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+The Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron,
+traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez
+
+Author: George Gordon Byron
+
+Translator: Henrique Ernesto de Almeida Coutinho
+
+Release Date: August 31, 2010 [EBook #33592]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+ Nota de transcrição:
+
+ Foi mantida a grafia usada na edição original de 1839, tendo sido
+ corrigidos apenas pequenos erros tipográficos evidentes.
+
+
+
+
+ O CERCO DE CORINTHO,
+
+ POEMA
+
+ DE
+
+ LORD BYRON,
+
+ TRADUZIDO EM VERSO PORTUGUEZ,
+
+ POR
+
+ _H. E. A. C._
+
+
+ PORTO.
+ TYPOGRAPHIA COMMERCIAL PORTUENSE.
+ LARGO DE S. JOÃO NOVO N. 12.
+ 1839.
+
+
+
+
+AO ESTIMAVEL ANONYMO.
+
+
+ _Alma prestante, onde reside e impera
+ O Genio da Amizade,
+ Que a luminosa esfera
+ Deixou, para acudir á humanidade,
+ Sumida em pesadumes e agonias,
+ Em feia escuridade!
+ Alma onde o typo eterno não se encobre,
+ E que, n'estes d'egoismo ferreos dias,
+ O instante de ser util só vigias,
+ Sincera, affavel, nobre!
+ Acceita, em oblação a ti votado,
+ Ancioso de agradar-te, este traslado._
+
+ Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho.
+
+
+
+
+_O TRADUCTOR,_
+
+
+Para perpetuar a gloria do sublime poeta que tanto enriqueceo a sua
+patria e o mundo literario com o preciosissimo cabedal de suas
+producções, bastaria esta de que emprehendemos e agora publicamos a
+traducção. Sciencia dos tempos e dos costumes, vasta erudição, profundo
+conhecimento do homem, variedade e magnificência de quadros, fecunda
+elevação de pensamentos, lustre e vigor de poesia, sobresahindo por
+effeito da mais acertada e judiciosa distribuição, eis os titulos com
+que se engrandece este poema, onde lord Byron não houve mister longo
+espaço para mostrar-se, immortal.
+
+Não é raro tecerem os traductores sobejo encomio ainda a mediocres
+originaes, quando com estes despendêrão vigilias e desvelos; mas nem por
+isso receamos que, elogiando a lord Byron, nos accusem de
+encarecimento ou de leviandade: as suas obras ahi estão bem patentes, e
+a sua reputação é já colossal.
+
+Todavia, notando a mui sincera affeição que consagramos a tão estremado
+engenho, ninguem haja de persuadir-se que o avaliamos como isento de
+toda a mácula. Por certo que lord Byron era homem, e o fragil da
+humanidade transparece em algumas das suas producções, e ás vezes
+procura brilhar em detrimento daquella gentil gravidade que mui bem
+assenta nas Musas, e sem a qual desmentem ellas a sua origem celeste;
+mas de semelhante desar campea livre o poema que apresentamos
+traduzido.--Só de passagem mencionaremos um descomedido orgulho
+nacional[1], um amor á liberdade, que por vezes degenera
+em fanatismo: estes sentimentos os bebeo o poeta com o primeiro alimento
+de sua infância, e, quando concentrados em justo limite, são nobres, e
+longe estamos de criminá-los.
+
+Não menos que lord Byron admiramos os grandes capitães Gregos e Romanos;
+tambem nas escolas estudamos e traduzimos Nepote, Tacito, Tito-Livio,
+&c. Todavia os heróes n'essas historias memorados viverão em tempos mui
+diversos dos nossos, e diversissima foi a sua educação fisica e moral:
+por tanto o joven enthusiasta hodierno que ambiciona a todo o custo
+igualá-los, arrisca-se a cometter mil despropositos, e mesmo a ser
+victima inutil de suas desattentadas proezas. Para morrer com gloria no
+desfiladeiro de Thermópylas, cumpre, além de haver sido educado em
+Esparta, ter á frente um Leonidas. A prudencia de Fabio transtornou os
+planos de Annibal e salvou Roma, conseguindo aquillo mesmo que fôra
+denegado ás fastuosas e arrogantes ousadias de Sempronio e de Flaminio.
+Do sacrificio de Curcio, despenhando-se armado e com seu proprio cavallo
+no boqueirão aberto por um terremoto em certa praça de Roma, que
+proveito recolhêrão os concidadãos, a patria, ou a especie humana?
+Curcio era pois um esquentado enthusiasta, ou antes um orate rematado. É
+indubitavel que a cega ambição de figurar com heroismo Grego ou Romano,
+associada ao sofrego ardor não sei de que liberdade turbulenta,
+insidiosa, desmoralisadora, e de mais pernicioso effeito que qualquer
+desmascarada tyrannia, tem excandescido bom numero de cabeças e avultou
+de sobejo na mui abalisada revolução de França, que ainda hoje em
+sangrentas paginas aterra a humanidade.--Talvez o amor que sempre
+tributamos á verdade nos levou em demasia longe; mas como quer que seja,
+não cessaremos de confessar que o sublimado engenho de lord Byron nos
+penetra de admiração, e deixa, ao menos em nosso alvitre, o homem
+justificado pelo poeta.
+
+Quanto á nossa traducção, sobre diligenciarmos que portugueza fosse,
+pozemos todo o cuidado em exprimir com clareza os pensamentos do poeta,
+bem como em não deteriorar-lhes a nativa gala, que antes nos parece mais
+pomposa n'este nosso fertil e sonoro idioma: entretanto não é por nossa
+conta que deve correr a cabal decisão na materia, mas sim por conta de
+mais competentes juizes, que, versados nas duas linguas, queirão dar-se
+ao trabalho de cotejar o original com a versão.
+
+Entre os nossos traductores poetas, alguns houve que gemêrão sob a
+ferrenha tarefa de traduzir tragedias e longos poemas verso por verso;
+mas que resultou de tanta diligencia? o substituirem, pela maior parte,
+a versos fluentes e vigorosos uma enfiada de semsaborias, de durezas, de
+enigmas, onde a graça e louçania dos originaes degenera em rugosa e
+desalinhada velhice. Não negamos que isso tenha cabimento e deva
+adoptar-se quando nenhum inconveniente o estorva; porém o verter
+affincadamente poemas inteiros verso por verso, é uma curiosidade que em
+muitos casos empece á nobre franqueza do estilo, á suavidade do metro, e
+ao effeito geral dos quadros poeticos. Estamos persuadidos de que deve o
+traductor de um poema ser sempre fiel á quantidade das idéas, não assim
+á quantidade dos versos: tal foi o nosso systema de traducção no _Cêrco
+de Corintho_.
+
+Ardua e mui ardua emprêsa é traduzir poetas; bem o sabemos e
+experimentamos. Se todavia para traduzir lord Byron de nada mais se
+carecesse que de estar profundamente penetrado das extraordinarias e
+sublimes bellezas com que este filho da immortalidade abrilhantou suas
+obras, então nos lisonjeariamos de apresentar a nossos leitores uma
+copia digna do original, e preciosa para elles.
+
+ [1] Este orgulho se deixa ver bem claro no _Childe Harold's
+ Pilgrimage_, cant. I.º est. 16, onde, entre outros motejos com que o
+ poeta pertende aviltar os Portuguezes, tambem lhes exprobra o serem
+
+ _A nation swoln with ignorance and pride._
+ Nação inflada d'ignorancia e orgulho.
+
+ Quererá isto dizer que a Inglaterra é um paiz todo cheio de sabios, e
+ onde o orgulho morre de frio, por falta de quem o aquartele?
+
+
+
+
+O CERCO
+
+DE
+
+CORINTHO.
+
+
+I.
+
+Longo trilho de seculos exhaustos,
+Rijas tormentas, bellicos furores,
+Infestárão Corintho: ella entretanto
+Persiste em pé, e no alteroso alcáçar
+Nova conquista á Liberdade off'rece.
+Nem bramir de tufões, nem terremotos
+O alvejante penhasco lhe abalárão,
+Esse lageoso assento, que, em despeito
+Da decadencia sua, inda parece
+Não sem orgulho contemplar seu cimo;
+Esse padrão demarcador erguido
+Entre os dous mares, que d'um lado e d'outro
+Lhe estão rolando purpurinas ondas,
+Que sempre a forcejar por se reunirem,
+O acatão sempre, e vem morrer-lhe ás plantas.
+Se o sangue n'estes sitios derramado
+Desde que n'elles o fraterno sangue
+Timoléon vertêra, ou desde quando
+Pelo aviltado despota da Persia
+Abandonados forão, borbulhasse
+Da terra que o bebeo no morticinio,
+Este sangrento oceano sepultára
+Sob os tremendos escarcéos todo o isthmo:
+Ou se podessem amontoar-se os ossos
+Dos que alli perecêrão, surgiria
+Por entre aquelles ceos abrilhantados
+A colossal pyramide espantosa,
+Dando rival á Acrópolis, que as nuvens
+Se vê roçar co'a torreada fronte.
+
+
+II.
+
+Eis lanças vinte mil sobre as espaduas
+Do nebuloso Citherón fulgurão;
+E em toda a planta do isthmo, sobre as duas
+Oppostas praias que o ladeão amplas,
+Se eleva o pavilhão, brilha o Crescente
+Nas federadas linhas Musulmanas;
+E o tisnado Spahí desfila em bandos
+Á vista dos Bachás amplo-barbados;
+E os olhos podem ver ao longo e ao largo
+As cohortes cingidas do turbante,
+Que o promontorio alastrão, enxameão:
+Lá se ajoelhão do Arabe os camelos,
+Do Tartaro os ginetes la volteão;
+Dando de mão á grei, o Turcomano
+Prestes unio ao lado a cimitarra.
+Dos bellicos trovões crebro rebombo
+Té faz emmudecer, de susto, os mares,
+Profunda-se a trincheira, e muito longe
+Silvando vôa no pelouro a morte;
+Sob o peso da bomba assoladora,
+Soltão-se em pulverento remoinho
+Os da muralha esboroados lanços;
+E, do recinto d'ella, eis o inimigo
+Ás do Infiel intimações responde
+Com manejo expedito, e fogos destros.
+Que vão cruzando os empoeirados plainos,
+E os ares que anuvia o fumo em rôlos.
+
+
+III.
+
+Das muralhas porém o mais visinho
+Entre os que punhão peito e mãos á empresa
+De as converter em ruina, o mais profundo
+Que nenhum dos da prole Musulmana
+Nas da guerra artes tétricas, e altivo
+Qual nunca o foi assignalado chefe
+Colhendo louros em sangrentas lides;
+O que voando audaz de posto a posto,
+D'um feito a maior feito, se avantaja
+Em destro esporear corsel fumante,
+Em surdir mais veloz onde arde o p'rigo,
+Cada vez que ha sortidas ou assaltos;
+E quando a bateria, em mãos valentes,
+Resiste inexpugnavel, então mesmo
+Com exultante aspecto desmontando
+A dar alento, na refrega, aos tibios;
+O mais abalisado e o mais recente
+Da hoste que lucrou n'estas paragens
+Ao sultão de Stamboul renome egregio;
+O guia incomparavel em campanhas,
+Ou solerte assestando o ferreo tubo,
+Ou manejando a temerosa lança,
+Ou tufão que rebenta onde ha conflictos,--
+É Alp, o Veneziano renegado!
+
+
+IV.
+
+O renegado de Veneza!--ah! elle
+De vetusta linhagem primorosa
+Teve o seu nascimento: todavia,
+Desterrado a final do patrio ninho,
+Contra os concidadãos tomou as armas,
+Em que por elles adestrado fôra;
+E orna-lhe a fronte rasa hoje o turbante.
+Depois d'eventuaes destinos varios,
+Sob a lei que Veneza lhe dictára
+Se acolheo, como a Grecia, então Corintho;
+E ei-lo que ante seus muros se apresenta,
+Inimigo entre os feros inimigos
+Da Grecia e de Veneza, e trasbordando
+De resentido ardor, qual excandesce
+Ao joven convertido a alma orgulhosa,
+Onde duestos mil accumulados
+Estão sempre em tumulto, e eternos vivem.
+Nem por isso com elle quiz Veneza
+Desempenhar o civico appellido
+Em que firmava o seu brazão = A LIVRE; =
+E de São Marcos no palacio excelso,
+Delatores incognitos lançárão
+Na _Boca do Leão_, durante a noite.
+Denuncia atroz de requintados crimes,
+Que o cobrião de macula indelével:
+Salvou seus dias pressurosa fuga.
+Desde esse lance despendia a vida
+No meio dos combates, demostrando
+Bem claro á patria o que perdeo no alumno
+Que contra a Cruz, já supplantada, erguia
+O soberbo Crescente, e, guerreando,
+Só vingar-se ou morrer buscava ancioso.
+
+
+V.
+
+Coumourgi--aquelle que impôz termo aos feitos,
+O ultimo perecendo, e o mais pujante,
+Lá nos de Carlowitz sangrentos plainos,
+Sem magoa de morrer, porém, raivoso,
+Dos Christãos maldizendo inclitos louros,
+E d'Eugenio adornando o grão triunfo;
+Coumourgi--e por ventura a gloria d'este
+Conquistador da Grecia derradeiro
+Poderá perecer, senão surgindo
+Braço Christão que restitua á Grecia
+Sequer os fóros que gozou outr'ora
+Por Veneza outorgados? Elle vinha,
+Já depois de volvidos lustros vinte,
+Reintegrar a Othomana prepotencia;
+E, os veteranos seus pospondo agora,
+Para mandar do exercito a vanguarda
+Alp escolheo, que a confidencia summa,
+Arrazando cidades, lhe pagava,
+E mostrando em façanhas destructoras
+O seu zeloso affêrro á nova crença.
+
+
+VI.
+
+A muralha enfraquece: de continuo
+As Turcas baterias lhe varejão
+O parapeito e ameias; restrugindo,
+Sahe de cada canhão a voz do raio:
+Aqui flammeja, ao rebentar da bomba,
+Crepitante zimborio; além baquea
+Este, est'outro edificio derrocado,
+Sob o espesso granizo d'estilhaços,
+Que em lufadas volcanicas recresce:
+Vai resfolgando em rúbidas columnas
+Voraz incendio, que tão alto sobe,
+Como sobe o fragor da ruina ingente,
+Ou solta-se em terrestres meteoros
+Que vão no ceo esvaecer-se infindos:
+Mais nebuloso, mais impervio o dia
+Se torna á luz do sol, co'a mole opaca
+Do fumo alçado em tortuosos rôlos,
+Que d'enxofrado horror a esfera enlutão.
+
+
+VII.
+
+Nem sómente ardor cego de vingança,
+Que a longa dilação fez mais ferino,
+Esporeára esse Alp apostatado
+Á adestrar os guerreiros Mahométas
+N'arte de abrir a promettida brecha.
+D'aquelles muros no recinto havia
+Uma donzella, cuja mão formosa
+Elle obter pertendia apesar mesmo
+Do inexoravel pai, que, furibundo,
+Aos rogos lha negou, quando Alp outr'ora,
+Chamando-se Lanciotto, o bafejavão
+Tempos melhores, mais propicios fados;
+E sem nota e sem crime de perfidia,
+Aos palacios, ás góndolas levando
+Alegria vivaz, se assignalava
+Nos Carnavaes, ou resoar fazendo
+Sobre aguas do Adria esses descantes meigos
+Que alvoroçadas de prazer escutão
+Á meia-noite as Italas donzellas.
+
+
+VIII.
+
+Que do seu coração já possessora
+Não fosse a virgem, suspeitavão muitos;
+No em tanto d'infinitos requestada,
+E a nenhum acolhendo, persistia
+De todo o laço conjugal isenta
+A juvenil Francina: e desde o instante
+Em que das Adriaticas paragens
+Se retirou Lanciotto a pagãos climas,
+O sorriso expirou nos labios d'ella;
+Meditabunda e pallida tornou-se;
+Confissões amiudava, e já não era
+Tão vista em mascaradas e assembleas;
+Ou, se lá ia, os olhos seus descidos
+Avassalavão, n'um volver furtivo,
+Mil corações de balde suspirosos:
+Nenhum objecto contemplava attenta;
+Não punha em atavios tanto apuro,
+Nem já tão terno desprendia o canto;
+Seus passos, bem que leves, o erão menos
+Que os dos parceiros seus, a quem na dança
+Colhia absortos o raiar d'aurora.
+
+
+IX.
+
+D'um sólo aos Musulmanos arrancado,
+Quando a soberba lhes calcou Sobieski
+Ante os muros de Buda, ás margens do Istro;
+D'um sólo que depois Veneza altiva
+Empolgou com violencia desde Patras
+Té a Euboica enseada, o regimento,
+Por ordem sup'rior, tomou Minotti;
+E de Corintho na torreada estancia
+Já elle era do Doge o delegado,
+Quando os olhos da Paz fagueiros, pios,
+Depois da larga ausencia, confortavão
+C'um sorriso dos seus a Grecia sua,
+Inda não rôto esse armisticio trêdo
+Que ao jugo anti-Christão a subtrahia.
+Entrou Minotti alli co'a filha amavel;
+E desde o tempo em que a formosa Helena,
+Deixando o esposo e a patria, fez ver quantos
+D'um illicito amor desastres brotão,
+Nunca estas praias adornou belleza
+Digna de comparar-se á da estrangeira.
+
+
+X.
+
+Em crebros boqueirões abre-se o muro;
+E sobre as ruinas da alluida mole
+Vai, á primeira luz, desenvolver-se
+Assalto mais que todos formidando.
+Tropas enfileirarão-se; escolhidos
+Forão para formar toda a vanguarda
+Tartaros e Othomanos; e vós outros,
+Flor dos guerreiros, a quem foi sem causa
+Imposto o sobrenome de _perdidos_,
+E para quem a morte e riso, é jôgo;
+Vós, que co'alfange em punho abris caminho,
+Ou de vossos cadaveres juncando
+A que o braço rompeo vereda honrosa,
+Sois marmoreo degráo, por onde affoutos
+Os socios trepão,--morrereis mais tarde!
+
+
+XI.
+
+É meia-noite: a fria lua ostenta
+O disco inteiro, e amplo fulgor diffunde
+A contrastar co'a sombra das montanhas;
+Traja d'azul o mar, d'azul se veste
+O firmamento, este suspenso oceano,
+Todo cravado d'ilhas que refulgem
+Lá tão remotas, com ardor tão vivo:
+E quem, quem póde attento contemplá-las,
+E repascer depois os olhos tristes
+No valle dos mortaes, sem que apeteça
+Voar e unir-se para sempre a ellas?
+Dormem as ondas, n'uma praia e n'outra,
+Placidas e ceruleas como os ares;
+Só de leve as areas roça a espuma,
+Com murmurinho igual ao d'um regato.
+Os ventos se recostão sobre as ondas;
+E das hastes ao longo quietas pendem,
+Em pregas conchegando-se, as bandeiras,
+Que remata arci-fúlgido Crescente.
+Nada interrompe esta mudez profunda,
+Senão além a voz da sentinella
+Reproduzindo a senha, ou lá mais longe
+Relincho de corseis agudo e crebro,
+Ou écos que respondem dos outeiros,
+Ou da hoste bravia o rumor vasto,
+Que semelhante ao de agitadas folhas
+Alongando-se vai de praia a praia,
+Ou preces usuaes que á meia-noite
+Levanta o Muezzin, rasgando os ares
+Co'a lamentosa garganteada lôa,
+Qual 'spirito que vaga na planicie:
+Melódicos accentos, mas prantivos,
+Quaes os produz o vento, que, passando,
+Encontra as cordas de sonoras harpas,
+E extrahe descompassadas harmonias,
+Que não conhece o menestrel mundano.
+Este som se affigura aos sitiados
+Grito agoureiro da infallivel queda;
+Elle fere no ouvido aos sitiadores
+Como indicio aziago e pavoroso,
+Repentina toada indefinivel,
+Que os corações lhes paralisa agora,
+E logo os faz pulsar mui apressados,
+Co'a vergonha de haver surdido n'elles
+Tão desusada sensação furtiva:
+Dest'arte o sino apregoador da morte
+Nos sobresalta de repente ouvido,
+Inda que seja em funeral d'estranhos.
+
+
+XII.
+
+Calou-se o som, a rogativa é finda;
+As sentinellas em seus postos velão;
+Foi a nocturna ronda percorrida,
+E em tudo as ordens satisfeitas todas.
+Tem Alp o seu tentorio sobre a praia,
+E em ancias vai curtir inda esta noite;
+Mas bem póde a manhã suavisá-las,
+Na fruição das vantagens tão copiosas
+Com que o amor e a vingança hão de reunidos
+Demora indemnisar tão prolongada.
+Horas poucas lhe restão, e carece
+De repousar, por que expedito esteja
+Ás proezas da crástina matança:
+Mas baralhados, quaes estuantes vagas,
+Os pensamentos lhe reluctão n'alma.
+Sem repouso e só elle em todo o campo;
+Nem sente o coração entumecer-lhe
+Fanatica vangloria blasonante
+De ver pelo Crescente a Cruz calcada,
+Ou de vender seus dias mui baratos,
+Seguro de gozar no paraiso
+O sempiterno amor das Houris bellas;
+Nem se sente abrazar d'aquelle austero
+Patriotico ardor que de bom grado
+Supporta árduas fadigas, verte o sangue.
+Quando peleja sobre o chão nativo,
+Elle não era mais--que um renegado.
+Ora verdugo da trahida patria;
+Elle não era mais que um peito forte,
+Um braço acreditado entre o seu bando.
+Seguião-no, por que era valeroso,
+E já lhes grangeára espolio grande;
+Davão-lhe acatamento, por ver quanto
+Elle sabia captivar do vulgo
+As vontades, e arteiro dispôr d'ellas:
+Mas nem por isso lhe entejavão menos
+O Christão nascimento: inveja influe-lhes
+A propria fama atreiçoadora que elle
+Ganhára sob um nome Musulmano:
+De qualquer modo, esse esforçado chefe
+Vil Nazareno foi na juventude.
+Não lhes era sabido té que ponto
+É capaz de curvar-se o orgulho, quando
+Murcho e aviltado o pundonor baquea;
+Não lhes era sabido quão violenta
+Chamma voraz em corações se accende
+Que de meigos tornarão-se bravios;
+Ignoravão qual zêlo de vinganças
+Refalsado e fatal se gera e cresce
+D'um convertido n'alma. Elle os regia:
+Póde um homem reger outros peores,
+E de ser o primeiro gloriar-se.
+Taes os leões sobre o jakal dominão:
+Destro o jakal espia e abate a prêsa;
+Mas, no apertão da rugidora turba,
+Da-se por pago, se devora os restos.
+
+
+XIII.
+
+A cabeça lhe ferve, e apressuradas
+As arterias palpitão-lhe convulsas;
+D'um lado e d'outro volta-se, baldando
+Modos de repousar; e se dormita,
+O som mais leve, o mais pequeno abalo
+Prestes o acordão angustiado em dôbro.
+A fronte excandescida lhe molesta
+Hoje o turbante, e, nem que plumbea fosse,
+A loriga lhe pesa sobre o peito,
+Se bem que tanta vez, e a somno solto,
+Sob esse mesmo pêso repousasse,
+Tendo apenas por leito um chão saibroso,
+E por docel o firmamento apenas,
+Leito e docel quaes ao guerreiro a noite
+Agora os deparou. Elle nem póde
+No seu tentorio adormecer, nem quieto
+Esperar que desponte a luz diurna,
+E eis vaga ao longo da arenosa praia,
+Alastrada de tantos que repousão.
+Quem os acalentou? e por que causa
+Ha de elle só velar, despossuido
+D'um bem que logrão rasos subalternos,
+A quem cabe arrostar maiores p'rigos,
+E lidas superar mais affanosas?
+Mas ah! que um sonho animador lhes pinta
+Os lucros todos do futuro espolio;
+E em quanto mil e mil passão dormindo
+Esta que a noite extrema é talvez d'elles,
+Alp, em vigilia atroz, vaguea anciado,
+E lhe é alvo d'invejas quanto encontra.
+
+
+XIV.
+
+Vai na aprazivel fresquidão da noite
+Achando refrigerio ás ancias d'alma.
+Relentoso ora o ceo, bem que tranquillo,
+As affogueadas faces lhe aspergia
+Com brando orvalho. Apóz lhe fica o campo;
+De fronte lhe serpea, derramado
+Em crebros surgidouros e enseadas,
+O golfo de Lepanto; está-lhe á vista
+A de Delphos montanha sempiterna,
+Onde os gêlos accrescem, brilhão, durão,
+De mil estios affrontando a ardencia,
+Campeando no golfo, e serro, e clima,
+Sem que os dissolva, como a nós, o Tempo.
+Desapparecem o tyranno e o servo,
+Improprios a aguantar fulgente raio;
+Mas este véo deslumbrador e fragil,
+De que vês envolvido o monte excelso,
+Quando torres baqueão, jazem troncos,
+Lá brilha sempre no empinado alcáçar;
+Pileo na fórma, nuvem no elevado,
+Na côr e na amplidão lançol funereo,
+Erguido a designar que a Liberdade
+Se ausentou da mimosa estancia sua,
+E hoje languida jaz no mesmo sólo,
+Onde foi largos tempos escutado
+Seu profetico ardor em aureos versos.
+Oh! que de quando em quando inda lá sôão
+Os passos seus sobre arescentes campos,
+Sobre tantos altares demolidos;
+E ella, um a um mostrando aquelles restos
+Abonadores da passada gloria,
+Alentar busca os animos prostrados:
+Porém de balde bradará, em quanto
+Não despontar n'um coração preclaro
+Destimidez possante, toda accesa
+Ao clarão d'esses dias que luzírão
+Sobre a fuga do Persa, e que risonhos
+O intérito arrostárão do Espartano.
+
+
+XV.
+
+Inda que fugitivo e criminoso,
+Alp admirava as inclitas virtudes
+D'esses tempos heroicos; e esta noite,
+Em quanto vagueava, e na memoria
+O presente e o passado revolvia,
+Apreciando as mortes gloriosas
+Dos que em defensa da genuina causa
+Seu sangue alli vertêrão, mui bem sente
+A que ponto é fallaz, mesquinha, obscura
+Quanta fama lucrou d'um bando á frente,
+E, nefario traidor, brandindo a espada
+Entre as turmas cingidas do turbante,
+Que raivoso guiára a injusto assedio.
+Onde era em cada prospero successo
+Não menos computado um sacrilegio.
+Taes não lhe mostra a fantasia os chefes,
+Por quem aquelle pó que o circumdava
+Fôra illustrado, e que as phalanges suas
+Perfilavão no plaino, não de balde
+Então de baluartes guarnecido.
+Estes morrêrão escudando a patria,
+E eternos vivem no fulgor da gloria:
+Suspirar-lhes alli os nomes gratos
+Inda parece a brisa; alli seus feitos
+Sôão no murmurinho das correntes;
+Povôa seu renome aquelles campos;
+O pilar taciturno, ermo, alvacento,
+Demanda aos sacros vultos alliar-se;
+Os espiritos seus em tôrno girão
+Dos fuscos serros; a memoria sua
+Toda se espelha no cristal das fontes;
+O arroio humilde, o caudaloso rio
+Perennes fluem co'a perenne fama
+Dos estremados campeões sublimes.
+Por mais que a opprima um jugo, é esta sempre
+A patria d'elles, e a mansão da gloria!
+A Grecia!--ha de levar sempre este nome
+Um som despertador ao Mundo inteiro.
+Varão que aspira a perpetrar façanhas,
+Lá põem na Grecia o fito, e abjura as normas
+Que sómente os tyrannos sanccionárão;
+Para lá olha, e se arremessa aonde
+Conquiste a Liberdade, ou deixe a vida.
+
+
+XVI.
+
+Sempre assim meditando silencioso,
+Alp ao longo da praia os passos move,
+E com brando rocio a noite o ameiga.
+Coarctados e sem ésto, aquelles mares
+Em moto igual ondeão sempiternos,
+E a vaga que possuem mais furiosa
+Nem um quarto de geira ao sólo invade;
+E ou se mostre, ou se esconda, ou mude as phases,
+Não tem sobre elles influencia a lua:
+Mansos, tumentes, no alto, na enseada,
+Do dominio lunar se movem francos.
+O escolho immovel, descobrindo a base,
+Olha ao largo, e de balde espera as ondas:
+Póde ver-se a que o cinge espumea linha,
+Que em baixo lhe traçou a mão dos évos.
+Um pequeno areal loureja plaino
+Entre o salgado leito e o chão relvoso.
+Pela marina margem vagabundo,
+Eis Alp assoma dos sitiados muros
+Desviado não mais que quanto alcança
+Um tiro de clavina. Como é crivel
+Que alli não fosse visto, ou que evitasse
+O golpe hostil? Entre os Christãos acaso
+Remanecem traidores encobertos?
+Qual torpor lhes vincula as mãos agora?
+Qual gêlo os corações lhes paralisa?
+Tal brandura elle estranha; mas é certo
+Que de nenhum dos lanços lá do muro
+Escorva reluzio, sibilou bala,
+Se bem que tão de baixo agora avulte
+Dos bastiões minaces que flanqueão
+Essa porta, resguardo da cidade
+Pela banda do mar; se bem que possa
+Quasi as palavras distinguir ferrenhas,
+E os passos numerar da sentinella,
+Que sôão, indo e vindo compassados,
+Pela extensão da sotoposta lagem.
+Nem os cães, de occupados, lhe latírão!
+E, magros e famélicos rosnando,
+Os vê sob a muralha dar-se ao bôdo
+De sangrentos cadaveres e ossadas:
+Ei-los que estão da pelle despojando
+Nest'hora um craneo Tartaro, bem como
+Nós despojamos o recente figo;
+E alvejantes lhes rangem os colmilhos
+Sobre a caveira que inda mais alveja,
+E que dos queixos lhes resvala, quando
+Embotados os deixa o roer crebro;
+Mas vão moendo de vagar os ossos,
+Se um acaso permitte que não achem
+Sobre aquelle torrão melhor sustento.
+Seu antigo jejum quebrou-se á larga
+Nos guerreiros que alli perdendo a vida,
+Lhes são manjar em refeição nocturna.
+Pelos turbantes sobre a aréa esparsos,
+Alp a flor do seu bando reconhece;
+Bem nota o verde, o carmesim das telas
+Com que cingião por costume a fronte;
+E cada pericraneo off'rece a esguia
+Madeixa longa, e no demais é raso.
+Os pericraneos jazem na guela
+Feroz dos cães, ao passo que a madeixa
+Se lhes enreda em volta das queixadas.
+Lá se vê mais além, do golfo á orla,
+Sofrego abutre contender c'um lobo,
+Que, das montanhas a prear baixando,
+Era alli solitario, e não ousava,
+Dos cães espavorido, tomar parte
+No amplo repasto das humanas carnes;
+Mas engole a ração que lhe coubera
+D'um corsel debicado já das aves,
+Que da enseada no areal jazia.
+
+
+XVII.
+
+De tão feio espectaculo insoffrivel
+Arreda os olhos Alp: elle em conflictos
+O que era estremecer não soube nunca;
+Porém não é tão arduo, tão penoso
+Olhar ao que estendido se revolve
+Do proprio sangue em fumegante lago,
+E arqueja entregue á insaturavel sêde
+E ao vasquejar da morte, quanto é vê-lo
+Depois que pereceo, e é só cadaver.
+No momento fatal, um certo orgulho
+Se desenvolve n'alma do soldado,
+Lhe adoça o fim cruento: se fenece,
+Espera reviver na voz da Fama,
+Ficar bemquisto á Honra, que tem sempre
+Os olhos fitos no que morre affouto!
+Mas quando em fim s'esvaeceo tudo isto,
+Bem misero se sente quem percorre
+Campo alastrado d'insepultos mortos.
+Ao ver como da terra surde o verme,
+Deixa o bruto as florestas, a ave desce,
+E alli affluem, demandando no homem
+Todos quinhoar prêsa, e achando todos
+O lucro seu na decadencia d'elle.
+
+
+XVIII.
+
+Alli se via derrocado templo:
+São cinza e longo olvido as mãos que o erguêrão.
+Inda algumas columnas, e dispersos
+De marmore e granito mil fragmentos
+O sólo opprimem, recobertos d'herva.
+Inexoravel Tempo! e nunca inteiras
+Deixarás ao porvir obras passadas!
+Inexoravel Tempo! e has de tu sempre
+Querer que do passado fique apenas
+Aquillo que o presente affligir deve;
+E assim fazer-nos dolorosa a imagem
+Do que já foi, do que ha de ser um dia!
+Bem como nós, verão nossos vindouros,
+Em reliquias d'antigos monumentos,
+Só pedras que exalçou o homem de barro!
+
+
+XIX.
+
+Ao pé d'uma columna Alp eis se assenta:
+Co'a mão comprime a face, e o corpo inclina
+Como quem se resente acabrunhado
+D'aterradores pensamentos tetros;
+A cabeça descahe-lhe sobre o peito
+Excandescido, palpitante, oppresso;
+Girão-lhe pela fronte debruçada
+Os dedos velocissimos, bem como
+Pelo eburneo teclado os dedos girão
+De primoroso artista, que em preludios
+Por ora se entretem, da escôlha incerto.
+Vergando assim ao pesadume infenso,
+Crê que ouvio suspirar nocturna brisa.
+Acaso em lagens concavas murmura
+Gemido terno de macias auras?
+Ergue então a cabeça, e o mar observa;--
+Repousa o mar, qual cristalino espelho:
+Contempla esguias hervas;--nada as move:
+D'onde procederia o som mavioso?
+Repara nas bandeiras;--quietos pendem
+No alto do Citherón, quaes os deixára,
+Inda os hasteados pannos; leve aragem
+Nem sequer lhe roçou a téz do rosto:
+Qual do imprevisto murmurinho a causa?
+Volve-se ao lado esquerdo:--será isto
+Illusão ou verdade? Ante seus olhos
+Eis joven dama refulgente assoma!
+
+
+XX.
+
+Se Alp então visse um inimigo armado
+Surgir-lhe face a face, não se erguêra
+Tão abalado de profundo assombro.
+"Deos de meus pais! que vejo? quem es? como
+D'hostís fileiras te aproximas tanto?"
+A mão tremente lhe recusa agora
+Estampar sobre a fronte essa Cruz mesma
+Que elle tanto insultou; mas n'este lance
+Se persignára, se a consciencia sua
+Lhe não fizesse ver quanto era indigno.
+Repara, observa a fundo, e reconhece
+O rosto bello, as engraçadas fórmas:
+É Francina, essa virgem suspirada
+Que elle a si pertendia unir consorte!
+Inda nas faces lhe viceja a rosa,
+Porém a rubra côr é menos viva.
+Que é do attractivo d'esses labios meigos?
+Não mora n'elles o sorrir donoso
+Que ao rubim dava esmalte. Inda em seus olhos
+Reside o azul do socegado oceano;
+Mas se no aspecto bonançoso o imitão,
+Também o imitão na frieza immovel.
+Talhe accusão gentil vestes ligeiras;
+Nada lhe vela o seio luminoso;
+Soltas d'ebano as tranças, ver não tolhem,
+Por entre a chuva dos anneis ondeantes,
+Nivea nudez dos torneados braços.
+Levanta ao alto a mão antes que falle;
+E de tal modo branca e transparente
+Se mostrava essa mão, que poderieis
+Ver por entre ella rutilar a lua.
+
+
+XXI.
+
+"O repouso deixei, a fim sómente
+De vir ao meu amado, e de fazê-lo
+Feliz commigo, e ser feliz com elle.
+Por teu respeito entre inimigas turmas
+Eis movo os passos, e transpuz a salvo
+Muralhas, portas, sentinellas, tudo.
+Uma joven donzella, em todo o brio
+Da nativa pureza, ha quem affirme
+Que dos proprios leões é respeitada:
+E o superno Poder que ao innocente
+Escuda contra o despota dos bosques,
+Se encarregou tambem de defender-me
+Do insulto d'infieis confederados;
+E vim:--se vim de balde, oh! vê que nunca,
+Nunca mais tornaremos a encontrar-nos!
+Sei que, abjurando de teus pais a crença,
+Es réo de crime hediondo; todavia
+Lança por terra esse turbante, e imprime
+Sobre a fronte o da Cruz signal divino,
+E eu de ti folgue na perpetua posse.
+Eia, o negro labéo expelle d'alma;
+E pois havemos ámanhã de unir-nos,
+Não queiras para sempre separar-nos."
+
+"E ao tóro nupcial onde acharemos
+O apetecido espaço? póde havê-lo
+Entre montões de mortos e expirantes?
+Os Christãos, seus altares, quanto é d'elles,
+Ha de o ferro ámanhã unido á chamma
+Tudo, tudo extinguir: nenhum mais deve,
+Senão es tu e os teus, ver nova aurora;
+Que eu assim o jurei. Mas ser-me-ha doce
+A mais donosos sitios transportar-te,
+Onde se enlacem mãos, se olvidem mágoas,
+Onde tu sejas a consorte minha,
+Quando abatido de Veneza o orgulho
+Eu já tiver; quando este braço, que ella
+Quiz sumir na abjecção, deixe açoutados
+Com viperino látego os infames
+Que accendeo contra mim o vicio e a inveja."
+
+Ella pousou a mão sobre a mão d'elle:
+Foi leve o toque, mas varou-lhe prompto
+As medullas dos ossos, e entranhou-lhe
+Pelo imo coração gêlo indizivel,
+Que nem d'estremecer lhe deixou posses;
+E este frio mortal, de que se arguia,
+Removê-lo de si em vão tentava.
+Oh! nunca, nunca de tão caro objecto
+Partíra movimento que viesse
+Com tamanho terror gelar-lhe o sangue,
+Qual n'esta noite o subitaneo toque
+D'aquelles alvos dedos alongados.
+Morreo-lhe em pallidez a effervescencia,
+Ficou-lhe o coração, qual seixo, immovel,
+Ao ver aquelle rosto, ai! tão mudado
+Já de si proprio: bello, mas languente--
+Sem vestigio nenhum d'incendios d'alma,
+Que em cada feição d'elle se espelhavão,
+Como um dia de sol se espelha n'agua.
+Anhélito nenhum se unia ás vozes
+Que lhe escapavão dos immotos labios;
+Do quieto coração nenhum palpite
+Lhe sublevava o seio; nada havia
+Que a rigida attenção interrompesse
+D'aquelles olhos estacados, fixos.
+Taes são os do somnambulo, que, em meio
+D'anciados sonhos, deixa o leito e vaga;
+Taes, na extensão de apainelados razes,
+Baças figuras de minaz aspecto,
+Se ao trémulo clarão as contemplamos
+D'expirante lucerna, desenvolvem
+Não sei qual mixto de animado e morto,
+Com que parecem, aterrando a vista,
+Ora avançar do tenebroso fundo,
+Ora entranhar-se n'elle, em moto alterno,
+Que a seu sabor lhes communica o vento.
+
+"Se por amor de mim tu crês que é muito,
+Por amor só do Ceo embora o faze:
+Longe arremessa (inda outra vez to digo)
+Da fronte criminosa esse turbante,
+E me promette de não ser infesto
+Aos filhos da insultada patria tua,
+Ou es perdido, e despedir-te deves,
+Não já da Terra--esvaeceo-se a Terra--
+Mas do Ceo e de mim, que te fui cara.
+Eia, cede a meus rogos: vê que abertas
+Inda te esperão da clemencia as portas;
+E bem que contra ti grave sentença
+Fosse já proferida, o rigor d'ella
+Em grande parte expiará teu crime.
+Pondera a fundo; e provocar não queiras
+A maldição d'Aquelle que abjuraste.
+Ao Ceo inda uma vez levanta os olhos,
+Vê que a ti mesmo para sempre o fechas.
+Essa nuvem que esconde agora a lua,
+Lá vai passando, e passará de pressa:
+Se, quando rebrilhar o disco inteiro
+Desafrontado do vapor sombrio,
+Não revolveo a contrição teu peito,
+Ficão de ti vingados Deos e os homens:
+Tremendo fim terás, e mais tremenda
+Te espera a eternidade dos perversos."
+
+Alp ergue a vista ao Ceo, e reconhece
+O indicado signal; porém o orgulho
+Entumeceo-lhe o coração, e o rege
+Com despotico imperio inabalavel;
+E esta paixão fallaz que o predomina,
+É torrente caudal que tudo alaga.
+Elle implorar perdão! elle render-se
+A impertinencias de mesquinha virgem!
+Elle, offendido de Veneza ingrata,
+Poupar-lhe os filhos, que votou á morte!
+Não:--embora essa nuvem traga um raio,
+Embora um raio o esmague:--e inda não trôa?
+
+Sem que a minima voz dos labios solte,
+Elle fitava ancioso aquella nuvem:
+Attento a vê passar; fugio de todo:
+Em seu pleno fulgor se mostra a lua.
+"Qualquer que seja o meu destino (exclama),
+Não tenho de mudar: agora é tarde.
+No meio da tormenta póde a canna
+Dobrar-se e logo erguer-se, os troncos quebrão.
+Qual Veneza me fez, serei já'gora;
+Seu implacavel inimigo em tudo,
+Excepto na affeição que eu te consagro.
+Tu pois es salva: oh! vem, meus passos segue."
+Voltando-se, elle a busca; ella sumio-se:
+Só o antigo pilar lhe avulta ao lado.
+Sorveo-a a terra, ou s'esvaío nos ares?
+Nada elle vio--nada escutou só sabe
+Que alli nenhum vestigio existe d'ella.
+
+
+XXII.
+
+A noite dissipou-se, e o sol resplende,
+Qual se um dia de festa esclarecesse.
+Eis d'entre bruscos véos pomposa surge
+Arraiada a manhã d'aureos fulgores,
+E abrasador promette o meio-dia.
+Trombetas se ouvem, rufos de tambores,
+Hórridos sons de barbara corneta,
+Sussurrar de bandeiras fluctuantes,
+Relinchar de corseis, tropear de turmas,
+E o retinir das armas, e o alarido:
+"Ei-los vem! ei-los vem!" Da terra prestes
+Descravão-se os pendões equi-caudatos,
+Desnudão-se as espadas lampejantes,
+E tudo a entrar em fórma apercebido,
+Só depende da voz, e a voz já sôa:
+= Tartaros, e Spahís, e Turcomanos,
+As tendas abatei, ide á vanguarda,
+Dai d'espora aos corseis, e na planicie
+Seja cortado o passo aos fugitivos,
+Quando estes proromperem da cidade:
+Não escape nem velho nem mancebo,
+Que offrecer de Christão qualquer indicio.
+Entretanto que em massa prepotente
+Vão sustentar os camaradas vossos
+A ensanguentada brecha, e entrar por ella. =
+Já o fogoso corsel remorde o freio,
+E arquea o collo, e, sacudindo a crina,
+As redeas tinge d'alvejante espuma:
+Estão em riste as lanças, e flammejão
+Accesos os murrões, e em continente
+O assestado canhão vai despejar-se
+Com estampido horrísono, e as muralhas,
+Rôtas em frente, esboroar de todo.
+Na phalange os Janizaros entrárão:
+Alp os commanda; e a cimitarra nua
+No erguido braço nu sustenta e brande.
+Kans e Bachás fixárão-se em seus postos;
+E ei-lo á frente da hoste se apresenta
+Em pessoa o Visir.--Tanto que a senha
+Troar na disparada colubrina,
+Tudo em Corintho será ruina e morte:
+Não ficará um sacerdote ás aras,
+Nem um chefe no centro das familias,
+Nem fôlgo vivo que as mansões povôe,
+Nem sequer uma pedra sobre os muros.
+"Deos e o Profeta seu! _Allah-Hu!_"--Sobe
+Té ás estrêllas o feroz ulúlo!
+"Lá tendes, para entrar, aberta a brecha;
+E escadas não vos faltão: tambem todos
+N'essas robustas mãos sustentais armas;
+E como ha de falhar-vos o triunfo?
+D'entre vós o primeiro que se affoute
+Á arrancar a vermelha Cruz hasteada,
+Póde franco pedir quanto apetece
+Com mais vehemente ardor: supplique e obtenha."
+Tal se exprimio Coumourgi, o Visir bravo.
+Foi resposta o brandir d'espadas, lanças,
+Com mil acclamações de raiva alegre.--
+Silencio!--á senha estai attentos!--fogo!
+
+
+XXIII.
+
+Como quando esfaimados ruem lobos
+De chofre sobre o bufalo soberbo,
+Sem tremerem da tórva catadura,
+Do mugir fero, do escavar das plantas,
+Nem dos minaces cornos assestados;
+E elle ou lança por terra ou ergue aos ares
+Os primeiros que accessos o acommettem,
+Mas que no cego arrôjo a morte encontrão:
+Assim o Musulmano invade os muros,
+E no impeto primeiro é repellido.
+Alli rôtos do bellico granizo,
+Dispersos como vidro espedaçado,
+Quantos de bronze acobertados peitos
+Ora juncando a terra, d'onde nunca
+Se hão de levantar mais! Estão fileiras
+Inda alinhadas, quaes na queda o estavão;
+Jaz dos mais destemidos copia grande:
+Tal, quando o dia é findo, e o labor cessa,
+Vemos jazer sobre aplainados campos
+A herva que o segador deixou ceifada.
+
+
+XXIV.
+
+Bem como, em viva preamar, se observa
+D'algosos escarcéos batida rocha,
+E já minada dos diuturnos éstos,
+Soltar enormes lascas alvejantes,
+Que com fragor horrísono se abatem,
+Assemelhando ao torreão de gêlo
+Que Alpinos valles despenhado aterra:
+Assim os de Corintho habitadores,
+A final quebrantados, exhauridos,
+Forão na ruina atroz precipitados
+Pelo acintoso impulso recrescente
+Das cerradas cohortes Musulmanas.
+Elles insistem firmes, e, na queda,
+O furor do Infiel os prostra em massa.
+Pelejão braço a braço, e planta a planta;
+E nada, excepto a morte, alli é mudo:
+Impetos, golpes, empuxões, clamores
+Ou a pedir quartel, ou de victoria.
+Reunidos ao troar increbescente
+Dos bellicos trovões, e ao temeroso
+Estrondo da batalha encarniçada.
+Lá vão disseminando susto immenso
+Por longinquas cidades, d'igual modo
+Que se estivessem sob o golpe infesto,
+E já dentro o inimigo as depredasse;
+Não d'outra sorte que se proprio fôra
+A excitar sensação ou triste ou leda
+Aquelle som que anniquilar só sabe,
+E que, varando dos soturnos montes
+As entranhas durissimas, se expande
+Em pavorosos écos desusados:
+Lá os ouvio Megára e Salamina,
+E, se não exaggera a voz do vulgo,
+Té na enseada do Pirêo troárão.
+
+
+XXV.
+
+Em rijo e solto embate retinindo,
+Sabres, espadas, desde a ponta aos copos,
+Gotejão sangue; mas entrados forão
+Os muros já, e eis principia o saque,
+E apóz elle a feroz carnificina.
+Rompe dos edificios depredados
+Medonha confusão de agudos gritos:
+Escuta quão velozes na fugida
+Vão pés escorregando em quente sangue,
+Que as ruas deixou lúbricas: no em tanto
+Aqui e além, onde o terreno offreça
+Contra o fero invasor qualquer vantagem,
+Onde algum lanço de parede ou muro
+Lhes proteger as costas, então elles,
+Aos dez, aos doze, em mal parados grupos,
+Logo alli fazem alto,--alli renovão
+Desesperada briga audazes, firmes,
+Ou co'as armas na mão perecem todos.
+Eis a pé firme um ancião lá surge;--
+De cãs lhe alveja povoada a fronte;
+Porém vigor pujante lhe robora
+O veterano pulso: não se altera
+Seu bisarro denôdo, entre o bulicio
+Do revôlto brigar; tem por trincheira
+Semicirculo espêsso d'inimigos,
+Que hoje uns sobre outros apinhava mortos;
+Ferve em dura peleja não ferido,
+E sabe retirar-se não cercado.
+Sob a loriga refulgente esconde
+Dos certames d'outr'ora as cicatrizes
+Innumeraveis; que de toda a especie,
+E o corpo inteiro lhe crivárão golpes.
+Em despeito d'aquella ancianidade,
+É de tão ferreos membros, que difficil
+Fôra d'igual jaêz achar-se um môço:
+E os inimigos, que empatados tinha,
+Pullulavão-lhe alli mais numerosos
+Que as prateadas cãs da fronte altiva;
+Mas apoucando-os vai a forte dextra.
+Muitas mãis Othomanas pranteárão
+Filhos que, quando pela vez primeira
+Elle a espada tingio em sangue Turco,
+Inda não erão nados, e hoje expirão
+Antes de perfazerem lustros quatro.
+Bem poderá elle ser o avô de quantos
+N'este dia immolou ás iras suas:
+Vingando um filho que perdêra ha muito,
+Vai dos contrarios seus matando os filhos:
+E desde quando o desvelado joven,
+Unica prole varonil que tinha,
+Morreo a combater no undoso estreito
+Que d'Asia o chão divide do d'Europa,
+Logo o pai prometteo sacrificar-lhe
+Sanguinosa hecatombe d'inimigos,
+Ceifada ao golpear do ferreo braço.
+Se o morticinio pacifica as sombras,
+Nem mesmo de Patroclo aos manes coube
+Júbilo igual ao que sentir devião
+Os do joven Minotti. Sepultado
+Ficou seu corpo nas oppostas praias,
+E ora privados de sepulcro n'estas
+Cá ficão mil para milhares d'annos.
+Qual d'elles escapou que referisse
+Como os outros morrêrão, e onde jazem?
+Lousa nenhuma os cobre, não lhes guarda
+Nenhum tumulo as cinzas: entretanto
+Vivem e vivirão no immortal plectro.
+
+
+XXVI.
+
+Qual clamoroso _Allah!_--um terço avança
+De tropa Musulmana a mais affouta,
+E de pulso melhor: vai-lhe na frente,
+Nervoso, nu té o hombro, e em moto ondeante
+Brandindo o ferro, e sobranceiro a todos,
+Do commandante o braço, que expedito
+Sabe ferir, e perdoar não sabe.--
+Outros embora em mais pomposo traje,
+D'espolio ao inimigo a sêde ateem;
+Sejão embora muitos os que empunhão
+D'aureo lavor custosas cimitarras,
+Que de nenhuma escorre tanto sangue;
+Ostentem muitos adornada a fronte
+De turbantes mais altos, mais airosos;--
+Alp é só conhecido por aquelle
+Braço nu, que branqueja levantado.
+Ei-lo campea onde mais arde a briga!
+Não se arvorou pendão sobre estas praias
+Que mais destro as fileiras anteceda;
+Jámais, durante a Musulmana guerra,
+Se despregou bandeira que attrahisse
+De tão longe os Delhís: sempre o distinguem
+A lampejar como cadente estrêlla!
+Onde quer que este braço prepotente
+Uma vez se mostrou, logo os mais bravos
+Surdem todos alli, ou tarde chegão;
+Alli quartel o ignavo em vãos clamores
+Ao vingativo Tartaro supplica;
+Alli o heróe, no chão deitado e mudo,
+Nem quer que quando morre um ai lhe escape,
+E inda com tibio golpe derradeiro
+Invade o antagonista, que não menos
+A par de si prostrou; e bem que expire
+Tão alquebrado das feridas mutuas,
+Raivando afferra o ensanguentado sólo.
+
+
+XXVII.
+
+O ancião, persistindo inabalavel,
+Oppôr consegue momentaneo estôrvo
+D'Alp á carreira atroz.--"Cede, Minotti:
+Salva todos os teus, attende á filha."
+--"Nunca o verás, vil renegado, nunca!
+Nem tinha eu de annuir inda que fosse
+Vida eterna essa vida que me off'reces."
+--"E Francina!--e a futura minha noiva!
+Queres, assim teimoso resistindo,
+Ser tambem causador da morte d'ella?"
+--"Ella está mui a salvo."--"Onde? em que sitios?"
+--"No Ceo, d'onde banida para sempre
+Foi tu'alma aleivosa,--e onde Francina
+Vive longe de ti, vive sem mancha."
+Alp, a taes vozes, titubante, anciado,
+Fica não d'outra sorte que se o peito
+Lhe traspassasse truculento golpe;
+E de Minotti despontou nos labios
+Irónico sorriso de vingança.
+
+"Oh Deos! quando expirou?"--"Inda esta noite;
+Mas do espirito seu não choro a ausencia,
+Antes fólgo de ver que cá não deixo
+D'esta minha linhagem nobre e pura
+Ninguem que haja de ser misero escravo
+De Mafamede ou teu. Anda, acommette!"
+Baldado desafio! Alp é já morto.
+Ao tempo que Minotti lhe vertia
+N'aquellas expressões criminadoras
+Todo o fel da vingança, e que mais cruas
+Que a propria ponta de buído alfange
+Ellas varavão Alp, eis vôa o golpe
+D'um templo não distante, defendido
+Com incriveis primores de firmeza
+Por esse dos Christãos ultimo resto,
+Que tão minguado e d'esperança exhausto,
+Inda de lá fazia esforços grandes
+Para o combate restaurar fallido:
+E antes de descobrir d'onde assestada
+Lhe foi a lethal bala sibilante,
+Alp o cerebro tem varado d'ella,
+E voltea, e vacilla, e cahe por terra:
+Lampejou-lhe ante os olhos clarão debil,
+Quando vergou para não mais erguer-se,
+Ficando apenas palpitante tronco,
+Que ei-lo envolvido jaz na noite eterna.
+N'elle indicio não ha que vida inculque,
+Salvo o tremor dos membros onde o tiro
+Deixou menor estrago. A ponto acodem,
+E de costas o estendem: rosto e peito
+Lhe estão manchados de poeira e sangue,
+E jorra-lhe da boca o vital fluido,
+Que as cavernosas veias desampara;
+Mas não lateja o pulso, não se escuta
+Nos labios murmurar-lhe o arranco extremo;
+Nem sequer um suspiro, uma palavra,
+Um penoso arquejar, lhe assignalárão
+O transito fatal da vida á morte.
+Antes que o pensamento levantasse
+Em súpplica contrita, réo nefando,
+Se apresenta aos umbraes da eternidade,
+Sem que ao perdão celeste aspirar possa,
+E na vida e na morte--Renegado.
+
+
+XXVIII.
+
+Então d'um lado e d'outro aos ares sobe
+Espantoso alarido retumbante:
+Aqui, de regozijo; além, de raiva.
+Eis de novo travadas em conflicto
+Espadas de Christãos e Turcas lanças
+Embatem com furor, mutuão golpes,
+Estendendo no pó guerreiros muitos.
+Ousa, de rua em rua e passo a passo,
+Minotti disputar aos inimigos
+Qualquer porção restante do terreno
+Que ao seu bravo commando fôra entregue:
+Ao lado, a reforçar-lhe audacia e pulso,
+As sobras tem da guarnição briosa.
+Resistencia tenaz off'rece o templo,
+D'onde predestinada veio a bala
+Que em grande parte despicou Corintho,
+Morto Alp, o mais feroz de seus contrarios
+Para alli recuando sem desvio,
+Deixando diante ensanguentado rasto,
+E os inimigos encarando sempre,
+E nunca sem matar vibrando um golpe,
+O chefe e o seu cortejo, em retirada,
+Conseguem reunir-se aos que occupavão
+A sacra estancia: no recinto d'ella
+Inda lhes cabe respirar um pouco,
+Das maciças paredes escudados.
+
+
+XXIX.
+
+Remanso bem mesquinho! Os Musulmanos,
+De pujante refôrço abastecidos,
+Borbotando furores e ufania,
+Tão cerrados, tão férvidos avanção,
+Que o número lhes tolhe a retirada:
+Dest'arte se atravancão no caminho
+Que vai ao templo, onde os Christãos não sabem
+O que é render-se; e os batalhões infestos
+Tanto apinhão-se á frente, que, inda quando
+Lavrasse o susto alli, nenhum podéra
+Por entre as fortes massas escoar-se:
+Ou vencer ou morrer lhes era fôrça.
+Morrem; mas sobre os corpos palpitantes
+Lhes surgem de repente os vingadores.
+Que, frescos e raivosos pullulando,
+As filas, sempre rôtas, enchem sempre;
+E os Christãos affadigão, extenuão,
+Violentas amiudando as investidas:
+E ei-los agora os Infieis assomão
+Junto ao sacro portal. Por longo espaço
+A ferrea contextura inda resiste,
+Inda de cada fresta vôão tiros,
+Todos bem assestados, mortaes todos;
+E de cada janella se desatão
+Em chuveiro as sulfureas alcanzias.
+Mas já fraqueão as nutantes portas--
+Vérgão rangendo os quicios, cede o ferro,--
+Lá pendem--lá se abatem já cahírão:
+Não mais resistirá, morreo Corintho!
+
+
+XXX.
+
+Soturno, sem que o vejão, só comsigo,
+Ao altar arrimado está Minotti.
+D'um painel sobranceiro, a Virgem santa
+O affavel rosto fúlgido lhe volve,
+Transumpto de celeste colorido,
+Onde os olhos são luz, amor o aspecto;
+E na ara collocado a fim que possa
+Dos humanos fixar o pensamento
+Sobre as cousas do Ceo, quando elles orão
+Devotos, genuflexos ante a imagem
+D'esta Mãi admiravel, que em seu gremio
+Sustem e affaga o Redemptor-menino,
+E com sorrisos acolhendo meigos
+Uma por uma as fervorosas preces,
+Como que ao Ceo de transferi-las cuida.
+Sorrindo sempre, inda sorrí agora,
+Em despeito da atroz carnificina,
+Do sangue em jôrros que deturpa as naves.
+Eleva então Minotti os olhos lassos,
+E, exhalando um suspiro, se persigna;
+Logo alli d'uma tocha que era accesa
+Ei-lo se apossa, e permanece firme,
+Em quanto os Musulmanos irruindo,
+Desenvolvendo á larga ferro e fogo,
+Hórridos enchem a mansão sagrada.
+
+
+XXXI.
+
+Sob a lagem que o vasto pavimento
+Recompunha em mosaico variada,
+Subterraneas abobadas se arqueão.
+Jazigo aos mortos das passadas eras:
+Em memorandas lápidas incisos
+Lião-se os nomes seus, que ler não deixa
+Ora o sangue que os cobre: aqui não menos
+Vião-se, honrando as cinzas, esculpidos
+Timbres, emblemas de lavor prestante,
+Marmores luzidíos, de vistosas
+Multicolores veias serpeados,--
+Que, sórdidos já hoje, se baralhão
+Com fragmentos d'espadas, de montantes.
+Com morriões e arnezes abolados,
+Confuso mixto que por cima avulta
+D'innumeraveis ataúdes, onde
+Enfileirados os defunctos dormem:
+Podes vê-los em lugubre apparato,
+Ao macilento albor que inda os visita
+Por fisgas breves de sombrias grades.
+Mas nem por isso desistio a Guerra
+D'entrar por estas lobregas cavernas,
+Com tórva profusão disseminando
+Das sepulcraes abobadas ao longo
+Seus thesouros sulfureos, que se elevão
+Empilhados em massas volumosas
+Junto dos resequidos esqueletos.
+Aqui, durante o cêrco, havião feito
+Seu paiol os Christãos: longo rastrilho,
+Desde agora entornado, se encaminha
+Do templo a estes sitios; e eis o extremo
+Recurso inabalavel de Minotti
+Contra o poder das irruentes turmas.
+
+
+XXXII.
+
+O inimigo enche tudo; e poucos tentão
+Inda arrostá-lo, ou mui de balde o arrostão.
+Elle, á falta de vivos, vai nos mortos
+Saciar da vingança a voraz sêde,
+Que exacerbou-se agora; elle os invade
+Com sacrilegos golpes, e decepa
+Cabeças já finadas, e dos nichos
+As estatuas despenha baqueantes,
+E as aras despe d'oblações opimas,
+E co'as callosas mãos profanadoras
+O argento empolga dos sagrados vasos.
+Chegada apenas a caterva infrene
+Ante o altar principal, detem-se e pasma:
+Oh qual o adorna resplandor pomposo!
+Sobre a pedra lhe surge bem patente
+O consagrado Caliz, ouro estrême,
+Prêsa que enleva os depredantes olhos,
+A fulgurar maciça e ponderosa:
+Hoje conteve o sacrosanto vinho,
+Que Christo em sangue seu mudar dignou-se,
+E com que, ao romper d'alva, os seus cultores,
+Antes de pelejar, fortalecêrão
+As almas ao dever e ao Ceo votadas:
+Inda no fundo remanecem gotas;
+E tambem, circumdando a sacra mesa,
+Em symetria esplendida dispostas,
+Ardem lampadas doze d'ouro fino:
+Este o mais opulento e ultimo espolio.
+
+
+XXXIII.
+
+Apinhão-se alli todos; e o que estava
+Da prêsa mais visinho, faz-se avante,
+E quasi quasi que a empolgava, quando
+O longevo Minotti applica a tocha
+Ao rastrilho fatal;--ei-lo se inflamma!
+Campanarios, abobadas, altares,
+Espolio, vivos, mortos, moribundos,
+Christãos vencidos, Turcos vencedores,
+E o templo esboroado, e quanto ha n'elle,
+Se ergue aos ares com hórrido rebombo,
+E finda envôlto na explosão terrivel!
+A cidade abalada--o chão coberto
+D'edificios, de muros demolidos--
+As ondas que recuão, de assustadas--
+Os montes, senão rôtos, vacillantes,
+Como se os sacudisse um terremoto--
+De milhares d'objectos mixto informe
+Que os Ceos toldando vai de fogo e fumo.
+Ao rebentar da horrítona lufada--
+Não cessão de apregoar que n'estas praias,
+Ha longo tempo, afflictas, terminou-se
+Dos combates o mais desesperado.
+Como accesa em girandolas festivas,
+Lá roça os astros a confusa mole.
+Varões não poucos d'estatura ingente,
+D'apparencia gentil, ora abrasados,
+Curtos como pigmeos, descem dos ares,
+Em torrado carvão juncando a terra.
+Grossa chuva de cinzas se despenha:
+Muitas recebe o golfo, e, ao recebê-las,
+Fórma em tôrno escarcéos, que se desfazem
+N'um progresso de circulos undosos;
+Muitas recebe a praia, e vão, por longe
+Disseminadas, recobrir todo o isthmo:
+São cinzas de Christãos ou d'Othomanos?
+Suas mãis se aproximem, venhão vê-las,
+E digão se as conhecem!--Por ventura
+Houve alguma de vós, ó desgraçadas,
+Que quando aos peitos lhe pendia o filho,
+Ou no embalado berço o adormentava,
+E, sorrindo d'amor, se comprazia
+N'aquelle brando repousar donoso,
+Ai! houve alguma então que nem por sombras
+Esperasse este dia, ou ver dispersos
+Da cara prole os lacerados membros?
+Nem sequer, nem sequer as extremosas
+Matronas que no ventre os alojárão
+Estremar sabem os nascidos d'ellas;
+Um só momento lhes tirou de todo
+Fórma e semblante d'homens; resta apenas
+Algum disperso pericraneo ou osso.
+Barrotes, vigas flammejantes descem,
+E em redor se derramão; vem cahindo
+Engastadas em barro infindas lagens,
+Que o sólo opprimem fumegantes, negras.
+Todo o vivente a quem troou no ouvido
+O abalo estragador, pregão de morte,
+Ou jazeo ou sumio-se: espavoridas
+O vôo affastão carniceiras aves;
+Bravíos cães vão-se arredando em uivos,
+Nem se lhes dá dos insepultos mortos;
+O camelo as prisões deixou quebradas;
+O touro, ao longe, se desfez do jugo;
+O corsel, que o fragor ouvio de perto,
+Rompendo a silha, espedaçando as redeas,
+A galope alongou-se pelo plaino;
+As incolas dos charcos lutulentos,
+Alçando a boca sobremodo aberta,
+Clamor soltárão importuno em dôbro;
+Uivárão pelas furnas das montanhas
+Os lobos, quando alli a trovoada
+Em écos retroou; lá mui distantes,
+As alcatéas dos jakaes bramírão
+Com mixto som, que, lamentoso e agudo,
+Ora imitava criancinha em chóros,
+Ora lebréo ganindo fustigado:
+Esbaforida accelerando os vôos,
+A aguia desamparou a rocha alpestre,
+Onde aquecia o ninho, e remontou-se
+Mais proxima do sol, achando crassas
+Em demasia as sotopostas nuvens,
+Que vinhão, d'atro fumo conglobadas,
+Roçar-lhe o bico amedrontado, hiante,
+Mais e mais excitando-a a sublimar-se,
+E o grito a reforçar.--Eis de qual modo
+Conquistada e perdida foi Corintho.
+
+FIM.
+
+
+
+
+NOTAS ABREVIADAS.
+
+
+NOTAS ABREVIADAS.
+
+
+II.--_vers._ 14.
+
+ Dando de mão á grei, o Turcomano
+ Prestes unio ao lado a cimitarra.
+
+Domiciliados debaixo de tendas, vivem estes povos uma vida patriarcal.
+
+
+V.--_vers._ 1.
+
+ Coumourgi--aquelle etc.
+
+Ali Coumourgi, valido de tres sultões, e grão visir de Achmet III,
+havendo retomado em uma só campanha o Peloponeso aos Venezianos, foi, no
+seguinte anno, mortalmente ferido na batalha de Peterwaradin, quando
+forcejava para reunir suas tropas.
+
+
+XVI.--_vers._ 4.
+
+ Coarctados e sem ésto, aquelles mares
+ Em moto igual ondeão sempiternos.
+
+É talvez desnecessario recordar ao leitor que o movimento do fluxo não é
+visivel no Mediterraneo.
+
+
+Ibi--_vers._ 42.
+
+ Ei-los que estão da pelle despojando
+ Nest'hora um craneo Tartaro, etc.
+
+Este espectaculo, qual o descrevo, foi por mim presenciado sob os muros
+do serralho de Constantinopla; e os cadaveres erão talvez os de alguns
+Janizaros rebeldes.
+
+
+Ibi--_vers._ 59.
+
+ E cada pericraneo off'rece a esguia
+ Madeixa longa, etc.
+
+Crêm os Musulmanos que o seu Mafôma, no ponto de transferi-los ao
+Paraiso, os tomará por esta madeixa; e, firmados sobre tão supersticioso
+fundamento, a deixão crescer.
+
+
+XXI.--_vers._ 94.
+
+ Essa nuvem que esconde agora a lua,
+ Lá vai passando, etc.
+
+Este pensamento não é original, por quanto deparei com elle na versão
+ingleza de Vathek.
+
+
+XXII.--_vers._ 11.
+
+ ---------- Da terra prestes
+ Descravão-se os pendões equi-caudatos.
+
+De uma cauda de cavallo, fixa no alto de uma lança, são compostos os
+pendões dos Bachás.
+
+
+XXV.--_vers._ 51.
+
+ Morreo a combater no undoso estreito
+ Que d'Asia o chão divide do d'Europa.
+
+Na batalha naval que os Venezianos travarão com os Turcos á entrada dos
+Dardanellos.
+
+
+FIM DAS NOTAS.
+
+
+
+
+ * * * * *
+
+P. S. _Escrevemos accentuada e sem_ h _a 3.ª pessoa do singular no
+indicativo presente do verbo substantivo ser, e igualmente sem_ h _o
+adjectivo numeral um, por nos parecerem terminantes as razões em que é
+fundado este uso. Por certo que nem sempre adherimos á opinião de nossos
+Grammaticos e Diccionaristas modernos, com quanto sejão alguns de
+reconhecida erudição; e em meia duzia de paginas, que talvez
+publicaremos, hão de apparecer indicados os pontos e expendidos os
+motivos d'esta divergência. Pelo que toca á exactidão typografica do
+Poema que apresentamos traduzido, empregou-se ahi mui boa diligencia: é
+pois de presumir que será leve e de facil emenda o defeito que ainda
+remanecer._
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord
+Byron, traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA ***
+
+***** This file should be named 33592-8.txt or 33592-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/3/3/5/9/33592/
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+Produced by Pedro Saborano
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
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+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.