça lá por casa! segredou logo ao fechar a porta. - ---Já sei... - -Ficou espantado e perguntou com um pestanejar de curiosidade: - ---Como assim?... Por quem? - -Contou-lhe Pélagué em breves palavras o encontro que tivera. - ---E os outros dois teus camaradas, tambem os prenderam? - ---Não estavam lá: tinham ido á junta d’inspecção. Prenderam cinco, -contando com o Rybine. - -Fungou, n’um accesso de riso, e explicou: - ---Eu, como vê, escapei. Provavelmente andam em minha busca... Pois que -procurem! Não volto para lá nem por todo o oiro do mundo! Ainda assim, -ainda lá ficaram seis ou sete rapazes e uma rapariga, com quem se póde -contar! - ---Mas como pudeste escapar? - ---Eu? exclamou Ignaty, sentando-se n’um banco e olhando em roda. Os -policias vieram de noite, direitinhos á fabrica, mas um minuto antes -já o guarda campestre tinha vindo a correr bater-nos na janella: -«Attenção, rapaziada, vêm prendel-os!» - -Pôz-se a rir e a limpar a cara com a aba da blusa. E proseguiu: - ---O tio Rybine não é homem para perder a cabeça... E olhe que o -provou!... Disse-me logo: Ignaty, corre á cidade! Lembras-te das duas -mulheres que aqui estiveram? E escreveu qualquer coisa n’um papel, -muito depressa... Toma, vae, adeus, meu irmão! disse-me elle. E deu-me -um empurrão nas costas. Eu atirei-me para fóra da cabana, escondi-me -entre umas moitas, puz-me a andar de gatas e ouvi chegar os guardas! -Eram muitos, appareciam por todos os lados! Cercaram a fabrica. Eu -estava por detraz d’uma sebe... passaram-me mesmo na frente. Depois, -levantei-me e entrei a andar, a andar... Andei um dia e duas noites, -sem parar. Estou estafado para uma semana; nem sinto as pernas! - -Mostrava-se satisfeito de si mesmo; illuminava-lhe um sorriso os -grandes olhos escuros; tinha um tremor nos beiços grossos e vermelhos. - ---Vou-te fazer uma gôta de chá n’um pronto! disse Pélagué sollicita, -agarrando no samovar. Mas emquanto esperas, vae-te lavando. Ficas -melhor depois! - ---O que eu queria era dar-lhe o bilhete. - -Levantou com difficuldade uma das pernas, dobrou-a, collocou o pé sobre -o banco, isto com innumeras caretas e gemidos, e começou a desenrolar -uma das ligaduras, que lhe envolviam ambos os pés. - -Nicolao appareceu á porta. Ignaty, confuso, tornou a pôr o pé no chão; -tentou levantar-se, mas cambaleou e caíu desamparadamente em cima do -banco, ao qual se agarrou ás mãos ambas. - ---Ai, que cançado que eu estou! - ---Bom dia, camarada! disse-lhe Nicolao em tom amigavel e com um signal -de cabeça. Espere, que eu o ajudo. - -Ajoelhou-se diante do operario e desenrolou rapidamente a ligadura, -emporcalhada e húmida. - ---É necessario esfregar-lhe os pés com alcool. Ha de fazer-lhe bem, -disse Pélagué. - ---Isso mesmo! approvou Nicolao. - -Ignaty fungou de novo, muito atrapalhado. - -Finalmente, achou Nicolao o bilhete; alisou-o, mirou-o um instante e -apresentou-o á velha. - ---Aqui tem! É para si. - ---Leia. - -Elle approximou dos olhos o pedaço de papel sujo e amarrotado e leu: - -«Mãesinha: não deixes que se perca o nosso negocio. Diz a essa senhora -que não se esqueça de fazer que se escreva sempre e muito, a respeito -das nossas coisas. Peço-te. Adeus. Rybine.» - ---Bello rapaz! disse Pélagué com melancolia. Estavam a esganal-o e -ainda elle se lembrava dos outros! - -Lentamente, Nicolao deixou descaír o braço em que tinha o bilhete, e a -meia voz: - ---É espantoso! - -Ignaty olhava para um e outro, vermiculando devagar com os dedos -emporcalhados do pé descalço. Pélagué, procurando occultar o rosto -inundado de lagrimas, foi para elle com uma celha com agua. Sentou-se -no chão e estendeu a mão para tomar a perna do homem. - ---Que quer fazer?... Não é preciso... - ---Deixa ver o pé, depressa. - ---Eu vou buscar o alcool, disse Nicolao. - -O rapaz mettia sempre mais a perna debaixo do banco, murmurando: - ---Não quero!... Então isso é coisa que se faça? - -Sem lhe responder, ella tratou de lhe desembaraçar das ligaduras o -outro pé. O rosto redondo de Ignaty distendeu-se de espanto. Pélagué -entrou a lavar o rapaz. - ---Sabes? disse ella com voz chorosa. O Rybine foi espancado!... - ---Palavra? exclamou Ignaty assustado. - ---É verdade. Quando chegou a Nikolsky, já elle vinha moído de pancada, -e ainda alli, o sargento e o commissario lhe deram murros, pontapés... -Estava todo coberto de sangue! - ---Ah, lá quanto a isso, é o officio d’elles, e conhecem-no a valer! -exclamou o operario, sentindo um calafrio percorrer-lhe as espáduas. -Tenho medo d’elles como do diabo! E os camponezes não lhe bateram? - ---Um só, á ordem do commissario. Os outros fizeram o seu dever; até não -consentiram que continuassem a maltratal-o. - ---Sim... O campónio começa a compreender... - ---Tambem lá os ha muito intelligentes, n’essa villa... - ---E onde é que os não ha? Ha-os por toda a parte! Sim, sempre é forçoso -que os haja; o difficil é descobril-os. Mettem-se ahi pelos cantos e -ficam a remoer aquillo lá por dentro, cada um para seu lado. Não teem a -coragem de se reunir! - -Nicolao trouxe uma garrafa d’alcool, deitou uns pedaços de carvão no -samovar e saíu sem dizer palavra. Ignaty, que o seguira com a vista, -curioso, perguntou em voz baixa: - ---É nosso mestre? - ---Na causa do povo não ha mestres, só ha camaradas! - ---É caso para pasmar! disse o operario, sorrindo entre perplexo e -incredulo. - ---O quê? - ---Tudo isto!... D’um lado, dão bofetadas na gente, do outro, lavam-nos -os pés... Haverá um meio-termo? - -A porta do aposento abriu-se de par em par e Nicolao respondeu: - ---Ha, sim, senhor! E esse meio-termo são os que lambem as mãos -d’aquelles que os maltratam e sugam o sangue dos maltratados. Aqui tem -o que é esse meio-termo! - -Ignaty fitou-o com deferencia e disse, após reflexão: - ---Isso agora é verdade! - ---Pélagué! instou Nicolao. Deve estar cansada... Deixe isso, que eu -continúo. - -O rapaz encolheu as pernas com inquieto acanhamento. - ---Está pronto! respondeu ella, erguendo-se. Vá, Ignaty: levanta-te -agora! - -O outro obedeceu, conservou-se um bocado n’um pé, ora no outro, -firmando-se fortemente no sobrado, e declarou: - ---Até parece que ficaram novos! Obrigado!... Muito obrigado! - -Fez uma pausa e ainda murmurou, a olhar para a celha com a agua suja: - ---Nem sei como hei-de agradecer-lhe sufficientemente... - -Os trez passaram para a casa de jantar e almoçaram. Ignaty poz-se a -contar em voz muito séria: - ---Fui eu que distribui os periodicos. Eu gosto muito de andar. O -Rybine tinha-me dito: «Vae tu leval-os sósinho! Se fôres apanhado, não -suspeitam de mais ninguem». - ---E ha muita gente que os leia? perguntou Nicolao. - ---Todos os que sabem lêr. - -Pensativo, Nicolao reflectiu: - ---Mas como havemos de arranjar que o fasciculo a propósito da prisão do -Rybine chegue de pressa ás aldeias?... - -Ignaty apurára logo o ouvido. - ---Pois eu me encarrego d’isso hoje mesmo! Já ha prontos esses -fasciculos? - ---Ha, sim. - ---Dê-mos, que eu os levo! propôz Ignaty com os olhos scintillantes, e a -esfregar as mãos. Eu sei bem onde e como os hei-de levar!... Dê-os cá! - -Pélagué sorria, ouvindo-o falar assim. - ---Mas tu estás cansado e tens medo; fôste tu mesmo que disseste não -querer voltar lá!... - -Elle produziu com os beiços um estalido, e, ao mesmo tempo que alisava -com a alentada mão os caracoes do cabello, declarou em tom de seriedade -e sangue-frio: - ---Estou cansado... Melhor, depois descansarei!... Quanto a ter medo, -isso é verdade!... Pois se vocemecê acabou de contar que elles batem -na gente até nos pôrem a escorrer sangue!... Quem é que tem vontade -de ficar estropiado? Eu me arranjarei:--vou de noite... Sempre hei-de -achar maneira de fazer o recado! Dê cá... Parto esta noite mesmo. - -Ficou um momento calado, de sobrolho franzido, e logo: - ---Vou d’aqui esconder-me na floresta. Depois, aviso os companheiros e -digo-lhes: «Vão lá ter comigo e sirvam-se». É o melhor que ha a fazer! -Se eu mesmo distribuisse os jornaes e fôsse apanhado, era uma pena por -causa dos jornaes... Já ha tão poucos, que é preciso ter muita cautella -com elles. - ---E o medo? Que fazes tu a elle? Inquiriu de novo Pélagué. - -Divertia-a deveras aquelle alentado rapagão de caracoes, pela -sinceridade que vibrava na menor das suas palavras, pela sua fisionomia -franca e pelas suas maneiras teimosas. - ---O medo é o medo e negocios são negocios! replicou elle, mostrando -muito os dentes. Para que está a mangar comigo? Então, já viram?... -Talvez não seja coisa de metter medo a uma pessôa?... Mas já que -é preciso, atira-se a gente ao lume! Quando se trata d’um negocio -d’estes... - ---Ah! meu filho! exclamou involuntariamente Pélagué, vencida pelo -entusiasmo e o contentamento que elle lhe inspirava. - -Elle sorriu acanhado: - ---Ainda mais esta: eu, seu filho! Alguma criancinha, talvez?... - -Nicolao, que não deixára de observar o rapaz, com olhar amigo, -interveio então: - ---Você não vae, homem! - ---Então, que devo fazer? Onde é preciso que vá? interrogou elle com -inquietação. - ---Outro irá em seu logar e você ha de explicar-lhe meudamente como elle -deve proceder. Quer fazer isto? - ---Está bem! respondeu Ignaty de má vontade, apóz um instante de -hesitação. - ---Nós nos encarregamos de lhe fornecer documentos, para lhe arranjarmos -um logar de guarda-matto. - ---E se fôr lá gente do campo apanhar lenha ou caçar clandestinamente, -de os prender? Para isso não sirvo eu!... - -Os dois puzeram-se a rir, o que acabou por de todo atrapalhar o -campónio, muito desgostoso. - ---Não tenha medo! disse-lhe Nicolao. Não ha de ter occasião para tal, -creia! - ---Isso agora é differente! commentou Ignaty. - -E já mais tranquillo, sorriu-se para Nicolao, confiado e alegremente. - ---Eu sempre gostava mais de ir á fabrica; dizem que ha por lá camaradas -bastante intelligentes... - -Parecia que no vasto peito lhe ardia um fogo, intermittente ainda e -que se extinguia por alternativas, não deixando ver mais que o fumo da -perplexidade e de inquietação. - -Pélagué levantou-se da mesa e foi á janella, dizendo, pensativa: - ---Como a vida é singular!... Por cada cinco vezes que rimos, choramos -outras tantas!... Que coisa pouco agradavel!... Já acabaste, Ignaty? -Vae dormir. - ---Não, senhora, não quero. - ---Vae dormir, já te disse. - ---Vocemecê é muito severa! Está bem, lá vou! E muito obrigado pelo seu -chá, pelo assucar... e pela sua amisade! - -Deitou-se na cama de Pélagué. Resmungava coçando a cabeça: - ---Agora fica tudo a cheirar a alcatrão cá em casa... Olhe que faz mal -em me amimar tanto, creia!... Eu não tenho somno... São ambos bôas -pessoas... Já não percebo nada... parece que estou a cem mil kilometros -da aldeia... E como elle falou bem a proposito no meio-termo... No -meio-termo estão os que lambem as mãos dos que maltratam os outros... -Demónio! - -E subitamente, com um ronco sonoro, arqueando muito as sobrancelhas e -de bôca entreaberta, adormeceu. - - - - -XXI - - -N’essa noite, já muito tarde, encontrava-se Ignaty n’um subterraneo, -sentado em frente de Vessoftchikof e segredava a este: - ---Quatro vezes, na janella do meio... - ---Quatro? repetia o bexigoso, com ares de grande concentração. - ---Sim; primeiro trez, assim... - -E bateu na meza com o dedo dobrado, emquanto contava: - ---Uma, duas, trez; e depois, mais uma vez, passado um instantinho... - ---Estou percebendo. - ---Ha de vir á porta um campónio de cabellos vermelhos, e ha de -perguntar-lhe: «Vem por causa da parteira?» E você responde-lhe: «Sim, -senhor, venho da parte do senhorio!» E não precisa mais, elle logo -percebe do que se trata! - -N’este colloquio, approximavam as cabeças; ambos altos e alentados, -falavam baixinho, abafando muito a voz. De pé, junto d’uma mesa, com -os braços cruzados sobre o peito, Pélagué observava-os. Todos aquelles -signaes cabalisticos, aquellas perguntas e respostas convencionadas -d’antemão, lhe davam immensa vontade de rir. E pensava: - -«Não passam ainda d’umas crianças!» - -Um candieiro seguro na parede illuminava as sombrias manchas do bolor e -as gravuras recortadas de jornaes. Pelo chão jaziam baldes amolgados, -fragmentos de zinco; e divisava-se pela janella, no ceu muito escuro, -uma grande estrella scintillante. Reinava em toda a quadra um forte -cheiro a ferrugem, tintas d’oleo e humidade. - -Ignaty ostentava grosso sobretudo pelludo em que muito se comprazia; -Pélagué via-o, volta e meia, acariciar com volupia a manga do espesso -casacão e inclinar com custo o largo pescoço, para melhor se admirar. E -um pensamento cantava no coração de Pélagué: - -«Filhos!... meus queridos filhos!...» - ---Ora aqui está! disse Ignaty, levantando-se. Então não se esqueça! -Primeiro, ir a casa do Mouratof, perguntar pelo avô... - ---Cá estou lembrado! respondia Vessoftchikof. - -Mas Ignaty não se dava por crente, repetia-lhe outra vez todos os -signaes combinados e todas as palavras de passe. Por fim, estendeu-lhe -a mão. - ---Agora não falta mais nada! Adeus, camarada! Dê-lhes recommendações -minhas! Olhe, diga-lhes assim: «O Ignaty está vivo e passa bem.» É boa -gente, verá!... - -Mirou-se satisfeito, passou a mão pelo casacão e perguntou a Pélagué: - ---Posso ir-me embora? - ---E has de atinar com o caminho? - ---Está claro que sim!... Até mais vêr, camaradas! - -E lá se foi, aprumado, arqueando o peito, de chapeu novo á banda e -as mãos enterradas nos bolsos. Na testa e nas fontes, os anneis dos -cabellos, loiros e infantis, dansavam-lhe jovialmente. - ---Ora até que emfim já tenho tambem trabalho! exclamou Vessoftchikof, -approximando-se da velha. Andava aborrecido; perguntava a mim mesmo -para que tinha saído da cadeia. Não faço senão andar escondido!... Ao -menos, na cadeia, sempre aprendia! O Pavel recheava-nos a cabeça que -era um gosto! E o André tambem nos limpava as idéas, sim senhora!... E -então, sempre se decidiu a fuga? Arranja-se isso? - ---Hei de sabel-o depois d’ámanhã! respondeu. E repetiu, suspirando, mau -grado seu. - ---Depois d’ámanhã... - -O bexigoso approximou-se-lhe, descansou-lhe no hombro a alentada mão e -opinou: - ---Podes dizer aos chefes que é coisa facil. Elles hão de dar-te -ouvidos! Ora vê tu mesma: aqui está a muralha da cadeia, ao pé d’um -lampeão. Em frente, ficam umas terras sem cultivo; á esquerda, o -cemitério; á direita, uma rua e o resto da cidade. Vem um accendedor -de candieiros mesmo de dia, dia claro, para limpar o lampeão; encosta -a escada ao muro, sobe, engata ao espigão da muralha os ganchos d’uma -escada de corda que ha de ficar para o lado do pateo, e está prompto! -Elles, na cadeia, já hão de saber a hora combinada, pedem aos presos de -crimes communs que armem qualquer desordem, ou armam-na elles mesmos, -e entretanto, os que estiverem na combinação marinham pela escada e -está tudo feito! E d’ali vem de passeio até á cidade, emquanto elles lá -ficam a procural-os pelo cemitério e nas taes terras de baldio! - -Gesticulava com vivacidade, expondo este plano, aos olhos d’elle -simples, claro e de extrema habilidade. Pélagué, que nunca conhecera -n’elle mais que um rapagão tosco e desageitado, admirava-se de vêr -aquelle rosto bexiguento tão cheio de vivacidade e intelligencia. -D’antes, os minguados olhos de Vessoftchikof tudo fitavam com irritação -e desconfiança; agora, era para crêr que outros os haviam substituido, -rasgados e brilhantes de scintillações uniformes e severas que -convenciam e emocionavam Pélagué. - ---Pensa bem: de dia é que ha de ser!... Sim, de dia! Quem ha de -imaginar que um preso se atreva a fugir de dia, á vista de todo o -pessoal da prisão? - ---E se os fusilassem? lembrou a mãe, horrorisada. - ---Quem? Se não ha soldados, e os carcereiros servem se dos revólvers -para pregar pregos! - ---Quasi que estou achando tudo isso simples de mais!... - ---Pois é como te digo; tu verás! Fala n’isso aos outros. Eu já -arranjei tudo: a escada de corda, os ganchos... Já falei cá com o meu -hospedeiro; é elle que ha de fazer de limpa-candieiros. - -Para além da porta, mexia-se alguem entre accessos de tosse; ouvia-se -um ruido de ferros velhos. - ---Ahi está elle, o hospedeiro! annunciou o bexigoso. - -Pela abertura da porta appareceu uma banheira de zinco, e uma voz -encatarroada praguejou: - ---Entra, diabo! - -Depois, surgiu uma cara redonda e barbuda, de cabellos grisalhos, sem -chapeu, d’expressão bonacheirona e grandes olhos esbogalhados. - ---Vessoftchikof foi ajudar o homem a fazer passar a banheira pela -porta; depois, o recemchegado, grande latagão corcovado, poz-se a -tossir com um grande entumecimento nas faces imberbes, escarrou e disse -na mesma voz rouca: - ---Bôa noite! - ---Pois agora, pergunta-lhe! convidou o rapaz. - ---O quê? Que querem perguntar-me? - ---É a respeito da fuga da cadeia. - ---Ah, sim! disse o velho, limpando o bigode com os dedos sujos. - ---Quer saber, Jacob? Ella não acredita que seja facil arranjar! - ---Ah, não acredita? Pois se não acredita, é porque não quer a coisa. -Mas nós dois, que queremos que isso se faça, acreditamos que seja -facil! respondeu serenamente o homem. - -Foi tomado d’um accesso de tosse que o dobrou em anglo recto, e em -seguida esteve muito tempo no meio da quadra a aspirar com força o ar -e a esfregar o peito. Fitava Pélagué com olhos de espanto. - ---Mas não sou eu quem decide esta questão! observou ella. - ---Mas fala lá com os outros; dize-lhes que está tudo arranjado! Ah! se -eu pudesse falar com elles, eu os convenceria! exclamou o bexigoso. - -Estendeu os braços em largo gesto e depois apertou-os como para -abraçar qualquer coisa. Vibrava-lhe na voz um sentimento cuja energia -assombrava Pélagué. - ---Vejam que mudança fez! pensou ella. - -E contestou em voz alta: - ---O Pavel e os companheiros é que hão de decidir. - -Meditativo, o outro ficou-se de cabeça baixa. - ---Quem é esse Pavel? interrogou o velho, tomando logar n’um banco. - ---É o meu filho. - ---Qual é o nome da familia? - ---Vlassof. - -Elle abanou a cabeça, puxou pela bolsa do tabaco e, emquanto enchia o -cachimbo: - ---Tenho ouvido falar. O meu sobrinho conhece-o. O meu sobrinho tambem -está na cadeia; chama-se Evetchenko. Conhece? Eu chamo-me Gadoune. -D’aqui a pouco, está na cadeia! Então é que a gente ha de viver feliz -e socegada, nós, os velhos! Um, da policia, prometteu que me havia -de pregar com o sobrinho na Sibéria... E ha de cumprir a promessa, o -excommungado! - -Entrou de fumar, escarrando para o chão de vez em quando. - ---Ah! ella não quer? continuou, virado para o rapaz. Isso é com -ella!... O homem é livre! Quem está cansado, que se sente; quem estiver -cansado de estar sentado, passeie!... Quem fôr roubado, que se cale; -quem fôr tosado, soffra com resignação! E se o matarem, que se deixe -caír!... Sempre é certo isto. Mas eu cá hei de fazer saír o meu -sobrinho da cadeia. Olá, se hei-de!... - -Estas expressões incisivas, parecidas com latidos, tornaram Pélagué -perplexa. As ultimas palavras do velho haviam até excitado n’ella uma -tal ou qual inveja. - -Pela rua fóra, ao vento gélido e á chuva, ia pensando no Vessoftchikof. - ---Como elle está mudado!... Vejam aquillo! - -E ao lembrar-se de Gadoune, meditou com um sentimento quasi de -religiosa piedade: - ---Ao que parece, não sou só eu que ando n’esta vida de promissão! - -Depois, a imagem de seu filho accudiu-lhe ao espirito: - ---Se elle consentisse, ao menos!... - - - - -XXII - - -No domingo seguinte, ao despedir-se de Pavel, na secretaría da cadeia, -sentiu que elle lhe deixava na mão uma bolinha de papel, o que a -fez estremecer de alvoroço. Lançou ao filho olhar interrogador e -supplicante, mas Pavel não lhe deu resposta alguma. Nos olhos azues do -filho nada viu além do sorriso sereno e decidido que conhecia bem. - ---Adeus! disse, suspirando. - -De novo, Pavel, ao estender-lhe a mão, deu ao rosto carinhosa expressão. - ---Adeus, mamã! - -Reteve ainda a mão do filho, á espera. - ---Não te inquietes... Não te zangues... supplicou elle. - -Estas palavras e o vinco de obstinação d’aquella fronte deram á mãe a -resposta esperada. - ---Porque dizes isso? murmurou, baixando a cabeça. Que ha n’essas tuas -palavras? - -E saíu rapida, sem o fitar para não traír com as lagrimas o seu estado -de espirito. Pelo caminho, chegava-lhe a parecer que lhe doía a mão em -que trazia o bilhete de seu filho; sentia o braço pesado como se lhe -tivessem dado uma pancada no hombro. E, ao entrar em casa, entregou -a Nicolao a bolinha de papel. Emquanto esperava que elle desdobrasse -o papel, fortemente comprimido, ainda teve um novo vislumbre de -esperança. Mas Nicolao disse-lhe: - ---Já o sabia! Aqui tem o que escreve: «Companheiros: não fugiremos; -não devemos fazel-o; nenhum de nós se presta a isso. Perderiamos -assim o respeito por nós mesmos. Tratem antes do camponez ultimamente -preso. Merece a vossa sollicitude. É digno das vossas deligencias. -Está soffrendo horrores, aqui. Todos os dias tem desaguisados com as -autoridades. Já passou vinte e quatro horas no segredo. É torturado sem -descanso. Todos nós intercederemos por elle. Consolem minha mãe; tratem -d’ella com carinho. Contem-lhe tudo isto; ella ha de compreender. -Pavel.» - -Pélagué ergueu a cabeça e com voz firme: - ---Contar-me, o quê? Já compreendi tudo! - -Nicolao virou de súbito as costas, puxou pelo lenço e assoou-se com -ruido. Murmurou: - ---Sempre apanhei um defluxo!... - -Occultou os olhos com a mão, sob pretexto de compôr os oculos, e -continuou, passeiando pelo quarto: - ---Olhe, sabe que mais?... Assim como assim, haviamos de nos saír mal da -empreza! - ---Que importa! Pois que seja julgado! disse a mãe de Pavel com o peito -a estalar de indefinida angustia. - ---Recebi ha pouco carta d’um collega de São Petersburgo. - ---Tambem da Sibéria se pode fugir, não é assim? - ---Com certeza... O meu collega diz-me que o processo cedo será -julgado. O veredicto já é conhecido: o degredo para todos. Ora veja a -senhora: aquelles patifes fazem da justiça uma comedia infame!... Está -compreendendo? A sentença é lavrada em São Petersburgo, antes mesmo da -decisão do jury! - ---Não pense mais n’isso, Nicolao! disse Pélagué resoluta. É inutil -pretender consolar-me ou explicar-me seja o que fôr!... O Pavel nunca -ha de fazer nada que não seja bem feito! E não se ha de apouquentar -senão pelo que o mereça!... Aqui, deteve-se para tomar folego. - ---Assim como tambem nunca apouquenta os outros... E elle estima-me! -Estima-me, sim! Não vê como se lembrou de mim? «Consolem-na», escreveu -elle, an? - -Batia-lhe forte o coração; a violencia do seu sentir fazia-lhe um tanto -andar a cabeça á roda. - ---Seu filho é uma bella alma! exclamou Nicolao com voz singularmente -vibrante. Estimo-o e venero-o profundamente! - ---E se nós tratassemos do Rybine! alvidrou ella. - -O seu desejo era entrar immediatamente em acção, partir, caminhar até -caír de fadiga, para depois adormecer satisfeita com o seu dia de -trabalho. - ---Sim, com effeito! respondeu Nicolao, proseguindo no passeio pelo -quarto. Que fazer n’este caso?... Eu preciso que a Sachenka... - ---Ella não tarda. Vem sempre que sabe que eu estive com o Pavel. - -De cabeça baixa, meditativo, sentou-se Nicolao no canapé, ao lado -d’ella. Mordia os beiços e cofiava a barbicha. - ---Que pena minha irmã não estar por ahi!... Ella é que havia de tratar -da fuga do Rybine. - ---Se fôsse possivel dar-lhe já fuga, emquanto o Pavel ainda ahi está... -Havia de ficar tão contente! disse ella. - -Esteve um instante calada e, de repente, baixinho e com dolencia: - ---Não compreendo... Porque se recusa elle?... uma vez que tem -possibilidade de o fazer?... - -Ressoou forte campainhada. Nicolao levantou-se de chofre. Olharam um -para o outro. - ---É a Sachenka! disse Nicolao com voz debil. - ---Nem sei como lho hei de dizer! exclamou ella no mesmo tom. - ---É verdade... é difficil! - ---Tenho pena d’ella! - -A campainha vibrou outra vez, mas com menos força, como se a pessôa que -se encontrava para alem da porta hesitasse tambem. Dirigiam-se os dois -a abrir, mas, chegados á cosinha, deteve-se Nicolao e segredou-lhe: - ---É melhor ir a senhora só. - ---Recusa-se a fugir? perguntou a rapariga com decisão, tão depressa -Pélagué lhe abriu a porta. - ---Recusa! - ---Bem o sabia! disse Sachenka simplesmente. - -Faz vento, chove... que abominavel tempo!... E elle está bom? - ---Está. - ---Contente e de saúde... como sempre! disse Sachenka a meia voz, ao -mesmo tempo que examinava uma das mãos. - ---Manda-nos dizer que devemos dar fuga ao Rybine, annunciou a mãe de -Pélagué, sem se atrever a fital-a. - ---Ah, sim? Pois é preciso levar esse plano a bom caminho! respondeu a -rapariga com vagar. - ---Sou da mesma opinião! declarou Nicolao, apparecendo á porta. Boa -noite, Sachenka! - -Ella estendeu-lhe a mão e perguntou: - ---E que obstaculo ha? Todos reconhecem que o projecto é engenhoso, não -é assim? Eu sei que ê este o parecer de todos. - ---Mas quem ha de encarregar-se de o organisar? Andam todos tão -occupados!... - ---Eu! disse com vivacidade a rapariga, pondo-se de pé. Eu tenho tempo. - ---Pois seja! Mas são precisos outros collaboradores... - ---Bem, eu os encontrarei! Vou tratar d’isso immediatamente. - ---Porque não descansa um pouco? propoz Pélagué. - -Ella sorriu e respondeu, deligenciando dar meiguice á voz: - ---Não se apouquente por minha causa... Não estou cansada... - -Apertou as mãos a ambos, silenciosa, e foi-se como viera, fria e de -semblante carregado. - -Pélagué e Nicolao foram á janella para a vêr. - -Atravessou o pateo e sumiu-se para além da grade. Nicolao pôz-se a -assobiar baixinho; em seguida, sentou-se á mesa e pegou na penna. - ---Ella quer tratar d’este negocio para distraír o seu desgosto! disse -Pélagué, baixo. - ---É evidente! confirmou Nicolao. E, voltando-se para Pélagué, com o -rosto bondosamente illuminado de um sorriso: - ---Este fel é que os seus labios não provaram, não é verdade?... Nunca -andou a suspirar por um homem amado! - ---Que idéa! exclamou ella, agitando negativamente a mão. Eu, a -suspirar? O que eu tinha era medo de que me obrigassem a casar com um -ou com o outro. - ---Ninguem lhe agradava então?... - -Reflectiu e depois respondeu: - ---Não me lembro, meu amigo. É provavel que houvesse um que me agradasse -mais do que os outros... E como não havia de ser assim?... Mas não me -lembro. - -Fitou o seu interlocutor e resumiu com dolorosa melancolia: - ---Fui tão maltratada pelo meu marido, que tudo o que se passou antes -d’elle é como se me tivesse apagado da lembrança. - -E ausentou-se por um instante. Quando voltou, disse-lhe Nicolao com -affectuoso olhar, como para lhe suavisar as penosas recordações, com -palavras repassadas de ternura e amor: - ---Quer saber? Tambem eu tive uma... historia... parecida com a da -Sachenka. Amava uma menina, uma criatura deliciosa! Era ella a estrella -da minha vida... Ha vinte annos que a conheço e a amo... porque a amo -ainda hoje, para dizer a verdade; amo-a tanto como sempre a amei... de -toda a minha alma, com gratidão! - -Pélagué via-lhe no olhar uma chamma viva e apaixonada. Elle descansára -a cabeça nos braços apoiados ao espaldar da poltrona e olhava para -longe, nem elle mesmo sabia para onde. Todo o seu corpo magro e -delgado, mas robusto, parecia tender para um ponto fixo, tal a haste da -planta virada para a luz do sol. - ---Mas então, case-se! aconselhou ella. - ---Oh! ha cinco annos que está casada! - ---Porque não casou com ella? Não o amava? - -Teve um momento de reflexão e respondeu: - ---Creio que me amava... Tenho mesmo a certeza! Porém, veja a senhora! -fomos sempre infelizes: quando ella estava em liberdade, era eu que -estava preso, e quando eu estava solto, era ella que estava na cadeia. -Viviamos na mesma situação da Sachenka e do Pavel! Finalmente, -mandaram-na por dez annos para a Sibéria... Tão longe!... Eu quiz -seguil-a... Mas tivemos ambos vergonha, pelo nosso amor... E fiquei. -No degredo, travou conhecimento com um dos meus camaradas, excellente -rapaz. Evadiram-se juntos... e agora vivem no estrangeiro... - -Tirou os oculos e limpou-os; depois, examinou as lentes contra a luz e -entrou de novo a esfregal-as. - ---Ah, meu caro amigo! disse affectuosamente Pélagué, abanando a cabeça. - -Lastimava-o Pélagué sinceramente, mas ao mesmo tempo, havia n’elle -o que quer que era que a forçara a sorrir, com bondoso e maternal -sorriso. Nicolao mudou logo de expressão, retomou a penna e batendo com -ella, ao ritmo das frases, declarou: - ---Afinal, a vida de familia diminue a energia do revoluccionario; é -certo, diminue-a sempre! Vem os filhos, o dinheiro rareia, é preciso -trabalhar para ganhar o pão... E o verdadeiro revoluccionario deve -desenvolver a sua energia sem desfallecimentos. E é preciso ganhar -tempo para isso! Se nos deixamos ficar para traz, vencidos pelo -cansaço, ou seduzidos pela possibilidade d’uma conquistasinha amorosa, -traímos a bem dizer, a causa do povo! - -Falava com voz firme e, bem que o rosto se lhe conservasse pálido, -mostrava no olhar uma decisão sem transigencias, inabalavel. - -De novo, violenta campainhada interrompeu as considerações de Nicolao. -Era Lioudmila. Vinha com as faces muito vermelhas do frio. Emquanto -tirava a capa de borracha, annunciou em tom de irritação: - ---Está marcado o dia do julgamento: é dentro d’uma semana! - ---Tem a certeza? gritou Nicolao do quarto, onde fôra. - -Pélagué correra para elle sem saber se era contentamento ou receio o -que a impellia. Seguira-a Lioudmila. Esta continuava, com a sua voz -grave, repassada de ironia: - ---Tenho, sim! O procurador substituto Chostak já lavrou o libello -de accusação. No tribunal, diz-se abertamente que o veredicto já -está pronunciado. Que significará isto? O governo terá medo de que -os magistrados tratem os seus inimigos com excessiva benevolencia? -Depois de ter pervertido os seus servidores com tanta perseverança e -paciencia, ainda não estará seguro do seu servilismo? - -E dito isto, sentou-se no canapé e pôz-se a esfregar as cavadas faces; -despedia do olhar sem brilho, infinito desprezo e a voz alteava-se-lhe -cada vez mais irada. - ---Não gaste a sua polvora inutilmente, Lioudmila! aconselhou Nicolao. O -governo não a ouve! - -As olheiras que assombreavam o rosto da mulher cavaram-se mais, -cobrindo-lhe as feições d’uma névoa de ameaça. Mordendo os lábios, -proseguiu: - ---Eu lucto contra o governo. Que elle me mate, bem vae: está no seu -direito, pois que sou sua inimiga! Mas que não ande a corromper as -criaturas para defender o poder; que não me obrigue a votar-lhe -profundo desprezo; que não me envenene a alma com tal cinismo! - -Nicolao, por detraz dos seus oculos, fitou-a muito, com um franzir de -palpebras e signaes approvativos. - -A outra continuou a discorrer, como se aquelles a quem odiava -estivessem na sua presença. Pélagué escutava attentamente aquellas -frases, mas sem as compreender. Machinalmente, a si mesma repetia as -mesmas palavras: - ---O julgamento... dentro d’uma semana... O julgamento!... - -Não podia conjecturar o que ia passar-se, nem como os juizes tratariam -seu filho. Mas sentia a imminencia d’alguma coisa implacavel, cuja -crueza e cuja ferocidade deixavam de ser humanas. - -Os pensamentos baralhavam-lhe o cérebro, velavam-lhe a vista d’um vapor -azulado e mergulhavam-na no que quer que fôsse frio, viscoso, que lhe -causava arrepios, nauseas e, que, infiltrando-se-lhe no sangue, lhe -chegava ao coração e suffocava n’ella todo o valor. - - - - -XXIII - - -Dois dias passou n’este nevoeiro de perplexidades e angustias. Ao -terceiro, veio Sachenka dizer a Nicolao: - ---Está tudo prompto. É para hoje, á uma hora. - ---Já?! exclamou admirado. - ---Não era coisa muito complicada! Bastava que arranjasse fato para o -Rybine e sitio para o esconder. Do resto encarregou-se o Gadoune. O -Rybine não terá de andar mais que uns cem passos. O Vessoftchikof, -disfarçado, está claro, irá ao encontro d’elle, fornecer-lhe-á um -casacão e um bonné e dir-lhe á onde deve ir. Eu espero o Rybine e -guial-o-ei. - ---Está muito bem... Quem é esse Gadoune? disse Nicolao. - ---Deve conhecel-o. É na loja d’elle que temos feito as leituras aos -serralheiros... - ---Ah, já me lembro!... Um velhote exquisito... - ---Sim; é um retelhador, por officio; antigo soldado... De intelligencia -pouco desenvolvida, nutre um odio inexgotavel contra todas as -violencias, contra toda a oppressão. É um tanto ou quanto filósofo, -rematou Sachenka, pensativa, a olhar pela janella. - -Ouvia-se Pélagué em silencio. Pouco a pouco, ia amadurecendo n’ella uma -idéa vaga. - ---O Gadoune quer dar fuga ao sobrinho, o Evtchenko, aquelle ferreiro de -quem tanto se agradavam todos pelo seu aceio e donaire, lembram-se? - -Nicolao affirmou com um gesto. - ---Pois tem tudo preparado na perfeição, continuou Sachenka; mas ainda -assim, começo a duvidar do bom exito... Os presos passeiam todos á -mesma hora. Quando virem a escada, ha de haver logo muitos a quererem -fugir... - -Fechou os olhos e calou-se por instantes. Pélagué approximara-se d’ella. - ---... E hão de estorvar-se uns aos outros. - -Estavam agora os trez junto da janella, Nicolao e Sachenka á frente, -Pélagué mais atraz. A conversação rapida dos dois primeiros despertava -cada vez mais em Pélagué um vago sentimento... - ---Pois hei de lá ir! annunciou de subito. - ---Para quê? perguntou Sachenka. - -E Nicolao aconselhou: - ---Não, não, querida amiga! Podia acontecer-lhe alguma coisa. Não! - -Ella fitou-os a ambos e repetiu, mais baixo, com insistencia: - ---Sim, hei de ir! - -Os dois trocaram rapido olhar. Sachenka encolheu os hombros e commentou: - ---Compreende-se... - -Depois, voltando-se para ella e tomando-lhe do braço, inclinando-se-lhe -ao ouvido, declarou com singeleza e cordealidade: - ---Mas olhe que eu previno-a: nada tem a esperar... - ---Minha querida! exclamou a mãe de Pavel, puxando-a para si, a tremer, -leve-me comsigo!... Eu não a estorvo... É que eu queria vêr... Não -creio, não julgo que seja possivel... uma evasão! - ---Ha de vir comnosco por força! limitou-se a dizer a rapariga para -Nicolao. - ---Isso é com vocês as duas! respondeu elle, baixando a cabeça. - ---Mas olhe que não podemos ficar juntas. Vocemecê tem de andar pelos -campos, pelos jardins. Vêem-se de lá os muros da cadeia, muito bem... -D’outra fórma, arrisca-se a que lhe perguntem o que anda ali a fazer. - -Com serenidade, Pélagué exclamou: - ---Sempre hei de achar uma resposta! - ---Não se esqueça de que os vigias da cadeia conhecem-na! lembrou -Sachenka. Se a vêem por ali... - ---Não hão de vêr-me! respondeu ella. - -E logo a seguir, a esperança que ella sempre acalentára sem mesmo, dar -por tal, incendiou-se em viva chamma que toda a animou: - ---Quem sabe?... Talvez que elle tambem... pensava, emquanto se vestia -apressadamente. - -Uma hora depois, encontrava-se ella em meio d’uns campos, perto da -prisão. Soprava vento agreste, que lhe enfunava as saias, enrijecia -o solo gelado, fazia oscillar o tapume velho d’um jardim, fustigava -com violencia o muro da cadeia e penetrava no pateo interior, d’onde -a vozearia subia, arrastada para o firmamento no seu irresistivel -sopro. Corriam velozes as nuvens, deixando por vezes entrever a immensa -profundidade do azul. - -A cidade estendia-se por detraz de Pélagué; e na sua frente, o -cemiterio. A uns vinte passos para a direita, elevava-se a cadeia. -Perto do cemiterio, dois soldados andavam a dar passeio a um cavallo. -Caminhavam com pesado passo, assobiavam e riam. - -Obedecendo a instinctivo impulso, acercou-se dos dois homens e -gritou-lhes: - ---Camaradas, viram a minha sobrinha? Não fugiu para aqui? - ---Não, não vimos, respondeu-lhe um. - -Afastou-se devagar, passou-lhes adiante e dirigiu-se para o muro do -cemiterio, olhando sempre de soslaio. De súbito, sentiu vergarem-se-lhe -as pernas e tornarem-se-lhe pesadas, como se o gelo lh’as tivesse -pregado ao solo: à esquina da cadeia tinha apparecido um accendedor de -candieiros, corcovado sob pequena escada, a correr, como todos elles -costumam fazer. Toda a tremer de susto, olhou Pélagué para o lado dos -soldados. Tinham ficado parados em certo sitio; o cavallo brincava, -pulando-lhes á roda. Viu depois que o homem já tinha encostado a escada -ao muro e por ella trepava sem pressa alguma. Viu-o fazer um signal -com a mão, descer rápido, e sumir-se na esquina da cadeia. Pulsava -violentamente o coração de Pélagué; os segundos decorriam com lentidão. -A escada mal era visivel entre as grandes manchas da lama e da caliça -escalavrada, que deixava a descoberto os tijolos. N’isto, surgiu na -crista do muro a cabeça de Rybine, e logo o corpo appareceu, passou -para o outro lado e deslisou. - -Segunda cabeça coberta de bonné de pello surgiu; rolou para o chão -uma especie de novelo preto que logo se sumiu na esquina do edificio. -Rybine aprumára-se e olhava em torno. Fez um signal com a cabeça. - ---Foge! foge! segredou Pélagué, batendo o pé. - -Tinha zumbidos nos ouvidos, parecia-lhe ouvir gritos, quando terceira -cabeça, esta loira, emergiu do espigão do muro. Comprimindo o peito ás -mãos ambas, Pélagué olhava, petrificada. - -A cara loira e imberbe teve um impulso para cima, como para se separar -do corpo, e depois, desappareceu por detraz do muro. Os gritos de ha -pouco faziam-se mais ruidosos e traduziam maior alvoroço; o vento -levava-os pelo espaço, de mistura com trillos agudos de apitos. - -Rybine caminhou ao longo do muro e depois transpôz um terreno que -separava a prisão dos predios da cidade. A Pélagué afigurava-se que ele -ia muito devagar e de cabeça alta demais; com certeza as pessoas que -com elle se cruzavam não lhe esqueceriam as feições. - ---Depressa!... Mais depressa! murmurou ella. - -No pateo da cadeia, houve qualquer coisa que se quebrou com ruido -secco, ouviu-se um tenido agudo de vidros partidos. Firmando os pés -no chão com toda a sua força, um dos soldados puxava pelo cavallo; -o outro, de mão ao lado da bocca, gritava o que quer que fôsse na -direcção do presidio, depois apurava o ouvido com a cabeça inclinada -n’esse sentido. - -Em crispações de incerteza, a mãe de Pavel olhava para tudo aquillo; os -seus olhos, que tudo haviam visto, em nada queriam crêr. A evasão, que -ella imaginára coisa terrivel e complicada, effectuara-se tão rapida e -simplesmente, que d’ella mal lhe restava consciencia. Em baixo, na rua, -já não se divisava Rybine. Os unicos traseuntes eram agora um homem de -elevada estatura, vestido de comprido sobretudo, e uma rapariguinha. -Appareceram trez vigias á esquina. - -Corriam, apertando-se uns contra os outros, com o braço direito -estendido para a frente. Um dos soldados precipitou-se ao encontro -d’elles, o outro mal podia acompanhar o cavallo, que, caprichoso e -rebelde, tentava recomeçar o brinquedo, esquivando-se e pulando. -Pélagué julgava vêr tudo em volta d’ella oscillar. Os apitos rasgavam -a atmosfera em trillos incessantes e desesperados. Compreendeu então -o perigo que corria. Toda trémula, foi andando ao longo do tapume do -cemiterio, sem perder de vista os guardas. Estes deitaram a correr para -a outra esquina da cadeia e desappareceram, assim como os soldados. - -Logo depois viu o sub-director da prisão, que ella conhecia bem, tomar -a mesma direcção. Trazia a farda desabotoada. Accudiam policias; -formava-se um ajuntamento... - -O vento soprava, deslocando-se em redemoinhos, como se quizesse -mostrar-se satisfeito; com elle chegavam aos ouvidos de Pélagué -fragmentos d’exclamações confusas: - ---Ella ainda lá está! - ---A escada? - ---Vá para o diabo! Porque espera!... - -De novo retiniram apitos estridentes. Todo este tumulto era do agrado -de Pélagué. Apressou o passo, ao mesmo tempo que ia pensando: - ---Logo, era possivel!... E se elle quizesse, tambem o tinha podido -fazer! - -De repente, ao voltar uma esquina do tapume, embateu em dois guardas, -acompanhados d’um policia. - ---Pára! gritou-lhe este, offegante. Não viste um homem de barba a -correr? Não veio para aqui? - -Ella apontou para os campos e respondeu com todo o sangue frio: - ---Vi, sim, senhor. Foi para ali!... - ---Jégourof! berrou o policia. Vá! Corre! Apita! E ha muito tempo? - ---Ha de haver um minuto... - -Mas teve a voz dominada pelo estridor do apito. Sem esperar a resposta, -o policia desatou a correr por entre os montões de lama gelada, -agitando as mãos na direcção dos jardins. De cabeça baixa e apito na -bocca, os outros precipitaram-se-lhe nas peugadas. - -Ficou um momento a seguil-os com a vista e voltou para casa. Sem que -um pensamento particular predominasse n’ella, sentia, não obstante, o -pezar por alguma coisa; havia no seu coração amargura e despeito. Ao -chegar proximo da cidade, fêl-a parar um trem que ia passando. Ergueu -a cabeça e viu na carruagem um rapaz de bigode loiro, rosto pálido e -que revelava cançaso. Elle fitou-a tambem. Ia sentado de esguelha; -era talvez por isso que parecia ter o hombro direito mais alto que o -esquerdo. - -Nicolao recebeu Pélagué com um suspiro de alivio. - ---Chegou sã e salva? Então como se passou isso? - ---Parece que conseguiram o que queriam. - -E diligenciando rememorar os mais insignificantes pormenores, contou o -que tinha visto, como se estivesse a repetir inverosimil historia. - ---Ora veja que temos sorte! disse Nicolao, esfregando as mãos. Mas que -susto em que estive por sua causa! Nem póde imaginar! Nada receei com -respeito ao julgamento. Quanto mais cedo fôr, tanto mais breve chegará -o dia da libertação do seu Pavel, creia! Talvez até possa evadir-se -quando fôr, a caminho da Sibéria... Quanto ao julgamento, aqui tem -pouco mais ou menos o que é. - -Entrou a descrever-lhe o tribunal. A mãe de Pavel escutava-o, mas -presentia que elle receava alguma coisa e diligenciava tranquillisal-a. - ---Está imaginando talvez que eu quero dirigir-me aos juizes, -entregar-lhes algum memorial! disse ella. - -Nicolao levantou-se bruscamente, agitou a mão e exclamou em tom de -melindre: - ---Que está dizendo? Nunca pensei n’isso! - ---Tenho medo, isso é certo! Tenho medo e não sei de quê! - -Calou-se. O olhar vagueava-lhe pelo aposento, ao accaso. - ---Em certas occasiões, quer-me parecer que hão de mofal-o, que hão -de injurial-o e dizer-lhe: «Oh, campónio, filho de campónio! que -descoberta foi essa agora?» E o Pavel é orgulhoso; ha de querer -responder-lhes... Ou então é o André que vae para lá zombar d’elles. -São todos tão entusiastas, tão francos e leaes, os nossos!... É por -isso que eu digo comigo mesmo: «Se acontecesse alguma coisa, se um -d’elles perdesse a paciencia, os outros haviam de apoiá-lo e lá os -tinhamos todos condemnados... por maneira que nunca mais apparecessem!» - -Nicolao, sombrio, atormentando a barba, permanecia silencioso. - ---Não posso expulsar taes idéas d’esta cabeça! continuou ella mais -baixo. É terrivel, uma audiencia! Vão para ali pôr-se a examinar -tudo, a avaliar tudo... a procurar onde está a verdade! É deveras um -horror!... Não é o castigo que amedronta, é o julgamento... a avaliação -da verdade... Não sei como hei de dizer... - -Sentia que Nicolao não compreendia o seu terror, e isto ainda mais a -embrulhava na demonstração. - - - - -XXIV - - -Este terror de Pélagué não fez senão augmentar durante os trez dias que -a separavam da audiencia e, quando esta chegou finalmente, levava ella -sobre si, para o tribunal, um fardo que toda a avergava. - -Cá fora, reconheceu varios dos seus antigos visinhos do arrabalde, -inclinou-se em silencio para corresponder aos seus cumprimentos e -abriu á pressa caminho por entre a multidão tristonha. Nos corredores -e depois, na sala, topou com as familias dos seus. Falava-se abafando -a voz; trocavam-se frases que ella não compreendia. D’aquella turba -brotava pungente sentimento que se communicava a Pélagué e a opprimia -ainda mais. - ---Senta-te! convidou Sizof, arranjando-lhe logar no banco, a seu lado. - -Obedeceu, compôz as dobras do vestido e olhou em torno. Divisava -vagamente umas faxas verdes e encarnadas, umas manchas, uns fios -amarellos e delgados, que brilhavam. - ---Foi o teu filho que levou o meu á perdição! murmurou uma mulher que -lhe ficava perto. - ---Cala-te d’ahi, Nathalia! interrompeu Sizof com o semblante carregado. - -Pélagué ergueu a vista para aquella mulher: era a mãe de Samoílof. -Um pouco mais adiante, estava o pae, calvo, de bello rosto ornado de -espessa barba ruiva talhada em leque. Semi-cerrava as palpebras e -olhava direito para diante de si, com um estremecimento involuntario de -vez em quando. - -Pelas altas janellas entrava uma claridade uniforme e turva; -escorregavam flocos de neve pelas vidraças. Entre as janellas, havia -um immenso retrato do czar em grossa moldura doirada, e com reflexos -oleosos na pintura; e a um e outro lado do quadro, occultavam a -parede as pregas hirtas dos pesadissimos reposteiros que revestiam as -janellas. Frente ao retrato, uma meza coberta de panno verde, occupava -quasi toda a largura da sala; á direita, por detraz d’uma especie -de gelosia gradeada, dois bancos de pau; á esquerda, duas filas de -poltronas forradas de vermelho. Os officiaes de diligencias, de golas -verdes e botões doirados iam e vinham pela sala, nos bicos dos pés. - -Na atmosfera, de equivoca pureza, perpassavam ruidos de vozes, -cochichando baixinho; pairava, vindo ninguem saberia d’onde, um vago -cheiro de farmácia. Todas aquellas côres vivas e aquellas scintillações -offuscavam a vista; penetravam no peito os odôres do ambiente d’envolta -com a respiração; o espirito sentia-se submerso n’uma especie de temor -inexprimivel. - -De súbito, alguem começou a falar em voz alta. Toda a assistencia se -pôz de pé. Pélagué teve um sobresalto e ergueu-se tambem, agarrada ao -braço de Sizof. - -No canto esquerdo da sala, tinha-se aberto uma porta alta, dando -passagem a um velhinho de oculos, muito alcachinado e de andar incerto. -Umas escassas suissas tremiam-lhe dos lados da carinha de côr terrosa, -o lábio superior, barbeado, quasi se lhe sumia na cavidade da bôca. -As maçãs do rosto e o queixo comprimiam-se-lhe sobre a altissima gola -da farda, dando a julgar que por baixo nada existia de pescoço. O -velho caminhava sustido por um rapaz alto, de cara de porcelana, muito -redonda e rosada. Atraz d’elles, vinham trez personagens revestidos de -uniformes recamados de bordados e mais trez sujeitos á paisana. - -Por muito tempo, estiveram a deliberar entre si, em volta da mesa; -depois, sentaram-se. Logo que todos tomaram os seus logares, um -d’elles, rosto imberbe e com a farda desabotoada, entrou a falar ao -velho, com uns modos de indifferente indolencia e movendo com custo -os beiços entumecidos. O velho ia-o escutando. Conservava-se hirto e -immovel, e Pélagué distinguia-lhe duas manchasinhas esbranquiçadas por -detraz dos vidros dos oculos. - -Junto de estreita secretária, na extremidade da mesa, um homem alto e -calvo folheava papeis, com uma tossinha sêcca. - -O velho fez um movimento para diante e começou a falar. A primeira -palavra pronunciou-a elle distinctamente, mas as outras parecia que se -sumiam ao sahir-lhe dos lábios delgados e sem côr. - ---Declaro... - ---Olha! segredou Sizof á sua visinha com uma leve cotovellada. E pôz-se -de pé. - -Por detraz do gradeamento abrira-se uma porta que dera passagem a um -soldado de espada desembainhada, ao hombro, e logo depois a Pavel, -André, Fédia Mazine, os irmãos Goussef, Boukine, Samoílof e mais -cinco rapazes desconhecidos de Pélagué. Pavel vinha a sorrir; André -cumprimentou Pélagué com um aceno de cabeça. - -Aquelles rostos, aquelles sorrisos e gestos de animação fizeram parecer -menos frio o silencio e tornaram a sala mais luminosa; suavisaram-se -os reflexos opulentos de oiro dos uniformes; um alento de confiança, -uma aragem de força viril penetraram o coração da mãe de Pavel, -arrancando-a ao seu torpor. Por detraz d’ella, pelas bancadas onde até -ali a turba se conservava acabrunhada, á espera, murmurios surdos e -reprimidos iam respondendo ás saúdações dos reus. - ---E é que não teem medo! ouviu ella Sizof segredar-lhe, ao passo que á -sua direita a mãe de Samoílof se desatava em soluços. - ---Silencio! gritou uma voz severa. - ---Tenho a prevenil-os... disse o velho. - -Pavel e André tinham ficado lado a lado; a seguir, estavam Mazine, -Samoílof e os irmãos Goussef, todos na primeira bancada. André cortára -a barba; mas o bigode crescera-lhe tanto, que as guias pendiam e -reuniam-se, assemelhando-lhe a redonda cabeça á d’um gato. Trazia -impressa na fisionomia uma expressão nova: nos vincos aos cantos da -bôca, havia alguma coisa penetrante, irónica, e o olhar tornára-se-lhe -sombrio. Mazine tinha agora o lábio superior sombreado por dois traços -escuros, e o seu rosto engordára; o Samoílof tinha os mesmos cabellos, -tão encaracolados como d’antes. - -O Ivan Goussef continuava a mostrar o mesmo amplo sorriso. - ---Fédia! Fédia! suspirou Sizof, baixando a cabeça. - -Pélagué respirava agora melhor. Apurava como podia, o ouvido ás -perguntas indistinctas do velho, o qual interrogava os reus sem olhar -para elles, com a cabeça entalada entre a gola da farda. Escutava as -respostas breves e calmas que seu filho ia dando. Queria-lhe parecer -que aquelle presidente e aquelles juizes não podiam ser más e crueis -pessoas. Examinava-lhes pormenorisadamente as fisionomias, tentando -perscrutar-lhes os sentimentos, e assomava-lhe ao coração uma nova -alvorada de esperança. - -Indifferente, o homem da cara de porcelana estava lendo um documento; a -sua voz circumspecta enchia a sala d’um tedio que causava somnolencias -no publico. Em voz baixa e animadamente, quatro advogados conversavam -com os réus; tinham todos uma gesticulação saccudida e veemente e -faziam pensar em grandes passarolos negros. - -Á direita do velho, um juiz ventrudo, de olhinhos sumidos entre as -papadas da gordura, enchia completamente toda a capacidade da poltrona; -á esquerda, estava um homem alquebrado, de bigode vermelho, de rosto -esmaecido. Reclinava com lassidão a cabeça no espaldar, de palpebras -semi-cerradas, meditando. O procurador tambem apparentava cansaço, -enfado e indifferença. Por detraz dos juizes, occupavam poltronas -varios individuos: um robusto e esbelto homem estava acariciando uma -das faces, com ares de grande concentração; o marechal da nobreza, já -grisalho, de rosto rubicundo e comprida barba, divagava o olhar dos -seus grandes olhos simplorios; o syndico do bailiado, a quem o enorme -abdomen visivelmente incommodava, diligenciava disfarçal-o sob uma aba -da blusa, que escorregava de contínuo. - ---Aqui não ha criminosos nem juizes! proclamou Pavel com voz firme. -Aqui só ha captivos e vencedores! - -Fez-se silencio. Durante alguns segundos, o ouvido de Pélagué nada -distinguiu além do ranger precipitado e estridente das pennas sobre o -papel e das palpitações do seu proprio coração. - -O presidente do tribunal parecia que estava escutando ou esperando -alguma coisa. Os juizes seus collegas agitaram-se nas poltronas. Elle -então disse: - ---Sim!... André Nakhodka!... Reconhece... - -Ouviram-se vozes segredar: - ---Levanta-te!... Levante-se! - -André poz-se de pé com lentidão e ficou a olhar para o velho, de -soslaio, emquanto frisava e desfrisava o bigode. - ---De que posso eu reconhecer-me culpado? disse, com um encolher de -hombros, o russo-menor, na sua voz cantante e arrastada. Eu não matei, -nem roubei: simplesmente protesto contra esta organisação da sociedade, -que obriga os homens a explorarem-se e a assassinarem-se uns aos outros. - ---Limite-se a responder sim ou não! disse o velho com esforço mas -perceptivelmente. - -Pélagué sentia que por detraz d’ella susurrava certa agitação; -todos falavam baixinho e mexiam-se muito nas bancadas, como para -desannuviarem os espiritos da teia d’aranha tecida pelo discurso -enfadonho do homem de porcelana. - ---Vês como elles respondem? segredou Sizof para a mãe de Pavel. - ---Sim! - ---Fédia Mazine, responda! - ---Não quero! declarou Fédia peremptoriamente, pondo-se de pé. - -Estava muito córado pela commoção e com os olhos brilhantes. Sizof -soltou um «Ah!» de mal contido espanto. - ---Não quiz defensor, portanto nada direi. Considero o julgamento -d’este tribunal como illegitimo!... Quem são os senhores? Foi o povo -quem lhes deu o direito de julgar-nos? Não, não foi o povo! Logo, não -os conheço! - -Tornou a sentar-se e occultou o rosto rubro, por detraz do hombro de -André. - -O juiz gordo curvou-se para o presidente, cochichando. O juiz de rosto -esmaecido lançou uma olhadela obliqua para os réus e, com o lapis, -passou um traço por cima do que quer que fôsse, escripto no papel que -tinha em frente. O syndico do bailiado abanou a cabeça e removeu os -pés do sitio em que os tinha, com precaução. O marechal da nobreza -conversava com o procurador; o administrador da communa prestava -attento ouvido ao que diziam e sorria, esfregando sempre uma das faces. - -De novo se ouviu a voz triste e sumida do presidente. - -Os quatro advogados escutavam attentos; os réus conversavam em segredo -uns com os outros; Fédia continuava a occultar-se ás vistas, sorrindo, -muito compromettido. - ---Então, não viste aquillo?... Falou melhor que todos os outros! -murmurou Sizof ao ouvido da sua visinha. Ah, aquelle brejeiro! - -Pélagué sorriu sem o compreender. Tudo o que se estava passando -não era para ella mais do que o prologo inutil e forçado d’alguma -coisa terrivel, que, ao surgir, havia de esmagar todo o auditório -sob gélido terror. Comtudo, as calmas respostas de Pavel e André -manifestavam tanta firmeza e decisão, como se as tivessem pronunciado -na modesta casinha do arrabalde e não perante juizes. A réplica -enthusiasta e juvenil de Fédia tinha-a divertido immenso. Pairava na -sala uma atmosfera de audácia e de mocidade, e, pela agitação de todo -o auditório, Pélagué sentia que não era ella só que lhe sentia os -effluvios. - ---A sua opinião? perguntou o velho. - -O procurador calvo ergueu-se com a mão apoiada na carteira e discursou -com verbosidade, citando numeros. Nada havia n’aquella voz que -infundisse terror. No emtanto, ao ouvil-o, Pélagué sentiu logo como uma -punhalada no coração: era um vago presentimento de alguma coisa hostil -e que se lhe afigurava ir desenvolvendo-se lentamente em uma fórma -indefinivel. Examinava tambem os juizes, mas não os compreendia: ao -contrario do que ella esperava, não os via zangar-se com Pavel e Fédia, -nem proferir palavras injuriosas contra os réus; queria-lhe parecer que -todas as perguntas que faziam não tinham para elles importancia alguma; -dir-se-ia que era de má vontade que as formulavam e que lhes custava -esperar as respostas; nada os interessava tudo sabiam já d’antemão. - -Agora estava um policia postado na frente d’elles e falava com uma voz -de baixo profundo. - ---Toda a gente apontava Pavel Vlassof como o principal cabeça de motim. - ---E André Nakhodka? perguntou com indolencia o jury gordo. - ---Esse tambem. - -Levantou se um dos advogados e disse: - ---Dá-me licença?... - -O velho perguntou a alguem: - ---Não tem objecção a apresentar? - -Pélagué chegava a julgar que os juizes se achavam todos doentes. -Traduzia-se um cansaço mórbido na menor das suas attitudes, nas vozes e -nas fisionomias. Via-se que tudo os enjoava: os uniformes, a sala, os -policias, os advogados, a obrigação de estarem ali sentados n’aquellas -poltronas, de interrogarem e de ouvirem. Raras vezes Pélagué se -encontrára na presença de gente de posição elevada e havia alguns annos -que nem sequer a tinha visto, e assim, as feições dos juizes eram para -ella como uma coisa inteiramente desconhecida, incompreensivel, mas -mais compassiva do que severa. - -Estava agora a falar o official de cara amarellada que ella conhecia -bem; referia-se a André e a Pavel, arrastando muito as palavras, -emfaticamente. E emquanto o ouvia, Pélagué commentava comsigo mesma: - ---Não sabes nada d’isto, meu pateta! - -Deixára de sentir compaixão ou receio pelos que se sentavam por detraz -do gradeamento; não temia pela sua sorte, e achava que lhes era inutil -a sua piedade, mas todos elles lhe inspiravam admiração e um sentimento -de amor que lhe acalentava docemente o coração. - -Jovens e robustos como eram, estavam sentados á parte, junto da parede -e quasi nem intervinham na conversação monotona entre testemunhas -e juizes, nas discussões dos advogados e do procurador. De vez em -quando, um d’elles tinha um sorriso de desprezo e dizia baixo algumas -palavras aos seus companheiros. André e Pavel, esses, falavam quasi -continuadamente com um dos defensores, a quem Pélagué conhecia de o -ter visto na vespera em casa de Nicolao e que por este era tratado de -«camarada». Mazine, mais animado e irrequieto que os outros, prestava -attento ouvido a esta conversa. De vez em quando, Samoílof segredava -meia duzia de palavras ao ouvido de Ivan Gousef. E Pélagué, olhando -para tudo, comparava, reflectia, sem que pudesse compreender aquella -sensação de hostilidade que a invadia, nem achar termos para exprimil-a. - -Sizof chamou-lhe a attenção com ligeira cotovellada; virou-se para -elle: estava com uns ares ao mesmo tempo satisfeitos e um tanto -preoccupados. Segredava: - ---Olha para a presença de espirito com que elles estão, aquelles -garotos, an? Parecem verdadeiros fidalgos, não é verdade? E no -entretanto estão a ser julgados... para os ensinar a não se metterem -no que não é da sua conta. - -Ella repetiu involuntariamente a si mesma: - ---Estão sendo julgados... - -Na sala, depunham testemunhas, com vozes incaracteristicas e -atabalhoadas; os juizes iam sempre interrogando, indifferentes e mal -humorados. O juiz gordo bocejava, dissimulando a bôca sob a mão inchada -de cieiro; o seu collega dos bigodes ruivos tornára-se ainda mais -lívido; por vezes, erguia o braço, premia fortemente uma das fontes com -um dedo, e ficava-se a fitar o tecto com o olhar morto. - -De vez em quando, escrevia o procurador algumas linhas a lapis e depois -recomeçava a cochichar com o marechal da nobreza. O administrador -cruzára as pernas e tamborilava n’uma dellas, com o olhar fixado com -gravidade no movimento dos dedos. - -Com o ventre descansando-lhe nos joelhos e sustentando-o prudentemente -entre as duas mãos, o syndico do bailiado quedára-se de cabeça pendida; -parecia ser elle o unico a escutar o murmurio monotono das vozes, além -do velho, enterrado na poltrona e immovel como um catavento quando não -sopra a brisa. Durou isto muito tempo e de novo o aborrecimento se -apoderava do auditório. - -Pélagué sentia que a justiça, a justiça implacavel que põe friamente -as almas a descoberto, que as examina, que tudo vê e tudo aprecia com -os olhos incurruptiveis e tudo pesa com mão leal, não tinha ainda dado -entrada n’aquella sala. Nada via por emquanto que a amedrontasse com -uma manifestação de força ou de majestade. Rostos descoloridos, olhos -sem brilho, vozes fatigadas, o indifferentismo tristonho d’uma tarde de -outono, eis tudo o que presenceava. - ---Declaro... disse o velho com clareza; e em seguida, depois de ter -abafado o resto da frase entre os delgados labios, ergueu-se. - -Logo a sala se encheu de rumores, suspiros, exclamações suffocadas, -accessos de tosse e arrastar de pés. Os réus foram conduzidos para fóra -do pretorio; ao saírem, faziam signaes com a cabeça e sorriam-se para -parentes e amigos. Ivan Goussef chegou mesmo a gritar com affabilidade -para quem quer que fôsse: - ---Não te deixes intimidar, camarada! - -Pélagué e Sizof saíram para o corredor. - ---Queres vir ao bufete, tomar chá? perguntou sollícito o velho -operário. Temos hora e meia para esperar. - ---Não, obrigada. - ---Bem, então tambem eu não vou. Viste os rapazes, an? Falam como se -elles fôssem os verdadeiros homens e os outros coisa nenhuma! Ouviste o -Fédia, an? - -De bonné na mão, vinha chegando n’este momento o pae de Samoílof. Com -um sorriso triste, perguntou: - ---Que dizem do meu filho? Não quiz advogado e recusa-se a responder... -Foi elle que teve a idéa. - -O teu filho era pelos advogados, Pélagué; o meu disse que não os -queria. E houve quatro que lhe seguiram o exemplo. - -A mulher esteve ao lado d’elle. Piscava de contínuo os olhos e limpava -o nariz com a ponta do lenço. Samoílof reuniu na mão toda a barba, n’um -punhado, e continuou: - ---Outra coisa que me dá que pensar: quando a gente olha para aquelles -demónios, parece que elles fizeram tudo aquillo inutilmente, que -comprometteram a sua vida sem necessidade e, de repente, fica-se a -scismar se elles não terão razão... - -E é bom não esquecer que lá na fabrica, o partido d’elles aumenta -continuadamente. De vez em quando, prendem-nos; mas nunca os apanham a -todos, assim como nunca se apanham os peixes todos d’um rio! E a gente -fica sempre a perguntar com os seus botões: «Quem sabe se elles dizem a -verdade!» - ---Para nós, é difficil compreender esta questão! declarou Sizof. - ---Sim, é certo! acquiesceu o outro. - -A mulher interveio então, depois de ter respirado com ruido: - ---Parece que estão todos de perfeita saúde, estes malditos juizes!... - -E continuou, com um sorriso no seu rosto emmurchecido: - ---Não estejas zangada, Pélagué, por eu te dizer ha bocado que o Pavel -era o culpado de tudo!... Para falar com franqueza, nem a gente sabe -qual é o mais culpado! Ouviste o que os espiões e os policias contaram -do nosso filho?... - -Claramente se via que tinha orgulho d’aquelle filho, embora ella -própria talvez nem désse por isso; mas Pélagué, que avaliava bem tal -sentimento, abriu-se em bondoso sorriso. - ---Os corações moços andam sempre mais próximos da verdade do que os -velhos! disse ella em voz baixa. - -Passeava-se pelo corredor; formavam-se grupos em que se discutia -concentradamente, todos pensativos e animados. Ninguem se conservava -afastado, toda a gente sentia a necessidade de falar, de interrogar e -de escutar o que se dizia. No estreito recinto da passagem, entre as -duas paredes brancas, os grupos iam e vinham, como se, impellidos por -violenta rajada, procurassem apoio n’alguma coisa firme e segura. - -O irmão mais velho de Boukine, um grande latagão de cara envelhecida -prematuramente, gesticulava, virando-se com vivacidade para todos os -lados. Protestava elle: - ---O syndico do bailiado nada tem a ver para o caso; não está aqui no -seu logar! - ---Cala-te, Constantino! exortava o pae, um velhinho, sempre a olhar em -volta, assustado. - ---Não, senhor, eu quero falar! Dizem que o anno passado matou um -empregado... por causa da mulher d’este! Ora que espécie de juiz vem a -ser aquillo, fazem favor de me dizer? A viuva do empregado vive agora -com elle!... Que havemos de concluir?... Além d’isso, toda a gente sabe -que é ladrão... - ---Ai, meu Deus!... Constantino!... - ---Tens razão, sim senhor! apoiou Samoílof. Tens razão! Não é um juiz -sério!... - -Boukine, que tudo ouvira, approximou-se rápido, levando atraz de si -numeroso grupo. Muito vermelho, de excitado, entrou de falar, com -grandes gestos: - ---Quando se trata de assassinatos ou de roubos, são os jurados que -julgam, quer dizer: a gente habitual, trabalhadores, burguezes... -Agora, quando se trata dos que são contra o governo, quem os julga é o -próprio governo!... Isto póde ser?... - ---Constantino! - ---Mas escuta, estão elles realmente contra o governo? Vê lá, que dizes? - -Não, espera! O Fédia Mazine tem razão. Se tu me offenderes e eu te der -uma bofetada e se tu tiveres de me julgar, com certeza é a mim que -chamarás culpado; e comtudo, quem insultou? Tu! Tu! - -Um guarda já idoso, de nariz adunco e peito ornado de medalhas, -atravessou por entre o ajuntamento e foi dizer a Boukine, ameaçando-o -com o dedo: - ---Olá! não grites! Onde imaginas que estás? É alguma taberna, aqui? - ---Queira perdoar, cavalheiro... Eu percebo bem. Ora escutem: se eu -bater em alguem e esse alguem me retribuir as pancadas e se eu tiver -de julgal-o depois, como é que podem imaginar... - ---Olha que te faço saír! disse o guarda severamente. - ---Saír? para onde? Porquê? - ---Para a rua! Que é para não berrares! - -Boukine circumvagou o olhar pelo auditório e commentou a meia voz: - ---Para elles, o essencial é que estejamos calados. - ---Ainda não o sabias? replicou o velho com rudeza. - -O outro baixou a voz. - ---E depois, porque é que o publico não póde assistir ás audiencias, mas -tão somente os parentes? - ---Se ha justiça nos julgamentos, é para serem presenceados por todos! -De que teem medo? - -E Samoílof apoiou, mas com mais vehemencia: - ---Isso é verdade! Estes tribunaes não satisfazem a consciencia pública. - -Pélagué desejava tambem repetir o que Nicolao lhe dissera ácerca -da illegalidade do julgamento; mas não o havia compreendido bem e -esquecera em parte as expressões empregadas por Nicolao. Para tentar -rememoral-as, afastou-se da multidão e viu um rapaz de bigode loiro a -observal-a. Trazia a mão direita mettida na algibeira das calças, o que -fazia com que parecesse ter o hombro esquerdo mais baixo do que outro. -Esta particularidade lembrou-se Pélagué que já era sua conhecida. - -Mas o homem virou-lhe as costas e, cançada do seu esforço de memoria, -Pélagué logo se esqueceu d’elle. - -Instantes depois, distinguia um fragmento de conversa em segredo: - ---Aquella? Á esquerda? - -E alguem respondeu mais alto, com expansão: - ---Essa mesma. - -Olhou. O homem dos hombros de desigual altura estava ao lado d’ella e -conversava com o seu visinho, um homem corpulento de barba preta, com -umas enormes botas e casaco curto. - -Estremeceu. Ao mesmo tempo, sentia o desejo de falar nas crenças de seu -filho, para ouvir as objecções que lhe pudessem apresentar e calcular a -decisão do tribunal pelas opiniões dos que a rodeavam. - ---É isto por ventura fórma de julgar? começou ella a meia voz, -prudentemente, dirigindo-se a Sizof. Não compreendo isto. Os juizes só -tratam de averiguar o que fez cada um d’elles, mas não perguntam porque -o fez. Será isto justo? diga lá! E são todos elles velhos! Para julgar -gente nova são precisos homens novos! - ---Sim! disse Sizof. Torna-se-nos difficil compreender todo este -negocio... muito difficil! - -E abanava a cabeça, pensativo. - -N’isto, o guarda abriu a porta da sala e gritou: - ---Entrem os parentes! Mostrem os seus bilhetes. - -Uma voz de mau humor commentou: - ---Os bilhetes... como no circo!... - -Sentia-se agora uma irritação geral e mal contida, uma colera vaga. Os -curiosos manifestavam maior semceremonia do que pouco antes, faziam -barulho, discutiam com os guardas. - - - - -XXV - - -Sizof retomou o seu logar resmungando. - ---Que tens? perguntou-lhe Pélagué. - ---Não tenho nada! O povo é estupido... Não sabe nada, vive ás -apalpadellas. - -Resoou uma campainhada. Alguem annunciou com indifferença: - ---O tribunal! - -Todos se puzeram novamente de pé, como da primeira vez. Os juizes -entraram pela mesma ordem e sentaram-se. Foram introduzidos os -accusados. - ---Attenção agora! segredou Sizof. Vae falar o procurador. - -Pélagué estendeu o pescoço e toda se inclinou para a frente, -immobilisada na espectativa do terrivel acontecimento imminente. - -De pé, virando a cabeça para o lado dos juizes, o procurador soltára -um suspiro e entrára a falar, agitando a mão direita. Pélagué não -percebeu as suas primeiras palavras. A voz do orador era facil e -grossa, mas, tão depressa lhe affluia com rapidez, como afroixava. -As palavras iam-se seguindo primeiro como em larga fita uniforme, -depois, voavam, redemoinhavam, tal um enxame de negras moscas sobre um -torrão d’assucar. Mas n’essas palavras não via Pélagué coisa alguma -ameaçadora ou terrificante. Frias como neve, indecisas como cinza, -iam-se succedendo e enchiam a sala de aborrecimento, de alguma coisa -horripilante como uma poeira fina e sêcca. O discurso, abundante em -palavras e falho de idéas, não chegava provavelmente aos ouvidos -de Pavel e dos seus companheiros, os quaes, sem mostrarem a menor -preoccupação, continuavam socegadamente a conversar entre si. Umas -vezes, sorriam, outras, faziam-se muito sérios para conterem o sorriso. - ---Está mentindo! declarou Sizof baixinho. - -Pélagué não saberia dizer ao certo se assim era. - -Escutava o que elle dizia e compreendia que estava accusando toda a -gente, sem se referir directamente a ninguem. Quando citava o nome de -Pavel, punha-se a falar de Tédia; em seguida, depois de ter reunido -estes, juntava-lhes Boukine. Dir-se-ia que mettia todos os accusados no -mesmo sacco, apertados uns contra os outros. Mas o sentido externo das -suas palavras não satisfazia Pélagué, como tambem não a perturbava nem -mesmo impressionava. Comtudo, continuava esperando o pormenor terrivel, -e procurava-o obstinadamente sob aquelle fluxo de palavras, no rosto do -procurador, nos olhos, na voz, na mão muito branca que elle balanceava -com lentidão. E sentia que estava ali, n’aquelle homem, a coisa -assustadora, indefinivel e incompreensivel. De novo se lhe confrangeu o -coração. - -Olhou para os jurados: o discurso estava-os claramente enfadando. -Os seus rostos macillentos, terrosos, inanimados, não apparentavam -expressão alguma; eram quaes manchas cadavéricas e immoveis. E aquellas -faces, umas de nutrição enfermiça, outras, demasiado magras, sumiam-se -cada vez mais em meio do cansaço que invadia a sala. O presidente não -fazia um só movimento, estatico e hirto; por vezes, as manchasinhas -pardacentas que lhe appareciam por detraz dos vidros dos oculos, -sumiam-se-lhe na palidez do rosto. Perante esta indifferença glacial, -esta frieza tíbia, Pélagué a si própria perguntava com desasocego: - ---Estarão elles verdadeiramente a julgar? - -De repente, como de improviso, terminou o procurador o seu libello. -O magistrado inclinou-se perante os juizes, a esfregar as mãos. O -marechal da nobreza fez-lhe com a cabeça um signal, ao mesmo tempo que -rebolava as pupillas. O administrador da communa estendeu-lhe a mão e o -syndico contemplou o seu abdomen, risonho. - -Mas via-se que os juizes não haviam ficado satisfeitos com o -procurador: não tinham feito um só movimento. - ---Cão tinhoso! resmungou Sizof. - ---Tem a palavra... disse o velhinho, erguendo um papel até junto do -rosto. Tem a palavra o defensor de... Fédossief, Markof, Zagarof. - -Levantou-se então o advogado que Pélagué vira em casa de Nicolao. Tinha -uma cara cheia e aspecto bonacheirão; os olhinhos irradiavam, parecia -ter nas orbitas dois pontos acerados, a cortarem no ar qualquer coisa, -como laminas de tesoura. Entrou a falar sem pressa, em voz nítida e -sonora; mas Pélagué não poude escutar o que dizia. Sizof segredava-lhe -de lado: - ---Percebeste o que elle disse? Diz que são uns doidos, uns garotos de -genio brigão. É do Fédia que elle quer falar! - -Acabrunhada pela sua cruel decepção, Pélagué não respondeu. - -Sentia-se mais e mais humilhada, e esta humilhação opprimia-lhe a alma. -Compreendia agora porque esperava em vão a justiça, porque se enganara -pensando assistir a uma discussão leal e séria entre a verdade que seu -filho proclamava e a dos juizes. - -Imaginára que os juizes iam interrogar Pavel, demoradamente e com -attenção, sobre a sua vida; que examinariam com olhos perspicazes -todas as idéas, todos os actos de seu filho, e o emprego de todos os -seus dias, e que, reconhecendo a sua hombridade, haviam de declarar -convictamente: «Este homem tem razão.» - -Mas nada d’isso succedia. Era para crêr que os accusados e os juizes -estivessem a cem leguas uns dos outros e ignorassem mutuamente as suas -existencias. Fatigada pela tensão da espectativa, Pélagué deixára de -acompanhar o debate. Pensava de si para comsigo, melindrada: - ---É então assim que se julga? O julgamento... - -E pareceu-lhe vazia e sem sentido esta palavra; soava como um vaso de -barro, quebrado. - ---É bem feito! murmurou Sizof, approvando com a cabeça. - ---Parece que estão mortos, aquelles juizes! disse ella. - ---Elles já voltam a si! - -E com effeito, tornando a olhar para elles, viu-lhes nos rostos uma -expressão de desasocego. Era outro advogado que falava, um homensinho -de cara de fuinha, lívido e irónico. Os juizes interromperam-no logo. - -O procurador levantou-se de chofre e em voz rápida e zangada, ameaçou-o -com uma autoação; depois, conferenciou com o velhinho. O advogado -ficou-os escutando, com a cabeça respeitosamente inclinada; em seguida, -proseguiu no uso da palavra. - ---Vae catando! vae catando! aconselhou Sizof. Vê se descobres onde está -a alma!... - -Na sala crescia a animação; começava a nascer uma exaltação -batalhadora. O advogado atacava os juizes por todas as fórmas, -aguilhoava-lhes as carcomidas epidermes com ditos causticos. Os juizes -parecia apertarem-se mais uns contra os outros, incharem e fazerem-se -mais corpulentos, para resistirem áquelle chuveiro de piparotes, -com toda a massa dos seus corpos amollentados e nullos. Pélagué -examinava-os; pareciam intumecer cada vez mais, como se receassem que -os botes do advogado lhes fizessem vibrar dentro do peito um eco capaz -de lhes perturbar a soberana indifferença. - -Pavel pôz-se de pé. Estabeleceu-se súbito silencio. - -A mãe inclinou para a frente todo o corpo. - -Tranquillamente, Pavel declarou: - ---Pertencendo eu a um partido, só reconheço o tribunal d’esse partido. -Não falo para defender-me, mas para satisfazer o desejo d’aquelles dos -meus companheiros que tambem não quizeram ser defendidos. Vou tentar -explicar-lhes o que os senhores não compreenderam. O procurador -qualificou a nossa demonstração, sob o estandarte da democracia -socialista, de revolta contra as autoridades supremas e falou -constantemente de nós como de revoltados contra o czar. Devo declarar, -comtudo, que, para nós, não é só o czar a grilheta a que anda amarrado -o corpo da nação; o czar não é mais do que o primeiro élo d’essa -cadeia, de que jurámos libertar o povo. - -Fizera-se mais profundo ainda o silencio, sob o império d’aquella voz -varonil. A sala parecia tornar se mais vasta e Pavel afastar-se para -longe do auditório, mais luminoso e inspirado. Pélagué foi tomada de -uma sensação de frio. - -Os juizes agitavam-se pesadamente nas cadeiras, cheios de inquietação. -O marechal da nobreza segredou algumas palavras ao juiz de modos -indolentes; este abanou a cabeça e falou com o velhinho, a quem o juiz -de aspecto doente estava tambem falando ao ouvido, do lado opposto. - -O presidente, vacillante na sua poltrona, para a direita e para a -esquerda, dirigiu algumas palavras a Pavel, mas a voz sumiu-se-lhe no -curso amplo e igual da exposição que o mancebo ia proferindo. - ---Somos socialistas. Significa isto que somos inimigos da propriedade -particular, que promove a desunião entre os homens, os leva a -armar-se uns contra os outros e cria uma rivalidade de interesses -irreconciliaveis, que mente quando pretende dissimular ou justificar -esta hostilidade e perverte os homens pela mentira, a hypocrisia -e o ódio. Somos de opinião que a sociedade, considerando o homem -unicamente como um meio de auferir riquezas, é anti-humana e torna -se nos declaradamente hostil; não podemos acceitar a sua moral com -duas caras, o seu cynismo sem vergonha e a crueldade com que trata -as individualidades que lhe são adversas; queremos luctar, e havemos -de luctar, contra todas as fórmas de subserviencia fisica e moral do -homem, em uso n’esta sociedade, contra todos os métodos de fraccionar -a collectividade em proveito da cubiça! Nós, os operários, somos quem -pelo nosso trabalho tudo cria, desde as máquinas giganteas até aos -brinquedos das crianças. E vêmo-nos privados do direito de luctar -pela nossa dignidade de homens; Cada qual arroga-se o direito de nos -transformar em instrumentos para attingir o seu fim! Queremos que nos -dêem liberdade bastante para que se nos torne possivel, com o tempo, -conquistar o poder. Quer-se o poder para o povo!... - -Aqui, sorriu Pavel e passou de vagar a mão pelos cabellos; a luz dos -seus olhos azues brilhou com fulgor mais intenso. - ---Tenha a bondade... Não saia do assunto! disse-lhe o presidente em voz -nítida e forte. - -Virava-se agora todo para Pavel e fitava-o. Pareceu a Pélagué -distinguir-lhe nos olhos, até ali palidos e sem expressão, um brilho -cúpido e de maldade. - -Todos os juizes tinham as attenções voltadas para o orador; os seus -olhos pareciam colar-se-lhe, aderir-lhe fortemente ao corpo, para lhe -sugarem o sangue e com elle reanimarem os seus membros exaustos. Pavel, -firme e resoluto, estendeu para elles o braço e proseguiu com voz -distincta: - ---Somos revolucionários e sêl-o-emos emquanto uns só tratarem de -opprimir os outros. Havemos de luctar contra a sociedade, cujos -interesses os senhores foram mandados que defendessem; a reconciliação -só entre nós será possivel quando nós fôrmos vencedores. Porque havemos -de ser nós os vencedores, nós, os opprimidos! Os mandatários de todos -vós, senhores, não são tão fortes como se julgam. Essas riquezas que -accumularam e na defeza das quaes sacrificam milhões de infelizes -creaturas, essa força que lhes dá o poder sobre nós, criam entre -elles alternativas de hostilidade e arruinam-nos, a elles, fisica e -moralmente. A defeza do vosso poderio, senhores, exige uma constante -tensão d’espirito; e, na realidade, vós, nossos senhores, sois todos -mais escravos do que nós, porque são os vossos espiritos que jazem na -oppressão, ao passo que nós só fisicamente somos opprimidos. Não podeis -libertar-vos do jugo dos preconceitos e dos habitos, e isto mata-vos -moralmente; emquanto a nós, nada nos impede que sejamos intimamente -livres! E a nossa consciencia vae tomando vida, vae desenvolvendo -se sem cessar; inflamma-se dia a dia e arrasta comsigo os melhores -elementos, moralmente sãos, mesmo do próprio meio que é o vosso... E, -se não, vêde: já não possuis ninguem que possa lutar em nome do vosso -poderio contra a corrente das idéas; esgotastes já todos os argumentos -capazes de vos protegerem dos ataques da justiça da história; nada -mais podeis criar novo, no dominio da intellectualidade: sois uns -estereis de espirito. As nossas idéas, pelo contrário, desenvolvem-se -com força crescente, penetram nas massas populares e vão-nas dispondo -para a lucta pela liberdade, lucta incarniçada, lucta implacavel! Não -podereis travar este movimento, senão usando de crueldade e de cinismo. -Mas o cinismo é evidente demais e a crueldade não faz senão irritar -o povo. As mãos que hoje empregaes para nos suffocar, hão de ámanhã -apertar as nossas mãos em fraterno amplexo. A vossa energia é a energia -mecanica produzida pelo açambarcamento do oiro, e é essa energia que -vos desune em grupos rivaes, destinados a aniquilarem se mutuamente. -Emquanto que a nossa energia é a força viva e sem cessar crescente do -sentimento de solidariedade que liga todos os opprimidos. Tudo o que -praticaes é criminoso, porque só pensaes em escravisar o homem; o -nosso empreendimento, esse, liberta o mundo dos monstros e fantasmas -criados pelas vossas mentiras, pela vossa cupidez, pelo vosso ódio! -Mas, em breve, a grande massa dos nossos artifices e camponezes ha de -ser liberta e ha de criar um mundo livre, harmonioso e immenso. E assim -ha de ser! - -Calou-se Pavel um instante e depois repetiu ainda com mais força: - ---E assim ha de ser! - -Os juizes cochichavam, com caretas estranhas, sem desviarem os olhos de -Pavel. A mãe pensava de si para comsigo, que aquelles olhares infamavam -o corpo vigoroso de seu filho, cuja saúde e fresca mocidade invejavam. -Os réus tinham escutado attentos as palavras do seu companheiro. -Pálidos ao principio, tinham agora nos olhares uma chamma de alacre -contentamento. Pélagué devorára as frases de seu filho; gravavam-se lhe -todas profundamente na memória. - -O velhinho por diversas vezes interrompeu Pavel, para lhe explicar -ninguem saberia dizer o quê, d’uma das occasiões, esboçou até, um -sorriso triste. Pavel escutava-o em silencio e logo retomava a palavra -com voz severa mas serena. Todas as attenções convergiam para elle. -Durou isto muito tempo. Por fim, o presidente gritou algumas palavras, -ao mesmo tempo que estendia o braço na direcção do mancebo. Este -respondeu em tom levemente ironico: - ---Eu vou concluir. Não foi idea minha offender pessoalmente os membros -d’este tribunal, bem ao contrário: forçado a assistir a esta comédia -a que chamaes uma audiencia, chego a sentir compaixão pelos senhores. -A despeito de tudo, os senhores são homens e é sempre para nós uma -humilhação ver homens, curvarem-se de tão vil maneira ao serviço da -violencia e perderem a tal ponto a consciencia da sua dignidade -humana... mesmo quando esses homens se mostram hostis aos nossos -intentos... - -E sentou-se sem olhar para os juizes. - -A mãe conteve a respiração, fitando, anelante, aquelles de quem -dependia a sorte de seu filho, e esperou. - -André, radiante, apertou vigorosamente a mão de Pavel. Samoílof, -Mazine e todos os outros voltaram-se para elle. Pavel sorriu, um tanto -constrangido pelo entusiasmo dos seus companheiros e olhando para a -bancada em que se encontrava Pélagué, fez-lhe um signal de cabeça, como -para perguntar: - ---Foi bem, assim? - -Ella respondeu-lhe com profundo suspiro de contentamento, fremente, -inundada por uma ardente vaga de amor. - ---Ahi está! Vae começar o julgamento! segredou-lhe Sizof. O teu filho -deixou-os em bonito estado, an? - -Ella abanou a cabeça sem responder, satisfeita de ter ouvido o filho -falar com tal desassombro e talvez mais satisfeita ainda por elle ter -terminado o discurso. Martelava-lhe no cérebro uma idéa fixa: - ---Meus filhos! que vae ser de vocês? - -O que seu filho dissera não era novo para ella; conhecia bem as suas -opiniões; mas, fôra ali, perante aquelle tribunal, que pela primeira -vez sentira a força convincente e extraordinaria das suas teorias. -Impressionava-a a serenidade do mancebo, e no seu intimo, o discurso de -Pavel aliava-se á firme convicção da victoria e dos justos direitos de -seu filho, que lhe punham na alma a irradiação d’uma estrella. - - - - -XXVI - - -Julgava ella que os juizes iam discutir severamente com elle, -replicar-lhe coléricos, e expôr os seus argumentos. - -Mas n’isto, levantou-se André, lançou um olhar de soslaio para o -tribunal e começou: - ---Senhores defensores. - ---Quem o senhor tem na sua presença é o tribunal e não a defeza! -gritou-lhe o juiz doente, com força, muito irritado. - -Pélagué percebia pela fisionomia de André que o que elle queria era -gracejar; o bigode tremia-lhe de riso mal contido, e nos olhos, tinha -uma expressão ao mesmo tempo felina e meiga, bem conhecida d’ella. -Esfregou vigorosamente a cabeça com as compridas mãos e suspirou. - ---Pois é possivel? perguntou, ao mesmo tempo que saccudia a cabeça. -Eu julgava que não era assim, que os senhores eram, não juizes, mas -unicamente defensores!... - ---Queira fazer favor de se referir somente ao assunto principal! -intimou o velhinho com seccura. - ---O assunto principal? Está bem. Quero pois crêr que os senhores são -realmente juizes, isto é: pessoas independentes, leaes... - ---O tribunal não precisa da sua opinião! - ---Como? Não precisa d’um elogio d’estes!... Hum!... Todavia, eu -continúo. Os senhores são homens que não estabelecem differença alguma -entre amigos e inimigos, os senhores são inteiramente livres no seu -juizo. Assim, teem agora na sua frente dois partidos: um queixa-se de -que o roubam e o maltratam; o outro responde que tem o direito de -roubar e de maltratar porque traz na mão uma espingarda. - ---Tem alguma coisa a dizer concernente ao processo? perguntou o -velhinho, alteando a voz e com as mãos a tremer. - -Esta irritação satisfazia immenso Pélagué. Mas a fórma de proceder de -André não lhe agradava; achava a discordante do discurso de Pavel. -Preferia ouvir travar-se uma discussão séria e ponderada. - -O russo-menor fitou o velho, sem responder; em seguida, disse com -gravidade: - ---O processo?... Para que lhe havia eu de falar do processo? O meu -companheiro disse-lhes o que os senhores deviam saber já! O resto, -outros lho dirão quando chegar o momento opportuno... - -O velhinho sobreergueu-se da poltrona e declarou: - ---Retiro-lhe a palavra!... Gregorio Samoílof! - -O russo-menor apertou com força os dentes e deixou-se caír pesadamente -no banco. Ao lado d’elle, Samoílof pôz-se de pé, saccudindo os anneis -do cabello. - ---O procurador disse que nós eramos uns selvagens, inimigos do -progresso... - ---Fale só do que diz respeito á sua accusação! - ---Mas é justamente o que estou fazendo!... Não deve haver coisa alguma -que não interésse á gente honesta... E peço-lhe o obsequio de não me -interromper. Assim, pergunto eu aos senhores: qual vem a ser o grau das -suas culturas intellectuaes? - ---Não estamos aqui para discutir comsigo! Voltemos ao assunto! disse o -velho, mostrando rancorosamente os dentes. - -Os gracejos de André haviam manifestamente irritado os juizes e como -que lhes tinham supprimido o que quer que fôsse das fisionomias. -Agora, nos rostos terrosos, appareciam-lhes manchas sanguineas, -brilhavam-lhes os olhares com scintillações frias e implacaveis. O -discurso de Pavel tambem os havia encolerisado, mas o tom de energia -em que fôra dito, reprimira-lhes o rancor e forçára-lhes o respeito. -O russo-menor, porém, conseguira quebrar esta contenção e puzera a -descoberto o que sob ella se occultava. Com crispações nas fisionomias, -os juizes segredavam entre si, tinham gestos mais saccudidos, -denunciadores da raiva que lhes ia no íntimo. - ---Os senhores educam espiões, pervertem mulheres e donzellas, collocam -o homem sério na situação d’um gatuno, d’um assassino, envenenam-no -com a aguardente, deixam-no apodrecer nas masmorras!... As guerras -internacionaes, a mentira, o deboche, o embrutecimento de todo o -paiz--aqui está a vossa civilisação! Sim, somos inimigos de tal -civilisação! - ---Tenha a bondade!... gritou o velhinho, saccudindo ameaçador o queixo. - -Samoílof, rubro, o olhar em fogo, entrou a gritar ainda mais alto do -que elle. - ---Mas a civilisação que nós amamos e respeitamos é a outra, a que foi -criada pelos que vós atirastes para as masmorras ou para os hospitaes -de doidos... - ---Retiro-lhe a palavra!... Fédia Mazine! - -O rapazinho levantou-se de chofre, como uma sovela a saír d’um furo e -exclamou com voz saccudida: - ---Eu... juro!... Eu bem sei, os senhores vão condemnar-nos! - -Suffocou; fez-se branco, só se lhe viam os olhos, muito brilhantes. -Estendeu o braço e proseguiu: - ---Dou-lhes a minha palavra d’honra! Mandem-me para onde quizerem, que -eu hei-de fugir, hei de voltar, hei-de dedicar-me sempre pela causa do -povo... pela liberdade da nação... toda a minha vida! Dou-lhes a minha -palavra d’honra! - -Sizof soltou um gritinho. Toda a assistencia, revolucionada por vaga -excitação, se mexia com um ruido surdo e singular. Chorava uma mulher; -alguem tossia, suffocando. Os guardas, alternadamente olhavam para os -réus com um espanto estupido e para a multidão do público, furiosos. Os -juizes agitaram-se; o velho gritou: - ---Goussef Yvan! - ---Não falo! - ---Goussef Vassili! - ---Não quero responder! - ---Bouckine Fédor! - -Loiro e meio descorado, ergueu-se pesadamente e disse com lentidão, -meneando a fronte: - ---Os senhores deviam envergonhar-se!... Eu, que não passo d’um -ignorante, compreendo ainda assim o que deve ser a justiça! - -Levantou o braço acima da cabeça e calou-se, com as palpebras -semi-cerradas, como se estivesse vendo qualquer coisa muito ao longe. - ---Que diz? gritou o velho com attónito exaspero, reclinando-se na -poltrona. Olhe que você!... - -Boukine deixou-se caír no banco tristemente. Havia nas suas palavras -desacompanhadas de significação, alguma coisa immensa e importante, e -ao mesmo tempo uma censura ingénua e penalisada. Foi esta a impressão -que todos receberam. Os próprios juizes apuraram o ouvido, como -para distinguirem um éco mais nitido de tal discurso. Nas bancadas -reservadas ao público, tudo se calou; apenas ficou resoando um leve -ruído de chôro. Depois sorriu-se o procurador e encolheu os hombros; -o marechal da nobreza tossiu; de novo se elevaram susurros que -serpenteavam vagamente pela sala. - -Pélagué inclinou-se para Sizof e perguntou-lhe: - ---Os juizes falarão? - ---Não; está tudo terminado. Só falta pronunciar o veredicto. - ---E não ha mais nada? - ---Não! - -Pélagué não podia acreditar. A mãe de Samoílof agitava-se anciosamente, -tocando em Pélagué com o cotovello e com o hombro, e perguntando em voz -baixa ao marido: - ---Mas, como? É possivel? - ---Bem vês! - ---E o que é que vão fazer ao nosso filho? - ---Cala-te! Deixa-me! - ---Percebia-se que no público alguma coisa se havia perdido, anniquilado -ou transformado. Os olhos desvairados, pestanejavam como se ardente -lareira se lhes tivesse incendiado na frente. Embora não compreendessem -o grande sentimento que acabava de despontar n’elles tão bruscamente, -os curiosos iam, sem dar por isso, fragmentando-o em sensações -evidentes, accessiveis e futeis. O irmão de Boukine dizia a meia voz, -sem constrangimento algum: - ---Perdão! Porque não os deixam falar? O procurador disse tudo o que -quiz e durante todo o tempo que quiz! - -Perto da bancada estava uma sentinella. O soldado murmurava, agitando o -braço: - ---Silencio! silencio! - -O pae de Samoílof inclinou-se para traz, e, disfarçado com as costas da -mulher, continuou a pronunciar em voz surda frases entrecortadas: - ---Evidentemente!... Admittindo que elles sejam culpados, o dever do -tribunal era deixal-os explicar-se... Contra quem se revoltaram elles? -Contra tudo! Eu gostava de compreender, afinal! Porque isto tambem me -interessa... De que lado está a verdade? Sim, eu queria compreender... -É preciso que os deixem explicar-se! - ---Silencio! gritou de novo a sentinella, ameaçando-o com um dedo. - -Sizof abanava a cabeça, apouquentado. - -Pélagué não perdia de vista os juizes. Notava-lhes a crescente -excitação, via-os falar uns com os outros, mas não podia comprehender o -que diziam. O susurro frio e escorregadio das suas vozes perpassava-lhe -pelo rosto, fazia-lhe tremer nervosamente as faces e provocava-lhe -na bôca uma sensação desagradavel. Afigurava-se-lhe que estavam -falando todos elles do corpo de seu filho e do dos seus companheiros, -d’aquelles corpos robustos, dos seus músculos e dos seus membros cheios -de vermelho sangue e de força vivente. Estes corpos deviam excitar -n’elles uma inveja impotente e malvada, uma avidez ardente de esgotados -e doentes. Falavam com estalidos sêcos dos lábios, com o pezar de não -possuirem aquelles músculos, capazes de trabalhar e de enriquecer, de -gozar e de criar. Agora, iam aquelles corpos saír da circulação activa -da vida, renunciavam a ella, ninguem poderia mais chamar-lhes seus, -aproveitar a sua força, nem absorvel-os. E era por isso que inspiravam -aos velhos magistrados a animosidade vingativa e desconsolada das feras -já sem forças que teem diante de si a carne fresca, mas já não dispõem -da energia sufficiente para d’ella se apoderarem. - -E quanto mais Pélagué olhava para elles, mais esta idéa grosseira -e singular se accentuava no seu espirito. Parecia-lhe que estavam -patenteando claramente a sua rapacidade e a sua sanha de esfomeados, -capazes, em tempos idos, de comer muito. Ella, a mulher e mãe, para -a qual o corpo do filho tinha sido sempre e a despeito de tudo, mais -querido do que a própria alma, sentia-se horrorisada com os olhares -sem viço que perpassavam pelo rosto d’elle, tateando o peito, os -hombros, os braços, roçando-se pela ardente pelle, como em busca de -uma possibilidade de se reanimarem, de requentarem o sangue das suas -veias endurecidas, dos seus músculos gastos de homens semi-mortos. -Parecia a Pélagué que o seu filho sentia aquelles contactos frios e que -estremecia quando para ella olhava. - -O mancebo fixava em sua mãe os olhos um tanto fatigados, mas calmos e -affectuosos. Por momentos, sorria-lhe e fazia-lhe um signal de cabeça. - ---Em breve estarei em liberdade! dizia este sorriso, que era uma -caricia para o coração de Pélagué. - -N’este comenos, levantaram-se os juizes todos ao mesmo tempo. Pélagué -seguiu-lhes instinctivamente os movimentos. - ---Vão-se embora! disse Sizof. - ---Para os condemnar! perguntou ella. - ---Sim... - -Dissipára-se de súbito a tensão de espirito em que até ali estivera; -pesado cansaço lhe invadiu o corpo; aljofraram-lhe a fronte gotas de -suor. Um sentimento de cruel decepção e de humilhação impotente brotou -no seu coração e depressa se transformou em profundo desprezo pelos -juizes e pelo seu julgamento. Assaltou-a violenta dôr nas fontes; -esfregou a testa com a palma da mão e olhou em torno: os parentes -dos réus tinham-se approximado do gradeamento, a sala enchia-se de -um ruído surdo de conversações. Ella caminhou tambem para o filho, -apertou-lhe a mão e entrou a chorar, tomada a um tempo, de desgosto e -de contentamento. Pavel dirigiu-lhe algumas palavras de confôrto. André -ria e gracejava. - -Mais por hábito do que por desgosto, todas as mulheres choravam. O -que se sentia não era aquella dôr que atordoa como estúpido golpe -descarregado bruscamente na cabeça: tinha-se a consciencia da triste -necessidade de abandonar os filhos, mas esta magua confundia-se, -sumia-se nas impressões que eram filhas da opportunidade. Os paes -olhavam para os filhos com uma expressão em que a desconfiança que -lhes era inspirada pela mocidade e pela consciencia da propria -superioridade, se confundia singularmente com uma espécie de respeito -por elles. Ao mesmo tempo que a si próprios perguntavam com tristeza -como passariam elles agora a viver, os velhos olhavam com curiosidade -para aquella nova geração que discutia audaciosamente a possibilidade -d’uma existencia differente d’aquella e melhor. Não sabiam exprimir -o que sentiam, pois faltava-lhes para tanto o hábito; as palavras -corriam abundantes, das bôcas, mas não se falava mais do que de coisas -vulgares, de fatos e roupas, de cuidados necessarios; aconselhavam até -os condemnados a não irritarem inutilmente os superiores. - ---Todos andamos cansados d’isto! disse Samoílof ao filho. Nós tanto -como elles! - -O mais velho dos Boukine agitava a mãe e exortava o mais novo: - ---Ahi está a justiça d’essa gente! Custa acceital-a! - -O rapaz respondeu: - ---Has de tratar bem do estorninho, sim?... Gostava tanto d’elle! - ---Ainda ha de ser vivo quando voltares! - -Sizof tomára pela mão o sobrinho e dizia com vagar: - ---Então foi assim que tu fizeste, Fédia? Foi assim? - -Fédia curvou-se para elle e segredou-lhe o que quer que fôsse ao -ouvido, com um riso de esperteza. O soldado que lhes estava próximo -sorriu tambem, mas logo retomou os seus ares de gravidade e resmungou. - -Pélagué limitava-se, como os outros, a conversar ácerca de arranjos de -roupas e cuidados de saúde, mas no coração reprimia mil interrogações -relativas a Pavel, a Sachenka e a si própria. E sob as suas palavras -banaes, lentamente se desenvolvia o sentimento de immenso amor que -dedicava ao filho, o ardente desejo de o captivar, de viver no seu -coração. A espectativa do acontecimento terrivel desapparecera, -deixando unicamente, apóz si, um arrepio desagradavel, quando se -lembrava dos juizes, agora ausentes. - -Sentia nascer em si uma intensa alegria luminosa, mas não a compreendia -e isto trazia-a perturbada. - -Viu que o russo-menor falava muito com todos os que o rodeavam, -e entendendo que elle, mais do que Pavel, precisava de confôrto, -disse-lhe: - ---Não me agradou a audiencia! - ---Porquê, mãesinha?! exclamou André. É um moinho velho, mas vae sempre -moendo! - ---É uma coisa, afinal, que não mette medo algum, e é incompreensivel! -Nem ao menos se procura averiguar a verdade! disse ella hesitante. - ---Oh! Era isso o que queria? exclamou André. Mas então imagina que -alguem se importa aqui com a verdade? - -Pélagué suspirou. - ---Eu imaginava que isto fôsse coisa muito séria... mais séria ainda do -que na igreja!... Que se celebrava o culto da verdade!... - ---Querida mãe: onde a verdade é respeitada sabemol-o nós! disse Pavel -em voz baixa e no tom de quem perguntasse sem affirmar. - ---E a mãesinha tambem o sabe! acrescentou o russo-menor. - ---O tribunal! - -Correram todos para os seus logares. - -Com uma das mãos apoiada na mesa, o presidente occultou a cara por -detraz d’um papel e pôz-se a ler com uma voz debil qual zumbido: - -«O Tribunal... depois de ter deliberado...» - ---É a condemnação! disse Sizof, apurando o ouvido. - -Fez-se silencio. Todos se haviam posto de pé, com os olhos fitos no -velhinho. Sêcco e hirto, assemelhava-se este a um cacete sobre o -qual mão invisivel se apoiasse. Os juizes estavam tambem de pé; o -syndico do bailiado, com a cabeça pendente no hombro, dirigia o olhar -para o tecto; o administrador da communa cruzava os braços no peito; -o marechal da nobreza afagava a barba. O juiz com cara de doente, -o seu collega barrigudo e o procurador, olhavam todos na direcção -dos accusados. E por detraz dos juizes, por cima das suas cabeças, -apparecia o czar, de uniforme encarnado. - -Um insecto ia-lhe marinhando pela cara, pálida e indifferente; uma teia -d’aranha balouçava ao vento. - -«são condemnados a deportação para a Sibéria»... - ---O degredo! disse Sizof com um suspiro de alivio. Finalmente, já -passou, Deus louvado! Muita gente esperava os trabalhos forçados. Isto -assim, já não é tão mau, tiasinha; não vale mesmo nada! - ---Eu já o adivinhava, disse Pélagué baixinho. - ---Assim como assim, agora é certo!... Mas vá lá a gente saber, com uns -juizes d’estes! - -Voltou-se para os condemnados, a quem faziam já abandonar o pretorio, e -disse alto: - ---Até á vista, Fédia!... Até á vista, vocês todos! Que Deus os proteja! - -Pélagué fez um signal de cabeça a Pavel e aos seus companheiros. A sua -vontade era chorar, mas conteve-a uma espécie de vergonha. - - - - -XXVII - - -Ao sair do tribunal, ficou Pélagué admiradissima com vêr que já -a noite caíra sobre a cidade, os candieiros das ruas accesos; as -estrellas scintillando no céu. Nas circumvisinhanças do palácio da -justiça, formavam-se pequenos agrupamentos; na gélida atmosfera, -ouvia-se o ruído da neve rangendo sob o andar; vozes de gente nova -interpellavam-se mutuamente. Approximou-se de Sizof um homem coberto -com um capuz cinzento e perguntou em voz rápida: - ---Qual foi a sentença? - ---O degredo. - ---Para todos elles? - ---Para todos... - ---Obrigado! - -O homem afastou-se. - ---Bem vês! disse Sizof á mãe de Pavel. Bem vês como isto os interessa. - -De súbito, encontraram-se cercados por uma dúzia de rapazes e -raparigas. Entraram a chover as exclamações, que attraíam ainda mais -gente para o grupo. Sizof e Pélagué tiveram de parar. Todos queriam -conhecer a sentença, saber como se tinham comportado os réus, quem -tinha pronunciado discursos e sobre que assunto. E em todas estas -perguntas vibrava a mesma nota de curiosidade ávida e sincera. - ---É a mãe do Pavel Vlassof! gritou uma voz. - -Calaram-se todos á uma. - ---Permitta que lhe aperte a mão! - -E logo uma mão sólida se lhe apoderou da sua, com vigor. A mesma voz -continuou, trémula de entusiasmo: - ---O seu filho será para nós todos um nobre exemplo! - ---Viva o operariado russo! gritou uma voz vibrante. - ---Viva a revolução! - ---Morra a autocracia! - -Multiplicavam-se os brados, cada vez mais violentos; rebentavam pelo -ar, cruzando-se; accudia gente de todos os lados e apinhava-se em -torno de Sizof e Pélagué. Os apitos dos policias rasgavam o ar, mas -sem conseguirem dominar o borborinho. O velho ria. Quanto a Pélagué, -parecia-lhe tudo aquillo um bello sonho. Sorria, apertava centenas de -mãos, cumprimentava. Comprimiam-lhe a garganta lagrimas de felicidade; -vergavam-lhe as pernas de cansadas, mas o seu coração, transbordando de -triumfante alegria, reflectia as suas impressões como o claro espelho -da água d’um lago. - -Perto d’ella, uma voz clara exclamou em tom enervado: - ---Companheiros! amigos! O monstro que devora o povo russo, satisfez -hoje mais uma vez os seus appetites!... - ---Vamo-nos embora! disse Sizof. - -N’esse mesmo instante, appareceu Sachenka. Agarrou Pélagué por um braço -e puxou-a para o passeio opposto, aconselhando: - ---Venha... A policia póde atirar-se para cima de nós e bater-nos... Ou -vão prender-nos... E então? Foi o degredo, não foi? Para a Sibéria? - ---Sim, é verdade!... - ---E elle que fez? Falou? Eu já sei tudo, afinal... É elle o mais -valoroso tambem, é certo! É sensivel e terno, mas sempre se acanha -quando tem de manifestar os seus sentimentos. É firme e resoluto como -a própria verdade!... É um grande homem, e tudo reside n’elle... -tudo! Mas a maior parte das vezes, elle próprio se constrange... com -o receio de não se entregar todo elle, d’alma e coração, á causa do -povo... Eu sei-o bem! - -Estas palavras d’amor, segredadas em um desabafo de paixão, acalmaram -Pélagué, reanimando-lhe as desfallecidas forças. - ---Quando vae encontrar-se com elle? perguntou á rapariga, em voz baixa -e affectuosa, puxando-a muito para si. - -Sachenka respondeu, com o olhar fito na sua frente, e com tranquilla -decisão: - ---Tão depressa encontre quem se encarregue do meu trabalho! Porque em -breve me tocará a vez de responder em juizo... Hão de mandar-me tambem -para a Sibéria. Direi então que desejo ser deportada para o sitio em -que elle estiver... - -Por detraz das duas mulheres ouviu-se então a voz de Sizof: - ---Faça-lhe os meus cumprimentos!... Chamo-me Sizof. Elle conhece-me: -sou tio do Fédia Mazine. - -Sachenka parou para se voltar e estender-lhe a mão: - ---Eu conheço o Fédia. O meu nome é Sachenka. - ---E o seu nome de familia? - -Ella lançou-lhe um breve olhar, e respondeu: - ---Não tenho familia. Já não tenho pae. - ---Morreu? - ---Não, está vivo! declarou já excitada. - -E alguma coisa obstinada, teimosa, lhe vibrou na voz e transpareceu nas -feições. É um proprietario rural, e é chefe do districto. Agora, rouba -a gente do campo... e maltrata-a! - ---Ah! proferiu Sizof arrastadamente. - -E apóz silencio, ajuntou, ao mesmo tempo que examinava a rapariga de -soslaio: - ---Bem, então, adeus, tiasinha! Eu vou por aqui!... Apparece para tomar -chá e cavaquear um pedaço... quando quizeres!... Até mais vêr, minha -menina!... A menina é muito severa para com o seu pae!... Está claro -que isso é lá comsigo!... - ---Se seu filho fôsse um homem inutil, prejudicial aos outros, o senhor -dizia-o? exclamou Sachenka, com paixão. - ---Dizia, sim, senhora! respondeu o velho, depois de hesitar um momento. - ---Por consequencia, a verdade merecer-lhe-ia mais apreço do que o seu -filho. Pois a mim merece-me mais apreço do que o meu pae... - -O outro abanou a cabeça, e em seguida, suspirando: - ---Ah! é astucioso, sim, senhora! Se tem assim resposta para tudo, -os velhos não pódem resistir-lhe! Sabe atacar pela certa! Até mais -vêr! Desejo-lhe todas as felicidades possiveis... Mas seja mais -condescendente com as pessôas sim? Que Deus vá comsigo! Adeus, Pélagué! -Se falares com o Pavel, diz-lhe que ouvi o seu discurso... Não percebi -tudo... Até me metteu medo em certas occasiões, mas o que elle disse é -a verdade! - -Ergueu o bonné e desappareceu, sem se apressar, na volta da esquina. - ---Deve ser um bom homem! observou Sachenka, seguindo-o com olhar -risonho. - -Parecia a Pélagué vêr no rosto da sua companheira expressão mais meiga -e melhor do que de costume... - -Chegadas a casa, sentaram-se no canapé, muito uma á outra. Pélagué -referiu-se de novo aos planos de Sachenka. Com as espessas sobrancelhas -muito erguidas, pensativa, a outra olhava para distante com os seus -grandes olhos de sonho. Lia-se-lhe no pálido rosto uma pacífica -concentração d’espírito. - ---Mais tarde, quando tiverem filhos, tambem eu para lá irei, para -tratar d’elles. E não havemos de viver peor lá do que vivemos aqui... O -Pavel ha de encontrar trabalho; é muito habilidoso. - -Sachenka olhava agora para ella, perscrutando-lhe os pensamentos. -Interrogou: - ---Não deseja então ir juntar-se a elle desde já? - -Respondeu, com um suspiro: - ---Para quê? Nada mais iria fazer-lhe do que causar-lhe incómmodo, caso -elle quizesse fugir. E depois, elle não mo consentia... - -Murmurou Sachenka: - ---Não, com effeito... - ---Além d’isso eu tenho que fazer aqui, accrescentou a mãe de Pavel com -um tanto de ufania. - ---Sim, é verdade! secundou, pensativa, a outra. E sabe trabalhar muito -bem... - -Mas de repente estremeceu, como se acabasse de libertar-se de um peso -qualquer, e logo annunciou com simplicidade, a meia voz: - ---Decididamente, elle não se demora na Sibéria... Ha de fugir... É -certo! - ---Mas, então, que ha de ser feito de si? E a creança, se a tiverem? - ---Não sei; veremos. O que eu não quero é que elle viva em cuidados -por minha causa. Dou-lhe plena liberdade para fazer o que quizer, -em qualquer occasião que seja. Não sou mais do que uma simples -correligionaria. Bem sei que me ha de ser terrivelmente custoso -deixal-o... mas hei de saber conformar-me... Não quero importunal-o em -coisa alguma, isso não! - -Sentia Pélagué que Sachenka era capaz de executar o que dizia. Cheia de -commiseração por ella, tomou-a nos braços: - ---Minha querida... Muito tem que soffrer!... - -Sachenka sorriu com meiguice; comprimiu-se toda contra o corpo de -Pélagué; subiu-lhe o rubor ás faces. - ---Isso ainda vem longe... Mas não julgue que seja um sacrificio penoso -para mim. Sei o que faço, sei com o que posso contar, serei feliz -se elle se considerar feliz comigo... O meu desejo, o meu dever, -é aumentar a sua energia, dar-lhe toda a felicidade que esteja em -meu poder, muita felicidade! Amo-o muito... e elle ama-me, que sei -eu! Retribuir-nos-emos dos nossos sentimentos, enriquecer-nos-emos -mutuamente, tanto quanto pudermos; e, se assim fôr necessario, -separar-nos-emos como bons amigos... - -Por entre um sorriso de felicidade, a mãe disse lentamente: - ---Eu irei juntar-me a vocês ambos... Talvez eu tambem seja exilada... - -E por muito tempo as duas mulheres permaneceram estreitamente -abraçadas, sem uma palavra, pensando n’aquelle que amavam. O silencio, -a tristeza, uma tépida suavidade, as envolviam. - -Nicolao chegou n’este comenos, fatigadissimo. Rapidamente, emquanto se -despia, foi dizendo: - ---Sachenka, vá-se depressa, se não depois talvez já não tenha tempo! -Desde esta manhã andam dois espiões a seguir-me tão ás claras que me -cheira a mandado de prisão... Tenho um presentimento... Deve-nos ter -acontecido alguma infelicidade, onde, ainda não sei... A propósito: ahi -tem o discurso do Pavel; foi decidido imprimil-o. Leve-o á Lioudmila, -supplique-lhe que o componham o mais breve possivel. O seu Pavel falou -muito bem, Pélagué!... Sachenka, tome cuidado com os espiões! Espere, -leve tambem estes papeis; dê-os ao doutor, por exemplo. - -E ao dizer isto, esfregava vigorosamente uma contra a outra as mãos, -que trazia regeladas. Em seguida, foi á mesa, abriu as gavetas, d’onde -extraíu varios documentos. Preoccupadissimo e com os cabellos em -desalinho, entrou a folheal-os á pressa, rasgou uns, emmaçou outros. - ---Olhem que não ha ainda muito tempo que eu puz tudo isto em ordem, e -vejam que montão enorme cá tenho outra vez! Demónio!... Talvez fôsse -melhor não dormir cá esta noite, Pélagué! Que lhe parece? Não é das -melhores coisas ter de assistir a essa comédia, os guardas são capazes -de a levar tambem... e é absolutamente necessário que vá por esses -campos distribuir o discurso do Pavel... - ---Ora adeus! porque é que me haviam de prender? contestou ella. E -d’ahi, talvez se engane, talvez não venha ninguem... - -Nicolao redargiu em tom de confiança e agitando a mão: - ---O meu faro nunca me enganou!... Alem d’isso, vocemecê podia auxiliar -a Lioudmila! Vá-se emquanto é tempo ainda... - -Na satisfação de ir cooperar na impressão do discurso de seu filho, -ella respondeu: - ---Pois se assim é, cá me vou. Mas olhe que não é porque tenha medo... - -E com admiração de si própria, proferiu estas palavras em voz baixa mas -decidida: - ---Agora, já não tenho medo de nada!... Deus louvado! já sei tudo o que -queria... - ---Ás mil maravilhas! exclamou Nicolao, sem a fitar. Ah! diga-me onde -está a minha roupa branca e a minha mala. A senhora de tudo tem cuidado -com tal carinho, que me vejo de todo incapaz de descobrir o que é minha -propriedade pessoal! Eu vou preparar-me. Os polícias é que vão ter uma -desagradavel surpresa! - -Sachenka ia queimando no fogão os papeis rasgados. Quando os viu -de todo consumidos, teve o cuidado de misturar as cinzas com as do -combustivel. - ---Vá, Sachenka, vá! disse-lhe Nicolao com um aperto de mão. Até á -vista! Não se esqueça de me mandar livros, se fôr publicada qualquer -coisa de novidade e intensa. Até á vista, cara correligionaria! E trate -sobretudo de ter prudencia... - ---Julga estar muito tempo na prisão? perguntou Sachenka. - ---O demónio que o julgue! Bastante tempo, com certeza... Teem diversos -pecadinhos a censurar-me... Pélagué, saia ao mesmo tempo com Sachenka. -É mais difficil seguir duas pessôas. - ---Bem! concordou ella. Eu já me visto. - -Observára Nicolao attentamente, e nada anormal descobrira n’elle, a não -ser a preoccupação que lhe velava o olhar bondoso e complacente. Não -lhe vira apparentar emoção alguma. - -Igualmente attencioso para com todos, affectuoso e metódico, sempre -socegado e solitário, levava a mesma existencia, misteriosa no seu -fôro íntimo e como que antepondo-se a todas as deligencias alheias. -Pélagué estimava-o tal qual elle era, com um amor prudente, que parecia -duvidar de si mesmo. E agora experimentava por Nicolao uma compaixão -indizivel; mas dominava-a porque sabia que se elle lh’a notasse, havia -de commover-se e tornar-se um pouco ridículo, como habitualmente. Não -era sob este aspecto que Pélagué o queria vêr. - -Já vestida, voltou ao gabinete. Nicolao estava apertando a mão de -Sachenka. Dizia-lhe: - ---Optimamente! Estou certo de que ha de ser bom para elle, como para -si... Um poucochinho de felicidade pessoal nunca causa damno... Mas -olhe que não é bom que seja demasiada, para não perder o valor. Está -pronta, mãesinha! - -Acercou-se d’ella, compondo os óculos. - ---Bem! Então, até á vista!... d’aqui a trez, quatro ou seis mezes. É -muito tempo!... Que de coisas se podem fazer em seis mezes! Poupe-se, -sim? Peço-lh’o. Vá lá! Venha um abraço! - -Passou os robustos braços em torno do pescoço de Pélagué e fitando-lhe -muito os olhos, disse com um riso muito franco: - ---Parece-me que estou apaixonado por si... Não faço senão abraçal-a! - -Sem lhe responder, ella beijou-o na testa e nas faces. As mãos -tremiam-lhe: deixou-as pender para que elle não o notasse. - ---Então, vae partir?... Ás mil maravilhas!... Mas tome cautella, seja -prudente! Olhe: mande um rapazito aqui ámanhã pela manhã; a Lioudmila -tem um lá em casa. Por elle ficará sabendo o que se tiver passado. Bem, -até mais vêr, camaradas! Tudo vae bem!... Que tudo continue bem, é o -que se quer! - -Pela rua, commentava Sachenka em voz baixa: - ---Com aquella mesma simplicidade é capaz de ir para a morte, se fôr -preciso... Só com um pouco de pressa, como ainda agora. Quando lhe -chegasse a sua hora final, ajustava os óculos, dizia assim: «Ás mil -maravilhas!» e morria! - ---Amo-o devéras! segredou Pélagué. - ---Pois a mim, causa-me espanto! Quanto a amal-o, não! Estimo-o, -simplesmente. Acho-o muito sêco, ainda que lhe encontre certa -bondade e ás vezes até alguma ternura. Mas não possue em si bastante -humanidade... Parece-me que vamos sendo seguidas. Separemo-nos. Não vá -a casa da Lioudmila, se desconfiar que a vigiam... - ---Bem sei! respondeu ella. - -Mas Sachenka insistiu ainda: - ---Não vá para casa d’ella... Se tal succeder, venha antes para a minha. -Até mais vêr! - -Virou-se rápida e voltou pelo mesmo caminho. - -A outra gritou-lhe: - ---Até á vista! - - - - -XXVIII - - -Minutos depois, aquecia-se Pélagué junto do fogão, no quarto de -Lioudmila. Vestida de preto, esta ultima passeava devagar pelo estreito -aposento, que enchia com o rugir das suas saias e com a soberania -da sua voz autoritária. No fogão, a lenha estralejava e assobiava, -aspirando o ar do quarto. Vibrava a voz igual e monótona da dona da -casa: - ---Os homens são infinitamente mais tôlos do que maus. Não sabem vêr -senão o que lhes fica perto, o que teem ao seu alcance immediato!... -Ora tudo o que nos fica próximo é mesquinho; só o que se encontra -afastado tem valor. Na realidade, seria vantajoso para todos que a -vida se tornasse mais facil e as creaturas mais intelligentes... Mas -para chegarmos a isso, forçoso é renunciar por emquanto a viver com -tranquilidade. - -Aqui, estacou de súbito em frente de Pélagué e accrescentou mais baixo, -como para desculpar-se: - ---Dou-me com tão pouca gente!... Quando alguem vem a minha casa, -ponho-me logo a discursar!... É ridículo, não é? - ---Ora essa! Porquê? - -Diligenciava Pélagué descobrir onde era que Lioudmila imprimia os -folhetos, mas não via em torno de si nada extraordinario. No quarto, -com trez janellas para a rua, havia um canapé, um armário com livros, -uma mesa, cadeiras, uma cama encostada a uma das paredes; n’um dos -cantos, o lavatório, n’outro, o fogão; pelas paredes fotografias. Tudo -isto com apparencia de novo, sólido e aceado. E n’este conjunto, a -figura quasi monástica da dona do aposento era principalmente o que -impunha severo aspecto. Presentia-se haver n’aquelle quarto o que quer -que fôsse misterioso e occulto. - -Olhou depois para as portas: penetrára no quarto por uma d’ellas--a que -abria para uma exigua casa de entrada; perto do fogão, havia outra, -alta e estreita. - ---Vim para tratar de certo negócio... disse ella um tanto confusa, ao -ver que Lioudmila a estava observando. - ---Já sei. Ninguem vem a minha casa com outro motivo. - -Pareceu a Pélagué vibrar na voz da sua interlocutora uma intenção -singular; via-lhe um sorrisinho nas delgadas commissuras dos lábios, e -as pupilas, baças habitualmente, brilhavam-lhe por detraz dos vidros da -luneta. Desviou portanto o olhar e apresentou-lhe o manuscrito com o -discurso de Pavel. - ---Aqui está. Pedem-lhe que o imprima o mais depressa que possa. - -E narrou os preparativos a que Nicolao procedera, prevendo a sua -captura. - -Sem dizer uma palavra, Lioudmila entalou o papel no cinto e sentou-se -n’uma cadeira. Agitavam-se-lhe pelo rosto impassivel os reflexos do -lume. - ---Quando os polícias vierem a minha casa, faço fogo para cima d’elles! -declarou. Tenho o direito de defender-me contra a violencia e o dever -de luctar contra ella, visto que instigo tambem os outros a fazel-o! - -A vermelhidão das chammas desappareceu-lhe do rosto, o qual voltou a -mostrar-se severo e um pouco altivo. - -«Deve ser bem trabalhosa a vida que levas»--foi o súbito pensamento que -accudiu ao espirito de Pélagué, acompanhado d’um sentimento d’affeição. - -Ella pôz-se a lêr o discurso de Pavel, primeiro, sem vontade, depois, -curvando-se cada vez mais sobre o papel. Ia atirando rapidamente para -o chão as folhas já lidas. Finda a leitura, levantou-se, endireitou o -tronco e foi para a outra: - ---Está muito bom! Ahi está do que eu gosto! É nitido e claro! - -Inclinou a cabeça e reflectiu um instante. - ---Não quiz falar-lhe do seu filho: nunca o vi e não me agradam as -conversas tristes. Eu sei o que se sente quando vemos um dos nossos ir -para o degredo!... Diga-me: é agradavel ter-se um filho como elle? - ---Sim, muito agradavel! - ---E deve ser coisa terrivel tambem?... - -Com um sereno sorriso, Pélagué respondeu: - ---Não; agora já não... - -Lioudmila alisou com a mão, muito morena, os cabellos penteados em -bandós; depois, voltou-se para a janella: palpitava-lhe nas faces uma -leve sombra apaixonada. - ---Vamos imprimir isso... Quer ajudar-me? - ---Certamente! - ---Vou compôr o mais depressa possivel. Deite-se; o dia deve-lhe ter -sido fatigante. Vê-se que está cansada. Deite-se n’aquella cama, que eu -não durmo hoje. Talvez tenha de a accordar de noite, para me auxiliar. -Antes de adormecer, apague o candieiro. - -Accrescentou duas achas ao lume e saíu pela porta estreita, praticada -ao lado do fogão, que tornou a fechar cuidadosamente apóz si. - -Pélagué seguira-a com o olhar. E emquanto se despia, pensava -maquinalmente na sua hospedeira: - -«É um caracter severo... E vê-se que soffre, a pobre senhora!» - -O cansaço esvaía-lhe a cabeça; no entretanto, sentia o coração -singularmente calmo; no seu espirito, tudo se illuminava com suave -e cariciosa luz. Pélagué conhecia já aquella tranquillidade, que -segue sempre ás grandes commoções; antigamente, inquietava-a, mas -agora, fazia que a sua alma se expandisse, revigorada em forte e -puro sentimento. Apagou o candieiro, deitou-se na cama muito fria, -encolheu-se, aconchegando a si os cobertores e adormeceu logo em -profundo somno. - -Quando descerrou os olhos, estava o quarto banhado da claridade gélida -e branca d’um desanuviado dia d’inverno. Estendida no canapé, com um -livro na mão, Lioudmila fitava-a com uma expressão de ternura que a -transfigurava. - ---Deus meu! exclamou Pélagué, confundida. Quanto tempo eu dormi! É -muito tarde, pois não é? - ---Bom dia! respondeu-lhe Lioudmila. Vão dar as dez horas. Levante-se -para irmos almoçar. - ---Porque não me accordou? - ---Tive idéa d’isso; mas a senhora mostrava um sorriso tão bonito, -emquanto dormia... - -N’um movimento ágil do seu corpo robusto e flexivel, Lioudmila -levantou-se, approximou-se do leito, curvou-se sobre o rosto d’ella; e -Pélagué poude distinguir nos olhos sem brilho da sua hospedeira alguma -coisa familiar, amigavel, compreensivel. - ---... que não quiz despertal-a... Era um bello sonho que estava tendo, -com certeza... - ---Não, senhora; não sonhei com coisa alguma. - ---Pois é pena... Mas gostei de vêr aquelle seu sorriso: achei-o tão -meigo, tão santo! - -E Lioudmila poz-se a rir, um rir aveludado e discreto. - ---Entrei a pensar em si, na sua vida... Porque a sua existencia deve -ser ardua! - -Pélagué contraíu os sobrolhos, pensativa. - ---Não sei! respondeu, hesitante. Ha momentos em que me parece que -sim... mas não é verdade! Ha tantas coisas... coisas espantosas e -graves, que se seguem com tanta rapidez umas ás outras!... - -Subia-lhe ao peito a onda de excitação que ella conhecia bem, -enchendo-lho d’imagens e de pensamentos. Sentou-se na cama e deu-se -pressa em revestir de palavras as suas idéas. - ---Tudo o que estamos presenceando caminha para o mesmo fim, como o -fogo, quando arde uma casa, tende sempre a subir! Aqui, abre caminho, -mais além, brilha intensamente, sempre mais violento, sempre mais -luminoso... Ha tanta coisa que custa vêr! Se soubesse!... Essa pobre -gente soffre, é incommodada, espiada... Batem-lhes, batem-lhes com -crueldade... Elles, então, occultam-se a todas as vistas, passam a -viver como frades. Quantas alegrias ha que lhe são defezas!... E é -triste assim, a vida! - -Lioudmila ergueu com vivacidade a cabeça e fitou Pélagué com profundo -olhar. - ---Não é de si que está falando! observou em voz baixa. - ---De mim!... repetiu ella, emquanto se ia vestindo. E póde alguem -collocar-se á parte, quando o nosso coração ama alguma coisa, quando -este ou aquelle nos é querido, quando se sente medo e compaixão por -todos?... Tudo isto se nos entrechoca na alma, attraída assim para cada -um d’esses infelizes... Como podemos collocar-nos á parte? Para nos -refugiarmos onde? - -Já meio vestida, permaneceu um instante pensativa no meio do quarto. -E subitamente, afigurou-se-lhe que já não era ella a mesma creatura -que tanto se inquietára e alarmára pela sorte de seu filho; tal -personalidade já não existia, tinha-se desapegado e afastado d’ella. -Escutou-se então a si própria, no desejo de saber o que se passava no -seu íntimo, embora receasse despertar outra vez o seu velho sentimento -de anciedade. - ---Em que está pensando? perguntou-lhe Lioudmila affectuosamente. - ---Nem eu sei! - -Calaram-se as duas, olharam uma para a outra e sorriram. Depois, -Lioudmila abalou do quarto, murmurando: - ---Que estará fazendo o meu samovar? - -Pélagué olhou então pela janella. Lá fóra, reinava a frialdade d’um -luminoso dia d’inverno. Ella, no âmago do coração, sentia tambem uma -claridade igual áquella, mas quente. O seu desejo seria falar de tudo; -demorada e jovialmente, n’um vago sentimento de gratidão por tudo o que -baixára á sua alma, tornando-lha assim bem formada. Sentiu, o que havia -muito não lhe succedia, um desejo de rezar. Veiu-lhe então á lembrança -um rosto moço e imberbe; na sua memória ecoou uma voz delgada: «É a mãe -do Pavel Vlassof...» Scintillavam os meigos olhos joviaes de Sachenka; -desenhava-se o negro perfil de Rybine; sorria o rosto valoroso e -bronzeado de Pavel; Nicolao piscava os olhos, acanhado. E de repente, -todos aquelles rostos amigos foram eclipsados em meio d’um suspiro -ligeiro mas de significação profunda; baralharam-se, confundiram-se -em uma nuvem transparente e multicolor, que envolvia o coração em um -sentimento de paz. - ---O Nicolao tinha razão! disse Lioudmila ao regressar ao quarto. Foi -preso, não ha duvida possivel! Conforme me recommendou, mandei um -rapazito a casa d’elle. Já voltou. Diz que estão lá agentes de polícia -escondidos no páteo; que viu um por detraz da porta da rua. Os espiões -vigiam ao de redor da casa; o pequeno conhece-os. - ---Ah! limitou-se Pélagué a dizer, com um meneio de cabeça. Pobre -Nicolao! - ---N’estes ultimos tempos, elle fazia muitas prelecções aos operários -da cidade; estava desmascarado; era tempo e mais que tempo que -desapparecesse! proseguiu Lioudmila em tom sombrio mas sereno. Os -companheiros andavam sempre a dizer-lhe que saísse da cidade; elle não -quiz dar-lhes ouvidos!... A minha opinião é que, em taes casos, o que -se deve não é aconselhar as pessôas, mas obrigal-as! - -Á porta appareceu um rapazito de cabello preto, pelle rosada, nariz -aquilino e bonitos olhos azues. - ---Quer que traga o samovar? perguntou com voz sonora. - ---Traz, sim, Sérgio, se fazes favor. É meu discipulo... Não o conhecia? - ---Não. - ---Tenho-o mandado algumas vezes a casa do Nicolao. - -Pélagué, entretanto, achava Lioudmila muito mudada, parecia-lhe -mais singela de maneiras, mais compreensivel. Havia nos movimentos -graciosos do seu esbelto corpo, belleza e força, a attenuarem o que -no rosto pálido tinha de severidade. Com a noite perdida as olheiras -haviam-se-lhe cavado mais. Sentia-se-lhe nos modos um esforço -continuado, como se na sua alma vibrasse uma corda em demasiada tensão. - -O rapaz trouxe o samovar. - ---Sérgio, olha a senhora Pélagué Vlassof, a mãe do operário que foi -hontem condenado. - -A criança inclinou-se em silencio, apertou a mão de Pélagué, tornou a -saír e voltou trazendo pão. - -Sentou-se tambem á mesa. Emquanto ia servindo o chá, Lioudmila -aconselhou Pélagué a não voltar para casa sem que se soubesse quem era -a pessôa alvejada pelas deligencias policiaes. - ---Talvez seja a senhora mesma... Hão de querer interrogal-a. - ---Que me importa! redarguiu ella. Se for prêsa, a desgraça não será -grande! Só o que desejava era que o discurso do Pavel estivesse já -distribuido... - ---Já está composto. Ámanhã teremos exemplares bastantes para a cidade -e para os arrabaldes... e tambem para o resto do districto. Conhece a -Natacha? - ---Ora se conheço! - ---Pois é preciso que lhe leve os folhetos. - -A criança estava lendo um jornal. Parecia não ouvir o que diziam, mas -de quando em quando, erguia os olhos para Pélagué. Esta, quando lhe -surpreendia aquelle olhar tão vivo, sentia-se agradavelmente commovida. -A joven senhora falou novamente de Nicolao, sem lamentar sequer a sua -captura, o que de toda a maneira pareceu a Pélagué naturalissimo. -O tempo dir-se-ia passar mais veloz; era perto do meio dia quando -terminaram o almoço. - - - - -XXIX - - -De repente ouviu-se bater na porta, rapidamente. Levantou-se a criança -e dirigiu interrogador olhar á dona da casa. - ---Abre, Sérgio! Quem poderá ser? - -Com o maior socego, introduziu a mão na algibeira do vestido e disse á -sua hospede: - ---Se fôr a polícia, colloque-se ali n’aquelle canto. E tu, Sérgio... - ---Bem sei! respondeu a criança, baixando a voz. E saíu. - -Pélagué sorria. Não a impressionavam taes preparativos; não tinha o -presentimento d’uma desgraça. - -Quem entrou afinal foi o doutor. Annunciou logo com precipitação: - ---O Nicolao foi preso!... Ah, está por cá, tiasinha?... Não estava em -casa quando o levaram? - ---Não, senhor; foi elle que me mandou para aqui. - ---Hum!... Não me parece que isso lhe seja de grande utilidade... Esta -noite, uns rapazes imprimiram com gelatina quinhentos exemplares do -discurso do Pavel. O trabalho ficou bom, está bem impresso, lê-se -bem. Tencionam distribuil-os pela cidade, esta noite. Não sou d’essa -opinião: para a cidade são preferiveis os folhetos impressos; os outros -é que devem ser expedidos para toda a parte. - ---Eu os vou levar á Natacha! Dê-mos! exclamou Pélagué com vivacidade. - -O seu grande desejo era fazer circular o mais depressa possivel o -discurso de Pavel; inundar a terra com as palavras de seu filho. E -fitava o médico attentamente, com olhar quasi supplicante. - ---Não sei se será prudente que a senhora se metta agora n’essa empreza! -disse, indeciso. E puxou pelo relógio.--São onze horas e quarenta e -trez minutos... O comboio parte ás duas e cinco; póde chegar ao seu -destino ás cinco e quinze... Ia chegar de noite, mas não era muito -tarde... Além do que, não é isto o essencial... - ---Não, não é isso o essencial! repetiu Lioudmila, franzindo o sobrolho. - ---Então o que é? perguntou Pélagué, approximando-se d’elles. O -essencial é que a distribuição seja bem feita... e eu sei como me hei -de haver! - -A dona da casa attentou n’ella fixamente e declarou, passando a mão -pela testa: - ---É perigoso... - ---Porquê? exclamou a outra. - ---Aqui tem porquê! expôz o doutor com voz precipitada e desigual. -Vocemecê desappareceu de casa uma hora antes da prisão do Nicolao. -D’aqui a pouco, vae ser vista lá na fabrica, onde é tão conhecida. Logo -depois de lá chegar, entram a apparecer os folhetos revolucionarios... -Tudo isso são indícios que se lhe vão apertar na garganta como um laço -corredio... - ---Mas é que não hão de dar por mim! objectou ella com animação -crescente. Se fôr presa quando de lá voltar, e me perguntarem onde -estive... - -Interrompeu-se um momento e proseguiu: - ---Sempre hei de achar resposta! Por exemplo: posso ir da fabrica -directamente ao arrabalde. Conheço lá um sujeito chamado Sizof. Pois -digo que logo em seguida ao julgamento fui para casa do Sizof, por me -achar incommodada com o desgosto soffrido... Tambem elle está muito -pezaroso: o sobrinho foi condenado juntamente com o Pavel!... Digo que -estive todo este tempo em casa d’elle, e elle ha de confirmar o que eu -disser... Bem vêem! - -E porque os sentisse cederem aos seus argumentos, esforçava-se por -convencel-os e falava com crescente calor. Por fim, acquiesceram. - ---Que se ha de fazer? Pois vá! concordou o doutor, mas de má vontade. - -Lioudmila conservava-se em silencio; passeava pelo quarto, meditativa. -O rosto assombreára-se-lhe, as faces haviam-se-lhe cavado; os músculos -do pescoço pareciam ter-se distendido, como se a cabeça se tivesse -bruscamente tornado mais pesada e tombasse irresistivelmente para o -peito. - -O forçado consentimento do doutor arrancára a Pélagué profundo suspiro. - ---Andam todos a animar-me! disse, sorrindo. Mas os senhores são os -primeiros que não se poupam! - ---Isso não é assim! replicou o doutor. Poupamo-nos todos; temos o -dever de nos poupar. E as nossas censuras nunca serão demasiadas para -aquelles que se expõem inutilmente! Por consequencia lá se lhe irão -levar os folhetos á estação. - -Explicou-lhe o que tinha a fazer e em seguida accrescentou, fitando-a -bem de frente: - ---O que desejo é que se saia bem! Está satisfeita, não é assim? - -E foi-se descontente. Logo que ouviu fechar se a porta, Lioudmila -approximou-se de Pélagué. - ---A senhora é uma excellente mulher!... Eu compreendo-a... - -Travou-lhe depois do braço, e ambas entraram a passear pelo aposento. - ---Tambem eu tenho um filho. Tem já doze annos. Mas vive com o pae. Meu -marido é procurador substituto; talvez seja já procurador effectivo, -não sei... E aquella criança está na sua companhia... Quantas vezes -pergunto a mim mesma qual será o seu futuro!... - -Teve na voz, desfallecida, uma commoção, e depois proseguiu baixinho, -de novo meditativa: - ---Se elle está sendo educado por um inimigo figadal d’aquelles que me -são queridos, d’aquelles que eu considero como as melhores creaturas -da terra!... E assim, meu filho póde vir a ser meu inimigo tambem... -Não me é licito trazel-o para a minha companhia, pois que vivo com nome -supposto. E ha oito annos já que o vi pela ultima vez!... Quanto tempo! -Oito annos! - -Ao pé da janella, parou e ficou a olhar para o pálido e desolado céu. - ---Se elle vivesse comigo, sentir-me-ia mais forte. Mesmo se morresse, -ficaria mais aliviada... - -Apóz um instante de silencio, ergueu a voz para explicar: - ---Porque então, ficaria sabendo que só estava morto; porque não poderia -tornar-se n’um inimigo d’aquillo que é superior ao próprio amor -materno, de tudo o que na vida ha mais precioso!... - ---Minha querida amiga! murmurou brandamente Pélagué, sentindo o coração -confranger-se-lhe de dó. - ---A senhora é feliz! proseguiu Lioudmila com um sorriso. É admiravel -vêr uma mãe e um filho caminharem lado a lado... É raro! - ---Sim, é certo; é delicioso! exclamou Pélagué. - -E explicou, baixando a voz, como para confiar um segredo: - ---É como se tivessemos uma segunda vida! A senhora, Nicolao, todos, -emfim, os que luctam pela verdade, estão comnosco!... E assim, -tornamo-nos mais intimos uns dos outros... E eu compreendo-os... não o -que dizem, mas tudo o mais, sim, compreendo-o!... Tudo! - ---Ah, é assim? exclamou a joven senhora. É assim!... - -E logo Pélagué, pousando-lhe a mão no hombro: - ---Os nossos filhos vão em marcha pela terra! Eis o que eu compreendo! -Vão em marcha pela terra, por toda a terra e em toda a parte caminham -para o mesmo fim! Arremessam se ao assalto os melhores corações e os -espiritos mais leaes, sem olharem para traz de si, para tudo o que é -mau e sinistro. E avançam, avançam... Debeis ou robustos todos dedicam -as suas inteiras forças á mesma causa: a justiça! Juraram triunfar da -desgraça; armaram-se para aniquílar o infortúnio da humanidade: querem -vencer o horror e hão de vencêl-o! «Havemos de accender um novo sol» -disse-me um d’elles. E hão de accendêl-o! «Havemos de reunir num só -todos os corações despedaçados!» disse outro. E hão de fazel-o! - -Ergueu o braço para o ceu: - ---Além ha um sol! - -E, batendo no peito, concluiu: - ---E aqui, outro se ha de accender, mais brilhante que o do ceu, o sol -da felicidade humana, que eternamente illuminará a terra inteira e -aquelles que a habitam, com a luz do amor de cada creatura por todos e -por tudo! - -E Pélagué evocava as palavras das orações esquecidas para entusiasmar a -sua nova fé e lançava-as do coração como scentelhas: - ---Os nossos filhos, caminhando pela senda da razão e da verdade, levam -o amor a todas as coisas, criam um novo ceu, accendem o lume sagrado -e incorruptivel que brota da alma, do âmago do coração. E é assim que -nos é offerecida uma vida nova no apaixonado amor dos nossos filhos -pelo mundo inteiro. E quem poderia extinguir este amor? Quem? Existe -força superior a esta? Quem poderia vencel-a? Foi a própria terra que -a gerou e a vida inteira exige a sua victória... a vida inteira! - -Pélagué afastou-se de Lioudmila e sentou-se, offegante, quebrada pela -sua commoção. A joven senhora afastou-se tambem de mansinho, com -precaução, como se receasse quebrar alguma coisa. No seu passo agil, -atravessou o quarto, fixando para longe d’ali o olhar profundo dos seus -olhos sem brilho. Parecia ainda mais delgada, mais hirta e mais alta. -Tinha na cara chupada e severa uma expressão concentrada, comprimia -nervosamente os lábios. O silencio acabára por apaziguar a exaltação de -Pélagué. A meia voz, n’um tom de receio, perguntou: - ---Talvez eu dissesse coisas que não deveria ter dito. - -Lioudmila voltou-se com vivacidade, lançou-lhe um olhar assustado e -exclamou: - ---Não! é assim mesmo! é assim mesmo!... Mas não falemos mais n’isso! -Fiquem as suas palavras taes quaes as pronunciou, sim! - -E proseguiu depois, já mais calma: - ---É forçoso partir... A estação fica longe d’aqui. - ---Sim, vou já partir! Como me sinto contente! Se soubesse!... Levo -comigo as palavras do meu filho, as palavras do meu sangue! É como se -levasse a minha alma! - -Sorria. Mas este sorriso não produziu mais que um pálido reflexo na -fisionomia de Lioudmila. Pélagué sentia aquella frieza regelar-lhe -a sua própria alegria. Assim, sentiu o desejo súbito de communicar -áquella alma severa o seu ardor, abraçar-se com ella, afim de a fazer -sentir em unísono com o seu coração de mãe. Tomou a mão de Lioudmila e -disse, apertando-lha com fôrça: - ---Minha querida! Como é bom saber que ha na vida luz para todos os -homens e que, com o tempo, elles hão de acabar por vêl-a, por fundirem -n’ella as suas almas e por arderem todos da mesma chamma inextinguivel! - -O seu rosto bondoso tremia de entusiasmo; os seus olhos radiantes e -as suas sobrancelhas agitavam-se, como para dar azas ao brilho das -pupillas. Sentia-se enebriada pela sublimidade dos seus ideaes, em que -punha toda a ardencia do coração, tudo o que experimentára, e encerrava -nos rijos e limpidos cristaes das palavras illuminadas as idéas -que floresciam e desabrochavam mais e mais no seu coração outonal, -illuminado pelo sol da fôrça creadora. - ---É como se para nós tivesse nascido um novo Deus! Tudo para todos, -todos para tudo, a vida inteira em um só, em cada um a vida inteira! -E cada um para a vida inteira! É assim que eu compreendo; é para isso -que vós todos andaes pela terra, eu bem o vejo! Em verdade, todos sois -camaradas, todos sois da mesma familia, porque todos sois os filhos da -mesma mãe: a verdade! Foi a verdade que vos gerou e é pela sua fôrça -que viveis! - -Pélagué retomou alento e continuou, com um gesto largo que parecia -abarcar tudo! - ---E quando a mim própria pronuncio esta palavra «camaradas» parece-me -ouvil-os caminhar. De toda a parte vem em multidão. Oiço um ruido -atroador e alegre, como se os sinos de todas as igrejas da terra -entrassem a tocar! - -Conseguira o que desejava: animára-se o rosto de Lioudmila; os lábios -tremeram-lhe; uma apóz outra, rolaram-lhe dos olhos pesados lagrimas -crístallinas. - -Então, Pélagué tomou-a entre os braços; teve um riso silencioso, -meigamente ufana da victória obtida pelo seu coração. - -Ao afastarem-se as duas mulheres, Lioudmila fitou Pélagué e perguntou -em voz baixa: - ---Sabe que é muito agradavel estar na sua companhia? - -E a si própria respondeu, rematando: - ---Sim, parece que se está no cimo de uma alta montanha, ao nascer da -aurora... - - - - -XXX - - -Lá fóra, o ar sêco e glacial fustigava o corpo, irritava a garganta e -o nariz; suffocava a respiração. Pélagué parou a certa altura, olhando -em torno: perto d’ali, á esquina d’uma rua, estava um cocheiro com um -bonné de pello; mais longe, caminhava um homem, todo corcovado, com -a cabeça encolhida entre os hombros. Um soldado corria, aos pulos, -esfregando as orelhas. - -«Provavelmente mandaram-no á loja, a comprar alguma coisa!» pensou -ella. Escutava com satisfação o ruído da neve que se lhe quebrava -sob os passos. Em breve chegou á estação; o comboio ainda não estava -formado; no entretanto, havia já muita gente na sala de espera da -terceira classe, enfumaçada e suja. O frio para lá escorraçára os -trabalhadores do caminho de ferro; e tambem vinham aquentar-se ali, -cocheiros e individuos mal vestidos, sem eira nem leira. Tambem ali se -encontravam viajantes: alguns campónios, um negociante gordo, vestido -de espessa capa de pelles, um padre com a sua filha, uma rapariguita -de rosto pálido, cinco ou seis soldados e alguns burguezes com ares de -atarefados. Fumava-se, conversava-se, bebia-se aguardente ou chá. Junto -ao bufete, ouviam-se grandes gargalhadas; pairava por cima das cabeças -o fumo do tabaco em densas nuvens. Ao abrir-se, a porta chiava, e -quando a tornavam a fechar, batia com estrondo e as vidraças resoavam -e tremiam. Assaltava violentamente as narinas um cheiro a tabaco e a -peixe salgado. - -Pélagué sentou-se perto da porta, bem em evidencia, e esperou. Quando -entrava alguem, envolvia-a uma lufada d’ar frio; a sensação era -agradavel: respirava n’esses momentos a plenos pulmões. Apparecia gente -em pesados trajos, carregada de embrulhos; prendiam se desastradamente -na porta, praguejavam, atiravam os seus fardos para o chão; depois -limpavam da geada a gola e as mangas dos casacões, limpavam as barbas -ou os bigodes, resmungando. - -Um rapaz, que trazia uma mala amarella, entrou, e depois de olhar -rapidamente em torno, foi direito a Pélagué. - ---A Moscou? perguntou elle a meia voz. - ---Sim! a casa de Tania. - ---Ahi tem! - -E dito isto, collocou a mala sobre o banco, ao lado d’ella, tirou um -cigarro da algibeira, accendeu-o rapidamente e tornou a saír por outra -porta, depois de ter erguido levemente o bonné. Pélagué passou a mão -pelo coiro frio da mala e encostou-se a ella. Satisfeita, emfim, pôz-se -a examinar quem estava. Instantes depois, levantou-se e foi sentar-se -n’outro banco, mais próximo da saída. Levava a mala n’uma das mãos com -a maior serenidade, de cabeça levantada e fitando as caras que lhe -passavam ao alcance da vista. - -Um homem vestido d’um casaco curto e com a cabeça enterrada na -gola, erguida, deu-lhe um encontrão e afastou-se sem dizer uma -palavra, levando simplesmente a mão ao bonné. Pareceu-lhe tel-o já -visto. Voltou-se e viu que elle a estava observando. Sentiu-se como -trespassada por aquelle olhar claro; a mala entrou a tremer-lhe na -mão, como se tivese repentinamente aumentado de peso. - ---Onde vi eu aquelle homem? perguntava a si mesma, como para repellir -a sensação desagradavel que lhe subia do peito até á garganta e -lhe enchia a bocca de amargo travor. Apoderou-se d’ella um desejo -irresistivel de se voltar e de olhar mais uma vez para elle: o homem -continuava no mesmo logar, firmando-se ora n’um pé, ora no outro e -parecia indeciso. Introduzira a mão direita entre os botões do casaco e -conservava a outra na algibeira, o que fazia parecer que tinha o hombro -direito mais alto do que o esquerdo. - -Devagar, Pélagué caminhou até um banco, sentou-se lentamente, com -precaução, como se receasse quebrar alguma parte do corpo. A sua -memória, despertada por um agudo presentimento de desgraça, evocava -dois aspectos d’este homem: o primeiro datava do dia da evasão de -Rybine; o outro, da vespera. Lembrava-se ter visto no tribunal, ao -lado d’aquelle individuo o agente de polícia a quem fornecera a errada -indicação sobre o caminho que Rybine tomára na sua fuga. Tornára-se -pois conhecida, andava vigiada, era certo! - ---Estarei eu apanhada? perguntou a si mesma. E respondeu, sentindo-se -estremecer: «Talvez ainda haja meio... Não, decididamente estou -apanhada, não ha nada a fazer...» - -Olhou em roda, mas não viu nada suspeito. Uma apóz outra, como -scentelhas, surgiam-lhe e apagavam-se-lhe várias idéas dentro do -cérebro. - ---Deixar a onda?... Ir-me embora? - -Mas logo outra scentelha mais viva brilhou: «As palavras do meu -filho... atiral-as assim fóra! Deixal-as em semelhantes mãos!» - -E chegou a mala mais para si. - -«E se eu agarrasse n’ella e deitasse a fugir!...» - -Chegava-lhe a parecer não serem seus os próprios pensamentos, que -alguem lh’os introduzia no cerebro, á fôrça. Eram como queimaduras -a corroerem-lhe dolorosamente a cabeça e o coração, levando-a para -longe de si mesma, para longe de Pavel, de tudo o que já fazia parte -integrante do seu coração. Sentia que uma fôrça hostil a opprimia -obstinadamente, lhe pezava nos hombros e no peito, a aviltava, -mergulhando-a em frio terror. Incharam-se-lhe as veias das fontes, -subiu-lhe á cabeça intenso calor. - -Então, d’um só impulso vigoroso que a ergueu de chofre, suffocou em si -todos estes lampejos de tibieza, covardes e astuciosos, ordenando a si -própria com autoridade: «Não sejas a vergonha do teu filho!» - -Aos seus olhos appareceu então um olhar tímido e desconsolado. -Passou-lhe pela memória a imagem de Rybine. Estes poucos segundos de -hesitação bastaram para fortalecer n’ella todas as crenças. O coração -pulsou-lhe com mais regularidade. - ---Que irá acontecer? perguntou a si mesma, olhando em torno. - -O espião acabava de chamar um guarda; segredava a este o que quer que -fosse, designando-a com o olhar. O guarda observou Pélagué e recuou. -Approximou-se outro guarda e pôz-se a escutar o que diziam. Era um -velho robusto, grisalho e de comprida barba. Fez um signal com a cabeça -ao espião e adiantou-se para o banco em que Pélagué se sentava. O -espião desappareceu como por encanto. - -O velho caminhava sem pressa alguma, perscrutando attentamente com -olhar irritado a fisionomia de Pélagué. Ella encolheu-se toda no fundo -do banco. - -«Com tanto que não me batam!... Deus permitta que não me batam!» - -O guarda parou junto d’ella e, apóz silencio, perguntou com severidade: - ---Que estás tu a olhar? - ---Nada... - ---Está bem... Ladra! Então és velha e andas n’essa vida?! - -Com estas palavras julgou Pélagué que recebia uma bofetada. Irritadas -e roucas, faziam doer, como se lhe rasgassem as faces e arrancassem os -olhos. - ---Ladra, eu?! Mentes! gritou com toda a fôrça dos pulmões. - -Tudo o que a rodeava lhe parecia mover-se descompassadamente entre o -redemoinho da sua indignação; sentia o coração atordoado pela amargura -da injuria. Agarrou na mala, que logo se abriu por si. - ---Olha! Olhem todos! exclamou, pondo-se em pé e agitando acima da -cabeça um maço de proclamações. Atravez dos zumbidos de que tinha -cheios os ouvidos, ouvia as exclamações das pessoas que accudiam de -todos os lados. - ---Que se passa? - ---É um agente da polícia secreta... - ---Mas que aconteceu? - ---Dizem que roubou, aquella mulher... - ---Aquella mulher? - ---Mas ella protesta. - ---Ora adeus! Com aquelle todo tão respeitavel! - ---Quem foi que prenderam? - ---Eu não sou ladra! repetia ella com voz forte e serenando pouco a -pouco com o ver a attitude dos curiosos que a rodeavam em compacto -círculo. - ---Hontem foram condemnados alguns presos politicos e entre elles o meu -filho... O meu filho chama-se Vlassof. Pronunciou um discurso: aqui -o teem! Ia leval-o á gente do povo, para que o leia e reflicta nas -verdades que elle encerra! - -E porque um dos circumstantes, com precaução, tomasse um dos fasciculos -que ella tinha na mão, agitou os outros e atirou-os por sobre o -ajuntamento. - ---Estás livre de receber felicitações pela maneira por que os -distribuiste! commentou a medo uma voz. - ---Cuidado, que vae acontecer alguma! aconselhou outra voz. - -Pélagué via que cada qual tratava de se apoderar dos papeis e de -escondel-os nas algibeiras ou no peito. Mais animosa, entrou a tomar -maços e maços de dentro da mala e a atiral-os á direita e á esquerda, -nas mãos ávidas e ligeiras que se lhe estendiam. - ---Sabem porque condemnaram o meu filho e os que com elle estavam? Vou -dizer-vol-o! Creiam n’este coração de mãe! Condemnaram-nos porque vos -traziam a todos a santa verdade! E hontem mesmo eu vi como essa verdade -triunfou!... Ninguem póde luctar contra ella, ninguem! - -A multidão, que se conservava muda de assombro, engrossava cada vez -mais, cercando Pélagué d’uma cadeia de seres viventes. - ---A pobreza, a fome, a doença--eis o que o trabalho nos rende! Tudo é -contra nós. De dia para dia, morremos sob o trabalho, soffremos fome -e frio, prostrados sempre no lôdo e no ludíbrio; e são outros que se -fartam e se divertem á custa do nosso labor!... Como cães presos pela -trela, immobilisam-nos na ignorancia; nós nada sabemos e, na nossa -covardia, de tudo temos medo! A nossa vida é uma noite, uma noite -escura! É um pezadello horrendo!... Pois não é verdade? - ---Sim! responderam algumas vozes surdas. - ---Fecha-lhe a bôca! - -Por detraz do ajuntamento, Pélagué avistou o espião acompanhado por -dois guardas. Deu-se pressa em distribuir os últimos maços, mas quando -a sua mão chegava mais uma vez á mala, sentiu o contacto de outra mão. - ---Levem tudo! Levem tudo! disse ella, curvando-se. Para transformar -esta vida, para libertar todos os homens, para os resuscitar d’entre -os mortos, como eu resuscitei, nasceram creaturas filhas de Deus -que andam a semear pelo mundo a verdade santa. Operam em segredo, -pois, como bem sabem, ninguem póde dizer a verdade, sem que seja -logo perseguido, suffocado, atirado para uma enxovia, mutilado! A -verdade da existencia e a liberdade são inimigas para todo o sempre -irreconciliaveis d’aquelles que nos governam, d’aquelles que nos -opprimem. E são crianças, são creaturas purissimas e luminosas que vos -annunciam a verdade. Graças a ellas, ella ha de chegar emfim ás nossas -miseraveis existencias, ella ha de vir acalentar-nos e confortar-nos; -ha de libertar-nos da oppressão das autoridades e de todos os que lhes -venderam a alma! Creiam! - ---Bravo, velha! gritou um. - -Outro entrou a rir. - ---Vamos, dispersem! regougaram os guardas, afastando brutalmente a -multidão. - -O agrupamento recuou, resmungando, impedindo os guardas entre a -massa da gente e tolhendo-lhes os movimentos, mesmo sem querer. -Sentiam-se dominados por aquella mulher de cabellos grisalhos, olhar -de franqueza e modos bondosos. Indifferentes uns aos outros, isolados -pela vida, confundiam-se agora em um todo, acalentados pelo ardor -d’aquella palavra que muitos esperavam, sem duvida, ha muito tempo. -Os que ficavam mais perto de Pélagué permaneciam em silencio. Pélagué -sentia-lhes os olhares attentos fitos sobre si e o bafo das respirações. - ---Sobe para o banco! gritou-lhe um. - ---Vae-te d’aqui, velha! - ---Vaes ser suffocada! - ---Que insolente! - ---Fala depressa, que elles ahi vem! - ---Deixem o caminho livre! Vamos, a andar! gritavam outros guardas, -chegados n’este comenos. - -Já em numero crescido, estes desviavam a multidão com mais violencia -ainda; toda aquella gente molestada, agarrava-se a quem lhe ficava -próximo. - -Parecia a Pélagué ter na frente como que um férvido cachão e que todos -estavam prontos a compreendel-a e a acredital-a. O seu desejo era -dizer ali, depressa, tudo o que sabia, todos os poderosos pensamentos -que lhe subiam harmoniosamente, sem esforço, do âmago do coração; -mas faltava-lhe a voz, não lhe saíam do peito mais que sons roucos, -entrecortados e trémulos. - ---A palavra do meu filho é a palavra pura d’um filho do povo, d’uma -alma integra! Pela audacia se reconhecem os que são íntegros; pela -verdade, quando ella o exija, sacrificam-se intrepidamente! - -Entre o ajuntamento, olhos juvenis fitavam-na, a um tempo com -entusiasmo e terror. - -Recebeu uma pancada no peito, cambaleou e caíu para cima do banco. Por -sobre as cabeças agitavam-se as mãos dos guardas, os quaes agarravam -brutalmente os circumstantes pela nuca ou pelos hombros e atiravam-nos -para o lado, arrancavam das cabeças os bonnés e arremessavam-nos ao -longe. Pélagué sentiu confundirem-se e vacillarem as coisas em frente -dos olhos, mas dominou a fadiga e serviu-se ainda da pouca voz que lhe -restava. - ---Povo, reune as tuas fôrças em uma só fôrça! - -Caíu-lhe no pescoço e saccudiu-a a mão enorme e encarniçada d’um guarda. - ---Cala-te! - -Foi bater com a nuca de encontro á parede. Durante um instante, teve o -coração envolvido n’uma névoa de ardente terror, mas este vapor logo se -dissipou ao entusiasmo que a aquecia. - ---Anda para a frente! disse o guarda. - ---...Não ha soffrimento mais amargo que o que dia a dia devora o -coração e exaure o peito... - -O espião precipitou-se ao encontro d’ella e brandindo o punho em frente -da cara da presa, gritou com voz aguda: - ---Cala-te, canalha! - -Os olhos de Pélagué abriram-se desmedidamente e scintillaram; as -maxillas tremiam-lhe. Firmou os pés no lagedo escorregadio e gritou: - ---Não se mata uma alma resuscitada! - ---Cadella! - -Com pequeno impulso, o capitão bateu-lhe no rosto. - ---É bem feito para essa velha porca! gritou uma voz. - -Uma coisa negra e vermelha cegou por instantes Pélagué; encheu-lhe a -bocca o sabor salgado do sangue. - -Reanimou a uma explosão d’exclamações: - ---Você não tem direito de bater! - ---Camaradas! - ---Que vem a ser isso? - ---Ah, patife! - ---Dá-lhe! - ---... Não é com sangue que se ha de suffocar a razão! - -Empurravam-na pelas costas, pelo pescoço, batiam-lhe na cabeça e no -peito; tudo oscillava e se sumia no sombrio turbilhão dos gritos, -dos lamentos e dos silvos dos apitos. Alguma coisa espessa e que a -ensurdecia lhe penetrava nos ouvidos e lhe enchia a garganta até á -suffocação. O solo fugia-lhe debaixo das pernas, que vergavam, o corpo -tiritava-lhe sob o aguilhão dos ferimentos; tropega e exausta, Pélagué -cambaleava. Mas continuava a distinguir em volta de si numerosos -olhares onde brilhava o entusiasmo decidido que ella conhecia bem e -que tão querido era ao seu coração. Levaram-na aos encontrões para uma -das portas. - -Ella poude desembaraçar uma das mãos e agarrou-se ao batente. - ---... Nem mesmo sob um mar de sangue a verdade desapparecerá... - -Descarregaram-lhe logo uma pancada na mão. - ---Só conseguis congregar os ódios, insensatos que sois! E este ódio, -este rancor, ha de subverter-vos!... - -O guarda agarrou-a pela garganta e entrou a apertar-lh’a cada vez com -mais violenta pressão. - -N’um estertor, balbuciou: - ---Os desgraçados... - -Respondeu-lhe alguem com prolongado soluço. - - FIM - - - -Notas - -Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos. - -Página 17: “Esmagar-te-ão. morrerás!” foi substituído por -“Esmagar-te-ão. E morrerás!” - -Página 19: “Quando casei,” foi substituído por “Quando cresci” - -Página 63-64: “trez annos; sado” foi substituído por “trez annos; fui -casado” - -Página 70: A referencia ao rodapé foi adicionada no texto. - -Página 122: “se não, me abraçava” foi substituído por “se não, não me -abraçava” - -O texto original falta dois parágrafos na página 122, imediatamente -antes do capítulo XX. Isso foi mantido na versão digital. - -Na versão original, a numeração dos capítulos na segunda parte pula o -número XIII. Isso foi mantido na versão digital. - -Página 377: “Eu percebo n ” foi substituído por “Eu percebo bem” - -*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A MÃE *** - -Updated editions will replace the previous one--the old editions will -be renamed. - -Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright -law means that no one owns a United States copyright in these works, -so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the -United States without permission and without paying copyright -royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part -of this license, apply to copying and distributing Project -Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm -concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, -and may not be used if you charge for an eBook, except by following -the terms of the trademark license, including paying royalties for use -of the Project Gutenberg trademark. 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