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-The Project Gutenberg eBook of A Mãe, by Maximo Gorki
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
-most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
-whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
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-using this eBook.
-
-Title: A Mãe
-
-Author: Maximo Gorki
-
-Translators: Serge Persky
- Augusto de Lacerda
-
-Release Date: April 3, 2022 [eBook #67767]
-
-Language: Portuguese
-
-Produced by: Pedro Saborano and the Online Distributed Proofreading Team
- at https://www.pgdp.net (This book was produced from
- scanned images of public domain material from the Google
- Books project.)
-
-*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A MÃE ***
-
-
-
-
-
- MAXIMO GORKI
-
- A MÃE
-
- Romance traduzido do manuscripto
- por S. PERSKY
-
-
- VERSÃO PORTUGUEZA DE AUGUSTO DE LACERDA
-
-
- 1907
-
- ANTIGA CASA BERTRAND
- José Bastos & C.ᵃ
-
- 73, RUA GARRETT, 75
- LISBOA
-
-
-
-
-PREFÁCIO
-
-
-_A Mãe_ não é uma obra de pura imaginação. É, antes de tudo, uma
-pintura exacta--poderia até dizer-se uma vista cinematographica--do
-movimento revolucionario na Russia. Este bello livro introduz na
-litteratura russa typos que faltavam n’ella quasi por completo: os
-revolucionarios operarios e camponezes, cujo papel tem sido tão
-importante nas ultimas tempestades politicas do paiz dos tsars.
-
-Graças aos escriptores que se teem succedido de Tourguenev a Leão
-Tolstoi, o revoltado sahido da classe intellectualmente cultivada é
-mais ou menos conhecido.
-
-Por que motivo não havia ainda um retrato completo do seu irmão oriundo
-das obscuras camadas do povo? Principalmente porque os revolucionarios
-d’esta categoria são de recente data.
-
-Prepararam-se durante muito tempo nas mysteriosas profundezas das
-massas, recrutando-se em silencio, multiplicando-se pouco a pouco, até
-ao dia em que, na sequencia dos acontecimentos de que a Russia acaba de
-ser o theatro, os viram surgir de chofre por toda a parte, tanto nas
-aldeias as mais reconditas da provincia, como nas grandes cidades.
-
-O povo desperta do seu somno secular, como de sobresalto, e este
-despertar abre uma era nova na historia do movimento da libertação
-russa. Entre os intellectuaes e os illettrados, até hoje distanciados
-uns dos outros, forma-se um laço solido, e um mesmo ideal inflamma o
-exercito dos que marcham á conquista da liberdade.
-
-Descrever esta nova fase da revolução russa, evocar os heroes obscuros
-que se votaram á grande tarefa da emancipação, analisar nas suas
-manifestações as mais variadas, e até as mais inesperadas, esta
-resurreição da consciencia popular,--eis o que Maximo Gorki se propoz
-nas paginas que ides lêr. Tarefa ardua como poucas, mas de molde
-a tentar a alma ardente do auctor. Raras vezes Gorki attingiu tal
-acuidade de observação, uma variedade mais completa no descriptivo,
-uma tão perfeita certeza d’analyse psichologica. Mais do que nunca,
-foi o homem identificado com a sua obra. Filho do povo, ascendendo das
-mais sordidas camadas sociaes, revolucionario unicamente dedicado ao
-seu puro ideal de justiça (sempre protestou contra a violencia, viesse
-ella d’onde viesse) Gorki tinha, mais do que outrem, os requisitos para
-escrever esta pagina tragica da historia contemporanea.
-
-No personagem tão profundamente humano da mãe, Gorki mostra como
-uma mulher cheia de doçura e de timidez, espancada pelo pae, pelo
-marido, esmagada impiedosamente pela sorte, immersa na ignorancia e no
-desbragamento, vae adquirindo pouco a pouco a consciencia da sua misera
-situação, se alevanta sob a influencia do seu filho, até tornar-se como
-elle revolucionaria enthusiastica, sacrificando por fim as suas mais
-queridas affeições, a propria vida mesmo, á causa do povo.
-
-Em torno da mãe e do filho--os dois heroes principaes--agita-se
-um amontoado de outros personagens. D’uma parte, os amigos: um
-russo-menor--alma d’abnegação e de commovente simplicidade,--raparigas
-sacrificando felicidade e riqueza para soffrerem a prisão e as
-provações de toda a especie; operarios robustos e safados reclamando,
-com o direito á vida, algumas liberdades; camponezes que, depois de
-seculos de cega submissão, se recusam finalmente a considerar os
-representantes das auctoridades como enviados do céo. D’outra parte, os
-inimigos: officiaes de policia, guardas e espiões, instrumentos doceis
-do poder. Toda esta gente, tão estranha e tão viva, estas luctas,
-estes julgamentos, estes martyrios, episodios d’uma guerra cruel e
-sem clemencia movida contra os apostolos do ideal novo, tudo isto é a
-realidade, a realidade de hontem, de hoje, de ámanhã, tudo isto existe
-e existirá, emquanto na Russia durar a lucta libertadora.
-
-De muitas paginas d’este livro emana uma emmoção profunda.
-
-No decurso de uma conversa com os seus companheiros, André, o
-russo-menor, exclama:
-
---Que importam os meus soffrimentos, as minhas desgraças! Quando penso
-em que um dia a patria será livre, o meu coração dilata-se de jubilo...
-tenho vontade de chorar, tão feliz me sinto!
-
-E quando Pavel diz, falando de um seu amigo desgraçado mas sempre bem
-disposto d’espirito:
-
---Sabes? aquelles que mais riem são aquelles cujo coração soffre
-incessantemente.
-
-Um companheiro responde:
-
---Qual historia! Se assim fôsse, toda a Russia morreria de riso!
-
- * * * * *
-
-O principe Ouroussof, antigo ministro adjunto do Interior, na Russia,
-conta nas suas _Memorias_ que a rainha da Rumania, falando-lhe dos
-escriptores russos contemporaneos, collocava a muito alto a obra de
-Gorki, que ella conhecia perfeitamente. «Sabe captar a attenção do
-leitor, declarava ella, e introduziu processos absolutamente novos na
-litteratura moderna.»
-
-Carmen Sylva alludia provavelmente ao dom que Gorki possue de fascinar
-o leitor com o poder das scenas que descreve. Taes são, n’este
-romance, a morte do revolucionario Iégor, a prisão do camponez Rybine,
-a audiencia do tribunal a que comparecem Pavel e os seus amigos, a
-scena final em que as mãos dos guardas espancam a pobre mãe. Quantas
-passagens poderiamos citar ainda! Por exemplo, aquella em que Sophia
-toca uma symphonia de Grieg. O auctor não diz o nome d’aquelle trecho,
-mas qualquer musico o reconhecerá immediatamente pela rapida e
-flagrante descripção que d’elle faz Gorki.
-
- * * * * *
-
-O governo russo entendeu dever apprehender _A Mãe_ em todo o imperio.
-Poucos dias depois da apparição da obra, a policia fazia buscas em
-todas as livrarias tanto de S. Petersburgo como da provincia. Chegou
-muito tarde e só poude apprehender poucos exemplares, por estar já
-vendida a parte maxima de uma larga edição.
-
-Ao mesmo tempo, as auctoridades entregavam aos tribunaes Gorki e o seu
-editor, sob a accusação de «excitação á revolta» e de «achincalhamento
-das coisas santas», crimes que ellas dizem existirem n’este romance.
-Segundo a lei russa, sob os culpados impende a pena de trez a cinco
-annos de prisão ou de exilio na Siberia.
-
-Ha trez annos somente, Gorki foi encarcerado na fortaleza de S. Pedro
-e S. Paulo, por motivos analogos.
-
-A opinião publica sentiu-se abalada em todo o mundo: de todos os paizes
-civilisados affluiram petições colossaes, reclamando a libertação do
-mestre. Gorki foi posto em liberdade.
-
-Soffrendo do peito, o auctor da _Mãe_ está desde ha muitos mezes em
-Capri. Regressará em breve ao seu paiz.
-
-A prisão estará esperando novamente um dos melhores filhos da Russia?
-
- * * * * *
-
- París, novembro, 1907.
-
- S. PERSKY
-
-
-
-
- A Mãe
-
-
-
-
- PRIMEIRA PARTE
-
-
-
-
-I
-
-
-Todos os dias, na atmosphera esfumaçada e grave do bairro operario,
-o apito da fabrica lançava aos ares o seu grito estridulo. Então,
-creaturas toscas, com os musculos ainda fatigados, sahiam rapidamente
-das pequenas casas pardacentas e corriam como baratas assustadas. Na
-fria meia-luz, iam pela rua estreita em direcção aos altos muros da
-fabrica que os esperava implacavel e cujos inumeros olhos quadrados,
-amarellos e viscosos illuminavam a calçada lamacenta. A lama estalava
-sob os seus pés. Vozes estremunhadas resoavam com roucas exclamações;
-pragas cortavam o ar; e uma onda de ruidos vagos acolhia os operarios:
-a pesada traquinada das maquinas, o regougar do vapor. Sombrias e mal
-encaradas como sentinellas, as altas chaminés negras prefilavam-se
-acima do bairro, semelhantes a grossos bastões.
-
-Á tarde, quando o sol ia no poente, os seus raios vermelhos illuminavam
-as vidraças das casarias, a officina vomitava das suas entranhas de
-pedra todas as escorias humanas, e os operarios enegrecidos pelo fumo,
-espalhavam-se novamente pelas ruas, deixando atraz de si exhalações
-lentas da gordura das maquinas; os seus dentes esfaimados reluziam.
-Então havia na sua voz animação e até alegria: os trabalhos forçados
-tinham concluido por algumas horas; em casa aguardava-os a refeição e o
-descanço.
-
-A fabrica absorvia o dia, as maquinas sugavam nos musculos dos homens
-todas as forças de que ellas precisavam. O dia fôra riscado do computo
-da vida, sem deixar vestigios; o homem tinha dado mais um passo para
-o tumulo, sem d’isso se aperceber; mas podia entregar-se ao goso do
-descanço, aos prazeres da sordida taverna, e estava satisfeito.
-
-Nos dias santificados, dormia-se até quasi ás dez horas da manhã;
-depois a gente séria e casada vestia o seu melhor fato e ia á missa,
-censurando aos novos a sua indifferença em materia religiosa. Ao
-regressarem da egreja, comiam tortas de massa, e deitavam-se de novo
-até á tarde.
-
-A fadiga accumulada durante longos annos tirava o appetite; para
-poderem comer, era preciso beberem muito, excitarem o estomago
-preguiçoso com a ardencia do alcool.
-
-Pela tarde, passeavam indolentemente pelas ruas; os que possuiam capas
-de borracha punham-nas, ainda que o tempo estivesse secco; os que
-tinham um guarda-chuva, com elle sahiam, ainda que fizesse sol. Não é
-dado a toda a gente possuir um impermeavel ou um guarda-chuva, mas cada
-qual ambiciona superiorisar-se ao seu visinho, seja de que maneira fôr.
-
-Quando se formavam grupos, conversava-se acerca da fabrica, das
-maquinas, dizia-se mal dos contramestres. As palavras e os pensamentos
-não se referiam a mais do que a coisas relacionadas ao trabalho. A
-intelligencia desastrada e impotente lançava apenas umas scentelhas
-isoladas, um tenue clarão na monotonia dos dias. Ao voltarem para
-casa os maridos buscavam questões para discutirem com as mulheres,
-batendo-lhes muitas vezes, sem pouparem as suas forças. Os novos
-ficavam na taverna ou organisavam pequenas reuniões em casa d’um ou
-d’outro, tocavam harmonio, cantavam canções estupidas e ignobeis,
-dançavam, contavam historias obscenas e bebiam em excesso. Extenuados
-pelo trabalho, estes homens embriagavam-se facilmente, e em cada peito
-desenvolvia-se uma excitação doentia, incompreensivel que precisava de
-encontrar sahida. Então, pelo mais futil pretexto, atiravam-se uns aos
-outros como animaes selvagens. Havia contendas sangrentas.
-
-Nas relações dos operarios entre si, dominava este mesmo sentimento
-d’animosidade encubada; inveterara-se n’elles, tanto como a fadiga
-dos musculos. Estes seres nasciam com a doença da alma, herança de
-seus paes; e como uma sombra negra acompanhava-os até ao tumulo,
-impellindo-os á realisação de actos repellentes pela sua inutil
-crueldade.
-
-Nos dias santificados, os novos regressavam tarde a casa, com os fatos
-esfarrapados, cobertos de lama e de poeira; com as caras esmurradas,
-gabavam-se dos murros que tinham dado nos companheiros; as injurias
-soffridas encolerisavam-nos ou faziam-nos chorar; eram lastimaveis na
-sua embriaguez, desgraçados e repugnantes. Por vezes, os paes levavam
-para casa os filhos que haviam encontrado a cahir de bêbedos na rua ou
-na taverna; as injurias e os murros choviam nos rapazes embrutecidos
-ou excitados pela aguardente; depois mettiam-nos na cama com tal ou
-qual precaução, e pela manhã accordavam-nos, apenas o silvo do apito da
-fabrica cortava os ares.
-
-Embora repreendessem os rapazes e lhes batessem, a sua embriaguez e as
-suas contendas eram coisas naturaes para a familia; quando os paes
-eram ainda novos tinham bebido tambem e entrado em desordens, sendo
-egualmente castigados pelos paes e pelas mães. A vida decorria sempre
-assim; continuava a decorrer, não se sabia até onde, regular e lenta
-como um rio lodoso.
-
-Appareciam por vezes no bairro creaturas estranhas, que a principio
-despertavam a attenção, simplesmente porque eram desconhecidas;
-mas dentro em pouco habituavam-se a ellas, e acabavam por passar
-despercebidas. Das suas conversas concluia-se que a vida do operario
-era em toda a parte a mesma coisa. E desde que era assim, para que
-falar sobre tal assumpto?
-
-Havia porem alguns que diziam coisas novas para o bairro. Não
-discutiam com elles, não prestavam mais do que uma attenção incredula
-ás suas palavras extravagantes, que excitavam n’uns uma irritação
-cega, n’outros uma especie d’inquietação, ao passo que outros ainda
-sentiam-se perturbados por uma vaga esperança, e desatavam a beber
-ainda mais que de costume para afastarem tal impressão.
-
-Se o recemchegado apresentava algum traço caracteristico
-extraordinario, os moradores do bairro punham-no em rigorosa
-quarentena, tratavam-no com instinctiva repulsão, como se receassem
-vel-o trazer para a existencia de todos o que quer que fosse
-perturbador do rame-rame penoso, mas tranquillo. Acostumados a serem
-opprimidos pela vida, aquella gente considerava todas as transformações
-possiveis como proprias somente a tornarem o seu jugo ainda mais pezado.
-
-Resignados, faziam o vacuo em torno d’aquelles que pronunciavam
-palavras estranhas. Então estes desappareciam não se sabe para onde;
-se ficavam na fabrica, viviam á parte, não conseguindo confundir-se na
-multidão uniforme dos operarios.
-
-Depois de ter vivido assim uns cincoenta annos, o homem morria.
-
-
-
-
-II
-
-
-D’esta maneira vivia o serralheiro Mikhaíl Vlassof, homem sombrio,
-de pequeninos olhos desconfiados e maus, protegidos por espessas
-sobrancelhas. Era o melhor serralheiro da fabrica e o hercules do
-bairro. Tinha porem modos grosseiros para o chefe; por isto ganhava
-pouco; todos os domingos sovava algum; todos o temiam e ninguem o
-estimava. Por varias vezes, haviam tentado dar-lhe uma tareia, mas
-nunca conseguiram. Quando Vlassof previa uma agressão, agarrava n’uma
-pedra, n’uma taboa, n’um bocado de ferro, e, solidamente firme nas
-pernas abertas, esperava em silencio o inimigo.
-
-Com a cara coberta, desde as orelhas até ao pescoço d’uma barba negra,
-as suas mãos pelludas despertavam um terror geral. Principalmente
-tinham medo dos seus olhos penetrantes que atravessavam o proximo como
-pontas d’aço; quando lhe encontravam o olhar, sentiam-se em presença
-d’uma força selvagem, inaccessivel ao terror, prestes ao ataque
-impiedoso.
-
---Eh lá! Vá d’aqui, canalha! dizia elle roucamente.
-
-Na espessa tez do seu rosto, os dentes amarellos brilhavam ferozes. Os
-seus adversarios recuavam, invectivando-o.
-
---Canalha! gritava elle ainda, e os seus olhos disparavam sarcasmos
-acerados como sovelas. Depois, erguendo a cabeça com ares provocadores,
-seguia os seus inimigos, berrando de quando em quando:
-
---Então! quem quer morrer?
-
-Ninguem queria.
-
-Falava pouco. A sua expressão favorita era: «canalha». Qualificava
-assim os chefes da fabrica e da policia; empregava o mesmo epitheto
-quando se dirigia á mulher.
-
---Ó canalha, não vês que as minhas calças estão rôtas?
-
-Quando o seu filho Pavel tinha quatorze annos, Vlassof sentiu ainda uma
-vez o desejo de levantal-o ao ar pelos cabellos. Mas Pavel, deitando a
-mão a um martello, disse resumidamente:
-
---Não me toques!
-
---O quê? perguntou o pae, encaminhando-se para o pequeno de fôrmas
-esbeltas e delicadas. Dir-se-ia uma sombra cahindo sobre uma betula.
-
---Basta! exclamou Pavel. Não te deixarei continuar...
-
-E agitou o martello, abrindo desmedidamente os grandes olhos negros.
-
-O pae olhou para elle, pôz as mãos pelludas atraz nas costas, e disse
-em ar de troça:
-
---Está bem...
-
-Depois accrescentou com um profundo sorriso:
-
---Ah! canalha!
-
-Logo declarou á mulher:
-
---Nunca me peças mais dinheiro para os sustentar, a ti e ao Pavel.
-
---Vaes gastar tudo na bebida? ousou ella perguntar.
-
-Deu um murro na meza, exclamando:
-
---Que tens tu com isso, canalha? Vou arranjar uma amante!
-
-Não a arranjou; mas a partir d’aquelle dia até á morte, durante cerca
-de dois annos, nunca mais olhou para o filho nem lhe dirigiu palavra.
-
-Tinha um cão tão forte e pelludo como elle. Todas as manhãs o animal o
-acompanhava até á porta da fabrica, onde o esperava á tarde. Nos dias
-santificados, Vlassof ia para a taverna. Andava sem dizer palavra, e
-como se procurasse o que quer que fosse, lançando olhares furtivos aos
-que passavam. Durante todo o dia, o cão seguia-o, com a espessa cauda
-descahida. Quando Vlassof, bêbedo, entrava em casa, ceava e dava de
-comer ao cão no seu proprio prato. Nunca batia no animal, assim como
-não lhe ralhava nem o acariciava. Depois da refeição, se a mulher não
-conseguia levantar a meza no momento opportuno, atirava com a louça
-ao chão, punha na sua frente uma garrafa de aguardente e, com as
-costas contra a parede, com a bôca muito aberta e os olhos fechados,
-cantava em voz roufenha uma canção melancólica. Os sons discordantes
-baralhavam-se-lhe no bigode, do qual cahiam migalhas de pão; os seus
-dedos grossos alizavam os pellos da barba. As palavras da canção eram
-incompreensiveis, arrastadas, a melodia recordava os urros dos lobos no
-inverno. Cantava emquanto durava a aguardente; depois estirava-se no
-banco ou encostava a cabeça á meza e dormia assim até que o apito da
-fabrica o chamava. O cão deitava-se ao seu lado.
-
-Morreu d’uma hernia, apoz longa agonia. Durante cinco dias, enegrecido
-pelo soffrimento, agitou-se incessantemente no leito, com as palpebras
-cerradas, com a bôca em contorsões. De quando emquando, dizia para a
-mulher:
-
---Dá-me arsenico. Envenena-me! Ella chamou o medico, que receitou
-cataplasmas, informando de que seria indispensavel uma operação, e de
-que era preciso levar o doente para o hospital immediatamente.
-
---Vae para o diabo, canalha! Morro bem, sósinho! respondeu elle.
-
-Quando o medico sahiu, a mulher lavada em lagrimas, quiz resolvel-o a
-submetter-se á operação; Milkhaíl declarou-lhe ameaçando-a de punho
-cerrado:
-
---Não experimento. Se eu ficasse bom, haverias de pagal-o caro!
-
-Uma manhã, morreu, emquanto o apito da fabrica chamava os operarios ao
-trabalho. Deitaram-no no caixão; tinha o sobrolho franzido e a bôca
-aberta. Foi levado á ultima morada pela mulher, pelo filho, pelo cão,
-e por Danilo Vessoftchikof, velho ladrão e bêbedo expulso da fabrica,
-e por alguns miseraveis do bairro. A mulher chorou um pouco. Pavel
-tinha os olhos sêccos. Os que encontraram o prestito funebre pararam e
-persignaram-se, dizendo:
-
---Com certeza que Pélagué está satisfeita com a morte do marido.
-
-Alguem emendou:
-
---Não morreu: rebentou.
-
-Depois do caixão descer á terra, os que o acompanharam voltaram para
-casa; o cão ficou deitado na terra humida, farejando por muito tempo.
-Decorridos alguns dias, mataram-no; não se soube quem.
-
-
-
-
-III
-
-
-Certo domingo, uns quinze dias depois da morte do pae, Pavel entrou em
-casa embriagado. Parou cambaleando na primeira divisão, e gritou para a
-mãe, dando um murro na meza, como fazia Mikhaíl:
-
---A ceia!
-
-Pélagué approximou-se, assentou-se ao seu lado; enlaçando-o com
-os braços, puxou para o peito a cabeça do filho. Elle repelliu-a,
-pondo-lhe o braço no hombro, e disse:
-
---Depressa, mamã!
-
---Patetinha! respondeu ella com voz triste e carinhosa.
-
---Tambem quero fumar! Dá-me o cachimbo do pae... rosnou, movendo a
-custo a lingua rebelde.
-
-Era a primeira vez que se embriagava.
-
-O alcool tinha enfraquecido o seu corpo, mas não lhe extinguira a
-consciencia; perguntava a si proprio:
-
---Estou bêbedo?... Estarei bêbedo?
-
-As caricias da mãe vexavam-no; estava commovido pela tristeza do olhar
-d’ella. Tinha vontade de chorar; e para vencer este desejo fingiu-se
-ainda mais embriagado.
-
-E a mãe acariciava-lhe os cabellos em desordem e cobertos de suor,
-dizendo suavemente:
-
---Não devias ter feito isso...
-
-Pavel começava a sentir nauseas.
-
-A seguir aos vomitos, foi levado para a cama pela mãe, que lhe collocou
-uma toalha humida na fronte pálida. Repoz-se um pouco; mas tudo lhe
-andava á roda; as palpebras pezavam-lhe; tinha na bôca um gôsto
-repugnante e amargo; olhava para o rosto da mãe e tinha pensamentos sem
-nexo.
-
---É ainda cedo para mim... Os outros bebem sem ficarem doentes; eu
-tenho nauseas.
-
-A doce voz da mãe chegava-lhe aos ouvidos como se viesse de muito longe:
-
---Como poderás sustentar-me, se te entregas á bebida?
-
-Respondeu, fechando os olhos:
-
---Todos bebem...
-
-Pélagué suspirou profundamente. O filho tinha razão. Ella bem sabia
-que os homens não encontrariam outro sitio senão a taverna para se
-divertirem, que não tinham outro prazer senão o alcool. No entretanto,
-retorquiu:
-
---Tu não precisas de beber! O teu pae bebeu á farta por ti; e bastante
-me atormentou... Deves ter piedade da tua mãe.
-
-Ouvindo estas palavras melancólicas e resignadas, Pavel pensou na
-existencia silenciosa e apagada d’aquella mulher, esperando sempre os
-espancamentos do marido. Nos ultimos tempos, Pavel pouco se demorava em
-casa, para não ver o pae; desprezava um tanto a mãe; regressando ao seu
-estado normal, examinava-a.
-
-Era alta e levemente corcovada; o seu corpo pesado, abatido
-por incessante trabalho e por maus tratos, movia-se sem ruido,
-obliquamente, como se ella receasse topar n’alguma cousa. O largo rosto
-oval, sulcado de rugas e ligeiramente empapuçado, tinha a dar-lhe
-brilho uns olhos negros, de uma expressão triste e inquieta como o
-de quasi todas as mulheres do bairro. Na testa uma cicatriz profunda
-fazia-lhe subir um pouco o sobrolho direito; parecia tambem que a
-orelha direita estava mais acima do que a outra, o que dava ao rosto
-um ar receoso. Tinha no cabello espesso e negro madeixas grisalhas
-semelhantes a nodoas resultantes de violentas pancadas. Toda ella
-transpirava suavidade, uma resignação dolorosa.
-
-E ao longo das faces corriam-lhe lentamente as lagrimas.
-
---Olha! não chores! supplicou Pavel em voz baixa. Dá-me de beber!
-
---Vou buscar agua gelada...
-
-Quando voltou, elle dormia. Ficou immovel por um instante, retendo a
-respiração; a bilha tremia-lhe nas mãos, os pedaços de gelo tintilavam
-dentro. Depois de collocal-a na meza, Pélagué ajoelhou diante das
-imagens santas e orou silenciosamente. Os vidros das janellas tremiam
-sob as ondas sonoras da vida obscura e alcoolica do exterior. Nas
-trevas e na humidade d’aquella noite d’outomno, ouviam-se os rangidos
-de um harmonio; alguem cantava de guella aberta; passavam nas ruas
-palavras abjectas e obscenas; vozes de mulheres vibravam, assustadiças
-ou irritadas.
-
- * * * * *
-
-Na pequena habitação de Vlassof, a vida decorria uniforme, mas mais
-tranquilla e em paz do que outrora, distinguindo-se assim da existencia
-geral do bairro. A casa era situada na extremidade da rua direita, no
-cimo d’um pequeno alto, nos baixos do qual havia um pantano.
-
-A cozinha occupava o terço da habitação; um delgado tabique, que não
-chegava ao tecto, separava-a de um pequeno quarto onde dormia a mãe.
-O resto formava uma casa quadrada, com duas janellas; a um canto, a
-cama de Pavel, no outro, dois bancos e uma meza. Algumas cadeiras, uma
-comoda onde guardavam a roupa, um pequenino espelho, uma mala para o
-fato, um relogio e duas imagens de santos, era tudo.
-
-Pavel tentava viver como os outros. Fazia quanto era proprio a um
-rapaz; comprou um harmonio, uma camisa de peitilho engomado, uma
-gravata vistosa, galochas e capa de borracha, e uma bengala. Na
-apparencia assemelhava-se a todos os adolescentes da sua idade. Ia ás
-reuniões, aprendia a dançar a quadrilha e a polka; ao domingo entrava
-em casa embriagado. Nas manhãs seguintes, doia-lhe a cabeça, a febre
-consumia-o, o seu rosto estava palido e desfigurado.
-
-Um dia, a mãe perguntou-lhe:
-
---E então, divertiste-te hontem á noute?
-
-Respondeu com sombria irritação:
-
---Aborreci-me atrozmente! Os meus companheiros são umas maquinas!...
-Prefiro ir á pesca ou comprar uma espingarda.
-
-Trabalhava com zelo; nunca era multado, nem gazeteava. Andava
-taciturno. Os seus olhos azues, grandes como os da mãe, tinham uma
-expressão de descontentamento. Não comprou a espingarda nem foi á
-pesca; mas abandonou o caminho que seguiam os companheiros, frequentava
-cada vez menos as reuniões, e, embora continuasse a sahir ao domingo,
-voltava para casa em seu juizo. Pélagué observava-o sem dizer palavra
-e via o rosto moreno de Pavel tornar-se dia a dia mais magro, o olhar
-sempre mais grave e os labios cerrarem se com aspera severidade.
-Parecia soffrer de qualquer doença ou de qualquer colera misteriosa.
-Antigamente, os companheiros visitavam-no, mas como elle deixara de
-permanecer em casa, não voltavam. A mãe via com prazer que o filho não
-imitava os rapazes da fabrica; mas quando notou aquella obstinação
-em afastar-se da torrente obscura da vida monotona, a sua alma foi
-invadida por vaga inquietação.
-
-Pavel trazia livros para casa; a principio, tentava lel-os a occultas.
-Por vezes, copiava alguns trechos n’um pedaço de papel.
-
---Não andas bem, meu filho? perguntou-lhe uma vez Pélagué.
-
---Vou bem, vou! respondeu.
-
---Estás tão magro! suspirou ella.
-
-Ficou silencioso.
-
-Falavam pouco, e apenas se viam. Pela manhã, o rapaz tomava em silencio
-o chá e ia para o trabalho; ao meio-dia vinha jantar; á meza não
-trocavam mais do que palavras insignificantes; depois desapparecia até
-á tarde. Findo o dia, lavava-se cuidadosamente, ceava e lia os seus
-livros. Ao domingo, sahia de manhãsinha e só voltava á noite. A mãe
-sabia que elle passeava na cidade, que ia ao theatro; mas da cidade
-ninguem vinha vêl-o. Parecia-lhe que, quantos mais dias passavam, menos
-o seu filho lhe dirigia a palavra; e ao mesmo tempo notava que dia a
-dia maior era o numero de termos novos, incomprehensiveis para ella, e
-que Pavel empregava em substituição das expressões grosseiras, outrora
-habituaes no seu falar.
-
-Passára a ligar mais cuidado ao asseio do seu corpo e do seu fato;
-movia-se com mais ligeireza e facilidade; tornou-se mais simples
-na apparencia, mais docil; preoccupava-se de sua mãe. Tratava-a de
-uma maneira nova; ás vezes, varria o sobrado do quarto, fazia elle
-mesmo a sua cama, ao domingo; em geral, sem frases, sem ostentação,
-diligenciava auxiliar a mãe no trabalho caseiro. Ninguem fazia isto lá
-no bairro...
-
-Um dia, trouxe comsigo um quadro que pendurou na parede e que
-representava trez personagens tendo impressas nas feições a resolução,
-a coragem.
-
---É o Christo ressuscitado dirigindo-se a Emmaús! explicou.
-
-O quadro agradou a Pélagué; ella pensou porem:
-
---Respeitas o Christo e não vaes á egreja...
-
-Depois vieram mais quadros adornar as paredes, o numero de livros
-augmentou na prateleira ali collocada por um marceneiro, companheiro de
-Pavel. O quarto ia tomando um aspecto agradavel.
-
-O rapaz dizia a miudo «a sr.ᵃ» quando se dirigia á mãe, a quem tambem
-chamava «mamã». Era até mais prodigo em palavras, embora breves.
-
---Mãe, não fique em cuidado, peço-lhe; esta noite venho tarde.
-
-E ao ouvil-o assim, ella sentia que se passava o que quer que fosse
-forte e serio, que lhe agradava.
-
-Mas a sua anciedade augmentava dia a dia, e como não entrava em
-explicações com Pavel, adquiria o presentimento de alguma coisa
-extraordinaria que lhe apertava o coração. Pensava até:
-
---Os outros vivem como creaturas humanas, mas elle é como um frade...
-Tão grave!... Não é proprio da sua idade...
-
-Perguntava a si mesma:
-
---Terá uma amiga?
-
-Mas para ser amado pelas pequenas, é preciso dinheiro, e elle
-entregava-lhe quasi toda a feria.
-
-Assim se passaram semanas, mezes, quasi dois annos, n’uma vida
-extravagante, cheia de pesares, de vagos receios cada vez maiores.
-
-
-
-
-IV
-
-
-Uma noite, á ceia, Pavel, tendo fechado as cortinas das janellas,
-assentou-se a um canto e pôz-se a lêr, depois de ter pendurado na
-parede, por cima da cabeça, uma lampada de metal.
-
-A mãe tinha acabado o serviço da cozinha; approximou-se d’elle. Pavel
-ergueu a fronte e fixou-a com olhar interrogador.
-
---Não é nada... mesmo nada! disse ella rapidamente.
-
-E afastou-se, pestanejando, a modos confuza. Mas depois de ter ficado
-immovel por um instante, no meio da cozinha, lavou as mãos e voltou,
-pensativa, preoccupada.
-
---Olha: queria perguntar-te o que andas sempre a lêr... declarou com
-simpleza.
-
-Elle pôz o livro nos joelhos.
-
---Assenta-te, mamã.
-
-Pélagué sentou-se pesadamente ao seu lado, apurou o ouvido, na
-espectativa de alguma coisa grave.
-
-Sem olhar para ella, a meia voz, muito rudemente, Pavel falou.
-
---Leio livros prohibidos. Prohibem a sua leitura porque dizem a verdade
-da nossa vida, da vida do povo. São impressos ás escondidas, e se os
-encontrassem em minha casa, eu seria prezo... prezo por ter querido
-saber a verdade. Percebeste?
-
-Ella sentiu de subito a respiração oppressa, e fixou o olhar esgazeado
-no filho, que lhe pareceu outro, um estranho. Tinha outra voz, mais
-grossa, mais cava, mais sonora. Com os dedos adelgaçados torcia as
-sedosas guias do bigode e para ella descia o olhar enigmatico. Pélagué
-teve medo, por elle.
-
---Para que é isso, Pavel?
-
-Elle ergueu a cabeça, observou-a e respondeu tranquillamente:
-
---Quero saber a verdade.
-
-A sua voz era em tom baixo, mas firme; brilhava-lhe no olhar um desejo
-obstinado. Pélagué comprehendeu que o filho se consagrára para sempre
-ao que quer que fôsse misterioso e terrivel. Tudo lhe parecera sempre
-inevitavel; estava acostumada a submetter-se sem reflectir; por isto
-começou de chorar baixinho, sem encontrar palavras no seu coração
-confrangido pela angustia e pela dôr.
-
---Não chores! disse-lhe Pavel, carinhosamente--e á mãe parecia que
-elle lhe dizia um adeus--reflecte! Que vida a nossa! Tu tens quarenta
-annos, e, francamente, podes dizer que tenhas vivido? O pae batia-te...
-compreendo agora que era o seu pezar da vida o que elle desabafava
-assim nas pancadas que te dava... o pezar da vida que o opprimia, e
-que elle nem mesmo sabia d’onde lhe vinha. Trabalhou durante trinta
-annos; começou quando o edificio da fabrica não tinha mais do que dois
-predios, e hoje tem sete! As fabricas desenvolvem-se e nós morremos
-trabalhando para ellas...
-
-Pélagué ouvia-o, com receio e ao mesmo tempo com avidez. Os bellos
-olhos azues do rapaz luziam; com o peito apoiado á mesa, approximou-se
-da mãe, e tocando quasi no seu rosto banhado de lagrimas, dizia-lhe o
-seu primeiro discurso sobre a verdade, tal como elle a compreendia.
-Com a ingenuidade da juventude e com o ardor d’um collegial orgulhoso
-dos seus conhecimentos e sinceramente convicto de importancia d’elles,
-falava de tudo que lhe parecia tão evidente, falava tanto para se
-avaliar a si mesmo como para convencer sua mãe. Detinha-se por vezes
-quando lhe faltavam as palavras, e então via o rosto inquieto no qual
-brilhavam aquelles bons olhos velados pelas lagrimas, cheios de terror,
-de preplexidade. Apiedou-se de sua mãe e novamente falou d’ella.
-
---Que alegrias tens tu conhecido? perguntou. Que tiveste no passado que
-fosse bom?
-
-Ella meneou a cabeça tristemente; invadia-a um sentimento novo,
-desconhecido ainda, doloroso e alegre ao mesmo tempo, que lhe
-acariciava deliciosamente o coração dolorido. Pela primeira vez,
-falavam-lhe d’ella e da sua propria existencia; vagos pensares,
-adormecidos havia muito, despertavam no seu ser, reanimavam os
-sentimentos extinctos com um vago descontentamento, as recordações, as
-saudades da sua mocidade longinqua.
-
-Falou da sua vida, dos seus amigos, de todo o passado; mas, como os
-outros, não sabia mais do que lamentar-se; ninguem explicava o motivo
-da sua vida tão penosa e ardua. E agora, com o filho sentado a seu
-lado, tudo quanto os olhos de Pavel, o seu rosto, as suas palavras
-lhe diziam, tudo lhe falava captivantemente ao coração, enchendo-a de
-altivez: era o seu filho quem compreendera a vida da mãe e quem lhe
-apresentava a verdade sobre os soffrimentos, quem a lamentava.
-
-Em geral, não ha quem lamente as mães.
-
-Ella bem o sabia. Não compreendia que Pavel não falava d’ella só, mas
-tudo o que elle dissera da vida feminina era a verdade, verdade nua e
-crua. Eis porque lhe parecia que no seu peito se agitava um sem-numero
-de sensações que a aqueciam como desconhecida caricia.
-
---O que queres tu fazer? perguntou-lhe, interrompendo-a.
-
---Aprender e depois ensinar aos outros. Devemos aprender, sim, devemos
-saber, devemos compreender a razão porque a vida nos é tão penosa.
-
-Era consolador para a mãe ver os olhos azues do seu filho, sempre serio
-e severo, brilharem ternamente, illuminando n’elle o que quer que fosse
-raro. Um sorriso de satisfação pairou nos labios de Pélagué, embora
-houvesse ainda lagrimas nas rugas das suas faces.
-
-Um duplo sentimento dividiu o seu ser: era uma irmã do filho que queria
-a felicidade de todos os homens, que os lastimava a todos e que via a
-dôr da vida; e ao mesmo tempo não podia esquecer que elle era um rapaz,
-que não falava como os seus companheiros, que resolvera entrar sósinho
-em lucta contra a vida rotineira que ella e os outros tinham.
-
-Sentiu desejos de dizer-lhe:
-
---Meu querido! o que podes tu fazer? Esmagar-te-ão. E morrerás!
-
-Mas temeu deixar de admirar o rapaz que de subito se lhe revelara, tão
-intelligente, tão transformado...
-
-Pavel via o sorriso nos labios da mãe, a attenção que ella lhe
-prestava, o amor expandindo-se-lhe no olhar; julgou ter-lhe feito
-compreender a verdade que elle tinha descoberto, e o juvenil orgulho
-da força da sua palavra exhaltava a sua mesma fé. Cheio d’excitação,
-falava sempre, ora rindo, ora franzindo o sobrolho; por momentos o odio
-transparecia na sua voz, e quando Pélagué lhe ouvia estes tons rudes,
-meneava timidamente a cabeça, perguntando baixinho:
-
---E tens a certeza de que isso é assim?
-
---Tenho! respondia elle com a voz forte e firme.
-
-E falava-lhe dos que queriam o bem do povo, dos que semeavam a verdade
-e que por isto eram perseguidos como feras, mettidos em prisões,
-exilados para o degredo pelos inimigos da vida.
-
---Tenho visto d’estas creaturas! exclamava com ardor. São as melhores
-almas deste mundo!
-
-Estes seres excitavam o terror da mãe, que tinha vontade de perguntar
-ainda:
-
---E tens a certeza de que isso é assim?
-
-Mas não se atrevia, preferindo ouvir exhaltar creaturas que ella não
-compreendia e que tinham ensinado ao seu filho uma maneira de pensar e
-de falar tão perigosa para elle.
-
---Pouco falta para nascer o dia. Se tu te deitasses, se dormisses... É
-preciso ires para o trabalho ámanhã.
-
---Vou deitar-me, vou, concordou.
-
-E abeirando-se d’ella, perguntou-lhe:
-
---Compreendeste-me?
-
---Sim! suspirou a mãe.
-
-De novo lhe rebentáram as lagrimas, e acrescentou entre soluços:
-
---Morrerás!...
-
-Elle ergueu-se e entrou de passear pelo quarto.
-
---Bem! Sabes agora o que faço, aonde vou! Disse-te tudo! Supplico-te,
-mãe, que se me amas, não me detenhas!
-
---Meu querido filho! exclamou ella. Teria sido melhor nada me haveres
-dito!
-
-Pavel pegou-lhe na mão, apertando-a fortemente entre as suas.
-
-Ella ficára impressionada por aquella palavra «mãe» pronunciada com
-ardor juvenil, e por aquelle aperto de mão tão novo e raro.
-
---Nada farei para te contrariar, disse em tom saccudido. Recommendo-te
-apenas: toma cuidado! toma cuidado!
-
-E sem bem saber em que elle devia tomar cuidado, accrescentou
-tristemente:
-
---Estás cada vez mais magro.
-
-E envolvendo n’um olhar caricioso o corpo robusto e harmonico do filho,
-disse em voz baixa:
-
---Que Deus esteja comtigo! Vive como quizeres, não te impedirei! Só
-te peço uma coisa: não fales levianamente. É conveniente desconfiar
-dos mais, que mutuamente se odeiam! Vivem d’avidez, vivem d’inveja!
-Todos se sentem felizes quando fazem mal. Quando quizeres accusal-os,
-julgal-os, odiar-te-ão, levar-te-ão á morte!
-
-De pé, no limiar da porta, Pavel ouvia estas palavras dolorosas, ás
-quaes respondeu sorrindo:
-
---O proximo é mao, sim. Mas quando aprendi que havia na terra uma
-verdade, o proximo pareceu-me melhor.
-
-Sorriu ainda e continuou:
-
---Eu mesmo nem sei como isto me veio. Na minha infancia, tinha medo
-de todos e de tudo... Quando cresci, comecei a odiar, a uns pela sua
-covardia; a outros... nem sei porquê. Mas agora já não acontece o
-mesmo: creio que tenho piedade d’elles. Não comprehendo como, mas o meu
-coração tornou-se mais terno quando soube que havia uma verdade para os
-homens e que elles não são todos culpados da ignominia da sua vida.
-
-Calou-se por um instante, como para escutar o que quer que fosse dentro
-d’elle, e depois concluiu pensativo:
-
---É assim que a verdade transpira!
-
-Ella, tendo-lhe lançado um olhar rapido, murmurou:
-
---Transformaste-te d’uma maneira perigosa! Meu Deus!
-
-Quando elle adormeceu, Pélagué levantou-se cautelosamente e
-approximou-se-lhe do leito. O rosto moreno, de feições severas e
-obstinadas desenhava-se distinctamente sobre o travesseiro branco.
-Com as mãos juntas no peito, com os pés descalços, em camisa, a mãe
-permanecia immovel; os seus labios moviam-se em silencio, e de seus
-olhos desciam lentamente fartas e tôrvas lagrimas.
-
-
-
-
-V
-
-
-A vida recomeçou para elles; novamente se encontravam proximos e
-afastados.
-
-Uma vez, n’um dia santo, no meio da semana, Pavel disse á mãe, quando
-ia sahir:
-
---No sabbado ha de vir gente cá a casa.
-
---Que gente?
-
---Gente d’aqui... e gente da cidade.
-
---Da cidade...? repetiu a mãe, meneando a cabeça. E desatou a chorar.
-
---Porque choras, mamã?! exclamou Pavel contrariado. Porquê?
-
-Respondeu com froixa voz, limpando as lagrimas:
-
---Não sei... Porque sim.
-
-Elle deu alguns passos pelo quarto, e parando deante d’ella:
-
---Tens medo?
-
---Tenho! confessou. Essa gente da cidade... sabe-se lá quem é!
-
-Inclinou-se para ella e disse com a voz irritada, como o pae:
-
---É por causa d’esse medo que todos nós morremos! E os que mandam em
-nós aproveitam-se d’esse medo e ainda mais nos amedrontam. Comprehenda
-de uma vez para sempre: emquanto houver medo, apodreceremos como as
-bétulas nos pantanos.
-
-Afastou-se, exclamando:
-
---Deixal-o! Nós nos reuniremos cá em casa...
-
-A mãe atalhou, chorando:
-
---Não me queiras mal! Como não hei de eu ter medo? Passei entre sustos
-toda a minha vida... tenho a alma cheia d’elles.
-
-Pavel retorquiu a meia voz, mas brandamente:
-
---Desculpe. Não tenho outro meio ao meu alcance. E sahiu.
-
-Durante trez dias, Pélagué tremia: o coração parecia-lhe parar
-quando pensava em que gente extranha entraria em sua casa. Não podia
-fantasial-os, mas afiguravam se-lhe terriveis. Eram elles quem
-apontaram ao seu filho o caminho que elle seguia agora...
-
-No sabbado á tarde, Pavel voltou da fabrica, lavou-se, mudou de fato e
-saíu, dizendo sem olhar para a mãe:
-
---Se alguem vier, dize que não me demoro, que me esperem. E não tenhas
-medo, se fazes favor... São pessoas como as outras.
-
-Ella deixou-se cahir sobre o banco. O filho contemplou-a franzindo o
-sobrolho, e propoz--Talvez seja melhor saíres; an?
-
-Ella offendeu-se. Disse que não com a cabeça, murmurando:
-
---Seria o mesmo. Para que sairia eu?
-
-Estava-se no fim de novembro. Durante o dia tinha caído na terra gelada
-um nevão fino e secco, que Pavel triturava sob seus passos. Ás vidraças
-apegavam-se espessas trevas. A mãe, desalentada, ia esperando, com os
-olhos fixos na porta.
-
-Parecia-lhe que, na obscuridade, creaturas silenciosas, de trajos não
-vulgares, se dirigiam para a casa, vindos de pontos varios, que se
-adiantavam occultando-se, corcovados, e olhando para um e outro lado.
-Junto da porta, encostado á parede, havia já alguem.
-
-Ouviu-se um assobio que vibrou no silencio como um fio, melodioso
-e triste; errava no deserto da noite, approximava-se... De subito,
-calou-se mesmo junto á janella, como se tivesse penetrado atravez da
-parede.
-
-Soou o ruido de passos; Pélagué ergueu-se trémula, com os olhos
-dilatados.
-
-Abriu-se a porta. Appareceu primeiro uma cabeçôrra com um boné de
-pelles, depois um corpo acurvado que se esgueirou lentamente, que se
-endireitou, que levantou o braço direito vagarosamente, arrancando do
-peito em suspiro ruidoso:
-
---Boa noite.
-
-Pélagué cumprimentou em silencio.
-
---O Pavel ainda não veio?
-
-O homem tirou com vagar um casaco de pelles, levantou um pé, saccudiu
-com o boné a neve que lhe cobria as botas, atirou depois com o boné
-para um canto e entrou no quarto bamboleando-se nas suas altas pernas.
-Approximou-se d’uma cadeira, examinou-a como, para certificar-se de que
-era sólida, assentou-se por fim e pôz-se a bocejar, tapando a bôca com
-a mão. Tinha a cabeça redonda e o cabello cortado á escovinha, a barba
-feita, e grosso bigode de guias compridas e pendentes. Depois de ter
-examinado o quarto com os grandes olhos bojudos e acinzentados, cruzou
-as pernas e perguntou balouçando-se na cadeira:
-
---O casebre pertence-lhes ou é alugado?
-
-Pélagué, sentada em frente delle, respondeu:
-
---Alugamol-o.
-
---Não é grande coisa! observou o homem.
-
---O Pavel não se demora; queira esperar, disse froixamente.
-
---É o que estou fazendo! replicou tranquillamente.
-
-A sua tranquillidade, a sua voz suave, a simpleza da sua fisionomia
-deram coragem a Pélagué. Elle contemplava-a com olhar franco, com um
-ar bondoso; no fundo dos seus olhos transparentes luzia um brilho
-alegre, e havia um tanto de divertido e de simpatico n’aquella creatura
-angulosa e acurvada como n’um poleiro feito das proprias pernas. Trazia
-vestidas calças pretas, cujas extremidades estavam mettidas quasi
-dentro das botas; em vez de casaco, bluza azul. Pélagué tinha vontade
-de perguntar-lhe quem elle era, d’onde vinha, se conhecia o seu filho
-de ha muito tempo, quando, de chofre, elle moveu-se e perguntou:
-
---Ó tiasinha, quem foi que lhe abriu essa brécha na testa?
-
-Falava meigamente e sorria com o olhar. Mas a pergunta irritou-a.
-Mordeu os labios, e apóz curto silencio, perguntou com fria delicadeza:
-
---E o que tem o tiosinho com isso?
-
-Elle voltou-se de todo.
-
---Ah! não se zangue. Se lhe fiz esta pergunta, foi porque a minha mãe
-adoptiva tinha tambem uma brécha na testa, exactamente como a sr.ᵃ.
-Uma sova que lhe deu o marido, com uma fôrma de botas. Era sapateiro.
-Ella era lavadeira. Tinha-me adoptado já, quando, por sua desgraça,
-encontrou aquelle bêbedo não sei onde. O patife batia-lhe; digo-lhe só
-isto! Eu tinha tanto medo d’elle, que a pelle estalava-me.
-
-Pélagué sentiu-se desarmada perante aquella franqueza, e pensou de si
-para si que talvez Pavel não ficasse contente, se ella fosse menos
-delicada para com aquelle original. Por isso disse com um sorriso
-envergonhado:
-
---Eu não me zango... O sr. é que me deixou surpreza com a pergunta. Foi
-um presente do meu marido, que Deus tenha! O sr. não é tartaro?
-
-O homem mexeu as pernas, e teve um sorriso tão aberto, que até as
-orelhas pareciam chegar-lhe á nuca. Depois disse gravemente:
-
---Ainda não... ainda não sou tartaro.
-
---É que não fala exactamente como um russo! explicou ella sorrindo,
-porque lhe compreendera o gracejo.
-
---A minha lingua vale mais do que o russo! exclamou com um meneio
-importante. Sou russo-menor, da cidade de Kanief.
-
---E ha muito tempo que está por cá?
-
---Vivi na cidade, perto de um anno, e ha um mez que vim aqui para a
-fabrica. Travei conhecimento com excellentes pessôas... o seu filho...
-e mais alguns... não muitos. Quero fixar-me por cá, accrescentou,
-torcendo o bigode.
-
-Estava agradando a Pélagué que, para agradecer o elogio feito ao filho,
-lhe perguntou:
-
---Quer chá?
-
---O quê? sósinho? observou, encolhendo os hombros. Faça o offerecimento
-quando estivermos todos juntos.
-
-Ouviram-se passos outra vez, a porta abriu-se de chofre; Pélagué
-levantou-se. Com grande espanto seu, quem entrou na cosinha foi uma
-rapariga, de vestido leve e pobre, baixa, com cara de camponeza. A
-recemchegada, cujos cabellos eram loiros e espessos, perguntou:
-
---Ainda venho a tempo?
-
---Ah! vem! respondeu o russo-menor, que permanecia no quarto. Veio a pé?
-
---Podera! A sr.ᵃ é a mãe do Pavel Mikhaílovitch? Bôa noite! Eu
-chamo-me Natacha.
-
---E o seu pae? perguntou Pélagué.
-
---Vassilievna. E a sr.ᵃ?
-
---Pélagué Milovna.
-
---Bello! Estamos apresentados!
-
---Sim, estamos... concordou Pélagué, com um ligeiro suspiro.
-
-E sorrindo observou a rapariga.
-
-O russo-menor perguntou:
-
---Faz frio?
-
---Se faz! e muito, lá pelos campos; uma ventania!...
-
-Tinha a voz pastosa, clara; a bôca era pequena e redonda; e toda ella
-era gorducha e cheia de frescura. Depois de tirar a capa, esfregou
-energicamente as faces coradas com as mãosinhas avermelhadas pelo
-frio; e, passeando pelo quarto com passos rapidos, batia no sobrado com
-os tacões.
-
---Não tem galochas de borracha! pensou Pélagué.
-
---Que frio! E arrastando muito as palavras: Estou entorpecida! gelada!
-
---Vou já, já, preparar o samovar! disse rapidamente a dona da casa.
-
-E saíu para a cozinha.
-
-Dir-se-ia que conhecia aquella rapariga de ha muito tempo e que a
-estimava como sua filha. Estava satisfeita por vêl-a; vindo-lhe á ideia
-os olhos pardos e piscos do russo-menor, sorriu satisfeita tambem;
-prestou attenção á conversa.
-
---Porque está triste, André? perguntou a rapariga.
-
---Porque sim! A viuva tem um olhar bondoso e lembra-me que talvez seja
-como o da minha mãe... Penso muito na minha mãe, sabe? Parece-me sempre
-que ella vive.
-
---Ouvi-lhe dizer que ella tinha morrido...
-
---Não! Falava da minha mãe adoptiva, e agora falo da minha verdadeira
-mãe. Imagino que ella pede esmola, algures, em Kief e que bebe
-aguardente...
-
---Porquê?
-
---Sei lá! E que quando está embriagada, os policias a esbofeteiam.
-
---Pobre homem! pensou Pélagué, suspirando.
-
-Natacha passou a falar rapidamente, a meia-voz. Depois, tornou a
-ouvir-se a voz sonora do russo-menor:
-
---É ainda nova! não tem experiencia! Todos teem mãe, e apesar d’isso
-quantas creaturas más!... É difficil dar á luz, mas é muito mais
-difficil ensinar o bem ao homem.
-
---Isso! isso! exclamou lá de dentro Pélagué.
-
-Desejava poder responder que ella, por exemplo, se consideraria feliz
-ensinando o bem a seu filho, mas que não sabia d’essas coisas; a porta
-porem abriu-se vagarosamente dando entrada a Vessoftchikof, filho do
-velho ladrão Danilo, o misantropo celebre em todo o bairro. Mantinha-se
-sempre afastado dos outros, que por este facto chasqueavam d’elle.
-Pélagué perguntou admirada:
-
---O que é que tu queres?
-
-Fitou n’ella os olhos pardos, limpou com a palma da mão a cara bexigosa
-e de maçãs salientes, e, sem responder ao cumprimento de Pélagué,
-perguntou em tom cavo.
-
---O Pavel está em casa?
-
---Não.
-
-Relanceou a vista pelo quarto e entrou, dizendo:
-
---Boa noite, companheiros.
-
---Tambem este!... Será possivel? pensou ella hostilmente.
-
-E mais se admirou vendo Natacha estender a mão ao recemchegado com modo
-alegre e amigavel.
-
-Vieram em seguida dois rapazes, duas creanças quasi. A dona da casa
-conhecia um d’elles: era o sobrinho de Fédor Sizof, velho operario
-da fabrica; tinha feições d’arguto, fronte elevada e cabellos
-encaracolados. O outro, de cabello corredio, era-lhe desconhecido, mas
-não a assustava, parecia modesto.
-
-Afinal Pavel chegou, acompanhado de dois amigos, que ella reconheceu
-logo: eram dois operarios tambem da fabrica.
-
-Amavelmente, o filho disse-lhe:
-
---Preparaste o chá? obrigado!
-
---Queres que vá comprar aguardente? perguntou, não sabendo como
-exprimir-lhe o seu reconhecimento pelo que quer que fosse que ella
-ainda não compreendia.
-
---Não. Não é preciso! respondeu, tirando a capa, e sorrindo
-bondosamente para a mãe.
-
-De subito, veio-lhe á idéa de que o filho tinha exagerado
-propositadamente o perigo da reunião para brincar com ella.
-
---É então esta a tal gente perigosa?
-
---Esta mesma! disse Pavel entrando no quarto.
-
---Ah! e seguiu-o com o olhar caricioso.
-
-Mas, no seu intimo:
-
---E elle é a mesma creança!...
-
-
-
-
-VI
-
-
-Quando a agua do samovar entrou em ebolição levou-o para o quarto. As
-visitas estavam sentadas em de redor da meza; Natacha tinha nas mãos um
-livro e ficára n’uma quina da mesa sob a luz da candeia.
-
---Para compreender por que as creaturas vivem tão mal... dizia Natacha
-
---... e porque são tão más... interveio o russo-menor.
-
---... é preciso ver primeiro como começaram a viver...
-
---Então, meus filhos, então!... murmurou Pélagué, preparando o chá.
-
-Calaram-se todos.
-
---O que diz, mamã? perguntou Pavel franzindo o sobrolho.
-
---Eu?
-
-Vendo todos os olhares cravados n’ella, explicou, embaraçada:
-
---Falava comigo mesmo... Dizia: então!...
-
-Natacha desatou a rir assim como Pavel; o russo-menor exclamou:
-
---Obrigado, mãesinha, obrigado pelo chá!
-
---Ainda não o bebeu e já agradece?! replicou ella.
-
-E, olhando para o filho:
-
---Não os incommodo?
-
-Foi Natacha quem respondeu:
-
---Como pode incommodar os seus hospedes, se é a dona da casa?
-
-E n’um tom infantil e lamentoso:
-
---Boa alma! dê-me chá depressa! Estou a tremer com frio... tenho os pés
-gelados...
-
---É para já! é para já!
-
-Depois de ter bebido, Natacha suspirou á larga, atirou a trança para
-as costas e abriu um livro volumoso, illustrado e de capa amarella.
-Pélagué enchia os copos, deligenciando não os fazer retenir, e, com
-toda a attenção de que era capaz o seu cerebro pouco acostumado a
-trabalhar, escutava a leitura que a rapariga fazia com a sua voz
-harmoniosa, que se misturava ao murmurio da agua a ferver no samovar,
-semelhante a longinqua canção.
-
-No quarto desenrolava-se tremente, como uma fita de côres magnificas,
-a historia simples e clara dos selvagens que viviam nas cavernas e
-atacavam com pedras os animaes. Era uma como lenda; por varias vezes,
-Pélagué olhava de soslaio para o filho, desejava saber o que haveria
-n’aquella historia de selvagens que a tornasse leitura prohibida. Mas
-a bréve trecho deixou de escutar e, sem que dessem por tal, começou a
-observar os seus hospedes.
-
-Pavel estava sentado junto de Natacha; era bello entre todos os outros.
-A rapariga, inclinada sobre o livro, levantava a miudo os cabellos
-finos e encaracolados que lhe cahiam para a testa. Por vezes, sacudia
-a cabeça, e, com um olhar amigo, accrescentava algumas observações,
-abaixando a voz. O russo-menor tinha encostado o peito ao canto da
-meza, torcia o bigode, cujas guias deligenciava vêr, mettendo um olho
-por outro. Vessoftchikof, estava sentado n’uma cadeira, empertigado
-como um manequim, com as mãos nos joelhos; o seu rosto bexigoso, sem
-sobrolhos e de bigode muito raro, era immovel como uma mascara.
-
-Sem desviar o olhar, contemplava obstinadamente a sua fisionomia
-reflectida no cobre brilhante do samovar; dir-se-ia que nem respirava.
-O pequeno Fédia escutava a leitura, movendo os beiços, repetindo
-para si as palavras do livro; o seu companheiro, o dos cabellos
-encaracolados, curvava-se, com os cotovellos nos joelhos, e sorria
-pensativamente, tendo a cara apoiada nas mãos. Um dos rapazes vindos
-com Pavel era ruivo e delgado; os olhos verdes tinham expressão alegre;
-parecia desejoso de dizer alguma coisa e fazia gestos de impaciencia; o
-outro, de cabellos loiros e curtos, passava a mão pela cabeça olhando
-para o sobrado, o que não permittia ver-se-lhe o rosto.
-
-O quarto estava quente, n’uma temperatura especialmente agradavel
-n’aquella noite. No meio do murmurio da voz de Natacha, misturada á
-canção tremula do samovar, Pélagué recordava as noites tumultuosas da
-sua mocidade, as palavras grosseiras dos rapazes que cheiravam mal
-a alcool, os seus gracejos cinicos. Perante taes recordações, o seu
-coração humilhado confrangia-se compadecido d’ella propria.
-
-Reviveu em pensamento o dia em que o marido pedira a sua mão. Foi
-durante uma reunião, á noite; elle detivera-a n’um corredor obscuro,
-obrigava-a á viva força a encostar-se á parede, dizendo-lhe n’um tom
-cavo e irritado:
-
---Queres casar comigo?
-
-Ella sentira-se ultrajada; molestavam-na aquelles dedos grosseiros
-apertando-lhe os seios, aquella respiração offegante que lhe enviava ao
-rosto um hálito quente e humido. Tentou libertar-se d’aquelle abraço,
-fugir-lhe...
-
---Aonde vaes? urrou elle. Responde primeiro!
-
-Ficara silenciosa, cheia de vergonha e de colera.
-
---Não te finjas embaraçada, pateta! Conheço-as, a todas! No teu intimo,
-estás satisfeitissima.
-
-Porque alguem tivesse aberto uma porta, elle largara a rapariga, sem
-grande pressa, dizendo:
-
---No domingo mandarei pedir a tua mão.
-
-Cumpriu.
-
-Pélagué fechou os olhos e suspirou longamente.
-
---Não preciso saber como os homens viveram, mas sim como se deve viver!
-exclamou de subito Vessoftchikof num tom de surdo aborrecimento.
-
---Tem razão! concordou o rapaz de cabello ruivo, erguendo-se.
-
---Não estou d’acôrdo! disse Fédia. Se queremos caminhar para a frente,
-devemos saber tudo!
-
---Exacto! opinou o outro, a meia voz.
-
-Veio em seguida uma discussão animada. Pélagué não comprehendia por
-que todos elles gritavam, com os rostos cheios de excitação. Mas
-ninguem estava irritado; nem mesmo se ouviam as palavras concludentes e
-obscenas ás quaes ella estava acostumada.
-
---Não se sentem á vontade na presença da pequena... pensou.
-
-Sentia-se encantada pela fisionomia grave de Natacha, que parecia tomar
-conta em todos, como se fossem creanças para ella.
-
---Basta, companheiros! basta! disse de subito.
-
-E todos se calaram, volvendo para ella o olhar.
-
---Os que affirmam que devemos saber tudo affirmam uma verdade. Devemos
-illuminar-nos a nós mesmos com a chamma da razão, para que as creaturas
-obscuras nos vejam; devemos responder a tudo com honestidade, com
-verdade. É preciso conhecer toda a verdade e toda a mentira.
-
-O russo-menor meneava a cabeça ao rythmo das palavras de Natacha.
-Vessoftchikof, o rapaz ruivo e o operario que viera com Pavel formavam
-um grupo distincto; desagradavam a Pélagué, sem que ella soubesse
-porquê.
-
-Quando Natacha concluiu, Pavel ergueu-se e perguntou tranquillamente:
-
---O que queremos nós ser? Apenas creaturas que comem e bebem? Não!
-queremos ser homens. Devemos mostrar aos que nos exploram e nos fecham
-os olhos, que vemos tudo, que não somos idiotas, nem brutos, que não
-queremos só comer, mas tambem viver como é proprio dos homens. Devemos
-mostrar aos inimigos que a vida de degredo que elles nos arranjaram não
-impede que possamos medir-nos com elles pela intelligencia e excedel-os
-pelo espirito...
-
-Pélagué ouvia, estremecendo de orgulho por ser o seu filho quem assim
-falava.
-
---Ha muita gente farta, mas ninguem entre ella que seja honesto! disse
-o russo-menor. Construamos uma ponte que atravesse o pantano da nossa
-vida infecta e que nos conduza ao reino futuro da bondade sincera, eis
-a nossa tarefa, companheiros!
-
---Em tempo de guerra não se limpam armas! replicou soturnamente
-Vessoftchikof.
-
---Aliás fazem-nos os ossos n’um feixe, antes da batalha! exclamou
-alegremente o russo-menor.
-
-Tinha passado meia noite quando o grupo dispersou.
-
-O rapaz ruivo e Vessoftchikof foram os primeiros a saír, o que não
-agradou a Pélagué.
-
---Como vão apressados! pensou, cumprimentando-os.
-
---Acompanha-me, André? perguntou Natacha.
-
---Ora essa!
-
-Emquanto Natacha se vestia na cosinha, Pélagué disse-lhe:
-
---Tem umas meias tão finas, com um tempo d’estes!... Se me dá licença,
-hei de fazer-lhe um par, de lã.
-
---Obrigado, mas as meias de lã arranham a pelle! respondeu, rindo.
-
-Descanse, que, feitas por mim, não arranharão.
-
-Natacha observou-a com os olhos semi-cerrados, e este olhar fixo
-embaraçou-a.
-
---Desculpe se é tolice, mas creia ser de bôa vontade!
-
---Sim. A sr.ᵃ é bôa! exclamou Natacha a meia voz, apertando-lhe a mão.
-
---Bôa noite, mãesinha! disse o russo-menor encarando n’ella; saíu,
-depois de beijal-a, acompanhando Natacha.
-
-Pélagué olhou para o filho que no limiar da porta do quarto, sorria.
-
---Porque sorris? perguntou, como envergonhada.
-
---Ora! porque estou contente.
-
---Sou velha e tôla, bem sei, mas compreendo aquillo que fica bem.
-
---E tem razão. Vá deitar-se, vá, que são horas.
-
---E tu tambem deves ir. Eu é n’um instante.
-
-Á roda da meza d’onde retirava os copos, sentia-se feliz: tudo se tinha
-passado sem novidade e terminado em paz.
-
---Tiveste uma bôa idéa, meu filho: é uma bella gente. O russo-menor...
-acho-o interessante. E a rapariga... Ah! que intelligente que é! Quem é
-ella?
-
---Professora de primeiras lettras, respondeu resumidamente, passeando
-ao comprimento do quarto.
-
---Por isso é tão pobre! Que mal vestida!...
-
-Vae apanhar um frio!... Onde vivem os paes?
-
-Em Moscou.
-
-E Pavel, parando junto da mãe, disse em voz baixa e gravemente:
-
---O pae é muito rico, negociante de ferro, e possue varios
-estabelecimentos. Expulsou-a porque ella entrou neste caminho... Foi
-educada no luxo, toda a familia a amimava, dando-lhe quanto queria... E
-n’este momento é obrigada a andar a pé, sósinha, sete kilometros.
-
-Estes pormenores impressionaram Pélagué. No meio do quarto, olhava para
-o filho sem dizer palavra, os sobrolhos erguidos n’uma expressão de
-assombro.
-
-Depois perguntou a meia voz:
-
---Vae para a cidade?
-
---Vae.
-
---Ah! e não tem medo?
-
---Não, não tem medo! respondeu, sorrindo.
-
---Não tem?!... Poderia passar a noite cá em casa... Dormiria comigo.
-
---Impossivel. Vêl-a iam saír ámanhã pela manhã; e devemos evitar
-isso... Ella primeiro ainda.
-
-Pélagué caíu em si, e tendo olhado para a janella, passeando, disse
-meigamente:
-
---Não percebo o que possa haver perigoso, e que torne prohibidas estas
-coisas. Que mal pode haver? Ella não sentia absoluta convicção e
-desejava obter do filho uma resposta negativa. Elle fitou-a, sereno, e
-respondeu com firmeza:
-
---Não fazemos nem faremos mal algum. Todavia, sabe que é a prisão o que
-nos espera.
-
-As mãos de Pélagué tremeram. Foi com a voz enfraquecida que perguntou:
-
---Talvez... Queira Deus que tal não succeda!
-
-Pavel, carinhoso, mas resoluto:
-
---Não! não quero enganar-te! O que te disse ha de succeder.
-
-Acrescentou, sorrindo:
-
---Olha: vae deitar-te! Estás fatigada! Bôa noite!
-
-Sósinha, a mãe approximou-se da janella e olhou para a rua. O vento
-passava, varrendo a neve dos telhados das casinhas adormecidas, batendo
-contra as paredes, murmurando não se sabe o quê, e baixando á terra
-para fazer correr ao longo das ruas nuvens brancas de flócos seccos.
-
---Jesus Christo, tende piedade de nós! supplicou baixinho.
-
-As lagrimas accumulavam-se-lhe, a espectativa da desgraça da qual o
-filho falava com tanta tranquilidade e certeza, agitava-se dentro
-d’ella como uma borboleta nocturna. Perante os seus olhos desenrolou-se
-uma planicie coberta de gelo. O vento levando os flócos de neve,
-redemoinhava assobiando. No meio da planicie, um pequenino perfil de
-rapariga caminhava, solitario e vacillante. O vento enrolava-se-lhe nas
-pernas, enchia-lhe as saias, atirava-lhe ao rosto flócos aggressivos.
-O caminho era difficil para aquelles pequeninos pés que se enterravam
-na neve. Fazia frio e as trevas eram de metter medo. A rapariga
-inclinava-se para a frente como debil haste sacudida pelo sopro rapido
-do vento do outomno.
-
-Á sua direita, no pantano, uma floresta erguia a sua sombra compacta
-onde as bétulas e os frageis pinheiros tremiam e gemiam tristemente.
-
-Muito ao longe, na sua frente, scintillavam as luzes da cidade.
-
---Senhor! tende piedade de nós! disse ainda a pobre mãe, tremendo de
-frio e de medo.
-
-
-
-
-VII
-
-
-Os dias succediam-se; como as contas de um rosario, addiccionavam-se
-em semanas e em mezes. Todos os sabbados, os companheiros reuniam-se
-em casa de Pavel; e cada sessão era como um degrau da longa escadaria
-em suave declive que conduzia a muito distante, não se sabia aonde,
-elevando lentamente os que por ella subiam, e da qual se não via o fim.
-
-Novas caras appareciam constantemente. O pequeno quarto dos Vlassof
-ia-se tornando apertado. Natacha continuava a comparecer, transida de
-frio, fatigada, mas sempre alegre e bem disposta. Pélagué tinha-lhe
-feito as taes meias que ella propria lhe calçou. A principio, Natacha
-tinha rido, depois calou-se, e, reflectindo por um momento:
-
---Tive uma creada, disse baixinho, que tambem me era
-extraordinariamente dedicada! Olhe, Pélagué Nilovna é muito para pensar
-este caso: o povo que tem uma vida tão ardua, tão cheia de humilhações,
-possue mais coração, mais bondade do que os outros!
-
-Tinha erguido o braço, designando um ponto muito afastado d’ali.
-
---E a menina?--disse-lhe a mãe de Pavel--que sacrificou seus paes e o
-resto...
-
-Não chegou a concluir o seu pensamento, suspirou e calou-se olhando
-para Natacha. Sentia-se-lhe reconhecida, sem bem saber de quê, e
-deixara-se ficar sentada no chão, diante da rapariga, que sorria
-pensativa, com a cabeça descaída para o peito.
-
---Sacrifiquei os meus paes... tinha repetido Natacha. Mas não é isto
-o peor. O meu pae é tão estupido e ordinario, o meu irmão tambem, e
-demais costuma beber! A minha irmã mais velha é uma desgraçada, causa
-compaixão. Casou com um homem muito mais idoso do que ella, muito rico,
-mas avarento e repugnante. De quem eu tenho mais saudades é da mamã!
-
---Coitadinha! lamentou a mãe de Pavel, com um triste movimento de
-cabeça.
-
-A rapariga endireitou-se de subito e exclamou:
-
---Ah! não! Ha momentos em que a minha alegria, a minha felicidade não
-tem limites!
-
-O seu rosto empallideceu, e saíam chispas de seus olhos azues. Pondo a
-mão no hombro de Pélagué, disse em voz profunda, n’um tom que parecia
-vindo do coração:
-
---Se soubesse... se podesse compreender a obra brilhante e enorme que
-estamos realisando!... Havia de sentil-a!
-
-Uma impressão, não muito afastada da inveja, apoderou-se do coração de
-Pélagué, que disse tristemente, erguendo-se:
-
---Estou muito velha para essas coisas... sou ignorante... estou muito
-velha...
-
-... Pavel falava muito, discutia cada vez com maior ardor, e emagrecia.
-Pélagué julgava notar que, quando elle conversava com Natacha ou para
-ella olhava demoradamente, o seu olhar severo se tornava suave, que
-a sua voz vibrava com mais carinho, que elle se revelava ainda mais
-simples.
-
---Deus o queira!... pensava. Sorria á ideia de que Natacha podesse vir
-a ser sua nora.
-
-Quando, nas reuniões, a discussão tomava mais calor, o russo-menor
-levantava-se, e bamboleando como o badalo d’um sino, soltava com a
-sua voz sonora palavras claras e simples que faziam voltar o socego.
-O taciturno Vessoftchikof levava constantemente os companheiros a
-actos mal definidos; era sempre elle e Samoílof, o rapaz ruivo, quem
-esquentava as discussões. Tinham por partidario Ivan Boukine, o rapaz
-de cabeça redondinha, de sobrolhos brancos, e que parecia deslavado
-como o sol. Jacob Somof, sempre modesto, asseado e bem penteado, falava
-pouco e breve, em voz baixa e grave. Como Fédia Mazine, o adolescente
-de fronte alta, era sempre da opinião de Pavel e do russo-menor.
-
-Por vezes, em logar de Natacha, era Nicolao Ivanovitch quem vinha da
-cidade. Usava occulos e tinha barbicha loira. Natural d’uma provincia
-distante, as inflexões da sua voz eram especiaes e cantantes, falando
-quasi sempre sobre themas simples, a vida em familia, as creanças,
-o commercio, a policia, o preço da carne e do pão, emfim a vida de
-todos os dias. E em tudo descobria êrros, confusão, coisas estupidas,
-divertidas ás vezes, mas sempre prejudiciaes para os homens. Parecia
-a Pélagué que Nicolao Ivanovitch viera de longe, d’outro paiz onde a
-existencia era facil e honesta, e que ali, onde ella vivia tudo lhe
-desagradava. Era de côr amarelenta; pequenas rugas lhe circumdavam
-os olhos, a voz era grossa, e tinha as mãos sempre quentes. Quando
-cumprimentava a mãe de Pavel, agarrava-lhe a mão por completo com os
-dedos vigorosos, e tal aperto era como um consolo para a alma d’ella.
-
-Da cidade vinham ainda outras pessôas, por exemplo uma rapariga
-esbelta, de olhos grandes e rosto magro e pallido. Chamavam-lhe
-Sachenka. Havia o que quer que fosse masculo nos seus gestos e no
-andar; franzia os sobr’olhos negros como irritada; quando falava, as
-delicadas narinas estremeciam.
-
-Foi ella que um dia disse primeiro que os outros:
-
---Nós, socialistas...
-
-Quando Pélagué ouviu esta palavra, olhou para a rapariga com mudo
-terror.
-
-Sabia que os socialistas tinham assassinado um tzar. Fôra durante a
-sua mocidade; dissera-se então que os proprietarios ruraes, indignados
-contra o imperador por ter libertado os servos, haviam jurado não
-cortar os cabellos emquanto elle não fosse morto. Por isso não podia
-compreender a rasão por que o seu filho e a companheira se tinham feito
-socialistas.
-
-Quando todos se retiraram, perguntou a Pavel:
-
---Pavloucha, é verdade que és socialista?
-
---É! respondeu firme e franco como sempre.
-
-Pélagué deu um profundo suspiro e disse, baixando os olhos:
-
---Parece-te bem, meu filho?... Elles são contra o tzar... já mataram
-um!...
-
-Pavel entrou de passear pelo quarto, passando a mão pela cara, até que
-respondeu com um sorriso:
-
---Nós não precisamos d’isso!
-
-Falou-lhe muito tempo a serio. Ella chorava e reflectia. Depois, a
-terrivel palavra foi repetida cada vez mais a miudo, e tornou-se tão
-familiar aos ouvidos de Pélagué como um amontoado d’outros termos
-incompreensiveis para ella. Mas Sachenka não lhe agradava; quando a
-via, sentia-se pouco á vontade, anciosa...
-
-Uma noite, disse ao russo-menor, com um tregeito de mal-estar:
-
---É muito rispida a Sachenka! Está sempre a mandar: façam isto! façam
-aquillo!
-
-O russo-menor riu ruidosamente.
-
---É a pura verdade! nem mais nem menos! Não é assim, Pavel?
-
-E, piscando o olho, disse em tom escarninho:
-
---A nobreza!
-
-Pavel replicou seccamente:
-
---É uma rapariga decidida!
-
-E ficou-se com ar de mal disposto.
-
---Não ha duvida tambem! concordou o russo-menor. Ha apenas uma
-differença: não compreende que é ella quem deve e que somos nós que
-queremos e podemos.
-
-Pélagué notara tambem que a severidade de Sachenka caía mais em
-particular sobre Pavel a quem por vezes chegava a repreender. Elle
-sorria, ficava silencioso, e contemplava a rapariga com o olhar suave
-que outrora tinha para Natacha. E isto não agradava a Pélagué.
-
-Reuniam-se duas vezes por semana; e quando a mãe de Pavel via a
-attenção apaixonada com que os novos escutavam as falas do filho e do
-russo-menor, as interessantes narrativas de Natacha, de Sachenka, de
-Nicolao Ivanovitch e dos outros que vinham da cidade, esquecia as suas
-inquietações, e recordando-se dos fastidiosos dias da sua mocidade,
-meneava tristemente a cabeça.
-
-Muitas vezes, Pélagué ficava surpreendida dos accessos de alegria
-ruidosa que os atacavam de subito. O facto dava-se geralmente quando
-tinham lido nos jornaes noticias da classe operaria estrangeira. Era
-uma alegria estravagante, como infantil; riam todos com um riso limpido
-e muito alegre, e batiam amigavelmente no hombro do companheiro mais
-proximo.
-
---Teem trabalhado a valer, os nossos companheiros allemães! annunciava
-qualquer d’elles, como embriagado de extasi.
-
---Vivam os nossos companheiros italianos! gritava outra voz.
-
-E quando enviavam estas exclamações ao longe, aos amigos desconhecidos,
-pareciam convencidos de que elles os ouviam e participavam do seu
-enthusiasmo.
-
-O russo-menor, cheio de um amor que abrangia a todos os seres,
-declarava:
-
---Deveriamos escrever-lhes, não acham, para que saibam que teem na
-Russia, tão distante, amigos, operarios que professam a mesma religião
-que elles, companheiros que teem o mesmo fim, e rejubilam com as suas
-victorias...
-
-E, com o sorriso nos labios, falava-se durante muito tempo dos
-francezes, dos inglezes, dos suecos, como de entes queridos, em cujas
-felicidades e soffrimentos se tomava parte.
-
-No pequeno quarto nascia assim o sentimento do parentesco espiritual,
-unindo os operarios de aquella terra da qual elles eram ao mesmo tempo
-os senhores e os escravos. Esta confraternidade, que lhes dava uma só
-alma, impressionava Pélagué, e embora ella lhe fosse inaccessivel,
-fazia-a elevar se sob a influencia d’aquella força alegre, triunfante,
-embriagadora e cheia de mocidade, acariciadora e cheia de esperanças.
-
---No meio de tudo, como os srs. são! disse ella um dia ao russo-menor.
-Para os srs., todos são companheiros: os judeus, os armenios, os
-austriacos... Falam d’elles como se falassem de amigos, entristecem-se
-e alegram-se com o mundo inteiro!
-
---Sim, mãesinha! exclamou elle. O mundo é nosso! o mundo é dos
-operarios! Para nós não ha nações, nem raças! ha somente companheiros
-e... inimigos. Todos os operarios são nossos amigos; todos os ricos,
-todos os que teem auctoridade, são nossos inimigos. Quando se olha
-para a terra com bons olhos, quando se vê quanto nós, os operarios,
-somos numerosos, que poder espiritual nós representamos, sente-se o
-coração invadido pela alegria e pela felicidade, como na celebração de
-uma festa solemne. O francez e o allemão teem o mesmo sentimento, e
-os italianos tambem rejubilam. Somos todos nascidos da mesma mãe, da
-grande, da invencivel idéa da fraternidade operaria, em todos os paizes
-da terra. Desenvolve-se, aquece-nos com o seu calor, é o segundo sol
-no ceo da justiça; e este ceo está no coração do operario. Qualquer
-que elle seja, seja qual fôr o seu nome, o socialista é nosso irmão em
-espirito, agora e para sempre, por todos os seculos dos seculos!
-
-Esta exuberancia infantil, esta fé luminosa e inabalavel manifestava-se
-de mais em mais no pequeno grupo, n’uma força crescente.
-
-E quando Pélagué via esta alegria, sentia instinctivamente que na
-verdade viera ao mundo o que quer que fosse grande e resplendente, como
-um sol semelhante ao que via no ceo.
-
-Ás vezes, cantavam, alegremente e a plenos pulmões, canções familiares;
-por outras, aprendiam novas canções, tambem melodiosas, mas com musica
-melancólica e fóra do vulgar. Então, abaixavam a voz, as fisionomias
-tornavam-se graves, pensativas, como ao som de um hymno religioso. Os
-rostos tornavam-se pallidos, os que cantavam animavam-se, e sentia-se
-que uma grande força se occultava sob as palavras sonoras.
-
-Uma d’aquellas canções principalmente perturbava e inquietava Pélagué.
-Não traduzia os gemidos, as preplexidades da alma ultrajada que vagueia
-solitaria nos atalhos obscuros das incertezas dolorosas nem dos gritos
-da alma incolor e informe assaltada pela miseria, embrutecida pelo
-medo. Não repetia os languidos suspiros do ser avido de espaço, nem
-os gritos de provocação da audacia fogosa prestes a destruir o mal e
-o bem, indifferentemente. O cego sentimento da vingança e do odio,
-capaz de aniquilar tudo, impotente para crear, não apparecia então; não
-havia em taes canções qualquer vestigio do antigo mundo, do mundo dos
-escravos.
-
-As palavras rispidas, a melodia austera não agradavam a Pélagué, mas
-havia n’aquellas canções uma como força immensa que abafava o som e
-as palavras, despertando no coração o presentimento de alguma coisa
-grandiosa para o pensamento. Pélagué via isto nos rostos, no olhar dos
-novos, e, cedendo áquelle poder misterioso, escutava sempre a canção,
-duplamente attenta, com inquietação profunda.
-
---Já é tempo de a cantarmos pelas ruas! dizia o sombrio Vessoftchikof,
-em principios da primavera.
-
-Quando o pae mais uma vez foi prezo, declarou tranquillamente:
-
---Agora poderiamos reunirmo-nos em minha casa...
-
-Quasi todas as tardes, depois do trabalho, um ou outro dos
-companheiros ia a casa de Pavel; liam juntos, copiavam trechos das
-brochuras. Andavam preoccupados e nem já tinham tempo de se lavarem.
-Ceavam juntos e tomavam o seu chá sem pôrem de lado os livros; e as
-suas conversas cada vez se tornavam mais incompreensiveis para Pélagué.
-
---Precisamos de um jornal! repetia Pavel, a miude.
-
-A vida tornava-se febril e agitada; dirigiam-se uns aos outros com mais
-celeridade, era com mais rapidez que passavam d’um livro a outro, como
-abelhas voando de flôr para flôr.
-
---Começa-se a falar de nós! disse uma noite Vessoftchikof.
-Provavelmente, acabamos por ser presos, dentro em pouco.
-
---Quem não quer ser lobo não lhe veste a pelle! observou o russo-menor.
-
-Cada vez agradava mais a Pélagué. Quando elle lhe chamava mãesinha,
-parecia-lhe que uma suave mão de creança lhe afagava o rosto. Ao
-domingo, se Pavel tinha que fazer, era elle quem rachava a lenha; um
-dia appareceu carregado com uma grande taboa, pegou na ferramenta e
-substituiu com habilidade um degrau pôdre da porta d’entrada; doutra
-vez, recompoz a varanda que ameaçava ruina. Emquanto trabalhava,
-assobiava musicas melancólicas.
-
-Pélagué disse um dia ao filho:
-
---Se nós fizessemos do russo-menor nosso hospede? Seria mais commodo
-para ambos, que não precisariamos de andar sempre a correr de casa d’um
-para casa do outro.
-
---Para que ha de ir arranjar mais esse trabalho? perguntou Pavel,
-encolhendo os hombros.
-
---Ora! Durante toda a minha vida tenho sido atormentada com trabalho
-sem saber para quê; posso perfeitamente fazer isto hoje em favor de tão
-bom homem.
-
---Faça o que quizer! Se elle acceitar, dar-me-á satisfação.
-
-E o russo-menor passou a viver com elles.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-A pequena casa na extrema do bairro despertava a attenção: as suas
-paredes já tinham sido como que atravessadas por olhares suspeitosos.
-As azas do rumor publico agitavam-se por cima della; tentava-se
-descobrir o misterio que ali se occultava. Á noite, havia quem fosse
-espreitar pela janella; por vezes, alguem havia que batesse na vidraça,
-fugindo logo.
-
-Certo dia, na rua, o taverneiro Bégountzef fez parar a mãe de Pavel.
-Era um bonito velhote que tinha sempre um lenço de seda preta á roda do
-pescoço vermelho e enrugado. O nariz brilhante e agudo era adornado por
-lunetas de aro d’escama de peixe, o que lhe tinha grangeado a alcunha
-de «Olhos d’osso».
-
-Sem tomar a respiração nem esperar resposta, surpreendera Pélagué com
-uma torrente de palavras sêccas e vivissimas:
-
---Como vae, Pélagué Nilovna? E o seu filho? Ainda não acha tempo de
-o casar? O rapaz já está afinal na devida idade para ter uma mulher.
-Quando os paes casam cedo os filhos ficam mais tranquillos. O homem
-que vive em familia tem mais saude, tanto de corpo como de espirito,
-conserva-se como um cogumello em vinagre. No seu logar, eu já o tinha
-casado. Os tempos que vão correndo exigem que abramos os olhos no que
-respeita ao ente humano; ha quem se entregue a uma vida a seu modo,
-deixando-se arrastar a toda a casta d’acções censuraveis. Já se não
-vêem os rapazes no templo de Deus; afastam-se dos logares publicos, mas
-reunem-se ás escondidas pelos cantos, a cochichar. Porque andam elles a
-cochichar? se me permitte a pergunta. Porque se occultam? O que é que
-um homem não póde dizer em publico, na taverna, por exemplo? Misterios!
-Mas o logar dos misterios é a nossa santa egreja apostolica! Todos
-os outros misterios, realisados a occultas, vem da desorientação do
-espirito. Muitos bons dias lhe desejo.
-
-E tirou o boné com um gesto pretencioso, agitou-o no ar, e foi-se,
-deixando Pélagué immersa na perplexidade.
-
-D’outra vez, Maria Korsounova, visinha dos Vlassof, viuva d’um
-ferreiro, e que vendia comestiveis na fabrica, disse a Pélagué ao
-encontral-a no mercado:
-
---Não percas de vista o teu filho, Pélagué!
-
---Porquê?
-
---Correm uns boatos a seu respeito... segredou com ares misteriosos.
-Coisas feias! Diz-se que está organisando uma especie de corporação, no
-genero dos flagelantes. Chama-se a isto uma seita. Fustigar-se-ão uns
-aos outros como os flagelantes.
-
---Não digas mais tolices, Maria!
-
---Vae ralhar com elle que é quem as faz, e não comigo, que te dou parte
-do caso! replicou a vendedeira.
-
-Pélagué contou a conversa ao filho, que encolheu os hombros sem
-responder. Quanto ao russo-menor, desatou a rir, com as suas
-gargalhadas benevolas.
-
---As raparigas tambem estão zangadas! Sois todos aptos para vos
-tornardes bons maridos, trabalhaes bem, não bebeis... e nem olhaes para
-ellas! Diz-se que da cidade vem visitar-vos pessoas de má reputação...
-
---Já cá faltava! exclamou Pavel, fazendo uma cara de nojo.
-
---N’um pantano tudo cheira a pôdre! disse André suspirando. Seria
-melhor, mãesinha, que explicasse a essas patetinhas o que é o
-casamento. Talvez não ficassem com a mesma pressa de caír na asneira!
-
---Ah! exclamou Pélagué. Ellas bem sabem, mas como hão de passar sem
-casarem?
-
---Falta-lhes a compreensão, aliás achariam outra coisa em que se
-occuparem! disse Pavel.
-
-Ella dirigiu o olhar para o rosto irritado do filho, balbuciando:
-
---É a vós que cabe ensinal-as! Convidem para isso as mais intelligentes.
-
---Impossivel! respondeu Pavel, seccamente.
-
---Se tu experimentasses!... arriscou André.
-
-Depois de um silencio, Pavel respondeu:
-
---Começariam a passear aos pares, alguns acabariam por casar, e prompto!
-
-Pélagué caíu em meditações. A austeridade monacal do filho atordoava-a.
-Via que elle era obedecido pelos companheiros, até pelos mais velhos,
-como o russo-menor, mas parecia-lhe que todos o temiam e que não
-gostavam da frieza dos seus modos.
-
-Uma vez que ella estava na cama e Pavel e André ainda liam, apurou o
-ouvido ás suas palavras que lhe chegavam atravez do tabique.
-
---Gosto da Natacha, sabes? disse de repente o russo-menor, a meia voz.
-
---Sim, sei.
-
-Pavel não respondera logo.
-
-Pélagué ouviu o russo-menor levantar-se, vagaroso, e começar a passear
-pelo quarto, com os pés descalsos. Assobiou uma triste canção; depois
-tornou a falar:
-
---Ella terá notado?...
-
-Pavel ficou silencioso.
-
---Que te parece? perguntou de novo o companheiro, baixando a voz.
-
---Tem notado! respondeu Pavel. E é por isso que já não vem.
-
-André voltou a passear, assobiando; até que:
-
---E se eu lho dissesse?...
-
---O quê?
-
---Que...
-
---Para quê?
-
-Pélagué ouviu André rir.
-
---Eu cá, sim, parece-me que quando se ama uma rapariga, devemos
-dizer-lho, se não é o mesmo que nada!...
-
-Pavel fechou o livro com ruido e perguntou:
-
---E que resultado esperas?
-
-Estiveram calados durante alguns minutos.
-
---E então? perguntou André.
-
---É preciso ver claramente o que se quer... disse emfim Pavel com
-vagar. Supponhamos que ella tambem te ama. Não creio. Mas supponhamos.
-Casam. É uma união interessante, na verdade, a d’uma rapariga com um
-operario!... Vem os filhos... serás obrigado a trabalhar sósinho... e
-muito. A vossa vida será a de toda a gente, luctareis para ter com que
-vos sustentardes, para terdes casa onde viver com os filhos. E afinal
-ambos ficareis perdidos para a obra.
-
-Houve um silencio, até que Pavel concluiu:
-
---Deixa-te d’isso, André! Cala-te. Não a perturbes.
-
---Mas Nicolao Ivanovitch prégava a necessidade de viver a vida
-integral, com todas as forças da alma e do corpo... Lembras-te?
-
---Prégava, mas não para nós. Como atingirias tu a integridade? Não
-existe para ti. Quando se ama o futuro, temos que renunciar a tudo no
-presente, a tudo, irmão!
-
---É custoso! replicou André em voz abafada.
-
---E como poderia não ser assim? reflecte!
-
-Houve novo silencio. Ouvia-se apenas a pendula do relogio,
-compassadamente, dividindo o tempo em segundos.
-
-O russo-menor disse:
-
---Metade do coração ama; a outra odeia... E é isto coração, an?
-
---E como poderia não ser assim?
-
-Seguiu-se o folhear d’um livro: por certo Pavel voltava á leitura.
-Pélagué permanecia deitada com os olhos fechados, sem se atrever a
-fazer nem um movimento. Sentia-se profundamente apiedada de André,
-mas ainda mais do seu filho. Dizia comsigo: «Meu querido filho... meu
-martyr! meu sacrificado!»
-
-De subito, André perguntou:
-
---Devo então calar-me, não é isso?
-
---É o mais honesto, André...
-
---Bem! entrarei n’esse caminho! decidiu o outro.
-
-Mas accrescentou tristemente, decorrido um instante:
-
---Has de soffrer, Pavel, quando chegar a tua vez.
-
---Chegou. Já soffro... e cruelmente.
-
---Tu tambem?
-
-Lá fóra o vento soprava em torno da casa.
-
---Não tem nenhuma graça isto!... disse André lentamente.
-
-Pélagué metteu a cabeça debaixo da roupa para poder chorar.
-
-Na manhã seguinte, André pareceu-lhe como fisicamente amesquinhado,
-e sentiu-o mais proximo do seu coração. Como sempre, o filho tinha o
-porte secco, silencioso, rigido. Até então ella tratava o russo-menor
-por André Onissimovitch; d’aquelle dia em diante, sem querer, sem dar
-por tal, disse-lhe:
-
---Deve concertar as suas botas, meu André, senão tem frio nos pés.
-
---Hei de comprar outras, quando receber a féria.
-
-Depois desatou a rir e perguntou-lhe de chofre, pondo-lhe no hombro a
-sua pesada mão:
-
---Talvez a senhora seja a minha verdadeira mãe, mas que não queira
-confessal-o, porque me ache muito feio! Será assim?
-
-Sem falar, ella deu-lhe uma pancadinha na mão. Desejaria dizer-lhe
-palavras carinhosas, mas o coração confrangia-se apiedado, e a sua
-lingua recusava-se a obedecer-lhe...
-
-
-
-
-IX
-
-
-No bairro começavam a occupar-se dos socialistas que espalhavam por
-toda a parte folhas de papel escriptas a tinta azul. Eram papeis
-que falavam malevolamente dos regulamentos impostos aos operarios,
-das gréves de Petersburgo e da Russia meridional; exhortavam os
-trabalhadores a formarem uma liga e a luctarem na defeza dos seus
-interesses.
-
-As pessoas de certa idade que occupavam bons logares na fabrica,
-irritavam-se e diziam:
-
---Seria conveniente dar uma sova mestra n’estes agitadores!
-
-E levavam os papeis aos seus chefes.
-
-Os rapazes, enthusiasmados com taes escriptos, exclamavam ardentemente:
-
---O que elles dizem é a verdade!
-
-A maioria dos operarios, alquebrados pelo trabalho, indifferentes a
-tudo, pensavam indolentemente:
-
---Aquillo não dá nada.
-
-No entanto as folhas volantes interessavam a todos e, quando não
-appareciam, diziam uns para os outros:
-
---Hoje não ha; deixaram de publical-as...
-
-Mas quando, á segunda-feira, reappareciam, os operarios de novo se
-agitavam ruidosamente.
-
-Na fabrica e na taverna eram vistas umas pessoas que ninguem conhecia.
-Interrogavam, examinavam, farejavam, e impressionavam a todos com a sua
-prudencia suspeita.
-
-Pélagué sabia que toda aquella agitação era obra do seu filho. Via-os
-cercarem-no, elle porém não era só, o que tornava o caso menos
-perigoso. E o orgulho de ter tal filho juntava-se n’ella á anciedade
-que o futuro lhe inspirava: eram os trabalhos misteriosos do rapaz a
-misturarem-se como um limpido ribeiro á torrente lamacenta da vida...
-
-Uma tarde, Maria Korsounova bateu á vidraça e, quando Pélagué a
-entreabriu, a visinha cochichou:
-
---Que te dizia eu, Pélagué? Prepara-te! Os teus passarinhos acabaram de
-rir! Esta noite hão de vir fazer uma busca em tua casa, na de Mazine e
-na de Vessoftchikof.
-
-Não ouviu mais do que as primeiras palavras; as ultimas fundiram-se
-n’um rumor vago e melancolico.
-
-Os labios espessos de Maria vibravam com rapidez, o seu nariz carnudo
-dilatava-se, os olhos tornavam-se piscos, e moviam-se vagamente para um
-e outro lado, como em procura de alguem na rua.
-
---E olha que eu não sei nada, nada te disse, minha querida, nem mesmo
-te vi ainda hoje... Percebes?
-
-Desappareceu.
-
-Pélagué fechou a janella e deixou-se caír n’uma cadeira, com a cabeça
-como vasia, sem forças. Mas a consciencia do perigo que ameaçava o
-seu filho fêl-a erguer de subito; vestiu-se á pressa, envolveu a
-cabeça n’um chale e correu a casa de Fédia Mazine, que estava doente.
-Quando entrou, viu-o sentado junto da janella, a lêr, e como que
-acalentando com a mão esquerda a direita, cujo pollegar se mantinha
-afastado dos outros dedos. Ao ouvir a má nova, elle pôz-se logo de pé,
-empallidecendo.
-
---Que historia esta!... E eu com um abcesso n’este dedo! resmungou.
-
---Que devemos fazer? perguntou Pélagué alimpando tremulamente o suor do
-rosto.
-
---Espere... não tenha medo! respondeu passando pelos cabellos
-encaracolados a mão válida.
-
---Mas se o senhor é o primeiro a ter medo!...
-
---Eu?
-
-Córou de repente, e disse a sorrir, com embaraço:
-
---Sim, é verdade, c’os demonios! Precisamos de prevenir o Pavel. Vou
-mandar-lhe alguem... Volte para casa... Isto não ha de ser nada. Então!
-ninguem ha de bater-nos!
-
-Apenas chegou a casa, Pélagué reuniu em monte os livros, metteu-os
-debaixo do braço e pôz-se á busca de um canto onde occultal-os. Olhou
-para o fogão, para o forno, para o canudo do samovar e até para o
-barril cheio d’agua. Dizia comsigo que Pavel largaria d’ali a pouco o
-trabalho e voltaria para casa; elle porem demorava-se. Por fim, vencida
-de cansaço, sentou-se n’um banco da cosinha, escondeu os livros debaixo
-da saia e ficou immovel até que apparecessem o filho e André.
-
---Já sabem?! disse sem se levantar, apenas os viu.
-
---Já sabemos! respondeu Pavel com sorriso calmo. Tens medo?
-
---Tenho, muito!
-
---Não deves ter medo. Não serviria de nada. Nem sequer preparaste o
-samovar?!
-
-Ella ergueu-se, e, mostrando os livros, explicou, embaraçadamente:
-
---Era por causa delles...
-
-O russo-menor e Pavel desataram a rir, o que a tranquillisou em parte.
-Depois, o filho pegou em alguns dos volumes e saíu para ir escondel-os
-no pateo; André dispoz-se a accender o samovar, e foi dizendo:
-
---Nada ha terrivel n’isto; o que faz envergonhar uma pessoa é pensar
-que haja quem se occupe d’estas coisas. Hão de vir por ahi uns homens
-vestidos de cinzento, com um sabre á cinta, esporas nos calcanhares,
-e rebuscarão por toda a parte. Espreitam para debaixo das camas, e do
-fogão; se ha adega, descem á adega; se ha sotão, sobem ao sotão. As
-teias d’aranha caem-lhes nos focinhos, e elles espinoteiam. Enfadam-se,
-envergonham-se, e por isto fingem-se muito maos e mostram-se furiosos
-contra a gente. O seu emprego é porco, e elles bem o sabem. Uma vez,
-foram dar busca á minha casa, não encontraram coisa alguma e... elles
-ahi vão! D’outra vez, levaram-me comsigo. Metteram-me depois na cadeia,
-onde estive quatro mezes. De tempos a tempos, iam buscar-me e faziam-me
-atravessar as ruas no meio de uma escolta de soldados. Perguntavam-me
-toda a casta de coisas. Não são creaturas intelligentes, não sabem
-falar com criterio. Depois diziam aos soldados que me levassem outra
-vez para a cadeia. E aqui está como fazem de nós gato sapato. Emfim,
-teem que ganhar os seus ordenados!... Acabaram por pôr-me na rua. E
-prompto!
-
---Que maneira de falar, meu André! exclamou Pélagué mal-disposta.
-
-Ajoelhado em frente do samovar, o russo-menor soprava com toda a força
-pelo canudo; levantou a cabeça, mostrando a cara avermelhada pelo
-esforço e perguntou alisando com as duas mãos o bigode:
-
---Como é então que eu falo?
-
---Como se nunca o tivessem offendido.
-
-Elle ergueu-se, approximou-se de Pélagué, e, tendo abanado a cabeça,
-disse, sorrindo:
-
---Ha por acaso alguem n’este mundo que não tenha sido offendido? É
-que tanto me ultrajaram já, que me cansei de encolerisar-me. Que
-fazer, se os mais não podem proceder d’outra maneira? Os ultrages
-incommodam-me muito, impedem-me de realisar a minha obra... mas não os
-podemos evitar, e, se pensamos n’isso, perdemos o nosso tempo. A vida
-é assim! D’antes zangava-me contra essa gente; depois, quando me veio
-a reflexão, vi que todos elles tinham o coração despedaçado. Cada qual
-tem medo de ser o primeiro a atacar. A vida é assim, mãesinha!
-
-As palavras soltavam-se-lhe tranquillamente e faziam extinguir-se a
-anciedade de Pélagué. Os olhos polpudos d’elle sorriam, luminosos
-e tristes; todo o seu corpo era flexivel, elastico, embora como
-desengonçado.
-
-Ella suspirou e disse com calor:
-
---Deus o faça feliz, meu André!
-
-O russo-menor voltou para o samovar, ajoelhou-se outra vez e murmurou:
-
---Se me derem a felicidade, não a recusarei; mas não a peço e nunca
-irei buscal-a.
-
-E pôz-se a assobiar.
-
-Pavel voltou do pateo.
-
---Não encontrarão coisa alguma! affirmou, convencido.
-
-Começou a lavar-se. Depois accrescentou, limpando cuidadosamente as
-mãos:
-
---Se lhes mostrar que tem medo, mamã, dirão que alguma coisa ha para
-despertar desconfiança. E nós nada fizemos ainda... nada! Bem o sabe,
-nada queremos que seja mao; a verdade e a justiça estão do nosso lado,
-trabalharemos por ellas toda a vida: eis o nosso crime! Porque havemos
-de tremer?
-
---Terei coragem, Pavel! prometteu.
-
-Mas logo disse, angustiada:
-
---Se ao menos «elles» viessem depressa!
-
-«Elles» porem não vieram n’aquella noite.
-
-No dia seguinte, prevendo que Pavel e André iriam chasquear dos seus
-terrores, foi a primeira a rir-se de si mesma.
-
-
-
-
-X
-
-
-«Elles» chegaram quando menos os esperavam, quasi um mez depois.
-Vessoftchikof, André e Pavel estavam reunidos e falavam do seu
-jornal. Era tarde, perto da meia noite. Pélagué já estava deitada, ia
-adormecendo e ouvia-lhes vagamente as vozes receosas e em tom baixo.
-André levantou-se de chofre, atravessou a cosinha nos bicos dos pés
-e fechou de mansinho a porta apoz elle. No corredor ouviu-se o ruido
-d’uma celha que tombára. André disse em voz alta:
-
---Oiçam: é o ruido de esporas, na rua!
-
-Pélagué levantou-se de salto, pegou n’uma saia, tremula; mas Pavel
-appareceu no limiar e disse-lhe tranquillamente:
-
---Fique deitada... Não está bôa...
-
-Ouviu-se depois um deslisar furtivo sob o telheiro.
-
-Pavel approximou-se da porta, e batendo nella com a mão, perguntou:
-
---Quem está ahi?
-
-Rapido como um relampago, um corpo d’homem alto surgiu entre os
-umbraes; e outro ainda. Os dois guardas repelliram o rapaz, puxando-o
-depois para entre elles. Uma voz grave e irritada disse:
-
---Não é quem esperavas, un?
-
-Quem falava era um official ainda novo, alto e magro, de bigode preto.
-Fédiakine, agente da policia do bairro, dirigiu-se para a cama de
-Pélagué; levando a mão ao boné, em continencia, indicou com a outra a
-mulher, dizendo com um olhar terrivel:
-
---A mãe é esta, meu Senhor!
-
-Depois, apontando para Pavel:
-
---E o filho é aquelle!
-
---Pavel Vlassof? perguntou o official, franzindo os olhos.
-
-O rapaz respondeu affirmativamente com a cabeça.
-
-Passando a mão pelo bigode, o official informou:
-
---Venho fazer uma busca em tua casa... A velha que se levante! Quem
-está ali?
-
-E, tendo olhado para o quarto, entrou n’elle a passos largos.
-
-Ouviram-no perguntar:
-
---O seu nome?
-
-Outros dois personagens appareceram ainda: o velho fundidor Tvériakof e
-o seu inquilino, o fogueiro Rybine, um homem de cabelleira negra e de
-bom porte. Tinham sido trazidos pela policia como testemunhas:
-
-Rybine disse com voz grossa e possante:
-
---Boa noite, Pélagué!
-
-Ella vestia-se, e, para se dar coragem, murmurava:
-
---Esta agora! Virem de noite!... quando uma pessôa está na cama!...
-
-O quarto parecia pequeno e por elle se espalhara um cheiro activo a
-graxa. Os dois guardas e o commissario de policia do bairro, Riskine,
-tiravam da estante os livros com ruido, e empilhavam-nos diante do
-official. Os outros davam pancadas nas paredes, olhavam para debaixo
-das cadeiras; um trepou com custo ao cano do fogão. O russo-menor e
-Vessoftchikof, unidos um ao outro, conservavam-se a um canto; o rosto
-bexigoso do segundo estava coberto de manchas vermelhas, e os seus
-olhinhos pardos não podiam desfitar-se do official. André retorcia
-o bigode, e quando Pélagué entrou no quarto, fez-lhe com a cabeça um
-movimento amigavel.
-
-Para occultar o terror, mexia-se não de lado, como de costume, mas com
-o peito deitado para a frente, o que lhe dava um aspecto d’importancia
-affectada e risivel. Andava ruidosamente e as palpebras tremiam-lhe.
-
-O official ia pegando rapidamente nos livros com as pontas dos dedos
-brancos e delgados, folheava-os, saccudia-os, e rapidamente atirava-os
-para o lado. Alguns volumes caíram no chão. Todos estavam callados; não
-se ouvia mais do que o respirar dos guardas esbofados, o tintilar das
-suas esporas; de quando em quando um d’elles perguntava:
-
---Já viste aqui?
-
-Pélagué collocou-se junto do filho, encostada á parede; como elle,
-cruzou os braços no peito e quiz observar o official. As pernas
-vacillaram-lhe, um nevoeiro toldava-lhe a vista.
-
-De subito, a voz de Vessoftchikof soltou-se concludente:
-
---Para que serve deitar os livros ao chão?
-
-Pélagué estremeceu. Tvériakof abanou a cabeça como lhe tivessem batido
-na nuca; Rybine resmungou e fitou attentamente o audacioso.
-
-O official franziu os olhos e cravou-os no rosto bexigoso e immovel do
-rapaz... Depois os seus dedos folhearam o livro com mais rapidez.
-
-De quando em quando, os olhos pardos de Vessoftchikof abriam-se tanto
-que dir-se-ia elle estar soffrendo atrozmente e prestes a gritar,
-furioso e impotente contra a dôr.
-
---Soldado! exclamou de subito. Apanha os livros!
-
-Os guardas voltaram-se para elle, e olharam depois para o official.
-Este levantou a cabeça, e olhando rapidamente de soslaio para o rapaz,
-ordenou por entre dentes:
-
---Vá lá, apanhem os livros.
-
-Um dos guardas abaixou-se, e observando furtivamente Vessoftchikof
-poz-se a apanhar os livros esfarrapados.
-
---Teria feito melhor estando calado... disse baixinho Pélagué para o
-filho.
-
-Elle encolheu os hombros. O russo-menor estendeu o pescoço.
-
---Que cochichar é esse? Façam favor de estar calados! Quem é que lê
-aqui a Biblia?
-
---Eu! respondeu Pavel.
-
---Ah!... E de quem são estes livros?
-
---Meus.
-
---Está bem!... commentou o official apoiando-se ás costas da cadeira.
-
-Fez estalar os nós dos seus dedos finos e brancos, estendeu as pernas
-debaixo da meza, cofiou o bigode, e perguntou a Vessoftchikof:
-
---És tu que te chamas André Nakhodka?
-
---Sou eu! respondeu o bexigoso avançando.
-
-O russo-menor deitou-lhe a mão a um hombro e obrigou-o a recuar.
-
---Enganou-se! o André sou eu.
-
-O official levantou a mão, e ameaçando Vessoftchikof com o dedo
-indicador erguido:
-
---Toma cuidado!...
-
-Começou a remexer nos seus papeis.
-
-A noite luminosa e clara olhava indifferentemente pela janella. Alguem
-ia e vinha em frente da casa e a neve estalava sob os seus passos.
-
---Já foste perseguido por delictos politicos, Nakhodka? perguntou o
-official.
-
---Já: em Rostof e em Saratof... Com a differença de que ali as
-auctoridades não me tratavam por «tu.»
-
-O official franziu o olho direito, esfregou-o e disse depois, mostrando
-os dentitos:
-
---N’esse caso, Nakhodka, conhece talvez... Sim... deve conhecer
-os scelerados que espalham pela fabrica folhetos e proclamações
-prohibidas?...
-
-O russo-menor teve um estremecimento, ia dizer o que quer que fosse
-com um sorriso aberto, quando se ouviu de novo a excitante voz de
-Vessoftchikof:
-
---É a primeira vez que vemos scelerados!
-
-Houve um instante de silencio.
-
-O rosto de Pélagué tornou-se pálido até na cicatriz, emquanto o
-sobrolho direito lhe era repuxado para cima. A barba negra de Rybine
-entrou de tremer de uma maneira estupenda; baixou a cabeça e passou a
-mão vagarosamente pelo bigode.
-
---Ponham fóra d’aqui essa besta! ordenou o official.
-
-Dois guardas agarraram o rapaz por debaixo dos braços e arrastaram-no
-para a cosinha. Quando lá chegou, conseguiu parar, e apegando-se ao
-chão com toda a força de que os seus pés eram susceptiveis, gritou:
-
---Esperem! Quero pôr a minha capa!
-
-O commissario de policia, que estivera a rebuscar no pateo, appareceu
-dizendo:
-
---Nada encontrámos. Vimos todos os cantos.
-
---Está claro! exclamou o official ironicamente. Já o esperava! Estamos
-a contas com homens já muito experientes.
-
-Pélagué ouviu aquella voz fraca, tremula e imperiosa; e ao observar
-aquelle rosto amarellento sentia estar ali um inimigo, um inimigo
-implacavel, com o coração cheio de desprezo pelo povo. D’antes
-poucas pessoas assim ella tinha visto, e nos ultimos annos chegára a
-esquecer-se de que ellas existiam.
-
---É a estes que nós causamos inquietações!... pensava.
-
---Senhor André Onissimof Nakhodha, filho de pae incognito, está preso!
-
---Porquê? perguntou tranquillo.
-
---Depois lhe direi! respondeu o official com malevola delicadeza.
-
-E voltando-se para Pélagué, berrou-lhe:
-
---Sabes ler e escrever?
-
---Não! interveiu Pavel.
-
---Não falo comtigo! disse o official com severidade. Responde, velha,
-sabes ler e escrever?
-
-Invadida de um sentimento de instinctivo odio contra aquelle homem,
-Pélagué aproximou-se de súbito, muito trémula, como se tivesse caído
-n’um rio gelado; a cicatriz fez-se escarlate, e o sobrolho baixou-lhe.
-
---Não grite! exclamou, estendendo o braço para o official. É ainda
-novo, não sabe o que seja o soffrimento...
-
---Socegue, mamã... interrompeu Pavel.
-
---É melhor uma pessoa abafar o coração e calar-se! aconselhou André.
-
---Espera, Pavel! exclamou ainda Pélagué, n’um arranco para a meza.
-Porque é que o sr. anda prendendo a gente?
-
---Isso não é da sua conta. Cale-se! berrou o official, erguendo-se.
-Tragam cá o Vessoftchikof.
-
-E pôz-se a ler um papel que collocara á altura do rosto.
-
-Trouxeram o rapaz.
-
---Tira o boné! disse-lhe o official, interrompendo a leitura.
-
-Rybine approximou-se de Pélagué e dando-lhe um encontrão:
-
---Não se apoquente, tiasinha!
-
---Como hei-de eu tirar o boné, se tenho as mãos agarradas?
-
-O official atirou com o auto para cima da meza, dizendo simplesmente:
-
---Assignem!
-
-Pélagué viu os assistentes assignarem o documento, a sua excitação
-desapparecera, faltava-lhe a coragem; affluiam-lhe aos olhos amargas
-lagrimas de humilhação e de consciencia da sua fraqueza. Durante
-os vinte annos da sua vida de casada, tinha chorado lagrimas como
-aquellas; mas esquecera-lhe o ardor quasi por completo desde que
-enviuvára. O official olhou para ella e commentou com uma expansão
-desdenhosa:
-
---Foi cedo para tanto alarde, minha prenda! Creia que é capaz de ficar
-sem lagrimas... para o futuro.
-
-Respondeu-lhe, outra vez irritada:
-
---Ás mães nunca faltam as lagrimas!... Se tem mãe, ella deve saber
-isto, com certeza!
-
-O official metteu rapidamente os seus papeis na carteira, que era nova
-e de feixos brilhantes; e dirigindo-se ao commissario de policia:
-
---Todos elles denotam uma independencia revoltante!
-
---Que insolencia! murmurou o commissario.
-
---A caminho! ordenou o official.
-
---Até á vista, André! até á vista, Nicolao! disse Pavel apertando
-calorosamente a mão dos companheiros.
-
---Está claro... até á vista! repetiu o official com ironia.
-
-Sem dizer palavra, Vessoftchikof apertava a mão de Pélagué entre
-os seus dedos curtos. Respirava a custo; o pescoço robusto estava
-congestionado, os olhos brilhavam-lhe de raiva. André sorria e meneava
-a cabeça; disse algumas palavras a Pélagué, que fez o signal da cruz
-sobre elle, respondendo-lhe:
-
---Deus conhece os justos!
-
-Emfim o bando de homens de capotes cinzentos desappareceu dobrando a
-esquina da casa, com um tintilar de esporas. Rybine foi o ultimo a
-saír; com o seu negro olhar prescrutou Pavel; em tom meio abstracto
-disse:
-
---Adeus, an...?
-
-E foi-se, sem pressas, tossindo, de cabeça baixa.
-
-Com as mãos cruzadas nas costas, Pavel entrou de passear de um para
-outro lado, por entre as trouxas de roupa e os livros espalhados no
-chão, até que perguntou em tom sombrio:
-
---Viste como é?
-
-Sem deixar de olhar para a desordem em que ficára o quarto, ella disse
-baixinho, afflicta:
-
---Prender-te-ão tambem... tambem, a ti! Para que foi tão grosseiro o
-Vessoftchikof?
-
---Teve medo, provavelmente!... respondeu Pavel tambem em voz baixa. Não
-se deve falar áquella gente... nada se consegue d’elles! são incapazes
-de compreender...
-
---Vieram! prenderam-no! levaram-no! murmurou, com os braços erguidos.
-
-Só lhe restava o filho. O coração de Pélagué começou a pulsar mais
-vagaroso; o seu pensamento immobilisava-se perante um facto que ella
-não podia admittir como real.
-
---Faz pouco de nós, aquelle homem amarello: ameaça-nos... e...
-
---Basta, mãe! disse de repente Pavel com decisão. Anda cá, arrumemos
-tudo isto.
-
-Tinha dito aquelle «mãe» e tratara-a por tu como era seu costume
-quando se tornava mais communicativo. Ella approximou-se, encarou-o e
-perguntou em voz baixa:
-
---Humilharam-te?
-
---Sim! Custou-me muito! Preferia ir com elles.
-
-Pareceu a Pélagué que elle tinha os olhos lacrimosos; e para o consolar
-d’aquelle desgosto que ella vagamente adivinhava, disse, suspirando:
-
---Tem paciencia... um dia virá em que tambem sejas preso!
-
---Bem sei... respondeu.
-
-Decorridos uns instantes, ella accrescentou com tristeza:
-
---Como és cruel, meu filho! Se ao menos me tranquillisasses... Mas não!
-se eu digo coisas terriveis, o que tu me respondes é peor ainda!
-
-Elle olhou de relance, approximou-se, e baixando a voz:
-
---Não sei que responder-lhe, mamã. Não posso mentir. Tem que
-acostumar-se...
-
-Pélagué suspirou e calou-se; depois, estremecendo:
-
---Será verdade? Dizem que elles torturam os presos, que lhes retalham o
-corpo em tiras, e lhes quebram os ossos... Quando penso n’isto, tenho
-medo, Pavel, meu querido filho!
-
---Torturam a alma e não o corpo. É ainda mais doloroso do que a tortura
-tocarem-nos na alma com as mãos emporcalhadas!
-
-
-
-
-XI
-
-
-Soube-se na manhã seguinte que Boukine, Samoílof, Somof e mais cinco
-pessoas tambem tinham sido presos. Á noite, Fédia Mazine veio de
-corrida: haviam feito uma busca em sua casa; estava radiante por isso,
-e considerava-se como um heroe.
-
---Tiveste medo, Fédia? perguntou Pélagué.
-
-Empallideceu, encovou-se-lhe o rosto, as narinas estremeceram-lhe.
-
---Tive medo de que o official me batesse! Tinha barba negra e era
-forte; os dedos cabelludos; usava lunetas de vidros pretos; parecia que
-lhe faltavam os olhos. Gritou, batendo com o pé: «Faço-te apodrecer na
-cadeia!» Em mim nunca ninguem bateu, nem o meu pae, nem a minha mãe,
-porque eu era filho unico, e elles queriam-me muito. Toda a gente tem
-levado pancada; eu, nunca.
-
-Fechou por um instante os olhos avermelhados e apertou os beiços; com
-um gesto rapido, atirou para traz com os cabellos e disse, encarando em
-Pavel:
-
---Se alguem me bater, enterro-me n’elle como uma navalha, retalho-o com
-os dentes. É preferivel que me estendam de vez!
-
---Tão magrito e fraco!... exclamou Pélagué. Como poderias luctar?
-
---Pois luctarei! respondeu em voz baixa.
-
-Quando elle saiu, ella disse para o filho:
-
---Será esmagado primeiro do que os outros.
-
-Pavel não respondeu.
-
-Minutos depois, a porta da cosinha abriu-se devagar, e Rybine entrou.
-
---Bôa noite! disse, sorrindo. Sou eu outra vez. Hontem á noite,
-obrigaram-me a cá vir; hoje venho por minha conta.
-
-Apertou com vigor a mão de Pavel, e pondo a mão no hombro de Pélagué:
-
---Dás-me chá?
-
-Pavel observou em silencio o amplo rosto atrigueirado do seu visitante,
-a sua espessa barba negra e os seus olhos intelligentes. Havia um tanto
-de gravidade no seu olhar tranquillo; todo o aspecto do recemchegado,
-de athletica corpolencia, inspirava simpathia pela sua decidida firmeza.
-
-A mãe foi á cosinha preparar o samovar.
-
-Rybine sentou-se, afagou o bigode, e, encostando-se á meza, envolveu
-Pavel n’um olhar.
-
---Com que então... Assim começou, como se reatasse o fio de uma
-conversa. Devo falar-te abertamente. Observei-te por muito tempo antes
-de vir á tua casa. Somos quasi visinhos, via que recebias muita gente e
-que ninguem se embriagava nem fazia escandalos. Isto dava nas vistas.
-Quando alguem se porta bem, é logo notado, vê-se logo quem é. Eu
-proprio chamo as attenções para a minha pessoa porque vivo á parte, sem
-praticar porcarias.
-
-Falava vagarosamente, com ripanso; tinha inflexões que inspiravam
-confiança.
-
---Com que então, toda a gente fala de ti. O meu senhorio chama-te
-«herético» porque não vaes á egreja. Eu tambem lá não vou. Depois
-appareceram essas fôlhas, esses papeis... A idéa foi tua?
-
---Foi! respondeu Pavel sem desviar o olhar da fisionomia de Rybine, que
-tambem o fitava.
-
---Ora vamos! exclamou Pélagué, sobresaltada, e saíndo da cosinha. Não
-foste só tu...
-
-Pavel sorriu. Rybine tambem.
-
---Ah!... murmurou este.
-
-A velha fungou e saíu, um tanto irritada por não terem prestado
-attenção ás suas palavras.
-
---Era uma bôa idéa. Perturbam o povo. Quantas foram ao todo? Umas
-dezenove, não?
-
---Isso mesmo.
-
---Então li-as todas! Bem... bem... Ha por lá coisas incompreensiveis,
-superfluas. Quando o homem fala muito, acontece-lhe falar para nada.
-
-Sorriu; tinha os dentes brancos e sãos.
-
---Depois, a busca que fizeram em tua casa... Foi o que me dispoz a teu
-favor. Tu, o russo-menor e Vessofchikof mostraram-se muito... muito...
-
-Como não encontrava a palavra, calou-se, olhou pela janella, e bateu
-com um dedo na mesa:
-
---Mostraram-se decididos. Foi como se dissessem: «Faça a sua obra,
-Excellencia, que nós faremos a nossa!» O russo-menor tambem é um rapaz
-como se quer. Ás vezes, na fabrica, quando o ouvia falar, pensava:
-«Este não é para se deixar esborrachar, não! Só a morte poderá
-vencel-o. Tem um bigode, o typo!» Não acha, Pavel?
-
---Acho! respondeu, movendo a cabeça affirmativamente.
-
---Ora bem... Tenho quarenta annos, o dobro da tua edade; tenho visto
-vinte vezes mais do que tu. Fui soldado durante mais de trez annos;
-fui casado duas vezes; morreu-me a primeira mulher; deixei a segunda.
-Estive no Caucaso, vi os Doukhobors... Não souberam vencer a vida,
-irmão! oh! não souberam!
-
-Pélagué escutava avidamente estas palavras; era-lhe agradavel vêr um
-homem de edade respeitavel procurar o filho como para confessar-se.
-Achava, porém, que Pavel o tratava com demasiada seccura, e para
-destruir esta impressão, perguntou a Rybine:
-
---Talvez tenhas vontade de comer alguma coisa, Mikhaíl Ivanovitch?
-
---Não, obrigado. Já ceei. Com que então, Pavel, pensas que a vida não
-vae por bom caminho?
-
-O rapaz levantou-se e passeando, com as mãos atraz nas costas:
-
---Qual! Por magnifico caminho! E tanto assim que elle o trouxe até mim,
-agora que tem a sua alma francamente aberta. N’este caminho, a vida
-une-nos, pouco a pouco, a todos nós que trabalhamos incessantemente; e
-tempo virá em que ha de unir-nos a todos! As coisas acham-se dispostas
-de uma maneira injusta e penosa para nós; mas é a propria vida que nos
-abre os olhos, descobrindo-nos o que encerra amargo; é ella propria que
-mostra ao homem como lhe deve dirigir a norma.
-
---É verdade! Mas espera! É preciso renovar o homem. N’isto creio eu!
-Quando se apanha sarna, a gente toma banhos, lava-se, veste-se com
-asseio e fica bom, não é assim? Mas se a sarna ataca o coração, podemos
-por acaso arrancar-lhe a pelle, ainda que ficasse sangrando? podemos
-laval-o, vestil-o de novo? an? Então, como purificar o homem por
-dentro? O quê?
-
-Pavel falou calorosamente de Deus, do imperador, das auctoridades, da
-fabrica, da resistencia que os trabalhadores do estrangeiro oppunham
-áquelles que queriam limitar os seus direitos. Rybine sorria por vezes;
-depois batia com o dedo na meza, como para pontuar o discurso de
-Pavel, sem comtudo deixar de dizer de quando em quando:
-
---É isso mesmo!
-
-Todavia, commentou a meia voz com um sorrisinho:
-
---Ah! és ainda novo. Não conheces o proximo!
-
-Pavel, de pé diante d’elle, explicou gravemente:
-
---Não falemos de novos nem de velhos! Vejamos antes qual é a melhor
-opinião.
-
---Portanto, em tua opinião até se teem servido de Deus para nos
-enganarem? Concordo. Tambem creio em que a nossa religião é nociva e
-erronea.
-
-Pélagué interveiu. Quando o filho falava de Deus, das coisas sagradas
-e queridas que se ligavam á fé que ella tinha no seu Creador, tentava
-sempre encontrar o olhar de Pavel para pedir-lhe tacitamente que não
-lhe despedaçasse o coração com palavras de incredulidade, cortantes e
-aceradas. Ella porém sentia que, apezar de mostrar-se sceptico, o seu
-filho era crente; e isto tranquilisava-a.
-
---Como poderia eu compreender os seus pensamentos? dizia a si mesma.
-
-Pensava que devia ser desagradavel e ultrajante para Rybine, um homem
-d’idade, ouvir taes palavras de Pavel. Mas quando Rybine dirigira
-aquella pergunta perdeu, de todo a paciencia.
-
---Sêde mais prudentes falando de Deus! disse resumidamente, mas com
-obstinação. Façam o que quizerem, mas...
-
-E tendo tomado a respiração, continuou com mais vigor:
-
---Mas em que me hei de apoiar, no meio dos meus desgostos, eu que estou
-velha, se me tirarem o meu Deus?
-
-Os olhos encheram se-lhe de lagrimas. Com as mãos trémulas, continuou
-lavando a loiça.
-
---Não nos compreendeu, mamã! disse Pavel com suavidade.
-
---Desculpe-nos! accrescentou Rybine em tom vagaroso, lançando um olhar
-risonho a Pavel. Esquecia-me de que estás muito velha para ser ainda
-tempo de te cortarem as verrugas!...
-
---Eu não falava, de maneira alguma, do Deus bom e misericordioso no
-qual a mãe acredita, mas sim d’aquelle com que os padres nos ameaçam
-como se fosse um flagello, e em nome do qual exigem que a grande
-maioria dos homens se submetta á vontade malevola d’alguns.
-
---Exactamente! Isso é que é! exclamou Rybine, batendo com o dedo na
-meza. Transformaram-nos até Deus. Os nossos inimigos lançam mão de
-tudo quanto lhes sirva para abater-nos. Recordo-te, Pélagué, que Deus
-creou o homem á sua imagem e semelhança e portanto parece-se com o
-homem, visto que o homem se parece com Elle. Nós, porém, não nos
-assemelhamos a Deus, mas sim aos animaes selvagens... Na egreja, o que
-nos mostram, em logar de Deus, é um espantalho. É mister transformar
-Deus, purifical-o! Revestiram-no de mentira e de calumnia, mutilaram o
-seu rosto para matarem a nossa alma...
-
-Falava baixo, mas com espantosa nitidez; cada uma das suas palavras era
-para Pélagué um golpe doloroso. Sentiu-se assustada por aquella grande
-cara taciturna enquadrada n’uma barba negra, e o brilho sombrio dos
-seus olhos tornava-se-lhe insupportavel.
-
---Ah! Prefiro ir-me embora! disse, sacudindo a cabeça. Não tenho
-coragem de ouvir taes coisas... Não posso!
-
-E fugiu para a cosinha, emquanto Rybine dizia:
-
---Vês, Pavel? Não é pela cabeça, mas sim pelo coração que se deve
-começar. O coração é um logar da alma humana no qual não brota mais do
-que...
-
---Do que a razão! acabou Pavel com firmeza. Será só a razão que
-libertará o homem!
-
---A razão não dá o poder! replicou Rybine, vibrante e obstinado. É o
-coração que dá a força e não o cerebro!
-
-Pélagué despira-se e deitara-se sem haver resado. Tinha frio e
-sentia-se pouco bem. Rybine, que lhe parecera tão sensato, tão
-correcto, ao principio, excitava-lhe uma reservada hostilidade.
-
---Herético! agitador! pensava, prestando o ouvido á voz sonora que saía
-com facilidade d’aquelle peito amplo e forte. Para que veio elle cá?!...
-
-E Rybine ia dizendo, tranquillo e firme:
-
---Um logar santo não póde ficar vasio. O logar onde Deus vive dentro de
-nós é atacado; se Elle caír da alma, ficará uma chaga! Ora ahi está! É
-preciso inventar uma fé nova, Pavel. É preciso crear um Deus justo para
-todos, um Deus que não seja nem juiz, nem guerreiro, mas sim o amigo
-dos homens.
-
---E que outra coisa foi Jesus?! exclamou Pavel.
-
---Espera!... Jesus não era firme d’espirito... «Affastem de mim este
-calice...» disse elle. E reconhecia o poder do Cezar. Deus não pode
-reconhecer uma auctoridade humana reinando sobre os homens, porque elle
-é que é a omnipotencia! Elle não dividiu a sua alma n’uma parte divina
-e em outra humana, e visto que confirmou a sua divindade, não carece de
-coisa alguma humana. Jesus reconheceu tambem como legitimos o commercio
-e o casamento. Foi injustamente que condemnou a figueira. Que culpa
-tinha ella da sua esterilidade? Não é por sua culpa que a alma não dá
-bons frutos. Fui eu que semeei n’ella o mal?
-
-As duas vozes vibravam sem interrupção no quarto, como se se arrojassem
-uma á outra, combatendo-se em lucta animada e apaixonada. Pavel ia e
-vinha, a passos largos, e o sobrado rangia sob os seus pés. Quando
-falava, todos os sons se fundiam no ruido da sua voz; quando Rybine
-replicava, calmo, tranquilo, ouvia-se o tic-tac da pendula do relogio
-e o sêcco estalido da neve que roçava com as suas garras agudas nas
-paredes da casa.
-
---Vou falar-te como authentico fogueiro que sou: Deus parece-se com o
-fogo. É isto, sim! Não consolida coisa alguma, não o pode. Queima e
-funde, illuminando. Illumina as egrejas, mas não as constroe. Vive no
-coração. Disse se: «Deus é o Verbo»; e o Verbo é o espirito.
-
---A razão! emendou Pavel, obstinado.
-
---Isso! Portanto, Deus está no coração, e na razão, e não na egreja.
-E eis d’onde vem as desgraças, as dores, os infortunios do homem: é
-que todos nós somos arrancados de nós mesmos! O coração é repellido
-pela razão, e a razão foi-se! O homem não é uno. Deus une o homem em
-um todo, em um globo. Deus creou sempre coisas redondas: a terra, as
-estrellas; tudo o que é visivel, o que é agudo, foi o homem quem o fez.
-Quanto á egreja, é o tumulo de Deus e do homem.
-
-Pélagué adormeceu, não tendo ouvido saír Rybine.
-
-Elle voltou a apparecer muitas vezes. Quando qualquer companheiro
-de Pavel estava em casa d’este, o fogueiro sentava-se a um canto e
-continha-se em silencio; de tempos a tempos, dizia:
-
---Isso! Exactamente!
-
-Uma vez, espraiou o seu negro olhar pelos assistentes, e disse, nada
-satisfeito:
-
---Deve-se falar do que é; o que será não sabemos nós. Quando o povo
-fôr livre, elle proprio verá o que tiver de melhor a fazer. Já lhe
-metteram na cabeça muitas coisas que elle não queria! Basta! Elle que
-se examine! Talvez elle repilla tudo, toda a vida e todas as sciencias;
-talvez veja que tudo lhe é hostil, como por exemplo: Deus e a egreja.
-Dêem-lhe para a mão todos os livros, e elle responderá. Mas para isto,
-seria necessario que elle compreendesse que quanto mais apertada é a
-colleira, mais penoso é o trabalho.
-
-Quando Pavel e Rybine estavam a sós, punham-se logo a discutir,
-tranquillamente, por muito tempo. A velha escutava-os inquieta,
-seguia-os com o olhar silencioso, deligenciando compreender. Por
-vezes, parecia-lhe que ambos tinham cegado. Nas trevas, entre as
-paredes do pequeno quarto, os dois vagueavam d’um para outro lado,
-como em busca d’uma saída ou d’uma luz; agarravam-se a tudo com as
-suas mãos vigorosas, mas inhabeis; agitavam, revolviam tudo, deixando
-caír por terra coisas que depois espezinhavam. Esbarravam em tudo,
-tateavam e repelliam tudo, sem pressas, sem perderem a esperança nem
-a fé. Tinham-na acostumado a ouvir uma palavras terriveis pela sua
-simplicidade e audacia; estas palavras já não a opprimiam com a mesma
-violencia. Rybine não era simpático á velha, mas a repulsão, que a
-principio lhe inspirára, tinha desapparecido.
-
-Uma vez por semana, Pélagué ia á cadeia levar roupa e livros a
-André; um dia obteve licença de vêl-o; e ao voltar para casa, contou
-enternecidamente:
-
---Continúa sendo o mesmo. Amavel para com todos. Todos brincam com
-elle. Parece que tem sempre o coração em festa. Custa-lhe a vida,
-soffre, mas não quer dal-o a perceber.
-
---E é assim que devem fazer todos! replicou Rybine. Todos nós estamos
-envolvidos em desgostos como n’uma segunda pelle... Respiramos
-desgostos... vestimo-nos de desgostos... Não temos de que nos gabar.
-Nem toda a gente tem os olhos furados, e muitos ha que os fecham de
-motu-proprio... Quando se é parvo, então sim, não ha remedio senão
-esperar o soffrimento...
-
-
-
-
-XII
-
-
-A velha casa parda dos Vlassof attraía de mais em mais as attenções do
-bairro. Ás vezes um operario apparecia por lá, e depois de ter olhado
-para todos os lados, cautelosamente, dizia a Pavel:
-
---Irmão, tu que lês nos livros, deves conhecer as leis. Portanto,
-explica-me.
-
-E contava qualquer arbitrariedade da polícia ou da administração da
-fabrica. Nos casos complicados, Pavel remettia o consulente, com duas
-palavras de recommendação, a um advogado dos seus amigos, e, quando
-podia, elle proprio dava conselhos.
-
-Pouco a pouco, os frequentadores do bairro foram nutrindo um sentimento
-de respeito por aquelle rapaz tão commedido, que falava de tudo com
-simplicidade e afoiteza, que raras vezes ria, que encarava e escutava
-todos os assuntos com attenção, mettendo-se na embrulhada de qualquer
-negocio particular e descobrindo sempre o fio que ligava as creaturas
-umas ás outras por milhares de nós tenazes.
-
-Pélagué via ampliar-se a influencia do seu filho, começava a aprender o
-sentido dos trabalhos de Pavel, e quando o compreendia, invadia-a uma
-alegria infantil.
-
-Pavel tornou-se maior na opinião publica por occasião da historia do
-«_kopeck_[1] do pantano».
-
-Um grande pantano com pinheiros e bétulas cercava a fabrica como
-um fosso infecto. No verão, vinham d’elle exhalações amarellentas,
-opacas, de mistura com nuvens de mosquitos que se espalhavam no bairro
-produzindo febres. O pantano pertencia á fabrica; o novo director,
-querendo tirar partido d’elle, concebeu o projecto de esgotal-o,
-extraíndo-lhe ao mesmo tempo o nateiro. Esta operação, disse aos
-operarios, tornaria salobras as circumvisinhanças e melhoraria as
-condições de vida a todos; portanto ordenou que fosse descontado um
-kopeck por cada rublo, nas ferias, quantia que seria destinada ao
-saneamento do pantano.
-
-Nos operarios houve uma agitação; irritava-os principalmente o facto de
-não reverter para os empregados o imposto.
-
-No sabbado em que foi publicada a decisão do director, Pavel estava
-doente e não fôra trabalhar; nada sabia. Na manhã seguinte, depois da
-missa, o fundidor Sizof, um bom velho, o serralheiro Makhotine, homem
-alto, muito irrascivel, foram a casa d’elle para lhe dizer o que se
-passava.
-
---Os mais velhos d’entre nós reuniram-se, disse rudemente Sizof;
-discutimos; os nossos companheiros mandaram-nos cá para te
-perguntarmos--visto seres um homem de espirito lucido--se ha alguma lei
-que permitta ao director extinguir os mosquitos á nossa custa.
-
---Nota, accrescentou Makhotine, revolvendo os olhos, que ha quatro
-annos aquelles ladrões nos apanharam dinheiro para construirem um
-estabelecimento de banhos... Que é d’elle?
-
-Pavel explicou que o imposto era injusto, que a fabrica tiraria uma
-grande vantagem do projecto. Assim, os dois operarios retiraram-se com
-ares de poucos amigos. Depois de os haver acompanhado até á porta,
-Pélagué disse sorrindo:
-
---Vem então os velhos a tua casa aprender comtigo, Pavel!...
-
-Sem responder, o rapaz sentou-se e começou de escrever, preoccupado.
-Decorridos instantes:
-
---Peço-te que vás immediatamente á cidade e entregues este bilhete...
-
---É coisa arriscada?
-
---Sim. É para onde imprimem o nosso jornal. Esta historia do kopeck
-deve apparecer, sem falta, no proximo numero.
-
---Está bem! está bem! respondeu ella, vestindo-se á pressa. Eu vou.
-
-Era o primeiro recado importante de que o filho a encarregava.
-Sentia-se feliz por vêr que elle lhe dizia francamente do que se
-tratava, e por poder ser-lhe util na sua obra.
-
---Compreendo, Pavel! Vou n’um momento. Como se chama elle? Iégor
-Ivanovitch, não?...
-
-Regressou de noite, já tarde, fatigada, mas satisfeita.
-
---Vi a Sachenka. Manda-te recommendações. Como é divertido o Iégor!
-sempre de brincadeira!...
-
---Muito folgo com que elle seja do teu agrado.
-
---Que simpleza de gente! São tão simpaticas as pessoas simples!... E
-olha que todos elles te estimam muito.
-
-Na segunda-feira, Pavel não poude ir á fabrica, doia-lhe a cabeça. Mas
-ao meio dia, Fédia Mazine appareceu-lhe, em grande excitação, radiante:
-participou esbofado:
-
---Toda a fabrica está em revolta! Mandaram-me vir á tua procura. Sizof
-e Makhotine dizem que tu explicarás a coisa melhor do que os outros. Se
-visses o que por lá vae!
-
-Pavel vestiu-se sem dizer palavra.
-
---As mulheres estão reunidas e fazem uma gralhada!...
-
---Vou ter com ellas! disse Pélagué. Tu não estás bom, talvez seja
-perigoso... Os outros para que servem, então? Eu irei falar com elles...
-
---Vamos! disse Pavel simplesmente.
-
-Saíram rapidamente, em silencio. Pélagué, offegante e commovida,
-presentia o que quer que fosse grave. Á entrada da fabrica, uma
-multidão de mulheres berrava e discutia. Pélagué via que todos os
-rostos estavam voltados para o mesmo lado, para a parede das forjas.
-Ali, Sizof, Makhotine, Valof e mais cinco operarios influentes e idosos
-tinham trepado para um montão de velha ferragem.
-
---Ahi vem o Vlassof! gritou alguem.
-
---Vlassof! Tragam-no cá!
-
-Levaram Pavel, de roldão. Pélagué ficou só.
-
---Silencio! ordenaram muitas vozes a um tempo.
-
-Proximo de Pélagué ouviu-se a voz monotona de Rybine:
-
---Não é pelo kopeck que se deve mostrar resistencia, mas sim pelo
-principio da justiça. Não é o kopeck o que nos custa, não é mais
-redondo do que os outros, mas é para nós mais pesado: ha n’elle mais
-sangue humano do que só em um rublo do director!
-
-Estas palavras caíam sobre a multidão com energia e provocavam ardentes
-exclamações.
-
---É verdade! Bravo, Rybine!
-
---Silencio, seus diabos!
-
---Tens razão, fogueiro!
-
---Olhem o Vlassof!
-
-As vozes confundiram-se n’um turbilhão tumultuoso, abafando o ruido
-surdo das maquinas e os suspiros do vapor. De toda a parte corria gente
-que começava a discutir, agitando os braços, excitando-se mutuamente
-com palavras febris e causticas. A irritação que dormia nos peitos
-fatigados, despertava; escapava dos labios e tomava o vôo, triunfante.
-Ao de cima da multidão pairava uma nuvem de poeira e ferrugem; os
-rostos cobertos de suor estavam em fogo, a pelle das faces vertia
-lagrimas negras. No fundo sombrio das fisionomias, brilhavam os olhos e
-os dentes.
-
-Afinal, Pavel appareceu ao lado de Sizof e de Makhotine; ouviram-no
-gritar:
-
---Companheiros!
-
-Pélagué viu que o filho estava palido e que os seus labios tremiam;
-involuntariamente, quiz avançar, abrindo caminho, á força; mas
-disseram-lhe com mao modo:
-
---Ó velha, deixa-te estar!
-
-Empurraram-na. Mas não desanimou, com os hombros e os cotovellos
-afastava toda a gente e approximava-se do filho, pouco a pouco,
-impellida pelo desejo de ir ficar a seu lado.
-
-Pavel, depois de haver soltado frases a que costumava dar um sentido
-profundo, sentiu as guellas apertadas pelo espasmo resultante da grande
-alegria de combater. Invadiu-o o desejo de entregar-se á força da sua
-crença, de arrojar áquella gente o seu coração consumido pelo ardente
-sonho da justiça.
-
---Companheiros! repetiu, dando a esta palavra todo o enthusiasmo e
-vigor. Somos nós que construimos as egrejas e as fabricas, que fundimos
-o dinheiro, que forjamos os grilhões... Somos nós a força viva que
-nutre e diverte o mundo inteiro, desde que nascemos até á morte...
-
---Isso! isso! exclamou Rybine.
-
---Sempre e em toda a parte, somos os primeiros no trabalho, emquanto
-nos atiram para os ultimos logares na vida. Quem se preoccupa de nós?
-quem nos quer bem? quem nos considera como homens? Ninguem!
-
---Ninguem! repetiu uma voz como se fosse um écco.
-
-Senhor de si, Pavel passou a falar com mais simplicidade e mais calmo.
-A multidão avançava lentamente para elle, como um corpo sombrio de mil
-cabeças. Olhava para o rapaz com centenas de olhos attentos, respirava
-as suas palavras. O ruido decrescia.
-
---Não teremos melhor quinhão emquanto não nos sentirmos solidarios,
-emquanto não formarmos uma unica familia de amigos, estreitamente
-ligados pelo mesmo desejo--o de luctarmos pelos nossos direitos.
-
---Entra no assumpto! disse uma voz perto de Pélagué.
-
---Não o interrompam! Calem-se! replicaram de varios pontos.
-
-Quasi todas aquellas caras tinham uma expressão de incredulidade soez;
-poucos olhares estavam fixados em Pavel com gravidade.
-
---É um socialista, mas não tem nada de tolo! disse um.
-
---É um revolucionario! accudiu outro.
-
---Fala com tezura! afirmou um operario, forte e vesgo, dando um
-empurrão em Pélagué.
-
---Companheiros! Chegou o momento de resistirmos á força ávida que vive
-do nosso trabalho; chegou o momento de nos defendermos. Deve cada qual
-compreender que ninguem virá em nosso auxilio, se não nós mesmos. Um
-por todos, todos por um--deverá ser a nossa lei, se quizermos vencer o
-inimigo.
-
---Elle diz a verdade, irmãos! exclamou Makhotine. Escutem a verdade!
-
-E com um gesto largo, ergueu o punho cerrado.
-
---É indispensavel mandar chamar o director, immediatamente! continuou
-Pavel. É preciso perguntar-lhe...
-
-De subito, dir-se-ia que um furacão caíra sobre todo o povo. Toda
-aquella massa de gente ondeou como o oceano sob uma rajada; dezenas de
-vozes berraram a um tempo:
-
---Venha o director!
-
---Elle que s’explique!
-
---Vão buscal-o!
-
---Mandemos-lhe delegados!
-
---Não!
-
-Tendo conseguido chegar á frente, Pélagué olhava para o filho,
-sentindo-se dominada por elle. Estava replecta de orgulho: o seu Pavel,
-no meio dos velhos operarios mais queridos, sendo escutado e apoiado
-por toda a gente!... Admirava o seu sangue-frio, a sua simplicidade e o
-seu falar sem fastio e sem pragas, como era o dos outros.
-
-As exclamações, os gritos de revolta, as invectivas choviam como
-saraivada grossa em telhados de zinco. Pavel encarava na multidão, e
-parecia procurar o que quer que fosse entre os grupos.
-
---Delegados!
-
---Fale o Sizof!
-
---O Vlassof!
-
---O Rybine, que tem uns dentes terriveis!
-
-Afinal, escolheram Pavel, Sizof e Rybine para parlamentarios, e
-iam mandar chamar o director, quando de chofre se ouviram algumas
-hesitantes exclamações:
-
---Vem ahi, sem ser chamado...
-
---O director...
-
---Ah!... Ah!...
-
-A multidão abriu caminho a um figurão alto, sêcco, de rosto comprido, e
-barba em bico.
-
---Com licença! dizia, afastando o povo com um movimento ligeiro, mas
-sem lhe tocar. Tinha os olhos semi-cerrados, e, como experiente em
-lidar com os homens, ia observando as fisionomias dos operarios.
-
-Estes inclinavam-se, tiravam o boné, cumprimentando-o. Elle não
-respondia a estas demonstrações de respeito, semeava o silencio e o
-constrangimento por onde ia passando; sentia-se já, sob os sorrisos
-contrafeitos e o tom abafado das palavras, o como arrependimento da
-creança, conscia de ter feito uma tolice.
-
-O director passou em frente de Pélagué, lançou-lhe um olhar severo e
-parou junto do montão de ferragem. De cima, alguem estendeu-lhe a mão:
-não a acceitou. Com um movimento vigoroso e agil, subiu, ficou á frente
-e perguntou em tom frio e auctoritario:
-
---Que significa esta reunião? Porque abandonaram o trabalho?
-
-O silencio foi completo por alguns instantes. As cabeças dos operarios
-balouçavam como espigas. Sizof agitou o boné, encolheu os hombros e
-baixou a cabeça.
-
---Respondam! berrou o director.
-
-Pavel abeirou-se a elle e disse-lhe em voz alta, apontando para Sizof e
-Rybine:
-
---Nós trez fômos encarregados pelos nossos companheiros de exigir que
-reconsiderasse na sua resolução relativamente ao desconto do kopeck.
-
---Porquê? perguntou o director sem olhar para Pavel.
-
---Porque reputamos injusto este imposto! replicou com voz sonora.
-
---Portanto, não vêem no meu projecto senão o desejo de explorar os
-operarios, e não o cuidado de melhorar a sua existencia, não é verdade?
-
---Exacto!
-
---E o sr. tambem? perguntou, dirigindo-se a Rybine.
-
---Somos todos da mesma opinião.
-
---E o sr.? perguntou ainda, voltando-se para Sizof.
-
---Eu cá... tambem lhe peço que não nos tire o nosso kopeck.
-
-Depois, baixando outra vez a cabeça, Sizof sorriu contrafeito.
-
-O director passou vagarosamente o olhar pela multidão e encolheu os
-hombros. Em seguida olhou perscrutadoramente para Pavel, e disse:
-
---O sr. é, segundo creio, um homem instruido. Não compreende todas as
-vantagens da minha medida?
-
-Pavel respondeu distinctamente:
-
---Ninguem deixaria de compreendel-as, se a fabrica exgotasse o pantano
-á sua custa.
-
---A fabrica não trata de filantropias! replicou. Ordeno-lhes, a todos,
-que voltem immediatamente para o trabalho.
-
-E preparou-se para descer, tateando cautelosamente os ferros com a
-ponta da bota, sem olhar para ninguem.
-
-Ouviu-se um rumor de desapprovação.
-
---Que é isso? perguntou o director, parando.
-
-Calaram-se todos; apenas, a distancia, replicou uma unica voz:
-
---Trabalha, tu!
-
---Se dentro de um quarto d’hora não voltarem para o trabalho,
-multal-os-ei, a todos! declarou seccamente.
-
-E seguiu o seu caminho por entre a multidão, emquanto atraz d’elle se
-ia levantando um surdo murmurio. Quanto mais elle se afastava, mais o
-ruido se tornava intenso.
-
---Vão lá falar-lhe!
-
---São então estes os nossos direitos! Estupor de sorte!
-
-Dirigiam-se a Pavel, gritando:
-
---Olá! jurisconsulto! que devemos fazer agora?
-
---Emquanto se tratou de falar, falaste; mas elle appareceu e mudaram os
-ventos!
-
---Então, Vlassof! O que fazemos?
-
-As perguntas eram cada vez mais insistentes. Pavel respondeu emfim:
-
---Companheiros, proponho que abandoneis o trabalho até que o director
-renuncie ao injusto desconto.
-
-Ergueram-se logo frases irritadas:
-
---Julgas que somos parvos?
-
---É o que se deve fazer!
-
---A gréve?!
-
---Por causa de um kopeck?!
-
---Pois façamos gréve!
-
---Vamos todos para o olho da rua!
-
---E quem trabalharia?
-
---Encontrariam outros operarios!
-
---Onde? Traidores?!
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[1] _Kopeck_, moeda de cobre, a centesima parte do rublo. O seu valor
-approximado é de cinco réis.
-
-
-
-
-XIII
-
-
-Pavel desceu e collocou-se ao lado da mãe. Em volta delles, todos
-começaram a falar ruidosamente, a discutir, a agitarem-se, gritando.
-
---Não se fará a gréve! disse Rybine approximando-se de Pavel: o povo
-embora seja sovina em se tratando de dinheiro, é muito poltrão. Não
-encontrarás mais de trezentos que tenham opinião igual á tua. Não se
-pode revolver semelhante esterco só com uma forquilha.
-
-Pavel ficou silencioso. Perante elle, a multidão com a sua enorme
-cara negra movia-se e observava-o como se elle lhe tivesse feito uma
-exigencia. O seu coração pulsava violento. Parecia-lhe que as suas
-palavras tinham desapparecido, sem deixarem vestigios naquelles homens,
-taes como gottas de chuva tenue, esparsas em terreno gretado por uma
-longa estiagem. Uns após outros, os operarios approximaram-se d’elle,
-felicitaram-no pelo seu discurso, mas duvidavam do exito da gréve, e
-lamentavam que o povo não compreendesse nem a sua força nem os seus
-interesses.
-
-O sentimento de desillusão apoderava-se de Pavel, que tambem já não
-acreditava na sua força. Doía-lhe a cabeça, sentia-se como vasio!
-D’antes, nos momentos em que elle fantasiava o triunfo da verdade
-que tão querida lhe era, o enthusiasmo de que se enchia o seu coração
-dava-lhe vontade de chorar. E agora, tendo exprimido a sua fé diante do
-povo, apparecera-lhe mais pálida, impotente, incapaz de tocar no que
-quer que fosse. Accusava-se, a si proprio; tinha a impressão de haver
-adornado o seu sonho com vestimentas informes, sombrias, e miseras, e
-que por isto ninguem lhe descobrira a belleza.
-
-Voltou para casa triste e fatigado. A mãe e Sizof seguiam-no.
-
---Falas bem, dizia Rybine, mas não chegas ao coração. É o que é!
-Precisa-se lançar a faísca até ao fundo dos corações. Não será pela
-razão que os captarás. É calçado muito fino e muito apertado para o
-povo; não lhe serve nos pés. E ainda que servisse, o sapato ficaria
-acalcanhado em pouco tempo!
-
-Sizof dizia a Pélagué:
-
---Chegou o momento de nós, os velhos, irmos a caminho do cemiterio!
-Levanta-se um povo novo. Como temos vivido? Arrastando-nos de joelhos,
-constantemente curvados para a terra. E hoje não se sabe ao certo se
-ha consciencia do que se faz ou se o caminho novo é mais errado do que
-o nosso... Em todo o caso, os de hoje não se parecem comnosco. Vejam
-lá: os novos falando ao director como de igual para igual!... Ah! se
-o meu filho fosse vivo!... Até á vista, Pavel Mikhaílovitch... És um
-bello rapaz, tomas a defesa do povo... Queira Deus que encontres o bom
-caminho, a bôa saída... Deus queira!
-
-E foi-se.
-
---Pois! que todos morram! resmungou Rybine. Já agora, não sois homens,
-sois uma argamassa, bôa apenas para tapar as fendas das paredes!
-Reparaste, Pavel, nos que mais gritaram para que tu fosses designado
-como nosso delegado? Eram os que dizem que tu és um revolucionario, um
-perturbador. Ora ahi tens! Pensaram que serias expulso da fabrica; era
-isto o que elles queriam.
-
---Sob o seu ponto de vista, teem razão.
-
---Os lobos tambem teem as suas razões quando se despedaçam uns aos
-outros.
-
-Rybine estava rabugento, a voz tremia-lhe.
-
---Os homens não teem confiança na palavra nua e crua... É preciso
-mergulhal-a no sangue...
-
-Durante o dia todo, Pavel sentiu-se desgraçado, como se tivesse perdido
-alguma coisa e presentisse a sua propria perda sem compreender no que
-ella consistiria.
-
-De noite, quando a mãe já dormia e elle ainda estava lendo na cama, a
-policia voltou para revolver raivosamente em toda a casa, no pateo e no
-sotão. O official amarellento portou-se, como da primeira vez, d’uma
-maneira impliquenta e offensiva, sentindo prazer em melindrar Pavel e a
-mãe. Assentada a um canto, Pélagué mantinha-se em silencio, com o olhar
-fixo no rosto do filho. Este tentava occultar a perturbação, mas quando
-o official ria, os dedos do rapaz tinham movimentos não vulgares; a
-mãe percebia quanto elle estava soffrendo por não poder responder á
-letra aos gracejos do officialsito. Sentia-se menos assustada do que
-na primeira busca, mas era maior o seu odio por aquelles visitantes
-nouturnos, vestidos de cinzento, de esporas tintilantes.
-
-Pavel conseguiu dizer-lhe baixinho:
-
---Vão levar-me.
-
-Baixando a cabeça ella respondeu:
-
---Percebo...
-
-Compreendia: iam mettel-o na cadeia pelas frases que elle dirigira aos
-operarios. Mas estes tinham-nas apoiado, e todos iriam tomar a defeza
-de Pavel, que só por pouco tempo ficaria preso.
-
-Tinha vontade de chorar, de abraçar o filho; mas ao seu lado o
-official observava-a com olhar malevolo, os labios tremiam-lhe assim
-como o bigode, e Pélagué sentiu que aquelle homem esperava com alegria
-que ella se desfizesse em lagrimas, em supplicas, em lamentações.
-Reunindo todas as suas forças, falando o menos possivel, apertou a mão
-do filho e disse em voz baixa, retendo a respiração:
-
---Até á vista, Pavel. Levas comtigo tudo que precisas?
-
---Levo. Não te dê cuidado.
-
---O Senhor vá comtigo.
-
-Quando o levaram, a mãe deixou-se caír n’um banco e soluçou docemente
-com as palpebras abaixadas. Encostada á parede, como seu marido fazia
-outrora, torturada pela angustia e pelo sentimento da sua impotencia
-em semelhante transe, chorou durante muito tempo, fazendo passar ás
-lagrimas a dôr do seu coração ferido. Via na sua frente, como se fosse
-uma mancha immovel, uma fisionomia amarella, de bigode delgado, olhos
-semi-cerrados, aspecto feliz. No seu peito contorciam-se, como em negro
-torvelinho, o desespero e a colera contra quem roubava um filho a sua
-mãe, só porque elle procurava a verdade.
-
-Estava frio: as gottas de chuva batiam nas vidraças, ao longo das
-paredes deslisava o que quer que fosse; dir-se-ia que nas trevas,
-silhuetas pardas, de grandes caras sem olhos, e de braços compridos,
-rondavam, espiando. E as suas esporas tintilavam fracamente.
-
---Seria melhor que me tivessem levado tambem! pensou.
-
-O apito da fabrica vibrou, na sua ordem de começar o trabalho.
-N’aquella manhã, foi um apito vago, e hesitante. A porta abriu-se,
-Rybine entrou. Approximou-se de Pélagué, e limpando as gottas de chuva
-que se lhe haviam espalhado pela barba:
-
---Levaram-no?
-
---Sim. Malditos!
-
---Bonita coisa! A mim, revistaram-me, rebuscaram tudo...
-Injuriaram-me... mas afinal não me prenderam. Com que então, levaram o
-Pavel?! O director deu o signal, a policia obedeceu, e aqui está como
-se prende um homem! Entendem-se bem uns aos outros, como os gatunos nas
-feiras. Uns encarregam-se de ordenhar o povo, emquanto outros o seguram
-pelo focinho.
-
---Devem tomar a defeza do Pavel! exclamou ella, erguendo-se. Foi por
-causa de todos que elle se comprometteu.
-
---Mas quem deve tomar essa defeza?
-
---Todos vós!
-
---Que idéa! Não conte com isso! Foram precisos milhares de annos para
-reunir a sua força. Cravaram-nos um sem numero de pregos no coração...
-Como seria possivel ajuntarem-nos de subito? Necessitamos primeiro de
-arrancar os nossos espinhos de ferro... São estes espinhos que impedem
-os nossos corações de reunirem-se n’uma massa compacta.
-
-E com um risinho, foi-se lentamente. As suas palavras crueis e
-desesperadas tinham augmentado o desgosto de Pélagué.
-
---Podem matal-o, tortural-o...
-
-E imaginou o corpo do filho crivado de pancadas, despedaçado,
-ensanguentado; e, como uma camada d’argila gelada, suffocava-a o medo
-caído no seu coração. A luz fazia-lhe mal aos olhos.
-
-Não accendeu o fogão, não preparou o jantar, não tomou o chá; só muito
-tarde, á noite, comeu um pouco de pão. Quando se deitou, reconheceu
-que nunca na sua vida se sentira tão humilhada, tão isolada, como nua.
-Nos ultimos annos, acostumara-se a viver na constante espectativa do
-que quer que fosse importante, feliz. Em torno d’ella, a gente nova
-movia-se, ruidosa e decidida, dominada pelo seu filho de rosto grave,
-seu filho, o senhor e o creador d’aquella vida cheia d’inquietação, mas
-bôa. E n’aquelle momento em que já não o via, tudo tinha desapparecido.
-
-
-
-
-XIV
-
-
-O dia decorreu lentamente, seguido de uma noite sem somno. O dia
-seguinte pareceu-lhe ainda mais comprido. Esperava não sabia o quê, mas
-ninguem veio. Caíu a tarde, depois a noite. A chuva glacial tombava
-roçando pelas paredes, o vento soprava pela chaminé, o madeiramento
-da casa rangia. Ouvia-se apenas a melodia melancólica e dolorosa das
-gottas d’agua caíndo do telhado, como lagrimas. Parecia que toda a casa
-vacilava e que uma surda angustia gelava o ambiente.
-
-Bateram de manso á vidraça. Pélagué estava acostumada a este
-signal; não se assustou; estremeceu como se lhe tivessem despertado
-bondosamente, o coração. Vaga esperança fêl-a levantar-se de prompto.
-Atirando um chale para os hombros, abriu a porta. Samoílof entrou,
-seguido d’outra pessoa que occultava a cara na gola erguida da capa;
-tinha o boné descaído para os olhos.
-
---Viemos accordal-a? perguntou Samoílof sem mais cumprimentos.
-
-Fóra do costume, o seu ar não era tranquillo.
-
---Não; eu não estava a dormir.
-
-E olhou inquiridoramente para os recemchegados.
-
-Com um suspiro abafado e profundo, o companheiro de Samoílof tirou o
-boné e estendeu a Pélagué a mão forte e de dedos grossos.
-
---Bôa noite, mãesinha! Não me reconheceu? disse-lhe amigavelmente como
-a um velho conhecimento.
-
---Ora?! exclamou ella com alegria. Iégor Ivanovitch! o sr.?!
-
---Eu, sim!
-
-Tinha o cabello comprido como um menino de côro. Illuminava-lhe a
-fisionomia um sorriso de bondade; os seus olhitos pardos fitavam-se em
-Pélagué com expressão carinhosa. Assemelhava-se a um samovar no seu
-corpito redondo, no pescoço grosso e nos braços curtos. A pelle da cara
-reluzia; no seu peito parecia pesar e rostilhar alguma coisa...
-
---Vão para aquelle quarto; eu vou vestir-me! propôz ella.
-
---Temos que dizer-lhe! respondeu Samoílof, preoccupado e olhando-a de
-soslaio.
-
-Iégor passou para a divisão do lado, dizendo:
-
---Mãesinha, esta manhã um dos nossos amigos saíu da cadeia, onde esteve
-trez mezes e onze dias. Viu por lá o russo-menor e Pavel que lhe envia
-muitas recommendações; o seu filho pede-lhe que não se apoquente por
-causa d’elle, e manda-lhe dizer que no caminho que elle escolheu, a
-cadeia é o logar que serve para o descanço; assim o resolveram as
-nossas auctoridades sempre interessadas pelo nosso bem-estar... Vamos
-agora ao que importa: Sabe quantas pessoas foram presas hontem?
-
---Não. Pavel não foi o unico?
-
---Foi o quadragesimo nono... declarou Iégor tranquillamente. E
-espera-se que ainda sejam presos uns dez... Entre outros este
-cavalheiro aqui presente.
-
---Eu mesmo! disse Samoílof, sombrio.
-
-Pélagué respirava mais facilmente.
-
---Não está então sosinho!...
-
-Quando acabou de vestir-se, passou ao outro quarto, sorrindo, bem
-disposta.
-
---Não os conservarão presos por muito tempo se elles são muitos.
-
---Diz bem! E se conseguirmos torcer o jogo dos nossos adversarios, não
-terão adiantado mais do que d’antes. Se deixarmos de propagar agora os
-nossos folhetos, os patifes da policia notarão o caso, e perceberão
-que a propaganda era feita pelo Pavel e pelos companheiros, agora seus
-companheiros na cadeia.
-
---Como? não percebo...
-
---Nada mais simples, mãesinha. Ás vezes a gente da policia chega a
-raciocinar com acerto... Repare: emquanto o Pavel era livre appareciam
-os folhetos; mettido na cadeia, desappareceram. Logo era elle quem os
-espalhava.
-
---Percebo!... murmurou ella tristemente. Que fazer? Ah! Deus do ceo!
-
-A voz de Samoílof veiu da cosinha:
-
---Diabos me levem! Prenderam quasi todos os nossos! É preciso continuar
-a trabalhar como d’antes, não só pela nossa causa, mas tambem para
-salvar os companheiros.
-
---E ninguem para trabalhar!... suspirou Iégor. Temos folhetos
-magnificos... Fui eu mesmo que os fiz. Mas como introduzil-os na
-fabrica? Eu cá não sei:
-
---Agora, toda a gente é revistada á entrada... explicou Samoílof.
-
-Pélagué adivinhava que lhe queriam alguma coisa.
-
---Então que fazer? perguntou vivamente.
-
-Samoílof parou e perguntou:
-
---Pélagué Nilovna, conhece a vendedeira Korsounova?
-
---Conheço. Porquê?
-
---Fale-lhe. Talvez que ella se encarregue dos nossos folhetos.
-
-Ella ergueu logo o braço n’um movimento negativo:
-
---Ah! não! É uma tagarella! Não! Saber-se-ia logo que fui eu... que foi
-coisa vinda da nossa casa... Não!
-
-E de subito, illuminada por uma idéa repentina, exclamou com alegria:
-
---Dêem-me os folhetos! Dêem-mos! Eu acharei um meio... Deixem isso por
-minha conta! Pedirei á Maria que me tome ao seu serviço. Tenho que
-trabalhar, se quizer comer. Levarei tambem os jantares á fabrica, aos
-operarios... Deixem isso por minha conta.
-
-Com as mãos unidas no peito, affirmava que saberia proceder sem que a
-descobrissem, e concluiu com uma exclamação triunfante:
-
---Ah! Hão de ver que mesmo com Pavel na cadeia, a sua mão os attinge!
-
-Todos trez se sentiam de novo animosos. Iégor sorria, esfregando
-rapidamente as mãos, dizendo:
-
---Bravo, mãesinha! Se soubesse como isso lhe fica bem! como é para
-enthusiasmar!
-
---Se fôr bem succedida, sentir-me-ei tão feliz na cadeia como se
-estivesse sentado n’uma cadeira estofada! declarou Samoílof, rindo:
-
---É um thesouro, mãesinha! exclamou Iégor roufenhamente.
-
-Pélagué sorriu. Era simples: se conseguisse introduzir na fabrica os
-folhetos, diriam que não era Pavel quem os distribuia. Sentindo-se
-capaz de desempenhar-se de tal compromisso, Pélagué estremecia jubilosa.
-
---Quando fôr visitar o Pavel, diga-lhe que elle tem uma boa mãe!
-
---Hei de vêl-o mesmo antes do dia da visita! prometteu Samoílof,
-sorrindo.
-
---Diga-lhe abertamente que hei de fazer quanto fôr necessario. Que elle
-o fique sabendo!
-
---E se o Samoílof não fôr preso, como ha de sabel-o o Pavel? perguntou
-Iégor.
-
---Paciencia! Temos que nos resignar!
-
-E ambos entraram de rir. Quando ella compreendeu a sua tolice, riu
-tambem, mas um tanto contrafeita.
-
---Quando olhamos para os nossos, não vemos bem os que lhe ficam por
-detraz... murmurou ella, a justificar-se.
-
---É natural! concordou Iégor. A proposito de Pavel: não se inquiete nem
-se entristeça. Ha de saír da cadeia ainda melhor do que quando para lá
-entrou. Por lá descansa-se, ha tempo para adquirir instrucção, o que
-não nos acontece quando estamos á solta. Estive preso tres vezes, sem
-grande vontade, mas o meu coração e a minha razão aproveitaram sempre...
-
---Custa-lhe respirar... disse Pélagué olhando para elle affectuosamente.
-
---Por motivos especiaes... respondeu levantando um dedo para o ar.
-
---Portanto, está combinado, mãesinha. Ámanhã trazemos-lhe o que sabe, e
-outra vez entrará em movimento a roda que aniquila as trevas seculares.
-Viva a liberdade da palavra, mãesinha! e viva o coração materno! Até
-ámanhã!
-
---Até ámanhã! disse tambem Samoílof apertando com força a mão de
-Pélagué. Eu não posso dizer palavra d’isso tudo á minha mãe.
-
-Quando elles saíram, Pélagué fechou a porta e ajoelhando-se no meio do
-quarto, pôz-se a resar, ao ruido da chuva. Rezou sem soltar dos labios
-uma só palavra; era como um pensamento muito longo e intenso; rezou
-por todos aquelles que Pavel associára á sua vida. Via os passar entre
-ella e as imagens dos santos; eram simples, tão extraordinariamente
-approximados uns dos outros, e tão isolados na vida.
-
-Logo muito cedo, foi a casa de Maria Korsounova.
-
-A ruidosa vendedeira, com o fato engordurado como sempre, acolheu-a
-compassivamente:
-
---Aborreces-te? perguntou, batendo-lhe com a mão no hombro. Consola-te!
-Agarraram-no, levaram-no? Grande coisa! Que mal ha n’isso? D’antes
-mettiam uma pessôa na cadeia, quando roubava; agora é quando se diz
-a verdade. Pavel disse naturalmente coisas que não se devem dizer.
-Mas foi para defender os companheiros, e isto toda a gente o percebe.
-Não tenhas medo. Todos sabem que elle é um bello rapaz... embora não
-o digam. Eu queria ir a tua casa, mas não tive tempo. Estou sempre a
-cosinhar, esgótto o meu artigo, e afinal estou certa de que virei a
-morrer pobre. Os amantes arruinam-me! os sacripantas! Comem! comem!...
-parecem baratas a devorar um pão. Apenas tenho uns dez rublos,
-apparece-me um d’esses hereticos e rouba-mos! É isto! Má coisa ser
-mulher! que estupida vida! É difficil viver só, e ainda mais viver
-acompanhada!
-
---Pois olha eu vim pedir-te que me acceites como ajudante... disse
-Pélagué, pondo um dique á catadupa das palavras.
-
---O quê?!
-
-Mas quando a sua amiga lhe expoz todo o seu pensamento, meneou a cabeça
-em signal de approvação.
-
---Está dito. Lembras-te quantas vezes me déste esconderijo quando o
-meu marido andava á minha procura? Pois serei eu agora que te furtarei
-á miseria. Cada qual deve correr em teu auxilio porque o teu filho
-está soffrendo por causa de todos. É um bom rapaz! toda a gente o
-diz; e todos o lastimam. Eu, cá por mim, penso que estas prisões não
-trazem nenhum bem á fabrica. Se soubesses o que por lá se diz!... Os
-chefes imaginam que não ha de ir longe o homem que elles morderam no
-calcanhar. Mas por cada um que elles atacam, ha cem que se revoltam.
-Deve-se ter cuidado quando se quizer tocar no povo, porque elle vae
-aturando por muito tempo, mas, n’um bello dia, estoira!
-
-
-
-
-XV
-
-
-Os operarios logo notaram a velha. Alguns dirigiram-se a ella
-amigavelmente:
-
---Encontraste trabalho, Pélagué?
-
-E consolavam-na, affirmando-lhe que Pavel seria posto em liberdade
-dentro em breve, pois tinha este direito. Outros commoviam o seu
-coração dolorido com prudentes palavras de compaixão; outros ainda
-invectivavam abertamente o director e a policia e despertavam n’ella um
-ecco sincero. Havia tambem quem para ella olhasse com certa satisfação
-malevola; Isaías Gorbof, operario apontador, disse por entre dentes:
-
---Se eu governasse, mandava enforcar o teu filho, para lhe ensinar a
-não desnortear o povo.
-
-Estas palavras gelaram-na mortalmente. Não respondeu, lançou apenas um
-olhar áquelle rosto coberto de sardas, e baixou a fronte, suspirando.
-
-Percebia que havia no ar certa agitação; os operarios ajuntavam-se
-em pequenos grupos, discutiam a meia voz, mas animadamente; os
-contramestres, desconfiados, rondavam por toda a parte; de vez em
-quando, ouviam-se invectivas, risos irritados.
-
-Viu então dois guardas da policia levarem Samoílof. Uns cem operarios
-seguiram-no, injuriando ou troçando dos guardas.
-
---Vaes dar um passeio, amigo? gritou alguem.
-
---Honra seja ao nosso companheiro! disse outro. Dão-lhe uma escolta!...
-
-E resoou uma saraivada de pragas.
-
---Ao que parece, é menos rendoso agarrar os ladrões! berrou muito
-irritado o vesgo. Mettem-se com a gente de bem!
-
---Se ao menos, isto fosse de noite! Mas qual! Esta canalha não tem
-vergonha da luz do dia!
-
-Os guardas iam andando depressa e com ar carrancudo, buscando não verem
-nada, nem ouvirem os insultos que de toda a parte lhes atiravam. Trez
-operarios avançaram para elles, com uma barra de ferro, gritando:
-
---Cuidado, peccadores!
-
-Quando passou diante de Pélagué, Samoílof abanou a cabeça, rindo e
-dizendo:
-
---Vão arrastando um humilde servo de Deus!...
-
-Ella ficou silenciosa e curvou-se profundamente commovida pelo
-espectaculo d’aquelles rapazes honrados, intelligentes e modestos que
-iam para a cadeia com o sorriso nos labios. Sem dar por tal, começava
-a consagrar-lhes um compadecido amor de mãe. E era-lhe agradavel ouvir
-as frases de censura para os directores, porque n’ellas sentia a
-influencia do filho.
-
-Quando saíu da fabrica, passou o dia em casa de Maria, ajudando-a,
-dando attenção á sua tagarellice. Só tarde voltou para a sua casa
-vasia, fria, hostil. Por muito tempo vagueou de um canto para o outro,
-sem saber que fazer nem onde sentar-se. Estava inquieta vendo que Iégor
-ainda não viéra, como promettera.
-
-Lá fóra, caíam pesados flócos pardos d’uma neve de outomno. Collavam-se
-aos vidros, deslisavam sem ruido e derretiam-se deixando rastos
-humidos. Pélagué pensava em Pavel.
-
-Porque batessem cautelosamente á porta, accorreu logo a puxar pelo
-ferrolho: era Sachenka. Pélagué não a via desde muito tempo; chamou-lhe
-logo a attenção a gordura da rapariga.
-
---Bôa noite! Tem estado muito longe d’aqui?
-
---Não. Na cadeia! respondeu, sorrindo. Ao mesmo tempo com o Nicolao
-Ivanovitch. Lembra-se d’elle?
-
---Como havia d’esquecel-o? O Iégor disse-me que o tinham posto em
-liberdade, mas de si não me falou, nem elle, nem ninguem.
-
---E para que serviria isso? Deixe-me despir antes que o Iégor venha.
-
---Está toda molhada!
-
---Trouxe os folhetos...
-
---Dê cá! dê cá!
-
---Prompto!
-
-Entreabriu a capa, saccudiu-a e logo caíram no chão pacotes de folhetos.
-
-Pélagué apanhava-os, rindo.
-
---E eu, que ao vêl-a tão roliça, imaginei que tivesse casado e
-esperasse um menino! Ah! mas que quantidade que trouxe! E veio a pé?
-
---Vim.
-
-A rapariga estava outra vez magra e esbelta. Pélagué notou-lhe até as
-faces um tanto encovadas, e que os olhos bem rasgados eram assombreados
-por fundas olheiras.
-
---Pozeram-na na rua, e em logar de ir repoisar, faz uma caminhada de
-sete kilometros com tudo isto em cima de si!...
-
---Assim era preciso. Diga-me: como está o Pavel Mikaílovitch? Não lhe
-custou muito?...
-
-Falava sem olhar para Pélagué, abaixando a cabeça para arranjar o
-cabello com os dedos tremulos.
-
---Não! respondeu Pélagué. Oh! Aquelle não se traírá!
-
---Tem uma saude de ferro, não é verdade? perguntou ainda em voz baixa e
-ligeiramente tremelitante.
-
---Nunca esteve doente. Mas como está tremendo!... Espere; vou tratar do
-chá; tambem tenho uma compota de framboezas...
-
---Não será máo! disse Sachenka com um leve sorriso. Mas para que ha-de
-ter esse trabalho? É tarde; deixe que seja eu quem faça o chá.
-
---Mas está tão fatigada!... replicou em tom de censura; e pôz-se a
-accender o samovar.
-
-Sachenka seguiu-a até á cosinha, sentou-se n’um banco e enclavinhando
-os dedos em cima da cabeça:
-
---Estou fatigada, estou. Apezar de tudo, a prisão esgota. Que maldita
-inacção! Não ha coisa mais penosa! Fica-se para ali uma semana, um mez,
-sem nada que fazer... Ha quem conte comnosco para receber instrucção,
-sabemos que podemos dar-lha... e vemo-nos metidos n’uma jaula como
-animaes ferozes!... É de resequir o coração!
-
---E quem vos recompensará?... suspirou Pélagué. Mas logo accrescentou:
-Ninguem, se não Deus! Tambem... a sr.ᵃ não acredita n’elle,
-naturalmente...
-
---Não!
-
---E eu não acredito em si nem nos outros! exclamou, animando-se de
-subito.
-
-Alimpando ao avental as mãos sujas de carvão, continuou com convicção
-profunda:
-
---Não compreendeis a nossa crença... Como pode alguem dedicar-se a
-semelhante vida sem acreditar em Deus?
-
-Sob o telheiro ouviram-se passos e o resmungar d’alguem. Pélagué
-estremeceu; a rapariga poz-se logo de pé e disse baixinho:
-
---Não abra! Se fôr a policia, diga que não me conhece... que bati a
-esta porta por engano... que entrei aqui por acaso, que desmaiei e que
-a sr.ᵃ me despiu para pôr-me á vontade, encontrando então em mim os
-folhetos. Percebe?
-
---E para que hei de dizer isso? perguntou enternecida.
-
---Espere!... Parece-me que é o Iégor...
-
-Era elle, a escorrer agua, estafado.
-
---Ah! o samovar está prompto!... exclamou. É o que ha de melhor n’este
-mundo, mãesinha! Já cá está, Sachenka?
-
-Enchia a cosinha com os sons gutturaes da sua voz; tirou vagarosamente
-o casacão e continuou:
-
---Ora ahi tem, mãesinha, uma rapariga muito desagradavel para as
-auctoridades! Como um dos carcereiros a tivesse insultado, declarou
-terminantemente que se deixaria morrer de fome, se elle não lhe pedisse
-desculpa. E durante oito dias não comeu coisa alguma, estando em riscos
-de abalar d’esta para melhor. É bonito, não acha? E o que me diz á
-minha barriguinha?
-
-Saccudiu o ventre postiço, feito de massos de folhetos e passou ao
-quarto, fechando a porta.
-
---O quê? Pois esteve oito dias sem comer? perguntou Pélagué, admirada.
-
---Se era indispensavel que elle me pedisse desculpa!... respondeu, com
-uma tremura d’hombros friorenta.
-
-Esta tranquillidade e esta obstinação austeras levaram ao animo de
-Pélagué o que quer que fosse semelhante a uma censura. «Ah! é assim, é
-assim!...» pensou.
-
-E perguntou ainda:
-
---E se tivesse morrido?
-
---Estaria morta, naturalmente. Afinal, o homem acabou por pedir
-desculpa. Ninguem deve perdoar os ultrajes.
-
---Sim... Mas nós, as mulheres, somos ultrajadas durante toda a nossa
-vida...
-
---Prompto! Já larguei a carga! informou Iégor, apparecendo. O samovar
-está prompto? Se me dá licença...
-
-Pegou n’elle e passando-o para o quarto:
-
---O meu papá bebia pelo menos vinte copos de chá por dia; por isso
-passou n’este mundo setenta e trez annos socegadamente e sem nunca
-estar doente. Pesava mais de cem kilos e era sacristão da aldeia de
-Vosskressensky...
-
---É filho do tio Ivan? perguntou Pélagué.
-
---Sim, sr.ᵃ. Como o sabe?
-
---É que eu tambem sou de Vosskressensky!
-
---Então somos da mesma terra! Que nome era o seu, em rapariga?
-
---Séréguine... Eramos visinhos...
-
---É a filha do Nile, o côxo? Não conheci eu outro figurão! Quantas
-vezes elle me puxou as orelhas!
-
-Estavam de pé e riam no meio das perguntas. Sachenka olhando para elle
-a sorrir, ia preparando o chá. O ruido da loiça chamou Pélagué aos seus
-deveres.
-
---Desculpem. Começo o tagarellar e esqueço-os. É tão agradavel
-encontrar um patricio...
-
---Eu é que peço desculpa de me servir primeiro... disse Sachenka. Mas
-já são onze horas e ainda tenho muito que andar.
-
---Para ir para onde? para a cidade?!
-
---Sim, para a cidade.
-
---Mas chove, é noite, está cansada. Deixe-se ficar. O Iégor dorme na
-cosinha, e nós, as duas, aqui.
-
---Não! Tenho forçosamente que partir.
-
---É verdade, patricio: é forçoso que esta menina desappareça.
-Conhecem-na por cá. E se ámanhã a vissem na rua, seria mao.
-
---E vae-se embora sósinha!
-
---Vae! disse Iégor com um risinho.
-
-A rapariga deitou ainda mais chá, pegou n’um pedaço de pão de centeio,
-salgou-o e entrou de comel-o, olhando pensativamente para Pélagué.
-
---Admira-me como é capaz de ir sósinha. E a Natacha tambem... Eu cá não
-era. Tenho um medo!...
-
---Mas olhe que ella tambem tem medo. Não é verdade, Sachenka?
-
---É.
-
-Pélagué lançou-lhe um olhar, murmurando:
-
---Como são corajosas!
-
-Depois de ter tomado o chá, Sachenka apertou a mão a Iégor sem dizer
-palavra e passou á cosinha seguida pela velha.
-
---Se vir o Pavel, dê-lhe muitas recommendações minhas.
-
-Tinha já a mão no fecho da porta, quando, voltando-se rapidamente,
-perguntou:
-
---Deixa-me beijal-a?
-
-Sem responder, Pélagué abraçou-a effusivamente.
-
---Obrigada! disse a rapariga, a meia voz.
-
-E saíu, meneando a cabeça.
-
-Ao voltar ao quarto, a velha olhou com anciedade para o lado da
-janella. Nas trevas espessas e humidas caíam lentamente flocos de neve
-meio derretidos.
-
-Vermelho e suando, Iégor sentara-se, com as pernas afastadas e soprando
-ruidosamente ao chá. Sentia-se satisfeito.
-
-A velha sentou-se tambem, e olhando tristemente para elle:
-
---Pobre Sachenka!... Como chegará ella ao fim do caminho?...
-
---Cançada! A cadeia serviu-lhe de provação... Era d’antes mais
-robusta... Depois, não foi educada como nós, á bruta... Parece-me que
-já tem os pulmões atacados.
-
---Quem é ella?
-
---Filha d’um proprietario rural. O pae é riquissimo e... canalhissimo.
-Naturalmente, mãesinha, já sabe que elles se amam deveras e que querem
-casar.
-
---Quem?
-
---O Pavel e ella. É isto! Mas afinal não o conseguem. Quando elle está
-em liberdade, está ella na cadeia, e _vice-versa_.
-
---Não sabia, não... Pavel nunca fala da sua pessoa.
-
-E ainda mais se apiedou da rapariga.
-
---O sr. devia tel-a acompanhado! lembrou com certa hostilidade
-involuntaria.
-
---Impossivel! respondeu tranquillamente. Tenho uma caterva de coisas
-que fazer por cá, e para dar conta de tudo hei de andar o dia inteiro.
-É uma occupação muito desagradavel quando somos asthmaticos.
-
---Que bella rapariga! exclamava, pensando vagamente no que Iégor lhe
-dissera.
-
-Vexava-a ter sabido aquella noticia por outrem e não pelo seu filho;
-mordeu os beiços fortemente e abaixou as palpebras.
-
---Sim! disse Iégor. Noto que ella lhe causa piedade. Faz mal! se
-começa a ter piedade dos revoltados não lhe chega o coração para
-todos. Francamente, ninguem tem boa vida... Ha tempos, um dos meus
-companheiros regressou do exilio; quando chegou a Nijni, a mulher e o
-filho esperavam-no em Smolensk, e quando elle chegou a Smolensk, já
-elles estavam presos em Moscou. Agora é a mulher que vae exilada para a
-Siberia. Eu tambem tive mulher, tambem, e era uma excellente creatura,
-mas cinco annos d’esta vida bastaram para a atirar para a cova.
-
-Bebeu d’um trago o seu copo de chá e continuou a discorrer. Contou os
-annos e mezes que passara preso, e no exilio, as suas catastrophes,
-a fome na Siberia, os massacres nas prisões... A velha ouvia-o
-attentamente, admirando-se da simplicidade tranquilla com que elle
-descrevia aquelle viver cheio de perseguições e de torturas.
-
---Bem! Vamos agora ao nosso negocio...
-
-A voz transformou-se-lhe, a phisionomia tornou-se grave. Perguntou como
-imaginava ella poder introduzir na fabrica os folhetos, e Pélagué ficou
-surpreendida ao perceber que elle conhecia a fundo todos os meios para
-chegar ao desejado fim.
-
-Depois de combinarem tudo, voltaram a falar da sua aldeia; emquanto
-Iégor gracejava, a velha ia percorrendo em pensamento o passado,
-que lhe parecia semelhante a um pantano com monotonos monticulos, e
-com faias, pinheirinhos e bétulas brancas balouçando mansamente ao
-vento nas pequeninas collinas. As bétulas cresciam muito de vagar, e
-depois de terem vivido cinco ou seis annos n’aquelle sólo pútrido e
-movediço, caíam e decompunham-se... A velha considerava este quadro com
-indifinivel e misteriosa magoa. Na sua frente ergueu-se uma silhueta
-de rapariga de feições accentuadas e cheias de obstinação. Ia, sob os
-flocos de néve, fatigada e solitaria... E o seu filho estava encerrado
-n’uma pequena casa, cuja janella tinha grades de ferro... Talvez
-áquella hora elle não dormisse; pensava, por certo. Mas não estaria
-pensando em sua mãe, porque havia alguem que lhe era mais querido...
-Como uma nuvem de variegadas côres e informe, avançavam para ella os
-dolorosos pensamentos, invadindo-lhe a alma com violencia.
-
---Deve estar cançada, mãesinha! Vamo-nos deitar! disse Iégor, sorrindo.
-
-Desejou-lhe uma boa noite, e passou á cosinha, caminhando d’esguelha,
-com precaução, com o coração cheio de ardente amargura.
-
-Na manhã seguinte, ao tomar o chá, Iégor disse-lhe:
-
---E se a apanharem, e lhe perguntarem onde adquiriu os folhetos, o que
-responde?
-
---«Isso não é da sua conta!»... Aqui está o que eu respondo.
-
---Por esse ajuste é que elles não estão! O importante para elles é isso
-mesmo, e sobre o assumpto hão-de interrogal-a demoradamente.
-
---Não direi uma palavra!
-
---Mettem-na na cadeia!
-
---Que m’importa! Graças a Deus, terei ao menos servido para alguma
-coisa! A quem faço eu falta? A ninguem. E segundo dizem, já não
-torturam os presos...
-
---Hum!... Não a torturarão. Mas uma boa mulher como a sr.ᵃ deve ter
-cuidado em si.
-
---Não me parece que seja comsigo que possam aprender isso. Depois de
-ter dado alguns passos, em silencio, Iégor approximou-se d’ella.
-
---É custoso, patricia! sinto que ha-de custar-lhe muito!
-
---Todos estamos sujeitos!... Talvez seja mais facil para os que teem uma
-compreensão clara... Emfim, eu não compreendo bem, mas alguma coisa sei
-do que quer a nossa boa gente.
-
---E desde que o sabe, mãesinha, é util a todos, a todos!
-
-Pelo meio-dia, Pélagué, tranquilla e importante, metteu um masso de
-folhetos no seio. Vendo a destreza com que ella os occultava, Iégor deu
-um estalido com a lingua e exclamou satisfeito:
-
---_Sehr gut!_ como dizem os allemães ao esvasiarem um barril de
-cerveja. A litteratura não a transformou: continua sendo uma mulher
-como se quer! Os deuses protegem a sua empreza!
-
-Meia hora depois, com o mesmo sangue-frio e acurvada ao peso da comida
-que levava para os operarios, Pélagué chegava á porta da fabrica. Dois
-guardas, irritados pela troça dos operarios com quem trocavam doestos,
-apalpavam sem ceremonias todos os que entravam no pateo. Um agente de
-policia passeava não distante d’alli, bem como um homem de olhar vago,
-pernas curtas, e cara vermelhaça. A velha observou este, de soslaio,
-emquanto passava o fardo para o outro hombro; advinhava que elle era um
-espião.
-
-Um rapagão de cabellos encaracolados, com o boné para a nunca, gritava
-aos guardas que o revistavam:
-
---Procurem na cabeça e nas algibeiras, seus diabos!
-
-Um dos guardas respondeu:
-
---Não és cara para teres na cabeça o que quer que seja... a não ser
-piôlhos!
-
---Pois n’esse caso, catem-nos, que é trabalho digno de vós!
-
-O espião lançou-lhe um máo olhar, e escarrou para o chão.
-
---Deixem-me passar! pediu Pélagué. Não vêem que a minha carga é pesada?
-Trago o corpo quebrado...
-
---Vá! vá! pode passar mas não grite tanto! respondeu o guarda com máo
-modo.
-
-Chegando ao seu logar, Pélagué pôz no chão as panelas da sopa e olhou
-em volta, limpando o suor.
-
-Dois serralheiros, os irmãos Goussef, vieram logo; o mais velho,
-Vassili, perguntou-lhe em voz retumbante, franzindo o sobrolho:
-
---Temos hoje empadas?
-
---Ámanhã! respondeu logo.
-
-Eram as palavras convencionadas. A fisionomia dos dois homens abriu-se.
-Incapaz de subjugar-se, Ivan exclamou:
-
---Ah! como tu és bôa!
-
-Vassili agachou-se, observando uma das panelas, e ao mesmo tempo um
-massinho de folhetos deslisou-lhe para o peito.
-
---Ó Ivan, para que havemos de ir comer a casa? Jantemos aqui! E metteu
-os folhetos nos canos das botas. Deve-se proteger a nova vendedeira.
-
---Dizes bem! E desatou a rir.
-
-Pélagué apregoava de quando em quando, continuando a olhar
-prudentemente em volta:
-
---Quem quer sopa? aletria quente! carne assada!
-
-Pouco a pouco, ia tirando do seio mais folhetos, entregando-os
-cautelosamente aos dois irmãos. Sempre que isto acontecia, parecia-lhe
-ver de subito na frente o rosto do official da guarda, como uma nódoa
-amarella, semelhante á luz d’um fósforo n’um quarto escuro. E, em
-pensamento, ella atirava-lhe estas palavras, repassadas de satisfação:
-
---Chucha, tiosinho!
-
-E ao passar mais folhetos, pensava ainda:
-
---Anda! chucha mais estes!
-
-Quando os operarios se approximavam, de prato na mão, Ivan Goussef ria
-com estrondo; Pélagué suspendia a faina de passar os folhetos, deitava
-nos pratos sopa de hervas ou de aletria, emquanto Vassili lhe dirigia
-gracejos.
-
---Olhem que é muito habil, a tia Pélagué!
-
---A miseria até nos ensina a apanhar ratos... disse em tom sorna um
-fogueiro. Tiraram-lhe aquelle que lhe dava o pão... Canalhas! Pois
-venham de lá tres kopecks d’aletria. Coragem, boa velha! Tudo ha de
-acabar em bem!
-
---Obrigado por essa consolação! respondeu ella sorrindo.
-
-Ao que elle retorquiu afastando-se:
-
---Não me custa nada!...
-
---Mas não vejo a quem ella aproveite! replicou um ferreiro, rindo.
-
-E acrescentou, encolhendo os hombros:
-
---É isto a vida, rapazes! Ninguem a quem dirigir com proveito palavras
-de consolação... ninguem é digno d’ellas... não achas?
-
-Vassili ergueu-se, abotoando cautelosamente o casacão:
-
---A comida estava quente, e, apezar d’isto, estou com frio.
-
-Afastou-se, assim como o irmão, assobiando.
-
-Pélagué continuava apregoando, sorrindo amavel:
-
---Sopa quente! Aletria! Sopa d’hervas!
-
-Ia pensando em que contaria ao filho a sua primeira experiencia. A
-cara amarellenta do official, irritado e estupefacto, apparecia-lhe
-constantemente ao espirito; o bigode negro movia-se confusamente, e
-sob o labio superior, contraído por uma expressão de colera, brilhava
-o marfim dos seus dentes cerrados. Como um passarinho, no coração da
-velha adejava e trinava uma alegria intensa. E continuava dizendo em
-pensamento:
-
---Chucha! chucha ainda mais folhetos!...
-
-
-
-
-XVI
-
-
-Durante todo o dia um sentimento novo para ella lhe ameigou a alma.
-Á noite, concluido o seu trabalho, e quando estava tomando o chá, o
-tropel de um cavallo soou sob a janella, e ouviu-se uma voz conhecida.
-Pélagué levantou-se, rapida, e correu á cosinha para abrir a porta:
-alguem avançava a passos largos. Sentiu-se perturbada, encostou-se ao
-umbral e empurrou a porta com o pé.
-
---Boa noite, mãesinha! E duas mãos magras e compridas poisaram-lhe nos
-hombros.
-
-Invadiu-a o desgosto da desillusão e ao mesmo tempo a alegria de tornar
-a ver o recemchegado, André. E estes dois sentimentos fundiram-se em
-immensa onda ardente que a arrebatou, atirando-a de encontro ao peito
-do russo-menor.
-
-Este abraçou-a com força; as mãos tremiam-lhe. Pélagué chorava
-brandamente, sem falar emquanto André lhe acariciava os cabellos,
-dizendo-lhe com a sua voz sempre cantante:
-
---Não chore, mãesinha, não fatigue o seu coração! Dou-lhe a minha
-palavra d’honra que em breve elle será posto em liberdade. Não teem
-nenhuma prova contra elle, os companheiros não deram com a lingua nos
-dentes.
-
-E envolvendo com os seus grandes braços os hombros de Pélagué levou-a
-para a maior divisão da casa; ella apertava-se contra elle com o
-movimento rapido e assustadiço d’um esquilo; depois aspirou com
-soffreguidão as palavras de André.
-
---O Pavel manda-lhe muitas recommendações. Está de saude e satisfeito
-quanto é possivel. Na cadeia não se vive á larga. Foram presas mais
-de cem pessoas, aqui e na cidade; mettem aos trez e aos quatro em
-cada cella. Nada ha a dizer da direcção da cadeia; não são maos; são
-apenas coagidos: os diabos da policia dão-lhes tanto que fazer!... Por
-consequencia a severidade é pouca. Dizem-nos constantemente: «Estejam
-mais socegadinhos, senhores, não nos dêem semsaborias!...» Assim, as
-coisas vão ás mil maravilhas. Podiamos falar uns com os outros, trocar
-os nossos livros, dividir a nossa comida. Que encantadora cadeia! É
-velha e suja, mas suave e levesinha. Os criminosos de direito commum
-eram tambem uma boa gente; prestavam-nos muitos serviços. Deram-me a
-liberdade e ao Boukine e ainda a mais quatro, porque os logares não
-chegavam. E dentro em breve hão de pôr na rua o Pavel. É mais do que
-certo. O Vessoftchikof é que ha de ficar por lá mais tempo, porque
-estão muito irritados contra elle. Insulta toda a gente, a todo o
-momento. Os guardas não o podem ver. Ha de acabar por ser julgado,
-se não lhe derem uma sova. O Pavel deligenceia socegal-o: «Cala-te,
-Nicolao; para que servem os teus insultos? Não consegues que elles se
-façam melhores!» Ao que responde aos berros: «Hei de arrancar da terra
-estas chagas!» O Pavel porta-se muito bem: é firme e ao mesmo tempo
-commedido com todos. Affianço-lhe que dentro em pouco pôem-no na rua.
-
---Dentro em pouco!... repetiu ella, sorrindo. Ah! sim! dentro em pouco!
-
---Verá! Vamos ao chásinho! O que tem feito n’estes ultimos tempos?
-
-André comtemplava-a risonho, muito proximo do coração d’ella. Na
-profundeza azul dos seus olhos redondos brilhava uma como estrella de
-amor e de tristeza.
-
---Quero-lhe muito, André! exclamou com um longo suspiro; e ficou-se
-olhando para o rosto magro d’elle, coberto de pellos.
-
---Um poucochinho já me bastaria. Sei que me estima, sim. Tem uma grande
-alma, pode estimar a todos.
-
---Não! Quero-lhe muito em especial. Se o André tivesse mãe, haveriam de
-invejar-lhe tal filho.
-
-Elle meneou a cabeça, esfregou vigorosamente as mãos, e disse a
-meia-voz:
-
---Eu tambem tenho mãe... tambem... algures...
-
---Sabe o que eu fiz hoje?
-
-E, com a voz tremula pela satisfação, contou vivamente como tinha
-conseguido metter os folhetos na fabrica.
-
-A principio, elle esbogalhou os olhos, surprezo; depois bateu na testa
-com o dedo e exclamou, cheio de alegria:
-
---Oh! mas isso é serio! o Pavel vae ficar radiante! Muito bem,
-mãesinha! Isso é tão util para o Pavel, como para os que foram presos
-com elle!
-
-Fazia estalar os nós dos dedos, satisfeitissimo, assobiava,
-balouçava-se na cadeira. A sua alegria eccoava poderosamente na alma de
-Pélagué.
-
---Meu querido André, quando penso na minha vida!... Ai! Meu Deus! Para
-que tenho eu vivido? Para trabalhar e levar pancada! Não via mais
-ninguem senão o meu marido; não conhecia mais nada do que o medo. Não
-vi como o Pavel cresceu... nem mesmo sei se o amava emquanto o meu
-marido era d’este mundo. Todos os meus pensamentos, todos os meus
-cuidados, pertenciam a uma coisa unica: alimentar aquelle animal
-selvagem, para que andasse satisfeito e cheio, para que não se zangasse
-e me poupasse á pancada, uma vez ao menos. Mas não me recordo de que
-elle compreendesse isto. Batia-me com tal violencia, que parecia
-estar castigando não a sua mulher, mas sim aquella contra quem andava
-irritado. Assim vivi vinte annos. Do que fui antes de casar nem já me
-lembro. Quando tento recordar-me, nada vejo: é como se estivesse cega.
-Com o Iégor Ivanovitch--somos da mesma aldeia--conversei ultimamente
-e a respeito d’estes e d’aquelles... recordava-me das casas, revia as
-pessoas, mas não me lembrava da maneira como viviam, o que diziam, o
-que lhes acontecera. Lembro-me dos incendios, de dois incendios... O
-meu marido tanto me bateu, que de mim saccudiu todas as recordações. A
-minha alma era hermeticamente fechada; tornou-se depois cega e muda.
-
-Resfolegou demoradamente, como um peixe fora d’agua; curvou-se para a
-frente, e continuou:
-
---Quando elle morreu, agarrei-me ao meu filho, que começou a
-preoccupar-se com essas coisas... Foi então que tive compaixão d’elle.
-«Como hei-de viver sósinha, se elle morrer?» perguntava a mim mesma.
-Quantos receios! quantas angustias! O meu coração despedaçava-se,
-quando eu pensava na sorte do Pavel!
-
-Calou-se por instantes, meneou a cabeça, e continuou:
-
---É impuro o nosso amor, o das mulheres! Amamos aquillo de que
-precisamos... Quando o vejo pensar em sua mãe... Que falta lhe faz
-ella? E aquelles que soffrem pelo povo, que são mettidos na cadeia ou
-mandados para a Siberia, que morrem ou são enforcados por lá... essas
-raparigas que andam sósinhas de noite por cima da neve, da lama, e á
-chuva, que andam sete kilometros para virem ver-nos... o que é que as
-leva a isto? É o amor, mas um amor puro! Teem a fé... a fé...! Eu não
-sei amar assim; amo o que me diz respeito, o que me é próximo!...
-
---Tem razão! Todos amam o que lhes fica ao alcance, mas, para uma
-grande alma como a sua, do longe faz-se perto. Pode amar muito, porque
-tem um grande amor materno.
-
---Deus queira! Sinto que ha-de ser bom viver assim. Por exemplo,
-estimo-o, André, talvez mais do que o Pavel... Elle é tão reservado!
-Olhe: quer casar com a Sachenka e nunca me disse uma palavra, a mim,
-sua mãe!
-
---Não é verdade! Sei que não é verdade! Ama-a, e ella tambem o ama.
-Quanto a casarem, não. Ella quereria, mas o Pavel...
-
---Ah!... exclamou ficando a olhar tristemente para André. É isso!
-Deve-se renunciar a si mesmo.
-
---O Pavel é um homem extraordinario! Um caracter de ferro.
-
---E agora... preso! Mas a minha alma transformou-se, abriu os olhos,
-vê. Emquanto houver ricos, poderosos, o povo não obterá justiça, nem
-alegria, nada! Não é isto, André?
-
-Elle levantara-se pensativo.
-
---É isso mesmo! Havia em Kertch um rapaz judeu que fazia versos, e que
-uma vez disse assim:
-
- Podem assassinar os innocentes,
- Que a força da verdade os resuscita!
-
-Elle mesmo foi assassinado pela policia, em Kertch, mas isso que
-importancia teve? Conhecia a verdade e semeára-a no coração dos homens.
-Ah! Pélagué! A sr.ᵃ é tambem uma creatura condemnada á morte...
-Resuscitou. O poeta sabia o que dizia.
-
---Falo, falo, e sinto-me, e não creio nos meus ouvidos. Hoje penso em
-todos. Não compreendo talvez muito bem isso em que andam mettidos...
-mas todos sinto proximo de mim, e desejo a felicidade de todos, a sua
-principalmente, meu André!
-
-Elle approximou-se dizendo:
-
---Obrigado. Não falemos mais de mim.
-
-E pegando-lhe na mão, apertou-a com força e voltou o rosto para o lado.
-
-Fatigada pela commoção, Pélagué começou de lavar a loiça vagarosamente,
-emquanto o russo-menor, passeando pelo quarto, ia falando.
-
---Mãesinha, deve tratar de amansar o Vessoftchikof! o pae está com elle
-na mesma cadeia; é um velhote repellente. Quando o filho o vê, pela
-janella, insulta-o. Não é bonito! O rapaz é bom, gosta dos cães, dos
-ratos, de todos os seres, menos dos homens! Ora veja até que ponto pode
-ser corrompida uma alma humana!
-
---A mãe desappareceu, sem dar novas nem mandados. O pae é um bêbedo...
-disse Pélagué, pensativa.
-
-Quando André foi deitar-se, fez-lhe no peito o signal da cruz, sem que
-elle désse por isso. Meia hora depois, perguntava, baixinho:
-
---Já dorme, André?
-
---Não. Porque?
-
---Nada. Boa noite.
-
---Obrigado, obrigado! respondeu, reconhecido.
-
-
-
-
-XVII
-
-
-Quando no dia seguinte ella chegou á porta da fabrica, carregada com o
-seu fardo, os guardas detiveram-na rudemente, mandaram-na pôr no chão
-tudo o que trazia e examinaram-na attentamente.
-
---Olhem que a sôpa arrefece! disse, tranquilla, emquanto a apalpavam
-sem ceremonia.
-
---Cala-te!
-
-O outro disse, dando levemente com o hombro no camarada.
-
---Se eu te affirmo que os atiram cá para dentro por cima do muro!...
-
-O velho Sizof foi o primeiro a approximar-se d’ella, perguntando-lhe em
-voz baixa:
-
---Ouviste?
-
---O quê?
-
---Os folhetos tornaram a apparecer. As prisões e as buscas não serviram
-para nada. O meu sobrinho Mazine está preso, o teu filho tambem, e
-afinal os folhetos continuam a ser distribuidos.
-
-E concluiu, passando a mão pela barba:
-
---O caso não está nas prisões, mas sim nos pensamentos. E os
-pensamentos não são coisa que se agarre como quem apanha pulgas. Porque
-não vens tu á nossa casa? É aborrecido tomar o chá sósinha.
-
-Agradeceu. Apregoando sempre, ia activando o movimento cheio de
-animação que havia na fabrica. Os operarios pareciam contentes;
-formavam-se grupos, as vozes eram excitadas; pairava no ar um como
-sopro d’audacia. Ora d’um canto, ora d’outro, partiam exclamações
-approvativas, gracejos pesados e até ameaças. A figura avantajada do
-Goussef apparecia aqui e ali; o irmão seguia-o, rindo. Um mestre
-marceneiro chamado Vavilof e o apontador Isaías passaram diante de
-Pélagué sem se apressarem. Este ultimo disse vivamente:
-
---Olha, Ivan Ivanovitch: riem, andam satisfeitos, embora o caso possa
-trazer a destruição do imperio, como disse o sr. director. O necessario
-não é mondar, mas sim semear.
-
-Vavilof, com os braços cruzados nas costas, apertava fortemente os
-dedos.
-
---Imprimam tudo o que quizerem, cães do diabo! mas não se mettam em
-falar da minha pessoa!
-
-Vassili Goussef approximou-se de Pélagué.
-
---Dá cá de comer. O que tu vendes é bom.
-
-Depois, baixaram a voz:
-
--- Vê, mãesinha, que o nosso fim está conseguido!
-
-Ella disse que sim com a cabeça. Sentia-se feliz por lhe falar em
-segredo aquella creatura que tinha tão má fama no bairro; e ao notar a
-efervescencia que ia pela fabrica, dizia a si mesma, satisfeita:
-
---E pensar que se não fosse eu!...
-
-Trez operarios pararam perto d’ella; um disse, a meia voz:
-
---Não encontrei...
-
---Se conseguissemos lêl-o!... Eu nem mesmo sei soletrar; mas percebo
-que elle é util.
-
-O terceiro, olhou em volta, e depois propôz:
-
---Vamos para o pé dos fornos de fundição; eu mesmo o leio.
-
---Os folhetos vão fazendo o seu effeito!... cochichou Goussef a Pélagué.
-
-Ella voltou para casa, satisfeitissima, pois tinha visto com os seus
-olhos que as proclamações attingiam o fim desejado.
-
---Os operarios lamentavam-se de serem ignorantes. Quando eu era
-rapariga, sabia ler, mas depois esqueci tudo.
-
---É tornar a aprender! disse André.
-
---Na minha idade! Isso até dava vontade de rir!
-
-Mas André pegou n’um livro e perguntou, apontando para uma lettra.:
-
---Que é isto?
-
---Um R! respondeu, rindo.
-
---E isto?
-
---Um A.
-
-E depois de compreender que o sorriso d’elle nada tinha humilhante nem
-ironico:
-
---Pensa, na verdade, eu instruir-me, André?
-
---E porque não? Tentemos. Já que uma vez aprendeu, ser-lhe-á agora
-facil. Se o conseguirmos, tanto melhor; se não, paciencia.
-
-E a lição continuou.
-
-Dedicando-se com toda a boa vontade; mexendo os sobrolhos, procurava
-recordar-se das letras esquecidas; tanto se mergulhára no estudo, que
-não se lembrava de nada mais; os seus olhos fatigaram-se dentro em
-pouco, e n’elles se accumularam as lagrimas que o cansaço provocava.
-
---Aprendo a ler! exclamou, soluçando... na hora em que só devia pensar
-na morte.
-
---Não chore! Ha milhares de creaturas que podiam instruir-se ainda
-mais, e todavia vegetam como brutos, embora se gabem de que vivem
-bem... E o que ha na sua existencia que seja bom? Sempre a mesma
-vida: trabalhar e comer. De vez em quando, fazem filhos: a principio
-acham-lhes graça, mas quando elles começam tambem a comer, entram de
-embirrar com elles, e dizem-lhes: «Vejam lá se crescem depressa, seus
-comilões, e se começam a trabalhar!» Nunca a sua alma é animada por
-uma alegria, por um pensamento que dê jubilo ao coração. Uns mendigam
-sempre, como os pobres, os outros fazem-se ladrões. Inventaram-se leis
-infames, entregaram a guarda do povo a umas creaturas a quem disseram:
-«Obriguem a que respeitem as nossas leis, que nos permittem sugar o
-sangue humano.» Se o homem não cede quando o comprimem, mettem-lhe á
-força, nos miolos, preceitos que brigam com a razão.
-
-Encostado á meza, fitava o olhar em Pélagué, continuando:
-
---Mas os outros, como o seu filho, são homens que libertam o corpo e o
-cerebro. E a mãesinha tambem se consagrou a esse trabalho, dentro das
-suas forças.
-
---Eu?!
-
---Sim. É como a chuva. Cada gotinha vae alimentar um grão de trigo. E
-quando souber lêr...
-
-Levantou-se; e a rir:
-
---O Pavel é que ha de ficar espantado, quando voltar!...
-
---Ah! meu André! Tudo é facil emquanto se é novo; mas quando se é
-velha...
-
-Á noite, o russo-menor saíu. Pélagué foi fazer meia, mas, de subito,
-fechando-se bem por dentro, tirou da estante um livro, encostou-se á
-meza, acurvou-se sobre elle, e os seus labios começaram a mover-se...
-Quando vinha da rua algum ruido, fechava o livro, a tremer, e punha o
-ouvido á escuta. E ficava-se a soletrar, mentalmente:
-
---L... A... V... I... A...
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-Bateram á porta. Foi pôr o livro na estante.
-
---Quem é?
-
---Eu.
-
-Rybine entrou. Tendo trocado os cumprimentos, alizou a barba
-demoradamente, olhou para o quarto, e disse:
-
---D’antes deixavas entrar toda a gente, sem perguntares quem era...
-Estás sosinha?
-
---Estou.
-
---Julguei que estivesses com o André. Vi-o hoje. A cadeia não corrompe
-o homem. O que corrompe mais do que tudo é a estupidez.
-
-Passou ao quarto e sentou-se.
-
---Venho dizer-te alguma coisa. Tive uma idéa...
-
-A sua gravidade e o seu ar misterioso sobresaltaram Pélagué, que se
-sentara diante d’elle.
-
---Tudo custa dinheiro! começou. Ninguem nasce nem morre gratuitamente.
-Ora os folhetos tambem custam dinheiro. Sabes d’onde elle vem para
-pagar os folhetos?
-
---Não sei.
-
---Nem eu. Em segundo logar: quem os compõe?
-
---Sabios...
-
---Gente que está acima de nós. Portanto são os grandes que compõem os
-folhetos. Ora se os folhetos são contra elles, que interesse teem elles
-em publical-os, gastando para isso o seu dinheiro?
-
-Pélagué fechou os olhos; e ao reabril-os:
-
---O que pensas? Dize!
-
---Ah! exclamou, movendo-se na cadeira como um urso. Senti tambem um
-calafrio quando me veio este pensamento!...
-
---O que ha então? Soubeste alguma coisa?
-
---É tudo um embuste! Entendo que é um embuste! Eu compreendo a
-verdade, e não quero entender-me com os ricos. Quando precisam de nós,
-atiram-nos para a frente, para que os nossos corpos lhes sirvam de
-ponte.
-
-Estas palavras acerbas confrangiam o coração da pobre velha.
-
---Ó Senhor! exclamava angustiada. E o Pavel que não compreendeu nada
-d’isso? Pois dar-se-á o caso de que todos aquelles, que vinham da
-cidade, fossem...?
-
-As fisionomias graves de Nicolao Ivanovitch, de Iégor, de Sachenka,
-appareceram-lhe na frente.
-
---Não! não!... Não posso acreditar. São creaturas animadas só pela sua
-consciencia, sem más intensões...
-
---Não é para esses que devemos olhar, mas para mais alto. Os que
-mais se nos approximam sabem naturalmente tanto como nós. Crêem que
-procedem bem... amam a verdade. Mas talvez que por de traz d’elles haja
-outros que não pensem da mesma maneira. O homem não trabalha contra si
-proprio, não tendo para isso fortes razões.
-
-E accrescentou, com a tacanha certeza do camponio, eivado de uma
-incredulidade secular:
-
---Das mãos dos grandes e dos illustrados nunca nos virá coisa bôa!
-
---O que resolves, então?
-
---Que não devemos alliar-nos aos que estão acima de nós! Ora aqui está!
-
-Tornou a calar-se, como se se dobrasse sobre si mesmo.
-
---Vou pôr-me a caminho. Desejava ter-me reunido aos companheiros e
-trabalhar com elles. Sirvo para isso; sou teimoso, e não muito parvo;
-sei lêr e escrever. E principalmente percebo o que se deve dizer a essa
-gente... Vou pôr-me a caminho; é o que devo fazer, já que não posso
-acreditar. Vou sósinho por essas cidades e aldeias a sublevar o povo, a
-quem cumpre correr á conquista da sua liberdade. Se souber compreender,
-encontrará para isso uma saída. Tentarei fazel-o compreender que em
-ninguem deve ter esperança senão n’elle proprio.
-
-Ella teve piedade de Rybine, a sua sorte assustava-a; parecera-lhe
-sempre antipathico; e n’aquelle momento sentia-o mais perto d’ella,
-mais familiar.
-
---O Pavel vae por um caminho... e elle vae por outro. O Pavel terá
-menos trabalho... murmurou involuntariamente, accrescentando: Serás
-preso!
-
-Rybine olhou para ella e replicou:
-
---Mas soltar-me-ão!
-
---A gente do campo será a primeira a entregar-te... e poderás ficar
-preso por muito tempo...
-
---Acabarei por vir para a rua, e voltarei á mesma. Quanto aos
-camponios, entregar-me-ão duas ou trez vezes, mas hão de acabar por
-compreender que farão melhor escutando-me. Dir-lhes-ei: «Não acreditem
-em mim: oiçam-me apenas!» E se me ouvirem, acabarão por acreditar-me.
-
---Vaes morrer!... disse tristemente a velha, meneando a cabeça.
-
-Elle fitou-a com um olhar cheio de interrogação. O seu corpo vigoroso
-estava inclinado para a frente; as mãos apoiavam-se na cadeira; o seu
-rosto moreno empallidecera, enquadrado na barba negra.
-
---Sabe o que Jesus disse do grão de trigo? «Não morrerá, mas
-resuscitará em uma nova espiga!» O homem é um grão de verdade... E eu
-ainda não estou ás portas da morte...
-
-Levantou-se, vagaroso.
-
---Vou ate á taverna. Quando o André voltar, repete-lhe o que eu te
-disse?
-
---Sim.
-
-Passaram á cosinha e trocaram algumas frases curtas, sem olharem um
-para o outro.
-
---Adeus...
-
---Adeus... Quando recebes a tua feria?
-
---Já a recebi.
-
---E quando partes?
-
---Amanhã de manhãsinha. Adeus!
-
-Curvou-se, e saíu um pouco assustado, como contra vontade. Durante uns
-momentos, a velha ficou á porta prestando o ouvido ao andar que se
-afastava... Depois foi até ao quarto e pôz-se a olhar pela janella.
-Densas trevas se apegavam ás vidraças, parecendo esperar o que quer que
-fosse que podesse tragar as suas fauces insondaveis.
-
---Vivo de noite! pensou. Sempre de noite!
-
-André chegou d’ali a pouco, animado, alegre. Quando a velha lhe falou
-de Rybine, exclamou:
-
---Parte?! Pois que vá! que vá espalhar pelas aldeias a verdade, e
-accordar o povo. Era-lhe difficil ficar comnosco. Tem na cabeça umas
-idéas especiaes, que não lhe deixam adoptar as nossas.
-
---Falou dos ricos, dos nobres, dos illustrados. Parece haver no caso
-alguma coisa torta!... disse ella prudentemente. Oxalá não sejamos
-enganados!...
-
---Isso dá-lhe cuidado, mãesinha? Ah! o dinheiro! não é? Vamos vivendo
-por conta d’outrem. O Nicolao Ivanovitch ganha setenta e cinco
-rublos por mez, e entrega-me cincoenta. Os outros fazem o mesmo. Os
-estudantes, que passam privações, cotisam-se tambem, e conseguem
-mandar-nos pequenas quantias, accumuladas kopeck a kopeck. É isto! Ha
-homens para tudo: uns enganam-nos, outros não nos deixam avançar; mas
-ha os melhores, os que nos acompanham no caminho da victoria!
-
-E esfregando as mãos:
-
---Mas o triunfo ainda vem longe, ainda! Emquanto não chega, vamos
-organisar um primeiro de maiosinho! Ha de ser divertido!
-
-As suas palavras e a sua animação tranquillisaram Pélagué. Elle,
-passeando a passos largos continuava:
-
---Se soubesse que extraordinaria sensação eu tenho ás vezes!...
-Parece-me que por toda a parte por onde vou, os homens são
-companheiros, incendidos na mesma fé, que todos são bons. Todos se
-compreendem sem precisarem de falar, ninguem offende o proximo. Vive-se
-em bôa harmonia, cada alma canta a sua canção, e, como regatos, todas
-as canções se reunem em um unico rio, que vae avançando, majestoso e
-grave, para o mar onde brilham os clarões da vida livre. E digo com os
-meus botões que isto ha de realisar se, que isto não póde deixar de
-ser, se nós quizermos que seja! E então o meu coração transborda de
-alegria; tenho vontade de chorar, tal é a minha felicidade!
-
-A velha nem se movia, para não o interromper. Escutara-o sempre mais
-attentamente do que aos seus companheiros porque elle falava com mais
-simplicidade, e as suas palavras iam mais fundo á alma. O Pavel tambem
-era para a frente que olhava, mas mantinha-se solitario e nunca dizia
-o que via. Parecia a Pélagué que André olhava sempre para o futuro
-com o coração: a lenda do triunfo de todas as creaturas surgia sempre
-nos seus discursos. E aos olhos de Pélagué aquella brilhante lenda
-illuminava lhe a compreensão da vida e do trabalho a que o filho e os
-seus companheiros se tinham entregado.
-
---É humilhante isto! exclamou elle de subito. Não se póde acreditar no
-homem. Precisamos até de temel-o e de odial-o. O homem desdobra se, a
-vida parte-o em dois. Como seria possivel amar somente? Como perdoar
-áquelle que se arroja sobre vós, como um animal selvagem? Impossivel!
-Não falo por mim. Supportaria todos os ultrages; mas não quero ter
-connivencia com os oppressores; não quero que se sirvam dos meus
-costados para aprenderem a bater nos outros.
-
-Uma expressão de frieza accudiu ao seu olhar, a voz tornou-se-lhe mais
-firme.
-
---Não devo perdoar o que seja mao, ainda quando não me prejudique. Não
-sou só eu na terra. Admittamos que hoje me deixo insultar sem responder
-ao insulto; hei de rir talvez, porque não me senti ferido; mas ámanhã
-o insultador, que experimentou em mim a sua força, vae tirar a pelle a
-outro. Por isto não devemos considerar toda a gente da mesma maneira;
-convem reprimir o coração, vêr quem são os inimigos e quem são os
-amigos. É justo, embora não seja divertido!
-
-Sem saber porquê, Pélagué pensou em Sachenka e no official. Disse com
-um suspiro:
-
---Como se ha de fazer pão com trigo que não foi semeado?
-
---Esse é o mal!
-
-No espirito da velha desenhava-se a figura de seu marido, semelhante a
-uma grande pedra coberta de musgo. Fantasiou André casado com Natacha,
-e o seu filho casado com Sachenka.
-
-O russo-menor e Pélagué tiveram muitas conversas d’este genero. Elle
-conseguira metter-se outra vez na fabrica, e entregava todo o seu
-dinheiro a Pélagué, que o acceitava naturalmente, como se fosse de
-Pavel.
-
-Ás vezes, com um sorriso no olhar, André propunha-lhe:
-
---Se nós aprendessemos a contar?...
-
-Ella recusava; o sorriso d’André acanhava-a. Pensava, um tanto vexada:
-«Se tu ris, para que havemos de falar n’isso?»
-
-Elle notou que a velha era mais frequente em pedir-lhe a significação
-de certas palavras; percebia que ella ia-se instruindo ás escondidas, e
-por isto deixou de insistir em ensinal-a.
-
---Vae-me faltando a vista, meu André; sinto-a cançada... disse-lhe, um
-dia. Gostava muito de usar uns oculos.
-
---Está dito! No domingo vamos ambos á cidade consultar um doutor que eu
-conheço, e compraremos depois os oculos.
-
-
-
-
-XIX
-
-
-Já por trez vezes ella sollicitara licença para ver o filho, recebendo
-sempre a negativa benevola do chefe dos guardas, um velho de cabellos
-brancos, faces escarlates e nariz comprido.
-
---D’aqui a uma semana, mulhersinha. Antes, não! Para a semana veremos.
-Hoje é impossivel.
-
---É muito delicado! contava ella a André. Sempre a sorrir!... Não me
-parece bem. Quando se é chefe, não se deve levar assim as coisas de
-brincadeira.
-
---Sim, sim... São amaveis, sorriem muito... Se lhes dizem: «Vê aquelle
-homem intelligente e honrado? É perigoso para nós: enforque-o!» Elles
-sorriem, enforcam-no, e depois continuam a sorrir.
-
---Aquelle que veio cá fazer a busca era mais simples, valia mais:
-via-se logo que era um canalha!
-
---Dir-se-ia que não são homens mas sim martellos, ferramentas, para nos
-talharem por forma a ficarmos ao gosto do governo. Elles proprios foram
-accomodados á mão que nos dirige...
-
-...A final, Pélagué obteve a ambicionada licença. No domingo, entrou
-na secretaria da cadeia e sentou-se modestamente a um canto. Havia
-mais visitas n’aquella casa acanhada e suja, de tecto baixo. Não era
-a primeira vez que se encontravam ali: conheciam-se uns aos outros. A
-conversa ia-se arrastando lentamente, a meia voz.
-
---Sabe? dizia uma mulherona já de alguma idade, e que tinha uma
-malêta nos joelhos. Esta manhã, á primeira missa, o mestre-capella da
-catedral, esteve outra vez quasi a arrancar uma orelha a um menino de
-côro.
-
-Um homem de meia idade, com o uniforme de soldado reformado, tossiu
-ruidosamente e replicou:
-
---Os taes meninos de côro são uns garotos!...
-
-Um homemsinho calvo, de pernas curtas, braços compridos, a maxilla
-proeminente, passeava d’um lado para o outro, com ares de preocupado.
-Sem parar dizia:
-
---A vida está cada vez mais cara; e é por isto que os homens nunca
-foram tão maos! A carne de vacca de primeira qualidade custa a quatorze
-kopecks o arratel, o pão dois kopecks e meio...
-
-De quando em quando, entravam prisioneiros, vestidos de cinzento, com
-grossos sapatos de coiro. Um d’elles trazia uma corrente no pé. Parecia
-que os visitantes estavam acostumados havia muito áquelle espectaculo.
-O coração de Pélagué tremia d’impaciencia; olhava perplexa para tudo o
-que a cercava.
-
-A seu lado estava uma velhinha com as faces enrugadas e com os olhos
-amortecidos. Prestava attenção á conversa, estendia o pescoço delgado e
-fugia a olhar para os assistentes, com uma expressão de irascibilidade.
-
---Quem tem a sr.ᵃ aqui? perguntou-lhe Pélagué com doçura.
-
---O meu filho, que é estudante! E a sr.ᵃ?
-
---Tambem o meu filho, operario.
-
---Como se chama elle?
-
---Vlassof.
-
---Não conheço. Está cá ha muito tempo?
-
---Ha sete semanas.
-
---E o meu ha dez mezes!
-
-E Pélagué, julgou perceber-lhe no tom da voz, o que quer que fosse
-parecido com o orgulho.
-
-Uma senhora alta, vestida de preto, de rosto comprido e pallido, disse
-vagarosamente:
-
---D’aqui a pouco mettem na cadeia todas as pessoas de bem. Já não as
-podem aturar.
-
---Sim, sim! replicou o velho calvo. A paciencia vae faltando. Toda a
-gente se zanga e clama, e tudo vae augmentando de preço. É por isto
-que as pessoas vão diminuindo de valor. E não apparece nenhuma voz
-conciliadora...
-
-A conversa generalisou-se e animou se. Cada qual formulava a sua
-opinião acerca da vida, mas todos falavam a meia voz; e Pélagué sentia
-n’aquellas palavras o que quer que fosse estranho. Em sua casa,
-falava-se d’outra maneira, d’uma maneira mais compreensivel, mais
-natural, mais aberta.
-
-Um guarda, de grande barba grisalha, gritou:
-
---A Vlassof!
-
-Mediu-a com o olhar e disse:
-
---Vem!
-
-E foi andando, arrastando os pés. A vontade de Pélagué era empurral-o
-para que elle andasse mais depressa. Afinal, n’um pequenito quarto,
-encontrou-se com Pavel, que lhe estendeu a mão, sorrindo.
-
-Ella agarrou-a, rindo muito, e dizendo:
-
---Bons dias! bons dias!
-
---Olá, mulher! exclamou o guarda. Afastem-se um pouco um do outro. É do
-regulamento.
-
-E bocejou.
-
-Pavel pediu á mãe noticias da sua saude, da sua casa. Ella esperava
-outras perguntas, procurava-as até, no olhar do filho, mas não as
-encontrou. Como sempre, elle apresentava-se tranquillo; apenas um pouco
-mais pallido; os seus olhos pareciam maiores.
-
---A Sachenka manda-te recommendações.
-
-As palpebras de Pavel estremeceram e abaixaram. O seu rosto
-dulcificou-se e brilhou com um sorriso.
-
---Pôr-te-ão em breve na rua? perguntou, irritada de subito. Por que
-foi que te prenderam? Sim porque afinal os taes folhetos voltaram a
-apparecer.
-
-Os olhos de Pavel tiveram um lampejo d’alegria.
-
---Serio?!
-
---É proíbido falar d’essas coisas! observou o guarda, indolente. Só se
-pode falar d’assuntos de familia.
-
---Ora essa! Então isto não é assunto de familia? perguntou ella.
-
---Sei lá! O que digo é que é proibido. Falem da comida, da bebida, da
-roupa lavada, e de mais nada! elucidou, continuando como indifferente.
-
---Está bem! Falemos da nossa casa, mamã? O que é que tu fazes?
-
---Levo comida aos operarios, comida e outras coisas! respondeu com
-audacia.
-
-Deteve-se e explicou melhor, depois de resfolegar:
-
---Sopa, carne assada, tudo o que Maria costuma cosinhar, e... toda a
-especie de alimento.
-
-Pavel compreendera. O rosto contraíu-se-lhe n’uma gargalhada abafada.
-Depois, carinhosamente:
-
---Minha querida mãe... Muito bem! muito bem! Sinto-me feliz, sabendo
-que tens tão bom emprego, que não te aborreces. Não é verdade que não
-te aborreces?
-
---E sabes? Revistaram-me toda quando os taes folhetos tornaram a
-apparecer! informou um tanto fanfarrona.
-
---Outra vez?! exclamou o guarda. Já lhes disse que é proíbido. Priva-se
-um homem da sua liberdade, para que elle não saiba do que vae lá por
-fóra, e vens tu, mulher, e começas a tagarelar!... Compreendam que o
-que é proíbido é proíbido!
-
---Está bem! não se fala mais n’essas coisas, mamã. O Matvé Ivanovitch é
-um bom homem: não devemos fazel-o zangar. Damo-nos bem um com o outro.
-É por acaso que elle assiste hoje ás entrevistas dos presos com os
-visitantes. Quem costuma assistir é o director. E o Matvé Ivanovitch
-receia que tu digas coisas... superfluas.
-
---Acabou o tempo da visita! disse o guarda, tendo consultado o seu
-relogio.
-
---Obrigado, mamã! muito obrigado, querida mãesinha! Não te dê cuidado,
-que dentro em pouco serei posto em liberdade.
-
-Abraçou-a com effusão; ella começou a chorar.
-
---Separem-se! ordenou o guarda; e, reconduzindo Pélagué, ia-lhe
-dizendo, resmungando:
-
---Não chore... Está aqui está na rua! Vão dar a liberdade a muitos...
-os logares são poucos... não cabem todos...
-
-Em casa, ella disse ao russo-menor:
-
---Falei-lhe... com geito... percebeu-me muito bem.
-
-E acrescentou com um suspiro:
-
---Percebeu-me, sim, se não, não me abraçava com tanta gana! Foi a
-primeira vez...
-
---Ah! todos desejam isto ou aquillo, mas as mães não desejam senão
-affagos!
-
-
-
-
-XX
-
-
-Uma noite, estando Pélagué a fazer meia e André lendo em voz-alta a
-historia da revolta dos escravos romanos, alguem bateu violentamente á
-porta. O russo-menor foi abrir, e Vessoftchikof entrou, com um embrulho
-debaixo do braço, o boné descaído para os olhos, e todo elle enlameado
-até aos joelhos.
-
---Passando na rua, vi luz cá dentro e bati á porta para a cumprimentar.
-Saí da cadeia agora mesmo!
-
-E apertando a mão de Pélagué:
-
---O Pavel recommenda-se muito.
-
-Deixando-se caír n’uma cadeira, hesitantemente olhou em volta, como de
-costume desconfiado.
-
-A sua cabeça angulosa e rapada e os seus olhitos tornavam no antipatico
-a Pélagué, o que não impedia que estivesse gostando de vel-o e que lhe
-dissésse, affectuosa:
-
---Emagreceste!... Ó André, vamos fazer-lhe o chá!
-
---Já cá estou preparando o samovar! respondeu da cosinha o russo-menor.
-
---E então como vae o Pavel? Vieram outros para a rua comtigo?
-
-Vessoftchikof respondeu abaixando a cabeça:
-
---O Pavel continúa preso... Encheu-se de paciencia... Para a rua vim só
-eu.
-
-E levantando o olhar, continuou vagaroso e com os dentes cerrados:
-
---É que eu disse-lhes: «Deixem-me ir embora, que já estou farto! senão
-mato o primeiro que puder, e suicido-me depois!» Ora!... foi logo! E
-fizeram bem, porque eu cumpria o que promettera!
-
---Sim, sim, creio!... balbuciou ella, afastando-se, com as palpebras
-tremulas, como sempre lhe acontecia quando fitava aquelle rosto
-bexigoso.
-
---E como vae o Fédia Mazine? perguntou da cosinha André. Continúa
-fazendo versos?
-
---Continúa! Quer dizer... não o percebo bem. Parece um pintasilgo:
-mettem-no na gaiola, e canta. O que sei é que não tenho nenhuma vontade
-de ir para casa.
-
---E tens razão. Vaes encontral-a vasia, o fogão apagado, tudo muito
-frio...
-
-Vessoftchikof calou-se, cerrou os olhos, depois, tirando da algibeira
-um masso de cigarros, começou a fumar, muito descansadamente. Com o
-olhar ia seguindo as nuvens de fumo que se esvaía por cima da sua
-cabeça; e de subito, rindo esganiçadamente como o uivar d’um cão:
-
---Sim, muito frio... Naturalmente, o chão está, cheio de baratas
-geladas, os ratos devem estar tambem mortos de fome... Pélagué
-Nilovna, dás licença que eu durma cá em casa?
-
---Está dito! respondeu logo. Sentia-se pouco á vontade; por isto não
-disse mais.
-
-Foi elle que murmurou em tom abatido:
-
---Estamos agora no tempo em que os filhos teem vergonha dos paes.
-
---O quê? perguntou ella, estremecendo.
-
---Não te apouquentes, que não falo de ti. Tu nunca envergonharás o
-Pavel. Eu é que me envergonho do meu pae... Não quero voltar para casa
-d’elle. Já não tenho pae, nem casa. Estou sob a vigilancia da policia,
-agora, se não ter-me-iam mandado para a Siberia. Creio que um homem,
-que não se poupasse a trabalhos, teria muito que fazer na Siberia...
-Daria a liberdade aos exilados, ajudal-os-ia a fugir...
-
-Graças ao seu coração sensivel, a velha percebia que o rapaz estava
-soffrendo, mas a sua dôr não lhe provocava a compaixão.
-
---Dizes bem. Sendo assim, seria melhor teres ido... André veio da
-cosinha.
-
---Que estás tu para ahi a cantar, homem?
-
-A velha ergueu-se.
-
---Vou arranjar alguma coisa para comer.
-
-Vessoftchikof olhou fixamente para o russo-menor e respondeu com
-firmeza:
-
---Digo que é preciso matar umas pessôas!...
-
---Ih!... E para quê? perguntou, tranquillo.
-
---Para que deixem de existir!
-
---Tens então o direito de transformar os vivos em cadaveres?
-
---Tenho!
-
---E onde foste buscal-o?
-
---Foram os homens que mo deram!
-
-O russo-menor, alto, magro, parou no meio do quarto, bamboleando
-o corpo; com as mãos nas algibeiras, observava dos pés á cabeça o
-bexigoso. Este, sentado e envolto n’uma nuvem de fumo, tinha n’aquelle
-momento o rosto palido salpicado de manchas vermelhas.
-
---Foram os homens que mo deram! repetiu, de punho cerrado. Desde que me
-dão pontapés, tenho o direito de responder, atirando-me aos focinhos,
-aos olhos... Se não me tocarem, eu não toco em ninguem. Deixem-me
-viver como quero, que eu viverei quieto, sem incommodar os mais. Juro!
-Supponhamos que quero viver n’uma floresta, construir uma cabana n’uma
-ravina, na margem d’um regato... e viver ali, sósinho...
-
---Pois faz isso! respondeu, encolhendo os hombros.
-
---Agora? Não! É impossivel! Estou ligado estreitamente aos homens
-até á morte! Ligaram o meu coração com o odio, prenderam-me a elles
-com o mal. É um laço muito solido. Odeio-os, e vá por onde fôr não
-os deixarei viver tranquillos. Incommodam-me, e eu incommodal-os-ei.
-Respondo por mim, só por mim; não posso responder por mais ninguem. E
-se o meu pae é um ladrão...
-
---Ah! exclamou repreensivamente André, em voz baixa, approximando-se.
-
---Ainda acabo por arrancar a cabeça ao Isaías Gorbof, verás!
-
---E porquê?
-
---Porque anda a espiar-me. Foi por causa d’elle que o meu pae se
-perdeu, é com elle que o meu pae conta para entrar para a policia
-secreta!
-
---Olhem o grande mal! Mas quem te censura, a ti, pela vida do teu pae?
-Isso é para os tolos!
-
---Para os tolos e para os não tolos! Olha: tu és intelligente, o Pavel
-tambem. Dize lá: teem por mim consideração igual á que teem pelo Fédia
-Mazine ou pelo Samoílof, ou um pelo outro? Não mintas, que não te
-acreditaria. Atiram-me para o canto!
-
---Tens a tua alma doente, amigo! respondeu André, affectuosamente,
-sentando-se ao lado d’elle.
-
---A vossa tambem soffre. Mas imaginam que as suas ulceras são mais
-nobres do que as minhas. Procedemos uns para os outros como canalhas! é
-o que te digo! O que respondes a isto, an?
-
-Fitou o olhar penetrante em André e esperou, com os dentes á mostra.
-O seu rosto palido estava impassivel; apenas lhe tremiam os labios
-grossos como se tivessem sido queimados e contraídos por algum liquido
-caustico.
-
---Nada te responderei! disse André acariciando o olhar hostil de
-Vessoftchikof com o sorriso luminoso e triste dos seus olhos azues. Sei
-demais que querer discutir com alguem, cujo coração está sangrando, é o
-mesmo que irrital-o. Sei, irmão.
-
---Não se pode discutir comigo; não sei discutir! resmungou, abaixando
-os olhos.
-
---Estou certo de que todos nós caminhámos como tu agora, com os pés
-descalços por cima de vidros partidos; que todos nós respirámos essas
-mesmas evaporações de horas sombrias...
-
---Não podes dizer coisa alguma que me socegue. Nada! A minha alma uiva
-como um lobo!
-
---Nem tenho tal intuito. O que sei é que isso ha de passar. Talvez não
-muito depressa; mas ha-de passar.
-
-E pôz-se a rir, batendo no hombro do rapaz:
-
---É uma doença de creanças, no genero da escarlatina, irmão. Todos nós
-fomos atacados do mesmo mal, com maior ou menor violencia, conforme
-eramos fortes ou fracos. Ataca a gente da nossa condição, quando nos
-encontramos sósinhos, quando não compreendemos ainda a vida, quando
-não vemos o logar que nos foi destinado. Parece-nos que somos o unico
-homem n’este mundo e que ninguem se importa comnosco, a não ser para
-nos devorar. Mais tarde, quando vires que ha tambem boas almas
-n’outros peitos alem do teu, consolar-te-ás... e envergonhar-te-ás de
-ter acreditado que só tu davas a nota afinada, e de ter querido trepar
-ao campanario sendo o teu sino tão pequeno, que ninguem o ouve na
-bimbalhada dos dias de festa. Perceberás então que és uma voz apenas
-perceptivel, mas necessaria, no côro poderoso e magnifico da verdade.
-Compreendes o que eu quero dizer?
-
---Compreendo... compreendo... Mas não te acredito!
-
---Tambem eu não queria acreditar...
-
-O bexigoso pôz-se então a rir com a bôca aberta até ás orelhas.
-
---Que é isso?
-
---Pensava que seria um grande parvo aquelle que te insultasse.
-
---E porque hão-de insultar-me? perguntou ainda André, encolhendo os
-hombros.
-
---Sei lá! O que digo é que o homem que te tiver insultado, ha-de ficar
-depois com uma linda cara de parvo!
-
---Era a isso que querias chegar!... commentou, rindo.
-
-Ouviu-se a voz de Pélagué:
-
---Venha, André! venha buscar o samovar.
-
-A sós, Vessoftchikof olhou em volta; estendeu a perna, observou
-as botas grossas; acurvou-se, palpando a barriga da perna; depois
-observou attentamente a palma e as costas da mão pelluda; levantou-a, e
-ergueu-se.
-
-Quando André trazia o samovar, o bexigoso, diante do espelho, acolheu-o
-com estas palavras:
-
---Ha quanto tempo eu não via o meu focinha!... Estou feio como o diabo!
-
---Que te faz isso?
-
---A Sachenka diz que o rosto é o espelho da alma...
-
---Qual historia! Tem o nariz de gancho, as faces agudas como bicos de
-tezoura, e todavia a sua alma é pura como uma estrella!...
-
-Sentaram-se para tomarem o chá e comerem. Vessoftchikof deitou a
-mão a uma grande batata, salgou um pedaço de pão e começou a comer
-tranquillamente, vagarosamente, como um lobo.
-
---E como vão as coisas por cá? perguntou com a bôca cheia.
-
-E, tendo ouvido as informações d’André:
-
---Tudo isso vae de vagar! É preciso ir mais de pressa.
-
---A vida não é um cavallo: não a fazemos andar ás chicotadas.
-
-Mas o bexigoso meneava a cabeça, obstinado.
-
---Vae devagar... vae... Eu não tenho grande paciencia... Que é preciso
-que eu faça?
-
---Devemos aprender a ensinar os outros. É este o nosso dever!
-
---E quando entraremos em lucta?
-
---Ignoro. Segundo a minha opinião, antes de pegarmos em armas,
-deveremos armar o nosso cerebro.
-
---O rapaz ficou silencioso, voltando a comer. Sem que elle percebesse,
-a velha observava-lhe o rosto picado das bexigas, tentando descobrir
-n’elle alguma coisa que a reconciliasse com aquelle caracter
-aggressivo; mas ao encontrar-lhe o olhar penetrante, ficava na mesma e
-movia os sobrolhos, desanimada.
-
-No seu intimo, os dois moradores do velho pardieiro sentiam-se como
-apertados, pouco á vontade, e lançavam de quando em quando olhares
-furtivos para o hospede.
-
-Até que este ergueu-se.
-
---Não me saberia mal deitar-me. Estive encarcerado por muito tempo,
-puzeram-me na rua de repente... vim por ahi adiante... Estou cançado.
-
-Quando elle foi para a cosinha, a velha cochichou a André:
-
---Tem uns pensamentos terriveis!...
-
---Não é um rapaz docil, não. Mas ha de passar-lhe. Eu tambem era assim.
-Quando o coração não aquece a valer, junta-se n’elle muita gordura...
-Vá deitar-se, mãesinha, que eu ainda vou ler um pouco.
-
-André ouviu-a resar n’um murmurio. Emquanto elle ia lendo, um tanto
-febrilmente, a pendula do relogio oscilava em cadencia, nas vidraças o
-vento gemia.
-
-A velha murmurava:
-
---Ó Senhor! quanta gente por este mundo, queixando-se conforme os seus
-males! Onde estão os felizes?
-
---Ha-os, sim; e dentro em breve serão em grande numero! ah! muito
-grande! respondeu elle.
-
-
-
-
-XXI
-
-
-A vida ia decorrendo rapida, de dias variados. Cada qual trazia novas
-a Pélagué, que não se perturbava com ellas. Cada vez eram mais os
-desconhecidos que vinham á noite conversar com André, e que, sempre
-desconfiados e cautelosos, se retiravam no meio das trevas, com a gola
-do casaco levantada, a pala do bonet sobre os olhos.
-
-Para Pélagué todos aquelles rostos, novos ou velhos, fundiam-se em um
-só rosto magro, calmo e decidido, de olhar profundo, carinhoso e severo
-ao mesmo tempo, como o de Jesus a caminho de Emmaús.
-
-Contava-os e imaginava-os cercando Pavel, como para tornal-o menos
-visivel aos seus inimigos.
-
-Uma noite, uma rapariga esperta, de cabello encaracolado, chegou da
-cidade, com um embrulho para André; e, ao saír, disse para Pélagué com
-um olhar brilhante e cheio d’alegria:
-
---Até á vista, companheira!
-
---Até á vista.
-
---E foi á janella para vêr a sua «companheira» pela rua abaixo, em
-passinhos meudos, fresca como uma flôr de primavera, ligeira como uma
-borboleta.
-
---«Companheira»!... Ah! minha queridinha! Deus te dê um bom companheiro
-por toda a vida.
-
-Notava por vezes nos que vinham da cidade aspectos variegados que lhe
-despertavam a simpatia; mas o que principalmente a impressionava era
-a sua simplicidade, o seu bello e tão generoso esquecimento de si
-proprios.
-
-Compreendia já muitas coisas que os visitantes discutiam; sentia, que
-de facto, elles tinham descoberto a verdadeira origem da desgraça
-dos homens, e ia-se acostumando a approvar as suas opiniões. Mas não
-acreditava que elles podessem transformar a existencia á sua maneira,
-nem que tivessem a sufficiente força de attraír a si todos os operarios.
-
-Regularmente, continuava levando folhetos para a fabrica, com o
-sentimento do dever cumprido; imaginava toda a especie de astucias;
-e os guardas, acostumados a vél-a, nem já lhe prestavam attenção.
-Todavia, revistavam-na por vezes, mas sempre nos dias seguintes a ter
-havido distribuição de folhetos. Quando não os levava, Pélagué sabia
-fazer-se notada, excitar a curiosidade dos guardas, que a detinham,
-ficando afinal com caras de tolos.
-
-Vessoftchikof não tornou a ser acceite na fabrica; metteu-se como
-operario n’uma estancia de madeira, e de manhã á noite guiava os
-carretos de traves, lenha, taboas. Os cavallos que puxavam a carroça
-iam como ás cegas, em risco de atropellarem quem passava, de irem de
-encontro ás outras carroças; o rapaz era perseguido por uma chuva
-de doestos e de imprecações. Sem levantar a cabeça, sem responder,
-assobiava estridentemente, e chicoteava, nos intervallos, resmungando:
-
---Toma! toma!...
-
-Sempre que havia reuniões em casa de André para a leitura d’um folheto
-ou do ultimo numero d’um jornal estrangeiro, Vessoftchikof apparecia,
-sentava-se e escutava sem dizer palavra, durante uma ou duas horas.
-Concluida a leitura, os novos discutiam; elle porem não entrava na
-conversa, e era o ultimo a saír.
-
-A sós com André, falava então com o seu modo sórna.
-
---Quem é o mais culpado de todos?
-
---Aquelle que foi o primeiro a dizer: «Isto é meu!» Mas como já morreu
-ha milhares d’annos, não vale a pena zangarmo-nos com elle! respondia
-André, gracejando.
-
---Mas os ricos e os poderosos? e os que os defendem? teem razão?
-
-O russo-menor apertava a cabeça entre as mãos, retorcia o bigode e
-falava durante muito tempo acerca da vida dos homens, com palavras
-simples e claras.
-
-Elle porém volvia:
-
---Não! Ha de haver culpados! Existem! Digo-te que é preciso revolvermos
-a vida toda, sem piedade, como um campo coberto de más hervas!...
-
---Foi o que o Isaías disse uma vez, falando do sr.... observou Pélagué.
-
---O Isaías?
-
---Sim. Que mau homem! Espia toda a gente... Vem até espreitar ás nossas
-janellas.
-
---Ás suas janellas?...
-
-Ella estava já deitada e não lhe podia vêr a cara. Mas percebeu que
-tinha falado de mais, quando André disse, em tom conciliador:
-
---Pouco importa que elle venha espreitar-nos. Não tem que fazer a essa
-hora: passeia.
-
---Qual! exclamou o rapaz! Ora ahi tens o culpado?
-
---Culpado de quê? de ser parvo?
-
-Mas o bexigoso não respondeu e saíu.
-
-Pélagué não dormia.
-
---Tenho medo d’elle! exclamou. Parece um fogão levado ao rubro: não dá
-calor, mas queima.
-
---Sim... é um garôto irascivel. Nunca lhe fale do Isaías, mãesinha.
-Esse tal Isaias é em verdade um espião... Pagam-lhe até para isso.
-
---Que admira? O seu melhor amigo é um agente de policia!
-
---O Vessoftchikof ainda acaba por torcer-lhe o pescoço! Veja que
-sentimentos os que mandam na nossa vida fazem nascer nas camadas
-inferiores. O que succederá quando aquelles que se parecem com este
-rapaz tiveram a consciencia da sua situação humilhante e perderem a
-paciencia? O ceu raiar-se-á de sangue, e a terra cobrir-se-á d’espuma,
-como se a tivesse invadido um musgo vermelho.
-
---É terrivel, meu André!
-
---Os nossos inimigos não terão o que merecem. Todavia, mãesinha, cada
-gottinha do seu sangue terá sido lavado préviamente pelos lagos de
-lagrimas que o povo chorou.
-
-E accrescentou, rindo:
-
---É justo, mas não é consolador!
-
-
-
-
-XXII
-
-
-Um domingo, quando a velha, voltando da mercearia, abriu a porta e
-appareceu no limiar, foi invadida por subita alegria, pois ouvira lá
-para o interior da casa, a voz de Pavel.
-
---Cá está elle! gritou André.
-
-Pélagué notou a rapidez com que o filho se voltou para ella e o brilho
-que lhe assomou ao rosto.
-
---Eis-te afinal na nossa casa! murmurou.
-
-Pavel avançou, muito palido, com pequeninas lagrimas bailando-lhe nos
-olhos, com os labios tremulos. Em silencio, os dois contemplavam-se.
-
---Obrigado, mamã! exclamou por fim, apertando-lhe a mão que estremecia.
-Obrigado, minha querida mãe!
-
-Commovida por aquellas palavras, ella acariciava-lhe os cabellos, e
-reprimindo as pulsações do coração, disse com doçura:
-
---Deus seja comtigo! O que me agradeces?
-
---O teu auxilio na nossa grande obra! Obrigado! É uma honra enorme para
-o homem poder dizer que sua mãe tambem é sua parenta pelo espirito.
-
-Não respondeu, aspirando, soffrega, as palavras do filho,
-contemplando-o, como em extasi perante aquelle rosto que lhe parecia
-tão luminoso.
-
---Eu calava-me, mamã, porque percebia que certas coisas da minha vida
-te impressionavam; tinha piedade da tua alma, e nada podia fazer que
-lhe fosse agradavel. Imaginava que nunca te juntarias a nós, que nunca
-seguirias as nossas opiniões, que continuarias a supportar tudo, em
-silencio, como o tinhas feito em toda a tua vida. E isto custava-me
-muito.
-
---O André deu-me a compreender tantas coisas!... observou, desejando
-chamar André ao sentimento do filho.
-
---Contou-me tudo o que tu fazias! disse, rindo.
-
---O Iégor tambem. Somos da mesma aldeia. Olha o André quiz ensinar-me a
-ler.
-
---E tu tiveste vergonha e pozeste-te a estudar sósinha, ás escondidas.
-
---Espreitou-me, então! notou, contrafeita. Mas que é d’elle? Foi-se
-d’aqui, para nos deixar á vontade. Chama-o, que elle... não tem mãe.
-
---André! Onde estás tu?
-
---Aqui. Vou rachar lenha.
-
---Tens tempo. Anda cá.
-
---Lá vou.
-
-Não veio logo; e á porta, observou, dando importancia ao caso:
-
---É preciso dizer a Vessoftchikof que traga lenha, que já ha pouca.
-Vê como a cadeia fez bem ao Pavel? Em logar de punir os revoltados, o
-governo engorda-os.
-
---Ainda não comeste!... Vamos jantar, Pavel! propoz ella.
-
---Não. O guarda vigilante informou-me hontem de que tinham resolvido
-pôr-me em liberdade, e logo perdi a vontade de comer. A primeira pessoa
-que encontrei por cá foi o velho Sizof. Apenas me viu, atravessou a rua
-para me falar. Aconselhei-o a ser mais prudente, porque eu estou sob
-a vigilancia da policia. «Que tem isso?» foi a sua resposta. E sabes
-o que me perguntou acerca do sobrinho? «O Fédor tem-se portado bem
-na cadeia?» E eu: O que entende por isso de portar-se bem? «Ora!...
-não dar com a lingua nos dentes a respeito dos companheiros!» Quando
-lhe disse que elle era um bom rapaz e intelligente, passou a mão pela
-barba, e disse com altivez: «Nós, os Sizof, não temos patifes na
-familia!»
-
---Não tem nada de tolo, esse velho. E o Fédia vem para a rua por estes
-dias?
-
---Provavelmente. Creio mesmo em que virão todos. Não ha provas contra
-nós. Apenas o depoimento do Isaías... Mas o que pode elle saber?
-
---Sentemo-nos! disse Pélagué, servindo o jantar.
-
-Comendo, André referiu-se a Rybine. Quando acabou de contar o que se
-tinha passado, Pavel murmurou, com muito pezar:
-
---Se eu cá estivesse, não o teria deixado partir assim. O que leva na
-sua alma? Um sentimento de revolta e umas idéas embrulhadas...
-
---Ora! disse André, sorrindo. Quando um homem tem quarenta annos e
-luctou durante muito tempo contra as dúvidas e as hesitações da sua
-alma, é difficil transformal-o.
-
-Discutiam, empregando termos que a velha não compreendia, até ao fim do
-jantar, embora por vezes falassem mais a claro.
-
---Devemos continuar no nosso caminho, sem nos desviarmos d’elle nem uma
-linha! exclamou Pavel com firmeza.
-
---E esbarrarmos no caminho com dezenas de milhões de homens que nos
-consideram seus inimigos.
-
-Pélagué poude concluir que Pavel não gostava dos camponezes, ao passo
-que André os defendia, entendendo ser preciso ensinar-lhes o bem.
-Compreendia melhor André. Sempre que elle dizia qualquer coisa a Pavel,
-prestava muita attenção, deixando mesmo de respirar, esperando com
-impaciencia a resposta do filho, para ver se o russo-menor o teria
-offendido. Mas os dois continuavam discutindo sem se zangarem.
-
-De quando em quando, perguntava:
-
---É assim, Pavel?
-
-E elle respondia, sorrindo:
-
---É.
-
---Com que então o senhor, dizia André, em tom de malicia, comeu bem,
-não mastigou bastante e ficou embatocado?...
-
---Não digas tolices!
-
---Eu. Estou mais serio do que n’um enterro!
-
-E a velha ria...
-
-
-
-
-XXIII
-
-
-Approximara-se a primavera, ia-se derretendo a neve, descobrindo a lama
-e o suor engordorado das chaminés da fabrica, que ella havia occultado
-sob a sua camada branca.
-
-Dia a dia, a lama tornava-se mais aggressivamente apparente, todo o
-bairro parecia immundo e envolto em farrapos. O sol mostrava-se mais
-a miude, e os regatos ainda indecisos começavam a dirigir-se para o
-pantano. Ao meio-dia, a canção cariciosa das esperanças primaveris
-palpitava pairando sobre o bairro.
-
-Andavam em preparação as festas do primeiro de maio.
-
-Pela fabrica e pelo bairro todo tinham sido espalhados muitos folhetos,
-explicando a significação d’aquellas festas. Até a gente nova, que nada
-tinha de commum com os socialistas, dizia ao lêl-os:
-
---É preciso tratar d’isso!
-
-Vessoftchikof resmungava com o seu sorriso sorna:
-
---E não é cedo. O jogo das escondidas dura ha muito tempo!
-
-Fédia Mazine rejubilava. Tinha emagrecido e o nervosismo dos seus
-gestos e das suas palavras lembravam uma cotovia que estivesse mettida
-n’uma gaiola. Acompanhava-o sempre Jacob Somof, rapaz taciturno, muito
-grave apezar de novo, e que trabalhava então na cidade. Samoílof, cujos
-cabellos e barba pareciam terem-se avermelhado ainda mais na cadeia,
-Vassili, Goussef, Boukine, Dragounof e outros julgavam indispensavel
-munirem-se de armas; mas Pavel, o russo-menor, Somof e os seus amigos
-não eram da mesma opinião. Iégor chegou então, como sempre fatigado,
-offegante, e coberto de suor. Disse de brincadeira:
-
---A transformação da organisação actual é uma grande obra,
-companheiros, mas para que ella caminhe mais facilmente é necessario...
-que eu compre um par de sapatos para a minha pessoa!
-
-E mostrou as botas rotas e que mettiam agua.
-
---As minhas galochas estão na mesma, tambem muito doentes; todos
-os dias molho os pés. Não quero descer ao seio da terra sem ter
-renegado do velho mundo, d’uma maneira bem publica e visivel. Eis
-porque, regeitando a moção do companheiro Samílof relativamente a uma
-demonstração de força armada, proponho que me calcem com um bom par
-de valentes botas, porque estou convencido de que serão mais uteis ao
-triumpho da nossa causa do que a maior das sarrafuscas!
-
-Pavel disse uma vez, falando de Iégor:
-
---Sabes, André, aquelles que mais riem, são aquelles cujo coração mais
-soffre.
-
-Depois de um curto silencio, o outro respondeu:
-
---Qual historia! Se assim fosse, toda a Russia morreria de riso!
-
-Natacha appareceu tambem; estivera na cadeia, n’outra cidade, mas não
-mudara d’aspecto. Pélagué notou que, quando ella estava presente, o
-russo-menor ficava mais alegre, brincava com todos, com uma malicia
-sem maldade que provoca as gargalhadas da rapariga, e que, quando ella
-se ia embora, elle entrava de assobiar tristemente as suas innumeras
-canções, passeando pela casa, arrastando os pés.
-
-Sachenka vinha a miude, sempre apressada, tornando-se dia a dia mais
-acre, mais angulosa.
-
-Uma vez que Pavel tinha saído para acompanhal-a, sem fechar a porta
-apoz si, Pélagué ouviu-lhes estas phrases:
-
---É o sr. que levará a bandeira?
-
---Sou.
-
---É caso resolvido?
-
---É o meu direito!
-
---Não seria possivel...?
-
---O quê?
-
---...deixar que fosse outro...?
-
---Não!
-
---Reflicta. O sr. tem tanta influencia... estimam-no tanto... Aqui
-os chefes são o André e o sr. Quantas coisas poderão fazer, estando
-livres!... Reflicta. São capazes de exilal-o... para muito longe e por
-muitos annos!...
-
-Estas palavras, cujo sentimento Pélagué estava entrevendo, caíam-lhe no
-coração como pingos d’agua gelada.
-
---Não! estou decidido. Não renunciarei por coisa alguma n’este mundo!
-
---Ainda que eu lhe pedisse...?
-
-Pavel interrompeu-a rapidamente, tendo na voz uma severidade especial:
-
---Não deve falar assim. No que está pensando?
-
---Sou uma creatura humana!... murmurou, defendendo-se.
-
---Uma excellente e meiga creatura! disse elle em voz baixa e como se
-lhe custasse respirar. Uma creatura que me é querida... muito querida!
-E é por isto mesmo que não deve falar assim!
-
---Adeus!
-
-E pelo ruido dos seus passos, a velha percebeu que ella ia correndo.
-Compreendeu que nova desgraça a ameaçava, e no cerebro cravou-se como
-um prego esta interrogação: «O que será preciso fazer?»
-
-Ao entrar na cosinha, Pavel avançou para André que lhe perguntou:
-
---E aquelle desgraçado do Isaías?
-
---Devemos aconselhal-o a que renuncie á espionagem.
-
---Denunciará aquelles que tal lhe aconselharem.
-
---Que pensas fazer, Pavel? perguntou-lhe a mãe, desviando o olhar.
-
---Quando? agora?
-
---Não: no primeiro de maio.
-
---Ah! quero levar a nossa bandeira. Pôr-me-ei á frente do cortejo, com
-a bandeira em punho. Naturalmente mettem-me outra vez na cadeia.
-
-Os olhos de Pélagué tornaram-se como candentes, a bôca foi-lhe invadida
-por uma secura febril. O filho pegou-lhe na mão e ameigou-a:
-
---Assim é preciso, mãe. A honra está n’isto mesmo.
-
---Eu não disse nada... balbuciou.
-
---Deverias regosijar-te, em vez de entristeceres-te.
-
---Eu não disse nada... Não me opporei... Se tenho pena de ti, é
-natural... e fica comigo...
-
-Pavel afastou-se, e ella ouviu-o resmungar palavras acerbas:
-
---Ha affeições que impedem o homem de viver!
-
-Receando que elle dissesse peor, exclamou vivamente:
-
---Não fales assim, Pavel! Compreendo. Tens que fazer o que tencionas,
-por causa dos companheiros.
-
---Não! Por minha propria causa! Poderia proceder d’outra forma, mas não
-quero! Hei-de ir!
-
-André parou no limiar; parecia mettido n’uma moldura: era mais alto
-do que a porta e curvava os joelhos caricatamente, com um dos hombros
-encostados a um umbral, e com a cabeça e o outro hombro estendido para
-a frente.
-
---Seria melhor que o sr. tagarellasse menos!
-
-Parecia um lagarto semi-occulto na fenda d’um rochedo.
-
-A velha tinha vontade de chorar, mas, não querendo que Pavel a
-surpreendesse, disse de repente:
-
---Ah!... ia-me esquecendo...
-
-E retirou-se, rapida. Sob o alpendre, encostou a cabeça á parede, e deu
-livre curso a todo o seu pranto. As palavras dos dois amigos chegavam
-até lá.
-
---Divertes-te em atormental-a! dizia André.
-
---Não tens o direito de falar-me assim!
-
---Não seria um bom companheiro, se me calasse ao ouvir as tuas
-estupidas cabriolices! Para que respondeste tão rudemente á tua mãe?
-
---Deve-se falar sempre com firmeza, seja a quem fôr!
-
---Á tua propria mãe?
-
---A todos! Dispenso qualquer amor ou amisade que me detenham no meu
-caminho.
-
---Que heroe! Á Sachenka é que devias falar assim.
-
---Foi o que fiz.
-
---Com essa rispidez? Não creio! Havias de falar-lhe com uma voz
-carinhosa, terna... É como se estivesse a ouvir-te! Guardas o teu
-heroísmo para quando a tua mãe está presente. Pois fica sabendo,
-animal, que o teu heroísmo não vale nada!
-
-Pélagué receou que a discussão se azedasse; limpou rapidamente as
-lagrimas e appareceu, dizendo:
-
---Oh! que frio que faz! E é isto a primavera!...
-
-E, nos arranjos domesticos, deu alguns passos pela casa, voltando de
-novo á cosinha.
-
-Apóz um silencio, André approximou-se de Pavel.
-
---Percebeste-a?... Tem mais coração do que tu.
-
---Querem chá? perguntou a velha.
-
-E sem esperar resposta, accrescentou logo:
-
---É que estou transida de frio.
-
-Pavel dirigiu-se a ella, com um sorriso a tremer-lhe nos labios.
-
---Perdôa, mãe... Sou ainda uma creança... um garôto...
-
-Ella estreitou-o a si.
-
---Não me ralhes mais. Não me digas mais nada. Deus seja comtigo,
-filho! Segue lá a tua vida, mas não bulas no meu coração. Como não
-haveria de uma mãe ter piedade do seu filho? Tenho piedade de todos...
-
---Está bem, mamã. Perdôa. Fiz mal.
-
-E afastando-se, enleado:
-
---Nunca mais o esquecerei, palavra d’honra!
-
-Passando á cosinha, Pélagué disse a André, que se conservara á porta:
-
---Não ralhe com elle. Bem sei que o André é mais velho, mas...
-
-Elle não se moveu, e pôz-se a berrar comicamente:
-
---Ora! ora! ora! Ralho... e até lhe chego, se calhar!
-
-A velha apertou-lhe a mão commovida.
-
---Meu bom amigo!...
-
-André entrou na cosinha, e, continuando no mesmo tom ironico:
-
---Desapparece, Pavel, se não queres que eu te torça o pescoço. Por
-emquanto, não, porque estou arranjando o samovar! Oh! que pessimo
-carvão! Está molhado, com mil diabos!
-
-Calou-se. Quando a viu perto de si, foi dizendo, baixinho, todo
-entretido no seu trabalho:
-
---Não tenha medo, mãesinha, que não lhe tocarei nem com um dedo! Sou
-simplorio como um nabo cosido. E gosto muito d’elle. Olha tu é que
-não deves dar ouvidos ao teu heroe! Anda como se tivesse estreado um
-collete garrido: com o peito espetado, empurrando em toda a gente para
-que lhe vejam bem o collete... É bonito, lá isso é; mas para que diabo
-empurra elle o proximo?
-
-Pavel disse de lá:
-
---Ainda estás resmungando? E approximou-se logo.
-
-André, sempre sentado no chão, tinha posto entre as pernas o samovar e
-contemplava-o. Pélagué, encostada á porta, fixava o olhar na nuca e no
-farto pescoço do russo-menor. Elle então deitou o corpo para traz, com
-as mãos apoiadas no chão, e, depois de ter observado a mãe e o filho:
-
---Em verdade, olhem que são muito boa gente!
-
-Pavel abaixou-se para lhe pegar n’um braço.
-
---Não puxes por mim, que me fazes caír!
-
---Para que se zangam? perguntou ella tristemente. Não seria melhor que
-se abraçassem?
-
---Queres?... murmurou Pavel.
-
---Porque não?
-
-Pavel ajoelhou-se e os dois homens abraçaram-se, unindo-se n’uma só
-alma, animada da mais quente amisade.
-
-Pélagué chorava; era porem um pranto sem amargor. Enxugando os olhos,
-balbuciou:
-
---As mulheres gostam de chorar... de tristeza... e de alegria...
-
-André afastou o amigo, e esfregando os olhos:
-
---Basta! basta! Que diabo de carvão! Tenho os olhos cheios d’elle!
-
-Pavel sentara-se junto da janella, e murmurou:
-
---Lagrimas como estas não devem envergonhar.
-
---Sim! Acabámos de viver uns momentos de uma boa vida, humana, replecta
-de amor! exclamou André.
-
-Ao que a mãe observou:
-
---Tudo está mudado! O pezar é outro... outra é a alegria... já nem
-sei... já não sei o que me faz viver... faltam-me as palavras...
-
---Tudo está mudado. E assim é que deve ser! acudiu André. E sabe
-porquê? Porque se desenvolve na vida um coração novo, mãesinha.
-Os corações estão todos elles despedaçados pela diversidade dos
-interesses, roídos pela cega avareza, mordidos pela inveja, cobertos
-de chagas e de feridas purulentas... de mentira, de covardia. Os
-homens são uns doentes, que teem medo de viver... perdidos como
-em um nevoeiro... conhecendo apenas a sua propria dor. Mas eis que
-apparece um homem que illumina a vida com o fogo da razão e que
-grita: «Eh! pobres insectos perdidos! Chegou o tempo de compreender
-que tendes todos os mesmos interesses e o mesmo direito á vida e ao
-desenvolvimento!» O homem que clama está isolado, sente-se triste e
-tem frio sósinho. E ao seu chamamento, todos os corações se reunem,
-formando um coração immenso, forte, sensivel como um sino de prata. E
-este sino diz assim: «Uni-vos, homens de todos os paízes, formae uma
-unica familia! A mãe da vida é a affeição e não o odio!» Irmãos, eu
-oiço este sino!
-
---E eu tambem! disse Pavel.
-
---Deitado, de pé, vá para onde fôr, oiço-o e sinto-me feliz. Eu sei:
-a terra está farta de supportar a injustiça e a dôr; éccôa como se
-quizesse responder, saúdando o novo sol que desponta no peito do homem!
-
-Pavel ergueu um braço, ia falar; mas a mãe deteve-o, e disse baixinho:
-
---Não o interrompa.
-
---Sabem? ha ainda muitas dores reservadas aos homens; ainda muito
-sangue lhes será arrancado por mãos ávidas. Mas tudo isto, toda a
-minha dor e todo o meu sangue, nada são perante o que já possuo no meu
-cerebro, na minha medula, nos meus ossos! Já sou rico como uma estrella
-é rica em scintillações. Supportarei tudo, porque tenho em mim uma
-alegria, que ninguem nem coisa alguma matará, e que é a minha força!
-
-E até á meia noite, a conversa proseguiu, harmonica e sincera, acerca
-da vida, dos homens, do futuro.
-
-
-
-
-XXIV
-
-
-De manhã muito cedo, apenas André e Pavel tinham sido, Maria Korsounova
-bateu á janella com estrondo.
-
---O Isaías foi assassinado! Vamos ver!
-
-Pélagué estremeceu: o nome de assassino atravessou-lhe o peito como uma
-flécha.
-
---Quem o matou?
-
---O assassino fugiu!
-
-Tendo posto um chale, á pressa, Pélagué foi ter com ella á rua.
-
---Naturalmente começam outra vez a fazer buscas. Ainda bem que a tua
-gente não saíu de casa áquella hora. Posso tesmunhar. Á meia noite
-passei eu por aqui, olhei pela janella e vi-os a todos trez sentados á
-meza.
-
---Mas, Maria, porque haveriam de accusal-os? perguntou aterrorisada.
-
---O assassino é forçosamente dos vossos! Todos sabem que o Isaías os
-espionava...
-
-Pélagué parou, offegante, com a mão no peito.
-
---Que é isso? Não tenhas medo. O Isaías não merecia outra coisa. Vamos
-depressa, que não chegamos a tempo.
-
-A pobre velha caminhava sem mesmo perguntar a si propria para que ia
-ver o cadaver; tremia pensando em Vessoftchikof: «Conseguiu o seu fim!»
-
-Não distante da fabrica, sobre o entulho d’uma casa recentemente
-destruida por um incendio, grande ajuntamento de povo murmurava como
-uma nuvem de bezouros, e movia-se levantando em poeira a cinza com
-os seus passos. Já lá estavam muitas mulheres, ainda mais creanças,
-lojistas, os moços da taverna proxima, agentes de policia, o guarda
-Pétline, um guarda velho, de barbas brancas como prata, e com o peito
-coberto de medalhas.
-
-Isaías estava meio deitado no chão; tinha as costas apoiadas a uma
-trave enegrecida pelo fogo, a cabeça descaída para o ombro direito.
-Conservava a mão direita na algibeira das calças; os dedos da esquerda
-desappareciam contraídos sob a terra fôfa.
-
-Pélagué olhou para o rosto do morto. Um dos olhos tinha-o elle fixado
-no boné posto entre as pernas estendidas, a boca entreaberta n’uma como
-expressão d’assombro; a barbicha ruiva pendia. O corpo magro, com a
-cabeça ponteaguda, e o rosto ossudo coberto de manchas avermelhadas,
-parecia diminuido, comprimido pela morte.
-
-Ella então benzeu-se suspirando. Em vida, aquelle homem fôra-lhe
-antipatico; morto, fazia-lhe dó.
-
---Não tem sangue! disse alguem. Talvez o prostrassem aos murros.
-
---Talvez ainda esteja vivo.
-
---Vão-se d’aqui! berrou o guarda.
-
---O medico já veio, e disse que elle estava morto!
-
---Fecharam a boca a um denunciador... Foi bem feito!
-
-O guarda afastou as mulheres que o cercavam e perguntou ameaçadoramente:
-
---Quem é que falou?
-
-Muitos recuaram; outros deitaram a fugir. Ouviram-se risos escarninhos.
-
-Pélagué voltou para casa.
-
---Ninguem tem dó d’elle!... ia pensando.
-
---E o perfil macisso do bexigoso erguia-se na sua frente; os seus olhos
-tinham um brilho frio e rude; a sua mão direita balouçava, como se
-estivesse ferida.
-
-Quando André e Pavel entraram para o jantar, perguntou-lhes logo:
-
---E então? Não está ninguem preso por causa do Isaías?
-
---Não ouvi nada... respondeu o russo-menor.
-
-Ella notou que os dois vinham sombrios e reservados.
-
---Não falam do Vessoftchikof?... avançou.
-
-O filho encarou-a com severidade e respondeu, accentuando muito as
-palavras:
-
---Não! Ninguem pensa n’elle. Está ausente. Hontem ao meio dia, partiu a
-caminho da ribeira e ainda não voltou... Tirei informações...
-
---Deus seja louvado! exclamou ella com um suspiro d’alivio.
-
-Ao jantar, Pavel deixou caír de repente a colher no prato e disse:
-
---Não entendo isto!
-
---O quê? perguntou André, até ali triste e silencioso.
-
---Admitto que matem um animal feroz, uma ave de rapina... Julgo-me
-capaz de matar um homem que se tornasse uma fera para os seus
-semelhantes. Mas como ha quem possa levantar a mão para assassinar uma
-creatura miseravel e repugnante?
-
-André encolheu os hombros, e depois:
-
---Elle era tão nocivo com uma fera.
-
---Sei...
-
---Nós tambem esborrachamos o mosquito que nos suga um pouco de sangue...
-
---Sim, é verdade. Não é esse o meu ponto de vista. Digo que é
-repugnante!
-
---Que se ha de fazer? e encolheu outra vez os hombros.
-
---Poderias matar uma creatura d’aquellas? perguntou Pavel depois de
-curta pausa.
-
---O russo-menor fitou-o, lançou um rapido olhar a Pélagué, e respondeu
-tristemente mas com firmeza:
-
---Se se tratasse de mim só, não tocaria em ninguem. Pelos companheiros,
-pela nossa causa, faria tudo. Mataria até meu proprio filho, se preciso
-fosse!
-
---Oh!... suspirou Pélagué.
-
-Elle sorriu, concluindo:
-
---Impossivel proceder d’outra maneira! É a vida que assim o quer!
-
-Como se obedecesse a um impulso intimo, André ergueu-se de repente.
-
---Que se ha de fazer? É-se obrigado a odiar o homem, para que venha
-mais cedo o tempo de admiral-o sem reservas. Temos que destruir
-aquelle que obsta ao curso da existencia, que vende os outros para
-adquirir honrarias ou o descanso. Se encontramos no caminho dos justos
-um Judas que nos espera para nos traír, eu proprio seria um traidor,
-se não o anniquilasse. É crime? É contra o direito? E os outros, os
-nossos senhores, com que direito se servem de soldados e carrascos,
-de casas publicas e de prisões, do degredo e de tanta coisa infame
-para protegerem a sua segurança e o seu bem-estar? Os nossos senhores
-assassinam-nos ás centenas, aos milhares; isto dá-me o direito de
-levantar a mão e de deixal-a caír na cabeça d’um inimigo, d’aquelle
-que mais se approximou de mim e que mais me prejudica na vida. Sei que
-o sangue dos meus inimigos não cria, que é esteril... Desapparece sem
-deixar vestigios, porque está podre; ao passo que quando o nosso rega
-a terra como uma chuva compacta, a verdade desenvolve-se exhuberante!
-Tambem o sei! Mas se vir que é indispensavel matar, matarei e
-revindicarei a responsabilidade do meu crime. Não falo senão de mim. O
-meu peccado morrerá comigo, não maculará o futuro com uma unica nódoa,
-não manchará ninguem, ninguem senão eu!
-
-Cheia de tristeza e de inquietação, Pélagué sentia que elle tinha como
-que uma mola partida no seu espirito, e que soffria. Não a inquietava
-já o caso do assassinio: não tendo sido Vessoftchikof, nenhum outro
-companheiro de Pavel o seria, por certo.
-
-André proseguia:
-
---Tempo virá em que os homens se admirarão uns aos outros, em que
-cada qual brilhará como uma estrella, em que escutará a voz do seu
-semelhante, como se fosse uma musica. Haverá na terra homens ricos,
-grandes pela sua liberdade, tendo todos o coração aberto, purificado
-de qualquer ambição ou interesse. A vida será então um culto prestado
-ao homem; a sua imagem será exhaltada porque para os homens livres
-todas as alturas são accessiveis. Viver-se-á então na liberdade e na
-egualdade, pela belleza; os melhores serão os que mais souberem abarcar
-o mundo no seu coração, os que mais o amarem! E por esta vida assim,
-estou prompto a tudo. Arrancaria o coração a mim proprio, e pizal-o-ia,
-com os meus pés!
-
-O seu rosto tremia; as suas feições tinham uma excitação luminosa; uma
-a uma, as lagrimas deslisavam-lhe pelas faces.
-
-Pavel levantou a cabeça e contemplou-o. Pélagué sentia-se inquieta, com
-um vago e terrivel presentimento.
-
---O que tens, André? perguntou Pavel, a meia-voz.
-
-Elle esticou o corpo, e fitando a velha:
-
---Eu vi... eu sei...
-
-Pélagué levantou-se, correu a elle, pegou-lhe nas mãos.
-
---Socega, André! meu filho!... socega!... murmurava.
-
---Esperem!... Quero dizer-lhes como a coisa foi...
-
---Não! não! accudiu ella, com os olhos razos d’agua.
-
-Pavel approximou-se d’elle, com as mãos trémulas e muito pálido, e
-segredou-lhe:
-
---A minha mãe receia que tivesses sido tu...
-
-Ella porem ouviu, e disse:
-
---Não receio, não. Sei que não foi elle. Ainda que tivesse sido, não
-acreditaria.
-
---Oiçam... pediu André, sem os fitar e buscando libertar as mãos que
-Pélagué não abandonava. Não fui eu... mas poderia ter evitado o crime.
-
---Cala-te, André! exclamou Pavel, pondo-lhe a mão no hombro, como para
-fazer cessar a tremura que lhe abalava todo o corpo.
-
-O russo-menor explicou então:
-
---A coisa foi assim: quando nos deixaste, ficamos á esquina, eu e o
-Dragounof. O Isaías appareceu de repente... e conservou-se afastado...
-Troçava de nós, observando-nos... Dragounof disse-me: «Não vês!
-Anda-me a espiar todas as noites. Ainda venho a dar-lhe uma lição!»
-E afastou-se para entrar em casa, ao que julguei... Então o Isaías
-chegou-se a mim...
-
-Suspirou:
-
---Ninguem me insultou mais rélesmente do que aquelle cão!
-
-Sem falar, Pélegué fôra conseguindo puxal-o para junto da meza até
-obrigal-o a sentar-se.
-
---Disse-me que todos nós eramos conhecidos da policia, que tinha os
-olhos em nós, e que antes do primeiro de maio estariamos servidos!...
-Não respondi, limitei-me a rir-me, mas cá por dentro começava a ferver.
-Disse-me depois que eu era um rapaz intelligente, que não deveria
-metter-me a taes caminhos...
-
---Percebo!... murmurou Pavel.
-
---Isso! Acabou por dizer-me que seria melhor eu entrar ao serviço da
-policia...
-
-E de punho cerrado erguido:
-
---Que alma infame a d’aquelle homem! Mais valia que me houvesse
-esbofeteado! ter-me-ia custado menos! e talvez fosse melhor para elle.
-Perdi a paciencia quando assim me cuspiu no coração a sua saliva
-infecta! Dei-lhe um muro em pleno rosto, e retirei-me. Ouvi uma voz
-atraz de mim: «Fizeste muito bem!» Era Dragounof, que por certo tinha
-ficado occulto na esquina. Não olhei para traz, apezar de sentir, de
-compreender a possibilidade... Ouvi depois um ruido, mas não fiz caso.
-Eu ia tão tranquillo como se tivesse acabado de esmagar um sapo. Quando
-cheguei á fabrica, dizia toda a gente: «Mataram o Isaías! Não quiz
-acreditar. A minha mão é que teve a culpa... Não sou senhor d’ella...
-Não me faz soffrer, não... mas dir-se-ia que a sinto retraída agora...
-
-Lançou á mão um olhar rapido e exclamou:
-
---Não conseguirei nunca laval-a d’esta mancha!
-
---Tenhas tu bem puro o teu coração!... disse Pélagué chorando.
-
---Não me accuso, não! declarou elle com energia. Mas é repugnante...
-Não é agradavel ter esta lama cá dentro no peito!
-
---Que pensas fazer?
-
---O que quero fazer?
-
-E depois de reflectir, de cabeça baixa, ergueu-a e respondeu com amargo
-sorriso:
-
---Não tenho medo de dizer que fui eu... mas tenho vergonha do que fiz!
-Não! não posso dizel-o! Tenho vergonha!
-
---Não te percebo bem! exclamou Pavel, encolhendo os hombros. Não foste
-tu quem matou; e ainda que...
-
---Irmão, apezar de tudo, era um homem. O assassinio é coisa repugnante.
-Saber que alguem assassina, e não o impedir... é talvez uma covardia
-infame!
-
---Continúo sem perceber!
-
-Ouviu-se o apito da fabrica. André deixou tombar a cabeça para o
-hombro, escutando aquelle auctoritario chamamento e disse:
-
---Não quero ir trabalhar.
-
---Nem eu!
-
---Quero ir tomar um banho!
-
-Vestiu-se á pressa e saíu.
-
-Pélagué seguiu-o com um olhar de compaixão; depois abriu-se com o filho.
-
-Podes dizer o que quizer, Pavel. Sei que é peccado matar um homem, mas
-n’este caso não encontro culpa em ninguem. Lembro-me de que o Isaías me
-ameaçou uma vez com a forca para ti... Eu não lhe queria mal, nem me
-alegro por elle ter morrido... Tinha apenas dó d’elle... E agora... nem
-mesmo isso já sinto...
-
---Ahi tens o que é a vida, mãe!
-
-
-
-
-XXV
-
-
-Alguem acabava de chegar sob o alpendre. Mãe e filho entreolharam-se,
-estremecendo.
-
-A porta abriu-se e deu entrada a Rybine. Trazia vestida uma capa curta,
-de pelles, toda manchada de alcatrão, e nos pés sapatos de canhamo; do
-cinto pendiam-lhe grosseiras luvas de lã preta; na cabeça um boné de
-pelles.
-
---Como vão de saúde? Puzeram-te na rua, Pavel? E tu, Pélagué, como vaes?
-
---Ah! és tu? muito estimo ver-te!
-
---Olha que vens mesmo lindo! disse Pavel.
-
-Rybine respondeu, tirando vagarosamente a capa:
-
---Sim. Fiz-me camponez. Tu e os teus vão-se transformando pouco a pouco
-em senhores; eu ando para traz.
-
-E passando ao quarto, lançou o olhar em roda.
-
---Não teem mais mobilia do que d’antes. Os livros é que augmentaram.
-São o melhor bem que se pode possuir hoje. Como vão as coisas por cá?
-Conta-me.
-
-Sentou-se abrindo muito as pernas, apoiou as palmas das mãos nos
-joelhos, parecendo satisfeito na espectativa da resposta de Pavel.
-
---Vão bem.
-
---Muito me alegro! muito me alegro!
-
---Queres chá? perguntou a dona da casa.
-
---Pudera! e um copinho de aguardente... e se me offerecessem de comer,
-tambem não recusaria. Estou contente por tornar a vêl-os!
-
---E como vae?
-
---Bem. Parei em Eguildiévo. Conhecem? É uma bella villa, com duas
-feiras por anno e mais de dois mil habitantes. Má gente. Não ha
-terras para cultivar; arrendam-nas, mas são de má qualidade. Entrei
-como assalariado ao serviço de um explorador do povo; não faltam
-d’estas sanguesugas; são como as moscas á roda de um cadaver. Fazemos
-carvão, extraímos alcatrão das bétulas. Trabalho duas vezes mais do
-que trabalhava aqui, e ganho quatro vezes menos. Ao serviço d’esta
-sanguesuga somos sete, todos lá da terra, menos eu. Sabem ler e
-escrever. Um delles, chamado Jéfim, é muito bulhento...
-
---E fala muito com elles?
-
---Está claro. Levei comigo todos os meus folhetos. Tenho trinta e
-quatro. Mas prefiro servir-me da Bíblia: encontra-se lá tudo o que se
-quer, e é um livro permittido, publicado pelo Santo-Synodo, e no qual
-se pode crer.
-
-Piscou o olho, malicioso, e continuou:
-
---O peor é que não basta. Vim cá buscar leitura. Como vamos fazer uma
-entrega d’alcatrão, o tal Jéfim e eu, combinámos a patuscada de passar
-por tua casa... Dá cá livros antes que elle appareça... É inutil que
-elle fique sabendo...
-
-Pélagué observava-o; parecia-lhe que ao largar a capa, largara tambem
-qualquer coisa da sua pessôa: estava menos grave do que d’antes, e
-havia no seu olhar mais astucia.
-
---Mamã, vae buscar os livros. Dize que vão para o campo, que logo sabem
-o que te hão de dar.
-
---Irei apenas o samovar esteja pronto.
-
---Quero livros proíbidos e bem incisivos. Distribuil-os-ei ás
-escondidas. E se o padre ou alguem da policia os descobrir, imaginarão
-que os mestres-escolas é que fazem a propaganda. De mim ninguem
-suspeitará.
-
-Satisfeito por este achado, desatou a rir.
-
---Olha sabes? disse Pélagué. Tens assim o aspecto de um urso, e afinal
-és uma raposa!
-
-Pavel ergueu-se, em tom de censura:
-
---Dar-lhe-emos os livros que deseja, mas o que pensa fazer não lhe fica
-bem.
-
---E porquê?
-
---Porque se deve responder sempre pelo que se faz.
-
---Não percebo o que dizes!
-
---Acha bem que os mestres-escolas sejam mettidos na cadeia como
-suspeitos de fazerem propaganda?
-
---Então? que tem isso? Essa é boa! Os livros são coisa que lhes dizem
-respeito, a elles; portanto elles que tenham a responsabilidade!
-
-Pélagué interveio, mostrando-se da opinião de Rybine, ao que Pavel
-objectou:
-
---Se qualquer de nós, o André por exemplo, praticasse uma infracção da
-lei e me mettessem na cadeia, a mim, o que diria a minha mãe?
-
---Ah! ah! É um caso melindroso!... exclamou Rybine. Mas assumindo uns
-ares doutoraes:
-
---Ainda és muito ingenuo, irmão! Não nos devemos preoccupar com casos
-de honra, quando trabalhamos por uma causa secreta. Reflecte: quem
-primeiro caírá na cadeia será a pessoa a quem forem encontrados os
-livros, e não o mestre. Depois, o texto dos livros auctorisados que
-os mestres distribuem é o mesmo dos livros proíbidos, com simples
-differenças de palavras e com menos coisas verdadeiras do que os
-nossos. Portanto os mestres teem o mesmo fim que eu, mas servem-se de
-rodeios, ao passo que eu vou por caminho direito; e assim, aos olhos
-das auctoridades, somos igualmente culpados; não achas? Em terceiro
-logar, que tenho eu a ver com os mestres-escolas? Não procederia da
-mesma maneira com um camponez. O mestre-escola é um filho de padre;
-a mestra uma filha de proprietario; não sei porque se põem a querer
-levantar o povo. Eu, camponez, não posso conhecer os seus pensamentos
-de pessôas instruidas. Sei o que faço, mas ignoro o que elles querem.
-Durante milhares d’annos, os grandes eram verdadeiros senhores e
-tiravam a pelle do povo; de repente accordam e começam a abrir os olhos
-ás suas victimas. Nunca tive predilecção por contos de fadas, e este
-é um d’elles. Para mim, a gente rica e instruida, seja qual fôr, fica
-afastada de nós. No inverno, quando atravessamos os campos e vemos ao
-longe alguma coisa a mexer, perguntamos a nós mesmos: será uma raposa,
-um lobo, um cão? Sabe-se lá o que é!
-
-E, passando a mão pela barba:
-
---Não tenho tempo para delicadezas. O momento é grave. Trabalhe cada
-qual, segundo a sua consciencia... Todas as aves teem o seu canto
-especial.
-
---Mas ha ricos que se sacrificam pelo povo, que passam toda a vida na
-cadeia... observou a velha, recordando-se de pessoas amigas.
-
---Com esses o caso é outro. Quando o homem do povo enriquece,
-acotovella-se com os senhores. Estes, quando empobrecem, tornam-se
-amigo do povo. Quando a algibeira está vasia, a alma torna-se pura, á
-força.
-
-Ergueu-se e continuou, sombriamente:
-
---Durante cinco annos, desacostumei-me do campo, andando errante de
-fabrica em fabrica. Quando para lá voltei e vi o que se passava,
-disse comigo que não podia viver como vivem os camponezes. Percebes?
-Parecia-me impossivel. Por cá não se conhece a fome, nem a muita
-humilhação. Mas na aldeia a fome segue o homem como uma sombra
-durante toda a vida, sem nunca lhe dar a esperança de obter pão que
-chegue. A fome devorou as almas, apagou as feições humanas; não se
-vive: apodrece-se irremediavelmente na miseria. E as auctoridades
-vigiam, cuidadosas; como os corvos, espreitam, não se dê o caso de
-que o camponez tenha um bocado de pão a mais. Quando o descobrem,
-arrancam-lho da mão, e ainda lhe dão com elle na cara!
-
-Encostado á mesa, de pé, falando muito perto de Pavel, proseguiu:
-
---Julguei que não poderia supportar semelhante vida. Todavia,
-dominei-me. Disse com os meus botões: «Não devo consentir que a minha
-alma me faça partidas! Ficarei aqui, e, não podendo dar pão aos
-camponezes, farei a zaragata!»
-
-Com a fronte coberta de suor, exclamou:
-
---Dá-me livros que não deixem mais em descanso aquelles que os lerem.
-Ajuda-me! É preciso metter ouriços dentro da cabeça d’aquella gente.
-Dize aos que escrevem folhetos para os da cidade, que os escrevam
-tambem para os do campo. Que os escrevam de maneira a regar o campo de
-agua a ferver, para que os cultivadores, depois de lel-os, caminhem
-para a morte sem protestarem!
-
-As frases vigorosas de Rybine impressionavam Pélagué. Havia n’aquelle
-homem o que quer que fosse que lhe recordava o marido: um e outro
-mostravam os dentes e arregaçavam as mangas, com a mesma irritação
-impaciente. Ao menos, Rybine falava.
-
---Sim! é indispensavel! disse Pavel. É indispensavel organisar um
-jornal para o campo. Dê-nos o assumpto, narre-nos os factos, e nós lhe
-daremos um jornal.
-
-Ao que Rybine respondeu.
-
---Está dito! Mas escrevam com simplicidade, para que até os vitellos os
-entendam!
-
-
-
-
-XXVI
-
-
-Pélagué tinha saído. Pouco depois alguem entrava.
-
---É o Jéfim! informou Rybine. Entra! Anda cá. Este homem, que vês aqui,
-chama-se Pavel. Foi d’elle que eu te falei.
-
-Jéfim era um rapagão de cara ampla, cabellos ruivos, olhos pardos,
-robusto e bem talhado, trajando uma capa curta. Avançou até Pavel, de
-boné na mão e olhar baixo.
-
---Ora viva! resmungou, apertando a mão de Pavel, e tendo percorrido o
-quarto com o olhar, demorando-o na estante dos livros, poz-se a alisar
-com a mão os cabellos asperos.
-
---Já os viu! exclamou Rybine.
-
-Jéfim foi ver os livros mais de perto.
-
---Ih! quantos ha por cá! E naturalmente lê-os muito. No campo, não
-temos tempo...
-
---E pouca vontade, não? perguntou Pavel.
-
---Ao contrario! Hoje somos obrigados a pensar, se não, não nos resta
-mais do que deitarmo-nos e esperarmos a morte. Como o povo não quer
-morrer, poz-se a trabalhar com o cerebro. «Geologia?...» O que é isto?
-
-Pavel explicou.
-
---Não precisamos d’isso! concluiu Jéfim pondo o livro no seu logar.
-
-Rybine commentou:
-
---O camponez não tem curiosidade de saber d’onde veio a terra, mas
-sim como foi distribuida, como os proprietarios a arrancaram de sob o
-dominio do povo. Que ella se mova ou não, que importa! comtanto que dê
-de comer!
-
---«Historia da escravatura!» Isto é com a gente?
-
---Aqui tem um acerca da servidão.
-
---É já muito velho.
-
---Possue algumas terras?
-
---Somos trez irmãos, e temos quatro hectares... terreno de areia fina.
-Coisa fresca, para limpar metaes! mas para cultivar o trigo... Eu cá
-libertei-me da terra. Não sustenta o homem, antes o traz manietado. Ha
-quatro annos que me alugo como manufactor... Para o outomno vou para a
-tropa.
-
-O Mikhaíl diz-me que não vá, porque obrigam os soldados a baterem no
-povo. Mas vou, por força! É tempo de acabar com isto. Que lhe parece?
-
---É tempo, é... respondeu Pavel, sorrindo. Mas o difficil está em saber
-falar aos soldados.
-
---Aprende-se!
-
---Mas se o apanham em flagrante, podem fuzilal-o.
-
---Sim... não me perdoarão... respondeu tranquillamente, voltando a vêr
-os livros.
-
---Vamos ao chásinho, companheiro, que temos que abalar! disse Rybine.
-
-André entrou muito vermelho, encalorado e taciturno. Apertou a mão de
-Jéfim, sem falar, assentou-se ao lado de Rybine, e, depois d’olhar para
-elle, sorriu.
-
---Pareces triste, homem! Porquê? perguntou aquelle dando-lhe uma
-palmada no joelho.
-
---Porque sim!
-
-Jéfim, observava attentamente André, até que disse:
-
---Os trabalhadores das cidades e villas são magrizellas, teem os ossos
-a romper a pelle. Nós cá, os do campo, somos mais roliços...
-
-Rybine completou:
-
---O camponez tem mais firmeza nas pernas. Sente a terra debaixo dos
-pés, ainda que não lhe pertença. Mas o operario é como um passaro: não
-tem patria, nem lar; um dia aqui, outro dia ali.
-
-Pélagué entrou. Jéfim tinha-se approximado de Pavel a quem pediu:
-
---Poderia dar-me um livro?
-
---Da melhor vontade.
-
-O jubilo brilhou-lhe no olhar.
-
---Eu restituo depois. Obrigado! Hoje, os livros são tão precisos como á
-noite uma candeia.
-
-Rybine tinha posto a capa.
-
---Vamos, que são horas.
-
---Olha: já tenho que ler! exclamou Jéfim, mostrando-lhe o livro, com um
-sorriso muito aberto.
-
-Quando elles saíram, Pavel dirigiu-se a André.
-
---Que me dizes áquelles diabos?
-
---Parecem nuvens á hora do crepusculo: grossos, sombrios, arrastando-se
-lentamente...
-
---Tenho pena de que não chegasses mais cedo. Terias observado um
-coração, tu, que estás sempre a falar de coração. Rybine disse das
-suas... Não soube que responder-lhe. A minha mãe tem razão: aquelle
-homem traz em si uma força terrivel!
-
---Conheço isso! Essa gente do campo anda envenenada! Quando se
-revoltarem, derrubarão tudo, sem distincção. Querem a terra
-absolutamente sua, e arrancarão tudo o que a cobre.
-
-Falava de vagar; percebia-se que pensava n’outra coisa. Pélagué
-disse-lhe com blandicia:
-
---Deves espairecer, André!
-
---Deixe, mãesinha, deixe... Embora eu não quizesse tel-o feito, a acção
-foi abominavel!
-
-E voltando ao assumpto da conversa:
-
---O nosso camponez queimará tudo, como se tivesse havido uma peste,
-para que todos os vestigios das suas humilhações vôem com as cinzas.
-
---E levantar-se-á depois contra nós... continuou Pavel.
-
---O nosso dever é não lho consentir, reprimindo-o! Somos nós quem se
-encontra mais perto d’elle. Acreditar-nos-á... seguir-nos-á!
-
---Sabes? O Rybine pediu-me que fizessemos um jornal para os camponezes.
-
---Apoiado! É tratar d’isso.
-
-E depois de commentar as ultimas palavras de Rybine, ergueu-se, dizendo:
-
---Vou dar um passeio ao campo.
-
---Depois do banho? Olha que faz muito vento... Vaes arranjar uma
-irritação na pelle! accudiu Pélagué.
-
---Deixal-o! Quero saír.
-
-Vestiu-se e foi-se sem dizer palavra.
-
---Soffre! suspirou a velha.
-
---Tens um bello coração, mamã!
-
---Oxalá assim seja! Se ao menos podesse ajudal-os!... se eu soubesse!...
-
---Não te dê cuidado: has-de saber.
-
-O russo-menor voltou tarde; estava fatigado; deitou-se logo, dizendo:
-
---Parece-me que andei uns dez kilometros...
-
---Isso vae melhor?
-
---Não sei... Não faças barulho... Deixa-me dormir.
-
-Pouco depois, Vessoftchikof appareceu, sujo, esfarrapado e de mao-humor
-como sempre.
-
---Não sabes quem matou o Isaías?
-
---Não! respondeu Pavel.
-
---Até que houve um homem que não achou antipatico esse feito! E eu que
-me preparava para torcer-lhe o pescoço!...
-
---Não digas essas coisas, companheiro!
-
-Pélagué interveio:
-
---És bom e tens sempre palavras tão crueis!... Para quê?
-
-Era-lhe então agradavel tornar a vêl-o; o seu rosto bexigoso chegava
-até a parecer-lhe bonito; sentia mais piedade por elle.
-
---Eu não sirvo para nada, senão para taes emprezas! Pergunto
-constantemente qual é o meu logar. Não o encontro. Se é preciso
-falar... não sei... Vejo tudo, sinto todas as humilhações dos homens, e
-não posso exprimil-as. Tenho uma alma muda. Irmãos, dêem-me um trabalho
-penoso, seja qual fôr. Não posso viver assim, sem fazer nada em favor
-da nossa causa.
-
-Pavel pegou-lhe n’uma das mãos.
-
---Havemos de pensar em ti, descansa.
-
---André disse lá da cama:
-
---Ensinar-te-ei a conhecer as letras d’imprensa, e serás um dos nossos
-compositores; queres?
-
---Se me ensinares, dar-te-ei de presente uma navalha.
-
---Vae para o diabo mais a tua navalha!
-
---Uma navalha bôa! insistia.
-
-André e Pavel riram á larga. Elle parou no meio do quarto, perguntando:
-
---Estão a rir-se de mim?
-
---Então de quem?
-
-E o russo-menor saltou da cama.
-
---Se fossemos dar um passeio pelo campo? A noite está bôa, ha luar.
-Vamos?
-
---Pois vamos! apoiou Pavel.
-
---E eu tambem vou. Gosto de ouvir rir o André!
-
---E eu gosto que me promettas presentes!
-
-
-
-
-XXVII
-
-
-...Os dias decorriam com tal rapidez que não deixavam que Pélagué
-pensasse no primeiro de maio. Só á noite quando se deitava, fatigada
-dos trabalhos e preoccupações, é que o seu coração se confrangia, e o
-seu cerebro a fazia monologar:
-
---Se ao menos já tivesse passado!...
-
-Todas as noites as folhas impressas convidando os operarios a
-festejarem o primeiro de maio eram colladas até á porta das estações
-policiaes; todas as manhãs appareciam tambem na fabrica. Os policias
-percorriam o bairro logo de manhãsinha e arrancavam das paredes os
-pequenos cartazes côr de violeta; mas pelo meio dia elles tornavam a
-apparecer espalhados pelo chão. Da cidade vieram policias da secreta
-que ás esquinas espiavam os menores movimentos dos operarios que iam e
-vinham, animados, alegres, pelas ruas.
-
-Era um prazer disfructar a impotencia da policia; até a gente de idade
-dizia, sorrindo:
-
---Tem graça isto!
-
-Pavel e André quasi não dormiam. Regressavam a casa, palidos,
-fatigados, pouco antes do apito da fabrica soltar a sua estridula
-chamada. Pélagué sabia que elles organisavam reuniões na floresta, no
-pantano; não ignorava que a policia trabalhava para abafar o movimento,
-chegando até a prender alguns operarios; compreendia que todas as
-noites o filho e André se arriscavam a serem presos, e chegava a pensar
-que talvez isto fosse melhor.
-
-Em volta do assassinio de Isaías tinha-se feito um silencio
-extraordinario. A policia interrogou a principio umas dez pessoas;
-depois desinteressou-se do assunto.
-
-Um dia, Maria Korsounova, que vivia em paz com a policia como com toda
-a gente, dizia:
-
---É lá possivel encontrar o criminoso!... N’aquella manhã mais de cem
-pessoas viram o Isaías, e pelo menos noventa tel-o-iam esganado de bôa
-vontade.
-
-...André transformava-se a olhos visto. As faces tinham-se-lhe
-encovado; as palpebras descaíam-lhe cerrando-lhe os olhos; sorria
-menos; das narinas descia-lhe uma ruga até ao canto dos labios.
-Todavia entusiasmava-se mais, falando do futuro, da festa luminosa e
-deslumbrante do triunfo da liberdade e da razão.
-
-Falando de Isaías, declarou:
-
---Quanto mais penso n’elle, mais dó me causa. Não queria que o
-matassem, não! não queria!
-
---Acaba com isso! disse Pavel.
-
-Pélagué acrescentou:
-
---Houve quem topasse n’um tronco pôdre, que se desfez em pó.
-
-...Chegou emfim o dia tão impacientemente desejado: o primeiro de maio.
-
-Como de costume, o apito da fabrica fez-se ouvir auctoritario,
-implacavel. Pélagué levantou-se d’um salto e foi accender o samovar,
-que ficára preparado de vespera.
-
---Ouves, Pavel? Chamam por nós... disse André.
-
---E nós levantamo-nos! respondeu Pavel alegremente.
-
---Já faz sol... e as nuvens vão-se embora. Seriam de mais, hoje!
-
-Ao vêl-o perto de si, a velha supplicou-lhe:
-
---Meu André, não te afastes d’elle!
-
---Está dito! Andaremos sempre juntos. Descanse.
-
---Que estão a dizer? perguntou Pavel.
-
---Nada. É a mãe que quer que eu me lave mais que de costume, porque as
-raparigas hoje vão olhar muito para mim!
-
-Pélagué pensava: «Elles agora estão de brincadeira; mas o que
-acontecerá ao meio dia?»
-
-Á meza, tomando o chá, André contou:
-
---Quando eu era um garoto de dez annos, tive um dia a ambição de
-apanhar um raio de sol com o meu copo. Parti o copo, cortei a mão, e
-levei pancada. Saí depois para o pateo, e como o sol se reflectisse
-n’uma poça d’agua, saltei n’ella aos pulos. Levei mais pancada porque
-fiquei coberto de lama. Berrei para o sol: «Isto não faz mal! seu diabo
-ruivo! isto não faz mal!» E deitei-lhe a lingua de fóra, por vingança.
-
---Porque lhe chamavas diabo ruivo?
-
---Defronte de nós morava um ferreiro de cara vermelhaça e barba ruiva;
-era um rapagão sempre alegre; e eu achava que o sol se parecia com elle.
-
-Pélagué exclamou:
-
---Ora esta! Pois não seria melhor que falassem do que vão fazer?
-
---Está tudo organisado! replicou o filho.
-
---No caso de sermos presos, mãesinha, o Nicolao Ivanovitch virá
-dizer-lhe o que tem a fazer, auxiliando-a em tudo.
-
-O apito da fabrica tinha tocado de novo, mas dir-se-ia já menos firme,
-como receoso.
-
-Pavel aventou:
-
---Se fossemos para a rua?...
-
---Não. Deixa-te estar em casa até á hora... aconselhou André. Para que
-has de atrahír a attenção da policia, que te conhece perfeitamente?
-
-...Fédia Mazine entrou radiante.
-
---O povo já se mexe... Pelas ruas, as caras andam severas como
-machados. Vessoftchikof, Vassili Goussef e Samoílof estão á porta da
-fabrica e falam aos operarios... Muitos já voltam para casa. Vamos! são
-dez horas.
-
---Vamos! disse Pavel, resoluto.
-
-Pélagué exclamou:
-
---Arde de impaciencia, como uma vela ao vento!
-
-Levantou-se e passou logo á cosinha para vestir-se.
-
---Que vae fazer, mãe?
-
---Arranjar-me para ir tambem!
-
-André lançou um olhar a Pavel, puxando pelo bigode. Rapidamente, elle
-foi ter com a mãe.
-
---Não falarei comtigo, nem tu comigo. Está combinado?
-
---Está combinado! Deus os acompanhe!
-
-
-
-
-XXVIII
-
-
-Quando na rua ella ia ouvindo o murmurio das vozes, quando via por toda
-a parte, nas janellas, ás portas das casas, grupos que seguiam com o
-olhar André e Pavel, o coração ora parecia brilhar-lhe, ora toldar-se
-de uma nuvem opaca.
-
-Ouviam-se frases soltas:
-
---Ali vem os commandantes do exercito!
-
---Sabemos lá quem são os commandantes?!...
-
---Isto não foi por mal.
-
---Se a policia os agarra, estão perdidos!
-
---Isso agarra ella!
-
-Um grito agudo, de mulher, partiu d’uma janella.
-
---Estás doido? És pae de familia!... Elles são solteiros!
-
-Ao passarem defronte da casa de um tal Zossimof, operario inhabilitado
-que vivia d’uma pensão da fabrica, elle chegou á janella e berrou:
-
---Ó Pavel, olha que te cortam a cabeça, como a um salteador!
-
-André e Pavel pareciam não ver, não ouvir nada. Caminhavam, calmos, sem
-pressa, falando em voz alta de varios assuntos.
-
-Encontrando Mironof, homem d’idade, modesto, respeitado pela vida
-exemplar que levava:
-
---Tambem não trabalha hoje, Danilo Mironof? perguntou Pavel.
-
---A minha mulher está com as dôres do parto... e depois... anda uma
-coisa no ar... Dizem que os srs. querem fazer escandalo, partir os
-vidros da fabrica...
-
---Não somos uns bebados! exclamou Pavel.
-
-André explicou:
-
---Atravessaremos apenas as ruas, levando bandeiras e cantando o hymno
-da liberdade. Oiça o nosso hymno, que elle lhe ensinará as nossas
-crenças.
-
---Já as conheço...
-
-E vendo Pélagué:
-
---Tambem tu?
-
---Devemos caminhar com a verdade, mesmo á beira da cova.
-
---É isso! Aqui está porque dizem que tu levas folhetos proíbidos para a
-fabrica.
-
---E quem o diz? perguntou Pavel.
-
---Toda a gente. Adeus... adeus... Não façam algum disparate.
-
-Pélagué poz-se a rir baixinho: envaidecia-a que assim falassem d’ella.
-O filho disse-lhe:
-
---Mettem-te na cadeia, mamã.
-
---Quem me dera!
-
-Á esquina d’uma pequena praça, á entrada de uma rua estreita, umas cem
-pessoas cercavam Vessoftchikof, que discursava.
-
---Espremem-nos para nos tirarem o sangue, como espremeriam um limão
-para lhe tirarem o succo.
-
---É verdade! responderam algumas vozes que se confundiram depois no
-confuso ruido.
-
---Faz o que pode, o pobre rapaz! disse André. Vou ajudal-o.
-
-Approximou-se do grupo, abaixou-se, penetrou n’elle como um
-sacca-rôlhas e começou:
-
---Companheiros! Dizem que ha na terra toda a especie de povos: judeus e
-allemães, francezes, inglezes, tartaros. Mas não creio que assim seja.
-Ha só duas raças, dois povos irreconciliaveis: os ricos e os pobres. Os
-vestuarios são differentes, as linguas tambem; mas quando se vê como
-os senhores tratam o povo, compreende-se que elles são verdadeiros
-carrascos para os miseraveis, uma especie de espinha atravessada na
-garganta.
-
-Rebentou uma gargalhada.
-
-O ajuntamento augmentou; os ouvintes estendiam o pescoço, punham-se nos
-bicos dos pés.
-
---No estrangeiro, os operarios já compreenderam esta simples verdade. E
-hoje todos confraternisam n’este luminoso dia primeiro de maio. Deixam
-o trabalho, e saem para a rua, para se verem, para medirem a sua grande
-força. Hoje formam um coração unico, porque todos os corações têem a
-consciencia da força do povo operario, porque a amisade os une, estando
-cada qual disposto a sacrificar a vida luctando pela felicidade de
-todos, pela liberdade, pela justiça a todos!
-
---A policia! gritou alguem.
-
-Dez guardas a cavallo voltaram a esquina proxima e dirigiram-se para o
-ajuntamento, de chicote no ar, e intimando:
-
---Nada de ajuntamentos!
-
---Girem!
-
---Que conversas eram essas?
-
---Quem falava?
-
-As fisionomias annuviaram-se: todos davam passagem aos cavallos; alguns
-treparam a uns tapumes.
-
-Depois veio a troça.
-
---Olhem: montaram uns porcos a cavallo, e elles grunhem: «Nós tambem
-damos ordens!»
-
-André ficou sósinho no meio da rua. Dois cavallos avançaram para elle,
-ao mesmo tempo que Pélagué o agarrava, dizendo-lhe:
-
---Prometteste não abandonar o Pavel, e vens expôr-te assim!...
-
-...Chegaram afinal á grande praça, ao centro da qual se erguia a
-egreja. No largo havia umas quinhentas pessoas, movendo-se impacientes.
-
---Mitia! supplicava uma voz feminina. Tem cuidado em ti!
-
---Deixa-me em paz!
-
-A voz amiga e grave de Sizof dizia, calma e persuasiva:
-
---Não! não devemos abandonar os rapazes. Teem mais juizo do que nós, e
-mais audacia. Quem foi que se metteu no caso do kopeck para o pantano?
-Foram elles. Não nos esqueçamos. Estiveram na cadeia por causa d’isso,
-mas todos nós aproveitámos da sua coragem!
-
-O rugido do apito da fabrica supplantou o ruido das conversas. A
-multidão estremeceu; muitos empallideceram.
-
---Companheiros! gritou Pavel.
-
-A seu lado, a mãe tremia. Decorridos instantes, quando tudo caíra em
-silencio:
-
---Irmãos! Chegou a hora de renegarmos d’esta vida cheia d’aridez, de
-trevas e de odio, esta vida de oppressão em que não ha um logar para
-nós, em que não somos homens! Companheiros! resolvemos declarar hoje,
-abertamente, quem somos, desfraldando a nossa bandeira, a bandeira da
-razão, da verdade, da liberdade!
-
-Um pao de bandeira comprido e branco for levantado ao ar, tremulando
-n’elle, como uma ave vermelha, a bandeira do povo operario.
-
-Pavel estendeu o braço, gritando:
-
---Viva o povo operario!
-
-Centenares de vozes lhe responderam em unisono.
-
---Viva o nosso partido, companheiros! Viva a liberdade do povo russo!
-
-Mazine, Samoílof, os dois Goussef tinham-se postado junto de Pavel;
-Vessoftchikof ia empurrando quem lhe impedia o caminho até elle.
-Pélagué, trémula, com os olhos cheios de lagrimas, agarrou-lhe
-novamente n’uma das mãos, balbuciando:
-
---Sim!... é a verdade!... meus amigos!
-
-Elle contemplava a bandeira, rugindo palavras vagas, e com a outra mão
-estendida para o símbolo da liberdade. Depois abraçou-se a Pélagué,
-rindo.
-
---Companheiros! começou então André, dominando o sussurro com a sua
-voz meiga, potente e cantante. Erguemo-nos em honra d’um novo Deus,
-do Deus da luz e da verdade, da razão e da bondade! Partimos para a
-cruzada, companheiros, e o caminho será comprido e difficil. O fim está
-distante, e os espinhos estão proximo. Queremos ao nosso lado os que
-vejam o fim e creiam no bom exito; os outros não, porque só os esperam
-o pezar e o soffrimento. Entrae nas fileiras, companheiros! Viva o
-primeiro de maio, a festa da humanidade livre!
-
-Pavel ergueu a bandeira.
-
---_Reneguemos do velho mundo!_ cantou Fédia Mazine com voz sonora.
-
-A resposta veio logo como uma enorme vaga potente:
-
---_Saccudamos a poeira dos pés!_
-
-Pélagué, com um sorriso ardente, via por cima da cabeça de Fédia, o
-filho e a bandeira. No meio das vozes mais proximas que entoavam o
-hymno, chegava-lhe aos ouvidos a de André:
-
- Ergue-te, ergue-te, ó povo operario!
- Revoltae-vos, esfomeados!...
-
-E o povo corria, apertava-se, avançando para a bandeira, proseguindo no
-hymno, que em voz baixa tinha sido aprendido em casa.
-
- Corramos para aquelles que soffrem...
-
-Um rosto de mulher, meio jubiloso e meio assustado, surgiu ao lado de
-Pélagué.
-
---Mitia, onde vaes?
-
-E a velha respondeu:
-
---Deixe-o lá! Não lhe dê cuidado! Eu tambem tinha mêdo, d’antes. O meu
-está á frente de todos. Aquelle que tem na mão a bandeira é o meu filho!
-
-A outra porem continuava:
-
---Ó desgraçado! que fazes? Os soldados estão ali adiante!
-
---Não se assuste! Isto é uma missão sagrada! Até Jesus não teria
-existido, se não houvesse homens que morreram por sua causa!
-
-Sizof appareceu perto d’ella, agitando no ar o boné, ao compasso do
-hymno:
-
---Isto é que é bem ás claras! ãn? Inventaram um hymno que é mesmo
-lindo! ãn?
-
- O tzar quer soldados na tropa:
- Vossos filhos lhes daes...
-
---Não teem medo de nada! exclamou Sizof. O meu filho está na cova...
-Foi a fabrica que o matou!
-
- Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido!
-
-A multidão, allucinada, nem olhava para traz de si, com os olhos fitos
-na bandeira vermelha, que balouçava ao vento.
-
---Bello côro! bravo, rapaz! berrava um entusiasta; e invadido por um
-sentimento, que não sabia exprimir, desatou a rogar pragas.
-
-D’uma janella partiu uma voz de canna rachada:
-
---Hereticos! Revoltarem-se contra Sua Majestade o Imperador! contra o
-tzar!
-
-Mas o hymno continuava, firme, altivo.
-
-Pélagué, que no meio dos encontrões, fôra sendo empurrada para distante
-do centro do grande ajuntamento, ouvia então frases soltas:
-
---Perto da escola está uma companhia de soldados, e outra na fabrica...
-
---O governador já chegou...
-
---O quê? é verdade?
-
---Vi-o com os meus olhos!
-
---Ainda bem! Começam a ter medo de nós! Já nos mandam soldados, e o
-governador.
-
-As vozes do côro foram enfraquecendo; dir-se-ia um movimento de recúo.
-Alguns iam-se calando. Aqui e ali havia quem tentasse animar de novo o
-hymno moribundo.
-
- Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido!
- Ao inimigo, ó gente esfaimada!
-
-Pélagué não podia ver o que se passava no centro; abrindo á força
-caminho, notou que a multidão tendia a dispersar, de cabeça baixa,
-sobrolhos franzidos, com as narinas contrafeitas. Ouviam-se já alguns
-assobios trocistas.
-
---Companheiros! gritava Pavel. Os soldados são homens como nós. Não
-nos farão mal. Porque haviam de fazel-o? Porque levamos a liberdade a
-todos? Mas precisam tambem da nossa verdade. Não compreendem ainda, mas
-tempo virá, e muito em breve, em que entrarão nas nossas fileiras, em
-que já não marcharão sob o estandarte dos gatunos e dos assassinos, mas
-sim á sombra da nossa bandeira da liberdade e do bem! E para que elles
-compreendam mais depressa a nossa liberdade, caminhemos para a frente!
-Ávante! companheiros! ávante!
-
-A sua voz era firme, mas o rebanho dispersava.
-
-
-
-
-XXIX
-
-
-Pélagué distinguiu á entrada da rua um como pequeno muro, cinzento
-baixo, composto de seres humanos sem fisionomia e que tapavam a saída
-da praça.
-
-Era este muro que infundia o receio em toda aquella gente.
-
---Companheiros! continuava Pavel. A vida inteira está na nossa frente!
-Não temos outro caminho! Cantemos! P’rá frente!
-
-Respondeu-lhe um silencio esmagador. A bandeira ergueu-se, balouçou,
-e agitando-se por sobre as cabeças, apontou para o muro cinzento dos
-soldados. Pélagué estremeceu, fechou os olhos e suspirou: apenas quatro
-pessôas se tinham destacado da multidão e avançavam: Pavel, André,
-Samoílof e Mazine.
-
-Ouviu-se a voz trémula de Fédia, cantando:
-
---«_Sois as victimas prostradas!..._»
-
---_Na grande lucta fatal!_ continuaram duas vozes como dois suspiros
-abafados.
-
-E uma voz de commando chegou aos ouvidos de alguns:
-
---Cruzar baionetas!
-
-O muro cinzento agitou-se, as baionetas fuzilaram no ar, na direcção da
-bandeira.
-
---Marche!
-
---Ahi veem elles! exclamou um vesgo que estivera proximo de Pélagué; e
-mettendo as mãos nas algibeiras, afastou-se com grandes pernadas.
-
-Os soldados avançavam em fila, de baioneta calada. Pélagué
-approximou-se do filho, com as mãos no peito e viu André collocar-se na
-frente d’elle, como para protegel-o.
-
---Ao meu lado, companheiro! ordenou Pavel.
-
-Com as mãos nas costas, André cantava, de cabeça erguida, avançando
-sempre. Pavel deu-lhe um encontrão com o hombro, exclamando:
-
---Aqui! ao meu lado! Não tens o direito de ir á minha frente! O
-primeiro deve ser o porta-bandeira!
-
---Dis... per... sae!... gritava um officialsito com voz aguda, de sabre
-no ar, marchando sem dobrar os joelhos e batendo com os tacões, raivoso.
-
-A seu lado, um pouco atraz, marchava pesadamente um homem muito alto
-de farto bigode branco, com uma grande capa cinzenta, debruada de
-vermelho, e as amplas calças listradas de amarello. Como o russo-menor,
-caminhava com as mãos nas costas. Tinha os olhos cravados em Pavel.
-
-Os da bandeira e os soldados iam-se approximando; estes, no seu
-caminho, iam fazendo dispersar a multidão sem lhe tocar.
-
---Salve-se quem puder!
-
---Vem, Vlassof!
-
---Para traz, Pavel!
-
---Dá cá a bandeira, Pavel! dizia Vessoftchikof. Eu a escondo.
-
-E deitou-lhe a mão.
-
---Deixa! berrou Pavel.
-
-O bexigoso retirou logo a mão, como se se tivesse queimado. O hymno
-cessára de todo. Os rapazes pararam, envolvendo Pavel n’um circulo, que
-elle acabou por transpor.
-
-Sob a bandeira haveria, quando muito, uns vinte homens; mas firmes.
-
---Tenente, prenda aquelle! ordenou o velho alto apontando para Pavel.
-
-O officialsito accorreu logo, e agarrou no pao da bandeira.
-
---Dá cá isso!
-
---Não! Abaixo os oppressores do povo!
-
-A bandeira tremia; inclinava-se ora para a direita, ora para a
-esquerda, ficando depois erecta. Vessoftchikof passou pela frente de
-Pélagué, com o braço erguido, de punho cerrado, e com uma rapidez que
-ella não lhe conheceu.
-
---Agarrem todos! berrou o velho, batendo com o pé.
-
-Alguns soldados avançaram, um d’elles com a coronha no ar; a bandeira
-estremeceu, baixou e desappareceu no grupo cinzento.
-
-Pélagué soltou um grito, um rugido que não tinha nada de humano. Aos
-ouvidos chegou-lhe a voz do filho:
-
---Até á vista, mãe! até á vista!
-
-«Está vivo! não se esqueceu de mim!» taes foram os seus dois rapidos
-pensamentos.
-
-Poz-se nos bicos dos pés e conseguiu ver a cara de André.
-
---Meus filhos, meus queridos filhos! André! Pavel!
-
-E elles iam dizendo:
-
---Até á vista, companheiros!
-
-Algumas vozes lhes responderam, mas não em unisono; vinham das
-janellas, dos telhados, não se sabia d’onde.
-
-
-
-
-XXX
-
-
-Alguem deu um empurrão em Pélagué. Atravez do nevoeiro que lhe toldava
-os olhos, viu diante d’ella o officialsito, que lhe gritou:
-
---Vae-te d’aqui, velha!
-
-Mediu-o com o olhar d’alto a baixo, viu-lhe aos pés o pao da bandeira
-partido em dois; a um dos pedaços estava preso um resto da bandeira.
-Abaixou-se para apanhal-o. O official arrancou-lho das mãos, lançou-o
-para distante, e ordenou de novo:
-
---Vae-te, velha!
-
-Do meio dos soldados partiu o estribilho:
-
---_Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido!_
-
-O official retrocedeu, rapido, e esganiçou-se, ordenando:
-
---Façam-os calar! Krainof...
-
-Vacilante, Pélagué apanhou outra vez o destroço da bandeira. A
-dez passos d’ella formára-se novo ajuntamento. Urravam, grunhiam,
-assobiavam, recuando lentamente, e dispersando para os pateos visinhos.
-
---Vae para o diabo! berrou um soldado, empurrando Pélagué para cima do
-passeio.
-
-Para não caír, porque os joelhos vergavam, ella caminhava apoiada ao
-destroço da bandeira, ouvindo sempre atraz de si os soldados. Até que
-estes passaram-lhe á frente.
-
-Parou. Á entrada da rua, um cordão de tropa impedia a passagem para a
-praça, que ficára deserta. Quiz voltar para traz, mas sem saber o que
-fazia, continuou para a frente; metteu-se por uma ruasinha estreita.
-Parou de novo. Ao longe, o povo susurrava.
-
-A ruasita quebrava perto d’ella para a esquerda. N’um grupo compacto
-discutia-se.
-
---Não é por insolencia que elles affrontam as baionetas, irmãos!
-
---Viram, ãn! Os soldados a marcharem sobre elles, e elles impassiveis!
-sem medo!
-
---Que valente é o Pavel Vlassof!
-
---E o russo-menor!
-
---Meus amigos! boa gente! exclamou ella, avançando.
-
---Olhem: traz na mão o resto da bandeira!
-
---Cala-te! ordenou uma voz severa.
-
-Ella estendeu o braço, com um gesto largo.
-
---Escutem, em nome de Jesus! Sois todos dos nossos, gente sincera.
-Abride os olhos... olhae sem receio... O que se passou? Os nossos
-filhos levantam-se, pacificamente... Os nossos filhos, o nosso sangue,
-levantam-se em nome da verdade, abrem lealmente um caminho novo,
-largo, direito, destinado a todos... Por todos vós, pelos vossos
-filhos, empreendem uma cruzada... dirigindo-se para um mundo cheio de
-encanto. Em nome de todos e pelo nome de Christo, caminham contra todas
-as coisas por meio das quaes os maos, os mentirosos, os rapinantes,
-nos prendem, nos estrangulam prisioneiros. Meus amigos! é pelo povo,
-pelo mundo inteiro, por todos os opprimidos que os nossos filhos se
-sublevaram. Não os abandoneis, não os renegueis, não deixeis os vossos
-filhos seguirem sósinhos a sua estrella. Tende piedade de vós mesmos...
-amae-os... compreendei aquelles corações juvenis... tende confiança
-n’elles.
-
-Fatigada, avergou. Alguem amparou-a.
-
---É Deus que a inspira! disse um d’elles. É Deus que a inspira, amigos!
-Escutem-na!
-
-Outro lamentou-a:
-
---Ah! está-se matando!
-
---Não se está matando, não, idiota! A nós é que fére, fica sabendo!
-
-A mesma voz aguda e anciosa tornou a fazer-se ouvir:
-
---Christãos! O meu Mitia... A sua alma é pura... O que fez elle? Seguiu
-os seus companheiros muito queridos. Fez bem. Por que abandonaes os
-nossos filhos? Que mal fizeram elles?
-
-Sizof disse a Pélagué:
-
---Volta para casa... Vae... Estás arrazada!
-
-Passando depois pelo auditorio o olhar severo:
-
---O meu filho Matwei foi esmagado, na fabrica, bem sabeis. Mas se
-vivesse, eu proprio o teria mandado entrar nas fileiras d’aquelles...
-Ter-lhe-ia dito. «Vae com elles, vae, porque defendem uma causa justa,
-uma causa santa!» É um velho quem lhes está falando. Conhecem-me todos.
-Ha trinta e nove annos que trabalho aqui... ha cincoenta e sete que
-vivo n’este mundo. O meu sobrinho, um bello rapaz, intelligente e
-honrado, foi preso hoje outra vez. Ia tambem á frente de todos com o
-Vlassof, ao lado da bandeira.
-
-E pegando na mão de Pélagué:
-
---Esta mulher disse a verdade. Os nossos querem viver com honra,
-segundo o que manda a razão; e nós... nós abandonamol-os! Vae para
-casa, minha velha, vae!
-
---Meus amigos, a vida é para os nossos filhos! é para elles a terra!
-disse ella passando pela multidão o olhar toldado de lagrimas.
-
---Vae, Pélagué, vae... Toma o teu arrimo!
-
-E deu-lhe o destroço da bandeira.
-
-Olhavam para a velha com respeitosa tristeza; seguiu-a um murmurio de
-compaixão. Sem falar, Sizof abria-lhe caminho; e o povo afastava-se sem
-protesto, obedecendo a uma força inexplicavel, trocando em voz baixa
-breves palavras de lamento.
-
-Ao chegar á porta de casa, Pélagué voltou-se para elles, e disse com
-muito reconhecimento:
-
---Obrigada a todos!
-
-E accrescentou:
-
---Nosso Senhor Jesus Christo não teria vindo ao mundo, se os homens não
-morressem pela sua gloria!
-
-A multidão olhou para ella em silencio.
-
-Quando Pélagué entrou em casa acompanhada por Sizof, houve ainda na rua
-algumas frases em que a reflexão dominava... Depois todos dispersaram,
-vagarosos.
-
-
-
-
- SEGUNDA PARTE
-
-
-
-
-I
-
-
-...O resto do dia passou n’um nevoeiro entrecortado de recordações,
-n’uma fadiga extrema que opprimia corpo e alma. Como uma sombra
-pardacenta, o officialsito saltitava sob os olhares da velha, e em
-negro redemoinho movediço luziam o rosto bronzeado de Pavel e os olhos
-risonhos de André...
-
-A velha ia e vinha pelo quarto, sentava-se junto da janella, olhava
-para a rua, tornava a levantar-se e franzia o sobrolho; sentia-se
-estremecer, relanceava os olhares em torno; e com a cabeça esvaída,
-procurava o que quer que fôsse, sem mesmo saber o que queria...
-Bebeu agua sem acalmar a sêde, sem extinguir no coração o ardente
-brazeiro de angustia e de humilhação que toda a consumia. Aquelle
-dia apresentava-se-lhe dividido em duas partes. A primeira tinha uma
-significação, um conteúdo, mas a segunda era como se se evaporasse, era
-um vacuo absoluto. Pélagué não encontrava resposta á pergunta tremente
-de perplexidade que a si propria apresentava:
-
---Que havia de fazer... agora?...
-
-Maria Korsounova appareceu então. Poz-se a gesticular com força,
-gritou, chorou, bateu o pé, alvitrou e prometteu qualquer coisa,
-ameaçou quem quer que fôsse. Mas tudo aquillo não conseguiu
-impressionar sequer a outra.
-
---Ah! dizia a voz destemperada de Maria, assim como assim, o povo
-mexeu-se d’esta vez... Ahi a teem em revolta, toda a fabrica!
-
---É verdade, é, respondeu baixinho Pélagué, meneando a cabeça. E com o
-olhar fito, considerava quão longe ficára o passado e tudo o que d’ella
-se afastára com André e com Pavel. Não podia chorar. Tinha o coração
-confrangido mas arido; os labios seccos tambem, como a garganta.
-Tremiam-lhe as mãos e tinha arrepios gélidos pelas costas. Mas
-subsistia n’ella uma scentelha de colera, fixa, cravada no coração qual
-agulha. E a tal intimo instigamento respondia ella com uma promessa de
-fria reflexão:
-
---Esperem um pouco!...
-
-E então, tossindo ruidosamente, franzia as sobrancelhas.
-
-Pela noite, veio a policia. Recebeu-os sem admiração nem temor.
-Entraram pela casa dentro fazendo muita bulha, com ares satisfeitos. O
-official de pelle amarellada disse, mostrando os dentes:
-
---Então como vae isso? É esta a terceira vez que nos encontramos, an?
-
-Ella ficou-se em silencio e passou a lingua pelos beiços para
-humedecel-os. Entrou então o official a falar muito, em tom de pessoa
-fina. E Pélagué percebia que elle falava pela satisfação de se ouvir
-a si proprio. Mas as palavras nem lhe chegavam aos ouvidos nem a
-impressionavam. No entretanto, quando o official lhe disse:
-
---Tu propria tens culpas, porque não soubeste inspirar a teu filho o
-respeito a Deus e ao Imperador...
-
-Respondeu sem o fitar:
-
---Os nossos filhos é que são os nossos juizes... Elles hão de
-condemnar-nos, e com toda a razão, visto que os deixámos seguir tal
-caminho...
-
---O quê? gritou o official, fala mais alto!
-
---Digo que os nossos juizes são os nossos filhos! repetiu com um
-suspiro.
-
-O outro poz-se então a discorrer em voz rapida e irritada, mas as
-frases precipitavam-se e não commoviam a velha.
-
-Citada como testemunha, Maria Korsounova ficára de pé ao lado de
-Pélagué, para quem nem olhava. Quando o official lhe fazia qualquer
-pergunta, inclinava-se logo muito baixo e respondia em voz monotona:
-
---Não sei, Excellencia! Sou uma pobre mulher ignorante, só trato do meu
-negocio... Graças á minha estupidez, nada sei...
-
---Cala-te d’ahi! ordenou o official retorcendo os bigodes com violencia.
-
---A mulher inclinou-se, e logo, fazendo-lhe um gesto de provocação que
-elle não viu, murmurou:
-
---Toma, guarda lá este!
-
-Mandaram-lhe que revistasse a velha. Pestanejou primeiro; depois fitou
-o official, com os olhos muito abertos. E declarou com voz submissa:
-
---Mas eu não sei fazer isso, Excellencia!
-
-O official bateu o pé, zangado.
-
---Está bem... Desabotoa-te, Pélagué, disse Maria. E muito córada,
-passou a revolver e a apalpar o fato da outra, commentando baixinho:
-
---Ein? que corja!
-
---O que é? gritou o official desabridamente, e insinuou o olhar,
-desconfiado, pela abertura por onde Maria se desempenhava da tarefa.
-
---Nada, Excellencia, não é nada; coisas que só nós usamos... murmurou
-Korsounova timidamente.
-
-Ao ordenar-lhe o official que assignasse o auto de investigação,
-Pélagué traçou estas palavras n’uma calligrafia desconforme, em grandes
-letras garrafaes:
-
-«Pélagué Nilovna Vlassof, viuva d’um operario».
-
---Que escreveste tu ali? Porque escreveste aquillo? prorompeu o
-official, de sobrecenho carregado e em tom de desdem; e accrescentou
-com um riso de mofa: Que selvagens!
-
-Retiraram-se os guardas. A mãe foi pôr-se deante da janella. Com os
-braços cruzados no peito; para ali ficou muito tempo, olhando sem vêr.
-
-Desfranzira as sobrancelhas, e comprimia os labios. Ao mesmo tempo,
-apertava as maxillas de encontro uma á outra, com tal força, que
-dentro em pouco ficou com dôr de dentes. Acabára-se o petroleo do
-candieiro, a luz ia a sumir-se, crepitando. Soprou-a de vez e ficou ás
-escuras. A colera e a humilhação de havia pouco desappareciam n’ella;
-agora era uma nuvem negra e fria de angustia e de louco terror, que
-toda a penetrava, que lhe enchia o peito, difficultando-lhe o pulsar
-do coração. E immovel permaneceu, até sentir cansados os olhos e as
-pernas. Ouviu então sob a janella, Maria parar e gritar-lhe com voz
-avinhada:
-
---Pélagué! Estás a dormir? Minha pobre Pélagué!... Dorme, dorme! Todos
-estão soffrendo os mesmos enxovalhos,--ouves?--todos!
-
-Deitou-se sobre a cama, sem se despir, e caíu em somno profundo, como
-quem rola para um precipicio.
-
-Em sonhos, viu-se junto do montículo de saibro amarello que ficava
-para lá do pantano, no caminho que conduzia á cidade. Ali, no cume da
-encosta, que dava accesso ás pedreiras d’onde se extraía a areia,
-Pavel cantava em voz doce, mas com uma voz que era a mesma de André:
-
- Ergue-te, ergue-te, ó povo opprimido...
-
-Pélagué passou por diante do monticulo e contemplou seu filho, ao mesmo
-tempo que levava a mão á fronte. Destacava-se nitidamente o perfil do
-rapaz no fundo azul do ceu. Mas a mãe sentia vergonha em approximar-se
-d’elle, pois que estava gravida. E levava ao colo, outra criança.
-Proseguiu no seu caminho. Pelos campos, havia outras creanças a brincar
-com uma bolla; eram muitas, as creanças, e a bolla era vermelha. O
-pequenito que tinha nos braços queria ir brincar com os outros e
-entrou a fazer grande berreiro. Deu-lhe de mammar e voltou pelo mesmo
-caminho. O monticulo estava já então occupado por muitos soldados que
-lhe apontavam as baionetas. Deitou a fugir em direcção a uma egreja
-edificada em meio dos campos, uma egreja muito branca, altissima e de
-levissima construcção, como se fôsse formada de nuvens. Lá dentro,
-cantavam-se responsos; o caixão era grande, preto, hermeticamente
-fechado. Padre e acolyto, vestiam alvas d’immaculada brancura, e
-entoavam: «Christo ressuscitou d’entre os mortos...»
-
-O acolyto agitou o turíbulo e, ao avistar Pélagué, sorriu-lhe. Tinha
-os cabellos ruivos e uns modos prazenteiros, assim como Samoílof. Da
-cupula caía raios de sol em verdadeiras toalhas. E, no côro, crianças
-repetiam a meia-voz:
-
-«Christo ressuscitou d’entre os mortos»...
-
---Prendam-nos! gritou subitamente o padre, estacando a meio da egreja.
-A alva que vestia tinha desapparecido e no rosto surgia-lhe um bigode
-grisalho e espesso. Todos se puzeram em fuga, até mesmo o acolyto, que
-atirára para longe o turíbulo e apertava a cabeça entre as mãos, como
-o russo-menor costumava fazer. A mãe deixou caír a criança sob os pés
-dos fieis que se afastavam evitando-a, com olhares de temor para o
-pequenino corpo nu. Ella caíra de joelhos e gritava:
-
---Não abandonem a criança! Salvem-na...
-
-E, de mãos atraz nas costas, com um sorriso nos labios, o russo-menor
-proseguia cantando:
-
---«Christo ressuscitou d’entre os mortos!...»
-
-Pélagué abaixou-se, agarrou na criança, pôl-a n’um carrinho ao lado do
-qual Vessoftchikof ia caminhando vagarosamente. Este ria, dizendo:
-
---Sempre me deram um trabalhão!...
-
-Percorriam uma rua muito suja. Pelas janellas, havia gente que
-assobiava, gritava, gesticulava.
-
---O dia estava claro, brilhava o sol com ardor; não havia uma nesga de
-sombra, em parte alguma.
-
---Cante, cante, tiasinha! disia o russo-menor. É a vida, isto!
-
---E ia cantando sempre, dominando tudo com a sua boa voz sonora e
-jovial. A mãe seguia-o, lamentando-se.
-
---Porque está elle a mangar comigo?
-
-N’isto, recuou; mas logo se sentiu despenhar para um grande abysmo sem
-fim, que escachoava com estrondo...
-
-Accordou em sobresalto, toda a tremer, banhada de suores; apurou o
-ouvido, perscrutando-se. Estupefacta, sentiu vasio o proprio peito.
-Parecia-lhe que mão desconhecida, ferrenha, lhe esquadrinhára o seio e,
-tendo-se-lhe apoderado do coração, lho estava a apertar brandamente,
-como em cruel brinquedo. O silvo da fabrica uivava teimosamente. Pelo
-som, calculou que fôsse já a segunda chamada.
-
-Reinava a desordem no quarto; livros e fatos jaziam de mistura, no
-sobrado emporcalhado; tudo em confusão.
-
-Levantou-se, cuidou dos arranjos, sem se lavar, sem mesmo rezar. Na
-cosinha, encontrou um pao que ainda conservava amarrado um farrapo
-encarnado; pegou n’elle e, irritada, esteve para atiral-o para debaixo
-do fogão; mas, suspirando, tirou e dobrou cuidadosamente o pedaço de
-panno vermelho e meteu-o na algibeira. Em seguida, procedeu a uma
-grande lavagem ao sobrado e á janella. Acabou de vestir-se, arranjou o
-samovar e depois foi sentar-se ao pé da janella da cosinha, a repetir a
-si mesma a pergunta da vespera:
-
---Que se ha de fazer?
-
-Mas lembrou-se que ainda não tinha orado; postou-se por alguns momentos
-diante das imagens santas, e depois tornou a sentar-se. No logar do
-coração tinha um vacuo. O proprio pendulo do relogio, ordinariamente
-tão agil, dir-se-ia ter afroixado o seu tic-tac precipitado. As moscas
-zumbiam hesitantes e debatiam-se estonteadas de encontro ás vidraças...
-
-Reinava em todo o bairro um silencio singular; parecia que toda aquella
-gente, que na vespera tanto gritára pelas ruas, se tivesse escondido em
-suas casas para reflectir em silencio n’aquelle extraordinario dia.
-
-De subito, Pélagué recordou-se de uma scena que presenciára uma vez,
-quando era rapariga: no velho parque dos senhores Zoussailof havia
-um vasto tanque todo esmaltado de nenufares. Por ali passára em um
-dia d’outono nevoento e triste; a meio da laguna, um barco jazia,
-como que estatico na agua tranquilla e sombria, salpicada de folhas
-amarellecidas. E d’esta embarcação sem remos nem remadores, solitaria e
-immovel na agua opaca, entre folhas mortas, provinha funda melancolia,
-um pezar mysterioso. Pélagué permanecera ali muito tempo, procurando
-adivinhar quem impellira a canoa para longe da margem e porquê...
-Afigurava-se-lhe agora ser ella mesma igual á barquinha que outr’ora
-a levára a pensar n’algum esquife á espera do cadaver. N’esse mesmo
-dia, á noite, viera a saber-se que a esposa do intendente se havia
-afogado,--uma mulhersinha de modos saccudidos, os cabellos pretos
-sempre em desalinho...
-
-Passou a mão pelos olhos, como para expulsar taes recordações, mas logo
-o pensamento indeciso e horrorisado lhe deslisou brandamente para as
-impressões da vespera, dominadoras. Com os olhos apegados á chavena
-de chá, que lhe arrefecia na frente, conservou-se longamente immovel,
-sentindo nascer-lhe na alma o desejo de falar com quem quer que fôsse,
-sincero e intelligente, para lhe perguntar innumeras coisas.
-
-E, como de proposito para realisar o seu desejo Nicolao Ivanovitch
-appareceu pela volta da tarde. Ao vêl-o, apoderou-se d’ella brusca
-inquietação. Com voz sumida, disse sem responder aos cumprimentos de
-Nicolao:
-
---Ah! tiosinho; fez mal em vir até aqui! É uma imprudencia; se o vêem,
-prendem-no!
-
-Depois de lhe ter apertado a mão com energia, Nicolao Ivanovitch
-segurou melhor os oculos no nariz, e ao ouvido d’ella, explicou-lhe
-rapidamente, em voz baixa:
-
---É que nós tinhamos combinado, o André, o Pavel e eu, que se os
-prendessem, eu havia de vir buscal-a logo no dia seguinte, para a levar
-para a cidade. Vieram cá fazer alguma busca?
-
---Vieram; revolveram tudo; até me apalparam. Essa gente não tem
-consciencia nem pudor!
-
---E porque o haviam de ter? retorquiu Nicolao com um encolher
-d’hombros; e logo lhe expoz as razões por que era conveniente que ella
-passasse a residir na cidade.
-
-A outra escutava aquella voz amiga, cheia de sollicitude, fitava
-aquelle rosto de resignado sorriso e sentia-se admirada da confiança
-que tal homem lhe inspirava.
-
---Uma vez que o Pavel assim decidiu, e se não o incommodo... disse.
-
---Não pense n’isso, interrompeu elle logo. Vivo sósinho, minha irmã só
-raramente apparece...
-
---Mas é que eu quero trabalhar, quero ganhar o meu sustento!
-
---Pois se quer trabalhar, ha de se lhe encontrar trabalho, descanse!
-
-Para ella, a idéa do trabalho relacionava-se indissoluvelmente com a
-especie de actividade a que se entregavam seu filho, André e os mais
-companheiros. Approximou-se de Nicolao e perguntou-lhe fitando-o muito:
-
---Parece-lhe?...
-
---Pois está claro! A casa não é grande, e quando a gente vive só...
-
---Não lhe falo d’isso, falo-lhe da nossa grande empreza... explicou em
-voz baixa.
-
---E soltou um suspiro triste, melindrada por não ter sido compreendida.
-Nicolao ergueu-se e, franzindo os olhos myopes n’um sorriso, declarou
-em tom de gravidade:
-
---Pois para a grande causa, tambem ha-de ter que fazer, se quizer...
-
-Uma idéa simples e clara formára-se subitamente no espirito d’ella.
-Já uma vez conseguira auxiliar Pavel; talvez o conseguisse de novo.
-Quanto mais gente houvesse a trabalhar por tal causa, tanto mais clara
-se tornaria aos olhos de toda a gente a razão que a Pavel assistia em
-defendel-a. E ao mesmo tempo que analisava a fisionomia bondosa de
-Nicolao Ivanovitch, esperava ella que este lhe falasse compassivamente
-de Pavel, de André e d’ella propria. Mas o outro limitou-se a
-acrescentar, acariciando a barba, como que absorto:
-
---Veja se póde saber pelo Pavel, quando lhe falar, as moradas d’esses
-camponezes que pediram jornaes...
-
---Já as sei! exclamou ella alegremente. Sei perfeitamente quem elles
-são e onde moram. Dê-me o jornal que eu mesma lh’o levo. Eu mesma irei
-procural-os e farei o que me mandar... Ninguem será capaz de suppôr
-que levo commigo livros proíbidos. Deus seja louvado, bastantes kilos
-d’elles metti na fabrica!
-
-Era como um súbito desejo de partir, de ir ao acaso, fôsse para onde
-fôsse, pelas estradas sem fim, por bosques e aldeias, com o cajado na
-mão e a alcofa ao hombro.
-
---Não encarregue mais ninguem d’esse serviço, peço-lh’o, meu amigo,
-disse ella. Irei a toda a parte onde julgar preciso. Não tenha medo,
-que não me perderei, seja em que provincia fôr. De verão e de inverno,
-caminharei sem descanso... até morrer! Tornar-me-ei um apóstolo por
-amor da verdade. Não será digno de inveja o meu destino? Que bella
-vida, a do viandante! Vaguear pelo mundo, sem se possuir nada e sem se
-ter necessidade de coisa alguma, a não ser do pão de todos os dias; não
-humilhar ninguem; percorrer a terra, tranquillamente e sem que ninguem
-nos conheça!... Tambem eu quero viver assim!... E hei de encontrar
-Pavel, hei de encontrar André, hei de chegar até onde elles estiverem...
-
-Mas aqui entristeceu ao ver-se já, em pensamentos, sem lar, errante, a
-mendigar em nome de Deus pelas portas das cabanas...
-
-Nicolao agarrou-lhe meigamente na mão e affagou-lh’a ao calor das suas.
-
---Havemos de falar n’isso mais tarde! declarou, olhando para o relogio.
-É perigosa a tarefa de que quer encarregar-se... pense bem!
-
---Meu bom amigo! exclamou ella. Para que serve pensar? Pois se os
-nossos filhos, a parte mais pura do nosso proprio sangue, parcellas dos
-nossos proprios corações, os que mais do que tudo nos são queridos,
-sacrificam vida e liberdade e morrem sem contemplação por si mesmos, o
-que não hei de eu de fazer, eu, que sou mãe?
-
-Nicolao fez-se pallido.
-
---Sabe que é a primeira vez que oiço falar d’essa maneira?...
-
---Que sei eu dizer! murmurou ella, sacudindo desconsoladamente a
-cabeça. E os braços penderam-lhe n’um gesto de desalento. Se eu
-encontrasse palavras que exprimissem o que sente o meu coração de
-mãe!...
-
-E ergueu-se, impellida pelo ardor que n’ella se concentrava e lhe
-excitava no cerebro frases candentes de revolta.
-
---... Muitos haviam de chorar... até os malvados, os entes sem
-consciencia...
-
-Nicolao ergueu-se e tornou a ver as horas.
-
---Pois então, fica combinado, vem para minha casa, para a cidade!
-
-Ella abanou a cabeça, sem uma palavra.
-
---Quando ha de ser? continuou Nicolao. O mais depressa possivel. E
-accrescentou com meiguice:
-
---Vou ficar em cuidado por sua causa, palavra!
-
-Pélagué ergueu para elle um olhar admirado: que interesse podia ella
-inspirar áquelle homem? O outro permanecia de cabeça baixa, com um
-sorriso de constrangimento, myope e um tanto corcovado, no seu modesto
-fato preto.
-
---Tem dinheiro em casa? perguntou sem a fitar.
-
---Não.
-
-Com vivacidade, tirou logo da algibeira uma bolsa, abriu-a e
-apresentou-lh’a.
-
---Ahi tem, tire, se faz favor...
-
-A pobre mãe esboçou involuntario sorriso e, com um meneio de cabeça,
-observou:
-
---Como tudo está mudado! O proprio dinheiro já não tem valor para
-vocês. Ha por ahi gente capaz de tudo para o possuir, que chega até
-a perder a propria alma... e para vocês não passa d’uns bocados de
-papel... d’umas rodelas de cobre... Chega-se a imaginar que se vocês o
-têm é só por caridade para com os outros!
-
---O dinheiro é na verdade desagradavel e incommodo, retorquiu Nicolao
-Ivanovitch, rindo. É por igual coisa enfadonha pedil-o ou dal-o!...
-
-Tomou lhe novamente da mão, apertou-lh’a fortemente.
-
---Venha o mais depressa que possa, sim? repetiu.
-
-E, como das outras vezes, foi-se sem fazer ruido. Ao despedir-se
-d’elle, Pélagué pensava:
-
---É tão bom homem!... Comtudo não teve uma palavra de compaixão...
-
-E não chegou a perceber bem se tal facto lhe era desagradavel ou se lhe
-causava simples admiração.
-
-
-
-
-II
-
-
-Quatro dias apóz a visita de Nicolao, punha-se Pélagué a caminho, em
-direcção a casa d’elle. Quando o carro que a transportava e ás duas
-malas, atravessou o burgo e rodou em pleno campo, voltou-se para
-traz ainda uma vez e sentiu n’esse instante que era para sempre que
-abandonava aquelle logar onde decorrera a quadra mais sombria e penosa
-da sua vida, onde outra existencia começara, periodo replecto de novos
-desgostos e de novas alegrias, em que os dias voavam velozes.
-
-Semelhante a immensa aranha d’um vermelho escuro, estendia-se a
-fabrica ao longo do solo sujo de fuligem, erguendo muito ao alto na
-atmosphera, as enormes chaminés. Em torno, amontoavam-se os casinhotos
-do operariado. Pardacentos e mesquinhos, formavam grupo compacto á
-beira do charco e pareciam entreolhar-se lastimosamente pelas suas
-janellinhas sem brilho. A meio d’elles erguia-se a igreja, de côr
-vermelha como a fabrica, com o seu campanario, que parecia menos
-elevado do que as chaminés da fabrica.
-
-A pobre mulher suspirou, desapertou a gargantilha do vestido, que a
-incommodava. Ia triste, mas de uma tristeza arida como a poeira d’uma
-tarde d’estio.
-
---Para diante! resmungava o carroceiro, puxando pelas redeas. Era
-manco, de idade imprecisa, com uns olhos sem côr definida e uns raros
-cabellos de tom sujo. Bamboleando-se todo, caminhava ao lado do
-vehiculo, demonstrando claramente que o fim da viagem, qualquer que
-elle fosse, se lhe tornava totalmente indifferente.
-
---Para diante! repetia com uma voz sem timbre, atirando por maneira
-caricata com as pernas cambadas, calçadas de grossas botas cheias de
-lama. A passageira, essa, vagueiava o olhar em torno. A desolação da
-planicie era tão profunda como a da sua alma...
-
-O cavallo, saccudindo lamentosamente a cabeça, enterrava as patas pela
-areia profunda, que rangia, froixamente requentada pelo sol. A carroça,
-em mau estado e com os eixos mal azeitados, chiava a cada volta das
-rodas. A todos estes ruidos vinha juntar-se a poeira.
-
-Morava Nicolao Ivanovitch no extremo da cidade, n’um pequeno pavilhão
-pintado de verde, encostado a um sombrio predio de dois andares, a caír
-de vetustez, em rua solitaria. Á frente do pavilhão, havia um jardim,
-de fórma que pelas janellas dos trez quartos mettiam-se as frescas
-ramadas de algumas acacias, lilazes e um ou outro alamosinho prateado.
-Os quartos eram aceiados e silenciosos; sombras mudas e recortadas,
-tremiam sem cessar nos sobrados; pelas paredes havia prateleiras
-carregadas de livros e alguns retratos de pessoas de modos graves e
-ponderados.
-
---Parece-lhe que lhe ha de agradar isto? perguntou Nicolao,
-introduzindo a sua hospede n’um quarto com uma janella para o jardim e
-outra para o pateo coberta por espessa relva. E, n’este como nos outros
-quartos, guarneciam as paredes varias estantes carregadas de livros.
-
---Antes queria ficar na cosinha.
-
-Falava assim porque lhe parecia ver em Nicolao o receio de qualquer
-coisa. Elle dissuadiu-a de tal proposito, mas com uns modos de
-constrangimento, e logo que ella renunciou a ir habitar na cosinha,
-tornou a mostrar-se satisfeito.
-
-Reinava em toda a casa particular atmosfera: era agradavel respirar
-ali, mas as vozes instinctivamente faziam-se menos ruidosas; não se
-sentia o desejo de falar alto, nem de perturbar a beatifica meditação
-das personagens que do alto das suas molduras olhavam concentradamente.
-
---Estas plantas precisam de ser regadas, disse ella depois de tatear a
-terra dos vasos.
-
---Sim, sim, concordou o dono da casa, um tanto confuso. Bem vê, gosto
-muito de flôres, mas não tenho tempo para tratar d’ellas.
-
-Notava Pélagué que, mesmo em sua casa, bastante confortavel aliás,
-Nicolao movia-se com prudencia, sem fazer bulha, como que estranho e a
-mil leguas de tudo o que o cercava. Ia pôr a cara mesmo em cima do que
-queria vêr; compunha os oculos com os dedos afusados da mão direita,
-assestando, por assim dizer, uma interrogação muda, a cada objecto que
-considerava. Dir-se-ia que fizera a viagem com a sua hospede e que tudo
-n’aquella casa lhe era desconhecido. Então, ao vêl-o assim distraído,
-Pélagué entrou a sentir-se inteiramente á vontade na sua nova habitação.
-
-Precedida de Nicolao, percorria a casa, notando de memoria o logar
-de cada objecto e interrogando o seu amigo sobre os seus habitos de
-vida, ao que este dava respostas embaraçadas, como alguem que tivesse
-a consciencia de não proceder como deveria, mas que não tivesse outro
-expediente a tomar.
-
-Regadas as plantas e reunidas em um só monte as musicas esparsas sobre
-o piano, deu com o samovar.
-
---Tem de ser limpo, observou.
-
-Nicolao passou um dos dedos pelo metal embaciado pela sujidade e,
-pondo-o mesmo diante do nariz, observou-o com attenção. Isto fel-a rir
-com gosto.
-
-Quando se encontrou na cama, e depois de ter recordado as peripecias
-de tal dia, Pélagué deitou a cabeça fóra da roupa e poz-se a olhar
-em volta. Era a primeira vez na sua vida que se via em casa de um
-estranho. Não se sentia perturbada com esta idéa. Sollícitamente,
-pensou no seu hospedeiro; a si propria prometteu amenisar-lhe a
-existencia com um pouco de carinhosa affeição. Impressionavam-na a
-timidez, o feitio desgeitoso e ridiculo de Nicolao, a expressão a um
-tempo ingenua e séria dos seus olhos claros. E logo o pensamento lhe
-vôou para o filho; reviveu mentalmente os episodios do dia primeiro de
-maio. Esta lembrança causava-lhe uma dôr particular, como particular
-fôra aquelle dia: era um soffrimento que não abatia a cabeça para o
-solo como a pancada d’um malho, mas que torturava o coração com mil
-picadas e excitava surda colera, fazendo altear-se o dorso corcovado da
-velha.
-
---Como é triste ter filhos para os ver partir por esse mundo fóra!...
-pensava. E apurava o ouvido, escutando os ruidos, desconhecidos para
-ella, da vida nocturna da cidade, que lhe chegavam amortecidos e
-atenuados pela janella aberta, por entre as folhagens do jardim, vindos
-de longe, a morrerem suavemente dentro do quarto.
-
-Pela manhã, cedo, procedeu á limpeza do samovar e accendeu-lhe o lume;
-guardou toda a loiça sem fazer barulho; depois, foi sentar-se na
-cosinha e esperou que o seu hospedeiro accordasse. Houve um ruido de
-tosse e appareceu Nicolao com os oculos na mão.
-
-Tendo correspondido aos bons dias que este lhe dirigiu, Pélagué levou o
-samovar para a casa de jantar, emquanto Nicolao se lavava, espalhando a
-agua pelo sobrado, deixando caír a todo o momento o sabonete, a escova,
-resmungando de continuo contra si proprio.
-
-Ao almoço, Nicolao participou-lhe:
-
---É bem triste a minha occupação na administração da provincia:
-emprego-me em observar como é que a nossa gente do campo se arruina...
-
-E repetiu com um sorriso contrafeito:
-
---Sim, observo, é o verdadeiro termo. Essa pobre gente morre de fome,
-ainda novos, lá vão para a cova, roidos pela miseria; as creanças
-nascem fracas e enfesadas, caem aos centos, como as moscas, quando
-chega o inverno... Sabemos tudo isso perfeitamente... conhecemos as
-causas d’essa calamidade e afinal, depois de as termos analisado,
-recebemos o nosso ordenado... e ficamos por aqui.
-
---Mas o senhor o que é? perguntou Pélagué. Foi estudante?
-
---Nada; era mestre-escola rural... Meu pae é director d’uma fabrica
-em Viatka; e eu fiz-me professor. Mais tarde, por ter distribuido uns
-livros pelos habitantes do logar, atiraram commigo para uma enxovia.
-Depois, fui empregado de livraria Ali, parece que tambem commetti
-qualquer imprudencia, porque fui outra vez preso: então mandaram-me
-para a provincia d’Arkhangel... Por lá tive tambem os meus desaguisados
-com o governo local e fui recambiado lá para as margens do mar Branco,
-para um logarejo onde vivi cinco annos...
-
-E dizendo isto, a voz resoava-lhe calma e suave na tranquilidade
-d’aquelle quarto claro, inundado de sol.
-
-Frequentes vezes tinha a sua interlocutora ouvido historias do genero
-d’aquella; mas nunca pudera compreender porque era que quem as contava
-o fazia com tal placidez, sem que nunca formulasse, por tantos
-soffrimentos, uma accusação contra ninguem, como se aquillo devesse
-fatalmente acontecer a todos...
-
---Sabe que chega hoje minha irmã, annunciou elle.
-
---É casada?
-
---Viuva. O marido foi exilado para a Siberia. De lá conseguiu fugir,
-mas no caminho apanhou um resfriamento e morreu no estrangeiro, ha de
-haver dois annos.
-
---Sua irmã é mais nova do que o senhor?
-
---Não, tem mais seis annos do que eu... Devo-lhe muitos favores... Ha
-de ouvil-a tocar n’aquelle piano, que é mesmo d’ella... de mais, ha
-aqui muita coisa que lhe pertence... Os livros, esses, são meus...
-
---E onde mora?
-
---Em toda a parte! respondeu elle, sorrindo. Onde quer que seja precisa
-uma creatura decidida, lá a encontrarão...
-
---Então tambem trabalha pela nossa causa?
-
---Está claro!
-
-Dito isto, saíu em direcção á sua repartição e a velha ficou-se a
-pensar n’aquella causa commum que de dia para dia tornava os homens tão
-frios e obstinados. Parecia-lhe estar em frente de altissima montanha,
-em plena escuridão.
-
-Por volta do meio dia veio uma senhora alta e elegante, vestida de
-preto. Aberta a porta, a recemchegada atirou para o chão uma malinha
-amarella e tomou com vivacidade uma das mãos de Pélagué, interrogando:
-
---A senhora é a mãe do Pavel Vlassof, não é?
-
---Sou eu, sim, senhora! declarou Pélagué, constrangida pela elegancia
-da dama.
-
---Pois a senhora é tal qual eu a tinha imaginado! Meu irmão mandou-me
-dizer que vinha viver para casa d’elle! Somos amigos velhos, seu filho
-e eu... Falava-me tanto de si!
-
-A voz era baça; exprimia-se com lentidão, mas tinha gestos rapidos e
-saccudidos. Brilhava-lhe nos grandes olhos cinzentos um franco sorriso
-de mocidade. Algumas rugasinhas delicadas sulcavam-lhe já as fontes,
-e por cima das orelhas bem feitas ondeava um ou outro cabello branco,
-como prata.
-
---Venho com fome! declarou. Não desgostava de tomar uma chavena de
-café...
-
---Vou preparar-lho immediatamente, disse a outra; e, ao tirar uma
-cafeteira do armário, inquiriu em voz baixa:
-
---Então sempre é certo que o Pavel lhe falava de mim?
-
---Com certeza, e até muitas vezes!
-
-E a irmã de Nicolao tirou da algibeira uma carteirinha, tomou de
-um cigarro e accendeu-o. Percorrendo o quarto a grandes passadas,
-proseguiu:
-
---Está em cuidados por causa d’elle?
-
-Pélagué sorria, fitando a chamma azulada da lampada de espirito de
-vinho, a crepitar sob a cafeteira. O constrangimento de havia pouco
-desapparecera na sinceridade da sua satisfação.
-
-«Fala então muito em mim, o meu filho!» pensava.
-
-E proseguiu:
-
---Pergunta-me se estou em cuidado?... Com certeza, é bem triste o que
-se passa... Mas antigamente era peor ainda... Agora, como sei que elle
-não está só...
-
-Fixou o olhar no rosto da sua nova conhecida.
-
---Como se chama, minha senhora? perguntou.
-
---Sofia.
-
-Passou a examinal-a melhor. Havia n’aquella mulher o que quer que fôsse
-de audácia, demasiada confiança em si própria e excessiva precipitação.
-O seu falar era por demais imperioso.
-
---O que é importante é que os companheiros não vão ficar muito tempo
-na cadeia, e que sejam julgados depressa. Quando o Pavel estiver na
-Siberia, nós o faremos fugir... Ninguem póde passar sem elle, aqui...
-
-Sofia procurava com a vista onde deitar a ponta do cigarro; por fim
-enterrou-a n’um dos vasos de flôres.
-
---Olhe que assim a planta morre! observou a velha machinalmente.
-
---Queira perdoar! disse Sofia. É isso o que o Nicolao me está sempre a
-repetir...
-
-E retirando do vaso a ponta de cigarro, atirou-a pela janella.
-
---Sou eu que lhe peço desculpa. Falei sem reflectir. Não é a mim que
-compete repreendel-a.
-
---E porque não?... Se eu sou uma estouvada! redarguiu Sofia serenamente
-e com um encolher de hombros. O café está pronto? Muito obrigada!
-Então, só uma chavena? Não se serve?
-
-E, collocando-lhe as mãos nos hombros, puxou-a para si, fitou-a e
-perguntou-lhe em tom de admirada:
-
---Estará por acaso a fazer cerimonia?
-
-A outra respondeu com um sorriso:
-
---Ainda hontem cheguei aqui, e já hoje me parece que estou em minha
-casa e que conheço a senhora ha muitos annos... Nada receio; digo o
-que me vem á cabeça; faço observações...
-
---E está muito bem! exclamou Sofia com entusiasmo.
-
---Nem sei onde tenho a cabeça! Nem já me conheço! continuou Pélagué.
-Antigamente, a gente estudava as pessoas por dentro e por fóra primeiro
-que lhes falasse com o coração nas mãos; agora, não, parece que nada se
-receia, dizem-se de repente coisas que d’antes nem mesmo nos atreviamos
-a pensar... e que de coisas!
-
-Sofia accendeu outro cigarro; pousára o olhar cinzento na sua
-interlocutora, cariciosamente.
-
---Disse ha pouco que se ha de arranjar a fuga do Pavel... Mas como vae
-elle viver depois?
-
-Era esta pergunta que importunava Pélagué e que conseguira emfim
-formular.
-
---É coisa facil! respondeu Sofia, servindo-se outra vez de café. Ha de
-viver como vive grande numero de evadidos... Olhe, agora acabo eu de ir
-buscar um d’elles, que acompanhei até ao estrangeiro. É tambem um homem
-valioso; é operario no sul; foi condemnado a cinco annos de degredo,
-mas só cumpriu trez annos e meio. É por este motivo que me vê tão bem
-vestida. Julgava que era o meu trajo habitual? Não; detesto os farrapos
-e os enfeites... A humanidade é de origem humilde; deve trajar com
-humildade,--vestuario bem feito mas simples...
-
-Pélagué, abanando a cabeça, disse em voz baixa:
-
---Ah! esse primeiro de maio é que me pôz as idéas em confusão! Não
-me sinto bem; chega-me a parecer que vou por duas estradas, ao mesmo
-tempo... tão depressa julgo que compreendo tudo, tão depressa me
-vejo cercada de nevoeiros... A senhora, por exemplo... Vejo que é
-uma senhora fina... e a senhora tambem trabalha pela nossa causa...
-conhece o Pavel... e diz que o tem em grande conta... Não sei como
-agradecer-lhe...
-
---Não, os agradecimentos são para si, disse Sofia, rindo.
-
---Para mim?! Não fui eu que lhe ensinei essas coisas todas! respondeu
-a mãe com um suspiro. Dizia-lhe eu então, continuou: umas vezes, tudo
-isto me parece simples, outras, nem essa mesma simplicidade eu posso
-compreender... Assim, agora, encontro-me com o espirito socegado,
-d’aqui a instantes, já sinto medo por me vêr tão socegada. Toda a minha
-vida tenho passado em meio de inquietações... e agora, que ha motivo
-para receios, já quasi não sinto medo... Porque é isto? Não sei!...
-
-Pensativamente, Sofia respondeu:
-
---Ha de vir um dia em que tudo compreenderá!... Parece-me tempo de
-abandonar todos estes esplendores de vestuario...
-
-Collocou a ponta do cigarro no pires, e saccudindo a cabeça, fez rolar
-sobre os hombros, em madeixas espessas, os doirados cabellos. Depois
-saíu...
-
-A outra seguiu-a com a vista, suspirou, olhou em torno e começou
-a arrumar a loiça, com a cabeça vasia de idéas, prostrada por uma
-somnolencia que a amodorrava.
-
-
-
-
-III
-
-
-Pelas quatro da tarde, Nicolao estava de volta. Ao jantar, Sofia
-contou, rindo, o seu encontro com o forçado evadido; falou do terror
-d’esse homem, sempre a vêr espiões em todos os cantos, e dos modos
-exquisitos do evadido... No tom de voz em que falava alguma coisa fazia
-lembrar á velha Pélagué a fanfarronada d’um operario que terminou uma
-tarefa difficil e que d’ella se gaba.
-
-Vestia agora Sofia um roupão cinzento, leve e adejante que lhe cahia
-dos hombros até aos pés em pregas harmoniosas, vaporoso e simples.
-
-Este novo trajo fazia-a parecer mais alta, ao passo que o olhar se lhe
-annuviára e os movimentos se lhe tornavam mais serenos.
-
---É preciso que trates d’outro negocio, Sofia! disse Nicolao, terminado
-o jantar. Como sabes, ha idéa de editar um jornal para a gente dos
-campos... mas, graças ás ultimas prisões effectuadas, os laços que nos
-uniam a esses camponezes, quebraram-se. Só Pélagué sabe como poderemos
-rehaver o homem que se encarrega da distribuição do jornal... Parte com
-ella... o mais cêdo que possas...
-
---Está bem, disse Sofia, recomeçando a fumar. Está combinado, mãesinha?
-
---Porque não? Pois, vamos!
-
---E é longe?
-
---Oitenta kilometros, pouco mais ou menos.
-
---Optimamente!... Agora vou tocar um bocado de piano... Está disposta
-para um pouco de musica?
-
---Nada me pergunte, faça de conta que não estou aqui, respondeu ella.
-E foi sentar-se para um canto do canapé coberto de uma capa de linho.
-Notava ella que os dois irmãos, sem parecerem ligar-lhe importancia, a
-intromettiam todavia, e a meude, na conversação.
-
---Ouve isto, Nicolao; é de Grieg. Trouxe hoje a musica. Fecha a janella!
-
-Abriu a partitura e acariciou as teclas de mansinho, com a mão
-esquerda. As cordas entraram a vibrar em accordes indolentes e pesados.
-
-Houve primeiro um profundo suspiro, depois outra nota veio juntar-se
-ás primeiras, n’uma forte e tremente amplidão de som. A mão direita
-entrou então em resonancias claras, em gritos parecidos com os de uma
-ave assustada; balanceou-se depois, em cadencia, imitando o palpitar
-das azas no fundo sombrio das notas graves, que cantavam, harmoniosas e
-compassadas, quaes vagas batidas pela tempestade. Em resposta á canção,
-vinham logo caudaes de accordes soturnos, chorando com dôr, suffocando
-queixumes, implorações, gemidos, tudo fundido n’um rythmo de angustia.
-Por vezes, como n’um impulso de desespero, a melodia soluçava,
-desfallecida; mas logo recaía, rastejando, hesitante, sob a torrente
-espessa e cascadeante das notas cavas, e afogava-se, sumia-se, para de
-novo reaparecer por entre o ribombar igual e monotono; tomava alento,
-então vibrava e dissolvia-se por fim n’um poderoso martelar de notas
-humidas que toda a salpicavam, e ficava a suspirar sem cansaço, com a
-mesma força e a mesma resignação...
-
-Ao principio, a música não impressionou Pélagué; não a compreendia;
-era para ella como um cáos de sonoridades. O ouvido não lhe permittia
-distinguir a melodia na palpitação complexa d’aquella alluvião de
-notas. Meio somnolenta, fitava Nicolao, sentado no outro extremo do
-canapé, com as pernas dobradas por debaixo do corpo; considerava tambem
-o severo perfil de Sophia, de cabeça inclinada, sob o velo espesso dos
-seus cabellos d’oiro. Ia pôr-se o sol. Um raio tremulo nimbou primeiro
-a cabeça, o hombro da pianista; depois, deslisando para o teclado,
-brincou-lhe entre os dedos. Toda a sala estava cheia d’aquella melodia,
-e o coração da mãe despertava emfim, sem que ella mesma o percebesse.
-Succediam-se, entretanto, trez notas vibrantes como a voz de Fédia
-Mazine, regularmente e sustentando-se mutuamente á mesma altura, taes
-trez peixes de prata fluctuando n’um regato, scintillando por entre a
-torrente dos sons...
-
-De vez em quando, outra nota mais vinha juntar-se ás primeiras, e,
-todas ao mesmo tempo, entravam a cantar uma canção ingenua, triste
-e acalentadora. E Pélagué começava a poder seguil-as, esperando que
-voltassem, não escutando outra coisa, abstraíndo-as do cáos inquietador
-da harmonia geral, que pouco a pouco ia deixando de ouvir...
-
-E subitamente, das negruras remotas do seu passado, veio-lhe a
-recordação d’uma humilhação esquecida havia muito, mas que ressuscitava
-agora com nitidez cruel.
-
-De uma vez, o marido voltára-lhe para casa tardíssimo e completamente
-embriagado. Puxára-a pelo braço, atirára-a da cama e enchera-a de
-pontapés, regougando:
-
---Vae-te d’aqui, canalha, que não te posso aturar!... Vae-te!
-
-Para se esquivar aos maus tratos, tomára precipitadamente nos braços
-o filho, que então tinha dois annos, e, firmando-se nos joelhos,
-protegia-se com o corpinho do innocente, como se fôsse um escudo. O
-pequeno chorava, barafustava, com medo, nu, e quentinho do berço.
-
---Vae-te d’aqui! rugia Mikhaíl.
-
-Ella saltára da cama, descalça, correra á cosinha; então, atirando uma
-camisola para os hombros e embrulhando a criança n’um chale, sem uma
-palavra, sem um queixume nem uma exortação, com os pés no lagedo, saíra
-para a rua. Era em maio, a noite ia fresca; a frigida terra da calçada
-collava-se-lhe aos pés, penetrando-a toda, regelando-a.
-
-A criança chorava sempre e debatia-se. Desnudára o seio, conchegou a
-si o pequeno; e, instigada pelo medo, lá se foi pelas ruas escuras,
-cantando baixinho para adormecer o filho. Ia despontar o dia; Pélagué
-toda se envergonhava com a ideia de ser encontrada n’aquelle estado.
-Desceu até á margem do pantano, sentou-se no chão debaixo de compacto
-bosque de álamos... E para ali esteve muito tempo, disfarçada
-na treva, com os olhos esgazeados fitos na escuridão, a cantar
-timidamente para embalar o filho e o coração ultrajado. Subito, uma
-ave negra, silenciosa, esvoaçára-lhe por sobre a cabeça e sulcára o
-ceu, accordando-a. E a tremer de frio, erguera-se e lá voltára para
-casa, a arrostar com o seu habitual terror das sevicias e das injurias
-incessantes...
-
-Pela ultima vez, ecoou um accorde sonoro, mas de indifferença e frieza,
-que n’um suspiro se immobilisou no ambiente.
-
-Voltou-se Sophia e a meia voz perguntou ao irmão:
-
---Gostas?
-
---Muito! respondeu, estremecendo como se saísse d’um sonho; muito!...
-
-Os dedos de Sophia desfiaram então um harpejo suave e harmonioso.
-
-No intimo do seu peito, Pélagué escutava ainda o echo debil e tremente
-das suas recordações. O seu desejo era que a musica proseguisse. E um
-pensamento germinava n’ella:
-
---Ora aqui está uma gente que vive socegada... o irmão, a irmã... muito
-amigos... Entretêem-se com a musica... Não dizem palavradas, não bebem
-aguardente, não questionam por qualquer futilidade... nem pensam sequer
-em offender-se um ao outro, como se faz entre toda a gente de baixa
-extracção...
-
-Sophia, entretanto, fumava um cigarro. Fumava muito, quasi sem descanso.
-
---Era este o trecho favorito do pobre Kostia! disse, aspirando com
-força uma fumaça, e assentou de novo a mão, n’um debil accorde triste.
-Como eu gostava de lh’o tocar! Era tão intelligente! Nada havia que não
-compreendesse... O espirito d’elle era accessivel a tudo.
-
---É do marido que fala, pensou a hospede. E sorriu.
-
---Quanta felicidade elle me trouxe! continuou Sophia em voz baixa, ao
-passo que acompanhava os seus pensamentos com leves accordes repetidos.
-Como elle sabia viver bem!... Sempre alegre, de uma alegria infantil,
-cheia de vida, que todo o illuminava...
-
---Infantil! repetiu a mãe comsigo mesma.
-
---É verdade, disse Nicolao, revolvendo a barbicha, uma alma de
-illuminado!
-
-Sophia atirou fóra o cigarro ainda acceso, voltou-se para Pélagué,
-perguntou:
-
---Esta bulha não a incommoda?
-
---Já lhe disse que não se importe comigo, respondeu ella com um ligeiro
-despeito que não poude disfarçar. Eu nada percebo d’isso... Estou aqui
-quieta, a escutar e a pensar...
-
---Não, senhora, é preciso que compreenda! replicou Sophia. Uma mulher,
-principalmente quando está triste, não póde deixar de compreender a
-musica...
-
-E pulsou as teclas com força. Resoou um grito violento, como se a
-alguem acabassem de dar uma d’estas noticias terriveis, das que ferem
-em pleno coração e arrancam um dolorido queixume. Entraram então a
-vibrar umas vozes frescas que, logo, horrorisadas e desconcertadas
-fugiram velozmente, não se sabia para onde; de novo, ecoou uma outra
-voz sonora e irritada, abafando todo o conjunto... Era com certeza
-uma desgraça, mas desgraça que incitava coleras, não gemidos. Depois
-outra voz energica mas reconfortante entrou a entoar uma canção bonita
-e simples cheia de persuasão, de incitamento. Surdamente, em tom de
-melindre, as vozes dos graves murmuravam...
-
-Sofia tocou por muito tempo ainda. Pélagué sentia-se perturbada. Todo
-o seu desejo era perguntar o que significava tal musica, que assim
-fazia germinar n’ella imagens indistinctas, sentimentos, pensamentos
-mutaveis sem cessar. O pezar e a angustia cediam o logar perante
-as scintillações d’uma serena alegria; dir-se-ia que um bando de
-invisiveis passarinhos redemoinhasse pela sala, acariciando as almas
-com o perpassar das delicadas azas, contando gravemente alguma coisa
-que provocasse instinctivamente o curso do pensamento com palavras
-incompreensiveis, acalentando os corações com esperanças vagas,
-enchendo-os de força e de vigor.
-
-E Pélagué sentia o ardente desejo de dizer o que quer que fôsse meigo
-aos seus companheiros. Sorria ternamente, enebriada por aquella música.
-
-Procurou com a vista o que poderia fazer; ergueu-se, e nos bicos dos
-pés, foi para a cosinha dispôr o samovar.
-
-Mas o desejo de se tornar util não se lhe extinguiu, continuava a
-pulsar-lhe no coração com obstinada regularidade; serviu depois o chá
-com um sorriso de embaraço e de commoção, com a alma banhada em tepidos
-effluvios de sollitude que ella partilhava por igual entre si e os seus
-companheiros.
-
---Nós cá, gente do povo, explicou, sentimos tudo, mas é nos
-difficil exprimil-o, não podemos formar senão ideias incertas; e
-envergonhamo-nos de não podermos dizer o que se sente. E quantas vezes,
-para falar com consciencia, a gente não se zanga com as proprias
-ideias e com aquelles que nol-as suggerem! Entramos a irritar-nos e
-afugentamol-as! Em que agitações se passa esta vida! É ella que por
-todos os lados nos assalta e nos magoa. Era tão bom descansar!... mas
-os pensamentos não deixam á alma um só momento de repouso e ordenam-lhe
-que veja, que oiça.
-
-Nicolao escutava-a, com approvações de cabeça; limpava os óculos
-com movimentos saccudidos; Sofia encarava fixamente aquella mulher,
-esquecida do cigarro, que se apagára. Continuava sentada ao piano, e
-de vez em quando afagava o teclado. Accordes muito brandos acompanhavam
-assim as considerações da anciã, a qual se deu pressa em revestir os
-seus pensamentos intimos com palavras da mais simples sinceridade.
-
---Agora, posso falar um pouco de mim propria e dos meus... porque
-já compreendo a vida, e comecei a conhecel-a quando pude comparar.
-D’antes, não tinha pontos de comparação. Na nossa classe, todos levam
-vida igual. Hoje, que vejo como vivem os outros, lembro-me de como
-eu vivi e custa-me muito o recordal-o... Emfim, é impossivel voltar
-atraz; e mesmo quando o pudessemos fazer, não encontrariamos uma nova
-mocidade...
-
-Baixou a voz; proseguiu:
-
---Talvez eu esteja dizendo coisas insensatas ou nescias, pois que o
-senhor e sua irmã devem conhecer tudo isto... mas vejam que é de mim
-que estou falando e que falo a quem teve a bondade de me chamar para o
-seu lado.
-
-Tremiam-lhe na voz lagrimas de grata felicidade; fitou-os a ambos com
-um olhar muito risonho e continuou:
-
---Queria abrir-lhes a minh’alma para que vissem todo o bem que lhes
-quero.
-
---Mas nós bem vêmos! disse Nicolao com bondade. E sentimo-nos felizes
-por têl-a na nossa companhia.
-
---Sabem o que isto me parece? interrogou ella, sempre com voz sumida,
-risonha, parece que foi um tesoiro que eu achei, que estou rica, que
-posso presentear toda a gente... Isto é talvez um effeito da minha
-tolice...
-
---Não diga tal! interrompeu com gravidade Sofia.
-
-Não era para acalmar de pronto aquella sêde de expansão; continuou
-portanto Pélagué a falar-lhes de tudo o que para ella era novo e lhe
-parecia de inapreciavel importancia. Contou-lhes a sua miserrima vida
-cheia de humilhações e resignado soffrer; por vezes, interrompia-se;
-julgava ter-se afastado de si mesma e estar falando de si como o faria
-de qualquer outra...
-
-Sem rancor, em termos correntios e nos lábios sorriso de piedade,
-desenrolou em presença de Nicolao e da irmã a monotona e lugubre
-história dos seus tristes dias, enumerado os maus tratos infligidos
-pelo marido, intimamente admirada, ella própria, da futilidade
-dos pretextos que os provocavam, admirada por não ter sabido
-esquivar-se-lhes...
-
-Attentos e silenciosos, Nicolao e Sofia escutavam-na; sentiam-se
-esmagados pela significação profunda d’aquella historia, d’aquelle
-ente humano tratado como um animal e que passára tanto tempo sem
-sentir a injustiça da sua condição, sem um murmurio. Eram milhares de
-vidas a falar pela bocca d’aquella mulher. Tudo n’esta existencia era
-banal e indifferente, mas havia pelo mundo innumeravel quantidade de
-creaturas avergadas áquelle modo de vida... E, avantajando-se mais e
-mais nos seus raciocínios, aquella história assumia as proporções d’um
-símbolo... Nicolao, com os cotovellos sobre a mesa, a cabeça entre as
-mãos, quedava-se immovel, considerando a sua hospede por detraz do
-vidro dos óculos, com os olhos piscando de attenção. Sofia, reclinada
-no espaldar da cadeira, sentia-se estremecer, murmurava de quando em
-quando o que quer que fôsse, abanando a cabeça negativamente. Deixára
-de fumar; o seu rosto parecia agora mais magro ainda, e mais pálido.
-
---Um dia, começou ella, em voz baixa, senti-me muito infeliz;
-parecia-me que toda a minha vida nada mais era do que um delírio de
-febre. Estava eu então no desterro, n’uma miseravel povoação da
-provincia, onde nada tinha a fazer, ninguem em quem pensar, a não ser
-em mim propria... Para occupar este ocio, puz-me a fazer a conta das
-minhas infelicidades, recordando-as todas: ficára de mal com meu pae,
-a quem estimava, fôra expulsa do collegio por lêr livros proíbidos; em
-seguida, fôra a prisão, a traição d’um companheiro a quem muito queria,
-a captura de meu marido, outra vez a prisão e o degredo, a morte
-d’elle... E então parecia-me que a mais desgraçada creatura de toda a
-terra era eu... Mas todos os meus males justapostos e decuplicados, não
-chegam a valer um mez da sua vida, pobre mulher... não! Essa tortura de
-todos os dias durante annos e annos... Onde vão os pobres buscar essa
-força contra o soffrimento?
-
---Acabam por se habituar! respondeu ella, suspirando.
-
---E julgava eu conhecer o mundo! disse Nicolao, pensativo. E afinal,
-quando não se trata só de impressões fragmentadas, quando não é já um
-livro que nos fala, mas uma creatura em pessôa, como é horrivel! E
-os pormenores são tambem horrorosos, os proprios nadas, cada um dos
-segundos que formam um anno inteiro!...
-
-E a conversa proseguia em voz baixinha. Mergulhada nas suas
-recordações, Pélagué extraía do crepúsculo sombrio do seu passado
-todas as injúrias mesquinhas e habituaes; ia compondo negro quadro de
-mudo horror immenso, em que sossobrava a sua juventude de mulher. De
-repente, exclamou:
-
---Ai, e eu aqui a palrar!... São horas de nos irmos deitar! É
-impossivel contar tudo!
-
-Nicolao inclinou-se diante d’ella mais do que costumava e apertou-lhe
-com mais força a mão. Sofia acompanhou-a á porta do quarto, e ali,
-parando, murmurou:
-
---Durma bem!... Boa noite!
-
-Era caloroso o seu falar; envolvia n’um meigo olhar de caricia o rosto
-de Pélagué... Esta agarrou-lhe em uma das mãos e, apertando-a nas suas,
-respondeu:
-
---Quanto lhes agradeço!
-
-
-
-
-IV
-
-
-Quatro dias depois, apresentavam-se a Nicolao as duas mulheres
-pobremente vestidas de saias de chita já usadas, de cajados na mão e
-alforge ao hombro. Este trajo tornava Sofia mais baixa e dava-lhe á
-fisionomia uma expressão de austeridade.
-
---Parece que passas a vida a jornadear de convento em convento!
-disse-lhe o irmão.
-
-E ao despedir-se d’ella, apertou-lhe a mão com energia. Mais uma vez,
-notou a velha esta simplicidade e esta calma. Decididamente, não
-eram pródigos de beijos nem de demonstrações de estima, e comtudo,
-mostravam-se tão sinceros um para o outro, tão sollicitos para com os
-estranhos! Porque nos meios onde Pélagué vivera, todos se beijavam
-muito, todos se animavam com bonitas palavras, o que não impedia que se
-mordessem como cães damnados.
-
-Atravessaram as viandantes a cidade, alcançaram o campo e tomaram a
-vasta estrada bem calcetada, orlada de velhas bétulas.
-
---Não estará cansada? inquiriu a mais idosa.
-
---Julga que não estou costumada a andar? Pois engana-se...
-
-Jovialmente, por entre risadinhas, como se tratasse de travessuras
-de criança, Sofia entrou de contar os seus feitos de revolucionária.
-Vivera já com um nome supposto, servindo-se para isso d’um passaporte
-falsificado; disfarçára-se para fugir aos espiões, transportára
-para diversas cidades muitos quintaes de brochuras proíbidas. Tinha
-arranjado a fuga a muitos companheiros exilados, acompanhára-os ao
-estrangeiro. De uma vez, montára na sua própria casa uma imprensa
-clandestina; e quando os gendarmes, sob denuncia do delicto, tinham
-vindo proceder ás buscas, disfarçara-se ella de criada, minutos antes
-d’elles chegarem e saíra, cruzando-se com os inquisidores já no limiar
-do predio. Sem uma capa, com uma simples mantilha pela cabeça e de
-amotolia de petroleo em punho, percorrera de outra vez a cidade de
-extremo a extremo, sob um frio rigoroso, em pleno inverno. D’outra
-occasião, porque se tivesse dirigido a casa de uns correligionarios,
-n’uma cidade distante, ia a subir a escada quando percebeu que havia lá
-policia, varejando. Era tarde para saír do prédio; bateu portanto com o
-maior atrevimento, no andar de baixo. Entrou em casa de gente que não
-conhecia, de mala na mão, e tratou de pôr a claro o acontecido.
-
---Os senhores podem denunciar-me se quizerem, mas não os julgo capazes
-d’isso declarára ella convictamente.
-
-Atrapalhadissimos, não fecharam os olhos toda aquella noite, julgando
-a todo o momento que lhes vinham bater á porta. Comtudo, não a
-denunciaram e, chegada a manhã, mangaram, como ella, com a polícia.
-Tambem lhe acontecera vestir-se de irmã da caridade e fazer viagem
-no mesmo compartimento e no mesmo assento do vagon em que ia um
-espião encarregado de lhe seguir a pista, o qual, para fazer valer a
-sua esperteza, se lhe puzera a contar como era que procedia em tal
-diligencia. Estava certo o homem de que Sofia ia n’aquelle comboio, em
-segunda classe: e a cada nova paragem, descia e commentava regressando
-para o pé da pseudo religiosa:
-
---Não a vejo... Provavelmente vae a dormir. É que essa gente tambem
-cansa... Levam uma vida tão dura... tal qual a nossa!
-
-A outra ria com estas historias, olhava para Sofia com affecto. Alta
-e magra, a joven senhora caminhava com passo leve mas firme; tinha os
-pés fortes e bem feitos. Na maneira de andar, no falar, no proprio
-timbre da voz, decidida se bem que um pouco baça, em toda a sua figura
-esbelta, transparecia uma como bôa saude moral, uma audacia alegre, um
-desejo de ar e de espaço, e os seus olhares para tudo se dirigiam com
-uma expressão de juvenil contentamento.
-
---Olhe aquelle pinheiro tão bonito! exclamou, mostrando uma arvore á
-sua companheira, que parou para vêl-a. Mas o pinheiro, afinal, não era
-nem maior nem mais folhudo que os outros.
-
---É verdade, bonita arvore! repetiu, risonha.
-
---Olhe uma cotovia!
-
-E os olhos pardos de Sofia brilharam de satisfação. Ás vezes, com
-movimentos flexuosos, baixava-se, apanhava uma flôr e acariciava-lhe
-amorosamente as petalas tremulas com o ligeiro contacto dos seus dedos
-afusados e ageis. E trauteava canções meigas.
-
-Pelo caminho, cruzavam-se com peões ou campónios empoleirados nas suas
-carroçadas, que lhes diziam:
-
---A paz seja comvosco!
-
-Brilhava um lindo sol primaveril; todo o vasto azul resplandecia;
-aos dois lados da estrada, estendiam-se densas florestas de madeiras
-resinosas, herdades de um verde muito vivo; cantavam passaros, o ar
-tepido e perfumado acariciava brandamente as faces.
-
-Tudo contribuia para approximar Pélagué d’aquella mulher de alma e de
-olhos tão limpidos; e involuntariamente, chegava-se mais para ella,
-esforçando-se por igualar a sua andadura pela d’ella. Comtudo, ás
-vezes, destacava-se das frases de Sofia uma expressão demasiado viva,
-demasiado sonora, que a Pélagué se afigurava superflua. Então, era
-tomada de inquietação:
-
---Estou vendo que não vae agradar ao Rybine...
-
-Mas um instante depois, Sofia voltava a falar com simplicidade,
-cordialmente, e ella de novo a olhava com ternura.
-
---Como é nova ainda! suspirou.
-
---Ora! olhe que já tenho trinta e dois!
-
-A outra riu.
-
---Não é isso que quero dizer... Á primeira vista parece ter mais
-idade... mas quando se repara nos seus olhos, quando a ouvimos falar,
-fica-se muito admirado, parece uma menina... A sua vida é desasocegada,
-penosa, cheia de perigos... e todavia, tem o coração alegre...
-
---Não vejo em que a minha vida seja penosa, nem posso imaginar outra
-mais interessante e melhor do que esta...
-
---E quem ha de recompensal-a dos seus trabalhos?
-
---Se já estamos recompensados! respondeu Sofia, em tom que á outra
-pareceu denunciar fundo orgulho. Arranjámos uma existencia que nos
-satisfaz; que mais havemos de desejar?
-
-A mãe olhou para ella furtivamente e baixou a cabeça, repetindo a si
-mesma:
-
---Não vae gostar nada d’ella, o Rybine...
-
-Aspirando a plenos pulmões o ar tepido, as duas mulheres caminhavam em
-passo lento mas firme. A Pélagué parecia-lhe que andava em romaria.
-Lembrava-lhe aquillo a sua meninice e a pura felicidade que a animava
-quando, nos dias de festa, partia da aldeia em direcção a algum
-mosteiro, onde houvesse uma imagem milagrosa.
-
-De vez em quando, Sofia entoava com a sua voz novas canções em que se
-falava de amôr e do Ceu; outras vezes, punha-se de subito a declamar
-estrofes celebres que celebravam os campos e as florestas, o Volga; e a
-outra escutava-a, prazenteira, meneando, sem dar por isso, a cabeça ao
-rythmo do verso, cuja melodia a enfeitiçava.
-
-N’aquelle coração, tudo era paz, carinho e doçura, como n’um velho
-jardinsinho, n’uma tarde de estio.
-
-
-
-
-V
-
-
-Ao terceiro dia, ao chegarem a uma aldeia, perguntou a mais velha das
-duas a um trabalhador do campo onde ficava a fabrica do alcatrão. E
-logo tiveram de descer por estreito atalho ingreme e agreste, qual
-escada, onde as velhas raízes formavam degraus. Avistaram d’ali uma
-clareirasinha circular atapetada de aparas de lenha e de carvão e onde,
-aqui e ali, havia poças de alcatrão.
-
---Eis-nos chegadas! disse a velha, olhando em volta com desconfiança.
-
-Junto a uma choça feita com estacas e algumas ramadas, jantavam
-quatro operarios, em torno d’uma mesa feita com trez táboas em bruto
-estendidas sobre umas estacas cravadas no solo. Eram elles: Rybine,
-muito sujo, com a camisa aberta no peito, Jéfim e mais dois rapazes.
-Rybine foi o primeiro que avistou as duas mulheres; quedou-se á espera,
-em silencio, formando pala com a mão, para abrigar os olhos.
-
---Viva, irmão Mikhaíl! gritou-lhe de longe Pélagué.
-
-Levantou-se então e veio-lhes ao encontro, mas sem se apressar. Ao
-reconhecer quem lhe falava, deteve-se a acamar a barba.
-
---Andamos em romaria! disse ella, approximando-se mais. E fiz um rodeio
-para vir vêr-te. Esta minha amiga veio comigo; chama-se Anna...
-
-Contente com o seu achado, olhou de soslaio para Sofia. Esta permaneceu
-séria e impassivel.
-
---Vivam lá, respondeu Rybine com um sorriso contrafeito. Apertou-lhe a
-mão, cumprimentou Sofia e accrescentou:
-
---É inutil mentir; não estamos na cidade; aqui não são precisas
-mentiras. Aqui só ha gente séria, todos nos conhecemos uns aos outros.
-
-Jéfim, á mesa, onde continuava sentado, examinava com attenção as
-recemvindas; segredou o que quer que fôsse aos seus commensaes.
-
-Ao approximarem-se as duas, levantou-se, cumprimentou sem dizer uma
-palavra. Os outros dois deixaram-se ficar, como se não tivessem dado
-pelas viandantes.
-
---Vive-se aqui como presidiarios! proseguiu Rybine, batendo
-familiarmente no hombro da sua conhecida. Ninguem vem vêr-nos, o patrão
-não está na aldeia, a mulher d’elle lá está no hospital e eu sou agora
-aqui uma especie de gerente... Sentem-se. Tomam chá? Ó Jéfim, vae
-buscar o leite!
-
-Vagarosamente, Jéfim encaminhou-se para a choupana, emquanto as duas
-se desembaraçavam dos alforges. Um dos camponezes, um grande latagão
-magro, levantára-se para as ajudar. O outro, atarracado e coberto
-de farrapos, acotovelado sobre a mesa, olhava pensativo para ellas,
-coçando a cabeça e trauteando baixinho. Aromas suffocantes de alcatrão
-fresco casavam-se com o cheiro das folhagens apodrecidas, provocando
-tonturas.
-
---Este chama-se Jacob, disse Rybine, apresentando o mais alto dos dois
-operarios; aquelle é o Ignaty... E então o teu filho?
-
---Está na cadeia! gemeu a mãe.
-
---Outra vez! exclamou Rybine. Ao que parece deu-se bem por lá...
-
-Ignaty deixára de cantarolar. Jacob tomou o cajado das mãos de Pélagué.
-
---Senta-te, tiasinha!
-
---E a senhora sente-se tambem, disse Rybine, dirigindo-se a Sofia.
-
-Sem uma palavra, esta tomou assento em cima d’um fardo e poz-se a
-examinar Rybine.
-
---E quando foi elle preso? perguntou este; e acrescentou com um abanar
-de cabeça: Não tens sorte nenhuma, Pélagué!
-
---Que importa!
-
---Então, já te vaes costumando?
-
---Não, mas cheguei ao convencimento de que as coisas não pódem ir
-d’outra fórma!
-
---Ora ahi está! disse Rybine. Conta, então...
-
-Jéfim trouxe uma infusa de leite; o outro tomou de sobre a mesa uma
-tigella, laviscou-a com um pouco d’agua e depois de a encher de leite,
-empurrou-a para o logar de Sofia. Ia e vinha sem ruido, com precaução.
-Depois da mãe ter finalisado a sua curta narrativa, todos ficaram
-calados. Ignaty, que continuava á mesa, fazia gravuras nas taboas com
-as unhas. Jéfim encostava-se ao hombro de Rybine. Jacob, de braços
-cruzados no peito, baixava a cabeça. Sofia continuava a analysar as
-caras d’aquelles campónios.
-
---Pois está visto! declarou Rybine, arrastando muito as sylabas.
-Decidiram-se a proceder ás claras...
-
---Elles que viessem para cá com uma fantochada d’essas, declarou Jéfim,
-que os moujiks dariam cabo d’elles!...
-
---Disseste que o Pavel vae ser julgado? perguntou Rybine.
-
---Sim, é coisa decidida, respondeu a mãe.
-
---E que pena póde elle apanhar... não sabes?
-
---Ou as galés ou o degredo para a Siberia, por toda a vida! respondeu,
-baixando a voz.
-
-Os outros trez operarios fitaram-na simultaneamente.
-
-Rybine proseguiu:
-
---E quando elle se metteu n’esse negocio, sabia o que o esperava?
-
---Não sei... provavelmente.
-
---Sim, sabia-o! affirmou Sofia com decisão.
-
-Calaram-se todos e ficaram-se como estaticos, mergulhados em um mesmo
-pensamento consolador.
-
---Ora ahi está! continuou Rybine em tom de severa gravidade. Tambem
-eu creio que o soubesse. É um homem sério; não se mette levianamente
-n’essas coisas. Vejam lá companheiros. Sabia que o podiam espetar n’uma
-baioneta ou que lhe davam as honras d’um presidio, e atirou-se para a
-frente ainda assim! Era preciso que se atirasse--atirou-se! E se lhe
-tivessem posto a propria mãe no caminho, passava-lhe por cima... não é
-isto Pélagué?
-
---Com certeza... murmurou a mãe com estremecimento.
-
-E depois de ter circumvagado o olhar em torno, soltou do peito profundo
-suspiro. Sofia afagou-lhe com meiguice uma das mãos e teve para Rybine
-um olhar de descontentamento.
-
---Aquillo é que é um homem? declarou elle a meia voz, fixando os
-sombrios olhos nos companheiros. E novamente todos se quedaram
-silenciosos. Pendiam da atmosfera tenues resteas de sol, como fitas
-d’oiro. Perto d’ali grasnava um corvo. Os olhares de Pélagué vagueavam,
-impressionada com as recordações do primero de maio, com a lembrança de
-Pavel e de André. Pelo solo, na clareira exigua onde estavam, jaziam
-barricas escangalhadas que tinham servido a alcatrão, madeiros sem
-casca e com a fibra a desfiar-se; fluctuavam ao vento as aparas, em
-longas fitas. Os carvalhos e as bétulas perfilavam-se em fila compacta;
-por todos os lados, ganhavam insensivelmente o espaço da clareira como
-para apagar, aniquilar todos aquelles destroços, toda aquella immundice
-que os ultrajava, e, alliados no seu silencio, immoveis, projectavam no
-solo as suas sombras negras e tragicas.
-
-De subito, Jacob afastou-se da arvore a que se encostava, deu um passo
-e logo parou para interrogar com voz forte e desabrida, abanando a
-cabeça:
-
---E é contra gente d’essa que nos vão mandar a combater, o Jéfim e eu?
-
---Pois contra quem pensavas? retorquiu Rybine em tom frio. Andam a
-esganar-nos com as nossas proprias mãos... É o cumulo!
-
---Pois assim como assim, prefiro ser soldado! declarou Jéfim com voz
-indecisa.
-
---E quem te péga? exclamou Ignaty. Pois vae! E, fitando Jéfim,
-acrescentou a rir:
-
---Em todo o caso, quando me apontares a espingarda, aponta á cabeça,
-não me deixes estropiado... mata-me de vez!...
-
---Já me disseste isso! gritou Jéfim com desabrimento.
-
---Escutem, companheiros! proseguiu Rybine; e ergueu o braço n’um gesto
-lento. Olhem para esta mulher!--e apontava para Pélagué.--O filho está
-perdido; provavelmente...
-
---Porque dizes isso? perguntou a mãe, angustiada.
-
---Porque assim é preciso! Pois haviam os teus cabellos de embranquecer
-em vão e o teu coração de soffrer inutilmente?... Tu ainda não
-morreste, não é verdade?... Trouxeste livros?
-
-A mãe lançou-lhe furtivo olhar e confirmou apóz um silencio:
-
---Trago.
-
---Ora ainda bem! disse Rybine, dando uma palmada na mesa. Percebi-o
-logo mal te vi. E para que terias tu vindo, a não ser para isso? Vejam
-lá vocês, o filho desappareceu-nos das fileiras, e ahi temos a mãe no
-logar d’elle!
-
-Ergueu-se e poz-se a gritar com voz cava e gestos ameaçadores:
-
---Essa canalha não sabe o que anda a semear por ahi, ás cegas! Hão
-de ver, quando nós estivermos mais fortes, quando entrarmos a ceifar
-n’essas hervas malditas! Hão de ver!
-
-A estas palavras, toda se assustou Pélagué; olhou para Rybine, achou-o
-muito mudado, muito magro; já não tinha a barba cuidada como d’antes,
-mas emaranhada; distinguiam-se-lhe perfeitamente as saliencias dos
-malares. No branco azulado dos olhos corriam-lhe laivos sanguineos,
-como de quem anda mal dormido. O nariz afilára-se-lhe, mais carlaginoso
-e adunco, qual bico de ave de rapina. Pelo cós da camisa, desabotoado,
-d’antes sempre sujo de tintas e alcatrão, viam-se-lhe as claviculas
-mirradas e o denso velo do peito. Toda a pessoa d’este homem respirava
-alguma coisa mais soturna e melancólica do que o fôra até então. O
-brilho dos exaltados olhos illuminava-lhe o rosto sombreado por uma
-expressão de soffrimento e de rancor, que relampejava em purpureos
-clarões.
-
---No outro dia, continuou elle, o governador do districto manda-me
-chamar e pergunta-me:
-
-«--Que fôste tu dizer ao padre, grande garoto?--E porque é que eu
-sou garoto? Ganho o meu sustento com o meu trabalho, não faço mal a
-ninguem,» respondi-lhe eu. Pôz-se logo a berrar e deu-me um murro em
-cheio na cara... e mandou-me para o calaboiço por trez dias. Ah! assim
-é que vocês sabem falar ao povo? Está bem! Mas não esperem pelo perdão,
-excommungados! Se não fôr eu, outro ha de lavar a injuria, em vocês
-ou nos filhos de vocês... lembrem-se bem! Andaram a lavrar no peito do
-povo com as garras de ferro da avidez e da cubiça e n’elle semearam a
-maldade... Pois seremos sem piedade, malditos! Ahi tem!
-
-Espumava de furor; na voz tinha impetuosidades que amedrontavam Pélagué.
-
---E afinal que tinha eu dito ao padre? proseguiu mais calmo. Á saída
-d’uma reunião, estava elle na rua n’um grupo de camponeos e dizia-lhes
-que os homens eram um rebanho e que precisavam sempre d’um pastor...
-ahi está! E eu disse-lhe por brincadeira: «Se fizessem a raposa chefe
-da floresta, pennas havia de haver muitas, mas passaros, nem um!» O
-padre olhou-me de revez e entrou a dizer que o povo devia soffrer,
-resignar-se e orar a Deus com mais frequencia, para que elle lhe desse
-forças para tudo supportar. E eu respondi-lhe: «O povo reza muito;
-provavelmente Deus é que não tem tempo para escutal-o. Se nem o ouve!»
-Ora ahi está! Elle então perguntou-me quaes eram as minhas orações. E
-eu respondi-lhe: «Não aprendi senão uma só na minha vida; é a do povo
-inteiro:» Deus, ensina-me a trabalhar para os nossos senhores, a comer
-pedras, a escarrar sangue! O padre não me deixou acabar... A senhora é
-da nobreza, ao que vejo? perguntou bruscamente Rybine, interrompendo a
-narrativa e voltando-se para Sophia.
-
---Porque julga isso? disse ella com um sobresalto de surpreza.
-
---Ora, porquê... disse Rybine. É sorte sua, nasceu assim, ahi está! A
-senhora imagina que póde disfarçar o seu peccado de fidalguia só porque
-tapou a cabeça com um lenço de chita? O padre conhece-se bem, mesmo
-quando não traz corôa... Agora acaba a senhora de pôr o cotovello na
-mesa, que estava molhada e a senhora fez uma carêta... E olhe que tem
-as costas muito aprumadas para uma operaria...
-
-Receando que elle offendesse Sofia com aquella maneira de falar,
-aquelles ditos e aquella graça pesada, Pélagué interveio com viveza e
-severamente:
-
---É minha amiga esta senhora. É uma excellente mulher... Foi a
-trabalhar por nós e pela nossa causa que fez os cabellos brancos... Não
-sejas tão desabrido com ella...
-
-Rybine soltou um suspiro mal contido.
-
---Então eu disse-lhe alguma coisa injuriosa?
-
-Sofia olhou para elle e perguntou seccamente:
-
---Tinha alguma coisa a communicar-me?
-
---Eu? Ah, sim! Ahi tem: nós temos cá um homem que chegou ha dias; é
-primo do Jacob, está doente, está tisico, mas é esperto e percebe muita
-coisa. Posso mandar chamal-o?
-
---Porque não? retorquiu Sofia.
-
-Rybine fitou-a franzindo as palpebras e ordenou em voz baixa:
-
---Jéfim, vae a casa do homem... diz-lhe que venha cá á noite.
-
-Jéfim dirigiu-se á choupana, poz o boné e sem uma palavra, sem mesmo
-olhar para quem estava, sumiu-se pelo bosque, a passo socegado. Rybine
-meneou a cabeça e, apontando para elle, disse surdamente:
-
---Soffre muito!... É teimoso... Dentro em pouco vae ser soldado... E o
-Jacob tambem... O Jacob diz que não póde, que não vae para o regimento.
-O Jéfim tambem não póde, mas diz que quer ir, custe o que custar...
-Teve uma idéa... Lembrou-se que poderá levar aos soldados pruridos de
-liberdade... Eu cá, a minha opinião é que não se póde arrombar uma
-parede dando-lhe com a cabeça. E elles, mettem-lhes uma espingarda na
-mão e abalam por ahi fóra. Para onde vão? Não percebem que marcham
-contra si mesmos... Anda a soffrer, o Jéfim. E o Ignaty ainda mais lhe
-revolve o punhal na ferida. Parece-me inutil...
-
---Qual historia! replicou Ignaty com indignação, sem fitar o seu
-contendor. Lá no regimento se encarregam de o converter, e ha de acabar
-por fazer fogo, como os outros!
-
---Não, não creio! replicou o outro, pensativo. Mas, seja como fôr, mais
-vale evitar isso... A Russia é grande... Como podem elles descobrir um
-homem? É preciso arranjar um passaporte e fugir de aldeia em aldeia.
-
---São essas as minhas tenções! declarou Ignaty, batendo na perna com
-uma acha. Uma vez que está resolvido combater-se, é preciso marchar sem
-hesitação.
-
-A conversa cessou. Voltavam pelo ar, atarefadas, as abelhas e as
-vespas, esmaltando o silencio com os seus zunidos. Os passarinhos
-chilreavam; de longe, vinha uma canção n’uma toada que vagueava por
-sobre os campos. Depois de curto silencio, proseguiu Rybine:
-
---É preciso trabalhar, companheiros... Ou talvez prefiram descançar...
-Lá dentro da choupana ha camas a lastro. Ó Jacob, vae-lhes arranjar
-folhas bem sêccas... E tu, dá cá os livros, tiasinha! Onde estão?
-
-Sofia e Pélagué abriram os alforges. Rybine inclinou-se a espreitar e
-disse, satisfeito:
-
---Ahi está... Mas que grande quantidade trouxeram! Ora venham vêr!
-Ha muito tempo que trabalha n’este negocio, a senhora? acrescentou,
-falando com Sofia.
-
---Ha doze annos.
-
---Então, como se chama?
-
---Chamo-me Anna Ivanovna. Porquê?
-
---Cá por coisas. E já esteve presa provavelmente?
-
---Já estive.
-
---Bem vês! disse Pélagué, baixo e em tom de censura. E tu que a
-trataste mal...
-
-Ficou calado um momento. Depois, tomando um pacote de livros, respondeu:
-
---Não se zangue! Campónio e fidalgo são como o alcatrão e a agua, não
-ha maneira de os misturar, não se dão...
-
---Não sou fidalga; sou uma creatura que pensa, que soffre e geme!
-contestou Sofia.
-
---É possivel! disse Rybine. Vou esconder tudo isto.
-
-Ignaty e Jacob approximaram-se d’elle, de mãos estendidas.
-
---Dá-nos alguns! disse Ignaty.
-
---São todos iguaes? perguntou Rybine a Sofia.
-
---Nem todos. Vem tambem um jornal...
-
---Ah!
-
-Os tres homens precipitaram-se para a cabana.
-
---É exaltado, este rapaz! observou Pélagué, baixando a voz e
-seguindo-os com olhar pensativo.
-
---É verdade, disse Sofia no mesmo tom. Nunca vi uma cara como
-aquella... Dir-se-ia um martyr heroico!... Vamos lá tambem; estou
-curiosa por ver o effeito do jornal.
-
---Mas não se zangue com elle... supplicou brandamente a outra.
-
---Que bom coração é o seu, Pélagué!
-
-Ao ver surgir as duas mulheres á porta da choupana, Ignaty levantou a
-cabeça e lançou-lhes rapido olhar; depois, enterrando os dedos pelos
-cabellos annelados, curvou-se de novo sobre o jornal, que desdobrára
-nos joelhos. Rybine, de pé, apresentava o periodico á luz d’uma restea,
-que penetrava na choupana por uma greta do tecto; ia deslocando pouco
-a pouco o jornal sob o feixe de luz, á medida que ia lendo e lia por
-bocca pequena. Jacob, ajoelhado, firmava o peito de encontro á borda
-d’uma cama e lia tambem.
-
-Pélagué viu que a Sofia não passava despercebido o enthusiasmo dos
-trez por aquellas palavras de verdade. O rosto illuminou-se-lhe n’um
-sorriso. Devagarinho, foi para um canto da choça e sentou-se. Sofia, em
-silencio, passou-lhe o braço pelos hombros.
-
---Tio Mikhaíl! Olhe que nos insultam, n’este papel, a nós, camponezes!
-proferiu Jacob a meia voz, sem se mexer. Rybine voltou-se para elle e
-disse, risonho:
-
---É porque nos estimam. Aquelles que nos amam podem dizer-nos tudo o
-que quizerem sem que nos irritemos.
-
-Ignaty respirou ruidosamente, ergueu a cabeça e poz-se a rir; em
-seguida, fechou os olhos, dizendo:
-
---Está aqui escripto: «O homem dos campos deixou de ser uma creatura
-humana.» E é bem verdade; já o não é!
-
-Perpassou pelo seu rosto ingenuo e franco uma expressão de aviltamento.
-
---Este sabio das duzias! continuou, referindo-se ao articulista. Eu
-queria vêr-te na minha pelle! Fizesses-te tu fino! Então é que se havia
-de vêr o que tu eras!
-
---Vou descansar um bocado, disse Pélagué a Sofia. Sinto-me um pouco
-fatigada e este cheiro do alcatrão faz-me dôres de cabeça. Vem?
-
---Ainda não.
-
-Pélagué estendeu-se na cama e d’ahi a pouco dormitava. Sofia, sentada á
-cabeceira, continuava observando os leitores, ao passo que ia enxotando
-com sollicitude os zangãos e as vespas que vinham adejar em volta do
-rosto da companheira. Pélagué, com os olhos meio cerrados, percebia-o e
-taes attenções impressionavam-na.
-
-Rybine approximou-se, perguntou:
-
---Está a dormir?
-
---Está.
-
-Elle calou-se um pedaço, attentou no sereno rosto da anciã e com um
-suspiro proseguiu baixinho:
-
---É talvez esta a primeira que tenha seguido o filho pelo mesmo
-caminho!... a primeira!
-
---Vamo-nos embora, não a incommodemos, propoz Sofia.
-
---Temos de ir trabalhar. Eu preferia ficar a conversar comsigo, mas é
-forçoso deixar isso para a noite. Vamos, camaradas!
-
-Saíram os trez homens, deixando Sofia na choupana. Pélagué pensava:
-
---Deus seja louvado! fizeram as pazes!... Entendem-se um com o outro!...
-
-E adormeceu socegadamente, aspirando o ar perfumado da floresta.
-
-
-
-
-VI
-
-
-Á noitinha, voltaram os quatro operarios, satisfeitos por verem
-terminado o seu dia. Ao ruido das vozes, Pélagué, accordou, veio á
-porta da cabana, risonha, bocejando.
-
---Vocês a trabalharem e eu a dormir como uma fidalga! disse, fitando-os
-affectuosamente a todos.
-
---Não faz mal, nós perdoamos-te, disse Rybine.
-
-Mostrava-se mais socegado do que ao jantar; o cansaço dissipára o seu
-excesso de agitação.
-
---Ignaty! ordenou. Arranja a ceia. Cada um trata da casa, por sua vez.
-Hoje é ao Ignaty que compete dar-nos de comer e de beber... Ora ahi
-está!
-
---De bom grado cedia hoje a minha vez a outro qualquer, declarou
-Ignaty. E, emquanto procurava distinguir a conversa, começou a apanhar
-aparas, afim de accender o lume.
-
---As visitas são sempre interessantes para toda a gente! confirmou
-Jéfim, sentando-se ao lado de Sofia.
-
---Eu te ajudo, Ignaty! disse Jacob.
-
-Penetrou na choça e de lá trouxe um pão redondo. Partiu-o em fatias.
-
---Schiu! murmurou Jéfim, oiço tossir...
-
-Rybine apurou o ouvido e disse:
-
---É elle que chega.
-
-E, voltado para Sofia, explicou:
-
---Vae ouvir uma testemunha. A minha vontade era poder leval-o a essas
-cidades, pôl-o em exposição por essas praças, e o povo que fôsse
-ouvil-o... Diz sempre o mesmo, mas é digno de ser ouvido!...
-
-Silencio e escuridão tornavam-se mais profundos; as vozes ecoavam com
-mais suavidade. Sofia e Pélagué seguiam com o olhar os camponezes a
-moverem-se pesadamente, mas de vagar, com singular prudencia.
-
-Do bosque surgiu um homem corcovado, de alta estatura, caminhando
-apoiado com todo o seu peso a uma bengala. Ouvia-se-lhe o ruido da
-respiração rouca.
-
---Ahi vem o Savely! exclamou Jacob.
-
---Aqui me têm! disse o homem, parando, saccudido por um accesso de
-tosse.
-
-Vestia um sobretudo usado que lhe cahia até aos pés; de sob o chapeu
-redondo e muito velho, saíam-lhe em madeixas ténues uns cabellos
-amarellentos e asperos. Cobria-lhe o rosto ossudo e pallido uma barba
-loira; a bocca aberta, os olhos com um brilho de febre, nas orbitas
-profundamente cavadas, como no fundo de sombrias cavernas.
-
-Apresentado a Sofia, perguntou:
-
---Segundo parece, trouxe livros para o povo lêr?
-
---Sim, senhor.
-
---Agradeço-lh’o... pelo povo. O povo não pode ainda compreender o livro
-da verdade... ainda não póde agradecer-lhe como merece; mas eu que o
-compreendi já, agradeço-lhe em nome do povo.
-
-Respirava com avidez, absorvendo o ar em pequenas golfadas repetidas.
-Falava a espaços.
-
-Os dedos descarnados das diafanas mãos, perpassava-os pelo peito,
-tentando abotoar o sobretudo.
-
---Póde ser-lhe doentio, para si, este passeio tão tarde, pela
-floresta... Ha muita humidade e suffoca-se, ali! fez notar Sofia.
-
---Para mim já nada ha salubre ou doentio! respondeu, offegante. Só a
-morte será bemvinda.
-
-Era doloroso ouvir falar aquelle homem, tanto mais que toda a sua
-pessoa provocava dó, uma compaixão infinita mas improficua. Agachou-se
-sobre uma barrica, dobrando os joelhos com precaução, como se receasse
-que se quebrassem; depois, enxugou a fronte, coberta de suor. Tinha os
-cabellos seccos e sem viço.
-
-O lume começava a atear-se. Ao clarão das chammas tudo se deslocou; as
-sombras, lambidas pelas labaredas, fugiam assustadas pela floresta. Por
-cima do brazeiro appareceu por instantes a cara redonda d’Ignaty, a
-soprar. Depois, apagado o lume, ficou persistente o cheiro do fumo, e o
-silencio e as trevas apoderaram-se de novo da clareira, como se viessem
-apurar o ouvido para o falar rouco do doente.
-
---Mas ainda posso ser util ao povo... Sim, como o testemunho d’um
-enorme crime! Olhem para mim! Tenho vinte e oito annos e ando a
-morrer... Ha dez annos, levantava nos hombros, sem me custar, até
-duzentos kilos... Pensava eu então que com uma saude d’aquellas, havia
-de levar setenta annos para chegar á cova, direito e sem tropeçar... E
-afinal vivi dez... e não posso ir mais longe.
-
---Ahi têm a canção d’este homem! disse Rybine com voz rancorosa.
-
-Reaccendeu-se mais viva a fogueira; de novo as sombras debandaram,
-para se sumirem nas chammas, agitando-se em torno do brazeiro n’uma
-dansa silenciosa e hostil. Sob a mordedura do lume, os velhos troncos
-estralejavam e gemiam. A folhagem susurrava em segredo, agitada por uma
-corrente d’ar quente. Vivas e folgazãs, as linguas de fogo purpureas e
-doiradas brincavam, abraçavam-se, erguiam-se, despedindo faíscas. Voou
-uma folha em braza. No ceu, as estrellas sorriam para as scentelhas,
-attraíndo-as a si.
-
---Não é só minha esta canção; ha milhares de creaturas que tambem a
-cantam, mas só para si! E cantam-na só para si porque não compreendem
-que as suas miseraveis existencias são uma lição salutar para o povo...
-Quantos seres minados ou estropiados pelo trabalho e pela cadeia, não
-morrem para ahi de fome, sem um queixume!... É preciso gritar bem alto,
-companheiros, é preciso gritar!
-
-E Savely entrou a tossir, todo curvado e tremulo.
-
-Jacob poz na mesa uma caneca de _koass_[2] e atirou para o lado um
-molho de cebolas, e disse ao enfermo:
-
---Anda, Savely, trouxe leite para ti.
-
-O outro abanou negativamente a cabeça; mas Jacob agarrou-o por debaixo
-dos braços e fêl-o sentar á mesa.
-
---Oiçam, disse Sofia a Rybine, em voz baixa e em tom de censura, para
-que o obrigaram a vir? Póde morrer d’um momento para o outro.
-
---É certo, replicou Rybine. Mas mais vale morrer rodeado de amigos;
-ser-lhe-á menos doloroso do que na solidão. Tem soffrido muito na sua
-vida; pois que soffra ainda mais um pouco para servir de aviso aos
-homens... Que lhe póde fazer isso? Ali está!
-
---Chega a parecer que se desinteressa d’elle com horror pelos seus
-soffrimentos, exclamou Sofia.
-
-Rybine lançou-lhe rapido olhar e respondeu com modos sombrios:
-
---Só os fidalgos é que se recreiam com o espectaculo do Christo a gemer
-na sua cruz; mas nós outros, nós queremos estudar os homens ao vivo e
-gostavamos que a senhora tambem apprendesse a conhecel-os...
-
-O enfermo retomou a palavra:
-
---Destroe-se um homem com o trabalho, dá-se cabo d’elle com a prisão...
-e porquê? O nosso patrão--era na fabrica Nefédof que eu trabalhava á
-doida--o nosso patrão deu a uma cançonetista uma grande bacia de mãos e
-mais uma bacia de cama tudo de oiro... E foi em tal vaso que ficaram as
-nossas forças, as nossas vidas... as minhas e as de milhares d’outros.
-Ahi têem para que ellas serviram!
-
---O homem foi creado á imagem e semelhança de Deus! disse Jéfim,
-sorrindo--e ahi está o emprego que lhe dão... não vae mal!
-
---É necessario gritar isso! exclamou Rybine com violenta palmada na
-mesa.
-
---Não devemos supportal-o! accrescentou Jacob mais baixo.
-
-Ignaty limitou-se a sorrir.
-
-Notava a velha que os trez operarios falavam pouco, mas escutavam com
-uma attenção insaciavel d’almas sequiosas. De cada vez que Rybine abria
-a bocca, fitavam-no, copiavam-lhe os menores movimentos. As frases
-de Savely, porém, provocavam-lhes singulares tregeitos de enfado.
-Dir-se-ia não sentirem dó algum do enfermo.
-
-E Pélagué inclinando-se ao ouvido de Sofia, perguntou baixinho:
-
---É certo o que elle conta?
-
-Sofia respondeu em voz muito alta:
-
---É certo, sim senhora! Os jornaes falaram do caso; foi em Moscou que
-isso se deu.
-
---E esse homem não foi castigado! disse Rybine com ódio. Devia ter sido
-punido; precisava que o levassem a uma praça publica e ali cortal-o aos
-bocados, atirando aos caes essa carne immunda! Grandes castigos se hão
-de vêr, quando o povo se levantar!
-
---Que frio que faz! disse o tisico.
-
-Ajudou-o Jacob a levantar e a chegar-se para o lume.
-
-A fogueira ardia em clarão uniforme e vivo. Sombras imprecisas
-erravam em torno, contemplando surprezas o brinquedo das labaredas.
-Savely, sentou-se n’um cepo e offereceu ao calor as mãos seccas e
-transparentes. Rybine designou-o com um gesto do mento, e disse para
-Sofia:
-
---Sabe mais do que um livro! Eu é que o conheço... Quando uma máquina
-arranca um braço ou mata um homem, compreende-se; é sempre do homem a
-culpa. Mas sugar o sangue d’um homem e atira-lo depois á margem como
-uma coisa pôdre, isso é que não se explica.
-
---Sim... pronunciou com lentidão Ignaty, não se explica... Um chefe de
-districto conheci eu, que obrigava a gente do campo a cumprimentar-lhe
-o cavallo, quando o levavam a passeio pela aldeia, e que punha a ferros
-quem desobedecesse. Para que lhe servia aquillo?... É o que tambem não
-se explica!
-
-Depois de comerem, fizeram roda junto á fogueira. Diante d’elles
-o lume ardia, devorando rapidamente a lenha; por detraz, ceu e
-floresta envolviam-se na treva. O estropiado fixava no lume os olhos
-esgazeados, tossia sem descanso, com grandes arrepios. Parecia que do
-peito lhe saíam pedaços da propria vida, solertes em abandonar aquelle
-corpo esqualido. Dansavam-lhe no rosto reflexos do fogo sem que lhe
-colorissem a pelle fenecida. Só os olhos scintillavam n’uma coruscação
-azulada, bruxuleante.
-
---Talvez preferisses abrigar-te na cabana, an, Savely? lembrou Jacob,
-inclinando-se-lhe no hombro.
-
---Para quê? respondeu esforçadamente. Quero ficar aqui. Já não tenho
-muito tempo a viver entre os homens... Não, não tenho para muito tempo.
-
-Vagueiou o olhar em volta, ficou um bocado calado e proseguiu, com um
-sorriso palido:
-
---Sinto-me bem entre vocês. Estou-os vendo e estou a pensar que talvez
-sejam vocês que hão de vingar todos os que foram maltratados... o povo
-inteiro!
-
-Ninguem lhe respondeu. E d’ahi a pouco, a cabeça pendia-lhe para o
-peito e entrou a dormitar. Rybine considerou-o demoradamente e disse
-meio em segredo:
-
---É sempre assim quando vem visitar-nos; senta-se para ahi e conta
-sempre a mesma coisa.
-
---Aborrece ouvil-o repetir-se! murmurou Ignaty. Bastava ouvir uma vez
-essa historia para não a esquecer e elle sempre a moêl-a!
-
---É que para elle, n’essa historia, tudo se resume, a sua vida inteira,
-compreende-o bem! justificou Rybine, soturno. E da mesma sorte a vida
-de toda uma legião de seres. Ouvi-lhe essa historia dezenas de vezes
-já, e, ainda assim, acontece-me ter certas dúvidas. Ha horas de bondade
-em que a gente se recusa a crêr na vilania do homem, ou na sua loucura,
-e em que se sente compaixão por todos, ricos e pobres... porque o rico
-tambem é um transviado do bom caminho. A um cega-o a fome, ao outro, o
-dinheiro... E então, a gente pensa:
-
-«Homens, meus irmãos! Desentorpeçam esses raciocinios, reflictam com
-lealdade, reflictam bem».
-
-O doente oscilou estremunhado, abriu os olhos e deitou-se sobre a
-terra. Sem ruido, Jacob levantou-se, foi á cabana buscar um pequeno
-agasalho de pelles, e estendeu-lho por cima. Depois, retomou o seu
-logar ao lado de Sofia.
-
-Ás vozes dos homens misturavam-se o surdo crepitar da lenha e o
-murmurio das labaredas; e aquelle lume, qual rosto rubicundo, parecia
-sorrir-se com malicia para os sombrios vultos que lhe faziam circulo.
-
-Falou então Sofia da lucta dos povos em prol do direito á vida e
-á liberdade, dos remotos combates dos rusticos da Allemanha, dos
-infortunios dos irlandezes, dos feitos do operariado francez.
-
-Sob a floresta, revestida de veludos, na pequena rotunda limitada
-pelos majestaticos arvoredos, sob a abobada do negro firmamento,
-perante a risonha lareira, em meio d’aquelle grupo de sombras hostis e
-assombradas, ressuscitavam os acontecimentos que haviam revolucionado o
-mundo dos saciados, dos entes tresloucados pela cubiça; desfilavam uns
-após outros, os povos da terra, sangrentos, esgottados em mil combates;
-celebravam-se os nomes dos heroes da liberdade e da justiça...
-
-Aquella debil voz de mulher ecoava mansamente, como se viesse do
-passado; instigava esperanças, inspirava confianças. O auditorio
-escutava religiosamente aquella melopeia, a vasta historia dos seus
-irmãos espirituaes. Todos fitavam o rosto pálido e magro da narradora,
-correspondiam com sorrisos ao sorrir dos olhos cinzentos. E com mais
-viva luz brilhava para elles a sagrada causa da humanidade; nos seus
-peitos medrava mais e mais o sentimento do parentesco moral com os seus
-irmãos do mundo inteiro; um novo coração nascia para elles na propria
-terra e ardiam no desejo de tudo compreenderem, de tudo resumirem
-n’elle.
-
---Ha de chegar o dia em que os povos todos levantarão cabeça, bradando:
-«Basta! não queremos continuar n’esta vida!» proclamou Sofia com voz
-sonora, e então ha de desabar o ficticio poder d’aquelles que só na
-avidez encontram a sua força, a terra fugir-lhes-á debaixo dos pés e
-ficarão sem saber em que apoiar-se.
-
---É o que ha de acontecer! affirmou Rybine, de cabeça baixa. Que
-ninguem poupe as suas forças e tudo vae de vencida!
-
-Pélagué escutava, arregalando muito as sobrancelhas e com um sorriso
-de surpreza nervosa. Estava a ver que tudo o que nas maneiras de
-Sofia lhe parecia insolito, a sua audacia, a sua extrema vivacidade,
-tudo desapparecera, como submerso no fluxo regular e entusiástico
-das suas palavras. A noite silenciosa, o revolutear do lume, a
-fisionomia da joven oradora, interessavam-na; mas o que a deleitava
-principalmente era a absorta attenção dos campónios. Permaneciam
-immoveis, esforçando-se por não perturbarem fôsse com o que fôsse o
-desenvolvimento sereno do discurso; dir-se-ia n’elles um receio de
-quebrarem o fio luminoso que os ligava ao mundo. De tempos a tempos, um
-d’elles collocava com precaução uma nova acha no lume; e dispersava com
-a mão as faúlhas e o fumo, para que não incommodassem Sofia.
-
-Ao romper da aurora, Sofia calou-se, fatigada, e attentou, sorrindo,
-nos rostos pensativos e tranquilisados que a cercavam.
-
---É tempo de partirmos, disse a velha.
-
---Vamos! respondeu Sofia com expressão de cansaço.
-
-Um dos operarios suspirou ruidosamente.
-
---É pena que se vão! declarou Rybine com desacostumada meiguice. A
-senhora fala tão bem! Grande coisa é ligar as creaturas pela sorte
-commum! Quando a gente pensa que ha milhões de sêres a quererem o mesmo
-que nós queremos, o coração torna-se bom... E ha tanta força na bondade!
-
---E quando se procede com bondade, pagam-nos com a violencia! protestou
-Jéfim n’uma risadinha e pondo-se de pé com presteza. É bom que ellas se
-vão, tio Mikhaíl, antes que sejam vistas... Quando os livros estiverem
-distribuidos pelo povo, as autoridades hão de indagar d’onde vieram...
-E póde alguem lembrar-se das peregrinas e denunciál-as...
-
---Obrigado pelo incommodo, mãe! disse Rybine interrompendo Jéfim.
-Sempre que olho para ti me lembro do Pavel... Fizeste bem em seguir-lhe
-o exemplo...
-
-Inteiramente apaziguado agora, esboçava franco e amigavel sorriso.
-Fazia fresco; no emtanto, conservava-se de blusa, o cós entreaberto,
-o peito á mostra. Pélagué attentou-lhe no robusto corpo e aconselhou,
-sollicita:
-
---Devias agasalhar-te, faz frio.
-
---Se eu estou tão quente cá por dentro! objectou.
-
-De pé, junto do fogo, os trez rapazes conversavam baixo; aos pés
-d’elles, dormia o doente, embrulhado nas pelles. Branqueava-se o ceu,
-fundiam-se as sombras. Tremula, a folhagem aguardava o sol.
-
---Está bem, adeus! disse Rybine, apertando a mão de Sofia. Como hei de
-perguntar por si, na cidade?
-
---Basta que me procures, responde Pélagué.
-
-Lentamente, em um só grupo, vieram os operarios apertar a mão de Sofia
-com expressões desastradas, de affecto. Em cada um d’elles transparecia
-secreta gratidão e amisade, e tal sentimento, novo como era para
-elles, desconcertava-os. Com os olhos prazenteiros e amortecidos pela
-insomnia, consideravam Sofia, firmando-se ora n’um pé, ora no outro.
-
---Querem beber uma gota de leite antes de partirem? offereceu Jacob.
-
---Ainda ficou algum? interrogou Jéfim.
-
---Um pouco.
-
-Mas Ignaty, confuso, declarou, coçando a cabeça:
-
---Não ha; eu entornei-o.
-
-E todos os trez se puzeram a rir.
-
-Falavam no leite, mas Pélagué percebia que pensavam em coisa bem
-diversa; que ambicionavam para Sofia e para si propria todas as
-felicidades possiveis, mas sem poderem expressar-se. Sofia estava
-visivelmente commovida, e a sua perturbação era tal, que apenas
-conseguiu dizer em tom de voz humilde:
-
---Obrigada, companheiros!
-
-Entreolharam-se, como se este tratamento os tivesse feito cambalear de
-prazer.
-
-Ouviu-se um accesso de voz rouca do enfermo. No lume extinguiam-se os
-brazidos.
-
-Até mais vêr! disseram os campónios a meia voz; e os adeuses
-melancolicos de todos acompanharam por muito tempo as duas mulheres.
-
-Vagarosamente estas embrenharam-se por um atalho da floresta, á
-claridade da aurora.
-
-Entraram a falar de Rybine, do doente, dos operarios, que sabiam
-conservar tão attencioso silencio e que haviam exprimido sentimentos
-de reconhecida amisade por fórma desgeitosa mas eloquente, dispensando
-ás duas mulheres mil cuidados. Entraram no campo. O sol vinha-lhes ao
-encontro. Invisivel ainda, o astro abrira no céu um leque diáfano de
-purpureos raios; pela herva scintillavam gotas de rócio em multicolores
-lumes de alegria viva e primaveril. Despertavam os passaros e animavam
-a aurora com gritos joviaes.
-
-Com o seu grasnar pressuroso, corpulentos corvos voavam para longe,
-agitando pesadamente as azas; pelos campos semeados já desde o
-outono, outros corvos de lustrosa plumagem, saltitavam, tagarelando
-em vozes ritmadas; perto, andava um verdelhão a assobiar, inquieto.
-Desanuviavam-se os longes e acolhiam o sol, apagando as sombras
-nouturnas das cumieiras.
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[2] Bebida em uso entre o povo da Russia, obtida pela fermentação de um
-cosimento de farinha de cevada.--N. do T.
-
-
-
-
-VII
-
-
-A existencia de Pélagué decorria em singular socego que por vezes
-a surpreendia. Tinha o filho na cadeia, sabia que o esperava duro
-castigo; de cada vez que n’isso pensava, apresentavam-se-lhe, mau grado
-seu, á memoria as imagens de André, de Fédia e d’outros,--toda uma
-larga série de caras conhecidas.
-
-Resumindo para si todos os que da sua sorte compartilhavam, a figura
-de Pavel avantajava-se aos olhos de Pélagué e quando pensava no filho,
-os seus pensamentos alastravam, dirigiam-se para todos os lados, sem
-que ella desse por tal. Era uma dispersão em mil lampejos desiguaes que
-tudo interessavam, que tudo pretendia e tudo reuniam em um mesmo quadro
-e assim impediam a mãe de se concentrar no desgosto que experimentava
-por não ter Pavel junto, de si e no terror que lhe inspirava a sorte do
-filho.
-
-Pouco depois partiu Sofia. Cinco dias mais tarde, voltava ella
-desenvolta e alegre, para desaparecer de novo algumas horas passadas.
-Então só a tornou a vêr ao fim de quinze dias.
-
-Dir-se-ia percorrer a existencia em circulos cada vez maiores. Vinham
-assim de vez em quando a casa do irmão para lhe encher a casa de
-valorosa decisão e de musica.
-
-Tornára-se agradavel a musica a Pélagué, quasi indispensavel mesmo.
-Sentia-a correr-lhe no peito, penetrar-lhe no coração, fazendo brotar
-catadupas de pensamentos rápidos e intensivos, e desabrochar expressões
-suaves e bellas, suggeridas pela força das melodias.
-
-Difficilmente se resignava, porém, ao desleixo de Sofia, que atirava
-para todos os cantos os objectos que lhe pertenciam, e as pontas e a
-cinza dos cigarros; mais lhe custava a habituar-se á sua maneira de
-falar tão decidida. Era por demais flagrante o contraste com a pesada
-tranquilidade de Nicolao, com a gravidade benevola e constante das
-suas palavas. Ao entendimento de Pélagué, Sofia não passava d’uma
-rapariguita com vontade de passar por pessôa de juizo e que olhava
-ainda para as pessôas como para brinquedos engraçados. Falava muito
-da santidade do trabalho e augmentava nesciamente a tarefa da pobre
-mulher com o seu desmazelo; discorria sobre a liberdade e, comtudo,
-era visivel incommodo que a todos proporcionava com a sua irritavel
-impaciencia, com as suas incessantes discussões e o seu proposito de
-se collocar acima dos outros. Muitas contradicções se davam n’ella;
-Pélagué tratava-a com prudencia constante, mas sem o sentimento
-caloroso que nutria por Nicolao.
-
-Sempre meticuloso, este levava dia por dia a mesma vida monotona
-e regrada; almoçava ás oito horas, lia o seu jornal em voz alta,
-commentando as noticias mais importantes. Pélagué descobria n’elle
-affinidades de caracter com André. Como acontecia com o russo-menor,
-o seu hospedeiro nunca falava dos homens com rancor; considerava-os
-a todos culpados da má organisação da existencia. Mas a fé n’uma
-vida nova não era n’elle tão fervorosa como em André, nem mesmo tão
-idealmente luminosa. Tinha um modo de falar pausado, uma voz de
-juiz integerrimo e rigoroso; até quando fazia qualquer narrativa de
-horrores, esboçava sempre um sorriso compassivo; mas nos olhos tinha um
-clarão sinistro. Quando reparava n’aquelle olhar, Pélagué compreendia
-que não era homem para perdoar; e, sentindo quão mortificadora se lhe
-devia tornar tal severidade, tinha pena d’elle. E affeiçoava-se-lhe
-cada vez mais.
-
-Ás nove horas, ia elle para a repartição; a velha arranjava os quartos,
-preparava o jantar, lavava-se, mudava de vestuario; depois, sentava-se
-no quarto e punha-se a vêr as estampas dos livros. Applicando toda
-a sua attenção, ainda podia ler um bocado; mas, ao cabo d’algumas
-páginas, ficava cansada e perdia o sentido ao que lia. Em compensação,
-as gravuras distraíam-na muito, qual a uma criança: desenrolavam-lhe
-diante da vista um mundo novo, maravilhoso, compreensivel, no emtanto,
-e quasi tangivel. Via cidades immensas com magnificos edificios,
-máquinas, navios, monumentos, riquezas incalculaveis amontoadas pelos
-homens, a par das criações da natureza, n’uma diversidade que a
-confundia.
-
-Alargava-se a vida até o infinito, patenteando-lhe em cada dia coisas
-colossaes, desconhecidas, portentosas; e pela abundancia das suas
-riquezas, o variegado das suas bellezas, exaltava mais e mais aquella
-alma sedenta que despertava. Gostava ella principalmente de folhear
-um livro de zoologia; e bem que tal obra estivesse escripta em lingua
-estrangeira, eram as suas illustrações as que mais nítida representação
-lhe davam da riqueza, da belleza e da immensidade da terra.
-
---Como a terra é grande! disse um dia a Nicolao.
-
---É; e apesar d’isso a humanidade vive apertada...
-
-O que sobretudo a enternecia eram os insectos, particularmente as
-borboletas; percorria, surpreza, os desenhos que as representavam e
-dizia:
-
---Que belleza! não é verdade, Nicolao? Quantas d’estas perfeições
-existem por toda a parte! Mas vivem occultas aos nossos olhos, passam
-ao nosso alcance sem repararmos n’ellas. Cada qual corre á sua vida,
-nada sabe, nada admira, porque não ha tempo nem vontade para isso.
-Quanto prazer poderiamos disfructar, se todos soubessem como a terra
-é rica e que de coisas admiraveis ella encerra! E é tudo para todos e
-cada um para tudo... não é assim?
-
---Sim, com effeito... respondia Nicolao, sorrindo. E trazia-lhe mais
-livros.
-
-Á noite, havia visitas muitas vezes; entre ellas, Aleixo Vassilief,
-um bello homem de rosto claro, barba preta, taciturno e grave; Romão
-Pétrof, este de cara redonda e avermelhada, que fazia constantemente
-estalar os beiços n’um gesto de lastima; Ivan Danilof, baixo e magro,
-barba em bico, e uma vozinha fina, agressiva, berrante e acerada como
-um estilete; Iégor, que de tudo gracejava, de si, dos companheiros e da
-doença que o ia minando. A meude, vinha gente que Pélagué não conhecia,
-de povoações distantes e tinham longas conferencias com Nicolau, sempre
-sobre o mesmo assunto: a liberdade e os operarios de todas as nações.
-Discutiam acaloradamente, gesticulavam com força, bebia-se muito chá.
-Ao ruído da vozearia, Nicolao compunha ás vezes umas proclamações que
-passava a lêr aos consocios e ali mesmo eram copiadas em caracteres
-d’imprensa. Ella recolhia cuidadosamente os fragmentos dos rascunhos e
-queimava-os.
-
-Emquanto ia servindo o chá, admirava ella o ardor com que os
-companheiros falavam da vida e da sorte do operário e do campónio,
-da maneira mais vantajosa e rápida de semear entre o proletariado a
-idéa da verdade e da liberdade, educando-lhe o espirito. Muitas vezes,
-divergiam as opiniões, zangavam-se, accusavam-se uns aos outros,
-injuriavam-se, mas logo voltavam a discutir.
-
-Mas ella sentia bem que conhecia melhor do que todos aquelles
-palradores, a vida do operario; que avaliava com mais nitidez a
-enormidade da tarefa que elles se propunham, o que lhe permittia tratar
-os visitantes com a condescendencia um tanto melancólica d’uma pessôa
-de idade madura a ver crianças a brincarem de marido e mulher sem
-compreenderem o lado trágico da situação.
-
-Mau grado seu, comparava-lhes os discursos com os de seu filho, com os
-de André, e percebia agora differenças que d’antes não podia avaliar.
-Gritava-se mais ali do que lá no sitio, ao que lhe parecia. E concluia:
-
---É que sabem mais, falam mais de rijo...
-
-A maior parte das vezes, porém, notava ella que todos aquelles homens
-parecia que se exaltavam de proposito uns aos outros, que eram
-ficticias as suas exaltações; cada qual pretendia demonstrar aos
-collegas que andava mais perto da verdade do que elles e que mais
-presava esta verdade do que qualquer d’elles. Os outros vexavam-se e, a
-seu turno, para provarem como conheciam bem tal verdade, questionavam
-com desabrimento e rudeza. Cada qual, tudo era querer subir mais alto
-do que os mais e isto causava-lhe pungente tristeza. Agitava então os
-supercilios, divagando pela assistencia olhares de súpplica, e pensava:
-
-«Já se esqueceram do Pavel e dos companheiros!... Já não pensam
-n’elles.»
-
-Escutava sempre attenta as discussões, que, naturalmente não
-compreendia; procurava descobrir os sentimentos sob aquelle fluxo de
-palavras. Percebeu então que nas reuniões do seu bairro, quando se
-falava do bem, todos o acceitavam integro e completo, ao passo que
-ali, tudo se fragmentava, tudo se dividia; além, os sentimentos tinham
-mais força e convicção; aqui, era o domínio das idéas radicaes que
-retalhavam tudo em bocados. Aqui, falava-se mais da destruição do velho
-mundo; além, sonhava-se um mundo novo, e era por isso que os discursos
-do seu filho e de André lhe eram mais compreensiveis, mais ao seu
-alcance.
-
-Surdo descontentamento para com os homens se lhe introduzia
-furtivamente no coração, trazendo-a inquieta; nascia n’ella a
-desconfiança, sentia desejos de compreender tudo, e o mais depressa
-possivel, para falar tambem do mundo com palavras dictadas pela sua
-alma.
-
-Notava igualmente Pélagué, quando vinha algum companheiro operario,
-que Nicolao o recebia com uma semceremonia singular; dava ao rosto uma
-expressão de bonhomia e falava por maneira diversa do costume, se não
-com mais grosseria, pelo menos com maior liberdade.
-
---É que faz o possivel para descer ao nivel d’elles, pensava.
-
-Mas esta razão não a satisfazia, pois que o operario claramente se
-sentia constrangido, com a intelligencia como que oppressa, e não
-chegava a expressar-se tão simples e livremente como com ella, por
-exemplo, mulher da sua condição. Um dia, n’um momento em que Nicolao se
-ausentára da sala, perguntou a um d’elles:
-
---Porque estás tu tão contrafeito? Olha que não és um menino a fazer
-exame.
-
-O homem abriu-se n’um franco sorriso.
-
---É a falta de habito... Assim como assim... não é cá da nossa classe!
-
-E ficou-se cabisbaixo.
-
---Não quer dizer nada, replicou ella. Pois se elle é tão boa pessoa...
-
-O operario volveu para ella o olhar, sorriram um para o outro e nada
-acrescentaram.
-
-Ás vezes, apparecia por lá Sachenka.
-
-Nunca se demorava, falava sempre apressadamente, sem se rir. E quando
-se retirava, perguntava invariavelmente a Pélagué:
-
---Como está o Pavel? Passa bem?
-
---Sim, senhora; graças a Deus! Está bom, bem disposto.
-
---Cumprimentos da minha parte! concluia a rapariga, e desapparecia.
-
-Umas vezes por outras, queixava-se-lhe a pobre mãe por conservarem
-preso o Pavel tanto tempo, sem se fixar data para o julgamento.
-Sachenka calava-se, frazindo o sobrolho; tremiam-lhe os labios e os
-dedos agitavam-se-lhe nervosamente.
-
-A mãe de Pavel tinha impetos de lhe dizer:
-
---Minha querida, eu sei que o amava... sim, bem o sei!
-
-Mas não se atrevia: os ares serios da rapariga, a sua bocca franzida,
-a recusa do seu falar pareciam repudiar de antemão qualquer meiguice.
-Limitava-se a sorrir e a apertar a mão que lhe estendiam, dizendo
-comsigo:
-
-«Pobre pequena!...»
-
-Um dia, appareceu-lhe Natacha. Muito satisfeita com vêr que Pélagué a
-beijava affectuosamente, annunciou-lhe, em voz sumida, e entre outras
-coisas:
-
---Morreu minha mãe... morreu, a minha pobre mamã!
-
-E, limpando os olhos, em rapido gesto:
-
---Que pena tenho!... Ainda não tinha feito cincoenta annos... Podia
-viver muito mais tempo. Mas, quando penso em tudo o que vejo, chego a
-pensar que a morte lhe ha de ser mais leve do que a vida! Vivia sempre
-só, estranha a todos; não era precisa a ninguem; meu pae tinha-a feito
-timida com os seus continuos ralhos... Pode-se por ventura dizer que
-era viver aquillo? Só vive quem espera alguma coisa bôa; mas ella, ella
-nada tinha a esperar, a não ser os maus tratos!
-
---É bem certo o que diz, Natacha! declarou a outra depois de reflectir.
-Para viver é preciso que se espere alguma coisa. Nada esperar é viver?
-
-Affagou com mimo a mão da rapariga e perguntou-lhe:
-
---E agora, vive sósinha?
-
---Vivo, respondeu Natacha.
-
-Calou-se Pélagué um instante; depois, concluiu com um sorriso:
-
---Que importa! Quando se tem uma alma bôa, nunca se está só, sempre se
-está acompanhada... Natacha foi residir, na qualidade de professora,
-para um districto onde havia uma fabrica de fiação. Pélagué ia de vez
-em quando levar-lhe livros proíbidos, proclamações, jornaes. Estava já
-encartada n’este officio. Varias vezes em cada mez, vestida de irmã da
-caridade, de vendedeira de rendas ou de retrozaria, de burgueza ricaça
-ou de peregrina, lá se ia pela provincia fóra, a pé, de caminho de
-ferro, n’uma carroça, alforge ao hombro ou de mala na mão. Nos hoteis
-ou nas estalagens, nos vapores, assim como nos comboios, a sua attitude
-era sempre calma e simples; com os desconhecidos, era a primeira a
-dirigir-lhes a palavra, e captava irresistiveis simpatias com o seu
-falar afavel, a sua tranquilidade de mulher que muito viu e aprendeu.
-
-Agradava-lhe conversar com os infelizes e informar-se das suas opiniões
-sobre o mundo, dos seus infortunios e perplexidades. Enchia-se-lhe
-o coração de alegria sempre que observava n’estes interlocutores
-aquelle vivo descontentamento que, embora proteste contra os golpes
-da adversidade, ardentemente busca solução para os grandes problemas
-da humanidade. Mais vasto sempre e mais variado, desenrolava-se aos
-seus olhos o panorama da vida com todas as suas luctas. Em tudo e por
-toda a parte ella encontrava a tendencia cínica do homem para enganar
-o homem, para roubal-o, para tirar d’elle o maior proveito possivel. E
-tambem via a abundancia por toda a terra, ao passo que o povo jazia na
-miseria, vegetando a bem dizer esfomeado, no meio das incommensuraveis
-riquezas.
-
-Das cidades, via os templos a abarrotar d’oiro e prata inuteis a Deus,
-emquanto fóra, nos adros, os necessitados tiritavam na vã espectativa
-d’uma esmola que não vinha. Aquelle espectaculo era-lhe já conhecido:
-as igrejas opulentas, as vestes bordadas dos padres, as mansardas
-dos pobres e os seus ascorosos farrapos; mas n’esse tempo tudo lhe
-parecia natural, pois que no presente considerava tal estado de coisas
-offensivo para os pobres, aos quaes, ella bem o sabia, a religião é
-mais necessaria que aos ricos.
-
-Mercê das imagens de Jesus, das narrativas que ouvira, Pélagué sabia
-que Elle era um amigo para os miseraveis, que Elle se vestia sem
-ostentação; e nas igrejas, onde os pobres vinham a Elle para serem
-consolados, ia encontral-O opprimido em arrebiques d’oiro e de sedas,
-desdenhosamente insolentes em face de tanta privação.
-
-E as palavras de Rybine voltavam-lhe á memoria:
-
---Até de Deus se serviram para nos ludibriarem! Disfarçaram-no com
-embustes e calumnias para nos assassinarem a alma...
-
-Sem que desse por tal, Pélagué rezava agora menos, mas pensava mais em
-Jesus, nas creaturas que não falavam d’Elle que nem mesmo o conheciam,
-segundo parecia, mas que viviam segundo o Seu evangelho e, como Elle,
-consideravam a terra o reino dos pobres, queriam distribuir em partes
-iguaes entre os homens todas as riquezas. Reflectia muito em todas
-estas coisas, aprofundando-as, comparando-as com tudo o que via, e
-estes pensamentos tomavam corpo, revestiam a fórma luminosa de oração,
-derramando uma claridade igual na escuridão do mundo, na vida e na
-humanidade. E afigurava-se á bôa mulher que o proprio Christo, a quem
-sempre venerára com vago amôr, com um sentimento complexo em que o medo
-se alliava estreitamente á esperança, á ternura e á dôr, que o proprio
-Christo se approximava mais d’ella, que se transformára, que lhe era
-mais visivel, n’uma serenidade mais satisfeita. Agora, via os seus
-olhos sorrirem-lhe tranquillos com uma viva claridade interior, como se
-tivesse verdadeiramente ressuscitado, lavado e reanimado pelo sangue
-candente que por Seu amor generosamente derramam aquelles que teem a
-sabedoria de nunca O nomear. D’estas viagens voltava, portanto, feliz e
-animada, porque muito vira e ouvira, e satisfeita com a missão cumprida.
-
---É agradavel jornadear para um lado e outro e vêr tantas coisas, disse
-ella uma noite a Nicolao. Fica a gente percebendo como esta vida está
-arranjada. O povo é escorraçado, atirado á margem, refervendo na sua
-humilhação e perguntando a si mesmo: «Porque me põem de parte? Porque
-tenho fome, quando ha de tudo em abundancia? Porque sou eu estupido,
-ignorante, quando ha tanta intelligencia por toda a parte? E onde está
-Elle, esse Deus de misericordia, para o qual não ha ricos nem pobres, e
-de quem todos são bem amados?» Pouco a pouco, o povo revolta-se contra
-a sua existencia; o povo sente que ha de aniquilal-o a injustiça, se
-não tratar do seu bem estar.
-
-E experimentava, cada vez com mais frequencia, a necessidade de falar,
-ella mesma, na linguagem que era a sua, das injustiças da vida; e, por
-vezes, era-lhe difficil resistir...
-
-Quando a encontrava a folhear os desenhos, Nicolao contava-lhe coisas
-surpreendentes. Impressionava-a a audacia dos problemas que o homem se
-propunha; perguntava, incredula:
-
---Pois isso é possivel?
-
-E Nicolao descrevia-lhe um futuro de sonho, com uma confiança
-inabalavel nas suas profecias.
-
---Os desejos do homem não conhecem limite, a sua força é inesgottavel!
-affirmava elle. Comtudo, o mundo só muito lentamente se enriquece em
-dons do espirito, pois que, para serem independentes, os homens são
-obrigados a juntar dinheiro, e não sciencia. Quando tiverem banido a
-avidez, libertar-se-ão da escravatura do trabalho obrigatorio.
-
-Pélagué era raro que compreendesse o sentido das palavras de Nicolao,
-no emtanto, pungia sensivelmente a fé tranquilla que as dictava.
-
---Ha muito poucos homens livres n’esta terra; é o que faz o infortúnio
-da humanidade! dizia elle.
-
-Com effeito, Pélagué conhecia pessôas que se haviam libertado dos
-rancores e da cubiça; e pensava que se o número d’essas pessôas
-avolumasse, o rosto sombrio e horrivel da existencia havia de tornar-se
-mais benevolo e simples, melhor e mais luminoso.
-
---O homem é obrigado a ser cruel contra sua vontade! dizia tristemente
-Nicolao.
-
-Ella acquiescia com um aceno de cabeça e lembrava-se do russo-menor.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Um dia, Nicolao, por hábito tão pontual, chegou da repartição muito
-mais tarde do que o costume. Em vez de tirar o sobretudo, disse com
-vivacidade, a esfregar as mãos:
-
---Sabe, Pélagué? Fugiu hoje da cadeia um dos nossos companheiros, á
-hora das visitas!... Mas não consegui saber quem seja.
-
-Ella sentiu-se cambalear, tomada de commoção; deixou-se caír n’uma
-cadeira e mal poude balbuciar, em segredo:
-
---Será o Pavel, talvez?
-
---Talvez! respondeu Nicolao, encolhendo os hombros. Mas como havemos de
-o ajudar a esconder-se? onde estará elle? Tenho andado a passear por
-essas ruas, a ver se o encontrava. É uma tolice, mas é forçoso fazer
-qualquer coisa! Eu torno a saír.
-
---Tambem eu saio! declarou a mãe de Pavel.
-
---Então, vá a casa do Iégor; talvez elle saiba alguma coisa...
-aconselhou Nicolao. E saíu.
-
-Ella atirou para a cabeça um lenço, e foi-se nas peugadas de Nicolao,
-nadando em esperança. Levava a vista turvada; o coração batia-lhe em
-fortes pulsações que quasi a obrigavam a correr. Voava ao encontro
-d’uma possibilidade, de cabeça baixa, sem nada vêr em torno. «Talvez já
-esteja em casa do Iégor!» Este pensamento instigava-lhe o passo. Fazia
-calor; Pélagué ia offegante. Na escada de Iégor parou, sem forças para
-ir mais longe. Voltou-se então e soltou um grito de espanto: tinha-lhe
-parecido vêr na soleira da porta Vessoftchikof, de mãos nas algibeiras
-e um sorrisinho nos labios, a olhar para ella. Mas, quando tornou a
-abrir os olhos, não viu ninguem.
-
---Foi allucinação! concluia pela escada acima, apurando sempre o
-ouvido. Do páteo veio um ruido abafado de passos pachorrentos.
-Deteve-se a meio da escada, foi á janella e olhou: outra vez distinguiu
-uma cara bexigosa a sorrir para ella.
-
---O Vessoftchikof! foi elle! exclamou, descendo a correr-lhe ao
-encontro, mas com o coração confrangido por aquella decepção.
-
---Não! sobe! sobe! disse-lhe elle debaixo, a meia voz, apontando para o
-andar superior.
-
-Obedeceu; entrou pelo quarto de Iégor, a quem encontrou estendido do
-canapé. Segredou, esbaforida:
-
---O Vessoftchikof fugiu da cadeia!
-
-O outro ergueu a cabeça e n’uma voz áspera:
-
---O picado das bexigas?
-
---Sim, esse!... E vem para aqui!
-
---Está muito bem! Mas eu é que não estou para me levantar a recebel-o.
-
-O fugitivo entrou n’este comenos. Fechou bem a porta no ferrolho, tirou
-o boné e poz-se a rir devagarinho.
-
---Se não te tivesse visto, não me restava mais que voltar para a
-prisão! Não conheço ninguem na cidade... Se tivesse ido lá para o
-bairro, prendiam-me logo! Eu dizia com os meus botões, emquanto ia
-andando: «Palerma! para que fugiste?» Quando n’isto, vejo cá a tiasinha
-a correr. Puz-me logo no seu encalço!
-
---E como pudeste fugir? perguntou Pélagué.
-
-O rapaz sentou-se desastradamente na beira do canapé e disse com
-embaraço, encolhendo os hombros:
-
---Não sei... Foi a occasião que se offereceu.
-
-Andava a passear no pateo... Os presos de crimes communs atiraram-se á
-bordoada a um carcereiro, um que foi da policia e que expulsaram por
-causa d’um roubo... É um que espia dá partes e torna a vida de toda a
-gente um inferno... Então, houve barafunda; os vigias tiveram medo,
-uns apitavam, outros corriam... Eis senão quando, vejo a grade aberta.
-Approximei-me, vejo um largo, a cidade... Foi uma atracção!... E saí
-sem pressa nenhuma, como se estivesse sonhando... Dei alguns passos e
-caí em mim. Para onde havia de ir?... Entretanto, as portas da cadeia
-tinham se tornado a fechar... Não me sentia bem; tinha saudades dos
-companheiros... emfim, aquillo era estupido; eu não fazia idéa de
-fugir...
-
---Hum! resmungou Iégor. Pois, meu caro senhor, devia ter voltado para
-traz, bater á porta e pedir delicadamente que o deixassem entrar:
-«Queiram perdoar, foi momento de distracção...»
-
---Sim, continuou Vessoftchikof, rindo, isso tambem era tolice, bem
-vejo. Mas ainda assim, andei mal com os companheiros. Não digo nada a
-ninguem e ponho-me ao fresco... Na rua, encontrei um enterro. Puz-me
-atraz do caixão--era uma criança--e lá fui de cabeça baixa, sem olhar
-para ninguem. Estive um bocado no cemiterio, de toitiço ao vento, e
-então veio-me uma idéa...
-
---Uma só? observou Iégor, e com um suspiro accrescentou: Parece-me que
-não lhe havia de faltar logar.
-
-O bexigoso poz-se a rir, sem se zangar.
-
---Oh! já não tenho a cabeça tão vazia como d’antes... E tu, Iégor,
-continuas sempre doente?
-
---Faz-se o que se póde! respondeu o outro, saccudido por accesso de
-tosse. Continua!
-
---D’ali fui ao museu. Passei por lá vi, as collecções, mas sempre a
-pensar: «Para onde hei de eu ir, agora?» Estava furioso comigo mesmo
-e tinha uma fome horrorosa!... Voltei para a rua, puz-me a caminhar.
-Sentia-me envergonhado com aquillo! Percebi que os policias olhavam com
-attenção para quem passava... E dizia com os meus botões! «Bom! graças
-ao meu focinho, estou aqui, estou nas mãos da justiça!...» N’isto, vejo
-cá a velhota a correr. Passou-me ao lado; afastei-me para a deixar
-passar, voltei-me e segui-lhe no encalço... E mais nada!
-
---E eu que nem sequer dei por ti! notou ella em tom pezaroso. Examinava
-attentamente Vessoftchikof; achava-o mudado, mas para melhor.
-
---Os companheiros estão em cuidado, com certeza, sem saberem onde
-paro! proseguiu elle, coçando a cabeça.
-
---E dos guardas da cadeia, não tens saudades? Olha que elles tambem
-devem estar n’um cuidado!... observou Iégor.
-
-Em seguida abriu a bocca e, movendo muito os beiços, como se quizesse
-absorver todo o ar, exclamou:
-
---Basta de brincadeiras! É preciso tratar de te esconder, o que é coisa
-agradavel de fazer, mas não muito facil de conseguir... Se eu pudesse
-levantar-me!... Teve uma crise de soffocação e poz-se a esfregar o
-peito, em debeis movimentos.
-
---Estas bem doente, Iégor! disse o fugitivo.
-
-Pélagué, a esta observação, suspirou e relanceou um olhar de
-inquietação pelo modesto quarto.
-
---Isso é comigo! declarou Iégor. Ó mãesinha, não esteja com cerimonias,
-peça-lhe noticias do seu Pavel.
-
-A cara do bexigoso abriu-se outra vez em franco sorriso.
-
---O Pavel? Está bom, está de saúde. Elle é uma especie de presidente
-lá da rapaziada. É sempre elle que fala com as autoridades, em nome da
-gente; é elle quem manda!... Nós temos-lhe respeito... E com razão!
-
-A mãe bebia as palavras do rapaz; por vezes, lançava um olhar furtivo
-para o rosto macerado e entumecido de Iégor. Este, com a fisionomia
-estática, qual mascara desprovida d’expressão, e com uma apparencia
-singular de nullidade, só pelos olhos vivia, em scintillações de
-espírito.
-
---Se me dessem alguma coisa de comer... Palavra que tenho muita fome!
-exclamou de subito o bexigoso.
-
---Ó mãesinha, disse Iégor, n’aquella prateleira está um pedaço de pão;
-dê-lho. Vá depois ao corredor e bata á sua esquerda, na segunda porta.
-Ha de vir abrir-lhe uma mulher; diga-lhe que venha cá e que traga tudo
-o que possuir com respeito a comestiveis.
-
---Para que ha de ella trazer tudo!? protestou Vessoftchikof.
-
---Ah, não se assuste, que não ha de ser grande coisa... talvez até não
-seja nada!
-
-Pélagué obedeceu, bateu á porta indicada e, apurando o ouvido, pensava
-com tristeza: «Está mesmo a morrer...»
-
---Quem está ahi? perguntaram de dentro.
-
---Venho da parte do senhor Iégor, respondeu baixo. Pede-lhe que vá a
-casa d’elle.
-
---Lá vou! responderam.
-
-Pélagué esperou um instante e tornou a bater.
-
-A porta abriu-se de brusco e appareceu uma mulher ainda nova, muito
-alta e que usava oculos. Vinha a alisar a manga do vestido, amarrotada.
-Seccamente perguntou:
-
---Que deseja?
-
---Foi o senhor Iégor que me mandou...
-
---Ah! vamos lá!... Mas eu conheço a senhora! exclamou. Como passou?...
-É que faz aqui muito escuro...
-
-Pélagué fitou-a e lembrou-se de tel-a visto uma vez ou duas, em casa de
-Nicolao.
-
-«Por toda a parte ha gente nossa!» pensou.
-
-A mulher deixava livre o caminho, por fórma que Pélagué fôsse adiante.
-
---Está então muito mal? inquiriu.
-
---Muito mal; está deitado. Pede-lhe que lhe leve alguma coisa de
-comer...
-
---Ora! é inutil...
-
-Ao penetrarem as duas mulheres no quarto de Iégor, este debatia-se em
-doloroso estertor.
-
---Lioudmila, disse por fim. Esse rapaz saíu agora da cadeia sem licença
-da auctoridade. Já é ser descortez! Antes de mais nada, dá-lhe de
-comer e esconde-o em qualquer parte, por um dia ou dois.
-
-Lioudmila fez um signal d’assentimento e, ao passo que fitava
-attentamente o rosto do enfermo, dizia com certa severidade:
-
---Iégor, porque não me chamou logo que chegaram as suas visitas?
-E já vejo que por duas vezes se esqueceu de tomar o remedio! É um
-desmazelo!... Pois se é o primeiro a dizer que se sente respirar melhor
-quando o toma!... Venha para minha casa, camarada!... Não tarda que
-venham buscar o Iégor para o levarem para o hospital.
-
---É então forçoso ir para o hospital? perguntou o enfermo.
-
---De certo. Lá irei ter comsigo.
-
---O quê? lá, tambem?...
-
---Não diga tolices!
-
-E emquanto falava, compuzera no peito do doente a manta que o cobria,
-observára fixamente Vessoftchikof e medira com o olhar a altura do
-remedio no frasco. A voz d’ella era monotona e grave, mas sonora; os
-movimentos amplos, o rosto branco, com umas sobrancelhas muito pretas,
-que quasi se reuniam na base do nariz. Tal fisionomia não agradou a
-Pélagué, que a ficou julgando arrogante; os olhos não tinham brilho e
-nunca sorriam; o tom da voz era imperioso.
-
---Vamo-nos d’aqui! continuou ella. Eu já volto. A senhora dê ao Iégor
-uma colher de sopa d’este remedio... Não consinta que fale.
-
-E saíu levando comsigo o bexigoso.
-
---Que mulher extraordinaria! disse Iégor com um suspiro. Que admiravel
-creatura!... Para casa d’ella é que você devia ter ido, mãesinha. Ella
-trabalha muito... Até anda esfalfada!
-
---Não fales! Olha, bebe antes isto! supplicou Pélagué com meiguice.
-
-Elle ingeriu o remedio e continuou, fechando um dos olhos:
-
---Que me importa! Que fale ou que não fale, sempre tenho de morrer.
-
-Olhou para a velha, ao mesmo tempo que os labios se lhe entreabriam
-lentamente n’um sorriso. Ella tinha curvado a cabeça; agudo sentimento
-de dó lhe fazia derramar lagrimas.
-
---Não chore, mãesinha; é natural... O prazer da vida traz comsigo a
-necessidade da morte...
-
-Ella pousou-lhe a mão na cabeça e, em voz baixa:
-
---Cala-te, sim?
-
-O doente fechou os olhos como se estivesse a escutar o estertor dentro
-do peito. Teimosamente, objectou:
-
---Estúpida coisa o estar calado, mãesinha!... Que ganho eu com
-isso?--uns minutos mais d’esta agonia e o ficar sem o prazer de palrar
-um bocado com uma santa mulher como você... Não creio que no outro
-mundo haja tão bôa gente como n’este...
-
-Ella interrompeu-o, agitada:
-
---Olha que vem ahi já aquella senhora, e depois ralha comigo se te ouve
-falar...
-
---Não é senhora nenhuma; é uma revolucionaria, uma companheira,
-um coração admiravel!... De toda a maneira, ha-de ralhar comsigo,
-mãesinha! Está sempre a ralhar com toda a gente!
-
-E Iégor poz-se a contar a historia da sua visinha, lentamente, com um
-articular custoso dos labios. Só os olhos sorriam. Inquieta, Pélagué
-dizia comsigo, notando a maceração d’aquelle rosto banhado de suor:
-
---Vae-me morrer aqui!
-
-Voltou Lioudmila. Fechou cuidadosamente a porta e disse para a velha:
-
---É absolutamente necessario que aquelle seu amigo se disfarce e se vá
-embora; vá já arranjar-lhe outro fato e traga-lho aqui! Que pena que
-a Sofia esteja ausente! É a sua especialidade, dar esconderijo a quem
-foge!
-
---Ella chega ámanhã, annunciou a outra, deitando o seu lenço para os
-hombros.
-
-Sempre que a encarregavam de qualquer missão, era idéa fixa sua
-desempenhar-se d’ella bem e depressa. Sollícita e preoccupada,
-franzindo as sobrancelhas, perguntou ainda:
-
---Como o havemos de vestir? Que lhe parece?
-
---Pouco importa: como elle sae de noite...
-
---É muito peor que de dia: anda menos gente pelas ruas, é-se mais
-facilmente notado, e como o Vessoftchikof não é muito esperto...
-
-Iégor soltou uma gargalhada rouca:
-
---Como você é fina, mãesinha!
-
---Posso ir vêr-te ao hospital? perguntou ella.
-
-O doente acenou com a cabeça, tossindo muito. Lioudmila fitava na velha
-os seus grandes olhos pretos.
-
---Quer que lhe fiquemos de guarda, cada uma por sua vez? propoz. Sim?
-Está bem!... Mas agora, vá, vá depressa.
-
-Agarrou Pélagué por um braço em gesto amigavel mas autoritario, fêl-a
-saír para o corredor e ali disse-lhe baixinho:
-
---Não se zangue por eu a despedir assim... Não é bonito, bem sei; mas
-faz-lhe tanto mal falar!... E eu tenho esperança...
-
-Esta explicação commoveu Pélagué. Murmurou:
-
---Não diga isso!... Não é bonito! Mas a senhora é um anjo!... Até mais
-vêr; eu cá me vou.
-
---Cuidado com os espiões! recommendou a outra em segredo. E levando as
-mãos ao rosto, passando-as depois pelas fontes, com uma tremulencia
-nos labios, tomou uns ares de maior bondade.
-
---Sim, esteja descansada, respondeu Pélagué com uma pontinha de orgulho.
-
-Ao chegar á grade da entrada, parou um instante como a arranjar a
-mantilha e lançou em torno um olhar vigilante, mas que passaria
-despercebido de qualquer. Sabia bem distinguir, e sem se enganar, os
-espiões d’entre o povo. O andar propositadamente descuidado, a placidez
-affectada dos movimentos, a expressão de cansaço e de tedio que fazia
-transparecer, o brilhar timido, confuso e mal dissimulado dos olhos,
-movediços e desagradavelmente esquadrinhadores, eram outros tantos
-disfarces que se lhe haviam tornado familiares.
-
-D’esta vez, porém, não enxergou cara alguma conhecida. Então, sem
-pressa, tomou pela rua adiante, e subiu para um carro de praça, que
-mandou seguir para o mercado. Ali comprou o fato para o fugitivo,
-não sem regatear ferozmente, desfazendo-se em pragas contra o bebado
-do marido, a quem tinha de vestir de novo quasi todos os mezes. Esta
-mentira não fez impressão alguma ao adelo, mas causou-lhe muita
-satisfação por a ter inventado; tinha ido a pensar pelo caminho que a
-policia havia de suspeitar que o fugitivo se disfarçaria e não deixaria
-de proceder a um inquerito no mercado. Feito isto, Pélagué voltou a
-casa de Iégor e foi acompanhar o bexigoso ao termo da cidade. Cada um
-tomou por passeio opposto e a velha, satisfeita, divertia-se immenso a
-vêr o rapagão a andar no seu passo pesado, cabeça baixa, atrapalhado
-com a comprida roda d’um sobretudo amarello e atirando para traz o
-chapeu, que lhe ia sempre a escorregar para os olhos. N’uma rua deserta
-veio-lhes Sachenka ao encontro, e Pélagué voltou para casa depois de se
-despedir de Vessoftchikof com um aceno de cabeça.
-
-Mas pensava com tristeza:
-
---Pois sim, mas o Pavel está na cadeia... e o André tambem.
-
-
-
-
-IX
-
-
-Foi recebida por Nicolao com um grito de mal contida inquietação.
-
---Sabe? O Iégor está muito mal! Levaram-no para o hospital; a Lioudmila
-veio cá pedir que fôsse ter com ella.
-
---Ao hospital?
-
-Nicolao, depois de ter ajustado os oculos, em movimento nervoso,
-ajudou-a a vestir um casaco, apertou-lhe a mão entre as suas, seccas e
-febris, e, em voz trémula:
-
---Sim! Leve este embrulho comsigo. O Vessoftchikof ficou em segurança?
-
---Sim, tudo vae pelo melhor...
-
---Tambem hei de ir vêr o Iégor...
-
-Pelagué estava tão cansada, que sentia a cabeça a andar-lhe á roda; a
-inquietação de Nicolao dava-lhe a presentir um drama.
-
---Vae morrer!... Vae morrer! dizia comsigo; e esta sombria idéa
-martelava-lhe no cerebro.
-
-Mas quando entrou no quartosinho alegre e muito aceiado do hospital e
-viu o Iégor a rir de manso, sentado em meio d’um montão de almofadas
-brancas, socegou de pronto. Parou á porta a sorrir-lhe e ouviu o doente
-dizer ao medico:
-
---O remedio, é uma reforma!
-
---Não diga tolices, Iégor! obtemperou o doutor em tom appreensivo.
-
---E eu, que sou revolucionario, detesto as reformas!...
-
-Certamente, o medico tomou a mão do doente e collocou-lha sobre o
-joelho; em seguida, levantou-se, poz-se a puxar pelas barbas, emquanto
-ia apalpando com um dedo os entumecimentos do rosto de Iégor.
-
-Pélagué conhecia bem o doutor por ser um dos melhores camaradas de
-Nicolao. Approximou-se de Iégor, que, ao vel-o, lhe deitou a lingua de
-fóra. O medico voltou-se.
-
---Ah, é vocemecê?... Viva!... Sente-se. Que traz ahi?
-
---Livros, parece-me.
-
---Não póde ler declarou, o medico.
-
---Quer que eu fique parvo de todo! choramigou Iégor.
-
---Cala-te! ordenou. E poz-se a escrever qualquer coisa na carteira.
-
-Do peito do doente exalavam-se breves suspiros forçados, de mistura com
-saliva, n’um estertor, violento; tinha o rosto coberto de camarinhas
-de suor, que elle enxugava de vez em quando, erguendo muito devagar as
-pesadas mãos, quasi inconscientes. A singular immobilidade das faces
-inchadissimas descompunha a expressão de bonhomia da sua ampla cara,
-onde as feições haviam desapparecido sob uma mascara cadaverica; e só
-os olhos, profundamente cavados entre os inchaços, conservavam um olhar
-puro e sorriam com condescendencia.
-
---An?! Esta sciencia!... Já não posso mais... Deito-me, doutor?
-perguntou elle.
-
---Não! respondeu com brevidade o medico.
-
---Então deito-me quando tu te fôres embora!
-
---Não lh’o consinta, mulhersinha. Arranje-lhe as almofadas. E tome
-muito cuidado, não o deixe falar, peço-lhe; faz-lhe muito mal.
-
-Pélagué fez um aceno. O medico saíu em passinhos rapidos. Iégor deitou
-a cabeça para traz, fechou os olhos e ficou sem movimento; só os dedos
-se lhe agitavam um pouco. Das paredes brancas da cellasinha exalava-se
-um frio secco e uma tristeza velada e pálida. Pela alta janella
-divisavam-se os cumes ondulados das tilias; por entre a folhagem
-poeirenta e sombría destacavam-se vivamente manchas amarellas: eram as
-frias primicias do outomno, que chegava...
-
---Vem para mim a morte, devagar, como que sem vontade! disse Iégor, sem
-bulir e sem abrir os olhos. Parece que tem pena de mim!... Pois se eu
-era um bom rapaz, de bom genio!...
-
---Cala-te, Iégor! supplicou Pélagué, afagando-lhe a mão ternamente.
-
---Espere um pouco, mãesinha, eu vou-me calar...
-
-E, offegante, continuou com esforço immenso a articular palavras
-entrecortadas de longas pausas:
-
---Gosto muito que vocemecê esteja comnosco, mãesinha... É-me muito
-agradavel ver a sua fisionomia, os seus olhos tão vivos, a sua
-candura... Quando a vejo, pergunto a mim mesmo: «Como irá ella acabar?»
-E fico triste, a pensar que a espera a cadeia, ou o degredo, toda a
-especie d’abominações... como os outros... Não tem medo da prisão?
-
---Não! respondeu ella com simplicidade.
-
---Está claro!... E, comtudo, a prisão... é nojenta coisa... foi ella
-que me matou... Porque, para falar com franqueza, eu não tenho vontade
-de morrer.
-
-Ella sentiu desejo de responder: «Talvez não morras ainda,» mas
-calou-se e ficou a olhar para elle.
-
---Podia ainda fazer alguma coisa pelo bem do povo... Mas quando a gente
-já não póde trabalhar, é impossivel viver, é uma estupidez!
-
-Á memoria da velha accudiram então estas palavras de André: «Isso é
-verdade, mas não é consolador!» Suspirou. Sentia-se fatigadissima e
-com fome. O murmurar monotono e rouco do doente resoava triste pelo
-quarto, como que rastejando, impotente, por sobre a lisura das paredes.
-A folhagem das tilias fazia pensar em nuvens que tivessem descido
-á terra, e impressionava pelo seus tons carregados e melancolicos.
-Tudo, em volta, se congelava singularmente em tristonha immobilidade,
-n’aquella desconfortante espectativa da morte.
-
---Como me sinto mal! disse Iégor. E calou-se, fechando os olhos.
-
---Dorme! aconselhou ella. Talvez te faça bem.
-
-Apurou por alguns instantes o ouvido para a respiração do doente e
-relanceou o olhar em torno de si. Invadida por glacial tristeza, entrou
-a dormitar.
-
-... Despertou-a um ruido de vestidos roçagantes. Estremeceu ao ver
-Iégor accordado, com os olhos muito abertos.
-
---Deixei-me dormir... desculpa! disse em voz baixa.
-
---E tu, tambem, perdôa-me! replicou elle igualmente n’um murmurio.
-
-Pela janella, entrava o crepusculo; um frio nevoento opprimia a vista;
-tudo se fundia em singular opacidade; o rosto do doente tomava tons
-mais sombrios.
-
-De novo se ouviu um roçagar de saias e logo depois a voz de Lioudmila,
-dizendo:
-
---Então, aqui ás escuras, a tagarelar?... Onde fica o botão da luz?
-
-E de subito, uma claridade branca e desagradavel innundou o quarto.
-Lioudmila estava de pé, alta, toda vestida de negro.
-
-Iégor teve um grande estremecimento por todo o corpo e levou a mão ao
-peito.
-
---O que é? exclamou Lioudmila, correndo para elle.
-
-Fixou na velha um olhar demorado; parecia ter os olhos enormes, com um
-brilho estranho.
-
---Espera... balbuciou o enfermo.
-
-Abriu muito a bocca, ergueu a cabeça e estendeu o braço para diante.
-Pélagué tomou-lhe a mão com cuidado extremo e fitou-o, contendo a
-propria respiração. Em movimento convulso e vigoroso, elle projectou a
-cabeça para traz e disse em alta voz:
-
---Deixei de existir... está acabado...
-
-Percorreu-lhe o corpo ligeira contracção, a cabeça rolou-lhe lentamente
-no hombro, e, nos seus olhos esgazeados, a luz da lampada collocada por
-sobre o leito, espelhou-se com um reflexo frio...
-
---Meu amigo!... murmurou Pélagué.
-
-Lentamente, Lioudmila afastou-se do leito; parou junto da janella a
-olhar para fóra e disse n’uma voz singular e sonora, que Pélagué nunca
-lhe tinha ouvido:
-
---Morreu...
-
-Ella inclinou-se, apoiou-se á mesinha de cabeceira e entrou de
-balbuciar com a voz a tremer:
-
---Morreu... socegadamente... corajosamente... sem um queixume...
-
-E de repente, como se lhe tivessem dado uma pancada na cabeça,
-deixou-se caír de joelhos, sem forças tapou o rosto com as mãos, e
-desatou em soluços abafados.
-
-Depois de ter cruzado os braços pesados do morto, sobre o peito e de
-lhe ageitar nas almofadas a cabeça, extraordinariamente quente, Pélagué
-avisinhou-se de Lioudmila, curvou-se para ella e afagou-lhe docemente
-os espessos cabellos, ao mesmo tempo que enxugava as proprias lagrimas.
-Esta ultima voltou com lentidão para ella os olhos dilatados, febris e
-balbuciou por entre os labios trémulos:
-
---Havia muito que o conhecia... Estivemos juntos no degredo, estivemos
-nas mesmas prisões... Ás vezes, aquella tortura era insupportavel,
-horrorosa; muitos d’entre nós perdiam o animo e alguns endoideciam...
-
-Comprimiu-lhe a garganta um espasmo violento; dominou-se com esforço, e
-em seguida, avisinhando do rosto da velha o seu rosto, a que uma nevoa
-de ternura dolorida dava desconhecida suavidade que o rejuvenescia,
-proseguiu em rapido murmúrio, com um soluçar sem lagrimas:
-
---E elle, elle sempre, sempre, andava alegre; nunca se cansava de
-gracejar, de rir, occultando corajosamente o seu soffrer, esforçando-se
-por reanimar os fracos... era tão bom, tão sensivel, tão meigo!... Na
-Siberia, a inacção em que se vive, deprava o espirito e faz nascer
-maus instinctos. Como elle os sabia combater!... Que companheiro
-aquelle era; se soubesse! a sua vida particular foi árdua, dolorosa...
-mas--sei-o bem--nunca ninguem o ouviu queixar... ninguem, nunca! Assim,
-eu, que era sua intima amiga, devo muito ao seu coração e recebi do
-seu espirito tudo o que podia dar-me; vivia triste, solitário e, no
-emtanto, nunca elle me pediu nada em paga, nem carinhos, nem disvelos...
-
-Foi até junto do morto, curvou-se e beijou-lhe a mão.
-
---Companheiro, meu querido e amado companheiro, disse ella n’uma voz
-sumida e cheia de desconsolo, agradeço-te de toda a minha alma...
-Adeus! Trabalharei, como tu fizeste... sem me cansar... sem duvidar...
-toda a minha vida... pelos que soffrem... Adeus!
-
-Todo o corpo lhe foi saccudido por violentos soluços e, offegante, a
-cabeça descaíu-lhe sobre o leito, aos pés de Iégor.
-
-Derramava Pélagué bastas lagrimas que lhe queimavam as faces.
-Procurava retel-as, pois o seu desejo era consolar Lioudmila com um
-affago especial e animador, falar-lhe do morto com boas palavras
-repassadas de amor e de tristeza. Por entre o pranto, distinguia o
-rosto entumecido do defuncto, os olhos fechados, os labios negros,
-confrangidos em leve sorrisos... Reinava um silencio profundo em meio
-d’aquella claridade que opprimia.
-
-O medico entrou em passinhos apressados, como sempre; parou bruscamente
-a meio do quarto, enterrou em rapido gesto as mãos pelas algibeiras e
-perguntou com voz nervosa e sonora:
-
---Ha muito tempo?
-
-Ninguem lhe respondeu. Bamboleou-se nas pernas e approximou-se de
-Iégor, enxugando o suor da testa; apertou a mão do morto e afastou-se
-novamente.
-
---Não é para admirar... em vista do estado do coração... Isto já devia
-ter acontecido ha seis mezes... pelo menos... Sim, com certeza!...
-
-Mas aquelle tom agudo da voz em que a placidez era forçada e a
-sonoridade fóra de proposito, logo se lhe velou. Encostou-se á parede e
-poz-se a passar os dedos rapidamente pela barba, olhando alternadamente
-para as duas mulheres e para o morto, com os olhinhos piscos.
-
---Mais um!... concluiu brandamente.
-
-Lioudmila ergueu-se e foi abrir a janella. Pélagué como que accordou
-áquelle ruido e olhou em torno, com um gemido. E um instante depois,
-o doutor, ella e Lioudmila encontravam-se reunidos no vão da janella,
-apertados uns contra os outros, a contemplarem o aspecto sombrio
-d’aquella noite de outono. Por cima do arvoredo, scintillavam as
-estrellas e pareciam recuar, perdendo-se no negro infinito dos ceus.
-Lioudmila envolveu o braço de Pélagué com o seu e descansou-lhe a
-cabeça no hombro, sem uma palavra. O medico limpava a luneta com o
-lenço. Fóra, os ruidos nouturnos da cidade morriam, abafados, o fresco
-da noite regelava as faces e agitava os cabellos. Lioudmila sentia
-arrepios; e as lagrimas escorriam-lhe pelo rosto. Nos corredores
-do hospital, vagueavam ruidos amortecidos, assustados, passadas
-pressurosas, gemidos, murmurios desconsolados. Immoveis, á janella, os
-trez sondavam as trevas, em silencio.
-
-Pélagué sentiu que era ali de mais e, depois de soltar com brandura
-o braço do da joven senhora, dirigiu-se para a porta, não sem que se
-inclinasse, ao passar, perante o morto.
-
---Vae-se embora? perguntou baixo o medico, sem se voltar.
-
---Vou.
-
-Pela rua fóra, ia pensando em Lioudmila. «Nem ao menos sabe chorar!»
-dizia ella comsigo, recordando-se da parcimonia das suas lagrimas.
-
-E as ultimas palavras de Iégor voltavam-lhe á memoria; faziam-na
-suspirar. Caminhando a passo vagaroso, revia em mente os olhos vivos de
-Iégor, os seus gracejos, as suas opiniões sobre a vida.
-
---Para a gente proba, a existencia é penosa e a morte leve... Como
-morrerei eu?
-
-Em seguida, o pensamento representou-lhe Lioudmila e o doutor de pé,
-junto da janella, n’aquelle quarto muito branco e cruamente illuminado,
-os olhos embaciados de Iégor; e, invadida por um sentimento oppressor,
-de compaixão, suspirou profundamente e entrou a caminhar mais depressa,
-impellida por vago presentimento...
-
-«É preciso marchar para a frente!» pensou sob o impulso de coragem
-valorosa e contristada, que lhe subia do coração.
-
-
-
-
-X
-
-
-O dia seguinte passou-o Pélagué a dispôr tudo para o enterro de
-Iégor. Á noite, quando tomava o chá, com Nicolao e Sofia, appareceu
-Sachenka, animada e expansiva, o que era para admirar. Vinha com as
-faces córadas, os olhos brilhantes, e Pélagué percebeu que ella trazia
-qualquer esperança risonha. Este radiante estado de espírito veio
-fazer uma irrupção barulhenta e tumultuosa no curso melancolico das
-recordações, mas sem o distraír era como uma viva claridade que tivesse
-brilhado de súbito n’aquellas trevas e que vinha incommodar a pequena
-reunião. Nicolao, pensativo, bateu na mesa:
-
---Acho-a mudada hoje, Sachenka!...
-
---Deveras! Póde ser! respondeu com uma risadinha de contentamento.
-
-Pélagué lançou-lhe um mudo olhar de censura. Sofia fez notar,
-accentuando as palavras:
-
---Estavamos falando do Iégor.
-
---Que bello homem! não é verdade? exclamou Sachenka. Sempre tinha
-prontos nos labios um sorriso e um gracejo... Trabalhava tão bem! Era o
-artista da revolução; possuia em alto grao a idéa revoluccionaria, como
-um verdadeiro mestre! Com que simplicidade mas ao mesmo tempo com que
-veemencia elle sabia descrever-nos o homem--o homem falso, perverso e
-violento! Muito lhe devo eu!
-
-Dizia isto a meia voz, com um sorriso de reflexão, mas que não lhe
-extinguia no olhar o brilho de alegria que era bem visivel e que nenhum
-dos trez compreendia. É que nos acontece ás vezes sentirmos prazer
-com um pezar, fazermos d’elle um brinquedo torturante que nos roe
-o coração. Mas Nicolao, Sofia e Pélagué, esses, não queriam deixar
-que se dissipasse a sua tristeza, nem abandonal-a aos sentimentos
-despreoccupados que Sachenka viera ali trazer; sem d’isso terem
-consciencia, defendiam o seu melancolico direito de se acolherem
-á dôr, e tentavam fazer entrar a recemchegada no circulo das suas
-preoccupações.
-
-E, afinal, está morto! insistiu Sofia, fitando-a com attenção.
-
-Ella vagueou pelos presentes interrogador olhar e baixou a fronte.
-
---Está morto?... repetiu em voz alta. Custa-me conformar-me com este
-facto.
-
-Entrou a passear a todo o comprimento da sala, e em seguida, estacando
-de súbito, proseguiu em tom singular:
-
---Mas que significa isso: «Está morto?» O que foi que morreu? A minha
-estima pelo Iégor, a minha affeição por esse camarada, a memoria do que
-a sua intelligencia praticou, tudo isso morreu? A opinião que eu tinha
-d’elle--a d’um homem valente e leal--ficou por ventura aniquilada?
-Morreu tudo isso? Para mim, tudo isso, a melhor parte d’elle proprio,
-nunca ha de morrer, sei-o bem! Parece-me que ha sempre pressa de mais
-em se dizer que um homem morreu! Se os seus labios morreram, as suas
-palavras estão vivas no coração dos que as escutaram.
-
-Muito commovida, tornou a sentar-se, encostou-se á mesa e continuou com
-mais brandura:
-
---Talvez sejam tolices o que digo, mas olhem, camaradas: creio na
-immortalidade da gente de bem!
-
---Teve alguma novidade? Está tão alegre! perguntou-lhe Sofia, amavel.
-
---Tive! respondeu Sachenka, confirmando a resposta com um aceno.
-Uma novidade muito agradavel, ao que julgo. Falei toda a noite com
-o Vessoftchikof. Antigamente não gostava d’elle; achava-o muito
-grosseiro, muito ignorante, o que realmente era verdade. Havia n’elle
-um mau humor, uma irritação indefinida e continua para com todos;
-estava sempre a antepôr-se a tudo com uma insistencia que chegava a
-aborrecer, sempre a falar de si mesmo... Aquelle homem tinha o que quer
-que fôsse de maldade, que enervava.
-
-Interrompeu-se para sorrir e relanceou em torno um olhar radiante:
-
---E agora, não: fala já dos seus «companheiros». E se ouvissem como
-elle pronuncia esta palavra! Com uma veneração tão terna, com tanta
-meiguice, que ninguem o póde intimar! Caíu em si, sabe a força de que
-dispõe, sabe o que lhe falta... e hoje, o que sente sobre todas as
-coisas é o verdadeiro sentimento de camaradagem, uma immensa dedicação,
-capaz de ir ao encontro das maiores provações.
-
-Escutava-a Pélagué, encantada com a alegria d’aquella rapariga, por
-hábito tão triste. Mas, ao mesmo tempo, no recondito do seu coração
-brotava secreto pensamento de inveja: «E o Pavel, que faz elle no meio
-de tudo isto?»
-
---Só pensa nos camaradas, continuava Sachenka; e sabem o que elle me
-persuadiu que fizesse? Que arranjasse uma fuga geral dos presos... É
-verdade! Diz que é facil.
-
-Sofia ergueu a cabeça e, em tom de animação:
-
---E que lhe parece, Sachenka? É uma boa idéa.
-
-A chavena de Pélagué entrou a tremer-lhe na mão; pousou-a sobre a meza.
-Sachenka ficou-se um instante calada, de sobrolho franzido, reprimindo
-o entusiasmo; depois, muito séria mas com um sorriso radiante,
-respondeu com alguma hesitação:
-
---Certo é que se as coisas são realmente como elle diz, devemos
-tentar... é o nosso dever.
-
-Córou, deixou-se caír n’uma cadeira e nada mais acrescentou.
-
-A mãe de Pavel esboçou um sorriso de muita meiguice, dizendo comsigo:
-«Querida! Querida da minha alma!» Sofia sorriu tambem; Nicolao soltou
-uma gargalhadinha, e attentou na rapariga, bondosamente. Então, ella
-ergueu a fronte, olhou em torno com severidade, e, pallida, com os
-olhos a faiscar, disse seccamente:
-
---Riem-se... Percebo porque é. Pensam que sou pessoalmente interessada
-no resultado da evasão, não é isto?
-
---Mas porquê, Sachenka? interrogou Sofia hypocritamente.
-
-E, levantando-se d’onde estava, foi pôr-se ao lado d’ella. Pélagué
-achou a pergunta futil e humilhante para Sachenka e assim lho fez
-sentir com um olhar.
-
---Mas, então, não quero tratar de nada! exclamou Sachenka. Não
-quero tomar parte na discussão, desde o momento que consideram este
-projecto...
-
---Cale-se, Sachenka! disse Nicolao sem se exaltar.
-
-A mãe de Pavel foi para a rapariga e afagou-lhe brandamente os
-cabellos. Sachenka agarrou-lhe logo a mão e voltando para ella o rosto,
-onde o sangue affluira, fitou-a, confusa. Sofia arrastou uma cadeira,
-sentou-se ao lado de Sachenka, passou-lhe o braço em volta da cinta e
-disse-lhe, ao passo que a fitava com curiosidade:
-
---Que caracter singular o seu!
-
---Sim, parece-me que disse tolice... mas é que eu gosto das coisas
-claras...
-
-Nicolao interrompeu-a para dizer em tom sério e preoccupado:
-
---Se a evasão é possivel, trate-se d’isso, não temos que hesitar!...
-Mas antes de mais nada, é preciso saber se os companheiros encarcerados
-estarão d’accordo.
-
-Sachenka curvou a fronte.
-
---Como se elles pudessem recusar! disse Pélagué, suspirando. O que eu
-não creio é que isso se possa fazer!
-
-Todos ficaram calados.
-
---Deixem me falar com o Vessoftchikof, disse Sofia.
-
-E Sachenka annunciou em voz baixa:
-
---Bem! amanhã lhe digo onde e quando póde encontral-o.
-
-Nicolao approximou-se da velha, que estava lavando as chavenas.
-
---Vocemecê vae depois d’amanhã á cadeia; é preciso fazer chegar um
-bilhete ás mãos do Pavel. Compreende? É preciso que a gente saiba...
-
---Compreendo. Compreendo! interrompeu ella com vivacidade. Eu me
-encarrego de lho entregar.
-
---Vou-me embora! declarou Sachenka e, tendo distribuido pelos
-companheiros vigorosos apertos de mão, foi-se, sem mais uma palavra.
-
-Poisou Sofia a mão no hombro de Pélagué e a sorrir:
-
---Queria ter uma filha como esta, Pélagué?
-
---Meu Deus! Se eu pudesse vel-os casados, ainda que não fôsse senão um
-dia! exclamou a bôa mulher quasi a chorar.
-
---Sim, a felicidade de cada um consiste em ser-se um bocadinho feliz...
-Quando essa felicidade é demasiada, tambem é de qualidade inferior.
-
-E Sofia foi para o piano tocar uma musica triste.
-
-
-
-
-XI
-
-
-Na manhã seguinte, apinhavam-se ao portão de ferro do hospital
-algumas duzias de homens e de mulheres, á espera que saísse o enterro
-do companheiro. Pelo meio d’elles, cautelosamente, giravam varios
-espiões, escutando cada exclamação, retendo de memoria rostos, gestos
-e palavras; no passeio fronteiro, estava um grupo de policias, de
-revolvers á cinta. A imprudencia dos primeiros e os risos irónicos dos
-segundos, a fazerem alarde da força, irritavam o povo.
-
-Uns disfarçavam a ira que os possuia e gracejavam; outros, ficavam-se
-cabisbaixos, olhando para o chão, para não verem aquelle apparato
-ultrajante; outros ainda, incapazes de conter o seu furor, zombavam
-dos poderes públicos e do seu medo de gente que por armas só tinha o
-dom da fala. Um ceu de outono, de azul muito pallido, illuminava a rua
-calcetada a seixos redondos, semeada de folhas mortas, que as lufadas
-erguiam em remoinhos diante dos pés dos transeuntes.
-
-Entre a multidão, estava Pélagué. Ia contando as caras conhecidas e
-pensava tristemente:
-
---Não são bastantes!... não são bastantes!
-
-O portão rodou nos gonzos. Trouxeram para a rua a tampa do caixão,
-enfeitada com corôas de fitas encarnadas. Silenciosos, os homens
-tiraram a um tempo os seus chapeus: dir-se-ia uma revoada de passaros
-pretos que se tivesse levantado das cabeças. Um official da policia, de
-avantajada estatura, de grossos bigodes escuros atravessados n’um rosto
-vermelhaço, cercado de policias e soldados, precipitou-se por entre
-o povo, empurrando todos sem cerimonia, e gritou com voz roufenha e
-autoritaria:
-
---Tenham a bondade de tirar as fitas!
-
-N’um prompto viu-se rodeado de homens e mulheres, em circulo compacto,
-falando todos á uma, gesticulando, empurrando-se uns aos outros.
-Perante o olhar turvado de Pélagué, agitaram-se em confusão rostos
-lividos e excitados, com os beiços a tremer de ira; e pelas faces d’uma
-mulher corriam pesadas lagrimas d’humilhação.
-
---Abaixo a prepotencia! gritou uma voz juvenil que se sumiu,
-desacompanhada, no borborinho da discussão.
-
-Pélagué sentia referver-lhe a amargura; voltou-se para o seu visinho,
-rapaz pobremente vestido, e disse-lhe:
-
---Até não nos deixam enterrar um camarada, como entendermos!...
-
-Augmentava a hostilidade, a tampa do esquife vacillava por sobre as
-cabeças, as fitas agitadas pelo vento envolviam os rostos e as cabeças;
-ouvia-se-lhes o crepitar nervoso e secco da seda.
-
-Pélagué, tomada de terror gelido por uma desordem possivel, dirigia aos
-que lhe ficavam proximos e a meia voz, frases rapidas:
-
---Que importa!... Uma vez que tem de ser... tirem-se as fitas... é
-melhor ceder... Para que serve resistir?
-
-Resoou uma voz aspera e sonora, que dominou o tumulto:
-
---Queremos que nos deixem acompanhar á sua ultima morada um companheiro
-que vocês martyrisaram!
-
-Alguem,--alguma rapariga com certeza--poz-se a entoar n’uma voz aguda e
-fina:
-
- E vós caístes, victimas, na lucta...
-
---Façam favor de tirar as fitas! Jakovlef! corta essas fitas!
-
-Ouviu-se o tinido d’uma espada a saír d’uma bainha. Pélagué fechou os
-olhos, na espectativa d’um grito. Mas tudo socegou; o povo rosnava,
-mostrava os dentes como os lobos perseguidos. Depois, de cabeça baixa,
-em silencio, esmagados sob o sentimento da impotencia, puzeram-se a
-caminho, fazendo ecoar pela rua o ruido dos passos.
-
-Á frente, a tampa do caixão despojada dos seus ornatos, com as corôas
-esfrangalhadas, lá ia erguida no ar; depois, vinham os agentes de
-policia, balançando-se d’um e outro lado, em cima dos cavallos. Pélagué
-seguia pelo passeio; não podia enxergar o caixão, devido á muita gente
-que o cercava; augmentava sem cessar o número dos manifestantes,
-que occupavam já toda a largura do calcetamento. Atraz da multidão,
-alteavam-se tambem os vultos uniformes e cinzentos dos guardas de
-cavalaria; de cada lado, polícias, com a mão nos copos das espadas;
-e, por toda a parte, divisava Pélagué caras de espiões com os agudos
-olhares a prescrutarem as fisionomias.
-
---_Adeus, companheiro, adeus!_ cantaram suavemente duas vozes bonitas.
-
---Silencio! gritou alguem. Calem-se, amigos! Calem-se por emquanto!
-
-Havia n’esta exclamação uma rudeza tão suggestiva de ameaçador
-conselho, que o povo calou-se. O canto funebre ficou interrompido,
-e o ruido das vozes socegou; só se ouviam agora passos amortecidos,
-n’um tropel que se elevava muito alto, que se perdia na transparencia
-do ceu, agitando a atmosfera, assim como o ecco do primeiro trovão
-de tempestade ainda longinqua. O vento, cada vez mais frio, atirava
-aos rostos, com animosidade, poeira e lama entumecia os vestidos,
-entorpecia as pernas, vergastava os peitos...
-
-Aquelle funeral silencioso, sem um sacerdote, sem um cantico,
-aquellas fisionomias oppressas e carrancudas, aquelle ruido de passos
-energicos, tudo provocava em Pélagué pungente angustia; o pensamento
-redemoinhava-lhe indeciso, revestindo de frases tristes as suas
-impressões:
-
---Ah! que não sois bastantes... luctadores da liberdade, não sois
-bastantes! E comtudo teem-vos medo!
-
-Afigurava-se-lhe não ser aquelle mesmo Iégor seu conhecido que ia
-a enterrar, mas sim uma coisa habitual, que lhe fôsse intima e
-indispensavel. Dominava-a um sentimento de violenta revolta: não
-estava d’accordo com aquella gente. Pensava:
-
---Sei-o bem: Iégor não cria em Deus, como estes tambem não crêem...
-
-Mas não conseguia concluir a sua idéa e suspirava, como a querer
-desembaraçar a alma de pesado fardo:
-
---Ó Senhor! Senhor!... Jesus!... Será possivel que tambem eu vá a
-enterrar assim?...
-
-Chegaram ao cemiterio. Depois de muitas voltas por entre os sepulcros,
-parou o cortejo n’um vasto espaço livre, semeado de cruzinhas brancas.
-A multidão agrupou-se em torno d’uma cova e estabeleceu-se silencio. E
-este austero silencio dos vivos, entre tumulos, presagiava alguma coisa
-terrivel que sobresaltava o coração de Pélagué. Immobilisou-se então
-na espectativa. O vento uivava por entre as cruzes; em cima do caixão
-adejavam tristemente flôres murchas.
-
-A gente da policia, vigilante, tinha-se alinhado, seguindo com os
-olhares os movimentes do chefe. Então, um rapaz alto, pallido, com a
-cabeça descoberta, negras sobrancelhas e comprido cabello negro, foi
-postar-se junto do coval. No mesmo instante, ouvia-se a voz roufenha do
-official da policia.
-
---Meus senhores!...
-
---Companheiros! começou o rapaz com voz sonora.
-
---Perdão! gritou o official. Tenho a declarar-lhes que não consinto
-discursos.
-
---Limitar-me-ei a dizer algumas palavras, observou socegadamente o
-orador: «Companheiros! Juremos sobre a sepultura do nosso mestre e
-amigo nunca esquecermos os seus ensinamentos, juremos trabalhar cada
-qual toda a nossa vida e sem descanso, para destruir a origem de todos
-os infortunios da nossa patria, a forca damninha que a opprime, a
-autocracia!»
-
---Prendam-no! gritou o official.
-
-Mas logo teve a voz coberta por uma explosão de gritos:
-
---Morra a autocracia!
-
-Afastando a multidão, ás cotovelladas, os polícias atiraram-se para o
-orador, a quem o povo formava estreito circulo, emquanto elle bradava:
-
---Viva a liberdade! É por ella que devemos viver e morrer!
-
-Pélagué foi arrebatada para longe. Transida de terror, agarrou-se a
-uma cruz e fechou os olhos, á espera do golpe que havia de feril-a.
-Ensurdecia-a um turbilhão impetuoso de sons discordantes; sentia
-faltar-lhe o solo debaixo dos pés; opprimiam-lhe a respiração o vento e
-o medo. Os apitos da policia rasgavam o ar; resoavam vozes roucas, de
-commando; mulheres soltavam gritos nervosos; estralejavam madeiras das
-divisorias de covaes; no terreno, secco, resoava lugubremente o pesado
-tropel de toda aquella gente. Durou isto muito tempo.
-
-Pélagué não podia conservar por maior espaço os olhos fechados; era
-demasiado lancinante o seu horror. Olhou em volta, e soltando uma
-exclamação entrou a correr, de braços estendidos. Não longe, em
-estreito carreiro, entre tumulos, estavam os policias cercando o rapaz
-de cabello preto e defendendo-se dos ataques da populaça. Scintillavam
-pelo ar com brancos e frios reflexos, as laminas desembainhadas;
-elevavam-se acima das cabeças e caíam rapidamente. Bengalas, destroços
-dos tapumes surgiam, para logo desapparecerem; em selvagem torvelinho,
-cruzavam-se os gritos da multidão amotinada; de vez emquando,
-divisava-se o rosto pallido do rapaz; com voz forte que dominava a
-tempestade das iras, bradava:
-
---Camaradas! Para que serve sacrificarem-se inutilmente?
-
-Acabaram por lhe obedecer. Atiraram para longe os cacetes e uns apóz
-outros, foram-se afastando. Pélagué continuava a caminhar, arrastada
-por força invencivel. Viu Nicolao, com o chapeu para a nuca, a repellir
-os manifestantes, cegos de colera; ouviu-o dirigindo-lhes censuras:
-
---Endoideceram?... Soceguem!
-
-Pareceu-lhe que trazia uma das mãos toda ensanguentada.
-
---Vá-se d’aqui Nicolao! gritou, atirando-se-lhe ao encontro.
-
---Onde vae a correr? Olhe que lhe fazem mal!
-
-Sentiu-se agarrar por um hombro. Voltou-se. Era Sofia, sem chapeu, os
-cabellos em desalinho, sustendo nos braços um rapaz, quasi uma criança,
-que limpava á mão o rosto tumefacto e balbuciava com os beiços a tremer:
-
---Deixem-me... não é nada!
-
---Veja se trata d’elle. Leve-o para nossa casa.
-
-Aqui tem um lenço... amarre-lhe a cabeça! disse Sofia rapidamente.
-
-E introduzindo entre as mãos de Pélagué a mão do rapaz, deitou a
-correr, com um ultimo conselho:
-
---Vão se depressa, se não são presos!
-
-Os manifestantes precipitavam-se por todas as saídas do cemitério;
-atraz d’elles, os polícias marchavam pesadamente por entre as
-sepulturas. Embaraçados com as compridas abas das fardetas, praguejavam
-e brandiam as espadas. O rapaz seguia-os de longe, com a vista.
-
---Vamos, depressa! disse-lhe Pélagué com brandura. E limpou-lhe o rosto.
-
-O pequeno lançou um escarro de sangue e ciciou:
-
---Não lhe dê cuidado... não sinto nada. O polícia bateu-me com o punho
-da espada, na cara e na cabeça... E eu dei-lhe com o meu pau... Sempre
-apanhou uma sova!... Até uivava!
-
---Depressa! instava Pélagué, dirigindo-se rapida, para uma pequena
-aberta do muro do cemitério.
-
-Pareceu-lhe distinguir para além do muro dois policias á espreita,
-disfarçados com a verdura e que os esperavam, para lhes saltarem em
-cima á pancada, tão depressa elles apparecessem. Mas depois de ter
-empurrado a portinha com precaução, espraiou a vista pelo campo, todo
-envolvido no tecido pardacento d’aquelle crepusculo outonal. O silencio
-e a quietação que n’elle reinavam tranquillisaram-na de súbito.
-
---Espere, deixe-me ligar-lhe a cabeça, propôz.
-
---Não senhora; não tenho que me envergonhar das minhas feridas.
-
-Pélagué pensou-o summariamente.
-
-Aquelle sangue fresco e vermelho apiedou-a immenso; ao sentir-lhe com
-os dedos a quente humidade, toda a percorreu um estremecimento de
-terror. Em seguida, conduziu o ferido pelo braço, pelo campo fóra, sem
-proferir uma palavra. Elle libertou os lábios da ligadura para dizer
-alegremente:
-
---Para que vae a puxar por mim, camarada? Eu posso bem caminhar sósinho!
-
-Mas Pélagué sentia-o cambaliar, o andar vacillava-lhe. A voz ia-lhe
-enfraquecendo emquanto falava, interrogando-a sem esperar as respostas.
-
---Chamo-me Ivan, sou funileiro... e a senhora quem é? Eramos trez no
-club do Iégor... trez funileiros; ao todo, eramos onze! Gostavamos
-muito d’elle.
-
-Na rua mais proxima, Pélagué tomou um trem e para elle fez subir Ivan,
-segredando-lhe:
-
---Agora, cale-se.
-
-E para mais segurança, puxou-lhe outra vez a ligadura para a bocca.
-Elle levou logo a mão á cara, mas não conseguiu libertar os lábios;
-o braço recaíu inerte sobre os joelhos. Ainda assim, continuava a
-murmurar atravez do lenço:
-
---Nunca me esquecerei d’estas pancadas, amiguinhos da policia!...
-Antes do Iégor, era um estudante que nos dirigia... Ensinava-nos
-economia politica... Era muito rigoroso, muito aborrecido... Afinal,
-prenderam-no.
-
-Ella passou-lhe o braço em volta e descansou no seio a cabeça do
-rapaz. De súbito, sentiu que lhe pesava mais, ao mesmo tempo que se
-tinha calado. Transida de medo, Pélagué olhava para todos os lados;
-parecia-lhe ver a cada esquina um polícia, pronto a agarrar Ivan e a
-matal-o.
-
-O cocheiro voltou-se na almofada, com um sorriso:
-
---Bebeu, an?
-
---É verdade, até caír! respondeu ella, suspirando.
-
---É teu filho?
-
---É, sim. É sapateiro... Eu sou cosinheira...
-
---Ah, sim! É duro officio!
-
-Descarregou uma chicotada no cavallo e logo tornou a voltar-se. Baixou
-a voz.
-
---Sabes? Houve ha pouco grande desordem no cemitério. Era o
-enterro d’um d’esses políticos, d’essa gente que está contra a
-autoridade... que tem questões com a polícia. Havia amigos do defunto
-no acompanhamento... Elles então puzeram-se a gritar: «Morram as
-autoridades, que arruinam o povo»!? A polícia bateu-lhes. Dizem que
-alguns ficaram mortos... Mas a policia tambem apanhou pancada.
-
-Calou-se o cocheiro, abanou a cabeça com ares de desconsolo e proseguiu
-n’um tom de voz estranho:
-
---Assim se vão incommodar os mortos... accordar os cadaveres que dormem!
-
-O trem ia aos salavancos pela calçada, chiando muito; a cabeça de Ivan
-rolava suavemente no peito da sua enfermeira. O cocheiro, virado para
-elles, continuou, pensativo:
-
---Anda a agitação entre o povo... As desordens parece que se levantam
-debaixo dos pés... É verdade! Esta noite veio a polícia a casa d’uns
-visinhos. Fizeram lá não sei o quê até pela manhã e depois, quando se
-foram, levaram preso um que é ferreiro. Dizem que uma noite d’estas vão
-leval-o ali á beira no rio e afogam-no em segredo. E todavia, era um
-homem intelligente, aquelle ferreiro.
-
---Como se chama elle? perguntou a velha.
-
---O ferreiro? Chama-se Savyl, mas tem um outro nome: Evetchenko.
-É muito mocinho ainda, mas já compreendia muitíssimas coisas, e é
-proíbido compreendel-as, ao que parece...
-
-Ás vezes, apparecia lá pelas estações de carroagens e dizia-nos: «Que
-vida que vocês levam cocheiros!»
-
---É verdade, respondiamos-lhe nós, o nosso officio é peor que o dos
-cães!»
-
---Pára ahi! ordenou Pélagué.
-
-O sobresalto produzido fez então que Ivan voltasse a si. Entrou a gemer
-devagarinho.
-
---Esse rapaz está muito doente, observou o cocheiro.
-
-Vacillante, Ivan atravessou o páteo, custando-lhe collocar um pé
-adiante do outro.
-
---Não é nada, dizia. Ando perfeitamente...
-
-
-
-
-XII
-
-
-Sofia já estava de volta. Atarefada e mexendo-se muito, recebeu a
-velha, de cigarro na bocca. Deitou o ferido n’um canapé e ligou-lhe com
-perícia a cabeça, ao mesmo tempo que ia dando ordens. O fumo do cigarro
-obrigava-a a piscar os olhos:
-
---Doutor, ahi os tem. Sente-se fatigada, Pélagué? Teve muito medo,
-não é assim? Está bem, descanse agora um bocado... Nicolao vae-lhe já
-buscar o chá e um copo de Porto.
-
-Emocionada por taes acontecimentos, Pélagué respirava com difficuldade
-e resentia-se de uma dolorosa sensação de picada no seio.
-
---Não se importem commigo, murmurou.
-
-E toda a sua pessôa, transida de medo, supplicava um affago, um pouco
-de attenção... Nicolao veio do quarto contiguo. Trazia a mão ligada.
-Atraz d’elle entrou o médico, com os cabellos desgrenhados, como um
-ouriço. Correu para Ivan, curvou-se a examinal-o e pediu:
-
---Agua, muita agua! Pannos de linho limpos! Algodão em rama!
-
-Já Pélagué se dirigia á cosinha, mas Nicolao travou-lhe do braço e
-disse-lhe affectuosamente, levando-a para a casa de jantar:
-
---Não é comsigo que elle fala, é com a Sofia. A minha querida amiga
-passou por bastantes commoções, não é verdade?
-
-Aquelle falar apiedado respondeu ella com um soluço mal contido e
-exclamou:
-
---Ah! que horrivel coisa!... A espadeirarem o povo... a espadeirarem!
-
---Eu tambem lá estava, disse Nicolao, com um aceno confirmativo de
-cabeça. E encheu um copo de vinho quente. Dos dois lados houve egual
-exaltação... Mas não tenha receio; a polícia aggrediu só com a parte
-mais larga das espadas; só uma pessoa ficou ferida gravemente, ao que
-me parece... e essa vi-a eu caír ao pé de mim... Puxei-a até para fóra
-da batalha.
-
-A fisionomia e a voz com que Nicolao lhe falava, a claridade e o calor
-que reinavam no aposento, socegaram os nervos de Pélagué. Dispensou ao
-seu hospedeiro um olhar de reconhecimento e perguntou-lhe:
-
---Tambem ficou ferido?
-
---Sim, e creio que por culpa minha... Sem querer, rocei com a mão não
-sei por quê e fiquei com a pelle arrancada. Beba o seu vinho... Faz
-frio e vocemecê tem um fato tão leve!...
-
-Ella estendeu as mãos para o copo e reparou que tinha os dedos cheios
-de sangue coagulado. Em gesto instinctivo, deixou caír os braços sobre
-os joelhos. Tinha a saia húmida. Esgazeou os olhos, com as sobrancelhas
-muito erguidas, examinou furtivamente os dedos. A cabeça andava-lhe á
-roda, uma idéa martelava-lhe no cérebro:
-
---Ahi está, ahi está o que espera o Pavel um dia!
-
-Voltou o médico. Vinha em mangas de camisa e estas arregaçadas. A uma
-interrogação muda de Nicolao, respondeu com a sua vozinha delgada:
-
---A ferida do rosto é insignificante, mas houve fractura do craneo,
-que tambem não é muito grave... O rapazola é valente, mas ainda assim
-perdeu muito sangue. Vamos leval-o para o hospital.
-
---Para quê? Póde ficar aqui! accudiu Nicolao.
-
---Hoje e ámanhã talvez, mas depois era preferivel que se tratasse no
-hospital, não tenho tempo para visitas. Encarregas-te do relatório do
-que se passou no cemitério?
-
---Bem entendido! respondeu Nicolao.
-
-Pélagué levantou-se então sem fazer bulha e dirigia-se para a cosinha.
-
---Onde vae? exclamou Nicolao alvoroçado. Deixe lá a Sofia governar-se
-sósinha!
-
-Com um olhar e um sorriso involuntário, singular, respondeu a tremer:
-
---Estou toda suja de sangue... Estou toda suja de sangue!
-
-E ao mudar de roupa, no seu quarto, mais uma vez ficou a meditar na
-serenidade d’aquella gente, n’aquella faculdade de que dispunham de
-não demorar muito tempo o pensamento no horror dos acontecimentos.
-Esta reflexão fêl-a caír em si, vencendo o sentimento de terror de que
-estava possuida. Quando voltou ao quarto onde jazia o ferido, Sofia,
-curvada sobre este, dizia-lhe:
-
---Que tolice, camarada!
-
---Mas eu vou incommodal-os! observou elle em voz debil.
-
---Cale-se; é o melhor que tem a fazer.
-
-Pélagué parou por detraz d’ella e pousou-lhe a mão no hombro; fitou
-depois, sorrindo, o rosto muito branco do ferido e pôz-se a contar o
-medo que lhe tinha causado o seu accesso de delírio, no trem. Ivan
-escutava-a com os olhos a arder em febre; fazia estalar os beiços e
-exclamava de vez em quando, como que envergonhado:
-
---Oh, que tolo que eu sou!
-
---Bem, agora vamos deixal-o, declarou Sofia compondo-lhe as roupas que
-o cobriam. Descanse!
-
-E as duas mulheres passaram para a casa de jantar, onde, com Nicolao e
-o médico, por muito tempo conversaram baixinho sobre os acontecimentos
-d’esse dia. Já o drama era tratado como coisa remota, já se falava
-do futuro com tranquillidade; preparava-se a tarefa de ámanhã. Se os
-rostos exprimiam a fadiga, os pensamentos latejavam vivos. O doutor
-mexia-se nervosamente na cadeira, esforçando-se por velar a voz, que
-tinha aguda e esganiçada:
-
---Ora, a propaganda!... Não basta; os operários têem razão: é
-necessario exercer a agitação em terreno mais vasto. Creiam que os
-operários têem razão!
-
-Nicolao acrescentou com ar desconsolado:
-
---Por toda a parte se queixam da insufficiencia dos livros e ainda não
-conseguimos montar uma bôa imprensa... A Lioudmila está esgotada de
-forças, vae nos caír doente, se não lhe arranjarmos collaboradores.
-
---E o Vessoftchikof? perguntou Sofia.
-
---Esse não póde residir na cidade. Ha de entrar para o serviço da nova
-imprensa... mas falta-nos ainda alguem...
-
---E se eu pudesse servir? propôz a velha com brandura.
-
-Os trez fitaram-na um momento.
-
---É uma bôa idéa! exclamou Sofia de repente.
-
---Não; é muito difficil para você, creia, Pélagué, contestou Nicolao
-com secura. Era preciso que fôsse viver para fóra da cidade, que não
-pensasse mais em ver o Pavel, e em geral...
-
-Ella replicou, suspirando:
-
---Olhe que não faria grande falta ao Pavel... e pela minha parte,
-tambem essas visitas me partem o coração. É proibido falar seja do que
-fôr! Até pareço uma idiota aos olhos do meu filho! Estão ali mesmo,
-sempre a espiar-nos!
-
-Os recentes acontecimentos haviam-na fatigado, e agora, quando se lhe
-apresentava ensejo de afastar a idéa dos dramas da cidade, era quando
-se agarrava a esse assunto com todas as forças.
-
-Mas Nicolao mudou o curso da conversa.
-
---Em que pensas? perguntou elle ao doutor.
-
-Este, mal humorado, respondeu:
-
---Somos poucos! Aqui tens em que penso... É absolutamente necessario
-trabalhar com mais energia. É necessario decidir o André e o Pavel a
-evadirem-se; são dois trabalhadores preciosos de mais para estarem na
-inacção.
-
-Nicolao franziu o sobrolho, meneou a cabeça em ar de dúvida e lançou um
-rápido olhar para a mãe de Pavel. Percebeu que se constrangiam em falar
-do filho diante d’ella e foi para o seu quarto, levemente irritada
-contra quem tão pouco se preoccupava com os seus desejos.
-
-Deitou-se e, de olhos abertos, embalada pelo ciciar das vozes,
-sentiu-se tomada de inquietação. Parecia-lhe incompreensivel o dia que
-acabava de decorrer, cheio de allusões ameaçadoras; mas porque este
-genero de reflexão lhe fôsse penoso, afastou-as do cérebro e entrou
-de pensar no seu filho. Queria vel-o em liberdade e, ao mesmo tempo,
-tal idéa assustava-a; sentia que tudo se lhe agitava em torno; a
-situação tornava-se cada vez mais tensa, andavam imminentes violentas
-collisões. A paciencia do povo dera logar a enervada espectativa;
-crescia visivelmente a irritação publica, ouviam-se com frequencia
-frases rancorosas, de toda a parte soprava um hálito novo, um vento
-d’excitação. As proclamações eram discutidas animadamente no mercado,
-nas lojas, entre a criadagem e os artifices; cada prisão que na
-cidade se effectuasse despertava ecos tímidos, mas inconscientemente
-simpaticos e as suas causas eram commentadas. Pélagué ouvia agora com
-mais frequencia a gente do povo pronunciar as palavras que outrora a
-amedrontavam tanto: «socialistas, política, revolta». Taes palavras
-eram repetidas com ironia, mas esta ironia não chegava a disfarçar o
-fim principal, que era o de se informarem das opiniões; com colera,
-mas sob esta colera transparecia o medo, e todos andavam pensativos,
-entre alternativas de esperança e de ameaça... Em vastos circulos,
-lentamente, ia-se propagando a agitação na vida sombria e estagnada do
-povo; despertava o pensamento adormecido; os acontecimentos diarios
-já não eram tratados com o socego habitual e a antiga placidez dos
-fortes. Pélagué notava tudo isto mais distinctamente do que os
-seus companheiros, pois que melhor do que elles conhecia o aspecto
-desconsolador da vida, d’ella vivia mais proxima e n’ella divisava
-simtomas de reflexão e de irritação, uma sêde vaga de alguma coisa
-nova, o que a regosijava e assustava-a um tempo. Regosijava-se porque
-tudo considerava obra de seu filho; assustava-se porque sabia que elle,
-mal saísse da cadeia, logo iria collocar-se no posto mais perigoso, á
-frente dos companheiros... e que ali havia de morrer.
-
-Sentia muitas vezes Pélagué agitarem-lhe o espirito os grandes ideaes
-indispensaveis á humanidade e experimentava o desejo de falar da
-verdade, mas quasi nunca conseguia realisar o seu desejo. N’esta mudez
-forçada, os seus secretos pensamentos acabrunhavam-na. Por vezes, a
-imagem do filho tomava a seus olhos as proporções giganteas d’um heroe
-de lenda; n’elle resumia todas as maximas fortes e leaes que ouvira,
-todos os seus affectos, todas as coisas grandes e luminosas que o seu
-espirito abraçava. Contemplava-o então com mudo entusiasmo; ufana,
-enternecida, nadando em esperança, dizia comsigo:
-
---Tudo ha de ir bem!... tudo!
-
-O seu amor materno exaltava-se, comprimia-lhe o coração até
-fazel-o sangrar, mas impedia que n’elle o amor pela humanidade se
-desenvolvesse, chegando a destruil-o de todo; e no logar d’este grande
-sentimento só ficava uma minúscula idéa fixa a palpitar timidamente nas
-cinzas frias da inquietação:
-
---Vae morrer... Vae morrer!...
-
-Adormeceu tardíssimo em profundo somno, mas accordou logo muito cedo,
-com o corpo dorido e a cabeça pesada.
-
-
-
-
-XIV
-
-
-Ao meio dia, já Pélagué estava na secretaria da cadeia. Com turvo
-olhar, examinava o rosto barbudo de Pavel, que se lhe sentára em
-frente, á espera do momento em que poderia passar-lhe o bilhete que
-apertava fortemente na mão.
-
---Estou de saúde, e outros tambem, dizia Pavel a meia voz. E tu? como
-vaes?
-
---Muito bem. Morreu o Iégor! respondeu maquinalmente.
-
---Palavra?! exclamou Pavel; e baixou a cabeça.
-
---Vinha a policia no enterro, houve uma desordem, e foi um homem preso,
-continuou ella com simplicidade.
-
-O sub-director da cadeia deu com a bocca um estalo, aborrecido, e
-levantou-se a resmungar:
-
---Não falem n’essas coisas! É proíbido, já devem sabel-o. Não se
-consente que se fale de política... Oh, Deus poderoso!
-
-Ella ergueu-se igualmente e em voz d’innocencia desculpou-se:
-
---Eu não falava de política, falava da desordem. E o certo é que elles
-bateram uns nos outros. Até um ficou com a cabeça aberta!
-
---Não faz mal, queira calar-se! Quer dizer: não profira uma palavra que
-não lhe diga pessoalmente respeito, a si, á sua familia ou á sua casa.
-
-E para confirmar melhor as suas explicações, sentou-se á secretária e
-acrescentou n’um tom de cansaço e de enfado, ao mesmo tempo que punha
-em ordem uns documentos:
-
---Depois, eu é que sou responsavel.
-
-Pélagué lançou-lhe furtivo olhar e introduziu rapidamente o bilhete na
-mão de Pavel. Depois, suspirou com allivio:
-
---Nem eu sei de que hei de falar...
-
-Pavel sorriu.
-
---Nem eu tão pouco.
-
---Então para que serve vir fazer visitas? observou, irritado, o
-funccionario. Se não sabem de que hão de falar, não venham, não nos
-incommodem!
-
---Quando vaes responder? perguntou a mãe apóz curto silencio.
-
---O procurador esteve ahi um dia d’estes; disse que era para breve.
-
-Trocaram ainda umas frases banaes. A mãe via que o seu Pavel a fitava
-amorosamente.
-
-Não mudara; mostrava-se, como sempre, calmo e ponderado; unicamente, a
-barba que lhe crescera vigorosamente, o fazia mais velho; e tinha os
-pulsos mais brancos. Pélagué quiz causar-lhe prazer dando-lhe noticias
-de Vessoftchikof. Então, sem mudar de voz, no mesmo tom em que lhe
-falava de bagatellas, continuou:
-
---Vi o teu afilhado...
-
-Pavel fitou-a com o ar interrogador. E logo para evocar o rosto
-bexigoso do fugitivo, ella cravou o indicador em diversos pontos da
-cara.
-
---Vae bem, o teu rapaz; é robusto, desembaraçado... Vae ter emprego
-d’aqui a pouco... Lembras-te? estava sempre a exigir que lhe dessem
-trabalho pesado.
-
-Pavel tinha compreendido. Abanou a cabeça e respondeu com os olhos
-illuminados por um alegre sorriso:
-
---Ora essa!... se me lembro!...
-
---Pois ahi tens! disse ella com satisfação.
-
-Sentia-se contente comsigo mesma e alegre com a alegria do filho. Ao
-retirar-se, apertou-lhe elle a mão vigorosamente:
-
---Obrigado, mamã!
-
-Como o vapor da embriaguez, uma sensação de extase subiu á cabeça da
-mãe; sentia o coração do filho mais perto do seu; não teve forças para
-lhe responder com frases e contentou-se com apertar-lhe tambem a mão,
-sem uma palavra mais.
-
-Em casa, encontrou Sachenka, pois tinha esta por costume visital-os nos
-dias em que Pélagué ia á cadeia. Nunca a interrogava ácerca de Pavel;
-se Pélagué, de motu-proprio, não falava do filho, Sachenka ficava-se
-a olhar fixamente para ella, e era tudo. Mas n’esse dia, acolheu-a com
-uma interrogação de desasocego:
-
---E então, que faz elle?
-
---Está bom.
-
---Deu-lhe o bilhete?
-
---Com certeza.
-
---E leu-o?
-
---Está visto que não. Como podia elle lêl-o?
-
---É verdade!... Esquecia-me!... emendou com lentidão a rapariga.
-Esperemos mais uma semana... E que lhe parece? Estará d’accordo? E
-olhou fito para a mãe de Pavel.
-
---Sim... não sei... creio que sim! respondeu. Porque não havia elle de
-se evadir? Perigo, não ha nenhum...
-
-Sachenka concordou com um aceno e perguntou com seccura:
-
---Não sabe dizer-me o que é que se póde dar a comer ao doente? Diz que
-tem fome...
-
---Póde comer de tudo... de tudo! Eu mesma lá vou.
-
-E encaminhou-se para a cosinha. Sachenka seguiu-a vagarosamente.
-
-Pélagué foi ao fogão buscar uma cassarola.
-
---Escute! murmurou a rapariga.
-
-Fez se pálida, os olhos dilataram-se-lhe n’uma angustia e com os beiços
-trémulos, segredou de enfiada:
-
---Queria perguntar-lhe... Eu bem sei: elle não ha de querer. Mas
-convença-o, diga-lhe que precisamos d’elle, que não podemos passar sem
-elle, que tenho medo que elle caia doente n’essa prisão... que tenho
-muito medo! Bem vê: nem ainda está fixado o dia do julgamento!...
-
-Falava com difficuldade e tal esforço toda a inteiriçava; não se
-atrevia a fitar a mãe de Pavel; a voz saía-lhe desigual como corda
-que se puxa de mais, e logo se quebra. Com as palpebras cerradas
-mollemente, mordia os beiços e ouviam-se-lhe estalar as articulações
-dos dedos, enclavinhados.
-
-Pélagué, ficou emocionada ao ver aquelle accesso de exaltação, mas
-compreendeu. Commovida, cheia de tristeza, abraçou-a e respondeu baixo:
-
---Minha filha: elle não dá ouvidos senão a si mesmo... A mais ninguem!
-
-Permaneceram um instante em silencio, estreitamente enlaçadas. Depois,
-Sachenka soltou-se-lhe dos braços suavemente e disse enleada:
-
---Sim... tem razão! São tolices minhas... são os meus nervos!
-
-E fazendo-se de repente muito séria, concluiu simplesmente:
-
---Mas agora me lembro: é preciso levar de comer ao doente!
-
-D’ahi a pouco, sentada á cabeceira de Ivan, perguntava a este em tom de
-amigavel sollicitude:
-
---Doe-lhe muito a cabeça?
-
---Não, não muito... Mas vejo e oiço tudo vagamente... sinto-me fraco!
-respondeu Ivan confuso e puxando a roupa até o queixo. Pestanejava
-de contínuo, como se a luz se lhe tornasse demasiado forte. E porque
-notasse que o rapaz não se resolvia a comer na presença d’ella,
-Sachenka levantou-se e saíu do quarto.
-
-Ivan sentou-se na cama, seguindo-a com a vista; e, piscando o olho:
-
---É tão bonita!...
-
-Ivan tinha uns olhos claros e espertos, dentes pequenos e muito iguaes,
-a voz estava ainda na mudança da puberdade.
-
---Que idade tem? perguntou-lhe Pélagué pensativa.
-
---Dezesete annos.
-
---Onde vivem seus paes?
-
---No campo. Ha sete annos que vivo aqui; abandonei a aldeia ao saír do
-collegio... E a senhora, camarada, qual é o seu nome?
-
-O ouvir tratar-se assim divertia sempre Pélagué, e sensibilisava-a.
-Muito risonha, retorquiu:
-
---Que precisão tem de o saber?
-
-Calou-se um instante o rapaz, confuso, e explicou:
-
---É que um estudante do nosso grémio... quer dizer do grémio que nos
-fazia as leituras, falou-nos da mãe de Pavel Vlassof, sabe? aquelle
-que organisou a manifestação do primeiro de maio... o revolucionario
-Vlassof.
-
-Ella confirmou com a cabeça e apurou o ouvido.
-
---Foi elle o primeiro a desfraldar a bandeira do nosso partido!
-declarou com emfase o rapaz, e esta exclamação de orgulho ecoou no
-coração da mãe. Eu não estava no grupo... Tinhamos tenção de fazer
-uma manifestação tambem aqui, mas fomos mal succedidos: eramos muito
-poucos! Mas este anno ha de ser outra coisa... Verá!
-
-Offegava, emocionado, comprazendo-se á idéa de futuros acontecimentos.
-Agitando a colher, proseguiu:
-
---Falava eu então da mãe de Vlassof... Ao que parece, entrou tambem
-para o partido depois da prisão do filho... Dizem que essa velha é
-extraordinaria!
-
-Pélagué teve um franco sorriso: sentia-se a um tempo lisonjeada e
-constrangida. Ia dizer-lhe que a mãe de Pavel era ella; mas conteve-se
-e pensou com tristeza e um pouco de ironia:
-
---Que velha tola que eu sou!
-
-E de repente, dominando a sensibilidade que a dominava, curvou-se para
-o rapaz:
-
---Vamos, coma! Coma que mais depressa se ha de curar para proseguir
-nos nossos trabalhos! A causa do povo precisa de braços juvenis e
-robustos, de corações puros, de espíritos leaes! São essas forças que
-lhe dão vida; é por ellas que hão de ser vencidas toda a maldade e toda
-a infamia!...
-
-Abriu-se a porta, deixando penetrar o fresco húmido do outono. Entrou
-Sofia, alegre, com as faces muito córadas.
-
---Os espiões andam a perseguir-me como os janotas arruinados perseguem
-uma herdeira rica, palavra d’honra! Tenho de me ir embora d’aqui.
-
---E então, Ivan, como vae?... Bem?... Pélagué, que diz o Pavel?... A
-Sachenka está cá?
-
-Accendia um cigarro e ia fazendo todas estas perguntas sem esperar
-as respostas. Afagava no entretanto a velha e o rapaz com a caricia
-do seu olhar pardacento. Pélagué considerava a recemchegada, rindo
-interiormente e pensava:
-
-«E eis como eu tambem me transformei em creatura humana... e n’uma bôa
-creatura, até!»
-
-Inclinando-se de novo para Ivan, disse-lhe:
-
---Cure-se depressa, rapazinho!
-
-E passou á casa de jantar, onde estava Sofia a dizer a Sachenka:
-
---Ella já preparou trezentos exemplares!... Mata-se a trabalhar... Que
-heroísmo o d’ella! Sabe Sachenka, que é uma verdadeira felicidade viver
-entre gente assim, ser seu camarada, trabalhar com elles!...
-
---É certo! respondeu a rapariga.
-
-E á noite, Sofia annunciou:
-
---Mãe Pélagué, precisamos que faça uma nova excursão pelo campo.
-
---Com muito gosto. Quando é a partida?
-
---Dentro de trez dias... Está por isso?
-
---Certamente!
-
---Mas não ha de ir a pé, aconselhou Nicolao.
-
-Alugam-se cavallos de posta e toma outro caminho: pelo districto de
-Nikolsky...
-
-Aqui, calou-se; tomára uns modos sombrios que não condiziam com a sua
-expressão habitual; as suas feições tão calmas tiveram uma contracção
-singular de fealdade.
-
---É uma volta muito grande! fez notar a velha. E os cavallos custam
-caro.
-
---É preciso que saibam, proseguiu Nicolao. Sou geralmente contrario a
-estas viagens. Ha agitação lá para esses lados... ha pouco, fizeram-se
-por lá prisões, foi encarcerado um mestre escola... É bom ser-se
-prudente... Mais valia esperar um pouco...
-
---Ora! redarguiu Pélagué a rir. Se é certo o que dizem: que não se
-tortura ninguem n’essas prisões...
-
-
-Sofia, que tamborilava sobre a mesa, observou:
-
---Mas é importantissimo para nós que a distribuição dos folhetos e dos
-manifestos se faça sem interrupção... Não tem medo de lá ir, Pélagué?
-perguntou bruscamente.
-
-Sentiu-se melindrada.
-
---Tive eu alguma vez medo? Mesmo da primeira vez não me senti nada
-assustada... e a senhora...
-
-Baixou a cabeça sem terminar a frase. É que sempre que lhe perguntavam
-se ella tinha medo, se podia fazer uma coisa ou outra, se isto ou
-aquillo era facil para ella, presentia que precisavam de si para alguma
-coisa, que tratavam de se descartar d’ella, e que a tratavam por fórma
-diversa da que usavam entre elles.
-
-Quando tinham vindo os dias dos acontecimentos mais consideraveis,
-haviam-na ao principio assustado um pouco a rapidez dos incidentes e a
-repetição das emoções, mas logo, instigada pelo exemplo e sob o impulso
-das idéas que a dominavam, o seu coração transbordára do immenso
-desejo de se tornar tambem util. Era este o seu estado de espirito
-n’esse dia, e a pergunta de Sofia tornou-se-lhe assim, pois, tanto mais
-desagradavel.
-
---É inutil perguntar se tenho medo... ou outra qualquer coisa
-d’este genero, proseguiu ella. Porque havia de ter medo?... Os que
-possuem alguma coisa é que teem medo. E eu que tenho? O meu filho,
-unicamente... Tinha medo por elle... Tinha medo que o torturassem e que
-me fizessem outro tanto. Mas desde o momento que não ha torturas, que
-me importa o resto?
-
---Não está zangada comigo?! exclamou Sofia.
-
---Não... Somente noto que nunca pergunta aos outros se têm medo...
-
-Nicolao tirou com vivacidade os óculos, tornou a pôl-os e olhou de fito
-para a irmã. O silencio contrafeito que se estabeleceu agitou a alma
-de Pélagué. Levantou-se constrangida; ia falar, mas Sofia, pegando-lhe
-brandamente em uma das mãos, disse baixinho:
-
---Desculpe... Nunca mais lho pergunto.
-
-Esta promessa fez rir a anciã. E instantes depois, todos trez
-conversavam affectuosamente mas preoccupados, sobre a nova jornada ao
-campo.
-
-
-
-
-XV
-
-
-Logo ao nascer da aurora, lá ia a velha na carrinhola, em fortes
-solavancos pelas estradas enlameadas pelas chuvas do outono. Soprava
-húmido vento; a lama voava em mil respingos; o postilhão, sentado
-á beira do carro, virado para Pélagué, ia a lamentar-se n’uma voz
-anasalada e filosófica:
-
---Tinha eu dito áquelle meu irmão: façamos partilhas! E começámos a
-fazer partilhas...
-
-Mas de repente fustigou o cavallo da mão com valente chicotada e gritou
-furioso:
-
---Queres andar, ou não, estuporado animal?
-
-Os nédios corvos d’outono saltitavam com gravidade pelos campos nús;
-o vento vinha-lhes ao encontro, assobiando; elles então apresentavam
-o flanco ao vento, que lhes arrepiava as pennas e os obrigava a
-cambalear, e elles cediam á força da brisa e deitavam a voar com um
-palpitar indolente das azas.
-
---Finalmente prejudicou-me, e eu vi que não havia nada a fazer com
-elle, concluiu o postilhão.
-
-As palavras do homem resoavam como n’um sonho, aos ouvidos de Pélagué;
-no seu coração germinava um pensamento muito diverso, a sua memoria
-fazia-lhe desfilar na frente a longa série dos acontecimentos passados
-nos ultimos annos. Outrora, a vida, para ella, era como uma coisa
-criada não se sabia onde, muito longe, não se sabia por quem, nem
-porquê, e, agora, um numero consideravel de coisas se faziam á sua
-vista e com o seu próprio auxílio. E um vago sentimento se apoderava
-d’ella: era perplexidade e suave tristeza, contentamento e desconfiança
-de si mesma...
-
-Em torno d’ella, tudo se deslocava com lento movimento; no ceu, vogavam
-pesadamente as nuvens pardacentas, correndo para passarem umas adiante
-das outras; aos dois lados do caminho, fugiam as arvores encharcadas,
-com os cumes desnudados a baloiçarem; os campos estendiam-se em
-circulos regulares; monticulos adiantavam-se-lhe ao encontro, depois,
-ficavam para traz. Dir-se-ia que aquelle dia turvado ia a correr para
-alguma coisa longinqua, indispensavel.
-
-A voz nasal do postilhão, o tintilar dos guisos, o assobiar húmido
-e o perpassar do vento, tudo se fundia em uma torrente sinuosa e
-palpitante, que corria por cima dos campos com força uniforme e que
-suggestionava os espíritos.
-
---O rico até no ceu acha o espaço pouco!... É sempre assim! Meu irmão
-entrou a chicanar... as autoridades protegem-no! continuava o cocheiro,
-sentado sempre no rebordo do vehículo.
-
-Chegados ao termo da viagem, desatrelou os cavallos e disse á velha
-n’um tom desesperado:
-
---Bem me podias dar cinco kopecks para beber uma pinga.
-
-E como ella acquiescesse ao pedido, o homem declarou no mesmo tom,
-fazendo tenir as duas pequenas moedas no concavo da mão:
-
---Pois vou comprar uns trez kopecks d’aguardente e dois de pão!...
-
-Pela tarde, chegou Pélagué, esfalfada e transida á importante villa de
-Nikolsky. Dirigiu-se á hospedaria, pediu chá e, tendo occultado debaixo
-d’um banco a sua pesada mala de mão, foi sentar-se ao pé da janella,
-a olhar para o largosinho, revestido d’um tapete amarellado de herva
-calcada, e para o edificio da administração da communa, um casarão
-pardacento e triste, com os telhados a caír. Sentado nos degraus da
-entrada, estava um campónio calvo, de barbas compridas, a fumar o seu
-cachimbo.
-
-Corriam as nuvens em massas sombrias; amontoavam-se umas sobre outras.
-Reinava silencio; tudo respirava um tédio de mau humor; dir-se-ia que a
-existencia inteira se tinha occultado não se sabia onde, silenciosa.
-
-De repente, appareceu um official inferior de cossacos, a galope;
-sopeou o alazão que montava, em frente da entrada da administração e
-gritou o que quer que fôsse para o campónio, agitando o chicote no
-ar. Os seus gritos atravessavam as vidraças, mas Pélagué não podia
-distinguir as palavras. O campónio levantou-se, estendeu a mão para
-o horizonte; o official inferior saltou para o chão, cambaleou um
-pouco, atirou as rédeas ao homem; depois, firmando-se pesadamente na
-balaustrada, subiu os degraus e sumiu-se no interior do edificio.
-
-Fez-se novo silencio. Por duas vezes o alazão bateu com o casco no
-solo empapaçado. Uma rapariguinha, de olhos cariciosos e rosto muito
-redondo, com uma pequena trança loira caída no hombro, entrou na sala
-onde Pélagué estava. De bocca franzida, trazia sobre os dois braços
-estendidos uma enorme bandeja de bordas já gastas, carregada de louça.
-Cumprimentou com a cabeça.
-
---Viva, minha lindinha! disse-lhe Pélagué amoravelmente.
-
---Viva!
-
-Quando dispunha sobre a mesa pratos e chavenas, a pequena annunciou de
-chofre, muito animada:
-
---Apanharam agora mesmo um ladrão... Vão trazel-o para aqui.
-
---Que vem a ser esse ladrão?
-
---Não sei.
-
---Que fez elle?
-
---Não sei; só ouvi dizer que tinham apanhado um ladrão! Foi o guarda
-que saíu a correr da administração para ir buscar o commissário. Ia a
-gritar: «Está agarrado, tragam-no para cá!»
-
-Pélagué olhou pela janella e viu que vários camponezes se approximavam.
-Uns caminhavam devagar, com todo o socego; outros, corriam e vinham a
-abotoar as suas capas de pelles mesmo a andar. Pararam todos em frente
-do casarão e dirigiram os olhares para a esquerda. Mas conservavam-se
-todos em singular silencio.
-
-A rapariguinha olhou tambem para a rua e saíu da sala, batendo
-ruidosamente com a porta. Pélagué estremeceu. Occultou o melhor que
-poude a mala debaixo do banco, cobriu a cabeça com um lenço e veio
-fóra, a passo rápido, reprimindo o incompreensivel desejo de fugir que
-toda inteira a assaltava.
-
-Ao chegar ao poial da entrada da estalagem, sentiu nos olhos e no peito
-um friosinho agudo; suffocou, teve as pernas dormentes: a meio do largo
-caminhava Rybine com as mãos amarradas nas costas, escoltado por dois
-guardas. Silenciosa, a multidão dos campónios estava á espera, em volta
-da escadaria da administração.
-
-Atordoada, sem compreender bem o que via, Pélagué não desfitava Rybine.
-Este vinha a falar, pois que Pélagué lhe ouvia o som da voz, mas as
-palavras voavam indecisas, sem que tivessem éco no vácuo fremente e
-obscuro do seu espirito.
-
-Voltou a si e respirou melhor. Um campónio de barba loira estava a
-fitar n’ella attentamente os olhos azues. Ella tossiu, esfregou o peito
-com as mãos trémulas de terror e perguntou com esforço:
-
---Que se passa?
-
---Veja vocemecê mesma, redarguiu o camponez, voltando-se de novo para
-ella. Outro rústico approximou-se do primeiro e postou-se lado a lado.
-
-Os guardas fizeram alto em frente da populaça sem cessar crescente, mas
-que permanecia muda. De súbito, a voz de Rybine resoou com inergia:
-
---Teem ouvido falar d’esses papeis em que se escreve toda a verdade a
-respeito da nossa vida de campónios?... Pois bem: foi por causa d’esses
-papeis que me prenderam! Fui eu que os distribui pelo povo!
-
-A multidão cercou então o preso. Este apparentava voz calma,
-reflectida, e isto aliviou Pélagué da oppressão em que se sentia.
-
---Estás ouvindo? perguntou o segundo camponez ao dos olhos azues,
-dando-lhe com o cotovelo.
-
-Este, sem responder, ergueu a cabeça e de novo fitou a velha. O outro
-fez o mesmo. Era mais novo que o primeiro e tinha uma cara chupada,
-coberta de sardas, de barbinhas pretas. Os dois afastaram-se um pouco.
-
---Teem medo! disse Pélagué comsigo.
-
-E augmentou de attenção. Da soleira da estalagem distinguia
-perfeitamente o rosto sujo e tumefacto de Rybine, divisava-lhe o brilho
-do olhar; desejava que elle tambem a visse; pôz-se nos bicos dos pés,
-de pescoço estendido.
-
-Varios populares attentavam n’ella com modos frios, desconfiados, sem
-proferir uma palavra. Só nas primeiras filas do ajuntamento é que se
-notava um susurro continuado de conversações.
-
---Camponezes, meus irmãos, proseguiu Rybine com voz máscula e firme,
-tenham confiança n’esses escriptos! É para a morte talvez, que
-eu caminho por causa d’elles! Fui espancado, torturado, quizeram
-obrigar-me a dizer d’onde elles provinham... Pois que continuem a
-espancar-me--tudo supportarei!... Porque n’esses papeis encontra-se a
-verdade, e a verdade é para ser por nós mais presada do que o pão!...
-do que a própria vida!
-
---Para que diz elle aquillo? perguntou um dos dois campónios.
-
-O dos olhos azues respondeu com lentidão:
-
---Que lhe importa, a elle? A gente não morre duas vezes... E agora que
-já está condemnado...
-
-Os trabalhadores continuavam mudos, relanceando olhares furtivos e mal
-humorados; a todos parecia acabrunhar o que quer que fosse invisivel
-mas esmagador.
-
-O official inferior appareceu n’isto na balaustrada da administração.
-Titubeante e em voz avinhada, regougou:
-
---Que vem a ser toda esta gente? Quem está para ahi a falar?
-
-Precipitou-se para o largo, agarrou e saccudiu Rybine pelos cabellos,
-gritando:
-
---És tu que estás a falar, filho d’uma cadella... és tu?
-
-Fez-se agitação entre o povo, que entrou a murmurar. Presa de violenta
-angustia, a cabeça de Pélagué descaíu sobre o peito. Um dos campónios
-suspirou com ruido. E de novo resoou a voz de Rybine:
-
---Pois bem, bôa gente, escutem!...
-
---Cala-te!
-
-E o sargento deu-lhe um murro sobre o ouvido. Rybine cambaleou, depois,
-ergueu os hombros.
-
---Amarram as mãos a uma pessôa para a martirisarem á vontade!
-
---Guardas, levem-no! Olá! toca a dispersar! E, aos saltos na frente
-de Rybine, como um cão preso pela trela diante d’um naco de carne, o
-sargento atirava-lhe murros á cara, ao ventre e ao peito.
-
---Não lhe batas! gritou uma voz entre o povo.
-
---Para que lhe bates? perguntou outro.
-
---Vamo-nos embora! disse o dos olhos azues para o companheiro, abanando
-a cabeça. E, de seu vagar atravessaram o largo, emquanto Pélagué os
-acompanhava com um olhar de simpatia.
-
-Suspirou então, mais aliviada. O sargento accudiu outra vez, em pesado
-passo, á balaustrada e entrou a gritar, furioso, brandindo o punho:
-
---Tragam-no para aqui, já lhes disse.
-
---Não! replicou uma voz sonora. (A velha percebeu que era a do camponez
-dos olhos azues.) Não devemos consentir! Se o deixam entrar ali, vae
-ser espancado até o matarem! E depois não faltará quem diga que a culpa
-foi nossa, que fomos nós que o matámos!... Não devemos consentir!
-
---Camponezes! gritou Rybine. Não vêem a vida que levam? Não vêem como
-são explorados, ludibriados, e que lhes tiram o sangue?... Tudo repousa
-em vós; vós sois a principal força da terra... toda a sua força!... E
-quaes são as vossas regalias? Unicamente a de morrer á fome!
-
-De subito, os camponezes proromperam em gritos, interrompendo se uns
-aos outros:
-
---O homem tem razão!
-
---Chamem o commissário da policia rural! Onde está?
-
---O sargento foi chamal-o!
-
---Ora adeus! O sargento está bêbedo!
-
---Não é a nós que compete chamar as auctoridades!
-
---Fala, que não deixamos que te batam!
-
---O que foi que tu fizeste, an?
-
---Desamarrem-lhe os pulsos.
-
---Não, não, meus irmãos!
-
---Porque não? Que importancia tem isso?
-
---Pensem bem no que fazem!
-
---Doem-me os pulsos! disse Rybine, dominando o tumulto com a sua voz
-sonora e espaçada. Meus irmãos! descansem que não fujo!... Eu não posso
-fugir á verdade, pois que ella vive em mim!
-
-Algumas pessôas separaram-se do ajuntamento e foram-se afastando com
-meneios de cabeça; alguns riam... Mas sem cessar, gente exaltada, mal
-vestida por terem envergado os fatos á pressa, vinha chegando de todos
-os lados. Fervilhavam em volta de Rybine qual negra escuma. De pé, no
-meio d’elles, tal um cruzeiro em meio da floresta, o preso ergueu os
-braços acima da cabeça e gritou:
-
---Obrigado, obrigado, bôa gente! Sim! devemos desligar as nossas mãos
-mutuamente! Quem nos havia de ajudar, se nós não nos ajudassemos uns
-aos outros?
-
-Ergueu novamente uma das mãos, toda ensanguentada:
-
---Vêem o meu sangue? É pela verdade que o derramo!
-
-Pélagué desceu o poial. Mas do nivel do largo, já Rybine lhe não era
-visivel; tornou pois a subir os degraus. Tinha o peito em fogo mas
-dentro d’elle sentia palpitar alguma coisa de vaga alegria...
-
---Camponezes! Busquem esses folhetos, leiam-nos. Não acreditem nas
-autoridades e nos padres, que andam a dizer-lhes que são ímpios e
-herejes aquelles que vos trazem a verdade!... A verdade vae sempre
-fazendo o seu caminho silencioso pela terra, e no seio do povo encontra
-abrigo. Para essas autoridades ella é peor que o ferro e que o fogo.
-A verdade é a nossa melhor amiga; para a autoridade é uma inimiga
-declarada.--ahi teem porque ella se esconde.
-
-De novo resoaram entre a multidão varias exclamações.
-
---Irmãos, escutem!
-
---Ai, pobre homem, estás perdido!
-
---Quem te denunciou?
-
---Foi o padre, respondeu um dos guardas.
-
-Dois dos camponezes vomitaram logo uma chuva de impropérios.
-
---Cuidado, camaradas! advertiu uma voz.
-
-
-
-
-XVI
-
-
-É que vinha chegando o commissário da polícia rural.
-
-Era um homem alto e robusto, cara redonda. Trazia o bonné inclinado
-para a orelha; uma das guias do bigode vinha retorcida para cima,
-a outra pendia-lhe do canto da bocca, o que lhe dava uma expressão
-contorcida á cara, já de si desfigurada por um sorriso parado e
-estúpido. Na mão esquerda tinha uma pequena espada e balançava o braço
-direito ao ritmo dos passos. Fazia bulha, com o andar, pesado e firme.
-A populaça afastava-se na sua passagem. As fisionomias tomavam um
-aspecto de triste acabrunhamento.
-
-O tumulto socegára, desapparecera como se se tivesse sumido pela terra.
-Pélagué sentiu estremecer-lhe em repuxões nervosos a pelle da fronte;
-offuscava-lhe a vista uma como névoa de calor. Novamente teve vontade
-de ir misturar-se áquella gente; inclinou-se porém, e ficou immovel, em
-angustiosa espectativa.
-
---Que temos? perguntou o commissário, parando diante de Rybine e
-medindo-o dos pés á cabeça. Porque é que este homem não tem as mãos
-amarradas? Porquê? Amarrem-lhas!
-
-Tinha a voz aguda e sonora, mas sem timbre.
-
---Elle tinha as mãos amarradas... mas o povo desamarrou-lhas! respondeu
-um guarda.
-
---O quê? O povo? Que povo?
-
-Percorreu com a vista o semi-círculo que o cercava e proseguiu na sua
-voz branca e uniforme:
-
---Quem vem a ser aqui o povo?
-
-Tocou com o punho da espada o peito do camponez de olhos azues:
-
---És tu que és o povo, Tchoumakof? E quem mais? És tu, Michine?
-
-E deu um puxão nas barbas d’outro camponez.
-
---Vamos a dispersar, canalha!... Senão, comigo se hão de haver...!
-
-Não demonstrava no tom em que falava nem irritação nem ameaça, como tão
-pouco na fisionomia. Exprimia-se com uma tranquillidade completa e ia
-distribuindo as pancadas em gestos firmes e iguaes. Diante d’elle, os
-grupos recuavam, baixavam-se as cabeças, desviavam-se os rostos.
-
---Então, por que esperam? perguntou aos guardas. Amarrem-no!
-
-E depois de uma chuva de insultos cínicos, virou-se de novo para Rybine:
-
---Olá, tu! Mãos atraz das costas!
-
---Não quero ser amarrado! replicou Rybine. Eu não fujo... não me
-defendo... Para que serve amarrarem-me?
-
---O quê?! exclamou o commissário, indo para elle.
-
---Já bastante martirisastes o povo, feras! continuou Rybine, erguendo a
-voz. Tambem vocês dentro em pouco hão de ter os seus dias de sangue!
-
-O commissário parou-lhe na frente de chofre e pôz-se a miral-o, ao
-mesmo tempo que repuxava o bigode. Depois, recuou um passo e disse em
-tom de espanto e n’uma voz sibilante:
-
---Ah, filho d’um cão!... Que significam essas palavras?
-
-E bruscamente, com toda a força, descarregou uma punhada no rosto de
-Rybine.
-
---Não se destroe a verdade a murros! gritou este, crescendo para elle.
-E tu não tens o direito de me bater!
-
---Eu não tenho o direito?! berrou o commissário, destacando muito as
-palavras.
-
-E novamente atirou o braço para attingir o rosto de Rybine. Este
-baixou-se, por fórma que o commissário, com o impulso, esteve a ponto
-de caír. D’entre o ajuntamento alguem fungou com ruido. Furioso, Rybine
-repetiu:
-
---Já te disse que não tens o direito de me bater, grande diabo!
-
-O commissário olhou em torno. Os homens, silenciosos e de má catadura,
-rodeavam-no em compacto círculo.
-
---Nikita! chamou. Olá, Nikita!
-
-Um campónio baixote e atarracado, vestido de um curto casacão de
-pelles, saíu do grupo. Vinha de olhos fitos no chão, com a enorme
-cabeça baixa e os cabellos desgrenhados.
-
---Nikita! ordenou o commissário com a maior tranquillidade e retorcendo
-o bigode. Dá-lhe uma bofetada bôa!
-
-O homem deu um passo para diante, parou em frente de Rybine e ergueu
-a cabeça. Rybine, á queima roupa, bombardeou-o com estas palavras
-sinceras e duras:
-
---Vejam vocês, bôa gente, como este bruto vos esmaga com a vossa
-própria mão!... Vejam bem... e reflictam.
-
-Lentamente, o homem ergueu o braço e contundiu Rybine na cabeça, mas
-levemente.
-
---Assim é que eu te mandei fazer, canalha? gritou o outro,
-esganiçando-se.
-
---Eh, Nikita! disse alguem próximo. Não te esqueças de que Deus te está
-vendo!
-
---Bate-lhe, já t’o disse! gritou o commissário, empurrando o camponez.
-
-Este afastou-se um passo e respondeu com frieza, de cabeça baixa:
-
---Não, senhor! não estou para mais!
-
---Como?
-
-Contraíu-se o rosto da autoridade. Bateu o pé e precipitou-se sobre
-Rybine, rogando pragas. A pancada resoou em surdo choque. Rybine
-cambaleou, agitou o braço; em segundo assalto, prostrou-o o commissário
-no solo e, aos pulos em volta d’elle, entrou a dar-lhe pontapés na
-cabeça, pelo peito, nas ilhargas.
-
-A multidão, soltando gritos hostis, pôz-se em movimento e cresceu para
-o commissário, mas este deu um salto para o lado e desembaínhou a arma.
-
---Ah, é assim? Revoltam-se? Ah, é isso?
-
-Tremeu-lhe a voz, tornou-se mais aguda e passou a saír-lhe da garganta
-em guinchos, como se se tivesse quebrado. E ao mesmo tempo que perdia
-a voz, sentia-se perder todo o prestigio. Com a cabeça encolhida nos
-hombros, o dorso recurvado e relanceando em torno o olhar amortecido,
-entrou a recuar, tateando cautamente o solo atraz de si. Amedrontado,
-rouquejava, ao mesmo tempo que ia cedendo:
-
---Muito bem... Fiquem com elle... Eu vou-me embora!... Mas, depois?
-Fiquem bem sabendo: esse homem é um criminoso político, combate contra
-o nosso tzar, anda a fomentar revoltas! Compreendem? É contra Sua
-Magestade o Imperador... e vocês defendem-no! Sabem que ficam sendo
-rebeldes?
-
-Immovel, o olhar de estátua, sem idéas nem acção, como n’um pesadello,
-Pélagué succumbia ao peso do terror e da sua piedade. Semelhantes
-ás vibrações d’um sino enorme, susurravam-lhe aos ouvidos os gritos
-irritados da plebe. Tudo lhe redemoinhava dentro da cabeça, a voz
-tremente do commissário, mil ruidos confusos...
-
---Se é criminoso, seja julgado!
-
---E não massacrado!
-
---Tenha dó d’elle, Excellencia!
-
---Pois está claro! Não tem direito de bater-lhe!
-
---Se isto são maneiras de proceder! D’essa fórma, começam todos para
-ahi a bater na gente! O que será então!
-
---Que brutos! que carrascos!
-
-Dividia-se o povo em dois grupos: uns rodeavam o commissário, gritavam,
-exortavam-no, os outros, menos numerosos, permaneciam junto do ferido e
-discorriam em voz baixa e com ares de abatimento. Ergueram-no do chão
-alguns homens. Os guardas dispunham-se a ligal-o de novo.
-
---Esperem ahi, seus diabos! gritaram-lhes.
-
-Rybine limpou a lama e o sangue que lhe empastavam a cara e,
-silencioso, olhou em torno. Deu então com a vista no rosto de Pélagué.
-Esta estremeceu, adiantou todo o corpo para elle, fez instinctivo
-gesto. Elle desviou os olhos. Mas, alguns instantes mais tarde, voltava
-o olhar do preso a fixar-se n’ella. Afigurou-se á pobre mulher que
-Rybine se endireitava na sua direcção, que erguia a cabeça para ella,
-com um movimento convulso das ensanguentadas faces.
-
---Reconheceu-me!... É possivel que me tenha reconhecido?!...
-
-E, vibrante de uma pungente satisfação angustiada, fez-lhe um
-signal com a cabeça. Mas logo reparou no homem dos olhos azues, que
-se encontrava junto de Rybine e que a fitava. Dispertou n’ella a
-consciencia do perigo.
-
---Que estou eu a fazer?... Podem prender-me tambem.
-
-O homem segredou algumas palavras a Rybine; este abanou a cabeça e
-disse nervosamente mas por fórma distincta e valorosa:
-
---Que importa? se eu não estou sósinho no mundo!... A verdade nunca
-poderá ser encarcerada! O povo ha de lembrar-se de mim por toda a parte
-onde passei... Ahi está! O ninho foi destruido, mas que mal vae n’isso,
-se dentro d’elle já não estavam nem amigos, nem camaradas?
-
-É para mim que está a falar! pensou Pélagué.
-
---O povo saberá construir outros ninhos, em prol da eterna verdade, e
-ha-de chegar o dia em que as águias voarão livremente... em que o povo
-será libertado!
-
-Trouxe uma mulher um balde d’agua e, desfazendo-se em lamentações,
-entrou de lavar o rosto do preso. A vózinha chorosa e fina da mulher
-confundia-se com a de Rybine e não deixava que Pélagué entendesse o que
-elle dizia. Precedido do commissário de polícia, avançava um grupo de
-camponezes. Alguem ordenou:
-
---Um carro para levar o preso para a cidade! Olá, a quem toca fornecer
-o carro?
-
-Em seguida, o commissário gritou n’uma voz transtornada e como vexado:
-
---Eu posso bater-te, entendes? mas tu não me pódes fazer outro tanto,
-tu é que não tens esse direito, idiota!
-
---Ah! E quem és tu então? Deus de misericordia! replicou Rybine.
-
-Algumas exclamações abafadas cobriram a resposta.
-
---Não discuta, tiosinho! Olhe que é um chefe!
-
---Não se zangue mais, Excellencia!
-
---Cala-te d’ahi, meu original!
-
---Vão-te já levar para a cidade!...
-
---Lá, ha mais respeito pela lei!
-
-Os gritos da populaça tornavam-se mais conciliadores, supplicantes;
-conjugavam-se em indistincta vozearia, lamentosa, mas sem qualquer
-nota em que se traduzisse uma esperança. Os guardas agarraram Rybine
-pelos braços, conduziram-no pela escadaria da administração e com elle
-penetraram no edificio. Lentamente, a multidão foi-se escoando. Pélagué
-notou que o homem dos olhos azues se dirigia para o seu lado e a
-observava de soslaio. Tremiam-lhe as pernas; desconsoladora sensação de
-impotencia e de isolamento lhe alanceava a alma, causando-lhe nauseas.
-
---Não devo ir-me embora! pensou. Não o devo fazer!
-
-Reteve-se vigorosamente á balaustrada e ficou esperando.
-
-Em pé, no cimo da escadaria da administração, o commissário
-discursava com grandes gestos, repreensivo, e na sua voz outra vez
-incaracteristica de indifferença:
-
---Imbecis! Filhos de cães! Não compreendem nada e vão metter-se n’um
-negocio d’estes!... n’um negócio d’Estado! Idiotas! Vocês deviam
-agradecer-me a minha bondade, deviam inclinar-se diante de mim, até ao
-chão! Se eu quizesse, iam todos para as galés!
-
-Escutavam-no uns vinte campónios, de chapeu na mão.
-
-Caía a noite; vinham descendo as brumas...
-
-Então o homem dos olhos azues approximou-se de Pélagué e commentou com
-um suspiro:
-
---Que cantiga aquella, an?
-
---É verdade! respondeu, baixo.
-
-Elle fitou-a com um modo decidido; perguntou:
-
---Em que se emprega?
-
---Compro rendas ás mulheres que as fabricam... e pannos tambem.
-
-O campónio afagou de vagar a barba; depois, disse em tom de
-contrariedade e a olhar na direcção da villa:
-
---Não temos nada d’isso lá em casa...
-
-A velha examinou-o da cabeça aos pés e ficou-se esperando instante
-opportuno para voltar ao interior da hospedaria. Era bello e pensativo
-o rosto do homem; nos olhos tinha uma nuvem de melancolia. Alto e
-espadaúdo, vestia uma blusa muita remendada, uma camisa limpa, de
-chita, umas calças côr de castanha, de grosseiro panno e trazia os pés
-nús n’umas alpercatas de canhamo.
-
-Sem saber porquê, soltou Pélagué um suspiro como de alivio. E de
-súbito, obedecendo a um instincto mais prompto do que o seu raciocínio,
-perguntou-lhe em um impulso que a ella mesma surpreendeu:
-
---Posso passar a noite em tua casa?
-
-E logo sentiu os músculos, o corpo inteiro retesarem-se n’um espasmo.
-Atravessaram-lhe rapidamente o cérebro idéas cruciantes:
-
---Vou perder Nicolao!... Não mais tornarei a ver o Pavel... por muito
-tempo... E hão de espancar-me tambem!
-
-O homem, sem precipitação alguma, olhos no chão, respondeu, emquanto
-cruzava sobre o peito a gola da blusa:
-
---Passar a noite? Sim... porque não? O peor é que a minha cabana não é
-grande coisa!
-
---Tambem, eu não estou habituada a mimos! respondeu ella.
-
---Está bem! acquiesceu o campónio, medindo-a por seu turno com olhar
-perscrutador.
-
-Á claridade do crepúsculo, os olhos do homem tinham um brilho frio; o
-rosto tornára-se-lhe muito pálido. E logo, Pélagué, baixo:
-
---Então, vou já comtigo... Has-de trazer-me a mala.
-
---Está dito.
-
-Encolheu os hombros, cruzou outra vez a blusa e segredou:
-
---Ora, veja: lá vem a procissão!
-
-Rybine surgira no topo da escadaria. Trazia de novo as mãos amarradas,
-e a cabeça e a cara embrulhadas em qualquer coisa pardacenta. A sua voz
-vibrou na frialdade do crepúsculo:
-
---Até mais ver, bôa gente! Busquem a verdade, conservem-na; creiam
-n’aquelles que vos trazem as bôas palavras... Não poupem quantas forças
-tenham, em prol da verdade!
-
---Cala-te, cão! gritou o commissário. Guarda, faz andar esses cavallos!
-
---...Pois que teem a perder? Que existencia é a vossa?
-
-Pôz-se o carro em andamento. Sentado entre dois guardas, Rybine ainda
-gritou cavamente:
-
---...Porque morrem de fome? Trabalhem por obter a liberdade... É ella
-que lhes ha-de dar pão e justiça!... Bôa gente, adeus!
-
-O ruído precipitado das rodas e das patas dos cavallos, as invectivas
-do commissário de policia confundiam-se com a sua voz, entrecortando-a
-e abafando-lha.
-
-Pélagué voltou para dentro de casa; sentou-se á mesa, perto do samovar,
-agarrou n’um pedaço de pão, examinou-o e tornou a pôl-o lentamente no
-prato. Não tinha vontade de comer, bem que experimentasse na bocca do
-estomago uma desagradavel sensação que lhe esgotava as forças, que lhe
-expulsava o sangue do coração e lhe fazia andar a cabeça á roda.
-
---Elle deu por mim! dizia ella comsigo, tristemente, no sentimento
-da sua fraqueza, para poder reagir. Deu por mim... Adivinhou, com
-certeza!...
-
-E não podia ir mais longe o seu pensamento: fundia-se n’uma prostração
-dolorosa, n’uma sensação viscosa de enjôo...
-
-O silencio timido, como que acoitado para além das vidraças e que
-succedera ao borborinho, provava que em toda a villa os habitantes
-haviam voltado ao antigo torpor medroso e subserviente, e isto mais lhe
-acirrava a sensação de isolamento em que se debatia, enchendo-lhe o
-espirito de obscuridade pardacenta e penetrante como cinza.
-
-A rapariguinha abriu a porta e do limiar perguntou:
-
---Quer que lhe traga uma _omelette_?
-
---Não... Já não tenho vontade... Esta gritaria fez-me um mal!...
-
-A pequenita foi até junto da mesa e pôz-se a narrar animadamente, mas
-em voz baixa:
-
---Como elle lhe bateu com força, o commissário!... Eu estava mesmo
-ao pé d’elle; vi tudo... Até quebrou os dentes todos do homem!... E
-quando o homem escarrava, o sangue vinha muito grosso, muito grosso
-e escuro!... Nem se lhe viam os olhos!... O sargento está cá. Está
-embriagado de todo e não faz senão pedir vinho. Diz elle que era uma
-quadrilha inteira e que aquelle das barbas era o chefe. Apanharam trez,
-mas um fugiu... E tambem prenderam um mestre escola que andava com
-elles!... Elles não crêem em Deus e aconselham o povo a roubar todas as
-igrejas. Aqui está o que elles fazem! Havia homens que tinham dó do tal
-das barbas, mas outros diziam que se devia dar cabo d’elle!... Sempre
-ha homens muito maus cá no nosso sítio!
-
-Pélagué escutava attenta esta rápida e entrecortada narrativa; esperava
-distraír assim o seu desasocego e dissipar a oppressora angustia da
-espectativa. A pequena encantada com tão bôa ouvinte, tagarelava sempre
-com crescente animação, comendo as palavras:
-
---O papá diz que tudo isto vem da falta de generos, tudo! Ha já dois
-annos que a terra não produz nada... e toda a gente anda sem saber o
-que ha de fazer. É por isso que apparecem agora homens como aquelle. É
-uma desgraça! Vão para as reuniões gritar e bater uns nos outros!...
-Ainda no outro dia, quando venderam as terras do Vassioukof, porque não
-pagava o fôro, deu uma bofetada no _staroste_.[3] «Ahi teem o fôro!»
-disse-lhe o Vassioukof.
-
-Resoaram pesados passos para além da porta.
-
-Pélagué ergueu-se com as mãos apoiadas na mesa. O camponez dos olhos
-azues entrou e sem tirar o bonné:
-
---Onde tem a sua bagagem?
-
-Ergueu a mala sem esforço algum. E observou:
-
---Está vazia!... Maria, acompanha esta viajante a minha casa.
-
-E saíu sem olhar para ninguem.
-
---Vae passar a noite á villa? inquiriu a pequena.
-
---Vou, sim! Eu negoceio em rendas e quero ir fazer as minhas compras.
-
---Não ha de encontral-as por cá. Em Tinekof e em Darino, ahi é que as
-fazem, mas cá na terra, não! explicou Maria.
-
---Pois ámanhã lá irei...
-
-Pagou o chá e deu trez kopecks á pequena, que ficou contentissima. Já
-na rua, propôz esta, emquanto ia chapinhando com os pés descalços pela
-terra húmida:
-
---Se a senhora quer, eu vou muito depressa a Darino, digo ás mulheres
-que lhe tragam cá as rendas... As mulheres vêem e a senhora não precisa
-fazer a viagem... Olhe que sempre são doze kilometros!
-
---Não, minha lindinha, não é preciso, respondeu, continuando a caminhar
-ao lado da pequena.
-
-Acalmára-a o ar fresco da tardinha. Lentamente, formava vaga resolução
-confusa, mas que a satisfazia.
-
-Tal idéa ia germinando com força e, para lhe abreviar a definitiva
-fixidez, Pélagué ia sem cessar perguntando a si mesma:
-
---Que fazer?... Proceder aberta, francamente?...
-
-Tinha caído completamente a noite, húmida e glacial. Brilhavam as
-janellas das cabanas com avermelhadas, baças, immoveis claridades.
-O gado fazia ouvir no silencio mugidos de indolencia. Aqui e ali,
-distinguiam-se breves exclamações. Esmagadora melancolia envolvia todo
-o logar.
-
---É aqui! disse a rapariguinha. Sempre escolheu muito má casa! Este
-camponez é tão pobre!...
-
-E ás apalpadelas, procurou a porta abriu-a e gritou com voz esperta:
-
---Tatiana, aqui está a sua hóspede!
-
-E logo deitou a correr. A sua vozinha vibrou ainda na escuridão:
-
---Adeus!
-
-
-NOTAS DE RODAPÉ:
-
-[3] O _staroste_ é o chefe d’um _mir_, ou communa rural autónoma.
-
-N. do T.
-
-
-
-
-XVII
-
-
-Pélagué deteve-se no limiar a examinar o interior, abrigando os olhos
-sob a mão em pala. Era pequena e acanhada a choupana, mas de um aceio
-que logo saltava á vista. Uma mulher nova appareceu por detraz do
-fogão, cumprimentou em silencio e desappareceu de novo. A um canto,
-sentado a uma banca, sobre a qual havia um candieiro acceso, o dono
-da casa tamborilava com os dedos na madeira. Fitava demoradamente a
-recemchegada.
-
---Entre! disse-lhe ao cabo de alguns momentos. Tatiana, vae chamar o
-Pedro, depressa!
-
-A mulher saíu rapidamente sem mesmo dispensar um simples olhar á
-viajante. Esta sentou-se n’um banco, em frente do aldeão e divagou
-a vista pelo aposento. Não via a sua mala. Reinava grave silencio
-na cabana; só o candieiro fazia ouvir um leve crepitar da chamma.
-A fisionomia d’aquelle homem, preoccupada e um tanto carrancuda,
-vacillava á luz mortiça, com feições mal definidas.
-
---Então: Fala... Avia-te!...
-
---E onde está a minha mala? perguntou logo Pélagué em voz alta e com
-severidade, sem ter bem consciencia do motivo por que assim falava.
-
-O campónio encolheu os hombros. Pensativo, respondeu:
-
---Deixa estar que não está perdida!
-
-E acrescentou friamente e em voz baixa:
-
---Eu disse diante da pequena que a mala estava vazia. Cá tinha as
-minhas razões. Ao contrário, você traz ali coisas bem pesadas...
-
---E então?
-
-Levantou-se, approximou-se d’ella, curvou-se e inquiriu, baixando ainda
-mais a voz:
-
---Conhece aquelle homem de ha pouco?
-
-Pélagué estremeceu, mas declarou com firmeza:
-
---Conheço!
-
-Estas simples respostas parecia-lhe que a acalentavam interiormente,
-illuminando tudo em volta com a luz d’um heroísmo.
-
-Sorriu-se o campónio.
-
---Eu bem a vi fazer-lhe um signal... E elle respondeu-lhe...
-Perguntei-lhe ao ouvido se conhecia a mulher que estava á porta da
-hospedaria...
-
---E elle? interrogou com anciedade.
-
---Elle disse só isto: «Somos em grande número...» Sim, foi isto que
-elle disse: «Somos em grande número...»
-
-Perscrutava com olhar interrogador a sua hóspede.
-
-Sorriu outra vez e proseguiu:
-
---É uma grande força, aquelle homem!... Tem muita coragem; diz o que
-pensa! Batem-lhe, injuriam-no, mas não cede!
-
-Com o escutar aquelle falar ingenuo, com o ver aquellas feições
-grosseiras e aquelles olhos francos e claros, ia-se tranquillisando
-pouco a pouco Pélagué. O seu acabrunhamento e os seus receios
-dissipavam-se para dar logar a uma compaixão intensa e profunda para
-com Rybine. Foi assim que, com súbita e amarga ira, que não poude
-reprimir, ella exclamou em tom de lamento:
-
---Aquelles monstros! Aquelles bandidos!
-
-E entrou a soluçar.
-
-O campónio deu alguns passos, abanando a cabeça com pezar.
-
---É verdade!... O governo tem andado a arranjar temiveis inimigos!
-
-E de repente, voltando para junto d’ella, segredou:
-
---Escute. Supponho que traz jornaes na mala... É certo?
-
---É! respondeu Pélagué simplesmente. E limpava as lagrimas.
-
---Era para elle que os trazia.
-
-O dono da casa carregou os sobrolhos, juntou na mão toda a barba em
-punhado e ficou-se calado, a olhar para um canto.
-
---Nós tambem recebemos um... e folhetos, livros... Eu cá não sou muito
-instruido, mas tenho um amigo que o é. E minha mulher tambem me lê
-essas coisas.
-
-Calou-se de novo, pôz-se a pensar; depois perguntou:
-
---E agora que vae fazer a tudo isso, á sua mala?
-
-A velha fitou-o, e, em tom de instigação:
-
---Deixo-lha cá!
-
-O outro não pareceu surpreso, não protestou; apenas repetiu:
-
---Deixa-a cá?
-
-Mas n’isto estendeu o pescoço para a porta, apurou o ouvido.
-
---Vem ahi gente, segredou.
-
---Quem?
-
---Gente nossa, provavelmente...
-
-Entrou a mulher, seguida do campónio sardento. Este atirou o bonné para
-um canto, foi até junto do dono da casa e disse-lhe:
-
---E então?
-
-O outro meneou a cabeça affirmativamente.
-
---Ó, Stépane! lembrou a mulher. Talvez a nossa viajante tenha vontade
-de comer.
-
---Não, muito obrigada, minha querida senhora.
-
-Voltou-se o segundo camponez para ella e em voz rápida, um tanto
-quebrada pela commoção:
-
---Permitta que eu mesmo me apresente. Chamo-me Pedro Rabinine, por
-alcunha o _Sovela_. Percebo alguma coisa d’esses negocios... Sei ler e
-escrever e não sou um imbecil, para falar assim...
-
-Apertou a mão que Pélagué lhe estendera, saccudiu-lha, emquanto ia
-dizendo a Stépane:
-
---Ora vê tu lá, Stépane! A esposa do nosso senhor e amo é uma bôa
-senhora, pois não é? E apezar d’isso, ella diz que todas estas coisas
-são tolices, extravagancias!... que são estudantes e garotos que se
-divertem a alvoroçar o povo. Mas não vimos nós dois, ainda agora, ser
-preso um homem de bem? E agora estás vendo esta mulher que já não é
-criança nenhuma e que tambem não me parece que seja fidalga, e que está
-do nosso lado... Não se offenda! Como se chama?
-
-Falava rápido, mas com voz distincta, quasi sem tomar folego; o queixo
-tremia-lhe nervosamente e com os olhos franzidos, perscrutava o rosto
-e toda a pessôa de Pélagué. Andrajoso, os cabellos em desalinho,
-dava a pensar que acabasse d’alguma lucta em que tivesse vencido o
-seu adversário e que o dominasse a alacre excitação d’uma victória.
-Agradou-se d’elle Pélagué por amor de tal vivacidade e principalmente
-por têl-o ouvido falar com simplicidade e franqueza desde o começo.
-Correspondeu com amigavel olhar ás suas bôas palavras. O outro
-saccudiu-lhe outra vez a mão e pôz-se a rir, n’um risinho secco e
-meigo, muito accentuado.
-
---É negocio de seriedade, bem vês, Stépane. É coisa que a todos dá
-honra! Eu bem te dizia que o povo começava a fazer obra pelas suas
-mãos... A fidalga, essa, não quer dizer a verdade, porque isso ia
-prejudical-a. Mas o povo quer ir para a frente, está decidido a isso,
-sem lhe importarem perdas nem prejuizos, estás entendendo? Pois se elle
-leva má vida, se não tem senão prejuizos de todos os lados, se elle não
-sabe para onde se ha de voltar, pois que não houve outra coisa senão
-«Prende! Mata!»
-
---Bem vejo! approvou o outro, abanando a cabeça. E acrescentou:
-
---Está em cuidado por causa da mala.
-
---Não se inquiete, está tudo em ordem, tiasinha! A sua mala foi para
-minha casa. Ha bocado, quando o Stépane me falou a seu respeito e
-me disse que tambem era cá dos nossos, que conhecia aquelle homem,
-disse-lhe eu: «Toma cuidado, Stépane! Nada de dar á lingua! Olha que
-é coisa séria!» Mas vocemecê, ainda agora, tiasinha, logo adivinhou
-tambem que a gente estava do seu lado. É que as caras da gente honrada
-conhecem-se n’um pronto, porque ellas não são muitas por essas ruas,
-ah, não!... A sua mala foi para minha casa!
-
-Sentou-se-lhe ao lado e alvitrou com uma sollicitação em cada olhar:
-
---E se quer despejal-a, com todo o gosto a ajudamos... Precisam-se
-livros por cá.
-
---Quer dar-nos tudo! declarou Stépane.
-
---Está muito bem, tiasinha! Deixe, que havemos de saber empregal-os bem.
-
-E bruscamente, levantou-se, entrou a rir. Depois, passeando a passos
-largos pela cabana, satisfeito:
-
---É o que se póde chamar um caso de pasmar... ainda que bem simples,
-afinal! Parte-se a corda n’um sítio e concerta-se n’outro. E a coisa
-assim não vae mal... Olhe que é muito bom, esse periódico, tiasinha;
-faz effeito, abre os olhos ao povo. Está visto que não agrada aos
-nossos senhores! Trabalho eu agora na casa d’um proprietário, a
-sete kilometros d’aqui; sou marceneiro... A mulher d’elle é boa
-creatura, forçoso é concordar; dá-nos livros... alguns bastante
-estúpidos. Vamo-os lendo e vamo-nos instruindo... Ficamos-lhe em geral
-reconhecidos. Mas quando eu lhe mostrei o tal jornal, zangou-se e
-disse: «Deixe isso, Pedro. Os que o escrevem não passam d’uns garotos
-e d’uns tolos, e com isso vocemecê não arranja senão desgostos... a
-cadeia e a Sibéria. Aqui tem o que lhe póde acontecer se continuar a
-ler esses papeis.»
-
-Apóz um instante de reflexão, perguntou:
-
---Diga-me: aquelle outro... o homem... é da sua familia?
-
---Não, respondeu Pélagué.
-
-Pedro pôz-se a rir só comsigo, muito satisfeito, sem que os outros
-soubessem porquê. Afigurou-se a Pélagué uma injustiça falar de Rybine
-como de qualquer estranho.
-
---Não é da minha familia, explicou; mas ha muito que o conhecia...
-Respeito-o como se fôsse meu irmão...
-
-Mas não achava a expressão que buscára. Tal deficiencia tornava-se-lhe
-dolorosa; e não poude conter o pranto. Na choupana reinava melancolico
-silencio. Pedro inclinou a cabeça sobre o hombro; dir-se-ia que
-escutava o que quer que fôsse. Reclinado sobre um dos cotovellos,
-Stépane tamborilava. A mulher d’este, encostada ao fogão, conservava-se
-na sombra. Pélagué sentia-lhe o olhar fito e, por vezes, olhava tambem
-para ella, entrevia-lhe o rosto redondo, de pelle escura, nariz
-direito, o mento talhado em angulo e com uma expressão de attenta
-vigilancia nos olhos esverdinhados.
-
---É portanto, um amigo! concluiu Pedro. É um homem de valor, por certo!
-Tem-se em grande conta e assim devem todos fazer. Aquillo é que é um
-homem! não é assim, Tatiana?... Que dizes?
-
---É casado? interrompeu Tatiana. E franziu com força os labios delgados
-da sua bocca meuda.
-
---É viuvo, respondeu a velha com tristeza.
-
---Por isso tem tanta coragem! declarou Tatiana em tom profundo e grave.
-Um homem casado não se portava assim; tinha medo!
-
---E então eu, não sou casado? E no entretanto... observou Pedro.
-
---Basta! disse a mulher sem o fitar e com uma contorção de altivez nos
-labios. Que fazes tu? Falas muito e lês um livro de tempos a tempos!
-Não é por andares aos segredinhos com o Stépane, pelos cantos, que o
-povo é mais feliz.
-
---Mas é que ha muito bôa gente que me dá attenção! contestou,
-offendido, o campónio. Fazes mal em falar-me d’essa maneira! Eu sou
-como uma espécie de fermento...
-
-Stépane olhava para sua mulher, sem uma palavra. Por fim, baixou a
-cabeça.
-
---Para que se casa a gente do campo? perguntou ella. Porque precisam de
-quem trabalhe, dizem elles. Para trabalhar em quê?
-
---Então tu não tens bastante em que te entretenhas? interrompeu
-Stépane, já zangado.
-
---E para que serve esse trabalho? O povo continúa a viver na miseria!
-Nascem os filhos e nem sequer ha tempo para tratar d’elles, porque o
-trabalho urge, o trabalho, que nem nos dá o pão!
-
-E dito isto, foi sentar-se ao lado de Pélagué. N’uma obstinação que não
-lhe dava á voz nem tristeza nem lagrimas, proseguiu:
-
---Eu tive dois... Um morreu escaldado pelo samovar, tinha dois annos;
-o outro nasceu morto... sempre por causa do maldito trabalho! Que
-felicidade me trouxe então o casamento? O que acho é que a gente do
-campo faz mal em casar: ficam de mãos amarradas, e ahi está! Se se
-conservassem livres, haviam de combater abertamente em prol da verdade,
-como esse homem que tu conheces... Não tenho razão, mãesinha?
-
---Tens! declarou. Sim, minha querida; d’outra fórma não se podem vencer
-as contrariedades da vida.
-
---E a senhora, tem marido?
-
---Já morreu. Tenho um filho...
-
---Onde está elle? Vive comsigo?
-
---Está na cadeia!
-
-E no seu coração, um pacifico orgulho temperava a tristeza de que taes
-palavras vinham sempre acompanhadas.
-
---É já a segunda vez que o encarceram por ter compreendido a verdade
-divina e por andar a semeal-a, abertamente, sem se poupar a fadigas!...
-O meu filho é moço, é bello rapaz e é intelligente! Foi d’elle a
-idéa de fundar um jornal; foi graças a elle que o Rybine se prestou
-a distribuil-o, havendo a notar que o Rybine tem duas vezes a idade
-d’elle! Vão julgal-o dentro em pouco, por tudo isso. Mas depois,
-quando o meu filho estiver na Sibéria, fugirá e voltará a continuar na
-campanha.
-
---Temos já muita gente e o número augmenta sempre! Todos estão
-decididos a luctar até á morte, pela liberdade, pela verdade!
-
-Então, pôz de lado toda a prudencia. Não citou nomes, mas contou tudo
-o que sabia do trabalho minaz a que se andava procedendo em favor do
-povo. E ao entrar n’este assumpto tão caro ao seu espirito, punha nas
-palavras toda a energia, todo o excesso do amor que tão tarde brotára
-n’ella sob os repetidos golpes da adversidade.
-
-A voz affluia-lhe igual; accudiam-lhe agora as palavras com tranquilla
-facilidade, e quaes pérolas multicolores e irisadas, enfiava-as com
-rapidez no sólido fio do seu desejo de purificar a alma de toda a
-lama e de todo o sangue d’aquelle dia. Os aldeões como que tinham
-criado raizes nos sítios em que as suas primeiras palavras os haviam
-encontrado. Immobilisados, fitavam-na em grave compostura. Chegava a
-ouvir a respiração arquejante da mulher que se lhe sentava ao lado; e a
-attenção do auditório fortificava-lhe a crença nas coisas que dizia e
-promettia.
-
---Todos os que se sentem esmagar pela injustiça e pela miseria, o povo
-inteiro, devem correr ao encontro dos que por elle morrem nas prisões
-ou nos cadafalsos. Não teem esses nenhum interesse pessoal em jogo.
-Explicam qual é o caminho que conduz á felicidade de todos, mas dizem
-abertamente quão difficil é esse caminho! Não constrangem ninguem, mas
-quando tomamos logar nas suas fileiras, nunca mais os abandonamos, pois
-vemos que teem razão, que esse caminho é o verdadeiro, e que não ha
-outro.
-
-Era grato ao coração da anciã realisar finalmente o seu desejo: ella
-própria falava agora ao povo, acerca da verdade!
-
---Com taes amigos, póde o povo marchar sem receio: elles não cruzarão
-os braços sem que o povo se tenha conjugado n’uma só alma, sem que
-tenha bradado com uma voz unica: «Sou eu o supremo senhor; eu mesmo
-farei as leis, iguaes para todos!»
-
-Fatigada por fim, calou-se Pélagué. Tinha a serena certeza de que as
-suas palavras não se extinguiriam sem deixar vestigios. Os camponezes
-continuavam a fital-a, como se ainda a escutassem. Pedro cruzára os
-braços no peito e cerrára as palpebras, com um sorriso a brincar-lhe
-nas faces sardentas. Com o cotovello na meza, Stépane inclinára-se,
-adiantando todo o corpo, de pescoço estendido. Velava-lhe o rosto
-uma névoa, um aspecto de maior sisudez. Sentada junto d’ella, com os
-cotovellos firmados nos joelhos, Tatiana fitava os bicos dos sapatos.
-
---Ah! ahi está! balbuciou Pedro.
-
-E sentou-se n’um banco, com precaução, a abanar a cabeça.
-
-Stépane endireitou lentamente o tronco, lançou rápido olhar a sua
-mulher e estendeu o braço, como se quizesse alcançar alguma coisa.
-
---Com effeito, começou elle, meditativo, quem quizer metter hombros á
-empreza, é para se lhe entregar de toda a alma!
-
-Pedro interveio aqui, timidamente:
-
---Está claro... e sem olhar para traz!
-
---O negócio vae a bom caminho! continuou Stépane.
-
---E em todo o mundo!... disse ainda Pedro.
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-Recostada e com a cabeça reclinada na parede, escutava Pélagué as
-reflexões dos dois homens.
-
-Tatiana levantou-se, olhou em roda, tornou a sentar-se. Com um brilho
-metálico nas pupillas verdes, lançou olhares de desprezo aos dois.
-
---Vê-se que tem sido muito infeliz! disse de súbito, voltando-se para
-Pélagué.
-
---É verdade!
-
---A senhora fala bem... As suas palavras vão direitas ao coração.
-Quando a gente a escuta, pensa: «Meu Deus! quem pudesse vêr, ainda
-que não fôsse senão uma vez, gente tão bôa, viver vida tão bella!»
-Como vivemos nós, aqui? Como uns carneiros! Eu sei ler e escrever... e
-leio livros... reflicto muito; ás vezes, tenho idéas que nem me deixam
-dormir de noite. E qual é o resultado de tudo isto? Se não reflicto,
-soffro, e soffro em vão; se reflicto, é a mesma coisa! De mais, tudo
-é baldado! Assim, esta gente do campo: trabalham, esfalfavam-se por
-amor d’um pedaço de pão... e nunca possuem nada!... E é isso o que os
-irrita; entram a beber, a bater uns nos outros... e lá vão outra vez
-para o trabalho. E o que se apura d’ahi? Nada.
-
-Falava assim, deixando transparecer a ironia no olhar e na voz grave e
-ampla, detendo-se por vezes, como para cortar as frases, tal a linha
-com que estivesse costurando. Os homens nada objectaram.
-
-O vento rufava nas vidraças, susurrava no colmo do tecto, e por
-momentos, soprava em brandas lufadas pela chaminé. Uivava um cão. Raras
-gottas de chuva vinham, como a custo, fustigar a janella. Oscillava a
-luz do candieiro, empallidecia e recomeçava de subito a brilhar, viva e
-igual.
-
---E aqui está para que vivem os homens! E é curioso: persuado-me de que
-já sabia tudo isto! Todavia, nunca tinha ouvido nada parecido; nunca
-tinha tido idéas d’este genero... nunca!
-
---Tratemos de cear, Tatiana, e de apagar o lume! interrompeu Stépane
-com voz abatida e vagarosa. Essa gente ha de pensar: «Os Tchoumakof
-tiveram o lume acceso até muito tarde!» Para nós, isso não teria
-importancia, mas é por causa da nossa visita. Talvez seja imprudente...
-
-A mulher logo se levantou, dando-se pressa em obedecer.
-
---É certo! confirmou Pedro, com um sorriso. É preciso ter cuidado,
-agora! Quando se tiver feito nova distribuição do jornal...
-
---Não é por mim que falo, declarou Stépane, mesmo se me prenderem, a
-desgraça não será grande! A vida d’um campónio nenhum valor tem.
-
-Experimentou Pélagué súbita compaixão por aquelle homem. E era mais
-viva do que pouco antes a sua simpatia por elle. Agora, que já tinha
-falado, sentia-se desajoujada do peso ignobil dos acontecimentos d’esse
-dia; sentia-se contente comsigo mesma e cheia d’um sentimento de
-benevolencia.
-
---Não deve falar assim! disse ella. O homem nunca deve medir-se pelo
-valor que lhe attribuem aquelles que só o julgam por apparencias
-e d’elle só pretendem o sangue. Aprecie-se a si mesmo, na sua
-consciencia, não para os seus inimigos, mas para os seus amigos!
-
---E onde estão esses amigos?! exclamou o camponez. Nunca os vi!
-
---Mas se eu te digo que ha amigos do povo!
-
---Haverá, mas não aqui; e essa é que é a desgraça! contestou Stépane,
-pensativo.
-
---Pois bem! n’esse caso, é preciso que os criem.
-
-Reflectiu o outro e respondeu em voz baixa:
-
---Sim... era o que se precisava.
-
---Vamos para a mesa! propôz Tatiana.
-
-Durante a ceia, Pedro, a quem as exortações de Pélagué pareciam ter
-preoccupado, voltou a falar com animação:
-
---Sabe, tiasinha? Olhe que é bom que se vá d’aqui cedo, para não ser
-notada. Vá á aldeia proxima; não vá á cidade; e tome uma carruagem.
-
---Para quê? objectou o outro homem. Se eu próprio a levo comigo!
-
---Nada d’isso! Se acontecesse alguma coisa, não faltaria quem indagasse
-se tinha passado a noite em tua casa...--«E para onde foi ella?»
-
---«Levei-a á aldeia próxima».--Ah, foste tu? Pois vaes para a
-cadeia!...» Percebeste? E para que ha de a gente ter pressa de ir para
-a cadeia? Cada coisa a seu tempo!... Mas se tu declarares que ella
-dormiu cá em casa, que alugou carro e que tornou a ir-se embora, não te
-pódem fazer nada. Ninguem é responsavel pelo que fazem os viajantes. Se
-passam tantos cá pelo sitio!...
-
---Já aprendeste a ter medo, Pedro? perguntou Tatiana, irónica.
-
---É bom aprender de tudo! respondeu, dando uma punhada no joelho. É
-bom saber ter coragem e é bom tambem saber ter medo! Lembras-te como
-o escrivão lá do tribunal andou a incommodar e a perseguir o Baguanof
-por causa d’aquelle periodico? Pois agora, o Baguanof nem por todo
-o dinheiro do mundo tocaria sequer n’um d’esses papeis! Creia, bôa
-mulher: para mim, é coisa facil imaginar bôas artimanhas; todos o
-sabem cá no sitio. Sou capaz de distribuir livros e folhetos como
-ninguem... tantos quantos quizer! A nossa gente é pouco instruida
-e muito medrosa, é certo; todavia, a vida vae tão dura, que o homem
-sempre se vê obrigado a abrir os olhos e a informar-se do que se passa.
-E o livro responde-lhe francamente: «Muitas vezes, mais percebe o
-ignorante do que o homem instruido... principalmente se o instruido fôr
-um d’esses que abarrotam de fartura. Conheço bem o sitio e sei vêr com
-olhos de vêr! Póde uma pessoa ir arranjando a vida, mas com esperteza
-e muita habilidade, para não ir á forca logo d’uma assentada! As
-autoridades tambem percebem que as coisas vão mudadas, que o camponez
-anda sorumbático, pouco ri e é de poucas amabilidades... É que, em
-geral, passava-se bem sem as taes autoridades!... Ainda ultimamente,
-em Smoliakovo--um logarejosito perto d’aqui--vieram os homens para
-cobrar uns impostos. Os camponezes então foram a correr buscar cacetes.
-«Ah, bestas! Vocês revoltam-se contra o tzar!» gritou o commissário.
-E estava lá um rústico, um chamado Spivakine, que respondeu: «Vá você
-para o diabo com o seu tzar! Que vem a ser esse tzar que nos leva até á
-ultima camisa do corpo?» Ora aqui tem em que as coisas param, tiasinha.
-Escusado é dizer que o Spivakine foi preso e atirado para uma enxovia.
-Mas ficaram as palavras d’elle, e até as crianças já as repetem.
-Ficaram vivas, a bradar, essas palavras!
-
-Nem comia: falava, falava sempre, em murmurio rapido; os olhos, pretos
-e astuciosos, brilhavam-lhe, muito vivos. E importunava largamente
-Pélagué com mil observaçõesinhas sobre a vida do sitio, como se
-estivesse a despejar um sacco de moedas de cobre.
-
-Por duas vezes lhe disse Stépane:
-
---Anda, come!
-
-Elle agarrava n’um pedaço de pão, n’uma colher, e espraiava-se de novo
-em considerações, falando, falando, como um pintasilgo a cantar.
-Terminada a ceia, finalmente, levantou-se de brusco, declarando:
-
---É tempo de voltar para casa!
-
-Approximou-se de Pélagué e saccudiu-lhe a mão:
-
---Adeus, tiasinha! Talvez nunca mais nos tornemos a ver... Sempre lhe
-quero dizer que tive muito prazer em travar relações comsigo e em
-ouvil-a falar... sim, senhora, muito prazer! Tem mais alguma coisa na
-mala alem dos livros? Um chale de lã? Está muito bem... um chale de lã,
-ouves, Stépane? Elle já lhe traz outra vez a sua mala. Vamos, Stépane!
-Adeus! Passe bem!
-
-Assim que os dois saíram, Tatiana tratou de preparar cama para a velha;
-foi acima do fogão e ao sotão buscar umas roupas e dispôl-as sobre o
-banco.
-
---É um rapaz desembaraçado! observou Pélagué.
-
-A outra respondeu, interrompendo a tarefa para lhe lançar um olhar
-furtivo:
-
---É muito leviano! Faz muita bulha, muita bulha, mas não passa d’ali!
-
---E seu marido? perguntou Pélagué.
-
---É um bom homem. Não bebe, e damo-nos muito bem. O unico defeito
-d’elle é ser de caracter fraco.
-
-Soergueu-se e proseguiu após um silencio:
-
---De que se precisa agora? De sublevar o povo, é claro! Todos pensam
-n’isso... mas cada um para seu lado! E o que é necessário é que se fale
-n’isso bem alto; é forçoso que appareça alguem decidido a fazel-o.
-
-Sentou-se e perguntou sem transição:
-
---A senhora disse que até já ha meninas finas e ricas a tratarem d’este
-negocio, e que vão fazer leituras politicas aos operários... E ellas
-não teem medo? não sentem repugnancia?
-
-E depois de ouvir attentamente a resposta de Pélagué, soltou profundo
-suspiro e continuou, com as palpebras cerradas e movendo devagarinho a
-cabeça:
-
---Já li uma vez n’um livro que a vida não faz sentido. O que isto
-queria dizer percebi eu logo á primeira! Como se eu não soubesse o
-que é essa vida: a gente tem umas idéas, mas umas idéas desapegadas
-umas das outras, e que andam a vaguear como carneiros estúpidos sem
-pastor... Vagueiam, vagueiam... E não ha nada, não ha ninguem que as
-reuna... porque a gente não sabe o que ha de fazer para isso! Ora aqui
-está o que é uma vida que não faz sentido! A minha vontade era fugir
-para longe d’ella, sem mesmo olhar para traz!... Muito infeliz é a
-gente quando começa a perceber um poucochinho!...
-
-Esta magua, via-a Pélagué bem no brilho verde dos olhos da mulher,
-n’aquelle rosto magro; ouvia-a vibrar n’aquella voz. Pretendeu
-consolal-a, acalmal-a:
-
---Mas a minha querida amiga compreende o que é necessário fazer-se...
-
-Tatiana interrompeu-a brandamente:
-
---Mas se o que se precisa é saber-se como fazel-o!... Tem a sua cama
-pronta... deite-se!
-
-E dirigiu-se para o fogão, grave e concentrada. Pélagué deitou-se sem
-se despir. Tinha dôres nos ossos, quebrados de fadiga. Soltou um gemido
-debil. Tatiana apagou o candieiro. E assim que as trevas reinaram
-dentro da choupana, resoou novamente a sua voz grave e igual:
-
---A senhora não reza... Eu tambem não acredito em Deus nem em milagres.
-Tudo isso foi inventado para nos metter medo, porque sabem que sômos
-estupidos!
-
-Pélagué, no seu leito improvisado, agitou-se, inquieta. Fitavam-na
-pela janella as trevas infinitas e, por entre o silencio, attritos,
-ruidos furtivos mal perceptiveis, perpassavam em torno. Com voz timida,
-murmurou:
-
---Pelo que respeita a Deus, não sei que dizer... Mas creio em Jesus
-Christo e creio nas suas palavras:
-
-«Amar o proximo como a nós mesmos...» sim, eu creio n’isto!
-
-E de súbito, exclamou, perplexa:
-
---Mas se Deus existe, porque nos abandonou? Porque não nos protege com
-o seu poder misericordioso? Porque consente que a humanidade se divida
-em duas castas? Porque consente o soffrimento humano, as torturas, as
-humilhações, a maldade e as ferocidades de toda a especie?
-
-Tatiana não respondeu. No escuro, Pélagué podia divisar-lhe o contorno
-vago do perfil erecto, que se desenhava em cinzento, no fundo negro do
-fogão. E assim se conservava, immovel. Muito angustiada, Pélagué cerrou
-as palpebras.
-
-De súbito, vibrou uma voz fria e dolorida:
-
---Nunca perdoarei a morte dos meus filhos! Nem a Deus nem aos homens!
-Nunca!
-
-A anciã sentou-se no leito, condoída da intensidade d’aquella paixão.
-Lembrou com meiguice:
-
---A senhora é nova; ainda ha de ter filhos...
-
-Apóz um silencio, a outra segredou:
-
---Não! O medico disse que nunca mais poderia têl-os.
-
-Passou um rato a correr pelo chão. Um estalido secco e forte rasgou a
-immobilidade do silencio, e de novo se ficaram ouvindo distinctamente
-os mesmos attritos e o murmurio da chuva sobre o colmo, que, dir-se-ia,
-dedos finos e trémulos acariciavam. As bategas caíam tristemente sobre
-a terra e ritmavam o curso da longa noite d’outono.
-
-Mergulhada em pesada somnolencia, Pélagué ouviu uns passos ecoarem
-surdamente da parte de fóra e em seguida, no corredor. Abriu-se
-devagarinho a porta, e ouviu-se uma exclamação abafada:
-
---Estás já deitada, Tatiana?
-
---Não.
-
---«Ella» está a dormir?
-
---Sim, parece-me que sim...
-
-Brilhou uma claridade, que tremeluziu e logo se afogou nas trevas. O
-campónio approximou-se do leito da velha e compôz a capa de pelles que
-lhe cobria as pernas. Esta attenção impressionou profundamente Pélagué.
-Fechou de novo os olhos e sorriu. Stépane, sem fazer bulha, despiu-se e
-trepou para o sotão.
-
-Pélagué, immovel, prestava attento ouvido ás variantes preguiçosas do
-silencio somnolento.
-
-Na sua frente, nas trevas, via desenhar-se o rosto ensanguentado de
-Rybine.
-
-Chegou-lhe então aos ouvidos um leve murmurio que vinha do sotão:
-
---Tu bem vês. Attenta n’essa gente que anda a trabalhar pelo bem de
-todos! Gente idosa, até, e que passou por mil desgostos e depois de
-moirejar toda uma vida! Chegou-lhes a sua occasião de descansar, mas
-bem vês como se aproveitam d’ella!... E tu, Stépane, estás ainda novo,
-és intelligente... e nada fazes!
-
-Respondeu a voz grossa do homem:
-
---A gente não póde metter-se n’uma coisa d’essas sem pensar! Espera um
-pouco, que aquella canção já eu conheço ha muito!
-
-Sumiram se as vozes, mas depois recomeçaram. Dizia Stépane:
-
---Aqui está o que deve fazer-se: primeiro, é preciso falar com cada
-homem em particular. Assim, por exemplo: com o Alécha Makof. É
-instruido, valente e anda ha muito, zangado contra as autoridades.
-Com o Sergio Chorine, tambem... É homem de juizo. Com o Kniazef, que
-é honrado e homem decidido! E para começar é bastante!... Depois,
-quando já tiver-mos um partidosinho, veremos... É preciso saber a
-direcção d’esta mulher, para chegarmos á fala com a gente a quem ella
-se referiu... Agarro no machado e vou-me de passeio até á cidade.
-Se te perguntarem, dizes que fui ganhar uns cobres como rachador de
-lenha. É bom tomarmos as nossas precauções. Tem a velha razão quando
-diz que cada qual é que dá a si o seu proprio valor... E quando se
-trata d’uma coisa d’estas, bom é que a gente dê a si grande preço, se
-se quizer metter na coisa!... Olha aquelle campónio, aquelle Rybine!
-Não era capaz de dobrar nem diante de Deus, quanto mais diante d’um
-commissário!... Aguenta-se firme, como se estivesse enterrado no chão
-até aos joelhos! E aquelle Nikita, an? Teve vergonha o homem!... E foi
-milagre que tal succedesse... Ah! se o povo entra no movimento á uma,
-muita gente ha de ir atraz d’elle!
-
---Pois sim! Vêem espancar um homem e ficam para ali, de braços cruzados!
-
---Não te exaltes, mulher! Olha, diz antes assim: «Deus seja louvado,
-que não foram vocês mesmos que o tosaram!» Pois se elles tanta vez
-obrigam o povo a bater nos presos! E o povo obedece! Lá no intimo,
-talvez chore de compaixão, mas vae batendo!... Não se atrevem a
-recusar-se áquella barbaridade, com medo de tambem apanharem para
-baixo! Ha ordem para um homem ser o que quizer: um porco, um lobo...
-mas não um homem--é proíbido! E quem desobedecer, livram-se logo d’elle
-com a maior facilidade! Nada!... É preciso arranjar as coisas de fórma
-a reunir muita gente e revoltar-se tudo ao mesmo tempo!
-
-Discorreu ainda por largo espaço. Umas vezes, falava tão baixinho, que
-Pélagué quasi não compreendia; outras, erguia a voz, grossa e sonora. A
-mulher então recommendava:
-
---Devagar! Vaes accordal-a!
-
-Adormeceu profundamente a anciã. Foi como uma nuvem de oppressão que o
-somno se precipitou sobre ella, a envolveu e a arrebatou.
-
-Despertou-a Tatiana quando a aurora, pardacenta, entrava a mirar com
-gélidas pupillas as janellas da choupana. Por sobre a aldeia, no
-silencio frio, a voz bronzea do sino planára e ia a morrer.
-
---Fiz-lhe uma gôta de chá; beba-o, se não logo no carro, vae ter frio.
-
-Emquanto alisava as barbas desgrenhadas, Stépane, todo alvoraçado,
-informava-se onde havia de procurar a sua hospede, na cidade. E parecia
-a Pélagué o rosto do campónio mais definido, mais simpatico do que na
-vespera. Ao tomar o chá, exclamou elle alegremente:
-
---Como tudo isto é singular!
-
-O quê? perguntou Tatiana.
-
---Este nosso encontro. É coisa tão simples, afinal!...
-
---Na causa do povo tudo é d’uma simplicidade extraordinaria! disse
-Pélagué pensativa e em tom de grande convicção.
-
-Despediram-se então marido e mulher, sem gastar muitas palavras, antes
-manifestando com mil cuidados e attenções, sincera sollicitude.
-
-Já no carro, Pélagué pensava n’aquelle campónio e na sua maneira de
-trabalhar com prudencia, como uma toupeira, sem ruido e sem descanso. E
-continuava a ouvir a voz da mulher, descontente; revia o brilho secco
-e febril dos seus grandes olhos verdes. Quantos annos vivesse, tantos
-aquella paixão vingativa e feroz de mãe que chora os seus filhos, havia
-de viver-lhe na memoria.
-
-Lembrou-se depois de Rybine, do seu rosto, do seu sangue, d’aquelle
-ardente olhar, das frases que lhe ouvira e, de novo, o coração
-confrangeu-se-lhe no amargo sentimento da sua impotencia contra as
-féras. E em todo o percurso até á cidade, viu de contínuo, desenhado no
-fundo tristonho d’aquelle dia pardacento, o perfil robusto de Rybine,
-com a sua barba preta, a camisa em farrapos, mãos amarradas nas costas,
-os cabellos desgrenhados, a fisionomia illuminada pela colera e pela
-fé na sua missão. Pensava tambem nas innumeraveis aldeias e logarejos
-onde o povo esperava em segredo a vinda da propaganda de verdade; nos
-milhares de creaturas que trabalhavam silenciosas toda a sua vida sem
-saber porquê, sem uma esperança...
-
-Quando reflectia no resultado da sua viagem, sentia no intimo um
-contentamento meigo e irrequieto e decidia não mais pensar em Stépane
-nem na mulher.
-
-Avistou de longe os campanários e telhados da cidade, e grata sensação
-lhe reanimou o espirito inquieto, e lh’o tranquillisou: desfilavam-lhe
-pela memoria as fisionomias cheias de preoccupação de todos os que
-dia a dia iam ateando o fogo sagrado do pensamento e o espalhavam em
-scentelhas pelo mundo. E a alma d’aquella mãe transbordava da serena
-ambição de dar a todas aquellas creaturas toda a energia e todo o seu
-amor de mãe.
-
-
-
-
-XIX
-
-
-Veio abrir-lhe Nicolao, despenteado, com um livro na mão.
-
---Já?! exclamou alegremente. Está bem!... Estou mais contente agora!
-
-Piscava os olhos, amigavelmente, por detraz dos oculos. Ajudou Pélagué
-a tirar a capa e disse-lhe, fitando-a affectuosamente:
-
---Sabe? Vieram cá fazer uma busca esta noite. Eu perguntava a mim
-proprio porquê. Receei que lhe tivesse acontecido alguma coisa... Mas
-deixaram-me em paz, e logo soceguei: se a tivessem prendido, não me
-deixavam assim com certeza!
-
-Levou-a para a casa de jantar. Pelo caminho, ia contando animadamente:
-
---Ainda assim, fui despedido da repartição. Pouco desgosto me dá...
-Estava já farto da estatistica do gado cavallar que não existe nas
-herdades!... Tenho mais que fazer!
-
-Attentando-se no aspecto da sala, dir-se-ia que mãos vigorosas, em
-estupido accesso de furia, haviam saccudido pela parte de fóra as
-paredes da casa, até tudo ficar em completa desordem. Os retratos
-jaziam pelo chão, os reposteiros e sanefas arrancados, pendiam em
-farrapos; em determinado sitio uma taboa do sobrado fôra levantada, o
-peitoril da janella, arrombado; ao pé do fogão, cinzas espalhadas.
-
-Na mesa, ao lado do samovar sem lume, estava loiça suja, presunto e
-queijo em cima d’um pedaço de papel, nacos de pão, livros e carvão,
-Pélagué sorriu. Nicolao mostrou-se confundido.
-
---Fui eu que completei a desordem... mas não faz mal. Parece-me que
-voltam cá hoje, e tanto que nem ainda comi nada. E então fêz boa viagem?
-
-Esta pergunta como que a magoou pesadamente em pleno peito: de novo a
-imagem de Rybine se ergueu na sua memoria; sentiu-se culpada por não
-ter falado d’elle logo ao chegar. Approximou-se de Nicolao e entrou a
-contar-lhe tudo, deligenciando permanecer calma e não omittir pormenor
-algum.
-
---Foi preso!
-
-Nicolao teve um sobresalto.
-
---Preso! Mas como?
-
-Ella com um gesto, fêl-o calar e proseguiu, como se, face a face,
-o rosto da propria justiça se encontrasse na sua frente e a ella
-estivesse reclamando contra o supplício a que assistira. Nicolao,
-reclinado na cadeira escutava-a, fazia-se pallido e mordia os beiços.
-A certa altura, lentamente, tirou os oculos, pousou-os na meza,
-passou a mão pela cara, como se estivesse a limpal-a d’uma invisivel
-teia d’aranha. As feições accentuaram-se-lhe, as maçãs do rosto
-tornaram-se-lhe singularmente salientes, palpitaram-lhe as narinas. Era
-a primeira vez que Pélagué o via n’aquella excitação, o que não deixou
-de a assustar.
-
-Quando acabou a narrativa, viu-o levantar-se em silencio e pôr-se a
-caminhar em grandes passadas, de punhos cerrados nas algibeiras. Por
-fim, murmurou, comprimindo os dentes:
-
---Deve ser um homem extraordinario!... Que heroismo! E vae soffrer
-n’uma prisão como soffrem todos os que a elle se assemelham!
-
-Depois, parou em frente da sua narradora; ajuntou com voz vibrante:
-
---Evidentemente todos esses commissarios, esses officiaes, não passam
-d’uns instrumentos, d’uns cacetes de que sabe servir-se um patife
-intelligente, um domesticador de animaes! Mas urge dar cabo do animal,
-para o castigar de se ter deixado transformar em féra! Eu cá, matava-o
-logo, esse cão damnado!
-
-Enterrava mais profundamente os punhos nas algibeiras, tentando, mas
-de balde, reprimir aquella commoção de que Pélagué tambem se resentia.
-Tinha os olhos contraídos como laminas de facas. Entrou de novo a
-passear e ao mesmo tempo ia dizendo com frio rancor:
-
---Ora vejam que coisa horrivel! Uma meia duzia d’homens espancam,
-suffocam e opprimem toda a gente, para defenderem o funesto poderio de
-que gozam sobre o povo! A ferocidade recrudesce, a crueldade torna-se
-lei universal! É para meditar!... Uns batem e procedem como bestas,
-porque estão certos da impunidade, porque os morde o desejo voluptuoso
-de torturar, como a repugnante volupia dos escravos a quem se permittia
-que manifestassem os instinctos servis e os habitos besteaes, em toda a
-sua hediondez! Os outros envenena-os a vingança, e ainda os terceiros,
-bestificados sob os maus tratados, tornam-se cegos, tornam-se mudos!...
-E assim pervertem o povo, um povo inteiro!
-
-Deteve-se novamente, agarrou a cabeça entre as mãos.
-
---É para bestialisar, mesmo sem se querer, essa vida feroz! concluiu em
-voz baixa.
-
-Depois, dominou-se. Brilhava-lhe agora no olhar uma expressão decidida.
-E foi quasi com tranquillidade que fitou a velha, cujo rosto as
-lagrimas inundavam.
-
---Não temos tempo a perder, Pélagué. Onde está a sua mala?
-
---Na cosinha.
-
---Está a casa cercada de espiões, não é possivel passar para fóra tal
-quantidade de impressos, sob pena de sermos vistos... Não sei onde os
-hei de occultar... Parece-me que a policia ha de voltar esta noite...
-Não quero que seja presa. Ainda que muito nos custe, vamos queimar tudo
-isso.
-
---O quê? perguntou ella.
-
---O que está dentro da mala.
-
-Foi então que ella compreendeu e, por grande que fôsse a sua tristeza,
-a ufania do bom exito da sua viagem fez-lhe aflorar ao rosto um sorriso.
-
---Mas a mala não tem nada! Nem uma folha de papel! declarou,
-animando-se gradualmente.
-
-E, narrou a continuação das suas aventuras. Nicolao ouviu-a primeiro
-com inquietação, depois com surpresa. Por fim, interrompeu-a para
-exclamar:
-
---É simplesmente maravilhoso! Tem uma sorte espantosa!
-
-Entrou a mover-se d’um lado para o outro, pasmado, e foi apertar-lhe a
-mão.
-
---Chega a commover-me pela confiança que tem no povo! Que bella alma a
-sua!... Amo-a como nunca amei minha propria mãe!
-
-Ella tomou-o nos braços e por entre soluços de contentamento,
-approximou dos seus labios a cabeça de Nicolao.
-
---Talvez me tivesse exprimido nesciamente, ha pouco! murmurou,
-commovido e desconcertado pela novidade do sentimento que experimentava.
-
-Pélagué, convencida de que Nicolao se sentia profundamente feliz,
-seguia-o com um olhar em que transparecia affectuosa curiosidade;
-queria compreender por que se mostrára tão apaixonadamente vibrante.
-
---Em geral, tudo corre ás mil maravilhas! declarou elle, a esfregar as
-mãos, com um risinho caricioso. Sabe? Passei singularmente bem estes
-ultimos dias. Estive sempre com operarios; fiz-lhes umas leituras,
-conversámos, deram-me ensejo a que os observasse... Juntei no meu
-coração sensações admiraveis, tão puras e sãs!... Que bella gente!
-Tão francos, tão claros como os dias de maio! Falo dos operarios mais
-novos; são robustos, são sensiveis, teem sede de compreender tudo!...
-
-Ao vêl-os, adquire-se a certeza de que a Russia ha de vir a ser a mais
-brilhante democracia do mundo!
-
-Erguera o braço como para firmar um juramento. Passado um instante,
-continuou:
-
---Como sabe, eu era funccionario n’uma repartição do estado. Foi ali
-que o meu feitio se azedou: no meio de algarismos e de papelada. Um
-anno d’aquella vida bastou para me deturpar o caracter. Porque eu
-estava habituado a viver entre o povo e quando me separo d’elle,
-sinto-me pouco á vontade. Sempre propendi com todas as minhas forças
-para a vida popular. E agora já posso viver de novo em liberdade,
-confraternisar com os operarios, ensinar-lhes o que sei! Compreende?
-Assim, estarei junto do proprio berço do ideal que vem surgindo, junto
-da propria energia creadora nascente. É o que me parece admiravelmente
-simples e bello e tambem terrivelmente excitante! Torna-se um homem
-mais novo, mais decidido, mais calmo, e disfructa de uma existencia
-integra!
-
-Aqui, riu, expansivo. E d’aquelle contentamento partilhava Pélagué.
-
---E depois, que creatura excessivamente bôa a senhora é! declarou elle
-ainda. Tem em si uma força tão poderosa e tão seductora! Attrae a si as
-almas com tal persuasão! Sabe descrever tão completamente as pessoas!
-Sabe vêl-as tão bem!
-
---Vejo a sua existencia e compreendo-o, meu amigo!
-
---Todos a estimam... E que maravilhosa coisa é estimar uma creatura
-humana!... É tão bom! Se soubesse!
-
---É o meu amigo que sabe ressuscitar os entes humanos d’entre os
-mortos! murmurou a anciã com calor, acariciando-lhe a mão. Meu amigo,
-quanto mais penso, mais vejo quanto ha a fazer e de quanta paciencia
-precisamos! E o que eu quero é que não perca a coragem. Oiça o resto...
-A mulher, ia eu dizendo, a mulher do tal camponez...
-
-Nicolao sentára-se ao lado d’ella. Tinha desviado o rosto prazenteiro,
-e passava a mão devagar pelos cabellos. Mas d’ahi a pouco tornava a
-dirigir o olhar para Pélagué, escutando avidamente a narrativa.
-
---Que sorte admiravel! exclamou. Com effeito, era muito possivel que
-fôsse presa... Mas não! O que parece é que essa gente do campo tambem
-se vae mexendo. Não é para admirar, afinal! E essa tal mulher, parece
-que a estou vendo d’aqui. Sim, compreendo esse coração accêso em ira. E
-tem razão em dizer que uma dôr tão profunda jamais se extinguirá!...
-Precisavamos de quem se occupasse especialmente de animar essa gente do
-campo!... Gente! Muita gente! É o que nos falta e por toda a parte! A
-vida exige milhares de braços!
-
---Para isso era necessario que o Pavel estivesse em liberdade... e o
-André tambem, aventou ella em voz baixa.
-
-Elle lançou-lhe rapido olhar e curvou a cabeça.
-
---Olhe, sabe? Vou dizer-lhe a verdade, ainda que lhe custe: conheço
-bem o Pavel e estou certo de que vae recusar-se a fugir. O que elle
-pretende é ser julgado, quer exibir-se em todo o seu prestigio... e não
-renuncia a isso. É trabalho escusado!... Depois, fugirá da Sibéria...
-
-A mãe de Pavel murmurou:
-
---Que se ha de fazer?... Elle sabe melhor do que eu o que deve decidir.
-
-Nicolao ergueu-se de chofre, novamente tomado de contentamento.
-Inclinou-se para ella e disse:
-
---Graças a si, passei hoje instantes melhores... os melhores da minha
-vida, talvez!... Obrigado! Dê-me um abraço!
-
-E apertaram-se, silenciosos.
-
---Como isto é bom! exclamou elle baixo.
-
-Pélagué deixára caír os braços e sorria em estos de felicidade.
-
---Hum! murmurou Nicolao, fitando-a muito por detraz dos seus
-oculos. Ainda se esse tal camponez não tardasse em vir!... Porque
-é absolutamente preciso escrever um artigosinho ácerca do Rybine e
-distribuil-o pelas aldeias, o que não pode prejudicar o Rybine, visto
-que elle trabalha abertamente, por si mesmo, e que a causa do povo
-tem tudo a ganhar. Vou escrevel-o agora mesmo. A Lioudmila imprime-o
-ámanhã... Sim, mas como se hão de expedir os fasciculos?
-
---Irei eu leva-los.
-
---Não, obrigado! exclamou Nicolao com vivacidade. Não crê que o
-Vessoftchikof pudesse tomar esse encargo?
-
---Quer que lhe fale n’isso?
-
---Experimente e ensine-lhe como elle se ha de haver n’esse negocio.
-
---E eu então, que faço?
-
---Não lhe dê isso cuidado!
-
-E pôz-se a escrever. Emquanto desembaraçava a mesa das loiças e dos
-outros objectos, Pélagué não tirava a vista d’elle, seguindo a penna,
-que lhe tremia na mão e traçava no papel longas séries de palavras.
-Por vezes, um arrepio perpassava pela nuca do mancebo; outras vezes,
-projectava elle a cabeça para traz e ficava-se de olhos fechados.
-Pélagué sentiu-se emocionada.
-
---Castigue-os! murmurou. Não os poupe, áquelles assassinos!
-
---Aqui está! Está pronto! disse elle, levantando-se. Esconda este
-papel comsigo. Mas olhe que se a policia vem, hão de tambem querer
-revistal-a...
-
---Leve-os o diabo! respondeu com o maior socego.
-
-Á noite, veio o doutor.
-
---Porque anda a autoridade tão agitada? inquiriu elle, passeando pelo
-quarto. A noite passada fizeram-se sete buscas!... Onde está o doente?
-
---Foi-se embora hontem! respondeu Nicolao. É sabbado hoje e não podia
-faltar á sessão de leitura, compreendes?
-
---É uma estupidez ir para uma conferencia quando se tem a cabeça aberta!
-
---Foi o que eu tentei demonstrar-lhe; mas nada consegui!
-
---Era a vontade de ir fazer-se valente diante dos camaradas, disse
-Pélagué; de lhes mostrar que tambem já derramou o seu sangue pela
-grande causa!
-
-O doutor lançou-lhe um olhar, tomou uns ares de ferocidade e exclamou
-com os dentes cerrados:
-
---Que sanguinárias creaturas vocês são!
-
---Pois então, meu amigo, já nada tens a fazer aqui, e nós esperamos
-umas visitas. Vae-te embora! Pélagué, dê-lhe o papel.
-
---Outra vez! exclamou o medico.
-
---Vá! Toma e leva isto á imprensa.
-
---Está dito; lá o levarei. Mais nada?
-
---Sim... Está ali um espião defronte da casa.
-
---Já o vi. E em minha casa tambem. Bem, até mais vêr! Até á vista,
-mulher cruel! Sabem, meus amigos? A desordem do cemitério veio mesmo a
-calhar, positivamente! Não se fala n’outra coisa em toda a cidade. Isto
-impressiona o povo e obriga-o a reflectir. O teu artigo a esse respeito
-estava muito bom e foi publicado em bella occasião. Eu sempre fui de
-opinião que uma bôa desordem era mais util do que uma má concordia...
-
---Está bom, vae-te!
-
---Estás hoje pouco amavel, homem! A sua mão, tiasinha! O pequeno andou
-como um pateta. Não sabes onde elle mora?
-
-Nicolao deu-lhe o endereço.
-
---É preciso ir a casa d’elle amanhã... É um bello rapaz, não é verdade?
-
---É verdade!... Excellente coração!
-
---É preciso não o perder de vista, que elle não é tolo! disse o medico,
-ao saír. É justamente essa rapaziada que ha de formar o verdadeiro
-proletariado instruido, e occupar os nossos logares, quando nós nos
-fôrmos para o sitio onde não ha, segundo creio, differenças de castas...
-
---Sempre estás um tagarella!
-
---Sinto-me contente; por isso dou á lingua!... Cá vou, cá vou... Então,
-sempre contas ir para a cadeia? Desejo que descanses bem por lá.
-
---Obrigado, mas não me sinto cansado.
-
-Pélagué escutava-os satisfeita por vêr os cuidados, em que ambos
-estavam, no ferido.
-
-Logo que saíu o médico, Nicolao e Pélagué sentaram-se á mesa e ficaram
-esperando as suas visitas nouturnas. Por muito tempo, em voz baixa,
-Nicolau esteve falando dos companheiros que viviam no exilio, dos
-que tinham fugido e continuavam trabalhando com nomes suppostos. As
-paredes nuas do aposento reflectiam-lhe o som abafado da voz, como
-se duvidassem d’aquellas singulares historias de heroes modestos e
-desinteressados, que haviam sacrificado todas as suas forças á grande
-obra do rejuvenescimento humano. Pélagué, mergulhada n’uma sombra de
-agradavel tepidez, sentia o coração encher-se-lhe de amôr por aquelles
-desconhecidos, que á sua imaginação se resumiam n’um sêr unico e
-immenso, dotado de máscula e inexgotavel força. Lentamente, mas sem
-nunca parar, tal sêr extraordinario caminhava pela terra, arrancando
-o bolor secular da mentira, descobrindo aos olhos do homem a verdade
-simples e positiva da vida, a qual a todos promettia libertar da
-avidez, do odio e da falsidade, trez monstros que haviam subjugado pelo
-horror o mundo inteiro. Esta visualidade gerava no intimo de Pélagué
-impressão identica á resentida n’outros tempos, quando ella, ajoelhada
-perante as imagens pias, terminava com uma oração de reconhecimento o
-seu dia, que lhe ficava assim parecendo menos árduo do que os outros.
-Agora, que o seu passado ia longe, este sentimento ampliava-se,
-fazia-se mais luminoso e mais jovial, penetrava mais fundo na sua alma,
-robustecia-se e exaltava-se mais e mais.
-
---A policia não vem! exclamou Nicolao, interrompendo o fio das suas
-narrativas.
-
-Ella fitou-o um instante e após curto silencio:
-
---Que vão para o inferno!
-
---Está claro!... Vocemecê deve estar fatigada a valer, precisa de
-deitar-se. É robusta, ainda assim todos estes cuidados, todas estas
-inquietações... supporta-as admiravelmente. Só os cabellos é que lhe
-enbranqueceram muito depressa... Vá descansar, vá...
-
-Apertaram-se as mãos e separaram-se.
-
-
-
-
-XX
-
-
-Adormecera Pélagué, rápida e socegadamente, quando, de manhãsinha, a
-despertaram umas pancadas violentas na porta da cosinha. E succediam-se
-com teimosia. Ainda fazia escuro. Vestiu-se á pressa, correu a
-perguntar, atravez da porta:
-
---Quem está ahi?
-
---Eu! respondeu voz desconhecida.
-
---Quem?
-
---Abra! Abra! murmurou a mesma voz, agora sumida e supplicante.
-
-Pélagué puxou o ferrolho e empurrou a porta: E entrou Ignaty, a
-exclamar alegremente:
-
---Ah! não me enganei! Cheguei a bom porto!
-
-Vinha coberto de lama até á cintura, o rosto desfigurado, fundas
-olheiras, e do bonné saíam-lhe em desordem os cabellos annellados.
-
---Grande desgraça lá por casa! segredou logo ao fechar a porta.
-
---Já sei...
-
-Ficou espantado e perguntou com um pestanejar de curiosidade:
-
---Como assim?... Por quem?
-
-Contou-lhe Pélagué em breves palavras o encontro que tivera.
-
---E os outros dois teus camaradas, tambem os prenderam?
-
---Não estavam lá: tinham ido á junta d’inspecção. Prenderam cinco,
-contando com o Rybine.
-
-Fungou, n’um accesso de riso, e explicou:
-
---Eu, como vê, escapei. Provavelmente andam em minha busca... Pois que
-procurem! Não volto para lá nem por todo o oiro do mundo! Ainda assim,
-ainda lá ficaram seis ou sete rapazes e uma rapariga, com quem se póde
-contar!
-
---Mas como pudeste escapar?
-
---Eu? exclamou Ignaty, sentando-se n’um banco e olhando em roda. Os
-policias vieram de noite, direitinhos á fabrica, mas um minuto antes
-já o guarda campestre tinha vindo a correr bater-nos na janella:
-«Attenção, rapaziada, vêm prendel-os!»
-
-Pôz-se a rir e a limpar a cara com a aba da blusa. E proseguiu:
-
---O tio Rybine não é homem para perder a cabeça... E olhe que o
-provou!... Disse-me logo: Ignaty, corre á cidade! Lembras-te das duas
-mulheres que aqui estiveram? E escreveu qualquer coisa n’um papel,
-muito depressa... Toma, vae, adeus, meu irmão! disse-me elle. E deu-me
-um empurrão nas costas. Eu atirei-me para fóra da cabana, escondi-me
-entre umas moitas, puz-me a andar de gatas e ouvi chegar os guardas!
-Eram muitos, appareciam por todos os lados! Cercaram a fabrica. Eu
-estava por detraz d’uma sebe... passaram-me mesmo na frente. Depois,
-levantei-me e entrei a andar, a andar... Andei um dia e duas noites,
-sem parar. Estou estafado para uma semana; nem sinto as pernas!
-
-Mostrava-se satisfeito de si mesmo; illuminava-lhe um sorriso os
-grandes olhos escuros; tinha um tremor nos beiços grossos e vermelhos.
-
---Vou-te fazer uma gôta de chá n’um pronto! disse Pélagué sollicita,
-agarrando no samovar. Mas emquanto esperas, vae-te lavando. Ficas
-melhor depois!
-
---O que eu queria era dar-lhe o bilhete.
-
-Levantou com difficuldade uma das pernas, dobrou-a, collocou o pé sobre
-o banco, isto com innumeras caretas e gemidos, e começou a desenrolar
-uma das ligaduras, que lhe envolviam ambos os pés.
-
-Nicolao appareceu á porta. Ignaty, confuso, tornou a pôr o pé no chão;
-tentou levantar-se, mas cambaleou e caíu desamparadamente em cima do
-banco, ao qual se agarrou ás mãos ambas.
-
---Ai, que cançado que eu estou!
-
---Bom dia, camarada! disse-lhe Nicolao em tom amigavel e com um signal
-de cabeça. Espere, que eu o ajudo.
-
-Ajoelhou-se diante do operario e desenrolou rapidamente a ligadura,
-emporcalhada e húmida.
-
---É necessario esfregar-lhe os pés com alcool. Ha de fazer-lhe bem,
-disse Pélagué.
-
---Isso mesmo! approvou Nicolao.
-
-Ignaty fungou de novo, muito atrapalhado.
-
-Finalmente, achou Nicolao o bilhete; alisou-o, mirou-o um instante e
-apresentou-o á velha.
-
---Aqui tem! É para si.
-
---Leia.
-
-Elle approximou dos olhos o pedaço de papel sujo e amarrotado e leu:
-
-«Mãesinha: não deixes que se perca o nosso negocio. Diz a essa senhora
-que não se esqueça de fazer que se escreva sempre e muito, a respeito
-das nossas coisas. Peço-te. Adeus. Rybine.»
-
---Bello rapaz! disse Pélagué com melancolia. Estavam a esganal-o e
-ainda elle se lembrava dos outros!
-
-Lentamente, Nicolao deixou descaír o braço em que tinha o bilhete, e a
-meia voz:
-
---É espantoso!
-
-Ignaty olhava para um e outro, vermiculando devagar com os dedos
-emporcalhados do pé descalço. Pélagué, procurando occultar o rosto
-inundado de lagrimas, foi para elle com uma celha com agua. Sentou-se
-no chão e estendeu a mão para tomar a perna do homem.
-
---Que quer fazer?... Não é preciso...
-
---Deixa ver o pé, depressa.
-
---Eu vou buscar o alcool, disse Nicolao.
-
-O rapaz mettia sempre mais a perna debaixo do banco, murmurando:
-
---Não quero!... Então isso é coisa que se faça?
-
-Sem lhe responder, ella tratou de lhe desembaraçar das ligaduras o
-outro pé. O rosto redondo de Ignaty distendeu-se de espanto. Pélagué
-entrou a lavar o rapaz.
-
---Sabes? disse ella com voz chorosa. O Rybine foi espancado!...
-
---Palavra? exclamou Ignaty assustado.
-
---É verdade. Quando chegou a Nikolsky, já elle vinha moído de pancada,
-e ainda alli, o sargento e o commissario lhe deram murros, pontapés...
-Estava todo coberto de sangue!
-
---Ah, lá quanto a isso, é o officio d’elles, e conhecem-no a valer!
-exclamou o operario, sentindo um calafrio percorrer-lhe as espáduas.
-Tenho medo d’elles como do diabo! E os camponezes não lhe bateram?
-
---Um só, á ordem do commissario. Os outros fizeram o seu dever; até não
-consentiram que continuassem a maltratal-o.
-
---Sim... O campónio começa a compreender...
-
---Tambem lá os ha muito intelligentes, n’essa villa...
-
---E onde é que os não ha? Ha-os por toda a parte! Sim, sempre é forçoso
-que os haja; o difficil é descobril-os. Mettem-se ahi pelos cantos e
-ficam a remoer aquillo lá por dentro, cada um para seu lado. Não teem a
-coragem de se reunir!
-
-Nicolao trouxe uma garrafa d’alcool, deitou uns pedaços de carvão no
-samovar e saíu sem dizer palavra. Ignaty, que o seguira com a vista,
-curioso, perguntou em voz baixa:
-
---É nosso mestre?
-
---Na causa do povo não ha mestres, só ha camaradas!
-
---É caso para pasmar! disse o operario, sorrindo entre perplexo e
-incredulo.
-
---O quê?
-
---Tudo isto!... D’um lado, dão bofetadas na gente, do outro, lavam-nos
-os pés... Haverá um meio-termo?
-
-A porta do aposento abriu-se de par em par e Nicolao respondeu:
-
---Ha, sim, senhor! E esse meio-termo são os que lambem as mãos
-d’aquelles que os maltratam e sugam o sangue dos maltratados. Aqui tem
-o que é esse meio-termo!
-
-Ignaty fitou-o com deferencia e disse, após reflexão:
-
---Isso agora é verdade!
-
---Pélagué! instou Nicolao. Deve estar cansada... Deixe isso, que eu
-continúo.
-
-O rapaz encolheu as pernas com inquieto acanhamento.
-
---Está pronto! respondeu ella, erguendo-se. Vá, Ignaty: levanta-te
-agora!
-
-O outro obedeceu, conservou-se um bocado n’um pé, ora no outro,
-firmando-se fortemente no sobrado, e declarou:
-
---Até parece que ficaram novos! Obrigado!... Muito obrigado!
-
-Fez uma pausa e ainda murmurou, a olhar para a celha com a agua suja:
-
---Nem sei como hei-de agradecer-lhe sufficientemente...
-
-Os trez passaram para a casa de jantar e almoçaram. Ignaty poz-se a
-contar em voz muito séria:
-
---Fui eu que distribui os periodicos. Eu gosto muito de andar. O
-Rybine tinha-me dito: «Vae tu leval-os sósinho! Se fôres apanhado, não
-suspeitam de mais ninguem».
-
---E ha muita gente que os leia? perguntou Nicolao.
-
---Todos os que sabem lêr.
-
-Pensativo, Nicolao reflectiu:
-
---Mas como havemos de arranjar que o fasciculo a propósito da prisão do
-Rybine chegue de pressa ás aldeias?...
-
-Ignaty apurára logo o ouvido.
-
---Pois eu me encarrego d’isso hoje mesmo! Já ha prontos esses
-fasciculos?
-
---Ha, sim.
-
---Dê-mos, que eu os levo! propôz Ignaty com os olhos scintillantes, e a
-esfregar as mãos. Eu sei bem onde e como os hei-de levar!... Dê-os cá!
-
-Pélagué sorria, ouvindo-o falar assim.
-
---Mas tu estás cansado e tens medo; fôste tu mesmo que disseste não
-querer voltar lá!...
-
-Elle produziu com os beiços um estalido, e, ao mesmo tempo que alisava
-com a alentada mão os caracoes do cabello, declarou em tom de seriedade
-e sangue-frio:
-
---Estou cansado... Melhor, depois descansarei!... Quanto a ter medo,
-isso é verdade!... Pois se vocemecê acabou de contar que elles batem
-na gente até nos pôrem a escorrer sangue!... Quem é que tem vontade
-de ficar estropiado? Eu me arranjarei:--vou de noite... Sempre hei-de
-achar maneira de fazer o recado! Dê cá... Parto esta noite mesmo.
-
-Ficou um momento calado, de sobrolho franzido, e logo:
-
---Vou d’aqui esconder-me na floresta. Depois, aviso os companheiros e
-digo-lhes: «Vão lá ter comigo e sirvam-se». É o melhor que ha a fazer!
-Se eu mesmo distribuisse os jornaes e fôsse apanhado, era uma pena por
-causa dos jornaes... Já ha tão poucos, que é preciso ter muita cautella
-com elles.
-
---E o medo? Que fazes tu a elle? Inquiriu de novo Pélagué.
-
-Divertia-a deveras aquelle alentado rapagão de caracoes, pela
-sinceridade que vibrava na menor das suas palavras, pela sua fisionomia
-franca e pelas suas maneiras teimosas.
-
---O medo é o medo e negocios são negocios! replicou elle, mostrando
-muito os dentes. Para que está a mangar comigo? Então, já viram?...
-Talvez não seja coisa de metter medo a uma pessôa?... Mas já que
-é preciso, atira-se a gente ao lume! Quando se trata d’um negocio
-d’estes...
-
---Ah! meu filho! exclamou involuntariamente Pélagué, vencida pelo
-entusiasmo e o contentamento que elle lhe inspirava.
-
-Elle sorriu acanhado:
-
---Ainda mais esta: eu, seu filho! Alguma criancinha, talvez?...
-
-Nicolao, que não deixára de observar o rapaz, com olhar amigo,
-interveio então:
-
---Você não vae, homem!
-
---Então, que devo fazer? Onde é preciso que vá? interrogou elle com
-inquietação.
-
---Outro irá em seu logar e você ha de explicar-lhe meudamente como elle
-deve proceder. Quer fazer isto?
-
---Está bem! respondeu Ignaty de má vontade, apóz um instante de
-hesitação.
-
---Nós nos encarregamos de lhe fornecer documentos, para lhe arranjarmos
-um logar de guarda-matto.
-
---E se fôr lá gente do campo apanhar lenha ou caçar clandestinamente,
-de os prender? Para isso não sirvo eu!...
-
-Os dois puzeram-se a rir, o que acabou por de todo atrapalhar o
-campónio, muito desgostoso.
-
---Não tenha medo! disse-lhe Nicolao. Não ha de ter occasião para tal,
-creia!
-
---Isso agora é differente! commentou Ignaty.
-
-E já mais tranquillo, sorriu-se para Nicolao, confiado e alegremente.
-
---Eu sempre gostava mais de ir á fabrica; dizem que ha por lá camaradas
-bastante intelligentes...
-
-Parecia que no vasto peito lhe ardia um fogo, intermittente ainda e
-que se extinguia por alternativas, não deixando ver mais que o fumo da
-perplexidade e de inquietação.
-
-Pélagué levantou-se da mesa e foi á janella, dizendo, pensativa:
-
---Como a vida é singular!... Por cada cinco vezes que rimos, choramos
-outras tantas!... Que coisa pouco agradavel!... Já acabaste, Ignaty?
-Vae dormir.
-
---Não, senhora, não quero.
-
---Vae dormir, já te disse.
-
---Vocemecê é muito severa! Está bem, lá vou! E muito obrigado pelo seu
-chá, pelo assucar... e pela sua amisade!
-
-Deitou-se na cama de Pélagué. Resmungava coçando a cabeça:
-
---Agora fica tudo a cheirar a alcatrão cá em casa... Olhe que faz mal
-em me amimar tanto, creia!... Eu não tenho somno... São ambos bôas
-pessoas... Já não percebo nada... parece que estou a cem mil kilometros
-da aldeia... E como elle falou bem a proposito no meio-termo... No
-meio-termo estão os que lambem as mãos dos que maltratam os outros...
-Demónio!
-
-E subitamente, com um ronco sonoro, arqueando muito as sobrancelhas e
-de bôca entreaberta, adormeceu.
-
-
-
-
-XXI
-
-
-N’essa noite, já muito tarde, encontrava-se Ignaty n’um subterraneo,
-sentado em frente de Vessoftchikof e segredava a este:
-
---Quatro vezes, na janella do meio...
-
---Quatro? repetia o bexigoso, com ares de grande concentração.
-
---Sim; primeiro trez, assim...
-
-E bateu na meza com o dedo dobrado, emquanto contava:
-
---Uma, duas, trez; e depois, mais uma vez, passado um instantinho...
-
---Estou percebendo.
-
---Ha de vir á porta um campónio de cabellos vermelhos, e ha de
-perguntar-lhe: «Vem por causa da parteira?» E você responde-lhe: «Sim,
-senhor, venho da parte do senhorio!» E não precisa mais, elle logo
-percebe do que se trata!
-
-N’este colloquio, approximavam as cabeças; ambos altos e alentados,
-falavam baixinho, abafando muito a voz. De pé, junto d’uma mesa, com
-os braços cruzados sobre o peito, Pélagué observava-os. Todos aquelles
-signaes cabalisticos, aquellas perguntas e respostas convencionadas
-d’antemão, lhe davam immensa vontade de rir. E pensava:
-
-«Não passam ainda d’umas crianças!»
-
-Um candieiro seguro na parede illuminava as sombrias manchas do bolor e
-as gravuras recortadas de jornaes. Pelo chão jaziam baldes amolgados,
-fragmentos de zinco; e divisava-se pela janella, no ceu muito escuro,
-uma grande estrella scintillante. Reinava em toda a quadra um forte
-cheiro a ferrugem, tintas d’oleo e humidade.
-
-Ignaty ostentava grosso sobretudo pelludo em que muito se comprazia;
-Pélagué via-o, volta e meia, acariciar com volupia a manga do espesso
-casacão e inclinar com custo o largo pescoço, para melhor se admirar. E
-um pensamento cantava no coração de Pélagué:
-
-«Filhos!... meus queridos filhos!...»
-
---Ora aqui está! disse Ignaty, levantando-se. Então não se esqueça!
-Primeiro, ir a casa do Mouratof, perguntar pelo avô...
-
---Cá estou lembrado! respondia Vessoftchikof.
-
-Mas Ignaty não se dava por crente, repetia-lhe outra vez todos os
-signaes combinados e todas as palavras de passe. Por fim, estendeu-lhe
-a mão.
-
---Agora não falta mais nada! Adeus, camarada! Dê-lhes recommendações
-minhas! Olhe, diga-lhes assim: «O Ignaty está vivo e passa bem.» É boa
-gente, verá!...
-
-Mirou-se satisfeito, passou a mão pelo casacão e perguntou a Pélagué:
-
---Posso ir-me embora?
-
---E has de atinar com o caminho?
-
---Está claro que sim!... Até mais vêr, camaradas!
-
-E lá se foi, aprumado, arqueando o peito, de chapeu novo á banda e
-as mãos enterradas nos bolsos. Na testa e nas fontes, os anneis dos
-cabellos, loiros e infantis, dansavam-lhe jovialmente.
-
---Ora até que emfim já tenho tambem trabalho! exclamou Vessoftchikof,
-approximando-se da velha. Andava aborrecido; perguntava a mim mesmo
-para que tinha saído da cadeia. Não faço senão andar escondido!... Ao
-menos, na cadeia, sempre aprendia! O Pavel recheava-nos a cabeça que
-era um gosto! E o André tambem nos limpava as idéas, sim senhora!... E
-então, sempre se decidiu a fuga? Arranja-se isso?
-
---Hei de sabel-o depois d’ámanhã! respondeu. E repetiu, suspirando, mau
-grado seu.
-
---Depois d’ámanhã...
-
-O bexigoso approximou-se-lhe, descansou-lhe no hombro a alentada mão e
-opinou:
-
---Podes dizer aos chefes que é coisa facil. Elles hão de dar-te
-ouvidos! Ora vê tu mesma: aqui está a muralha da cadeia, ao pé d’um
-lampeão. Em frente, ficam umas terras sem cultivo; á esquerda, o
-cemitério; á direita, uma rua e o resto da cidade. Vem um accendedor
-de candieiros mesmo de dia, dia claro, para limpar o lampeão; encosta
-a escada ao muro, sobe, engata ao espigão da muralha os ganchos d’uma
-escada de corda que ha de ficar para o lado do pateo, e está prompto!
-Elles, na cadeia, já hão de saber a hora combinada, pedem aos presos de
-crimes communs que armem qualquer desordem, ou armam-na elles mesmos,
-e entretanto, os que estiverem na combinação marinham pela escada e
-está tudo feito! E d’ali vem de passeio até á cidade, emquanto elles lá
-ficam a procural-os pelo cemitério e nas taes terras de baldio!
-
-Gesticulava com vivacidade, expondo este plano, aos olhos d’elle
-simples, claro e de extrema habilidade. Pélagué, que nunca conhecera
-n’elle mais que um rapagão tosco e desageitado, admirava-se de vêr
-aquelle rosto bexiguento tão cheio de vivacidade e intelligencia.
-D’antes, os minguados olhos de Vessoftchikof tudo fitavam com irritação
-e desconfiança; agora, era para crêr que outros os haviam substituido,
-rasgados e brilhantes de scintillações uniformes e severas que
-convenciam e emocionavam Pélagué.
-
---Pensa bem: de dia é que ha de ser!... Sim, de dia! Quem ha de
-imaginar que um preso se atreva a fugir de dia, á vista de todo o
-pessoal da prisão?
-
---E se os fusilassem? lembrou a mãe, horrorisada.
-
---Quem? Se não ha soldados, e os carcereiros servem se dos revólvers
-para pregar pregos!
-
---Quasi que estou achando tudo isso simples de mais!...
-
---Pois é como te digo; tu verás! Fala n’isso aos outros. Eu já
-arranjei tudo: a escada de corda, os ganchos... Já falei cá com o meu
-hospedeiro; é elle que ha de fazer de limpa-candieiros.
-
-Para além da porta, mexia-se alguem entre accessos de tosse; ouvia-se
-um ruido de ferros velhos.
-
---Ahi está elle, o hospedeiro! annunciou o bexigoso.
-
-Pela abertura da porta appareceu uma banheira de zinco, e uma voz
-encatarroada praguejou:
-
---Entra, diabo!
-
-Depois, surgiu uma cara redonda e barbuda, de cabellos grisalhos, sem
-chapeu, d’expressão bonacheirona e grandes olhos esbogalhados.
-
---Vessoftchikof foi ajudar o homem a fazer passar a banheira pela
-porta; depois, o recemchegado, grande latagão corcovado, poz-se a
-tossir com um grande entumecimento nas faces imberbes, escarrou e disse
-na mesma voz rouca:
-
---Bôa noite!
-
---Pois agora, pergunta-lhe! convidou o rapaz.
-
---O quê? Que querem perguntar-me?
-
---É a respeito da fuga da cadeia.
-
---Ah, sim! disse o velho, limpando o bigode com os dedos sujos.
-
---Quer saber, Jacob? Ella não acredita que seja facil arranjar!
-
---Ah, não acredita? Pois se não acredita, é porque não quer a coisa.
-Mas nós dois, que queremos que isso se faça, acreditamos que seja
-facil! respondeu serenamente o homem.
-
-Foi tomado d’um accesso de tosse que o dobrou em anglo recto, e em
-seguida esteve muito tempo no meio da quadra a aspirar com força o ar
-e a esfregar o peito. Fitava Pélagué com olhos de espanto.
-
---Mas não sou eu quem decide esta questão! observou ella.
-
---Mas fala lá com os outros; dize-lhes que está tudo arranjado! Ah! se
-eu pudesse falar com elles, eu os convenceria! exclamou o bexigoso.
-
-Estendeu os braços em largo gesto e depois apertou-os como para
-abraçar qualquer coisa. Vibrava-lhe na voz um sentimento cuja energia
-assombrava Pélagué.
-
---Vejam que mudança fez! pensou ella.
-
-E contestou em voz alta:
-
---O Pavel e os companheiros é que hão de decidir.
-
-Meditativo, o outro ficou-se de cabeça baixa.
-
---Quem é esse Pavel? interrogou o velho, tomando logar n’um banco.
-
---É o meu filho.
-
---Qual é o nome da familia?
-
---Vlassof.
-
-Elle abanou a cabeça, puxou pela bolsa do tabaco e, emquanto enchia o
-cachimbo:
-
---Tenho ouvido falar. O meu sobrinho conhece-o. O meu sobrinho tambem
-está na cadeia; chama-se Evetchenko. Conhece? Eu chamo-me Gadoune.
-D’aqui a pouco, está na cadeia! Então é que a gente ha de viver feliz
-e socegada, nós, os velhos! Um, da policia, prometteu que me havia
-de pregar com o sobrinho na Sibéria... E ha de cumprir a promessa, o
-excommungado!
-
-Entrou de fumar, escarrando para o chão de vez em quando.
-
---Ah! ella não quer? continuou, virado para o rapaz. Isso é com
-ella!... O homem é livre! Quem está cansado, que se sente; quem estiver
-cansado de estar sentado, passeie!... Quem fôr roubado, que se cale;
-quem fôr tosado, soffra com resignação! E se o matarem, que se deixe
-caír!... Sempre é certo isto. Mas eu cá hei de fazer saír o meu
-sobrinho da cadeia. Olá, se hei-de!...
-
-Estas expressões incisivas, parecidas com latidos, tornaram Pélagué
-perplexa. As ultimas palavras do velho haviam até excitado n’ella uma
-tal ou qual inveja.
-
-Pela rua fóra, ao vento gélido e á chuva, ia pensando no Vessoftchikof.
-
---Como elle está mudado!... Vejam aquillo!
-
-E ao lembrar-se de Gadoune, meditou com um sentimento quasi de
-religiosa piedade:
-
---Ao que parece, não sou só eu que ando n’esta vida de promissão!
-
-Depois, a imagem de seu filho accudiu-lhe ao espirito:
-
---Se elle consentisse, ao menos!...
-
-
-
-
-XXII
-
-
-No domingo seguinte, ao despedir-se de Pavel, na secretaría da cadeia,
-sentiu que elle lhe deixava na mão uma bolinha de papel, o que a
-fez estremecer de alvoroço. Lançou ao filho olhar interrogador e
-supplicante, mas Pavel não lhe deu resposta alguma. Nos olhos azues do
-filho nada viu além do sorriso sereno e decidido que conhecia bem.
-
---Adeus! disse, suspirando.
-
-De novo, Pavel, ao estender-lhe a mão, deu ao rosto carinhosa expressão.
-
---Adeus, mamã!
-
-Reteve ainda a mão do filho, á espera.
-
---Não te inquietes... Não te zangues... supplicou elle.
-
-Estas palavras e o vinco de obstinação d’aquella fronte deram á mãe a
-resposta esperada.
-
---Porque dizes isso? murmurou, baixando a cabeça. Que ha n’essas tuas
-palavras?
-
-E saíu rapida, sem o fitar para não traír com as lagrimas o seu estado
-de espirito. Pelo caminho, chegava-lhe a parecer que lhe doía a mão em
-que trazia o bilhete de seu filho; sentia o braço pesado como se lhe
-tivessem dado uma pancada no hombro. E, ao entrar em casa, entregou
-a Nicolao a bolinha de papel. Emquanto esperava que elle desdobrasse
-o papel, fortemente comprimido, ainda teve um novo vislumbre de
-esperança. Mas Nicolao disse-lhe:
-
---Já o sabia! Aqui tem o que escreve: «Companheiros: não fugiremos;
-não devemos fazel-o; nenhum de nós se presta a isso. Perderiamos
-assim o respeito por nós mesmos. Tratem antes do camponez ultimamente
-preso. Merece a vossa sollicitude. É digno das vossas deligencias.
-Está soffrendo horrores, aqui. Todos os dias tem desaguisados com as
-autoridades. Já passou vinte e quatro horas no segredo. É torturado sem
-descanso. Todos nós intercederemos por elle. Consolem minha mãe; tratem
-d’ella com carinho. Contem-lhe tudo isto; ella ha de compreender.
-Pavel.»
-
-Pélagué ergueu a cabeça e com voz firme:
-
---Contar-me, o quê? Já compreendi tudo!
-
-Nicolao virou de súbito as costas, puxou pelo lenço e assoou-se com
-ruido. Murmurou:
-
---Sempre apanhei um defluxo!...
-
-Occultou os olhos com a mão, sob pretexto de compôr os oculos, e
-continuou, passeiando pelo quarto:
-
---Olhe, sabe que mais?... Assim como assim, haviamos de nos saír mal da
-empreza!
-
---Que importa! Pois que seja julgado! disse a mãe de Pavel com o peito
-a estalar de indefinida angustia.
-
---Recebi ha pouco carta d’um collega de São Petersburgo.
-
---Tambem da Sibéria se pode fugir, não é assim?
-
---Com certeza... O meu collega diz-me que o processo cedo será
-julgado. O veredicto já é conhecido: o degredo para todos. Ora veja a
-senhora: aquelles patifes fazem da justiça uma comedia infame!... Está
-compreendendo? A sentença é lavrada em São Petersburgo, antes mesmo da
-decisão do jury!
-
---Não pense mais n’isso, Nicolao! disse Pélagué resoluta. É inutil
-pretender consolar-me ou explicar-me seja o que fôr!... O Pavel nunca
-ha de fazer nada que não seja bem feito! E não se ha de apouquentar
-senão pelo que o mereça!... Aqui, deteve-se para tomar folego.
-
---Assim como tambem nunca apouquenta os outros... E elle estima-me!
-Estima-me, sim! Não vê como se lembrou de mim? «Consolem-na», escreveu
-elle, an?
-
-Batia-lhe forte o coração; a violencia do seu sentir fazia-lhe um tanto
-andar a cabeça á roda.
-
---Seu filho é uma bella alma! exclamou Nicolao com voz singularmente
-vibrante. Estimo-o e venero-o profundamente!
-
---E se nós tratassemos do Rybine! alvidrou ella.
-
-O seu desejo era entrar immediatamente em acção, partir, caminhar até
-caír de fadiga, para depois adormecer satisfeita com o seu dia de
-trabalho.
-
---Sim, com effeito! respondeu Nicolao, proseguindo no passeio pelo
-quarto. Que fazer n’este caso?... Eu preciso que a Sachenka...
-
---Ella não tarda. Vem sempre que sabe que eu estive com o Pavel.
-
-De cabeça baixa, meditativo, sentou-se Nicolao no canapé, ao lado
-d’ella. Mordia os beiços e cofiava a barbicha.
-
---Que pena minha irmã não estar por ahi!... Ella é que havia de tratar
-da fuga do Rybine.
-
---Se fôsse possivel dar-lhe já fuga, emquanto o Pavel ainda ahi está...
-Havia de ficar tão contente! disse ella.
-
-Esteve um instante calada e, de repente, baixinho e com dolencia:
-
---Não compreendo... Porque se recusa elle?... uma vez que tem
-possibilidade de o fazer?...
-
-Ressoou forte campainhada. Nicolao levantou-se de chofre. Olharam um
-para o outro.
-
---É a Sachenka! disse Nicolao com voz debil.
-
---Nem sei como lho hei de dizer! exclamou ella no mesmo tom.
-
---É verdade... é difficil!
-
---Tenho pena d’ella!
-
-A campainha vibrou outra vez, mas com menos força, como se a pessôa que
-se encontrava para alem da porta hesitasse tambem. Dirigiam-se os dois
-a abrir, mas, chegados á cosinha, deteve-se Nicolao e segredou-lhe:
-
---É melhor ir a senhora só.
-
---Recusa-se a fugir? perguntou a rapariga com decisão, tão depressa
-Pélagué lhe abriu a porta.
-
---Recusa!
-
---Bem o sabia! disse Sachenka simplesmente.
-
-Faz vento, chove... que abominavel tempo!... E elle está bom?
-
---Está.
-
---Contente e de saúde... como sempre! disse Sachenka a meia voz, ao
-mesmo tempo que examinava uma das mãos.
-
---Manda-nos dizer que devemos dar fuga ao Rybine, annunciou a mãe de
-Pélagué, sem se atrever a fital-a.
-
---Ah, sim? Pois é preciso levar esse plano a bom caminho! respondeu a
-rapariga com vagar.
-
---Sou da mesma opinião! declarou Nicolao, apparecendo á porta. Boa
-noite, Sachenka!
-
-Ella estendeu-lhe a mão e perguntou:
-
---E que obstaculo ha? Todos reconhecem que o projecto é engenhoso, não
-é assim? Eu sei que ê este o parecer de todos.
-
---Mas quem ha de encarregar-se de o organisar? Andam todos tão
-occupados!...
-
---Eu! disse com vivacidade a rapariga, pondo-se de pé. Eu tenho tempo.
-
---Pois seja! Mas são precisos outros collaboradores...
-
---Bem, eu os encontrarei! Vou tratar d’isso immediatamente.
-
---Porque não descansa um pouco? propoz Pélagué.
-
-Ella sorriu e respondeu, deligenciando dar meiguice á voz:
-
---Não se apouquente por minha causa... Não estou cansada...
-
-Apertou as mãos a ambos, silenciosa, e foi-se como viera, fria e de
-semblante carregado.
-
-Pélagué e Nicolao foram á janella para a vêr.
-
-Atravessou o pateo e sumiu-se para além da grade. Nicolao pôz-se a
-assobiar baixinho; em seguida, sentou-se á mesa e pegou na penna.
-
---Ella quer tratar d’este negocio para distraír o seu desgosto! disse
-Pélagué, baixo.
-
---É evidente! confirmou Nicolao. E, voltando-se para Pélagué, com o
-rosto bondosamente illuminado de um sorriso:
-
---Este fel é que os seus labios não provaram, não é verdade?... Nunca
-andou a suspirar por um homem amado!
-
---Que idéa! exclamou ella, agitando negativamente a mão. Eu, a
-suspirar? O que eu tinha era medo de que me obrigassem a casar com um
-ou com o outro.
-
---Ninguem lhe agradava então?...
-
-Reflectiu e depois respondeu:
-
---Não me lembro, meu amigo. É provavel que houvesse um que me agradasse
-mais do que os outros... E como não havia de ser assim?... Mas não me
-lembro.
-
-Fitou o seu interlocutor e resumiu com dolorosa melancolia:
-
---Fui tão maltratada pelo meu marido, que tudo o que se passou antes
-d’elle é como se me tivesse apagado da lembrança.
-
-E ausentou-se por um instante. Quando voltou, disse-lhe Nicolao com
-affectuoso olhar, como para lhe suavisar as penosas recordações, com
-palavras repassadas de ternura e amor:
-
---Quer saber? Tambem eu tive uma... historia... parecida com a da
-Sachenka. Amava uma menina, uma criatura deliciosa! Era ella a estrella
-da minha vida... Ha vinte annos que a conheço e a amo... porque a amo
-ainda hoje, para dizer a verdade; amo-a tanto como sempre a amei... de
-toda a minha alma, com gratidão!
-
-Pélagué via-lhe no olhar uma chamma viva e apaixonada. Elle descansára
-a cabeça nos braços apoiados ao espaldar da poltrona e olhava para
-longe, nem elle mesmo sabia para onde. Todo o seu corpo magro e
-delgado, mas robusto, parecia tender para um ponto fixo, tal a haste da
-planta virada para a luz do sol.
-
---Mas então, case-se! aconselhou ella.
-
---Oh! ha cinco annos que está casada!
-
---Porque não casou com ella? Não o amava?
-
-Teve um momento de reflexão e respondeu:
-
---Creio que me amava... Tenho mesmo a certeza! Porém, veja a senhora!
-fomos sempre infelizes: quando ella estava em liberdade, era eu que
-estava preso, e quando eu estava solto, era ella que estava na cadeia.
-Viviamos na mesma situação da Sachenka e do Pavel! Finalmente,
-mandaram-na por dez annos para a Sibéria... Tão longe!... Eu quiz
-seguil-a... Mas tivemos ambos vergonha, pelo nosso amor... E fiquei.
-No degredo, travou conhecimento com um dos meus camaradas, excellente
-rapaz. Evadiram-se juntos... e agora vivem no estrangeiro...
-
-Tirou os oculos e limpou-os; depois, examinou as lentes contra a luz e
-entrou de novo a esfregal-as.
-
---Ah, meu caro amigo! disse affectuosamente Pélagué, abanando a cabeça.
-
-Lastimava-o Pélagué sinceramente, mas ao mesmo tempo, havia n’elle
-o que quer que era que a forçara a sorrir, com bondoso e maternal
-sorriso. Nicolao mudou logo de expressão, retomou a penna e batendo com
-ella, ao ritmo das frases, declarou:
-
---Afinal, a vida de familia diminue a energia do revoluccionario; é
-certo, diminue-a sempre! Vem os filhos, o dinheiro rareia, é preciso
-trabalhar para ganhar o pão... E o verdadeiro revoluccionario deve
-desenvolver a sua energia sem desfallecimentos. E é preciso ganhar
-tempo para isso! Se nos deixamos ficar para traz, vencidos pelo
-cansaço, ou seduzidos pela possibilidade d’uma conquistasinha amorosa,
-traímos a bem dizer, a causa do povo!
-
-Falava com voz firme e, bem que o rosto se lhe conservasse pálido,
-mostrava no olhar uma decisão sem transigencias, inabalavel.
-
-De novo, violenta campainhada interrompeu as considerações de Nicolao.
-Era Lioudmila. Vinha com as faces muito vermelhas do frio. Emquanto
-tirava a capa de borracha, annunciou em tom de irritação:
-
---Está marcado o dia do julgamento: é dentro d’uma semana!
-
---Tem a certeza? gritou Nicolao do quarto, onde fôra.
-
-Pélagué correra para elle sem saber se era contentamento ou receio o
-que a impellia. Seguira-a Lioudmila. Esta continuava, com a sua voz
-grave, repassada de ironia:
-
---Tenho, sim! O procurador substituto Chostak já lavrou o libello
-de accusação. No tribunal, diz-se abertamente que o veredicto já
-está pronunciado. Que significará isto? O governo terá medo de que
-os magistrados tratem os seus inimigos com excessiva benevolencia?
-Depois de ter pervertido os seus servidores com tanta perseverança e
-paciencia, ainda não estará seguro do seu servilismo?
-
-E dito isto, sentou-se no canapé e pôz-se a esfregar as cavadas faces;
-despedia do olhar sem brilho, infinito desprezo e a voz alteava-se-lhe
-cada vez mais irada.
-
---Não gaste a sua polvora inutilmente, Lioudmila! aconselhou Nicolao. O
-governo não a ouve!
-
-As olheiras que assombreavam o rosto da mulher cavaram-se mais,
-cobrindo-lhe as feições d’uma névoa de ameaça. Mordendo os lábios,
-proseguiu:
-
---Eu lucto contra o governo. Que elle me mate, bem vae: está no seu
-direito, pois que sou sua inimiga! Mas que não ande a corromper as
-criaturas para defender o poder; que não me obrigue a votar-lhe
-profundo desprezo; que não me envenene a alma com tal cinismo!
-
-Nicolao, por detraz dos seus oculos, fitou-a muito, com um franzir de
-palpebras e signaes approvativos.
-
-A outra continuou a discorrer, como se aquelles a quem odiava
-estivessem na sua presença. Pélagué escutava attentamente aquellas
-frases, mas sem as compreender. Machinalmente, a si mesma repetia as
-mesmas palavras:
-
---O julgamento... dentro d’uma semana... O julgamento!...
-
-Não podia conjecturar o que ia passar-se, nem como os juizes tratariam
-seu filho. Mas sentia a imminencia d’alguma coisa implacavel, cuja
-crueza e cuja ferocidade deixavam de ser humanas.
-
-Os pensamentos baralhavam-lhe o cérebro, velavam-lhe a vista d’um vapor
-azulado e mergulhavam-na no que quer que fôsse frio, viscoso, que lhe
-causava arrepios, nauseas e, que, infiltrando-se-lhe no sangue, lhe
-chegava ao coração e suffocava n’ella todo o valor.
-
-
-
-
-XXIII
-
-
-Dois dias passou n’este nevoeiro de perplexidades e angustias. Ao
-terceiro, veio Sachenka dizer a Nicolao:
-
---Está tudo prompto. É para hoje, á uma hora.
-
---Já?! exclamou admirado.
-
---Não era coisa muito complicada! Bastava que arranjasse fato para o
-Rybine e sitio para o esconder. Do resto encarregou-se o Gadoune. O
-Rybine não terá de andar mais que uns cem passos. O Vessoftchikof,
-disfarçado, está claro, irá ao encontro d’elle, fornecer-lhe-á um
-casacão e um bonné e dir-lhe á onde deve ir. Eu espero o Rybine e
-guial-o-ei.
-
---Está muito bem... Quem é esse Gadoune? disse Nicolao.
-
---Deve conhecel-o. É na loja d’elle que temos feito as leituras aos
-serralheiros...
-
---Ah, já me lembro!... Um velhote exquisito...
-
---Sim; é um retelhador, por officio; antigo soldado... De intelligencia
-pouco desenvolvida, nutre um odio inexgotavel contra todas as
-violencias, contra toda a oppressão. É um tanto ou quanto filósofo,
-rematou Sachenka, pensativa, a olhar pela janella.
-
-Ouvia-se Pélagué em silencio. Pouco a pouco, ia amadurecendo n’ella uma
-idéa vaga.
-
---O Gadoune quer dar fuga ao sobrinho, o Evtchenko, aquelle ferreiro de
-quem tanto se agradavam todos pelo seu aceio e donaire, lembram-se?
-
-Nicolao affirmou com um gesto.
-
---Pois tem tudo preparado na perfeição, continuou Sachenka; mas ainda
-assim, começo a duvidar do bom exito... Os presos passeiam todos á
-mesma hora. Quando virem a escada, ha de haver logo muitos a quererem
-fugir...
-
-Fechou os olhos e calou-se por instantes. Pélagué approximara-se d’ella.
-
---... E hão de estorvar-se uns aos outros.
-
-Estavam agora os trez junto da janella, Nicolao e Sachenka á frente,
-Pélagué mais atraz. A conversação rapida dos dois primeiros despertava
-cada vez mais em Pélagué um vago sentimento...
-
---Pois hei de lá ir! annunciou de subito.
-
---Para quê? perguntou Sachenka.
-
-E Nicolao aconselhou:
-
---Não, não, querida amiga! Podia acontecer-lhe alguma coisa. Não!
-
-Ella fitou-os a ambos e repetiu, mais baixo, com insistencia:
-
---Sim, hei de ir!
-
-Os dois trocaram rapido olhar. Sachenka encolheu os hombros e commentou:
-
---Compreende-se...
-
-Depois, voltando-se para ella e tomando-lhe do braço, inclinando-se-lhe
-ao ouvido, declarou com singeleza e cordealidade:
-
---Mas olhe que eu previno-a: nada tem a esperar...
-
---Minha querida! exclamou a mãe de Pavel, puxando-a para si, a tremer,
-leve-me comsigo!... Eu não a estorvo... É que eu queria vêr... Não
-creio, não julgo que seja possivel... uma evasão!
-
---Ha de vir comnosco por força! limitou-se a dizer a rapariga para
-Nicolao.
-
---Isso é com vocês as duas! respondeu elle, baixando a cabeça.
-
---Mas olhe que não podemos ficar juntas. Vocemecê tem de andar pelos
-campos, pelos jardins. Vêem-se de lá os muros da cadeia, muito bem...
-D’outra fórma, arrisca-se a que lhe perguntem o que anda ali a fazer.
-
-Com serenidade, Pélagué exclamou:
-
---Sempre hei de achar uma resposta!
-
---Não se esqueça de que os vigias da cadeia conhecem-na! lembrou
-Sachenka. Se a vêem por ali...
-
---Não hão de vêr-me! respondeu ella.
-
-E logo a seguir, a esperança que ella sempre acalentára sem mesmo, dar
-por tal, incendiou-se em viva chamma que toda a animou:
-
---Quem sabe?... Talvez que elle tambem... pensava, emquanto se vestia
-apressadamente.
-
-Uma hora depois, encontrava-se ella em meio d’uns campos, perto da
-prisão. Soprava vento agreste, que lhe enfunava as saias, enrijecia
-o solo gelado, fazia oscillar o tapume velho d’um jardim, fustigava
-com violencia o muro da cadeia e penetrava no pateo interior, d’onde
-a vozearia subia, arrastada para o firmamento no seu irresistivel
-sopro. Corriam velozes as nuvens, deixando por vezes entrever a immensa
-profundidade do azul.
-
-A cidade estendia-se por detraz de Pélagué; e na sua frente, o
-cemiterio. A uns vinte passos para a direita, elevava-se a cadeia.
-Perto do cemiterio, dois soldados andavam a dar passeio a um cavallo.
-Caminhavam com pesado passo, assobiavam e riam.
-
-Obedecendo a instinctivo impulso, acercou-se dos dois homens e
-gritou-lhes:
-
---Camaradas, viram a minha sobrinha? Não fugiu para aqui?
-
---Não, não vimos, respondeu-lhe um.
-
-Afastou-se devagar, passou-lhes adiante e dirigiu-se para o muro do
-cemiterio, olhando sempre de soslaio. De súbito, sentiu vergarem-se-lhe
-as pernas e tornarem-se-lhe pesadas, como se o gelo lh’as tivesse
-pregado ao solo: à esquina da cadeia tinha apparecido um accendedor de
-candieiros, corcovado sob pequena escada, a correr, como todos elles
-costumam fazer. Toda a tremer de susto, olhou Pélagué para o lado dos
-soldados. Tinham ficado parados em certo sitio; o cavallo brincava,
-pulando-lhes á roda. Viu depois que o homem já tinha encostado a escada
-ao muro e por ella trepava sem pressa alguma. Viu-o fazer um signal
-com a mão, descer rápido, e sumir-se na esquina da cadeia. Pulsava
-violentamente o coração de Pélagué; os segundos decorriam com lentidão.
-A escada mal era visivel entre as grandes manchas da lama e da caliça
-escalavrada, que deixava a descoberto os tijolos. N’isto, surgiu na
-crista do muro a cabeça de Rybine, e logo o corpo appareceu, passou
-para o outro lado e deslisou.
-
-Segunda cabeça coberta de bonné de pello surgiu; rolou para o chão
-uma especie de novelo preto que logo se sumiu na esquina do edificio.
-Rybine aprumára-se e olhava em torno. Fez um signal com a cabeça.
-
---Foge! foge! segredou Pélagué, batendo o pé.
-
-Tinha zumbidos nos ouvidos, parecia-lhe ouvir gritos, quando terceira
-cabeça, esta loira, emergiu do espigão do muro. Comprimindo o peito ás
-mãos ambas, Pélagué olhava, petrificada.
-
-A cara loira e imberbe teve um impulso para cima, como para se separar
-do corpo, e depois, desappareceu por detraz do muro. Os gritos de ha
-pouco faziam-se mais ruidosos e traduziam maior alvoroço; o vento
-levava-os pelo espaço, de mistura com trillos agudos de apitos.
-
-Rybine caminhou ao longo do muro e depois transpôz um terreno que
-separava a prisão dos predios da cidade. A Pélagué afigurava-se que ele
-ia muito devagar e de cabeça alta demais; com certeza as pessoas que
-com elle se cruzavam não lhe esqueceriam as feições.
-
---Depressa!... Mais depressa! murmurou ella.
-
-No pateo da cadeia, houve qualquer coisa que se quebrou com ruido
-secco, ouviu-se um tenido agudo de vidros partidos. Firmando os pés
-no chão com toda a sua força, um dos soldados puxava pelo cavallo;
-o outro, de mão ao lado da bocca, gritava o que quer que fôsse na
-direcção do presidio, depois apurava o ouvido com a cabeça inclinada
-n’esse sentido.
-
-Em crispações de incerteza, a mãe de Pavel olhava para tudo aquillo; os
-seus olhos, que tudo haviam visto, em nada queriam crêr. A evasão, que
-ella imaginára coisa terrivel e complicada, effectuara-se tão rapida e
-simplesmente, que d’ella mal lhe restava consciencia. Em baixo, na rua,
-já não se divisava Rybine. Os unicos traseuntes eram agora um homem de
-elevada estatura, vestido de comprido sobretudo, e uma rapariguinha.
-Appareceram trez vigias á esquina.
-
-Corriam, apertando-se uns contra os outros, com o braço direito
-estendido para a frente. Um dos soldados precipitou-se ao encontro
-d’elles, o outro mal podia acompanhar o cavallo, que, caprichoso e
-rebelde, tentava recomeçar o brinquedo, esquivando-se e pulando.
-Pélagué julgava vêr tudo em volta d’ella oscillar. Os apitos rasgavam
-a atmosfera em trillos incessantes e desesperados. Compreendeu então
-o perigo que corria. Toda trémula, foi andando ao longo do tapume do
-cemiterio, sem perder de vista os guardas. Estes deitaram a correr para
-a outra esquina da cadeia e desappareceram, assim como os soldados.
-
-Logo depois viu o sub-director da prisão, que ella conhecia bem, tomar
-a mesma direcção. Trazia a farda desabotoada. Accudiam policias;
-formava-se um ajuntamento...
-
-O vento soprava, deslocando-se em redemoinhos, como se quizesse
-mostrar-se satisfeito; com elle chegavam aos ouvidos de Pélagué
-fragmentos d’exclamações confusas:
-
---Ella ainda lá está!
-
---A escada?
-
---Vá para o diabo! Porque espera!...
-
-De novo retiniram apitos estridentes. Todo este tumulto era do agrado
-de Pélagué. Apressou o passo, ao mesmo tempo que ia pensando:
-
---Logo, era possivel!... E se elle quizesse, tambem o tinha podido
-fazer!
-
-De repente, ao voltar uma esquina do tapume, embateu em dois guardas,
-acompanhados d’um policia.
-
---Pára! gritou-lhe este, offegante. Não viste um homem de barba a
-correr? Não veio para aqui?
-
-Ella apontou para os campos e respondeu com todo o sangue frio:
-
---Vi, sim, senhor. Foi para ali!...
-
---Jégourof! berrou o policia. Vá! Corre! Apita! E ha muito tempo?
-
---Ha de haver um minuto...
-
-Mas teve a voz dominada pelo estridor do apito. Sem esperar a resposta,
-o policia desatou a correr por entre os montões de lama gelada,
-agitando as mãos na direcção dos jardins. De cabeça baixa e apito na
-bocca, os outros precipitaram-se-lhe nas peugadas.
-
-Ficou um momento a seguil-os com a vista e voltou para casa. Sem que
-um pensamento particular predominasse n’ella, sentia, não obstante, o
-pezar por alguma coisa; havia no seu coração amargura e despeito. Ao
-chegar proximo da cidade, fêl-a parar um trem que ia passando. Ergueu
-a cabeça e viu na carruagem um rapaz de bigode loiro, rosto pálido e
-que revelava cançaso. Elle fitou-a tambem. Ia sentado de esguelha;
-era talvez por isso que parecia ter o hombro direito mais alto que o
-esquerdo.
-
-Nicolao recebeu Pélagué com um suspiro de alivio.
-
---Chegou sã e salva? Então como se passou isso?
-
---Parece que conseguiram o que queriam.
-
-E diligenciando rememorar os mais insignificantes pormenores, contou o
-que tinha visto, como se estivesse a repetir inverosimil historia.
-
---Ora veja que temos sorte! disse Nicolao, esfregando as mãos. Mas que
-susto em que estive por sua causa! Nem póde imaginar! Nada receei com
-respeito ao julgamento. Quanto mais cedo fôr, tanto mais breve chegará
-o dia da libertação do seu Pavel, creia! Talvez até possa evadir-se
-quando fôr, a caminho da Sibéria... Quanto ao julgamento, aqui tem
-pouco mais ou menos o que é.
-
-Entrou a descrever-lhe o tribunal. A mãe de Pavel escutava-o, mas
-presentia que elle receava alguma coisa e diligenciava tranquillisal-a.
-
---Está imaginando talvez que eu quero dirigir-me aos juizes,
-entregar-lhes algum memorial! disse ella.
-
-Nicolao levantou-se bruscamente, agitou a mão e exclamou em tom de
-melindre:
-
---Que está dizendo? Nunca pensei n’isso!
-
---Tenho medo, isso é certo! Tenho medo e não sei de quê!
-
-Calou-se. O olhar vagueava-lhe pelo aposento, ao accaso.
-
---Em certas occasiões, quer-me parecer que hão de mofal-o, que hão
-de injurial-o e dizer-lhe: «Oh, campónio, filho de campónio! que
-descoberta foi essa agora?» E o Pavel é orgulhoso; ha de querer
-responder-lhes... Ou então é o André que vae para lá zombar d’elles.
-São todos tão entusiastas, tão francos e leaes, os nossos!... É por
-isso que eu digo comigo mesmo: «Se acontecesse alguma coisa, se um
-d’elles perdesse a paciencia, os outros haviam de apoiá-lo e lá os
-tinhamos todos condemnados... por maneira que nunca mais apparecessem!»
-
-Nicolao, sombrio, atormentando a barba, permanecia silencioso.
-
---Não posso expulsar taes idéas d’esta cabeça! continuou ella mais
-baixo. É terrivel, uma audiencia! Vão para ali pôr-se a examinar
-tudo, a avaliar tudo... a procurar onde está a verdade! É deveras um
-horror!... Não é o castigo que amedronta, é o julgamento... a avaliação
-da verdade... Não sei como hei de dizer...
-
-Sentia que Nicolao não compreendia o seu terror, e isto ainda mais a
-embrulhava na demonstração.
-
-
-
-
-XXIV
-
-
-Este terror de Pélagué não fez senão augmentar durante os trez dias que
-a separavam da audiencia e, quando esta chegou finalmente, levava ella
-sobre si, para o tribunal, um fardo que toda a avergava.
-
-Cá fora, reconheceu varios dos seus antigos visinhos do arrabalde,
-inclinou-se em silencio para corresponder aos seus cumprimentos e
-abriu á pressa caminho por entre a multidão tristonha. Nos corredores
-e depois, na sala, topou com as familias dos seus. Falava-se abafando
-a voz; trocavam-se frases que ella não compreendia. D’aquella turba
-brotava pungente sentimento que se communicava a Pélagué e a opprimia
-ainda mais.
-
---Senta-te! convidou Sizof, arranjando-lhe logar no banco, a seu lado.
-
-Obedeceu, compôz as dobras do vestido e olhou em torno. Divisava
-vagamente umas faxas verdes e encarnadas, umas manchas, uns fios
-amarellos e delgados, que brilhavam.
-
---Foi o teu filho que levou o meu á perdição! murmurou uma mulher que
-lhe ficava perto.
-
---Cala-te d’ahi, Nathalia! interrompeu Sizof com o semblante carregado.
-
-Pélagué ergueu a vista para aquella mulher: era a mãe de Samoílof.
-Um pouco mais adiante, estava o pae, calvo, de bello rosto ornado de
-espessa barba ruiva talhada em leque. Semi-cerrava as palpebras e
-olhava direito para diante de si, com um estremecimento involuntario de
-vez em quando.
-
-Pelas altas janellas entrava uma claridade uniforme e turva;
-escorregavam flocos de neve pelas vidraças. Entre as janellas, havia
-um immenso retrato do czar em grossa moldura doirada, e com reflexos
-oleosos na pintura; e a um e outro lado do quadro, occultavam a
-parede as pregas hirtas dos pesadissimos reposteiros que revestiam as
-janellas. Frente ao retrato, uma meza coberta de panno verde, occupava
-quasi toda a largura da sala; á direita, por detraz d’uma especie
-de gelosia gradeada, dois bancos de pau; á esquerda, duas filas de
-poltronas forradas de vermelho. Os officiaes de diligencias, de golas
-verdes e botões doirados iam e vinham pela sala, nos bicos dos pés.
-
-Na atmosfera, de equivoca pureza, perpassavam ruidos de vozes,
-cochichando baixinho; pairava, vindo ninguem saberia d’onde, um vago
-cheiro de farmácia. Todas aquellas côres vivas e aquellas scintillações
-offuscavam a vista; penetravam no peito os odôres do ambiente d’envolta
-com a respiração; o espirito sentia-se submerso n’uma especie de temor
-inexprimivel.
-
-De súbito, alguem começou a falar em voz alta. Toda a assistencia se
-pôz de pé. Pélagué teve um sobresalto e ergueu-se tambem, agarrada ao
-braço de Sizof.
-
-No canto esquerdo da sala, tinha-se aberto uma porta alta, dando
-passagem a um velhinho de oculos, muito alcachinado e de andar incerto.
-Umas escassas suissas tremiam-lhe dos lados da carinha de côr terrosa,
-o lábio superior, barbeado, quasi se lhe sumia na cavidade da bôca.
-As maçãs do rosto e o queixo comprimiam-se-lhe sobre a altissima gola
-da farda, dando a julgar que por baixo nada existia de pescoço. O
-velho caminhava sustido por um rapaz alto, de cara de porcelana, muito
-redonda e rosada. Atraz d’elles, vinham trez personagens revestidos de
-uniformes recamados de bordados e mais trez sujeitos á paisana.
-
-Por muito tempo, estiveram a deliberar entre si, em volta da mesa;
-depois, sentaram-se. Logo que todos tomaram os seus logares, um
-d’elles, rosto imberbe e com a farda desabotoada, entrou a falar ao
-velho, com uns modos de indifferente indolencia e movendo com custo
-os beiços entumecidos. O velho ia-o escutando. Conservava-se hirto e
-immovel, e Pélagué distinguia-lhe duas manchasinhas esbranquiçadas por
-detraz dos vidros dos oculos.
-
-Junto de estreita secretária, na extremidade da mesa, um homem alto e
-calvo folheava papeis, com uma tossinha sêcca.
-
-O velho fez um movimento para diante e começou a falar. A primeira
-palavra pronunciou-a elle distinctamente, mas as outras parecia que se
-sumiam ao sahir-lhe dos lábios delgados e sem côr.
-
---Declaro...
-
---Olha! segredou Sizof á sua visinha com uma leve cotovellada. E pôz-se
-de pé.
-
-Por detraz do gradeamento abrira-se uma porta que dera passagem a um
-soldado de espada desembainhada, ao hombro, e logo depois a Pavel,
-André, Fédia Mazine, os irmãos Goussef, Boukine, Samoílof e mais
-cinco rapazes desconhecidos de Pélagué. Pavel vinha a sorrir; André
-cumprimentou Pélagué com um aceno de cabeça.
-
-Aquelles rostos, aquelles sorrisos e gestos de animação fizeram parecer
-menos frio o silencio e tornaram a sala mais luminosa; suavisaram-se
-os reflexos opulentos de oiro dos uniformes; um alento de confiança,
-uma aragem de força viril penetraram o coração da mãe de Pavel,
-arrancando-a ao seu torpor. Por detraz d’ella, pelas bancadas onde até
-ali a turba se conservava acabrunhada, á espera, murmurios surdos e
-reprimidos iam respondendo ás saúdações dos reus.
-
---E é que não teem medo! ouviu ella Sizof segredar-lhe, ao passo que á
-sua direita a mãe de Samoílof se desatava em soluços.
-
---Silencio! gritou uma voz severa.
-
---Tenho a prevenil-os... disse o velho.
-
-Pavel e André tinham ficado lado a lado; a seguir, estavam Mazine,
-Samoílof e os irmãos Goussef, todos na primeira bancada. André cortára
-a barba; mas o bigode crescera-lhe tanto, que as guias pendiam e
-reuniam-se, assemelhando-lhe a redonda cabeça á d’um gato. Trazia
-impressa na fisionomia uma expressão nova: nos vincos aos cantos da
-bôca, havia alguma coisa penetrante, irónica, e o olhar tornára-se-lhe
-sombrio. Mazine tinha agora o lábio superior sombreado por dois traços
-escuros, e o seu rosto engordára; o Samoílof tinha os mesmos cabellos,
-tão encaracolados como d’antes.
-
-O Ivan Goussef continuava a mostrar o mesmo amplo sorriso.
-
---Fédia! Fédia! suspirou Sizof, baixando a cabeça.
-
-Pélagué respirava agora melhor. Apurava como podia, o ouvido ás
-perguntas indistinctas do velho, o qual interrogava os reus sem olhar
-para elles, com a cabeça entalada entre a gola da farda. Escutava as
-respostas breves e calmas que seu filho ia dando. Queria-lhe parecer
-que aquelle presidente e aquelles juizes não podiam ser más e crueis
-pessoas. Examinava-lhes pormenorisadamente as fisionomias, tentando
-perscrutar-lhes os sentimentos, e assomava-lhe ao coração uma nova
-alvorada de esperança.
-
-Indifferente, o homem da cara de porcelana estava lendo um documento; a
-sua voz circumspecta enchia a sala d’um tedio que causava somnolencias
-no publico. Em voz baixa e animadamente, quatro advogados conversavam
-com os réus; tinham todos uma gesticulação saccudida e veemente e
-faziam pensar em grandes passarolos negros.
-
-Á direita do velho, um juiz ventrudo, de olhinhos sumidos entre as
-papadas da gordura, enchia completamente toda a capacidade da poltrona;
-á esquerda, estava um homem alquebrado, de bigode vermelho, de rosto
-esmaecido. Reclinava com lassidão a cabeça no espaldar, de palpebras
-semi-cerradas, meditando. O procurador tambem apparentava cansaço,
-enfado e indifferença. Por detraz dos juizes, occupavam poltronas
-varios individuos: um robusto e esbelto homem estava acariciando uma
-das faces, com ares de grande concentração; o marechal da nobreza, já
-grisalho, de rosto rubicundo e comprida barba, divagava o olhar dos
-seus grandes olhos simplorios; o syndico do bailiado, a quem o enorme
-abdomen visivelmente incommodava, diligenciava disfarçal-o sob uma aba
-da blusa, que escorregava de contínuo.
-
---Aqui não ha criminosos nem juizes! proclamou Pavel com voz firme.
-Aqui só ha captivos e vencedores!
-
-Fez-se silencio. Durante alguns segundos, o ouvido de Pélagué nada
-distinguiu além do ranger precipitado e estridente das pennas sobre o
-papel e das palpitações do seu proprio coração.
-
-O presidente do tribunal parecia que estava escutando ou esperando
-alguma coisa. Os juizes seus collegas agitaram-se nas poltronas. Elle
-então disse:
-
---Sim!... André Nakhodka!... Reconhece...
-
-Ouviram-se vozes segredar:
-
---Levanta-te!... Levante-se!
-
-André poz-se de pé com lentidão e ficou a olhar para o velho, de
-soslaio, emquanto frisava e desfrisava o bigode.
-
---De que posso eu reconhecer-me culpado? disse, com um encolher de
-hombros, o russo-menor, na sua voz cantante e arrastada. Eu não matei,
-nem roubei: simplesmente protesto contra esta organisação da sociedade,
-que obriga os homens a explorarem-se e a assassinarem-se uns aos outros.
-
---Limite-se a responder sim ou não! disse o velho com esforço mas
-perceptivelmente.
-
-Pélagué sentia que por detraz d’ella susurrava certa agitação;
-todos falavam baixinho e mexiam-se muito nas bancadas, como para
-desannuviarem os espiritos da teia d’aranha tecida pelo discurso
-enfadonho do homem de porcelana.
-
---Vês como elles respondem? segredou Sizof para a mãe de Pavel.
-
---Sim!
-
---Fédia Mazine, responda!
-
---Não quero! declarou Fédia peremptoriamente, pondo-se de pé.
-
-Estava muito córado pela commoção e com os olhos brilhantes. Sizof
-soltou um «Ah!» de mal contido espanto.
-
---Não quiz defensor, portanto nada direi. Considero o julgamento
-d’este tribunal como illegitimo!... Quem são os senhores? Foi o povo
-quem lhes deu o direito de julgar-nos? Não, não foi o povo! Logo, não
-os conheço!
-
-Tornou a sentar-se e occultou o rosto rubro, por detraz do hombro de
-André.
-
-O juiz gordo curvou-se para o presidente, cochichando. O juiz de rosto
-esmaecido lançou uma olhadela obliqua para os réus e, com o lapis,
-passou um traço por cima do que quer que fôsse, escripto no papel que
-tinha em frente. O syndico do bailiado abanou a cabeça e removeu os
-pés do sitio em que os tinha, com precaução. O marechal da nobreza
-conversava com o procurador; o administrador da communa prestava
-attento ouvido ao que diziam e sorria, esfregando sempre uma das faces.
-
-De novo se ouviu a voz triste e sumida do presidente.
-
-Os quatro advogados escutavam attentos; os réus conversavam em segredo
-uns com os outros; Fédia continuava a occultar-se ás vistas, sorrindo,
-muito compromettido.
-
---Então, não viste aquillo?... Falou melhor que todos os outros!
-murmurou Sizof ao ouvido da sua visinha. Ah, aquelle brejeiro!
-
-Pélagué sorriu sem o compreender. Tudo o que se estava passando
-não era para ella mais do que o prologo inutil e forçado d’alguma
-coisa terrivel, que, ao surgir, havia de esmagar todo o auditório
-sob gélido terror. Comtudo, as calmas respostas de Pavel e André
-manifestavam tanta firmeza e decisão, como se as tivessem pronunciado
-na modesta casinha do arrabalde e não perante juizes. A réplica
-enthusiasta e juvenil de Fédia tinha-a divertido immenso. Pairava na
-sala uma atmosfera de audácia e de mocidade, e, pela agitação de todo
-o auditório, Pélagué sentia que não era ella só que lhe sentia os
-effluvios.
-
---A sua opinião? perguntou o velho.
-
-O procurador calvo ergueu-se com a mão apoiada na carteira e discursou
-com verbosidade, citando numeros. Nada havia n’aquella voz que
-infundisse terror. No emtanto, ao ouvil-o, Pélagué sentiu logo como uma
-punhalada no coração: era um vago presentimento de alguma coisa hostil
-e que se lhe afigurava ir desenvolvendo-se lentamente em uma fórma
-indefinivel. Examinava tambem os juizes, mas não os compreendia: ao
-contrario do que ella esperava, não os via zangar-se com Pavel e Fédia,
-nem proferir palavras injuriosas contra os réus; queria-lhe parecer que
-todas as perguntas que faziam não tinham para elles importancia alguma;
-dir-se-ia que era de má vontade que as formulavam e que lhes custava
-esperar as respostas; nada os interessava tudo sabiam já d’antemão.
-
-Agora estava um policia postado na frente d’elles e falava com uma voz
-de baixo profundo.
-
---Toda a gente apontava Pavel Vlassof como o principal cabeça de motim.
-
---E André Nakhodka? perguntou com indolencia o jury gordo.
-
---Esse tambem.
-
-Levantou se um dos advogados e disse:
-
---Dá-me licença?...
-
-O velho perguntou a alguem:
-
---Não tem objecção a apresentar?
-
-Pélagué chegava a julgar que os juizes se achavam todos doentes.
-Traduzia-se um cansaço mórbido na menor das suas attitudes, nas vozes e
-nas fisionomias. Via-se que tudo os enjoava: os uniformes, a sala, os
-policias, os advogados, a obrigação de estarem ali sentados n’aquellas
-poltronas, de interrogarem e de ouvirem. Raras vezes Pélagué se
-encontrára na presença de gente de posição elevada e havia alguns annos
-que nem sequer a tinha visto, e assim, as feições dos juizes eram para
-ella como uma coisa inteiramente desconhecida, incompreensivel, mas
-mais compassiva do que severa.
-
-Estava agora a falar o official de cara amarellada que ella conhecia
-bem; referia-se a André e a Pavel, arrastando muito as palavras,
-emfaticamente. E emquanto o ouvia, Pélagué commentava comsigo mesma:
-
---Não sabes nada d’isto, meu pateta!
-
-Deixára de sentir compaixão ou receio pelos que se sentavam por detraz
-do gradeamento; não temia pela sua sorte, e achava que lhes era inutil
-a sua piedade, mas todos elles lhe inspiravam admiração e um sentimento
-de amor que lhe acalentava docemente o coração.
-
-Jovens e robustos como eram, estavam sentados á parte, junto da parede
-e quasi nem intervinham na conversação monotona entre testemunhas
-e juizes, nas discussões dos advogados e do procurador. De vez em
-quando, um d’elles tinha um sorriso de desprezo e dizia baixo algumas
-palavras aos seus companheiros. André e Pavel, esses, falavam quasi
-continuadamente com um dos defensores, a quem Pélagué conhecia de o
-ter visto na vespera em casa de Nicolao e que por este era tratado de
-«camarada». Mazine, mais animado e irrequieto que os outros, prestava
-attento ouvido a esta conversa. De vez em quando, Samoílof segredava
-meia duzia de palavras ao ouvido de Ivan Gousef. E Pélagué, olhando
-para tudo, comparava, reflectia, sem que pudesse compreender aquella
-sensação de hostilidade que a invadia, nem achar termos para exprimil-a.
-
-Sizof chamou-lhe a attenção com ligeira cotovellada; virou-se para
-elle: estava com uns ares ao mesmo tempo satisfeitos e um tanto
-preoccupados. Segredava:
-
---Olha para a presença de espirito com que elles estão, aquelles
-garotos, an? Parecem verdadeiros fidalgos, não é verdade? E no
-entretanto estão a ser julgados... para os ensinar a não se metterem
-no que não é da sua conta.
-
-Ella repetiu involuntariamente a si mesma:
-
---Estão sendo julgados...
-
-Na sala, depunham testemunhas, com vozes incaracteristicas e
-atabalhoadas; os juizes iam sempre interrogando, indifferentes e mal
-humorados. O juiz gordo bocejava, dissimulando a bôca sob a mão inchada
-de cieiro; o seu collega dos bigodes ruivos tornára-se ainda mais
-lívido; por vezes, erguia o braço, premia fortemente uma das fontes com
-um dedo, e ficava-se a fitar o tecto com o olhar morto.
-
-De vez em quando, escrevia o procurador algumas linhas a lapis e depois
-recomeçava a cochichar com o marechal da nobreza. O administrador
-cruzára as pernas e tamborilava n’uma dellas, com o olhar fixado com
-gravidade no movimento dos dedos.
-
-Com o ventre descansando-lhe nos joelhos e sustentando-o prudentemente
-entre as duas mãos, o syndico do bailiado quedára-se de cabeça pendida;
-parecia ser elle o unico a escutar o murmurio monotono das vozes, além
-do velho, enterrado na poltrona e immovel como um catavento quando não
-sopra a brisa. Durou isto muito tempo e de novo o aborrecimento se
-apoderava do auditório.
-
-Pélagué sentia que a justiça, a justiça implacavel que põe friamente
-as almas a descoberto, que as examina, que tudo vê e tudo aprecia com
-os olhos incurruptiveis e tudo pesa com mão leal, não tinha ainda dado
-entrada n’aquella sala. Nada via por emquanto que a amedrontasse com
-uma manifestação de força ou de majestade. Rostos descoloridos, olhos
-sem brilho, vozes fatigadas, o indifferentismo tristonho d’uma tarde de
-outono, eis tudo o que presenceava.
-
---Declaro... disse o velho com clareza; e em seguida, depois de ter
-abafado o resto da frase entre os delgados labios, ergueu-se.
-
-Logo a sala se encheu de rumores, suspiros, exclamações suffocadas,
-accessos de tosse e arrastar de pés. Os réus foram conduzidos para fóra
-do pretorio; ao saírem, faziam signaes com a cabeça e sorriam-se para
-parentes e amigos. Ivan Goussef chegou mesmo a gritar com affabilidade
-para quem quer que fôsse:
-
---Não te deixes intimidar, camarada!
-
-Pélagué e Sizof saíram para o corredor.
-
---Queres vir ao bufete, tomar chá? perguntou sollícito o velho
-operário. Temos hora e meia para esperar.
-
---Não, obrigada.
-
---Bem, então tambem eu não vou. Viste os rapazes, an? Falam como se
-elles fôssem os verdadeiros homens e os outros coisa nenhuma! Ouviste o
-Fédia, an?
-
-De bonné na mão, vinha chegando n’este momento o pae de Samoílof. Com
-um sorriso triste, perguntou:
-
---Que dizem do meu filho? Não quiz advogado e recusa-se a responder...
-Foi elle que teve a idéa.
-
-O teu filho era pelos advogados, Pélagué; o meu disse que não os
-queria. E houve quatro que lhe seguiram o exemplo.
-
-A mulher esteve ao lado d’elle. Piscava de contínuo os olhos e limpava
-o nariz com a ponta do lenço. Samoílof reuniu na mão toda a barba, n’um
-punhado, e continuou:
-
---Outra coisa que me dá que pensar: quando a gente olha para aquelles
-demónios, parece que elles fizeram tudo aquillo inutilmente, que
-comprometteram a sua vida sem necessidade e, de repente, fica-se a
-scismar se elles não terão razão...
-
-E é bom não esquecer que lá na fabrica, o partido d’elles aumenta
-continuadamente. De vez em quando, prendem-nos; mas nunca os apanham a
-todos, assim como nunca se apanham os peixes todos d’um rio! E a gente
-fica sempre a perguntar com os seus botões: «Quem sabe se elles dizem a
-verdade!»
-
---Para nós, é difficil compreender esta questão! declarou Sizof.
-
---Sim, é certo! acquiesceu o outro.
-
-A mulher interveio então, depois de ter respirado com ruido:
-
---Parece que estão todos de perfeita saúde, estes malditos juizes!...
-
-E continuou, com um sorriso no seu rosto emmurchecido:
-
---Não estejas zangada, Pélagué, por eu te dizer ha bocado que o Pavel
-era o culpado de tudo!... Para falar com franqueza, nem a gente sabe
-qual é o mais culpado! Ouviste o que os espiões e os policias contaram
-do nosso filho?...
-
-Claramente se via que tinha orgulho d’aquelle filho, embora ella
-própria talvez nem désse por isso; mas Pélagué, que avaliava bem tal
-sentimento, abriu-se em bondoso sorriso.
-
---Os corações moços andam sempre mais próximos da verdade do que os
-velhos! disse ella em voz baixa.
-
-Passeava-se pelo corredor; formavam-se grupos em que se discutia
-concentradamente, todos pensativos e animados. Ninguem se conservava
-afastado, toda a gente sentia a necessidade de falar, de interrogar e
-de escutar o que se dizia. No estreito recinto da passagem, entre as
-duas paredes brancas, os grupos iam e vinham, como se, impellidos por
-violenta rajada, procurassem apoio n’alguma coisa firme e segura.
-
-O irmão mais velho de Boukine, um grande latagão de cara envelhecida
-prematuramente, gesticulava, virando-se com vivacidade para todos os
-lados. Protestava elle:
-
---O syndico do bailiado nada tem a ver para o caso; não está aqui no
-seu logar!
-
---Cala-te, Constantino! exortava o pae, um velhinho, sempre a olhar em
-volta, assustado.
-
---Não, senhor, eu quero falar! Dizem que o anno passado matou um
-empregado... por causa da mulher d’este! Ora que espécie de juiz vem a
-ser aquillo, fazem favor de me dizer? A viuva do empregado vive agora
-com elle!... Que havemos de concluir?... Além d’isso, toda a gente sabe
-que é ladrão...
-
---Ai, meu Deus!... Constantino!...
-
---Tens razão, sim senhor! apoiou Samoílof. Tens razão! Não é um juiz
-sério!...
-
-Boukine, que tudo ouvira, approximou-se rápido, levando atraz de si
-numeroso grupo. Muito vermelho, de excitado, entrou de falar, com
-grandes gestos:
-
---Quando se trata de assassinatos ou de roubos, são os jurados que
-julgam, quer dizer: a gente habitual, trabalhadores, burguezes...
-Agora, quando se trata dos que são contra o governo, quem os julga é o
-próprio governo!... Isto póde ser?...
-
---Constantino!
-
---Mas escuta, estão elles realmente contra o governo? Vê lá, que dizes?
-
-Não, espera! O Fédia Mazine tem razão. Se tu me offenderes e eu te der
-uma bofetada e se tu tiveres de me julgar, com certeza é a mim que
-chamarás culpado; e comtudo, quem insultou? Tu! Tu!
-
-Um guarda já idoso, de nariz adunco e peito ornado de medalhas,
-atravessou por entre o ajuntamento e foi dizer a Boukine, ameaçando-o
-com o dedo:
-
---Olá! não grites! Onde imaginas que estás? É alguma taberna, aqui?
-
---Queira perdoar, cavalheiro... Eu percebo bem. Ora escutem: se eu
-bater em alguem e esse alguem me retribuir as pancadas e se eu tiver
-de julgal-o depois, como é que podem imaginar...
-
---Olha que te faço saír! disse o guarda severamente.
-
---Saír? para onde? Porquê?
-
---Para a rua! Que é para não berrares!
-
-Boukine circumvagou o olhar pelo auditório e commentou a meia voz:
-
---Para elles, o essencial é que estejamos calados.
-
---Ainda não o sabias? replicou o velho com rudeza.
-
-O outro baixou a voz.
-
---E depois, porque é que o publico não póde assistir ás audiencias, mas
-tão somente os parentes?
-
---Se ha justiça nos julgamentos, é para serem presenceados por todos!
-De que teem medo?
-
-E Samoílof apoiou, mas com mais vehemencia:
-
---Isso é verdade! Estes tribunaes não satisfazem a consciencia pública.
-
-Pélagué desejava tambem repetir o que Nicolao lhe dissera ácerca
-da illegalidade do julgamento; mas não o havia compreendido bem e
-esquecera em parte as expressões empregadas por Nicolao. Para tentar
-rememoral-as, afastou-se da multidão e viu um rapaz de bigode loiro a
-observal-a. Trazia a mão direita mettida na algibeira das calças, o que
-fazia com que parecesse ter o hombro esquerdo mais baixo do que outro.
-Esta particularidade lembrou-se Pélagué que já era sua conhecida.
-
-Mas o homem virou-lhe as costas e, cançada do seu esforço de memoria,
-Pélagué logo se esqueceu d’elle.
-
-Instantes depois, distinguia um fragmento de conversa em segredo:
-
---Aquella? Á esquerda?
-
-E alguem respondeu mais alto, com expansão:
-
---Essa mesma.
-
-Olhou. O homem dos hombros de desigual altura estava ao lado d’ella e
-conversava com o seu visinho, um homem corpulento de barba preta, com
-umas enormes botas e casaco curto.
-
-Estremeceu. Ao mesmo tempo, sentia o desejo de falar nas crenças de seu
-filho, para ouvir as objecções que lhe pudessem apresentar e calcular a
-decisão do tribunal pelas opiniões dos que a rodeavam.
-
---É isto por ventura fórma de julgar? começou ella a meia voz,
-prudentemente, dirigindo-se a Sizof. Não compreendo isto. Os juizes só
-tratam de averiguar o que fez cada um d’elles, mas não perguntam porque
-o fez. Será isto justo? diga lá! E são todos elles velhos! Para julgar
-gente nova são precisos homens novos!
-
---Sim! disse Sizof. Torna-se-nos difficil compreender todo este
-negocio... muito difficil!
-
-E abanava a cabeça, pensativo.
-
-N’isto, o guarda abriu a porta da sala e gritou:
-
---Entrem os parentes! Mostrem os seus bilhetes.
-
-Uma voz de mau humor commentou:
-
---Os bilhetes... como no circo!...
-
-Sentia-se agora uma irritação geral e mal contida, uma colera vaga. Os
-curiosos manifestavam maior semceremonia do que pouco antes, faziam
-barulho, discutiam com os guardas.
-
-
-
-
-XXV
-
-
-Sizof retomou o seu logar resmungando.
-
---Que tens? perguntou-lhe Pélagué.
-
---Não tenho nada! O povo é estupido... Não sabe nada, vive ás
-apalpadellas.
-
-Resoou uma campainhada. Alguem annunciou com indifferença:
-
---O tribunal!
-
-Todos se puzeram novamente de pé, como da primeira vez. Os juizes
-entraram pela mesma ordem e sentaram-se. Foram introduzidos os
-accusados.
-
---Attenção agora! segredou Sizof. Vae falar o procurador.
-
-Pélagué estendeu o pescoço e toda se inclinou para a frente,
-immobilisada na espectativa do terrivel acontecimento imminente.
-
-De pé, virando a cabeça para o lado dos juizes, o procurador soltára
-um suspiro e entrára a falar, agitando a mão direita. Pélagué não
-percebeu as suas primeiras palavras. A voz do orador era facil e
-grossa, mas, tão depressa lhe affluia com rapidez, como afroixava.
-As palavras iam-se seguindo primeiro como em larga fita uniforme,
-depois, voavam, redemoinhavam, tal um enxame de negras moscas sobre um
-torrão d’assucar. Mas n’essas palavras não via Pélagué coisa alguma
-ameaçadora ou terrificante. Frias como neve, indecisas como cinza,
-iam-se succedendo e enchiam a sala de aborrecimento, de alguma coisa
-horripilante como uma poeira fina e sêcca. O discurso, abundante em
-palavras e falho de idéas, não chegava provavelmente aos ouvidos
-de Pavel e dos seus companheiros, os quaes, sem mostrarem a menor
-preoccupação, continuavam socegadamente a conversar entre si. Umas
-vezes, sorriam, outras, faziam-se muito sérios para conterem o sorriso.
-
---Está mentindo! declarou Sizof baixinho.
-
-Pélagué não saberia dizer ao certo se assim era.
-
-Escutava o que elle dizia e compreendia que estava accusando toda a
-gente, sem se referir directamente a ninguem. Quando citava o nome de
-Pavel, punha-se a falar de Tédia; em seguida, depois de ter reunido
-estes, juntava-lhes Boukine. Dir-se-ia que mettia todos os accusados no
-mesmo sacco, apertados uns contra os outros. Mas o sentido externo das
-suas palavras não satisfazia Pélagué, como tambem não a perturbava nem
-mesmo impressionava. Comtudo, continuava esperando o pormenor terrivel,
-e procurava-o obstinadamente sob aquelle fluxo de palavras, no rosto do
-procurador, nos olhos, na voz, na mão muito branca que elle balanceava
-com lentidão. E sentia que estava ali, n’aquelle homem, a coisa
-assustadora, indefinivel e incompreensivel. De novo se lhe confrangeu o
-coração.
-
-Olhou para os jurados: o discurso estava-os claramente enfadando.
-Os seus rostos macillentos, terrosos, inanimados, não apparentavam
-expressão alguma; eram quaes manchas cadavéricas e immoveis. E aquellas
-faces, umas de nutrição enfermiça, outras, demasiado magras, sumiam-se
-cada vez mais em meio do cansaço que invadia a sala. O presidente não
-fazia um só movimento, estatico e hirto; por vezes, as manchasinhas
-pardacentas que lhe appareciam por detraz dos vidros dos oculos,
-sumiam-se-lhe na palidez do rosto. Perante esta indifferença glacial,
-esta frieza tíbia, Pélagué a si própria perguntava com desasocego:
-
---Estarão elles verdadeiramente a julgar?
-
-De repente, como de improviso, terminou o procurador o seu libello.
-O magistrado inclinou-se perante os juizes, a esfregar as mãos. O
-marechal da nobreza fez-lhe com a cabeça um signal, ao mesmo tempo que
-rebolava as pupillas. O administrador da communa estendeu-lhe a mão e o
-syndico contemplou o seu abdomen, risonho.
-
-Mas via-se que os juizes não haviam ficado satisfeitos com o
-procurador: não tinham feito um só movimento.
-
---Cão tinhoso! resmungou Sizof.
-
---Tem a palavra... disse o velhinho, erguendo um papel até junto do
-rosto. Tem a palavra o defensor de... Fédossief, Markof, Zagarof.
-
-Levantou-se então o advogado que Pélagué vira em casa de Nicolao. Tinha
-uma cara cheia e aspecto bonacheirão; os olhinhos irradiavam, parecia
-ter nas orbitas dois pontos acerados, a cortarem no ar qualquer coisa,
-como laminas de tesoura. Entrou a falar sem pressa, em voz nítida e
-sonora; mas Pélagué não poude escutar o que dizia. Sizof segredava-lhe
-de lado:
-
---Percebeste o que elle disse? Diz que são uns doidos, uns garotos de
-genio brigão. É do Fédia que elle quer falar!
-
-Acabrunhada pela sua cruel decepção, Pélagué não respondeu.
-
-Sentia-se mais e mais humilhada, e esta humilhação opprimia-lhe a alma.
-Compreendia agora porque esperava em vão a justiça, porque se enganara
-pensando assistir a uma discussão leal e séria entre a verdade que seu
-filho proclamava e a dos juizes.
-
-Imaginára que os juizes iam interrogar Pavel, demoradamente e com
-attenção, sobre a sua vida; que examinariam com olhos perspicazes
-todas as idéas, todos os actos de seu filho, e o emprego de todos os
-seus dias, e que, reconhecendo a sua hombridade, haviam de declarar
-convictamente: «Este homem tem razão.»
-
-Mas nada d’isso succedia. Era para crêr que os accusados e os juizes
-estivessem a cem leguas uns dos outros e ignorassem mutuamente as suas
-existencias. Fatigada pela tensão da espectativa, Pélagué deixára de
-acompanhar o debate. Pensava de si para comsigo, melindrada:
-
---É então assim que se julga? O julgamento...
-
-E pareceu-lhe vazia e sem sentido esta palavra; soava como um vaso de
-barro, quebrado.
-
---É bem feito! murmurou Sizof, approvando com a cabeça.
-
---Parece que estão mortos, aquelles juizes! disse ella.
-
---Elles já voltam a si!
-
-E com effeito, tornando a olhar para elles, viu-lhes nos rostos uma
-expressão de desasocego. Era outro advogado que falava, um homensinho
-de cara de fuinha, lívido e irónico. Os juizes interromperam-no logo.
-
-O procurador levantou-se de chofre e em voz rápida e zangada, ameaçou-o
-com uma autoação; depois, conferenciou com o velhinho. O advogado
-ficou-os escutando, com a cabeça respeitosamente inclinada; em seguida,
-proseguiu no uso da palavra.
-
---Vae catando! vae catando! aconselhou Sizof. Vê se descobres onde está
-a alma!...
-
-Na sala crescia a animação; começava a nascer uma exaltação
-batalhadora. O advogado atacava os juizes por todas as fórmas,
-aguilhoava-lhes as carcomidas epidermes com ditos causticos. Os juizes
-parecia apertarem-se mais uns contra os outros, incharem e fazerem-se
-mais corpulentos, para resistirem áquelle chuveiro de piparotes,
-com toda a massa dos seus corpos amollentados e nullos. Pélagué
-examinava-os; pareciam intumecer cada vez mais, como se receassem que
-os botes do advogado lhes fizessem vibrar dentro do peito um eco capaz
-de lhes perturbar a soberana indifferença.
-
-Pavel pôz-se de pé. Estabeleceu-se súbito silencio.
-
-A mãe inclinou para a frente todo o corpo.
-
-Tranquillamente, Pavel declarou:
-
---Pertencendo eu a um partido, só reconheço o tribunal d’esse partido.
-Não falo para defender-me, mas para satisfazer o desejo d’aquelles dos
-meus companheiros que tambem não quizeram ser defendidos. Vou tentar
-explicar-lhes o que os senhores não compreenderam. O procurador
-qualificou a nossa demonstração, sob o estandarte da democracia
-socialista, de revolta contra as autoridades supremas e falou
-constantemente de nós como de revoltados contra o czar. Devo declarar,
-comtudo, que, para nós, não é só o czar a grilheta a que anda amarrado
-o corpo da nação; o czar não é mais do que o primeiro élo d’essa
-cadeia, de que jurámos libertar o povo.
-
-Fizera-se mais profundo ainda o silencio, sob o império d’aquella voz
-varonil. A sala parecia tornar se mais vasta e Pavel afastar-se para
-longe do auditório, mais luminoso e inspirado. Pélagué foi tomada de
-uma sensação de frio.
-
-Os juizes agitavam-se pesadamente nas cadeiras, cheios de inquietação.
-O marechal da nobreza segredou algumas palavras ao juiz de modos
-indolentes; este abanou a cabeça e falou com o velhinho, a quem o juiz
-de aspecto doente estava tambem falando ao ouvido, do lado opposto.
-
-O presidente, vacillante na sua poltrona, para a direita e para a
-esquerda, dirigiu algumas palavras a Pavel, mas a voz sumiu-se-lhe no
-curso amplo e igual da exposição que o mancebo ia proferindo.
-
---Somos socialistas. Significa isto que somos inimigos da propriedade
-particular, que promove a desunião entre os homens, os leva a
-armar-se uns contra os outros e cria uma rivalidade de interesses
-irreconciliaveis, que mente quando pretende dissimular ou justificar
-esta hostilidade e perverte os homens pela mentira, a hypocrisia
-e o ódio. Somos de opinião que a sociedade, considerando o homem
-unicamente como um meio de auferir riquezas, é anti-humana e torna
-se nos declaradamente hostil; não podemos acceitar a sua moral com
-duas caras, o seu cynismo sem vergonha e a crueldade com que trata
-as individualidades que lhe são adversas; queremos luctar, e havemos
-de luctar, contra todas as fórmas de subserviencia fisica e moral do
-homem, em uso n’esta sociedade, contra todos os métodos de fraccionar
-a collectividade em proveito da cubiça! Nós, os operários, somos quem
-pelo nosso trabalho tudo cria, desde as máquinas giganteas até aos
-brinquedos das crianças. E vêmo-nos privados do direito de luctar
-pela nossa dignidade de homens; Cada qual arroga-se o direito de nos
-transformar em instrumentos para attingir o seu fim! Queremos que nos
-dêem liberdade bastante para que se nos torne possivel, com o tempo,
-conquistar o poder. Quer-se o poder para o povo!...
-
-Aqui, sorriu Pavel e passou de vagar a mão pelos cabellos; a luz dos
-seus olhos azues brilhou com fulgor mais intenso.
-
---Tenha a bondade... Não saia do assunto! disse-lhe o presidente em voz
-nítida e forte.
-
-Virava-se agora todo para Pavel e fitava-o. Pareceu a Pélagué
-distinguir-lhe nos olhos, até ali palidos e sem expressão, um brilho
-cúpido e de maldade.
-
-Todos os juizes tinham as attenções voltadas para o orador; os seus
-olhos pareciam colar-se-lhe, aderir-lhe fortemente ao corpo, para lhe
-sugarem o sangue e com elle reanimarem os seus membros exaustos. Pavel,
-firme e resoluto, estendeu para elles o braço e proseguiu com voz
-distincta:
-
---Somos revolucionários e sêl-o-emos emquanto uns só tratarem de
-opprimir os outros. Havemos de luctar contra a sociedade, cujos
-interesses os senhores foram mandados que defendessem; a reconciliação
-só entre nós será possivel quando nós fôrmos vencedores. Porque havemos
-de ser nós os vencedores, nós, os opprimidos! Os mandatários de todos
-vós, senhores, não são tão fortes como se julgam. Essas riquezas que
-accumularam e na defeza das quaes sacrificam milhões de infelizes
-creaturas, essa força que lhes dá o poder sobre nós, criam entre
-elles alternativas de hostilidade e arruinam-nos, a elles, fisica e
-moralmente. A defeza do vosso poderio, senhores, exige uma constante
-tensão d’espirito; e, na realidade, vós, nossos senhores, sois todos
-mais escravos do que nós, porque são os vossos espiritos que jazem na
-oppressão, ao passo que nós só fisicamente somos opprimidos. Não podeis
-libertar-vos do jugo dos preconceitos e dos habitos, e isto mata-vos
-moralmente; emquanto a nós, nada nos impede que sejamos intimamente
-livres! E a nossa consciencia vae tomando vida, vae desenvolvendo
-se sem cessar; inflamma-se dia a dia e arrasta comsigo os melhores
-elementos, moralmente sãos, mesmo do próprio meio que é o vosso... E,
-se não, vêde: já não possuis ninguem que possa lutar em nome do vosso
-poderio contra a corrente das idéas; esgotastes já todos os argumentos
-capazes de vos protegerem dos ataques da justiça da história; nada
-mais podeis criar novo, no dominio da intellectualidade: sois uns
-estereis de espirito. As nossas idéas, pelo contrário, desenvolvem-se
-com força crescente, penetram nas massas populares e vão-nas dispondo
-para a lucta pela liberdade, lucta incarniçada, lucta implacavel! Não
-podereis travar este movimento, senão usando de crueldade e de cinismo.
-Mas o cinismo é evidente demais e a crueldade não faz senão irritar
-o povo. As mãos que hoje empregaes para nos suffocar, hão de ámanhã
-apertar as nossas mãos em fraterno amplexo. A vossa energia é a energia
-mecanica produzida pelo açambarcamento do oiro, e é essa energia que
-vos desune em grupos rivaes, destinados a aniquilarem se mutuamente.
-Emquanto que a nossa energia é a força viva e sem cessar crescente do
-sentimento de solidariedade que liga todos os opprimidos. Tudo o que
-praticaes é criminoso, porque só pensaes em escravisar o homem; o
-nosso empreendimento, esse, liberta o mundo dos monstros e fantasmas
-criados pelas vossas mentiras, pela vossa cupidez, pelo vosso ódio!
-Mas, em breve, a grande massa dos nossos artifices e camponezes ha de
-ser liberta e ha de criar um mundo livre, harmonioso e immenso. E assim
-ha de ser!
-
-Calou-se Pavel um instante e depois repetiu ainda com mais força:
-
---E assim ha de ser!
-
-Os juizes cochichavam, com caretas estranhas, sem desviarem os olhos de
-Pavel. A mãe pensava de si para comsigo, que aquelles olhares infamavam
-o corpo vigoroso de seu filho, cuja saúde e fresca mocidade invejavam.
-Os réus tinham escutado attentos as palavras do seu companheiro.
-Pálidos ao principio, tinham agora nos olhares uma chamma de alacre
-contentamento. Pélagué devorára as frases de seu filho; gravavam-se lhe
-todas profundamente na memória.
-
-O velhinho por diversas vezes interrompeu Pavel, para lhe explicar
-ninguem saberia dizer o quê, d’uma das occasiões, esboçou até, um
-sorriso triste. Pavel escutava-o em silencio e logo retomava a palavra
-com voz severa mas serena. Todas as attenções convergiam para elle.
-Durou isto muito tempo. Por fim, o presidente gritou algumas palavras,
-ao mesmo tempo que estendia o braço na direcção do mancebo. Este
-respondeu em tom levemente ironico:
-
---Eu vou concluir. Não foi idea minha offender pessoalmente os membros
-d’este tribunal, bem ao contrário: forçado a assistir a esta comédia
-a que chamaes uma audiencia, chego a sentir compaixão pelos senhores.
-A despeito de tudo, os senhores são homens e é sempre para nós uma
-humilhação ver homens, curvarem-se de tão vil maneira ao serviço da
-violencia e perderem a tal ponto a consciencia da sua dignidade
-humana... mesmo quando esses homens se mostram hostis aos nossos
-intentos...
-
-E sentou-se sem olhar para os juizes.
-
-A mãe conteve a respiração, fitando, anelante, aquelles de quem
-dependia a sorte de seu filho, e esperou.
-
-André, radiante, apertou vigorosamente a mão de Pavel. Samoílof,
-Mazine e todos os outros voltaram-se para elle. Pavel sorriu, um tanto
-constrangido pelo entusiasmo dos seus companheiros e olhando para a
-bancada em que se encontrava Pélagué, fez-lhe um signal de cabeça, como
-para perguntar:
-
---Foi bem, assim?
-
-Ella respondeu-lhe com profundo suspiro de contentamento, fremente,
-inundada por uma ardente vaga de amor.
-
---Ahi está! Vae começar o julgamento! segredou-lhe Sizof. O teu filho
-deixou-os em bonito estado, an?
-
-Ella abanou a cabeça sem responder, satisfeita de ter ouvido o filho
-falar com tal desassombro e talvez mais satisfeita ainda por elle ter
-terminado o discurso. Martelava-lhe no cérebro uma idéa fixa:
-
---Meus filhos! que vae ser de vocês?
-
-O que seu filho dissera não era novo para ella; conhecia bem as suas
-opiniões; mas, fôra ali, perante aquelle tribunal, que pela primeira
-vez sentira a força convincente e extraordinaria das suas teorias.
-Impressionava-a a serenidade do mancebo, e no seu intimo, o discurso de
-Pavel aliava-se á firme convicção da victoria e dos justos direitos de
-seu filho, que lhe punham na alma a irradiação d’uma estrella.
-
-
-
-
-XXVI
-
-
-Julgava ella que os juizes iam discutir severamente com elle,
-replicar-lhe coléricos, e expôr os seus argumentos.
-
-Mas n’isto, levantou-se André, lançou um olhar de soslaio para o
-tribunal e começou:
-
---Senhores defensores.
-
---Quem o senhor tem na sua presença é o tribunal e não a defeza!
-gritou-lhe o juiz doente, com força, muito irritado.
-
-Pélagué percebia pela fisionomia de André que o que elle queria era
-gracejar; o bigode tremia-lhe de riso mal contido, e nos olhos, tinha
-uma expressão ao mesmo tempo felina e meiga, bem conhecida d’ella.
-Esfregou vigorosamente a cabeça com as compridas mãos e suspirou.
-
---Pois é possivel? perguntou, ao mesmo tempo que saccudia a cabeça.
-Eu julgava que não era assim, que os senhores eram, não juizes, mas
-unicamente defensores!...
-
---Queira fazer favor de se referir somente ao assunto principal!
-intimou o velhinho com seccura.
-
---O assunto principal? Está bem. Quero pois crêr que os senhores são
-realmente juizes, isto é: pessoas independentes, leaes...
-
---O tribunal não precisa da sua opinião!
-
---Como? Não precisa d’um elogio d’estes!... Hum!... Todavia, eu
-continúo. Os senhores são homens que não estabelecem differença alguma
-entre amigos e inimigos, os senhores são inteiramente livres no seu
-juizo. Assim, teem agora na sua frente dois partidos: um queixa-se de
-que o roubam e o maltratam; o outro responde que tem o direito de
-roubar e de maltratar porque traz na mão uma espingarda.
-
---Tem alguma coisa a dizer concernente ao processo? perguntou o
-velhinho, alteando a voz e com as mãos a tremer.
-
-Esta irritação satisfazia immenso Pélagué. Mas a fórma de proceder de
-André não lhe agradava; achava a discordante do discurso de Pavel.
-Preferia ouvir travar-se uma discussão séria e ponderada.
-
-O russo-menor fitou o velho, sem responder; em seguida, disse com
-gravidade:
-
---O processo?... Para que lhe havia eu de falar do processo? O meu
-companheiro disse-lhes o que os senhores deviam saber já! O resto,
-outros lho dirão quando chegar o momento opportuno...
-
-O velhinho sobreergueu-se da poltrona e declarou:
-
---Retiro-lhe a palavra!... Gregorio Samoílof!
-
-O russo-menor apertou com força os dentes e deixou-se caír pesadamente
-no banco. Ao lado d’elle, Samoílof pôz-se de pé, saccudindo os anneis
-do cabello.
-
---O procurador disse que nós eramos uns selvagens, inimigos do
-progresso...
-
---Fale só do que diz respeito á sua accusação!
-
---Mas é justamente o que estou fazendo!... Não deve haver coisa alguma
-que não interésse á gente honesta... E peço-lhe o obsequio de não me
-interromper. Assim, pergunto eu aos senhores: qual vem a ser o grau das
-suas culturas intellectuaes?
-
---Não estamos aqui para discutir comsigo! Voltemos ao assunto! disse o
-velho, mostrando rancorosamente os dentes.
-
-Os gracejos de André haviam manifestamente irritado os juizes e como
-que lhes tinham supprimido o que quer que fôsse das fisionomias.
-Agora, nos rostos terrosos, appareciam-lhes manchas sanguineas,
-brilhavam-lhes os olhares com scintillações frias e implacaveis. O
-discurso de Pavel tambem os havia encolerisado, mas o tom de energia
-em que fôra dito, reprimira-lhes o rancor e forçára-lhes o respeito.
-O russo-menor, porém, conseguira quebrar esta contenção e puzera a
-descoberto o que sob ella se occultava. Com crispações nas fisionomias,
-os juizes segredavam entre si, tinham gestos mais saccudidos,
-denunciadores da raiva que lhes ia no íntimo.
-
---Os senhores educam espiões, pervertem mulheres e donzellas, collocam
-o homem sério na situação d’um gatuno, d’um assassino, envenenam-no
-com a aguardente, deixam-no apodrecer nas masmorras!... As guerras
-internacionaes, a mentira, o deboche, o embrutecimento de todo o
-paiz--aqui está a vossa civilisação! Sim, somos inimigos de tal
-civilisação!
-
---Tenha a bondade!... gritou o velhinho, saccudindo ameaçador o queixo.
-
-Samoílof, rubro, o olhar em fogo, entrou a gritar ainda mais alto do
-que elle.
-
---Mas a civilisação que nós amamos e respeitamos é a outra, a que foi
-criada pelos que vós atirastes para as masmorras ou para os hospitaes
-de doidos...
-
---Retiro-lhe a palavra!... Fédia Mazine!
-
-O rapazinho levantou-se de chofre, como uma sovela a saír d’um furo e
-exclamou com voz saccudida:
-
---Eu... juro!... Eu bem sei, os senhores vão condemnar-nos!
-
-Suffocou; fez-se branco, só se lhe viam os olhos, muito brilhantes.
-Estendeu o braço e proseguiu:
-
---Dou-lhes a minha palavra d’honra! Mandem-me para onde quizerem, que
-eu hei-de fugir, hei de voltar, hei-de dedicar-me sempre pela causa do
-povo... pela liberdade da nação... toda a minha vida! Dou-lhes a minha
-palavra d’honra!
-
-Sizof soltou um gritinho. Toda a assistencia, revolucionada por vaga
-excitação, se mexia com um ruido surdo e singular. Chorava uma mulher;
-alguem tossia, suffocando. Os guardas, alternadamente olhavam para os
-réus com um espanto estupido e para a multidão do público, furiosos. Os
-juizes agitaram-se; o velho gritou:
-
---Goussef Yvan!
-
---Não falo!
-
---Goussef Vassili!
-
---Não quero responder!
-
---Bouckine Fédor!
-
-Loiro e meio descorado, ergueu-se pesadamente e disse com lentidão,
-meneando a fronte:
-
---Os senhores deviam envergonhar-se!... Eu, que não passo d’um
-ignorante, compreendo ainda assim o que deve ser a justiça!
-
-Levantou o braço acima da cabeça e calou-se, com as palpebras
-semi-cerradas, como se estivesse vendo qualquer coisa muito ao longe.
-
---Que diz? gritou o velho com attónito exaspero, reclinando-se na
-poltrona. Olhe que você!...
-
-Boukine deixou-se caír no banco tristemente. Havia nas suas palavras
-desacompanhadas de significação, alguma coisa immensa e importante, e
-ao mesmo tempo uma censura ingénua e penalisada. Foi esta a impressão
-que todos receberam. Os próprios juizes apuraram o ouvido, como
-para distinguirem um éco mais nitido de tal discurso. Nas bancadas
-reservadas ao público, tudo se calou; apenas ficou resoando um leve
-ruído de chôro. Depois sorriu-se o procurador e encolheu os hombros;
-o marechal da nobreza tossiu; de novo se elevaram susurros que
-serpenteavam vagamente pela sala.
-
-Pélagué inclinou-se para Sizof e perguntou-lhe:
-
---Os juizes falarão?
-
---Não; está tudo terminado. Só falta pronunciar o veredicto.
-
---E não ha mais nada?
-
---Não!
-
-Pélagué não podia acreditar. A mãe de Samoílof agitava-se anciosamente,
-tocando em Pélagué com o cotovello e com o hombro, e perguntando em voz
-baixa ao marido:
-
---Mas, como? É possivel?
-
---Bem vês!
-
---E o que é que vão fazer ao nosso filho?
-
---Cala-te! Deixa-me!
-
---Percebia-se que no público alguma coisa se havia perdido, anniquilado
-ou transformado. Os olhos desvairados, pestanejavam como se ardente
-lareira se lhes tivesse incendiado na frente. Embora não compreendessem
-o grande sentimento que acabava de despontar n’elles tão bruscamente,
-os curiosos iam, sem dar por isso, fragmentando-o em sensações
-evidentes, accessiveis e futeis. O irmão de Boukine dizia a meia voz,
-sem constrangimento algum:
-
---Perdão! Porque não os deixam falar? O procurador disse tudo o que
-quiz e durante todo o tempo que quiz!
-
-Perto da bancada estava uma sentinella. O soldado murmurava, agitando o
-braço:
-
---Silencio! silencio!
-
-O pae de Samoílof inclinou-se para traz, e, disfarçado com as costas da
-mulher, continuou a pronunciar em voz surda frases entrecortadas:
-
---Evidentemente!... Admittindo que elles sejam culpados, o dever do
-tribunal era deixal-os explicar-se... Contra quem se revoltaram elles?
-Contra tudo! Eu gostava de compreender, afinal! Porque isto tambem me
-interessa... De que lado está a verdade? Sim, eu queria compreender...
-É preciso que os deixem explicar-se!
-
---Silencio! gritou de novo a sentinella, ameaçando-o com um dedo.
-
-Sizof abanava a cabeça, apouquentado.
-
-Pélagué não perdia de vista os juizes. Notava-lhes a crescente
-excitação, via-os falar uns com os outros, mas não podia comprehender o
-que diziam. O susurro frio e escorregadio das suas vozes perpassava-lhe
-pelo rosto, fazia-lhe tremer nervosamente as faces e provocava-lhe
-na bôca uma sensação desagradavel. Afigurava-se-lhe que estavam
-falando todos elles do corpo de seu filho e do dos seus companheiros,
-d’aquelles corpos robustos, dos seus músculos e dos seus membros cheios
-de vermelho sangue e de força vivente. Estes corpos deviam excitar
-n’elles uma inveja impotente e malvada, uma avidez ardente de esgotados
-e doentes. Falavam com estalidos sêcos dos lábios, com o pezar de não
-possuirem aquelles músculos, capazes de trabalhar e de enriquecer, de
-gozar e de criar. Agora, iam aquelles corpos saír da circulação activa
-da vida, renunciavam a ella, ninguem poderia mais chamar-lhes seus,
-aproveitar a sua força, nem absorvel-os. E era por isso que inspiravam
-aos velhos magistrados a animosidade vingativa e desconsolada das feras
-já sem forças que teem diante de si a carne fresca, mas já não dispõem
-da energia sufficiente para d’ella se apoderarem.
-
-E quanto mais Pélagué olhava para elles, mais esta idéa grosseira
-e singular se accentuava no seu espirito. Parecia-lhe que estavam
-patenteando claramente a sua rapacidade e a sua sanha de esfomeados,
-capazes, em tempos idos, de comer muito. Ella, a mulher e mãe, para
-a qual o corpo do filho tinha sido sempre e a despeito de tudo, mais
-querido do que a própria alma, sentia-se horrorisada com os olhares
-sem viço que perpassavam pelo rosto d’elle, tateando o peito, os
-hombros, os braços, roçando-se pela ardente pelle, como em busca de
-uma possibilidade de se reanimarem, de requentarem o sangue das suas
-veias endurecidas, dos seus músculos gastos de homens semi-mortos.
-Parecia a Pélagué que o seu filho sentia aquelles contactos frios e que
-estremecia quando para ella olhava.
-
-O mancebo fixava em sua mãe os olhos um tanto fatigados, mas calmos e
-affectuosos. Por momentos, sorria-lhe e fazia-lhe um signal de cabeça.
-
---Em breve estarei em liberdade! dizia este sorriso, que era uma
-caricia para o coração de Pélagué.
-
-N’este comenos, levantaram-se os juizes todos ao mesmo tempo. Pélagué
-seguiu-lhes instinctivamente os movimentos.
-
---Vão-se embora! disse Sizof.
-
---Para os condemnar! perguntou ella.
-
---Sim...
-
-Dissipára-se de súbito a tensão de espirito em que até ali estivera;
-pesado cansaço lhe invadiu o corpo; aljofraram-lhe a fronte gotas de
-suor. Um sentimento de cruel decepção e de humilhação impotente brotou
-no seu coração e depressa se transformou em profundo desprezo pelos
-juizes e pelo seu julgamento. Assaltou-a violenta dôr nas fontes;
-esfregou a testa com a palma da mão e olhou em torno: os parentes
-dos réus tinham-se approximado do gradeamento, a sala enchia-se de
-um ruído surdo de conversações. Ella caminhou tambem para o filho,
-apertou-lhe a mão e entrou a chorar, tomada a um tempo, de desgosto e
-de contentamento. Pavel dirigiu-lhe algumas palavras de confôrto. André
-ria e gracejava.
-
-Mais por hábito do que por desgosto, todas as mulheres choravam. O
-que se sentia não era aquella dôr que atordoa como estúpido golpe
-descarregado bruscamente na cabeça: tinha-se a consciencia da triste
-necessidade de abandonar os filhos, mas esta magua confundia-se,
-sumia-se nas impressões que eram filhas da opportunidade. Os paes
-olhavam para os filhos com uma expressão em que a desconfiança que
-lhes era inspirada pela mocidade e pela consciencia da propria
-superioridade, se confundia singularmente com uma espécie de respeito
-por elles. Ao mesmo tempo que a si próprios perguntavam com tristeza
-como passariam elles agora a viver, os velhos olhavam com curiosidade
-para aquella nova geração que discutia audaciosamente a possibilidade
-d’uma existencia differente d’aquella e melhor. Não sabiam exprimir
-o que sentiam, pois faltava-lhes para tanto o hábito; as palavras
-corriam abundantes, das bôcas, mas não se falava mais do que de coisas
-vulgares, de fatos e roupas, de cuidados necessarios; aconselhavam até
-os condemnados a não irritarem inutilmente os superiores.
-
---Todos andamos cansados d’isto! disse Samoílof ao filho. Nós tanto
-como elles!
-
-O mais velho dos Boukine agitava a mãe e exortava o mais novo:
-
---Ahi está a justiça d’essa gente! Custa acceital-a!
-
-O rapaz respondeu:
-
---Has de tratar bem do estorninho, sim?... Gostava tanto d’elle!
-
---Ainda ha de ser vivo quando voltares!
-
-Sizof tomára pela mão o sobrinho e dizia com vagar:
-
---Então foi assim que tu fizeste, Fédia? Foi assim?
-
-Fédia curvou-se para elle e segredou-lhe o que quer que fôsse ao
-ouvido, com um riso de esperteza. O soldado que lhes estava próximo
-sorriu tambem, mas logo retomou os seus ares de gravidade e resmungou.
-
-Pélagué limitava-se, como os outros, a conversar ácerca de arranjos de
-roupas e cuidados de saúde, mas no coração reprimia mil interrogações
-relativas a Pavel, a Sachenka e a si própria. E sob as suas palavras
-banaes, lentamente se desenvolvia o sentimento de immenso amor que
-dedicava ao filho, o ardente desejo de o captivar, de viver no seu
-coração. A espectativa do acontecimento terrivel desapparecera,
-deixando unicamente, apóz si, um arrepio desagradavel, quando se
-lembrava dos juizes, agora ausentes.
-
-Sentia nascer em si uma intensa alegria luminosa, mas não a compreendia
-e isto trazia-a perturbada.
-
-Viu que o russo-menor falava muito com todos os que o rodeavam,
-e entendendo que elle, mais do que Pavel, precisava de confôrto,
-disse-lhe:
-
---Não me agradou a audiencia!
-
---Porquê, mãesinha?! exclamou André. É um moinho velho, mas vae sempre
-moendo!
-
---É uma coisa, afinal, que não mette medo algum, e é incompreensivel!
-Nem ao menos se procura averiguar a verdade! disse ella hesitante.
-
---Oh! Era isso o que queria? exclamou André. Mas então imagina que
-alguem se importa aqui com a verdade?
-
-Pélagué suspirou.
-
---Eu imaginava que isto fôsse coisa muito séria... mais séria ainda do
-que na igreja!... Que se celebrava o culto da verdade!...
-
---Querida mãe: onde a verdade é respeitada sabemol-o nós! disse Pavel
-em voz baixa e no tom de quem perguntasse sem affirmar.
-
---E a mãesinha tambem o sabe! acrescentou o russo-menor.
-
---O tribunal!
-
-Correram todos para os seus logares.
-
-Com uma das mãos apoiada na mesa, o presidente occultou a cara por
-detraz d’um papel e pôz-se a ler com uma voz debil qual zumbido:
-
-«O Tribunal... depois de ter deliberado...»
-
---É a condemnação! disse Sizof, apurando o ouvido.
-
-Fez-se silencio. Todos se haviam posto de pé, com os olhos fitos no
-velhinho. Sêcco e hirto, assemelhava-se este a um cacete sobre o
-qual mão invisivel se apoiasse. Os juizes estavam tambem de pé; o
-syndico do bailiado, com a cabeça pendente no hombro, dirigia o olhar
-para o tecto; o administrador da communa cruzava os braços no peito;
-o marechal da nobreza afagava a barba. O juiz com cara de doente,
-o seu collega barrigudo e o procurador, olhavam todos na direcção
-dos accusados. E por detraz dos juizes, por cima das suas cabeças,
-apparecia o czar, de uniforme encarnado.
-
-Um insecto ia-lhe marinhando pela cara, pálida e indifferente; uma teia
-d’aranha balouçava ao vento.
-
-«são condemnados a deportação para a Sibéria»...
-
---O degredo! disse Sizof com um suspiro de alivio. Finalmente, já
-passou, Deus louvado! Muita gente esperava os trabalhos forçados. Isto
-assim, já não é tão mau, tiasinha; não vale mesmo nada!
-
---Eu já o adivinhava, disse Pélagué baixinho.
-
---Assim como assim, agora é certo!... Mas vá lá a gente saber, com uns
-juizes d’estes!
-
-Voltou-se para os condemnados, a quem faziam já abandonar o pretorio, e
-disse alto:
-
---Até á vista, Fédia!... Até á vista, vocês todos! Que Deus os proteja!
-
-Pélagué fez um signal de cabeça a Pavel e aos seus companheiros. A sua
-vontade era chorar, mas conteve-a uma espécie de vergonha.
-
-
-
-
-XXVII
-
-
-Ao sair do tribunal, ficou Pélagué admiradissima com vêr que já
-a noite caíra sobre a cidade, os candieiros das ruas accesos; as
-estrellas scintillando no céu. Nas circumvisinhanças do palácio da
-justiça, formavam-se pequenos agrupamentos; na gélida atmosfera,
-ouvia-se o ruído da neve rangendo sob o andar; vozes de gente nova
-interpellavam-se mutuamente. Approximou-se de Sizof um homem coberto
-com um capuz cinzento e perguntou em voz rápida:
-
---Qual foi a sentença?
-
---O degredo.
-
---Para todos elles?
-
---Para todos...
-
---Obrigado!
-
-O homem afastou-se.
-
---Bem vês! disse Sizof á mãe de Pavel. Bem vês como isto os interessa.
-
-De súbito, encontraram-se cercados por uma dúzia de rapazes e
-raparigas. Entraram a chover as exclamações, que attraíam ainda mais
-gente para o grupo. Sizof e Pélagué tiveram de parar. Todos queriam
-conhecer a sentença, saber como se tinham comportado os réus, quem
-tinha pronunciado discursos e sobre que assunto. E em todas estas
-perguntas vibrava a mesma nota de curiosidade ávida e sincera.
-
---É a mãe do Pavel Vlassof! gritou uma voz.
-
-Calaram-se todos á uma.
-
---Permitta que lhe aperte a mão!
-
-E logo uma mão sólida se lhe apoderou da sua, com vigor. A mesma voz
-continuou, trémula de entusiasmo:
-
---O seu filho será para nós todos um nobre exemplo!
-
---Viva o operariado russo! gritou uma voz vibrante.
-
---Viva a revolução!
-
---Morra a autocracia!
-
-Multiplicavam-se os brados, cada vez mais violentos; rebentavam pelo
-ar, cruzando-se; accudia gente de todos os lados e apinhava-se em
-torno de Sizof e Pélagué. Os apitos dos policias rasgavam o ar, mas
-sem conseguirem dominar o borborinho. O velho ria. Quanto a Pélagué,
-parecia-lhe tudo aquillo um bello sonho. Sorria, apertava centenas de
-mãos, cumprimentava. Comprimiam-lhe a garganta lagrimas de felicidade;
-vergavam-lhe as pernas de cansadas, mas o seu coração, transbordando de
-triumfante alegria, reflectia as suas impressões como o claro espelho
-da água d’um lago.
-
-Perto d’ella, uma voz clara exclamou em tom enervado:
-
---Companheiros! amigos! O monstro que devora o povo russo, satisfez
-hoje mais uma vez os seus appetites!...
-
---Vamo-nos embora! disse Sizof.
-
-N’esse mesmo instante, appareceu Sachenka. Agarrou Pélagué por um braço
-e puxou-a para o passeio opposto, aconselhando:
-
---Venha... A policia póde atirar-se para cima de nós e bater-nos... Ou
-vão prender-nos... E então? Foi o degredo, não foi? Para a Sibéria?
-
---Sim, é verdade!...
-
---E elle que fez? Falou? Eu já sei tudo, afinal... É elle o mais
-valoroso tambem, é certo! É sensivel e terno, mas sempre se acanha
-quando tem de manifestar os seus sentimentos. É firme e resoluto como
-a própria verdade!... É um grande homem, e tudo reside n’elle...
-tudo! Mas a maior parte das vezes, elle próprio se constrange... com
-o receio de não se entregar todo elle, d’alma e coração, á causa do
-povo... Eu sei-o bem!
-
-Estas palavras d’amor, segredadas em um desabafo de paixão, acalmaram
-Pélagué, reanimando-lhe as desfallecidas forças.
-
---Quando vae encontrar-se com elle? perguntou á rapariga, em voz baixa
-e affectuosa, puxando-a muito para si.
-
-Sachenka respondeu, com o olhar fito na sua frente, e com tranquilla
-decisão:
-
---Tão depressa encontre quem se encarregue do meu trabalho! Porque em
-breve me tocará a vez de responder em juizo... Hão de mandar-me tambem
-para a Sibéria. Direi então que desejo ser deportada para o sitio em
-que elle estiver...
-
-Por detraz das duas mulheres ouviu-se então a voz de Sizof:
-
---Faça-lhe os meus cumprimentos!... Chamo-me Sizof. Elle conhece-me:
-sou tio do Fédia Mazine.
-
-Sachenka parou para se voltar e estender-lhe a mão:
-
---Eu conheço o Fédia. O meu nome é Sachenka.
-
---E o seu nome de familia?
-
-Ella lançou-lhe um breve olhar, e respondeu:
-
---Não tenho familia. Já não tenho pae.
-
---Morreu?
-
---Não, está vivo! declarou já excitada.
-
-E alguma coisa obstinada, teimosa, lhe vibrou na voz e transpareceu nas
-feições. É um proprietario rural, e é chefe do districto. Agora, rouba
-a gente do campo... e maltrata-a!
-
---Ah! proferiu Sizof arrastadamente.
-
-E apóz silencio, ajuntou, ao mesmo tempo que examinava a rapariga de
-soslaio:
-
---Bem, então, adeus, tiasinha! Eu vou por aqui!... Apparece para tomar
-chá e cavaquear um pedaço... quando quizeres!... Até mais vêr, minha
-menina!... A menina é muito severa para com o seu pae!... Está claro
-que isso é lá comsigo!...
-
---Se seu filho fôsse um homem inutil, prejudicial aos outros, o senhor
-dizia-o? exclamou Sachenka, com paixão.
-
---Dizia, sim, senhora! respondeu o velho, depois de hesitar um momento.
-
---Por consequencia, a verdade merecer-lhe-ia mais apreço do que o seu
-filho. Pois a mim merece-me mais apreço do que o meu pae...
-
-O outro abanou a cabeça, e em seguida, suspirando:
-
---Ah! é astucioso, sim, senhora! Se tem assim resposta para tudo,
-os velhos não pódem resistir-lhe! Sabe atacar pela certa! Até mais
-vêr! Desejo-lhe todas as felicidades possiveis... Mas seja mais
-condescendente com as pessôas sim? Que Deus vá comsigo! Adeus, Pélagué!
-Se falares com o Pavel, diz-lhe que ouvi o seu discurso... Não percebi
-tudo... Até me metteu medo em certas occasiões, mas o que elle disse é
-a verdade!
-
-Ergueu o bonné e desappareceu, sem se apressar, na volta da esquina.
-
---Deve ser um bom homem! observou Sachenka, seguindo-o com olhar
-risonho.
-
-Parecia a Pélagué vêr no rosto da sua companheira expressão mais meiga
-e melhor do que de costume...
-
-Chegadas a casa, sentaram-se no canapé, muito uma á outra. Pélagué
-referiu-se de novo aos planos de Sachenka. Com as espessas sobrancelhas
-muito erguidas, pensativa, a outra olhava para distante com os seus
-grandes olhos de sonho. Lia-se-lhe no pálido rosto uma pacífica
-concentração d’espírito.
-
---Mais tarde, quando tiverem filhos, tambem eu para lá irei, para
-tratar d’elles. E não havemos de viver peor lá do que vivemos aqui... O
-Pavel ha de encontrar trabalho; é muito habilidoso.
-
-Sachenka olhava agora para ella, perscrutando-lhe os pensamentos.
-Interrogou:
-
---Não deseja então ir juntar-se a elle desde já?
-
-Respondeu, com um suspiro:
-
---Para quê? Nada mais iria fazer-lhe do que causar-lhe incómmodo, caso
-elle quizesse fugir. E depois, elle não mo consentia...
-
-Murmurou Sachenka:
-
---Não, com effeito...
-
---Além d’isso eu tenho que fazer aqui, accrescentou a mãe de Pavel com
-um tanto de ufania.
-
---Sim, é verdade! secundou, pensativa, a outra. E sabe trabalhar muito
-bem...
-
-Mas de repente estremeceu, como se acabasse de libertar-se de um peso
-qualquer, e logo annunciou com simplicidade, a meia voz:
-
---Decididamente, elle não se demora na Sibéria... Ha de fugir... É
-certo!
-
---Mas, então, que ha de ser feito de si? E a creança, se a tiverem?
-
---Não sei; veremos. O que eu não quero é que elle viva em cuidados
-por minha causa. Dou-lhe plena liberdade para fazer o que quizer,
-em qualquer occasião que seja. Não sou mais do que uma simples
-correligionaria. Bem sei que me ha de ser terrivelmente custoso
-deixal-o... mas hei de saber conformar-me... Não quero importunal-o em
-coisa alguma, isso não!
-
-Sentia Pélagué que Sachenka era capaz de executar o que dizia. Cheia de
-commiseração por ella, tomou-a nos braços:
-
---Minha querida... Muito tem que soffrer!...
-
-Sachenka sorriu com meiguice; comprimiu-se toda contra o corpo de
-Pélagué; subiu-lhe o rubor ás faces.
-
---Isso ainda vem longe... Mas não julgue que seja um sacrificio penoso
-para mim. Sei o que faço, sei com o que posso contar, serei feliz
-se elle se considerar feliz comigo... O meu desejo, o meu dever,
-é aumentar a sua energia, dar-lhe toda a felicidade que esteja em
-meu poder, muita felicidade! Amo-o muito... e elle ama-me, que sei
-eu! Retribuir-nos-emos dos nossos sentimentos, enriquecer-nos-emos
-mutuamente, tanto quanto pudermos; e, se assim fôr necessario,
-separar-nos-emos como bons amigos...
-
-Por entre um sorriso de felicidade, a mãe disse lentamente:
-
---Eu irei juntar-me a vocês ambos... Talvez eu tambem seja exilada...
-
-E por muito tempo as duas mulheres permaneceram estreitamente
-abraçadas, sem uma palavra, pensando n’aquelle que amavam. O silencio,
-a tristeza, uma tépida suavidade, as envolviam.
-
-Nicolao chegou n’este comenos, fatigadissimo. Rapidamente, emquanto se
-despia, foi dizendo:
-
---Sachenka, vá-se depressa, se não depois talvez já não tenha tempo!
-Desde esta manhã andam dois espiões a seguir-me tão ás claras que me
-cheira a mandado de prisão... Tenho um presentimento... Deve-nos ter
-acontecido alguma infelicidade, onde, ainda não sei... A propósito: ahi
-tem o discurso do Pavel; foi decidido imprimil-o. Leve-o á Lioudmila,
-supplique-lhe que o componham o mais breve possivel. O seu Pavel falou
-muito bem, Pélagué!... Sachenka, tome cuidado com os espiões! Espere,
-leve tambem estes papeis; dê-os ao doutor, por exemplo.
-
-E ao dizer isto, esfregava vigorosamente uma contra a outra as mãos,
-que trazia regeladas. Em seguida, foi á mesa, abriu as gavetas, d’onde
-extraíu varios documentos. Preoccupadissimo e com os cabellos em
-desalinho, entrou a folheal-os á pressa, rasgou uns, emmaçou outros.
-
---Olhem que não ha ainda muito tempo que eu puz tudo isto em ordem, e
-vejam que montão enorme cá tenho outra vez! Demónio!... Talvez fôsse
-melhor não dormir cá esta noite, Pélagué! Que lhe parece? Não é das
-melhores coisas ter de assistir a essa comédia, os guardas são capazes
-de a levar tambem... e é absolutamente necessário que vá por esses
-campos distribuir o discurso do Pavel...
-
---Ora adeus! porque é que me haviam de prender? contestou ella. E
-d’ahi, talvez se engane, talvez não venha ninguem...
-
-Nicolao redargiu em tom de confiança e agitando a mão:
-
---O meu faro nunca me enganou!... Alem d’isso, vocemecê podia auxiliar
-a Lioudmila! Vá-se emquanto é tempo ainda...
-
-Na satisfação de ir cooperar na impressão do discurso de seu filho,
-ella respondeu:
-
---Pois se assim é, cá me vou. Mas olhe que não é porque tenha medo...
-
-E com admiração de si própria, proferiu estas palavras em voz baixa mas
-decidida:
-
---Agora, já não tenho medo de nada!... Deus louvado! já sei tudo o que
-queria...
-
---Ás mil maravilhas! exclamou Nicolao, sem a fitar. Ah! diga-me onde
-está a minha roupa branca e a minha mala. A senhora de tudo tem cuidado
-com tal carinho, que me vejo de todo incapaz de descobrir o que é minha
-propriedade pessoal! Eu vou preparar-me. Os polícias é que vão ter uma
-desagradavel surpresa!
-
-Sachenka ia queimando no fogão os papeis rasgados. Quando os viu
-de todo consumidos, teve o cuidado de misturar as cinzas com as do
-combustivel.
-
---Vá, Sachenka, vá! disse-lhe Nicolao com um aperto de mão. Até á
-vista! Não se esqueça de me mandar livros, se fôr publicada qualquer
-coisa de novidade e intensa. Até á vista, cara correligionaria! E trate
-sobretudo de ter prudencia...
-
---Julga estar muito tempo na prisão? perguntou Sachenka.
-
---O demónio que o julgue! Bastante tempo, com certeza... Teem diversos
-pecadinhos a censurar-me... Pélagué, saia ao mesmo tempo com Sachenka.
-É mais difficil seguir duas pessôas.
-
---Bem! concordou ella. Eu já me visto.
-
-Observára Nicolao attentamente, e nada anormal descobrira n’elle, a não
-ser a preoccupação que lhe velava o olhar bondoso e complacente. Não
-lhe vira apparentar emoção alguma.
-
-Igualmente attencioso para com todos, affectuoso e metódico, sempre
-socegado e solitário, levava a mesma existencia, misteriosa no seu
-fôro íntimo e como que antepondo-se a todas as deligencias alheias.
-Pélagué estimava-o tal qual elle era, com um amor prudente, que parecia
-duvidar de si mesmo. E agora experimentava por Nicolao uma compaixão
-indizivel; mas dominava-a porque sabia que se elle lh’a notasse, havia
-de commover-se e tornar-se um pouco ridículo, como habitualmente. Não
-era sob este aspecto que Pélagué o queria vêr.
-
-Já vestida, voltou ao gabinete. Nicolao estava apertando a mão de
-Sachenka. Dizia-lhe:
-
---Optimamente! Estou certo de que ha de ser bom para elle, como para
-si... Um poucochinho de felicidade pessoal nunca causa damno... Mas
-olhe que não é bom que seja demasiada, para não perder o valor. Está
-pronta, mãesinha!
-
-Acercou-se d’ella, compondo os óculos.
-
---Bem! Então, até á vista!... d’aqui a trez, quatro ou seis mezes. É
-muito tempo!... Que de coisas se podem fazer em seis mezes! Poupe-se,
-sim? Peço-lh’o. Vá lá! Venha um abraço!
-
-Passou os robustos braços em torno do pescoço de Pélagué e fitando-lhe
-muito os olhos, disse com um riso muito franco:
-
---Parece-me que estou apaixonado por si... Não faço senão abraçal-a!
-
-Sem lhe responder, ella beijou-o na testa e nas faces. As mãos
-tremiam-lhe: deixou-as pender para que elle não o notasse.
-
---Então, vae partir?... Ás mil maravilhas!... Mas tome cautella, seja
-prudente! Olhe: mande um rapazito aqui ámanhã pela manhã; a Lioudmila
-tem um lá em casa. Por elle ficará sabendo o que se tiver passado. Bem,
-até mais vêr, camaradas! Tudo vae bem!... Que tudo continue bem, é o
-que se quer!
-
-Pela rua, commentava Sachenka em voz baixa:
-
---Com aquella mesma simplicidade é capaz de ir para a morte, se fôr
-preciso... Só com um pouco de pressa, como ainda agora. Quando lhe
-chegasse a sua hora final, ajustava os óculos, dizia assim: «Ás mil
-maravilhas!» e morria!
-
---Amo-o devéras! segredou Pélagué.
-
---Pois a mim, causa-me espanto! Quanto a amal-o, não! Estimo-o,
-simplesmente. Acho-o muito sêco, ainda que lhe encontre certa
-bondade e ás vezes até alguma ternura. Mas não possue em si bastante
-humanidade... Parece-me que vamos sendo seguidas. Separemo-nos. Não vá
-a casa da Lioudmila, se desconfiar que a vigiam...
-
---Bem sei! respondeu ella.
-
-Mas Sachenka insistiu ainda:
-
---Não vá para casa d’ella... Se tal succeder, venha antes para a minha.
-Até mais vêr!
-
-Virou-se rápida e voltou pelo mesmo caminho.
-
-A outra gritou-lhe:
-
---Até á vista!
-
-
-
-
-XXVIII
-
-
-Minutos depois, aquecia-se Pélagué junto do fogão, no quarto de
-Lioudmila. Vestida de preto, esta ultima passeava devagar pelo estreito
-aposento, que enchia com o rugir das suas saias e com a soberania
-da sua voz autoritária. No fogão, a lenha estralejava e assobiava,
-aspirando o ar do quarto. Vibrava a voz igual e monótona da dona da
-casa:
-
---Os homens são infinitamente mais tôlos do que maus. Não sabem vêr
-senão o que lhes fica perto, o que teem ao seu alcance immediato!...
-Ora tudo o que nos fica próximo é mesquinho; só o que se encontra
-afastado tem valor. Na realidade, seria vantajoso para todos que a
-vida se tornasse mais facil e as creaturas mais intelligentes... Mas
-para chegarmos a isso, forçoso é renunciar por emquanto a viver com
-tranquilidade.
-
-Aqui, estacou de súbito em frente de Pélagué e accrescentou mais baixo,
-como para desculpar-se:
-
---Dou-me com tão pouca gente!... Quando alguem vem a minha casa,
-ponho-me logo a discursar!... É ridículo, não é?
-
---Ora essa! Porquê?
-
-Diligenciava Pélagué descobrir onde era que Lioudmila imprimia os
-folhetos, mas não via em torno de si nada extraordinario. No quarto,
-com trez janellas para a rua, havia um canapé, um armário com livros,
-uma mesa, cadeiras, uma cama encostada a uma das paredes; n’um dos
-cantos, o lavatório, n’outro, o fogão; pelas paredes fotografias. Tudo
-isto com apparencia de novo, sólido e aceado. E n’este conjunto, a
-figura quasi monástica da dona do aposento era principalmente o que
-impunha severo aspecto. Presentia-se haver n’aquelle quarto o que quer
-que fôsse misterioso e occulto.
-
-Olhou depois para as portas: penetrára no quarto por uma d’ellas--a que
-abria para uma exigua casa de entrada; perto do fogão, havia outra,
-alta e estreita.
-
---Vim para tratar de certo negócio... disse ella um tanto confusa, ao
-ver que Lioudmila a estava observando.
-
---Já sei. Ninguem vem a minha casa com outro motivo.
-
-Pareceu a Pélagué vibrar na voz da sua interlocutora uma intenção
-singular; via-lhe um sorrisinho nas delgadas commissuras dos lábios, e
-as pupilas, baças habitualmente, brilhavam-lhe por detraz dos vidros da
-luneta. Desviou portanto o olhar e apresentou-lhe o manuscrito com o
-discurso de Pavel.
-
---Aqui está. Pedem-lhe que o imprima o mais depressa que possa.
-
-E narrou os preparativos a que Nicolao procedera, prevendo a sua
-captura.
-
-Sem dizer uma palavra, Lioudmila entalou o papel no cinto e sentou-se
-n’uma cadeira. Agitavam-se-lhe pelo rosto impassivel os reflexos do
-lume.
-
---Quando os polícias vierem a minha casa, faço fogo para cima d’elles!
-declarou. Tenho o direito de defender-me contra a violencia e o dever
-de luctar contra ella, visto que instigo tambem os outros a fazel-o!
-
-A vermelhidão das chammas desappareceu-lhe do rosto, o qual voltou a
-mostrar-se severo e um pouco altivo.
-
-«Deve ser bem trabalhosa a vida que levas»--foi o súbito pensamento que
-accudiu ao espirito de Pélagué, acompanhado d’um sentimento d’affeição.
-
-Ella pôz-se a lêr o discurso de Pavel, primeiro, sem vontade, depois,
-curvando-se cada vez mais sobre o papel. Ia atirando rapidamente para
-o chão as folhas já lidas. Finda a leitura, levantou-se, endireitou o
-tronco e foi para a outra:
-
---Está muito bom! Ahi está do que eu gosto! É nitido e claro!
-
-Inclinou a cabeça e reflectiu um instante.
-
---Não quiz falar-lhe do seu filho: nunca o vi e não me agradam as
-conversas tristes. Eu sei o que se sente quando vemos um dos nossos ir
-para o degredo!... Diga-me: é agradavel ter-se um filho como elle?
-
---Sim, muito agradavel!
-
---E deve ser coisa terrivel tambem?...
-
-Com um sereno sorriso, Pélagué respondeu:
-
---Não; agora já não...
-
-Lioudmila alisou com a mão, muito morena, os cabellos penteados em
-bandós; depois, voltou-se para a janella: palpitava-lhe nas faces uma
-leve sombra apaixonada.
-
---Vamos imprimir isso... Quer ajudar-me?
-
---Certamente!
-
---Vou compôr o mais depressa possivel. Deite-se; o dia deve-lhe ter
-sido fatigante. Vê-se que está cansada. Deite-se n’aquella cama, que eu
-não durmo hoje. Talvez tenha de a accordar de noite, para me auxiliar.
-Antes de adormecer, apague o candieiro.
-
-Accrescentou duas achas ao lume e saíu pela porta estreita, praticada
-ao lado do fogão, que tornou a fechar cuidadosamente apóz si.
-
-Pélagué seguira-a com o olhar. E emquanto se despia, pensava
-maquinalmente na sua hospedeira:
-
-«É um caracter severo... E vê-se que soffre, a pobre senhora!»
-
-O cansaço esvaía-lhe a cabeça; no entretanto, sentia o coração
-singularmente calmo; no seu espirito, tudo se illuminava com suave
-e cariciosa luz. Pélagué conhecia já aquella tranquillidade, que
-segue sempre ás grandes commoções; antigamente, inquietava-a, mas
-agora, fazia que a sua alma se expandisse, revigorada em forte e
-puro sentimento. Apagou o candieiro, deitou-se na cama muito fria,
-encolheu-se, aconchegando a si os cobertores e adormeceu logo em
-profundo somno.
-
-Quando descerrou os olhos, estava o quarto banhado da claridade gélida
-e branca d’um desanuviado dia d’inverno. Estendida no canapé, com um
-livro na mão, Lioudmila fitava-a com uma expressão de ternura que a
-transfigurava.
-
---Deus meu! exclamou Pélagué, confundida. Quanto tempo eu dormi! É
-muito tarde, pois não é?
-
---Bom dia! respondeu-lhe Lioudmila. Vão dar as dez horas. Levante-se
-para irmos almoçar.
-
---Porque não me accordou?
-
---Tive idéa d’isso; mas a senhora mostrava um sorriso tão bonito,
-emquanto dormia...
-
-N’um movimento ágil do seu corpo robusto e flexivel, Lioudmila
-levantou-se, approximou-se do leito, curvou-se sobre o rosto d’ella; e
-Pélagué poude distinguir nos olhos sem brilho da sua hospedeira alguma
-coisa familiar, amigavel, compreensivel.
-
---... que não quiz despertal-a... Era um bello sonho que estava tendo,
-com certeza...
-
---Não, senhora; não sonhei com coisa alguma.
-
---Pois é pena... Mas gostei de vêr aquelle seu sorriso: achei-o tão
-meigo, tão santo!
-
-E Lioudmila poz-se a rir, um rir aveludado e discreto.
-
---Entrei a pensar em si, na sua vida... Porque a sua existencia deve
-ser ardua!
-
-Pélagué contraíu os sobrolhos, pensativa.
-
---Não sei! respondeu, hesitante. Ha momentos em que me parece que
-sim... mas não é verdade! Ha tantas coisas... coisas espantosas e
-graves, que se seguem com tanta rapidez umas ás outras!...
-
-Subia-lhe ao peito a onda de excitação que ella conhecia bem,
-enchendo-lho d’imagens e de pensamentos. Sentou-se na cama e deu-se
-pressa em revestir de palavras as suas idéas.
-
---Tudo o que estamos presenceando caminha para o mesmo fim, como o
-fogo, quando arde uma casa, tende sempre a subir! Aqui, abre caminho,
-mais além, brilha intensamente, sempre mais violento, sempre mais
-luminoso... Ha tanta coisa que custa vêr! Se soubesse!... Essa pobre
-gente soffre, é incommodada, espiada... Batem-lhes, batem-lhes com
-crueldade... Elles, então, occultam-se a todas as vistas, passam a
-viver como frades. Quantas alegrias ha que lhe são defezas!... E é
-triste assim, a vida!
-
-Lioudmila ergueu com vivacidade a cabeça e fitou Pélagué com profundo
-olhar.
-
---Não é de si que está falando! observou em voz baixa.
-
---De mim!... repetiu ella, emquanto se ia vestindo. E póde alguem
-collocar-se á parte, quando o nosso coração ama alguma coisa, quando
-este ou aquelle nos é querido, quando se sente medo e compaixão por
-todos?... Tudo isto se nos entrechoca na alma, attraída assim para cada
-um d’esses infelizes... Como podemos collocar-nos á parte? Para nos
-refugiarmos onde?
-
-Já meio vestida, permaneceu um instante pensativa no meio do quarto.
-E subitamente, afigurou-se-lhe que já não era ella a mesma creatura
-que tanto se inquietára e alarmára pela sorte de seu filho; tal
-personalidade já não existia, tinha-se desapegado e afastado d’ella.
-Escutou-se então a si própria, no desejo de saber o que se passava no
-seu íntimo, embora receasse despertar outra vez o seu velho sentimento
-de anciedade.
-
---Em que está pensando? perguntou-lhe Lioudmila affectuosamente.
-
---Nem eu sei!
-
-Calaram-se as duas, olharam uma para a outra e sorriram. Depois,
-Lioudmila abalou do quarto, murmurando:
-
---Que estará fazendo o meu samovar?
-
-Pélagué olhou então pela janella. Lá fóra, reinava a frialdade d’um
-luminoso dia d’inverno. Ella, no âmago do coração, sentia tambem uma
-claridade igual áquella, mas quente. O seu desejo seria falar de tudo;
-demorada e jovialmente, n’um vago sentimento de gratidão por tudo o que
-baixára á sua alma, tornando-lha assim bem formada. Sentiu, o que havia
-muito não lhe succedia, um desejo de rezar. Veiu-lhe então á lembrança
-um rosto moço e imberbe; na sua memória ecoou uma voz delgada: «É a mãe
-do Pavel Vlassof...» Scintillavam os meigos olhos joviaes de Sachenka;
-desenhava-se o negro perfil de Rybine; sorria o rosto valoroso e
-bronzeado de Pavel; Nicolao piscava os olhos, acanhado. E de repente,
-todos aquelles rostos amigos foram eclipsados em meio d’um suspiro
-ligeiro mas de significação profunda; baralharam-se, confundiram-se
-em uma nuvem transparente e multicolor, que envolvia o coração em um
-sentimento de paz.
-
---O Nicolao tinha razão! disse Lioudmila ao regressar ao quarto. Foi
-preso, não ha duvida possivel! Conforme me recommendou, mandei um
-rapazito a casa d’elle. Já voltou. Diz que estão lá agentes de polícia
-escondidos no páteo; que viu um por detraz da porta da rua. Os espiões
-vigiam ao de redor da casa; o pequeno conhece-os.
-
---Ah! limitou-se Pélagué a dizer, com um meneio de cabeça. Pobre
-Nicolao!
-
---N’estes ultimos tempos, elle fazia muitas prelecções aos operários
-da cidade; estava desmascarado; era tempo e mais que tempo que
-desapparecesse! proseguiu Lioudmila em tom sombrio mas sereno. Os
-companheiros andavam sempre a dizer-lhe que saísse da cidade; elle não
-quiz dar-lhes ouvidos!... A minha opinião é que, em taes casos, o que
-se deve não é aconselhar as pessôas, mas obrigal-as!
-
-Á porta appareceu um rapazito de cabello preto, pelle rosada, nariz
-aquilino e bonitos olhos azues.
-
---Quer que traga o samovar? perguntou com voz sonora.
-
---Traz, sim, Sérgio, se fazes favor. É meu discipulo... Não o conhecia?
-
---Não.
-
---Tenho-o mandado algumas vezes a casa do Nicolao.
-
-Pélagué, entretanto, achava Lioudmila muito mudada, parecia-lhe
-mais singela de maneiras, mais compreensivel. Havia nos movimentos
-graciosos do seu esbelto corpo, belleza e força, a attenuarem o que
-no rosto pálido tinha de severidade. Com a noite perdida as olheiras
-haviam-se-lhe cavado mais. Sentia-se-lhe nos modos um esforço
-continuado, como se na sua alma vibrasse uma corda em demasiada tensão.
-
-O rapaz trouxe o samovar.
-
---Sérgio, olha a senhora Pélagué Vlassof, a mãe do operário que foi
-hontem condenado.
-
-A criança inclinou-se em silencio, apertou a mão de Pélagué, tornou a
-saír e voltou trazendo pão.
-
-Sentou-se tambem á mesa. Emquanto ia servindo o chá, Lioudmila
-aconselhou Pélagué a não voltar para casa sem que se soubesse quem era
-a pessôa alvejada pelas deligencias policiaes.
-
---Talvez seja a senhora mesma... Hão de querer interrogal-a.
-
---Que me importa! redarguiu ella. Se for prêsa, a desgraça não será
-grande! Só o que desejava era que o discurso do Pavel estivesse já
-distribuido...
-
---Já está composto. Ámanhã teremos exemplares bastantes para a cidade
-e para os arrabaldes... e tambem para o resto do districto. Conhece a
-Natacha?
-
---Ora se conheço!
-
---Pois é preciso que lhe leve os folhetos.
-
-A criança estava lendo um jornal. Parecia não ouvir o que diziam, mas
-de quando em quando, erguia os olhos para Pélagué. Esta, quando lhe
-surpreendia aquelle olhar tão vivo, sentia-se agradavelmente commovida.
-A joven senhora falou novamente de Nicolao, sem lamentar sequer a sua
-captura, o que de toda a maneira pareceu a Pélagué naturalissimo.
-O tempo dir-se-ia passar mais veloz; era perto do meio dia quando
-terminaram o almoço.
-
-
-
-
-XXIX
-
-
-De repente ouviu-se bater na porta, rapidamente. Levantou-se a criança
-e dirigiu interrogador olhar á dona da casa.
-
---Abre, Sérgio! Quem poderá ser?
-
-Com o maior socego, introduziu a mão na algibeira do vestido e disse á
-sua hospede:
-
---Se fôr a polícia, colloque-se ali n’aquelle canto. E tu, Sérgio...
-
---Bem sei! respondeu a criança, baixando a voz. E saíu.
-
-Pélagué sorria. Não a impressionavam taes preparativos; não tinha o
-presentimento d’uma desgraça.
-
-Quem entrou afinal foi o doutor. Annunciou logo com precipitação:
-
---O Nicolao foi preso!... Ah, está por cá, tiasinha?... Não estava em
-casa quando o levaram?
-
---Não, senhor; foi elle que me mandou para aqui.
-
---Hum!... Não me parece que isso lhe seja de grande utilidade... Esta
-noite, uns rapazes imprimiram com gelatina quinhentos exemplares do
-discurso do Pavel. O trabalho ficou bom, está bem impresso, lê-se
-bem. Tencionam distribuil-os pela cidade, esta noite. Não sou d’essa
-opinião: para a cidade são preferiveis os folhetos impressos; os outros
-é que devem ser expedidos para toda a parte.
-
---Eu os vou levar á Natacha! Dê-mos! exclamou Pélagué com vivacidade.
-
-O seu grande desejo era fazer circular o mais depressa possivel o
-discurso de Pavel; inundar a terra com as palavras de seu filho. E
-fitava o médico attentamente, com olhar quasi supplicante.
-
---Não sei se será prudente que a senhora se metta agora n’essa empreza!
-disse, indeciso. E puxou pelo relógio.--São onze horas e quarenta e
-trez minutos... O comboio parte ás duas e cinco; póde chegar ao seu
-destino ás cinco e quinze... Ia chegar de noite, mas não era muito
-tarde... Além do que, não é isto o essencial...
-
---Não, não é isso o essencial! repetiu Lioudmila, franzindo o sobrolho.
-
---Então o que é? perguntou Pélagué, approximando-se d’elles. O
-essencial é que a distribuição seja bem feita... e eu sei como me hei
-de haver!
-
-A dona da casa attentou n’ella fixamente e declarou, passando a mão
-pela testa:
-
---É perigoso...
-
---Porquê? exclamou a outra.
-
---Aqui tem porquê! expôz o doutor com voz precipitada e desigual.
-Vocemecê desappareceu de casa uma hora antes da prisão do Nicolao.
-D’aqui a pouco, vae ser vista lá na fabrica, onde é tão conhecida. Logo
-depois de lá chegar, entram a apparecer os folhetos revolucionarios...
-Tudo isso são indícios que se lhe vão apertar na garganta como um laço
-corredio...
-
---Mas é que não hão de dar por mim! objectou ella com animação
-crescente. Se fôr presa quando de lá voltar, e me perguntarem onde
-estive...
-
-Interrompeu-se um momento e proseguiu:
-
---Sempre hei de achar resposta! Por exemplo: posso ir da fabrica
-directamente ao arrabalde. Conheço lá um sujeito chamado Sizof. Pois
-digo que logo em seguida ao julgamento fui para casa do Sizof, por me
-achar incommodada com o desgosto soffrido... Tambem elle está muito
-pezaroso: o sobrinho foi condenado juntamente com o Pavel!... Digo que
-estive todo este tempo em casa d’elle, e elle ha de confirmar o que eu
-disser... Bem vêem!
-
-E porque os sentisse cederem aos seus argumentos, esforçava-se por
-convencel-os e falava com crescente calor. Por fim, acquiesceram.
-
---Que se ha de fazer? Pois vá! concordou o doutor, mas de má vontade.
-
-Lioudmila conservava-se em silencio; passeava pelo quarto, meditativa.
-O rosto assombreára-se-lhe, as faces haviam-se-lhe cavado; os músculos
-do pescoço pareciam ter-se distendido, como se a cabeça se tivesse
-bruscamente tornado mais pesada e tombasse irresistivelmente para o
-peito.
-
-O forçado consentimento do doutor arrancára a Pélagué profundo suspiro.
-
---Andam todos a animar-me! disse, sorrindo. Mas os senhores são os
-primeiros que não se poupam!
-
---Isso não é assim! replicou o doutor. Poupamo-nos todos; temos o
-dever de nos poupar. E as nossas censuras nunca serão demasiadas para
-aquelles que se expõem inutilmente! Por consequencia lá se lhe irão
-levar os folhetos á estação.
-
-Explicou-lhe o que tinha a fazer e em seguida accrescentou, fitando-a
-bem de frente:
-
---O que desejo é que se saia bem! Está satisfeita, não é assim?
-
-E foi-se descontente. Logo que ouviu fechar se a porta, Lioudmila
-approximou-se de Pélagué.
-
---A senhora é uma excellente mulher!... Eu compreendo-a...
-
-Travou-lhe depois do braço, e ambas entraram a passear pelo aposento.
-
---Tambem eu tenho um filho. Tem já doze annos. Mas vive com o pae. Meu
-marido é procurador substituto; talvez seja já procurador effectivo,
-não sei... E aquella criança está na sua companhia... Quantas vezes
-pergunto a mim mesma qual será o seu futuro!...
-
-Teve na voz, desfallecida, uma commoção, e depois proseguiu baixinho,
-de novo meditativa:
-
---Se elle está sendo educado por um inimigo figadal d’aquelles que me
-são queridos, d’aquelles que eu considero como as melhores creaturas
-da terra!... E assim, meu filho póde vir a ser meu inimigo tambem...
-Não me é licito trazel-o para a minha companhia, pois que vivo com nome
-supposto. E ha oito annos já que o vi pela ultima vez!... Quanto tempo!
-Oito annos!
-
-Ao pé da janella, parou e ficou a olhar para o pálido e desolado céu.
-
---Se elle vivesse comigo, sentir-me-ia mais forte. Mesmo se morresse,
-ficaria mais aliviada...
-
-Apóz um instante de silencio, ergueu a voz para explicar:
-
---Porque então, ficaria sabendo que só estava morto; porque não poderia
-tornar-se n’um inimigo d’aquillo que é superior ao próprio amor
-materno, de tudo o que na vida ha mais precioso!...
-
---Minha querida amiga! murmurou brandamente Pélagué, sentindo o coração
-confranger-se-lhe de dó.
-
---A senhora é feliz! proseguiu Lioudmila com um sorriso. É admiravel
-vêr uma mãe e um filho caminharem lado a lado... É raro!
-
---Sim, é certo; é delicioso! exclamou Pélagué.
-
-E explicou, baixando a voz, como para confiar um segredo:
-
---É como se tivessemos uma segunda vida! A senhora, Nicolao, todos,
-emfim, os que luctam pela verdade, estão comnosco!... E assim,
-tornamo-nos mais intimos uns dos outros... E eu compreendo-os... não o
-que dizem, mas tudo o mais, sim, compreendo-o!... Tudo!
-
---Ah, é assim? exclamou a joven senhora. É assim!...
-
-E logo Pélagué, pousando-lhe a mão no hombro:
-
---Os nossos filhos vão em marcha pela terra! Eis o que eu compreendo!
-Vão em marcha pela terra, por toda a terra e em toda a parte caminham
-para o mesmo fim! Arremessam se ao assalto os melhores corações e os
-espiritos mais leaes, sem olharem para traz de si, para tudo o que é
-mau e sinistro. E avançam, avançam... Debeis ou robustos todos dedicam
-as suas inteiras forças á mesma causa: a justiça! Juraram triunfar da
-desgraça; armaram-se para aniquílar o infortúnio da humanidade: querem
-vencer o horror e hão de vencêl-o! «Havemos de accender um novo sol»
-disse-me um d’elles. E hão de accendêl-o! «Havemos de reunir num só
-todos os corações despedaçados!» disse outro. E hão de fazel-o!
-
-Ergueu o braço para o ceu:
-
---Além ha um sol!
-
-E, batendo no peito, concluiu:
-
---E aqui, outro se ha de accender, mais brilhante que o do ceu, o sol
-da felicidade humana, que eternamente illuminará a terra inteira e
-aquelles que a habitam, com a luz do amor de cada creatura por todos e
-por tudo!
-
-E Pélagué evocava as palavras das orações esquecidas para entusiasmar a
-sua nova fé e lançava-as do coração como scentelhas:
-
---Os nossos filhos, caminhando pela senda da razão e da verdade, levam
-o amor a todas as coisas, criam um novo ceu, accendem o lume sagrado
-e incorruptivel que brota da alma, do âmago do coração. E é assim que
-nos é offerecida uma vida nova no apaixonado amor dos nossos filhos
-pelo mundo inteiro. E quem poderia extinguir este amor? Quem? Existe
-força superior a esta? Quem poderia vencel-a? Foi a própria terra que
-a gerou e a vida inteira exige a sua victória... a vida inteira!
-
-Pélagué afastou-se de Lioudmila e sentou-se, offegante, quebrada pela
-sua commoção. A joven senhora afastou-se tambem de mansinho, com
-precaução, como se receasse quebrar alguma coisa. No seu passo agil,
-atravessou o quarto, fixando para longe d’ali o olhar profundo dos seus
-olhos sem brilho. Parecia ainda mais delgada, mais hirta e mais alta.
-Tinha na cara chupada e severa uma expressão concentrada, comprimia
-nervosamente os lábios. O silencio acabára por apaziguar a exaltação de
-Pélagué. A meia voz, n’um tom de receio, perguntou:
-
---Talvez eu dissesse coisas que não deveria ter dito.
-
-Lioudmila voltou-se com vivacidade, lançou-lhe um olhar assustado e
-exclamou:
-
---Não! é assim mesmo! é assim mesmo!... Mas não falemos mais n’isso!
-Fiquem as suas palavras taes quaes as pronunciou, sim!
-
-E proseguiu depois, já mais calma:
-
---É forçoso partir... A estação fica longe d’aqui.
-
---Sim, vou já partir! Como me sinto contente! Se soubesse!... Levo
-comigo as palavras do meu filho, as palavras do meu sangue! É como se
-levasse a minha alma!
-
-Sorria. Mas este sorriso não produziu mais que um pálido reflexo na
-fisionomia de Lioudmila. Pélagué sentia aquella frieza regelar-lhe
-a sua própria alegria. Assim, sentiu o desejo súbito de communicar
-áquella alma severa o seu ardor, abraçar-se com ella, afim de a fazer
-sentir em unísono com o seu coração de mãe. Tomou a mão de Lioudmila e
-disse, apertando-lha com fôrça:
-
---Minha querida! Como é bom saber que ha na vida luz para todos os
-homens e que, com o tempo, elles hão de acabar por vêl-a, por fundirem
-n’ella as suas almas e por arderem todos da mesma chamma inextinguivel!
-
-O seu rosto bondoso tremia de entusiasmo; os seus olhos radiantes e
-as suas sobrancelhas agitavam-se, como para dar azas ao brilho das
-pupillas. Sentia-se enebriada pela sublimidade dos seus ideaes, em que
-punha toda a ardencia do coração, tudo o que experimentára, e encerrava
-nos rijos e limpidos cristaes das palavras illuminadas as idéas
-que floresciam e desabrochavam mais e mais no seu coração outonal,
-illuminado pelo sol da fôrça creadora.
-
---É como se para nós tivesse nascido um novo Deus! Tudo para todos,
-todos para tudo, a vida inteira em um só, em cada um a vida inteira!
-E cada um para a vida inteira! É assim que eu compreendo; é para isso
-que vós todos andaes pela terra, eu bem o vejo! Em verdade, todos sois
-camaradas, todos sois da mesma familia, porque todos sois os filhos da
-mesma mãe: a verdade! Foi a verdade que vos gerou e é pela sua fôrça
-que viveis!
-
-Pélagué retomou alento e continuou, com um gesto largo que parecia
-abarcar tudo!
-
---E quando a mim própria pronuncio esta palavra «camaradas» parece-me
-ouvil-os caminhar. De toda a parte vem em multidão. Oiço um ruido
-atroador e alegre, como se os sinos de todas as igrejas da terra
-entrassem a tocar!
-
-Conseguira o que desejava: animára-se o rosto de Lioudmila; os lábios
-tremeram-lhe; uma apóz outra, rolaram-lhe dos olhos pesados lagrimas
-crístallinas.
-
-Então, Pélagué tomou-a entre os braços; teve um riso silencioso,
-meigamente ufana da victória obtida pelo seu coração.
-
-Ao afastarem-se as duas mulheres, Lioudmila fitou Pélagué e perguntou
-em voz baixa:
-
---Sabe que é muito agradavel estar na sua companhia?
-
-E a si própria respondeu, rematando:
-
---Sim, parece que se está no cimo de uma alta montanha, ao nascer da
-aurora...
-
-
-
-
-XXX
-
-
-Lá fóra, o ar sêco e glacial fustigava o corpo, irritava a garganta e
-o nariz; suffocava a respiração. Pélagué parou a certa altura, olhando
-em torno: perto d’ali, á esquina d’uma rua, estava um cocheiro com um
-bonné de pello; mais longe, caminhava um homem, todo corcovado, com
-a cabeça encolhida entre os hombros. Um soldado corria, aos pulos,
-esfregando as orelhas.
-
-«Provavelmente mandaram-no á loja, a comprar alguma coisa!» pensou
-ella. Escutava com satisfação o ruído da neve que se lhe quebrava
-sob os passos. Em breve chegou á estação; o comboio ainda não estava
-formado; no entretanto, havia já muita gente na sala de espera da
-terceira classe, enfumaçada e suja. O frio para lá escorraçára os
-trabalhadores do caminho de ferro; e tambem vinham aquentar-se ali,
-cocheiros e individuos mal vestidos, sem eira nem leira. Tambem ali se
-encontravam viajantes: alguns campónios, um negociante gordo, vestido
-de espessa capa de pelles, um padre com a sua filha, uma rapariguita
-de rosto pálido, cinco ou seis soldados e alguns burguezes com ares de
-atarefados. Fumava-se, conversava-se, bebia-se aguardente ou chá. Junto
-ao bufete, ouviam-se grandes gargalhadas; pairava por cima das cabeças
-o fumo do tabaco em densas nuvens. Ao abrir-se, a porta chiava, e
-quando a tornavam a fechar, batia com estrondo e as vidraças resoavam
-e tremiam. Assaltava violentamente as narinas um cheiro a tabaco e a
-peixe salgado.
-
-Pélagué sentou-se perto da porta, bem em evidencia, e esperou. Quando
-entrava alguem, envolvia-a uma lufada d’ar frio; a sensação era
-agradavel: respirava n’esses momentos a plenos pulmões. Apparecia gente
-em pesados trajos, carregada de embrulhos; prendiam se desastradamente
-na porta, praguejavam, atiravam os seus fardos para o chão; depois
-limpavam da geada a gola e as mangas dos casacões, limpavam as barbas
-ou os bigodes, resmungando.
-
-Um rapaz, que trazia uma mala amarella, entrou, e depois de olhar
-rapidamente em torno, foi direito a Pélagué.
-
---A Moscou? perguntou elle a meia voz.
-
---Sim! a casa de Tania.
-
---Ahi tem!
-
-E dito isto, collocou a mala sobre o banco, ao lado d’ella, tirou um
-cigarro da algibeira, accendeu-o rapidamente e tornou a saír por outra
-porta, depois de ter erguido levemente o bonné. Pélagué passou a mão
-pelo coiro frio da mala e encostou-se a ella. Satisfeita, emfim, pôz-se
-a examinar quem estava. Instantes depois, levantou-se e foi sentar-se
-n’outro banco, mais próximo da saída. Levava a mala n’uma das mãos com
-a maior serenidade, de cabeça levantada e fitando as caras que lhe
-passavam ao alcance da vista.
-
-Um homem vestido d’um casaco curto e com a cabeça enterrada na
-gola, erguida, deu-lhe um encontrão e afastou-se sem dizer uma
-palavra, levando simplesmente a mão ao bonné. Pareceu-lhe tel-o já
-visto. Voltou-se e viu que elle a estava observando. Sentiu-se como
-trespassada por aquelle olhar claro; a mala entrou a tremer-lhe na
-mão, como se tivese repentinamente aumentado de peso.
-
---Onde vi eu aquelle homem? perguntava a si mesma, como para repellir
-a sensação desagradavel que lhe subia do peito até á garganta e
-lhe enchia a bocca de amargo travor. Apoderou-se d’ella um desejo
-irresistivel de se voltar e de olhar mais uma vez para elle: o homem
-continuava no mesmo logar, firmando-se ora n’um pé, ora no outro e
-parecia indeciso. Introduzira a mão direita entre os botões do casaco e
-conservava a outra na algibeira, o que fazia parecer que tinha o hombro
-direito mais alto do que o esquerdo.
-
-Devagar, Pélagué caminhou até um banco, sentou-se lentamente, com
-precaução, como se receasse quebrar alguma parte do corpo. A sua
-memória, despertada por um agudo presentimento de desgraça, evocava
-dois aspectos d’este homem: o primeiro datava do dia da evasão de
-Rybine; o outro, da vespera. Lembrava-se ter visto no tribunal, ao
-lado d’aquelle individuo o agente de polícia a quem fornecera a errada
-indicação sobre o caminho que Rybine tomára na sua fuga. Tornára-se
-pois conhecida, andava vigiada, era certo!
-
---Estarei eu apanhada? perguntou a si mesma. E respondeu, sentindo-se
-estremecer: «Talvez ainda haja meio... Não, decididamente estou
-apanhada, não ha nada a fazer...»
-
-Olhou em roda, mas não viu nada suspeito. Uma apóz outra, como
-scentelhas, surgiam-lhe e apagavam-se-lhe várias idéas dentro do
-cérebro.
-
---Deixar a onda?... Ir-me embora?
-
-Mas logo outra scentelha mais viva brilhou: «As palavras do meu
-filho... atiral-as assim fóra! Deixal-as em semelhantes mãos!»
-
-E chegou a mala mais para si.
-
-«E se eu agarrasse n’ella e deitasse a fugir!...»
-
-Chegava-lhe a parecer não serem seus os próprios pensamentos, que
-alguem lh’os introduzia no cerebro, á fôrça. Eram como queimaduras
-a corroerem-lhe dolorosamente a cabeça e o coração, levando-a para
-longe de si mesma, para longe de Pavel, de tudo o que já fazia parte
-integrante do seu coração. Sentia que uma fôrça hostil a opprimia
-obstinadamente, lhe pezava nos hombros e no peito, a aviltava,
-mergulhando-a em frio terror. Incharam-se-lhe as veias das fontes,
-subiu-lhe á cabeça intenso calor.
-
-Então, d’um só impulso vigoroso que a ergueu de chofre, suffocou em si
-todos estes lampejos de tibieza, covardes e astuciosos, ordenando a si
-própria com autoridade: «Não sejas a vergonha do teu filho!»
-
-Aos seus olhos appareceu então um olhar tímido e desconsolado.
-Passou-lhe pela memória a imagem de Rybine. Estes poucos segundos de
-hesitação bastaram para fortalecer n’ella todas as crenças. O coração
-pulsou-lhe com mais regularidade.
-
---Que irá acontecer? perguntou a si mesma, olhando em torno.
-
-O espião acabava de chamar um guarda; segredava a este o que quer que
-fosse, designando-a com o olhar. O guarda observou Pélagué e recuou.
-Approximou-se outro guarda e pôz-se a escutar o que diziam. Era um
-velho robusto, grisalho e de comprida barba. Fez um signal com a cabeça
-ao espião e adiantou-se para o banco em que Pélagué se sentava. O
-espião desappareceu como por encanto.
-
-O velho caminhava sem pressa alguma, perscrutando attentamente com
-olhar irritado a fisionomia de Pélagué. Ella encolheu-se toda no fundo
-do banco.
-
-«Com tanto que não me batam!... Deus permitta que não me batam!»
-
-O guarda parou junto d’ella e, apóz silencio, perguntou com severidade:
-
---Que estás tu a olhar?
-
---Nada...
-
---Está bem... Ladra! Então és velha e andas n’essa vida?!
-
-Com estas palavras julgou Pélagué que recebia uma bofetada. Irritadas
-e roucas, faziam doer, como se lhe rasgassem as faces e arrancassem os
-olhos.
-
---Ladra, eu?! Mentes! gritou com toda a fôrça dos pulmões.
-
-Tudo o que a rodeava lhe parecia mover-se descompassadamente entre o
-redemoinho da sua indignação; sentia o coração atordoado pela amargura
-da injuria. Agarrou na mala, que logo se abriu por si.
-
---Olha! Olhem todos! exclamou, pondo-se em pé e agitando acima da
-cabeça um maço de proclamações. Atravez dos zumbidos de que tinha
-cheios os ouvidos, ouvia as exclamações das pessoas que accudiam de
-todos os lados.
-
---Que se passa?
-
---É um agente da polícia secreta...
-
---Mas que aconteceu?
-
---Dizem que roubou, aquella mulher...
-
---Aquella mulher?
-
---Mas ella protesta.
-
---Ora adeus! Com aquelle todo tão respeitavel!
-
---Quem foi que prenderam?
-
---Eu não sou ladra! repetia ella com voz forte e serenando pouco a
-pouco com o ver a attitude dos curiosos que a rodeavam em compacto
-círculo.
-
---Hontem foram condemnados alguns presos politicos e entre elles o meu
-filho... O meu filho chama-se Vlassof. Pronunciou um discurso: aqui
-o teem! Ia leval-o á gente do povo, para que o leia e reflicta nas
-verdades que elle encerra!
-
-E porque um dos circumstantes, com precaução, tomasse um dos fasciculos
-que ella tinha na mão, agitou os outros e atirou-os por sobre o
-ajuntamento.
-
---Estás livre de receber felicitações pela maneira por que os
-distribuiste! commentou a medo uma voz.
-
---Cuidado, que vae acontecer alguma! aconselhou outra voz.
-
-Pélagué via que cada qual tratava de se apoderar dos papeis e de
-escondel-os nas algibeiras ou no peito. Mais animosa, entrou a tomar
-maços e maços de dentro da mala e a atiral-os á direita e á esquerda,
-nas mãos ávidas e ligeiras que se lhe estendiam.
-
---Sabem porque condemnaram o meu filho e os que com elle estavam? Vou
-dizer-vol-o! Creiam n’este coração de mãe! Condemnaram-nos porque vos
-traziam a todos a santa verdade! E hontem mesmo eu vi como essa verdade
-triunfou!... Ninguem póde luctar contra ella, ninguem!
-
-A multidão, que se conservava muda de assombro, engrossava cada vez
-mais, cercando Pélagué d’uma cadeia de seres viventes.
-
---A pobreza, a fome, a doença--eis o que o trabalho nos rende! Tudo é
-contra nós. De dia para dia, morremos sob o trabalho, soffremos fome
-e frio, prostrados sempre no lôdo e no ludíbrio; e são outros que se
-fartam e se divertem á custa do nosso labor!... Como cães presos pela
-trela, immobilisam-nos na ignorancia; nós nada sabemos e, na nossa
-covardia, de tudo temos medo! A nossa vida é uma noite, uma noite
-escura! É um pezadello horrendo!... Pois não é verdade?
-
---Sim! responderam algumas vozes surdas.
-
---Fecha-lhe a bôca!
-
-Por detraz do ajuntamento, Pélagué avistou o espião acompanhado por
-dois guardas. Deu-se pressa em distribuir os últimos maços, mas quando
-a sua mão chegava mais uma vez á mala, sentiu o contacto de outra mão.
-
---Levem tudo! Levem tudo! disse ella, curvando-se. Para transformar
-esta vida, para libertar todos os homens, para os resuscitar d’entre
-os mortos, como eu resuscitei, nasceram creaturas filhas de Deus
-que andam a semear pelo mundo a verdade santa. Operam em segredo,
-pois, como bem sabem, ninguem póde dizer a verdade, sem que seja
-logo perseguido, suffocado, atirado para uma enxovia, mutilado! A
-verdade da existencia e a liberdade são inimigas para todo o sempre
-irreconciliaveis d’aquelles que nos governam, d’aquelles que nos
-opprimem. E são crianças, são creaturas purissimas e luminosas que vos
-annunciam a verdade. Graças a ellas, ella ha de chegar emfim ás nossas
-miseraveis existencias, ella ha de vir acalentar-nos e confortar-nos;
-ha de libertar-nos da oppressão das autoridades e de todos os que lhes
-venderam a alma! Creiam!
-
---Bravo, velha! gritou um.
-
-Outro entrou a rir.
-
---Vamos, dispersem! regougaram os guardas, afastando brutalmente a
-multidão.
-
-O agrupamento recuou, resmungando, impedindo os guardas entre a
-massa da gente e tolhendo-lhes os movimentos, mesmo sem querer.
-Sentiam-se dominados por aquella mulher de cabellos grisalhos, olhar
-de franqueza e modos bondosos. Indifferentes uns aos outros, isolados
-pela vida, confundiam-se agora em um todo, acalentados pelo ardor
-d’aquella palavra que muitos esperavam, sem duvida, ha muito tempo.
-Os que ficavam mais perto de Pélagué permaneciam em silencio. Pélagué
-sentia-lhes os olhares attentos fitos sobre si e o bafo das respirações.
-
---Sobe para o banco! gritou-lhe um.
-
---Vae-te d’aqui, velha!
-
---Vaes ser suffocada!
-
---Que insolente!
-
---Fala depressa, que elles ahi vem!
-
---Deixem o caminho livre! Vamos, a andar! gritavam outros guardas,
-chegados n’este comenos.
-
-Já em numero crescido, estes desviavam a multidão com mais violencia
-ainda; toda aquella gente molestada, agarrava-se a quem lhe ficava
-próximo.
-
-Parecia a Pélagué ter na frente como que um férvido cachão e que todos
-estavam prontos a compreendel-a e a acredital-a. O seu desejo era
-dizer ali, depressa, tudo o que sabia, todos os poderosos pensamentos
-que lhe subiam harmoniosamente, sem esforço, do âmago do coração;
-mas faltava-lhe a voz, não lhe saíam do peito mais que sons roucos,
-entrecortados e trémulos.
-
---A palavra do meu filho é a palavra pura d’um filho do povo, d’uma
-alma integra! Pela audacia se reconhecem os que são íntegros; pela
-verdade, quando ella o exija, sacrificam-se intrepidamente!
-
-Entre o ajuntamento, olhos juvenis fitavam-na, a um tempo com
-entusiasmo e terror.
-
-Recebeu uma pancada no peito, cambaleou e caíu para cima do banco. Por
-sobre as cabeças agitavam-se as mãos dos guardas, os quaes agarravam
-brutalmente os circumstantes pela nuca ou pelos hombros e atiravam-nos
-para o lado, arrancavam das cabeças os bonnés e arremessavam-nos ao
-longe. Pélagué sentiu confundirem-se e vacillarem as coisas em frente
-dos olhos, mas dominou a fadiga e serviu-se ainda da pouca voz que lhe
-restava.
-
---Povo, reune as tuas fôrças em uma só fôrça!
-
-Caíu-lhe no pescoço e saccudiu-a a mão enorme e encarniçada d’um guarda.
-
---Cala-te!
-
-Foi bater com a nuca de encontro á parede. Durante um instante, teve o
-coração envolvido n’uma névoa de ardente terror, mas este vapor logo se
-dissipou ao entusiasmo que a aquecia.
-
---Anda para a frente! disse o guarda.
-
---...Não ha soffrimento mais amargo que o que dia a dia devora o
-coração e exaure o peito...
-
-O espião precipitou-se ao encontro d’ella e brandindo o punho em frente
-da cara da presa, gritou com voz aguda:
-
---Cala-te, canalha!
-
-Os olhos de Pélagué abriram-se desmedidamente e scintillaram; as
-maxillas tremiam-lhe. Firmou os pés no lagedo escorregadio e gritou:
-
---Não se mata uma alma resuscitada!
-
---Cadella!
-
-Com pequeno impulso, o capitão bateu-lhe no rosto.
-
---É bem feito para essa velha porca! gritou uma voz.
-
-Uma coisa negra e vermelha cegou por instantes Pélagué; encheu-lhe a
-bocca o sabor salgado do sangue.
-
-Reanimou a uma explosão d’exclamações:
-
---Você não tem direito de bater!
-
---Camaradas!
-
---Que vem a ser isso?
-
---Ah, patife!
-
---Dá-lhe!
-
---... Não é com sangue que se ha de suffocar a razão!
-
-Empurravam-na pelas costas, pelo pescoço, batiam-lhe na cabeça e no
-peito; tudo oscillava e se sumia no sombrio turbilhão dos gritos,
-dos lamentos e dos silvos dos apitos. Alguma coisa espessa e que a
-ensurdecia lhe penetrava nos ouvidos e lhe enchia a garganta até á
-suffocação. O solo fugia-lhe debaixo das pernas, que vergavam, o corpo
-tiritava-lhe sob o aguilhão dos ferimentos; tropega e exausta, Pélagué
-cambaleava. Mas continuava a distinguir em volta de si numerosos
-olhares onde brilhava o entusiasmo decidido que ella conhecia bem e
-que tão querido era ao seu coração. Levaram-na aos encontrões para uma
-das portas.
-
-Ella poude desembaraçar uma das mãos e agarrou-se ao batente.
-
---... Nem mesmo sob um mar de sangue a verdade desapparecerá...
-
-Descarregaram-lhe logo uma pancada na mão.
-
---Só conseguis congregar os ódios, insensatos que sois! E este ódio,
-este rancor, ha de subverter-vos!...
-
-O guarda agarrou-a pela garganta e entrou a apertar-lh’a cada vez com
-mais violenta pressão.
-
-N’um estertor, balbuciou:
-
---Os desgraçados...
-
-Respondeu-lhe alguem com prolongado soluço.
-
- FIM
-
-
-
-Notas
-
-Os problemas com a pontuação e a ortografia foram corrigidos.
-
-Página 17: “Esmagar-te-ão. morrerás!” foi substituído por
-“Esmagar-te-ão. E morrerás!”
-
-Página 19: “Quando casei,” foi substituído por “Quando cresci”
-
-Página 63-64: “trez annos; sado” foi substituído por “trez annos; fui
-casado”
-
-Página 70: A referencia ao rodapé foi adicionada no texto.
-
-Página 122: “se não, me abraçava” foi substituído por “se não, não me
-abraçava”
-
-O texto original falta dois parágrafos na página 122, imediatamente
-antes do capítulo XX. Isso foi mantido na versão digital.
-
-Na versão original, a numeração dos capítulos na segunda parte pula o
-número XIII. Isso foi mantido na versão digital.
-
-Página 377: “Eu percebo n ” foi substituído por “Eu percebo bem”
-
-*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A MÃE ***
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