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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 20:00:07 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Os netos de Camillo + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: September 17, 2010 [EBook #33752] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: UTF-8 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS NETOS DE CAMILLO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + Notas de transcrição: + + O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso + em 1901. + + Foi mantida a grafia usada na edição original de 1901, tendo + sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não + alteram a leitura do texto, e que por isso não foram assinalados. + + + + + _ALBERTO PIMENTEL_ + + + _Os Netos de Camillo_ + + LISBOA + EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL + Sociedade editora + LIVRARIA MODERNA + _R. Augusta, 91_ + TYPOGRAPHIA + _35, R. Ivens, 37_ + MDCCCCI + + + + + OS NETOS DE CAMILLO + + + + + [Ilustração: CAMILLO CASTELLO BRANCO + + _(Copia de um retrato a crayon que pertence aos netos do grande + escriptor)_] + + + + + + _ALBERTO PIMENTEL_ + + + _Os Netos de Camillo_ + + + Das flôres surgirão pomos?... + Se Deus regar os arbustos! + + TOMAZ RIBEIRO. + + LISBOA + EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL + Sociedade editora + LIVRARIA MODERNA + _R. Augusta, 91_ + TYPOGRAPHIA + _35, R. Ivens, 37_ + MDCCCCI + + + + + [Ilustração: D. ANNA ROSA CORREIA] + + + + +OS NETOS DE CAMILLO + + +Fui hontem, 20 de agosto, a S. Miguel de Seide fazer uma romagem de +saudade. + +Quando Camillo era vivo, sempre que eu vim a Santo Thyrso não deixei +nunca de visitar o grande romancista na sua melancolica Thebaida. + +Agora que elle é morto e repousa longe, no cemiterio da Lapa, fui em +peregrinação devota contemplar o tumulo em que viveu e agonisou: a casa +solitaria de Seide, onde cada pedra parece ser um epitaphio que chora +resignadamente por elle no silencio e na mudez de uma aldea minhôta. + +Esta casa, a que o proprio Camillo chamou «o albergue arruinado de S. +Miguel de Seide», é uma reliquia historica, um monumento nacional, como +a casa de Shakspeare em Stratford-sur-Avon ou como a casa de Goethe em +Francfort. + +É ou deve ser. + +Para mim tem o que quer que seja de venerando, como um castello +desmantelado, onde a nossa gente tivesse ganho outr'ora cem victorias +gloriosas, de que eu proprio houvesse sido testemunha... + +Sahi de Santo Thyrso ao amanhecer e almocei em Landim. + +Devo ao sr. Adriano Trêpa, meu presado amigo, a honra de acompanhar-me. + +Vi de passagem a cêrca do antigo mosteiro de Landim, hoje propriedade da +familia Leal e Sousa. + +Um filho do dono da casa, o sr. Manuel Vicente Leal, que ia a sahir +n'esse momento, retrocedeu de bom grado para nos servir amavelmente de +cicerone. + +Eu, quando viajo, não gosto de fazer prevenções, nem aos outros, nem a +mim proprio. Sou o viajante mais despreoccupado que pode haver; +entrego-me inteiramente ao acaso, e sempre me tenho dado bem com isso. + +A cêrca do mosteiro está transformada; poucos vestigios restam ainda do +tempo dos frades. Ha trechos de buxo em algumas ruas, e «o jogo da +bola», que era vulgar nos conventos do sexo masculino, subsiste menos +mal conservado. + +As freiras, se cultivavam este jogo, era no plural... + +Já posteriores á extincção das ordens religiosas, vi carvalheiras +enormes, medindo de circumferencia mais de quarenta palmos. Uma d'ellas +fôra lascada por um raio, de alto a baixo. Vi tambem, digna de menção, +uma rua de australias, arvores cujo cerne imita o pau preto e é, por +isso, madeira apreciada. + +Conversando com o sr. Manuel Vicente, perguntei-lhe se Camillo teria +phantasiado muito a respeito do _Cego de Landim_. + +--Nada, absolutamente. Camillo ainda não disse tudo. O «cego» era um +perverso homem. + +--E onde morava aqui? + +--N'uma casa por detraz d'aquella capella. + +Indicou-me a capella de S. Braz, onde todos os annos se realiza uma +pomposa festa, com arraial e feira. + +Tambem o sr. Manuel Vicente me indicou o antigo collegio de Landim, em +que foram educados muitos rapazes do Minho, que hoje são honra e brilho +da sua provincia. + +O sr. Trêpa e eu fomos almoçar á estalagem do Rodrigues, n'uma varanda +envidraçada, que dava sobre campos emplumados de basto arvoredo. + +Notei que Landim é uma terra abundante de alfaiates. Só á porta de uma +casa, vi sete trabalhando ao ar livre; fizeram-me lembrar a historia dos +sete alfaiates lendarios, que foram precisos para matar uma aranha. + +Mal acabamos de almoçar, partimos para Seide, onde chegamos perto das +dez horas da manhã. O sol tinha já descoberto; a nevoa, que havia sido +intensa, dissipara-se completamente. + + * * * * * + +Os meus olhos esperavam avidamente o momento de avistar a casa que fôra +de Camillo. + +Tomados de um instinctivo respeito, iamos ambos calados, o sr. Trêpa e eu. + +De repente, surgiu-nos o portão ensombrado por duas grandes acácias, que +pendem sobre elle. + +--É ali! disse eu. + +--É ali! repetiu o sr. Adriano Trêpa. + +E, passando respeitosamente por deante do portão, que dá para o largo da +egreja parochial, dirigimo-nos á casa onde actualmente residem os netos +de Camillo, a dois passos de distancia. + +Toda a gente se lembra ainda da deploravel questão que, a meu pezar, +sustentei com o visconde de S. Miguel de Seide, segundo-genito de +Camillo, sobre a existencia de uma filha natural do grande romancista, +casada no Porto. + +Tive receio de que a recordação d'essa acerba polemica estivesse ainda +muito viva no espirito da sr.ª D. Anna Rosa Corrêa. + +Adoptei por isso a precaução de apresentar-me sob o nome que primeiro me +lembrou, ao solicitar o obsequio de ser recebido como admirador +fervoroso de Camillo. + +Acolheu-me gentilmente a dona da casa, que immediatamente chamou alguns +de seus filhos, não todos, porque dois d'elles, Camillo e Manuel, tinham +sahido pela manhã. + +Notei que por vezes a sr.ª D. Anna Corrêa, mãe d'aquellas creanças +herdeiras de um nome glorioso e de pouco mais, me observava com certa +curiosidade. + +Soube comtudo manter-se n'uma discreta reserva, não arriscando duvida +alguma sobre a minha identidade. + +Fingiu acreditar que eu era «um Araujo» admirador de Camillo, desejoso +de conhecer os netos do grande romancista e de visitar a casa onde elle +morreu. + +Apresentou-me Flora, sua filha mais velha, quinze annos de idade, alta e +elegante como um pinheiro novo, de uma simplicidade de maneiras ao mesmo +passo graciosa e senhoril; e Rachel, quatro annos mais nova, cujo vago +olhar revela morbidez e melancolia. + +--Esta menina, disse-me a sr.ª D. Anna Corrêa, era a predilecta da avó. + +--Aventuro-me a conjecturar, respondi eu, que o nome de Rachel foi +escolhido por Camillo. + +--Isso mesmo... confirmou a minha amavel interlocutora esboçando um +sorriso. Nós queriamos que se chamasse Anna, como a sr.ª viscondessa, +mas o sr. visconde (Camillo) oppoz-se, dizendo que esse nome era infeliz +na familia. Referia-se á sr.ª viscondessa e a mim... + +--Rachel, observei eu, exprimia na vida de Camillo a saudade do passado. +Com esse nome foi designada a sr.ª D. Anna Placido em muitos dos versos +amorosos que ella lhe inspirou. + +--Exactamente. É verdade. + +Apresentou-me depois os restantes filhos que estavam em casa: Nuno e +Simão, em cujas physionomias, doces e intelligentes, prevalece um +accentuado typo de familia. + +--Simão, observei eu, tambem foi um nome intencionalmente escolhido. + +A sr.ª D. Anna confirmou com um gesto. + +--É o do protogonista do _Amôr de perdição_, acrescentei. Oxalá que este +menino seja mais feliz. + + * * * * * + +Como eu tivesse insistido no desejo de vêr o pequeno Camillo, por saber +que era o neto querido do avô, foram procural-o emquanto conversavamos a +respeito de seus irmãos. + +E iamos já a sahir em visita á casa onde o grande Camillo morreu, quando +appareceu o joven Camillo, denunciando um certo ar de extranheza no +olhar suavemente penetrante e perspicaz. + +--Este menino, disse-me a sr.ª D. Anna, nasceu a 16 de maio de 1888, no +mesmo dia em que o avô fazia annos. Nos _Amores de Camillo_ vem esta +observação, que é exacta. + +Procurei mostrar-me indifferente á citação do meu livro, comquanto me +fosse agradavel a certeza de que a sr.ª D. Anna Corrêa o conhecia e +indicava como fonte auctorisada em minudencias biographicas. + +A physionomia do pequeno Camillo é, em verdade, a mais expressiva entre +todos os netos do grande romancista. + +Essa creança revela uma luminosa precocidade de intelligencia. Não sendo +robusto, como nenhum dos seus irmãos o é tambem, parece mais debil e +menos expansivo que elles. Tem o que quer que seja de gravidade +prematura quando escuta enconchando a mão sobre a orelha direita, porque +padece de dureza de ouvido, como seu irmão Nuno. Tudo faz esperar que +elle seja o continuador da gloria literaria do avô. Esta convicção +parece estar arreigada no espirito de toda a familia, que a recebeu do +grande romancista, o qual dizia muitas vezes ao pequeno Camillo: + +--Se eu tornar a vêr, vou comtigo para Coimbra. + +Apezar dos escassos recursos de que a sr.ª D. Anna Corrêa dispõe, julgou +seu dever não se poupar aos maiores sacrificios para iniciar +convenientemente a educação d'este filho. + +O pequeno Camillo estuda em Braga, onde vae cursar agora o terceiro anno +do curso geral dos lyceus. + + * * * * * + +As terras de Seide não podem abastar ao sustento e educação de tão +numerosa prole. Dariam regular passadio para uma ou duas pessoas, +apenas. Mas para educar tantas creanças não chegam. De mais a mais estão +oneradas com um pezado fôro de setenta razas de milho alvo e centeio, +pago annualmente ao abbade, e com os juros de uma hypotheca á +Misericórdia de Villa Nova de Famalicão. São terras sêccas e por isso +pouco fecundas: apenas alli tem maior valor a casa de habitação, que foi +mandada construir pelo visconde de S. Miguel de Seide, e que é muito +superior em capacidade e aspecto áquella em que o grande romancista +viveu e morreu. + +A hypotheca abrange tambem este ultimo predio. + +A pensão que foi votada pelo parlamento a Camillo Castello Branco, +cessou com a morte de seu filho Jorge. + +Portanto os descendentes de Camillo, se lhes não acudir o Estado, como +deve, terão de luctar com as maiores difficuldades para receber educação +condigna do nome illustre que representam. + +--Ver-me-hei na necessidade, dizia-me a sr.ª D. Anna, de mandar este +menino (Camillo) para o commercio no Porto ou em Braga, bem como os outros. + +E o seu rosto, macerado pelos desgostos e trabalhos da vida, que a +envelheceram prematuramente, cobria-se de uma espessa nuvem de +melancolicas apprehensões. + + [Ilustração: FLORA] + +--Tenho feito quanto tenho podido, continuou a sr.ª D. Anna, a bem +d'estes meninos, mas não poderei aguentar por muito mais tempo tão +difficil esforço. Flora fez exame de instrucção primaria. Nenhum dos +outros irmãos é analphabeto. Manuel, que não lhe posso apresentar, está +em Landim a dar lição; só recolhe á noite. Nenhum dos meus filhos tem +repugnancia pela instrucção, nem é preciso chamal-os para irem á escola, +sendo Camillo o mais madrugador e estudioso de todos. Triste de mim, se +tiver de lhes dar um destino que não seja o das letras. Mas não posso... +não posso. + +Não foi como consolação banal que lhe respondi: + +--Não desespere, minha senhora. Portugal é prodigo em conceder pensões, +e este acho eu que será o menor defeito de toda a nossa administração +publica, porque mais vale evitar que alguns portuguezes morram á fome, +do que dar um triste exemplo de ingratidão nacional. Todos nós sabemos +que esta ou aquella pensão é, entre muitas outras, mais explicavel pela +generosidade do que pela justiça. Mas a que se conceder á memoria de +Camillo, na pessoa de seus netos, pelo menos até á maioridade d'elles, +alem de poder ser a mais parcimoniosa de todas, será a mais justa entre +as que a si mesmas se justificam plenamente. Camillo é um d'estes +escriptores que representam uma nacionalidade: a sua obra é a alma de um +povo. + +A sr.ª D. Anna enxugou uma lagrima nos seus olhos de um azul muito +claro, tão quebrados pelo soffrimento como o poderiam ser por uma longa +vigilia. + +Quantas noites, em verdade, não desvelará esta boa creatura a pensar no +incerto futuro de seis filhos, entregues ao seu heroismo maternal, unica +força que parece vitalisar-lhe o corpo depauperado pela anemia e +envelhecido prematuramente por uma vasta serie de inconfessaveis desgostos! + +Depositária de um nome illustre, e de uma das mais solidas glorias +literarias do nosso tempo, que deverá restituir intacta a seus filhos +depois de os ter preparado de modo a saberem continual-a dignamente, a +sua missão é espinhosa e agra, sobretudo se a patria a desamparar, o que +seria um crime affrontoso, e uma ingratidão odiosa. + +Os netos de Camillo, vivendo n'um affastado rincão do Minho, entre dois +campos hypothecados, não téem a espreital-os a _reportagem_ dos jornaes, +a vigilancia dos Argus de botequim, nem a attenção dos centros +literarios e aristocraticos. Os montes que os rodeiam, não deixam vel-os +de longe; especialmente de Lisboa. É preciso lembral-os, pol-os deante +dos olhos da patria, e esse é o unico intuito que inspirou a publicação +d'este opusculo. + +Dilemma inilludivel: Deixar ao abandono seis creanças, que hão de +perpetuar uma geração illustre, ou protegel-as com uma exigua mealha, +que abastará ás modestas necessidades de pessoas educadas na vida aldeã, +no trato simples de camponezes, e sobriamente habituadas ao caldo verde +do Minho. + +Quem deixará sossobrar em tão fragil batel seis creanças desprotegidas, +podendo facilmente salval-as, e com ellas uma das mais authenticas e +genuinas glorias nacionaes? + +Ninguem. A consciencia publica é o ultimo alento que morre nos povos que +se deixaram enfermar de leviandades e desacertos continuados. Nós somos +um povo doente d'essa pécha. Mas a consciencia ainda reage por vezes, +brada, impõe-se, faz-se ouvir e attender. + +Entreguemos, pois, esta demanda á consciencia publica. + +O unico dos netos de Camillo que eu não pude vêr em S. Miguel de Seide, +foi Manuel, o mais novo, nascido em 1893. + +O seu nome tambem obedeceu a uma propositada escolha: era o do pae do +grande romancista. + +A julgar pelo retrato, parece ser o mais alegre de todos elles, +privilegio que a sua edade, aliás, explica. + + * * * * * + +Acompanhados pela sr.ª D. Anna Corrêa, dirigimo-nos, o sr. Adriano Trêpa +e eu, para a casa onde morreu Camillo, a qual está actualmente +deshabitada, com excepção do pavimento terreo, que é residencia do caseiro. + +Aberto o portão, entramos na sombra de uma latada de alvaroco, cujos +cachos brancos pendiam vagamente doirados por tenues raios de sol, que +as folhas verdes coavam. + +Olhei logo para um recanto, á esquerda, onde eu sabia existir o +monumento commemorativo da visita de Castilho, «o principe da lyra +portugueza», a S. Miguel de Seide, em julho de 1866. + +Castilho, que partira de Lisboa acompanhado por seu filho Eugenio, tinha +alli, n'aquelle torrão do Minho, uma côrte de letrados, verdadeira +_côrte n'aldeia_, a render-lhe homenagem: compunham-n'a Camillo, Anna +Placido, Thomaz Ribeiro e Vieira de Castro. + +A inscripção está quasi apagada, como já se apagou tambem a vida das +pessoas a quem ella se referia. Cresceram hervagens e ramos que +sombriamente afogaram o monumentosinho. Parece um tumulo esquecido na +solidão de um cemiterio. + +Recordei então a dedicatoria da _Maria Moysés_ a Thomaz Ribeiro. + +Quando eu estava olhando para aquella pedra triste, visinha silenciosa +de uma casa não menos triste, assomou ao portão um individuo, que +desconheci, um velho rijo, de physionomia agradavel, cujo trajo me +denunciou logo o camponez polido. + +A sr.ª D. Anna Corrêa apresentou-m'o, pois que o sr. Trêpa já o +conhecia: era o sr. Francisco Corrêa de Carvalho, dedicado amigo de +Camillo, quasi familiar na casa de Seide, e proximo visinho. + +Como notasse que eu estava olhando para o monumento, o sr. Carvalho, +muito expansivo, contou logo que um dia, nos ultimos annos da vida de +Camillo, parára um trem ao portão, o que deu rebate de uma visita +inesperada, facto que de longe a longe acontecia. + +Camillo preparou-se para receber algum amigo; mas não apparecia ninguem. +Sahiram varias pessoas, entre ellas o sr. Carvalho, a averiguar o +extraordinario caso da carruagem, que parecia ter vindo vasia e parado +ali sem destino. + +Então descobriram o vulto de um homem junto ao monumento, e voltado para +elle. Aproximando-se cautelosamente, pé ante pé, reconheceram n'esse +extranho visitante, Thomaz Ribeiro, que chorava, abraçando-se com a pedra. + +Chorava memorias do passado, memorias de si mesmo, da sua mocidade +longinqua, de Castilho morto, de Vieira de Castro duas vezes morto, +primeiro no tribunal, depois no tumulo; do filho de Castilho, apodrecido +n'um leito, e de Camillo, ali tão proximo, crucificado no Calvario de +todas as dores reaes e imaginarias que lhe attribularam incessantemente +a existencia. + +Fiz reparo em que o sr. Carvalho, chamando de parte o sr. Trêpa, trocára +com elle algumas palavras. + +Tive depois a explicação d'este incidente; e o leitor tel-a-ha tambem, a +seu tempo. + +Mas, rapidamente, o sr. Carvalho voltou a falar comigo ácerca do +monumento, e do facto que elle memorava: a visita de Castilho a Seide. + +--Fez-se aqui, dizia-me o sr. Carvalho, uma linda illuminação. Vieram +cantadores, entre os quaes se distinguiram o _Gallego_ e a _Rosa +Cantadeira_. Castilho mostrou-se admirado com os improvisos do +_Gallego_, sempre espontâneos e, por via de regra, muito maliciosos. +«Quero, dizia Castilho, que me descrevam a cara d'este homem; que pena +tenho de o não vêr! Mas calculo que a sua physionomia ha de ter tanta +expressão como a de um actor comico. Por força!» Nunca mais, concluia o +sr. Carvalho, poderei esquecer essa noite de festa, que foi talvez a +unica noite feliz n'esta casa. + +Emquanto o sr. Carvalho discursava com a verbosidade ardente de um +rapaz, poisei os olhos sobre a _acacia do Jorge_, de cujas amplas +frondes cahia uma sombra profunda e saudosa. + +E fui repetindo, irreflectidamente, os versos de Camillo: + + Quando a acacia do Jorge ainda outra vez inflore, + Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei. + +A sr.ª D. Anna Corrêa, encostada n'esse momento ao mainel da escada, que +iamos subir, disse com maviosa expressão de tristeza: + +--Tantas vezes tem já florido, depois que elle morreu! + +Eu completei mentalmente o seu pensamento: «E ainda não voltou...» + +Noticiei á sr.ª D. Anna que um poeta da moderna geração, dos melhores, +se não o melhor, havia recentemente cantado _A acacia do Jorge_ em +quadras maviosas, de que brotavam lagrimas em fio, melancolicamente, +como gotas d'agua cahindo tristes de uma fonte solitaria. + +Posso agora completar essa informação, reproduzindo integralmente a +poesia de Affonso Lopes Vieira: + + A ACACIA DO JORGE + + Camillo! como acreditar, como hei de + Entender estes versos que deixaste? + Floriu a Acacia em S. Miguel de Seide, + Cada anno te espera,--e não voltaste! + + Já tantas vezes deu a sombra amiga, + Que tu gostavas tanto de gozar... + Florida, tem um ar de festa antiga + Na esperança de te vêr voltar! + + Voltar? A velha arvore que cance!... + Por fim ha de ruir, n'uma amargura. + Prepáras lá um ultimo romance? + Suprema indiscreção! Genio e loucura! + + Dolorosa novella desmanchada, + E que nos deixe pallidos e absortos, + Onde nos digas, grande camarada, + O gordo amor de brazileiros mortos! + + Os Amorosos, que se vão chorando + Á porta do convento, e amortalhar-se... + Com habitos de terra aconchegando + Os esqueletos de ossos a chocar-se... + + Um romance da cova, com morgados + Que o além desbastou; com almas finas + De mysticas de Amor, lindas Meninas + Em mosteiros chorando, abandonados! + + E a descomposta, lugubre risada + De romantica bocca, que era a tua, + N'esses reinos da Morte gargalhada + Sobre defuntos namorando á lua! + + E toda a vã e toda a derradeira + Esperança do cabo da viagem; + Com descriptivos, á tua maneira, + D'esse Minho da Morte da paisagem... + + Ó Acacia! é já tempo: desesperas? + Não te ponhas florida, põe-te aos ais!... + Nunca mais voltará esse que esperas, + Ouves bem este horror? Jámais! Jámais! + + E os versos d'elle, onde a saudade existe, + Que á despedida te gritou tambem, + Ah! não são mais que uma mentira triste: + Como tudo, a final, que nos faz bem. + + Poetas! perguntae ao pensamento + Que mais chimeras e desgraças forge? + Antes te séque um raio, ou parta o vento! + Ó Acacia do Jorge... + + * * * * * + +Fomos subindo vagarosamente os degraus da escada de pedra, sobre a qual +pende, chorosa, a farta ramagem da acacia. O caseiro tinha aberto as +portas. Entrámos. Todos nós, os homens, nos descobrimos a um tempo, +respeitosamente. + +A lembrança do que eu vira ali ha dezeseis annos aclarava-se no meu +espirito com uma grande nitidez de saudade rediviva. + +Eu ia dizendo: + +--Era aqui a casa de jantar. + + [Ilustração: CAMILLO] + +A sr.ª D. Anna Corrêa confirmava. + +Passámos depois á sala em que estivera o bilhar e onde Camillo costumava +receber as suas visitas de maior cerimonia. + +A sr.ª D. Anna disse, indicando o vão de uma janella: + +--Foi aqui que se matou, sentado na cadeira de baloiço. + +E, longamente, a sr.ª D. Anna reconstituiu todo esse rapido drama de +desespero atroz. + +--O sr. visconde (Camillo) estava vivendo comnosco, no outro predio, +onde habitava o melhor quarto do segundo andar. Mas sempre que tinha +visitas, vinha aqui recebel-as. Foi o que aconteceu n'esse dia, quando +chegou de Aveiro o medico Edmundo Machado, que já tambem falleceu. O sr. +visconde parecia tranquillo antes do medico chegar. + +O sr. Carvalho interrompeu, dizendo: + +--Na vespera tinha andado a passeiar pelo meu braço ali no largo, em +frente da egreja. Como começasse a soprar uma aragem fresca, o sr. +visconde disse-me: «Vamos embora, que tenho medo de uma pneumonia.» +Ainda na vespera do suicidio temia tanto a morte! + +--É verdade! confirmou a sr.ª D. Anna Corrêa. Perguntou o sr. visconde +ao medico se quereria encarregar-se de o tratar da cegueira em Aveiro. O +doutor respondeu que seria melhor ir primeiro tomar as aguas do Gerez. O +sr. visconde viu certamente n'estas palavras o artificio de uma dilação +para evitar um desengano. Momentos depois o medico despediu-se, e a sr.ª +viscondessa e o sr. Carvalho acompanharam-n'o até á escada. Ouviu-se +então a detonação de um tiro. Retrocederam todos. O sr. visconde estava +prostrado na cadeira, arquejando. Não se lhe viu, no primeiro momento, +ferimento algum. Foi só algum tempo depois que uma gotinha de sangue +aflorou no sitio onde a bala entrára, sobre a tempora. + +--O sr. visconde, perguntei eu, trazia sempre comsigo o rewolver? + +--Sempre; já o levára a Lisboa, onde um dia o experimentou, disparando +para o tecto. Mas o filho (Nuno) tinha substituido as balas por uns +projecteis inoffensivos, não sei de quê. O sr. visconde percebeu isto. +Todavia não largára mais o rewolver, nem consentia que lh'o tirassem. + +--De tanto o apalpar, observou o sr. Carvalho, já tinha a coronha poída. + +A sr.ª D. Anna Corrêa concluiu a sua dolorosa narrativa dizendo: + +--Estavamos longe de imaginar que tivesse adquirido balas verdadeiras. +Todos suppunhamos o rewolver vasio. Foi uma surpreza terrivel. + +E todos nós, depois d'esta rapida reconstituição do drama de Seide, nos +demorámos ali, concentrados e silenciosos, por alguns momentos, como se +vissemos ainda Camillo, prostrado e arquejante, na sua cadeira de +baloiço, morrendo. + + * * * * * + +Subimos depois ao segundo andar. + +Eram ahi o escriptorio do romancista e os quartos de cama. + +No escriptorio, por onde agora a luz golphava livremente, restavam do +antigo mobiliario duas cadeiras de estofo, escanceladas e poentas. + +A nudez da sala, que o auctor de cem romances aquecera outr'ora com a +irradiação vulcanica do proprio cerebro, gelou-me de tristeza. Dava a +impressão de uma forja apagada. O tempo havia esfriado o rescaldo do +ultimo livro. A officina parecia dormir tambem o somno da morte, que +prostrára o valoroso artifice. + +Os aposentos de Camillo, alcova e saleta, estavam igualmente desnudados +de mobilia; apenas na parede havia pendentes alguns _croquis_ do Jorge, +e dois quadrinhos de que eu me lembrava ainda perfeitamente. + +Tenho em Lisboa uma pasta cheia de desenhos, que o Jorge me deu ha +dezeseis annos. Por isso, mais do que aos seus _croquis_, prestei +attenção aos dois modestos quadrinhos, que durante longo tempo deram os +bons dias e as boas noites a Camillo, velando a seu lado, como +companheiros fieis e amigos intimos. + +São duas lithographias, que ninguem compraria n'um leilão, se ignorasse +que ellas tinham pertencido a Camillo e ornado o seu quarto de cama. + +Uma é o retrato de Theophile Gautier, que foi o chefe do estado-maior no +exercito do general Victor Hugo, durante as campanhas incruentas do +romantismo. + +A sua _toilette_ caracterisa nitidamente essa época literaria, em que os +neóphytos revolucionarios procuravam desafiar a opinião publica e +_épater le bourgeois_ exhibindo fatos alarmantes pelo exagero da côr e +do córte. + +Primeiro que tudo, falemos da cabelleira romantica, essa floresta de +cabellos cahidos sobre os hombros, que denunciava á primeira vista os +literatos e os pintores. + +Agora, em nossos dias, muitos pintores e alguns poetas téem querido +resuscital-a por amor da celebridade; mas, ai d'elles! fazem lembrar os +mascarados que no carnaval moderno se vestem de pagens de Luiz XIV ou de +cortezãos de Luiz XV. + +Deslocados do seu meio e do seu tempo, apenas conseguem dar uma falsa +noção historica: são parcellas que sobrevivem a uma addição que se apagou. + +A cabelleira, como ornato capillar, efemina ridiculamente os homens de +hoje. + +Como caracteristica d'uma época, passou com essa época: é uma recordação +archeologica, que assenta melhor no muzeu do Carmo do que n'uma cabeça +humana. + +Theophile Gautier, que era então um rapaz, a quem o bigode pennujava +ainda, veste casaco de alamares--esse casaco-broquel, que defendia os +corações romanticos. + +O romantismo foi uma seita aguerrida, propensa a brigas e reptos. Por +isso, talvez, adoptou o casaco de alamares, que tinha o que quer que +fosse de aspecto militar, de lamina protegendo o peito de um couraceiro. + +No pescoço, um lenço de seda preta, alto como o gorjal de um cavalleiro +antigo. + +Honrado lenço de seda, que durante tanto tempo adornaste o pescoço de +nossos pais! tu tinhas uma eloquencia clamante e solemne. Davas ao +pescoço humano uma attitude erecta e firme, como a de um busto de +marmore ou de um granadeiro em formatura. + +Dir-se-ia que os pescoços, grossos e aprumados, tinham então musculos de +aço, a envergadura de uma aguia ou de um cysne. Precisavam uma +encadernação condigna, forte e austera. + +Depois vieram as gravatas multicores e multiformes, dando a impressão de +fitas garridas para adorno de damas. + +E a Academia Real das Sciencias decidirá, porque é muito capaz d'isso, +se foram os pescoços que adelgaçaram por amor das gravatas, se foram as +gravatas que adelgaçaram por amor dos pescoços. + +O outro retrato é de Alphonse Karr, tambem então em plena mocidade. Tem +buço e «mosca», levemente esboçados; e usa apenas meia cabelleira. Mas o +effeito da _toileite_ compensa, como excentricidade de _pose_, a +deficiencia da cabelladura. + +Karr veste camisa de trabalho, desafogada no pescoço, e sobre ella um +amplo gabinardo, que tanto poderia servir a um pescador ou um +jardineiro, como a um escriptor em actividade--porque tudo isso foi o +auctor das _Guépes_, sendo elle proprio uma obra em trez volumes. + +Tambem não sei se a Academia Real das Sciencias quererá dar parecer +sobre o facto, em que fiz reparo, de Theophile Gautier ter sobrancelhas +desenhadas em arco e Alphonse Karr sobrancelhas colleadas em til. + +Pode ser que das ponderações da Academia a este respeito venha a +fazer-se nova e difinitiva luz sobre a apreciação critica de Gautier e +Karr. + +Ha muito a esperar da Academia, tanto mais que ella ainda não fez nada. + + * * * * * + +Da saleta de Camillo passámos ao quarto de cama da viscondessa de +Correia Botelho, igualmente desmobilado. + +Foi ali que essa linda mulher, de fórmas esculpturaes, envelheceu e +expirou. + +D. Anna Augusta Placido falleceu repentinamente da ruptura de um +aneurysma, no dia 20 de setembro de 1895 pela manhã. + +Tinha accordado bem disposta e, a breve trecho, veio a morte +surprehendel-a. + +Após algumas golphadas de sangue, cahiu exanime na almofada do leito. + +Morreu corajosamente, rodeada pelos netos. + +Ella, que teve uns olhos cheios de brilho e de magia, estava quasi cega +quando morreu. + +Já não podia lêr, nem escrever. + +Eu ignorava esta circumstancia, que me foi agora communicada em Seide. + +Extranho destino o d'essas duas almas, Anna Placido e Camillo, que o +amor reuniu, que a convivencia torturou, e que a desgraça da cegueira +feriu implacavelmente na velhice, para que ambos exgotassem até ás fezes +o mesmo calix de amargura. + +Aqui terminou a nossa visita á casa deshabitada de Seide, rodeada de +«pinheiraes gementes», mais triste agora do que nunca. + +Por vezes o sr. Carvalho aligeirou a melancolia que nos acabrunhava ali, +evocando alguma recordação anecdotica da vida de Camillo. + +Quando sahiamos o portão da quinta, dizia-nos o sr. Carvalho: + +--Um dia, Camillo, vindo do Porto, preveniu o chefe da estação de Villa +Nova de que esperava brevemente a visita de um «bacharel» e pediu-lhe +que o guiasse para S. Miguel de Seide. Sempre que chegava um comboio, o +chefe da estação perguntava: «Vem ahi algum sr. doutor, que deseje ir +para Seide?» Ninguem respondia. Até que finalmente appareceu o +«bacharel» annunciado: era um burro que Camillo Castello Branco tinha +comprado no Porto. + + * * * * * + +Como voltassemos á casa do Nuno, para nos despedirmos dos netos do +grande romancista, pois que só o pequeno Camillo nos tinha acompanhado, +aproveitei o caminho para fazer algumas perguntas á sr.ª D. Anna. + +--O sr. visconde de Corrêa Botelho não reservou para si alguns livros e +manuscriptos, quando vendeu a bibliotheca? + +Obtive esta resposta: + +--Sim, senhor. Mas a sr.ª viscondessa recommendou-me muitas vezes que os +não mostrasse a ninguem antes de entregal-os aos netos. + +Fiquei, confesso, um pouco contrariado, mas não tinha que replicar. + +Perguntei á sr.ª D. Anna por um antigo criado de Camillo, que eu +conhecêra na Povoa de Varzim e do qual o grande romancista me disse +n'aquella praia: «Manoel Canniço é a unica pessoa que manda na minha +casa. Assumiu a dictadura e não sabe governar d'outro modo: dava um bom +ministro... constitucional.» + +Poucas horas depois sahiamos, Camillo e eu, para ir dar um passeio. + +O Manoel Canniço appareceu-nos na escada e interpellou seu amo dizendo-lhe: + +--V. Ex.ª vai sem paletot? + +Camillo respondeu passivamente: + + [Ilustração: NUNO] + +--A tarde está quente, e nós demoramo-nos pouco. + +Manoel Canniço, em plena dictadura, replicou: + +--V. Ex.ª vai vestir o paletot; queira esperar, que vou buscal-o. + +Camillo encolheu os hombros, sorrindo. E ambos esperámos que o paletot +chegasse. + +Andámos visitando os cafés e as roletas. Quando recolhiamos a casa, +passámos por uma taberna onde estavam zangarreando viola. Camillo parou, +olhou para dentro da tasca, e disse-me: «Quem toca é o Manoel Canniço. +Por isso é que eu o soffro.» + +Segundo me contou a sr.ª D. Anna Correia, Manoel Canniço fôra para o +Brazil, onde se demorára alguns annos; regressou outro dia, mais pobre +do que tinha ido. + +Voltando á casa do Nuno, tornei a falar na necessidade de, com o auxilio +do Estado, serem convenientemente educados os netos de Camillo. + +E de repente ataquei um assumpto novo: + +--Estes meninos téem uma tia no Porto, bem casada, supponho eu. + +A sr.ª D. Anna respondeu promptamente: + +--Téem, é certo, mas as nossas relações estão cortadas. + +Não pude então reprimir uma expansão que me desafogou o animo: + +--V. Ex.ª está pois convencida de que estes meninos téem uma tia no Porto? + +--Estou, sim, senhor. + +--Tambem eu, minha senhora. + +O sr. Carvalho interveio na conversação, pondo-se a pé e dizendo com +grande hombridade: + +--Negal-o foi uma loucura. + +Achei que era chegado então o momento opportuno de arrancar a mascara +que me constrangia. + +--Pois bem, minha senhora, disse eu, desde que não corro o risco de ter +que contrariar a opinião de V. Ex.ª em sua propria casa, devo +declarar-lhe o meu verdadeiro nome: eu sou Alberto Pimentel. E agora +peço mil perdões a V. Ex.ª por ter usado de um disfarce, que me foi +imposto pelo respeito e consideração que devia a V. Ex.ª Eu não podia, +na sua presença, ter uma opinião que, sobre tão melindroso negocio de +familia, lhe causasse desgosto. + +O sr. Carvalho sorria triumphalmente. A sr.ª D. Anna respondeu com +indulgente cortezia, dizendo: + +--Eu tinha-o suspeitado desde que V. entrou. Em 1892 o Nuno, estando nós +na Povoa, mostrou-me V. no _Café Chinez_; no dia seguinte tornámos a +vêl-o de tarde, no Passeio Alegre. E o Nuno dizia-me então: «Não haver +aqui um homem, amigo de ambos, que pudesse reconciliar-nos!» O que é +certo é que eu tinha fixado a physionomia de V. e mal podia acreditar +n'uma tão completa similhança entre a pessoa que eu vira na Povoa e a +pessoa que hoje me visitava com nome differente. + +O sr. Carvalho, de pé, no meio da sala, continuava a sorrir +triumphalmente, esperando a occasião de dizer: + +--A mim tambem não me enganou V. Logo que o vi, perguntei ao sr. Trêpa: +«Este não é o Alberto Pimentel?» + +E o sr. Adriano Trêpa confirmou: + +--Foi o que elle me disse ao ouvido, agarrando-me pelo braço. + +--O que lhe respondi eu? insistiu o sr. Carvalho. + +--Que tinha a certeza de que não era outra pessoa. + +O sr. Carvalho explicou que me conhecia de S. Miguel de Seide, e que, na +Povoa de Varzim, viera esperar-me á estação com o Nuno no anno em que eu +ali fôra visitar Camillo. + +A sr.ª D. Anna Corrêa disse então como se quizesse apresentar-me +officialmente o sr. Carvalho: + +--É um nosso velho amigo, que o sr. visconde (Camillo) estimava muito. + +E, sorrindo, acrescentou: + +--É o «José Fistula» do _Eusebio Macario_... + +O sr. Carvalho atalhou jovialmente: + +--Com a differença de que não sei tocar guitarra, nem cantar o _Fado_. +Camillo brincava comigo; mas era meu amigo a valer, e eu adorava-o. + + * * * * * + +É certo que o genial romancista, na vida aldeã de Seide, se entretinha +familiarmente com a gente do campo. Não me refiro ao sr. Carvalho, que é +um camponez relativamente illustrado. Mas ainda outro dia vi em Santo +Thyrso um velho jornaleiro que anda hoje pedindo esmola, e que recita +perlengas mythologicas e polyglottas leccionadas por Camillo. Chama-se +João de Seide e deve ter perto de setenta annos. Repete +inconscientemente, como um phonographo, o que lhe ensinára o grande +romancista em horas de bom humor. Por exemplo: + + +Jupiter era um deus omnipotente no Olympo. Venus era sua filha e mãe de +Cupido, deus do amor. Um dia Jupiter escamou-se com Vulcano, deu-lhe um +pontapé no trazeiro, e deixou-lh'o ao lado. + + ---- + +Em francez, _bonne nuit_ é boa noite; e _bon soir_, boa tarde. + +Em inglez, _good night_ é boa noite. + + ---- + +O verbo ser conjuga-se assim em francez + + Je suis + Tu es + Il est + Nous sommes + Vous êtes + Ils sont + + ---- + +A China tem mais habitantes do que a Russia, mas a Russia é maior em +territorio. + + ---- + +Em Villa Nova de Famalicão, onde uma das novas ruas tem o nome de +Camillo, ha um botequim conhecido pelo _Café do Gato_. + +«Gato» é o appellido do seu proprietario, um velho rijo e são, ainda com +filhos pequenos. + +Era o botequim habitual de Camillo quando passava em Famalicão. + +Ali se entretinha o grande escriptor chalaçando com o velho Gato, cuja +rusticidade de trato eu pude aferir pelo dialogo que se travou, na minha +presença, entre elle e um cavalheiro de Famalicão, ao entrarmos +ultimamente n'aquelle botequim com outros cavalheiros de Santo Thyrso. + +--Ó Gato, venha vêr o que estes srs. querem tomar. + +Resposta d'elle: + +--Não é preciso. Peça de lá, que eu sirvo de cá. + +É de notar que esta resposta agreste, no trato da gente rustica do +Minho, não exclue bondade de caracter. Não vá suppôr-se que o +proprietario do café de Famalicão seja um «gato bravo» da bocca para +dentro. + +Mas o caso vem a proposito para mostrar que n'estas e outras +rusticidades se recreava Camillo emquanto a cegueira o não isolou em +Seide na treva e no desespero. + +O grande escriptor tinha um vocabulario pittorescamente ironico para +exprimir os ridiculos e desleixos da vida campestre. + +Assim era que, segundo vejo n'um jornal minhôto, designava pelo nome +bucolico de _boninas_ as stratificações fecaes que matizam e embalsamam +os caminhos nas villas e aldeias do Minho. + +Tem verdadeira graça pastoril: boninas! + + * * * * * + +Reatemos a narrativa no ponto em que a deixámos: o motivo do meu disfarce. + +A sr.ª D. Anna asseverou mais uma vez que Nuno Castello Branco tinha +desgosto de haver provocado a questão a que me constrangeu logo depois +da morte de seu pae; mas que fôra arrastado a isso por despeitos de +familia, em consequencia de sua irmã ter mandado depôr uma corôa, com +palavras de filial saudade, sobre o féretro de Camillo. + +O sr. Carvalho, por sua vez, acrescentou: + +--Quando o Nuno foi levar ao Porto o manuscripto do _Protesto_, +disse-lhe eu: «Não faças isso, Nuno, que é uma loucura. Vaes contradizer +a verdade. E olha que chega para todos vós a gloria de teu pae.» + +--Mas o Nuno, insistiu a sr.ª D. Anna, estava arrependido e não tinha +odio nenhum a V. E a sr.ª viscondessa sempre, n'outras occasiões, se lhe +mostrou muito affeiçoada, falando de V. com especial estima. + +Certifiquei a sr.ª D. Anna de que eu procurei, quanto pude, evitar essa +deploravel questão e poupar pessoalmente o meu adversario. Houve apenas +uma insinuação que me feriu: a de que eu, por um vil interesse, o +dinheiro, defendia a causa da filha de Camillo, quando é certo que eu +nunca tivera intelligencias com o marido d'esta illustre senhora, e que +até o não conheço. Mas essa mesma insinuação ficava esquecida, como se +nunca houvesse existido, desde o momento em que eu tinha a certeza de +que Nuno Castello Branco se arrependêra de a ter escripto. + +No decurso da conversação vi-me rodeado pelos netos de Camillo, como se +eu fosse já um familiar d'aquella casa. Principiei a sentir-me estimado +ali, o que me recompensou largamente de quantos desgostos a questão do +_Protesto_ me causou. + +Considero esse dia como um dos mais felizes da minha vida. + +O pequeno Camillo viera sentar-se no sophá, a meu lado, interessando-se +muito, com a mão enconchada sobre a orelha direita, pela nossa conversação. + +A sr.ª D. Anna Corrêa tivera a encantadora bondade de dizer-me: + +--Apesar da recommendação da sr.ª viscondessa quanto aos livros do sr. +visconde, eu quero mostral-os a V.: é a maior prova de estima que posso +dar-lhe. Tenho a certeza que se a sr.ª viscondessa fosse viva, +procederia do mesmo modo. Tambem ella faria esta excepção. + + * * * * * + +D'ali a pouco subimos ao segundo andar para vêr o que resta da +bibliotheca de Camillo: uns duzentos volumes talvez, repartidos por duas +estantes envidraçadas. Algumas obras manuscriptas, poucas: lembro-me de +ter visto uma genealogia em varios tomos. Entre os livros encontrei dois +meus: _A Jornada dos Seculos_ e a _Flor de myosótis_. + +Depois entramos no quarto em que Camillo dormia quando alli se demorava +temporadas. + +É um amplo compartimento, cheio de luz, com largas janellas que deixam +espraiar-se o olhar por cima dos pinheiraes até alcançar o cume de +montes longinquos. + +Quando Camillo habitava aquelle quarto, já estava cego. Mas se não podia +contemplar o panorama, cheio da placidez e melancolia que caracteriza os +bastos pinheiraes tranquillos, devia sentir o calor do sol que invadia o +aposento. + +A alma de Camillo teria certamente n'essas horas bem menos placidez que +a floresta dormente. + +Abundam n'esse quarto os retratos de familia, muitas recordações de um +passado a que o amor deu momentos de felicidade e seculos de amargura. + +Havia ali, em todo aquelle segundo andar, um bello nucleo de muzeu +camilliano. + + [Ilustração: RACHEL] + +Foi n'esse mesmo andar que Jorge Castello Branco, o infeliz primogenito +de Camillo, passou os ultimos tempos da sua curta existencia. + +Contou a sr.ª D. Anna Corrêa que elle tinha horror a vêr os criados da +casa. Postas as refeições sobre a mesa, os criados sahiam; e o Jorge +entrava depois. Algumas noites prestava-se a tocar piano--esse piano que +era de sua mãe e que ella havia levado para a Cadea da Relação do +Porto--mas exigia que ninguem estivesse presente. A musica foi uma das +muitas aptidões artisticas do Jorge. Eu já disse algures que elle, em +noites de luar, se empoleirava nas arvores de Seide a tocar flauta. + +Queria viver isolado no seio da propria familia. Não consentia que lhe +fizessem limpeza no quarto. Se alguem se quizesse aproximar, cuspia-lhe. + +No dia 2 de setembro de 1900, o Jorge não se levantou para ir almoçar. A +porta do seu quarto estava fechada por dentro, como era costume. + +A sr.ª D. Anna Corrêa chamou-o: + +--Sr. Jorge, são horas do almoço. + +Elle respondeu: + +--Já vou. + +Mas passou tempo sem que se levantasse. + +Tornaram a chamal-o. + +--Já vou, repetiu elle. + +Mas, como não apparecesse, a sr.ª D. Anna resolveu entrar no quarto pela +janella, o que foi empreza difficil. + +Achou o Jorge doente, apathico, n'um estado gastrico que, n'esse +momento, lhe pareceu não offerecer maior gravidade. + + * * * * * + +D'aqui por deante, a narrativa da sr.ª D. Anna Corrêa conforma-se +inteiramente com a versão que o sr. José de Azevedo e Menezes, da +illustre casa do Vinhal, em Famalicão, me communicou n'uma carta, por +mim já publicada. + +Vou reproduzil-a, para que não fique perdida na volumosa collecção de +uma folha diaria: + + +«Em resposta á estimada carta de v. , tenho a dizer-lhe que o infeliz +Jorge de Castello Branco falleceu em casa de D. Anna Corrêa, a +companheira do Nuno, no dia 10 do corrente mez, ás 6 horas da tarde, e +enterrou-se no dia 12, assistindo alguns visinhos. + +«Tratou-o nos ultimos quinze dias de vida o medico Dias de Sá, de +Landim, que logo previu o desenlace fatal. + +«No dia 2 d'este mez o Jorge sentiu-se mal do estomago, talvez por ter +debicado as primeiras uvas e pêras do quintal da casa. Um ligeiro +laxante deu-lhe melhoras, que infelizmente se não mantiveram, cahindo +com desmaios e não podendo conciliar o somno. + +«A final veiu a paralysia cerebral que o matou sem agonia. De vez em +quando gemia e invocava a Deus! Durante um desmaio na manhã do dia em +que morreu, foi ungido. + +«Não se lhe notou á hora da morte o intervallo lucido, que ás vezes +apparece nas doenças mentaes. + +«Tinha, porém, amor á vida, esperando obter melhoras dos remedios, que +só tomava nos caldos e leite pela mão da sua desvelada enfermeira D. +Anna Corrêa, que foi para o infeliz louco uma carinhosa mãe. + +«Fui visitar essa bondosa mulher, e fiquei agradavelmente impressionado +da sua apresentação e do bom senso, que mostrou em alguns pontos da +nossa conversa. A rudeza da sua origem poliu-se no trabalho e +soffrimento, que lhe deram os desgraçados com quem viveu. A mulher só se +engrandece pela bondade, que é a sua belleza moral. + +«O grande desejo de D. Anna é educar bem os seus filhos, mas como poderá +desempenhar-se d'esta nobre tarefa sem recursos? É urgente abrir uma +campanha a favor d'ella, para que lhe acuda o governo ou as almas +bemfazejas. Inicie v. na imprensa periodica esta nobilissima missão. Os +dois filhos mais velhos são intelligentes, principalmente o Camillo, que +eu fixei com attenção e descobri-lhe traços physionomicos do glorioso +avô. O rapaz é triste e concentrado e quer ser Padre... Até n'isto se +parece com o grande escriptor, que no verdor dos annos pensou em se +prender á Egreja. A sua ultima assignatura foi no assento do baptismo +d'este seu neto e afilhado, feita em casa de Nuno e sobre um piano, por +lhe ficar mais a geito. + +«Ao sahir da casa de D. Anna Corrêa olhei para a outra proxima, aonde +viveu e morreu o incomparavel prosador portuguez. Está agora mal pintada +de amarello e triste como a tragedia que a fechou. N'aquelle gabinete de +Camillo apagaram-se os ultimos lampejos da sua conversa encantadora, +esmaltada sempre de ironias, cortantes como o nordeste. + +«Que tristeza e que lição para todos nós! Creia-me sempre + + De V. etc. + + _José de Azevedo e Meneses._ + +S/C do Vinhal, 16-9-900.» + + * * * * * + +Os jornaes do norte do paiz, noticiando a morte de Jorge Castello +Branco, logo fizeram sentir que, tendo cessado com a sua vida a pensão, +os netos de Camillo ficavam quasi reduzidos á miseria. + +Dizia o correspondente de Famalicão para _O Commercio do Porto_: + + + +«FAMALICÃO, 12.--Em S. Miguel de Seide sepultou-se hoje Jorge Castello +Branco, ultimo filho do finado romancista Camillo Castello Branco. + +«De ha muito que o seu viver era o de um verdadeiro louco, temendo todos +e passando os dias n'um aposento sem o convivio de pessoa alguma. O seu +fallecimenio foi um verdadeiro desastre para seis netos do grande +romancista, pois que a pensão que o governo dava ao finado custeava +tambem a educação das creanças, que agora ficam ao desamparo.--(_M. G._)» + + +Escrevia o _Lusitano_, de Famalicão, no mesmo dia 12: + + +«Acaba de fallecer em Seide o filho mais velho de Camillo Castello +Branco, o pobre louco tão amado pelo immortal auctor do _Amor de +Perdição_ e tantas outras joias que hão de fulgurar seculos em fóra, na +litteratura nacional. + +«Ha muito que o Jorge, doido, doido desde tenra idade, fugia +completamente do convivio social. + +«Vimol-o ha semanas, pela ultima vez que veio á villa, causando immensa +pena a precocidade da sua velhice e, mais nos commovemos ao attentarmos +no seu perfil, que muito se parecia com o de seu pae. + +«Como é sabido, o filho mais novo de Camillo deixou bastantes filhos na +miseria, servindo-lhes de amparo a pensão que o governo dava ao Jorge. + +«Morto este, ficam os netos de Camillo sem recursos de qualidade alguma. + +«Pois quando mais não seja se não para honrar a memoria de Camillo, deve +o governo continuar a dar a seus netos a pequena quantia que deu ao +Jorge durante alguns annos. + +«O pequeno Camillo Castello Branco e seus irmãos não devem ficar ao +desamparo. + +«Quem sabe até se, educados os netos do genial _Solitario de Seide_, +algum d'elles não será ainda muito util ás letras patrias, continuando a +honral-as como honradas foram mais de meio seculo por seu avô o querido +Mestre?» + + * * * * * + +A pensão ao primogenito de Camillo havia sido concedida por um decreto +depois sanccionado pelo parlamento nos seguintes termos: + + +«Artigo 1.º É approvado o decreto de 23 de maio de 1889, pelo qual, em +reconhecimento publico dos relevantissimos serviços prestados ás letras +patrias pelo visconde de Correia Botelho (Camillo Castello Branco), é +concedida a seu filho Jorge Camillo Castello Branco a pensão annual e +vitalicia de 1:000$000 réis. + +«§ unico. A pensão de que trata esta lei é isenta do pagamento de +quaesquer impostos, e será abonada desde a data do decreto que a +concedeu, ao visconde de Correia Botelho, em quanto vivo fôr. + +Art. 2.º Fica revogada a legislação contraria a esta.» + + +Os filhos do visconde de S. Miguel de Seide, netos de Camillo, aos quaes +faltou o amparo da pensão que o tio recebia, são, pela ordem +chronologica do nascimento: + +Flora, nascida a 11 de janeiro de 1886. + +Camillo, nascido a 16 de março de 1888, no mesmo dia e mez em que nasceu +o avô, que era seu padrinho. + +Nuno Placido, nascido a 4 de março de 1889. + +Rachel, nascida a 21 de fevereiro de 1890. + +Simão, nascido a 6 de julho de 1891. + +Manuel, nascido a 23 de abril de 1893. + +Um motivo especial, que logo referirei, leva-me a fazer duas +transcripções do jornal de Famalicão, _O Lusitano_, apezar de em +qualquer d'ellas se encontrar o meu nome acompanhado de adjectivos que +eu considero apenas um amavel cumprimento de quem os escreveu. + +Agradeço-os, mas declino-os por immerecidos. + +Não me assiste, porém, o direito de mutilar as transcripções. + +Dizia _O Lusitano_ no seu numero de 29 de agosto do corrente anno: + + +«Noticiámos, ligeiramente, a semana passada, a estada, em S. Miguel de +Seide, de visita aos netos de Camillo, do illustre escriptor sr. Alberto +Pimentel. + +«Não conhecemos as impressões, que a sua ex.ª resultaram da volta, +passados tantos annos, á casa do grande escriptor seu amigo. Mas não nos +seria desagradavel saber se o nosso estimado confrade do _Popular_ +tomou, ou não, a resolução de contar no jornal, que redige, como é justo +que o governo tome a iniciativa de proteger, de algum modo, os +malaventurados netos do grandioso estylista. + +«Tem-nos contado pessoas, que privam com a familia de Seide, que ha, +entre aquellas seis creanças, uma--o Camillo--possuidora de +intelligencia rara. + +«Se assim é, não faz pena que a falta de recursos constitua embaraço ao +aproveitamento d'aquelle rapaz? + +«Não ha duas opiniões divergentes sobre a justiça de continuar, em favor +dos descendentes do eminente romancista, o subsidio, que este primeiro +aproveitou e que se extinguiu pela morte do Jorge. Vão os rendimentos do +Estado, dia a dia, para applicações muito menos comprehensiveis. + +«O sr. Alberto Pimentel, que foi á casa de Seide, decerto viu o que +aquillo é, comparativamente com outros tempos. + +«Ponha, por conseguinte, s. ex.ª todo o enorme merecimento da sua penna +e das suas relações ao serviço d'esta causa. É o maior testemunho de +amizade que póde prestar á memoria do extraordinario escriptor. E evita +que se reedite aquella tão conhecida e fustigante phrase de Garrett, que +constitue, com motivo, um castigo severissimo á contumaz ingratidão do +nosso meio.» + + [Ilustração: SIMÃO] + +Eu tinha necessidade de commentar esta transcripção para explicar o meu +procedimento. + +Se, immediatamente á minha visita á familia de Seide, não publiquei no +_Popular_ as impressões que ali recebêra ao observar de perto a vida dos +netos de Camillo e, portanto, a justiça da sua causa, foi porque logo +fiz tenção de me occupar do assumpto com maior desenvolvimento do que +aquelle que poderia dar-lhe n'um ou dois artigos de jornal. + +Desobrigo-me agora do compromisso que tomei comigo mesmo. + + * * * * * + +Poucos dias depois de ter lido a noticia do _Lusitano_, acima +transcripta, recebi do sr. Rodrigo Terroso, jornalista distincto e +escrivão-notario na comarca de Famalicão, uma carta relativa ás +impressões que eu teria trazido de Seide e ao que eu estaria disposto a +fazer em favor da pensão. + +Respondi na volta do correio, e o teor da minha resposta resalta da +seguinte noticia que _O Lusitano_ publicou no dia 3 de setembro: + + +«Ao director politico d'esta folha que acompanhou, particularmente, +perante o sr. Alberto Pimentel o pedido feito aqui ha oito dias em favor +dos netos de Camillo, respondeu, de prompto, o apreciavel escriptor e +jornalista com uma carta, que é a promessa solemne de intervir no +sentido rogado. + +«... fui expressamente a Seide para me orientar na questão da pensão aos +netos de Camillo. + +«Na proxima legislatura trabalharei por conseguil-o, no que espero ter o +auxilio de Antonio e José de Azevedo. + +«Não farei parte do parlamento, mas envidarei os maiores esforços +possiveis junto do parlamento e do governo.» + +«É solemnissima a promessa. Fiamos de que será cumprida. Sobre dar-se +com o sr. Alberto Pimentel a circumstancia de haver sido dos amigos mais +sisudos de Camillo, accresce que o distincto escriptor lisbonense +conhece, ao presente, em pessoa, a justiça da causa, que tanto tem +merecido as nossas sympathias. E dizemos assim porque ainda ninguem a +advogou com tão fervente empenho como nós, que fomos, até, o primeiro a +patrocinal-a. Consta isso de correspondencias que o _Primeiro de +Janeiro_ publicou logo a seguir á morte do Jorge, sem falar no pedido +directo que, immediatamente, apresentamos ao sr. conselheiro Antonio de +Azevedo, sobrinho de Camillo, muito apreciado por este. E que o notavel +homem publico trabalhou n'esse sentido, mais seu irmão sr. conselheiro +José de Azevedo, disse-o, poucos dias decorridos, um telegramma para o +_Diario da Tarde_, confirmado, simultaneamente, por algumas gazetas de +Lisboa. + +«O sr. Alberto Pimentel affiança-nos a intervenção d'estes dois +auxilios. Pois é caso para nos julgarmos felizes com a felicidade certa +dos netos de Camillo. + +_P. S._--_O Regenerador_ refere-se, sobre o mesmo motivo, a uma carta +antiga do sr. José de Menezes ao sr. Alberto Pimentel. Era o sr. Menezes +um dos amigos de Camillo. Não sabiamos que tinha intervindo. Fel-o e +procedeu cavalheirosamente. Está na reconhecida correcção de s. ex.ª». + +Trabalhemos todos--todos os que veneramos a memoria de Camillo--sem +excepção de ninguem, no empenho de vencer esta causa santa, que a +Justiça inspira e que o Patriotismo recommenda. + +É uma divida nacional, que tem de ser paga. Somos todos devedores; +honremo-nos pagando. + + * * * * * + +A Sr.ª D. Anna Corrêa cumulou-me de amaveis deferencias logo que o meu +disfarce cahiu. Uma d'ellas, a que mais encantado me deixou, foi a +gentileza de me obzequiar com os dois quadrinhos, os retratos de Gautier +e Karr, que estavam na saleta contigua á alcova de Camillo. + +Se bem que um pouco damnificados pela acção do tempo, como se póde vêr +na reproducção, elles representam para mim um valor inestimavel. + +Fil-os authenticar com a seguinte declaração, que mandei imprimir e +collar no tampo da moldura: + + «ESTE QUADRO ESTAVA NO QUARTO DE» + «CAMA DE CAMILLO CASTELLO BRANCO EM» + «S. MIGUEL DE SEIDE. FOI-ME DADO ALI PELOS» + «SEUS HERDEIROS, A 20 DE AGOSTO DE 1901,» + «NA PRESENÇA DO SR. ADRIANO DE SOUZA» + «TREPA, DE SANTO THYRSO, E FRANCISCO» + «CORRÊA DE CARVALHO, DE SEIDE.--ALBER-» + «TO PIMENTEL.» + +Foi o sr. Carvalho que, trepado a um banco, os despendurou da parede, +fronteira ás janellas. + +Mais nua ficou ainda desde essa hora a casa solitaria de S. Miguel de +Seide. + +Aqui tenho eu, deante dos olhos, esses dois velhos companheiros de +Camillo, seus camaradas e seus hospedes, Gautier e Karr, com os quaes +conversarei longamente sobre a vida e a morte d'esse que foi nosso +commum amigo e que elles tão de perto viram soffrer e sonhar--por tantos +dias e tantas noites. + +Da parede onde estavam enthronisados só podiam avistar todo um horisonte +de pinheiros a esbater-se, ao longe, na vertente de uma vasta corda de +montes. + +Coitados! a principio devia custar-lhes muito terem que trocar Pariz +pelo Minho, o bulicio pelo silencio, os _boulevards_ pelos pinheiraes, a +capital do mundo pela aldeia erma e profunda. + +Mas o campo, como o oceano, é uma solidão apenas repulsiva nos primeiros +tempos de uma iniciação forçada; depois identifica-se tanto com a nossa +alma, penetra-a de uma tão saudavel tranquilidade e doçura, que se torna +quasi uma religião: não ha meio de arrancar o camponez ao seu tugurio e +o marinheiro ao seu beliche. + +Agora, saudosos da Thebaida de Seide e do grande espirito que a povoava, +virão constrangidos, Gautier e Karr, defrontar-se, através da minha +janella, com as trapeiras d'esta revôlta casaria de Lisboa, cahotica e +asymetrica, que apenas deixa ver escassos retalhos de céu azul na +claridade limpida do ar. + +Sou eu o primeiro a lamental-os, mas nem por isso os guardarei com menor +vigilancia; altas personagens de que me constituiram carcereiro, saberei +amal-as, mas saberei tambem garantir a sua posse--como a de dois +inestimaveis valores que vieram enriquecer o meu thesouro camilliano. + +Devo ainda á sr.ª D. Anna Corrêa a gentil prodigalidade de outra +offerta: o retrato de Manoel Pinheiro Alves, primeiro marido da +viscondessa de Corrêa Botelho. + +Quando publiquei _Os amores de Camillo_, muito desejei eu obter este +retrato; mas n'essa occasião faltava-me a certeza de que o meu pedido +não seria uma inconveniencia irritante. + +Confessei-o agora á sr.ª D. Anna Corrêa, que espontaneamente me +offereceu um exemplar em photographia. No album de Seide havia dois, +tirados em Pariz, no tempo de Napoleão III, casa Mayer & Pierson, +boulevard des Capucines, 3. + +Incluirei esse retrato n'uma segunda edição d'_Os amores de Camillo_, se +algum dia a fizer. Aqui não é o seu logar proprio. Mas quero dar uma +rapida impressão da pessoa de Manuel Pinheiro Alves: alto, magro, face +glabra, olhos pequenos e fundos, escasso cabello penteado sobre a orelha +direita; vestindo correctamente de preto, sobrecasaca comprida, gravata +em laço. _Toilette_ de velho, harmonisando com a physionomia; mas de +velho que, por amor de uma mulher, quer apurar o vestir. + +Tem o aspecto grave de ser o pai de D. Anna Placido, não o marido. + +Tambem agora fiquei sabendo que Manuel Pinheiro Alves nascêra perto de +S. Miguel de Seide. + + * * * * * + +Quando voltámos á casa de Camillo, para eu receber os dois quadrinhos, +parei um momento, ao sahir, no topo da escada de pedra. + +Corri os olhos pelo vasto pinheiral circumjacente, que fecha o horisonte +n'uma faxa verde-negra. Tive n'esse momento a nitida comprehensão do que +seriam ali as longas noites de inverno, ouvindo gemer os pinheiros na +solidão profunda de uma aldêa minhota. + +--Pobre Camillo! disse eu, como se estivesse pensando alto. As suas +noites aqui deviam ser horriveis! + +O sr. Francisco Corrêa de Carvalho replicou: + +--As tardes, as tardes de Camillo é que eram ainda mais agitadas e +tormentosas do que as noites. Depois de jantar, soffria muito; +excitava-se, tinha desesperos, frenesis, que nos amarguravam tambem a nós. + +É facil a explicação d'este phenomeno pathologico. + +As crises visceraes, dolorosas, são vulgares nos tabeticos. Ou vem com +as _dores fulgurantes_ (Camillo teve-as) ou independentemente d'ellas. +Chegam a ser de violencia extrema, por vezes. E, entre essas crises +visceraes, a gastralgia é frequente. + +O trabalho da digestão provocaria as torturas gastralgicas. + +Após elle, quando em socego o estomago, a crise desapparecia, dando +treguas ao pobre Camillo. + +Eis aqui, pois, mais um pormenor do ingente drama de amargura que matou +o grande romancista. + +Voltei agora a Seide, depois de dezeseis annos de ausencia. + +Estive ali no mez de agosto de 1885. + +O opusculo _Uma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de +Seide_ recorda esse facto. + +Em agosto de 1901, repetida a jornada, já não encontrei nenhuma das +pessoas que em 1885 povoavam a casa de Seide: Camillo, D. Anna Placido, +Jorge e Nuno Castello Branco. + +Dir-se-ia que um desastre enorme victimára de um só golpe uma familia +inteira. + +É que a fatalidade de certos destinos iguala-os na vida e na morte, +regulando as suas horas por uma unica ampulheta. + +Os desgraçados que nasceram sob a mesma sina chamam uns pelos outros. + +Fui achar uma segunda geração, uma ninhada de creanças intelligentes e +meigas, que se encontram, desprotegidas, á beira de um abysmo insondavel. + +O seu dia de amanhã não é mais seguro do que a salvação incerta do +naufrago que, em pleno oceano, espera, sobre uma tabua fluctuante, um +acaso providencial, a passagem de um navio que o possa descobrir entre +montões de espuma. + +Uma debil creatura, precocemente envelhecida, e já cansada de soffrer, é +hoje a garantia unica do futuro d'essas creanças, que não téem mais +ninguem no mundo além de sua mãe, nem melhor patrimonio que alguns +palmos de terra sêcca e hypothecada. + +Seu avô honrou a patria de um modo excepcionalmente grande, com a +fulguração de um talento literario, que póde fazer inveja aos extrangeiros. + +Honre-se a patria a si mesma adoptando-lhe os netos, perfilhando-os +amoravelmente, salvando-os da miseria e do abandono, premiando n'elles a +gloria do avô immortal. + + [Ilustração: MANUEL] + +Cada dia, cada mez, cada anno que passa, complica, por sacrificios +exhaustivos, a situação da familia de Seide. Os netos de Camillo téem já +visto florescer muitas vezes a acacia do Jorge e chamado em vão pela +alma do avô, que não voltou ainda com as auras de abril. Tornemos +realidade o que parece haver sido prophecia do grande espirito de +Camillo: que todas essas creanças invoquem de novo o nome do que +prometteu voltar. E elle voltará para acudir-lhes. Quando a acacia +«outra vez inflore», o paiz terá feito justiça, e Camillo terá voltado +para junto dos netos, assistindo-lhes em espirito, agasalhando-os com a +gloria do seu nome. + +Corações justos, corações bons, auxiliai esta santa cruzada: a de +despertar a patria adormecida. + +Leitores de cem romances, que uma só penna escreveu, agradecei aos netos +as lagrimas e os sorrisos com que o avô tem preenchido deleitosamente +muitas horas da vossa vida, desde o _Anathema_, uma estreia, até aos +_Vulcões de lama_, a ultima novella, raio de sol poente que não tardou a +apagar-se. + +Se quizerdes fazer isso, estará feito tudo. + + +Santo Thyrso--Lisboa. +Agosto a setembro de 1901. + + + + +NOTAS + + + + +PAGINA 6 + +«... a cêrca do antigo mosteiro de Landim.» + +Este mosteiro era de conegos regrantes de Santo Agostinho. Dizem-n'o +fundado por Dom Gonçalo Rodrigues Palmeiro, senhor do couto da Palmeira. + +Na inquirição que o Cardeal D. Henrique mandou fazer sobre mosteiros de +Entre-Douro-e-Minho, o de _Landim_ é designado como sendo a de Nossa +Senhora de _Namdim_. + +O conde D. Pedro, em seu _Nobiliario_, tambem diz _Namdim_. + + +PAG. 15 + +«o monumento commemorativo da visita de Castilho, «principe da lyra +portugueza», a S. Miguel de Seide, em julho de 1866.» + +As relações de amizade entre Camillo e Castilho começaram em 1854, no +Porto. Foi nesse anno e n'aquella cidade que pela primeira vez se +encontraram os dois em casa do Sr. Antonio Bernardo Ferreira, que então +morava na rua da Boavista (casa da familia Garrett) e que organisou em +honra de Castilho um sarau literario. Camillo recitou versos de _Um Livro_. + +N'uma carta particular, enviada para Lisboa, dizia Castilho, relatando o +que se passára naquelle sarau: «Camillo Castello-Branco, poeta e +prosador de elevado merito, etc.» + +Julio de Castilho, publicando trechos d'esta carta, commenta a +referencia a Camillo dizendo que _essa amizade_, então começada no +Porto, ficou cimentada para sempre. (_O Instituto_, de Coimbra, n.º 9, +vol. 48.º) + +Foi Camillo, guia dos meus primeiros passos na vida literaria, quem me +ensinou a amar Castilho. + +Costumavam outr'ora as criadas velhas contar ás creanças da casa lindas +historias de reis e principes encantados. + +Camillo, que foi de algum modo o meu _niñero_ espiritual, falava-me +muitas vezes de um grande principe das letras, rei das canções lhe +chamou Herculano, protector de poetas, amador da natureza, acariciador +das creanças e propugnador da felicidade do povo pela instrucção e pela +agricultura. + +Era Castilho, rei das canções, principe das letras, cego como Œdipo, +o famoso rei de Thebas. + +E assim como Œdipo encontrava o braço de sua filha Antigone para +guial-o carinhosamente na cegueira, Castilho tinha nos braços de seus +filhos outros tantos bordões amorosos que o ajudavam a firmar os passos +incertos e vacillantes. + +Recebi, pois, de Camillo o amor a Castilho, e de quanto elle o amava dá +eterno testemunho esta encantadora dedicatoria do romance _Agulha em +palheiro_: + + + _Ao poeta das creanças, das flores, do amor, + da melancholia e dos desgraçados, + ao illustrissimo e excellentissimo senhor + Antonio Feliciano de Castilho, + honra da patria + honra dos que o prezam, e amam a patria + offerece + o amigo, o respeitador, o discipulo mais devedor + Camillo Castello Branco_ + + +Em outro livro, _No Bom Jesus do Monte_, cita Castilho a par de +Lamartine e Victor Hugo, como sendo um nome que dá «á humanidade orgulho +de o proferir». + +Durante a _Questão Coimbrã_, nas _Vaidades irritadas e irritantes_ vem á +estacada quebrar lanças pela gloria de Castilho, e escreve: «... o mais +enthusiasta admirador de Castilho, se algum houve que mais que eu lhe +devesse e o amasse...» + +Foi assim que Camillo amou Castilho; foi assim que eu aprendi com +Camillo a amar Castilho. + + +PAG. 16 + +«a dedicatoria da _Maria Moysés_ a Thomaz Ribeiro.» + +Diz o texto d'essa dedicatoria: + + A + + THOMAZ RIBEIRO + + «São passados dez annos depois que vieste aqui. Foi hontem; e a + pedra onde gravei o teu nome está denegrida como a dos tumulos + antigos. Debaixo d'ella estão dez annos da nossa vida. Jazem ali os + homens que então eramos. Estou vendo Castilho encostado ao frizo da + columna tosca; estou ouvindo os teus versos recitados em nome de + meus filhos... Ah! é verdade... tu não os recitaste porque tinhas + lagrimas na voz e no rosto. Que faria de ti a politica, meu querido, + meu poeta da patria e da alma: + + «S. Miguel de Seide, novembro de 1876.» + + +PAG. 16 + +«A inscripção está quasi apagada, como já se apagou tambem a vida das +pessoas a quem ella se referia.» + +O modesto monumento, de que fiz mais larga menção no opusculo _Uma +visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de Seide_, Porto, +1885, falla-me saudosamente de seis pessoas, cuja memoria conservo muito +viva entre as mais gratas lembranças do passado. + +D'essas seis pessoas, as ultimas a morrer foram Eugenio de Castilho, +fallecido a 8 de janeiro de 1900, e Thomaz Ribeiro, a 6 de fevereiro de +1901. + +Embora tenha de fazer uma annotaçao talvez demasiadamente longa--o que +não sei se é proprio do teor das annotações--não posso ter mão em mim +que não complete, para o meu espirito, a historia do monumento de Seide +com as recordações que me são suggeridas pelos nomes de Eugenio de +Castilho e Thomaz Ribeiro. + + * * * * * + +Uma coisa vos confessarei eu, sr. Dom Leonardo... + +Lembram-se? Vem nos _Logares selectos_, do padre Cardoso: é um excerpto +da _Côrte na aldeia_, de Rodrigues Lobo--dois livros bons, cada qual no +seu genero; bons como se faziam d'antes. + +Pois, já que a phrase me lembrou, adopto-a, mas cito ao menos a origem, +o que nem sempre se faz agora. + +Os tempos são outros; d'isso é que me queixo. + +Uma coisa vos confessarei eu, srs. Dons Leonardos de hoje em dia, e é +que me vou ralando de saudades pelos homens que conheci outr'ora, com os +quaes convivi e troquei impressões, que os não ha melhores, nem tão +bons, como foram esses. + + [Ilustração: A ACACIA DO JORGE] + +Não quero dizer que todos agora sejam portuguezes de ruim panno; ha +excepções, mas tão raras, que pode a gente gritar quando as encontra--Lá +vem um! + +Digo e redigo, porque d'isso estou convencido até á medula dos ossos, +que os homens que eu tratei na mocidade me parecem semideuses se os +comparo com os de hoje. + +Doia-se quem doer, que me importam pouco essas coisas: até faz bem á +gente sentir morder-lhe uma pontinha de malquerença--é como o frio de +janeiro, que arripia, mas provoca a necessidade de reagir contra elle. + +Eu venho de um tempo em que se dizia haver «elogio mutuo». Não era +elogio, mas justiça. As cotações, especialmente no mercado das letras, +andavam menos falsificadas. Ninguém chegava ao pé de um homem, de punhal +na mão, com o intuito de assassinal-o, para o glorificar depois de morto. + +Garrett estava no tumulo. Herculano fizera-se solitario em Val-de-Lobos. +Castilho vivia em Lisboa e abria as suas portas a todos quantos +mostravam paixão pelas letras. D'aqui veio o dizer-se que tinha Castilho +uma côrte. Não a procurava elle; procuravam-n'o, sim, todos, velhos e +novos, que desejavam encontrar uma atmosphera literaria em que podessem +respirar á vontade. + +Mas a differença do tempo estava principalmente n'isto, que não era +pouco: ninguem, em casa de Castilho, nem dos seus, nem dos extranhos, se +julgava maior que elle. + +Por isso o respeitavam, medindo-lhe a grandeza, que fazia lembrar a das +estatuas, porque sendo vista de perto tomava ainda maior vulto. + +Era deliciosa essa casa de Castilho, onde a boa conversação literaria +teve um templo, como não ha, nem póde haver outro. Não decorria ali uma +hora sem que se tivesse lucrado alguma coisa: aprendia-se sempre. Eram +tantos e tão bons os de casa e os de fóra, que nunca se apagava o lume +para as refeições do espirito. Mesa posta para os _gourmets_ da +intellectualidade; porta aberta para todos os que chegavam, fossem +gregos ou troyanos. + +Conheci Castilho na rua do Sol ao Rato, onde recebia na sua enorme +bibliotheca, uma vasta sala, que os melhores auctores de todos os paizes +e de todos os seculos povoavam de alto a baixo. Fazia respeito aquillo: +era uma cidade, um emporio de celebridades consagradas. + +Castilho, coroado de cans, dava a impressão de ser um patriarcha das +letras. Cego como Homero, via tudo o que queria vêr; jámais houve um +cego que visse tanto. Até lia mentalmente os titulos dos livros que o +rodeiavam. Aqui está o meu Bernardes, dizia elle: ia á estante, punha o +dedo indicador n'um livro, e tirava a obra de Bernardes que desejava +citar. Parecia ter os olhos fechados para, concentrado, reforçar por um +momento a visão, que depois se tornava mais aguda e perspicaz. + +Os seus olhos faziam lembrar os de D. João I: raça de escol, que já +vinha apurada de longe. + +Julio foi sempre o braço direito do pai, a sua luneta, o seu bordão, o +seu _alter ego_. O pai adorava-o; elle adorava o pai. Não podiam viver +um sem o outro; eram como dois gemeos, duas existencias que se fundiam +n'uma só. + +Augusto, official de marinha, andava quasi sempre embarcado por +longinquos mares. Raro apparecia em Lisboa; mas Castilho lembrava-o +muitas vezes n'um impeto de saudade paternal, que é a mais funda, a mais +incisiva, a mais cruel de todas as saudades. + +Ida de Castilho, com os seus bellos olhos pretos que pareciam estrellas, +era a gracilidade da mulher franzina a sorrir por entre clarões de +intelligencia vivacissima. + +Eugenio, o filho mais novo de Castilho, era, em razão da sua idade, o +que tinha menos auctoridade literaria na familia, mas nascera poeta ali, +n'aquella familia de escolhidos, como se nasce escocez na Escocia. + +Foi este rapaz velho, porque a doença o envelheceu precocemente, que +morreu outro dia, em Sete Rios, mais longe do mundo que de Lisboa. + +Poucos se lembravam d'elle já: tinha esquecido, tinha passado, era um +morto que vivia longe dos vivos. + +O seu periodo de maior actividade foi de 1868 a 1869. Conheci-o então, +como conheci Antonio Feliciano e Julio de Castilho: por cartas que o +correio trazia e levava, do norte para o sul, do sul para o norte. Só +alguns annos depois nos avistámos, os Castilhos e eu, na rua do Sol ao +Rato. Mas eramos já amigos velhos, todos nós, quando nos encontrámos +frente a frente. + +Aqui tenho eu uma prova d'isso, n'esta meia duzia de paginas publicadas +em 1868 por Eugenio de Castilho, e intituladas _Patria, contra a +Iberia_, poema em bons alexandrinos, que eram os da casa, a melhor +officina de alexandrinos que tem havido até hoje em Portugal. + +Na dedicatoria, do punho do auctor, escreveu elle: «Ao seu +amicissimo...» Nunca nos tinhamos visto então, mas eramos já tão casados +na amisade, que nenhum de nós estranhou o superlativo. + +Eugenio tinha n'esse tempo 21 annos, e desabrochavam n'elle os talentos +literarios, que são morgado de Castilhos. Eram flores que conheciam o +terreno e o clima em que nasciam: medravam á vontade. + +Quanto á factura artistica, o poema _Patria_ trazia a marca da fabrica: +Castilho & Filhos. Não havia firma mais acreditada nem então, nem agora. + +Passo hoje pela vista, devorado de saudades, aquelle poema de 1868, e +transplanto para aqui alguns casaes de alexandrinos, que me parecem +ainda casaes de rouxinoes a namorarem-se nos bosques umbrosos de Portugal: + + Vês além um telhado ao pé d'aquelle olmeiro? + alli nasceu meu pae; alli amou primeiro. + + Quando eu era pequeno, ia, ás vezes, sósinho + aos loireiros do val á busca de algum ninho. + + Sob este parreiral tão verde e tão fragrante + beijei apaixonado a minha terna amante. + + Costumava ir de tarde ao moinho da serra + vêr como o sol transpunha as montanhas da terra. + + Quanta vez, ao voltar da caça, eu me sentava + ao pé d'essa cascata a ver-lhe a espuma brava. + + Os troncos da azinhaga, as silvas e as paschoinhas + ouviram-me cantar ás vezes trovas minhas. + + Era-me gosto á noite o rouxinol saudoso + dizendo á beira d'agua o seu canto amoroso. + + Sentado n'uma penha occulto entre o salgueiro + poetava a ouvir do rio o murmurar palreiro. + + Ao canto do quintal da casa onde eu morava + uma anágua plantara, e flores que eu regava. + + Conheço a minha terra; e cada pedra ou planta + me saúda ao passar. Toda a Patria me encanta. + +Não são, de certo, estes os soberbos alexandrinos do pae Castilho, tão +cheios, tão sonoros, tão variados na riqueza das vogaes, como elle, +legislador maximo em versificação, praticava e recommendava; mas téem o +ar de familia, o cunho da officina, que nos entremostram o artifice mais +novo da casa posto a trabalhar, por desenfado, com a ferramenta do mestre. + +Junte-se a tudo isto, que é já sobeja valia, o perfume ingenuo e nobre +da mocidade, o pulsar de um coração candido e fidalgo, que se educava +entre lyras de poetas e brazões de aristocracia literaria. + +Tudo então fazia suppor que teria uma larga carreira esse moço tão bem +estreado, e tanto se sumiu elle depois nas trevas que as contrariedades +da vida adensaram--a doença principalmente. + +Foi tambem por 1868 que Eugenio de Castilho tentou a publicação da +_Folha dos curiosos_, um dos quaes curiosos fui eu. + +N'essa tentativa ia ainda um exemplo paterno, porque não deve esquecer a +ninguem que Antonio Feliciano de Castilho redigiu por algum tempo, com +inexcedivel brilho, a _Revista universal lisbonense_. + +Digo inexcedivel brilho, e fico pesaroso de não encontrar melhor +locução. Não me satisfaz esta, que é deficiente. Tudo quanto Castilho +ali deixou, é primoroso--até o noticiario. + +Se vingar algum dia a ideia de fundar uma escola de jornalistas, o +professor, sabendo do seu officio, tem que ensinar a fazer noticiario +pelo teor de Castilho. + +Que adoraveis locaes, que gentileza e graça no dizer, que malicia, que +ironia e que pureza castiça de linguagem! + +Os senhores conhecem Castilho poeta, prosador, traductor e pedagogo? +Pois não conhecem Castilho todo, acreditem. Falta-lhes ainda conhecer +Castilho jornalista a brincar com a penna sobre assumptos de reportagem, +a enramilhetar locaes que parecem _bouquets_; Castilho a sorrir de si +mesmo por ter descido áquella futilidade e a tornal-a grandiosa para não +ter que envergonhar-se de vêr n'um espelho o pretor a curar de coisas +minimas. + +Pois, srs. Dons Leonardos, em verdade vos digo que foram grandes homens +esses que eu conheci n'outro tempo, que conheci e amei, e que vós sois +muito mais pequenos que elles. + +Este mesmo Eugenio de Castilho, fallecido ha quasi um anno, não chegou a +ser grande, porque lhe faltou apenas a validez; o talento, não. + +Mas, no breve momento em que se demorou nas letras, honrou, como +vergontea, a arvore gloriosa dos Castilhos, florindo como poeta, que +promettia futuro. + +Hoje dorme o somno eterno na terra da _Patria_, que elle amava tanto, e +se os mortos pensassem, julgar-se-ia certamente feliz por ter encontrado +descanso aos seus tormentos na mesma terra em que o pae nasceu e amou +primeiro. + + * * * * * + +Tinha eu treze annos, quando um quintanista de direito, Manuel do +Nascimento de Azevedo Coutinho, natural de Sinfães, passando pelo Porto, +recitou em casa de meu pai trechos de um poema que, segundo a sua +propria informação, estava causando o maior enthusiasmo em Coimbra. + +Os estudantes sabiam-n'o de cór, e até o doutor Férrer, dando descanço +ás Ordenações e ao Digesto, repetia estrophes aos rapazes quando os +encontrava á tarde no Penedo da Saudade. + +Era o cumulo do enthusiasmo coimbrão. + +O quintanista Nascimento, um duriense de olhos pretos, vendo-se +comprehendido por um grupo de senhoras que o escutavam, ia procurando na +memoria excerptos do poema e recitava-os contente de espalhar em torno +de si, como um perfume de rosas, a inspiração delicada do poeta que toda +a academia já tinha sagrado em Coimbra com a agua lustral do Mondego. + +Esse poema era o _D. Jayme_, de Thomaz Ribeiro. + +A cada novo trecho cresciam os applausos; a impressão tornava-se geral +no auditorio. + +E o quintanista Nascimento, com a vivaz reminiscencia de todos os moços, +saltava de um canto a outro do poema recordando estrophes: + + Um dia... quando, não sei; + fui vêr as gastas ruinas + d'um velhissimo castello + que ao desamparo encontrei, + mas que, apesar de esquecido + na solidão, era bello. + + Achei-o todo vestido + de tenaz era viçosa; + e ornado de verde brilho, + lembrou-me um velho casquilho + que espera noiva formosa. + +De vez em quando, os parceiros do voltarete de meu pai poisavam as +cartas, e escutavam attentos: + + Que triste vida na choça, + que funda melancolia, + que rostos tão macerados, + que suspiros abafados + cada noite e cada dia! + + noites de eterna vigilia, + dias curtos para a lida, + recordações da opulencia, + amarguras da indigencia... + que vida, Jesus! que vida! + +Eu recolhia todos os trechos n'um enlevo d'alma, que foi o primeiro goso +literario da minha vida e, quando n'essa noite me deitei, reconstituia +mentalmente versos, estrophes inteiras, ancioso de poder lêr todo o +poema, para decoral-o todo. + +No dia seguinte, meu pae, recolhendo de ver os seus doentes, trazia +debaxo do braço um livro de capa amarella. + +Tinha comprado o poema, suggestionado pela recitação da vespera. + +Então, como um faminto que se lança vorazmente sobre um manjar +inesperado, eu, quando os outros acabavam de lêr, devorava pagina a +pagina, canto a canto, lendo e decorando, com a mesma facilidade com que +hoje vou esquecendo... + +Annos depois--não foram muitos--quando Castilho protegeu as minhas +estreas literarias com o prestigio do seu nome, Thomaz Ribeiro +escreveu-me algumas cartas que religiosamente conservo entre montões de +outras suas escriptas de toda a parte. + +Depois, em Lisboa, muitas vezes Thomaz Ribeiro me disse que possuia um +retrato meu aos dezeseis annos. + +Certamente lh'o offereci, mas não me lembro quando, e não conservo hoje +nenhum exemplar d'essa photographia. + +Quando foi que eu vi pela primeira vez o auctor do _D. Jayme_? D'isso me +lembro muito bem. Foi no Porto, no escriptorio do _Primeiro de Janeiro_, +cuja redacção permanente era então apenas constituida por duas pessoas, +Francisco Gomes Moniz e eu. + +Nós dois faziamos tudo, menos o artigo de fundo, que ia de Lisboa, e era +escripto por Latino Coelho. + +Thomaz Ribeiro, tendo chegado ao Porto e entrado na casa Moré, disse ao +gerente da casa, o illustre José Gomes Monteiro, que me queria visitar. + +Monteiro, que me estremecia, ficou contentissimo, poz logo o seu chapeu +e subiu, apesar de velho e doente, a rua de Santo Antonio, depois a +ingreme escada da redacção, para me levar Thomaz Ribeiro. + +Foi um dos dias felizes da minha vida literaria. + +Desde então mantive com Thomaz Ribeiro as mais cordeaes relações de +mutua estima. + +As amizades velhas são como o cimento solidificado: não quebram facilmente. + + [Ilustração: Retrato de THEOPHILE GAUTIER que pertenceu a Camillo] + +Quando elle partiu para o Brasil, a _Mala da Europa_ quiz dar um numero +commemorativo, que chegasse ao Rio de Janeiro no mesmo paquete que o +auctor do _D. Jayme_. Por doença de um dos seus redactores effectivos, o +proprietario do periodico, Delfim Monteiro Guimarães, já hoje fallecido, +precisava de quem lhe fizesse rapidissimamente a maior parte d'esse +numero. Procurou-me, e pediu-me que me encarregasse eu d'essa ardua +tarefa--ardua pela estreiteza do tempo. + +Como se tratava de Thomaz Ribeiro, não tive animo de recusar e, durante +quarenta e oito horas, trabalhei afanosamente, tomando café para +espertar-me, conseguindo não faltar ao encargo que acceitei e á palavra +que tinha dado. + +Eu sou a pessoa menos competente para escrever um artigo de critica +literaria a respeito da obra de Thomaz Ribeiro. + +Vejo-o sempre, apaixonadamente, através de agradaveis recordações da +minha mocidade. + +Não sei, não posso vel-o de outro modo. + +Dou-me, portanto, como suspeito. + +Mas creio que, para a apreciação de um escriptor ou de um artista, os +criticos téem menos auctoridade do que o publico. + +Se esse escriptor ou esse artista conquistou a opinião geral, se recebeu +uma consagração nacional, a sua reputação é inabalavel, a despeito do +voto adverso dos criticos. + +Ora Thomaz Ribeiro, cujos poemas foram discutidos, tornou-se o mais +popular poeta do seu tempo. Teve a opinião publica fechada na mão; +dominou-a completamente. E, ainda ultimamente, os que queriam ser-lhe +desagradaveis repetindo versos seus, justificavam, sem querer, a sua +popularidade e, sem querer, a propagavam. + +Portugal ficará sendo eternamente o--jardim da Europa á beira mar +plantado--verso que tem servido para todos e para tudo que, em bem e +mal, se escreve a respeito do nosso paiz. + +A «Conversação preambular» do _D. Jayme_, escripta por Castilho, foi +tida como exageradamente encomiastica para o auctor do poema, e é +realmente discutivel em algumas das suas affirmações. + +Mas o enthusiasmo que alvoroçou o espirito reflectido de Castilho adduz +mais uma prova da enorme sensação causada pelo _D. Jayme_, até nos +julgadores de maior competencia profissional. + +Apparecia um poema verdadeiramente nacional, portuguez pelo assumpto, +pelos affectos, pela paisagem, pela dicção, pondo de mais a mais em +evidencia a riqueza de metros, de harmonia, de malleabilidade e de côr +que possuia a lingua portugueza. + +Sahia inteiramente dos moldes dos poemas antigos, fugindo á oitava-rima, +e dos moldes da revolução romantica, fugindo ao verso branco. + +Era o poema lyrico moderno, o romance metrificado, escripto ao sabor +portuguez sobre a vida portugueza, com matiz popular de tradições e +costumes nossos, com vocabulos colhidos no diccionario da +provincia--_fogaça, campeiro, velleiro_--com toda a alma de um povo a +cantar á flôr dos versos e o caracter nacional sobresaindo em alto +relevo no caracter do protogonista: + + Entrei, raivando vinganças, + Sahi, jurando perdão. + +Comprehende-se que este poema causasse enthusiasmo em todas as regiões +do mundo onde palpitava o sangue e o sentimento portuguez: assim +aconteceu, não só em Portugal, mas tambem no Brazil e na India. + +Do _D. Jayme_ nasceram logo outros poemas: Em Lisboa, _Roberto ou a +dominação dos agiotas_, por Manuel Roussado, uma parodia; no Brazil, +_Leonor_, imitação flagrante. + +Trinta annos depois, quando Thomaz Ribeiro foi ao Brazil como ministro +de Portugal, ainda lá encontrou o rescaldo do antigo enthusiasmo; e a +sua escolha foi julgada a mais opportuna para reatar as relações que um +ligeiro conflicto tinha interrompido entre os dois paizes irmãos. + +Na India portugueza, onde anteriormente estivera como secreterio geral +do governo da provincia, Thomaz Ribeiro foi encontrar admiradores por +toda a parte. + +Tenho deante de mim um romance indiano, _Beatriz ou os mysterios da +ultima revolta em Goa_, escripto por Fernando de Goa (certamente +pseudonymo) e publicado em Lisboa no anno de 1885. + +No 2.º volume, encontro, entre outras referencias a Thomaz Ribeiro, este +periodo: + + +«O secretario, aproveitando este ensejo, affastou-se d'ali, metteu-se na +machila e fez-se transportar a Caranzalem, a fim de fazer as suas +visitas ás familias das suas relações que ali se achavam a banhos, e +entreter parte da noite n'uma ou n'outra casa, onde suspiravam pela sua +chegada, para terem o prazer de ouvir uma conversação animada, cheia de +atticismo, de poesia, e ao mesmo tempo recamada das mais brilhantes e +conceituosas phrases.» + + +A praia de Caranzalem, proxima do Mandovi, n'uma linda enseada a quatro +kilometros da capital, é o balneario aristocratico da India portugueza, +é Cascaes do Oriente. + +Em todo o reino de Portugal, na India, no Brazil, em toda a parte onde +se falla a lingua portugueza, Thomaz Ribeiro, por ser o auctor do _D. +Jayme_, encontrava um fervoroso culto de enthusiasmo e adoração. + +Era uma justa retribuição da consciencia publica aos sentimentos +patrioticos do poeta, que dedicadamente amou o seu paiz, cantando-lhe as +bellezas e as glorias, no Occidente e no Oriente, e que, no territorio +portuguez, se algum rincão distinguiu com especial affecto, foi o seu +districto natal, Vizeu, e em Vizeu a aldeia garrida onde nascêra, Parada +de Gonta: + + Que fresca aldeia formosa + Nas margens do meu Pavia! + +Morreu na terra da patria, e n'isso lhe fez Deus a vontade: + + meu vergado pomar d'um rico outomno, + sê meu berço final no ultimo somno. + +O romantismo, vocabulo que eu apenas acceito convencionalmente como +expressão chronologica para designar determinada época literaria, e não +como caracterisação psychologica d'um estado d'alma, que é commum a +todas as gerações, e, portanto, eterno; o «periodo romantico», ia +dizendo, teve ao menos de grande e nobre o seu amor ao paiz, affirmado +solemnemente na celebração das glorias e das tradições portuguezas, +desde Alexandre Herculano até Thomaz Ribeiro. + +Hoje é moda rir de tudo, em prosa e verso, especialmente do paiz. + +Literariamente, ainda falta encarar o auctor do _D. Jayme_ sob outro +ponto de vista: como recitador. + +Trez homens conheci eu incomparaveis no primor com que sabiam dizer +versos: Castilho, Thomaz Ribeiro e Gonçalves Crespo. + +Quanto a Thomaz Ribeiro, sempre me ha de lembrar o que se passou uma +vez, sendo elle ministro do reino, na commissão de instrucção secundaria +da camara dos deputados. + +Discutia-se um projecto de reforma do respectivo ensino. + +Apenas dois membros da commissão se oppunham tenazmente á resurreiçao do +exame de madureza: eram o sr. José Borges de Faria e eu. + +N'essa reunião nocturna, que se effectuou no edificio do governo civil +para maior commodidade de todos, a discussão corrêra violenta e azeda. + +Nada se tinha resolvido ainda, quando foi servido o chá, que veiu da +casa Ferrari. + +Então, durante essa pausa obrigada, não sei quem se lembrou de pedir a +Thomaz Ribeiro que recitasse _O tear da rainha_. + +Elle annuiu promptamente, e tanta impressão causou em todos nós, que +fomos pedindo mais versos. + +Assim acabou n'uma doce calma aquella reunião, que tinha corrido agitada. + +O projecto chegou a ir ao parlamento, fazendo os dois dissidentes +declaração de voto, mas a reforma não teve execução. + +Tambem a titulo de simples recordação lembrarei que sendo Thomaz Ribeiro +ministro da marinha--primeira pasta que geriu--fui eu que, a seu pedido, +entabolei negociações com a livraria Chardron, do Porto, para a +acquisição da propriedade das suas obras. + +Quando se escreve de um amigo não ha meio de coordenar as memorias +agradaveis que elle nos deixou; os factos acodem em tropel amontoando-se +numa agglomeração confusa, que exigeria longo tempo e grande esforço de +serenidade para ser dominada. + +Não é, poucos mezes depois da morte d'esse amigo, que semelhante +tentativa pode fazer-se para conseguir restabelecer a ordem onde tudo é +ainda desordem da saudade. + +Por isso não o consegui eu, nem sequer o tentei. + + +PAG. 18 + +«... esquecer essa noite de festa, que foi talvez a unica noite feliz +n'esta casa.» + +D. Anna Placido escrevendo, embora sob um pseudonymo masculino, a +respeito da morte de Vieira de Castro em Africa, recordava a noite de 15 +de julho de 1866, quando dizia: + + +«Era noite de festa. Na pequena aldea de *** ouviam-se cantos festivos; +e a voz das aldeãs competia com as rabecas e os clarinetes. + +«Passava-se isto em uma casa de campo. As seis janellas da frontaria +jorravam luz, e a porta da entrada por onde se subia por larga escadaria +de pedra, estava afestoada de rosas e hortensias». + + +Era o sarau campestre, o serão minhoto, em honra de Castilho, na quinta +de Seide. + + +PAG. 26 + +«Foi ali que essa linda mulher, de formas esculpturaes...» + +A proposito de D. Anna Placido, referirei um pormenor que me foi contado +recentemente. + +O seu casamento com o grande escriptor esteve para realizar-se em Santo +Thyrso, aonde ambos chegaram a ir para esse fim. Ali se demoraram dois +dias, á espera que o conego Alves Mendes viesse do Porto com os +documentos que eram necessarios. Só o abbade de Santo Thyrso, reverendo +Joaquim Augusto da Fonseca Pedrosa, estava na posse d'este segredo; +ninguem mais, n'aquella villa, o sabia. Mas houve demora na camara +ecclesiastica do Porto, e o conego Alves Mendes não pôde obter os papeis +tão depressa como desejava. Por este motivo, Camillo e D. Anna Placido +retiraram de Santo Thyrso. O casamento veio a celebrar-se no Porto, como +já tem sido dito. + + +PAG. 30 + +«Em 1892 o Nuno, estando nós na Povoa, mostrou-me V. no _Café Chinez_.» + +Foi n'esse anno, e na Povoa, que eu vi o visconde de S. Miguel de Seide +pela ultima vez, quando já a questão do _Protesto_ nos tinha inimistado. + +N'essa occasião eu não pensava ali senão em vencer, como candidato, uma +das mais renhidas e ruidosas eleições que tem havido n'este paiz. Deu +brado aquella briga eleitoral da Povoa de Varzim em 1892! Se não fossem +as minhas canceiras e preoccupações politicas, dada a boa disposição do +visconde de S. Miguel de Seide como agora sei, certamente nos haveriamos +reconciliado ali n'aquella época. Mas eu andava em correrias, em +comicios, em conferencias, em combinações eleitoraes: não chegava para +as encommendas. Forte cegueira! Até me parece agora impossivel que eu +fosse então o mesmo homem que hoje sou! + +O que é certo é que venci com o povo--a grande classe dos +pescadores--coisa que raras vezes terá acontecido em Portugal. Quem +vence, por via de regra, são os influentes, os galopins, o carneiro e as +batatas. D'aquella vez venceu o povo, que me quiz fazer deputado, e fez. +Assim o povo pensasse sempre em tudo o mais, e outro gallo lhe cantaria. + +Eu andei então muito descomposto nas gazetas, mas tambem andei muito +cantado nas ruas. + +Os pescadores e as pescadeiras improvisaram então um cancioneiro +eleitoral em meu favor. Ahi vão amostras do panno, que elles +espontaneamente souberam tecer com toda a ingenua rudeza dos seus +processos poeticos: + + Boa vai ella! + Ora viva o Pimentella. + Que dá o seu coração + P'ra vencer a eleição. + + Boa vai ella! + Ora viva a _piscaria_. + Vai toda votar em barda + Pela nossa melhoria. + + Boa vai ella! + Ora viva o Albertinho, + Que vai como deputado + Cá pelo nosso povinho. + +Eram tão carinhosos para mim os pescadores, que até me tratavam pelo +diminutivo, meiguice que eu já não estava costumado a receber ha muito +tempo. O povo ama ainda pelo systema antigo, e eu era o seu candidato +contra a vontade de muitas influencias poderosas e colligadas. + +N'esta roda-viva de uma eleição disputadissima, renhidissima, eu pensava +menos no visconde de S. Miguel de Seide do que na urna e nos votos. + +Se não estivesse tão preoccupado e ralado, se tivesse tempo para me +demorar nos botequins, certamente se teria ageitado alguma occasião de +me congraçar com o visconde de S. Miguel de Seide, pois que elle o +desejava, e eu não o recusaria. + + [Ilustração: Retrato de ALPHONSE KARR que pertenceu a Camillo] + + +PAG. 37 + +«... Jorge Castello Branco, o infeliz primogenito de Camillo.» + +Apezar de ser o primogenito, foi baptisado, quando já tinha quasi dois +annos de idade, no mesmo dia que seu irmão Nuno, a 6 de janeiro de 1865. + +Se o leitor folheou alguma vez _Os amores de Camillo_, lá deve ter +encontrado, a pag. 344, a noticia d'este duplo baptisado que se +effectuou no Porto. + +Mas Antonio de Azevedo contou-me ultimamente um pormenor, que é +interessante. + +Ao jantar d'esse dia, em casa de Camillo na rua do Almada, assistiram as +mesmas pessoas que tinham ido á egreja; Custodio José Vieira, notavel +jurisconsulto; o Bastos, do _Nacional_; Antonio de Azevedo; e um +procurador portuense, cujo nome não lembra. + +Durante o jantar apenas se bebeu champagne e cognac. + +Seguiu-se um serão alegre, cheio de engraçados episodios e imprevistos +sainetes. + +D. Anna Placido tocou piano. + +Camillo tocava trombone no canno de uma bota. + +E o Bastos do _Nacional_, que era um homem alto, forte e rosado, dançava +com Custodio José Vieira, que era muito pequeno e muito feio. + +O procurador, conscio da sua desigualdade de cotação intellectual, +conservou-se mero espectador. + +Não parece que se está ouvindo um trecho das _Alegres comadres de +Windsor_, que Nicolai compoz sobre a peça de Shakspeare, ou aquella +scena de Puccini, em que os socios da bohemia folgam em commum n'uma +chorea improvisada? + +Quem poderia vêr então em Camillo o futuro solitario e suicida de S. +Miguel de Seide! + + +PAG. 53 + +«Leitores de cem romances, que uma só penna escreveu». + +Todo o trabalho literario de Camillo pesou unicamente sobre elle. Não +temos em Portugal o systema de um escriptor tomar como auxiliares outros +escriptores menos reputados. Usa-se isso em França; entre nós, não. + +Apenas, em duas obras de theatro, trabalhou Camillo com um collaborador, +que foi Ernesto Biester. + +Fizeram em commum o drama _Vingança_ (Veja _Esboços de apreciações +literarias_, pag. 85 e _Revista contemporanea de Portugal e Brazil_, +vol. IV, pag. 313); e o drama _Penitencia_, em 6 actos e um prologo +(Veja _Dic. Bib._ de Innocencio, vol. IX, pag. 176). + +Vi representar este ultimo drama no theatro de S. João, do Porto, pela +companhia do antigo Theatro Normal. + + +NOTA FINAL + +O retrato de Camillo, que publicamos agora, é copia photographica de um +a _crayon_ que vimos na casa dos netos do grande romancista em S. Miguel +de Seide. + +Na sala de entrada ha trez retratos de Camillo. Só este desconheciamos, +e fez-nos impressão, porque, a distancia, suppozemos que fosse de +Guilherme Braga. + +A sr.ª D. Anna Corrêa desfez o nosso equivoco. + +O retrato a _crayon_ é de 1876 e está assignado, mas deve por sua vez +ser copia de outro retrato, tirado aproximadamente em 1857, quando +Camillo usava ainda o cabello levantado sobre a fronte. + +Comtudo não é o mesmo retrato de 1857 que foi publicado ultimamente, com +outros de differentes epocas, no n.º 8-9 da _Illustração moderna_, do +Porto. + +Tambem não é o de 1850, que ainda recentemente foi mais uma vez +reprodusido na revista portuense _Sombra e luz_ (n.º 2). + + + +Preço 400 réis + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Os netos de Camillo, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS NETOS DE CAMILLO *** + +***** This file should be named 33752-0.txt or 33752-0.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/3/7/5/33752/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Os netos de Camillo + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: September 17, 2010 [EBook #33752] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS NETOS DE CAMILLO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + Notas de transcrio: + + O texto aqui transcrito, uma cpia integral do livro impresso + em 1901. + + Foi mantida a grafia usada na edio original de 1901, tendo + sido corrigidos apenas pequenos erros tipogrficos que no + alteram a leitura do texto, e que por isso no foram assinalados. + + + + + _ALBERTO PIMENTEL_ + + + _Os Netos de Camillo_ + + LISBOA + EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL + Sociedade editora + LIVRARIA MODERNA + _R. Augusta, 91_ + TYPOGRAPHIA + _35, R. Ivens, 37_ + MDCCCCI + + + + + OS NETOS DE CAMILLO + + + + + [Ilustrao: CAMILLO CASTELLO BRANCO + + _(Copia de um retrato a crayon que pertence aos netos do grande + escriptor)_] + + + + + + _ALBERTO PIMENTEL_ + + + _Os Netos de Camillo_ + + + Das flres surgiro pomos?... + Se Deus regar os arbustos! + + TOMAZ RIBEIRO. + + LISBOA + EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL + Sociedade editora + LIVRARIA MODERNA + _R. Augusta, 91_ + TYPOGRAPHIA + _35, R. Ivens, 37_ + MDCCCCI + + + + + [Ilustrao: D. ANNA ROSA CORREIA] + + + + +OS NETOS DE CAMILLO + + +Fui hontem, 20 de agosto, a S. Miguel de Seide fazer uma romagem de +saudade. + +Quando Camillo era vivo, sempre que eu vim a Santo Thyrso no deixei +nunca de visitar o grande romancista na sua melancolica Thebaida. + +Agora que elle morto e repousa longe, no cemiterio da Lapa, fui em +peregrinao devota contemplar o tumulo em que viveu e agonisou: a casa +solitaria de Seide, onde cada pedra parece ser um epitaphio que chora +resignadamente por elle no silencio e na mudez de uma aldea minhta. + +Esta casa, a que o proprio Camillo chamou o albergue arruinado de S. +Miguel de Seide, uma reliquia historica, um monumento nacional, como +a casa de Shakspeare em Stratford-sur-Avon ou como a casa de Goethe em +Francfort. + + ou deve ser. + +Para mim tem o que quer que seja de venerando, como um castello +desmantelado, onde a nossa gente tivesse ganho outr'ora cem victorias +gloriosas, de que eu proprio houvesse sido testemunha... + +Sahi de Santo Thyrso ao amanhecer e almocei em Landim. + +Devo ao sr. Adriano Trpa, meu presado amigo, a honra de acompanhar-me. + +Vi de passagem a crca do antigo mosteiro de Landim, hoje propriedade da +familia Leal e Sousa. + +Um filho do dono da casa, o sr. Manuel Vicente Leal, que ia a sahir +n'esse momento, retrocedeu de bom grado para nos servir amavelmente de +cicerone. + +Eu, quando viajo, no gosto de fazer prevenes, nem aos outros, nem a +mim proprio. Sou o viajante mais despreoccupado que pode haver; +entrego-me inteiramente ao acaso, e sempre me tenho dado bem com isso. + +A crca do mosteiro est transformada; poucos vestigios restam ainda do +tempo dos frades. Ha trechos de buxo em algumas ruas, e o jogo da +bola, que era vulgar nos conventos do sexo masculino, subsiste menos +mal conservado. + +As freiras, se cultivavam este jogo, era no plural... + +J posteriores extinco das ordens religiosas, vi carvalheiras +enormes, medindo de circumferencia mais de quarenta palmos. Uma d'ellas +fra lascada por um raio, de alto a baixo. Vi tambem, digna de meno, +uma rua de australias, arvores cujo cerne imita o pau preto e , por +isso, madeira apreciada. + +Conversando com o sr. Manuel Vicente, perguntei-lhe se Camillo teria +phantasiado muito a respeito do _Cego de Landim_. + +--Nada, absolutamente. Camillo ainda no disse tudo. O cego era um +perverso homem. + +--E onde morava aqui? + +--N'uma casa por detraz d'aquella capella. + +Indicou-me a capella de S. Braz, onde todos os annos se realiza uma +pomposa festa, com arraial e feira. + +Tambem o sr. Manuel Vicente me indicou o antigo collegio de Landim, em +que foram educados muitos rapazes do Minho, que hoje so honra e brilho +da sua provincia. + +O sr. Trpa e eu fomos almoar estalagem do Rodrigues, n'uma varanda +envidraada, que dava sobre campos emplumados de basto arvoredo. + +Notei que Landim uma terra abundante de alfaiates. S porta de uma +casa, vi sete trabalhando ao ar livre; fizeram-me lembrar a historia dos +sete alfaiates lendarios, que foram precisos para matar uma aranha. + +Mal acabamos de almoar, partimos para Seide, onde chegamos perto das +dez horas da manh. O sol tinha j descoberto; a nevoa, que havia sido +intensa, dissipara-se completamente. + + * * * * * + +Os meus olhos esperavam avidamente o momento de avistar a casa que fra +de Camillo. + +Tomados de um instinctivo respeito, iamos ambos calados, o sr. Trpa e eu. + +De repente, surgiu-nos o porto ensombrado por duas grandes accias, que +pendem sobre elle. + +-- ali! disse eu. + +-- ali! repetiu o sr. Adriano Trpa. + +E, passando respeitosamente por deante do porto, que d para o largo da +egreja parochial, dirigimo-nos casa onde actualmente residem os netos +de Camillo, a dois passos de distancia. + +Toda a gente se lembra ainda da deploravel questo que, a meu pezar, +sustentei com o visconde de S. Miguel de Seide, segundo-genito de +Camillo, sobre a existencia de uma filha natural do grande romancista, +casada no Porto. + +Tive receio de que a recordao d'essa acerba polemica estivesse ainda +muito viva no espirito da sr. D. Anna Rosa Corra. + +Adoptei por isso a precauo de apresentar-me sob o nome que primeiro me +lembrou, ao solicitar o obsequio de ser recebido como admirador +fervoroso de Camillo. + +Acolheu-me gentilmente a dona da casa, que immediatamente chamou alguns +de seus filhos, no todos, porque dois d'elles, Camillo e Manuel, tinham +sahido pela manh. + +Notei que por vezes a sr. D. Anna Corra, me d'aquellas creanas +herdeiras de um nome glorioso e de pouco mais, me observava com certa +curiosidade. + +Soube comtudo manter-se n'uma discreta reserva, no arriscando duvida +alguma sobre a minha identidade. + +Fingiu acreditar que eu era um Araujo admirador de Camillo, desejoso +de conhecer os netos do grande romancista e de visitar a casa onde elle +morreu. + +Apresentou-me Flora, sua filha mais velha, quinze annos de idade, alta e +elegante como um pinheiro novo, de uma simplicidade de maneiras ao mesmo +passo graciosa e senhoril; e Rachel, quatro annos mais nova, cujo vago +olhar revela morbidez e melancolia. + +--Esta menina, disse-me a sr. D. Anna Corra, era a predilecta da av. + +--Aventuro-me a conjecturar, respondi eu, que o nome de Rachel foi +escolhido por Camillo. + +--Isso mesmo... confirmou a minha amavel interlocutora esboando um +sorriso. Ns queriamos que se chamasse Anna, como a sr. viscondessa, +mas o sr. visconde (Camillo) oppoz-se, dizendo que esse nome era infeliz +na familia. Referia-se sr. viscondessa e a mim... + +--Rachel, observei eu, exprimia na vida de Camillo a saudade do passado. +Com esse nome foi designada a sr. D. Anna Placido em muitos dos versos +amorosos que ella lhe inspirou. + +--Exactamente. verdade. + +Apresentou-me depois os restantes filhos que estavam em casa: Nuno e +Simo, em cujas physionomias, doces e intelligentes, prevalece um +accentuado typo de familia. + +--Simo, observei eu, tambem foi um nome intencionalmente escolhido. + +A sr. D. Anna confirmou com um gesto. + +-- o do protogonista do _Amr de perdio_, acrescentei. Oxal que este +menino seja mais feliz. + + * * * * * + +Como eu tivesse insistido no desejo de vr o pequeno Camillo, por saber +que era o neto querido do av, foram procural-o emquanto conversavamos a +respeito de seus irmos. + +E iamos j a sahir em visita casa onde o grande Camillo morreu, quando +appareceu o joven Camillo, denunciando um certo ar de extranheza no +olhar suavemente penetrante e perspicaz. + +--Este menino, disse-me a sr. D. Anna, nasceu a 16 de maio de 1888, no +mesmo dia em que o av fazia annos. Nos _Amores de Camillo_ vem esta +observao, que exacta. + +Procurei mostrar-me indifferente citao do meu livro, comquanto me +fosse agradavel a certeza de que a sr. D. Anna Corra o conhecia e +indicava como fonte auctorisada em minudencias biographicas. + +A physionomia do pequeno Camillo , em verdade, a mais expressiva entre +todos os netos do grande romancista. + +Essa creana revela uma luminosa precocidade de intelligencia. No sendo +robusto, como nenhum dos seus irmos o tambem, parece mais debil e +menos expansivo que elles. Tem o que quer que seja de gravidade +prematura quando escuta enconchando a mo sobre a orelha direita, porque +padece de dureza de ouvido, como seu irmo Nuno. Tudo faz esperar que +elle seja o continuador da gloria literaria do av. Esta convico +parece estar arreigada no espirito de toda a familia, que a recebeu do +grande romancista, o qual dizia muitas vezes ao pequeno Camillo: + +--Se eu tornar a vr, vou comtigo para Coimbra. + +Apezar dos escassos recursos de que a sr. D. Anna Corra dispe, julgou +seu dever no se poupar aos maiores sacrificios para iniciar +convenientemente a educao d'este filho. + +O pequeno Camillo estuda em Braga, onde vae cursar agora o terceiro anno +do curso geral dos lyceus. + + * * * * * + +As terras de Seide no podem abastar ao sustento e educao de to +numerosa prole. Dariam regular passadio para uma ou duas pessoas, +apenas. Mas para educar tantas creanas no chegam. De mais a mais esto +oneradas com um pezado fro de setenta razas de milho alvo e centeio, +pago annualmente ao abbade, e com os juros de uma hypotheca +Misericrdia de Villa Nova de Famalico. So terras sccas e por isso +pouco fecundas: apenas alli tem maior valor a casa de habitao, que foi +mandada construir pelo visconde de S. Miguel de Seide, e que muito +superior em capacidade e aspecto quella em que o grande romancista +viveu e morreu. + +A hypotheca abrange tambem este ultimo predio. + +A penso que foi votada pelo parlamento a Camillo Castello Branco, +cessou com a morte de seu filho Jorge. + +Portanto os descendentes de Camillo, se lhes no acudir o Estado, como +deve, tero de luctar com as maiores difficuldades para receber educao +condigna do nome illustre que representam. + +--Ver-me-hei na necessidade, dizia-me a sr. D. Anna, de mandar este +menino (Camillo) para o commercio no Porto ou em Braga, bem como os outros. + +E o seu rosto, macerado pelos desgostos e trabalhos da vida, que a +envelheceram prematuramente, cobria-se de uma espessa nuvem de +melancolicas apprehenses. + + [Ilustrao: FLORA] + +--Tenho feito quanto tenho podido, continuou a sr. D. Anna, a bem +d'estes meninos, mas no poderei aguentar por muito mais tempo to +difficil esforo. Flora fez exame de instruco primaria. Nenhum dos +outros irmos analphabeto. Manuel, que no lhe posso apresentar, est +em Landim a dar lio; s recolhe noite. Nenhum dos meus filhos tem +repugnancia pela instruco, nem preciso chamal-os para irem escola, +sendo Camillo o mais madrugador e estudioso de todos. Triste de mim, se +tiver de lhes dar um destino que no seja o das letras. Mas no posso... +no posso. + +No foi como consolao banal que lhe respondi: + +--No desespere, minha senhora. Portugal prodigo em conceder penses, +e este acho eu que ser o menor defeito de toda a nossa administrao +publica, porque mais vale evitar que alguns portuguezes morram fome, +do que dar um triste exemplo de ingratido nacional. Todos ns sabemos +que esta ou aquella penso , entre muitas outras, mais explicavel pela +generosidade do que pela justia. Mas a que se conceder memoria de +Camillo, na pessoa de seus netos, pelo menos at maioridade d'elles, +alem de poder ser a mais parcimoniosa de todas, ser a mais justa entre +as que a si mesmas se justificam plenamente. Camillo um d'estes +escriptores que representam uma nacionalidade: a sua obra a alma de um +povo. + +A sr. D. Anna enxugou uma lagrima nos seus olhos de um azul muito +claro, to quebrados pelo soffrimento como o poderiam ser por uma longa +vigilia. + +Quantas noites, em verdade, no desvelar esta boa creatura a pensar no +incerto futuro de seis filhos, entregues ao seu heroismo maternal, unica +fora que parece vitalisar-lhe o corpo depauperado pela anemia e +envelhecido prematuramente por uma vasta serie de inconfessaveis desgostos! + +Depositria de um nome illustre, e de uma das mais solidas glorias +literarias do nosso tempo, que dever restituir intacta a seus filhos +depois de os ter preparado de modo a saberem continual-a dignamente, a +sua misso espinhosa e agra, sobretudo se a patria a desamparar, o que +seria um crime affrontoso, e uma ingratido odiosa. + +Os netos de Camillo, vivendo n'um affastado rinco do Minho, entre dois +campos hypothecados, no tem a espreital-os a _reportagem_ dos jornaes, +a vigilancia dos Argus de botequim, nem a atteno dos centros +literarios e aristocraticos. Os montes que os rodeiam, no deixam vel-os +de longe; especialmente de Lisboa. preciso lembral-os, pol-os deante +dos olhos da patria, e esse o unico intuito que inspirou a publicao +d'este opusculo. + +Dilemma inilludivel: Deixar ao abandono seis creanas, que ho de +perpetuar uma gerao illustre, ou protegel-as com uma exigua mealha, +que abastar s modestas necessidades de pessoas educadas na vida alde, +no trato simples de camponezes, e sobriamente habituadas ao caldo verde +do Minho. + +Quem deixar sossobrar em to fragil batel seis creanas desprotegidas, +podendo facilmente salval-as, e com ellas uma das mais authenticas e +genuinas glorias nacionaes? + +Ninguem. A consciencia publica o ultimo alento que morre nos povos que +se deixaram enfermar de leviandades e desacertos continuados. Ns somos +um povo doente d'essa pcha. Mas a consciencia ainda reage por vezes, +brada, impe-se, faz-se ouvir e attender. + +Entreguemos, pois, esta demanda consciencia publica. + +O unico dos netos de Camillo que eu no pude vr em S. Miguel de Seide, +foi Manuel, o mais novo, nascido em 1893. + +O seu nome tambem obedeceu a uma propositada escolha: era o do pae do +grande romancista. + +A julgar pelo retrato, parece ser o mais alegre de todos elles, +privilegio que a sua edade, alis, explica. + + * * * * * + +Acompanhados pela sr. D. Anna Corra, dirigimo-nos, o sr. Adriano Trpa +e eu, para a casa onde morreu Camillo, a qual est actualmente +deshabitada, com excepo do pavimento terreo, que residencia do caseiro. + +Aberto o porto, entramos na sombra de uma latada de alvaroco, cujos +cachos brancos pendiam vagamente doirados por tenues raios de sol, que +as folhas verdes coavam. + +Olhei logo para um recanto, esquerda, onde eu sabia existir o +monumento commemorativo da visita de Castilho, o principe da lyra +portugueza, a S. Miguel de Seide, em julho de 1866. + +Castilho, que partira de Lisboa acompanhado por seu filho Eugenio, tinha +alli, n'aquelle torro do Minho, uma crte de letrados, verdadeira +_crte n'aldeia_, a render-lhe homenagem: compunham-n'a Camillo, Anna +Placido, Thomaz Ribeiro e Vieira de Castro. + +A inscripo est quasi apagada, como j se apagou tambem a vida das +pessoas a quem ella se referia. Cresceram hervagens e ramos que +sombriamente afogaram o monumentosinho. Parece um tumulo esquecido na +solido de um cemiterio. + +Recordei ento a dedicatoria da _Maria Moyss_ a Thomaz Ribeiro. + +Quando eu estava olhando para aquella pedra triste, visinha silenciosa +de uma casa no menos triste, assomou ao porto um individuo, que +desconheci, um velho rijo, de physionomia agradavel, cujo trajo me +denunciou logo o camponez polido. + +A sr. D. Anna Corra apresentou-m'o, pois que o sr. Trpa j o +conhecia: era o sr. Francisco Corra de Carvalho, dedicado amigo de +Camillo, quasi familiar na casa de Seide, e proximo visinho. + +Como notasse que eu estava olhando para o monumento, o sr. Carvalho, +muito expansivo, contou logo que um dia, nos ultimos annos da vida de +Camillo, parra um trem ao porto, o que deu rebate de uma visita +inesperada, facto que de longe a longe acontecia. + +Camillo preparou-se para receber algum amigo; mas no apparecia ninguem. +Sahiram varias pessoas, entre ellas o sr. Carvalho, a averiguar o +extraordinario caso da carruagem, que parecia ter vindo vasia e parado +ali sem destino. + +Ento descobriram o vulto de um homem junto ao monumento, e voltado para +elle. Aproximando-se cautelosamente, p ante p, reconheceram n'esse +extranho visitante, Thomaz Ribeiro, que chorava, abraando-se com a pedra. + +Chorava memorias do passado, memorias de si mesmo, da sua mocidade +longinqua, de Castilho morto, de Vieira de Castro duas vezes morto, +primeiro no tribunal, depois no tumulo; do filho de Castilho, apodrecido +n'um leito, e de Camillo, ali to proximo, crucificado no Calvario de +todas as dores reaes e imaginarias que lhe attribularam incessantemente +a existencia. + +Fiz reparo em que o sr. Carvalho, chamando de parte o sr. Trpa, trocra +com elle algumas palavras. + +Tive depois a explicao d'este incidente; e o leitor tel-a-ha tambem, a +seu tempo. + +Mas, rapidamente, o sr. Carvalho voltou a falar comigo cerca do +monumento, e do facto que elle memorava: a visita de Castilho a Seide. + +--Fez-se aqui, dizia-me o sr. Carvalho, uma linda illuminao. Vieram +cantadores, entre os quaes se distinguiram o _Gallego_ e a _Rosa +Cantadeira_. Castilho mostrou-se admirado com os improvisos do +_Gallego_, sempre espontneos e, por via de regra, muito maliciosos. +Quero, dizia Castilho, que me descrevam a cara d'este homem; que pena +tenho de o no vr! Mas calculo que a sua physionomia ha de ter tanta +expresso como a de um actor comico. Por fora! Nunca mais, concluia o +sr. Carvalho, poderei esquecer essa noite de festa, que foi talvez a +unica noite feliz n'esta casa. + +Emquanto o sr. Carvalho discursava com a verbosidade ardente de um +rapaz, poisei os olhos sobre a _acacia do Jorge_, de cujas amplas +frondes cahia uma sombra profunda e saudosa. + +E fui repetindo, irreflectidamente, os versos de Camillo: + + Quando a acacia do Jorge ainda outra vez inflore, + Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei. + +A sr. D. Anna Corra, encostada n'esse momento ao mainel da escada, que +iamos subir, disse com maviosa expresso de tristeza: + +--Tantas vezes tem j florido, depois que elle morreu! + +Eu completei mentalmente o seu pensamento: E ainda no voltou... + +Noticiei sr. D. Anna que um poeta da moderna gerao, dos melhores, +se no o melhor, havia recentemente cantado _A acacia do Jorge_ em +quadras maviosas, de que brotavam lagrimas em fio, melancolicamente, +como gotas d'agua cahindo tristes de uma fonte solitaria. + +Posso agora completar essa informao, reproduzindo integralmente a +poesia de Affonso Lopes Vieira: + + A ACACIA DO JORGE + + Camillo! como acreditar, como hei de + Entender estes versos que deixaste? + Floriu a Acacia em S. Miguel de Seide, + Cada anno te espera,--e no voltaste! + + J tantas vezes deu a sombra amiga, + Que tu gostavas tanto de gozar... + Florida, tem um ar de festa antiga + Na esperana de te vr voltar! + + Voltar? A velha arvore que cance!... + Por fim ha de ruir, n'uma amargura. + Prepras l um ultimo romance? + Suprema indiscreo! Genio e loucura! + + Dolorosa novella desmanchada, + E que nos deixe pallidos e absortos, + Onde nos digas, grande camarada, + O gordo amor de brazileiros mortos! + + Os Amorosos, que se vo chorando + porta do convento, e amortalhar-se... + Com habitos de terra aconchegando + Os esqueletos de ossos a chocar-se... + + Um romance da cova, com morgados + Que o alm desbastou; com almas finas + De mysticas de Amor, lindas Meninas + Em mosteiros chorando, abandonados! + + E a descomposta, lugubre risada + De romantica bocca, que era a tua, + N'esses reinos da Morte gargalhada + Sobre defuntos namorando lua! + + E toda a v e toda a derradeira + Esperana do cabo da viagem; + Com descriptivos, tua maneira, + D'esse Minho da Morte da paisagem... + + Acacia! j tempo: desesperas? + No te ponhas florida, pe-te aos ais!... + Nunca mais voltar esse que esperas, + Ouves bem este horror? Jmais! Jmais! + + E os versos d'elle, onde a saudade existe, + Que despedida te gritou tambem, + Ah! no so mais que uma mentira triste: + Como tudo, a final, que nos faz bem. + + Poetas! perguntae ao pensamento + Que mais chimeras e desgraas forge? + Antes te sque um raio, ou parta o vento! + Acacia do Jorge... + + * * * * * + +Fomos subindo vagarosamente os degraus da escada de pedra, sobre a qual +pende, chorosa, a farta ramagem da acacia. O caseiro tinha aberto as +portas. Entrmos. Todos ns, os homens, nos descobrimos a um tempo, +respeitosamente. + +A lembrana do que eu vira ali ha dezeseis annos aclarava-se no meu +espirito com uma grande nitidez de saudade rediviva. + +Eu ia dizendo: + +--Era aqui a casa de jantar. + + [Ilustrao: CAMILLO] + +A sr. D. Anna Corra confirmava. + +Passmos depois sala em que estivera o bilhar e onde Camillo costumava +receber as suas visitas de maior cerimonia. + +A sr. D. Anna disse, indicando o vo de uma janella: + +--Foi aqui que se matou, sentado na cadeira de baloio. + +E, longamente, a sr. D. Anna reconstituiu todo esse rapido drama de +desespero atroz. + +--O sr. visconde (Camillo) estava vivendo comnosco, no outro predio, +onde habitava o melhor quarto do segundo andar. Mas sempre que tinha +visitas, vinha aqui recebel-as. Foi o que aconteceu n'esse dia, quando +chegou de Aveiro o medico Edmundo Machado, que j tambem falleceu. O sr. +visconde parecia tranquillo antes do medico chegar. + +O sr. Carvalho interrompeu, dizendo: + +--Na vespera tinha andado a passeiar pelo meu brao ali no largo, em +frente da egreja. Como comeasse a soprar uma aragem fresca, o sr. +visconde disse-me: Vamos embora, que tenho medo de uma pneumonia. +Ainda na vespera do suicidio temia tanto a morte! + +-- verdade! confirmou a sr. D. Anna Corra. Perguntou o sr. visconde +ao medico se quereria encarregar-se de o tratar da cegueira em Aveiro. O +doutor respondeu que seria melhor ir primeiro tomar as aguas do Gerez. O +sr. visconde viu certamente n'estas palavras o artificio de uma dilao +para evitar um desengano. Momentos depois o medico despediu-se, e a sr. +viscondessa e o sr. Carvalho acompanharam-n'o at escada. Ouviu-se +ento a detonao de um tiro. Retrocederam todos. O sr. visconde estava +prostrado na cadeira, arquejando. No se lhe viu, no primeiro momento, +ferimento algum. Foi s algum tempo depois que uma gotinha de sangue +aflorou no sitio onde a bala entrra, sobre a tempora. + +--O sr. visconde, perguntei eu, trazia sempre comsigo o rewolver? + +--Sempre; j o levra a Lisboa, onde um dia o experimentou, disparando +para o tecto. Mas o filho (Nuno) tinha substituido as balas por uns +projecteis inoffensivos, no sei de qu. O sr. visconde percebeu isto. +Todavia no largra mais o rewolver, nem consentia que lh'o tirassem. + +--De tanto o apalpar, observou o sr. Carvalho, j tinha a coronha poda. + +A sr. D. Anna Corra concluiu a sua dolorosa narrativa dizendo: + +--Estavamos longe de imaginar que tivesse adquirido balas verdadeiras. +Todos suppunhamos o rewolver vasio. Foi uma surpreza terrivel. + +E todos ns, depois d'esta rapida reconstituio do drama de Seide, nos +demormos ali, concentrados e silenciosos, por alguns momentos, como se +vissemos ainda Camillo, prostrado e arquejante, na sua cadeira de +baloio, morrendo. + + * * * * * + +Subimos depois ao segundo andar. + +Eram ahi o escriptorio do romancista e os quartos de cama. + +No escriptorio, por onde agora a luz golphava livremente, restavam do +antigo mobiliario duas cadeiras de estofo, escanceladas e poentas. + +A nudez da sala, que o auctor de cem romances aquecera outr'ora com a +irradiao vulcanica do proprio cerebro, gelou-me de tristeza. Dava a +impresso de uma forja apagada. O tempo havia esfriado o rescaldo do +ultimo livro. A officina parecia dormir tambem o somno da morte, que +prostrra o valoroso artifice. + +Os aposentos de Camillo, alcova e saleta, estavam igualmente desnudados +de mobilia; apenas na parede havia pendentes alguns _croquis_ do Jorge, +e dois quadrinhos de que eu me lembrava ainda perfeitamente. + +Tenho em Lisboa uma pasta cheia de desenhos, que o Jorge me deu ha +dezeseis annos. Por isso, mais do que aos seus _croquis_, prestei +atteno aos dois modestos quadrinhos, que durante longo tempo deram os +bons dias e as boas noites a Camillo, velando a seu lado, como +companheiros fieis e amigos intimos. + +So duas lithographias, que ninguem compraria n'um leilo, se ignorasse +que ellas tinham pertencido a Camillo e ornado o seu quarto de cama. + +Uma o retrato de Theophile Gautier, que foi o chefe do estado-maior no +exercito do general Victor Hugo, durante as campanhas incruentas do +romantismo. + +A sua _toilette_ caracterisa nitidamente essa poca literaria, em que os +nephytos revolucionarios procuravam desafiar a opinio publica e +_pater le bourgeois_ exhibindo fatos alarmantes pelo exagero da cr e +do crte. + +Primeiro que tudo, falemos da cabelleira romantica, essa floresta de +cabellos cahidos sobre os hombros, que denunciava primeira vista os +literatos e os pintores. + +Agora, em nossos dias, muitos pintores e alguns poetas tem querido +resuscital-a por amor da celebridade; mas, ai d'elles! fazem lembrar os +mascarados que no carnaval moderno se vestem de pagens de Luiz XIV ou de +cortezos de Luiz XV. + +Deslocados do seu meio e do seu tempo, apenas conseguem dar uma falsa +noo historica: so parcellas que sobrevivem a uma addio que se apagou. + +A cabelleira, como ornato capillar, efemina ridiculamente os homens de +hoje. + +Como caracteristica d'uma poca, passou com essa poca: uma recordao +archeologica, que assenta melhor no muzeu do Carmo do que n'uma cabea +humana. + +Theophile Gautier, que era ento um rapaz, a quem o bigode pennujava +ainda, veste casaco de alamares--esse casaco-broquel, que defendia os +coraes romanticos. + +O romantismo foi uma seita aguerrida, propensa a brigas e reptos. Por +isso, talvez, adoptou o casaco de alamares, que tinha o que quer que +fosse de aspecto militar, de lamina protegendo o peito de um couraceiro. + +No pescoo, um leno de seda preta, alto como o gorjal de um cavalleiro +antigo. + +Honrado leno de seda, que durante tanto tempo adornaste o pescoo de +nossos pais! tu tinhas uma eloquencia clamante e solemne. Davas ao +pescoo humano uma attitude erecta e firme, como a de um busto de +marmore ou de um granadeiro em formatura. + +Dir-se-ia que os pescoos, grossos e aprumados, tinham ento musculos de +ao, a envergadura de uma aguia ou de um cysne. Precisavam uma +encadernao condigna, forte e austera. + +Depois vieram as gravatas multicores e multiformes, dando a impresso de +fitas garridas para adorno de damas. + +E a Academia Real das Sciencias decidir, porque muito capaz d'isso, +se foram os pescoos que adelgaaram por amor das gravatas, se foram as +gravatas que adelgaaram por amor dos pescoos. + +O outro retrato de Alphonse Karr, tambem ento em plena mocidade. Tem +buo e mosca, levemente esboados; e usa apenas meia cabelleira. Mas o +effeito da _toileite_ compensa, como excentricidade de _pose_, a +deficiencia da cabelladura. + +Karr veste camisa de trabalho, desafogada no pescoo, e sobre ella um +amplo gabinardo, que tanto poderia servir a um pescador ou um +jardineiro, como a um escriptor em actividade--porque tudo isso foi o +auctor das _Gupes_, sendo elle proprio uma obra em trez volumes. + +Tambem no sei se a Academia Real das Sciencias querer dar parecer +sobre o facto, em que fiz reparo, de Theophile Gautier ter sobrancelhas +desenhadas em arco e Alphonse Karr sobrancelhas colleadas em til. + +Pode ser que das ponderaes da Academia a este respeito venha a +fazer-se nova e difinitiva luz sobre a apreciao critica de Gautier e +Karr. + +Ha muito a esperar da Academia, tanto mais que ella ainda no fez nada. + + * * * * * + +Da saleta de Camillo passmos ao quarto de cama da viscondessa de +Correia Botelho, igualmente desmobilado. + +Foi ali que essa linda mulher, de frmas esculpturaes, envelheceu e +expirou. + +D. Anna Augusta Placido falleceu repentinamente da ruptura de um +aneurysma, no dia 20 de setembro de 1895 pela manh. + +Tinha accordado bem disposta e, a breve trecho, veio a morte +surprehendel-a. + +Aps algumas golphadas de sangue, cahiu exanime na almofada do leito. + +Morreu corajosamente, rodeada pelos netos. + +Ella, que teve uns olhos cheios de brilho e de magia, estava quasi cega +quando morreu. + +J no podia lr, nem escrever. + +Eu ignorava esta circumstancia, que me foi agora communicada em Seide. + +Extranho destino o d'essas duas almas, Anna Placido e Camillo, que o +amor reuniu, que a convivencia torturou, e que a desgraa da cegueira +feriu implacavelmente na velhice, para que ambos exgotassem at s fezes +o mesmo calix de amargura. + +Aqui terminou a nossa visita casa deshabitada de Seide, rodeada de +pinheiraes gementes, mais triste agora do que nunca. + +Por vezes o sr. Carvalho aligeirou a melancolia que nos acabrunhava ali, +evocando alguma recordao anecdotica da vida de Camillo. + +Quando sahiamos o porto da quinta, dizia-nos o sr. Carvalho: + +--Um dia, Camillo, vindo do Porto, preveniu o chefe da estao de Villa +Nova de que esperava brevemente a visita de um bacharel e pediu-lhe +que o guiasse para S. Miguel de Seide. Sempre que chegava um comboio, o +chefe da estao perguntava: Vem ahi algum sr. doutor, que deseje ir +para Seide? Ninguem respondia. At que finalmente appareceu o +bacharel annunciado: era um burro que Camillo Castello Branco tinha +comprado no Porto. + + * * * * * + +Como voltassemos casa do Nuno, para nos despedirmos dos netos do +grande romancista, pois que s o pequeno Camillo nos tinha acompanhado, +aproveitei o caminho para fazer algumas perguntas sr. D. Anna. + +--O sr. visconde de Corra Botelho no reservou para si alguns livros e +manuscriptos, quando vendeu a bibliotheca? + +Obtive esta resposta: + +--Sim, senhor. Mas a sr. viscondessa recommendou-me muitas vezes que os +no mostrasse a ninguem antes de entregal-os aos netos. + +Fiquei, confesso, um pouco contrariado, mas no tinha que replicar. + +Perguntei sr. D. Anna por um antigo criado de Camillo, que eu +conhecra na Povoa de Varzim e do qual o grande romancista me disse +n'aquella praia: Manoel Cannio a unica pessoa que manda na minha +casa. Assumiu a dictadura e no sabe governar d'outro modo: dava um bom +ministro... constitucional. + +Poucas horas depois sahiamos, Camillo e eu, para ir dar um passeio. + +O Manoel Cannio appareceu-nos na escada e interpellou seu amo dizendo-lhe: + +--V. Ex. vai sem paletot? + +Camillo respondeu passivamente: + + [Ilustrao: NUNO] + +--A tarde est quente, e ns demoramo-nos pouco. + +Manoel Cannio, em plena dictadura, replicou: + +--V. Ex. vai vestir o paletot; queira esperar, que vou buscal-o. + +Camillo encolheu os hombros, sorrindo. E ambos espermos que o paletot +chegasse. + +Andmos visitando os cafs e as roletas. Quando recolhiamos a casa, +passmos por uma taberna onde estavam zangarreando viola. Camillo parou, +olhou para dentro da tasca, e disse-me: Quem toca o Manoel Cannio. +Por isso que eu o soffro. + +Segundo me contou a sr. D. Anna Correia, Manoel Cannio fra para o +Brazil, onde se demorra alguns annos; regressou outro dia, mais pobre +do que tinha ido. + +Voltando casa do Nuno, tornei a falar na necessidade de, com o auxilio +do Estado, serem convenientemente educados os netos de Camillo. + +E de repente ataquei um assumpto novo: + +--Estes meninos tem uma tia no Porto, bem casada, supponho eu. + +A sr. D. Anna respondeu promptamente: + +--Tem, certo, mas as nossas relaes esto cortadas. + +No pude ento reprimir uma expanso que me desafogou o animo: + +--V. Ex. est pois convencida de que estes meninos tem uma tia no Porto? + +--Estou, sim, senhor. + +--Tambem eu, minha senhora. + +O sr. Carvalho interveio na conversao, pondo-se a p e dizendo com +grande hombridade: + +--Negal-o foi uma loucura. + +Achei que era chegado ento o momento opportuno de arrancar a mascara +que me constrangia. + +--Pois bem, minha senhora, disse eu, desde que no corro o risco de ter +que contrariar a opinio de V. Ex. em sua propria casa, devo +declarar-lhe o meu verdadeiro nome: eu sou Alberto Pimentel. E agora +peo mil perdes a V. Ex. por ter usado de um disfarce, que me foi +imposto pelo respeito e considerao que devia a V. Ex. Eu no podia, +na sua presena, ter uma opinio que, sobre to melindroso negocio de +familia, lhe causasse desgosto. + +O sr. Carvalho sorria triumphalmente. A sr. D. Anna respondeu com +indulgente cortezia, dizendo: + +--Eu tinha-o suspeitado desde que V. entrou. Em 1892 o Nuno, estando ns +na Povoa, mostrou-me V. no _Caf Chinez_; no dia seguinte tornmos a +vl-o de tarde, no Passeio Alegre. E o Nuno dizia-me ento: No haver +aqui um homem, amigo de ambos, que pudesse reconciliar-nos! O que +certo que eu tinha fixado a physionomia de V. e mal podia acreditar +n'uma to completa similhana entre a pessoa que eu vira na Povoa e a +pessoa que hoje me visitava com nome differente. + +O sr. Carvalho, de p, no meio da sala, continuava a sorrir +triumphalmente, esperando a occasio de dizer: + +--A mim tambem no me enganou V. Logo que o vi, perguntei ao sr. Trpa: +Este no o Alberto Pimentel? + +E o sr. Adriano Trpa confirmou: + +--Foi o que elle me disse ao ouvido, agarrando-me pelo brao. + +--O que lhe respondi eu? insistiu o sr. Carvalho. + +--Que tinha a certeza de que no era outra pessoa. + +O sr. Carvalho explicou que me conhecia de S. Miguel de Seide, e que, na +Povoa de Varzim, viera esperar-me estao com o Nuno no anno em que eu +ali fra visitar Camillo. + +A sr. D. Anna Corra disse ento como se quizesse apresentar-me +officialmente o sr. Carvalho: + +-- um nosso velho amigo, que o sr. visconde (Camillo) estimava muito. + +E, sorrindo, acrescentou: + +-- o Jos Fistula do _Eusebio Macario_... + +O sr. Carvalho atalhou jovialmente: + +--Com a differena de que no sei tocar guitarra, nem cantar o _Fado_. +Camillo brincava comigo; mas era meu amigo a valer, e eu adorava-o. + + * * * * * + + certo que o genial romancista, na vida alde de Seide, se entretinha +familiarmente com a gente do campo. No me refiro ao sr. Carvalho, que +um camponez relativamente illustrado. Mas ainda outro dia vi em Santo +Thyrso um velho jornaleiro que anda hoje pedindo esmola, e que recita +perlengas mythologicas e polyglottas leccionadas por Camillo. Chama-se +Joo de Seide e deve ter perto de setenta annos. Repete +inconscientemente, como um phonographo, o que lhe ensinra o grande +romancista em horas de bom humor. Por exemplo: + + +Jupiter era um deus omnipotente no Olympo. Venus era sua filha e me de +Cupido, deus do amor. Um dia Jupiter escamou-se com Vulcano, deu-lhe um +pontap no trazeiro, e deixou-lh'o ao lado. + + ---- + +Em francez, _bonne nuit_ boa noite; e _bon soir_, boa tarde. + +Em inglez, _good night_ boa noite. + + ---- + +O verbo ser conjuga-se assim em francez + + Je suis + Tu es + Il est + Nous sommes + Vous tes + Ils sont + + ---- + +A China tem mais habitantes do que a Russia, mas a Russia maior em +territorio. + + ---- + +Em Villa Nova de Famalico, onde uma das novas ruas tem o nome de +Camillo, ha um botequim conhecido pelo _Caf do Gato_. + +Gato o appellido do seu proprietario, um velho rijo e so, ainda com +filhos pequenos. + +Era o botequim habitual de Camillo quando passava em Famalico. + +Ali se entretinha o grande escriptor chalaando com o velho Gato, cuja +rusticidade de trato eu pude aferir pelo dialogo que se travou, na minha +presena, entre elle e um cavalheiro de Famalico, ao entrarmos +ultimamente n'aquelle botequim com outros cavalheiros de Santo Thyrso. + +-- Gato, venha vr o que estes srs. querem tomar. + +Resposta d'elle: + +--No preciso. Pea de l, que eu sirvo de c. + + de notar que esta resposta agreste, no trato da gente rustica do +Minho, no exclue bondade de caracter. No v suppr-se que o +proprietario do caf de Famalico seja um gato bravo da bocca para +dentro. + +Mas o caso vem a proposito para mostrar que n'estas e outras +rusticidades se recreava Camillo emquanto a cegueira o no isolou em +Seide na treva e no desespero. + +O grande escriptor tinha um vocabulario pittorescamente ironico para +exprimir os ridiculos e desleixos da vida campestre. + +Assim era que, segundo vejo n'um jornal minhto, designava pelo nome +bucolico de _boninas_ as stratificaes fecaes que matizam e embalsamam +os caminhos nas villas e aldeias do Minho. + +Tem verdadeira graa pastoril: boninas! + + * * * * * + +Reatemos a narrativa no ponto em que a deixmos: o motivo do meu disfarce. + +A sr. D. Anna asseverou mais uma vez que Nuno Castello Branco tinha +desgosto de haver provocado a questo a que me constrangeu logo depois +da morte de seu pae; mas que fra arrastado a isso por despeitos de +familia, em consequencia de sua irm ter mandado depr uma cora, com +palavras de filial saudade, sobre o fretro de Camillo. + +O sr. Carvalho, por sua vez, acrescentou: + +--Quando o Nuno foi levar ao Porto o manuscripto do _Protesto_, +disse-lhe eu: No faas isso, Nuno, que uma loucura. Vaes contradizer +a verdade. E olha que chega para todos vs a gloria de teu pae. + +--Mas o Nuno, insistiu a sr. D. Anna, estava arrependido e no tinha +odio nenhum a V. E a sr. viscondessa sempre, n'outras occasies, se lhe +mostrou muito affeioada, falando de V. com especial estima. + +Certifiquei a sr. D. Anna de que eu procurei, quanto pude, evitar essa +deploravel questo e poupar pessoalmente o meu adversario. Houve apenas +uma insinuao que me feriu: a de que eu, por um vil interesse, o +dinheiro, defendia a causa da filha de Camillo, quando certo que eu +nunca tivera intelligencias com o marido d'esta illustre senhora, e que +at o no conheo. Mas essa mesma insinuao ficava esquecida, como se +nunca houvesse existido, desde o momento em que eu tinha a certeza de +que Nuno Castello Branco se arrependra de a ter escripto. + +No decurso da conversao vi-me rodeado pelos netos de Camillo, como se +eu fosse j um familiar d'aquella casa. Principiei a sentir-me estimado +ali, o que me recompensou largamente de quantos desgostos a questo do +_Protesto_ me causou. + +Considero esse dia como um dos mais felizes da minha vida. + +O pequeno Camillo viera sentar-se no soph, a meu lado, interessando-se +muito, com a mo enconchada sobre a orelha direita, pela nossa conversao. + +A sr. D. Anna Corra tivera a encantadora bondade de dizer-me: + +--Apesar da recommendao da sr. viscondessa quanto aos livros do sr. +visconde, eu quero mostral-os a V.: a maior prova de estima que posso +dar-lhe. Tenho a certeza que se a sr. viscondessa fosse viva, +procederia do mesmo modo. Tambem ella faria esta excepo. + + * * * * * + +D'ali a pouco subimos ao segundo andar para vr o que resta da +bibliotheca de Camillo: uns duzentos volumes talvez, repartidos por duas +estantes envidraadas. Algumas obras manuscriptas, poucas: lembro-me de +ter visto uma genealogia em varios tomos. Entre os livros encontrei dois +meus: _A Jornada dos Seculos_ e a _Flor de myostis_. + +Depois entramos no quarto em que Camillo dormia quando alli se demorava +temporadas. + + um amplo compartimento, cheio de luz, com largas janellas que deixam +espraiar-se o olhar por cima dos pinheiraes at alcanar o cume de +montes longinquos. + +Quando Camillo habitava aquelle quarto, j estava cego. Mas se no podia +contemplar o panorama, cheio da placidez e melancolia que caracteriza os +bastos pinheiraes tranquillos, devia sentir o calor do sol que invadia o +aposento. + +A alma de Camillo teria certamente n'essas horas bem menos placidez que +a floresta dormente. + +Abundam n'esse quarto os retratos de familia, muitas recordaes de um +passado a que o amor deu momentos de felicidade e seculos de amargura. + +Havia ali, em todo aquelle segundo andar, um bello nucleo de muzeu +camilliano. + + [Ilustrao: RACHEL] + +Foi n'esse mesmo andar que Jorge Castello Branco, o infeliz primogenito +de Camillo, passou os ultimos tempos da sua curta existencia. + +Contou a sr. D. Anna Corra que elle tinha horror a vr os criados da +casa. Postas as refeies sobre a mesa, os criados sahiam; e o Jorge +entrava depois. Algumas noites prestava-se a tocar piano--esse piano que +era de sua me e que ella havia levado para a Cadea da Relao do +Porto--mas exigia que ninguem estivesse presente. A musica foi uma das +muitas aptides artisticas do Jorge. Eu j disse algures que elle, em +noites de luar, se empoleirava nas arvores de Seide a tocar flauta. + +Queria viver isolado no seio da propria familia. No consentia que lhe +fizessem limpeza no quarto. Se alguem se quizesse aproximar, cuspia-lhe. + +No dia 2 de setembro de 1900, o Jorge no se levantou para ir almoar. A +porta do seu quarto estava fechada por dentro, como era costume. + +A sr. D. Anna Corra chamou-o: + +--Sr. Jorge, so horas do almoo. + +Elle respondeu: + +--J vou. + +Mas passou tempo sem que se levantasse. + +Tornaram a chamal-o. + +--J vou, repetiu elle. + +Mas, como no apparecesse, a sr. D. Anna resolveu entrar no quarto pela +janella, o que foi empreza difficil. + +Achou o Jorge doente, apathico, n'um estado gastrico que, n'esse +momento, lhe pareceu no offerecer maior gravidade. + + * * * * * + +D'aqui por deante, a narrativa da sr. D. Anna Corra conforma-se +inteiramente com a verso que o sr. Jos de Azevedo e Menezes, da +illustre casa do Vinhal, em Famalico, me communicou n'uma carta, por +mim j publicada. + +Vou reproduzil-a, para que no fique perdida na volumosa colleco de +uma folha diaria: + + +Em resposta estimada carta de v. , tenho a dizer-lhe que o infeliz +Jorge de Castello Branco falleceu em casa de D. Anna Corra, a +companheira do Nuno, no dia 10 do corrente mez, s 6 horas da tarde, e +enterrou-se no dia 12, assistindo alguns visinhos. + +Tratou-o nos ultimos quinze dias de vida o medico Dias de S, de +Landim, que logo previu o desenlace fatal. + +No dia 2 d'este mez o Jorge sentiu-se mal do estomago, talvez por ter +debicado as primeiras uvas e pras do quintal da casa. Um ligeiro +laxante deu-lhe melhoras, que infelizmente se no mantiveram, cahindo +com desmaios e no podendo conciliar o somno. + +A final veiu a paralysia cerebral que o matou sem agonia. De vez em +quando gemia e invocava a Deus! Durante um desmaio na manh do dia em +que morreu, foi ungido. + +No se lhe notou hora da morte o intervallo lucido, que s vezes +apparece nas doenas mentaes. + +Tinha, porm, amor vida, esperando obter melhoras dos remedios, que +s tomava nos caldos e leite pela mo da sua desvelada enfermeira D. +Anna Corra, que foi para o infeliz louco uma carinhosa me. + +Fui visitar essa bondosa mulher, e fiquei agradavelmente impressionado +da sua apresentao e do bom senso, que mostrou em alguns pontos da +nossa conversa. A rudeza da sua origem poliu-se no trabalho e +soffrimento, que lhe deram os desgraados com quem viveu. A mulher s se +engrandece pela bondade, que a sua belleza moral. + +O grande desejo de D. Anna educar bem os seus filhos, mas como poder +desempenhar-se d'esta nobre tarefa sem recursos? urgente abrir uma +campanha a favor d'ella, para que lhe acuda o governo ou as almas +bemfazejas. Inicie v. na imprensa periodica esta nobilissima misso. Os +dois filhos mais velhos so intelligentes, principalmente o Camillo, que +eu fixei com atteno e descobri-lhe traos physionomicos do glorioso +av. O rapaz triste e concentrado e quer ser Padre... At n'isto se +parece com o grande escriptor, que no verdor dos annos pensou em se +prender Egreja. A sua ultima assignatura foi no assento do baptismo +d'este seu neto e afilhado, feita em casa de Nuno e sobre um piano, por +lhe ficar mais a geito. + +Ao sahir da casa de D. Anna Corra olhei para a outra proxima, aonde +viveu e morreu o incomparavel prosador portuguez. Est agora mal pintada +de amarello e triste como a tragedia que a fechou. N'aquelle gabinete de +Camillo apagaram-se os ultimos lampejos da sua conversa encantadora, +esmaltada sempre de ironias, cortantes como o nordeste. + +Que tristeza e que lio para todos ns! Creia-me sempre + + De V. etc. + + _Jos de Azevedo e Meneses._ + +S/C do Vinhal, 16-9-900. + + * * * * * + +Os jornaes do norte do paiz, noticiando a morte de Jorge Castello +Branco, logo fizeram sentir que, tendo cessado com a sua vida a penso, +os netos de Camillo ficavam quasi reduzidos miseria. + +Dizia o correspondente de Famalico para _O Commercio do Porto_: + + + +FAMALICO, 12.--Em S. Miguel de Seide sepultou-se hoje Jorge Castello +Branco, ultimo filho do finado romancista Camillo Castello Branco. + +De ha muito que o seu viver era o de um verdadeiro louco, temendo todos +e passando os dias n'um aposento sem o convivio de pessoa alguma. O seu +fallecimenio foi um verdadeiro desastre para seis netos do grande +romancista, pois que a penso que o governo dava ao finado custeava +tambem a educao das creanas, que agora ficam ao desamparo.--(_M. G._) + + +Escrevia o _Lusitano_, de Famalico, no mesmo dia 12: + + +Acaba de fallecer em Seide o filho mais velho de Camillo Castello +Branco, o pobre louco to amado pelo immortal auctor do _Amor de +Perdio_ e tantas outras joias que ho de fulgurar seculos em fra, na +litteratura nacional. + +Ha muito que o Jorge, doido, doido desde tenra idade, fugia +completamente do convivio social. + +Vimol-o ha semanas, pela ultima vez que veio villa, causando immensa +pena a precocidade da sua velhice e, mais nos commovemos ao attentarmos +no seu perfil, que muito se parecia com o de seu pae. + +Como sabido, o filho mais novo de Camillo deixou bastantes filhos na +miseria, servindo-lhes de amparo a penso que o governo dava ao Jorge. + +Morto este, ficam os netos de Camillo sem recursos de qualidade alguma. + +Pois quando mais no seja se no para honrar a memoria de Camillo, deve +o governo continuar a dar a seus netos a pequena quantia que deu ao +Jorge durante alguns annos. + +O pequeno Camillo Castello Branco e seus irmos no devem ficar ao +desamparo. + +Quem sabe at se, educados os netos do genial _Solitario de Seide_, +algum d'elles no ser ainda muito util s letras patrias, continuando a +honral-as como honradas foram mais de meio seculo por seu av o querido +Mestre? + + * * * * * + +A penso ao primogenito de Camillo havia sido concedida por um decreto +depois sanccionado pelo parlamento nos seguintes termos: + + +Artigo 1. approvado o decreto de 23 de maio de 1889, pelo qual, em +reconhecimento publico dos relevantissimos servios prestados s letras +patrias pelo visconde de Correia Botelho (Camillo Castello Branco), +concedida a seu filho Jorge Camillo Castello Branco a penso annual e +vitalicia de 1:000$000 ris. + + unico. A penso de que trata esta lei isenta do pagamento de +quaesquer impostos, e ser abonada desde a data do decreto que a +concedeu, ao visconde de Correia Botelho, em quanto vivo fr. + +Art. 2. Fica revogada a legislao contraria a esta. + + +Os filhos do visconde de S. Miguel de Seide, netos de Camillo, aos quaes +faltou o amparo da penso que o tio recebia, so, pela ordem +chronologica do nascimento: + +Flora, nascida a 11 de janeiro de 1886. + +Camillo, nascido a 16 de maro de 1888, no mesmo dia e mez em que nasceu +o av, que era seu padrinho. + +Nuno Placido, nascido a 4 de maro de 1889. + +Rachel, nascida a 21 de fevereiro de 1890. + +Simo, nascido a 6 de julho de 1891. + +Manuel, nascido a 23 de abril de 1893. + +Um motivo especial, que logo referirei, leva-me a fazer duas +transcripes do jornal de Famalico, _O Lusitano_, apezar de em +qualquer d'ellas se encontrar o meu nome acompanhado de adjectivos que +eu considero apenas um amavel cumprimento de quem os escreveu. + +Agradeo-os, mas declino-os por immerecidos. + +No me assiste, porm, o direito de mutilar as transcripes. + +Dizia _O Lusitano_ no seu numero de 29 de agosto do corrente anno: + + +Noticimos, ligeiramente, a semana passada, a estada, em S. Miguel de +Seide, de visita aos netos de Camillo, do illustre escriptor sr. Alberto +Pimentel. + +No conhecemos as impresses, que a sua ex. resultaram da volta, +passados tantos annos, casa do grande escriptor seu amigo. Mas no nos +seria desagradavel saber se o nosso estimado confrade do _Popular_ +tomou, ou no, a resoluo de contar no jornal, que redige, como justo +que o governo tome a iniciativa de proteger, de algum modo, os +malaventurados netos do grandioso estylista. + +Tem-nos contado pessoas, que privam com a familia de Seide, que ha, +entre aquellas seis creanas, uma--o Camillo--possuidora de +intelligencia rara. + +Se assim , no faz pena que a falta de recursos constitua embarao ao +aproveitamento d'aquelle rapaz? + +No ha duas opinies divergentes sobre a justia de continuar, em favor +dos descendentes do eminente romancista, o subsidio, que este primeiro +aproveitou e que se extinguiu pela morte do Jorge. Vo os rendimentos do +Estado, dia a dia, para applicaes muito menos comprehensiveis. + +O sr. Alberto Pimentel, que foi casa de Seide, decerto viu o que +aquillo , comparativamente com outros tempos. + +Ponha, por conseguinte, s. ex. todo o enorme merecimento da sua penna +e das suas relaes ao servio d'esta causa. o maior testemunho de +amizade que pde prestar memoria do extraordinario escriptor. E evita +que se reedite aquella to conhecida e fustigante phrase de Garrett, que +constitue, com motivo, um castigo severissimo contumaz ingratido do +nosso meio. + + [Ilustrao: SIMO] + +Eu tinha necessidade de commentar esta transcripo para explicar o meu +procedimento. + +Se, immediatamente minha visita familia de Seide, no publiquei no +_Popular_ as impresses que ali recebra ao observar de perto a vida dos +netos de Camillo e, portanto, a justia da sua causa, foi porque logo +fiz teno de me occupar do assumpto com maior desenvolvimento do que +aquelle que poderia dar-lhe n'um ou dois artigos de jornal. + +Desobrigo-me agora do compromisso que tomei comigo mesmo. + + * * * * * + +Poucos dias depois de ter lido a noticia do _Lusitano_, acima +transcripta, recebi do sr. Rodrigo Terroso, jornalista distincto e +escrivo-notario na comarca de Famalico, uma carta relativa s +impresses que eu teria trazido de Seide e ao que eu estaria disposto a +fazer em favor da penso. + +Respondi na volta do correio, e o teor da minha resposta resalta da +seguinte noticia que _O Lusitano_ publicou no dia 3 de setembro: + + +Ao director politico d'esta folha que acompanhou, particularmente, +perante o sr. Alberto Pimentel o pedido feito aqui ha oito dias em favor +dos netos de Camillo, respondeu, de prompto, o apreciavel escriptor e +jornalista com uma carta, que a promessa solemne de intervir no +sentido rogado. + +... fui expressamente a Seide para me orientar na questo da penso aos +netos de Camillo. + +Na proxima legislatura trabalharei por conseguil-o, no que espero ter o +auxilio de Antonio e Jos de Azevedo. + +No farei parte do parlamento, mas envidarei os maiores esforos +possiveis junto do parlamento e do governo. + + solemnissima a promessa. Fiamos de que ser cumprida. Sobre dar-se +com o sr. Alberto Pimentel a circumstancia de haver sido dos amigos mais +sisudos de Camillo, accresce que o distincto escriptor lisbonense +conhece, ao presente, em pessoa, a justia da causa, que tanto tem +merecido as nossas sympathias. E dizemos assim porque ainda ninguem a +advogou com to fervente empenho como ns, que fomos, at, o primeiro a +patrocinal-a. Consta isso de correspondencias que o _Primeiro de +Janeiro_ publicou logo a seguir morte do Jorge, sem falar no pedido +directo que, immediatamente, apresentamos ao sr. conselheiro Antonio de +Azevedo, sobrinho de Camillo, muito apreciado por este. E que o notavel +homem publico trabalhou n'esse sentido, mais seu irmo sr. conselheiro +Jos de Azevedo, disse-o, poucos dias decorridos, um telegramma para o +_Diario da Tarde_, confirmado, simultaneamente, por algumas gazetas de +Lisboa. + +O sr. Alberto Pimentel affiana-nos a interveno d'estes dois +auxilios. Pois caso para nos julgarmos felizes com a felicidade certa +dos netos de Camillo. + +_P. S._--_O Regenerador_ refere-se, sobre o mesmo motivo, a uma carta +antiga do sr. Jos de Menezes ao sr. Alberto Pimentel. Era o sr. Menezes +um dos amigos de Camillo. No sabiamos que tinha intervindo. Fel-o e +procedeu cavalheirosamente. Est na reconhecida correco de s. ex.. + +Trabalhemos todos--todos os que veneramos a memoria de Camillo--sem +excepo de ninguem, no empenho de vencer esta causa santa, que a +Justia inspira e que o Patriotismo recommenda. + + uma divida nacional, que tem de ser paga. Somos todos devedores; +honremo-nos pagando. + + * * * * * + +A Sr. D. Anna Corra cumulou-me de amaveis deferencias logo que o meu +disfarce cahiu. Uma d'ellas, a que mais encantado me deixou, foi a +gentileza de me obzequiar com os dois quadrinhos, os retratos de Gautier +e Karr, que estavam na saleta contigua alcova de Camillo. + +Se bem que um pouco damnificados pela aco do tempo, como se pde vr +na reproduco, elles representam para mim um valor inestimavel. + +Fil-os authenticar com a seguinte declarao, que mandei imprimir e +collar no tampo da moldura: + + ESTE QUADRO ESTAVA NO QUARTO DE + CAMA DE CAMILLO CASTELLO BRANCO EM + S. MIGUEL DE SEIDE. FOI-ME DADO ALI PELOS + SEUS HERDEIROS, A 20 DE AGOSTO DE 1901, + NA PRESENA DO SR. ADRIANO DE SOUZA + TREPA, DE SANTO THYRSO, E FRANCISCO + CORRA DE CARVALHO, DE SEIDE.--ALBER- + TO PIMENTEL. + +Foi o sr. Carvalho que, trepado a um banco, os despendurou da parede, +fronteira s janellas. + +Mais nua ficou ainda desde essa hora a casa solitaria de S. Miguel de +Seide. + +Aqui tenho eu, deante dos olhos, esses dois velhos companheiros de +Camillo, seus camaradas e seus hospedes, Gautier e Karr, com os quaes +conversarei longamente sobre a vida e a morte d'esse que foi nosso +commum amigo e que elles to de perto viram soffrer e sonhar--por tantos +dias e tantas noites. + +Da parede onde estavam enthronisados s podiam avistar todo um horisonte +de pinheiros a esbater-se, ao longe, na vertente de uma vasta corda de +montes. + +Coitados! a principio devia custar-lhes muito terem que trocar Pariz +pelo Minho, o bulicio pelo silencio, os _boulevards_ pelos pinheiraes, a +capital do mundo pela aldeia erma e profunda. + +Mas o campo, como o oceano, uma solido apenas repulsiva nos primeiros +tempos de uma iniciao forada; depois identifica-se tanto com a nossa +alma, penetra-a de uma to saudavel tranquilidade e doura, que se torna +quasi uma religio: no ha meio de arrancar o camponez ao seu tugurio e +o marinheiro ao seu beliche. + +Agora, saudosos da Thebaida de Seide e do grande espirito que a povoava, +viro constrangidos, Gautier e Karr, defrontar-se, atravs da minha +janella, com as trapeiras d'esta revlta casaria de Lisboa, cahotica e +asymetrica, que apenas deixa ver escassos retalhos de cu azul na +claridade limpida do ar. + +Sou eu o primeiro a lamental-os, mas nem por isso os guardarei com menor +vigilancia; altas personagens de que me constituiram carcereiro, saberei +amal-as, mas saberei tambem garantir a sua posse--como a de dois +inestimaveis valores que vieram enriquecer o meu thesouro camilliano. + +Devo ainda sr. D. Anna Corra a gentil prodigalidade de outra +offerta: o retrato de Manoel Pinheiro Alves, primeiro marido da +viscondessa de Corra Botelho. + +Quando publiquei _Os amores de Camillo_, muito desejei eu obter este +retrato; mas n'essa occasio faltava-me a certeza de que o meu pedido +no seria uma inconveniencia irritante. + +Confessei-o agora sr. D. Anna Corra, que espontaneamente me +offereceu um exemplar em photographia. No album de Seide havia dois, +tirados em Pariz, no tempo de Napoleo III, casa Mayer & Pierson, +boulevard des Capucines, 3. + +Incluirei esse retrato n'uma segunda edio d'_Os amores de Camillo_, se +algum dia a fizer. Aqui no o seu logar proprio. Mas quero dar uma +rapida impresso da pessoa de Manuel Pinheiro Alves: alto, magro, face +glabra, olhos pequenos e fundos, escasso cabello penteado sobre a orelha +direita; vestindo correctamente de preto, sobrecasaca comprida, gravata +em lao. _Toilette_ de velho, harmonisando com a physionomia; mas de +velho que, por amor de uma mulher, quer apurar o vestir. + +Tem o aspecto grave de ser o pai de D. Anna Placido, no o marido. + +Tambem agora fiquei sabendo que Manuel Pinheiro Alves nascra perto de +S. Miguel de Seide. + + * * * * * + +Quando voltmos casa de Camillo, para eu receber os dois quadrinhos, +parei um momento, ao sahir, no topo da escada de pedra. + +Corri os olhos pelo vasto pinheiral circumjacente, que fecha o horisonte +n'uma faxa verde-negra. Tive n'esse momento a nitida comprehenso do que +seriam ali as longas noites de inverno, ouvindo gemer os pinheiros na +solido profunda de uma alda minhota. + +--Pobre Camillo! disse eu, como se estivesse pensando alto. As suas +noites aqui deviam ser horriveis! + +O sr. Francisco Corra de Carvalho replicou: + +--As tardes, as tardes de Camillo que eram ainda mais agitadas e +tormentosas do que as noites. Depois de jantar, soffria muito; +excitava-se, tinha desesperos, frenesis, que nos amarguravam tambem a ns. + + facil a explicao d'este phenomeno pathologico. + +As crises visceraes, dolorosas, so vulgares nos tabeticos. Ou vem com +as _dores fulgurantes_ (Camillo teve-as) ou independentemente d'ellas. +Chegam a ser de violencia extrema, por vezes. E, entre essas crises +visceraes, a gastralgia frequente. + +O trabalho da digesto provocaria as torturas gastralgicas. + +Aps elle, quando em socego o estomago, a crise desapparecia, dando +treguas ao pobre Camillo. + +Eis aqui, pois, mais um pormenor do ingente drama de amargura que matou +o grande romancista. + +Voltei agora a Seide, depois de dezeseis annos de ausencia. + +Estive ali no mez de agosto de 1885. + +O opusculo _Uma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de +Seide_ recorda esse facto. + +Em agosto de 1901, repetida a jornada, j no encontrei nenhuma das +pessoas que em 1885 povoavam a casa de Seide: Camillo, D. Anna Placido, +Jorge e Nuno Castello Branco. + +Dir-se-ia que um desastre enorme victimra de um s golpe uma familia +inteira. + + que a fatalidade de certos destinos iguala-os na vida e na morte, +regulando as suas horas por uma unica ampulheta. + +Os desgraados que nasceram sob a mesma sina chamam uns pelos outros. + +Fui achar uma segunda gerao, uma ninhada de creanas intelligentes e +meigas, que se encontram, desprotegidas, beira de um abysmo insondavel. + +O seu dia de amanh no mais seguro do que a salvao incerta do +naufrago que, em pleno oceano, espera, sobre uma tabua fluctuante, um +acaso providencial, a passagem de um navio que o possa descobrir entre +montes de espuma. + +Uma debil creatura, precocemente envelhecida, e j cansada de soffrer, +hoje a garantia unica do futuro d'essas creanas, que no tem mais +ninguem no mundo alm de sua me, nem melhor patrimonio que alguns +palmos de terra scca e hypothecada. + +Seu av honrou a patria de um modo excepcionalmente grande, com a +fulgurao de um talento literario, que pde fazer inveja aos extrangeiros. + +Honre-se a patria a si mesma adoptando-lhe os netos, perfilhando-os +amoravelmente, salvando-os da miseria e do abandono, premiando n'elles a +gloria do av immortal. + + [Ilustrao: MANUEL] + +Cada dia, cada mez, cada anno que passa, complica, por sacrificios +exhaustivos, a situao da familia de Seide. Os netos de Camillo tem j +visto florescer muitas vezes a acacia do Jorge e chamado em vo pela +alma do av, que no voltou ainda com as auras de abril. Tornemos +realidade o que parece haver sido prophecia do grande espirito de +Camillo: que todas essas creanas invoquem de novo o nome do que +prometteu voltar. E elle voltar para acudir-lhes. Quando a acacia +outra vez inflore, o paiz ter feito justia, e Camillo ter voltado +para junto dos netos, assistindo-lhes em espirito, agasalhando-os com a +gloria do seu nome. + +Coraes justos, coraes bons, auxiliai esta santa cruzada: a de +despertar a patria adormecida. + +Leitores de cem romances, que uma s penna escreveu, agradecei aos netos +as lagrimas e os sorrisos com que o av tem preenchido deleitosamente +muitas horas da vossa vida, desde o _Anathema_, uma estreia, at aos +_Vulces de lama_, a ultima novella, raio de sol poente que no tardou a +apagar-se. + +Se quizerdes fazer isso, estar feito tudo. + + +Santo Thyrso--Lisboa. +Agosto a setembro de 1901. + + + + +NOTAS + + + + +PAGINA 6 + +... a crca do antigo mosteiro de Landim. + +Este mosteiro era de conegos regrantes de Santo Agostinho. Dizem-n'o +fundado por Dom Gonalo Rodrigues Palmeiro, senhor do couto da Palmeira. + +Na inquirio que o Cardeal D. Henrique mandou fazer sobre mosteiros de +Entre-Douro-e-Minho, o de _Landim_ designado como sendo a de Nossa +Senhora de _Namdim_. + +O conde D. Pedro, em seu _Nobiliario_, tambem diz _Namdim_. + + +PAG. 15 + +o monumento commemorativo da visita de Castilho, principe da lyra +portugueza, a S. Miguel de Seide, em julho de 1866. + +As relaes de amizade entre Camillo e Castilho comearam em 1854, no +Porto. Foi nesse anno e n'aquella cidade que pela primeira vez se +encontraram os dois em casa do Sr. Antonio Bernardo Ferreira, que ento +morava na rua da Boavista (casa da familia Garrett) e que organisou em +honra de Castilho um sarau literario. Camillo recitou versos de _Um Livro_. + +N'uma carta particular, enviada para Lisboa, dizia Castilho, relatando o +que se passra naquelle sarau: Camillo Castello-Branco, poeta e +prosador de elevado merito, etc. + +Julio de Castilho, publicando trechos d'esta carta, commenta a +referencia a Camillo dizendo que _essa amizade_, ento comeada no +Porto, ficou cimentada para sempre. (_O Instituto_, de Coimbra, n. 9, +vol. 48.) + +Foi Camillo, guia dos meus primeiros passos na vida literaria, quem me +ensinou a amar Castilho. + +Costumavam outr'ora as criadas velhas contar s creanas da casa lindas +historias de reis e principes encantados. + +Camillo, que foi de algum modo o meu _niero_ espiritual, falava-me +muitas vezes de um grande principe das letras, rei das canes lhe +chamou Herculano, protector de poetas, amador da natureza, acariciador +das creanas e propugnador da felicidade do povo pela instruco e pela +agricultura. + +Era Castilho, rei das canes, principe das letras, cego como OEdipo, +o famoso rei de Thebas. + +E assim como OEdipo encontrava o brao de sua filha Antigone para +guial-o carinhosamente na cegueira, Castilho tinha nos braos de seus +filhos outros tantos bordes amorosos que o ajudavam a firmar os passos +incertos e vacillantes. + +Recebi, pois, de Camillo o amor a Castilho, e de quanto elle o amava d +eterno testemunho esta encantadora dedicatoria do romance _Agulha em +palheiro_: + + + _Ao poeta das creanas, das flores, do amor, + da melancholia e dos desgraados, + ao illustrissimo e excellentissimo senhor + Antonio Feliciano de Castilho, + honra da patria + honra dos que o prezam, e amam a patria + offerece + o amigo, o respeitador, o discipulo mais devedor + Camillo Castello Branco_ + + +Em outro livro, _No Bom Jesus do Monte_, cita Castilho a par de +Lamartine e Victor Hugo, como sendo um nome que d humanidade orgulho +de o proferir. + +Durante a _Questo Coimbr_, nas _Vaidades irritadas e irritantes_ vem +estacada quebrar lanas pela gloria de Castilho, e escreve: ... o mais +enthusiasta admirador de Castilho, se algum houve que mais que eu lhe +devesse e o amasse... + +Foi assim que Camillo amou Castilho; foi assim que eu aprendi com +Camillo a amar Castilho. + + +PAG. 16 + +a dedicatoria da _Maria Moyss_ a Thomaz Ribeiro. + +Diz o texto d'essa dedicatoria: + + A + + THOMAZ RIBEIRO + + So passados dez annos depois que vieste aqui. Foi hontem; e a + pedra onde gravei o teu nome est denegrida como a dos tumulos + antigos. Debaixo d'ella esto dez annos da nossa vida. Jazem ali os + homens que ento eramos. Estou vendo Castilho encostado ao frizo da + columna tosca; estou ouvindo os teus versos recitados em nome de + meus filhos... Ah! verdade... tu no os recitaste porque tinhas + lagrimas na voz e no rosto. Que faria de ti a politica, meu querido, + meu poeta da patria e da alma: + + S. Miguel de Seide, novembro de 1876. + + +PAG. 16 + +A inscripo est quasi apagada, como j se apagou tambem a vida das +pessoas a quem ella se referia. + +O modesto monumento, de que fiz mais larga meno no opusculo _Uma +visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de Seide_, Porto, +1885, falla-me saudosamente de seis pessoas, cuja memoria conservo muito +viva entre as mais gratas lembranas do passado. + +D'essas seis pessoas, as ultimas a morrer foram Eugenio de Castilho, +fallecido a 8 de janeiro de 1900, e Thomaz Ribeiro, a 6 de fevereiro de +1901. + +Embora tenha de fazer uma annotaao talvez demasiadamente longa--o que +no sei se proprio do teor das annotaes--no posso ter mo em mim +que no complete, para o meu espirito, a historia do monumento de Seide +com as recordaes que me so suggeridas pelos nomes de Eugenio de +Castilho e Thomaz Ribeiro. + + * * * * * + +Uma coisa vos confessarei eu, sr. Dom Leonardo... + +Lembram-se? Vem nos _Logares selectos_, do padre Cardoso: um excerpto +da _Crte na aldeia_, de Rodrigues Lobo--dois livros bons, cada qual no +seu genero; bons como se faziam d'antes. + +Pois, j que a phrase me lembrou, adopto-a, mas cito ao menos a origem, +o que nem sempre se faz agora. + +Os tempos so outros; d'isso que me queixo. + +Uma coisa vos confessarei eu, srs. Dons Leonardos de hoje em dia, e +que me vou ralando de saudades pelos homens que conheci outr'ora, com os +quaes convivi e troquei impresses, que os no ha melhores, nem to +bons, como foram esses. + + [Ilustrao: A ACACIA DO JORGE] + +No quero dizer que todos agora sejam portuguezes de ruim panno; ha +excepes, mas to raras, que pode a gente gritar quando as encontra--L +vem um! + +Digo e redigo, porque d'isso estou convencido at medula dos ossos, +que os homens que eu tratei na mocidade me parecem semideuses se os +comparo com os de hoje. + +Doia-se quem doer, que me importam pouco essas coisas: at faz bem +gente sentir morder-lhe uma pontinha de malquerena-- como o frio de +janeiro, que arripia, mas provoca a necessidade de reagir contra elle. + +Eu venho de um tempo em que se dizia haver elogio mutuo. No era +elogio, mas justia. As cotaes, especialmente no mercado das letras, +andavam menos falsificadas. Ningum chegava ao p de um homem, de punhal +na mo, com o intuito de assassinal-o, para o glorificar depois de morto. + +Garrett estava no tumulo. Herculano fizera-se solitario em Val-de-Lobos. +Castilho vivia em Lisboa e abria as suas portas a todos quantos +mostravam paixo pelas letras. D'aqui veio o dizer-se que tinha Castilho +uma crte. No a procurava elle; procuravam-n'o, sim, todos, velhos e +novos, que desejavam encontrar uma atmosphera literaria em que podessem +respirar vontade. + +Mas a differena do tempo estava principalmente n'isto, que no era +pouco: ninguem, em casa de Castilho, nem dos seus, nem dos extranhos, se +julgava maior que elle. + +Por isso o respeitavam, medindo-lhe a grandeza, que fazia lembrar a das +estatuas, porque sendo vista de perto tomava ainda maior vulto. + +Era deliciosa essa casa de Castilho, onde a boa conversao literaria +teve um templo, como no ha, nem pde haver outro. No decorria ali uma +hora sem que se tivesse lucrado alguma coisa: aprendia-se sempre. Eram +tantos e to bons os de casa e os de fra, que nunca se apagava o lume +para as refeies do espirito. Mesa posta para os _gourmets_ da +intellectualidade; porta aberta para todos os que chegavam, fossem +gregos ou troyanos. + +Conheci Castilho na rua do Sol ao Rato, onde recebia na sua enorme +bibliotheca, uma vasta sala, que os melhores auctores de todos os paizes +e de todos os seculos povoavam de alto a baixo. Fazia respeito aquillo: +era uma cidade, um emporio de celebridades consagradas. + +Castilho, coroado de cans, dava a impresso de ser um patriarcha das +letras. Cego como Homero, via tudo o que queria vr; jmais houve um +cego que visse tanto. At lia mentalmente os titulos dos livros que o +rodeiavam. Aqui est o meu Bernardes, dizia elle: ia estante, punha o +dedo indicador n'um livro, e tirava a obra de Bernardes que desejava +citar. Parecia ter os olhos fechados para, concentrado, reforar por um +momento a viso, que depois se tornava mais aguda e perspicaz. + +Os seus olhos faziam lembrar os de D. Joo I: raa de escol, que j +vinha apurada de longe. + +Julio foi sempre o brao direito do pai, a sua luneta, o seu bordo, o +seu _alter ego_. O pai adorava-o; elle adorava o pai. No podiam viver +um sem o outro; eram como dois gemeos, duas existencias que se fundiam +n'uma s. + +Augusto, official de marinha, andava quasi sempre embarcado por +longinquos mares. Raro apparecia em Lisboa; mas Castilho lembrava-o +muitas vezes n'um impeto de saudade paternal, que a mais funda, a mais +incisiva, a mais cruel de todas as saudades. + +Ida de Castilho, com os seus bellos olhos pretos que pareciam estrellas, +era a gracilidade da mulher franzina a sorrir por entre clares de +intelligencia vivacissima. + +Eugenio, o filho mais novo de Castilho, era, em razo da sua idade, o +que tinha menos auctoridade literaria na familia, mas nascera poeta ali, +n'aquella familia de escolhidos, como se nasce escocez na Escocia. + +Foi este rapaz velho, porque a doena o envelheceu precocemente, que +morreu outro dia, em Sete Rios, mais longe do mundo que de Lisboa. + +Poucos se lembravam d'elle j: tinha esquecido, tinha passado, era um +morto que vivia longe dos vivos. + +O seu periodo de maior actividade foi de 1868 a 1869. Conheci-o ento, +como conheci Antonio Feliciano e Julio de Castilho: por cartas que o +correio trazia e levava, do norte para o sul, do sul para o norte. S +alguns annos depois nos avistmos, os Castilhos e eu, na rua do Sol ao +Rato. Mas eramos j amigos velhos, todos ns, quando nos encontrmos +frente a frente. + +Aqui tenho eu uma prova d'isso, n'esta meia duzia de paginas publicadas +em 1868 por Eugenio de Castilho, e intituladas _Patria, contra a +Iberia_, poema em bons alexandrinos, que eram os da casa, a melhor +officina de alexandrinos que tem havido at hoje em Portugal. + +Na dedicatoria, do punho do auctor, escreveu elle: Ao seu +amicissimo... Nunca nos tinhamos visto ento, mas eramos j to casados +na amisade, que nenhum de ns estranhou o superlativo. + +Eugenio tinha n'esse tempo 21 annos, e desabrochavam n'elle os talentos +literarios, que so morgado de Castilhos. Eram flores que conheciam o +terreno e o clima em que nasciam: medravam vontade. + +Quanto factura artistica, o poema _Patria_ trazia a marca da fabrica: +Castilho & Filhos. No havia firma mais acreditada nem ento, nem agora. + +Passo hoje pela vista, devorado de saudades, aquelle poema de 1868, e +transplanto para aqui alguns casaes de alexandrinos, que me parecem +ainda casaes de rouxinoes a namorarem-se nos bosques umbrosos de Portugal: + + Vs alm um telhado ao p d'aquelle olmeiro? + alli nasceu meu pae; alli amou primeiro. + + Quando eu era pequeno, ia, s vezes, ssinho + aos loireiros do val busca de algum ninho. + + Sob este parreiral to verde e to fragrante + beijei apaixonado a minha terna amante. + + Costumava ir de tarde ao moinho da serra + vr como o sol transpunha as montanhas da terra. + + Quanta vez, ao voltar da caa, eu me sentava + ao p d'essa cascata a ver-lhe a espuma brava. + + Os troncos da azinhaga, as silvas e as paschoinhas + ouviram-me cantar s vezes trovas minhas. + + Era-me gosto noite o rouxinol saudoso + dizendo beira d'agua o seu canto amoroso. + + Sentado n'uma penha occulto entre o salgueiro + poetava a ouvir do rio o murmurar palreiro. + + Ao canto do quintal da casa onde eu morava + uma angua plantara, e flores que eu regava. + + Conheo a minha terra; e cada pedra ou planta + me sada ao passar. Toda a Patria me encanta. + +No so, de certo, estes os soberbos alexandrinos do pae Castilho, to +cheios, to sonoros, to variados na riqueza das vogaes, como elle, +legislador maximo em versificao, praticava e recommendava; mas tem o +ar de familia, o cunho da officina, que nos entremostram o artifice mais +novo da casa posto a trabalhar, por desenfado, com a ferramenta do mestre. + +Junte-se a tudo isto, que j sobeja valia, o perfume ingenuo e nobre +da mocidade, o pulsar de um corao candido e fidalgo, que se educava +entre lyras de poetas e brazes de aristocracia literaria. + +Tudo ento fazia suppor que teria uma larga carreira esse moo to bem +estreado, e tanto se sumiu elle depois nas trevas que as contrariedades +da vida adensaram--a doena principalmente. + +Foi tambem por 1868 que Eugenio de Castilho tentou a publicao da +_Folha dos curiosos_, um dos quaes curiosos fui eu. + +N'essa tentativa ia ainda um exemplo paterno, porque no deve esquecer a +ninguem que Antonio Feliciano de Castilho redigiu por algum tempo, com +inexcedivel brilho, a _Revista universal lisbonense_. + +Digo inexcedivel brilho, e fico pesaroso de no encontrar melhor +locuo. No me satisfaz esta, que deficiente. Tudo quanto Castilho +ali deixou, primoroso--at o noticiario. + +Se vingar algum dia a ideia de fundar uma escola de jornalistas, o +professor, sabendo do seu officio, tem que ensinar a fazer noticiario +pelo teor de Castilho. + +Que adoraveis locaes, que gentileza e graa no dizer, que malicia, que +ironia e que pureza castia de linguagem! + +Os senhores conhecem Castilho poeta, prosador, traductor e pedagogo? +Pois no conhecem Castilho todo, acreditem. Falta-lhes ainda conhecer +Castilho jornalista a brincar com a penna sobre assumptos de reportagem, +a enramilhetar locaes que parecem _bouquets_; Castilho a sorrir de si +mesmo por ter descido quella futilidade e a tornal-a grandiosa para no +ter que envergonhar-se de vr n'um espelho o pretor a curar de coisas +minimas. + +Pois, srs. Dons Leonardos, em verdade vos digo que foram grandes homens +esses que eu conheci n'outro tempo, que conheci e amei, e que vs sois +muito mais pequenos que elles. + +Este mesmo Eugenio de Castilho, fallecido ha quasi um anno, no chegou a +ser grande, porque lhe faltou apenas a validez; o talento, no. + +Mas, no breve momento em que se demorou nas letras, honrou, como +vergontea, a arvore gloriosa dos Castilhos, florindo como poeta, que +promettia futuro. + +Hoje dorme o somno eterno na terra da _Patria_, que elle amava tanto, e +se os mortos pensassem, julgar-se-ia certamente feliz por ter encontrado +descanso aos seus tormentos na mesma terra em que o pae nasceu e amou +primeiro. + + * * * * * + +Tinha eu treze annos, quando um quintanista de direito, Manuel do +Nascimento de Azevedo Coutinho, natural de Sinfes, passando pelo Porto, +recitou em casa de meu pai trechos de um poema que, segundo a sua +propria informao, estava causando o maior enthusiasmo em Coimbra. + +Os estudantes sabiam-n'o de cr, e at o doutor Frrer, dando descano +s Ordenaes e ao Digesto, repetia estrophes aos rapazes quando os +encontrava tarde no Penedo da Saudade. + +Era o cumulo do enthusiasmo coimbro. + +O quintanista Nascimento, um duriense de olhos pretos, vendo-se +comprehendido por um grupo de senhoras que o escutavam, ia procurando na +memoria excerptos do poema e recitava-os contente de espalhar em torno +de si, como um perfume de rosas, a inspirao delicada do poeta que toda +a academia j tinha sagrado em Coimbra com a agua lustral do Mondego. + +Esse poema era o _D. Jayme_, de Thomaz Ribeiro. + +A cada novo trecho cresciam os applausos; a impresso tornava-se geral +no auditorio. + +E o quintanista Nascimento, com a vivaz reminiscencia de todos os moos, +saltava de um canto a outro do poema recordando estrophes: + + Um dia... quando, no sei; + fui vr as gastas ruinas + d'um velhissimo castello + que ao desamparo encontrei, + mas que, apesar de esquecido + na solido, era bello. + + Achei-o todo vestido + de tenaz era viosa; + e ornado de verde brilho, + lembrou-me um velho casquilho + que espera noiva formosa. + +De vez em quando, os parceiros do voltarete de meu pai poisavam as +cartas, e escutavam attentos: + + Que triste vida na choa, + que funda melancolia, + que rostos to macerados, + que suspiros abafados + cada noite e cada dia! + + noites de eterna vigilia, + dias curtos para a lida, + recordaes da opulencia, + amarguras da indigencia... + que vida, Jesus! que vida! + +Eu recolhia todos os trechos n'um enlevo d'alma, que foi o primeiro goso +literario da minha vida e, quando n'essa noite me deitei, reconstituia +mentalmente versos, estrophes inteiras, ancioso de poder lr todo o +poema, para decoral-o todo. + +No dia seguinte, meu pae, recolhendo de ver os seus doentes, trazia +debaxo do brao um livro de capa amarella. + +Tinha comprado o poema, suggestionado pela recitao da vespera. + +Ento, como um faminto que se lana vorazmente sobre um manjar +inesperado, eu, quando os outros acabavam de lr, devorava pagina a +pagina, canto a canto, lendo e decorando, com a mesma facilidade com que +hoje vou esquecendo... + +Annos depois--no foram muitos--quando Castilho protegeu as minhas +estreas literarias com o prestigio do seu nome, Thomaz Ribeiro +escreveu-me algumas cartas que religiosamente conservo entre montes de +outras suas escriptas de toda a parte. + +Depois, em Lisboa, muitas vezes Thomaz Ribeiro me disse que possuia um +retrato meu aos dezeseis annos. + +Certamente lh'o offereci, mas no me lembro quando, e no conservo hoje +nenhum exemplar d'essa photographia. + +Quando foi que eu vi pela primeira vez o auctor do _D. Jayme_? D'isso me +lembro muito bem. Foi no Porto, no escriptorio do _Primeiro de Janeiro_, +cuja redaco permanente era ento apenas constituida por duas pessoas, +Francisco Gomes Moniz e eu. + +Ns dois faziamos tudo, menos o artigo de fundo, que ia de Lisboa, e era +escripto por Latino Coelho. + +Thomaz Ribeiro, tendo chegado ao Porto e entrado na casa Mor, disse ao +gerente da casa, o illustre Jos Gomes Monteiro, que me queria visitar. + +Monteiro, que me estremecia, ficou contentissimo, poz logo o seu chapeu +e subiu, apesar de velho e doente, a rua de Santo Antonio, depois a +ingreme escada da redaco, para me levar Thomaz Ribeiro. + +Foi um dos dias felizes da minha vida literaria. + +Desde ento mantive com Thomaz Ribeiro as mais cordeaes relaes de +mutua estima. + +As amizades velhas so como o cimento solidificado: no quebram facilmente. + + [Ilustrao: Retrato de THEOPHILE GAUTIER que pertenceu a Camillo] + +Quando elle partiu para o Brasil, a _Mala da Europa_ quiz dar um numero +commemorativo, que chegasse ao Rio de Janeiro no mesmo paquete que o +auctor do _D. Jayme_. Por doena de um dos seus redactores effectivos, o +proprietario do periodico, Delfim Monteiro Guimares, j hoje fallecido, +precisava de quem lhe fizesse rapidissimamente a maior parte d'esse +numero. Procurou-me, e pediu-me que me encarregasse eu d'essa ardua +tarefa--ardua pela estreiteza do tempo. + +Como se tratava de Thomaz Ribeiro, no tive animo de recusar e, durante +quarenta e oito horas, trabalhei afanosamente, tomando caf para +espertar-me, conseguindo no faltar ao encargo que acceitei e palavra +que tinha dado. + +Eu sou a pessoa menos competente para escrever um artigo de critica +literaria a respeito da obra de Thomaz Ribeiro. + +Vejo-o sempre, apaixonadamente, atravs de agradaveis recordaes da +minha mocidade. + +No sei, no posso vel-o de outro modo. + +Dou-me, portanto, como suspeito. + +Mas creio que, para a apreciao de um escriptor ou de um artista, os +criticos tem menos auctoridade do que o publico. + +Se esse escriptor ou esse artista conquistou a opinio geral, se recebeu +uma consagrao nacional, a sua reputao inabalavel, a despeito do +voto adverso dos criticos. + +Ora Thomaz Ribeiro, cujos poemas foram discutidos, tornou-se o mais +popular poeta do seu tempo. Teve a opinio publica fechada na mo; +dominou-a completamente. E, ainda ultimamente, os que queriam ser-lhe +desagradaveis repetindo versos seus, justificavam, sem querer, a sua +popularidade e, sem querer, a propagavam. + +Portugal ficar sendo eternamente o--jardim da Europa beira mar +plantado--verso que tem servido para todos e para tudo que, em bem e +mal, se escreve a respeito do nosso paiz. + +A Conversao preambular do _D. Jayme_, escripta por Castilho, foi +tida como exageradamente encomiastica para o auctor do poema, e +realmente discutivel em algumas das suas affirmaes. + +Mas o enthusiasmo que alvoroou o espirito reflectido de Castilho adduz +mais uma prova da enorme sensao causada pelo _D. Jayme_, at nos +julgadores de maior competencia profissional. + +Apparecia um poema verdadeiramente nacional, portuguez pelo assumpto, +pelos affectos, pela paisagem, pela dico, pondo de mais a mais em +evidencia a riqueza de metros, de harmonia, de malleabilidade e de cr +que possuia a lingua portugueza. + +Sahia inteiramente dos moldes dos poemas antigos, fugindo oitava-rima, +e dos moldes da revoluo romantica, fugindo ao verso branco. + +Era o poema lyrico moderno, o romance metrificado, escripto ao sabor +portuguez sobre a vida portugueza, com matiz popular de tradies e +costumes nossos, com vocabulos colhidos no diccionario da +provincia--_fogaa, campeiro, velleiro_--com toda a alma de um povo a +cantar flr dos versos e o caracter nacional sobresaindo em alto +relevo no caracter do protogonista: + + Entrei, raivando vinganas, + Sahi, jurando perdo. + +Comprehende-se que este poema causasse enthusiasmo em todas as regies +do mundo onde palpitava o sangue e o sentimento portuguez: assim +aconteceu, no s em Portugal, mas tambem no Brazil e na India. + +Do _D. Jayme_ nasceram logo outros poemas: Em Lisboa, _Roberto ou a +dominao dos agiotas_, por Manuel Roussado, uma parodia; no Brazil, +_Leonor_, imitao flagrante. + +Trinta annos depois, quando Thomaz Ribeiro foi ao Brazil como ministro +de Portugal, ainda l encontrou o rescaldo do antigo enthusiasmo; e a +sua escolha foi julgada a mais opportuna para reatar as relaes que um +ligeiro conflicto tinha interrompido entre os dois paizes irmos. + +Na India portugueza, onde anteriormente estivera como secreterio geral +do governo da provincia, Thomaz Ribeiro foi encontrar admiradores por +toda a parte. + +Tenho deante de mim um romance indiano, _Beatriz ou os mysterios da +ultima revolta em Goa_, escripto por Fernando de Goa (certamente +pseudonymo) e publicado em Lisboa no anno de 1885. + +No 2. volume, encontro, entre outras referencias a Thomaz Ribeiro, este +periodo: + + +O secretario, aproveitando este ensejo, affastou-se d'ali, metteu-se na +machila e fez-se transportar a Caranzalem, a fim de fazer as suas +visitas s familias das suas relaes que ali se achavam a banhos, e +entreter parte da noite n'uma ou n'outra casa, onde suspiravam pela sua +chegada, para terem o prazer de ouvir uma conversao animada, cheia de +atticismo, de poesia, e ao mesmo tempo recamada das mais brilhantes e +conceituosas phrases. + + +A praia de Caranzalem, proxima do Mandovi, n'uma linda enseada a quatro +kilometros da capital, o balneario aristocratico da India portugueza, + Cascaes do Oriente. + +Em todo o reino de Portugal, na India, no Brazil, em toda a parte onde +se falla a lingua portugueza, Thomaz Ribeiro, por ser o auctor do _D. +Jayme_, encontrava um fervoroso culto de enthusiasmo e adorao. + +Era uma justa retribuio da consciencia publica aos sentimentos +patrioticos do poeta, que dedicadamente amou o seu paiz, cantando-lhe as +bellezas e as glorias, no Occidente e no Oriente, e que, no territorio +portuguez, se algum rinco distinguiu com especial affecto, foi o seu +districto natal, Vizeu, e em Vizeu a aldeia garrida onde nascra, Parada +de Gonta: + + Que fresca aldeia formosa + Nas margens do meu Pavia! + +Morreu na terra da patria, e n'isso lhe fez Deus a vontade: + + meu vergado pomar d'um rico outomno, + s meu bero final no ultimo somno. + +O romantismo, vocabulo que eu apenas acceito convencionalmente como +expresso chronologica para designar determinada poca literaria, e no +como caracterisao psychologica d'um estado d'alma, que commum a +todas as geraes, e, portanto, eterno; o periodo romantico, ia +dizendo, teve ao menos de grande e nobre o seu amor ao paiz, affirmado +solemnemente na celebrao das glorias e das tradies portuguezas, +desde Alexandre Herculano at Thomaz Ribeiro. + +Hoje moda rir de tudo, em prosa e verso, especialmente do paiz. + +Literariamente, ainda falta encarar o auctor do _D. Jayme_ sob outro +ponto de vista: como recitador. + +Trez homens conheci eu incomparaveis no primor com que sabiam dizer +versos: Castilho, Thomaz Ribeiro e Gonalves Crespo. + +Quanto a Thomaz Ribeiro, sempre me ha de lembrar o que se passou uma +vez, sendo elle ministro do reino, na commisso de instruco secundaria +da camara dos deputados. + +Discutia-se um projecto de reforma do respectivo ensino. + +Apenas dois membros da commisso se oppunham tenazmente resurreiao do +exame de madureza: eram o sr. Jos Borges de Faria e eu. + +N'essa reunio nocturna, que se effectuou no edificio do governo civil +para maior commodidade de todos, a discusso corrra violenta e azeda. + +Nada se tinha resolvido ainda, quando foi servido o ch, que veiu da +casa Ferrari. + +Ento, durante essa pausa obrigada, no sei quem se lembrou de pedir a +Thomaz Ribeiro que recitasse _O tear da rainha_. + +Elle annuiu promptamente, e tanta impresso causou em todos ns, que +fomos pedindo mais versos. + +Assim acabou n'uma doce calma aquella reunio, que tinha corrido agitada. + +O projecto chegou a ir ao parlamento, fazendo os dois dissidentes +declarao de voto, mas a reforma no teve execuo. + +Tambem a titulo de simples recordao lembrarei que sendo Thomaz Ribeiro +ministro da marinha--primeira pasta que geriu--fui eu que, a seu pedido, +entabolei negociaes com a livraria Chardron, do Porto, para a +acquisio da propriedade das suas obras. + +Quando se escreve de um amigo no ha meio de coordenar as memorias +agradaveis que elle nos deixou; os factos acodem em tropel amontoando-se +numa agglomerao confusa, que exigeria longo tempo e grande esforo de +serenidade para ser dominada. + +No , poucos mezes depois da morte d'esse amigo, que semelhante +tentativa pode fazer-se para conseguir restabelecer a ordem onde tudo +ainda desordem da saudade. + +Por isso no o consegui eu, nem sequer o tentei. + + +PAG. 18 + +... esquecer essa noite de festa, que foi talvez a unica noite feliz +n'esta casa. + +D. Anna Placido escrevendo, embora sob um pseudonymo masculino, a +respeito da morte de Vieira de Castro em Africa, recordava a noite de 15 +de julho de 1866, quando dizia: + + +Era noite de festa. Na pequena aldea de *** ouviam-se cantos festivos; +e a voz das aldes competia com as rabecas e os clarinetes. + +Passava-se isto em uma casa de campo. As seis janellas da frontaria +jorravam luz, e a porta da entrada por onde se subia por larga escadaria +de pedra, estava afestoada de rosas e hortensias. + + +Era o sarau campestre, o sero minhoto, em honra de Castilho, na quinta +de Seide. + + +PAG. 26 + +Foi ali que essa linda mulher, de formas esculpturaes... + +A proposito de D. Anna Placido, referirei um pormenor que me foi contado +recentemente. + +O seu casamento com o grande escriptor esteve para realizar-se em Santo +Thyrso, aonde ambos chegaram a ir para esse fim. Ali se demoraram dois +dias, espera que o conego Alves Mendes viesse do Porto com os +documentos que eram necessarios. S o abbade de Santo Thyrso, reverendo +Joaquim Augusto da Fonseca Pedrosa, estava na posse d'este segredo; +ninguem mais, n'aquella villa, o sabia. Mas houve demora na camara +ecclesiastica do Porto, e o conego Alves Mendes no pde obter os papeis +to depressa como desejava. Por este motivo, Camillo e D. Anna Placido +retiraram de Santo Thyrso. O casamento veio a celebrar-se no Porto, como +j tem sido dito. + + +PAG. 30 + +Em 1892 o Nuno, estando ns na Povoa, mostrou-me V. no _Caf Chinez_. + +Foi n'esse anno, e na Povoa, que eu vi o visconde de S. Miguel de Seide +pela ultima vez, quando j a questo do _Protesto_ nos tinha inimistado. + +N'essa occasio eu no pensava ali seno em vencer, como candidato, uma +das mais renhidas e ruidosas eleies que tem havido n'este paiz. Deu +brado aquella briga eleitoral da Povoa de Varzim em 1892! Se no fossem +as minhas canceiras e preoccupaes politicas, dada a boa disposio do +visconde de S. Miguel de Seide como agora sei, certamente nos haveriamos +reconciliado ali n'aquella poca. Mas eu andava em correrias, em +comicios, em conferencias, em combinaes eleitoraes: no chegava para +as encommendas. Forte cegueira! At me parece agora impossivel que eu +fosse ento o mesmo homem que hoje sou! + +O que certo que venci com o povo--a grande classe dos +pescadores--coisa que raras vezes ter acontecido em Portugal. Quem +vence, por via de regra, so os influentes, os galopins, o carneiro e as +batatas. D'aquella vez venceu o povo, que me quiz fazer deputado, e fez. +Assim o povo pensasse sempre em tudo o mais, e outro gallo lhe cantaria. + +Eu andei ento muito descomposto nas gazetas, mas tambem andei muito +cantado nas ruas. + +Os pescadores e as pescadeiras improvisaram ento um cancioneiro +eleitoral em meu favor. Ahi vo amostras do panno, que elles +espontaneamente souberam tecer com toda a ingenua rudeza dos seus +processos poeticos: + + Boa vai ella! + Ora viva o Pimentella. + Que d o seu corao + P'ra vencer a eleio. + + Boa vai ella! + Ora viva a _piscaria_. + Vai toda votar em barda + Pela nossa melhoria. + + Boa vai ella! + Ora viva o Albertinho, + Que vai como deputado + C pelo nosso povinho. + +Eram to carinhosos para mim os pescadores, que at me tratavam pelo +diminutivo, meiguice que eu j no estava costumado a receber ha muito +tempo. O povo ama ainda pelo systema antigo, e eu era o seu candidato +contra a vontade de muitas influencias poderosas e colligadas. + +N'esta roda-viva de uma eleio disputadissima, renhidissima, eu pensava +menos no visconde de S. Miguel de Seide do que na urna e nos votos. + +Se no estivesse to preoccupado e ralado, se tivesse tempo para me +demorar nos botequins, certamente se teria ageitado alguma occasio de +me congraar com o visconde de S. Miguel de Seide, pois que elle o +desejava, e eu no o recusaria. + + [Ilustrao: Retrato de ALPHONSE KARR que pertenceu a Camillo] + + +PAG. 37 + +... Jorge Castello Branco, o infeliz primogenito de Camillo. + +Apezar de ser o primogenito, foi baptisado, quando j tinha quasi dois +annos de idade, no mesmo dia que seu irmo Nuno, a 6 de janeiro de 1865. + +Se o leitor folheou alguma vez _Os amores de Camillo_, l deve ter +encontrado, a pag. 344, a noticia d'este duplo baptisado que se +effectuou no Porto. + +Mas Antonio de Azevedo contou-me ultimamente um pormenor, que +interessante. + +Ao jantar d'esse dia, em casa de Camillo na rua do Almada, assistiram as +mesmas pessoas que tinham ido egreja; Custodio Jos Vieira, notavel +jurisconsulto; o Bastos, do _Nacional_; Antonio de Azevedo; e um +procurador portuense, cujo nome no lembra. + +Durante o jantar apenas se bebeu champagne e cognac. + +Seguiu-se um sero alegre, cheio de engraados episodios e imprevistos +sainetes. + +D. Anna Placido tocou piano. + +Camillo tocava trombone no canno de uma bota. + +E o Bastos do _Nacional_, que era um homem alto, forte e rosado, danava +com Custodio Jos Vieira, que era muito pequeno e muito feio. + +O procurador, conscio da sua desigualdade de cotao intellectual, +conservou-se mero espectador. + +No parece que se est ouvindo um trecho das _Alegres comadres de +Windsor_, que Nicolai compoz sobre a pea de Shakspeare, ou aquella +scena de Puccini, em que os socios da bohemia folgam em commum n'uma +chorea improvisada? + +Quem poderia vr ento em Camillo o futuro solitario e suicida de S. +Miguel de Seide! + + +PAG. 53 + +Leitores de cem romances, que uma s penna escreveu. + +Todo o trabalho literario de Camillo pesou unicamente sobre elle. No +temos em Portugal o systema de um escriptor tomar como auxiliares outros +escriptores menos reputados. Usa-se isso em Frana; entre ns, no. + +Apenas, em duas obras de theatro, trabalhou Camillo com um collaborador, +que foi Ernesto Biester. + +Fizeram em commum o drama _Vingana_ (Veja _Esboos de apreciaes +literarias_, pag. 85 e _Revista contemporanea de Portugal e Brazil_, +vol. IV, pag. 313); e o drama _Penitencia_, em 6 actos e um prologo +(Veja _Dic. Bib._ de Innocencio, vol. IX, pag. 176). + +Vi representar este ultimo drama no theatro de S. Joo, do Porto, pela +companhia do antigo Theatro Normal. + + +NOTA FINAL + +O retrato de Camillo, que publicamos agora, copia photographica de um +a _crayon_ que vimos na casa dos netos do grande romancista em S. Miguel +de Seide. + +Na sala de entrada ha trez retratos de Camillo. S este desconheciamos, +e fez-nos impresso, porque, a distancia, suppozemos que fosse de +Guilherme Braga. + +A sr. D. Anna Corra desfez o nosso equivoco. + +O retrato a _crayon_ de 1876 e est assignado, mas deve por sua vez +ser copia de outro retrato, tirado aproximadamente em 1857, quando +Camillo usava ainda o cabello levantado sobre a fronte. + +Comtudo no o mesmo retrato de 1857 que foi publicado ultimamente, com +outros de differentes epocas, no n. 8-9 da _Illustrao moderna_, do +Porto. + +Tambem no o de 1850, que ainda recentemente foi mais uma vez +reprodusido na revista portuense _Sombra e luz_ (n. 2). + + + +Preo 400 ris + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Os netos de Camillo, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS NETOS DE CAMILLO *** + +***** This file should be named 33752-8.txt or 33752-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/3/7/5/33752/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/33752-8.zip b/33752-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..248c60d --- /dev/null +++ b/33752-8.zip diff --git a/33752-h.zip b/33752-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..6c9672e --- /dev/null +++ b/33752-h.zip diff --git a/33752-h/33752-h.htm b/33752-h/33752-h.htm new file mode 100644 index 0000000..7e07a77 --- /dev/null +++ b/33752-h/33752-h.htm @@ -0,0 +1,2981 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> +<head> + <title>Os Netos de Camillo, por Alberto Pimentel</title> + <meta name="Author" content="Alberto Pimentel"> + <meta name="Edition" content="Lisboa: Empresa da Historia de Portugal, 1901."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + text-decoration: none; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1.5em;} + h1, h2, h3, h4 {text-align: center; margin-top: 2em;} + h2 {text-align: center; margin-top: 3em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + #corpo p.ni {text-indent: 0;} + #corpo p.centrado {margin: 0; text-indent: 0; text-align: center;} + #corpo p.assin {margin: 0; text-align: right; margin-right: 2em;} + #corpo .imagem_full {} + #corpo .imagem_full p {text-indent: 0; font-size: small;text-align: center;} + .imagem_full p {text-indent: 0; font-size: small;text-align: center;} + #corpo blockquote p {text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000; } + blockquote {margin-left: 10%; font-size: small;} + a {text-decoration: none;} + .rodape { + font-size: 0.7em; + color: gray; + margin-left: 2em; + margin-right: 2em; + } + .errata {border-bottom: dotted 2px #aaaaaa;} + .typo {border-bottom: dotted 2px #77dd77;} + .ntransc {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 0.8em; + margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Os netos de Camillo, by Alberto Pimentel + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Os netos de Camillo + +Author: Alberto Pimentel + +Release Date: September 17, 2010 [EBook #33752] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: UTF-8 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS NETOS DE CAMILLO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<div class="ntransc"> +<p><b>Notas de transcrio:</b></p> + +<p>O texto aqui transcrito, uma cpia integral do livro impresso em 1901.</p> + +<p>Foi mantida a grafia usada na edio original de 1901, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipogrficos que no alteram a leitura do texto, e +que por isso no foram assinalados.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.4em;"><em>ALBERTO PIMENTEL</em></p> + +<p style="font-size: 2.5em;"><em>Os Netos <br> + de Camillo</em></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> +EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL<br> +<small>Sociedade editora<br> +LIVRARIA MODERNA<br> +<em>R. Augusta, 91</em><br> +TYPOGRAPHIA<br> +<em>35, R. Ivens, 37</em></small><br> +MDCCCCI</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 2em;">OS NETOS DE CAMILLO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustrao" src="images/camillo.jpg"></p> + +<p>CAMILLO CASTELLO BRANCO</p> + +<p><em>(Copia de um retrato a crayon que pertence aos netos do grande +escriptor)</em></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.4em;">ALBERTO PIMENTEL</p> +<hr style="width: 30%;"> + +<p style="font-size: 2.5em;">OS NETOS DE CAMILLO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<blockquote style="margin-left: 40%;"> + <p>Das flres surgiro pomos?...<br> + Se Deus regar os arbustos!</p> + + <p> T<small>OMAZ</small> R<small>IBEIRO</small>.</p> +</blockquote> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>LISBOA<br> +EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL<br> +<small>Sociedade editora<br> +LIVRARIA MODERNA<br> +<em>R. Augusta, 91</em><br> +TYPOGRAPHIA<br> +<em>35, R. Ivens, 37</em></small><br> +MDCCCCI</p> + +<p> </p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustrao" src="images/anna.jpg"></p> + +<p>D. ANNA ROSA CORREIA</p> +</div> + +<p><span class="pn"><a name="pag_5">{5}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1>OS NETOS DE CAMILLO</h1> + +<p>Fui hontem, 20 de agosto, a S. Miguel de Seide fazer uma romagem de +saudade.</p> + +<p>Quando Camillo era vivo, sempre que eu vim a Santo Thyrso no deixei nunca +de visitar o grande romancista na sua melancolica Thebaida.</p> + +<p>Agora que elle morto e repousa longe, no cemiterio da Lapa, fui em +peregrinao devota contemplar o tumulo em que viveu e agonisou: a casa +solitaria de Seide, onde cada pedra parece ser um epitaphio que chora +resignadamente por elle no silencio e na mudez de uma aldea minhta.</p> + +<p>Esta casa, a que o proprio Camillo chamou o albergue arruinado de S. Miguel +de Seide, uma reliquia historica, um monumento nacional, como a casa de +Shakspeare em Stratford-sur-Avon ou como a casa de Goethe em Francfort.</p> + +<p> ou deve ser.<span class="pn"><a name="pag_6">{6}</a></span></p> + +<p>Para mim tem o que quer que seja de venerando, como um castello +desmantelado, onde a nossa gente tivesse ganho outr'ora cem victorias +gloriosas, de que eu proprio houvesse sido testemunha...</p> + +<p>Sahi de Santo Thyrso ao amanhecer e almocei em Landim.</p> + +<p>Devo ao sr. Adriano Trpa, meu presado amigo, a honra de acompanhar-me.</p> + +<p>Vi de passagem <a name="antigo" id="antigo" href="#L2599">a crca do antigo +mosteiro de Landim</a>, hoje propriedade da familia Leal e Sousa.</p> + +<p>Um filho do dono da casa, o sr. Manuel Vicente Leal, que ia a sahir n'esse +momento, retrocedeu de bom grado para nos servir amavelmente de cicerone.</p> + +<p>Eu, quando viajo, no gosto de fazer prevenes, nem aos outros, nem a mim +proprio. Sou o viajante mais despreoccupado que pode haver; entrego-me +inteiramente ao acaso, e sempre me tenho dado bem com isso.</p> + +<p>A crca do mosteiro est transformada; poucos vestigios restam ainda do +tempo dos frades. Ha trechos de buxo em algumas ruas, e o jogo da bola, que +era vulgar nos conventos do sexo masculino, subsiste menos mal conservado.</p> + +<p>As freiras, se cultivavam este jogo, era no plural...</p> + +<p>J posteriores extinco das ordens religiosas, vi carvalheiras enormes, +medindo de circumferencia mais de quarenta palmos. Uma d'ellas fra lascada por +um raio, de alto a baixo. Vi tambem, digna de<span class="pn"><a +name="pag_7">{7}</a></span> meno, uma rua de australias, arvores cujo cerne +imita o pau preto e , por isso, madeira apreciada.</p> + +<p>Conversando com o sr. Manuel Vicente, perguntei-lhe se Camillo teria +phantasiado muito a respeito do <em>Cego de Landim</em>.</p> + +<p>—Nada, absolutamente. Camillo ainda no disse tudo. O cego era um +perverso homem.</p> + +<p>—E onde morava aqui?</p> + +<p>—N'uma casa por detraz d'aquella capella.</p> + +<p>Indicou-me a capella de S. Braz, onde todos os annos se realiza uma pomposa +festa, com arraial e feira.</p> + +<p>Tambem o sr. Manuel Vicente me indicou o antigo collegio de Landim, em que +foram educados muitos rapazes do Minho, que hoje so honra e brilho da sua +provincia.</p> + +<p>O sr. Trpa e eu fomos almoar estalagem do Rodrigues, n'uma varanda +envidraada, que dava sobre campos emplumados de basto arvoredo.</p> + +<p>Notei que Landim uma terra abundante de alfaiates. S porta de uma casa, +vi sete trabalhando ao ar livre; fizeram-me lembrar a historia dos sete +alfaiates lendarios, que foram precisos para matar uma aranha.</p> + +<p>Mal acabamos de almoar, partimos para Seide, onde chegamos perto das dez +horas da manh. O sol tinha j descoberto; a nevoa, que havia sido intensa, +dissipara-se completamente.<span class="pn"><a name="pag_8">{8}</a></span></p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Os meus olhos esperavam avidamente o momento de avistar a casa que fra de +Camillo.</p> + +<p>Tomados de um instinctivo respeito, iamos ambos calados, o sr. Trpa e +eu.</p> + +<p>De repente, surgiu-nos o porto ensombrado por duas grandes accias, que +pendem sobre elle.</p> + +<p>— ali! disse eu.</p> + +<p>— ali! repetiu o sr. Adriano Trpa.</p> + +<p>E, passando respeitosamente por deante do porto, que d para o largo da +egreja parochial, dirigimo-nos casa onde actualmente residem os netos de +Camillo, a dois passos de distancia.</p> + +<p>Toda a gente se lembra ainda da deploravel questo que, a meu pezar, +sustentei com o visconde de S. Miguel de Seide, segundo-genito de Camillo, +sobre a existencia de uma filha natural do grande romancista, casada no +Porto.</p> + +<p>Tive receio de que a recordao d'essa acerba polemica estivesse ainda muito +viva no espirito da sr. D. Anna Rosa Corra.</p> + +<p>Adoptei por isso a precauo de apresentar-me sob o nome que primeiro me +lembrou, ao solicitar o obsequio de ser recebido como admirador fervoroso de +Camillo.</p> + +<p>Acolheu-me gentilmente a dona da casa, que immediatamente chamou alguns de +seus filhos, no todos,<span class="pn"><a name="pag_9">{9}</a></span> porque +dois d'elles, Camillo e Manuel, tinham sahido pela manh.</p> + +<p>Notei que por vezes a sr. D. Anna Corra, me d'aquellas creanas herdeiras +de um nome glorioso e de pouco mais, me observava com certa curiosidade.</p> + +<p>Soube comtudo manter-se n'uma discreta reserva, no arriscando duvida alguma +sobre a minha identidade.</p> + +<p>Fingiu acreditar que eu era um Araujo admirador de Camillo, desejoso de +conhecer os netos do grande romancista e de visitar a casa onde elle morreu.</p> + +<p>Apresentou-me Flora, sua filha mais velha, quinze annos de idade, alta e +elegante como um pinheiro novo, de uma simplicidade de maneiras ao mesmo passo +graciosa e senhoril; e Rachel, quatro annos mais nova, cujo vago olhar revela +morbidez e melancolia.</p> + +<p>—Esta menina, disse-me a sr. D. Anna Corra, era a predilecta da +av.</p> + +<p>—Aventuro-me a conjecturar, respondi eu, que o nome de Rachel foi +escolhido por Camillo.</p> + +<p>—Isso mesmo... confirmou a minha amavel interlocutora esboando um +sorriso. Ns queriamos que se chamasse Anna, como a sr. viscondessa, mas o sr. +visconde (Camillo) oppoz-se, dizendo que esse nome era infeliz na familia. +Referia-se sr. viscondessa e a mim...</p> + +<p>—Rachel, observei eu, exprimia na vida de Camillo a saudade do +passado. Com esse nome foi designada<span class="pn"><a +name="pag_10">{10}</a></span> a sr. D. Anna Placido em muitos dos versos +amorosos que ella lhe inspirou.</p> + +<p>—Exactamente. verdade.</p> + +<p>Apresentou-me depois os restantes filhos que estavam em casa: Nuno e Simo, +em cujas physionomias, doces e intelligentes, prevalece um accentuado typo de +familia.</p> + +<p>—Simo, observei eu, tambem foi um nome intencionalmente escolhido.</p> + +<p>A sr. D. Anna confirmou com um gesto.</p> + +<p>— o do protogonista do <em>Amr de perdio</em>, acrescentei. Oxal +que este menino seja mais feliz.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Como eu tivesse insistido no desejo de vr o pequeno Camillo, por saber que +era o neto querido do av, foram procural-o emquanto conversavamos a respeito +de seus irmos.</p> + +<p>E iamos j a sahir em visita casa onde o grande Camillo morreu, quando +appareceu o joven Camillo, denunciando um certo ar de extranheza no olhar +suavemente penetrante e perspicaz.</p> + +<p>—Este menino, disse-me a sr. D. Anna, nasceu a 16 de maio de 1888, no +mesmo dia em que o av fazia annos. Nos <em>Amores de Camillo</em> vem esta +observao, que exacta.</p> + +<p>Procurei mostrar-me indifferente citao do meu livro, comquanto me fosse +agradavel a certeza de que<span class="pn"><a name="pag_11">{11}</a></span> a +sr. D. Anna Corra o conhecia e indicava como fonte auctorisada em minudencias +biographicas.</p> + +<p>A physionomia do pequeno Camillo , em verdade, a mais expressiva entre +todos os netos do grande romancista.</p> + +<p>Essa creana revela uma luminosa precocidade de intelligencia. No sendo +robusto, como nenhum dos seus irmos o tambem, parece mais debil e menos +expansivo que elles. Tem o que quer que seja de gravidade prematura quando +escuta enconchando a mo sobre a orelha direita, porque padece de dureza de +ouvido, como seu irmo Nuno. Tudo faz esperar que elle seja o continuador da +gloria literaria do av. Esta convico parece estar arreigada no espirito de +toda a familia, que a recebeu do grande romancista, o qual dizia muitas vezes +ao pequeno Camillo:</p> + +<p>—Se eu tornar a vr, vou comtigo para Coimbra.</p> + +<p>Apezar dos escassos recursos de que a sr. D. Anna Corra dispe, julgou seu +dever no se poupar aos maiores sacrificios para iniciar convenientemente a +educao d'este filho.</p> + +<p>O pequeno Camillo estuda em Braga, onde vae cursar agora o terceiro anno do +curso geral dos lyceus.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>As terras de Seide no podem abastar ao sustento e educao de to numerosa +prole. Dariam regular passadio para uma ou duas pessoas, apenas. Mas para<span +class="pn"><a name="pag_12">{12}</a></span> educar tantas creanas no chegam. +De mais a mais esto oneradas com um pezado fro de setenta razas de milho alvo +e centeio, pago annualmente ao abbade, e com os juros de uma hypotheca +Misericrdia de Villa Nova de Famalico. So terras sccas e por isso pouco +fecundas: apenas alli tem maior valor a casa de habitao, que foi mandada +construir pelo visconde de S. Miguel de Seide, e que muito superior em +capacidade e aspecto quella em que o grande romancista viveu e morreu.</p> + +<p>A hypotheca abrange tambem este ultimo predio.</p> + +<p>A penso que foi votada pelo parlamento a Camillo Castello Branco, cessou +com a morte de seu filho Jorge.</p> + +<p>Portanto os descendentes de Camillo, se lhes no acudir o Estado, como deve, +tero de luctar com as maiores difficuldades para receber educao condigna do +nome illustre que representam.</p> + +<p>—Ver-me-hei na necessidade, dizia-me a sr. D. Anna, de mandar este +menino (Camillo) para o commercio no Porto ou em Braga, bem como os outros.</p> + +<p>E o seu rosto, macerado pelos desgostos e trabalhos da vida, que a +envelheceram prematuramente, cobria-se de uma espessa nuvem de melancolicas +apprehenses.</p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustrao" src="images/flora.jpg"></p> + +<p>FLORA</p> +</div> + +<p>—Tenho feito quanto tenho podido, continuou a sr. D. Anna, a bem +d'estes meninos, mas no poderei aguentar por muito mais tempo to difficil +esforo. Flora fez exame de instruco primaria. Nenhum dos outros irmos +analphabeto. Manuel, que no lhe<span class="pn"><a +name="pag_13">{13}</a></span> posso apresentar, est em Landim a dar lio; s +recolhe noite. Nenhum dos meus filhos tem repugnancia pela instruco, nem +preciso chamal-os para irem escola, sendo Camillo o mais madrugador e +estudioso de todos. Triste de mim, se tiver de lhes dar um destino que no seja +o das letras. Mas no posso... no posso.</p> + +<p>No foi como consolao banal que lhe respondi:</p> + +<p>—No desespere, minha senhora. Portugal prodigo em conceder penses, +e este acho eu que ser o menor defeito de toda a nossa administrao publica, +porque mais vale evitar que alguns portuguezes morram fome, do que dar um +triste exemplo de ingratido nacional. Todos ns sabemos que esta ou aquella +penso , entre muitas outras, mais explicavel pela generosidade do que pela +justia. Mas a que se conceder memoria de Camillo, na pessoa de seus netos, +pelo menos at maioridade d'elles, alem de poder ser a mais parcimoniosa de +todas, ser a mais justa entre as que a si mesmas se justificam plenamente. +Camillo um d'estes escriptores que representam uma nacionalidade: a sua obra + a alma de um povo.</p> + +<p>A sr. D. Anna enxugou uma lagrima nos seus olhos de um azul muito claro, +to quebrados pelo soffrimento como o poderiam ser por uma longa vigilia.</p> + +<p>Quantas noites, em verdade, no desvelar esta boa creatura a pensar no +incerto futuro de seis filhos, entregues ao seu heroismo maternal, unica fora +que parece vitalisar-lhe o corpo depauperado pela anemia<span class="pn"><a +name="pag_14">{14}</a></span> e envelhecido prematuramente por uma vasta serie +de inconfessaveis desgostos!</p> + +<p>Depositria de um nome illustre, e de uma das mais solidas glorias +literarias do nosso tempo, que dever restituir intacta a seus filhos depois de +os ter preparado de modo a saberem continual-a dignamente, a sua misso +espinhosa e agra, sobretudo se a patria a desamparar, o que seria um crime +affrontoso, e uma ingratido odiosa.</p> + +<p>Os netos de Camillo, vivendo n'um affastado rinco do Minho, entre dois +campos hypothecados, no tem a espreital-os a <em>reportagem</em> dos jornaes, +a vigilancia dos Argus de botequim, nem a atteno dos centros literarios e +aristocraticos. Os montes que os rodeiam, no deixam vel-os de longe; +especialmente de Lisboa. preciso lembral-os, pol-os deante dos olhos da +patria, e esse o unico intuito que inspirou a publicao d'este opusculo.</p> + +<p>Dilemma inilludivel: Deixar ao abandono seis creanas, que ho de perpetuar +uma gerao illustre, ou protegel-as com uma exigua mealha, que abastar s +modestas necessidades de pessoas educadas na vida alde, no trato simples de +camponezes, e sobriamente habituadas ao caldo verde do Minho.</p> + +<p>Quem deixar sossobrar em to fragil batel seis creanas desprotegidas, +podendo facilmente salval-as, e com ellas uma das mais authenticas e genuinas +glorias nacionaes?</p> + +<p>Ninguem. A consciencia publica o ultimo alento que morre nos povos que se +deixaram enfermar de<span class="pn"><a name="pag_15">{15}</a></span> +leviandades e desacertos continuados. Ns somos um povo doente d'essa pcha. +Mas a consciencia ainda reage por vezes, brada, impe-se, faz-se ouvir e +attender.</p> + +<p>Entreguemos, pois, esta demanda consciencia publica.</p> + +<p>O unico dos netos de Camillo que eu no pude vr em S. Miguel de Seide, foi +Manuel, o mais novo, nascido em 1893.</p> + +<p>O seu nome tambem obedeceu a uma propositada escolha: era o do pae do grande +romancista.</p> + +<p>A julgar pelo retrato, parece ser o mais alegre de todos elles, privilegio +que a sua edade, alis, explica.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Acompanhados pela sr. D. Anna Corra, dirigimo-nos, o sr. Adriano Trpa e +eu, para a casa onde morreu Camillo, a qual est actualmente deshabitada, com +excepo do pavimento terreo, que residencia do caseiro.</p> + +<p>Aberto o porto, entramos na sombra de uma latada de alvaroco, cujos cachos +brancos pendiam vagamente doirados por tenues raios de sol, que as folhas +verdes coavam.</p> + +<p>Olhei logo para um recanto, esquerda, onde eu sabia existir <a +name="monumento" id="monumento" href="#L2597">o monumento commemorativo da +visita de Castilho, o principe da lyra portugueza, a S. Miguel de Seide, em +julho de 1866</a>.<span class="pn"><a name="pag_16">{16}</a></span></p> + +<p>Castilho, que partira de Lisboa acompanhado por seu filho Eugenio, tinha +alli, n'aquelle torro do Minho, uma crte de letrados, verdadeira <em>crte +n'aldeia</em>, a render-lhe homenagem: compunham-n'a Camillo, Anna Placido, +Thomaz Ribeiro e Vieira de Castro.</p> + +<p><a name="inscrip" id="inscrip" href="#L2587">A inscripo est quasi +apagada, como j se apagou tambem a vida das pessoas a quem ella se +referia.</a> Cresceram hervagens e ramos que sombriamente afogaram o +monumentosinho. Parece um tumulo esquecido na solido de um cemiterio.</p> + +<p>Recordei ento <a name="dedicat" id="dedicat" href="#L2589">a dedicatria da +<em>Maria Moyss</em> a Thomaz Ribeiro</a>.</p> + +<p>Quando eu estava olhando para aquella pedra triste, visinha silenciosa de +uma casa no menos triste, assomou ao porto um individuo, que desconheci, um +velho rijo, de physionomia agradavel, cujo trajo me denunciou logo o camponez +polido.</p> + +<p>A sr. D. Anna Corra apresentou-m'o, pois que o sr. Trpa j o conhecia: +era o sr. Francisco Corra de Carvalho, dedicado amigo de Camillo, quasi +familiar na casa de Seide, e proximo visinho.</p> + +<p>Como notasse que eu estava olhando para o monumento, o sr. Carvalho, muito +expansivo, contou logo que um dia, nos ultimos annos da vida de Camillo, parra +um trem ao porto, o que deu rebate de uma visita inesperada, facto que de +longe a longe acontecia.</p> + +<p>Camillo preparou-se para receber algum amigo; mas no apparecia ninguem. +Sahiram varias pessoas, entre ellas o sr. Carvalho, a averiguar o +extraordinario<span class="pn"><a name="pag_17">{17}</a></span> caso da +carruagem, que parecia ter vindo vasia e parado ali sem destino.</p> + +<p>Ento descobriram o vulto de um homem junto ao monumento, e voltado para +elle. Aproximando-se cautelosamente, p ante p, reconheceram n'esse extranho +visitante, Thomaz Ribeiro, que chorava, abraando-se com a pedra.</p> + +<p>Chorava memorias do passado, memorias de si mesmo, da sua mocidade +longinqua, de Castilho morto, de Vieira de Castro duas vezes morto, primeiro no +tribunal, depois no tumulo; do filho de Castilho, apodrecido n'um leito, e de +Camillo, ali to proximo, crucificado no Calvario de todas as dores reaes e +imaginarias que lhe attribularam incessantemente a existencia.</p> + +<p>Fiz reparo em que o sr. Carvalho, chamando de parte o sr. Trpa, trocra com +elle algumas palavras.</p> + +<p>Tive depois a explicao d'este incidente; e o leitor tel-a-ha tambem, a seu +tempo.</p> + +<p>Mas, rapidamente, o sr. Carvalho voltou a falar comigo cerca do monumento, +e do facto que elle memorava: a visita de Castilho a Seide.</p> + +<p>—Fez-se aqui, dizia-me o sr. Carvalho, uma linda illuminao. Vieram +cantadores, entre os quaes se distinguiram o <em>Gallego</em> e a <em>Rosa +Cantadeira</em>. Castilho mostrou-se admirado com os improvisos do +<em>Gallego</em>, sempre espontneos e, por via de regra, muito maliciosos. +Quero, dizia Castilho, que me descrevam a cara d'este homem; que pena tenho de +o no vr! Mas calculo que a sua physionomia ha de ter tanta<span class="pn"><a +name="pag_18">{18}</a></span> expresso como a de um actor comico. Por fora! +Nunca mais, concluia o sr. Carvalho, poderei <a name="esquecer" id="esquecer" +href="#L2583">esquecer essa noite de festa, que foi talvez a unica noite feliz +n'esta casa</a>.</p> + +<p>Emquanto o sr. Carvalho discursava com a verbosidade ardente de um rapaz, +poisei os olhos sobre a <em>acacia do Jorge</em>, de cujas amplas frondes cahia +uma sombra profunda e saudosa.</p> + +<p>E fui repetindo, irreflectidamente, os versos de Camillo:</p> + +<blockquote> + <p>Quando a acacia do Jorge ainda outra vez inflore,<br> + Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei.</p> +</blockquote> + +<p>A sr. D. Anna Corra, encostada n'esse momento ao mainel da escada, que +iamos subir, disse com maviosa expresso de tristeza:</p> + +<p>—Tantas vezes tem j florido, depois que elle morreu!</p> + +<p>Eu completei mentalmente o seu pensamento: E ainda no voltou...</p> + +<p>Noticiei sr. D. Anna que um poeta da moderna gerao, dos melhores, se +no o melhor, havia recentemente cantado <em>A acacia do Jorge</em> em quadras +maviosas, de que brotavam lagrimas em fio, melancolicamente, como gotas d'agua +cahindo tristes de uma fonte solitaria.</p> + +<p>Posso agora completar essa informao, reproduzindo integralmente a poesia +de Affonso Lopes Vieira:<span class="pn"><a name="pag_19">{19}</a></span></p> + +<blockquote> + <p> A ACACIA DO JORGE</p> + + <p>Camillo! como acreditar, como hei de<br> + Entender estes versos que deixaste?<br> + Floriu a Acacia em S. Miguel de Seide,<br> + Cada anno te espera,—e no voltaste!</p> + + <p>J tantas vezes deu a sombra amiga,<br> + Que tu gostavas tanto de gozar...<br> + Florida, tem um ar de festa antiga<br> + Na esperana de te vr voltar!</p> + + <p>Voltar? A velha arvore que cance!...<br> + Por fim ha de ruir, n'uma amargura.<br> + Prepras l um ultimo romance?<br> + Suprema indiscreo! Genio e loucura!</p> + + <p>Dolorosa novella desmanchada,<br> + E que nos deixe pallidos e absortos,<br> + Onde nos digas, grande camarada,<br> + O gordo amor de brazileiros mortos!</p> + + <p>Os Amorosos, que se vo chorando<br> + porta do convento, e amortalhar-se...<br> + Com habitos de terra aconchegando<br> + Os esqueletos de ossos a chocar-se...</p> + + <p>Um romance da cova, com morgados<br> + Que o alm desbastou; com almas finas<br> + De mysticas de Amor, lindas Meninas<br> + Em mosteiros chorando, abandonados!</p> + + <p>E a descomposta, lugubre risada<br> + De romantica bocca, que era a tua,<br> + N'esses reinos da Morte gargalhada<br> + Sobre defuntos namorando lua!<span class="pn"><a + name="pag_20">{20}</a></span></p> + + <p>E toda a v e toda a derradeira<br> + Esperana do cabo da viagem;<br> + Com descriptivos, tua maneira,<br> + D'esse Minho da Morte da paisagem...</p> + + <p> Acacia! j tempo: desesperas?<br> + No te ponhas florida, pe-te aos ais!...<br> + Nunca mais voltar esse que esperas,<br> + Ouves bem este horror? Jmais! Jmais!</p> + + <p>E os versos d'elle, onde a saudade existe,<br> + Que despedida te gritou tambem,<br> + Ah! no so mais que uma mentira triste:<br> + Como tudo, a final, que nos faz bem.</p> + + <p>Poetas! perguntae ao pensamento<br> + Que mais chimeras e desgraas forge?<br> + Antes te sque um raio, ou parta o vento!<br> + Acacia do Jorge...</p> +</blockquote> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Fomos subindo vagarosamente os degraus da escada de pedra, sobre a qual +pende, chorosa, a farta ramagem da acacia. O caseiro tinha aberto as portas. +Entrmos. Todos ns, os homens, nos descobrimos a um tempo, respeitosamente.</p> + +<p>A lembrana do que eu vira ali ha dezeseis annos aclarava-se no meu espirito +com uma grande nitidez de saudade rediviva.</p> + +<p>Eu ia dizendo:</p> + +<p>—Era aqui a casa de jantar.<span class="pn"><a +name="pag_21">{21}</a></span></p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustrao" src="images/camillo_jr.jpg"></p> + +<p>CAMILLO</p> +</div> + +<p>A sr. D. Anna Corra confirmava.</p> + +<p>Passmos depois sala em que estivera o bilhar e onde Camillo costumava +receber as suas visitas de maior cerimonia.</p> + +<p>A sr. D. Anna disse, indicando o vo de uma janella:</p> + +<p>—Foi aqui que se matou, sentado na cadeira de baloio.</p> + +<p>E, longamente, a sr. D. Anna reconstituiu todo esse rapido drama de +desespero atroz.</p> + +<p>—O sr. visconde (Camillo) estava vivendo comnosco, no outro predio, +onde habitava o melhor quarto do segundo andar. Mas sempre que tinha visitas, +vinha aqui recebel-as. Foi o que aconteceu n'esse dia, quando chegou de Aveiro +o medico Edmundo Machado, que j tambem falleceu. O sr. visconde parecia +tranquillo antes do medico chegar.</p> + +<p>O sr. Carvalho interrompeu, dizendo:</p> + +<p>—Na vespera tinha andado a passeiar pelo meu brao ali no largo, em +frente da egreja. Como comeasse a soprar uma aragem fresca, o sr. visconde +disse-me: Vamos embora, que tenho medo de uma pneumonia. Ainda na vespera do +suicidio temia tanto a morte!</p> + +<p>— verdade! confirmou a sr. D. Anna Corra. Perguntou o sr. visconde +ao medico se quereria encarregar-se de o tratar da cegueira em Aveiro. O doutor +respondeu que seria melhor ir primeiro tomar as aguas do Gerez. O sr. visconde +viu certamente n'estas palavras o artificio de uma dilao para evitar<span +class="pn"><a name="pag_22">{22}</a></span> um desengano. Momentos depois o +medico despediu-se, e a sr. viscondessa e o sr. Carvalho acompanharam-n'o at + escada. Ouviu-se ento a detonao de um tiro. Retrocederam todos. O sr. +visconde estava prostrado na cadeira, arquejando. No se lhe viu, no primeiro +momento, ferimento algum. Foi s algum tempo depois que uma gotinha de sangue +aflorou no sitio onde a bala entrra, sobre a tempora.</p> + +<p>—O sr. visconde, perguntei eu, trazia sempre comsigo o rewolver?</p> + +<p>—Sempre; j o levra a Lisboa, onde um dia o experimentou, disparando +para o tecto. Mas o filho (Nuno) tinha substituido as balas por uns projecteis +inoffensivos, no sei de qu. O sr. visconde percebeu isto. Todavia no largra +mais o rewolver, nem consentia que lh'o tirassem.</p> + +<p>—De tanto o apalpar, observou o sr. Carvalho, j tinha a coronha +poda.</p> + +<p>A sr. D. Anna Corra concluiu a sua dolorosa narrativa dizendo:</p> + +<p>—Estavamos longe de imaginar que tivesse adquirido balas verdadeiras. +Todos suppunhamos o rewolver vasio. Foi uma surpreza terrivel.</p> + +<p>E todos ns, depois d'esta rapida reconstituio do drama de Seide, nos +demormos ali, concentrados e silenciosos, por alguns momentos, como se +vissemos ainda Camillo, prostrado e arquejante, na sua cadeira de baloio, +morrendo.<span class="pn"><a name="pag_23">{23}</a></span></p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Subimos depois ao segundo andar.</p> + +<p>Eram ahi o escriptorio do romancista e os quartos de cama.</p> + +<p>No escriptorio, por onde agora a luz golphava livremente, restavam do antigo +mobiliario duas cadeiras de estofo, escanceladas e poentas.</p> + +<p>A nudez da sala, que o auctor de cem romances aquecera outr'ora com a +irradiao vulcanica do proprio cerebro, gelou-me de tristeza. Dava a impresso +de uma forja apagada. O tempo havia esfriado o rescaldo do ultimo livro. A +officina parecia dormir tambem o somno da morte, que prostrra o valoroso +artifice.</p> + +<p>Os aposentos de Camillo, alcova e saleta, estavam igualmente desnudados de +mobilia; apenas na parede havia pendentes alguns <em>croquis</em> do Jorge, e +dois quadrinhos de que eu me lembrava ainda perfeitamente.</p> + +<p>Tenho em Lisboa uma pasta cheia de desenhos, que o Jorge me deu ha dezeseis +annos. Por isso, mais do que aos seus <em>croquis</em>, prestei atteno aos +dois modestos quadrinhos, que durante longo tempo deram os bons dias e as boas +noites a Camillo, velando a seu lado, como companheiros fieis e amigos +intimos.</p> + +<p>So duas lithographias, que ninguem compraria n'um leilo, se ignorasse que +ellas tinham pertencido a Camillo e ornado o seu quarto de cama.</p> + +<p>Uma o retrato de Theophile Gautier, que foi o<span class="pn"><a +name="pag_24">{24}</a></span> chefe do estado-maior no exercito do general +Victor Hugo, durante as campanhas incruentas do romantismo.</p> + +<p>A sua <em>toilette</em> caracterisa nitidamente essa poca literaria, em que +os nephytos revolucionarios procuravam desafiar a opinio publica e <em>pater +le bourgeois</em> exhibindo fatos alarmantes pelo exagero da cr e do crte.</p> + +<p>Primeiro que tudo, falemos da cabelleira romantica, essa floresta de +cabellos cahidos sobre os hombros, que denunciava primeira vista os literatos +e os pintores.</p> + +<p>Agora, em nossos dias, muitos pintores e alguns poetas tem querido +resuscital-a por amor da celebridade; mas, ai d'elles! fazem lembrar os +mascarados que no carnaval moderno se vestem de pagens de Luiz XIV ou de +cortezos de Luiz XV.</p> + +<p>Deslocados do seu meio e do seu tempo, apenas conseguem dar uma falsa noo +historica: so parcellas que sobrevivem a uma addio que se apagou.</p> + +<p>A cabelleira, como ornato capillar, efemina ridiculamente os homens de +hoje.</p> + +<p>Como caracteristica d'uma poca, passou com essa poca: uma recordao +archeologica, que assenta melhor no muzeu do Carmo do que n'uma cabea +humana.</p> + +<p>Theophile Gautier, que era ento um rapaz, a quem o bigode pennujava ainda, +veste casaco de alamares—esse casaco-broquel, que defendia os coraes +romanticos.<span class="pn"><a name="pag_25">{25}</a></span></p> + +<p>O romantismo foi uma seita aguerrida, propensa a brigas e reptos. Por isso, +talvez, adoptou o casaco de alamares, que tinha o que quer que fosse de aspecto +militar, de lamina protegendo o peito de um couraceiro.</p> + +<p>No pescoo, um leno de seda preta, alto como o gorjal de um cavalleiro +antigo.</p> + +<p>Honrado leno de seda, que durante tanto tempo adornaste o pescoo de nossos +pais! tu tinhas uma eloquencia clamante e solemne. Davas ao pescoo humano uma +attitude erecta e firme, como a de um busto de marmore ou de um granadeiro em +formatura.</p> + +<p>Dir-se-ia que os pescoos, grossos e aprumados, tinham ento musculos de +ao, a envergadura de uma aguia ou de um cysne. Precisavam uma encadernao +condigna, forte e austera.</p> + +<p>Depois vieram as gravatas multicores e multiformes, dando a impresso de +fitas garridas para adorno de damas.</p> + +<p>E a Academia Real das Sciencias decidir, porque muito capaz d'isso, se +foram os pescoos que adelgaaram por amor das gravatas, se foram as gravatas +que adelgaaram por amor dos pescoos.</p> + +<p>O outro retrato de Alphonse Karr, tambem ento em plena mocidade. Tem buo +e mosca, levemente esboados; e usa apenas meia cabelleira. Mas o effeito da +<em>toileite</em> compensa, como excentricidade de <em>pose</em>, a deficiencia +da cabelladura.</p> + +<p>Karr veste camisa de trabalho, desafogada no pescoo,<span class="pn"><a +name="pag_26">{26}</a></span> e sobre ella um amplo gabinardo, que tanto +poderia servir a um pescador ou um jardineiro, como a um escriptor em +actividade—porque tudo isso foi o auctor das <em>Gupes</em>, sendo elle +proprio uma obra em trez volumes.</p> + +<p>Tambem no sei se a Academia Real das Sciencias querer dar parecer sobre o +facto, em que fiz reparo, de Theophile Gautier ter sobrancelhas desenhadas em +arco e Alphonse Karr sobrancelhas colleadas em til.</p> + +<p>Pode ser que das ponderaes da Academia a este respeito venha a fazer-se +nova e difinitiva luz sobre a apreciao critica de Gautier e Karr.</p> + +<p>Ha muito a esperar da Academia, tanto mais que ella ainda no fez nada.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Da saleta de Camillo passmos ao quarto de cama da viscondessa de Correia +Botelho, igualmente desmobilado.</p> + +<p><a name="essa" id="essa" href="#L2581">Foi ali que essa linda mulher, de +frmas esculpturaes</a>, envelheceu e expirou.</p> + +<p>D. Anna Augusta Placido falleceu repentinamente da ruptura de um aneurysma, +no dia 20 de setembro de 1895 pela manh.</p> + +<p>Tinha accordado bem disposta e, a breve trecho, veio a morte +surprehendel-a.</p> + +<p>Aps algumas golphadas de sangue, cahiu exanime na almofada do leito.<span +class="pn"><a name="pag_27">{27}</a></span></p> + +<p>Morreu corajosamente, rodeada pelos netos.</p> + +<p>Ella, que teve uns olhos cheios de brilho e de magia, estava quasi cega +quando morreu.</p> + +<p>J no podia lr, nem escrever.</p> + +<p>Eu ignorava esta circumstancia, que me foi agora communicada em Seide.</p> + +<p>Extranho destino o d'essas duas almas, Anna Placido e Camillo, que o amor +reuniu, que a convivencia torturou, e que a desgraa da cegueira feriu +implacavelmente na velhice, para que ambos exgotassem at s fezes o mesmo +calix de amargura.</p> + +<p>Aqui terminou a nossa visita casa deshabitada de Seide, rodeada de +pinheiraes gementes, mais triste agora do que nunca.</p> + +<p>Por vezes o sr. Carvalho aligeirou a melancolia que nos acabrunhava ali, +evocando alguma recordao anecdotica da vida de Camillo.</p> + +<p>Quando sahiamos o porto da quinta, dizia-nos o sr. Carvalho:</p> + +<p>—Um dia, Camillo, vindo do Porto, preveniu o chefe da estao de Villa +Nova de que esperava brevemente a visita de um bacharel e pediu-lhe que o +guiasse para S. Miguel de Seide. Sempre que chegava um comboio, o chefe da +estao perguntava: Vem ahi algum sr. doutor, que deseje ir para Seide? +Ninguem respondia. At que finalmente appareceu o bacharel annunciado: era um +burro que Camillo Castello Branco tinha comprado no Porto.<span class="pn"><a +name="pag_28">{28}</a></span></p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Como voltassemos casa do Nuno, para nos despedirmos dos netos do grande +romancista, pois que s o pequeno Camillo nos tinha acompanhado, aproveitei o +caminho para fazer algumas perguntas sr. D. Anna.</p> + +<p>—O sr. visconde de Corra Botelho no reservou para si alguns livros e +manuscriptos, quando vendeu a bibliotheca?</p> + +<p>Obtive esta resposta:</p> + +<p>—Sim, senhor. Mas a sr. viscondessa recommendou-me muitas vezes que +os no mostrasse a ninguem antes de entregal-os aos netos.</p> + +<p>Fiquei, confesso, um pouco contrariado, mas no tinha que replicar.</p> + +<p>Perguntei sr. D. Anna por um antigo criado de Camillo, que eu conhecra +na Povoa de Varzim e do qual o grande romancista me disse n'aquella praia: +Manoel Cannio a unica pessoa que manda na minha casa. Assumiu a dictadura e +no sabe governar d'outro modo: dava um bom ministro... constitucional.</p> + +<p>Poucas horas depois sahiamos, Camillo e eu, para ir dar um passeio.</p> + +<p>O Manoel Cannio appareceu-nos na escada e interpellou seu amo +dizendo-lhe:</p> + +<p>—V. Ex. vai sem paletot?</p> + +<p>Camillo respondeu passivamente:<span class="pn"><a +name="pag_29">{29}</a></span></p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustrao" src="images/nuno.jpg"></p> + +<p>NUNO</p> +</div> + +<p>—A tarde est quente, e ns demoramo-nos pouco.</p> + +<p>Manoel Cannio, em plena dictadura, replicou:</p> + +<p>—V. Ex. vai vestir o paletot; queira esperar, que vou buscal-o.</p> + +<p>Camillo encolheu os hombros, sorrindo. E ambos espermos que o paletot +chegasse.</p> + +<p>Andmos visitando os cafs e as roletas. Quando recolhiamos a casa, passmos +por uma taberna onde estavam zangarreando viola. Camillo parou, olhou para +dentro da tasca, e disse-me: Quem toca o Manoel Cannio. Por isso que eu o +soffro.</p> + +<p>Segundo me contou a sr. D. Anna Correia, Manoel Cannio fra para o Brazil, +onde se demorra alguns annos; regressou outro dia, mais pobre do que tinha +ido.</p> + +<p>Voltando casa do Nuno, tornei a falar na necessidade de, com o auxilio do +Estado, serem convenientemente educados os netos de Camillo.</p> + +<p>E de repente ataquei um assumpto novo:</p> + +<p>—Estes meninos tem uma tia no Porto, bem casada, supponho eu.</p> + +<p>A sr. D. Anna respondeu promptamente:</p> + +<p>—Tem, certo, mas as nossas relaes esto cortadas.</p> + +<p>No pude ento reprimir uma expanso que me desafogou o animo:</p> + +<p>—V. Ex. est pois convencida de que estes meninos tem uma tia no +Porto?</p> + +<p>—Estou, sim, senhor.<span class="pn"><a +name="pag_30">{30}</a></span></p> + +<p>—Tambem eu, minha senhora.</p> + +<p>O sr. Carvalho interveio na conversao, pondo-se a p e dizendo com grande +hombridade:</p> + +<p>—Negal-o foi uma loucura.</p> + +<p>Achei que era chegado ento o momento opportuno de arrancar a mascara que me +constrangia.</p> + +<p>—Pois bem, minha senhora, disse eu, desde que no corro o risco de ter +que contrariar a opinio de V. Ex. em sua propria casa, devo declarar-lhe o +meu verdadeiro nome: eu sou Alberto Pimentel. E agora peo mil perdes a V. +Ex. por ter usado de um disfarce, que me foi imposto pelo respeito e +considerao que devia a V. Ex. Eu no podia, na sua presena, ter uma opinio +que, sobre to melindroso negocio de familia, lhe causasse desgosto.</p> + +<p>O sr. Carvalho sorria triumphalmente. A sr. D. Anna respondeu com +indulgente cortezia, dizendo:</p> + +<p>—Eu tinha-o suspeitado desde que V. entrou. <a name="Nuno" id="Nuno" +href="#L2573">Em 1892 o Nuno, estando ns na Povoa, mostrou-me V. no <em>Caf +Chinez</em>;</a> no dia seguinte tornmos a vl-o de tarde, no Passeio Alegre. +E o Nuno dizia-me ento: No haver aqui um homem, amigo de ambos, que pudesse +reconciliar-nos! O que certo que eu tinha fixado a physionomia de V. e mal +podia acreditar n'uma to completa similhana entre a pessoa que eu vira na +Povoa e a pessoa que hoje me visitava com nome differente.</p> + +<p>O sr. Carvalho, de p, no meio da sala, continuava a sorrir triumphalmente, +esperando a occasio de dizer:<span class="pn"><a +name="pag_31">{31}</a></span></p> + +<p>—A mim tambem no me enganou V. Logo que o vi, perguntei ao sr. Trpa: +Este no o Alberto Pimentel?</p> + +<p>E o sr. Adriano Trpa confirmou:</p> + +<p>—Foi o que elle me disse ao ouvido, agarrando-me pelo brao.</p> + +<p>—O que lhe respondi eu? insistiu o sr. Carvalho.</p> + +<p>—Que tinha a certeza de que no era outra pessoa.</p> + +<p>O sr. Carvalho explicou que me conhecia de S. Miguel de Seide, e que, na +Povoa de Varzim, viera esperar-me estao com o Nuno no anno em que eu ali +fra visitar Camillo.</p> + +<p>A sr. D. Anna Corra disse ento como se quizesse apresentar-me +officialmente o sr. Carvalho:</p> + +<p>— um nosso velho amigo, que o sr. visconde (Camillo) estimava +muito.</p> + +<p>E, sorrindo, acrescentou:</p> + +<p>— o Jos Fistula do <em>Eusebio Macario</em>...</p> + +<p>O sr. Carvalho atalhou jovialmente:</p> + +<p>—Com a differena de que no sei tocar guitarra, nem cantar o +<em>Fado</em>. Camillo brincava comigo; mas era meu amigo a valer, e eu +adorava-o.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p> certo que o genial romancista, na vida alde de Seide, se entretinha +familiarmente com a gente do campo. No me refiro ao sr. Carvalho, que +um<span class="pn"><a name="pag_32">{32}</a></span> camponez relativamente +illustrado. Mas ainda outro dia vi em Santo Thyrso um velho jornaleiro que anda +hoje pedindo esmola, e que recita perlengas mythologicas e polyglottas +leccionadas por Camillo. Chama-se Joo de Seide e deve ter perto de setenta +annos. Repete inconscientemente, como um phonographo, o que lhe ensinra o +grande romancista em horas de bom humor. Por exemplo:</p> + +<p> </p> + +<p>Jupiter era um deus omnipotente no Olympo. Venus era sua filha e me de +Cupido, deus do amor. Um dia Jupiter escamou-se com Vulcano, deu-lhe um pontap +no trazeiro, e deixou-lh'o ao lado.</p> +<hr style="width: 10%;"> + +<p>Em francez, <em>bonne nuit</em> boa noite; e <em>bon soir</em>, boa +tarde.</p> + +<p>Em inglez, <em>good night</em> boa noite.</p> +<hr style="width: 10%;"> + +<p>O verbo ser conjuga-se assim em francez</p> + +<p>Je suis<br> +Tu es<br> +Il est<br> +Nous sommes<br> +Vous tes<br> +Ils sont<span class="pn"><a name="pag_33">{33}</a></span></p> +<hr style="width: 10%;"> + +<p>A China tem mais habitantes do que a Russia, mas a Russia maior em +territorio.</p> +<hr style="width: 10%;"> + +<p>Em Villa Nova de Famalico, onde uma das novas ruas tem o nome de Camillo, +ha um botequim conhecido pelo <em>Caf do Gato</em>.</p> + +<p>Gato o appellido do seu proprietario, um velho rijo e so, ainda com +filhos pequenos.</p> + +<p>Era o botequim habitual de Camillo quando passava em Famalico.</p> + +<p>Ali se entretinha o grande escriptor chalaando com o velho Gato, cuja +rusticidade de trato eu pude aferir pelo dialogo que se travou, na minha +presena, entre elle e um cavalheiro de Famalico, ao entrarmos ultimamente +n'aquelle botequim com outros cavalheiros de Santo Thyrso.</p> + +<p>— Gato, venha vr o que estes srs. querem tomar.</p> + +<p>Resposta d'elle:</p> + +<p>—No preciso. Pea de l, que eu sirvo de c.</p> + +<p> de notar que esta resposta agreste, no trato da gente rustica do Minho, +no exclue bondade de caracter. No v suppr-se que o proprietario do caf de +Famalico seja um gato bravo da bocca para dentro.</p> + +<p>Mas o caso vem a proposito para mostrar que<span class="pn"><a +name="pag_34">{34}</a></span> n'estas e outras rusticidades se recreava Camillo +emquanto a cegueira o no isolou em Seide na treva e no desespero.</p> + +<p>O grande escriptor tinha um vocabulario pittorescamente ironico para +exprimir os ridiculos e desleixos da vida campestre.</p> + +<p>Assim era que, segundo vejo n'um jornal minhto, designava pelo nome +bucolico de <em>boninas</em> as stratificaes fecaes que matizam e embalsamam +os caminhos nas villas e aldeias do Minho.</p> + +<p>Tem verdadeira graa pastoril: boninas!</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Reatemos a narrativa no ponto em que a deixmos: o motivo do meu +disfarce.</p> + +<p>A sr. D. Anna asseverou mais uma vez que Nuno Castello Branco tinha +desgosto de haver provocado a questo a que me constrangeu logo depois da morte +de seu pae; mas que fra arrastado a isso por despeitos de familia, em +consequencia de sua irm ter mandado depr uma cora, com palavras de filial +saudade, sobre o fretro de Camillo.</p> + +<p>O sr. Carvalho, por sua vez, acrescentou:</p> + +<p>—Quando o Nuno foi levar ao Porto o manuscripto do <em>Protesto</em>, +disse-lhe eu: No faas isso, Nuno, que uma loucura. Vaes contradizer a +verdade. E olha que chega para todos vs a gloria de teu pae.</p> + +<p>—Mas o Nuno, insistiu a sr. D. Anna, estava arrependido<span +class="pn"><a name="pag_35">{35}</a></span> e no tinha odio nenhum a V. E a +sr. viscondessa sempre, n'outras occasies, se lhe mostrou muito affeioada, +falando de V. com especial estima.</p> + +<p>Certifiquei a sr. D. Anna de que eu procurei, quanto pude, evitar essa +deploravel questo e poupar pessoalmente o meu adversario. Houve apenas uma +insinuao que me feriu: a de que eu, por um vil interesse, o dinheiro, +defendia a causa da filha de Camillo, quando certo que eu nunca tivera +intelligencias com o marido d'esta illustre senhora, e que at o no conheo. +Mas essa mesma insinuao ficava esquecida, como se nunca houvesse existido, +desde o momento em que eu tinha a certeza de que Nuno Castello Branco se +arrependra de a ter escripto.</p> + +<p>No decurso da conversao vi-me rodeado pelos netos de Camillo, como se eu +fosse j um familiar d'aquella casa. Principiei a sentir-me estimado ali, o que +me recompensou largamente de quantos desgostos a questo do <em>Protesto</em> +me causou.</p> + +<p>Considero esse dia como um dos mais felizes da minha vida.</p> + +<p>O pequeno Camillo viera sentar-se no soph, a meu lado, interessando-se +muito, com a mo enconchada sobre a orelha direita, pela nossa conversao.</p> + +<p>A sr. D. Anna Corra tivera a encantadora bondade de dizer-me:</p> + +<p>—Apesar da recommendao da sr. viscondessa quanto aos livros do sr. +visconde, eu quero mostral-os a V.: a maior prova de estima que posso +dar-lhe. Tenho a certeza que se a sr. viscondessa fosse viva,<span +class="pn"><a name="pag_36">{36}</a></span> procederia do mesmo modo. Tambem +ella faria esta excepo.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>D'ali a pouco subimos ao segundo andar para vr o que resta da bibliotheca +de Camillo: uns duzentos volumes talvez, repartidos por duas estantes +envidraadas. Algumas obras manuscriptas, poucas: lembro-me de ter visto uma +genealogia em varios tomos. Entre os livros encontrei dois meus: <em>A Jornada +dos Seculos</em> e a <em>Flor de myostis</em>.</p> + +<p>Depois entramos no quarto em que Camillo dormia quando alli se demorava +temporadas.</p> + +<p> um amplo compartimento, cheio de luz, com largas janellas que deixam +espraiar-se o olhar por cima dos pinheiraes at alcanar o cume de montes +longinquos.</p> + +<p>Quando Camillo habitava aquelle quarto, j estava cego. Mas se no podia +contemplar o panorama, cheio da placidez e melancolia que caracteriza os bastos +pinheiraes tranquillos, devia sentir o calor do sol que invadia o aposento.</p> + +<p>A alma de Camillo teria certamente n'essas horas bem menos placidez que a +floresta dormente.</p> + +<p>Abundam n'esse quarto os retratos de familia, muitas recordaes de um +passado a que o amor deu momentos de felicidade e seculos de amargura.</p> + +<p>Havia ali, em todo aquelle segundo andar, um bello nucleo de muzeu +camilliano.<span class="pn"><a name="pag_37">{37}</a></span></p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustrao" src="images/rachel.jpg"></p> + +<p>RACHEL</p> +</div> + +<p>Foi n'esse mesmo andar que <a name="Jorge" id="Jorge" href="#L2613">Jorge +Castello Branco, o infeliz primogenito de Camillo</a>, passou os ultimos tempos +da sua curta existencia.</p> + +<p>Contou a sr. D. Anna Corra que elle tinha horror a vr os criados da casa. +Postas as refeies sobre a mesa, os criados sahiam; e o Jorge entrava depois. +Algumas noites prestava-se a tocar piano—esse piano que era de sua me e +que ella havia levado para a Cadea da Relao do Porto—mas exigia que +ninguem estivesse presente. A musica foi uma das muitas aptides artisticas do +Jorge. Eu j disse algures que elle, em noites de luar, se empoleirava nas +arvores de Seide a tocar flauta.</p> + +<p>Queria viver isolado no seio da propria familia. No consentia que lhe +fizessem limpeza no quarto. Se alguem se quizesse aproximar, cuspia-lhe.</p> + +<p>No dia 2 de setembro de 1900, o Jorge no se levantou para ir almoar. A +porta do seu quarto estava fechada por dentro, como era costume.</p> + +<p>A sr. D. Anna Corra chamou-o:</p> + +<p>—Sr. Jorge, so horas do almoo.</p> + +<p>Elle respondeu:</p> + +<p>—J vou.</p> + +<p>Mas passou tempo sem que se levantasse.</p> + +<p>Tornaram a chamal-o.</p> + +<p>—J vou, repetiu elle.</p> + +<p>Mas, como no apparecesse, a sr. D. Anna resolveu entrar no quarto pela +janella, o que foi empreza difficil.</p> + +<p>Achou o Jorge doente, apathico, n'um estado gastrico<span class="pn"><a +name="pag_38">{38}</a></span> que, n'esse momento, lhe pareceu no offerecer +maior gravidade.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>D'aqui por deante, a narrativa da sr. D. Anna Corra conforma-se +inteiramente com a verso que o sr. Jos de Azevedo e Menezes, da illustre casa +do Vinhal, em Famalico, me communicou n'uma carta, por mim j publicada.</p> + +<p>Vou reproduzil-a, para que no fique perdida na volumosa colleco de uma +folha diaria:</p> + +<p> </p> + +<p>Em resposta estimada carta de v. , tenho a dizer-lhe que o infeliz +Jorge de Castello Branco falleceu em casa de D. Anna Corra, a companheira do +Nuno, no dia 10 do corrente mez, s 6 horas da tarde, e enterrou-se no dia 12, +assistindo alguns visinhos.</p> + +<p>Tratou-o nos ultimos quinze dias de vida o medico Dias de S, de Landim, +que logo previu o desenlace fatal.</p> + +<p>No dia 2 d'este mez o Jorge sentiu-se mal do estomago, talvez por ter +debicado as primeiras uvas e pras do quintal da casa. Um ligeiro laxante +deu-lhe melhoras, que infelizmente se no mantiveram, cahindo com desmaios e +no podendo conciliar o somno.</p> + +<p>A final veiu a paralysia cerebral que o matou sem agonia. De vez em quando +gemia e invocava a<span class="pn"><a name="pag_39">{39}</a></span> Deus! +Durante um desmaio na manh do dia em que morreu, foi ungido.</p> + +<p>No se lhe notou hora da morte o intervallo lucido, que s vezes apparece +nas doenas mentaes.</p> + +<p>Tinha, porm, amor vida, esperando obter melhoras dos remedios, que s +tomava nos caldos e leite pela mo da sua desvelada enfermeira D. Anna Corra, +que foi para o infeliz louco uma carinhosa me.</p> + +<p>Fui visitar essa bondosa mulher, e fiquei agradavelmente impressionado da +sua apresentao e do bom senso, que mostrou em alguns pontos da nossa +conversa. A rudeza da sua origem poliu-se no trabalho e soffrimento, que lhe +deram os desgraados com quem viveu. A mulher s se engrandece pela bondade, +que a sua belleza moral.</p> + +<p>O grande desejo de D. Anna educar bem os seus filhos, mas como poder +desempenhar-se d'esta nobre tarefa sem recursos? urgente abrir uma campanha a +favor d'ella, para que lhe acuda o governo ou as almas bemfazejas. Inicie v. na +imprensa periodica esta nobilissima misso. Os dois filhos mais velhos so +intelligentes, principalmente o Camillo, que eu fixei com atteno e +descobri-lhe traos physionomicos do glorioso av. O rapaz triste e +concentrado e quer ser Padre... At n'isto se parece com o grande escriptor, +que no verdor dos annos pensou em se prender Egreja. A sua ultima assignatura +foi no assento do baptismo d'este seu neto e afilhado,<span class="pn"><a +name="pag_40">{40}</a></span> feita em casa de Nuno e sobre um piano, por lhe +ficar mais a geito.</p> + +<p>Ao sahir da casa de D. Anna Corra olhei para a outra proxima, aonde viveu +e morreu o incomparavel prosador portuguez. Est agora mal pintada de amarello +e triste como a tragedia que a fechou. N'aquelle gabinete de Camillo +apagaram-se os ultimos lampejos da sua conversa encantadora, esmaltada sempre +de ironias, cortantes como o nordeste.</p> + +<p>Que tristeza e que lio para todos ns! Creia-me sempre</p> + +<p class="assin">De V. etc.</p> + +<p class="assin"><em>Jos de Azevedo e Meneses.</em></p> + +<p><small>S/C do Vinhal, 16-9-900.</small></p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Os jornaes do norte do paiz, noticiando a morte de Jorge Castello Branco, +logo fizeram sentir que, tendo cessado com a sua vida a penso, os netos de +Camillo ficavam quasi reduzidos miseria.</p> + +<p>Dizia o correspondente de Famalico para <em>O Commercio do Porto</em>:</p> + +<p> </p> + +<p>FAMALICO, 12.—Em S. Miguel de Seide sepultou-se hoje Jorge Castello +Branco, ultimo filho do finado romancista Camillo Castello Branco.<span +class="pn"><a name="pag_41">{41}</a></span></p> + +<p>De ha muito que o seu viver era o de um verdadeiro louco, temendo todos e +passando os dias n'um aposento sem o convivio de pessoa alguma. O seu +fallecimenio foi um verdadeiro desastre para seis netos do grande romancista, +pois que a penso que o governo dava ao finado custeava tambem a educao das +creanas, que agora ficam ao desamparo.—(<em>M. G.</em>)</p> + +<p> </p> + +<p>Escrevia o <em>Lusitano</em>, de Famalico, no mesmo dia 12:</p> + +<p> </p> + +<p>Acaba de fallecer em Seide o filho mais velho de Camillo Castello Branco, o +pobre louco to amado pelo immortal auctor do <em>Amor de Perdio</em> e +tantas outras joias que ho de fulgurar seculos em fra, na litteratura +nacional.</p> + +<p>Ha muito que o Jorge, doido, doido desde tenra idade, fugia completamente +do convivio social.</p> + +<p>Vimol-o ha semanas, pela ultima vez que veio villa, causando immensa pena +a precocidade da sua velhice e, mais nos commovemos ao attentarmos no seu +perfil, que muito se parecia com o de seu pae.</p> + +<p>Como sabido, o filho mais novo de Camillo deixou bastantes filhos na +miseria, servindo-lhes de amparo a penso que o governo dava ao Jorge.</p> + +<p>Morto este, ficam os netos de Camillo sem recursos de qualidade alguma.</p> + +<p>Pois quando mais no seja se no para honrar a memoria de Camillo, deve o +governo continuar a<span class="pn"><a name="pag_42">{42}</a></span> dar a seus +netos a pequena quantia que deu ao Jorge durante alguns annos.</p> + +<p>O pequeno Camillo Castello Branco e seus irmos no devem ficar ao +desamparo.</p> + +<p>Quem sabe at se, educados os netos do genial <em>Solitario de Seide</em>, +algum d'elles no ser ainda muito util s letras patrias, continuando a +honral-as como honradas foram mais de meio seculo por seu av o querido +Mestre?</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>A penso ao primogenito de Camillo havia sido concedida por um decreto +depois sanccionado pelo parlamento nos seguintes termos:</p> + +<p> </p> + +<p>Artigo 1. approvado o decreto de 23 de maio de 1889, pelo qual, em +reconhecimento publico dos relevantissimos servios prestados s letras patrias +pelo visconde de Correia Botelho (Camillo Castello Branco), concedida a seu +filho Jorge Camillo Castello Branco a penso annual e vitalicia de 1:000$000 +ris.</p> + +<p> unico. A penso de que trata esta lei isenta do pagamento de quaesquer +impostos, e ser abonada desde a data do decreto que a concedeu, ao visconde de +Correia Botelho, em quanto vivo fr.</p> + +<p>Art. 2. Fica revogada a legislao contraria a esta.<span class="pn"><a +name="pag_43">{43}</a></span></p> + +<p> </p> + +<p>Os filhos do visconde de S. Miguel de Seide, netos de Camillo, aos quaes +faltou o amparo da penso que o tio recebia, so, pela ordem chronologica do +nascimento:</p> + +<p>Flora, nascida a 11 de janeiro de 1886.</p> + +<p>Camillo, nascido a 16 de maro de 1888, no mesmo dia e mez em que nasceu o +av, que era seu padrinho.</p> + +<p>Nuno Placido, nascido a 4 de maro de 1889.</p> + +<p>Rachel, nascida a 21 de fevereiro de 1890.</p> + +<p>Simo, nascido a 6 de julho de 1891.</p> + +<p>Manuel, nascido a 23 de abril de 1893.</p> + +<p>Um motivo especial, que logo referirei, leva-me a fazer duas transcripes +do jornal de Famalico, <em>O Lusitano</em>, apezar de em qualquer d'ellas se +encontrar o meu nome acompanhado de adjectivos que eu considero apenas um +amavel cumprimento de quem os escreveu.</p> + +<p>Agradeo-os, mas declino-os por immerecidos.</p> + +<p>No me assiste, porm, o direito de mutilar as transcripes.</p> + +<p>Dizia <em>O Lusitano</em> no seu numero de 29 de agosto do corrente anno:</p> + +<p> </p> + +<p>Noticimos, ligeiramente, a semana passada, a estada, em S. Miguel de +Seide, de visita aos netos de Camillo, do illustre escriptor sr. Alberto +Pimentel.</p> + +<p>No conhecemos as impresses, que a sua ex. resultaram da volta, passados +tantos annos, casa do grande escriptor seu amigo. Mas no nos seria +desagradavel<span class="pn"><a name="pag_44">{44}</a></span> saber se o nosso +estimado confrade do <em>Popular</em> tomou, ou no, a resoluo de contar no +jornal, que redige, como justo que o governo tome a iniciativa de proteger, +de algum modo, os malaventurados netos do grandioso estylista.</p> + +<p>Tem-nos contado pessoas, que privam com a familia de Seide, que ha, entre +aquellas seis creanas, uma—o Camillo—possuidora de intelligencia +rara.</p> + +<p>Se assim , no faz pena que a falta de recursos constitua embarao ao +aproveitamento d'aquelle rapaz?</p> + +<p>No ha duas opinies divergentes sobre a justia de continuar, em favor dos +descendentes do eminente romancista, o subsidio, que este primeiro aproveitou e +que se extinguiu pela morte do Jorge. Vo os rendimentos do Estado, dia a dia, +para applicaes muito menos comprehensiveis.</p> + +<p>O sr. Alberto Pimentel, que foi casa de Seide, decerto viu o que aquillo +, comparativamente com outros tempos.</p> + +<p>Ponha, por conseguinte, s. ex. todo o enorme merecimento da sua penna e +das suas relaes ao servio d'esta causa. o maior testemunho de amizade que +pde prestar memoria do extraordinario escriptor. E evita que se reedite +aquella to conhecida e fustigante phrase de Garrett, que constitue, com +motivo, um castigo severissimo contumaz ingratido do nosso meio.<span +class="pn"><a name="pag_45">{45}</a></span></p> + +<p> </p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustrao" src="images/simao.jpg"></p> + +<p>SIMO</p> +</div> + +<p>Eu tinha necessidade de commentar esta transcripo para explicar o meu +procedimento.</p> + +<p>Se, immediatamente minha visita familia de Seide, no publiquei no +<em>Popular</em> as impresses que ali recebra ao observar de perto a vida dos +netos de Camillo e, portanto, a justia da sua causa, foi porque logo fiz +teno de me occupar do assumpto com maior desenvolvimento do que aquelle que +poderia dar-lhe n'um ou dois artigos de jornal.</p> + +<p>Desobrigo-me agora do compromisso que tomei comigo mesmo.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Poucos dias depois de ter lido a noticia do <em>Lusitano</em>, acima +transcripta, recebi do sr. Rodrigo Terroso, jornalista distincto e +escrivo-notario na comarca de Famalico, uma carta relativa s impresses que +eu teria trazido de Seide e ao que eu estaria disposto a fazer em favor da +penso.</p> + +<p>Respondi na volta do correio, e o teor da minha resposta resalta da seguinte +noticia que <em>O Lusitano</em> publicou no dia 3 de setembro:</p> + +<p> </p> + +<p>Ao director politico d'esta folha que acompanhou, particularmente, perante +o sr. Alberto Pimentel o pedido feito aqui ha oito dias em favor dos netos de +Camillo, respondeu, de prompto, o apreciavel escriptor e jornalista com uma +carta, que a promessa solemne de intervir no sentido rogado.<span +class="pn"><a name="pag_46">{46}</a></span></p> + +<p>... fui expressamente a Seide para me orientar na questo da penso aos +netos de Camillo.</p> + +<p>Na proxima legislatura trabalharei por conseguil-o, no que espero ter o +auxilio de Antonio e Jos de Azevedo.</p> + +<p>No farei parte do parlamento, mas envidarei os maiores esforos possiveis +junto do parlamento e do governo.</p> + +<p> solemnissima a promessa. Fiamos de que ser cumprida. Sobre dar-se com o +sr. Alberto Pimentel a circumstancia de haver sido dos amigos mais sisudos de +Camillo, accresce que o distincto escriptor lisbonense conhece, ao presente, em +pessoa, a justia da causa, que tanto tem merecido as nossas sympathias. E +dizemos assim porque ainda ninguem a advogou com to fervente empenho como ns, +que fomos, at, o primeiro a patrocinal-a. Consta isso de correspondencias que +o <em>Primeiro de Janeiro</em> publicou logo a seguir morte do Jorge, sem +falar no pedido directo que, immediatamente, apresentamos ao sr. conselheiro +Antonio de Azevedo, sobrinho de Camillo, muito apreciado por este. E que o +notavel homem publico trabalhou n'esse sentido, mais seu irmo sr. conselheiro +Jos de Azevedo, disse-o, poucos dias decorridos, um telegramma para o +<em>Diario da Tarde</em>, confirmado, simultaneamente, por algumas gazetas de +Lisboa.</p> + +<p>O sr. Alberto Pimentel affiana-nos a interveno d'estes dois auxilios. +Pois caso para nos julgarmos felizes com a felicidade certa dos netos de +Camillo.<span class="pn"><a name="pag_47">{47}</a></span></p> + +<p><em>P. S.</em>—<em>O Regenerador</em> refere-se, sobre o mesmo motivo, +a uma carta antiga do sr. Jos de Menezes ao sr. Alberto Pimentel. Era o sr. +Menezes um dos amigos de Camillo. No sabiamos que tinha intervindo. Fel-o e +procedeu cavalheirosamente. Est na reconhecida correco de s. ex..</p> + +<p>Trabalhemos todos—todos os que veneramos a memoria de +Camillo—sem excepo de ninguem, no empenho de vencer esta causa santa, +que a Justia inspira e que o Patriotismo recommenda.</p> + +<p> uma divida nacional, que tem de ser paga. Somos todos devedores; +honremo-nos pagando.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>A Sr. D. Anna Corra cumulou-me de amaveis deferencias logo que o meu +disfarce cahiu. Uma d'ellas, a que mais encantado me deixou, foi a gentileza de +me obzequiar com os dois quadrinhos, os retratos de Gautier e Karr, que estavam +na saleta contigua alcova de Camillo.</p> + +<p>Se bem que um pouco damnificados pela aco do tempo, como se pde vr na +reproduco, elles representam para mim um valor inestimavel.</p> + +<p>Fil-os authenticar com a seguinte declarao, que mandei imprimir e collar +no tampo da moldura:</p> + +<p>E<small>STE QUADRO ESTAVA NO QUARTO DE</small><br> +<small>CAMA DE</small> C<small>AMILLO</small> C<small>ASTELLO</small> +B<small>RANCO EM</small><span class="pn"><a name="pag_48">{48}</a></span><br> +S. M<small>IGUEL DE</small> S<small>EIDE</small>. F<small>OI-ME DADO ALI +PELOS</small><br> +<small>SEUS HERDEIROS, A 20 DE AGOSTO DE 1901,</small><br> +<small>NA PRESENA DO SR.</small> A<small>DRIANO DE</small> +S<small>OUZA</small><br> +T<small>REPA, DE</small> S<small>ANTO</small> T<small>HYRSO, E</small> +F<small>RANCISCO</small><br> +C<small>ORRA DE</small> C<small>ARVALHO, DE</small> +S<small>EIDE</small>.—A<small>LBER-</small><br> +<small>TO</small> P<small>IMENTEL</small>.</p> + +<p>Foi o sr. Carvalho que, trepado a um banco, os despendurou da parede, +fronteira s janellas.</p> + +<p>Mais nua ficou ainda desde essa hora a casa solitaria de S. Miguel de +Seide.</p> + +<p>Aqui tenho eu, deante dos olhos, esses dois velhos companheiros de Camillo, +seus camaradas e seus hospedes, Gautier e Karr, com os quaes conversarei +longamente sobre a vida e a morte d'esse que foi nosso commum amigo e que elles +to de perto viram soffrer e sonhar—por tantos dias e tantas noites.</p> + +<p>Da parede onde estavam enthronisados s podiam avistar todo um horisonte de +pinheiros a esbater-se, ao longe, na vertente de uma vasta corda de montes.</p> + +<p>Coitados! a principio devia custar-lhes muito terem que trocar Pariz pelo +Minho, o bulicio pelo silencio, os <em>boulevards</em> pelos pinheiraes, a +capital do mundo pela aldeia erma e profunda.</p> + +<p>Mas o campo, como o oceano, uma solido apenas repulsiva nos primeiros +tempos de uma iniciao forada; depois identifica-se tanto com a nossa alma, +penetra-a de uma to saudavel tranquilidade e doura, que se torna quasi uma +religio: no ha meio<span class="pn"><a name="pag_49">{49}</a></span> de +arrancar o camponez ao seu tugurio e o marinheiro ao seu beliche.</p> + +<p>Agora, saudosos da Thebaida de Seide e do grande espirito que a povoava, +viro constrangidos, Gautier e Karr, defrontar-se, atravs da minha janella, +com as trapeiras d'esta revlta casaria de Lisboa, cahotica e asymetrica, que +apenas deixa ver escassos retalhos de cu azul na claridade limpida do ar.</p> + +<p>Sou eu o primeiro a lamental-os, mas nem por isso os guardarei com menor +vigilancia; altas personagens de que me constituiram carcereiro, saberei +amal-as, mas saberei tambem garantir a sua posse—como a de dois +inestimaveis valores que vieram enriquecer o meu thesouro camilliano.</p> + +<p>Devo ainda sr. D. Anna Corra a gentil prodigalidade de outra offerta: o +retrato de Manoel Pinheiro Alves, primeiro marido da viscondessa de Corra +Botelho.</p> + +<p>Quando publiquei <em>Os amores de Camillo</em>, muito desejei eu obter este +retrato; mas n'essa occasio faltava-me a certeza de que o meu pedido no seria +uma inconveniencia irritante.</p> + +<p>Confessei-o agora sr. D. Anna Corra, que espontaneamente me offereceu um +exemplar em photographia. No album de Seide havia dois, tirados em Pariz, no +tempo de Napoleo III, casa Mayer & Pierson, boulevard des Capucines, 3.</p> + +<p>Incluirei esse retrato n'uma segunda edio d'<em>Os amores de Camillo</em>, +se algum dia a fizer. Aqui no <span class="pn"><a +name="pag_50">{50}</a></span> o seu logar proprio. Mas quero dar uma rapida +impresso da pessoa de Manuel Pinheiro Alves: alto, magro, face glabra, olhos +pequenos e fundos, escasso cabello penteado sobre a orelha direita; vestindo +correctamente de preto, sobrecasaca comprida, gravata em lao. +<em>Toilette</em> de velho, harmonisando com a physionomia; mas de velho que, +por amor de uma mulher, quer apurar o vestir.</p> + +<p>Tem o aspecto grave de ser o pai de D. Anna Placido, no o marido.</p> + +<p>Tambem agora fiquei sabendo que Manuel Pinheiro Alves nascra perto de S. +Miguel de Seide.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Quando voltmos casa de Camillo, para eu receber os dois quadrinhos, parei +um momento, ao sahir, no topo da escada de pedra.</p> + +<p>Corri os olhos pelo vasto pinheiral circumjacente, que fecha o horisonte +n'uma faxa verde-negra. Tive n'esse momento a nitida comprehenso do que seriam +ali as longas noites de inverno, ouvindo gemer os pinheiros na solido profunda +de uma alda minhota.</p> + +<p>—Pobre Camillo! disse eu, como se estivesse pensando alto. As suas +noites aqui deviam ser horriveis!</p> + +<p>O sr. Francisco Corra de Carvalho replicou:</p> + +<p>—As tardes, as tardes de Camillo que eram<span class="pn"><a +name="pag_51">{51}</a></span> ainda mais agitadas e tormentosas do que as +noites. Depois de jantar, soffria muito; excitava-se, tinha desesperos, +frenesis, que nos amarguravam tambem a ns.</p> + +<p> facil a explicao d'este phenomeno pathologico.</p> + +<p>As crises visceraes, dolorosas, so vulgares nos tabeticos. Ou vem com as +<em>dores fulgurantes</em> (Camillo teve-as) ou independentemente d'ellas. +Chegam a ser de violencia extrema, por vezes. E, entre essas crises visceraes, +a gastralgia frequente.</p> + +<p>O trabalho da digesto provocaria as torturas gastralgicas.</p> + +<p>Aps elle, quando em socego o estomago, a crise desapparecia, dando treguas +ao pobre Camillo.</p> + +<p>Eis aqui, pois, mais um pormenor do ingente drama de amargura que matou o +grande romancista.</p> + +<p>Voltei agora a Seide, depois de dezeseis annos de ausencia.</p> + +<p>Estive ali no mez de agosto de 1885.</p> + +<p>O opusculo <em>Uma visita ao primeiro romancista portuguez em S. Miguel de +Seide</em> recorda esse facto.</p> + +<p>Em agosto de 1901, repetida a jornada, j no encontrei nenhuma das pessoas +que em 1885 povoavam a casa de Seide: Camillo, D. Anna Placido, Jorge e Nuno +Castello Branco.</p> + +<p>Dir-se-ia que um desastre enorme victimra de um s golpe uma familia +inteira.</p> + +<p> que a fatalidade de certos destinos iguala-os<span class="pn"><a +name="pag_52">{52}</a></span> na vida e na morte, regulando as suas horas por +uma unica ampulheta.</p> + +<p>Os desgraados que nasceram sob a mesma sina chamam uns pelos outros.</p> + +<p>Fui achar uma segunda gerao, uma ninhada de creanas intelligentes e +meigas, que se encontram, desprotegidas, beira de um abysmo insondavel.</p> + +<p>O seu dia de amanh no mais seguro do que a salvao incerta do naufrago +que, em pleno oceano, espera, sobre uma tabua fluctuante, um acaso +providencial, a passagem de um navio que o possa descobrir entre montes de +espuma.</p> + +<p>Uma debil creatura, precocemente envelhecida, e j cansada de soffrer, +hoje a garantia unica do futuro d'essas creanas, que no tem mais ninguem no +mundo alm de sua me, nem melhor patrimonio que alguns palmos de terra scca e +hypothecada.</p> + +<p>Seu av honrou a patria de um modo excepcionalmente grande, com a fulgurao +de um talento literario, que pde fazer inveja aos extrangeiros.</p> + +<p>Honre-se a patria a si mesma adoptando-lhe os netos, perfilhando-os +amoravelmente, salvando-os da miseria e do abandono, premiando n'elles a gloria +do av immortal.</p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustrao" src="images/manuel.jpg"></p> + +<p>MANUEL</p> +</div> + +<p>Cada dia, cada mez, cada anno que passa, complica, por sacrificios +exhaustivos, a situao da familia de Seide. Os netos de Camillo tem j visto +florescer muitas vezes a acacia do Jorge e chamado em vo pela alma do av, que +no voltou ainda com as auras de abril. Tornemos realidade o que parece haver +sido<span class="pn"><a name="pag_53">{53}</a></span> prophecia do grande +espirito de Camillo: que todas essas creanas invoquem de novo o nome do que +prometteu voltar. E elle voltar para acudir-lhes. Quando a acacia outra vez +inflore, o paiz ter feito justia, e Camillo ter voltado para junto dos +netos, assistindo-lhes em espirito, agasalhando-os com a gloria do seu nome.</p> + +<p>Coraes justos, coraes bons, auxiliai esta santa cruzada: a de despertar +a patria adormecida.</p> + +<p><a name="Leitores" id="Leitores" href="#L2606">Leitores de cem romances, que +uma s penna escreveu</a>, agradecei aos netos as lagrimas e os sorrisos com +que o av tem preenchido deleitosamente muitas horas da vossa vida, desde o +<em>Anathema</em>, uma estreia, at aos <em>Vulces de lama</em>, a ultima +novella, raio de sol poente que no tardou a apagar-se.</p> + +<p>Se quizerdes fazer isso, estar feito tudo.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><small>Santo Thyrso—Lisboa.<br> +Agosto a setembro de 1901.</small></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_54">{54}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_55">{55}</a></span></p> + +<h1>NOTAS</h1> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_56">{56}</a></span></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_57">{57}</a></span></p> + +<h4>P<small>AGINA</small> 6</h4> + +<h5><a name="L2599" id="L2599" href="#antigo">... a crca do antigo mosteiro +de Landim.</a></h5> + +<p>Este mosteiro era de conegos regrantes de Santo Agostinho. Dizem-n'o fundado +por Dom Gonalo Rodrigues Palmeiro, senhor do couto da Palmeira.</p> + +<p>Na inquirio que o Cardeal D. Henrique mandou fazer sobre mosteiros de +Entre-Douro-e-Minho, o de <em>Landim</em> designado como sendo a de Nossa +Senhora de <em>Namdim</em>.</p> + +<p>O conde D. Pedro, em seu <em>Nobiliario</em>, tambem diz <em>Namdim</em>.</p> + +<h4>P<small>AG</small>. 15</h4> + +<h5><a name="L2597" id="L2597" href="#monumento">o monumento commemorativo da +visita de Castilho, principe da lyra portugueza, a S. Miguel de Seide, em +julho de 1866.</a></h5> + +<p>As relaes de amizade entre Camillo e Castilho comearam em 1854, no Porto. +Foi nesse anno e n'aquella cidade que pela primeira vez se encontraram os dois +em casa do Sr. Antonio Bernardo Ferreira, que ento morava na rua da Boavista +(casa da familia Garrett) e que organisou em honra de Castilho um sarau +literario. Camillo recitou versos de <em>Um Livro</em>.</p> + +<p>N'uma carta particular, enviada para Lisboa, dizia Castilho,<span +class="pn"><a name="pag_58">{58}</a></span> relatando o que se passra naquelle +sarau: Camillo Castello-Branco, poeta e prosador de elevado merito, etc.</p> + +<p>Julio de Castilho, publicando trechos d'esta carta, commenta a referencia a +Camillo dizendo que <em>essa amizade</em>, ento comeada no Porto, ficou +cimentada para sempre. (<em>O Instituto</em>, de Coimbra, n. 9, vol. 48.)</p> + +<p>Foi Camillo, guia dos meus primeiros passos na vida literaria, quem me +ensinou a amar Castilho.</p> + +<p>Costumavam outr'ora as criadas velhas contar s creanas da casa lindas +historias de reis e principes encantados.</p> + +<p>Camillo, que foi de algum modo o meu <em>niero</em> espiritual, falava-me +muitas vezes de um grande principe das letras, rei das canes lhe chamou +Herculano, protector de poetas, amador da natureza, acariciador das creanas e +propugnador da felicidade do povo pela instruco e pela agricultura.</p> + +<p>Era Castilho, rei das canes, principe das letras, cego como dipo, o +famoso rei de Thebas.</p> + +<p>E assim como dipo encontrava o brao de sua filha Antigone para guial-o +carinhosamente na cegueira, Castilho tinha nos braos de seus filhos outros +tantos bordes amorosos que o ajudavam a firmar os passos incertos e +vacillantes.</p> + +<p>Recebi, pois, de Camillo o amor a Castilho, e de quanto elle o amava d +eterno testemunho esta encantadora dedicatoria do romance <em>Agulha em +palheiro</em>:</p> + +<p> </p> + +<p class="centrado"><em>Ao poeta das creanas, das flores, do amor,<br> +da melancholia e dos desgraados,<br> +ao illustrissimo e excellentissimo senhor<br> +Antonio Feliciano de Castilho,<br> +honra da patria<br> +honra dos que o prezam, e amam a patria<br> + offerece<br> +o amigo, o respeitador, o discipulo mais devedor<br> +Camillo Castello Branco</em></p> + +<p> <span class="pn"><a name="pag_59">{59}</a></span></p> + +<p>Em outro livro, <em>No Bom Jesus do Monte</em>, cita Castilho a par de +Lamartine e Victor Hugo, como sendo um nome que d humanidade orgulho de o +proferir.</p> + +<p>Durante a <em>Questo Coimbr</em>, nas <em>Vaidades irritadas e +irritantes</em> vem estacada quebrar lanas pela gloria de Castilho, e +escreve: ... o mais enthusiasta admirador de Castilho, se algum houve que mais +que eu lhe devesse e o amasse...</p> + +<p>Foi assim que Camillo amou Castilho; foi assim que eu aprendi com Camillo a +amar Castilho.</p> + +<h4>P<small>AG</small>. 16</h4> + +<h5><a name="L2589" id="L2589" href="#dedicat">a dedicatoria da <em>Maria +Moyss</em> a Thomaz Ribeiro.</a></h5> + +<p>Diz o texto d'essa dedicatoria:</p> + +<blockquote> + <p class="centrado">A</p> + + <p class="centrado">THOMAZ RIBEIRO</p> + + <p>So passados dez annos depois que vieste aqui. Foi hontem; e a pedra onde + gravei o teu nome est denegrida como a dos tumulos antigos. Debaixo d'ella + esto dez annos da nossa vida. Jazem ali os homens que ento eramos. Estou + vendo Castilho encostado ao frizo da columna tosca; estou ouvindo os teus + versos recitados em nome de meus filhos... Ah! verdade... tu no os + recitaste porque tinhas lagrimas na voz e no rosto. Que faria de ti a + politica, meu querido, meu poeta da patria e da alma:</p> + + <p>S. Miguel de Seide, novembro de 1876.</p> +</blockquote> + +<h4>P<small>AG</small>. 16</h4> + +<h5><a name="L2587" id="L2587" href="#inscrip">A inscripo est quasi +apagada, como j se apagou tambem a vida das pessoas a quem ella se +referia.</a></h5> + +<p>O modesto monumento, de que fiz mais larga meno<span class="pn"><a +name="pag_60">{60}</a></span> no opusculo <em>Uma visita ao primeiro romancista +portuguez em S. Miguel de Seide</em>, Porto, 1885, falla-me saudosamente de +seis pessoas, cuja memoria conservo muito viva entre as mais gratas lembranas +do passado.</p> + +<p>D'essas seis pessoas, as ultimas a morrer foram Eugenio de Castilho, +fallecido a 8 de janeiro de 1900, e Thomaz Ribeiro, a 6 de fevereiro de +1901.</p> + +<p>Embora tenha de fazer uma annotaao talvez demasiadamente longa—o que +no sei se proprio do teor das annotaes—no posso ter mo em mim que +no complete, para o meu espirito, a historia do monumento de Seide com as +recordaes que me so suggeridas pelos nomes de Eugenio de Castilho e Thomaz +Ribeiro.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Uma coisa vos confessarei eu, sr. Dom Leonardo...</p> + +<p>Lembram-se? Vem nos <em>Logares selectos</em>, do padre Cardoso: um +excerpto da <em>Crte na aldeia</em>, de Rodrigues Lobo—dois livros bons, +cada qual no seu genero; bons como se faziam d'antes.</p> + +<p>Pois, j que a phrase me lembrou, adopto-a, mas cito ao menos a origem, o +que nem sempre se faz agora.</p> + +<p>Os tempos so outros; d'isso que me queixo.</p> + +<p>Uma coisa vos confessarei eu, srs. Dons Leonardos de hoje em dia, e que me +vou ralando de saudades pelos homens que conheci outr'ora, com os quaes convivi +e troquei impresses, que os no ha melhores, nem to bons, como foram +esses.<span class="pn"><a name="pag_61">{61}</a></span></p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustrao" src="images/acacia.jpg"></p> + +<p>A ACACIA DO JORGE</p> +</div> + +<p>No quero dizer que todos agora sejam portuguezes de ruim panno; ha +excepes, mas to raras, que pode a gente gritar quando as encontra—L +vem um!</p> + +<p>Digo e redigo, porque d'isso estou convencido at medula dos ossos, que os +homens que eu tratei na mocidade me parecem semideuses se os comparo com os de +hoje.</p> + +<p>Doia-se quem doer, que me importam pouco essas coisas: at faz bem gente +sentir morder-lhe uma pontinha de malquerena— como o frio de janeiro, +que arripia, mas provoca a necessidade de reagir contra elle.</p> + +<p>Eu venho de um tempo em que se dizia haver elogio mutuo. No era elogio, +mas justia. As cotaes, especialmente no mercado das letras, andavam menos +falsificadas. Ningum chegava ao p de um homem, de punhal na mo, com o +intuito de assassinal-o, para o glorificar depois de morto.</p> + +<p>Garrett estava no tumulo. Herculano fizera-se solitario em Val-de-Lobos. +Castilho vivia em Lisboa e abria as suas portas a todos quantos mostravam +paixo pelas letras. D'aqui veio o dizer-se que tinha Castilho uma crte. No a +procurava elle; procuravam-n'o, sim, todos, velhos e novos, que desejavam +encontrar uma atmosphera literaria em que podessem respirar vontade.</p> + +<p>Mas a differena do tempo estava principalmente n'isto, que no era pouco: +ninguem, em casa de Castilho, nem dos seus, nem dos extranhos, se julgava maior +que elle.</p> + +<p>Por isso o respeitavam, medindo-lhe a grandeza, que fazia lembrar a das +estatuas, porque sendo vista de perto tomava ainda maior vulto.</p> + +<p>Era deliciosa essa casa de Castilho, onde a boa conversao literaria teve +um templo, como no ha, nem pde haver outro. No decorria ali uma hora sem que +se tivesse lucrado alguma coisa: aprendia-se sempre. Eram tantos e to bons os +de casa e os de fra, que nunca se apagava o<span class="pn"><a +name="pag_62">{62}</a></span> lume para as refeies do espirito. Mesa posta +para os <em>gourmets</em> da intellectualidade; porta aberta para todos os que +chegavam, fossem gregos ou troyanos.</p> + +<p>Conheci Castilho na rua do Sol ao Rato, onde recebia na sua enorme +bibliotheca, uma vasta sala, que os melhores auctores de todos os paizes e de +todos os seculos povoavam de alto a baixo. Fazia respeito aquillo: era uma +cidade, um emporio de celebridades consagradas.</p> + +<p>Castilho, coroado de cans, dava a impresso de ser um patriarcha das letras. +Cego como Homero, via tudo o que queria vr; jmais houve um cego que visse +tanto. At lia mentalmente os titulos dos livros que o rodeiavam. Aqui est o +meu Bernardes, dizia elle: ia estante, punha o dedo indicador n'um livro, e +tirava a obra de Bernardes que desejava citar. Parecia ter os olhos fechados +para, concentrado, reforar por um momento a viso, que depois se tornava mais +aguda e perspicaz.</p> + +<p>Os seus olhos faziam lembrar os de D. Joo I: raa de escol, que j vinha +apurada de longe.</p> + +<p>Julio foi sempre o brao direito do pai, a sua luneta, o seu bordo, o seu +<em>alter ego</em>. O pai adorava-o; elle adorava o pai. No podiam viver um +sem o outro; eram como dois gemeos, duas existencias que se fundiam n'uma +s.</p> + +<p>Augusto, official de marinha, andava quasi sempre embarcado por longinquos +mares. Raro apparecia em Lisboa; mas Castilho lembrava-o muitas vezes n'um +impeto de saudade paternal, que a mais funda, a mais incisiva, a mais cruel +de todas as saudades.</p> + +<p>Ida de Castilho, com os seus bellos olhos pretos que pareciam estrellas, era +a gracilidade da mulher franzina a sorrir por entre clares de intelligencia +vivacissima.</p> + +<p>Eugenio, o filho mais novo de Castilho, era, em razo da sua idade, o que +tinha menos auctoridade literaria na familia, mas nascera poeta ali, n'aquella +familia de escolhidos, como se nasce escocez na Escocia.<span class="pn"><a +name="pag_63">{63}</a></span></p> + +<p>Foi este rapaz velho, porque a doena o envelheceu precocemente, que morreu +outro dia, em Sete Rios, mais longe do mundo que de Lisboa.</p> + +<p>Poucos se lembravam d'elle j: tinha esquecido, tinha passado, era um morto +que vivia longe dos vivos.</p> + +<p>O seu periodo de maior actividade foi de 1868 a 1869. Conheci-o ento, como +conheci Antonio Feliciano e Julio de Castilho: por cartas que o correio trazia +e levava, do norte para o sul, do sul para o norte. S alguns annos depois nos +avistmos, os Castilhos e eu, na rua do Sol ao Rato. Mas eramos j amigos +velhos, todos ns, quando nos encontrmos frente a frente.</p> + +<p>Aqui tenho eu uma prova d'isso, n'esta meia duzia de paginas publicadas em +1868 por Eugenio de Castilho, e intituladas <em>Patria, contra a Iberia</em>, +poema em bons alexandrinos, que eram os da casa, a melhor officina de +alexandrinos que tem havido at hoje em Portugal.</p> + +<p>Na dedicatoria, do punho do auctor, escreveu elle: Ao seu amicissimo... +Nunca nos tinhamos visto ento, mas eramos j to casados na amisade, que +nenhum de ns estranhou o superlativo.</p> + +<p>Eugenio tinha n'esse tempo 21 annos, e desabrochavam n'elle os talentos +literarios, que so morgado de Castilhos. Eram flores que conheciam o terreno e +o clima em que nasciam: medravam vontade.</p> + +<p>Quanto factura artistica, o poema <em>Patria</em> trazia a marca da +fabrica: Castilho & Filhos. No havia firma mais acreditada nem ento, nem +agora.</p> + +<p>Passo hoje pela vista, devorado de saudades, aquelle poema de 1868, e +transplanto para aqui alguns casaes de alexandrinos, que me parecem ainda +casaes de rouxinoes a namorarem-se nos bosques umbrosos de Portugal:</p> + +<blockquote> + <p>Vs alm um telhado ao p d'aquelle olmeiro?<br> + alli nasceu meu pae; alli amou primeiro.<span class="pn"><a + name="pag_64">{64}</a></span></p> + + <p>Quando eu era pequeno, ia, s vezes, ssinho<br> + aos loireiros do val busca de algum ninho.</p> + + <p>Sob este parreiral to verde e to fragrante<br> + beijei apaixonado a minha terna amante.</p> + + <p>Costumava ir de tarde ao moinho da serra<br> + vr como o sol transpunha as montanhas da terra.</p> + + <p>Quanta vez, ao voltar da caa, eu me sentava<br> + ao p d'essa cascata a ver-lhe a espuma brava.</p> + + <p>Os troncos da azinhaga, as silvas e as paschoinhas<br> + ouviram-me cantar s vezes trovas minhas.</p> + + <p>Era-me gosto noite o rouxinol saudoso<br> + dizendo beira d'agua o seu canto amoroso.</p> + + <p>Sentado n'uma penha occulto entre o salgueiro<br> + poetava a ouvir do rio o murmurar palreiro.</p> + + <p>Ao canto do quintal da casa onde eu morava<br> + uma angua plantara, e flores que eu regava.</p> + + <p>Conheo a minha terra; e cada pedra ou planta<br> + me sada ao passar. Toda a Patria me encanta.</p> +</blockquote> + +<p>No so, de certo, estes os soberbos alexandrinos do pae Castilho, to +cheios, to sonoros, to variados na riqueza das vogaes, como elle, legislador +maximo em versificao, praticava e recommendava; mas tem o ar de familia, o +cunho da officina, que nos entremostram o artifice mais novo da casa posto a +trabalhar, por desenfado, com a ferramenta do mestre.</p> + +<p>Junte-se a tudo isto, que j sobeja valia, o perfume ingenuo e nobre da +mocidade, o pulsar de um corao candido e fidalgo, que se educava entre lyras +de poetas e brazes de aristocracia literaria.</p> + +<p>Tudo ento fazia suppor que teria uma larga carreira<span class="pn"><a +name="pag_65">{65}</a></span> esse moo to bem estreado, e tanto se sumiu elle +depois nas trevas que as contrariedades da vida adensaram—a doena +principalmente.</p> + +<p>Foi tambem por 1868 que Eugenio de Castilho tentou a publicao da <em>Folha +dos curiosos</em>, um dos quaes curiosos fui eu.</p> + +<p>N'essa tentativa ia ainda um exemplo paterno, porque no deve esquecer a +ninguem que Antonio Feliciano de Castilho redigiu por algum tempo, com +inexcedivel brilho, a <em>Revista universal lisbonense</em>.</p> + +<p>Digo inexcedivel brilho, e fico pesaroso de no encontrar melhor locuo. +No me satisfaz esta, que deficiente. Tudo quanto Castilho ali deixou, +primoroso—at o noticiario.</p> + +<p>Se vingar algum dia a ideia de fundar uma escola de jornalistas, o +professor, sabendo do seu officio, tem que ensinar a fazer noticiario pelo teor +de Castilho.</p> + +<p>Que adoraveis locaes, que gentileza e graa no dizer, que malicia, que +ironia e que pureza castia de linguagem!</p> + +<p>Os senhores conhecem Castilho poeta, prosador, traductor e pedagogo? Pois +no conhecem Castilho todo, acreditem. Falta-lhes ainda conhecer Castilho +jornalista a brincar com a penna sobre assumptos de reportagem, a enramilhetar +locaes que parecem <em>bouquets</em>; Castilho a sorrir de si mesmo por ter +descido quella futilidade e a tornal-a grandiosa para no ter que +envergonhar-se de vr n'um espelho o pretor a curar de coisas minimas.</p> + +<p>Pois, srs. Dons Leonardos, em verdade vos digo que foram grandes homens +esses que eu conheci n'outro tempo, que conheci e amei, e que vs sois muito +mais pequenos que elles.</p> + +<p>Este mesmo Eugenio de Castilho, fallecido ha quasi um anno, no chegou a ser +grande, porque lhe faltou apenas a validez; o talento, no.<span class="pn"><a +name="pag_66">{66}</a></span></p> + +<p>Mas, no breve momento em que se demorou nas letras, honrou, como vergontea, +a arvore gloriosa dos Castilhos, florindo como poeta, que promettia futuro.</p> + +<p>Hoje dorme o somno eterno na terra da <em>Patria</em>, que elle amava tanto, +e se os mortos pensassem, julgar-se-ia certamente feliz por ter encontrado +descanso aos seus tormentos na mesma terra em que o pae nasceu e amou +primeiro.</p> + +<p class="centrado">*<br> +* *</p> + +<p>Tinha eu treze annos, quando um quintanista de direito, Manuel do Nascimento +de Azevedo Coutinho, natural de Sinfes, passando pelo Porto, recitou em casa +de meu pai trechos de um poema que, segundo a sua propria informao, estava +causando o maior enthusiasmo em Coimbra.</p> + +<p>Os estudantes sabiam-n'o de cr, e at o doutor Frrer, dando descano s +Ordenaes e ao Digesto, repetia estrophes aos rapazes quando os encontrava +tarde no Penedo da Saudade.</p> + +<p>Era o cumulo do enthusiasmo coimbro.</p> + +<p>O quintanista Nascimento, um duriense de olhos pretos, vendo-se +comprehendido por um grupo de senhoras que o escutavam, ia procurando na +memoria excerptos do poema e recitava-os contente de espalhar em torno de si, +como um perfume de rosas, a inspirao delicada do poeta que toda a academia j +tinha sagrado em Coimbra com a agua lustral do Mondego.</p> + +<p>Esse poema era o <em>D. Jayme</em>, de Thomaz Ribeiro.</p> + +<p>A cada novo trecho cresciam os applausos; a impresso tornava-se geral no +auditorio.</p> + +<p>E o quintanista Nascimento, com a vivaz reminiscencia<span class="pn"><a +name="pag_67">{67}</a></span> de todos os moos, saltava de um canto a outro do +poema recordando estrophes:</p> + +<blockquote> + <p>Um dia... quando, no sei;<br> + fui vr as gastas ruinas<br> + d'um velhissimo castello<br> + que ao desamparo encontrei,<br> + mas que, apesar de esquecido<br> + na solido, era bello.</p> + + <p>Achei-o todo vestido<br> + de tenaz era viosa;<br> + e ornado de verde brilho,<br> + lembrou-me um velho casquilho<br> + que espera noiva formosa.</p> +</blockquote> + +<p>De vez em quando, os parceiros do voltarete de meu pai poisavam as cartas, e +escutavam attentos:</p> + +<blockquote> + <p>Que triste vida na choa,<br> + que funda melancolia,<br> + que rostos to macerados,<br> + que suspiros abafados<br> + cada noite e cada dia!</p> + + <p>noites de eterna vigilia,<br> + dias curtos para a lida,<br> + recordaes da opulencia,<br> + amarguras da indigencia...<br> + que vida, Jesus! que vida!</p> +</blockquote> + +<p>Eu recolhia todos os trechos n'um enlevo d'alma, que foi o primeiro goso +literario da minha vida e, quando n'essa noite me deitei, reconstituia +mentalmente versos, estrophes inteiras, ancioso de poder lr todo o poema, para +decoral-o todo.</p> + +<p>No dia seguinte, meu pae, recolhendo de ver os seus doentes, trazia debaxo +do brao um livro de capa amarella.<span class="pn"><a +name="pag_68">{68}</a></span></p> + +<p>Tinha comprado o poema, suggestionado pela recitao da vespera.</p> + +<p>Ento, como um faminto que se lana vorazmente sobre um manjar inesperado, +eu, quando os outros acabavam de lr, devorava pagina a pagina, canto a canto, +lendo e decorando, com a mesma facilidade com que hoje vou esquecendo...</p> + +<p>Annos depois—no foram muitos—quando Castilho protegeu as minhas +estreas literarias com o prestigio do seu nome, Thomaz Ribeiro escreveu-me +algumas cartas que religiosamente conservo entre montes de outras suas +escriptas de toda a parte.</p> + +<p>Depois, em Lisboa, muitas vezes Thomaz Ribeiro me disse que possuia um +retrato meu aos dezeseis annos.</p> + +<p>Certamente lh'o offereci, mas no me lembro quando, e no conservo hoje +nenhum exemplar d'essa photographia.</p> + +<p>Quando foi que eu vi pela primeira vez o auctor do <em>D. Jayme</em>? D'isso +me lembro muito bem. Foi no Porto, no escriptorio do <em>Primeiro de +Janeiro</em>, cuja redaco permanente era ento apenas constituida por duas +pessoas, Francisco Gomes Moniz e eu.</p> + +<p>Ns dois faziamos tudo, menos o artigo de fundo, que ia de Lisboa, e era +escripto por Latino Coelho.</p> + +<p>Thomaz Ribeiro, tendo chegado ao Porto e entrado na casa Mor, disse ao +gerente da casa, o illustre Jos Gomes Monteiro, que me queria visitar.</p> + +<p>Monteiro, que me estremecia, ficou contentissimo, poz logo o seu chapeu e +subiu, apesar de velho e doente, a rua de Santo Antonio, depois a ingreme +escada da redaco, para me levar Thomaz Ribeiro.</p> + +<p>Foi um dos dias felizes da minha vida literaria.</p> + +<p>Desde ento mantive com Thomaz Ribeiro as mais cordeaes relaes de mutua +estima.</p> + +<p>As amizades velhas so como o cimento solidificado: no quebram +facilmente.<span class="pn"><a name="pag_69">{69}</a></span></p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustrao" src="images/gautier.jpg"></p> + +<p>Retrato de <small>THEOPHILE GAUTIER</small> que pertenceu a Camillo</p> +</div> + +<p>Quando elle partiu para o Brasil, a <em>Mala da Europa</em> quiz dar um +numero commemorativo, que chegasse ao Rio de Janeiro no mesmo paquete que o +auctor do <em>D. Jayme</em>. Por doena de um dos seus redactores effectivos, o +proprietario do periodico, Delfim Monteiro Guimares, j hoje fallecido, +precisava de quem lhe fizesse rapidissimamente a maior parte d'esse numero. +Procurou-me, e pediu-me que me encarregasse eu d'essa ardua tarefa—ardua +pela estreiteza do tempo.</p> + +<p>Como se tratava de Thomaz Ribeiro, no tive animo de recusar e, durante +quarenta e oito horas, trabalhei afanosamente, tomando caf para espertar-me, +conseguindo no faltar ao encargo que acceitei e palavra que tinha dado.</p> + +<p>Eu sou a pessoa menos competente para escrever um artigo de critica +literaria a respeito da obra de Thomaz Ribeiro.</p> + +<p>Vejo-o sempre, apaixonadamente, atravs de agradaveis recordaes da minha +mocidade.</p> + +<p>No sei, no posso vel-o de outro modo.</p> + +<p>Dou-me, portanto, como suspeito.</p> + +<p>Mas creio que, para a apreciao de um escriptor ou de um artista, os +criticos tem menos auctoridade do que o publico.</p> + +<p>Se esse escriptor ou esse artista conquistou a opinio geral, se recebeu uma +consagrao nacional, a sua reputao inabalavel, a despeito do voto adverso +dos criticos.</p> + +<p>Ora Thomaz Ribeiro, cujos poemas foram discutidos, tornou-se o mais popular +poeta do seu tempo. Teve a opinio publica fechada na mo; dominou-a +completamente. E, ainda ultimamente, os que queriam ser-lhe desagradaveis +repetindo versos seus, justificavam, sem querer, a sua popularidade e, sem +querer, a propagavam.</p> + +<p>Portugal ficar sendo eternamente o—jardim da Europa<span +class="pn"><a name="pag_70">{70}</a></span> beira mar plantado—verso +que tem servido para todos e para tudo que, em bem e mal, se escreve a respeito +do nosso paiz.</p> + +<p>A Conversao preambular do <em>D. Jayme</em>, escripta por Castilho, foi +tida como exageradamente encomiastica para o auctor do poema, e realmente +discutivel em algumas das suas affirmaes.</p> + +<p>Mas o enthusiasmo que alvoroou o espirito reflectido de Castilho adduz mais +uma prova da enorme sensao causada pelo <em>D. Jayme</em>, at nos julgadores +de maior competencia profissional.</p> + +<p>Apparecia um poema verdadeiramente nacional, portuguez pelo assumpto, pelos +affectos, pela paisagem, pela dico, pondo de mais a mais em evidencia a +riqueza de metros, de harmonia, de malleabilidade e de cr que possuia a lingua +portugueza.</p> + +<p>Sahia inteiramente dos moldes dos poemas antigos, fugindo oitava-rima, e +dos moldes da revoluo romantica, fugindo ao verso branco.</p> + +<p>Era o poema lyrico moderno, o romance metrificado, escripto ao sabor +portuguez sobre a vida portugueza, com matiz popular de tradies e costumes +nossos, com vocabulos colhidos no diccionario da provincia—<em>fogaa, +campeiro, velleiro</em>—com toda a alma de um povo a cantar flr dos +versos e o caracter nacional sobresaindo em alto relevo no caracter do +protogonista:</p> + +<blockquote> + <p>Entrei, raivando vinganas,<br> + Sahi, jurando perdo.</p> +</blockquote> + +<p>Comprehende-se que este poema causasse enthusiasmo em todas as regies do +mundo onde palpitava o sangue e o sentimento portuguez: assim aconteceu, no s +em Portugal, mas tambem no Brazil e na India.</p> + +<p>Do <em>D. Jayme</em> nasceram logo outros poemas: Em Lisboa,<span +class="pn"><a name="pag_71">{71}</a></span> <em>Roberto ou a dominao dos +agiotas</em>, por Manuel Roussado, uma parodia; no Brazil, <em>Leonor</em>, +imitao flagrante.</p> + +<p>Trinta annos depois, quando Thomaz Ribeiro foi ao Brazil como ministro de +Portugal, ainda l encontrou o rescaldo do antigo enthusiasmo; e a sua escolha +foi julgada a mais opportuna para reatar as relaes que um ligeiro conflicto +tinha interrompido entre os dois paizes irmos.</p> + +<p>Na India portugueza, onde anteriormente estivera como secreterio geral do +governo da provincia, Thomaz Ribeiro foi encontrar admiradores por toda a +parte.</p> + +<p>Tenho deante de mim um romance indiano, <em>Beatriz ou os mysterios da +ultima revolta em Goa</em>, escripto por Fernando de Goa (certamente +pseudonymo) e publicado em Lisboa no anno de 1885.</p> + +<p>No 2. volume, encontro, entre outras referencias a Thomaz Ribeiro, este +periodo:</p> + +<p> </p> + +<p>O secretario, aproveitando este ensejo, affastou-se d'ali, metteu-se na +machila e fez-se transportar a Caranzalem, a fim de fazer as suas visitas s +familias das suas relaes que ali se achavam a banhos, e entreter parte da +noite n'uma ou n'outra casa, onde suspiravam pela sua chegada, para terem o +prazer de ouvir uma conversao animada, cheia de atticismo, de poesia, e ao +mesmo tempo recamada das mais brilhantes e conceituosas phrases.</p> + +<p> </p> + +<p>A praia de Caranzalem, proxima do Mandovi, n'uma linda enseada a quatro +kilometros da capital, o balneario aristocratico da India portugueza, +Cascaes do Oriente.</p> + +<p>Em todo o reino de Portugal, na India, no Brazil, em toda a parte onde se +falla a lingua portugueza, Thomaz Ribeiro, por ser o auctor do <em>D. +Jayme</em>, encontrava um fervoroso culto de enthusiasmo e adorao.</p> + +<p>Era uma justa retribuio da consciencia publica aos<span class="pn"><a +name="pag_72">{72}</a></span> sentimentos patrioticos do poeta, que +dedicadamente amou o seu paiz, cantando-lhe as bellezas e as glorias, no +Occidente e no Oriente, e que, no territorio portuguez, se algum rinco +distinguiu com especial affecto, foi o seu districto natal, Vizeu, e em Vizeu a +aldeia garrida onde nascra, Parada de Gonta:</p> + +<blockquote> + <p>Que fresca aldeia formosa<br> + Nas margens do meu Pavia!</p> +</blockquote> + +<p>Morreu na terra da patria, e n'isso lhe fez Deus a vontade:</p> + +<blockquote> + <p>meu vergado pomar d'um rico outomno,<br> + s meu bero final no ultimo somno.</p> +</blockquote> + +<p>O romantismo, vocabulo que eu apenas acceito convencionalmente como +expresso chronologica para designar determinada poca literaria, e no como +caracterisao psychologica d'um estado d'alma, que commum a todas as +geraes, e, portanto, eterno; o periodo romantico, ia dizendo, teve ao menos +de grande e nobre o seu amor ao paiz, affirmado solemnemente na celebrao das +glorias e das tradies portuguezas, desde Alexandre Herculano at Thomaz +Ribeiro.</p> + +<p>Hoje moda rir de tudo, em prosa e verso, especialmente do paiz.</p> + +<p>Literariamente, ainda falta encarar o auctor do <em>D. Jayme</em> sob outro +ponto de vista: como recitador.</p> + +<p>Trez homens conheci eu incomparaveis no primor com que sabiam dizer versos: +Castilho, Thomaz Ribeiro e Gonalves Crespo.</p> + +<p>Quanto a Thomaz Ribeiro, sempre me ha de lembrar o que se passou uma vez, +sendo elle ministro do reino, na commisso de instruco secundaria da camara +dos deputados.</p> + +<p>Discutia-se um projecto de reforma do respectivo ensino.</p> + +<p>Apenas dois membros da commisso se oppunham tenazmente<span class="pn"><a +name="pag_73">{73}</a></span> resurreiao do exame de madureza: eram o sr. +Jos Borges de Faria e eu.</p> + +<p>N'essa reunio nocturna, que se effectuou no edificio do governo civil para +maior commodidade de todos, a discusso corrra violenta e azeda.</p> + +<p>Nada se tinha resolvido ainda, quando foi servido o ch, que veiu da casa +Ferrari.</p> + +<p>Ento, durante essa pausa obrigada, no sei quem se lembrou de pedir a +Thomaz Ribeiro que recitasse <em>O tear da rainha</em>.</p> + +<p>Elle annuiu promptamente, e tanta impresso causou em todos ns, que fomos +pedindo mais versos.</p> + +<p>Assim acabou n'uma doce calma aquella reunio, que tinha corrido agitada.</p> + +<p>O projecto chegou a ir ao parlamento, fazendo os dois dissidentes declarao +de voto, mas a reforma no teve execuo.</p> + +<p>Tambem a titulo de simples recordao lembrarei que sendo Thomaz Ribeiro +ministro da marinha—primeira pasta que geriu—fui eu que, a seu +pedido, entabolei negociaes com a livraria Chardron, do Porto, para a +acquisio da propriedade das suas obras.</p> + +<p>Quando se escreve de um amigo no ha meio de coordenar as memorias +agradaveis que elle nos deixou; os factos acodem em tropel amontoando-se numa +agglomerao confusa, que exigeria longo tempo e grande esforo de serenidade +para ser dominada.</p> + +<p>No , poucos mezes depois da morte d'esse amigo, que semelhante tentativa +pode fazer-se para conseguir restabelecer a ordem onde tudo ainda desordem da +saudade.</p> + +<p>Por isso no o consegui eu, nem sequer o tentei.<span class="pn"><a +name="pag_74">{74}</a></span></p> + +<h4>P<small>AG</small>. 18</h4> + +<h5><a name="L2583" id="L2583" href="#esquecer">... esquecer essa noite de +festa, que foi talvez a unica noite feliz n'esta casa.</a></h5> + +<p>D. Anna Placido escrevendo, embora sob um pseudonymo masculino, a respeito +da morte de Vieira de Castro em Africa, recordava a noite de 15 de julho de +1866, quando dizia:</p> + +<p> </p> + +<p>Era noite de festa. Na pequena aldea de *** ouviam-se cantos festivos; e a +voz das aldes competia com as rabecas e os clarinetes.</p> + +<p>Passava-se isto em uma casa de campo. As seis janellas da frontaria +jorravam luz, e a porta da entrada por onde se subia por larga escadaria de +pedra, estava afestoada de rosas e hortensias.</p> + +<p> </p> + +<p>Era o sarau campestre, o sero minhoto, em honra de Castilho, na quinta de +Seide.</p> + +<h4>P<small>AG</small>. 26</h4> + +<h5><a name="L2581" id="L2581" href="#essa">Foi ali que essa linda mulher, de +formas esculpturaes...</a></h5> + +<p>A proposito de D. Anna Placido, referirei um pormenor que me foi contado +recentemente.</p> + +<p>O seu casamento com o grande escriptor esteve para realizar-se em Santo +Thyrso, aonde ambos chegaram a ir para esse fim. Ali se demoraram dois dias, +espera que o conego Alves Mendes viesse do Porto com os documentos que eram +necessarios. S o abbade de Santo Thyrso, reverendo Joaquim Augusto da Fonseca +Pedrosa, estava na<span class="pn"><a name="pag_75">{75}</a></span> posse +d'este segredo; ninguem mais, n'aquella villa, o sabia. Mas houve demora na +camara ecclesiastica do Porto, e o conego Alves Mendes no pde obter os papeis +to depressa como desejava. Por este motivo, Camillo e D. Anna Placido +retiraram de Santo Thyrso. O casamento veio a celebrar-se no Porto, como j tem +sido dito.</p> + +<h4>P<small>AG</small>. 30</h4> + +<h5><a name="L2573" id="L2573" href="#Nuno">Em 1892 o Nuno, estando ns na +Povoa, mostrou-me V. no <em>Caf Chinez</em>.</a></h5> + +<p>Foi n'esse anno, e na Povoa, que eu vi o visconde de S. Miguel de Seide pela +ultima vez, quando j a questo do <em>Protesto</em> nos tinha inimistado.</p> + +<p>N'essa occasio eu no pensava ali seno em vencer, como candidato, uma das +mais renhidas e ruidosas eleies que tem havido n'este paiz. Deu brado aquella +briga eleitoral da Povoa de Varzim em 1892! Se no fossem as minhas canceiras e +preoccupaes politicas, dada a boa disposio do visconde de S. Miguel de +Seide como agora sei, certamente nos haveriamos reconciliado ali n'aquella +poca. Mas eu andava em correrias, em comicios, em conferencias, em combinaes +eleitoraes: no chegava para as encommendas. Forte cegueira! At me parece +agora impossivel que eu fosse ento o mesmo homem que hoje sou!</p> + +<p>O que certo que venci com o povo—a grande classe dos +pescadores—coisa que raras vezes ter acontecido em Portugal. Quem vence, +por via de regra, so os influentes, os galopins, o carneiro e as batatas. +D'aquella vez venceu o povo, que me quiz fazer deputado, e fez. Assim o povo +pensasse sempre em tudo o mais, e outro gallo lhe cantaria.<span class="pn"><a +name="pag_76">{76}</a></span></p> + +<p>Eu andei ento muito descomposto nas gazetas, mas tambem andei muito cantado +nas ruas.</p> + +<p>Os pescadores e as pescadeiras improvisaram ento um cancioneiro eleitoral +em meu favor. Ahi vo amostras do panno, que elles espontaneamente souberam +tecer com toda a ingenua rudeza dos seus processos poeticos:</p> + +<blockquote> + <p> Boa vai ella!<br> + Ora viva o Pimentella.<br> + Que d o seu corao<br> + P'ra vencer a eleio.</p> + + <p> Boa vai ella!<br> + Ora viva a <em>piscaria</em>.<br> + Vai toda votar em barda<br> + Pela nossa melhoria.</p> + + <p> Boa vai ella!<br> + Ora viva o Albertinho,<br> + Que vai como deputado<br> + C pelo nosso povinho.</p> +</blockquote> + +<p>Eram to carinhosos para mim os pescadores, que at me tratavam pelo +diminutivo, meiguice que eu j no estava costumado a receber ha muito tempo. O +povo ama ainda pelo systema antigo, e eu era o seu candidato contra a vontade +de muitas influencias poderosas e colligadas.</p> + +<p>N'esta roda-viva de uma eleio disputadissima, renhidissima, eu pensava +menos no visconde de S. Miguel de Seide do que na urna e nos votos.</p> + +<p>Se no estivesse to preoccupado e ralado, se tivesse tempo para me demorar +nos botequins, certamente se teria ageitado alguma occasio de me congraar com +o visconde de S. Miguel de Seide, pois que elle o desejava, e eu no o +recusaria.<span class="pn"><a name="pag_77">{77}</a></span></p> + +<div class="imagem_full"> +<p><img width="100%" alt="Ilustrao" src="images/karr.jpg"></p> + +<p>Retrato de <small>ALPHONSE KARR</small> que pertenceu a Camillo</p> +</div> + +<h4>P<small>AG</small>. 37</h4> + +<h5><a name="L2613" id="L2613" href="#Jorge">... Jorge Castello Branco, o +infeliz primogenito de Camillo.</a></h5> + +<p>Apezar de ser o primogenito, foi baptisado, quando j tinha quasi dois annos +de idade, no mesmo dia que seu irmo Nuno, a 6 de janeiro de 1865.</p> + +<p>Se o leitor folheou alguma vez <em>Os amores de Camillo</em>, l deve ter +encontrado, a pag. 344, a noticia d'este duplo baptisado que se effectuou no +Porto.</p> + +<p>Mas Antonio de Azevedo contou-me ultimamente um pormenor, que +interessante.</p> + +<p>Ao jantar d'esse dia, em casa de Camillo na rua do Almada, assistiram as +mesmas pessoas que tinham ido egreja; Custodio Jos Vieira, notavel +jurisconsulto; o Bastos, do <em>Nacional</em>; Antonio de Azevedo; e um +procurador portuense, cujo nome no lembra.</p> + +<p>Durante o jantar apenas se bebeu champagne e cognac.</p> + +<p>Seguiu-se um sero alegre, cheio de engraados episodios e imprevistos +sainetes.</p> + +<p>D. Anna Placido tocou piano.</p> + +<p>Camillo tocava trombone no canno de uma bota.</p> + +<p>E o Bastos do <em>Nacional</em>, que era um homem alto, forte e rosado, +danava com Custodio Jos Vieira, que era muito pequeno e muito feio.</p> + +<p>O procurador, conscio da sua desigualdade de cotao intellectual, +conservou-se mero espectador.</p> + +<p>No parece que se est ouvindo um trecho das <em>Alegres comadres de +Windsor</em>, que Nicolai compoz sobre a pea de Shakspeare, ou aquella scena +de Puccini, em que os socios da bohemia folgam em commum n'uma chorea +improvisada?<span class="pn"><a name="pag_78">{78}</a></span></p> + +<p>Quem poderia vr ento em Camillo o futuro solitario e suicida de S. Miguel +de Seide!</p> + +<h4>P<small>AG</small>. 53</h4> + +<h5><a name="L2606" id="L2606" href="#Leitores">Leitores de cem romances, que +uma s penna escreveu.</a></h5> + +<p>Todo o trabalho literario de Camillo pesou unicamente sobre elle. No temos +em Portugal o systema de um escriptor tomar como auxiliares outros escriptores +menos reputados. Usa-se isso em Frana; entre ns, no.</p> + +<p>Apenas, em duas obras de theatro, trabalhou Camillo com um collaborador, que +foi Ernesto Biester.</p> + +<p>Fizeram em commum o drama <em>Vingana</em> (Veja <em>Esboos de apreciaes +literarias</em>, pag. 85 e <em>Revista contemporanea de Portugal e Brazil</em>, +vol. <small>IV</small>, pag. 313); e o drama <em>Penitencia</em>, em 6 actos e +um prologo (Veja <em>Dic. Bib.</em> de Innocencio, vol. <small>IX</small>, pag. +176).</p> + +<p>Vi representar este ultimo drama no theatro de S. Joo, do Porto, pela +companhia do antigo Theatro Normal.</p> + +<h4><small>NOTA FINAL</small></h4> + +<p>O retrato de Camillo, que publicamos agora, copia photographica de um a +<em>crayon</em> que vimos na casa dos netos do grande romancista em S. Miguel +de Seide.</p> + +<p>Na sala de entrada ha trez retratos de Camillo. S este desconheciamos, e +fez-nos impresso, porque, a distancia, suppozemos que fosse de Guilherme +Braga.</p> + +<p>A sr. D. Anna Corra desfez o nosso equivoco.</p> + +<p>O retrato a <em>crayon</em> de 1876 e est assignado, mas deve por sua vez +ser copia de outro retrato, tirado aproximadamente<span class="pn"><a +name="pag_79">{79}</a></span> em 1857, quando Camillo usava ainda o cabello +levantado sobre a fronte.</p> + +<p>Comtudo no o mesmo retrato de 1857 que foi publicado ultimamente, com +outros de differentes epocas, no n. 8-9 da <em>Illustrao moderna</em>, do +Porto.</p> + +<p>Tambem no o de 1850, que ainda recentemente foi mais uma vez reprodusido +na revista portuense <em>Sombra e luz</em> (n. 2).</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Preo 400 ris</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Os netos de Camillo, by Alberto Pimentel + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS NETOS DE CAMILLO *** + +***** This file should be named 33752-h.htm or 33752-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/3/7/5/33752/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/33752-h/images/acacia.jpg b/33752-h/images/acacia.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a621126 --- /dev/null +++ b/33752-h/images/acacia.jpg diff --git a/33752-h/images/anna.jpg b/33752-h/images/anna.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..50249ab --- /dev/null +++ b/33752-h/images/anna.jpg diff --git a/33752-h/images/camillo.jpg b/33752-h/images/camillo.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..2433d32 --- /dev/null +++ b/33752-h/images/camillo.jpg diff --git a/33752-h/images/camillo_jr.jpg b/33752-h/images/camillo_jr.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..56c083d --- /dev/null +++ b/33752-h/images/camillo_jr.jpg diff --git a/33752-h/images/flora.jpg b/33752-h/images/flora.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..249c66f --- /dev/null +++ b/33752-h/images/flora.jpg diff --git a/33752-h/images/gautier.jpg b/33752-h/images/gautier.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..dcbbf71 --- /dev/null +++ b/33752-h/images/gautier.jpg diff --git a/33752-h/images/karr.jpg b/33752-h/images/karr.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..9566c12 --- /dev/null +++ b/33752-h/images/karr.jpg diff --git a/33752-h/images/manuel.jpg b/33752-h/images/manuel.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..caaa5cf --- /dev/null +++ b/33752-h/images/manuel.jpg diff --git a/33752-h/images/nuno.jpg b/33752-h/images/nuno.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b891f53 --- /dev/null +++ b/33752-h/images/nuno.jpg diff --git a/33752-h/images/rachel.jpg b/33752-h/images/rachel.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..0ce964a --- /dev/null +++ b/33752-h/images/rachel.jpg diff --git a/33752-h/images/simao.jpg b/33752-h/images/simao.jpg Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..84b75ab --- /dev/null +++ b/33752-h/images/simao.jpg diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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