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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 02:37:26 -0700
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+The Project Gutenberg eBook of Tractado da terra do Brasil, by Pedro de Magalhães Gandavo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
+most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
+whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
+of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at
+www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you
+will have to check the laws of the country where you are located before
+using this eBook.
+
+Title: Tractado da terra do Brasil
+ no qual se contem a informação das cousas que ha nestas partes feito por P.º de Magalhaes
+
+Author: Pedro de Magalhães Gandavo
+
+Release Date: February 20, 2009 [eBook #28122]
+[Most recently updated: January 2, 2021]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: UTF-8
+
+Produced by: Júlio Reis, Carlo Traverso and the Online Distributed Proofreading Team
+
+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK TRACTADO DA TERRA DO BRASIL ***
+
+
+
+
+Notas de transcrição:
+
+* a grafia do século XVI era totalmente livre; portanto, nenhum esforço
+foi feito para harmonizar acentos, grafia etc.
+
+* O caracter ^ é usado para denotar texto em superescrito (acima da
+linha)
+
+
+
+
+ TRACTADO DATERRA
+ do Brasil no qual Se cõtem
+ a informaçaõ das
+ cousas que ha nestas
+ partes feito por
+ Pº de magalhaẽs.
+
+
+
+
+Ao muy alto e Serenìssimo Principe dom Anrrique Cardeal Iffante de
+portugal.
+
+
+Posto que os dias passados apresentei outro sũmario da terra do brasil a
+elRei nosso snõr, foi por comprir primeiro com esta obrigação de
+vassallo que todos deuemos anosso Rei: e por esta razáo me pareçeo cousa
+mui necessaria, (muýto Alto e serenissimo snõr) offereçer tambem este a
+V. A. aquẽ se deuem Refirir os louuores e acreçentamento das terras ˜q
+nestes Reinos floreçem: pois sempre deseiou tanto augmentallas e
+conseruar seus subditos e vassallos ẽ perpetua paz.
+
+Como eu isto entenda, e conheça quam aççeitos saõ os bõs seruiços a V.
+A. que ao Reino se fazem imaginei comigo que podia trazer destas partes
+com que desse testemunho de minha pura tençaõ: e acheý que naõ se podia
+dũ fraco homẽ esperar maior seruiço (ainda que tal naõ pareça) que
+lançar maõ desta informaçaõ da terra do Brasil (cousa ˜q ategora naõ
+imprendeo pessoa algũa) pera ˜q nestes Reinos se deuulge sua
+fertillidade e prouoque amuitas pessoas pobres que se vaõ viuer aesta
+prouinçia, que nisso consiste a felliçidade e augmento della. E porque
+V. A. sabe quanto seruiço de Deos e delRei nosso Snõr seýa esta
+denunçiaçaõ determineý collegilla com deliberaçaõ de a offereçer a V. A.
+aquẽ humilmente peço ma Reçeba, e com tamanha merçe ficarei satisfeito
+Rogando a nosso Sñor lhe de prosperos e largissimos annos de vida e
+deixe permaneçer Seu Real estado emperpetua filliçidade. amẽ.
+
+Humilde vassallo de V. A. Pero de magalhães
+
+
+
+
+Prollogo Ao lector.
+
+
+Minha tençaõ naõ foi outra neste summario (discreto e corioso lector)
+senaõ de nunçiar em breues pallauras a fertillidade e abundançia da
+terra do brasil, pera que esta fama venha a notiçia de muitas pessoas
+que nestes Reinos viuem com pobreza, e naõ duuidem escolhelha pera seu
+Remedio: porËœq a mesma terra he tam natural e fauorauel aos estranhos
+que a todos agazalha e conuida com Remedio por pobres e desemparados que
+seiaõ. Eassy cada vez se vay fazendo mais prospera, e depois ˜q as
+terras viçosas se forem pouoando (que agora estaõ desertas por falta de
+gente) haõ se de fazer nellas grossas fazendas como ia estaõ feitas nas
+˜q possuem os moradores da terra, etambem se espera desta prouinçia que
+por tempo floreça tanto na Requeza como as Antilhas de Castella por que
+he çerto ser en si aterra mui riqua e auer nella m^{tos} metais, osquais
+ategora se naõ descobrẽ ou pornaõ auer gente na terra pera cometer esta
+impreza, outambem por negligençia dos moradores que se naõ querem despor
+aesse trabalho: qual seja a causa por que o deixaõ de fazer naõ sei. Mas
+permittira nosso snõr que ainda em nossos dias se descubrã nella grãdes
+thezouros, assy pera seruiço e augmẽto de S. A. como pera porueito de
+seus vassallos que o deseião seruir.
+
+
+
+
+Declaracão da costa.
+
+
+Esta costa do brasil está pera a parte do occidente, corre se de norte e
+sul. Da primeira pouoaçaõ a tederradeira ha trezẽtas e sincoenta legoas.
+Saõ oito capitanias todas tem portos mui seguros onde podẽ entrar quais
+quer naos por grandes que seiaõ. Naõ ha pella terra dentro pouoações de
+portugeses por causa dos indios que naõ no consente, etambem pello
+soccorro e tractos do Reino lhes he neçessario estarem iunto domar pera
+terẽ comunicação de mercadorias. E por este Respeito viuẽ todos junto da
+Costa.
+
+
+
+
+Cap. 1.º da capitania de Tamaracá.
+
+
+A pouoaçaõ da primeira capitania e mais antiga está nuã ilha que se
+chama Tamaracá pegada com aterra firme, tem tres legoas de comprido e
+duas de largo: tẽ trinta e sinco legoas de terra pella costa pera o
+norte. He de dona Jeronima dalBuquerque molher que foi de Pero Lopez de
+Sousa naqual tem posto Capitaõ de sua maõ. ha nella hũ engenho dassucre,
+e agora se fazẽ dous nouamẽte, e muito pao do brasil e algodaõ. Pode ter
+ate çẽ vezinhos. Ha nesta capitania muitas e boas terras pera se
+pouoarem e fazerem nellas fazendas.
+
+
+
+
+Cap. 2.º da capitania de Phernãbuco.
+
+
+[Nota lateral: Noua Lusitania a chamã muytos pollas frequẽcia, é
+policia]
+
+[Nota lateral: agora som .60. anno de 1587.]
+
+A capitania de Phernambuco está sinco legoas de Tamaracá pera o sul em
+altura de oito graos, daqual he capitaõ e gouernador Duarte coelho
+dalBuquerque. Tem duas pouoações, a prinçipal se chama Olinda, a outra
+Guarassú que esta quatro legoas pella terra dentro. Auera nesta
+capitania mil vezinhos. Tem =vinte etres= engenhos dassucre, posto que
+tres ou quatro delles naõ saõ ainda acabados.
+
+[Nota lateral: agora quatro mil ˜q sam todas as arrouas ˜q se librã
+aqui, 240. M.]
+
+Algũs moem com bois aestes chamã tripiches, fazem menos assucre que os
+outros. mas amaior parte dos engenhos do brasil moẽ com agoa. Cada
+engenho destes hũ poroutro, faz =trez= mil arrobas cadano. nesta
+capitania se fazem mais assucres que nas outras, porque ouue anno que
+passaraõ de sincoenta mil arrobas, ainda que o Rendimento delles naõ he
+çerto, saõ segundo asnouidades e os tempos que se offereçẽ. Esta seacha
+huã das Ricas terras do brasil, tem muitos escrauos indios ˜q he
+aprinçipal fazenda daterra. Daqui os leuaõ e compram pera todellas
+outras capitanias, porque ha nesta muitos, emais baratos que entoda
+costa. ha muitos pao do brasil e algodaõ de que enrriqueçẽ os moradores
+desta capitania.
+
+[Nota lateral: a este porto se entra por un canal tam estreyto, Ëœq
+apenas cabe una náo por elle y sino entra cõ muyto tẽto, da en pedra
+viua y perdesse ô qual acõtece muytas vezes aos exprimẽtados: por isso
+se chama Paranambuc. Ëœq quer dix Mar furado]
+
+O porto onde os nauios entraõ está hũa legoa da pouoaçaõ Olinda seruense
+pella praya e tambem por hũ Rio pequeno que vai dar junto da mesma
+pouoaçaõ. Aesta capitania vaõ cadanno mais nauios do Reino que anenhuã
+das outras. Hanella hũ mosteiro de padres da companhia de Jesus.
+
+
+Rios.
+
+Ha dous Rios caudais ate a Bahia de todollos sanctos. hũ se chama de saõ
+francisco, está em dez graos e meyo, oqual entra nomar contanta furia ˜q
+vinte legoas pello mesmo mar correm suas agoas outro Rio está em onze
+graos e dous terços que se chama o Rio Real, tambem he muigrande e
+correm muito suas agoas pello mar.
+
+
+
+
+Cap. 3. da capitania da Bahya de Todollos Sanctos.
+
+
+A Capitania da Bahia de todollos sanctos esta çem legoas de phernãbuco
+emaltura de treze graos. terra del Rei nosso snõr onde Residem os
+gouernadores e bispo e ouuidor geral de toda costa. esta he a terra mais
+pouoada de portugueses que ha nobrasil. Tem tres pouoaçoẽs, a prinçipal
+he a cidade do saluador. Aoutra se chama Villa Velha que esta junto da
+barra, Esta pouoaçaõ foi aprimeira que ouue nesta capitania: de pois
+Thome de Sousa Sendo gouernador edificou esta cidade do saluador mais
+adiãte meýa legoa ao longo da Bahia por ser lugar mais comueniente e
+porueitoso pera osmoradores da terra. Quatro legoas pella terra dentro
+está outra˜q se chama Paripé. pode auer nesta capitania mil e çem
+vezinhos. Tem dez oito engenhos, algũs sefazem nouamẽte: tambem se tira
+delles muito assucre, ainda que osmoradores se lançã mais aoalgodaõ que
+a canas dassucres porque se daa milhor naterra.
+
+Dentro da çidade está hũ mosteiro de padres da companhia de Jesus,
+noqual tem colegio onde ensinã latim e casos de consçiençia. Afora este
+ha sinco igreias pella terra dentro antre os indios forros onde Residẽ
+algũs padres pera fazerẽ christaõs e casarem osmesmos indios por naõ
+estarẽ amãçebados.
+
+Esta capitania tem huã bahya mui grande e fermosa, he tres legoas de
+largo e nauegase quinze porella dentro. tẽ muitas ilhas de terras mui
+viçosas quedaõ infinito algodaõ, diuidese em muitas partes esta bahia:
+etem muitos braços e enseadas dentro. Os moradores da terra todos se
+seruem porella cõ barcos pera suas fazendas.
+
+
+Rios.
+
+Doze legoas desta bahia de todollos sanctos esta hũ Rio que se chama
+Tinharée onde se Recolhem muitas embarcações ˜q passã, pera as outras
+capitanias. Tres legoas por elle dentro está hũ engenho dum Bastiã de
+ponte, junto doqual estaõ muitas terras perdidas por falta de moradores,
+dasquais se consegiria muito porueito se as pouoassem. Mais auante seis
+legoas esta hũ Rio que se chama Camamù em treze graos e dous terços, no
+qual podẽ entrar quais quer naos seguramente. quatro sinco legoas
+porelle dentro. Ao longo deste Rio ha terras mui viçosas e muitas agoas
+pera se poderẽ fazer engenhos dassucre, as quais tambem se perdem por
+naõ auer gente que as va pouoar. Tem dentro alguãs ilhas de terras mui
+grossas e acomodadas pera se fazerem nellas muita fazenda. Neste mesmo
+Rio ha muito peixe em estremo, e junto delle muita infinita caça de
+porcos e veados. Aqui se pode fazer huã pouoação onde os homẽs viuaõ mui
+abastados e façaõ muitas fazendas. Ha outro que se chama o Rio das
+contas, está em quatorze graos e meyo, mas naõ he tangrande, ainda ˜q
+tambem entrão nelle alguãs embarcações. Entodos estes Rios ha muita
+abundançia de peixes e de Caça.
+
+
+
+
+Cap. 4.º da capitania dos Ilheos.
+
+
+A Capitania dos Ilheos está trinta legoas da Bahia de todollas sanctos
+em quatorze graos e dous terços. he de francisco giraldez na qual tem
+posto capitaõ de sua maõ. Pode auer nella dozentos vezinhos. Tem hũ Rio
+onde os nauios entraõ oqual está junto da pouoaçaõ. diuidesse emmuitas
+partes pella terradentro, seruẽse os moradores porelhe pera suas
+fazendas em almadias. ha nesta capitania oito engenhos dassucre. dentro
+da pouoação está hũ mosteiro de Padres da companhia de Jesus ˜q agora se
+faz nouamente.
+
+Sete legoas da mesma pouoaçaõ pella terra dentro está huã lagoa dagoa
+doçe ˜q tem tres legoas de comprido e tresde largo etem dez quinze
+braças de fundo e dahi pera sima. Sae della hũ Rio pequeno pello qual
+vaõ la ter barcos. tẽ esta lagoa hũ bocal neste Rio tam estreito, que
+apenas cabe hũ barco por elle, e depois que anda dentro quasi naõ sabe
+determinar por onde entrou. Ten, tanta abundançia dagoa que podem andar
+nella quais quer naos por grãdes que seiaõ a vella: e assy quando vẽta
+muito, alleuantam se alli ondas tam foriosas como se fosse no meyo do
+mar comtormenta. Tem muita infinidade de peixes grandes e pequenos.
+Criamse nella muitos Peixes bois os quais tem o foçinho como de boi e
+dous cotos com que nadaõ amaneira de braços, naõ tem nenhuã escama nẽ
+outra feiçaõ de peixe se naõ o Rabo. Matamnos com arpoẽs, saõ tam gordos
+e tamanhos ˜q algũs pezaõ trinta corenta arrobas. he hũ peixe muito
+sabroso e totalmente pareçe carne e assy tem o gosto della, assado
+pareçe lombo de porco ou de veado, cozese com couves e guizase como
+carne, nẽ pessoa alguã o come que o tenha por peixe saluo se o conheçer
+primeiro. As femeas tem duas mamas pellas quais mamão os filhos e
+criamse com leite (cousa ˜q se naõ acha noutro peixe algũ) tambem ha
+destes emalguãs bahias e Rios desta costa, e posto que se criẽ no mar,
+custumã beber agoa doçe porisso acodem muitos aesta lagoa, ou a parte
+onde algũ Ribeiro se meta no mar. Tambem ha muitos tubaroẽs nesta lagoa,
+e lagartos e muitas cobras, E achamse nella outros mõstros marinhos de
+diuersas maneiras. Ha muitas terras e mui viçosas orredor della, e muita
+caça, E neste rio que sae da lagoa muita fertilidade de peixe.
+Finalmente que huã das abastadas terres de mantimentos ˜q que ha no
+Brasil he esta capitania dos ilheos.
+
+
+
+
+Cap. 5.º duã nascaõ de gentio ˜q se acha nesta Capitania.
+
+
+Pellas terras desta capitania ate junto do Spiro sancto, se acha hũa
+çerta nasçaõ de gentio que veo do çertaõ ha sinco ou seis annos, e dizem
+˜q outros indios contrarios destes, vierão sobrelles a suas terras, e os
+destruiraõ todos e os que fogiraõ saõ estes ˜q andaõ pella costa.
+chamãse Aýmores, a lingoa delles he differente dos outros indios, ningẽ
+os entende, saõ delles tam altos e taõ largos do corpo ˜q quasi pareçẽ
+gigantes. Saõ mui aluos naõ tem pareçer dos outros indios da terra nẽ
+tem casas nẽ pouoaçoẽs onde morẽ, viuẽ antre os matos como brutos
+animais: saõ mui forçosos em estremo, trazem hũs arcos mui compridos e
+grossos conforme a suas forças e as frechas da mesma maneira. Estes
+indios tem feito muito dano aos moradores de pois que vieraõ aesta costa
+e mortos algũs portugeses e escrauos por˜q saõ imigos de toda gente. Naõ
+pelleyaõ em campo nẽ tem animo pera isso, poẽ se antre omato junto dalgũ
+caminho e tanto ˜q passa algem attiraõlhe ao coraçaõ ou aparte onde o
+matem e naõ despedem frecha que naõ na empregem. finalmente que naõ tem
+Rosto direito aningẽ senaõ a treiçaõ fazem a sua. As molheres trazem hũs
+paos tostados comque pelleiaõ. Estes indios naõ viuem senaõ pella
+frecha, seu mantimẽto he caça bichos e carne humana fazem fogo de baixo
+do chaõ pornaõ serẽ sentidos nẽ saberem onde andaõ. Muitas terras
+viçosas estaõ perdidas junto desta capitania, as quais naõ saõ possuidas
+dos Portugeses por causa destes indios. Naõ se pode achar Remedio pera
+os destruirem por˜q naõ tem morada certa, nem saem nunca dantre o matto:
+E assi quando cuidamos ˜q vaõ fogindo ante quẽ os persege entaõ ficam
+atraz escondidos e atiraõ aos que passaõ descuidados, Desta maneira
+mataõ alguã gente. todos quantos indios ha no brasil saõ seus imigos e
+temẽnos muito porque he gente atreiçoada. E assy onde os ha nenhũ
+morador vai a sua fazenda por terra ˜q naõ leue quinze vinte escrauos
+consigo de arcos e frechas. Estes Aymores são mui feros e crueis, naõ se
+pode cõ pallauras encareçer a dureza desta gẽte. Naõ andaõ todos juntos,
+derramamse por muitas partes, equando sequerem ajuntar assubiã como
+passaros ou como bogios demaneira que hũs aos outros se entendem e se
+conheçẽ. Tambem os portugeses mataõ algũs delles, e tem muitos
+destruidos, principalmente nesta capitania dos ilheos, eguardaõse muito
+delles por que ja sabem suas manhas e conheçẽ muibem sua mallicia.
+
+
+
+
+Cap. 6. da Capitania de Porto seguro.
+
+
+A capitania de Porto seguro está trinta legoas dos jlheos em dezaseis
+graos e meýo. He do Duque daueiro, na qual tem posto capitaõ de sua maõ.
+Tem tres pouoaçoẽs a prinçipal he porto seguro que está junto do porto
+onde os nauios entraõ. outra está dahi huã legoa ˜q se chama sancto
+amaro outra Sancta Cruz que está dahi quatro legoas pera o norte. pode
+auer nesta capitania dozentos e vinte vezinhos. Tem sinco engenhos
+dassucre. Ha nella hũ mosteiro de padres da companhia de Jesus. Tambem
+chegaõ aesta capitania os Aymorés e fazem nella dano aos moradores como
+nos ilheos. he terra mui abastada de caça, e de peixes que mataõ no Rio
+que está junto da pouoacaõ.
+
+
+
+
+Cap. 7.º da Capitania do spirito sancto.
+
+
+A Capitania do spirito sancto está sincoẽta, legoasde Porto seguro em
+vinte graos, da qual he capitaõ e gouernador Vasco fernandes coutinho.
+Tem hũ engenho somente, tira se delle omilhor assucre ˜q ha entodo
+Brasil. Ha nella muito algodaõ e pao do brasil. Pode ter ate cento e
+oitenta vezinhos, Ha dentro da pouoaçaõ hũ mosteiro de padres da
+Companhia de Jesus. Tem hũ Rio muj grande onde os nauios entraõ, noqual
+se achaõ mais peixes bois que noutro nenhũ Rio desta Costa. No mar junto
+desta Capitania mataõ grande copia de peixes grandes E de toda maneira,
+e tambem nomesmo Rio ha muita abundançia delles. Nesta capitania ha
+muitas terras e muj largas onde os moradores viuẽ mui abastados assi de
+mantimẽtos da terra como de fazendas. E quando se tomou a fortalleza do
+Rio de Janeiro desta mesma capitania do Spirito Sancto sostentaraõ toda
+gente e proueraõ sempre de mãtimẽtos neçessarios enquanto esteueraõ na
+terra os que a defendiaõ.
+
+
+Rios.
+
+Auante desta capitania em altura de vinte e hũ graos está o Rio de
+paraiba este he mui grande e fermoso e tem infinito peixe. Junto do cabo
+frio ẽ altura de vinte e dous graos está a Bahia fermosa naqual se pode
+fazer hũa capitania de muitos vezinhos onde tambem se perdem muitas
+terras por falta de gente. Outros muitos Rios ha nestas partes Ëœq deixo
+descreuer por serem pequenos e naõ se fazer tanto caso delles, nẽ minha
+tençaõ foi outra senaõ tractar destes mais notaueis onde se podem fazer
+alguãs pouoaçoẽs e cõsegir porueito das terras viçosas que poresta costa
+estaõ desertas.
+
+
+
+
+Cap. 8.º da Capitania do Rio de Janeiro.
+
+
+A Capitania do Rio de Janeiro cidade de sam Sebastiaõ está sesenta
+legoas do Spirito Sancto em vinte e tres graos e hũ terço, terra delRei
+nosso snõr. Pode ter pouco mais ou menos cento e corenta vezinhos, agora
+se começa de pouoar nouamente. Esta he amais fertil e viçosa terra que
+ha no brasil. Tem terras mui singullares e muitas agoas pera engenhos
+dassucre. Ha nella muito infinito pao do brasil de que os moradores da
+terra fazẽ muito porueito. Esta capitania tem hũ Rio mui largo e fermoso
+diuide se dentro emmuitas partes, e quantas terras estaõ ao longo delle
+se podem aporueitar, assy pera Roças de mantimentos como pera canas
+dassucres e algodoẽs, porque saõ muj viçosas e milhores de quantas ha
+por toda esta costa. ha nesta çidade hũ mosteiro de padres da companhia
+de Jesus, os quais tambem augmentaraõ muito esta terra e deseiaõ muito
+vella pouoada de muitos moradores, por˜q saõ tomo digo as terras desta
+capitania mui largas e sabem quam porueitosas saõ pera toda gente pobre
+que as for possuir. E por tempo haõ se de fazer nellas grãdes fazendas:
+eosque la forem viuer com esta esperança naõ se acharão enganados.
+
+
+
+
+Cap. 9.º da Capitania de SanViçente.
+
+
+A Capitania de sanviçente está sesenta legoas do Rio de Janeiro em Vinte
+equatro graos, he de pero lopez de sousa, naqual tem posto capitaõ de
+sua maõ: esta e o Rio de Janeiro saõ as mais frias terras que ha no
+Brasil, gea nellas em tempo de inuerno quasi como neste Reino. Nesta
+capitania se deu ja trigo, mas naõ no querẽ semear por auer na terra
+outros mantimẽtos de menos custo. Tem tres pouoações, e huã fortalleza
+˜q está nuã ilha junto da terra firme quatro legoas pera onorte que se
+chama Britioga, daqui deffendem esta capitania dos indios e françeses
+com artelharia que ha na mesma fortalleza. Aprinçipal pouoaçaõ se chama
+sanctos onde está hũ mosteiro de padres da companhia de Jesus. Aoutra
+mais avãte ao longo do Rio huã legoa he Sam Viçente, tambem ha nella
+outro mostr.º de padres da companhia. Pella terra dẽtro dez legoas
+edificarão os mesmos padres huã pouoação antre os indios que se chama o
+Campo naqual Viuem muitos moradores, amayor parte delles são mamalucos
+filhos de portugueses e de indias da terra. Aqui e nas mais Capitanias
+tem feito estes padres da companhia grande fruito e fazem com que a
+terra va em muito creçimẽto, trabalhaõ por fazer christaõs a muitos
+indios, e metem muitas pazes antre os homẽs, tãbem fazẽ Restituir as
+liberdades de muitos indios que algũs moradores da terra tem mal
+Resgatados: assy que sempre acodem aos que se desuiaõ do seruiço de Deos
+e de S. A.
+
+Auera nesta capitania quinhentos vezinhos, tem quatro engenhos dassucre,
+E muitas terras viçosas de que os moradores tiraõ muitos mantimẽtos e
+fazenda e viuẽ todos mui abastados. Estahe a ultima Capitania ˜q ha
+nestas partes do Brasil.
+
+
+
+
+Tractado segundo das cousas que são gerais por toda Costa do Brasil
+
+
+
+
+Cap. 1.º das fazendas da terra
+
+
+Os moradores desta costa do Brasil todos tem terras de sesmaria dadas e
+Repartidas pellos capitaẽs da terra, e a primeira cousa que pretendem
+alcansar, saõ escrauos pera lhes fazerẽ e grangearẽ suas Roças e fazẽdas
+por que sem elles não se podeẽ sustentar na terra: E huã das cousas
+por˜q o Brasil naõ floreçe muito mais, he pellos escrauos que se
+alleuantaraõ e fogiraõ pera suas terras, e fogem cada dia: E se estes
+indios naõ foraõ tam fogitiuos e mudaueis, não teuera comparaçaõ a
+Riqueza do Brasil. As fazendas donde se consige mais porueito saõ
+assucres, algodoẽs e pao do brasil, cõ isto fazem pagamento aos
+mercadores que deste Reino lhes leuão fazenda porque o dinheiro he pouco
+na terra, e assy vendẽ e trocã hũa mercadoria por outra em seu justo
+preço. Quantos moradores ha na terra tem Roças de mantimẽtos, e vẽdẽ
+muitas farinhas de pao hũs aos outros, de que tambem tiraõ muito
+porueito.
+
+
+O mais gado que ha nesta costa saõ bois e vacas, deste ha muita
+abundançia ẽ todallas capitanias, porque saõ as heruas muitas e sempre a
+terra esta cuberta de verdura, ainda que em porto seguro naõ sequerẽ dar
+nenhũas vacas senão o primeiro anno, no qual engordaõ tanto que do muito
+viço dizem que morrẽ todas. Cabras e ouelhas ha muito poucas ategora,
+começaõ de multiplicar nouamente; as cabras se daõ melhor que as ouelhas
+E parem dous tres filhos de cadauez. fazem os moradores da terra muito
+por esta criação. Tambem ha egoas e cauallos, mas ainda saõ caros por
+naõ auer muitos na terra, leuaõ nos do cabo verde pera la edaõ se muito
+bem na terra.
+
+
+Achase tambem por esta costa muito Amber que omar de sy lança fora as
+mais das vezes quando faz tormenta e saõ agoas viuas, entaõ ha muitas
+pessoas que mãdã seus escrauos pella praya buscallo nos lugares onde
+custuma sair mais vezes, e muitas vezes aconteçe enriqueçerẽ algũs assy
+do que achaõ seus escrauos como do que Resgataõ aos indios forros.
+Segũdo a dita e ventura de cada hũ. Os panos que nesta terra se fazẽ são
+dalgodaõ, todo mais vay deste Reino. E assy ha tambem muitos escrauos de
+guine: estes saõ mais seguros ˜q os indios da terra por que nunca fogẽ
+nẽ tem pera onde. Ha tambem muita criaçaõ de porcos e muitas galinhas
+adens e patos da terra. Estas saõ as fazendas ˜q possuẽ os moradores do
+brasil.
+
+
+
+
+Cap. 2.º dos custumes da terra
+
+
+As pessoas que no brasil querem viuer tanto que se fazem moradores da
+terra por pobres que seiaõ se cada hũ alcançar dous pares ou meyaduzia
+descrauos (˜q pode hũ por outro custar pouco mais ou menos ate dez
+cruzados) logo tem Remedio pera sua sostentação por˜q hũs lhe pescam e
+caçaõ outros lhe fazem mantimentos e fazenda e assy pouco a pouco
+enRiqueçẽ os homẽs e viuem honrradamẽte na terra com mais descanso ˜q
+neste Reino, porËœq os mesmos escrauos indios da terra buscam de comer
+pera si e pera os senorẽs, e desta maneira naõ fazem os homẽs despeza
+com seus escrauos em mãtimentos nẽ com suas pessoas.
+
+A maior parte das camas do Brasil saõ Redes, as quais armaõ nuã casa com
+duas cordas e lançaõse nellas a dormir. este custume tomaraõ dos indios
+da terra.
+
+Os moradores destas capitanias tratamse muito bem e saõ mais largos que
+a gente deste Reino, assy no comer como no vestir de suas pessoas, e
+folgam dajudar hũs aos outros com seus escrauos e fauorecẽ muito os
+pobres que começãoviuer na terra. Isto se custuma nestas partes: e fazem
+outras muitas obras pias por onde todos tem Remedio de vida e nenhũ
+pobre anda pellas portas a pedir como neste Reino.
+
+
+
+
+Cap. 3.º das callidades da terra.
+
+
+Ha nestas partes do Brasil seis meses de verão e seis de inuerno: os de
+verão são de setembro ate feuereiro, os de inuerno de março ate agosto.
+Assy que quando nesta prouinçia do brasil he inuerno cá nestes Reinos he
+verão, eos dias quasi sẽpre saõ tamanhos como as noites, huã ora somẽte
+creçẽ emingoão. Cursaõ sempre ventos gerais, no inuerno seis meses sul é
+sueste no verão nordeste. Sempre correm as agoas com o vento por costa,
+E por isso senaõ pode nauegar de hũas capitanias pera outras se naõ
+esperarẽ por mouções pera irem com as agoas e com o vento, porque cursaõ
+como digo seis meses duã parte e seis doutra e portanto saõ muitas veses
+as viagens vagarosas e quando vão contra tempo as embarcaçoẽs corrẽ
+muito Risco e arribaõ as mais das vezes ao porto donde sairaõ. Mete se
+no meyo e na força deste verão oito dias ante os Sanctos huã tormenta de
+vento sul que dura huã sommana, este he mui çerto e geral, nũca se acha,
+que naquelles dias faltasse. Muitas embarcações esperão por este vento e
+fazem com elle suas viagens. Esta terra sempre he quente quasi tãto no
+inuerno como no verão. A viraçaõ do vento geral entra ao meyo dia, pouco
+mais oumenos, he tam fresco este vẽto e tam frio ˜q naõ se sente mais
+calma, e ficam Recreados os corpos das pessoas. Dura este vento do mar a
+te de madrugada, torna dalli acalmar outra vez por causa dos vapores da
+terra ˜q o apagam e quãdo amanheçe está o ceo todo cuberto de nuuens e
+as mais das manhãs choue nestas partes e a terra fica toda cuberta de
+neuoa por que tem muitos aruoredos e chama a sy todos estes humores.
+Etanto ˜q este geral acalma começa a ventar da terra hũ vento brando que
+nella se gera, a te que o sol con sua quentura o torna apagar e alimpa
+tudo outra vez e faz ficar odia claro e sereno, entrão logo ẽtra o vento
+do mar acustumado. Este vento da terra he mui perigoso edoentio e se
+açerta de permaneçer algũs dias morre muita gente assy portugeses como
+indios da terra, mas quer nosso snõr que acõteça isto poucas vezes, e
+tirado este mal he esta terra mui sallutifera e de bõs ares onde as
+pessoas se achaõ bem despostas e viuem muitos annos prinçipalmente os
+velhos tem milhor despossiçaõ e pareçẽ que tormã a Renouar e porisso
+algũs se naõ querẽ tornar a suas patrias temendo que nellas se lhes
+offereça amorte mais çedo. os ares de pella manhaã saõ mui frescos e
+sadios: muitas pessoas se custumaõ alleuãotar çedo por que se aporueitem
+delles enquanto tem esta vertude. A terra em si he lassa e deleixada
+achãose nella os homẽs algũ tanto fracos e mingoados das forças que
+possuem cá neste Reino por Respeito da quentura e dos mantimentos que
+nella vsaõ, isto he enquanto as pessoas saõ nouas na terra, mas de pois
+˜q por tempo se acustumão ficão tam Rijos e bem despostos como se
+aquella terra fora sua mesma patria. Manda se dar nesta terra aos
+infermos carne de porco, pera qual quer doença he porueitosa e naõ faz
+mal a nenhuã pessoa: o peixe tãbem tem a mesma callidade e poem muita
+sustançia aos doentes. Esta terra he mui fertil e viçosa, toda cuberta
+de altissimos e frondosos aruoredos permaneçe sempre a verdura nella
+inuerno e veraõ, isto causa chouerlhe muitas vezes e naõ auer frio que
+offenda ao que produz a terra. Ha por baixo destes aruoredos grande mato
+e muj basto e detalmaneira está escuro e serrado em partes que nunca
+parteçipa o chaõ da quẽtura nẽ da claridade do sol, e assy está sempre
+humido e manãdo agoa de sý. As agoas que na terra se bebem saõ mui
+sadias e sabrosas, por muita ˜q se beba naõ prejudica a saude da pessoa,
+a mais della se torna logo a suar e fica o corpo desaliuádo e saõ.
+Finalmẽte que he esta terra tã delleitosa e temperada ˜q nũca nella se
+sente frio nẽ quentura sobeja.
+
+
+
+
+Cap. 4.º dos mantimentos da terra.
+
+
+Nestas partes do Brasil não semeão trigo nem se da outro mantimento algũ
+deste Reino. o que la se come em lugar de paõ he farinha de pao: Esta se
+faz da Raiz duã pranta que se chama mandioca, aqual he como jnhame. E
+tanto que se tira de baixo da terra, está cortindo se em agoa tres
+quatro dias E depois de cortida pizaõ na ou Rellaõ na muito bem e
+espremem na da quelle sumo de talmaneira que fique bem escorrida porËœq
+he aquella agoa que sae della tam pessonhenta que qualquer pessoa ou
+animal que a beber logo naquelle instante morre: assy que de pois de a
+terem deste modo curada, poem hũ alguidar grande sobre o fogo e como se
+aquenta, botaõ aquella mandioca nelle E por espaço de meya ora está
+naquella quentura cozendose, dally atiraõ E fica temperada pera se
+comer. ha todauia farinha de duas maneiras huã se chama de gerra, E
+outra fresca, a de gerra he muito seca, fazemna desta maneira peradurar
+muito e naõ sedanar: afresca he mais branda e tẽ mais sustançia,
+finalmente que naõ he taõ aspera como a outra, mas naõ dura mais que
+dous tres dias como passada qui logo se dana. Desta mesma mandioca fazem
+outra maneira de mantimentos que se chamaõ beijuús, saõ mui aluos e mais
+grossos ˜q obreas: destes vsaõ muito os moradores da terra porque saõ
+mais sabrosos e demilhor desistaõ que a farinha. Outra Raiz ha duã
+pranta que se chama Aýpim daqual fazem hũs bollos que pareçem paõ fresco
+deste Reino e tambem se come assada como batata, de toda maneira se
+acha. nella m^{to} gosto. Tambem ha naterra muito milho zaburro, este se
+daa em todallas capitanias E faz hũ paõ muito aluo. ha nesta terra muita
+copia de leite de vacas, muito arroz, faua feigoẽs muitos inhames e
+batatas, E outros legumes ˜q fartaõ muito a terra. Ha muita abundançia
+de marisco e de peixe portoda esta costa. Com estes mantimentos se
+sustentaõ os moradores do Brasil sem fazerem gastos nem deminuirẽ nada
+em suas fazẽdas.
+
+
+
+
+Cap. 5.º da caça da terra.
+
+
+Huã das cousas que sostenta e abasta m^{to} os moradores desta terra do
+Brasil, he amuita caça que ha nestes matos de muitos generos e de
+diversas maneiras, aqual os mesmos indios da terra mataõ assy com
+frechas como por industriade seus lassos e fojos onde custumão tomar
+amaior parte della.
+
+Ha muitos veados e muita somma de porcos montezes de muitas castas. Hũs
+pequenos ha naterra que tem as çedas mui grossas, asperas e crespas,
+estes tem o embigo nas costas, matam se muitos delles, e doutros grandes
+que naõ saõ desta callidade. Ha muitas antas que quasi saõ tamanhas como
+vacas e pasçem heruas como outro gado qualquer, sua carne tẽ o sabor
+como de vaca: a pelle deste animal he mui grossa e Rija. Ha tambem
+coelhos mas tem as orelhas doutra maneira mais pequenas e Redondas. Ha
+outros animais maiores que lebres que se chamaõ pacas, tambem tem carne
+m^{to} sabrosa. Hũs bichos ha nesta terra ˜q tambem se comẽ e se tem
+pella milhor caça que ha nomatto. chamãolhes Tatús saõ tamanhos como
+coelhos E tem hũ casco amaneira de lagosta como de cagado, mas he
+Repartido em muitas juntas como laminas, pareçe totalmente hũ caualo
+armado, tem hũ Rabo do mesmo casco comprido, o foçinho he como de
+leitaõ, e naõ bota mais fora do casco ˜q a cabeça, tem as pernas baixas
+E criaõ se em couas a carne delles tem o sabor quasi como de gallinha.
+Esta caça he muito estimada na terra. ha tambem muitas gallinhas de mato
+que os indios mataõ cõ frechas, e outras muitas aues mui gordas e
+sabrosas milhores ˜q pordizes. Desta E doutra muita caça ha no brasil
+m^{ta} abũdançia.
+
+
+
+
+Cap. 6.º das fruitas da terra.
+
+
+Huã fruita se da nesta terra do Brasil muito sabrosa e mais prezada de
+qũatas ha. Cria nuã pranta, humilde iunto do chaõ, a qual tem huãs
+pencas como cardo, a fruita della nasçe como alcachofres e pareçem
+naturalmente pinhas e saõ do mesmo tamanho, chamaõ lhes Ananaszes. Ede
+pois de maduros tem hũ cheiro muito exçellente, colhemnos como saõ de
+vez, e cõ huã faca tiraõ lhes aquella casca grossa e fazem nos en
+talhadas e desta maneira, se comẽ. exçedem no gosto aquantas fruitas ha
+neste Reino, e fazem todos tanto por esta fruita, ˜q mandaõ prantar
+Roças delles como de cardaes; aeste nosso Reino trazem m^{tos} destes
+ananazes em conserua. Outra fruyta se cria nũas aruores grandes, estas
+senaõ prantaõ, nasçem pello mato muitas, esta fruita depois de madura he
+muito amarella, saõ como péros Repinaldos compridos, chamão lhe cajuus,
+tem muito sumo, e cria se na ponta desta fruita de fora hũ caroço como
+castanha, e nasçe diante da mesma fruita, oqual tem a casca mais
+amargosa que fel, e se tocarẽ com ella nos beiços dura muito aquelle
+amargor e faz empollar toda boca, pello contrario este caroço assado, he
+muito mais gostoso ˜q amẽdoa saõ de sua natureza mui quentes em estremo.
+ha naterra tantos destes caroços que os medem aos alqueires. Tambem ha
+huã fruita que lhe chamaõ bananas, e pella lingoa dos indios pacouas, ha
+na terra muita abundançia dellas: pareçẽ se na feiçaõ com pepinos, nasçẽ
+nuãs aruores mui tenrras enaõ saõ muito altas, nẽ tem Ramos senaõ folhas
+mui comprimidas e largas. Estas bananas criamse em cachos algũ se acha
+Ëœq tem de cento e sincoenta pera cima, e muitas vezes he tam grande o
+pezo dellas que faz quebrar a aruore pello meyo. Como saõ de vez colhem
+estes cachos, e depois de colhidos amadureçẽ, etanto ˜q que estas
+aruores daõ huã fruita, logo as cortaõ por que naõ frutifiçaõ mais que a
+primeira vez, E tornaõ arrebentar pellos pees outras nouas. Esta he huã
+fruita mui sabrosa e das boãs que ha na terra, tem huã pelle como de
+figo aqual lhes lançaõ fora quando as querẽ comer E se comẽ muitas
+dellas fazem damno a saude E causaõ febre aquẽ se desmãda nellas. E
+assadas maduras saõ muito sadias E mandaõ se dar aos infermos. Cõ esta
+fruita se mantem amaior parte dos escrauos desta terra, porËœq assadas
+verdes passaõ por mantimẽto Equasi tem sustançia de paõ. Ha duas
+callidades desta fruita, huãs saõ pequenas como figos brojassotes as
+outras saõ maiores e mais compridas. Estas pequenas tem dentro em si huã
+cousa estranha aqual he que quando as cortaõ pello meyo com huã faca ou
+porqualquer parte que seja acha se nellas hũ signal amaneira de
+cruçifixo, E assy totalmente o pareçe. Tambem ha huã fruita ˜q se chama
+Aracases, saõ como nespras postoque comaõ muita naõ fazẽ mal a saude. Ha
+muita pimenta da terra come se verde, queima muito em grande maneira.
+Outras muitas fruitas ha pello mato dẽtro de diuersas callidades, E saõ
+tantas que ja se acharaõ pella terra dentro alguãs pessoas e sostentaraõ
+se cõ ellas muitos dias sem outro mantimento algũ. Estas que aqui
+escreuo saõ asque os portugeses tem antre sy em mais estima E asmelhores
+da terra. Alguãs fruitas deste Reino se daõ nestas partes-s-muitos
+melloẽs, pepinos e figos de muitas castas, Romãs m^{tas} parreiras
+quedaõ huuas duas tres vezes no anno E tanto que huãs se acabaõ, começaõ
+logo outras nouamẽte, E desta maneira nũca esta o brasil sem fruitas. De
+limoẽs e laranjas ha muita infinidade: daõ se muito na terra estas
+aruores de espinho e multiplicaõ mais que as outras.
+
+
+
+
+Cap. 7.º da Condiçaõ E Custumes dos indios da terra.
+
+
+Naõ se pode numerar nem comprẽder a multidaõ do barbaro gentio que
+semeou a natureza por toda esta terra do brasil por que ningem pode
+pello sertaõ dentro caminhar seguro, nẽ passar por terra onde naõ ache
+pouoações de indios armados contra todas as naçoẽs humanas, Eassi como
+saõ muitos permittio Deos que fossem contrarios hũs dos outros, E que
+ouuesse antrelles grandes odios E discordias porque se assy naõ fosse os
+portugeses naõ poderĩa viuer na terra nem seria possiuel, conquistar
+tamanho poder de gente, Auia muitos destes indios pella costa Junto das
+capitanias, tudo enfim estaua cheo delles quando começarão os Portugeses
+apouoalla terra, mas por˜q os mesmos indios se alleuãotauaõ contra elles
+E faziaõ lhes muitas treiçoẽs, os gouernadores E capitaẽs da terra
+destruiraõ nos pouco apouco e mataraõ muitos delles, outros fogiraõ pera
+o sertaõ, E assy ficou a costa despouoada de gentio aolongo das
+capitanias. Junto dellas ficaraõ algũas aldeas destes indios que saõde
+paz e amigos dos portugeses.
+
+Alingoa deste gentio toda pella costa he huã: careçe de tres
+letras-s-naõ se acha nella f, nem L, nẽ R, cousa digna despanto, por˜q
+assy naõtem se nẽ lei, nẽ Rei e desta maneira viuẽ sem Justiça e
+desordenadam^{te}. Estes indios andaõ nũs sem cobertura alguã assi
+machos como femeas naõ cobrẽ parte nenhũ de seu corpo e trazem
+descuberto quanto a natureza lhes deu. Viuẽ todos em aldeas, pode auer
+em cada huã sete oito casas, asquais saõ compridas. feitas amaneira de
+cordoarias e cadahuã dellas está chea de gente duã parte e doutra, e
+cada hũ por sy tem sua estançia e sua Rede armada emque dorme e assy
+estaõ todos hũs junto dos outros por ordem, e pello meyo da casa fica hũ
+caminho aberto pera se seruirẽ. Naõ ha comodigo antreelles nenhũ Rei nẽ
+justiça somẽte em cada aldea tem hũ prinçipal ˜q he como capitaõ aoqual
+obedeçẽ por vontade e naõ por força, morrendo este prinçipal fica seu
+filho no mesmo lugar naõ serue doutra cousa se naõ dir cõ elles a gerra
+e conselhallos como sehaõ dauer na pelleja, mas naõ castiga seus erros
+nẽ manda sobrelles cousa alguã contra sua vontade. Este prinçipal tem
+tres quatro molheres, a primeiratẽ em mais conta, e faz della mais caso
+que das outras, Isto tem por estado e por honrra. Naõ adoraõ em cousa
+alguã nẽ tem pera sy que ha na outra vida gloria pera os bõs, e pena
+pera os maos, tudo cuidaõ que se acaba nesta e que as almas feneçem com
+os corpos, e assi viuem bestialmẽte sem ter conta nẽ pezo, nẽ medida.
+
+
+Estes indios saõ mui bellicosos e tem sempre grandes gerras hũs contra
+os outros nunca se acha nelles paz nẽ he possiuel auer antrelles amizade
+porque huãs nasçoẽs pellejaõ contra outras e mataõse muitos delles, e
+assy vai creçendo o odio cada vez mais e ficaõ imigos verdadeiros
+perpetuamente. As armas com que pellejaõ saõ arcos e frechas a cousa que
+apontarẽ naõ na erraõ, saõ mui çertos com esta arma e mui temidos
+nagerra, andaõ sempre nella exerçitados. e saõ mui inclinados apellejar
+e muy vallentes e esforçados contra seus aduersarios, e assy pareçe
+cousa estranha ver dous tres mil homẽs nus dũa parte e doutra cõ grandes
+assubios e gritta frechando hũs aos outros, e enquanto dura esta pelleja
+nũca estaõ com os corpos quedos meneãdose duã parte pera outra com muita
+ligeireza pera que naõ possaõ apontar nẽ fazer tiro em pessoa certa
+alguãs velhas custumaõ apanharlhes as frechas pello chaõ e seruillos
+emquanto pellejaõ. Gente he esta mui atreuida e que teme muito pouco
+amorte, e quando vaõ agerra sempre lhes pareçe que tem çerta a Victoria
+e que nenhũ de sua companhia ha de morrer, e quãdo partem dizem vamos
+matar sem mais consideraçaõ e naõ cuidaõ que taõbem podem ser vençidos.
+Naõ daõ vida anenhũ catiuo todos mataõ e comẽ, emfim que suas gerras saõ
+mui perigosas, e deuẽ se ter em muita conta por que huã das cousas que
+desbaratou muitos portugeses foi a pouca estima em ˜q tinhaõ agerra dos
+indios e o pouco caso que faziaõ delles e assy morreraõ m^{tos}
+miserauelmente por naõ se aperçeberẽ como comuinha, destes ouue muitas
+mortes desestradas: E isto aconteçe cada paço nestas partes.
+
+Quando estes indios tomaõ algũs contrarios sellogo comaquelle impito os
+naõ mataõ leuaõ nos viuos pera suas aldeas (ou seiaõ portugeses ou
+quaisquer outros indios seus imigos) E tanto que chegaõ a suas casas
+lançaõ hũa corda muj grossa ao pescoço do catiuo pera que naõ possa
+fogir, e armaõ lhe huã Rede em que durma e daõ lhe hũa india moça a mais
+fermosa e honrrada que ha naldea pera Ëœq durma com elle, e tambem tenha
+cuidado de o guardar, e naõ vay pera parte que naõ no acompanhe. Esta
+india tem cargo de lhe dar muito bem de comer e beber, e de pois de
+oterẽ desta maneira sinco ou seis meses ou o tempo que querẽ determinaõ
+de o matar, e fazem grandes serimonias e festas aquelles dias e
+aparelhaõ muitos vinhos pera se embebedarem e fazemnos da Raiz duã herua
+˜q se chama aipim, aqual feruẽ primeiro e depois de cozida mastigaõ na
+hũas moças virgens, e esprememna nũs potes grãdes e dalli atres ou
+quatro dias o bebem. E o dia que haõ matar este catiuo pella manhaã se
+alguã Ribeira está junto daldea leuaõ no abanhar nella comgrãdes
+cantares e follias, etanto Ëœq chegam com elle a aldea, attam no pella
+cinta com quatro cordas cada hũa pera sua parte e tres quatro indios
+pegados em cada ponta destas e assi o leuaõ ao meyo dũ terreiro e tiraõ
+tanto por estas cordas que naõ se possa bollir pera hũa parte nẽ pera
+outra, as maõs lhe deixaõ soltas porque folgam de o ver deffender com
+ellas. Aquelle que o ha de matar empena se primeiro com penas de
+papagayo de muitas coores portodo corpo: ha de ser este matador o mais
+vallente da terra e o mais honrado. Traz na maõ huã espada dũ pao mui
+duro e pezado com que custumaõ de matar, e chegase ao padeçẽte dizẽdo
+lhe muitas cousas e ameaçandolhe sua geraçaõ que o mesmo ha de fazer a
+seus parentes, e de pois de oter afrontado com muitas pallauras
+injuriosas dalhe huã grãm pancada na cabeça e logo da primeira o mata e
+lha fazẽ pedaços. Está huã india velha cõ hũ cabaço na maõ. E assi como
+elle cae a code muito de pressa com elle a meterlho na cabeça pera tomar
+os meollos eo sange: tudo emfim cozem eassaõ e naõ fica delle cousaque
+naõ comaõ. Isto he mais por vingança e por odio que por se fartarẽ. De
+poisque comẽ a carne destes contrarios ficam nos odios confirmados, e
+sentem muito esta injuria, e por isso andaõ sempre a vingarse hũs contra
+os outros. E se amoça que dormia com o catiuo fica prenhe aquella
+criança que parẽ de pois de criada, mataõ na e comẽ na e dizem que
+aquella menina ou menino era seu contrario verdadeiro, e porisso estimaõ
+muito comerlhe a carne e vingar se delle. E porque a maỹ sabe o fim que
+haõ de dar aesta criança, muitas vezes quando se sente prenhe mataa
+dentro da barriga, e faz conque moua. E aconteçe alguãs vezes affeiçoar
+se tanto aeste catiuo e tomar lhe tanto amor que foge com elle pera sua
+terra pello liurar da morte. E assy algũs portugeses ha que desta
+maneira escaparaõ e estaõ oje ẽ dia viuos, e muitos indios que do mesmo
+modo se saluaraõ, ainda que saõ algũs taõ brutos que naõ querem fogir
+depois de os terem presos: porque ouue algũ que estaua ja no terrejro
+atado pera padeçer e dauaõ lhe a vida e naõ quis senaõ que o matassem,
+dizendo que seus parentes o naõ teriaõ por Vallente e que todos
+correriaõ com elle e daqui vem naõ estimarẽ a morte, e quando chega a
+quella ora naõ na terem em conta nẽ mostrarẽ nenhuã tristeza naquelle
+passo. Finalmente ˜q saõ estes indios mui deshumanos e crueis, naõ se
+mouẽ a nenhuã piedade: viuem como brutos animais sẽ ordem nẽ conçerto de
+homẽs saõ muidesonestos e dados a sensuallidade e entregãse aos viços
+como se nelles naõ ouuera Rezaõ de humanos, ainda que todauia sempre tem
+Resquardo os machos eas femeas em seu ajuntamento e mostrã ter nisto
+algũa vergonha. Todos comẽ carne humana e tem na pella milhor iguoaria
+de quantas pode auer: naõ de seus amigos com quem elles tem paz se naõ
+dos contrarios. Tem esta callidade estes indios que de qualquer cousa
+que comaõ por pequena que seja haõ de conuidar com ella quanta esteuerẽ
+presentes, só esta proximidade se acha antrelles. Comẽ dequantos bichos
+secriaõ na terra, outro nenhũ engeitaõ por pessonhento que seja somente
+aranha.
+
+Tem estes indios machos por custume arrãcarem toda barba e naõ consentẽ
+nenhũ cabello em parte alguã de seu corpo, saluo na cabeça ainda que
+orredor della por baixo tudo arrancaõ. As femeas prezaõ se muito de seus
+cabellos e trazem nos muito compridos e penteados e as mais dellas
+emnastrados. Os machos custumaõ trazerẽ o beiço furado e huã pedra no
+buraco metida por gallantaria outros ha que trazem o Rosto todo cheo de
+buracos e assy pareçẽ mui feos e disformes: isto lhes fazem quando saõ
+meninos. Tambem algũs indios andaõ pintados portodo corpo, pello qual
+fazẽ hũs Riscos de muitas maneiras e poẽlhes huã çerta tinta e ficam
+sempre os mesmos Riscos escritos na carne: isto naõ traz se naõ quẽ tem
+feito alguã valentia. E assi tambem machos como femeas custumaõ
+atingirse cõ o sumo duã fruita que se chama genipapo que he verde quando
+se piza e depois que opoẽ no corpo e se inxuga fica mui negro e por
+muito que se laue não se tira se naõ aos noue dias, isto tudo fazẽ por
+gallantaria.
+
+Estas indias guardaõ castidade a seus maridos e saõ muito suas amigas
+porque tambem elles sofrem mal adulterios. Casaõ os mais delles com suas
+sobrinhas filhas de seus irmãos ou irmãas, estas saõ suas molheres
+verdadeiras e naõ lhas podem negar seus pais.
+
+Algũas indias se achã nestas partes ˜q jurão e prometem castidade, e
+assy naõ casaõ nẽ conheçẽ homẽ algum de nenhuã callidade, nẽ no
+consentiraõ ainda que por isso as matem. Estas deixaõ todo o exerçiçio
+de molheres e immittaõ os homẽs e segem seus offiçios como senaõ fossem
+molheres, e cortaõ seus cabellos da mesma maneira que os machos trazem e
+vaõ agerra com seu arco e frechas, e acaça: enfim que andaõ sempre na
+companhia dos homẽs, e cada hũa tem molher que a serue e que lhe faz de
+comer como se fossẽ casados.
+
+Estes indios viuem mui descansados, naõ tem cuidado de cousa alguã se
+naõ de comer e beber e matar gente e porisso saõ mui gordos em estremo.
+E assy tambem com quer desgosto amagreçẽ muito, e como se agastaõ de
+qualquer cousa comẽ terra e desta maneira morrẽ muitos delles
+bestialmente. Todos segẽ muito o conselho das velhas tudo a que ellas
+lhe dizem fazem e tẽ no por mui çerto, da qui vem a muitos moradores naõ
+comprarẽ nenhũas por lhes naõ fazerẽ fogir seus escrauos.
+
+Quando estas indias parem a primeira cousa que fazem de pois do parto
+lauaõ se todas nũ Ribeiro e ficam tambem despostas como senaõ pariraõ,
+em lugar dellas se deitaõ seus maridos nas Redes e assy os vesitaõ e
+curaõ como se elles fossem as paridas.
+
+Quando algũ destes indios morre custumaõ enterrallo nũa coua assentado
+sobre os pees com sua Rede as costas em que elle dormia, e logo pellos
+primeiros dias poem lhe de comer em cima da coua. Outras muitas
+bestiallidades vsaõ estes indios que aqui naõ escreuo porque minha
+tençaõ foi naõ ser comprido, e passar por tudo isto com breuidade.
+
+
+Dos Resgates.
+
+Estes indios naõ possuẽ nenhuã fazenda, nẽ procuraõ acquerilla como os
+outros homẽs, somente cobiçaõ muito alguãs cousas que vaõ deste
+Reino-s-camisas, pellotes, ferramẽtas e outras cousas que elles tem em
+muita estima e desejaõ muito alcãçar dos portugeses. Atroco disto se
+vẽdiaõ hũs aos outros, eos portugeses Resgatauaõ m^{tos} delles e
+salteauaõ quantos queriaõ sem ningem lhes ir amaõ, mas ja gora naõ ha
+isto na terra nẽ Resgates como soya, porque de pois que os padres da
+companhia vieraõ aestas partes proueraõ neste negoçio e vedaraõ muitos
+saltos que faziaõ os portugeses por esta costa os quais emcarregauaõ
+muito suas consçiençias com catiuarẽ muitos indios cõtra direito e
+mouerẽ lhes gerras injustas. E porisso ordenaraõ os padres e fezerã com
+os capitaẽs daterra que naõ ouuesse mais resgates nẽ consentissẽ que
+fosse nenhũ portuges a suas aldeas sem liçença do mesmo capitaõ. E
+quantos escrauos agora vem nouamente do sertaõ oudas outras capitanias
+todos leuão primeiro a Alfandega e alli os examinaõ e lhes fazem
+preguntas quẽ os vendeo, ou como forão Resgatados, porque ningem os pode
+vender se não seus pais ou aquelles que em justa gerra os catiuão. E os
+que achaõ mal acqueridos poem nos em sua liberdade, e desta maneira
+quantos indios se compraõ saõ bem Resgatados e os moradores da terra naõ
+deixaõ porisso dir m^{to} auante com suas fazendas.
+
+
+
+
+Cap. 8.º dos bichos da terra.
+
+
+Naõ me pareçeo cousa fora de preposito tratar tambem neste summario
+dalgũs bichos que nestas partes se criaõ pois tudo ha na mesma terra,
+dado que daqui se não comprehenda mais que a differença e a variadade
+das criaturas que ha duãs terras pera outras.
+
+
+Ha nestas partes muitos bichos mui feros e pessonhentos, prinçipalmente
+cobras de muitas castas e de nomes diuersos. Huãs ha tamgrandes e tam
+disformes que engolem hũ veado todo inteiro, e affirmão que tem esta
+cobra tal callidade que de pois de oter comido arrebenta pella barriga e
+apodreçe quanta carne tem pello corpo e fica somẽte no espinhaço com a
+cabeça e a ponta do Rabo saã, e tanto que desta maneira fica torna pouco
+a pouco a criar carne noua ate que se cobre outra vez da mesma carne taõ
+perfectamente como dantes, Isto viraõ e expremẽtaraõ m^{tos} indios e
+moradores da terra. aesta chamão pella lingoa dos indios Giboiossú.
+Outras ha muito maiores e mais possonhentas doutra casta differente. Saõ
+tamgrandes en tanto estremo que apenas desaseis indios podiaõ leuar huã
+que matarão junto da costa antre os Portugeses aesta cobra chamaõ
+Surucucù. Outra geração ha dellas que lhe chamaõ boiteninga, tem na
+ponta do Rabo huã cousa que soa propriamenta, como cascauel e por onde
+esta cobra vai sempre anda Rogindo. he huã das feras bichas que ha na
+terra. Outras ha que lhe chamão hebijaras. tem duas bocas huã na cabeça
+outra no rabo mordem com ambas, esta cobra he branca e mui curta, o mais
+do tempo esta debaixo da terra, he pessonhentissima sobre todas, quem
+desta formordido não tera vida muitas oras, e assy qualquer destas
+outras que morder alguã pessoa o mais quedura saõ vinte equatro oras. Ha
+outra callidade dellas que naõ tem dentes nẽ mordem. Estas naõ saõ
+pessonhentas nẽ tam pouco muito grandes chamão lhe Japaranas. Tambẽ
+affirmão algũs homẽs que virão serpẽtes nesta terra com azas mui grandes
+E espantosas, mas achaõ se Raramẽte. Ha muitos lagartos e grandes pellos
+Rios dagoa doçe e pellos matos cuios testicollos cheiraõ milhor que
+almisere, E aqualquer Roupa que os chegão fica ocheiro pegado por muitos
+dias.
+
+Os bichos mais feros e mais danosos ˜q ha na terra saõ tigres, estes
+animais saõ delles tamanhos como bezerros, vaõ se aos currais do gado
+dos moradores e mataõ muito delle e saõ taõ feros e forçosos que huã mão
+que lançaõ a huã vitella ou nouilho lhe fazem botar osmeollos fora e
+leuão no arrasto pera omato. Tambem pella terra dentro mataõ e comẽ
+algũs indios quãdo se achaõ famintos. Sobem pellas aruores como gatos, e
+dalli espreitaõ acaça que por baixo passa e Remetem de salto aella e
+destamaneira naõ lhes escapa nada algũs destes animais mataõ enfojos os
+moradores da terra.
+
+Toda esta terra do Brasil he cuberta de formigas pequenas e grandes,
+estas fazẽ algũ dano as parreiras dos moradores e as larangeiras que tem
+nos quintaes, e se naõ foraõ estas formigas ouuera poruentura muitas
+vinhas no brasil ainda que la saõ pouco neçessarias por˜q deste Reino
+vai tanto vinho que sempre aterra delle está prouida.
+
+Tambem ha muita infinidade de mosquitos prinçipalmente ao longo dalgũ
+Rio antre huãs aruores que se chamaõ manges naõ pode nenhuã pessoa
+esperallos, e pello mato quando naõ ha viraçaõ saõ mui sobejos e persegẽ
+muito a gente.
+
+Tambem ha huã geraçaõ de Ratos que trazẽ os filhinhos pendurados na
+barriga e alli se criaõ e andaõ assy pegados ate serẽ grãdes. Bogios ha
+muitos e de muitas castas como ja se sabe: tanto que as femeas parem
+pegaõ se os filhos nas suas costas e sempre andaõ caualgados nas mãis
+ate serẽ bem criados e posto que as persigaõ e as matem naõ sequerẽ
+desapegar dellas. Ha tambem muitos lobos marinhos e porcos marinhos que
+se criaõ no mar e na terra. Outros muitos bichos ha nestas partes pella
+terra dentro que sera impossiuel poderẽ se conheçer nẽ escreuer tanta
+multidaõ por˜q assy como a terra he grandissima, assy saõ muitas as
+callidades e efeições das criaturas que Deos nella criou.
+
+
+
+
+Cap. 9.º da terra ˜q certos homẽs da Capitania de porto seguro forão a
+descobrir, e do ˜q acharão nella.
+
+
+Posto que minha tençaõ naõ era tratar neste summario senaõ das cousas
+que saõ gerais portoda costa do Brasil, de que os moradores da terra
+parteçipaõ, pareçeo me tambem neçessario e conueniente aos louuores da
+terra denunçiar neste Capitullo a Riqueza dos metais ˜q affirmaõ auer
+por ella dentro prouãdo tudo isto com pessoas ˜q o acharão, virão, e
+experemẽtarão: e amaneira como se descobrio foi esta ˜q se sege.
+
+
+A esta Capitania de porto seguro chegarão certos indios do sertão a dar
+nouas dũas pedras verdes que auia nũa serra muitas legoas pella terra
+dentro, e traziaõ alguãs dellas por amostra, as quais erão esmeraldas
+mas não de muito preço. E os mesmos indios dezião ˜q daquellas auia
+muitas, e que esta serra era muj fermosa e Resplandeçente. Tanto ˜q os
+moradores desta Capitania disto forão certificados fezeraõ se prestes
+sincoẽta ou sesenta portugeses com algũs indios da terra e partirão
+pello sertão dentro com determinção de chegar aesta serra onde estas
+pedras estauaõ. Hia por capitão desta gente hũ martim carualho que agora
+he morador da Bahia de todollos sanctos, Entrarão pella terra alguãs
+dozentas e vinte legoas, onde as mais das serras ˜q acharão e virão erão
+de mui fino christal e toda terra ẽ si mui fragosa, E outras muitas
+serras de hũa tarra azullada, nas quais affirmão auer muito ouro porque
+indo elles por antre duas serras destamaneira forão dar nũ Ribeiro que
+pello pee dũa dellas deçia noqual acharão antre area hũs grãos meudos
+amarellos, osquais algũs homẽs apalparaõ com os dentes e acharão nos
+brãdos mas naõ se desfazião, finalmente que todos assentaraõ ser aquillo
+ouro nẽ podia ser outro metal pois omesmo ouro desta maneira nasçe nas
+partes onde o ha. Apanharão destes graõs antre area do Ribeiro
+quantidade dum punhodo os quais acharaõ muito pezados que tambem era
+proua de ser ouro; disto naõ fezerão mais experiençia por ser aquillo no
+deserto e auer muitos dias ˜q padeçiaõ grãde fome nem comião outra cousa
+senaõ semente deruas e algũa cobra que matauão. passarão adiante
+determinando avinda tornar por alli a perçebidos de mantim^{tos} pera
+buscarẽ a serra mais devagar donde aquelle ouro deçia ao Ribeiro.
+acharaõ pellos matos muita canafistola, e por este caminho acharão
+outros m^{tos} metais que naõ conheceraõ, nẽ podiam esperar pellas
+gerras dos indios que se alleuantauaõ contraelles. Algũs indios lhes
+deraõ noticia segundo a mençaõ que fazião ˜q podiam estar cem legoas da
+serra das pedras verdes que hiaõ buscar e que não auia muito dalli ao
+peruú finalmẽte ˜q cõ os imigos que Recreçião e pella gente ˜q adoeçia
+tornaraõ se outra vez em almadias por hũ Rio que se chama Cricaré, onde
+se perdeo nũa cachoeira a canoa emque vinhaõ os grãos douro ˜q traziaõ
+pera mostra. Nesta viagẽ gastarão oito mezes e assi desbaratados
+chegarão aesta Capitania de porto seguro. Os que deste perigo escaparaõ
+affirmão auer naquellas partes muito ouro segũdo asmostras e os Signais
+que acharão: e se la tornar gente aperçebida como cõuem contoda prouisaõ
+neçessaria, e leuarem pessoas que disto conheçaõ dizẽ que se descobrirão
+nesta terra grandes minas.
+
+Quisera esereuer mais meudamente das particullaridades desta prouinçia
+do brasil, mas porque satisfezesse atodos com breuidade guardeime de ser
+comprido posto Ëœq os louuores da terra pedissem outro liuro mais copioso
+E de maior vollume onde se comprehendessẽ por extenço as exçellencias e
+diuersidades das cousas ˜q ha nella pera Remedio e porueito dos homẽs
+que la forẽ viuer. E por que a felliçidade e augmẽto desta prouinçia
+consiste em ser pouoada de muita gẽte, naõ auia dauer pessoa pobre
+nestes Reinos ˜q naõ fossem viuer aestas partes com fauor de .S.A. onde
+os homẽs viuẽ todos abastados e fora das neçessidades que cá padeçem. E
+desta maneira permittira Deos que floreça tanto a terra desta noua
+lusitania que com ella se augmente muito a coroa destes Reinos e seia
+dos outros enuejada pera que não desejemos terras estranhas prometendo
+esta nossa tanta Riqueza e prosperidade aos ˜q aforẽ buscar pera seu
+Remedio.
+
+ Fin.
+
+
+
+
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+
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+<div style='text-align:center; font-size:1.2em; font-weight:bold;'>The Project Gutenberg eBook of Tractado da terra do Brasil, by Pedro de Magalhães Gandavo</div>
+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and
+most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions
+whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms
+of the Project Gutenberg License included with this eBook or online
+at <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>. If you
+are not located in the United States, you will have to check the laws of the
+country where you are located before using this eBook.
+</div>
+<div style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Title: Tractado da terra do Brasil<br />
+no qual se contem a informação das cousas que ha nestas partes feito por P.º de Magalhaes</div>
+<div style='display:block; margin-top:1em; margin-bottom:1em; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Author: Pedro de Magalhães Gandavo</div>
+<div style='display:block;margin:1em 0'>Release Date: February 20, 2009 [eBook #28122]<br />
+[Most recently updated: January 2, 2021]</div>
+<div style='display:block;margin:1em 0'>Language: Portuguese</div>
+<div style='display:block;margin:1em 0'>Character set encoding: UTF-8</div>
+<div style='display:block; margin-left:2em; text-indent:-2em'>Produced by: Júlio Reis, Carlo Traverso and the Online Distributed Proofreading Team</div>
+<div style='margin-top:2em;margin-bottom:4em'>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK TRACTADO DA TERRA DO BRASIL ***</div>
+
+<div class="mynote">
+<p>
+Notas de transcrição:
+</p>
+<ul>
+<li>a grafia do
+século XVI era totalmente livre; portanto, nenhum
+esforço foi feito para harmonizar acentos, grafia etc.</li>
+</ul>
+</div>
+<div class="mynote">
+<!-- Autogenerated TOC. Modify or delete as required. -->
+<p>
+<a href="#Ao_muy_alto_e_Serenissimo_Principe_dom_Anrrique_Cardeal_Iffante_de"><b>Ao
+muy alto e Serenìssimo Principe dom Anrrique Cardeal Iffante
+de portugal.</b></a><br />
+<a href="#Prollogo_Ao_lector"><b>Prollogo Ao lector.</b></a><br />
+<a href="#Declaracao_da_costa"><b>Declaracão
+da costa.</b></a><br />
+</p>
+<blockquote><p>
+<a href="#Cap_1_da_capitania_de_Tamaraca"><b>Cap.
+1.º da capitania de Tamaracá.</b></a><br />
+<a href="#Cap_2_da_capitania_de_Phernabuco"><b>Cap.
+2.º da capitania de Phernãbuco.</b></a><br />
+<a href="#Cap_3_da_capitania_da_Bahya_de_Todollos_Sanctos"><b>Cap.
+3. da capitania da Bahya de Todollos Sanctos.</b></a><br />
+<a href="#Cap_4_da_capitania_dos_Ilheos"><b>Cap.
+4.º da capitania dos Ilheos.</b></a><br />
+<a href="#Cap_5_dua_nascao_de_gentio_-X-q_se_acha_nesta_Capitania"><b>Cap.
+5.º duã nascaõ de gentio q̃ se acha
+nesta Capitania.</b></a><br />
+<a href="#Cap_6_da_Capitania_de_Porto_seguro"><b>Cap.
+6. da Capitania de Porto seguro.</b></a><br />
+<a href="#Cap_7_da_Capitania_do_spirito_sancto"><b>Cap.
+7.º da Capitania do spirito sancto.</b></a><br />
+<a href="#Cap_8_da_Capitania_do_Rio_de_Janeiro"><b>Cap.
+8.º da Capitania do Rio de Janeiro.</b></a><br />
+<a href="#Cap_9_da_Capitania_de_SanVicente"><b>Cap.
+9.º da Capitania de SanViçente.</b></a>
+</p>
+</blockquote>
+<p>
+<a href="#Tractado_segundo_das_cousas_que_sao_gerais_por_toda_Costa_do_Brasil"><b>Tractado
+segundo das cousas que são gerais por toda Costa do Brasil</b></a><br />
+</p>
+<blockquote><p>
+<a href="#Cap_1_das_fazendas_da_terra"><b>Cap.
+1.º das fazendas da terra</b></a><br />
+<a href="#Cap_2_dos_custumes_da_terra"><b>Cap.
+2.º dos custumes da terra</b></a><br />
+<a href="#Cap_3_das_callidades_da_terra"><b>Cap.
+3.º das callidades da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_4_dos_mantimentos_da_terra"><b>Cap.
+4.º dos mantimentos da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_5_da_caca_da_terra"><b>Cap.
+5.º da caça da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_6_das_fruitas_da_terra"><b>Cap.
+6.º das fruitas da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_7_da_Condicao_E_Custumes_dos_indios_da_terra"><b>Cap.
+7.º da Condiçaõ E Custumes dos indios da
+terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_8_dos_bichos_da_terra"><b>Cap.
+8.º dos bichos da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_9_da_terra_-X-q_certos_homes_da_Capitania_de_porto_seguro_forao_a"><b>Cap.
+9.º da terra q̃ certos homẽs da Capitania
+de porto seguro forão a descobrir, e do q̃
+acharão nella.</b></a>
+</p><!-- End Autogenerated TOC. --></blockquote>
+</div>
+
+<h1>TRACTADO DATERRA<br />
+do Brasil no qual Se cõtem<br />
+a informaçaõ das<br />
+cousas que ha nestas<br />
+partes feito por<br />
+Pº de magalhaẽs.</h1>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Ao_muy_alto_e_Serenissimo_Principe_dom_Anrrique_Cardeal_Iffante_de" id="Ao_muy_alto_e_Serenissimo_Principe_dom_Anrrique_Cardeal_Iffante_de"></a>Ao
+muy alto e Serenìssimo Principe dom Anrrique Cardeal Iffante
+de portugal.
+</h2>
+
+<p>
+Posto que os dias passados apresentei outro sũmario da terra do brasil a elRei
+nosso snõr, foi por comprir primeiro com esta obrigação de vassallo que todos
+deuemos anosso Rei: e por esta razáo me pareçeo cousa mui necessaria, (muýto
+Alto e serenissimo snõr) offereçer tambem este a V. A. aquẽ se deuem Refirir os
+louuores e acreçentamento das terras q̃ nestes Reinos floreçem: pois sempre
+deseiou tanto augmentallas e conseruar seus subditos e vassallos ẽ perpetua
+paz.
+</p>
+
+<p>
+Como eu isto entenda, e conheça quam aççeitos saõ os bõs seruiços a V. A. que
+ao Reino se fazem imaginei comigo que podia trazer destas partes com que desse
+testemunho de minha pura tençaõ: e acheý que naõ se podia dũ fraco homẽ esperar
+maior seruiço (ainda que tal naõ pareça) que lançar maõ desta informaçaõ da
+terra do Brasil (cousa q̃ ategora naõ imprendeo pessoa algũa) pera q̃ nestes
+Reinos se deuulge sua fertillidade e prouoque amuitas pessoas pobres que se vaõ
+viuer aesta prouinçia, que nisso consiste a felliçidade e augmento della. E
+porque V. A. sabe quanto seruiço de Deos e delRei nosso Snõr seýa esta
+denunçiaçaõ determineý collegilla com deliberaçaõ de a offereçer a V. A. aquẽ
+humilmente peço ma Reçeba, e com tamanha merçe ficarei satisfeito Rogando a
+nosso Sñor lhe de prosperos e largissimos annos de vida e deixe permaneçer Seu
+Real estado emperpetua filliçidade. amẽ.
+</p>
+
+<p class="center">
+Humilde vassallo de V. A. Pero de magalhães
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Prollogo_Ao_lector" id="Prollogo_Ao_lector"></a>Prollogo Ao
+lector.</h2>
+
+<p>
+Minha tençaõ naõ foi outra neste summario (discreto e corioso lector) senaõ de
+nunçiar em breues pallauras a fertillidade e abundançia da terra do brasil,
+pera que esta fama venha a notiçia de muitas pessoas que nestes Reinos viuem
+com pobreza, e naõ duuidem escolhelha pera seu Remedio: porq̃ a mesma terra he
+tam natural e fauorauel aos estranhos que a todos agazalha e conuida com
+Remedio por pobres e desemparados que seiaõ. Eassy cada vez se vay fazendo mais
+prospera, e depois q̃ as terras viçosas se forem pouoando (que agora estaõ
+desertas por falta de gente) haõ se de fazer nellas grossas fazendas como ia
+estaõ feitas nas q̃ possuem os moradores da terra, etambem se espera desta
+prouinçia que por tempo floreça tanto na Requeza como as Antilhas de Castella
+por que he çerto ser en si aterra mui riqua e auer nella m<sup>tos</sup>
+metais, osquais ategora se naõ descobrẽ ou pornaõ auer gente na terra pera
+cometer esta impreza, outambem por negligençia dos moradores que se naõ querem
+despor aesse trabalho: qual seja a causa por que o deixaõ de fazer naõ sei. Mas
+permittira nosso snõr que ainda em nossos dias se descubrã nella grãdes
+thezouros, assy pera seruiço e augmẽto de S. A. como pera porueito de seus
+vassallos que o deseião seruir.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Declaracao_da_costa" id="Declaracao_da_costa"></a>Declaracão da
+costa.</h2>
+
+<p>
+Esta costa do brasil está pera a parte do occidente, corre se de norte e sul.
+Da primeira pouoaçaõ a tederradeira ha trezẽtas e sincoenta legoas. Saõ oito
+capitanias todas tem portos mui seguros onde podẽ entrar quais quer naos por
+grandes que seiaõ. Naõ ha pella terra dentro pouoações de portugeses por causa
+dos indios que naõ no consente, etambem pello soccorro e tractos do Reino lhes
+he neçessario estarem iunto domar pera terẽ comunicação de mercadorias. E por
+este Respeito viuẽ todos junto da Costa.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_1_da_capitania_de_Tamaraca" id="Cap_1_da_capitania_de_Tamaraca"></a>Cap.
+1.º da capitania de Tamaracá.</h2>
+
+<p>
+A pouoaçaõ da primeira capitania e mais antiga está nuã ilha que se chama
+Tamaracá pegada com aterra firme, tem tres legoas de comprido e duas de largo:
+tẽ trinta e sinco legoas de terra pella costa pera o norte. He de dona Jeronima
+dalBuquerque molher que foi de Pero Lopez de Sousa naqual tem posto Capitaõ de
+sua maõ. ha nella hũ engenho dassucre, e agora se fazẽ dous nouamẽte, e muito
+pao do brasil e algodaõ. Pode ter ate çẽ vezinhos. Ha nesta capitania muitas e
+boas terras pera se pouoarem e fazerem nellas fazendas.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_2_da_capitania_de_Phernabuco" id="Cap_2_da_capitania_de_Phernabuco"></a>Cap.
+2.º da capitania de Phernãbuco.</h2>
+
+<p>
+A capitania de Phernambuco
+
+<span class="sidenote">Noua Lusitania a chamã muytos pollas frequẽcia, é
+policia</span>
+
+está sinco legoas de Tamaracá pera o sul em altura de oito graos, daqual he
+capitaõ e gouernador Duarte coelho dalBuquerque. Tem duas pouoações, a
+prinçipal se chama Olinda, a outra Guarassú que esta quatro legoas pella terra
+dentro. Auera nesta capitania mil vezinhos. Tem <span class="u">vinte
+etres</span>
+
+<span class="sidenote">agora som .60. anno de 1587.</span>
+
+engenhos dassucre, posto que tres ou quatro delles naõ saõ ainda acabados.
+</p>
+
+<p>
+Algũs moem com bois aestes chamã tripiches, fazem menos assucre que os outros.
+mas amaior parte dos engenhos do brasil moẽ com agoa. Cada engenho destes hũ
+poroutro, faz <span class="u">trez</span>
+
+<span class="sidenote">agora quatro mil q̃ sam todas as arrouas q̃ se librã
+aqui, 240. M.</span>
+
+mil arrobas cadano. nesta capitania se fazem mais assucres que nas outras,
+porque ouue anno que passaraõ de sincoenta mil arrobas, ainda que o Rendimento
+delles naõ he çerto, saõ segundo asnouidades e os tempos que se offereçẽ. Esta
+seacha huã das Ricas terras do brasil, tem muitos escrauos indios q̃ he
+aprinçipal fazenda daterra. Daqui os leuaõ e compram pera todellas outras
+capitanias, porque ha nesta muitos, emais baratos que entoda costa. ha muitos
+pao do brasil e algodaõ de que enrriqueçẽ os moradores desta capitania.
+</p>
+
+<p>
+O porto
+
+<span class="sidenote">a este porto se entra por un canal tam estreyto, q̃
+apenas cabe una náo por elle y sino entra cõ muyto tẽto, da en pedra viua y
+perdesse ô qual acõtece muytas vezes aos exprimẽtados: por isso se chama
+Paranambuc. q̃ quer dix Mar furado</span>
+
+onde os nauios entraõ está hũa legoa da pouoaçaõ Olinda seruense pella praya e
+tambem por hũ Rio pequeno que vai dar junto da mesma pouoaçaõ. Aesta capitania
+vaõ cadanno mais nauios do Reino que anenhuã das outras. Hanella hũ mosteiro de
+padres da companhia de Jesus.
+</p>
+
+<h2>Rios.</h2>
+
+<p>
+Ha dous Rios caudais ate a Bahia de todollos sanctos. hũ se chama de saõ
+francisco, está em dez graos e meyo, oqual entra nomar contanta furia q̃ vinte
+legoas pello mesmo mar correm suas agoas outro Rio está em onze graos e dous
+terços que se chama o Rio Real, tambem he muigrande e correm muito suas agoas
+pello mar.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_3_da_capitania_da_Bahya_de_Todollos_Sanctos" id="Cap_3_da_capitania_da_Bahya_de_Todollos_Sanctos"></a>Cap.
+3. da capitania da Bahya de Todollos Sanctos.</h2>
+
+<p>
+A Capitania da Bahia de todollos sanctos esta çem legoas de phernãbuco emaltura
+de treze graos. terra del Rei nosso snõr onde Residem os gouernadores e bispo e
+ouuidor geral de toda costa. esta he a terra mais pouoada de portugueses que ha
+nobrasil. Tem tres pouoaçoẽs, a prinçipal he a cidade do saluador. Aoutra se
+chama Villa Velha que esta junto da barra, Esta pouoaçaõ foi aprimeira que ouue
+nesta capitania: de pois Thome de Sousa Sendo gouernador edificou esta cidade
+do saluador mais adiãte meýa legoa ao longo da Bahia por ser lugar mais
+comueniente e porueitoso pera osmoradores da terra. Quatro legoas pella terra
+dentro está outraq̃ se chama Paripé. pode auer nesta capitania mil e çem
+vezinhos. Tem dez oito engenhos, algũs sefazem nouamẽte: tambem se tira delles
+muito assucre, ainda que osmoradores se lançã mais aoalgodaõ que a canas
+dassucres porque se daa milhor naterra.
+</p>
+
+<p>
+Dentro da çidade está hũ mosteiro de padres da companhia de Jesus, noqual tem
+colegio onde ensinã latim e casos de consçiençia. Afora este ha sinco igreias
+pella terra dentro antre os indios forros onde Residẽ algũs padres pera fazerẽ
+christaõs e casarem osmesmos indios por naõ estarẽ amãçebados.
+</p>
+
+<p>
+Esta capitania tem huã bahya mui grande e fermosa, he tres legoas de largo e
+nauegase quinze porella dentro. tẽ muitas ilhas de terras mui viçosas quedaõ
+infinito algodaõ, diuidese em muitas partes esta bahia: etem muitos braços e
+enseadas dentro. Os moradores da terra todos se seruem porella cõ barcos pera
+suas fazendas.
+</p>
+
+<h2>Rios.</h2>
+
+<p>
+Doze legoas desta bahia de todollos sanctos esta hũ Rio que se chama Tinharée
+onde se Recolhem muitas embarcações q̃ passã, pera as outras capitanias. Tres
+legoas por elle dentro está hũ engenho dum Bastiã de ponte, junto doqual estaõ
+muitas terras perdidas por falta de moradores, dasquais se consegiria muito
+porueito se as pouoassem. Mais auante seis legoas esta hũ Rio que se chama
+Camamù em treze graos e dous terços, no qual podẽ entrar quais quer naos
+seguramente. quatro sinco legoas porelle dentro. Ao longo deste Rio ha terras
+mui viçosas e muitas agoas pera se poderẽ fazer engenhos dassucre, as quais
+tambem se perdem por naõ auer gente que as va pouoar. Tem dentro alguãs ilhas
+de terras mui grossas e acomodadas pera se fazerem nellas muita fazenda. Neste
+mesmo Rio ha muito peixe em estremo, e junto delle muita infinita caça de
+porcos e veados. Aqui se pode fazer huã pouoação onde os homẽs viuaõ mui
+abastados e façaõ muitas fazendas. Ha outro que se chama o Rio das contas, está
+em quatorze graos e meyo, mas naõ he tangrande, ainda q̃ tambem entrão nelle
+alguãs embarcações. Entodos estes Rios ha muita abundançia de peixes e de Caça.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_4_da_capitania_dos_Ilheos" id="Cap_4_da_capitania_dos_Ilheos"></a>Cap.
+4.º da capitania dos Ilheos.</h2>
+
+<p>
+A Capitania dos Ilheos está trinta legoas da Bahia de todollas sanctos em
+quatorze graos e dous terços. he de francisco giraldez na qual tem posto
+capitaõ de sua maõ. Pode auer nella dozentos vezinhos. Tem hũ Rio onde os
+nauios entraõ oqual está junto da pouoaçaõ. diuidesse emmuitas partes pella
+terradentro, seruẽse os moradores porelhe pera suas fazendas em almadias. ha
+nesta capitania oito engenhos dassucre. dentro da pouoação está hũ mosteiro de
+Padres da companhia de Jesus q̃ agora se faz nouamente.
+</p>
+
+<p>
+Sete legoas da mesma pouoaçaõ pella terra dentro está huã lagoa dagoa doçe q̃
+tem tres legoas de comprido e tresde largo etem dez quinze braças de fundo e
+dahi pera sima. Sae della hũ Rio pequeno pello qual vaõ la ter barcos. tẽ esta
+lagoa hũ bocal neste Rio tam estreito, que apenas cabe hũ barco por elle, e
+depois que anda dentro quasi naõ sabe determinar por onde entrou. Ten, tanta
+abundançia dagoa que podem andar nella quais quer naos por grãdes que seiaõ a
+vella: e assy quando vẽta muito, alleuantam se alli ondas tam foriosas como se
+fosse no meyo do mar comtormenta. Tem muita infinidade de peixes grandes e
+pequenos. Criamse nella muitos Peixes bois os quais tem o foçinho como de boi e
+dous cotos com que nadaõ amaneira de braços, naõ tem nenhuã escama nẽ outra
+feiçaõ de peixe se naõ o Rabo. Matamnos com arpoẽs, saõ tam gordos e tamanhos
+q̃ algũs pezaõ trinta corenta arrobas. he hũ peixe muito sabroso e totalmente
+pareçe carne e assy tem o gosto della, assado pareçe lombo de porco ou de
+veado, cozese com couves e guizase como carne, nẽ pessoa alguã o come que o
+tenha por peixe saluo se o conheçer primeiro. As femeas tem duas mamas pellas
+quais mamão os filhos e criamse com leite (cousa q̃ se naõ acha noutro peixe
+algũ) tambem ha destes emalguãs bahias e Rios desta costa, e posto que se criẽ
+no mar, custumã beber agoa doçe porisso acodem muitos aesta lagoa, ou a parte
+onde algũ Ribeiro se meta no mar. Tambem ha muitos tubaroẽs nesta lagoa, e
+lagartos e muitas cobras, E achamse nella outros mõstros marinhos de diuersas
+maneiras. Ha muitas terras e mui viçosas orredor della, e muita caça, E neste
+rio que sae da lagoa muita fertilidade de peixe. Finalmente que huã das
+abastadas terres de mantimentos q̃ que ha no Brasil he esta capitania dos
+ilheos.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_5_dua_nascao_de_gentio_-X-q_se_acha_nesta_Capitania" id="Cap_5_dua_nascao_de_gentio_-X-q_se_acha_nesta_Capitania"></a>Cap.
+5.º duã nascaõ de gentio q̃ se acha
+nesta Capitania.</h2>
+
+<p>
+Pellas terras desta capitania ate junto do Spiro sancto, se acha hũa çerta
+nasçaõ de gentio que veo do çertaõ ha sinco ou seis annos, e dizem q̃ outros
+indios contrarios destes, vierão sobrelles a suas terras, e os destruiraõ todos
+e os que fogiraõ saõ estes q̃ andaõ pella costa. chamãse Aýmores, a lingoa
+delles he differente dos outros indios, ningẽ os entende, saõ delles tam altos
+e taõ largos do corpo q̃ quasi pareçẽ gigantes. Saõ mui aluos naõ tem pareçer
+dos outros indios da terra nẽ tem casas nẽ pouoaçoẽs onde morẽ, viuẽ antre os
+matos como brutos animais: saõ mui forçosos em estremo, trazem hũs arcos mui
+compridos e grossos conforme a suas forças e as frechas da mesma maneira. Estes
+indios tem feito muito dano aos moradores de pois que vieraõ aesta costa e
+mortos algũs portugeses e escrauos porq̃ saõ imigos de toda gente. Naõ pelleyaõ
+em campo nẽ tem animo pera isso, poẽ se antre omato junto dalgũ caminho e tanto
+q̃ passa algem attiraõlhe ao coraçaõ ou aparte onde o matem e naõ despedem
+frecha que naõ na empregem. finalmente que naõ tem Rosto direito aningẽ senaõ a
+treiçaõ fazem a sua. As molheres trazem hũs paos tostados comque pelleiaõ.
+Estes indios naõ viuem senaõ pella frecha, seu mantimẽto he caça bichos e carne
+humana fazem fogo de baixo do chaõ pornaõ serẽ sentidos nẽ saberem onde andaõ.
+Muitas terras viçosas estaõ perdidas junto desta capitania, as quais naõ saõ
+possuidas dos Portugeses por causa destes indios. Naõ se pode achar Remedio
+pera os destruirem porq̃ naõ tem morada certa, nem saem nunca dantre o matto: E
+assi quando cuidamos q̃ vaõ fogindo ante quẽ os persege entaõ ficam atraz
+escondidos e atiraõ aos que passaõ descuidados, Desta maneira mataõ alguã
+gente. todos quantos indios ha no brasil saõ seus imigos e temẽnos muito porque
+he gente atreiçoada. E assy onde os ha nenhũ morador vai a sua fazenda por
+terra q̃ naõ leue quinze vinte escrauos consigo de arcos e frechas. Estes
+Aymores são mui feros e crueis, naõ se pode cõ pallauras encareçer a dureza
+desta gẽte. Naõ andaõ todos juntos, derramamse por muitas partes, equando
+sequerem ajuntar assubiã como passaros ou como bogios demaneira que hũs aos
+outros se entendem e se conheçẽ. Tambem os portugeses mataõ algũs delles, e tem
+muitos destruidos, principalmente nesta capitania dos ilheos, eguardaõse muito
+delles por que ja sabem suas manhas e conheçẽ muibem sua mallicia.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_6_da_Capitania_de_Porto_seguro" id="Cap_6_da_Capitania_de_Porto_seguro"></a>Cap.
+6. da Capitania de Porto seguro.</h2>
+
+<p>
+A capitania de Porto seguro está trinta legoas dos jlheos em dezaseis graos e
+meýo. He do Duque daueiro, na qual tem posto capitaõ de sua maõ. Tem tres
+pouoaçoẽs a prinçipal he porto seguro que está junto do porto onde os nauios
+entraõ. outra está dahi huã legoa q̃ se chama sancto amaro outra Sancta Cruz
+que está dahi quatro legoas pera o norte. pode auer nesta capitania dozentos e
+vinte vezinhos. Tem sinco engenhos dassucre. Ha nella hũ mosteiro de padres da
+companhia de Jesus. Tambem chegaõ aesta capitania os Aymorés e fazem nella dano
+aos moradores como nos ilheos. he terra mui abastada de caça, e de peixes que
+mataõ no Rio que está junto da pouoacaõ.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_7_da_Capitania_do_spirito_sancto" id="Cap_7_da_Capitania_do_spirito_sancto"></a>Cap.
+7.º da Capitania do spirito sancto.</h2>
+
+<p>
+A Capitania do spirito sancto está sincoẽta, legoasde Porto seguro em vinte
+graos, da qual he capitaõ e gouernador Vasco fernandes coutinho. Tem hũ engenho
+somente, tira se delle omilhor assucre q̃ ha entodo Brasil. Ha nella muito
+algodaõ e pao do brasil. Pode ter ate cento e oitenta vezinhos, Ha dentro da
+pouoaçaõ hũ mosteiro de padres da Companhia de Jesus. Tem hũ Rio muj grande
+onde os nauios entraõ, noqual se achaõ mais peixes bois que noutro nenhũ Rio
+desta Costa. No mar junto desta Capitania mataõ grande copia de peixes grandes
+E de toda maneira, e tambem nomesmo Rio ha muita abundançia delles. Nesta
+capitania ha muitas terras e muj largas onde os moradores viuẽ mui abastados
+assi de mantimẽtos da terra como de fazendas. E quando se tomou a fortalleza do
+Rio de Janeiro desta mesma capitania do Spirito Sancto sostentaraõ toda gente e
+proueraõ sempre de mãtimẽtos neçessarios enquanto esteueraõ na terra os que a
+defendiaõ.
+</p>
+
+<p>
+Rios.
+</p>
+
+<p>
+Auante desta capitania em altura de vinte e hũ graos está o Rio de paraiba este
+he mui grande e fermoso e tem infinito peixe. Junto do cabo frio ẽ altura de
+vinte e dous graos está a Bahia fermosa naqual se pode fazer hũa capitania de
+muitos vezinhos onde tambem se perdem muitas terras por falta de gente. Outros
+muitos Rios ha nestas partes q̃ deixo descreuer por serem pequenos e naõ se
+fazer tanto caso delles, nẽ minha tençaõ foi outra senaõ tractar destes mais
+notaueis onde se podem fazer alguãs pouoaçoẽs e cõsegir porueito das terras
+viçosas que poresta costa estaõ desertas.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_8_da_Capitania_do_Rio_de_Janeiro" id="Cap_8_da_Capitania_do_Rio_de_Janeiro"></a>Cap.
+8.º da Capitania do Rio de Janeiro.</h2>
+
+<p>
+A Capitania do Rio de Janeiro cidade de sam Sebastiaõ está sesenta legoas do
+Spirito Sancto em vinte e tres graos e hũ terço, terra delRei nosso snõr. Pode
+ter pouco mais ou menos cento e corenta vezinhos, agora se começa de pouoar
+nouamente. Esta he amais fertil e viçosa terra que ha no brasil. Tem terras mui
+singullares e muitas agoas pera engenhos dassucre. Ha nella muito infinito pao
+do brasil de que os moradores da terra fazẽ muito porueito. Esta capitania tem
+hũ Rio mui largo e fermoso diuide se dentro emmuitas partes, e quantas terras
+estaõ ao longo delle se podem aporueitar, assy pera Roças de mantimentos como
+pera canas dassucres e algodoẽs, porque saõ muj viçosas e milhores de quantas
+ha por toda esta costa. ha nesta çidade hũ mosteiro de padres da companhia de
+Jesus, os quais tambem augmentaraõ muito esta terra e deseiaõ muito vella
+pouoada de muitos moradores, porq̃ saõ tomo digo as terras desta capitania mui
+largas e sabem quam porueitosas saõ pera toda gente pobre que as for possuir. E
+por tempo haõ se de fazer nellas grãdes fazendas: eosque la forem viuer com
+esta esperança naõ se acharão enganados.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_9_da_Capitania_de_SanVicente" id="Cap_9_da_Capitania_de_SanVicente"></a>Cap.
+9.º da Capitania de SanViçente.</h2>
+
+<p>
+A Capitania de sanviçente está sesenta legoas do Rio de Janeiro em Vinte
+equatro graos, he de pero lopez de sousa, naqual tem posto capitaõ de sua maõ:
+esta e o Rio de Janeiro saõ as mais frias terras que ha no Brasil, gea nellas
+em tempo de inuerno quasi como neste Reino. Nesta capitania se deu ja trigo,
+mas naõ no querẽ semear por auer na terra outros mantimẽtos de menos custo. Tem
+tres pouoações, e huã fortalleza q̃ está nuã ilha junto da terra firme quatro
+legoas pera onorte que se chama Britioga, daqui deffendem esta capitania dos
+indios e françeses com artelharia que ha na mesma fortalleza. Aprinçipal
+pouoaçaõ se chama sanctos onde está hũ mosteiro de padres da companhia de
+Jesus. Aoutra mais avãte ao longo do Rio huã legoa he Sam Viçente, tambem ha
+nella outro mostr.º de padres da companhia. Pella terra dẽtro dez legoas
+edificarão os mesmos padres huã pouoação antre os indios que se chama o Campo
+naqual Viuem muitos moradores, amayor parte delles são mamalucos filhos de
+portugueses e de indias da terra. Aqui e nas mais Capitanias tem feito estes
+padres da companhia grande fruito e fazem com que a terra va em muito
+creçimẽto, trabalhaõ por fazer christaõs a muitos indios, e metem muitas pazes
+antre os homẽs, tãbem fazẽ Restituir as liberdades de muitos indios que algũs
+moradores da terra tem mal Resgatados: assy que sempre acodem aos que se
+desuiaõ do seruiço de Deos e de S. A.
+</p>
+
+<p>
+Auera nesta capitania quinhentos vezinhos, tem quatro engenhos dassucre, E
+muitas terras viçosas de que os moradores tiraõ muitos mantimẽtos e fazenda e
+viuẽ todos mui abastados. Estahe a ultima Capitania q̃ ha nestas partes do
+Brasil.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Tractado_segundo_das_cousas_que_sao_gerais_por_toda_Costa_do_Brasil" id="Tractado_segundo_das_cousas_que_sao_gerais_por_toda_Costa_do_Brasil"></a>Tractado
+segundo das cousas que são gerais por toda Costa do Brasil</h2>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_1_das_fazendas_da_terra" id="Cap_1_das_fazendas_da_terra"></a>Cap.
+1.º das fazendas da terra</h2>
+
+<p>
+Os moradores desta costa do Brasil todos tem terras de sesmaria dadas e
+Repartidas pellos capitaẽs da terra, e a primeira cousa que pretendem alcansar,
+saõ escrauos pera lhes fazerẽ e grangearẽ suas Roças e fazẽdas por que sem
+elles não se podeẽ sustentar na terra: E huã das cousas porq̃ o Brasil naõ
+floreçe muito mais, he pellos escrauos que se alleuantaraõ e fogiraõ pera suas
+terras, e fogem cada dia: E se estes indios naõ foraõ tam fogitiuos e mudaueis,
+não teuera comparaçaõ a Riqueza do Brasil. As fazendas donde se consige mais
+porueito saõ assucres, algodoẽs e pao do brasil, cõ isto fazem pagamento aos
+mercadores que deste Reino lhes leuão fazenda porque o dinheiro he pouco na
+terra, e assy vendẽ e trocã hũa mercadoria por outra em seu justo preço.
+Quantos moradores ha na terra tem Roças de mantimẽtos, e vẽdẽ muitas farinhas
+de pao hũs aos outros, de que tambem tiraõ muito porueito.
+</p>
+
+<p>
+O mais gado que ha nesta costa saõ bois e vacas, deste ha muita abundançia ẽ
+todallas capitanias, porque saõ as heruas muitas e sempre a terra esta cuberta
+de verdura, ainda que em porto seguro naõ sequerẽ dar nenhũas vacas senão o
+primeiro anno, no qual engordaõ tanto que do muito viço dizem que morrẽ todas.
+Cabras e ouelhas ha muito poucas ategora, começaõ de multiplicar nouamente; as
+cabras se daõ melhor que as ouelhas E parem dous tres filhos de cadauez. fazem
+os moradores da terra muito por esta criação. Tambem ha egoas e cauallos, mas
+ainda saõ caros por naõ auer muitos na terra, leuaõ nos do cabo verde pera la
+edaõ se muito bem na terra.
+</p>
+
+<p>
+Achase tambem por esta costa muito Amber que omar de sy lança fora as mais das
+vezes quando faz tormenta e saõ agoas viuas, entaõ ha muitas pessoas que mãdã
+seus escrauos pella praya buscallo nos lugares onde custuma sair mais vezes, e
+muitas vezes aconteçe enriqueçerẽ algũs assy do que achaõ seus escrauos como do
+que Resgataõ aos indios forros. Segũdo a dita e ventura de cada hũ. Os panos
+que nesta terra se fazẽ são dalgodaõ, todo mais vay deste Reino. E assy ha
+tambem muitos escrauos de guine: estes saõ mais seguros q̃ os indios da terra
+por que nunca fogẽ nẽ tem pera onde. Ha tambem muita criaçaõ de porcos e muitas
+galinhas adens e patos da terra. Estas saõ as fazendas q̃ possuẽ os moradores
+do brasil.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_2_dos_custumes_da_terra" id="Cap_2_dos_custumes_da_terra"></a>Cap.
+2.º dos custumes da terra</h2>
+
+<p>
+As pessoas que no brasil querem viuer tanto que se fazem moradores da terra por
+pobres que seiaõ se cada hũ alcançar dous pares ou meyaduzia descrauos (q̃ pode
+hũ por outro custar pouco mais ou menos ate dez cruzados) logo tem Remedio pera
+sua sostentação porq̃ hũs lhe pescam e caçaõ outros lhe fazem mantimentos e
+fazenda e assy pouco a pouco enRiqueçẽ os homẽs e viuem honrradamẽte na terra
+com mais descanso q̃ neste Reino, porq̃ os mesmos escrauos indios da terra
+buscam de comer pera si e pera os senorẽs, e desta maneira naõ fazem os homẽs
+despeza com seus escrauos em mãtimentos nẽ com suas pessoas.
+</p>
+
+<p>
+A maior parte das camas do Brasil saõ Redes, as quais armaõ nuã casa com duas
+cordas e lançaõse nellas a dormir. este custume tomaraõ dos indios da terra.
+</p>
+
+<p>
+Os moradores destas capitanias tratamse muito bem e saõ mais largos que a gente
+deste Reino, assy no comer como no vestir de suas pessoas, e folgam dajudar hũs
+aos outros com seus escrauos e fauorecẽ muito os pobres que começãoviuer na
+terra. Isto se custuma nestas partes: e fazem outras muitas obras pias por onde
+todos tem Remedio de vida e nenhũ pobre anda pellas portas a pedir como neste
+Reino.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_3_das_callidades_da_terra" id="Cap_3_das_callidades_da_terra"></a>Cap.
+3.º das callidades da terra.</h2>
+
+<p>
+Ha nestas partes do Brasil seis meses de verão e seis de inuerno: os de verão
+são de setembro ate feuereiro, os de inuerno de março ate agosto. Assy que
+quando nesta prouinçia do brasil he inuerno cá nestes Reinos he verão, eos dias
+quasi sẽpre saõ tamanhos como as noites, huã ora somẽte creçẽ emingoão. Cursaõ
+sempre ventos gerais, no inuerno seis meses sul é sueste no verão nordeste.
+Sempre correm as agoas com o vento por costa, E por isso senaõ pode nauegar de
+hũas capitanias pera outras se naõ esperarẽ por mouções pera irem com as agoas
+e com o vento, porque cursaõ como digo seis meses duã parte e seis doutra e
+portanto saõ muitas veses as viagens vagarosas e quando vão contra tempo as
+embarcaçoẽs corrẽ muito Risco e arribaõ as mais das vezes ao porto donde
+sairaõ. Mete se no meyo e na força deste verão oito dias ante os Sanctos huã
+tormenta de vento sul que dura huã sommana, este he mui çerto e geral, nũca se
+acha, que naquelles dias faltasse. Muitas embarcações esperão por este vento e
+fazem com elle suas viagens. Esta terra sempre he quente quasi tãto no inuerno
+como no verão. A viraçaõ do vento geral entra ao meyo dia, pouco mais oumenos,
+he tam fresco este vẽto e tam frio q̃ naõ se sente mais calma, e ficam
+Recreados os corpos das pessoas. Dura este vento do mar a te de madrugada,
+torna dalli acalmar outra vez por causa dos vapores da terra q̃ o apagam e
+quãdo amanheçe está o ceo todo cuberto de nuuens e as mais das manhãs choue
+nestas partes e a terra fica toda cuberta de neuoa por que tem muitos aruoredos
+e chama a sy todos estes humores. Etanto q̃ este geral acalma começa a ventar
+da terra hũ vento brando que nella se gera, a te que o sol con sua quentura o
+torna apagar e alimpa tudo outra vez e faz ficar odia claro e sereno, entrão
+logo ẽtra o vento do mar acustumado. Este vento da terra he mui perigoso
+edoentio e se açerta de permaneçer algũs dias morre muita gente assy portugeses
+como indios da terra, mas quer nosso snõr que acõteça isto poucas vezes, e
+tirado este mal he esta terra mui sallutifera e de bõs ares onde as pessoas se
+achaõ bem despostas e viuem muitos annos prinçipalmente os velhos tem milhor
+despossiçaõ e pareçẽ que tormã a Renouar e porisso algũs se naõ querẽ tornar a
+suas patrias temendo que nellas se lhes offereça amorte mais çedo. os ares de
+pella manhaã saõ mui frescos e sadios: muitas pessoas se custumaõ alleuãotar
+çedo por que se aporueitem delles enquanto tem esta vertude. A terra em si he
+lassa e deleixada achãose nella os homẽs algũ tanto fracos e mingoados das
+forças que possuem cá neste Reino por Respeito da quentura e dos mantimentos
+que nella vsaõ, isto he enquanto as pessoas saõ nouas na terra, mas de pois q̃
+por tempo se acustumão ficão tam Rijos e bem despostos como se aquella terra
+fora sua mesma patria. Manda se dar nesta terra aos infermos carne de porco,
+pera qual quer doença he porueitosa e naõ faz mal a nenhuã pessoa: o peixe
+tãbem tem a mesma callidade e poem muita sustançia aos doentes. Esta terra he
+mui fertil e viçosa, toda cuberta de altissimos e frondosos aruoredos permaneçe
+sempre a verdura nella inuerno e veraõ, isto causa chouerlhe muitas vezes e naõ
+auer frio que offenda ao que produz a terra. Ha por baixo destes aruoredos
+grande mato e muj basto e detalmaneira está escuro e serrado em partes que
+nunca parteçipa o chaõ da quẽtura nẽ da claridade do sol, e assy está sempre
+humido e manãdo agoa de sý. As agoas que na terra se bebem saõ mui sadias e
+sabrosas, por muita q̃ se beba naõ prejudica a saude da pessoa, a mais della se
+torna logo a suar e fica o corpo desaliuádo e saõ. Finalmẽte que he esta terra
+tã delleitosa e temperada q̃ nũca nella se sente frio nẽ quentura sobeja.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_4_dos_mantimentos_da_terra" id="Cap_4_dos_mantimentos_da_terra"></a>Cap.
+4.º dos mantimentos da terra.</h2>
+
+<p>
+Nestas partes do Brasil não semeão trigo nem se da outro mantimento algũ deste
+Reino. o que la se come em lugar de paõ he farinha de pao: Esta se faz da Raiz
+duã pranta que se chama mandioca, aqual he como jnhame. E tanto que se tira de
+baixo da terra, está cortindo se em agoa tres quatro dias E depois de cortida
+pizaõ na ou Rellaõ na muito bem e espremem na da quelle sumo de talmaneira que
+fique bem escorrida porq̃ he aquella agoa que sae della tam pessonhenta que
+qualquer pessoa ou animal que a beber logo naquelle instante morre: assy que de
+pois de a terem deste modo curada, poem hũ alguidar grande sobre o fogo e como
+se aquenta, botaõ aquella mandioca nelle E por espaço de meya ora está naquella
+quentura cozendose, dally atiraõ E fica temperada pera se comer. ha todauia
+farinha de duas maneiras huã se chama de gerra, E outra fresca, a de gerra he
+muito seca, fazemna desta maneira peradurar muito e naõ sedanar: afresca he
+mais branda e tẽ mais sustançia, finalmente que naõ he taõ aspera como a outra,
+mas naõ dura mais que dous tres dias como passada qui logo se dana. Desta mesma
+mandioca fazem outra maneira de mantimentos que se chamaõ beijuús, saõ mui
+aluos e mais grossos q̃ obreas: destes vsaõ muito os moradores da terra porque
+saõ mais sabrosos e demilhor desistaõ que a farinha. Outra Raiz ha duã pranta
+que se chama Aýpim daqual fazem hũs bollos que pareçem paõ fresco deste Reino e
+tambem se come assada como batata, de toda maneira se acha. nella
+m<sup>to</sup> gosto. Tambem ha naterra muito milho zaburro, este se daa em
+todallas capitanias E faz hũ paõ muito aluo. ha nesta terra muita copia de
+leite de vacas, muito arroz, faua feigoẽs muitos inhames e batatas, E outros
+legumes q̃ fartaõ muito a terra. Ha muita abundançia de marisco e de peixe
+portoda esta costa. Com estes mantimentos se sustentaõ os moradores do Brasil
+sem fazerem gastos nem deminuirẽ nada em suas fazẽdas.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_5_da_caca_da_terra" id="Cap_5_da_caca_da_terra"></a>Cap. 5.º
+da caça da terra.</h2>
+
+<p>
+Huã das cousas que sostenta e abasta m<sup>to</sup> os moradores desta terra do
+Brasil, he amuita caça que ha nestes matos de muitos generos e de diversas
+maneiras, aqual os mesmos indios da terra mataõ assy com frechas como por
+industriade seus lassos e fojos onde custumão tomar amaior parte della.
+</p>
+
+<p>
+Ha muitos veados e muita somma de porcos montezes de muitas castas. Hũs
+pequenos ha naterra que tem as çedas mui grossas, asperas e crespas, estes tem
+o embigo nas costas, matam se muitos delles, e doutros grandes que naõ saõ
+desta callidade. Ha muitas antas que quasi saõ tamanhas como vacas e pasçem
+heruas como outro gado qualquer, sua carne tẽ o sabor como de vaca: a pelle
+deste animal he mui grossa e Rija. Ha tambem coelhos mas tem as orelhas doutra
+maneira mais pequenas e Redondas. Ha outros animais maiores que lebres que se
+chamaõ pacas, tambem tem carne m<sup>to</sup> sabrosa. Hũs bichos ha nesta
+terra q̃ tambem se comẽ e se tem pella milhor caça que ha nomatto. chamãolhes
+Tatús saõ tamanhos como coelhos E tem hũ casco amaneira de lagosta como de
+cagado, mas he Repartido em muitas juntas como laminas, pareçe totalmente hũ
+caualo armado, tem hũ Rabo do mesmo casco comprido, o foçinho he como de
+leitaõ, e naõ bota mais fora do casco q̃ a cabeça, tem as pernas baixas E criaõ
+se em couas a carne delles tem o sabor quasi como de gallinha. Esta caça he
+muito estimada na terra. ha tambem muitas gallinhas de mato que os indios mataõ
+cõ frechas, e outras muitas aues mui gordas e sabrosas milhores q̃ pordizes.
+Desta E doutra muita caça ha no brasil m<sup>ta</sup> abũdançia.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_6_das_fruitas_da_terra" id="Cap_6_das_fruitas_da_terra"></a>Cap.
+6.º das fruitas da terra.</h2>
+
+<p>
+Huã fruita se da nesta terra do Brasil muito sabrosa e mais prezada de qũatas
+ha. Cria nuã pranta, humilde iunto do chaõ, a qual tem huãs pencas como cardo,
+a fruita della nasçe como alcachofres e pareçem naturalmente pinhas e saõ do
+mesmo tamanho, chamaõ lhes Ananaszes. Ede pois de maduros tem hũ cheiro muito
+exçellente, colhemnos como saõ de vez, e cõ huã faca tiraõ lhes aquella casca
+grossa e fazem nos en talhadas e desta maneira, se comẽ. exçedem no gosto
+aquantas fruitas ha neste Reino, e fazem todos tanto por esta fruita, q̃ mandaõ
+prantar Roças delles como de cardaes; aeste nosso Reino trazem m<sup>tos</sup>
+destes ananazes em conserua. Outra fruyta se cria nũas aruores grandes, estas
+senaõ prantaõ, nasçem pello mato muitas, esta fruita depois de madura he muito
+amarella, saõ como péros Repinaldos compridos, chamão lhe cajuus, tem muito
+sumo, e cria se na ponta desta fruita de fora hũ caroço como castanha, e nasçe
+diante da mesma fruita, oqual tem a casca mais amargosa que fel, e se tocarẽ
+com ella nos beiços dura muito aquelle amargor e faz empollar toda boca, pello
+contrario este caroço assado, he muito mais gostoso q̃ amẽdoa saõ de sua
+natureza mui quentes em estremo. ha naterra tantos destes caroços que os medem
+aos alqueires. Tambem ha huã fruita que lhe chamaõ bananas, e pella lingoa dos
+indios pacouas, ha na terra muita abundançia dellas: pareçẽ se na feiçaõ com
+pepinos, nasçẽ nuãs aruores mui tenrras enaõ saõ muito altas, nẽ tem Ramos
+senaõ folhas mui comprimidas e largas. Estas bananas criamse em cachos algũ se
+acha q̃ tem de cento e sincoenta pera cima, e muitas vezes he tam grande o pezo
+dellas que faz quebrar a aruore pello meyo. Como saõ de vez colhem estes
+cachos, e depois de colhidos amadureçẽ, etanto q̃ que estas aruores daõ huã
+fruita, logo as cortaõ por que naõ frutifiçaõ mais que a primeira vez, E tornaõ
+arrebentar pellos pees outras nouas. Esta he huã fruita mui sabrosa e das boãs
+que ha na terra, tem huã pelle como de figo aqual lhes lançaõ fora quando as
+querẽ comer E se comẽ muitas dellas fazem damno a saude E causaõ febre aquẽ se
+desmãda nellas. E assadas maduras saõ muito sadias E mandaõ se dar aos
+infermos. Cõ esta fruita se mantem amaior parte dos escrauos desta terra, porq̃
+assadas verdes passaõ por mantimẽto Equasi tem sustançia de paõ. Ha duas
+callidades desta fruita, huãs saõ pequenas como figos brojassotes as outras saõ
+maiores e mais compridas. Estas pequenas tem dentro em si huã cousa estranha
+aqual he que quando as cortaõ pello meyo com huã faca ou porqualquer parte que
+seja acha se nellas hũ signal amaneira de cruçifixo, E assy totalmente o
+pareçe. Tambem ha huã fruita q̃ se chama Aracases, saõ como nespras postoque
+comaõ muita naõ fazẽ mal a saude. Ha muita pimenta da terra come se verde,
+queima muito em grande maneira. Outras muitas fruitas ha pello mato dẽtro de
+diuersas callidades, E saõ tantas que ja se acharaõ pella terra dentro alguãs
+pessoas e sostentaraõ se cõ ellas muitos dias sem outro mantimento algũ. Estas
+que aqui escreuo saõ asque os portugeses tem antre sy em mais estima E
+asmelhores da terra. Alguãs fruitas deste Reino se daõ nestas partes-s-muitos
+melloẽs, pepinos e figos de muitas castas, Romãs m<sup>tas</sup> parreiras
+quedaõ huuas duas tres vezes no anno E tanto que huãs se acabaõ, começaõ logo
+outras nouamẽte, E desta maneira nũca esta o brasil sem fruitas. De limoẽs e
+laranjas ha muita infinidade: daõ se muito na terra estas aruores de espinho e
+multiplicaõ mais que as outras.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_7_da_Condicao_E_Custumes_dos_indios_da_terra" id="Cap_7_da_Condicao_E_Custumes_dos_indios_da_terra"></a>Cap.
+7.º da Condiçaõ E Custumes dos indios da
+terra.</h2>
+
+<p>
+Naõ se pode numerar nem comprẽder a multidaõ do barbaro gentio que semeou a
+natureza por toda esta terra do brasil por que ningem pode pello sertaõ dentro
+caminhar seguro, nẽ passar por terra onde naõ ache pouoações de indios armados
+contra todas as naçoẽs humanas, Eassi como saõ muitos permittio Deos que fossem
+contrarios hũs dos outros, E que ouuesse antrelles grandes odios E discordias
+porque se assy naõ fosse os portugeses naõ poderĩa viuer na terra nem seria
+possiuel, conquistar tamanho poder de gente, Auia muitos destes indios pella
+costa Junto das capitanias, tudo enfim estaua cheo delles quando começarão os
+Portugeses apouoalla terra, mas porq̃ os mesmos indios se alleuãotauaõ contra
+elles E faziaõ lhes muitas treiçoẽs, os gouernadores E capitaẽs da terra
+destruiraõ nos pouco apouco e mataraõ muitos delles, outros fogiraõ pera o
+sertaõ, E assy ficou a costa despouoada de gentio aolongo das capitanias. Junto
+dellas ficaraõ algũas aldeas destes indios que saõde paz e amigos dos
+portugeses.
+</p>
+
+<p>
+Alingoa deste gentio toda pella costa he huã: careçe de tres letras-s-naõ se
+acha nella f, nem L, nẽ R, cousa digna despanto, porq̃ assy naõtem se nẽ lei,
+nẽ Rei e desta maneira viuẽ sem Justiça e desordenadam<sup>te</sup>. Estes
+indios andaõ nũs sem cobertura alguã assi machos como femeas naõ cobrẽ parte
+nenhũ de seu corpo e trazem descuberto quanto a natureza lhes deu. Viuẽ todos
+em aldeas, pode auer em cada huã sete oito casas, asquais saõ compridas. feitas
+amaneira de cordoarias e cadahuã dellas está chea de gente duã parte e doutra,
+e cada hũ por sy tem sua estançia e sua Rede armada emque dorme e assy estaõ
+todos hũs junto dos outros por ordem, e pello meyo da casa fica hũ caminho
+aberto pera se seruirẽ. Naõ ha comodigo antreelles nenhũ Rei nẽ justiça somẽte
+em cada aldea tem hũ prinçipal q̃ he como capitaõ aoqual obedeçẽ por vontade e
+naõ por força, morrendo este prinçipal fica seu filho no mesmo lugar naõ serue
+doutra cousa se naõ dir cõ elles a gerra e conselhallos como sehaõ dauer na
+pelleja, mas naõ castiga seus erros nẽ manda sobrelles cousa alguã contra sua
+vontade. Este prinçipal tem tres quatro molheres, a primeiratẽ em mais conta, e
+faz della mais caso que das outras, Isto tem por estado e por honrra. Naõ
+adoraõ em cousa alguã nẽ tem pera sy que ha na outra vida gloria pera os bõs, e
+pena pera os maos, tudo cuidaõ que se acaba nesta e que as almas feneçem com os
+corpos, e assi viuem bestialmẽte sem ter conta nẽ pezo, nẽ medida.
+</p>
+
+<p>
+Estes indios saõ mui bellicosos e tem sempre grandes gerras hũs contra os
+outros nunca se acha nelles paz nẽ he possiuel auer antrelles amizade porque
+huãs nasçoẽs pellejaõ contra outras e mataõse muitos delles, e assy vai
+creçendo o odio cada vez mais e ficaõ imigos verdadeiros perpetuamente. As
+armas com que pellejaõ saõ arcos e frechas a cousa que apontarẽ naõ na erraõ,
+saõ mui çertos com esta arma e mui temidos nagerra, andaõ sempre nella
+exerçitados. e saõ mui inclinados apellejar e muy vallentes e esforçados contra
+seus aduersarios, e assy pareçe cousa estranha ver dous tres mil homẽs nus dũa
+parte e doutra cõ grandes assubios e gritta frechando hũs aos outros, e
+enquanto dura esta pelleja nũca estaõ com os corpos quedos meneãdose duã parte
+pera outra com muita ligeireza pera que naõ possaõ apontar nẽ fazer tiro em
+pessoa certa alguãs velhas custumaõ apanharlhes as frechas pello chaõ e
+seruillos emquanto pellejaõ. Gente he esta mui atreuida e que teme muito pouco
+amorte, e quando vaõ agerra sempre lhes pareçe que tem çerta a Victoria e que
+nenhũ de sua companhia ha de morrer, e quãdo partem dizem vamos matar sem mais
+consideraçaõ e naõ cuidaõ que taõbem podem ser vençidos. Naõ daõ vida anenhũ
+catiuo todos mataõ e comẽ, emfim que suas gerras saõ mui perigosas, e deuẽ se
+ter em muita conta por que huã das cousas que desbaratou muitos portugeses foi
+a pouca estima em q̃ tinhaõ agerra dos indios e o pouco caso que faziaõ delles
+e assy morreraõ m<sup>tos</sup> miserauelmente por naõ se aperçeberẽ como
+comuinha, destes ouue muitas mortes desestradas: E isto aconteçe cada paço
+nestas partes.
+</p>
+
+<p>
+Quando estes indios tomaõ algũs contrarios sellogo comaquelle impito os naõ
+mataõ leuaõ nos viuos pera suas aldeas (ou seiaõ portugeses ou quaisquer outros
+indios seus imigos) E tanto que chegaõ a suas casas lançaõ hũa corda muj grossa
+ao pescoço do catiuo pera que naõ possa fogir, e armaõ lhe huã Rede em que
+durma e daõ lhe hũa india moça a mais fermosa e honrrada que ha naldea pera q̃
+durma com elle, e tambem tenha cuidado de o guardar, e naõ vay pera parte que
+naõ no acompanhe. Esta india tem cargo de lhe dar muito bem de comer e beber, e
+de pois de oterẽ desta maneira sinco ou seis meses ou o tempo que querẽ
+determinaõ de o matar, e fazem grandes serimonias e festas aquelles dias e
+aparelhaõ muitos vinhos pera se embebedarem e fazemnos da Raiz duã herua q̃ se
+chama aipim, aqual feruẽ primeiro e depois de cozida mastigaõ na hũas moças
+virgens, e esprememna nũs potes grãdes e dalli atres ou quatro dias o bebem. E
+o dia que haõ matar este catiuo pella manhaã se alguã Ribeira está junto daldea
+leuaõ no abanhar nella comgrãdes cantares e follias, etanto q̃ chegam com elle
+a aldea, attam no pella cinta com quatro cordas cada hũa pera sua parte e tres
+quatro indios pegados em cada ponta destas e assi o leuaõ ao meyo dũ terreiro e
+tiraõ tanto por estas cordas que naõ se possa bollir pera hũa parte nẽ pera
+outra, as maõs lhe deixaõ soltas porque folgam de o ver deffender com ellas.
+Aquelle que o ha de matar empena se primeiro com penas de papagayo de muitas
+coores portodo corpo: ha de ser este matador o mais vallente da terra e o mais
+honrado. Traz na maõ huã espada dũ pao mui duro e pezado com que custumaõ de
+matar, e chegase ao padeçẽte dizẽdo lhe muitas cousas e ameaçandolhe sua
+geraçaõ que o mesmo ha de fazer a seus parentes, e de pois de oter afrontado
+com muitas pallauras injuriosas dalhe huã grãm pancada na cabeça e logo da
+primeira o mata e lha fazẽ pedaços. Está huã india velha cõ hũ cabaço na maõ. E
+assi como elle cae a code muito de pressa com elle a meterlho na cabeça pera
+tomar os meollos eo sange: tudo emfim cozem eassaõ e naõ fica delle cousaque
+naõ comaõ. Isto he mais por vingança e por odio que por se fartarẽ. De poisque
+comẽ a carne destes contrarios ficam nos odios confirmados, e sentem muito esta
+injuria, e por isso andaõ sempre a vingarse hũs contra os outros. E se amoça
+que dormia com o catiuo fica prenhe aquella criança que parẽ de pois de criada,
+mataõ na e comẽ na e dizem que aquella menina ou menino era seu contrario
+verdadeiro, e porisso estimaõ muito comerlhe a carne e vingar se delle. E
+porque a maỹ sabe o fim que haõ de dar aesta criança, muitas vezes quando se
+sente prenhe mataa dentro da barriga, e faz conque moua. E aconteçe alguãs
+vezes affeiçoar se tanto aeste catiuo e tomar lhe tanto amor que foge com elle
+pera sua terra pello liurar da morte. E assy algũs portugeses ha que desta
+maneira escaparaõ e estaõ oje ẽ dia viuos, e muitos indios que do mesmo modo se
+saluaraõ, ainda que saõ algũs taõ brutos que naõ querem fogir depois de os
+terem presos: porque ouue algũ que estaua ja no terrejro atado pera padeçer e
+dauaõ lhe a vida e naõ quis senaõ que o matassem, dizendo que seus parentes o
+naõ teriaõ por Vallente e que todos correriaõ com elle e daqui vem naõ estimarẽ
+a morte, e quando chega a quella ora naõ na terem em conta nẽ mostrarẽ nenhuã
+tristeza naquelle passo. Finalmente q̃ saõ estes indios mui deshumanos e
+crueis, naõ se mouẽ a nenhuã piedade: viuem como brutos animais sẽ ordem nẽ
+conçerto de homẽs saõ muidesonestos e dados a sensuallidade e entregãse aos
+viços como se nelles naõ ouuera Rezaõ de humanos, ainda que todauia sempre tem
+Resquardo os machos eas femeas em seu ajuntamento e mostrã ter nisto algũa
+vergonha. Todos comẽ carne humana e tem na pella milhor iguoaria de quantas
+pode auer: naõ de seus amigos com quem elles tem paz se naõ dos contrarios. Tem
+esta callidade estes indios que de qualquer cousa que comaõ por pequena que
+seja haõ de conuidar com ella quanta esteuerẽ presentes, só esta proximidade se
+acha antrelles. Comẽ dequantos bichos secriaõ na terra, outro nenhũ engeitaõ
+por pessonhento que seja somente aranha.
+</p>
+
+<p>
+Tem estes indios machos por custume arrãcarem toda barba e naõ consentẽ nenhũ
+cabello em parte alguã de seu corpo, saluo na cabeça ainda que orredor della
+por baixo tudo arrancaõ. As femeas prezaõ se muito de seus cabellos e trazem
+nos muito compridos e penteados e as mais dellas emnastrados. Os machos
+custumaõ trazerẽ o beiço furado e huã pedra no buraco metida por gallantaria
+outros ha que trazem o Rosto todo cheo de buracos e assy pareçẽ mui feos e
+disformes: isto lhes fazem quando saõ meninos. Tambem algũs indios andaõ
+pintados portodo corpo, pello qual fazẽ hũs Riscos de muitas maneiras e poẽlhes
+huã çerta tinta e ficam sempre os mesmos Riscos escritos na carne: isto naõ
+traz se naõ quẽ tem feito alguã valentia. E assi tambem machos como femeas
+custumaõ atingirse cõ o sumo duã fruita que se chama genipapo que he verde
+quando se piza e depois que opoẽ no corpo e se inxuga fica mui negro e por
+muito que se laue não se tira se naõ aos noue dias, isto tudo fazẽ por
+gallantaria.
+</p>
+
+<p>
+Estas indias guardaõ castidade a seus maridos e saõ muito suas amigas porque
+tambem elles sofrem mal adulterios. Casaõ os mais delles com suas sobrinhas
+filhas de seus irmãos ou irmãas, estas saõ suas molheres verdadeiras e naõ lhas
+podem negar seus pais.
+</p>
+
+<p>
+Algũas indias se achã nestas partes q̃ jurão e prometem castidade, e assy naõ
+casaõ nẽ conheçẽ homẽ algum de nenhuã callidade, nẽ no consentiraõ ainda que
+por isso as matem. Estas deixaõ todo o exerçiçio de molheres e immittaõ os
+homẽs e segem seus offiçios como senaõ fossem molheres, e cortaõ seus cabellos
+da mesma maneira que os machos trazem e vaõ agerra com seu arco e frechas, e
+acaça: enfim que andaõ sempre na companhia dos homẽs, e cada hũa tem molher que
+a serue e que lhe faz de comer como se fossẽ casados.
+</p>
+
+<p>
+Estes indios viuem mui descansados, naõ tem cuidado de cousa alguã se naõ de
+comer e beber e matar gente e porisso saõ mui gordos em estremo. E assy tambem
+com quer desgosto amagreçẽ muito, e como se agastaõ de qualquer cousa comẽ
+terra e desta maneira morrẽ muitos delles bestialmente. Todos segẽ muito o
+conselho das velhas tudo a que ellas lhe dizem fazem e tẽ no por mui çerto, da
+qui vem a muitos moradores naõ comprarẽ nenhũas por lhes naõ fazerẽ fogir seus
+escrauos.
+</p>
+
+<p>
+Quando estas indias parem a primeira cousa que fazem de pois do parto lauaõ se
+todas nũ Ribeiro e ficam tambem despostas como senaõ pariraõ, em lugar dellas
+se deitaõ seus maridos nas Redes e assy os vesitaõ e curaõ como se elles fossem
+as paridas.
+</p>
+
+<p>
+Quando algũ destes indios morre custumaõ enterrallo nũa coua assentado sobre os
+pees com sua Rede as costas em que elle dormia, e logo pellos primeiros dias
+poem lhe de comer em cima da coua. Outras muitas bestiallidades vsaõ estes
+indios que aqui naõ escreuo porque minha tençaõ foi naõ ser comprido, e passar
+por tudo isto com breuidade.
+</p>
+
+<p>
+Dos Resgates.
+</p>
+
+<p>
+Estes indios naõ possuẽ nenhuã fazenda, nẽ procuraõ acquerilla como os outros
+homẽs, somente cobiçaõ muito alguãs cousas que vaõ deste Reino-s-camisas,
+pellotes, ferramẽtas e outras cousas que elles tem em muita estima e desejaõ
+muito alcãçar dos portugeses. Atroco disto se vẽdiaõ hũs aos outros, eos
+portugeses Resgatauaõ m<sup>tos</sup> delles e salteauaõ quantos queriaõ sem
+ningem lhes ir amaõ, mas ja gora naõ ha isto na terra nẽ Resgates como soya,
+porque de pois que os padres da companhia vieraõ aestas partes proueraõ neste
+negoçio e vedaraõ muitos saltos que faziaõ os portugeses por esta costa os
+quais emcarregauaõ muito suas consçiençias com catiuarẽ muitos indios cõtra
+direito e mouerẽ lhes gerras injustas. E porisso ordenaraõ os padres e fezerã
+com os capitaẽs daterra que naõ ouuesse mais resgates nẽ consentissẽ que fosse
+nenhũ portuges a suas aldeas sem liçença do mesmo capitaõ. E quantos escrauos
+agora vem nouamente do sertaõ oudas outras capitanias todos leuão primeiro a
+Alfandega e alli os examinaõ e lhes fazem preguntas quẽ os vendeo, ou como
+forão Resgatados, porque ningem os pode vender se não seus pais ou aquelles que
+em justa gerra os catiuão. E os que achaõ mal acqueridos poem nos em sua
+liberdade, e desta maneira quantos indios se compraõ saõ bem Resgatados e os
+moradores da terra naõ deixaõ porisso dir m<sup>to</sup> auante com suas
+fazendas.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_8_dos_bichos_da_terra" id="Cap_8_dos_bichos_da_terra"></a>Cap.
+8.º dos bichos da terra.</h2>
+
+<p>
+Naõ me pareçeo cousa fora de preposito tratar tambem neste summario dalgũs
+bichos que nestas partes se criaõ pois tudo ha na mesma terra, dado que daqui
+se não comprehenda mais que a differença e a variadade das criaturas que ha
+duãs terras pera outras.
+</p>
+
+<p>
+Ha nestas partes muitos bichos mui feros e pessonhentos, prinçipalmente cobras
+de muitas castas e de nomes diuersos. Huãs ha tamgrandes e tam disformes que
+engolem hũ veado todo inteiro, e affirmão que tem esta cobra tal callidade que
+de pois de oter comido arrebenta pella barriga e apodreçe quanta carne tem
+pello corpo e fica somẽte no espinhaço com a cabeça e a ponta do Rabo saã, e
+tanto que desta maneira fica torna pouco a pouco a criar carne noua ate que se
+cobre outra vez da mesma carne taõ perfectamente como dantes, Isto viraõ e
+expremẽtaraõ m<sup>tos</sup> indios e moradores da terra. aesta chamão pella
+lingoa dos indios Giboiossú. Outras ha muito maiores e mais possonhentas doutra
+casta differente. Saõ tamgrandes en tanto estremo que apenas desaseis indios
+podiaõ leuar huã que matarão junto da costa antre os Portugeses aesta cobra
+chamaõ Surucucù. Outra geração ha dellas que lhe chamaõ boiteninga, tem na
+ponta do Rabo huã cousa que soa propriamenta, como cascauel e por onde esta
+cobra vai sempre anda Rogindo. he huã das feras bichas que ha na terra. Outras
+ha que lhe chamão hebijaras. tem duas bocas huã na cabeça outra no rabo mordem
+com ambas, esta cobra he branca e mui curta, o mais do tempo esta debaixo da
+terra, he pessonhentissima sobre todas, quem desta formordido não tera vida
+muitas oras, e assy qualquer destas outras que morder alguã pessoa o mais
+quedura saõ vinte equatro oras. Ha outra callidade dellas que naõ tem dentes nẽ
+mordem. Estas naõ saõ pessonhentas nẽ tam pouco muito grandes chamão lhe
+Japaranas. Tambẽ affirmão algũs homẽs que virão serpẽtes nesta terra com azas
+mui grandes E espantosas, mas achaõ se Raramẽte. Ha muitos lagartos e grandes
+pellos Rios dagoa doçe e pellos matos cuios testicollos cheiraõ milhor que
+almisere, E aqualquer Roupa que os chegão fica ocheiro pegado por muitos dias.
+</p>
+
+<p>
+Os bichos mais feros e mais danosos q̃ ha na terra saõ tigres, estes animais
+saõ delles tamanhos como bezerros, vaõ se aos currais do gado dos moradores e
+mataõ muito delle e saõ taõ feros e forçosos que huã mão que lançaõ a huã
+vitella ou nouilho lhe fazem botar osmeollos fora e leuão no arrasto pera
+omato. Tambem pella terra dentro mataõ e comẽ algũs indios quãdo se achaõ
+famintos. Sobem pellas aruores como gatos, e dalli espreitaõ acaça que por
+baixo passa e Remetem de salto aella e destamaneira naõ lhes escapa nada algũs
+destes animais mataõ enfojos os moradores da terra.
+</p>
+
+<p>
+Toda esta terra do Brasil he cuberta de formigas pequenas e grandes, estas fazẽ
+algũ dano as parreiras dos moradores e as larangeiras que tem nos quintaes, e
+se naõ foraõ estas formigas ouuera poruentura muitas vinhas no brasil ainda que
+la saõ pouco neçessarias porq̃ deste Reino vai tanto vinho que sempre aterra
+delle está prouida.
+</p>
+
+<p>
+Tambem ha muita infinidade de mosquitos prinçipalmente ao longo dalgũ Rio antre
+huãs aruores que se chamaõ manges naõ pode nenhuã pessoa esperallos, e pello
+mato quando naõ ha viraçaõ saõ mui sobejos e persegẽ muito a gente.
+</p>
+
+<p>
+Tambem ha huã geraçaõ de Ratos que trazẽ os filhinhos pendurados na barriga e
+alli se criaõ e andaõ assy pegados ate serẽ grãdes. Bogios ha muitos e de
+muitas castas como ja se sabe: tanto que as femeas parem pegaõ se os filhos nas
+suas costas e sempre andaõ caualgados nas mãis ate serẽ bem criados e posto que
+as persigaõ e as matem naõ sequerẽ desapegar dellas. Ha tambem muitos lobos
+marinhos e porcos marinhos que se criaõ no mar e na terra. Outros muitos bichos
+ha nestas partes pella terra dentro que sera impossiuel poderẽ se conheçer nẽ
+escreuer tanta multidaõ porq̃ assy como a terra he grandissima, assy saõ muitas
+as callidades e efeições das criaturas que Deos nella criou.
+</p>
+
+<hr style="width: 65%;" />
+
+<h2><a name="Cap_9_da_terra_-X-q_certos_homes_da_Capitania_de_porto_seguro_forao_a" id="Cap_9_da_terra_-X-q_certos_homes_da_Capitania_de_porto_seguro_forao_a"></a>Cap.
+9.º da terra q̃ certos homẽs da Capitania de porto seguro forão a descobrir, e do q̃ acharão nella.
+</h2>
+
+<p>
+Posto que minha tençaõ naõ era tratar neste summario senaõ das cousas que saõ
+gerais portoda costa do Brasil, de que os moradores da terra parteçipaõ,
+pareçeo me tambem neçessario e conueniente aos louuores da terra denunçiar
+neste Capitullo a Riqueza dos metais q̃ affirmaõ auer por ella dentro prouãdo
+tudo isto com pessoas q̃ o acharão, virão, e experemẽtarão: e amaneira como se
+descobrio foi esta q̃ se sege.
+</p>
+
+<p>
+A esta Capitania de porto seguro chegarão certos indios do sertão a dar nouas
+dũas pedras verdes que auia nũa serra muitas legoas pella terra dentro, e
+traziaõ alguãs dellas por amostra, as quais erão esmeraldas mas não de muito
+preço. E os mesmos indios dezião q̃ daquellas auia muitas, e que esta serra era
+muj fermosa e Resplandeçente. Tanto q̃ os moradores desta Capitania disto forão
+certificados fezeraõ se prestes sincoẽta ou sesenta portugeses com algũs indios
+da terra e partirão pello sertão dentro com determinção de chegar aesta serra
+onde estas pedras estauaõ. Hia por capitão desta gente hũ martim carualho que
+agora he morador da Bahia de todollos sanctos, Entrarão pella terra alguãs
+dozentas e vinte legoas, onde as mais das serras q̃ acharão e virão erão de mui
+fino christal e toda terra ẽ si mui fragosa, E outras muitas serras de hũa
+tarra azullada, nas quais affirmão auer muito ouro porque indo elles por antre
+duas serras destamaneira forão dar nũ Ribeiro que pello pee dũa dellas deçia
+noqual acharão antre area hũs grãos meudos amarellos, osquais algũs homẽs
+apalparaõ com os dentes e acharão nos brãdos mas naõ se desfazião, finalmente
+que todos assentaraõ ser aquillo ouro nẽ podia ser outro metal pois omesmo ouro
+desta maneira nasçe nas partes onde o ha. Apanharão destes graõs antre area do
+Ribeiro quantidade dum punhodo os quais acharaõ muito pezados que tambem era
+proua de ser ouro; disto naõ fezerão mais experiençia por ser aquillo no
+deserto e auer muitos dias q̃ padeçiaõ grãde fome nem comião outra cousa senaõ
+semente deruas e algũa cobra que matauão. passarão adiante determinando avinda
+tornar por alli a perçebidos de mantim<sup>tos</sup> pera buscarẽ a serra mais
+devagar donde aquelle ouro deçia ao Ribeiro. acharaõ pellos matos muita
+canafistola, e por este caminho acharão outros m<sup>tos</sup> metais que naõ
+conheceraõ, nẽ podiam esperar pellas gerras dos indios que se alleuantauaõ
+contraelles. Algũs indios lhes deraõ noticia segundo a mençaõ que fazião q̃
+podiam estar cem legoas da serra das pedras verdes que hiaõ buscar e que não
+auia muito dalli ao peruú finalmẽte q̃ cõ os imigos que Recreçião e pella gente
+q̃ adoeçia tornaraõ se outra vez em almadias por hũ Rio que se chama Cricaré,
+onde se perdeo nũa cachoeira a canoa emque vinhaõ os grãos douro q̃ traziaõ
+pera mostra. Nesta viagẽ gastarão oito mezes e assi desbaratados chegarão aesta
+Capitania de porto seguro. Os que deste perigo escaparaõ affirmão auer
+naquellas partes muito ouro segũdo asmostras e os Signais que acharão: e se la
+tornar gente aperçebida como cõuem contoda prouisaõ neçessaria, e leuarem
+pessoas que disto conheçaõ dizẽ que se descobrirão nesta terra grandes minas.
+</p>
+
+<p>
+Quisera esereuer mais meudamente das particullaridades desta prouinçia do
+brasil, mas porque satisfezesse atodos com breuidade guardeime de ser comprido
+posto q̃ os louuores da terra pedissem outro liuro mais copioso E de maior
+vollume onde se comprehendessẽ por extenço as exçellencias e diuersidades das
+cousas q̃ ha nella pera Remedio e porueito dos homẽs que la forẽ viuer. E por
+que a felliçidade e augmẽto desta prouinçia consiste em ser pouoada de muita
+gẽte, naõ auia dauer pessoa pobre nestes Reinos q̃ naõ fossem viuer aestas
+partes com fauor de .S.A. onde os homẽs viuẽ todos abastados e fora das
+neçessidades que cá padeçem. E desta maneira permittira Deos que floreça tanto
+a terra desta noua lusitania que com ella se augmente muito a coroa destes
+Reinos e seia dos outros enuejada pera que não desejemos terras estranhas
+prometendo esta nossa tanta Riqueza e prosperidade aos q̃ aforẽ buscar pera seu
+Remedio.
+</p>
+
+<p class="center"> Fin.
+</p>
+
+<div style='display:block;margin-top:4em'>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK TRACTADO DA TERRA DO BRASIL ***</div>
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+
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+Defect you cause.
+</div>
+
+<div style='display:block;font-size:1.1em;margin:1em 0; font-weight:bold'>
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg&trade;
+</div>
+
+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+Project Gutenberg&trade; is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of
+computers including obsolete, old, middle-aged and new computers. It
+exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations
+from people in all walks of life.
+</div>
+
+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg&trade;&rsquo;s
+goals and ensuring that the Project Gutenberg&trade; collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg&trade; and future
+generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see
+Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org.
+</div>
+
+<div style='display:block;font-size:1.1em;margin:1em 0; font-weight:bold'>
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+</div>
+
+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation&rsquo;s EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by
+U.S. federal laws and your state&rsquo;s laws.
+</div>
+
+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+The Foundation&rsquo;s principal office is in Fairbanks, Alaska, with the
+mailing address: PO Box 750175, Fairbanks, AK 99775, but its
+volunteers and employees are scattered throughout numerous
+locations. Its business office is located at 809 North 1500 West, Salt
+Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to
+date contact information can be found at the Foundation&rsquo;s web site and
+official page at www.gutenberg.org/contact
+</div>
+
+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+For additional contact information:
+</div>
+
+<div style='display:block;margin-top:1em;margin-bottom:1em; margin-left:2em;'>
+Dr. Gregory B. Newby<br />
+Chief Executive and Director<br />
+gbnewby@pglaf.org
+</div>
+
+<div style='display:block;font-size:1.1em;margin:1em 0; font-weight:bold'>
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+</div>
+
+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+Project Gutenberg&trade; depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+</div>
+
+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To SEND
+DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state
+visit <a href="https://www.gutenberg.org/donate">www.gutenberg.org/donate</a>.
+</div>
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+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+</div>
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+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations. To
+donate, please visit: www.gutenberg.org/donate
+</div>
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+<div style='display:block;font-size:1.1em;margin:1em 0; font-weight:bold'>
+Section 5. General Information About Project Gutenberg&trade; electronic works.
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+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project
+Gutenberg&trade; concept of a library of electronic works that could be
+freely shared with anyone. For forty years, he produced and
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+</div>
+
+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+Project Gutenberg&trade; eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in
+the U.S. unless a copyright notice is included. Thus, we do not
+necessarily keep eBooks in compliance with any particular paper
+edition.
+</div>
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+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+Most people start at our Web site which has the main PG search
+facility: <a href="https://www.gutenberg.org">www.gutenberg.org</a>.
+</div>
+
+<div style='display:block;margin:1em 0'>
+This Web site includes information about Project Gutenberg&trade;,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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--- /dev/null
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..7129356
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #28122 (https://www.gutenberg.org/ebooks/28122)
diff --git a/old/28122-8.txt b/old/28122-8.txt
new file mode 100644
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--- /dev/null
+++ b/old/28122-8.txt
@@ -0,0 +1,1441 @@
+The Project Gutenberg EBook of Tractado da terra do Brasil, by
+Pedro de Magalhães Gandavo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.net
+
+
+Title: Tractado da terra do Brasil
+ no qual se contem a informação das cousas que ha nestas
+ partes feito por P.º de Magalhaes
+
+Author: Pedro de Magalhães Gandavo
+
+Release Date: February 20, 2009 [EBook #28122]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK TRACTADO DA TERRA DO BRASIL ***
+
+
+
+
+Produced by Júlio Reis, Carlo Traverso and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
+file was produced from images generously made available
+by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de
+Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+
+Notas de transcrição:
+
+* a grafia do século XVI era totalmente livre; portanto, nenhum esforço
+foi feito para harmonizar acentos, grafia etc.
+
+* nesta versão em codificação ISO-8859-1 (Latin-1), todos os caracteres
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+rectos
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+* O caracter ^ é usado para denotar texto em superescrito (acima da
+linha)
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+ TRACTADO DATERRA
+ do Brasil no qual Se cõtem
+ a informaçaõ das
+ cousas que ha nestas
+ partes feito por
+ P^o de magalha[~e]s.
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+Ao muy alto e Serenìssimo Principe dom Anrrique Cardeal Iffante de
+portugal.
+
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+Posto que os dias passados apresentei outro s[~u]mario da terra do
+brasil a elRei nosso snõr, foi por comprir primeiro com esta obrigação
+de vassallo que todos deuemos anosso Rei: e por esta razáo me pareçeo
+cousa mui necessaria, (muýto Alto e serenissimo snõr) offereçer tambem
+este a V. A. aqu[~e] se deuem Refirir os louuores e acreçentamento das
+terras [~q] nestes Reinos floreçem: pois sempre deseiou tanto
+augmentallas e conseruar seus subditos e vassallos [~e] perpetua paz.
+
+Como eu isto entenda, e conheça quam aççeitos saõ os bõs seruiços a V.
+A. que ao Reino se fazem imaginei comigo que podia trazer destas partes
+com que desse testemunho de minha pura tençaõ: e acheý que naõ se podia
+d[~u] fraco hom[~e] esperar maior seruiço (ainda que tal naõ pareça)
+que lançar maõ desta informaçaõ da terra do Brasil (cousa [~q] ategora
+naõ imprendeo pessoa alg[~u]a) pera [~q] nestes Reinos se deuulge sua
+fertillidade e prouoque amuitas pessoas pobres que se vaõ viuer aesta
+prouinçia, que nisso consiste a felliçidade e augmento della. E porque
+V. A. sabe quanto seruiço de Deos e delRei nosso Snõr seýa esta
+denunçiaçaõ determineý collegilla com deliberaçaõ de a offereçer a V. A.
+aqu[~e] humilmente peço ma Reçeba, e com tamanha merçe ficarei
+satisfeito Rogando a nosso Sñor lhe de prosperos e largissimos annos de
+vida e deixe permaneçer Seu Real estado emperpetua filliçidade. am[~e].
+
+Humilde vassallo de V. A. Pero de magalhães
+
+
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+
+Prollogo Ao lector.
+
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+Minha tençaõ naõ foi outra neste summario (discreto e corioso lector)
+senaõ de nunçiar em breues pallauras a fertillidade e abundançia da
+terra do brasil, pera que esta fama venha a notiçia de muitas pessoas
+que nestes Reinos viuem com pobreza, e naõ duuidem escolhelha pera seu
+Remedio: por[~q] a mesma terra he tam natural e fauorauel aos estranhos
+que a todos agazalha e conuida com Remedio por pobres e desemparados que
+seiaõ. Eassy cada vez se vay fazendo mais prospera, e depois [~q] as
+terras viçosas se forem pouoando (que agora estaõ desertas por falta de
+gente) haõ se de fazer nellas grossas fazendas como ia estaõ feitas nas
+[~q] possuem os moradores da terra, etambem se espera desta prouinçia
+que por tempo floreça tanto na Requeza como as Antilhas de Castella por
+que he çerto ser en si aterra mui riqua e auer nella m^{tos} metais,
+osquais ategora se naõ descobr[~e] ou pornaõ auer gente na terra pera
+cometer esta impreza, outambem por negligençia dos moradores que se naõ
+querem despor aesse trabalho: qual seja a causa por que o deixaõ de
+fazer naõ sei. Mas permittira nosso snõr que ainda em nossos dias se
+descubrã nella grãdes thezouros, assy pera seruiço e augm[~e]to de S. A.
+como pera porueito de seus vassallos que o deseião seruir.
+
+
+
+
+Declaracão da costa.
+
+
+Esta costa do brasil está pera a parte do occidente, corre se de norte e
+sul. Da primeira pouoaçaõ a tederradeira ha trez[~e]tas e sincoenta
+legoas. Saõ oito capitanias todas tem portos mui seguros onde pod[~e]
+entrar quais quer naos por grandes que seiaõ. Naõ ha pella terra dentro
+pouoações de portugeses por causa dos indios que naõ no consente,
+etambem pello soccorro e tractos do Reino lhes he neçessario estarem
+iunto domar pera ter[~e] comunicação de mercadorias. E por este Respeito
+viu[~e] todos junto da Costa.
+
+
+
+
+Cap. 1.^o da capitania de Tamaracá.
+
+
+A pouoaçaõ da primeira capitania e mais antiga está nuã ilha que se
+chama Tamaracá pegada com aterra firme, tem tres legoas de comprido e
+duas de largo: t[~e] trinta e sinco legoas de terra pella costa pera o
+norte. He de dona Jeronima dalBuquerque molher que foi de Pero Lopez de
+Sousa naqual tem posto Capitaõ de sua maõ. ha nella h[~u] engenho
+dassucre, e agora se faz[~e] dous nouam[~e]te, e muito pao do brasil e
+algodaõ. Pode ter ate ç[~e] vezinhos. Ha nesta capitania muitas e boas
+terras pera se pouoarem e fazerem nellas fazendas.
+
+
+
+
+Cap. 2.^o da capitania de Phernãbuco.
+
+
+[Nota lateral: Noua Lusitania a chamã muytos pollas frequ[~e]cia, é
+policia]
+
+[Nota lateral: agora som .60. anno de 1587.]
+
+A capitania de Phernambuco está sinco legoas de Tamaracá pera o sul em
+altura de oito graos, daqual he capitaõ e gouernador Duarte coelho
+dalBuquerque. Tem duas pouoações, a prinçipal se chama Olinda, a outra
+Guarassú que esta quatro legoas pella terra dentro. Auera nesta
+capitania mil vezinhos. Tem =vinte etres= engenhos dassucre, posto que
+tres ou quatro delles naõ saõ ainda acabados.
+
+[Nota lateral: agora quatro mil [~q] sam todas as arrouas [~q] se librã
+aqui, 240. M.]
+
+Alg[~u]s moem com bois aestes chamã tripiches, fazem menos assucre que
+os outros. mas amaior parte dos engenhos do brasil mo[~e] com agoa. Cada
+engenho destes h[~u] poroutro, faz =trez= mil arrobas cadano. nesta
+capitania se fazem mais assucres que nas outras, porque ouue anno que
+passaraõ de sincoenta mil arrobas, ainda que o Rendimento delles naõ he
+çerto, saõ segundo asnouidades e os tempos que se offereç[~e]. Esta
+seacha huã das Ricas terras do brasil, tem muitos escrauos indios [~q]
+he aprinçipal fazenda daterra. Daqui os leuaõ e compram pera todellas
+outras capitanias, porque ha nesta muitos, emais baratos que entoda
+costa. ha muitos pao do brasil e algodaõ de que enrriqueç[~e] os
+moradores desta capitania.
+
+[Nota lateral: a este porto se entra por un canal tam estreyto, [~q]
+apenas cabe una náo por elle y sino entra cõ muyto t[~e]to, da en pedra
+viua y perdesse ô qual acõtece muytas vezes aos exprim[~e]tados: por
+isso se chama Paranambuc. [~q] quer dix Mar furado]
+
+O porto onde os nauios entraõ está h[~u]a legoa da pouoaçaõ Olinda
+seruense pella praya e tambem por h[~u] Rio pequeno que vai dar junto da
+mesma pouoaçaõ. Aesta capitania vaõ cadanno mais nauios do Reino que
+anenhuã das outras. Hanella h[~u] mosteiro de padres da companhia de
+Jesus.
+
+
+Rios.
+
+Ha dous Rios caudais ate a Bahia de todollos sanctos. h[~u] se chama de
+saõ francisco, está em dez graos e meyo, oqual entra nomar contanta
+furia [~q] vinte legoas pello mesmo mar correm suas agoas outro Rio está
+em onze graos e dous terços que se chama o Rio Real, tambem he muigrande
+e correm muito suas agoas pello mar.
+
+
+
+
+Cap. 3. da capitania da Bahya de Todollos Sanctos.
+
+
+A Capitania da Bahia de todollos sanctos esta çem legoas de phernãbuco
+emaltura de treze graos. terra del Rei nosso snõr onde Residem os
+gouernadores e bispo e ouuidor geral de toda costa. esta he a terra mais
+pouoada de portugueses que ha nobrasil. Tem tres pouoaço[~e]s, a
+prinçipal he a cidade do saluador. Aoutra se chama Villa Velha que esta
+junto da barra, Esta pouoaçaõ foi aprimeira que ouue nesta capitania: de
+pois Thome de Sousa Sendo gouernador edificou esta cidade do saluador
+mais adiãte meýa legoa ao longo da Bahia por ser lugar mais comueniente
+e porueitoso pera osmoradores da terra. Quatro legoas pella terra dentro
+está outra[~q] se chama Paripé. pode auer nesta capitania mil e çem
+vezinhos. Tem dez oito engenhos, alg[~u]s sefazem nouam[~e]te: tambem se
+tira delles muito assucre, ainda que osmoradores se lançã mais
+aoalgodaõ que a canas dassucres porque se daa milhor naterra.
+
+Dentro da çidade está h[~u] mosteiro de padres da companhia de Jesus,
+noqual tem colegio onde ensinã latim e casos de consçiençia. Afora este
+ha sinco igreias pella terra dentro antre os indios forros onde
+Resid[~e] alg[~u]s padres pera fazer[~e] christaõs e casarem osmesmos
+indios por naõ estar[~e] amãçebados.
+
+Esta capitania tem huã bahya mui grande e fermosa, he tres legoas de
+largo e nauegase quinze porella dentro. t[~e] muitas ilhas de terras mui
+viçosas quedaõ infinito algodaõ, diuidese em muitas partes esta bahia:
+etem muitos braços e enseadas dentro. Os moradores da terra todos se
+seruem porella cõ barcos pera suas fazendas.
+
+
+Rios.
+
+Doze legoas desta bahia de todollos sanctos esta h[~u] Rio que se chama
+Tinharée onde se Recolhem muitas embarcações [~q] passã, pera as outras
+capitanias. Tres legoas por elle dentro está h[~u] engenho dum Bastiã
+de ponte, junto doqual estaõ muitas terras perdidas por falta de
+moradores, dasquais se consegiria muito porueito se as pouoassem. Mais
+auante seis legoas esta h[~u] Rio que se chama Camamù em treze graos e
+dous terços, no qual pod[~e] entrar quais quer naos seguramente. quatro
+sinco legoas porelle dentro. Ao longo deste Rio ha terras mui viçosas e
+muitas agoas pera se poder[~e] fazer engenhos dassucre, as quais tambem
+se perdem por naõ auer gente que as va pouoar. Tem dentro alguãs ilhas
+de terras mui grossas e acomodadas pera se fazerem nellas muita fazenda.
+Neste mesmo Rio ha muito peixe em estremo, e junto delle muita infinita
+caça de porcos e veados. Aqui se pode fazer huã pouoação onde os
+hom[~e]s viuaõ mui abastados e façaõ muitas fazendas. Ha outro que se
+chama o Rio das contas, está em quatorze graos e meyo, mas naõ he
+tangrande, ainda [~q] tambem entrão nelle alguãs embarcações. Entodos
+estes Rios ha muita abundançia de peixes e de Caça.
+
+
+
+
+Cap. 4^.o da capitania dos Ilheos.
+
+
+A Capitania dos Ilheos está trinta legoas da Bahia de todollas sanctos
+em quatorze graos e dous terços. he de francisco giraldez na qual tem
+posto capitaõ de sua maõ. Pode auer nella dozentos vezinhos. Tem h[~u]
+Rio onde os nauios entraõ oqual está junto da pouoaçaõ. diuidesse
+emmuitas partes pella terradentro, seru[~e]se os moradores porelhe pera
+suas fazendas em almadias. ha nesta capitania oito engenhos dassucre.
+dentro da pouoação está h[~u] mosteiro de Padres da companhia de Jesus
+[~q] agora se faz nouamente.
+
+Sete legoas da mesma pouoaçaõ pella terra dentro está huã lagoa dagoa
+doçe [~q] tem tres legoas de comprido e tresde largo etem dez quinze
+braças de fundo e dahi pera sima. Sae della h[~u] Rio pequeno pello qual
+vaõ la ter barcos. t[~e] esta lagoa h[~u] bocal neste Rio tam estreito,
+que apenas cabe h[~u] barco por elle, e depois que anda dentro quasi naõ
+sabe determinar por onde entrou. Ten, tanta abundançia dagoa que podem
+andar nella quais quer naos por grãdes que seiaõ a vella: e assy quando
+v[~e]ta muito, alleuantam se alli ondas tam foriosas como se fosse no
+meyo do mar comtormenta. Tem muita infinidade de peixes grandes e
+pequenos. Criamse nella muitos Peixes bois os quais tem o foçinho como
+de boi e dous cotos com que nadaõ amaneira de braços, naõ tem nenhuã
+escama n[~e] outra feiçaõ de peixe se naõ o Rabo. Matamnos com
+arpo[~e]s, saõ tam gordos e tamanhos [~q] alg[~u]s pezaõ trinta corenta
+arrobas. he h[~u] peixe muito sabroso e totalmente pareçe carne e assy
+tem o gosto della, assado pareçe lombo de porco ou de veado, cozese com
+couves e guizase como carne, n[~e] pessoa alguã o come que o tenha por
+peixe saluo se o conheçer primeiro. As femeas tem duas mamas pellas
+quais mamão os filhos e criamse com leite (cousa [~q] se naõ acha noutro
+peixe alg[~u]) tambem ha destes emalguãs bahias e Rios desta costa, e
+posto que se cri[~e] no mar, custumã beber agoa doçe porisso acodem
+muitos aesta lagoa, ou a parte onde alg[~u] Ribeiro se meta no mar.
+Tambem ha muitos tubaro[~e]s nesta lagoa, e lagartos e muitas cobras, E
+achamse nella outros mõstros marinhos de diuersas maneiras. Ha muitas
+terras e mui viçosas orredor della, e muita caça, E neste rio que sae da
+lagoa muita fertilidade de peixe. Finalmente que huã das abastadas
+terres de mantimentos [~q] que ha no Brasil he esta capitania dos
+ilheos.
+
+
+
+
+Cap. 5.^o duã nascaõ de gentio [~q] se acha nesta Capitania.
+
+
+Pellas terras desta capitania ate junto do Spiro sancto, se acha h[~u]a
+çerta nasçaõ de gentio que veo do çertaõ ha sinco ou seis annos, e dizem
+[~q] outros indios contrarios destes, vierão sobrelles a suas terras, e
+os destruiraõ todos e os que fogiraõ saõ estes [~q] andaõ pella costa.
+chamãse Aýmores, a lingoa delles he differente dos outros indios,
+ning[~e] os entende, saõ delles tam altos e taõ largos do corpo [~q]
+quasi pareç[~e] gigantes. Saõ mui aluos naõ tem pareçer dos outros
+indios da terra n[~e] tem casas n[~e] pouoaço[~e]s onde mor[~e], viu[~e]
+antre os matos como brutos animais: saõ mui forçosos em estremo, trazem
+h[~u]s arcos mui compridos e grossos conforme a suas forças e as frechas
+da mesma maneira. Estes indios tem feito muito dano aos moradores de
+pois que vieraõ aesta costa e mortos alg[~u]s portugeses e escrauos
+por[~q] saõ imigos de toda gente. Naõ pelleyaõ em campo n[~e] tem animo
+pera isso, po[~e] se antre omato junto dalg[~u] caminho e tanto [~q]
+passa algem attiraõlhe ao coraçaõ ou aparte onde o matem e naõ despedem
+frecha que naõ na empregem. finalmente que naõ tem Rosto direito
+aning[~e] senaõ a treiçaõ fazem a sua. As molheres trazem h[~u]s paos
+tostados comque pelleiaõ. Estes indios naõ viuem senaõ pella frecha, seu
+mantim[~e]to he caça bichos e carne humana fazem fogo de baixo do chaõ
+pornaõ ser[~e] sentidos n[~e] saberem onde andaõ. Muitas terras viçosas
+estaõ perdidas junto desta capitania, as quais naõ saõ possuidas dos
+Portugeses por causa destes indios. Naõ se pode achar Remedio pera os
+destruirem por[~q] naõ tem morada certa, nem saem nunca dantre o matto:
+E assi quando cuidamos [~q] vaõ fogindo ante qu[~e] os persege entaõ
+ficam atraz escondidos e atiraõ aos que passaõ descuidados, Desta
+maneira mataõ alguã gente. todos quantos indios ha no brasil saõ seus
+imigos e tem[~e]nos muito porque he gente atreiçoada. E assy onde os ha
+nenh[~u] morador vai a sua fazenda por terra [~q] naõ leue quinze vinte
+escrauos consigo de arcos e frechas. Estes Aymores são mui feros e
+crueis, naõ se pode cõ pallauras encareçer a dureza desta g[~e]te. Naõ
+andaõ todos juntos, derramamse por muitas partes, equando sequerem
+ajuntar assubiã como passaros ou como bogios demaneira que h[~u]s aos
+outros se entendem e se conheç[~e]. Tambem os portugeses mataõ alg[~u]s
+delles, e tem muitos destruidos, principalmente nesta capitania dos
+ilheos, eguardaõse muito delles por que ja sabem suas manhas e
+conheç[~e] muibem sua mallicia.
+
+
+
+
+Cap. 6. da Capitania de Porto seguro.
+
+
+A capitania de Porto seguro está trinta legoas dos jlheos em dezaseis
+graos e meýo. He do Duque daueiro, na qual tem posto capitaõ de sua maõ.
+Tem tres pouoaço[~e]s a prinçipal he porto seguro que está junto do
+porto onde os nauios entraõ. outra está dahi huã legoa [~q] se chama
+sancto amaro outra Sancta Cruz que está dahi quatro legoas pera o norte.
+pode auer nesta capitania dozentos e vinte vezinhos. Tem sinco engenhos
+dassucre. Ha nella h[~u] mosteiro de padres da companhia de Jesus.
+Tambem chegaõ aesta capitania os Aymorés e fazem nella dano aos
+moradores como nos ilheos. he terra mui abastada de caça, e de peixes
+que mataõ no Rio que está junto da pouoacaõ.
+
+
+
+
+Cap. 7.^o da Capitania do spirito sancto.
+
+
+A Capitania do spirito sancto está sinco[~e]ta, legoasde Porto seguro
+em vinte graos, da qual he capitaõ e gouernador Vasco fernandes
+coutinho. Tem h[~u] engenho somente, tira se delle omilhor assucre [~q]
+ha entodo Brasil. Ha nella muito algodaõ e pao do brasil. Pode ter ate
+cento e oitenta vezinhos, Ha dentro da pouoaçaõ h[~u] mosteiro de padres
+da Companhia de Jesus. Tem h[~u] Rio muj grande onde os nauios entraõ,
+noqual se achaõ mais peixes bois que noutro nenh[~u] Rio desta Costa. No
+mar junto desta Capitania mataõ grande copia de peixes grandes E de toda
+maneira, e tambem nomesmo Rio ha muita abundançia delles. Nesta
+capitania ha muitas terras e muj largas onde os moradores viu[~e] mui
+abastados assi de mantim[~e]tos da terra como de fazendas. E quando se
+tomou a fortalleza do Rio de Janeiro desta mesma capitania do Spirito
+Sancto sostentaraõ toda gente e proueraõ sempre de mãtim[~e]tos
+neçessarios enquanto esteueraõ na terra os que a defendiaõ.
+
+
+Rios.
+
+Auante desta capitania em altura de vinte e h[~u] graos está o Rio de
+paraiba este he mui grande e fermoso e tem infinito peixe. Junto do cabo
+frio [~e] altura de vinte e dous graos está a Bahia fermosa naqual se
+pode fazer h[~u]a capitania de muitos vezinhos onde tambem se perdem
+muitas terras por falta de gente. Outros muitos Rios ha nestas partes
+[~q] deixo descreuer por serem pequenos e naõ se fazer tanto caso
+delles, n[~e] minha tençaõ foi outra senaõ tractar destes mais notaueis
+onde se podem fazer alguãs pouoaço[~e]s e cõsegir porueito das terras
+viçosas que poresta costa estaõ desertas.
+
+
+
+
+Cap. 8.^o da Capitania do Rio de Janeiro.
+
+
+A Capitania do Rio de Janeiro cidade de sam Sebastiaõ está sesenta
+legoas do Spirito Sancto em vinte e tres graos e h[~u] terço, terra
+delRei nosso snõr. Pode ter pouco mais ou menos cento e corenta
+vezinhos, agora se começa de pouoar nouamente. Esta he amais fertil e
+viçosa terra que ha no brasil. Tem terras mui singullares e muitas agoas
+pera engenhos dassucre. Ha nella muito infinito pao do brasil de que os
+moradores da terra faz[~e] muito porueito. Esta capitania tem h[~u] Rio
+mui largo e fermoso diuide se dentro emmuitas partes, e quantas terras
+estaõ ao longo delle se podem aporueitar, assy pera Roças de mantimentos
+como pera canas dassucres e algodo[~e]s, porque saõ muj viçosas e
+milhores de quantas ha por toda esta costa. ha nesta çidade h[~u]
+mosteiro de padres da companhia de Jesus, os quais tambem augmentaraõ
+muito esta terra e deseiaõ muito vella pouoada de muitos moradores,
+por[~q] saõ tomo digo as terras desta capitania mui largas e sabem quam
+porueitosas saõ pera toda gente pobre que as for possuir. E por tempo
+haõ se de fazer nellas grãdes fazendas: eosque la forem viuer com esta
+esperança naõ se acharão enganados.
+
+
+
+
+
+Cap. 9.^o da Capitania de SanViçente.
+
+
+A Capitania de sanviçente está sesenta legoas do Rio de Janeiro em Vinte
+equatro graos, he de pero lopez de sousa, naqual tem posto capitaõ de
+sua maõ: esta e o Rio de Janeiro saõ as mais frias terras que ha no
+Brasil, gea nellas em tempo de inuerno quasi como neste Reino. Nesta
+capitania se deu ja trigo, mas naõ no quer[~e] semear por auer na terra
+outros mantim[~e]tos de menos custo. Tem tres pouoações, e huã
+fortalleza [~q] está nuã ilha junto da terra firme quatro legoas pera
+onorte que se chama Britioga, daqui deffendem esta capitania dos indios
+e françeses com artelharia que ha na mesma fortalleza. Aprinçipal
+pouoaçaõ se chama sanctos onde está h[~u] mosteiro de padres da
+companhia de Jesus. Aoutra mais avãte ao longo do Rio huã legoa he Sam
+Viçente, tambem ha nella outro mostr.^o de padres da companhia. Pella
+terra d[~e]tro dez legoas edificarão os mesmos padres huã pouoação antre
+os indios que se chama o Campo naqual Viuem muitos moradores, amayor
+parte delles são mamalucos filhos de portugueses e de indias da terra.
+Aqui e nas mais Capitanias tem feito estes padres da companhia grande
+fruito e fazem com que a terra va em muito creçim[~e]to, trabalhaõ por
+fazer christaõs a muitos indios, e metem muitas pazes antre os hom[~e]s,
+tãbem faz[~e] Restituir as liberdades de muitos indios que alg[~u]s
+moradores da terra tem mal Resgatados: assy que sempre acodem aos que se
+desuiaõ do seruiço de Deos e de S. A.
+
+Auera nesta capitania quinhentos vezinhos, tem quatro engenhos
+dassucre, E muitas terras viçosas de que os moradores tiraõ muitos
+mantim[~e]tos e fazenda e viu[~e] todos mui abastados. Estahe a ultima
+Capitania [~q] ha nestas partes do Brasil.
+
+
+
+
+Tractado segundo das cousas que são gerais por toda Costa do Brasil
+
+
+
+
+
+Cap. 1.^o das fazendas da terra
+
+
+Os moradores desta costa do Brasil todos tem terras de sesmaria dadas e
+Repartidas pellos capita[~e]s da terra, e a primeira cousa que pretendem
+alcansar, saõ escrauos pera lhes fazer[~e] e grangear[~e] suas Roças e
+faz[~e]das por que sem elles não se pode[~e] sustentar na terra: E huã
+das cousas por[~q] o Brasil naõ floreçe muito mais, he pellos escrauos
+que se alleuantaraõ e fogiraõ pera suas terras, e fogem cada dia: E se
+estes indios naõ foraõ tam fogitiuos e mudaueis, não teuera comparaçaõ
+a Riqueza do Brasil. As fazendas donde se consige mais porueito saõ
+assucres, algodo[~e]s e pao do brasil, cõ isto fazem pagamento aos
+mercadores que deste Reino lhes leuão fazenda porque o dinheiro he pouco
+na terra, e assy vend[~e] e trocã h[~u]a mercadoria por outra em seu
+justo preço. Quantos moradores ha na terra tem Roças de mantim[~e]tos, e
+v[~e]d[~e] muitas farinhas de pao h[~u]s aos outros, de que tambem tiraõ
+muito porueito.
+
+
+O mais gado que ha nesta costa saõ bois e vacas, deste ha muita
+abundançia [~e] todallas capitanias, porque saõ as heruas muitas e
+sempre a terra esta cuberta de verdura, ainda que em porto seguro naõ
+sequer[~e] dar nenh[~u]as vacas senão o primeiro anno, no qual engordaõ
+tanto que do muito viço dizem que morr[~e] todas. Cabras e ouelhas ha
+muito poucas ategora, começaõ de multiplicar nouamente; as cabras se daõ
+melhor que as ouelhas E parem dous tres filhos de cadauez. fazem os
+moradores da terra muito por esta criação. Tambem ha egoas e cauallos,
+mas ainda saõ caros por naõ auer muitos na terra, leuaõ nos do cabo
+verde pera la edaõ se muito bem na terra.
+
+
+Achase tambem por esta costa muito Amber que omar de sy lança fora as
+mais das vezes quando faz tormenta e saõ agoas viuas, entaõ ha muitas
+pessoas que mãdã seus escrauos pella praya buscallo nos lugares onde
+custuma sair mais vezes, e muitas vezes aconteçe enriqueçer[~e] alg[~u]s
+assy do que achaõ seus escrauos como do que Resgataõ aos indios forros.
+Seg[~u]do a dita e ventura de cada h[~u]. Os panos que nesta terra se
+faz[~e] são dalgodaõ, todo mais vay deste Reino. E assy ha tambem muitos
+escrauos de guine: estes saõ mais seguros [~q] os indios da terra por
+que nunca fog[~e] n[~e] tem pera onde. Ha tambem muita criaçaõ de porcos
+e muitas galinhas adens e patos da terra. Estas saõ as fazendas [~q]
+possu[~e] os moradores do brasil.
+
+
+
+
+Cap. 2.^o dos custumes da terra
+
+
+As pessoas que no brasil querem viuer tanto que se fazem moradores da
+terra por pobres que seiaõ se cada h[~u] alcançar dous pares ou
+meyaduzia descrauos ([~q] pode h[~u] por outro custar pouco mais ou
+menos ate dez cruzados) logo tem Remedio pera sua sostentação por[~q]
+h[~u]s lhe pescam e caçaõ outros lhe fazem mantimentos e fazenda e assy
+pouco a pouco enRiqueç[~e] os hom[~e]s e viuem honrradam[~e]te na terra
+com mais descanso [~q] neste Reino, por[~q] os mesmos escrauos indios da
+terra buscam de comer pera si e pera os senor[~e]s, e desta maneira naõ
+fazem os hom[~e]s despeza com seus escrauos em mãtimentos n[~e] com
+suas pessoas.
+
+A maior parte das camas do Brasil saõ Redes, as quais armaõ nuã casa com
+duas cordas e lançaõse nellas a dormir. este custume tomaraõ dos indios
+da terra.
+
+Os moradores destas capitanias tratamse muito bem e saõ mais largos que
+a gente deste Reino, assy no comer como no vestir de suas pessoas, e
+folgam dajudar h[~u]s aos outros com seus escrauos e fauorec[~e] muito
+os pobres que começãoviuer na terra. Isto se custuma nestas partes: e
+fazem outras muitas obras pias por onde todos tem Remedio de vida e
+nenh[~u] pobre anda pellas portas a pedir como neste Reino.
+
+
+
+
+Cap. 3.^o das callidades da terra.
+
+
+Ha nestas partes do Brasil seis meses de verão e seis de inuerno: os de
+verão são de setembro ate feuereiro, os de inuerno de março ate agosto.
+Assy que quando nesta prouinçia do brasil he inuerno cá nestes Reinos he
+verão, eos dias quasi s[~e]pre saõ tamanhos como as noites, huã ora
+som[~e]te creç[~e] emingoão. Cursaõ sempre ventos gerais, no inuerno
+seis meses sul é sueste no verão nordeste. Sempre correm as agoas com o
+vento por costa, E por isso senaõ pode nauegar de h[~u]as capitanias
+pera outras se naõ esperar[~e] por mouções pera irem com as agoas e com
+o vento, porque cursaõ como digo seis meses duã parte e seis doutra e
+portanto saõ muitas veses as viagens vagarosas e quando vão contra tempo
+as embarcaço[~e]s corr[~e] muito Risco e arribaõ as mais das vezes ao
+porto donde sairaõ. Mete se no meyo e na força deste verão oito dias
+ante os Sanctos huã tormenta de vento sul que dura huã sommana, este he
+mui çerto e geral, n[~u]ca se acha, que naquelles dias faltasse. Muitas
+embarcações esperão por este vento e fazem com elle suas viagens. Esta
+terra sempre he quente quasi tãto no inuerno como no verão. A viraçaõ do
+vento geral entra ao meyo dia, pouco mais oumenos, he tam fresco este
+v[~e]to e tam frio [~q] naõ se sente mais calma, e ficam Recreados os
+corpos das pessoas. Dura este vento do mar a te de madrugada, torna
+dalli acalmar outra vez por causa dos vapores da terra [~q] o apagam e
+quãdo amanheçe está o ceo todo cuberto de nuuens e as mais das manhãs
+choue nestas partes e a terra fica toda cuberta de neuoa por que tem
+muitos aruoredos e chama a sy todos estes humores. Etanto [~q] este
+geral acalma começa a ventar da terra h[~u] vento brando que nella se
+gera, a te que o sol con sua quentura o torna apagar e alimpa tudo outra
+vez e faz ficar odia claro e sereno, entrão logo [~e]tra o vento do mar
+acustumado. Este vento da terra he mui perigoso edoentio e se açerta de
+permaneçer alg[~u]s dias morre muita gente assy portugeses como indios
+da terra, mas quer nosso snõr que acõteça isto poucas vezes, e tirado
+este mal he esta terra mui sallutifera e de bõs ares onde as pessoas se
+achaõ bem despostas e viuem muitos annos prinçipalmente os velhos tem
+milhor despossiçaõ e pareç[~e] que tormã a Renouar e porisso alg[~u]s se
+naõ quer[~e] tornar a suas patrias temendo que nellas se lhes offereça
+amorte mais çedo. os ares de pella manhaã saõ mui frescos e sadios:
+muitas pessoas se custumaõ alleuãotar çedo por que se aporueitem delles
+enquanto tem esta vertude. A terra em si he lassa e deleixada achãose
+nella os hom[~e]s alg[~u] tanto fracos e mingoados das forças que
+possuem cá neste Reino por Respeito da quentura e dos mantimentos que
+nella vsaõ, isto he enquanto as pessoas saõ nouas na terra, mas de pois
+[~q] por tempo se acustumão ficão tam Rijos e bem despostos como se
+aquella terra fora sua mesma patria. Manda se dar nesta terra aos
+infermos carne de porco, pera qual quer doença he porueitosa e naõ faz
+mal a nenhuã pessoa: o peixe tãbem tem a mesma callidade e poem muita
+sustançia aos doentes. Esta terra he mui fertil e viçosa, toda cuberta
+de altissimos e frondosos aruoredos permaneçe sempre a verdura nella
+inuerno e veraõ, isto causa chouerlhe muitas vezes e naõ auer frio que
+offenda ao que produz a terra. Ha por baixo destes aruoredos grande mato
+e muj basto e detalmaneira está escuro e serrado em partes que nunca
+parteçipa o chaõ da qu[~e]tura n[~e] da claridade do sol, e assy está
+sempre humido e manãdo agoa de sý. As agoas que na terra se bebem saõ
+mui sadias e sabrosas, por muita [~q] se beba naõ prejudica a saude da
+pessoa, a mais della se torna logo a suar e fica o corpo desaliuádo e
+saõ. Finalm[~e]te que he esta terra tã delleitosa e temperada [~q]
+n[~u]ca nella se sente frio n[~e] quentura sobeja.
+
+
+
+
+Cap. 4.^o dos mantimentos da terra.
+
+
+Nestas partes do Brasil não semeão trigo nem se da outro mantimento
+alg[~u] deste Reino. o que la se come em lugar de paõ he farinha de pao:
+Esta se faz da Raiz duã pranta que se chama mandioca, aqual he como
+jnhame. E tanto que se tira de baixo da terra, está cortindo se em agoa
+tres quatro dias E depois de cortida pizaõ na ou Rellaõ na muito bem e
+espremem na da quelle sumo de talmaneira que fique bem escorrida por[~q]
+he aquella agoa que sae della tam pessonhenta que qualquer pessoa ou
+animal que a beber logo naquelle instante morre: assy que de pois de a
+terem deste modo curada, poem h[~u] alguidar grande sobre o fogo e como
+se aquenta, botaõ aquella mandioca nelle E por espaço de meya ora está
+naquella quentura cozendose, dally atiraõ E fica temperada pera se
+comer. ha todauia farinha de duas maneiras huã se chama de gerra, E
+outra fresca, a de gerra he muito seca, fazemna desta maneira peradurar
+muito e naõ sedanar: afresca he mais branda e t[~e] mais sustançia,
+finalmente que naõ he taõ aspera como a outra, mas naõ dura mais que
+dous tres dias como passada qui logo se dana. Desta mesma mandioca fazem
+outra maneira de mantimentos que se chamaõ beijuús, saõ mui aluos e
+mais grossos [~q] obreas: destes vsaõ muito os moradores da terra porque
+saõ mais sabrosos e demilhor desistaõ que a farinha. Outra Raiz ha duã
+pranta que se chama Aýpim daqual fazem h[~u]s bollos que pareçem paõ
+fresco deste Reino e tambem se come assada como batata, de toda maneira
+se acha. nella m^{to} gosto. Tambem ha naterra muito milho zaburro, este
+se daa em todallas capitanias E faz h[~u] paõ muito aluo. ha nesta terra
+muita copia de leite de vacas, muito arroz, faua feigo[~e]s muitos
+inhames e batatas, E outros legumes [~q] fartaõ muito a terra. Ha muita
+abundançia de marisco e de peixe portoda esta costa. Com estes
+mantimentos se sustentaõ os moradores do Brasil sem fazerem gastos nem
+deminuir[~e] nada em suas faz[~e]das.
+
+
+
+
+Cap. 5.^o da caça da terra.
+
+
+Huã das cousas que sostenta e abasta m^{to} os moradores desta terra do
+Brasil, he amuita caça que ha nestes matos de muitos generos e de
+diversas maneiras, aqual os mesmos indios da terra mataõ assy com
+frechas como por industriade seus lassos e fojos onde custumão tomar
+amaior parte della.
+
+Ha muitos veados e muita somma de porcos montezes de muitas castas.
+H[~u]s pequenos ha naterra que tem as çedas mui grossas, asperas e
+crespas, estes tem o embigo nas costas, matam se muitos delles, e
+doutros grandes que naõ saõ desta callidade. Ha muitas antas que quasi
+saõ tamanhas como vacas e pasçem heruas como outro gado qualquer, sua
+carne t[~e] o sabor como de vaca: a pelle deste animal he mui grossa e
+Rija. Ha tambem coelhos mas tem as orelhas doutra maneira mais pequenas
+e Redondas. Ha outros animais maiores que lebres que se chamaõ pacas,
+tambem tem carne m^{to} sabrosa. H[~u]s bichos ha nesta terra [~q]
+tambem se com[~e] e se tem pella milhor caça que ha nomatto. chamãolhes
+Tatús saõ tamanhos como coelhos E tem h[~u] casco amaneira de lagosta
+como de cagado, mas he Repartido em muitas juntas como laminas, pareçe
+totalmente h[~u] caualo armado, tem h[~u] Rabo do mesmo casco comprido,
+o foçinho he como de leitaõ, e naõ bota mais fora do casco [~q] a
+cabeça, tem as pernas baixas E criaõ se em couas a carne delles tem o
+sabor quasi como de gallinha. Esta caça he muito estimada na terra. ha
+tambem muitas gallinhas de mato que os indios mataõ cõ frechas, e
+outras muitas aues mui gordas e sabrosas milhores [~q] pordizes. Desta E
+doutra muita caça ha no brasil m^{ta} ab[~u]dançia.
+
+
+
+
+Cap. 6.^o das fruitas da terra.
+
+
+Huã fruita se da nesta terra do Brasil muito sabrosa e mais prezada de
+q[~u]atas ha. Cria nuã pranta, humilde iunto do chaõ, a qual tem huãs
+pencas como cardo, a fruita della nasçe como alcachofres e pareçem
+naturalmente pinhas e saõ do mesmo tamanho, chamaõ lhes Ananaszes. Ede
+pois de maduros tem h[~u] cheiro muito exçellente, colhemnos como saõ de
+vez, e cõ huã faca tiraõ lhes aquella casca grossa e fazem nos en
+talhadas e desta maneira, se com[~e]. exçedem no gosto aquantas fruitas
+ha neste Reino, e fazem todos tanto por esta fruita, [~q] mandaõ prantar
+Roças delles como de cardaes; aeste nosso Reino trazem m^{tos} destes
+ananazes em conserua. Outra fruyta se cria n[~u]as aruores grandes,
+estas senaõ prantaõ, nasçem pello mato muitas, esta fruita depois de
+madura he muito amarella, saõ como péros Repinaldos compridos, chamão
+lhe cajuus, tem muito sumo, e cria se na ponta desta fruita de fora
+h[~u] caroço como castanha, e nasçe diante da mesma fruita, oqual tem a
+casca mais amargosa que fel, e se tocar[~e] com ella nos beiços dura
+muito aquelle amargor e faz empollar toda boca, pello contrario este
+caroço assado, he muito mais gostoso [~q] am[~e]doa saõ de sua natureza
+mui quentes em estremo. ha naterra tantos destes caroços que os medem
+aos alqueires. Tambem ha huã fruita que lhe chamaõ bananas, e pella
+lingoa dos indios pacouas, ha na terra muita abundançia dellas:
+pareç[~e] se na feiçaõ com pepinos, nasç[~e] nuãs aruores mui tenrras
+enaõ saõ muito altas, n[~e] tem Ramos senaõ folhas mui comprimidas e
+largas. Estas bananas criamse em cachos alg[~u] se acha [~q] tem de
+cento e sincoenta pera cima, e muitas vezes he tam grande o pezo dellas
+que faz quebrar a aruore pello meyo. Como saõ de vez colhem estes
+cachos, e depois de colhidos amadureç[~e], etanto [~q] que estas aruores
+daõ huã fruita, logo as cortaõ por que naõ frutifiçaõ mais que a
+primeira vez, E tornaõ arrebentar pellos pees outras nouas. Esta he huã
+fruita mui sabrosa e das boãs que ha na terra, tem huã pelle como de
+figo aqual lhes lançaõ fora quando as quer[~e] comer E se com[~e] muitas
+dellas fazem damno a saude E causaõ febre aqu[~e] se desmãda nellas. E
+assadas maduras saõ muito sadias E mandaõ se dar aos infermos. Cõ esta
+fruita se mantem amaior parte dos escrauos desta terra, por[~q] assadas
+verdes passaõ por mantim[~e]to Equasi tem sustançia de paõ. Ha duas
+callidades desta fruita, huãs saõ pequenas como figos brojassotes as
+outras saõ maiores e mais compridas. Estas pequenas tem dentro em si huã
+cousa estranha aqual he que quando as cortaõ pello meyo com huã faca ou
+porqualquer parte que seja acha se nellas h[~u] signal amaneira de
+cruçifixo, E assy totalmente o pareçe. Tambem ha huã fruita [~q] se
+chama Aracases, saõ como nespras postoque comaõ muita naõ faz[~e] mal a
+saude. Ha muita pimenta da terra come se verde, queima muito em grande
+maneira. Outras muitas fruitas ha pello mato d[~e]tro de diuersas
+callidades, E saõ tantas que ja se acharaõ pella terra dentro alguãs
+pessoas e sostentaraõ se cõ ellas muitos dias sem outro mantimento
+alg[~u]. Estas que aqui escreuo saõ asque os portugeses tem antre sy em
+mais estima E asmelhores da terra. Alguãs fruitas deste Reino se daõ
+nestas partes-s-muitos mello[~e]s, pepinos e figos de muitas castas,
+Romãs m^{tas} parreiras quedaõ huuas duas tres vezes no anno E tanto que
+huãs se acabaõ, começaõ logo outras nouam[~e]te, E desta maneira n[~u]ca
+esta o brasil sem fruitas. De limo[~e]s e laranjas ha muita infinidade:
+daõ se muito na terra estas aruores de espinho e multiplicaõ mais que as
+outras.
+
+
+
+
+
+Cap. 7.^o da Condiçaõ E Custumes dos indios da terra.
+
+
+Naõ se pode numerar nem compr[~e]der a multidaõ do barbaro gentio que
+semeou a natureza por toda esta terra do brasil por que ningem pode
+pello sertaõ dentro caminhar seguro, n[~e] passar por terra onde naõ
+ache pouoações de indios armados contra todas as naço[~e]s humanas,
+Eassi como saõ muitos permittio Deos que fossem contrarios h[~u]s dos
+outros, E que ouuesse antrelles grandes odios E discordias porque se
+assy naõ fosse os portugeses naõ poder[~i]a viuer na terra nem seria
+possiuel, conquistar tamanho poder de gente, Auia muitos destes indios
+pella costa Junto das capitanias, tudo enfim estaua cheo delles quando
+começarão os Portugeses apouoalla terra, mas por[~q] os mesmos indios se
+alleuãotauaõ contra elles E faziaõ lhes muitas treiço[~e]s, os
+gouernadores E capita[~e]s da terra destruiraõ nos pouco apouco e
+mataraõ muitos delles, outros fogiraõ pera o sertaõ, E assy ficou a
+costa despouoada de gentio aolongo das capitanias. Junto dellas ficaraõ
+alg[~u]as aldeas destes indios que saõde paz e amigos dos portugeses.
+
+Alingoa deste gentio toda pella costa he huã: careçe de tres
+letras-s-naõ se acha nella f, nem L, n[~e] R, cousa digna despanto,
+por[~q] assy naõtem se n[~e] lei, n[~e] Rei e desta maneira viu[~e] sem
+Justiça e desordenadam^{te}. Estes indios andaõ n[~u]s sem cobertura
+alguã assi machos como femeas naõ cobr[~e] parte nenh[~u] de seu corpo e
+trazem descuberto quanto a natureza lhes deu. Viu[~e] todos em aldeas,
+pode auer em cada huã sete oito casas, asquais saõ compridas. feitas
+amaneira de cordoarias e cadahuã dellas está chea de gente duã parte e
+doutra, e cada h[~u] por sy tem sua estançia e sua Rede armada emque
+dorme e assy estaõ todos h[~u]s junto dos outros por ordem, e pello meyo
+da casa fica h[~u] caminho aberto pera se seruir[~e]. Naõ ha comodigo
+antreelles nenh[~u] Rei n[~e] justiça som[~e]te em cada aldea tem h[~u]
+prinçipal [~q] he como capitaõ aoqual obedeç[~e] por vontade e naõ por
+força, morrendo este prinçipal fica seu filho no mesmo lugar naõ serue
+doutra cousa se naõ dir cõ elles a gerra e conselhallos como sehaõ dauer
+na pelleja, mas naõ castiga seus erros n[~e] manda sobrelles cousa alguã
+contra sua vontade. Este prinçipal tem tres quatro molheres, a
+primeirat[~e] em mais conta, e faz della mais caso que das outras, Isto
+tem por estado e por honrra. Naõ adoraõ em cousa alguã n[~e] tem pera sy
+que ha na outra vida gloria pera os bõs, e pena pera os maos, tudo
+cuidaõ que se acaba nesta e que as almas feneçem com os corpos, e assi
+viuem bestialm[~e]te sem ter conta n[~e] pezo, n[~e] medida.
+
+
+Estes indios saõ mui bellicosos e tem sempre grandes gerras h[~u]s
+contra os outros nunca se acha nelles paz n[~e] he possiuel auer
+antrelles amizade porque huãs nasço[~e]s pellejaõ contra outras e
+mataõse muitos delles, e assy vai creçendo o odio cada vez mais e ficaõ
+imigos verdadeiros perpetuamente. As armas com que pellejaõ saõ arcos e
+frechas a cousa que apontar[~e] naõ na erraõ, saõ mui çertos com esta
+arma e mui temidos nagerra, andaõ sempre nella exerçitados. e saõ mui
+inclinados apellejar e muy vallentes e esforçados contra seus
+aduersarios, e assy pareçe cousa estranha ver dous tres mil hom[~e]s
+nus d[~u]a parte e doutra cõ grandes assubios e gritta frechando h[~u]s
+aos outros, e enquanto dura esta pelleja n[~u]ca estaõ com os corpos
+quedos meneãdose duã parte pera outra com muita ligeireza pera que naõ
+possaõ apontar n[~e] fazer tiro em pessoa certa alguãs velhas custumaõ
+apanharlhes as frechas pello chaõ e seruillos emquanto pellejaõ. Gente
+he esta mui atreuida e que teme muito pouco amorte, e quando vaõ agerra
+sempre lhes pareçe que tem çerta a Victoria e que nenh[~u] de sua
+companhia ha de morrer, e quãdo partem dizem vamos matar sem mais
+consideraçaõ e naõ cuidaõ que taõbem podem ser vençidos. Naõ daõ vida
+anenh[~u] catiuo todos mataõ e com[~e], emfim que suas gerras saõ mui
+perigosas, e deu[~e] se ter em muita conta por que huã das cousas que
+desbaratou muitos portugeses foi a pouca estima em [~q] tinhaõ agerra
+dos indios e o pouco caso que faziaõ delles e assy morreraõ m^{tos}
+miserauelmente por naõ se aperçeber[~e] como comuinha, destes ouue
+muitas mortes desestradas: E isto aconteçe cada paço nestas partes.
+
+Quando estes indios tomaõ alg[~u]s contrarios sellogo comaquelle impito
+os naõ mataõ leuaõ nos viuos pera suas aldeas (ou seiaõ portugeses ou
+quaisquer outros indios seus imigos) E tanto que chegaõ a suas casas
+lançaõ h[~u]a corda muj grossa ao pescoço do catiuo pera que naõ possa
+fogir, e armaõ lhe huã Rede em que durma e daõ lhe h[~u]a india moça a
+mais fermosa e honrrada que ha naldea pera [~q] durma com elle, e tambem
+tenha cuidado de o guardar, e naõ vay pera parte que naõ no acompanhe.
+Esta india tem cargo de lhe dar muito bem de comer e beber, e de pois de
+oter[~e] desta maneira sinco ou seis meses ou o tempo que quer[~e]
+determinaõ de o matar, e fazem grandes serimonias e festas aquelles dias
+e aparelhaõ muitos vinhos pera se embebedarem e fazemnos da Raiz duã
+herua [~q] se chama aipim, aqual feru[~e] primeiro e depois de cozida
+mastigaõ na h[~u]as moças virgens, e esprememna n[~u]s potes grãdes e
+dalli atres ou quatro dias o bebem. E o dia que haõ matar este catiuo
+pella manhaã se alguã Ribeira está junto daldea leuaõ no abanhar nella
+comgrãdes cantares e follias, etanto [~q] chegam com elle a aldea,
+attam no pella cinta com quatro cordas cada h[~u]a pera sua parte e tres
+quatro indios pegados em cada ponta destas e assi o leuaõ ao meyo d[~u]
+terreiro e tiraõ tanto por estas cordas que naõ se possa bollir pera
+h[~u]a parte n[~e] pera outra, as maõs lhe deixaõ soltas porque folgam
+de o ver deffender com ellas. Aquelle que o ha de matar empena se
+primeiro com penas de papagayo de muitas coores portodo corpo: ha de ser
+este matador o mais vallente da terra e o mais honrado. Traz na maõ huã
+espada d[~u] pao mui duro e pezado com que custumaõ de matar, e chegase
+ao padeç[~e]te diz[~e]do lhe muitas cousas e ameaçandolhe sua geraçaõ
+que o mesmo ha de fazer a seus parentes, e de pois de oter afrontado com
+muitas pallauras injuriosas dalhe huã grãm pancada na cabeça e logo da
+primeira o mata e lha faz[~e] pedaços. Está huã india velha cõ h[~u]
+cabaço na maõ. E assi como elle cae a code muito de pressa com elle a
+meterlho na cabeça pera tomar os meollos eo sange: tudo emfim cozem
+eassaõ e naõ fica delle cousaque naõ comaõ. Isto he mais por vingança e
+por odio que por se fartar[~e]. De poisque com[~e] a carne destes
+contrarios ficam nos odios confirmados, e sentem muito esta injuria, e
+por isso andaõ sempre a vingarse h[~u]s contra os outros. E se amoça
+que dormia com o catiuo fica prenhe aquella criança que par[~e] de pois
+de criada, mataõ na e com[~e] na e dizem que aquella menina ou menino
+era seu contrario verdadeiro, e porisso estimaõ muito comerlhe a carne e
+vingar se delle. E porque a ma[~y] sabe o fim que haõ de dar aesta
+criança, muitas vezes quando se sente prenhe mataa dentro da barriga, e
+faz conque moua. E aconteçe alguãs vezes affeiçoar se tanto aeste catiuo
+e tomar lhe tanto amor que foge com elle pera sua terra pello liurar da
+morte. E assy alg[~u]s portugeses ha que desta maneira escaparaõ e estaõ
+oje [~e] dia viuos, e muitos indios que do mesmo modo se saluaraõ, ainda
+que saõ alg[~u]s taõ brutos que naõ querem fogir depois de os terem
+presos: porque ouue alg[~u] que estaua ja no terrejro atado pera padeçer
+e dauaõ lhe a vida e naõ quis senaõ que o matassem, dizendo que seus
+parentes o naõ teriaõ por Vallente e que todos correriaõ com elle e
+daqui vem naõ estimar[~e] a morte, e quando chega a quella ora naõ na
+terem em conta n[~e] mostrar[~e] nenhuã tristeza naquelle passo.
+Finalmente [~q] saõ estes indios mui deshumanos e crueis, naõ se mou[~e]
+a nenhuã piedade: viuem como brutos animais s[~e] ordem n[~e] conçerto
+de hom[~e]s saõ muidesonestos e dados a sensuallidade e entregãse aos
+viços como se nelles naõ ouuera Rezaõ de humanos, ainda que todauia
+sempre tem Resquardo os machos eas femeas em seu ajuntamento e mostrã
+ter nisto alg[~u]a vergonha. Todos com[~e] carne humana e tem na pella
+milhor iguoaria de quantas pode auer: naõ de seus amigos com quem elles
+tem paz se naõ dos contrarios. Tem esta callidade estes indios que de
+qualquer cousa que comaõ por pequena que seja haõ de conuidar com ella
+quanta esteuer[~e] presentes, só esta proximidade se acha antrelles.
+Com[~e] dequantos bichos secriaõ na terra, outro nenh[~u] engeitaõ por
+pessonhento que seja somente aranha.
+
+Tem estes indios machos por custume arrãcarem toda barba e naõ
+consent[~e] nenh[~u] cabello em parte alguã de seu corpo, saluo na
+cabeça ainda que orredor della por baixo tudo arrancaõ. As femeas prezaõ
+se muito de seus cabellos e trazem nos muito compridos e penteados e as
+mais dellas emnastrados. Os machos custumaõ trazer[~e] o beiço furado e
+huã pedra no buraco metida por gallantaria outros ha que trazem o Rosto
+todo cheo de buracos e assy pareç[~e] mui feos e disformes: isto lhes
+fazem quando saõ meninos. Tambem alg[~u]s indios andaõ pintados portodo
+corpo, pello qual faz[~e] h[~u]s Riscos de muitas maneiras e po[~e]lhes
+huã çerta tinta e ficam sempre os mesmos Riscos escritos na carne: isto
+naõ traz se naõ qu[~e] tem feito alguã valentia. E assi tambem machos
+como femeas custumaõ atingirse cõ o sumo duã fruita que se chama
+genipapo que he verde quando se piza e depois que opo[~e] no corpo e se
+inxuga fica mui negro e por muito que se laue não se tira se naõ aos
+noue dias, isto tudo faz[~e] por gallantaria.
+
+Estas indias guardaõ castidade a seus maridos e saõ muito suas amigas
+porque tambem elles sofrem mal adulterios. Casaõ os mais delles com suas
+sobrinhas filhas de seus irmãos ou irmãas, estas saõ suas molheres
+verdadeiras e naõ lhas podem negar seus pais.
+
+Alg[~u]as indias se achã nestas partes [~q] jurão e prometem castidade,
+e assy naõ casaõ n[~e] conheç[~e] hom[~e] algum de nenhuã callidade,
+n[~e] no consentiraõ ainda que por isso as matem. Estas deixaõ todo o
+exerçiçio de molheres e immittaõ os hom[~e]s e segem seus offiçios como
+senaõ fossem molheres, e cortaõ seus cabellos da mesma maneira que os
+machos trazem e vaõ agerra com seu arco e frechas, e acaça: enfim que
+andaõ sempre na companhia dos hom[~e]s, e cada h[~u]a tem molher que a
+serue e que lhe faz de comer como se foss[~e] casados.
+
+Estes indios viuem mui descansados, naõ tem cuidado de cousa alguã se
+naõ de comer e beber e matar gente e porisso saõ mui gordos em estremo.
+E assy tambem com quer desgosto amagreç[~e] muito, e como se agastaõ de
+qualquer cousa com[~e] terra e desta maneira morr[~e] muitos delles
+bestialmente. Todos seg[~e] muito o conselho das velhas tudo a que
+ellas lhe dizem fazem e t[~e] no por mui çerto, da qui vem a muitos
+moradores naõ comprar[~e] nenh[~u]as por lhes naõ fazer[~e] fogir seus
+escrauos.
+
+Quando estas indias parem a primeira cousa que fazem de pois do parto
+lauaõ se todas n[~u] Ribeiro e ficam tambem despostas como senaõ
+pariraõ, em lugar dellas se deitaõ seus maridos nas Redes e assy os
+vesitaõ e curaõ como se elles fossem as paridas.
+
+Quando alg[~u] destes indios morre custumaõ enterrallo n[~u]a coua
+assentado sobre os pees com sua Rede as costas em que elle dormia, e
+logo pellos primeiros dias poem lhe de comer em cima da coua. Outras
+muitas bestiallidades vsaõ estes indios que aqui naõ escreuo porque
+minha tençaõ foi naõ ser comprido, e passar por tudo isto com breuidade.
+
+
+Dos Resgates.
+
+Estes indios naõ possu[~e] nenhuã fazenda, n[~e] procuraõ acquerilla
+como os outros hom[~e]s, somente cobiçaõ muito alguãs cousas que vaõ
+deste Reino-s-camisas, pellotes, ferram[~e]tas e outras cousas que elles
+tem em muita estima e desejaõ muito alcãçar dos portugeses. Atroco disto
+se v[~e]diaõ h[~u]s aos outros, eos portugeses Resgatauaõ m^{tos} delles
+e salteauaõ quantos queriaõ sem ningem lhes ir amaõ, mas ja gora naõ ha
+isto na terra n[~e] Resgates como soya, porque de pois que os padres da
+companhia vieraõ aestas partes proueraõ neste negoçio e vedaraõ muitos
+saltos que faziaõ os portugeses por esta costa os quais emcarregauaõ
+muito suas consçiençias com catiuar[~e] muitos indios cõtra direito e
+mouer[~e] lhes gerras injustas. E porisso ordenaraõ os padres e fezerã
+com os capita[~e]s daterra que naõ ouuesse mais resgates n[~e]
+consentiss[~e] que fosse nenh[~u] portuges a suas aldeas sem liçença do
+mesmo capitaõ. E quantos escrauos agora vem nouamente do sertaõ oudas
+outras capitanias todos leuão primeiro a Alfandega e alli os examinaõ e
+lhes fazem preguntas qu[~e] os vendeo, ou como forão Resgatados, porque
+ningem os pode vender se não seus pais ou aquelles que em justa gerra os
+catiuão. E os que achaõ mal acqueridos poem nos em sua liberdade, e
+desta maneira quantos indios se compraõ saõ bem Resgatados e os
+moradores da terra naõ deixaõ porisso dir m^{to} auante com suas
+fazendas.
+
+
+
+
+Cap. 8.^o dos bichos da terra.
+
+
+Naõ me pareçeo cousa fora de preposito tratar tambem neste summario
+dalg[~u]s bichos que nestas partes se criaõ pois tudo ha na mesma
+terra, dado que daqui se não comprehenda mais que a differença e a
+variadade das criaturas que ha duãs terras pera outras.
+
+
+Ha nestas partes muitos bichos mui feros e pessonhentos, prinçipalmente
+cobras de muitas castas e de nomes diuersos. Huãs ha tamgrandes e tam
+disformes que engolem h[~u] veado todo inteiro, e affirmão que tem esta
+cobra tal callidade que de pois de oter comido arrebenta pella barriga e
+apodreçe quanta carne tem pello corpo e fica som[~e]te no espinhaço com
+a cabeça e a ponta do Rabo saã, e tanto que desta maneira fica torna
+pouco a pouco a criar carne noua ate que se cobre outra vez da mesma
+carne taõ perfectamente como dantes, Isto viraõ e exprem[~e]taraõ
+m^{tos} indios e moradores da terra. aesta chamão pella lingoa dos
+indios Giboiossú. Outras ha muito maiores e mais possonhentas doutra
+casta differente. Saõ tamgrandes en tanto estremo que apenas desaseis
+indios podiaõ leuar huã que matarão junto da costa antre os Portugeses
+aesta cobra chamaõ Surucucù. Outra geração ha dellas que lhe chamaõ
+boiteninga, tem na ponta do Rabo huã cousa que soa propriamenta, como
+cascauel e por onde esta cobra vai sempre anda Rogindo. he huã das feras
+bichas que ha na terra. Outras ha que lhe chamão hebijaras. tem duas
+bocas huã na cabeça outra no rabo mordem com ambas, esta cobra he
+branca e mui curta, o mais do tempo esta debaixo da terra, he
+pessonhentissima sobre todas, quem desta formordido não tera vida muitas
+oras, e assy qualquer destas outras que morder alguã pessoa o mais
+quedura saõ vinte equatro oras. Ha outra callidade dellas que naõ tem
+dentes n[~e] mordem. Estas naõ saõ pessonhentas n[~e] tam pouco muito
+grandes chamão lhe Japaranas. Tamb[~e] affirmão alg[~u]s hom[~e]s que
+virão serp[~e]tes nesta terra com azas mui grandes E espantosas, mas
+achaõ se Raram[~e]te. Ha muitos lagartos e grandes pellos Rios dagoa
+doçe e pellos matos cuios testicollos cheiraõ milhor que almisere, E
+aqualquer Roupa que os chegão fica ocheiro pegado por muitos dias.
+
+Os bichos mais feros e mais danosos [~q] ha na terra saõ tigres, estes
+animais saõ delles tamanhos como bezerros, vaõ se aos currais do gado
+dos moradores e mataõ muito delle e saõ taõ feros e forçosos que huã mão
+que lançaõ a huã vitella ou nouilho lhe fazem botar osmeollos fora e
+leuão no arrasto pera omato. Tambem pella terra dentro mataõ e com[~e]
+alg[~u]s indios quãdo se achaõ famintos. Sobem pellas aruores como
+gatos, e dalli espreitaõ acaça que por baixo passa e Remetem de salto
+aella e destamaneira naõ lhes escapa nada alg[~u]s destes animais mataõ
+enfojos os moradores da terra.
+
+Toda esta terra do Brasil he cuberta de formigas pequenas e grandes,
+estas faz[~e] alg[~u] dano as parreiras dos moradores e as larangeiras
+que tem nos quintaes, e se naõ foraõ estas formigas ouuera poruentura
+muitas vinhas no brasil ainda que la saõ pouco neçessarias por[~q]
+deste Reino vai tanto vinho que sempre aterra delle está prouida.
+
+Tambem ha muita infinidade de mosquitos prinçipalmente ao longo dalg[~u]
+Rio antre huãs aruores que se chamaõ manges naõ pode nenhuã pessoa
+esperallos, e pello mato quando naõ ha viraçaõ saõ mui sobejos e
+perseg[~e] muito a gente.
+
+Tambem ha huã geraçaõ de Ratos que traz[~e] os filhinhos pendurados na
+barriga e alli se criaõ e andaõ assy pegados ate ser[~e] grãdes. Bogios
+ha muitos e de muitas castas como ja se sabe: tanto que as femeas parem
+pegaõ se os filhos nas suas costas e sempre andaõ caualgados nas mãis
+ate ser[~e] bem criados e posto que as persigaõ e as matem naõ
+sequer[~e] desapegar dellas. Ha tambem muitos lobos marinhos e porcos
+marinhos que se criaõ no mar e na terra. Outros muitos bichos ha nestas
+partes pella terra dentro que sera impossiuel poder[~e] se conheçer
+n[~e] escreuer tanta multidaõ por[~q] assy como a terra he grandissima,
+assy saõ muitas as callidades e efeições das criaturas que Deos nella
+criou.
+
+
+
+
+Cap. 9.^o da terra [~q] certos hom[~e]s da Capitania de porto seguro
+forão a descobrir, e do [~q] acharão nella.
+
+
+Posto que minha tençaõ naõ era tratar neste summario senaõ das cousas
+que saõ gerais portoda costa do Brasil, de que os moradores da terra
+parteçipaõ, pareçeo me tambem neçessario e conueniente aos louuores da
+terra denunçiar neste Capitullo a Riqueza dos metais [~q] affirmaõ auer
+por ella dentro prouãdo tudo isto com pessoas [~q] o acharão, virão, e
+experem[~e]tarão: e amaneira como se descobrio foi esta [~q] se sege.
+
+
+A esta Capitania de porto seguro chegarão certos indios do sertão a dar
+nouas d[~u]as pedras verdes que auia n[~u]a serra muitas legoas pella
+terra dentro, e traziaõ alguãs dellas por amostra, as quais erão
+esmeraldas mas não de muito preço. E os mesmos indios dezião [~q]
+daquellas auia muitas, e que esta serra era muj fermosa e
+Resplandeçente. Tanto [~q] os moradores desta Capitania disto forão
+certificados fezeraõ se prestes sinco[~e]ta ou sesenta portugeses com
+alg[~u]s indios da terra e partirão pello sertão dentro com determinção
+de chegar aesta serra onde estas pedras estauaõ. Hia por capitão desta
+gente h[~u] martim carualho que agora he morador da Bahia de todollos
+sanctos, Entrarão pella terra alguãs dozentas e vinte legoas, onde as
+mais das serras [~q] acharão e virão erão de mui fino christal e toda
+terra [~e] si mui fragosa, E outras muitas serras de h[~u]a tarra
+azullada, nas quais affirmão auer muito ouro porque indo elles por antre
+duas serras destamaneira forão dar n[~u] Ribeiro que pello pee d[~u]a
+dellas deçia noqual acharão antre area h[~u]s grãos meudos amarellos,
+osquais alg[~u]s hom[~e]s apalparaõ com os dentes e acharão nos brãdos
+mas naõ se desfazião, finalmente que todos assentaraõ ser aquillo ouro
+n[~e] podia ser outro metal pois omesmo ouro desta maneira nasçe nas
+partes onde o ha. Apanharão destes graõs antre area do Ribeiro
+quantidade dum punhodo os quais acharaõ muito pezados que tambem era
+proua de ser ouro; disto naõ fezerão mais experiençia por ser aquillo no
+deserto e auer muitos dias [~q] padeçiaõ grãde fome nem comião outra
+cousa senaõ semente deruas e alg[~u]a cobra que matauão. passarão
+adiante determinando avinda tornar por alli a perçebidos de mantim^{tos}
+pera buscar[~e] a serra mais devagar donde aquelle ouro deçia ao
+Ribeiro. acharaõ pellos matos muita canafistola, e por este caminho
+acharão outros m^{tos} metais que naõ conheceraõ, n[~e] podiam esperar
+pellas gerras dos indios que se alleuantauaõ contraelles. Alg[~u]s
+indios lhes deraõ noticia segundo a mençaõ que fazião [~q] podiam estar
+cem legoas da serra das pedras verdes que hiaõ buscar e que não auia
+muito dalli ao peruú finalm[~e]te [~q] cõ os imigos que Recreçião e
+pella gente [~q] adoeçia tornaraõ se outra vez em almadias por h[~u] Rio
+que se chama Cricaré, onde se perdeo n[~u]a cachoeira a canoa emque
+vinhaõ os grãos douro [~q] traziaõ pera mostra. Nesta viag[~e] gastarão
+oito mezes e assi desbaratados chegarão aesta Capitania de porto seguro.
+Os que deste perigo escaparaõ affirmão auer naquellas partes muito ouro
+seg[~u]do asmostras e os Signais que acharão: e se la tornar gente
+aperçebida como cõuem contoda prouisaõ neçessaria, e leuarem pessoas que
+disto conheçaõ diz[~e] que se descobrirão nesta terra grandes minas.
+
+Quisera esereuer mais meudamente das particullaridades desta prouinçia
+do brasil, mas porque satisfezesse atodos com breuidade guardeime de ser
+comprido posto [~q] os louuores da terra pedissem outro liuro mais
+copioso E de maior vollume onde se comprehendess[~e] por extenço as
+exçellencias e diuersidades das cousas [~q] ha nella pera Remedio e
+porueito dos hom[~e]s que la for[~e] viuer. E por que a felliçidade e
+augm[~e]to desta prouinçia consiste em ser pouoada de muita g[~e]te, naõ
+auia dauer pessoa pobre nestes Reinos [~q] naõ fossem viuer aestas
+partes com fauor de .S.A. onde os hom[~e]s viu[~e] todos abastados e
+fora das neçessidades que cá padeçem. E desta maneira permittira Deos
+que floreça tanto a terra desta noua lusitania que com ella se augmente
+muito a coroa destes Reinos e seia dos outros enuejada pera que não
+desejemos terras estranhas prometendo esta nossa tanta Riqueza e
+prosperidade aos [~q] afor[~e] buscar pera seu Remedio.
+
+
+ Fin.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Tractado da terra do Brasil, by
+Pedro de Magalhães Gandavo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK TRACTADO DA TERRA DO BRASIL ***
+
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
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+Foundation
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+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"><head><title>The Project Gutenberg eBook of Tractado da Terra do Brasil, by Pero de Magalh&atilde;es Gandavo.</title>
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+</head>
+<body>
+<div class="mynote">
+<p>Notas de transcri&ccedil;&atilde;o:</p>
+<ul>
+<li>a grafia do
+s&eacute;culo XVI era totalmente livre; portanto, nenhum
+esfor&ccedil;o foi feito para harmonizar acentos, grafia etc.</li>
+<li>nesta vers&atilde;o em codifica&ccedil;&atilde;o ISO-8859-1 (Latin-1), todos os
+ caracteres acentuados n&atilde;o existentes neste padr&atilde;o foram
+ colocados entre par&ecirc;nteses rectos. Pode aceder a uma vers&atilde;o <a href="tractado-utf8.html">em formato Unicode (UTF-8)</a>, com os caracteres completos</li>
+</ul>
+</div>
+<div class="mynote">
+<!-- Autogenerated TOC. Modify or delete as required. -->
+<p><a href="#Ao_muy_alto_e_Serenissimo_Principe_dom_Anrrique_Cardeal_Iffante_de"><b>Ao
+muy alto e Seren&igrave;ssimo Principe dom Anrrique Cardeal Iffante
+de portugal.</b></a><br />
+<a href="#Prollogo_Ao_lector"><b>Prollogo Ao lector.</b></a><br />
+<a href="#Declaracao_da_costa"><b>Declarac&atilde;o
+da costa.</b></a><br />
+</p>
+<blockquote><p><a href="#Cap_1_da_capitania_de_Tamaraca"><b>Cap.
+1.&ordm; da capitania de Tamarac&aacute;.</b></a><br />
+<a href="#Cap_2_da_capitania_de_Phernabuco"><b>Cap.
+2.&ordm; da capitania de Phern&atilde;buco.</b></a><br />
+<a href="#Cap_3_da_capitania_da_Bahya_de_Todollos_Sanctos"><b>Cap.
+3. da capitania da Bahya de Todollos Sanctos.</b></a><br />
+<a href="#Cap_4_da_capitania_dos_Ilheos"><b>Cap.
+4.&ordm; da capitania dos Ilheos.</b></a><br />
+<a href="#Cap_5_dua_nascao_de_gentio_-X-q_se_acha_nesta_Capitania"><b>Cap.
+5.&ordm; du&atilde; nasca&otilde; de gentio [~q] se acha
+nesta Capitania.</b></a><br />
+<a href="#Cap_6_da_Capitania_de_Porto_seguro"><b>Cap.
+6. da Capitania de Porto seguro.</b></a><br />
+<a href="#Cap_7_da_Capitania_do_spirito_sancto"><b>Cap.
+7.&ordm; da Capitania do spirito sancto.</b></a><br />
+<a href="#Cap_8_da_Capitania_do_Rio_de_Janeiro"><b>Cap.
+8.&ordm; da Capitania do Rio de Janeiro.</b></a><br />
+<a href="#Cap_9_da_Capitania_de_SanVicente"><b>Cap.
+9.&ordm; da Capitania de SanVi&ccedil;ente.</b></a></p>
+</blockquote>
+<p>
+<a href="#Tractado_segundo_das_cousas_que_sao_gerais_por_toda_Costa_do_Brasil"><b>Tractado
+segundo das cousas que s&atilde;o gerais por toda Costa do Brasil</b></a><br />
+</p>
+<blockquote><p><a href="#Cap_1_das_fazendas_da_terra"><b>Cap.
+1.&ordm; das fazendas da terra</b></a><br />
+<a href="#Cap_2_dos_custumes_da_terra"><b>Cap.
+2.&ordm; dos custumes da terra</b></a><br />
+<a href="#Cap_3_das_callidades_da_terra"><b>Cap.
+3.&ordm; das callidades da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_4_dos_mantimentos_da_terra"><b>Cap.
+4.&ordm; dos mantimentos da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_5_da_caca_da_terra"><b>Cap.
+5.&ordm; da ca&ccedil;a da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_6_das_fruitas_da_terra"><b>Cap.
+6.&ordm; das fruitas da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_7_da_Condicao_E_Custumes_dos_indios_da_terra"><b>Cap.
+7.&ordm; da Condi&ccedil;a&otilde; E Custumes dos indios da
+terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_8_dos_bichos_da_terra"><b>Cap.
+8.&ordm; dos bichos da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_9_da_terra_-X-q_certos_homes_da_Capitania_de_porto_seguro_forao_a"><b>Cap.
+9.&ordm; da terra [~q] certos hom[~e]s da Capitania
+de porto seguro for&atilde;o a descobrir, e do [~q]
+achar&atilde;o nella.</b></a></p><!-- End Autogenerated TOC. --></blockquote>
+</div>
+
+<div class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1" href="images/01.jpg">[Pg 1]</a></div>
+<h1>TRACTADO DATERRA<br />
+do Brasil no qual Se c&otilde;tem<br />
+a informa&ccedil;a&otilde; das<br />
+cousas que ha nestas<br />
+partes feito por<br />
+P&ordm; de magalha[~e]s.</h1>
+<div class="pagenum"><a name="Page_1v" id="Page_1v" href="images/01v.jpg">[Pg
+1v]</a></div>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Ao_muy_alto_e_Serenissimo_Principe_dom_Anrrique_Cardeal_Iffante_de" id="Ao_muy_alto_e_Serenissimo_Principe_dom_Anrrique_Cardeal_Iffante_de"></a>Ao
+muy alto e Seren&igrave;ssimo Principe dom Anrrique Cardeal Iffante
+de portugal.
+</h2>
+<p>Posto que os dias passados apresentei outro s[~u]mario
+da terra do brasil a
+elRei nosso sn&otilde;r, foi por comprir primeiro com esta
+obriga&ccedil;&atilde;o de
+vassallo que todos deuemos anosso Rei: e por esta raz&aacute;o me
+pare&ccedil;eo cousa
+mui necessaria, (mu&yacute;to Alto e serenissimo sn&otilde;r)
+offere&ccedil;er tambem este a
+V. A. aqu[~e] se deuem Refirir os louuores e
+acre&ccedil;entamento das terras [~q]
+nestes Reinos flore&ccedil;em: pois sempre deseiou tanto augmentallas
+e
+<span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2" href="images/02.jpg">[Pg 2]</a></span>conseruar seus
+subditos e vassallos [~e] perpetua paz.</p>
+<p>Como eu isto entenda, e conhe&ccedil;a quam
+a&ccedil;&ccedil;eitos sa&otilde; os b&otilde;s
+serui&ccedil;os a V.
+A. que ao Reino se fazem imaginei comigo que podia trazer destas partes
+com que desse testemunho de minha pura ten&ccedil;a&otilde;: e
+ache&yacute; que na&otilde; se podia
+d[~u] fraco hom[~e] esperar maior serui&ccedil;o (ainda
+que tal na&otilde; pare&ccedil;a) que
+lan&ccedil;ar ma&otilde; desta informa&ccedil;a&otilde; da
+terra do Brasil (cousa [~q] ategora na&otilde;
+imprendeo pessoa alg[~u]a) pera [~q] nestes Reinos se
+deuulge sua
+fertillidade e prouoque amuitas pessoas pobres que se va&otilde;
+viuer aesta
+prouin&ccedil;ia, que nisso consiste a felli&ccedil;idade e
+augmento della. E porque
+<span class="pagenum"><a name="Page_2v" id="Page_2v" href="images/02v.jpg">[Pg 2v]</a></span>V. A. sabe quanto
+serui&ccedil;o de Deos e delRei nosso Sn&otilde;r se&yacute;a
+esta
+denun&ccedil;ia&ccedil;a&otilde; determine&yacute; collegilla
+com delibera&ccedil;a&otilde; de a offere&ccedil;er a V. A.
+aqu[~e] humilmente pe&ccedil;o ma Re&ccedil;eba, e com
+tamanha mer&ccedil;e ficarei satisfeito
+Rogando a nosso S&ntilde;or lhe de prosperos e largissimos annos de
+vida e
+deixe permane&ccedil;er Seu Real estado emperpetua
+filli&ccedil;idade. am[~e].</p>
+<p><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3" href="images/03.jpg">[Pg 3]</a></span></p>
+<p class="center">Humilde vassallo de V. A. Pero de magalh&atilde;es</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Prollogo_Ao_lector" id="Prollogo_Ao_lector"></a>Prollogo
+Ao lector.</h2>
+<p>Minha ten&ccedil;a&otilde; na&otilde; foi outra neste
+summario (discreto e corioso lector)
+sena&otilde; de nun&ccedil;iar em breues pallauras a fertillidade e
+abundan&ccedil;ia da
+terra do brasil, pera que esta fama venha a noti&ccedil;ia de muitas
+pessoas
+que nestes Reinos viuem com pobreza, e na&otilde; duuidem escolhelha
+pera seu
+Remedio: por[~q] a mesma terra he tam natural e fauorauel aos
+estranhos
+que a todos agazalha e conuida com Remedio por pobres e desemparados
+que
+seia&otilde;. Eassy cada vez se vay fazendo mais prospera, e depois
+[~q] as
+<span class="pagenum"><a name="Page_3v" id="Page_3v" href="images/03v.jpg">[Pg 3v]</a></span>terras
+vi&ccedil;osas se forem pouoando (que agora esta&otilde; desertas
+por falta de
+gente) ha&otilde; se de fazer nellas grossas fazendas como ia
+esta&otilde; feitas nas
+[~q] possuem os moradores da terra, etambem se espera desta
+prouin&ccedil;ia que
+por tempo flore&ccedil;a tanto na Requeza como as Antilhas de
+Castella por que
+he &ccedil;erto ser en si aterra mui riqua e auer nella m<sup>tos</sup>
+metais, osquais
+ategora se na&otilde; descobr[~e] ou porna&otilde; auer
+gente na terra pera cometer esta
+impreza, outambem por negligen&ccedil;ia dos moradores que se
+na&otilde; querem despor
+aesse trabalho: qual seja a causa por que o deixa&otilde; de fazer
+na&otilde; sei. Mas
+permittira nosso sn&otilde;r que ainda em nossos dias se
+descubr&atilde; nella gr&atilde;des
+<span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4" href="images/04.jpg">[Pg 4]</a></span>thezouros, assy
+pera serui&ccedil;o e augm[~e]to de S. A. como pera porueito
+de
+seus vassallos que o desei&atilde;o seruir.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Declaracao_da_costa" id="Declaracao_da_costa"></a>Declarac&atilde;o da
+costa.</h2>
+<p>Esta costa do brasil est&aacute; pera a parte do occidente,
+corre se de norte e
+sul. Da primeira pouoa&ccedil;a&otilde; a tederradeira ha
+trez[~e]tas e sincoenta legoas.
+Sa&otilde; oito capitanias todas tem portos mui seguros onde
+pod[~e] entrar quais
+quer naos por grandes que seia&otilde;. Na&otilde; ha pella terra
+dentro pouoa&ccedil;&otilde;es de
+portugeses por causa dos indios que na&otilde; no consente, etambem
+pello
+soccorro e tractos do Reino lhes he ne&ccedil;essario estarem iunto
+domar pera
+<span class="pagenum"><a name="Page_4v" id="Page_4v" href="images/04v.jpg">[Pg 4v]</a></span>ter[~e]
+comunica&ccedil;&atilde;o de mercadorias. E por este Respeito
+viu[~e] todos junto
+da Costa.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_1_da_capitania_de_Tamaraca" id="Cap_1_da_capitania_de_Tamaraca"></a>Cap.
+1.&ordm; da capitania de Tamarac&aacute;.</h2>
+<p>A pouoa&ccedil;a&otilde; da primeira capitania e mais
+antiga est&aacute; nu&atilde; ilha que se
+chama Tamarac&aacute; pegada com aterra firme, tem tres legoas de
+comprido e
+duas de largo: t[~e] trinta e sinco legoas de terra pella costa
+pera o
+norte. He de dona Jeronima dalBuquerque molher que foi de Pero Lopez de
+Sousa naqual tem posto Capita&otilde; de sua ma&otilde;. ha nella
+h[~u] engenho dassucre,
+e agora se faz[~e] dous nouam[~e]te, e muito pao do
+brasil e algoda&otilde;. Pode ter
+<span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5" href="images/05.jpg">[Pg 5]</a></span>ate
+&ccedil;[~e] vezinhos. Ha nesta capitania muitas e boas terras
+pera se
+pouoarem e fazerem nellas fazendas.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_2_da_capitania_de_Phernabuco" id="Cap_2_da_capitania_de_Phernabuco"></a>Cap.
+2.&ordm; da capitania de Phern&atilde;buco.</h2>
+
+<p>A capitania de Phernambuco
+
+<span class="sidenote">Noua Lusitania a cham&atilde; muytos pollas
+frequ[~e]cia, &eacute; policia</span>
+
+est&aacute; sinco legoas de
+Tamarac&aacute; pera o sul em
+altura de oito graos, daqual he capita&otilde; e gouernador Duarte
+coelho
+dalBuquerque. Tem duas pouoa&ccedil;&otilde;es, a
+prin&ccedil;ipal se chama Olinda, a outra
+Guarass&uacute; que esta quatro legoas pella terra dentro. Auera
+nesta
+capitania mil vezinhos. Tem <span class="u">vinte etres</span>
+
+<span class="sidenote">agora som .60. anno de 1587.</span>
+
+engenhos dassucre, posto que
+tres ou quatro delles na&otilde; sa&otilde; ainda acabados.<span class="pagenum"><a name="Page_5v" id="Page_5v" href="images/05v.jpg">[Pg
+5v]</a></span></p>
+
+<p>Alg[~u]s moem com bois aestes cham&atilde; tripiches,
+fazem menos assucre que os
+outros. mas amaior parte dos engenhos do brasil mo[~e] com agoa.
+Cada
+engenho destes h[~u] poroutro, faz <span class="u">trez</span>
+
+<span class="sidenote">agora quatro mil [~q] sam todas as
+arrouas [~q] se libr&atilde;
+aqui, 240. M.</span>
+
+mil arrobas cadano.
+nesta
+capitania se fazem mais assucres que nas outras, porque ouue anno que
+passara&otilde; de sincoenta mil arrobas, ainda que o Rendimento
+delles na&otilde; he
+&ccedil;erto, sa&otilde; segundo asnouidades e os tempos que se
+offere&ccedil;[~e]. Esta seacha
+hu&atilde; das Ricas terras do brasil, tem muitos escrauos indios
+[~q] he
+aprin&ccedil;ipal fazenda daterra. Daqui os leua&otilde; e compram
+pera todellas
+outras capitanias, porque ha nesta muitos, emais baratos que entoda
+costa. ha muitos<span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6" href="images/06.jpg">[Pg 6]</a></span> pao do brasil e
+algoda&otilde; de que enrrique&ccedil;[~e] os moradores
+desta capitania.</p>
+
+<p>O porto
+
+<span class="sidenote">a este porto se entra por un canal tam
+estreyto, [~q]
+apenas cabe una n&aacute;o por elle y sino entra c&otilde; muyto
+t[~e]to, da en pedra
+viua y perdesse &ocirc; qual ac&otilde;tece muytas vezes aos
+exprim[~e]tados: por isso
+se chama Paranambuc. [~q] quer dix Mar furado</span>
+
+onde os nauios entra&otilde; est&aacute;
+h[~u]a legoa da pouoa&ccedil;a&otilde; Olinda seruense
+pella praya e tambem por h[~u] Rio pequeno que vai dar junto da
+mesma
+pouoa&ccedil;a&otilde;. Aesta capitania va&otilde; cadanno mais
+nauios do Reino que anenhu&atilde;
+das outras. Hanella h[~u] mosteiro de padres da companhia de
+Jesus.</p>
+<h2>Rios.</h2>
+
+<p>Ha dous Rios caudais ate a Bahia de todollos sanctos.
+h[~u] se chama de sa&otilde;
+francisco, est&aacute; em dez graos e meyo, oqual entra nomar
+contanta furia [~q]
+vinte legoas pello mesmo mar correm suas agoas<span class="pagenum"><a name="Page_6v" id="Page_6v" href="images/06v.jpg">[Pg 6]</a></span> outro Rio est&aacute; em onze graos e dous ter&ccedil;os
+que se chama o Rio Real,
+tambem he muigrande e correm muito suas agoas pello mar.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_3_da_capitania_da_Bahya_de_Todollos_Sanctos" id="Cap_3_da_capitania_da_Bahya_de_Todollos_Sanctos"></a>Cap.
+3. da capitania da Bahya de Todollos Sanctos.</h2>
+<p>A Capitania da Bahia de todollos sanctos esta &ccedil;em
+legoas de phern&atilde;buco
+emaltura de treze graos. terra del Rei nosso sn&otilde;r onde Residem
+os
+gouernadores e bispo e ouuidor geral de toda costa. esta he a terra
+mais
+pouoada de portugueses que ha nobrasil. Tem tres
+pouoa&ccedil;o[~e]s, a prin&ccedil;ipal
+he a cidade do saluador.<span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7" href="images/07.jpg">[Pg 7]</a></span>
+Aoutra se chama Villa Velha que esta junto da
+barra, Esta pouoa&ccedil;a&otilde; foi aprimeira que ouue nesta
+capitania: de pois
+Thome de Sousa Sendo gouernador edificou esta cidade do saluador mais
+adi&atilde;te me&yacute;a legoa ao longo da Bahia por ser lugar
+mais comueniente e
+porueitoso pera osmoradores da terra. Quatro legoas pella terra dentro
+est&aacute; outra[~q] se chama Parip&eacute;. pode auer
+nesta capitania mil e &ccedil;em
+vezinhos. Tem dez oito engenhos, alg[~u]s sefazem
+nouam[~e]te: tambem se tira
+delles muito assucre, ainda que osmoradores se lan&ccedil;&atilde;
+mais aoalgoda&otilde; que
+a canas dassucres porque se daa milhor naterra.<span class="pagenum"><a name="Page_7v" id="Page_7v" href="images/07v.jpg">[Pg 7v]</a></span></p>
+<p>Dentro da &ccedil;idade est&aacute; h[~u] mosteiro
+de padres da companhia de Jesus,
+noqual tem colegio onde ensin&atilde; latim e casos de
+cons&ccedil;ien&ccedil;ia. Afora este
+ha sinco igreias pella terra dentro antre os indios forros onde
+Resid[~e]
+alg[~u]s padres pera fazer[~e] christa&otilde;s e
+casarem osmesmos indios por na&otilde;
+estar[~e] am&atilde;&ccedil;ebados.</p>
+<p>Esta capitania tem hu&atilde; bahya mui grande e fermosa, he
+tres legoas de
+largo e nauegase quinze porella dentro. t[~e] muitas ilhas de
+terras mui
+vi&ccedil;osas queda&otilde; infinito algoda&otilde;, diuidese em
+muitas partes esta bahia:
+etem muitos bra&ccedil;os e enseadas dentro. Os moradores
+<span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8" href="images/08.jpg">[Pg
+8]</a></span>
+da terra todos se
+seruem porella c&otilde; barcos pera suas fazendas.</p>
+<h2>Rios.</h2>
+<p>Doze legoas desta bahia de todollos sanctos esta h[~u]
+Rio que se chama
+Tinhar&eacute;e onde se Recolhem muitas embarca&ccedil;&otilde;es
+[~q] pass&atilde;, pera as outras
+capitanias. Tres legoas por elle dentro est&aacute; h[~u]
+engenho dum Basti&atilde; de
+ponte, junto doqual esta&otilde; muitas terras perdidas por falta de
+moradores,
+dasquais se consegiria muito porueito se as pouoassem. Mais auante seis
+legoas esta h[~u] Rio que se chama Camam&ugrave; em treze graos
+e dous ter&ccedil;os, no
+qual pod[~e] entrar quais quer naos seguramente. quatro sinco
+legoas
+porelle dentro. Ao<span class="pagenum"><a name="Page_8v" id="Page_8v" href="images/08v.jpg">[Pg 8v]</a></span>
+longo deste Rio ha terras mui vi&ccedil;osas e muitas agoas
+pera se poder[~e] fazer engenhos dassucre, as quais tambem se
+perdem por
+na&otilde; auer gente que as va pouoar. Tem dentro algu&atilde;s
+ilhas de terras mui
+grossas e acomodadas pera se fazerem nellas muita fazenda. Neste mesmo
+Rio ha muito peixe em estremo, e junto delle muita infinita
+ca&ccedil;a de
+porcos e veados. Aqui se pode fazer hu&atilde;
+pouoa&ccedil;&atilde;o onde os hom[~e]s viua&otilde; mui
+abastados e fa&ccedil;a&otilde; muitas fazendas. Ha outro que se
+chama o Rio das
+contas, est&aacute; em quatorze graos e meyo, mas na&otilde; he
+tangrande, ainda [~q]
+tambem entr&atilde;o nelle algu&atilde;s
+embarca&ccedil;&otilde;es. Entodos estes<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9" href="images/09.jpg">[Pg 9]</a></span>
+Rios ha muita
+abundan&ccedil;ia de peixes e de Ca&ccedil;a.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_4_da_capitania_dos_Ilheos" id="Cap_4_da_capitania_dos_Ilheos"></a>Cap.
+4.&ordm; da capitania dos Ilheos.</h2>
+<p>A Capitania dos Ilheos est&aacute; trinta legoas da Bahia de
+todollas sanctos
+em quatorze graos e dous ter&ccedil;os. he de francisco giraldez na
+qual tem
+posto capita&otilde; de sua ma&otilde;. Pode auer nella dozentos
+vezinhos. Tem h[~u] Rio
+onde os nauios entra&otilde; oqual est&aacute; junto da
+pouoa&ccedil;a&otilde;. diuidesse emmuitas
+partes pella terradentro, seru[~e]se os moradores porelhe pera
+suas
+fazendas em almadias. ha nesta capitania oito engenhos dassucre. dentro
+da pouoa&ccedil;<span class="pagenum"><a name="Page_9v" id="Page_9v" href="images/09v.jpg">[Pg 9v]</a></span>&atilde;o
+est&aacute; h[~u] mosteiro de Padres da companhia de Jesus
+[~q] agora
+se faz nouamente.</p>
+<p>Sete legoas da mesma pouoa&ccedil;a&otilde; pella terra
+dentro est&aacute; hu&atilde; lagoa dagoa
+do&ccedil;e [~q] tem tres legoas de comprido e tresde largo
+etem dez quinze
+bra&ccedil;as de fundo e dahi pera sima. Sae della h[~u] Rio
+pequeno pello qual
+va&otilde; la ter barcos. t[~e] esta lagoa h[~u] bocal
+neste Rio tam estreito, que
+apenas cabe h[~u] barco por elle, e depois que anda dentro quasi
+na&otilde; sabe
+determinar por onde entrou. Ten, tanta abundan&ccedil;ia dagoa que
+podem andar
+nella quais quer naos por gr&atilde;des que seia&otilde; a vella: e
+assy quando v[~e]ta<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10" href="images/10.jpg">[Pg 10]</a></span>
+muito, alleuantam se alli ondas tam foriosas como se fosse no meyo do
+mar comtormenta. Tem muita infinidade de peixes grandes e pequenos.
+Criamse nella muitos Peixes bois os quais tem o fo&ccedil;inho como
+de boi e
+dous cotos com que nada&otilde; amaneira de bra&ccedil;os,
+na&otilde; tem nenhu&atilde; escama n[~e]
+outra fei&ccedil;a&otilde; de peixe se na&otilde; o Rabo.
+Matamnos com arpo[~e]s, sa&otilde; tam gordos
+e tamanhos [~q] alg[~u]s peza&otilde; trinta corenta
+arrobas. he h[~u] peixe muito
+sabroso e totalmente pare&ccedil;e carne e assy tem o gosto della,
+assado
+pare&ccedil;e lombo de porco ou de veado, cozese com couves e guizase
+como
+carne, n[~e] pessoa algu&atilde; o come que o tenha por peixe
+saluo se o conhe&ccedil;er<span class="pagenum"><a name="Page_10v" id="Page_10v" href="images/10v.jpg">[Pg 10v]</a></span>
+primeiro. As femeas tem duas mamas pellas quais mam&atilde;o os
+filhos e
+criamse com leite (cousa [~q] se na&otilde; acha noutro peixe
+alg[~u]) tambem ha
+destes emalgu&atilde;s bahias e Rios desta costa, e posto que se
+cri[~e] no mar,
+custum&atilde; beber agoa do&ccedil;e porisso acodem muitos aesta
+lagoa, ou a parte
+onde alg[~u] Ribeiro se meta no mar. Tambem ha muitos
+tubaro[~e]s nesta lagoa,
+e lagartos e muitas cobras, E achamse nella outros m&otilde;stros
+marinhos de
+diuersas maneiras. Ha muitas terras e mui vi&ccedil;osas orredor
+della, e muita
+ca&ccedil;a, E neste rio que sae da lagoa muita fertilidade de peixe.
+Finalmente que hu&atilde; das abastadas terres de mantimentos <span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11" href="images/11.jpg">[Pg
+11]</a></span>[~q] que ha no
+Brasil he esta capitania dos ilheos.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_5_dua_nascao_de_gentio_-X-q_se_acha_nesta_Capitania" id="Cap_5_dua_nascao_de_gentio_-X-q_se_acha_nesta_Capitania"></a>Cap.
+5.&ordm; du&atilde; nasca&otilde; de gentio [~q] se acha
+nesta Capitania.</h2>
+<p>Pellas terras desta capitania ate junto do Spiro sancto, se
+acha h[~u]a
+&ccedil;erta nas&ccedil;a&otilde; de gentio que veo do
+&ccedil;erta&otilde; ha sinco ou seis annos, e dizem
+[~q] outros indios contrarios destes, vier&atilde;o sobrelles
+a suas terras, e os
+destruira&otilde; todos e os que fogira&otilde; sa&otilde; estes
+[~q] anda&otilde; pella costa.
+cham&atilde;se A&yacute;mores, a lingoa delles he differente dos
+outros indios, ning[~e]
+os entende, sa&otilde; delles tam altos e ta&otilde; largos do
+corpo <span class="pagenum"><a name="Page_11v" id="Page_11v" href="images/11v.jpg">[Pg 11v]</a></span>[~q] quasi
+pare&ccedil;[~e]
+gigantes. Sa&otilde; mui aluos na&otilde; tem pare&ccedil;er dos
+outros indios da terra n[~e]
+tem casas n[~e] pouoa&ccedil;o[~e]s onde
+mor[~e], viu[~e] antre os matos como brutos
+animais: sa&otilde; mui for&ccedil;osos em estremo, trazem
+h[~u]s arcos mui compridos e
+grossos conforme a suas for&ccedil;as e as frechas da mesma maneira.
+Estes
+indios tem feito muito dano aos moradores de pois que viera&otilde;
+aesta costa
+e mortos alg[~u]s portugeses e escrauos por[~q]
+sa&otilde; imigos de toda gente. Na&otilde;
+pelleya&otilde; em campo n[~e] tem animo pera isso,
+po[~e] se antre omato junto dalg[~u]
+caminho e tanto [~q] passa algem attira&otilde;lhe ao
+cora&ccedil;a&otilde; ou aparte onde o
+matem<span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12" href="images/12.jpg">[Pg 12]</a></span> e na&otilde;
+despedem frecha que na&otilde; na empregem. finalmente que
+na&otilde; tem
+Rosto direito aning[~e] sena&otilde; a
+trei&ccedil;a&otilde; fazem a sua. As molheres trazem h[~u]s
+paos tostados comque pelleia&otilde;. Estes indios na&otilde; viuem
+sena&otilde; pella
+frecha, seu mantim[~e]to he ca&ccedil;a bichos e carne humana
+fazem fogo de baixo
+do cha&otilde; porna&otilde; ser[~e] sentidos n[~e]
+saberem onde anda&otilde;. Muitas terras
+vi&ccedil;osas esta&otilde; perdidas junto desta capitania, as
+quais na&otilde; sa&otilde; possuidas
+dos Portugeses por causa destes indios. Na&otilde; se pode achar
+Remedio pera
+os destruirem por[~q] na&otilde; tem morada certa, nem saem
+nunca dantre o matto:
+E assi quando cuidamos [~q] va&otilde; fogindo<span class="pagenum"><a name="Page_12v" id="Page_12v" href="images/12v.jpg">[Pg
+12v]</a></span> ante qu[~e] os persege enta&otilde;
+ficam
+atraz escondidos e atira&otilde; aos que passa&otilde; descuidados,
+Desta maneira
+mata&otilde; algu&atilde; gente. todos quantos indios ha no brasil
+sa&otilde; seus imigos e
+tem[~e]nos muito porque he gente atrei&ccedil;oada. E assy
+onde os ha nenh[~u]
+morador vai a sua fazenda por terra [~q] na&otilde; leue
+quinze vinte escrauos
+consigo de arcos e frechas. Estes Aymores s&atilde;o mui feros e
+crueis, na&otilde; se
+pode c&otilde; pallauras encare&ccedil;er a dureza desta
+g[~e]te. Na&otilde; anda&otilde; todos juntos,
+derramamse por muitas partes, equando sequerem ajuntar assubi&atilde;
+como
+passaros ou como bogios demaneira que h[~u]s aos outros se
+entendem e se
+conhe&ccedil;[~e]. Tambem<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13" href="images/13.jpg">[Pg 13]</a></span>
+os portugeses mata&otilde; alg[~u]s delles, e tem muitos
+destruidos, principalmente nesta capitania dos ilheos,
+eguarda&otilde;se muito
+delles por que ja sabem suas manhas e conhe&ccedil;[~e] muibem
+sua mallicia.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_6_da_Capitania_de_Porto_seguro" id="Cap_6_da_Capitania_de_Porto_seguro"></a>Cap. 6. da
+Capitania de Porto seguro.</h2>
+<p>A capitania de Porto seguro est&aacute; trinta legoas dos
+jlheos em dezaseis
+graos e me&yacute;o. He do Duque daueiro, na qual tem posto
+capita&otilde; de sua ma&otilde;.
+Tem tres pouoa&ccedil;o[~e]s a prin&ccedil;ipal he porto
+seguro que est&aacute; junto do porto
+onde os nauios entra&otilde;. outra est&aacute; dahi hu&atilde;
+legoa [~q] se chama sancto
+amaro<span class="pagenum"><a name="Page_13v" id="Page_13v" href="images/13v.jpg">[Pg 13v]</a></span> outra Sancta
+Cruz que est&aacute; dahi quatro legoas pera o norte. pode
+auer nesta capitania dozentos e vinte vezinhos. Tem sinco engenhos
+dassucre. Ha nella h[~u] mosteiro de padres da companhia de
+Jesus. Tambem
+chega&otilde; aesta capitania os Aymor&eacute;s e fazem nella dano
+aos moradores como
+nos ilheos. he terra mui abastada de ca&ccedil;a, e de peixes que
+mata&otilde; no Rio
+que est&aacute; junto da pouoaca&otilde;.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_7_da_Capitania_do_spirito_sancto" id="Cap_7_da_Capitania_do_spirito_sancto"></a>Cap.
+7.&ordm; da Capitania do spirito sancto.</h2>
+<p>A Capitania do spirito sancto est&aacute; sinco[~e]ta,<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14" href="images/14.jpg">[Pg
+14]</a></span> legoasde Porto seguro em
+vinte graos, da qual he capita&otilde; e gouernador Vasco fernandes
+coutinho.
+Tem h[~u] engenho somente, tira se delle omilhor assucre
+[~q] ha entodo
+Brasil. Ha nella muito algoda&otilde; e pao do brasil. Pode ter ate
+cento e
+oitenta vezinhos, Ha dentro da pouoa&ccedil;a&otilde; h[~u]
+mosteiro de padres da
+Companhia de Jesus. Tem h[~u] Rio muj grande onde os nauios
+entra&otilde;, noqual
+se acha&otilde; mais peixes bois que noutro nenh[~u] Rio desta
+Costa. No mar junto
+desta Capitania mata&otilde; grande copia de peixes grandes E de toda
+maneira,
+e tambem nomesmo Rio ha muita abundan&ccedil;ia delles. Nesta
+capitania ha
+muitas terras e muj largas onde os moradores viu[~e] mui
+abastados<span class="pagenum"><a name="Page_14v" id="Page_14v" href="images/14v.jpg">[Pg 14v]</a></span> assi de
+mantim[~e]tos da terra como de fazendas. E quando se tomou a
+fortalleza do
+Rio de Janeiro desta mesma capitania do Spirito Sancto
+sostentara&otilde; toda
+gente e prouera&otilde; sempre de m&atilde;tim[~e]tos
+ne&ccedil;essarios enquanto esteuera&otilde; na
+terra os que a defendia&otilde;.</p>
+<p>Rios.</p>
+<p>Auante desta capitania em altura de vinte e h[~u] graos
+est&aacute; o Rio de
+paraiba este he mui grande e fermoso e tem infinito peixe. Junto do
+cabo
+frio [~e] altura de vinte e dous graos est&aacute; a Bahia
+fermosa naqual se pode
+fazer h[~u]a capitania de muitos vezinhos onde tambem se perdem
+muitas<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15" href="images/15.jpg">[Pg 15]</a></span>
+terras por falta de gente. Outros muitos Rios ha nestas partes
+[~q] deixo
+descreuer por serem pequenos e na&otilde; se fazer tanto caso delles,
+n[~e] minha
+ten&ccedil;a&otilde; foi outra sena&otilde; tractar destes mais
+notaueis onde se podem fazer
+algu&atilde;s pouoa&ccedil;o[~e]s e c&otilde;segir
+porueito das terras vi&ccedil;osas que poresta costa
+esta&otilde; desertas.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_8_da_Capitania_do_Rio_de_Janeiro" id="Cap_8_da_Capitania_do_Rio_de_Janeiro"></a>Cap.
+8.&ordm; da Capitania do Rio de Janeiro.</h2>
+<p>A Capitania do Rio de Janeiro cidade de sam Sebastia&otilde;
+est&aacute; sesenta
+legoas do Spirito Sancto em vinte e tres graos e h[~u]
+ter&ccedil;o, terra delRei
+nosso sn&otilde;r. Pode ter<span class="pagenum"><a name="Page_15v" id="Page_15v" href="images/15v.jpg">[Pg 15v]</a></span>
+pouco mais ou menos cento e corenta vezinhos,
+agora se come&ccedil;a de pouoar nouamente. Esta he amais fertil e
+vi&ccedil;osa terra
+que ha no brasil. Tem terras mui singullares e muitas agoas pera
+engenhos dassucre. Ha nella muito infinito pao do brasil de que os
+moradores da terra faz[~e] muito porueito. Esta capitania tem
+h[~u] Rio mui
+largo e fermoso diuide se dentro emmuitas partes, e quantas terras
+esta&otilde;
+ao longo delle se podem aporueitar, assy pera Ro&ccedil;as de
+mantimentos como
+pera canas dassucres e algodo[~e]s, porque sa&otilde; muj
+vi&ccedil;osas e milhores de
+quantas ha por toda esta costa. ha nesta &ccedil;idade h<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16" href="images/16.jpg">[Pg
+16]</a></span>[~u] mosteiro de padres
+da companhia de Jesus, os quais tambem augmentara&otilde; muito esta
+terra e
+deseia&otilde; muito vella pouoada de muitos moradores,
+por[~q] sa&otilde; tomo digo as
+terras desta capitania mui largas e sabem quam porueitosas sa&otilde;
+pera toda
+gente pobre que as for possuir. E por tempo ha&otilde; se de fazer
+nellas
+gr&atilde;des fazendas: eosque la forem viuer com esta
+esperan&ccedil;a na&otilde; se achar&atilde;o
+enganados.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_9_da_Capitania_de_SanVicente" id="Cap_9_da_Capitania_de_SanVicente"></a>Cap.
+9.&ordm; da Capitania de SanVi&ccedil;ente.</h2>
+<p>A Capitania de sanvi&ccedil;ente est&aacute; sesenta
+legoas do Rio de Janeiro em Vinte
+equatro<span class="pagenum"><a name="Page_16v" id="Page_16v" href="images/16v.jpg">[Pg 16v]</a></span> graos, he de
+pero lopez de sousa, naqual tem posto capita&otilde; de
+sua ma&otilde;: esta e o Rio de Janeiro sa&otilde; as mais frias
+terras que ha no
+Brasil, gea nellas em tempo de inuerno quasi como neste Reino. Nesta
+capitania se deu ja trigo, mas na&otilde; no quer[~e] semear
+por auer na terra
+outros mantim[~e]tos de menos custo. Tem tres
+pouoa&ccedil;&otilde;es, e hu&atilde; fortalleza
+[~q] est&aacute; nu&atilde; ilha junto da terra firme quatro
+legoas pera onorte que se
+chama Britioga, daqui deffendem esta capitania dos indios e
+fran&ccedil;eses
+com artelharia que ha na mesma fortalleza. Aprin&ccedil;ipal
+pouoa&ccedil;a&otilde; se chama
+sanctos onde est&aacute; h[~u] mosteiro de padres da com<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17" href="images/17.jpg">[Pg
+17]</a></span>panhia de Jesus. Aoutra
+mais av&atilde;te ao longo do Rio hu&atilde; legoa he Sam
+Vi&ccedil;ente, tambem ha nella
+outro mostr.&ordm; de padres da companhia. Pella terra
+d[~e]tro dez legoas
+edificar&atilde;o os mesmos padres hu&atilde;
+pouoa&ccedil;&atilde;o antre os indios que se chama o
+Campo naqual Viuem muitos moradores, amayor parte delles s&atilde;o
+mamalucos
+filhos de portugueses e de indias da terra. Aqui e nas mais Capitanias
+tem feito estes padres da companhia grande fruito e fazem com que a
+terra va em muito cre&ccedil;im[~e]to, trabalha&otilde; por
+fazer christa&otilde;s a muitos
+indios, e metem muitas pazes antre os hom[~e]s, t&atilde;bem
+faz[~e] Restituir as
+liberdades de muitos indios<span class="pagenum"><a name="Page_17v" id="Page_17v" href="images/17v.jpg">[Pg 17v]</a></span>
+que alg[~u]s moradores da terra tem mal
+Resgatados: assy que sempre acodem aos que se desuia&otilde; do
+serui&ccedil;o de Deos
+e de S. A.</p>
+<p>Auera nesta capitania quinhentos vezinhos, tem quatro engenhos
+dassucre,
+E muitas terras vi&ccedil;osas de que os moradores tira&otilde;
+muitos mantim[~e]tos e
+fazenda e viu[~e] todos mui abastados. Estahe a ultima Capitania
+[~q] ha
+nestas partes do Brasil.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18" href="images/18.jpg">[Pg 18]</a></span></p>
+<h2><a name="Tractado_segundo_das_cousas_que_sao_gerais_por_toda_Costa_do_Brasil" id="Tractado_segundo_das_cousas_que_sao_gerais_por_toda_Costa_do_Brasil"></a>Tractado
+segundo das cousas que s&atilde;o gerais por toda Costa do Brasil</h2>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_1_das_fazendas_da_terra" id="Cap_1_das_fazendas_da_terra"></a>Cap. 1.&ordm;
+das fazendas da terra</h2>
+<p>Os moradores desta costa do Brasil todos tem terras de
+sesmaria dadas e
+Repartidas pellos capita[~e]s da terra, e a primeira cousa que
+pretendem
+alcansar, sa&otilde; escrauos pera lhes fazer[~e] e
+grangear[~e] suas Ro&ccedil;as e faz[~e]das
+por que sem elles n&atilde;o se pode[~e] sustentar na terra: E
+hu&atilde; das cousas
+por[~q] o Brasil na&otilde; flore&ccedil;e muito mais, he
+pellos escrauos que se
+alleuantara&otilde; e fogira&otilde; pera suas terras, e fogem cada
+dia: E se estes
+indios na&otilde; fora&otilde; tam fogitiuos e mudaueis,
+n&atilde;o teuera compara&ccedil;a&otilde; a
+Riqueza do Brasil. As fazendas donde se consige mais porueito
+sa&otilde;
+assucres, algodo[~e]s e pao do brasil, c&otilde; isto<span class="pagenum"><a name="Page_18v" id="Page_18v" href="images/18v.jpg">[Pg
+18v]</a></span> fazem pagamento aos
+mercadores que deste Reino lhes leu&atilde;o fazenda porque o
+dinheiro he pouco
+na terra, e assy vend[~e] e troc&atilde; h[~u]a
+mercadoria por outra em seu justo
+pre&ccedil;o. Quantos moradores ha na terra tem Ro&ccedil;as de
+mantim[~e]tos, e v[~e]d[~e]
+muitas farinhas de pao h[~u]s aos outros, de que tambem
+tira&otilde; muito
+porueito.</p>
+<p>O mais gado que ha nesta costa sa&otilde; bois e vacas,
+deste ha muita
+abundan&ccedil;ia [~e] todallas capitanias, porque
+sa&otilde; as heruas muitas e sempre a
+terra esta cuberta de verdura, ainda que em porto seguro na&otilde;
+sequer[~e] dar
+nenh[~u]as vacas sen&atilde;o o primeiro anno, no qual engord<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19" href="images/19.jpg">[Pg
+19]</a></span>a&otilde; tanto que do
+muito vi&ccedil;o dizem que morr[~e] todas. Cabras e ouelhas
+ha muito poucas
+ategora, come&ccedil;a&otilde; de multiplicar nouamente; as cabras
+se da&otilde; melhor que
+as ouelhas E parem dous tres filhos de cadauez. fazem os moradores da
+terra muito por esta cria&ccedil;&atilde;o. Tambem ha egoas e
+cauallos, mas ainda sa&otilde;
+caros por na&otilde; auer muitos na terra, leua&otilde; nos do cabo
+verde pera la eda&otilde;
+se muito bem na terra.</p>
+<p>Achase tambem por esta costa muito Amber que omar de sy
+lan&ccedil;a fora as
+mais das vezes quando faz tormenta e sa&otilde; agoas viuas,
+enta&otilde; ha muitas
+pessoas que m&atilde;d&atilde; seus escrauos pella praya buscallo
+nos<span class="pagenum"><a name="Page_19v" id="Page_19v" href="images/19v.jpg">[Pg 19v]</a></span> lugares onde
+custuma sair mais vezes, e muitas vezes aconte&ccedil;e
+enrique&ccedil;er[~e] alg[~u]s assy
+do que acha&otilde; seus escrauos como do que Resgata&otilde; aos
+indios forros.
+Seg[~u]do a dita e ventura de cada h[~u]. Os panos que
+nesta terra se faz[~e] s&atilde;o
+dalgoda&otilde;, todo mais vay deste Reino. E assy ha tambem muitos
+escrauos de
+guine: estes sa&otilde; mais seguros [~q] os indios da terra
+por que nunca fog[~e]
+n[~e] tem pera onde. Ha tambem muita cria&ccedil;a&otilde;
+de porcos e muitas galinhas
+adens e patos da terra. Estas sa&otilde; as fazendas [~q]
+possu[~e] os moradores do
+brasil.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20" href="images/20.jpg">[Pg 20]</a></span></p>
+<h2><a name="Cap_2_dos_custumes_da_terra" id="Cap_2_dos_custumes_da_terra"></a>Cap. 2.&ordm;
+dos custumes da terra</h2>
+<p>As pessoas que no brasil querem viuer tanto que se fazem
+moradores da
+terra por pobres que seia&otilde; se cada h[~u]
+alcan&ccedil;ar dous pares ou meyaduzia
+descrauos ([~q] pode h[~u] por outro custar pouco mais ou
+menos ate dez
+cruzados) logo tem Remedio pera sua sostenta&ccedil;&atilde;o
+por[~q] h[~u]s lhe pescam e
+ca&ccedil;a&otilde; outros lhe fazem mantimentos e fazenda e assy
+pouco a pouco
+enRique&ccedil;[~e] os hom[~e]s e viuem
+honrradam[~e]te na terra com mais descanso [~q]
+neste Reino, por[~q] os mesmos escrauos indios da terra buscam
+de comer
+pera si e pera os senor[~e]s, e desta maneira na&otilde; fazem
+os hom[~e]s despeza
+com seus escrauos em m&atilde;timentos n[~e] com suas pessoas.<span class="pagenum"><a name="Page_20v" id="Page_20v" href="images/20v.jpg">[Pg
+20v]</a></span></p>
+<p>A maior parte das camas do Brasil sa&otilde; Redes, as quais
+arma&otilde; nu&atilde; casa com
+duas cordas e lan&ccedil;a&otilde;se nellas a dormir. este custume
+tomara&otilde; dos indios
+da terra.</p>
+<p>Os moradores destas capitanias tratamse muito bem e
+sa&otilde; mais largos que
+a gente deste Reino, assy no comer como no vestir de suas pessoas, e
+folgam dajudar h[~u]s aos outros com seus escrauos e
+fauorec[~e] muito os
+pobres que come&ccedil;&atilde;oviuer na terra. Isto se custuma
+nestas partes: e fazem
+outras muitas obras pias por onde todos tem Remedio de vida e
+nenh[~u]
+pobre anda pellas portas a pedir como neste Reino.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21" href="images/21.jpg">[Pg 21]</a></span></p>
+<h2><a name="Cap_3_das_callidades_da_terra" id="Cap_3_das_callidades_da_terra"></a>Cap.
+3.&ordm; das callidades da terra.</h2>
+<p>Ha nestas partes do Brasil seis meses de ver&atilde;o e seis
+de inuerno: os de
+ver&atilde;o s&atilde;o de setembro ate feuereiro, os de inuerno de
+mar&ccedil;o ate agosto.
+Assy que quando nesta prouin&ccedil;ia do brasil he inuerno
+c&aacute; nestes Reinos he
+ver&atilde;o, eos dias quasi s[~e]pre sa&otilde; tamanhos
+como as noites, hu&atilde; ora som[~e]te
+cre&ccedil;[~e] emingo&atilde;o. Cursa&otilde; sempre
+ventos gerais, no inuerno seis meses sul &eacute;
+sueste no ver&atilde;o nordeste. Sempre correm as agoas com o vento
+por costa,
+E por isso sena&otilde; pode nauegar de h[~u]as capitanias pera
+outras se na&otilde;
+esperar[~e] por mou&ccedil;&otilde;es pera irem com as agoas
+e com o vento, porque cursa&otilde;
+como digo seis meses du&atilde; parte e seis doutra<span class="pagenum"><a name="Page_21v" id="Page_21v" href="images/21v.jpg">[Pg
+21v]</a></span> e portanto sa&otilde; muitas
+veses as viagens vagarosas e quando v&atilde;o contra tempo as
+embarca&ccedil;o[~e]s
+corr[~e] muito Risco e arriba&otilde; as mais das vezes ao
+porto donde saira&otilde;.
+Mete se no meyo e na for&ccedil;a deste ver&atilde;o oito dias ante
+os Sanctos hu&atilde;
+tormenta de vento sul que dura hu&atilde; sommana, este he mui
+&ccedil;erto e geral,
+n[~u]ca se acha, que naquelles dias faltasse. Muitas
+embarca&ccedil;&otilde;es esper&atilde;o
+por este vento e fazem com elle suas viagens. Esta terra sempre he
+quente quasi t&atilde;to no inuerno como no ver&atilde;o. A
+vira&ccedil;a&otilde; do vento geral
+entra ao meyo dia, pouco mais oumenos, he tam fresco este
+v[~e]to e tam
+frio [~q] na&otilde; se sente mais calma,<span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22" href="images/22.jpg">[Pg
+22]</a></span> e ficam Recreados os corpos das
+pessoas. Dura este vento do mar a te de madrugada, torna dalli acalmar
+outra vez por causa dos vapores da terra [~q] o apagam e
+qu&atilde;do amanhe&ccedil;e
+est&aacute; o ceo todo cuberto de nuuens e as mais das
+manh&atilde;s choue nestas
+partes e a terra fica toda cuberta de neuoa por que tem muitos
+aruoredos
+e chama a sy todos estes humores. Etanto [~q] este geral acalma
+come&ccedil;a a
+ventar da terra h[~u] vento brando que nella se gera, a te que o
+sol con
+sua quentura o torna apagar e alimpa tudo outra vez e faz ficar odia
+claro e sereno, entr&atilde;o logo [~e]tra o vento do mar
+acustumado. Este vento
+da terra he mui perigoso edoentio<span class="pagenum"><a name="Page_22v" id="Page_22v" href="images/22v.jpg">[Pg 22v]</a></span>
+e se a&ccedil;erta de permane&ccedil;er alg[~u]s dias
+morre muita gente assy portugeses como indios da terra, mas quer nosso
+sn&otilde;r que ac&otilde;te&ccedil;a isto poucas vezes, e tirado
+este mal he esta terra mui
+sallutifera e de b&otilde;s ares onde as pessoas se acha&otilde;
+bem despostas e viuem
+muitos annos prin&ccedil;ipalmente os velhos tem milhor
+despossi&ccedil;a&otilde; e pare&ccedil;[~e]
+que torm&atilde; a Renouar e porisso alg[~u]s se na&otilde;
+quer[~e] tornar a suas patrias
+temendo que nellas se lhes offere&ccedil;a amorte mais &ccedil;edo.
+os ares de pella
+manha&atilde; sa&otilde; mui frescos e sadios: muitas pessoas se
+custuma&otilde; alleu&atilde;otar
+&ccedil;edo por que se aporueitem delles enquanto tem esta vertude. A
+terra em
+si he<span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23" href="images/23.jpg">[Pg 23]</a></span> lassa e
+deleixada ach&atilde;ose nella os hom[~e]s alg[~u]
+tanto fracos e
+mingoados das for&ccedil;as que possuem c&aacute; neste Reino por
+Respeito da quentura
+e dos mantimentos que nella vsa&otilde;, isto he enquanto as pessoas
+sa&otilde; nouas
+na terra, mas de pois [~q] por tempo se acustum&atilde;o
+fic&atilde;o tam Rijos e bem
+despostos como se aquella terra fora sua mesma patria. Manda se dar
+nesta terra aos infermos carne de porco, pera qual quer doen&ccedil;a
+he
+porueitosa e na&otilde; faz mal a nenhu&atilde; pessoa: o peixe
+t&atilde;bem tem a mesma
+callidade e poem muita sustan&ccedil;ia aos doentes. Esta terra he
+mui fertil e
+vi&ccedil;osa, toda cuberta de altissimos e frondosos aruoredos<span class="pagenum"><a name="Page_23v" id="Page_23v" href="images/23v.jpg">[Pg
+23v]</a></span> permane&ccedil;e
+sempre a verdura nella inuerno e vera&otilde;, isto causa chouerlhe
+muitas
+vezes e na&otilde; auer frio que offenda ao que produz a terra. Ha
+por baixo
+destes aruoredos grande mato e muj basto e detalmaneira est&aacute;
+escuro e
+serrado em partes que nunca parte&ccedil;ipa o cha&otilde; da
+qu[~e]tura n[~e] da claridade
+do sol, e assy est&aacute; sempre humido e man&atilde;do agoa de
+s&yacute;. As agoas que na
+terra se bebem sa&otilde; mui sadias e sabrosas, por muita
+[~q] se beba na&otilde;
+prejudica a saude da pessoa, a mais della se torna logo a suar e fica o
+corpo desaliu&aacute;do e sa&otilde;. Finalm[~e]te que he
+esta terra t&atilde; delleitosa e
+temperada [~q] n[~u]ca nella se sente frio n[~e]
+quentura sobeja.<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24" href="images/24.jpg">[Pg 24]</a></span></p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_4_dos_mantimentos_da_terra" id="Cap_4_dos_mantimentos_da_terra"></a>Cap.
+4.&ordm; dos mantimentos da terra.</h2>
+<p>Nestas partes do Brasil n&atilde;o seme&atilde;o trigo nem
+se da outro mantimento alg[~u]
+deste Reino. o que la se come em lugar de pa&otilde; he farinha de
+pao: Esta se
+faz da Raiz du&atilde; pranta que se chama mandioca, aqual he como
+jnhame. E
+tanto que se tira de baixo da terra, est&aacute; cortindo se em agoa
+tres
+quatro dias E depois de cortida piza&otilde; na ou Rella&otilde; na
+muito bem e
+espremem na da quelle sumo de talmaneira que fique bem escorrida
+por[~q]
+he aquella agoa que sae della tam pessonhenta que qualquer pessoa ou
+animal que a beber logo naquelle instante morre: assy que de pois de a
+terem<span class="pagenum"><a name="Page_24v" id="Page_24v" href="images/24v.jpg">[Pg 24v]</a></span> deste modo
+curada, poem h[~u] alguidar grande sobre o fogo e como se
+aquenta, bota&otilde; aquella mandioca nelle E por espa&ccedil;o de
+meya ora est&aacute;
+naquella quentura cozendose, dally atira&otilde; E fica temperada
+pera se
+comer. ha todauia farinha de duas maneiras hu&atilde; se chama de
+gerra, E
+outra fresca, a de gerra he muito seca, fazemna desta maneira peradurar
+muito e na&otilde; sedanar: afresca he mais branda e t[~e]
+mais sustan&ccedil;ia,
+finalmente que na&otilde; he ta&otilde; aspera como a outra, mas
+na&otilde; dura mais que
+dous tres dias como passada qui logo se dana. Desta mesma mandioca
+fazem
+outra maneira de<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25" href="images/25.jpg">[Pg 25]</a></span> mantimentos que
+se chama&otilde; beiju&uacute;s, sa&otilde; mui aluos e
+mais grossos [~q] obreas: destes vsa&otilde; muito os
+moradores da terra porque
+sa&otilde; mais sabrosos e demilhor desista&otilde; que a farinha.
+Outra Raiz ha du&atilde;
+pranta que se chama A&yacute;pim daqual fazem h[~u]s bollos que
+pare&ccedil;em pa&otilde; fresco
+deste Reino e tambem se come assada como batata, de toda maneira se
+acha. nella m<sup>to</sup> gosto. Tambem ha naterra muito
+milho zaburro, este se
+daa em todallas capitanias E faz h[~u] pa&otilde; muito aluo.
+ha nesta terra muita
+copia de leite de vacas, muito arroz, faua feigo[~e]s muitos
+inhames e
+batatas, E outros legumes [~q] farta&otilde; muito a terra. Ha
+muita abundan&ccedil;ia<span class="pagenum"><a name="Page_25v" id="Page_25v" href="images/25v.jpg">[Pg 25v]</a></span>
+de marisco e de peixe portoda esta costa. Com estes mantimentos se
+sustenta&otilde; os moradores do Brasil sem fazerem gastos nem
+deminuir[~e] nada
+em suas faz[~e]das.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_5_da_caca_da_terra" id="Cap_5_da_caca_da_terra"></a>Cap. 5.&ordm; da
+ca&ccedil;a da terra.</h2>
+<p>Hu&atilde; das cousas que sostenta e abasta m<sup>to</sup>
+os moradores desta terra do
+Brasil, he amuita ca&ccedil;a que ha nestes matos de muitos generos e
+de
+diversas maneiras, aqual os mesmos indios da terra mata&otilde; assy
+com
+frechas como por industriade seus lassos e fojos onde custum&atilde;o
+tomar
+amaior parte della.</p>
+<p>Ha muitos veados e muita somma de<span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26" href="images/26.jpg">[Pg 26]</a></span>
+porcos montezes de muitas castas. H[~u]s
+pequenos ha naterra que tem as &ccedil;edas mui grossas, asperas e
+crespas,
+estes tem o embigo nas costas, matam se muitos delles, e doutros
+grandes
+que na&otilde; sa&otilde; desta callidade. Ha muitas antas que
+quasi sa&otilde; tamanhas como
+vacas e pas&ccedil;em heruas como outro gado qualquer, sua carne
+t[~e] o sabor
+como de vaca: a pelle deste animal he mui grossa e Rija. Ha tambem
+coelhos mas tem as orelhas doutra maneira mais pequenas e Redondas. Ha
+outros animais maiores que lebres que se chama&otilde; pacas, tambem
+tem carne
+m<sup>to</sup> sabrosa. H[~u]s bichos ha nesta terra
+[~q] tambem se com[~e] e se tem
+pella milhor<span class="pagenum"><a name="Page_26v" id="Page_26v" href="images/26v.jpg">[Pg 26v]</a></span> ca&ccedil;a
+que ha nomatto. cham&atilde;olhes Tat&uacute;s sa&otilde;
+tamanhos como
+coelhos E tem h[~u] casco amaneira de lagosta como de cagado, mas
+he
+Repartido em muitas juntas como laminas, pare&ccedil;e totalmente
+h[~u] caualo
+armado, tem h[~u] Rabo do mesmo casco comprido, o
+fo&ccedil;inho he como de
+leita&otilde;, e na&otilde; bota mais fora do casco [~q] a
+cabe&ccedil;a, tem as pernas baixas
+E cria&otilde; se em couas a carne delles tem o sabor quasi como de
+gallinha.
+Esta ca&ccedil;a he muito estimada na terra. ha tambem muitas
+gallinhas de mato
+que os indios mata&otilde; c&otilde; frechas, e outras muitas aues
+mui gordas e
+sabrosas milhores [~q] pordizes. Desta E doutra muita
+ca&ccedil;a ha no brasil
+<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27" href="images/27.jpg">[Pg 27]</a></span>m<sup>ta</sup>
+ab[~u]dan&ccedil;ia.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_6_das_fruitas_da_terra" id="Cap_6_das_fruitas_da_terra"></a>Cap. 6.&ordm;
+das fruitas da terra.</h2>
+<p>Hu&atilde; fruita se da nesta terra do Brasil muito sabrosa
+e mais prezada de
+q[~u]atas ha. Cria nu&atilde; pranta, humilde iunto do
+cha&otilde;, a qual tem hu&atilde;s
+pencas como cardo, a fruita della nas&ccedil;e como alcachofres e
+pare&ccedil;em
+naturalmente pinhas e sa&otilde; do mesmo tamanho, chama&otilde;
+lhes Ananaszes. Ede
+pois de maduros tem h[~u] cheiro muito ex&ccedil;ellente,
+colhemnos como sa&otilde; de
+vez, e c&otilde; hu&atilde; faca tira&otilde; lhes aquella casca
+grossa e fazem nos en
+talhadas e desta maneira, se com[~e]. ex&ccedil;edem no gosto
+aquantas fruitas ha
+neste Reino, e fazem todos tanto por esta fruita, [~q]
+manda&otilde; prantar
+<span class="pagenum"><a name="Page_27v" id="Page_27v" href="images/27v.jpg">[Pg 27v]</a></span>Ro&ccedil;as
+delles como de cardaes; aeste nosso Reino trazem m<sup>tos</sup>
+destes
+ananazes em conserua. Outra fruyta se cria n[~u]as aruores
+grandes, estas
+sena&otilde; pranta&otilde;, nas&ccedil;em pello mato muitas,
+esta fruita depois de madura he
+muito amarella, sa&otilde; como p&eacute;ros Repinaldos compridos,
+cham&atilde;o lhe cajuus,
+tem muito sumo, e cria se na ponta desta fruita de fora h[~u]
+caro&ccedil;o como
+castanha, e nas&ccedil;e diante da mesma fruita, oqual tem a casca
+mais
+amargosa que fel, e se tocar[~e] com ella nos bei&ccedil;os
+dura muito aquelle
+amargor e faz empollar toda boca, pello contrario este caro&ccedil;o
+assado, he
+muito mais gostoso [~q] am[~e]doa sa&otilde; de sua
+natureza mui quentes em estremo.
+ha naterra tantos destes<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28" href="images/28.jpg">[Pg 28]</a></span>
+caro&ccedil;os que os medem aos alqueires. Tambem ha
+hu&atilde; fruita que lhe chama&otilde; bananas, e pella lingoa dos
+indios pacouas, ha
+na terra muita abundan&ccedil;ia dellas: pare&ccedil;[~e] se
+na fei&ccedil;a&otilde; com pepinos, nas&ccedil;[~e]
+nu&atilde;s aruores mui tenrras ena&otilde; sa&otilde; muito
+altas, n[~e] tem Ramos sena&otilde; folhas
+mui comprimidas e largas. Estas bananas criamse em cachos alg[~u]
+se acha
+[~q] tem de cento e sincoenta pera cima, e muitas vezes he tam
+grande o
+pezo dellas que faz quebrar a aruore pello meyo. Como sa&otilde; de
+vez colhem
+estes cachos, e depois de colhidos amadure&ccedil;[~e], etanto
+[~q] que estas
+aruores da&otilde; hu&atilde; fruita, logo as corta&otilde; por
+que na&otilde; frutifi&ccedil;a&otilde; mais<span class="pagenum"><a name="Page_28v" id="Page_28v" href="images/28v.jpg">[Pg
+28v]</a></span> que
+a primeira vez, E torna&otilde; arrebentar pellos pees outras nouas.
+Esta he
+hu&atilde; fruita mui sabrosa e das bo&atilde;s que ha na terra,
+tem hu&atilde; pelle como de
+figo aqual lhes lan&ccedil;a&otilde; fora quando as quer[~e]
+comer E se com[~e] muitas
+dellas fazem damno a saude E causa&otilde; febre aqu[~e] se
+desm&atilde;da nellas. E
+assadas maduras sa&otilde; muito sadias E manda&otilde; se dar aos
+infermos. C&otilde; esta
+fruita se mantem amaior parte dos escrauos desta terra, por[~q]
+assadas
+verdes passa&otilde; por mantim[~e]to Equasi tem
+sustan&ccedil;ia de pa&otilde;. Ha duas
+callidades desta fruita, hu&atilde;s sa&otilde; pequenas como figos
+brojassotes as
+outras sa&otilde; maiores e mais compridas. Estas peque<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29" href="images/29.jpg">[Pg
+29]</a></span>nas tem dentro em si
+hu&atilde; cousa estranha aqual he que quando as corta&otilde;
+pello meyo com hu&atilde; faca
+ou porqualquer parte que seja acha se nellas h[~u] signal
+amaneira de
+cru&ccedil;ifixo, E assy totalmente o pare&ccedil;e. Tambem ha
+hu&atilde; fruita [~q] se chama
+Aracases, sa&otilde; como nespras postoque coma&otilde; muita
+na&otilde; faz[~e] mal a saude. Ha
+muita pimenta da terra come se verde, queima muito em grande maneira.
+Outras muitas fruitas ha pello mato d[~e]tro de diuersas
+callidades, E sa&otilde;
+tantas que ja se achara&otilde; pella terra dentro algu&atilde;s
+pessoas e sostentara&otilde;
+se c&otilde; ellas muitos dias sem outro mantimento alg[~u].
+Estas que aqui
+escreuo sa&otilde; asque os portugeses<span class="pagenum"><a name="Page_29v" id="Page_29v" href="images/29v.jpg">[Pg 29v]</a></span>
+tem antre sy em mais estima E
+asmelhores da terra. Algu&atilde;s fruitas deste Reino se
+da&otilde; nestas
+partes-s-muitos mello[~e]s, pepinos e figos de muitas castas,
+Rom&atilde;s m<sup>tas</sup>
+parreiras queda&otilde; huuas duas tres vezes no anno E tanto que
+hu&atilde;s se
+acaba&otilde;, come&ccedil;a&otilde; logo outras
+nouam[~e]te, E desta maneira n[~u]ca esta o brasil
+sem fruitas. De limo[~e]s e laranjas ha muita infinidade:
+da&otilde; se muito na
+terra estas aruores de espinho e multiplica&otilde; mais que as
+outras.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_7_da_Condicao_E_Custumes_dos_indios_da_terra" id="Cap_7_da_Condicao_E_Custumes_dos_indios_da_terra"></a>Cap.
+7.&ordm; da Condi&ccedil;a&otilde; E Custumes dos indios da
+terra.</h2>
+<p>Na&otilde; se pode numerar nem <span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30" href="images/30.jpg">[Pg 30]</a></span>compr[~e]der
+a multida&otilde; do barbaro gentio que
+semeou a natureza por toda esta terra do brasil por que ningem pode
+pello serta&otilde; dentro caminhar seguro, n[~e] passar por
+terra onde na&otilde; ache
+pouoa&ccedil;&otilde;es de indios armados contra todas as
+na&ccedil;o[~e]s humanas, Eassi como
+sa&otilde; muitos permittio Deos que fossem contrarios h[~u]s
+dos outros, E que
+ouuesse antrelles grandes odios E discordias porque se assy
+na&otilde; fosse os
+portugeses na&otilde; poder[~i]a viuer na terra nem seria
+possiuel, conquistar
+tamanho poder de gente, Auia muitos destes indios pella costa Junto das
+capitanias, tudo enfim estaua cheo delles quando
+come&ccedil;ar&atilde;o os<span class="pagenum"><a name="Page_30v" id="Page_30v" href="images/30v.jpg">[Pg 30v]</a></span>
+Portugeses apouoalla terra, mas por[~q] os mesmos indios se
+alleu&atilde;otaua&otilde;
+contra elles E fazia&otilde; lhes muitas trei&ccedil;o[~e]s,
+os gouernadores E capita[~e]s
+da terra destruira&otilde; nos pouco apouco e matara&otilde; muitos
+delles, outros
+fogira&otilde; pera o serta&otilde;, E assy ficou a costa
+despouoada de gentio aolongo
+das capitanias. Junto dellas ficara&otilde; alg[~u]as aldeas
+destes indios que
+sa&otilde;de paz e amigos dos portugeses.</p>
+<p>Alingoa deste gentio toda pella costa he hu&atilde;:
+care&ccedil;e de tres
+letras-s-na&otilde; se acha nella f, nem L, n[~e] R, cousa
+digna despanto, por[~q]
+assy na&otilde;tem se n[~e] lei, n[~e] Rei e desta
+maneira viu[~e] sem Justi&ccedil;a e
+<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31" href="images/31.jpg">[Pg 31]</a></span>desordenadam<sup>te</sup>.
+Estes indios anda&otilde; n[~u]s sem cobertura algu&atilde;
+assi
+machos como femeas na&otilde; cobr[~e] parte nenh[~u] de
+seu corpo e trazem
+descuberto quanto a natureza lhes deu. Viu[~e] todos em aldeas,
+pode auer
+em cada hu&atilde; sete oito casas, asquais sa&otilde; compridas.
+feitas amaneira de
+cordoarias e cadahu&atilde; dellas est&aacute; chea de gente
+du&atilde; parte e doutra, e
+cada h[~u] por sy tem sua estan&ccedil;ia e sua Rede armada
+emque dorme e assy
+esta&otilde; todos h[~u]s junto dos outros por ordem, e pello
+meyo da casa fica h[~u]
+caminho aberto pera se seruir[~e]. Na&otilde; ha comodigo
+antreelles nenh[~u] Rei n[~e]
+justi&ccedil;a som[~e]te em cada aldea tem h[~u]
+prin&ccedil;ipal [~q] he<span class="pagenum"><a name="Page_31v" id="Page_31v" href="images/31v.jpg">[Pg 31v]</a></span>
+como capita&otilde; aoqual
+obede&ccedil;[~e] por vontade e na&otilde; por
+for&ccedil;a, morrendo este prin&ccedil;ipal fica seu
+filho no mesmo lugar na&otilde; serue doutra cousa se na&otilde;
+dir c&otilde; elles a gerra
+e conselhallos como seha&otilde; dauer na pelleja, mas na&otilde;
+castiga seus erros
+n[~e] manda sobrelles cousa algu&atilde; contra sua vontade.
+Este prin&ccedil;ipal tem
+tres quatro molheres, a primeirat[~e] em mais conta, e faz della
+mais caso
+que das outras, Isto tem por estado e por honrra. Na&otilde;
+adora&otilde; em cousa
+algu&atilde; n[~e] tem pera sy que ha na outra vida gloria
+pera os b&otilde;s, e pena
+pera os maos, tudo cuida&otilde; que se acaba nesta e que as almas
+fene&ccedil;em<span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32" href="images/32.jpg">[Pg 32]</a></span> com
+os corpos, e assi viuem bestialm[~e]te sem ter conta
+n[~e] pezo, n[~e] medida.</p>
+<p>Estes indios sa&otilde; mui bellicosos e tem sempre grandes
+gerras h[~u]s contra
+os outros nunca se acha nelles paz n[~e] he possiuel auer
+antrelles amizade
+porque hu&atilde;s nas&ccedil;o[~e]s pelleja&otilde;
+contra outras e mata&otilde;se muitos delles, e
+assy vai cre&ccedil;endo o odio cada vez mais e fica&otilde; imigos
+verdadeiros
+perpetuamente. As armas com que pelleja&otilde; sa&otilde; arcos e
+frechas a cousa que
+apontar[~e] na&otilde; na erra&otilde;, sa&otilde; mui
+&ccedil;ertos com esta arma e mui temidos
+nagerra, anda&otilde; sempre nella exer&ccedil;itados. e
+sa&otilde; mui inclinados apellejar
+e muy<span class="pagenum"><a name="Page_32v" id="Page_32v" href="images/32v.jpg">[Pg 32v]</a></span> vallentes e
+esfor&ccedil;ados contra seus aduersarios, e assy pare&ccedil;e
+cousa estranha ver dous tres mil hom[~e]s nus d[~u]a parte
+e doutra c&otilde; grandes
+assubios e gritta frechando h[~u]s aos outros, e enquanto dura
+esta pelleja
+n[~u]ca esta&otilde; com os corpos quedos mene&atilde;dose
+du&atilde; parte pera outra com muita
+ligeireza pera que na&otilde; possa&otilde; apontar n[~e]
+fazer tiro em pessoa certa
+algu&atilde;s velhas custuma&otilde; apanharlhes as frechas pello
+cha&otilde; e seruillos
+emquanto pelleja&otilde;. Gente he esta mui atreuida e que teme muito
+pouco
+amorte, e quando va&otilde; agerra sempre lhes pare&ccedil;e que
+tem &ccedil;erta a Victoria
+e que nenh[~u] de sua companhia ha de morrer, e qu&atilde;do<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33" href="images/33.jpg">[Pg
+33]</a></span> partem dizem vamos
+matar sem mais considera&ccedil;a&otilde; e na&otilde;
+cuida&otilde; que ta&otilde;bem podem ser ven&ccedil;idos.
+Na&otilde; da&otilde; vida anenh[~u] catiuo todos
+mata&otilde; e com[~e], emfim que suas gerras sa&otilde;
+mui perigosas, e deu[~e] se ter em muita conta por que
+hu&atilde; das cousas que
+desbaratou muitos portugeses foi a pouca estima em [~q]
+tinha&otilde; agerra dos
+indios e o pouco caso que fazia&otilde; delles e assy
+morrera&otilde; m<sup>tos</sup>
+miserauelmente por na&otilde; se aper&ccedil;eber[~e] como
+comuinha, destes ouue muitas
+mortes desestradas: E isto aconte&ccedil;e cada pa&ccedil;o nestas
+partes.</p>
+<p>Quando estes indios toma&otilde; alg[~u]s contrarios
+sellogo comaquelle impito os
+na&otilde; mata&otilde; leua&otilde; nos viuos pera suas aldeas
+(ou<span class="pagenum"><a name="Page_33v" id="Page_33v" href="images/33v.jpg">[Pg 33v]</a></span> seia&otilde;
+portugeses ou
+quaisquer outros indios seus imigos) E tanto que chega&otilde; a suas
+casas
+lan&ccedil;a&otilde; h[~u]a corda muj grossa ao
+pesco&ccedil;o do catiuo pera que na&otilde; possa
+fogir, e arma&otilde; lhe hu&atilde; Rede em que durma e
+da&otilde; lhe h[~u]a india mo&ccedil;a a mais
+fermosa e honrrada que ha naldea pera [~q] durma com elle, e
+tambem tenha
+cuidado de o guardar, e na&otilde; vay pera parte que na&otilde; no
+acompanhe. Esta
+india tem cargo de lhe dar muito bem de comer e beber, e de pois de
+oter[~e] desta maneira sinco ou seis meses ou o tempo que
+quer[~e] determina&otilde;
+de o matar, e fazem grandes serimonias e festas aquelles dias e
+aparelha&otilde; muitos vinhos pera se embebeda<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34" href="images/34.jpg">[Pg
+34]</a></span>rem e fazemnos da Raiz du&atilde;
+herua [~q] se chama aipim, aqual feru[~e] primeiro e
+depois de cozida
+mastiga&otilde; na h[~u]as mo&ccedil;as virgens, e esprememna
+n[~u]s potes gr&atilde;des e dalli
+atres ou quatro dias o bebem. E o dia que ha&otilde; matar este
+catiuo pella
+manha&atilde; se algu&atilde; Ribeira est&aacute; junto daldea
+leua&otilde; no abanhar nella
+comgr&atilde;des cantares e follias, etanto [~q] chegam com
+elle a aldea, attam
+no pella cinta com quatro cordas cada h[~u]a pera sua parte e
+tres quatro
+indios pegados em cada ponta destas e assi o leua&otilde; ao meyo
+d[~u] terreiro e
+tira&otilde; tanto por estas cordas que na&otilde; se possa bollir
+pera h[~u]a parte n[~e]
+pera outra, as ma&otilde;s lhe deixa&otilde; soltas porque<span class="pagenum"><a name="Page_34v" id="Page_34v" href="images/34v.jpg">[Pg
+34v]</a></span> folgam de o ver deffender
+com ellas. Aquelle que o ha de matar empena se primeiro com penas de
+papagayo de muitas coores portodo corpo: ha de ser este matador o mais
+vallente da terra e o mais honrado. Traz na ma&otilde; hu&atilde;
+espada d[~u] pao mui
+duro e pezado com que custuma&otilde; de matar, e chegase ao
+pade&ccedil;[~e]te diz[~e]do
+lhe muitas cousas e amea&ccedil;andolhe sua gera&ccedil;a&otilde;
+que o mesmo ha de fazer a
+seus parentes, e de pois de oter afrontado com muitas pallauras
+injuriosas dalhe hu&atilde; gr&atilde;m pancada na cabe&ccedil;a
+e logo da primeira o mata e
+lha faz[~e] peda&ccedil;os. Est&aacute; hu&atilde; india
+velha c&otilde; h[~u] caba&ccedil;o na ma&otilde;. E assi
+como
+elle<span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35" href="images/35.jpg">[Pg 35]</a></span> cae a code muito
+de pressa com elle a meterlho na cabe&ccedil;a pera
+tomar os meollos eo sange: tudo emfim cozem eassa&otilde; e
+na&otilde; fica delle
+cousaque na&otilde; coma&otilde;. Isto he mais por
+vingan&ccedil;a e por odio que por se
+fartar[~e]. De poisque com[~e] a carne destes contrarios
+ficam nos odios
+confirmados, e sentem muito esta injuria, e por isso anda&otilde;
+sempre a
+vingarse h[~u]s contra os outros. E se amo&ccedil;a que dormia
+com o catiuo fica
+prenhe aquella crian&ccedil;a que par[~e] de pois de criada,
+mata&otilde; na e com[~e] na e
+dizem que aquella menina ou menino era seu contrario verdadeiro, e
+porisso estima&otilde; muito comerlhe a carne e vingar se delle. E<span class="pagenum"><a name="Page_35v" id="Page_35v" href="images/35v.jpg">[Pg
+35v]</a></span> porque a
+ma[~y] sabe o fim que ha&otilde; de dar aesta
+crian&ccedil;a, muitas vezes quando se
+sente prenhe mataa dentro da barriga, e faz conque moua. E
+aconte&ccedil;e
+algu&atilde;s vezes affei&ccedil;oar se tanto aeste catiuo e tomar
+lhe tanto amor que
+foge com elle pera sua terra pello liurar da morte. E assy
+alg[~u]s
+portugeses ha que desta maneira escapara&otilde; e esta&otilde; oje
+[~e] dia viuos, e
+muitos indios que do mesmo modo se saluara&otilde;, ainda que
+sa&otilde; alg[~u]s ta&otilde;
+brutos que na&otilde; querem fogir depois de os terem presos: porque
+ouue alg[~u]
+que estaua ja no terrejro atado pera pade&ccedil;er e daua&otilde;
+lhe a vida e na&otilde;
+quis sena&otilde; que o matassem, dizendo que<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36" href="images/36.jpg">[Pg 36]</a></span>
+seus parentes o na&otilde; teria&otilde; por
+Vallente e que todos correria&otilde; com elle e daqui vem
+na&otilde; estimar[~e] a
+morte, e quando chega a quella ora na&otilde; na terem em conta
+n[~e] mostrar[~e]
+nenhu&atilde; tristeza naquelle passo. Finalmente [~q]
+sa&otilde; estes indios mui
+deshumanos e crueis, na&otilde; se mou[~e] a nenhu&atilde;
+piedade: viuem como brutos
+animais s[~e] ordem n[~e] con&ccedil;erto de
+hom[~e]s sa&otilde; muidesonestos e dados a
+sensuallidade e entreg&atilde;se aos vi&ccedil;os como se nelles
+na&otilde; ouuera Reza&otilde; de
+humanos, ainda que todauia sempre tem Resquardo os machos eas femeas em
+seu ajuntamento e mostr&atilde; ter nisto alg[~u]a vergonha.
+Todos com[~e] carne
+humana e tem na pella milhor<span class="pagenum"><a name="Page_36v" id="Page_36v" href="images/36v.jpg">[Pg 36v]</a></span>
+iguoaria de quantas pode auer: na&otilde; de seus
+amigos com quem elles tem paz se na&otilde; dos contrarios. Tem esta
+callidade
+estes indios que de qualquer cousa que coma&otilde; por pequena que
+seja ha&otilde; de
+conuidar com ella quanta esteuer[~e] presentes, s&oacute; esta
+proximidade se acha
+antrelles. Com[~e] dequantos bichos secria&otilde; na terra,
+outro nenh[~u] engeita&otilde;
+por pessonhento que seja somente aranha.</p>
+<p>Tem estes indios machos por custume arr&atilde;carem toda
+barba e na&otilde; consent[~e]
+nenh[~u] cabello em parte algu&atilde; de seu corpo, saluo na
+cabe&ccedil;a ainda que
+orredor della por baixo tudo arranca&otilde;. As femeas<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37" href="images/37.jpg">[Pg
+37]</a></span> preza&otilde; se muito de
+seus cabellos e trazem nos muito compridos e penteados e as mais dellas
+emnastrados. Os machos custuma&otilde; trazer[~e] o
+bei&ccedil;o furado e hu&atilde; pedra no
+buraco metida por gallantaria outros ha que trazem o Rosto todo cheo de
+buracos e assy pare&ccedil;[~e] mui feos e disformes: isto
+lhes fazem quando sa&otilde;
+meninos. Tambem alg[~u]s indios anda&otilde; pintados portodo
+corpo, pello qual
+faz[~e] h[~u]s Riscos de muitas maneiras e
+po[~e]lhes hu&atilde; &ccedil;erta tinta e ficam
+sempre os mesmos Riscos escritos na carne: isto na&otilde; traz se
+na&otilde; qu[~e] tem
+feito algu&atilde; valentia. E assi tambem machos como femeas
+custuma&otilde;
+atingirse c&otilde; o sumo<span class="pagenum"><a name="Page_37v" id="Page_37v" href="images/37v.jpg">[Pg 37v]</a></span>
+du&atilde; fruita que se chama genipapo que he verde
+quando se piza e depois que opo[~e] no corpo e se inxuga fica
+mui negro e
+por muito que se laue n&atilde;o se tira se na&otilde; aos noue
+dias, isto tudo faz[~e]
+por gallantaria.</p>
+<p>Estas indias guarda&otilde; castidade a seus maridos e
+sa&otilde; muito suas amigas
+porque tambem elles sofrem mal adulterios. Casa&otilde; os mais
+delles com suas
+sobrinhas filhas de seus irm&atilde;os ou irm&atilde;as, estas
+sa&otilde; suas molheres
+verdadeiras e na&otilde; lhas podem negar seus pais.</p>
+<p>Alg[~u]as indias se ach&atilde; nestas partes
+[~q] jur&atilde;o e prometem castidade, e
+assy na&otilde; casa&otilde; n[~e]
+conhe&ccedil;[~e] hom[~e] algum<span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38" href="images/38.jpg">[Pg 38]</a></span>
+de nenhu&atilde; callidade, n[~e] no
+consentira&otilde; ainda que por isso as matem. Estas deixa&otilde;
+todo o exer&ccedil;i&ccedil;io
+de molheres e immitta&otilde; os hom[~e]s e segem seus
+offi&ccedil;ios como sena&otilde; fossem
+molheres, e corta&otilde; seus cabellos da mesma maneira que os
+machos trazem e
+va&otilde; agerra com seu arco e frechas, e aca&ccedil;a: enfim que
+anda&otilde; sempre na
+companhia dos hom[~e]s, e cada h[~u]a tem molher que a
+serue e que lhe faz de
+comer como se foss[~e] casados.</p>
+<p>Estes indios viuem mui descansados, na&otilde; tem cuidado
+de cousa algu&atilde; se
+na&otilde; de comer e beber e matar gente e porisso sa&otilde; mui
+gordos em estremo.
+E assy tambem com quer desgosto amagre&ccedil;<span class="pagenum"><a name="Page_38v" id="Page_38v" href="images/38v.jpg">[Pg 38v]</a></span>[~e]
+muito, e como se agasta&otilde; de
+qualquer cousa com[~e] terra e desta maneira morr[~e]
+muitos delles
+bestialmente. Todos seg[~e] muito o conselho das velhas tudo a
+que ellas
+lhe dizem fazem e t[~e] no por mui &ccedil;erto, da qui vem a
+muitos moradores na&otilde;
+comprar[~e] nenh[~u]as por lhes na&otilde;
+fazer[~e] fogir seus escrauos.</p>
+<p>Quando estas indias parem a primeira cousa que fazem de pois
+do parto
+laua&otilde; se todas n[~u] Ribeiro e ficam tambem despostas
+como sena&otilde; parira&otilde;,
+em lugar dellas se deita&otilde; seus maridos nas Redes e assy os
+vesita&otilde; e
+cura&otilde; como se elles fossem as paridas.</p>
+<p>Quando alg[~u] destes indios morre cus<span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39" href="images/39.jpg">[Pg
+39]</a></span>tuma&otilde; enterrallo n[~u]a coua
+assentado
+sobre os pees com sua Rede as costas em que elle dormia, e logo pellos
+primeiros dias poem lhe de comer em cima da coua. Outras muitas
+bestiallidades vsa&otilde; estes indios que aqui na&otilde; escreuo
+porque minha
+ten&ccedil;a&otilde; foi na&otilde; ser comprido, e passar por
+tudo isto com breuidade.</p>
+<p>Dos Resgates.</p>
+<p>Estes indios na&otilde; possu[~e] nenhu&atilde;
+fazenda, n[~e] procura&otilde; acquerilla como os
+outros hom[~e]s, somente cobi&ccedil;a&otilde; muito
+algu&atilde;s cousas que va&otilde; deste
+Reino-s-camisas, pellotes, ferram[~e]tas e outras cousas que
+elles tem em
+muita estima e deseja&otilde; muito alc&atilde;&ccedil;ar dos
+portugeses. Atroco disto se
+<span class="pagenum"><a name="Page_39v" id="Page_39v" href="images/39v.jpg">[Pg 39v]</a></span>v[~e]dia&otilde;
+h[~u]s aos outros, eos portugeses Resgataua&otilde; m<sup>tos</sup>
+delles e
+salteaua&otilde; quantos queria&otilde; sem ningem lhes ir
+ama&otilde;, mas ja gora na&otilde; ha
+isto na terra n[~e] Resgates como soya, porque de pois que os
+padres da
+companhia viera&otilde; aestas partes prouera&otilde; neste
+nego&ccedil;io e vedara&otilde; muitos
+saltos que fazia&otilde; os portugeses por esta costa os quais
+emcarregaua&otilde;
+muito suas cons&ccedil;ien&ccedil;ias com catiuar[~e] muitos
+indios c&otilde;tra direito e
+mouer[~e] lhes gerras injustas. E porisso ordenara&otilde; os
+padres e fezer&atilde; com
+os capita[~e]s daterra que na&otilde; ouuesse mais resgates
+n[~e] consentiss[~e] que
+fosse nenh[~u] portuges a suas aldeas sem
+li&ccedil;en&ccedil;a do mesmo capita&otilde;. E
+quantos<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40" href="images/40.jpg">[Pg 40]</a></span> escrauos agora
+vem nouamente do serta&otilde; oudas outras capitanias
+todos leu&atilde;o primeiro a Alfandega e alli os examina&otilde; e
+lhes fazem
+preguntas qu[~e] os vendeo, ou como for&atilde;o Resgatados,
+porque ningem os pode
+vender se n&atilde;o seus pais ou aquelles que em justa gerra os
+catiu&atilde;o. E os
+que acha&otilde; mal acqueridos poem nos em sua liberdade, e desta
+maneira
+quantos indios se compra&otilde; sa&otilde; bem Resgatados e os
+moradores da terra na&otilde;
+deixa&otilde; porisso dir m<sup>to</sup> auante com suas
+fazendas.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_8_dos_bichos_da_terra" id="Cap_8_dos_bichos_da_terra"></a>Cap. 8.&ordm;
+dos bichos da terra.</h2>
+<p>Na&otilde; me pare&ccedil;eo cousa fora de preposito<span class="pagenum"><a name="Page_40v" id="Page_40v" href="images/40v.jpg">[Pg
+40v]</a></span> tratar tambem neste summario
+dalg[~u]s bichos que nestas partes se cria&otilde; pois tudo ha
+na mesma terra,
+dado que daqui se n&atilde;o comprehenda mais que a
+differen&ccedil;a e a variadade
+das criaturas que ha du&atilde;s terras pera outras.</p>
+<p>Ha nestas partes muitos bichos mui feros e pessonhentos,
+prin&ccedil;ipalmente
+cobras de muitas castas e de nomes diuersos. Hu&atilde;s ha
+tamgrandes e tam
+disformes que engolem h[~u] veado todo inteiro, e
+affirm&atilde;o que tem esta
+cobra tal callidade que de pois de oter comido arrebenta pella barriga
+e
+apodre&ccedil;e quanta carne tem pello corpo e fica som[~e]te
+no espinha&ccedil;o com<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41" href="images/41.jpg">[Pg 41]</a></span>
+a
+cabe&ccedil;a e a ponta do Rabo sa&atilde;, e tanto que desta
+maneira fica torna pouco
+a pouco a criar carne noua ate que se cobre outra vez da mesma carne
+ta&otilde;
+perfectamente como dantes, Isto vira&otilde; e
+exprem[~e]tara&otilde; m<sup>tos</sup> indios e
+moradores da terra. aesta cham&atilde;o pella lingoa dos indios
+Giboioss&uacute;.
+Outras ha muito maiores e mais possonhentas doutra casta differente.
+Sa&otilde;
+tamgrandes en tanto estremo que apenas desaseis indios podia&otilde;
+leuar hu&atilde;
+que matar&atilde;o junto da costa antre os Portugeses aesta cobra
+chama&otilde;
+Surucuc&ugrave;. Outra gera&ccedil;&atilde;o ha dellas que lhe
+chama&otilde; boiteninga, tem na
+ponta do Rabo hu&atilde; cousa que soa propriamenta, como cascauel e
+por onde<span class="pagenum"><a name="Page_41v" id="Page_41v" href="images/41v.jpg">[Pg 41v]</a></span>
+esta cobra vai sempre anda Rogindo. he hu&atilde; das feras bichas
+que ha na
+terra. Outras ha que lhe cham&atilde;o hebijaras. tem duas bocas
+hu&atilde; na cabe&ccedil;a
+outra no rabo mordem com ambas, esta cobra he branca e mui curta, o
+mais
+do tempo esta debaixo da terra, he pessonhentissima sobre todas, quem
+desta formordido n&atilde;o tera vida muitas oras, e assy qualquer
+destas
+outras que morder algu&atilde; pessoa o mais quedura sa&otilde;
+vinte equatro oras. Ha
+outra callidade dellas que na&otilde; tem dentes n[~e] mordem.
+Estas na&otilde; sa&otilde;
+pessonhentas n[~e] tam pouco muito grandes cham&atilde;o lhe
+Japaranas. Tamb[~e]
+affirm&atilde;o alg[~u]s hom[~e]s que vir&atilde;o serp<span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42" href="images/42.jpg">[Pg
+42]</a></span>[~e]tes nesta terra com azas mui
+grandes E espantosas, mas acha&otilde; se Raram[~e]te. Ha
+muitos lagartos e
+grandes pellos Rios dagoa do&ccedil;e e pellos matos cuios
+testicollos cheira&otilde;
+milhor que almisere, E aqualquer Roupa que os cheg&atilde;o fica
+ocheiro pegado
+por muitos dias.</p>
+<p>Os bichos mais feros e mais danosos [~q] ha na terra
+sa&otilde; tigres, estes
+animais sa&otilde; delles tamanhos como bezerros, va&otilde; se aos
+currais do gado
+dos moradores e mata&otilde; muito delle e sa&otilde; ta&otilde;
+feros e for&ccedil;osos que hu&atilde; m&atilde;o
+que lan&ccedil;a&otilde; a hu&atilde; vitella ou nouilho lhe
+fazem botar osmeollos fora e
+leu&atilde;o no arrasto pera omato. Tambem pella terra dentro
+mata&otilde; e com[~e]
+alg[~u]s indios qu&atilde;do<span class="pagenum"><a name="Page_42v" id="Page_42v" href="images/42v.jpg">[Pg 42v]</a></span>
+se acha&otilde; famintos. Sobem pellas aruores como gatos,
+e dalli espreita&otilde; aca&ccedil;a que por baixo passa e Remetem
+de salto aella e
+destamaneira na&otilde; lhes escapa nada alg[~u]s destes
+animais mata&otilde; enfojos os
+moradores da terra.</p>
+<p>Toda esta terra do Brasil he cuberta de formigas pequenas e
+grandes,
+estas faz[~e] alg[~u] dano as parreiras dos moradores e as
+larangeiras que tem
+nos quintaes, e se na&otilde; fora&otilde; estas formigas ouuera
+poruentura muitas
+vinhas no brasil ainda que la sa&otilde; pouco ne&ccedil;essarias
+por[~q] deste Reino
+vai tanto vinho que sempre aterra delle est&aacute; prouida.</p>
+<p>Tambem ha muita infinidade de mosquitos<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43" href="images/43.jpg">[Pg 43]</a></span>
+prin&ccedil;ipalmente ao longo dalg[~u]
+Rio antre hu&atilde;s aruores que se chama&otilde; manges
+na&otilde; pode nenhu&atilde; pessoa
+esperallos, e pello mato quando na&otilde; ha
+vira&ccedil;a&otilde; sa&otilde; mui sobejos e perseg[~e]
+muito a gente.</p>
+<p>Tambem ha hu&atilde; gera&ccedil;a&otilde; de Ratos que
+traz[~e] os filhinhos pendurados na
+barriga e alli se cria&otilde; e anda&otilde; assy pegados ate
+ser[~e] gr&atilde;des. Bogios ha
+muitos e de muitas castas como ja se sabe: tanto que as femeas parem
+pega&otilde; se os filhos nas suas costas e sempre anda&otilde;
+caualgados nas m&atilde;is
+ate ser[~e] bem criados e posto que as persiga&otilde; e as
+matem na&otilde; sequer[~e]
+desapegar dellas. Ha tambem muitos lobos marinhos e porcos marinhos que
+se cria&otilde; no mar e na terra. Outros<span class="pagenum"><a name="Page_43v" id="Page_43v" href="images/43v.jpg">[Pg 43v]</a></span>
+muitos bichos ha nestas partes pella
+terra dentro que sera impossiuel poder[~e] se conhe&ccedil;er
+n[~e] escreuer tanta
+multida&otilde; por[~q] assy como a terra he grandissima, assy
+sa&otilde; muitas as
+callidades e efei&ccedil;&otilde;es das criaturas que Deos nella
+criou.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_9_da_terra_-X-q_certos_homes_da_Capitania_de_porto_seguro_forao_a" id="Cap_9_da_terra_-X-q_certos_homes_da_Capitania_de_porto_seguro_forao_a"></a>Cap.
+9.&ordm; da terra [~q] certos hom[~e]s da Capitania
+de porto seguro for&atilde;o a descobrir, e do [~q]
+achar&atilde;o nella.
+</h2>
+<p>Posto que minha ten&ccedil;a&otilde; na&otilde; era
+tratar neste summario sena&otilde; das cousas
+que sa&otilde; gerais portoda costa do Brasil,<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44" href="images/44.jpg">[Pg 44]</a></span>
+de que os moradores da terra
+parte&ccedil;ipa&otilde;, pare&ccedil;eo me tambem
+ne&ccedil;essario e conueniente aos louuores da
+terra denun&ccedil;iar neste Capitullo a Riqueza dos metais
+[~q] affirma&otilde; auer
+por ella dentro prou&atilde;do tudo isto com pessoas [~q] o
+achar&atilde;o, vir&atilde;o, e
+experem[~e]tar&atilde;o: e amaneira como se descobrio foi esta
+[~q] se sege.</p>
+<p>A esta Capitania de porto seguro chegar&atilde;o certos
+indios do sert&atilde;o a dar
+nouas d[~u]as pedras verdes que auia n[~u]a serra muitas
+legoas pella terra
+dentro, e trazia&otilde; algu&atilde;s dellas por amostra, as quais
+er&atilde;o esmeraldas
+mas n&atilde;o de muito pre&ccedil;o. E os mesmos indios
+dezi&atilde;o [~q] daquellas<span class="pagenum"><a name="Page_44v" id="Page_44v" href="images/44v.jpg">[Pg 44v]</a></span>
+auia
+muitas, e que esta serra era muj fermosa e Resplande&ccedil;ente.
+Tanto [~q] os
+moradores desta Capitania disto for&atilde;o certificados
+fezera&otilde; se prestes
+sinco[~e]ta ou sesenta portugeses com alg[~u]s indios da
+terra e partir&atilde;o
+pello sert&atilde;o dentro com determin&ccedil;&atilde;o de
+chegar aesta serra onde estas
+pedras estaua&otilde;. Hia por capit&atilde;o desta gente
+h[~u] martim carualho que agora
+he morador da Bahia de todollos sanctos, Entrar&atilde;o pella terra
+algu&atilde;s
+dozentas e vinte legoas, onde as mais das serras [~q]
+achar&atilde;o e vir&atilde;o er&atilde;o
+de mui fino christal e toda terra [~e] si mui fragosa, E outras
+muitas
+serras de h[~u]a tarra azullada, nas quais af<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45" href="images/45.jpg">[Pg
+45]</a></span>firm&atilde;o auer muito ouro porque
+indo elles por antre duas serras destamaneira for&atilde;o dar
+n[~u] Ribeiro que
+pello pee d[~u]a dellas de&ccedil;ia noqual achar&atilde;o
+antre area h[~u]s gr&atilde;os meudos
+amarellos, osquais alg[~u]s hom[~e]s apalpara&otilde;
+com os dentes e achar&atilde;o nos
+br&atilde;dos mas na&otilde; se desfazi&atilde;o, finalmente que
+todos assentara&otilde; ser aquillo
+ouro n[~e] podia ser outro metal pois omesmo ouro desta maneira
+nas&ccedil;e nas
+partes onde o ha. Apanhar&atilde;o destes gra&otilde;s antre area
+do Ribeiro
+quantidade dum punhodo os quais achara&otilde; muito pezados que
+tambem era
+proua de ser ouro; disto na&otilde; fezer&atilde;o mais
+experien&ccedil;ia por ser aquillo no
+deserto e auer muitos dias [~q] pade&ccedil;ia&otilde;
+gr&atilde;de<span class="pagenum"><a name="Page_45v" id="Page_45v" href="images/45v.jpg">[Pg 45v]</a></span> fome nem
+comi&atilde;o outra
+cousa sena&otilde; semente deruas e alg[~u]a cobra que
+matau&atilde;o. passar&atilde;o adiante
+determinando avinda tornar por alli a per&ccedil;ebidos de mantim<sup>tos</sup>
+pera
+buscar[~e] a serra mais devagar donde aquelle ouro
+de&ccedil;ia ao Ribeiro.
+achara&otilde; pellos matos muita canafistola, e por este caminho
+achar&atilde;o
+outros m<sup>tos</sup> metais que na&otilde;
+conhecera&otilde;, n[~e] podiam esperar pellas
+gerras dos indios que se alleuantaua&otilde; contraelles.
+Alg[~u]s indios lhes
+dera&otilde; noticia segundo a men&ccedil;a&otilde; que
+fazi&atilde;o [~q] podiam estar cem legoas da
+serra das pedras verdes que hia&otilde; buscar e que n&atilde;o
+auia muito dalli ao
+peru&uacute; finalm[~e]te [~q] c&otilde;<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46" href="images/46.jpg">[Pg
+46]</a></span> os imigos que Recre&ccedil;i&atilde;o e
+pella gente [~q] adoe&ccedil;ia
+tornara&otilde; se outra vez em almadias por h[~u] Rio que se
+chama Cricar&eacute;, onde
+se perdeo n[~u]a cachoeira a canoa emque vinha&otilde; os
+gr&atilde;os douro [~q] trazia&otilde;
+pera mostra. Nesta viag[~e] gastar&atilde;o oito mezes e assi
+desbaratados
+chegar&atilde;o aesta Capitania de porto seguro. Os que deste perigo
+escapara&otilde;
+affirm&atilde;o auer naquellas partes muito ouro seg[~u]do
+asmostras e os Signais
+que achar&atilde;o: e se la tornar gente aper&ccedil;ebida como
+c&otilde;uem contoda prouisa&otilde;
+ne&ccedil;essaria, e leuarem pessoas que disto
+conhe&ccedil;a&otilde; diz[~e] que se descobrir&atilde;o
+nesta terra grandes minas.<span class="pagenum"><a name="Page_46v" id="Page_46v" href="images/46v.jpg">[Pg 46v]</a></span></p>
+<p>Quisera esereuer mais meudamente das particullaridades desta
+prouin&ccedil;ia
+do brasil, mas porque satisfezesse atodos com breuidade guardeime de
+ser
+comprido posto [~q] os louuores da terra pedissem outro liuro
+mais copioso
+E de maior vollume onde se comprehendess[~e] por
+exten&ccedil;o as ex&ccedil;ellencias e
+diuersidades das cousas [~q] ha nella pera Remedio e porueito
+dos hom[~e]s
+que la for[~e] viuer. E por que a felli&ccedil;idade e
+augm[~e]to desta prouin&ccedil;ia
+consiste em ser pouoada de muita g[~e]te, na&otilde; auia
+dauer pessoa pobre
+nestes Reinos [~q] na&otilde; fossem viuer aestas partes com
+fauor de .S.A. onde
+os hom[~e]s viu[~e] todos abastados e fora das
+ne&ccedil;essidades<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47" href="images/47.jpg">[Pg 47]</a></span>
+que c&aacute; pade&ccedil;em. E
+desta maneira permittira Deos que flore&ccedil;a tanto a terra desta
+noua
+lusitania que com ella se augmente muito a coroa destes Reinos e seia
+dos outros enuejada pera que n&atilde;o desejemos terras estranhas
+prometendo
+esta nossa tanta Riqueza e prosperidade aos [~q] afor[~e]
+buscar pera seu
+Remedio.</p>
+<p class="center"> Fin.</p>
+</body>
+</html>
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+<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"><head><title>The Project Gutenberg eBook of Tractado da Terra do Brasil, by Pero de Magalhães Gandavo.</title>
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+
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+</head>
+<body>
+<div class="mynote">
+<p>Notas de transcrição:</p>
+<ul>
+<li>a grafia do
+século XVI era totalmente livre; portanto, nenhum
+esforço foi feito para harmonizar acentos, grafia etc.</li>
+<li>se não consegue ver os caracteres neste ficheiro, por favor use <a href="tractado-lt1.html">esta versão do texto em formato Latin-1</a></li>
+</ul>
+</div>
+<div class="mynote">
+<!-- Autogenerated TOC. Modify or delete as required. -->
+<p><a href="#Ao_muy_alto_e_Serenissimo_Principe_dom_Anrrique_Cardeal_Iffante_de"><b>Ao
+muy alto e Serenìssimo Principe dom Anrrique Cardeal Iffante
+de portugal.</b></a><br />
+<a href="#Prollogo_Ao_lector"><b>Prollogo Ao lector.</b></a><br />
+<a href="#Declaracao_da_costa"><b>Declaracão
+da costa.</b></a><br />
+</p>
+<blockquote><p><a href="#Cap_1_da_capitania_de_Tamaraca"><b>Cap.
+1.º da capitania de Tamaracá.</b></a><br />
+<a href="#Cap_2_da_capitania_de_Phernabuco"><b>Cap.
+2.º da capitania de Phernãbuco.</b></a><br />
+<a href="#Cap_3_da_capitania_da_Bahya_de_Todollos_Sanctos"><b>Cap.
+3. da capitania da Bahya de Todollos Sanctos.</b></a><br />
+<a href="#Cap_4_da_capitania_dos_Ilheos"><b>Cap.
+4.º da capitania dos Ilheos.</b></a><br />
+<a href="#Cap_5_dua_nascao_de_gentio_-X-q_se_acha_nesta_Capitania"><b>Cap.
+5.º duã nascaõ de gentio q̃ se acha
+nesta Capitania.</b></a><br />
+<a href="#Cap_6_da_Capitania_de_Porto_seguro"><b>Cap.
+6. da Capitania de Porto seguro.</b></a><br />
+<a href="#Cap_7_da_Capitania_do_spirito_sancto"><b>Cap.
+7.º da Capitania do spirito sancto.</b></a><br />
+<a href="#Cap_8_da_Capitania_do_Rio_de_Janeiro"><b>Cap.
+8.º da Capitania do Rio de Janeiro.</b></a><br />
+<a href="#Cap_9_da_Capitania_de_SanVicente"><b>Cap.
+9.º da Capitania de SanViçente.</b></a></p>
+</blockquote>
+<p>
+<a href="#Tractado_segundo_das_cousas_que_sao_gerais_por_toda_Costa_do_Brasil"><b>Tractado
+segundo das cousas que são gerais por toda Costa do Brasil</b></a><br />
+</p>
+<blockquote><p><a href="#Cap_1_das_fazendas_da_terra"><b>Cap.
+1.º das fazendas da terra</b></a><br />
+<a href="#Cap_2_dos_custumes_da_terra"><b>Cap.
+2.º dos custumes da terra</b></a><br />
+<a href="#Cap_3_das_callidades_da_terra"><b>Cap.
+3.º das callidades da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_4_dos_mantimentos_da_terra"><b>Cap.
+4.º dos mantimentos da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_5_da_caca_da_terra"><b>Cap.
+5.º da caça da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_6_das_fruitas_da_terra"><b>Cap.
+6.º das fruitas da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_7_da_Condicao_E_Custumes_dos_indios_da_terra"><b>Cap.
+7.º da Condiçaõ E Custumes dos indios da
+terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_8_dos_bichos_da_terra"><b>Cap.
+8.º dos bichos da terra.</b></a><br />
+<a href="#Cap_9_da_terra_-X-q_certos_homes_da_Capitania_de_porto_seguro_forao_a"><b>Cap.
+9.º da terra q̃ certos homẽs da Capitania
+de porto seguro forão a descobrir, e do q̃
+acharão nella.</b></a></p><!-- End Autogenerated TOC. --></blockquote>
+</div>
+
+<div class="pagenum"><a name="Page_1" id="Page_1" href="images/01.jpg">[Pg 1]</a></div>
+<h1>TRACTADO DATERRA<br />
+do Brasil no qual Se cõtem<br />
+a informaçaõ das<br />
+cousas que ha nestas<br />
+partes feito por<br />
+Pº de magalhaẽs.</h1>
+<div class="pagenum"><a name="Page_1v" id="Page_1v" href="images/01v.jpg">[Pg
+1v]</a></div>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Ao_muy_alto_e_Serenissimo_Principe_dom_Anrrique_Cardeal_Iffante_de" id="Ao_muy_alto_e_Serenissimo_Principe_dom_Anrrique_Cardeal_Iffante_de"></a>Ao
+muy alto e Serenìssimo Principe dom Anrrique Cardeal Iffante
+de portugal.
+</h2>
+<p>Posto que os dias passados apresentei outro sũmario
+da terra do brasil a
+elRei nosso snõr, foi por comprir primeiro com esta
+obrigação de
+vassallo que todos deuemos anosso Rei: e por esta razáo me
+pareçeo cousa
+mui necessaria, (muýto Alto e serenissimo snõr)
+offereçer tambem este a
+V. A. aquẽ se deuem Refirir os louuores e
+acreçentamento das terras q̃
+nestes Reinos floreçem: pois sempre deseiou tanto augmentallas
+e
+<span class="pagenum"><a name="Page_2" id="Page_2" href="images/02.jpg">[Pg 2]</a></span>conseruar seus
+subditos e vassallos ẽ perpetua paz.</p>
+<p>Como eu isto entenda, e conheça quam
+aççeitos saõ os bõs
+seruiços a V.
+A. que ao Reino se fazem imaginei comigo que podia trazer destas partes
+com que desse testemunho de minha pura tençaõ: e
+acheý que naõ se podia
+dũ fraco homẽ esperar maior seruiço (ainda
+que tal naõ pareça) que
+lançar maõ desta informaçaõ da
+terra do Brasil (cousa q̃ ategora naõ
+imprendeo pessoa algũa) pera q̃ nestes Reinos se
+deuulge sua
+fertillidade e prouoque amuitas pessoas pobres que se vaõ
+viuer aesta
+prouinçia, que nisso consiste a felliçidade e
+augmento della. E porque
+<span class="pagenum"><a name="Page_2v" id="Page_2v" href="images/02v.jpg">[Pg 2v]</a></span>V. A. sabe quanto
+seruiço de Deos e delRei nosso Snõr seýa
+esta
+denunçiaçaõ determineý collegilla
+com deliberaçaõ de a offereçer a V. A.
+aquẽ humilmente peço ma Reçeba, e com
+tamanha merçe ficarei satisfeito
+Rogando a nosso Sñor lhe de prosperos e largissimos annos de
+vida e
+deixe permaneçer Seu Real estado emperpetua
+filliçidade. amẽ.</p>
+<p><span class="pagenum"><a name="Page_3" id="Page_3" href="images/03.jpg">[Pg 3]</a></span></p>
+<p class="center">Humilde vassallo de V. A. Pero de magalhães</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Prollogo_Ao_lector" id="Prollogo_Ao_lector"></a>Prollogo
+Ao lector.</h2>
+<p>Minha tençaõ naõ foi outra neste
+summario (discreto e corioso lector)
+senaõ de nunçiar em breues pallauras a fertillidade e
+abundançia da
+terra do brasil, pera que esta fama venha a notiçia de muitas
+pessoas
+que nestes Reinos viuem com pobreza, e naõ duuidem escolhelha
+pera seu
+Remedio: porq̃ a mesma terra he tam natural e fauorauel aos
+estranhos
+que a todos agazalha e conuida com Remedio por pobres e desemparados
+que
+seiaõ. Eassy cada vez se vay fazendo mais prospera, e depois
+q̃ as
+<span class="pagenum"><a name="Page_3v" id="Page_3v" href="images/03v.jpg">[Pg 3v]</a></span>terras
+viçosas se forem pouoando (que agora estaõ desertas
+por falta de
+gente) haõ se de fazer nellas grossas fazendas como ia
+estaõ feitas nas
+q̃ possuem os moradores da terra, etambem se espera desta
+prouinçia que
+por tempo floreça tanto na Requeza como as Antilhas de
+Castella por que
+he çerto ser en si aterra mui riqua e auer nella m<sup>tos</sup>
+metais, osquais
+ategora se naõ descobrẽ ou pornaõ auer
+gente na terra pera cometer esta
+impreza, outambem por negligençia dos moradores que se
+naõ querem despor
+aesse trabalho: qual seja a causa por que o deixaõ de fazer
+naõ sei. Mas
+permittira nosso snõr que ainda em nossos dias se
+descubrã nella grãdes
+<span class="pagenum"><a name="Page_4" id="Page_4" href="images/04.jpg">[Pg 4]</a></span>thezouros, assy
+pera seruiço e augmẽto de S. A. como pera porueito
+de
+seus vassallos que o deseião seruir.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Declaracao_da_costa" id="Declaracao_da_costa"></a>Declaracão da
+costa.</h2>
+<p>Esta costa do brasil está pera a parte do occidente,
+corre se de norte e
+sul. Da primeira pouoaçaõ a tederradeira ha
+trezẽtas e sincoenta legoas.
+Saõ oito capitanias todas tem portos mui seguros onde
+podẽ entrar quais
+quer naos por grandes que seiaõ. Naõ ha pella terra
+dentro pouoações de
+portugeses por causa dos indios que naõ no consente, etambem
+pello
+soccorro e tractos do Reino lhes he neçessario estarem iunto
+domar pera
+<span class="pagenum"><a name="Page_4v" id="Page_4v" href="images/04v.jpg">[Pg 4v]</a></span>terẽ
+comunicação de mercadorias. E por este Respeito
+viuẽ todos junto
+da Costa.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_1_da_capitania_de_Tamaraca" id="Cap_1_da_capitania_de_Tamaraca"></a>Cap.
+1.º da capitania de Tamaracá.</h2>
+<p>A pouoaçaõ da primeira capitania e mais
+antiga está nuã ilha que se
+chama Tamaracá pegada com aterra firme, tem tres legoas de
+comprido e
+duas de largo: tẽ trinta e sinco legoas de terra pella costa
+pera o
+norte. He de dona Jeronima dalBuquerque molher que foi de Pero Lopez de
+Sousa naqual tem posto Capitaõ de sua maõ. ha nella
+hũ engenho dassucre,
+e agora se fazẽ dous nouamẽte, e muito pao do
+brasil e algodaõ. Pode ter
+<span class="pagenum"><a name="Page_5" id="Page_5" href="images/05.jpg">[Pg 5]</a></span>ate
+çẽ vezinhos. Ha nesta capitania muitas e boas terras
+pera se
+pouoarem e fazerem nellas fazendas.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_2_da_capitania_de_Phernabuco" id="Cap_2_da_capitania_de_Phernabuco"></a>Cap.
+2.º da capitania de Phernãbuco.</h2>
+
+<p>A capitania de Phernambuco
+
+<span class="sidenote">Noua Lusitania a chamã muytos pollas
+frequẽcia, é policia</span>
+
+está sinco legoas de
+Tamaracá pera o sul em
+altura de oito graos, daqual he capitaõ e gouernador Duarte
+coelho
+dalBuquerque. Tem duas pouoações, a
+prinçipal se chama Olinda, a outra
+Guarassú que esta quatro legoas pella terra dentro. Auera
+nesta
+capitania mil vezinhos. Tem <span class="u">vinte etres</span>
+
+<span class="sidenote">agora som .60. anno de 1587.</span>
+
+engenhos dassucre, posto que
+tres ou quatro delles naõ saõ ainda acabados.<span class="pagenum"><a name="Page_5v" id="Page_5v" href="images/05v.jpg">[Pg
+5v]</a></span></p>
+
+<p>Algũs moem com bois aestes chamã tripiches,
+fazem menos assucre que os
+outros. mas amaior parte dos engenhos do brasil moẽ com agoa.
+Cada
+engenho destes hũ poroutro, faz <span class="u">trez</span>
+
+<span class="sidenote">agora quatro mil q̃ sam todas as
+arrouas q̃ se librã
+aqui, 240. M.</span>
+
+mil arrobas cadano.
+nesta
+capitania se fazem mais assucres que nas outras, porque ouue anno que
+passaraõ de sincoenta mil arrobas, ainda que o Rendimento
+delles naõ he
+çerto, saõ segundo asnouidades e os tempos que se
+offereçẽ. Esta seacha
+huã das Ricas terras do brasil, tem muitos escrauos indios
+q̃ he
+aprinçipal fazenda daterra. Daqui os leuaõ e compram
+pera todellas
+outras capitanias, porque ha nesta muitos, emais baratos que entoda
+costa. ha muitos<span class="pagenum"><a name="Page_6" id="Page_6" href="images/06.jpg">[Pg 6]</a></span> pao do brasil e
+algodaõ de que enrriqueçẽ os moradores
+desta capitania.</p>
+
+<p>O porto
+
+<span class="sidenote">a este porto se entra por un canal tam
+estreyto, q̃
+apenas cabe una náo por elle y sino entra cõ muyto
+tẽto, da en pedra
+viua y perdesse ô qual acõtece muytas vezes aos
+exprimẽtados: por isso
+se chama Paranambuc. q̃ quer dix Mar furado</span>
+
+onde os nauios entraõ está
+hũa legoa da pouoaçaõ Olinda seruense
+pella praya e tambem por hũ Rio pequeno que vai dar junto da
+mesma
+pouoaçaõ. Aesta capitania vaõ cadanno mais
+nauios do Reino que anenhuã
+das outras. Hanella hũ mosteiro de padres da companhia de
+Jesus.</p>
+<h2>Rios.</h2>
+
+<p>Ha dous Rios caudais ate a Bahia de todollos sanctos.
+hũ se chama de saõ
+francisco, está em dez graos e meyo, oqual entra nomar
+contanta furia q̃
+vinte legoas pello mesmo mar correm suas agoas<span class="pagenum"><a name="Page_6v" id="Page_6v" href="images/06v.jpg">[Pg 6]</a></span> outro Rio está em onze graos e dous terços
+que se chama o Rio Real,
+tambem he muigrande e correm muito suas agoas pello mar.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_3_da_capitania_da_Bahya_de_Todollos_Sanctos" id="Cap_3_da_capitania_da_Bahya_de_Todollos_Sanctos"></a>Cap.
+3. da capitania da Bahya de Todollos Sanctos.</h2>
+<p>A Capitania da Bahia de todollos sanctos esta çem
+legoas de phernãbuco
+emaltura de treze graos. terra del Rei nosso snõr onde Residem
+os
+gouernadores e bispo e ouuidor geral de toda costa. esta he a terra
+mais
+pouoada de portugueses que ha nobrasil. Tem tres
+pouoaçoẽs, a prinçipal
+he a cidade do saluador.<span class="pagenum"><a name="Page_7" id="Page_7" href="images/07.jpg">[Pg 7]</a></span>
+Aoutra se chama Villa Velha que esta junto da
+barra, Esta pouoaçaõ foi aprimeira que ouue nesta
+capitania: de pois
+Thome de Sousa Sendo gouernador edificou esta cidade do saluador mais
+adiãte meýa legoa ao longo da Bahia por ser lugar
+mais comueniente e
+porueitoso pera osmoradores da terra. Quatro legoas pella terra dentro
+está outraq̃ se chama Paripé. pode auer
+nesta capitania mil e çem
+vezinhos. Tem dez oito engenhos, algũs sefazem
+nouamẽte: tambem se tira
+delles muito assucre, ainda que osmoradores se lançã
+mais aoalgodaõ que
+a canas dassucres porque se daa milhor naterra.<span class="pagenum"><a name="Page_7v" id="Page_7v" href="images/07v.jpg">[Pg 7v]</a></span></p>
+<p>Dentro da çidade está hũ mosteiro
+de padres da companhia de Jesus,
+noqual tem colegio onde ensinã latim e casos de
+consçiençia. Afora este
+ha sinco igreias pella terra dentro antre os indios forros onde
+Residẽ
+algũs padres pera fazerẽ christaõs e
+casarem osmesmos indios por naõ
+estarẽ amãçebados.</p>
+<p>Esta capitania tem huã bahya mui grande e fermosa, he
+tres legoas de
+largo e nauegase quinze porella dentro. tẽ muitas ilhas de
+terras mui
+viçosas quedaõ infinito algodaõ, diuidese em
+muitas partes esta bahia:
+etem muitos braços e enseadas dentro. Os moradores
+<span class="pagenum"><a name="Page_8" id="Page_8" href="images/08.jpg">[Pg
+8]</a></span>
+da terra todos se
+seruem porella cõ barcos pera suas fazendas.</p>
+<h2>Rios.</h2>
+<p>Doze legoas desta bahia de todollos sanctos esta hũ
+Rio que se chama
+Tinharée onde se Recolhem muitas embarcações
+q̃ passã, pera as outras
+capitanias. Tres legoas por elle dentro está hũ
+engenho dum Bastiã de
+ponte, junto doqual estaõ muitas terras perdidas por falta de
+moradores,
+dasquais se consegiria muito porueito se as pouoassem. Mais auante seis
+legoas esta hũ Rio que se chama Camamù em treze graos
+e dous terços, no
+qual podẽ entrar quais quer naos seguramente. quatro sinco
+legoas
+porelle dentro. Ao<span class="pagenum"><a name="Page_8v" id="Page_8v" href="images/08v.jpg">[Pg 8v]</a></span>
+longo deste Rio ha terras mui viçosas e muitas agoas
+pera se poderẽ fazer engenhos dassucre, as quais tambem se
+perdem por
+naõ auer gente que as va pouoar. Tem dentro alguãs
+ilhas de terras mui
+grossas e acomodadas pera se fazerem nellas muita fazenda. Neste mesmo
+Rio ha muito peixe em estremo, e junto delle muita infinita
+caça de
+porcos e veados. Aqui se pode fazer huã
+pouoação onde os homẽs viuaõ mui
+abastados e façaõ muitas fazendas. Ha outro que se
+chama o Rio das
+contas, está em quatorze graos e meyo, mas naõ he
+tangrande, ainda q̃
+tambem entrão nelle alguãs
+embarcações. Entodos estes<span class="pagenum"><a name="Page_9" id="Page_9" href="images/09.jpg">[Pg 9]</a></span>
+Rios ha muita
+abundançia de peixes e de Caça.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_4_da_capitania_dos_Ilheos" id="Cap_4_da_capitania_dos_Ilheos"></a>Cap.
+4.º da capitania dos Ilheos.</h2>
+<p>A Capitania dos Ilheos está trinta legoas da Bahia de
+todollas sanctos
+em quatorze graos e dous terços. he de francisco giraldez na
+qual tem
+posto capitaõ de sua maõ. Pode auer nella dozentos
+vezinhos. Tem hũ Rio
+onde os nauios entraõ oqual está junto da
+pouoaçaõ. diuidesse emmuitas
+partes pella terradentro, seruẽse os moradores porelhe pera
+suas
+fazendas em almadias. ha nesta capitania oito engenhos dassucre. dentro
+da pouoaç<span class="pagenum"><a name="Page_9v" id="Page_9v" href="images/09v.jpg">[Pg 9v]</a></span>ão
+está hũ mosteiro de Padres da companhia de Jesus
+q̃ agora
+se faz nouamente.</p>
+<p>Sete legoas da mesma pouoaçaõ pella terra
+dentro está huã lagoa dagoa
+doçe q̃ tem tres legoas de comprido e tresde largo
+etem dez quinze
+braças de fundo e dahi pera sima. Sae della hũ Rio
+pequeno pello qual
+vaõ la ter barcos. tẽ esta lagoa hũ bocal
+neste Rio tam estreito, que
+apenas cabe hũ barco por elle, e depois que anda dentro quasi
+naõ sabe
+determinar por onde entrou. Ten, tanta abundançia dagoa que
+podem andar
+nella quais quer naos por grãdes que seiaõ a vella: e
+assy quando vẽta<span class="pagenum"><a name="Page_10" id="Page_10" href="images/10.jpg">[Pg 10]</a></span>
+muito, alleuantam se alli ondas tam foriosas como se fosse no meyo do
+mar comtormenta. Tem muita infinidade de peixes grandes e pequenos.
+Criamse nella muitos Peixes bois os quais tem o foçinho como
+de boi e
+dous cotos com que nadaõ amaneira de braços,
+naõ tem nenhuã escama nẽ
+outra feiçaõ de peixe se naõ o Rabo.
+Matamnos com arpoẽs, saõ tam gordos
+e tamanhos q̃ algũs pezaõ trinta corenta
+arrobas. he hũ peixe muito
+sabroso e totalmente pareçe carne e assy tem o gosto della,
+assado
+pareçe lombo de porco ou de veado, cozese com couves e guizase
+como
+carne, nẽ pessoa alguã o come que o tenha por peixe
+saluo se o conheçer<span class="pagenum"><a name="Page_10v" id="Page_10v" href="images/10v.jpg">[Pg 10v]</a></span>
+primeiro. As femeas tem duas mamas pellas quais mamão os
+filhos e
+criamse com leite (cousa q̃ se naõ acha noutro peixe
+algũ) tambem ha
+destes emalguãs bahias e Rios desta costa, e posto que se
+criẽ no mar,
+custumã beber agoa doçe porisso acodem muitos aesta
+lagoa, ou a parte
+onde algũ Ribeiro se meta no mar. Tambem ha muitos
+tubaroẽs nesta lagoa,
+e lagartos e muitas cobras, E achamse nella outros mõstros
+marinhos de
+diuersas maneiras. Ha muitas terras e mui viçosas orredor
+della, e muita
+caça, E neste rio que sae da lagoa muita fertilidade de peixe.
+Finalmente que huã das abastadas terres de mantimentos <span class="pagenum"><a name="Page_11" id="Page_11" href="images/11.jpg">[Pg
+11]</a></span>q̃ que ha no
+Brasil he esta capitania dos ilheos.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_5_dua_nascao_de_gentio_-X-q_se_acha_nesta_Capitania" id="Cap_5_dua_nascao_de_gentio_-X-q_se_acha_nesta_Capitania"></a>Cap.
+5.º duã nascaõ de gentio q̃ se acha
+nesta Capitania.</h2>
+<p>Pellas terras desta capitania ate junto do Spiro sancto, se
+acha hũa
+çerta nasçaõ de gentio que veo do
+çertaõ ha sinco ou seis annos, e dizem
+q̃ outros indios contrarios destes, vierão sobrelles
+a suas terras, e os
+destruiraõ todos e os que fogiraõ saõ estes
+q̃ andaõ pella costa.
+chamãse Aýmores, a lingoa delles he differente dos
+outros indios, ningẽ
+os entende, saõ delles tam altos e taõ largos do
+corpo <span class="pagenum"><a name="Page_11v" id="Page_11v" href="images/11v.jpg">[Pg 11v]</a></span>q̃ quasi
+pareçẽ
+gigantes. Saõ mui aluos naõ tem pareçer dos
+outros indios da terra nẽ
+tem casas nẽ pouoaçoẽs onde
+morẽ, viuẽ antre os matos como brutos
+animais: saõ mui forçosos em estremo, trazem
+hũs arcos mui compridos e
+grossos conforme a suas forças e as frechas da mesma maneira.
+Estes
+indios tem feito muito dano aos moradores de pois que vieraõ
+aesta costa
+e mortos algũs portugeses e escrauos porq̃
+saõ imigos de toda gente. Naõ
+pelleyaõ em campo nẽ tem animo pera isso,
+poẽ se antre omato junto dalgũ
+caminho e tanto q̃ passa algem attiraõlhe ao
+coraçaõ ou aparte onde o
+matem<span class="pagenum"><a name="Page_12" id="Page_12" href="images/12.jpg">[Pg 12]</a></span> e naõ
+despedem frecha que naõ na empregem. finalmente que
+naõ tem
+Rosto direito aningẽ senaõ a
+treiçaõ fazem a sua. As molheres trazem hũs
+paos tostados comque pelleiaõ. Estes indios naõ viuem
+senaõ pella
+frecha, seu mantimẽto he caça bichos e carne humana
+fazem fogo de baixo
+do chaõ pornaõ serẽ sentidos nẽ
+saberem onde andaõ. Muitas terras
+viçosas estaõ perdidas junto desta capitania, as
+quais naõ saõ possuidas
+dos Portugeses por causa destes indios. Naõ se pode achar
+Remedio pera
+os destruirem porq̃ naõ tem morada certa, nem saem
+nunca dantre o matto:
+E assi quando cuidamos q̃ vaõ fogindo<span class="pagenum"><a name="Page_12v" id="Page_12v" href="images/12v.jpg">[Pg
+12v]</a></span> ante quẽ os persege entaõ
+ficam
+atraz escondidos e atiraõ aos que passaõ descuidados,
+Desta maneira
+mataõ alguã gente. todos quantos indios ha no brasil
+saõ seus imigos e
+temẽnos muito porque he gente atreiçoada. E assy
+onde os ha nenhũ
+morador vai a sua fazenda por terra q̃ naõ leue
+quinze vinte escrauos
+consigo de arcos e frechas. Estes Aymores são mui feros e
+crueis, naõ se
+pode cõ pallauras encareçer a dureza desta
+gẽte. Naõ andaõ todos juntos,
+derramamse por muitas partes, equando sequerem ajuntar assubiã
+como
+passaros ou como bogios demaneira que hũs aos outros se
+entendem e se
+conheçẽ. Tambem<span class="pagenum"><a name="Page_13" id="Page_13" href="images/13.jpg">[Pg 13]</a></span>
+os portugeses mataõ algũs delles, e tem muitos
+destruidos, principalmente nesta capitania dos ilheos,
+eguardaõse muito
+delles por que ja sabem suas manhas e conheçẽ muibem
+sua mallicia.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_6_da_Capitania_de_Porto_seguro" id="Cap_6_da_Capitania_de_Porto_seguro"></a>Cap. 6. da
+Capitania de Porto seguro.</h2>
+<p>A capitania de Porto seguro está trinta legoas dos
+jlheos em dezaseis
+graos e meýo. He do Duque daueiro, na qual tem posto
+capitaõ de sua maõ.
+Tem tres pouoaçoẽs a prinçipal he porto
+seguro que está junto do porto
+onde os nauios entraõ. outra está dahi huã
+legoa q̃ se chama sancto
+amaro<span class="pagenum"><a name="Page_13v" id="Page_13v" href="images/13v.jpg">[Pg 13v]</a></span> outra Sancta
+Cruz que está dahi quatro legoas pera o norte. pode
+auer nesta capitania dozentos e vinte vezinhos. Tem sinco engenhos
+dassucre. Ha nella hũ mosteiro de padres da companhia de
+Jesus. Tambem
+chegaõ aesta capitania os Aymorés e fazem nella dano
+aos moradores como
+nos ilheos. he terra mui abastada de caça, e de peixes que
+mataõ no Rio
+que está junto da pouoacaõ.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_7_da_Capitania_do_spirito_sancto" id="Cap_7_da_Capitania_do_spirito_sancto"></a>Cap.
+7.º da Capitania do spirito sancto.</h2>
+<p>A Capitania do spirito sancto está sincoẽta,<span class="pagenum"><a name="Page_14" id="Page_14" href="images/14.jpg">[Pg
+14]</a></span> legoasde Porto seguro em
+vinte graos, da qual he capitaõ e gouernador Vasco fernandes
+coutinho.
+Tem hũ engenho somente, tira se delle omilhor assucre
+q̃ ha entodo
+Brasil. Ha nella muito algodaõ e pao do brasil. Pode ter ate
+cento e
+oitenta vezinhos, Ha dentro da pouoaçaõ hũ
+mosteiro de padres da
+Companhia de Jesus. Tem hũ Rio muj grande onde os nauios
+entraõ, noqual
+se achaõ mais peixes bois que noutro nenhũ Rio desta
+Costa. No mar junto
+desta Capitania mataõ grande copia de peixes grandes E de toda
+maneira,
+e tambem nomesmo Rio ha muita abundançia delles. Nesta
+capitania ha
+muitas terras e muj largas onde os moradores viuẽ mui
+abastados<span class="pagenum"><a name="Page_14v" id="Page_14v" href="images/14v.jpg">[Pg 14v]</a></span> assi de
+mantimẽtos da terra como de fazendas. E quando se tomou a
+fortalleza do
+Rio de Janeiro desta mesma capitania do Spirito Sancto
+sostentaraõ toda
+gente e proueraõ sempre de mãtimẽtos
+neçessarios enquanto esteueraõ na
+terra os que a defendiaõ.</p>
+<p>Rios.</p>
+<p>Auante desta capitania em altura de vinte e hũ graos
+está o Rio de
+paraiba este he mui grande e fermoso e tem infinito peixe. Junto do
+cabo
+frio ẽ altura de vinte e dous graos está a Bahia
+fermosa naqual se pode
+fazer hũa capitania de muitos vezinhos onde tambem se perdem
+muitas<span class="pagenum"><a name="Page_15" id="Page_15" href="images/15.jpg">[Pg 15]</a></span>
+terras por falta de gente. Outros muitos Rios ha nestas partes
+q̃ deixo
+descreuer por serem pequenos e naõ se fazer tanto caso delles,
+nẽ minha
+tençaõ foi outra senaõ tractar destes mais
+notaueis onde se podem fazer
+alguãs pouoaçoẽs e cõsegir
+porueito das terras viçosas que poresta costa
+estaõ desertas.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_8_da_Capitania_do_Rio_de_Janeiro" id="Cap_8_da_Capitania_do_Rio_de_Janeiro"></a>Cap.
+8.º da Capitania do Rio de Janeiro.</h2>
+<p>A Capitania do Rio de Janeiro cidade de sam Sebastiaõ
+está sesenta
+legoas do Spirito Sancto em vinte e tres graos e hũ
+terço, terra delRei
+nosso snõr. Pode ter<span class="pagenum"><a name="Page_15v" id="Page_15v" href="images/15v.jpg">[Pg 15v]</a></span>
+pouco mais ou menos cento e corenta vezinhos,
+agora se começa de pouoar nouamente. Esta he amais fertil e
+viçosa terra
+que ha no brasil. Tem terras mui singullares e muitas agoas pera
+engenhos dassucre. Ha nella muito infinito pao do brasil de que os
+moradores da terra fazẽ muito porueito. Esta capitania tem
+hũ Rio mui
+largo e fermoso diuide se dentro emmuitas partes, e quantas terras
+estaõ
+ao longo delle se podem aporueitar, assy pera Roças de
+mantimentos como
+pera canas dassucres e algodoẽs, porque saõ muj
+viçosas e milhores de
+quantas ha por toda esta costa. ha nesta çidade h<span class="pagenum"><a name="Page_16" id="Page_16" href="images/16.jpg">[Pg
+16]</a></span>Å© mosteiro de padres
+da companhia de Jesus, os quais tambem augmentaraõ muito esta
+terra e
+deseiaõ muito vella pouoada de muitos moradores,
+porq̃ saõ tomo digo as
+terras desta capitania mui largas e sabem quam porueitosas saõ
+pera toda
+gente pobre que as for possuir. E por tempo haõ se de fazer
+nellas
+grãdes fazendas: eosque la forem viuer com esta
+esperança naõ se acharão
+enganados.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_9_da_Capitania_de_SanVicente" id="Cap_9_da_Capitania_de_SanVicente"></a>Cap.
+9.º da Capitania de SanViçente.</h2>
+<p>A Capitania de sanviçente está sesenta
+legoas do Rio de Janeiro em Vinte
+equatro<span class="pagenum"><a name="Page_16v" id="Page_16v" href="images/16v.jpg">[Pg 16v]</a></span> graos, he de
+pero lopez de sousa, naqual tem posto capitaõ de
+sua maõ: esta e o Rio de Janeiro saõ as mais frias
+terras que ha no
+Brasil, gea nellas em tempo de inuerno quasi como neste Reino. Nesta
+capitania se deu ja trigo, mas naõ no querẽ semear
+por auer na terra
+outros mantimẽtos de menos custo. Tem tres
+pouoações, e huã fortalleza
+q̃ está nuã ilha junto da terra firme quatro
+legoas pera onorte que se
+chama Britioga, daqui deffendem esta capitania dos indios e
+françeses
+com artelharia que ha na mesma fortalleza. Aprinçipal
+pouoaçaõ se chama
+sanctos onde está hũ mosteiro de padres da com<span class="pagenum"><a name="Page_17" id="Page_17" href="images/17.jpg">[Pg
+17]</a></span>panhia de Jesus. Aoutra
+mais avãte ao longo do Rio huã legoa he Sam
+Viçente, tambem ha nella
+outro mostr.º de padres da companhia. Pella terra
+dẽtro dez legoas
+edificarão os mesmos padres huã
+pouoação antre os indios que se chama o
+Campo naqual Viuem muitos moradores, amayor parte delles são
+mamalucos
+filhos de portugueses e de indias da terra. Aqui e nas mais Capitanias
+tem feito estes padres da companhia grande fruito e fazem com que a
+terra va em muito creçimẽto, trabalhaõ por
+fazer christaõs a muitos
+indios, e metem muitas pazes antre os homẽs, tãbem
+fazẽ Restituir as
+liberdades de muitos indios<span class="pagenum"><a name="Page_17v" id="Page_17v" href="images/17v.jpg">[Pg 17v]</a></span>
+que algũs moradores da terra tem mal
+Resgatados: assy que sempre acodem aos que se desuiaõ do
+seruiço de Deos
+e de S. A.</p>
+<p>Auera nesta capitania quinhentos vezinhos, tem quatro engenhos
+dassucre,
+E muitas terras viçosas de que os moradores tiraõ
+muitos mantimẽtos e
+fazenda e viuẽ todos mui abastados. Estahe a ultima Capitania
+q̃ ha
+nestas partes do Brasil.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class="pagenum"><a name="Page_18" id="Page_18" href="images/18.jpg">[Pg 18]</a></span></p>
+<h2><a name="Tractado_segundo_das_cousas_que_sao_gerais_por_toda_Costa_do_Brasil" id="Tractado_segundo_das_cousas_que_sao_gerais_por_toda_Costa_do_Brasil"></a>Tractado
+segundo das cousas que são gerais por toda Costa do Brasil</h2>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_1_das_fazendas_da_terra" id="Cap_1_das_fazendas_da_terra"></a>Cap. 1.º
+das fazendas da terra</h2>
+<p>Os moradores desta costa do Brasil todos tem terras de
+sesmaria dadas e
+Repartidas pellos capitaẽs da terra, e a primeira cousa que
+pretendem
+alcansar, saõ escrauos pera lhes fazerẽ e
+grangearẽ suas Roças e fazẽdas
+por que sem elles não se podeẽ sustentar na terra: E
+huã das cousas
+porq̃ o Brasil naõ floreçe muito mais, he
+pellos escrauos que se
+alleuantaraõ e fogiraõ pera suas terras, e fogem cada
+dia: E se estes
+indios naõ foraõ tam fogitiuos e mudaueis,
+não teuera comparaçaõ a
+Riqueza do Brasil. As fazendas donde se consige mais porueito
+saõ
+assucres, algodoẽs e pao do brasil, cõ isto<span class="pagenum"><a name="Page_18v" id="Page_18v" href="images/18v.jpg">[Pg
+18v]</a></span> fazem pagamento aos
+mercadores que deste Reino lhes leuão fazenda porque o
+dinheiro he pouco
+na terra, e assy vendẽ e trocã hũa
+mercadoria por outra em seu justo
+preço. Quantos moradores ha na terra tem Roças de
+mantimẽtos, e vẽdẽ
+muitas farinhas de pao hũs aos outros, de que tambem
+tiraõ muito
+porueito.</p>
+<p>O mais gado que ha nesta costa saõ bois e vacas,
+deste ha muita
+abundançia ẽ todallas capitanias, porque
+saõ as heruas muitas e sempre a
+terra esta cuberta de verdura, ainda que em porto seguro naõ
+sequerẽ dar
+nenhũas vacas senão o primeiro anno, no qual engord<span class="pagenum"><a name="Page_19" id="Page_19" href="images/19.jpg">[Pg
+19]</a></span>aõ tanto que do
+muito viço dizem que morrẽ todas. Cabras e ouelhas
+ha muito poucas
+ategora, começaõ de multiplicar nouamente; as cabras
+se daõ melhor que
+as ouelhas E parem dous tres filhos de cadauez. fazem os moradores da
+terra muito por esta criação. Tambem ha egoas e
+cauallos, mas ainda saõ
+caros por naõ auer muitos na terra, leuaõ nos do cabo
+verde pera la edaõ
+se muito bem na terra.</p>
+<p>Achase tambem por esta costa muito Amber que omar de sy
+lança fora as
+mais das vezes quando faz tormenta e saõ agoas viuas,
+entaõ ha muitas
+pessoas que mãdã seus escrauos pella praya buscallo
+nos<span class="pagenum"><a name="Page_19v" id="Page_19v" href="images/19v.jpg">[Pg 19v]</a></span> lugares onde
+custuma sair mais vezes, e muitas vezes aconteçe
+enriqueçerẽ algũs assy
+do que achaõ seus escrauos como do que Resgataõ aos
+indios forros.
+Segũdo a dita e ventura de cada hũ. Os panos que
+nesta terra se fazẽ são
+dalgodaõ, todo mais vay deste Reino. E assy ha tambem muitos
+escrauos de
+guine: estes saõ mais seguros q̃ os indios da terra
+por que nunca fogẽ
+nẽ tem pera onde. Ha tambem muita criaçaõ
+de porcos e muitas galinhas
+adens e patos da terra. Estas saõ as fazendas q̃
+possuẽ os moradores do
+brasil.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class="pagenum"><a name="Page_20" id="Page_20" href="images/20.jpg">[Pg 20]</a></span></p>
+<h2><a name="Cap_2_dos_custumes_da_terra" id="Cap_2_dos_custumes_da_terra"></a>Cap. 2.º
+dos custumes da terra</h2>
+<p>As pessoas que no brasil querem viuer tanto que se fazem
+moradores da
+terra por pobres que seiaõ se cada hũ
+alcançar dous pares ou meyaduzia
+descrauos (q̃ pode hũ por outro custar pouco mais ou
+menos ate dez
+cruzados) logo tem Remedio pera sua sostentação
+porq̃ hũs lhe pescam e
+caçaõ outros lhe fazem mantimentos e fazenda e assy
+pouco a pouco
+enRiqueçẽ os homẽs e viuem
+honrradamẽte na terra com mais descanso q̃
+neste Reino, porq̃ os mesmos escrauos indios da terra buscam
+de comer
+pera si e pera os senorẽs, e desta maneira naõ fazem
+os homẽs despeza
+com seus escrauos em mãtimentos nẽ com suas pessoas.<span class="pagenum"><a name="Page_20v" id="Page_20v" href="images/20v.jpg">[Pg
+20v]</a></span></p>
+<p>A maior parte das camas do Brasil saõ Redes, as quais
+armaõ nuã casa com
+duas cordas e lançaõse nellas a dormir. este custume
+tomaraõ dos indios
+da terra.</p>
+<p>Os moradores destas capitanias tratamse muito bem e
+saõ mais largos que
+a gente deste Reino, assy no comer como no vestir de suas pessoas, e
+folgam dajudar hũs aos outros com seus escrauos e
+fauorecẽ muito os
+pobres que começãoviuer na terra. Isto se custuma
+nestas partes: e fazem
+outras muitas obras pias por onde todos tem Remedio de vida e
+nenhũ
+pobre anda pellas portas a pedir como neste Reino.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class="pagenum"><a name="Page_21" id="Page_21" href="images/21.jpg">[Pg 21]</a></span></p>
+<h2><a name="Cap_3_das_callidades_da_terra" id="Cap_3_das_callidades_da_terra"></a>Cap.
+3.º das callidades da terra.</h2>
+<p>Ha nestas partes do Brasil seis meses de verão e seis
+de inuerno: os de
+verão são de setembro ate feuereiro, os de inuerno de
+março ate agosto.
+Assy que quando nesta prouinçia do brasil he inuerno
+cá nestes Reinos he
+verão, eos dias quasi sẽpre saõ tamanhos
+como as noites, huã ora somẽte
+creçẽ emingoão. Cursaõ sempre
+ventos gerais, no inuerno seis meses sul é
+sueste no verão nordeste. Sempre correm as agoas com o vento
+por costa,
+E por isso senaõ pode nauegar de hũas capitanias pera
+outras se naõ
+esperarẽ por mouções pera irem com as agoas
+e com o vento, porque cursaõ
+como digo seis meses duã parte e seis doutra<span class="pagenum"><a name="Page_21v" id="Page_21v" href="images/21v.jpg">[Pg
+21v]</a></span> e portanto saõ muitas
+veses as viagens vagarosas e quando vão contra tempo as
+embarcaçoẽs
+corrẽ muito Risco e arribaõ as mais das vezes ao
+porto donde sairaõ.
+Mete se no meyo e na força deste verão oito dias ante
+os Sanctos huã
+tormenta de vento sul que dura huã sommana, este he mui
+çerto e geral,
+nũca se acha, que naquelles dias faltasse. Muitas
+embarcações esperão
+por este vento e fazem com elle suas viagens. Esta terra sempre he
+quente quasi tãto no inuerno como no verão. A
+viraçaõ do vento geral
+entra ao meyo dia, pouco mais oumenos, he tam fresco este
+vẽto e tam
+frio q̃ naõ se sente mais calma,<span class="pagenum"><a name="Page_22" id="Page_22" href="images/22.jpg">[Pg
+22]</a></span> e ficam Recreados os corpos das
+pessoas. Dura este vento do mar a te de madrugada, torna dalli acalmar
+outra vez por causa dos vapores da terra q̃ o apagam e
+quãdo amanheçe
+está o ceo todo cuberto de nuuens e as mais das
+manhãs choue nestas
+partes e a terra fica toda cuberta de neuoa por que tem muitos
+aruoredos
+e chama a sy todos estes humores. Etanto q̃ este geral acalma
+começa a
+ventar da terra hũ vento brando que nella se gera, a te que o
+sol con
+sua quentura o torna apagar e alimpa tudo outra vez e faz ficar odia
+claro e sereno, entrão logo ẽtra o vento do mar
+acustumado. Este vento
+da terra he mui perigoso edoentio<span class="pagenum"><a name="Page_22v" id="Page_22v" href="images/22v.jpg">[Pg 22v]</a></span>
+e se açerta de permaneçer algũs dias
+morre muita gente assy portugeses como indios da terra, mas quer nosso
+snõr que acõteça isto poucas vezes, e tirado
+este mal he esta terra mui
+sallutifera e de bõs ares onde as pessoas se achaõ
+bem despostas e viuem
+muitos annos prinçipalmente os velhos tem milhor
+despossiçaõ e pareçẽ
+que tormã a Renouar e porisso algũs se naõ
+querẽ tornar a suas patrias
+temendo que nellas se lhes offereça amorte mais çedo.
+os ares de pella
+manhaã saõ mui frescos e sadios: muitas pessoas se
+custumaõ alleuãotar
+çedo por que se aporueitem delles enquanto tem esta vertude. A
+terra em
+si he<span class="pagenum"><a name="Page_23" id="Page_23" href="images/23.jpg">[Pg 23]</a></span> lassa e
+deleixada achãose nella os homẽs algũ
+tanto fracos e
+mingoados das forças que possuem cá neste Reino por
+Respeito da quentura
+e dos mantimentos que nella vsaõ, isto he enquanto as pessoas
+saõ nouas
+na terra, mas de pois q̃ por tempo se acustumão
+ficão tam Rijos e bem
+despostos como se aquella terra fora sua mesma patria. Manda se dar
+nesta terra aos infermos carne de porco, pera qual quer doença
+he
+porueitosa e naõ faz mal a nenhuã pessoa: o peixe
+tãbem tem a mesma
+callidade e poem muita sustançia aos doentes. Esta terra he
+mui fertil e
+viçosa, toda cuberta de altissimos e frondosos aruoredos<span class="pagenum"><a name="Page_23v" id="Page_23v" href="images/23v.jpg">[Pg
+23v]</a></span> permaneçe
+sempre a verdura nella inuerno e veraõ, isto causa chouerlhe
+muitas
+vezes e naõ auer frio que offenda ao que produz a terra. Ha
+por baixo
+destes aruoredos grande mato e muj basto e detalmaneira está
+escuro e
+serrado em partes que nunca parteçipa o chaõ da
+quẽtura nẽ da claridade
+do sol, e assy está sempre humido e manãdo agoa de
+sý. As agoas que na
+terra se bebem saõ mui sadias e sabrosas, por muita
+q̃ se beba naõ
+prejudica a saude da pessoa, a mais della se torna logo a suar e fica o
+corpo desaliuádo e saõ. Finalmẽte que he
+esta terra tã delleitosa e
+temperada q̃ nũca nella se sente frio nẽ
+quentura sobeja.<span class="pagenum"><a name="Page_24" id="Page_24" href="images/24.jpg">[Pg 24]</a></span></p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_4_dos_mantimentos_da_terra" id="Cap_4_dos_mantimentos_da_terra"></a>Cap.
+4.º dos mantimentos da terra.</h2>
+<p>Nestas partes do Brasil não semeão trigo nem
+se da outro mantimento algũ
+deste Reino. o que la se come em lugar de paõ he farinha de
+pao: Esta se
+faz da Raiz duã pranta que se chama mandioca, aqual he como
+jnhame. E
+tanto que se tira de baixo da terra, está cortindo se em agoa
+tres
+quatro dias E depois de cortida pizaõ na ou Rellaõ na
+muito bem e
+espremem na da quelle sumo de talmaneira que fique bem escorrida
+porq̃
+he aquella agoa que sae della tam pessonhenta que qualquer pessoa ou
+animal que a beber logo naquelle instante morre: assy que de pois de a
+terem<span class="pagenum"><a name="Page_24v" id="Page_24v" href="images/24v.jpg">[Pg 24v]</a></span> deste modo
+curada, poem hũ alguidar grande sobre o fogo e como se
+aquenta, botaõ aquella mandioca nelle E por espaço de
+meya ora está
+naquella quentura cozendose, dally atiraõ E fica temperada
+pera se
+comer. ha todauia farinha de duas maneiras huã se chama de
+gerra, E
+outra fresca, a de gerra he muito seca, fazemna desta maneira peradurar
+muito e naõ sedanar: afresca he mais branda e tẽ
+mais sustançia,
+finalmente que naõ he taõ aspera como a outra, mas
+naõ dura mais que
+dous tres dias como passada qui logo se dana. Desta mesma mandioca
+fazem
+outra maneira de<span class="pagenum"><a name="Page_25" id="Page_25" href="images/25.jpg">[Pg 25]</a></span> mantimentos que
+se chamaõ beijuús, saõ mui aluos e
+mais grossos q̃ obreas: destes vsaõ muito os
+moradores da terra porque
+saõ mais sabrosos e demilhor desistaõ que a farinha.
+Outra Raiz ha duã
+pranta que se chama Aýpim daqual fazem hũs bollos que
+pareçem paõ fresco
+deste Reino e tambem se come assada como batata, de toda maneira se
+acha. nella m<sup>to</sup> gosto. Tambem ha naterra muito
+milho zaburro, este se
+daa em todallas capitanias E faz hũ paõ muito aluo.
+ha nesta terra muita
+copia de leite de vacas, muito arroz, faua feigoẽs muitos
+inhames e
+batatas, E outros legumes q̃ fartaõ muito a terra. Ha
+muita abundançia<span class="pagenum"><a name="Page_25v" id="Page_25v" href="images/25v.jpg">[Pg 25v]</a></span>
+de marisco e de peixe portoda esta costa. Com estes mantimentos se
+sustentaõ os moradores do Brasil sem fazerem gastos nem
+deminuirẽ nada
+em suas fazẽdas.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_5_da_caca_da_terra" id="Cap_5_da_caca_da_terra"></a>Cap. 5.º da
+caça da terra.</h2>
+<p>Huã das cousas que sostenta e abasta m<sup>to</sup>
+os moradores desta terra do
+Brasil, he amuita caça que ha nestes matos de muitos generos e
+de
+diversas maneiras, aqual os mesmos indios da terra mataõ assy
+com
+frechas como por industriade seus lassos e fojos onde custumão
+tomar
+amaior parte della.</p>
+<p>Ha muitos veados e muita somma de<span class="pagenum"><a name="Page_26" id="Page_26" href="images/26.jpg">[Pg 26]</a></span>
+porcos montezes de muitas castas. Hũs
+pequenos ha naterra que tem as çedas mui grossas, asperas e
+crespas,
+estes tem o embigo nas costas, matam se muitos delles, e doutros
+grandes
+que naõ saõ desta callidade. Ha muitas antas que
+quasi saõ tamanhas como
+vacas e pasçem heruas como outro gado qualquer, sua carne
+tẽ o sabor
+como de vaca: a pelle deste animal he mui grossa e Rija. Ha tambem
+coelhos mas tem as orelhas doutra maneira mais pequenas e Redondas. Ha
+outros animais maiores que lebres que se chamaõ pacas, tambem
+tem carne
+m<sup>to</sup> sabrosa. Hũs bichos ha nesta terra
+q̃ tambem se comẽ e se tem
+pella milhor<span class="pagenum"><a name="Page_26v" id="Page_26v" href="images/26v.jpg">[Pg 26v]</a></span> caça
+que ha nomatto. chamãolhes Tatús saõ
+tamanhos como
+coelhos E tem hũ casco amaneira de lagosta como de cagado, mas
+he
+Repartido em muitas juntas como laminas, pareçe totalmente
+hũ caualo
+armado, tem hũ Rabo do mesmo casco comprido, o
+foçinho he como de
+leitaõ, e naõ bota mais fora do casco q̃ a
+cabeça, tem as pernas baixas
+E criaõ se em couas a carne delles tem o sabor quasi como de
+gallinha.
+Esta caça he muito estimada na terra. ha tambem muitas
+gallinhas de mato
+que os indios mataõ cõ frechas, e outras muitas aues
+mui gordas e
+sabrosas milhores q̃ pordizes. Desta E doutra muita
+caça ha no brasil
+<span class="pagenum"><a name="Page_27" id="Page_27" href="images/27.jpg">[Pg 27]</a></span>m<sup>ta</sup>
+abũdançia.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_6_das_fruitas_da_terra" id="Cap_6_das_fruitas_da_terra"></a>Cap. 6.º
+das fruitas da terra.</h2>
+<p>Huã fruita se da nesta terra do Brasil muito sabrosa
+e mais prezada de
+qũatas ha. Cria nuã pranta, humilde iunto do
+chaõ, a qual tem huãs
+pencas como cardo, a fruita della nasçe como alcachofres e
+pareçem
+naturalmente pinhas e saõ do mesmo tamanho, chamaõ
+lhes Ananaszes. Ede
+pois de maduros tem hũ cheiro muito exçellente,
+colhemnos como saõ de
+vez, e cõ huã faca tiraõ lhes aquella casca
+grossa e fazem nos en
+talhadas e desta maneira, se comẽ. exçedem no gosto
+aquantas fruitas ha
+neste Reino, e fazem todos tanto por esta fruita, q̃
+mandaõ prantar
+<span class="pagenum"><a name="Page_27v" id="Page_27v" href="images/27v.jpg">[Pg 27v]</a></span>Roças
+delles como de cardaes; aeste nosso Reino trazem m<sup>tos</sup>
+destes
+ananazes em conserua. Outra fruyta se cria nũas aruores
+grandes, estas
+senaõ prantaõ, nasçem pello mato muitas,
+esta fruita depois de madura he
+muito amarella, saõ como péros Repinaldos compridos,
+chamão lhe cajuus,
+tem muito sumo, e cria se na ponta desta fruita de fora hũ
+caroço como
+castanha, e nasçe diante da mesma fruita, oqual tem a casca
+mais
+amargosa que fel, e se tocarẽ com ella nos beiços
+dura muito aquelle
+amargor e faz empollar toda boca, pello contrario este caroço
+assado, he
+muito mais gostoso q̃ amẽdoa saõ de sua
+natureza mui quentes em estremo.
+ha naterra tantos destes<span class="pagenum"><a name="Page_28" id="Page_28" href="images/28.jpg">[Pg 28]</a></span>
+caroços que os medem aos alqueires. Tambem ha
+huã fruita que lhe chamaõ bananas, e pella lingoa dos
+indios pacouas, ha
+na terra muita abundançia dellas: pareçẽ se
+na feiçaõ com pepinos, nasçẽ
+nuãs aruores mui tenrras enaõ saõ muito
+altas, nẽ tem Ramos senaõ folhas
+mui comprimidas e largas. Estas bananas criamse em cachos algũ
+se acha
+q̃ tem de cento e sincoenta pera cima, e muitas vezes he tam
+grande o
+pezo dellas que faz quebrar a aruore pello meyo. Como saõ de
+vez colhem
+estes cachos, e depois de colhidos amadureçẽ, etanto
+q̃ que estas
+aruores daõ huã fruita, logo as cortaõ por
+que naõ frutifiçaõ mais<span class="pagenum"><a name="Page_28v" id="Page_28v" href="images/28v.jpg">[Pg
+28v]</a></span> que
+a primeira vez, E tornaõ arrebentar pellos pees outras nouas.
+Esta he
+huã fruita mui sabrosa e das boãs que ha na terra,
+tem huã pelle como de
+figo aqual lhes lançaõ fora quando as querẽ
+comer E se comẽ muitas
+dellas fazem damno a saude E causaõ febre aquẽ se
+desmãda nellas. E
+assadas maduras saõ muito sadias E mandaõ se dar aos
+infermos. Cõ esta
+fruita se mantem amaior parte dos escrauos desta terra, porq̃
+assadas
+verdes passaõ por mantimẽto Equasi tem
+sustançia de paõ. Ha duas
+callidades desta fruita, huãs saõ pequenas como figos
+brojassotes as
+outras saõ maiores e mais compridas. Estas peque<span class="pagenum"><a name="Page_29" id="Page_29" href="images/29.jpg">[Pg
+29]</a></span>nas tem dentro em si
+huã cousa estranha aqual he que quando as cortaõ
+pello meyo com huã faca
+ou porqualquer parte que seja acha se nellas hũ signal
+amaneira de
+cruçifixo, E assy totalmente o pareçe. Tambem ha
+huã fruita q̃ se chama
+Aracases, saõ como nespras postoque comaõ muita
+naõ fazẽ mal a saude. Ha
+muita pimenta da terra come se verde, queima muito em grande maneira.
+Outras muitas fruitas ha pello mato dẽtro de diuersas
+callidades, E saõ
+tantas que ja se acharaõ pella terra dentro alguãs
+pessoas e sostentaraõ
+se cõ ellas muitos dias sem outro mantimento algũ.
+Estas que aqui
+escreuo saõ asque os portugeses<span class="pagenum"><a name="Page_29v" id="Page_29v" href="images/29v.jpg">[Pg 29v]</a></span>
+tem antre sy em mais estima E
+asmelhores da terra. Alguãs fruitas deste Reino se
+daõ nestas
+partes-s-muitos melloẽs, pepinos e figos de muitas castas,
+Romãs m<sup>tas</sup>
+parreiras quedaõ huuas duas tres vezes no anno E tanto que
+huãs se
+acabaõ, começaõ logo outras
+nouamẽte, E desta maneira nũca esta o brasil
+sem fruitas. De limoẽs e laranjas ha muita infinidade:
+daõ se muito na
+terra estas aruores de espinho e multiplicaõ mais que as
+outras.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_7_da_Condicao_E_Custumes_dos_indios_da_terra" id="Cap_7_da_Condicao_E_Custumes_dos_indios_da_terra"></a>Cap.
+7.º da Condiçaõ E Custumes dos indios da
+terra.</h2>
+<p>Naõ se pode numerar nem compr<span class="pagenum"><a name="Page_30" id="Page_30" href="images/30.jpg">[Pg 30]</a></span>ẽder
+a multidaõ do barbaro gentio que
+semeou a natureza por toda esta terra do brasil por que ningem pode
+pello sertaõ dentro caminhar seguro, nẽ passar por
+terra onde naõ ache
+pouoações de indios armados contra todas as
+naçoẽs humanas, Eassi como
+saõ muitos permittio Deos que fossem contrarios hũs
+dos outros, E que
+ouuesse antrelles grandes odios E discordias porque se assy
+naõ fosse os
+portugeses naõ poderĩa viuer na terra nem seria
+possiuel, conquistar
+tamanho poder de gente, Auia muitos destes indios pella costa Junto das
+capitanias, tudo enfim estaua cheo delles quando
+começarão os<span class="pagenum"><a name="Page_30v" id="Page_30v" href="images/30v.jpg">[Pg 30v]</a></span>
+Portugeses apouoalla terra, mas porq̃ os mesmos indios se
+alleuãotauaõ
+contra elles E faziaõ lhes muitas treiçoẽs,
+os gouernadores E capitaẽs
+da terra destruiraõ nos pouco apouco e mataraõ muitos
+delles, outros
+fogiraõ pera o sertaõ, E assy ficou a costa
+despouoada de gentio aolongo
+das capitanias. Junto dellas ficaraõ algũas aldeas
+destes indios que
+saõde paz e amigos dos portugeses.</p>
+<p>Alingoa deste gentio toda pella costa he huã:
+careçe de tres
+letras-s-naõ se acha nella f, nem L, nẽ R, cousa
+digna despanto, porq̃
+assy naõtem se nẽ lei, nẽ Rei e desta
+maneira viuẽ sem Justiça e
+<span class="pagenum"><a name="Page_31" id="Page_31" href="images/31.jpg">[Pg 31]</a></span>desordenadam<sup>te</sup>.
+Estes indios andaõ nũs sem cobertura alguã
+assi
+machos como femeas naõ cobrẽ parte nenhũ de
+seu corpo e trazem
+descuberto quanto a natureza lhes deu. Viuẽ todos em aldeas,
+pode auer
+em cada huã sete oito casas, asquais saõ compridas.
+feitas amaneira de
+cordoarias e cadahuã dellas está chea de gente
+duã parte e doutra, e
+cada hũ por sy tem sua estançia e sua Rede armada
+emque dorme e assy
+estaõ todos hũs junto dos outros por ordem, e pello
+meyo da casa fica hũ
+caminho aberto pera se seruirẽ. Naõ ha comodigo
+antreelles nenhũ Rei nẽ
+justiça somẽte em cada aldea tem hũ
+prinçipal q̃ he<span class="pagenum"><a name="Page_31v" id="Page_31v" href="images/31v.jpg">[Pg 31v]</a></span>
+como capitaõ aoqual
+obedeçẽ por vontade e naõ por
+força, morrendo este prinçipal fica seu
+filho no mesmo lugar naõ serue doutra cousa se naõ
+dir cõ elles a gerra
+e conselhallos como sehaõ dauer na pelleja, mas naõ
+castiga seus erros
+nẽ manda sobrelles cousa alguã contra sua vontade.
+Este prinçipal tem
+tres quatro molheres, a primeiratẽ em mais conta, e faz della
+mais caso
+que das outras, Isto tem por estado e por honrra. Naõ
+adoraõ em cousa
+alguã nẽ tem pera sy que ha na outra vida gloria
+pera os bõs, e pena
+pera os maos, tudo cuidaõ que se acaba nesta e que as almas
+feneçem<span class="pagenum"><a name="Page_32" id="Page_32" href="images/32.jpg">[Pg 32]</a></span> com
+os corpos, e assi viuem bestialmẽte sem ter conta
+nẽ pezo, nẽ medida.</p>
+<p>Estes indios saõ mui bellicosos e tem sempre grandes
+gerras hũs contra
+os outros nunca se acha nelles paz nẽ he possiuel auer
+antrelles amizade
+porque huãs nasçoẽs pellejaõ
+contra outras e mataõse muitos delles, e
+assy vai creçendo o odio cada vez mais e ficaõ imigos
+verdadeiros
+perpetuamente. As armas com que pellejaõ saõ arcos e
+frechas a cousa que
+apontarẽ naõ na erraõ, saõ mui
+çertos com esta arma e mui temidos
+nagerra, andaõ sempre nella exerçitados. e
+saõ mui inclinados apellejar
+e muy<span class="pagenum"><a name="Page_32v" id="Page_32v" href="images/32v.jpg">[Pg 32v]</a></span> vallentes e
+esforçados contra seus aduersarios, e assy pareçe
+cousa estranha ver dous tres mil homẽs nus dũa parte
+e doutra cõ grandes
+assubios e gritta frechando hũs aos outros, e enquanto dura
+esta pelleja
+nũca estaõ com os corpos quedos meneãdose
+duã parte pera outra com muita
+ligeireza pera que naõ possaõ apontar nẽ
+fazer tiro em pessoa certa
+alguãs velhas custumaõ apanharlhes as frechas pello
+chaõ e seruillos
+emquanto pellejaõ. Gente he esta mui atreuida e que teme muito
+pouco
+amorte, e quando vaõ agerra sempre lhes pareçe que
+tem çerta a Victoria
+e que nenhũ de sua companhia ha de morrer, e quãdo<span class="pagenum"><a name="Page_33" id="Page_33" href="images/33.jpg">[Pg
+33]</a></span> partem dizem vamos
+matar sem mais consideraçaõ e naõ
+cuidaõ que taõbem podem ser vençidos.
+Naõ daõ vida anenhũ catiuo todos
+mataõ e comẽ, emfim que suas gerras saõ
+mui perigosas, e deuẽ se ter em muita conta por que
+huã das cousas que
+desbaratou muitos portugeses foi a pouca estima em q̃
+tinhaõ agerra dos
+indios e o pouco caso que faziaõ delles e assy
+morreraõ m<sup>tos</sup>
+miserauelmente por naõ se aperçeberẽ como
+comuinha, destes ouue muitas
+mortes desestradas: E isto aconteçe cada paço nestas
+partes.</p>
+<p>Quando estes indios tomaõ algũs contrarios
+sellogo comaquelle impito os
+naõ mataõ leuaõ nos viuos pera suas aldeas
+(ou<span class="pagenum"><a name="Page_33v" id="Page_33v" href="images/33v.jpg">[Pg 33v]</a></span> seiaõ
+portugeses ou
+quaisquer outros indios seus imigos) E tanto que chegaõ a suas
+casas
+lançaõ hũa corda muj grossa ao
+pescoço do catiuo pera que naõ possa
+fogir, e armaõ lhe huã Rede em que durma e
+daõ lhe hũa india moça a mais
+fermosa e honrrada que ha naldea pera q̃ durma com elle, e
+tambem tenha
+cuidado de o guardar, e naõ vay pera parte que naõ no
+acompanhe. Esta
+india tem cargo de lhe dar muito bem de comer e beber, e de pois de
+oterẽ desta maneira sinco ou seis meses ou o tempo que
+querẽ determinaõ
+de o matar, e fazem grandes serimonias e festas aquelles dias e
+aparelhaõ muitos vinhos pera se embebeda<span class="pagenum"><a name="Page_34" id="Page_34" href="images/34.jpg">[Pg
+34]</a></span>rem e fazemnos da Raiz duã
+herua q̃ se chama aipim, aqual feruẽ primeiro e
+depois de cozida
+mastigaõ na hũas moças virgens, e esprememna
+nũs potes grãdes e dalli
+atres ou quatro dias o bebem. E o dia que haõ matar este
+catiuo pella
+manhaã se alguã Ribeira está junto daldea
+leuaõ no abanhar nella
+comgrãdes cantares e follias, etanto q̃ chegam com
+elle a aldea, attam
+no pella cinta com quatro cordas cada hũa pera sua parte e
+tres quatro
+indios pegados em cada ponta destas e assi o leuaõ ao meyo
+dũ terreiro e
+tiraõ tanto por estas cordas que naõ se possa bollir
+pera hũa parte nẽ
+pera outra, as maõs lhe deixaõ soltas porque<span class="pagenum"><a name="Page_34v" id="Page_34v" href="images/34v.jpg">[Pg
+34v]</a></span> folgam de o ver deffender
+com ellas. Aquelle que o ha de matar empena se primeiro com penas de
+papagayo de muitas coores portodo corpo: ha de ser este matador o mais
+vallente da terra e o mais honrado. Traz na maõ huã
+espada dũ pao mui
+duro e pezado com que custumaõ de matar, e chegase ao
+padeçẽte dizẽdo
+lhe muitas cousas e ameaçandolhe sua geraçaõ
+que o mesmo ha de fazer a
+seus parentes, e de pois de oter afrontado com muitas pallauras
+injuriosas dalhe huã grãm pancada na cabeça
+e logo da primeira o mata e
+lha fazẽ pedaços. Está huã india
+velha cõ hũ cabaço na maõ. E assi
+como
+elle<span class="pagenum"><a name="Page_35" id="Page_35" href="images/35.jpg">[Pg 35]</a></span> cae a code muito
+de pressa com elle a meterlho na cabeça pera
+tomar os meollos eo sange: tudo emfim cozem eassaõ e
+naõ fica delle
+cousaque naõ comaõ. Isto he mais por
+vingança e por odio que por se
+fartarẽ. De poisque comẽ a carne destes contrarios
+ficam nos odios
+confirmados, e sentem muito esta injuria, e por isso andaõ
+sempre a
+vingarse hũs contra os outros. E se amoça que dormia
+com o catiuo fica
+prenhe aquella criança que parẽ de pois de criada,
+mataõ na e comẽ na e
+dizem que aquella menina ou menino era seu contrario verdadeiro, e
+porisso estimaõ muito comerlhe a carne e vingar se delle. E<span class="pagenum"><a name="Page_35v" id="Page_35v" href="images/35v.jpg">[Pg
+35v]</a></span> porque a
+maỹ sabe o fim que haõ de dar aesta
+criança, muitas vezes quando se
+sente prenhe mataa dentro da barriga, e faz conque moua. E
+aconteçe
+alguãs vezes affeiçoar se tanto aeste catiuo e tomar
+lhe tanto amor que
+foge com elle pera sua terra pello liurar da morte. E assy
+algũs
+portugeses ha que desta maneira escaparaõ e estaõ oje
+ẽ dia viuos, e
+muitos indios que do mesmo modo se saluaraõ, ainda que
+saõ algũs taõ
+brutos que naõ querem fogir depois de os terem presos: porque
+ouue algũ
+que estaua ja no terrejro atado pera padeçer e dauaõ
+lhe a vida e naõ
+quis senaõ que o matassem, dizendo que<span class="pagenum"><a name="Page_36" id="Page_36" href="images/36.jpg">[Pg 36]</a></span>
+seus parentes o naõ teriaõ por
+Vallente e que todos correriaõ com elle e daqui vem
+naõ estimarẽ a
+morte, e quando chega a quella ora naõ na terem em conta
+nẽ mostrarẽ
+nenhuã tristeza naquelle passo. Finalmente q̃
+saõ estes indios mui
+deshumanos e crueis, naõ se mouẽ a nenhuã
+piedade: viuem como brutos
+animais sẽ ordem nẽ conçerto de
+homẽs saõ muidesonestos e dados a
+sensuallidade e entregãse aos viços como se nelles
+naõ ouuera Rezaõ de
+humanos, ainda que todauia sempre tem Resquardo os machos eas femeas em
+seu ajuntamento e mostrã ter nisto algũa vergonha.
+Todos comẽ carne
+humana e tem na pella milhor<span class="pagenum"><a name="Page_36v" id="Page_36v" href="images/36v.jpg">[Pg 36v]</a></span>
+iguoaria de quantas pode auer: naõ de seus
+amigos com quem elles tem paz se naõ dos contrarios. Tem esta
+callidade
+estes indios que de qualquer cousa que comaõ por pequena que
+seja haõ de
+conuidar com ella quanta esteuerẽ presentes, só esta
+proximidade se acha
+antrelles. Comẽ dequantos bichos secriaõ na terra,
+outro nenhũ engeitaõ
+por pessonhento que seja somente aranha.</p>
+<p>Tem estes indios machos por custume arrãcarem toda
+barba e naõ consentẽ
+nenhũ cabello em parte alguã de seu corpo, saluo na
+cabeça ainda que
+orredor della por baixo tudo arrancaõ. As femeas<span class="pagenum"><a name="Page_37" id="Page_37" href="images/37.jpg">[Pg
+37]</a></span> prezaõ se muito de
+seus cabellos e trazem nos muito compridos e penteados e as mais dellas
+emnastrados. Os machos custumaõ trazerẽ o
+beiço furado e huã pedra no
+buraco metida por gallantaria outros ha que trazem o Rosto todo cheo de
+buracos e assy pareçẽ mui feos e disformes: isto
+lhes fazem quando saõ
+meninos. Tambem algũs indios andaõ pintados portodo
+corpo, pello qual
+fazẽ hũs Riscos de muitas maneiras e
+poẽlhes huã çerta tinta e ficam
+sempre os mesmos Riscos escritos na carne: isto naõ traz se
+naõ quẽ tem
+feito alguã valentia. E assi tambem machos como femeas
+custumaõ
+atingirse cõ o sumo<span class="pagenum"><a name="Page_37v" id="Page_37v" href="images/37v.jpg">[Pg 37v]</a></span>
+duã fruita que se chama genipapo que he verde
+quando se piza e depois que opoẽ no corpo e se inxuga fica
+mui negro e
+por muito que se laue não se tira se naõ aos noue
+dias, isto tudo fazẽ
+por gallantaria.</p>
+<p>Estas indias guardaõ castidade a seus maridos e
+saõ muito suas amigas
+porque tambem elles sofrem mal adulterios. Casaõ os mais
+delles com suas
+sobrinhas filhas de seus irmãos ou irmãas, estas
+saõ suas molheres
+verdadeiras e naõ lhas podem negar seus pais.</p>
+<p>Algũas indias se achã nestas partes
+q̃ jurão e prometem castidade, e
+assy naõ casaõ nẽ
+conheçẽ homẽ algum<span class="pagenum"><a name="Page_38" id="Page_38" href="images/38.jpg">[Pg 38]</a></span>
+de nenhuã callidade, nẽ no
+consentiraõ ainda que por isso as matem. Estas deixaõ
+todo o exerçiçio
+de molheres e immittaõ os homẽs e segem seus
+offiçios como senaõ fossem
+molheres, e cortaõ seus cabellos da mesma maneira que os
+machos trazem e
+vaõ agerra com seu arco e frechas, e acaça: enfim que
+andaõ sempre na
+companhia dos homẽs, e cada hũa tem molher que a
+serue e que lhe faz de
+comer como se fossẽ casados.</p>
+<p>Estes indios viuem mui descansados, naõ tem cuidado
+de cousa alguã se
+naõ de comer e beber e matar gente e porisso saõ mui
+gordos em estremo.
+E assy tambem com quer desgosto amagreç<span class="pagenum"><a name="Page_38v" id="Page_38v" href="images/38v.jpg">[Pg 38v]</a></span>ẽ
+muito, e como se agastaõ de
+qualquer cousa comẽ terra e desta maneira morrẽ
+muitos delles
+bestialmente. Todos segẽ muito o conselho das velhas tudo a
+que ellas
+lhe dizem fazem e tẽ no por mui çerto, da qui vem a
+muitos moradores naõ
+comprarẽ nenhũas por lhes naõ
+fazerẽ fogir seus escrauos.</p>
+<p>Quando estas indias parem a primeira cousa que fazem de pois
+do parto
+lauaõ se todas nũ Ribeiro e ficam tambem despostas
+como senaõ pariraõ,
+em lugar dellas se deitaõ seus maridos nas Redes e assy os
+vesitaõ e
+curaõ como se elles fossem as paridas.</p>
+<p>Quando algũ destes indios morre cus<span class="pagenum"><a name="Page_39" id="Page_39" href="images/39.jpg">[Pg
+39]</a></span>tumaõ enterrallo nũa coua
+assentado
+sobre os pees com sua Rede as costas em que elle dormia, e logo pellos
+primeiros dias poem lhe de comer em cima da coua. Outras muitas
+bestiallidades vsaõ estes indios que aqui naõ escreuo
+porque minha
+tençaõ foi naõ ser comprido, e passar por
+tudo isto com breuidade.</p>
+<p>Dos Resgates.</p>
+<p>Estes indios naõ possuẽ nenhuã
+fazenda, nẽ procuraõ acquerilla como os
+outros homẽs, somente cobiçaõ muito
+alguãs cousas que vaõ deste
+Reino-s-camisas, pellotes, ferramẽtas e outras cousas que
+elles tem em
+muita estima e desejaõ muito alcãçar dos
+portugeses. Atroco disto se
+<span class="pagenum"><a name="Page_39v" id="Page_39v" href="images/39v.jpg">[Pg 39v]</a></span>vẽdiaõ
+hũs aos outros, eos portugeses Resgatauaõ m<sup>tos</sup>
+delles e
+salteauaõ quantos queriaõ sem ningem lhes ir
+amaõ, mas ja gora naõ ha
+isto na terra nẽ Resgates como soya, porque de pois que os
+padres da
+companhia vieraõ aestas partes proueraõ neste
+negoçio e vedaraõ muitos
+saltos que faziaõ os portugeses por esta costa os quais
+emcarregauaõ
+muito suas consçiençias com catiuarẽ muitos
+indios cõtra direito e
+mouerẽ lhes gerras injustas. E porisso ordenaraõ os
+padres e fezerã com
+os capitaẽs daterra que naõ ouuesse mais resgates
+nẽ consentissẽ que
+fosse nenhũ portuges a suas aldeas sem
+liçença do mesmo capitaõ. E
+quantos<span class="pagenum"><a name="Page_40" id="Page_40" href="images/40.jpg">[Pg 40]</a></span> escrauos agora
+vem nouamente do sertaõ oudas outras capitanias
+todos leuão primeiro a Alfandega e alli os examinaõ e
+lhes fazem
+preguntas quẽ os vendeo, ou como forão Resgatados,
+porque ningem os pode
+vender se não seus pais ou aquelles que em justa gerra os
+catiuão. E os
+que achaõ mal acqueridos poem nos em sua liberdade, e desta
+maneira
+quantos indios se compraõ saõ bem Resgatados e os
+moradores da terra naõ
+deixaõ porisso dir m<sup>to</sup> auante com suas
+fazendas.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_8_dos_bichos_da_terra" id="Cap_8_dos_bichos_da_terra"></a>Cap. 8.º
+dos bichos da terra.</h2>
+<p>Naõ me pareçeo cousa fora de preposito<span class="pagenum"><a name="Page_40v" id="Page_40v" href="images/40v.jpg">[Pg
+40v]</a></span> tratar tambem neste summario
+dalgũs bichos que nestas partes se criaõ pois tudo ha
+na mesma terra,
+dado que daqui se não comprehenda mais que a
+differença e a variadade
+das criaturas que ha duãs terras pera outras.</p>
+<p>Ha nestas partes muitos bichos mui feros e pessonhentos,
+prinçipalmente
+cobras de muitas castas e de nomes diuersos. Huãs ha
+tamgrandes e tam
+disformes que engolem hũ veado todo inteiro, e
+affirmão que tem esta
+cobra tal callidade que de pois de oter comido arrebenta pella barriga
+e
+apodreçe quanta carne tem pello corpo e fica somẽte
+no espinhaço com<span class="pagenum"><a name="Page_41" id="Page_41" href="images/41.jpg">[Pg 41]</a></span>
+a
+cabeça e a ponta do Rabo saã, e tanto que desta
+maneira fica torna pouco
+a pouco a criar carne noua ate que se cobre outra vez da mesma carne
+taõ
+perfectamente como dantes, Isto viraõ e
+expremẽtaraõ m<sup>tos</sup> indios e
+moradores da terra. aesta chamão pella lingoa dos indios
+Giboiossú.
+Outras ha muito maiores e mais possonhentas doutra casta differente.
+Saõ
+tamgrandes en tanto estremo que apenas desaseis indios podiaõ
+leuar huã
+que matarão junto da costa antre os Portugeses aesta cobra
+chamaõ
+Surucucù. Outra geração ha dellas que lhe
+chamaõ boiteninga, tem na
+ponta do Rabo huã cousa que soa propriamenta, como cascauel e
+por onde<span class="pagenum"><a name="Page_41v" id="Page_41v" href="images/41v.jpg">[Pg 41v]</a></span>
+esta cobra vai sempre anda Rogindo. he huã das feras bichas
+que ha na
+terra. Outras ha que lhe chamão hebijaras. tem duas bocas
+huã na cabeça
+outra no rabo mordem com ambas, esta cobra he branca e mui curta, o
+mais
+do tempo esta debaixo da terra, he pessonhentissima sobre todas, quem
+desta formordido não tera vida muitas oras, e assy qualquer
+destas
+outras que morder alguã pessoa o mais quedura saõ
+vinte equatro oras. Ha
+outra callidade dellas que naõ tem dentes nẽ mordem.
+Estas naõ saõ
+pessonhentas nẽ tam pouco muito grandes chamão lhe
+Japaranas. Tambẽ
+affirmão algũs homẽs que virão serp<span class="pagenum"><a name="Page_42" id="Page_42" href="images/42.jpg">[Pg
+42]</a></span>ẽtes nesta terra com azas mui
+grandes E espantosas, mas achaõ se Raramẽte. Ha
+muitos lagartos e
+grandes pellos Rios dagoa doçe e pellos matos cuios
+testicollos cheiraõ
+milhor que almisere, E aqualquer Roupa que os chegão fica
+ocheiro pegado
+por muitos dias.</p>
+<p>Os bichos mais feros e mais danosos q̃ ha na terra
+saõ tigres, estes
+animais saõ delles tamanhos como bezerros, vaõ se aos
+currais do gado
+dos moradores e mataõ muito delle e saõ taõ
+feros e forçosos que huã mão
+que lançaõ a huã vitella ou nouilho lhe
+fazem botar osmeollos fora e
+leuão no arrasto pera omato. Tambem pella terra dentro
+mataõ e comẽ
+algũs indios quãdo<span class="pagenum"><a name="Page_42v" id="Page_42v" href="images/42v.jpg">[Pg 42v]</a></span>
+se achaõ famintos. Sobem pellas aruores como gatos,
+e dalli espreitaõ acaça que por baixo passa e Remetem
+de salto aella e
+destamaneira naõ lhes escapa nada algũs destes
+animais mataõ enfojos os
+moradores da terra.</p>
+<p>Toda esta terra do Brasil he cuberta de formigas pequenas e
+grandes,
+estas fazẽ algũ dano as parreiras dos moradores e as
+larangeiras que tem
+nos quintaes, e se naõ foraõ estas formigas ouuera
+poruentura muitas
+vinhas no brasil ainda que la saõ pouco neçessarias
+porq̃ deste Reino
+vai tanto vinho que sempre aterra delle está prouida.</p>
+<p>Tambem ha muita infinidade de mosquitos<span class="pagenum"><a name="Page_43" id="Page_43" href="images/43.jpg">[Pg 43]</a></span>
+prinçipalmente ao longo dalgũ
+Rio antre huãs aruores que se chamaõ manges
+naõ pode nenhuã pessoa
+esperallos, e pello mato quando naõ ha
+viraçaõ saõ mui sobejos e persegẽ
+muito a gente.</p>
+<p>Tambem ha huã geraçaõ de Ratos que
+trazẽ os filhinhos pendurados na
+barriga e alli se criaõ e andaõ assy pegados ate
+serẽ grãdes. Bogios ha
+muitos e de muitas castas como ja se sabe: tanto que as femeas parem
+pegaõ se os filhos nas suas costas e sempre andaõ
+caualgados nas mãis
+ate serẽ bem criados e posto que as persigaõ e as
+matem naõ sequerẽ
+desapegar dellas. Ha tambem muitos lobos marinhos e porcos marinhos que
+se criaõ no mar e na terra. Outros<span class="pagenum"><a name="Page_43v" id="Page_43v" href="images/43v.jpg">[Pg 43v]</a></span>
+muitos bichos ha nestas partes pella
+terra dentro que sera impossiuel poderẽ se conheçer
+nẽ escreuer tanta
+multidaõ porq̃ assy como a terra he grandissima, assy
+saõ muitas as
+callidades e efeições das criaturas que Deos nella
+criou.</p>
+<hr style="width: 65%;" />
+<h2><a name="Cap_9_da_terra_-X-q_certos_homes_da_Capitania_de_porto_seguro_forao_a" id="Cap_9_da_terra_-X-q_certos_homes_da_Capitania_de_porto_seguro_forao_a"></a>Cap.
+9.º da terra q̃ certos homẽs da Capitania
+de porto seguro forão a descobrir, e do q̃
+acharão nella.
+</h2>
+<p>Posto que minha tençaõ naõ era
+tratar neste summario senaõ das cousas
+que saõ gerais portoda costa do Brasil,<span class="pagenum"><a name="Page_44" id="Page_44" href="images/44.jpg">[Pg 44]</a></span>
+de que os moradores da terra
+parteçipaõ, pareçeo me tambem
+neçessario e conueniente aos louuores da
+terra denunçiar neste Capitullo a Riqueza dos metais
+q̃ affirmaõ auer
+por ella dentro prouãdo tudo isto com pessoas q̃ o
+acharão, virão, e
+experemẽtarão: e amaneira como se descobrio foi esta
+q̃ se sege.</p>
+<p>A esta Capitania de porto seguro chegarão certos
+indios do sertão a dar
+nouas dũas pedras verdes que auia nũa serra muitas
+legoas pella terra
+dentro, e traziaõ alguãs dellas por amostra, as quais
+erão esmeraldas
+mas não de muito preço. E os mesmos indios
+dezião q̃ daquellas<span class="pagenum"><a name="Page_44v" id="Page_44v" href="images/44v.jpg">[Pg 44v]</a></span>
+auia
+muitas, e que esta serra era muj fermosa e Resplandeçente.
+Tanto q̃ os
+moradores desta Capitania disto forão certificados
+fezeraõ se prestes
+sincoẽta ou sesenta portugeses com algũs indios da
+terra e partirão
+pello sertão dentro com determinção de
+chegar aesta serra onde estas
+pedras estauaõ. Hia por capitão desta gente
+hũ martim carualho que agora
+he morador da Bahia de todollos sanctos, Entrarão pella terra
+alguãs
+dozentas e vinte legoas, onde as mais das serras q̃
+acharão e virão erão
+de mui fino christal e toda terra ẽ si mui fragosa, E outras
+muitas
+serras de hũa tarra azullada, nas quais af<span class="pagenum"><a name="Page_45" id="Page_45" href="images/45.jpg">[Pg
+45]</a></span>firmão auer muito ouro porque
+indo elles por antre duas serras destamaneira forão dar
+nũ Ribeiro que
+pello pee dũa dellas deçia noqual acharão
+antre area hũs grãos meudos
+amarellos, osquais algũs homẽs apalparaõ
+com os dentes e acharão nos
+brãdos mas naõ se desfazião, finalmente que
+todos assentaraõ ser aquillo
+ouro nẽ podia ser outro metal pois omesmo ouro desta maneira
+nasçe nas
+partes onde o ha. Apanharão destes graõs antre area
+do Ribeiro
+quantidade dum punhodo os quais acharaõ muito pezados que
+tambem era
+proua de ser ouro; disto naõ fezerão mais
+experiençia por ser aquillo no
+deserto e auer muitos dias q̃ padeçiaõ
+grãde<span class="pagenum"><a name="Page_45v" id="Page_45v" href="images/45v.jpg">[Pg 45v]</a></span> fome nem
+comião outra
+cousa senaõ semente deruas e algũa cobra que
+matauão. passarão adiante
+determinando avinda tornar por alli a perçebidos de mantim<sup>tos</sup>
+pera
+buscarẽ a serra mais devagar donde aquelle ouro
+deçia ao Ribeiro.
+acharaõ pellos matos muita canafistola, e por este caminho
+acharão
+outros m<sup>tos</sup> metais que naõ
+conheceraõ, nẽ podiam esperar pellas
+gerras dos indios que se alleuantauaõ contraelles.
+Algũs indios lhes
+deraõ noticia segundo a mençaõ que
+fazião q̃ podiam estar cem legoas da
+serra das pedras verdes que hiaõ buscar e que não
+auia muito dalli ao
+peruú finalmẽte q̃ cõ<span class="pagenum"><a name="Page_46" id="Page_46" href="images/46.jpg">[Pg
+46]</a></span> os imigos que Recreçião e
+pella gente q̃ adoeçia
+tornaraõ se outra vez em almadias por hũ Rio que se
+chama Cricaré, onde
+se perdeo nũa cachoeira a canoa emque vinhaõ os
+grãos douro q̃ traziaõ
+pera mostra. Nesta viagẽ gastarão oito mezes e assi
+desbaratados
+chegarão aesta Capitania de porto seguro. Os que deste perigo
+escaparaõ
+affirmão auer naquellas partes muito ouro segũdo
+asmostras e os Signais
+que acharão: e se la tornar gente aperçebida como
+cõuem contoda prouisaõ
+neçessaria, e leuarem pessoas que disto
+conheçaõ dizẽ que se descobrirão
+nesta terra grandes minas.<span class="pagenum"><a name="Page_46v" id="Page_46v" href="images/46v.jpg">[Pg 46v]</a></span></p>
+<p>Quisera esereuer mais meudamente das particullaridades desta
+prouinçia
+do brasil, mas porque satisfezesse atodos com breuidade guardeime de
+ser
+comprido posto q̃ os louuores da terra pedissem outro liuro
+mais copioso
+E de maior vollume onde se comprehendessẽ por
+extenço as exçellencias e
+diuersidades das cousas q̃ ha nella pera Remedio e porueito
+dos homẽs
+que la forẽ viuer. E por que a felliçidade e
+augmẽto desta prouinçia
+consiste em ser pouoada de muita gẽte, naõ auia
+dauer pessoa pobre
+nestes Reinos q̃ naõ fossem viuer aestas partes com
+fauor de .S.A. onde
+os homẽs viuẽ todos abastados e fora das
+neçessidades<span class="pagenum"><a name="Page_47" id="Page_47" href="images/47.jpg">[Pg 47]</a></span>
+que cá padeçem. E
+desta maneira permittira Deos que floreça tanto a terra desta
+noua
+lusitania que com ella se augmente muito a coroa destes Reinos e seia
+dos outros enuejada pera que não desejemos terras estranhas
+prometendo
+esta nossa tanta Riqueza e prosperidade aos q̃ aforẽ
+buscar pera seu
+Remedio.</p>
+<p class="center"> Fin.</p>
+</body>
+</html>