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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:59:49 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez + +Author: George Gordon Byron + +Translator: Henrique Ernesto de Almeida Coutinho + +Release Date: August 31, 2010 [EBook #33592] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + Nota de transcrição: + + Foi mantida a grafia usada na edição original de 1839, tendo sido + corrigidos apenas pequenos erros tipográficos evidentes. + + + + + O CERCO DE CORINTHO, + + POEMA + + DE + + LORD BYRON, + + TRADUZIDO EM VERSO PORTUGUEZ, + + POR + + _H. E. A. C._ + + + PORTO. + TYPOGRAPHIA COMMERCIAL PORTUENSE. + LARGO DE S. JOÃO NOVO N. 12. + 1839. + + + + +AO ESTIMAVEL ANONYMO. + + + _Alma prestante, onde reside e impera + O Genio da Amizade, + Que a luminosa esfera + Deixou, para acudir á humanidade, + Sumida em pesadumes e agonias, + Em feia escuridade! + Alma onde o typo eterno não se encobre, + E que, n'estes d'egoismo ferreos dias, + O instante de ser util só vigias, + Sincera, affavel, nobre! + Acceita, em oblação a ti votado, + Ancioso de agradar-te, este traslado._ + + Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho. + + + + +_O TRADUCTOR,_ + + +Para perpetuar a gloria do sublime poeta que tanto enriqueceo a sua +patria e o mundo literario com o preciosissimo cabedal de suas +producções, bastaria esta de que emprehendemos e agora publicamos a +traducção. Sciencia dos tempos e dos costumes, vasta erudição, profundo +conhecimento do homem, variedade e magnificência de quadros, fecunda +elevação de pensamentos, lustre e vigor de poesia, sobresahindo por +effeito da mais acertada e judiciosa distribuição, eis os titulos com +que se engrandece este poema, onde lord Byron não houve mister longo +espaço para mostrar-se, immortal. + +Não é raro tecerem os traductores sobejo encomio ainda a mediocres +originaes, quando com estes despendêrão vigilias e desvelos; mas nem por +isso receamos que, elogiando a lord Byron, nos accusem de +encarecimento ou de leviandade: as suas obras ahi estão bem patentes, e +a sua reputação é já colossal. + +Todavia, notando a mui sincera affeição que consagramos a tão estremado +engenho, ninguem haja de persuadir-se que o avaliamos como isento de +toda a mácula. Por certo que lord Byron era homem, e o fragil da +humanidade transparece em algumas das suas producções, e ás vezes +procura brilhar em detrimento daquella gentil gravidade que mui bem +assenta nas Musas, e sem a qual desmentem ellas a sua origem celeste; +mas de semelhante desar campea livre o poema que apresentamos +traduzido.--Só de passagem mencionaremos um descomedido orgulho +nacional[1], um amor á liberdade, que por vezes degenera +em fanatismo: estes sentimentos os bebeo o poeta com o primeiro alimento +de sua infância, e, quando concentrados em justo limite, são nobres, e +longe estamos de criminá-los. + +Não menos que lord Byron admiramos os grandes capitães Gregos e Romanos; +tambem nas escolas estudamos e traduzimos Nepote, Tacito, Tito-Livio, +&c. Todavia os heróes n'essas historias memorados viverão em tempos mui +diversos dos nossos, e diversissima foi a sua educação fisica e moral: +por tanto o joven enthusiasta hodierno que ambiciona a todo o custo +igualá-los, arrisca-se a cometter mil despropositos, e mesmo a ser +victima inutil de suas desattentadas proezas. Para morrer com gloria no +desfiladeiro de Thermópylas, cumpre, além de haver sido educado em +Esparta, ter á frente um Leonidas. A prudencia de Fabio transtornou os +planos de Annibal e salvou Roma, conseguindo aquillo mesmo que fôra +denegado ás fastuosas e arrogantes ousadias de Sempronio e de Flaminio. +Do sacrificio de Curcio, despenhando-se armado e com seu proprio cavallo +no boqueirão aberto por um terremoto em certa praça de Roma, que +proveito recolhêrão os concidadãos, a patria, ou a especie humana? +Curcio era pois um esquentado enthusiasta, ou antes um orate rematado. É +indubitavel que a cega ambição de figurar com heroismo Grego ou Romano, +associada ao sofrego ardor não sei de que liberdade turbulenta, +insidiosa, desmoralisadora, e de mais pernicioso effeito que qualquer +desmascarada tyrannia, tem excandescido bom numero de cabeças e avultou +de sobejo na mui abalisada revolução de França, que ainda hoje em +sangrentas paginas aterra a humanidade.--Talvez o amor que sempre +tributamos á verdade nos levou em demasia longe; mas como quer que seja, +não cessaremos de confessar que o sublimado engenho de lord Byron nos +penetra de admiração, e deixa, ao menos em nosso alvitre, o homem +justificado pelo poeta. + +Quanto á nossa traducção, sobre diligenciarmos que portugueza fosse, +pozemos todo o cuidado em exprimir com clareza os pensamentos do poeta, +bem como em não deteriorar-lhes a nativa gala, que antes nos parece mais +pomposa n'este nosso fertil e sonoro idioma: entretanto não é por nossa +conta que deve correr a cabal decisão na materia, mas sim por conta de +mais competentes juizes, que, versados nas duas linguas, queirão dar-se +ao trabalho de cotejar o original com a versão. + +Entre os nossos traductores poetas, alguns houve que gemêrão sob a +ferrenha tarefa de traduzir tragedias e longos poemas verso por verso; +mas que resultou de tanta diligencia? o substituirem, pela maior parte, +a versos fluentes e vigorosos uma enfiada de semsaborias, de durezas, de +enigmas, onde a graça e louçania dos originaes degenera em rugosa e +desalinhada velhice. Não negamos que isso tenha cabimento e deva +adoptar-se quando nenhum inconveniente o estorva; porém o verter +affincadamente poemas inteiros verso por verso, é uma curiosidade que em +muitos casos empece á nobre franqueza do estilo, á suavidade do metro, e +ao effeito geral dos quadros poeticos. Estamos persuadidos de que deve o +traductor de um poema ser sempre fiel á quantidade das idéas, não assim +á quantidade dos versos: tal foi o nosso systema de traducção no _Cêrco +de Corintho_. + +Ardua e mui ardua emprêsa é traduzir poetas; bem o sabemos e +experimentamos. Se todavia para traduzir lord Byron de nada mais se +carecesse que de estar profundamente penetrado das extraordinarias e +sublimes bellezas com que este filho da immortalidade abrilhantou suas +obras, então nos lisonjeariamos de apresentar a nossos leitores uma +copia digna do original, e preciosa para elles. + + [1] Este orgulho se deixa ver bem claro no _Childe Harold's + Pilgrimage_, cant. I.º est. 16, onde, entre outros motejos com que o + poeta pertende aviltar os Portuguezes, tambem lhes exprobra o serem + + _A nation swoln with ignorance and pride._ + Nação inflada d'ignorancia e orgulho. + + Quererá isto dizer que a Inglaterra é um paiz todo cheio de sabios, e + onde o orgulho morre de frio, por falta de quem o aquartele? + + + + +O CERCO + +DE + +CORINTHO. + + +I. + +Longo trilho de seculos exhaustos, +Rijas tormentas, bellicos furores, +Infestárão Corintho: ella entretanto +Persiste em pé, e no alteroso alcáçar +Nova conquista á Liberdade off'rece. +Nem bramir de tufões, nem terremotos +O alvejante penhasco lhe abalárão, +Esse lageoso assento, que, em despeito +Da decadencia sua, inda parece +Não sem orgulho contemplar seu cimo; +Esse padrão demarcador erguido +Entre os dous mares, que d'um lado e d'outro +Lhe estão rolando purpurinas ondas, +Que sempre a forcejar por se reunirem, +O acatão sempre, e vem morrer-lhe ás plantas. +Se o sangue n'estes sitios derramado +Desde que n'elles o fraterno sangue +Timoléon vertêra, ou desde quando +Pelo aviltado despota da Persia +Abandonados forão, borbulhasse +Da terra que o bebeo no morticinio, +Este sangrento oceano sepultára +Sob os tremendos escarcéos todo o isthmo: +Ou se podessem amontoar-se os ossos +Dos que alli perecêrão, surgiria +Por entre aquelles ceos abrilhantados +A colossal pyramide espantosa, +Dando rival á Acrópolis, que as nuvens +Se vê roçar co'a torreada fronte. + + +II. + +Eis lanças vinte mil sobre as espaduas +Do nebuloso Citherón fulgurão; +E em toda a planta do isthmo, sobre as duas +Oppostas praias que o ladeão amplas, +Se eleva o pavilhão, brilha o Crescente +Nas federadas linhas Musulmanas; +E o tisnado Spahí desfila em bandos +Á vista dos Bachás amplo-barbados; +E os olhos podem ver ao longo e ao largo +As cohortes cingidas do turbante, +Que o promontorio alastrão, enxameão: +Lá se ajoelhão do Arabe os camelos, +Do Tartaro os ginetes la volteão; +Dando de mão á grei, o Turcomano +Prestes unio ao lado a cimitarra. +Dos bellicos trovões crebro rebombo +Té faz emmudecer, de susto, os mares, +Profunda-se a trincheira, e muito longe +Silvando vôa no pelouro a morte; +Sob o peso da bomba assoladora, +Soltão-se em pulverento remoinho +Os da muralha esboroados lanços; +E, do recinto d'ella, eis o inimigo +Ás do Infiel intimações responde +Com manejo expedito, e fogos destros. +Que vão cruzando os empoeirados plainos, +E os ares que anuvia o fumo em rôlos. + + +III. + +Das muralhas porém o mais visinho +Entre os que punhão peito e mãos á empresa +De as converter em ruina, o mais profundo +Que nenhum dos da prole Musulmana +Nas da guerra artes tétricas, e altivo +Qual nunca o foi assignalado chefe +Colhendo louros em sangrentas lides; +O que voando audaz de posto a posto, +D'um feito a maior feito, se avantaja +Em destro esporear corsel fumante, +Em surdir mais veloz onde arde o p'rigo, +Cada vez que ha sortidas ou assaltos; +E quando a bateria, em mãos valentes, +Resiste inexpugnavel, então mesmo +Com exultante aspecto desmontando +A dar alento, na refrega, aos tibios; +O mais abalisado e o mais recente +Da hoste que lucrou n'estas paragens +Ao sultão de Stamboul renome egregio; +O guia incomparavel em campanhas, +Ou solerte assestando o ferreo tubo, +Ou manejando a temerosa lança, +Ou tufão que rebenta onde ha conflictos,-- +É Alp, o Veneziano renegado! + + +IV. + +O renegado de Veneza!--ah! elle +De vetusta linhagem primorosa +Teve o seu nascimento: todavia, +Desterrado a final do patrio ninho, +Contra os concidadãos tomou as armas, +Em que por elles adestrado fôra; +E orna-lhe a fronte rasa hoje o turbante. +Depois d'eventuaes destinos varios, +Sob a lei que Veneza lhe dictára +Se acolheo, como a Grecia, então Corintho; +E ei-lo que ante seus muros se apresenta, +Inimigo entre os feros inimigos +Da Grecia e de Veneza, e trasbordando +De resentido ardor, qual excandesce +Ao joven convertido a alma orgulhosa, +Onde duestos mil accumulados +Estão sempre em tumulto, e eternos vivem. +Nem por isso com elle quiz Veneza +Desempenhar o civico appellido +Em que firmava o seu brazão = A LIVRE; = +E de São Marcos no palacio excelso, +Delatores incognitos lançárão +Na _Boca do Leão_, durante a noite. +Denuncia atroz de requintados crimes, +Que o cobrião de macula indelével: +Salvou seus dias pressurosa fuga. +Desde esse lance despendia a vida +No meio dos combates, demostrando +Bem claro á patria o que perdeo no alumno +Que contra a Cruz, já supplantada, erguia +O soberbo Crescente, e, guerreando, +Só vingar-se ou morrer buscava ancioso. + + +V. + +Coumourgi--aquelle que impôz termo aos feitos, +O ultimo perecendo, e o mais pujante, +Lá nos de Carlowitz sangrentos plainos, +Sem magoa de morrer, porém, raivoso, +Dos Christãos maldizendo inclitos louros, +E d'Eugenio adornando o grão triunfo; +Coumourgi--e por ventura a gloria d'este +Conquistador da Grecia derradeiro +Poderá perecer, senão surgindo +Braço Christão que restitua á Grecia +Sequer os fóros que gozou outr'ora +Por Veneza outorgados? Elle vinha, +Já depois de volvidos lustros vinte, +Reintegrar a Othomana prepotencia; +E, os veteranos seus pospondo agora, +Para mandar do exercito a vanguarda +Alp escolheo, que a confidencia summa, +Arrazando cidades, lhe pagava, +E mostrando em façanhas destructoras +O seu zeloso affêrro á nova crença. + + +VI. + +A muralha enfraquece: de continuo +As Turcas baterias lhe varejão +O parapeito e ameias; restrugindo, +Sahe de cada canhão a voz do raio: +Aqui flammeja, ao rebentar da bomba, +Crepitante zimborio; além baquea +Este, est'outro edificio derrocado, +Sob o espesso granizo d'estilhaços, +Que em lufadas volcanicas recresce: +Vai resfolgando em rúbidas columnas +Voraz incendio, que tão alto sobe, +Como sobe o fragor da ruina ingente, +Ou solta-se em terrestres meteoros +Que vão no ceo esvaecer-se infindos: +Mais nebuloso, mais impervio o dia +Se torna á luz do sol, co'a mole opaca +Do fumo alçado em tortuosos rôlos, +Que d'enxofrado horror a esfera enlutão. + + +VII. + +Nem sómente ardor cego de vingança, +Que a longa dilação fez mais ferino, +Esporeára esse Alp apostatado +Á adestrar os guerreiros Mahométas +N'arte de abrir a promettida brecha. +D'aquelles muros no recinto havia +Uma donzella, cuja mão formosa +Elle obter pertendia apesar mesmo +Do inexoravel pai, que, furibundo, +Aos rogos lha negou, quando Alp outr'ora, +Chamando-se Lanciotto, o bafejavão +Tempos melhores, mais propicios fados; +E sem nota e sem crime de perfidia, +Aos palacios, ás góndolas levando +Alegria vivaz, se assignalava +Nos Carnavaes, ou resoar fazendo +Sobre aguas do Adria esses descantes meigos +Que alvoroçadas de prazer escutão +Á meia-noite as Italas donzellas. + + +VIII. + +Que do seu coração já possessora +Não fosse a virgem, suspeitavão muitos; +No em tanto d'infinitos requestada, +E a nenhum acolhendo, persistia +De todo o laço conjugal isenta +A juvenil Francina: e desde o instante +Em que das Adriaticas paragens +Se retirou Lanciotto a pagãos climas, +O sorriso expirou nos labios d'ella; +Meditabunda e pallida tornou-se; +Confissões amiudava, e já não era +Tão vista em mascaradas e assembleas; +Ou, se lá ia, os olhos seus descidos +Avassalavão, n'um volver furtivo, +Mil corações de balde suspirosos: +Nenhum objecto contemplava attenta; +Não punha em atavios tanto apuro, +Nem já tão terno desprendia o canto; +Seus passos, bem que leves, o erão menos +Que os dos parceiros seus, a quem na dança +Colhia absortos o raiar d'aurora. + + +IX. + +D'um sólo aos Musulmanos arrancado, +Quando a soberba lhes calcou Sobieski +Ante os muros de Buda, ás margens do Istro; +D'um sólo que depois Veneza altiva +Empolgou com violencia desde Patras +Té a Euboica enseada, o regimento, +Por ordem sup'rior, tomou Minotti; +E de Corintho na torreada estancia +Já elle era do Doge o delegado, +Quando os olhos da Paz fagueiros, pios, +Depois da larga ausencia, confortavão +C'um sorriso dos seus a Grecia sua, +Inda não rôto esse armisticio trêdo +Que ao jugo anti-Christão a subtrahia. +Entrou Minotti alli co'a filha amavel; +E desde o tempo em que a formosa Helena, +Deixando o esposo e a patria, fez ver quantos +D'um illicito amor desastres brotão, +Nunca estas praias adornou belleza +Digna de comparar-se á da estrangeira. + + +X. + +Em crebros boqueirões abre-se o muro; +E sobre as ruinas da alluida mole +Vai, á primeira luz, desenvolver-se +Assalto mais que todos formidando. +Tropas enfileirarão-se; escolhidos +Forão para formar toda a vanguarda +Tartaros e Othomanos; e vós outros, +Flor dos guerreiros, a quem foi sem causa +Imposto o sobrenome de _perdidos_, +E para quem a morte e riso, é jôgo; +Vós, que co'alfange em punho abris caminho, +Ou de vossos cadaveres juncando +A que o braço rompeo vereda honrosa, +Sois marmoreo degráo, por onde affoutos +Os socios trepão,--morrereis mais tarde! + + +XI. + +É meia-noite: a fria lua ostenta +O disco inteiro, e amplo fulgor diffunde +A contrastar co'a sombra das montanhas; +Traja d'azul o mar, d'azul se veste +O firmamento, este suspenso oceano, +Todo cravado d'ilhas que refulgem +Lá tão remotas, com ardor tão vivo: +E quem, quem póde attento contemplá-las, +E repascer depois os olhos tristes +No valle dos mortaes, sem que apeteça +Voar e unir-se para sempre a ellas? +Dormem as ondas, n'uma praia e n'outra, +Placidas e ceruleas como os ares; +Só de leve as areas roça a espuma, +Com murmurinho igual ao d'um regato. +Os ventos se recostão sobre as ondas; +E das hastes ao longo quietas pendem, +Em pregas conchegando-se, as bandeiras, +Que remata arci-fúlgido Crescente. +Nada interrompe esta mudez profunda, +Senão além a voz da sentinella +Reproduzindo a senha, ou lá mais longe +Relincho de corseis agudo e crebro, +Ou écos que respondem dos outeiros, +Ou da hoste bravia o rumor vasto, +Que semelhante ao de agitadas folhas +Alongando-se vai de praia a praia, +Ou preces usuaes que á meia-noite +Levanta o Muezzin, rasgando os ares +Co'a lamentosa garganteada lôa, +Qual 'spirito que vaga na planicie: +Melódicos accentos, mas prantivos, +Quaes os produz o vento, que, passando, +Encontra as cordas de sonoras harpas, +E extrahe descompassadas harmonias, +Que não conhece o menestrel mundano. +Este som se affigura aos sitiados +Grito agoureiro da infallivel queda; +Elle fere no ouvido aos sitiadores +Como indicio aziago e pavoroso, +Repentina toada indefinivel, +Que os corações lhes paralisa agora, +E logo os faz pulsar mui apressados, +Co'a vergonha de haver surdido n'elles +Tão desusada sensação furtiva: +Dest'arte o sino apregoador da morte +Nos sobresalta de repente ouvido, +Inda que seja em funeral d'estranhos. + + +XII. + +Calou-se o som, a rogativa é finda; +As sentinellas em seus postos velão; +Foi a nocturna ronda percorrida, +E em tudo as ordens satisfeitas todas. +Tem Alp o seu tentorio sobre a praia, +E em ancias vai curtir inda esta noite; +Mas bem póde a manhã suavisá-las, +Na fruição das vantagens tão copiosas +Com que o amor e a vingança hão de reunidos +Demora indemnisar tão prolongada. +Horas poucas lhe restão, e carece +De repousar, por que expedito esteja +Ás proezas da crástina matança: +Mas baralhados, quaes estuantes vagas, +Os pensamentos lhe reluctão n'alma. +Sem repouso e só elle em todo o campo; +Nem sente o coração entumecer-lhe +Fanatica vangloria blasonante +De ver pelo Crescente a Cruz calcada, +Ou de vender seus dias mui baratos, +Seguro de gozar no paraiso +O sempiterno amor das Houris bellas; +Nem se sente abrazar d'aquelle austero +Patriotico ardor que de bom grado +Supporta árduas fadigas, verte o sangue. +Quando peleja sobre o chão nativo, +Elle não era mais--que um renegado. +Ora verdugo da trahida patria; +Elle não era mais que um peito forte, +Um braço acreditado entre o seu bando. +Seguião-no, por que era valeroso, +E já lhes grangeára espolio grande; +Davão-lhe acatamento, por ver quanto +Elle sabia captivar do vulgo +As vontades, e arteiro dispôr d'ellas: +Mas nem por isso lhe entejavão menos +O Christão nascimento: inveja influe-lhes +A propria fama atreiçoadora que elle +Ganhára sob um nome Musulmano: +De qualquer modo, esse esforçado chefe +Vil Nazareno foi na juventude. +Não lhes era sabido té que ponto +É capaz de curvar-se o orgulho, quando +Murcho e aviltado o pundonor baquea; +Não lhes era sabido quão violenta +Chamma voraz em corações se accende +Que de meigos tornarão-se bravios; +Ignoravão qual zêlo de vinganças +Refalsado e fatal se gera e cresce +D'um convertido n'alma. Elle os regia: +Póde um homem reger outros peores, +E de ser o primeiro gloriar-se. +Taes os leões sobre o jakal dominão: +Destro o jakal espia e abate a prêsa; +Mas, no apertão da rugidora turba, +Da-se por pago, se devora os restos. + + +XIII. + +A cabeça lhe ferve, e apressuradas +As arterias palpitão-lhe convulsas; +D'um lado e d'outro volta-se, baldando +Modos de repousar; e se dormita, +O som mais leve, o mais pequeno abalo +Prestes o acordão angustiado em dôbro. +A fronte excandescida lhe molesta +Hoje o turbante, e, nem que plumbea fosse, +A loriga lhe pesa sobre o peito, +Se bem que tanta vez, e a somno solto, +Sob esse mesmo pêso repousasse, +Tendo apenas por leito um chão saibroso, +E por docel o firmamento apenas, +Leito e docel quaes ao guerreiro a noite +Agora os deparou. Elle nem póde +No seu tentorio adormecer, nem quieto +Esperar que desponte a luz diurna, +E eis vaga ao longo da arenosa praia, +Alastrada de tantos que repousão. +Quem os acalentou? e por que causa +Ha de elle só velar, despossuido +D'um bem que logrão rasos subalternos, +A quem cabe arrostar maiores p'rigos, +E lidas superar mais affanosas? +Mas ah! que um sonho animador lhes pinta +Os lucros todos do futuro espolio; +E em quanto mil e mil passão dormindo +Esta que a noite extrema é talvez d'elles, +Alp, em vigilia atroz, vaguea anciado, +E lhe é alvo d'invejas quanto encontra. + + +XIV. + +Vai na aprazivel fresquidão da noite +Achando refrigerio ás ancias d'alma. +Relentoso ora o ceo, bem que tranquillo, +As affogueadas faces lhe aspergia +Com brando orvalho. Apóz lhe fica o campo; +De fronte lhe serpea, derramado +Em crebros surgidouros e enseadas, +O golfo de Lepanto; está-lhe á vista +A de Delphos montanha sempiterna, +Onde os gêlos accrescem, brilhão, durão, +De mil estios affrontando a ardencia, +Campeando no golfo, e serro, e clima, +Sem que os dissolva, como a nós, o Tempo. +Desapparecem o tyranno e o servo, +Improprios a aguantar fulgente raio; +Mas este véo deslumbrador e fragil, +De que vês envolvido o monte excelso, +Quando torres baqueão, jazem troncos, +Lá brilha sempre no empinado alcáçar; +Pileo na fórma, nuvem no elevado, +Na côr e na amplidão lançol funereo, +Erguido a designar que a Liberdade +Se ausentou da mimosa estancia sua, +E hoje languida jaz no mesmo sólo, +Onde foi largos tempos escutado +Seu profetico ardor em aureos versos. +Oh! que de quando em quando inda lá sôão +Os passos seus sobre arescentes campos, +Sobre tantos altares demolidos; +E ella, um a um mostrando aquelles restos +Abonadores da passada gloria, +Alentar busca os animos prostrados: +Porém de balde bradará, em quanto +Não despontar n'um coração preclaro +Destimidez possante, toda accesa +Ao clarão d'esses dias que luzírão +Sobre a fuga do Persa, e que risonhos +O intérito arrostárão do Espartano. + + +XV. + +Inda que fugitivo e criminoso, +Alp admirava as inclitas virtudes +D'esses tempos heroicos; e esta noite, +Em quanto vagueava, e na memoria +O presente e o passado revolvia, +Apreciando as mortes gloriosas +Dos que em defensa da genuina causa +Seu sangue alli vertêrão, mui bem sente +A que ponto é fallaz, mesquinha, obscura +Quanta fama lucrou d'um bando á frente, +E, nefario traidor, brandindo a espada +Entre as turmas cingidas do turbante, +Que raivoso guiára a injusto assedio. +Onde era em cada prospero successo +Não menos computado um sacrilegio. +Taes não lhe mostra a fantasia os chefes, +Por quem aquelle pó que o circumdava +Fôra illustrado, e que as phalanges suas +Perfilavão no plaino, não de balde +Então de baluartes guarnecido. +Estes morrêrão escudando a patria, +E eternos vivem no fulgor da gloria: +Suspirar-lhes alli os nomes gratos +Inda parece a brisa; alli seus feitos +Sôão no murmurinho das correntes; +Povôa seu renome aquelles campos; +O pilar taciturno, ermo, alvacento, +Demanda aos sacros vultos alliar-se; +Os espiritos seus em tôrno girão +Dos fuscos serros; a memoria sua +Toda se espelha no cristal das fontes; +O arroio humilde, o caudaloso rio +Perennes fluem co'a perenne fama +Dos estremados campeões sublimes. +Por mais que a opprima um jugo, é esta sempre +A patria d'elles, e a mansão da gloria! +A Grecia!--ha de levar sempre este nome +Um som despertador ao Mundo inteiro. +Varão que aspira a perpetrar façanhas, +Lá põem na Grecia o fito, e abjura as normas +Que sómente os tyrannos sanccionárão; +Para lá olha, e se arremessa aonde +Conquiste a Liberdade, ou deixe a vida. + + +XVI. + +Sempre assim meditando silencioso, +Alp ao longo da praia os passos move, +E com brando rocio a noite o ameiga. +Coarctados e sem ésto, aquelles mares +Em moto igual ondeão sempiternos, +E a vaga que possuem mais furiosa +Nem um quarto de geira ao sólo invade; +E ou se mostre, ou se esconda, ou mude as phases, +Não tem sobre elles influencia a lua: +Mansos, tumentes, no alto, na enseada, +Do dominio lunar se movem francos. +O escolho immovel, descobrindo a base, +Olha ao largo, e de balde espera as ondas: +Póde ver-se a que o cinge espumea linha, +Que em baixo lhe traçou a mão dos évos. +Um pequeno areal loureja plaino +Entre o salgado leito e o chão relvoso. +Pela marina margem vagabundo, +Eis Alp assoma dos sitiados muros +Desviado não mais que quanto alcança +Um tiro de clavina. Como é crivel +Que alli não fosse visto, ou que evitasse +O golpe hostil? Entre os Christãos acaso +Remanecem traidores encobertos? +Qual torpor lhes vincula as mãos agora? +Qual gêlo os corações lhes paralisa? +Tal brandura elle estranha; mas é certo +Que de nenhum dos lanços lá do muro +Escorva reluzio, sibilou bala, +Se bem que tão de baixo agora avulte +Dos bastiões minaces que flanqueão +Essa porta, resguardo da cidade +Pela banda do mar; se bem que possa +Quasi as palavras distinguir ferrenhas, +E os passos numerar da sentinella, +Que sôão, indo e vindo compassados, +Pela extensão da sotoposta lagem. +Nem os cães, de occupados, lhe latírão! +E, magros e famélicos rosnando, +Os vê sob a muralha dar-se ao bôdo +De sangrentos cadaveres e ossadas: +Ei-los que estão da pelle despojando +Nest'hora um craneo Tartaro, bem como +Nós despojamos o recente figo; +E alvejantes lhes rangem os colmilhos +Sobre a caveira que inda mais alveja, +E que dos queixos lhes resvala, quando +Embotados os deixa o roer crebro; +Mas vão moendo de vagar os ossos, +Se um acaso permitte que não achem +Sobre aquelle torrão melhor sustento. +Seu antigo jejum quebrou-se á larga +Nos guerreiros que alli perdendo a vida, +Lhes são manjar em refeição nocturna. +Pelos turbantes sobre a aréa esparsos, +Alp a flor do seu bando reconhece; +Bem nota o verde, o carmesim das telas +Com que cingião por costume a fronte; +E cada pericraneo off'rece a esguia +Madeixa longa, e no demais é raso. +Os pericraneos jazem na guela +Feroz dos cães, ao passo que a madeixa +Se lhes enreda em volta das queixadas. +Lá se vê mais além, do golfo á orla, +Sofrego abutre contender c'um lobo, +Que, das montanhas a prear baixando, +Era alli solitario, e não ousava, +Dos cães espavorido, tomar parte +No amplo repasto das humanas carnes; +Mas engole a ração que lhe coubera +D'um corsel debicado já das aves, +Que da enseada no areal jazia. + + +XVII. + +De tão feio espectaculo insoffrivel +Arreda os olhos Alp: elle em conflictos +O que era estremecer não soube nunca; +Porém não é tão arduo, tão penoso +Olhar ao que estendido se revolve +Do proprio sangue em fumegante lago, +E arqueja entregue á insaturavel sêde +E ao vasquejar da morte, quanto é vê-lo +Depois que pereceo, e é só cadaver. +No momento fatal, um certo orgulho +Se desenvolve n'alma do soldado, +Lhe adoça o fim cruento: se fenece, +Espera reviver na voz da Fama, +Ficar bemquisto á Honra, que tem sempre +Os olhos fitos no que morre affouto! +Mas quando em fim s'esvaeceo tudo isto, +Bem misero se sente quem percorre +Campo alastrado d'insepultos mortos. +Ao ver como da terra surde o verme, +Deixa o bruto as florestas, a ave desce, +E alli affluem, demandando no homem +Todos quinhoar prêsa, e achando todos +O lucro seu na decadencia d'elle. + + +XVIII. + +Alli se via derrocado templo: +São cinza e longo olvido as mãos que o erguêrão. +Inda algumas columnas, e dispersos +De marmore e granito mil fragmentos +O sólo opprimem, recobertos d'herva. +Inexoravel Tempo! e nunca inteiras +Deixarás ao porvir obras passadas! +Inexoravel Tempo! e has de tu sempre +Querer que do passado fique apenas +Aquillo que o presente affligir deve; +E assim fazer-nos dolorosa a imagem +Do que já foi, do que ha de ser um dia! +Bem como nós, verão nossos vindouros, +Em reliquias d'antigos monumentos, +Só pedras que exalçou o homem de barro! + + +XIX. + +Ao pé d'uma columna Alp eis se assenta: +Co'a mão comprime a face, e o corpo inclina +Como quem se resente acabrunhado +D'aterradores pensamentos tetros; +A cabeça descahe-lhe sobre o peito +Excandescido, palpitante, oppresso; +Girão-lhe pela fronte debruçada +Os dedos velocissimos, bem como +Pelo eburneo teclado os dedos girão +De primoroso artista, que em preludios +Por ora se entretem, da escôlha incerto. +Vergando assim ao pesadume infenso, +Crê que ouvio suspirar nocturna brisa. +Acaso em lagens concavas murmura +Gemido terno de macias auras? +Ergue então a cabeça, e o mar observa;-- +Repousa o mar, qual cristalino espelho: +Contempla esguias hervas;--nada as move: +D'onde procederia o som mavioso? +Repara nas bandeiras;--quietos pendem +No alto do Citherón, quaes os deixára, +Inda os hasteados pannos; leve aragem +Nem sequer lhe roçou a téz do rosto: +Qual do imprevisto murmurinho a causa? +Volve-se ao lado esquerdo:--será isto +Illusão ou verdade? Ante seus olhos +Eis joven dama refulgente assoma! + + +XX. + +Se Alp então visse um inimigo armado +Surgir-lhe face a face, não se erguêra +Tão abalado de profundo assombro. +"Deos de meus pais! que vejo? quem es? como +D'hostís fileiras te aproximas tanto?" +A mão tremente lhe recusa agora +Estampar sobre a fronte essa Cruz mesma +Que elle tanto insultou; mas n'este lance +Se persignára, se a consciencia sua +Lhe não fizesse ver quanto era indigno. +Repara, observa a fundo, e reconhece +O rosto bello, as engraçadas fórmas: +É Francina, essa virgem suspirada +Que elle a si pertendia unir consorte! +Inda nas faces lhe viceja a rosa, +Porém a rubra côr é menos viva. +Que é do attractivo d'esses labios meigos? +Não mora n'elles o sorrir donoso +Que ao rubim dava esmalte. Inda em seus olhos +Reside o azul do socegado oceano; +Mas se no aspecto bonançoso o imitão, +Também o imitão na frieza immovel. +Talhe accusão gentil vestes ligeiras; +Nada lhe vela o seio luminoso; +Soltas d'ebano as tranças, ver não tolhem, +Por entre a chuva dos anneis ondeantes, +Nivea nudez dos torneados braços. +Levanta ao alto a mão antes que falle; +E de tal modo branca e transparente +Se mostrava essa mão, que poderieis +Ver por entre ella rutilar a lua. + + +XXI. + +"O repouso deixei, a fim sómente +De vir ao meu amado, e de fazê-lo +Feliz commigo, e ser feliz com elle. +Por teu respeito entre inimigas turmas +Eis movo os passos, e transpuz a salvo +Muralhas, portas, sentinellas, tudo. +Uma joven donzella, em todo o brio +Da nativa pureza, ha quem affirme +Que dos proprios leões é respeitada: +E o superno Poder que ao innocente +Escuda contra o despota dos bosques, +Se encarregou tambem de defender-me +Do insulto d'infieis confederados; +E vim:--se vim de balde, oh! vê que nunca, +Nunca mais tornaremos a encontrar-nos! +Sei que, abjurando de teus pais a crença, +Es réo de crime hediondo; todavia +Lança por terra esse turbante, e imprime +Sobre a fronte o da Cruz signal divino, +E eu de ti folgue na perpetua posse. +Eia, o negro labéo expelle d'alma; +E pois havemos ámanhã de unir-nos, +Não queiras para sempre separar-nos." + +"E ao tóro nupcial onde acharemos +O apetecido espaço? póde havê-lo +Entre montões de mortos e expirantes? +Os Christãos, seus altares, quanto é d'elles, +Ha de o ferro ámanhã unido á chamma +Tudo, tudo extinguir: nenhum mais deve, +Senão es tu e os teus, ver nova aurora; +Que eu assim o jurei. Mas ser-me-ha doce +A mais donosos sitios transportar-te, +Onde se enlacem mãos, se olvidem mágoas, +Onde tu sejas a consorte minha, +Quando abatido de Veneza o orgulho +Eu já tiver; quando este braço, que ella +Quiz sumir na abjecção, deixe açoutados +Com viperino látego os infames +Que accendeo contra mim o vicio e a inveja." + +Ella pousou a mão sobre a mão d'elle: +Foi leve o toque, mas varou-lhe prompto +As medullas dos ossos, e entranhou-lhe +Pelo imo coração gêlo indizivel, +Que nem d'estremecer lhe deixou posses; +E este frio mortal, de que se arguia, +Removê-lo de si em vão tentava. +Oh! nunca, nunca de tão caro objecto +Partíra movimento que viesse +Com tamanho terror gelar-lhe o sangue, +Qual n'esta noite o subitaneo toque +D'aquelles alvos dedos alongados. +Morreo-lhe em pallidez a effervescencia, +Ficou-lhe o coração, qual seixo, immovel, +Ao ver aquelle rosto, ai! tão mudado +Já de si proprio: bello, mas languente-- +Sem vestigio nenhum d'incendios d'alma, +Que em cada feição d'elle se espelhavão, +Como um dia de sol se espelha n'agua. +Anhélito nenhum se unia ás vozes +Que lhe escapavão dos immotos labios; +Do quieto coração nenhum palpite +Lhe sublevava o seio; nada havia +Que a rigida attenção interrompesse +D'aquelles olhos estacados, fixos. +Taes são os do somnambulo, que, em meio +D'anciados sonhos, deixa o leito e vaga; +Taes, na extensão de apainelados razes, +Baças figuras de minaz aspecto, +Se ao trémulo clarão as contemplamos +D'expirante lucerna, desenvolvem +Não sei qual mixto de animado e morto, +Com que parecem, aterrando a vista, +Ora avançar do tenebroso fundo, +Ora entranhar-se n'elle, em moto alterno, +Que a seu sabor lhes communica o vento. + +"Se por amor de mim tu crês que é muito, +Por amor só do Ceo embora o faze: +Longe arremessa (inda outra vez to digo) +Da fronte criminosa esse turbante, +E me promette de não ser infesto +Aos filhos da insultada patria tua, +Ou es perdido, e despedir-te deves, +Não já da Terra--esvaeceo-se a Terra-- +Mas do Ceo e de mim, que te fui cara. +Eia, cede a meus rogos: vê que abertas +Inda te esperão da clemencia as portas; +E bem que contra ti grave sentença +Fosse já proferida, o rigor d'ella +Em grande parte expiará teu crime. +Pondera a fundo; e provocar não queiras +A maldição d'Aquelle que abjuraste. +Ao Ceo inda uma vez levanta os olhos, +Vê que a ti mesmo para sempre o fechas. +Essa nuvem que esconde agora a lua, +Lá vai passando, e passará de pressa: +Se, quando rebrilhar o disco inteiro +Desafrontado do vapor sombrio, +Não revolveo a contrição teu peito, +Ficão de ti vingados Deos e os homens: +Tremendo fim terás, e mais tremenda +Te espera a eternidade dos perversos." + +Alp ergue a vista ao Ceo, e reconhece +O indicado signal; porém o orgulho +Entumeceo-lhe o coração, e o rege +Com despotico imperio inabalavel; +E esta paixão fallaz que o predomina, +É torrente caudal que tudo alaga. +Elle implorar perdão! elle render-se +A impertinencias de mesquinha virgem! +Elle, offendido de Veneza ingrata, +Poupar-lhe os filhos, que votou á morte! +Não:--embora essa nuvem traga um raio, +Embora um raio o esmague:--e inda não trôa? + +Sem que a minima voz dos labios solte, +Elle fitava ancioso aquella nuvem: +Attento a vê passar; fugio de todo: +Em seu pleno fulgor se mostra a lua. +"Qualquer que seja o meu destino (exclama), +Não tenho de mudar: agora é tarde. +No meio da tormenta póde a canna +Dobrar-se e logo erguer-se, os troncos quebrão. +Qual Veneza me fez, serei já'gora; +Seu implacavel inimigo em tudo, +Excepto na affeição que eu te consagro. +Tu pois es salva: oh! vem, meus passos segue." +Voltando-se, elle a busca; ella sumio-se: +Só o antigo pilar lhe avulta ao lado. +Sorveo-a a terra, ou s'esvaío nos ares? +Nada elle vio--nada escutou só sabe +Que alli nenhum vestigio existe d'ella. + + +XXII. + +A noite dissipou-se, e o sol resplende, +Qual se um dia de festa esclarecesse. +Eis d'entre bruscos véos pomposa surge +Arraiada a manhã d'aureos fulgores, +E abrasador promette o meio-dia. +Trombetas se ouvem, rufos de tambores, +Hórridos sons de barbara corneta, +Sussurrar de bandeiras fluctuantes, +Relinchar de corseis, tropear de turmas, +E o retinir das armas, e o alarido: +"Ei-los vem! ei-los vem!" Da terra prestes +Descravão-se os pendões equi-caudatos, +Desnudão-se as espadas lampejantes, +E tudo a entrar em fórma apercebido, +Só depende da voz, e a voz já sôa: += Tartaros, e Spahís, e Turcomanos, +As tendas abatei, ide á vanguarda, +Dai d'espora aos corseis, e na planicie +Seja cortado o passo aos fugitivos, +Quando estes proromperem da cidade: +Não escape nem velho nem mancebo, +Que offrecer de Christão qualquer indicio. +Entretanto que em massa prepotente +Vão sustentar os camaradas vossos +A ensanguentada brecha, e entrar por ella. = +Já o fogoso corsel remorde o freio, +E arquea o collo, e, sacudindo a crina, +As redeas tinge d'alvejante espuma: +Estão em riste as lanças, e flammejão +Accesos os murrões, e em continente +O assestado canhão vai despejar-se +Com estampido horrísono, e as muralhas, +Rôtas em frente, esboroar de todo. +Na phalange os Janizaros entrárão: +Alp os commanda; e a cimitarra nua +No erguido braço nu sustenta e brande. +Kans e Bachás fixárão-se em seus postos; +E ei-lo á frente da hoste se apresenta +Em pessoa o Visir.--Tanto que a senha +Troar na disparada colubrina, +Tudo em Corintho será ruina e morte: +Não ficará um sacerdote ás aras, +Nem um chefe no centro das familias, +Nem fôlgo vivo que as mansões povôe, +Nem sequer uma pedra sobre os muros. +"Deos e o Profeta seu! _Allah-Hu!_"--Sobe +Té ás estrêllas o feroz ulúlo! +"Lá tendes, para entrar, aberta a brecha; +E escadas não vos faltão: tambem todos +N'essas robustas mãos sustentais armas; +E como ha de falhar-vos o triunfo? +D'entre vós o primeiro que se affoute +Á arrancar a vermelha Cruz hasteada, +Póde franco pedir quanto apetece +Com mais vehemente ardor: supplique e obtenha." +Tal se exprimio Coumourgi, o Visir bravo. +Foi resposta o brandir d'espadas, lanças, +Com mil acclamações de raiva alegre.-- +Silencio!--á senha estai attentos!--fogo! + + +XXIII. + +Como quando esfaimados ruem lobos +De chofre sobre o bufalo soberbo, +Sem tremerem da tórva catadura, +Do mugir fero, do escavar das plantas, +Nem dos minaces cornos assestados; +E elle ou lança por terra ou ergue aos ares +Os primeiros que accessos o acommettem, +Mas que no cego arrôjo a morte encontrão: +Assim o Musulmano invade os muros, +E no impeto primeiro é repellido. +Alli rôtos do bellico granizo, +Dispersos como vidro espedaçado, +Quantos de bronze acobertados peitos +Ora juncando a terra, d'onde nunca +Se hão de levantar mais! Estão fileiras +Inda alinhadas, quaes na queda o estavão; +Jaz dos mais destemidos copia grande: +Tal, quando o dia é findo, e o labor cessa, +Vemos jazer sobre aplainados campos +A herva que o segador deixou ceifada. + + +XXIV. + +Bem como, em viva preamar, se observa +D'algosos escarcéos batida rocha, +E já minada dos diuturnos éstos, +Soltar enormes lascas alvejantes, +Que com fragor horrísono se abatem, +Assemelhando ao torreão de gêlo +Que Alpinos valles despenhado aterra: +Assim os de Corintho habitadores, +A final quebrantados, exhauridos, +Forão na ruina atroz precipitados +Pelo acintoso impulso recrescente +Das cerradas cohortes Musulmanas. +Elles insistem firmes, e, na queda, +O furor do Infiel os prostra em massa. +Pelejão braço a braço, e planta a planta; +E nada, excepto a morte, alli é mudo: +Impetos, golpes, empuxões, clamores +Ou a pedir quartel, ou de victoria. +Reunidos ao troar increbescente +Dos bellicos trovões, e ao temeroso +Estrondo da batalha encarniçada. +Lá vão disseminando susto immenso +Por longinquas cidades, d'igual modo +Que se estivessem sob o golpe infesto, +E já dentro o inimigo as depredasse; +Não d'outra sorte que se proprio fôra +A excitar sensação ou triste ou leda +Aquelle som que anniquilar só sabe, +E que, varando dos soturnos montes +As entranhas durissimas, se expande +Em pavorosos écos desusados: +Lá os ouvio Megára e Salamina, +E, se não exaggera a voz do vulgo, +Té na enseada do Pirêo troárão. + + +XXV. + +Em rijo e solto embate retinindo, +Sabres, espadas, desde a ponta aos copos, +Gotejão sangue; mas entrados forão +Os muros já, e eis principia o saque, +E apóz elle a feroz carnificina. +Rompe dos edificios depredados +Medonha confusão de agudos gritos: +Escuta quão velozes na fugida +Vão pés escorregando em quente sangue, +Que as ruas deixou lúbricas: no em tanto +Aqui e além, onde o terreno offreça +Contra o fero invasor qualquer vantagem, +Onde algum lanço de parede ou muro +Lhes proteger as costas, então elles, +Aos dez, aos doze, em mal parados grupos, +Logo alli fazem alto,--alli renovão +Desesperada briga audazes, firmes, +Ou co'as armas na mão perecem todos. +Eis a pé firme um ancião lá surge;-- +De cãs lhe alveja povoada a fronte; +Porém vigor pujante lhe robora +O veterano pulso: não se altera +Seu bisarro denôdo, entre o bulicio +Do revôlto brigar; tem por trincheira +Semicirculo espêsso d'inimigos, +Que hoje uns sobre outros apinhava mortos; +Ferve em dura peleja não ferido, +E sabe retirar-se não cercado. +Sob a loriga refulgente esconde +Dos certames d'outr'ora as cicatrizes +Innumeraveis; que de toda a especie, +E o corpo inteiro lhe crivárão golpes. +Em despeito d'aquella ancianidade, +É de tão ferreos membros, que difficil +Fôra d'igual jaêz achar-se um môço: +E os inimigos, que empatados tinha, +Pullulavão-lhe alli mais numerosos +Que as prateadas cãs da fronte altiva; +Mas apoucando-os vai a forte dextra. +Muitas mãis Othomanas pranteárão +Filhos que, quando pela vez primeira +Elle a espada tingio em sangue Turco, +Inda não erão nados, e hoje expirão +Antes de perfazerem lustros quatro. +Bem poderá elle ser o avô de quantos +N'este dia immolou ás iras suas: +Vingando um filho que perdêra ha muito, +Vai dos contrarios seus matando os filhos: +E desde quando o desvelado joven, +Unica prole varonil que tinha, +Morreo a combater no undoso estreito +Que d'Asia o chão divide do d'Europa, +Logo o pai prometteo sacrificar-lhe +Sanguinosa hecatombe d'inimigos, +Ceifada ao golpear do ferreo braço. +Se o morticinio pacifica as sombras, +Nem mesmo de Patroclo aos manes coube +Júbilo igual ao que sentir devião +Os do joven Minotti. Sepultado +Ficou seu corpo nas oppostas praias, +E ora privados de sepulcro n'estas +Cá ficão mil para milhares d'annos. +Qual d'elles escapou que referisse +Como os outros morrêrão, e onde jazem? +Lousa nenhuma os cobre, não lhes guarda +Nenhum tumulo as cinzas: entretanto +Vivem e vivirão no immortal plectro. + + +XXVI. + +Qual clamoroso _Allah!_--um terço avança +De tropa Musulmana a mais affouta, +E de pulso melhor: vai-lhe na frente, +Nervoso, nu té o hombro, e em moto ondeante +Brandindo o ferro, e sobranceiro a todos, +Do commandante o braço, que expedito +Sabe ferir, e perdoar não sabe.-- +Outros embora em mais pomposo traje, +D'espolio ao inimigo a sêde ateem; +Sejão embora muitos os que empunhão +D'aureo lavor custosas cimitarras, +Que de nenhuma escorre tanto sangue; +Ostentem muitos adornada a fronte +De turbantes mais altos, mais airosos;-- +Alp é só conhecido por aquelle +Braço nu, que branqueja levantado. +Ei-lo campea onde mais arde a briga! +Não se arvorou pendão sobre estas praias +Que mais destro as fileiras anteceda; +Jámais, durante a Musulmana guerra, +Se despregou bandeira que attrahisse +De tão longe os Delhís: sempre o distinguem +A lampejar como cadente estrêlla! +Onde quer que este braço prepotente +Uma vez se mostrou, logo os mais bravos +Surdem todos alli, ou tarde chegão; +Alli quartel o ignavo em vãos clamores +Ao vingativo Tartaro supplica; +Alli o heróe, no chão deitado e mudo, +Nem quer que quando morre um ai lhe escape, +E inda com tibio golpe derradeiro +Invade o antagonista, que não menos +A par de si prostrou; e bem que expire +Tão alquebrado das feridas mutuas, +Raivando afferra o ensanguentado sólo. + + +XXVII. + +O ancião, persistindo inabalavel, +Oppôr consegue momentaneo estôrvo +D'Alp á carreira atroz.--"Cede, Minotti: +Salva todos os teus, attende á filha." +--"Nunca o verás, vil renegado, nunca! +Nem tinha eu de annuir inda que fosse +Vida eterna essa vida que me off'reces." +--"E Francina!--e a futura minha noiva! +Queres, assim teimoso resistindo, +Ser tambem causador da morte d'ella?" +--"Ella está mui a salvo."--"Onde? em que sitios?" +--"No Ceo, d'onde banida para sempre +Foi tu'alma aleivosa,--e onde Francina +Vive longe de ti, vive sem mancha." +Alp, a taes vozes, titubante, anciado, +Fica não d'outra sorte que se o peito +Lhe traspassasse truculento golpe; +E de Minotti despontou nos labios +Irónico sorriso de vingança. + +"Oh Deos! quando expirou?"--"Inda esta noite; +Mas do espirito seu não choro a ausencia, +Antes fólgo de ver que cá não deixo +D'esta minha linhagem nobre e pura +Ninguem que haja de ser misero escravo +De Mafamede ou teu. Anda, acommette!" +Baldado desafio! Alp é já morto. +Ao tempo que Minotti lhe vertia +N'aquellas expressões criminadoras +Todo o fel da vingança, e que mais cruas +Que a propria ponta de buído alfange +Ellas varavão Alp, eis vôa o golpe +D'um templo não distante, defendido +Com incriveis primores de firmeza +Por esse dos Christãos ultimo resto, +Que tão minguado e d'esperança exhausto, +Inda de lá fazia esforços grandes +Para o combate restaurar fallido: +E antes de descobrir d'onde assestada +Lhe foi a lethal bala sibilante, +Alp o cerebro tem varado d'ella, +E voltea, e vacilla, e cahe por terra: +Lampejou-lhe ante os olhos clarão debil, +Quando vergou para não mais erguer-se, +Ficando apenas palpitante tronco, +Que ei-lo envolvido jaz na noite eterna. +N'elle indicio não ha que vida inculque, +Salvo o tremor dos membros onde o tiro +Deixou menor estrago. A ponto acodem, +E de costas o estendem: rosto e peito +Lhe estão manchados de poeira e sangue, +E jorra-lhe da boca o vital fluido, +Que as cavernosas veias desampara; +Mas não lateja o pulso, não se escuta +Nos labios murmurar-lhe o arranco extremo; +Nem sequer um suspiro, uma palavra, +Um penoso arquejar, lhe assignalárão +O transito fatal da vida á morte. +Antes que o pensamento levantasse +Em súpplica contrita, réo nefando, +Se apresenta aos umbraes da eternidade, +Sem que ao perdão celeste aspirar possa, +E na vida e na morte--Renegado. + + +XXVIII. + +Então d'um lado e d'outro aos ares sobe +Espantoso alarido retumbante: +Aqui, de regozijo; além, de raiva. +Eis de novo travadas em conflicto +Espadas de Christãos e Turcas lanças +Embatem com furor, mutuão golpes, +Estendendo no pó guerreiros muitos. +Ousa, de rua em rua e passo a passo, +Minotti disputar aos inimigos +Qualquer porção restante do terreno +Que ao seu bravo commando fôra entregue: +Ao lado, a reforçar-lhe audacia e pulso, +As sobras tem da guarnição briosa. +Resistencia tenaz off'rece o templo, +D'onde predestinada veio a bala +Que em grande parte despicou Corintho, +Morto Alp, o mais feroz de seus contrarios +Para alli recuando sem desvio, +Deixando diante ensanguentado rasto, +E os inimigos encarando sempre, +E nunca sem matar vibrando um golpe, +O chefe e o seu cortejo, em retirada, +Conseguem reunir-se aos que occupavão +A sacra estancia: no recinto d'ella +Inda lhes cabe respirar um pouco, +Das maciças paredes escudados. + + +XXIX. + +Remanso bem mesquinho! Os Musulmanos, +De pujante refôrço abastecidos, +Borbotando furores e ufania, +Tão cerrados, tão férvidos avanção, +Que o número lhes tolhe a retirada: +Dest'arte se atravancão no caminho +Que vai ao templo, onde os Christãos não sabem +O que é render-se; e os batalhões infestos +Tanto apinhão-se á frente, que, inda quando +Lavrasse o susto alli, nenhum podéra +Por entre as fortes massas escoar-se: +Ou vencer ou morrer lhes era fôrça. +Morrem; mas sobre os corpos palpitantes +Lhes surgem de repente os vingadores. +Que, frescos e raivosos pullulando, +As filas, sempre rôtas, enchem sempre; +E os Christãos affadigão, extenuão, +Violentas amiudando as investidas: +E ei-los agora os Infieis assomão +Junto ao sacro portal. Por longo espaço +A ferrea contextura inda resiste, +Inda de cada fresta vôão tiros, +Todos bem assestados, mortaes todos; +E de cada janella se desatão +Em chuveiro as sulfureas alcanzias. +Mas já fraqueão as nutantes portas-- +Vérgão rangendo os quicios, cede o ferro,-- +Lá pendem--lá se abatem já cahírão: +Não mais resistirá, morreo Corintho! + + +XXX. + +Soturno, sem que o vejão, só comsigo, +Ao altar arrimado está Minotti. +D'um painel sobranceiro, a Virgem santa +O affavel rosto fúlgido lhe volve, +Transumpto de celeste colorido, +Onde os olhos são luz, amor o aspecto; +E na ara collocado a fim que possa +Dos humanos fixar o pensamento +Sobre as cousas do Ceo, quando elles orão +Devotos, genuflexos ante a imagem +D'esta Mãi admiravel, que em seu gremio +Sustem e affaga o Redemptor-menino, +E com sorrisos acolhendo meigos +Uma por uma as fervorosas preces, +Como que ao Ceo de transferi-las cuida. +Sorrindo sempre, inda sorrí agora, +Em despeito da atroz carnificina, +Do sangue em jôrros que deturpa as naves. +Eleva então Minotti os olhos lassos, +E, exhalando um suspiro, se persigna; +Logo alli d'uma tocha que era accesa +Ei-lo se apossa, e permanece firme, +Em quanto os Musulmanos irruindo, +Desenvolvendo á larga ferro e fogo, +Hórridos enchem a mansão sagrada. + + +XXXI. + +Sob a lagem que o vasto pavimento +Recompunha em mosaico variada, +Subterraneas abobadas se arqueão. +Jazigo aos mortos das passadas eras: +Em memorandas lápidas incisos +Lião-se os nomes seus, que ler não deixa +Ora o sangue que os cobre: aqui não menos +Vião-se, honrando as cinzas, esculpidos +Timbres, emblemas de lavor prestante, +Marmores luzidíos, de vistosas +Multicolores veias serpeados,-- +Que, sórdidos já hoje, se baralhão +Com fragmentos d'espadas, de montantes. +Com morriões e arnezes abolados, +Confuso mixto que por cima avulta +D'innumeraveis ataúdes, onde +Enfileirados os defunctos dormem: +Podes vê-los em lugubre apparato, +Ao macilento albor que inda os visita +Por fisgas breves de sombrias grades. +Mas nem por isso desistio a Guerra +D'entrar por estas lobregas cavernas, +Com tórva profusão disseminando +Das sepulcraes abobadas ao longo +Seus thesouros sulfureos, que se elevão +Empilhados em massas volumosas +Junto dos resequidos esqueletos. +Aqui, durante o cêrco, havião feito +Seu paiol os Christãos: longo rastrilho, +Desde agora entornado, se encaminha +Do templo a estes sitios; e eis o extremo +Recurso inabalavel de Minotti +Contra o poder das irruentes turmas. + + +XXXII. + +O inimigo enche tudo; e poucos tentão +Inda arrostá-lo, ou mui de balde o arrostão. +Elle, á falta de vivos, vai nos mortos +Saciar da vingança a voraz sêde, +Que exacerbou-se agora; elle os invade +Com sacrilegos golpes, e decepa +Cabeças já finadas, e dos nichos +As estatuas despenha baqueantes, +E as aras despe d'oblações opimas, +E co'as callosas mãos profanadoras +O argento empolga dos sagrados vasos. +Chegada apenas a caterva infrene +Ante o altar principal, detem-se e pasma: +Oh qual o adorna resplandor pomposo! +Sobre a pedra lhe surge bem patente +O consagrado Caliz, ouro estrême, +Prêsa que enleva os depredantes olhos, +A fulgurar maciça e ponderosa: +Hoje conteve o sacrosanto vinho, +Que Christo em sangue seu mudar dignou-se, +E com que, ao romper d'alva, os seus cultores, +Antes de pelejar, fortalecêrão +As almas ao dever e ao Ceo votadas: +Inda no fundo remanecem gotas; +E tambem, circumdando a sacra mesa, +Em symetria esplendida dispostas, +Ardem lampadas doze d'ouro fino: +Este o mais opulento e ultimo espolio. + + +XXXIII. + +Apinhão-se alli todos; e o que estava +Da prêsa mais visinho, faz-se avante, +E quasi quasi que a empolgava, quando +O longevo Minotti applica a tocha +Ao rastrilho fatal;--ei-lo se inflamma! +Campanarios, abobadas, altares, +Espolio, vivos, mortos, moribundos, +Christãos vencidos, Turcos vencedores, +E o templo esboroado, e quanto ha n'elle, +Se ergue aos ares com hórrido rebombo, +E finda envôlto na explosão terrivel! +A cidade abalada--o chão coberto +D'edificios, de muros demolidos-- +As ondas que recuão, de assustadas-- +Os montes, senão rôtos, vacillantes, +Como se os sacudisse um terremoto-- +De milhares d'objectos mixto informe +Que os Ceos toldando vai de fogo e fumo. +Ao rebentar da horrítona lufada-- +Não cessão de apregoar que n'estas praias, +Ha longo tempo, afflictas, terminou-se +Dos combates o mais desesperado. +Como accesa em girandolas festivas, +Lá roça os astros a confusa mole. +Varões não poucos d'estatura ingente, +D'apparencia gentil, ora abrasados, +Curtos como pigmeos, descem dos ares, +Em torrado carvão juncando a terra. +Grossa chuva de cinzas se despenha: +Muitas recebe o golfo, e, ao recebê-las, +Fórma em tôrno escarcéos, que se desfazem +N'um progresso de circulos undosos; +Muitas recebe a praia, e vão, por longe +Disseminadas, recobrir todo o isthmo: +São cinzas de Christãos ou d'Othomanos? +Suas mãis se aproximem, venhão vê-las, +E digão se as conhecem!--Por ventura +Houve alguma de vós, ó desgraçadas, +Que quando aos peitos lhe pendia o filho, +Ou no embalado berço o adormentava, +E, sorrindo d'amor, se comprazia +N'aquelle brando repousar donoso, +Ai! houve alguma então que nem por sombras +Esperasse este dia, ou ver dispersos +Da cara prole os lacerados membros? +Nem sequer, nem sequer as extremosas +Matronas que no ventre os alojárão +Estremar sabem os nascidos d'ellas; +Um só momento lhes tirou de todo +Fórma e semblante d'homens; resta apenas +Algum disperso pericraneo ou osso. +Barrotes, vigas flammejantes descem, +E em redor se derramão; vem cahindo +Engastadas em barro infindas lagens, +Que o sólo opprimem fumegantes, negras. +Todo o vivente a quem troou no ouvido +O abalo estragador, pregão de morte, +Ou jazeo ou sumio-se: espavoridas +O vôo affastão carniceiras aves; +Bravíos cães vão-se arredando em uivos, +Nem se lhes dá dos insepultos mortos; +O camelo as prisões deixou quebradas; +O touro, ao longe, se desfez do jugo; +O corsel, que o fragor ouvio de perto, +Rompendo a silha, espedaçando as redeas, +A galope alongou-se pelo plaino; +As incolas dos charcos lutulentos, +Alçando a boca sobremodo aberta, +Clamor soltárão importuno em dôbro; +Uivárão pelas furnas das montanhas +Os lobos, quando alli a trovoada +Em écos retroou; lá mui distantes, +As alcatéas dos jakaes bramírão +Com mixto som, que, lamentoso e agudo, +Ora imitava criancinha em chóros, +Ora lebréo ganindo fustigado: +Esbaforida accelerando os vôos, +A aguia desamparou a rocha alpestre, +Onde aquecia o ninho, e remontou-se +Mais proxima do sol, achando crassas +Em demasia as sotopostas nuvens, +Que vinhão, d'atro fumo conglobadas, +Roçar-lhe o bico amedrontado, hiante, +Mais e mais excitando-a a sublimar-se, +E o grito a reforçar.--Eis de qual modo +Conquistada e perdida foi Corintho. + +FIM. + + + + +NOTAS ABREVIADAS. + + +NOTAS ABREVIADAS. + + +II.--_vers._ 14. + + Dando de mão á grei, o Turcomano + Prestes unio ao lado a cimitarra. + +Domiciliados debaixo de tendas, vivem estes povos uma vida patriarcal. + + +V.--_vers._ 1. + + Coumourgi--aquelle etc. + +Ali Coumourgi, valido de tres sultões, e grão visir de Achmet III, +havendo retomado em uma só campanha o Peloponeso aos Venezianos, foi, no +seguinte anno, mortalmente ferido na batalha de Peterwaradin, quando +forcejava para reunir suas tropas. + + +XVI.--_vers._ 4. + + Coarctados e sem ésto, aquelles mares + Em moto igual ondeão sempiternos. + +É talvez desnecessario recordar ao leitor que o movimento do fluxo não é +visivel no Mediterraneo. + + +Ibi--_vers._ 42. + + Ei-los que estão da pelle despojando + Nest'hora um craneo Tartaro, etc. + +Este espectaculo, qual o descrevo, foi por mim presenciado sob os muros +do serralho de Constantinopla; e os cadaveres erão talvez os de alguns +Janizaros rebeldes. + + +Ibi--_vers._ 59. + + E cada pericraneo off'rece a esguia + Madeixa longa, etc. + +Crêm os Musulmanos que o seu Mafôma, no ponto de transferi-los ao +Paraiso, os tomará por esta madeixa; e, firmados sobre tão supersticioso +fundamento, a deixão crescer. + + +XXI.--_vers._ 94. + + Essa nuvem que esconde agora a lua, + Lá vai passando, etc. + +Este pensamento não é original, por quanto deparei com elle na versão +ingleza de Vathek. + + +XXII.--_vers._ 11. + + ---------- Da terra prestes + Descravão-se os pendões equi-caudatos. + +De uma cauda de cavallo, fixa no alto de uma lança, são compostos os +pendões dos Bachás. + + +XXV.--_vers._ 51. + + Morreo a combater no undoso estreito + Que d'Asia o chão divide do d'Europa. + +Na batalha naval que os Venezianos travarão com os Turcos á entrada dos +Dardanellos. + + +FIM DAS NOTAS. + + + + + * * * * * + +P. S. _Escrevemos accentuada e sem_ h _a 3.ª pessoa do singular no +indicativo presente do verbo substantivo ser, e igualmente sem_ h _o +adjectivo numeral um, por nos parecerem terminantes as razões em que é +fundado este uso. Por certo que nem sempre adherimos á opinião de nossos +Grammaticos e Diccionaristas modernos, com quanto sejão alguns de +reconhecida erudição; e em meia duzia de paginas, que talvez +publicaremos, hão de apparecer indicados os pontos e expendidos os +motivos d'esta divergência. Pelo que toca á exactidão typografica do +Poema que apresentamos traduzido, empregou-se ahi mui boa diligencia: é +pois de presumir que será leve e de facil emenda o defeito que ainda +remanecer._ + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord +Byron, traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA *** + +***** This file should be named 33592-8.txt or 33592-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/3/5/9/33592/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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